The Project Gutenberg EBook of Resumo elementar de archeologia christ, by 
Joaquim Possidnio Narciso da Silva

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Title: Resumo elementar de archeologia christ

Author: Joaquim Possidnio Narciso da Silva

Release Date: January 29, 2008 [EBook #24455]

Language: Portuguese

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RESUMO ELEMENTAR

DE

ARCHEOLOGIA CHRIST

POR

POSSIDONIO DA SILVA

1887



Antigo edificio religioso de Santarem

LISBOA--Museu de Archeologia do Carmo




RESUMO ELEMENTAR

DE

ARCHEOLOGIA CHRIST

POR

_Possidonio da Silva_



MEDALHA CONFERIDA EM 1869


LISBOA
LALLEMANT FRRES, IMPRENSA
1887






MEMORIA DE MEU PAE

Reinaldo Jos da Silva


TESTEMUNHO DE RESPEITO E GRATIDO

O Auctor




AO LEITOR


Inaugurando-se agora nos seminarios de algumas dioceses de Portugal
cadeiras para o ensino de archeologia christ, estudo que ha muito era
urgente crear-se no nosso paiz, proponho-me publicar os elementos
principaes d'esta sciencia, afim de facilitar os estudos a quem desejar
possuir esses conhecimentos indispensaveis para curar da conservao dos
objectos do culto e evitar o ignorante modo de se restaurarem os
edificios religiosos dos differentes estylos, que pertencem  nao;
pois j  tempo de no se continuar a praticar nos edificios concertos
mal pensados, que alteram o caracter respectivo da sua architectura, e
causam tambem desdouro ao avaliar-se a nossa civilisao.

Ainda que no faamos um compendio completo, comtudo, talvez possa ser
de algum auxilio para se divulgarem as instruces principaes d'esta
natureza afim de pr cobro aos vandalismos que tem destruido tantas
antiguidades e objectos preciosos do culto.

Muito embora no se consiga desde j o proficuo resultado d'este ensino,
todavia ficar registado, no final do seculo XIX, o empenho que
illustres Prelados tem tomado para obstar a serem illudidos os parochos
nas substituies das alfaias, e para se opporem s defeituosas
restauraes dos monumentos religiosos do nosso paiz. Darei por bem
empregada esta minha modesta publicao, se por ventura conseguir este
empenho patriotico e artistico a que tenho constantemente dedicado a
maior parte da minha existencia.

Possidonio da Silva.




INTRODUCO[1]


Os monumentos historicos ou simplesmente artisticos so os marcos que
assignalam os passos, mais ou menos firmes, vagarosos ou apressados, que
os povos vo dando no caminho da civilisao. Porm no se pense que,
relativamente a esses padres, a cultura de uma nao deva ser avaliada
smente pela significao d'elles, por mais gloriosa que seja, ou por
mais que se aprimorasse n'elles a arte, mas sim tambem pelo apreo e
respeito com que essa nao vela pela sua conservao.

Sobreleva Portugal a todas as naes na alta significao dos seus
monumentos, porque no commemoram unicamente faanhas militares e
virtudes christs e civicas, communs a outros povos. No recordam s mil
aces de valor, de coragem e de abnegao, praticadas na defensa da
patria, ou para alargamento das suas fronteiras, ou para honra e lustre
do seu nome. Mas fallam tambem os nossos monumentos d'essas
arrojadissimas emprezas de navegaes e descobrimentos, com que os
portuguezes abriram de par em par as portas  moderna civilisao,
levando a luz do evangelho, atravez de mares ignotos, s mais longinquas
regies do globo.

Quasi todas essas glorias, que doiram as paginas da nossa historia,
foram memoradas por nossos maiores com a fundao de um templo, acanhado
e singelo, ou grandioso e opulento, segundo o permittiam a rudeza dos
tempos, ou a florescencia da nao, bem como o animo e posses dos
fundadores.

As convulses do slo, a pouca illustrao dos reedificadores, e
modernamente a sanha brutal dos demolidores, tem destruido ou
desfigurado muitas d'essas auctorisadas testemunhas dos tempos heroicos
de Portugal. Este vandalismo, que nos degrada do gremio das naes
cultas, no est, infelizmente, ainda de todo proscripto d'entre ns. Os
poderes publicos ainda no prestam aos nossos monumentos toda a atteno
e vigilante solicitude que, para a sua conservao, elles demandam, e a
honra e bom nome do paiz com tanta justia reclamam. E no basta que se
attenda  conservao dos monumentos commemorativos dos grandes factos
historicos, e ao mesmo tempo opulentos d'arte. Merecem o nosso apreo e
cuidados todos os padres que interessam, de qualquer maneira, aos
annaes da nao e  historia da arte.

No obstante os differentes elementos de destruio, que tem actuado
entre ns, ainda existem de p n'este reino no poucas egrejas
anteriores  fundao da monarchia, ou contemporaneas do nosso primeiro
rei, ou construidas sob o sceptro dos seus immediatos successores. So
pequenos e de construco mesquinha todos esses templos, tendo por
feio principal a mesma simplicidade e pobreza, que distinguiam n'essa
epocha o viver da nao. Todavia, embora o acanhamento das propores, e
a simplicidade da architectura corram parelhas com a pobreza das
memorias historicas, todas essas egrejas so exemplares de subido valor
para a historia da arte em Portugal, tanto mais quanto  tristemente
certo, que os grandes templos, levantados nos principios da monarchia,
tem sido mascarados e desfigurados, por occasio das reedificaes,
como aconteceu ao de Alcobaa,  S de Lisboa, e a outros, ou
desappareceram, como o de Santa Cruz de Coimbra e o de S. Vicente de
Fra, em Lisboa, para em seu logar se edificarem outros mais vastos e
mais sumptuosos.

Pois essas preciosas reliquias de to remota antiguidade que tem
resistido ao duro embate das tempestades no correr de tantos seculos,
zombando at agora dos cataclysmos da natureza e dos furores do
camartello, acham-se presentemente ameaadas, pelo menos algumas
d'ellas, de perderem, em reconstruces dirigidas sem amor da arte, e
sem respeito aos monumentos de remotas ras, as suas primitivas e
venerandas feies.

E ao mesmo passo vo desapparecendo das velhas parochias sertanjas as
suas antigas alfaias, vendidas por uma bagatella, a titulo de alcanar
meios para reparao do edificio, e os seus vasos sagrados dos seculos
anteriores ao XVIII, de muita belleza e primr artistico, a troco de
outros de fabrica moderna, mais luzentes e vistosos, porm destituidos
da formosura e elegancia das frmas, e da delicadeza e perfeio do
trabalho esculptural, que do fros universaes de preeminencia 
ourivesaria, principalmente dos seculos XV e XVI.

Os compradores d'objectos d'arte e de industria, antigos, que vem a
Lisboa todos os annos do estrangeiro, sobretudo de Frana e da
Allemanha, percorrem as nossas provincias em todas as direces;
apparecem em todas as cidades, nas villas e nas proprias aldeias,
tentando com dinheiro  vista os possuidores d'essas preciosidades, que
no sabem aprecial-as, desconhecendo-lhes o valor.

 mister por honra do paiz, e por exigencia imperiosa dos interesses
publicos, que se trate de pr algum cbro, quando no possa obstar-se
inteiramente,  assolao ou deformao d'aquelles monumentos da
antiguidade, e a esta continua expropriao das nossas riquezas
artisticas, documentos irrecusaveis do alto grau de florescencia nas
artes, e por conseguinte de civilisao, que Portugal attingiu n'esse
glorioso passado.

Um dos meios inquestionavelmente mais adequado, seria oppr a essa
torrente devastadora a illustrao e o zelo dos parochos, illustrao e
zelo provenientes de conhecimentos especiaes para saberem apreciar
aquelles objectos, ricos d'arte e de memorias piedosas, que os estranhos
nos cobiam, e que os nacionaes malbaratam por ignorancia.

Se os parochos tivessem algumas noes de archeologia religiosa, no
consentiriam, certamente, que as suas egrejas perdessem, com feies
bastardas, o typo primitivo que as ennobrecia, nem haviam de tolerar,
que fossem despojadas, por compra ou troca, dos seus vasos sagrados e
alfaias antigas, que so nos templos verdadeiros brazes da sua nobreza,
e testemunhas authenticas, eloquentes na sua propria mudez, do amor da
religio dos nossos antepassados, que n'elles se casava com o amr da
patria. E no limitariam esses parochos a sua aco benefica, sem
duvida, a salvaguardar as preciosidades artisticas das suas egrejas; mas
no deixariam tambem, em casos identicos, de dispensarem aos parochianos
os conselhos do seu saber e da sua experiencia.

Foram estas consideraes retemperadas pelo affecto que todos devemos 
terra, que nos serviu de bero, e s Santas Crenas, que recebemos dos
maiores, que moveram a Real Associao dos Architectos e Archeologos a
elevar ao esclarecido juizo dos Prelados Portuguezes o pedido de
instituirem nos seus respectivos seminarios uma cadeira de archeologia
religiosa.

 uma sciencia muito complexa a archeologia, no ha duvida, pois que
cada uma das partes, que a compem, e que se subdividem, a seu turno, em
outras partes de materia amplissima para o estudo, constitue um ramo
importante dos conhecimentos humanos, que demanda muita applicao para
ser bem sabido.

Porm, no que diz respeito  archeologia religiosa  um estudo muito
limitado, facil e agradavel, e que pde restringir-se, querendo
abrevial-o, estabelecendo o ponto de partida da invaso dos povos
septemtrionaes e destruio do imperio romano; ou dos tempos mais
proximos da fundao da monarchia portugueza. O que  mister  que se d
nos seminarios aos futuros parochos a instruco precisa para que
conheam os differentes estylos architectonicos, empregados nos templos
do christianismo; a epocha da sua introduco em Portugal, e as
modificaes, que tiveram aqui, determinadas pelo estado da nossa
civilisao e pelos habitos e costumes da sociedade.  indispensavel,
tambem ministrar-lhes eguaes conhecimentos em relao  ourivesaria
religiosa, e s mais artes liberaes e mechanicas, que, no correr da ra
christ, tem concorrido com os seus productos para o servio dos
altares, e para a ornamentao das egrejas.

Os parochos assim instruidos no deixaro de apreciar devidamente, e de
velar com verdadeiro zelo pela conservao dos edificios e dos objectos
concernentes ao culto, venerandos pelas tradies religiosas e pela
consagrao dos seculos, e dignos de grande estima pelo seu valor
artistico ou archeologico.

Ignacio de Vilhena Barbosa.




Resumo elementar de archeologia christ




CAPITULO I

Principios da arte christ no Occidente


PRIMEIRO PERIODO




CAPITULO II

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     *Summario.*--Descripco das catacumbas de Roma--Principios
     artisticos e classificaes das pinturas das catacumbas--Symbolos
     ou allegorias dos primitivos christos--Representao de Jesus
     Christo e de Nossa Senhora--Imagens dos Santos--Monogramma de
     Christo--Lampadas--Sarcophagos christos--Vasos de
     sangue--Monumentos christos fra das catacumbas--Edificios
     religiosos construidos nos tres primeiros seculos--Cemiterios 
     superficie do solo--Alfaias e instrumentos do culto.
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Os mais numerosos monumentos christos que se offerecem para o estudo da
archeologia christ so os cemiterios subterraneos da cidade de Roma. Os
christos continuaram a escavar nas antigas pedreiras da cidade novas
catacumbas depois do reinado de Constantino, e durante os quatro ou
cinco seculos seguintes, transformaram as catacumbas em logares de
peregrinao. Fizeram-se restauraes e embellezamentos n'estes
sanctuarios at ao fim do seculo VIII.

As catacumbas eram destinadas a tres fins: o primeiro e principal era
servirem de cemiterio aos christos. Os tumulos ficavam dispostos nas
paredes uns por cima dos outros formando fileiras de tres a doze. Os
corpos eram collocados em nichos oblongos, fechados por tampas de
marmore, ou por tijolos ordinariamente em numero de tres, ajustados
perfeitamente com cal.

N'estas galerias veem terminar em muitos sitios camaras sepulchraes. So
especies de covas funerarias, no fundo das quaes se encontra muitas
vezes, debaixo de uma abobada, um tumulo encerrando os restos mortaes de
algum martyr illustre. Estes tumulos serviam de altar no dia
anniversario do martyr, em que os christos vinham fazer as suas
oraes.

A frma dos sepulchros era variadissima: ha-os circulares,
semi-circulares, octogonaes, hexagonaes e pentagonaes; comtudo a maior
parte so quadrados.

O segundo fim a que destinavam as catacumbas era servirem de logar de
reunio para ahi celebrar as ceremonias do culto. Foi para fazerem as
suas assemblas religiosas que os primitivos christos construiram, nos
seus cemiterios subterraneos, oratorios, compostos a maior parte das
vezes de dois ou tres sepulchros contiguos, e que se designam pelo nome
de _basilicas das catacumbas_.

O terceiro fim das catacumbas era tambem servirem de retiro ao
Pontifice, ao clero e aos fieis no tempo da perseguio.

A historia das catacumbas pde dividir-se em tres periodos principaes: o
periodo da formao, o periodo da restaurao e de visitas piedosas, e o
periodo de exploraes scientificas.

O primeiro periodo abraa os quatro primeiros seculos. No decurso do
seculo IV viu-se diminuirem as sepulturas subterraneas pelo augmento dos
tumulos  superficie do solo. Depois do anno 410 no se encontram
sepulturas nas catacumbas.

O segundo periodo estende-se desde os primitivos annos do seculo V at
ao principio do seculo IX.

Chamam-se cryptas historicas as camaras sepulchraes em que repousavam os
restos de martyres illustres.

O ultimo periodo, de exploraes scientificas, data do anno de 1578.

No mez de maio de 1578, uns trabalhadores que se occupavam em extrahir
pozzolana n'uma vinha, a duas milhas da cidade de Roma, descobriram uma
abertura que dava para um cemiterio christo decorado de pinturas, de
sarcophagos e de inscripces.

Estas pinturas pertencem a epochas differentes, e algumas ao primeiro
seculo da nossa ra. As do seculo II so mais numerosas, porm as do
seculo III so ainda em muito maior numero.

A maior parte das decoraes das paredes das catacumbas foram executadas
a fresco, sendo feitas algumas com mosaicos em limitado numero.

Os antigos artistas contentavam-se em traar a silhuta dos personagens
e dos objectos, enchiam em seguida o espao comprehendido entre os
contornos por cres lisas ou illuminuras, e indicavam convencionalmente
as rugas dos fatos com traos cheios e as saliencias com traos finos.
Faziam o contrario do que se praticava desde o seculo VI, desprezando,
na representao dos assumptos, os accessorios.

As pinturas dos tumulos, em frma d'arco, apparecem sobre um fundo
ornado,--um assumpto com muitas figuras traadas dentro de molduras de
frma quadrada ou semicircular.

Os ornatos so na maior parte imitaes de objectos usuaes, aafates com
fructos ou grinaldas de flores, sendo imitado este genero de decorao
de pintura da arte pag.

Nas catacumbas representava-se ordinariamente Jesus Christo debaixo da
frma do Bom Pastor.

As imagens do Redemptor no se encontravam isoladas, apresentando todos
os caracteres das pinturas posteriores a muitos seculos  converso de
Constantino.

A Santa Virgem  figurada nas pinturas das catacumbas sobre os vidros
dourados e os sarcophagos dos seculos primitivos, estando sentada, com o
Menino Jesus ao collo.

A adorao dos Magos recordava aos fieis tres dogmas: a vocao dos
infieis, a Divindade de Nosso Senhor, e a Maternidade Divina.

Os primitivos christos representavam tambem a Virgem com ou sem o
Filho, debaixo da forma d'uma _orante_, isto , em p e levantando os
braos n'uma attitude de supplica. Muitas imagens so anteriores ao
seculo IV.

_Jesus Christo multiplicando os pes_: figura a Santa Eucharistia, como
sendo alimento das almas.

O Salvador  representado em geral debaixo da figura d'um mancebo
imberbe vestido com manto e tunica ornada com duas bandas de purpura.

_O paralytico curado_  representado no momento em que, deixando a
piscina, leva a sua cama s costas. Est vestido com uma tunica e cinta
e uma especie de ceroulas.

_Jesus resuscitando Lazaro_:  representado Lazaro debaixo da frma
d'uma pequena mumia envolvida em pequenas fitas e collocada na posio
vertical  entrada do tumulo, que tem a frma de um edificio ou pequeno
templo.

As representaes de refeio dividem-se em duas classes conforme
symbolisam a Eucharistia, ou a felicidade dos predestinados 
bemaventurana.

A felicidade dos predestinados  symbolisada por um banquete ao qual
servem o Amor e a Paz, porque estes dois gosos eram tidos como os
principaes do Paraiso.

_Jesus Christo rodeado dos seus discipulos_: representa o ensino dado
aos apostolos e a celebrao da ultima ceia do Senhor.

As imagens dos Santos encontram-se nas cryptas historicas, e todas em
geral so posteriores  converso de Constantino. Muitas so ornadas de
resplendor, que s foi dado aos Santos no principio do seculo VI.

A scena do Orpheu tocando lyra, tirada da mythologia,  muito commum nas
pinturas das catacumbas e sobre os monumentos christos dos primeiros
seculos.

Entre os primeiros christos, Orpheu deleitando os animaes ferozes com
os sons da sua lyra, era um symbolo de Jesus Christo domando as paixes
dos homens e attrahindo-os com os encantos da sua doutrina.

Os primeiros christos reproduziam de differentes maneiras as quatro
estaes sobre as paredes das catacumbas e sobre os sarcophagos, porque
as estaes symbolisavam aos olhos dos christos a futura resurreio.

Os primitivos christos serviam-se dos symbolos, em primeiro logar, para
subtrahir  irriso dos infieis as mais augustas verdades da religio, e
em segundo logar, para se conhecerem entre si. Os mais antigos d'estes
symbolos eram a pomba, o peixe, a barca, a lyra e a ancora.

Durante os primeiros tres seculos da Egreja, o peixe era um dos symbolos
mais divulgados entre os christos para significarem Jesus Christo.
Empregava-se de dois modos, como nome e como figura. A palavra _ichtus_,
que significa peixe, fornece as iniciaes das palavras _Jesus Christo
Filho de Deus_.

O peixe representado sobre os monumentos pintados ou esculpidos tinha a
mesma significao, era um signal hyerogliphico lembrando aos christos
a palavra grega e todas as verdades que ella symbolisava. Tanto o
acrostico como o peixe symbolico, era principalmente gravado sobre as
pedras e sobre os objectos portateis para o uso da piedade dos primeiros
christos.

A Cruz que se encontra nos monumentos christos dos quatro primeiros
seculos apresenta-se com frmas dissimuladas, de ancora, que era ao
mesmo tempo o symbolo da esperana, e serve desde o primeiro seculo para
recordar aos fieis o signal da Redempo.

Empregou-se desde os primeiros seculos o cordeiro para representar Jesus
Christo.

Os primitivos christos tinham por costume orar em p, com os braos
estendidos e levantados para o ceu. Na maior parte dos monumentos
christos primitivos vem-se fieis dos dois sexos, e principalmente
mulheres em attitude de _orantes_.

A _orante_ symbolisa a alma christ admittida no ceu e considerada
esposa de Jesus Christo. As duas arvores que em alguns monumentos se
encontram aos lados, designam o paraiso ou a felicidade eterna.

Encontra-se frequentemente nos primitivos monumentos christos de toda a
especie a pomba, e principalmente nos epitaphios dos seis primeiros
seculos da nossa ra. Nos tumulos symbolisa ordinariamente a alma pura e
innocente dos fieis. A oliveira que est ao seu lado ou o ramo d'esta
arvore, que muitas vezes tem no bico, so o symbolo da paz que gosa a
alma, e equivale  formula _in pace_, tantas vezes empregada nos
epitaphios.

A _palma_ tem sido em todos os tempos o symbolo do triumpho; os
christos primitivos collocaram-n'a nos seus tumulos para recordar a
victoria ganha pelo defuncto aos inimigos da f.

O _monogramma de Constantino_ ou simplesmente _monogramma_ so as duas
letras gregas X P ligadas da seguinte maneira:

[Figura]

Outro _monogramma cruciforme_ parece ter existido no Oriente e tem a
letra X com a frma d'uma cruz [Smbolo] onde est ligada na perpendicular
superior a barriga da letra P:

[Figura]

As duas frmas tambem se empregaram no Occidente.

A partir do meado do seculo IV, o monogramma  muitas vezes acrescentado
com mais duas letras gregas A e [Grego: Omega], a primeira e a ultima do
seu alphabeto.

O monogramma data da converso de Constantino que mandou fazer o
_lbaro_, que era encimado pelo monogramma.

Durante os primeiros seculos da Egreja, o altar era apenas uma taboa de
madeira, servindo de mesa aos apostolos para celebrar os divinos
mysterios.

As catacumbas forneceram-nos mais tarde o typo dos altares em frma de
tumulo. As tumbas _em arco_ tinham uma prateleira horisontal cobrindo os
restos do santo martyr; sobre esta prateleira  que se dizia a missa.

As lampadas que se encontraram nas catacumbas tinham a frma das
_lucerncae_ dos antigos. Assemelham-se a uma barquinha, que era um dos
symbolos mais usados na Egreja primitiva. A maior parte so de argila;
tambem se encontram algumas de bronze. Estas ultimas pertencendo a uma
epocha menos remota, so quasi todas munidas de cadeias que serviam para
as suspender nos tectos das capellas.

Chama-se sarcophago (palavra derivada de _sarcos_ carne e _phagos_ eu
como) um tumulo de marmore ou de porphyro mais ou menos ornado de
esculpturas.

Podemos classifical-os em _simples_, _mixtos_ e _ricos_.

Os sarcophagos _simples_ apresentavam a frma de um cofre rectangular
sem ornamentao.

Na maior parte os sarcophagos eram adornados de um ornato que se chamava
_strigiles_.

Os _strigiles_ so canneluras de frma sinuosa, imitando o raspador,
instrumento de que os antigos se serviam para tirar, na occasio de se
banharem, a humidade e os corpos estranhos espalhados na superficie da
pelle.

Os sarcophagos _ricos_ tem as quatro faces, ou pelo menos tres, ornadas
de esculpturas em baixo, ou em alto relevo. Quando se reproduzem sobre
uma mesma face muitas scenas ou figuras, so justapostas simplesmente,
ou separadas por columnas ornadas de pampanos e de pequenos genios
colhendo fructos.

Muitos sarcophagos tem, no centro da face principal, um medalho
circular, onde se v em busto a figura do defuncto. Os tumulos que
serviam de sepultura a dois esposos, tem dois bustos, e algumas vezes
uma arcada central apresentando, com a mesma significao, dois
personagens em p dando a mo e chorando.

Os sarcophagos _mixtos_ so ornados parte com strigiles e parte com
figuras gravadas a trao ou esculpidas em relevo.

Os sarcophagos dos tres primeiros seculos foram escolhidos nas officinas
pags, ou esculpidos por artistas christos, segundo modelos profanos.

As scenas da Paixo propriamente dita, taes como a flagellao, o
coroamento de espinhos e a crucificao, no se encontram representados
em monumento algum do primitivo christianismo.

Os christos dos primeiros seculos punham muitas vezes nas sepulturas
objectos que tinham pertencido ao defuncto.

Encontram-se nos tumulos dos fieis: tecidos d'ouro, anneis, braceltes e
bijoterias, brinquedos de creana, relicarios portateis, vasos de vidro
ou d'argila collocados ordinariamente perto das cabeas dos cadaveres,
instrumentos de supplicio.

_Vasos de sangue_. Entre os signaes certos do martyr o principal  o
vaso de vidro ou d'argila, que serviu para recolher _o sangue do
martyr_, collocado dentro do tumulo, ou no exterior do nicho sepulchral.

_Objectos collocados no exterior do tumulo_. Entre estes objectos, uns
so executados pela mo do homem, outros no o so. Podem
classificar-se, na primeira cathegoria, os _baixos relvos_, as
estatuetas, os pequenos _bustos_, e os fragmentos de esculpturas em
pedra e em marmore, os cacos de loua, os fragmentos de _vasos_ de
_crystal_ e de _vidro esmaltado_ e _dourado_, os prismas e as pequenas
_placas_ de _mosaico_, os anneis, os collares, os braceltes, e um
grande numero d'outros objectos de _toilette feminino_, d'ambar, ouro,
marfim e nacar, os brinquedos de creana, as folhas de taboa de
escrever, as placas de bronze, as guarnies e os ornamentos para portas
e cadeiras, d'ouro, marfim, bronze e ferro, os camapheus, as moedas e as
medalhas, os utensilios de cosinha; n'uma palavra, tudo desde o objecto
mais ordinario at s joias mais preciosas.

Encontram-se tambem fragmentos brutos de toda a especie de substancias,
os mais diversos objectos naturaes e os mais extravagantes; pedaos de
tufo, estilhaos de pedra ou de tijlo, caros de fructos, folhas
d'arvore ou de planta, dentes e ossos d'animaes, caracoes, cascas de
mexilho e d'stra, conchas, etc.

Estes objectos fixos ao cimento, eram dispostos de maneira que podessem
desenhar figuras de que facilmente se podesse fazer ida.


_Outros monumentos christos dos tres primeiros seculos alm das
catacumbas_. Occupar-nos-hemos dos edificios religiosos construidos
sobre a terra, dos cemiterios construidos ao ar livre, dos paramentos
sagrados e dos instrumentos do culto, anteriores  abjurao de
Constantino.

Sabemos por documentos historicos que muitas pessoas abastadas tinham em
seus palacios oratorios onde os soberanos Pontifices vinham celebrar os
Santos Mysterios na presena da multido dos fieis. Muitos d'estes
oratorios foram substituidos, depois da abjurao de Constantino, por
basilicas, s quaes deram o nome das pessoas piedosas que haviam cedido
 egreja o direito de propriedade; e se mais tarde estas pessoas ficavam
consideradas no numero dos Santos, estas basilicas eram-lhes dedicadas.

A mais remota meno d'um templo christo data do tempo de Alexandre
Severo, que foi imperador desde 222 at 235.

No  conhecida a frma nem a distribuio interior d'estas primitivas
egrejas.

Os unicos monumentos notaveis dos tres primeiros seculos, at hoje
conhecidos, so as _cellas_ dos cemiterios, s quaes se deu tambem o
nome de _basilicas_, desde o principio do IV seculo.

Estes pequenos edificios, construidos nos cemiterios, serviam para ponto
de reunio dos fieis.

_Cemiterios ao ar livre_. As sepulturas christs foram estabelecidas,
desde o principio, ao ar livre.

Estes cemiterios, designados em geral pelo nome de _d'areae_[2] eram, do
mesmo modo que as catacumbas, situados fra das portas das cidades;
porque as leis romanas prohibiam severamente as inhumaes dentro dos
muros.

Depositavam-se os cadaveres, quer em simples fssas, algumas vezes
revestidas interiormente de tijlos e de lages, quer em pias de pedra,
ou caixes de madeira mettidos debaixo da terra. As paredes dos tumulos
mais ricos eram, dadas certas circumstancias, rebocadas de argamassa, ou
estucadas e decoradas com pinturas _a frsco_, semelhantes s das
galerias e capellas sepulchraes das catacumbas.

_Paramentos e objectos do culto_. Parece certo que, durante os primeiros
seculos, os paramentos sagrados no se differenavam dos fatos
ordinarios, nem pela frma nem pelo talhe.

Do mesmo modo que aproveitavam para os sagrados paramentos as frmas e
os pannos dos fatos ordinarios, assim tambem aproveitavam para o servio
dos altares os vasos ricos e preciosos que haviam servido aos usos
profanos.




CAPITULO III

/#
     *Summario.*--Estylo Latino--Estylo Bysantino--Frmas das
     Basilicas--Origem da Basilica Christ--O Narthex--Orientao das
     Basilicas e Egrejas Christs--Egrejas cruciformes, circulares e
     polygonaes--Cryptas--Baptisterios--Oratorios domesticos--Templos
     pagos e edificios profanos apropriados em Egrejas
     Christs--Systema e regras de construco--Decorao
     monumental--Narthex, fachadas e portaes das Basilicas--Janellas e a
     maneira de as vedar.--Madeiramento do cume dos
     edificios--Torres--Pinturas representadas em mosaico--Pavimento nos
     edificios--Altares--Ciborium--_Ambon_, Tribuna para as leituras da
     Biblia--Poltrona para os bispos e bancos para os
     sacerdotes--Cemiterios--Monumentos funerarios--Sarcophagos--Tumulos
     subterraneos--Objectos com symbolos christos achados nas
     sepulturas--Alfaias religiosas--Calices e
     Patenas--Custodias--Relicarios--Pombas e torres--Accessorios do
     altar--Coras de metal precioso suspensas sobre o
     altar--Dipticos--Encadernao dos livros dos Evangelhos--Estofos
     religiosos--Paramentos sacerdotaes--Jesus Christo sob frmas
     symbolicas--Os Apostolos S. Pedro e S. Paulo.
#/


_Periodo Latino e Bysantino_. A architectura christ pde considerar-se
dividida em dois ramos perfeitamente distinctos. O primeiro, que se
poder chamar o _Estylo Latino_, foi adoptado pela egreja Latina, isto
, na Italia, na Illyria, na Dalmacia e em toda a Europa Occidental. 
caracterisado pela imitao mais ou menos correcta da architectura
classica, greco-romana. O outro estylo, formado por elementos orientaes
e romanos, nasceu em Constantinopla, e ahi se desenvolveu, formada sob a
influencia Oriental, uma configurao inteiramente nova: deram-lhe o
nome de _Bysantino_.

O Estylo Latino predominou no Occidente at ao principio do seculo VIII;
e o Estylo Bysantino no Oriente, at  tomada de Constantinopla pelos
Musulmanos, em 1453.

Chamou se _Latino_ o estylo do imperio do Occidente, em primeiro logar
porque, derivando do Estylo Romano ou Classico, foi empregado nos paizes
em que a lingua _latina_ era a lingua ecclesiastica e vulgar; em segundo
logar, porque existiu tanto tempo como aquella lingua, approximadamente.

O Estylo _Bysantino_ tem o nome derivado de Bysancio ou Constantinopla,
capital do imperio do Oriente.

_Estylo Latino_. A architectura greco-romana chegou ao seu apogo
durante os dois primeiros seculos da era christ. A sua decadencia
comeou no seculo III, afastando-se da nobre simplicidade do Estylo
Classico.

No seculo IV, ainda mais se pronunciou a sua degenerao.

Comearam ento a desmanchar os antigos monumentos para em seu logar
construir e decorar mais facilmente os novos. Tal era o estado da
architectura no Occidente, quando foram construidos os primeiros
monumentos christos do periodo _Latino_.

_Frma das basilicas_. As _basilicas profanas_ eram vastos edificios
construidos no _Forum_, ou nos arredores das praas publicas. Serviam
para ponto de reunio dos vendedores, assim como de outros individuos
que se occupassem de negocios. Era n'ellas que os magistrados
administravam Justia.

As _basilicas christs_ foram construidas segundo o modlo das basilicas
profanas; smente, em vez de se construirem ao longo das praas
publicas, eram precedidas de um pateo quadrado, com o fim de as afastar
do ruido e do tumulto da rua. Tinham, como as basilicas profanas, a
frma d'um rectangulo mais ou menos alongado e compunham-se de tres
partes principaes--o _pateo_ ou o _atrium_; a _nave_ e o _Sanctuario_.

O _narthex_ abria-se ao fundo do atrium. Era uma especie de vestibulo,
propriamente dito, formado pelo portico transversal contiguo  fachada
da basilica.

Esta primeira parte da basilica era occupada, durante o officio, por
aquelles a quem as leis ecclesiasticas prohibiam tomar parte nas
assemblas dos fieis.

Do _narthex_, entrava-se por uma, tres ou cinco portas para a basilica,
que era ordinariamente dividida em tres naves por duas ordens de
columnas.

A da direita, reservada para os homens, e a da esquerda para as
mulheres.

Avanando pela nave dentro, encontravam-se os _ambons_, pulpitos
destinados  leitura dos Santos Evangelhos para as prdicas, e 
promulgao das leis ecclesiasticas.

Entrava-se emfim na terceira parte da basilica, a parte mais Santa e
mais veneranda, aquella onde os seculares no podiam penetrar, e que se
chamava o _Sanctuario_.

O altar occupava a parte central do Sanctuario, e tinha frente para uns
poucos de lados.

Atraz do altar desenvolvia-se o _abside_ de frma semi-circular e
coberto ordinariamente com uma meia cupula.

A cadeira do Bispo era collocada ao fundo do _abside_, e para ella se
subia por uns poucos de degraus. Aos lados da cadeira episcopal, se
achavam, contiguos ao hemicyclo do abside, os assentos ou bancos
destinados aos padres, que assistiam aos Officios Divinos.

A alterao mais notavel, que a disposio interior das basilicas
soffreu com o andar do tempo, foi o accrescentamento do cruzeiro ou nave
transversal, entre o abside e a nave propriamente dita.

_Orientao das basilicas e das egrejas christs_. Chama-se _orientao_
uma disposio particular, segundo a qual o eixo longitudinal d'um
edificio, d'um tumulo, etc., se dirige do Occidente para Oriente.

Desde a primitiva que a egreja christ adoptou o costume de orar
voltando o rosto para o Oriente.

O costume de orientar as egrejas foi dos primeiros seculos do
Christianismo.

Ha dois modos inteiramente oppostos d'orientar as egrejas. N'um, usado
antigamente, a fachada principal forma a parte Oriental do edificio e a
capella-mr do lado do Poente. N'outro, que preponderou mais tarde, a
posio de todas as partes da egreja  completamente trocada, a fachada
est voltada para o Occidente, e a capella-mr para o Oriente.

O primeiro modo d'orientao no durou muito tempo. Nos seculos V e VI,
a comear no V, se construiram muitas egrejas com a capella-mr voltada
para o Oriente. No Occidente a mudana effectuou-se lentamente, pois s
se completou durante o seculo XIII.

_Cryptas_. A maior parte das basilicas foram edificadas nos mesmos
sitios onde tinham sido sepultados os restos mortaes d'um Martyr, ou de
qualquer Santo illustre.

Nas primitivas basilicas, o altar era situado mesmo sobre a sepultura.

As galerias e capellas subterraneas, que mais tarde foram substituidas,
tiveram o nome de _cryptas_, da palavra grega que significa, _eu
escondo_.

Estas galerias abobadadas transformaram-se muito tarde em verdadeiras
capellas, ou egrejas subterraneas, por debaixo de todo o _presbyterium_;
bastante vastas para necessitarem o emprego de columnas que recebiam os
arcos das abobadas, formando assim muitas naves.

_Baptisterios_. Distinguem-se tres especies de baptismo: o baptismo por
_immerso_, o baptismo por _asperso_, e o baptismo por _infuso_ ou
_affuso_.

O primeiro ministra-se mergulhando na agua todo o corpo; no segundo e
terceiro, o ministro, de longe ou de perto, lana a agua sobre a cabea
do neophito. O baptismo por immerso foi usado at ao seculo XII; a
comear d'esta pocha, principiou a ser substituido, na egreja Latina,
pelo baptismo por infuso, do qual at ali se no serviam, a no ser
para os doentes em perigo de vida.

Primitivamente era reservada aos Bispos a administrao do Solemne
Baptismo. O Bispo mergulhava tres vezes o neophito, invocando de cada
vez uma das Pessoas da Santissima Trindade.

Depois da abjurao de Constantino, quasi se generalisou por toda a
christandade o baptismo ministrado nos edificios particulares situados
ao lado das principaes egrejas, e especialmente das cathedraes.

Os baptisterios tinham em geral a frma circular ou octogona, mas alguns
havia quadrados, e outros ainda em frma de cruz grega. As pias
baptismaes eram muito grandes, porque muitas vezes se ministrava a
adultos o baptismo por immerso.

_Templos pagos e edificios profanos convertidos em egrejas christs_.
Os templos pagos no se prestavam em geral para o culto christo, em
consequencia das suas diminutas propores.

Entretanto alguns foram convertidos, com ligeiras modificaes, em
egrejas christs, e outros foram-lhes encorporados.

A maior parte d'estas transformaes datam do reinado do imperador
Theodosio (383-385), e dos seus successores immediatos.

Tambem houve monumentos civis que foram transformados em egrejas
christs; taes como as thermas e os banhos, que entre os romanos
excediam em magnificencia os proprios templos.

_Caracteres do Estylo Latino_. As basilicas christs foram muitas
d'ellas construidas, aproveitando para isso monumentos mais antigos. Mas
em consequencia das basilicas serem muito mais vastas do que os templos
pagos, tornava-se por isso no raras vezes necessario desmanchar muitos
d'esses monumentos para construir uma s basilica.

A architectura estava n'uma tal decadencia, que muitas vezes chegavam a
reunir fragmentos de dimenses e estylos differentes, e ajustavam-nos o
melhor que podiam.

Se, por exemplo, se tratava de columnas provenientes de diversos
monumentos, no pertenciam muitas vezes  mesma Ordem d'architectura;
tendo portanto os fstes e os capiteis de alturas differentes,
enterravam os fustes, ou os collocavam sobre soccos. O desvio e a
distancia relativa das columnas variavam dentro de limites excessivos.

A unica innovao d'alguma importancia introduzida nas construces, foi
a substituio da _arcada_ pela architrave.

Nas regies onde escasseavam monumentos antigos, os edificios do periodo
Latino eram em geral muito pequenos, baixos e pobremente decorados,
muitos at de madeira.

Apezar do que acabmos de expr, no seculo V e VI, construiram-se em
Ravenna muitos monumentos importantes (dos quaes ainda alguns se
conservam), sem que fsse necessario recorrer  devastao que tiveram
os anteriores; o que prova existir n'aquella epocha em Ravenna uma
brilhante escola de habeis constructores.

_Materiaes de construco_. As basilicas e os monumentos do periodo
Latino eram construidos com pedras d'alvenaria regulares, quasi sempre
quadradas, de mediano preparo, e tambem com tijolos chatos, ficando
separados por uma espessa camada de cimento. Muitas vezes tambem os
muros eram formados por cordes de uma, duas ou muitas faxas de pedras
d'alvenaria alternadas com outras compostas de uma ou duas fiadas de
tijolos.

_Decorao dos monumentos_. O periodo Latino no foi epocha de esplendor
para a architectura ornamental.

O _baco_ dos capiteis recebeu, durante o periodo Latino, dimenses e um
esvasamento taes que muitas vezes parecia ser um capitel sobrepsto
sobre outro. A frente do baco era adornada, do lado da nave principal,
com um symbolo, que algumas vezes era o monogramma do fundador, e em
geral havia uma Cruz d'ordem Trina isolada, ou inscripta n'um circulo.
Chama-se Cruz de Ordem Trina aquella cujos braos so mais largos nas
extremidades do que no ponto de interseco dos ramos. Esta cruz, quer
s, ou entre dois cordeiros, ou entre dois passaros, com a frente um
para o outro, foi um dos symbolos christos mais usados durante o
periodo Latino.

_Narthex, fachadas e portaes das basilicas_. O narthex interior occupava
o fundo do atrio, e era formado pelo portico contiguo  fachada
principal da basilica. Communicava pelos extremos com as galerias que
rodeavam o atrio; como se observa na egreja de Villarinho de S. Romo,
na provincia do Douro.

Nas basilicas latinas, quando a configurao do terreno no permittia
estabelecer o atrio e o narthex, substituiam algumas vezes estes, por
galerias altas collocadas no interior do edificio ao longo da nave.

Os portaes das basilicas eram construidos segundo o modelo dos portaes
ricos do estylo classico.

As portas dos portaes das basilicas eram de bronze ou de madeira.
Algumas das portas de bronze, das primeiras basilicas, provieram de
monumentos pagos. No seculo IX, a egreja de Santa Maria Maior, em Roma,
tinha portas de prata.

_Janellas e vidraas_. As janellas das basilicas eram rasgadas d'alto a
baixo, e de volta inteira.

Serviam de vidraas a estas janellas grandes laminas de marmore ou de
pedra, atravessadas de buracos para por elles penetrar a luz no interior
dos edificios. Mais tarde, estas laminas foram vasadas de maneira que
offereciam  vista os mais complicados desenhos. Na Europa Occidental e
Septemtrional, em que as laminas de pedra e de marmore escasseiavam,
guarneciam as janellas com caixilhos de madeira.

As clara-boias muitas vezes no tinham cobertura, principalmente nos
paizes meridionaes; e n'outros eram vedadas com laminas de pedras
translucidas ou de placas de alabastro.

Desde o seculo VII que comeou a haver vidraas com vidros brancos e
esverdeados, e at mesmo com vidros de differentes cres. No appareciam
ainda figuras, nem ornatos alguns, pintados sobre os vidros; as vidraas
com vidros de cr eram formadas por um grande numero de vidros
coloridos, cortados de differentes modos e que se reuniam de certa
maneira, a fim do conjuncto representar figuras de frmas regulares.

Desde o reinado de Constantino, os grandes edificios apenas se cobriam
com madeira.

A maior parte d'esta construco ficava visivel no interior dos
edificios. Em alguns, as naves tinham tectos de madeira com pinturas
diversas, representando caixes ricamente adornados e dourados.

Raras eram as basilicas que desde a sua fundao tinham possuido torres.
Os campanarios que hoje se vem proximo das antigas egrejas de Roma, so
quasi todos posteriores ao seculo VIII. As torres do _periodo Latino_
so na maior parte de frma circular ou octogonal.

Nas grandes basilicas as abobadas esphericas do abside e o Arco
Triumphal, e algumas vezes tambem as paredes comprehendidas entre as
janellas altas da nave e das arcadas que ligam as columnas, ficavam
revestidas com vistosos mosaicos.

Os materiaes mais ordinariamente empregados n'este genero de trabalho,
eram folhas de marmore e pedaos de vidro.

Em muitas basilicas de Roma, o abside abobadado em forma de esphera tem
ao centro a imagem de Jesus Christo em p ou sentado, com o brao
direito erguido, ou lanando a beno, e com um rolo de papel ou um
livro collocado  sua esquerda. Aos lados do Salvador esto
representados os Apostolos, ou outros Santos. O slo que pisam  o da
Judeia, o que se conhece pela representao do rio Jordo, cujo nome 
muitas vezes inscripto debaixo dos ps de Jesus Christo, e pela presena
das palmeiras, que foram, desde o primeiro seculo da era christ, o
symbolo da Terra promettida. Logo abaixo do abside se estende, em toda a
largura, uma zona estreita, no centro da qual se v o Cordeiro Divino
coroado com ou sem a Cruz, collocado sobre um outeiro d'onde brotam os
quatro rios do Paraso: Geham, Phison, o Tigre e o Euphrates, symbolos
dos Evangelistas. Doze cordeirinhos, seis de cada lado, se dirigem para
o cordeiro symbolico, e parecem sahir das cidades Santas de Jerusalem e
Bethlem, que occupam os extremos da composio, e se acham representadas
por varias portas e muralhas com ameias. Estes cordeirinhos symbolisam
os fieis.

Alguns mosaicos representam o sonho de S. Joo, isto , os quatro
animaes, symbolos dos Evangelistas; e os vinte e quatro velhos, vestidos
de mantos brancos, offerecendo coroas ao Cordeiro.

Para piso das basilicas, os primitivos christos serviam-se dos
differentes processos de empedramento, como os romanos usavam. Mais
tarde, estes processos foram substituidos por um trabalho de novo
genero, chamado _opus alexandrinum_, assim designado por ter sido usado
primeiramente na Alexandria. Estes empedramentos consistiam em um
conjuncto de variados marmores em que predominavam os porphyros verdes e
vermelhos; pareciam como um rico tapete estendido no slo. O
empedramento _alexandrino_ foi muito pouco empregado na Europa
Occidental e Septemtrional.

Havia tambem empedramentos em que sobresahia a prata e outros metaes
preciosos.

Parte do piso do Sanctuario da basilica do Vaticano  de palhetas de
prata; mas o da capella de S. Pedro, da mesma basilica,  de palhetas de
ouro.

Nas catacumbas era mesmo sobre os tumulos dos martyres que se celebravam
os Santos Mysterios; porm, a comear do seculo III, este uso foi
approvado tambem pela Egreja.

No Occidente, o altar era quasi sempre erigido sobre o tumulo d'um
martyr. Os restos mortaes do Santo collocavam-se immediatamente debaixo
do altar n'um sarcophago, e ainda, na maior parte dos casos, ficavam
depositados n'uma crypta collocada debaixo do Sanctuario. Tanto na
Grecia como no Oriente, nunca em tempo algum, e at mesmo em nossos
dias, se fez d'um tumulo um altar, mas sim d'uma mesa, que recordava
aquella sobre a qual o Salvador instituiu a Eucharistia. Um altar
_nunca_ encerrava _reliquias_. Desde o tempo de Constantino, que data a
maior parte dos altares das egrejas do Occidente. No principio do seculo
VI (517) o concilio de pona prescreveu, que todos os altares fossem de
pedra, os quaes foram adoptados pela razo symbolica de ser considerado
o Salvador a pedra angular.

Os altares de pedra d'essa pocha eram sempre formados por uma especie
de prateleira quadrada ou rectangular, para constituir a mesa do altar
propriamente dito. Esta mesa, muitas vezes, cobre um sarcophago ou um
tumulo de madeira; outras  sustentada por um p central em forma de
cippo e ainda outras posta em quatro, cinco e mesmo at seis
columnellos.

Havia altares formados de tres lages, das quaes duas se collocavam
verticalmente, servindo de supporte  terceira, collocada
horisontalmente, a fim de formar a mesa do altar. Encontram-se tambem
altares formados de cinco placas, tendo, pelo seu conjuncto, a frma de
um cofre de pedra.

A Aurola era formada de folhagens e sustentada por quatro anjos; Nosso
Senhor Jesus Christo fica collocado entre dois Cherubins, que facilmente
se reconhecem pelas suas asas abertas. Uma mo figurada no remate
superior da Aurola,  para indicar a presena de Deus.  tambem
adornada de flores, para indicar que o assumpto se passa no Cu.

As esculpturas mostram que esta arte estava muito decahida no seculo
VIII. Essas figuras com posies grotescas e foradas, teem todas o
rosto de frente, e os membros desproporcionados, sendo tudo d'uma
imperfeio tal, que  difficil imaginar-se nada mais grosseiro e rude.

A inscripo, muito mal escripta, e n'uma linguagem quasi
inintelligivel, no  mais esmerada do que as esculpturas.

Quando as faces dos altares das basilicas das grandes egrejas no tinham
esculpturas, eram ento revestidas de laminas de ouro e de prata, com
engastes de pedras preciosas, ficando cobertas de colchas bordadas,
representando algumas vezes assumptos sagrados.

Desde o seculo IV at meiado do XII, que as mesas dos altares eram
muitas d'ellas escavadas em frma de bandeja em toda a extenso do plano
superior, tendo um rebrdo de alguns centimetros de altura; s vezes
tinham ornatos esculpidos. Muitas mesas eram furadas nos angulos, com um
ou muitos buracos, cuja serventia ainda no foi possivel descobrir. O
altar era encimado por um _ciborium_, especie de docel ou baldaquim,
sustentado por quatro columnas de madeira ou de marmore e de metal.

Entre as columnas do _ciborium_ havia umas cortinas ou reposteiros de
corredia, que se corriam para occultar o officiante e o altar durante a
consagrao.

O _ciborium_, que data do seculo XII, tem uma frma um tanto differente
da que foi posta em uso durante o periodo Latino.

As cortinas dos antigos _ciboriums_ eram em geral de preciosissimos
damascos de seda e ouro, ou com ricos lavores, guarnecidos de perolas,
pedrarias e mesmo laminas de ouro e de prata.

Primitivamente, cada egreja apenas tinha um altar. Comtudo mais tarde
houve egrejas no Occidente, que tinham muitos.

Os gregos e os orientaes nunca tiveram seno um altar nas suas egrejas.

Os _altares portateis_ antigos compunham-se, bem como os mais recentes,
de uma prancha rectangular de madeira, de pedra ou de metal, algumas
vezes munida de uma moldura de ouro ou de prata, e tendo no extremo um
appendice para servir de punho. No se acharam altares portateis do
periodo Latino, no obstante parecer indubitavel que deveriam ser
communs n'aquelle periodo.

Uma tribuna, collocada no meio da nave principal das basilicas, era
destinada  leitura dos Santos Evangelhos e aos sermes. Algumas egrejas
possuiam tres: uma para o Evangelho, outra para a Epistola e outra para
as prophecias.

A tribuna do Evangelho tinha regularmente duas escadas. Perto d'ella
havia um enorme candelabro que servia para supportar uma grande tocha
chamada _o facho do Evangelho_.

Nas basilicas christs, o sanctuario e o cro eram separados da nave por
uma diviso, umas vezes occultando o recinto, e outras ficando
rendilhado,  altura de metro e meio a dois metros acima do cho. Esta
diviso, chamada _cancello_, era muitas vezes de marmore.

A cadeira episcopal ou _cathedra_ occupava o fundo do abside. Era de
pedra de marmore precioso, e elevada tres degraus, pelo menos, acima do
presbyterio.

Havia tambem cadeiras de marfim.

Aos lados da cadeira episcopal, e ao longo da parede do hemicyclo,
achavam-se os bancos destinados aos padres, chamados algumas vezes
_exedrae_, pelos auctores antigos. Eram muito simples, e durante o
officio cobriam-se com almofadas.


A partir do meado do IV seculo cau a pouco e pouco em desuso o
enterramento nas catacumbas; e no principio do seculo seguinte,
desappareceu completamente. Os cemiterios estabeleciam-se  roda da
capella-mr das egrejas e das basilicas, situadas fra dos muros das
cidades, com os seus tumulos quasi sempre orientados.

N'estes cemiterios depositavam-se a maior parte das vezes os cadaveres
em covas de pedra e cal. Entre duas paredes parallelas e distantes entre
si 70 centimetros, pouco mais ou menos, abriam-se, por meio de lages ou
simples tijolos, nichos de tamanho sufficiente para receber um cadaver.
Estes nichos chegavam s vezes a disporem-se em dez ordens, umas sobre
as outras. Este systema foi o adoptado para as sepulturas dos cemiterios
do IV, V e VI seculos.

Algumas vezes tambem os cadaveres eram encerrados em sarcophagos, que em
seguida se cobriam com terra, ou se collocavam tanto ao ar livre como
debaixo de abobadas, no interior das egrejas e das basilicas.

Foi smente no VII seculo que a Egreja comeou a permittir, ou antes a
tolerar, as inhumaes, no precisamente no interior, mas em redor dos
templos situados dentro das cidades. Unicamente os bispos haviam at ali
gosado do privilegio de serem enterrados nas suas egrejas Cathedraes.

Durante o periodo Latino foram muito raros os edificios isolados que se
construiram para servir de sepultura aos grandes personagens.

As esculpturas dos sarcophagos comearam a modificarem-se no meiado do V
seculo. Os assumptos biblicos desapparecem a pouco e pouco, e so
substituidos por imagens de Santos. A Cruz da SS. Trindade ou o
monogramma de Christo occupa, muitas vezes, o centro da face principal
dos sarcophagos, destinada antes para o logar do Salvador, tendo aos
lados pombas, paves, palmeiras, parras e outros symbolos.

As tampas so ornadas de Cruzes da SS. Trindade, formadas pelo
entrelaamento de Cruzes gregas e de Cruzes de Santo Andr, isto , em
frma de X.

O meio da face principal d'alguns sarcophagos  occupado pelo monogramma
de Christo, que d'este modo preenche o logar do Salvador. Os paves aos
lados do monogramma so os emblemas dos Apostolos, e as pombas, bicando
os cachos de uvas, symbolisam os fieis alimentando-se do vinho
eucharistico. A maior parte dos sarcophagos eram de pedra ou de marmore;
no entanto alguns havia de chumbo e at mesmo de gesso.

Os _sarcophagos do IV seculo_ tinham todos a mesma largura e a mesma
altura nas extremidades; do V seculo, apparecem muitos tendo o lado da
cabea mais largo que o dos ps.

As _campas sepulchraes_ so em geral indicio de uma sepultura
subterranea. O seu uso  muito remoto. As lages tumulares, assentes
sobre os tumulos subterraneos ou nos nichos ao longo das paredes, eram
j empregadas no V seculo, sendo muitas vezes esculpidas em relevo, e
tambem algumas ornadas com desenhos s a trao. Por vezes ajustavam na
parede, onde existia qualquer sepultura, uma placa de marmore ou de
pedra, sobre a qual se gravavam symbolos, o nome do defuncto, a sua
idade, ou tambem o dia do seu fallecimento.

Os _tumulos_ dos cemiterios primitivos podem-se dividir em tres classes,
segundo os objectos que n'elles se encontram. A primeira classe
comprehende aquelles em que, alm do esqueleto, se no encontra mais
objecto algum, a no ser s vezes uma pequena faca: estes tumulos so os
dos servos ou pessoas de condio servil. Nos tumulos da segunda classe,
o esqueleto  acompanhado do grande alfange de ferro, chamado
_scramasaxe_: so estes os dos homens livres ou senhores feudaes. O
homem livre gosava do privilegio de trazer  cintura este instrumento,
que com elle era tambem depositado no tumulo. A terceira classe era
constituida ordinariamente por um certo numero de tumulos ricos em
coisas de toda a especie, principalmente em armas e objectos de toilette
feminina: so esses os tumulos dos chefes militares, dos guerreiros e
membros da sua familia.

O homem de guerra era sepultado com todo o seu equipamento, e ao lado
depositava-se a sua esposa, adornada com todas as joias que tinha usado
durante a vida.

As fivelas (fibules), que se encontram em to grande numero n'essas
sepulturas tinham duas serventias.

As maiores serviam para fechar o boldri de coiro onde se suspendia o
_scramasaxe_. Quasi todas so de ferro, sendo algumas marchetadas de
prata ou revestidas de laminas de prata, com lavores representando
folhagens ou figuras. Encontram-se algumas de bronze, e so as mais
bellas.

Ha tambem umas fivelas de bronze e de menores dimenses, que serviam
para ligar o vestuario  roda dos rins, para individuos dos dois sexos.
Estas fivelas eram em geral menos lavradas que as do cinturo. Algumas
havia tambem de ferro.

Os alamares, broches ou _fibulas_, destinadas a unir sobre os hombros ou
sobre o peito as duas extremidades do vestuario, so sem duvida os
objectos mais interessantes que se encontram nas sepulturas dos
cemiterios. Ha-os de ouro, de prata, de bronze, e encontram-se sobretudo
nos tumulos de mulher.

Encontram-se tambem frequentemente nos tumulos de mulher, pregos para
segurar o cabello, com cabeas de aperfeioado trabalho. Ha-os de ouro,
de prata e de bronze, com grandes comprimentos.

Os brincos das orelhas so em geral, assim como os pregos para o
cabello, pequenas obras primas de ourivesaria. Compem-se quasi sempre
de um annel de grande diametro, ao qual est ligado um pequeno boto de
ouro cheio de filigranas e de vidrilhos embutidos. Os _collares_ que
frequentemente se encontram nas sepulturas de mulher, compem-se de
contas, de frmas e dimenses differentes, enfiadas n'um cordel. As
contas so de vidro e de loia de diversas cres, e de coral natural ou
arredondado; tem-se tambem encontrado, mas raras vezes, contas de ouro
massio. As de vidro e de loia so, em geral, pintadas com differentes
camadas de cres juxtapostas, que adherem pela cozedura, reprezentando
zig-zags, e outras muitas figuras estriadas. As cres que predominam,
so o vermelho, o amarello, o verde, o pardo, o azul, o branco e o
preto.

As _vasilhas de barro_ constituem o complemento obrigado de todos os
tumulos antigos. Encontram-se, quasi sempre, uma ou duas aos ps do
esqueleto. Parece que estas vasilhas serviam aos pagos para conterem
agua lustral. Em seguida  sua crena na verdadeira f, os convertidos
ao Christianismo continuaram a encerrar vasilhas nos tumulos, porm
mudaram a significao d'esta ceremonia funebre, substituindo a agua
lustral pela agua benta.

A maior parte d'estas vasilhas so de barro preto e vermelho. Muitas
apresentam a frma d'uma pequena urna, tendo na parte superior do bojo
ornatos de estylo muito rudimentar, feitos em volta e por meio da ponta
d'um instrumento cortante.

As _vasilhas de vidro_, de frmas elegantes e variadas, que se encontram
nas sepulturas junto  cabea ou aos ps do esqueleto, mostram que a
arte de vidraceiro j tinha attingido um elevado gru de perfeio. O
maior numero so de vidro, d'um amarello esverdeado, soprado ou moldado;
algumas tem como ornato riscas delgadas, brancas ou de cr, feitas
depois da sopragem ou misturadas com a massa vitrea.

A introduco do Christianismo entre os Francos data do fim do seculo V.
No  por isso para admirar o encontrarmos nos seus tumulos objectos
ornados com symbolos christos.

O _calice_ occupa o primeiro logar entre os vasos sagrados. J os
Apostolos se serviam de calices para a celebrao dos Santos Mysterios.

Nos primeiros seculos da egreja, os calices eram de madeira, de vidro e
at mesmo de chifre.

Depois da converso de Constantino,  que se comeou a generalisar o uso
dos calices de ouro e de prata. Muitas vezes eram tambem ornados de
pedrarias.

Existem calices de differentes especies. Os calices ordinarios, que se
compem, como os de todas as idades posteriores, de uma taa, um n e um
p, tinham, em geral, a taa de frma cylindrica, mais ou menos vasada,
muito estreita e profunda. Os calices da segunda especie eram os calices
ministeriaes, que serviam para distribuir aos fieis o precioso sangue,
quando estava em uso a communho de duas especies na Egreja. Este uso
foi abolido no XIII seculo. Os calices ministeriaes, em geral, de
grandes propores, tinham duas asas.

Havia ainda os calices das offerendas, _calices offertorii_, nos quaes
os diaconos recebiam as oblaes de vinho; os calices baptismaes, que
serviam para dar aos novos baptisados uma mistura de leite e de mel; e
os calices de adorno, que nos dias solemnes eram suspensos na egreja,
nas proximidades do altar, ou collocados sobre a credencia.

A _patena_, assim chamada do verbo latino _patere_, _estar aberto_, em
consequencia da sua frma larga e pouco profunda,  um prato de metal,
de vidro, ou de qualquer outra substancia, no qual se colloca a Hostia,
durante a Santa Missa. O seu uso  to remoto como o do calice.

As patenas eram redondas, quadradas ou polygonaes e munidas d'um
rebrdo.

O uso de reservar a Santa Eucharistia para os doentes e ausentes, provm
desde a origem do Christianismo.

Pouco depois, quando os _altares_ foram augmentados com o _ciborio_,
suspendiam a reserva Eucharistica encerrada em vasos com a frma de
torres e pombas. Os vasos para as Sagradas Particulas tinham
primitivamente a frma de uma pomba. Quasi todos eram de ouro, de prata
e de cobre dourado. A pomba Eucharistica encerrava-se geralmente em um
Tabernaculo com frma de torre.


Durante o perodo _Latino-bysantino_, os corpos dos Santos eram
cuidadosamente encerrados em sarcophagos, e depositados em cima d'um
altar ou n'uma crypta subterranea.

O Relicario para o Santo Lenho tem quasi sempre a frma de pequenas
Cruzes peitoraes, concavas interiormente, e abrindo-se em toda a sua
altura, por meio d'uma dobradia collocada no vertice superior da Cruz.

As _chaves da confisso de S. Pedro_ so assim chamadas, porque se diz,
que serviam para dar ingresso no tumulo do principe dos Apostolos, na
crypta da basilica Vaticana. As chaves so grossas, ovaes, cas e de
lavores rendilhados.

Os Soberanos Pontifices dos primeiros seculos tinham por uso distribuir
aos reis, aos principes e aos bispos, parcellas das cadeias de S. Pedro,
dentro de anneis, cruzes, e principalmente em preciosas chaves.

Desde o IV seculo que comearam a importar de Jerusalem os oleos
provenientes das lampadas que ardiam de noite e de dia no Santo
Sepulchro, e em outros logares Santos.

Os Papas e os Bispos enviavam estes oleos s egrejas, aos soberanos e s
pessoas de distinco. Eram conservados e remettidos em pequenos vasos
de vidro ou de metal, circulares, e achatados, com gargallo.

Durante os primeiros seculos, a Mesa do altar estava inteiramente livre
e a descoberto, e s se punha em cima o po, o vinho e os Vasos Sagrados
necessarios para o Santo Sacrificio.

_Os Crucifixos_ e os castiaes _eram desconhecidos_ durante os primeiros
seculos. N'essa pocha apenas algumas vezes se via uma cruz ao lado
direito do altar.

_Coras de altar_, geralmente de _metal precioso_ e ornadas de pedrarias
engastadas, constituiram, durante todo o periodo latino, o mais rico
accessorio do altar.

As mais notaveis coras de altar, que foram descobertas em 1858 e 1860,
em Toledo (Hespanha), so em numero de onze, todas de ouro e cravejadas
de pedras.

Algumas vezes, principalmente a partir do IX seculo, deu-se o nome de
_regnum_ s coras votivas dos altares, para as distinguir das de
illuminar. Tambem s vezes se penduravam Cruzes proximo dos altares.

As luzes que se empregavam com profuso, durante os Officios Divinos,
eram collocadas proximo dos altares, quer sobre uma mesa, quer sobre
candelabros, ou ainda mais vezes sobre lustres, em frma de cora,
suspensos no cro, no Sanctuario e at mesmo no meio da egreja.

Os _diptycos_ so de pocha muito remota. Ao principio eram formados de
duas pequenas taboas de madeira ou de marfim, dobrando-se uma sobre a
outra, e cuja parte interior continha uma camada de cera, sobre a qual
se escrevia. Estas taboas eram rodeadas com uns fios de linho, sobre os
quaes se deitava cra que se imprimia com um sinete. Serviam assim para
as missivas secretas.

Desde a sua origem que a Egreja Christ teve diptycos. Eram tabellas ou
catalogos, sobre os quaes se inscreviam certos nomes que deviam ser
lembrados e lidos, pelo menos em parte, nas reunies sagradas dos fieis.

Podmos pois, conforme a origem, distinguir duas especies de diptycos
sagrados: os diptycos consulares adaptados  liturgia, e os diptycos
puramente ecclesiasticos.

Os diptycos puramente ecclesiasticos eram de marfim ou de metal. Tinham
nas faces exteriores esculpidos ou cinzelados a imagem de Christo e a da
Santa Virgem, ou assumptos tirados da historia do Velho e Novo
Testamentos, e outros symbolos christos.

Quando a leitura dos diptycos comeou a deixar de se usar nos officios
sagrados, transformaram-se as taboas esculpidas ou cinzeladas, em capas
para livros liturgicos.

Desde o tempo de S. Jeronymo que comearam a ornamentar, o mais
ricamente possivel, o livro dos Evangelhos; notava-se esta riqueza tanto
no exterior como no interior do volume.

Muitas vezes o texto sagrado era escripto com letras de ouro sobre
membranas cr de purpura.

Exteriormente os livros dos Evangelhos eram ornados com todo o esmero;
nas capas abundavam o ouro, a prata, os vidrilhos, as pedrarias e as
perolas, e durante muito tempo, foi costume encerral-os em estojos ou
cofres, _capsae_, ricamente trabalhados.

As capas dos Evangeliarios podem-se dividir em duas classes: as de
laminas metallicas e as de marfim.

Entre as primeiras, umas eram simples, sem figuras e at mesmo
desprovidas de toda a ornamentao, outras cravejadas de pedras e
esculpidas em relevo, representando assumptos religiosos.

Os assumptos das capas dos Evangeliarios de marfim e de metal no
differem dos que tem as dos diptycos. So symbolos ou scenas extrahidas
do Novo Testamento e principalmente da vida e da paixo de Nosso Senhor.

_Estofos preciosos_. Durante os primeiros seculos da era christ, os
fatos ordinarios eram de tela, ou, na maior parte das vezes, de l.
Depois da converso de Constantino, o uso dos tecidos de seda para as
vestes liturgicas generalisou-se bastante, a ponto tal, que o Soberano
Pontifice S. Silvestre, contemporaneo d'este imperador, foi obrigado a
abolil-o nas roupas brancas de altar chamadas _corporaes_.

Alm dos tecidos unidos, ha outros ornados com figuras ordinariamente
multicolores, obtidas umas pela applicao de variegadas cres depois da
tecedura, outras durante a tecedura, por meio de certas combinaes dos
fios da cadeia e da trama.

Durante o periodo Latino, o fabrico textil da seda era completamente
desconhecido na Europa meridional e occidental. Provinham da Asia, do
Egypto, da Grecia e de Constantinopla, os tecidos de seda.  por este
motivo que muitas vezes se chamavam _estofos transmarinos_, e mais tarde
tambem, estofos dos Sarracenos, porque os arabes mahometanos forneciam
para o Occidente uma grande quantidade.

Os estofos mais antigos no raras vezes eram decorados com medalhes
circulares ou ovaes, no genero de _Maestricht_, obtidos ou pela
tecedura, ou por bordados applicados posteriormente.

A ornamentao dos tecidos, que vinham do Oriente e sobretudo da Persia,
consistia em assumptos em que predominavam o reino animal e o vegetal, e
at por vezes na propria mythologia d'este ultimo paiz. Em vo
procurariamos o symbolismo christo n'estas representaes to variadas.
Apenas ali se encontra o producto da imaginao dos artistas orientaes,
que confeccionaram esses tecidos.

Os symbolos e os assumptos christos s excepcionalmente apparecem sobre
alguns productos das fabricas gregas ou bysantinas, e isso mesmo em uma
pocha relativamente recente; consistem em pequenas Cruzes Gregas da
Trindade, inscriptas em circulos, animaes symbolicos, taes como o leo e
o pavo, e raramente um personagem isolado. As scenas historicas do
Velho e Novo Testamentos no comearam a representar-se sobre os estofos
seno durante o VIII seculo.

Desde o meiado do IV seculo, que a egreja comeou a servir-se d'este
meio, para representar, sobre os tecidos empregados nas ceremonias
sagradas, assumptos religiosos extrahidos do Velho e do Novo
Testamentos, ou da historia dos Santos.

O ouro, a seda e as perolas, abundavam em todos estes bordados, que
consistiam muitas vezes em medalhes circulares ou ovaes e que
applicavam sobre tecidos preciosos, para lhes imprimir um caracter
religioso.

Desde o VI seculo que a arte de bordar foi, na Europa occidental, a
principal occupao das mulheres nobres, e no seculo seguinte, esta arte
elevou-se a um tal gru de prosperidade, nas Ilhas Britannicas, que
durante toda a idade media no deixou de florescer.

Desde os primeiros seculos, que se ornavam com bordados de purpura, ou
de qualquer outra cr brilhante, as vestes de l branca dos padres e dos
diaconos. Estes bordados foram mais tarde substituidos por brocados de
seda. Serviam-se tambem dos pannos d'essa qualidade, para armao nas
basilicas e nas egrejas.

Estes ricos pannos tinham ainda outro uso. Antes de serem collocadas nos
atades, as ossadas dos Santos eram rodeadas de pelles de camello e
envolvidas em tecidos os mais ricos, de linho, seda e ouro. A maior
parte dos estofos antigos que se conservaram at aos nossos dias, foram
tirados de sepulturas de Santos.

_Paramentos Sacerdotaes_. A Egreja manteve escrupulosamente, para os
ornamentos sagrados, as frmas adoptadas pelos primeiros christos,
emquanto que a frma e o talhe dos fatos profanos se modificaram
invencivelmente.

Em geral, os paramentos sagrados dos padres e dos ministros inferiores
eram brancos. O uso das cres variadas manifestou-se primeiramente nas
_casulas_ e nas _capas d'asperges_.

As cinco cres liturgicas de que se servem hoje, foram estabelecidas
pouco mais ou menos no IX seculo, e definitivamente consagradas dois
seculos depois.

Os paramentos dos padres so as casulas, a _capa d'asperges_, a
_estla_, o _manipulo_, o _cinto_, a _pa_ e o _amicto_. As principaes
vestimentas, proprias para os ministros inferiores, so a _dalmatica_ e
a _tunicella_.

A casula primitiva era uma vestimenta sem mangas, muito ampla,
envolvendo todo o corpo desde o pescoo at aos ps, e formando uma
especie de barraca, _casula_, em torno da pessoa que a vestia. Tinha
apenas uma abertura para passar a cabea.

A _estla_ deve o seu nome e origem ao vestuario que os romanos chamavam
estola.

A Egreja adoptou como paramento a _estla_, de que se fazia uso por toda
a parte, na occasio em que se estabeleceu o Christianismo.

O _manipulo_ no se usava durante os primeiros seculos da Egreja. Foi S.
Gregorio o Grande, (590-604) quem primeiro fallou, em seus escriptos, do
manipulo como paramento sagrado.

A _capa_  um paramento commum ao padre e a alguns dos ministros
inferiores. Primitivamente serviam-se da capa para se resguardarem da
chuva nas procisses;  tambem por este motivo que ella se chama muitas
vezes _pluvial_.

A _alva_ e o _cinto_ devem a sua origem  _tunica talar_ dos antigos,
que era um vestuario de linho, munido de mangas e apertado  roda do
corpo com um cinto.

A _alva_ era vestida nas funces sagradas pelos bispos, padres e todos
os ministros inferiores.

O _amicto_  uma espcie de tla de que os padres e os ministros se
servem para cobrir o pescoo. A origem d'este vestuario no vae alm do
VIII seculo.

Durante os tres primeiros seculos, os diaconos trajavam o _colobio_, que
era uma especie de tunica longa e estreita, ordinariamente sem mangas.
Foi no principio do IV seculo, que o Papa S. Silvestre substituiu o
_colobio_ pela _dalmatica_.

A _dalmatica_ era uma bluse comprida, feita de l da Dalmacia.

At ao VII seculo, os sub-diaconos da Egreja do Occidente no eram
vestidos seno com a alva, com o cinto e com o amicto.


*Mosteiros Latinos*


Foi no principio do VI seculo, que comearam a maior parte dos
religiosos a reunir-se em communidade, e a viver juntos, debaixo do
mesmo tecto. Vivia ento S. Benedicto.


*Iconographia do periodo Latino*


Muitos monumentos do periodo Latino, sobre tudo os mais antigos
mosaicos, conteem personagens em p e attitude respeitosa, tendo nas
mos, envoltas nas rugas do manto, uma cora em frma de circulo, que
offerecem ao Salvador. Este  representado sob a frma symbolica do
Cordeiro, do monogramma, da Cruz, e at mesmo d'um simples espao vazio.

Christo, debaixo da frma symbolica do Cordeiro ou do monogramma, no
meio de doze cordeirinhos ou de doze pombas, que os monumentos do
periodo Latino nos offerecem frequentemente, symbolisa o Salvador
rodeado dos seus discipulos, isto , a Egreja triumphante no Cu,
recebendo na terra o ensino do seu Divino Fundador.

Tambem muitas vezes se encontra um cordeiro, uma Cruz Trina, ou o
monogramma de Christo entre dois cordeiros, duas pombas, dois paves ou
dois veados; isto symbolisa o Salvador sob a frma humana no meio dos
Apostolos e d'outros Santos, ou sob a frma symbolica do Cordeiro e do
monogramma no meio de doze cordeirinhos ou doze pombas.

V-se tambem uma taa ou um cacho de uvas no meio de dois paves ou de
duas pombas, o que nos parece uma alluso mais directa ao regosijo dos
que vo para o Cu.

Alguns monumentos do periodo Latino, principalmente os mosaicos do V e
VI seculos, teem um throno, com ou sem docl, e em que ha uma almofada,
um cortinado cahindo diante da cadeira e algumas vezes o livro dos
Evangelhos. Um monogramma ou uma Cruz, geralmente da Trindade, occupa o
meio do throno e domina toda a composio. Muitas vezes v-se, ao lado
do throno, os doze Apostolos em p, ou smente S. Pedro e S. Paulo. Em
todos estes assumptos o throno representa o Salvador.

Mais tarde, principalmente no Oriente, acrescentaram a esta
representao novos signaes iconographicos: nas extremidades da almofada
collocavam  direita da Cruz a lana, e  esquerda a esponja na
extremidade d'uma lana; algumas vezes tambem se entrelaa a cora de
espinhos em torno da Cruz. A partir d'este momento, a _cathedra_ da
doutrina torna-se o throno do julgamento final e a Cruz o signal do
Filho do Homem.

S. Pedro, collocado ao lado do Salvador, sustenta ordinariamente sobre o
hombro esquerdo uma cruz de haste comprida; outras vezes recebe com a
mo direita um volume desenrolado, que Nosso Senhor lhe apresenta. Desde
a primeira metade do V seculo, que elle conserva as chaves na ponta do
seu manto.

S. Paulo  quasi sempre representado recebendo um ou dois rolos,
symbolos da Lei Evangelica.

Muitas vezes tambem collocavam uma phenix sobre uma palmeira. A Phenix 
a figura da resurreio futura.


