The Project Gutenberg EBook of O Arrependimento, by Camilo Castelo Branco

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Title: O Arrependimento

Author: Camilo Castelo Branco

Release Date: November 6, 2007 [EBook #23346]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O ARREPENDIMENTO ***




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O ARREPENDIMENTO.




O ARREPENDIMENTO.

ROMANCE


Em tempos da minha mocidade costumava visitar a miudo uma boa velha,
minha visinha, que me honrava com a sua estima e amisade. Humildemente
confesso que no ha sociedade mais deleitosa e agradavel, do que a de
uma mulher que soube envelhecer. A sua conversao instructiva e
divertida,  um inesgotavel thesouro de lembranas, anecdotas,
observaes chistosas e reflexes circumspectas,  finalmente uma
revista do passado.

D. Mafalda, deixem-me assim chamar-lhe, juntava  amenidade da conversa,
a do caracter, que era brando e indulgente.

Quando tinha occasio de ir passar uma noite com ella, parecia-me que as
horas voavam ligeiras e que corriam mais rapidas, do que quando as
gastava a distribuir finezas e galanteios s mais formosas rainhas dos
mais brilhantes sales. Era sempre com vivo pesar que a via apontar para
o relogio, indicando-me que a hora de me retirar tinha chegado, e
voltava a minha casa com o espirito mais rico, e o corao satisfeito e
melhor.

A historia que vou contar-vos, minhas caras leitoras, foi-me dita por D.
Mafalda n'um d'estes seros em que vos fallei.

Era n'uma bella noite de Junho; fui encontral-a sentada na sua cadeira 
Voltaire, tendo a seus ps, deitado em um cochim, o seu cosinho
querido; os olhos tinha-os semi-abertos, um sorriso nos labios, e
parecia respirar com prazer a aragem, que, embalsamada pelas flres do
jardim, se coava pela janella meia aberta. Quando cheguei junto d'ella
vinha indignado por que um de meus parentes tinha sido victima d'um
abuso de confiana; contei-lhe o succedido, e no calor da narrao no
poupei ao culpado as maiores imprecaes, nem deixei de lhe dizer que
desejava fazer-lhe todo o mal possivel.

--Devagar, meu querido amigo--me disse ella--no o julgava to
irrascivel, nem que tivesse to pouca caridade para com o proximo. Sabe
l, se, com a vida, no tiraria ao culpado o merito de para o futuro se
poder rehabilitar pelo arrependimento, e se o momento em que lhe
infringisse o castigo no seria o destinado por Deus para esse
arrependimento?

--Eis-ahi, minha cara visinha, uma doutrina, permitta-me a expresso, um
pouco subversiva da ordem social.

--Deus me defenda--me replicou--de querer que o culpado no seja
castigado, e que a sociedade fique indefeza dos crimes que um seu membro
praticou contra ella; quiz dizer smente que devia deixar s leis o
cuidado de castigar o delinquente, e que o meu querido amigo, no devia,
como individuo, fechar assim desapiedadamente o corao a todo o
sentimento de commiserao por um desgraado e infeliz, no corao do
qual talvez ainda bruxelei algum claro de virtude, que uma occasio
favoravel e propicia, que se apresente, ainda pde despertar, e fazer
com que esse membro da sociedade, que julga inutil, se torne bom e
aproveitavel.

Como eu respondesse a isto, fazendo um d'estes movimentos de cabea, que
so um protesto mudo e respeitoso, ella acrescentou:

--Est com paciencia para me aturar ouvindo uma historia, pois que ainda
temos algumas horas?

No recusei: uma historia era uma fortuna para combater a exaltao
d'espirito em que estava.

D. Mafalda principiou assim:

--Emilio da Cunha era o mais velho de tres irmos, dos quaes, o mais
novo, vivia ha muitos annos no Rio de Janeiro, onde tinha alcanado
fortuna. O segundo nunca deixou o Porto, sendo sempre infeliz nos seus
commettimentos e especulaes. Emilio da Cunha,  custa de muito
trabalho e economias, pde alcanar uma fortunasinha, que lhe permittia
esperar com socego, o momento de descanar da vida laboriosa em que
tinha vivido.

