Project Gutenberg's Scenas Contemporaneas, by Camilo Castelo-Branco

This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
almost no restrictions whatsoever.  You may copy it, give it away or
re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
with this eBook or online at www.gutenberg.org


Title: Scenas Contemporaneas

Author: Camilo Castelo-Branco

Release Date: October 26, 2007 [EBook #23203]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK SCENAS CONTEMPORANEAS ***




Produced by Ricardo F. Diogo, Rita Farinha and the Online
Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This
book was produced from scanned images of public domain
material from the Google Print project.)









SCENAS CONTEMPORANEAS.




SCENAS CONTEMPORANEAS

POR

CAMILLO CASTELLO-BRANCO.

2.^a EDIO.

PORTO:
EM CASA DE CRUZ COUTINHO--EDITOR,
Rua dos Caldeireiros n.^{os} 18 e 20.
1862.




Porto--TYPOGRAPHIA DE ANTONIO JOS DA SILVA TEIXEIRA, _Rua da Cancella
Velha n.^o 62._




MORRER POR CAPRICHO.


I.


Os meus amigos, de certo, no sabem o que  caar coelhos na neve?

No admira.

Imaginem-se em qualquer alda, nas visinhanas do Maro. Olhem em redor
de si, e contemplem o quadro que os viajantes na Suissa lhes descrevem
todos os dias, supposto que nunca sahissem da sua terra.

A primeira impresso que recebem  a do assombro. Leguas em roda, nem na
terra nem no co, se descobre uma crista de rochedo, a frana d'uma
arvore, a dobra d'uma nuvem, que no seja branca, alvissima, desde um
horisonte a outro horisonte.

E, depois, ha ahi em toda essa natureza amortalhada um silencio funebre.
No cantam as aves, no balam os cordeiros, no silva o buzio de
pegureiro, no soam nas quebradas as campainhas da arreata de machos.

Se ouvis um rugido assobiado ao qual respondem outros, no vos afasteis
para longe da casa d'onde presenceaes, com o corao confrangido, esta
scena.  uma alcata de lobos, que descem famintos da serra, e sero
capazes de vos hirem buscar  cozinha, onde naturalmente tiritaes de
frio, sentados ao p do tro de carvalho.

Fao-vos esta recommendao porque sois uns homens afeminados, que nunca
sahistes dos sales, dos botequins, dos theatros, e das praas. Aposto
que se desseis de face com um lobo, de garras arqueadas, e fauces
inflammadas, antes que o lobo vos dsse o cordial abrao da fome, j vs
tinheis perdida a sensibilidade, e consciencia da vida, e at o direito
que todo o homem tem de matar no s o seu semelhante, mas at um lobo,
em justa defeza!

Se eu podesse contar com o vosso animo, aconselhar-vos-hia, que em uma
d'essas manhs de neve, com meio covado de altura nos terrenos chos,
tomasseis um cajado, e, com duas finas cadellas de coelho, fosseis dar
na serra um passeio d'algumas horas.

O peor que podia succeder-vos era o desvio do caminho, que s com muita
pratica se acerta, e, quando mal vos precatasseis, resvalar n'um abysmo
de neve, onde nem as orelhas de fra dissessem ao passageiro que um
moo, a todos os respeitos excellente, fra alli absorvido por um
sorvete dos que a natureza offerece aos amantes de refrescos, com menos
economia que o _Guichard_.

Afra este inconveniente, ainda ha o dos lobos, que muitas vezes tomam
conta das nossas cadellas, devoram-nas com uma perfeio e rapidez
fabulosas, e, quando Deus quer, fazem dos nossos corpos um supplemento
nutritivo s nossas cadellas, deixando-nos a alma por muito grande
obsequio.

O terceiro percalo, affecto  caa do coelho na neve, aconteceu-me a
mim, ultimo dos mortaes, em 26 de Dezembro de 1844.

 o que tereis a bondade de procurar saber no capitulo seguinte.


II.


Fui convidado por alguns amigos a acompanhal-os  serra, porque o sol
refrangia-se em scintillas na neve, que parecia desfazer-se em laminas
de prata.

Fui muito contente da considerao que se me dava, como caador, porque,
em verdade vos digo, atirei com certeiro olho a perdizes e galinholas.
Se nunca matei nenhuma, o que tambem  verdade, deve-se  pessima
polvora das nossas fabricas. Em compensao, matei muito melro e tordo
nas serdeiras, e consegui matar de noite uma coruja, africa que muitos
caadores famosos de certo no fizeram. Eu fui um grande homem antes de
escrever folhetins! Deus perde a quem me torceu a vocao! Eu podia, a
estas horas, ser um habil corredor de lebres, e assim tornei-me a lebre
dos galgos sociaes.

Estes galgos sociaes, meu leitor, se tu s um d'elles, permitte-me
dizer-te que tens o faro muito descaado, e que eu hei-de saltar por
cima de ti, quando cuidares que me abocas. Se no s galgo, sensato
amigo, aqui rasgo o diploma de tolo, que te concedi, sem te levar
direitos de merc.

Agora, vai entrar a historia direitinha at ao fim.


III.


Subimos  esplanada da serra. Eramos seis. Dividimo-nos em tres grupos,
e combinamos em nos darmos signaes com tiros no caso de nos perdermos
encobertos pelo nevoeiro, que poderia de improviso esconder-nos os
cabeos das serras, unicas balizas que nos serviam de guia.

Assim combinados, cada grupo, com dous ces, seguiu as pgadas dos
coelhos impressas de fresco na neve. Eram muitos, e morriam  pancada,
porque os pobresinhos alapados debaixo das urzes, se fugiam, eram logo
mordidos pelos ces; se esperavam eram apanhados  mo. Alguns, mais
previdentes, tinham emigrado para as fundas colheitas, formadas pelas
sinuosidades interiores dos penedos agglomerados. A estes perseguia-os o
furo, que eu levava no meu cacifo, desalapava-os, e os ces, farejando
as avenidas da colheita, recebiam-os nos dentes, sacudiam-nos com o
rancor do instincto, e atiravam-nos mortos aos nossos ps.

Andamos assim uma hora, to entretidos, to esquecidos do mundo, que
nunca to distrahida hora eu tive na minha vida, a no ser aquellas em
que durmo, e sonho que hei-de tornar quelles meus dias de candura,
depois de lidar muito com a innocencia d'estas angelicas creaturas, que
vestiriam, por innocentes, como Ado e Eva, se a serpente lhes no
dissesse que andavam indecentes.

Ao cabo d'essa hora, toldou-se o ar, e cahiu uma segunda camada de neve.

O meu companheiro quiz logo voltar sobre os seus vestigios, porque
(dizia elle) d'aqui a minutos as nossas pgadas estaro cobertas, e no
saberemos caminhar para o nascente nem para o poente.

--Eu, por ora, no vou--lhe disse eu.

--Porque?

--Estou bem aqui. Acho muita poesia n'este quadro. Imagino que esta
chuva de neve se transforma em chuva de fogo... Este nevoeiro, que rola
em ondas aos nossos ps, e sobre a nossa cabea, afigura-se-me o fumo do
grande incendio no juizo final! Olha... no te parece que o vento
espalha j as cinzas d'uma grande cidade! No vs Sodoma l em baixo
vomitando columnas de fumo?...

--Eu no vejo nada... Acho de muito mau gosto as tuas vises... vamos
embora...

--Vai tu... e quando encontrares os nossos companheiros, d um tiro, que
eu l vou ter. Estou bem aqui; no me mudo por cousa nenhuma.

--At logo.


IV.


E eu continuei a vr as minhas vises.

Parece-me que, por esses tempos, fui poeta, muito poeta, em elevaes
d'alma para cousas de imaginao, que no era esta fria imaginao, que
tenho hoje.

Absorvido no meu quadro do juizo final, que s uma phantasia abrasada
poderia dar-me, transfigurando a neve em fogo, ouvi um tiro, e no fiz
caso. Ouvi segundo, e senti um piedoso desdem por aquelles homens, prosa
vil, que no tiravam partido do grandioso panorama, que a mo liberal da
natureza desenrolava diante de meus olhos absortos.

No sabeis que o nevoeiro embriaga?

 uma verdade. A cabea enfraquece; nos ouvidos ha um zunido, que vos
faz perder o rumo. Sentis uma sensao desagradavel, semelhante  do
giro penoso em que a indigesto do vinho vos traz a cabea vertiginosa.

Foi o que eu senti, quando me furtei s minhas contemplaes improprias
do tempo e do lugar.

Ergui-me, e no sabia j designar a direco que levra o meu
companheiro, nem o ponto onde se deram os tiros. Desfechei a minha
clavina, mas a humidade inutilisra a escorva. Os ces, que poderiam
ensinar-me o caminho, tinham seguido o meu companheiro. No desanimei.

Tal direco pareceu-me que deveria ser a melhor, e segui-a. O nevoeiro
deixava-me vr apenas o espao que pisava. Atravessei a lombada da
serra, e comecei a descer. Escorreguei muitas vezes nos algares da
encosta, e senti a neve pela cintura. Gastei duas horas, tres, quatro,
descendo, descendo, sem encontrar uma povoao. Conheci que estava
perdido. A neve augmentava. A noite aproximava-se, e nem um symptoma de
vida! Ento, sim; tive medo, e imaginei que a minha sepultura, sem
solemnidade alguma, deveria encontral-a brevemente no estomago d'algum
lobo.

E, de mais a mais, eu tinha fome.

Todos os provimentos, que eu levava na minha rede, eram um pedao de
bra para o meu furo. Reparti-o entre ns. O animalsinho comeu com
appetite, e pilhando-se solto, como o seu officio era desemlapar
coelhos, entrou na primeira lura que viu, e fez saltar fra um gato
bravo, que espirrava diabolicamente por cima dos tojos coroados de neve.

Nunca me esqueceram os espirros d'este gato bravo!

Continuei o meu caminho, sem esperanas de encontrar pousada.

Escureceu.

Encostei-me, desalentado, a um castanheiro, e fiz da minha pobre cabea
uma cabea academica.

Pensei muito, estabeleci varios raciocinios, que conspiraram em
provar-me, que, perto d'alli, devia existir uma povoao, por isso que
os castanheiros, campos, e paredes eram indicios de alda proxima.
N'este comenos, ouvi um mugido de boi, e em seguida uma sineta, que
tocava s Ave-Marias.

Aquellas tres badaladas ergueram a Deus o meu espirito reconhecido. Orei
com a devoo dos dezoito annos. No vos digo mais nada a este respeito,
porque me no entenderieis. Sois excellentes pessoas para devorar um
romance em dez volumes; mas no lerieis, sem abrir tres vezes a bocca,
uma pagina de sentimentos embalsamados do aroma do co, que o poeta no
deve nunca profanar, misturando-os a frioleiras d'uma historia, ao
alcance de todas as capacidades.

Eu creio que entre vs ha entendimentos muito finos, paladares muito
apurados no sabor do bello, coraes muito brandos para emoes suaves.
Creio que sim; mas o melhor  fazer de conta que os no ha.


V.


Minutos depois, achava-me n'uma povoao, onde nunca estivera. Encontrei
uma velha que castigava um porco, rebelde  invocao de sua ama, com
uma roca.

Perguntei-lhe que povo era aquelle.

--Alpedrinha--disse ella.

Ora, Alpedrinha distava duas leguas e meia de minha casa. Era necessario
pernoitar alli. Perguntei  dita velha onde morava o parocho. Mostrou-me
a casa. Pedi gasalhado ao reverendo, que n'esse momento voltava da
igreja. Disse-me que subisse. Quiz saber quem eu era, e tratou-me
delicadamente, quando lhe citei um medico, pessoa de minha familia.

O snr. padre Joaquim era um padre admiravel. Tinha maneiras da crte.
Vestia com muita limpeza. Fallava com prodigiosa correco, e offerecia
aos seus hospedes aguardente e biscoutos, tudo do melhor, e servido em
bons crystaes e polida salva de prata.

Momentos depois que eu chegra, apeou  porta do meu sympathico
sacerdote um cavalleiro, ainda moo, muito pallido e magro, com chapo
hespanhol, faxa vermelha, e botas d'agua.

Era um estudante de Coimbra, que voltava doente para sua casa, e
costumava pernoitar em Alpedrinha, com aquella familia.

A primeira pergunta do academico foi esta:

--Como est a snr.^a D. Amelia?

--O mesmo...--respondeu padre Joaquim.

--E seu mano? Tem vindo a casa?

--No senhor: desde que foi delegado para * * *, ha tres mezes, no
voltou....

Eu estava ancioso por conhecer a snr.^a D. Amelia, porque at ao momento
em que o estudante chegou, suppunha eu que toda a familia do parocho se
limitaria a alguma ama, e alguns pequenitos, que, de ordinario, so
afilhados do padre. Depois das perguntas do meu illustre companheiro de
hospedagem, fiquei sabendo que n'aquella casa existia uma snr.^a D.
Amelia, e um senhor delegado de * * *.

Padre Joaquim contou ao academico as minhas aventuras de caador;
disse-lhe que me tinha achado muito fino (referia-se naturalmente 
magresa), e fez a apologia dos meus olhos, que, naturalmente, revelavam
uma extraordinaria esperteza, espiritualisados pelo espirito de vinho,
que o sacerdote me injectou nas veias marasmadas pelo frio.

Conversei com o academico. Perguntei-lhe muitas cousas de Coimbra:
quantos canelles soffria um calouro; o calculo aproximado dos puxes de
orelhas; a solemnidade indecente de certo vaso na cabea.... &c. &c.

O academico respondia-me com muito agrado, e offerecia-se para meu
protector em Coimbra, no anno seguinte, que devia ser o da minha
partida.


VI.


--Snr. Valladares--disse o padre ao estudante--minha cunhada ergueu-se
da cama para vir comprimental-o...

-- uma grande considerao, que eu lhe no mereo; mas a delicadeza da
snr.^a D. Amelia  sempre um severo preceito que ella se impe.

Fallou bem.

N'isto, entrou uma senhora, com um ar de tanta nobreza, que me pareceu
uma cousa nova. Eu no conhecia assim nenhuma. Era alta, muito magra no
rosto, mas muito bella nos olhos, nos labios, nos cabellos, em tudo se
via tanta formosura, tanto donaire, um senhoril to estreme do vulgo,
que eu, creana e poeta, senti-me to acanhado como o mais boal dos
pastores de cabras d'aquella freguezia.

--Como passou, snr. Valladares?--perguntou ella com voz tremula,
tossindo a cada palavra, e aconchegando da face a golla de veludo da sua
capa.

--Sempre doente, minha senhora... Por no poder mais, recolho-me a
casa...

--Eu bem lhe disse que no fosse... v. s.^a teimou, agora j sabe que os
conselhos d'uma mulher no so sempre pieguices...

--E os de v. exc.^a nunca podero sl-o... E a snr.^a D. Amelia como
est?

--D'este modo que v... Tossindo sempre, sempre mal, sem descano d'este
lado, que me parece que j no vive, se no para matar o resto de vida
que tenho...

D. Amelia indicava o corao.

--Porque no d um passeio at Lisboa?--tornou o academico.

--Isso lhe tenho eu dito todos os dias--atalhou o padre.

--De que me serve Lisboa?

--So ares patrios, minha senhora. Talvez o contacto do corao com as
suas amigas de collegio...

--Eu j no tenho corao para contacto com amigas nem inimigas, snr.
Valladares...

--O que v. exc.^a tem  uma ardentissima imaginao, alma de poeta, que
s tem a sensibilidade do que  triste, e no sabe tirar recursos da
esperana...

--Esperana!...--murmurou ella com um triste sorriso, e voltando-se para
mim, perguntou-me:

--J sei que este senhor esteve em risco de passar uma noite divertida
com os lobos...

-- verdade, minha senhora; mas a Providencia encaminhou-me ao paraizo,
depois de me ter mostrado o inferno.

--Ora ahi tem uma resposta d'um moo, que seria pena comerem-no os
lobos!...--disse o padre, desafiando um gracioso sorriso de Amelia.

--Ha-de dizer ao seu parente medico que me salve da sepultura assim como
ns esta noite o salvaremos de ser victima dos lobos--disse-me ella,
apertando affectuosamente a mo de Valladares, em despedida, porque a
tosse exasperava-se cada vez mais.

Esta rapida appario impressionou-me muito. Queria fazer mil perguntas;
mas eu no tinha a quem. O padre e o estudante fallaram em assumptos,
que me no interessavam nada. O que eu queria era a vida, a historia, os
soffrimentos, a poesia d'aquella mulher. Eu tinha lido, dias antes, no
sei que romance, onde vira uma mulher assim...

Appareceu um taboleiro com a ca. O abbade fez o prato de D. Amelia. Era
uma aza de gallinha, que elle mesmo lhe serviu.

Valladares tambem comeu do pucaro da doente. Eu, com o abbade, entramos
corajosamente n'um coelho guisado, cuja retaguarda cortamos com um
excellente caldo verde, e lourejantes castanhas assadas com manteiga.

No fim, demos graas a Deus.

O padre, segundo o seu costume, foi sentar-se  cabeceira de sua
cunhada. Eu e Valladares entramos n'um quarto commum.


VII.


O academico tinha uma physionomia franca e insinuante. Conversava comigo
sem desdenhosa superioridade. Familiarisamo-nos depressa, como dous
futuros companheiros de casa em Coimbra.

Eu fui um grande fallador, n'aquella idade, em que pensava menos. O meu
recente amigo sympathisou com a minha garrula eloquencia, e dava signaes
de desenfado, quando naturalmente devra querer dormir, depois de uma
fatigante jornada, em dia de neve.

Eu no era rapaz que, por delicadeza, calasse a minha curiosidade a
respeito de D. Amelia.

--O senhor faz-me o favor de me dizer uma cousa?--disse eu.

--Que ? quantas horas so?... so 10... quer dormir?

--No, senhor: queria saber quem  esta snr.^a D. Amelia?

-- cunhada do padre, e casada com um sujeito, delegado em * * *.

--Isso j eu sabia... pouco mais ou menos.

--Ento sabe tanto como eu...

--Mas  d'aqui d'esta alda esta senhora? Creio que ouvi dizer que era
de Lisboa.

-- verdade... nasceu em Lisboa...

--E como veio parar aqui n'este matagal? Naturalmente perdeu-se, como
eu, na serra, por causa da neve, e veio c bater, e c ficou! Pois eu
dou-lhe a minha palavra de honra, que apenas vir luzir o buraco,
retiro-me sem mais ceremonias d'este delicioso covil de cabras.

O meu amigo ria-se. Estava disposto a achar-me graa, e o leitor pde
tambem rir-se, se lhe aprouver.

E acrescentou ao sorriso:

--Parece-lhe impossivel que a tal senhora viesse de Lisboa para aqui sem
ser impellida por um acaso?

--De certo... J no admira que ella tenha tosse de tisica... O que me
espanta  ella viver, se c est desde hontem!... Quando veio ella?

--Ha dous annos.

--Ento  eterna... ou santa. Hei-de dizer que encontrei esta martyr a
uma minha tia, que  capaz de jurar que a viu fazer milagres...

--O menino  sarcastico! Se o no visse to inclinado a rir-se de cousas
serias, contava-lhe uma historia triste...

--E eu gosto muito de historias tristes... Ver que me no rio, quando
me dizem alguma cousa que me toque o sentimento. A minha familia
chama-me poeta; os visinhos chamam-me tolo; no sei bem o que sou; mas o
que no sou  insensivel... V... j no tenho vontade de gracejar...
Conte-me agora a historia, que eu prometto contar-lhe outra que me fez
chorar, porque  uma passagem to infeliz, que, se eu fizesse novellas,
escrevia uma.

--Talvez as escreva no futuro...

--Eu?... Deixe-se d'isso... O meu mestre de logica diz que eu sou um
alarve, e o de rhetoria j me mandou ser aprendiz de alfaiate... No
tenho habilidade nenhuma. O meu gosto  lr os sonetos do abbade de
Jazente, e as quintilhas do Nicolau Tolentino. No sei mais nada, nem
quero saber... Vamos  historia, sim?

--Ento aproxime-se de mim, que eu quero fallar baixo. Mas, antes de
mais nada, promette no contar a ninguem o que vou dizer-lhe?

--Pois  segredo!

--.

--Prometto...

--Pois ahi vai.


VIII.


--Esta senhora viveu em Lisboa at aos dezeseis annos. Hoje o mais que
pde ter so vinte e dous.

--S?! Eu calculava trinta e tantos _bons_, como diz minha tia, quando
quer fazer todas as pessoas mais velhas que ella.

--Pois deixemos l sua tia, que deve ser, pouco mais ou menos, como
todas as tias... Vamos com a nossa historia, e depressa, seno adormeo,
e o meu curioso amigo perde a occasio de saber quem  a snr.^a D.
Amelia...

--Isso de modo nenhum--atalhei eu com sobresalto--Prometto no
interromper a historia.

--Pois bem. O pai d'esta senhora morreu em Lisboa, e o conselho de
familia deliberou que a orph viesse para a provincia, onde tinha tios,
e o seu patrimonio em quintas.

Quando appareceu em * * *, os rapazes fizeram-lhe montaria, e disputaram
a primazia no namoro. D. Amelia no aceitava, nem repellia a crte de
nenhum. Tinha o mesmo riso para todos, e fallava a todos com a mesma
delicadeza.

Havia alli um rapaz que no frequentava a sociedade de Amelia, porque
no frequentava sociedade nenhuma. Fra educado em Genova, viera de l
aos quinze annos, vivera no Porto at aos vinte e cinco, e quando
recolheu  provincia, d'onde sahira de tres annos, com a sua familia que
emigrra em 1828, ninguem o conhecia, e elle mesmo no queria conhecer
ninguem.

Chamavam-lhe celebre, exquisito, excentrico, orgulhoso, impostor, e no
sei que muitas outras lisonjas do charco de certos espiritos, que no
podem sahir da pequena esphera de lama, que a natureza lhes deu por
homenagem.

D. Amelia viu este rapaz n'um cemiterio: leu um epitaphio que elle
mandra abrir na sepultura de seu pai que o deixra em Genova no
collegio, e viera morrer em 1836  patria: comprimentou-o de passagem,
respondendo a um distincto cortejo do melancolico poeta; e parece que,
desde esse encontro, Amelia transfigurou-se para todos os homens, deu
que pensar  sua familia, queria todos os dias visitar o cemiterio, e
retirava quasi sempre mais triste, porque muito raras vezes encontrou
alli o invisivel extravagante da opinio publica.

--Como se chamava elle? Eu conheo alguns rapazes de * * * que foram
meus condiscipulos em logica.

--No  nenhum dos seus condiscipulos. J lhe disse que este sujeito
veio do Porto para a provincia, com vinte e tantos annos pelo menos. O
seu appellido  Crte-Real, conhece?

--Nada, no conheo; mas ouo fallar todos os dias n'esse rapaz.

--Que ouve dizer?

--Que est em Lisboa, doudo, no hospital...

--O senhor afiana-me isso? Ha que tempo endoudeceu?

--Ha dous ou tres mezes...

--Quem lh'o disse?

--Um medico, meu parente, que o mandou conduzir para a enfermaria dos
doudos.

O academico fez-me signal de silencio, e mandou-me ouvir.

--No ouve?--disse elle.

--Ouo...  alguem que solua...

-- ella...

--D. Amelia?

--Sim... Ouviu a nossa conversa... Tem ouvidos de tisica...

-- admiravel!... Pois o quarto d'ella no  longe d'este?

--Passam-se tres quartos, mas os repartimentos so de tabique, e eu no
me lembrei de tal... Calemo-nos...

--E a historia?... Falle mais baixo, que ella no ouvir mais nada...

--Agora,  impossivel... Aquelles soluos transtornaram-me a cabea...
Deite-se, e manh fallaremos antes de nos despedirmos...


IX.


 cabeceira do meu leito, estava um volume das _Viagens de Cyro_, e o
quinto volume d'uma _Miscellanea curiosa e proveitosa_, onde encontrei
uma longa poesia a _D. Ignez de Castro_, que me fez dormir at s 8
horas da manh.

O meu companheiro, quando abri os olhos, estava sentado na cama, e
escrevendo nas paginas d'uma carteira.

--O senhor est a fazer versos?--perguntei eu.

--Adevinhou.

--Faz favor de recitar, se no  segredo!

--Recito: olhe l se entende:

    _Eras um anjo? Se o eras
    Que torvo facho do inferno
    Te queimou as azas? Diz:
    Porque, to cedo, infeliz
    Cahes no abysmo eterno_!... ETERNO!

--Entendeu?

--No, senhor.

--Veja se entende agora:

    _Eras pura, quando lagrimas
    Tu me dste, e me pediste...
    Tu choraste aqui, choravas...
    Mas porque? prophetisavas
    Este abysmo em que cahiste?_

--Entendeu?

--Nada... Ora diga-me os versos tem alguma cousa com a historia que
ficou suspensa?

--No, senhor; pertencem a outra, que nasceu aqui n'esta casa, e que 
toda minha...

--Esta casa parece-me uma casa de novella... Estou a vr se aqui arranjo
tambem alguma historia para contar a minha tia, que est resando o
quadragesimo responso a Santo Antonio por minha causa, se  que j me
no resou por alma... Ento o senhor no conta ao menos a primeira
historia completa?

--Hei-de contar.

--Quando? Eu vou-me embora logo.

--No vai. J aqui esteve o padre, e disse que no sahiriamos d'aqui
hoje, porque augmentou de noite a neve.

--Deixal-a; mas a minha familia, se eu no appareo, nem dou parte de
mim, julga-me morto, e  capaz de me fazer officio de corpo ausente.

--No se assuste, que o padre hontem  noite mesmo fez partir para a sua
alda um criado com a certeza de que o senhor ficava vivo, e mais o seu
furo.

--A proposito, sabe se j dariam de almoar ao meu furo.

-- natural que sim... Ahi vem o snr. abbade; perguntemos-lhe... Snr.
padre Joaquim, pergunta alli o nosso amigo se o furo ja almoou.

--Comeu quatro ovos, e est agora brincando com minha cunhada, que 
muito amiga de bichos.

--E como passou ella?--perguntou Valladares.

--Penso que melhor... Ergueu-se muito cedo: a creada disse que a vira
chorar toda a noite; mas agora fui, com grande espanto meu, encontral-a
com o furo no regao, a sorrir-se como quem  muito creana e muito
feliz... Sabe o senhor que...

No sei bem o que o padre disse ao ouvido do estudante. Desconfio, pela
resposta, que o resto do segredo era o receio de que ella endoudecesse.

Tudo isto, apurava-me o desejo de saber o que era a demencia de
Crte-Real, e a tisica de Amelia.


X.


Almoamos.

D. Amelia esteve comnosco alguns minutos, ouvindo no sei que palavras a
meia voz, do meu amigo, inintelligiveis para mim, supposto que ahi se
fallasse duas ou tres vezes n'uma D. Miquelina. Tudo mysterios!

O padre foi dizer missa. D. Amelia foi com elle. Fiquei com Valladares,
tremendo de frio, ao p d'uma bacia de brazas. O attencioso levita teve
a delicadeza de nos no convidar a participarmos da sua missa, que
n'aquelle dia, com tal frio, faria hereges espiritos devotos.

--Ahi vai agora a continuao da historia--disse o academico, engulindo
o fumo de quatro cigarros successivos--A familia d'esta senhora  muito
realista, muito fanatica, arde em odio contra os impios, que so todos,
menos os sectarios de D. Miguel, e alguns, seno todos, de D. Sebastio.
A familia de Crte-Real  ultra-liberal, odeia os realistas com aquelle
odio saturado na emigrao, e no admitte honra, intelligencia, nem
merecimento em homem que no fosse capaz de cortar as orelhas a um
miguelista, se elle estiver por isso. J v que as duas familias
detestam-se. De parte a parte no momento em que as relaes de Amelia
com Crte-Real fossem percebidas, imagine o meu amigo que no hiria!

--Ento elles namoravam-se?

--Pois eu no lhe disse j que sim?

--No, senhor: disse-me que Amelia passeava repetidas vezes no cemiterio
para vl-o, mas que no o via muitas vezes. Eu queria saber como se
encontraram... porque... desejo saber como  que a gente pde sahir d'um
encontro d'esses!... No ha muito que me vi entalado com um d'esses
encontros... Eu tinha o recado na ponta da lingua, e, quando vi a
mocetona, que no era cousa de atarantar um estudante de logica,
pegou-se-me a lingua ao co da bocca, como diz no sei que poeta... _vox
faucibus hoesit_... Que lhe disse elle quando a viu?

--Isso  que eu no sei, porque no ouvi. O que sei  que se fallavam
por cartas, e entretiveram assim relaes seis mezes. Por fim,
descobre-se o namoro. Crte-Real fallava da rua para a janella com
Amelia: um tio d'ella  avisado; espera-o no pateo, com a porta fechada,
e, quando elle principia a dizer bellas cousas, o tal bruto abre a
porta, e descarrega-lhe quatro bordoadas, que o pozeram fra do combate.
No dia seguinte, mandou-lhe a casa a capa, o chapo, e uma clavina, que
fra tres vezes batida  queima roupa do tal varredor de feiras.

--E depois?

--D. Amelia, duas horas depois, foi mandada entrar n'uma liteira, e
conduzida a casa d'este padre.

--Para que?

--Para ninguem saber o seu destino, em quanto vinha de Lisboa, onde ella
tinha o conselho de familia, uma ordem para ser recolhida a um convento.

--E Crte-Real que fez?

--Curou as feridas da cabea, e indagou o destino de Amelia. Como o no
soube, cahiu n'uma melancolia profunda, teve accessos de loucura, e,
pelo que o senhor me disse, est hoje no hospital de Rilhafolles.

--E Amelia casou-se?

--Pois no casamento  que est o interessante da historia.

Quinze dias depois da sua vinda para aqui, chegou de Coimbra o irmo do
padre. Parece que sentiu por Amelia o que era muito natural que
sentisse. Amou-a, mas no ousou declarar-se, porque sabia os
precedentes, que a trouxeram a esta casa. Ella, por si, tractava-o com a
fria delicadeza da indifferena, at ao momento, em que recebeu de uma
sua tia a noticia de que viera ordem do conselho de familia para ser
conduzida a Lisboa, e l recolhida em um convento.

Lida a carta, Amelia offereceu-se como esposa do bacharel. O imprudente
sem mais nem menos, aceitou a offerta. Alcanou do arcebispo dispensa de
banhos e consentimento do tutor: o irmo, sem consultar a philosophia, a
religio, e a consciencia, casou-os. Na tarde do dia das bodas, chegou a
liteira que devia levar a orph a Lisboa. Amelia apresentou-se a seu tio
com um desdenhoso sorriso, e disse: No tenho duvida nenhuma em hir
para Lisboa, e para um convento, mas  necessario que meu marido v
comigo.

--Seu marido!--exclamou o tio estupefacto.

--Meu marido... aqui lh'o apresento.


XII.


--Dias depois, esta victima dos seus caprichos, cahiu doente. O medico
capitulou-lhe a enfermidade de tisica no primeiro grau. O marido
arrependeu-se muito cedo. Ella no se arrependeu, porque sabia que dava
um passo que devia matal-a. E, com effeito, est alli... est morta...

...Ahi vem ella e o padre... Fallemos d'outra cousa...
...........................................................................
...........................................................................


CONCLUSO.


Um anno depois, em Coimbra, dizia-me Valladares:

--Olha que tive carta do abbade de Alpedrinha. D. Amelia morreu, e as
suas ultimas palavras ao marido foram estas: MORRO POR CAPRICHO.




UMA PAIXO BEM EMPREGADA.




UMA PAIXO BEM EMPREGADA.


I.


O meu amigo Valladares, em uma tarde formosa, passeando comigo no
_Penedo da Saudade_, sentou-se, accendeu um cigarro com perfeio
academica, abriu a carteira, e recitou-me os versos, que, um anno antes,
me recitra em Alpedrinha.

--Lembras-te?--disse elle.

--Perfeitamente. Prometteste contar-me ento uma historia.

--Vou cumprir a promessa.

--E disseste que o teu conto prendia muito com aquella casa.

--Disse, e vaes vr porque. Olha que eu no vou fazer estilo. Prepara-te
para uma narrao simples, e clara. No perteno  escla dos nossos
lapidarios de palavras, que nos dizem em estilo de Corneille as scenas
comicas de Moliere. A minha historia, se tal nome lhe cabe,  uma
tragedia com muitas scenas de fara. Ainda que me no vejas rir, tens a
liberdade da gargalhada. Ahi vai:

Em 1843 fui  feira do Santo Antonio a Villa-Real. Encontrei ahi uma
familia que mora uma legua distante de minha casa. Compunha-se d'uma
senhora idosa, que era mi d'um cavalheiro, e este cavalheiro era pai
d'uma bonita mulher, que teria dezoito annos. Gostei d'ella, ou antes
confirmei a sympathia que ella me tinha presa desde que a vi, pela
primeira vez, dous annos antes, n'umas ferias grandes. No lhe disse
quasi nada. Eu era rapaz de dezoito annos, e, aos dezoito annos, um moo
d'alda tem o corao acanhado, e cra facilmente, quando encontra os
olhos d'uma mulher, supposto que os veja constantemente em sonhos. A
rapariga chamava-se Miquelina; isto no faz ao caso; mas sempre te digo
que nunca suppuz poder pronunciar este nome sem lagrimas... O que  o
tempo!...

Combinamos partir juntos de Villa-Real. No recordo na minha vida um dia
mais feliz do que o dia da nossa partida! A familiaridade animava-me a
dizer algumas palavras d'aquellas que nunca exprimem seno a sombra do
sentimento. Miquelina corava, mas nem por isso sustinha as redeas do
cavallo para esperar a av e o pai, que vinham alguns passos distantes.

Teriamos andado legua e meia, quando o macho em que vinha montada a
velha tomou susto d'um tiro, que se deu ao lado da estrada, recuou, e
deu em terra com a pobre senhora. Acudimos todos.

Encontramos-lhe uma fractura profunda na cabea, e uma perna quebrada.
Perguntamos se d'alli perto haveria uma casa onde nos recolhessemos.
Encaminharam-nos a Alpedrinha, e a casa era a do padre onde me
encontraste.

O acolhimento que nos deram foi excellente. Encontrei ahi o irmo do
abbade que era meu contemporaneo em Coimbra. Os facultativos disseram
que era impossivel continuar jornada, e ahi ficamos vinte dias.

N'este espao de tempo, sonhei a felicidade, por que hoje sei que no
existe a realidade d'esses sonhos. Fui muito feliz, senti-me poeta,
idealisei  sombra de Miquelina cousas e pessoas que nunca tiveram seno
materia vilissima para as aspiraes do poeta. Em fim, meu caro, cheguei
a recuperar a f perdida nas cousas da Providencia, porque me parecia
impossivel tanta felicidade sem consentimento especial da Providencia.

Disse a Miquelina tudo que humanamente pde dizer-se. Traduzi-lhe em
palavras os extasis, que as no tinham. Interessei-a na comprehenso da
minha alma, e arranquei-lhe uma palavra, que mil vezes lhe morrera nos
labios, como queimada pelo ardor do pejo. Quando ella me disse amo-o
se no endoudeci de contentamento,  porque a disposio do meu cerebro
 invulneravel aos golpes da demencia. Hoje rio-me d'isto, e tu, se te
no ris, agouro-te que no poders dizer o mesmo a respeito da tua
cabea, passados alguns annos.

--Porque?

--Porque das duas uma: ou doudo, ou cynico. Tomar a serio a sociedade 
endoudecer. Viver com ella em boa paz  escarnecel-a. Ou doudo ou
cynico. No enlouqueci; mas depravei-me. Este escarneo, que
indistinctamente voto a tudo,  a negao da piedade para todas as dres
nobres, e a do odio para todos os prazeres infames. No me espanta nada.
Aperto a mo do mais corrupto, e a do mais virtuoso com a mesma graa.
Recebo todos os desaforos como factos consumados. No dou dez reis pela
virtude dos missionarios do Japo, nem daria cinco de volta se elles me
trocassem a sua f pela minha illustrada impiedade. Eu e elles somos
bons, ou maus: como quizerem. Eu acho que todos somos excellentes filhos
de Deus, e Deus, que nos conserva, l sabe a razo porque o faz...

--Tu no sentes o que dizes...

--Ests a brincar comigo!... Pois no sinto o que digo?! Tu no vs o
que est dentro d'este homem, nem pdes ainda ajustar  face do cadaver
a mascara que o retrate...

--Mas  possivel ser-se o que tu s?!

--Se !... Se me no tivesses interrompido, j sabias a razo porque o
sou... Nada de interrupes... Se comeo a divagar, digo diabruras,
perco-me em abstraces, que te ho-de parecer pretenciosas, e l vai a
historia...

--Palavra, que no te interrompo...

--Quando sahimos de Alpedrinha, as minhas intimidades com Miquelina eram
j suspeitas ao pai, que no se entremettia paternalmente no negocio.
Sabes que eu tenho uma soffrivel casa, e Miquelina no era muito mais
rica. Era possivel, e at vantajoso um casamento. Murmurou-se n'este
assumpto em casa do padre, e eu fui consultado por elle.

Isto arrefeceu-me um pouco. No queria que me viessem to cedo direitos
ao materialismo. A pequena, porm, no tinha culpa. Eram cousas da
velha, que quebrra a perna, mas ficra com a alma inteira para seguir o
recto caminho, a logica implacavel do namoro, banhos, casamento, filhos,
aborrecimento, barrete de dormir, catarrho, cangalhas no nariz, e
rheumatismo.

Eu amava verdadeiramente Miquelina. Instado pelas perguntas do officioso
abbade, respondi que me casaria um anno depois, porque no queria dar
tal passo sem o consentimento d'um tio, que fra receber ao Brazil uma
herana, que viria augmentar consideravelmente a minha casa.

Ficamos n'isto.

Tres vezes por semana, durante os dous mezes de ferias, visitei
Miquelina, e revalidei os meus votos, porque esta paixo no era das que
fogem quanto mais faceis se aproximam. A minha Beatriz parecia-me boa de
corao, ajuizada de cabea, fina de espirito, e em quanto  cara, ao
corpo, e ao donaire... dir-te-hei que as seduces eram tantas, e to a
proposito que nunca tive occasio de me sentir de uma illuso
desvanecida. Vim para Coimbra. A nossa despedida foi pathetica.
Beijei-lhe a testa pela primeira vez. Comprimi-a ao corao com o
enthusiasmo do primeiro abrao. Recebi da sua mo tremula, como prenda,
o leno com que enxugra as lagrimas, e retirei-me com o corao
partido, mas vaidoso de esperanas, que a saudade me dourava no meu
lindo futuro.

Logo que aqui cheguei, escrevi-lhe. Imagina o que eu lhe diria! Eram
vinte folhas de papel, escriptas em todas as estalagens onde pernoitei,
e fechadas com uma especie de hymno de lagrimas, em que se me foi tudo o
que a minha alma podia dar de superior quillo que todos os homens sabem
dizer n'uma carta de namoro.

Respondeu-me. A sua carta era simples, mas os toques eram verdadeiros...
pareciam-no... via-se alli a mulher que escreve a primeira carta, o
corao timido que balbucia os sons d'uma selvagem innocencia, que  a
felicidade do homem que primeiro os tira do corao d'uma virgem.

Tres mezes assim. Tres mezes d'uma vida phantastica. Ancias insaciaveis
das suas cartas. Tristezas dces quando me faltavam n'um correio. Zangas
sem odio, se o corao de to longe a criminava de ingrata. Tres mezes
assim... e no fim de tres mezes... adevinha o que aconteceu...

--Eu sei c... morreu?

--No.

--Veio c ter comtigo?

--No.

--Abandonou-te?

--Abandonou.

--Isso  incrivel!

--Acredita. Agora adevinha por quem eu fui preferido.

--Eu s te conheo a ti na tua terra...

--Imaginas que algum dandy a requestou de modo que a fragil creatura
succumbiu s seduces invenciveis?

--S assim.

--Ora adeus! Tu no adevinhas, porque no sabes nada de mulheres...

--Foi o pai que a forou a casar-se com algum brasileiro muito rico?...

--Tambem no...

--Diz l isso, que estou impaciente...

--Pois l vai: a minha querida Miquelina, o meu anjo que corava se o meu
halito lhe roava nas faces, a minha pudibunda Virginia que recebeu o
meu primeiro beijo a tremer, a minha mimosa sensitiva que parecia
resequir-se  mingoa dos meus carinhos... sempre queres que te diga?

--Pois ento?

--A minha promettida esposa... fugiu com um... digo?

--Acaba, homem!

--Com um lacaio da casa!... l! no fiques assim atordoado! Rite, como
eu...

--Isto  inconcebivel!... E depois?

--Depois... que queres que eu te diga?

--Que fim teve essa mulher?

--Foi agarrada por ordem do pai, e o lacaio morreu arcabusado
summariamente para no dar que fazer  justia.

--E ella... vive?

--Creio que sim.

--Na companhia da familia?

--No... Tu no me disseste que viras no Porto... Fiquemos aqui...

--Isso de modo nenhum... Has-de concluir...

--Pois sim... que importa!... No me disseste que viste no Porto uma
meretriz que revelava uma boa educao, e no queria dizer d'onde era,
nem como viera quella vida?...

--Disse... mas no se chamava Miquelina...

--Isso no faz nada ao caso... Rosa, ou Miquelina,  a mesma...  a
minha promettida esposa,  o anjo dos meus primeiros amores,  a pomba
alvissima da innocencia que encontrei em Alpedrinha...  ella...
Basta...  noite... Vou fazer monte, e depois, se te quizeres embriagar
comigo, vamos ao _Pao do Conde_, e beberemos  saude da exc.^{ma}
Miquelina Alpoim e Malafaia, victima d'uma paixo pelo infeliz lacaio,
que desceu ao tumulo... das illustres victimas. J sabes como se faz um
cynico? A esses parvos, que por ahi andam a gaguejar um scepticismo que
cheira a cueiros, d-lhe com uma palmatoria.

E no tornou a fallar-me n'esta mulher.




DE ABYSMO EM ABYSMO.


Eu  que no podia satisfazer a minha curiosidade com a descosida
revelao de Valladares.

Muitas vezes acalorei a questo do cynismo, applicando-a a Miquelina;
mas este nome enfurecia-o de tal modo, que as nossas relaes estiveram
a romper-se, e reataram-se com a condio de eu nunca lhe tocar
ligeiramente em semelhante assumpto.

Sujeitei-me; mas, na primeira occasio prosperada pelo acaso, alcancei
esclarecimentos, que illucidam a degradao da pobre mulher.

Em 1848, Miquelina vivia ainda no Porto. A sua vida j a sabem. Como
veio ella to abaixo?

Foi assim:

Alguns dias depois da fuga vergonhosa com o defunto lacaio, Miquelina
foi conduzida a Lisboa. A av, que pde sobreviver ao golpe, quiz salvar
a neta da colera do filho. Este ausentra-se para Chaves, no momento em
que a filha entrra em casa. De l, escrevendo  mi, dizia-lhe que
dsse  infame algum destino, porque, em quanto a sua presena
envergonhasse aquella casa, nunca elle tornaria alli.

D'aquella familia estava em Lisboa um magistrado, tio materno de
Miquelina. Foi este o encarregado de recebl-a durante alguns mezes na
sua casa.

No se passaram muitos dias, sem que Miquelina revelasse os seus
instinctos. Namorava escandalosamente um homem, sem nome, que
frequentava as janellas d'um alfaiate, que morava em frente.

O magistrado suspeitou, e prohibiu-lhe o uso das janellas. O homem, que,
por fora, havia de ter um nome, e poderia muito bem chamar-se Jos
Maria, no era to escasso de meios que no comprasse um creado da casa.
O creado era o intermedio da correspondencia, menos da ultima carta,
surprehendida pelo magistrado. Esta carta authorisava Jos Maria a
empregar a fora judicial para tirar de casa Miquelina. N'esse mesmo
dia, a perigosa donzella foi mudada para casa de um general, cunhado
de seu tio.