*Caracteres do estylo Bysantino*


O plano e a disposio das egrejas bysantinas apresenta-se com tres
typos distinctos: 1.^o, com a basilica coberta de madeira, similhante 
basilica Latina do Occidente; 2.^o, com a rotunda ou egreja circular;
3.^o, com a basilica bysantina propriamente dita, abobadada e sobreposta
d'uma ou de muitas cupulas. A basilica bysantina abobadada distingue-se
perfeitamente de todos os monumentos dos tempos anteriores, pela cupula
sobre abobadas pendentes, e construida ao meio d'uma nave, mais ou menos
alongada.

As fachadas das egrejas bysantinas differem das que tem as basilicas
Latinas. Estas terminam em geral por um frontespicio triangular; as
fachadas das egrejas orientaes, pelo contrario, terminam ou por uma
fachada horisontal  maneira d'uma cornija, ou por uma serie de
coramentos semicirculares.

O systema de construco das egrejas bysantinas distingue-se pelos
seguintes traos. O tijolo  geralmente empregado para todas as
edificaes. Mesmo nos paizes em que a pedra  abundante, os architectos
bysantinos preferiam, a maior parte das vezes, o tijolo aos materiaes de
grandes dimenses. O caracter distinctivo das egrejas bysantinas, sob o
ponto de vista da construco, consiste na presena de uma ou de muitas
cupulas elevadas, sobre abobadas pendentes.

Chamam-se _abobadas pendentes_ umas certas saliencias nas abobadas do
cruzeiro, que pela sua frma se approximam do sector espherico e que
serve para fazer passar uma construco de quadrado a octogono ou a
plano circular.

A decorao exterior das egrejas bysantinas, sobretudo no IV e V
seculos, era pobre e simples. Do VII seculo ou do VIII seculo em diante,
os ornamentos exteriores das paredes e archivoltas das janellas so
bastantes vezes como os dos edificios Latinos, formados por fiadas de
pedras alternadas com uma ou muitas fiadas de tijolos. As archivoltas
ornadas de molduras ficam em resaltos umas sobre as outras, e
representadas nas paredes por cordes feitos de tijolos de frma e cr
variaveis.

A decorao _interna_ consiste em revestimentos de diversas naturezas,
marchetados de marmores ou mosaicos, applicados sobre os pilares,
paredes e abobadas. O caracter essencialmente superficial da esculptura
bysantina consiste regularmente em folhagens lisas e angulares.

Os ornatos que os bysantinos gostavam de esculpir nas almofadas de
marmore com que decoravam o interior das egrejas, eram entrelaamentos
de linhas rectas e curvas, s quaes juntavam cruzes da Trindade, flores
e algumas vezes figuras de animaes tanto reaes como chimericos.

A comear no VIII seculo, as pinturas a fresco das egrejas bysantinas
foram muitas vezes substituidas por mosaicos e por embutidos em estuque;
acabaram por ser completamente substituidas.

A influencia bysantina fez-se sentir primeiramente no comeo do IX
seculo e mais tarde, no fim do X. Foram construidas muitas egrejas sob a
influencia bysantina dos monumentos typos.

No reinado de Justiniano (527-565) o estylo bysantino ficou
definitivamente constituido com os caracteres acima definidos. Santa
Sophia em Constantinopla constitue o seu typo por excellencia.

Leo, o Isauriano, prohibiu, em 726, a reproduco de qualquer figura,
quer pela esculptura, quer pela pintura nas paredes das egrejas, quer
nos objectos do culto. Esta prohibio, confirmada em 754, por um
conciliabulo heretico, subsistiu at 842. N'este ultimo anno, depois da
morte de Theophilo, ultimo imperador iconoclasta, a imperatriz Theodora
substituiu os editos de Leo o Isauriano e restabeleceu o culto das
imagens.

A pocha mais florescente da arte bysantina foi no X seculo e mais
particularmente no reinado de Constantino Porphyrogeneta.

No XI seculo, uma serie de graves acontecimentos precipitou a decadencia
do imperio bysantino e trouxeram por consequencia o enfraquecimento das
artes. No XIII, XIV e XV seculos, as artes continuaram a desfallecer,
at que, em 1453, os turcos, apoderando-se de Constantinopla, causaram a
decadencia da arte bysantina.




CAPITULO IV

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     *Summario.*--O estylo Roman desde o VIII at ao seculo
     X--Caracteres do estylo Lombardo--Planos das
     Egrejas--Cryptas--Baptisterios--Systemas de
     construco--Abobadas--Pilares e
     columnas--Bases--Capiteis--Fachadas--Cornijas--Decorao
     monumental--Architectura, antes do seculo XI, nos outros estados
     sem ser na Lombardia: Italia central e meridional, Belgica e
     Frana--O estylo Roman durante o XI e o XII seculos--Caracter da
     Architectura Roman--Plano e distribuio das
     Egrejas--Cryptas--Baptisterios n'este seculo--Materiaes e modo de
     construir--Sepultura monumental--Fachadas--Portico das
     egrejas--Portaes--Portas e suas ferragens--Janellas e
     rosaceas--Maneira de resguardar da chuva as janellas e as vidraas
     pintadas--Absides--Pilares, columnas--Bases e capiteis--Arcadas e
     arcarias menores--_Triforium_--Cornijas e
     modilhes--Abobadas--Contrafortes--Madeiramentos--Torres--Modo de
     se lagearem os edificios--Pinturas muraes--Inscripces
     lapidares--Altares--Piscinas--Tribunas--Cadeiras do cro e a
     separao da capella mr do corpo da egreja--Capellas
     funereas--Tumulos visiveis e occultos--Campas--Pias
     Baptismaes--Gradamentos--Alfaias religiosas--Calices e
     patenas--Custodias--Relicarios--Coras suspensas nos
     altares--Lustres de forma de coras--Cruzes para os altares e
     procisses--Castiaes e tocheiros--Evangeliarios--Capas dos livros
     do Evangelho--Thuribulos--Pias para agua benta--Pentes
     liturgicos--Cadeiras para os sacerdotes--Baculos--Calado
     liturgico--Mitras--Tecidos bordados--Vestuarios sacerdotaes.
#/


*Periodo Roman*


O periodo roman estende-se desde o VIII seculo at ao fim do XII. O
estylo roman formou-se e desenvolveu-se debaixo da influencia combinada
de tres elementos: 1.^o, o estylo classico e latino, cujos monumentos
existiam espalhados pela Europa meridional; 2.^o, o estylo bysantino,
cujos principios foram importados do Oriente; 3.^o, o genio particular
dos povos barbaros que invadiram a Europa desde o V seculo.

O estylo proveniente da influencia combinada d'estes tres elementos,
chamou-se _roman_, porque a sua origem e durao coincidem pouco mais ou
menos com a da lingua romanica. Por conseguinte a palavra _roman_
indica, do mesmo modo que na lingua romanica, o elemento barbaro que
contribuiu para a formao d'este estylo.


*O estylo Roman desde o VIII at ao X seculo*


A decadencia completa das bellas artes foi o effeito necessario dos
movimentos politicos que a Europa soffreu durante tres seculos. S os
padres e os religiosos luctavam no meio d'este chaos, contra a barbarie
e a fora brutal dos invasores. O renascimento das artes foi lento, e do
mesmo modo o das lettras, porque o solo da Europa occidental estava
juncado de destroos amontoados, dos monumentos antigos; as tradies
artisticas tinham-se perdido, e os principios haviam cahido em
esquecimento.

Para a architectura e para as artes, a Lombardia foi, desde o VII at ao
fim do X seculo, o principal centro d'este renascimento. O estylo
formou-se n'esta pocha, ao norte da Italia, e recebeu o nome de
_Lombardo_.


*Caracteres do estylo Lombardo*


O estylo Lombardo, ou o estylo Roman do norte da Italia, reinou n'este
paiz desde o VIII seculo at ao fim do XII.

O plano da basilica Latina foi geralmente adoptado nas egrejas
lombardas.

Na maior parte das grandes egrejas lombardas, as paredes internas so
construidas com galerias.

As cryptas das egrejas lombardas estendem-se por baixo de todo o
presbyterio, e formam verdadeiras capellas subterraneas, com muitas
naves abobadadas.

Os baptisterios isolados, geralmente octogonaes ou circulares, usaram-se
durante o periodo lombardo.

A maior parte dos edificios lombardos so construidos de tijolo.

_Abobadas_. A abobada em frma de _bero_ consiste n'um semi-cylindro
concavo e sem penetrao alguma.

A abobada de _*aresta*_, assim chamada porque apresenta quatro arestas
no intradoz,  formada pela interseco ou penetrao de duas abobadas
de bero, com a mesma abertura e reunindo-se em angulo recto.

Os architectos lombardos fizeram grandes progressos na construco das
abobadas. Antes do seu tempo no se conhecia alm da cupula seno duas
especies de abobadas: a abobada de bero, e a abobada de aresta romana.

As abobadas lombardas apresentam todas uma elevao em frma de
zimborio, particularidade que pertence ao systema de construco seguido
pelos architectos lombardos. Esta elevao d s abobadas das egrejas
lombardas um aspecto particular.

Nas egrejas lombardas de tres naves, a principal tem sempre dobrada
largura.

Como dissmos, as abobadas da nave principal exercem sobre os seus
pontos de apoio no smente uma presso vertical, mas tambem uma obliqua
e lateral, que tende a fazer inclinar para fra os pilares e as muralhas
superiores. Nos edificios lombardos, esta presso acha-se equilibrada
pelo encontro opposto das abobadas altas e baixas das naves lateraes e
em parte apoiada sobre os contrafortes exteriores, pelos arcos-butantes
das naves lateraes e pelas pores de parede que supportam estes arcos.

Nos edificios antigos e nas basilicas latinas serviam-se de columnas
cylindricas, pouco espaadas e recebendo directamente as presses
verticaes de entablamentos d'um peso relativamente pouco consideravel.
Os constructores lombardos substituiram o pilar composto de columnas
pelo simples supporte cylindrico da basilica coberta de madeira.

Os caracteres dos pilares lombardos pdem resumir-se da seguinte
maneira: 1.^o Os pilares apresentam uma seco rectangular ou quadrada e
so ornados de pilastras ou de columnas envolvidas, recebendo as bases
das nervuras e dos arcos-butantes. 2.^o No tem todas a mesma grossura,
umas so menos, outras mais fortes, segundo recebem ao mesmo tempo as
bases de todas as abobadas, ou das naves lateraes smente. Foi desde a
primeira metade do seculo VIII que appareceram os pilares ornados de
columna, desconhecidos na arte classica e empregados com profuso no
Occidente pela arte na edade media. As columnas e as columnatas so
ordinariamente construidas por fiadas de desigual altura de medio e
pequeno apparelho; raramente so monolithas.

Essas columnatas dos pilares, quasi sempre delgados e muito elevados,
chegam muitas vezes sem interrupo at  origem das abobadas, e
constituem um facto capital na historia da arte, porque so um dos
elementos mais caracteristicos e fundamentaes de quasi toda a
architectura da edade media.

As bases lombardas approximam-se sensivelmente, pela sua frma, da base
attica propriamente dita.

Estas bases so muitas vezes munidas d'um ornato destinado a ligar o
tro inferior com os angulos do plintho e a dar d'este modo uma
apparencia de maior solidez dos angulos. Este ornato ou appendice
recebeu o nome de _garra_ ou _pata_.

As garras mais antigas so muito simples, as de data posterior
representam ordinariamente cabeas d'animaes.

Os capiteis lombardos, assim como os bysantinos, tem ordinariamente a
frma de aafate esvasado ou cubico.

Uma transformao se opra insensivelmente e a arte lombarda adquire uma
certa originalidade. Os seus typos so variadissimos; o cinzel do
esculptor d ali provas de fecundidade. Mais tarde esta transformao
contina lentamente, e durante o X seculo, as esculpturas tornam-se mais
salientes, as folhagens so augmentadas e as extremidades arredondadas.

Em relao  esculptura d'ornato que cobre o aafate, podem
distinguir-se duas especies de capiteis: os capiteis _ornados de
folhagens_ e os capiteis historicos ou legendarios. Os capiteis
historicos so muito communs nas egrejas lombardas que datam do VIII
seculo.

Chamam-se historicos e legendarios os capiteis que so ornados com
esculpturas que representam scenas tiradas da historia ou da lenda e at
mesmo algumas vezes tem animaes symbolicos ou phantasticos.

O abaco enorme em frma de capitel, que se encontra nos edificios
Latinos, s raramente se v nas egrejas Lombardas;  substituido por
grosso abaco, mas pouco elevado, de profil muito acentuado e muitas
vezes talhado em pedra differente do corpo do capitel.

Em opposio ao principio geralmente admittido pela antiguidade e pela
edade media, as fachadas das egrejas Lombardas no indicam exteriormente
a frma das naves lateraes.

Compem-se d'uma grande parede que chega at aos dois lados obliquos que
a terminam, e na qual no apparece o resalto na nave principal por cima
das naves lateraes.

Os campanarios das egrejas Lombardas ficam ordinariamente separados do
edificio da egreja, e compem-se de uma serie d'andares quadrados, todos
da mesma largura e pouco mais ou menos da mesma altura, separados uns
dos outros por cornijas. Estes andares so ornados com faixas muraes e
pequenas arcadas fingidas, cujos arcos se apoiam sobre modilhes.

As cornijas dos edificios lombardos apenas apresentam uma pequena
saliencia das faces das paredes. So quasi sempre collocadas sobre
arcaduras fingidas, de volta inteira, assentando em modilhes de frma
muito simples.

As arcaduras constituem uma das frmas caracteristicas da architectura
Lombarda; encontram-se, no s debaixo das cornijas dos telhados, mas
tambem debaixo das outras cornijas das fachadas; e at mesmo nas
platibandas horisontaes dos edificios.


*Decorao monumental*


Os bysantinos cobriam com marmores e mosaicos as paredes interiores das
suas egrejas. Os lombardos, pelo contrario, mostram no seu systema
decorativo uma certa preferencia quasi exclusiva pelas esculpturas, a
qual derivando da bysantina, foi por algum tempo sua imitao; porm,
mais tarde, a comear no IX seculo, principiou-se a abandonar esse modo
de decorar.

Nos primitivos edificios lombardos nota-se uma grande incorreco nas
esculpturas das figuras, quer verdadeiras, quer phantasticas. Mais
tarde, encontram-se, em todo o periodo do estylo Lombardo, nos seus
edificios, animaes chimericos, ora isolados ora em frente uns dos
outros, e acompanhados, e tambem entrelaados de folhagens.

As esculpturas no cobrem s os capiteis, mas tambem as archivoltas e os
tympanos, assim como as faces dos altares, dos doceis, etc.

Os embutidos e os revestimentos de marmore so raros no interior dos
edificios lombardos.

Desde o IX seculo que se substituiram os embutidos em marmore pelas
pinturas a fresco e por mosaicos de pequenos cubos.

Em quanto o estylo Lombardo se desenvolvia no Norte da Italia, o Latino
continuava a ser seguido na Italia central e meridional.

A maior parte das egrejas do VII e do VIII seculos eram construidas de
madeira, o que explica os frequentes incendios d'essas egrejas.

No principio do seculo IX, o imperador Carlos-Magno tentou fazer reviver
as bellas artes na Europa Occidental; quiz restabelecer o renascimento
da arte romana.


*O estylo Roman durante os seculos XI e XII*


O estylo Lombardo, inteiramente constituido no Norte da Italia desde o
seguinte seculo, exerceu uma grande influencia sobre a architectura
roman dos paizes cisalpinos no XI e XII seculos. No fim do X seculo, e
no principio do seguinte, os monges introduziram o estylo Lombardo na
Allemanha, na Suissa, e nas provincias da Frana visinhas da Italia,
d'onde irradiou para o Norte e Oeste.

O estylo roman da Europa Central no  outra coisa mais que o estylo
Lombardo transportado quem dos Alpes e modificado occidentalmente pelo
proprio genio dos differentes povos que occupavam esta regio. O
elemento Gaulo-romano tomou tambem grande parte na formao do estylo
roman.

O roman inglez recebeu o elemento Lombardo por intermedio dos Normandos,
que, depois de terem conquistado a Inglaterra, para ali levaram o estylo
do Occidente da Frana.

A rapida propagao das ordens religiosas durante o seculo XI,
contribuiu poderosamente para a diffuso e desenvolvimento da
architectura Roman. Foi n'este seculo, que as ordens religiosas, graas
a abundantes recursos, cobriram em pouco tempo a Europa Central e
Occidental com um grande numero de egrejas e mosteiros. Estes
monumentos, no obstante apresentarem todos os mesmos caracteres geraes,
taes como o emprego das abobadas de volta inteira e d'um mesmo systema
de construco, differem comtudo entre si, em certos caracteres
especiaes, proprios de cada regio.

O estylo roman do seculo XI differe do estylo do XII por uma
ornamentao mais simples, contornos menos correctos e execuo
geralmente inferior.

No seculo XII, abundam os ornatos tanto no interior como no exterior dos
edificios. No final do seculo XI, estabeleceram-se, na Europa
Occidental, duas escolas de architectura, animadas de diversas
tendencias. Uma na ordem de S. Bento, que tinha o seu centro principal
na abbadia de Cluny, desenvolvia uma magnificencia e um luxo quasi
extraordinario na decorao dos edificios religiosos, cuja construco
lhe era incumbida; a outra, pelo contrario, procedente da Ordem de
Cister, quasi que no admittia ornatos alguns e levava a singeleza at 
severidade. Em todos os paizes em que existiam edificios romanos por
occasio da formao do estylo roman, a sua existencia exerceu grande
influencia na decorao dos edificios. Pelo contrario nos paizes em que
escasseavam aquelles monumentos, diligenciaram imitar, a maior parte das
vezes, na esculptura monumental os variados tecidos importados do
Oriente.


*Caracteres da architectura Roman*


As egrejas romans apresentam ordinariamente em planta a forma d'uma Cruz
Latina, cuja frente representada pelo cro  voltada para o Oriente.
Tem geralmente tres naves formadas por duas ordens parallelas de
pilares, e algumas vezes de cinco. Depois do seculo XI, o cro das
egrejas cathedraes, abbaciaes (exceptuando as da Ordem Cistersiense e
collegiaes), tem maiores dimenses que nas basilicas Latinas e
Lombardas.

Quando o cro no era rodeado de capellas, terminava por um abside
semi-circular ou por uma parede recta. Encontram-se, nas margens do
Rheno e em outras partes da Allemanha, egrejas Romans com dois absides
semi-circulares, um a Leste e o outro a Oeste.

Algumas das grandes egrejas Romans tem os lados do corpo da egreja
divididos por galerias.

Todas as egrejas Romans, sem excepo, so orientadas.

Muitas das mesmas egrejas tem cryptas quasi sempre situadas debaixo do
cro, e formando capellas subterraneas, com tres a cinco naves, cujas
abobadas de barrete veem assentar sobre duas ou quatro ordens de pilares
pouco elevados.

Desce-se para a maior parte das cryptas por duas escadas collocadas aos
lados da que do transepte conduz ao cro. Nas que no tem seno uma
entrada, acha-se ordinariamente diante do cro mesmo no eixo da egreja.

O uso de construir cryptas s deixou de existir desde o seculo XIII.

Durante o periodo Roman, ainda se construiram, ao p das cathedraes e
das grandes Egrejas abbaciaes e parochiaes, baptisterios isolados, de
frma polygonal e circular.

Todavia, logo que a solemne ministrao do baptismo caiu em desuso, no
se construiram mais baptisterios proximo das novas Egrejas parochiaes
que se edificaram. A pia baptismal foi ento transportada para a nave
principal, proximo  porta de entrada da egreja nas naves lateraes, ou
ento em uma capella do lado occidental, proximo da porta principal.

A natureza dos materiaes influe poderosamente sobre o modo de
construco adoptada; assim nos paizes em que a cantaria  resistente,
construe-se com grandes dimenses, o apparelho  mais grandioso, as
fiadas so altas; emquanto que, nas localidades em que os materiaes so
menos resistentes, e em que o trabalho de preparar a cantaria  portanto
mais facil, o apparelho tem menor dimenso.

No seculo XI, a esculptura monumental toma repentinamente um
desenvolvimento extraordinario pela influencia combinada do estylo
Lombardo, dos monumentos Gaulo-Romanos; dos tecidos e outros objectos
d'arte importados do Oriente pelos cruzados.

Em cada paiz ou quasi que em cada provincia, a decorao Roman offerece
caracteres particulares, devidos  aptido dos habitantes,  variada
natureza dos materiaes e a outras influencias locaes. Em geral, em todos
os paizes onde se encontravam documentos romanos ricamente decorados, a
influencia Lombarda se liga e se combina com a d'estes monumentos.

No Noroeste da Frana, principalmente na Normandia, e at mesmo na
Inglaterra, a decorao consiste principalmente em estrellas e outras
figuras geometricas. A ornamentao Roman da Allemanha compe-se
sobretudo de gales entrelaados, cujas extremidades acabam em folhas
com tres a cinco lobulos. Estes gales, algumas vezes ornados de
perolas, parecem ordinariamente ligados com fitas ou reunidos por
anneis.

Na Belgica, onde principalmente se manifestou a influencia da escola
Cistersiense, os monumentos do periodo Roman no tem as decoraes de
trabalhos custosos e variados, que se encontram n'outros paizes.

Assim como nas basilicas Latinas, as fachadas das egrejas Romans indicam
em geral a forma transversal das naves; s no seculo XI, comearam a
ornal-as com mais cuidado e esmero. A sua decorao architectural
consiste nos portaes, ordinariamente tres, construidos em profundas
arcadas de volta inteira mais ou menos carregadas de molduras de
architectura; as galerias, verdadeiras ou fingidas, eram formadas por
uma ou muitas ordens de arcadas fingidas ou rendilhadas; e emfim em
grandes rosaceas vasadas, por cima da porta principal.

Raras vezes se encontram fachadas romans decoradas com estatuas.

Antes do seculo XI, os atrios que succederam aos narthex das basilicas,
apresentavam-se d'ordinario sob a frma d'um portico, geralmente pouco
profundo e occupando toda a largura da fachada da egreja; havia alguns
tambem, ainda que pouco numerosos, que eram construidos na fachada
Occidental.

Os atrios Romans dos seculos XI e XII dividem-se em fechados e abertos;
os primeiros tomaram, em varios paizes, um desenvolvimento de tal modo
importante, que formavam de alguma maneira uma nova egreja construida em
frente das naves propriamente ditas, como havia na egreja de S.
Francisco de Santarem.

Nos grandes monumentos do seculo XI, e especialmente do XII, os portaes
mais notaveis, e at mesmo algumas vezes os secundarios, so ornados
profusamente de esculpturas de todo o genero.

Quando as archivoltas dos portaes so cobertas com muitas esculpturas, o
tympano  quasi sempre ornado d'um baixo relevo, representando Jesus
Christo sentado e sob uma aureola. Em alguns casos o Redemptor offerece
as mos a dois Santos coroados e ajoelhados cada um do seu lado; em
outros, lana a beno com a mo direita e segura um livro com a
esquerda; n'este caso a aureola  muitas vezes cercada de animaes
symbolicos representando os Evangelistas.

Nos mais importantes monumentos, os batentes dos portaes eram
ordinariamente de bronze ou de qualquer outro metal.

As ferragens das portas, que a principio no serviam seno para
consolidar todas as travessas da porta, forneceram desde o seculo XI, no
estylo Roman, um dos mais bellos modelos de ornamentao.

Encontram-se tambem, nos edificios de architectura Roman, portaes com
batentes de madeira esculpidos em baixo relevo. As janellas d'estes
edificios mais antigos so pequenas e quasi sem ornamentao alguma.

No meado do seculo XI, augmentaram os vos das janellas  proporo que
mais se generalisava o uso do vidro. No final d'este seculo e durante
todo o XII, as archivoltas exteriores das janellas dos grandes
monumentos so executadas com o maior cuidado, e compostas de arcos com
muitas ordens de pedras lavradas symetricas, varias vezes com o feitio
de tros, ficando assentes sobre grupos de pequenas columnas ou sobre
ps direitos ornados de uma imposta com esculptura. Estes tros tem
tambem muitas vezes ornatos.

No seculo XII, apparecem as janellas geminadas de dois vos, separados
por uma humbreira em frma de columna, e servindo-lhe de moldura um arco
commum de resalva. Vem-se tambem janellas mesmo de tres vos reunidos
debaixo d'um unico arco. N'estas ultimas ou o vo do meio  mais alto
que os dos lados, ou ento  o tympano formado pelo grande arco, no qual
ha um oculo, inteiramente aberto ou em frma de trvo, de quatro folhas
e s vezes com seis e mais lbulos.

Tambem se encontram nos edificios romans do seculo XIII, olhos-de-boi e
que no servem de ornamento aos vos de janellas. Chamam-se rosaes e so
compostos de differentes maneiras.

Nos paizes meridionaes continuaram a vedar os vos das janellas com
caixilhos rendilhados, de madeira ou de marmore. Os desenhos produzidos
pelos recortes das travessas apresentam frmas mais variadas e em
harmonia com a ornamentao Roman; compem-se quasi sempre de figuras
geometricas. Os caixilhos recortados foram empregados at ao seculo XVI,
na Grecia, Italia e Hespanha e ainda hoje no Oriente.

Na Europa Occidental e Septentrional preferiam tapar as janellas com
vidros pequenos assentes em caixilhos de madeira, mas, desde o seculo X,
reunidos por meio de filetes de chumbo. Algumas vezes estes vidros,
differentemente coloridos, formavam um mosaico transparente, no qual
ainda no havia figuras nem ornatos pintados sobre o vidro.

O emprego de vidraas com varios assumptos e personagens pintados,
comeou provavelmente no final do seculo X.

Em muitas egrejas, o cro e mesmo algumas vezes os braos do transepto
terminam por um abside semi-circular ou polygonal.

O abside est ordinariamente ligado por um abside circular coberto d'um
tecto quasi sempre mais baixo que o do cro.

As paredes exteriores dos absides so a maior parte das vezes ornadas
d'uma ou de muitas ordens de arcadas separadas por faixas de pequena
saliencia; columnas ou pilastras envolvidas, ligadas entre si por arcos
de volta inteira. As janellas, ordinariamente em numero impar, so
abertas debaixo das arcadas.

Os absides de quasi todas as egrejas Romans das margens do Rheno
apresentam junto ao tecto uma galeria aberta, formada por uma serie de
pequenas arcadas de volta inteira e sustentadas por pequenas columnas.
Estes absides receberam o nome de absides _rhenanos_. Serviam outr'ora,
e servem ainda hoje, em alguns sitios, para a exposio das reliquias.

Os edificios construidos na Europa Central, no fim do seculo X e
principio do XI, no apresentam, muitas vezes, mais do que pilares muito
simples, de seco circular, quadrada ou rectangular. No seculo XI,
tambem se introduziu, quem dos Alpes, o uso dos pilares com angulos
reintrantes para collocar duas ou quatro columnas envolvidas, de que os
constructores Lombardos se serviam j no seculo VIII.

As egrejas, parochias ruraes, de menor importancia teem muitissimas
vezes pilares quadrados, curtos, sem base nem capitel, ou tendo por
ornamento unicamente uma ou duas molduras pouco salientes que fazem
parte do capitel.

Durante o periodo Roman, principalmente no seculo XII, muitos dos fustes
das columnas foram cobertos de esculpturas variadas, consistindo em
figuras geometricas, espiraes, toraes, gales, botes, folhagens,
cordes, animaes e mesmo representaes de assumptos historicos ou
legendarios. Estes ornatos so communs principalmente no Sul da Europa.

No fim do periodo Roman e no principio da poca Ogival, as columnas so
_anneladas_, isto , formadas d'uma especie de tro  roda do fuste.

As columnas _anneladas_ constituem um dos caracteres dos monumentos da
transio do estylo Roman para o estylo Ogival. Tambem se encontram
d'estes anneis nas nervuras das abobadas. No seculo _XII_, as columnas
so tambem s vezes duplas ou enfeixadas.

As bases das columnas so variadissimas.

Muitas das que se encontram nos edificios mais antigos assimilham-se s
bases Lombardas, mas sem ter garras.

As bases ornadas com esculpturas, muito communs no Sul da Europa, so
raras nos paizes do Norte.

Foi no meado do seculo XI que comeou a apparecer, quem dos Alpes, o
ornato chamado _garra_, que os lombardos j tinham usado muito tempo
antes.

A garra Rom tem em geral a frma d'uma folha applicada sobre o tro
inferior da base no angulo do plintho, e tambem s vezes, a d'uma
carranca ou d'um animal phantastico.

Desde o principio do seculo XII, os constructores romans achatam a forma
do tro inferior, quando a base se approxima da forma Attica; um pouco
mais tarde apparece entre os tros das bases, a moldura concava,
bastante profunda, que frma um dos caracteres distinctivos dos
monumentos do fim do seculo XII e da primeira metade do XIII.

Os capiteis de architectura Roman so variadissimos. Ha uns que apenas
se compem de duas ou tres molduras curvas ou chanfradas, imitando o
capitel toscano ou dorico.

A cornija dos capiteis  umas vezes elevada e coroada com um baco
saliente, e outras baixa, tendo um baco que no resalta o fuste da
columna.

Encontram-se, em muitos monumentos Romans, capiteis chamados _cubicos_,
porque tem a configurao d'um cubo. Estes capiteis so algumas vezes
chanfrados nos angulos inferiores e em geral arredondados na parte
inferior.

A parte inferior do capitel cubico _Rhenano_, do seculo XII, era muitas
vezes dividida em quatro pores de esphera, formando assim um grupo de
quatro capiteis reunidos debaixo de um mesmo baco, mas foi ainda
augmentado o numero das subdivises, produzindo d'este modo os capiteis
cubicos _canellados_ ou com resaltos redondos, que se encontram
principalmente na Inglaterra e no Noroeste da Frana.

No tempo da formao do estylo Roman, a arte da esculptura estava quasi
totalmente perdida quem dos Alpes. Os que primeiro tentaram manejar o
cinzel esforaram-se em reproduzir, melhor ou peior, os antigos ornatos
que tinham  vista; as produces d'estes artistas improvisados so
imperfeitas e grosseiras.

Encontram-se em muitos monumentos Belgas do seculo XII, capiteis cuja
ornamentao, simples e rudimentar, consiste unicamente em folhas
applicadas sobre o aafate, e algumas vezes contornadas em voluta
debaixo dos angulos do baco.

Os capiteis de quasi todos os grandes monumentos dos seculos XI e XII,
so decorados de esculpturas ou de pinturas de cres carregadas. Os
ornatos consistem em gales imitando perolas, folhagens encrespadas,
flores artisticamente executados, animaes symbolicos, animaes
phantasticos isolados ou em grupos, assumptos tirados da lenda ou da
historia, principalmente do Velho e Novo Testamentos.

O capitel de _crochets_ usou-se na Belgica e em algumas partes da
Allemanha desde o fim do periodo Roman. D-se o nome de _crochets_ e
algumas vezes tambem o de _baculo vegetal_, s folhas mais ou menos
compridas, recurvadas em voluta na sua extremidade.

Chama-se _arcada_ toda a abertura, real ou simulada, contornada por uma
archi-volta; e _arcadura_, uma arcada de pequenas dimenses.

At ao seculo XI serviam-se geralmente do arco de volta inteira ou
formado por um semi-circulo para ligar duas columnas ou os dois pontos
extremos d'uma arcada. Nos seculos XI e XII, comeam a apparecer novas
formas d'arcos: 1.^o, o arco _elevado_, cujos dois ramos descendentes se
prolongam verticalmente abaixo do centro gerador; 2.^o, o arco em frma
de ferradura produzido por uma parte da circumferencia que excede o
semi-circulo; 3.^o o arco de volta abatida ou em aza de cesto, formado
por uma semi-ellypse cortada segundo a direco do eixo maior; 4.^o, o
arco de tres lbulos cujo intradoz  composto de tres lbulos.

As paredes interiores lateraes das egrejas, as capellas, as casas
capitulares so em geral ornadas, na sua parte inferior, com arcaduras
sustentadas por pequenas columnas mais ou menos embebidas no p-direito
e firmadas sobre um scco de pedra collocado em roda de todo o edificio.

As arcaduras tambem so muitas vezes empregadas, no exterior dos
edificios, para a decorao das fachadas. Encontram-se egualmente sobre
as outras partes dos monumentos arcadas pouco salientes, cujas
extremidades assentam sobre modilhes muitas vezes executados apenas de
feitio chanfrado, e ainda s vezes ornadas de esculpturas. Em alguns
casos foram os modilhes substituidos por grupos de columnas embebidas.

As arcaduras servem principalmente para ornamentar as partes lisas das
paredes debaixo das cornijas, os parapeitos das janellas e as
platibandas de que se servem para as ligar entre si pelas faixas muraes.

Estas arcaduras foram imitadas do estylo Lombardo. Tambem se encontram
principalmente nos edificios romans da Allemanha, da Inglaterra e
d'algumas partes da Frana.

Chamam-se _Triforiums_ as galerias mais ou menos largas, que ficam por
cima das arcadas das naves lateraes das egrejas, ou simplesmente por
cima das archivoltas das grandes arcadas que ligam dois pilares
contiguos.

Encontram-se _Triforiums_, que abrangem todo o comprimento do corpo da
egreja, nos edificios Lombardos.

Os _Triforiums_ estreitos so posteriores ao seculo XII, e s durante o
periodo Ogival  que se generalisou o seu emprego.

A cornija compe-se d'uma pedra mais ou menos saliente sobre a face das
paredes de maior ou menor grandeza, segundo a maior ou menor dureza dos
materiaes de que dispomos.

A cornija  sustentada por conslas ou modilhes collocados regularmente
por baixo das juntas das pedras que formam as cornijas. Os modilhes
tem a frma d'um curvo ou d'um floro. Chama-se _curvo_ um modilho
simples, que fica saliente sobre a face d'uma parede ou d'um pilar e que
tem as duas faces lateraes parallelas e perpendiculares  mesma parede;
e com feitio de floro,  uma consla que no tem as faces nem
parallelas, nem perpendiculares  parede. s vezes so os curvos e esses
flores ornados de esculpturas representando cabeas humanas, figuras
grotscas, carrancas, monstros, volutas, etc.

A maior parte dos edificios do periodo roman no tinham abobadas seno
no abside do cro, no pavimento inferior dos campanarios e algumas vezes
ao de cima das naves lateraes. A nave central era ordinariamente coberta
com um simples tecto de madeira. As abobadas que hoje se vem em muitas
egrejas do estylo roman foram construidas em epoca bem mais recente.

Nos edificios religiosos que tinham a nave principal coberta d'abobadas,
eram estas d'aresta geralmente em nervuras; e como succede nas egrejas
lombardas, a cada arco da nave central correspondiam nas paredes
lateraes dois arcos de menores dimenses. Para supportar a presso
obliqua, exercida sobre os pilares e sobre as altas paredes da nave pela
abobada da nave central, os architectos romans seguiram dois systemas.

Uns, imitando os constructores lombardos, construem as paredes lateraes
quasi da altura da nave e dispem as abobadas de maneira que supportem a
curva da abobada central. Outros construem nas paredes lateraes abobadas
semi-circulares ou de quarto de cylindro, cuja parte inferior assenta
sobre as paredes mestras do edificio, e a parte superior vem apoiar-se
contra a principal parede da nave central no logar onde comea a sua
abobada.

At ao principio do seculo XII, os arcos duplos compem-se de uma ou de
duas ordens de cunhas de cantaria geralmente sem molduras nem ornatos, e
apresentam uma seco quadrada ou rectangular. No fim do periodo roman,
e mais tarde ainda, os angulos do intradoz do arco dobrado tem
regularmente o feitio de tros.

As nervuras das abobadas d'aresta consistem em um simples tro, algumas
vezes acompanhado de dois ou quatro tros de menor espessura. No fim da
poca Roman, e durante o periodo da transio, o tro principal foi em
certos paizes achatado e composto de uma aresta viva no intradoz. As
nervuras das abobadas do estylo Roman so muito mais toscas que as das
Ogivaes.

Os architectos dos seculos XII, XIII e XIV decoravam algumas vezes o
nascimento das nervuras das abobadas superiores ao capitel com molduras
geometricas.

Chamam-se _contrafortes_ aos pilares embebidos nas paredes exteriores
dos edificios, e que servem para sustentar e diminuir a presso das
abobadas, ou supportar o peso do madeiramento do telhado. Estes apoios
correspondem sempre exactamente (nos monumentos que no tem abobadas)
aos pontos onde assentam as asnas do madeiramento, e nos edificios
abobadados, aos pontos onde vem exercer-se a presso combinada dos arcos
duplos e das nervuras das abobadas.

Nas construces de architectura Roman, especialmente nas mais antigas,
os contrafortes apresentam-se algumas vezes com a apparencia de uma
pilastra semi-cylindrica.

No XI, e principalmente no seculo XII, apresentam os contrafortes
variadissimas frmas. Uns so muito largos na base, e diminuem
successivamente em cada um dos seus tres lados isolados; outros, mais
delgados, tem sempre a mesma largura entre as duas faces lateraes e
parallelas, e no diminuem seno na face exterior, em que essa
diminuio se faz successivamente em diversas partes na sua total
elevao. Alguns ha que tem sempre as mesmas dimenses em todas as
faces, sem saliencia nem resalto algum, desde a base do edificio at 
cornija.

Os madeiramentos nos telhados dos edificios do estylo Roman so raros.

Na Europa Occidental os telhados conservaram at ao seculo XII uma
pequenissima inclinao.

 s no meiado d'este seculo, e at mesmo mais tarde, que se encontram
declives com excessiva correnteza nos telhados dos edificios da edade
mdia.

As _Torres_, tanto na Europa Central como na Occidental, anteriores ao
seculo XI, so em geral quadradas, e sem nenhum ornamento, ou apenas
ornadas com simples arcadas, e ordinariamente cobertas por um telhado de
quatro abas de frma concava, formando uma pyramide obtusa.

Os campanarios do seculo XI, e sobretudo do XII, so mais elevados e
ornamentados que os dos seculos precedentes. Compem-se de dois e mais
pavimentos, que se sobrepem, e cujas dimenses vo muitas vezes
diminuindo successivamente. A sua frma e aspecto geral variam de um
paiz para outro.

Os campanarios isolados, que so quasi exclusivamente proprios da
Italia, distinguem-se por mais duas especies.

Ha uns construidos no ponto de interseco do transepte com a nave
principal, e ainda outros edificados ora sobre a fachada, ora sobre as
extremidades do cro ou do transepte. Os primeiros assentam sobre quatro
grossos pilares: os segundos erguem-se perpendiculares sobre os seus
quatro lados; ou so sustentados por arcadas abertas sobre uma, duas e
at mesmo tres das suas faces.

Os campanarios centraes tem em geral differentes frmas. Ha-os
quadrados, octogonaes, e ainda com muito maior numero de lados; existem
tambem alguns em frma de cpula.

Os campanarios da fachada, e os construidos proximo do cro ou dos
transeptes das egrejas, apresentam ainda frmas mais variadas que os
centraes. Os mais simples so quadrados e divididos tanto interior como
exteriormente em dois ou mais pavimentos. Outros, elevando-se sobre uma
base quadrada, tornam-se em polygonos de maior numero de lados logo no
primeiro ou segundo andar, tendo em geral a frma octogonal.

No XI e no XII seculo eram os campanarios cobertos de madeira com feitio
de flecha ou de pyramides construidas de pedra; quadrados ou octogonaes,
eram pouco elevados e acachapados. Os angulos das pyramides de base
quadrada eram s vezes ornados com pequenos campanarios. Muitos remates
de cantaria foram destruidos pelas chuvas e pelos glos, e depois
substituidos nos seculos XIII e XIV pelas flechas esguias.

Algumas torres tinham por cobertura um telhado apenas com duas abas,
terminando por uma empna em cada um dos lados. As torres cobertas por
este modo s se usaram durante uma parte do periodo Ogival.

Os pavimentos em _opus alexandrinum_ continuaram a usar-se na Italia e
em todos os paizes aonde havia marmore. Na Allemanha, na Frana e na
Belgica, por exemplo, serviam-se de tijolos de terra, cota esmaltada, ou
de pedras gravadas e com embutidos de massa colorida. At ao fim do
seculo XII cada tijolo tinha a sua cr propria. As cres que se
encontram nos pavimentos do fim do periodo Roman, so a preta, cinzenta,
vermelha, e principalmente amarella e verde-escuro. As duas ultimas
predominam em quasi todos os trabalhos d'este genero do seculo XII.

No Oriente e no Sul da Europa, os edificios historicos, legendarios e
symbolicos eram bastante communs no seculo XII; tambem se viam alguns na
Europa Occidental.

Se, na sua origem, a pintura das paredes imitou as mesmas frmas que
tinha o mosaico, e se inspirou dos principios d'esta arte, no podia
tardar muito que ella tomasse mais livre desenvolvimento e adquirisse
certos principios que lhe fossem especiaes em consequencia da propria
natureza dos seus processos e da maneira por que estes satisfazem a
vontade do artista.

Com effeito, a pintura liga-se s frmas da architectura at nas mais
delicadas molduras; e por conseguinte de um modo mais intimo que o
mosaico. Desde os primeiros seculos at  poca da Renascena, a pintura
das paredes pde, sem duvida, modificar o estylo do desenho, e variar o
tom e a harmonia das cres empregadas, seguindo o progressivo
desenvolvimento da arte de construir, mas ficou sempre subordinada 
architectura.

A pintura monumental differe muito da que se emprega ordinariamente n'um
painel.

Um painel, no sentido moderno da palavra, no  mais do que uma scena
mostrada nos limites de um quadro, atravez de uma janella aberta. A
pintura monumental, pelo contrario,  uma arte convencional na qual a
imitao da natureza, a reproduco das suas frmas e dos phenomenos
atmosphericos que ella apresenta, quasi que por assim dizer no existem.

A figura humana e as composies em que esta apparece em grupos so
geralmente reservadas para as grandes superficies planas das paredes; s
muito raramente se encontram nas pilastras e nas columnas. Por toda a
parte o symbolismo ou a allegoria constitue um dos grandes caracteres
tanto da pintura das paredes como de todas as artes em geral durante o
periodo de que nos occupamos.

As pinturas historicas eram tratadas da maneira mais simples. O artista
apenas faz figurar o numero de figuras estrictamente necessario para a
composio do assumpto de que trata. As cres so applicadas com tintas
eguaes, sem indicar sombras nem os differentes accidentes da luz, de
frma que  muitas vezes impossivel determinar qual o lado por onde o
artista teve em vista que a scena fosse illuminada. As partes salientes
dos corpos so regularmente indicadas por traos finos, e os contornos
so representados com linhas cheias.

A pintura a _fresco_, que tem a vantagem de produzir tons agradaveis,
foi a preferida para as pinturas historicas e legendarias. A
_encaustica_ foi tambem escolhida para certos trabalhos. A intensidade e
a harmonia dos tons que resultam do emprego da cra, a possibilidade de
nos occuparmos indefinidamente do trabalho j comeado fizeram com que
muitas vezes fosse adoptado este processo. Com effeito at mesmo a
pintura a oleo  tambem muito antiga. Durante toda a edade mdia eram
preferidos os outros processos, por meio dos quaes, obtendo-se tons
baos, evitavam o reflexo to desagradavel na pintura das paredes.

Durante a edade mdia a primeira pedra do alicerce dos edificios
religiosos era regularmente ornada com uma cruz e uma inscripo. A sua
collocao era feita com grandes solemnidades: um prelado ou um
dignitario ecclesiastico a benzia publicamente, e elle proprio a
collocava na base de um dos principaes pontos de apoio da construco.

Tambem muitas vezes se serviam de inscripes lapidares para conservar a
memoria da fundao do edificio e o nome do architecto ou do mestre da
obra. Em algumas egrejas encontram-se pedras com dedicatorias indicando
a data da consagrao, os nomes dos santos cujas reliquias se acham
depositadas no altar, e at mesmo o nome do orago da egreja.

Os altares eram uns fixos e outros portateis.

_Altares fixos_.--As mesas dos altares fixos, ordinariamente de marmore
ou de pedra, e de frma quadrada ou rectangular, continuaram at meiado
do seculo XII a ser vasadas em frma de bandeja, como j se usra no
periodo Latino.

O supporte da mesa do altar consiste, muitas vezes, em uma simples base
cubica de alvenaria sem ornamentao alguma, e algumas vezes tendo em
roda uma inscripo e um simples rebordo. Nos dias solemnes cobriam-se
estes altares com alfaias de l e seda ou de outros tecidos preciosos.

Outras vezes o altar  sustentado por uma ou muitas pequenas columnas.

Os altares de frma cubica eram muitas vezes revestidos de oiro e de
prata e esmaltados, tendo tambem pedrarias, ou ornados com esculpturas e
pinturas.

A face dos altares, com esculpturas, ou pintados, era em geral dividida
em tres compartimentos com a frma de arcadas mais ou menos ricamente
decoradas. Jesus Christo lanando a beno, de p ou sentado, occupa
ordinariamente a parte central, que  muitas vezes a mais elevada, ou
com a frma de uma aurola oval ou de quatro lbulos. Nas arcadas
lateraes vem-se figuras de santos e os symbolos dos evangelistas, que
se acham dispostos ou em torno do compartimento do meio, ou nos fundos
das arcadas.

O altar principal das grandes egrejas era muitas vezes, como succedia no
periodo Latino, encimado por um _ciborium_, e o mesmo acontecia com
alguns dos altares lateraes.

No final do XI seculo comeou o uso dos retabulos, isto , dos paineis
ou quadros assentes verticalmente ao fundo dos altares propriamente
ditos. O retabulo no constitue por si s uma parte essencial do altar,
mas sim um accessorio. O seu primitivo e principal fim  promover a
devoo entre o padre que offerece o santo sacrificio e os fieis que a
elle assistem, fazendo-lhes ver assumptos religiosos produzidos pelo
cinzel, esculptura, pintura, etc.

A principio era pouco elevado, attingiu uma excessiva altura no fim do
periodo ogival e na poca da Renascena.

Representavam-se nos retabulos os mesmos assumptos que nas alfaias:
Christo, sentado ou em p, occupava em geral o painel do centro, tendo
imagens de Santos e assumptos tirados da Historia Sagrada, ou da lenda,
em arcadas lateraes, ou em medalhes de diversas frmas, collocados em
redor da imagem do Salvador.

A maior parte dos primitivos retabulos eram de oiro, prata ou cobre
doirado e esmaltado: todavia alguns se encontravam, ainda que em menor
numero, construidos de pedra e de madeira pintada ou esculpida. Estes
ultimos s se generalisaram no fim do periodo roman e no principio da
poca ogival.

A principio os retabulos serviam tambem para encerrar os relicarios
quando elles no tinham mais ornamentos, ou para os emmoldurar quando os
seus frontaes eram ricamente adornados. Parece ter sido nos mosteiros
que este uso teve principio. Durante o XI seculo, a maior parte das
abbadias da Europa Central e Occidental mudaram a disposio interior
das egrejas no que diz respeito ao logar reservado aos religiosos
durante a celebrao do Santo Officio: as cadeiras ou bancos dos padres,
que d'antes occupavam o proprio cro do abside, foram transportadas para
o transepte, e desciam ordinariamente at  segunda ou terceira arcada
da nave principal, como na egreja d'Alcobaa.

Ao fundo do Sanctuario, proximo  curvatura do abside, elevava-se o
altar das reliquias, atraz ou debaixo do qual eram expostos os restos
mortaes dos Santos, que at ali se tinbam conservado religiosamente nas
cryptas das egrejas.

Algumas vezes as reliquias eram encerradas em caixas ou cofres e
collocadas no interior do altar.

Tambem se expunham mesmo sobre os altares, como succedia no IX seculo;
mas no  facil actualmente determinar se esta exposio era permanente
ou temporaria, isto , durante certas solemnidades religiosas
extraordinarias.

Comtudo, est provado que existia em muitos paizes o costume de se
conservarem os relicarios sobre os altares. Este costume pouco a pouco
se foi generalisando, pelo menos em alguns d'elles. Quando esta
exposio se realisava por detraz dos altares, o cofre era collocado
pouco mais ou menos dois metros acima do piso e sustentava um dos lados
triangulares sobre o proprio altar, ou ento sobre um retabulo de pedra,
collocado em cima d'aquelle, mas pouco elevado, e o outro sobre uma
consola ou um grupo de columnas junto  parede absidal ou interior da
egreja.

Os fieis podiam circular em torno do altar e vir collocar-se
directamente debaixo das reliquias. O uso de passar debaixo dos
relicarios, quer de p, quer de joelhos, ainda hoje existe em muitos
paizes catholicos. Quando a parte superior da urna, que vinha assentar
sobre o altar, era desprovida de qualquer ornato, cobria-se ento com um
retabulo de metal ou de pedra; se pelo contrario, como succedia com as
urnas de oiro, de prata ou de cobre doirado e esmaltado, tinha figuras
primorosamente executadas, ficava inteiramente livre e visivel por
detraz do altar. Construia-se ento por cima da urna uma especie de
tabernaculo ou de baldaquino. Algumas vezes ornamentavam a parte central
do lado triangular, com um retabulo de metal precioso.

O altar-mr das cathedraes assim como das collegiaes que no possuiam
grandes reliquias, s veiu a ter retabulo no XIV seculo. Tanto no XII
como no XIII seculo, se collocavam n'estes edificios retabulos sobre os
altares secundarios do transepte e das Capellas absidaes. Estes
retabulos eram de pouca espessura, no se lhes podendo collocar em cima
nem crucifixos, nem candeeiros.

_Altares portateis_.--Apresentam ordinariamente, bem como os do periodo
Latino, a frma de um parallelogrammo rectangular, e so compostos de
uma lagea de marmore ou de pedra mettida n'um caixilho de carvalho e
guarnecida com bordados de oiro ou de prata, de modo a no tornar
visivel seno a parte superior da placa.

A lagea que constituia o altar propriamente dito era de porphyro, de
jaspe, de onyx, de crystal de rocha, de pedra preta e at mesmo de
ardosia. Tambem algumas vezes constava de uma pedra preciosa unicamente
como recordao historica que a ella estava ligada, por exemplo, um
fragmento das lageas tintas com o sangue de S. Thomaz de Cantorbery.

As reliquias, cuja presena  de rigor em todo o altar, encontram-se
entre a lagea de marmore ou de pedra e o caixilho de madeira: algumas
vezes era este concavo em frma de recipiente. Em geral os altares
portateis so de pequena altura, apenas alguns tem a frma de um
pequeno cofre sustentado por ps pouco elevados. As laminas de metal que
constituem os adornos so muitas vezes cobertas com filigranas, de
pedrarias, de folhagens gravadas, ou de figuras esmaltadas.

Usaram-se estes altares at ao final do seculo XIII.

_Piscinas_.--A abluo das mos, tanto antes como depois do sacrificio
da missa, foi sempre um dos preceitos dos padres. Deitava-se nas
piscinas no s a agua de que o padre se servia para a abluo das mos,
mas at mesmo aquella de que os ministros se serviam para lavar tanto os
calices ordinarios como os ministeriaes em seguida  communho do padre
e dos fieis.

N'esta poca o padre no tomava as ablues do mesmo modo que
actualmente.

Algumas piscinas, que so as mais antigas, tem apenas uma abertura ou
concavidade para dar passagem  agua; ha porm outras que tem duas, uma
para escoadouro das aguas ordinarias, e outra para receber as ablues
das mos.

As primeiras chamam-se _piscinas simples_, e as segundas _duplas_. As
mais antigas so de uma grande simplicidade, pois muitas vezes apenas
constavam de uma bacia, ou escavada no proprio banco de pedra que havia
junto  parte inferior das paredes, ou sustentada por uma pequena
columna isolada, ou por muitas formando grupo. As piscinas que so
sustentadas por columnas chamam-se _pediculadas_.

No XII seculo comeou-se a collocar _piscinas_ em nichos abertos nas
paredes exteriores da egreja. As piscinas duplas s no fim do XII seculo
appareceram.

_Doceis_.--Foi durante o periodo roman que maior uso tiveram os doceis.
Em geral consistem n'uma especie de cpula quadrada ou polygonal, de
marmore, de estuque, ou de pedra. Muitas vezes tem um leo sentado
entre a base e o fuste das columnas. A face anterior da cpula  quasi
sempre munida de uma estante, sobre a qual o dicono ou o leitor
collocava o livro sagrado.

Esta estante assentava ordinariamente na cabea de uma aguia, symbolo do
Evangelista S. Joo; e algumas vezes na de um homem munido de azas,
emblema de S. Matheus. Quando a estante assentava sobre a cabea de
aguia ou de homem com azas, os symbolos dos outros evangelistas estavam
tambem, s vezes, representados nos angulos da base da cpula.

Nas egrejas mais ricas havia mesmo doceis cuja cpula era revestida de
oiro, de prata, e de laminas esmaltadas, ou decorada com esculpturas
sobre marfim.

_Cadeiras episcopaes ou do clero_.--A cadeira episcopal nas cathedraes,
ou do celebrante nas egrejas inferiores, achava-se regularmente, como no
periodo Latino, no fundo do abside do cro, contiguo  muralha; e aos
lados estendiam-se os bancos ou cadeiras destinadas ao clero. Esta
disposio, que foi conservada at nossos dias em algumas egrejas
romans, era a que havia em todas as egrejas seculares, tanto cathedraes,
como collegiaes e parochiaes.

Havia, j o dissemos, algumas excepes a esta regra, como succedia com
certas collegiaes que possuiam um altar das reliquias no fundo do cro,
e com as egrejas monasticas. N'estas ultimas cedo foram mudadas as
cadeiras para o transepte, e mesmo para o corpo da nave; sem duvida por
causa do grande numero de religiosos, que era impossivel collocar
convenientemente na curvatura do cro.

Durante a maior parte do periodo roman os bancos dos padres foram de
marmore ou de pedra como anteriormente. As cadeiras ou _frmas_,
_formulae_, de madeira, foram raras at ao fim do XII seculo; apenas se
encontram algumas que escaparam  destruio. V-se perfeitamente que
estas cadeiras, apezar de bem feitas em madeira, imitam todavia
exactamente as antigas de pedra.


*Capellas funerarias, tumulos e pedras tumulares*


_Capellas funerarias_.--Construiram-se algumas vezes, nos cemiterios e
na proximidade das egrejas, capellas funebres, de frma circular ou
polygonal,  similhana da rotunda construida pelo imperador Constantino
sobre o Santo Sepulchro, ou o mausolu de Theodorico em Ravenna
(Italia).

_Tumulos_.--O costume de encerrar em sarcophagos os restos mortaes das
pessoas ricas e poderosas existiu no Norte da Europa at ao XII seculo,
e nos paizes meridionaes, isto , no Sul da Frana, na Italia e na
Hespanha existiu pelo menos at ao XIV. Estes sarcophagos constavam,
como no periodo antecedente, de cofres oblongos, de pedra ou de marmore,
muitas vezes mais estreitos para o lado dos ps, e fechados por uma
tampa convexa ou em frma de telhado de duas aguas. Eram esculpidos com
ornatos e symbolos; flores, folhagens, monogrammas, cruzes e alguns
assumptos allegoricos. Collocavam-nos habitualmente sobre pequenos
pilares grossos, ou sobre columnas curtas s com o fim de os isolar do
solo.

Durante o periodo roman tambem foi adoptado o uso dos _cenotaphios_ que
consistem em scos de pedra, macissos d'alvenaria ou grupos de columnas,
assentes sobre uma sepultura subterranea e sustentando ou um sarcophago
simulado ou a effigie do defunto. Em trno do sco ou do macisso
d'alvenaria acha-se disposta uma serie de pequenas columnas. Umas vezes
so unidas por meio d'arcos, outras, o rebordo da grande lage que cora
o sco  apoiado sobre as columnas. No XII seculo, os cenotaphios
comearam a ser encimados pela effigie do defunto, esculpida em relevo e
s vezes at mesmo gravada ao trao ou representada em esmalte. O
personagem  geralmente collocado estendido sobre um leito e tem todas
as insignias da sua dignidade; os bispos esto com a mitra e o bculo
pastoral; os reis e os principes, com o sceptro e a cora. Estas
estatuas deitadas no apresentam o aspecto d'um morto; porque tem os
olhos abertos, os gestos e attitudes de pessoas vivas.

Alguns anjinhos fazem balancear thuribulos ou sustentam a almofada sobre
que assenta a cabea do personagem.

_Tumulos no apparentes_. Consistem, como os do periodo anterior, em
cofres de pedra ou de alvenaria mais largos do lado da cabea que dos
ps e fechados por uma tampa chata ou prismatica. No interior do cofre
encontra-se algumas vezes, principalmente do XI at ao XIV seculo, um
espao circular destinado a receber a cabea do cadaver. Alguns tem no
fundo dois regos, no prolongamento dos quaes est feita uma abertura
destinada a dar vaso s materias viscosas.

_Pedras tumulares_. O uso das pedras tumulares continuou durante o
periodo roman. Em geral tem a frma d'um trapezio; algumas tambem, as
mais antigas, so rectangulares. A sua decorao em geral consiste em
figuras geometricas, folhagens ou figuras symbolicas, e raras vezes se
l o nome do defuncto, e a causa e data do seu fallecimento.

_Pias baptismaes_. As pias baptismaes eram de grandes dimenses durante
todo o periodo roman, por isso que se continuou a administrar o baptismo
por immerso at ao XII seculo. As pias eram em geral de pedra; comtudo
algumas havia de bronze e outras de cobre. Em Frana e especialmente na
Inglaterra tambem as havia de chumbo.

As pias romans eram de variadissimas frmas; sendo algumas similhantes a
uma vasilha.

O grande impulso que na Allemanha teve a arte da ourivesaria durante o
XI seculo, longe de affrouxar no seculo seguinte, pde conservar-se na
vanguarda do movimento artistico da Europa Central e Occidental.

Com a applicao do _esmalte_, os objectos d'ourivesaria mudaram
completamente d'aspecto no XI e XII seculos. At ali a accumulao das
pedrarias ligadas por folhagens de filigranas constituia todo o segredo
d'ornamentao dos ourives do Occidente; desde o fim do X seculo que as
laminas duplas e lavradas alternam a maior parte das vezes com laminas
esmaltadas. Estas encontram-se no s nas grandes peas d'ourivesaria,
taes como as molduras e as alfaias dos altares, mas at nos menores
objectos.

Os primeiros esmaltes fabricados na Allemanha foram engastados em ouro e
prata, semelhantes aos que os Bysantinos fabricavam durante a segunda
metade do X seculo; mais tarde tambem se empregou o cobre com o qual se
douravam as partes que ainda ficavam visiveis depois da incrustao do
esmalte. Foi a comear no XI seculo que em algumas localidades
substituiram o esmalte introduzido no rebaixo pelo dividido em
separao.

At meado do seculo XII, a influencia Bysantina  apparente nos
esmaltadores Rhenanos. Durante bastante tempo, com effeito, os
esmaltadores allemes imitaram o estylo Oriental, reproduzindo mais ou
menos fielmente typos bysantinos, modificando-os comtudo segundo o seu
proprio engenho. Os seus processos technicos tambem se resentem da
origem Bysantina da arte allem:  assim, por exemplo, que, nos esmaltes
em separao, e at mesmo nos mais antigos esmaltes executados em
rebaixos, as carnaes so substituidas pela pasta vitrea, a exemplo do
que se praticava em Constantinopla. Com tudo isto, os esmaltadores das
margens do Rheno no tardaram em gravar sobre metal reservado, as
figuras de pequenas dimenses, emquanto que para as grandes, continuaram
ainda, durante algum tempo, a esmaltar as roupas; e n'este caso s se
serviam da gravura para as carnaes. No final do XII seculo, para
proceder sem duvida d'uma maneira mais expedita, comearam a gravar
figuras inteiras, ainda mesmo que tivessem uma certa grandeza, e quasi
que no era preciso gravar com esmaltes os entalhos, muitas vezes
grandes e profundos da gravura.

Em Frana, os ourives do XI seculo e dos primeiros annos do XII,
continuaram a servir-se exclusivamente, para a decorao das suas obras,
de placas cinzeladas ou at simplesmente estampadas, e d'applicaes de
pedrarias ligadas com filigranas. At 1145 os ourives francezes
ignoravam o modo de gravar do esmalte; tanto que, quando no principio
d'esse anno, _Suger_, abbade do mosteiro de S. Diniz, proximo de Paris,
quiz mandar fazer uma peanha e cobril-a de placas de esmalte engastadas
sobre cobre, viu-se obrigado, segundo elle mesmo conta, a chamar em seu
auxilio ourives da Lotharingia, em numero de cinco ou sete, que tiveram
o trabalho de terminar esta obra em dois annos.

As produces dos primeiros esmaltadores francezes apresentam grandes
analogias com as dos allemes do Rheno, que vieram ensinar a arte de
esmaltar, em Frana.

Uma vez comeado, o gosto pela ourivesaria esmaltada em breve foi
augmentando em Frana, e deu logar a que, em 1160, se creasse uma
celebre escola de esmaltadores em cobre cuja sde foi em Limoges.

Nos primeiros ensaios, os ourives de Limoges procuraram dar aos seus
esmaltes o aspecto do dos allemes; representavam as figuras inteiras,
at as proprias carnaes, com cres d'esmalte; s aproveitavam o metal
para lhe fazer traar as principaes linhas do desenho. Em pouco tempo,
para mais rapida e mais barata produco, renunciaram a este processo e
principiaram a gravar logo sobre o metal, todas as figuras e a esmaltar
_apenas_ o fundo. Muitas vezes at substituiam as partes gravadas por
figuras em alto relevo de bronze fundido e cinzelado. Os esmaltadores de
Limoges cederam em parte a sua obra ao gravador, ao esculptor, ao
fundidor e ao cinzelador, limitando assim o seu trabalho  simples
decorao dos fundos, operao que se tornava pouco difficil.

Pelo lado artistico o esmalte rhenano  muito superior ao de Limoges. Os
esmaltes fabricados no XI e no XII seculo nas margens do Msa, em Lige,
Maestricht, Stavelot, em Waulsort e em Gembloux tem os caracteres da
escola rhenana, cujo principal centro de fabrico era em Colonia,
constituindo por isso uma variedade dos esmaltes rhenanos. As
differenas que se encontram entre os esmaltes com rebaixo de Limoges,
os do Rheno e os do Msa so estas: nos primeiros predominam as cres
azul e verde claros, em quanto que nos outros so o verde e o azul
carregados. Os esmaltadores do Rheno e os do Msa servem-se d'algumas
cres que lhes so proprias; o bello azul de torqueza, o branco de
leite, o vermelho de purpura muito vivo e o preto. Os tons so mais
harmonicos na Belgica e na Allemanha, e mais vivos e asperos na Frana.
Os esmaltes do Rheno e do Msa reproduzem scenas em que toma parte um
grande numero de personagens, com inscripes latinas em verso, gravadas
e encrustadas de esmalte; nos de Limoges no se encontram inscripes a
no ser apenas um ou outro nome. Os differentes lavres que os
esmaltadores do Rheno e do Msa executavam sobre o cobre e com as
incrustaes de esmalte, so notaveis pelo bom gosto e variedade de
assumptos, qualidade que se no encontra entre os de Limoges.

Os objectos, grandes ou pequenos, ornados com esmaltes do Msa ou do
Rheno apresentam geralmente uma particularidade que se no observa na
ourivesaria franceza contemporanea. Tem, alm das placas esmaltadas,
filigranas e pedrarias, placas de cobre vermelho com ornatos e
inscripes douradas sobre campo brunido ou vice-versa.

_Calices e patnas_. Conservou-se, durante o periodo roman, o uso dos
calices ordinarios e ministeriaes.

Os calices ordinarios do VIII e do IX seculo, tem muitas vezes, como os
do periodo Latino, a taa profunda e estreita, o p pequeno e ligado 
taa por um simples n sem haste.

No IX seculo comeou a usar-se a taa maior, e s vezes de frma
espherica e com azas. O p conserva-se ainda n'este seculo com as mesmas
dimenses que nos precedentes.

Os calices do XI e do XII seculos tem a taa e o p muito grandes, o n
bastante grosso e a haste curta quando a tem.

Na Allemanha encontram-se calices do XII seculo que tem o exterior da
taa inteiramente coberto de medalhes, de esmaltes, de pedrarias e de
filigranas; estes ornatos so apenas interrompidos por um pequeno espao
semi-circular destinado para o padre applicar o labio inferior durante a
communho.

Os mysterios da vida e da paixo do Salvador e principalmente a sua
crucifixo, eram os assumptos que os artistas mais gostavam de
reproduzir sobre os medalhes circulares ou ovaes com que decoravam a
taa e o p dos calices.

Em geral compem-se d'um reservatorio sustentado por um grosso fuste
cylindrico, ou mesmo por um pilar quadrado, e tambem se encontram alguns
cujos angulos se apoiam sobre quatro columnas.

Estas pias baptismaes, exteriormente quadradas, so os reservatorios
circulares e ovaes, tendo as faces externas esculpidas com flores,
folhagens, arcos, animaes phantasticos, carrancas e at  facil vrem-se
assumptos legendarios ou historicos.

_Grades_. Os romanos faziam muitas vezes grades fundidas em bronze. Na
Italia e no Sul da Allemanha ainda se empregaram at ao XI seculo. estas
grades.

Carlos Magno empregou o bronze nas grades da egreja de Aix-la-Chapelle
que foram, assim como o edificio de que fazem parte, uma importao
meridional.

Durante o XI e XII seculo, as grades eram compostas de montantes
verticaes mettidos n'uma moldura e encerrando ornatos formados de
barras, de seco quadrada ou rectangular; estes ornatos consistem em
geral em curvas entrelaadas.


*Alfaias religiosas*


No seculo VIII estavam as artes e as sciencias inteiramente decahidas no
Occidente, em consequencia das continuas guerras provocadas pelas
invases dos barbaros. Os processos technicos das artes industriaes e
mais faceis d'adoptar tinham quasi cado no esquecimento. No imperio do
Oriente, pelo contrario, o culto das artes no cessou de prosperar desde
Constantino Magno at ao XI seculo inclusivamente, graas  proteco
generosa dos imperadores bysantinos. Tambem, logo que se seguiram os
primeiros momentos de socego depois das tempestades politicas, pensou-se
na Italia e no resto do Occidente em dotar d'alfaias convenientes as
egrejas, e basilicas que se acabavam de construir ou de restaurar e para
isso foram obrigados a dirigirem-se a Constantinopla tanto para procurar
os objectos que desejavam como para obter artistas aptos que annuissem a
vir trabalhar no Occidente.

Durante muito tempo os artistas verdadeiramente dignos d'este nome,
pintores, esculptores, ourives e outros, continuaram a vir de Bysancio,
e quando no principio do IX seculo, Carlos Magno quiz decorar com
mosaicos e enriquecer com vasos sagrados e outros objectos d'arte o
edificio religioso que elle acabra de construir em Aix-la-Chapelle,
teve que se dirigir a artistas gregos ou aos discipulos que se haviam
formado na Italia, particularmente em Ravenna.

Com os inferiores successores d'este principe, a arte cessou de ter
desenvolvimento, retrocedendo tanto na Europa central como na
Occidental, ao mesmo estado de barbaria em que se achava antes dos
esforos empregados por Carlos Magno para restabelecer o seu progresso.

No fim do X seculo, produziu-se no Occidente um movimento util nos
estudos artisticos; os artistas gregos foram ainda aqui, como mais tarde
na Italia, os iniciadores que presidiram a este movimento instructivo.

A restaurao artistica, comeada sob a influencia dos artistas
bysantinos, foi extremamente rapida na Allemanha. Desde o fim do X
seculo, a escola de Trves, dirigida pelo bispo Egberto, deu nascimento,
no territorio germanico, a muitos outros centros artisticos creados
pelos bispos nos seus palacios episcopaes, ou pelos abbades nos seus
Mosteiros. Santo Henrique que governou o imperio do Occidente durante o
primeiro quartel do XI seculo, foi tambem um dos grandes promotores da
restaurao artistica na Allemanha.

Os _calices ministeriaes_ conservaram, durante o periodo roman, a mesma
frma que tinham tido anteriormente. A sua decorao  a mesma que a dos
calices ordinarios. So munidos d'azas com a frma de folhagens, ou de
drages e d'outros animaes phantasticos.

Nos medalhes sobre a taa representavam-se scenas da vida do Salvador;
nos do p, as quatro virtudes Cardeaes e assumptos tirados da historia
do Velho Testamento; e nos medalhes do n mostravam-se as
personificaes dos quatro rios do Paraizo.

As patnas, ordinariamente muito simples, tinham a configurao d'um
pires com um esvasamento circular no meio. O fundo interior era liso,
com adornos de buril; os bordos, por vezes lavrados em relevos ou
gravados ao buril, eram de pequenas dimenses. Encontram-se comtudo
algumas patnas da poca roman, sobre as quaes abundavam os ornatos e as
esculpturas.

_Custodias eucharisticas: pyxides e ciborios_. Desde o XI seculo que as
pombas eucharisticas foram substituidas em geral pelas pyxides, cuja
origem alguns auctores reputam ser do V seculo. D-se o nome _pyxides_ a
pequenas caixas de marfim, d'onyx, d'ouro, de prata ou de cobre
esmaltado, nas quaes se guardavam as Sagradas particulas. Suspendiam-se,
debaixo do docel do altar, n'uma bolsa de tecido precioso, ou ento
collocavam-se n'um pequeno nicho aberto em parede proxima do altar.

Durante os primeiros seculos do periodo roman as pyxides de marfim
empregavam-se em concorrencia com as pombas eucharisticas de metal.

Consistiam regularmente em pequenas caixas cylindricas, tendo muitas
vezes no exterior esculpturas em relevo.

As pyxides do XII e do XIII seculo so ordinariamente de cobre dourado e
esmaltado; compem-se d'uma pequena caixa cylindrica encimada por uma
tampa de frma conica ligada ao cylindro por uma charneira. Muitas
d'estas pyxides sairam das officinas dos esmaltadores de Limoges.

As pyxides romans tem algumas vezes um p, e so em geral tanto umas
como outras de pequenas dimenses, por isso que apenas servem para
guardar um pequeno numero d'hostias necessarias para dar o Sagrado
Viatico aos doentes em perigo de vida.

Todas as pyxides anteriores ao XVI seculo, com raras excepes, tem a
tampa ligada ao cylindro por meio de charneira.

_Relicarios_. Consideraram-se primeiramente como reliquias os restos
mortaes dos Santos, porm, hoje tem um sentido mais lato;
considerando-se tambem como taes os paramentos e outros objectos usados
por elles durante a sua vida mortal. A Egreja professou sempre um grande
respeito pelas reliquias, prestando-lhes um culto particular. Em vista
d'isto no  para admirar que nos primeiros seculos se fabricasse um to
grande numero e diversidade de relicarios, afim de conservarem estes
preciosos thesouros e expl-os  venerao dos fieis.

_Relicarios da verdadeira Cruz_. A maior parte dos relicarios que
contem parcellas da verdadeira Cruz foram trazidos do Oriente na poca
das Cruzadas, ou fabricados na Europa segundo os modlos bysantinos. So
ricamente cravejados de pedraria e d'esmaltes, e tem muitas vezes a
frma de uma dupla cruz chamada cruz do Santo Sepulchro, de Lorrena ou
de Caravalla. Como a travessa superior d'esta cruz  menor que a
inferior, leva isto a suppr que o que parece uma repetio dos braos
seja simplesmente o _titulo_ da cruz, pelo qual os Gregos e os Orientaes
sempre tiveram especial venerao.

Tambem muitas vezes se collocavam as reliquias da Sagrada madeira n'uma
cruz com uma simples travessa.

As reliquias da verdadeira Cruz, encerradas n'uma cruzeta, muitas vezes
com duas travessas, eram tambem muitas vezes emmolduradas n'uma placa
metallica ricamente ornada e fixa sobre um centro de madeira. Estes
relicarios, com a frma d'um pequeno quadro rectangular ou d'um
triptyco, eram mettidos em ricos estojos guarnecidos d'esmaltes,
filigranas e pedras preciosas.

No eram s os relicarios da madeira da verdadeira Cruz, que tinham a
frma d'uma cruz com duas travessas horisontaes; os proprios edficios
em que se conservavam estes relicarios eram muitas vezes encimados com
uma cruz do mesmo genero. Nas parochias em que os campanarios tinham a
dita cruz, eram collocadas sobre os tumulos n'ellas existentes, cruzes
de madeira ou de pedra com a mesma frma.

_Urnas_. A urna  uma especie d'um cofre dentro do qual so guardadas as
reliquias d'um Santo. O emprego das urnas vulgarisou-se desde o XI
seculo. Ha-as _grandes_ e _pequenas_. As grandes urnas tem o feitio
d'um pequeno edificio rectangular, com a frma de telhado de duas
vertentes; ha algumas, como a dos Reis Magos em Colonia, que imitam uma
egreja com as suas paredes exteriores.

