The Project Gutenberg EBook of Cantos Sagrados, by Manuel de Arriaga

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Title: Cantos Sagrados

Author: Manuel de Arriaga

Release Date: August 11, 2007 [EBook #22299]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

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MANOEL D'ARRIAGA

CANTOS

SAGRADOS


LISBOA

MANOEL GOMES, Editor

LIVREIRO DE SUAS MAGESTADES E ALTEZAS

_70--RUA GARRETT (CHIADO)--72_

1899


DEDICATORIA

_s almas piedosas e cultas em cuja convivencia encontrei conforto,
fortalesa e f na bondade e na virtude,_

_e_

_s proximas geraes futuras, a quem compete a integrao do destino
humano segundo o novo Ideal de Justia_

_offerece e consagra estes CANTOS_

_O SEU AUCTOR._


AO PUBLICO

A exemplo do lavrador que nas tardes melancolicas do outomno, antes que
chegue o inverno, recolhe os fructos das suas pequenas herdades, ns,
n'este periodo calmoso da existencia em que entrmos, e primeiro que a
morte nos venha trazer, com a paz da sepultura, a melhor compensao dos
nossos longos soffrimentos, delibermos recolher e seleccionar as poesias
que escrevemos no longo periodo de trinta e dois annos, que decorre desde
1867 at hoje e que, com rarissimas excepes, devidas quasi sempre a
inconfidencias e curiosidades d'amigos, so todas ainda hoje ineditas.

Reunimol-as em quatro volumes, o primeiro dos quaes, o dos _Cantos_,  o
que damos hoje  publicidade.

O segundo com o nome de _Irradiaes_,  dividido em quatro
livros--_Devaneios_--_Imagens d'um mundo extincto_--_Nas Alturas_--_No
Lar_.

O terceiro contm poesias dispersas, ensaios e fragmentos.

O quarto, um poema heroico glorificando os triumphos da Humanidade no
concerto do Universo, e onde, sob uma frma dramatica, reatmos as
tradies gloriosas de Portugal no periodo de Renascena  futura
soluo do problema humano, sob um novo ideal de justia.

Foi este poema, a que dmos o titulo de _Synthese Suprema_, escripto nos
tres ultimos annos que se seguiram ao nosso affastamento da politica
militante, quando abandonmos de todo o parlamento, onde a nossa voz
ficou por completo isolada e perdida...

Compozmol-o ante a ameaa constante da morte que as nossas doenas,
ento aggravadas, nos punham todos os dias diante dos olhos, sem
esperanas de o levarmos ao seu termo; e foi feito a pedaos nas poucas
horas d'ocio que nos restavam dos nossos deveres profissionaes.

A poesia aos nossos olhos nunca foi um mero recreio de espirito.

Como todas as bellas artes, tende a exercer uma funco social, hoje
tanto mais necessaria quanto  frouxa, ou quasi nulla, a que a Religio,
e a moral d'ella nascida, exerceram outr'ora nas multides incultas, que
 falta d'um ideal filho dos tempos, que as ajude na soluo do seus
tenebrosos e multiplos problemas: ou se tornam indifferentes ou
scepticas e vivem como espiritos revoltados contra todo o existente!...

A muitos parecer contradictorio que, tendo ns combatido em toda a
nossa vida, ha mais d'um quarto seculo, o obscurantismo, os absusos e os
crimes commettidos  sombra das religies positivas, sobre tudo da
religio dogmatica, nos aventuremos, sobre as ruinas do velho mundo e 
entrada dum novo cyclo historico, a soltar cantos d'uma to ardente f
religiosa!...

A resposta encontral'a-ha o leitor na nota elucidativa  poesia _O que
eu vi_, que adiante publicamos, e nas immediatas.

Se errmos ou no, os factos  que o ho-de decidir d'aqui mais a algum
tempo.

S aqui diremos que para se unirem pelo Amor e pela Justia as duas
metades da humanidade, de que depende a integrao do destino humano, o
homem e a mulher, que as crenas religiosas e as demonstraes
scientificas trazem to profundamente divorciados na vida do lar e no
foro interno; para levarmos ao povo a communho do novo credo e
levantarmos-lhe o corao e a alma muito acima das meras questes de
interesses materiaes em que o trazem envolvido:  preciso procurar um
ideal fra das contingencias humanas, preparar com elle as almas para os
actos fundamentaes d'abnegao e d'altruismo que reclama o problema
social, o que s se pode alcanar  sombra de religiosidade que est no
fundo da nossa natureza, mudando apenas de objectivo e de processo.

Qualquer que seja porm, a opinio em contrario de nossos
competidores, e que acatamos,  d'esperar que attendam a que, n'uma obra
d'arte, no se deve perder de vista a sinceridade do seu auctor, o fim
que se prope servir e o meio que emprega para o alcanar.

Sob este triplice ponto de vista, em que sempre nos mantivemos, talvez
possamos contar com a benevolencia dos nossos contrarios.

Ainda uma palavra sobre as razes porque s agora, no fim da nossa
carreira, nos aventuramos a publicar estes trabalhos.

Dentre muitos outros, o motivo predominante encontral-o-ha o leitor no
respeito quasi religioso que sempre tivemos pela publicidade, por este
momento sagrado em que entregamos aos outros as nossas ideias, as nossas
opinies, os nossos sentimentos!

Accaso tero direito a sel-o?! Ir n'elles alguma cousa que seja menos
verdadeira, menos justa, menos bella?!

E, quando tal se d, o que pensaro de ns os que vierem a
julgar-nos?!...

Transmittindo a estranhos, sob as frmas divinas da arte, o que havia de
melhor no nosso mundo interior, e que merecera a sanco da nossa
consciencia, no iremos susceptibilisar ou offender, apesar d'isso, o
que os outros teem de mais sagrado no corao e amam mais de que tudo?!

No seremos ns uns illudidos que vamos com a nossa illuso concorrer
para os enganos dos outros?!

Todas estas perguntas accudiam ao nosso espirito quando nos incitavam a
imprimir estes _Cantos_ e espermos sempre que um mais maduro exame os
auctorisasse a sahir do recatado asylo da nossa consciencia, a ir correr
mundo e a suscitar por ventura a animadverso ou a sympathia dos
leitores!...

Que o publico encontre n'elles a grata companhia que nos fizeram to
largos annos,  o melhor premio, se algum elles merecem, a que pode
aspirar o auctor d'estas linhas.

Lisboa, 15 de maro de 1899.

MANOEL D'ARRIAGA.




LIVRO PRIMEIRO

DEUS E A ALMA




I

O QUE EU VI

      Sahi um dia a contemplar o mundo,
      Por vr quanto ha de bello e quanto brilha
      Na multipla e gloriosa maravilha,
      Que anda suspensa em o azul profundo!

      Vi montes, vales, arvores e flres,
      Limpidas aguas, mrmuras torrentes,
      Do grande mar as musicas plangentes,
      Dos cus sem fim os trmulos fulgres!

      Trouxe os olhos to ricos de belleza,
      O corao to cheio de harmonia,
      De quanto havia em terra, mar e cos,

      Que interpretando a ss a Natureza:
      Dentro de mim esplendido fulgia,
      N'um circulo de luz, teu nome, oh Deus!


II

MUNDO INTERIOR

      Materia ou Fora, Lei ou Divindade
      Quem quer que seja que dirige o mundo,
      Esparze em tudo o espirito fecundo
      Do Summo Bem--Belleza, Amr, Verdade.

       luz d'esta Santissima Trindade,
      Cercado d'esplendor, clamo e jucundo,
      Sorri-me em volta o universo; ao fundo,
      Por synthese Suprema, a Humanidade!

      Dos homens rujam temporaes medonhos...
      Que em mim, no meu labr, do Bem sedento,
      Meus dias correm limpidos, risonhos!

      Estrellas que brilhaes no firmamento!
       menos bella a vossa luz que os sonhos
      Que gera na minha alma o Pensamento!


III

TRISTEZA

      Como isto c por fra  tudo alegre!
      Quo bello o sol! que esplendida harmonia
               A terra, o mar e os cos!
      Porem dentro de mim que mundo  parte!
      Que embate de paixes! Que noite funebre!
               Que magoas, Santo Deus!

      Ai! se as manchas que o sol no rosto esconde
      Tem sobre o mundo alguem onde projectem
               A triste escurido,
      Minha alma  como o espelho onde ellas caem,
      To profunda  a mgoa que me lavra
               Aqui no corao!

      E eu via ha pouco o azul d'um co sem macula!
      E o sol d'esta alma fulgurante e limpido
               Banha-me todo em luz!
      Porm, franqueza humana! eu proprio o obrigo
      A alumiar-me com a luz da frouxa lampada
               D'um templo de Jesus!...

      Senhor! Senhor! que um teu olhar me alegre!
      Que lave o pavimento de meu peito
               De muita ideia v,
      Que o mal  como a noite, e o sol apaga-a
      E transforma-a na prata, ouro e purpura
               Das nuvens da manh!

      Oh! tu tristeza, irm dos desgraados,
      Que lanas no meu peito os ais plangentes
               D'esses gemidos teus!
      Desprende da minha alma as azas negras,
      E deixa entrar alegre a luz do dia,
               A luz vinda dos cos!

      E vs, filhos do sol, tribus innumeras
      Da familia de Deus, plantas e flres
               Insectos e animaes,
      Que engolfados nos gozos do Universo,
      N'esse concerto immenso de harmonias,
               Nos cos a Deus louvaes:

      Ah! venho-vos tomar por meus mentores,
      Pois vale bem mais a luz do vosso instincto,
               Que a luz d'esta razo,
      Se eu no sei como vs viver contente,
      Trazer o azul dos cos na consciencia,
               E a paz no corao!

Lisboa

Na tapada d'Ajuda,

1869


IV

PRESENTIMENTOS

      Eu bem sei que devia
      Causar-te muito d,
      Em noite to sombria
      Vres-me aqui to s!...

      Nem sei que sol m'alegra!
      A ss com a minha cruz,
      Sou como a nuvem negra
      Que encerra muita luz!...

      Como arvore sombria
      Vergada sobre um val,
      Assim vivo hoje em dia
       sombra do Ideal...

      Que eu tenho muita fome
      De Justia e d'Amor,
      E aqui no ha quem tome
      A serio a minha dr...

      O mundo v e passa,
      Como sempre passou,
      Sorrindo da desgraa
      Dos tristes como eu sou...

      E este sonho dourado
      D'amr, que a gente v,
      No pde estar guardado
      N'esses homens sem f!...

      Ah! no! j no m'illudo
      Foi isso o que suppuz;
      Mas vi mudar-se em tudo
      Em sombra a minha luz...

      E os sonhos que j tive
      To bellos, afinal,
      So hoje um co que vive
      Sobre este lamaal!...

      Um co que vejo, ao longe,
      Exposto aos olhos meus,
      Co'a mgoa com que um monge
      Veria outr'ora a Deus!...

      E onde ha maior castigo,
      Mais dura provao,
      Que ter por inimigo
      O homem nosso irmo,

      Aquelle a quem ns dmos,
      Com toda a candidez,
      Os sonhos que hoje vmos
      Desfeitos a seus ps?!...

      Ah! suppe-me o desgosto,
      De eu vr desparecer
      A cpia do meu rosto
      Aos ps d'uma mulher,

      E isto em desacato
      Do meu mais santo amor:
      E ahi tens um retrato
      Da minha immensa dr,

      Quando vejo desfeito
      Por gente ingrata e m
      Um sonho do meu peito,
      E muitos vi eu j!...

      Por isso eu n'esta vida,
      Apoz tanta illuso,
      E tanta flr perdida,
      Tanta cora no cho...

      Ai! sinto com o anceio,
      Que  proprio do infeliz,
      Um mal n'este meu seio
      Lanar muita raiz!...

      Espero vr a morte,
      Eu proprio a invoquei,
      Levar-me d'esta sorte
      Para onde?!  que eu no sei!...

      Como eu no sei dizer-te,
      E isto que me consol',
      Como  que se converte
      Em vida a luz do sol!...

      Como nasce a ventura
      Do homem que morreu,
      Dormir na sepultura
      Para acordar no co!...

      Aqui tudo  mysterio!...
      Mas visto que assim ,
      Onde ha melhor criterio
      Que  luz da nossa f?

      E eu creio firmemente
      Que o martyr de Jesus,
      No fica s pendente
      Dos braos d'uma cruz...

      Que o homem que prosegue
      A luz d'um Ideal;
      Embora a turba o pregue
      Na sua cruz fatal...

      O co  bem profundo,
      O fundo nem tu vs,
      E ha n'elle muito mundo,
      Para onde ir talvez!...

      A vida contina,
      E a alma, emquanto a mim,
      Avana e no reca
      Por esses ses sem fim!

      Do sol se um raio ardente
      No mar vier cahir,
      Em nuvem transparente
      Ns vmol-o subir!

      No ha suster-lhe o rumo
      Que o leva para os cos,
      E assim  que eu presumo
      Voarmos ns a Deus!...

      O ponto  merecel-o,
      Que Deus  justo e pae,
      E eu sei com que desvelo
      A si os bons attrae!

      Mas quando eu vejo a lua,
      No sei que ideia m
      N'esta alma me insinua
      A luz que n'ella ha!...

      Emquanto em torno d'ella,
      Ao norte, ao leste, ao sul,
      Refulge tanta estrella
      Pela amplido do azul,

      Tu vl-a solitaria,
      Em paz cruzando o co,
      Como urna funeraria
      D'um mundo que morreu!.

      Ali j no ha vida!...
      Ali no ha calor!...
      N'aquella luz, vertida
      Em lagrimas de dr,

      Ha s tristeza e lucto,
      E confrange-se e doe
      O corao, se escuto
      Mulher, porque isso foi!...

      Ah, tenho medo
      Que o Supremo Juiz
      Nos julgue assim to cedo!...
      No sei que voz m'o diz...

      No sei... mas, se contemplo
      Os crimes que ahi vo,
      Mulher, aquelle exemplo
      Conturba o corao!...

      E assim s n'outra parte
      Vero os olhos meus
      Os sonhos que reparte
      Commigo a mo de Deus!...

      O mundo onde abre o cardo
      E o lyrio ao mesmo sol;
      Onde ama o leopardo
      A par do rouxinol;

      Que tem de andar na sombra
      Para viver na luz;
      E, o que inda mais m'assombra,
      Onde ha Nero e Jesus:

      Por mais bello e risonho
      Que seja, ainda assim
      No vale qualquer sonho,
      Que trago dentro em mim!...

      Isto  um fraco esboo
      D'uma outra vida e cr,
      Que sinto-a, mas no posso
      Dizer-te onde ella !...

      Se a Vida em ns comea,
      Por esses ses d'alm,
      Sobre a nossa cabea.
      Trabalha-se tambem!...

      Mulher! mulher! quem sabe
      Se  isto o que m'attrae
      Aos cos, pois, tanto cabe
      A Deus, que  justo e pae...

Lisboa, 1870.


V

CONSCIENCIA

      Para um homem que aspira
      Ao ideal da Belleza,
      No ha maior tristeza,
      Magua maior no ha,
      Que vr escurecer-se-lhe
      O ceu da noite escura
      D'alguma ideia impura,
      D'alguma paixo m!

      Paixo que muitas vezes
      A luz da nossa Ideia
      Accende, inflama, ata,
      E depois nos attrae
      Com tanto magnetismo,
      Com tal encantamento,
      Que o homem n'um momento
      Vacilla, cega e cae!...

      Cae, sim, do seio esplendido
      Do mundo onde vivia
      Na mais doce harmonia
      Em paz co'os dias seus,
      Para apagada a febre
      Do seu fugaz delirio,
      Achar-se co'o martyrio
      De te perder oh! Deus!

      Sem Ti, meu pae, que assombro!
      Que noite to completa!
      Que acerba dr me inquieta
      Meu fragil corao!...
      Voltar a vr a alma
      D'esperanas povoada,
      E achal'a transformada
      Em lugubre soido!