O general era solteiro, homem de cincoenta e tantos annos bem
conservados, admirador das boas mulheres, e vigoroso ainda para no
desmentir o culto, quando se lhe pedissem provas praticas das theorias
um pouco irrisorias na sua idade.

Tinha comsigo duas irms, mais novas, que, _mutatis mutandis_,
professavam as idas do irmo.

Dito isto, v-se que a casa, onde Miquelina foi reclusa, era um viveiro
de moral.

Foi bem recebida, e at muito bem aconselhada. As irms do general
fallavam muito da virtude, e da honra. Quem as no conhecesse,
acrescentaria duas martyres ineditas s onze mil virgens conhecidas, de
que Byron duvidou, e eu no me sinto muito propenso a acreditar, nem o
meu amigo Valladares.

O Jos Maria no sei que fim levou. Seria algum d'esses quatro que em
1845 se precipitaram dos Arcos das Aguas-livres!? Se foi, no andou
bem, porque fez as cousas de modo que ninguem falla d'elle. Os
_Werthers_ sabem escolher as occasies, seno...  melhor deixarem-se
morrer de tedio, que  a morte que me espera a mim, e a ti, leitor, no
fim d'este livro, se no morreres no meio.

O general namorou Miquelina. Namorando-a, seduziu-a. Seduzindo-a,
abriu-lhe a outra meia porta da corrupo.

Porque foi assim que as cousas se passaram:

Miquelina affeioou-se ao general, como se affeiora a Valladares, ao
lacaio, e ao Jos Maria. Trazia o cunho da perdio! Era uma d'estas
desgraadas que a gente v cahir, cahir, cahir a despeito de todos os
estorvos! Que Deus, ou que demonio imprime o movimento n'estas machinas,
sem corao nem cabea? No se sabe! A verdade  que eu sinto vontade de
chorar essas victimas cegas d'um destino barbaro, e tenho furias de
blasphemo quando me dizem que Deus se entremette nas cousas d'este
mundo... Vamos adiante, seno atiro a penna fra, e rasgo o papel...

Ora j vedes que o general era um devasso, e a pobre menina deve
merecer-vos uma pouca de compaixo, se eu vos afiano que o amou, at ao
ciume.

Disseram-lhe um dia que uma mulher de capote e leno entrra no quarto
do general, que era ao rez da rua. Miquelina estava doente de cama.
Ergueu-se com febre, vestiu-se precipitadamente, desceu as escadas
cambaleando de fraqueza, escutou  porta do traidor, e ouviu risadas, e
palavras obscenas.

Era noite, quando isto se passava.

As irms do general deram pela falta da hospeda, e desceram a procurar o
irmo. Miquelina, quando as sentiu, na incerteza do que devia
responder-lhes, fugiu. Fugindo, achou-se n'uma rua que no conhecia,
atravessou umas poucas, chegou a uma praa onde encontrou umas mulheres
esfarrapadas que a tractaram por tu, e fugiu at deparar as escadas
d'uma igreja, onde um soldado lhe veio dizer palavras desconhecidas.

Fugiu ainda; mas a desgraa corria a par d'ella.

O frio da noite, e a febre do corao aniquilaram-na. Sentou-se n'um
portal, e desmaiou. Uma patrulha deu-lhe com a ponta do p, e a
desgraada no respondeu. Tomaram-na como bebeda, e foram seu caminho.

Outra patrulha sacudiu-lhe a cabea pelos cabellos. Miquelina gemeu,
abriu os olhos, e pediu erguendo as mos que a deixassem morrer. Estava
perto do hospital de S. Jos. Os soldados pediram soccorro ao proximo
corpo da guarda, e mandaram-na para l.

No hospital, deram-lhe uma cama na enfermaria... no sabemos que
enfermaria; mas parece que o facultativo, na visita de manh, mandou
retirar a mulher para um quarto particular, pago  sua custa.

Que foi o que ella disse ao medico? Nada. Seria n'elle um arrojo de
caridade? No. Pois no tens uma palavra boa para explicar uma aco
nobre? Nobilissimos leitores, deixai-me suppr que sois melhores
pessoas que o medico. O que elle queria era uma creada, com as feies
de Miquelina. As despezas da cura, alm de ficarem encontradas no seu
ordenado, seriam pequenas. Uma febre benigna no resistiria ao
tratamento de oito dias.

Mas, ao setimo, Miquelina fugiu do hospital, favorecida pela enfermeira,
em cuja casa foi residir.

Desde esse dia, chamou-se Rosa.
...........................................................................
...........................................................................

--Que bonita rapariga  aquella que est em casa da A * * * na calada
do Duque?

-- uma rapariga da provincia, pela pronuncia: chama-se Rosa, mas no
diz d'onde , nem quem a trouxe alli.

--Parece bem educada!

--Parece... e no  desbocada... No tem ainda a consciencia do seu
officio...  necessario que perverta a linguagem, se quizer
celebrisar-se...

--De quem fallam vosss?--disse um terceiro, que, na Praa do Rocio,
veio associar-se ao grupo.

--D'aquella Rosa, que tu denominaste um _cherubim precipitado_ na tua
poesia.

--E ...

--!... pois tu sabes a vida d'ella?

--Sei...

--Contas?

--No...

Este terceiro era Valladares.

Teve elle coragem de vl-a face a face?

No teve: entrou alli com uma mascara na tera feira de Entrudo.

Conheceu-o ella? Conheceu: porque no dia immediato desappareceu de
Lisboa.

 por isso que eu a vi no Porto em 1848...
...........................................................................

O general  hoje conde. O menos torpe dos flores da sua cora  este...
Foi _honrado e hospitaleiro_!...

Valladares embriaga-se todos os dias, e no pde assim viver muitos
mais, porque j no sente no paladar o acido do cognac.

E Miquelina?

Ha mais de seis annos que os estudantes da escla medico-cirurgica do
Porto a retalharam fibra a fibra com os seus escalpellos observadores.

J vdes que morreu no hospital, e foi em pedaos atirada ao monturo da
santa casa, depois de se prestar, como cadaver, s lucubraes da
anatomia.

Podeis no acreditar tudo, ou parte d'isto... Olhai, porm, que vos no
dei aqui a verdade descarnada como ella  no conto melindroso, que vos
contei. Escondi-vos metade.




AVENTURAS D'UM BOTICARIO D'ALDA.




AVENTURAS D'UM BOTICARIO D'ALDA.


O snr. Manoel Pires, pharmaceutico approvado por outro pharmaceutico que
no foi approvado em parte nenhuma, estabeleceu a sua botica n'uma alda
do concelho de Carrazedo de Monte Negro. O seu laboratorio chimico era
um fogareiro e uma retorta de vidro, emendada no collo por um cylindro
de lata. A sua livraria era o _Medico lusitano_, in folio; uma
Pharmacopeia, edio de 1700; e um pequeno volume intitulado--_Segredos
da natureza_. Os lotes, que eram seis, continham garrafes de barro
vidrado, atapulhados de hervas, que tinham o merecimento chronologico de
serem contemporaneas dos garrafes. Afra isto, no sei que liquidos
verdes e amarellos e azues variegavam um dos lotes, que, pelos modos,
continha os remedios heroicos, como oleo de amendoas dces, extracto
d'amoras, solimo, e oleo de mamona.

Com tantos elementos no admirava nada que o snr. Manoel Pires fosse um
sabio, no digo consumado, mas superior  intelligencia d'alguns
cirurgies d'aquella redondeza.

Apenas estabelecido, este filho bastardo de Hypocrates honrou as cinzas
de seu pai fazendo a cura radical d'uma espinhela cahida na pessoa da
snr.^a Therezinha da Fonte. Este triumpho da pharmacia sobre a espinhela
elevou o snr. Pires, no direi at s columnas do _Zacuto_, mas at onde
podiam leval-o as suas aspiraes de mestre Manoel Pires, como
respeitosamente lhe chamavam os seus numerosos freguezes.

Um segundo triumpho veio consolidar a reputao adquirida no primeiro. A
cura d'uma _ostruo_, que eu no sei o que , e outra d'umas
almorreimas renitentes, no deixou nada a desejar por aquelles
arredores.

O snr. Manoel Pires soube tirar partido dos dotes que a Providencia lhe
cedra. Relacionou-se com o parocho, com o regedor, com o juiz de paz, e
associou-se assim a um triumvirato, que decidia dos destinos da
freguezia. E o que elles no fizessem dez leguas em redor ninguem o
faria. Uma vez ouvi eu dizer ao tio Antonio da Pa que o sobredito juiz
de paz se correspondia com os _governos_ de Lisboa. No posso abonar na
sua integra a verdade do dito; mas no ser sem fundamento a cousa,
attendendo  importancia d'um juiz de paz, quando se tracta de fazer um
deputado.

O boticario era uma figura incapaz das honras anatomicas do romance.
Tinha a cara vermelha como um molho de beterrabas. Os rofegos das
bochechas cahiam-lhe em frma de sanefas sobre os collarinhos engommados
com ps de batata.

As ventas eram dous vulces que resfolegavam lavas de simonte; e, no
sei porque analogia estupenda, os dentes acavallados simulavam uma
Herculanum em miniatura, um destroo de pilastras e ogivas e capiteis.

Como quer que fosse, o snr. Manoel Pires, aos quarenta annos, contava
quarenta conquistas das melhores raparigas da freguezia. E, honra lhe
seja feita, no deu nunca pasto nos soalheiros, nem consta que dsse o
menor escandalo. L como elle fazia as cousas, e a felicidade dos seus
triumphos, vai o leitor ajuizar, se, em desconto dos seus peccados,
quizer lr uma pagina altamente dramatica da biographia do nosso amigo.

Manoel Pires foi chamado um dia para curar uma dr de _reins_ na pessoa
da tia Maria do Eir. No  necessario dizer que a molestia obedeceu. Na
mesma casa curou da _triz_ o tio Joo, e por fim talhou o _bicho_ com
perfeio e felicidade  Mariquinhas, rapariga d'uma vez, e cousa de pr
a cara a um lado a mais de quatro _Antonys_ de scos que lhe andavam por
l a regougar palavras de ternura.

O leitor no saber o que  talhar o bicho, e eu, realmente lhe digo,
que no consultei o diccionario das sciencias medicas. Fiquemos com a
nossa ignorancia; e eu fao sinceros votos porque nos no seja preciso
nunca talhar o bicho.

O caso  que o mestre Manoel Pires fallou ao corao da rapariga, e
fez-lhe vibrar todas as cordas da viola de alma. No sei se a mooila
viu archanjos, serafins, e brizas, e raios de lua a pratear lagos
d'anil. O que eu sei  que a boa da rapariga achava que eram pouco os
olhos da cara para vr o snr. Manoel Pires, que, diga-se a verdade, no
era sceptico, nem carpia tristezas por deshoras ao som do murmurar
saudoso do sujo regato que lhe passava  porta.

Felizmente para elle, o dono da casa foi atacado d'um _estalecidio_ que
lhe cahiu nos bofes, segundo a opinio do boticario, e a cura demorada
d'esta sria enfermidade proporcionou aos ternos amantes occasies
ditosas de se trocarem palavrinhas de prem o corao em mar-cheia de
poesia chula.

O dialogo, que mais concorreu para a soluo final, foi
incontestavelmente o seguinte:

Elle.--O deus Cupido fez dos olhos de vm.^{ce} duas settas, que
trespassaram o meu corao.

Ella.--E as palavras de vm.^{ce}, como o outro que diz, so palavrinhas
de mel a que no _regeste_ meu sensivel peito.

Elle.--Eu bem queria dizer a vm.^{ce} as ternuras do meu corao, e as
congeminencias do meu pensamento. Vm.^{ce}  mais bonita que Venus, e
Cupido  o deus do amor que me derrete aos ps de vm.^{ce}

Ella.--Pois se vm.^{ce} me tem amor para o bom fim o deve ter, que quem
mal anda mal acaba, como o outro que diz.

Elle.--O fim para que eu fallei a vm.^{ce} s eu o sei; e a troco d'esse
negocio faz mingoa fallarmos outra vez.

Ella.--Quando vm.^{ce} quizer, e Deus o faa para bem, que l eu
querer-lhe isso quero eu, assim Deus me ajude, e o bicho me torne se
assim no . Uma rapariga que tem seus _cretos_ no deve de perdel-os, e
vm.^{ce} bem entende as cousas que  sabio e homem de cabea, por muitos
annos e bs.

Elle.--E vm.^{ce} que os conte. Ora pois; o que se ha-de fazer ao tarde
faa-se ao cedo. Se vm.^{ce} me der duas palavrinhas esta noite, ouvir
da minha bocca as affectiveis ternuras do meu amante corao, onde o
deus Cupido cravou as mais duras settas.

Ella.--Pois se vm.^{ce} promette de ter toda quella de... sim, dizia
eu, se vm.^{ce} promette de ter toda quella... sim... como diz l o
ditado...

Elle.--Pelo deus Cupido lhe prometto a vm.^{ce} de lhe no pr a minha
mo, nem palavra lhe direi que seja escontra a honra de vm.^{ce}.

A resistencia da rapariga era impossivel! Quando a eloquencia, assim
inspirada do intimo da alma, regorgita em jorros nos labios d'um amante,
 certo o triumpho. O amor  realmente o galvanismo dos estupidos,
d'esses cadaveres moraes, que se levantam do tumulo da intelligencia, e
cantam lerias n'um alamir celeste! No nos recordamos de ter lido em
romances francezes um dialogo to fertil d'imagens, to vibrante de
affectos, to digno, em fim, de ser copiado na carteira d'estes obtusos
amadores das salas, para os quaes no ha assumpto, se lhes falharem as
reminiscencias do borda d'agua.

Manoel Pires retirou-se com os acicates do seu deus Cupido cravados
n'alma, e foi, a toda a pressa, aviar duas tisanas, e quatro causticos
para a numerosa clinica que o esperava. Sem exagerao, este
pharmaceutico era uma pilula de Holloway viva! Resumia todas as virtudes
da revalenta arabica. Logo que o anjo da guarda,[1] no podesse salvar o
enfermo das aggresses mephiticas do espirito mau, Manoel Pires, anjo
sublime do charlatanismo, com dedo inspirado, apontava a enfermidade,
quer na bocca do _estamago_, quer nos _bofes_ quer nos _miolos_! Este
homem despresava a nomenclatura de Bichat, de Soares Franco, e de tantos
outros creadores de nomes barbaros que no fazem nada  saude do
cidado. Honra lhe seja feita!

O nosso homem, aviadas as receitas, tirou do bolso uma cousa enorme de
cobre defumado; levantou as camadas de metal, que guardavam no sei que
pythonissa magica, e, por fim de contas, era um relogio, cujo involucro
suppria  farta uma bacia de semicupios.

Eram 8 horas. Na alda  esta a hora dos amantes. Manoel Pires enfiou as
suas meias de l at  cintura, calou os sapatos confidentes de mil
emprezas semelhantes, dobrou galhardamente o seu pau de carvalho ferrado
de amarello, e partiu.

s 8 e um quarto, estava Manoel Pires no quinteiro da Mariquinhas,
esperando-a, com a anciedade propria da sua organisao nervosa. Maus
fados quizeram que n'aquella noite, e a taes horas, andasse fra de casa
o tio Joo do Eir. A rapariga entendeu que devia esconder em casa o seu
boticario, em quanto o pai no recolhesse. Quiz primeiro sumil-o na
crte das vaccas, mas lembrou-se que o pai, antes de deitar-se,
costumava hir afagar a sua vacca castanha, pela qual na feira dos 8
rejeitra sete moedas e um quarto! Metteu-o, depois, na loja da egua,
mas a bestinha, egoista e ciumosa da manjadoura, no comprehendeu que o
snr. Manoel Pires era um racional, e jogou-lhe uma parelha de couces,
que por um tris o no remetteu  galeria posthuma dos pharmaceuticos
illustres. Introduziu-o no curral dos carneiros, mas a entrada do
infeliz amante foi recebida com uma escaramua de marradas, como se um
lobo cerval os surprehendesse. Ultimamente, Mariquinhas, melhor avisada,
levou o seu paciente amante para a cozinha, levantou um alapo, fl-o
descer uma escada, e, quando descia mansamente o fatal alapo, entrava
o pai.

--Que fazes tu ahi, rapariga?--bradou elle.

Mariquinhas atrapalhou-se, e coou a cabea com ambas as mos.

Deve saber-se que o tio Joo desconfiava que a filha, quando podia, lhe
roubava das caixas o seu sacco de milho, que vendia para comprar, 
surrelfa, o seu cordosinho de ouro.

Na loja, onde o boticario desceu, estavam as caixas do milho, e no ha
nada mais natural que a irritao do velho, quando apanhou a rapariga em
flagrante delicto.

--Onde est a chave d'este alapo, rapariga? interpellou o tio Joo no
mesmo diapaso.

--A chave tem-na vm.^{ce}

O homem entrou no seu quarto, proximo da cozinha, e veio com a chave,
resmungando:

--Ora deixa-te estar, que no has-de c tornar po'lo vso, minha cabra
de no sei que diga!

Fechou o alapo, e foi-se deitar.

A loja no tinha outra sahida. O boticario, por tanto, achava-se n'uma
posio falsa, diz o leitor. Elle sabia l o que eram posies falsas! O
que elle fez primeiro foi apalpar. Encontrou uma caixa, e disse l
comsigo: no cho no me deito eu. Continuou fleugmaticamente a fazer o
seu juizo critico do local em que se achava, e esbarrou com o nariz n'um
presunto. No obstante, o snr. Manoel Pires tirou uma segunda concluso:
de fome no morro eu. Mais adiante esbarrou n'uma pipa, e teve a
pachorra de lhe tocar com os ns dos dedos para vr se estava cheia. E o
caso  que estava! Manoel Pires era um onagro de felicidade! Deixa
correr o mundo!... disse elle, e estirou-se francamente sobre a caixa 
espera d'um somno regalado.

Passra-se uma hora, e o boticario, comeando a pensar seriamente na sua
situao, teve momentos de Napoleo na ilha de Santa Helena! Applicou o
ouvido, e nem um sussurro ouviu na cozinha. Sentiu frio, por que em
Dezembro no  facil aquecer o corpo no fogo do amor. Deu alguns passos
maquinaes, buscando uma sahida qualquer, e encontrou um albardo.
Valha-nos ao menos isto, disse elle, e pegou do albardo, collocou-o
convenientemente sobre si, e tornou-se a deitar.

Agora fallemos das colicas de Mariquinhas.

Como sabem, o pai deitou-se, e a rapariga recolheu-se ao seu quarto, j
que no posso dizer ao seu palheiro. Alma de pedreneira, ferida pelo
fuzil do amor, a mooila no atinava com a maneira de pr no olho da rua
o seu querido pharmaceutico. Inspirada pelo derradeiro esforo da sua
dr sublime, lembrou-se de pr em execuo um plano digno de melhor
sorte.

O pai resonava profundamente, Maria, p ante p, entrou-lhe no quarto e
sahiu com as calas, em cujo bolso estava a chave. Judith no sahiu mais
contente da tenda de Holofernes!

Abriu o alapo com subtileza, mas, no momento em que o levantava, os
gonzos rangeram, e o lavrador, que sonhava com um sacco de milho que lhe
emigrava das tulhas, saltou abaixo da cama, gritando:  rapariga!

No se diz, em linguagem portugueza, sem um conhecimento profundo dos
classicos, a atrapalhao da cachpa! O tio Joo procurou as calas, e
no as achou, mas o caso urgia. Mesmo em camisa (_proh pudor!_) saltou
do quarto para a cozinha, j quando a filha se esgueirava, escada
abaixo, para o quinteiro.

O tio Joo, contra todas as leis da decencia, foi atraz de sua filha, e
filou-a pelo gasnete:

--O que hias tu fazer  loja, Maria?

--Raios me parta (disse ella a chorar) se eu hia  caixa do po ou dos
feijes!

--Ento a que hias tu l, diabo?

--Assim me Deus salve, em como lhe no tirei nem um graeiro da caixa...

O tio Joo sentiu frio, e reconheceu que a brisa gelada da noite lhe
soprava nas pernas. Tornou para a cozinha, e foi direito ao alapo;
mas... ai d'elle!... o alapo estava aberto, e o honrado chefe de
familia resvalou com todo o peso da sua bestialidade at  loja.

Manoel Pires soltou um urro de surpreza, que j no foi ouvido pelo Joo
do Eir, que desmaira.

Maria, ainda no quinteiro em postura de Dido lastimosa, ouviu um ruido,
mas suppoz que era o cahir do alapo. Atravessou a cozinha,
amaldioando a sua sorte, e metteu-se no seu quarto a pensar no
desenlace d'aquella tragedia.

A tia Maria do Eir, acordando, no achou na cama o seu velho, e sentiu
ciumes, pela primeira vez na sua vida. Chamou com voz do intimo, tres
vezes, o seu Joo, e como ninguem lhe respondesse, a mulher comeou a
vestir-se, enfiando responsos a Santo Antonio, de mistura com no sei
quantas pragas, que ella rogava ao sumidouro das suas scas.

E a filha, cosida com as mantas, nem uma palavra!

A tia Maria accendeu a canda, e foi direita  cozinha, que era o ponto
convergente de todas as operaes d'aquelle drama. Viu o alapo aberto,
e no tinha ainda reconcentrado em si todo o horror d'aquella
fatalidade, quando ouviu um gemido surdo que vinha l debaixo. A pobre
mulher lembrou-se que estava roubada! Abre a janella e grita
desentoadamente aqui d'el-rei ladres! A visinhana alarmou-se, e
pouco depois os 60 fogos d'aquella alda agglomeravam-se no quinteiro do
tio Joo do Eir.

Os mais destemidos rapazes da alda desceram  loja, e encontraram o
pobre velho com a cabea aberta por dous lados, e no sei quantas
costellas desmanchadas. Reinou o silencio do mysterio! Ninguem
conjecturava a causa d'aquelle estranho successo, quando um dos que
farejavam os recantos da loja, descobre um p por debaixo d'um albardo!
Levantou-se uma gritaria infernal: at que o mais resoluto, afastando o
albardo, soltou um brado terrivel d'espanto:

--O senhor mestre Manoel Pires!

Ho-de ter visto nos dramas descabellados um encapotado, que 
necessariamente um rei, mostrar a cara, e petrificar uma sucia de
perseguidores, que o atacam. Pois tal foi o effeito que o boticario
produziu na chusma de valentes de fouce roadoura, que o cercavam.

O tio Joo, tornando a si, foi direito ao boticario para agradecer-lhe a
promptido com que viera cural-o. Mas a tia Maria poz tudo em pratos
lmpos: contou tudo a seu marido, que a escutava com cara de parvo,
segundo convinha em semelhante conflicto.

Mestre Manoel Pires hia ser apregoado ladro, por que a sua importancia,
passado o momento da surpreza, comeava a soffrer uma grande baixa na
opinio dos lavradores.

Mas o seu caracter repellia tamanha affronta! A hora solemne d'uma
honrosa satisfao estava chegada. O pharmaceutico, superando com a sua
voz o ruido da turba conspirada, disse:

--Chamem c a Mariquinhas que essa  que sabe do negocio como elle .

O Pedro da Eira, apaixonado de Mariquinhas, vendo, com olhos d'amante, o
segredo da cousa, quiz logo alli partir a cabea do seu rival.

--Oh su alma do diabo!... exclamou elle.

Contiveram-no. O snr. Joo do Eir chamou a filha. A pobre rapariga era
uma cascata de lagrimas. Veio a muito custo, cuidando que era ento a
_sua fim_, como ella depois disse.

A sua appario impoz s multides um respeitavel silencio.

Mestre Manoel Pires fallou assim, com ar de inspirado, e o brao direito
em attitude prophetica:

--Esta rapariga  minha mulher, se m'a derem. Eu vim aqui a troco
d'ella. Em bom panno cahe uma nodoa. Mal remediado  mal acabado. manh
se Deus quizer lem-se os banhos, e no ha nada mais a fazer aqui!

A Mariquinhas ficou com cara de tola, e no cabia n'um sino. Os paes,
d'esses no se falla. Mestre Manoel era o casamento mais vantajoso da
freguezia. Endireitou as costellas ao sogro, bebeu  saude da boa
companhia, e casou com grande prestito, onde no faltou o juiz de paz,
que teve de mais a mais o prazer de pendurar n'esse fausto dia o habito
de Christo na casaca. Nas bodas celebres para sempre, nos annaes de
Carrazedo de Monte-Negro, comeram-se dez cabritos assados com o
competente arroz de forno.

J l vo cinco annos.

Mestre Manoel Pires espera ser deputado com um governo apreciador do
verdadeiro talento; e a senhora Mariquinhas Pires j este anno veio a
banhos de mar, e viu por ahi baronezas, que lhe despertaram o louvavel
desejo de o ser.

E ha-de ser, se Deus quizer.




COUSAS QUE S EU SEI.




COUSAS QUE S EU SEI.


I.


Na ultima noite do carnaval, que foi justamente aos 8 dias do mez de
Fevereiro, do corrente anno[2] pelas 9 horas e meia da noite entrava no
theatro de S. Joo, d'esta heroica, e muito nobre e sempre leal cidade,
um domin de setim.

Dra elle os dous primeiros passos no pavimento da plata, quando um
outro domin de velludo preto veio collocar-se-lhe frente a frente,
n'uma contemplao immovel.

O primeiro demorou-se um pouco a medir as alturas do seu admirador, e
virou-lhe as costas com indifferena natural.

O segundo, momentos depois, apparecia ao lado do primeiro, com a mesma
atteno, com a mesma penetrao de vista.

D'esta vez o domin-setim aventurou uma pergunta n'aquelle desgracioso
falsete, que todos ns conhecemos:

--No quer mais do que isso?

--Do _qu'isso_!...--respondeu um mascara que passava por casualidade,
esganiando-se n'uma risada que raspava o tympano.--_Olha do
qu'isso!_... J vejo que s pulha!...

E retirou-se repetindo--_do qu'isso... do qu'isso..._

Mas o domin-setim no soffreu, ao que parecia, a menor contrariedade
com este charivari. E o domin-velludo nem se quer acompanhou com os
olhos o imprudente que viera embaraar-lhe uma resposta digna da
pergunta, fosse ella qual fosse.

O _setim_ (fique assim conhecido para evitarmos palavras, e tempo que 
um preciosissimo cabedal) o _setim_, d'esta vez, encarou com mais alguma
reflexo o _velludo_. Conjecturou supposies fugitivas, que se
destruiam mutuamente. O _velludo_ era forosamente uma mulher. A
pequenez do corpo, cuja flexibilidade o domin no encobria; a
delicadeza da mo, que protestava contra o ardil mentiroso d'uma luva
larga; a ponta de verniz, que um descuido, no lanar do p, denuncira
debaixo da fimbria do velludo, este complexo de attributos, quasi nunca
reunidos em um homem, captaram as serias attenes do outro, que,
incontestavelmente, era um homem.

--Quem quer que sejas, (disse o setim) no te gabo o gosto! Tomra eu
saber o que vs em mim, que tanta impresso te faz!

--Nada--respondeu o velludo.

--Ento, deixa-me, ou diz-me alguma cousa ainda que seja uma semsaboria,
mais eloquente que o teu silencio.

--No te quero embrutecer. Sei que tens muito espirito, e seria um crime
de leso-carnaval, se te dissesse alguma d'essas graas salobras, capazes
de fazer calar para todo o sempre um Demosthenes de domin.

O _setim_ mudou de opinio a respeito do seu perseguidor. E no admira
que o recebesse com rudeza no principio, porque, em Portugal, um domin
em corpo de mulher, que passeia sosinha n'um theatro, permitte umas
suspeitas que no abonam as virtudes do domin, nem lisongeam a vaidade
de quem lhe recebe o conhecimento. Mas a mulher em quem recahe
semelhante hypothese no conhece Demosthenes, nem diz _leso-carnaval_,
nem agua a phrase com o adjectivo _salobras_.

O setim arrependeu-se da aspereza com que recebera os attenciosos
olhares d'aquella incognita, que principiava a fazer-se valer como tudo
aquillo que apenas se conhece por uma face boa. O _setim_ juraria, pelo
menos, que aquella mulher no era estupida. E, seja dito sem teno
offensiva, j no era insignificante a descoberta, porque  mais facil
descobrir um mundo novo que uma mulher illustrada.  mais facil ser
Christovo Colombo que Emilio Girardin.

O _setim_, ouvida a resposta do _velludo_, offereceu-lhe o brao, e
gostou da boa vontade com que lhe foi recebido.

--Conheo (diz elle), que o teu contacto me espiritualisa, bello
domin...

--_Bello_, me chamas tu!...  realmente uma leviandade que te no faz
honra!... Se eu levantasse esta sanefa de sda, que me faz bonita,
ficavas como aquelle poeta hespanhol que soltou uma exclamao de terror
na presena d'um nariz... que nariz no seria, santo Deus!... No sabes
essa historia?

--No, meu anjo!

--_Meu anjo!_... que graa! Pois eu t'a conto. Como o poeta se chama no
sei, nem me importa. Imagina tu que s um poeta, phantastico como
Lamartine, vulcanico como Byron, sonhador como Mac-Pherson, e voluptuoso
como Voltaire aos 60 annos. Imagina que o tedio d'esta vida chilra que
se vive no Porto te obrigou a deixar no teu quarto a pythonissa
descabellada das tuas inspiraes, e vieste por aqui dentro a procurar
um passatempo n'estes passatempos alvares d'um baile de carnaval.
Imagina que encontravas uma mulher extraordinaria de espirito, um anjo
de eloquencia, um demonio de epygramma, em fim, uma d'estas creaes
miraculosas que fazem rebentar uma chamma improvisa no corao mais de
glo, e de lama, e de toucinho sem nervo. Ris? Achas nova a expresso,
no  assim? Um corao de toucinho parece-te uma offensa ao bom senso
anatomico, no  verdade? Pois, meu caro domin; ha coraes de toucinho
estreme. So os coraes, que reumam oleo em certas caras estupidas...
por exemplo... olha este homem redondo, que aqui est, com as palpebras
em quatro refgos, com os olhos vermelhos como os d'um coelho morto, com
o queixo inferior pendente, e o labio escarlate e vidrado como o bordo
d'uma pingadeira, orvalhada de banha de porco... Esta cara no te parece
um grande rijo? No crs que este baboso tenha um corao de toucinho?

--Creio, creio; mas falla mais baixo que o desgraado est a gemer
debaixo do teu escalpello...

--s tolo, meu cavalheiro! Elle entende-me l!...  verdade, ahi vai a
historia do hespanhol, que tenho que fazer...

--Ento queres deixar-me?

--E tu?... queres que eu te deixe?

--Palavra d'honra que no! se me deixas, retiro-me...

--s muito amavel, meu querido Carlos...

--Conheces-me?!

--Essa pergunta  ociosa. No s tu _Carlos_!

--J fallaste comigo na tua voz natural?

--No; mas comeo a fallar agora.

E com effeito fallou. Carlos ouviu um som de voz sonora, metallica, e
insinuante. Cada palavra d'aquelles labios mysteriosos sahia vibrante e
afinada como a nota d'uma tecla. Tinha aquelle no-sei-que, que s se
escuta nas salas, onde fallam mulheres distinctas, mulheres que obrigam
a gente a prestar f aos privilegios, s prerogativas, aos dons muito
peculiares da aristocracia do sangue. Todavia, Carlos no se recordava
de ter ouvido semelhante voz, nem semelhante linguagem.

Uma aventura de romance! dizia elle l comsigo, em quanto o
domin-velludo, conjecturando o enleio em que pozera o seu enthusiasta
companheiro, continuava a fazer gala do mysterio, que  de todas as
alfaias aquella que mais alinda a mulher! Se ellas podessem andar sempre
de domin! Quantas mediocridades em intelligencia rivalisariam com Jorge
Sand! Quantas physionomias infelizes viveriam com a fama da mulher de
Abdel-Kader!

--Ento quem sou eu?--proseguiu ella--no me dirs?... No dizes... pois
ento, tu s Carlos, e eu sou Carlota... fiquemos n'isto, sim?

--Em quanto eu no souber o teu nome, deixa-me chamar-te anjo.

--Como quizeres; mas sinto dizer-te que no s nada original! _Anjo!_...
 um appellido to safado como _Ferreira_, _Silva_, _Sousa_, _Costa_...
et cetera. No vale a pena questionarmos: baptisa-me  tua vontade.
Ficarei sendo o teu anjo de entrudo! E a historia?... Imagina que te
possuias d'um amor impetuoso por essa mulher, que phantasiaste linda, e
insensivelmente lhe curvaste o joelho, pedindo-lhe uma esperana, um
sorriso affectuoso atravs da mascara, um aperto convulsivo de mo, uma
promessa, ao menos, de se mostrar um, dous, tres annos depois. E essa
mulher, cada vez mais sublime, cada vez mais litterata, cada vez mais
radiosa, protesta eloquentemente contra as tuas instancias,
declarando-se muita feia, indecentissima de nariz, horrivel at, e, como
tal, pesa-lhe na consciencia matar as tuas candidas illuses, levantando
a mascara. Tu que a no crs, instas, supplicas, abrasas-te n'um ideal,
que toca as extremas do ridiculo, e ests capaz de lhe dizer que te
abolas o craneo com um tiro de pistola, se ella no levanta a cortina
d'aquelle mysterio que te dilacera uma por uma as fibras do corao.
Chamas-lhe Beatriz, Laura, Fornarina, Natercia, e ella diz-te que se
chama Custodia, ou Genoveva para te aguar a poesia d'esses nomes, que,
na minha humilde opinio, so completamente fabulosos. O domin quer
fugir-te ardilosamente, e tu no lhe deixas um passo livre, nem um dito
espirituoso a outro, nem um lanar d'olhos para os mascaras, que a fixam
como quem sabe que est alli uma rainha, envolta n'aquelle manto negro.
Por fim, a tua perseguio  tal, que a desconhecida Desdemona finge
assustar-se, e sahe comtigo ao salo do theatro para levantar a mascara.
Arfa-te o corao na anciedade d'uma esperana: sentes o jubilo do cego
de nascimento, que vai vr o sol; estremeces como a creana a quem vo
dar um bonito, que ella no viu ainda, mas imagina ser quanto o seu
corao infantil ambiciona n'este mundo... Ergue-se a mascara!...
Horror!... vs um nariz... um nariz-pleonasmo, um nariz homerico, um
nariz maior que o do duque de Choiseul, onde cabiam tres jesuitas a
cavallo!... Recas!... sentes despregar-se-te o corao das entranhas,
cras de vergonha, e foges desabridamente...

--Tudo isso  muito natural.

--Pois no ha nada mais artificial, meu caro senhor. Eu lhe conto o
resto, que  o mais interessante para um mancebo que faz do nariz d'uma
mulher o thermometro de avaliar-lhe a temperatura do corao. Imagina,
meu joven Carlos, que sahiste do theatro depois, e entraste na _Aguia
d'Ouro_ a comer ostras, segundo o costume dos elegantes do Porto. E
quando, pensavas, ainda aterrado, na aventura do nariz, te apparecia
fatidico domin, e se assentava ao teu lado, silencioso e immovel, como
a larva das tuas asneiras, cuja memoria procuravas delir na imaginao
com os vapores do vinho... Perturba-se-te a digesto, e sentes
contraces no estomago, que te ameaam com o vomito. A massa enorme
d'aquelle nariz figura-se-te no prato em que tens a ostra, e j no
pdes levar  bocca um bocado do teu appetitoso manjar sem um fragmento
d'aquelle fatal nariz  mistura. Queres transigir com o silencio do
domin; mas no pdes. A inexoravel mulher aproxima-se de ti, e tu, com
um sorriso cruelmente sarcastico, pedes-lhe que te no entorne com o
nariz o copo de vinho. Achas isto natural, Carlos?

--Ha ahi crueldade de mais... O poeta devia ser mais generoso com a
desgraa, porque a misso do poeta  a indulgencia no s para as
grandes affrontas, mas at para os grandes narizes.

--Ser; mas o poeta, que transgrediu a sublime misso da generosidade
para com as mulheres feias, vai ser punido. Imagina que aquella mulher,
pungida pelo sarcasmo, levanta a mascara. O poeta ergue-se, e vai fugir
com grande escandalo do dono da casa, que naturalmente tem a sorte do
boticario de Nicolau Tolentino. Mas... vingana do co!... aquella
mulher ao levantar a mascara arranca do rosto um nariz postio, e deixa
vr a mais formosa cara que o co alumia ha seis mil annos! O hespanhol
quer ajoelhar quella dulcissima viso de um sonho, mas a nobre andaluza
repelle-o com um gesto, onde o despreso est associado  dignidade mais
senhoril.


II.


Carlos scismava na applicao da anedocta, quando o domin lhe disse,
adivinhando-lhe o pensamento:

--No creias que eu seja mulher de nariz de cera, nem me supponhas capaz
de assombrar-te com a minha fealdade. A minha modestia no vai to
longe... Mas, meu pacientissimo amigo, ha em mim um defeito peor que um
nariz enorme: no  physico nem moral;  um defeito repulsivo e
repellente:  uma cousa que eu no sei exprimir-te com a linguagem do
inferno, que  a unica e mais eloquente que eu sei fallar, quando me
lembro que sou assim defeituosa!

--s um enigma!...--atalhou Carlos, embaraado, e convencido de que
encontrra um typo maior que os moldes tacanhos da vida romanesca em
Portugal.

--Sou, sou!...--acudiu ella com rapidez--sou aos meus proprios olhos um
domin, um continuado carnaval de lagrimas... Est bom! no quero
tristezas... Se me tocas na tecla do sentimentalismo, deixo-te. Eu no
vim aqui fazer papel de dama dolorida. Soube que estavas aqui,
procurei-te, esperei-te mesmo com anciedade, porque sei que s
espirituoso, e podias, sem prejuizo da tua dignidade, ajudar-me a passar
algumas horas de illuso. Fra d'aqui, tu ficas sendo Carlos, e eu serei
sempre uma incognita muito grata ao seu companheiro. Agora acompanha-me:
vamos ao camarote 10 da 2.^a ordem. Conheces aquella familia?

--No.

-- uma gente da provincia. No digas tu nada; deixa-me fallar a mim, e
vers que no passas mal...  muito orgulho, no achas?

--No acho, no, minha querida; mas eu antes queria no desperdiar
estas horas porque fogem. Tu vaes fallar, mas no  comigo. Sabes que
tenho ciumes de ti?

--Sei que tens ciumes de mim... Sabes tu que eu tenho um profundo
conhecimento do corao humano? J vs que no sou a mulher que
imaginas, ou quererias que eu fosse. No comeces a desvanecer-te com uma
conquista esperanosa. Faz calar o teu amor proprio, e emprega a tua
vaidade em bloquear com ternuras calculadas uma innocente a quem possas
fazer feliz, em quanto a enganas...

--Julgas, por tanto, que te minto!...

--No julgo, no. Se mentes a alguem  a ti proprio: bem vs que no te
creio... Tempo perdido! Anda, vem comigo, se no...

--Seno... o que?

--Seno... olha...

E a melindrosa desconhecida largou-lhe o brao com delicadeza, e
retirara-se, apertando-lhe a mo.

Carlos, sinceramente commovido, apertou aquella mo, com o frenesi
apaixonado de um homem que quer suster a fuga da mulher por quem se
mataria.

--No--exclamou elle com enthusiasmo--no me fujas, porque me levas a
esperana mais bella que o meu corao concebeu. Deixa-me adorar-te, sem
te conhecer!... No levantes nunca esse vo... mas deixa-me vr a face
da tua alma, que deve ser a realidade d'um sonho de vinte e sete
annos...

--Ests dramatico, meu poeta! Eu sinto realmente a minha pobreza de
palavras garrafaes... Queria ser uma vestal d'estilo fervente para
sustentar o fogo sagrado do dialogo... O monologo deve canar-te, e a
tragedia desde Sophocles at ns no pde dispensar uma segunda
pessoa...

--s um prodigio...

--De litteratura grega, no  verdade? Inda sei muitas outras cousas da
Grecia. A Lais tambem era muito versada, e repetia as rapsodias gregas
com um garbo sublime; mas a Lais era... sabes tu o que ella era?... E
serei eu o mesmo? J vs que a litteratura no  symptoma de virtudes
dignas da tua affeio...

Tinham chegado ao camarote na 2.^a ordem. O domin-velludo bateu, e a
porta foi, como devia ser aberta.

A familia, que occupava o camarote, compunha-se de muitas pessoas, sem
typo, vulgarissimas, e prosaicas de mais para captarem a atteno d'um
leitor avesso a trivialidades. Todavia, estava ahi uma mulher que valia
um mundo, ou cousa maior que o mundo--o corao d'um poeta.

As rosas purpurinas dos vinte annos tinham-lhes sido crestadas pelo
halito abrasado dos sales. A placidez extemporanea d'uma vida agitada,
via-se-lhe no rosto protestando no contra os prazeres, mas contra a
debilidade d'um sexo, que no pde acompanhar com a materia as evolues
desenfreadas do espirito. Mas que olhos! mas que vida! que electricidade
no frenesi d'aquellas feies! que projeco de uma sombra azulada lhe
descia das palpebras! Era uma mulher, em cujo rosto transluzia a
soberba, talvez demasiada, da sua superioridade.

O domin-velludo estendeu-lhe a mo, e chamou-lhe Laura.

Seria Laura?  certo que ella estremeceu, e recuou a mo repentinamente
como se uma vibora lh'a tivesse mordido.

Aquella palavra symbolisava um mysterio dilacerante: era a senha de uma
grande lucta em que a pobre senhora devia sahir escorrendo sangue.

--Laura--repetiu o domin--no me apertas a mo? Deixa-me ao menos
sentar-me perto... muito perto de ti... sim?

O homem, que mais proximo estava de Laura, afastou-se urbanamente para
deixar aproximar um mascara, que denunciara o sexo pela voz, e a
distinco pela mo.

E Carlos nunca mais despregou os olhos d'aquella mulher, que revelava a
cada instante um pensamento nas variadas physionomias com que queria
disfarar a sua angustia intima.

A desconhecida fez signal a Carlos para que se aproximasse. Carlos,
enleado nos embaraos naturaes d'aquella situao toda para elle
enygmatica, recusava cumprir as imperiosas determinaes d'uma mulher
que parecia calcar todos os melindres. Os quatro ou cinco homens, que
pareciam familiares de Laura, no deram muita importancia aos domins.
Conjecturaram, primeiro, e quando suppozeram que tinham conhecido as
visitas, deixaram em plena liberdade as duas mulheres que se fallavam de
perto como duas amigas intimas. O cavalheiro passou por um tal Eduardo,
e a desconhecida tiveram-n'a por uma D. Antonia.

Laura humedecia os labios com a lingua. As surprezas pungentes produzem
uma febre, e aquecem o mais bem calculado sangue frio. A incognita,
profundamente conhecedora da situao da sua victima, fallou ao ouvido
de Carlos:

--Estuda-me aquella physionomia. Eu no estou em circumstancias de ser
Max... Soffro demasiado para contar as pulsaes d'este corao. Se te
sentires condoido d'esta mulher, tem compaixo de mim, que sou mais
desgraada que ella.

E voltando-se para Laura:

--Procuro, ha quatro annos, uma occasio de prestar homenagem  tua
conquista. Deus, que  Deus, no despreza os incensos do verme da terra,
nem esconde  vista dos homens a sua fronte magestosa n'um manto de
estrellas. Tu, Laura, que s mulher, embora os homens te chamem anjo,
no despresars vaidosa a homenagem d'uma pobre creatura, que vem depr
a teus ps o obulo sincero da sua adorao.

Laura no levantava os olhos do leque; mas a mo, que o sustinha,
tremia; e os olhos, que o contemplavam, pareciam absortos n'um quadro
afflictivo.

