Project Gutenberg's O poeta Chiado, by Alberto Augusto de Almeida Pimentel

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Title: O poeta Chiado
       (Novas investigaes sobre a sua vida e escriptos)

Author: Alberto Augusto de Almeida Pimentel

Release Date: September 4, 2007 [EBook #22509]

Language: Portuguese

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O POETA CHIADO


ALBERTO PIMENTEL


O POETA CHIADO


(Novas investigaes sobre a sua vida e escriptos)

      Reverendo frei Chiado
      de Virtude grande imigo,
      sente tua alma comtigo
      e vers se estas desculpado
      d'isto que agora te digo.

                 AFFONSO ALVARES.


LISBOA

Empreza da Historia de Portugal.

_Sociedade editora_

LIVRARIA  MODERNA

_R. Augusta, 95_

TYPOGRAPHIA

_35, R. Ivens, 37_

1903




I


As relaes de amizade entre os vivos e os mortos so menos quebradias
e ephmeras do que as dos vivos uns com outros.

E a razo  facil de explicar: quem vai, no volta.

Os mortos no falam, no intrigam, no atraiam, no desmerecem, por
isso, da estima e considerao em que uma vez os tomamos.

Affeia-se a gente a um escriptor, a um _maestro_, a um pintor ou a um
estaturio, que morreu ha muitos annos ou ha longos seculos, e no
deixamos apagar nunca a lampada do seu culto: colleccionamos-lhe as
obras sem olhar a dinheiro, por mais raras que sejam; conservamol-as em
grande venerao como thesouros que um avarento aferrolha a sete chaves;
e estamos sempre promptos a combater de ponto em branco pela gloria e
belleza de suas produces, quando apparece algum zoilo a menosprezal-as
com azedume.

E se nas relaes com os vivos fazemos seleco do caracter d'elles para
estabelecer convivencia e amizade, pouco nos importa a condio e
procedimento dos mortos quando os estimamos em suas creaes artisticas
ou literarias com intransigente fanatismo.

O meu fallecido amigo visconde de Alemquer, que era um _gentleman_
distinctissimo, primoroso em maneiras e aces, alm de ser um
bibliphilo digno de apreo e consulta, tomou tanto gosto pelas obras do
padre Jos Agostinho de Macedo, que passou a maior parte da existencia a
colleccional-as por bom preo e a muito custo.

Comtudo, havia tanta disparidade entre o caracter de um e do outro,
porque o auctor dos _Burros_ foi o mais atrabiliario, inconstante e
perigoso homem de letras de todo o nosso Portugal, que o visconde de
Alemquer, se houvesse sido contemporaneo do padre Jos Agostinho, nunca
teria podido ser seu amigo, nem seu defensor, nem jmais o quereria vr
em intimidade de portas a dentro.

Pela minha parte, tambem sou obrigado a confessar um similhante fraco,
no pelo mesmo padre, mas por outro que, sob o ponto de vista da
disciplina monastica e da dignidade sacerdotal, no valia mais.
Refiro-me ao franciscano Antonio Ribeiro o Chiado, que tambem despiu o
habito e foi tunante irrequieto, sendo egualmente homem de letras.

At 1889, anno em que logrei dar a lume as suas obras, quasi perdidas, e
geralmente desconhecidas[1], custou-me o Chiado bom trabalho e canceiras
para resuscital-o aos olhos do grande publico em toda a sua
individualidade literaria.

    [1] _Obras do poeta Chiado_, colligidas, annotadas e prefaciadas por
    Alberto Pimentel. Na officina typographica da Empreza Literaria de
    Lisboa, calada de S. Francisco, 1 a 7.

D'ento para c no deixei de pensar n'elle a investigar-lhe a
biographia, que  das mais obscuras e complicadas, e a procurar aquellas
de suas obras que at 1889 no consegui haver  mo por mais que as
desejasse e buscasse.

Alguma coisa achei n'este lapso de onze annos. No  tudo ainda. Mas no
perdi o tempo, nem parei, porque me repugna a inercia, e porque,
verdade-verdade, tomei gosto ao Chiado, que no foi um vulto preeminente
nas letras, mas que tem relevo como bohemio e dizedor, como trovista
alegre e zombeteiro, farante popularissimo, que a praa publica
applaudia e que os escriptores mais notaveis no desconsideravam.

Outros meus contemporaneos teem consagrado todo o seu tempo ao Chiado
rua, e talvez esses se riam de mim, que prezo mais o literato do que o
_Regent Street_ alfacinha.

Todavia, cumpre advertil-os de que a rua lembra o escriptor, e de que
foi elle, como julgo poder demonstrar agora, que deu nome  rua.

Eu j em 1889 pendia para esta opinio, comquanto, n'essa epocha, s
houvesse encontrado vestigios de que a rua tinha aquella denominao no
seculo XVIII.

Depois d'isso, alguem lembrou que j era assim chamada na primeira
metade do seculo XVII (1634) como se reconheceu por um documento digno
de f[2].

    [2] _Elementos para a historia do municipio de Lisboa_, tomo IV,
    pag. 41. Ahi se v que o conde de Atouguia morava ao Chiado.

E eu proprio li, posteriormente, uma referencia mais antiga, porque 
relativa  primeira dcada do mesmo seculo XVII: Outras casas do bairro
do Marquez ficavam situadas _ao Chiado_, quando se entra na rua Direita
da Porta de Santa Catharina (1610)[3]

    [3] Archivo Nacional. _Chancellaria de D. Filippe II_. livro XIX,
    fol. 269.

Mas hoje cuido trazer prova convincente de que foi o poeta que, por
consenso espontaneo do povo, deu o nome de Chiado  antiga rua da Porta
de Santa Catharina ou a parte d'ella.

O povo baptiza melhor do que a camara municipal, porque baptiza com mais
acerto, quasi sempre com inteira razo de ser; por isso, nome que elle
ponha, pga, fica, perdura.

E, no obstante a camara municipal mudar em 1880 o nome  rua, de
_Chiado_ para _Garrett_, o povo no quiz saber de reviravoltas de
letreiros nas esquinas: continua a chamar-lhe _Chiado_; _Chiado_  que
, porque o povo quer que seja assim.

As novas descobertas que hoje tiro a lume sobre a vida azevieira do
poeta Chiado, anecdotas passadas entre o povo e com o povo, das quaes
resulta que elle foi um bohemio to acabado e popular no seculo XVI como
Bocage o veiu a ser no seculo XVIII, essas novas descobertas, dizia eu,
acodem a reforar a prova, que em documentos colhi, de haver sido elle
que celebrizou a rua em que morava e que por esse facto, sem que ninguem
o decretasse, mas porque todos assentiram, ficou a alcunha do poeta
tradicionalmente ligada  rua como um padro de celebridade local[4].

    [4] De todas as ruas de Lisboa o Chiado  a mais cantada e
    decantada. Na literatura, alm de infinitas referencias, tem
    fornecido o titulo de algumas obras: _Do Chiado a Veneza_ por Julio
    Cesar Machado (1867); _Viagens no Chiado_ por Beldemonio (Ed. de
    Barros Lobo) 1857; _A campanha do Chiado_, scena comica; _Trez ao
    Chiado_, canoneta. No principio do anno de 1868 comeou a
    publicar-se em Lisboa um periodico com o titulo _O Chiado_, em
    formato grande e excellente papel. Teve ephmera existencia. No n^o
    5. correspondente a 6 de fevereiro, inseriu um artigo do sr. Brito
    Rebello sobre o poeta Chiado. D'esse artigo recortamos os seguintes
    periodos:

    Mas d'onde lhe veiu a alcunha: Eis os eruditos em duvida. A opinio
    correntia at alguns annos era de que esta lhe proviera da rua onde
    habitava, que era a parte da subida desde o Espirito Santo, hoje
    palacio da casa de Barcellinhos, at  rua de S. Francisco
    (_Ivens_). Ha porm um contra: em monumento ou documento algum
    anterior ao seculo XVI, se encontra tal designao.  pois mais
    natural a hypothese do sr. Alberto Pimentel, de que do poeta veiu o
    nome  rua.

    A hypothese, formulada em 1889,  hoje uma these documentada.




II


Eu conjecturei em 1889 que--Chiado--era alcunha popular e nao appellido
de familia. Hoje possuo provas de ter havido no districto de Evora,
d'onde o poeta era natural, uma familia de appellido Chiado, anterior ao
poeta.

Bem pode ser que o appellido proviesse de alcunha, no sentido em que a
tomei[5], o que muitas vezes acontece. Mas no ha duvida que j no
seculo XV existiam Chiados no baixo Alemtejo.

    [5] _Ver Obras do poeta Chiado_, pag. XXVIII a XXX.

Perante D. Joo II queixaram-se Joo Lopes Chiado e Francisco Lopes
Chiado, ambos eborenses e irmos, contra a perseguio judicial que lhes
moviam Ayres Gamito e Gonalo d'Elvas, serviaes d'el-rei.

Por carta regia, datada de Evora, D. Joo mandou annullar-lhes a culpa
deixando-os illibados[6].

    [6] Archivo Nacional. Chancellaria de D. Joo II, liv. 17, fl. 89,
    v.

No seculo XVI havia em Montemor-o-Novo um Antonio Fernandes Chiado,
homem muito pobre, a quem D. Joo III perdoou o delicto (em 11 de
setembro de 1553) de ter caado perdizes com boiz, contra o que
dispunham as Ordenaes[7].