      Senhor! se desabassem
       tua vz as bellas
      E limpidas estrellas
      Dos ceus que no teem fim,
      Eu creio que assombrado
      Do horrendo cataclysmo,
      O Sol, d'alm do abysmo,
      Seria egual a mim!

      Eu lembraria a aguia,
      Que a prole ainda implume
      Deixando sobre o cume
      De monte erguido ao ceu,
      A fosse achar de subito
      Na rocha alcantilada,
      No ninho, fulminada
      D'um raio que desceu!

      Egual seria o quadro
      Da minha consciencia,
      Ao ver a tua ausencia
      Fazer-se em mim, Senhor!
      Que em volta do teu astro
      Minha alma de poeta
       pallido planeta
      Buscando o teu amor!

      E eu sem ti nem vivo!...
      Tu s, oh, doce esperana,
      O seio onde descana
      Meu ser e afinal
      No sei at dizer-te
      O quanto soffreria,
      Se vira extincto um dia
      Em mim, teu Ideal!

      Oh no mil vezes antes
      Em carcere ermo e escuro,
      Achar-me de futuro
      A ss c'a minha dr;
      Extincta a luz dos olhos,
      E as bellezas do mundo,
      E o ceu azul profundo
      Com todo o seu fulgor!

      Tu cr que nem demandam
      Os mundos inferiores
      Fcos de luz maiores,
      Por esse infindo azul,
      Como eu o eterno centro
      Das leis da natureza,
      Do _Amor_, e da _Belleza_,
      Que so meu norte e sul!

      Oh Pae! se n'algum dia,
      Eu vir, n'uma miragem,
      Alguma falsa imagem
      Do Bem prender-me aqui:
      Desvenda a tua face,
      E mostra-me o teu seio,
      Que, mesmo embora em meio
      Do abysmo, irei a ti!

      Irei, to instinctivo,
      To amoroso e firme,
      Eu sinto a attrair-me
      A ti o teu poder,
      Que eu vejo em ti o Norte,
      Para onde se encaminha
      A pura essencia minha,
      Que sente, pensa e quer!

      Irei vencendo, indomito,
      Innumeros attrictos,
      E escolhos infinitos,
      E infindos escarceus,
      Como essa vaga enorme
      Do mar que no recua,
      Seguindo sempre a lua
      Que v passar nos ceus!

      Irei bem como a Terra
      Seguindo eternamente
      O rumo do oriente
      A demandar a luz;
      Bem como Jesus Christo
      O rumo solitario
      Da senda do calvario
       busca d'uma cruz!

      Irei c d'este mundo
      Onde tu me cedeste
      A dadiva celeste
      Da Raso e do Amor:
      Raios vitaes que mudam
      Em luz a nossa essencia,
      E a luz em Consciencia,
      E esta em ti, Senhor!

Lisboa, 1869.


VI

REVELLAO

O LAGO

      Scismava um dia na cruel sentena
      Com que a Egreja fulmina a raa humana,
      Deixando impura a fonte d'onde emana
      O sangue que me anima, e a alma que pensa:

      E ao passarem no ceu do meu destino
      As nuvens da tristeza e da saudade,
      Revellou-me o Senhor alta verdade,
      Junto s margens d'um lago crystalino!

      Isto foi pelo mez do abrir das flres,
      Quando a vida celebra os seus noivados,
      E o mundo, sob os verdes cortinados,
      Parece um doce thalamo d'amores!

      Estava um dia esplendido! a animal-o
      Eu via o seio azul do ceu mais lindo
      Curvar-se sobre mim, ethereo, infindo
      E tepido: era um gosto enamoral-o!

      Como fecho da abobada infinita,
      O Sol nos ceus, riquissimo objecto,
      Com barras d'ouro irradiava o tecto
      Do vasto pavilho que o mundo habita!

      Cres variadas, frmas differentes,
      N'um conjuncto de graas sem egual,
      Debuxavam-se ali ao natural
      Sobre o crystal das ondas transparentes!

      Alvas manchas d'insectos pequeninos,
      Envolvendo-se em giros caprichosos,
      Como trbus de povos venturosos,
      Fruiam junto ao lago os seus destinos!

      Pelas balsas cantava a toutinegra,
      E as rolas modulavam doces cros,
      No ar passavam fremitos sonoros
      Co'as vibraes da Luz que o mundo alegra!

      No lago, a planta, a flr, o ceu, a terra,
      Como notas d'uma unica harmonia,
      Revellaram-me  plena luz do dia,
      Enlevos que o prazer da vida encerra!...

      E eu via tudo, e extatico scismava:
      Se por ventura a colera divina,
      Segundo a Egreja ao mundo inteiro o ensina,
      Do gremio dos felizes me affastava!...

      E no podendo crer, embora obscuro
      Vr-me qual sou, que esta alma de poeta,
      De tanto sonho explendido replecta,
      Atollada estivesse em ldo impuro...

      Ai! quando a Deus pergunto se prendeu
      N'um p que  vil o espirito divino,
      Olho o espelho do lago crystalino
      E no encontro o lago: encontro o ceu!

      O mesmo que era em cima azul, immenso,
      E a lampada brilhante que o alumia,
      L no fundo do abysmo aos ps os via,
      De sorte que em dois ceus era suspenso!

      E quanto se ostentava em torno ao lago,
      Os muros de verdura, a flr mimosa,
      O deslisar da nuvem vaporosa,
      E a voltear do insecto incerto e vago:

      Outro tanto animava, ao longe, e ao perto,
      Aquella regio d'azul vestida,
      Onde a minha alma, em extasi embebida,
      Contemplava na Terra um ceu aberto!

      E emquanto extasiado a ss fitava,
      Nas bellezas do lago transparente,
      Aqui uma flr, alm, para o poente,
      A nuvemsinha branca que passava,...

      Eis seno quando, uma ave, porque visse
      Insectos junto da agua socegada,
      Desceu subtil, aerea e delicada,
      E ao perpassar roou-lhe a superficie,...

      O ponto ferido, em ondas borbulhando,
      Desabrochou em curvas graciosas,
      Como as folhas concentricas das rosas,
      Ou lusidias cobras imitando!

      E emquanto o impulso em torno se propaga
      Em circulos risonhos: n'um momento,
      Toda a cupula azul do firmamento
      Oscilla, treme e cae, e o Sol se apaga,

      E a arvore, e a flr, e quanto junto  margem,
      Em doce paz, seu rosto reflectia
      No crystalino espelho, por magia
      Da lei do amor, a doce lei da imagem!...

      Fere-me ento bem intima tristeza,
      Ao vr aos ps, em sordido tumulto,
      Um lymbo verde e escuro onde occulto
      Estava um ceu to rico de belleza!...

      Lembrei-me ento da minha vida insana,
      De quanto sonho lindo anda desfeito
      Nos intimos arcanos do meu peito,
      Co'o tropel das paixes da vida humana!...

      E as lagrimas cahiram-me uma a uma
      Sobre esses bens que a Terra e os ceus inspiram,
      E ao contacto das coisas se extinguiram
      Como aereos bales feitos d'espuma!

      N'isto o Senhor, que tudo v e ampara,
      Converte-me de novo o charco immundo
      N'um ceu azul infindo, e n'elle um mundo
      Formoso como os bens que imaginara!...

      Scismei ento por longo espao e digo,
      Que aos olhos meus por Deus fra patente:
      Que a alma humana pde, ingenua e crente,
      _Vivendo em paz, um ceu trazer comsigo!_

      Ah muito embora a dr seu peito opprima,
      O espirito, que abrange o mundo inteiro,
      Pde vr, quanto justo e verdadeiro,
      Nos seios d'alma os ceus que esto por cima!

      Maxima grande, maxima tamanha,
      To repassada d'intima poesia,
      Porventura d'egual sabedoria
       predica de Christo na montanha,

      Ah! s, por entre as sombras da desdita,
      A ponte aerea, o arco d'alliana,
      Que, em vez da excommunho que a Egreja lana,
      A Deus eleva a Humanidade afflicta!

Coimbra

Quinta de Santa Cruz

1871.


VII

MISSA PONTIFICAL

UM EVANGELHO

      Sahi uma manh mal vinha o sol rompendo,
      E fui-me religioso a ouvir a missa ao campo,
       vasta cathedral do mundo, aonde aprendo
      Da Vida as sacras leis, que em letras d'ouro estampo.

      Sentei-me sob um bosque estenso e solitario,
      Que, em paz e sombra involto,  quietao me envida;
      O accaso conduzira-me a um vasto santuario,
      Onde ia celebrar-se a communho da Vida!

      Debaixo do docel da mrmura floresta,
      Se um culto universal  justo a Deus se vote:
      Estava o templo augusto armado todo em festa,
      Faltando unicamente agora o sacerdote!

      O mundo em derredor aguardo-o co'anciedade...
      E eil'o que chega, emfim, das bandas do oriente,
      Surgindo como um Deus no azul da immensidade,
      N'um carro triumphal, de raios resplendente!

      Ao vel'o perpassou nas arvores sagradas
      Um sopro mysterioso, o espirito do vento,
      Que deixa-nos ouvir, em musicas toadas,
      Psalmos que vo morrer no azul do firmamento!...

      Nos multiplos flores das trmulas janellas,
      Nos ramos mais subtis que a luz dos ceus colora,
      Com magico fulgor scintillam, como estrellas,
      Os limpidos crystaes das lagrimas d'aurora!

      Nas naves, que sustm a abbobada elevada,
      Penetra triumphante a luz, suprema artifice!
      Interprete de Deus, celebra a sua entrada
      Com pompas, do Universo o maximo pontifice!

      Assim que o sol sahio das brumas do horisonte,

      A pedra, o musgo, o insecto, a flr, os arvoredos,
      Trocaram entre si mil intimos segredos!...

      Os passaros gentis, aladas creaturas,
      Soltaram festivaes Hossana nas alturas!...

      O sol triumphador, do mundo a vida accorda,
      E esplendido festeja o eterno _sursum corda_!...

      Estava em plena festa a Terra, me querida!...
      E eu, em face d'ella, a contemplar-lhe a Vida!...

      Ento a Luz, qual flr, subtil e sorridente,
      Me disse a mim que sou seu terno confidente:

      Poeta! vs o mundo alegre e harmonioso;...
      Em intimo convivio unido o sol  terra,
      E a terra e o sol aos cus!... No enlace auspicioso,
      Permutam entre si os bens que a Vida encerra!...

      A vida  sim um Bem; por isso  dada a todos!...
      A todos por egual, a infindas creaturas,...
      Que, em multiplo labor, e por differentes modos,
      Procuram-no attingir na terra, e nas alturas!...

      quelle que transpe as portas da existencia
      Um vinculo d'amor protege-o logo, e fica
      Ao mundo inteiro preso, em mutua dependencia,
      Ah desde a larva obscura ao sol que a vivifica!..

      Qualquer que seja o nome, ou chama-lhe Verdade,
      Belleza, Amor, Justia:  tudo a mesma cousa!...
       quem fecunda e rege os soes na immensidade;
      Quem d ao universo a paz em que repousa!...

      Por isto o mundo inteiro  todo uma harmonia!...
      E sente a reanimal'o uma alma alegre e s!
      E vens de longe aqui, sedento de poesia,
      A namorar-me a mim, que sou a tua irm!

      Do Sol baixei aqui a ler-te os evangelhos
      Eternos de Verdade, e a missa vae findar!
      Meu crente e meu poeta!  a hora: de joelhos,
      Em nome do Senhor, te quero abenoar!

       sua voz curvando a fronte: em f immerso,
      Senti entrar-me n'alma a alma do universo!...

      Irm, gemea de minha, a luminosa flr,
      Encerra-se afinal n'esta palavra==Amor==!

Quinta da Beselga

1885.


VIII

AV CREATOR!

      Desprende pelo espao as azas d'ouro,
      guia de Deus, no mundo extraviada!...
      Pela patria celeste, a tua amada,
                           Vae em busca de Deus,
      Cantando um hymno em honra do seu nome,
      Que meu querer e instincto insaciavel
      Te guiaro, qual bussola admiravel,
                           Pelos infindos ceus!

      Senhor! venho invocar teu nome augusto,
      Em face d'estes vastos horisontes!...
      Que em torno a mim o rio, a arvore, os montes,
                           Fallando-me de Ti,
      Lanam-me n'alma um teu olhar divino,
      E, com elle, um occeano de luz pura,
      Que me trasborda em ondas de ventura
                           O que eu t'offereo aqui!

      No sob o tecto do sombrio templo,
      Que a f christ do povo erguera outr'ora
      Como um tumulo, onde o homem commemora
                           A tua morte, oh Pae!...
      Mas sob o tecto azul do Templo Eterno,
      Perante o sol que passa dando a vida
      Em teu nome, que esta orao sentida
                           Buscar teu throno vae!

      Pois --me triste a mim que as cousas brutas,
      Ellas, sem alma, em gratido me venam:
      E a Terra, emquanto o Sol lhe envia a benam
                           Da sua eterna luz,
      Converte-a em flres, canticos e fructos,
      E, n'um concerto alegre e harmonioso,
      Tributa ao Sol um culto to piedoso,
                           Que o peito meu seduz!

      Tu vel'a, quando o Sol lhe affasta os raios
      Do seu formoso olhar durante o inverno,
      A amante debulhar-se em pranto eterno,
                           Das gallas se despir;
      Em valle e monte as folhas, com tristeza,
      Dos troncos com os ventos desprendendo-se,
      E o mar, co'os ceus em lucta contorcendo-se,
                           Raivoso aos ceus bramir!...

      Mas quando o Sol de novo a aquece e anima:
      Oh que effluvios d'amr ento contemplo!...
      Traz o amante a alleluia ao escuro templo,
                           E as trevas do fulgr;
      Espalma a folha o ramo resequido,
      E, ao som do mar que canta de mansinho,
      Da terra brota a flr, da haste o ninho,
                           Do ninho surge o amor!

      Seja assim o meu peito! Que a minha alma,
      Buscando o foco eterno e resplendente
      Do Sol dos soes, o Ser Omnipotente:
                           Me eleve o corao
      A trasbordar torrentes de harmonias,
      Que entoem pela voz das creaturas:
      Santo! Santo! tres vezes nas alturas,
                           Ao Deus da creaco!

      Pois eu que sou o espirito das cousas,
      O verbo inspirador, a alma, a vida;
      Sinto em meu peito a gratido devida
                            tua mo que attrae
      Em giro eterno os mundos do Universo;
      E eu vendo orar ao Sol a flr n'o matto,
      No hei de s ficar injusto e ingrato
                           Para comtigo, oh Pae!

      Seja pois o meu canto a voz do interprete,
      Que moldando nas formas da palavra
      A vida universal que em tudo lavra
                           Co'o sopro animador:
      Eu possa vr a Terra envolta em canticos,
      Sobre as azas de luz da alma humana,
      Remontar-se s origens d'onde emana,
                           As tuas mos, Senhor!

Quinta da Beselga

1871.


IX

SURSUM CORDA!

      Oh Sol, alma do mundo! esplendido portento
      D'um mar feito da luz! vulco, cuja fornalha,
      Por entre um fogo eterno, expande o movimento
      Da machina febril do mundo que trabalha!

      E tu, Astro do amor, que, em noite silenciosa,
      Qual perola engastada em fulgidos brilhantes,
      Derramas tua luz serena e voluptuosa
      Nos seios virginaes das timidas amantes:

                           C'o os vossos esplendores,
                           Pela amplido dos ceus,
                           Cantae altos louvores
                           Ao espirito de Deus!

      E tu, mar rugidor! austero cenobita,
      Que em vastas solides gemendo os teus pesares,
      Levantas o teu canto  abbobada infinita,
      Juntando a vz piedosa aos cllicos cantares!