E o domin continuou:

--Foste muito feliz, minha cara amiga! Eras digna de o ser. Colheste o
fructo abenoado da abenoada semente que o Senhor fecundou no teu
corao de pomba!... Olha, Laura, deves dar muitas graas  Providencia,
que velou os teus passos no caminho do crime. Quando devias resvalar no
abysmo da prostituio, subiste, radiante de virtudes, ao throno das
virgens. O teu anjo da guarda foi-te leal! s uma excepo a milhares de
desgraadas, que nasceram em estofos de damasco, e cresceram em perfumes
de opulencia. E, quanto mais, minha ditosa Laura, tu nasceste nas palhas
da miseria, cresceste nos andrajos da indigencia, ainda viste com os
olhos da razo a desgraa sentada  cabeceira do teu leito... e, com
tudo, eis-te ahi rica, honrada, formosa, e soberba de encantos, com que
pdes insultar toda essa turba de mulheres, que te admiram!... Ha tanta
mulher infeliz!... Queres saber a historia d'uma?...

Laura, contorcendo-se como se fosse de espinhos a cadeira em que estava,
no tinha ainda balbuciado um monosyllabo; mas a urgente pergunta, duas
vezes repetida, do domin, obrigou-a a responder affirmativamente com um
gesto.

--Pois bem, Laura, conversemos amigavelmente.

Um dos individuos, que estava presente, e ouvira pronunciar _Laura_,
perguntou  mulher que assim era chamada:

--Elisa, ella chama-te _Laura_?

--No, meu pai...--respondeu Elisa, titubeando.

--Chamo Laura, chamo... e que tem l isso, snr. visconde?--Atalhou a
incognita, com affabilidade, erguendo o falsete para ser bem ouvida.--
um nome de carnaval, que passa com os domins. Quarta feira de cinza
torna a filha de v. exc.^a a chamar-se Elisa.

O visconde sorriu-se, e o domin continuou, abaixando a voz, e fallando
naturalmente:


III.


--Henriqueta...

Esta palavra foi um abalo que fez vibrar todas as fibras de Elisa. O
rosto incendiou-se-lhe d'aquelle encarnado do pudor ou da raiva. Esta
sensao violenta no podia ser desapercebida. O visconde, que parecia
estranho  conversao intima d'aquellas suppostas amigas, no o pde
ser  agitao febril de sua filha.

--Que tens, Elisa?!--perguntou elle sobresaltado.

--Nada, meu pai... Foi um ligeiro incommodo... Estou quasi boa...

--Se queres respirar vamos ao salo, ou vamos para casa...

--Antes para casa--respondeu Elisa.

--Eu vou mandar buscar a sege--disse o visconde; e retirou-se.

--No vs, Elisa...--disse o domin, com uma voz imperiosa, semelhante a
uma ameaa inexoravel.--No vs... porque, se vaes, contarei a todo o
mundo uma historia que s tu has-de saber. Este outro domin, que tu no
conheces,  um cavalheiro: no temas a menor imprudencia.

--No me martyrises!--disse Elisa.--Eu sou infeliz de mais, para ser
flagellada com a tua vingana... Tu s Henriqueta, no s?

--Que te importa a ti saber quem eu sou?!...

--Importa muito... Sei que s desgraada!... No sabia que vivias no
Porto; mas palpitou-me o corao que eras tu, apenas me chamaste Laura.

O visconde entrou afadigado, dizendo que a sege no podia tardar, e
convidando a filha para dar alguns passeios no salo do theatro. Elisa
satisfez a carinhosa anciedade do pai, dizendo que se sentia boa, e
pedindo-lhe que se demorasse at mais tarde.

--Onde julgavas tu que eu existia? No cemiterio no  assim?--perguntou
Henriqueta.

--No: sabia que vivias, e prophetisava que devia encontrar-te... Que
historia me queres tu contar?... a tua? Essa j eu sei... imagino-a...
tens sido muito infeliz... Olha, Henriqueta... deixa-me dar-te esse
tratamento affectuoso com que nos conhecemos, com que fomos to amigas,
alguns fugitivos dias, no tempo em que o destino nos marcava com o mesmo
stygma de infortunio...

--O mesmo... no!...--atalhou Henriqueta.

--O mesmo, sim, o mesmo... e se me foras a contradizer-te, direi que
invejo a tua sorte, seja ella qual fr...

Elisa chorava, e Henriqueta emmudecera. Carlos estava impaciente pelo
desfecho d'esta aventura, e desejava, ao mesmo tempo, reconciliar estas
duas mulheres, e fazel-as amigas, sem saber a razo porque eram
inimigas. A belleza impe-se  compaixo. Elisa era bella, e Carlos era
d'uma sensibilidade extremosa. Nem elle j sabia decidir-se entre
aquellas duas mulheres. A mascarada _poderia ser_, mas a outra _era_ um
anjo de sympathia e formosura. O espirito gosta do mysterio que esconde
o bello; mas decide-se pela belleza real, sem mysterio.

Henriqueta, depois de alguns minutos de silencio, durante os quaes no
era possivel avaliar-lhe o corao pela exterioridade da physionomia,
exclamou com impeto, como se despertasse d'um sonho, d'aquelles intimos
sonhos de dr, em que a alma se reconcentra:

--Teu marido?

--Est em Londres.

--Ha quanto tempo o no viste?

--Ha dous annos.

--Abandonou-te?

--Abandonou-me.

--E tu?... abandonaste-o?

--No concebo a pergunta...

--Ainda o amas?

--Ainda...

--Com paixo?

--Com delirio...

--Escreves-lhe?

--No me responde... Despresa-me, e chama-me _Laura_.

--Elisa!--disse Henriqueta, com a voz tremula, e apertando-lhe a mo com
enthusiasmo nervoso--Elisa! perdo-te... s bem mais desgraada que eu,
porque tens um homem que pde chamar-te Laura, e eu no tenho seno um
nome... sou Henriqueta! Adeus.

Carlos pasmou do desenlace cada vez mais embrulhado d'aquelle prologo
d'um romance. Henriqueta tomou-lhe o brao com precipitao, e sahiu do
camarote abaixando levemente a cabea aos cavalheiros, que se davam
tractos por adivinhar o segredo d'aquella conversa.

--No pronuncies o meu nome em voz alta, Carlos. Sou Henriqueta; mas no
me atraioes, se queres a minha amisade.

--Como hei-de eu atraioar-te, se no sei quem s? Pdes chamar-te Julia
em vez de Henriqueta, que, nem por isso te fico conhecendo mais... Tudo
mysterios! Tens-me, ha mais d'uma hora, n'um estado de tortura! Eu no
sirvo para estas emboscadas... Diz-me quem  aquella mulher...

--No viste que  D. Elisa Pimentel, filha do visconde do Prado?

--No a conhecia...

--Ento que mais queres que eu te diga?

--Muitas outras cousas, minha ingrata. Quero que me digas quantos nomes
tem aquella Laura, que se chama Elisa. Falla-me do marido d'aquella
mulher...

--Eu te digo... O marido d'aquella mulher chama-se Vasco de Seabra...
Ests satisfeito?

--No... Quero saber que relaes tens tu com esse Vasco ou com aquella
Laura?

--No sabers mais nada, se fores impaciente. Imponho-te mesmo um
profundo silencio a respeito do que ouviste.  menor pergunta que me
faas, deixo-te ralado por essa curiosidade indiscreta, que te faz
parecer uma mulher de soalheiro. Eu contrahi comtigo a obrigao de te
contar a minha vida?

--No; mas contrahiste com a minha alma a obrigao de eu me interessar
na tua vida e nos teus infortunios desde este momento.

--Obrigado, cavalheiro!--Juro-te uma sincera amisade.--Has-de ser o meu
confidente.

Estavam, outra vez, na plata. Henriqueta aproximou-se ao quarto
camarote da primeira ordem, firmou o p de fada na frisa, segurou-se ao
peitoril do camarote, e travou conversao com a familia que o occupava.
Carlos acompanhou-a em todos estes movimentos, e preparou-se para um
novo enygma.

Segundo o costume, as mos de Henriqueta passaram por uma analyse
rigorosa. No era possivel, porm, fazel-a tirar a luva da mo esquerda.

--Domin, porque no deixas vr este annel?--Perguntava uma senhora de
olhos negros, e vestida de negro, como uma viuva rigorosamente
enluctada.

--Que te importa o annel, minha querida Sophia!?... Fallemos de ti, aqui
em segredo. Ainda vives melancolica, como a Dido da fabula? Fica-te bem
essa cr de esquifes, mas no sustentas o caracter artistico com
perfeio. A tua tristeza  fingida, no  verdade?

--No me offendas, domin, que eu no te mereo essa injuria... A
desgraa nunca se finge...

--Disseste uma verdade, que  a tua condemnao. Eu, se tivesse sido
abandonada por um amante, no vinha aqui dar-me em espectaculo a um
baile de mascaras. A desgraa no se finge,  verdade; mas a saudade
esconde-se para chorar, e a vergonha no se ostenta radiosa d'esse
sorriso que te brinca nos labios... Olha, minha amiga, ha umas mulheres
que nasceram para esta poca, e para estes homens. Ha outras que a
Providencia caprichosa atirou a esta gerao corrompida como os
imperadores romanos atiravam os christos ao amphitheatro dos lees.
Felizmente que tu no s das segundas, e sabes harmonisar com o teu
genio folgaso e desleixado uma hypocrisia que te vai bem n'um soph de
pennas, onde te recostas com um perfeito conhecimento das attitudes
languidas das mulheres canadas do Balzac. Eu, se fosse homem, amava-te
por desfastio!... s a unica mulher para quem este paiz  pequeno.
Devias conhecer o Regente, e Richelieu, e os abbades de Versailles, e as
filhas do Regente, e as Helosas desenvoltas dos abbades, e as aias da
duqueza do Maine... et cetera. Isto por c  pequenissimo para as
Phryneas. Uma mulher da tua indole morre asphyxiada n'este ambiente
pesado em que o corao, nas suas expanses romanticas, encontra, quasi
sempre, a mo burgueza das conveniencias a tapar-lhe os respiradouros...
Parece que te enfadas de mim?...

--No te enganas, domin... Obsequeias-me se me no deres o incommodo de
te mandar retirar.

--s muito delicada, minha nobre Sophia!... J agora, porm, deixa-me
dar-te uma ida mais precisa d'esta mulher que te enfada, e que, apesar
das tuas injustias, se interessa na tua sorte. Diz-me c... Tens uma
sincera paixo, uma saudade pungente por aquelle bello capito de
cavallaria, que te deixou, to sosinha, com as tuas agonias de amante?

--Que te importa?...

--s cruel! Pois no ouves o tom sentimental com que te fao esta
pergunta?... Quantos annos tens?...

--Metade e outros tantos...

--A resposta no me parece tua... Aprendeste essa vulgaridade com a
filha do teu sapateiro?... Ora olha: tu tens 38 annos, a no ser
mentiroso o assento de baptismo, que se l no cartorio da freguezia dos
Martyres em Lisboa.

Aos vinte annos amavas com ternura um tal Pedro Sepulveda. Aos vinte e
cinco, amavas com paixo, um tal Jorge Albuquerque. Aos 30, amavas com
delirio, um tal Sebastio de Meirelles. Aos 35, amavas, em Londres, com
frenesi um tal... como se chamava... no me recordo... diz-me, por
piedade o nome d'esse homem, que, se no, fica o meu discurso sem o
effeito do drama... No dizes, m?... Ai!... eu tenho aqui a
mnemonica...

Henriqueta tirou a luva da mo esquerda, e deixou vr um annel... Sophia
estremeceu, e crou at s orelhas.

--J te recordas?... No cres, minha querida amiga... que no fica bem
ao teu caracter de mulher que conhece o mundo pela face positiva...
Deixa-me agora arredondar o periodo, como dizem os litteratos... Ora tu
que amaste desenfreadamente cinco antes do sexto homem, como queres
fingir debaixo d'esse vestido negro, um corao varado de saudades e
orpho de consolaes?... Adeus, minha bella hypocrita...

Henriqueta desceu elegantemente do seu poleiro, e deu o brao a Carlos.


IV.


Eram tres horas.

Henriqueta disse que se retirava, depois de victimar com seus ligeiros,
mas pungentes gracejos, alguns d'aquelles muitos que provocam o sarcasmo
s com a presena, s com o vulto corporal, s com a semsaboria de um
remoque parvo e pretencioso. O carnaval  uma exposio annual d'estes
infelizes.

Carlos, ao vr que Henriqueta se retirava com um segredo que tanto
irritra a sua curiosidade, instou com delicadeza, com meiguice, e at
com resentimento, pela realidade de uma esperana, que fizera a sua
felicidade de algumas horas.

--Eu no me arrependo--disse elle--de ter sido a voluntaria testemunha
de teus desforos... Ainda mesmo que me tivessem conhecido, e tu fosses
uma mulher licenciosa e depravada, no me arrependeria... Ouvi-te,
illudi-me na esperana vaidosa de conhecer-te, tive orgulho de ser o
escolhido para sentir de perto as pulsaes vertiginosas do teu
corao... estou recompensado de mais... Ainda assim, Henriqueta, eu no
tenho pejo de abrir-te a minha alma, confessando-te um desejo de
conhecer-te que no posso illudir... Este desejo vaes-m'o tu convertendo
n'uma dr; e ser logo uma saudade insupportavel, que te faria compaixo
se soubesses avaliar o que  na minha alma um desejo _impossivel_. Se tu
m'o no dizes, quem me dir o teu nome?

--No sabes que sou Henriqueta?

--Que importa? E sers tu Henriqueta?

--Sou... juro-te que sou...

--No basta isto... Ora diz-me... no sentes a preciso de ser-me grata?

--A que, meu cavalheiro?

--Grata ao melindre com que te tenho tractado, grata  delicadeza com
que te peo uma revelao da tua vida, e grata a este impulso invencivel
que me manda ajoelhar-te... Ser nobre zombar d'um amor que
involuntariamente fizeste nascer?

--No te illudas, Carlos--replicou Henriqueta n'um tom de seriedade,
semelhante ao de uma mi que aconselha seu filho. O amor no  isso que
pica a tua curiosidade. As mulheres so faceis de transigir de boa f
com a mentira, e, pobres mulheres!... succumbem muitas vezes 
eloquencia artificiosa d'um conquistador. Os homens, fartos de estudarem
as paixes na sua origem, e enfadados das rapidas illuses que elles
choram todos os dias, esto promptos sempre a declararem-se affectados
da cholera-paixo, e nunca apresentam _carta-limpa_ de scepticos. De
maneira que o sexo fragil das chimeras sois vs, creancinhas de toda a
vida, que brincaes aos trinta annos com a mulher como aos seis
brincaveis com os cavallinhos de pau, e os fradinhos de sabugo! Olha,
Carlos, eu no sou ingrata... Vou-me despedir de ti, mas hei-de
conversar comtigo ainda. No instes; abandona-te  minha generosidade, e
vers que alguma cousa lucraste em me encontrar e em me no conhecer.
Adeus.

Carlos acompanhou-a com os olhos, e permaneceu alguns minutos n'uma
especie de idiotismo, quando a viu desapparecer  sahida do theatro. O
seu primeiro pensamento foi seguil-a; mas a prudencia lembrou-lhe que
era uma indignidade. O segundo foi empregar a intriga astuciosa at
roubar alguma revelao quella Sophia da primeira ordem ou  Laura da
segunda. No lhe lembraram recursos, nem eu sei quaes elles poderiam
ser. Laura e Sophia, para dissiparem completamente a esperana anciosa
de Carlos, tinham-se retirado. Era necessario esperar, era necessario
confiar n'aquella mulher extraordinaria, cujas promessas o alvoroado
poeta traduzia em mil verses.

Carlos retirou-se, e esqueceu no sei quantas mulheres, que ainda, na
noite anterior, lhe povoaram os sonhos. Ao amanhecer, ergueu-se, e
escreveu as reminiscencias vivas da scena, quasi fabulosa, que lhe
transtornava o plano de vida.

No houve nunca um corao to ambicioso de futuro, to fervente de
poesia, e to phantastico de conjecturas! Carlos adorava seriamente
aquella mulher! Como estas adoraes se afervoram com to pouco, no sei
eu: mas que o amor  assim, vou eu jural-o, e espero que os meus amigos
me no deixem mentir.

Imaginem, por tanto, a inquietao d'aquelle grande espiritualista,
quando viu passarem, vagarosos e enfadonhos, oito dias, sem que o mais
ligeiro indicio lhe viesse confirmar a existencia de Henriqueta! No
direi que o desesperado amante appellou para o supremo tribunal das
paixes impossiveis. O suicidio no lhe passou nunca pela imaginao; e
muito sinto que esta verdade diminua as sympathias que o meu heroe
poderia grangear. A verdade, porm,  que o apaixonado mancebo vivia
sombrio, isolava-se contra os seus habitos socialmente galhofeiros,
abominava as impertinencias de sua mi que o consolava com anedoctas
tragicas a respeito de rapazes cegos de amor, e, emfim, soffrera a ponto
tal, que resolvera abandonar Portugal, se, no fim de quinze dias a
fatidica mulher continuasse a ludibriar a sua esperana.

Diga-se, porm, em honra e louvor da astucia humana: Carlos, resolvido a
partir, lembrou-se de pedir a um seu amigo, que, na gazetilha do
_Nacional_, dissesse, por exemplo, o seguinte:

O snr. Carlos d'Almeida vai, no proximo paquete, para Inglaterra. S.
s.^a tenciona observar de perto a civilisao das primeiras capitaes da
Europa. O snr. Carlos d'Almeida  uma intelligencia, que, enriquecida
pela instruco pratica da sua visita aos focos da civilisao, ha-de
voltar  sua patria com fecundo cabedal de conhecimentos em todos os
ramos das sciencias humanas. Fazemos votos porque s. s.^a se recolha em
breve ao seio dos seus numerosos amigos.

Esta local bem podia ser que chegasse s mos de Henriqueta. Henriqueta
bem podia ser que conjecturasse o imperioso motivo, que obrigava o
infeliz a buscar distraces longe da patria, onde a sua paixo era
invencivel. E, depois, nada mais facil que uma carta, uma palavra, um
raio de esperana, que lhe transtornasse os seus planos.

Era esta a infallivel teno de Carlos, quando ao decimo quarto dia lhe
foi entregue a seguinte carta:


V.


                                                 Carlos.

Sem offender as leis da civilidade, continuo a dar-te o tratamento do
domin, porque, em boa verdade, eu continuo a ser para ti um domin
moral, no  assim?

Passaram-se quatorze dias, depois que tiveste o mau encontro d'uma
mulher, que te privou de algumas horas de deliciosa intriga. Victima da
tua delicadesa, levaste o sacrificio a ponto de te mostrares interessado
na sorte d'essa celebre desconhecida que te mortificou. No serei eu,
generoso Carlos, ingrata a essa manifestao cavalheirosa, embora ella
seja um rasgo de artista, e no um desejo espontaneo.

Queres saber porque tenho demorado quatorze dias este grande sacrificio
que vou fazer?  porque ainda hoje me levanto d'uma febre incessante,
que me insultou n'aquelle camarote da segunda ordem, e que, n'este
momento, parece declinar.

Permitta Deus que seja longo o intervallo para ser longa a carta: mas
eu sinto-me to pequena para os sacrificios grandes!... No te quero
responsabilisar pela minha saude; mas, se o meu silencio de longos
tempos succeder a esta carta, conjectura, meu amigo, que Henriqueta
cahiu no leito, d'onde ha-de erguer-se, seno  graa que os mortos
ho-de erguer-se um dia.

Queres apontamentos para um romance que ter o merito de ser portuguez?
Vou dar-t'os.

Henriqueta nasceu em Lisboa. Seus paes tinham o lustre dos brazes, mas
no brilhavam nada pelo ouro. Viviam sem fausto, sem historia
contemporanea, sem bailes, e sem bilhetes de boas festas. As visitas que
Henriqueta conhecia eram, no sexo feminino, quatro velhas suas tias, e,
no masculino, quatro caseiros que vinham annualmente pagar as rendas,
com que seu pai regulava economicamente uma nobre independencia.

O irmo de Henriqueta era um moo de talento, que grangeara uma
instruco, enriquecida sempre pelos desvelos com que afagava a sua
paixo unica. Isolado de todo o mundo, o irmo de Henriqueta confiou a
sua irm os segredos do seu muito saber, e formou-lhe um espirito
varonil, e inspirou-lhe uma ambio faminta de sciencia.

Bem sabes, Carlos, que fallo de mim, e no posso, n'esta parte,
engrinaldar-me de flres immodestas, se bem que no me faltariam depois
espinhos que me desculpassem as vaidosas flres...

Eu cheguei a ser o ecco fiel dos talentos de meu irmo. Nossos paes no
comprehendiam as praticas litterarias com que aligeiravamos as noites
d'inverno; e, mesmo assim, folgavam de nos ouvir, e via-se-lhes nos
olhos aquelle rir de bondoso orgulho, que tanto inflamma as vaidades da
intelligencia.

Aos dezoito annos achei pequeno o horisonte da minha vida, e
enfastiei-me da leitura, que m'o fazia cada vez amesquinhar-se mais. S
com a experiencia, se conhece o quanto a litteratura modifica a
organisao de uma mulher. Eu creio que a mulher, apurada na sciencia
das cousas, pensa de um modo extraordinario na sciencia das pessoas. O
prisma das suas vistas penetrantes  bello, mas as lindas cambiantes do
seu prisma so como as cres variegadas do arco iris, que annuncia
tempestade.

Meu irmo lia-me os segredos do corao! no  facil mentir ao talento
com as hypocrisias do talento. Comprehendeu-me, e teve d de mim.

Meu pai morreu, e minha mi pediu  alma de meu pai que lhe alcanasse
do Senhor uma vida longa para meu amparo. Ouviu-a Deus, porque eu vi um
milagre na rapida convalescena com que minha mi sahiu d'uma
enfermidade de quatro annos.

Eu vi um dia um homem no quarto de meu irmo, onde entrei como entrava
sempre sem receio de encontrar um desconhecido. Quiz retirar-me, e meu
irmo chamou-me para me apresentar, pela primeira vez na sua vida, um
homem.

Este homem chama-se Vasco de Seabra.

No sei se por orgulho, se por acaso, meu irmo chamou a conversa ao
campo da litteratura. Fallava-se em romances, em dramas, em estilos, em
esclas, e no sei que outros mais assumptos ligeiros e graciosos que me
captivaram o corao e a cabea.

Vasco fallava bem, e revelava cousas que me no eram novas com estilo
novo. N'aquelle homem, via-se o genio aformoseado pela arte que s na
sociedade se adquire. Em meu irmo faltava-lhe o relevo de estilo, que
se lapida ao tracto dos maus e dos bons. Bem sabes Carlos, que te digo
uma verdade, sem pretenes de _bas-bleu_, que  de todas as miserias a
mais lastimosa miseria das mulheres cultivadas.

Vasco retirou-se, e eu quizera antes que elle se no retirasse.

Disse-me meu irmo que aquelle rapaz era uma intelligencia superior,
mas depravada pelos maus costumes. A razo porque elle viera a nossa
casa era muito simples; encarregara-o seu pai de fallar com meu irmo a
respeito da remisso d'uns fros.

Vasco passou n'esse dia por debaixo das minhas janellas: fixou-me,
cortejou-me, corei, e no me atrevi a seguil-o com os olhos, mas segui-o
com o corao. Que suprema miseria, Carlos! Que renuncia to impensada
faz uma mulher da sua tranquillidade!

Voltou um quarto d'hora depois: retirei-me, sem querer mostrar-lhe que
o percebia; fiz-me distrahida, por entre as cortinas, a contemplar a
marcha das nuvens, e das nuvens descia um olhar precipitado sobre
aquelle _indifferente_ que me fazia crar e soffrer. Viu-me,
adivinhou-me, talvez, e cortejou-me ainda. Eu vi o gesto da cortezia,
mas fingi-me, e no lhe correspondi. Foi isto um heroismo, no 
verdade? Seria; mas eu tive remorsos, apenas elle desapparecera, de o
tratar to grosseiramente.

Demorei-me n'estas puerilidades, meu amigo, porque no ha nada mais
grato para ns que a recordao dos ultimos instantes de ventura a que
se prendem os primeiros instantes da desgraa.

Aquellas linhas fastidiosas so a historia da minha transfigurao. Ahi
principia a longa noite da minha vida.

Nos dias immediatos, a horas certas, vi sempre este homem. Concebi os
perigos da minha fraqueza, e quiz ser forte. Resolvi no vl-o mais:
revesti-me d'um orgulho digno da minha immodesta superioridade s outras
mulheres: sustentei este caracter dous dias; e, ao terceiro, era fraca
como todas as outras.

Eu j no podia divorciar-me da imagem d'aquelle homem, d'aquellas
nupcias infelizes, que meu corao contrahira. O meu instincto no era
mau; porque a educao tinha sido boa; e, no obstante a humildade
constante com que sempre sujeitei a minha mi os meus innocentissimos
desejos, senti-me ento, com magoa minha, rebelde, e capaz de conspirar
contra a minha familia.

A frequente repetio dos passeios de Vasco no podia ser indifferente
a meu irmo. Fui suavemente interrogada por minha mi, a tal respeito, e
respondi-lhe com respeito, mas sem temor. Meu irmo presentiu a
necessidade de matar aquella inclinao nascente, e expoz-me um quadro
feio dos costumes pessimos de Vasco, e o conceito publico em que era
tido o primeiro homem a quem eu to francamente me offerecia em namoro.
Fui altiva com meu irmo, e adverti-lhe que os nossos coraes no
tinham contrahido a obrigao de se consultarem.

Meu irmo soffreu; eu tambem soffri; e, passado o momento da exaltao,
quiz cerrar a ferida que abrira n'aquelle corao, desde a infancia,
identificado com as minhas vontades.

Este sentimento era nobre; mas o do amor era inferior. Se eu podesse
reconcial-os ambos! No podia, nem sabia fazel-o! Uma mulher, quando
principia a sua dolorosa tarefa do amor, no sabe mentir com
apparencias, nem calcula os prejuizos que pde evitar com uma pouca de
impostura. Eu fui assim. Deixei-me hir abandonada  correnteza, da minha
inclinao; e, quando forcejei por me tornar, tranquilla,  iseno da
minha alma, no pude vencer a corrente.

Vasco de Seabra perseguia-me: as cartas eram incessantes, e a grande
paixo que ellas exprimiam no era ainda igual  paixo que me faziam.

Meu irmo quiz tirar-me de Lisboa, e minha mi instava pela sahida, ou
pela minha entrada a toda a pressa nas Silesias. Informei Vasco das
intenes de minha familia.

No mesmo dia, este homem, que me pareceu um cavalheiro digno d'outra
sociedade, entrou em minha casa, pediu-me urbanamente a minha mi, e foi
urbanamente repellido. Eu sube-o, e torturei-me! No sei do que seria
ento capaz a minha alma offendida! Sei que foi capaz de tudo que pde
caber em foras d'uma mulher, contrariada nas ambies que nutrira,
sosinha comsigo, e conjurada a perder-se por ellas.

Vasco irritado d'um nobre estimulo, escreveu-me, como quem me pedia a
mim a satisfao dos despresos de minha familia. Respondi-lhe que lh'a
dava plena, como elle a exigisse. Disse-me que fugisse de casa, pela
porta da deshonra, e muito cedo entraria n'ella com a minha honra
illibada. Que desgraa! n'aquelle tempo at as pompas do estilo me
seduziam!... Respondi que sim, e cumpri.

Meu amigo Carlos. Vai longa a carta, e a paciencia  curta. At ao
correio que vem.

                                                 _Henriqueta_.


VI.


Carlos relra com sofrega anciedade, a singela expanso d'uma alma que,
talvez, nunca se abrira, se a no rasgasse o espinho d'um martyrio
surdo. Henriqueta no escrevia assim uma carta a um homem, que podesse
consolal-a. Afeita a gemer no silencio, e na solido, tornava-se como
egoista das suas dres, e suppunha que divulgal-as era esfolhar a mais
bella flr da sua cora de martyr. Escreveu, porque a sua carta era um
mytho de segredo e publicidade; porque a sua afflico no rastejava
pelos queixumes lamuriantes e triviaes d'um grande numero de mulheres,
que no choram nunca a viuvez do corao, e lastimam sempre a demora das
segundas nupcias; escreveu em fim, porque a sua dr, sem deshonrar-se
com uma publicidade esteril, interessava um corao, esposava uma
sympathia, um soffrimento simultaneo, e, quem sabe mesmo, se uma nobre
admirao! Ha mulheres vaidosas--deixem-me assim dizer--da fidalguia do
seu soffrer. Risonhas para o mundo,  muito sublime aquella angustia
represada que s pde extravasar os sobejos do seu fel em uma carta
anonyma. Lagrimosas para si, e fechadas no circulo estreito, que a
sociedade lhes traa com o compasso inexoravel das conveniencias, essas
sim, so duas vezes anjos despenhados!

Quem podesse receber na taa de suas lagrimas algumas, que ahi se
choram, e que a opulencia material no enxuga, experimentaria
consolaes d'um sabor novo. O padecimento, que se esconde, impe o
respeito religioso do augusto mysterio d'esta religio universal,
symbolisada pelo soffrimento commum. O homem, que podesse verter uma
gota de orvalho na aridez d'algum corao, seria o sacerdote
providencial no tabernaculo d'um espirito superior, que velasse a vida
da terra para que tamanhas agonias no fossem estereis na vida do co.
No ha na terra mais gloriosa misso!

Carlos por tanto, sentiu-se feliz d'este orgulho santo que ennobrece a
consciencia do homem que recebe o privilegio d'uma confidencia. Esta
mulher, dizia elle,  para mim um ente quasi phantastico. Allivios quaes
so os que eu posso dar-lhe?... Nem ao menos escrever-lhe!... E ella...
em que far consistir o seu prazer?! Deus o sabe! Quem pde explicar, e
mesmo explicar-se a singularidade d'um proceder, s vezes, inconcebivel?
...........................................................................

No correio proximo, recebeu Carlos a segunda carta de Henriqueta:

Que imaginaste, Carlos, depois da leitura da minha carta? Adivinhaste o
resto, com prestesa natural. Recordaste mil aventuras d'este genero, e
amoldaste a minha historia s legitimas consequencias de todas as
aventuras. Julgaste-me abandonada pelo homem, com quem fugira, e
chamaste a isto, talvez, uma deduco contida nos principios.

Pensaste bem, amigo, a logica da desgraa  essa, e o contrario dos
teus juizos  o que se chama sophisma, porque eu estou em pensar que a
virtude  o absurdo da logica dos factos,  a heresia da religio das
sociedades,  a aberrao monstruosa das leis, que regem o destino do
mundo. Achas-me metaphysica de mais? No te impacientes. A dr
refugia-se nas abstraces, e encontra melhor pabulo na Loucura de
Erasmo, que nas sisudas deduces de Montesquieu.

Minha mi estava reservada para uma grande provao! Amparou-a Deus
n'aquelle golpe, e permittiu-lhe uma energia que no era de esperar.
Vasco de Seabra bateu s portas de todas as igrejas de Lisboa, para me
apresentar, como sua mulher, ao cura da freguezia, e achou-as fechadas.
Eramos perseguidos, e Vasco no contava com a sua superioridade sobre
meu irmo, que lhe fizera certa e infallivel a morte, onde quer que a
fortuna lh'o deparasse.

Fugimos de Lisboa para Hespanha. Um dia entrou Vasco, alvoroado,
pallido, e febril d'aquella febre de medo, que, realmente, era, at
ento, a unica face prosaica do meu amante. Emmulamos a toda a pressa, e
partimos para Londres.  que Vasco de Seabra vira meu irmo em Madrid.

Vivemos em um bairro retirado de Londres. Vasco tranquillisou-se,
porque lhe afianaram de Lisboa a volta de meu irmo, que perdera as
esperanas de encontrar-me.

Se me perguntas como era a vida intima d'estes dous fugitivos, aos
quaes no faltava condio alguma das aventuras romanticas d'um rapto,
dir-t'a-hei em poucas linhas.

O primeiro mez das nossas nupcias de emboscada foi um sonho, uma febre,
uma anarchia de sensaes que, levadas ao extremo do goso, pareciam
tocar as raias do soffrimento. Vasco parecia-me um Deus, com as
seductoras fraquezas d'um homem; queimava-me com o seu fogo,
divinisava-me com o seu espirito; levava-me de mundo em mundo  regio
dos anjos onde a vida deve ser o extasis, o arrobamento, a alienao com
que a minha alma se derramava nas sensaes ardentissimas d'aquelle
homem.

No segundo mez, Vasco de Seabra disse-me pela primeira vez que era
muito meu amigo. O corao pulsava-lhe vagaroso, os olhos no faiscavam
electricidade, os sorrisos eram frios... os meus beijos j os no
aqueciam n'aquelles labios! Sinto por ti uma sincera estima. Quando
isto se diz, depois d'um amor vertiginoso, que no sabe as phrases
triviaes, a paixo est morta. E estava...

Depois, Carlos, fallavamos em litteratura, analysavamos as operas,
discutiamos o merito dos romances, e viviamos em academia permanente,
quando Vasco me no deixava quatro, cinco, e seis horas entregue s
minhas innocentes recreaes scientificas.

Vasco canara-se de mim. A consciencia affirmou-me esta verdade atroz.
Suffoquei a indignao, as lagrimas, e os gemidos. Soffri sem limites.
Abrasou-se-me na alma um inferno que me coava fogo nas vas. No houve
nunca mulher assim desgraada!

E vivemos assim dezoito mezes. A palavra casamento foi banida de
nossas curtas conversaes... Vasco desquitava-se de compromissos, que
elle chamava parvos. Eu mesma, de bom grado, o remia de ser o meu
escravo, como elle intitulava o nescio, que se deixava algemar s
obscuras supersties do setimo sacramento... Foi ahi que Vasco de
Seabra encontrou a Sophia que te apresentei no real theatro de S. Joo,
na primeira ordem.

Comecei ento a pensar em minha mi, em meu irmo, na minha honra, na
minha infancia, na memoria deslustrada de meu pai, na tranquillidade de
minha vida at ao momento em que me atirei  lama e salpiquei com ella a
face da minha familia.

Peguei da penna para escrever a minha mi. Escrevera a primeira
palavra, quando comprehendi o vexame, a degradao, e a villania com que
ousava apresentar-me quella virtuosa senhora, com a face manchada de
nodoas, contagiosas. Repelli com nobreza esta tentao, e desejei
n'aquelle instante, que minha mi me julgasse morta.

Em Londres viviamos n'uma hospedaria, depois que Vasco perdeu o medo a
meu irmo. Viera ahi hospedar-se uma familia portugueza. Era o visconde
do Prado, e sua mulher, e uma filha. O visconde relacionou-se com Vasco,
e a viscondessa e sua filha visitaram-me, tractando-me como irm de
Vasco.

Agora, Carlos, esquece-te de mim, e satisfaz a tua curiosidade na
historia d'esta gente, que j conheceste no camarote da 2.^a ordem.

Mas no posso agora dispor de mim... Sabers, alguma vez, a razo
porque no pude continuar esta carta.

Adeus, at outro dia,

                                                 _Henriqueta_.


VII.


Cumpro religiosamente as minhas promessas. Tu no avalias o sacrificio
que fao. No importa. Como no quero captivar a tua gratido, nem,
mesmo ainda, mover a tua piedade, basta-me a consciencia do que sou para
ti, que  (medita bem) o mais que posso ser...

A historia... no  assim? Principia agora.

Antonio Alves era um pobre amanuense do escriptorio de um tabellio de
Lisboa. Casou, e reuniu ao infortunio de casar a desgraa de ser pai. O
tabellio morreu, e Antonio Alves, privado dos escassos lucros de
amanuense, luctou com a fome. A mulher por um lado com a filhinha ao
collo, e elle pelo outro com as lagrimas da indigencia, conseguiram
algumas moedas, e com ellas a passagem do pobre marido para o Rio de
Janeiro.

Foi, e deixou entregues  Providencia a mulher e a filha.

Josepha esperava todos os dias carta de seu marido. Nem carta, nem um
indicio da sua existencia. Julgou-se viuva, vestiu-se de preto, e viveu
de esmolas, pedidas  noite na _praa do Rocio_.

A filha chamava-se Laura, e crescera bella, no obstante as angustias
da fome, que transformam a formosura do bero.

Aos quinze annos de Laura, j sua mi no mendigava. A deshonra
proporcionara-lhe abundancia que uma honrosa mendicidade lhe no dera.
Laura era amante d'um rico, que cumpria fielmente com a mi as
condicionaes estipuladas na escriptura de venda da filha.

Um anno depois, Laura explorava outra mina. Josepha no soffria com as
vicissitudes da filha, e continuava a gosar os fins da vida  sombra de
to fecunda arvore.

A indigencia, e a sociedade fizeram-lhe comprehender que s ha deshonra
na fome e na nudez.

Outro anno depois, a radiosa Laura declarou-se o premio do cavalleiro,
que mais airoso entrasse no torneio.

Concorreram muitos gladiadores, e parece que todos foram premiados,
porque todos esgrimiam galhardamente.

Desgraa foi para Laura, quando os melhores campees se retiraram
fatigados da lia. Os que vieram depois eram bisonhos no jogo das armas,
e viram que a dama das justas j no valia a pena de perigosos botes de
lana, e de arreios muito custosos de pedraria e ouro.

Pobre Laura, apeada do seu pedestal, olhou-se a um espelho, viu-se
ainda bella com vinte e cinco annos, e perguntou  sua consciencia a
baixa do preo com que corria no leilo de mulheres. A consciencia
respondeu-lhe que descesse da altura das suas ambies, que viesse para
onde a chamava a logica da sua vida, e continuaria a ser rainha n'um
reino de segunda ordem, j que a exauthoravam d'um throno que tivera na
primeira.

Laura desceu, e encontrou uma sociedade nova. Acclamaram-na soberana,
reuniu-se uma crte tumultuosa na ante-camara d'esta odalisca facil, e
no houve grande nem pequeno a quem se baixassem os reposteiros do
throno.

Laura viu-se um dia abandonada. Viera uma outra disputar-lhe a sua
legitimidade. Os cortezos voltaram-se para o sol nascente, e
apedrejaram, como os incas, o astro que se escondia para alumiar os
antipodas d'um outro mundo.

Os antipodas d'um outro mundo eram uma sociedade inculta, sem a
intelligencia da arte, sem o culto  formosura, sem as opulencias que o
ouro cria nas altas regies da civilisao, e, finalmente, sem algum dos
attributos, que Laura amra tanto nos mundos, onde fra soberana duas
vezes.

A infeliz tinha descido ao derradeiro grau de aviltamento; mas era
bella ainda. Sua mi, enferma n'um hospital, pedia a Deus, como esmola,
a sua morte. A desgraada foi punida.

No hospital, viu passar sua filha diante do seu leito; pediu que a
deitassem ao p de si; o enfermeiro riu-se; e entrou com ella n'outra
enfermaria, onde o anjo do pudor e o das lagrimas cobriam o rosto na
presena da ulcera mais esqualida, e mais lastimosa do genero humano.

Laura principiava a sondar a profundidade do abysmo em que cahira.

Sua mi recordava as fomes d'outro tempo, quando sua filha, virgem
ainda, chorava e supplicava, com ella, uma esmola ao passageiro.

As privaes de ento eram semelhantes, s privaes de agora, com a
differena, porm, que a Laura de hoje, deshonrada e repelida, no podia
j prometter o futuro da Laura de ento.

Agora, Carlos, vejamos o que  o mundo, e pasmemos diante das evolues
gymnasticas dos acontecimentos.

Apparece em Lisboa um capitalista, que chama a atteno dos
capitalistas, a considerao do governo, e, por via de regra, desafia
inimisades politicas, e invejas, que procuram o seu principio de vida
para denegrir-lhe o luzimento da sua affrontosa opulencia.

Este homem compra uma quinta na provincia do Minho, e, mais barato
ainda, compra o titulo de visconde do Prado.

Um jornal de Lisboa, que traz entre os dentes venenosos da politica o
pobre visconde, escreve um dia um artigo, onde se acham, entre muitas,
as seguintes alluses:

O snr. visconde do Prado adscreveu  immoralidade do governo a
immoralidade da sua fortuna. Como ella foi adquirida, dil-o-hiam as
costas d'Africa se os sertes contassem os horrorosos dramas da
escravatura, em que o snr. visconde foi heroe.
...........................................................................

O snr. visconde do Prado era Antonio Alves ha 26 annos, e a pobre
mulher que deixou em Portugal, com uma tenra filhinha ao collo, ninguem
dir em que rua morreu de fome sobre as lages, ou em que agua-furtada
curtiram ambas as agonias da fome, em quanto o snr. visconde medrava
cynicamente na hydropisia do ouro, com que hoje vem arrotar moralidades
no theatro das suas infamias de esposo e de pai................

Melhor fra que o snr. visconde indagasse onde repousam os ossos de sua
mulher, e de sua filha, e nos pozesse ahi um padro de marmore, que
possa attestar ao menos o remorso d'um infame contricto...

Este insulto directo, e fundamentado, ao visconde do Prado, fez ruido
em Lisboa. As edies do jornal espalharam-se, e leram-se, e
commentaram-se com frenetica maldade.

s mos de Laura chegou este jornal. Sua mi, ouvindo ll-o, delirou. A
filha cuidou que sonhava; e a situao de ambas perderia muito se eu
tentasse roubar-lhe as cres vigorosas da tua imaginao.

No dia seguinte, Josepha e Laura entravam no palacete do visconde do
Prado. O porteiro respondeu que s. exc.^a no estava ainda a p.
Esperaram. s 11 horas sahia o visconde, e, ao saltar para a carruagem,
viu duas mulheres que se aproximavam. Metteu a mo ao bolso do collete,
e tirou doze vintens que lanava na mo de uma das duas mulheres. Olhou
admirado para ellas, quando viu que a esmola lhe era recusada.

--Que querem?--interrogou elle, com soberba indignao.

--Quero vr meu marido que no vejo, ha 26 annos...--respondeu Josepha.

O visconde estacou ferido d'um raio. O suor gotejava-lhe na testa em
bagas frias. Laura aproximou-se, em attitude de beijar-lhe a mo...

--Pois que?...--interpellou o visconde.

--Sou sua filha...--respondeu Laura com humildoso respeito.

O visconde, aturdido e parvo, voltou as costas  carruagem, e mandou s
duas mulheres que o seguissem.

O resto no correio seguinte.--Adeus, Carlos.

                                                 _Henriqueta_.


VIII.


Carlos, tenho quasi tocado a extrema d'esta minha peregrinao. A minha
illiada est no ultimo canto. Quero dizer-te que  esta a minha
penultima carta.

No sou to independente como pensava. A no serem os poetas, ninguem
gosta de contar as suas magoas ao vento.  bello dizer-se, que um gemido
nas azas da brisa vai da terra em dorido suspirar at ao cro dos anjos.
 bonito conversar com a fonte suspirosa, e contar  avesinha gemedra
os segredos do nosso penar. Tudo isto  delicioso d'uma puerilidade
inoffensiva; mas eu, Carlos, no tenho alma para estas cousas, nem
engenho para estes artificios.

Vou contando as minhas penas a um homem, que no pde zombar de minhas
lagrimas, sem trahir a generosidade do seu corao, e a sensibilidade do
talento Sabes qual  o meu egoismo, o meu estipendio n'este trabalho,
n'esta franqueza d'alma, que ninguem te pde disputar como unico em
merecl-a? Eu te digo. Quero uma carta tua, dirigida a Angelica
Michaela. Diz-me o que a tua alma te disse; no tenhas pejo em
denuncial-a; associa-te um momento  minha dr, e dize-me o que farias
se tivesses sido Henriqueta.

Aqui tens o prologo d'esta carta: agora vamos espreitar o lance
extraordinario d'aquelle encontro, em que deixamos o visconde e a...
como hei-de chamar-lhe?... a viscondessa, e sua exc.^{ma} filha D.
Laura.

--Pois  possivel existires?--perguntava o visconde, sinceramente
admirado, a sua mulher.