    [7] Archivo Nacional. D. Joo III. Perdes e legitimaes, liv, 19,
    fl. 398, v.

Mas nenhuma d'estas noticias vale tanto como a de ter existido ao tempo
do poeta, no anno de 1567, em Lisboa, uma Catharina Dias, dona viuva,
mulher que foi de Gaspar Dias o Chiado, a qual residia na rua Direita
da Porta de Santa Catharina.

Colhi esta noticia n'um documento authentico[8].

    [8] Archivo Nacional. _Collegiada de So Julio de Lisboa_, mao
    unico n^o 14. Instrumento lacerado no fim. Transcrevemos apenas o
    comeo, por ser a parte que mais nos interessa:

Em nome de deus amem sajbam qutos este estromento de emnouaco de
prazo e nouo emprazamento vyrem que no Anno do nascymento de nosso
senhor Jesus Christo de myll e quinhentos e sesemta e sete Aos tres dias
do mes de Junho na cydade de llixboa demtro da parochiall Igreya de sam
Gjo estdo ahy de presente o senhores lljonardo nardez de cyxo (sic)
prior da dita Igreya e guomcallo diaz e Jorge Rebejro e pedro ortyz e
ffrancisquo de lhnes beneffyciados em ella todos presentes e
Imtaresemtes na dita ygreya e todos jumtos e cgregados por som de
campam tgjda em cabido e cabydo ffazemdo ffazemdo (sic) especyallmente
sobre o auto de que abayxo ffara memam e todos de hu parte e da outra
estamdo a esto presente cateryna diaz dona veuua molher que ffoy de
gaspar diaz o chyado dalcunha vynhateyro que deus aja e ella vyue hora
nesta cidade na Rua derejta da porta de samta cateryna e lloguo por
elles senhores pryor e majs beneficiados ffoy dyto que amtre os majs
bens e propriadades que A dita Sua Igreja pertemce e de que ella esta de
pose como derejto senhoryo asy sam huas cassas que esto nesta cydade no
topo da callcada de pay de nabays na Rua derejta da porta de samta
cateryna as quoajs pessue hora como vtill senhoryo A dyta caterina diaz
por as nomear em ellas por segunda pessoa o dito gaspar diaz chyado que
nellas hera a primeira pessoa comfforme ao emprazameto que dellas lhe
ffoy ffeyto por A dyta Igreya pryor e benefficiados della e pagua de
fforo myl e trezemtos e cimquoenta reis em cada num Anno com galljnhas e
tudo e com outras majs comdjces e obrigaes de seu comtrato, etc.

Ora ahi se diz textualmente a respeito d'aquella Catharina Dias: molher
que ffoy de gaspar diaz o chyado dalcunha vynhateyro que deus aja.

A falta de pontuao nos documentos antigos d origem a muitas
escuridades e equivocos. Assim, na phrase que deixamos transcripta,
poderiam caber duas interpretaes: que Gaspar Dias tinha a alcunha de
Chiado ou tinha a alcunha de Vinhateiro. Mas a anteposio do artigo 
palavra--Chiado--reforaria por si mesma a hypothese de ser alcunha, se
a no confirmasse plenamente esta passagem que se encontra no texto do
documento:


Aos seys dias do mes de junho de myll e quynhemtos e sesemta e sete
Annos na cydade de llixboa Rua derejta da porta de ssamta cateryna nas
cassas de caterina diaz _A chiada dalcunha_ donna veuua etc.


Assim, pois, ficamos seguros de que o Gaspar Dias da rua Direita da
Porta de Santa Catharina no tinha o appellido de Chiado, como alguns
individuos do Alemtejo, mas sim a alcunha, e de que exercia a profisso
de vinhateiro por ser viticultor ou negociante de vinhos. Bem poderia
succeder que os vendesse a retalho na propria casa de residencia,
especie de estalagem talvez, onde admittisse hospedes.

N'elle era, portanto, alcunha o que n'outros fra appellido de familia;
mas bem pde haver sido que a origem do appellido no Alemtejo proviesse
primitivamente de uma alcunha.

Quanto  significao da palavra _chiado_ no ha duvida. Na _Revista
Lusitana_ VI, 79, encontra-se um estudo intitulado--Dialecto
indo-portugus de Ga--, auctor monsenhor Sebastio Rodolpho Dalgado
(_sic_), no qual estudo se l: _Chiado_, astuto, ladino. No  porque
eu seja mais chiado, mais astuto do que os outros. Do k., sansk
_chhadmin_. Mas, sem recorrermos ao concani, o nosso verbo chiar e o
seu participio podem dar ideia de um sujeito de ruidosa reputao como
bargante e dizidor. No Brazil o nome--Cames--tomou a accepo popular
de--cego de um olho; e at me informam-- sacrilegio!--que l se diz,
por exemplo, um cavallo cames. O povo tem um grande instincto de
generalisao: certos individuos seriam--chiados--por se assimilharem
moralmente. Da alcunha proviria talvez o appellido; mas no vale a pena
insistir n'este ponto.

O que faz ao nosso proposito  dizer que a Gaspar Dias fram aforadas
pela collegiada de S. Julio umas casas sitas no topo da calada de Pai
de Nabaes na rua Direita da Porta de Santa Catharina e que houve
renovao do prazo no tempo da viuva, segundo ella requereu e obteve.

A referida calada  descripta em documentos antigos como sendo--de Payo
de Novaes--Pai de Navaes ou--Pai de Nabaes[9].

    [9] Calada de Payo de Novaes--Corre a dita Calada ao principio
    quasi norte sul e contem seu comprimento desde o Largo da Cruz do
    Azulejo th donde volta 173 p. e de Largura 16 p. e voltando corre
    Leste oeste, e contem th intestar com a rua do Chiado donde parte o
    destricto do Bayrro 42 p. e de Largura pello leste 42 p. e pello
    oeste 25 p.. _Tombo da Cidade de Lisboa, Livro 10, Rocio fl. 20._

O _Mappa de Portugal_, III, 391, diz que a calada de Payo de Novaes
pertencia  freguezia de S. Nicolau.

No livro 8 da _Extremadura_ l-se, fl. 27: na rua que vem da callada
que vem de pay de nauaaes pera o poo do chao e parten (_as casas_) de
ha parte c a albergaria dos tanoeiros da outra c casas de S. Vicente
de Fora etc. e da outra c casas dos banhos do espitall de dona maria de
aboym etc. e com Rua pubrica. T em a data de 1467.

Na _Lisboa antiga_, de Julio de Castilho, vol. VI, vem um fragmento da
planta traada por Jos Valentim, e ahi se pde vr claramente qual era
a situao da calada de Pai de Nabaes em relao  rua Direita da Porta
de Santa Catharina.

[Ilustrao: Planta do Chiado por Jos Valentim]

Por este fragmento, que reproduzimos, reconhece-se que a calada de Pai
de Nabaes ficava ao fundo do Chiado actual, entalada entre o palacio do
conde de Valladares e a egreja do Espirito Santo, e que foi do predio
ahi situado, onde residira Gaspar Dias, que se alastrou o nome de Chiado
para um trecho apenas da rua Direita da Porta de Santa Catharina,
conservando esta rua o seu antigo nome desde a Cordoaria Velha[10] at
propriamente  porta de Santa Catharina, isto , at ao Loreto moderno.

    [10] A Cordoaria Velha correspondia  rua de S. Francisco, hoje rua
    Ivens.

Seria em casa de Catharina Dias a Chiada que o poeta Antonio Ribeiro se
hospedou. No podmos admittir que fosse o marido d'ella que dsse o
nome  rua, a qual no tempo da viuva ainda tinha a designao antiga e
total--de rua Direita da Porta de Santa Catharina.

Pode ser que o poeta recebesse da propria casa de Pai de Nabaes, como
seu hospede ou freguez, a alcunha de Chiado, tanto mais que esta alcunha
lhe quadrava como astuto e ladino, e que elle, segundo uma accusao de
Affonso Alvares, se dava a frequentar lojas de bebidas:

      E tu queres ser rufio
      e beber como francez.

Pode ser que fosse parente, adherente ou intimo da viuva de Gaspar Dias,
e que por parte do povo tambem houvesse malicia em dar ao commensal a
alcunha que pertencra ao marido.

A tradio diz que o poeta morou n'aquella rua e, segundo a maior
certeza possivel, parece poder agora ficar assente que foi elle, pela
notoriedade de que gosou, devida a suas ribaldarias e veia comica, que
deu o nome  rua.

 menos admissivel a hypothese de que o poeta, por singular
coincidencia, fosse um dos Chiados do Alemtejo, apesar de ter nascido no
districto de Evora, onde, na cidade capital do districto e na villa de
Montemor-o-Novo, existia aquelle appellido. No Alandroal, crca de seis
leguas ao sul de Evora, ha um _monte_ (casa de habitao de uma herdade)
que tem o nome de--Chiado[11]--e um logar chamado--Chiada. No districto
de Faro (Algarve) tambem ha um logar com a denominao de--Chiado,--como
se v da _Chorographia_ de Baptista. Chiado , pois, um vocabulo do sul.
Mas tanto o poeta como seu irmo Jeronymo, tambem poeta, assignavam
apenas o appellido--Ribeiro. O que me leva a crr que Chiado fra
alcunha posta a Antonio Ribeiro, bem assente n'elle, que a merecia; e
por ser alcunha a precediam de um artigo.