      E vs, filhas do ermo, alegres, crystalinas
      Fontes que derivaes das fendas dos rochedos,
      s flres murmurando, em musicas divinas,
      De amor e de ventura uns intimos segredos:

                           Mudae as harmonias
                           Da vossa eterna vz
                           Em ternas homilias
                           Ao pae de todos ns!

      Arvores que fluctuaes nos cimos das montanhas,
      Altivas demandando o azul do firmamento;
      Que encheis as solides de musicas estranhas,
      Se passa sobre vs o espirito do vento!

      Lyrios, que abrindo o seio ao osculo amoroso
      Da luz que envia o sol da abbobada azulada,
      Mandaes-lhe o vosso olor no ether luminoso,
      Como o habito subtil d'uma alma enamorada:

                           A musica e o perfume
                           Que desprendeis, votae
                           A quem em si resume
                           O mundo inteiro e  Pae!

      Oh rabidos lees! l quando em vossas festas,
      Altivos como os reis, indomitos senhores,
      Debaixo do docel das mrmuras florestas,
      Rugis como um trovo os fervidos amores!

      E vs, coras gentis e timidos cordeiros,
      Que em vossos coraes e almas bem formadas,
      Ao sangue preferis a lympha dos ribeiros,
      E  carne em podrido as hervas perfumadas:

                           Louvae a quem fizera,
                           Co'o mesmo engenho e amor,
                           As fauces d'uma fera,
                           E o calice d'uma flr!

      Arvores, flres, mar, e estrellas, e animaes,
      E todos vs que entraes no giro da existncia;
      Que haveis nas regies das cousas immortaes,
      Por synthese suprema, a _luz da consciencia_:

      Unindo-vos a mim, como eu  Humanidade,
      Louvemos todos ns n'uma orao sentida,
      Em cro festival que attinja a immensidade,
      O eterno Sol dos Soes, o sabio Author da Vida!

                           Cantemos, creaturas!
                           Pela amplido dos ceus,
                           Hossana nas alturas
                           Ao espirito de Deus!

Carvalhaes, 1886.


X

AOS CATHOLICOS

      Todos vs que sois sinceros crentes,
      Que oraes a Deus no intimo do peito,
                  Oh mysticos christos;
      Embora tenha crenas differentes
      D'aquellas que seguis, eu vos respeito,
                  E julgo como irmos!

      Eu amo a Deus; depois a Humanidade;
      Depois os bons, e d'estes o primeiro,
                   Christo, o Redemptor!
      No sendo egual em tudo  Divindade,
      , como justo e homem verdadeiro,
                  Meu mestre e meu mentor!

      Embora por fanatico me tomem
      Impios e atheus, se os ha, eu lhes confesso,
                  Que o Martyr da Paixo
      Parece-me to grande como homem,
      Que at sinto vertigens quando messo
                  Seu terno corao!...

      Oh meu Jesus! nas luctas pela vida,
      Por onde tanto naufrago fallece
                  No meio da viagem:
      Minha alma soffredora e dolorida,
      Cahiria tambem se no tivesse
                  A tua doce imagem!...

      Eu que creio que o facho da sciencia
      Nos ha de revellar, ao fim de tudo,
                  Que em ns se concilia
      Raso e F, Justia e Consciencia:
      Ah quero-te Jesus! por meu escudo,
                  Por meu amparo e guia!

Na S de Lisboa

na quarta feira de trevas

1888.


XI

F E RASO

A CRUZ E O PRA RAIOS

      Da velha cathedral, esbella e rendilhada,
      Votada a ser manso do Deus, author do mundo,
      Na flecha a mais gentil, campeia abenoada
      A cruz do Redemptor, da Gallila o oriundo!

      Nos impetos da f, cortantes como a espada,
      O ungido do Senhor, d'olhar cavo e iracundo,
      Aponta  multido, humilde e ajoelhada,
      Por seu supremo amparo a cruz, no azul profundo!

      Em nome d'ella exala a f porque a aviventa,
      E diz mal da raso que tenta, em vos ensaios,
      Dos ceus arrebatar a luz, de que  sedenta!

      Mas do alto onde ella est, que causa at desmaios,
      Temendo que a derrube o fogo da tormenta:
      Em nome da Raso lhe pe um pra raios!...

Outubro de 1888.


XII

AMOR E PROVIDENCIA

      Em quanto eu, alta noite, velo e lido,
      Por vs mantendo innumeros cuidados,
      Dormis, caros filhinhos, socegados
      Em torno a mim o sonho appetecido!

      Dormis?! sonhaes de certo... e eu pae envido
      Meus esforos por vr realisados
      Vossos sonhos gentis e perfumados:
      Ampara-vos um peito estremecido.

      Outro Alguem faz por ns o que eu vos fao:
      Com suprema bondade e sapiencia,
      Rege os mundos que rolam pelo espao!

      Esse Alguem  o Amor por excellencia,
      O formidavel e invisivel brao,
      E o olhar que nunca dorme==_a Providencia_==!

Lisboa, 1885.


XIII

 GUERRA!

O QUE EU SINTO...

      Se vejo com pavor as luctas carniceiras
      Que empenham as naes, chamadas as primeiras,
                  Nos campos da batalha,
      Ah! quando a ss comigo e o Eterno me concentro,
      Ouo no sei que voz a mim bradar c dentro:
                  == Deus que ali trabalha==!

      Por mais que ousado vo aos ceus a aguia eleve,
      Nos ceus ha um limite alm do qual em breve
                  Fallece a aza e taes
      Como as aguias os reis!... Subiram, mas solemne.
      O dia ha de chegar em que Deus os condemne
                  E brade-lhes==No mais==!

      No cho no ha raiz que diga  Terra==estanca
      A seiva que me ds==! Nem aguia ou pomba branca
                  Que engeite o vo alado!...
      No ha um lavrador que entaipe em cal e pedra
      A fonte de chrystal, de cujas aguas medra
                  A arvore, a flor, o prado!...

      E onde ha no mundo um povo a outro povo extranho?!...
      Ou odio figadal, intrinseco, tamanho
                  Que a todos nos divida?!
      Se a Terra, o mar profundo e o proprio sol so pouco
      Por darem vida a um lyrio: haver hoje um louco
                  D'um Cezar que decida,

      D'encontro s sabias leis por Deus dadas ao mundo,
      Que um homem, cujo peito infinito e profundo
                  Abrange a Terra e os Ceus,
      Guerreie o proprio irmo que  d'elle a propria essencia,
      A luz, o ar, a vida, a fora, a providencia,
                  Que deste-lhe, meu Deus?!

      Oh no!... Tu mandars o dia em que a Justia
      Obrigue-os a expiar com fronte submissa
                  Dos crimes o estendal
      Que encheu de sangue e horror as paginas da Historia,
      Servindo de lio, ficando por memoria,
                  Em prol do teu Ideal!...

      E o mundo hade voltar  fonte d'onde veio,
      E ser todo elle amor, justia e paz!... J leio
                  Signaes _de nova Luz_!...
      As crenas do Passado estando j em terra,
      Vem prestes a surgir a nova Lei que encerra
                  Os sonhos de Jesus!...

      E eu beijo e adoro a mo que impelle e rege o mundo,
      Que deu a flor ao campo; os ses ao firmamento,
                  E o espirito divino
      Aos nossos coraes! Que a toda a creatura,
       flor que desabrocha, ao astro que fulgura,
                  A todos deu destino!

      Por isso eu n'este mar, sobre este cho d'abrolhos,
      Por onde cae amaro o pranto dos meus olhos,
                  De fito no Senhor,
      De fito no Ideal, minha alma no se inquieta:
      Confia e sobe a Deus,  como a borboleta
                  Que vae poisar na flor!

Bussaco, 1870.


XIV

 PAZ DOS POVOS

HOMO, EX HOMINIS LUPO, HOMINIS COOPERATOR

      De lobo te foi dado outrora o nome,
      Lobo que a propria especie devastava
      Cruento e fero, qual no viras nunca
      Lees, pantheras, tigres ou chacaes!...

                  E a fera, quando a fome
                  A incita,  quando crava
                  O dente e a garra adunca
                  Nos miseros mortaes.

      Da massa do teu cerebro colhendo
      A luz consciente e pura das ideas,
      Concebes mil engenhos homicidas,
      Inventos d'infernal destruio!

                  Com elles, monstro horrendo!
                  Ha seculos semeias,
                  Em guerras fratercidas,
                  A morte e a assolao!...

      Mas como as foras cosmicas da Terra
      Cessaram suas luctas de gigantes,
      Trazendo  luz do Sol, d'amr sedenta,
      Dois mundos revestidos d'esplendores,

                  O mineral que encerra
                  Os fulgidos brilhantes;
                  E o vegetal que ostenta
                  O olhar gentil das flores:

      Assim as mil paixes que a tanto custo
      Contem teu peito e o rubro sangue agita,
      Por ultimo ho de ter a vida calma
      Que impe por norma a tudo a Providencia;

                  E o Bello, o Bom e o Justo,
                  Na sua aco bemdicta,
                  Levar-te aos seios d'alma
                  A paz da consciencia!

      Do sol os raios que do vida ao globo;
      Da vida a fora multipla que actua
      Em prol de cada qual, para que tomem
      Quinho no Bem, que  dado como a luz:

                  Reclamam nos que o Lobo,
                  Da historia se destrua,
                  E d lugar ao homem
                  Sonhado por Jesus!

      Se o cahos do teu peito foi sequencia
      Do cahos primitivo da natura:
      Ter tambem destino egual ao d'este;
      Dar um quarto mundo, o da Verdade!...

                  O da alma, cuja essencia
                  Incorruptivel, pura,
                  Procria a luz celeste
                  Do Bem, na Humanidade!

      Ver-te-has ento qual Semideus Consciente!
      O sangue que pecorre em tuas veias,
      Origem dando a fulgidas doutrinas,
      s nitidas noes das coisas bellas:

                  Tua alma um resplendente
                  Santuario, onde as ideias
                  Sero luzes divinas,
                  Mais puras que as estrellas!

      Antithese da Vida do Passado,
      Compete-te integrar na Terra os Povos;
      E, chave do vastissimo problema
      Da Vida humana: honrando o Redemptor,

                  Nos ceus tem Deus traado
                  Aos teus destinos novos,
                  Por synthese suprema,
                  A Paz, o Bem, o Amor!

25 d'abril de 1898.


XV

AO HOMEM

      Segundo as tradices que vo sumir-se
      Na noite secular das priscas eras:
      Rugiram contra ti, Homem, as feras,
                  E as coleras do mar;
      Dos ceus revoltos os troves e os raios;
      Qual reprobo vivias no universo
      Inerme, nu e s, na sombra immerso,
                  Sem Deus, sem luz, sem lar!...

      Apoz infindos seculos de lucta
      Co'as foras implacaveis da materia,
      Soffrendo, em toda a escala da miseria,
                  O frio, a fome, a dr:
      Venceste, e oppes s lugubres cavernas,
       escura habitao dos trogloditas,
      Os fulgidos palacios onde habitas,
                  Conscio do teu valor!...

      Imperios contra ti ergueram despotas,
      Quaes moles collossaes architectadas,
      Assentes no prestigio das espadas,
                  Nas mos d'um Phara,
      D'um habil Julio Cesar; mas as moles,
      Minadas pela aco do povo obscuro,
      Cahiram como cae um fragil muro
                  No cho desfeito em p!...

      No intuito de livrar teu grande espirito
      Dos vinculos do mal e enobrecel-o,
      Tomas-te a Jesus Christo por modelo
                  Das tuas concepes;
      D'accordo a espada e a cruz, a lei e o dogma,
      De ti fizeram novamente escravo,
      Mas tu, inda outra vez, altivo e bravo,
                  Partiste os teus grilhes!...

      Por ultimo lanando mo das foras
      Da Terra tua me, das leis da Historia:
      Apenas em tres seculos de gloria,
                  Com mil prodigios teus,
      Mudas-te totalmente a face ao mundo,
      E propes-te a fazer o mesmo  alma,
      Porque esta, resplendente, justa e calma,
                  Triumphe  luz dos cus!

      Forjou a mo de Deus no sol teus raios!...
      D'ahi todo o esplendor, todo o prestigio
      Do teu almo poder! o gro prodigio
                  Das tuas concepes,
      Que em marmore e crystal, em prata e ouro,
      E em tellas formossissimas, transmittes
      De mo em mo, sem conta, e sem limites,
                  s novas geraes!...

      Na terra, erma de Luz, Homem surgiste,
      Trazendo no teu rubro sangue a Ideia,
      A luz que doma o fogo, o apaga, o ata,
                  E o faz descer do cu
      Humilde como um co!... Poder terrivel,
      Que Jupiter temeu, quando, iracundo,
      Mandou prender, por dar exemplo ao mundo,
                  Na rocha a Prometteu!...

      D'ahi a mola occulta, a fora ingenita,
      A causa porque tu, no ardor da guerra,
      Revolves sem cessar o cu, a terra,
                  A alma e o corao,
      E fazes e desfazes, sem descano,
      Systemas, religies, philosophias;
      Depes a Deuses, reis e tiranias,
                  Em nome da Raso!...

      Por veres quem tu s e quanto vales:
      Das proprias obras faze o claro espelho,
      E escreve em face dellas o evangelho
                  Da nova religio,
      O authentico, o real, o verdadeiro;
      Que em vez do degradado filho d'Eva,
      Com ligitimo orgulho a Deus eleva
                  Tua alma e corao!

      Senhor das energias infinitas
      Do mundo, com que Deus teu pae refora
      Teu multiplo poder: expulsa a fora
                  Que os despotas produz;
      Levanta novamente altar e templos
      Ao Bello, ao Justo, ao Bem,  Sapiencia,
      Afim de que na Terra a Consciencia
                  Impere em plena luz!

      Em vez de Fora, Amr rege hoje o mundo!...
      E Amr, se toma as normas da Justia,
      Far com que, empenhando-te na lia
                  D'um ideal melhor:
      Floresam sobre a Terra, em prol de todos,
      Honrando a Deus, servindo a Humanidade,
      Os sonhos de pureza e de bondade
                  De Christo, o Redemptor!...

      Ters no espao os soes por companheiros,
      Comtigo permuttando noite e dia,
      Na sua eterna e placida harmonia,
                  Os mil problemas seus!...
      D'accordo Deus e a alma, o ceu e a terra:
      Vers com resplendor a tua Ideia,
      Chamando-a  vida, em tudo onde campe
                  O espirito de Deus!

1892.


XVI

 MULHER

      Senhor da Fora, ns, o heroe lendario,
      Da Terra o domador, o sabio, o forte,
      Dir-se-ia que jurmos ante a morte
                  Guerra d'irmo a irmo!...
      Mais fros do que os tigres, destruimo-nos
      A ferro, a fogo, a polvora, a metralha,
      Deixando, pelos campos de batalha,
                  O sangue, a assolao!...

      Mudou agora o Eterno ao mundo a rota
      Que ha seculos trazia,... e novos astros
      Despontam no horisonte, e em nossos mastros
                  Mais rutilos tropheus!...
      Em vez da guerra truculenta e impia,
      Impe-nos por principio a Paz dos Povos,
      Que impavidos demandam mundos novos,
                  Nova luz, novo Deus!...

      Fechado para sempre o ferreo cyclo
      Da guerra universal, obscuro bero
      Do velho mundo barbaro, inda immerso
                  Nas lendas dos heroes:
      Compete a Ti, Mulher, filha dilecta
      De Deus, c'roar na Terra a grande obra,
      Que em fulgido progresso se desdobra,
                   clara luz dos soes!...

      Misso mais nobre  vida humana  dado:
      Juntar e repartir de muitos modos,
      Por cada um de ns, e em prol de todos,
                  Do Bem a eterna luz,
      Fazendo com que caiam na nossa alma,
      Qual chuva em messe loira e movedia,
      N'uma misso d'amor e de Justia,
                  Os sonhos de Jesus!...