Uma quarta pessoa completava esta familia, que era uma irm, que tendo
seguido seu marido  India, para onde elle tinha sido despachado, e no
vindo nenhum d'elles a figurar n'esta minha historia, no lh'os
recordarei mais.

Aconteceu que o irmo de Emilio da Cunha, que residia no Porto, por uma
d'estas catastrophes que occasionam os jogos de bolsa, falliu. Teve tal
sentimento por este facto, que falleceu tres dias depois, atacado d'uma
febre cerebral. A herana, que deixou, foram dividas e um filho.

Emilio da Cunha, que tinha um corao bondoso, e um caracter
pundonoroso, para que a memoria de seu irmo no ficasse deshonrada,
comprometteu-se a pagar as dividas e recolheu em sua casa o filho para
lhe substituir o pai, que tinha perdido; procedimento louvavel, e digno
de se admirar, sabendo-se que elle tinha uma filha, para quem, passados
quatro ou cinco annos tinha a procurar um casamento vantajoso.

Roberto, se chamava o sobrinho de Emilio da Cunha, tinha j 15 annos
d'idade, mas o pai, inteiramente entregue s especulaes, e aos
cuidados, que ellas trazem comsigo, descuidou completamente a sua
educao, por isso o seu retrato moral, n'esta occasio, nada tinha de
vantajoso; o espirito tinha-o completamente inculto; as noes que
possuia do justo e do injusto eram as mais erroneas e disparatadas; o
respeito aos direitos d'outrem era para elle uma inveno estupida dos
homens, condemnada pela natureza, e a verdadeira liberdade consistia em
fazer o mal impunemente. Se algum bom instincto, ou algum vislumbre de
virtude, existia no corao de Roberto, ainda estava em embryo, por que
se no tinha demonstrado. Quantas e quantas vezes, em quanto que o pai,
cego pelas especulaes, concentrava todas as suas faculdades
intellectuaes na realisao d'um impossivel, no deixou Roberto de ir ao
collegio, fazendo o que em termo escolar, se chama _gazear_, e gastava
as horas d'estudo em andar a vagabundear pelos campos e praas. D'ahi
proveio o tomar relaes com meia duzia de garotos, ou vadios,
permitta-me a phrase, para quem nada era sagrado nem nas aces, nem nas
palavras. D'ahi nasceu a falta de respeito pela propriedade alheia,
roubando os pomares; e o endurecimento de corao, castigando
barbaramente animaes inoffensivos.

Emilio da Cunha reconheceu logo os maus instinctos de que seu sobrinho
era dotado, e a desmoralisao, que j se tinha infiltrado no seu
corao, mas concebeu a esperana de o regenerar com desvelos,
paciencia, e sobre tudo bons exemplos. Sua filha, a que chamarei
Valentina, de 14 annos d'idade, contribuiu poderosamente para a
realisao d'este seu empenho, to justo e louvavel. Era uma menina para
quem a natureza tinha sido prodiga em encantos de rosto, d'espirito e
corao, a ponto de qualquer que a via a admirar, e de quem a ouvia
amal-a immediatamente. Tinha uma tal influencia, ou magia sobre os que
se acercavam d'ella, que aos bons tornava-os melhores, e aos maus
fazia-lhe retirar envergonhados para o fundo do corao os maus
instinctos. Esta magia no teve menos poder sobre Roberto, do que sobre
os outros, de sorte que a regenerao que elle soffreu, nos seus
costumes e aces, foi to sensivel, que o bondoso Emilio da Cunha
revia-se alegre e contente na sua obra, e congratulava-se dos resultados
que tinha colhido.