    [11] Situado a dois kilometros da villa. Haver um seculo pertenciam
    este _monte_ e herdade a um individuo chamado Pedro Gonalves.
    Passando de paes a filhos, veio a propriedade a pertencer ao pai do
    sr. Martins, do Redondo, actual proprietario.

Em resumo: antes do poeta a rua no tinha o nome de Chiado[12].

    [12] Fica, pois, documentalmente contradictada a opinio, tantas
    vezes repetida, de que o poeta recebeu o nome da rua. Ainda
    recentemente disse a _Encyclopedia portugueza illustrada_: Indo
    para Lisboa (o poeta), foi morar para o Chiado, e d'ahi o ser
    conhecido por este nome.  verdade que a mesma _Encyclopedia_
    tambem diz que o Chiado escreveu varios autos, sendo conhecidos
    dois: _Auto de Gonalo Chambo_ e _Auto da natural inveno_.
    justamente estes dois  que ninguem tem podido vr. Dos trez que
    publiquei em 1889, no fala: esses ento  que so os desconhecidos!




III


J agora seja-me permittida uma divagao, que reputo interessante, a
respeito do sitio do Chiado, que o nosso poeta tornou famoso.

Eu disse que a calada de Pai de Nabaes ficava entalada entre o palacio
do conde de Valladares e a egreja do Espirito Santo da Pedreira.

Da Pedreira, porque os alicerces d'este edificio foram assentes no
alto da escarpa, que impendia em tempos remotos sobre um esteiro do
Tejo, cidade dentro, e que ainda hoje se deixa adivinhar na enorme
differena de nivel que ha entre o fundo do Chiado e a rua do Crucifixo.

A egreja e hospital do Espirito Santo esto actualmente substituidos, no
mesmo local, pelo moderno palacio da familia Barcellinhos.

A egreja era muito antiga, pois que no anno de 1279 j tinha sido
fundada.

No seculo XVI foi reconstruida com donativos de el-rei D. Manoel e
outros bemfeitores. Ficou o templo com trez naves, e tinha uma
capella-mr artificiosamente lavrada, obra de muita estimao e riqueza.

O padre Carvalho, na _Chorographia Portuguesa_[13], d larga noticia
d'esta egreja depois de reconstruida.

    [13] Tomo III, pag. 445 e seguintes.

Junto ao templo, e com serventia para elle, havia o hospital do Santo
Espirito, que albergava permanentemente doze pessoas necessitadas, entre
as quaes dez mulheres donzellas ou donas viuvas de boa vida.

A bem dizer, era mais um recolhimento do que um hospital.

E assim foi at o anno de 1672, em que os padres da Congregao do
Oratorio, que se tinham instituido alli perto, no sitio das Fangas da
Farinha,  rua do Almada, tiveram auctorizao para tomar conta do
hospital do Santo Espirito, onde passaram a estabelecer-se dois annos
depois.

Alli permaneceram os oratorianos, tranquillos e contentes. Mas por
occasio do terremoto de 1755 a egreja e convento arderam, perdendo-se
os preciosos haveres d'aquelles padres. A congregao transferiu-se
ento para o convento das Necessidades, que  hoje palacio real.

Ficaram apenas de p as paredes dos dois edificios incendiados.

No frontispicio da egreja havia grandes columnas de cantaria, que o
leitor ainda hoje pode ver... aonde?

Aonde? No em outro templo, mas na fachada de um theatro, porque as
pedras tambem teem seus fados. Estas transitaram, por caprichoso
destino, do sagrado para o profano. Esto agora na frontaria do theatro
de D. Maria II; so as mesmas columnas da egreja do Espirito Santo.

O leitor no acreditaria esta noticia, se eu no pudesse comproval-a com
um documento authentico.

Mas posso. Ahi vai o documento, que, por ser curioso, no quero que
fique esquecido entre os meus papeis velhos:


Ministerio do Reino--3.^a Repartio--Havendo Manuel Jos d'Oliveira,
actual proprietario do edificio da supprimida Casa do Espirito Santo da
Congregao do Oratorio, cedido as grandes columnas de cantaria e seus
capiteis, que orno o frontispicio d'aquella Igreja, para serem
empregadas na fachada do novo theatro nacional, que se projecta fazer;
com a condio de que no seja feito  sua custa o descimento e
conduco das mesmas columnas: Manda Sua Magestade a Rainha, que o
Conselheiro Fiscal das Obras Publicas faa preparar todo o apparelho
necessario para aquelle descimento, combinando com o mencionado Manuel
Jos d'Oliveira a occasio e dia em que elle deve ter logar; fazendo
depois conduzir as ditas columnas e capiteis para o Arsenal da Marinha,
onde achar as ordens necessarias para serem recolhidas e depositadas
at que se lhes d o indicado destino: devendo outrosim o mesmo
Conselheiro Fiscal dar todas as providencias para que, tanto no acto do
descimento, como no da conduco, no soffram o menor damno as columnas
e particularmente os lavrados de seus capiteis. Palacio das Necessidades
em 9 de janeiro de 1836. (assignado) _L. M. S. de Albuquerque_.


Pois no  interessante o destino d'estas columnas?

Procurei saber quando foi que entraram em deposito no Arsenal de
Marinha, e quando sahiram de l para o theatro.

Metti de empenho o meu illustre amigo sr. conde de Pao d'Arcos, que
gentilmente, como sempre costuma, se interessou pela minha solicitao.
Fez-se a pergunta ao Arsenal. Passaram mezes. No veiu resposta. No era
negocio de expediente ordinario; ficou para traz. Pois deixal-o ficar;
eu  que vou andando para deante, j aborrecido de esperar.

E agora tornemos ao nosso poeta.




IV


A popularidade de Antonio Ribeiro o Chiado proveiu no tanto da sua veia
poetica, alis muito apreciada pelos entendidos, como das suas repetidas
tunantadas, de que o povo tinha directo conhecimento, porque as
presenceava em plena rua.

Era entre o povo, entre as classes humildes de que elle provinha, porque
l diz Affonso Alvares no proposito de deprimil-o

      Nasceste de regateira
      e teu pai lanava solas;

era entre a arraya miuda que o Chiado localizava o theatro das suas
faanhas picarescas, dos seus feitos esturdios, das suas partidas e
piadas, como hoje dizemos.

Um cdice do Archivo Nacional, de que s agora tive conhecimento, revela
algumas das suas estroinices e chalaas, que no ficam a dever nada s
mais gaiatas e desbragadas de Bocage.

O codice a que me refiro tem o n.^o 1817 e o titulo--_Diversas historias
e ditos facetos a diversos propositos._

 uma interessante colleco de anecdotas, que deve ser anterior ao anno
de 1617 e pertenceu  livraria do mosteiro de S. Vicente.

Vamos passar em revista as paginas que n'essa miscellanea dizem respeito
ao Chiado; e, onde fr preciso, lanaremos um vo por decencia sobre as
anecdotas que entrarem no dominio da pornographia.

 claro que a palavra--vo--no promette mais do que um anteparo
diphano.

     *     *     *     *     *

Quiz o poeta comprar a uma regateira um peixe de estimao.
Offereceu-lhe apenas 7 ris e meio. Volveu-lhe a regateira por escarneo:

--Tomal-o-heis com um trapo quente.

N'esta resposta havia tanto desdem, que picou fundo o Chiado; certamente
elle se teria dodo menos de uma descompostura destemperada, como
aquellas que as peixeiras de Lisboa no precisam ensaiar-se para
desfechar na cara de toda a gente. Mas a ironia, o desprezo da rplica,
abespinhou-o; suggeriu-lhe um plano de vingana, que logo poz em
execuo.

Disfaradamente aproximou-se do fogareiro de alguma assadeira de
castanhas ou quejando mister. Aqueceu um trapo, o primeiro que se lhe
deparou, e apossou-se violentamente do peixe, empregando o trapo na
tomadia.

Escarco da peixeira, que se dizia roubada. Agglomerao de povo, que
ria do caso exaltando a astucia do Chiado. Appllo dos dois contendores
para a justia, visto faltar ainda n'esse tempo o _bureau_ policial da
Parreirinha.

A varina fez a sua queixa. Chiado ponderou a circumstancia de se haver
apoderado do peixe com um trapo quente, condio imposta pela peixeira.
Deciso da justia: que o poeta pagasse os 7 ris e meio que offerecera,
e ficasse com o peixe, pois que a condio do trapo havia sido
satisfeita, ficando salva a f do contrato.

     *     *     *     *     *

Era o Chiado ainda frade franciscano--porque depois despiu o habito por
indisciplina ou lh'o despiram por castigo--e comeou a embirrar uma vez
com o magro caldo de lentilhas, que lhe deram no refeitorio.

Vai isto de accrdo com a proverbial pobreza dos franciscanos.

Remexendo no caldo, no encontrou mais que uma lentilha. Pareceu-lhe
pouco nutritivo o singular, e comeou a despir-se, como se quizesse
atirar-se a um charco. Reprehenderam-n'o com estranheza. Elle explicou:
que tinha visto apenas um legume no fundo da tigela e que o queria tomar
de mergulho.

     *     *     *     *     *

D'outra vez--e aqui vai ser preciso o vo--apostou que em pleno Terreiro
do Pao, entre um grupo de dez ou doze pices (arruadores) que alli
estanceavam, era capaz de improvisar um _water closet_, sem que elles
protestassem.