Em geral so cobertas de placas de metal ornadas com filigranas,
esmaltes e pedrarias. Christo lanando a beno, sentado ou em p, s ou
no meio de dois Santos, occupa ordinariamente uma das faces extremas, e
na outra face a Santissima Virgem entre dois Santos cujas reliquias a
urna encerra. As faces lateraes so divididas por arcadas de volta
inteira ou abatida, debaixo das quaes se vem as figuras dos Apostolos
ou d'outros Santos; emfim, as vertentes da imitao de telhado so
decoradas com baixos relevos. Os esmaltes servem de caixilhos aos
differentes assumptos e cobrem tanto as archivoltas como as columnas das
arcadas. Ha tambem urnas exclusivamente feitas de placas esmaltadas.

As urnas pequenas, muito triviaes nos seculos XII e XIII, tem a frma
d'um cofre oblongo, coberto com uma tampa semelhante a um telhado de
duas aguas. Compem-se em geral de placas de cobre vermelho, esmaltadas
segundo o processo do buril. Tanto as quatro faces da urna, como a tampa
so adornadas de figuras e algumas vezes com assumptos completos.
Merecem atteno as figuras pela gravura em relevo ou pelo seu modo de
execuo especial.

Sobre muitas d'estas urnas se vem em relevo as cabeas e as mos ou
smente as cabeas; nas mais antigas, em vez de serem simplesmente
gravadas, so incrustadas de esmalte.

D'ordinario o trabalho  rude e barbaro e o desenho deixa muito a
desejar com relao a correco.

A tampa  geralmente terminada por uma lamina de cobre recortada em
frma de crista.

Pertencem em geral estas urnas ao trabalho dos esmaltadores de Limoges.

Tambem se tem encontrado urnas romanas de pedra, marfim e mesmo de
madeira.

_Estatutas_, _bustos_, _braos_, _ps_, etc. No seculo X, comeou-se a
collocar as reliquias em estatutas, bustos, ou relicarios de metal
ricamente ornamentados e imitando a frma do corpo humano a que ellas
haviam pertencido. Assim, quando queriam guardar os ossos d'um p, ou
d'um brao, dava-se ao relicario a frma de qualquer d'estes dois
modelos. Continuaram a usar-se estes relicarios durante os seculos
seguintes, tornando-se bastante vulgares.

_Urnas de marfim_. Encontram-se, com frequencia, nos thesouros das
egrejas e nas colleces d'objectos antigos, cofres de marfim cobertos
de esculpturas decorativas e legendarias. As que offerecem assumptos
religiosos ou alguns signaes de symbolismo christo, e que por
consequencia foram executadas para o servio do culto, so extremamente
raras. Isto prova que primitivamente eram destinadas aos usos profanos,
por exemplo, para guarda joias. No entanto no  para admirar que se
encontrem nas egrejas, pois que umas foram cedidas s egrejas como obras
artisticas offerecidas por bemfeitores generosos; outras, executadas no
Oriente, serviram aos cavalleiros cruzados para trazerem as reliquias de
Constantinopla e da Terra Santa. As reliquias vindas do Oriente, ficaram
encerradas em pequenos cofres, adquiridos por alto preo no Egypto, na
Syria e na Asia Menor. Estes pequenos cofres, que sahiam d'officinas
musulmanas ou indianas, so regularmente cobertos de figuras
geometricas, d'arabescos d'animaes phantasticos e algumas vezes
d'inscripes Orientaes.

_Frascos de crystal de rocha_. D'entre os varios objectos de que os
cruzados se serviam como relicarios, para trazerem reliquias para o
Occidente, devemos especialmente mencionar os pequenos frascos de
crystal de rocha. Estes frascos, cuja altura raras vezes excedia dez
centimetros, eram ou muito simples ou com frmas d'animaes phantasticos.
Muitos estiveram guardados, durante o periodo ogival, em ricos estojos
de ouro ou de prata.

_Diversos relicarios_. Ha-os com diversas frmas architecturaes
imitando, em metal ou em marfim, as principaes partes das egrejas
romans, e at mesmo as dos edificios civis.

_Coras suspensas nos altares_. Estas coras conhecidas com o nome de
_votivas_ eram por devoo offerecidas a Deus e aos Santos, ou em
cumprimento d'algum voto. J existiam durante o periodo latino; como
ento, compunham-se de um circulo de metal precioso, muitas vezes
adornado com o brilho de pedrarias e de esmaltes. Fabricou-se grande
numero d'estas coras directamente para o servio dos altares; todavia
os antigos chronistas designam-nas tambem muitos como offertas feitas
por reis e principes, de coras d'ouro e de prata e que elles
precedentemente cingiam como insignia de realeza.

_Coras para luzes_. As coras para luzes continuaram a usar-se durante
o periodo roman e as mais bellas que a idade media nos legou so d'esta
poca.

Todas estas coras, guarnecidas de torres e ameias parecem alludir 
viso de que falla S. Joo no capitulo XXI do Apocalypse. _Deus me
mostrar a santa cidade de Jerusalem, que desceu do Ceu, mandada por
Deus..._ representada por uma alta muralha, franqueada por dze portas;
vendo-se a estas portas dze anjos, e tendo gravados os nomes das dze
tribus de Israel. As portas ficavam tres ao Oriente, tres ao Norte, tres
ao Sul e tres ao Occidente. A muralha tinha dze socalcos, em que se
achavam gravados os nomes dos dze Apostolos.

Suspendiam-se estas coras no cro proximo do altar e tambem no ponto de
interseco da nave com o transepte, quando eram muito grandes.

A cora para luzes de Aix-la-Chapelle tem oito metros de circumferencia;
 composta de oito arcos de circulo unindo-se de maneira que formam
angulos reintrantes. Estes angulos so guarnecidos de lanternas em frma
de torrinhas redondas havendo, no ponto medio de cada arco de circulo,
uma torre quadrada maior. Entre cada torrinha podem ser collocadas tres
vellas; como so dezeseis torres, oito quadradas e oito redondas, a
cora pde receber quarenta e oito luzes em todo o seu circuito. Duas
inscripes latinas se lem em trno do circulo metallico, indicando a
data do XII seculo em que foi dada  egreja de Aix-la-Chapelle pelo
imperador Frederico Barba-rxa.

_Cruzes d'altar e para as procisses_. At ao final do XV seculo, no
havia distinco alguma entre as cruzes do altar e as procissionarias ou
estacionarias. A mesma cruz servia para ambos os fins; collocava-se
sobre o altar fixando-a em uma peanha, trazia-se em procisso na
extremidade d'uma vara comprida.

As cruzes d'altar romans, ordinariamente de cobre, de prata, ou mesmo
d'ouro, tem em geral apenas uma s cruzeta; as mais antigas so de
frma Trina, e cravejadas de perolas ou de variadas pedrarias. Mais
tarde, no XI e no XII seculos, so ento compostas com a imagem de
Christo, sendo os ramos da cruz de desiguaes dimenses, isto , deixam
de ter a frma Trina.

Grande parte das cruzes d'altar romans so de cobre vermelho adornado
com esmaltes entalhados ao buril, outras compem-se de simples laminas
de cobre sobre as quaes se reproduzem em esmalte a imagem do Divino
crucificado ou outros symbolos religiosos. Muitas cruzes so formadas de
madeira, tendo as duas faces ou s a principal revestidas com placas
esmaltadas. A imagem de Christo era representada n'estas cruzes e em
alto-relevo. O _perizonium_, que cobre os rins e a cora que cinge a
cabea do Salvador, so ordinariamente esmaltados e os olhos
representados por fragmentos de vidro azul.

No fim do periodo roman, as peanhas em que se fixavam as cruzes para as
collocar sobre o altar eram muitas vezes d'uma riqueza notavel; algumas
eram de frma triangular, a mais geral; e outras tinham quatro faces. Em
cada um dos quatro angulos, d'estas ultimas, apresentam um Evangelista
escrevendo textos relativos  vida ou  morte do Salvador. Queria-se
d'este modo symbolisar a diffuso, pela prdica do Evangelho, da F em
Jesus-Christo, Redemptor do genero humano.

_Candelabros_. Os candelabros eram em geral pequenos e terminavam na sua
parte superior por uma dirandella ponteaguda. A frma d'estes
candelabros do XII seculo, vara pouco; consta em geral de um p assente
sobre tres patas de leo ou em tres corpos de drago; um n de folhagens
ou de drages enroscados; e uma dirandella bastante concava, sustentada
por tres ou quatro pequenos animaes phantasticos que se assimilham aos
drages ou aos lagartos com azas.

O contraste que existe entre os pequenos candelabros d'outro tempo e os
que actualmente se empregam de excessiva altura, explica-se da seguinte
maneira: deram aos candelabros e ciriaes uma to descommunal altura que
obrigaram a substituir as antigas velas de cra por um cirial simulado e
accrescentado com uma vela. No devemos esquecer que os ciriaes se
accendem em homenagem ao Crucifixo ou ao Santissimo Sacramento, e que
portanto no devem exceder em altura o tabernaculo. Comprehende-se,
pois, a razo por que um candelabro d'altar  maior e mais monumental
que outro qualquer de sala.

_Candelabros para o Cirio Pascal_. Tinham uma altura bastante
consideravel.

A ornamentao d'estes candelabros, destinados a sustentar o Cirio
Pascal, era analoga  dos candelabros d'altar. N'elles se encontram,
tanto no p como na dirandella, os drages e os lagartos com azas
(geralmente no numero de tres), as folhagens e os flores. Em alguns,
tambem se representavam varios personagens e diversos outros assumptos
nas facetas do p.

_Candelabros de sete braos_. Estes candelabros sempre de bronze,
usavam-se desde o periodo roman, e talvez antes. Destinados, sem duvida,
a fazer recordar o antigo candelabro dos israelitas, so tambem muito
elevados. O p, o n e os ramos eram ordinariamente ornados.

Os braos esto collocados, em geral, no mesmo plano, tres de cada lado
da haste central e as dirandellas tambem se encontram ao mesmo nivel.

_Evangeliarios_. Durante o periodo roman, trataram, como at ali, de
reproduzir o mais correctamente possivel o texto Sagrado; e continuaram
do mesmo modo a transcrever os exemplares de luxo com lettras de ouro
sobre velino branco ou cr de purpura.

As Biblias completas e os evangeliarios, isto , os manuscriptos em que
se encerra o texto dos quatro Evangelhos, so em geral ornados com um
grande numero de miniaturas representando personagens e assumptos do
Novo e Velho Testamentos, e at mesmo alguns factos legendarios.
Todavia, nos mais antigos manuscriptos o numero das illustraes 
geralmente muito menor que nos do XI e XII seculos. Encontra-se com
frequencia, na parte superior de cada Evangelho, a figura do
Evangelista, sentado e escrevendo o seu livro.

Egualmente se encontram na parte superior de quasi todos os
Evangeliarios, miniaturas que occupam muitas paginas, consistindo em
arcadas sobre columnas, agrupadas s tres e s quatro, sob um arco
commum que abrange toda a largura da pagina; em cada arcada lem-se
series de numeros collocados uns debaixo dos outros.

Estas columnatas formam o que se chamam os _canhes d'Euzebio_ ou de
_concordancia Evangelica_. Foram compostas por Euzebio de Cezara para
facilitar o estudo comparativo dos Evangelhos, e consistem em quadros
que indicam, por meio de algarismos escriptos na mesma linha horisontal
em duas ou mais arcadas, as citaes dos Evangelhos com relao ao mesmo
objecto.

So dez: o primeiro indica todos os logares communs aos quatro
Evangelhos; o segundo, os que se no lem seno em S. Matheus, S. Marcos
e S. Lucas; o terceiro, o que  referido por S. Matheus, S. Lucas e S.
Joo; o quarto, as passagens comparativas de S. Matheus, S. Marcos e S.
Joo; o quinto, o accrdo de S. Matheus com S. Lucas; o sexto, de S.
Matheus com S. Marcos; o setimo, de S. Matheus com S. Joo; o oitavo, de
S. Lucas com S. Marcos; o nno, de S. Lucas com S. Joo; emfim o decimo,
sob differentes series, o que cada evangelista escreveu de particular.

Cada Evangelho tem  margem, com tinta preta por ordem numerica, a
indicao de todos os versos que o compem; e inferiormente a cada verso
est notado a encarnado o numero do canho a que se tem de recorrer para
encontrar a concordancia.

_Capas evangeliarias_. Durante o periodo roman as capas dos livros
lithurgicos tinham ordinariamente um comprimento dobrado ou triplicado
da largura. Comtudo j havia n'essa epoca encadernaes que se
approximavam sensivelmente da frma quadrada, que foi a que mais tarde
prevaleceu.

As capas dos livros romans so de metal e tambem de marfim; acontecendo
muitas vezes reunirem estas duas materias na mesma capa, ou servindo de
caixilho a uma placa de marfim quadrada ou rectangular e com relevos
metallicos.

Os assumptos que mais trivialmente se encontram sobre as capas dos
evangelhos so: 1.^o O Salvador, sentado ou de p, lanando a beno e
collocado n'uma aureola oval; 2.^o A crucificao de Christo; 3.^o A
Santissima Virgem com o menino Jesus; 4.^o Scenas tiradas da historia do
Novo Testamento.

Os symbolos dos Evangelistas occupam quasi sempre os quatro angulos das
capas.

Para o fim do periodo roman, tambem frequentemente se empregaram, como
capas de livros lithurgicos, placas esmaltadas, oblongas, rectangulares,
fabricadas em Limoges, representando a crucificao do Senhor, com as
figuras accessorias.

_Thuribulos_.  provavel que nos primeiros seculos fossem simples vasos
com grande diametro e um peso consideravel.

Dos thuribulos anteriores ao XI seculo apenas temos conhecimento pelas
pinturas das paredes e pelas miniaturas dos manuscriptos.

So d'uma simplicidade notavel; tem, como todos os que se lhes
seguiram, a frma espheroidal.

No XI e XII seculos apparecem thuribulos mais ricos.

_Caldeirinhas d'agua benta portateis_. Estas caldeirinhas serviam para
levar agua benta aos imperadores, aos reis e outros grandes personagens
no momento em que entravam na egreja. Tem a frma d'um cne troncado e
invertido.

Geralmente so de pequenas dimenses, no excedendo 20 centimetros em
altura.

Tambem as ha de marfim e outras de metal. A maior parte tem
exteriormente duas ordens sobrepostas de figuras em relevo,
representando assumptos religiosos, figuras de Santos ou symbolos.

_Pentes lithurgicos_. Os padres eram obrigados a pentear os cabellos e a
barba antes de celebrar o Officio Divino. O uso dos pentes lithurgicos
existiu at ao XVI seculo, e ainda nos nossos dias se emprega o pente na
Sagrao dos Bispos.

_Os pentes lithurgicos_ so geralmente d'osso ou de marfim e tambem
algumas vezes de madeira.

Uns so maiores do que outros; os maiores so guarnecidos com duas
ordens oppostas de dentes, tendo uma com mais finissimos dentes. O
espao comprehendido entre as duas ordens de dentes  em geral
esculpido. Os pentes de menores dimenses tem apenas uma ordem de
dentes, sendo egualmente mais ou menos ricamente esculpidos.

_Cadeiras_. O uso da cadeira, _cathedra_, foi durante, muito tempo
considerado como uma prerogativa dos Papas, dos Bispos e dos Soberanos
temporaes.

No fim do periodo Latino e no comeo do Roman, as cadeiras, eram por
vezes feitas  imitao da cadeira _curl_ dos Romanos, a qual era
formada de duas dobradias em frma de X, entre as quaes assentava um
coxim. Os ramos das dobradias d'esta especie de cadeiras romans so
ordinariamente terminados, superiormente, por cabeas d'animaes e
inferiormente por patas ou garras; como tambem succede com as cadeiras
cures mais ricamente esculpidas.

As cadeiras romans tem d'ordinario a frma d'um cofre rectangular, no
tendo costas nem to pouco braos. Adornavam-nas com incrustaes de
marfim, ouro, prata ou outros metaes; eram estofadas de preciosos
brilhantes e damascos. As cadeiras de costas altas so raras.

_Baculos pastoraes_. Desde os primeiros seculos que os Bispos empunhavam
o basto pastoral como insignia da sua dignidade. Mais tarde foi este
privilegio extensivo aos abbades dos grandes mosteiros.

Os bastes pastoraes mais antigos eram de duas frmas diversas: havia o
basto em frma de muleta e o basto em _voluta_. O primeiro, pela sua
similhana com a letra T (a que os gregos chamavam _tau_)  conhecido
pelo nome de _basto_ ou baculo em frma de _tau_. O cabo ou travessa
ordinariamente de marfim  todo esculpido.

Os baculos de _voluta_ que ainda hoje existem, datam do XII seculo. A
frma que tinham antes d'esta epocha sabe-se pelas esculpturas, pinturas
e miniaturas.

No nos parece que se encontrem Bispos empunhando o baculo em monumentos
cuja data seja anterior ao ultimo quartel de X seculo.

No seculo XII e at mesmo j durante a ultima metade do seculo XI,  que
se comearam a usar os _baculos de voluta_. So tambem d'esta epocha os
_bastes de metal_ ornados de pedrarias d'esmaltes e filigranas.

A voluta de quasi todos os baculos do XII seculo termina por uma cabea
de serpente ou de drago encimada por uma cruz, ou lutando com o Divino
Cordeiro armado com o signal da redempo. As volutas terminando em
floro so por emquanto raras n'esta epocha, assim como tambem aquellas
que tem representadas scenas historicas.

Attribue-se geralmente aos baculos pastoraes e a todas as suas
differentes partes, uma significao symbolica. O baculo representa o
bordo do Pastor espiritual; do Bispo na sua diocese e do abbade no seu
mosteiro. A haste  recta para recordar ao Prelado a rectido da
governao; a ponteira de metal  o emblema da justa severidade com que
deve reprimir os rebeldes, e a voluta recurvada symbolisa a bondade como
as almas so attrahidas para o bem pelas consolaes. A voluta do baculo
voltada para o peito, indica a jurisdico interna dos Abbades; voltada
para fra, mostra a auctoridade dos Prelados.

_Sapatos lithurgicos_. Estes sapatos, que desde os primeiros seculos so
considerados como uma das principaes insignias dos Bispos e dos Abbades,
tinham o nome de sandalias, _sandalia_, e eram em geral de frma
identica. Constavam d'uma solla de coiro ordinario, d'uma gaspea e de
dois quartos.

A gaspea era de coiro e recortada muito profundamente a formar uma
especie de lingueta, _lingua_, e quatro appendices, _ligulae_, em frma
de orelhas atravez das quaes passavam os cordes. As seis chanfraduras,
formadas por estas orelhas, fizeram dar  gaspea o nome de _coiro
fenestrado_, _corium fenestratum_, por affectarem a frma de aberturas
dos rotulos de janellas.

Tanto a gaspea como os quartos tinham um grande numero de furos, os
quaes bem como as chanfraduras da gaspea tinham uma significao
symbolica.

As sandalias so guarnecidas, inferiormente, por uma solla e
superiormente por um pedao de cabedal chanfrado ou fenestrado, porque
os ps dos prgadores devem ser resguardados inferiormente para se no
sujarem nas coisas terrestres conforme as palavras do Senhor--_Sacudi o
p de vossos ps_--; so descobertos pela parte superior para que lhes
seja relevado o conhecimento dos celestiaes mysterios, segundo estas
palavras do propheta: Desvendae-me os olhos e considerarei as
maravilhas da tua Lei.

A gaspea e os quartos eram ordinariamente bordados a ouro e seda e at
mesmo de pedras preciosas.

_Mitras_. As mitras de dois bicos eram desconhecidas at ao fim do XI
seculo. D'antes os Bispos usavam algumas vezes uma cora ou grinalda de
laminas de metal, cravejada de pedras, debaixo da qual elles punham um
barrete pouco elevado ou um pedao rectangular de seda ou de tela, cujas
extremidades, ordinariamente bastante compridas, fluctuavam livremente
sobre as costas.

No fim do XI seculo, a cobertura collocada por debaixo da cora
tornou-se mais alta de maneira que formava ou uma especie de touca
ponteaguda ou dois lobulos obtusos ou arredondados e pouco tempo depois
duas agudas pontas. N'esta mesma epocha foi substituido o circulo de
metal por fachas de pergaminho primorosamente pintadas e as extremidades
fluctuantes do pedao de tela por duas fachas compridas e estreitas, que
se chamam _fanons_.

_Alfaias preciosas_. _Tecidos_. Durante os primeiros seculos da ra
christ, os tecidos de seda apenas se fabricavam no Oriente.

Mas no periodo roman continuou a Europa a mandar vir todos os tecidos
preciosos de Constantinopla, da Grecia, da Asia Menor e da Persia.

Comtudo, no seculo IX, os Mouros introduziram a cultura do bicho de seda
no Sul da Hespanha, e a comear do seculo seguinte, a pequena cidade de
Almeria, situada a pequena distancia de Malaga sobre as costas do
Mediterraneo, tornou-se um importante centro de industria de seda, cujos
productos da Europa eram procurados.

Em seguida  expulso dos musulmanos no anno de 1146 ou 1147, as
fabricas de seda tambem se desinvolveram muito na ilha da Sicilia, e o
commercio de tecidos de seda tornou-se extremamente florescente e
prospero, graas aos intelligentes esforos do rei normando Roger,
secundado na sua empreza por operarios trazidos da Grecia na escolta
d'uma expedio militar. Os tecidos d'ouro e seda, fabricados na celebre
manufactura official de Palermo, e conhecida pelo nome de _Hotel de
Tiraz_, foram os mais estimados durante toda a edade mdia.

Os tecidos do periodo roman, geralmente encorpados e solidos, so uns
lisos e outros ornados de desenhos representando animaes, plantas,
flres e fructos, empregados apenas como decorao, sem a menor inteno
de symbolismo. Os estofos produzidos pelas fabricas musulmanas, tinham
tambem s vezes inscripes arabes; aquelles cujas decoraes consistiam
em assumptos biblicos ou symbolos christos, fabricavam-se em
Constantinopla, na Grecia e mais tarde egualmente na Sicilia.

_Bordados_. Os bordados continuaram a usar-se para reproduzirem
assumptos religiosos quer em medalhes quer sobre umas fitas que
applicavam s velas d'altar e aos paramentos sacerdotaes. A arte de
bordar fez consideraveis progressos durante o periodo roman.
Encontram-se um grande numero de passamanarias inteiramente executada 
agulha _acula pictae_ no XI e XII seculos.

Os bordados executados durante o periodo roman eram geralmente feitos em
seda ou l fina sobre uma talagara de tela fina.

_Paramentos sacerdotaes_. No principio do periodo roman eram ainda
desconhecidas as cres lithurgicas, e s se comearam a empregar no IX
seculo tomando um certo desinvolvimento nos seculos seguintes, ao mesmo
tempo que se fixou o seu symbolismo. A cr branca e a vermelha foram as
primeiras adoptadas: aquella, como emblema da innocencia e da candura,
servia nas festas do Salvador, da Santa Virgem, dos anjos, dos Santos
que no morreram martyres e durante a Paschoa; o vermelho, symbolo da
caridade e do heroismo, foi destinado aos martyres bem como ao
Pentecostes, festas por excellencia do amor.

No XII seculo duas novas cres vieram augmentar as que j se usavam: o
verde, symbolo da esperana, foi empregado aos domingos e nos dias de
semana em que se no celebrava festa alguma de Santo e durante o tempo
que decorre entre a Epiphania e a septuagesima, entre o Pentecostes e o
Advento, o preto, signal de luto, foi reservado para a sexta feira Santa
e para os officios funebres.

A principio, o uso d'estas differentes cres era facultativo; porm
desde o final do XII seculo e ainda mais durante o seculo XIII,
tornou-se obrigatorio.

Mais tarde, tambem se introduziu o uso da cr violeta, symbolisando
_penitencia_, para o Advento, quaresma, temporas e vigilias.

A _casula_ conservou, durante o periodo roman a mesma frma que at ali
havia tido, isto , a d'uma veste dupla, sem mangas, e caindo livremente
 roda do corpo.

As _casulas_ mais ricas eram de seda; cravejadas de pedras, de perolas e
bordadas a ouro, prata, seda ou l, reproduzindo figuras geometricas,
flres, animaes, symbolos e assumptos religiosos. Estes ornatos
espalhavam-se muitas vezes por toda a casula; comtudo, d'ordinario,
apenas occupavam as bandas verticaes longas e estreitas, chamadas
_praetestae_, _listae_ ou _augusti clavi_; regularmente so duas, uma na
frente e outra na parte posterior. Alm do modo decorativo que ellas
tinham, estas bandas serviam ainda a um fim util, a de tapar as duas
costuras precisas para dar feitio ao paramento. Duas outras fachas,
egualmente estreitas, passavam sobre os hombros e vinham terminar nas
bandas verticaes do peito e ao meio das costas, figurando, adiante e
atraz, uma Cruz em frma de Y.

Ha _casulas_ antigas que no tem as fachas de junco que passam sobre
os hombros e cuja decorao se resume nas duas fachas verticaes. Algumas
vezes tambem estas fachas so substituidas por arvores ou plantas com
muitas ramificaes.

As casulas de uso diario e as das egrejas mais modestas no eram de
seda, materia de um preo excessivo n'essa poca, mas sim de l, tela ou
outros tecidos mais baratos.

A _estola_ consiste em uma facha comprida e estreita, de seda, de l ou
de tela, medindo em geral 2^{m},70 de comprimento sobre 6 a 7
centimetros de largura. Foi a partir do IX seculo, que ella tomou esta
frma e estas dimenses, que se approximam muito das que ainda hoje tem.

As estolas ricas eram ornadas de pedrarias bordadas, e placas de metal
cinzeladas e esmaltadas, e terminavam nas pontas por longas franjas.

O _manipulo_, que d'antes consistia n'uma especie de toalha, com a qual
os padres limpavam as mos e a cara ou purificavam os vasos sagrados, s
perdeu a frma e o destino primitivo, durante o IX seculo, quando se
tornou um verdadeiro paramento similhante  estola na frma, cr e
decorao.

A _capa_ conservou, durante o periodo roman, a mesma frma que tinha
antes; especialmente reservada aos chantres e clero inferior, era feita
com um tecido ordinario. Os Bispos s raras vezes a vestiam e, por
consequencia, no havia capas ricamente decoradas.

A _alva_ era de linho mais ou menos fino e algumas vezes de seda branca.
Havia duas especies de alva: as alvas sem ornatos, chamadas _albae
purae_ ou _simplices_, e as alvas guarnecidas, _albae paratae_ ou
_frisiatae_. As primeiras serviam nos dias ordinarios e nas egrejas de
segunda ordem; as outras eram usadas pelos Bispos e pelo clero,
especialmente nos grandes dias de festa.

A decorao das alvas dos Bispos consistia apenas em certos ornatos em
volta do pescoo, nas extremidades das mangas e no bordo inferior; alm
de duas orlas parallelas verticaes que lembram as _augusti clavi_ dos
Romanos, e que descem do pescoo at aos ps, tanto na frente como nas
costas.

O _cinto_ era geralmente ornamentado com grande luxo.

Muitos tecidos preciosos se fabricaram com fio d'ouro; tendo a frma
d'uma grande fita de largura entre tres e seis centimetros, podendo-se
mui facilmente assentar, em toda a sua largura, perolas, pedrarias, e
placas de metal cinzeladas e esmaltadas.

O _amicto_  composto d'um pedao de panno quadrado ou rectangular, que
o sacerdote pe na cabea, quando comea a revestir-se, e que depois faz
descer sobre o pescoo.

Os amictos eram em geral de panno de linho. No periodo roman tambem os
havia de seda, e de fio d'ouro.

No IX seculo comearam os amictos a ter um ornamento, que se conservou
em uso durante toda a edade mdia, e que recebeu o nome de--_parura
plaga_--e tambem, s vezes o de--_praetextae_. Este adorno consistia, no
seu principio, em uma tira rectangular d'ouro, de renda ou tecido de cr
brilhante, que se pregava no bordo superior do amicto, e que formava em
torno do pescoo uma especie de rico collar, visivel mesmo depois do
sacerdote e os ministros sagrados terem revestido a casula ou a
dalmatica. Algumas vezes tambem tinham como adorno perolas e pedras
preciosas.

A _dalmatica_  o paramento sacerdotal para vestir por cima, pertencente
ao diacono e sub-diacono. Consistia, durante o periodo roman,
regularmente n'uma especie de toga fechada muito comprida, com mangas e
uma abertura para passar a cabea. Duas faixas verticaes d'ouro ou de
cr brilhante se applicavam, s vezes, sobre a toga, prolongando-se at
ao bordo inferior.

Do seculo XI em diante appareceram dalmaticas abertas nos dois lados at
uma certa altura. Eram muitas vezes guarnecidas de faixas douradas em
volta do pescoo, e nos canhes das mangas.

O _pallium_ constituia entre os antigos o principal paramento de vestir
por cima.

Deu-se com o pallio o mesmo que se havia dado com a estola; a parte
principal, e primitivamente essencial, isto , o manto foi supprimido, e
apenas se conservou o ornato accessorio, as faixas que se lhe
applicaram. Estas uniam sobre o peito e sobre as costas, em frma de Y,
da mesma maneira que as _listae_ em certas casulas.

Durante o periodo Latino j se decoravam as faixas do _pallium_ com
pequenas cruzes gregas. Estas cruzes, pouco numerosas a principio,
foram-se multiplicando insensivelmente, e desde o XI que j se contavam
muitas sobre toda a extenso das faixas.


*Abbadias, Mosteiros e claustros dos Capitulos*


Desde o VIII seculo que se comearam a levantar estabelecimentos
religiosos, compostos de numerosas construces edificadas e dispostas
com arte. Havia j egrejas, edificios para alojamento e exercicios dos
frades, enfermarias, escolas, bibliothecas, hospedarias para os
estrangeiros, celleiros, jardins, edificaes destinadas aos
aprovisionamentos, emfim, habitaes e officinas para as corporaes
d'artistas que as abbadias tinham sempre ao seu servio.

Todos estes antigos mosteiros foram destruidos ou inteiramente
modificados com o correr dos seculos.

Examinaremos as suas disposies interiores, quando tratarmos do plano
das abbadias do periodo ogival.

A principio os conegos das cathedraes e collegiaes viviam em communidade
como os religiosos.

Os claustros dos simples collegiaes eram ordinariamente, como os das
abbadias, contiguos s paredes meridionaes da egreja, porque a exposio
ao sol do meio dia  a mais agradavel e a mais vantajosa para a saude.
Por estas razes o lado sul nas cathedraes era occupado pelos palacios
episcopaes, e os conegos viam-se obrigados a escolher o lado norte das
egrejas, para edificarem os seus claustros.

Todavia, esta regra no era geral: existem muitos exemplos de claustros
tanto d'abbadias como de capitulos occupando outros logares. Estas
excepes  regra geral so devidas a differentes causas, taes como a
presena de ruas ou de construces que era impossivel supprimir, e, nos
paizes montanhosos, os accidentes do terreno que torneava a egreja.

Os claustros das egrejas monasticas, cathedraes e collegiaes,
compunham-se ordinariamente de um pateo quadrado ou rectangular, rodeado
de galerias cobertas, que serviam de passeio aos religiosos e aos
conegos.

Estas galerias, abertas para o lado do pateo, eram comtudo d'elle
separadas por meio de um apoio quasi continuo, sobre o qual vinham
assentar as columnas com archivoltas, tornando a arcada toda contnua.
Os mais antigos claustros apenas tinham uma especie de ornamentao com
as galerias cobertas d'um simples alpendre de madeira, cujo madeiramento
s era visivel no interior. Desde o fim do X seculo foram estes
alpendres substituidos por abobadas de bero com aresta, por baixo das
quaes muitas vezes tambem se construia um pavimento.

Na maior parte dos claustros romans do XII seculo, as curvas
descendentes das archivoltas so sustentadas por columnas duplas,
cobertas por uma perna de telhado. Algumas vezes columnas isoladas
alternam com columnas duplas.

Os claustros das cathedraes e das collegiaes eram, como os das abbadias,
rodeados de edificaes indispensaveis para a vida commum dos conegos.

Debaixo d'essas galerias se abriam as portas do refeitorio, do
dormitorio, da escola, e da sala capitular e outros locaes affectos ao
servio da communidade. Mais tarde, quando a vida commum foi abandonada
pelos capitulos, as habitaes privadas dos conegos occuparam, em torno
das galerias, o logar d'estes differentes edificios.

A iconographia, isto , a _sciencia das imagens_, occupa-se das
representaes figuradas devidas  esculptura e, em geral, a todas as
outras artes de modelar.

_A gloria, o nimbo e a aurola_. A gloria  um ornamento symbolisando
uma nuvem luminosa, que os artistas da idade mdia pem em torno da
cabea ou do corpo d'um personagem, como attributo da santidade ou do
poder. Quando ella no rodeia seno a cabea, d-se-lhe o nome de
_nimbo_; quando rodeia o corpo inteiro, chama-se _aurola_.

O nimbo derivado da palavra latina (_nimbus_)  um adorno circular, e
tambem s vezes quadrado, oblongo ou triangular com que se costumam
adornar as cabeas das figuras que representam as pessoas divinas, os
santos e os homens revestidos d'auctoridade suprema, quer civil, quer
ecclesiastica.  costume collocal-o verticalmente na parte posterior da
cabea. Assim como a cora  o signal da realeza, assim o nimbo  o da
santidade ou da auctoridade.

O nimbo circular ou em frma de disco  o symbolo de Deus, dos anjos e
dos Santos; comtudo, quando circumda a cabea d'alguma das pessoas
divinas, o disco  regularmente ornado com uma cruz grega, de que apenas
se vem tres ramos, pelo que se chama nimbo crucifero. A cruz do nimbo
crucifero deve ser vertical, e no inclinada como a cruz de Santo Andr
X. Muitos artistas, quando se servem do nimbo, commettem um erro, contra
esta regra de iconographia. O nimbo crucifero  o symbolo caracteristico
das pessoas divinas, mesmo quando apenas se representam por figuras
symbolicas. Assim, por exemplo, a mo, symbolo do Pae Eterno, o
cordeiro, symbolo do Filho Jesus Christo, e a pomba, symbolo do Espirito
Santo, representam-se sempre com o nimbo crucifero.

Os ramos do nimbo crucifero so geralmente bastante compridos e mais
largos nas extremidades. O nimbo circular sem a cruz  o symbolo dos
anjos e dos Santos do Novo Testamento. No Oriente tambem os Santos do
Velho Testamento tem o nimbo, mas no Occidente no se segue essa
pratica. As personificaes das virtudes, das provincias e das cidades
tem tambem o nimbo. Elle  egualmente concedido aos Papas, aos
imperadores, aos reis, e aos padres quando so representados
administrando o Sacramento do baptismo, por isso que elles se acham
n'estes casos revestidos d'uma auctoridade suprema.

Os personagens vivos depositarios da auctoridade suprema, eram tambem
adornados com o nimbo quadrado ou rectangular. O nimbo  muitas vezes
substituido pela cora que se d s imagens esculpidas do Salvador
crucificado ou da Virgem com seu Filho.

_Origem do nimbo_. Os pagos j faziam uso do nimbo, para ornamentar os
seus deuses e imperadores.

Assim se v Trajano n'um baixo relevo do arco de Constantino e Antonio o
Piedoso em uma moeda, confirmando o uso d'este emblema. Mas que poca
indicar a introduco do nimbo na iconographia christ? O nimbo parece
s ter sido empregado pelos christos depois da converso de
Constantino. At este tempo no se conhece monumento algum authentico
dos tres primeiros seculos, em que vejamos Christo ou os Santos
adornados com o nimbo. Os mais antigos monumentos, de data determinada,
em que este ornamento se acha empregado como signal iconographico, so
os mosaicos de Roma e de Ravna.

Ora foi da comparao d'estes differentes monumentos entre si que se
conheceu terem sido as imagens do Salvador as primeiras que tiveram
nimbo, em segundo logar as dos anjos, depois as dos evangelistas e seus
symbolos e emfim as dos Santos e dos soberanos. As imagens de Nosso
Senhor comearam a ter nimbo desde o principio do IV seculo; at ao VI
seculo se v o nimbo umas vezes simples, outras crucifero. A Santissima
Virgem e os anjos comearam a ter nimbo desde os primeiros annos do
seculo V, os Evangelistas e os Apostolos no meado do mesmo seculo, os
Santos e os personagens revestidos de auctoridade soberana no comeo do
seculo seguinte.

Aurola (palavra derivada do latim _aura_, _vento suave_, _spro
luminoso_)  uma especie de moldura que envolve todo o corpo como se
fsse o nimbo do corpo inteiro.

Os artistas da edade mdia do aurola s tres Pessoas Divinas e 
Santissima Virgem e tambem s almas dos Santos e principalmente  do
pobre Lazaro, figuradas por um pequeno corpo inteiramente n. A alma 
assim deificada no momento em que volta ao seio do Creador.

Os Santos, por mais venerados que sejam, nunca tem aurola.

Quando Deus Pae ou Deus Filho se representam sentados na aurola, os
seus ps assentam em geral sobre um arco-iris, e sentados sobre um arco
similhante.

Estes arco-iris so muitas vezes substituidos, o primeiro por um
escabello rendilhado, e o segundo por uma especie de poltrona. Sendo a
aurola mais recente do que o nimbo, cau comtudo em desuso
primeiramente do que este ultimo.

_Representaes da Santissima Trindade_. Durante o periodo roman eram as
pessoas da Santissima Trindade representadas de varios modos.

1.^o--Para inculcar aos fieis o dogma da egualdade dos homens,
representavam-se estes com frmas inteiramente similhantes. s vezes
tambem o Deus Filho se representa nos ps ou nas mos, e o Espirito
Santo  representado com a frma d'uma pomba. As pessoas Divinas quando
se representam com frmas humanas, tem sempre ns os ps.

2.^o--Tambem empregavam a representao do baptismo do Senhor nas aguas
do Jordo, para figurar as pessoas da Santissima Trindade.

3.^o--Nos ultimos annos do periodo roman representava-se a Santissima
Trindade da maneira seguinte: Deus Pae, sentado n'um throno ou sobre um
arco-iris, tendo nas mos uma cruz na qual est crucificado o Salvador;
o Espirito Santo, representado por uma pomba, apparece entre a bca do
Pae e a do Filho, para mostrar que o procede tanto d'um como do outro.
Este typo foi conservado durante toda a idade e mesmo at aos XVI e XVII
seculos.

Comtudo, a partir do XV seculo, deixou de se symbolisar o dogma da
procisso do Espirito Santo, e collocava-se a pomba ou no brao da cruz
ou no hombro do Pae.

_Representaes das tres Pessoas Divinas_. _Deus Pae_. At ao seculo XI,
nunca se attribuiram a Deus Pae frmas humanas. A sua presena era
apenas indicada por uma mo saindo das nuvens. Esta mo symbolica,
primeiramente sem nimbo, e mais tarde com o nimbo simples ou crucifero,
encontra-se nos sarcophagos e nos antigos cofres. Foi pois no XI seculo
que Deus Pae comeou a ser representado sob frmas humanas.

_Deus Filho_. Quando tratmos da iconographia das catacumbas, dissmos
que, durante os tres primeiros seculos, s se representava o Salvador,
debaixo das frmas symbolicas ou das scenas historicas. J no IV seculo
se encontram imagens isoladas do Salvador. At ao X seculo, Christo
representa-se muitas vezes com as feies d'um mancebo de quinze a vinte
annos, sem barba, de figura agradavel e resplandecente d'uma mocidade
Divina; s excepcionalmente Christo tem barba e parece no ter mais de
vinte e cinco annos. No XI e XII seculos os artistas do-lhe uma
expresso mais severa; ordinariamente apresenta barba parecendo ter
trinta a trinta e cinco annos.

_Deus Espirito Santo_. At meiado do X seculo foi sempre representado
com a frma d'uma pomba; mas no XI e XII seculos comeou tambem a ser
figurado com a frma humana.


*A cruz e a crucificao*


_Consideraes geraes_. A historia da representao da crucificao pde
resumir-se dizendo que este assumpto no se encontra sobre os monumentos
christos e outros objectos do culto anteriores  converso de
Constantino; a cruz apresenta uma frma dissimulada.

No IV seculo, a cruz fez a sua appario na iconographia christ. Desde
a converso de Constantino foi ento que appareceu sobre um grande
numero de monumentos; mas at ao VI seculo ainda no tinha a imagem de
Christo: era no emtanto adornada com pedrarias e s vezes circumdada por
uma aurola.

No VI seculo comeam ento alguns artistas christos, ainda que
timidamente, a representar o Salvador sobre a cruz. Primeiramente
servem-se do Cordeiro symbolico, que elles representavam de differentes
maneiras com o signal da redempo. Tambem se vem cruzes tendo ao
centro, e s vezes nas extremidades dos braos, uns medalhes com o
Divino Cordeiro ou com a imagem do Salvador Triumphante.

Desde o VI at ao XI seculo representa-se o Salvador sobre a cruz com o
fim manifesto de recordar o Seu Triumpho sem nunca indicar a minima ida
de soffrimento ou d'opprobrio.

Do XI ao XII seculo representa-se Christo crucificado mas Glorioso e
Triumphante, apesar de ser manifesta a ida de soffrimento.

Do XIII ao XV seculo, os artistas christos, tendo mais ou menos em
vista o symbolismo das pocas precedentes, esforam-se por patentear
realmente os soffrimentos do Divino Crucificado.

Durante o periodo do renascimento, o culto da frma e da realidade
constitue por assim dizer a unica preoccupao do artista, que, dominado
pela ida de expressar uma dr vulgar ou de representar um corpo morto
ou moribundo, perde todo o sentimento de nobre symbolismo.

A historia das representaes da cruz e do crucifixo comprehende, pois,
duas pocas distinctas: a primeira, que durou desde o IV ao XII seculo
inclusive, tem por caracter distinctivo a representao glorificada do
instrumento da Paixo e da Victima, sem signal de que se tivesse
prestado voluntariamente; a segunda, que comea no XIII seculo e termina
no XIX,  caracterisada pela expresso dos soffrimentos do Divino
Salvador.

A poca do soffrimento corresponde ao periodo ogival e ao do
renascimento.

No IV seculo a cruz  frequentemente encimada por um monogramma
inscripto em uma cora. Quando no tem o referido monogramma, (o que se
d principalmente desde o V seculo) ou tem os braos eguaes e mais
largos nos extremos, ou  ornada de perolas em renques, ou ornada de
flres e folhagens, ou rodeiada de aurola. Ha todo o cuidado de
apresentar na cruz qualquer ida d'opprobrio ou d'ignominia; a cruz no
 o instrumento de supplicio, mas sim, a cruz glorificada, o instrumento
da Redempo do genero humano.

Estas diversas frmas de cruz continuaram a usar-se at muito antes do
periodo Roman.

Datam do ultimo quartel do VI seculo as primeiras imagens conhecidas do
Salvador crucificado. Porm, entre a cruz simples e o Cruxifixo
encontra-se uma srie de monumentos intermediarios, offerecendo a cruz
associada ao Cordeiro symbolico.

Estas cruzes intermediarias, partindo da cruz sem figuras animadas, ao
crucifixo propriamente dito, ainda se encontram em alguns monumentos do
VII seculo.

Os mais antigos monumentos conhecidos que representam Christo pregado 
cruz, pertencem ao ultimo quartel do seculo VI. Taes so a miniatura do
celebre manuscripto syriaco de Florena, do anno 586, e muitos objectos
enviados por S. Gregorio o Grande, a Theodolinda, rainha dos Longobardos
e conservados hoje no thesouro de Monza. Alguns d'estes ultimos
mostram-nos claramente Christo na cruz, ao passo que outros, taes como
os frascos de chumbo, que continham liquidos recolhidos dos tumulos dos
martyres, no fazem mais do que relacionar a imagem de Christo com a
cruz, d'uma maneira muito mais sensivel do que a cruz do imperador
Justino e outros objectos similhantes. Tres d'estes curiosos frascos
tem ao meio da face principal, uma simples cruz folheada, acima da qual
se acha o busto do Salvador entre as personificaes do Sol e da Lua;
aos lados da cruz vem-se dois adoradores, os dois ladres, a Santissima
Virgem e S. Joo; inferiormente est figurado o Anjo e as Santas
mulheres ao p do tumulo de Christo.

No reverso acha-se a Ascenso do Senhor, nos dois lados do gargalo uma
cruz grega de braos eguaes debaixo d'um arco de triumpho e inscripto
n'uma cora folheada. Sobre o quarto frasco figuram scenas symbolicas
analogas: est Nosso Senhor em p entre os dois ladres, tendo os braos
estendidos em cruz. O instrumento do supplicio, que no se v na face
principal,  comtudo representado no reverso do frasco, debaixo d'um
arco de triumpho, e cercado pelas cabeas dos Apostolos inscriptas em
medalhes circulares e formando uma especie de cora. Conclue-se, pois,
que o artista christo foi obrigado primeiramente a no representar a
menor ida de opprobrio e de soffrimento; para isto elle transformou a
cruz tornando-a de braos eguaes, ornando-a de folhagens e
metamorphoseando-a em arvore da vida: quiz affirmar o triumpho alcanado
com a morte, por Aquelle que morreu sobre a cruz, recordando a
Resurreio e Ascenso do Salvador.

Os crucifixos primitivos no tem quasi nunca Christo esculpido em alto
relevo.

Christo est vestido com um _colobium_ ou tunica, ordinariamente sem
mangas, que chega at aos ps. O uso d'esta longa veste serviu
exclusivamente durante o VII seculo e generalisou-se no IX seculo.
N'esta poca foi substituida por uma tunica larga cobrindo os rins do
Salvador.

Christo tem sempre a cabea elevada ou ligeiramente inclinada para a
direita e os braos estendidos e perfeitamente horisontaes. Os ps esto
pregados separadamente  cruz por dois cravos e muitas vezes apoiados
sobre um escabello, ou suppedaneum. Algumas vezes parece serem
supprimidos os cravos com a inteno manifesta de significar que o
Christo se offereceu voluntaria e espontaneamente sobre a cruz para a
redempo dos homens.

Desde o VI seculo at ao VIII, a scena da crucifixo  muitas vezes
acompanhada de personagens e outros accessorios fundados na verdade
historica, mas que se representam, bem como a imagem de Christo, de uma
maneira symbolica. Assim vemos a Santissima Virgem e S. Joo, o phariseu
que empunha a lana e o que segura a esponja, o Sol e a Lua, a
resurreio do Salvador, o bom e o mau ladro. Todos estes accessorios,
com excepo do bom e do mau ladro, se encontram ainda representados
nos crucifixos do seculo VIII.

O sacrificio da crucifixo e os crucifixos do seculo IX at ao XII,
apresentam Christo na mesma attitude que nos seculos precedentes. Os ps
conservam-se ainda com dois cravos, mas afastados um do outro e assentes
geralmente em um--_suppedaneum_.

Foi no XII seculo que appareceram os primeiros crucifixos apresentando
Christo com os ps _sobre-postos_.

Christo poucas vezes se encontra vestido com o _colobium_; apenas em
geral tem  volta dos rins uma toalha de linho larga e comprida, que lhe
cobre o corpo desde os quadris at aos joelhos. Nos seculos XI e XII,
esta toalha tem muitas vezes a configurao d'uma pequena saia que se
chama--_perizonium_.

A Cruz tem geralmente quatro ramos.

Algumas vezes teem um rotulo, mas sem inscripo alguma; outras, nem
mesmo teem rotulo, que em geral consiste n'uma pequena travessa de
madeira rectangular. As inscripes costumam ser variadissimas.

Antes do seculo IX, os personagens e outros accessorios que acompanham a
Cruz, so historicos, isto , a sua presena  justificada pela narrao
dos proprios Evangelistas. No IX seculo comearam ento a apparecer os
crucifixos com figuras allegoricas, taes como a Egreja, a Synagoga e as
personificaes da Terra e do Oceano. Vamos, pois, tratar
successivamente dos principaes typos do cyclo d'estas representaes,
comeando pelos accessorios historicos, visto que elles se empregam
desde o VI seculo.


*Personagens e accessorios historicos*


_A Santissima Virgem e S. Joo_.--Santa Maria est  direita e por
debaixo da Cruz, e o Apostolo em posio analoga, mas  esquerda do
Salvador. S muito raramente se encontram ambos do lado direito, como
succede na miniatura de Florena.

Ordinariamente esto como que erguendo os braos ao Salvador ou occultam
o rosto em signal de dr com a mo na ou escondida na ponta do manto. A
Santissima Virgem tem a cabea envolvida em um veu e os ps calados, em
quanto que S. Joo, de cabea descoberta e com os ps descalos, tem nas
mos um livro.

_O phariseu que empunha a lana e segura a esponja_.--Ha uma piedosa
tradio, desde a idade media, em que se diz que o guarda que feriu o
Salvador com uma lanada, era um pago chamado _Longino_, que mais tarde
se fizera christo, sendo depois venerado como Santo pela Egreja.

Quasi todos os escriptores ecclesiasticos consideram Longino
representado ao lado da Cruz com o typo dos gentios, em quanto que o
phariseu que apresentou a Jesu-Christo a esponja embebida em vinagre
parece ser um judeu.

_O Sol e a Lua_.--No seculo VI, tambem estes astros comearam a ser
representados no sacrificio da crucifixo, vendo-se o Sol  direita e a
Lua  esquerda do Senhor.

A presena do Sol e da Lua n'estes primitivos monumentos, parece ter por
fim recordar o obscurecimento do Sol e as trevas que subitamente se
deram em seguida  morte do Salvador.

No seculo IX, a significao, ainda limitada e puramente historica
d'este assumpto, foi amplificada com outra mais allegorica, desde esta
epocha. O Sol e a Lua no alludem smente  obscuridade que envolveu a
terra por occasio da morte de Christo, simulam tambem o firmamento
assistindo e tomando parte na morte e no triumpho do seu Creador.

N'este mesmo seculo os dois astros so quasi sempre personificados e
representados por um homem e uma mulher. A personificao do Sol tem
regularmente a cabea cingida de raios luminosos, a da Lua  em geral
encimada por um crescente. Uma e outra teem s vezes um facho.

_As santas mulheres chegando ao tumulo do Salvador_.--Desde o VI at ao
XII seculo, apparece muitas vezes, por debaixo do crucifixo, a
approximao, ao tumulo, das tres santas mulheres, Maria Magdalena,
Maria, me de S. Thiago, e Salom. Ellas seguram jarros, thuribulos ou
outros vasos, e esto diante do Anjo, sentadas, no dentro do sepulchro,
como diz o Evangelho, mas diante d'elle. Muitas vezes figuram-se tambem
soldados desfallecidos ou adormecidos.

A reproduco d'esta scena na parte inferior da Cruz era para pr em
parallelo a humilhao e a glorificao do Salvador, a sua morte sobre a
Cruz e a sua resurreio gloriosa.

_A resurreio dos mortos e a sua sahida do tumulo_.--Durante o seculo
IX figurava-se muitas vezes ao p da Cruz a Resurreio dos mortos que
se deu por occasio da morte de Jesus Christo, segundo narra o
Evangelho.

Os tumulos d'onde sahiram os resuscitados tem a forma de pequenos
edificios, geralmente armados com uma capella, mais raramente d'um
fronto triangular ou d'um telhado de duas aguas. Nada havia que mais se
prestasse a proclamar a victoria alada contra a morte de Nosso Senhor
expirando sobre a Cruz, como a Resurreio dos mortos.


*Personagens e accessorios allegoricos*


_A Egreja e a Synagoga_. Desde o seculo IX at ao XII encontram-se,
sobre a maior parte das representaes do Sacrificio da Cruz,
personificaes da Egreja e da Synagoga. Tinham ellas por fim recordar
aos Christos a reproduco do povo d'Israel e a vocao dos infieis 
F da Egreja Christ. A Egreja, quasi sempre  direita da Cruz, 
representada por uma mulher com uma bandeira e aparando n'um calix o
sangue que corre da chaga de Nosso Senhor feita no lado direito. A
Synagoga  representada por uma mulher com uma bandeira e tambem s
vezes uma palma. Est collocada  esquerda do Salvador com as costas
voltadas para o Senhor, e algumas vezes parece afastar-se lanando
olhares d'insulto e de clera.

_O Oceano e a Terra_.--Os artistas romans collocavam frequentemente
sobre o marfim e sobre as miniaturas dos manuscriptos, no p da Cruz ou
inferiormente a toda a composio, as personificaes do Oceano e da
Terra tiradas da mythologia.

O Oceano, geralmente collocado  direita do Salvador,  representado por
um homem barbado, sentado sobre um monstro marinho, ou despejando uma
urna; tem na mo um remo, um peixe, uma cornucopia, ou o tridente de
Neptuno, e na cabea chavelhos em frma de serpentes, e tambem, s
vezes, trazendo azas. Defronte do Oceano acha-se a Terra com a frma
d'uma mulher, semi-nua, segurando, e at amamentando creanas ou
serpentes, muito proximo d'ella; s vezes mesmo, n'uma das mos, v-se
uma cornucopia.

As personificaes do Oceano e da Terra collocavam-se perto da Cruz,
primitivamente, como acima dissemos, para exprimir a dr que a Natureza
soffreu com a morte do seu Creador; e mais tarde, para mostrar que todo
o Universo partilhou da Redempo operada pela morte do Salvador.

_A mo Divina e a pomba_. Muitas vezes v-se na extremidade superior da
Cruz uma mo, com ou sem nimbo crucifero, parecendo sair das nuvens e
segurando uma cora. Esta mo  o symbolo de Deus Pae, do mesmo modo que
a pomba, que se v sobre algumas Cruzes, symbolisa o Espirito Santo.

_Os Anjos_. Superiormente  travessa horisontal da Cruz e proximo do Sol
e da Lua vem-se s vezes dois, tres ou quatro anjos, em attitude de
adorao. Algumas vezes suspendem sobre a cabea do Salvador uma cora.
Nos monumentos mais remotos (os do IX seculo), onde mais frequentemente
se vem os anjos, so estes em numero de dois e designados pelos nomes
de Miguel e Gabriel: representam a Natureza angelica assistindo  morte
do Salvador.

_Os Evangelistas_.--Anteriormente ao IX seculo, nunca se representavam
os Evangelistas do lado principal aos crucifixos, mas sim nas quatro
extremidades do reverso, tendo no centro a imagem da Santissima Virgem.
A razo d'isto  porque n'esta epocha no se admittiam no sacrificio da
Cruz seno accessorios puramente historicos.

No VIII seculo, quando na iconographia da Cruz se introduziram as
allegorias e os symbolos, tambem appareceram os Evangelistas.

Encontram-se ora por cima dos braos horisontaes da Cruz, com os anjos e
os astros, ora nos quatro angulos da cercadura, que forma a moldura da
scena principal. Tambem s vezes se encontram, tanto no IX como no XII
seculo, no lado principal dos crucifixos, nas extremidades dos ramos.

_O Calix_. Encontram-se crucifixos em que o _suppedaneum_  substituido
por um calix.

 muito provavel que este calix no seja mais que o _Santo Graal_,[3]
to celebre na idade mdia. O _Santo Graal_ diz-se que servira  Ceia;
foi n'elle que Jesus-Christo transformou o vinho pelo seu proprio
sangue.

_Ado sahindo do tumulo_. Esta scena representa-se muitas vezes proximo
da Cruz, para significar que a resurreio da carne  uma consequencia
da morte de Christo.

O sacrificio da Cruz, desde o IX at ao XII seculo, com os seus
accessorios allegoricos e historicos, deve interpretar-se: a Natureza
Angelica, Celeste e Terrestre assistindo ao sublime sacrificio do
Homem-Deus sobre a Cruz, onde affronta os salutares affectos; a Synagoga
reprovada, a Egreja formada, a cabea da serpente infernal esmagada, o
genero humano rehabilitado e recebendo o testemunho da Resurreio da
Carne.

_Os crucifixos dos seculos XI e XII_. Existem muitos d'estes crucifixos;
apresentam os seguintes caracteres:

A imagem de Christo , em geral, de cobre vermelho; tem, quasi sempre,
os olhos de vidro azul.

_O perisonium_, ou a toalha que cobre o corpo de Christo desde os
quadris at aos joelhos, toma ordinariamente a forma d'um saiote cujas
orlas so ornadas de perolas. Os Christos dos seculos XI e XII, vestidos
de tunica comprida com mangas ou com o _perisonium_ em forma de saiote,
que lhe chega at aos ps, so extremamente raros.

_Nos crucifixos do XI seculo_, Christo est muitas vezes coroado com uma
especie de gorra ou cora real. No XII seculo, j a gorra e a cora se
tornam raras desapparecendo completamente no fim d'elle.

_Os braos das cruzes_ que teem imagens de Christo, so geralmente
ornados com esmaltes e symbolos, tanto no reverso como na frente
principal.

_Cruzes da Paixo e Cruzes da Resurreio_. A Cruz da Paixo  formada
por uma haste e uma ou duas travessas e representa ou imita as
propores das differentes partes da Cruz, instrumento de supplicio.

_A Cruz da Resurreio_  apenas um symbolo da Cruz Real ou da Paixo; 
uma pequena cruz na extremidade d'uma haste como a que segura o Divino
Cordeiro.

_A Santissima Virgem_. Durante os doze primeiros seculos da nossa era
representa-se a Virgem umas vezes ssinha e outras acompanhada do Divino
Filho.

_A Virgem sem o Menino Jesus_ tem ordinariamente os braos estendidos e
erguidos parecendo orar e perto da cabea est inscripta a sigla MPOY,
isto : Me de Deus. Este modo de representao, muito usado desde o IV
at ao VII seculo, deixou comtudo de ser empregado nos seculos
seguintes.

_A Virgem com o Menino Jesus_. Ha duas maneiras de representar a Virgem
com o Menino. Quando a scena  imaginada para prestar homenagem a Nossa
Senhora, diz-se que ella  _poetica_.

Quando os reis magos, por exemplo, vem trazer os seus presentes a Jesus
no collo da Santissima Me, a scena  puramente historica.

Durante o periodo Latino e a primeira parte do periodo Roman, o grupo
historico  o mais frequente. Vemol-o em differentes scenas da vida do
Senhor, principalmente na adorao dos reis Magos.

O grupo poetico pde reduzir-se a dois typos distinctos. O primeiro que
chamaremos _grego_ ou _bysantino_, consiste em representar a imagem da
Virgem com os braos erguidos como que orando, tendo diante de si o
Menino Jesus, lanando a beno, ao modo Grego, com as duas mos, ou s
com a direita. Este typo j se encontra nas catacumbas.

Os Bysantinos empregaram-se durante toda a idade media, e os Gregos
ainda hoje se empregam.

_O Guia da pintura_ (manual iconographico, adoptado pelos antigos
pintores e ainda hoje seguido pelos Gregos), recommenda que se
represente Nossa Senhora com as mos erguidas e Christo lanando a
beno para ambos os lados, com o evangelho sobre o peito.

No outro typo do grupo _poetico_, a Santissima Virgem  representada
umas vezes de p com o Menino Jesus nos braos, outras sentada tendo-o
sobre os joelhos.

D-se a este typo o nome de Occidental, no porque elle fsse
desconhecido pelos Gregos, pois que o usavam conjuntamente com o typo
_bysantino_, mas por que foi este o unico usado no Occidente durante
toda a idade mdia. Foi introduzido ou pelo menos generalisado
insensivelmente na iconographia christ depois da condemnao de
Nestorio pelo Concilio de pheso, celebrado em 431. Este heresiarcha
negava que Nossa Senhora fsse me de Deus.

Para affirmar o dogma da maternidade divina de Nossa Senhora,
representavam-n'a com o Menino Jesus nos braos, e muitas vezes
acompanhada da inscripo [Grego:  AGIA OEOTOKO],isto , _Santa
Deipara_, ou a _Santa Me de Deus_.

Em geral Nossa Senhora est sentada com o Menino Jesus sobre os joelhos,
lanando a beno, pelo menos, com uma das mos.

Durante todo o periodo Roman estas representaes de Nossa Senhora e do
seu Divino Filho distinguem-se por uma magestade e nobreza de sentimento
como quasi se no encontra nos seculos seguintes.

A Santissima Virgem tem geralmente diante de si o Menino Jesus
completamente vestido, no estando entretido com sua Divina Me, mas sim
abenoando aquelles que lhe vem prestar homenagem. Tem nas mos uma
esphera ou mais geralmente um livro, ou um rolo, _volumen_, symbolo da
doutrina da nova Lei dada ao mundo.

Na Grecia e no Oriente, os pintores e os esculptores cobrem
ordinariamente a cabea da Santissima Virgem com um veu; os artistas
occidentaes tambem conservaram esta tradio durante algum tempo, mas, a
comear do seculo IX, do a Nossa Senhora uma cora real e algumas vezes
uma especie de gorra.

_Os Anjos_. Os anjos tem figurado nos monumentos christos desde o IV
seculo. Os primeiros no tinham azas. S do V seculo em diante  que
comearam a tel-as bem como o nimbo. So representados com uma longa
tunica, orlada por duas faixas em frma de _clavi_, e tem algumas vezes
na mo um longo sceptro ou _basto_, terminado por um floro ou por uma
cruz. Os archanjos Miguel, Gabriel e Raphael, tambem muitas vezes so
representados.

Os Anjos tem sempre os ps descalos. Symbolisava-se d'esta maneira a
sua qualidade de mensageiros celestes.

_Os Evangelistas e seus symbolos_. O uso de representar os Evangelistas
sob a frma humana ou por symbolos, data pelo menos do IV seculo.

Sob a frma humana encontrmol-os primeiramente em alguns mosaicos
antiquissimos e um pouco mais tarde tambem nas miniaturas dos
evangeliarios. Esto regularmente sentados debaixo d'um portico, tendo
na sua frente um pulpito chamado _scriptional_, sobre o qual est
desenrolada uma folha de pergaminho, com o titulo ou as primeiras
palavras do seu Evangelho. Apparecem sempre descalos e s vezes
acompanhados do animal que lhes serve de symbolo.

Os symbolos mais usados dos evangelistas so os seguintes:

_Os quatro rios do Paraizo_. O modo de symbolisar os evangelistas pelos
quatro rios: Phisonte, Ghonte, Tigre e Euphrates, tem origem muito
remota. Os mais antigos mosaicos e as proprias catacumbas nos offerecem
j exemplos d'esta representao. O Salvador com a frma humana ou com a
do Divino Cordeiro, apparece sobre um outeiro d'onde brotam quatro rios,
emblemas dos Evangelhos, os quaes, produzidos pela fonte da Vida Eterna,
trouxeram ao Universo a fertil doutrina de Christo.

_Os animaes symbolicos_. Os Evangelistas so muitas vezes symbolisados
por quatro figuras com azas: um homem, uma aguia, um leo e um bezerro.
Estes symbolos devem a sua origem s vises do propheta Ezequiel e do
Apostolo S. Joo. Eu vi (dizia este ultimo), em torno do throno do
Cordeiro quatro animaes. O primeiro com o aspecto de um leo; o segundo,
de um bezerro; o terceiro com rsto humano e o ultimo semelhando-se a
uma aguia em pleno vo.

Os santos Padres consideraram estas vises como os seguintes symbolos: o
homem o de S. Matheus; a aguia o de S. Joo, o leo o de S. Marcos e o
bezerro o de S. Lucas.

Encontram-se os animaes symbolicos mais a miudo: 1.^o, sobre as capas
dos evangeliarios; 2.^o, nas quatro extremidades das cruzes d'Altar;
3.^o, nos quatro angulos da representao do Christo em sua Gloria, como
elle existe sobre as frentes dos altares, e nos tympanos dos portaes
d'egreja do XI e XII seculos.

Os symbolos dos evangelistas reduzem-se a quatro sobre um unico objecto
ou empregados conjunctamente n'uma pintura, ou esculptura; so
regularmente acompanhados de Christo figurado com a frma humana ou por
um symbolo.

, finalmente, da doutrina de Christo que derivam, como d'uma fonte
commum, os quatro Evangelhos.

Quando se d o caso dos animaes symbolicos ornarem os quatro angulos
d'uma superficie quadrada, quadrangular ou redonda, taes como as capas
dos livros, os tympanos dos portaes, as frentes d'altar ou a _flabella_,
tem certos logares determinados pelo uso: o homem com azas (ao qual
muitos auctores do abusivamente o nome d'anjo) occupa o angulo superior
direito ( esquerda do espectador); a aguia, o angulo superior esquerdo;
o leo, o angulo inferior direito, e o bezerro, o angulo inferior da
esquerda.

Quando collocados nas extremidades dos quatro braos da Cruz, a aguia
acha-se no vertice, o homem na extremidade inferior, o leo no brao
direito e o bezerro no brao esquerdo da Cruz.

_Os Apostolos_. S. Pedro e S. Paulo eram os unicos Apostolos que durante
o periodo Roman se representavam com um typo uniforme.

Desde os tempos mais remotos, que S. Pedro era representado trazendo uma
Cruz, ou as chaves, e tem cabello na cabea, emquanto que S. Paulo 
calvo. At ao XIII seculo no se encontra nos outros Apostolos nenhum
attributo caracteristico. Representam-se todos do mesmo modo, com um
rlo ou livro na mo.

Os Apostolos e mesmo Judas, tem os ps descalos.

Os artistas da idade media symbolisavam com este signal iconographico a
misso sublime, confiada aos Apostolos, de derramar por toda a terra a
doutrina Evangelica.

_Assumptos religiosos representados sobre os monumentos dos seculos XI e
XII_. Estes assumptos tirados quasi todos da Biblia, no eram muito
variados; tinham em geral um caracter uniforme e reconheciam-se bem ao
primeiro golpe de vista. Eis pois os que mais frequentemente eram
reproduzidos:

1.^o, a tentao dos nossos primeiros paes; 2.^o, o sacrificio
d'Abraho; 3.^o, a Annunciao; 4.^o, a visitao da Santissima Virgem;
5.^o, o Nascimento de Nosso Senhor, que j se representava sobre os
sarcophagos e nas pinturas a fresco das catacumbas do seculo IV; 6.^o, a
Adorao dos reis magos; 7.^o, a degolao dos innocentes; 8.^o, a
fugida para o Egypto; 9.^o, a exposio do Menino Jesus no Templo;
10.^o, o baptismo de Nosso Senhor; 11.^o, a sua entrada triumphal em
Jerusalem; 12.^o, a transfigurao; 13.^o, a ultima ceia; 14.^o, a
crucifixo; 15.^o, a descida da Cruz; 16.^o, a Resurreico; 17.^o, as
Santas mulheres no tumulo; 18.^o, a Ascenso de Nosso Senhor.

_Representaes symbolicas das virtudes e dos vicios_. Os artistas
christos da idade media estimavam muito symbolisar tanto as virtudes
como os vicios. Durante o periodo Roman as virtudes representam-se sob a
figura de mulheres tendo coras, algumas vezes tambem azas, e na cabea
uma especie de gorra. O seu nome acha-se inscripto do seu lado, ou sobre
qualquer objecto que conservam nas mos; s vezes teem mesmo um emblema.
As quatro Virtudes Cardeaes;--prudencia, justia, fora e
temperana--encontram-se frequentemente sobre os monumentos Romans de
toda a especie.

Os vicios so figurados, ou por monstros phantasticos, ou por homens e
mulheres entregues aos excessos de suas paixes; encontram-se muitas
vezes sobre o mesmo monumento em concorrencia com as virtudes que lhes
so oppostas.

_Animaes phantasticos_. Os monumentos do periodo Roman offerecem-nos a
representao de numerosos animaes reaes e phantasticos.

Indicaremos alguns d'estes ultimos.

1.^o O _basilisco_  um animal com a frma d'um gallo, mas com a cauda
semelhante  d'uma serpente. Reputa-se provir d'um ovo de gallinha
chocado por um reptil. O basilisco symbolisava o demonio.

2.^o A _aspide_  uma especie de serpente que a lenda diz estar de
guarda  arvore do balsamo. Se o homem quizer approximar-se d'esta
arvore para lhe colher o fructo, torna-se necessario que elle primeiro
adormea a mesma serpente pelo encanto; mas esta, para se subtrahir ao
encantamento, tapa uma das orelhas com a cauda e a outra com terra,
espojando-se na lama. A _aspide_ representa os que voluntariamente
deixam de attender aos mandamentos do Senhor.

3.^o O _griffo_  um quadrupede com azas e cabea d'aguia. Symbolisa o
demonio. V-se muitas vezes sobre os monumentos Romans dos seculos XI e
XII.

4.^o A _sereia_  um monstro com o corpo metade mulher e metade peixe. A
parte superior do corpo, que comprehende a cabea, os braos e o corpo
at  cintura, tem a frma humana; e o resto inferior  a cauda d'um
monstro marinho. Entre os Gregos e os Romanos as sereias terminavam em
passaro e no em peixe; eram tres e habitavam uns rochedos escarpados
entre a ilha de Capri e as costas d'Italia; os seus cantos tinham o
poder de fazer esquecer aos navegadores o paiz d'onde vinham. Durante a
idade media a sereia foi o symbolo da seduco causada pelos attractivos
das pessoas.

Tambem se encontram sobre muitos monumentos os doze signos do zodiaco,
muitas vezes acompanhados com os trabalhos do anno que lhes
correspondem. Eram frequentemente empregados para ornar as archivoltas
dos portaes principaes das egrejas.

_Doadores e doadoras_. Quando os doadores e as doadoras d'um monumento
queriam conservar s geraes futuras a lembrana do seu beneficio,
faziam-se representar em pequenissimas propores, humildemente
prostrados aos ps de Jesus Christo, da Santissima Virgem ou d'outros
Santos.

Algumas vezes tambem os doadores se figuravam n'uma parte secundaria do
monumento, apresentando a Deus ou tendo simplesmente nas mos um modelo
da egreja, do altar ou do objecto que haviam offerecido.




CAPITULO V

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     *Summario.*--Noes preliminares--Diversas frmas de ogiva--Origem
     da ogiva e do estylo ogival--Periodo de transio do estylo Roman
     ao estylo Ogival--Caracteres d'Architectura Ogival--Observaes
     geraes--Plano e disposio das egrejas--Systema de
     construco--Materiaes e apparelhos de construco--Esculptura
     monumental--Fachadas--Adros--Portaes--Pinturas--Janellas--Rosaes--Caixilhos
     de janellas e vidros--Vidraas pintadas--Pilares, columnas e
     columnasinhas--Bases de columnas--Capiteis--Caxorros e
     misulas--Arcadas e
     arcaduras--Triforium--Cornijas--Platibandas--Abobadas--Arcos
     butantes--Contrafortes--Gargulhas--Nichos e
     Docel--Madeiramentos--Telhados--Torres e
     campanarios--Pavimentos--Labyrintho--Pinturas das paredes--Cruzes
     de consagrao--Altares--Tabernaculos--Cadeiras de cro--Separao
     do Altar-mr--Pulpito e confissonarios--Capellas funereas, tumulos,
     campas, Cruzes de Cemiterio--Pias Baptismaes--Pias de agua
     benta--Engradamentos--Orgos--Alfaias religiosas--Calices e
     patenas--Custodias--Thuribulos--Relicarios--Coras para
     luzes--Cruzes de altar e de
     procisso--Castiaes--Estantes--Instrumentos de paz--Moldes para
     Hostias--Baculos--Mitras--Vestimentas sacerdotaes--Abbadias e
     Mosteiros--Egrejas--Claustros e Refeitorios--Sala de
     Capitulo--Dormitorios--Casa para
     hospedes--Celleiros--Priso--Cartuxa--Hospitaes--Iconographia--O
     Nimbo--O Crucificado--Os Apostolos e os Evangelistas--O Dia de
     Juizo--Sibyllas.
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*Periodo Ogival*


O estylo ogival, tambem chamado _gothico_, foi usado desde o meiado do
XII seculo at ao principio do XIV. Chama-se ogival, porque differe de
todos os outros estylos que o precederam, pelo emprego da _ogiva_. Os
allemes chamam-lhe s vezes--_estylo em arco bicudo_. As janellas, as
arcadas, os vos das portas, n'uma palavra, todas as aberturas so
regularmente terminadas por arcos em frma de ogiva. Devemos acrescentar
que a denominao de _Gothico_, dada ao estylo da idade media,  uma
especie de ironia da poca da renascena, pois que o estylo ogival nada
tem de commum com os _Gdos_. Foi o italiano Vasari quem primeiro
empregou este epitheto como synonimo de _barbaro_!

_Diversas frmas de ogiva_. Chama-se _ogiva_ toda a figura formada por
dois ou mais arcos de circulo, cortando-se segundo um certo angulo.

Expliquemos, segundo a ordem chronologica, as principaes frmas da
ogiva:

_Ogiva obtusa_. Chamada tambem Roman, quando termina superiormente em
bico, muitas vezes quasi se confunde com o arco de volta inteira. Os
dois arcos que a formam, tem os centros muito proximos; algumas vezes
mesmo to perto um do outro que  necessario um attento exame para
distinguir o bico pouco sensivel que o distingue do arco de volta
inteira.

A ogiva com esta frma encontra-se muito frequentemente nos edificios do
principio do periodo ogival, reapparecendo mais tarde, j no fim do
mesmo periodo, nos monumentos dos ultimos annos dos seculos XV e XVI.

_Ogiva aguda ou lanceta_.  formada por dois arcos cujos centros esto
situados alm da corda que une as suas duas extremidades inferiores da
volta do bero.

Tem o nome de _Lanceta_ pela sua semelhana com o instrumento de
cirurgia d'este nome.