Deu-se porm uma circumstancia feliz, mas que ao mesmo tempo foi
desgraada, que deteve Roberto repentinamente na boa estrada em que se
tinha embrenhado, e na qual parecia caminhar resolutamente. Por uma
carta chegada n'um dos paquetes inglezes do Brazil, soube Emilio da
Cunha, que seu irmo mais novo tinha fallecido, deixando-o, por elle ser
o seu mais proximo parente, herdeiro d'uma fortuna consideravel. Bens
rusticos, e estabelecimentos industriaes  no que consistia a fortuna,
dos quaes se poderia colher bons lucros, sendo bem geridos, conforme o
tinha praticado o seu defunto proprietario; mas Emilio da Cunha, alm de
se no julgar com conhecimentos e foras para bem gerir a industria com
que seu irmo tinha feito fortuna, no tinha desejo, nem queria
expatriar-se. Foi at com immensa repugnancia que se resolveu a ir ao
Brazil tomar posse e liquidar a herana; parecia que um secreto
presentimento o avisava do que tinha de acontecer, levando-o a
considerar como uma desgraa esta viagem, a que os sagrados direitos de
sua predilecta filha Valentina, o obrigavam a emprehender.

Partiu finalmente, depois de ter tomado todas as precaues para a
tranquillidade de seu espirito. Valentina entrou em um dos collegios de
educao mais acreditados do Porto, e Roberto ficou n'uma casa
particular, onde lhe deviam prestar todos os cuidados, que exigiam a sua
idade, pois que j ento tinha 17 annos, e a sua completa ignorancia, de
que at uma criana de 8 annos poderia zombar.

Emilio da Cunha aportou a salvamento s terras de Santa Cruz, e logo que
saltou em terra, desenvolveu a maior actividade, e procurou por todos os
meios possiveis abreviar rapidamente os seus negocios, mas infelizmente
os resultados no correspondiam aos seus esforos e desejos, porque de
todos os lados, e a todos os momentos estavam sempre a surgir empecilhos
e embaraos no prevenidos nem esperados. Havia j um anno que Emilio da
Cunha tinha chegado ao Brazil, e ainda os seus negocios no estavam mais
adiantados, que no primeiro dia.

Canado, desanimado e affectado de melancolia, ou _spleen_, como lhe
chamaria um nosso fiel alliado britannico, mortificado por um
desassosego de que no podia explicar a causa, deliberou entregar os
seus negocios e a liquidao e arrecadao da heranca a um procurador, e
embarcar-se no primeiro paquete, que seguisse viagem para Portugal.

Que se tinha porm passado no Porto, durante este tempo?

 o que lhe vou contar, meu visinho, se ainda tiver paciencia para me
ouvir, me disse D. Mafalda, e o que vou fazer s minhas leitoras, se
ellas quizerem ter a mesma paciencia de me lr.

Roberto, separado de sua prima, aborrecido e dominado pela priguia,
fugiu um bello dia da casa onde se achava hospedado, foi procurar, e
infelizmente encontrou, os seus antigos companheiros da vadiagem, que
tinham quasi todos seguido a estrada do vicio e do crime. Arrastaram
portanto comsigo o desventurado Roberto para esse despenhadeiro, na
baixa do qual se encontra a escoria da sociedade. Roberto tinha por
companheiros habituaes homens criminosos, de cara sinistra, maneiras
brutaes, linguagem grosseira e vestidos esfarrapados, n'uma palavra
mendigos, ou ladres. Adoptou-lhe portanto os costumes as maneiras e as
maximas, e quem o visse emmagrecido pela devassido, com os vestidos em
desalinho, os cabellos eriados, tomal-o-ia por um bandido de trinta
annos, quando elle no tinha mais que dezenove incompletos. Valentina,
pelo contrario, tinha crescido em corpo, belleza, espirito, talento e
virtudes.

Conduzi-o do Porto ao Rio de Janeiro, e do Rio de Janeiro ao Porto,
agora, querendo-me seguir, leval-o-hei a Lisboa, onde se passa um
pequeno episodio d'esta muito veridica historia.