--Pois no me conheces, Antonio?--respondia ella com estupida
naturalidade.

--Tinham-me dito que morreras...--tornou elle com desazada
hypocrisia--tinham-me dito, ha dezesete annos, que tu e a nossa filha
tinheis sido victimas da cholera-morbus...

--Felizmente que lhe mentiram--interrompeu Laura com affectada
meiguice.--Ns  que lhe tinhamos resado por alma, e nunca deixamos de
pronunciar o seu nome sem saudosas lagrimas.

--Como tendes vivido?--perguntou o visconde.

--Pobre, mas honradamente--respondeu Josepha, dando-se uns ares
austeros, e pondo os olhos em branco, como quem invoca o co por
testemunha.

--Ainda bem!--tornou o visconde--mas que modo de vida tem sido o vosso?

--O trabalho, meu querido Antonio, o trabalho de nossa filha tem sido o
amparo da sua honra, e da minha velhice. Tu abandonaste-nos com tamanha
crueldade!... Que mal te fizemos ns?

--Nenhum, mas no vos disse eu que vos considerava mortas?--respondeu o
visconde a sua mulher, que tivera a habilidade de arrancar duas
volumosas lagrimas, tanto a proposito.

--O passado, passado--disse Laura, afagando carinhosamente as mos
paternas, e dando-se uns ares de innocencia capazes de illudir S. Simo
Stylita.--Quer o pai saber (proseguiu ella com sentimento) qual tem sido
a minha vida? Olhe, meu pai, no se envergonhe da posio social em que
encontra sua filha... Tenho sido modista, tenho trabalhado
incessantemente... tenho luctado com as tentaes da penuria, e tenho
feito consistir em minhas lagrimas o meu triumpho...

--Bem, minha filha--interrompeu o visconde com sincera
contrio--esqueamos o passado.... D'hora em diante ser a abundancia a
premio da tua virtude... Ora diz-me: o mundo sabe que tu s minha
filha?... disseste a alguem que eu era teu marido, Josepha?

--No, meu pai.--No meu Antoninho.--Responderam ambas, como se
tivessem previsto e calculado as perguntas e as respostas.

--Pois bem--continuou o visconde--vamos a conciliar com o mundo as
nossas posies presentes, passadas e futuras. D'hora vante, Laura, s
minha filha, s filha do visconde do Prado, e no pdes chamar-te Laura.
Sers Elisa, comprehendes-me?  necessario que te chames Elisa...

--Sim, meu pai... eu serei Elisa--atalhou a _innocente modista_ com
impetuosa alegria.

-- necessario abandonar Lisboa--proseguiu o visconde.

--Sim, sim, meu pai... vivamos num serto... quero gosar, sosinha, na
presena de Deus a felicidade de ter pai...

--No hiremos para um serto... vamos para Londres; mas...
attendam-me...  preciso que ninguem as veja, n'estes primeiros annos,
principalmente em Lisboa... A minha posio actual  muito melindrosa.
Tenho muitos inimigos, muitos invejosos, muitos infames, que procuram
perder-me no conceito que pude comprar com o meu dinheiro. Estou farto
de Lisboa; partiremos no primeiro paquete... Josepha, repara em ti, e v
que s a viscondessa do Prado. Elisa, a tua educao foi desgraadamente
mesquinha para te poderes mostrar qual eu quero que sejas na alta
sociedade. Voltaremos um dia, e ters ento supprido com a educao
pratica a rudeza que indispensavelmente tens.

No progrido, n'este dialogo, Carlos. O programma do visconde foi
rigorosamente cumprido.

Aqui tens os precedentes que prepararam o meu encontro, em Londres, com
esta familia. Vasco de Seabra, quando viu, pela primeira vez, a filha do
visconde atravessar um corredor do hotel, fixou-a com pasmo, e veio
dizer-me que acabava de vr, elegantemente trajada, uma mulher que
conhecera em Lisboa, chamada Laura. Acrescentou varias circumstancias da
vida d'esta mulher, e acabou por mostrar vivos desejos de saber o tolo
opulento, a quem tal mulher estava associada.

Vasco pediu a lista dos hospedes, e viu que os unicos portuguezes eram
Vasco de Seabra e _sua irm_, e o visconde do Prado, a sua mulher, e sua
filha D. Elisa Pimentel.

Redobrou o seu pasmo, e chegou a convencer-se d'uma illuso.

No seguinte dia, o visconde encontrou-se com Vasco, e alegrou-se de ter
encontrado um patricio, que lhe explicasse aquelles gritos barbaros dos
serventes do hotel, que lhe davam agua por vinho. Vasco no duvidou em
ser interprete do visconde, com tanto que as suas luzes em lingua
ingleza podessem chegar ao escondrijo d'onde nunca mais vira sahir a
supposta Laura.

Correram as cousas  medida do seu desejo. Na noite d'esse dia, fomos
convidados para tomar ch, na saleta do visconde. Eu hesitei, sem saber
ainda se Laura seria familiar do visconde. Vasco, porm, despreveniu-me
d'este temor, afianando-me que se tinha illudido com a semelhana das
duas mulheres.

Fui. Elisa pareceu-me uma menina bem educada. Nunca o artificio tirou
maior partido das maneiras adquiridas em habitos libertinos. Elisa era a
mulher de crte, com os ademans fascinadores dos sales, onde a
immoralidade do corao passeia de brao dado com a illustrao do
espirito. O som da palavra, a escolha da phrase, a compostura airosa da
mimica, o tom sublime em que as suas idas eram voluptuosamente lanadas
na torrente de uma conversao animada, tudo isto me fez crr que Laura
era a primeira mulher que eu tinha encontrado, talhada  feio do meu
espirito.

Quando agora pergunto  minha consciencia como estas transies se
fazem, descreio da educao, lamento os annos consumidos no cultivo da
intelligencia, e chego a persuadir-me que a escla da devassido  a
ante-camara por onde mais facil se entra no mundo da graa e da
civilisao.

Perda-me o absurdo, Carlos; mas ha mysterios na vida, que s pelo
absurdo se explicam.

                                                 _Henriqueta_.


IX.


Li a tua carta, Carlos, com os olhos cheios de lagrimas, e o corao de
reconhecimento. No esperava tanto da tua sensibilidade. Fiz-te a
injustia de te julgar infeccionado d'este marasmo de egoismo que
entorpece o espirito, e calcina o corao. E, de mais, suppunha-te
insensivel pelo facto de seres intelligente. Eis-aqui um disparate, que
eu no ousaria balbuciar na presena do mundo. O que vale  que as
minhas cartas no sero lidas pelas mediocridades, que se acham em
concilio permanente para condemnar, em nome de no sei que tolas
conveniencias, as heresias do genio.

Deixa-me dizer-te francamente o juizo que eu frmo do homem
transcendente em genio, em estro, em fogo, em originalidade, finalmente
em tudo isso que se inveja, que se ama, e que se detesta, muitas vezes.

O homem de talento  sempre um mau homem. Alguns conheo eu que o mundo
proclama virtuosos, e sabios. Deixal-os proclamar. O talento no  a
sabedoria. Sabedoria  o trabalho incessante do espirito sobre a
sciencia. O talento  a vibrao convulsiva do espirito, a originalidade
inventiva e rebelde  authoridade, a viagem extatica pelas regies
incognitas da ida. Santo Agostinho, Fenelon, Madame de Stael, e Bentham
so sabedorias. Luthero, Ninon de Lencls, Voltaire e Byron so
talentos. Compara as vicissitudes d'essas duas mulheres, e os servios
prestados  humanidade por esses homens, e ters encontrado o
antagonismo social em que luctam o talento com a sabedoria.

Porque  mau o homem de talento? Essa bella flr porque tem no seio um
espinho envenenado? Essa esplendida taa de brilhantes e ouro porque 
que contem o fel, que abrasa os labios de quem a toca?

Aqui tens um thema para trabalhos superiores  cabea d'uma mulher,
ainda mesmo reforada por duas duzias de cabeas academicas!

Lembra-me ouvir dizer a um doudo que soffria por ter talento. Pedi-lhe
as circumstancias do seu martyrio sublime, e respondeu-me o seguinte com
a mais profunda convico, e a mais tocante solemnidade philosophica: Os
talentos so raros, e os estupidos so muitos. Os estupidos guerream
barbaramente o talento: so os vandalos do mundo espiritual. O talento
no tem partido n'esta peleja desigual. Foge, dispara na retirada um
tiroteio de sarcasmos pungentes, e, por fim, isola-se, segrega-se do
contacto do mundo, e curte em silencio aquelle fel de vingana, que,
mais cedo ou mais tarde, cospe na cara d'algum inimigo, que encontra
desviado do corpo do exercito.

Ahi tem--acrescentou elle--a razo porque o homem de talento  perigoso
na sociedade. O odio inspira-lhe a eloquencia da traio. A mulher, que
lhe ouve o astucioso hymno das suas apaixonadas lamurias, acredita-o,
abandona-se, perde-se, e retira-se, por fim, gritando contra o seu
algoz, e pedindo  sociedade que grite com ella.

Agora, diz-me tu, Carlos, at que ponto devemos acreditar este doudo.
Eu por mim no me satisfao com o seu systema, todavia sinto-me propensa
a aperfeioar o prisma do doudo, at encontrar as cres inalteraveis do
juizo.

Seja o que fr, eu creio que s uma excepo e no soffra com isto a
tua modestia. A tua carta fez-me chorar, e acredito que soffrias,
escrevendo-a. Has-de continuar a visitar-me espiritualmente na minha
Thebaida, sem cilicios, sim?

Agora conclua-se a historia, que leva seus visos de folhetim
philosophico, moral, social, e no sei que mais por ahi se diz, que no
vale nada.

Contrahi amisade com a filha do visconde do Prado. No era ella, porm,
to intima, que me levasse a declarar-lhe que Vasco de Seabra no era
meu irmo. Por elle me fra imposto, como preceito, o segredo de nossas
relaes. Bem longe estava eu de comprehender este zelo de virtuosa
honestidade, quando a mo d'um demonio me tirou a venda dos olhos.

Vasco amava Laura!! Eu puz dous pontos de admirao, mas acredita que
foi uma urgencia rhetorica, uma composio artistica, que me obrigou a
admirar-me, escrevendo, de cousas que me no admiram, pensando.

Que  o que levou to depressa este homem a aborrecer-me, pobre mulher,
que despresei o mundo, e me despresei a mim propria para satisfazer-lhe
o capricho d'alguns mezes? Foi uma miseria que ainda hoje me envergonha,
supposto que esta vergonha devesse ser um reflexo das faces d'elle...
Vasco amava a filha do visconde do Prado, a _Laura_ d'alguns mezes
antes, porque a Elisa d'hoje era a herdeira de no sei quantos centos de
contos de reis.

Devo envergonhar-me de ter amado este homem, nao  verdade, Carlos? No
devo soffrer um instante a perda d'um miseravel, que eu vejo d'aqui com
uma grilheta d'ouro algemada a uma perna, tapando em vo os ouvidos para
no ouvir-lhe o ruido... a sentena do forado que o segue at ao fim
d'uma existencia farta de opprobrio, e celebre de infamias!

E no soffro, Carlos! Tenho aqui no seio uma ulcera que no tem cura...
choro, porque  intensa a dr que ella me causa... mas, olha, no tenho
lagrimas que no sejam remorsos... no tenho remorsos que no sejam
picados pela affronta que fiz a minha mi, e a meu irmo... No me doe o
meu proprio aviltamento, no! Se em minha alma cabe algum enthusiasmo,
algum desejo,  o enthusiasmo da penitencia,  o desejo de
torturar-me...

Fugi tanto da historia, meu Deus!... Desculpa estes desvios, meu
paciente amigo!... Eu queria correr muito sobre o que me falta, e hei-de
conseguil-o, porque no posso parar, e temo de me converter em estatua,
como a mulher de Loth, quando olho com atteno para o meu passado...

O visconde do Prado convidou Vasco de Seabra a ser seu genro. Vasco no
sei como recebeu o convite; o que eu sei  que os vinculos d'estas
relaes estreitaram-se muito, e Elisa, desde esse dia, expandiu-se
comigo em intimidades do seu passado, todas mentirosas. Estas
intimidades eram o prologo d'outra que tu avaliars. Foi ella a propria
que me disse que esperava ainda poder chamar-me irm! Isto  uma
atrocidade sublime, Carlos! Diante d'essa dr calam-se todas as agonias
possiveis! O insulto no podia ser mais despedaador! O punhal no podia
entrar mais dentro no virtuoso corao da pobre amante de Vasco de
Seabra!... Agora, sim, que eu quero a tua admirao, meu amigo! Tenho
direito  tua compaixo, se no pdes estremecer de enthusiasmo diante
do heroismo d'uma martyr! Ouvi este annuncio dilacerante!... Senti
fugir-me o entendimento... aquella mulher suffocou-me a voz na
garganta... horrorisei-me no sei se d'ella, se d'elle, se de mim... Nem
uma lagrima!... acreditei-me douda... Senti-me estupida d'aquelle
idiotismo pungente que faz chorar os estranhos, que nos vem nos labios
um sorriso de imbecilidade...

Elisa parece que recuou aterrada da expresso da minha physionomia...
Fez-me no sei que perguntas... no me lembro mesmo se aquella mulher
permaneceu diante de mim... Basta!... no posso prolongar esta
situao...

Na tarde d'esse mesmo dia, chamei uma creada da hospedaria. Pedi-lhe
que me vendesse algumas joias de pouco valor que eu possuia; eram
minhas; minhas no... eram um roubo que eu fiz a minha mi.

Na manh do dia seguinte, quando Vasco, depois de almoo, visitava o
visconde do Prado, escrevi estas linhas:

Vasco de Seabra no pde gloriar-se de ter deshonrado Henriqueta de
Lencastre. Esta mulher sentia-se digna d'uma cora de virgem, virgem do
corao, virgem na sua honra, quando abandonava um villo, que no pde
infectar da sua infamia o corao da mulher, que arrastou ao abysmo da
sua lama, sem lhe salpicar a cara. Foi a Providencia que a salvou!

Deixei este escripto sobre as luvas de Vasco, e fui  estao dos
caminhos de ferro.

Dous dias depois entrava n'um paquete.

Ao vr a minha patria, cobri o rosto com as mos, e chorei... Era a
vergonha e o remorso. Diante do Porto senti uma inspirao do co.
Saltei n'uma catraia, e pouco depois achava-me n'esta terra, sem um
conhecimento, sem um apoio, e sem subsistencia para muitos dias.

Entrei em casa d'uma modista, e pedi obra. No m'a negou. Aluguei uma
agua-furtada, onde trabalho ha quatro annos; onde, ha quatro annos,
comprimo bem aos rins, segundo a linguagem antiga, os cilicios do meu
remorso.

Minha mi e meu irmo vivem. Julgam-me morta, e eu peo a Deus que no
haja um indicio da minha vida. S-me tu fiel, meu generoso amigo, no me
denuncies, pela tua honra, e pela sorte de tuas irms.

Tu sabes o resto. Ouviste, no theatro, Elisa. Foi ella a que disse que
seu marido a abandonra, chamando-lhe _Laura_. Aquella est punida...

Sophia... (lembras-te de Sophia?) essa  uma pequena aventura, que
aproveitei para tornar menos insipidas aquellas horas, em que me
acompanhaste... Foi uma rival que no honra ninguem... uma _Laura_ com
os respeitos publicos, e as consideraes que se barateiam a corpos
ulcerosos, com tanto que se vistam de veludos matizados. Ainda eu era
feliz, quando o infame amante d'essa mulher me dava aquelle annel, que
viste, como oblao de sacrificio que me fazia d'uma rival...

Escreve-me.

Has-de ouvir-me no proximo carnaval.

Por ultimo, Carlos, deixa-me fazer-te uma pergunta:

No me achas mais defeituosa que o nariz d'aquella andaluza da
historia, que te contei?

                                                 _Henriqueta_.


X.


 natural a exaltao de Carlos, depois de erguido o vo, em que se
escondiam os mysterios de Henriqueta. Alma apaixonada pela poesia do
bello, e pela poesia da desgraa, Carlos no teve nunca impresso na
vida, que mais lhe incendiasse uma paixo!

As cartas a Angela Michaela eram o desafogo do seu amor sem esperana.
Os mais ferventes extasis da sua alma de poeta, imprimiu-os n'aquellas
cartas escriptas, debaixo de uma impresso, que lhe roubava a
tranquilidade do somno, e o refugio d'outros affectos.

Henriqueta respondera concisamente s exploses d'um delirio, que nem
sequer a fazia tremer pelo seu futuro. Henriqueta no podia amar.
Arrancaram-lhe pela raiz a flr do corao. Esterilisaram-lhe a arvore
dos bellos fructos, e envenenaram-lhe de sarcasmo e ironia os instinctos
do carinho brando, que acompanham a mulher at  sepultura.

Carlos no podia supportar uma repulsa nobre. Persuadira-se que havia um
estalo moral para todas. Confiava no seu ascendente, em no sei que
mulheres, entre as quaes lhe no fra penoso nunca fixar o dia do seu
triumpho.

Homens assim, quando encontram um estorvo, apaixonam-se seriamente. O
amor-proprio, angustiado nos apertos d'uma impossibilidade invencivel,
adquire uma nova feio, e converte-se em paixo, como as paixes
primeiras, que nos sopram a tempestade no limpido lago da adolescencia.

Carlos, em ultimo recurso, precisava saber onde morava Henriqueta. No
lance extremo d'um desafogo, hiria elle, audacioso, humilhar-se aos ps
d'aquella mulher, que a no poder amal-o, choraria com elle ao menos.

Estas preciosas futilidades escaldavam-lhe a imaginao, quando lhe
occorreu a astuciosa lembrana de surprehender a morada de Henriqueta
surprehendendo a pessoa que no correio lhe tirava as cartas,
subscriptadas a Angela Michaela.

Conseguido o compromettimento d'um empregado do correio, Carlos empregou
n'esta misso um vigia insuspeito.

No dia de correio, uma velha, mal trajada, pediu a carta n.^o 628. O que
a entregou fez um signal a um homem, que passeava no corredor, e este
homem seguiu de longe a velha at ao campo de Santo Ovidio. Feliz das
vantagens, que lucrra em tal commisso, correu a encontrar-se com
Carlos.  ocioso descrever a precipitao com que o enamorado mancebo,
espiritualisado por algumas libras, correu  indicada casa. Em honra de
Carlos,  necessario dizer que aquellas libras representavam a
eloquencia com que elle tentaria mover a velha em seu favor, por isso
que,  vista das informaes que tivera da pobreza da casa, concluiu que
no era alli a residencia de Henriqueta.

Acertou.

A confidente de Henriqueta fechava a porta da sua baiuca, quando Carlos
se aproximou, e muito urbanamente lhe pediu licena para dizer-lhe duas
palavras.

A velha, que no podia receiar alguma aggresso traioeira aos seus
virtuosos oitenta annos, franqueou os umbraes da sua possilga, e prestou
ao seu hospede a cadeira unica do seu camarim de tecto de vigas, e
pavimento de lages.

Carlos principiou como devia o seu ataque. Lembrado da chave com que
Bernardes manda fechar os sonetos, applicou-a  abertura da prosa, e
conheceu de prompto as vantagens de ser classico, quando convm. A
velha, quando viu cahir no regao duas libras, sentiu o que nunca
sentira a mais carinhosa das mes, com dous filhinhos no collo.
Luziram-lhe os olhos, e danaram-lhe os nervos em todas as evolues dos
seus vinte e cinco annos.

Feito isto, Carlos precisou a sua misso nos seguintes termos:

Esse pequeno donativo, que lhe fao, ha-de ser repetido, se vm.^{ce} me
fizer um grande servio, que pde fazer-me. Vm.^{ce} recebeu, ha pouco,
uma carta, e vai entregal-a a uma pessoa, cuja felicidade est nas
minhas mos. Estou certo que vm.^{ce} no ha-de querer occultar-me a
morada d'essa senhora, e prival-a de ser feliz. O servio que tenho a
pedir-lhe, e a pagar-lhe bem,  este; pde fazer-m'o?

A fragil mulher, que no se sentia bastante heroina para hir de encontro
 legenda, que D. Joo V. fez gravar nos cruzados, deixou-se vencer, com
mais algumas reflexes e denunciou o santo asylo das lagrimas de
Henriqueta, segunda vez atraioada por uma mulher, fragil  tentao do
ouro, que lhe roubra um amante, e vem agora devassar-lhe o seu sagrado
refugio.

Poucas horas depois, Carlos entrava em uma casa da _rua dos Pelames_,
subia a um terceiro andar, e batia a uma porta, que lhe no foi aberta.
Esperou. Momentos depois, subia um rapaz com uma caixa de chapo de
senhora: bateu; perguntaram de dentro quem era, o rapaz fallou, e a
porta foi immediatamente aberta.

Henriqueta estava sem domin na presena de Carlos.

Foi sublime esta appario. A mulher, que Carlos viu, no saberemos ns
pintal-a. Era o original d'essas esplendidas illuminuras, que o pincel
do seculo XVI fazia saltar da tla, e consagrava a Deus, denominando-as
Magdalena, Maria Egypsiaca, e Margarida de Corthona.

O homem  fraco, e sente-se mesquinho perante a magestade da belleza!
Carlos sentiu-se dobrar nos joelhos; e a primeira palavra, que balbuciou
foi perdo!

Henriqueta no pde receber com a firmesa, que devia suppor-se-lhe, uma
tal surpreza. Sentou-se e limpou o suor que lhe correra de improviso
todo o corpo.

A coragem de Carlos desmereceu do muito em que elle a tinha. Succumbiu,
e nem, ao menos lhe deixou o dom dos lugares communs. Silenciosos,
olhavam-se com uma simplicidade infantil, indigna de ambos. Henriqueta
revolvia no pensamento a industria com que o seu segredo fra violado.
Carlos invocava ao corao palavras que o salvassem d'aquella crise, que
o materialisava por ter tocado o extremo do espiritualismo.

No nos faremos cargo de satisfazer as despoticas exigencias do leitor,
que pede contas das interjeies, e das reticencias d'um dialogo.

O que podemos garantir-lhe, debaixo da nossa palavra de folhetinista, 
que a musa das lamentaes desceu  invocao de Carlos, que, por fim,
desenvolveu toda a eloquencia da paixo. Henriqueta ouviu-o com a
seriedade com que uma rainha absoluta escuta um ministro da fazenda, que
lhe conta os chatissismos e massudos negocios das finanas.

Sorria-se, s vezes, e respondia com um resaibo de magoa e de
resentimento, que matava, no nascedouro, os transportes do seu infeliz
amante.

As suas ultimas palavras, essas sim, so dignas de se archivarem para
escarmento d'aquelles que se julgam herdeiros dos raios de Jupiter
Olympico, quando se empavonam de fulminar as mulheres, que tiveram a
desventura de se queimarem, como as mariposas, no lume electrico de seus
olhos. Foram estas as suas palavras:

Snr. Carlos! At hoje os nossos espiritos viveram ligados por umas
nupcias, que eu pensei no perturbarem a nossa cara tranquillidade, nem
escandalisarem a caprichosa opinio publica. D'hora em diante, um
solemne divorcio entre os nossos espiritos. Estou punida de mais. Fui
fraca e talvez m, em prender-lhe a sua atteno n'um baile mascarado.
Perdoe-me, que sou, por isso, mais desgraada do que pensa. Seja meu
amigo. No me envenene esta santa obscuridade, este circulo estreito da
minha vida, em que a mo de Deus tem derramado algumas flres. Se no
pde avaliar o travo das minhas lagrimas, respeite cavalheiramente uma
mulher, que lhe pede com as mos erguidas o favor, a piedade de a deixar
ssinha com o segredo da sua deshonra; que eu prometto nunca mais
alargar a minha alma n'estas revelaes, que morreriam comigo, se eu
podesse suspeitar que attrahia com ellas a minha desgraa...

Henriqueta continuava, quando Carlos, com lagrimas d'uma dr sincera,
lhe pedia ao menos a sua estima, e lhe entregava as suas cartas, debaixo
do sagrado juramento de nunca mais a procurar.

Henriqueta, enthusiasmada pelo pathetico d'esta nobre rogativa, apertou
anciosamente a mo de Carlos, e despediram-se....
...........................................................................
...........................................................................

E nunca mais se viram.

Mas o leitor tem direito a saber mais alguma cousa.

Carlos, um mez depois, partiu para Lisboa, colheu as necessarias
informaes, e entrou em casa da mi de Henriqueta. Uma senhora, vestida
de lucto, e encostada a duas creadas, veio encontral-o n'uma sala.

--No tenho a honra de conhecer...--disse a mi de Henriqueta.

--Sou um amigo...

--De meu filho?!...--interrompeu ella--Vem-me dar parte do triste
acontecimento?... Eu j o sei!... Meu filho  um assassino!...

E prerompeu n'um choro, que a no deixava articular palavras.

--O filho de v. exc.^a assassino!... interpellou Carlos.

--Sim... sim... pois no sabe que elle matou em Londres o seductor da
minha desgraada filha?!... da minha filha... assassinada por elle...

--Assassinada, sim, mas s na sua honra--atalhou Carlos.

--Pois minha filha vive!... Henriqueta vive!... Oh meu Deus, meu Deus,
eu vos agradeo!...

A pobre senhora ajoelhou, as creadas ajoelharam com ella, e Carlos
sentiu um calefrio nervoso, e uma exaltao religiosa, que quasi o
fizeram ajoelhar com aquelle grupo de mulheres, cobertas de lagrimas....
...........................................................................

Dias depois, Henriqueta era procurada no seu terceiro andar, por seu
irmo, e choravam ambos abraados com toda a expanso d'uma dr
represada.

Houve ahi um drama de agonias grandiosas, que a linguagem do homem no
saber descrever nunca.

Henriqueta abraou sua mi, e entrou n'um convento onde pede
incessantemente a Deus a salvao de Vasco de Seabra.

Carlos  o intimo amigo d'esta familia, e conta este lance da sua vida
como um heroismo digno d'outras pocas.

Laura, viuva de quatro mezes, contrahe segundas nupcias, e vive feliz
com o seu segundo marido, digno d'ella.

Acabou o conto.




DINHEIRO! DINHEIRO!




Contaram-me, ha poucas horas, um episodio da extraordinaria vida d'um
homem, que apenas hoje conta vinte e cinco annos. Quem elle  no o
direi eu, ainda que me faam... eu sei c!? bacharel! Eu bem sei que no
posso encarecer-me com este segredo, porque ha ahi uma boa duzia de
pessoas que o sabem, por triste experiencia, mais miudamente que eu.

Mas o que  mais bonito, e no sei mesmo se mais romantico,  que eu
conheo pelo menos quatro primas-donas, afra as comprimarias, d'esta
partitura, que negam com toda a energia dos seus brios o importante
papel que desempenharam.

Deixal-as negar, que eu tambem no digo quem ellas so, ainda que me
deem o habito de Christo.

Outra cousa:

O muito veridico archivista dos factos, que vo lr-se, pediu-me, por
tudo quanto ha sagrado no folhetim, que no divulgasse, nem por sombras,
o seu nome.

No o direi nunca, ainda que me faam... baro!

E est dito tudo.

Agora, gentis leitoras e eruditos leitores, comea o romance, em nome da
moralidade, do decoro e dos interesses materiaes...




DINHEIRO! DINHEIRO!


I.


Foi assim que principiou o meu illustre amigo:

--Alli onde o vs  um embryo de romances desgrenhados...

Referia-se a um rapaz que passava por debaixo das minhas janellas. Era
uma boa figura, visto pelas costas; mas de frente no se podia
contemplar-lhe o rosto sem recuar... no de medo, mas d'um no sei que
desabrido e repulsivo. E no era feio. Eu por mim, custou-me muito a
sustentar cara firme quando elle me fitava com aquelles olhos negros e
magneticos. Fazia-me medo, palavra d'honra! Depois afiz-me quella
petulancia d'olhar, quelle carregado provocante da sobrancelha, e,
graas a Deus, j me no custa tanto.

Ora ahi est, sem grave impertinencia, traado corporalmente o snr.
Alvaro de Sousa, que passava na minha rua.

--Com que ento (disse eu)  um embryo de romances aquelle senhor?! Bem
me parecia a mim que a vida d'aquelle homem no devia ser symetrica,
pausada, e prosaicamente chata como a minha! Eu nem se quer lhe sei de
nada! Ando c to fra das barreiras da sociedade, e dos dramas
contemporaneos... que nem ao menos sei se a mazurka est no quinto grau
da refinao, ou se as polkas cederam o terreno  restaurao do minuete
da crte... Que miseria!

--No perdes nada, meu caro. Olha que a verdadeira miseria est
escondida no manto de lentejoulas com que esta sociedade desdentada e
trpega se encobre. E, se no, deixa-me lr-te uma pagina da vida de
Alvaro de Sousa, e vers como se vive por l...

Como sabes, aquelle rapaz  da plebe, e aspirou sempre a ser da
fidalguia. O homem no podia tragar esta desigualdade de gosos imposta
pela desigualdade do dinheiro. Sem dinheiro, e sem avs, Alvaro
achava-se aos vinte annos n'este mundo sem saber o fim para que viera,
nem a fileira social em que devia perfilar-se.

--Pois no ha tantos officios?--interrompi eu.

--Essa pergunta no me parece tua! Pois tu querias sentar n'uma tripea
um homem de intelligencia?

--Que duvida! Os sapateiros de Lisboa no tem um jornal? Alvaro de Sousa
seria um habil redactor do _jornal dos sapateiros_.

--Ests zombando!

--Palavra de honra, que no zombo! Tu sabes l porque horisontes vai
ampliar-se o espirito da arte? Sabes se a tripea ter uma plastica e
uma esthetica! Sabes se a bota de canho ter um bello ideal? Sabes se a
tomba e a intercospia tero uma philosophia? Sabes se as mathematicas
viro, com a sua geometria applicada  bota, regular as dimenses do
salto? Sabes se a dynamica ser a ultima expresso do pino? E no achas
aqui n'este complexo de sciencias um succolento pabulo para um sapateiro
talentoso, para um sapateiro-Newton, para um sapateiro-Girardin?

--Tenho entendido que no queres a historia do homem... Faamos
treguas... Eu dou-te o diploma de espirituoso, e tu fechas a torneira ao
espirito por algum tempo... Guarda esse cabedal, que desperdias, para
os teus folhetins. Fars rir um fidalgo de raa, embora o seu quinto av
fizesse borzeguins para a tua quinta av. Fars indignar o sapateiro,
teu irmo pelo sangue, pelo osso, e pela carne, e teu irmo pela arte,
porque, em fim, eu no sei se a sociedade dispensa mais depressa os teus
folhetins que as botas...

E eu vi que o meu amigo tinha razo, e dei-lhe plena liberdade de
historiar o episodio de Alvaro de Sousa, que contina assim:

--Alvaro,  custa de muitos vexames e affrontas conseguiu relacionar-se
em algumas casas, onde compareciam algumas das primeiras mulheres. Eram
talvez estas as notabilidades, as sacerdotisas de iniciao para os
novios que entravam no faustuoso templo das vestaes em quinta mo.

O rapaz foi mais adiante nas suas ambies.

O corao pedia-lhe alimento, o espirito pedia-lhe amor, as aspiraes
anceavam-lhe um ideal, e o altivo mancebo entendeu que aquellas mulheres
deviam comprehendel-o no corao, no espirito, e nas aspiraes.

Era, realmente, exigir muito, no anno do Senhor de 1849!

A primeira declarao, que balbuciou, teve em troca um sorrir de
despreso. Aventurou uma segunda centelha da lava, que o escaldava, por
dentro, e achou de glo todas aquellas mulheres. E no era isto s.
Escarneciam-no. Lastimavam-lhe a mania das declaraes; e algumas
galhofeiras senhoras reuniram-se, uma noite de baile, para lhe dizerem
que, todas juntas, hiam devotamente cumprir uma novena a Santo Anastacio
para que o servinho de Deus o livrasse d'aquella hydrophobia amorosa. 
onde podia levar-se o insulto!

Alvaro de Sousa entrou no amago da sua consciencia, como n'um abysmo sem
luz, n'um segredo de torturas, e despedaou um a um os sentimentos
generosos com que entrra n'este mundo ingrato.

_Pobre!_ esta maldita palavra, estigma de reprovao, era o seu demonio
das vigilias e dos sonhos!

Como o supersticioso, que recua espavorido  larva imaginaria do seu
crime, Alvaro de Sousa fugia dos homens, como se elles, juizes
implacaveis, devessem sentencial-o no crime da sua pobresa.

Mas um corao altivo de impotente orgulho no podia transigir com estas
leis barbaras da sociedade, que amputam no corao do pobre os mais
augustos sentimentos da sua vitalidade.

Ha uma apparente reconciliao entre a affronta e a pobresa:  a
reconciliao do odio:  um pacto de vingana, sellado pelas lagrimas do
affrontado;  uma letra de usura avara de desforo, a vencer-se, sem
praso fixo, mas a vencer-se um dia.

Esta fra a reconciliao de Alvaro de Sousa com as _generosas_ mulheres
da sua affeio.

--Ellas, naturalmente, riam-se, se elle lhes dsse parte d'essa
reconciliao...

--Riram muito. Alguem lhes disse: Aquelle pobre rapaz, que sentia
freneticamente as suas paixes, fugiu da sociedade, e devora, na solido
do seu quarto, um rancor profundo...--A mim:--interrompeu uma
d'ellas--Que pena! Oh Theresinha, no  uma verdadeira calamidade o odio
d'aquelle rapaz?--Ai! Maria da Luz! que triste futuro nos espera...

E chasqueavam assim o seu _ridiculo_ inimigo, perguntando aos amigos
d'elle em que dia finalmente as hostilidades se romperiam.

Isto ninguem o dizia a Alvaro, porque entre o odio e a vingana
impossivel, nas almas fortes, est o suicidio.

--_Nas almas fortes!_ (atalhei eu com gravidade philosophica). Ento no
sei eu o que so almas fortes! Cobardes chamo eu aquelles que
desesperam. A suprema das miserias humanas  a vingana reservada por
causa d'amores despresados. O tal Alvaro de Sousa ser muito romanesco,
mas tambem  um grande tolo. Com que direito queria elle impr-se ao
amor d'essas mulheres? Despresaram-no porque era pobre respondes tu. E
se o despresassem porque era feio? Achas que a pobresa tenha muitas
seduces? E porque no foi Alvaro de Sousa amar uma peixeira que as ha
bem bonitas? Se a sua alma de poeta aspirava a um _ideal olympico e
metaphysicamente imponderavel_ porque foi elle procurar o seu ideal nas
mulheres carnalmente vestidas de tafets e veludos? A mulher ordinaria,
virgem na alma, sem a depravao das Aspasias que o repudiaram, no lhe
seria mais interessante pela candura, pela innocencia, e pelo angelico
scismar dos singelos devaneios? Eu no posso soffrer estes Werters
caricatos que appellam para o suicidio, quando a mulher dos seus sonhos
no pde altear-se s delicadas concepes da sua alma! Vai a vr-se a
mulher em que elles empregam todo o seu cabedal de sentimentalismo, e
depara-se uma estragada de espirito, abastardada nos instinctos, incapaz
de conceber a generosidade, gelada para as suaves impresses d'uma
amisade honesta, e finalmente uma Ninon sem o _espirito_ da franceza,
mas opulenta como ella de _materia_. Repito: porque no vo estes
impostores queimar o incenso das suas angelicas adoraes aos ps d'uma
donzellinha d'olhos timidos, e faces purpurinas? No  to bello
surprehender o pejo da innocencia!? No ha tanta poesia n'aquellas
lagrimas de um primeiro amor que desconfia da sombra de uma mulher, que
passa ao longe do seu Medro! No ha ahi tantas Angelicas obscuras,
tantas Virginias, segregadas dos sales das Phryneas? Emfim, meu
sentimental historiador de paixes desgrenhadas, eu no posso sentir
comtigo as desventuras do snr. Alvaro. Quero ouvil-as, porque emfim,
escrevo folhetins, e minto quasi sempre para encher um espao de papel.
Pde ser que digas alguma cousa que valha a pena de captar a atteno
d'este publico portuense, que l constantemente, e,  falta de romances,
por no poder emendar o costume de lr sempre, comea a mastigar
profundas lucubraes sobre a doena das vinhas.--Ora, diz l.


II.


O meu amigo continuou:

--Alvaro reconcentrou-se em uma tal misanthropia, que nem ao menos os
intimos amigos recebia em casa. Dir-se-hia que aquella vida estava a
levedar-se do amargo fermento de rancor que as mulheres lhe levaram 
alma. Eu vi-o uma vez. Parecia um Smarra, um magico, uma cousa d'um
outro mundo, onde os homens conversam com as larvas. Morava no quarto o
terror. A sombra da aza da morte empanava aquelle rosto, d'onde a vivesa
e o lume fugira, deixando como vestigios, as rugas cadavericas d'uma
lenta agonia.

--Devia ser um demonio! Cuidei que uns figures assim eram privilegio
dos romances!... E os cabellos? naturalmente arripiados como os do
Asaverus, de Orestes, ou de qualquer outro estafermo, no  verdade?

--O que tu quizeres... O caso  que eu julguei-o demente, ou, pelo
menos, desgraado, que no sei se  menos, por toda a vida.

Agora, levanta-se o pano do segundo acto.

Uma bella manh, sahe um homem d'um navio com quatro bahs atraz de si.
Este homem procurou a morada de um seu irmo; este irmo, que tinha
morrido, era o pai de Alvaro. O tio de Alvaro, por consequencia, era um
rico brasileiro, que acabava de manifestar seiscentos contos.

Alvaro recebeu-o com sinistra rudeza. O snr. Manoel da Silva abraou seu
sobrinho, chorando a morte de seu irmo, que era muito semelhante com
seu sobrinho. Deu graas  Providencia por encontrar um herdeiro do seu
ouro e do seu sangue; e, deixa-me assim dizer sem offensa da
metaphysica, insufflou uma alma nova n'aquella casa, uma alma muito
grande, maior que a alma universal de Plato! s comparavel  alma que
faz girar um sangue azul nas veias d'um merceeiro.

Alvaro, quando de improviso se viu rico, partiu a pedra do seu tumulo, e
respirou o ar dos vivos. Os olhos faiscaram-lhe um novo lume. Os labios
vibraram-lhe uma eloquencia nova. O corao bateu-lhe pulsaes d'um
orgulho expansivo. O corpo endireitou-se na linha vertical que a
Providencia geometrica marcou a todos os que podem parodiar Luiz XIV, e
dizer: o dinheiro sou eu!

O brasileiro no era abdominoso nem vermelho das bochechas. Era um homem
regular, com sentimentos de homem no bestealisado pelo ouro.

Achando uma casa pobre, enriqueceu-a, ampliou-a, abriu-lhe os flancos, e
deu-lhe as frmas arrogantes d'um palacete. Um tylburi, uma carruagem, e
duas parelhas de eguas hanoverianas harmonisaram o fausto d'aquella
magica metamorphose.

E tudo era feito a bel-prazer de Alvaro. O tio authorisara-o para tudo,
menos para casar-se, porque detestava as mulheres.

Elle l sabia o porque, e, se eu o souber um dia, conta com um folhetim.

--Muito obrigado; no me despeo do favor.

--Agora vaes tu conhecer a astucia da intelligencia, que no prescinde,
na riqueza, da vingana premeditada no infortunio.

Alvaro de Sousa no ostentou, como era de esperar, as suas eguas, a sua
carruagem, e os seus lacaios de verde e prata. Viveu, dous mezes, ao
fogo, conversando com o tio, e conquistou-lhe assim um conceito de
grave sisudez, e uma plena confiana.

Na primavera, Alvaro appareceu com as flres, e, agradavel como ellas,
grangeou amisades, que no tinha...

--Necessariamente... Olha que novidade me ds!...  melhor dizer...
_comprou amisades, que no tinha_...

--No posso assim dizer absolutamente. Alvaro, em quanto pobre, era
desabridamente orgulhoso, e desconfiado... Um olhar de travs
irritava-o, e uma palavra equivoca enfurecia-o. Era como os que soffrem
rheumatismo agudo, que no consentem uma mosca no travesseiro. E a
pobresa, seja dito em proveito da pathologia,  o rheumatismo agudissimo
da humanidade...

Depois de rico, parece que a sua grandeza estava na consciencia d'ella.
O dinheiro tornou-o affavel, carinhoso, sollicito em procurar as
relaes dos que lhe eram muito inferiores, e at d'aquelles que
repellira na infelicidade.  realmente um phenomeno, mas tu sabes que eu
no te minto.

--E as mulheres que faziam?

--As mulheres? Agora vamos ns l... Isso  uma historia muito
complicada...

--Quaes so as que figuram?

--Vamos por partes. A mulher, que, primeiro, o repelliu foi a Maria da
Luz. Esta mulher  casada, e era solteira, mas solteira de trinta e
tantos annos, quando Alvaro a requestou. No sei porque, Maria da Luz,
era a preferida no odio, talvez porque sendo a primeira a repellil-o,
desairou-o, para todas as outras... No sei.

Alvaro foi com seu tio pagar uma visita ao marido d'esta mulher, porque
a influencia do brasileiro em certos homens do poder obrigara aquelle a
captar-lhe a benevolencia para conservar certos proventos, que estavam
muito em perigo.

O sobrinho comeou a jogar com a influencia do tio. Quiz lr-lhe o seu
programma de vingana, mas achou que era cedo, ou immoral. Calou-se e
esperou.

Na visita, que fizeram, Maria da Luz veio  sala, e quiz sustentar a
dignidade matrimonial, com os artificios d'uma etiqueta safada. Alvaro
ria-se por dentro, mas fingia-se parvo por fra. Dava-se uns ares de
esquecido, e apertava a mo da sua victima com a cordialidade d'um bom
homem. E Maria da Luz espantou-se.

Passaram-se alguns mezes. Alvaro, que participava da influencia do tio
nos destinos da patria, reconcentrou toda a sua energia em realisar
desgraadamente os terrores do marido de Maria da Luz. Quando menos se
esperava, este homem  demittido, e obrigado pela fazenda a um saldo de
contas que o empobrecia. O brasileiro, que n'este tempo j era visconde
de Sousa, quiz salval-o, mas encontrou em seu sobrinho um violento
accusador das immoralidades d'aquelle mau funccionario, cuja deshonra
reflectia na face de quem o protegesse. As instancias redobradas
encontraram frio o visconde, que, por fim, declarou que no intervinha
em certos negocios que delegara em seu sobrinho, mais conhecedor das
conveniencias do paiz, e da moralidade dos funccionarios. Com este
fragmento de _artigo do fundo_, foi despedido o marido da Luz, cujo
decahir para o abysmo de miseria era rapido como a facilidade com que
subira.

Maria da Luz comprehendeu a vingana, e achou-a vil.

--Realmente era...

--Mas no ha vinganas nobres, creio eu. A mulher, que eu principio a
chamar pobre, fechra os seus sales, e no esperou que os alheios se
lhe fechassem. A tristeza sentra-se nos sophs d'aquellas salas
desertas, onde viria brevemente sentar-se o escrivo da penhora. A
desgraa, ainda assim, no lhe aniquilava a soberba. Julgava ella que,
humilhando-se a Alvaro, encontraria uma proteco, mas tambem uma
ignominia. O marido, que cahira primeiro na sua miseria, perdeu,
primeiro, a dignidade. Excitou-a para que escrevesse a Alvaro, e
encontrou-a sempre negativa.

E Alvaro respirava com sofreguido um momento que devia chegar.

Ao mesmo tempo, desenvolvia-se o plano d'outra vingana. Thereza da Cruz
era a segunda victima de Alvaro. Esta no podia ser ferida nos
interesses materiaes. Era rica das suas propriedades. Era solteira, e
amava profundamente um homem casado.