Fingiu-se acossado pela justia e, correndo direito aos faias (como hoje
diriamos) pediu-lhes que fizessem roda para o livrar de ser preso.
Cahiram no langar, elles, e cerraram-se em parede, de modo que o
supposto fugitivo no pudesse ser visto. Passado algum tempo, o Chiado
parte agradecendo, e s depois foi que, pelo olfacto ou pelos olhos, os
logrados reconheceram o logro.

     *     *     *     *     *

No havia aposta brjeira que lhe no propozessem, e que elle no
acceitasse.

Se seria capaz de aoitar um vinagreiro que ia passando com dois dres
sobre a mula? Que sim. Dito e feito. Acercou-se do vinagreiro e
disse-lhe que desatasse um dos dres, pois queria provar o vinagre.
Tomou um bochecho e fez cara de no achar bom. Exigiu provar do outro
dre, segurando elle proprio no que j estava desatado. De repente finge
vr alguem ao longe ou querer acudir de prompto a qualquer incidente.
Passa o dre ao vinagreiro, que ficou com um em cada mo, ambos
desatados. E ento comea a aoitar o pobre homem, que no poderia
defender-se sem deixar perder o vinagre.

     *     *     *     *     *

Conchavou-se o Chiado com outros tunantes da fora d'elle para
engarampar um villo, que veiu a Lisboa comprar trigo. Disse-lhe que se
queria trigo bom o no podia achar melhor que o de um seu irmo, em
certa nau que estava  descarga; que fosse a bordo compral-o, mas que
para no sujar o sombreiro e a capa lh'os deixasse alli no caes, onde o
ficaria esperando. O villo pagou logo sete tostes pelo trigo, e deu a
capa e o sombreiro a guardar. Foi a bordo, em cabello e corpo bem feito.
Mas disseram-lhe l que no tinham commissario em terra, e que s faziam
negocio com dinheiro na palma da mo. Voltou o homem ao caes, e j no
viu o Chiado; encontrou, porm, os outros guilhotes, os quaes lhe deram
uma carta de quitao que o Chiado deixra para o parocho do basbaque,
explicando tudo. Ora a carta dizia:

      Joo Pires do Outeiro
      Me deu a capa e o sombreiro,
      Sete tostes em dinheiro,
            E mais me dera
            Se mais tivera.

     *     *     *     *     *

No tendo que jantar um dia, lobrigou certo mancebo a comprar peixe na
Ribeira. Chegou-se a elle, dizendo ser grande amigo de seu pai. Sob esta
cr o convidou a jantar. Foram os dois, mano a mano, para o local que o
Chiado indicou. Ahi, disse lhe que poizasse o peixe, que logo se
cozinharia, e que fsse buscar qualquer tempro que faltava. Quando o
ingnuo moo tornou, j no viu o Chiado nem o peixe.

     *     *     *     *     *

D'outra vez chamou um polhastro e industriou-o a fingir-se vendilho,
levando no fundo de uma panela excremento humano. O rapazola apregoava,
como o Chiado lhe ensinou: Quem merca isto? Alguns curiosos queriam
ver o que era para comprar. E, reconhecendo a mercadoria, diziam por
claro o nome que se lhe d. O polhastro respondia enfadado: Pois no 
outra cousa.

     *     *     *     *     *

Vem agora uma anecdota geralmente attribuida a Bocage, mas que no pde
ser sua, pois que o manuscripto d'onde a tomamos  anterior a 1617 e
portanto quasi seculo e meio anterior ao nascimento de Bocage.

Entraram ratoneiros em casa do Chiado, e levaram-lhe o melhor que tinha.
Elle viu-os a tempo de poder gritar por soccorro; mas, em vez de bradar,
poz s costas o refugo que lhe deixaram e foi-os seguindo derreado sob a
carga. Os gatunos, espantados, fizeram alto e perguntaram-lhe para onde
ia. O Chiado respondeu tranquilamente: Venho vr para onde nos
mudamos. Com o que desarmou a audacia dos amigos do alheio que,
rendidos  chalaa, lhe restituiram o bom que levavam.

     *     *     *     *     *

Quando alguem queria engendrar uma brjeirice, ia ter com o Chiado, que
era padre-mestre na materia.

Por isso o consultaram certos vaganaus sobre a partida que deveriam
fazer a um mulato frro que andava por Lisboa, e a quem tinham asca por
ser valento e soberbo.

Aconselhou os o Chiado a que, logo que entrasse alguma nau ingleza, lhe
dessem aviso.

Chegou a occasio, veiu um navio inglez e o Chiado, fingindo-se fidalgo,
foi a bordo com alguns d'aquelles tunantes, que dizia seus criados.

Propoz ao capito da nau que lhe comprasse um escravo mulato, que era
robusto para o trabalho do mar, mas que no podia amansar em terra.

Fez-se o ajuste, sob condio de que o escravo iria  mostra.

Os outros pices levaram-n'o a bordo, e como agradasse aos inglezes,
logo receberam d'elles o preo que fra combinado.

Protestou o mulato no ser captivo, mas no foi acreditado, visto
terem-lhe posto fama de soberbo. Quiz reagir  viva fora, mas
lanaram-lhe ferros, visto saberem n'o valente. E teria ido mar em fra,
como escravo, se a justia, informada da occorrencia, o no fosse
libertar a bordo, obrigando os vaganaus a restituir o dinheiro recebido
dos inglezes.

No houve mais nenhum outro procedimento da justia contra o inventor e
executores d'esta tunantada, que aos proprios magistrados pareceu
graciosa.

O Chiado sahiu incolume, porque foram os socios que pagaram por elle, e
porque a justia prohibiu ao mulato que tirasse qualquer desfrra.

Palavras textuaes do manuscripto: ...com pena de morte ao negro, que
sobre aquella graa com o Chiado no entendesse, pois fra to bem
achada a graa.

Tal era a cotao da jocosidade do poeta, que at a justia se lhe
rendia; a natureza dera ao nosso bohemio todos os predicados de
gracioso, incluindo a facilidade de imitar simultaneamente as vozes de
muitas pessoas[14].

    [14] Parece que era ventriloquo, porque imitava ao mesmo tempo as
    vozes de differentes pessoas. _Dic. Popular_, vol. IV, pag 268.

     *     *     *     *     *

Tinha o Chiado em casa um pote onde fazia os despejos. Um dia lembrou-se
de lhe pr um tampo e embreal-o exteriormente no bocal e no bojo, de
modo a parecer vasilha para exportar. Chamando depois quatro mariolas,
encommendou-lhes que levassem aquelle pote de conservas  Ribeira, que o
queria embarcar, e que esperassem l por elle para lhes pagar o frete.

Como o Chiado no tornasse a apparecer, foram os carrejes avisar a
justia e requerer que lhes entregasse o pote por indemnisao de seu
trabalho.

Sendo-lhes entregue como cousa perdida, destaparam-n'o e mettendo a mo
dentro--diz o manuscripto--acharam-se com a conserva que no imaginavam,
e logo viram que fra lano do Chiado.

Logo viram que fra lano do Chiado: esta phrase testemunha quanto era
fecunda e inventiva em chistes e logros a imaginao do famoso bohemio
do seculo XVI.

Conheciam-n'o pelo dedo--como gigantesco entre os mais preeminentes
folies do seu tempo.

     *     *     *     *     *

Para concluir o extracto do manuscripto, que nos fornece todas estas
anecdotas, resta dizer que passando o Chiado pela porta da S viu um
grupo de muchachos e, dando-lhes atteno, ouviu-os dizer:

--Eu tomra ser bispo.

--Eu tomra ser ppa.

--Eu tomra ser rei.

O Chiado, acercando-se d'elles, interpellou-os dizendo:

--E sabeis vs o que eu tomra ser?

--?...

--Tomra ser melo para me beijardes... no sitio em que se beijam os
meles.

Com a differena que elle falou mais claro do que eu.

     *     *     *     *     *

Aqui terminam os elementos anecdoticos fornecidos pelo manuscripto para
a reconstituio da biographia picaresca do poeta Chiado.

Mas estes, que j no so poucos, bastam a egualar o Chiado com Bocage
em materia de brjeirices e tunantarias.




V


Entre as produces literarias de Chiado, que eu no pude encontrar em
1889, havia uma, que, pouco tempo depois, veiu casualmente ao meu
encontro.

Era aquella que o abbade Barbosa designa d'este modo na _Bibliotheca
Lusitana_:


Carta que escreveu de Lisboa a Coimbra da entrada do bispo D. Joo
Soares, em Lisboa, quando foi  raia pela princeza.  jocosa, e se
conservava na bibliotheca do cardeal de Sousa.


Achei-a em copia n'uma miscellanea, que pertenceu ao convento da Graa,
de Lisboa, e que eu comprei ao Rodrigues do Pote das Almas por dez
tostes. Se exceptuarmos a carta de Chiado, a miscellanea vale pouco.
Mas eu, folheando-a, li o titulo da carta, passei-a rapidamente pela
vista, reconheci que o texto concordava com o titulo, e adquiri logo o
livro, que o Rodrigues teria vendido mais caro se pudesse adivinhar a
raso por que eu o comprava.

D'isso era elle capaz, Deus lhe fale na alma.

Antes de transcrever a carta que o Chiado escreveu a um seu amigo de
Coimbra, preciso esclarecer o leitor sobre o assumpto que a inspirou e o
momento em que foi escripta.