De bordo d'um paquete inglez, chegado dos portos do Brazil, tinha
desembarcado um passageiro, que se dirigiu a um hotel para descanar, e
ahi passar at ao dia seguinte, em que devia seguir viagem para o Porto,
na mala-posta, a fim de se vir unir a seus filhos, que estava ancioso
por abraar e apertar contra o corao. Julgo desnecessario o dizer-lhe,
pois me parece j o adivinhou, que este viajante era Emilio da Cunha,
que se considerava feliz por pisar o solo da sua patria, que tanto
amava, e onde estava tudo o que elle mais presava n'este mundo. Logo que
no hotel lhe prepararam o quarto e tomou uma pequena refeio, deitou-se
e adormeceu, embalado por sonhos felizes.

No dia seguinte ainda o sol mal tinha despontado, j subia pela escada
do hotel e entrava no corredor commum, sobre o qual deitavam uma duzia
de portas de quartos, um homem de m catadura. Era um d'estes
_cavalheiros d'industria_, a qual consiste em entrar, sob qualquer
pretexto, de manh cedo nos hoteis, e aproveitar-se do primeiro quarto
que encontram aberto para empalmarem destramente um relogio, ou uma
mala, se o acordar do hospede ou locatario do quarto, os no obriga a
retirar-se de mos vazias, desculpando-se de que se tinham enganado na
porta.

No andar, vacillante, e como desconfiado, do _cavalheiro d'industria_ se
reconhecia facilmente, que era um novio, que ia tentar os seus
primeiros ensaios, ou que ia fazer a sua _primeira escamoteao_.

Depois de ter estado por bastante tempo em lucta com a sua consciencia,
e irresoluto se devia ou no penetrar no quarto de que a porta se achava
meia cerrada, metteu primeiro a cabea, depois uma perna, e por ultimo
todo o corpo; mas fazendo algum ruido com este ultimo movimento, o
hospede, que estava deitado, acordou, e virando rapidamente a cabea,
Roberto, por que o _cavalheiro d'industria_ era elle, encarou com seu
tio Emilio da Cunha, ficou estupefacto e como fulminado por um raio.

N'esse mesmo dia de tarde Emilio da Cunha tomou lugar no caminho de
ferro at ao Carregado, e ahi na mala-posta at ao Porto, onde trinta e
seis horas depois se achava nos braos de sua querida filha Valentina,
que immediatamente tinha ido procurar ao collegio.

--Tu sahes j, j do collegio, minha filha--lhe diz Emilio da
Cunha--para retomares, e nunca mais deixares, o teu lugar a meu lado.

--Que felicidade--exclamou Valentina toda alegre e folgaz--que vida
socegada e feliz no vamos passar todos tres, no  assim meu querido
pai, por que Roberto tambem vai para a nossa companhia?

--Roberto, morreu--respondeu Emilio da Cunha com rosto severo, e voz
soturna.--No quero que me falles mais n'elle, entendes Valentina?

Valentina admirada da resposta, ainda fez diversas perguntas a seu pai,
mas a todas ellas no obteve outra resposta, seno a completa prohibio
de nunca mais lhe fallar em Roberto.

Ainda porm no tinha Emilio da Cunha soffrido todas as provaes, que
Deus lhe destinra. Haviam decorrido seis mezes desde que tinha chegado
do Rio de Janeiro, quando recebeu a participao de que o procurador,
que ficra encarregado da liquidao e arrecadao da herana, tinha
cumprido a sua misso, mas que, depois de ter arrecadado a somma
importante, que produzira a mesma herana, tinha desapparecido, sem que
as pesquizas feitas para se descobrir o lugar de seu refugio, tivessem
dado o desejado resultado.

Emilio da Cunha ficou completamente arruinado por este facto, porque,
impaciente por satisfazer os credores de seu irmo, pai de Roberto,
tinha vendido tudo o que possuia em Portugal.