      Em vez da Fora, Amor rege hoje o mundo!
      E amor, tomando as gallas da Belleza,
      As normas de Justia, a me, a deusa
                  Das novas geraes:
      Ao teu celeste influxo, posto  sombra
      Da me de todos ns, a _Humanidade_,
      A paz ser na Terra, e na Verdade
                  Os nossos coraes!...

      Belleza e Amor, unindo-se, fizeram
      Do teu mimoso ser um relicario,
      Onde a mo do divino estatuario
                  Os sonhos seus guardou!...
      D'encantos mil, conjuncto incomparavel!
      A Deus j mereceste tal conceito,
      Que s do amor divino do teu peito,
                  A vida confiou!...

      Teu lindo rosto, espelho da sua alma,
      Transporta-me a ideaes de tal apreo,
      Que em frente d'elle extatico estremeo,
                  E ponho-me a scismar:
      Se entre as ondas de graa e de belleza,
      Que lanam sobre mim seus olhos ternos,
      Est ou no occulto a bemdizer-nos
                  De Deus o proprio olhar!...

      Tem jus as niveas formas do teu corpo
      Ao flcido velludo,  fina seda,
      Primor da industria humana que arremeda
                  As petalas da flr!
      Rainha! traja mantos d'ouro e purpura,
      A doce perl'a, o fulgido brilhante,
      E tudo quanto esplendido levante
                  Na Terra o teu amor!

      Amor se symbolisa n'um menino,
      Dos ceus gentil e alado mensageiro,
      Trazendo atraz de si, como um cordeiro,
                  Pacifico leo!
      O magico poder que a fera doma,
      A fora de que se arma esse innocente
      s tu mulher, e a fera obediente
                  O nosso corao!

      Conscia de Ti, das leis da vida, impera!
      E aos ps vers as almas subjugadas!
      Tem mais poder que o fio das espadas,
                  Um riso e olhar dos teus!
      Que o teu propicio amor, dos ceus oriundo,
      Nos doure a vida, a ampare, a dulcifique,
      Nos faa com que a alma humana fique
                  Mais proxima de Deus!

1892.


XVII

AOS FILHOS

      Trazidos pelo Amor, que por instantes,
                  O veu ergue  Verdade,
      Por ns  luz vieram, quaes prestantes
                  Pees da Humanidade!...

      Amor  quem dos ceus nos abre a porta,
                  Nos deixa vr o intuito
      De Deus na Terra, e a elle nos transporta
                  Da amante o olhar fortuito!

      Em ns n'um sonho lindo tendo origem,
                  Se o sonho a Deus encerra,
      As sabias leis da historia humana exigem,
                  Que o sonho desa  Terra!...

      Dos paes vingasse o amor, que este o faria
                  Entrar na realidade,
      Expondo a divinal sabedoria
                  Em plena claridade!...

      Com legitimo orgulho o sol dar-lhe-ia
                  Seus raios sempre novos;
      E a Terra os bens innumeros que cria
                  Em paz, a bem dos Povos!

      Em vez de irmos maleficos eivados
                  De odios que o sangue atia,
      Os bons e os maus ver-se-iam congraados
                  Em nome de Justia!

      Em frente das pacificas moradas,
                  Jasmins, lyrios e rosas!...
      E as ruas que pisamos marchetadas
                  De pedras preciosas!

      Tal o sonho que passa pela mente
                  D'um pae creando os filhos,
      E n'essa f remove deligente
                  Milhares d'empecilhos!...

      Mas fal'o em vo, que o mundo, sob um pacto
                  Cruel co'o odio eterno,
      Lhe pe em derredor, injusto e ingrato,
                  Em vez do ceu, o inferno!...

      s vezes chega a ter-se horror ao homem,
                  s suas impias luctas,
      Ao termos de entregar o peito joven
                  D'um filho s feras brutas!...

      Antithese do Bem em que inda espera,
                  Pergunta dolorido
      Um pae a Deus: se accaso lhe valera
                  Seu filho ter nascido!...

      Emfim  lei, e a lei, ideal supremo
                  Bemdicto e sublimado,
      Far com que passemos d'este extremo
                  Do mal, ao Bem sonhado!...

      De Deus a Ida amplissima, infinita,
                  Qual filha ao lar paterno,
      Em torno a Deus explendida gravita,
                  No seu percurso eterno!

      E tal como do cahos pavoroso,
                  Que a custo eu mal devasso,
      Surgio mais tarde o mundo esplendoroso,
                  Que rola pelo espao!

      E  eterna luz dos soes no firmamento,
                  Celeste peregrino,
      Caminha sem cessar no seguimento
                  D'um Ideal Divino:

      Assim o corao febril se arrasta,
                  Na sua lucta immensa,
      Atraz do Bem Supremo, e tanto basta
            Por base  minha crena!...

      Buscando o summo Ideal por entre antitheses,
                  Fazendo e desmanchando:
      O espirito concebe as largas syntheses
                  De Deus, de quando em quando!

      Ao fim de cada qual resurge a Vida,
                  E muda os moldes velhos
      Por outros que se ajustam  medida
                  Dos novos evangelhos!...

      Sobre isto a historia offerece-nos exemplos!...
                  Os criticos deparam
      Co'os netos desmachando um dia os templos,
                  Que seus avs sagraram!...

      D'ahi os odios vos de fanatismo;
                  Os multiplos revezes,
      Que assolam as naes co'o cataclysmo
                  Das crenas muitas vezes!

      Quem do alto v, no entanto, a historia humana,
                  Contempla sorridente
      A marcha dos destinos porque emana
                  D'um Pae ommisciente!

      Passem nos ceus, com rapidez tamanha,
                  Os astros diamantinos;
      Que a terra os segue; a terra os acompanha
                  Eguaes so seus destinos!...

      Aquillo que ha de vir e que deriva
                  D'aquillo que hoje somos,
      Que em si contm do Eterno a parte viva,
                  Nos filhos o depomos!...

      Os filhos so da arvore da vida
                  A flr dos novos fructos,
      A quem de Deus a essencia  transmittida,
                  Com os seus mil attributos!

      E os paes ento o fructo assasonado,
                  J proximo da queda;
      Com elles cae a parte do Passado
                  Que  morta, e Deus arreda!

      E quem nas leis divinas confiando,
                   fulgida seara
      Do bem se consagrou, no morre quando
                  Dos vivos se separa!...

      Contente desce em paz  sepultura,
                  Na crena de que os filhos
      Vero mais tarde em plena formosura
                  Dos sonhos seus os brilhos!

      Na marcha ascencional da humana historia,
                  Que a mo de Deus conduz,
      O filho entrou na Luz que  transitoria,
                  O pae na eterna Luz!...

       farta os vermes seu cadaver ram
                  Na campa onde se esvae!
      Sua alma triumphante e os soes entoam
                  Hossana a Deus que  Pae!

Abril de 1898.


XVIII

 HUMANIDADE

      Estrellas que rolaes no espao ethereo
      N'um vertice de luz vertiginoso,
      E em numero sem conta e sem repouso,
      De Deus cumpris altissimo mysterio!

      E vs flres gentis, purpureas rosas,
      Roxas violetas, candidas boninas,
      Que abris, tomando formas peregrinas,
       luz do Sol as petalas mimosas:

                  Commigo erguendo a vz
                  Ao throno da Verdade,
                  Saudae a Humanidade,
                  Que  me de todos ns!

      Materno amor, que tanto admiro e acato,
      Perenne luz vital do Ser Supremo,
      Ante cujo esplendor confuso eu tremo,
      Se sondo o teu Santissimo mandato!

      Ou sejas tu mulher juncto do bero
      Com terno olhar velando o teu filhinho;
      Ou tu maviosa rola no teu ninho;
      Bemditas no concerto do Universo:

                  Por to divinos bens,
                  No intimo do peito,
                  Votae sentido preito
                  Ao symbolo das mes!

      Mulheres que prestaes culto a Maria,
       virgem Me de Deus, cheia de graa,
      Doura, vida e esperana onde se enlaa
      O vosso corao de noite e dia!

      E vs ingenuas multides que hei visto
      Com ar tristonho, humilde e miserando,
      Nos templos de mos postas adorando
      Por vossa padroeira a Me de Christo:

                  A Virgem que adoraes,
                  Tornou-se a precursora
                  Da me que surge agora
                  Aos olhos dos mortaes!

      A me que em vez dos tristes filhos d'Eva,
      Levanta aos ceus os filhos redemidos!
      Em cantigos transforma os seus gemidos!
      No Bem o mal, na doce luz a treva!

      A me que os filhos todos encaminha
      Ao Summo Bem, que traz no peito occulto;
      Erguei-lhe pois altar, prestae-lhe culto;
      Tem jus a que brandeis==Salv Rainha==

                  Bemdito s nos ceus!
                  Bemdito s na Terra!
                  Sacrario onde se encerra
                  O Espirito de Deus!

      Oh povos que viveis sob a vigilia
      Do olhar supremo em toda a redondeza,
      Formando pelas leis da natureza
      E os vinculos moraes, uma familia:

      Sabei que cada qual, tendo-a comsigo,
      Trar como um claro na consciencia,
      Um rutilo fanal, a Providencia
      Que o pode redimir na hora do perigo!

                  Interpretes de Lei
                  Divina, e para exemplo,
                  Em honra d'ella um templo
                  Na alma humana erguei!

      Estrellas, flres, mes, sabios e crentes,
      Vs todos que formaes a eterna cahorte
      Dos bons, dos que perante a vida e a morte,
      De Deus esparsem raios resplendentes:

      Por preito  obra santa e redemptora,
      Que pe a Terra e os ceus em harmonia,
      Como alto solta alegre a cotovia
      A limpida cano  luz d'aurora:

                   minha unindo a vz,
                  Cantemos creaturas,
                  Hossana nas alturas
                   Me de todos ns!

1897.


XIX

AO NOVO CYCLO HISTORICO

AO TRIUMPHO DO ESPIRITO

      Homem! sob o docel das fulgidas estrellas,
      Que espalham pelos ceus de Deus o Ideal jocundo,
      Surgiste insciente e nu, por entre mil procellas,
      A custo iniciando o teu Poder no mundo!...

      A Terra, que ha de ser mais tarde o teu Imperio,
      Theatro e pantheon dos teus tropheus de gloria,
      Prendeu-te inerme e escravo, e impoz-se ao teu criterio
      Terrivel como um Deus, no escuro humbral da Historia!...

      No fundo do teu Ser, que sabias leis dirigem,
      Rompia ainda incerta, envolta em serrao,
      Tua alma, cuja luz transporta o mundo  origem
      Do Bello, Justo e Bom, do Amor e da Raso!...

      Que seculos sem fim primeiro que desvendes,
      Dos vinculos da carne, esse fanal divino!...
      Que lugubres vises!... Que espectros!... Que duendes!...
      Que espiritos do mal, turvavam teu destino!...

      Que o digam as fices do extincto fetichismo!...
      O numero sem fim dos deuses dos selvagens!...
      As tetricas vises da F no Judaismo!...
      Do inferno dos christos as lobregas voragens!...

      Mas tudo emfim venceste e hoje sa a hora
      De veres sem pavor a estrada percorrida!...
      De creres j em ti, em Deus, na luz d'aurora
      Que encerra um velho cyclo, e um novo te abre  Vida!...

      Deus fez d'esse teu peito um campo de batalha
      Das luctas no Universo!... E ahi foram mantidas,
      Em nome do Ideal que a terra e os ceus trabalha,
      Medonhas convulses e guerras fratricidas!...

      Decerto obedecendo a occulto e gro motivo,
      No plano universal da Vida a que s sugeito,
      As mil conflagraes do cahos primitivo
      Vieram a surgir de novo no teu peito!...

      Dois cyclos Deus traou, d'uma orbita infinita,
      Dos povos do universo s multiplas colmeias:
      Um vota-o as paixes que o rubro sangue agita;
      O outro ao resplendor sereno das idas!...

      Inicio da misso primeira a que s chamado,
      Tu vs, em pleno horror, da fora o predominio
      Nas feras, que, crueis, rugindo em alto brado,
      Se votam sem quartel s luctas de exterminio!...

      Mil raas d'animaes, minados d'odio eterno,
      Trucidam-se, correndo o rubro sangue em rios!...
      Tem odios figadaes, que lembram os do inferno,
      Que foi a projeo de tempos to sombrios!...

      Em face ento do mundo acceso todo em guerra,
      Proclamas-te senhor e rei da creao!
      E levas sem quartel a morte a toda a Terra,
       pedra, a pau, a ferro, e a tiro de canho!...

      Soberbo co'o poder, que d'ambies se nutre,
      Gravas-te nos brazes heraldicos da gloria,
      Das feras, o leo, o tigre, a aguia, o abutre,
      Quaes symbolos fieis da tua aco na Historia!...

      Atraz de mil vises formadas como especulos
      Que alcanam do Ideal a luz sempre distante,
      Tu fechas hoje em dia, ao fim de largos seculos,
      Dos Deuses, reis e heroes o periodo brilhante!

      Os proprios animaes, aquelles que escolheste
      Por symbolos fieis do teu poder,  certo
      Que esto-se a eliminar tambem: a morte investe
      Com elles por fatal e superior decreto!...

      A paz que hoje vaes ter por nova lei suprema,
       a mesma a que attingio o propio cahos por meta;
      Nos pramos do azul os soes a teem por lemma
      Escripto a fogo eterno aos olhos do poeta!...

      N'um multiplo vae-vem, n'uma completa antithese
      Por entre o goso e a dr, por entre a sombra e a luz,
      Chegas-te a conceber do mundo inteiro a synthese
      N'um pae celeste e Bom, no Deus que vio Jesus!...

      Deriva desde ento do periodo primeiro
      O fim que se approxima e o resplendente alvor
      Do novo Ideal que traz o fim do captiveiro:
      Em vez da Fora, a Ideia; e, em vez do Odio, o Amor!

      Teu cerebro pensante  como uma semente
      Que est reproduzindo a flr do Ideal!
      Eterno nos traduz por forma resplendente
      Do seu divino author a essencia espiritual!...

      Do bello lyrio d'alma as petalas brilhantes
      Cambiam sem cessar de cr e de perfume,
      E levam do Porvir, aos seculos distantes,
      O espirito de Deus que o mundo em si resume!...

       como o gro subtil que um cedro do Hymalaia
      Expe formoso ao Sol, em todo o seu systhema!...
      Em intimo labor co'as leis da Vida, ensaia
      A eterna soluo do divinal problema!...

      O mesmo esto fazendo as fulgidas estrellas,
      Formoso campo em flr, ideal jardim divino!...
      D'ahi as mil vises das coisas as mais bellas
      Que exparsem sobre ns seu brilho diamantino!

      O mundo desde os soes da cupula infinita
      s flores a teus ps, com paternal carinho,
      Insuflam n'esse peito ancioso que palpita
      Valor para que vs seguro em teu caminho!...

      Tem f no teu destino; em Deus tem confiana!
      Da tua historia escripta as paginas sem conta
      Derramam na tua alma a nova luz que avana
      D'accordo co'o universo e que hoje em ti desponta!...

      Em vez do legendario heroe das priscas eras,
      Das guerras extrahindo a gloria a todo o custo:
      Honrando o Creador, e as fulgidas espheras,
      Sers, qual semi Deus, sereno, sabio e justo!...

       este o Ideal que as leis da natureza
      Inspiram com sublime e candida alegria!...
      Que as normas da Raso, que as pompas da Belleza,
      E as maximas do Amor, reclamam noite e dia!...

      O mesmo ensina o mar que arqueja palpitante,
      Da terra enviando a Deus seus canticos d'amr!...
      O mesmo o terno olhar dos olhos d'uma amante;
      O augusto erguer do Sol, o calmo abrir da flr!...