_Ogiva equilatera_.  aquella cujos centros se acham nos dois extremos
da corda, e na qual podemos por consequencia inscrever um triangulo
equilatero. Tambem se d a esta ogiva o nome de ogiva traada de
terceiro ponto.

_A ogiva alteada_  aquella cujos arcos se prolongam inferiormente,
sendo formados por dois ramos verticaes e parallelos abaixo da linha dos
centros. Encontra-se muitas vezes no fundo do cro das grandes egrejas.

As tres frmas de ogiva acima descriptas empregaram-se durante os
seculos XII e XIII.

_A ogiva de terceiro ponto_  a que tem os centros dos arcos situados no
terceiro ponto da linha dos centros ou corda, e est dividida em tres
partes eguaes. Chama-se effectivamente ogiva de terceiro ponto, por isso
que se colloca a ponta do compasso no terceiro dos pontos de diviso da
corda.

 para notar que muitos auctores, alis muito recommendaveis, no
mencionam a ogiva formada por arcos cujo centro se encontra a um tero
da corda; a razo d'isto  porque consideram a ogiva equilateral como de
terceiro ponto.

Esta ogiva comeou a apparecer no fim do XIII seculo e generalisou-se
bastante nos seculos XIV e XV.

_A ogiva inflexa_ descreve-se por meio de raios partindo de quatro
pontos e produzindo duas curvas junto  corda e duas outras curvas em
sentido inverso no vertice.

O extradorso d'esta ogiva bem como o da frma seguinte  convexo na
parte inferior e concavo na superior.

_A ogiva em frma de chaveta_ apenas differe da precedente por ser mais
achatada.

Estas duas ultimas frmas usaram-se durante os XV e XVI seculos.

A ogiva inflexa serve muitas vezes de coroamento a um arco de terceiro
ponto, durante a primeira metade do seculo XV, ou em chaveta, durante a
segunda metade do seculo XV e principio do XVI.

A ogiva formada meia convexa e meia concava  traada como a ogiva em
chaveta, com raios que partem de quatro centros differentes, mas
inversamente; o extradorso do arco  concavo inferiormente e convexo no
vertice. Encontra-se esta ogiva, ainda que raras vezes, em alguns
monumentos dos seculos XV e XVI.

_O arco Tudor_, assim chamado, porque tomou o nome dos reis, que estavam
no throno de Inglaterra na epoca em que o seu uso se generalisou n'este
paiz;  formado por quatro arcos cujos centros se acham todos dentro do
espao da ogiva. Ha uma frma mais aguda, que  a que se v em
monumentos inglezes de uma grande parte do seculo XV; a outra forma mais
abatida s foi empregada no fim do XV seculo, e no principio do XVI. Os
inglezes chamam  primeira, arco de quatro centros, e  segunda arco
abatido. Ha ainda muitas frmas intermediarias entre estes dois
extremos.

_Origem da ogiva e do estylo ogival_. Os archeologos no concordam uns
com outros sobre a origem da ogiva. A opinio que parece mais provavel,
attendendo a que os monumentos do Oriente exerceram certa influencia
sobre a introduco da ogiva na architectura da Europa no meiado do XII
seculo, considera como um producto do genio Occidental a applicao
logica e systematica da ogiva nas construces executadas no Occidente
desde essa epoca. A ogiva appareceu na Europa poucos annos depois da
primeira cruzada.

 possivel que esta forma architectonica fosse como outras muitas
cousas, introduzida no Occidente pelos cavalleiros cruzados, quando
regressaram das suas longiquas expedies. Empregada a ogiva no
principio como pura phantasia e como um novo modo de ornamentao, quer
para formar os vos das portas e janellas, quer para decorar as arcadas,
as paredes lisas e por baixo das cornijas, tornou-se mais tarde o ponto
de partida para o bello estylo da architectura cujo nome se ligou ao
XIII seculo e cujo desenvolvimento methodico pertence exclusivamente 
Europa Occidental.

Este estylo rapidamente attingiu um subido gro de perfeio, devido s
numerosas egrejas parochiaes, collegiaes, monasticas e cathedraes, que
foram fundadas, construidas ou reconstruidas e augmentadas nos seculos
XIII e XIV.

A palavra _ogiva_ nem sempre teve a mesma accepo, que nos nossos dias
se lhe attribue. Outr'ora designava as nervuras salientes que se cruzam
em uma abobada, seja qual for a curvatura em arco de circulo, em ogival,
d'estas nervuras. S depois do principio do seculo XIX  que este termo
foi empregado para designar o arco terminando em ponta, conhecido agora
pelo nome de ogiva.

_Divises do periodo ogival_. O periodo de treze seculos e tres
quarteis, durante o qual reinou na Europa Occidental o estylo ogival,
pde ser dividido em tres grandes epocas, tendo cada uma caracteres
distinctos.

As denominaes francezas de estylo em _lancetas_, _radiante_, so
tiradas da frma das janellas, assim como o nome de _perpendicular_,
dado em Inglaterra, no terciario do seculo XV.

O estylo ogival no foi introduzido ao mesmo tempo em todos os paizes,
nem mesmo em todas as partes do mesmo paiz. Nasceu e desenvolveu-se
rapidamente, no meado do XII seculo, nos arredores de Paris.

O primeiro monumento que appareceu do estylo ogival, foi a fachada
occidental da abbadia de S. Diniz, perto de Paris, construida entre 1135
e 1140. Foi introduzido em Inglaterra, Allemanha, Hespanha e mesmo
n'algumas partes da Italia, por constructores formados em Frana.


*Periodo de transio do estylo Roman para o Ogival*


A substituio do estylo ogival pelo roman no se fez em um dia, foram
precisos muitos annos para a operar. Foi esta epoca de transformao que
recebeu o nome de _periodo de transio_ entre os dois estylos. A
durao no foi a mesma em todos os paizes, elle comeou mais cedo n'um
paiz do que n'outro.

Os monumentos do periodo de transio distinguem-se quasi todos pelo
emprego simultaneo do arco de volta inteira e da ogiva. Esta combinao
consegue-se por dois modos:

1.^o Por simples _juxtaposio_, quando a ogiva isolada se acha n'um
mesmo monumento ao lado d'um arco de volta inteira. Nos edificios de
transio, vem-se muitas vezes aberturas de forma circular nos
pavimentos inferiores, que so os mais antigos, emquanto que, nos demais
andares, se vem aberturas ogivaes; porm mais raramente se vem voltas
inteiras nas divises elevadas d'um monumento, tendo vos ogivaes nas
inferiores.

2.^o Como decorao, quando duas ou muitas ogivas esto comprehendidas
debaixo de uma s volta inteira. Este modo de reunir a ogiva ao arco
circular encontra-se principalmente nas janellas e nas arcadas. Tambem
se vem s vezes dois ou muitos vos de volta inteira emmoldurados n'uma
ogiva.

3.^o Quando arcos de volta inteira produzem ogivas, entrecruzando-se
reciprocamente.

Uma outra particularidade que muitas vezes se observa nos edificios de
transio,  a unio da esculptura da ornamentao roman com a ogival.


*Caracteres da architectura ogival*


O estylo ogival seguiu principios at ento desconhecidos e um methodo
novo e constante nas suas deduces.

A frma dada a um objecto era conforme a construco, resultante no
d'um capricho ou d'uma phantasia, mas d'uma necessidade real.

Segue-se que a ornamentao no se applica indifferentemente e sem razo
sobre as differentes partes d'um monumento. D'ella nos servimos ou para
chamar a atteno sobre uma principal parte da construco, ou sobre um
ponto importante d'um objecto, ou para dissimular um obstaculo.

Um outro caracter distinctivo do estylo ogival  que os seus monumentos
esto, como se diz em termos de architectura, _na escala do homem_, isto
: que em toda a construco, grande ou pequena, ha certas partes em
harmonia com a estatura humana e, por consequencia, tendo pouco mais ou
menos sempre as mesmas dimenses.

Os caracteres notaveis do estylo ogival, que ns acabamos de assignalar
em poucas palavras, encontram-se principalmente nos edificios
construidos na edade media, no Noroeste da Europa.

Durante o periodo Roman os architectos e os operarios habilitavam-se nas
grandes obras das abbadias.

O clero secular, e at mesmo os particulares ficaram sob a direco de
Bispos protectores das artes, taes como Egberto de Trves (977-993) e S.
Bernardo de Hildesheim (993-1022) tomaram tambem uma grande parte na
direco dos movimentos artisticos.

No XIII seculo as corporaes seculares apoderaram-se da pratica da
architectura, e desde este momento, todos os grandes monumentos, quer
religiosos, quer profanos, foram construidos por mestres praticos.

_Plano e disposio das egrejas_. Plano no rez-do-cho.--Grande parte
das egrejas ogivaes apresentam, na planta, a frma d'uma cruz latina,
cujo vertice figurado pelo cro,  voltado para o Oriente. Em algumas,
nota-se sensivelmente um desvio grande no eixo do cro com relao ao da
nave principal. Este desvio, que em geral s tem logar no Norte e
raramente no Sul, symbolisa provavelmente a inclinao da cabea do
Salvador sobre a Cruz no momento em que deu o ultimo suspiro.

A orientao symbolica das egrejas, introduzida desde os primeiros
seculos do Christianismo, foi observada escrupulosamente durante toda a
edade media, e mesmo na epoca da renascena. Foi s nos primeiros annos
do nosso seculo que a orientao comeou a desapparecer.

Um pequeno numero d'egrejas tem o plano quasi rectangular.

No Sul e no Oeste da Frana muitas grandes egrejas do XIII seculo
apresentam uma vasta nave unica sem naves lateraes, tendo contrafortes
interiores para sustentar o esforo da abobada principal, que  d'aresta
com nervuras.

Encontram-se, principalmente na Allemanha, egrejas com duas naves. Quasi
todas foram construidas por religiosos d'ordens mendicantes, taes como
os Dominicanos e os Franciscanos. No seculo XIII tambem os Jacobinos ou
Dominicanos construiram egrejas de duas naves em Paris e no Sul da
Frana.

As grandes egrejas do XIII seculo compem-se de tres, de cinco e at
mesmo de sete naves. Na Europa Central e Meridional, na Frana e na
Belgica, o cro tem geralmente a frma polygonal, emquanto que na
Inglaterra elle  muitas vezes rectangular e terminado por uma parede
liza. No continente, apenas excepcionalmente se encontra esta disposio
no cro d'algumas grandes egrejas, a no ser nas extremidades do
transepte.

No final do periodo Roman, tinha-se comeado em Frana a dispr capellas
absidaes no cro das grandes egrejas. Este uso manteve-se durante todo o
periodo ogival, e as capellas tomaram grandes propores. As primeiras
que se chamam absidaes, irradiam em torno da capella-mr; as outras ao
longo das paredes lateraes: exemplo a S de Lisboa.

Notar-se-ha tambem que na cathedral d'Amiens, conforme o uso muito
geralmente seguido em Frana e em outros paizes, a capella-mr  muito
mais vasta do que as outras. Encontram-se egualmente, no cro das
cathedraes inglezas do XIII seculo, capellas da Virgem, com a simples
differena que so em geral muito maiores do que as do continente e
construidas sobre plano rectangular.

Na Belgica, os cros das grandes egrejas do XIII seculo esto s vezes,
como succede em Frana, rodeados de capellas collateraes, dando a volta
completa ao cro, e limitadas por capellas construidas em parte sobre
plano rectangular e em parte sobre o polygonal; mas em geral so
pequenas e o seu numero mais restricto do que nas cathedraes francezas.

Estas capellas constroem-se entre os contrafortes, que as dissimulam.

O plano das egrejas do XIV e do XV seculos conserva pouco mais ou menos
a mesma disposio que durante o precedente seculo. A unica mudana
importante, que geralmente se nota, consiste na addio de pequenas
capellas ao longo das paredes lateraes das naves.

As capellas so estabelecidas sobre um plano rectangular entre os
contrafortes, parecendo como que formar uma segunda nave collateral ao
lado da primeira. Na mesma poca, juntou-se muitas vezes, aos edificios
do XIII seculo, ao longo das naves lateraes, capellas construidas fra
do primitivo plano.

Estas addies tornavam-se precisas pelo grande numero de capellanias
fundadas nos seculos XIV e no XV. Pelo mesmo motivo se acrescentaram
altares entre as pilastras das egrejas.

_Disposio acima do solo, e aspecto exterior das egrejas_. As egrejas
_d'uma s nave_--apresentam sempre uma seco rectangular. Nos edificios
abobadados os contrafortes tem muitas vezes uma grande importancia
apresentando maior saliencia sobre a parede do edificio tanto no
interior como no exterior. Quando os contrafortes esto construidos no
interior, estabelecem-se regularmente, entre estes contrafortes,
capellas fazendo corpo com a egreja: como na de S. Vicente em Lisboa.

As egrejas que tem tres ou um numero impar de naves, podem dividir-se
em duas classes conforme fr a nave do meio mais elevada ou da mesma
altura que as paredes lateraes.

A primeira classe comprehende as egrejas cuja nave do meio 
notavelmente mais elevada do que as paredes dos lados. As egrejas com
esta frma so as unicas conhecidas na Europa Occidental e Meridional,
isto , na Belgica, na Frana, na Inglaterra, na Hespanha, na Italia e
em Portugal. A sua nave mais alta  coberta com telhado de duas aguas
inteiramente independentes, emquanto que as paredes dos lados tem
muitas vezes um terrao ou um telhado de frma de alpendre e a sua
inclinao approximando-se sensivelmente da linha horisontal; s vezes
tambem so cobertos com repetidos pequenos telhados de duas vertentes,
ficando perpendiculares  nave e terminados por empenas.

Abrem-se regularmente nas paredes lateraes da grande nave, janellas que
deitam para cima dos telhados lateraes.

A segunda classe compe-se das egrejas cujas naves se elevam  mesma
altura. Estas egrejas so proprias da Europa central; encontra-se um
grande numero d'ellas, conjunctamente com alguns edificios da primeira
classe, na Allemanha, Austria e Hungria.

Os Allemes deram s egrejas tendo nave de egual altura o nome de
egrejas-mercado, sem duvida porque ellas parecem formar uma vasta salla,
um _hall_ inglez, devido  elevao uniforme das suas naves. O seu
aspecto exterior tambem differe sensivelmente do das egrejas belgas,
francezas e inglezas; as tres naves so cobertas por um telhado unico de
duas aguas, e, por conseguinte, a nave central no recebe luz
directamente, como nas egrejas de primeira classe; a luz s lhe penetra
pelas janellas lateraes; todavia estas, altissimas em consequencia da
grande elevao das paredes, compensam bem a suppresso das janellas
superiores introduzindo a luz na nave central.

No fim do periodo ogival encontram-se, particularmente na Austria e
Hungria, egrejas com esta frma, cujas paredes lateraes so um pouco
menos elevadas que a nave do meio.

Tambem se construiram, na poca do renascimento, egrejas com naves da
mesma altura.

_Egrejas da Flandres maritima_. Encontram-se em muitas cidades e aldeias
da Flandres Occidental, egrejas cujas disposies differem notavelmente
das que se construiram no resto da Europa. Apesar de se assimilharem s
precedentes, de tres naves da mesma altura, no se devem de modo algum
confundir com as egrejas allems, com as quaes se parecem  primeira
vista por terem as naves da mesma altura; no tem nada mais de commum
entre si.

Construidas em geral sobre um plano rectangular, compem-se d'uma nave
principal fechada por paredes d'egual extenso; no tem transepte ou,
se o tem, no produz saliencia alguma no exterior das paredes.

As abobadas de pedra ou de tijolo so substituidas, mesmo nos grandes
edificios, por tectos curvos formados de madeira com divises visiveis,
pintados e at com obra de talha, e deixando vr as peas do
madeiramento.

A cobertura das egrejas  formada por tres telhados de duas aguas da
mesma altura pouco mais ou menos; resultando no ter a nave principal
janellas altas e ser a fachada sempre terminada por tres empenas da
mesma altura.

_O plano das capellas_.--As capellas construidas durante o periodo
ogival no tem ordinariamente transepte e so construidas sobre plano
rectangular.

O cro termina no lado Oriental por um abside polygonal ou uma parede
lisa. As capellas das egrejas conventuaes compem-se geralmente de tres
naves, emquanto que as pequenas capellas no tem regularmente seno
uma.

As construces ogivaes no apresentam em geral symetria, e o mesmo se
nota no traado do plano e nos caracteres architectonicos. Estas
irregularidades provem de duas causas principaes. Em primeiro logar os
architectos d'esta poca, sem desprezarem a symetria, no a consideraram
propria das conveniencias, necessidades e harmonia geral.

Algumas vezes tambem, vindo a faltar-lhes os recursos com que contavam
no principio dos trabalhos, viam-se forados a alterar o plano primitivo
e supprimirem-lhe certas partes. Emfim, muitos monumentos foram
construidos muito lentamente, o que deu logar a que as suas differentes
partes fossem successivamente construidas, apresentando sempre por esse
motivo cada uma d'ellas os caracteres architectonicos em voga na
occasio da sua construco.

_Systema de construco_.--Os grandes monumentos edificados pelos
romanos no tempo da republica e sob os imperadores, formavam, pela
estabilidade dos seus pontos d'apoio, condensao e coheso perfeita dos
seus materiaes, massas solidas capazes de resistir ao peso, e, em caso
de necessidade,  presso das abobadas, que eram formadas de peas
homogeneas, concretas e sem elasticidade.

Em substituio da abobada romana os architectos romans empregaram pouco
a pouco a abobada de nervuras, cuja construco assenta sobre o
principio da elasticidade e do equilibrio das foras. O plano quadrado
era o escolhido para as suas edificaes; mas quando se tratava de
neutralisar a presso lateral exercida por esta abobada sobre os seus
pontos d'apoio, ou quando era preciso construir uma abobada sobre um
plano que no fosse quadrado, entregavam-se ento a experiencias cujo
resultado nem sempre correspondia  espectativa.

Os architectos do periodo ogival realisam grandes progressos na
construco das abobadas. Primeiramente cobrem os edificios servindo-se
das abobadas de nervuras, superficies cujos planos so parallelogrammos,
trapesios, pentagonos e mesmo polygonos irregulares; depois, resolvem
d'um modo completo o problema to difficil da estabilidade das abobadas,
pelo principio do equilibrio das foras. Empregam a abobada, no como
uma crosta homogenea e inerte, mas como uma serie de paineis de
superficies curvas ou de triangulos de enchimento independentes uns dos
outros e limitados por nervuras apparelhadas e flexiveis. s presses
obliquas d'estas abobadas, oppem resistencias activas, em vez de
obstaculos passivos, e transportam a resultante de todas as presses
obliquas e contrarias para os contrafortes exteriores, que fazem rigidos
e firmes, dando-lhes uma base muito ampla e carregando-os com um
consideravel pezo.

As nervuras das abobadas com os seus pontos d'apoio, isto , as
columnas, os contrafortes e algumas vezes os arco-butantes, compem a
ossada, o esqueleto de todo o grande edificio ogival. As outras partes
da construco, que formam o revestimento d'esta ossada, desempenham o
logar de simples tabiques: as janellas occupam, entre os pontos d'apoio
das abobadas, o maior espao possivel, e as paredes pouco espessas so
ornadas de arcadas que ainda as tornam mais delgadas. As janellas e as
paredes podiam ser supprimidas sem que a construco principal soffresse
o menor prejuiso.

_Materiaes e apparelhos de construco_. Tanto durante o periodo roman,
como durante o ogival, se procuravam os materiaes precisos o mais
proximo possivel do logar em que se fazia a construco. Com effeito o
transporte, ainda n'este tempo, offerecia grandes difficuldades por
causa da ausencia completa de estradas viaveis. Os materiaes empregados
so em geral de pequenas dimenses, porque os instrumentos para os
extrar, transportar e assentar eram insufficientes em comparao com as
poderosas machinas de que dispomos em nossos dias.

Quando no havia pedreiras para explorar, serviam-se de tijolos.

_Esculptura monumental_. Durante o periodo roman, a esculptura d'ornato
consistia em figuras geometricas, animaes monstruosos, e tambem s vezes
de imitao de vegetaes. Durante a segunda metade do seculo XII, teve
logar uma revoluo completa na esculptura ornamental; as palmas, as
folhagens, os gales e as figuras geometricas, os cordes entrelaados
do logar aos vegetaes indigenas; n'uma palavra, tudo o que no 
inspirado pela flora do paiz desapparece.

Os primeiros artistas que se entregam ao estudo das plantas indigenas
para as reproduzir na esculptura d'ornato, no procuram imitar fielmente
nas suas obras os vegetaes que tem  sua vista; mas antes os
interpretam a seu modo, isto , apoderam-se dos caracteres principaes
com que se inspiram e compem a largos traos a sua esculptura
monumental.

Os artistas entendem que a arte para ser bem apreciada no consiste na
reproduco escrupulosa como se fsse photographia da natureza real, mas
sim na expresso do real idealisado e transformado pela imaginao do
esculptor.

Esses artistas introduziram no centro e no norte da Frana este novo
estylo de esculptura monumental durante a segunda metade do seculo XII;
e os seus imitadores nas outras partes da Europa, no principio do seculo
seguinte, limitaram-se em principio a imitar nas suas obras as plantas
mais humildes dos bosques e dos campos na occasio em que do os seus
primeiros rebentos, quando os botes apparecem apenas meio abertos ou
n'uma palavra quando comeam o seu primeiro desenvolvimento. Ha um
exemplo bem conhecido d'esta ornamentao vegetal rudimentar nos mais
antigos _crochetes_ de capiteis e nas rampas dos edificios que se usaram
no final do seculo XII e principio do XIII.

Estes _crochetes_ primitivos terminam enroscados de folhagem,
semelhando-se bastante com os rebentos das plantas que brotam da terra.

Entretanto os esculptores vo progredindo; depois de haverem applicado
as suas inspiraes ao estudo do primeiro desenvolvimento dos mais
modestos vegetaes, abandonam estes humildes modelos, para em seu logar
applicarem as folhas completamente formadas, as flores e os fructos das
arvores, dos arbustos e das plantas herbaceas, mais graciosas.

Procuram reproduzir a vinha, a hera, o acre, o azevinho, a roseira
brava, a figueira, o carvalho, a pereira, o nenuphar, as campainhas, o
rainunculo, o morangueiro, o trevo, o platano, a salsa, etc. Todavia
esta transformao no se operou bruscamente, mas a pouco e pouco e por
successivas transies: na flora monumental, bem como na flora natural,
 maneira que os tempos passavam, os renovos abrem, as folhas
desdobram-se, os botes tornam-se em flores e produzem fructos. Foi
n'esta epoca que na Frana (no final do XII seculo, e at mais tarde) os
roulamentos primitivos das _crochetes_ se abrem dando logar a flores e
ramos de folhagens inteiramente desenvolvidos.

Progredindo sempre, os esculptores do seculo XIV abandonavam pouco a
pouco a nobre e graciosa simplicidade que os do seculo XIII costumavam
imprimir a todas as suas obras; entregam-se apaixonadamente  imitao
da natureza real e escolhem de preferencia as plantas d'um modelo
exagerado; reproduzem-nas com uma rara perfeio, mas exageram-lhes as
ondulaes e contornos. Estas ondulaes, que constituem um dos
caracteres que distinguem a esculptura do seculo XIV, encontram-se j
algumas vezes, ainda que poucas, durante a segunda metade do seculo
XIII.

As esculpturas do seculo XIV so muitas vezes inferiores s do XIII,
porque so menos francamente executadas e carecem de simplicidade nos
contornos e no modelado; finalmente j visam muito a produzir effeito. O
seculo XIV no entanto produziu obras esculpturaes de grande merito.

A esculptura monumental no seculo XV caminha cada vez mais para o
affectado. Toma as plantas com folhagens muito recortadas, taes como o
cardo, a folha do repolho, etc. e para as imitar exagera-lhes as
profundas chanfraduras e os lbulos angulosos das folhas.

Estas esculpturas so finas, delgadas e excessivamente vasadas.

Um ornato muito frequente do XV seculo em diante e que principalmente se
v nas aafatas dos capites,  o que vulgarmente se chama folha de
repolho por causa da sua semelhana mais ou menos com a sua folha
enroscada.

Tambem se vem representados na esculptura decorativa do periodo ogival,
assumptos historicos, legendarios e symbolicos bem como animaes reaes e
phantasticos. Estes animaes e as figuras grotescas, algum tanto raras no
interior dos edificios, encontram-se comtudo bastante na decorao
exterior dos monumentos, como carrancas, modilhes e at algumas vezes
ornatos em substituio dos _crochetes_ de rampa.

Durante todo o periodo ogival, as esculpturas eram completamente
concluidas antes de se collocarem.

Os esculptores de imagens terminavam as suas obras na casa do trabalho,
e eram collocadas no seu logar pelos alveneos. Um esculptor nunca subia
a um andaime.

_Fachadas_.--As faces exteriores dos monumentos da edade media so a
expresso exacta das disposies interiores.

Em consequencia d'este principio, as fachadas occidentaes das egrejas
reproduzem no conjuncto o crte transversal das naves. Alm d'isso, como
a frma d'este crte  pouco mais ou menos a mesma em quasi todas as
egrejas ogivaes, resulta d'isso, que o aspecto geral de muitas fachadas
 d'uma grande semelhana. Apezar d'esta semelhana no conjuncto geral e
dos contornos exteriores, a disposio e a ornamentao das fachadas so
extremamente variadas. As mais bellas fachadas ogivaes so sem duvida as
das grandes cathedraes francezas. Compem-se em geral de muitas zonas
horisontaes e parallelas; o pavimento terreo tem tres portaes, que do
ingresso para as tres naves; o central, que  a porta principal,  mais
largo e ornado mais ricamente que os outros dois.

As fachadas das grandes egrejas inglezas e allems (excepto a de
Colonia), no tem ornamentaes to vistosas como as cathedraes
francezas. A disposio  menos regular e a ornamentao destituida s
vezes de bom gosto. Grande numero das egrejas allems tem s na fachada
Occidental duas torres em cada lado.

Na Belgica poucas egrejas tem tres portaes; geralmente na fachada
principal ha apenas um. As rosaceas, que so to vulgares nas fachadas
francezas, raramente se vem nas egrejas da Belgica.

As fachadas das egrejas ruraes so sempre de uma grande simplicidade. Em
geral tem um campanario, e apenas uma porta ao centro da fachada e uma
ou tres janellas no frontispicio.

_Alpendres_. Quasi todas as grandes egrejas ogivaes apresentam um ou
muitos alpendres, collocados adiante da fachada Occidental, ou das
entradas lateraes. Em muitas egrejas romans foi addicionado o alpendre
na epocha ogival.

Os alpendres contiguos  fachada principal das egrejas ogivaes ou os
construidos debaixo do campanario, que limita esta fachada, quasi se no
encontram em Frana desde o seculo XIII. Ainda so mais raros na
Belgica, Allemanha e Inglaterra.

Durante o periodo ogival, muitos alpendres se construiram adiante das
entradas lateraes. Os mais bellos monumentos d'este genero so os
alpendres ao Norte e ao Sul da Cathedral de Chartres, que datam dos
primeiros annos do seculo XIII. Na Belgica tambem ha alguns alpendres
lateraes notaveis, compostos d'um ou dois vos na frente e vedados por
tres lados, estando ornados no interior com estatuas collocadas sobre
misulas e coroadas de doceis. Tambem se construiam, mas raramente,
alpendres abertos em tres lados ou vedados por frestas nos dois lados.

_Portaes_. Na Frana e mesmo em Colonia as cathedraes e as grandes
egrejas ogivaes no tem geralmente alpendres adiante da fachada
principal, mas os portaes formam de per si verdadeiros alpendres, que
so cuidadosamente adornados.

Os portaes principaes das grandes egrejas francezas do seculo XIII
distinguem-se pela riqueza extraordinaria das esculpturas de todos os
generos com que so adornados. Apresentam grandes vos que se abrem do
interior para o exterior e divididos em duas partes eguaes por uma
parede.

Na fachada de _Notre-Dme_ de Paris v-se, em frente d'essa parede e sob
um docel, uma grande estatua representando o Salvador deitando a beno,
a Santissima Virgem com o seu amado Filho, e tambem s vezes o orago da
Egreja. A base d'essa parede e os rodaps dos vos so ornados com
baixo-relevos.

Os tympanos so regularmente divididos em tres partes horisontaes, onde
se figuram em relevo assumptos religiosos, estatuas de grandes
dimenses, que em numero consideravel guarnecem as paredes verticaes dos
portaes, emquanto que as curvas das abobadas recebem muitas ordens
parallelas de estatuetas collocadas debaixo de doceis.

Todas estas esculpturas representam Santos e factos tirados da historia
do Velho e Novo Testamento, da lenda e de certos dogmas da F.

Os arcos dos portaes, das janellas e das empenas so, algumas vezes,
ornados tambem interiormente, d'um appendice chamado _redente_; este
ornato tambem s vezes se encontra no intradorso das grandes arcadas,
ligando as columnas que separam as naves das paredes lateraes das
egrejas.

Os _redentes_ so recortes em frma de dente ou de bicos, que guarnecem
o intradorso d'um arco. Tambem se applicou este mesmo nome a uns ornatos
analogos, que se collocam sobre as prumadas das empenas.

Nos edificios do seculo XIV, os portaes so ainda bem delineados,
todavia j no tem a grandeza que caracterisa os do seculo XIII. Os
perfis das molduras so agudos e muito multiplicados; a estatuaria,
abandonando a nobre simplicidade, preoccupou-se em cogitar formas
affectadas, e por isso mesmo a arte declina. Apesar d'estes defeitos, os
grandes portaes das egrejas do seculo XIV tem ainda verdadeiro merito
quanto  composio e outras qualidades que debalde se procuram nos
monumentos dos seculos posteriores.

Os grandes portaes dos seculos XIV e XV tem as mesmas disposies
geraes que os do seculo precedente, com a simples differena de que as
columnas cylindricas que formavam os vos dos portaes e que sustentam as
archivoltas so substituidas por molduras prismaticas, ordinariamente
sem capitel, e que prolongando-se constituem por si s as archivoltas.
Estes portaes occupam espao profundo, porque so regularmente
construidos entre dois contrafortes salientes da fachada.

O pilar que separa o portal, e o tympano dos grandes portaes do XIV e XV
seculos, tem sempre estatuas de Santos debaixo dos doceis e apoiando-se
sobre misulas primorosamente esculpidas. Desapparecem as estatuas em
muitos monumentos.

Ordinariamente os vos ogivaes dos portaes e muitas vezes os da entrada
dos alpendres, so emmoldurados por um contorno em forma de empena.

Nos seculos XIII e XIV, este feitio representa a extremidade d'um
telhado de duas vertentes com a inclinao d'um angulo que varia entre
45 e 90 gros. No XV seculo, os vos de todos os portaes grandes e
pequenos, e algumas vezes tambem os das janellas, so formados por
ogivas ou por contracurva.

No seculo XII, as inclinaes das empenas so quasi sempre ornadas de
_colchetes_ enroscados; desde o principio do seculo XIII, os
enroscamentos ou extremidades d'estes _colchetes_ desdobram-se e
transformam-se em flores. Os _colchetes_ so substituidos, no seculo
XIV, por folhas de extraordinaria grandeza, que muitas vezes se designam
ainda pelo nome de colchetes, redentes ou animaes phantasticos; nos
seculos XV e XVI apparecem as folhas de repolho.

Estes ornamentos pouco numerosos e muito espaados no XIII seculo,
multiplicam-se e approximam-se  medida que a arte ogival vae em
decadencia. O vertice das empenas ou das ogivas inflexas que substituem
as empenas do XV seculo, termina ora por um floro, ora por uma estatua
assente sobre uma quartella, em frma de sco.

Os portaes de segunda e terceira ordem offerecem mais simplicidade do
que os outros que acabamos de descrever. No tem pilar de separao e
por causa dos seus vos geralmente pouco profundos, tem molduras
menores que os portaes de primeira ordem.

No XIII e XIV seculos, as empenas compem-se de duas, tres ou quatro
columnatas na rectaguarda umas das outras, e ligam-se com os extremos
dos arcos superiores. Desde o final do XIV seculo, foram as columnatas
substituidas por molduras prismaticas, quasi sempre sem diviso de
capitel.

At meiado do seculo XV, ajuntava-se, muitas vezes,  archivolta dos
portaes e tambem s curvas das janellas, um rebordo exterior em frma de
goteira cujas extremidades assentam  altura da nascena da ogiva, sobre
modilhes esculpidos, representando figuras, animaes phantasticos ou
carrancas; este rebordo tambem s vezes  ornado de _colchetes_ com
folhas de grande lavor ou figuras grotescas.

_Lemes das portas_. Os constructores romans tinham, como j explicmos,
convertido em objecto de ornamentao os lemes e as ferragens que
empregavam para reunir os frisos que compem os batentes. As archivoltas
do periodo ogival ultrapassaram os seus precedentes n'este genero de
decorao.

No seculo XIII e ainda mesmo no XIV, os lemes representam folhagens
entrelaadas, armadas de flores e fructos. As suas differentes partes
so reunidas com uma arte e delicadeza notaveis, apesar de n'esta epoca
os meios de fabrico serem muito simples. Um martello movido por uma
corrente de agua constitua, por assim dizer, o unico recurso das
fabricas da edade media. O ferro obtido em fragmentos de um peso
mediocre, era entregue ao ferreiro, que  fora de brao convertia estes
fragmentos em barras ou peas mais ou menos delgadas. No eram
conhecidas, nem a lima, nem as cisalhas. Apezar da pobreza de meios de
fabricao, os ferreiros da edade media produziram obras primas de
serralheria. Podemos affirmar que em muitos paizes a arte de serralheria
attingiu o seu apogeu no seculo XIII. Os lemes do principio do periodo
ogival distinguem-se dos das epocas posteriores em que, ordinariamente,
so _estampados_, isto , trabalhados em relevo por meio de matriz. Foi
pela estampagem que se obtiveram ramagens cheias de vigor e estes
soberbos cachos que caracterisam os lemes dos portaes de todas as
grandes egrejas do XIII seculo.

Os lemes estampados comearam a desapparecer na Frana no principio do
seculo XIV, ao passo que na Belgica foram muito empregados ainda n'este
seculo e at mesmo no seculo XV.

Nos fins do seculo XIII comearam a apparecer na Frana os lemes lisos,
isto , formados por uma pea de ferro batido, poucas vezes executados
em relevo. Este uso generalisou-se desde os primeiros annos do seculo
XIV; nos outros paizes e especialmente na Belgica eram empregados
simultaneamente com as ferragens estampadas, tanto no seculo XIV, como
no XV.

Os serralheiros da edade mdia procuraram para objecto de ornamentao,
no s os lemes, mas tambem todos os outros accessorios necessarios para
os portaes, taes como os prgos, os fechos, as argolas das fechaduras.

_Janellas_. Durante o periodo de transio e no principio da epoca
ogival, os vos das janellas eram estreitos, pouco elevados e fechados,
na sua parte superior, por lancetas ou ogivas agudas. Estes vos, em
geral reunidos em dois ou tres, so separados por pequenos pilares em
frma de humbreira, estando muitas vezes como emmoldurados por um grande
arco commum. Chamam-se prumos de cantaria os que dividem uma janella em
humbreiras aos vos ou compartimentos verticaes. A triplice lanceta da
janella tem o vo do meio geralmente mais elevado que o dos lados.

Em Frana, no principio do seculo XIII, e n'outros paizes alguns annos
mais tarde, em vez de estreitarem os vos das janellas, alargavam-nos e
formavam por cima bandeira com construco de cantaria compostas de
humbreiras simples e ligeiras. Em geral existe uma abertura independente
por cima dos vos d'estas janellas primitivas. Nas construces
esmeradas e ricas, as humbreiras esto collocadas tanto no interior como
no exterior, tendo uma columna com base e capitel, e o tympano da
janella  ornado de redentes, com uma ou muitas vidraas compostas de
tres, quatro, seis e algumas vezes oito vidros.

As grandes egrejas do XIII seculo e um grande numero de edificios do XIV
seculo teem as janellas muito grandes, divididas em muitos vos.

Estas janellas compem-se de uma rosacea de grande diametro, que occupa
a parte superior do tympano tendo uma columna que divide o vo em duas
partes eguaes; em cada um d'estes vos secundarios, apresenta uma
abertura composta egualmente de uma columna central, porm, mais delgada
que a primeira e d'um oculo circular do feitio de folha de trvo, ou uma
de quatro folhas. Se mesmo com estas sub-divises (como succede nas
janellas de grande largura), estas columnas no ficam sufficientemente
proximas para a segurana das vidraas, estabelecem-se ainda entre si
novas humbreiras divisorias, tendo por cima tambem rosaceas de menor
grandeza.

Na Belgica, Allemanha e Inglaterra, ha janellas do seculo XIII,
divididas por duas humbreiras de menor importancia para formarem tres
vos. s vezes  o vo do meio mais estreito que os dos lados. Este
feitio de janellas era muito raro na Frana, no principio do periodo
ogival.

Para diminuir o espao vazio das rosaceas do tympano das grandes
janellas, collocavam-se redentes de cantaria seguros por circulos de
ferro. s vezes, no seculo XIV, se substituiam as rosaceas do tympano
por folhas de trvo, ou compostas de quatro folhas, e tambem com outras
combinaes de figuras geometricas.

Durante os seculos XIV e XV, o numero dos vos das janellas varia muito,
mas em geral  de tres.

No mesmo edificio, se vem, conforme a largura dos vos, janellas de
dois, tres, quatro, cinco, seis, sete ou oito compartimentos.

Em alguns monumentos belgas, inglezes e allemes, as grandes janellas
das extremidades do transepte e da capella mr, quando esta termina por
uma parede recta, ficam divididas em duas partes eguaes por uma columna
central de grande grossura formando um verdadeiro pilar.

As humbreiras das janellas dos seculos XIII e XIV so s vezes formadas
por uma s pedra inteiria; comtudo geralmente so construidas por
pedras pequenas. Em grande numero dos edificios francezes, ha, interior
e exteriormente, ou n'um dos lados das janellas, uma columna embebida,
com base e capitel.

Na Belgica, Allemanha e Inglaterra as humbreiras das janellas de muitos
monumentos no tem columnas, principalmente as do seculo XIV.

As columnas servindo de humbreiras apparecem sempre collocadas junto dos
ps direitos, no interior e no exterior da janella. Na Belgica vem-se
com frequencia essas columnas embebidas nos angulos das paredes
pertencentes s janellas nas quaes lhes faltam as humbreiras.

Os capiteis das columnas que formam as humbreiras das janellas, so
coroados por um baco _quadrado_, no principio do periodo ogival, mais
tarde tornou-se _circular_, e no principio do XIV seculo, _hexagonal_.

Os constructores dos seculos XIII e XIV, habituados a discorrer sobre
todas as suas obras, facilmente comprehendiam que collocar um capitel
nas columnas servindo de humbreiras, era ir ao encontro do principio
fundamental da architectura ogival, que prescrevia desprezar todas as
partes inuteis, todos os motivos de ornamentao que no resultassem
d'uma necessidade de construco. Effectivamente no parece
sufficientemente justificada a necessidade d'este capitel, porque a
parte superior da columna no serve de ponto de apoio a nenhum peso
extraordinario, e tambem no serve de transio s duas partes realmente
distinctas, pois a moldura superior do capitel  em tudo semelhante 
frma do fuste da columna, porquanto o capitel apenas servia de ornato,
sem outro fim verdadeiramente util. Tendo em vista o principio
fundamental do estylo ogival e todas as consequencias logicas que elle
encerra, os architectos da segunda metade do seculo XIV e do principio
do XV no se detem em reconsiderar, supprimem inteiramente o capitel e
muitas vezes a propria columna, e do a todas as humbreiras a mesma
espessura. No fim do XIV seculo introduziram egualmente modificaes
importantes nos desenhos traados pelas humbreiras dos tympanos das
janellas. Os redentes que at aqui serviam para diminuir o espao roto
das grandes rosaceas foram primeiramente substituidos por combinaes de
figuras geometricas em que predominam as formas ogivaes com curvas
compostas de duas em sentido oppostos e do feitio de chamma.  d'esta
epocha que data o ornato conhecido pelo nome de _chamma_ e deu o nome de
_flammejante_ ao estylo do seculo XV. Este ornato no s se encontra nos
tympanos de janellas, mas tambem nas balaustradas, nos batentes das
portas, fechos, mobilias, n'uma palavra, em tudo onde  possivel
applical-o. Os allemes chamam-lhe Fischblase (bexiga de peixe).

As janellas da _primeira metade_ do seculo XV tem ainda s vezes alguma
analogia com as dos seculos precedentes. No  raro encontrar-se nos
tympanos grandes rosaceas com figuras curvas ou chammas em vez de
redentes. Todavia grande numero das rosaceas circulares dos tympanos,
durante a primeira metade do seculo XV, foram substituidas com o feitio
de triangulos e quadrilateros curvilineos ou por outras figuras
geometricas regulares, nas quaes ha chammas representadas. No meado do
seculo XV desapparecem do tympano as figuras regulares, e as humbreiras
tomando direces cada vez mais arbitrarias, do logar aos mais variados
desenhos flammejantes.

No fim do XV seculo as archivoltas das janellas tornam-se mais obtusas e
tomam no principio do seculo XVI a forma de arcos de volta abatida ou em
aza de cesto; os desenhos dos tympanos so toscos e angulosos. A volta
inteira ou de semicirculo, que comea a apparecer timidamente nos vos
entre as humbreiras, annuncia o proximo regresso dos typos de
architectura classica.

Do que acabamos de dizer resulta que os desenhos geometricos
encontram-se principalmente nos tympanos das janellas durante a primeira
metade do seculo XV, emquanto que os desenhos flammejantes propriamente
ditos so da ultima metade do XV e do principio do XVI seculos.

As archivoltas exteriores das janellas dos edificios de primeira ordem
tem s vezes alguns ornatos.

O cavado mais largo e mais profundo do intradorso d'estas archivoltas 
ornado de colchetes nos grandes monumentos francezes do seculo XIII; no
seculo XIV  ornado de flores e de cachos, e no XV apparece a folha de
replho.

As archivoltas exteriores das janellas so do mesmo modo que as dos
portaes e dos alpendres rodeadas por um rebordo saliente ou encimadas
por uma galeria. Os rebordos que rodeiam as archivoltas das janellas
tem o mesmo feitio que os dos portaes.

Nos seculos XIII e XIV, tem a frma d'uma goteira e so geralmente
formados nos proprios fechos da archivolta; as extremidades vem acabar
 altura do nascimento da ogiva, ficando assentes sobre modilhes ou
ento na direco horisontal sob a frma de cordo, que liga entre si
duas janellas proximas uma da outra.

Nos edificios mais importantes, os rebordos so em geral decorados de
distancia a distancia, com colchetes ou folhas ornamentaes. Nos seculos
XV e XVI, os feitios das janellas tem a frma de uma ogiva com curvas
inversas, terminando por um floro. Os remates que coroam muitas vezes
as janellas dos grandes monumentos, so similhantes aos dos portaes,
tendo do mesmo modo a frma da empena e os seus lados inclinados tem
colchetes, redentes ou folhas de repolho encrispadas. O vertice, que em
geral termina em floro, penetra muitas vezes na balaustrada prolongando
a altura do tecto e fazendo corpo com elle.

Os architectos do periodo ogival, e at mesmo os do periodo de
transio, de ordinario reservaram nas grandes egrejas, galerias
passando junto das janellas e que eram principalmente destinadas a
facilitar a collocao e conservao das vidraas. Estas galerias so
estabelecidas em toda a extenso do edificio, dando muitas vezes a volta
completa em todo o monumento; so verdadeiros corredores de servio. No
rez-do-cho, isto , nas paredes dos lados e no cro, quando este no
tem capellas lateraes, so ellas estabelecidas no interior em quanto que
no pavimento superior ficam sempre exteriores e atravessam os
contrafortes. D'aqui resulta haver galerias em que as vidraas esto
assentes por dentro nas janellas inferiores e por fra nas altas.

_Rosaceas_. As rosaceas so um dos mais bellos ornamentos dos grandes
monumentos religiosos do periodo ogival.

Apparecem tanto na fachada Occidental como nas empenas dos transeptes.
Na Frana, as rosaceas so muito communs nos seculos XIII e XIV; pelo
contrario na Belgica e na Inglaterra, so raras, mesmo nas maiores
egrejas.

As rosaceas e as janellas tem caixilhos de pedra destinados a fixar as
vidraas. Estes caixilhos so muitas vezes dispostos em frma de raios
de roda.

Durante a segunda metade do seculo XIII e todo o XIV, foram construidas
grande numero de rosaceas em contacto umas das outras e dispostas em
muitos renques concentricos  volta d'uma rosacea central, na qual so
inseridos caixilhos do feitio de folhas de trvo ou em quatro folhas.

Foi a brilhante ornamentao d'estas rosaceas e dos tympanos das
janellas que deu ao estylo ogival do XIV seculo a denominao de
_radiante_.

Os caixilhos das rosaceas do XV seculo descrevem em geral desenhos
flammejantes, semelhantes aos que se vem nos tympanos das janellas da
mesma epoca. s vezes encontram-se: 1.^o nos monumentos do seculo XIII
rosaceas que tem analogia com as dos edificios romans do seculo XII;
2.^o nos edificios dos seculos XIV e XV, rosaceas compostas de folhas de
feitio de trevo, e de quatro folhas, ou com figuras geometricas
curvilineas.

No seculo XV, e na Belgica j no XIV, os caixilhos das rosaceas, no
tem como d'antes, columnas formando as divises, mas tem os mesmos
compartimentos que os caixilhos de janella d'esta epoca.

_Vedaes das janellas e vidraas_. Por causa da aspereza do clima nos
paizes do Norte foram muito cdo usadas as vidraas nas janellas.

Os vidros, incolores ou pintados d'uma cr unica e de pequenas
dimenses, eram antigamente collocados em caixilhos de madeira ou de
cantaria. Depois do seculo X eram fixos por meio de pestanas de chumbo.
Foi devido ao emprego do chumbo que conseguiram formar bellas vidraas
pintadas, cuja historia vamos expr succintamente.

As vidraas dividem-se em duas classes: vidraas _incolores_ e
_pintadas_.

_Vidraas incolores_. As vidraas incolores dos seculos XII e XIII so
compostas de pequenos pedaos de vidro, no excedendo doze a quinze
centimetros, na sua maior dimenso, sendo de cr esverdeada escura,
irregulares e um pouco convexas.

O chumbo empregado antigamente era muito espesso, convexo nas suas faces
e algumas vezes polido nas ranhuras; distingue-se facilmente dos
modernos, fabricados depois do fim do seculo XVI, por se servirem de
instrumento proprio para o reduzir a tiras, com uma especie de
laminador.

Em consequencia da maleabilidade e brandura do chumbo, as tiras que
reunem os vidros das vidraas incolores dos periodos roman e ogival
apresentam muitas vezes as mais curiosas figuras. N'este caso e em
muitos outros a urgencia fornece um motivo d'ornamentao; era
necessario vedar uma abertura relativamente alta e larga com pequenos
fragmentos de vidro, porque as grandes chapas de vidro eram ainda ento
desconhecidas. Os vidraceiros da idade mdia resolveram este problema
como verdadeiros artistas: em vez de adoptarem um systema de envidraar
vulgar, consistindo em quadrados ou rhombos, serviram-se das tiras de
chumbo para produzir, nas janellas, os mais variados e vistosos
desenhos.

Na Belgica as vidraas incolores eram muito communs nos seculos XII e
XIII; ha exemplos de vidraas, ainda existentes, que se podem referir
com certeza a esta epoca.  verdade que se encontra aqui e ali algumas
vidraas representando entrelaamentos de fitas, anneis, circulos e
figuras geometricas, que parecem muito antigas por causa da pequenez das
aberturas destinadas a receber as chapas de vidro; mas no  possivel
determinar-lhes uma data approximada.

Estes entrelaamentos de fitas e de figuras geometricas foram usados na
Belgica durante todo o periodo ogival e conservaram-se com modificaes
mais ou menos consideraveis at ao presente.

_Vidraas pintadas_. Ha uma grande differena entre colorir um vidro ou
pintal-o, ou por outras palavras, entre os vidros coloridos e os
pintados. Os primeiros, que tambem se chamam vidros de cr, obtem-se
misturando-lhes na massa vitrea em fuso oxydos metallicos, que do a
toda a pasta um colorido uniforme. Este colorido no  superficial; as
materias que produzem as diversas cres penetram durante a fuso na
massa vitrea e combinam-se inteiramente com ella. Para fazer vidros
pintados toma-se uma chapa de vidro translucido e sobre uma das faces,
ou em ambas, applica-se com o pincel os traos do desenho a cres
vitrificaveis, que no so mais que pastas vitreas coloridas por meio
d'oxydos metallicos, reduzidos a p e diluidos n'um liquido como vinho,
agua gommada e essencia de therebentina. A lamina de vidro, esmaltada, 
em seguida submettida ao fogo; o p corante entrando promptamente em
fuso, fixa-se sobre a placa de vidro que a sustenta e que apenas est
amollecida pela aco do calr.

No VII seculo, havia vidraas compostas de laminas de vidro diversamente
coloridas; eram especies de mosaicos transparentes. Mas seria n'essa
epoca que comearam a pintar a cres, sobre vidro branco ou colorido,
personagens e assumptos historicos e legendarios? A opinio mais
provavel colloca a inveno da pintura sobre vidro no fim do X seculo.
Comtudo s no seguinte  que esta arte nasceu na Allemanha e se
desenvolveu e espalhou pela Europa occidental. Logo que se inventou a
pintura sobre vidro no meiado do seculo XIV, o pintor de vidros
servia-se de laminas, cada uma de sua cr uniforme.

No seculo XII e XIII, houve excepo a esta regra para o vidro vermelho,
que, em geral era _duplicado_, isto , composto de uma lamina delgada
vermelha, applicada sobre uma lamina de vidro incolor.

As differenas de espessura que tem os vidros antigos, differenas que
resultam da imperfeio dos processos de fabrco do vidro, contribuem
singularmente para augmentar o brilho das vidraas da idade mdia. Em
primeiro logar, os pintores vidraceiros empregavam com muita pericia
estes vidros desiguaes ou ondulados, cortando-os de frma que a parte
mais delgada se achasse do lado da luz; o que fazia augmentar
consideravelmente o effeito da vidraa. Por consequencia, mesmo para os
fundos fechados, estas differenas de espessura do  colorao um
aspecto scintillante, que a certa distancia augmenta consideravelmente a
intensidade dos tons.

As cres de que o pintor de vidros dispunha na idade mdia eram
numerosas e variadas, porque a maior parte das operaes chimicas
empregadas para obter vidros de cr, eram empiricas e por consequencia,
davam muitas vezes resultados imprevistos.

Esta gamma de cres extensissima pde comtudo ser reduzida a cinco tons
principaes: azul, vermelho, amarello, verde e cr de purpura.

Para exprimir as carnaes, isto  as partes apparentes das carnes, taes
como as cabeas, as mos e os ps, usavam nos seculos XII e XIII, d'um
vidro d'uma leve cr de violeta, e mais tarde d'um vidro esbranquiado;
os traos sobre estes vidros eram d'uma cr parda, applicada com um
pincel e em seguida fixada com a cozedura.

Os pintores de vidros dos seculos XII e XIII occupavam-se
principalmente, na composio do carto, da harmonia das cres. Para o
obter elles no hesitavam em sacrificar a verdade, dando aos objectos
cres que a natureza lhes no deu;  assim que se encontram nas vidraas
antigas, cavallos verdes e arvores com folhas de muitas cres
diferentes. Como o vermelho, e sobre tudo o azul se prestam
admiravelmente a uma collocao vigorosa e alliam-se admiravelmente com
todos os outros tons, os fundos vermelhos e azues so smente empregados
nas vidraas de assumptos historicos ou legendarios.

Os vidros coloridos das vidraas, vistos a distancia, tomam, graas 
translucidez e  luz que os atravessa, um brilho que faz parecer a sua
superficie maior do que na realidade ; este effeito chama-se
_rayonnement_.

As diversas cres translucidas tem _rayonnements_ de valr muito
differente; assim, para no fallar seno das tres cres fundamentaes do
prisma; o azul  a mais brilhante, seguindo-se o vermelho e depois o
amarello.

O _rayonnement_ de certas cres translucidas, a distancia,  tal que no
s faz parecer a sua superficie maior do que na realidade , mas at
modifica mesmo a qualidade d'estas cres e das que lhe ficam proximas.

 d'este modo que um azul limpido, collocado ao lado d'um vermelho
augmenta o brilho dos bordos d'este e torna-os cr de violeta. Alm
d'isso, este brilho faz s vezes desapparecer totalmente os filetes de
chumbo, que engastam os vidros, e altera as linhas do desenho fixado
sobre os vidros por meio do esmalte escuro.

Os principios artisticos que regem a pintura sobre vidro ou translucida
differem notavelmente dos principios da pintura opaca. A luz
atravessando cres translucidas actua sobre estas cres, e sobre as
combinaes d'estas cres entre si, de maneira differente do que se
fossem opacas; a luz passando atravez d'um desenho modifica os contornos
d'este, facto que se no d quando acta sobre uma superficie opaca
desenhada.

A pintura sobre vidro s pde ser uma pintura de conveno muito
differente da pintura em quadro. N'esta procura-se illudir a vista do
espectador servindo-se de todos os recursos das sombras, do claro escuro
e da perspectiva linear e area. Na pintura sobre vidro, pelo contrario,
assim como na pintura monumental, o artista deve respeitar e deixar
parecer plana a superficie sobre que pinta; deve contentar-se em traar
a silhueta dos personagens e dos objectos que entram na composio do
seu assumpto, fazer pouco caso da perspectiva, mesmo linear, traar as
sombras d'uma maneira convencional, indicando as partes salientes por
claros e as rugas por tons opacos, e desprezar os accessorios ou, quando
muito, represental-os hieroglyphicamente. Na pintura opaca o artista
deve procurar grupar os personagens d'uma scena de modo que se destaquem
uns dos outros afim de obter uma srie de planos, em quanto que na
pintura translucida, evita-se, tanto quanto possivel, as agglomeraes
d'um grande numero de figuras, e esforam-se por fazer apparecer o fundo
em torno de cada uma d'ellas.

As vidraas pintadas do XII seculo so sempre formadas de pequenos
medalhes circulares, quadrados ou apresentando outras frmas simples e
regulares. Estes medalhes, nos quaes apparecem composies adornadas,
ficam dispostos symetricamente sobre fundos formados de mosaicos de
vidro simples ou differentemente coloridos.

A cr _azul_ domina geralmente nos fundos das vidraas pintadas no XII
seculo; pouco empregam a cr encarnada; algumas vezes tem tambem o fundo
azul, ficando mais harmonico, tendo-se espalhado, sobre esse fundo,
pequenos flores encarnados, ou pequenos traos que se encruzam e cobrem
o fundo azul de um tecido encarnado com divises quadradas ou rhombos.
Em roda da vidraa e de cada medalho ha cercaduras differentes, quasi
sempre bastante longas e compostas de flores, palmetas, folhagens e
enlaadas com perolas.

As composies representadas nos medalhes so tiradas da vida de Jesus
Christo e de Nossa Senhora, ou da historia do antigo e novo Testamento;
assim como da legenda dos Santos. A execuo  d'uma grande simplicidade
e com muita ingenuidade. O desenho accusa as tradies bysantinas: o
emprego das figuras apparece, no obstante as roupas que o vestem, sendo
as prgas da roupagem estreitas e parallelas.

_As vidraas do XIII seculo_. As vidraas pintadas no XIII seculo tem
grande similhana com as do XII, porque a maneira de sua execuo ficou
quasi a mesma. Nas janellas inferiores da capella mr e das naves
lateraes, as vidraas compunham-se, como precedentemente, de medalhes
historiados de differentes frmas, dispostos uns por cima dos outros
sobre uma ou muitas fileiras. Nas janellas superiores da capella mr e
da nave principal, principiaram a representar, desde o final do XII
seculo, grandes figuras em p, figurando veneraveis personagens do
antigo e novo Testamento.

As cres de que mais uso se fez para os fundos das vidraas pintadas no
XIII seculo foram o _azul_, o _encarnado_ e o _verde_; empregava-se
tambem, em certos casos, porm com moderao, o _amarello_ e o _roxo_.
Os fundos no so lisos, formam uma especie de pannos-de-raz sobre os
quaes vem assentar a composio dos assumptos. Esta tapearia se compe
no smente de _escamas_, _cannial_ e de _xadrez_, mas, muitas vezes
tambem, de enlaados, festes e folhagens, enrolamento, sobre os quaes
os assumptos se destacam perfeitamente. Do mesmo modo que nas
composies com as grandes figuras, as tiras de chumbo indicam os
contornos principaes d'estas ornamentaes.

No correr do XIII seculo, o estylo e o caracter do desenho mudaram
completamente, porm por sries de transformaes successivas. Desde a
metade do XII seculo, os artistas de vidraas pintadas, da mesma frma
que os miniaturistas, os pintores, e os esculptores, tinham principiado
a abandonar pouco a pouco as tradices da arte Byzantina, e a
manifestar uma direco notavel para a imitao da natureza. Esta
direco augmenta e se affirma cada vez mais no XIII seculo. Os pintores
das vidraas d'esta poca no continuam a representar o n das figuras
em desdem da inclinao natural dos vestuarios, estudam a natureza e
esforam-se de a reproduzir tal qual se apresenta  sua vista:
reconhece-se facilmente este novo methodo pela maneira por que so
indicados os gestos das personagens, a physionomia das cabeas e as
prgas dos vestuarios: os gestos perdem a sua expresso archaca, as
cabeas no so j desenhadas conforme os typos convencionaes, e os
trajes so os da epoca, fielmente imitados. A composio dos assumptos 
apresentada com animao; sendo evidente que os artistas do XIII seculo
se preoccupavam de proposito em produzir no espectador um effeito
subito.

As vidraas pintadas do XIII seculo offerecem muito interesse para o
estudo do vestuario da idade mdia. Conforme o uso adoptado n'esta epoca
em todas as representaes artisticas, sejam pintadas ou em esculptura,
o artista vidraceiro tomava os seus modelos que lhe eram familiares; no
se preoccupando de nenhuma maneira da fidelidade historica, trajava as
suas figuras  moda do seu tempo.

A arte da pintura das vidraas no se conservou por muito tempo no
apogeu que havia alcanado no decurso de alguns annos. Desde o meiado do
XIII seculo principiou a declinar pouco a pouco. Em consequencia da sua
propenso notavel para os effeitos dramaticos, chega  affectao e ao
exquisito, occupando-se mais dos detalhes, perdendo facilmente a nobre
simplicidade que tanto caracterisava as suas obras no final do XII
seculo e no principio do XIII seculo.

Ao findar o XII seculo, as pinturas das janellas superiores da nave
principal e quasi todas da capella mr foram ornadas com figuras em p,
representando santos do antigo ou do novo Testamento, no excedendo, em
tamanho, a estatura geral do homem. No XIII seculo, dava-se a estas
figuras propores mais colossaes, porque ficavam collocadas a uma
grande distancia do espectador. A disposio geral d'estas vidraas nas
cathedraes e nas grandes egrejas do XIII seculo merece o exame
reflectido da parte do archeologo. A pintura da vidraa superior do cro
da capella mr, que attrahe sobretudo a vista e domina, de alguma
maneira, o altar mr, era dedicada ao Salvador soffrendo pela redempo
do genero humano; v-se ahi quasi sempre Jesus Christo na Cruz entre a
sua Divina Me e o discipulo querido, com os symbolos accessorios, que
na idade mdia acompanham sempre a scena da crucifixao. Nas outras
janellas superiores do cro esto em p os Apostolos e os Santos
venerados na basilica; as janellas altas da nave principal so pintadas
com grandes imagens de outros Santos, taes como as dos patriarchas, reis
e prophetas do antigo Testamento. As vidraas pintadas  roda da capella
mr e das capellas da charola, formadas por medalhes, representam os
principaes factos da vida de Jesus Christo e de Nossa Senhora, ou as
legendas dos oragos da egreja; algumas vezes tambem, se representavam,
sob frmas symbolicas, os principaes dogmas da F. As vidraas pintadas
das janellas lateraes da nave, e muitas vezes do transepte, eram
dedicadas s legendas de devoo da localidade, e aos Santos ou Santas
de que a egreja possuia reliquias.

Nas vidraas pintadas do XII e XIII seculo, s vezes reproduziam os
retratos dos doadores, mas sempre de tamanho menor.

Passemos agora a fallar das vidraas com pinturas de _grisalha_. D-se
este nome  composio do caixilho pintado de vidros brancos ou um pouco
esverdinhados, sobre os quaes so traados, por meio do _esmalte pardo_,
desenhos e ornatos variados.

Nas _grisalhas_ da primeira metade do XIII seculo, o desenho 
desenvolvido com firmeza, vigorosamente modelado, e os vidros seguros
por filetes de chumbo que indicam os traos mais fortes dos ornatos ou
formam as principaes divises do caixilho da vidraa pintada. Os vidros
so quasi opacos e completamente sem nenhuma parte colorida. Estes
vidros so geralmente grossos, esverdeados e muitas vezes apresentam
bolhas na superficie.

A comear da ultima metade do XIII seculo, as _grisalhas_ vieram a ser
menos opacas, deixando penetrar uma claridade mais abundante no interior
dos edificios; s vezes no so estes vidros sem ter colorido, porque se
lhe ajuntam vidros coloridos nos filetes que os dividem, ou nas pequenas
rosetas espalhadas na superficie.


*Vidraas pintadas do XIV seculo*


_As vidraas pintadas do XIV seculo_ apresentam aspecto differente das
dos seculos precedentes, posto que, durante toda a metade do seculo, o
artista d'esta especialidade se servia ainda dos mesmos processos
d'execuo dos seus antecessores. Esta mudana total d'aspecto proveio
de muitas causas: pelas novas disposies da armao de ferro, assim
como pelo tom claro e brilhante que se deu s vidraas, finalmente pelas
propenses exageradas para a imitao servil da natureza real.

Nas guarnies de ferro das vidraas do XII e do XIII seculo, desenhando
os contornos to variados dos medalhes legendarios, foram levados a
seguir a frma primitiva, consistindo em simples hastes verticaes
divididas de distancia a distancia, por travessas horisontaes, formando
angulo recto com essas hastes.

As cres mais empregadas nas vidraas do XIV seculo, eram o _azul_, o
_encarnado_ e o _amarello_; este ultimo tom, geralmente muito usado,
produzia um brilhante effeito, que fazia desmerecer as grisalhas claras,
frequentemente empregadas n'essa epoca. A cr _verde_ e o _roxo_ vo
sendo menos usadas.

O desenho contina, durante o XIV seculo, a obter mais correco; porm
o pintor de vidraas, esquecendo cada vez mais a pintura transluzente
que no  e no podia ser uma simples pintura de conservao, procura j
produzir illuso para a vista do espectador; tenta de copiar a natureza,
e consegue algumas vezes reproduzil-a com certa fidelidade.

As vidraas _legendarias_ desapparecem quasi completamente no XIV
seculo, e nos raros exemplos que se encontram, os medalhes so quasi
sempre supprimidos e as representaes das differentes scenas religiosas
sobre-postas uma s outras, ficam sem molduras e sem separao. As
grandes figuras isoladas preferidas n'esta epoca, apparecem, no smente
nas vidraas altas, mas tambem nas outras dos lados da nave e  roda da
capella-mr. Representam mais vezes Santos, e poucas vezes pessoas ainda
existentes.

As figuras esto sempre postas debaixo de doceis cheios de ornamentao
tirada da architectura, taes como ridentes, pinaculos, clochetes,
rosaceas e arcos-butantes. Estes doceis parecem ficar sustentados por
ps-direitos com feitio de contrafortes ornados de arcadas e de nichos,
nos quaes se collocam pequenas figuras d'anjos e de santos. As molduras
e os doceis do remate das grandes figuras tomam s vezes uma to grande
importancia que occupam tanto e mesmo maior espao, que as figuras que
elles adornam.

No principio do XIV seculo os fundos das vidraas sobre os quaes
sobresaem as grandes figuras so s vezes lizos, outra de cr
_encarnada_ ou _azul_; vindo a ser depois quasi sempre de feitio
_adamascado_, isto , cheias de desenhos differentes, similhantes aos
que se vem na seda chamada _damasco_.

No XIV seculo, os brazes dos doadores apparecem muitas vezes nas
vidraas pintadas. Vem-se tambem nos bordados, nas rosaceas do tympano
e nas almofadas inferiores das janellas, e inscripes que apparecem
frequentemente.

No meiado do XIV seculo, uma importante descoberta, do _amarello de
prata_, fez obter aos pintores de vidraas um novo esmalte e
proporcionou-lhes grande facilidade no trabalho da pintura. O _amarello
de prata_,  um esmalte obtido por um composto d'ocre amarello com o
sulphureto de prata. Depois de ter passado pelo lume os vidros cobertos
d'este mixto, separa-se a demo secca d'ocre; ficando depois sobre o
vidro um bellissimo tom amarello mais ou menos carregado e perfeitamente
translucido.

Os fabricantes dos vidros tornando-se mais habeis, conseguiram tambem,
durante o curso do XIV seculo, produzir chapas de vidro muito maiores
que nos seculos precedentes.

A descoberta do amarello de prata e os progressos feitos no fabrico do
vidro contribuiram poderosamente para modificar o aspecto das vidraas
pintadas, porque fizeram diminuir o numero dos filetes de chumbo, e
simplificaram, por conseguinte, a armao da vidraa.

As grisalhas do XIV seculo parecem-se muito com as do final do seculo
precedente. Todavia as grisalhas sem colorido so substituidas pouco a
pouco pelas que apresentam algum colorido. Alm d'isso, depois do meiado
do XIV seculo, apparecem as grisalhas brancas, com o realce do amarello
de prata.


*Vidraas pintadas do XV seculo*


_No XV seculo_ uma unica cr tem applicao, posto que, de pouca
importancia, para servir de incarnao, vindo-se ajuntar  palheta do
artista aos dois esmaltes j conhecidos. Esta fraca tinta, que servia
para modelar as cabeas e as partes nuas do corpo humano, era provavel
fsse um composto d'oxydo de ferro e terra de sombra calcinada. O pintor
de vidraas no tinha ainda  sua disposio seno tres cres para
pintar sobre o vidro: o _pardo_, o _amarello de prata_ e a _cr_ para a
incarnao; porm achou novo expediente para a sua arte no emprego de
_vidros duplicados_. J explicmos como, desde o XII seculo, o vidro
encarnado era muitas vezes composto de duas laminas, uma sem cr e outra
encarnada, ficando sobrepostas durante a sua fabricao. Depois no final
do XIV seculo, o processo que tinha servido antes para se obter vidros
encarnados, foi applicado s outras cres. Sobrepondo duas ou mais
demos de differentes cres, obtinham-se vidros de tintas muito
variadas. Os vidros duplos lhe davam certos tons d'um vigor desconhecido
at ento: obtinham-se vidros roxos sobrepondo o vidro encarnado ao azul
claro; verdes, sobrepondo o branco, amarello e o azul.

O colorifico que  resultado de se terem unido dois vidros de cres
differentes no pde ser confundido com o que se obtem pela applicao
d'uma cr d'esmalte sobre o vidro fabricado, e posto depois  recoco
do fogo.

Os pintores de vidraas do XV seculo, no empregavam sempre os recentes
aperfeioamentos introduzidos na sua arte com bastante cuidado e
intelligencia.  por isso que o emprego muito frequente e irracional da
pintura em grizalha sobre vidro branco constitue um dos caracteres
particulares das vidraas pintadas da ultima metade do XV seculo e do
principio do XVI seculo. Muitas vezes as roupas superiores das grandes
figuras em p so brancas e o frro smente de cr. Comprehende-se que
este abuso das grizalhas, nas roupagens e na maior parte dos
accessorios, d necessariamente s vidraas uma apparencia clara e
scintillante. Muitas vezes os fundos azues e encarnados, adamascados
superiormente, nos quaes sobresaem as figuras e os assumptos, offerecem
ainda unicamente um tom real com bastante colorido.

O maior numero d'estas vidraas tem emmoldurados de feitio
architectural, consistindo em contrafortes cheios de pinaculos ou
columnasinhas, com os fustes mais ou menos ornados. Estes emmoldurados
parecem suster os docis, cujos lados inclinados da empena, sempre de
frma ogival, so ornados de elegantes folhagens. Debaixo dos docis
esto figuras em p separadas pelas molduras das hombreiras, seja por
assumptos historicos ou legendarios, occupando toda a largura do vo.
Nas vidraas com assumptos no apparecem os filetes de ferro na
separao dos vidros. Quando se superpem, como s vezes acontece,
muitas figuras e muitos assumptos em um s vo da janella, ficam
separados uns dos outros por scos ornatados com decorao
architectonica da poca, e apoiando-se sobre os docis que formam o
remate do renque inferior.

Os grandes progressos que foram realisados, no XV seculo, na pintura
opaca ou de cavallete, e o estado prospero em que ella se achava desde a
primeira metade do XV seculo, exerceram a mais funesta influencia sobre
a pintura translucida. Os pintores de vidraas, que quasi sempre eram
tambem, e mesmo principalmente, pintores de quadros, esqueciam
diariamente, cada vez mais, que a pintura sobre o vidro  essencialmente
uma pintura de conveno. No se contentavam de introduzir nas vidraas
pintadas um desenho mais correcto, procuravam ainda enganar a vista do
espectador to completamente quanto fosse possivel; por outras palavras,
executavam sobre o vidro composies que s convinham para superficies
opacas.

No meiado do XV seculo, apparecem nas vidraas pintadas, como nos
quadros de tela, pequenas paisagens em perspectiva longiqua; estas
paisagens representavam vistas pittorescas de castellos cheios de
ameias, edificios de toda qualidade e apresentaes dos trabalhos
agricolas.

No XII e no XIII seculo, as vidraas das egrejas compunham-se de
pinturas e esculpturas, eram um livro sempre patente, onde os ignorantes
e bem assim os estudiosos podiam instruir-se nos principaes dogmas da
F, na historia da religio e nos deveres do homem para com Deus e o
proximo. Esta misso sublime da arte religiosa comeou a ser esquecida
durante o XIV seculo; em muitas vidraas d'esta poca, as representaes
exemplares e instructivas so substituidas por brazes e retratos em p
dos doadores. No XV seculo, as propenses, cada vez mais profanas, se
manifestam na escolha dos assumptos reproduzidos nas vidraas pintadas.
Estas no serviam para instruco do povo; muitas vezes os principaes
dignitarios ecclesiasticos e os poderosos do mundo se faziam ahi
representar sumptuosamente; quando muito, o santo orago apparece atraz
no segundo plano da pintura, emquanto os brazes de armas se repetem,
sob frmas diversas, em todos os lados da vidraa.


*Vidraas pintadas no XVI seculo*


No XVI seculo, as vidraas pintadas apresentam um aspecto inteiramente
novo. Todavia o primeiro tero do seculo se passou sem que os processos
materiaes da pintura sobre o vidro se tivessem modificado; e se a
_renascena_ no tivesse, desde este momento principiado a influir nas
composies artisticas, seria difficil distinguir as vidraas dos
primeiros annos do XVI seculo das do final do seculo precedente. Em
1540, uma nova cr teve applicao, o _encarnado de ferro_, que se
juntou na paleta do pintor de vidraas aos tres esmaltes conhecidos
ento: o pardo, o amarello de prata, e a cr para encarnao. Alguns
annos depois, em 1550, achou-se o segredo de applicar todas as cres,
preparando-as com um liquefactivo (que no era outra coisa que o p
vitreo), incorporando-os pela cozedura nas placas de vidro. Este genero
de pintura sobre vidro, que teve o nome de _pintura_ ou _apprt_, deu
grandissimas facilidades para os pintores de vidraas, e fez mudar
completamente os processos da arte. O artista preparava primeiramente a
placa vitrea, pouco mais ou menos como a tla, para a pintura a oleo
pela maneira de tintas geraes e sitios; sobre estes tons modelava depois
as figuras e objectos; finalmente traava as sombras e alcanava o
effeito com os retoques de cres, emquanto fazia apparecer os pontos
luminosos, desfazendo com promptido a tinta opaca afim de deixar ao
vidro toda a sua translucidez.

Cerca da mesma poca descobria-se a propriedade que tem o diamante de
cortar o vidro, inventando-se o tira-chumbo, que facilitou a produco
dos filetes de chumbo para segurar os vidros, conseguindo-se tambem
executar placas de vidro de grande dimenso. Todos estes progressos nos
processos materiaes produziram uma revoluo completa na arte da pintura
das vidraas, e tiveram por principal resultado o abandono quasi total
dos vidros tintos na massa.