O golpe foi forte, mas ainda assim no o foi bastante para poder
subjugar a coragem do bom e respeitavel velho, mostrando-se Valentina
n'esta conjunctura, digna filha d'um tal pai.

Renunciando heroicamente s commodidades da vida, em que at ento
tinham vivido, foram habitar, em um bairro mais afastado da cidade, uma
pequena casa, na qual soffreram privaes diarias e penosas, tratando
sempre d'obter alguns recursos para a sua subsistencia, mesmo em
trabalhos mal retribuidos.

Valentina, que Deus tinha dotado de bom gosto, e bastante habilidade,
principiou a trabalhar para uma modista, a qual satisfeita com os seus
primeiros trabalhos, lh'os deu em seguida mais delicados e por isso
melhor retribuidos, o que foi para elles uma grande felicidade, e que
assim lhes proporcionou meios licitos de pagarem regularmente o seu
aluguel, e de j no receiarem tanto nem o frio, nem a fome.

Valentina ia entregar a sua obra  modista, a qual satisfeita com ella
lhe dava sempre mais, e muitas vezes mais do que a que ella podia fazer.
A uma crise terrivel tinha-se seguido uma abastana mediocre, que era
por isso uma felicidade mais agradavel e estimada.

Decorreram assim dous annos.

Um dia, em que Valentina estava s, lhe entregou o carteiro uma carta, e
qual no foi a sua surpreza quando reconheceu a letra de seu primo.

Roberto contava n'esta carta tudo o que tinha passado, desde o momento
em que o vimos no hotel em Lisboa preparando-se para _escamotear_ seu
tio. Fulminado pela vista d'Emilio da Cunha tinha recobrado os sentidos
para na fuga se salvar s imprecaes d'indignao do velho. Chegou
offegante ao Terreiro do Pao, onde se sentou, ou melhor se deixou cahir
n'um dos assentos de pedra, que alli se acham, e assim esteve por muito
tempo, com a cabea escondida entre as mos, mergulhado em acerbas e
crueis reflexes.

Experimentou ou sentiu dentro em si uma completa revoluo; o seu
procedimento indigno e infame se lhe apresentou em toda a sua nudez e
hediondez; teve horror de si mesmo e por um instante pensou em
suicidar-se; mas com o arrependimento entraram-lhe no corao
sentimentos mais generosos. Lembrou-se que, tendo d'ora avante uma
conducta honrosa e illibada, ainda poderia chegar a fazer esquecer os
seus erros passados, e reanimado por esta feliz lembrana, que o seu
anjo bom lhe tinha suggerido, levantou-se resoluto a trabalhar para a
sua rehabilitao, e a no descanar sem a ter chegado a alcanar.

A occasio favoravel no se fez esperar muito, por que um capito d'um
navio mercante, que estava apparelhando para a California, lhe concedeu
passagem gratuita, mediante os seus servios e o seu trabalho na viagem.

Aportou Roberto  California e sorrindo-lhe a fortuna, em lugar de se
embrenhar no jogo, arriscando assim as suas economias, fundou um
estabelecimento, que ia prosperando, faltando unicamente para a sua
felicidade se tornar completa, o obter o perdo de seu tio, e a
esperana de poder tornar a vr sua prima, cuja imagem tinha
constantemente na ida, e o sustentava e animava n'esta nova estrada de
trabalho e ordem, de que no pensava mais em se desviar.

Eis aqui em resumo o que continha a carta que Roberto dirigiu a sua
prima.

Valentina muito commovida, mas gostosa e alegre por ter de dar to grata
noticia a seu querido pai, esperava anciosa a sua volta.

Mal lhe deu tempo de sentar-se, ia logo a contar-lhe o succedido, mas,
Emilio da Cunha a deteve, apenas tinha pronunciado a primeira palavra.
Valentina insistiu, mas o velho levantou-se com a maldio nos labios;
ella lanou-se-lhe de joelhos aos ps, chorou, supplicou, mas elle a
tudo ficou impassivel e inflexivel.