O mallogrado principe D. Joo, filho de D. Joo III, desposou sua prima
a linda princeza D. Joanna de Castella, que veiu a ser me de D.
Sebastio o _Desejado_.

A princeza entrou em Portugal no fim de novembro de 1553[15].

    [15] Francisco de Andrade diz que foi em 1552; Pedro de Mariz que
    foi em 1554. Mas a carta de Chiado, que merece f por ser um
    documento da epoca, fixa o anno de 1553.

El-rei mandou que fossem buscal-a  fronteira D. Joo de Lencastre,
duque de Aveiro, e o bispo de Coimbra D. Frei Joo Soares, os quaes se
fizeram acompanhar de pessoas de categoria, entre as quaes D. Affonso de
Lencastre e D. Luiz de Lencastre, irmos do duque de Aveiro.

Na fronteira, D. Diogo Lopes Pacheco, duque de Escalona, e D. Pedro da
Costa, bispo de Osma, fizeram entrega da princeza aos embaixadores
portuguezes.

D. Joanna entrou por Elvas, e d'ahi, aps breve demora, seguiu em
jornadas at ao Barreiro, onde D. Joo III a foi esperar para
acompanhal-a a Lisboa.

O professor Manuel Bento de Sousa poz em relevo a fatalidade pathologica
que desde o bero condemnou D. Sebastio aos desatinos que veiu a
praticar em detrimento e ruina do paiz.


D. Sebastio, diz o illustre e fallecido professor,  pela me neto de
um epileptico[16], e a accumulao da hereditariedade morbida
verificou-se sem perturbao.

Sua me  filha de epileptico e neta de doidos[17], sua av  irm do
mesmo epileptico e filha dos mesmos doidos, sua bisav  irm e filha do
mesmo epileptico e dos mesmos doidos. Seu av, por consequencia,  neto
de doidos, e seu pae  bisneto dos mesmos doidos.

Como exemplo de nevropathia accumulada por herana no ha melhor[18]!

    [16] O imperador Carlos V.

    [17] Joanna _a Doida_ e Filippe I, leviano, perdulario, incapaz de
    governar.

    [18] _O Doutor Minerva_, pag. 198.


Sobre a inconveniencia physiologica dos casamentos consanguineos,
repetidos de gerao em gerao entre as casas reaes de Portugal e
Hespanha, vieram accumular-se, pelo enlace do principe D. Joo com a
princeza D. Joanna, as taras hereditarias da epilepsia e da loucura que
os dois desposados, primos co-irmos, tinham recebido dos seus proximos
ascendentes communs.

A me de D. Sebastio deu provas de uma exaltada hysteria, com
allucinaes pavorosas, durante o periodo da gravidez.

Este casamento precipitou a morte do principe D. Joo e aggravou as
taras da princeza D. Joanna.

Eram duas creanas, ella de 18 annos[19] elle de 16[20], doentes dos
mesmos vicios constitucionaes, e apaixonados um pelo outro. No
conheceram limites s suas relaes amorosas, entregaram-se a uma
demasiada communicao dilacerando-se carinhosamente em extremos de
prazer insaciavel.

    [19] D. Joanna tinha nascido a 23 de junho de 1535.

    [20] D. Joo nasceu em Evora a 3 de junho de 1537.

O principe ardia n'um fogo de voluptuosidade, que o devorou
prematuramente. Foi preciso separal-o da princeza, mas j era tarde.
Estava perdido na flor dos annos.

Os medicos d'aquella epocha classificaram a doena de--paixo hebetica.
Os chronistas explicam que o enfermo sentia uma sde devoradora; e D.
Manuel de Menezes, na chronica que lhe  attribuida, filia esse
phenomeno pathologico no desregramento dos prazeres carnaes.

Ora o hebetismo--segundo a medicina do nosso tempo-- um estado morbido,
que inutiliza as faculdades intellectuaes, sem comtudo inutilizar a
aco dos sentidos: uma especie de embrutecimento devido a commoo
cerebral[21].

    [21] _Dict. de medicine_, segundo o plano de Nysten, refundido por
    Littr e Robin.

Assim devia ser, pois que o principe D. Joo precipitra a crise dos
seus males hereditarios com um exgotamento nervoso.

Mas a--sde devoradora--_polydipsia_,  um symptoma da diabetes
saccharina, que anda muitas vezes ligada s nevroses e, principalmente,
 epilepsia.

No repugna acreditar que a sde exagerada e continua, que abrazava o
principe, derivasse d'esse conjuncto pathologico recebido por herana e
aggravado por excessos.

E que os chronistas no empregavam a palavra sde em sentido figurado,
v-se d'estas palavras da chronica attribuida a D. Manuel de Menezes:
mas elle (o principe) perseguido da sde levantou-se uma manh da cama
a beber agua da chuva, que achou empoada ao p de uma janella, por
descuido dos que lhe assistiam, que ento o deixaram s, e sendo muita,
e choca, fez-lhe muito mais mal, e logo empeiorou, e morreu no dia
seguinte.

A princeza, excitada pelas sensaes amorosas e pelos sobresaltos da
gravidez, redobrou de hysterismos, teve allucinadas vises, pavores
imaginarios, de que ficou noticia.

Na vspera do principe cahir doente, estando elle a dormir, julgou ella
vr,  luz da tocha que allumiava a camara conjugal, surgir uma figura
de mulher vestida de luto, com larga touca, a qual mulher, crescendo em
vulto, ameaadora, fez estrincar os dedos e, aps um assopro que parecia
o halito quente d'uma fra, desappareceu.

A princeza ficou n'uma grande perturbao de terror, julgando verdadeira
a viso, e interpretou-a no sentido de que o assopro annunciava que
todas as suas esperanas haviam de desfazer-se em vento.

Quanto ao trinco com os dedos no interpretou coisa nenhuma ou as
chronicas o no dizem.

Tendo fallecido o principe D. Joo[22] sem que a princeza o soubesse ao
certo, posto o suspeitasse, e j nas vsperas do parto, as damas que
acompanhavam D. Joanna quizeram leval-a a espairecer na Varanda da
Pella, do Pao da Ribeira,

    [22] O principe falleceu em tera feira 2 de janeiro de 1554,
    dezoito dias antes do parto da princeza.

O palacio dos pricipes era o de Alvaro Peres de Andrade, junto ao Arco
dos Pregos, mas communicava interiormente com o palacio real.

A princeza, profundamente abatida, deixou-se conduzir. A noite e o
silencio favoreceram ainda d'esta vez o terror, sempre contagioso,
mrmente entre as impressionaveis damas, que os tristes acontecimentos
da crte traziam sobresaltadas.

Bastaria, portanto, que a princeza tivesse uma viso, para que logo
fossem egualmente suggestionadas as suas damas, portuguezas e
castelhanas.

Assim, pois, todas julgaram vr sahir pela Varanda d'El-rei, direitos ao
Forte[23], muitos homens vestidos  moirisca, com fatos de variegadas
cores, agitando tochas accsas e soltando repetidas vozes de--_Ly, ly,
ly_. Eira uma especie de dana macabra, em que os moiros revoluteavam,
despedindo clares e gritos; e quando a chorea, percorrendo a Varanda,
chegava ao Forte, os moiros precipitavam-se ao Tejo, deixando no
silencio da noite uma atmosphera soturna de terror e mysterio.

    [23] O Forte, nome que depois conservou o torreo mandado construir
    por Filippe II, rematava sobre o Tejo, uma vasta galeria com
    terrao, a meio do qual se erguia uma torre ameiada.

As damas fizeram decerto alarma. Acudiria gente do Pao, que no soube
explicar a appario sinistra dos moiros. Reconheceu-se que as portas
estavam fechadas; que o ingresso de estranhos era impossivel. Ento
cresceria o pavor, e com elle a predisposio para repetir-se a
visualidade no mesmo local e nas mesmas condies.

Foi o que aconteceu. Poucos dias depois tornou a princeza  Varanda da
Pella, fez algum exercicio passeiando; depois sentou-se a uma das
janellas e ento se lhe renovou a viso dos moiros, com os mesmos
trajes, as mesmas tochas, os mesmos gritos--na mesma farandola sinistra.

A princeza e as suas damas fugiram espavoridas sob a mesma suggesto,
pelo contagio do terror. Todas tinham visto segunda vez os moiros.
Lembra-nos, por analogia, um facto que Renan refere nos _Apostolos_.
Entre os protestantes perseguidos correu voz de que, nas ruinas de um
templo destruido recentemente, se ouviam psalmos cantados pelos anjos;
tanto bastou para que todos os protestantes que se aproximavam
d'aquellas ruinas, ouvissem os psalmos.

O rei e a rainha, informados do que se passava, recommendaram segredo.

Convinha no excitar mais a superstio popular, que j estava muito
exaltada por varios factos anteriores, taes como o desacato praticado
por um inglez, logo depois do casamento do principe na capella do Pao;
e a appario de um metero luminoso que todas as noites era visivel em
Lisboa, quasi em cima da S, e parecia tomar a frma de um athade.

Dos nove filhos legitimos de D. Joo III ficra apenas um, o principe D.
Joo, e o povo j sabia que elle tinha morrido tambem, posto se
occultasse a sua morte.

Se o parto da princeza se mallograsse, acabar-se-ia a successo directa.
Portugal perderia a sua independencia, no porque el-rei no tivesse
irmos, que poderiam succeder-lhe no throno, mas porque pelo contrato de
casamento da princeza D. Maria, filha de D. Joo III, com Filippe II, a
cora portugueza passaria para D. Carlos, filho d'aquella princeza.