O estylo das vidraas transforma-se inteiramente no XVI seculo sob a
influencia artistica do renascimento. Nos edificios religiosos dos
primeiros annos do XVI seculo, a volta inteira substituiu
insensivelmente a ogiva. Depois d'esse momento tambem appareceram, sobre
as vidraas pintadas, ornatos tirados do estylo classico, misturados com
flores e outras decoraes que recordavam ainda a poca ogival. Pouco a
pouco as idas classicas fazem progressos e conseguem, depois de algum
tempo, obter a preferencia. No se v mais ento ovanos, volutas, folhas
de acantho, festes de flores e fructas. O arco de triumpho ou portico,
imitado da architectura pag, forma de ora vante o moldurado proprio
das vidraas pintadas em que figuram as personagens e os assumptos. At
metade do XVI seculo, o artista se satisfaz em desenvolver, na parte
inferior da vidraa o assumpto principal com o moldurado que o limita, e
reserva a parte superior, assim como o tympano para collocar os brazes
e os symbolos. Poucos annos depois da metade do XVI seculo, em 1560, o
assumpto e o emmoldurado passam mesmo atravez dos enlaamentos do
tympano, se todavia os quizerem respeitar, e no fazel-os desapparecer.

Os assumptos religiosos e symbolicos so raros sobre as vidraas
pintadas do XVI seculo: vem-se as mais das vezes os retratos dos
doadores nas vidraas, onde apparecem representados geralmente de
joelhos sobre um genuflexorio, quer s, quer rodeados das pessoas de
suas familias. O orago do sanctuario os acompanha sempre, e os seus
brazes repetem-se muitas vezes em differentes partes na pintura da
vidraa.

No XVI seculo, produziu-se uma certa predileco pelas pequenas
almofadas pintadas com que se ornavam antes, algumas vezes no final do
seculo precedente, as vidraas dos edificios publicos, castellos,
claustros e mesmo as habitaes particulares. Essas bonitas pequenas
almofadas, quer em grizalha retocada com amarello de prata, quer de
cres differentes, so feitas com bastante tenuidade e delicadeza
extrema. s vezes occupam toda a abertura, ou pelo menos uma das
divises principaes da vidraa, outras vezes consistem em simples
medalhes circulares ou ovaes, circumdados de vidro colorido ou branco.
As pequenas vidraas pintadas, designadas _vidraas suissas_, porque
tiveram primeiramente uso na republica Helvetica, pertencem  mesma
categoria. Estas vidraas, cujo uso se conservou durante os seculos
seguintes, reproduziram para a nobreza os brazes de familias
differentes moldurados; para os edificios municipaes, as armarias da
cidade ou da provincia com figuras de porta-estandartes vestidos com os
trajos e as armaduras da poca; para as abbadias, as armas do mosteiro
ou a figura em p do fundador. Os burguezes e as pessoas de profisso
eram ahi representados com os symbolos do seu officio sobre um escudo.
Muitas vezes tambem os fidalgos, burguezes e operarios eram
representados todos nos seus trajos com sua familia. A transparencia e o
brilho do colorido so geralmente mais vistosos nas vidraas suissas,
que nas maiores vidraas pintadas.


*Vidraas pintadas do XVII seculo*


No XVII seculo, a pintura com preparo ou com cres pegadas, continuou a
ter voga, devido aos aperfeioamentos introduzidos na composio e no
assentar os esmaltes, o que fez abandonar completamente o emprego dos
vidros duplos e dos vidros tintos na massa. Este genero de pintura,
muito apropriada para as vidraas pintadas dos aposentos, no convinha
de maneira nenhuma para decorao das grandes vidraas pintadas, porque
o artista querendo apresentar grandes sombras e tons fugitivos,
servindo-se de meias-tintas e de tintas de bistre, tornava a sua pintura
to carregada, embaciada e confusa que, por vezes, era difficil
distinguir os objectos.

A representao de Arcos de Triumpho ou porticos constituia, como no
seculo precedente, o moldurado foroso de todas as composies, com esta
differena, que esses arcos e esses porticos so agora vistos
obliquamente ou de lado, isto , em perspectiva, emquanto d'antes
apresentavam a frente geometral.

Os filetes de chumbo, que anteriormente seguravam to vantajosamente os
principaes contornos do desenho, foram considerados como inuteis e mesmo
causando embarao na execuo da pintura. No serviram mais que para
reunir vidros eguaes e quadrados, formando uma especie de canniado, por
detraz do qual os artistas pintavam sobre os vidros como se fossem uma
tela, no fazendo nenhum caso das juntas metallicas.


*Vidraas pintadas do XVIII seculo*


_No XVIII seculo_, os vidros tintos na massa foram pouco fabricados; seu
preo era avultado, e sua falta muito grande. Quasi todas as vidraas
d'esta poca so com vidros esmaltados. O esmalte branco, j conhecdo
no XVI e XVII seculo, veiu a ser ento de uso geral e formou as
principaes cres empregadas. A decadencia da pintura das vidraas foi
completa, e a arte perdeu a tal ponto que havia em Paris um _unico
pintor d'esta especialidade_, o qual no podia subsistir por este seu
trabalho.

Finalisando a historia de pintura sobre o vidro, devemos notar uma
tradio popular muito vulgar que considera, sem razo, a arte da
pintura sobre o vidro, conforme era feita na edade mdia, como sendo um
segredo que se perdeu desde muito tempo. Esta opinio no tem nenhum
fundamento.


*Pilares, columnas e columnasinhas*


Na edade mdia, as designaes de _pilar_ e de _columna_ se confundem
muitas vezes; todavia a palavra _columna_ indica a ida de um apoio com
fuste cylindrico. Eucontram-se nos edificios do periodo ogival quatro
especies principaes de pilares ou columnas: o pilar _quadrado_, a
columna _monocylindrica_, a columna _cruciforme_ e a columna
_enfeixada_. A columna monocylindrica d em seco um _circulo_, e o
pilar quadrado, um _quadrado_ ou um _rectangulo_; a columna cruciforme
se compe de um _pilar central_, tendo sobre _as faces quatro columnas_
mais ou menos envolvidas; finalmente a columna _enfeixada_, como o nome
indica,  o resultado da reunio em _mlho_, em roda de um massio
formando pilar, _muitas columnasinhas ou nervuras_.

Os pilares quadrados so raros durante o periodo ogival; apparecem no
comeo, e s vezes as suas arestas so chanfradas.

Em quasi todos os monumentos belgas do XIII e XIV seculos, as columnas
so monocylindricas. As columnas cruciformes, communs nas cathedraes
francezas, servem na Belgica principalmente na interseco da nave e do
transepte nos grandes edificios.

Os edificios do XV seculo teem as columnas monocylindricas ou
enfeixadas. As primeiras apresentam s vezes capiteis; outras vezes so
inteiramente privadas d'elles. N'este ultimo caso os arcos-duplos e as
nervuras das abobadas nascem directamente do fuste da columna, no logar
onde se colloca o capitel. Este genero de columnas se encontra muitas
vezes em todos os paizes da Europa central e occidental.

No XV seculo, as columnas enfeixadas no so j formadas, como
precedentemente, de columnasinhas com capitel, porm compostas de
nervuras _prismaticas em grupo_,  roda de um pilar central. Estas
nervuras saem da base da columna erguendo-se quasi sempre sem ter por
intermedio o capitel at s abobadas do edificio, afim de formar os
_arcos-duplos_ e os arcos ogivaes; so sempre com a frma angulosa e
apresentam seces similhantes ao feitio de um seio.  por excepo que
se encontram ainda, em certas partes dos monumentos do XV seculo,
columnas enfeixadas formadas pela reunio de columnasinhas cylindricas
com capitel.

Os pilares e as columnas so construidas por _fiadas_ na Belgica, na
Allemanha e no Norte da Frana. No meiodia da Frana e na Italia, as
columnas cylindricas so quasi sempre monolithos.

Durante o periodo ogival, os fustes das _columnasinhas_ no so, como
muitas vezes no periodo _roman_, cobertas de diversas esculpturas.
Todavia encontram-se, em alguns edificios dos primeiros annos da poca
ogival, como na cathedral de Chartres em Frana, e em muitos monumentos
italianos, columnasinhas _terciaes_ em que o fuste  em espiral.

As columnasinhas tiveram principalmente applicao no XIII e no XIV
seculos. As que compem os grandes pilares teem geralmente o seu fuste
envolvido n'um quarto de circumferencia, os outros tres quartos ficam
apparentes; algumas, no obstante, esto inteiramente separadas da
parede ou da columna que frma o pilar que ellas ornam, como existe nas
cathedraes de Amiens, Frana, e de Salisbury, na Inglaterra. No XIII
seculo, essas columnas so muitas vezes, como as do seculo precedente,
_anneladas_, ou compostas de engrossamentos em frma de bracelete.

No XV seculo, estas columnasinhas so raras; ou ento substituidas por
nervuras prismaticas no smente nas columnas enfeixadas, mas tambem em
todas as outras partes dos edificios, taes como o molduramento das
portas e das janellas. Estas nervuras teem base, mas sem capitel.

No principio do XVI seculo tornam a apparecer as columnasinhas com o
fuste coberto de esculpturas, representando figuras geometricas, festes
e arabescos. Os fustes das columnasinhas d'esta poca so regularmente
cylindricos: algumas vezes polygonaes ou apresentando a forma de
_balaustre_.


*Bases das columnas*


As bases das columnas do XIII seculo compem-se de dois _tros_
separados por uma cavidade redonda (_scocia_) bastante profunda de
maneira a formar uma calha na qual a agua da chuva se retem afim de no
prejudicar o cimento da construco. Algumas vezes o tro inferior 
achatado e sobresae bastante por cima do _plintho_; o tro superior 
quasi sempre cylindrico; por vezes todavia apresenta uma pequena
depresso.

Durante a primeira metade do XIII seculo, as bases das columnas esto
ainda muitas vezes ligadas aos angulos dos seus plinthos _por garras_.
As garras apparecem por vezes, porm excepcionalmente no final do
periodo ogival.

Depois do meiado do XIII seculo, a _scocia_ profunda, que indica um dos
signaes caracteristicos das bases da ultima metade do XII seculo e do
principio do XIII seculo, desapparece pouco a pouco, assim como o
achatamento do tro inferior. As bases passam depois successivamente
pela frma polygonal ou cylindrica; pertencendo a primeira d'este feitio
ao XIII seculo, e a segunda s bases do XVI seculo.

Quando o tro inferior da base desdobra muito sobre o plintho da
columna, pe-se algumas vezes um pequeno apoio por baixo do tro. Esta
particularidade, sem belleza, se encontra nos edificios francezes e da
Belgica.

O sco sobre o qual vem assentar a base da columna do XIII e do XIV
seculos, frma, quasi sempre, um octogono regular; algumas vezes,
comtudo,  quadrado (nos edificios dos primeiros annos do periodo
ogival) ou cylindrico. Os _scos cylindricos_ se encontram em muitos
monumentos belgas do XIII e do XIV seculo: tambem so bastante communs
na Inglaterra: em Frana servem na Normandia, na Bretanha e no Maine.

No XV seculo, a base e plintho das columnas monocylindricas so
extraordinariamente delgadas. A base  formada sempre por uma simples
moldura do feitio de tro. Muitas vezes esta moldura, que nos seculos
precedentes era traada sobre um plano circular, toma a frma polygonal
do sco.

Nas columnas enfeixadas do seculo XV, as pequenas bases parciaes das
nervuras prismaticas ou cylindricas em grupo  roda do pilar central,
formam, pela sua reunio e penetrao, a base e o sco da columna.
Durante a primeira metade d'este seculo, as pequenas bases teem todas o
mesmo perfil e ficam ao mesmo nivel. Mais tarde, os architectos
costumaram perfilar as bases parciaes em niveis differentes, como para
melhor fixar cada columnasinha e para evitar tantas compridas linhas
horisontaes.

_Capiteis_.--Durante todo tempo do periodo ogival, ornaram regularmente
com bellas esculpturas os aafates dos capiteis. Houve comtudo excepes
a esta regra, e por isso se encontram em alguns edificios religiosos de
segunda e terceira ordem do XII e do XIII seculo, limitados por uma
simples moldura.

Os capiteis do XIII seculo distinguem-se com facilidade pela
ornamentao vegetal de um caracter mui particular. O seu aafate
compe-se geralmente de um, de dois, e algumas vezes mesmo de tres
renques de crochetes ou enroscamento de folhagens. Os crochetes de
renque superior supportam quasi sempre os angulos do abaco, e
substituem, de alguma maneira, o emprego dos modilhes. No final do XII
seculo e no principio do XIII seculo, teem a sua extremidade enroscada e
parecem rebentos de vegetaes. Em Frana desde o final do XII seculo, e
na Belgica um pouco depois, as extremidades dos crochetes se desenrolam,
e os rebentos se abrem em folhagens.

Algumas vezes os crochetes, em logar de acabarem por folhagens
enroscadas ou abertas, trazem no seu cume cabeas de homens e de animaes
verdadeiros ou phantasticos.

Os capiteis com crochetes enroscados, cujo emprego ento estava
abandonado em toda a parte no final do XIII seculo, continuou na
Flandres maritima at ao fim do periodo ogival. Alm d'isso, os
crochetes teem, n'esta regio, uma frma especial; seus enroscados so
muito mais chatos e mais largos.

A ornamentao dos capiteis do XIV seculo consiste em ramos de
folhagens, de flres e de fructos, de frma muito variada, nas quaes se
acham todos os caracteres da esculptura ornamental do XIV seculo. Os
crochetes, apropriadamente assim designados, no apparecem mais que
excepcionalmente com os capiteis d'esta poca: todavia os ramos de
folhagens e de flores so geralmente collocados, nos angulos do abaco,
de maneira a recordar pelo seu vulto os crochetes do XIII seculo, e
servem para o mesmo fim. Muitas vezes estes ramos so dispostos sobre
dois renques; esta maneira se nota sempre quando, como acontece
repetidas vezes, o aafate  composto de duas peas sobrepostas, e mesmo
algumas vezes, quando o capitel  formado de uma s pedra.

As figuras de animaes reaes ou phantasticos se encontram poucas vezes
sobre os capiteis do XIII e do XIV seculos.

Os capiteis do XV seculo teem, como os dos seculos precedentes, o seu
aafate coberto de folhagens; porm essas folhagens apresentam
geralmente mais ou menos desenvolvimento; so delgadas, angulosas, muito
recortadas, muito profundas e exaggeradas. Com o XV seculo, appareceu
sobre os capiteis o ornato vulgarmente designado _folha de repolho_.

Em muitos ornamentos do XV seculo, os architectos, levados pela
applicao muito rigorosa do preceito que qualquer ornato deve ter ao
mesmo tempo um emprego necessario, supprimiram o capitel. N'estes casos,
os arcos-butantes e as nervuras das abobadas sobem, sem intermediario,
do fuste cylindrico, ou ento nascem na base mesmo da columna, seguindo
toda a largura do fuste at ao nascimento das abobadas, e tomam, n'esse
logar, as differentes direces convenientes para a construco das
abobadas.

As columnas cylindricas com capitel so usadas nos edificios belgas do
XV seculo, mas so bastante raras em Frana.


*Modilhes e misulas*


 um apoio que faz saliencia sobre a face de uma parede ou de uma
columna que se chama _modilho_ quando tiver dois lados lateraes
parallelos e perpendiculares  parede; e _misula_, quando apresentar uma
outra differente posio.

Depois do meiado do XIII seculo, os modilhes do feitio de curvas so
raros.

As misulas apresentam por vezes uma tal ou qual similhana com os
capiteis, e so tambem sempre rematadas por um abaco; differenam-se
comtudo, as mais das vezes, pelo seu genero de ornamentao. Na verdade,
as esculpturas dos capiteis do periodo ogival reproduzem quasi sempre
vegetaes: e smente por excepo mostram figuras de homens ou de
animaes. Sobre as misulas, pelo contrario, a ornamentao vegetal no
apparece, por assim dizer, seno no XIII seculo, e mesmo  rara; durante
os dois seculos seguintes desapparece, e ento as misulas so
constantemente formadas de personagens grotescas, acocoradas, de animaes
reaes ou phantasticos, e algumas vezes tambem de cabeas humanas, ou
figuras de anjo e de homem sustentando escudos, disticos e bandeirolas.

Muitas vezes as misulas, collocadas quer no interior, quer no exterior
dos edificios, so pintadas com cres vivas.


*Arcadas e arcaduras*


As grandes arcadas ou archivoltas ligando os pilares das naves e
sustentando o peso das paredes superiores, compem-se regularmente de
dois ou tres renques de sobre-arcos nos edificios do periodo ogival. Os
perfis variam nos differentes seculos.

No XIII seculo, e mesmo ainda no XIV seculo, as arestas da archivolta
so formadas por tros inscriptos na face quadrada da pea do arco; no
XIV seculo e durante uma grande parte do XV seculo, os tros j no so
completamente cylindricos, mas teem antes do termino a curva d'esta
moldura, um filete destinado a deter a fora do reflexo; no final do XV
seculo e no principio do XVI, os tros cylindricos tornam a apparecer.

As _arcaduras_ so bastante vulgares nos monumentos do periodo ogival;
servem para ornar o liso das paredes internas e exteriores dos
edificios. Na parte interna apparecem principalmente no _triforium_ e
por baixo dos peitors das janellas das naves lateraes; na parte
exterior, por baixo das cornijas e nos frontespicios, nos vasamentos dos
grandes portaes e nas galerias dos claustros.

As arcaduras que se vem em baixo das janellas de quasi todos os grandes
monumentos, compem-se de uma serie de pequenas arcadas fingidas,
collocadas entre os peitors das janellas e o solo ou no sco de
cantaria que frma, muitas vezes, uma especie de base ao longo das
paredes das naves lateraes.

No XIII seculo, as curvas das arcaduras assentam sobre columnellos mais
ou menos embebidos na parede. No XIV e no XV seculos, os _columnellos_
ficam substituidos por simples nervuras, s vezes cylindricas; porm as
mais das vezes a seco polygonal no differe muito da de uma
semi-hombreira de janella. Estas nervuras teem remate junto do solo,
sobre as bases que lhes pertencem. No final do periodo ogival,
supprimem-se, por vezes, as nervuras, e ento as _arcaduras_ assentam
sobre modilhes.

No XIV e no XV seculos, as arcaduras sobre os peitors das janellas
ligam-se inteiramente com as hombreiras das janellas e parecem, de
alguma maneira, confundir-se com elles: parecendo que atravessam a
cantaria do peitoril e descem at ao solo. As arcaduras no so mais do
que a parte inferior da janella que est tapada, e na verdade, a parede
necessitando de diminuir para dentro, ficando  face da vidraa, afim de
deixar metade do peitoril apparente, conserva apenas uma pequena
grossura, que equivale a uma simples diviso.

Nos edificios mais esmerados, os _seguintes_, isto , os lados
triangulares comprehendidos entre os extradoz das archivoltas e de duas
_arcaduras_, proximas uma da outra, esto geralmente ornatados com
esculpturas, pinturas ou rendilhados, mostrando a frma trilobada ou
quadrilobada, e com vidros pintados, emquanto as paredes que separam os
entre-columnios, apresentam pinturas decorativas.

As esculpturas e as pinturas com as quaes se decoravam os _seguintes_
das arcaduras, durante o periodo ogival, so ora legendarios ou
satyricos, ora tirados do reino vegetal. Nos monumentos inglezes do XIII
seculo, os _seguintes_ esto muitas vezes com ornatos similhantes a
estofo cheio de relevo.

Dentro das grandes egrejas do XV seculo existem como decorao as
arcaduras e outras figuras por cima e por baixo do _triforium_, sobre o
dorso das grandes arcadas e ao correr das janellas mais superiores; s
vezes mesmo sobre o liso das paredes e em outras partes do edificio.


*Triforium*


Os _triforiums_ comprehendem toda a largura das naves lateraes, no se
vem seno por acaso nos edificios do periodo ogival. Desde o final do
XII seculo, lhes substituiram, nas egrejas da Europa occidental,
galerias estreitas, abertas na grossura da parede, por baixo dos
peitors das janellas superiores da nave principal. Estas galerias
estreitas offereciam commodidade: em primeiro logar facilitavam a
circulao dentro da egreja quasi  altura das janellas superiores, e
davam logar a collocarem-se as armaes e outros adornos com que havia o
costume de decorar as egrejas nos dias de festa; e em segundo logar,
diminuindo a grossura das paredes superiores, alliviavam a presso
exercida sobre os pilares principaes dos edificios; finalmente,
offereciam uma das mais importantes disposies para a decorao da nave
principal.

O triforium communica com o interior da egreja por series de arcaduras
abertas, tendo o mesmo feitio que as arcaduras que havia sobre o liso
das paredes, debaixo dos peitors das janellas inferiores. Muitas vezes,
principalmente no XV seculo, tapava-se a parte inferior da arcadura com
um parapeito formando ornato de feitio de trvo ou de quatro folhas.

Nota-se que nos triforiums, assim como nas arcaduras com ornato, as
archivoltas ficam assentes sobre columnatas com capitel pertencente ao
estylo do XIII seculo, e sobre _nervuras das hombreiras_ dos seculos
seguintes. A disposio das arcaduras do triforium apresenta ainda uma
outra analogia muito parecida com as arcaduras de ornato, formando
regularmente, desde o final do XIII seculo, a continuao das janellas
das naves lateraes. Depois d'esta poca tambem as arcaduras do triforium
se assemelham s janellas superiores da nave principal.

No termo do periodo ogival, supprimem-se muitas vezes as arcaduras, no
conservando mais do que um simples guarda-peito; o ornamento denominado
_chama_ apparece regularmente nos desenhos que formam as hombreiras
d'esses guarda-peitos. As janellas superiores ficam, n'este caso,
collocadas a prumo sobre a parede exterior do triforium.

Na Belgica, o triforium  geralmente tapado do lado exterior da nave por
uma parede; , por excepo, que esta parede tem abertura, e a um ou
dois metros por cima do pavimento da galeria, pequenas aberturas
circulares, _trilobadas_ ou _quadrilobadas_, cobertas de grisalhas ou
com ornatos elevados. Nos edificios francezes do XIII e XIV seculos,
pelo contrario, a galeria do triforium no fica, as mais das vezes,
separada do exterior seno por uma simples lumieira, apresentando bellos
vidros pintados, semelhantes aos que decoram as janellas.


*Cornijas*


As cornijas do estylo ogival tem geralmente pouca importancia. Nos
edificios que pertencem ao periodo de transio, e mesmo, na Belgica, em
algumas que so dos primeiros annos do periodo ogival, o _larmier_
superior da cornija assenta ainda muitas vezes, de distancia em
distancia, do mesmo modo que na poca _roman_, sobre cachorros servindo
de modilhes, com muita sacada, mas de grande simplicidade.

Em Frana, as cornijas dos monumentos mais principaes compem-se, quasi
sempre, de duas fiadas de cantaria. A fiada inferior est ornada de
crochetes vegetaes no XIII seculo, de folhagens ondeadas no XIV, e de
folhas de replho encrespadas no XV. Algumas vezes v-se tambem, entre
estas esculpturas, modilhes formados por cabeas humanas ou por
carrancas.

As cornijas dos grandes edificios belgas apresentam as mesmas frmas
geraes que as cornijas francezas, porm no tem esculpturas, sendo
substituidas por arcaduras simples, ogivaes, ou triboladas. Estas
arcaduras apparecem principalmente nos paizes onde, durante o periodo
Roman, as arcaduras serviam de decorao, imitando-se o estylo Lombardo,
e foram usadas para ornar certas partes dos edificios.

Desde o comeo da ultima metade do XIII seculo at o final do XIV, os
edificios de segunda ordem, e mesmo os de primeira ordem na Belgica,
tem as cornijas compostas de simples perfis, formados por um pequeno
numero de molduras pouco importantes.


*Platibandas*


As _platibandas_ que coram as cornijas no exterior dos edificios
principiaram nos primeiros annos do XIII seculo. Antes, a agua da chuva
caa dos telhados directamente sobre o solo; at o meiado do XIII seculo
smente os edificios mais importantes tiveram canos de chumbo para dar
vaso  agua da chuva e se assentaram platibandas sobre a beira do
telhado. Estas platibandas encanavam a agua por garglas, que a lanavam
para longe da face das paredes, e impediam por esta maneira que as aguas
da chuva podessem prejudicar a base da construco, introduzindo-se-lhe
a humidade. As platibandas, cujo destino principal era evitar o perigo
que apresentava passar sobre as garglas, facilitam alm d'isso os
concertos do telhado, e resguardam das telhas da beira quando cem;
permittindo aos architectos darem melhores decoraes ao exterior dos
monumentos.

As mais antigas platibandas tem a frma de arcaduras rendilhadas,
compostas de columnatas, sobre as quaes vem assentar um remate vasado,
na sua parte inferior, em arco ogival, _trilobado_. No final do XIII
seculo substituiram-se as arcaduras pelas folhas de trvo e de quatro
folhas vasadas.

A altura e o feitio das platibandas variam conforme os materiaes
empregados. No XIV seculo as platibandas, as mais das vezes, tinham
folhas de trvo e de quatro folhas, vasadas e divididas de distancia em
distancia, na prumada dos contra-fortes, por pinaculos. No XV seculo, as
prumadas so compostas, umas vezes pela reunio de rhombos, de
triangulos equilateraes curvilineos, ou por figuras geometricas
angulares; outras vezes por desenhos flammejantes, parecidos com os que
caracterisam os tympanos das janellas d'esta poca. No final do XIV
seculo apparecem, principalmente nos edificios civis, as platibandas com
ameias, nas quaes se vem os mesmos feitios que nas platibandas
vulgares. O seu uso persistiu at ao final do periodo ogival.

As platibandas com arcaduras verticaes apparecem ainda aqui ou acol nos
edificios do XIV, XV e mesmo do XVI seculo.

_Abobadas_. As abobadas ogivaes distinguem-se ao mesmo tempo pela sua
elegancia e leveza. Isto foi resultado da pouca grossura dos triangulos
do enchimento que vedava a parte composta de arcos-duplos e de nervuras.
Comtudo a leveza no excluia a solidez; pelo contrario, as abobadas
ogivaes so mais solidas e mais resistentes que as dos periodos
anteriores, posto que sejam muito menos massias.

_Estabilidade e plano das abobadas_. J explicmos que a estabilidade
das abobadas no depende do mesmo principio dos edificios antigos e do
periodo ogival; e fizemos notar, em poucas palavras, os progressos to
importantes realisados pelos architectos do XII e XIII seculos nas
construces das abobadas.

Fizemos tambem conhecer que as abobadas com o feitio das nervuras, como
so construidas as abobadas ogivaes, causam um esforo lateral que tende
a desviar para fra dos seus pontos de apoio as columnas, contra-fortes
ou paredes. Os constructores do periodo ogival evitavam esse esforo
lateral, oppondo-lhe quer um esforo em sentido inverso, quer um
obstaculo rigido que, impedindo de operar, resolveu-o empregando cargas
verticaes.  caso particularmente para notar, porque constitue
egualmente uma differena essencial do systema de construco dos
antigos, esses obstaculos apresentam as dimenses unicamente necessarias
para preencher o fim ao qual so destinados.

Esta neutralisao dos esforos lateraes no se obtem da mesma maneira
nos edificios religiosos, cuja nave principal  notavelmente mais alta
do que as naves lateraes, e n'aquelles em que todas as naves teem egual
altura.

_Egrejas que teem a sua nave central muito mais elevada do que as outras
lateraes_. Foi o systema adoptado, desde o final do XII seculo, pelos
constructores da Europa occidental, afim de conservar o equilibrio das
differentes partes de que se compunham os seus monumentos; porque o
arco-duplo da abobada principal  parede mestra, o arco butante, o
contraforte e a columna que separavam a nave principal da nave lateral
do seu arco-duplo, formavam um triplo esforo motivado pelo arco-duplo
da abobada principal e os seus dois arcos ogivaes, que faziam pender
para fra a parede mestra do edificio. A este esforo, o constructor da
edade mdia oppunha o arco butante, que vinha apoiar-se sobre a parede
mestra, ficando collocado ao mesmo nivel. Por esta maneira o esforo
triplo causado n'esse ponto era transferido sobre o contraforte, onde se
quebrantava por causa da sua rigidez; e devido a essa rigidez, o seu
peso juntando-se ao da parede mestra do edificio, que comprime sobre a
columna que sepra as duas naves; por ambas as foras reunidas,
tornava-se esta bastante fixa para aguentar e neutralisar o triplo
esforo exercido pelo arco-duplo da nave lateral e pelas nervuras
proximas da mesma nave. O esforo do arco-duplo d'esta nave e das duas
nervuras ficam supprimidas pelo encontro do contraforte.

_Egrejas em que as naves ficam na mesma altura_. N'estas egrejas os
esforos lateraes que a abobada da nave principal opra sobre os seus
pontos de apoio ficam diminuidos pela presso das abobadas exteriores
d'estas mesmas naves lateraes, ficando supprimidos pelos contrafortes,
geralmente bastante salientes, os quaes lhes oppem um obstaculo rigido,
que produz o equilibrio das abobadas.

_Abobadas de feitio de tecido_. As abobadas sobre plano _quadrado
longo_, formadas por arcos ogivaes que se entroncam uma s vez, foram
geralmente abandonadas proximo do meiado do XV seculo. Apparecem ento
as abobadas em _tecido_, designadas tambem pelos archeologos, abobadas
_com divises prismaticas_. N'estas abobadas as nervuras bifurcam-se,
ramificam-se e encruzam-se em todos os sentidos, de maneira a figurar um
verdadeiro tecido, como est representado na surprehendente abobada do
cruzeiro da egreja monumental dos Jeronymos em Belem. Todos os pontos de
interseco das nervuras esto regularmente ornados de esculpturas.

_Perfis das nervuras nas abobadas ogivaes_. As nervuras ou arcos ogivaes
das abobadas construidas no final do periodo Roman consistem muitas
vezes em um grosso tro, algumas vezes tendo dois ou quatro tros de
menos vulto. Os arcos-duplos da mesma poca, muito mais massios que as
nervuras, apresentam seces quadradas ou rectangulares, e teem os
angulos das partes concavas da abobada talhadas em tro. Desde o
principio do XIII seculo, os arcos-duplos tiveram, com raras excepes,
os mesmos perfis que os arcos ogivaes.

Durante os primeiros annos do periodo ogival, v-se ainda arcos-duplos e
arcos ogivaes muito grossos, semelhantes aos dos edificios romans.
Todavia no tardou a adelgaarem, a diminuirem de grossura. Pouco
depois, a parte redonda do tro principal apresenta uma aresta viva.
Esta frma teve logar em Frana desde o final do XII seculo, e na
Belgica smente no meiado do seculo seguinte. Mais tarde, em Frana ao
principio, e na Belgica proximo do meiado do XIII seculo, a aresta viva
 substituida por um filete, que ficou adoptado at ao final do periodo
ogival. Nos edificios francezes apparece tambem o filete sobre os tros
secundarios desde o meiado do XIV seculo. No final do XV e no comeo do
XVI seculo, as nervuras apresentam muitas vezes o perfil composto de
molduras concavas e redondas.

Comparando-se os perfis mais antigos com os mais recentes, nota-se que
os primeiros apresentam uma superficie mais larga e menos alta que as
dos ultimos. Esta mudana na frma dos perfis no se fez sem motivo: os
constructores tinham aprendido por experiencia que a resistencia de um
arco ou de uma nervura est em razo directa da altura da pea de voltas
e no em razo da sua largura.

_Fecho da abobada_. No XII seculo, tinham principiado a ornar com
esculpturas os fechos da abobada. Estes primeiros fechos esculpidos
representavam Jesus Christo deitando a beno, o Cordeiro Divino, Nossa
Senhora, os anjos, os animaes symbolicos dos evangelistas, santos, e
muitas vezes tambem carrancas ou animaes phantasticos. Nas abobadas dos
edificios de segunda ordem contentavam-se algumas vezes de indicar um
simples floro ou entrelaos.

No XIII seculo o emprego dos fechos de abobadas com esculpturas veiu a
ser geral, sendo representado nas abobadas do cro, Jesus Christo, o
Cordeiro Divino, os symbolos dos evangelistas e outros objectos
religiosos. Na nave principal e nas lateraes a ornamentao distingue-se
por ser vegetal. Os fechos de abobada no XIV seculo, e tambem na
primeira metade do XV seculo, apresentam bastantes vezes a mesma
decorao que a do XIII seculo; todavia na sua esculptura vegetal ha os
caracteres proprios da ornamentao de cada um d'estes seculos. No XV
seculo, os brazes dos bemfeitores da egreja so esculpidos
frequentemente sobre os fechos da abobada.

No final do XV seculo, apparecem os fechos da abobada ornados de um
appendice que recebeu o nome de _pendente_, que ficou em uso durante uma
parte do XVI seculo, imitando stalactites que esto suspensas s
superficies superiores das grutas. Algumas vezes tem o feitio de um
floro ou um ornamento extravagante; outras representa uma estatua
pegada  abobada.

Muitas vezes os fechos da abobada so furados por um buraco circular,
para se poder iar os sinos e outros objectos acima das abobadas: como
havia dois oculos na abobada da egreja de Belem, indicando no smente
essa applicao, mas que o edificio _deveria ter duas torres_: todavia,
construiram modernamente um torreo colossal, que esmaga aquelle
monumento, e no respeitaram o que fra projectado na sua primitiva
edificao!

_Arcos butantes_. Chama-se _arcos butantes_ aos arcos destinados a
transportar at aos contrafortes exteriores o esforo lateral das
abobadas mais elevadas de um edificio. Nascem dos contrafortes e
apoiam-se sobre as paredes da nave principal nos differentes pontos onde
vo confinar os resultantes dos _encostes_ dos arcos ogivaes e dos
arcos-duplos.

J explicmos os dois systemas empregados durante o periodo roman para
contramurar o esforo lateral produzido pelas abobadas superiores sobre
as paredes altas das egrejas em que a abobada principal  muito mais
alta que as outras das naves inferiores, e notmos os inconvenientes que
resultavam de uma e de outra applicao. Estes dois systemas foram em
pouco tempo abandonados, primeiramente porque a nave principal ficava
sem claridade, sobretudo nos edificios de maior largura, e em segundo
logar porque, n'um como no outro systema, as abobadas das naves lateraes
precisavam de ser muito altas para attingir o ponto onde se effectuava o
encontro combinado das nervuras das abobadas altas. Raciocinadores
dispostos a sujeitar tudo aos principios dos architectos do XII seculo e
do XIII seculo, conheceram que os semicirculos das abobadas em bero
contiguo, do qual alguns dos seus antecessores se tinham servido com o
fim de neutralisar o esforo lateral das abobadas altas, no era
necessario na sua frma completa, e que se obtinha o mesmo resultado
applicando sobre a parede exterior do edificio no ponto onde viesse dar
a resultante dos encostes, um arco partindo de um contraforte exterior:
foi esta combinao que deu origem aos arcos-butantes.

Para que satisfaa  sua applicao deve o arco-butante: 1.^o, ter as
juntas das peas de sua construco _normaes_ ou perpendiculares  curva
por elle descripta; 2.^o, ficar o seu vertice sobre a parede exterior no
ponto onde passe a resultante do esforo da abobada. Esse ponto acha-se
entre o nascimento das nervuras ou arcos ogivaes e perto da metade da
altura da abobada. Em theoria esse ponto  um ponto geometrico; todavia
na prtica  preciso que a summidade ou cabea do arco-butante seja
larga; primeiro porque  impossivel, na execuo, determinar de uma
maneira exacta a direco da resultante dos differentes esforos das
abobadas; depois porque a direco d'esta linha pde facilmente
desviar-se em resultado de ter dado de si nos pontos de apoio verticaes,
effeito que acontece frequentemente nas grandes construces medievaes
cujos pontos de apoio so delgados e supportam uma pesada carga.

Os arcos-butantes so geralmente reforados, no seu _extradoz_, por um
encosto em linha recta, construido em cantaria. O espigo d'este encosto
 muitas vezes ornatado de _crochets_.

Desde o final do XII seculo e no principio do XIII seculo, os
arcos-butantes vieram a ser de uso geral em todos os grandes monumentos
religiosos, cuja nave principal era mais alta que as naves lateraes. Os
mais antigos so geralmente formados por um quarto de circulo. Depois a
curvatura veiu a ser menos curva, approximando-se da linha recta.

Empregaram tambem desde os primeiros annos do XIII seculo,
arcos-butantes _duplos_, isto , dois arcos-butantes collocados um por
cima do outro.

Os arcos-butantes foram empregados durante todo periodo ogival; todavia
eram menos usados durante a ultima metade do XV seculo. Em muitos
monumentos d'esta poca, mesmo os mais principaes, julgavam-se
sufficientes os contrafortes muito massios e salientes para diminuir o
esforo das abobadas.

Quando no principio do XIII seculo collocaram por baixo do madeiramento
um canal para receber as aguas da chuva, dirigiam as aguas do telhado
principal para os contrafortes exteriores por um canal de cantaria posto
sobre o capello do arco-butante. As aguas passavam atravez no cimo dos
contrafortes, e eram depois lanadas fra por gargulas, caindo afastadas
da base do monumento. As infiltraes causadas pela passagem das aguas
sobre o capello dos arcos-butantes, e atravez dos contrafortes,
produziram damnos to consideraveis nas construces que ficou em pouco
tempo abandonado este systema de dar escoante s aguas da chuva.

_Contrafortes_. Durante os primeiros annos do periodo ogival, os
contrafortes dos edificios de abobadas foram demasiadamente engrossados
e tiveram bases bastante salientes;  proporo que se elevavam assim,
iam diminuindo consideravelmente por grandes resaltos successivos sobre
cada uma das faces.

No meiado do XIII seculo, os contrafortes ficam mais regulares,
erguem-se quasi verticalmente da base  extremidade superior, e no
apresentam j por cima do envasamento um ou dois resaltos bastante
pequenos e smente sobre a face principal.

Estes contrafortes terminavam por uma face chanfrada que ia ter at 
cornija, e muitas vezes era de frma abahulada, quando ficavam isolados
ou excediam a base do madeiramento. Nos monumentos principaes
limitavam-se algumas vezes a pr pinaculos, e ornavam as suas faces
lisas de arcaduras e estatuas postas sobre misula, tendo docel.

No XIV seculo a frma dos contrafortes ficou quasi a mesma que durante a
ultima metade do seculo precedente. Tinham a sua extremidade, como
d'antes, quer em pinaculos e frma abahulada, quer ficando os pinaculos
assentes sobre base quadrada ou octogona, terminando por agulhas
pyramidaes, cujas arestas esto ornadas de crchets.

Os contrafortes do XV seculo semelham-se ainda muitas vezes aos dos dois
seculos precedentes. Como estes, apresentam, de distancia em distancia,
diminuio de grossura pouco apparente sobre a sua face anterior, e so
ornados de arcaduras, nichos e doceis, ornamentao no gosto da poca.
Todavia, desde o fim do XIV seculo, principiaram a modificar algumas
vezes a sua disposio; regularmente deixaram subsistir a base quadrada
ou rectangular, tendo a face anterior parallela e as duas faces lateraes
perpendiculares com o liso da parede; porm, a certa distancia acima do
solo (ao primeiro ou segundo resalto), a face anterior, parallela 
parede, passa a ser angular; mesmo s vezes se vem contrafortes cuja
face anterior fica angular  parede desde a base do edificio. Estes
contrafortes, com lados chanfrados, acabam como todos os outros, por um
plano inclinado, platafrma ou espigo de feitio abahulado, ou por um
pinaculo bastante ornado.

No XIII e no XIV seculo, os contrafortes collocados no ponto de
interseco de paredes que se encontram em angulo recto, so sempre em
numero de dois. No XV seculo, julgavam s vezes ser sufficiente um unico
contraforte collocado de maneira a fazer face ao angulo; sendo estes
contrafortes angulares muito communs nos edificios d'esta poca.

Por causa do excessivo esforo lateral que produzem sobre os seus pontos
de apoio, as abobadas ogivaes necessitavam o emprego de contrafortes com
base de bastante largura. Nos monumentos dos primeiros annos do periodo
ogival, esses contrafortes, que teem tres de suas faces inteiramente
livres, apresentam saliencias grandes sobre as paredes exteriores dos
edificios. Estas sacadas desagradaram em pouco tempo aos constructores,
que cogitaram em as diminuir ou fazel-as desapparecer inteiramente
disfarando os contrafortes. Para esse fim recuram at  parede mestra
a divisoria que havia antes na nave lateral, aproveitando na parte
interna do monumento o espao de um rectangulo que communicava com a
extremidade da nave lateral e servia s vezes de capella.

Nos edificios do periodo ogival, cobertos por simples frro do tecto, de
madeira, os contrafortes tinham pequena sacada sobre o liso das paredes.

_Gargulas_. D-se o nome de _gargulas_ aos canaes salientes pelos quaes
as aguas da chuva sem dos telhados e so lanadas longe da base das
paredes dos edificios. Teem quasi sempre a configurao de animaes
monstruosos e phantasticos, e raramente a figura humana. Admira-se,
n'estas esculpturas, uma variedade prodigiosa, e seria difficil de achar
duas do mesmo feitio, todavia a maior parte dos edificios ogivaes
apresentam um grande numero. N'este genero ha duas no nosso paiz
bastante exquisitas, uma no angulo da cimalha da egreja de Caminha, na
capella mr, voltada para o norte da fronteira do paiz, estando a figura
humana revirada, isto , em posio dobrada, com a cabea para o lado do
telhado e a parte trazeira do corpo para fra do edificio, e  pelo anus
que sem as aguas da chuva: no castello de Pombal ha outra com a figura
de mulher na mesma attitude, saindo a agua da chuva pelo que distingue o
seu sexo. Eram de propores curtas e solidas no principio da sua
applicao; vieram a ser mais compridas e com melhores frmas desde o
final do XIII seculo.

_Nichos e doceis_. D-se o nome de _nicho_ a qualquer espao aberto,
mais ou menos profundo, feito na grossura de uma parede, pilar ou
contraforte, para n'elle se collocar uma estatua, um grupo, um vaso, ou
qualquer objecto de decorao. Os nichos apparecem poucas vezes nos
monumentos do XIII e XIV seculos; n'essa poca as estatuas, com as quaes
ornavam s vezes certas partes dos monumentos, eram postas sobre misulas
salientes, tendo doceis egualmente salientes sobre a face das paredes.

No XV seculo, o uso dos nichos vem a ser mais geral; vem-se bastantes
vezes no exterior dos monumentos, sobre as fachadas, nos contrafortes e
nos tympanos dos portaes.

Os doceis, isto , os remates salientes, mais ou menos ornamentados de
esculpturas, ficando collocados por cima da cabea das estatuas, so
muito geraes desde o final do periodo roman. No XII e no XIII seculos,
esses doceis primitivos representam quasi sempre edificios, fortalezas,
e mesmo algumas vezes cidades inteiras cercadas de muralhas. No havia
ainda n'esta poca, por cima, pinaculos ou pyramides delgadas, posto que
em certas partes do centro da Frana, as tiveram desde o meiado do XIII
seculo, sendo terminadas por _clochetons_. As frmas architectonicas dos
edificios representadas pelos doceis so muitas vezes anteriores  poca
em que foram esculpidos;  por isso que no XIII seculo apparecem n'elles
zimborios, arcos de volta inteira, etc., que todavia no se vem j nos
monumentos contemporaneos.

No XIV seculo, os doceis mudam totalmente de aspecto, cobrem-se de
arcaduras com ornamentao e com outros detalhes imitados da
architectura; teem geralmente por cima vistosos pinaculos, muitas vezes
vasados.

No XV seculo, apresentam quasi as mesmas frmas que no seculo
precedente, porm exaggeradas; sendo os doceis contornados
demasiadamente, e a sua ornamentao feita com muita delicadeza.

_Madeiramentos_. Distinguem-se, nos edificios do periodo ogival, duas
especies principaes de madeiramentos: os que no ficavam apparentes,
porque no revestiam as construces abobadadas, e os apparentes que se
empregavam nos edificios que no tivessem abobadas, sendo estes que
interessam sobretudo os archeologos.

Quando os madeiramentos ficam apparentes, isto , visiveis no interior
do edificio, apresentam sempre o aspecto de uma abobada de frma de
bero. Este bero  algumas vezes semi-cylindrico, semelhante aos que se
encontram em algumas egrejas romans; as mais das vezes, todavia, so
traados por tres centros. _Ripas_ de carvalho, ou de qualquer outra
especie de madeira, tendo as juntas sobrepostas, so pregadas sobre as
_cambotas_, circulares ou ogivaes, formadas pelas asnas e _varedo_.
Tendo pinturas por decorao, e algumas vezes as extremidades das peas
de madeira ficam visiveis, tendo esculpturas, que representam anjos com
escudos ou phylacterias, cabeas de gente, figuras de cocoras com
carranca, ou animaes phantasticos. Muitas vezes as nervuras ou as
_franquias_ ficam parallelas s nervuras das _asnas_, porm sendo mais
estreitas, esto pregadas sobre o varedo e sustentam no seu logar as
ripas. Estas nervuras so cobertas com vivas cres ou com elegantes
entrelaados.

Algumas vezes tambem so assentes sobre as ripas, as nervuras que se
encruzam do mesmo modo que os arcos diagonaes ou as ogivas das abobadas
de cantaria.

As abobadas cobertas de gesso, taes como as constroem os architectos
modernos na maior parte das novas egrejas ruraes, eram inteiramente
desconhecidas durante o periodo ogival. Quando a verba de que dispunham
no lhes permittia o estabelecer abobada de alvenaria, serviam-se do
madeiramento apparente, que se ornava to artisticamente quanto fosse
possivel. Nunca se empregavam pueris dissimulaes, fingimentos
architecturaes, onde as _ripas_ appareciam a imitar a cantaria com a
capa desprezivel de gesso ou de argamassa! No se esquecia n'esta poca,
que a verdade  a condio essencial da existencia da arte; esta deve
engrandecer o espirito, encantar a vista, e no enganal-a.

_Telhados_. No meiado do XII seculo, os telhados teem grandes
inclinaes nos edificios da Europa Central e Septentrional; emquanto
nos paizes meridionaes conservam pequena correnteza, como se praticava
nos telhados da antiguidade e no periodo roman.

Cobriam-se os madeiramentos com chumbo, cobre, ardozia e telhas. s
grandes cathedraes e aos edificios mais importantes punham chapas de
chumbo ou de cobre, por tal maneira, que podiam, sem alterar a sua
superficie, dilatar-se ou encolher-se, conforme fosse a temperatura.

_Cumieira e cimeira_. D-se o nome de _cumieira_ ao remate do espigo de
um edificio. Durante o periodo ogival este remate era de metal (quasi
sempre de chumbo), de barro cozido ou de cantaria. As _cimeiras_ so
telhas que formam uma cumieira; eram de barro de cozedura.

O maior numero dos grandes monumentos da edade mdia tinham d'antes por
remate cumieiras nos madeiramentos, egualmente recortadas, imitando
quasi sempre folhagens. Infelizmente so poucos os edificios do XIII e
XIV seculos que conservam esse ornato primitivo. De todas as cumieiras
de chumbo anteriores ao XV seculo (e eram as mais em uso n'essa poca)
no ha j vestigios: a oxydao do metal e muitas outras causas de
destruio as teem feito desapparecer.

Nos paizes onde a telha foi empregada para cobrir os edificios, como,
por exemplo, na Borgonha, as cumieiras dos madeiramentos compunham-se de
uma continuao de cimeiras de barro de cozedura, mais ou menos ornado.
Uma capa esmaltada e envernizada ao fogo tinham sempre estas cumieiras
para se tornarem menos permeaveis  humidade.

Desde o XI seculo, o emprego das cumieiras de pedra veiu a ser geral no
meio dia de Frana. Encontra-se ainda hoje n'este paiz um grande numero
de cumieiras dos periodos roman e ogival, as quaes escaparam  sua
destruio. As mais antigas apresentam enlaamentos e figuras
geometricas; as que pertencem ao XIV e XV seculos so compostas de
ornamentao com remate de folhagens, como ha na egreja de Belem.

_Torres e campanarios_. Do mesmo modo que no periodo roman os
campanarios da poca ogival so compostos de dois ou mais andares
sobrepostos. A separao dos differentes andares  indicada, no
exterior, quer por um resalto saliente, quer por uma pequena diminuio
de grossura do andar superior sobre o inferior. Estes andares no teem
j, como precedentemente, a mesma altura: so baixos ou altos, conforme
as disposies internas dos campanarios. O rez-do-cho das torres 
geralmente construido sobre plano quadrado; mas no primeiro ou no
segundo andar, e as mais das vezes smente no principio da flecha o
plano vem a ser octogono. Os espaos triangulares, que ficam livres nos
angulos do quadrado, pela passagem da frma de quadrado para octogono,
apresentam quasi sempre quatro pinaculos ou clochetes.

As frentes das torres teem aberturas nos differentes andares, janellas
estreitas ogivaes, muitas vezes geminadas, sendo raro estarem separadas
ou reunidas em tres vos.

Desde o principio do periodo ogival, os campanarios acabavam por flechas
construidas de madeira ou de cantaria, com muita elevao, tendo a frma
de uma pyramide com oito lados eguaes. J no XIII seculo, as arestas das
flechas de pedra e os pinaculos collocados na base do octogono esto por
vezes ornados, de distancia em distancia, por crochets vegetaes; no XIV
seculo, principia-se a vasar os lados das flechas fazendo-se pequenas
aberturas do feitio de flor de trevo, ou quatro folhas e com floro. No
XV seculo, essas ornamentaes so substituidas por feitios de chammas e
por outras figuras geometricas vasadas. No final do XV seculo e no
principio do seculo seguinte, construiram-se, em muita parte, os
campanarios com flechas rendilhadas.

Muitos campanarios mais importantes, de grandes propores, ficaram por
concluir desde a base da flecha projectada, e s vezes ainda mais
abaixo. Algumas vezes tambem, as flechas da primitiva construco,
depois de terem sido destruidas por uma tempestade ou incendio causado
pelo raio, foram substituidas por corpos simples ou remates hybridos,
que no teem nada de commum com as lindas pyramides da poca ogival.

No XIV e no XV seculos, muitos campanarios teem na base da flecha uma
platibanda vasada, composta de arcaduras ou com feitios chammejantes.

A maior parte das egrejas ogivaes de segunda e terceira ordem tinham
campanarios de uma extraordinaria simplicidade, cujo effeito  agradavel
e mesmo admiravel, se reflectirmos na pouca resistencia dos meios
empregados para a execuo. Estes campanarios, sem nenhum ornato,
compunham-se de dois andares quadrados, dos quaes o superior s tinha as
quatro frentes com janellas geminadas ou com tres aberturas, servindo
para sair o som do sino. Uma flecha octogona limita a sua extremidade.

Os constructores da edade mdia comprehendiam que, sobretudo nos
edificios de menor importancia, as combinaes geraes mais simples eram
as unicas mais acertadas para produzirem um aspecto monumental.

Em Flandres maritima tem-se conservado at ao presente um grande numero
de campanarios ogivaes de segunda e terceira ordem, dignos de chamar a
atteno dos archeologos e dos architectos; encontram-se alguns muito
bellos at nas modestas freguezias do campo. Estes campanarios,
construidos com tijolos, como todas as outras partes dos edificios
d'este paiz, so geralmente terminados por uma flecha octogona tambem de
tijolos, muitas vezes tendo quatro pinaculos nos angulos da sua base; as
arestas da flecha e dos pinaculos so quasi sempre decoradas de crochets
egualmente com tijolos. As platibandas que ligam entre si os pinaculos
so cheias, pouco altas e ornadas com arcaduras fingidas. Uma outra
particularidade que apresentam alguns campanarios de Flandres maritima,
 inclinarem-se um pouco para o lado oeste, que se suppe ser um facto
intencional do architecto para fazer resistir melhor contra os ventos
d'este quadrante que sopram com extrema violencia  beira mar.

Muitas egrejas monasticas, e algumas vezes tambem as parochiaes, teem um
campanario collocado quer na extremidade da capella mr, quer em um dos
dois angulos formados pela interseco da capella mr e o cruzeiro. Esta
disposio  bastante geral nas egrejas ruraes na Baviera e na Austria.
As abbadias preferiam esta collocao afim de que os frades incumbidos
de darem signal pelos sinos para as ceremonias religiosas no fossem
obrigados a afastar-se da egreja.

Os constructores romans construam muitas vezes um campanario no logar
da interseco da nave e do cruzeiro. Na Inglaterra e na Normandia,
estes campanarios centraes conservam-se durante o periodo ogival; por
toda parte, fra d'isso, so raros desde o XIII seculo, e muitas vezes
foram substituidos por simples campanariosinhos de madeira. Na Belgica,
encontram-se por vezes campanarios centraes de cantaria, porm de
resumida dimenso, nos edificios do periodo de transio.

As _escadas dos campanarios_ e tambem as que servem em outras partes dos
monumentos para subirem aos madeiramentos, so geralmente de caracol com
centro cylindrico ou octogono. Estas caixas das escadas, collocadas no
exterior do edificio nos angulos formados pela saliencia dos
contrafortes, nunca so dissimuladas, mas visiveis, facilitando as
seteiras que esto abertas darem luz  escada.

Durante o periodo ogival, collocavam quasi sempre _cruzes de ferro
batido_ no cimo das flechas dos campanarios, na extremidade do espigo
do cro por cima da abside, e algumas vezes tambem sobre os espiges do
cruzeiro. Estas cruzes distinguem-se geralmente por uma composio de
bastante trabalho. As cruzes dos campanarios so quasi sempre encimadas
por um gallo servindo de catavento. Primitivamente este adorno
encontrava-se sobre as torres das egrejas parochiaes ou dos capitulos
apenas. O gallo collocado no cimo da egreja symbolisa a imagem dos
prgadores; pois o gallo vela durante a noite escura e assignala as
horas pelo seu canto, faz despertar aquelles que dormem, e annuncia a
aurora que se approxima; mas antes d'isso, elle se excita a si mesmo a
cantar, dando s azas.

_Pavimentos_. Os pavimentos romans eram compostos com mosaicos. Nos
paizes meridionaes esses mosaicos foram formados de marmores
differentes. Tanto em Frana como na Belgica, Allemanha, Inglaterra e
Portugal, eram compostos de ladrilhos esmaltados ou de lagedo gravado e
com embutido egualmente de cres diversas. Os ladrilhos e os lagedos
gravados continuaram a ser empregados nos pavimentos dos edificios
ogivaes na Europa Occidental e Septentrional.

Esses pavimentos eram ora de uma grande simplicidade, ora esplendidos.
Poucas vezes o cho todo das egrejas estava coberto por bellos mosaicos;
em geral, no se adoptou este genero de decorao seno para a capella
mr e para as capellas do corpo da egreja, porque nas naves, onde todas
as pessoas so admittidas indistinctamente, o roar do calado em pouco
tempo teria destruido o verniz do ladrilho ou o lagedo com gravuras.

Como j explicmos, o amarello e o verde-escuro so as cres preferidas
no final do periodo roman, nos pavimentos de ladrilho do Norte e Oeste
da Europa. No XIII seculo, substituiu-se muitas vezes a cr
verde-escura, o encarnado e o avermelhado escuro, empregando-se o
amarello para os embutidos. As cres carregadas e escuras deixaram de
ser usadas nos pavimentos.

Os ladrilhos esmaltados so geralmente de pequenas dimenses, como havia
no cruzeiro da egreja monumental do convento de Alcobaa, cujos
ladrilhos esto agora _escondidos por baixo de simples lagedo_, na
profundidade de _0^{m},34 centimetros_!

Quando os desenhos dos ladrilhos ficam completos sobre um s ladrilho,
ou se completam em quatro e mesmo em maior numero de ladrilhos reunidos,
formam regularmente figuras geometricas, brazes, flores, animaes
existentes ou phantasticos. Circulos, flores de liz, veados, aguias com
duas cabeas,  o que mais frequentemente se v.

No XIII e no XIV seculos, figuras de homens em p foram algumas vezes
representadas pela reunio de um certo numero de ladrilhos pintados.
Estas effigies de personagens eram muitas vezes acompanhadas de
letreiros, empregados nas campas de cantaria.

Durante o XIV e o XV seculos, os desenhos dos ladrilhos conservam quasi
o mesmo caracter precedente, mas so menos vistosos e no teem o vigor
das cres e o desenvolvimento que apresentavam os do XIII seculo. No XIV
seculo, as ornamentaes so muitas vezes substituidas por firmas,
letras, inscripes, escudos, e mesmo pequenas vistas. Pelo mesmo tempo
apparecem os tons verdes e azues-claros.

Nos edificios de segunda e terceira ordem, e tambem em algumas egrejas
abbaciaes, principalmente da Ordem de Cister, fazia-se uso, durante o
periodo ogival, de pavimentos compostos de ladrilhos de differentes
cres, sem nenhum ornato.

Em alguns sitios fabricavam-se tambem ladrilhos sem ser esmaltados,
apresentando figuras em relevo. Estes ladrilhos so muito raros, porque
no se podiam fazer seno com barro muito rijo, para que os relevos no
ficassem em pouco tempo gastos.

_Lages gravadas e com embutidos_. Desde o XII seculo, empregaram-se
algumas vezes, para cobrir o cho das egrejas, lages de pedra e de
marmore gravadas e com embutidos. Os desenhos dos ornatos eram indicados
em parte pelos espaos conservados da propria lage, ou por um betume
colorido que enchia as cavidades deixadas pela gravura. As lages d'este
genero no foram muito communs, e um limitado numero escapou da sua
destruio! Um dos mais bellos e mais completos  o que ornava a capella
mr da cathedral de _Saint-Omer_ (Frana), e do qual bastantes
fragmentos se tem conservado at ao presente. Os fundos dos arabescos
so de cr castanho-escuro, assim como a inscripo; os traos do
contorno das personagens e do cavallo so a encarnado, assim como est
representado em gravura o nobre cavalheiro, no meio d'essa composio,
que  do meiado do XIII seculo.

_Labyrinthos_. Na antiguidade pag designavam-se com o nome de
_labyrinthos_, as galerias subterraneas ou os edificios construidos em
cima do solo, com ramificaes em grande numero e complicadas. Todos
sabem da existencia do labyrintho de Creta, onde, conforme a mythologia,
o Minotauro foi morto por Theseo. Durante a edade mdia o nome de
labyrintho foi dado a uma disposio particular que se v no pavimento
de algumas egrejas dos periodos Latino, Roman e Ogival. A disposio,
diviso e cr das lages, formam, pelas suas combinaes, linhas sinuosas
com bastantes voltas, todas para um ponto central. Os Romanos e os
Gregos representavam j, por vezes, labyrinthos nos pavimentos em
mosaico ou sobre as paredes de seus templos e de suas habitaes. Os
labyrinthos que existem desde os primeiros seculos nas egrejas christs,
por exemplo, na de S. Joo Vidal de Ravana (Italia), que  do VI seculo,
acharam, sem nenhuma duvida, a sua origem nos labyrinthos dos edificios
pagos. A presena da figura de Theseo combatendo o Minotauro, que se v
no centro dos labyrinthos de alguns monumentos christos, como em Pavia
e em Luca, do uma prova evidente d'esta affirmao. Os christos
introduzindo os labyrinthos nas egrejas, deram-lhes uma significao
symbolica. Seria comtudo difficil, por no dizer impossivel, determinar
de uma maneira irrefutavel o symbolismo dos labyrinthos nas antigas
egrejas christs.

Na edade mdia, parece ter-se reputado os labyrinthos como emblema da
viagem  terra Santa, ou, segundo outras opinies, o transito doloroso
de Jesus Christo desde a casa de Pilatos at ao Calvario. Indulgencias
eram concedidas s pessoas que os percorressem de joelhos, recitando as
oraes prescriptas. Os labyrinthos n'esta epoca eram tambem designados
com o nome de _dedalo_, _meandro_, _caminhos de Jerusalem_.

A frma dos labyrinthos no  sempre a mesma, O de _Chartres_ 
circular; o de _Saint-Quentin_, octogono; taes eram tambem os de
_Arrhas_, _Amiens_ e _Reims_. Na egreja de _Saint-Bertin_ em
_Saint-Omer_, tinha a frma quadrada. Muitas vezes havia, ao centro e
aos angulos do labyrintho, pedras com inscripo lembrando algum facto
relativo  construco do edificio. Em _Amiens_, por exemplo, a pedra
central representava os architectos da egreja e o bispo _vrard_, seu
fundador, com os nomes dos personagens e a poca da construco,
gravados sobre laminas de cobre embebidas na parede.

_Pinturas das paredes_. J descrevemos os caracteres da pintura mural na
poca roman. Esses caracteres e o systema do colorido modificam-se de
uma maneira evidente seguindo o desenvolvimento da architectura ogival.

Se o leitor tiver presente na memoria o que fizemos notar a respeito do
estylo ogival, da sua decorao esculpida e do seu systema de
construco, comprehender facilmente que uma modificao notavel
motivou tambem o colorido da decorao. Com effeito, nas construces
ogivaes os membros das paredes desapparecem, por assim dizer, e cedem o
espao para aberturas de janellas; os membros da architectura
multiplicam-se e apresentam-se com grande evidencia; a vista examina sem
custo a sua frma e os seus fins, desde a base da columna at ao fecho
da abobada que reune as nervuras da abobada. Alm d'isso, as superficies
das paredes, que no foi possivel supprimir, ficavam com esses espaos
divididos. Como acontece nas paredes divisorias sobre os peitors das
janellas inferiores, as paredes so todas cheias de series de arcaduras
estreitas, muitas vezes cheias parcialmente de esculpturas. Finalmente a
multiplicidade dos detalhes e a vista de ornamentaes esculpidas,
diminuindo a escala dos elementos embellezadores para augmentar o espao
de unio, modificaram a seu modo as condies da pintura, dando-lhe
caracteres novos.

O augmento extraordinario dos vos das janellas e o aspecto grandioso
que lhes deram nos edificios motivou que nas vidraas pintadas eram
quasi todas as preoccupaes do constructor do periodo ogival. Era ali,
em certo modo, que devia apparecer o effeito da decorao. Os progressos
da arte da pintura sobre o vidro corresponderam ento s exigencias que
esta arte tinha a satisfazer, e a palheta abundante, vigorosa e variada
do pintor vidraceiro impz  colorao adoptada pelo pintor ornatista
uma harmonia e combinaes novas. Por outras palavras, a pintura
historica e legendaria, no tendo mais do que um espao limitado e
parcimonioso medido sobre a superficie das paredes foi servir-se das
vidraas para os seus trabalhos, e por este motivo as figuras mostram,
onde apparecem, ainda umas propores acanhadissimas. A intensidade da
colorao das vidraas pede, pela logica dos preceitos da harmonia,
maior energia na pintura ornamental das paredes. Todavia, no foi essa a
unica consequencia do emprego das vidraas excessivamente coloridas: a
luz no entrando j no interior da massa vitrea a qual atravessava como
peneirada atravez d'um tecido multicolor, dava  pintura mural um
aspecto differente d'aquelle que teria a luz natural do dia; havia pois
a attender simultaneamente ao reflexo das cres translucidas com as da
pintura mural que se devia harmonisar com a luz colorida e sombria que
as vidraas pintadas projectam sobre as paredes e partes architecturaes.
D'aqui veiu o emprego, principalmente no XIII seculo, de cres vivas sem
ficarem separadas: encarnado, purpura, verde, azul carregado, realado,
s vezes, por tons claros e ouro com bastante profuso quando os meios o
permittiam. D'aqui ainda uma outra grande diviso dos elementos
decorativos e desenho dos detalhes.

No  pois para estranhar que as _pinturas historicas e legendarias_
tivessem tido muita voga durante o periodo roman, vindo a ser bastante
raras nos edificios do estylo ogival. As arcaduras decorativas debaixo
dos peitors das janellas inferiores, so muitas vezes as unicas
superficies convenientes para terem pinturas com assumptos, e mesmo esse
espao  muito limitado e regularmente dividido em pequenos
compartimentos por columnadas ou nervuras, sobre as quaes assentam as
archivoltas das arcaduras. As pinturas das arcaduras decorativas
representam muitas vezes personagens isolados.

A influencia das tradies byzantinas sobre a arte occidental 
manifesta durante todo o tempo do periodo roman. Todavia, se desde o XII
seculo se observa no _desenho_ uma tendencia a abandonar os typos
byzantinos, no foi seno nos seculos seguintes que o caracter das
pinturas mudou completamente no Occidente. Nas figuras das pinturas
muraes, como nas outras que ornam as miniaturas dos manuscriptos, se
observa uma transformao cada vez mais visivel no que respeita ao
estylo do desenho. Este se desprende insensivelmente das formas
tradicionaes afim de adquirir maior liberdade. As attitudes veem a ser
mais variadas, o gesto mais natural, o caracter das cabeas mais
individual, a expresso dos rostos mais viva ou mais serena conforme as
situaes. Uma tendencia ao naturalismo principia a apparecer desde o
comeo do XIII seculo, e torna-se mais notavel nos seculos seguintes.

Na _colorisao_ succederam, tanto como no desenho, transformaes
successivas durante o periodo ogival. Nas pinturas muraes do periodo
roman, os tons claros so frequentes, e seu aspecto  geralmente suave.

No XIII seculo, a colorisao teve, na _pintura decorativa_, as mesmas
transformaes que na pintura historica e legendaria. Nos edificios
romans, em que as janellas eram relativamente pequenas e envidraadas as
mais das vezes com vidros brancos ou muito claros, a luz diffusa e pouco
dilatada dos fundos podia-se usar para a pintura decorativa, de tons
brilhantes e brandos ao mesmo tempo; porm, quando, no XIII seculo, os
vos das janellas se alargaram e tiveram vidraas extremamente
coloridas, esses tons suaves ficaram inteiramente sumidos pela
intensidade da colorisao das novas vidraas. O azul e o encarnado,
entrando com maior emprego na composio das vidraas pintadas, davam um
aspecto turvo aos tons claros e terreos s pinturas: os verdes, por
exemplo, ficavam pardos e baos; os brancos, e em geral todos os tons
claros, ficavam estriados. Com os vidros coloridos, foi preciso
necessariamente mudar a gamma de colorisao das pinturas muraes,
fazendo uso de tons brilhantes e fortes. Alm d'isso, os tons, para
terem toda a sua apparencia, devem ser acompanhados e contornados com
traos pretos.  assim que se veem n'esta epocha as nervuras, os fechos
das abobadas, e muitas vezes mesmo os tympanos das abobadas pintados com
vivas cres. O uso de destacar o vertice das nervuras das abobadas
servindo-se de cres vivas e com desenho chaveiroado continuou durante
todo o tempo do periodo ogival.

No XIV seculo e durante a primeira metade do XV seculo, as pinturas de
decorao por baixo dos peitors das janellas inferiores, muitas vezes
representavam pannos de armaes. No XV seculo, viam-se bastantes vezes
sobre as paredes das capellas dedicadas a um santo, os attributos
caracteristicos d'esse santo, dispostos symetricamente sobre um fundo
colorido. Descobriram-se, ha pouco tempo, pinturas d'este genero n'uma
egreja de Bruxellas.

Motivos de economia e, nas egrejas dos monges de Cister, prescripes da
regra monastica fizeram que por vezes tambem se empregasse um modo de
pintura de decorao muito simples, consistindo na imitao das pedras
de construco: traavam-se sobre fundo mais ou menos claro traos de
cres differentes, pardos, encarnados ou amarellos, sobrepostos,
representando as juntas dos apparelhos, e algumas vezes com
ornamentao.

Da mesma maneira que a pintura historica e legendaria, a pintura de
decorao da idade media no se servia da perspectiva; nem conservava
nos monumentos as paredes lisas e opacas, no procurando affastal-as,
por assim dizer, do espectador pela illuso da perspectiva linear e
aerea. So principalmente as pinturas representando as formas
architectonicas, por exemplo as arcaduras e columnas, que mostram no
ter o artista nenhuma inteno de disfarar a ornamentao em relevo; o
que elle pretende  smente um effeito de decorao, no pensa por
nenhum modo em produzir exactamente as dimenses relativas, o modelo,
apparencia real com relevos, molduras, columnas, capiteis; contenta-se
de apresentar essas formas para servirem a dar mais attractivo aos
monumentos.

Muito poucos monumentos do periodo ogival tem conservado as suas
pinturas bastante completas para se poder formar uma ida cabal do
systema empregado e do resultado obtido. A mais notavel de todas pela
esplendida decorao, e alm d'isso pela sua restaurao to habil
quanto perfeita,  a da Capella Santa de Paris.

A estatuaria e a esculptura ornamental seguem o systema geral da
decorao pictorica; tanto assim, que muitas estatuas e baixos relevos
tem conservado at ao presente bastantes vestigios de dourados e
polychromia, concorrendo para se harmonisarem com as vidraas pintadas e
as pinturas a fresco das paredes.

A decadencia da pintura monumental, decorao historica e legendaria,
data da ultima metade do XV seculo; vindo a ser completa desde o
principio do seculo seguinte. As pinturas das abobadas das egrejas no
vo alm do XVI seculo.

_Cruz de consagrao_. O Pontifical romano prescreve que, para a
dedicao de uma egreja, doze cruzes sero pintadas ou esculpidas sobre
as columnas ou paredes internas do edificio. Estas cruzes, que o Prelado
consagrante unge com os Santos oleos, devem ficar apparentes. Desde o
periodo roman, estabeleceu-se o uso de ornar essas cruzes, que
geralmente eram pintadas. As cruzes de consagrao datam do periodo
roman e vieram a ser bastante raras; conservam-se muito singulares no
oratorio carlovingiano de Nimgue. Encontraram-se em grande numero da
epocha ogival debaixo de grossas _camadas de cal_ na parte interna das
egrejas antigas, que ficaram escondidas na occasio do renascimento.
Todas so executadas com grande esmero e esplendidamente coloridas.

Acontece s vezes que as doze cruzes de consagrao do XIII e XIV
seculos so sustentadas pelas figuras dos Apostolos pintados ou em
esculptura.


*Altares, tabernaculos, piscinas, cadeiras do cro, bancos para os
celebrantes, tribunas e separaes da capella-mr*


_Altares_. Como j explicmos, o altar verdadeiramente designado  uma
mesa de pedra sobre a qual o padre diz a missa. Sem esta mesa o altar
no existe; ella e s ella, forma, todo o altar. Esta mesa  de pedra,
porque o altar  a imagem e o symbolo de Jesus Christo em pessoa.
Portanto, durante os oito primeiros seculos da nossa era, a egreja quiz,
pela venerao por este famoso symbolismo, que o altar ficasse
inteiramente independente; prohibiu severamente que n'elle se pozesse o
mais simples objecto, salvo o livro dos Evangelhos, a custodia
eucharistica com as divinas hostias. No correr do IX, o Papa Leo IV
permittiu que se collocassem reliquarios contendo reliquias de santos.
Quando o altar  formado de um corpo macisso cubico, o que tinha logar
muitas vezes durante o periodo Latino e Roman, os seus lados eram
cobertos com laminas de ouro, prata e de cobre dourado e esmaltado, ou
ornados de esculpturas e de pinturas, ou ainda revestidos de estofos
preciosos.

Algumas vezes, principalmente nas grandes egrejas, o altar estava
collocado debaixo de um baldaquino sustentado por quatro columnas, entre
as quaes se suspendia, sobre vares, pannos cortinas, que se corriam
durante certas partes da missa afim de occultar os sacerdotes da vista
dos fieis. No final do XI seculo, introduziu-se tambem o uso dos
_retabulos_.

Devemos notar, que todos estes accessorios eram ideiados e dispostos de
maneira a no obstar por nenhum modo ao symbolismo sublime do altar.

Explicaremos successivamente, o _altar_ com _a sua verdadeira frma_, os
_frontaes_ dos altares, _baldaquino_, os _cortinados_ e os _retabulos_
do periodo ogival.

_O altar assim designado_. Como os do periodo roman, os altares da epoca
ogival compunham-se as mais das vezes de um simples macisso de
alvenaria, apresentando regularmente uma especie de ornamentao pintada
ou esculpida. Estes macissos estavam rodeados de tapearias cujas cres
mudavam nos diversos dias de festa. Algumas vezes, porm poucas, se
decoravam os lados ns d'estes altares com arcaduras fingidas, cujos
arcos assentavam sobre columnasinhas ou pilares embebidos na parede; as
arcaduras tinham pinturas historiadas e decorativas, ou estatuas e
baixos relevos.

Nos altares cheios ou macissos, decorados de arcaduras, estas eram
formadas no XIII e no XIV seculos por ogivas equilateraes ou arcos
traados por tres centros; no XV seculo por ogivas inflexas ou postas a
pr, e no XVI por arcos abatidos ou de volta inteira.

Na idade media os altares eram sempre de pedra, nunca de madeira.
Consagravam-se ao mesmo tempo que a egreja ou a capella: no havia ento
as _pedras aras_, bentas, que se podiam assentar depois na meza de um
altar sem estar benzido, e como presentemente se usa muitas vezes.