Este homem era delirantemente amado por sua mulher, e presava-a, seno
posso dizer que a adorava. Thereza da Cruz fascinava-lhe a cabea
d'aquelle amor-appetite que Stendhal judiciosamente distingue do
amor-paixo. Mas Thereza da Cruz detestava a virtuosa esposa do seu
amante, com toda a raiva d'um ciume reconcentrado.

E Alvaro sabia-o.

Era-lhe necessario quebrar aquellas ligaes com estrondo e deshonra
para Thereza da Cruz.

O que elle fez  uma ignominia, , porm uma vingana que medrara em fel
durante tres annos de torturas suffocadas.

Alvaro obteve uma carta da mulher do amante de Thereza da Cruz, escripta
a uma sua amiga.

O dinheiro proporcionou-lhe um falsificador de letra, perfeito na sua
perversa habilidade.

Mandou-lhe escrever algumas cartas amorosas pelo molde d'aquella letra.
E no deixou uma ligeira duvida sobre o genero de relaes que a
prendiam a um homem, que se no nomeava.

Estas cartas enviadas a Thereza da Cruz, foram incluidas n'uma anonyma,
que dizia assim:

                                                 Minha querida amiga.

Sei que detestas Miquelina, e que procuras perdl-a no conceito do
marido, para conquistares plenamente uma alma digna de ti. Queres
castigar o orgulho d'essa hypocrita que lamenta a nossa _prostituio_?
Ahi tens essas cartas, que eu pude obter d'um amante, que a despresou
por mim. Tira as tas d'aranha dos olhos d'esse piegas, e faz-lhe vr
que sua mulher no  melhor que tu: porque tu s livre, e ella  casada.
Sabers o meu nome, no primeiro baile onde nos reunirmos.

                                                 Tua amiga d'alma.

D. Thereza, recebendo estes cartas, sentiu uma alegria infernal. Daria
por ellas a reputao de honrada, se a tivesse.

Por fatalidade, o amante, na noite d'aquelle dia tratou-a com
indifferena. A orgulhosa, enraivecida d'um tedio que no podia
supportar, esforou-se por chamar a conversao a respeito de mulheres
casadas, e avanou a proposio de que no havia uma na primeira roda,
que no fosse adultera. O amante protestou colericamente contra o
absoluto da proposio. Defendeu sua mulher com ares de Collatino, e
exprobrou acremente a maledicencia da insolente.

A indignao ferveu: trocaram-se epithetos ultrajantes. D. Thereza foi
uma eloquente regateira, e o seu apaixonado repetiu as phrases mais
peculiares da tarimba. Por fim, D. Thereza, chegado o momento dramatico,
apresentou-lhe as suppostas cartas da esposa.

O homem abriu-as com frenesi: reconheceu a letra e sahiu como um vexado
pelo demonio.

D. Thereza da Cruz, sentiu, pela primeira vez, um momento de completa
felicidade em sua vida!...

--E depois?


III.


--Depois, o furioso entrou na camara de sua mulher, e encontro-a velando
o somno de um filhinho, que tinha no bero. Perguntou-lhe o marido o que
ella fazia a p  uma hora da noite. Miquelina respondeu que o esperava
para lhe servir a ca, por isso que as creadas, fatigadas de trabalho,
no podiam esperar que seu amo se recolhesse, alta noite, para
repousarem.

O marido recebeu com um sorriso feroz esta resposta digna de uma senhora
virtuosa, e sentou-se junto d'ella. Tocado da faisca electrica de
tyranno de melodrama, enturvou os olhos, franziu a testa, arrancou a voz
dos subterraneos do pulmo, e fallou assim, com uma carta aberta:
Conhece esta letra, senhora?-- minha, penso eu--respondeu ella com
promptido.--J sabe naturalmente que carta  esta.--No sei... ser
escripta  Antoninha? ou  prima Angela? eu no escrevo a mais
ninguem.--A mais ninguem, infame!... a senhora no escreve a mais
ninguem?--Juro que no, juro que no... deixa-me vr essa carta, Luiz,
deixa-me vl-a, eu t'o peo pela boa sorte da nossa filhinha.--Veja.

Miquelina leu estas duas linhas da carta: _Dous dias  uma ausencia
insupportavel!... Vem, meu anjo, faz que a minha vida tenha algumas
flres_...

No continuou. Prerompeu em palavras inarticuladas. Eram os gritos da
desesperao! A surpreza transtornara-lhe o espirito, at converter-lhe
o dom da palavra em alarido selvagem. Parecia douda. O proprio marido
retirou aterrado diante d'aquella angustia sublime. Houve em casa um
motim, um tropel de creados, que se olhavam estupidamente. Miquelina,
exhausta de foras, e convencida da realidade daquella infame alluso,
desmaiou. Seu marido tateou-lhe o pulso e o corao. Reconheceu que
havia alli uma dr legitima. Ficou estupidamente perplexo, e fazia d
n'esta duvida afflictiva. Mas a innocencia, filha da justia de Deus,
devia triumphar.

Miquelina foi logo entregue aos cuidados da medicina. Julgaram-na
subindo a gradao d'uma demencia, e Luiz d'Abreu aterrou-se seriamente.

s dez horas do dia seguinte, Luiz d'Abreu recebia a seguinte
carta:--Deves possuir quatro cartas, que te foram dadas por Thereza da
Cruz. So quatro documentos inqualificaveis da infamia d'essa mulher.
Tua virtuosa senhora escrevera uma carta a sua prima Angela. Thereza da
Cruz pde obter essa carta, de que se serviu para fazer imitar a letra
da que ella chama sua rival. Remetto a carta de que ella se serviu. Tua
senhora  innocente como os anjos. Pede-lhe perdo, se lhe j lanaste
em rosto a calumnia forjada pela ignobil mulher a que vives associado.
Se apesar de tudo, tiveres a impudencia de continuar relaes com
Thereza da Cruz, hei-de eu, com os teus amigos, apregoar a baixeza do
teu caracter para engrandecer a nobreza de tua deploravel esposa.

                                                 _Um teu amigo_.


Luiz d'Abreu entrou na camara de sua mulher. Estavam com ella dous
medicos e duas creadas. Miquelina estremeceu ao vl-o. Mal sabia ella
que esse homem hia ajoelhar-se na sua presena! Eram tocantes as
lagrimas que elle chorava, ajoelhado, balbuciando palavras
inintelligiveis. Miquelina ergueu a face para testemunhar aquella nova
surpreza. Os circumstantes quinhoavam do enthusiasmo d'aquella scena,
sem a comprehenderem.

Peo perdo a minha virtuosa mulher! (exclamou elle) perdo d'uma
affronta, d'uma calumnia, que a reduziu a esta situao... Na presena
de todo o mundo eu quizera que ella me perdoasse...--Sim, sim,--bradou
ella com enthusiasmo febril--eu perdo-te de toda a minha alma, Luiz, de
todo o meu corao, meu esposo querido!...

Luiz d'Abreu ergueu-se, chorou sobre a mo que beijava, e foi feliz,
verdadeiramente feliz, n'aquella hora solemne da sua vida.

Foram muito sensiveis os progressos nas melhoras de Miquelina.

Na tarde d'esse dia, Abreu, com o mais carinhoso bilhete, pediu uma
entrevista,  meia noite, a Thereza da Cruz. Foi-lhe concedida.

Ao dar da meia noite estava Luiz d'Abreu encostado  porta que devia
ser-lhe aberta por Thereza da Cruz. Abriu-se a porta. Abreu tomou
aquella mulher pelos cabellos, arrastou-a para o meio da rua, e, sem
dizer-lhe um monosyllabo, encheu-lhe o corpo dos verges d'um chicote.
Thereza supportara as primeiras chicotadas com o silencio da vergonha;
mas quando a dr physica dominou a moral, gritou. Abreu retirou a passo
rapido. Thereza fugia, quando um segundo homem lhe lanou a mo. Ella
reconheceu-o, e pediu que a deixasse. No, minha senhora,--replicou o
seu conhecido--eu no posso consentir que v. exc.^a seja assim
desfeiteada na rua como uma mulher de alcouce...--Deixe-me, deixe-me...
por piedade, snr. Alvaro de Sousa!

E debatia-se entre as mos de Alvaro como atacada de gota coral.

Aproximou-se a patrulha. Lanou mo de ambos, e perguntou a D. Thereza
se aquelle homem a insultara. D. Thereza respondeu que no, que ninguem
a insultara. Alvaro, que nem zombando mentia, desmentiu a sua velha
_amiga_, dizendo que elle a vira chicoteada cruelmente por um homem, que
fugira; e que o mais que a tal respeito podia dizer era que esta senhora
morava n'aquella casa, era uma respeitavel fidalga, e chamava-se D.
Thereza da Cruz. A patrulha no prescindiu d'estas informaes
ratificadas por s. exc.^a Perguntou-lhe o nome do aggressor, e ella
respondeu que o no dizia.

Imagina, meu amigo folhetinista, a colica despedaadora em que a pobre
mulher se viu! A patrulha no queria largal-a; mas Alvaro de Sousa
capitulou por uma libra com as imperiosas exigencias da guarda
municipal, e conseguiu a liberdade da pobre mulher.

E, ao despedir-se de D. Thereza, fel-a parar um momento, para dizer-lhe
com a mais fleumatica placidez: Minha querida senhora! Eu comprei com
uma libra a satisfao de pagar a v. exc.^a a menor parte d'um grande
servio que lhe devo... Eu no pude esquecer-me nunca de que v. exc.^a
com algumas amigas suas, cumpriram uma novena a Santo Anastacio, para
que o servinho de Deus alcanasse curar-me da hydrophobia do amor, que
me atacou... Tenha v. exc.^a uma noite feliz.

E retirou-se. Thereza da Cruz no respondeu uma palavra.

Alvaro de Sousa estava vingado.

--Tens mentido com a mais soberana presena de espirito!--atalhei eu.

--No minto, juro-te que no minto...

Ests muito em occasio de verificar estes factos... Deseja conseguir a
verdade, que has-de conseguil-a.[3]

E eu acreditei-o; e manh acreditarei tambem que qualquer destemido
despejou um bacamarte nos intestinos do seu anjo...

--O rigor da chronologia--proseguiu o implacavel noticiador--exige que
eu te conte agora a vingana de Maria da Luz.

A hora da miseria extrema tinha soado. Os bens de raiz confiscou-os a
fazenda: os moveis estava designado o dia de leilo em que deviam ser
vendidos.

O marido de Maria da Luz, que por nome no perca, soubera que sua mulher
ridiculisara as pretenes de Alvaro de Sousa n'aquelles dias de
vergonhosa pobreza. Bem conhecia elle a indignidade a que tentava forar
sua mulher, instigando-a a que se valesse do prestimo d'um homem que
tinha fortes razes de aborrecel-a. Todavia, Alvaro gosava de um tal
conceito de nobreza de corao, e sensibilidade d'alma que qualquer
marido, mais escrupuloso ainda, no duvidaria instar, na hora critica
d'uma penhora, pela humildade da sua supposta Lucrecia.

Maria da Luz, por fim, conveio na pessima situao em que se achavam os
negocios de seu marido. A fome avisinhava-se, e a deshonra  menos negra
que a fome, segundo a opinio d'alguns moralistas entendidos n'estas
cres.

Alvaro de Sousa recebeu uma carta de Maria da Luz, em que lhe era pedido
o emprestimo de doze mil cruzados, pagaveis em doze annos.

O cavalheiro respondeu que a obrigao onde eram estipulados doze annos
seria reformada pelo praso de duas horas......

Maria da Luz comprehendeu-o. O primeiro abalo, que sentiu no corao,
foi a raiva: o segundo foi a vergonha: o terceiro foi a negociao com
as condies do titulo reformado, conforme a vontade do credor.

E respondeu affirmativamente, com a sagrada condio d'um segredo
inviolavel para seu marido.

E Alvaro de Sousa enviou doze mil cruzados ao marido de Maria da Luz,
com esta carta:

                                                 Meu caro senhor.

Conforme  negociao que acabo de fazer com sua senhora, remetto doze
mil cruzados. Da inclusa carta da exc.^{ma} snr.^a D. Maria da Luz, ver
v. s.^a que este contracto  bilateral, e a parte que eu tenho n'elle em
vantagem minha  a renuncia que a dita senhora me faz d'uma propriedade
que eu no sei se est hypothecada a v. s.^a Supposto me devessem ter
sido dados estes esclarecimentos antes da remessa do dinheiro, eu no
tenho duvida em sujeitar-me a qualquer outra transaco que possamos
ambos amigavelmente fazer, visto que, d'hora em diante, nos devemos
ambos considerar com mais ou menos jus  mesma propriedade. E, como eu
tenha resolvido cedl-a em beneficio de meu lacaio, v. s.^a no ter
duvida em consideral-o com os direitos que eu possuia.

                                         De v. s.^a attento venerador

                                                 _Alvaro de Sousa_.


--E depois?--interrompi com anciedade.

--Depois...... tu vaes dizer que eu te minto!...

--No digo... palavra d'honra!

--Depois, o codilhado foi Alvaro de Sousa, porque o marido da Maria da
Luz empregou convenientemente os doze mil cruzados e vive perfeitamente
com sua mulher.

--Mas Alvaro de Sousa? nunca mais se importou com ella?

--Nunca mais. A consciencia diz-lhe que est vingado.

--E das outras?

--Das outras... vingou-se sem ruido... Tomou d'ellas uma vingana que
no pde ser romantisada por ser muito simples.

O meu amigo viu passar uma mulher, e foi atraz d'ella.

Eu escrevi tudo isto com as reminiscencias vivissimas do dialogo.

Querem saber onde tudo isto aconteceu?

Agora  que v. exc.^{as} vo ficar surprehendidas...

Foi em Pekim!

Salvei a moral publica!

Cante-se o hymno!




A CAVEIRA.




PROLOGO.


Quem disser que em Traz-os-Montes no ha romances,  capaz de dizer que
a lua no tem habitantes, e as alfandegas ratos.

A provincia de Traz-os-Montes  um serto desconhecido, um retalho de
Portugal segregado da civilisao; mas no deixa por isso de ter uma
chronica de tradies barbaras, que vir archivar-se em folhetins,
quando os caminhos de ferro, construidos pelos capitalistas da
Ovelhinha, aproximarem o contacto das intelligencias com as florestas
virgens d'aquella regio polar.

Esse dia amanhecer bem cedo. A aurora da civilisao madrugou para
todos. A viabilidade discute-se  lareira. Mais d'um juiz das almas se
extasia nas vastas theorias do caminho de ferro. O regedor de parochia
rural, auxiliado pelo cura, apostolisam no adro, aos domingos, a theoria
do augmento do salario pela facilidade dos transportes. Ha lavradores
que addicionaram  leitura do Borda d'Agua as preleces escriptas de
economia politica do snr. dr. Carneiro. Alguns esperam concorrer ao
mercado de Sevilha com cereaes e repolhos nas proximas colheitas. O
enthusiasmo  universal. A expanso fervente dos interesses materiaes, a
febre eloquente da viabilidade, os traos profundos e rasgados, com que
as intelligencias financeiras fixam cathegoricamente o dia supremo da
nossa prosperidade, no so j um exclusivo da mocidade jornalistica.

O meu collega Ricardo Guimares, que salta de noite em cuecas, fra da
cama, sonhando-se impellido por um wagon, doudeja de jubilo ao vr-se
comprehendido, no seu ardente apostolado, desde Mono at ao Cabo da
Roca. Lateja-lhe o enthusiasmo nas bossas frontaes, cada vez que o
alvio do operario rasga no seio da terra o tumulo do carroo ignobil!
(Isto era escripto em 1853...)

A mocidade  assim. A fora creadora do talento ha-de supprir a
debilidade do thesouro. Onde os capitalistas no chegaram, hir o artigo
de fundo, palpitante de vida, como um ouragan invencivel, desaterrar a
aterrar com as foras magneticas do genio, com a magia imperiosa dos
periodos arredondados artisticamente.

E, por tanto, a provincia de Traz-os-Montes vai ser aquecida pelas
irradiaes do foco civilisador. Um dia, os povos do Maro, agrupados
nas cristas das serranias, vero l em baixo passar o trao negro do
carril; e cuidaro que um demonio, na cauda d'um raio, lhe talou as
campinas, no dia tremendo das vinganas do Senhor!

Mais tarde, os pavidos moradores da Campeam, illustrados pela leitura
repentina, e pelos artigos de fundo, viro, de scos e coroa, nas azas
do carril, applaudir os cavallinhos, saborear um ponche no Guichard, e
influir seriamente no futuro da empreza lyrica.

Ento, sim! Mondroens, Villarinho de Cotas, e Canellas tero uma
associao industrial, uma caixa filial, um gabinete de leitura, e um
centro promotor das classes laboriosas. O cavador, na hora da sesta
ler, na vinha, de barriga ao ar, o _Tymes_, e Benjamin Constant. O
proprietario, entregue s subtilezas economicas, que distinguem o
cabedal da renda, andar em guerra littetaria com o seu visinho da
aldeia proxima, por causa d'uma falsa interpretao aos sophismas de
Bastiat. N'esse dia, sero banidos os estupidos da face da terra. O
proletariado, filho da estupidez, no vir coberto de farrapos pedir um
bocado de po, no banquete social, por conta do futuro fomento. Pouco
ha-de viver quem no vir tudo isto.

Ser ento chegado o momento solemne de pedir  provincia do norte a
historia do seu passado. Sero exploradas ento as minas de poesia,
entulhadas pelo obscurantismo de longos seculos. Acontecer muitas vezes
encontrar-se um sco onde se esperava um borzeguim de castellan. O
leitor pedir uma heroica lucta de dous infanes armados da fidalga
espada, e ver duas fouces roadouras decidirem um pleito de apaixonado
melindre.

Mas no ser em tudo assim a chronica obscura da provincia, onde vivi
alguns annos, e em poucos dias colhi apontamentos para longos trabalhos
de muito proveito esthetico, plastico, artistico, e no sei mesmo se
cubico, anomalo, e hybrido.

A historia, que vou contar, com innocentissima lealdade, pde ser
confirmada ainda por duas ou tres testemunhas, que, pelo menos, viviam,
ha cinco annos. Fallo assim com orgulhosa authoridade, porque tenho
direito a ser acreditado em romances, que tem a honra de assentarem
n'uma sincera base.

A mentira no romance  uma nodoa, que nausa o publico illustrado.
Alexandre Dumas, escrevendo um romance intitulado _Martim de Freitas_,
obrigou este heroe a desembarcar em Mafra, nomeou-o alcaide do castello
da Horta, e fez nascer D. Sancho II na Palestina, onde foi baptisado por
um tal monsieur d'Evora, arcebispo de Leiria!  uma cornucopia de
asneiras este litterato, fallando de Portugal.

O publico tem direitos sagrados, e  realmente ultrajar-lh'os, querel-o
capacitar de que Mafra  um porto de mar, e Leiria uma cidade
archiepiscopal, e monsieur d'Evora cidado portuguez.

Comprehenda-se a misso do romancista. O romance, a viabilidade, e o
fluido transmutativo so a tripea em que est sentada a civilisao.
Quebrar-lhe um dos ps  dar com ella em terra.




A CAVEIRA.


I.


Morreu, ha seis annos, em Villa Real, um velho de oitenta e oito annos.
Chamava-se D. Joo de Noronha, e habitava uma casa pequena, mas decorada
de grande brazo d'armas, e no sei quantas ameias modeladas pelos
pilares das aoteas mouriscas. O leitor, que, por louvavel curiosidade,
quizer, de perto, capacitar-se da fidelidade architectonica d'esta casa,
v a Villa Real, e na _rua do Cabo da Villa_, pergunte pela casa de D.
Joo de Noronha. No ter de que maravilhar-se, a no ser da sisuda
gravidade, e rigorosa certeza com que o author lhe conta historias
interessantissimas.

Algumas palavras a respeito d'este D. Joo de Noronha.

O _dom_  quasi sempre, entre portuguezes, indicao de fidalguia
remota; mas em D. Joo de Noronha era uma irriso para o povo, e uma
ignominia affrontosa aos fidalgos da terra. E a razo  esta:

Ha cento e vinte annos que viveu em Villa Real uma senhora D. Paula
Coronel e Noronha, protectora d'um tal Antonio da Silva, sapateiro da
casa.

Este homem era desordeiro e valento. Em rixas com um freguez por causa
d'umas tombas, matou-o desastradamente. A justia apanhou-o, e
condemnou-o a pena ultima.

D. Paula exhaurira os grandes recursos da sua influencia, sem conseguir
salvar da forca o seu afilhado. Avaliem-se, porm, os extremos de D.
Paula pelo condemnado, e attenda-se  poca em que os grandiosos
esforos d'uma fidalga so anciosamente empenhados na salvao d'um
arrastado verme da plebe.

D. Paula, em ultimo recurso, declara que o sapateiro  filho bastardo de
seu irmo, e como tal o perfilha. Desde que esta adopo foi consignada
no livro dos alvars de perfilhamentos, Antonio Coronel de Noronha est
salvo da forca. O processo atravessa novos tramites; e a lei, esmagada
sob o rebolo transformado em pedra d'armas condemna o ro a cinco annos
de degredo para Castro-Marim.

O nobre exilado, um anno depois, morreu de uma indigesto de figos do
Algarve; e, honra lhe seja feita,  hora da morte, declarou que vivera
sapateiro e christo, e como sapateiro pedia perdo aos homens, e como
christo a Deus porque muito queria salvar-se.

Seu irmo Francisco, mestre ferreiro, morreu ferreiro, porque no quiz
partilhar das honras heraldicas de seu irmo, que, pelos modos, no eram
muito lisongeiras para a memoria de sua mi.

Este ferreiro deixou um filho, chamado Joo, e uma fortuna avultada,
adquirida na bigorna.

Joo, orpho aos quinze annos, quiz ordenar-se; mas o amor tolheu-lhe as
vocaes ardentes do sacerdocio.

Por aquelles tempos a sociedade estava retalhada em classes. Joo da
Silva invejava o acaso d'um nascimento, e desesperava-se na impotencia
de associar-se dous appellidos euphonicos, que o guindassem  regio dos
homens superiores em raa aos outros homens, como o onagro de Sevilha
superior em raa ao onagro de Cacilhas.

Zombavam cruelmente d'elle, quando lhe disseram que se encabeasse na
linhagem, embora bastarda, de seu tio, que morrera legalmente inscripto
no livro dos costados a folhas 1473.

Joo da Silva foi conscienciosamente fidalgo desde esse instante. Tirou
uma certido, hypothecou metade da sua fortuna ao fro, e consegui-o.
No diremos ao certo quem foi o concussionario d'aquelles tempos, que
lhe recebeu os dous mil cruzados do pergaminho. As urgencias do estado
de hoje eram litteralmente as urgencias do estomago dos chancelleres
mres do reino.

A fidalguia protestou silenciosa contra to grave injuria. Fechou os
seus sales ao adepto insolente, que ousra assignar-se D. Joo de
Noronha, e mandra insculpir na fachada d'uma casa ameiada as armas dos
Noronhas,  tradio em Villa Real que os Pintos Coelhos, representados
hoje por Jos Antonio Teixeira Coelho de Mello Pinto da Mesquita,
mandaram borrifar de sangue as armas de D. Joo de Noronha. Nada fez
recuar o proposito do filho do ferreiro. Os tempos correram, mas os
odios ao pobre homem no se extinguiram. Digno d'estes tempos, D. Joo,
seria hoje affavelmente recebido pela velha nobreza, com tanto que as
differenas no azul do sangue fossem saldadas com o amarello do ouro.

Conheci este homem, e tractei-o muito de perto. Era eu bem creana, e
respeitava as loucuras d'aquelle velho, com a mais sisuda tolerancia.
Quando o vi, aos oitenta e seis annos, casar-se com uma donzella (oitava
maravilha!) de oitenta e nove, cingi-me com aquelle par conjugal, e quiz
ouvir-lhe os colloquios amorosos, as expanses delirantes, as ternuras
idealissimas. No pude; e o leitor perdeu muito com isso, que eu no era
homem de privar d'um capitulo precioso a _Physiologia do Casamento_ de
Balzac.

O vento das tempestades da vida impelliu-me de Villa Real para outra
linha no mappa-mundi das minhas observaes; e o meu caro D. Joo morreu
poucos dias depois de sua mulher, e  de crr que, abraados em
frenetica paixo, renascessem, viosos e frescos como Paulo e Virginia,
em mundos novos, e novas constellaes. Assim seja!

Como vinha dizendo, leitor attencioso, quando eu tive a honra de ser
admittido ao tracto intimo de D. Joo de Noronha, reparei n'uma caveira,
contida em uma redoma de vidro, com pedestal de pau preto, enviezado de
arabescos de marfim.

Esta redoma pousava em uma mesa torneada em bilros de custoso lavor.
Reparei, outrosim, que em certo dia do anno um vo funebre cobria
aquella redoma. Este dia era quinta feira santa. No concebi que relao
podesse existir entre aquella caveira e a paixo de Jesus Christo no
ousava, porm, interrogar-lhe o profundo mysterio.

Entrava eu uma vez, sem fazer-me annunciar, na sala da redoma, e
encontrei D. Joo ajoelhado com austero fervor na presena da caveira.
Voltou-se de repente sentindo-me os passos, e eu no pude recuar sem ser
conhecido. Vi-lhe lagrimas; eram magestosas, e eu juro que muitos dos
meus leitores de corao petrificado chorariam, se vissem a sincera
angustia d'aquelle rosto venerando.

--Venha c--me disse elle--que eu no tenho vergonha de chorar;
Choram-se na decrepitude os risos da mocidade. Entra-se no tumulo a
chorar como se entra na vida.

Vi-me embaraado em responder-lhe. Eu no tinha aprendido estas palavras
artificiosas, com que fingimos um quinho de sentimento impostor. Ento
senti e chorei. Hoje... eu sei c! faria uma nenia em prosa de muita
melodia, e citara-lhe no sei quantos velhos, que a historia diz que
choraram desde Belisario at ao abbade de Chateneuf.

--Sente-se aqui ao p d'esta reliquia--proseguiu o consternado
ancio.--Devo-lhe um lavor muito delicado: nunca o senhor me perguntou o
segredo d'este craneo. Eu gosto de quem respeita a dr alheia. Quero
pagar-lhe essa fineza invocando do tumulo do meu corao o mysterio, que
aqui est sepultado ha sessenta annos. Se eu me calar, no correr da
minha historia, respeite o meu silencio...  que no poderei... Talvez
possa... O corao... dizem que manda aos labios muito do seu fel,
quando os labios lhe pedem as amarguradas reminiscencias d'uma grande
desgraa... Ser assim? Eu no sei... vel-o-hemos.

Ora attenda-me, meu amigo. A innocencia deve alegrar-se com a historia,
onde figura um anjo. Hei-de fallar-lhe de Lucifer tambem... Seja o anjo
para o recreio; e o Lucifer para a experiencia... Um velho  um livro.
Eu vou abrir-me... quero dar-lhe a leitura de minha alma, hoje, que,
manh, talvez a pedra rasa d'uma sepultura nem ao menos lhe diga que eu
durmo alli o suspirado somno do infeliz...


II.


D. Joo de Noronha, sentado de modo que encostava o cotovello  mesa da
redoma, principiou a historia do seu segredo, em tom de profunda
commoo:

Tinha eu vinte annos... ha que tempo isto vai!... ha sessenta e oito
annos que eu estudava latim no convento de S. Francisco. Era minha
teno ordenar-me. Meu pai grangeara-me uma fortuna, que me estimulou
ambies de subir na posio social. Quiz ser padre, e era-o, se
nascesse na igreja lutherana, onde o padre no soffre a cruelissima
amputao da vida da alma, em commercio com o mundo.

Quando encontrei uma mulher, que me imprimiu nos sonhos a sua imagem,
perdi o imperio da vontade, e as fervorosas vocaes do sacerdocio.
Adorei uma d'essas bellas mulheres, que trazem comsigo uma sina de
desgraas, um contagio de desastres, e a perpetuidade d'uma chaga,
aberta no corao com um ferro em brasa.

Esta mulher, por quem me fizera nobre, por quem me sentira ambicioso
d'um fausto, que a sociedade me ultrajou com justos motivos, por quem,
finalmente, me fizera estupido... atraioou-me.

No meu tempo o amor era uma cora de espinhos. Ento apaixonava-se um
homem, e sentia-se perdido para a sua liberdade, e escravo de uma
angustia interminavel. Eu, por mim, senti-me ultrajado por uma traio
incrivel, e no pude, ainda assim, estalar as algemas ignobeis que me
prendiam  deshonra d'um abandono injustificavel.

Ajoelhei aos ps de Martha. Pedi-lhe a pouca ventura que me roubra
cruelmente... pedi-lhe a dignidade do homem que por ella se
despresra... encontrei-a morta para mim, e vencida por uma paixo, que
devia matal-a! Tive ento d d'aquella flr, que se desfolhava na
madrugada da sua primavera? O meu amor era grande e generoso! Pedi-lhe
que fosse minha irm, minha amiga... Nem isso!... nem se quer me aceitou
um conselho de pai na hora em que mais precisa lhe fosse uma proteco
que a salvasse da deshonra, a que se tinha cegamente abandonado.

Eu valia menos que Pedro de Mesquita.

Este homem era official de cavallaria. Nascra illustre; conquistara-se
uma opinio de heroe; batera-se ardidamente como um leo nas ultimas
batalhas. Era aqui apontado em Villa Real; como o primeiro homem nos
triumphos difficeis do amor.

E no o lisongeavam! O homem, que obrigra Martha a despresar-me, devia
ser tudo isso.

Era muito linda esta mulher! Diziam-no as emulaes, os odios, e as
intrigas, que a sua formosura causra entre pretendentes, que no
queriam ceder a prioridade do merito a nenhum.

Um dos mais poderosos era Heitor Corra, cadete de cavallaria e filho
segundo de uma nobre casa d'esta villa, que no tenho necessidade de
mencionar-lhe.

No obstante Heitor Corra era repellido, porque Pedro de Mesquita no
tinha concesses a esperar para ser mais amado que outro qualquer.

Martha arrancra, como Luzia, os bellos olhos, se assim podesse afastar
de si os perseguidores que a tornavam suspeita ao homem que to caro
devia ser-lhe. E era.

Estes dous homens odiavam-se rancorosamente, e procuravam  porfia um
ensejo em que podessem travar as espadas. Corra confiava demasiado em
si. Mesquita sobejava-lhe a certeza de superar o debil adversario.

O momento ambicionado chegou.

Era quinta feira santa.

Martha assistia ao officio da paixo na igreja de S. Francisco.

Heitor Corra antecipra-se a occupar o mais proximo, lugar de Martha.
Pedro de Mesquita viera depois, e mordera colericamente o beio
inferior. Martha tremeu e chorou. Quiz sahir; no a deixaram as
multides espessas. Heitor Corra comprehendeu-a, e indignou-se. Era
muito despreso para a altivez do seu caracter.

Terminra o officio. O povo evacuou o templo. Martha sumiu-se nas
turbas. Dous homens apenas, como duas estatuas, se fixavam ss, e
immoveis, na nave da igreja.

Sahiram, simultaneamente. Encontraram-se no adro. Trocaram poucas e
rapidas palavras, e desembainharam os fains.

Pedro de Mesquita ostentava no rosto a superioridade de mestre. Heitor
chammejava a colera, a vingana, o capricho, e por ventura o desejo de
matar, ou morrer.

Esta scena passava-se na presena de mil pessoas. As beatas benziam-se
horrorisadas; e os mancebos estorciam-se no frenesi de espedaarem o
forasteiro Mesquita, cuja superioridade sobre o seu patricio era
indubitavel, e perigosa.

Perigosa, no; porque o valente era generoso. Heitor no tinha j um
boto na farda, quando Pedro de Mesquita, despresando demasiadamente a
defesa, se sentiu ferido ligeiramente no brao esquerdo.

A scena tornou-se cruel! O orgulhoso no podia conciliar com aquelle
sangue a sua generosidade. Heitor foi mortalmente ferido, e cahiu
banhado em sangue. Alguem correu sobre Mesquita, gritando contra o
assassino. Mesquita esperou com bravura! No houve mo que lhe tocasse.


III.


Heitor Corra, reanimado pelos alentos da desesperao, ergueu-se, e
esgrimiu ainda o florete com brao impotente. Mesquita, ferido n'um
brao, afastou-lhe os botes, com admiravel presena de espirito.

O duello em Villa Real era uma cousa nova. O facto, em um dia tal,
redobrava de escandalo. No se atravessavam as multides espessas, que
reprovavam ruidosamente um tamanho desacato. A causa do seu espanto no
era a moral ultrajada, nem a perda voluntaria da vida. Dava-se como
razo suprema de tal algazarra estar exposto o Santissimo Sacramento,
quando dous homens se cortavam a ferro frio.

As authoridades, conscias do acontecimento, deram ordens immediatas de
captura. Estas ordens no podiam ser cumpridas por meirinhos; e no
houve desgraadamente authoridade militar que capturasse os duelistas.

Heitor Corra, exhausto de foras, perdidas no sangue, que os recursos
da cirurgia no estancra, desmaiou, e deu symptomas de morto. O alferes
de cavallaria, ligeiramente ferido no brao, curava-se n'uma botica,
affectando um ar de placidez que indignava as turbas, tumultuosas na
rua. D'entre ellas sahiam gritos terriveis de morra! Os que assim
gritavam diziam que estava exposto o Santissimo Sacramento; e, por
tanto, no podiam deixar de matar o impio que desacatra, em quinta
feira santa, a solemnidade da paixo de Christo. Como elles saciavam a
sede de sangue com o fervor beatifico das suas crenas, explicam-no
milhares de factos semelhantes que acompanham sempre a edificante
historia dos muito austeros authores da integridade religiosa, tanto em
Roma, como em Constantinopla.

Fernando Corra, irmo de Heitor, estava  janella quando viu entrar seu
irmo nos braos de dous soldados. Desceu ao atrio, e interrogou o
facto. Contaram-lhe, com as mais irritantes circumstancias, o
acontecimento.

Fernando, sem attender a supplicas da familia, e de amigos prudentes,
sahiu de casa, tal qual estava, embrulhado n'um capote. Mas, debaixo
d'este capote, levava um bacamarte.

Quando chegou  entrada da _rua do Jogo da Bolla_, viu um grupo de povo,
que parecia vedar a sahida d'uma botica. L dentro estava Pedro de
Mesquita, a quem faltra a coragem para affrontar a fora bruta da
populaa.

Em frente d'essa botica morava a infeliz Martha, a attribulada amante
d'aquelle homem, que alli estava ameaado das iras da plebe, tigre
desenfreado da licena, n'aquelles dias de escravido, logo que um acaso
lhe alargasse um pouco as algemas.

Fernando Corra abriu uma clareira entre a multido. Descobriram-se
todos, exclamando: Chega o fidalgo! deixem passar o fidalgo.

E o fidalgo entrou, perguntando quem era o assassino de seu irmo.

--Assassino... no!...--respondeu o alferes.--Fui eu quem o feri, e
honro-me de ser ferido pelo cavalheiro com quem me bati.

Fernando Corra, estupido como fatalmente so os que podem contar muitos
avs robustos de musculos, e nenhum de vigor intellectual, no
comprehendeu a delicadesa d'aquella resposta. O que elle praticou  um
acto de barbaridade, que envergonha a especie humana. Recuou um passo
atraz, aperrou o bacamarte, e despejou-lh'o,  queima roupa, no peito.

Foi horrivel, senhor! Foi esse um lance, que eu tenho aqui diante de
meus olhos, noite e dia, porque n'esse instante ouvi um grito de
arripiar as carnes. Era Martha que cahira, com a face na lage da
janella, fulminada pela angustia mais atroz, e mais inconcebivel dos
tormentos possiveis n'esta vida.

Voltaram-se todos para aquella janella, e viram-me... a mim, que subira,
alentado pela coragem da minha dr, as escadas d'aquella casa, e
levantra da janella a pobre menina que julguei morta. Olhei em redor de
mim... no vi ninguem, excepto uma creada que chorava, perplexa, sem
atinar com o que devia fazer. A familia, a essa hora, na igreja da
_Misericordia_, orava, talvez,  Virgem protectora das virgens...

Fernando, consummado o assassinio, sahiu galhardamente por entre as
turbas que saudavam o nobre algoz. A paralysia do terror gelra os
poucos que lhe reprovavam a infamia. Ninguem ousou, sequer, lembrar-lhe
que aquelle sangue lhe tingia os pergaminhos!

O nobre amante de Martha foi conduzido ao quartel. O seu ultimo lance
d'olhos n'esta vida, viram-no todos fixar-se na janella da infeliz.
Depois... fechou-os, e fechou-os para sempre.

Passada uma hora, Fernando Corra, montado n'uma possante mula, e
seguido d'um creado, e dous bacamartes, passava em _Almodena_, caminho
de Lisboa. E, para que esta circumstancia me no esquea, dir-lhe-hei
que, um mez depois, o assassino, impune pelo privilegio dos seus
pergaminhos, entrava em Villa Real, com um alvar de real merc que o
isentava de responder pela morte de Pedro de Mesquita.

O povo, desde esse dia, vergava respeitosamente a cabea ao fidalgo, que
passava soberbo por entre aquelles que lhe liam na face a altivez do
assassino, que zombra da lei.

Heitor Corra... esse foi enterrado no mesmo dia em que os sinos
dobraram por alma de Pedro de Mesquita.


IV.


 necessario fallarmos de Martha...  a luz unica d'este quadro negro...
Nem a historia valia a pena de ser ouvida, se no tivesse um heroismo de
virtude para a admirao, e uma santa para o culto das almas nobres, e
apaixonadas pelo sublime do martyrio.

Por ventura, pde o senhor comprehender a situao d'um homem, que tem
desmaiada nos braos aquella por quem fra atraioado...? No  bastante
comprehender isto:  necessario compenetrar-se mais da minha situao...

Martha illudira-me... ou illudira-se; Martha despresara-me com cynismo
indigno da sua idade; Martha escarnecera as loucuras que me sacrificaram
a ella; Martha desmaiara, adivinhando a morte do meu rival...
Comprehende por ventura agora o tormento indefinivel da minha
situao?... No comprehende, porque se eu lhe disser que n'aquelle
trance original o meu sentimento era a piedade... se eu lhe disser que
dera a minha vida pela do rival assassinado, com tanto que Martha no
fosse assim desgraada... o senhor, por certo, no concebe este
phenomeno, este sacrificio... esta monstruosidade de resignao... Quem
sabe!... a sociedade capitular-me-hia de imbecil, e o meu amigo, por
muito favor, concedera-me a celebridade dos tolos inoffensivos, no 
assim?

No lhe respondi; mas aqui me puno, confessando que D. Joo me
adivinhra. Crei, de certo, quando fui surprehendido no segredo dos
meus juizos. Nada menos lisongeiro que o meu silencio para o pobre
velho! Era de certo um pungente assentimento  sua conjectura! A dr 
generosa, e cala as affrontas. Reconheo hoje que ultrajei aquelle
grande sacrificio, que comprehendo agora. Se no receasse mesclar com a
gravidade melancolica d'esta narrativa um anexim popular e graciosamente
philosophico, diria que o diabo no quiz nada com rapazes, e D. Joo de
Noronha, de certo, no era mais privilegiado que Lucifer para tirar de
mim melhor partido.

D. Joo proseguiu:

A familia de Martha veio encontrar-me, com ella nos braos. A mi, que
prophetisra, em seus virtuosos presentimentos, a desgraa da filha,
apertou-a contra o seio, cobriu-a de lagrimas, e acordou-a d'aquelle
lethargo, com afflictivos gemidos.

Martha abriu os olhos; mas nunca mais descerrou os labios. Esperavamos
anciosos que a sua angustia respirasse pelas lagrimas. No chorou uma
s. Em quanto os sinos dobravam a finados pela alma dos dous amantes,
Martha estremecia, mas no posso dizer-lhe como era aquelle tremor... A
corda d'um instrumento ferida, e deixada ao impulso da vibrao
estremece assim.

No fim de tres dias extinguiu-se o soffrimento, por que a vimos pender
serenamente a cabea nos braos de sua mi. Felicitamos-nos pelo repouso
da infeliz. Imaginamos que ella devia acordar mais tranquilla, ou, pelo
menos, mais desabafada d'aquella agonia que lhe suffocava no s os
gemidos, mas at a respirao. Esperamos... mas quem no esperava era o
medico, que, ao retirar-se, deixou dito que no era Christo para
restituir a filha  viuva de Nahim.

Estava morta, por tanto... e morta sem balbuciar uma palavra! Como se
morre assim? Dizem que a morte  a aniquilao da materia... mas aquelle
anjo morreu dentro em si, antes que os symptomas da destruio nos
revelassem o rapido dilacerar d'aquella morte! Quem dir que aquella
mulher soffreu no corpo? Ninguem! A alma, s a alma, este ser immortal
que foge do mundo, onde a vida do amor lhe falta; a alma, reconcentrada
no seu mysterio de dres inconcebiveis, reluctando por estalar as
algemas que a prendem ao cavallete do corpo... a alma, e s a alma, meu
amigo, consummou aquelle trance de incomportavel inferno, e passou ao
mundo da penitencia ou da gloria...

Agora principia a minha scena n'esta tragedia...  s minha, e s eu a
comprehendo... mas hei-de contar-lh'a. Acompanhei  igreja de S.
Francisco o cadaver de Martha. Fui o ultimo que se retirou de ao p da
sepultura; e fui o primeiro que todos os dias, em tres annos
successivos, lhe ajoelhou na pedra que eu no queria fosse a nossa
eterna separao.

Empreguei os meios para obrigar o coveiro a no tocar n'aquella
sepultura durante tres annos.

Findo este praso, venci com dinheiro a repugnancia do coveiro, e a pedra
que cobria os ossos de Martha foi levantada.

Era meia noite, e perpassavam em redor de mim as larvas do terror,
agitadas pelo lampejar tremulo das lampadas, suspensas no altar do
Santissimo Sacramento.

O coveiro, afeito a lidar com os mortos, tremia, e largava machinalmente
a enxada com que afastava as camadas da terra.

No posso dizer-lhe at que ponto fui enganado pelas larvas que a
desvairada phantasia, ou a mysteriosa realidade revocou em volta de
mim... Estou quasi jurando-lhe que a vi... a ella... como nos dias da
sua esplendida formosura illuminada pelo resplendor da sua innocencia,
purpureada do pejo com que a candura se rende ao imperio dos
instinctos... Era ella, quando, nos primeiros tempos da nossa infancia,
me offerecia de seu corao a parte que no podia dar a sua mi, e a
seus irmos... Era ella, quando me perguntava o segredo d'aquella
attraco irresistivel, que a arrastava para mim, que a entristecia sem
motivo, que a fazia ambicionar uma riqueza imaginaria, que a fazia
sonhar umas delicias que sua mi lhe no explicava nem realisava com os
seus carinhos... Foi assim que eu a vi, em quanto o ecco da enxada, que
feria o seio da sepultura, reboava nas naves da igreja... Gelava-se-me
de terror o pensamento... a phantasia esfriava-se ao roar pela mortalha
d'aquelles ossos, e eu sentia-me morto em metade da vida, quando a terra
sacudida da enxada me vinha cahir aos ps.

E depois... as larvas, que a razo no podia espavorir, tornavam a
cingir-se com os pilares da nave, a pendurar-se nas grades do cro, a
tremularem por entre os cortinados dos altares, e a esvoaarem na
abobada do templo como nuvens escuras, espedaadas pela tempestade.

Erguera-se do tumulo para ajoelhar, a meus ps... tinha a face lacerada
pelos vermes. E era bella ainda... Devo ser sincero, meu amigo... 
impossivel que a imaginao me mentisse... Ouvi-lhe a sua voz... senti o
frio das suas mos... ergui-a de meus ps... perdoei-lhe... chorei com
ella...

A voz d'um homem chamou a minha alma  realidade acerba d'aquella scena,
que se me figurava um sacrilegio, uma profanao.

Era o coveiro, que me dizia: a enxada j topou com os ossos.