Valentina consternada respondeu  carta de seu primo descrevendo-lhe o
succedido, e a inutilidade de seus esforos; mas para o no desanimar
promettia-lhe de os renovar, e que os repetiria at que chegasse a mover
seu pai  commiserao e piedade, de que no desesperava. A carta
continha tambem a descripo de todos os successos, que se tinham dado
desde que Roberto tinha desapparecido; a decadencia de Emilio da Cunha,
a pobresa em que tinham vivido em quanto que o seu trabalho mal
retribuido lhe dava parcos meios de subsistencia, e o melhoramento de
sua posio, finalmente continha tambem algumas palavras d'exhortao e
amisade.

A situao de Emilio da Cunha e sua filha soffreu, passado algum tempo,
uma modificao muito mais inesperada, do que a que se havia seguido ao
aniquilamento da sua fortuna.

Emilio da Cunha foi chamado a casa d'um capitalista, aonde lhe
entregaram 20 contos de reis de que um anonymo lhe mandava dar posse a
titulo de restituio. D'onde tinha vindo este dinheiro?

Emilio da Cunha pensou muito naturalmente, que o procurador que o tinha
roubado, mortificado pelo remorso, e querendo socegar um pouco a sua
consciencia, lhe tinha mandado entregar aquella quantia, como uma parte
da restituio, que lhe tinha a fazer. Valentina estava muito longe de
concordar com a opinio de seu pai, mas nem por isso teve a franqueza de
lh'o declarar, nem lhe dar a entender qual era a sua.

Qual das duas opinies era a verdadeira,  o que nos no importa saber,
o que se sabe  que a abastana ou decencia tinha reentrado em casa
d'Emilio da Cunha, e as idas do digno e honrado velho, foram-se
tornando mais brandas sob a influencia do bem-estar.

Foi elle proprio que em um dia fallou primeiro a Valentina em seu primo
Roberto, e ella no perdendo esta occasio to propicia, que se lhe
offerecia, advogou por muito tempo, com calor e eloquencia, a causa de
seu primo. Emilio da Cunha deixou-a fallar como e todo o tempo que ella
quiz, sem lhe dar a mais pequena resposta, nem lhe replicar a cousa
alguma.

Estaria ou no convencido?

A pergunta no tinha muito facil resposta, mas pelo menos tinha ouvido
sem colera e com socego as allegaes a favor de seu sobrinho, o que j
era um bom indicio da mudana que n'elle se havia operado.

Valentina, contente e satisfeita com o resultado do seu primeiro
commettimento, escreveu immediatamente a seu primo informando-o do que
havia, e a esta carta seguiram-se outras muitas, noticiando-lhe sempre
algum novo passo dado na estrada da reconciliao.

Aconteceu um dia que Emilio da Cunha, no meio d'uma conversa, que tinha
seguido n'um objecto mui diverso, parasse precipitadamente para dizer a
sua filha:

--Tu acreditas sinceramente no arrependimento de teu primo?

--Oh! sim, meu pai--se apressou em responder Valentina.

--Queira Deus que te no enganes.

Um outro dia acordou d'uma pequena sesta, que se tinha seguido ao
jantar, gritando, como se continuasse uma conversa comeada:

--Ah! se Roberto estivesse arrependido realmente, como tu o suppes, com
que prazer e alegria........

No terminou a phrase, mas a expresso benevola da physionomia de Emilio
da Cunha indicou a Valentina o complemento da ida.

Isto foi objecto para uma ultima carta a Roberto, a que elle respondeu,
e fechou-se a correspondencia.