O altar mr das egrejas cathedraes, conservou durante quasi todo o
periodo ogival, uma frma simples e positivamente symbolica. Em geral ou
era sem retabulo, ou ficava-lhe por cima um retabulo de pouca altura.
Tinha um crucifixo, o livro dos Evangelhos, dois castiaes, e s vezes
um tabernaculo para a conservao da Eucharistia. Outra maneira de
reservar o Santissimo Sacramento usada em certos paizes pelo menos desde
o XIII seculo, foi aquella cuja recordao se conservou n'um curioso
quadro do XIII seculo, representando o altar mr da antiga cathedral
d'Arras com todos os seus accessorios. Uma hastea quadrada, collocada
por detraz do altar, que se eleva em dois andares, a uma grande altura,
tem por remate um pinaculo sobre o qual ha um crucifixo. Em meia altura
da hastea ha um bello baculo ficando a sua voluta suspensa no meio de
uma corrente, e a custodia eucharistica  formada com o feitio de
torrinha.

Nas egrejas, cathedraes e abbadias, havia, como em muitas egrejas
romans, um altar para reliquias, ao fundo da capella mr, por detraz do
altar proximo do abside oriental da egreja.

Os grandes reliquarios costumavam a ficar expostos detraz do altar, de
modo a deixar passar as pessoas por baixo; s vezes tinham um docel.

_Frontaes_. So cortinados de seda que cobrem tambem os lados verticaes
de um altar, e algumas vezes o retabulo; como se usa ainda hoje em
muitos paizes. Designam-se vulgarmente com o nome de _antependium_. Na
idade media quasi todos os altares tinham frontaes. Esses frontaes eram
cobertos com fazenda de custo; algumas vezes apresentavam laminas de
ouro, prata e cobre dourado e esmaltado, ou almofadas de madeira
cobertas de pinturas.

Os frontaes metallicos, assaz communs durante os periodos Latino e
Roman, vieram a ser mais raros a comear do final do XII seculo, e pouco
a pouco o seu uso foi completamente abandonado. Durante a epocha ogival,
os frontaes com estofo fram, por assim dizer, os unicos empregados. A
sua cr condizia com as vestimentas lithurgicas e mudava, por
conseguinte, conforme os dias festivos. Havia de linho, seda e mesmo de
veludo; os mais sumptuosos eram todos bordados e ornados de pedras
preciosas. Representavam figuras de Santos e assumptos historicos e
legendarios.

_Baldaquino_. O uso do baldaquino cobrindo o altar em signal de
venerao, foi bastante geral at ao XII seculo; mas ficou quasi
abandonado na Belgica e Frana durante o periodo ogival; na Europa
Occidental e Septentrional no se serviram mais do baldaquino n'esta
epocha, como summidade dos reliquarios.

Na Italia, em Roma, n'este paiz onde o estylo ogival nunca teve
principio, v-se ainda um grande numero de baldaquinos da epocha ogival.
Os mais notaveis so os de S. Paulo fra dos muros, os de S. Joo, de
Santa Maria no Trastever, Santa Maria em Cosmedin e de Santa Cecilia.

Na Frana e na Belgica suppriam algumas vezes a falta do baldaquino,
suspendendo por cima do altar um docel esculpido ou forrado com estofo
de custo.

O baldaquino parece-nos apresentar a maneira mais adequada para inspirar
aos fieis o respeito e a venerao devida ao altar, symbolo do Salvador.
Muito melhor que todos os outros accessorios, sem exceptuar o retabulo,
preenchia este fim resguardando o altar, sem todavia se confundir com
elle, e conservando-lhe assim toda a sua significao symbolica. O
retabulo, pelo contrario, liga de certo modo o altar fazendo parte
d'elle, desvia a atteno das pessoas para o accessorio com grande perda
do objecto principal, que  o altar apropriadamente assim chamado.

_Cortinas_. Chamam-se cortinas a armao suspensa nos dois lados do
altar, e por detraz do retabulo quando fr pouco alto. Essas cortinas,
da mesma maneira que os frontaes, eram geralmente muito simples; algumas
vezes, todavia, representavam figuras, quer no tecido, quer nos
bordados, ornamentao, figuras e objectos religiosos.

Ficavam estas cortinas prezas por vares apoiados muitas vezes em quatro
ou seis columnasinhas de cobre ou de madeira, encimadas de figuras de
anjos, tendo na mo luzes ou differentes instrumentos da paixo. A cr
das cortinas mudava conforme os dias de festa e as differentes occasies
do anno lithurgico.

Alm das cortinas do altar, serviam-se tambem, durante a idade media, de
duas outras especies de armao lithurgica. Eram: 1.^o a grande cortina
que se suspendia durante a quaresma na entrada da capella-mr ou do
presbyterio, e que se designava _o vo do templo_; 2.^o os vos que
serviam na mesma occasio nos crucifixos, retabulos e imagens, eram
designados pelo nome _vos de quaresma_.

_Retabulos_. Como j indicmos, o uso dos retabulos foi introduzido no
final do XI seculo. No comeo collocavam-os sobre os altares das
reliquias e os altares de segunda classe; ficavam encostados  tribuna
ou postos no cruzeiro e nas capellas ornando a capella-mr. Nas egrejas
matrizes, collegiaes e monasticas de primeira ordem, o altar-mr ficava
quasi sempre sem ter retabulo, pelo menos durante todo o seculo XIII. Em
Frana, Belgica, Allemanha, Inglaterra e nos outros paizes
septentrionaes da Europa, adoptou-se no XIV seculo, depois que a cadeira
do bispo ou do abbade e as cadeiras do cro dos conegos ou dos frades,
que at ento ficavam por detraz do altar-mr ao correr da parede do
hemicyclo obsial, foram mudados, para diante do sanctuario sobre os dois
lados do cro, isto , para o logar onde se v presentemente nas egrejas
do Norte.

Durante o periodo ogival serviram-se de diversa qualidade de materiaes
para os retabulos. O mais antigo era o metal; como n'aquelles do periodo
roman a cantaria (excepcionalmente a madeira), substituiu o metal. Desde
a ultima metade do XIII seculo, os retabulos de cantaria parece terem
sido preferidos. No meiado do seculo seguinte, os retabulos de madeira
com obra de talha foram mais adoptados, e no XV seculo, substituiram
quasi completamenle os retabulos de cantaria. Principiaram, todavia, j
n'essa epocha, a introduzir as almofadas pintadas, em frma de
_trypticos_, que, no meiado do XVI seculo supplantaram, para assim
dizer, totalmente, os retabulos com obra de talha.

As portas que os retabulos haviam tido muitas vezes desde o XIV seculo,
tiveram no principio ornamentao de esculptura na face interior, e
pinturas na exterior. Porm o peso das portas com ornatos compostos de
estatuas ou baixo-relevos tornavam esse appendice muito difficil, e
mesmo por vezes como perigoso, quando era preciso abrir ou fechar o
retabulo; preferiram pois d'ali a pouco as pinturas para decorao
d'essas duas frentes das portas.

Os retabulos no apresentavam a mesma _frma_ durante todo o periodo
ogival. Quasi sempre com pouca altura no comeo, tendo tambem pouca
grossura. Os mais antigos eram muitas vezes rectangulares: algumas vezes
comtudo a sua parte central tinha mais altura. Esta ultima frma,
principiaram-n'a a usar no meiado do XIII seculo; conservou-se em alguns
paizes, at o meiado do XV seculo.

O uso dos retabulos de madeira com obra de talha introduziu-se pouco a
pouco no XIV seculo, principalmente na Belgica. Desde o principio,
tiveram muitas vezes portas. Esta circumstancia lhe fez dar, como aos
retabulos pintados tendo portas, o nome de _tryptycos_ ou _polyptycos_,
conforme tinham tres ou maior numero d'esses appendices.

Na Belgica, Frana, Inglaterra no XV seculo, e na Europa central e
meridional j durante o seculo precedente, os retabulos perderam a bella
e elegante simplicidade que os distinguiam antes. Os seus contornos e
subdivises se complicam cada vez mais,  proporo que se aproximam do
final do periodo ogival. Tinham por remate, no XIII seculo e no XIV
seculo, linhas horisontaes e sem nenhum adorno no cimo; os caixilhos dos
retabulos do XV seculo passam depois por transies com mistura de
linhas rectas e curvas para chegar por fim s ogivas de requebro, arcos
unidos de volta abatida e volta de sarapanel com curvas de todo o genero
que ornavam muitas vezes no XVI seculo de crochetes e flores; chegando
mesmo a rematar o retabulo com torrinhas e pinaculos, estatuas e
enlaamentos do feitio de firmas.

Devemos todavia notar que as formas dos moldurados do XIII e XIV seculo
se encontram ainda no XV e mesmo no XVI seculo, principalmente nos
triptycos pintados. Os moldurados d'este ultimo seculo apresentam sempre
maior simplicidade que os dos retabulos com obra de talha.

_Os assumptos representados sobre os retabulos_, eram tirados da
historia do antigo e novo testamento ou das lendas dos santos. No XII
seculo e no XIII, ornavam-se os retabulos quer de baixos relevos, quer
de estatuasinhas collocadas em arcaduras; um medalho central de forma
quadrilobada ou de aureola se via as mais das vezes no centro do
retabulo, tendo a imagem de Jesus Christo na cruz ou assentado sobre o
arco-iris. No XV seculo, as arcaduras no apparecem seno poucas vezes;
quasi sempre, n'esta epoca, o retabulo esta dividido em muitas series
verticaes e horizontaes com as divises cheias de baixos relevos
sobrepostos uns aos outros. A representao da cruxificao com a Virgem
Nossa Senhora e S. Jos, com os dois ladres e grupos de personagens,
occupa bastantes vezes o compartimento central, commummente mais alto e
por vezes tambem mais largo que os compartimentos inferiores.

Os retabulos estavam cobertos, em certas occasies, por frontaes
similhantes aos dos altares. Muitos _retabulos pintados_ do periodo
ogival se tem conservado at ao presente. Arrancados quasi todos ao
logar que occupavam primitivamente detraz dos altares, apparecem agora
como paineis nos museus de pinturas ou esto dependurados nas paredes
internas das egrejas.

As obras primas dos pintores do XIV, do XV e do principio do XVI seculo,
no so como os antigos retabulos em forma de triptyco.

_Os retabulos esculpidos_ foram usados simultaneamente com os retabulos
pintados. Os que se fizeram na Belgica durante o XV seculo e os
primeiros annos do XVI seculo compunham-se quasi sempre de um certo
numero de grupos com mais ou menos alto relevo, em caixilhos ou
collocados debaixo de docel delicadamente recortado; os dos outros
paizes, pelo contrario, e particularmente os da Europa Oriental,
compem-se de estatuas perfiladas no compartimento central, e muitas
vezes tambem sobre as portas. Ainda que entre os retabulos belgas do
ultimo seculo do periodo ogival apparecem alguns de execuo grosseira e
sem nenhum merito, quasi todos, todavia apresentam bastante apreo
artistico e testemunham o estado florescente da esculptura n'esse
periodo.

Os retabulos de madeira com talha eram muitas vezes dourados e pintados
de cres. Convm advertir que as letras que, n'esses retabulos, se veem
frequentemente sobre os bordados das vestimentas dos personagens, no
apresentam commummente nenhuma significao, tendo sido ahi collocadas
unicamente com o fim decorativo.

No final do periodo ogival, o retabulo firma-se quasi sempre sobre um
sco de 20 a 30 centimetros de altura, e por este modo se liga ao altar.

Esta base se designa _predella_, nome que se d egualmente aos
degrausinhos para os castiaes do throno dos altares modernos. O lado
superior, que corresponde  base do retabulo,  muitas vezes mais
comprido que o lado interior; n'este caso a differena de tamanho 
disfarada por um arco de circulo saliente.

A _predella_ (banqueta)  muitas vezes ornada do busto do Redemptor e
dos doze apostolos.

Das observaes precedentes resulta que, no obstante as dimenses por
vezes exageradas, o retabulo parte inteiramente accessoria, conservou
at aos fins do periodo ogival, o seu caracter essencial. A maior parte
dos artistas modernos que se encarregam de compor os altares no estylo
ogival no se preoccupam de forma alguma com o primitivo destino do
retabulo, a que do impropriamente o nome de altar. Desconhecendo a
verdadeira significao do retabulo, substituem-lhe tablados ridiculos,
muitas vezes de _madeira_, com cr de _pedra!!!_ compostos de socos,
arcaduras e pinaculos, onde os symbolos religiosos, as imagens, e os
baixos relevos so inteiramente supprimidos ou esto mesquinhamente
representados. Muitas vezes estes symbolos, estas imagens, e estes
assumptos so executados apesar das regras da iconographia christ,
regras das quaes os architectos, esculptores e pintores _no teem
geralmente o incommodo de adquirir as noes as mais elementares_! 
tambem para lastimar, que nas restauraes das antigas egrejas, no
encarreguem os retabulos _triptycos_ ao talento dos pintores que se
occupam de trabalhos religiosos.

_Sacrarios_. Durante quasi todo o periodo ogival no se reservava,
depois da celebrao da missa, seno a quantidade de hostias consagradas
e necessarias para levar o viatico aos enfermos em perigo de vida, e
para expor o Santissimo Sacramento  venerao dos fieis.

Quando as pessoas que assistiam aos officios divinos queriam commungar,
approximavam-se da mesa da communho durante a missa, e recebiam _uma
parte das sacramentaes_ que o padre acabava de consagrar. No se deve,
pois, estranhar que os vasos sagrados destinados  venerao da Santa
Eucharistia e o logar onde os depositavam tivessem pequenas dimenses
durante o XIII e o XIV seculos.

Conservavam a Santa Eucharistia de muitas maneiras:

1.^o Nas egrejas dos paizes meridionaes, onde a pyxide se manteve em uso
durante o periodo ogival, continuaram a ficar suspensos, como se fazia
precedentemente, o calix e a pyxide com as hostias.

2.^o Em Frana e na Belgica e nos paizes septentrionaes da Europa
serviram-se muitas vezes durante o XIII e o XIV seculos, da maneira
indicada na pag. 272. As hostias encerradas em uma pyxide ou dentro de
uma pomba dourada e esmaltada, ficavam collocadas n'uma pequena torre ou
pequena tenda (_tabernaculum_) em estofos custozos, que se suspendiam,
por cima do altar, n'um baculo de bronze ou de prata.

3.^o Algumas vezes conservam-se as hostias em cofres de forma de arca,
relicario ou torre. Estes cofres eram transportados e depositados no
sacrario, ou sacristia, ora collocados de vez sobre o altar.

4.^o No maior numero de casos, principalmente nas egrejas de segunda e
terceira ordem, a Santa Eucharistia ficava em armarios construidos
detraz ou ao lado do altar. O uso de collocar as hostias nos
tabernaculos em forma de armario, parece ter sido muito geral na
Belgica, pelo menos depois do XIV seculo.

5.^o No XIV e XV seculos, construiram tambem, para a reserva
Eucharistica, tabernaculos de frma de torre, inteiramente isolados e ao
lado do Evangelho. Os tabernaculos d'este genero vieram a ser communs na
Belgica e na Allemanha desde o XV seculo. Encontram-se muitos n'este
ultimo paiz que so do XIV seculo.

O maior numero dos tabernaculos com a frma de torre so de pedra;
encontram-se no obstante, mas excepcionalmente, de madeira ou mesmo de
metal.

Do lado da Epistola, defronte do tabernaculo, se faz muitas vezes na
parede um armario imitando a frma de tabernaculo, porm mais pequeno e
muito menos ornado.

Os armarios feitos na grossura da parede tinham a frente para o altar
sendo destinados a guardar as alfayas e vestuario dos ecclesiasticos que
deviam celebrar a missa; encontram-se algumas vezes, nas capellas que
guarnecem os lados da capella-mr ou da nave.

_Piscinas_. O uso das piscinas ou pias abertas na parede do lado da
Epistola, que havia durante o periodo roman, foi conservado tambem na
epocha ogival.

No XIII seculo, a maior parte das piscinas eram _geminadas_, isto 
compostas de duas pias ou orificios para passarem as aguas por uma bica,
quer por baixo do pavimento da egreja, quer por fra do pavimento do
edificio. Uma d'essas pias era destinada a receber as aguas de uso, a
outra, as oblaes das mos do sacerdote e mesmo as do calix; porque,
ainda n'esta epocha, as oblaes do calix eram lanadas nas piscinas, e
no bebidas pelo padre. Encontram-se todavia ainda agora piscinas
_simples_, isto  tendo um unico orificio para sahir a agua.

As piscinas gemeas fingem geralmente a frma de um duplo nicho, separado
por uma columnasinha. Muitas vezes, nas egrejas ornadas de arcaduras
fingidas debaixo do peitoril das janellas, a piscina occupa duas
arcaduras proximas, e une-se a ellas; n'este caso, a columnasinha posta
entre as duas arcaduras forma a diviso dos dois nichos da piscina.

As piscinas do XIV seculo no differem muito das outras do seculo
precedente seno pelo genero da ornamentao architectonica e
esculptura, que harmonisa com o estylo da epocha. As mais das vezes so
gemeas, posto que o ecclesiastico beba, desde ento, a agua de que se
serve para fazer a oblao do calix.

No XV, e mesmo j no final do XIV seculo, as piscinas tornaram-se raras
e acabaram proximo do fim do periodo ogival, para desapparecerem
completamente.

_Cadeiras de cro_. Estas cadeiras collocadas no cro das egrejas eram
destinadas s dignidades ecclesiasticas assistentes aos officios
religiosos. Durante o periodo roman estas cadeiras eram geralmente de
pedra; porm desde o fim do XV seculo, sempre se fizeram de madeira.

As cadeiras de madeira compem-se de differentes partes, tendo cada uma
um nome para a designar.

As separaes de duas cadeiras so formadas por curvas elegantes com
ornamentao de obra de talha na sua parte superior, que lhes do graa
e belleza. Os _arrimos_ so apoios horisontaes que limitam as cadeiras
na parte superior; geralmente esta parte tem bastante largura com frma
inclinada, podendo as pessoas de p encostarem-se facilmente.

Alguns auctores do impropriamente o nome de encosto  _rampa curva_ da
diviso da cadeira, sobre o qual se apoia o cotovello, quando se est
sentado. A taboa movedia servindo de assento gira sobre gonzos ou
eixos, e pde-se abaixar e levantar como se quizer. Tem, por baixo uma
misula que se chama _misericordia_ ou _paciencia_, sobre a qual se pde
sentar, _fingindo estar a pessoa de p_, quando a taboa que pertence ao
assento est levantada.

No cro das cathedraes, egrejas collegiaes e abbaciaes, estas cadeiras
ficam collocadas  direita ou esquerda do fundo do cro em duplo renque
e altura: cadeiras altas para os conegos e religiosos, cadeiras mais
baixas para os ecclesiasticos de cathegoria inferior ou de congregao.
O piso das cadeiras superiores fica alto com dois ou mais degraus acima
do cho; em quanto as cadeiras inferiores assentam sobre o solo ou sobre
um unico degrau. As pessoas sentadas em cima podem mais facilmente que
as debaixo vr o altar. As costas das cadeiras do primeiro renque ficam
muito baixas e servem de genuflexorio aos conegos que estiverem nas
cadeiras superiores; as costas d'estas so muitas vezes inteiramente
semilhantes das cadeiras baixas, outras teem por cima obra de madeira
bastante alta e limitada por um remate em sacada com a frma de um
docel. As pessoas que occupam as cadeiras baixas se ajoelham sobre o
cho com o rosto virado para as costas de suas cadeiras. De distancia em
distancia a fila das cadeiras baixas fica interrompida pela suppresso
de uma cadeira para dar passagem aos que vo assentar-se nas cadeiras
mais altas; estas aberturas chamam-se _entradas_. Encontram-se tambem
cadeiras com genuflexorios.

As cadeiras do cro do XIII seculo so notaveis tanto pela sua singeleza
como pela sua elegancia. Duas columnasinhas, uma na parte inferior e
outra na parte superior, ornam quasi sempre os lados de cada diviso
d'estas cadeiras. As mais sumptuosas tem alm d'isso, esculpturas sobre
as _misericordias_ e nos remates, que no quarto de circulo. E reunem s
columnasinhas servindo de apoio aos braos das cadeiras. Estas
ornamentaes constam de folhagens, fructos e algumas vezes de figuras
de animaes reaes ou phantasticos.

As cadeiras do cro do XIV seculo apresentam o mesmo feitio que as do
XIII seculo; s com a differena de maior ostentao na obra de talha.

Muitas vezes no XIII seculo, e mesmo ainda no princpio do XIV seculo,
estas cadeiras no tinham costas. Quando as apresentavam eram com uma
almofada e arcaduras, tendo regularmente um tecto lavrado similhante a
um docel, um pouco saliente na face interna e com poucas esculpturas. No
XIV seculo, esse tecto lavrado apparece mais apparatoso; cada vez mais
saliente, descana sobre reprezas, acabando em forma de curvatura. Nos
dias de grandes festas, suspendiam-se em frente, no cimo do encosto,
sedas de cres, bordados e pannos de raz.

Na mesma epocha, os lados superiores das cadeiras do cro, mesmo quando
no tenham alto encosto, cobrem-se de diversas esculpturas,
representando estatuasinhas, animaes reaes ou phantasticos, e uma
decorao vegetal muito vistosa.

As cadeiras do cro do XV seculo distinguem-se geralmente das
precedentes por uma abundancia extraordinaria no ornato esculptural. So
cheias de bastante decorao e executadas com mais primor e delicadeza
que nos seculos XIII e XIV. Os seus altos encostos compem-se quasi
sempre de baixo relevos dentro de arcaduras com redentes feitos
delicadamente, e cada cadeira tem um docel em que um pinaculo vasado
muito alto forma a extremidade. Os baixos relevos das costas representam
assumptos tirados da Biblia, da historia ecclesiastica ou da legenda;
successos da vida de Jesus Christo ou de Nossa Senhora so representados
quasi sempre. As esculpturas dos lados internos das cadeiras e das
misericordias apresentam muitas vezes figuras com carantonhas, animaes
reaes ou phantasticos, symbolisando os vicios. Poucas vezes as
esculpturas das cadeiras representam santos ou assumptos religiosos.

Na Belgica ha um limitado numero de cadeiras do cro do XV e XVI
seculos.

Em Frana, as mais notaveis so as da cathedral d'Amiens (XV seculo), e
d'Auch (principio do XVI seculo), e na Allemanha, as da cathedral d'Ulm,
com esculpturas de Jorge Syrlino de 1474 a 1476; em Portugal as da S
Velha de Coimbra.

_Bancos e docis dos celebrantes_. O banco dos officiantes era destinado
para o celebrante, diacono e subdiacono se assentarem emquanto se canta
o _Gloria_, _Credo_, e _Dies irae_; servia ao mesmo fim as poltronas que
 costume collocar presentemente no cro proximo dos degraus do altar.
Estes bancos, que havia na idade media em todas as egrejas de primeira e
segunda ordem, estavam regularmente no _presbyterium_, do lado da
Epistola defronte do tabernaculo, e apresentavam uma certa analogia com
as cadeiras do cro. Conforme as prescripes lithurgicas, distinguia-se
por uma grande simplicidade; eram lisos e sem subdivises. Algumas
vezes, todavia, se compunha de tres cadeiras mais ou menos similhantes
s do cro. Este banco, liso ou subdividido, tinha muitas vezes um docel
cheio de esculpturas, formado por um nicho aberto na grossura da parede
do cro, quando este no tinha naves lateraes ou sustentado por columnas
e de paredes mestras quando o cro estava rodeado de naves lateraes.

_Jubes, Screens[4] e Cruzes triumphales_. Antigamente chamava-se _Jube_
 tribuna (em latim _doxale_) especie de barreira com tres e mais
arcadas esplendidamente ornadas que nas egrejas separava o cro das
naves; tinha por cima uma especie de galeria ou tribuna com
_guarda-peito_, havendo na extremidade uma ou duas escadas em espiral,
em cuja tribuna um abbade vinha lr o Evangelho, depois de ter
pronunciado a formula: _Jube, Domine, benedicere_.

D'ahi vem o nome _Jube_.

As escadas ficavam algumas vezes escondidas detraz dos pilares dentro de
caixas rendilhadas com linda decorao.

Durante a primeira parte do periodo ogival, a arcada do meio estava
tapada por uma parede, as duas outras arcadas ficavam abertas, tendo
portas ou grades. Mais tarde mudou-se em alguns paizes esta disposio
primitiva; na Belgica, por exemplo, na Frana e em certas partes da
Allemanha, a arcada central s ficou aberta com uma grade de pau ou de
ferro servindo de porta; taparam com parede as duas outras lateraes
encostando-lhe altares.

Na primeira metade do XIII seculo, os _Jubes_ eram raros. Foi smente no
final d'este seculo, e principalmente durante os seculos seguintes que
se fizeram geralmente nas cathedraes, collegiadas, e nas abbaciaes. No
XV e no XVI seculo tambem, os collocaram nas egrejas parochiaes, mais
importantes. Alguns se teem conservado na Belgica at ao presente: o
mais antigo  da era 1490.

O mais magestoso  o da cathedral de Milo.

Os _jubes_ teem sempre proxima a _cruz triumphal_. Esta cruz, de grande
dimenso,  geralmente de madeira e ornada de pinturas e dourados. Os
seus quatro ramos com flores teem muitas vezes quadrilobos, nos quaes
estavam do lado da nave os symbolos dos quatro evangelistas, e do lado
do cro, os quatro doutores da egreja latina; S. Gregorio, S. Ambrosio,
S. Agostinho e S. Jeronymo. Ao p da cruz esto as imagens de Nossa
Senhora, e do apostolo S. Joo; a primeira  direita, e a segunda 
esquerda.

Antes da introduco dos _jubes_ a cruz triumphal estava igualmente
suspensa por tres correntes no meio do arco chamado _triumphal_, que
occupa a entrada da capella-mr.

Havia tambem antigamente nas egrejas do periodo Latino e Roman uma
_haste_ (Tress). Era costume collocar nas basilicas entre o cro e a
parte reservada para o publico uma viga atravez do cro, sobre o qual se
punham luzes e tambem suspendiam lampadas, e tambem durante a quaresma,
servia para pr o vu chamado _velum templi_.

_Separaes do cro_. A disposio dos antigos bancos da clerezia ao
comprimento da parede absidal do cro, ja descripto, no foi conservada
durante o periodo ogival, sendo em Italia e tambem em Portugal, onde
continua ainda, assim como em algumas egrejas da Allemanha,
principalmente nas cathedraes de Spire e de Mayence.

Desde o XI seculo, a maior parte das abbadias da _Europa central e
occidental_ tinham, como j referimos, transferido para o cruzeiro, os
bancos, alem das cadeiras dos ecclesiasticos, que occupavam antes a
capella da abside. Mais tarde tambem a mesma mudana se introduziu pouco
a pouco nas cathedraes e nas collegiadas d'essas mesmas regies,
principalmente depois da reunio das naves lateraes e capellas absides 
roda da capella mr. Os bancos de pedra do periodo roman transformados
em cadeiras do cro ou cadeiras de madeira, foram collocados diante do
sanctuario, sobre o lado d'esta parte da egreja. O cro ficou separado
das naves lateraes pelas barreiras, as mais das vezes de cantaria,
bastante alta, vedado por detraz com as cadeiras do cro collocadas
entre as columnas da capella-mr. A roda do sanctuario propriamente
chamado, s vezes, recortavam aberturas, de maneira que as pessoas que
estivessem nas naves lateraes podessem vr o altar, e outras vezes
tambem substituiam as barreiras da porta circular da capella-mr por
tumulos ou mausolos. Nas grandes cathedraes, numerosas esculpturas em
alto relevo ornavam as partes lizas das separaes tanto no exterior
como no interior da capella-mr. Alguns monumentos, por exemplo as
cathedraes de Paris e de Amiens, teem conservado, por completo ou em
parte, as suas antigas separaes da capella-mr.


*Pulpitos e confessionarios*


_Pulpitos_. Durante os primeiros seculos da era christ, as tribunas do
alto onde se fazia a leitura do Evangelho e da Epistola, serviam ao
mesmo tempo de pulpito.

Ao uso de prgar do alto da tribuna, veiu juntar-se o de um pulpito
saliente que se conservou na Europa central e occidental at ao final do
XV seculo. Por isso, os pulpitos anteriores ao meiado do XV seculo se
encontram mui raras vezes. Foi smente no comeo d'esta epocha que se
principiou a pl-os isolados na nave principal das egrejas d'esta parte
da Europa.

Os mais antigos pulpitos so quasi todos de pedra; no XV e XVI seculos
fizeram-se egualmente de madeira.

O espao dentro do pulpito, para o prgador, no periodo ogival 
geralmente hexagono e ornatado no cimo dos lados, ficando o sexto lado
reservado para a entrada n'elle; a decorao compe-se de estatuas,
baixos relevos, e algumas vezes tambem, de simples desenhos geometricos
ou chammas. V-se com frequencia Jesus Christo e Nossa Senhora entre
quatro evangelistas ou os quatro doutores da egreja do Occidente, S.
Gregorio, Santo Ambrosio, Santo Agostinho e S. Jeronymo.

Ha em Portugal um pulpito de pedra de admiravel composio, que pertence
 egreja de Santa Cruz de Coimbra, de que tirmos o modelo e figurou na
exposio universal de Paris em 1867; depois o museu de Londres quiz
compral-o, ao que nos oppozemos.

O pulpito apoia-se por vezes sobre uma curva em sacada, sobre um macisso
de alvenaria ou sobre columnatas enfeixadas; as mais das vezes, todavia,
est assente sobre uma columnata ou sobre um pedunculo. Esta ultima
maneira foi mais commum no XV e no XVI seculo. Estes apoios eram ornados
com esculpturas, muitas vezes muito intrincadas conforme o uso adoptado
no final do periodo ogival. Na Allemanha haviam por vezes representado
as figuras de Ado, Eva ou Moyss em alto relevo nas frentes do pulpito.

O sobreceu dos pulpitos principiou a servir no final do periodo ogival,
e mesmo no era muito imitado n'essa epocha. Veiu a ser de uso geral no
fim do XVI seculo. Os sobreceus do XV seculo tem geralmente a forma
d'uma pyramide, d'um corucho ou d'um campanariosinho. Na Inglaterra
vem-se sobreceus smente com uma simples guarnio. Esta ultima forma
nos parece a melhor, pois no causa a desagradavel vista do remate de
tanto vulto, que parece abafar a voz. Ha poucos exemplares de pulpitos
do periodo ogival.

_Confessionarios_. Os confessionarios em que o confessor fica separado
do penitente por uma rotula, foram desconhecidos durante o periodo
ogival. N'essa epocha, o confessor collocava-se, para ouvir as
confisses, em uma poltrona ou nas cadeiras do cro, e o penitente
ajoelhava deante d'elle. A recordao d'esta maneira de se confessar foi
conservada nas miniaturas, paineis e gravuras do XV seculo.

Foi proximo do final do XVI seculo que os confessionarios com rotula
foram introduzidos na Belgica.


*Capellas funereas, tumulos, campas, lanternas dos defunctos e cruz de
cemiterio*


_Capellas funereas_. Estas capellas funereas eram construidas isoladas
nos cemiterios durante o periodo ogival. So raras em quasi todos os
paizes. No ha nenhuma na Belgica nem em Inglaterra. Em Frana vem-se
algumas nos cemiterios bretes, e existe uma muito notavel, do XV
seculo, em Avioth nas _Ardennes_ francezas.  na Austria que so mais
communs.

_Tumulos apparentes_. O uso de encerrar os cadaveres nos sarcophagos e
pl-os sobre o solo ficou completamente abandonado no norte da Europa
desde o XIII seculo.

Na Inglaterra, Belgica, Allemanha, e nas provincias septentrionaes da
Frana, os tumulos apparentes do periodo ogival so cenotaphios,
consistindo em socos de cantaria com massios de alvenaria postos sobre
uma sepultura subterranea, tendo a effigie do finado. Compem-se
geralmente, como no XIII seculo, de um sco ou macisso coberto de uma
grande lousa, sobre a qual est deitada a estatua do defuncto. Este
estendido sobre uma cama ricamente disposta, apresentando todas as
insignias de sua dgnidade: os bispos e os abbades trazendo mitra e
baculo; os reis e principes, a cora e o sceptro; os cavalleiros, o seu
escudo e a sua armadura. Os ps dos bispos e dos ecclesiasticos, e em
certos paizes tambem dos seculares, apoiam-se contra um drago ou um
monstro phantastico; os dos clericaes, principes e nobres, contra um
leo, symbolo de coragem, e mesmo, s vezes, como para as damas tendo os
ps sobre um rafeiro, emblema da fidelidade conjugal. Pequenas figuras
de anjos agitam thuribulos, sustentando tochas ou almofadas em que
descana a cabea do personagem. Depois do XIII seculo, os anjos com
thuribulos tornaram-se raros. Durante muito tempo, a effigie do finado
no apresenta nenhum dos caracteres da morte.

No XIII seculo e ainda no principio do XIV seculo, as estatuas deitadas
tem os olhos abertos e reproduzem os gestos e as attitudes dos
personagens vivos. Smente depois do XIV seculo o defuncto principia a
ser representado morto ou adormecido, com os olhos fechados.

Muitas vezes, columnatas reunidas por arcaduras so dispostas em roda do
sco, no qual esto assentes; algumas vezes, mas, raramente, as
arcaduras so vasadas, e a estatua _deitada_ do finado occupa o _logar_
do sco supprimido.

Os cenotaphios do periodo ogival so geralmente de pedra, poucas vezes
de cobre ou de outro metal. Os tumulos de pedra tem quasi um metro de
altura, em quanto que os sepulchros de metal, que se conservam at ao
presente tem apenas 50 centimetros acima do solo; todavia o unico de
metal que possue a S de Braga tem maior altura.

Para evitar o estorvo nas egrejas, no se permittia, salvo raras vezes,
erguer-se um cenotaphio. Na capella-mr admittia-se o tumulo do fundador
ou de um bemfeitor distincto, collocando os dos outros personagens de
distinco nas capellas que cercam os lados do cro e da nave principal.
Estes monumentos apresentavam muitas vezes uma decorao de pinturas e
dourados. Alguns ficavam encostados  parede e dentro de um grande nicho
sob frma de arcadura ogival; outros, e era o maior numero, ficavam
separados em todos os seus lados.

_As campas com gravuras a trao_ tornaram-se vulgares desde o XIV
seculo. Muitas tem sido conservadas at ao presente, no obstante o
grande numero de causas de destruio, s quaes tem ficado expostas
desde seis seculos. A maior parte esto ornadas de imagens do finado,
debaixo de arcaduras trilobadas do feitio de docel, muito simples e
sustentado por columnatas. Quasi sempre v-se uma mo deitando a beno,
symbolo de Deus, sahida do cimo da ogiva; e anjos agitando thuribulos
occupam os _seguintes_ da arcadura. Sobre as campas dos bispos, dos
abbades e dos padres, v-se tambem, algumas vezes, aos dois lados do
personagem, clerigos, ou anjos de pequeno tamanho, segurando em velas
accesas.

Muito antes do XIII seculo, as campas tem, bastantes vezes ainda, como
durante o periodo roman, a forma de um trapezio, isto , so mais
estreitas do lado dos ps. A inscripo que quasi sempre tem, forma
geralmente o contorno exterior da pedra, menos geral do que o
emmoldurado de ogiva; principia por uma cruz a inscripo e quasi no fim
do XIII seculo, ajuntam j por vezes, aos quatro angulos, os emblemas
dos evangelistas collocados nos quadrilobos.

As campas dos tumulos do XIII seculo que no tem um emblema, um symbolo
ou um escudo com armarias, so bastante raras na Belgica.

Sobre as campas do XIV seculo, a effigie do finado continua a ser
collocada debaixo de uma arcadura, poucas vezes trilobada, porm no
durante os primeiros annos. Smente esta arcadura  muito mais carregada
de detalhes architectonicos do que precedentemente, taes como ridentes,
crochetes, flores, pinaculos e rosaes; alm d'isso, as arcaduras
principiam a no ser sustentadas por columnatas com base e capitel, mas
sim por ps-direitos do feitio de contra-fortes ornados de pinaculos e
nichos, nos quaes se vem pequenas figuras de homens.

Quando uma unica campa cobre uma sepultura dupla ou tripla, as arcaduras
esto reunidas no numero de duas ou tres, e contem, cada uma, sua
effigie. O leo, o co e os outros symbolos, que acompanham quasi sempre
as estatuas deitadas dos cenotaphos, se vem tambem sobre as campas do
XIV seculo. Estas so geralmente de frma rectangular, e no tem o
feitio de um trapezio. Os anjos incensadores e ceroferrios no se vem
excepcionalmente a comear do XVI seculo.

As arcaduras e o contorno com curvas em rampa que formam o remate
caracteristico dos moldurados do XIV e XV seculos, so regularmente
substituidos no XV seculo por docis, representados em perspectiva e
muitas vezes compostos de ogivas inflexas com desenhos complicados; os
pinaculos, os nichos, as rosaceas flammejantes se multiplicam sobre todo
o moldurado; alm d'isso, os arcos-butantes apparecem para ligar os
docis aos contrafortes.

Ser bom notar que os moldurados das campas do XIV e do XV seculos
apresentam a maior similhana com as decoraes do mesmo genero que se
vem nas vidraas pintadas contemporaneas.

Como no XIII seculo, a inscripo apparece no XIV e no XV seculos sobre
a borda da campa e est inscripta entre duas linhas parallelas. Nos
angulos formados pela interseco d'essas quatro linhas se vem
quadrilobos com os emblemas dos evangelistas, ou tambem algumas vezes,
desde o comeo do meiado do XIV seculo, as armarias; acontece mesmo que
a inscripo est, alm d'isso, interrompida pelo escudo da armaria
sobre os seus lados mais compridos.

J explicmos que, quando so applicados para ornar os quatro angulos de
um quadrado ou de um rectangulo, os symbolos dos evangelistas pem-se,
pelo menos, at ao XIII seculo, da maneira seguinte: o homem alado no
angulo superior  _esquerda_ do espectador; a aguia  _direita_, o leo
no angulo inferior  _esquerda_ e o novilho  _direita_. No XIV seculo,
houve uma mudana; desde esta epocha, v-se quasi geralmente a aguia no
_angulo superior esquerdo_, e o homem alado no _angulo superior
direito_.  ali tambem o logar que estes symbolos occupam sobre as
campas.

Os caracteres das campas que acabamos de indicar por cada seculo do
periodo ogival, no so de tal maneira proprios como os que so mais
proximos da epocha indicada. Pelo contrario, acontece muitas vezes,
principalmente na Belgica, que as campas do XV seculo apresentam ainda,
por assim dizer, os caracteres que no se est acostumado a encontrar
n'outra parte nas campas do seculo precedente. No  raro tambem achar
campas do XIII, XIV e XV seculos, nas quaes o ornamento architectural
seja moderado de detalhes, ou inteiramente os supprimiram.

Em Frana quasi sempre e algumas vezes na Belgica, as carnes, em vez de
serem imitadas a trao, so represeutadas por embutidos de marmore ou de
metal.

_Tumulos chatos de cobre_. Durante o periodo ogival, introduziu-se o uso
do cobre ou de laminas de lato sobre as quaes as linhas do desenho so
feitas a traos gravados bastante fundos, estando cheios com uma
substancia rezinosa de cr preta e de tom mate. Essas largas linhas
pretas se destacam perfeitamente sobre a superficie brilhante do metal
brunido ou adamascado, at mesmo dourado, cujo reflexo luzidio  muitas
vezes realado pela armaria colorida em esmalte da composio da campa,
a qual fica solidamente fixa na grossura do cobre. Devido a estas
qualidades, os tumulos lizos em cobre contribuiam admiravelmente, assim
como o pavimento e as vidraas pintadas, para a decorao das egrejas. 
na Inglaterra e Flandres que tem sido mais communs durante toda a idade
media.

Os tumulos chatos de cobre podem dividir-se em duas classes. A primeira,
de maior numero, comprehende as laminas de cantaria, quer de marmore ou
de gres, nas quaes a figura do finado fica recortada em _silhoeta_ na
lamina de metal, assim como differentes ornatos; as armarias, emblemas,
inscripes em feitio de fita, gravadas sobre tantas peas distinctas,
ficam embutidas e arrebitadas separadamente nos entalhes correspondentes
da pedra, designados _casements_ pelos auctores inglezes. A segunda
classe parece ter sido menos numerosa, porm contm especimens mais
bellos e preciosos. Acham-se comprehendidos n'ella os monumentos que
apparecem debaixo do aspecto de grandes placas de cobre, d'uma s pea,
mas que, na realidade, so muitas vezes compostas de muitas laminas
ajustadas, das quaes com grande habilidade ficam disfaradas as juntas
na profundura dos traos. A figura do finado, geralmente de grandeza do
natural, representa-se de p ou deitada.

Os tumulos de lato consistem em grandes laminas soltas, no destinadas
a ser embutidas nas laminas de pedra, e que formam por si um todo
completo; foram communs na Belgica durante todo o periodo ogival; o seu
uso continuou, em certos sitios, at o XVII seculo. Na Allemanha e
igualmente no Norte da Frana tiveram acceitao. Sobre as laminas, no
smente a figura do finado, como tambem os accessorios symbolicos e de
decorao que lhe servem, foram executadas da mesma maneira que sobre as
pedras das campas gravadas. Todavia, a composio do assumpto 
regularmente mais superior, e a execuo mais esmerada que das outras;
os mais insignificantes detalhes do vestuario, os docis do remate, as
pequenas figuras dos anjos e dos santos que os ornam muitas vezes assim
como os ps-direitos, todas as partes, em uma palavra, so feitas com
fidelidade, com arte e com delicadeza. Alm d'isso, o fundo sobre o qual
se destaca a effigie do finado, em logar de ser lizo e sem ornato, como
sobre as pedras das campas gravadas,  regularmente adamascado, isto ,
coberto de ornatos differentes imitando os desenhos que apresentam
certos estofos orientaes; esses desenhos assemelham-se aos que se vem 
roda dos personagens nas vidraas pintadas do XIV seculo. So compostos
de folhas do trevo, de quatro folhas, folhagens, cres matizadas,
figuras de animaes, gritos de guerra, ou com divisas muitas vezes
repetidas. Parece mesmo por vezes no XV e no XVI seculo, que os detalhes
architectonicos desapparecem completamente para dar logar aos fundos
adamascados. Finalmente, uma particularidade que apresentam ainda as
laminas de cobre funereas do XV e do XVI seculo, vem a ser que as
_phylactres_ se veem muito mais frequentemente que sobre as pedras das
campas. Chama-se _phylactres_ a bandeirolas compridas e estreitas,
saindo da boca das personagens ou esto seguras nas suas mos, e sobre
as quaes est inscripta uma orao, uma divisa ou uma sentena.

_Pequenos monumentos funereos do XV e do XVI seculo_. Alm dos
cnotaphos, das campas e dos tumulos chatos de lato, erigiam-se tambem,
nos XV e XVI seculos, pequenos monumentos funereos de pedra ou lato,
encaixados na face da parede proxima do logar da sepultara. Estes
monumentos curiosos encontram-se, no s no interior das egrejas, mas
tambem nos claustros das cathedraes, collegiaes e mosteiros. Compe-se
regularmente d'um epitaphio, por cima do qual se v um assumpto
religioso, por exemplo, a SS. Trindade, a flagellao, a crucificao ou
qualquer scena da Paixo. Muitas vezes tambem se v Nossa Senhora com o
Menino Jesus. O finado est regularmente representado ao lado da scena
principal, de joelhos em orao e por vezes acompanhado do santo da sua
devoo, o qual fica em p por detraz d'elle e parece recommendal-o 
clemencia Divina; sobre a bandeirola saindo da boca na direco da scena
principal, lem-se frequentemente as palavras que  natural dirigir a
Deus ou aos santos, por exemplo: _Qui potes, oro, rei, Christe, mementa
mei_, e _O mater Dei, memento mei_.

A scena religiosa est esculpida em relevo ou gravada a trao. Quando
feita em alto relevo, v-se quasi sempre em um nicho ogival, aberto na
grossura da parede, e o epitaphio inscripto na parte inferior do nicho,
sobre uma pequena chapa de lato, de marmore ou de pedra.

Nos baixos relevos e nas pedras gravadas a trao, o assumpto e o
epitaphio so geralmente collocados sobre uma unica pedra; ora n'uma,
ora n'outra occupa a maior parte. A scena  coberta por um docl
servindo de remate; algumas vezes, comtudo este docel no apparece.

No obstante as mutilaes lamentaveis que lhe causaram os iconoclastas,
estes monumentos merecem chamar a atteno, no smente dos archeologos,
mas tambem dos artistas e sobretudo dos esculptores.

Serviram-se tambem de monumentos similhantes para perpetuar a fundao
praticada por generosos bemfeitores. Na parte superior d'uma pedra ou de
uma placa de lato, v-se uma scena religiosa, diante da qual est de
joelhos o fundador muitas vezes acompanhado do santo da sua devoo. Uma
inscripo commemorativa da fundao substitue o epitaphio, o qual nos
monumentos funereos se v por baixo da scena. Algumas vezes smente
apparece uma simples inscripo gravada sobre uma pedra ou lamina de
cobre.

_Lanternas dos defunctos_. D-se o nome de _lanternas dos defunctos_ e
_pharol de cemiterio_, a columnas ou pyramides cas que se collocavam
n'outro tempo nos cemiterios. Este pequeno monumento tinha no cimo um
pavilho vasado, no qual se suspendia de noite uma lampada accesa com o
fim de lembrar aos caminhantes que orassem pelos defunctos e para lhes
indicar a presena da casa de Deus.

_Cruz de cemiterio_. Erguiam tambem, nos cemiterios, grandes cruzes de
pedra durante o periodo Roman, ajuntavam-lhe, poucas vezes, a imagem de
Christo; porm do comeo do XIII seculo, essa imagem v-se quasi sempre
acompanhada de Nossa Senhora e do Menino Jesus, postos no revesso da
cruz, ou encostados  columna que serve para a sustentar. Outras vezes,
e isso  mais seguido, a cruz fica entre a imagem de Nossa Senhora sem o
Menino e a de S. Joo. As hastes que forma a columna ou o pilar sobre os
quaes est assente a cruz, so geralmente postas sobre um sco mais ou
menos alto, tendo na sua base um pequeno altar.

As cruzes de pedra que se erigiam muitas vezes, na idade media, nas
encruzilhadas das vias e no meio das praas publicas, apresentavam as
mesmas frmas que as cruzes de cemiterios; smente no tinham altar na
base do seu sustentaculo. Em Lisboa havia um excellente especimen no
cruzeiro de Arroyos, estando presentemente guardadas as esculpturas na
egreja d'esse bairro.

As cruzes de cemiterio e dos cruzeiros no eram todas de cantaria;
havia-as tambem de bronze, de ferro e madeira. Inutil  declarar que as
cruzes de madeira ficaram destruidas j ha muito tempo. As de bronze
tem desapparecido egualmente, para fundirem o metal! Mas ha ainda, em
alguns paizes, as que foram feitas com ferro forjado.

As cruzes de cemiterio continuaram a estar em uso durante a epocha do
renascimento, e esto quasi sempre acompanhadas das imagens de Nossa
Senhora e S. Joo, e algumas vezes d'uma pintura representando o
purgatorio. Quando o cemiterio fica adjacente  egreja, a cruz
colloca-se sobre um alpendre junto do coro, na parte interna. As cruzes
triumphaes, que se viam durante o periodo ogival por cima do Jub foram
aproveitadas, em muitos logares, para servirem de cruzes de cemiterios.


*Pias baptismaes*


A pia de baptismo no periodo ogival  geralmente menos larga e profunda
do que a em uso no periodo Roman. Esta differena foi motivada pelo
abandono do baptismo por _immerso_ no XIII seculo. Como
precedentemente, algumas das pias tem o feitio d'uma tina sem p,
redonda, quadrada ou com seis ou oito lados; outras assentam sobre um
grosso pilar central acompanhado nos angulos da pia por quatro
columnasinhas, mas o maior numero so monopediculados.

As pias de feitio de tina sem p encontravam-se ainda algumas vezes no
periodo ogival, porm muito poucas durante o periodo Roman.

_As pias monopediculadas_, isto , firmadas sobre um s pilar, foram as
mais communs na Belgica durante todo o tempo do periodo ogival. Estas
pias baptismaes, em vez de serem como as Romans, circulares ou quadradas
na parte externa, eram geralmente de seis ou oito lados. A pia continua
a apresentar, como durante o periodo Roman, a frma hemispherica ou
oval; havendo muitas vezes, na parte mais baixa, um orificio servindo
para vasar a pia.

Na Allemanha e na Belgica desde o final do seculo XIV, e principalmente
no XV seculo, havia pias monopediculadas em lato.

O maior numero de pias Romans estavam cobertas de esculpturas
decorativas, symbolicas ou historicas. Sobre as pias do periodo ogival,
pelo contrario, os assumptos historicos e legendarios, assim como as
figuras symbolicas e phantasticas so raras; por excepo se v ainda
n'ellas o baptismo de Jesus Christo e outras scenas biblicas ou tambem
personagens isolados collocados debaixo de arcaduras.

Os ornatos simplesmente decorativos, taes como folhagens e carrancas,
so tambem bastante raros sobre as pias do XIV e XV seculo. Toda a
decorao das pias ogivaes, principalmente no XV seculo, consiste as
mais das vezes n'um certo numero de molduras que se vem sobre a pia e
sobre o pilar em que se frmam.


*Pias para agua benta*


Ha duas qualidades de pias para agua benta: as _fixas_ e as _portateis_.

As pias fixas so cylindricas ou polygonaes, com reservatorio
hemispherico, collocadas junto da entrada da egreja, no interior ou
exterior do edificio: umas isoladas e postas sobre um p, outras sem
terem apoio. Estas ultimas, que esto sempre unidas com as construces,
v-se quer em nichos, quer em sacada sobre o liso da parede ou d'um
pilar, no qual esto encaixadas.

Posto que as pias para agua benta pediculadas estivessem j em uso no
XIII seculo, e talvez ainda antes, foi todavia no XIV e XV seculos que
vieram a ser mais communs. Em muitos paizes, apresentam bastante
analogia com as pias baptismaes contemporaneas, de maneira que  muitas
vezes difficil distinguir de repente, se o objecto que est presente
serviria na primitiva de pia para agua benta ou de pia baptismal, pela
sua grandeza. A capacidade limitada do reservatorio e a falta do
orificio destinado para dar sahida s aguas baptismaes, do algumas
vezes um indicio para designar que o objecto seja uma pia para agua
benta e no uma pia baptismal.

O maior numero das pias para agua benta fixas do periodo ogival que
existem, ainda so de pedra. Havia tambem em outro tempo um certo numero
d'ellas de bronze e de lato. A memoria de algumas d'estas pias de metal
nos foi conservada, quer por desenhos e gravuras, quer por testemunhos
de escriptores antigos. Encontram-se mesmo raros especimens que
escaparam  destruio vandalica.

As pias para agua benta _portateis_ so vasos com azas, destinados a
conter a agua benta. Como j referimos, serviam durante o periodo Roman,
para apresentar a agua benta aos imperadores, reis e outros distinctos
personagens, na occasio da sua entrada na egreja. Serviam tambem n'esta
epocha, para a agua com que se faziam as asperses prescriptas pela
liturgia. O costume de principiar a missa solemne do domingo por uma
procisso dentro da egreja, durante a qual se aspergia o povo com agua
benta, remonta aos primeiros seculos do christianismo. As capitulares de
Carlos Magno confirmam j este costume, e no Concilio reunido em Nantes
em 911 determina aos curas que benzam a agua ao domingo, em um vaso
limpo e apropriado, para que o povo seja aspergido, e o sacerdote possa
leval-a aos enfermos, aspergil-os e  sua habitao.

As mais antigas pias para agua benta portateis so de marfim. As pias
para agua benta em metal, j conhecidas durante o periodo Roman, vieram
a ser muito communs no XIII e XIV seculos. Todas as pias para a agua
benta portateis so, comparativamente s em uso desde o XV seculo, de
muito pequena dimenso: medem apenas 20 centimetros pouco mais ou menos
de altura, com um diametro entre 10 e 13 centimetros.

Quando, no XV seculo, as pias para a agua benta portateis de metal
vieram a tornar-se de uso geral, deram-lhes dimenses maiores. Todavia
encontram-se ainda muitas d'esta epocha, que so muito pequenas.

Quasi todas as pias para agua benta antigas tem a frma d'um balde;
algumas apresentam um engrossamento consideravel sobre a borda superior,
diminuindo sensivelmente para a base. Vem-se com uma inscripo
mostrando como as das pias fixas, assim como a alluso ao symbolismo de
agua benta pelo baptismo de Jesus Christo.


*Grades e barreiras*


_Grades de ferro_. As grades do XIV seculo apresentam mais ou menos o
aspecto geral que as do periodo Roman. Como antecedentemente, tem os
prumos verticaes com um caixilho de ferro a que ficam reunidos por
ornatos em frma de _X_ composto por barrinhas de ferro com seco
differente; e todavia, quando as grades so destinadas para as
cathedraes ou para os edificios importantes, as barrinhas das
extremidades simplesmente enroscadas no tem por ornato seno algumas
hastes verticaes. A suppresso das couceiras pde ter logar sem
inconveniente nos vos de pequena largura, de pouco peso e frmas
delicadas, mas para grades maiores e expostas aos encontres da
multido, o systema de almofadas com ornato entre as couceiras e as
travessas  o unico modo que dar a solidez precisa sem obstar ao
aspecto de leveza.

Os cenotaphos erguidos nos logares frequentados da egreja, os
reliquarios expostos publicamente  venerao dos fieis e os armarios
dos thesouros eram muitas vezes resguardados por grades com importante
trabalho de mo d'obra. Estas grades ornadas geralmente por barrinhas
estampadas do lado externo smente esto por vezes armadas com grandes
pontas e ganchos de ferro que impossibilitam o assalto.

Nas grades do XIV e XV seculo, os prumos servindo de couceiras e as
travessas continam a ser empregadas; porm as barrinhas torcidas e
estampadas das grades do XIII seculo ficaram substituidas por ornatos
obtidos, servindo-se de chapas de ferro batido, recortadas em flores ou
folhagens. Depois, em logar de ficarem seguros como precedentemente os
prumos por bracedeiras, no soldados, esses ornatos esto fixos por
cavilhas arrebitadas. Os caixilhos de ferro so muitas vezes
supprimidos, e a esses prumos depois de lhe assentar na extremidade
remates mais ou menos vistosos, compostos de flres de liz ou flores de
folha de ferro soldadas.

As grades que se no abrem, que assentam na frente das janellas, nos
thesouros das egrejas, casas de capitulo, depositos do archivo, casas
nobres e mesmo nas casas particulares, esto muitas vezes guarnecidas de
pontas de ferro dispostas em espigas nas duas extremidades das
couceiras. Algumas vezes as grades com espigas tem, lem d'isso, as
suas couceiras e travessas reunidas de maneira impossivel para fazer
mover as couceiras nos olhaes das travessas ou nos olhaes das couceiras;
estes olhaes esto alternativamente feitos nas travessas e nas
couceiras.

_Barreiras de madeira_. Em logar de grades de ferro, tambem se serviam
de barreiras de madeira, a fim de separar as capellas. Estas barreiras
so geralmente tapadas at  altura quasi d'um metro, no ficando
interrompida a vista na parte superior. Quasi todas so feitas com
madeira de carvalho, devendo a sua durao no smente ao bem feito da
obra, como  excellente qualidade do material empregado. A comear do
XIV seculo, a parte inferior tapada  formada de duas ou muitas ordens
sobrepostas de almofadas encaixadas entre as couceiras e as travessas.
Estas almofadas teem muitas vezes obra de talha figurando pinasios dos
caixilhos, ou folhas de pergaminho dobradas. A parte superior d'estas
barreiras compe-se quasi sempre de arcaduras rotas, deixando passar a
vista entre os prumos em que se dividem.


*Orgos e caixas para elles*


Os primeiros orgos de que os chronistas occidentaes fazem meno, so
os que o rei Pepin recebeu de presente da crte imperial de
Constantinopla no meiado do VIII seculo, e que fez collocar no seu
palacio de _Compigne_. Carlos Magno tambem no principio do seculo
seguinte mandou fabricar orgos, conforme o modelo byzantino para ornar
a sua egreja de _Aix-la-Chapelle_. Depois de Carlos Magno, o uso dos
orgos para o acompanhamento de certas partes cantadas do officio
divino, introduziu-se pouco a pouco na egreja Latina. Desde o final do X
seculo, a maior parte das egrejas cathedraes e abbaciaes de primeira
ordem tinham-os adquirido, e durante os dois seculos seguintes
continuaram a generalisar-se.

Os orgos primitivos eram muito defeituosos e d'uma grande singeleza,
como vemos nas miniaturas dos manuscriptos contemporaneos.

Durante o periodo ogival a predileco pelos orgos tomou novos
desenvolvimentos, e, no final do XV seculo, todas as egrejas de alguma
importancia e mesmo as capellas tinham o seu orgo. No XIII seculo,
comearam j, em alguns logares, a multiplicar o numero dos orgos em
uma s e mesma egreja. Ao principio contentavam-se com dois d'estes
instrumentos; porm no XIV e XV seculos tinham tres, quatro e at cinco.
Na egreja do convento de Mafra, el-rei D. Joo V mandou collocar quatro
grandiosos orgos nos angulos do cruzeiro, no XVII seculo.

_At ao XV seculo_, diz o insigne architecto Violet-le-Duc, _no parece
que os grandes orgos estivessem em uso. Serviam-se apenas de
instrumentos de mediocres dimenses e que podiam ficar dentro d'um movel
assentes na capella-mr, nos jubs ou sobre tribunas mais ou menos
espaosas, destinadas no smente aos orgos, mas ainda aos cantores e
musicos. Foi no final do XV e principio do XVI seculo que houve a ideia
de dar aos orgos, dimenses extraordinarias_ desconhecidas at ento,
tendo uma _grande fora de som e exigindo, caixas collossaes_. Todavia
esses orgos no so nada em comparao com os instrumentos que se
fizeram depois no XVII seculo.

No fim do periodo ogival, a frma das caixas dos orgos era determinada
pela disposio que tinha esse instrumento. A obra de entalhador para as
caixas dos orgos do XV e XVI seculos, e mesmo de alguns orgos do XVII
seculo era independente do instrumento e servia para o resguardar,
cobrindo-o. O mechanismo e os folles ficam inteiramente mettidos entre
as almofadas macissas dos scos; as almofadas recortadas enchem os
espaos rotos existentes entre a extremidade superior dos canudos e os
tectos, afim de facilitar a emisso do som. A marceneria ornada de
esculpturas e de polychromia e os canudos eram muitas vezes estampados e
dourados. Tudo ficava encerrado por portas que o organista abria quando
tocava; estas portas eram, as mais das vezes, ornadas, pelo menos na
parte interna, com pinturas historicas que se viam quando servia o
instrumento. Os orgos e as caixas, anteriores ao XVI seculo, so
muitissimo raros.


*Alfaias religiosas*


_Ourivesaria e esmaltadores_. No XIII seculo, a arte de ourives
transformou-se completamente sob a influencia do novo estylo
architectural. Durante o primeiro quartel e mesmo durante a primeira
metade d'esse seculo, os vasos sagrados e os objectos do culto
apresentavam ainda,  verdade, as mesmas frmas geraes que durante o
periodo Roman; porm o systema da decorao teve modificaes
importantes. O artista, fosse quem fosse, esculptor, pintor ou ourives,
ia procurar as suas inspiraes, jamais como precedentemente aos
objectos byzantinos ou aos estofos orientaes, mas sim na flora do seu
paiz; serviam-lhe de modelos os vegetaes indigenas e applicava-se
interpretal-os artisticamente.

As chapas esmaltadas e os engastes das joias, com algumas folhagens de
filigrana, ficam geralmente em uso at ao meiado do XIII seculo;
continuando a dar o principal modelo de decorao para os objectos de
grandes dimenses, taes como os reliquarios e os frontaes dos altares.

Todavia n'uma parte da Belgica, o uso dos esmaltes de cres desappareceu
mais cedo que nas outras partes. Desde o primeiro quartel do seculo
XIII, encontra-se, sobre as margens do _Lambre_, uma escola de ourives
tendo em pratica principios inteiramente novos.  frente d'esta escola e
ao impulso artistico que produz, apparece o irmo Hugo, frade Agostinho
do priorado de _Oignies_. Este humilde religioso executou durante o
primeiro quartel do XIII seculo, (um dos seus trabalhos tem a data de
1220), em alguns annos, uma serie de obras-primas que ainda no foram
imitadas, algumas das quaes teem resistido aos estragos dos tempos, e
guardam-se devotamente no thesouro das freiras de Nossa Senhora em
_Nemours_, produzindo a admirao de todos os entendedores. Desprezando
o emprego dos esmaltes com muitas cres, elle procurou o principal
effeito de decorao n'um trabalho original, que consiste em cobrir os
objectos, no todo ou em parte, com delicadas folhagens formadas de
cachos, de flrsinhas e pequenas folhas estampadas, reunidas pela
soldadura a delicados ps. A estas folhagens ajuntava figuras de veados,
ces e caadores, tudo produzido da mesma maneira. O tecido muito unido
que resultava d'estes trabalhos era depois arribitado ou soldado sobre
as differentes partes do objecto do qual elle abrangia todos os
contornos.

Hugo empregou ainda as joias; mas s vezes, em logar de displ-as sobre
chapas rectangulares e ligal-as pela filigrana, as dispunha
artisticamente entre as suas delicadas folhagens. Alm d'isto, seguindo
o exemplo dos seus antecessores, no empregava camafeus e com gravuras
concavas  maneira antiga, todas as vezes que no tinha joias novas para
o seu trabalho.

Quanto s massas coloridas embutidas no metal, Hugo no conserva quasi o
negro do buril que serve para traar as inscripes, ornamentos e tambem
as figuras.

Depois do meiado do XIII seculo, os objectos de ourivesaria principiaram
pouco a pouco por imitar na sua frma e aspecto geral os monumentos de
architectura: os relicarios, que antes eram cofres, sarcophagos,
remedando o feitio dos edificios religiosos, vieram a ser pequeninas
egrejas em ouro e prata: os relicarios tinham enfeites, por vezes
remates, torrinhas ladeadas de contra-fortes e bastantes arcos; em uma
palavra, as frmas elegantes e graciosas da architectura ogival foram
copiadas nos objectos do culto. A cinzelura tambem faz cada vez mais
progresso; e v-se mesmo a maior parte das vezes pequenos objectos
apresentarem as esculpturas e altos relevos, o que no se fazia antes,
excepto nos grandes objectos de ourivesaria.

Os objectos de ourivesaria propriamente chamados conservam, no XIV
seculo, as frmas que tinham precedentemente, isto , imitam o aspecto
dos monumentos de architectura, ou, pelo menos, so decorados com certos
detalhes architectonicos. Todavia na Frana, e sem excesso na Belgica,
os ourives executaram, para relicarios, estatuas pequenas de alto
relevo, grupos e imitaes de membros de corpo humano, ou outros
objectos que se desejava encerrar dentro d'elles. Desde o XIV seculo, os
vasos sagrados e os outros objectos do culto perdem a nobre simplicidade
do estylo grave da poca precedente.

No XV seculo os trabalhos de ourivesaria correctos differenavam pouco,
quanto ao aspecto geral, dos do seculo anterior. As suas frmas
patenteavam todavia as modificaes successivas que teve a architectura
n'esta poca. Os ourives empregavam menos simplicidade nas suas
composies, menos elegancia nas frmas, porm o seu trabalho 
geralmente mais apurado e mais delicado; levado por vezes at 
exaggerao pelo acabamento e perfeio dos pequenos detalhes.

Quando empregavam ainda algumas esmaltes para realar o oiro e a prata,
os ourives do XIII seculo, como os seus predecessores do XII seculo,
indicavam sobre o liso do metal o contorno das figuras, e dispunham
depois todas as partes internas do desenho, quer por um cinzelado
produzindo um relevo pouco saliente, quer, mais simplesmente ainda, por
uma delicada gravura, cujos traos refaziam o desenho dos contornos das
figuras; emfim, abaixavam o fundo  roda das figuras e enchiam-no de um
esmalte, geralmente escuro, adequado para fazer sobresair a composio.
At ao final do XIII seculo, os traos da gravura delicada ficavam
geralmente vasios; era s excepcionalmente que os enchiam de preto. Mas,
no comeo d'esta poca, enchiam-n'os quasi sempre de encarnado ou
pardo-escuro.

_Dinanderie_. D-se o nome de _dinanderie_ a um objecto de cobre ou
lato coado e martellado, conforme o modo de fabricar esses objectos.
Esta palavra tira a sua origem da cidade de _Dinant_ sobre o _Meuse_, a
qual tinha adquirido, na edade mdia, uma grande fama pela execuo de
objectos de lato. Portanto, em virtude d'esta etymologia, alguns
archeologos continuaram com o uso recebido, escrevendo--Dinan_te_rie, em
logar de Dinan_de_rie.

A arte de _dinanderie_ estava prospera desde o fim do XI seculo nos
Paizes-Baixos, e durante os seculos seguintes, os bate-folhas de cobre
obtiveram de differentes soberanos muitos privilegios, que facilitaram a
exportao dos productos de sua industria para Allemanha, Frana,
Inglaterra e todo o norte da Europa.

As pias baptismaes executadas com este material, as primeiras de 1112, e
as outras de 1149, ainda se conservam na Belgica.

_Calices e Patenas_. A communho sob a especie de vinho tendo sido
abolida na Egreja Latina, proximo do XII seculo, os calices _ministraes_
com aza cessaram de ser empregados no Occidente, e a sua fabricao
ficou completamente abandonada. Assim, todos os calices ministraes de
origem occidental so anteriores ao periodo ogival. Na Grecia e no
Oriente, pelo contrario, onde a communho se dava ainda aos seculares
sob as especies de po e vinho, o uso dos calices ministraes
conservou-se at ao presente.

_Os calices vulgares_, isto , os de uso do sacerdote que celebra a
missa, teem geralmente no XIII seculo, como nos dois seculos
precedentes, a taa muito larga e pouco funda, o p redondo e de grande
diametro; a tige est ornada de um n grosso, composto muitas vezes de
arestas salientes, mas raramente de medalhes circulares.

No XIV seculo, e mesmo no fim do XIII uma mudana notavel se deu na
frma dos calices. A taa estreitou-se, e de hemispherica, como era
antes, veiu a ser conica ou enfundibuliforme, isto , similhando-se a um
funil. A frma desegual, quasi desconhecida nos calices do XIII seculo,
veiu a ser commum, sem todavia tomar uma grande importancia. A hastea,
que durante a primeira metade do XIII seculo, era regularmente
cylindrica, tornou-se angulosa e prismatica, tendo geralmente seis
faces. Os lados do n foram mudados para botes redondos, quadrados ou
rhombos, egualmente em numero de seis, e quasi sempre embutidos de
esmalte, gravuras ou joias. Sobre os seis botes esto algumas vezes
inscriptas as seis letras do nome de Jesus, como ortographavam ento:
IHESUS. O p est dividido em seis lobulos ornados de esmaltes e de
gravuras a trao representando imagens, e mesmo composio completa;
estes lobulos correspondem s faces da hastea e aos botes do n. O sco
do p est recortado em folhas de trevo, quatro folhas ou arcaduras; seu
diametro, sempre menor que o dos calices romans, conserva no obstante
uma base bastante larga para evitar a quda. Em resumo, os calices do
XIV seculo, comparados com os dos seculos precedentes, tem mais altura,
mas o diametro da taa e do p  muito menor.

A frma geral dos calices do XV seculo  pouco mais ou menos a mesma dos
calices do XIV seculo. Todavia, em certos paizes, por exemplo na
Belgica, observa-se que os lobulos do p, as faces das hasteas e os
botes do n teem muitas vezes o numero oito em logar de seis. Esta
mudana foi introduzida proximo do meiado do XV seculo.

A _patena_ do periodo ogival tem como a do periodo roman, a frma de uma
pequena salva, apresentando no meio uma cavidade circular. O fundo da
salva traz muitas vezes, gravado a trao, um circulo ou um quadrilobo,
circumdando quer o Cordeiro Divino, quer a Mo com aureola que symbolisa
a Divindade, quer qualquer outro assumpto. Colloca-se algumas vezes uma
pequena cruz sobre a borda da salva.

_Galhetas_. Existem raros especimens de galhetas da poca ogival.
Havia-as de cobre esmaltado e em crystal de rocha com guarnio de prata
cinzelada e algumas de prata dourada com guarnies gravadas.

Durante a edade mdia serviram-se tambem mais frequentemente de galhetas
de vidro, mas por causa da fragilidade da materia, muito poucos objectos
d'esta especie escaparam da destruio.

_Custodias Eucharisticas_. Em alguns paizes, particularmente em Frana,
a Eucharistia continuou, durante o periodo ogival, a estar conservada,
como anteriormente, nas pombas douradas e esmaltadas, collocada, a maior
parte das vezes, em uma torresinha ou pequena tenda forradas de telas
custosas, ficando suspensa por cima do altar, quer sob a pyxide, quer no
baculo de metal.

No XIII, no XIV, e mesmo ainda durante uma parte do XV seculo, as
pyxides eram geralmente como as do periodo Roman, de muito pequeno
tamanho, porque, at proximo do meiado do XV seculo, serviam smente
para conservar o numero necessario de hostias de que havia preciso para
a communho dos doentes em perigo de vida. Os fieis que podiam assistir
aos officios religiosos, recebiam a Santa Eucharistia depois da
communho do sacerdote, com as especies consagradas durante a missa,
sendo distribuidas servindo-se da patena.

Quasi todas as pyxides do periodo ogival eram de metal; as de marfim e
cobre no apparecem seno excepcionalmente.

_As pyxides sem p_, de cobre dourado e esmaltado, compostas de pequenas
caixas cylindricas, tendo uma tampa de frma de cone, ficaram em uso
pelo menos at o XVI seculo; empregando-se principalmente para levar o
Viatico aos enfermos.

Encontram-se ainda presentemente muitas d'estas pyxides, mais ou menos
valiosas e ornadas. No poucas devem a sua conservao a esta
circumstancia, que depois da introduco das grandes pyxides
aproveitaram-nas para guardar as reliquias destinadas a ficar
chancelladas no altar no momento da consagrao: portanto, no  raro
encontrarem-se nos desmanchos dos altares do XVI e XVII seculos.

As pyxides _pediculares_, isto , tendo um p, que eram raras antes,
vieram a ser as mais communs desde o XVIII seculo. Algumas destinadas a
ficarem suspensas por cima do altar, sob o sacrario, ou na voluta do
baculo, teem o p muito pequeno, e a taa assim como a tampa bastante
grandes e quasi hemisphericas, de maneira a formar reunidas uma bola
ca, geralmente um pouco achatada.

No seculo XII, as pyxides, em logar de ficarem suspensas por cima do
altar, foram postas nos sacrarios, deram-lhes regularmente um p mais
alto, similhante aos dos calices e dos relicarios. No principio, bastava
collocar sobre um p as pequenas pyxides de cobre dourado e esmaltado;
depois fizeram tambem as pyxides em metal com cinzelados e rebatidos,
vindo a ser unicamente usadas. As mais antigas da ultima especie teem a
taa e o p circular.

No XIV seculo, a taa e a tampa tiveram a frma hexagonal, isto , seis
faces, e o p divide-se em seis lobulos.

Durante a ultima metade do XIV seculo e todo o XV seculo, as pyxides
pediculadas tem muitas vezes as arestas da tampa decorada de crochetes;
os angulos formados pela interseco dos seis lados da taa, sendo
flanqueados de contra-fortes, e os lados tambem ornados de arcaduras com
ou sem estatuasinhas.

Quando no XV seculo, ficou introduzido o costume de conservar o maior
numero de hostias consagradas, afim de poder dar a communho aos fieis,
mesmo sem ser na occasio da missa, as pyxides tiveram dimenses muito
maiores. Continuou-se geralmente a dar-lhe frmas architecturaes, porm
essas frmas vieram a ser, sobretudo na Allemanha, mais altas e mais
complicadas ajuntando-se arcos-butantes aos contra-fortes e s arcaduras
com as quaes j as ornavam precedentemente. Em Frana e na Belgica,
appareceram proximo do final do XV seculo as pyxides esphericas, cuja
frma faz lembrar a dos antigos ciborios suspensos. No  raro, alm
d'isso, achar pyxides transformadas em relicarios.

No ser inutil aqui repetir, que, salvo raras excepes, todas as
pyxides anteriores ao XVI seculo teem a tampa presa  taa por um gonzo.

_Custodias_. A solemnidade do _Corpus Domini_, ou festa do Corpo de
Deus, instituida em Lige em 1246, e extensiva  Egreja Universal,
dezoito annos mais tarde pelo pontifice Urbano IV, trouxe o uso de expr
publicamente o Santissimo Sacramento  venerao dos fieis. Foi este uso
que deu origem ao vaso chamado _custodia_, ou _apresentao_ nome
derivado dos verbos latinos _ostendere_ e _monstrare_, significam, um e
outro, _mostrar_.

No principio, parece que o _Santissimo Sacramento_, estava exposto
publicamente nas pyxides _transparentes_ com cruzes e torrinhas cheias
de aberturas; mas, dentro em pouco adoptaram-se, geralmente as
custodias.