Esta nova, communicada friamente pelo coveiro, alvoroou-me, e coou-me
nas veias no sei que terror semelhante ao do sacrilego, que no tem
ainda bastante barbarisada a alma pelo crime, e vacilla, horrorisado de
si proprio, quando atira ao pavimento do altar as hostias contidas no
calix, que rouba.

Aquelles ossos, aquelle meu thesouro, ambicionado ha tres annos, tinham
agora para mim uma superstio, um cunho sagrado, que me fazia na alma
no sei que pesar semelhante ao remorso.

Cheguei ainda a proferir a primeira palavra do corao, que se
arrependera. Quiz deixar intactas aquellas cinzas. Luctei comigo para
vencer um excesso de medo, um abuso, talvez, da imaginao. No pude;
mas no pude tambem retirar-me sem uma reliquia, um ser sem alma, uma
recordao para as lagrimas, e uma gloria s minha n'este mundo... a
gloria de possuir na morte uma companhia que tivesse sido incentivo de
lagrimas, j que no pude conseguir como companheira na vida essa
preciosa existencia, que me espera ha sessenta e seis annos na
eternidade.

Eis-aqui a reliquia, a testemunha immovel, terrivel, e silenciosa dos
longos soffrimentos d'um homem, que atravessou uma longa existencia, sem
conciliar com os prazeres do mundo a eterna viuvez da sua alma!

Eis-aqui a caveira de Martha que eu revisto a cada instante das feies
com que a vi partir d'este mundo. Ha alli n'aquellas orbitas uns olhos
que me vem... olhos mais penetrantes que os da vida, porque, nos sonhos
angustiosos d'esta paixo desastrada, eu vejo sempre esta caveira,
animada umas vezes do gracioso riso da innocencia, outras vezes das
contorses freneticas da desesperao... Ha alli n'aquelles ossos, onde
os labios articulavam hymnos dos anjos, uns labios que, a cada instante,
me balbuciam um perdo... E tenho momentos de inferno nas minhas
dolorosas contemplaes, aqui diante d'esta redoma... s vezes juraria
que essa caveira estremece em convulses rancorosas contra mim,
balbuciando o nome do homem, que a levou comsigo  sepultura!...
Ento... sinto-me demente, porque tenho ciumes do nada... ciumes d'estas
cinzas esquecidas no mundo... ciumes da memoria d'outras cinzas, que, ha
tres quartos de seculo, esperam o dia final...  lamentavel a situao
d'este pobre velho, que no pde roubar-se a uma agonia, das que o mundo
reputa chimeras, no  assim?

Deixe-me agora dizer-lhe o meu segredo, que esse ainda eu lh'o no
disse, nem lh'o diria, se lhe no acreditasse umas lagrimas que lhe vejo
nos olhos.

Eu creio em Deus, como creio na vida. Creio na vida como creio na dr. O
que eu no creio  na morte. A morte  uma palavra convencional, com que
os homens explicam a passagem de sobre a terra para o seio d'uma nova
existencia. A immortalidade  uma ida abstracta de tudo que 
comprehensivel aos homens. O homem no explica a immortalidade, em
quanto no sobe um grau na escala dos seres intelligentes. Veja se me
comprehende... Ha uma escala de seres que principia na materia bruta, e
termina nos espiritos. As funces do espirito, sem frmas corporeas,
pertencem  creatura, superior ao homem. Ora, o homem no explica essas
funces, que devem ser a sua futura existencia, pela mesma razo que o
animal, inferior ao homem, no comprehende as funces do pensamento
aperfeioadas, mas no perfeitas, no homem. Todos os seres, por tanto,
vo subindo na escala da intelligencia. Todos se transfiguram de frma
em frma at deixarem na terra o involucro da materia, e vagarem nos
espaos incognitos como vagam os espiritos.  l em cima, nas
proximidades do grande mysterio, ao claro da eterna luz, que se l o
livro de Deus.  nas regies, que a minha alma adivinha, que eu devo
sentir pelo orgo espiritual em que recebi a interminavel impresso de
agonia, que foi na terra a minha lenta peregrinao. O amor ardente e
sublime no  um attributo do espirito? Aquelle que muito ama, e muito
devorado morre de paixes grandes e ideaes, no  um propheta da vida
futura, uma preexistencia do futuro amor? A no ser o amor, qual ser a
existencia do espirito?

Conheo que o fatiguei... Pois, em verdade, lhe digo que quiz elevar o
seu espirito  altura das minhas grandes doutrinas, do meu querido
segredo. Quiz convencel-o, no digo bem, quiz enthusiasmal-o por essa
eternidade em que ahi se falla, despida de affectos, de poesia, de
esperanas, e... deixe-me dizer-lhe... indigna de Deus e dos homens...

Meu amigo, ha na minha vida um oasis. Tenho exaltaes de jubilo, aqui,
n'este quarto, onde conto, ha perto de setenta annos, os minutos da
minha existencia. Este goso  a minha convico na immortalidade...  a
minha esperana, confirmada pela meditao e pela sciencia, de que
hei-de encontrar essa alma, que tem vindo aqui revelar-me os segredos do
co...

Basta... Seja digno da minha confidencia... No diga s turbas de Villa
Real os segredos de D. Joo de Noronha. Aqui escarnecem-se os que
soffrem, logo que no soffrem pelas ms colheitas do vinho, ou pela
barateza dos cereaes. No falle a linguagem dos espiritos, onde a
materia organisada dispe do machinismo da bocca para lhe dar uma
gargalhada em resposta.

D. Joo de Noronha despediu-me.

Desde esse dia foram mais da alma e da intelligencia as nossas
communicaes. Aprendi com elle a sciencia do espiritualismo. Se depois
me materialisei,  porque a faisca d'aquelle genio no me tinha abrasado
mais que a superficie da materia. O espirito tem a fora dos
imponderaveis. A fora da materia pde muito bem calcular-se pela fora
dos vapores... _tantos cavallos_.

Pergunta-me uma senhora de critica muito fina:

--Como se explica o casamento de D. Joo de Noronha aos 86 annos de
idade, com uma donzella sua contemporanea?!

--De uma maneira muito simples. As nupcias de D. Joo no podem
considerar-se physicas nem moraes. Absurdo!--replica a espirituosa
dama. Est enganada, minha senhora. D. Joo tinha uma pequena fortuna,
e queria deixal-a a uma creada, que o servira desveladamente toda a sua
vida. D. Joo encarava philosophicamente as formulas sacramentaes do
casamento. Achava-o utilissimo como carimbo de contracto civil. Casou-se
para recompensar uma creada que lhe consolou muitas lagrimas, e lhe
enxugou nas faces mortas as ultimas que elle chorou. Era digna do
sacrificio. Poucos dias supportou a viuvez.

--E a caveira?--perguntou ainda a amavel syndica dos meus romances.

--A caveira deve estar confundida nos ossos de D. Joo de Noronha. A
viuva cumpriu religiosamente as suas ordens: envolveu-a na mesma
mortalha.




UMA PRAGA ROGADA NAS ESCADAS DA FORCA.




UMA PRAGA ROGADA NAS ESCADAS DA FORCA.


Este romance no devera chamar-se romance. Desde que esta palavra  o
atilho onde se enfeixam as mentirosas invenes do escriptor
phantastico, no ha historia verdadeira que possa, como tal,
recommendar-se com aquelle titulo.

Estes acontecimentos, expostos aqui, segundo o formulario romantico, e
affeioados s leis do estilo romantico, so verdades que no deram
brado, nem se gravaram na memoria da gerao que as viu e as no
comprehendeu.

Na vida moral da sociedade ha phenomenos cuja causa ninguem estuda. No
drama da familia ha lances que so do dominio do publico, e o publico
no pde, ainda que o tente, explical-os. Nas attribuies
individualissimas do homem ha phases extraordinarias de soffrimento, que
esta sociedade de entranhas crueis lhe recrimina, reputando-lh'as
effeitos necessarios das causas, consequencias do crime voluntario.

A sociedade, a familia e o homem expiam incessantemente a culpa do
homem, da familia, e da sociedade. Opera-se uma continua redempo do
genero humano. O homem , desde o seu principio, a victima da culpa com
o labio collocado no calix da agonia.

A vida sobre a terra  uma interminavel expiao. Eu pago pelos crimes
de meu pai, meus filhos expiaro meus crimes, e o ultimo ser vivo da
animalidade intelligente ser o holocausto do primeiro homem criminoso.

 foroso recorrer ao inconcebivel, ao sobre-natural, ao mysticismo da
providencia occulta para comprehender o que vulgarmente se diz
fatalidade.

Na historia, que vai ser lida,  to sensivel esta necessidade, to
aterrado se sente o espirito diante d'um facto consummado, que eu no
tive escrupulo religioso ou philosophico em subordinar um encadeamento
de infortunios d'uma familia  _praga rogada nas escadas da forca_.


I.


Bernardo da Silva era um filho bastardo de um nobre de Vizeu. Do ventre
materno passou  roda dos expostos, e d'ahi aos cuidados d'uma pobre
mulher d'alda.

Aos dez annos no conhecia pai; e sua mi, mulher do povo, arrastada
sobre a lama da plebe toda a sua vida, morrera com o segredo do _nobre_,
que se dignra descer at ella para honral-a com deshonra.

Bernardo, aos dez annos, era aprendiz de alfaiate, e de todos os seus
companheiros era elle o mais despresado, porque tambem era o mais
preguioso.

O rapaz vivia triste como se a idade lhe permittisse comprehender a dr
immensa d'um grande desastre. L dentro n'aquelle corao infantil
fallava uma prophecia funebre. Com os olhos sempre extaticos no
horisonte negro do seu futuro, o pobre moo no tinha uma hora livre
para o trabalho. Muitas vezes uma bofetada acordava-o d'aquelle
lethargo; e o brao, que estava suspenso com a agulha, continuava a
tarefa molhada de lagrimas.

Aos 13 annos era ainda um aprendiz de alfaiate, repellido d'este para
aquelle mestre, desacreditado em todos, e inutilmente espancado por
todos. Chamavam-no incorrigivel, e elle mesmo conheceu que o era.

Abandonou a agulha, e foi servir em casa de Francisco de Lucena. Era
ahi, como em toda a parte, coconhecido pelo Bernardo _Engeitado_.
Nunca ninguem se lembrou de reputal-o filho _d'alguem_: nem Lucena se
lembrou, alguma vez, de que um de seus muitos filhos, atirados  roda,
poderia ser seu lacaio.

Bernardo era creado de taboa.


II.


Este officio era-lhe mais generoso que o de alfaiate. Tinha muitas horas
livres para a sua melancolia, e muitos escondrijos no amplo palacio de
seu amo para refugiar-se d'uma sociedade que elle detestava sem saber
porque.

Este viver excepcional n'aquella classe galhofeira, esturdia, e
estragada, excitou a curiosidade dos seus companheiros, e, depois, a dos
amos. Aquelles chasqueavam-nos com desabrimento: estes admiravam-no por
compaixo.

Bernardo chorava sem motivo. Sorria-se com violencia. Era humilde com um
no sei que de estranha delicadesa. Destacava-se da sua classe com um ar
orgulhoso, mas no calculado. Cumpria as suas muitas obrigaes, e
ninguem sabia quando as cumpria. Estas qualidades, rarissimas vezes
encontradas n'um lacaio, tornavam-no assumpto de estudo para os amos que
principiavam a interessar-se na analyse d'aquelle obscuro engeitado.

Guardadas as inauferiveis distancias que separam o senhor do servo, os
fidalgos souberam que Bernardo desejava muito saber lr, e gastava a
maior parte da noite soletrando o abecedario, e decorando as lies que
o mordomo da casa lhe dava nas horas de desenfado.

Qualquer que fosse o impulso que a isso o levou,  certo que o amo, por
um nobre impulso, permittiu que o rapaz fosse a uma escla, e para isso
alliviou-o dos encargos de moo de taboa, e levou-o  jerarchia de
escudeiro do menino mais velho.


III.


Um anno depois, Bernardo fizera admiraveis progressos. Lia com
intelligencia do que lia; escrevia com acerto, e aprndera s comsigo a
grammatica portugueza, visto que seus amos lhe no tinham permittido
esta segunda parte dos seus estudos. Seria um caprichoso luxo permittir
ao servo sciencia que os amos no tinham! O muito illustre Francisco de
Lucena no daria o menor dos seus galgos pela vasta sciencia do Lobato.
E, talvez, tivesse razo.

Em casa de fidalgos d'esta bitla, quando um creado adquire a confiana
dos amos, ha sempre para isso uma de duas razes. Ou o creado, devasso
como elles, encobre astuciosamente as devassides dos amos; ou se torna
estimavel pelo zelo honroso com que procura encobrir-lh'as, j que no
pde reprehender-lh'as.

Bernardo estava na segunda razo. Os filhos de Lucena eram livres e
desmoralisados a no poder ser mais. Quizeram captar a benevolencia do
servo, no para aconselhal-os, que no desciam elles a isso, mas para
acompanhal-os em emprezas difficeis, d'aquellas em que o brao do plebeu
 muitas vezes a salvao das costas do fidalgo.

No o conseguiram nunca; mas tambem no tiveram de arrepender-se da
confiana d'esse convite. Bernardo exercia uma influencia admiravel
sobre os nobres libertinos. Era a superioridade da intelligencia.
Ouviam-no, e maravilhavam-se do acerto das suas idas, e da linguagem
escolhida com que o engeitado se sahia! O facto de ser engeitado era em
Bernardo, talvez, um motivo de superstio n'aquella casa. Se elle fosse
reconhecido filho d'algum _borra-botas_, como em linguagem nobliarchica
se chama um plebeu, de certo lhe no dariam a importancia de o
considerarem pela intelligencia. Mas o mysterio, a possibilidade de ser
vergontea infeliz d'um tronco illustre, cingiam-lhe a fronte d'uma
aureola entre nuvens, que poderia talvez, mais tarde, dissipar-se, e
deixar na plenitude da sua luz aquelle fructo do amor criminoso d'alguma
raa nobilissima, mais ou menos aparentada com os Lucenas!

Tudo isto era possivel; mas o que elles julgariam, entretanto,
impossivel,  o que vai lr-se.


IV.


A familia que Bernardo servia compunha-se de pai, mi, tres filhos, e
uma filha, de todos os irmos a mais nova. Por ento contava quinze
annos. Era bonita, mas pobre. Os morgados no a pediam; os filhos
segundos tambem no; e a sensivel menina precisava amar, porque o seu
corao era da tempera d'aquelles que no sabem conceber smente o amor
com a condicional do casamento.

Eulalia no tinha a mais superficial tintura de instruco, e por isso
no podemos, em boa f, chamar-lhe romantica. No era janelleira, nem
rapinhava da papeleira dos irmos o perfumado papel setim para deposito
de semsaborias amorosas, e por isso no podemos chamar-lhe douda.

Era uma mulher, e n'isto est dito tudo.

Este Bernardo  que realmente se parecia muito com os nossos poetas de
aspiraes ferventes e meditaes profundas. Mas no era impostor, nem
romanticamente parvo. O rapaz tinha uma alma como poucas, e uma tristesa
inconsolavel como nenhuma. A minha organisao--dizia elle-- um
aborto, uma enfermidade incuravel.

Eulalia sympathisava com aquella tristesa, e com a figura do rapaz.
Achava-lhe traos de semelhana com seus irmos, e via n'elle o que ella
chamava cara de pessoa de bem. E, com quanto eu deteste esta maneira
de classificar as caras, porque no conheo as caras de pessoas de mal
tenho-me visto em circumstancias foradas de dizer o mesmo, porque ha
n'este val de lagrimas umas caras que no exprimem bem nem mal, e essas
so as peiores caras.

Bernardo no se lembrou nunca de fazer sentir  cozinheira da casa, e
menos se lembraria de accender o fogo do amor no illustre corao d'uma
Lucena, com quem em toda a sua vida fallra tres vezes.

Eulalia passou da dce sympathia ao amor abrasado, e do amor abrasado 
paixo violenta. Por mais finos e eloquentes olhares que a fogosa menina
lanou ao escudeiro, o escudeiro ou no dava por elles, ou explicava-os
de qualquer modo, com tanto que no ousasse ensoberbecer-se d'aquelle
affecto disparatado. E Eulalia desesperava-se!


V.


Francisco de Lucena espreitava a opportunidade de empurrar a filha para
fra de casa. Aspirou, primeiro, aos morgados; mas encontrou-os pouco
apreciadores de formosura e fidalguia. Recorreu, depois, aos burguezes
ricos, e encontrou um negociante d'alto brdo, que recebeu a proposta
com affabilidade e trabalhou desde logo em levar a fim um casamento que
permittia aos filhos de seu filho appellidarem-se Lucenas.

O pai annunciou  filha o seu rico futuro, e encontrou-a fria.
Apresentou-lhe o noivo, e viu-a enjoada. O noivo, porm, era um rapaz de
fina educao, d'alguma intelligencia, de brios que o ouro lhe
estimulava, e de orgulho superior  sua classe, porque, ha 50 annos, a
classe commercial era muito humilde, supposto j trabalhasse para esta
poca de bares commerciaes, que, digam l o que disserem,  o mais
palpitante triumpho da democracia. Para me no metter em graves questes
sociaes, entenda-se que D. Eulalia repelliu a felicidade que seu pai lhe
annuncira com tanto jubilo, e declarou-se sentimental, por tempo de
quinze dias, fechada no seu quarto, sem querer vr sol nem lua.

Mas o pai apoquentava-a, sempre que podia, pintando-lhe a mesquinhez do
seu futuro, e a pobresa de sua legitima, que oraria talvez por tres mil
cruzados. E era isto verdade.


VI.


E o peor era que o tal Joo Leite, noivo repellido, ficou amando
desesperadamente D. Eulalia. Ferido no seu amor proprio, e envergonhado
de to m estreia, instava com Francisco de Lucena, lanando-lhe em
rosto a imprudencia com que viera roubal-o  sua tranquilidade, no
podendo contar com a obediencia de sua filha. Esta maneira de accusar
vexava Francisco de Lucena, porque era pr em duvida o seu poder
paternal, e chamar-lhe fraco, imputao que elle odiava ainda mesmo que
se tratasse de vencer a repugnancia de uma fraca menina.

Redobravam as mortificaes, e Eulalia, immovel como o seu infeliz amor,
offerecia-se de bom grado  vingana paternal, mas dizia, em linguagem
tragica, que s reduzida a cadaver passaria para a posse do tal
miseravel, que no tinha vergonha de perseguir uma mulher que o
despresava. O pai realisou o dito popular: casar, ou metter freira.
Eulalia optou pelo segundo, e os preparativos para entrar no convento
principiaram.

O amor faz a mulher varonil. Temos visto almas de lama apresentarem uma
energia corajosa, quando o tonico do amor lhes vibra as cordas
embrionarias d'um corao, que parece arfar de improviso ao repentino
choque, ao rapto da paixo violenta.

Nas vesperas da sua entrada no mosteiro, Eulalia escreveu tres cartas.
Uma a seu pai. Dizia-lhe que amra um s homem e viveria d'esse amor
desgraado toda a sua vida.

Outra ao escudeiro. Dizia-lhe que tivesse compaixo d'ella, e chorasse
uma lagrima em troca das que ella chorra, e choraria at  morte.

Outra ao seu implacavel pretendente. Dizia-lhe que o amaldioava com
todo o odio do seu corao. Que lhe atirra  cara com um _no_, e nem
assim o envergonhra de continuar a perseguir uma mulher.

Esta correspondencia conservou-a Eulalia at ao momento em que transpoz
o limiar do convento. O seu primeiro acto foi dar-lhe o destino
competente. Depois, chorou, chorou, e attrahiu em volta de si os
carinhos da communidade que a mortificava com as suas frias consolaes.


VII.


Francisco de Lucena recebeu com espanto semelhante carta.

Bernardo da Silva embruteceu-se ao lr a sua.

Joo Leite deu quatro murros n'uma mesa, e sentiu-se suspenso no ar por
uma legio de demonios raivosos.

Cada um fez seu papel; mas todos tres reunidos deviam formar um grupo
digno da melhor caricatura indita!

Francisco de Lucena correu ao locutorio do mosteiro, e fez alli
apparecer imperiosamente a filha.

Quiz foral-a a declarar o nome do homem que a preoccupra at a fazer
m filha. No lhe arrancou a menor revelao. Foi por outro caminho para
chegar ao seu fim. Fez-se sentimental; lamentou, como bom pai, as
paixes invenciveis d'uma filha que se prsa com extremo carinho; contou
historias anlogas, que acabavam todas por casamentos desiguaes, mas nem
por isso menos venturosos. Pediu a sua filha o nome d'esse homem que a
impressionra, e fez-lhe ante-gostar a possibilidade de casar-se, se no
viesse d'alli uma absoluta deshonra para a sua familia.

O amor fez heroes, mas tambem faz patetas. Eulalia desceu da sua altiva
energia ao raso da toleima. Declarou o nome... o nome de quem? o nome,
sem nome, do engeitado, do aprendiz de alfaiate, do lacaio, do
escudeiro!...

Que horror!

Nunca se viu um solavanco mais desamparado que o salto de tigre que
Francisco de Lucena deu contra a grade que o separava da filha! Por
Deus! que a esgana se lhe chega! A pobre menina, arripiada como quem v
um lobo com as fauces vermelhas, e as unhas recurvas, foge pelo
dormitorio, e fecha-se no quarto.


VIII.


Lucena correu a casa com os olhos injectados de fogo. Precisava d'uma
victima! Encontrou no caminho Joo Leite, mas este no podia
justificadamente ser sua victima. Joo Leite mostra-lhe a carta que
recebra de Eulalia. Isto foi exacerbal-o. No se lhe d de ser
repellido por essa infame,--lhe disse elle--Eu vou provar-lhe que sou
pai!... Essa mulher amava um escudeiro... um lacaio... um
_engeitado_...

Entrando em casa, procurou o engeitado. Encontrou-o ainda
estupidamente absorvido na meditao d'aquella carta. A entrada rapida
que fez no quarto no deu tempo a que Bernardo escondesse a carta que
tinha aberta nas mos tremulas. Lucena arrancou-lh'a com uma convulso
de raiva superior  furia d'um demente. Passou-a pelos olhos, e, sem
articular um som, lanou mo d'uma cadeira, e,  segunda pancada,
Bernardo tinha a face coberta de sangue. Era um sangue innocente que
reclamava justia. Era um sangue innocente que pedia a interveno de
Deus. A justia, filha legitima do co, vir mais tarde salpicar
d'aquelle sangue a face de quem o derramava.

Bernardo, ferido, e pisado de successivas pancadas, no pronuncira uma
s palavra durante este infernal martyrio. Impellido por pontaps, foi
lanado fra da porta do quarto. As foras faltaram-lhe. O sangue corria
a jrros. Esvaiu-se-lhe a cabea, e cahiu.

O fidalgo chamou dous creados, e mandou pr aquelle homem fra da porta.
Era ao anoitecer. O engeitado foi arremessado  rua. Quando recuperou os
sentidos, achou-se frio. Ergueu-se. Olhou com os olhos da alma para a
sua consciencia, e sentiu pela primeira vez vontade de sorrir da sua
desgraa pelos labios molhados de fel.

E riu-se. Era um sorriso semelhante ao dos anjos. As almas que podem
sorrir assim so as que Deus elege para a santidade da bemaventurana.


IX.


Bernardo procurou um refugio em casa de uma mulher pobre que o tractra
sempre com amor, matando-lhe a fome, quando a aprendizagem de alfaiate
lhe no valia o po de cada dia. Esta mulher fra ama da roda no tempo
em que Bernardo l fra lanado. Suppunha ella que talvez o tivesse
alimentado ao seu seio por algumas horas, e esta s conjectura
attrahia-a para elle com instincto maternal.

O engeitado curou-se dos leves ferimentos, e pediu a Deus que lhe
inspirasse um destino. Esperou.

Em Vizeu fallava-se muito d'este successo, divulgado por Francisco de
Lucena, e por Joo Leite.

Bernardo era procurado para ser punido; e quem mais diligencias fazia
para isso era o juiz de fra Paulo Botelho.

O honrado moo, quando se viu na penosa situao de agenciar a sua vida,
por no poder sahir da pobre casa em que vivia, impellido pela sua
innocencia, procurou o juiz de fra, e expoz-lhe com a mais eloquente
naturalidade a injustia com que fra maltratado e com que estava sendo
perseguido.

Paulo Botelho quiz espancal-o com um chicote por ter tido a audacia de
entrar em sua casa sem ferros aos ps. Olhou em redor de si procurando
um aguazil para fazel-o prender traioeiramente; mas o generoso mancebo,
adivinhando-lhe as intenes, disse que no precisava fingir-se; que
elle dava a sua palavra de honra de no retirar da casa em que estava
vivendo, e que mandasse sua senhoria captural-o quando quizesse. O juiz
riu-se da _palavra d'honra_ na bocca d'um creado de servir, e mandou-o
embora, por no ter a proposito um meirinho.

Bernardo encontrou ao retirar-se, nas escadas do ministro, Joo Leite,
que apeava d'uma liteira, segundo o uso dos nobres, comprado pelo ouro
do burguez opulento.

Joo Leite fixou-o com ar de soberano despreso, e perguntou-lhe:

--s tu o lacaio de Francisco de Lucena?

--Fui o lacaio do snr. Francisco de Lucena--respondeu Bernardo com
dignidade.

--E tens o atrevimento de apparecer entre pessoas de bem?

Bernardo suffocou uma resposta amarga, e fez uma continencia respeitosa
para retirar-se.

--Vem c, miseravel!--tornou Joo Leite--tu s o amante da filha do teu
amo?

--Respeitei-a muito, por ser a filha de meu amo, em quanto o servi. Hoje
respeito-a, porque lhe no conheo a menor falta que a deshonre!

--Nem ao menos a deshonra de receber as tuas affeies, lacaio?

--Eu no lh'as offereci nunca, senhor.

--Offereceu-t'as ella, sevandija?

--No, senhor.

--Mas ella escrevia-te...

--Sem ser criminosa, por isso...

--Ento achas que no  crime escrever a um bandalho?

--Ser, se v. s.^a o quer...

--Tenho pena de seres um reptil que faz nojo esmagar com a solla da
bota! Se tivesses um nome...

--Tenho um caracter, senhor!

Bernardo respondeu com altivez; Joo Leite riu-se com despreso, e
olhando-o da cabea aos ps, replicou:

--Tu sabes que no podes ter caracter, engeitado!?

--Ento, terei um brao...

--Um brao!--atalhou o fidalgo em projecto, imprimindo-lhe um valente
pontap, que o fez descer tres escadas maquinalmente.

Bernardo assumira toda a dignidade do homem de corao ultrajado. Joo
Leite achou-se comprimido entre os braos do _sevandija_ que elle
suppunha fugir ao primeiro pontap para evitar o segundo.

Quiz desfazer-se, de prompto, d'este empecilho, e no pde, porque os
ps falsearam-lhe, e as costas bateram-lhe com todo o peso sobre os
degraus de pedra. Tirou rapido de um punhal, e roou com elle duas vezes
sobre o brao direito de Bernardo, que o desarmou, no acto em que uma
terceira punhalada lhe resvalra no peito. O engeitado sentiu-se ferido:
vacillou um instante na resoluo que se debatia entre o homicidio e o
perdo. Venceu o primeiro. Aquelle punhal tinto de sangue innocente,
pela segunda vez, derramado, entrou no corao de Joo Leite, e matou-o.

Isto foi obra d'alguns segundos. Joo Leite gritra nas convulses da
morte; acudiram os creados, e encontraram Bernardo da Silva, de braos
cruzados ao p do cadaver, que vibrava nos seus derradeiros
estorcimentos.

Paulo Botelho tambem acudiu. Primeiro recuou aterrado: depois gritou
matem esse homem! E vendo que ninguem de prompto lhe aceitava o
diploma de assassino, mandou-o carregar de ferros.

Bernardo caminhou para o carcere, com a fronte altiva, com nobreza de
passo, com serenidade de consciencia e maneiras d'um principe, segundo a
linguagem popular dos que o viram.


X.


Foi processado. Paulo Botelho desenvolveu uma espantosa energia no
andamento d'esta causa crime. Erguia-se todos, os dias, sofrego da
escrever uma sentena de forca.

Os depoimentos eram todos contrarios ao infeliz. Um s homem protegeu
esse preso; sabia-se que era um ancio que lhe levava umas sopas
diariamente, e palavras consoladoras de esperana sem esperana.

Eulalia, sabendo estes acontecimentos at  vespera do dia em que o
escudeiro devia ser condemnado, requereu que queria ser ouvida em juizo.
No lhe admitiram o seu depoimento. A pobre menina, inspirada da
eloquencia do martyrio, entrou um dia no cro, quando a communidade
orava, e invocou o testemunho de Jesus Christo, exclamando, de modo que
a escutasse o povo que estava na igreja:

Declaro que esse infeliz homem, que vai morrer, depois de martyrisado
por meu pai, e apunhalado por um homem que eu despresei, declaro diante
de Deus e dos homens, que esse infeliz nunca me disse uma palavra s
para que eu o amasse. Fui eu que o amei, fui eu que lhe escrevi, quando
entrei n'este mosteiro, fui eu que o fiz desgraado, mas em recompensa
hei-de amal-o toda a minha vida, e hei-de unir-me a elle na presena de
Deus! Era uma demencia!

Foi grande o assombro dos que a ouviram. O ecco d'este grito chegou aos
ouvidos de Paulo Botelho, que estava presente; mas a sua alma fra
cerrada pela mo corrupta do ouro. O povo murmurava, e dizia que no
havia de ser enforcado o escudeiro.

Pobre povo, n'aquelles dias, se tentasse tirar das mos d'um juiz o seu
instrumento inauferivel, o carrasco!


XI.


Bernardo foi condemnado  pena ultima; Ergueu-se uma forca nas
proximidades do delicto, entre a casa do juiz, e a de Francisco de
Lucena.

Eulalia exaltra-se no martyrio at causar receios de loucura.
Inspiravam-se de uma dr de morte as exclamaes pungentes que soltava a
cada ruido que ouvia semelhante ao arranco retrahido d'um justiado. O
espectaculo da forca era a sua ida fixa, desde o momento que uma
religiosa imprudente lhe annunciou o destino de Bernardo da Silva.

A infeliz, na madrugada do dia da execuo, fugiu da cella com os
cabellos em desordem, com as faces chammejantes de febre, com os olhos
embriagados de delirio, e com o corao a estalar-lhe de uma dr que a
endoudecia.

Chegando  portaria no houveram foras humanas que a contivessem. Os
ferrolhos cederam ao impulso d'uma fraca mulher, forte da sua
desesperao; e esta virgem, com habitos de novia, e bella, na sua
agonia, como um corpo epileptico que se levanta amortalhado do esquife,
corria por entre as multides que principiavam a agglomerar-se para
testemunharem o desconjuntar dos ossos do pescoo d'um padecente entre
as mos do carrasco, seu irmo, ambos filhos do mesmo Deus, ambos
remidos pelo sangue do mesmo Christo.

Viram-na as multides passar; muitos a conheceram: alguns pronunciaram o
seu nome, mas aquella pomba, ferida de morte, era um cadaver que se
movia impellido pelo choque da pilha galvanica.

Erguera-se um alarido na cidade. As turbas corriam na direco da
infeliz, a quem chamavam douda; mas no ousou alguem embargar o passo
quella mulher que parecia fascinar com a magestade da sua demencia.

Os que a seguiam esperavam vl-a entrar em casa de seu pai.
Enganaram-se. Eulalia subiu as escadas de Paulo Botelho, e entrou no
salo onde fra lavrada a sentena de cadafalso para Bernardo da Silva.

Paulo Botelho estremeceu na cadeira, quando viu aquelle alvejar de uma
larva, ajoelhada nos degraus da tribuna.

Deu-se um profundo silencio de alguns minutos.

Eulalia j no podia coordenar as idas que poucos dias antes clamra no
cro. O sorriso da loucura, o gemido suffocante, uma lagrima embebida
logo no ardor das faces, e algumas palavras entaladas, e apenas
intelligiveis, eram alternativas que a tornaram mais lastimavel durante
alguns minutos.

A mulher e tres filhas de Paulo Botelho, que a viram entrar, correram ao
tribunal, e quizeram arrastal-a d'alli. Era impossivel. A estatua
parecia chumbada sobre o seu tumulo.

A familia do juiz julgou conveniente empregar o insulto como soluo.
Fallavam do justiado com certa nauzea, que ellas suppozeram ser o
balsamo para a ferida mortal de Eulalia. Paulo Botelho, coadjuvando as
razes da sua familia, cobria de improperios affrontosos o homem que,
pouco depois, havia de perdoar as injurias com a cabea no lao da
forca.

A exaltao afflictiva de Eulalia tinha tocado o ponto culminante da
morte, ou da alienao irremediavel.

--Innocente! Innocente!--eram os gritos unicos, as derradeiras palavras
que os labios d'aquella mulher tinham de proferir.


XII.


N'este momento entrou um homem que redobrou o espanto. Era Pedro Leite,
pai de Joo Leite.

Este homem fez signal de querer fallar. Attenderam-no todos com
religioso respeito.

As suas palavras foram estas:

--Perdo ao assassino de meu filho! O sangue d'esse homem cahir sobre a
minha face! Matou defendendo-se d'um aggressor infame! Senhor juiz de
fra, requeiro a suspenso da execuo da sentena. Eu sou parte, e
declaro innocente o ro!

Seguiram-se minutos d'uma estupefaco natural. Eulalia voltou os olhos
para o homem que fallra, quiz arrastar-se de joelhos aos ps d'elle;
no pde; a impresso devia matal-a, ou resuscital-a... desmaiou a meio
caminho.

O juiz era o algoz moral creado pelo ouro, assim como o carrasco physico
fra creado pela lei. No podia eximir-se a pegar do cutello, e seguir
seu caminho.

-- tarde!--respondeu elle.

--No  tarde!--replicou Pedro Leite, e continuou com solemne
exaltao:--Tarde, senhor juiz,  depois que o tribunal do mundo se
fecha atraz d'aquelle que vai entrar no tribunal de Deus! Tarde, 
quando um juiz de entranhas ferozes se apresenta no banco dos ros
condemnados com a face borrifada de sangue innocente!

--Basta!--exclamou Paulo Botelho com authoridade!

--Pois sim... basta! mas, abaixo de Deus, invoco o testemunho das
pessoas que me escutam. Declaro que lavo as mos d'este sangue innocente
que vai ser derramado!

O povo murmurou com acanhamento, com a consciencia cobarde da sua
nullidade, mas balbuciou no sei que palavras que irritaram o juiz.

--No se trata s de punir o assassino de Joo Leite!--exclamou o
juiz--trata-se de castigar a affronta que recebeu um nobre, feita por um
lacaio que ousou levantar olhos de amante para sua filha!

--No, no!--gritou Eulalia, erguendo-se com impeto, com as mos postas,
e cahindo outra vez sobre os joelhos.

O cynico j no tinha coragem para tanto! Sora a hora do ultimo mandato
ao carcereiro. Expirra o ultimo instante de oratorio.

--Cumpra-se a lei!

Disse o juiz, e fez meno de retirarem-se as ondas de povo que tinham
concorrido em tropel, chamadas pelos gritos de Eulalia, e pelo perdo
publico de Pedro Leite.

Eulalia foi conduzida em braos para o interior da habitao do juiz.


XIII.


A procisso onde a impudencia collocra um Christo, o Deus da caridade,
nas mos d'um padecente, que hia ser esganado!... a procisso, onde se
via um homem de tunica branca, um algoz de cutello e alcofa, alguns
sacerdotes d'um Deus misericordioso!... a procisso descia terrivel de
repulsiva solemnidade para o aougue d'aquella rz! A tumba da
misericordia fechava aquella orgia de sangue! Era um insulto a Deus! o
cadaver d'um homem atirado  face do Creador! um escarneo satanico 
intelligencia, e ao corao da humanidade!

O prestito parou na praa do sacrificio.

Bernardo com os olhos fitos no co via nascer a risonha aurora da
eternidade. Sorriam-lhe os anjos, e a justia de Deus mostrava-lhe o seu
regao. A morte do justo era um crepusculo de nova existencia a
alumiar-lhe o rosto. Inspirava devoo aquelle seu santo sorrir para o
seio do co que se lhe abria! Trazia nas mos a imagem do Redemptor; mas
l em cima via elle o Espirito Creador, a grande alma, onde se refugiam
as almas dispersas na face d'este mundo, e perseguidas pelo demonio da
ira, e da vingana, eternamente encarnado no homem, a quem a sociedade
entregou o azorrague da flagellao do virtuoso.

Bernardo caminhava a passo firme para a escada da forca. Estavam
contrahidas as respiraes. Um gemido, menos suffocado, podia ser ouvido
por quinze mil almas que vieram a contemplar aquelle apparelho de morte,
segundo a lei, _formulada pelas inspiraes do Evangelho_! pelo codigo
dos perdes! pelos preceitos do Filho de Deus que morrra, perdoando!


XIV.


Atravs da multido abriu-se uma clareira para deixar passar um homem,
que devia representar um principal papel n'aquelle festim da lei.

Convergiram todas as attenes para aquelle ponto.

Era Pedro Leite--ainda o pregoeiro da innocencia de Bernardo, com a face
cadaverica das longas noites que chorra sobre o tumulo de seu filho
unico.

Quem disse a este homem que Bernardo da Silva era um innocente?

Que fora occulta o arrasta a abenoar nas escadas da forca o assassino
de seu filho?

Phenomenos occultos da Providencia! A voz de Deus, soando pelos labios
do mysterio! Explicai-me as operaes de Deus, e eu vos explicarei a
inspirao sobrenatural que obriga a balbuciarem o perdo os labios, que
beijaram morto um filho estremecido...

Pedro Leite aproximou-se do justiado. Ninguem lhe embaraou o passo.

Cheio de magestade, de poesia funebre, e de santo terror, fallou assim:

Eu venho pedir o seu perdo  beira do patibulo. Fui eu que o arrastei
at ao tribunal em que foi condemnado; mas no sou eu que o arrasto
aqui. Bradei em favor da sua innocencia. Pedi, ha momentos, a suspenso
d'este acto, em que a minha dr ser mais... muito mais prolongada que a
sua. No me ouviram: impozeram-me silencio, e mandaram-me sahir do
sanctuario da lei, que resfolegava sangue pela bocca do seu sacerdote.

Venho pedir o seu perdo nas escadas da forca, e vasar o fel, que me
devora a consciencia, na consciencia do juiz implacavel que pede a sua
cabea a altos gritos!

Ouviu-se um prolongado murmurio. Era a onda popular que refervia sopeada
entre as rochas da sua impotencia moral, n'aquelles dias, em que o
sangue d'um plebeu continuava a operao regeneradora do sangue de Jesus
Christo.

Bernardo ouviu com presena de espirito a exclamao de Pedro Leite.

Eu lhe perdo!

Foram as suas palavras unicas.

Choraram-se ento muitas lagrimas. A piedade teve uma exploso, que as
cronhas dos soldados reprimiram. As turbas queriam rasgar o quadrado
para arrancarem da morte um santo. Este conflicto foi serenado por outro
mais sublime. Ouviu-se uma voz. Viu-se um homem que sobresahia entre as
molas populares. Era o velho, protector unico de Bernardo da Silva,
durante a sua priso. Poucos o conheciam.

Foram estas as suas palavras:

Nobre senhor Francisco de Lucena! vem vr teu filho que morre
enforcado! Nobre senhor Francisco de Lucena! vem vr o filho da mulher
que deshonraste, como  nobre nas escadas da forca! Nobre senhor
Francisco de Lucena! vem vr teu filho, o filho de minha filha, que
borrifa os teus pergaminhos com o teu sangue illustre!

E calou-se. Calaram-se todos. E aquelle homem l estava erguido como o
anjo dos tumulos  espera que Deus mande quebrar a lousa d'uma mulher
que ahi falta n'esse trance afflictivo!

Essa mulher morrra, deshonrada, suffocada pela mo da ignominia, a que
a soberania fidalga de Francisco de Lucena a abandonra.

Esse ancio era o pai d'essa mulher, unico que recebra em seus braos o
filho da deshonra, unico sabedor d'aquella existencia, que acompanhou
sempre, porque lhe marcra um brao com uma cruz. Desde o ventre 
forca, de longe, desconhecido, com o segredo da deshonra de sua filha
abafado no corao, este homem seguira os vestigios do neto, sem
declaral-o nunca, porque um appellido illustre no o salvava a elle
d'uma _illustre_ ignominia.

Que impresso fez este homem nas turbas? A do espanto. Mas, momentos
depois, chamavam-lhe Doudo. Por ordem do juiz de fra hia ser preso o
demente. Aproximou-se a justia d'el-rei.  doudo...! dizia o meirinho
ao lanar-lhe a mo.

_No  doudo_...  MORTO...  responderam algumas vozes.

Morto, sim!


XV.


Hia consummar-se aquelle enredo de peripecias terriveis.

Bernardo poz o p direito na ultima prancha da forca. Voltou-se para o
povo. Brilhou-lhe na face o claro d'um outro mundo. A sua voz era
melodiosa como o cantico do anjo da morte suavissima: mas n'aquelle todo
via-se a terrivel magestade do anjo do dia final. As suas ultimas
palavras foram estas:

Ouvide a praga d'um padecente, rogada nas escadas da forca: Que a
justia de Deus se cumpra na presena dos homens!
...........................................................................
...........................................................................

O povo voltou o rosto do aspecto hediondo d'uma face injectada de sangue
negro. Outros viram-lhe uma onda de luz cingindo a fronte. N'esse
momento ajoelharam muitos justos pedindo ao espirito do justiado a sua
proteco na presena de Deus!


CONCLUSO.


Passaram quinze dias.

Eulalia de Lucena recuperra o juizo, e entrra no mosteiro. Um anno
depois, professra. A sua vida foram tres annos de adorao extatica.
Ouviram-na murmurar palavras celestes, como em dialogo. Dizia-se que um
anjo devia apparecer-lhe n'aquelles arrobamentos. Chamavam-lhe santa, e
adoraram-na morta.

Passados quatro annos, Francisco de Lucena, sempre afastado de sua filha
pela mo do remorso, morreu de repente no mesmo local em que fra
hasteada a forca.

Simo Botelho, filho de Paulo Botelho, dra um tiro em seu pai. O pai
quiz sentencial-o: deu-lhe sentena de forca, que depois lhe foi
commutada em degredo perpetuo. Apenas desembarcou em Cabo Verde,
abriu-se-lhe uma sepultura.

Paulo Botelho, desembargador aposentado, dez annos depois, morria 
vigesima quinta punhalada que recebra, por no dar exactas informaes
d'um peculio de cincoenta mil cruzados que guardava em uma quinta nas
visinhanas de Villa Real.

A mulher de Paulo Botelho morria douda no hospital de S. Jos um anno
depois.

Restavam tres filhas de Paulo Botelho.

Foram devassas at ao escandalo de serem arrastadas a um recolhimento
por expresso mandado regio.

Uma appareceu morta n'um aqueducto por onde procurra evadir-se.

Outra casou com um homem que a retalhou de martyrios.

A terceira enforcou-se no batente de uma porta.

A Justia de Deus Cumpriu-se na Presena dos Homens.

A praga do justiado nas escadas da forca teve o seu complemento do
genero de morte que a ultima pessoa d'aquella familia se dra.

Forca por forca.
...........................................................................

Tendes a curiosidade das averiguaes? Procurai em alguns cartorios de
Vizeu a sentena pronunciada entre 1776 e 1780.


REMATE.


No sou contumaz, nem me ufano de relapsia.

De tudo que disse me desdigo, se algum inquisidor intoleravel deparar
ahi heresia, contra-senso, atrevimento ou cousa que duvida faa contra
Plutus, unico deus da unica religio cujo codigo penal me intimida.