Uma manh Emilio da Cunha achava-se com Valentina em uma pequena, mas
elegante sala, que deitava sobre o jardim--por que elles tinham deixado
a sua pobre morada, trocando-a por outra mais decente--Emilio da Cunha
sentado junto d'uma mesa, sobre a qual se achava uma magnifica jarra de
flres, olhava sorrindo para Valentina, que, de p, junto d'um aafate
em que estavam dous pombinhos, reprehendia, acariciando-o, um d'elles:

--Eis-te aqui, meu bello fugitivo--lhe dizia ella--pensavas que era s
voltar para te ser concedido o perdo, depois de me teres feito soffrer
com a tua ausencia e ingratido? Muito bem; visto que o teu regresso
prova um arrependimento sincero, perdo com prazer; no  assim,
paisinho--acrescentou ella com voz meiga e levantando os lindos olhos
com uma expresso de candura para Emilio da Cunha--que se devem receber
os filhos prodigos, que regressam arrependidos e contrictos?

Emilio da Cunha no deu uma palavra, mas rolou-lhe uma lagrima sobre a
face.

N'este momento surprehendeu elle um olhar d'intelligencia, que Valentina
dirigia a alguem, que estava pelo lado detraz da cadeira em que estava
sentado. Voltou-se rapidamente, e soltando um grito, ouviu-se o nome de
Roberto.

Era Roberto realmente. A scena que se seguiu o meu caro visinho melhor a
poder imaginar, do que eu pintar-lh'a, ou descrever-lh'a.

Roberto voltava honrado e rico. Julgo que j comprehendeu que, para
soccorrer seu tio, elle concebeu e executou o plano da restituio.

D. Mafalda calou-se. Parecia esperar, que eu, convencido pela sua
historia, sanccionasse com o meu voto a doutrina, que ella tinha
expendido antes de comear.

--Ah!--lhe disse eu com admirao sincera--v. exc. podia facilmente
escrever um romance.

--Isso quer dizer que me faz a honra de julgar esta minha historia como
produco da minha imaginao e phantasia?

Limitei-me a inclinar-me respeitosamenie, e aqui terminou a nossa
discusso.

No dia seguinte D. Mafalda offereceu-se para me apresentar a um seu
sobrinho, proprietario d'um estabelecimento industrial importante nos
suburbios do Porto. Aceitei gostosa e promptamente. Fui recebido com
extrema bondade e franqueza. O sobrinho de D. Mafalda gosava uma
felicidade digna de ser invejada; era casado com uma mulher, que era um
anjo de belleza e bondade, e tinha um filho o mais lindo e traquinas que
se pde imaginar; o seu estabelecimento florescia e prosperava; o seu
nome figurava entre os principaes e os mais honrados do mundo commercial
e industrial, n'uma palavra nada faltava  sua gloria, fortuna, e
felicidade domestica.

--Que pensa de meu sobrinho?--me perguntou D. Mafalda, quando nos
retiramos.

--Ah! minha senhora, nada mais ambiciono do que poder imital-o.

--Pois aquelle que viu  o Roberto da minha historia.

Recolhi-me a casa fazendo para mim as seguintes reflexes: Que a
regenerao do homem pelo arrependimento no  utopia, e que a sociedade
e a sua organisao  que so as causas principaes, que occasionam que
muitos de seus membros no se regenerem, por lhe embargarem ou matarem
logo algumas centelhas de virtude, que ainda tinham no corao.

Pensem, e vero o corollario que tiram.


FIM.


      *      *      *      *      *

Nota do transcritor:

A edio da obra aqui transcrita foi publicada em 1863 num volume que
continha 3 romances denominados: Annos de Prosa, A Gratido e O
Arrependimento.





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both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark.  Contact the
Foundation as set forth in Section 3 below.

1.F.

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effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
collection.  Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
works, and the medium on which they may be stored, may contain
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property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
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LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
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with this agreement, and any volunteers associated with the production,
promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
that arise directly or indirectly from any of the following which you do
or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
https://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at https://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit https://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including including checks, online payments and credit card
donations.  To donate, please visit: https://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.


Most people start at our Web site which has the main PG search facility:

     https://www.gutenberg.org

This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
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