Algumas d'estas custodias primitivas apresentam a maior analogia com os
relicarios expostos contemporaneos. So pequenos edificios de metal, com
recortes, tendo um p e furados sobre dois ou muitos dos seus lados, com
aberturas, as mais das vezes sob a frma de janella ogival.

As custodias mais communs durante todo o periodo ogival, foram as de
_cylindro_, assim designadas porque so formadas d'um cylindro de
crystal ou de vidro posto sobre um p de metal. No XIV, XV e XVI
seculos, o cylindro tem geralmente por cima um campanariosinho e nos
flancos contra-fortes e arcos-butantes, igualmente de metal. Depois do
XIII seculo, o campanariosinho e o pinaculo no so usados. A hostia
colloca-se no interior do cylindro n'uma luneta sustentada por um ou
mais anjos. O p e o n d'estas custodias apresentam a maior similhana
com os calices e as pyxides contemporaneas; todavia, o diametro do p 
geralmente maior nas custodias que nas pyxides e calices.

As custodias em que o cylindro de crystal  substituido por um _sol
radiante_ vieram a ser geraes desde o XVI seculo. Antes d'esta epocha,
eram extremamente raras, e smente se conhecem pela noticia que se
encontra nos inventarios dos thesouros das egrejas pertencentes ao XV
seculo.

_Relicarios_. Os relicarios do periodo ogival apresentam frmas to
variadas como os da epocha Roman. Seria difficil descrevel-os todos;
occupar-nos-hemos dos principaes.

_Relicario da vera Cruz_. Como precedentemente dava-se muitas vezes a
estes relicarios a frma d'uma cruz com travessa dupla; porm
empregavam-se os ornatos proprios da ourivesaria da epocha ogival. A
maior parte d'estas _cruzes-relicarios_, sobretudo as mais bellas, so
do XIII seculo.

Depois d'essa epocha abandonou-se o costume de encaixilhar os relicarios
da vera cruz, nas cruzes relicarias com travessa dupla, e serviram-se
geralmente da cruz com uma unica travessa.

Deu-se tambem algumas vezes a frma de uma cruz aos relicarios contendo
reliquias de santo; mas n'este caso a cruz tem sempre uma s travessa.

No XIII seculo, os relicarios da vera cruz, collocados n'uma pequena
cruz ou bocota, eram ainda s vezes, como durante o periodo Roman,
encaixilhados dentro de placas metallicas fixas sobre o meio da madeira
e ornados de esmaltes, gravuras e cinzelados de maneira a formar uma
especie de quadro com portas de metal ou madeira pintada.

_Relicario da cora com espinhos_. Os espinhos da cora trazida pelo
Redemptor durante a sua paixo, eram collocados regularmente em coras
de ouro ou de prata enriquecidas de joias. Algumas d'estas coras,
feitas no Oriente, foram enviadas para a Europa Occidental pelos
imperadores que as conquistas dos cruzados tinham collocado sobre o
throno de Constantinopla.

A Santa Cora de espinhos que tinha vindo em poder dos cavalleiros
cruzados em seguida s suas conquistas no Oriente, ficou conservada
religiosamente no throno sagrado do novo imperio byzantino at 1237,
epocha em que o imperador Bauduino II foi obrigado a dal-a em penhor aos
commerciantes venezianos, os quaes lhe haviam feito um emprestimo da
quantia de quatro mil marcos de prata para occorrer s necessidades mais
urgentes das finanas imperiaes.

Pouco tempo depois, S. Luiz IX, rei de Frana, tendo tido a felicidade
de occupar o logar dos emprestadores, ficando responsavel pela quantia
entregue, pde obter a preciosa reliquia, e a fez transportar para
Frana por dois frades dominicanos.

O santo rei mandou pr muitos espinhos nas coras do mesmo feitio que
tinha a cora real, e presenteou com ellas um certo numero de
estabelecimentos religiosos.

Os Santos Espinhos foram tambem por vezes encaixilhados em relicarios
mais simples e d'um feitio differente.

Os relicarios do periodo ogival apresentam o mesmo aspecto que os do XII
seculo, isto , teem a frma d'um cofre oblongo, fechado por uma tampa
imitando um telhado com duas aguas.

Os grandes relicarios do XIII seculo so cofres de madeira coberta com
chapas de metal esmaltado, cinzelado e por vezes simplesmente gravado.
Quasi todos so rectangulares; ha todavia, por exemplo, a grande caixa
das reliquias de Nossa Senhora de _Aix-la-Chapelle_, que se v sobre os
seus dois compridos lados, saliencias que a faz parecer com uma egreja
tendo um cruzeiro. As suas faces verticaes so ornadas de estatuasinhas
de ouro, prata ou de cobre dourado, ficando collocados debaixo de docis
ou arcaduras. Jesus Christo abenoando, sentado ou de p, s ou entre
dois santos, se v, como nos relicarios Romans, sobre um dos dois
pequenos lados formando empena, emquanto o outro lado fica occupado por
Nossa Senhora, ou pelo Santo cujas reliquias se conservam no relicario,
igualmente collocado entre dois santos.

Os dois lados compridos esto divididos n'um certo numero de
compartimentos tendo como remates frontes dentro dos quaes esto
inscriptas ogivas quasi sempre trilobaes. Estes compartimentos formam
docis ou arcaduras, mostrando estatuasinhas dos apostolos ou de outros
santos assentados.

Sobre as abas da tampa ha figuras em p ou baixos relevos representando
os mysterios da vida de Jesus Christo e os principaes factos do corpo
que encerra o relicario.

Finalmente, algumas vezes a aresta superior do cofre, e mesmo os lados
inclinados dos frontes, teem na summidade folhagens de esmerado lavor,
interrompidas de distancia a distancia, por castes.

As linhas inclinadas dos frontes, os docis, os molduramentos e os
fustes das columnasinhas que sustentam os docis esto bastantes vezes
cheios de esmaltes e filigranas como se fazia precedentemente.

Desde o final do XIV seculo, os relicarios em metal perdem o aspecto de
feretro ou cofre, como haviam tido at ento; transformam-se pouco a
pouco e tomam a apparencia de capellas e mesmo de pequenas egrejas.

Alguns relicarios do XIV seculo fingem, d'uma maneira extremamente
caracterisada as frmas architectonicas: representando rosaceas,
galerias, campanariosinhos e contrafortes; os seus docis e frontes
teem as inclinaes dos contornos decorados de crochetes acabando no
feitio d'um floro.

O maior numero dos relicarios metallicos dos XV e XVI seculos imitam
servilmente a maneira de se construirem os monumentos de cantaria; vindo
a ser reproduces em pequeno das grandes egrejas ogivaes. Tendo
egualmenle arcos-butantes, na summidade recortes, parapeitos vasados em
trefles ou de quatro folhas, uma nave principal e as lateraes, etc., e
s vezes tambem uma torre se ergue no centro do espigo.

Usaram tambem, durante o periodo ogival, de _relicarios de madeira_
cobertos de pinturas representando assumptos religiosos que recordam
geralmente os principaes factos da vida do santo que contm o relicario.

O relicario de madeira mais notavel como objecto d'arte por causa de
suas pinturas,  o de Santa Ursula, que est no hospital de S. Joo em
Burges. Tem a data do XV seculo e constitue uma das obras primas do
pintor Hans Memlinc.

Ha tambem poucos exemplares de relicarios de pedraria do periodo ogival.

Os relicarios no contm sempre os corpos inteiros dos santos, e so
tambem destinados a conservar reliquias diversas.

_Bustos, braos, ps, estatuasinhas_, etc. O uso de conservar as
reliquias dos santos dentro de bustos ou nos relicarios preciosamente
ornados imitando a frma dos ornatos a que os relicarios pertenciam j
no periodo roman, manteve-se durante toda a epocha ogival, e
encontram-se ainda muitos exemplares do periodo do renascimento.

O maior _busto-relicario_ conhecido, pois mede 1^{m},62 centimetros de
altura e um dos mais magnificamente ornados,  o de S. Lamberto da
cathedral de Lige, obra de 1506 a 1512.  de prata dourada e est posto
sobre um plintho decagono decorado de seis baixos relevos representando
differentes scenas da vida do santo bispo de Maestricht. O bispo est
paramentado com as vestes pontificaes e todo coberto de joias e perolas.

Os ossos dos braos e dos ps esto muitas vezes introduzidos nos
relicarios apresentando a frma d'esses membros do corpo humano. Nos
relicarios de frma de brao, a mo fica sempre representada _benzendo_
 maneira Latina.

No thesouro da egreja de Nossa Senhora de Tongres ha sete relicarios com
a frma de braos. Dois so do final do XIII ou principio do XIV seculo,
estando compostos de chapas de prata com faxas de cobre dourado
guarnecido de joias e filigranas; os outros cinco so de madeira
pintados e dourados. Os tres mais admiraveis e preciosos, tem dois a
frma d'um p, e no terceiro, com a frma de meia lua, guarda-se uma
costella do apostolo S. Pedro.

Ha tambem relicarios apresentando o feitio de estatuasinhas. Geralmente
as reliquias esto contidas em um pequeno cylindro de crystal,
guarnecido de prata ou cobre dourado, fechado nas duas extremidades e
posto ao lado da estatuasinha ou trazendo-o na mo. Algumas vezes, posto
que raramente, esto fixos n'um medalho ou pequena cruz, sobre o peito
ou sobre outra qualquer parte da estatuasinha.

_Mostrador-relicario_. Estes relicarios compem-se de vasos de crystal
ou de qualquer outra materia transparente, engastados em obra de
ourivesaria, onde se mettem as reliquias, depois de as ter embrulhado em
pellica, seda ou estofo, tecidos de ouro ou prata. Estes vasos,
geralmente de frma de cylindro co, pem-se muitas vezes n'uma posio
vertical, e ficam limitados por um remate tambem conico. O maior numero
dos mostradores-relicarios so postos sobre ps similhantes aos dos
calices e das custodias; alguns so sustentados por anjos ou levitas;
finalmente ha os que ficam postos sobre um sco; por vezes acontece no
terem essa base.

No XIII seculo, e mesmo ainda s vezes no seculo seguinte, os ourives, 
imitao das obras dos esculptores contemporaneos, iam buscar os feitios
de decorao para os mostradores-relicarios s reliquias nos engastes
das joias, s filigranas e as folhagens imitando a flora indigena.

Ao comear do XIV seculo, muitos relicarios fingem frmas architecturaes
e imitam mais ou menos certas partes dos edificios do estylo ogival. Os
feitios da decorao tirados at ali ao reino vegetal, do logar para
formar pinaculos, contra-fortes, arcosbutantes e docis, estando
delicadamente lavrados e executados, no pela imitao servil dos
edificios de cantaria, mas com uma intelligencia apurada que distingue
todas as produces artisticas da idade media e que attendiam  natureza
da materia que se punha em obra. O ourives, posto que conservasse as
frmas geraes da architectura, dava-lhes uma leveza que seria
impossivel, se fosse executada na pedra.

Quando o cylindro ficava na posio vertical, a frma do
mostrador-relicario confundia-se geralmente com a das custodias, como j
referimos.

Vem-se tambem algumas vezes relicarios com cylindro vertical e feitio
da decorao imitando a architectura, no tendo peanha.

Quando, pelo contrario, o cylindro tem a posio horisontal, 
geralmente executado em obra de ourivesaria de frma de egreja com uma
ou mais naves, encimado d'uma torresinha elevada e ligada por
arcos-butantes sahindo do engaste que encerra o cylindro.

_Phylacteras_. No podemos deixar de mencionar uma outra frma de
relicarios que foi commum no XII e no XIII seculos. Estes objectos
compem-se de pequenos moldes de madeira cobertos de prata e cobre
dourado e esmaltado, sobre os quaes esto traadas, em esmalte ou
relevo, imagens, scenas historicas e legendarias, emmolduradas n'uma
cercadura de filigrana recamada de joias sem serem lapidadas. Muitas
vezes mesmo as representaes dos assumptos, das figuras e symbolos
faltam inteiramente. As costas, formadas igualmente d'uma chapa de
metal, so ornadas de lavores, gravuras ou pinturas. Tem sempre
pequenas dimenses (o seu diametro no  de mais que dois a tres
decimetros), e frma redonda, ellyptica ou, as mais das vezes, com
quatro folhas. Alguns archeologos lhes do o nome especial de
_phylacteras_, posto que, conforme a etymologia, este nome, derivado do
grego, _guardar_, designa qualquer especie de custodia ou recipiente, e
deveria por conseguinte applicar-se indistinctamente a todos os
relicarios.

Algumas vezes as phylacteras so, como os relicarios de cylindro de
crystal, postas sobre um p de metal com figuras de anjos ou de santos.

_Cofres-relicarios_. Continuou-se, durante o periodo ogival, a encerrar
as reliquias dos santos nos cofres de metal, madeira, marfim e couro com
figuras em relevo.  bastante raro achar, sobre estes cofres, scenas
historicas ou symbolos religiosos.

No XV seculo principiou-se a fazer cofres de ferro, e o seu uso no se
demorou a generalisar. No devemos pois admirar-nos, se um grande numero
d'estes objectos curiosos tem sido conservados at ao presente. A maior
parte eram destinados a uso profano: guardavam joias e outros objectos
preciosos. Ha todavia alguns que serviram de relicarios, principalmente
os que tem inscripes religiosas, como--AVE MARIA GRATIA PLENA e O
MATER DEI MEMENTO MEI.

s vezes estes cofres eram inteiramente de ferro; sendo todavia formados
d'uma caixa de carvalho ou de faia forrada de couro encarnado, sobre o
qual assentava uma chapa de ferro recortada e segura por enfeites de
ferro. O ferrolho tinha s vezes a frma d'um lagarto ou de salamandra.
A maior parte d'estes cofres eram cobertos de flores scintillantes, o
que faz vr que no XV seculo os serralheiros como os ourives iam buscar
 architectura as suas principaes frmas de decorao.

Os cofres de marfim, dos quaes se haviam servido muitas vezes para os
relicarios durante o periodo Roman, ficaram em uso at  epocha ogival
juntamente com os de madeira, de metal e de couro.

_Trombetas-relicarios_. No  raro achar, nos thesouros de egrejas,
antigas trombetas de guerra e de caa transformadas em relicarios.
Durante a idade media, os christos no receiavam empregar no culto
certos objectos profanos emquanto  sua origem e  sua ornamentao,
mais preciosos como materia ou como obra d'arte. J assignalamos esta
pratica para os camafos e pedras antigas gravadas concavamente, das
quaes os ourives da idade media frequentemente faziam uso para dar mais
brilho ao metal nos differentes objectos para o culto; encontrando-se
tambem nas trombetas dos caadores de que tratamos agora e dos esmoleres
de que fallaremos depois.

Quasi todas as trombetas-relicarios so de marfim e apresentam a mesma
frma, imitando a defeza do elephante de cuja materia eram fabricadas. 
do nome d'este animal, que as trombetas de marfim tem tirado o de
_olifante_, pelos quaes so geralmente conhecidos. Na idade media o
_olifante_ era tanto se no fosse mais, um instrumento de guerra como
para a caa; servia principalmente para dar signal de commando, reunir
as tropas e annunciar a presena do inimigo.

Os elephantes e as trombetas esto guarnecidos de aros de metal,
floreado com flores ou redentados que facilitam suspendel-os em
bandoleira. Estas virolas, algumas mostrando a cabea de bezerro, esto
fixas nas duas extremidades, e de distancia em distancia sobre o
comprimento do objecto. Algumas vezes tambem ornam-se os elephantes de
esculpturas em baixo-relevo, e ento as virolas no tem ornatos.

As principaes officinas para a esculptura dos oliphantes e guarnecel-as
de metal existiam durante a idade media no Norte de Frana,
principalmente em Abbeville e Paris.

Encontram-se tambem trombetas relicarios em chifre de boi e de bufalo;
posto que guarnecidas pela mesma maneira que os _oliphantes_, so
todavia faceis de reconhecer, no smente pela sua cr, mas ainda pela
sua curva muito mais fechada, approximando-se geralmente d'um
semi-circulo.

_Esmoleres-relicarios_. Chama-se _esmoler_ a uma pequena bolsa com
cordes ou fechos, que se traz suspenso  cintura para guardar o
dinheiro e os objectos de servio habitual. Estas bolsas, que formavam
na idade media o complemento indispensavel do vestuario dos dois sexos,
eram de couro ou estofos de preo. Dava-se-lhes tambem o nome de
algibeira.

A frma mais antiga  d'uma pequena bolsinha com dois cordes de correr
para fechar, e d'um outro cordo para suspender  cintura. Mais tarde
supprimiram-se os cordes e dobraram na frente do bolsinho uma parte do
estofo, que se levantava quando se queria introduzir a mo no esmoler.

No se tem conservado at ao presente esmoleres de estofo, e mesmo os de
couro no se encontram seno casualmente. Entre estes estofos uns so de
seda lavrada, outros tem bordados sobre linho ou seda com fios de ouro
ou seda de differentes cres traando simples ornamentos, symbolos e
mesmo algumas vezes assumptos.

Na idade media serviam-se, muitas vezes dos esmoleres para embrulhar as
reliquias dos santos e deposital-as nos relicarios.  mesmo a esta
circumstancia que deve ter-se conservado um grande numero d'esses
curiosos objectos, o que serve tambem para se explicar acharem-se nos
thesouros das egrejas. Poucas vezes esses esmoleres mostram symbolos ou
assumptos religiosos; no maior numero vem-se simples ornamentos;
algumas vezes mesmo esto decorados com assumptos profanos.

_Relicarios diversos_. Alm dos relicarios que acabamos de descrever por
classes, ha tambem outros de que seria impossivel formar grupo, havendo
infinita variedade, e ao mesmo tempo um gosto singular, que os artistas
de todo o periodo ogival empregaram no feitio d'esses objectos.

_Custodias_ d'Agnus Dei. Chama-se _Agnus Dei_ a pequenos medalhes de
cera branca, de frma circular ou oval, ornados sobre as duas faces com
a impresso d'um cordeiro deitado, uma cruz de resurreio, estandarte e
tendo dois ou tres guies fluctuantes. Por baixo do cordeiro ha n'um
segmento de circulo, o nome do Pontifice que benzeu o objecto. N'uma
epocha bastante recente, tem-se muitas vezes completado esta indicao,
ajuntando-se-lhe o anno do pontificado; havendo-se substituido ao
cordeiro collocado no reverso do medalho, o brazo d'armas do papa ou
uma imagem. Em exergo l-se quasi sempre: AGNE DEI MISERERE MEI QUI
CRIMINA TOLLIS.

Desde o IV seculo  provavel se estabelecesse o uso de aproveitar, no
domingo depois da Paschoa, os restos do cirio paschal do anno precedente
para o dividir em pequenos fragmentos e distribuil-os depois aos fieis,
os quaes os levavam comsigo para suas casas e serviam como objecto bento
de devoo.  n'esta pratica ao presente conservado em algumas dioceses
com as modificaes accessorias, que se acha a origem da devoo dos
_Agnus Dei_. Em Roma, principiaram cedo a ajuntar cera pura e oleo aos
fragmentos do cirio paschal e com esta mistura, se moldavam medalhes em
forma de distico, tendo a effigie do cordeiro Divino. Estes medalhes
eram j conhecidos em Roma perto do fim do VI seculo. Mais tarde, e
ainda presentemente, os restos do cirio paschal foram completamente
excluidos da materia dos _Agnus Dei_, e serviram-se unicamente da cra
sem nenhuma addio de substancias estranhas, que o soberano Pontifice
mergulha durante algum tempo em agua benta misturada dos Santos Oleos e
de balsamo puro.

Em todos os tempos os _Agnus Dei_ tem sido recebidos pelos fieis com
grande venerao, e muitas vezes encerrados em pequenas bocetas de metal
mais ou menos precioso, cuja forma e ornamentao apresentam a maior
analogia com os dos relicarios. Estas bocetas tem geralmente uma argola
para se suspender; so circulares como os antigos _Agnus Dei_, trazendo
em exergo a legenda como est: AGNE, (ou mais vezes ainda AGNUS) DEI
MISERERE MEI QUI CRIMINA TOLLIS, ou uma outra orao. So muitas vezes
recortadas de maneira a mostrarem uma maior ou menor parte da cra. Os
espaos que occupam o metal so ora dispostos em simples cruz grega
tendo na interseco dos ramos, um medalho cinzelado, gravado ou
esmaltado, ora em relevo sob a frma de cordeiro, imagens, ou simples
floro.

Os mais antigos _Agnus Dei_ conservados at ao presente no vo alm do
principio do XIV seculo; porm os d'uma epocha posterior encontram-se
com bastante frequencia.

_Armarios para reliquias_. Os relicarios, os vasos sagrados, os livros
do Evangelho e outros objectos preciosos conservam-se regularmente em
armarios ou tendo simples nichos feitos na grossura da parede; outras
vezes formavam construces de pedra encostadas a uma parede; todavia as
mais das vezes eram moveis de madeira com mais ou menos obra de apurado
trabalho.

No XIII seculo, e mesmo ainda muitas vezes no XIV seculo, estes moveis,
d'uma frma sempre simples e adequada ao seu destino eram principalmente
ornados com ferragens de feitio esmerado e com pinturas sobre as suas
portas. As portas sem molduras compunham-se d'uma serie de taboas
simplesmente juntas, duplas, consolidadas na parte interna, por
travessas e no lado exterior ornadas com bellas pinturas.

Desde o fim do XIII seculo e durante a primeira parte do XIV seculo, a
pintura e a esculptura foram, em certas occasies, empregadas
simultaneamente na decorao dos armarios das reliquias; algumas vezes
mesmo, as portas com esculpturas tinham dourados, e o lavor de estojo
com ornamentos coloridos. Depois, a esculptura augmenta e pouco a pouco
acaba, no fim do XIV seculo, para substituir completamente a
polychromia. As portas dos armarios no apresentam j, a contar d'esta
epocha, as superficies inteiramente lisas e cheias de pinturas.
Compe-se ento de almofadas encaixilhadas e preparadas do mesmo modo
que as partes lisas das portas. Entre estas almofadas, algumas tem em
relevo molduras com desenhos imitando as travessas das almofadas das
janellas, as outras esto cheias de folhagens ou ornatos de talha
imitando folhas de pergaminho, como j explicmos. Uma cimeira recortada
e vasada e na qual os prumos dos aros veem terminar em floro rematam
muitas vezes o movel em todo o seu comprimento.

_Vasos para os santos oleos_. Na quinta feira de cada anno, o bispo
benze solemnemente, durante a missa que elle celebra na sua cathedral,
tres especies de oleos, os quaes so depois distribuidos pelas egrejas
da diocese. So: 1.^o oleos para os cathecumenos; 2.^o, oleo para os
enfermos; e 3.^o, oleo para a chrisma.

Acham-se ainda hoje em algumas cathedraes, grandes vasos do periodo
ogival que serviram antigamente para benzer os santos oleos na ceremonia
de Quinta Feira Santa.

Alm d'estes vasos de grandes dimenses, nos quaes o bispo benzia os
oleos para toda uma diocese, s vezes mesmo para muitas, havia
recipientes mais pequenos, que continham smente os santos oleos para o
deo de uma grande cidade. Alguns eram cofresinhos rectangulares ou
ovaes, de madeira forrada de couro, dividido interiormente em tres
separaes, podendo em cada uma caber um frasco. Outros em metal mais ou
menos precioso, compe-se de tres vasos, geralmente cylindricos reunidos
estando soldados ou simplesmente unidos.

Os vasos contendo os santos oleos para a occasio mesmo em que dar os
sacramentos e nas differentes unces de benos, so regularmente muito
mais pequenos do que aquelles que fallamos, e podem ser divididos em
duas classes. Os da primeira classe, destinados a conter ao mesmo tempo
as tres especies de oleos, so triplicados como os dos dees, os quaes
se differenam unicamente pela sua menor dimenso. Compem-se quasi
sempre de tres cylindros cos, com uma tampa conica, collocados em roda
d'um nucleo, porm raras vezes postos em linha. Alguns no tem ps,
outros mostram esse appendice.

Para distinguir os differentes oleos, marcam-se os vasos com lettras
differentes: I, designa o oleo para os enfermos, _oleum Infirmorum_; C,
o santo oleo, _chrisma_. Para o oleo dos cathecumenos servem-se ora da
lettra S, _oleum Sacrum_, ora da lettra O, _oleum_, ou mesmo da lettra
E, do grego [Grego: Elaion], oleo. Como cada um d'estes oleos no serve
sempre nas mesmas ceremonias, e se precisa levar longe o oleo para os
doentes, cada um dos pequenos vasos pode-se separar do n central que os
reune.

A segunda classe dos vasos para uso immediato de ungir comprehende
aquelles que encerram uma unica especie, geralmente o oleo para os
enfermos. Teem quasi sempre a forma cylindrica e esto tapados com uma
tampa de frma conica. Alguns teem ps, outros no.

_Coras suspensas sobre o altar_. Estas coras chamadas _votivas_,
estiveram em uso pelo menos durante uma parte do periodo ogival, e
conservavam a frma que tinham antes: a de um circulo de metal, cujo
brilho era muitas vezes augmentado com joias e esmaltes. Algumas eram
feitas de proposito para o servio do altar; outras pertencentes aos
soberanos como insignia de realeza, foram dadas s egrejas pela
generosidade dos principes.

_Coras com luzes_. As coroas de luzes do periodo ogival so ou
_suspensas_ ou sustidas em um _pedicello_.

As coras _suspensas_, que estiveram em uso desde os primeiros seculos
do christianismo, chegaram ao seu maior desenvolvimento no XI e XII
seculos. Durante o periodo ogival, perderam muito da sua importancia, e
as maiores d'esta epoca, encontram-se muito raro presentemente.

No XV seculo apparecem os lustres, que quaes vieram a ser communs em
pouco tempo, e ficaram a substituir as coras desde o principio do
periodo do renascimento.

As coras de luzes _pediculadas_ so geralmente de ferro forjado e
compe-se quasi sempre de uma tampa da qual se ergue uma hastea vertical
ornada de um ou muitos ns. No alto d'esta haste esto postos em
diversas alturas, dois ou mais numeros de circulos em frma de polygonos
de diametros differentes, compostas de espigas e dirandellas para terem
vellas. Os circulos so movedios e podem girar em roda da hastea que os
sustenta; esta disposio permitte aos devotos puxar para si as
dirandellas sem vellas pr-lhes outras vellas offerecidas por promessa.
Estas coras estavam em uso nas egrejas onde numerosos peregrinos vinham
venerar as reliquias ou a imagem de algum santo. As mais remotas coras
tendo p no vo alm do XV seculo.

_Cruz de altar e de procisso_. J dissemos, que at o fim do XV seculo
no houve distinco entre as cruzes do altar e as cruzes processionaes
ou estacionarias. A mesma cruz servia para o mesmo uso: punham-a sobre o
altar ficando firmada sobre uma base ou levavam-a em procisso no cimo
de uma comprida hastea.

No XIII seculo, as cruzes processionaes eram de uma grande simplicidade.
Tinham geralmente a imagem de Jesus Christo, e nas extremidades dos
braos havia os symbolos dos evangelistas collocados em um quadrilobo.

No XIV e no XV seculo, ornam muitas vezes com as frmas architecturaes,
e mesmo tendo estatuasinhas debaixo de docel, o cabo era co servindo
para fixar a cruz sobre a hastea ou sobre um p.

Quando no XIV, e principalmente no XV seculo, multiplicaram-se as
capellas e os altares em uma mesma egreja por causa do augmento
extraordinario da fundao de missas, introduziu-se o uso das cruzes do
altar, isto , assentes permanentemente sobre elle. A cruz do altar
principal era a unica que ficava portatil, podendo servir no altar e nas
procisses.

_Castiaes_. Havia, durante o periodo ogival, quatro especies principaes
de castiaes: os castiaes do _altar_, os castiaes de _elevao_, e os
castiaes _paschoaes_ aos quaes se podem ajuntar os _tocheiros_
collocados aos lados dos catafalcos.

_Castiaes de altar_. O uso de collocar _dois castiaes sobre o altar_
foi introduzido, em certas partes, no fim do periodo roman, e veiu a ser
geral no XIII seculo.

Os castiaes de altar do XIII seculo apresentam uma grande similhana
com os do periodo roman. Do mesmo modo eram de metal e compunham-se
regularmente de um p descanando sobre tres garras, d'um n e d'um
prato com uma espiga; sendo todavia menos ornados.  por isso, que
apparecem excepcionalmente animaes phantasticos de forma de lagarto ou
drago de azas que sustentam o prato de quasi todos os castiaes romans.

No XIII seculo, como precedentemente, os castiaes teem pouca altura,
sendo as mais das vezes de 15 a 25 centimetros. Algumas vezes todavia,
porm muito raro, proximo do fim do XIII seculo, tinham a hastea com
dois ou tres ns quasi 50 centimetros de alto.

O uso de no pr sobre o altar mais de dois castiaes pequenos durou at
ao XVII seculo.

Nos XIV e XV seculos, os ns da hastea foram substituidos por virlas,
sendo o numero de duas ou tres; ha todavia exemplos, principalmente no
XIV seculo, onde a hastea tem uma unica virla.

No fim do XV seculo e no principio do XVI seculo, os castiaes tem
muitas vezes os ns, o p e o prato com relevos do feitio de meias
perolas e a hastea torcida em espiral.

_Castiaes de elevao_. Este nome foi dado aos castiaes destinados
para terem as vellas accesas antes da elevao da Hostia, e que se
apagam depois da communho do padre. Estes castiaes, regularmente em
numero de dois e collocados aos lados do altar, eram muito mais altos
que os castiaes do altar, tendo de altura muitas vezes um a dois metros
de alto.

_Castiaes paschoaes_. Assenta-se geralmente a hastea do _castial
paschoal_ n'uma estante vasada, onde se pe o livro para o canto do
_Exultet_. Muitas vezes se collocam dois ou mais braos destinados a ter
pequenas vellas; ha-os de lato e de ferro forjado.

No XIII seculo, os castiaes paschoaes so ornados muito simplesmente
imitando na ornamentao o reino vegetal.

No XIV seculo, os candelabros para a tocha paschoal esto ornados muito
modestamente.

Os castiaes paschoaes do XV seculo so ainda muito mais simples.

_Os castiaes postos aos lados do catafalco_. Estes castiaes geralmente
muito simples so as mais das vezes de ferro forjado e ornados com
polychromia. A sua altura varia entre um a dois metros. Um grande numero
se tem conservado. Algumas vezes estes castiaes eram tambem de
madeira.

Aos lados dos catafalcos, os tocheiros isolados eram muitas vezes
substituidos por um _candieiro-triangular_ de pau ou metal composto de
um certo numero de bicos ou de pratos e assente sobre um ou dois ps.
Esta alfaia  tambem designada, principalmente nos antigos inventarios,
_cabide_, _rastrum_ e _rastrellum_.

Vestigios de apparato com luzes para os defuntos, se vem ainda hoje em
muitos monumentos funerarios do XIII seculo, nas egrejas de S. Diniz,
proximo de Paris, mandados erigir por S. Luiz Rei de Frana, em memoria
dos reis seus predecessores.

_Braos com vellas e dirandellas_. Os candieiros com braos e as
dirandellas vieram a ser de um uso geral no principio do XV seculo. Tem
geralmente o mesmo feitio que os braos do candieiro paschoal com o
prato adentado. So postos sobre as paredes, e mais vezes ficam defronte
de uma imagem. O maior numero so de lato; os de ferro forjado
encontram-se raras vezes.

_Estantes para o cro_. Chama-se _estante do cro_ a uma estante de
madeira ou de metal sobre a qual se pe os livros para facilitar as
leituras lithurgicas.

As estantes do cro fazem parte das alfaias religiosas; so de duas
especies: estantes _fixas_, collocadas geralmente no meio da capella-mr
e chumbadas no pavimento, ou com um p to pesado que se no poderia
facilmente mudar para outra parte, e estantes _portateis_. As primeiras
serviam para os chantres recitarem os officios; as outras para o diacono
e subdiaconos cantarem o Evangelho, a Epistola ou as lies sagradas.

_Observaes preliminares_. Desde o VII e VIII seculos, e durante todo o
periodo roman, fizeram algumas vezes as _estantes fixas_ independentes
da tribuna. Estas estantes isoladas, estando destruidas presentemente,
eram quasi sempre de metal, e compunham-se, como tambem as do principio
do periodo ogival, d'uma aguia com as azas abertas, pousada sobre um
sco. Muitas vezes a aguia, attributo do evangelista S. Joo, era
acompanhada de symbolos dos tres outros evangelistas.

_Estantes fixas collocadas no meio do cro_. As estantes do cro
destinadas aos chantres, so ordinariamente de lato e compem-se d'uma
aguia assente sobre um p em frma de pilar ou de columna. Este p
algumas vezes  consolidado por arcos-butantes, os quaes esto ornados
de arcaduras vasadas com rosaceas e ornatos variados, similhantes aos
que ornam as grinaldas dos tympanos das janellas ogivaes.

Nos antigos documentos a estante do cro  designada _aguia_, em latim
_aquila_, porque a maior parte das estantes, tanto do periodo ogival
como da renascena, tem a forma d'uma aguia. Muitas _estantes-aguias_
do XV seculo escaparam de serem destruidas, talvez pelo seu peso.
Algumas vezes a aguia  substituida por outros animaes, ou por homens e
anjos. As estantes de pelicanos, cujo uso foi introduzido no tempo do
periodo ogival, veiu a ser bastante commum na epocha do renascimento.

_As estantes moveis_. Estas estantes facilmente transportaveis, foram
empregadas durante o periodo ogival, quer para a leitura do Evangelho e
da Epistola, quer para as outras ceremonias do culto; eram geralmente de
ferro e poucas vezes de madeira. Estas estantes eram regularmente
formadas d'uma dupla dobradia com o feitio d'um _X_, cujas extremidades
superiores ficam ligadas entre si por uma cobertura de couro sobre a
qual se pem os livros lithurgicos. Acontece todavia, principalmente nas
estantes moveis de madeira, que elle no  formado d'uma cobertura de
couro, mas sim de taboinhas postas no prolongamento de duas das quatro
extremidades superiores da dobradia da estante.

_Livros do Evangelho e manuscriptos lithurgicos_. Continuou-se, durante
o periodo ogival, a _illuminar_ os textos dos livros santos.

No fim do XII seculo, isto , no momento em que a ogiva tomou o logar da
_volta inteira_, fez-se uma revoluo completa na arte de pintura. Os
miniaturistas da Europa Occidental do mesmo modo que os pintores das
vidraas e esculptores libertaram-se das tradices byzantinas e romans,
para se applicarem principalmente  imitao da natureza. Este novo
genero nascido em Frana, como o estylo ogival, generalisou-se por todos
os paizes proximos.

A escola dos _miniaturistas_ do XIII seculo dilatou a carreira de suas
obras. At esta epocha, as Biblias, os livros dos Evangelhos e os dos
psalterios tinham sido as unicas obras ornadas de estampas illuminadas;
depois as obras profanas da antiguidade classica, as dos padres, os
romances dos cavalleiros e as chronicas tiveram tambem illustraes
calligraphicas.

Proximo do meiado do XIV seculo, uma nova mudana teve a pintura em
geral, estendendo a sua influencia sobre todos os ramos d'esta arte. Ao
primor do desenho que traa os principaes contornos, esforou-se o
pintor por ajuntar o modelado dos objectos no afrouxamento gradual dos
tons e na opposio das sombras e da luz. A comear d'esta epocha, o
colorido deu  figura, no smente a cr, mas ainda a frma e o relevo.

No XV seculo, a arte da pintura e do miniaturista, subiu em Flandres ao
mais alto grau de prosperidade, sob a influencia dos irmos Hubert e
Joo Van Dyck, Thierry, Streerbout, Roger von der Weyden e Haus Memling;
em Portugal, Antonio e Francisco de Hollanda. Todos estes eximios
mestres no desprezavam empregar o seu tempo na illuminura dos
manuscriptos. O rei Filippe--o Bom--1419-1467--, tinha uma predileco
notavel pela ornamentao dos manuscriptos, como tambem em Portugal
el-rei D. Joo II e D. Manuel[5], contribuiram singularmente para o
desenvolvimento d'este genero de trabalho.

Os pintores d'esta epocha applicam-se a reproduzir a belleza real que se
colhe da natureza, mais agradavel que uma belleza ideal; substituem de
alguma maneira, o realismo ao symbolismo dos seculos findos passados;
diligenciando representar com toda a verdade os minimos detalhes da
natureza, cogitam o modo de apresentar a mais exacta reproduco do
feitio e cr dos objectos.

_Capas dos livros dos Evangelhos_. At ao IX seculo serviram-se
bastantes vezes de capas de marfim; do IX seculo ao XII, o marfim estava
misturado ao metal e s pedras preciosas. Durante o periodo ogival,
abandonaram geralmente o uso do marfim, e o metal s ornado com riqueza,
sobretudo no XIII seculo, de esmaltes e joias, foi empregado nas capas
das Biblias, nos livros dos Evangelhos e nos lithurgicos. Salvo raras
excepes, eram cobertos de estofos, de couro, e algumas vezes de
madeira com esculpturas ou de chapas de prata em relevo[6].

_Thuribulos e naveta para incenso_. Os thuribulos do XIII seculo
compem-se geralmente, como os dos seculos antecedentes, de duas
semi-espheras cas, as quaes juntas formam uma bola. A semi-esphera
inferior tem um p que lhe serve de apoio, no qual se pe as brazas e o
incenso; vem a ser o verdadeiro perfumador. A semi-esphera superior, que
serve de tampa, est crivada de muitos orificos para sahir o fumo do
incenso. Esta tampa que tem como remate muitas vezes uma torrinha com a
figura de homem ou de animal,  movedia: sbe e desce ao correr de tres
ou quatro correntes prezas por uma extremidade do thuribulo e por outra
parte da mesma tampa atravez da qual passa uma cadeia que fixa o remate,
e facilita levantal-a ou abaixal-a como se quizer.

A frma geral dos thuribulos do XIII seculo  conhecida, no smente
pelos raros especimens em metal conservados at ao presente, mas tambem
pelas esculpturas e miniaturas contemporaneas, nas quaes se vem anjos
ou clerigos thuriferarios.

Nos seculos XIV e XV, os thuribulos mudam de aspecto, apresentam poucas
vezes a frma espherica e tem geralmente o feitio de diversas curvas;
tomando a frma de torrinhas com telhado, janellas recortadas, etc. O
metal de que geralmente se serviam, era o lato; para os de melhor
qualidade empregavam a prata.

_Goms_ ou _aquamaniles_. Os goms designados tambem _aquamaniles_ (de
_aqua_, agua, e _manile_, vaso para deitar agua nas mos) faziam parte
das alfaias ecclesiasticas e continham agua para as ablues das mos,
durante as ceremonias religiosas. Empregavam-se tambem no uso civil para
a lavagem das mos antes e depois das refeies. No fim do periodo roman
e durante todo o perodo ogival tinham as mais caprichosas e mais varias
frmas. A maior parte apresentam a d'um animal real ou phantastico; a
agua  geralmente introduzida no goml pelo cimo, na cabea do animal,
servindo de gargalo; a bocca ou o bico finalmente a aza  formada, quer
pela cauda do animal revirada sobre o lombo, quer por um lagarto ou um
drago alado; algumas vezes mesmo a torneira est posta diante da
figura. Os animaes representados mais vezes so o leo, o cavallo, o
veado, o gallo, o drago, a sereia e differentes passaros. Quasi todos
os _aquamaniles_ so de lato ou de cobre.

Alguns goms de metal tem a frma do busto de homem, de mulher e de
creana. Devemos tambem mencionar os gomis do XIII seculo apresentando a
frma d'um prato cvo, no sendo diverso da bacia que servia seno para
pela existencia, sobre a borda d'um bico para sahir a agua sobre as
mos.

No XI seculo principiou o uso de lavatorios collocados no meio das
sacristias. Havia-os de frmas architectonicas, imitando mais ou menos
uma fortaleza ou uma torre; outros (e eram os mais communs),
compunham-se de vasos de bronze ou lato, de pequenas dimenses, tendo
uma grande aza e dois gargalos oppostos; para se lavar as mos,
abaixava-se, empurrando de cima para baixo, um dos gargalos. O seu uso
durou at ao XV seculo.

_Pratos para offerendas_. Encontram-se em muitas egrejas grandes pratos
ou bacias de lato estampado, cinzelado e gravado, ornados de assumptos,
symbolos, brases, folhagens e figuras geometricas. Estes pratos
designados _bacias de offerenda_, porque serviam e servem ainda para
receber as offertas dos fieis, principalmente as que se fazem durante as
missas para os defuntos, eram feitos no XV e XVI seculo nas officinas
dos fundidores de cobre em Augsbourg, Nuremberg e Brunswick.  preciso
advertir, que as bacias do XV seculo e do principio do XVI seculo,
apresentam os caracteres da decorao ogival, e que as do XVI e XVII
seculos apresentam ornatos do estylo da renascena.

Os assumptos e os symbolos, representados geralmente no centro do prato,
mais raramente sobre a borda do prato, so quasi sempre religiosos:
todavia v-se tambem algumas vezes com o busto de _Cicero_, de sereias,
veados, ces, escudos com brazes, etc.

Inscripes ou legendas esto gravadas dentro d'um ou dois circulos
concentricos proximo da borda do prato, e repetem-se geralmente cinco
vezes. Entre essas legendas ha um grande numero que apresentam um
sentido facil de interpretar, por exemplo: _Got sei met vus, hiff Got
aves not, hiff Th_ (esu) _vnd Maria, van allen schriftvren het slodt myt
sonder Gost, eh wart_ (ou _gich wart_) _der in fridt, ch_ (ou _ich_)
_bart et zeit gelvek, gi seal recorden, gustate et benedicite Deus_;
outros pelo contrario (e estes so os que se encontram mais vezes)
compem-se de lettras, as quaes reunidas no apresentam nenhum sentido;
taes so as seguintes: _rahe wishnbi et vrmtlife, vrmtielf_ ou
_lifevrmto_.

Parece bastante provavel que estas legendas, at ao presente
indecifraveis, foram os signaes ou as primeiras lettras de muitas
palavras formando uma divisa conhecida geralmente na epocha em que se
executavam estas bacias para offerendas.

_Representao da patena_. Em vez de se beijar a patena, recommendava o
apostolo S. Paulo aos primeiros christos, um abrao fraternal. No XIII
seculo, por motivo de decencia e de respeito foi substituido em muitas
partes, pelo uso d'um _osculatorium_ o abrao porque julgaram ento no
se poder praticar sem detrimento para a moral e distinco das
dignidades.

As regras lithurgicas fallam da patena, mas no determinam nem a frma
nem a representao. Serviram-se pois para este fim indifferentemente da
cruz, relicarios, capas dos evangelhos, etc. Todavia a frma que
prevaleceu, foi a d'um pequeno painel, feito com materias de estimao,
taes como ouro, prata, madeira rija ou marfim cinzelado, gravado,
esmaltado ou pintado, representando um assumpto religioso ou santo. Este
pequeno painel tem geralmente um cabo no lado posterior.

_Moldes ou ferros para hostias_. Serviam-se desde muito tempo, e
servem-se ainda hoje de ferros para coser o po que symbolisa a
Eucharistia, imprimindo-se-lhe figuras e lettras. Estas hostias teem
regularmente a frma circular. Muitas vezes os moldes representam
crucificao, o Cordeiro Divino, a simples cruz, o signal I H S, imagens
de santos e symbolos.

_Insignias e medalhas dos peregrinos_. As insignias de _romaria_
compem-se, durante toda a idade mdia, de pequenas chapas
rectangulares, quadradas ou circulares, muitas vezes de chumbo fundido e
de obra vasada, outras de cobre ou prata impressa e aperfeioada ao
buril. Apresentam geralmente em relevo a imagem do santo para quem ella
foi feita. Distinguem-se de duas sortes: umas (e eram em maior numero),
cosiam-se sobre o ornato pertencente  cabea e sobre o vestuario; as
outras, bastante raras, fixavam-se na extremidade do bordo ou arrimo do
peregrino.

Havia-as egualmente apresentando a frma de medalhas ornadas, nas duas
faces, com imagem de santos e inscripes; muitas vezes so acompanhadas
de um carneiro ou argola servindo para se trazer ao collo, ou pegadas
quer no vestuario, quer nos objectos de devoo, como so os rosarios,
etc.

_Pequenos altares domesticos_. Encontram-se muitas vezes, nos museus
publicos e nas colleces particulares, pequenos _triptycos_ e
_polyptycos_ de marfim, metal ou madeira, esculpidos, pintados ou
esmaltados. Estes objectos, os fieis se serviam antigamente nas suas
habitaes para satisfazer a sua devoo, teem muitas vezes a frma de
um retabulo com portas, porm, de grandes propores; sendo como os
outros retabulos, ornados de baixo-relevos, estatuas e pinturas.

_Baculos_. Como j explicamos, a voluta do maior numero dos baculos
romans era terminado por uma cabea de serpente ou de drago;
completava-os uma cruz com o Cordeiro Divino. Esta scena, symbolo do
triumpho de Redemptor alcanado sobre o demonio pelo sacrificio do
Calvario, veiu a ser raro desde o XIII seculo. Algumas volutas, sem
duvida, trazem ainda n'esse tempo na extremidade, uma cabea de drago
ou serpente, mas essa cabea fica inteiramente separada ou invez j no
ao Cordeiro nem sobre uma personagem ou sobre uma scena religiosa. Em um
grande numero de baculos a cabea da serpente  substituida por um ramo
de folhagens ou por uma flr aberta.

Quando, proximo ao fim do XIII seculo, os detalhes de architectura
substituiram-se as peas de ourivesaria, e a decorao foi buscar aos
reinos animal e vegetal, real ou phantastico, os baculos mudaram
egualmente de aspecto. Ornaram-se ento de nichos, estatuasinhas,
flechas e pinaculos. O n principalmente, e tambem a hostia, ficaram
sobrecarregados com estes ornatos.

_Estofos preciosos_. Durante o periodo ogival, serviram-se muitas vezes,
para os vestuarios sagrados, de estofos preciosos, nos quaes os desenhos
da decorao eram feitos, _juntamente_ com o tecido mesmo, por meio de
uma trama de differentes cres, sendo depois urdido pela applicao de
bordados feitos com agulha. O uso dos pannos de raz para a decorao das
egrejas generalisou-se cada vez mais durante o periodo.

_Tecidos_. A arte de fabricar os tecidos de seda foi trazida da Italia
no XIII seculo. Os desenhos embellezadores que ornam bastantes vezes os
tecidos no XIII seculo e durante uma parte do XIV so geralmente
copiados sobre os estofos orientaes. As figuras symbolicas e os
assumptos pertencentes  historia do antigo e novo Testamento, que se
acham excepcionalmente nos tecidos sicilianos ou italianos antes do
meado do XIV seculo, apparecem frequentemente depois d'esta epocha, com
cercadura, ou no tendo este enfeite.

No XV seculo, a industria do tecido da seda desenvolveu-se cada vez mais
a Oeste e Norte da Europa. A Suissa, Frana e a Belgica, que possuam,
depois do XIII seculo, alguns teares isolados para a fabricao da seda,
do veludo, e do setim, viram ento os seus teares a multiplicar-se e
tomar consideravel incremento.

Em Flandres tambem se tinha alcanado, desde o XIII seculo, bastante
fama pelos tecidos preciosos, para os quaes os primeiros aprestos foram
fornecidos pela Inglaterra. De todos os estofos o mais estimado e de
preo fabricado em Flandres era o setim de _Bruges_.

_Bordados_. Nas bordaduras do XIII seculo, como nas pinturas e
esculpturas contemporaneas, o desenhador abandonou pouco a pouco as
tradices byzantinas. Os gestos dos personagens perdem a sua expresso
archaica, as cabeas no so delineadas conforme typos convencionaes, as
pregas dos vestidos, em logar de serem comprimidas e paralellas, so
executadas com fidelidade; finalmente, as figuras teem muitas vezes a
presena curvada.

Desde o fim do XIII seculo, a arte de bordar, designada muito
distinctamente na idade mdia _pintura com a agulha, acupictura_,
attingiu a um subido gro de prosperidade; desenvolvendo-se cada vez
mais durante o XIV seculo, e chegou ao seu apogeu no principio do XV
seculo. N'esta ultima epocha, tres paizes se distinguiram sobretudo pelo
talento e habilidade no acabamento dos bordados: foram a _Belgica_, a
_Prussia rhenal_ e a _Bourgogne_. Os dois principaes centros de
manufactura para os estofos bordados encontravam-se em Arrhas, em
_Flandres_ e em _Cologne_; a estas duas cidades se pde ajuntar em
segundo logar _Malines_, _Lige_, _Tournai_ e _Reims_.

_Pannos de Raz_. Chama-se panno de raz a _um tecido no qual os fios de
cr, enrolados sobre uma urdidura fixa vertical ou horisontalmente, faz
corpo juntamente, e produz combinaes de linhas e tons similhantes aos
de pintura que se obtem com o pincel, e o mosaista com os cubos de
marmore ou de esmalte_. O panno de raz distingue-se do bordado em que as
figuras fazem parte integrante do tecido, em quanto os bordados so
simplesmente sobrepostos sobre um tecido j feito. Distingue-se por
outro modo, dos estofos tecidos de ouro e seda, porque constitue sempre
um trabalho manual, e no  obtido por um mechanismo representando sem
fim o mesmo padro. Cada uma das produces do _panno de raz_  uma obra
original.

Os fios com que o tecelo delinea as sua composies, seus symbolos e
ornatos, so o ouro, prata, seda e l.

A arte dos pannos de raz era j conhecida no XI seculo. Antes do anno
1025, havia, em _Potiers_, uma fabrica de pannos de raz, cujos trabalhos
tinham sido muito apreciados, mesmo fra de Frana. Os productos d'estas
officinas eram ornados de retratos dos reis, de imperadores, de figuras
de animaes, assim como de assumptos da biblia.

No XII seculo a Allemanha toma egualmente uma parte activa no
desenvolvimento do fabrico dos pannos de raz.

No XIV seculo, a arte do tapisseiro, posto que continuando a empregar o
mesmo fabrico technico do seculo precedente, progride como todas as
outras artes.

Desde o principio do XIV seculo a manufactura dos pannos de raz de
alto-lio prosperou em Paris, Bruxellas e Arrhas; depois foi introduzida
em muitas outras cidades de Flandres e do Brabante. No fim do XIV seculo
os pannos de raz de Arrhas principiaram a ter a primazia; devendo a sua
reputao  perfeio dos seus tecidos e  sua tintura. Desde esta
epocha, os pannos de raz de alto-lio foram designados, principalmente
pelos Italianos e Inglezes, sendo da fabrica de Arrhas, pelo nome de
_finos pontos de Arrhaz, e arazzi_.

O XV seculo foi a idade de ouro para os pannos de raz. Realisaram-se
ento notaveis progressos na execuo material. Os fios vieram a ser
cada vez mais finos, a proporo da seda e do ouro augmentaram
consideravelmente, os tintureiros inventaram graduao de cres novas,
emfim os teceles aprenderam a combinar as cres com tal habilidade que
no podia ser nunca excedida. N'esta epocha os pannos de Arrhas eram os
mais estimados e por isso muito procurados.

_Vestimentas sagradas_. Durante toda a idade mdia, as vestimentas
sagradas, das quaes se serviam nos dias ordinarios, eram feitas de
tecido de l, ou algumas vezes tambem de linho. Os estofos de seda
empregavam-se nas vestimentas ricas e preciosas.

A _casula_ conserva, at ao meado do XV seculo, a frma que tinha
durante o periodo Roman, isto , de um vestuario largo, comprimido 
roda do collo, cobrindo inteiramente os braos e caindo negligentemente
de todos os lados  roda do corpo. Da mesma maneira que precedentemente,
quasi sempre as estolas com bordaduras so comprimidas e estreitas,
representando assumptos religiosos. Na Italia, nos paizes meridionaes e
no meio dia de Frana, estas estolas so geralmente em numero de duas
postas verticalmente, uma por diante e a outra por detraz do peito; a de
diante fica com o feitio de um _tau_ T. Na Belgica, na Hollanda, na
Allemanha, e em Inglaterra, duas outras pequenas faxas saindo do peito
passam sobre os hombros e vo ter ao meio das costas, formando assim,
pela sua combinao com as estolas verticaes, duas cruzes cujos braos
ficam levantados com o feitio de Y.

As casulas com dupla cruz entraram em uso no norte da Europa at ao XV
seculo, epocha na qual uma mudana notavel se operou na frma e
disposio das estolas. Primeiramente, estas ficavam com muito mais
largura; depois em toda a parte onde a dupla cruz com braos levantados
havia tido uso precedentemente, pozeram sobre o lado opposto da casula,
uma cruz latina [Smbolo], e sobre a frente uma columna.

No XIII e XIV seculos, sendo sempre estreitas, eram regularmente ornadas
com figuras geometricas ou pequenas folhagens simplesmente de decorao.
Quando no XV seculo se fizeram mais largas, representavam muitas vezes
imagens ou assumptos religiosos.

_A estola e o manipulo_ consistiam, durante o periodo ogival, em faxas
compridas e estreitas, quasi sempre ficando as extremidades um pouco
mais largas.

As estolas e os manipulos, geralmente de uma grande simplicidade, eram
feitos de linho, de l ou de seda, acabando n'um bordado e franjas. Os
de ornamentos ricos eram por vezes bordados e apresentavam uma certa
analogia com as faxas de recamo d'ouro das casulas, que lhes pertenciam.
As suas extremidades no tinham ornatos com bordados symbolicos, que s
se usaram depois da primeira metade do XV seculo.

No principio o _pluvial_, em latim _coppa_, isto , capote para
resguardo da chuva (_pluvia_) era usado smente pelo clero inferior,
principalmente pelos chantres e mesmo por vezes pelos seculares, tomando
uma parte na celebrao do culto. Foi smente no XIII seculo que veiu a
ser commum para todas as ordens da hierarchia ecclesiastica, incluindo
mesmo o pontifice.

Serviam-se do pluvial, como se pratca ainda hoje, nas procisses e em
todos os outros officios da missa; por exemplo, no canto solemne de
vesperas. O seu feitio  o mesmo da casula; smente, em logar de ser,
como esta, inteiramente fechada de maneira a esconder todo o corpo, 
aberto na frente desde os ps at ao collo.

O pluvial da idade media tinha, sobre as costas, um capuz de ponta muito
comprida, com a qual se podia cobrir a cabea. Nos pluviaes ricos as
orlas da abertura de diante, e tambem a orla inferior, esto cobertas de
faxas de estofo colorido, bastante estreitas e ornadas, principalmente
no principio do XIV seculo, sendo os assumptos religiosos feitos com
bordados. No XIV seculo as faxas veem a ser mais largas, e proximo da
mesma poca, o capuz augmenta, ficando a sua extremidade redonda, e como
as faxas, ornada.

_Colchete do pluvial_. Prendia-se o pluvial sobre o peito com um grande
colchete coberto de medalhes em metal precioso, ornado de esmaltes ou
delicadamente cinzelado. Estes _medalhes colchetes_, em latim
_fibulae_, _morsus_, _monilia_ ou _pectoralia_, teem muitas vezes a
frma de quatro folhas; ha tambem circulares, ovaes, e mesmo quadrados.
So geralmente ornados com assumptos religiosos ou com estatuasinhas de
santos. Acompanham-os, principalmente no XV seculo, a figura ajoelhada e
os brazes do doador.

A _alva_ e o _amicto_ conservaram as frmas primitivas durante o periodo
ogival. Eram geralmente de linho, algumas vezes tambem de seda ou
brocado. Continuou-se a guarnecel-os de faxas rectangulares com recamo
de oiro, bordados ou tecidos vistosos. Estas vestimentas prendiam-se no
meio da orla superior do amicto; e sobre a alva nas extremidades das
mangas  roda do punho, por diante e detraz sobre a orla inferior
proximo dos ps, e algumas vezes tambem sobre o peito.

A _cintura_, da qual o sacerdote se serve para arregaar a alva,
prende-se  estola em cruz sobre o peito; no teve nunca na idade mdia
a frma de cordo que apresenta actualmente. N'essa poca geralmente
consistia em um comprido cinto, especie de fita comprida de dois metros
e meio, com a largura de cinco a seis centimetros. D-se-lhe algumas
vezes o comprimento symbolico, por exemplo, do tumulo de Jesus Christo.

A _dalmatica_  a vestimenta decima do diacono, a _tunicella_, a do
sub-diacono. No existe, ha muito differena entre estas duas
vestimentas, posto que n'outro tempo a tunicella teve mangas mais curtas
e era mais comprida, porm menos ornada que a dalmatica.

Durante o periodo Roman e no principio do ogival, a dalmatica consistia
em um comprido vestido inteiramente fechado, com mangas e uma abertura
para passar a cabea. Era enfeitada diante e detraz por duas faxas
verticaes com recamo de ouro ou de cr, descendo at a orla inferior.
Estas faxas, muito estreitas no XIII seculo, vieram a ser cada vez mais
largas desde o XIV seculo.

No XIII seculo, a dalmatica no era ainda aberta nos dois lados da orla
inferior at quasi  quarta parte do seu comprimento. No XIV e XV
seculos, estas aberturas augmentaram at meia altura do vestuario; tendo
ento, do mesmo modo, toda a parte inferior da dalmatica, bordados de
faxas de cr ou as superiores de recamo de ouro.

_Mitras_. As mitras com dois bicos, o uso das quaes se tinha
generalisado no XII seculo, foram definitivamente adoptadas no XIII
seculo, como um ornamento episcopal e abbacial. Comparadas com as mitras
modernas, as primitivas eram muito baixas, a sua altura variava entre
0,20 a 0,25 centimetros.

As differentes partes de que se compem as mitras so: 1.^o as peas
triangulares formando pela sua reunio o barrete; 2.^o as duas fitas
pendentes da mitra mais largas nas extremidades inferiores, ficando
prezas por detraz da mitra.

Havia na idade mdia duas qualidades de mitras: simples ou lisas, e com
bordaduras recamadas de oiro, designadas na latinidade da idade media
pelo nome _mitrae auriphry giatae_. Sobre estas ultimas as bordaduras
recamadas de oiro dispunham-se por tres maneiras: 1.^o verticalmente ou,
como dizem os livros lithurgicos, _en titre in titulo_; 2.^o
horisontalmente ou _in circulo_; 3.^o em titulo e em circulo juntamente.

No meiado do XIV seculo, os bicos da mitra so maiores. A maior parte
das mitras da ultima metade d'este seculo medem de 32 a 35 centimetros
de altura. Esta altura chega regularmente a 40 centimetros no seguinte.
N'esta ultima poca tambem as orlas dos bicos so algumas vezes
guarnecidas com bordaduras recamadas de oiro, ou tendo uma especie de
renda de prata dourada similhando-se a folhas de repolho ou de crochetes
vegetaes.


*Abbadias e Mosteiros*


_Observaes preliminares_. As partes principaes de que se compem as
abbadias e os mosteiros da idade media so a egreja, o claustro, o
refeitorio, a sala do capitulo, o dormitorio, o aposento para o abbade e
para os hospedes, o celleiro, o palheiro, a priso e as casas de
arrecadaes. Estas differentes partes ficavam geralmente da mesma
maneira, principalmente nos conventos que observavam a mesma regra.

A egreja era sempre _orientada_, isto , ficando a capella mr voltada
para o Oriente. No lado meridional da nave fica encostado o claustro, do
qual se entra para a egreja por duas portas collocadas nas extremidades
da galeria encostada  parede lateral da egreja: uma junto do alpendre,
outra na proximidade do cruzeiro. A galeria opposta, que frma o lado
meridional do claustro, d entrada para o refeitorio. A sala do capitulo
e o parlatorio occupam o rez-do-cho ao longo da galeria oriental, que
se liga por uma extremidade com o cruzeiro; no andar por cima est o
dormitorio, o qual communica com a egreja por uma escada conduzindo do
dormitorio ao transepte. As construces do occidente do claustro
serviram primitivamente aos irmos conversos, os quaes eram em grande
numero nas grandes abbadias do XII e XIII seculos. Porm, quando mais
tarde se supprimiu esta instituio, e se limitaram os irmos conversos
ao numero estrictamente necessario para o servio dos religiosos, ellas
foram destinadas para outros usos. Muitas vezes serviram para aposentos
dos hospedes, e uma parte foi transformada em celleiros e armazens.

As differentes Ordens religiosas distinguem-se na escolha do local;
quando pretendiam fundar uma nova abbadia, cada uma dava preferencia aos
sitios de mais predileco. Os Benedictinos escolhiam geralmente os
sitios altos e as montanhas; os Bernardos, pelo contrario, gostavam de
se estabelecer nos valles sobre as margens dos ribeiros, como exprimem
estes dois versos:

    _Bernardus valles, montes Benedictus amabat,
    Oppida Franciscus, magnas Ignatius urbes_.

A similhana que apresentam a maior parte das abbadias cistercienses na
disposio das suas differentes frmas  bastante notavel; quasi todas,
quando o accidentado do terreno o permittia, reproduziam, por assim
dizer, servilmente o plano das abbadias primitivas da Ordem de Cister;
plano typo adoptado para a construco d'estas abbadias na Europa
occidental do XII e XIII seculos.

A egreja era muito vasta; a sua nave meridional ficava encostada ao
claustro, com as suas galerias para passeiar; a Leste do claustro est a
casa do capitulo; o parlatorio era o grande recinto onde se reuniam os
monges; no andar sobre este lado ficava o dormitorio e o refeitorio, e a
cozinha do lado da galeria meridional do claustro. O rez-do-cho era
destinado para reunies durante o dia, e o andar superior para as de
noite; como se dizia na idade mdia, _domus conversorum_. O rio ou
ribeiro passava por baixo do refeitorio ou cozinha para levar o lixo de
toda a qualidade. Defronte dos aposentos dos irmos conversos, havia um
grande pateo murado, no qual estava, na direco de sudoeste, a porta da
entrada principal da abbadia. Temos em Portugal um famoso modelo na
antiga abbadia de Alcobaa.

As outras grandes ordens religiosas adoptaram muitas vezes, para os seus
mosteiros, disposies analogas.

As ordens de S. Domingos e S. Francisco, fundadas ambas no principio do
XIII seculo, estabeleciam-se regularmente nos grandes centros da
povoao, onde no achavam sempre espao bastante vasto para se poderem
desenvolver  vontade e dispr as differentes partes dos seus mosteiros
seguindo dados uniformes.  por esta razo que, em muitos casos, o plano
dos seus conventos differe sensivelmente da disposio tradicional
observada escrupulosamente pelos monges de Cister, mesmo, porm, com
mais liberdade pelos Benedictinos.

_Egrejas_. A planta das egrejas monasticas apresenta geralmente, como a
das cathedraes e das collegiadas, a frma de uma cruz Latina. Muitas
vezes a capella-mr no  muito comprida. Foi ento no XIII seculo que
na Europa occidental e central se pozeram as cadeiras no cro para os
frades, no smente na capella-mr, mas tambem no cruzeiro, e mesmo em
uma parte da nave principal, como existia na egreja de Alcobaa.

As egrejas dos frades Dominicanos e dos Franciscanos no tinham
ordinariamente nem cruzeiro nem torre. No XIII seculo, os Dominicanos,
construiram em Paris, Augsbourg, Dresde e outras muitas cidades, egrejas
com esta disposio excepcional, ficando divididas por duas naves com um
unico renque de columnas. Encontra-se tambem esta disposio, porm,
raramente, nas egrejas das outras Ordens religiosas.

_Claustros_. Durante o periodo ogival, os claustros eram geralmente
construidos de abobada de barrete com nervuras, e communicando com o
pateo do convento por arcadas ogivaes, vasadas e separadas umas das
outras por contrafortes. Nas arcadas collocavam nos XIII, XIV e XV
seculos, trabalhos rendilhados em cantaria, similhantes aos feitios que
se viam nas janellas contemporaneas; e de que temos exemplos nos
edificios religiosos da Batalha e de Belem. Muitas vezes esses caixilhos
de pedra no tinham vidros; todavia, principalmente no Norte e Oeste da
Europa, vedavam os tympanos com vidros brancos ou de cres, a fim de dar
abrigo contra os rigores da temperatura a quem passeasse pelas galerias
do claustro.

Desde o XIV seculo algumas vezes, e bastantes no XV seculo, substituiram
nos claustros, as arcadas ogivaes pelo feitio de janellas com pinasios
de pedra similhantes aos das arcaduras ornadas, que se veem nos peitoris
das janellas inferiores nas egrejas do ultimo periodo ogival.

Fizemos notar, que as egrejas cathedraes e collegiaes tinham antigamente
um claustro, porque, do mesmo modo que os frades, os conegos viviam a
principio em communidade. Este uso, que principiou a no se seguir desde
o XIII seculo, persistiu no obstante em muitas partes at ao fim do
periodo ogival.

Quasi todos os claustros, grandes e pequenos, construidos na idade
mdia, possuiam um _lavabo_, _lavadouro_, tendo uma pia com uma fonte. A
fonte occupava, no principio, o centro do pateo do convento. Mais tarde
approximaram-a da galeria do refeitorio; ficando ento collocada em
frente da entrada do refeitorio, ou em um dos angulos da galeria ao
longo d'elle. Os frades voltando do trabalho da lavoura, lavavam ahi as
mos antes de se prem  mesa ou ir s rezas.

_Refeitorio_. O refeitorio estava geralmente situado ao correr da
galeria meridional do claustro. Como j referimos, compunha-se d'uma
vasta sala traada sobre um plano rectangular, abobadada em geral ou por
vos descanando sobre um fuste de columnas. Por cima do claustro, havia
muitas vezes um andar pouco alto, servindo de celleiro para
abastecimento no inverno, com alimentos e fructas passadas.

Nos conventos dos Cistercienses, o refeitorio era sempre dividido em
duas naves por um renque de columnas, collocadas ao meio longitudinal;
alm d'isto, ficava este renque perpendicular  galeria proxima do
claustro. No refeitorio dos frades de S. Bento, e em geral, em todas as
outras abbadias, o grande eixo corria parallelo  galeria do claustro, e
o renque das columnas muitas vezes no  representado.

Ao lado do grande refeitorio, quasi sempre a oeste d'elle, ficava a
cosinha, geralmente com uma grande chamin quadrada.

_Casa do Capitulo_. No rez-do-cho ao correr da galeria oriental do
claustro era a casa do Capitulo, a casa para as visitas e a sala dos
frades. O dormitorio occupava o andar d'este lado uma escada conduzindo
directamente do andar superior ao cruzeiro do lado do sul, facilitava
aos frades descerem  egreja para os officios nocturnos sem se exprem
ao ar exterior.

A casa do Capitulo, isto , o logar onde os frades se reuniam sob a
presidencia do abbade, afim de tratarem dos negocios espirituaes e
temporaes do mosteiro, era edificado sobre um plano quadrado ou
rectangular com um ou muitos renques de pilares sustentando as abobadas
e as suas nervuras, dividindo-se em duas ou mais naves. Bancos de pedra
guarneciam as paredes em roda. Na Inglaterra d-se frequentemente ao
plano das casas de capitulo a frma circular ou polygona; e n'este caso,
uma unica columna central sustenta a abobada e as suas nervuras, como ha
em Westminster e em Lincoln.

_Parlatorio_. O parlatorio, _collocutorium_, era uma pequena casa entre
a do capitulo e a escada conduzindo ao dormitorio. Ali os frades tinham
licena de conversarem em voz baixa, quando relaes indispensaveis da
vida commum o exigissem. Em todas as outras partes do mosteiro se devia
guardar o maior silencio.

Ao lado da escada proxima do parlatorio, havia um corredor pelo qual se
podia passar para o grande claustro e annexos da abbadia perto do cro
da egreja.

_Casa e dormitrio dos frades_. A casa onde os frades passavam o dia,
que os _antigos_ designavam _domus fratrum_ e que os inglezes designam
ainda sob o nome de _fratres_, isto , logar onde vivem os frades,
consistia n'um vasto espao abobadado e occupava sempre o rez-do-cho,
na extremidade Sul do lado Oriental do mosteiro.

No andar da casa de que acabamos de fallar, encontrava-se o dormitorio
commum dos frades, pois a regra de S. Bento determinava que os frades
dormissem n'uma s casa, mas em camas separadas: _Monachi singuli, per
singula lecta dormiant; si potest fieri, omnes in uno loco dormiant_.

O uso das cellas, que havia em alguns raros mosteiros desde o XII
seculo, no veiu a ser commum seno na epocha do renascimento.

_Aposento dos irmos leigos_. Todas as grandes abbadias benedictinas e
cistercienses tinham, no XII e no XIII seculos, um numero consideravel,
chegando a ter 300 a 400 leigos, designados nos necrologios com o nome
de _conversi_ ou _fratres ad succurrendum_. Estes irmos, que no
entravam nas ordens sagradas, mas faziam profisso de religiosos,
destinavam-se, sob a direco dos frades, aos trabalhos da agricultura e
ao exercicio de diversos officios. Habitavam o lado occidental dos
edificios monasticos, designados por esta razo casa dos leigos, _domus
conversorum_, e prolongava-se muitas vezes desde o portico da egreja at
muito lem do grande refeitorio.

Nos edificios cistercienses, a habitao dos leigos compunha-se
regularmente, no rez-do-cho, d'uma s e vasta casa abobadada, dividida
em duas naves por um renque de columnas; e no andar por cima, de uma
casa do mesmo tamanho da inferior, coberta as mais das vezes por um
telhado tendo o madeiramento visivel na parte interna.

_Casa abbacial_. Originariamente o aposento do padre abbade consistia
n'uma simples cella. D'ahi a pouco, todavia, o aposento do chefe do
mosteiro veiu a ser uma construco importante; e viam-se muito
raramente, na idade mdia, os abbades contentarem-se com o dormitorio
commum ou uma simples cella. A comear do XIV seculo, e principalmente
na epocha do renascimento, as casas abbaciaes vieram a ser muitas vezes
verdadeiros palacios, constando d'uma capella particular, grandes salas,
pateos, cavallarias, jardins com terraos, etc.

_Aposentos para hospedes_. Todas as abbadias tinham uma habitao
reservada ou uma parte do proprio edificio para hospedar as pessoas que
visitavam os frades. No principio, esta habitao estava sempre a pouca
distancia da porta principal afim de evitar distraco para os frades do
convento: como ha um bello exemplo no extincto mosteiro de Alcobaa.

As abbadias, que foram em todos os tempos casas de caridade, possuiam
tambem suas esmolerias destinadas a dar habitao e sustento aos pobres
e peregrinos. Eram situadas na visinhana da entrada do convento.

_Celleiros_. Nos seculos XI e XII, as abbadias applicaram-se activamente
ao surribamento dos terrenos incultos; os trabalhos campestres eram de
certo modo, a sua occupao principal. Foram as Ordens de Cister e de S.
Bernardo que prestaram assignalados servios  agricultura.

As abbadias no faziam colheita smente do producto das suas proprias
exploraes agricolas; cobravam tambem o dizimo em muitos sitios e
recebiam em genero o pagamento dos rendeiros. Precisavam portanto vastos
celleiros e armazens muito grandes para recolher, no tempo da ceifa, os
cereaes que recebiam por esses differentes titulos.

Nos conventos cistercienses o celleiro formava, no principio do periodo
ogival, um edificio muito vasto, edificado sob um plano rectangular. Era
algumas vezes abobadado e dividia-se em duas naves por um renque de
columnas para maior solidez, servindo o andar para os cereaes. Outras
vezes compunha-se de tres naves separadas por dois renques de pilares ou
prumos de madeira para sustentar o madeiramento sem preciso de
abobadas.

_Officinas_. Nos XII e XIII seculos havia em cada abbadia, alguns leigos
ajudados muitas vezes por seculares exercendo os officios necessarios
para a conservao do edificio e para o fabrco dos pannos, couros e
instrumentos aratorios. Empregavam um certo numero de alveneos,
ferreiros, carpinteiros, fabricantes de pannos, tanoeiros, etc.; as
officinas estavam geralmente collocadas aos dois lados do pateo situado
entre a porta da entrada principal do convento e a habitao dos leigos.

A maior parte das abbadias possuiam tambem seu moinho e fabrica de
cerveja.

O desenvolvimento extraordinario dos estabelecimentos religiosos durante
as suas culturas e exploraes ruraes motivou a construco de curraes
espaosos. Encontravam-se tambem em todas as abbadias pateos para aves.

Em propriedades importantes situadas a alguma distancia da abbadia,
estabeleciam-se muitas vezes grandes herdades, sendo a sua explorao
confiada a alguns leigos sob a direco d'um frade. Compunham-se d'um
corpo de casas situadas em roda d'um pateo quadrado, as quaes tinham
communicao s do lado d'elle. Alm d'esta habitao, curraes, celleiro
e outros edificios necessarios para o servio da explorao, havia
n'estas herdades, uma capella onde os leigos assistiam aos officios
religiosos.

_Celleiros_. D-se o nome de celleiro aos armazens onde se conservam os
mantimentos de todo o genero. O frade encarregado de vigiar o
abastecimento tinha o nome de _celleiro_, _cellerarius_ e _collarius_,
mudado mais tarde, por algumas ordens religiosas, no de _procurador_,
_procurator_. Este logar passava por um dos mais importantes nas
abbadias.