Ha cousas incriveis n'este volume?  que eu, e os meus amigos
litteratos, poetas, jornalistas, e at redactores encartados de
necrologios sabemos passagens que arripiam carnes e cabellos. Se o siso
commum as no adopta,  que os chronistas do tempo formam,  parte, um
_status in statu_, cousa inintelligivel aos que no sabem latim, por
grande fortuna sua.

N'este synhedrim ha uma moral, estragada se o quizerem, mas os
evangelistas, que a propagam so Cates, com tanto que os no obriguem a
inquietar a sadia tranquillidade dos intestinos. Aqui, no se sacrifica
um dedo a uma pisadella, porque no vale a pena.

 necessario escrever, visto que ha leitores.

Eu, e os meus correligionarios, se at hoje no temos irradiado sobre a
humanidade ondas de luz,  porque a humanidade precisava ser,
primeiramente, operada na catarata. O luzeiro da civilisao aqueceu,
no ha muito, a concha em que, por aqui, se escondiam muitos molluscos
moraes, que vo sahindo agora a espanejar-se ao sol.

No quero dizer que os molluscos passassem a articulados. Pde muito bem
ser que o leitor, ou leitora sejam ainda legitimos molluscos; mas a
excepo deploravel no claudica a generalidade. E, por tanto:

Eu, e os meus amigos, mencionados acima, considerando que a candeia no
deve estar muito tempo debaixo do alqueire, nem os talentos (dinheiro)
soterrados vencem juros: e tendo ns outro sim, em muito afan e desvelo
desaffrontar a litteratura patria de injurias com que estrangeiros e
nacionaes a desconceituam, desairando-a como pobre de romances, pela sua
incapacidade inventiva--o que no s  malicia, mas at aleivosia:
resolvemos escrever romances em que figurassem muitas pessoas nossas
conhecidas, e outras, que viremos a conhecer no decurso d'esta meritoria
tarefa.

Pelo que, a mim, humilde entre os humildes apostolos d'esta ida lucida,
coube o quinho de trabalho, que a posteridade me devolver em gabos e
applausos, e o futuro Plutarcho dos homens illustres d'esta freguezia de
Cedofeita, em que tenho a honra de morar, no deixar de consignar nos
fastos gloriosos.

Disse.




PATHOLOGIA DO CASAMENTO.


DEDICATORIA.


                                          _Exc.^{ma} snr.^a D. Fulana._


Conceda-me v. exc.^a a gloria de offerecer-lhe um quadro d'esta galeria.
Vai lr um drama intitulado Pathologia do Casamento.

_Pathologia_, minha querida snr.^a D. Fulana,  uma palavra grega,
composta de _pathos_, doena, e _logos_, tractado. Quer, por tanto,
dizer _molestias do casamento_.

Balzac escreveu a _physiologia_; outro, que me no vem  memoria,
escreveu _anatomia do corao_; faltava uma _pathologia_ que
apparece agora, e, mais tarde, se me no faltar a vista intellectual,
que j sinto muito canada, escreverei a _Pharmacia do casamento_ que
hei-de dedicar a uma outra D. Fulana, que eu c sei.

V. exc.^a  uma senhora fina, que, alm de ter a cabea no seu lugar,
apresenta muitas vezes lume no olho. Sympathiso com o seu talento, e
talvez casasse com a snr.^a D. Fulana, se tivesse a certeza de podermos
entreter o nosso tempo traduzindo os trinta e sete livros de Plinio, e
os trinta e cinco _De Lingu Latin_ de Terencio Varro, que Deus tem em
sua santa gloria.

Penso que v. exc.^a no estaria por isto. O seu espirito tem calefrios
de enthusiasmo, e eu, a fallar-lhe a verdade na sua nudez patriarchal,
devo dizer-lhe que tenho dentro do peito uma mumia, que poderia valer
alguma cousa nas ruinas de Memphis, mas no vale nada no cavername
ossudo d'este seu creado.

Eu preciso d'uma mulher d'oculos, e pitada constante nos dedos. Quero
que ella me falle dos Heraclidas, das Saturnaes de Macrobio, de Creta e
de Lacedemonia, da Beocia e Epaminondas.

Eu no sei se v. exc.^a sabe alguma cousa d'isto; mas desconfio que no.
Falla-me muito em Victor Hugo, e na _Petite Fadete_ de George Sand. J a
encontrei a lr _les Liaisons Dangereuses_, e a _Manon Lescaut_.
Palpita-me que a snr.^a D. Fulana tem na cabea muita somma de tas de
aranha, e no serei eu a vassoura da limpeza.

No obstante, respeito-a, admiro-a at ao ponto de lhe offerecer a minha
_Pathologia do Casamento_.

Digne-se v. exc.^a acolhel-a no regao da sua benevolencia, e d-me
occasies de mostrar-lhe que sou

                                                 De v. exc.^a

o ultimo creado, e o primeiro dos seus admiradores,

                                            _Camillo Castello Branco_.


PERSONAGENS.


D. Leocadia                  18  annos.
D. Julia                     20    
A Viscondessa de Valbom      45    
Jorge da Silveira            30    
Alvaro de Castro             32    
Eduardo Leite                30    
O Visconde de Valbom         50    

_Damas, cavalheiros, e creados_. (Podem ter a idade que quizerem).

A scena dizem que se passou no Porto; mas o author no impe, Mafoma
dramatico, a crena a ninguem. Cada qual fique no que lhe parecer; mas,
se, effectivamente, os personagens existem, tenham paciencia.




PATHOLOGIA DO CASAMENTO.




ACTO I.


DECORAO.


     _Uma saleta contigua a um salo de baile, separada por largas
     portadas de vidro, atravs das quaes se vem perpassar, em passeio,
     damas e cavalheiros_.


SCENA I.

     Julia, _e_ Leocadia, _entrando, como fatigadas, sentam-se n'um
     soph._ Julia _tira da cabea uma grinalda de flres brancas, que
     arremessa com desdem sobre o soph_.


Julia.--Afflige-me tudo!... Tomra-me eu na minha liberdade, Leocadia!
No goso nada... Tanta luz parece um insulto  escurido da minha
alma... Queria-me sosinha...

Leocadia.--No tens paciencia nenhuma, Julia!... Que  o que te afflige
assim?

Julia.--Que !...  aquelle homem... Sempre aquelle homem!... no ha
nada que o desengane...

Leocadia.--Nem as palavras?!

Julia.--Eu sei!... nem as palavras, talvez...

Leocadia.--Porque no s franca?! Eu, de mim, na tua posio, tinha-lhe
dito: no me persiga!  o que eu j disse a Eduardo...

Julia.--Eu no sei dizer isso... Acho que  aviltar demasiadamente um
homem... Pois to estupido  elle, que precisa uma franqueza to
impropria d'uma senhora? Tenho feito tudo que pde desenganar um
homem... Teima, persegue-me, flagella-me...  insupportavel!... Ainda ha
pouco, entre mim e Jorge...

Leocadia (_sobresaltada_).--E Jorge!...

Julia.--Que modo  esse!? Jorge interessa-te!?

Leocadia.--E a ti?

Julia.--A mim?... Pois no sabes...

Leocadia.--O que?... no sabia... Elle ama-te?

Julia.--Tem-m'o dito...

Leocadia.--Elle!... tem t'o dito... Jorge!...

Julia.--E tambem a ti?... Falla depressa...

Leocadia (_contrafeita_).--No... a mim... no... mas a ti... sim?

Julia.--Penso que sim... mas esse descorar... Leocadia!...

Leocadia.--Fui eu que me enganei... Pensava...

Julia.--Talvez te no enganasses... Que te disse elle?

Leocadia.--Nada... Vamos ns  sala?...

Julia.--J?!... Eu no vou j... Vai tu, se queres...

Leocadia.--Que  o que me querias dizer?... Disseste que entre ti e
Jorge...

Julia.--Estava uma cadeira de vago... Alvaro vinha occupal-a, e eu
ergui-me de repente, e occupei-a primeiro...

Leocadia.--E Alvaro... nem assim...

Julia.--Me comprehendeu... Sentou-se na immediata, e disse no sei que
frioleira...

Leocadia.--Se tu s to amavel!...

Julia.--Ai!... tu queres imital-o?!  o que elle me diz cem vezes em
cada baile...

Leocadia.--Uma verdade, por muito repetida, nunca perde o merecimento...

Julia.--Que maneira de fallar!... Quem me dera adivinhar-te! Tu amas
Jorge!...

Leocadia.--No, menina... Eu no amo ninguem...

Julia.--Ninguem?! nem a tua Julia?

Leocadia.--A minha Julia no pde repartir o seu corao... No quero
entrar em partilha com Jorge... O peor quinho seria para mim, porque
no ha nada superior a elle... Ficas?

Julia.--Fico a scismar... Vem c, Leocadia... s franca, seno... no
sou tua amiga... Jorge ser um impostor?...

Leocadia.--Perguntasm'o a mim!? Eu no sei...

Julia.--Ter tido a mesma linguagem para ambas?

Leocadia.--Disse que te amava?... A mim... no me disse nada...

Julia.--Ento s tu que o amas?

Leocadia.--No... Olha, minha amiga, faz de conta que eu ouvi com
perfeita indifferena a tua revelao... At logo... Ai!... diz-me c...
O teu namoro  antigo... ou comeou aqui?

Julia.--Com Jorge?  muito moderno... Tem um mez...  uma creana, mas
j foi baptisado com lagrimas...

Leocadia.--J? Pois afaga-o muito na alma... S muito feliz.... que eu,
se te no felicitei mais cedo,  porque o no sabia... Vou l dentro...
Minha mi deve reparar n'esta ausencia...

Julia.--No me deixes agora que ahi vem Alvaro...  insupportavel!

Leocadia.--Ora!... que mal te faz o homem?!... Eu volto j... Olha...
diz-lhe que amas Jorge...  impossivel que elle queira sustentar a
competencia... (_Sahe_).


SCENA II.

Julia _e_ Alvaro.


Alvaro.--Est incommodada, snr.^a D. Julia?

Julia.--No, senhor.

Alvaro.--Ento est aborrecida...

Julia.--De certo...

Alvaro.--Menos, quando ao seu lado um certo cavalheiro de luneta...

Julia.--Ah! o senhor vem pedir-me satisfaes?  engraada a
liberdade!...

Alvaro.--No lhe peo satisfaes... Se as minhas palavras foram
indiscretas, seja generosa, perdoando-m'as.

Julia.--Muitos perdes me tem pedido, snr. Alvaro!... A minha
generosidade com v. s.^a chega j a parecer-se...

Alvaro.--Com a virtude d'uma santa?

Julia.--No queria dizer isso...

Alvaro.--Queria dizer que chega a parecer-se...

Julia.--Com um excesso de imbecil paciencia.

Alvaro.--Isso  muito forte!... Eu no lhe mereo tanto! Nunca lhe disse
affrontas...

Julia.--Com que direito ha-de dizerm'as?

Alvaro.--No tenho nenhum? absolutamente nenhum?

Julia.--De certo, nenhum...

Alvaro.--A paixo cega o entendimento...

Julia.--No  minha a culpa...

Alvaro.-- toda...

Julia.--Toda?... pois eu authorisei-o? Disse-lhe alguma vez que o amava?

Alvaro.--Nunca m'o disse... porque...

Julia.--Porque o no sentia... Que mais lhe posso dizer agora?

Alvaro.--Depois d'isso, mais nada. (_Retira-se_).

Julia.--Foi preciso isto... Ainda bem!... (_Ouve-se a musica d'uma
polka_. _Julia enfeita-se ao espelho com a grinalda, e sahe_).


SCENA III.

Jorge _e_ Eduardo.


Jorge.--Tu vaes ser verdadeiro, Eduardo?

Eduardo.--Como Epaminondas Thebano, que nem zombando mentia. No me
lembra d'outro estafermo antigo que fallasse verdade...

Jorge.--Tu tens algumas intelligencias com Leocadia?

Eduardo.--Diz-me c, Jorge, pde fumar-se aqui?

Jorge.--No... se queres vamos  sala debaixo...

Eduardo.--No posso, que tenho a sexta quadrilha com Leocadia... Diz l
o que queres...

Jorge.--Perguntei-te se amavas Leocadia.

Eduardo.--Gosto muito d'ella... Depois d'um bom charuto,  o meu sonho
dourado.

Jorge.--E ella...

Eduardo.--Gosta de mim? no sei bem ainda... Perguntei-lh'o ainda agora
pela vigesima vez... Disse-me que sim, e  a primeira vez que m'o diz...
Se mente, l se avenha com a sua consciencia...

Jorge.--E  a primeira vez que te disse que sim?

Eduardo.--A primeira, palavra d'honra, Jorge!

Jorge.--E que conclues d'ahi?

Eduardo.--Concluo que no gostou at hoje.

Jorge.--E no conclues mais nada?

Eduardo.--Nem quero.

Jorge.--No suppes que ella amasse, at este momento, outro homem?

Eduardo.--No s supponho; mas at acredito... Nada de emboscadas...
Essa diplomacia parece-me uma velhacaria ranosa... Sei que amas
Leocadia, ou, se a no amas, que a amaste j... Eu no tenho nada com o
passado, nem com o futuro... A minha grande questo  a actualidade. So
arrufos? Deixal-os ser: aqui estou eu para encher as lacunas, e tenho
n'isso muita honra... Nunca me importou saber que tentos lavravas no
corao da pequena. Vi-te fazer de Cesar, e eu fiz de Fabio. Agora, cada
um de ns segue o seu systema... E at logo... Acho que no te queres
bater...

Jorge.--Eu no me bato por estimulos to pouco despertadores do brio...

Eduardo.--Fazes tu muito bem... Eu tambem zango de duellos,
principalmente por causa de mulheres... que comem _sandwichs_, e bebem
limonadas... Falla-me logo... (_Sahe_).


SCENA IV.

Jorge _e depois_ Julia.


Jorge.--Eu tinha previsto tudo... Era necessario renunciar uma das
duas...

Julia.--Procurava-o...

Jorge.--Sim?... que , Julia?

Julia.--Diga-me: poderei confiar a Leocadia o segredo do nosso amor?...
Vacilla?... responda!...

Jorge.--Tem preciso de confidentes?

Julia (_sorrindo_).--Tenho, porque me no cabe a felicidade no
corao... Posso?...

Jorge.--E  foroso que seja Leocadia?!

Julia.--... preferi-a entre todas as minhas amigas... Que embaraos so
esses?!

Jorge.--Entendo que no deve revelar a ninguem o nosso amor.

Julia.--Sim?... porque m'o no disse?... J agora, perdeu-se a sua
discrio... Eu disse tudo...

Jorge.--A quem?

Julia.--A Leocadia...

Jorge (_ parte_).--Est explicado o enigma!...

Julia.--Nada de monologos... falle comigo... Ora, snr. Jorge... que
necessidade tinhamos ns de corarmos um na presena do outro!?

Jorge.--Eu no cro... A cr d'este rosto s pde alteral-a uma infamia.

Julia.--D o nome que lhe aprouver ao seu acto, que eu no lhe conheo
outro... V. s.^a feriu-me, e cicatrizou-me a ferida... So boas todas as
affrontas que nos despertam a sensibilidade da honra... A lembrana do
ultraje ha-de fazer que eu esquea a causa depressa... Fez bem... Deixou
cahir a mascara muito a tempo... (_Retira-se_).

Jorge.--Escute-me, Julia... (_Vai sentar-se no soph_).


SCENA V.

Jorge, _e_ Eduardo, _dando o brao a_ Leocadia.


Eduardo.--Ser isto um sonho?... Se o , deixe-me sonhar uma hora, sim?

Leocadia (_sorrindo_).--Tambem ha sonhos de que se acorda com a face
cheia de lagrimas...

Eduardo (_para Jorge_).--Ainda aqui!... (_Leocadia estremece_).

Jorge.--Ainda aqui... no estou mal... Tem danado muito, minha senhora?

Leocadia.--Principiei agora...

Jorge.--Pois ainda tem muito tempo de gosar... So tres horas... Nunca
lhe esquea que foi s tres horas...

Leocadia.--No o comprehendo, snr. Jorge... Que tenho eu com as tres
horas do seu relogio?

Jorge.--No se finja simples como donzellinha que sahiu hontem do
collegio...

Leocadia.--Antes uma fingida innocencia que uma descarada impostura.

Jorge.--No entendo.

Eduardo.--Os senhores dizem que no se entendem, e eu de certo no os
entendo melhor. No faam ceremonia de mim. Queiram explicar-se de modo
que eu possa reconcilial-os.

Jorge.--Reconciliar-nos!... No estamos divorciados... O que me prende a
esta senhora so os respeitos e consideraes que se lhe devem. Em
quanto ella se no desviar da carreira d'um nobre procedimento, as
nossas relaes no soffrem quebra...

Eduardo.--Pois n'esse caso, meu caro Jorge, sers sempre o respeitador
d'esta senhora, porque os anjos no se precipitam desde que um, ha
muitos annos, teve o mau gosto de se precipitar do co.

Jorge (_sorrindo_).--Snr.^a D. Leocadia...... snr.^a D. Leocadia!...
(_Retira-se_).


SCENA VI.

Eduardo _e_ Leocadia.


Eduardo.--Fallemos seriamente, minha senhora. V. exc.^a n'um momento de
ciume, dignou-se empregar-me no seu servio como instrumento de barro,
que se quebra, feito o servio, no  verdade?

Ora ande l... no perca o animo, supposto que o escarlate do pejo no
lhe fica mal... acho-a muito mais bella... Parece-me que adivinho o
segredo... V. exc.^a encontrou em flagrante delicto de ternura o
sensivel Jorge com a sensivel Julia... Ferida na sua vaidade, quer
vingar-se, e eu represento n'este negocio o _tertius_ sem o _gaudet_.
Perdoar o latim... quiz dizer que represento n'este negocio uma triste
figura... J no  a primeira vez... No se inquiete, que eu tambem me
no incommodo... Tire de mim o partido que quizer...

Leocadia.--Snr. Eduardo... no devia fallar-me assim... Essas palavras
so to repassadas de ironia...

Eduardo.-- o meu genio... Sou um Democrito pequenino, porque tambem so
ridiculamente pequenas as cousas que me fazem rir... Ahi vem uma que me
arranca do profundo da consciencia uma legitima gargalhada.

Leocadia.--Que ?

Eduardo.-- a sua amiga Julia pelo brao de Alvaro, em intima
conversao... No acha tudo isto to comico?


SCENA VII.

Leocadia, Eduardo, Julia _e_ Alvaro.


Eduardo (_para Alvaro, sorrindo_).--Os reis da noite somos ns, snr.
Alvaro... Logo despimos a purpura de reis de comedia, e fumamos um
pessimo cigarro do contracto...

Alvaro.--No entendo a finura do epigramma.

Eduardo.--Ento,  mais feliz do que eu suppunha... Pde contar com o
reino do co... Deveras no entende?

Alvaro.--No, e dispenso as explicaes officiosas do meu amigo...

Eduardo (_rindo_).--Espero que  solemnidade do estilo, se no siga um
cartel de desafio...

Leocadia.--Que linguagem!...  bem galhofeiro o seu caracter, snr.
Eduardo!

Eduardo.--Muito galhofeiro, minha rica senhora... E alli o do meu amigo
 sombrio como o d'um encapotado de drama em cinco actos.

Alvaro.--A verdade  que nos no parecemos...

Eduardo.--Felizmente para o senhor ou para mim... Mas na singelesa do
corao, na temperatura do amor, ha-de permittir que sejamos parecidos
como Pylades com Orestes...

Alvaro.--No temos semelhana nenhuma... Eu no posso brincar com as
paixes...

Eduardo (_parte, a Leocadia_).-- da fora de trinta Paulos; mas a
Virginia que o escuta, s com os olhos, d'aqui a pouco remette-o ao
catalogo dos Othellos em quarta mo. (_Alvaro e Julia retiram-se_).
Espero que no se bater comigo, snr. Alvaro... No respondeu!...
Aquelle silencio no quer dizer nada; mas, quem no conhecer o homem,
ha-de suppor que a cratera vai rebentar... Quer sentar-se, minha
senhora?...

Leocadia.--Sim... um momento... Ahi vem Jorge.

Eduardo.--Ah!... V. exc.^a estremece!... Muito me ama! (_rindo_). 
d'uma ingenuidade mythologica!...


SCENA VIII.

Leocadia, Eduardo _e_ Jorge.


Jorge.--Eduardo, preciso roubar-te um instante a essa senhora... tens a
bondade!

Eduardo.--Ah! sim... esta senhora no vai de certo queixar-se  policia
pelo roubo...

Jorge (_a ss_).--Fazes um sacrificio deixando-me cinco minutos com
ella?

Eduardo.--Sacrificio... nenhum; mas a decencia pede que eu no esteja
aqui servindo de sentinella  vista a um teu namoro... Ai!... espera...
eu dirijo-me a estas duas almas penadas, que ahi vem... Vou
comprimental-as, e tu, como penetrante abutre, desce o vo sobre a
presa... (_Comprimenta duas damas, vestidas de branco, em quanto Jorge
vai sentar-se ao lado de Leocadia_). Parecem-me dous anjos, minhas
senhoras. So duas virgens de Taurida, que fazem lembrar as alvissimas
virtudes de Ephigenia... (_As damas, que elle acompanha, com gaifonas
cortezs, retiram-se sorrindo_).


SCENA IX.

Jorge _e_ Leocadia.


Jorge.--Que caprichos so estes, Leocadia?

Leocadia.--Caprichos!... O sentimento d'uma offensa  um capricho?!

Jorge.--Qual  a offensa? Uma leviandade de Julia?

Leocadia.--A leviandade foi minha, que no quiz imital-a a ella e a
muitas, que sabem pisar os homens aos ps antes de lhes darem a mo para
que se levantem. Eu dei-lhe a minha alma sem reserva... Fiz do meu amor
um sagrado mysterio com medo que m'o profanassem. Violentei-me a
olhal-o, em publico, com indifferena, para que ninguem me invejasse.
Eram estes os seus conselhos, Jorge... Hoje  que eu comprehendo a
horrivel significao d'este plano. O senhor precisava do segredo para
agradar a muitas victimas illudidas com um s lance de olhos... Creia
que tenho tanta pena de mim como de Julia...

Jorge.--Olha, Leocadia... se o meu crime foi grande, a tua vingana
excede-o... No me pareces o anjo resignado que eu imaginei... O que eu
acabo de fazer foi uma experiencia na tua alma... O resultado foi
infeliz! Nunca previ que consentirias ao teu corao um arrojo
vingativo, indigno de ti...

Leocadia.--Que fiz eu?

Jorge.--Que fizestes tu?...  boa a pergunta!... Procuraste n'esse salo
o homem mais desacreditado, o espirito mais corrompido, o cynico mais
orgulhoso de o ser, e disseste-lhe que o amavas, sorriste angelicamente
s suas phrases ironicas, e nivelaste-me com elle, apresentando-m'o como
rival!... Eu... rival de Eduardo!...

Leocadia (_com vivacidade_).--Como rival... nunca! Elle no podia ser
seu rival... porque eu no tenho dous coraes.... Fui imprudente...
confesso que fui; mas no pude mais... a punhalada feriu-me de repente,
no me deu tempo de pensar... disse-lhe no sei qu dos labios, mas o
corao aborrece-o, porque eu no posso amar alguem com mais virtudes do
que tu... pouco me importa que tu sejas to cynico, to desmoralisado
como Eduardo... Oh! Deus queira que me no ouvissem... Ahi vem Julia...
Eu retiro-me... A mi est com os olhos fixos em mim... (_Meno de
sahir_).


SCENA X.

Alvaro , Julia _e_ Jorge.


Julia (_passando por Leocadia_).--Muitos parabens, minha amiga...

Leocadia.--De que?

Julia.--Transigiste amigavelmente?...

Leocadia.--No sei que dizes...

Julia (_ironica_).--Innocentinha... (_Leocadia sahe_. _Passam alguns
grupos de homens e senhoras_).

Alvaro (_que no v Jorge_).--Jorge no  homem talhado para o seu
corao...

Julia.--Falle baixo, que elle est muito perto... Mas no se cale...
diga alguma cousa.

Alvaro.-- necessario ter o corao puro de amores viciosos para
conceber a sublime candura do seu...

Julia.--Hei-de morrer sem ser comprehendida...

Alvaro.--No nasceria eu para comprehendl-a?

Julia.--Ai! no... a minha alma  um abysmo, onde se esconde o anjo do
bem, e a serpente do mal... Tenho na mesma intensidade transportes
d'amor e odio...

Alvaro.--Qual lhe mereo?...

Julia.--Quer-me sincera? uma verdadeira estima de irm...

Alvaro.--S?

Jorge (_sem erguer-se do soph_).-- snr. Alvaro!... Que tal acha a
eloquencia d'esta senhora?

Alvaro.--A pergunta  celebre; todavia, responderei: a eloquencia d'esta
senhora  excellente...

Jorge.--E v. exc.^a, snr.^a D. Julia, que tal acha a eloquencia
d'aquelle senhor?

Julia.--Eu sou menos generosa que este cavalheiro: no lhe respondo.

Jorge.--Responda, responda, que v. exc.^a no  responsavel pelo que
diz...

Alvaro.--Eu no posso consentir que se affronte assim uma senhora!...


SCENA XI.

_Os mesmos e_ Eduardo, _que vem passando com uma dama pelo brao, e
pra._


Jorge.--Pois seno pde, resigne-se...

Alvaro.--Tenho a optar por outro expediente antes da resignao...

Eduardo.--Naturalmente quer bater-se... Eu sou de opinio que os meus
amigos devem cortar-se reciprocamente os pescoos s 4 horas da tarde...

Jorge (_sorrindo_).--Fecha l as torneiras ao espirito, Eduardo. Aqui
falla-se seriamente... No vs que aquelle senhor est formalisado?

Eduardo.--Pois o senhor est formalisado? e v. exc.^a (_para Julia_)
tambem est formalisada? e a menina (_para a que tem no brao_) tambem
se formalisa?... Eu de mim, declaro-me formalisado sem saber porque.
Formalisem-se todos, desde o dono da casa at ao creado da campainha.
Isto deve acabar por hir cada um para sua casa, porque so quasi quatro
horas... no acha?

Alvaro.--Se me d licena...

Eduardo.--A respeito de licenas, isso no  comigo:  com o dono da
casa... Que queria o meu amigo? quer duvidar de que a snr.^a D. Julia 
a rainha das mais formosas? (_Com escarneo_).

Alvaro.--Snr. Eduardo, as suas zombarias so intempestivas!... Entre
cavalheiros  d'uso adoptar-se a linguagem seria e digna d'um salo...

Eduardo.--O meu caro senhor est funebre como um mestre de cantocho...
Fallou muito bem; mas eu  que no me sinto disposto a manter a
reputao de eloquente s quatro horas da manh... Se me querem vr
dormir, fallem-me em cousas serias... Diga-me c... j tomou chocolate?

Julia (_desprendendo-se do brao_).--D-me licena... Minha mana
chama-me...

Alvaro.--Eu acompanho-a, minha senhora... (_Vo sahir_).

Jorge.--Minha bella menina, estamos quites... D'hoje em diante cada um
de ns caminha para o seu polo diverso...

Julia.--So indifferentes os seus passos... Caminhe para onde lhe
aprouver, snr. Jorge... (_Sahe_).

Eduardo.--Disse que caminhasses para onde te approuvesse... Eu de mim
vou para casa... Queres vir?...  verdade... que  da transparente
creatura, que eu tinha no brao? Evaporou-se?... Deixal-a... (_Atira-se
ao soph_). Ai que somno!... Em que pensas tu?... (_Entra um creado com
chavenas de chocolate_). Isso que ? Venha c...  chocolate... Vm.^{ce}
no ter a habilidade de converter isto em vinho do Porto?...

Creado.--No, senhor...

Eduardo.--Ento vm.^{ce}, pelo que diz na sua,  um grande idiota.
(_Toma duas chavenas da bandeja_). Pde retirar-se... Aquelle senhor
est fazendo versos... (_O creado sahe_).  Jorge, no tens no corao
um reservatorio onde caiba uma chavena de excellente chocolate?

Jorge.--Adeus... retiro-me...

Eduardo.--Alto l!... Eu preciso saber em que lei devo viver...
Reconsideraste a respeito de Leocadia? Quem  que a ama, sou eu, ou s
tu?

Jorge.--Fallas d'ella com to pouco respeito!...

Eduardo.--De quem? de s. exc.^a!?... Pois eu disse alguma cousa que
possa chamar-se grosseira?

Jorge.--Leocadia no  uma apolice que se passe com o mesmo valor de mo
em mo...

Eduardo.--Justamente o peor que ella tem  no ser apolice, nem ao menos
aco da empreza do caminho de ferro de leste...

Jorge.--Ests estragado!...

Eduardo.--Do estomago? Palavra d'honra que sim! As taes sandwichs so
indigestas como um artigo de fundo... Mas do espirito estou optimo...
Ella ahi vem... Queres ficar s com ella?... Eu vou entreter Julia...
Que mais queres da minha docilidade? Um homem que faz isto no est de
todo estragado...


SCENA XII.

Jorge _e_ Leocadia.


Leocadia.--Vou sahir, Jorge... D-me uma s palavra, que me salve...

Jorge.--Que queres que eu te diga, Leocadia?... manh vou consultar a
vontade de teu pai... Queres assim to breve o desenlace das tuas
affeies?

Leocadia.-- muita felicidade, meu Deus. Eu no merecia tanto... E
Julia!... Coitadinha!... quanto no soffrer ella!...

Jorge.--Que tenho eu com Julia!... Poderia amal-a com a paixo violenta
d'uma febre... mas estimal-a com a serena amisade que te dedico,
Leocadia, isso nunca...

Leocadia (_reparando_).--Ai!... minha mi... no me deixa um instante...
Adeus...


SCENA XIII.

_Os mesmos e_ Julia, _e depois_, Eduardo _e_ Alvaro.


Julia.--Espera, menina (_para Leocadia que se retira_)... So s duas
palavras... Snr Jorge... V. s.^a, no  digno d'ella, nem de mim, que
valho menos que ella... No te felicito pela reconciliao, minha
querida amiga... D'este a Eduardo, que a sociedade chama cynico, no vai
distancia que tu no vejas desapparecer vinte e quatro horas depois de
casada... So tudo Eduardos...

Eduardo.--Que  isso de Eduardos? Ainda falta este... Trata-se de levar
ao capitolio os Eduardos, minha senhora? N'esse caso peo que no sejam
exceptuados os Alvaros. (_Para Alvaro que entra_).

Venha c, meu amigo...  vista d'este quadro, confesse que fizemos
tristissimas figuras... Aquelle senhor (_apontando Jorge_) fez monopolio
de dous coraes, que ns tivemos o imbecil heroismo de conquistar s
tres horas da noite... Sabe que mais? Olhemos para ellas, e digamos como
a raposa: Esto verdes! Pois no convm n'isto?

Vozes dentro.--Vamos meninas! So quatro horas.

Eduardo.--Nenhum dos senhores se quer bater pelo que vejo!... Boas
noites... Minhas senhoras...

Vozes.--O ultimo _cotillon_, o ultimo.

Eduardo (_para a viscondessa de Valbom que entra_).--O ultimo
_cotillon_, minha senhora, se no tem par... (_Retiram-se todos os
outros_).

Viscondessa.--Eu no dano seno quadrilhas.

Eduardo.--Faz v. exc.^a muito bem... Tem danado muitas?

Viscondessa.--_Un peu_... _un peu_.

Eduardo.--Ah! V. exc.^a falla francez! Ha quantos annos aprendeu, minha
amavel senhora? Antigamente ensinava-se um francez muito solido... Hoje
 tudo pela superficie...

Viscondessa.-- verdade; mas as bases d'uma verdadeira instruco so os
solidos rudimentos.

Eduardo.--Muito bem, minha senhora... O seu corao deve ser to
sensivel como a sua cabea  illustrada.

Viscondessa.--O meu corao est morto.

Eduardo.--Deveras!... Quem far o milagre de o chamar  vida?... Eu de
certo no ousaria to difficil empresa...

Viscondessa.--V. s.^a zomba?...

Eduardo.--No zombo, porque no sei zombar com o amor...

Viscondessa.--Falle baixo que ahi vem meu marido...

Eduardo (_para o marido que entra_).--Snr. visconde!... estavamos
fallando na guerra da Crimea.

Visconde.--Vai por l o diabo... Eu acho que os alliados no mettem o
nariz em Sebastopol.

Viscondessa.--Pelo menos em quanto a Austria e Prussia no expedirem
foras que suppram a mortandade dos inglezes...

Visconde.--E que me diz o senhor  exportao dos bois? Cessa ou no
cessa?

Eduardo.--A respeito de bois, no sei nada... (_reparando para fra_)
Ahi vem tudo... Que  isto!... uma senhora desmaiada?


SCENA XIV.

_Os mesmos, e_ Julia _desmaiada nos braos de algumas damas._


Vozes.--Que seria?

Coitadinha...

Tragam agua...

Eduardo.--Fumo de charuto no  mau...

Visconde.--Faz favor de lhe botar um pouco de fumo pelas ventas?...

Eduardo (_accendendo o charuto_).--L vou... l vou, snr. visconde.

Vozes.--No  preciso...

Julia.-- Jorge!... Jorge  o responsavel da minha vida...

Vozes.--Ah!...

Eduardo.-- uma maneira bonita de terminar um acto! Est tudo com a
bocca aberta... e eu tambem! (_Abrindo a bocca_).

CORRE O PANO.



ACTO II.

     _A scena  na Foz, justamente na praia dos Inglezes. Senhoras e
     homens tomando banhos; outros, entrando nas barracas, horrivelmente
     desfigurados, ou, antes, taes quaes a natureza os fez. Sobre os
     penedos, pinhas de povo que pasmam diante dos ensaios do
     salva-vidas. Estes podem dizer o que quizerem a tal respeito. O
     author d carta branca ao actor para que diga centenares de
     parvoices: pde at discorrer sobre o dropp se lhe aprouver; mas o
     melhor  calar-se_.


SCENA I.

_Afra estes entes nullos_, Jorge _e_ Leocadia _sentados em cadeiras_.


Leocadia (_fazendo SS com o guarda-sol na areia_).--Ests to sombrio,
Jorge!

Jorge (_fazendo TT na areia com a chibata_).--Estou optimamente.
(_Ouvem-se guinchos muito sympathicos das senhoras, que patinham no
banho_. _Alguns homens urram_).

Leocadia.--Parece que te aborrece a Foz!...

Jorge.--Nada me aborrece... Estou bem em toda a parte...

Leocadia.--Niguem o ha-de dizer... Todas as minhas amigas me perguntam o
que tens...

Jorge.--Diz-lhes que se no incommodem...

Leocadia.--Ho-de suppor que a tua amisade para comigo foi uma illuso
desvanecida pelo casamento...

Jorge.--A opinio  livre... Supponham o que quizerem.

Leocadia.--Mas no consideras que eu soffro muito se ellas imaginam tal?

Jorge.--No me lembrava essa especie... Isso  amor proprio...

Leocadia.--No  amor proprio...  _dr_ do corao...

Jorge.--Ser algum aneurisma?

Leocadia.-- uma zombaria bem cruel!... Estranho-te, Jorge.

Jorge.--Tambem eu me estranho... No achas que  melhor estarmos
calados?

Leocadia.--Calar-me-hei...

Jorge.--E fazes bem... Estes dialogos terminam sempre mal... A
necessidade da variar a conversao  a tisica das grandes paixes...
Uma phrase repetida aborrece, por mais bonita que seja... Ns podiamos
ter sempre cousas novas a dizer, se no tivessemos gastado a inspirao
em quatro mezes de casados. Dissemos tudo... definimos tudo que nos
rodeava, e agora sentimos a dura necessidade de nos definirmos a ns...
 onde est o mal.... Tu queres que eu te repita o que te disse ha cinco
mezes, e eu zango de repeties... No sei fazer phrases como tu fazes
punhos de camizas... Exhauri-me... Agora  necessario esperar uma nova
colheita do terreno que j deu fructo. Essas lagrimas vem muito a
proposito... (_Erguendo-se e espreguiando-se_). Ai! que vida!...
(_Reparando_). Ol, Eduardo!... por c?


SCENA II.

_Os mesmos, e_ Eduardo.


Eduardo.-- verdade... Como passou, minha senhora?

Leocadia (_disfarando as lagrimas_).--Muito bem... agradecida... Est
bom?

Eduardo.--Como sempre... Tenho uma saude insupportavel!... No sou capaz
de arranjar uma dr de cabea, para me dar certos ares romanticos. Vejo
por ahi muitos mancebos, alquebrados no frescor da vida, e, em quanto a
mim, so infelizes creaturas que soffrem dos callos... J tomou banho,
minha senhora?

Leocadia.--No tomo banho hoje. Constipei-me hontem.

Eduardo (_para Jorge_).--E tu?

Jorge.--Vou tractar d'isso... Ficas por aqui?

Eduardo.--Vamos ns conversar, minha senhora... Eu hoje sinto-me com
disposio para dizer cousas muito philosophicas... (_Jorge sahe_).


SCENA III.

Leocadia _e_ Eduardo.


Leocadia.--V. s.^a tem sempre um humor to alegre...

Eduardo.--Ser isto idiotismo? J me lembrou se eu seria to doudo como
por ahi me julgam!

Leocadia.--Quem o julga doudo?!

Eduardo.-- toda essa sociedade...

Leocadia.--Doudo... no!... Dizem que v. s.^a no tem persistencia em
cousa nenhuma; e escarnece tudo...

Eduardo.--Em quanto  persistencia,  falso o que dizem, minha senhora,
e sinto que v. exc.^a, to distincta do commum, queira ser o ecco das
opinies vulgares da ranosa sociedade... No sou inconstante...

Leocadia.--A quem diz isso? Pois no sei eu a sua vida!... S namoros,
tenho-lhe conhecido cincoenta.

Eduardo.--Sero mais, talvez; mas... que namoros!... V. exc.^a no se
recorda de que foi meu namoro vinte minutos no baile do baro de Valbom?
(_Leocadia abaixa os olhos_). Pois os taes cincoenta namoros foram todos
assim... No sou constante, porque no encontrei ainda uma mulher, que
possa adorar-se seriamente. No ha paixo que o ridiculo no mate. As
minhas tem todas soffrido morte de gargalhada.

Leocadia.--Pois no amou nunca seriamente?

Eduardo.--Eu lhe digo, minha senhora... amei... Vou contar-lhe a minha
vida; mas s lhe digo os argumentos dos capitulos que so tres.
_Capitulo_ 1.^o Conta-se que Eduardo Leite amou diabolicamente uma
mulher, aos dezeseis annos, e fez tantas loucuras por ella, que, no
tendo mais que fazer, quiz suicidar-se com ps dos ratos, e foi uma tia
que lhe valeu com um copo de azeite... Pois v. exc.^a ri-se das minhas
desgraas!... E eu suppunha que a fazia chorar!... Estou como certo
dramaturgo que endoudeceu porque a plata se riu justamente no pedao
mais triste da tragedia!...

Leocadia.-- que v. s.^a d um colorido comico s scenas mais tristes...

Eduardo.--_Capitulo_ 2.^o No qual se diz que o dito Eduardo Leite fez
tristissima figura, vociferando injurias contra as mulheres,
emmagrecendo na razo inversa da hydropesia do scepticismo, e passeando
de noite nas Fontainhas, perguntando s estrellas pela mulher dos seus
sonhos, e bebendo agua no chafariz para refrigerar o vulco, que lhe
queimava as entranhas. Dizem-se outras muitas cousas tristes a este
respeito, como por exemplo um duello que elle teve com o seu rival, de
que lhe resultou estar quinze dias de cama, com uma bala mettida n'um
hombro. Que lhe parece o segundo capitulo?

Leocadia (_sorrindo_).-- funebre; mas faz-lhe muita honra...

Eduardo.--Estou por isso...  uma honra muito grande...

Leocadia.--Pois no ? ser ferido em duello por causa d'uma senhora!...
Quem seria a ditosa?

Eduardo.--Era a filha do meu sapateiro, minha senhora...

Leocadia (_com seriedade_).--No diga tal... V. s.^a no se fascinava
por tal mulher!...

Eduardo.--Pois fascinei-me... Era linda como a edio mais nitida, que
sahiu da typographia celeste. Nos seus olhos espelhava-se a candura, e
dos labios fugiam-lhe espiritos d'azas scintillantes, como no vi em
nenhuns, excepto nos de v. exc.^a...

Leocadia.--Dispenso a comparao...

Eduardo.--E faz bem, minha senhora!... Ella por fim, cahiu do ministerio
a que eu a levantei, e tornou-se uma gorda matrona casada com um gordo
bate-folha, que  a minha vergonha porque teve a petulancia de luctar
comigo, e vencer-me...

Leocadia.--E foi esse que teve o duello com v. s.^a?

Eduardo.--Nada... foi uma segunda victima, que ainda hoje faz quadras a
uma certa viso que lhe appareceu no amanhecer da vida... E esta viso 
a sobredita filha do meu sapateiro...

Leocadia.--A sua vida  um poema epico... E o terceiro capitulo?

Eduardo.-- verdade, o terceiro capitulo... O terceiro capitulo... 
isto...  este riso, esta zombaria, esta conscienciosa abnegao de mim
mesmo...  a resignada docilidade com que me prestei a ser o instrumento
de v. exc.^a para ferir a vaidade de seu marido... Queira
desculpar-me... Entristeci-a? O passado, passado... Quer v. exc.^a que
eu lhe escolha duas conchinhas? (_Procurando na areia_). Aqui est uma
bem bonita... (_Reparando_). Ahi vem a sua amiga Julia...

Leocadia (_sobresaltada_).--Ai!... vem?...

Eduardo.--Como se d ella com o marido, sabe dizer-me?

Leocadia.--No sei.. penso que no  feliz...


SCENA IV.

Leocadia, Julia, _e_ Eduardo.


Julia.--Snr. Eduardo, se me concedesse alguns instantes com a minha
amiga...

Eduardo.--Pois no, minha senhora... (_Sahe_).

Julia.--So s duas palavras... Vi entrar teu marido para a barraca, e
no nos v... Leocadia... Eu no sou mais feliz que tu... Jorge fez-nos
desgraadas a ambas... Tu sabes que o meu casamento com Alvaro foi um
capricho que tenho sustentado com lagrimas... Mas tu no tens culpa...
Sei que no s amada... Eu tambem o no seria... Sou ainda tua amiga...
No poderei prestar-me nunca a ser o cutello na mo do teu algoz... ahi
tens essas cartas.

Leocadia.--Que cartas so estas?!

Julia.--So cartas, que teu marido me escreve...

Leocadia.--Meu marido!...

Julia.--Sim... mais nada... adeus... (_Sahe_).


SCENA V.

Leocadia, _e depois_ Eduardo.


Leocadia.--Vou sondando toda a profundidade do meu abysmo... Eu bem
sabia que era infeliz; mas tanto... no!...

Eduardo.--Parece-me que a sua amiga no veio dar-lhe prazer... To
descorada, minha senhora! Que tem?

Leocadia.--Nada, snr. Eduardo...  uma nuvem passageira... Queira dizer
a Jorge que me retirei...

Eduardo.--Eu acompanho-a...

Leocadia.--No consinto... a minha casa  alli...

Eduardo.--No insto, minha senhora, para no ser importuno... (_Ella
sahe, cortejando-o_).


SCENA VI.

Eduardo, _e depois a_ Viscondessa de Valbom, _com um creado de farda,
que conduz em sacco de damasco vermelho a roupa de banho_.


Eduardo (_accendendo um charuto_).--Ora aqui est o que so os mos
honestos, honrados, e bem comportados!... So estes dous maridos. Jorge
passa por um mancebo exemplar; Alvaro dizem que  o typo da bondade; e,
comtudo, vou descobrindo que as respectivas mulheres, se escrevessem
jornaes, estavam em opposio com os maridos. Os honrados so elles...
Eu  que sou o cynico!... Esta sociedade  uma grande patacuada!... Ahi
vem a viscondessa de Valbom. No me larga desde aquelle baile...
(_Olhando sobre o hombro_). Ella c est comigo... (_Erguendo-se_).
Minha querida senhora viscondessa, como passou v. exc.^a desde hontem?