      O cyclo que hoje se abre, embora ainda incerto,
      Vem dar um novo rumo  tua antiga historia;
      Vem pr-te em equilibrio, em intimo concerto
      Co'a vida universal, de que s a alma e a gloria!

       esta a nova F que em tuba altisonante,
      Interprete da Vida, enta a voz da musa!...
      Correi, povos, a ouvir-lhe o seu clamor vibrante!...
      O espirito de Deus em sua vz se accusa!...

Novembro de 1898.


XX

NOVA LUZ! NOVO IDEAL!

      Espirito Supremo, d'onde brota
      A luz que eterna os mundos alumia,
      E deixa pelo espao uma harmonia
                  Echo da tua vz!
      Inspira-me a assistir, sereno e impavido,
      Ao funebre ruiz do christianismo,
      E d'este inevitavel cataclysmo
                  Salva-te a ti e a ns!

      A Ti, o forte, o sabio, o justo, o symbolo
      De toda a perfeio, a ti importa
      Que d'esta f, tornada letra morta,
                  Vejamos renascer
      Do mundo novo a crena ardente e rutila,
      Co'o magico fulgor da nossa Ideia,
      O espelho onde melhor se patenteia
                  No mundo o teu poder!

      Ao teu olhar religies sem numero,
      Com ritos, cultos, cheios de fulgores,
      Desambam, como as petalas das flres
                  Ao Sol que as reproduz!...
      Que um novo Ideal d'amor, de ti nascido,
      Trajando d'ouro e purpura o horizonte,
      Das sombras de hoje, esplendido desponte,
                  A dar-nos nova luz!...

      Outra verdade, filha d'estes tempos,
      Que venha a ns em nome teu, n'esta hora,
      Matar a sde ardente que devora
                  Os nossos coraes,
      Depois que  intensa luz de mil combates,
      Travados pela f contra a Sciencia,
      Comea-se a apagar na consciencia
                  O ideal christo!

      A Ti attraes as almas como as aguias
      De monte em monte a prole aos ceus subindo,
      Fazendo com que attinja o espao infindo
                  Que abarca o seu olhar!...
      De Brahma a Budha, de Moyss a Christo,
      Se fez essa asceno prodigiosa,
      Ao fim do qual a alma  desejosa
                  De a novos ceus voar!...

      Ah d'esta vacuidade em que se encontram
      Os nossos coraes cheios de febre,
      Que uma alma nova irrompa e audaz celebre
                  Suas nupcias d'amor
      Co'o mundo que lhe coube por partilha,
      Passando a co-existir serenamente,
      Harmonica, feliz e resplendente,
                  Como ante o Sol a flr!...

      Por ns, que no por ti, que s intangivel
      s frageis condies da vida humana:
      Perante o aspecto triumphal que emana
                  De toda a creao:
      Convem-nos expurgir do fundo d'alma,
      Da fonte onde se gera o pensamento,
      O cunho de tristeza e desalento,
                  Que imprime o ideal christo!...

      Ha na verdade em tudo o que  belleza,
      E fora e vida e amor nas creaturas,
      Desde os astros que brilham nas alturas,
                   flr a nossos ps:
      Tanta porta do ceu a abrir-se  alma;
      Riqueza tanta e tanto amor occulto
      A revellar-te a Ti, que  justo um culto
                  Erguer-lhes outra vez!

      Digamos a verdade: uma semente,
      Que eterna e intacta a arvore resume,
      Com troncos, folhas, flres e o perfume
                  Que entrega s viraes:
      Encerra em si mais luz, lio mais pratica,
      Mais digna de por ns ser apprendida
      Qual maxima d'amor, e ideal da vida,
                  Que um livro d'oraes!

      Tua alma  presa ao mundo que creaste
      E o mundo, cuja orbita infinita
      Abrange a Terra, e os Ceus, onde palpita
                  D'amor teu corao,
      Tem jus a que faamos d'elle a Biblia
      Eterna, aonde apprenda a Humanidade,
      Sedenta de Justia e de Verdade,
                  A nova religio!...

      Ah tens a executar teus vastos planos
      D'amor, e de Justia, aurifulgentes,
      Fanaticos aos mil, e mil videntes,
                  E innumeros heroes,
      De varia estirpe: o artista, o justo, o sabio,
      Buscando interpretar teu pensamento;
      E encontram pelo azul do firmamento
                  No mesmo afan os soes!...

      Que  tua vz as geraes extinctas
      Resurjam e contemplem com surpreza
      Esta obra immensa, cheia de belleza,
                  Que em multiplo labor,
      As novas geraes esto fazendo!...
      Que em nome da Verdade triumphante,
      Unisono na Terra se alevante
                  Este hymno em teu louvor!

1889.


XXI

APPELLO SUPREMO!

      A minha alma immortal n'este exilio onde existe,
      Abrigando no seio a ideaes to risonhos,
      E entre os homens s vendo um saral ermo e triste,
      Onde outro'ra plantra o jardim dos seus sonhos:

      Teve a sorte cruel d'uma flr, que enganada
      Pelos raios do sol, ainda inverno e entreabrio;
      Mas que dias depois, co'o cahir da geada,
      E o soprar do nordeste, afinal, succumbio!...

      Assim foi para mim o florir dos amores,
      N'essa quadra febril em que o sangue  fecundo,
      Quando rompe a manh, quando abrem as flres,
      Quando o Sol brilhante e o azul  profundo!...

      Nem ha rocha no mar, pelas ondas batida;
      Nem ha nuvem no ceu, pelo vento aoutada;
      Nem ha rosa n'um val' pelo sol esquecida,
      Que se possa dizer mais do que eu desgraada!...

      Mas se o mal nos incita, e Deus quer nos transporte
      D'um estadio a outro estadio atravez muito custo,
      Em demanda do _Bem_, que triumpha da morte:
      Deves crr do Porvir no Ideal santo e augusto!

      E se foste, minha alma, a illudida afinal,
      Quando crste emplumar nesta quadra o teu ninho,...
      Pede a Deus que te envie aquella hora fatal
      Que abre a porta  Verdade e vae tu teu caminho!...

      Oh Justia increada! oh meu Deus! oh meu Pae!
      Tu que a mim me mostras-te o teu seio, esse abrigo
      Da _Bellesa_ e do _Amor_, que me envolve e me attrae:
      D-me as azas Senhor, com que v ter comtigo!...

Lisboa, 1869.


XXII

REFUGIO ULTIMO!

      Deixa, Senhor, do mundo em que eu habito
                  A ti meu ser se evol'!...
      Tem jus aos ceus quem mede esse infinito
                  Que vae de sol a sol!...

      Sonhei na terra, amando-a muito e muito,
                  Novo Deus, nova lei;
      Mas foi, pura illuso, baldado intuito,
                  Comtigo s me achei!...

      Suppuz em vez do gellido egoismo,
                  Da guerra surda e atroz
      D'interesses, em perpetuo antagonismo,
                  Que envolve a todos ns:

      Homens, povos, naes, por varios modos
                  Unidos, dando as mos:
      _Todos por um, valendo um s por todos,
                  Vivendo como irmos!..._

       f que sigo,  crena que mantenho:
                  Que em mysterioso n
      Unis-te os homens, com supremo engenho,
                  Formando uma alma s;

      Em servio da qual cada individuo,
                  Com multiplo labor,
      Trabalha por lhe dar, no esforo assiduo,
                  O maximo esplendor!...

      Quo mais estreito o vinculo fr dado,
                  Mais luz hade irromper
      Do nosso corao, do amor gerado
                  No ventre da mulher!...

      Tal o sonho que em dias mais felizes
                  Ao mundo consagrei!...
      Como hade aqui lanar fundas raizes:
                  A ti contente irei!...

      Se um raio de calr ou luz, prestantes,
                  A terra a si prendeu:
       vel'os como, em rapidos instantes,
                  Se evolam para o cu;

      E como, n'um sentido em tudo opposto,
                  A pedra na amplido,
      Quanto mais alto attinge, com mais gosto
                  Gravita para o cho!...

      E eu no gravito: eu subo na vertigem
                  D'um cllico condor
      A demandar em ti, na propria origem,
                  Belleza, luz e amor!

      Permitte, pois, do mundo em que eu habito
                  Meu ser a ti se evol':
      Tem jus aos ceus quem mede esse infinito
                  Que vae de sol a sol!

Novembro de 1868.




LIVRO SEGUNDO

ESPELHO DUPLO


O MUNDO E A CONSCIENCIA


I

ALVORADA

      Algures brilha o sol no azul do firmamento,
      E expe com resplendor das cousas o espectaculo!
      Aqui, na escurido, o mundo  tabernaculo
      Onde os frageis mortaes descanam um momento!...

      Alem, o Sol incita o mundo ao movimento,
       lucta pela Vida, o esteio e o sustentaculo
      Desde o ser da Raso ao minimo animaculo,
      Aqui, o somno esparse em todos novo alento!

       Luz! tu s do mundo a Fora, a Alma, a Vida,
      A essencia do meu Ser, a minha propria Ideia,
      O proprio Deus, talvez!... _Belleza, Amor, Verdade!_

      Atraz de Ti caminha a Terra, me querida!
      Bemdito caminhar! Por Ti minha alma anceia!...
      Bemvinda sejas, pois, oh doce claridade!

Lisboa, 1898.


II

 LUZ

      Oh Luz dourada e pura!
      Oh Luz, irm do Amor!
      Espelho e formusura
      Da Alma do Senhor!

      Em ti eu vejo e abrao
      O author da creao,
      Soltando pelo espao
      Explendida cano

      Meus olhos que te admiram,
      Bem como a Terra e os Ceus,
      Ao verem-te, sentiram
      O proprio olhar de Deus!

      O ceu, mal vens n'aurora,
      Mais alva que a alva l,
      De purpura colora
      As faces de manh!

      A Terra, envolta em galas,
      Mais bella que as Huris,
      Reveste-se de oplas,
      De perolas e rubis!

      As aves innocentes,
      Sentindo o teu fulgor,
      Gorgeiam, de contentes,
      Seus canticos d'amor!

      Os lyrios junto s fontes,
      Perdendo o teu claro,
      As suas lindas fontes
      Inclinam-se para o cho!

      Eu mesmo, se em verdade
      Sonhei, com Jesus,
      O bem da Humanidade,
      A Ti o devo oh Luz!

      Oh candida alegria!
      Espirito de Deus,
      Que animas noite e dia
      A Terra, o mar, e os ceus,

      Adoro-te portento!...
      E a Ti levando as mos,
      Como ante o sacramento!
      Os simplices christos!...

      D'esta alma s o esteio!
      Que a tua essencia pura
      Ampare-me no meio
      Da minha desventura!...

      E quando a morte um dia
      Roubar aos olhos meus,
      A esplendida harmonia
      Que formam Terra e ceus:

      Seguindo prasenteiro
      A lei que me conduz,
      Meu grito derradeiro
      Ser por ti oh Luz!


III

AO SOL!

      Oh maravilha esplendida engastada
      Na fronte augusta do azul profundo,
      Qual lamina brilhante onde gravada
      Se visse a face de quem fez o mundo,

      Eu te saudo oh Sol? qual religioso
      O Indio quando viu a vez primeira
      Surgir do mar teu facho luminoso
      E alegrar com a luz a terra inteira!

      Ah! quiz cantar o brao omnipotente
      Que por ns trabalhava a cada instante:
      E a terra, o mar, e quanto vive e sente,
      Apontou para Ti, astro brilhante!

      Possam teus raios que nos ceus se expandem
      Ricos da gloria e cheios d'alegria,
      Fazer com que do peito meu debandem
      As sombras da tristeza que trazia,

      E ouve-me um canto alegre como o cro
      Das aves quando, envolto em magestade,
      Tu transpes do oriente as portas d'ouro
      E abenoas dos ceus a Humanidade!

      Oh astro, corao tres vezes santo,
      De cujo seio foi por Deus emmerso
      O movimento e a vida e tudo quanto
      Forma hoje a harmonia do Universo!

      Ouvi louvar-te, num concerto vario,
      Montanhas, mares, flres e arvoredos,
      Que do meu peito, como d'um sacrario,
      Confiaram seus intimos segredos!

      Louvam-te as aves; louvam-te as creanas,
      E os velhos que no teem fogo nos lares,
      Buscando a doce luz que tu lhes lanas,
      Como a imagem de Deus junto aos altares!

      Louva-te, oh Sol! a terra a quem quizeste
      Por tua esposa, na epocha sombria,
      Em que de crepe a abbobada se veste,
      Lacrimosa chorando noite e dia;

      E os jubilios e os mil festes de gala
      Com que cingio de noiva delirante
      A casta fronte, quando a enamoral-a
      Sentiu de novo o teu olhar brilhante!

      Oh Sol! oh Sol! a minha lingua  pobre
      Para cantar-te em verso o quanto vales
      Perante as maravilhas que descobre
      A vista humana por montanha e vales!...

      Desde o negro carvo que o fogo ata
      Ao cdro altivo que no mundo avulta;
      Desde o meu sangue  luz da minha ida:
      Por tudo existe a tua essencia occulta!...

      Hostia de luz esplendida, patente
      Perante os povos em perpetua missa!
      Tu, que s de Deus o espelho resplendente,
      Throno de gloria e sde de Justia:

      Se apagares nos ceus teu facho enorme,
      Suspensa a vida no labor interno,
      Tu vers como a terra logo dorme
      Entre as sombras da noite um somno eterno!...

      Seja pois o meu canto um desafogo
      Da nossa gratido, astro, jocundo!
      Corao formosissimo de fogo
      Que em nome do Senhor ds vida ao mundo!

      E prosegue no carro flammejante
      A derramar teus bens por mundos novos,
      Que emquanto vs na marcha triumphante
      Infindas tribus d'animaes e povos:

      Eu, deslumbrado ainda com os vestigios
      Da tua luz, de tantas coisas bellas,
      Louvarei o author de taes prodigios
      Sob esse manto esplendido d'estrellas!

Lisboa, 1872.


IV

AO MAR!

      Senhor! eu canto o mar, que no psalterio
      D'esses orbes de luz que alm se avista,
      Com a vz d'um tristissimo psalmista
      Teu nome ousa louvar no espao ethereo!

      Canto o apostolo, o mestre da Verdade,
      Que, aprendendo de ti altos segredos:
      Contra os negros tyrannos dos rochedos
      Vae prgando o sermo da Liberdade!

      Ah cuja grande vz, d'alm do abysmo,
      Apraz-me ouvir por noite tenebrosa
      Imponente crescer, bramir raivosa
      D'encontro  rocha onde eu medito e scismo!

      Eil'o sempre n'aquelle arfar profundo,
      Em lucta collossal, guerra infinita,
      Contra o sopro do ceu que eterno o agita,
      Desde o dia em que Deus o trouxe ao mundo!

      Se tudo quanto ahi  luz se cria,
      Tudo trabalha mas descana e dorme,
      Porque anda sempre oh mar, teu seio enorme
      N'essa lucta cruel de noite e dia?!

      Em ancia egual s tenho a comparar-te
       marcha d'esses mundos que o Senhor
      Tornou em coraes do seu amor,
      Para a vida accordar por toda a parte!

      Tu s o irmo dos astros; s da Terra
      O immenso corao profundo e triste,
      Que eterno off'rece a vida a quanto existe,
      Co'o auxilio do Sol, que tudo encerra!...

      Ah muito seja embora o desgraado,
      Muita a miseria occulta n'esse abysmo,
      Desde as scenas do horrivel cataclysmo,
      De que resam as biblias do Passado:

      Eu vejo em ti o pae dos pobresinhos,
      A quem nada deixando as leis avaras,
      Tornas-te-lhes os peixes em cearas,
      Para matar a fome a seus filhinhos!...

      O eterno confidente de infelizes,
      De quem pareces ser to grato espelho,
      Que servindo para elles d'evangelho,
      Eu no sei que palavras tu lhes dizes,

      Que fico ahi por tempos esquecidos,
      To preso a escutar-te a voz das aguas,
      Que obtenho acalmar a dr s magoas
      E adormecer meus males to compridos!...