_Prises_. Na idade mdia, as abbadias, universidades e algumas vezes os
cabidos possuiam prises para encarcerar os membros da communidade que
se tivessem tornado criminosos de delictos ou insubordinao para com os
superiores.

Na qualidade de soberania, as abbadias, universidades e cabidos gosavam,
nos territorios que lhe pertenciam, o poder superior de justia, e
tinham prises para encarcerar os seus subditos seculares criminosos. As
prises das abbadias ficavam a uma certa distancia dos edificios da
habitao dos religiosos.

_Cartuchas_. As cartuchas, cuja origem vem dos ultimos annos do XI
seculo, apresentam disposies notavelmente differentes das cellas das
abbadias. As principaes differenas que se observam, so: grandissimo
comprimento dos claustros; numerosas habitaes inteiramente separadas,
para uso dos religiosos, as quaes se compunham sempre de dois ou tres
quartos e d'um pequeno jardim, com uma porta dando entrada para a
galeria do claustro.

Quas todas as cartuchas tinham dois claustros unidos.

_Mosteiros para mulheres_. As disposies das differentes partes dos
mosteiros para mulheres apresentam a maior analogia com os das abbadias
para homens.  roda do claustro ergue-se a egreja, a casa do capitulo
com dormitorio no andar superior, o refeitorio e os outros aposentos. As
escolas exteriores, que havia s vezes nos conventos de homens, como por
exemplo dos frades Agostinhos, as casas para hospedes, peregrinos e
viajantes, faltavam nos conventos das mulheres, porque toda a relao
com o exterior lhe era prohibida.

_Os conventos de recolhidas_ consistiam em casas particulares e communs,
situadas em um recinto inteiramente fechado,  roda de uma egreja
isolada de todos os lados. Sectarias de _Bgard_, partidistas de uma
perfeio extrema que permittia todos os excessos de devoo e que fra
adoptada no III seculo. As recolhidas tinham o nome de Beatas.

_Hospitaes_. Os hospitaes da idade mdia differem absolutamente dos
hospitaes modernos. Os do XII e do XIII seculos compunham-se sempre, de
uma extensa casa onde estavam as camas para os doentes, de uma egreja ou
capella contigua a esta casa e communicando com ella, de um aposento
para os enfermeiros, e de algumas casas para servio. Por causa da
hygiene ficavam geralmente situados nas proximidades da porta da cidade
ou sobre a margem de um rio.


*Iconographia do periodo ogival*


_Observaes preliminares_. As representaes iconographicas to
variadas e to abundantes de symbolismo, que se encontram em grande
numero sobre os monumentos e alfaias religiosas das epochas Roman e
Ogival, eram geralmente projectadas e imaginadas, no pelo obreiro ou
artista que executava o objecto, porm, por um padre, frade ou secular
litterato.

_A aureola_. A aureola ficou em uso como signal iconographico durante
todo o periodo ogival. _Crucifera_ pertence exclusivamente s pessoas da
Santissima Trindade; simplesmente _circular_  attributo caracteristico
dos Santos. A sua frma manteve-se geralmente a mesma que era antes,
salvas algumas modificaes em certos paizes, mas apenas no termo do
periodo ogival.

No fim do XIV seculo, no smente os Santos, os Apostolos e Nossa
Senhora, mas tambem os anjos, assim como o Padre Eterno e Jesus Christo
ficaram privados d'este attributo caracteristico. Se a aureola por acaso
apparece ainda resplandecendo alguma imagem, foi porque o artista,
luctando contra a moda, commetteu archaismo. Um sem numero de monumentos
que datam d'esta epocha e chegaram at  nossa, apresentam _sem aureola_
as imagens divinas, angelicas ou sanctificadas.


*Representao da Santissima Trindade*


Na epocha ogival, serviam-se ainda algumas vezes do baptismo de Jesus
Christo para representar a Santissima Trindade. Como no periodo Roman,
dava-se ainda, durante o periodo ogival, a frma humana s tres pessoas
Divinas, ou pelo menos s duas primeiras, pois o Espirito Santo
continuou a ser frequentemente symbolisado por uma pomba. As tres
pessoas Divinas continam a ser representadas da mesma frma at ao fim
do XIV seculo. Mais tarde o Padre Eterno teve a figura de um ancio, o
Filho de Deus a de um homem de trinta a trinta e cinco annos, e o
Espirito Santo a de um adolescente de doze a dezoito annos. Ao Padre
Eterno d-se ento o distinctivo de um globo, uma Cruz de resurreio ao
Filho, e um livro ao Espirito Santo. Finalmente, ainda perto da mesma
epocha, representa-se o Padre Eterno, e mesmo algumas vezes o seu Filho,
de papa ou de imperador, com a pretenso de expressar, por assim dizer
materialmente, o seu supremo poder, achando-os revestidos das insignias
das duas maiores auctoridades conhecidas sobre a terra.

Encontram-se tambem, no fim do periodo ogival, dois symbolos da
Santissima Trindade, consistindo em figuras geometricas, o triangulo e
tres circulos entrelaados. Na epocha do renascimento, costumavam muito
a inscrever n'um triangulo algumas vezes um olho, outras o nome de
Jehovah.


*O crucifixo e a crucificao*


No XIII seculo, epocha designada _do soffrimento_, ou da _realidade_,
principia-se a representar Jesus Christo na Cruz. O corpo do Redemptor
curva-se ou mais depressa retorce-se de uma maneira bastante
desagradavel; os braos no ficam na sua posio horisontal, pois as
espaduas descem sensivelmente abaixo do ponto de unio das mos, de modo
a figurar os esforos naturaes produzidos por um corpo humano suspenso
por meio de cravos; os ps sobrepostos afastam-se de pessima posio,
muitas vezes mesmo fazem encruzar as pernas; finalmente a cabea de
Christo, moribundo ou sem vida, est quasi sempre inclinada sobre o
hombro direito, isto , para o logar onde se v a Me de Jesus e tambem
algumas vezes a personificao da Egreja.

Nas crucificaes pintadas e esculpidas do XV e XVI seculo, a cruz do
Redemptor e as dos ladres, muitas vezes bastante altas e de diminuta
grossura; assim como a travessa horisontal da cruz do Christo tem um
grande comprimento, em quanto que a extremidade que tem o titulo, sobe
apenas ao ponto de interseco das duas travessas.

Desde os primeiros annos do XIII seculo, principiou-se com timidez
primeiramente a supprimir o _suppedaneum_ e a pregar  cruz, por meio de
um unico cravo, os dois ps sobrepostos do Redemptor; porm, depois de
algum tempo, o emprego de tres cravos veiu a ser quasi to commum como o
de quatro; e nos seculos XIV XV foi o unico empregado.

O Christo crucificado traz ainda a aureola no XIII seculo. A cora de
espinhos, quas desconhecida antes, apparece de tempos a tempos no XIV
seculo. No seculo seguinte encontra-se frequentemente.

No XIII seculo, a representao da crucificao foi ainda algumas vezes
reproduzida com todas as personagens e accessorios historicos e
allegoricos que acompanhavam precedentemente e que j temos descripto; o
mais das vezes, todavia, no se conservam seno alguns. Os que se vem
geralmente so Nossa Senhora e S. Joo, o sol e a lua. Os dois ladres,
a egreja e a synagoga raro apparecem.

_Nossa Senhora e S. Joo_. Durante o periodo roman, Nossa Senhora e o
discipulo mais amado so representados com uma attitude de paz, erguendo
geralmente os braos para o Redemptor ou occultam o rosto em signal de
pezar. No XIII seculo, e mesmo durante uma parte do XIV seculo,
conservam esta attitude estavel e digna. Mais tarde, o gesto que se lhe
attribue exprime j uma dr vulgar e natural.

No XV seculo, e algumas vezes j no XIV seculo, os artistas christos
procuram produzir, na alma do espectador, sentimentos de ternura e de
compaixo.

Para este effeito representam Nossa Senhora desmaiada nos braos das
duas santas mulheres que a amparam. Os exemplos d'este _deliquio_,
encontram-se na Italia desde o XIII seculo.

_O Sol e a Lua_. Durante o periodo ogival, o Sol  figurado geralmente
por um disco radiante, e a Lua por um simples quarto crescente.

_A Egreja e a Synagoga_. Como j explicmos, a Egreja e a Synagoga eram
personificadas, durante o periodo roman, por simples mulheres trazendo
os respectivos attributos. Depois do meiado do XII seculo, essas
mulheres representavam rainhas. A que symbolisava a Egreja, sempre
collocada  direita de Jesus Christo, traz uma cora, e levanta a cabea
com uma expresso de orgulho; as mais das vezes, tem n'uma das mos o
calix, e na outra uma cruz de haste comprida ou um pequeno modelo de uma
egreja.

A Synagoga, pelo contrario, tem uma cora que lhe pende da cabea e um
estandarte cuja haste se quebrou entre as suas mos; deixando escapar as
taboas da Lei, e tendo os olhos vendados por uma faxa ou por um drago
que se lhe enrosca  roda da testa.

_Os dois ladres_. Os ladres nas mais antigas crucificaes, apparecem
de tempos a tempos durante o periodo ogival; teem os musculos encolhidos
at a contorso, e as mos, no pregadas sobre a cruz, mas ligadas s
costas de maneira a deixar passar, pelo centro, a travessa horisontal do
instrumento do seu supplicio. No fim do periodo ogival, encontram-se de
novo representados os ladres, principalmente nos retabulos de madeira
de obra de talha da escola hollandeza.

_Imagem de Nossa Senhora_. _Nossa Senhora com o Menino Jesus_. Durante o
periodo ogival, o _grupo historico_ de adorao dos reis magos, que se
v sobre alguns pequenos _diptycos_ ou _triptycos_, de marfim, onde se
v, ao mesmo tempo, a crucificao e outras scenas tiradas da vida de
Jesus Christo. N'esta representao os reis magos trazem sempre na
cabea a coroa real.

No XIII seculo, encontra-se ainda frequentemente Nossa Senhora
_assentada_ em uma cadeira ou throno, tendo sobre os joelhos o Menino
Jesus, o qual deita a beno com a mo direita e na esquerda tem um
livro ou o globo terraqueo.

J muitas vezes no XIII seculo, e mais tarde quasi sempre, Nossa Senhora
est de p e com o Menino Jesus no brao esquerdo. Durante a primeira
parte do periodo ogival, a sua posio  mais ou menos curvada.

Em quanto aos caracteres que apresentam as imagens de Nossa Senhora
assentada ou de p nos differentes monumentos do periodo ogival,
pdem-se resumir nos termos seguintes. Nunca o grupo de Nossa Senhora
com o Menino Jesus foi mais ideal que no XIII seculo; mal se approxima o
XIV seculo, descuida a sua bella composio poetica para adoptar a
realidade primeiramente e depois descahir na vulgaridade at  rudeza.

No fim do XII e no principio do XIII seculo, pde-se dizer que Nossa
Senhora no apparece j com o Menino Jesus: esta representao seria
muito vulgar e Nossa Senhora assemelhar-se-hia a qualquer me que
tivesse o seu filho ao collo; mas ento a Santa imagem o tem _junto de
si_. O Menino Jesus traz o globo do mundo na mo esquerda e deita a
beno com a mo direita; alm d'isso est completamente vestido,  j
crescido, posto que ainda menino;  o Deus-Homem, mais depressa que
Homem-Deus. No fim do XIII seculo, Nossa Senhora principia a ser mais do
que a guarda de seu Filho como fazem todas as mes mortaes! Jesus est
ainda vestido, abena trazendo um livro ou um globo; porm o vestuario
 menos largo e mais curto, o livro menos volumoso, o globo mais
pequeno.

_Scenas tiradas da vida de Nossa Senhora_. Mencionaremos as tres
principaes:

A _Annunciao_  quasi sempre representada da mesma maneira. Nossa
Senhora est de joelhos sobre um genuflexorio no momento em que apparece
o Anjo. Entre a imagem e o Anjo est um vaso com a flr de liz aberta.
Muitas vezes S. Gabriel tem n'uma haste esta flr ou um sceptro; por
vezes traz na mo uma bandeirola com a inscripo: _Ave Maria_. Um raio
luminoso cae sobre a cabea de Nossa Senhora, ou ento, o Espirito
Santo, sob a frma d'uma pomba, descana sobre a imagem da Virgem Maria.

_A morte de Nossa Senhora_  quasi sempre representada da maneira
seguinte: Nossa Senhora est deitada sobre um leito rodeada pelo seu
Divino Filho e pelos apostolos. Jesus traz no brao a alma de Nossa
Senhora, representada por uma creancinha. Os apostolos trazem muitas
vezes um livro com figura iconographica.

_A coroao de Nossa Senhora_ faz-se umas vezes por Jesus s, outras por
tres pessoas da Santissima Trindade; outras ainda v-se Nossa Senhora
com a cora na cabea, sentada sobre o mesmo throno em que est o seu
Divino Filho, o qual se lhe abraa ao peito.

Deixariamos incompleta a historia iconographica de Nossa Senhora, no
mencionando aqui a _Arvore de Jess_, que se v tantas vezes desde o XII
seculo. Jess adormecido serve de alguma maneira de raiz ao tronco
mysterioso, o qual se quer do seu peito, quer de sua bocca, quer do seu
cerebro. Os ramos d'este tronco separando-se, trazem na extremidade um
dos antepassados do Redemptor; no cimo, uma flr desabrocha e serve de
apoio a Nossa Senhora, algumas vezes s, outras tendo nos braos o seu
Divino Filho. As mais das vezes a arvore de Jess complica-se, entre
cada ramo est collocado um propheta com um phylateria mostrando a
prophecia de que  auctor, e que se refere  vnda de Jesus Christo.
Olhando para a extremidade d'esta arvore, mostra com o dedo onde deve
repousar o Espirito Santo. No Oriente, no se limitam unicamente a
intercalar os prophetas no meio dos ramos, ajuntam-lhe o divino
_Balaam_, e os sabios da Grecia com as suas maximas. O XV e XVI seculos
produziram um grande numero de arvores de Jess.

_Os Apostolos e os Evangelistas_.--_Apostolos_. Jesus Christo escolheu
doze apostolos  frente dos quaes collocou S. Pedro. Depois da morte do
Redemptor, o traidor Judas ficou substituido por S. Mathias. Alm
d'estes doze apostolos, que constituem a congregao apostolica assim
chamada, deu-se tambem o nome de apostolos a alguns outros santos que
haviam tomado uma parte activa e vasta na fundao da Egreja christ.
Tal foi S. Paulo, convertido milagrosamente no caminho de Damasco, elle
o grande promotor da converso dos pagos e appellidado, por esta razo,
o apostolo dos gentios; taes foram ainda S. Barnab, S. Lucas e S.
Marcos, unicos discipulos, os quaes pelas suas prdicas, e, os dois
ultimos tambem, pelos Evangelhos que compozeram, poderosamente
contribuiram para a propagao da doutrina de Christo.

Como S. Paulo figura quasi sempre entre os apostolos quando se
representam reunidos em numero de onze, resulta que se supprime
geralmente um; as mais das vezes  S. Mathias, o successor do traidor
Judas, algumas vezes tambem S. Judas ou qualquer outro apostolo.

At ao XIII seculo, os apostolos,  excepo de S. Pedro e S. Paulo, no
tinham nenhum attributo caracteristico pelo qual se podessem distinguir
uns dos outros. Representavam-se todos de uma maneira uniforme, com um
livro ou um rolo de papel na mo. Depois do XIII seculo, ficam
geralmente caracterisados pelos instrumentos presumidos do seu martyrio;
porm, como o genero do supplicio que soffreram no  muito bem
determinado para todos, torna-se por vezes difficil designar com certeza
o nome de alguns d'elles: todavia o que os caracterisa ordinariamente 
o seguinte:

S. Pedro traz as chaves ou por vezes a Cruz abatida, instrumento do seu
supplicio; S. Paulo, a espada com que lhe cortaram a cabea; S. Joo, o
calix envenenado do qual saiu a morte sob a frma de um drago; Santo
Andr, com a Cruz em frma de X, e que tem o seu nome; S. Jeronymo, a
espada, ou as mais vezes, o bordo e o vestido de peregrino guarnecido
de conchas; S. Filippe, a cruz com haste comprida; S. Bartholomeu, um
grande cutello do qual se serviram para o esfollar, e algumas vezes
tambem uma cruz; S. Matheus, um machado, uma espada ou uma lana; S.
Simo, uma serra; S. Judas, uma cruz ou um livro; S. Thiago, um bordo;
S. Thomaz, uma grande pedra e por vezes ao mesmo tempo uma lana;
finalmente S. Maral, uma picareta ou um alfange.

_Evangelistas_. Os Evangelistas continuaram a ser representados da mesma
maneira que precedentemente, quer seja com a frma humana, quer seja
pelos symbolos dos quatro rios do Paraizo, quer seja por quatro figuras
aladas.

J indicmos o logar respectivo que devem sempre occupar os animaes
symbolicos nos quatro angulos de um quadrado ou nas extremidades dos
quatro braos da Cruz. Esta regra ficou em vigor durante o periodo
ogival.

_Scenas diversas_. Seria impossivel indicar, mesmo resumidamente, todas
as scenas representadas pelos pintores e esculptores christos da idade
mdia. Mencionaremos smente as quatro principaes, e que se veem mais
vezes.

_O Dia de Juizo_. Esta scena encontra-se principalmente: 1.^o _no
principio do periodo ogival_, esculpida nos tympanos dos portaes
principaes das abbadias, cathedraes, egrejas das parochias e mesmo nas
capellas; 2.^o _no fim do mesmo periodo_, pintada na nave principal das
egrejas por cima do arco triumphal.

Para dar uma ideia exacta da maneira como esta scena  representada nas
principaes cathedraes francezas, faremos a descripo do Dia de Juizo,
que se v no portal central da S de Paris. Este assumpto  um dos mais
bem compostos. A verga da porta est inteiramente occupada por figuras
representando diversos misteres saindo dos seus tumulos, despertadas por
dois anjos, os quaes, de cada lado, tangem trombeta. Todas estas
personagens esto vestidas; ahi est um papa, um rei, guerreiros,
mulheres e um preto. Na zona superior, est ao centro um anjo que peza
as almas; dois demonios tentam fazer pender um dos pratos para o seu
lado.  direita de Jesus Christo esto os escolhidos, todos vestidos de
compridas vestimentas e coroados. Estes escolhidos so representados sem
barba, jovens e risonhos, olhando para Jesus.  esquerda o demonio
empurra uma multido d'almas agrilhoadas vestidas com os fatos do seu
mister. As expresses d'estas figuras so indicadas com superior
talento: o terror, o desespero assignalam-se nas suas feies. Na parte
superior est, ao centro Jesus Christo, representado semi nu, que mostra
as suas chagas; dois anjos em p,  direita e  esquerda, tem os
instrumentos da Paixo; depois, esto de joelhos, implorando o
Redemptor, Nossa Senhora e S. Joo. As curvaturas do portal do lado dos
condemnados esto occupadas, na parte inferior, por vistas do inferno, e
do lado dos escolhidos, por anjos e patriarchas, entre os quaes se v
Abraho colhendo as almas no seu regao; depois os escolhidos em grupos.
Esta esculptura to notavel  da era de 1210 a 1215, e estava
inteiramente pintada e dourada. Ha a mesma representao nas cathedraes
de Chartres, Amiens, Reims e Bordeus.

O inferno  quasi sempre figurado por uma bocca enorme de monstro
lanando chammas, no meio das quaes os dmos, armados de grandissimos
harpeos, abysmam os condemnados. Por vezes tambem  representado o
inferno por uma grande caldeira na qual os dmos precipitam as almas dos
perversos; e, n'este caso, um demonio armado de um folle activa o fogo
da caldeira.

A scena _de se pezar as almas_ faz geralmente parte do Juizo final, e 
quasi sempre representada da mesma maneira. O archanjo S. Miguel segura
a balana: em um dos pratos est uma alma humana figurada por uma
creana nua; emquanto ao outro, com o pezo que deve ter a alma do
innocente, afim de ser admittido no paraizo, Satanaz procura que elle se
incline para o seu lado. Esta scena, cujo fim era evidentemente inculcar
aos ignorantes a ideia de dar conta a Deus depois da nossa morte, est
representada nas miniaturas dos manuscriptos, e mesmo nas gravuras em
madeira que ornam alguns livros impressos no fim do XV e no principio do
XVI seculo.

_Missa designada de S. Gregorio_. Este assumpto encontra-se muitas vezes
nos paineis e nas miniaturas do XV seculo. O Santo papa diz a missa, e
Jesus Christo apparece-lhe em vida, em p sobre o altar, e  roda esto
os instrumentos da Paixo. Traz os estigmates nos ps e nas mos, e
deixa sar do lado o sangue da chaga.

_Alma humana_. Quando os artistas da idade mdia representam uma pessoa
moribunda, indicam sempre a alma do justo que acaba de sar do corpo,
por uma creancinha nua trazida nos braos de Nosso Senhor.

_Sibyllas_. A representao dos prophetas tem-se s vezes ajuntado s
sibyllas, que se reputa haverem predito o nascimento, a vida, a morte, e
a resurreio de Jesus Christo. No XIII seculo, comeou-se a fazer
figurar em alguns monumentos, principalmente a sibylla do _Dies irae_.

As doze sibyllas so: 1.^a A Sibylla da Persia, _percicae_, que tem na
mo uma lanterna, porque ella annunciou a vinda do Messias; bastantes
vezes o sol brilha por cima da sua cabea. 2.^a A de Libya, _libicae_,
que tem um brando acceso e prediz o Redemptor como a luz do mundo. 3.^a
A de Delphos, _delphicae_, que tem na mo uma cora de espinhos, porque
prophetisou as mortificaes de Jesus Christo. 4.^a A do Mar Vermelho ou
de Erythrea, _erythracae_, uma das mais celebres, que havia predito a
ruina de Troyes; era a prophetisa das vinganas divinas; traz uma espada
nua. 5.^a A de Cumas, _cumana_, egualmente muito citada, tem um
presepio, porque annunciou o nascimento de Christo em uma manjadoura.
6.^a A de Samos, _samia_, traz uma cora de espinhos como a de Delphos,
e um canio, porque prophetisou a Paixo. 7.^a A Cimmerianna,
_cimmeria_, prophetisou a crucificao, e por esta razo traz uma cruz
da paixo. 8.^a A de Tivoli, _tiburtina_, tem na mo uma vara, por haver
annunciado a flagellao do Redemptor. 9.^a A de Phrygia, _phrygia_,
traz uma cruz de resurreio, no cimo da qual fluctuam tres bandeirolas
encarnadas. 10.^a A de Hellesponto, _hellespontica_, tem por attributo
uma rozeira florida, ou ento uma cruz, porque annunciou algumas
circumstancias da Paixo. 11.^a A Europa, _europaea_, tem um alfange,
porque predisse a degolao dos innocentes. 12.^a Finalmente, a Sibylla
Agrippa tem a vara como a de Tivoli.




CAPITULO VI

Periodo da Renascena


_NOES PRELIMINARES_


No nos demoramos muito sobre as differentes phases da arte na epoca da
renascena, mais apropriadamente moderna do que antiga; e que, por
conseguinte, no pertence ao dominio da archeologia.

Chama-se _renascena das artes e das lettras_ ao retrocesso para a arte
classica antiga e para as litteraturas grega e latina. A renascena das
artes estendeu-se no smente  architectura, mas a todas as artes de
desenho. A reaco favoravel para a architectura grega, romana ou
classica, produziu-se primeiramente na Italia, onde nunca o estylo
ogival tinha vigorado summamente, nem dominado s com poder absoluto.

Proximo ao principio do XVI seculo, a architectura no-classica transpoz
os Alpes, e passou successivamente  Frana, Hespanha, Portugal,
Belgica, Allemanha e Inglaterra. Os paizes mais afastados do
renascimento, foram tambem os ultimos a adoptarem os seus principios
architectonicos.

Na Frana como na Belgica o progresso do novo estylo foi rapido, tendo
apparecido quasi ao mesmo tempo.

O retrocesso to rapido e to universal para as frmas da arte classica,
foi motivado em grande parte por um desejo de novidade, e por uma
reaco contra a architectura ogival. Nota-se, realmente, que em
architectura, mais que em qualquer outra arte, o gosto  sempre movido
para a variedade; e  isto que explica como se pde dizer com verdade,
que a historia da architectura offerece uma continuao de transies
sem repouso. A esta causa principal vieram ajuntar-se muitissimas causas
secundarias, taes como a reaco que se operou nos XV e XVI seculos, a
proteco aos estudos gregos e latinos, e a inveno da imprensa, que
concorreu to admiravelmente para a diffuso das obras primas da
litteratura e da arte antiga, pelas quaes se tinham apaixonado.

At ao meiado do XVIII seculo, a renovao das frmas antigas fez-se
exclusivamente conforme os modelos antigos de Roma e de Italia, modelos
quasi todos no satisfazendo a respeito da conformidade artistica. Foi
smente n'esta epocha que se principiou a estudar os monumentos da
melhor epocha ainda conservados em Athenas e na Grecia.

Houve, entre o estylo ogival e o do renascimento, um periodo de
transio, durante o qual se notou muitas vezes, no mesmo monumento, uma
mistura, uma fuso de frmas particulares a cada estylo. Portanto
encontram-se edificios, os quaes, entre os detalhes melhor
caracterisados do estylo ogival do XVI seculo, apresentam ornatos, taes
como medalhes, folhagens e arabescos, copiados dos monumentos da Roma
antiga. Outras vezes, janellas em ogiva so compostas de pinasios com os
perfis no gosto da renascena. Finalmente, s vezes as abobadas
pendentes, os pinaculos e os campanariosinhos esto cheios de ornatos
imitados dos edificios da antiguidade.


*Caracteres da architectura da Renascena*


_Como_. A architectura da renascena seguiu os mesmos principios
fundamentaes que a architectura classica, isto , as cinco ordens
greco-romanas.

Os primeiros architectos da renascena inspiram-se unicamente dos
monumentos de Roma e da Italia. Ora, n'um grande numero d'estes
monumentos, o _entablamento_, isto , a parte superior da Ordem,
composto do _friso_, da _architrava_ e da _cornija_, membros que, nas
Ordens Gregas, servem sempre para ligar duas columnas proximas, tinha
sido supprimido e substituido por arcos, os quaes vinham firmar-se nos
capiteis d'essas columnas. Quando procuram empregar materiaes de pequena
dimenso, a substituio do arco pelo entablamento  perfeitamente
logica; porm esta no  a pratica seguida na epocha da _decadencia_
romana, de interpr ao fecho inferior do arco e ao aafate do capitel,
um simulacro de entablamento da Ordem, entablamento que ficava
completamente inutil, visto que o seu emprego est preenchido pelo
_arco_. Na poca da renascena, esta prtica pouco racional e pouco
reflectida foi geralmente adoptada, principalmente d'quem dos Alpes.
Alm de que, foram buscar aos mesmos edificios da decadencia romana
outros defeitos tambem notaveis no que diz respeito s cornijas: em
primeiro logar, quando muitas Ordens esto sobrepostas na altura de um
monumento, como acontece frequentemente nas fachadas, pem-se _tantas
cornijas_ quantas so as _Ordens_; depois, coisa mais singular ainda, a
Ordem collocada _no interior_ de um monumento _conserva_ a sua cornija,
isto , o _remate do edificio_ destinado a ter _um telhado_ e um algeroz
para dar sada s aguas da chuva!

A architectura do renascimento, todavia, no  uma simples mescla, uma
copia servil da architectura greco-romana. Serve-se ella, na verdade,
das cinco Ordens, mas ajustou-as para outros usos e para outros climas,
aproveitando os progressos obtidos pela arte de edificar durante o
estylo ogival. Os edificios que executou conforme os principios de
construco d'este ultimo estylo, foram enfeitados  maneira antiga,
ornamentado superficialmente, ou desfigurados, como em S. Paulo de
Londres, por paredes isoladas que encobrem a configurao architectonica
do monumento; emquanto na Belgica, nas egrejas do renascimento, o
systema do apparelho das abobadas ogivaes foi em toda a parte
conservado, porm dissimulado com arte. As paredes exteriores das naves
lateraes, muito grossas, preenchem o fim dos contrafortes, e muitas
vezes esses arcos-butantes ficam revirados (isto , collocados de
maneira que a sua curva convexa fica posta na direco do telhado
d'essas naves), e apoiados nos arcos duplos d'elles.

_Decorao_. Sob o ponto de vista da decorao pintada e esculpida,
muito mais que sob o ponto de vista architectonico, o periodo da
renascena, no sentido mais lato, pde-se dividir em muitos estylos,
apresentando cada um caracteres distinctos. Estas sub-divises se
applicam particularmente s produces da arte Franceza. 1.^o o estylo
da renascena propriamente chamado, o qual comprehende o XVI seculo e a
primeira metade proximo do XVII seculo; todavia sepra-se algumas vezes
d'esta poca nos annos 1610 a 1642, para lhe constituir o estylo Luiz
XIII; 2.^o o estylo Luiz XIV (1643 a 1715); 3.^o o estylo Luiz XV (1715
a 1774); 4.^o o estylo Luiz XVI (1774 a 1796); 5.^o finalmente o estylo,
designado do imperio (primeiros annos do XIX seculo).

Na origem da _renascena_, os ornamentos foram, como na architectura
imitados quasi servilmente dos monumentos da antiguidade. As almofadas,
frizos, pilastras e um grande numero de outros trabalhos architectonicos
se revestiram, nos edificios os mais sumptuosos, de assumptos de
decorao proveniente da arte greco-romana. As palmetas, folhas de
acantho e triglyphos tornaram a apparecer em todo o logar. Viam-se
tambem, genios alados, figuras naturaes e phantasticas de toda a especie
enlaadas nas grinaldas e em espiraes formando desenhos os mais
caprichosos. Estes ultimos ornamentos, compostos principalmente conforme
os modelos antigos achados em Roma nas _grutas_ ou ruinas do palacio de
Titus, tiveram no principio o nome de _grotescos_, denominao mais
propria do que a de _arabescos_, a qual lhe foi dada depois, porque os
Arabes proscreviam severamente da sua decorao qualquer representao
da natureza animada.

O estylo da renascena no se conservou intacto seno at o principio do
XVI seculo.

Os ornamentos do estylo Luiz XIV consistem principalmente em grandes
espiraes, palmas muito desenvolvidas, separadas ou envolvidas com os
elementos de ordem architectural, medalhes, trophus, etc.

O estylo Luiz XV, que prima antes de tudo pela elegancia exaggerada nos
pequenos detalhes, desce  affectao na lindeza. A esculptura
decorativa abunda nas espiraes com folhagens myrrhadas e subtilmente
contornadas; faz com frequencia uso de conchas ou embrechado,
misturando-as em todas as suas composies. A linha recta cede o logar 
linha curva, e sobretudo a symetria no  observada. No principio do
XVIII seculo, o gosto se corrompeu de novo; volta-se no traado do plano
e nas fachadas dos edificios s frmas torcidas e s linhas quebradas.
Nos ornamentos dos maiores e soberbos contornos, as plantas vistosas do
estylo Luiz XIV transformam-se em definhados filetes, torcendo-se e
entrelaando-se uns nos outros da maneira a mais singular, e
acompanhados de abundantes obras de conchas e de grande numero de
cupidos; o que fez dar a este _estylo exquisito e todo affectado_ o
appellido de estylo _embrechado_ e estylo _Pompadour_.

A affectao e o grande exaggero que caracterisam o estylo de Luiz XV
motivaram cedo uma reaco. No reinado de Luiz XVI voltaram a empregar
menos entrelaados e menos entalhaduras. A descoberta de Herculanum e a
publicao das _Antiguidades de Athenas_ contribuiram a levar o
entendimento para o gosto mais serio, uma decorao menos contrafeita;
fizeram vigorar as frmas classicas da arte grega e romana, cujas
investigaes recentes vieram a descobrir os especimens importantes e
notaveis.

A poca da revoluo franceza e do directorio causou um extraordinario
prejuizo  industria artistica. Quando, no principio do actual seculo,
um novo estado politico ficou definitivamente constituido, o seu novo
soberano, vencedor na Italia e no Egypto, cuidou em conservar junto de
si as coisas que lhe recordassem as suas victorias gloriosas.

No _estylo do imperio_ viu-se apparecer os gryphos, as sphinges, os
feixes consulares, victorias com palmas e coras de carvalho. Pouco
tempo depois, esses assumptos foram quasi os unicos empregados na
decorao tanto de architectura, como na mobilia.

_Plano das egrejas_. A maior parte das egrejas da renascena tem a
frma da cruz Latina. As capellas que havia ao correr das naves lateraes
e na nave principal das egrejas ogivaes, ficaram supprimidas em Frana,
na Belgica e na Allemanha, porm conservaram-se na Italia. A capella mr
e o cruzeiro terminavam geralmente por uma abside semicircular ou
polygonal, apresentando no interior uma disposio de pilastras
corinthias ou compositas, entre as quaes ha janellas e nichos. Arcadas
de volta inteira, descanando sobre columnas ou pilares pem a nave
principal em communicao com as naves lateraes. As portas, as janellas
e todas as aberturas esto tapadas na sua parte superior por um arco de
volta inteira.

Os _triforiuns_ das egrejas ogivaes no se construiram na renascena.
Primeiramente substituiu-os, durante algum tempo, uma galeria em sacada,
tendo parapeito de cantaria vasado ou de obra de ferro; todavia pouco
depois esse logar foi occupado por uma simples cornija com sacada
bastante solida para servir como galeria, podendo-se andar  roda da
nave principal, ficando na altura das janellas superiores.

O monumento mais gigantesco e grandioso que tem produzido a architectura
do renascimento , sem duvida, a basilica de S. Pedro do Vaticano em
Roma, cuja construco foi dirigida pelos mais celebres architectos,
Bramante, Raphael, os dois S. Gallo, Peruzzi, Miguel Anjo, Vignola,
Maderno e finalmente Bernini, este artista de quem infelizmente o seu
mau gosto em bellas-artes veiu a ser proverbial, sendo originado pela
inveja dos seus emulos, que pretendiam tirar a fama ao seu superior
talento: imaginando dar formas novas e as mais extravagantes s suas
composies architectonicas afim de supplantar os seus rivaes, morreu
_desesperado_ por nada ter conseguido; posto que fosse dotado de
talento, o seu desmarcado amor proprio veiu a causar-lhe o descredito do
seu nome. N'esta colossal construco da Basilica de S. Pedro
consumiu-se mais de seculo e meio.

_Fachadas das egrejas_. As fachadas compem-se regularmente de duas, e
algumas vezes de _tres Ordens de columnas sobrepostas_. A ordem inferior
abrangendo ao mesmo tempo a nave principal e as lateraes,  mais larga
que a ordem superior; essa corresponde  unica nave central, pois que o
madeiramento das naves lateraes no sbe nunca at o entablamento da
primeira ordem. A ordem mais superior sempre terminada por uma attica ou
um fronto triangular, tendo no vertice uma cruz ornatada nos angulos,
acrotros com vasos, fogaros e tocheiros. Duas misulas deitadas de cada
lado da ordem superior, preenchem os espaos dos angulos rectos
produzidos pela superposio das duas ordens tendo desigual largura. As
columnas da fachada esto geralmente embebidas um tero ou metade do seu
diametro. Um ou tres portaes, conforme a importancia do edificio, do
ingresso nas naves.

Os jesuitas, cuja Ordem se fundou no XVI seculo, vindo a ser muito rica
e poderosa no XVII seculo, adoptaram em toda a parte esta composio
para as fachadas de suas egrejas; por isso d-se o nome do _estylo dos
Jesuitas_  architectura religiosa d'esta poca. A maior parte das
egrejas que estes religiosos construiram distinguem-se pela abundancia
dos seus ornamentos, principalmente as edificadas na Belgica.

_Abobadas_. As abobadas tem, como as da poca antecedente, nervuras
encruzadas, as quaes, em logar da frma da ogiva, descrevem uma curva de
volta inteira ou um arco de volta abatida. Os arcos duplos so largos e
muitas vezes formados por almofadas pouco fundas. No XVI seculo, as
abobadas tinham s vezes decoraes pintadas, e os seus fechos sustentam
abobadas pendentes com muitas sacadas de bastante peso. Depois
abandonou-se, alm dos Alpes, a decorao pintada, substituindo-lhe os
ornatos em relevo.

_Torres_. As torres, geralmente construidas sobre plano quadrado, e
compostas de dois, tres ou quatro andares sobrepostos e ornados de
pilastras ou de columnas embebidas, tem muitas d'ellas uma balaustrada
 bca da flecha, com as frmas mais variadas; campanulada, piriforme,
pyramidal ou uma frma mais complicada ainda.


*Mobilia religiosa*


_Altares_. Durante algum tempo continuou o uso dos retabulos com
divises multiplices, no genero d'aquelles dos ultimos annos do periodo
ogival, porm tendo as molduras das almofadas em detalhes no gosto do
renascimento.

Foi proximo do XVI seculo que uma mudana radical appareceu na frma e
disposio dos altares. Os retabulos foram ento substituidos pelos
porticos copiados dos arcos de triumpho da antiguidade, encimados com
frontes de frmas muito variadas. Serviram-se quasi sempre de marmores
raros e preciosos, sobretudo para as columnas, adquirindo-os com grande
despeza, dos paizes os mais distantes. A arcada imitando o _arco de
triumpho_ foi ornada, no principio, de estatuas e de altos e
baixo-relevos, depois por retabulos de grandes dimenses; e estes mesmos
acabaram em pouco tempo para serem substituidos geralmente por
esculpturas.

Quando no XVII e no XVIII seculos, as frmas extravagantes (_rocc_)
prevaleceram no systema da decorao, os altares tambem ficaram
sobrecarregados de ornamentos de pessimo gosto, e appareceram as
columnas _torcidas_, em _espiral_ e em _saca-rolhas_!

_Tabernaculos_. O uso de collocar tabernaculos para conservar a
eucharistia sobre os altares principaes e secundarios, generalisou-se no
fim do XVI seculo. At essa poca as particulas se conservaram, como
durante o periodo ogival, nos tabernaculos isolados em frma de torre ou
em armarios abertos na parede, por detraz ou  ilharga do altar. Houve
mesmo paizes onde o antigo costume no ficou abandonado inteiramente s
muito depois do XVII seculo.

Os tabernaculos de marmore e de madeira que se collocavam sobre o altar
desde a poca do renascimento, compem-se geralmente de um cylindro co
ornado com riqueza e reunido a _predella_ ou throno, no qual se pem
castiaes sobre misulas reviradas. O cylindro fechado no seu cume por
uma tampa de frma hemispherica tem por remate um crucifixo, dividido
por um, dois ou tres compartimentos com separao, e girando sobre um
eixo vertical.

_Cadeiras do cro, obra de talha e confissionarios_. As obras de
entalhador que ornam muitas egrejas do XVII seculo, so as principaes
obras deixadas pela poca da renascena.

As costas das cadeiras do cro compem-se sempre de almofadas de
marcenaria ornadas de baixos-relevos ou de pinturas, separadas umas das
outras por columnasinhas da Ordem Corinthia ou Composita, sustentadas em
sacadas por misulas com bella obra de talha. Os fustes d'essas
columnasinhas, rectos ou torcidos, esto cheios de lindos arabescos e
delicadas folhagens. A obra de talha e dos confissionarios apresentam na
sua decorao de esculptura bastante similhana com as das cadeiras do
cro.

_Jubos e balaustradas_. Os _jubos_ da renascena compem-se geralmente
de tres arcadas de volta inteira, que descanam sobre columnas ou
pilastras imitadas das Ordens classicas.

Collocam-se os jubos  entrada da capella mr nas grandes egrejas at
proximo do meiado do XVII seculo.

No meiado do XV seculo, uma grande reaco se fez contra os jubos,
porque, dizia-se ento, destruiam o aspecto architectonico e impediam os
fieis de vr o sacerdote no altar. Muitos foram desmanchados n'esta
poca, outros transportados proximo da fachada Occidental da egreja, a
fim de servirem de tribunas para collocar os orgos.

As _balaustradas_ destinadas a vedar a capella mr e a separar das naves
lateraes as capellas, ou resguardar certas partes da mobilia religiosa,
foram poucas vezes feitas de ferro ou de madeira, faziam-se de
preferencia de marmore ou lato. A sua composio era de repetidas
columnasinhas de frma classica, quer com balaustres em p ou
_revirados_, o que lhe fez dar o nome de _balaustrada_.

Muitas vezes assentavam extraordinarios monumentos funerarios entre
essas separaes da capella mr e as naves nas cathedraes e nas egrejas
importantes.

_Caixas de orgo_. Na poca do renascimento, deu-se s caixas dos orgos
as maiores dimenses. Collocaram-se, primeiramente, nas egrejas ogivaes,
do lado do Evangelho, na parte inferior do _triforium_, no primeiro ou
segundo vo da nave principal. Depois, isto , perto do meiado do XVI
seculo, foram assentes proximo do cruzeiro,  entrada dos lados lateraes
da capella mr. Finalmente, quando as dimenses dos orgos se foram
desenvolvendo desmedidamente, estabeleceram-se tribunas especiaes na
nave central, proximo da frente Occidental da egreja. As mais antigas
caixas dos orgos esto cobertas de obra de talha.

_Pulpitos_. Durante o periodo da renascena, o pulpito teve dimenses
muito maiores que precedentemente. No XVI e XVII seculos foram
construidos geralmente de madeira; porm desde o meiado do seculo
seguinte, ajunta-se algumas vezes o marmore  madeira. Os pulpitos das
egrejas de primeira ordem compem-se muitas vezes de grupos de estatuas
acompanhadas de arvores, rochedos e outros detalhes pittorescos
representando factos da historia sagrada ou ecclesiastica.

_Tumulos e campas_. No XVI seculo os cenotaphios eram compostos ainda
como durante o periodo ogival, d'um sco ou macisso de alvenaria,
coberto por uma grande lousa, sobre a qual se v a estatua do finado. 
roda do sco acham-se por vezes estatuasinhas debaixo de arcaduras de
volta inteira descanando sobre columnelos jonicos, corinthios e
compositos, outras vezes, as arcaduras e as estatuasinhas esto
substituidas por uma ordem de brazes. A figura do finado v-se umas
vezes deitada, outras de joelhos sobre uma almofada ou genuflexorio.
Esta ultima attitude foi a mais commum no fim do periodo: todavia no
XVII seculo, os monumentos sepulchraes veem a ter uma composio muito
mais complicada; os sarcophagos tiveram as mais variadas frmas, e as
estatuas dos finados foram acompanhadas de outras estatuas allegoricas,
como a morte tendo uma foice, figuras de anjos, a F, Esperana,
Caridade, etc.

No XVII seculo, os mausoleus encontram-se muitas vezes collocados por
baixo de uma arcada muito ornada no estylo do renascimento. Esta
decorao architectonica applicada sobre as paredes de uma capella ou
das naves lateraes, da nave principal e capella mr conservou-se nos
XVII e XVIII seculos, mas disposta com acerto, com as modificaes
introduzidas successivamente na architectura. Na segunda metade do XVII
seculo, e muito mais frequentemente no seculo seguinte, rematavam os
tumulos com pyramides e obeliscos em meio relevo, ornados de bustos, em
medalho, do finado. Os cyprestes, as columnas quebradas, as urnas
funereas, genios com fachos derribados, todas as reminiscencias pags
vieram a ser tambem uma decorao mais seguida n'esta ultima poca.

O uso das _campas_ continuou durante o periodo do renascimento, e o seu
numero augmentou muito relativamente  poca precedente. No XVI e no
XVII seculos eram postas no pavimento das egrejas e dos claustros;
tambem s vezes se assentavam na grossura da parede, junto do logar em
que fra sepultado o finado. As mais antigas, especialmente as da
segunda classe, esto cobertas em parte por figuras em alto e baixo
relevo, em parte com inscripes. Mais tarde limitaram-se a uma simples
inscripo acompanhada de um symbolo ou de um brazo.

A maior parte das campas so de calcareo azul ou de marmore preto, e
muitas vezes tem as inscripes embutidas com marmore branco. Acham-se
tambem algumas lousas funerarias de lato, cujos traos gravados esto
cheios de um esmalte encarnado ou preto, posto a frio.

Desde o comeo do XVII seculo, as inscripes funereas principiam
frequentemente pela frma pag D (_eo_) O (_ptimo_) M (_aximo_), ou com
as letras P. M. interpretadas PIAE MEMORIAE, mas isso tem o
inconveniente de fazer directamente alluso ao P (_iis_) M (_anibus_)
dos antigos romanos.

_Pias baptismaes_. As pias baptismaes apresentam pouca importancia; a
iconographia to esplendida e to abundante de symbolismo que se notava
sobre as pias roms, e algumas vezes ainda sobre as do periodo ogival,
desapparece de todo. Ellas foram ento formadas de simples pias de
marmore, circulares ou polygonaes, tendo a frma de uma semi-esphera ca
e achatada, s vezes ornadas com molduras de frma de perolas e assentes
sobre um pedunculo com molduras. As tampas so de lato ou de madeira.

_Obras de ourivesaria e de esmaltador_. Durante o periodo da renascena,
os ourives serviram-se princpalmente do trabalho de estampar em relevo,
da cinzelura e da gravura para ornar os objectos de ourivesaria. Os
esmaltes de cres, cujo uso havia sido introduzido no fim do XV seculo,
concorreram egualmente s officinas de Limoges, Augsbourg e de
Nuremberg. Os _Limousinos_ cobriam quasi sempre com pintura esmaltada as
peas metallicas, grandes e pequenas, transformando-as assim em paineis
ou medalhes: os _Allemes_ empregaram os esmaltes, no smente como
faziam os Limousinos, para pintar pequenos modilhes, muitas vezes
camafeus cr de rosa, e os applicavam sobre os ps dos calices, das
custodias e sobre outros logares das suas obras, mas serviam-se tambem
para fazer realar, pelo emprego do colorido superficial, certos
detalhes das suas peas de ourivesaria, por exemplo, as figuras,
folhagens, flres e grinaldas.

O gosto pelos assumptos mythologicos, que dominava nas artes como na
litteratura, exerceu a sua influencia na ourivesaria religiosa. Os
deuses, os semi-deuses e os monstros da antiguidade pag foram
resuscitados. Ainda mais, apparecendo nos assumptos da historia da
Biblia ou das legendas dos Santos, os artistas curavam muitas vezes na
reproduco dos heroes do paganismo: representavam o Padre Eterno com as
feies de Jupiter antigo; suppunham exaltar Nossa Senhora
assemelhando-a s deusas mythologicas; os anjos vieram a ser genios ns,
e as tres Graas serviram para personificarem as virtudes theologaes.
Entre os arabescos via-se reproduzir os Centauros, Pans, Sylvanos,
Trites, Nereidas; representaes onde a natureza humana e a natureza
animal se reunem da maneira a mais singular. Os objectos do culto
revestem-se com todas as excentricidades, e teem muitas vezes dimenses
fra de toda a proporo.

_Calices_. Os ourives do XVI seculo abandonam pouco a pouco as tradies
da edade mdia, e, posto que a frma antiga da taa se conserve ainda
algum tempo mais ou menos primitiva, o calix vem a ser cada vez maior. A
principiar do meiado do XVII seculo, os artistas deixam-se levar pela
sua imaginao, esquecendo completamente as boas tradies dos tempos
anteriores. O calix chega, e mesmo vae alm muitas vezes,  altura
desmedida de 35 centimetros; a taa estreita-se muitas vezes de maneira
que na communho o padre  obrigado a curvar a cabea para traz; o n
no se distingue j da hastea, e o diametro do p do calix diminue a tal
ponto que ao menor choque o calix est arriscado a cair.

A patena  uma simples chapa redonda, no tendo nenhuma cavidade.

_Pyxide_. As pyxides distinguem-se das que havia nas pocas precedentes
pelas suas muito grandes taas; sendo raramente ornadas de lavor
representando assumptos religiosos. A comear do XVII seculo, a sua
tampa no fica ligada  taa por um gonzo.

_Custodia_. As custodias de frma radiante, foram, pde-se dizer, as
unicas conhecidas da poca do renascimento; teem geralmente as dimenses
muito exaggeradas. As custodias com cylindro de crystal apparecem apenas
no XVI seculo. Muitas vezes mesmo mudaram mais tarde estes ultimos,
substituindo o cylindro de crystal por um sol radiante. Nas custodias
ricas, o oculo com sol radiante  algumas vezes ornado de grupos, scenas
em alto relevo e estatuasinhas, que no convm, por frma alguma, junto
ao Santissimo Sacramento. Essas extravagancias notam-se mais vezes ainda
nas custodias modernas.

_Relicarios_. Os grandes relicarios do renascimento eram as mais das
vezes de madeira pintada e dourada. Faziam-se ainda algumas vezes os
relicarios de madeira, apresentando a imitao de egrejas
contemporaneas, com columnas, entablamento, fronto, etc. Muitas vezes
tambem serviam-se de bustos de Santos de madeira pintada e dourada, que
se collocavam sobre uma base ornada com molduras com ovanos.
Encaixilhavam-se as reliquias no meio da face anterior d'essa base,
mettendo-as debaixo de vidro, ou em um pequeno. relicario de metal.

_Estofos preciosos_. _Tecidos_. No XVI seculo, os estofos de que se
serviam para as vestimentas, os mais ricos eram tecidos com oiro ou
prata, brocado e velludos de Genova e de Utrecht.

_O estofo com oiro ou prata_  um tecido feito com fios cobertos de
qualquer d'estes metaes. Quando os desenhos so tecidos servindo-se dos
mesmos fios ou fios de seda, designam-se _brocado_. Finalmente, se em
logar de fios de seda se servem de velludo, chama-se _velludo de
Genova_.

Antes do XVII seculo no se conhecia o _velludo lavrado_: da sua
superficie tiravam-se servindo-se da thesoura, certas partes do pello
para formar desenhos de flres e grinaldas. Mais tarde conseguiram obter
um resultado analogo comprimindo os velludos com uma poderosa machina
movida a braos ou pela agua; foi este o processo que forneceu, durante
muitos seculos, o _velludo batido_. O _velludo_ dito de _Utrecht_ tem
geralmente o pello mais comprido que as outras qualidades de velludos, e
distingue-se por uma consistencia mais forte.

_Bordados_. Os _bordados_ da poca do renascimento podem-se dividir em
duas grandes classes. A primeira comprehende os estofos bordados, tendo
conservado a sua flexibilidade, e consistindo o seu apreo na disposio
artistica dos fios de oiro, prata, seda ou l de differentes cres,
empregadas pelo bordador. Os bordados de segunda classe apresentam em
estofo um aspecto esculptural, devidos aos effeitos das grinaldas,
flres, fructos e figuras com as quaes esto ornados; podia-se suppr
que o bordador, esquecendo o seu proprio officio, foi pedir auxilio a
uma arte estranha, que no  nem pde ser a que lhe pertence! Inutil
seria accrescentar, suppomos, que a logica pedia que o bordador
empregasse os processos de execuo dos quaes legitimamente elle dispe
pela natureza mesmo do seu officio, quelle que empregou da arte da
esculptura, arte da qual os effeitos nos parecem incompativeis com os do
bordado inconvenientemente produzido.

_Pannos de raz_. Os pannos de raz continuaram em uso, e obtiveram mesmo
maior acceitao durante o periodo do renascimento. Nunca os teres de
alta e baixa trama foram nem mais numerosos, nem tiveram maior uso que
no XVI seculo. O centro de fabrico de mais importancia n'esta poca foi
Bruxellas, cujos productos alcanaram primazia no smente pela
habilidade dos operarios, mas tambem pelos cuidados constantes que se
empregavam na preparao e applicao do tabalho das materias de que se
serviam na sua execuo. O magistrado communal da cidade no desprezava
nenhum meio para conservar a merecida reputao das officinas de
Bruxellas, que contribuiam com uma to grande parte para a prosperidade
nacional. Finalmente, para conseguir pannos de raz perfeitos, elle
prohibiu, por um edital, de 24 de abril de 1425, que se pintassem ou
retocassem com pincel as encarnaes dos tecidos de uma certa dimenso;
pelo mesmo edital promettia, alm d'isso, aos fabricantes a propriedade
artistica de seus grandes modelos de desenhos, estabelecendo punies
muito severas contra os falsificadores. Tres annos depois, isto , em
maio de 1528, promulgou um outro edital mais notavel ainda, ordenando
que toda a pea fabricada na cidade e medindo mais de seis varas devia
trazer d'alli em diante na ourela inferior: de um lado uma das tres
marcas dos fabricantes, Bruxellas, Antuerpia e Tournay, e do outro um
pequeno escudo entre dois BB, iniciaes da palavra Bruxellas.

Em 1544, a obrigao de ter a marca foi extensiva pelo governo a todas
as cidades dos Paizes-Baixos.

Na marca de Bruxellas algumas vezes o B est voltado, ficando os dois
anneis do B virados para o escudo. A marca de Antuerpia  formada por
uma mo acompanhada de uma flor de liz; a de Tournay mostra uma torre.

Durante o periodo ogival os pannos de raz reproduziram assumptos
religiosos e, algumas vezes tambem, figuras allegoricas ou contos de
cavallaria.  proporo do adiantamento no XVI seculo, os assumptos
religiosos tornam-se mais raros; ficando preferidas as representaes
que se referissem  mythologia pag ou  historia antiga da Grecia e dos
Romanos.

A fabricao dos pannos de raz de Bruxellas declinou sensivelmente
durante a ultima metade do seculo XVI, por causa das perturbaes
religiosas que assolaram a Belgica.

A Antuerpia era mais um deposito commercial que um centro de produco.
Desde o XV seculo, os commerciantes expediam os pannos de raz para toda
parte; tomando no XVI seculo este commercio uma extenso maior.

No principio do XVII seculo, a concorrencia de muitos paizes
estrangeiros estabeleceu manufacturas officiaes, fazendo declinar a
industria da Belgica. Todavia os novos estabelecimentos foram fundados
com o concurso dos mestres e operarios vindos de Bruxellas.

Durante a segunda metade do XVII seculo o fabrico dos pannos de raz
bruxellezes principiaram a affrouxar, tanto pela sua qualidade, pois no
empregavam as boas tradies artisticas, como principalmente pela
fundao, em Frana, da manufactura real dos Gobelins, estabelecida em
1662 por Luiz XIV. A direco d'este estabelecimento foi entregue ao
pintor O'Brun, que tinha um pessoal numeroso,  frente do qual estava,
entre outros, officiaes, Joo Jans, habil tapeceiro, oriundo de
Oudenarde, que foi residir para Paris, depois de 1650, com grande numero
de operarios flamengos. A concorrencia da fabrica dos Gobelins causou a
ruina das officinas de Bruxellas.

A cidade de Oudenarde, que j tinha officinas de tapearia no seculo XV,
produziu nos seculos XVII e XVIII tapearias de um genero especial,
designado sob o nome de _Verduras_. Representavam, no assumptos
historicos, mas paisagens animadas por algumas pequenas figuras de
homens e animaes, assim como vistas de castellos ao longe. O seu nome
deriva da circumstancia dos tons de verde-carregado que predominam
geralmente n'estas composies. A industria da tapearia acabou em
Oudenarde em 1772.

No XVIII seculo, a illuso da manufactura dos Gobelins foi to grande na
Allemanha, que a palavra Gobelin veiu a ser synonimo de tapearia de
alta e baixa lissa, e tem conservado at hoje esta significao.


*Iconographia*


Uma revoluo se effectuou na poca do renascimento, na representao da
natureza humana. At ao XV seculo, a nudez das figuras no era
admittida, no smente na architectura religiosa, como na architectura
civil. Dissimulavam-se mesmo de proposito as frmas dos corpos debaixo
da roupagem do vestuario, com receio de despertar as paixes sensuaes;
os esculptores do renascimento _fizeram tudo ao contrario_: tomaram a
taxa de executar sem disfarce a natureza, e dar ao seio, aos hombros, ao
corpo um desenvolvimento de frmas que na edade mdia se tinha
dissimulado debaixo da roupagem. O retrocesso do genio para os estudos
classicos levou, por um mesmo estimulo, os artistas ao estudo da
anatomia do corpo humano: vieram a ser pagos sem comtudo deixarem de
ser christos, e principiaram a representar, at no sanctuario das
egrejas, a imagem na da mulher, faunos, etc., nas attitudes as mais
lascivas: foi esta a propenso da arte desde o XVI seculo. A comear
d'esse momento, foi a sensualidade e a nudez que dominaram na maior
parte das pinturas e esculpturas mesmo as religiosas. Muitas vezes nas
egrejas, os assumptos legendarios ficam substituidos por scenas tiradas
da mythologia. Estas mesmas com figuras nas se vem sobre os vasos
sagrados. Os anjos, que abundam nos edificios religiosos, so genios,
cupidos com azas, dispostos para entrarem no banho.

Entre as representaes proprias do periodo do renascimento,
mencionaremos uma unica: _A deposio de Jesus Christo no tumulo_, que
se representa em grande numero de egrejas com figuras de grandeza
natural. Alm do corpo inanimado de Christo, vem-se mais sete
personagens. Nicodmos e Jos de Arimatha pegando nas extremidades da
mortalha sobre a qual descana o corpo do Redemptor; Nossa Senhora, o
apostolo S. Joo e as tres Marias, Maria Magdalena, Maria Clephas e
Maria Salom, esto em fileira, entre as duas primeiras por detraz de
Christo.

Concluiremos estas consideraes pelas palavras de um douto archeologo
que estygmatisa o sensualismo:

Podemos todavia ponderar que o estylo da architectura da Renascena,
querendo adoptar as formas da architectura classica, no produziu
progresso nenhum na arte architectural, pelo contrario a fez
_retrogradar_; se os artistas antigos tivessem conhecido essas ousadias
engenhosas dos periodos em que a architectura apresentou as suas novas
idas artisticas, no teriam espontaneamente renunciado ao grande numero
de frmas que a Renascena se lembrou de avivar; em uma palavra, no se
teriam adoptado modos differentes antigos, que no significavam ser o
resultado de symptoma de progresso, sendo pelo contrario uma retroaco
da arte, pois no tinham progredido nas bellezas essenciaes no estylo
antigo, tendo apenas alterado ao mesmo tempo a perfeio mechanica e a
belleza racional da arte classica.


FIM




Nomes dos Rev.^{os} Parochos

_QUE FORAM ASSIGNANTES D'ESTA PUBLICAAO_


Alexandre de Faria e Silva--Beneficiado da S d'Evora--Correio do
Collegio.

Alexandre Ramos Cid--Santa Maria da Feira--Beja.

Alfredo Elviro dos Santos--Secretario do Patriarchado--Lisboa.

Antonio d'Almeida Estrella--Rua do Bomjardim, 187--Porto.

Antonio Ferreira da Gama--Alfarellos--Alfarellos.

Antonio Luiz Pinto de Carvalho--Cartaxo--Cartaxo.

Antonio Luiz Thiago Mesquita--S. Miguel--Villa Franca do Campo.

Antonio Narcizo Pereira--Rua da Borragem--Almada.

Antonio Roza de Carvalho--Nossa Senhora da Conceio--Torres Novas
(Alqueido do Sena).

Antonio dos Santos Figueiredo--Seminario de Portalegre.

Antonio dos Santos Silva--Santa Catharina da Fonte do Bispo--Tavira.

Caetano Xavier d'Almeida da Camara Manuel--Evora.

Caetano Honorio da Graa e Sousa--Seminario de Portalegre.

Domingos Jos Alves Almeida--S. Joo Baptista--Vieira (Mosteiros).

Eugenio de Freitas Cavalleiro de Sousa--Rua da Bella Vista,  Lapa, 7,
2.^o--Lisboa.

Faustino Antonio de Moraes--S. Saturnino--Fanhes.

Francisco da Conceio Costa--S. Pedro--Elvas.

Francisco Ferreira Flres--Nossa Senhora da Visitao--Ourem.

Francisco Jos Monteiro--Nossa Senhora da Encarnao--Mirandella.

Francisco Loureno Cardoso--Nossa Senhora da Assumpo--Caminha.

Francisco Maria de Vasconcellos--Nossa Senhora do Milagre--Leiria
(Vieira).

Joo Baptista de Mendoa--Nossa Senhora da Graa--Olho (Moncarapacho).

Joo David d'Azevedo Barros--Rua do Bonjardim, 158--Porto.

Joo Jos de Mattos Ferreira--Santa Maria e S. Miguel--Cintra.

Joo Maria de Mendoa Vasques--Nossa Senhora da Conceio--Silves
(Alcantarilha).

Joo Nepomuceno da Costa--S. Pedro de Penaferrim--Cintra.

Joaquim Antonio dos Reis--S. Domingos de Bemfica.

Joaquim Antonio Teixeira--Algarve--Loul.

Joaquim Bernardo das Dres--Cacella--Villa Real de Santo Antonio.

Joaquim Jos d'nova--Povoa de Varzim--Povoa de Varzim.

Joaquim Maria Duarte Dias.

Joaquim Martins de Carvalho--Coimbra.

Joaquim Pereira de Moraes (Abb.)--Santa Maria--Taboao (Sendim).

Joaquim Rodrigues Barroso--Nossa Senhora dos Prazeres--Vizeu
(Abravezes).

Joaquim dos Santos Sequeira--Seminario de Portalegre.

Jos Alves de Mattos (Dr.)--Reitor do Seminario de Santarem.

Jos Baptista Pereira--Senhor Jesus--Obidos Sanguinhal.

Jos Bernardo dos Santos--Borba.

Jos David d'Azevedo Barros.

Jos Diogo Ribeiro--Vimieiro--Correio de Alcobaa.

Jos Farinha Martins--Seminario de Portalegre.

Jos da Luz Capella--S. Miguel do Pinheiro--Mertola.

Jos Maria Tavares Portugal--Nossa Senhora d'Assumpo--Vianna do
Castello (Gaveo).

Jos Ribeiro da Silva--Seminario de Portalegre.

Jos Victorino de Carvalho--Reitor de Marcello--Santa Cruz de Villa
Ale.

Luiz Jos Nunes (Abb.)--S. Miguel--Bouas (Lea da Palmeira).

Manuel Branco de Lemos--Salvador--Ilhalvo.

Manuel Francisco dos Santos Peixoto--Val de S. Sebastio--Ilha Terceira.

Manuel Ferreira Peixoto de Sousa--Vera Cruz--Aveiro.

Manuel Henrique de Sousa Machado--S. Martinho de Bornes.

Manuel Jos Bernardo Coelho--S. Thiago--Tavira.

Manuel Maria da Costa--S. Matheus da Calheta--Ilha Terceira.

Manuel Marques Monteiro--Nossa Senhora da Conceio--Nellas.

Manuel Ribeiro de Mello--Valladares--Correio de Gaia.

Manuel dos Santos Loureno--S. Joo Baptista--Feira (S. Joo de Vz).

Mathias M. Grave--Seminario de Portalegre.

Miguel Antonio da Fonseca e Sousa--S. Faustino--Pezo da Regoa.

Paulo da Costa--Rua do Infante D. Augusto--Coimbra.

Prior da Freguezia de Cezimbra.

Prior da Freguezia de S. Miguel--Vagos (Sza).

Thomaz Joaquim d'Almeida (Dr.)--Santo Andr--Mafra.

Vice-Reitor do Seminario de Faro.

Victorino da Silva Araujo--Leiria.

Zephyrino Jos Pinto.




INDICE



Ao leitor.      5

Introduco.      7

*Capitulo I*--Principios da arte christ no Occidente.

_Primeiro periodo_.      13

*Capitulo II*--Descripo das catacumbas de Roma; 1.^o periodo.      14

Symbolos ou allegorias dos primitivos christos.      16

Monogramma de Christo.      18

Sarcophagos.      21

Edificios religiosos construidos nos tres primeiros seculos.      23

Cemiterios.      24

Paramentos e objectos do culto.      25

*Capitulo III*--Estylo latino.      25

Caracteres d'este estylo.      31

Decorao dos monumentos do periodo latino.      32

Narthex, fachadas e portaes das basilicas.      33

Janellas e vidraas.      33

Altar nas egrejas do Occidente.      36

O _ciborium_ durante o periodo latino.      39

Cemiterios--sarcophagos--campas e tumulos.      42

Os calices e patena.      45

Os crucifixos e os castiaes.      48

Diptycos.      49

Estofos preciosos.      50

Paramentos sacerdotaes.      53

Mosteiros latinos.      55

Iconographia do periodo latino.      55

Caracteres do estylo bysantino.      57

Systema de construco.      58

Durao exterior e interna das egrejas.      58

*Capitulo IV*--Periodo Roman.      60

Caracteres do estylo lombardo.      62

Durao monumental.      66

Estylo roman durante os seculos XI e XII.      67

Caracteres da architectura roman.      69

Esculptura monumental no seculo XI.      71

Atrios e portaes romans.      73

Caixilhos rendilhados e vidraas pintadas.      75

Columnas anneladas--ornato designado--garra.      77

Capiteis da architectura roman.      78

Arcadas e arcaduras nos seculos XI e XII.      79

_Triforiums_ e cornijas.      81

Contrafortes e telhados.      83

Torres e campanarios.      84

Pintura das paredes e pintura historica.      86

Altares fixos, retabulos e relicarios.      89

Piscinas.      93

Doceis--Cadeiras episcopaes.      95

Capellas funerarias--tumulos--pedras tumulares.      96

Pias baptismaes.      98

Esmaltes.      99

Ourives de Limoges.      101

Calices e patnas.      102

Grades.      103

Alfaias religiosas.      104

Restaurao artistica.      105

Custodias--pyxides e ciborios.      106

Relicarios e urnas.      108

Coras suspensas nos altares.      112

Cruzes d'altar e para procisses e candelabros.      113

Evangeliarios e suas capas.      116

Baculos pastoraes e sapatos lithurgicos.      120

Mitras.      122

Alfaias preciosas e paramentos sacerdotaes e suas cres.      123

Abbadias--Mosteiros--Claustros dos capitulos.      129

Iconographia, _a sciencia das imagens_.      132

A cruz e a crucificao.      137

Personagens e accessorios historicos e allegoricos.      143

Evangelistas e seus symbolos.      152

Assumptos religiosos representados sobre os monumentos dos seculos XI e
XII.      155

*Capitulo V*--Periodo ogival.      159

Diversas frmas de ogiva.      160

Origem da ogiva e do estylo ogival.      162

Periodo de transio do estylo roman para o ogival.      164

Caracteres da architectura ogival.      165

Plano das egrejas do XIV e do XV seculos e aspecto exterior das egrejas.
     169

Systema de construco.      172

Esculptura monumental.      175

Fachadas--Alpendres--Postaes.      179

Janellas no periodo de transio.      185

Rosaceas--Vidraas incolores.      192

Vidraas pintadas.      195

Idem do XIII seculo.      200

Idem pintadas do XIV seculo.      204

Amarello de prata.      206

Vidraas pintadas do XV seculo.      207

Idem pintadas do XVI seculo.      211

Idem do XVII seculo.      214

Idem do XVIII seculo.      216

Pilares--Columnas.      216

Bases e columnas.      219

Capiteis.      221

Modilhes--misulas.      223

Arcadas--arcaduras.      224

Cornijas--platibandas.      228

Estabilidade e plano das abobadas.      231

Egrejas que teem a sua nave central muito mais elevada que as outras
naves lateraes e aquellas tendo igual altura.      232

Perfis das nervuras--fecho da abobada.      234

Arcos butantes--contrafortes.      236

Gargulas.      242

Nichos e doceis.      243

Torres--campanarios.      247

Pavimentos.      251

Lages gravadas com embutidos.      253

Labyrinthos.      254

Pinturas das paredes.      256

Cruz da consagrao.      262

Altares--tabernaculos--piscinas.      263

Frontaes--baldaquinos.      265

Retabulos--banqueta.      268

Sacrarios.      274

Cadeiras de cro.      277

Jubes--cruzes triumphaes.      281

Pulpitos--confessionarios.      284

Capellas funereas--tumulos--campas.      286

Pequenos monumentos funereos do XV e do XVI seculo.      294

Pias baptismaes--pias para agua benta.      298

Grades--barreiras de metal e de madeira.      301

Orgos e caixas para elles.      304

Alfaias religiosas--esmaltes.      306

Calices--patenas.      310

Custodias--pyxides sem p.      313

Relicarios--braos--ps.      317

Esmoleres--relicarios--diversos.      327

Vasos para os Santos Oleos.      331

Coras com luzes--castiaes.      333

Estantes para o cro.      338

Livros do Evangelho--manuscriptos lithurgicos--miniaturistas.      339

Thuribulos--gomis--pratas para offerendas.      342

Insignias--medalhas dos peregrinos.      346

Estofos preciosos.      348

Pannos de raz.      350

Vestimentas sagradas.      351

Mitras.      356

Abbadias--mosteiros.      357

Egrejas--claustros--casa do capitulo.      359

Aposento dos irmos leigos--aposentos para hospedes.      363

Celleiros--officinas--prises.      365

Cartuchas.      367

Mosteiros para mulheres--conventos do recolhidas.      368

Hospitaes.      368

Iconographia do periodo ogival.      369

Representao da Santissima Trindade.      370

O crucifixo--a crucificao.      371

O sol--a lua.      373

Imagem de Nossa Senhora--o Menino Jesus.      374

A Annunciao--a morte de Nossa Senhora.      376

Os apostolos--os evangelistas.      377

Scenas diversas.      379

Sibyllas.      382

*Capitulo VI*--Periodo da renascena.      383

Caracteres da architectura da renascena.      385

Comeo.      385

Decorao.      387

Plano das egrejas.      389

Fachadas das egrejas.      391

Abobadas.      392

Torres.      392

Altares.      392

Tabernaculos.      393

Cadeiras do cro, obra de talha e confessionario.      394

Jubos e balaustradas.      394

Caixas de orgo.      395

Pulpitos.      396

Tumulos e campas.      396

Pias baptismaes.      398

Obras de ourivesaria e de esmalte.      398

Calices.      399

Custodias.      400

Relicarios.      400

Estofos preciosos. Tecidos.      401

Bordados.      402

Pannos de Raz.      402

Iconographia.      403

Lista dos assignantes.      409




Notas:


[1] Extraido do _Boletim de Architectura e Archeologia_, n.^o 2, Tomo V,
pag. 20 a 22, anno 1886.

[2] Tinha a mesma designao que coemeteria e criptae.

[3] Era um calix mystico que continha o vinho que bebeu Jesus Christo na
sua ultima ceia. Este calix tinha sido conservado por Jos de Arimatha
e transportado por elle para a Bretanha. (Inglaterra).

[4] Termo em inglez admittido pelos archeologos.

[5] Havia no paiz dois magnificos livros do cro, um do convento de
Christo, em Thomar, e outro do convento de Belem. Este foi retalhado
pelos orphos da casa pia de Lisboa, que fizeram d'elle _barretinas_ e
_talabartes_. Ao outro livro foram cortadas as folhas de pergaminho,
tendo vistosos arabescos e lettras floreteadas, coloridas e douradas,
cujos preciosos fragmentos comprmos avulso aos poucos no anno de 1835.

[6] Ha um muito curioso no cabido da S de Vizeu, do qual tirmos o
molde em 1869. Est exposto no museu do Carmo em Lisboa.




Lista de erros corrigidos


Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:

  +----------+---------------------+----------------------+
  |          |      Original       |      Correco       |
  +----------+---------------------+----------------------+
  |#pg.   25| das das             | das                  |
  |#pg.   88| indefinidamenie     | indefinidamente      |
  |#pg.  102| quaiidade           | qualidade            |
  |#pg.  142| seseculo            | seculo               |
  |#pg.  209| da da poca         | da poca             |
  |#pg.  301| asperpergil-os      | aspergil-os          |
  |#pg.  350| representanto       | representando        |
  |#pg.  352| nma cruz            | uma cruz             |
  |#pg.  397| XVII e XXIII seculos| XVII e XVIII seculos |
  |#pg.  410| Varzlm              | Varzim               |
  |#pg.  411| Conceiceio        | Conceio            |
  |#pg.  415| dos imagens         | das imagens          |
  +----------+---------------------+----------------------+

* correces feitas com base na errata do prprio livro.

Foi adicionada a indicao do captulo II (pg. 14) e corrigida a
entrada do captulo III (pg. 25).





End of the Project Gutenberg EBook of Resumo elementar de archeologia christ, by 
Joaquim Possidnio Narciso da Silva

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electronic work or group of works on different terms than are set
forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark.  Contact the
Foundation as set forth in Section 3 below.

1.F.

1.F.1.  Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
collection.  Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
works, and the medium on which they may be stored, may contain
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property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
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Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
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LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
PROVIDED IN PARAGRAPH F3.  YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
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LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
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in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
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1.F.5.  Some states do not allow disclaimers of certain implied
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If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
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provision of this agreement shall not void the remaining provisions.

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with this agreement, and any volunteers associated with the production,
promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
that arise directly or indirectly from any of the following which you do
or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
http://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at http://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit http://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including checks, online payments and credit card donations.
To donate, please visit: http://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.


Most people start at our Web site which has the main PG search facility:

     http://www.gutenberg.org

This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
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