Viscondessa.--_Passablement_. Esperei-o  noite para a partidinha, e o
magano no nos quiz honrar com a sua visita...

Eduardo.--Urgentes negocios obrigaram-me a hir ao Porto.

Viscondessa.--Namro... diga a verdade... namro...

Eduardo.--No, minha senhora. O meu corao est desde muito na terceira
seco... No ha poder que o faa entrar na effectividade...

Viscondessa.--Ora deixe-se d'isso... Eu sei que ama... e ama uma
senhora... que... digo?

Eduardo.--Se lhe apraz...

Viscondessa.--No direi; mas... lembre-se de que _la propriet n'est pas
un vol_ como diz Proudhon...

Eduardo.--Eu acredito que a propriedade no seja um roubo, e por isso
mesmo no tento contra ella.

Viscondessa.--Tenta, tenta... Isso no  bonito... Se quer merecer a
minha estima, no tente partir os vinculos matrimoniaes de... eu bem
sei...

Eduardo.--E v. exc.^a acha que sou indigno da sua estima, se tentar...

Viscondessa.--Pois no? Ha cousa mais sagrada sobre a terra?! A
reputao d'uma senhora!... (_Mudando de tom_).  verdade que muitas
vezes toda a philosophia  pouca para conter os impetos do corao...
(_Mudando para o tom da honestidade_). Ainda assim, a mulher digna
reprime-se, e faz-se superior a si propria... (_Mudando de tom_). Apesar
d'isso, eu absolvo alguns erros, que muitas infelizes commettem, porque
tem a imprudencia de tentar com a ponta do p o desfiladeiro, e por
fim...

Eduardo.--Escorregam...

Viscondessa.--Justamente...

Eduardo.--E n'esse caso...

Viscondessa.--Est a pessoa de quem fallamos...

Eduardo.--Ns no fallamos de pessoa nenhuma... Queria eu dizer que
n'esse caso no est de certo v. exc.^a

Viscondessa.--Quem sabe!... (_ parte_). Ai! o que eu fui dizer!...

Eduardo.--Sei-o eu porque a conheo desde menino, sempre esposa
exemplar...

Viscondessa.--Desde menino, no!... pois que annos tem v. s.^a?...

Eduardo.--Trinta, minha senhora.

Viscondessa.--Trinta?!... Ha-de ser isso... No levamos grande
differena...

Eduardo.--Queira perdoar-me, minha senhora, mas eu andava na escla,
quando v. exc.^a deu um baile para celebrar os annos de seu filho, que
era meu condiscipulo... Ha quantos annos isto vai!

Viscondessa (_enfronhada_).--D-me licena que v ao meu banho... So
horas, e a mar principia a vasar...

Eduardo.--Vasa, vasa, minha senhora... Ser bom aproveitar a vasante...

Viscondessa (_ parte_).-- muito grosseiro!...

Eduardo.--Vai a resfolegar polvora pelos narizes...

D'esta vez, creio que aboli este vinculo de nova especie!... Ahi est um
dos taes cincoenta namoros de que falla Leocadia... E  por causa
d'estas... que me chamam inconstante!... Que pessimo charuto!... Gilbert
se vivesse n'este tempo suicidava-se com um d'estes canudos de acido
prussico...


SCENA VII.

Eduardo _e_ Jorge.


Jorge.--Leocadia?

Eduardo.--J l vai... Disse que hia para casa.

Jorge.--D-me lume... (_accende o charuto_). Quero dar-te um conselho,
Eduardo...

Eduardo.--Sim?!

Jorge.--No te cases.

Eduardo (_Alvaro, sem ser visto, entra n'uma das proximas
barracas_).--Deus me livre... Sendo eu, como realmente sou um cynico,
pobre da mulher que tivesse de luctar com o meu cynismo!... O casamento
 bom para ti que s um anjo de virtude, e para Alvaro que  o typo da
sisudez... Diz-me c, s muito feliz, no s?

Jorge.--No. Estou canado... Minha mulher...  uma mulher...

Eduardo.-- _uma_ mulher? Pois louva a Deus por no serem duas...
Quantas querias tu? Aposto que ests desmoralisado como um turco?!

Jorge.--Sempre galhofeiro... Agora serio... Tu que s homem de
expedientes, no me dizes como eu possa ser feliz com Leocadia?

Eduardo (_ironicamente_).--Ests a zombar! Pois o anjo de virtude vem
consultar o cynico!? No abuses da tua superioridade, Jorge...

Jorge.--Se tu soubesses que tormentos aqui vo n'esta alma!... A paixo
allucinada que me abriu o inferno no corao!... Tenho necessidade de
respirar... Quero que tu me ouas, porque no s d'esses tartufos que
torcem o nariz  menor expanso d'um espirito atormentado!... Sabes que
amo at ao delirio uma mulher?

Eduardo.-- a tua naturalmente... Isso  muito justo...

Jorge.--No  a minha...

Eduardo.--Pois a minha tambem no...

Jorge.--No motejes a minha dr... Se me no queres ouvir com seriedade,
calemo-nos...

Eduardo.--Ora diz...

Jorge.--Eu amo... Julia...

Eduardo.--A mulher de... Oh escandalo!... Falla baixo que te no ouam
os caranguejos...

Jorge.--No soffro o escarneo... s incapaz de comprehender um
sentimento nobre...

Eduardo (_rindo_).--Sim... esse sentimento  muito nobre... Eu  que sou
o cynico... Tens razo... estou estragado a ponto de no comprehender a
nobreza d'esse sentimento... Prega essa moral, vers o galardo que
recebes...

Jorge.--No me importa a sociedade... Perco-me por aquella mulher... Era
ella quem eu amava... Casei com Leocadia por um capricho... mas a mulher
do meu corao era Julia...

Eduardo.--E ella... concorda?

Jorge.--No... despresa-me... recebe as minhas cartas, e no me
responde...

Eduardo.--Mas sempre vai lendo as cartas?... Ento contina, visto que
esse sentimento  nobre... Eu  que sou o cynico...

Jorge.--E quem sabe o fim para que ella recebe as cartas?

Eduardo.--Talvez para papelotes, quando se frisa...

Jorge.--Adeus!... ests insoffrivel... Isso offende!...

Eduardo.--Pois eu sei c para que ella recebe as cartas?

Jorge.--Talvez para mostral-as a minha mulher... e vingar-se assim...

Eduardo.--Isso pde ser... A historia antiga conta tres factos
semelhantes. O primeiro aconteceu com Dido, a respeito de Eneas; o
segundo com Fredegonda...

Jorge.--Deixa l isso... que me importa a mim a historia?... Fazes-me um
favor?... Se fallas com ella, pdes sondal-a a meu respeito...

Eduardo.--Sondal-a?... no sei de que modo!... Tu no sabes que o marido
 meu figadal inimigo? S se a vir por aqui destacada do osso do seu
osso... Ella ainda agora aqui esteve com D. Leocadia...

Jorge.--Com minha mulher!

Eduardo.--Sim...

Jorge.--Estou perdido!... Deu-lhe as cartas!...

Eduardo.--Daria?! Que grande immoralidade!

Jorge.--E por isso Leocadia se retirou...

Eduardo.--E olha que no hia boa... Parece-me que a estas horas j ella
admirou o estilo das tuas preciosas cartas!... Olha... queres vr
Julia?... Ella vem para aqui... Esconde-te atraz d'essa barraca, em
quanto ella te no v... e quando passar, falla-lhe...

Jorge (_cumpre_).--Que hei-de eu dizer-lhe?!...

Eduardo (_sorrindo_).--V se ella comprehende o _o teu nobre
sentimento_...

Jorge.--Ella no pra a ouvir-me... tu vers...

Eduardo.--Se no parar, anda tu com ella... (_Retira-se_).


SCENA VIII.

Jorge _e_ Julia.


Jorge.--No tenho animo... Sou um imbecil...

Julia (_sem o vr, sentando-se em cadeira_).--A minha querida
vingana!... No vim s para soffrer... Alguem ha-de soffrer comigo...

Jorge (_dirigindo-se com irresoluo_).--Animo!

Julia (_voltando-se de repente, e erguendo-se_).--O senhor!... (_Quer
retirar-se_).

Jorge (_sustendo-a_).--No me fuja...

Julia.--Retire essa mo, senhor!

Jorge.--Esse enfado  muito pouco senhoril... Esta mo no mancha a sua
pureza...

Julia.--Para mim tem o horror de mo que me feriu com um punhal... O
senhor no tem dignidade nenhuma... Retire-se, que meu marido pde
vl-o.

Jorge.--Que veja... Eu no temo seu marido...

Julia.--Pois no o tema a elle, mas respeite-me a mim, para que a sua
posio de marido seja respeitada... (_Eduardo tem vindo por entre as
barracas esconder-se atraz da mais proxima do dialogo_).

Jorge.--Eu j me no respeito na minha posio... Seu marido que tire
represalias, que eu sou indifferente a todos os ultrajes d'essa ordem.

Eduardo (_ parte_).--Eu  que sou o cynico...

Julia.--Ento devo acreditar que o senhor requintou em immoralidade...

Jorge.--Acredite o que quizer... Saiba que foi uma paixo que me
perverteu... Hei-de cuspir na sociedade, visto que a no posso calcar
aos ps... Despreso todas as formalidades... Para a desesperao no ha
conveniencias a guardar...

Eduardo (_ parte_).--Eu  que sou o cynico!...

Julia.--Pois, senhor, eu entendo que as devo guardar todas... Snr.
Jorge, tenha vergonha diante da sua propria consciencia. (_Vai
retirar-se_).

Jorge (_segurando-a_).--Ha-de ouvir-me... Que destino deu s minhas
cartas?

Julia.--Entreguei-as a sua senhora.

Jorge.--Isso foi um vil procedimento...

Julia.--Deveria antes entregal-as a meu marido?

Jorge.--No tenho nada com seu marido, Julia... No me cite tantas vezes
o nome de seu marido, que  de nenhuma importancia n'este objecto...


SCENA IX.

_Os mesmos e_ Alvaro _sahindo da barraca, vestido de banho_.


Julia.--Ah! meu marido...

Eduardo (_escondido_).--Isto ha-de ser bonito...

Alvaro.--Pois, snr. Jorge, eu pensei que importava alguma cousa n'este
negocio... Isto que ? Cahiram miseravelmente n'um silencio estupido!...
Julia, tu no fallas? Snr. Jorge! no fique embuchado!... O senhor
est-me dando uma importancia, que no era a do seu programma...

Jorge.--Esta situao  melhor que a no prolonguemos. V. s.^a vai
pedir-me uma satisfao... (_Julia retira-se_).

Alvaro.--Est enganado... No tenho de que lhe pedir satisfao... Faz
v. s.^a muito bem... No lhe desagradam os olhos d'aquella senhora, e
pe os seus meios... Tudo isto  natural... Que satisfao lhe hei-de eu
pedir!...

Eduardo (_ parte_).--Eu  que sou o cynico!

Jorge.--Acabemos, snr. Alvaro...

Alvaro.--Tranquille-se, cavalheiro... Eu ainda no disse seno metade.
Visto que o senhor gosta dos olhos de minha mulher, eu aproveito a
occasio para lhe dizer que no desgosto dos olhos da sua. Com a
differena, porm, que eu, declarando-me a v. s.^a, dou-lhe a
importancia que v. s.^a me no deu... Visto que nos encontramos no
mercado, permutaremos os olhos de nossas mulheres. O senhor fica com os
olhos da minha, e eu com os olhos da sua... Parece-me que me vai pedir
uma satisfao...

Jorge.--No sei com que inteno me faz semelhante proposta...

Alvaro.--Com a melhor inteno do mundo...  um contracto bilateral...
sem testemunhas... Eu concedo-lhe a frequencia de minha casa para v.
s.^a estudar bem os olhos de minha mulher, e o cavalheiro franqueia-me
occasies de estudar os olhos da sua.

Eduardo (_ parte_).--Eu  que sou o cynico!...

Jorge.--E se na sociedade se desconfia esta conveno?

Alvaro.--Deixe-se d'isso... A sociedade, deu-nos diplomas de excellentes
pessoas... Eu creio que ambos temos a finura necessaria para
desempenharmos, sem pateada, os nossos papeis... Aqui o grande plano 
que afastemos do nosso commercio Eduardo, porque esse tem a alma
sufficientemente estragada para nos adivinhar...

Eduardo (_ parte_).--Muito, obrigado!... At este me d diploma de
cynico!

Alvaro.--Agora, meu amigo, vou tomar banho... Hoje  noite espero-o com
sua senhora em minha casa para tomarem uma chavena de ch...
(_Apertando-lhe a mo_). _Au revoir_, meu caro senhor... (_Sahem_). 
banheiro!... Vamos l, que nos foge o mar...


SCENA X.


Eduardo.--Visto que eu sou o cynico, e os virtuosos so estes, passo a
ser um pouco mais virtuoso que elles, para que elles sejam cynicos como
eu... Alguma vez hei-de atinar com a virtude... A verdadeira acho que 
a d'elles... O genero no  caro... Veremos...

CORRE O PANO.




ACTO III.


_Passa-se em casa do visconde de Valbom. Sala faustuosa: luxo sem gosto:
muita cadeira de estfos amarellos: muito relogio: muita bugiaria de
vidro, de mistura com porcellanas de Sevres, e adornos d'ouro, sem
significao nem serventia_. _ noite_.


SCENA I.

Viscondessa de Valbom, D. Julia, Jorge, visconde de Valbom.


_Um creado com uma bandeja, recebe as chavenas do ch; e retira-se_.

Viscondessa (_a Jorge_).--A snr.^a D. Leocadia no vir?

Jorge.-- natural que venha.

Viscondessa.--Com o capello?

Jorge.--Sim... com o capello...

Viscondessa (_a Julia_).--O snr. Alvaro que andar a fazer?

Julia.--Naturalmente... das suas...

Visconde.--Das suas... isso que quer dizer?! Alvaro  o exemplo da
honradez personalisada...

Julia.--Agradecida a v. exc.^a, snr. visconde.

Viscondessa.--No tem de que, menina. Seu marido  um anjo, e a
sociedade faz-lhe justia. A reputao que elle tem grangeado  a prova
infallivel das suas virtudes. Elle, e aqui o snr. Jorge so os dous
cavalheiros mais queridos da nossa roda. Foram rapazes, sem rapaziadas.
So maridos, sem mancha, e ho-de ser sempre modlos de probidade a
todos os respeitos.

Jorge.--Muito grato, minha senhora. Tenho empregado todos os esforos
por merecer  sociedade um bom conceito, e creio que o tenho
conseguido...

Viscondessa.--Porque o merece. Se o no merecesse, creia que o no
teria, porque a opinio publica  justiceira, e nunca se engana com os
bons, ou com os maus... No se lembra da opinio que teve Eduardo?

Jorge.--Uma pessima opinio.

Visconde.--Oh! de certo, aquillo era um homem com uma lingua depravada,
e costumes horriveis...

Viscondessa.--Mas vejam que lhe chegou a sua hora de reflexo.
Retirou-se completamente da sociedade; viveu tres mezes encerrado
comsigo mesmo na solido, e voltou para o mundo completamente
desfigurado.  outro homem...

Julia.--Totalmente outro.

Visconde.--Faz mesmo espantar a differena que o homem fez!...

Jorge.-- pasmosa!

Viscondessa.--As suas palavras so todas serias, medidas, e reflectidas.
Os seus modos so circumspectos, civis, e insinuantes. O seu vestir 
muito grave, muito decente, e muito sisudo... Dizem-me que d esmolas...
tenho lido nos jornaes alguns actos de philantropia que o honram
muito... em fim, est um cavalheiro, que no deixa nada a desejar! Vejam
o que so as cousas!... Aqui ha quatro mezes, se elle me olhasse para
uma das minhas creadas, despedil-a-hia immediatamente; e hoje, se eu
tivesse uma filha, dava-lh'a com immensa satisfao...

Jorge.--Muito se lucra, quando se  honrado!...

Visconde.--Pois no! No ha nada como a honra!

Jorge.--Oh! a honra  a salvaguarda de todas as inquietaes!

Viscondessa.--Que precipicios no encontrou Eduardo em quanto se deixou
hir  merc dos seus extravagantes desejos!...

Visconde.--Oh!... era insoffrivel!... Nunca se viu assim uma
libertinagem!...

Julia.--Ouvi fallar to mal d'esse homem, e nunca me disseram
distinctamente os seus crimes.

Visconde.--Immensos, immensos...

Viscondessa.--Immensissimos, immensissimos...

Julia.--Mas posso eu saber algum d'elles?

Visconde.--Eu no sei de nenhum; mas dizem por ahi que so muitos...
muitos...

Julia.--E a snr.^a viscondessa sabe quaes so?

Viscondessa.--Tambem no sei; mas, na boa roda, diziam que elle era um
prodigio de immoralidade...

Julia.--E o snr. Jorge? Esse ha-de saber muitas cousas...

Jorge.--Creio que ha muitas scenas horriveis na vida d'esse homem,
todavia, eu no sei nenhuma...

Julia.--Mas vive com elle ha mais de sete annos...

Jorge.-- verdade... mas, como elle me no chamava a testemunhar os seus
desvarios, nada sei...

Julia.--O que se segue  que nenhum de ns sabe dizer em que consistiu a
depravao de Eduardo!...

Viscondessa.--A sociedade no se engana, menina. Ella que o condemnou l
sabe os motivos porque o fez. A virtude no  nunca infamada. Veja l se
seu marido, e aqui o snr. Jorge foram victimas da calumnia!...

Julia.--Mas eu queria que me citassem um crime de Eduardo...

Um creado--O snr. Eduardo...


SCENA II.

_Os mesmos e_ Eduardo.


(_Eduardo veste todo de preto. Maneiras muito acanhadas, dando-se uns
ares de virtude idiota. Uma cortezia a cada palavra. Recolhido sempre em
si, affectando uma imbecilidade moral, de fazer piedade_).

Viscondessa _e_ visconde.--Muito bem vindo.

Eduardo.--Como passaram vv. exc.^{as}?

Viscondessa.--Maravilhosamente... queira sentar-se.

Eduardo.--E a snr.^a D. Julia?

Julia.--Um pouco affectada dos nervos.

Eduardo.--Muito sinto, minha senhora, Deus a poupe a soffrimentos de
todo o genero... E o meu amigo Jorge... como passa?

Jorge.--Assim, assim...

Viscondessa.--Ento! senta-se? (_Eduardo senta-se_).

Eduardo.--Como est tua senhora, Jorge?

Viscondessa.--Estamos  espera d'ella.

Eduardo.--E seu marido, snr.^a D. Julia?

Visconde.--No deve tardar... (_Eduardo em ar de pensativo, esfregando
as costas das mos_).

Viscondessa.--Elle ahi vai recahir nas suas melancolias! No o queremos
assim! Que tem?

Eduardo.--Pesares... que vem de longe, minha senhora...

Visconde.--O passado j l vai... Agora v. s.^a  outro homem... Toda a
gente diz que quem o viu e quem o v...

Viscondessa.--Nada de tristezas. A virtude  sempre alegre...  menina,
v tocar um bocadinho... Tenho notado que o snr. Eduardo est melhor
quando ouve tocar... Que quer que ella toque?

Eduardo.--O que s. exc.^a quizer...

Julia.--Cousas tristes?

Viscondessa.--No, menina! Bem triste est elle!... Toque alguma cousa
do Barbeiro de Sevilha...

Julia.--Pois, sim... (_Vai tocar na sala immediata_).

Viscondessa (_a Eduardo_).--Quer que vamos  sala do piano, ou quer
gosar de longe?

Eduardo.--De longe, se v. exc.^a no manda o contrario. (_Jorge, logo
depois, segue Julia_).

Visconde.--Muito folgamos de o vr rehabilitado na opinio publica.

Eduardo.--E estarei-o eu por ventura?

Viscondessa.--Est... Veja... n'um s mez recuperou os creditos perdidos
em tantos annos...

Eduardo.--Muito devo a Deus, porque  o contrario que costuma
acontecer... Ento a snr.^a D. Julia no ns d o prazer de a ouvirmos?
Vai-nos demorando o goso...

Visconde.--Eu vou l... (_Sahe_).


SCENA III.

Eduardo _e a_ viscondessa.


Viscondessa (_com vivacidade_).--Vs como sahiu certo tudo o que eu te
disse? A sociedade  uma excellente pessoa.

Eduardo (_mudana de tom. Ouve-se o piano_).--Tenho notado isso... Achas
que vou bem assim?

Viscondessa.--O melhor possivel... Ponto  que te conserves...

Eduardo.--N'este p de virtude? J me no desmancho... E, com effeito,
dizem que sou beato, virtuoso, martyr, contricto...

Viscondessa.--At o visconde est espantado da tua mudana...

Um creado.--A snr.^a D. Leocadia, e o snr. Alvaro. (_Sahe_).

Viscondessa.--No sei o que me parece este grupo, a estas horas!...
Sabes que eu suspeito...

Eduardo.--Suspeitas?!... Oh!... eu no... Facilidades da innocencia!...


SCENA IV.

_Os mesmos_, D. Leocadia, _e_ Alvaro.


Viscondessa.--To tarde!...

Leocadia.--Foi impossivel aquietar o pequeno at agora...

Eduardo (_tornando ao tom beatifico_).--Passou bem, minha senhora?

Leocadia.--Bem...

Alvaro (_d uma gargalhada_).

Viscondessa.--Que riso  esse?

Alvaro.--No  nada, minha senhora... Quem toca,  minha mulher?

Viscondessa.-- sim... se quer v  sala...

Alvaro.--No, minha senhora. (_Senta-se trombudo a um canto da sala_).

Viscondessa (_a Leocadia_).--Que ter elle? Estranho-o!...

Leocadia.--Eu no sei... Chegou a minha casa quando eu estava para
sahir... Disse-me que me acompanhava... veio comigo sem dizer palavra...
e no sei mais nada, nem me importa...

Eduardo (_pesaroso_).--Ter dr de dentes? So dres dos nossos
peccados... Deus nos acuda...

Viscondessa.--Venha c, snr. Alvaro!... O nosso bom amigo Eduardo, que 
o S. Paulo dos nossos tempos, pergunta se lhe doem os dentes... (_Alvaro
d outra gargalhada_).

Leocadia.--Ora entendam l aquillo!...


SCENA V.

_Os mesmos, e_ Julia, Jorge, _e o_ visconde.


Jorge (_apertando a mo de Leocadia_).--At que finalmente...

Julia (_apertando a mo de Alvaro_).--Com effeito... demoraste-te.

Alvaro.--Negocios...

Leocadia.--O pequeno no queria adormecer... (_Alvaro d terceira
gargalhada_).

Jorge.--Que riso  esse?

Julia.--A que vem o destempero d'essa gargalhada?...

Viscondessa.--L est outra vez mergulhado na sua melancolia o snr.
Eduardo!... Quer, talvez, mais musica...

Eduardo.--Se no receasse ser indiscreto, pedia a v. exc.^a aquella aria
da Norma... no acto final...

Viscondessa.--Executada por quem?

Eduardo.--Por v. exc.^a... d-lhe uma graa particular... No quero
offender as duas senhoras que a desempenham habilmente; mas no sei que
toque melancolico...

Viscondessa.--Pois sim... hirei... Vamos todos...

Eduardo.--Se me concedesse...

Viscondessa.--Ficar ssinho aqui?... Pois sim... fique.

Visconde.--Eu c fico com elle...

Viscondessa.--No, no... deixa-o... so necessidades organicas... Eu
tambem tenho d'estas tempestades moraes...

Vozes.--Pois sim... pois sim... (_Sahem_).


SCENA VI.

Eduardo, _e depois_ Julia.


Eduardo.--A gargalhada de Alvaro quer dizer muito... (_Ouve-se a aria da
Norma_).

O maldito veria alguma cousa? Se viu, l vai a terra todo o meu edificio
de virtude... Dizem que ella  facil, eu vejo-me illaqueado n'uma rede
tal, que se me descobrem no sei por onde hei-de evadir-me... Que pena
se me no deixam ser honrado!... Tenho, s n'um mez, colhido tantas
palmas de virtude, que, passados tres, n'este andar, eu todo seria um
palmito...

Julia (_agitada_).--Eduardo...

Eduardo.--Julia...

Julia.--Pelo amor de Deus, desvanece-me d'uma suspeita que me
despedaa...

Eduardo.--Que ?!

Julia.--Tu amas Leocadia.

Eduardo.-- falso...

Julia.--Mas ella adora-te com delirio...

Eduardo.--Que culpa tenho eu?

Julia (_tomando-lhe a mo com frenesi_...)--No me sacrifiques a ella...
a nenhuma... porque nenhuma te amar tanto...

Jorge (_ao fundo_).--Isto  espantoso!...

Eduardo.--No vs que represento um papel hypocrita, to contra o meu
caracter, para te no perder?

Jorge (_o mesmo_).-- incrivel!...

Julia.--Conheo tudo... meu anjo... Vou  sala... pde notar-se a minha
falta...


SCENA VII.

     Eduardo , _e depois_ Leocadia, _e depois o_ Visconde _na porta do
     fundo sem ser visto_. (_Ouve-se ainda a musica da Norma_).


Eduardo.--Tornemos  posio do benemerito Tartufo. Oh meu querido
Moliere, onde quer que ests recebe os meus agradecimentos pelo
excellente molde que me c deixaste!

Leocadia (_impetuosamente_).--Eduardo... s duas palavras... Olha que
Alvaro viu-te sahir de minha casa...

Eduardo.--Viu?! esto explicadas as gargalhadas...

Leocadia.--Receio maus resultados... Elle  capaz de tirar qualquer
vingana... Oh meu Deus!... estou sobre um vulco...

Eduardo.--E eu dentro d'uma tina... Deixa correr os successos... Vai,
que podem descobrir-nos...

Visconde (_ parte_).--Como se explica isto?

Leocadia.--Que has-de tu dizer se elle nos denuncia?

Eduardo.--Provo que no sou mais immoral que elle... As pretenes so
as mesmas...

Visconde.--Isto  bonito!... (_Retira-se_).

Leocadia.--Que situao a minha!...

Eduardo.--Retira-te, que podem surprehender-nos... (_Leocadia sahe_).


SCENA VIII.

Eduardo, _e depois a_ viscondessa, _e_ Alvaro _ao fundo_.


Eduardo.--Atropellam-se os acontecimentos!... Tudo isto faz persuadir
que eu tenho sido um homem verdadeiramente virtuoso! No tempo em que eu
era cynico, antes que a sociedade me chamasse regenerado, as mulheres
no andavam assim n'uma dobadoura em redor de mim!  benevola opinio
publica, quanto te devo!... Ahi vem outra que me no faz muita honra!...

Viscondessa.--Aproveitei um instante para estar s comtigo antes que
elles venham...

Eduardo.--Como s carinhosa!

Viscondessa.--Desconfiei que Leocadia tivesse vindo para aqui... Sabes
que tenho ciumes de todas as mulheres!...

Alvaro (_ parte_).--Que ouo!...

Eduardo.--Continuo a representar bem? A platea applaude?...

Viscondessa.--O visconde disse-me n'este momento que tinha muito que
contar-me... perguntei-lhe a que respeito... e elle de fugida pronunciou
o teu nome e de Leocadia...

Alvaro (_aparte_).--E Leocadia!...

Eduardo.--E Leocadia!... Como se entende isso?...

Viscondessa.--No sei... Mudemos de tom que elles ahi vem...


SCENA IX.

_Os mesmos, e_ Julia, Alvaro, Jorge _e_ Leocadia.


Viscondessa (_com emphase_).--Pois no queremos uma virtude assim
melancolica...  necessario que resurja d'esse abatimento moral, snr.
Eduardo... A verdadeira felicidade est na consciencia. O seu passado
no tem a pedir contas ao seu presente... A sociedade abre-lhe o braos
como ao filho prodigo... (_Alvaro solta uma risada_).

Que riso  esse, snr. Alvaro?

Alvaro.-- um riso nervoso!...

Eduardo (_ parte_).--Mau!...

Leocadia.--No tem razes para tanta melancolia!...  estimado
geralmente pelas suas virtudes, e merece a confiana de todas as
pessoas... (_O visconde solta uma risada_).

Que risada  essa, snr. visconde?

Visconde.-- uma risada como a d'aquelle senhor (_apontando Alvaro_). 
uma risada nervosa!

Eduardo (_ parte_).--Peor!...

Julia.--Parece que escarnecem a virtude!... Estas transfiguraes moraes
custam muitas amarguras... Eu comprehendo a melancolia do snr.
Eduardo... Lembra-se do que foi, e, no prazer do que , sente pesar de o
no ter sido desde muito... (_Jorge solta uma risada_).

Tambem o senhor se ri?

Jorge.-- uma risada como a d'aquelle senhor... (_apontando Alvaro_) 
uma risada nervosa...

Eduardo (_ parte_).--Est tudo por terra!... (_Alto_). Vejo que os meus
amigos esto muito nervosos!... Banhos de mar podem ser-lhes
proveitosos... No acho bonito que me escarneam... Fazem-me lembrar a
fabula do leo e do... Em fim, seja tudo em desconto das minhas
culpas!... (_Riem todos tres_).

Ora comprehendam isto!...  um abuso do riso!... Eu no lhes mereo
isso, senhores! Dizem por ahi que eu sou um honrado homem, e no se
cospe assim na honra...

Jorge (_ parte_).--Vou-lhe arrancar a mascara!...

Visconde (_ parte_).--Hypocrita!

Alvaro (_ parte_).--O impostor no passar d'hoje...

Viscondessa.--Que falsa posio  esta?

Leocadia.--No entendo isto!

Julia.--Nem eu!

Eduardo.--Nem eu!...

Viscondessa.--Que modos so esses!... em que pensam os senhores?...

Alvaro.--Eu pensava nos recursos do talento depravado!... Senhores!... 
necessario que se acabe este comedia d'algum modo!... Aquelle senhor
(_indicando Eduardo_)  um impostor!

Eduardo.--Eu! Calumnia! infamia... quero as provas...

Alvaro.--A snr.^a D. Leocadia que as d...

Visconde.--Justamente: a snr.^a D. Leocadia que as d!...

Jorge.--Minha mulher!...

Leocadia.--Eu!

Eduardo.--Ella!...

Alvaro _e_ Visconde.--Sim! ella!...

Jorge.--Pois bem... cia a mascara... Esse senhor  um infame seductor!

Eduardo.--Eu!

Viscondessa.--Elle!

Jorge, Visconde, _e_ Alvaro.--Sim, sim, elle!

Eduardo.--Provas, senhores calumniadores!

Jorge.--Provas? a snr.^a D. Julia que as d!

Alvaro.--Minha mulher!

Julia.--Eu!

Eduardo.--Ella!

Jorge _e_ Visconde.--Sim, sim, ella!

Alvaro.--N'esse caso... rasgue-se o vo do mysterio... Todos somos
victimas da hypocrisia d'esse homem!

Visconde.--Menos eu!

Viscondessa.--Nem eu!

Eduardo.--Provas, senhores!

Alvaro.--Provas? a snr.^a viscondessa que as d.

Visconde.--Minha mulher!

Viscondessa.--Eu!

Eduardo.--Ella!

Alvaro _e_ Jorge.--Sim, sim!

Eduardo.--Todas tres!...

Alvaro (_para Julia_).--Responde!

Jorge (_para Leocadia_).--Que dizes a isto?

O visconde (_para a viscondessa_).--Pois no te defendes?

Todas tres.-- falso!...

Eduardo (_mudando de tom_).--Eu vou defendl-as, minhas senhoras!

Alvaro.--A snr.^a D. Leocadia no tem defeza nenhuma, porque...

Eduardo.--Silencio!

Jorge.--A snr.^a D. Julia no tem defeza nenhuma, porque...

Eduardo.--Esperem!...

Visconde.--Concordo que nenhuma d'essas tem defeza!... mas  preciso que
me provem que...

Eduardo.--Alto l... Queiram retirar-se, minhas senhoras...  defeza a
presena das rs no tribunal que vai installar-se... Queiram
retirar-se... (_Ellas sahem_).


SCENA X.

Eduardo, Jorge, Alvaro, _e o_ Visconde.


Eduardo.--Venham c... Os senhores no tem ouvido dizer que eu me
regenerei? Respondam, sim ou no?

Alvaro.--Qual _regenerou-se_!  um impostor!...

Eduardo.--Concordemos em que sou um impostor. Mas digam-me: a opinio
publica a meu respeito  essa?

Visconde.--No ... porque o senhor enganou-nos.

Eduardo.--Pois, se no , porque no respeitam os senhores a opinio
publica  qual me mandaram obedecer?

Visconde.--J lhe disse que a opinio publica est illudida com o
senhor!

Eduardo.--E d'antes? ha quatro mezes era mais verdadeira que hoje?

Jorge.--No quero disputas... No respondo ao seu interrogatorio...
Quero uma satisfao immediata.

Alvaro.--E eu tambem.

Eduardo.--E o snr. visconde?

Visconde.--Veremos, depois...

Eduardo (_sorrindo_).--Acha que no vale a pena decidir j... Pois l
hiremos... Mas, antes d'isso, queiram attender-me: os senhores, com uma
bala, em duello, podem matar-me, primeira loucura; e, se me no matam,
arruinam a minha boa reputao, que eu aprecio mais que a vida; segunda
asneira... Que lucram os senhores com isto?

Alvaro.--Nada de philosophias!...  indispensavel para a minha honra um
duello...

Jorge.--No prescindo.

Eduardo.--Pois se no prescindem, l vamos... Mas os primeiros que
ho-de bater-se um com o outro, so os senhores! (_Indicando Alvaro e
Jorge_).

Alvaro _e_ Jorge.--Ns?!...

Eduardo.--Os senhores...

Alvaro.--Porque?!

Eduardo.--Porque teem trabalhado reciprocamente na sua deshonra.

Jorge.--Isso  uma nova infamia!

Eduardo.--Mos na consciencia, meus amigos! O contracto feito ha quatro
mezes na praia dos Inglezes no os exime de serem honrados!

Alvaro _e_ Jorge.--Na praia dos Inglezes!...

Eduardo.--Querem explicaes?... Vejam l o que resolvem... Querem
explicaes?... Que dizem?!... Esse silencio annuncia bonana...
Aproveitemos o vento que  favoravel... Concordam em que occultemos
mutuamente as nossas miserias? Eu de mim... (_Comprime os labios com os
dedos_...) Os senhores, se -----File:
245.png---\psaborano\zurc\Manela\psaborano\luisa\---------------so
honrados como a opinio publica os aprega, calem-se tambem...

Visconde.--Mas eu  que no entro n'esse contracto...

Eduardo.--Nem lh'o propuz... mas, v. exc.^a contando com o silencio
d'estes cavalheiros, de certo no querer uma ignobil publicidade a
respeito de... Veja l o que resolve...

Visconde.--Mas v. s.^a no ha-de entrar mais em minha casa...

Eduardo.--D'accordo. Amanh embarco para a exposio de Pariz, e
tenciono viajar tres annos... Serve-lhe a condio?... O silencio
approva... Muito bem... (_Ao fundo_). Minhas senhoras! queiram
entrar!... (_As damas entram_). Vv. exc.^{as} foram julgadas
innocentissimas e absolvidas... Continuamos todos a ser excellentes
pessoas a todos os respeitos. Estes senhores, de parte a parte, pedem
perdo das calumnias sordidas com que quizeram reciprocamente manchar os
seus nomes...

Viscondessa.--Assim o suppuz!

Julia.--Assim devia acontecer!

Leocadia.--Mas eu no perdo a quem me infamou!

Viscondessa _e_ Julia.--Nem ns!

Eduardo.--Ho-de perdoar, que so muito boas senhoras, e o perdo das
injurias  o sentimento mais nobre do corao humano... Eu retiro-me com
os meus creditos, e vv. exc.^{as} ficam com os seus... Muito boas
noites... (_Sahe_).

       *       *       *       *       *

Os outros, como  natural, ficam a olhar uns para os outros com aquellas
caras proprias de taes conflictos. O author vem fra dizer que no ha na
comedia alluses nenhumas. A plata retira satisfeita, e contina a
guardar-se dos cynicos.

No dia seguinte os jornaes dizem que a comedia  immoral, e attentatoria
contra os bons costumes. Os Sganarellos mandam comprar o jornal, e
mostram-no aos compadres. O author, conscio de que o mordem, vem no
conhecimento de que os mordentes so os legitimos _Orgons_ d'este
seculo; mas, um pouco menos felizes que os d'uma grande comedia, que o
leitor, se se no recorda, ou no leu nunca, pde encontrar com o titulo
de _Tartuffe_. Se, todavia, detesta a letra redonda, estude a vida
pratica, e chegar  mais difficil das formaturas, ao _ultimatum_ da
sabedoria: o conhecimento dos homens.  to facil, ao primeiro
intuito, estremar o cynico do hypocrita!... Dai-me o primeiro, que
repellis, e no me relacioneis com o segundo, que abraaes: que eu,
profundamente grato, ficarei pedindo a Deus que vos augmente o dinheiro,
e vos conserve uma saude bem vermelha, bem gorda, para que a virtude no
seja sempre uma irriso n'este planeta. Disse.

FIM.




INDICE.


Morrer por capricho (romance)                          5
Uma paixo bem empregada (romance)                    25
De abysmo em abysmo (romance)                         35
Aventuras d'um boticario d'alda (romance)            41
Cousas que s eu sei (romance)                        55
Dinheiro! dinheiro! (romance)                        109
A caveira (romance)                                  131
Uma praga rogada nas escadas da forca (romance)      155
Pathologia do casamento (drama em 3 actos)           183




Notas:

[1] Systema pathologico do snr. Borges de Castro, facultativo distincto,
na cidade do Porto, em 1853.

[2] Escripto em 1853.

[3] .......





End of Project Gutenberg's Scenas Contemporaneas, by Camilo Castelo-Branco

*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK SCENAS CONTEMPORANEAS ***

***** This file should be named 23203-8.txt or 23203-8.zip *****
This and all associated files of various formats will be found in:
        http://www.gutenberg.org/2/3/2/0/23203/

Produced by Ricardo F. Diogo, Rita Farinha and the Online
Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This
book was produced from scanned images of public domain
material from the Google Print project.)


Updated editions will replace the previous one--the old editions
will be renamed.

Creating the works from public domain print editions means that no
one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
(and you!) can copy and distribute it in the United States without
permission and without paying copyright royalties.  Special rules,
set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark.  Project
Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
charge for the eBooks, unless you receive specific permission.  If you
do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
rules is very easy.  You may use this eBook for nearly any purpose
such as creation of derivative works, reports, performances and
research.  They may be modified and printed and given away--you may do
practically ANYTHING with public domain eBooks.  Redistribution is
subject to the trademark license, especially commercial
redistribution.



*** START: FULL LICENSE ***

THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK

To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free
distribution of electronic works, by using or distributing this work
(or any other work associated in any way with the phrase "Project
Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project
Gutenberg-tm License (available with this file or online at
http://gutenberg.org/license).


Section 1.  General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm
electronic works

1.A.  By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm
electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
and accept all the terms of this license and intellectual property
(trademark/copyright) agreement.  If you do not agree to abide by all
the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy
all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession.
If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project
Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or
entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.

1.B.  "Project Gutenberg" is a registered trademark.  It may only be
used on or associated in any way with an electronic work by people who
agree to be bound by the terms of this agreement.  There are a few
things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
even without complying with the full terms of this agreement.  See
paragraph 1.C below.  There are a lot of things you can do with Project
Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
works.  See paragraph 1.E below.

1.C.  The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
Gutenberg-tm electronic works.  Nearly all the individual works in the
collection are in the public domain in the United States.  If an
individual work is in the public domain in the United States and you are
located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
are removed.  Of course, we hope that you will support the Project
Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by
freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of
this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with
the work.  You can easily comply with the terms of this agreement by
keeping this work in the same format with its attached full Project
Gutenberg-tm License when you share it without charge with others.

1.D.  The copyright laws of the place where you are located also govern
what you can do with this work.  Copyright laws in most countries are in
a constant state of change.  If you are outside the United States, check
the laws of your country in addition to the terms of this agreement
before downloading, copying, displaying, performing, distributing or
creating derivative works based on this work or any other Project
Gutenberg-tm work.  The Foundation makes no representations concerning
the copyright status of any work in any country outside the United
States.

1.E.  Unless you have removed all references to Project Gutenberg:

1.E.1.  The following sentence, with active links to, or other immediate
access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently
whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the
phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project
Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed,
copied or distributed:

This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
almost no restrictions whatsoever.  You may copy it, give it away or
re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
with this eBook or online at www.gutenberg.org

1.E.2.  If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived
from the public domain (does not contain a notice indicating that it is
posted with permission of the copyright holder), the work can be copied
and distributed to anyone in the United States without paying any fees
or charges.  If you are redistributing or providing access to a work
with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the
work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1
through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or
1.E.9.

1.E.3.  If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
with the permission of the copyright holder, your use and distribution
must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional
terms imposed by the copyright holder.  Additional terms will be linked
to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the
permission of the copyright holder found at the beginning of this work.

1.E.4.  Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm
License terms from this work, or any files containing a part of this
work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.

1.E.5.  Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
electronic work, or any part of this electronic work, without
prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with
active links or immediate access to the full terms of the Project
Gutenberg-tm License.

1.E.6.  You may convert to and distribute this work in any binary,
compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any
word processing or hypertext form.  However, if you provide access to or
distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than
"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version
posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org),
you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a
copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon
request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other
form.  Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm
License as specified in paragraph 1.E.1.

1.E.7.  Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works
unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.

1.E.8.  You may charge a reasonable fee for copies of or providing
access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided
that

- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
     the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
     you already use to calculate your applicable taxes.  The fee is
     owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he
     has agreed to donate royalties under this paragraph to the
     Project Gutenberg Literary Archive Foundation.  Royalty payments
     must be paid within 60 days following each date on which you
     prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
     returns.  Royalty payments should be clearly marked as such and
     sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
     address specified in Section 4, "Information about donations to
     the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."

- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
     you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
     does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
     License.  You must require such a user to return or
     destroy all copies of the works possessed in a physical medium
     and discontinue all use of and all access to other copies of
     Project Gutenberg-tm works.

- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
     money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
     electronic work is discovered and reported to you within 90 days
     of receipt of the work.

- You comply with all other terms of this agreement for free
     distribution of Project Gutenberg-tm works.

1.E.9.  If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
electronic work or group of works on different terms than are set
forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark.  Contact the
Foundation as set forth in Section 3 below.

1.F.

1.F.1.  Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
collection.  Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
works, and the medium on which they may be stored, may contain
"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual
property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by
your equipment.

1.F.2.  LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project
Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all
liability to you for damages, costs and expenses, including legal
fees.  YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
PROVIDED IN PARAGRAPH F3.  YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
DAMAGE.

1.F.3.  LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a
defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a
written explanation to the person you received the work from.  If you
received the work on a physical medium, you must return the medium with
your written explanation.  The person or entity that provided you with
the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a
refund.  If you received the work electronically, the person or entity
providing it to you may choose to give you a second opportunity to
receive the work electronically in lieu of a refund.  If the second copy
is also defective, you may demand a refund in writing without further
opportunities to fix the problem.

1.F.4.  Except for the limited right of replacement or refund set forth
in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.

1.F.5.  Some states do not allow disclaimers of certain implied
warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
the applicable state law.  The invalidity or unenforceability of any
provision of this agreement shall not void the remaining provisions.

1.F.6.  INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
with this agreement, and any volunteers associated with the production,
promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
that arise directly or indirectly from any of the following which you do
or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
http://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at http://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit http://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including checks, online payments and credit card donations.
To donate, please visit: http://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.


Most people start at our Web site which has the main PG search facility:

     http://www.gutenberg.org

This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