      Oh! mar! oh! mar! quando eu a ss medito
      Nas rochas sobre os pincaros calado,
      Recorda o teu rumor cadenceado
      Um pendulo suspenso no infinito!...

      Harpa de Deus exposta aos quatro ventos,
      Onde o sopro, que a vaga  vaga impelle,
      Descanta harmonioso um hymno quelle,
      Que a terra e os ceus encheu de mil portentos!...

      Quer a colera accesa da tormenta
      Te divida em terriveis multides
      De tigres, de pantheras, de lees,
      Rugindo em cada vaga que rebenta;

      Quer oua pelas algas verde negras,
      E as praias solitarias onde eu choro...
      Cantar o teu amor em vasto cro
      De rolas, rouxinoes ou toutinegras:

      Ou fera ou pomba, egual amor me ata
      O teu gentil amor e altivo orgulho,
      Quando este arroja  praia o pedregulho,
      E aquelle as lindas conchas lhe semeia!...

      s sempre o mesmo! s sempre o grande amigo,
      Sobre cuja espantosa immensidade
      Vejo passar o sopro da Verdade,
      Da doutrina de Deus, que adoro e sigo!

Buarcos, 1869.


V

S NUVENS

      Vapores que em vistosos cortinados
      Armaes dos ceus o templo de safira
      Com purpura e finissimos broxados,
      Sde hoje o assumpto para a vz da lyra!

      Que eu quero ter a intima certeza
      Que, antes da hora da fatal partida,
      A minha alma no mundo fica preza
      s coisas bellas que adorei na vida...

      Horas felizes que ainda hoje eu passo,
      Pelas tardes calmosas do vero,
      Seguindo-as uma a uma pelo espao,
      Dizei s nuvens se eu as amo ou no!...

      Eu que vou pelo mundo imaginando
      Vises sobre vises, sempre illusorias:
      Comprazo-me em vos vr de quando em quando,
      Frmas aereas, sombras transitorias!...

      Vs que nas tardes e manhs amenas,
      Passando como timidas deidades,
      Deixaes os ceus juncados d'aucenas,
      D'alvos jasmins e rxas saudades;

      Vs que andaes presurosas, fugitivas,
      Os ceus cruzando n'um lidar constante:
      Sorris-me como as multiplas missivas
      Que envia ao Sol a Terra sua amante!...

      Imagens lindas d'um amor jocundo,
      E espectros negros d'intimos rancores,
      Do grande corao que agita o mundo,
      O mar, que tem como eu paixes e amores!...

       tarde quando o Sol, cratera ardente,
      Vae prestes a apagar-se e, em desafago,
      Inflamma as grandes portas do Occidente
      E faz da terra e ceus um mar de fogo:

      Ah! deixo os olhos espraiando a vista
      Pelos paineis de mil preciosidades,
      Aonde desenhaes, com mos d'artista,
      Em telas d'ouro olympicas cidades!...

      E agora so rochedos e campinas!...
      Fulvos lees e timidas gazellas!...
      E logo apoz castellos em ruinas,
      Vises d'amor, phantasticas donzellas!...

      Umas vezes so guerras estrondosas,
      Luctas crueis d'impavidos gigantes,
      Onde ha rios de sangue e pavorosas
      Sombras de heroes, e incendios fumegantes!...

      E outras vezes, ento, nuvens ligeiras,
      Convertei-vos em lyrios e violetas,
      Em acacias floridas e palmeiras,
      E em vultos de Romeus e Julietas!...

      E eu amo a nuvem negra que imponente
      Abre nos ceus a fulgida garganta,
      E vomita do seio o raio ardente,
      E com elle o trovo que o mundo espanta,...

      E a pudibunda nuvem d'alvorada
      Quando, ante o Sol esplendido que assoma,
      Parece virgem pura e delicada,
      Branca de neve com dourada coma!...

      Oh nuvens que passaes no firmamento,
      Bandos aereos d'illuses perfeitas!...
      Vs que to lindas sois, e n'um momento,
      No cho cahis em lagrimas desfeitas!

      Quando vos vejo pelo azul profundo,
      Voluptuosas, gentis e transparentes:
      Lembraes-me os sonhos que lancei ao mundo,
      Como um bando de pombas innocentes!...

      Bem mais felizes vs, que, n'um momento,
      Passando aereo fumo em valle e serra,
      Levaes comvosco, a vida, o movimento
      De quanto nasce e vive sobre a terra!...

      J no assim meus sonhos, muito embora
      Levem comsigo as novas do futuro:
      So nuvens bellas d'esplendente aurora,
      Desfeitas sobre um cho ingrato e duro!...

Carvalhaes, 1873.


VI

S FLORES

      Eu venho-vos cantar, mimosas flres,
      A vs irms da luz, gentis e bellas,
      Do cho que piso vvidas estrellas,
      Com mil perfumes, mil viosas cres!

       vossa encantadora companhia,
      Toda cheia de graa e de candura,
      Eu devo em parte a luz serena e pura
      Do amor, que meu espirito allumia!...

      Cercando-me dos vossos esplendores,
      Nos quaes eu pasto dia e noite a vista,
      Consigo converter meu lar d'artista
      N'um Louvre de riquissimos lavores

      Em porphirio, alabastro, em prata e oiro,
      E em fulgidos setins!... Primores d'arte,
      Por onde o Artista Maximo reparte
      Co'os olhos meus bellissimo thesouro!...

      Entre ns no ha festas verdadeiras,
      No templo, no palacio ou na choupana,
      Que em todo o gro matiz da vida humana,
      Prescindam de vos ter por companheiras!...

      Ninguem na Terra vos disputa a palma
      D'expor, com fidelissima justeza
      De cr e frma, cheias de belleza,
      Os varios sentimentos da nossa alma!...

      A timida donzella, ingenua e pura,
      Temendo-se dos bens que ella imagina,
      Nas petalas da candida bonina
      Procura lr seus sonhos de ventura!...

      Com finas mos, as pallidas Ophelias,
      Por darem mais realce aos fios d'ouro
      Das bastas tranas: seu cabello louro
      Adornam com alvissimas camellias!

      Afim de se dizer  bem amada
      Do intenso amor o rapido delirio:
      Da rosa pudibunda ou branco lyrio
      Se faz missiva pura e perfumada!...

      Os tristes na viuvez, e na orfandade,
      Roidos por uma intima amargura:
      Desfolham na chorada sepultura,
      As petalas do lyrio e da saudade!...

      Eu mesmo, que do publico debando;
      Dos mortos devorciado, e alheio aos vivos:
      Se vejo d'entre sonhos fugitivos,
      Abrirem-se-me os ceus de quando em quando;

      Suppondo em vida os povos numerosos,
      Unindo-se em espirito e verdade,
      Viverem ante Deus e a Humanidade,
      Como irmos, solidarios, venturosos;

      E encontro, em torno s candidas chimeras,
      Crueis dissiluses por toda a parte:
      Em guerra os homens, a virtude e a arte
      Sem o fogo sagrado d'outras eras...

      Oh minhas flres! viva embora eu triste,
      Que as vossas serenissimas imagens
      Conseguem libertar-me das voragens
      Com quanto bello na minha alma existe!...

      Ah quando caio e vejo das miserias
      Cavar-se aos ps um sorvedoro infindo:
      Seguindo as esperiaes d'um sonho lindo,
      Por vs remonto s regies ethereas!...

      Em horas de fraqueza, horas mofinas,
      Se eu ouso vos fitar, sinto na face
      Um subito rubor, qual se me olhasse
      Deus Pae, sob essas formas peregrinas!...

      Urnas santas, a mim que deposito
      No vosso olr subtil e perfumado
      As scenas mais gentis do meu passado,
      Perdidas para sempre no infinito!...

      Deixae que em testemunho da verdade:
      Do muito que vos quiz e amei na vida,
      Como echo da minha alma agradecida,
      Meu canto o atteste  luz da eternidade!...

Carvalhaes, 1870.


VII

 ARVORE

      Quando contemplo em paz teu nobre vulto
      Erguido aos ceus: envolto em verde manto,
      Supponho contemplar um justo,... um santo,...
      Um pae,... um Deus,... algum mysterio occulto!...

      Ha no sei bem que fora em mim to forte,
      No sei que grande instincto inabalavel
      A levar para quanto  bello e estavel
      Esta alma, para quem s Deus  norte,

      Que em ti, oh me, em ti achei guarida...
      A tua sombra off'rece a paz e a esperana
      A quem no mundo  triste e em vo se cana
      Para aos ceus dirigir a propria vida!...

      Quantas vezes em horas d'agonia,
      Que deixavam meus olhos rasos d'agua,
      Eu no deixei ficar-te aos ps a magoa,
      Buscando tua sombra noite e dia?!...

      Quantas horas fitando os ceus pasmado
      Eu no passei, deixando o olhar suspenso
      N'aquelle vasto seio azul e immenso,
      Do verde de teus ramos marchetado?!...

      De dia, quando o Sol aquece o mundo,
      E os entes se propagam, nascem, crescem;
      De noite quando os astros resplandecem
      N'aquellas solides d'um mar sem fundo:

      Se  tua sombra estou, sinto n'esta alma
      Cair da doce cr que o Sol te veste,
      Da paz que tens, o balsamo celeste
      Que em meu peito as paixes serena e acalma!...

      Ou quando o vento chega, e eu no sei d'onde...
      E passa sobre ti, murmura e canta,
      E eu olho e nada vejo, e a f mais santa
      Me leva a crer no Deus que o mundo esconde;

      Ou quando  noite, n'um propicio agouro,
      As estrellas dos ceus que mais fulguram
      Das pontas dos teus ramos se penduram
      Como ideias de Deus em fructos d'ouro:

      Amo-te muito e muito, e no me admira,
      Quando tu  minha alma um Deus revellas
      E lhe mandas um hymno em que as estrellas
      So as notas, e a tua coma a lyra!...

      Oh arvore! no amor que a Ti me prende,
      Confesso ao mundo haver bem mais lucrado,
      Que em muito livro d'ouro encardenado,
      Que ahi se espalha e muita gente aprende!...

      Se eu vira, como os fructos dos teus ramos,
      D'entro d'esta alma abrir-se a flr da ideia
       luz deste ideal que em ns se ateia
      Para que ns do mal ao bem subamos;

      Se s novas geraes, no meu psalterio,
      Cantar podesse a nova luz que assoma,
      Como os orgos da tua verde coma
      Lanando a vz de Deus no espao ethereo;

      Se eu fora como tu viver piedoso,
      E a qualquer desgraado e pobre amigo
      Offerecer no meu seio o mesmo abrigo,
      Que estende sobre o ninho o ramo umbroso;

      Se eu conseguisse, emfim, levar meu dias,
      Perante o mal que sempre me acompanha,
      Como a arvore sonora da montanha,
      Que descanta ao soprar das ventanias:

      S assim chegaria um dia a ser
      O espirito sereno, sabio e justo,
      A que deve aspirar, a todo o custo,
      O Senhor da Raso, que pensa e quer!

Bussaco, 1869.


VIII

 TERRA

      Oh Terra, Virgem me da Humanidade,
      Pelos fructos que ds eu te bemdigo!
      Cheia de graa e cheia de bondade,
      O espirito de Deus seja comtigo!

      Tu que s do Sol a esposa immaculada,
      Que entre perfumes, canticos e flres,
      Passas no azul dos ceus, virgem coroada
      Com o candido mimbo dos amores:

      Como escuta piedosa a me seu filho,
      E d'elle acceita o mais pequeno objecto,
      Ouve a harpa d'esta alma onde dedilho
      Por ti um canto d'entranhado affecto!

      Um canto aonde a propria naturesa,
      Em cujo seio o astro meu se inspira,
      Reflecte o seu conjuncto de belleza,
      Unindo a eterna vz  vz da lyra!

      O mar que te circunda a fronte bella,
      Que espelha ao longe a luz que o Sol t'envia;
      Te muda a negra crosta em linda estrella,
      E d-te um canto cheio de harmonia;

      E o subtil pingo d'agua onde escondes-te
      D'inquietos vibries um mar profundo,
      To vasto como a abbobada celeste,
      Contendo a tantos como os soes do mundo;

      A arvore a prumo erguida ao firmamento,
      Posta por Deus na paz a mais completa,
      Quando, ao passar-lhe o espirito do vento,
      Descanta como a harpa d'um propheta:

      E a semente da flr, qual gro d'areia,
      Que, inerte, fria, escura e pequenina,
      Contm as pompas da divina ideia:
      O lyrio branco ou a rosa purpurina;

      O leo, implacavel creatura,
      Quando a victima arrasta inda arquejante
      Tinto de sangue, offerta-a com ternura
       lea parida, sua amante:

      E a indefeza timida ovelhinha,
      Entre as flres gentis do verde prado.
      Meiga balando  me que se avesinha,
      Por dar-lhe o leite doce e perfumado;

      A aguia quando solta a envergadura
      Das largas azas pelo azul do espao,
      E, em marcha triumphal, a enorme altura
      Passa nos cus sem lucta, e sem canao;

      E a crysalida que abre  luz do dia
      Do involucro o sedifero thesouro,
      E, nos enlevos d'intima alegria,
      Expande  luz do Sol as azas d'ouro:

      Quanto, emfim,  teu filho a mim me pede,
      Que em nome d'elles eu te louve e cante,
      Suppondo achar n'esta alma o centro, a sde,
      O altar, de quanto o Sol lhe pe diante!...

      Oh minha me! a magua me entristece
      De que Deus, cujas dadivas divide
      Por tanta gente, a mim me no cedesse
      Para cantar-te a harpa de David!...

      Dos proprios paes e estranhos mal tratado,
      Fui pr-me  tua sombra hospitaleira,
      E em teu seio de me abenoado
      Achei d'esta alma a patria verdadeira!

      No sei como surgio o homem na terra!...
      No sei onde os meus sonhos se dirigem...;
      Mas quanto bello e bom minha alma encerra,
      Em ti encontra a perenal origem!...

      Quer sobre os cumes dos altivos montes,
      Quer  sombra dos vales verdejantes;
      Quer oua a meiga vz das claras fontes,
      Quer as furias das ondas espumantes:

      Por onde quer que eu v, minha alma sente
      Cercal'a to solicito cuidado,
      Que quanto me concebe um dia a mente,
      Encontra sempre em ti o objecto amado!...

      Por isso, embora eu viva como o paria
      Junto s margens do Ganges crystalino,
      Levando vida incerta, rude e varia,
      Entre os baldes d'um impobro destino:

      Vivo entre flres, musicas e festas,
      Tendo por luz suprema o pensamento;
      Por palacios as mrmuras florestas,
      E alampadas os soes no firmamento!

      Por orchestras as musicas plangentes
      Que geme ao longe o mar no captiveiro,
      Com os concertos das aves innocentes,
      E os murmurios do limpido ribeiro!

      De manh, com os crystaes do fresco orvalho,
      Fulgentes scintiliando  luz do dia,
      Pisam meus ps, riquissimo trabalho,
      Tapetes de preciosa pedraria!

       tarde, quando o sol deixa as alturas,
      Qual Vinci, Miguel Angelo ou Ticiano,
      Pes-me nos ceus esplendidas figuras,
      Como eguaes as no tem o Vaticano!...

       hora em que  dado o somno acoite
      Em doce paz meu corpo fatigado,
      Desdobras-me sobre elle o veu da noite,
      De fulgidos brilhantes recamado!...

      E quando, emfim, entrar na noite fria
      Do tumulo, onde nada se condemna,
      Do meu cadaver tirars um dia
      O branco lyrio e a pudica aucena!...

      Taes os bens que offertas-te s almas ternas,
      Simples, crentes em Deus, ideal fecundo...!
      E ds-lhes n'estas coisas ss e eternas
      Bem mais riquezas do que aos reis do mundo!...