Por isso o povo, cuidadoso de ver garantida a independencia do reino,
desejava que a princeza D. Joanna desse  luz um filho varo.

O arcebispo de Lisboa ordenra uma procisso de prces, que se
effectuaria logo que a princeza comeasse a sentir as dores do parto.

Pela meia noite de 19 a 20 de janeiro[24] de 1554, quando os sinos dos
conventos tocavam a matinas, houve rebate de que a princeza
experimentava os primeiros symptomas do parto. Logo se organizou a
procisso, que sahiu da S para S. Domingos. Rompia a manh quando a
procisso ia recolhendo  S e ento se espalhou a nova feliz de ter
nascido o _desejado_[25].

    [24] Dia de S. Sebastio, motivo por que recebeu este nome o
    herdeiro da coroa.

    [25] _Portugal cuidadoso e lastimado_, pag. 2.

Desejado foi em verdade D. Sebastio, e duas vezes o foi, antes de ter
nascido e depois de ter morrido.

Em taes circunstancias, o nascimento do herdeiro da cora teve a
importancia de um acontecimento nacional, que profundamente interessou a
alma popular. No foi apenas um regosijo privativo da familia real ou da
crte, como acontece sempre que nasce mais um principe. Aquelle que
tinha nascido era o unico fiador possivel da autonomia de Portugal:
por isso tal acontecimento poz em jogo o brio, o orgulho, o amor patrio
de todos os portuguezes.

Antes do parto, organizam-se devoes propiciatorias, em que o povo se
mistura com o alto clero, fundindo suas preces.

Em Santarem at as creanas effectuam procisses nocturnas, piedosa
pratica infantil, que foi muito nossa, e que apparecia sempre nas
grandes crises nacionaes, revestindo um gracioso caracter de ingenuidade
religiosa e de f simples.

Eram procisses minusculas, com pequenos andores, pequenas lanternas,
sendo o prestito constituido por homensinhos lilliputianos, rapazes da
rua, creanas do povo, que iam entoando ladainhas e psalmos numa
unisonancia de vozes ainda debeis e esganiadas.

 peculiar  infancia o espirito de imitao, maiormente entre as
classes populares. Nos filhos do povo encontram sempre cco os
acontecimentos que tomam maior relevo na vida da nao. Dir-se-ia que
por viverem na rua so mais depressa sacudidos pela opinio publica do
que os filhos dos nobres. Por isso so as creanas da arraya miuda que
propagam, inconscientemente, as canes politicas, os hymnos
revolucionarios, e que muitas vezes se encarregam de fazer a critica e
inventar a parodia dos negocios do Estado e dos mais ruidosos conflictos
da administrao publica.

As procisses infantis duraram seculos. Viram-n'as os contemporaneos de
D. Joo III. Viu-as Filinto Elysio, que nos descreve uma que todos os
annos, pela quaresma, vinha da Ajuda exhibir nas ruas de Lisboa muitos
Senhorsinhos dos Passos allumiados com rolinhos de cra. Vi-as ainda
eu na minha infancia, que passei n'aquella devota, patriotica e antiga
cidade do Porto.

Foi bom termos tido occasio de falar do povo, pois que tomando por
assumpto uma celebridade das ruas, como era o poeta Chiado, j se ia
alongando de mais a narrativa sobre a vida da crte, sem pausa nem
flego, que dsse tempo a pensar em quem vegeta no infimo grau da escala
social--tal como no fundo de um poo escuro o musgo rasteiro.

Podemos agora tornar  crte. D. Joo III, para no lanar maior
perturbao nos espiritos, j muito apprehensivos e agitados, ordenou,
pois, que se no divulgasse a viso da princeza na Varanda da Pella.

El-rei, receioso do futuro, sentia o peso de todas as suas
responsabilidades politicas, que eram enormes desde que, por um
imprudente contrato de casamento, a independencia do reino ficava
suspensa do nascimento de um successor varo.

Mas o que D. Joo III no podia prohibir era que a princeza D. Joanna
continuasse a ter vises, que alis se repetiram.

Uma noite, na sua camara, tornou a princeza a vr os moiros, que
entravam e sahiam em tropel. Cahiu logo desmaiada no regao de uma dama,
e nem essa nem as outras receberam a suggesto, porque a princeza no
teve tempo de falar.

Pareceu a todas que apenas seria uma syncope propria da gravidez; mas
depois, explicado o caso, apurou-se que ainda mais uma vez tinham
apparecido os moiros.

A crena popular relaciona sempre o maravilhoso com a vida das altas
personagens e a realizao dos grandes acontecimentos historicos.  um
fundo de superstio commum a todos os povos. Assim, entre ns,
encontrou-se uma relao sobrenatural entre a viso dos moiros e a
derrota de D. Sebastio em Alcacerquibir.

Que a princeza D. Joanna tivesse allucinaes e visualidades pavorosas,
cabalmente o pode explicar a medicina; que os phantasmas que ella
julgava ver, fossem moiros, basta que o diga a lenda, urdida _a
posteriore_, depois da perda de D. Sebastio em Africa.

De outras vises falam ainda as chronicas, todas n'um sentido lugubre e
presago, como era proprio do estado morbido da princeza e das suas
condies physiologicas.

Accordava de noite em sobresalto, queixando-se de no ver nada, de ter
ouvido estrondos mysteriosos, vozes afflictivas, taes como suspiros
maguados, gemidos cortantes.

No leito de dois doentes foi gerado um filho doentissimo, cuja cabea,
por desgraa nossa, havia de cingir a cora de Portugal.

Depois do parto, o hysterismo da princeza tornou-se essencialmente
mystico, tanto em Portugal como em Castella, para onde voltou.

Contribuiram para esta evoluo, alis naturalissima em taes
circumstancias, as relaes de D. Joanna com o padre Francisco de Borja,
primeiro em Lisboa, depois em Madrid. Essas relaes, por demasiado
assiduas, chegaram a tornar-se suspeitas; e Francisco de Borja, que se
retirou para Portugal quando a suspeio cresceu, teve de procurar
justificar-se n'uma carta que, em 1561, dirigiu do Porto a Filippe II.

D. Joanna fundou em Madrid um convento  imitao do da Madre de Deus,
de Lisboa[26];  o das _Descalzas Reales_, cuja historia Ricardo
Sepulveda traou n'um dos capitulos da sua interessante obra _Madrid
viejo_.

    [26] _Hist. Gen._, t. III, pag. 559

Tal foi a princeza que o bispo de Coimbra D. Fr. Joo Soares e o duque
de Aveiro foram receber  fronteira do Alemtejo, quando ella veiu
desposar o mallogrado principe D. Joo[27].

    [27] D. Joanna morreu com 38 annos, no Escorial, a 7 de setembro de
    1573.




VI


Por que foi que D. Joo III escolheu, entre todos os prelados
portuguezes, o bispo de Coimbra D. Frei Joo Soares, para ir  fronteira
esperar a princeza?

Houve, para isso, razes especiaes.

Frei Joo, religioso eremita de Santo Agostinho e varo distincto em
letras, tinha sido mestre do herdeiro da cora e de seu irmo D.
Filippe[28], alem de ser prgador e confessor de el-rei, o que bastaria
a explicar a preferencia.

    [28] D. Filippe foi o 6.^o filho de D. Joo III. Pela morte de seus
    irmos, chegou a ser jurado herdeiro do reino. Falleceu com seis
    annos de edade.

Das virtudes que a _Historia genealogica_[29] attribue a D. Frei Joo
Soares, no se pode falar com tanta segurana como de suas letras;
Alexandre Herculano[30], baseando-se n'umas instruces de Paulo III,
attribue lhe audacia e ambio; vida dissoluta; espirito de rebellio
contra a Santa S.

    [29] Tom. III, pag. 552.

    [30] _Da origem e estabelecimento da inquisio em Portugal._

 verdade que os diocesanos de Coimbra o estimaram; que os pobres e os
necessitados recebiam d'elle esmolas; que favoreceu a Misericordia
d'aquella cidade; que doou  respectiva S muitos guisamentos, entre os
quaes um valioso clis de oiro; e que na mesma S mandou construir a
capella do Santissimo, de galante e excellente architectura[31].

    [31] _Noticia historica e descriptiva da S Velha de Coimbra_, por
    A. M. Simes de Castro.

Toda a diocese o pranteou na morte, o que parece mostrar que era mais
estimado em Coimbra do que em Roma.

As instruces de Paulo III, citadas por Herculano, tambem o do como
frade de poucas letras.

Ora isto no  exacto. D Frei Joo Soares produziu obras varias[32], em
que affirmou competencia doutrinaria e dico gentil. Como prgador, se
a principio no agradou em Portugal, porque discursava em castelhano
muito cerrado, pois havia estudado em Salamanca, chegou depois, quando
readquiriu o manejo da lingua portugueza, a ter grande fama e clientela.
No se pode exceder o elogio que lhe faz Frei Luiz de Souza: Foi
eminentissimo no ministerio do pulpito; tanto que os maiores pregadores
do seu tempo lhe reconheciam a vantagem, e como a segundo Demosthenes o
veneravam[33].

    [32] Veja-se _Dicc. Bib._, de Innocencio, vol. IV, pag. 38, vol. X,
    pag. 350.