      E assim vaes entre os soes deixando o aroma
      Dos ineffaveis dons da Providencia,
      Como exhala riquissima redoma
      Em dourado salo a fina essencia!...

      Oh Terra, Virgem me da Humanidade,
      Pelos fructos que ds eu te bemdigo!
      Cheia de graa, e cheia de bondade,
      O espirito de Deus seja comtigo!

Carvalhaes, 1870.


IX

AOS ASTROS!

      Quando ergo  noite os olhos scismadores
       cupula do ceu, cheia de mundos,
      E perco-me nos pramos profundos
      D'um mar sem fim de tremulos fulgores:

      O ceu, qual templo levantado  Vida,
      Armado de riquissimo thesouro,
      De par em par descerra as portas d'ouro,
      E attrae a si minha alma embevecida!...

      Chovem-me ento das cellicas alturas,
      Das luminosas, candidas estrellas,
      Vises sublimes, ideaes e bellas
      Da Causa que deu o ser s creaturas!...

      Amor as fez, Amor no espao as guia!...
      E  sob o influxo d'esta Lei Suprema,
      Que cada qual realisa o seu problema,
      Preso ao das mais em intima harmonia!...

      Sim, cada estrella, vmol'o sem custo,
      Sendo dos ceus bellissimo ornamento,
       um centro de vida e movimento
      Posto ao servio d'um principio justo!...

      Por todo o ethereo azul da immensidade,
      Dos soes sem fim a fulgida colmeia,
      Trabalha em traduzir, na humana ideia,
      De Deus a perfeio, toda bondade!...

      Oh cupula celeste, no teu seio
      Aprendo a ler em paginas de fogo
      O espirito das coisas que interrogo
      Por toda a parte, e em cuja essencia creio!...

      Tu, co'o teu docel azul sem fundo,
      Cheio de fogos d'alma claridade,
      Em multipla e febril actividade;
      Sorris-me como a fabrica do mundo;

      O vasto pavilho onde  servida
      Em mesas d'ouro, festivaes e bellas,
      N'esses milhes de esplendidas estrellas,
      A eterna comunho dos Bens da Vida!...

      Permitte, pois, que em s fraternidade,
      Reunindo os habitantes d'esta esphera
      Aos que ha em ti, minha alma, s e austera,
      Sade a me commum==a Humanidade==;

      E adore,  luz dos fachos sempre novos,
      Do teu santuario, o espirito fecundo
      De Deus, Supremo Bem, que ampara o mundo,
      Inspira as almas e dirige os Povos!...

      E emquanto a vida vae em seu caminho,
      Por entre o dia claro e a noite escura,
      Conserva intacta esta alma crente e pura,
      Porque possa voltar ao patrio ninho!...

       luz da minha critica profana,
      A Lei Suprema, que de Deus deriva,
      Eleva aos soes, em marcha progressiva,
      De virtude em virtude a alma humana!...

      Se duvidas tivesse, a f e a esperana
      Levavam em contrario a vida minha,
      E a bussola, que ignora onde caminha,
      Segue o seu norte e d'elle emfim descana!...

      Astros sem fim, oh soes que estaes por cima,
      Longe da Terra, em regio mais pura!
      Deixae que o corpo desa  sepultura
      E a vs se eleve o espirito que o anima!

      O irmo da Luz, o amante da Verdade,
      Hade ir, deixando o envolucro que veste
      Como hospede da abbobada celeste,
      Internar-se feliz na immensidade!...

      Astros! egual  a lei que nos governa!
      Na Terra, o nosso espirito fecundo
      Penetra nos reconditos do mundo,
      E vive como vs a Vida Eterna!

Beselga, 1872.




NOTAS ELUCIDATIVAS


A DEDICATORIA

No nosso periodo academico, que decorre de 1859 a 1866, e no que se lhe
seguiu de 1867 at ao anno de 1874 em que nos casmos, mantivmos
estreitas relaes d'amisade com algumas familias historicas da
provincia e da capital, onde eram ainda vivos os aggravos, e numerosas
as queixas, contra as violencias e as vinganas politicas que, de parte
a parte, precederam, acompanharam e seguiram o triumpho das armas
liberaes, na guerra chamada dos dois irmos, D. Pedro IV e D. Miguel I.

A nossa substancial e nunca desmentida tolerancia para com as crenas e
as opinies dos outros, derivada do Ideal de Justia de 1789, que
seguimos desde os bancos da Universidade com inquebrantavel f e
ininterrupta dedicao, e o quasi fanatico respeito pela inviolabilidade
do lar, permittiram-nos estudar na vida intima d'aquellas familias
illustres, a transformao profunda que se operou nas crenas, usos e
costumes d'este povo, celebre entre os mais celebres da Historia.

Tivemos a infinita ventura de conhecer deperto, nas suas melhores
origens, as mais bellas joias da alma portugueza, de que o corao da
mulher foi, , e ha de ser sempre o fiel relicario e transmissor! D'ahi
em grande parte a nossa confiana na misso d'este povo heroico, nos
destinos dos outros povos, quando para todos brilhe e impere um novo
Ideal de Justia e em nome d'elle sejam banidas as paixes, quer
religiosas quer politicas, das regies augustas e serenas da Lei e do
Poder.

D'essas familias destacaremos a de Silva Gayo, o glorioso author do
_Mario_, casado com D. Emilia Paredes, filha do Conselheiro Cunha
Paredes, Juiz do Supremo Tribunal de Justia, aquelle um vibrante e
eloquente protesto contra os excessos de demagogia, ou clerical ou
pleba, de que o citado livro  um bellissimo documento; seu sogro um
dos homens bons e ponderosos que partilharam e serviram o movimento
liberal.

A familia de Luiz Monteiro Soares d'Albergaria, casado com D. Ludovina
da Silva Carvalho, filha do celebre ministro de D. Pedro IV, senhora de
excepcional illustrao, que conhecia a fundo o seu tempo, e sobre elle
descorria com conhecimento de causa.

A familia Osorio, da quinta das Lagrimas, e a da Graciosa, representando
ambas o elemento so da aristocracia portugueza que se pronunciou pelas
liberdades e franquias patrias, e onde me foi dado admirar os requintes
da educao antiga, no que ella tinha de altruista e de bom, segundo o
verdadeiro espirito evangelico.

A familia do bacharel em direito Manoel Rois Salgado, de Carvalhaes,
filho de lavradores remediados da poetica regio da Bairrada, liberal
convicto, implacavel inimigo da intollerancia religiosa e das tyrannias
politicas do tempo dos caceteiros de D. Miguel e dos Cabraes.

Era sua esposa uma senhora de origem e tradies legitimistas, D. Anna
de Vasconcellos, que muito soffrera com a guerra dos dois irmos!... Sua
alma piedosa, delicada e poetica, sobreelevou a todos, e nos fez
conhecer de perto, com quotidianos exemplos de bondade, a excellencia
das doutrinas do Evangelho, quando postas em pratica, com f e pureza de
corao.

A familia de Manoel Maria da Silva Bruschy, d'esse grande moralista,
philosopho e jurisconsulto que foi um dos luminares da Jurisprudencia
patria e quem nos dirigiu os nossos primeiros passos na carreira
forense.

Era elle um dos mais authorisados e prestigiosos representantes do
legistimismo, e quem nos forneceu informaes curiosas sobre
muitos pontos obscuros da guerra civil, e sobre motivos secundarios, que
contribuiram para o triumpho das armas liberaes.

Nas mesmas condies de saber, de corao e de espirito, mas n'uma ordem
de ideias oppostas s de Silva Bruschy, mencionaremos ainda o general
Luiz Flippe Folque, conselheiro de estado, mestre que tinha sido dos
reis extinctos D. Pedro V e D. Luiz I, e que foi quem acompanhou e
dirigiu o primeiro d'estes dois monarchas na sua viagem d'instruco e
recreio pela Europa.

Era um perfeito homem d'estado, modesto, erudito e tolerante para com
todas as opinies. Devemos a seu genro o Conde de Nova Goa, nosso velho
e dilecto amigo, a convivencia com este perfeito homem de sciencia, de
cujas lies colhemos muitos elementos de ponderao para formarmos
juizo imparcial e seguro sobre a historia dos partidos politicos em
Portugal.

Resta-nos mencionar nosso sogro, o general de diviso, Roque Francisco
Furtado de Mello, que foi juiz do Tribunal Superior de Guerra e Marinha,
que se orgulhava de ter feito as novas campanhas da Liberdade, e sua
sancta esposa D. Maria Maxima de Berredo, filha d'um dos regeneradores
do movimento revolucionario de 1820.

Ambos tinham sido victimas das guerras civis desde o cerco do Porto e
ambos soffreram, com suas familias, as mais crueis perseguies dos
sequazes do absolutismo em Portugal.

Para inteiro esclarecimento, ainda diremos que alguns dos nossos
parentes, tanto do lado paterno como do materno, eram legitimistas
convictos, que se achavam destituidos das honras e benesses do antigo
regimen, e que protestavam contra a nova ordem de coisas.

Tal foi o meio social em que nos achmos ao sahirmos do lar paterno.

A nossa posio singularmente favorecida n'este conflicto de interesses
historicos, tendo tido a coragem de evolucionrmos em nome da sciencia,
e sob a influencia dos espiritos mais cultos da epocha, para o regimen
da democracia pura, que melhor chamaremos do Direito Humano, inaugurado
com a proclamao dos Direitos do Homem, em 1789; a excepcional ventura
de conquistarmos para a sinceridade das nossas crenas a tolerancia dos
nossos competidores, tudo isto concorreu para nos fortalecer no Ideal
d'um novo Direito, d'uma Nova Justia, d'uma Nova Moral, de que
este livro  um modesto precursor no campo da poesia patria.

No podiamos deixar por isso de o consagrar  memoria inolvidavel
d'essas venerandas creaturas, quasi todas hoje extinctas... s almas
d'eleio que tanto fortaleceram as nossas creanas na bondade e na
virtude humana.

Por outro lado pertencendo pela educao que demos a ns mesmos,
destruindo pela base a que recebemos no bero, aos homens de genio e de
f, que espalharam pelo mundo os principios revolucionarios de 1789 e
tentaram as primeiras applicaes praticas aos problemas pendentes da
humanidade, e genios em que havia poetas como Lamartine e Hugo, musicos
como Beethoven e Ricardo Wagner, economistas como Bastiat, publicistas
como Proudhon, historiadores como L. Blanc, philosophos da grandesa e
originalidade de Quinet e Michelet, cujos ideaes de justia e d'amor nos
conquistaram e nos acompanharo at  morte: comprehende-se que em nome
d'elles no ponhamos hoje a nossa f e a nossa esperana sobre a
regenerao do Mundo nas geraes actuaes, incredulas, scepticas, e
devoradas pela febre do ouro e do goso!

N'este actual periodo historico, que  todo de negao, sem ideaes
definidos, e cheio de convenes, de hypocrisias e mentiras, cujo estado
pathologico foi magistralmente descripto por Max Nordau no seu livro
celebre _Les Mensonges conventionelles de notre civilisation_,  natural
que no encontrem echo estes nossos CANTOS, nascidos d'uma grande fe no
futuro da Humanidade!

So quasi todos uns modestos preludios, uns gorgeios ainda incertos,
d'uma nova alvorada, e por isso os consagramos s geraes que ho de
ter a ventura de ver em plena claridade o dia de que apenas distinguimos
os primeiros pronuncios nos horisontes do futuro e da patria.


O QUE EU VI

Paginas 1 e 2

Esta poesia  uma das quatro ou cinco d'esta colleco que j foram
publicadas. No podemos verificar n'este momento, por falta de tempo, em
que jornal litterario e em que data o foi.

Pode dizer-se que  o prologo e a synthese de todo este livro de CANTOS.
Pode at mesmo servir d'explicao ao sentimento religioso que se accusa
to accentuadamente em quasi todos os nossos trabalhos poeticos.

Como d'ella se deprehende o _Deus_ a quem nos referimos est
completamente fra dos moldes das religies revelladas, dos ergastulos
da f dogmatica.  o Pae da Vida, a Fonte do Amor, o Deus da Natureza.

 como que o symbolo que personifica a Perfeio Absoluta; o Ideal do
Universo; A causa primaria de todo o existente; O sol vinificador das
consciencias e dos mundos.

 a Belleza,  o Amor,  a Justia, a que tudo obedece, levados ao
maximo grau d'intensidade que  dado  razo humana attingir n'um
determinado cyclo historico, e que, como tal, illumina as consciencias,
dirigindo-as!...

Para todo o corao terno, para toda a alma de artista, ser sempre
imprescindivel antepr-se ao espectaculo magnificente e deslumbrador do
Universo,  marcha triumphal da Luz e da Vida por toda a parte
penetrando nos ultimos reconditos do mundo visivel e invisivel, e sem a
interrupo d'um s instante na sequencia incalculavel dos seculos,
tirando de l as maravilhas da natureza, antepr-se, dizemos, um mundo
moral com as paginas infinitamente bellas das civilisaes j extinctas;
um mundo que synthetise todo o Ideal da Humanidade. E, n'esse Mundo
Moral, Deus  o _Ser por excellencia_, a chave insubstituivel do
multiplo e mysterioso Problema da Vida.

Nas insondaveis e invisiveis regies da consciencia humana, o
mundo exterior, que  o reflexo, a continuao, o complemento do mundo
interior, encontra n'este, como outros tantos _Ideaes da Perfeio
Suprema_, as Leis da Vida, que actuam imperturbaveis, omnipotentes e
eternas.

Para este Mundo Moral, para este Mundo das Almas, Deus  pois a
personificao d'essas leis e como tal o Ideal Supremo.

No cremos possivel arrancar-se da natureza humana, deturpando-a,
qualquer das suas foras immanentes, e no numero d'estas foras devemos
suppr a religiosidade, isto , o sentimento de respeito por um Poder
superior, causa primaria, ponto de partida, iniciao e justificao de
todo o existente, de tudo quanto vmos e sentimos.

E para ns uma utopia impraticavel, e nociva  soluo dos actuaes
problemas da humanidade, o querer-se substituir o Ideal vivo e amoroso
de Deus pela synthese fria e inanimada da sciencia, assente
exclusivamente em factos demonstraveis!...

Em primeiro logar as sciencias positivas, pondo fra da sua esphera
d'investigao, e muito bem, a Causa Primaria das cousas, no podem
aspirar a resolver os problemas da consciencia e do corao, e a fazer
calar as imperiosas interrogaes da sua voz interior!...

Em segundo logar, todas as sciencias assentam, por ora, em meras
conjecturas, em, alis engenhosas e bem concebidas, hypotheses, que como
taes em tempo algum podero satisfazer a ancia infinita de nosso
espirito em tudo devassar e saber, e ninguem nos pode affirmar que
amanh no sejam substituidas por novas hypotheses, melhor concebidas e
expostas.

Em terceiro e ultimo logar, o povo e a mulher, isto  os obscuros, os
simples, os que trabalham, os que soffrem e os que amam, que so quasi,
por ora, a humanidade inteira, no poderiam suspender as reclamaes do
seu corao e do seu espirito,  espera que os sabios lhes desvendassem
os segredos da natureza, e convertessem as suas verdades, chamadas
irreductiveis, n'um Ideal Supremo, que, para todos os effeitos,
substituisse a Ida de Deus a que o christianismo deu uma feio to
amorosa na interpretao larga e fecunda d'um Pae Celeste.

Quem lucra com a guerra feita ao sentimento religioso, confundindo-o com
o das religies positivas, revelladas, so os reaccionarios catholicos
e, para prova,  vr o alastramento pavoroso que por todo o
paiz se est operando nas classes ricas, e nas ultimas camadas sociaes,
sahindo-se at hoje triumphantes os que, pelas leis vigentes, pelas
tradices historicas, e pelo futuro d'este paiz, no deveriam ter c
entrado!...