    [33] _Vida de D. Frei Bartholomeu dos Martyres_, liv. II, cap. XVII.

Alem d'estes predicados literarios, possuia especial graa no dizer, dom
natural que no seria o menos attractivo para lhe conquistar sympathias
e facilidades na crte.

D. Frei Joo Soares nasceu em S. Miguel de Urr, concelho de Arrifana,
hoje Penafiel. Parece que pertenceu a uma familia illustre, pois que
elle algumas vezes assignou tambem o appellido Albergaria.

Foi deputado do Santo-Officio, e governou a diocese de Coimbra desde
1545 at 1572; como prelado portuguez, assistiu ao concilio de Trento,
onde o respeitaram como orador e theologo.

Falleceu com 65 annos de edade a 26 de novembro de 1572. Por humildade
quiz ser sepultado no cho, fra da capella do Santissimo que mandra
edificar.

Se algum defeito toma maior vulto na individualidade d'este prelado,  o
gosto pela ostentao.

Conta Frei Luiz de Sousa que se apresentou no concilio de Trento com um
fausto proprio de principe secular, fazendo-se representar com esplendor
e magnificencia notaveis.


E porque se visse--diz o chronista dominicano--que fra isto fora do
estado, mais que de animo vo, passada a occasio do Concilio se poz em
caminho de Jerusalem recompensando com a moderao de peregrino
voluntaria, as superfluidades de senhor foradas.


Talvez que este procedimento fosse determinado por indicao ou censura
da Santa S, a qual, como j vimos, no lhe era demasiadamente affecta.

A tendencia do prelado conimbricense levava-o effectivamente para a
ostentao.

Na commisso que desempenhou com o duque de Aveiro, quando foi  raia de
Castella buscar a princeza D. Joanna, j havia pompeado o mesmo
esplendor e magnificencia que depois exhibiu no concilio de Trento.

Um manuscripto de Pedro Alvares Nogueira, existente no cartorio do
cabido de Coimbra, diz sobre o modo por que o bispo desempenhou aquella
commisso: Levou muita gente de cavallo mui bem concertada, no que
gastou muito de sua renda.

A _Chronica_ attribuida a D. Manuel de Menezes ainda  mais explicita
quando diz:

No menos adornado (que o duque de Aveiro) veiu o Reverendo Bispo D.
Frei Joo Soares, com grande numero de cavalleiros, nobremente
ataviados, conforme o seu estado; e a sua divisa, que trazia nos
reposteiros eram suas Armas, e a letra que dizia: _Soli Deo honor et
gloria_, e quer dizer: _A honra e gloria se d somente a Deus._ E isto
com muitas trombetas, e charamelas, e outros instrumentos, e cantores
para o effeito de to regia funco, como convinha.

O chronista Francisco de Andrade afina pelo mesmo diapaso, dizendo:


O bispo de Coimbra tambem por sua parte se apercebeu para esta jornada
com o fausto e apparato, que se requeria para a honra d'este reino, para
a auctoridade de sua pessoa, e para o grave negocio para que fra
eleito, porque ajuntou para o acompanhar muita e muito lustrosa gente de
cavallo, e os que o acompanhavam a p tambem iam da mesma maneira, e no
lhe faltou ento cousa alguma de quantas se uzam, e so importantes e
necessarias nos negocios d'esta qualidade, sem perdoar por isso a
grandes gastos e despesa.

Apenas uma voz zombeteira se levantou para tirar effeitos comicos do
apparato com que o bispo de Coimbra entrou em Lisboa quando se dirigia 
raia de Castella.

Apenas um carcaz despejou todas as suas settas, vibradas por adestrada
mo, em menoscabo do cortejo que rodeiava o bispo de Coimbra, conde de
Arganil, senhor de Coja, alcaide-mr de Av.

Essa voz foi a de Antonio Ribeiro, o Chiado, cuja carta sobre este
assumpto lembra os artigos dos jornaes republicanos de hoje em dia
quando procuram amesquinhar a pompa das festas monarchicas.

N'aquelle tempo, no deixou de ser um acto de perigosa audacia a satyra
com que o Chiado visou to alta personagem como era o bispo de Coimbra,
em occasio to solemne para a crte como era o casamento do principe
herdeiro da cora.

Aggravado o bispo, el-rei o desagravaria contra quem quer que fosse, se
elle se queixasse.

Do valimento do prelado conimbricense junto de D. Joo III no ha que
duvidar; bastava a justifical-o a sua qualidade de confessor d'el-rei, e
no chega a ser preciso admittir, como se diz nas instruces de Paulo
III, que a pretexto da confisso obtivesse a soluo de muitos negocios.

Chiado era, porm, destemido como todos os bohemios e dizidores do seu
tempo, incluindo o proprio Cames. E a fortuna ajuda os audazes... pelo
menos algumas vezes. No consta que Chiado fosse molestado por causa
d'esta sua satyra em prosa, de que talvez o bispo nem chegasse a ter
conhecimento.

Simula o auctor escrever a um seu amigo de Coimbra, visto que lhe
diz--estas novas da entrada do vosso bispo.

 um artificio literario, para justificar a origem da satyra.
Manifestamente, vindo o cortejo de Coimbra, no precisava ninguem
d'aquella diocese que lhe dessem novas do modo como vinha organizado. L
o saberiam perfeitamente ou perfeitamente o poderiam saber.

Tambem, por outro artificio literario, diz o Chiado que no viu a
entrada do bispo em Lisboa. Mas to minuciosamente a descreve que bem
se reconhece ter sido testemunha presencial. D'este modo, abria uma
valvula de segurana para o caso de lhe imporem a responsabilidade da
satyra: teria feito obra por informaes inexactas.

Claramente se percebe que o Chiado viu a chegada do cortejo plantando-se
entre a multido em alguma rua do transito e chasqueando no meio de um
grupo de clientes que lhe admiravam a veia sarcastica.

A sua narrao  a de um impressionista, que surprehendeu o espectaculo
em flagrante.

E tal homem como o Chiado no poderia estar calado nem indifferente por
muito tempo, quando toda a populao de Lisboa se alvoroava para
assistir a um acontecimento anormal, muito annunciado e no menos
pomposo.

A carta de Chiado , segundo o moderno falar, uma _charge_; pertence aos
dominios da caricatura escripta, que madrugou com os primeiros alvores
da nossa literatura, antecipando-se alguns seculos  caricatura
desenhada.

Assim  que j no _Cancioneiro da Vaticana_ encontramos a seguinte
chistosa caricatura de um cavalleiro da idade-mdia:

      caval'agudo que semelha forom,
      em cima d'el un velho selegon,
      sem estrebeyras e con roto bardon,
      nem porta loriga, nem porta lorigon,
      nen geolheiras quaes de ferro son,
      mays trax perponto roto sen algodon,
      e cuberturas d'un velho zarelhon,
      lana de pinh'e de bragal o pendon,
      e chapel de ferro que x'i lhi mui mal pon;
      e sobarad' un velh' espadarron;
      cuytel'a cachas, cintas sen forcilhom,
      duas esporas destras, ca sestras non som,
      maa de fusto que lhi pende do arom.

Etc.

Este fragmento  o av da caricatura portugueza nos dominios da
literatura.

Vamos vr como Antonio Ribeiro o Chiado, navegando nas mesmas aguas,
caricaturou ao correr da penna a entrada do bispo de Coimbra em Lisboa
com todo o seu cortejo de pagens, escudeiros, varletes, azemolas,
trombetas, atabales e charamelas.

Diz o documento, tal como se me deparou na miscellanea, que pertenceu 
livraria do convento da Graa:

    Carta que o Chiado escreveu a um seu amigo da entrada do Bispo de
    Coimbra em Lisboa, quando veio para ir pela Princeza a Castella que
     me d'El-Rei D. Sebastio.

    _Quereis saber quanto pde a importunao, que muito contra minha
    vontade vos escrevo estas novas da entrada do vosso bispo n'esta
    cidade, s por cumprir com o que tanto me tendes rogado. Vde-as em
    nome de quem quizerdes, que eu no quero seno fallar comvosco._

    _Deixarei sua estada no Lumiar, que durou tres dias, onde preparou e
    proveu de sapatos, de pescoos[34] e atacas[35] toda a sua gente,
    que vinham algum tanto damnificados do caminho._

      [34] Como quem diz--gargantilhas

      [35] Ligas, correias, etc.

    _N'este tempo foi Sua Senhoria mais nomeado por Lisboa que assada
    quente[36] e todos com olhos longos por sua entrada, a qual eu no
    vi. Dizem que a 25 de outubro de 553 annos s tres horas depois do
    meio dia entrou o vosso bispo, o qual vinha na maneira seguinte,
    todos de dous em dous, como cachos em redea[37], smente as
    azemolas, se o eram, vinham um cacho por redea:--Primeiramente vinha
    deante de tudo um villo, por nome Amador Colao, a quem a natureza
    negou barbas, o qual foi moo de p d'este bispo, que a ventura bem
    casou nessa cidade, em cima de um rocim de meia sela, chapeu branco,
    vestido preto com peas d'ouro em certos logares, que denunciam
    festa, o qual, como se o villo do almocreve, desordenava, tornava
    atraz e tirava o p do estribo, que era um madeiro, e pegava-lhe,
    cousa que lhe fazia mostrar as bragas que o capotim de cr traria
    coberto de ms linguas._

      [36] Alluso ao prego das castanhas assadas.

      [37] Restea de uvas; isto , reste de cachos de pendura (Moraes).
      Reste, corda feita de peas tranadas; v. g. uma reste de alhos, de
      cebolas, etc.

    _Quarenta bestas vinham n'esta ordem, suas mataduras cobertas com
    reposteiros que l se fizeram. J sabeis quejandos eram._

    _No couce vinham duas escolhidas para aquella hora, que traziam cama
    e cofre, acompanhadas de seis villos, cada um com sua partezana nas
    mos, to frouxos que os desarmariam sem gafas[38]; e logo no rabo
    vinha um estribeiro, que o outro bispo creou, to triste e
    descontente que parecia que se arrependera do que accettara._

      [38] Sem gafas, o mesmo que--sem esforo, nem violencia. Gafa era o
      gancho com que se puxava a corda da bsta para armal-a.

    _Nas costas d'estes todos vinham a procisso da gente, onde no
    faltaram cavallinhos fuscos. S o sagitario esqueceu._

    _Vinha deante um molho de trombetas; em vez de virem vermelhas
    vinham amarellas, e logo os atabaleiros que j no traziam braos._

    _Os das charamelas, j sabeis que so po de rala, no puderam mudar
    cor. Como uns acabavam uns versos, outros comeavam, sempre os
    ouvidos tinham que fazer, como os olhos que vr. As cavalgaduras
    d'estes todos eram ossos sem posta de polpa._

    _Detraz vinham trinta moos da camara, todos almagrados,[39] os
    quaes parece que os comprou o bispo por junto e lhes deram as
    encavalgaduras todas em cima, e de chapeus brancos, como romeiros, e
    os mais delles com calas e sapatos, sem espadas, gente religiosa,
    algum tanto no vestir castelhanos, porque quem levava luvas
    faltavam-lhe as esporas._

      [39] Pintados de almagre ou almagra; isto , de vermelho.

    _E logo na dita ordem vinham os coimbros to tristes e
    descontentes, que pareciam que perderam todos suas fazendas. Nomear
    um por um ser muita honra sua e canceira minha e enfadamento vosso;
    basta que alguns d'elles traziam frenos[40] de ouro, mas mal pelas
    mulheres que ficam sem arrecadas, todos em cavallos de tornas,
    tirando o chanceller que vinha momo feito, outrosim pagem do
    arremeo,[41] que no havia mais no sel'o.[42]_

      [40] Freios.

      [41] Talvez pagem da lana, porque arremesso (melhor graphia que
      arremeo) significava, segundo o Dic. da Academia, qualquer arma
      missiva ou de arremesso, como lana, dardo etc.

      [42] Isto , mais acabado e perfeito.

    _Inofre Francisco vinha bem acompanhado e bem encavalgado, todos os
    seus feitos rosmaninhos[43] e bem encavalgados. A todos pareceu bem;
    s um seno lhe acharam, que no levava o ferro do arremeo
    esfolado._

      [43] Engalanados. Hoje diriamos--uns palmitos.

    _O meirinho Gaspar Dias no se achava ahi sem vara, acompanhado de
    dous beleguins, que lhe foram sempre fieis, um lhe trazia um
    cabresto com que vinha silhado, o outro lhe trazia uma ferradura que
    lhe cahiu no campo de Alvalade.[44]_

      [44] O Campo Grande actual, com a differena de que n'aquelle tempo
      era bosque silvestre, muito povoado de rouxinoes, como se v da
      _Ulysippo_ de Jorge Ferreira de Vasconcellos, quando diz (acto IV,
      scen. 5.^a): Vs estaveis mais namorado que um rouxinol de
      Alvalade.

      S no reinado de D. Maria I foi que o campo de Alvalade comeou a
      ser transformado em alameda publica.

    _Os mais, que aqui no vo, traziam tanto que dizer que ser nunca
    acabar. Quando nos virmos ambos, ento vos representarei a fara._

    _Passado este chuveiro d'escudeiros tornou melhor dia, Arthur de S
    e Francisco Pereira, seu irmo, honestos no trajo, confiados na
    fidalguia. Mas ento disseram que trazia Arthur de S feita a
    petio do morgado, perguntando uns aos outros quanto renderia o
    praso._

    _E n'isto appareceu Dom Joo, Bispo Conde, tres pessoas, um s
    frade, cercado de vinte e tantos villos, que todos pareciam paes
    d'orfos de Jesus, desazados, barbas d'estrigas, todos molares, sem
    vir entre elles nenhum s duvazio, vestidos em uns alqueceres[45]
    brancos e azues, que lhes davam pelos artelhos. O mais que de S.
    S.^a disseram, no direi eu por no pr a mo em sagrado._

      [45] Alquice ou alquicer, capa mourisca.

    _Toda a outra clerezia vinha m com boa, como roms de Castella,
    esta ordem levaram todos pela Rua dos que padecem martyrio,[46]
    levando nas unhas[47] o Rocio e toda a Rua Nova[48] at chegarem ao
    Terreiro do Pao, donde muitos descavalgaram sem criados, ficando os
    ginetes to mansos, que nem as apupadas dos rapazes, nem o rumor da
    gente teve poder para os fazer rinchar._

      [46] Era a rua que, tomando se por ponto de referencia o Rocio,
      conduzia ao Campo de Santa Barbara, ento chamado _da Forca_
      (_Lisboa antiga_, 2.^a parte, tomo V, pag. 65 e 78; tomo VI, pag. 65
      e 68.) No quero asseverar que correspondesse  actual rua direita
      dos Anjos, porque o Campo da Forca era muito mais vasto ento;
      estendia se desde o sitio dos Anjos at ao actual largo de Arroyos.

      [47] Ainda hoje dizemos na ponta da unha para designar a maxima
      velocidade.

      [48] A Rua Nova dos Ferros correspondia, approximadamente,  actual
      rua dos Capellistas. Diz-se que foi mandada construir por el-rei D.
      Diniz.

    _El-Rei nosso senhor, com a Rainha e Principe, os esperavam na
    varanda, onde lhes S. S.^a beijou as mos e lhe fizeram arrazoado
    agazalhado. Acabado elle os dous irmos S Pereira fizeram outro
    tanto e apoz estes, cabea em cu, que no fique nenhu. Alvaro
    Mendes, contador da Universidade, foi por c._

    _Acabado o officio, tornou-se Sua Senhoria a seus paos, e ao descer
    da escada encostado a um pagem, que dizem ser seu sobrinho, o qual
    fez muito ruins mesuras, vinha caiado de novo, trazia umas pontinhas
    de ouro no capello da capa d'onde nunca tirou o olho, que to
    recatado vinha da tezoura._

    _Ao bispo tornaram a arripiar carreira algum tanto a procisso
    desfeita, fazendo cada um caminho para suas pousadas, e de maneira
    os enguliu Lisboa, que nunca mais appareceram nem fizeram mossa._

    _Isto tudo passou na verdade, que m'o disseram homens de respeito.
    Se mais quizerdes peitae lampreas[49], que os homens d'essa terra
    n'isso desenfornam todos seus cumprimentos. Nosso Senhor vos d
    muita saude e vida e muito dinheiro, e vos livre d'estas trovoadas
    que o tiram e gastam._

      [49] Comprai-me, subornai-me com lampreas. V-se que sempre tiveram
      grande fama as lampreas do rio Mondego; e que de Coimbra as mandavam
      como mimo para outras terras do paiz. Era gentileza vulgar dos
      conimbricenses. A lamprea cozinhada na famosa estalagem do Pao do
      Conde foi, em nossos dias, um piteo muito celebrado por estudantes.

Esta carta, que no pudemos encontrar em 1889, no completa ainda o
espolio literario do Chiado, porque no tem sido possivel encontrar
exemplares de outras especies, taes como o _Auto de Gonalo Chambo_,
que, segundo Barbosa, teve nada menos de trez edies.

Mas constitue um achado, que reputei feliz, e que me deixou contente
quando se me deparou n'uma epoca em que eu versava com enthusiasmo
assumptos literarios.

Se hoje dou a lume esta carta de Chiado, foi porque para esse effeito
encontrei as maiores facilidades n'uma empreza editora, que se tem
assignalado por bons servios s letras patrias.

No  que eu fie do exito d'esta monographia e fique imaginando que ho
de acudir a compral-a numerosas legies de leitores.

Em Portugal s o romance francez tem procura no mercado.

Qualquer outra especie literaria representa um desastre de livraria.

Por haver chegado a esta convico  que nunca pensei em fazer segunda
edio das _Obras do poeta Chiado_, que bem podia ter sido enriquecida
com a materia do presente opusculo e com varias correces que me foram
indicadas, sobre a difficil interpretao dos textos, pelos srs.
visconde de Castilho, Antonio Francisco Barata e professor Epiphanio.

Mas seria perder tempo, e o tempo  a vida. Esperdial-a era desatino.
Poupemol-a.

Estou n'este ponto de vista ha muito tempo.

Lisboa, 9 de julho de 1901.





End of the Project Gutenberg EBook of O poeta Chiado, by 
Alberto Augusto de Almeida Pimentel

*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O POETA CHIADO ***

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1.F.5.  Some states do not allow disclaimers of certain implied
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If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
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with this agreement, and any volunteers associated with the production,
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that arise directly or indirectly from any of the following which you do
or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
https://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at https://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit https://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including including checks, online payments and credit card
donations.  To donate, please visit: https://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.


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     https://www.gutenberg.org

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