O que o sentimento religioso reclama  ser derivado para novos
objectivos que mais directamente interessem e sirvam os soffrimentos
humanos, a _moral_, a _arte_, o _direito_ e a _justia_, abandonando o
sobrenaturalismo com todo o seu cortejo de phantasias, de aberraes e
de absurdos.

No dia em que a Razo se pozer d'accordo com a F, o Amor com a Justia,
ser facil  humanidade entrar na normalidade do seu distino, como
factor poderoso que , nos multiplos e interminaveis problemas do
Universo.

Em harmonia com estas idas, com o Ideal de Justia que professamos, e
de que este livro  um vehemente e sincero prego, consagrando alm
d'isso  mulher e ao povo as nossas melhores esperanas na redempo do
mundo: adoptmos para traduzirmos o nosso Ideal Supremo, esta palavra
que tem a consagrao dos seculos, as sympathias e a adheso d'aquelles
a quem principalmente visamos nos nossos CANTOS.

Sirva esta nota de explicao s poesias congeneres e complementares
d'estas, _Av Creator_ pag. 37, e o _Sursum Corda_ pag. 41 e outras.


TRISTEZA

Paginas 5 a 7.

Escrevemol'a n'uma manh de primavera na tapada d'Ajuda, quando esta no
era ainda frequentada pelo publico da capital.

N'aquelle recinto onde no entravam os rumores da grande cidade, na
benefica e imperturbavel quietao dos campos, sob uma tonalidade de
cres e de sombras d'uma variedade e doura infinitas, havia n'essa
manh um grande movimento de vida na Natureza, muitos feixes de sol a
distribuir e a combinar seus raios de ouro pelos troncos e a folhagem
das arvores, pela verdura das relvas; muitos passaros cantando em redor
dos ninhos; muitos insectos zumbindo em volta das flres.

S ns appareciamos no meio d'aquelle trecho encantador de vida
universal, com a nossa alma envolta em sombras caliginosas e, sob este
influxo, o corao a trasbordar-nos de tristezas!...

Estas derivavam d'erros proprios e alheios e faziamo-nos passar, ali,
aos olhos da propria consciencia, como um desconcerto na Vida, como uma
nodoa na creao!

Da alta comprehenso que temos da _dignidade humana_ e do papel que o
Homem e a Humanidade representam nos destinos do Universo, (V. as
poesias _Ao Homem_ e _ Mulher_), resultou para ns uma philosophia e
uma moral que so substancialmente imcompativeis com os desalentos e as
tristezas, porque alis tantas vezes os nossos dias teem sido
assaltados!...

D'ahi o nosso appello para a Natureza onde tudo est no seu logar, no
se desviando um apice da linha que lhe foi traada, no augusto e sereno
cumprimento das suas leis eternas e divinas.

Pedindo  natureza refugio e amparo para as nossas dres, lio e
exemplo para os nossos erros, n'aquelle dia memoravel entrou-nos n'alma,
como um cortejo festivo de Deus, tudo quanto em volta de ns celebrava
ali os mysterios da vida e irromperam nos dos labios ento estas
estrophes despretenciosas e taes quaes as publicamos hoje.

Pelo habito de as repetirmos longos annos, nos soliloquios com a nossa
consciencia, no nos aventurmos a alterar-lhes uma s palavra, nem uma
s virgula, e assim se explica que seja a unica poesia d'este livro com
versos soltos, rimados apenas nos versos agudos.


PRESENTIMENTOS

Paginas 8 a 18

E como uma photographia instantanea do estado da nossa alma quando,
finda a nossa carreira universitaria, tivemos de assentar arraiaes no
positivismo das coisas para havermos os meios com que se mantem o que ha
de mais imperioso: a existencia, e n'esta o que ha de mais sagrado: a
honra.

Depois d'uma mocidade ruidosa, passada no convivio de livros dos mais
celebres pensadores do seculo, e de talentos dos mais abalisados entre
os lentes da Universidade, como Antonio de Carvalho, Silva Gayo, e
Viegas; de rapazes cheios de ideaes e d'audacia, que mais tarde se
haviam de tornar celebres nas letras, como Anthero do Quental, Theophilo
Braga, Ea de Queiroz e Anselmo de Andrade, estes dois ultimos nossos
condiscipulos; n'um periodo em que todos acreditavam na transformao
completa do existente, para, abandonados de vez os velhos e caducos
moldes do mundo medieval, entrar-se definitivamente na normalidade da
vida que as sciencias dos ultimos seculos, e o direito de Revoluo, nos
garantiam: comprehende-se bem qual seria a nossa tristeza ao entestarmos
com uma sociedade, mais que qualquer outra, decrepita, incredula,
egoista e dissoluta!

Tinhamos j ento feito a nossa primeira viagem  Frana, sob o imperio
da mais desenfreada corrupo politica dos ultimos tempos, na
restaurao do Imperio por Napoleo _le petit_ e causou-nos indignao o
que abservmos de perto na cidade santa de Direito Moderno, sobre a qual
tinham raiado os inolvidaveis dias de 1789 e que fra o theatro das
primeiras e gigantescas batalhas do Povo, em nome do _Direito Humano_,
contra os thronos colligados em nome do _Direito Divino_!...

Estavamos nas vesperas da guerra Franco-Allem que todos previam como
inevitavel e de que resultou este tardio e indeciso movimento
democratico, a cuja sombra a Frana no conseguio ainda
emancipar-se completamente dos preconceitos e velharias do antigo
direito!...

Regressmos  patria com a alma mais cortada de dres de que quando
d'ella partiramos!...

A nossa interveno quotidiana na vida do Povo, pela profisso que
exercemos, o conhecimento das suas multiplas e infinitas miserias, a sua
falta de comprehenso e de energia em reivindicar os seus direitos e a
defeza da sua causa; o egoismo desenfreado da burguezia triumphante com
a sua lastimosa indifferena pelo futuro da Patria; a irremediavel
cegueira da aristocracia portugueza em no se separar das formulas j
hoje varias de sentido e exhaustas de foras, do Direito Divino,
representado no throno e no altar, direito j morto nas consciencias
pela fora da razo e da logica, antes de o ser no campo da batalha pela
fora das armas: todo este conjuncto de circumstancias adversas,
concorreu para nos entibiar a f e a esperana na realisao dos nossos
ideaes.

Ao vrmos a Nacionalidade Portugueza ha tres seculos desviada do seu
destino historico sem conseguir reatar as tradies perdidas, apesar dos
violentos abalos da natureza e dos homens para levantal'a do atoleiro em
que se deixou cahir--a libertao de Hespanha, o terremoto de Lisboa, as
reformas do marquez de Pombal, de Fernandes Thomaz, de Mousinho da
Silveira, de Passos Manuel e de tantos outros; apesar dos movimentos
revolucionarios de 1820, 1834 e 1846: chegmos a descrer do futuro
d'este povo illustre cujos destinos se acham indissoluvelmente unidos
aos nossos!...

Foi debaixo d'esta ordem de ideias sombrias que concebemos e compozmos
esta poesia.

Ella era ento, como ainda o  hoje, a expresso fiel do nosso pensar e
do nosso sentir, e, como a anterior, mantemol'a tal qual nos sahiu
espontaneamente da laborao do nosso espirito contemplativo, e sonhador.


REVELLACO

Paginas 25 a 32

Foi escripta esta poesia n'uma sexta-feira de Paixo, na quinta dos
Frades Cruzios, de Coimbra, junto ao grande lago que hoje ainda alli se
v, cercado d'um espesso e alto muro de verdura entretecido com os ramos
de cedros j hoje seculares.

A cinta feita por elles em volta do lago tranquillo  to compacta que
junto das suas margens sentimo-nos por completo sequestrados do mundo
exterior, e levados  contemplao do infinito do Ceu no finito da
Terra!...

Tinhamos assistido durante tres dias consecutivos s ceremonias
commoventes da lithurgia catholica nas festas da Semana Santa,
celebradas com pompa na Capella da Universidade.

Tinhamos ainda a alma combalida com os patheticos cantos do _Miserere_,
de Jos Mauricio, e com as retumbantes oraes dos levitas da Egreja,
lanando do alto da sua cadeira sobre as multides meio scepticas as
suas palavras de desconforto e de desesperana sobre o destino humano,
quando, fugindo a este meio deleterio e sombrio, appellmos para a
Natureza, por ser esta aos nossos olhos a Biblia da _Verdade_ e do
_Amor_, escripta com palavras vivas e eternas, que no carecem das
explicaes dos concilios Ecumenicos, para serem os verdadeiros dogmas
do nosso credo.

Alli, levantando o problema do destino humano na Terra, encontrmos
palavras d'Amor e de Justia que suppozemos dignas de consignarmos nos
nossos versos, destinados a servir, nos nossos despertenciosos e
apoucados recursos, a causa da Humanidade.

Este CANTO pela sua structura e motivo fazia parte do Livro segundo, mas
transpozemol o para aqui por conter a ideia inicial da philosophia que
presidiu a quasi todos os outros.


AVE CREATOR

Paginas 37 a 40

Esta poesia foi escripta n'um bello dia de sol, no cimo d'uma montanha,
em face d'um largo horisonte, na quinta da Beselga, que  proxima aos
memoraveis campos d'Asseiceira, onde se feriu a ultima batalha a favor
das armas liberaes. Pertence esta quinta a um dos nossos mais dilectos e
dedicados amigos, o Conde de Nova Ga.

N'esta e na dos Carvalhaes, que fica n'um dos extremos da poetica
Bairrada, e no longe do sagrado e querido Bussaco, e a que nos
referiremos na poesia _ Terra_, foi onde se passou o periodo da nossa
maior actividade litteraria.

O nosso remanso n'aquella quinta tranquilla e poetica, e a convivencia
com senhoras da mais selecta sociedade de Lisboa, que alli iam passar
parte do anno, muito concorreram para alguma das nossas mais vibrateis e
sentidas composies poeticas.

Esta  uma das que nos sahiram mais espontaneas e que melhor traduzem as
emoes da nossa alma perante o grande espectaculo do mundo, alumiado
pelo Sol e vivificado pelo Amor!


AO HOMEM-- MULHER

Paginas 57 a 65

O pensamento que inspirou estas duas poesias  como que uma synthese da
philosophia moderna, a base indestructivel d'uma nova Moral, a pedra
angular sobre que dever levantar se o templo da futura religio da
Humanidade.

 o Homem, da grande altura a que chegou a civilisao,  intensa luz de
factos demonstraveis e irreductiveis, e depois de longos seculos de
desalento e decrepitude, a readquirir a confiana em si, nas leis da
Vida, nas foras da Natureza, de que se vae apossando a pouco e pouco,
na sua misso no mundo, na integrao dos seus destinos no Universo.

 o reprobo da Religio semita, o expulso do Paraiso por decreto de
Jehovah, convertido no filho dilecto da Natureza e de Deus, no
prescrutador dos seus segredos e dos seus processos, e que hoje, senhor
do plano geral da creao, armado de recursos infinitos, esclarecido com
os fachos inapagaveis das sciencias e das artes, dispondo de thesouros
infinitos: assenta definitiva e resolutamente os seus arraiaes no
planeta que lhe foi dado para theatro da sua ideia, no paraiso dos seus
primitivos sonhos, no pantheon de sua gloria, no templo da sua nova f.

 pois o homem que se levanta, do p da terra, da cinza do seu nada que
lhe fra imposto como _labaro da vida_, para se constituir no augusto
executor da _obra divina_, n'um dos cooperadores conscientes dos
_Problemas do Universo_.

 o batalhador incansavel, o Hercules da Civilisao que, depois de ter
expurgado a Terra dos seus elementos maus para d'ella tomar posse,
pretende agora, com os fachos da Razo e do Amor, expulsar do seu
espirito os espectros das religies revelladas, as lendas da sua
meninice, e tornar-se o sabio, o forte, o luctador por excellencia.

Depois de ter conquistado o mundo pela Fora e pela Razo, pretende
agora redemil'o pelo Amor e pela Justia.

Para esta misso incruenta depe aos ps da mulher no s o seu destino,
como por instincto o fizera at hoje, mas o da propria especie, porque
foi d'ella que Deus confiou a renovao da Vida pelo Amor e a incumbiu
de nos dulcificar a existencia com os actractivos proprios do seu sexo e
os encantos que derivam da sua belleza e da sua graa.

A piedade que de ha seculos trabalha o corao humano, e que d'elle
irrompe como um arroio crystalino, vindo ora da India com as doutrinas
de Boudha, o christo do Oriente, ora da Palestina com os sonhos de
Isaias, e os evangelhos de Jesus; agora da Grecia com o espiritualismo
de Plato e de Socrates; logo apoz de Roma com as maximas e exemplos de
Marco Aurelio; mais tarde sob o Ideal de Christo, da Frana com
o rei S. Luiz e S. Francisco de Salles; da Hespanha, com Santa Thereza;
de Portugal, com Frei Bartholomeu dos Martyres e tantos outros:
tornou-se por fim a corrente caudal do Direito Moderno que j em 1789
nos sorria sob o lemma da Liberdade, Egualdade e Fraternidade, e que,
pela solidaridade das raas e dos Povos, e pela sua mutua e
indistructivel dependencia, ser a chave da todo o Problema Humano, no
novo cyclo para onde as leis historicas nos encaminham.

Como se v a Religio e a Moral mudam apenas do objectivo e de processo.

O Ideal, isto  o Bem Supremo, desloca-se das bandas do Passado para os
horisontes do Futuro, e deixa dormir sepulto nas sombras o que j foi, e
sob a condemnao d'um decreto divino, para nos apparecer, como a
columna de fogo aos olhos dos Hebreus,  frente dos individuos, das
naes e dos povos e encaminhal'os  Terra da Promisso!

Por este novo objectivo a historia da civilisao, d'harmonia com as
leis do Universo, seguir n'uma marcha no regressiva para o Passado,
como o pretendiam as religies revelladas, mas progressiva em demanda do
Ideal sonhado, Ideal que muito ao longe nos fascina como um foco de luz
intensa e impenetravel, que nos cega, e alm da qual s ha o
Absoluto--Deus.--

O homem por este novo credo deixa de ser o degredado filho d'Eva para se
constituir no artifice divino, no triumphador por excellencia! Converte
a propria historia, escripta com sangue e com lagrimas, na Biblia unica
authentica e verdadeira; no melhor estimulo da sua f; na melhor
glorificao do seu Deus.

Para que o _par humano_ se no estonteie, porm, com a propria gloria, e
no se proclame egual ou superior a Deus, como nos tempos do paganismo:
collocamos sobre a sua cabea uma Entidade que a elle em tudo o
sobreleva, que, intangivel aos seus desvarios e erros, por elle vela e
sobre elle estende a todo instante a sua aco protectora, a Virgem me
dos povos--a _Humanidade_!

No  ella nascida da phantasia dos homens, mas surge real e verdadeira,
em plena luz e cheia de gloria, das emmaranhadas e mysteriosas paginas
da Historia! A seus ps depomos, desprendendo-os das cordas da nossa
lyra, os primeiros trenos d'amor como um timido e passageiro ensaio, na
poesia que lhe consagramos de pag. 74 a 77.

Podero os defensores das religies positivas, feridos nos seus
interesses, alcunhar-nos de hereges e cobrir-nos de injurias; mas o que
jmais conseguiro  provar-nos que o homem, que tirar dos seus proprios
triumphos a glorificao do seu Deus, no se engrandea a si e ao
Creador, e no se torne por isso digno do espectaculo da natureza, onde
surgiu como um dos cooperadores conscientes dos problemas da vida!

A despeito das malidicencias d'uns, das ironias e satyras doutros, temos
f que estes CANTOS ho de encontrar sympathia e acolhimento nas almas
simples e boas, a quem os consagramos, e  quanto nos basta.


 HUMANIDADE

Paginas 74 a 77

Este CANTO  como que uma antiphona, embora ainda indecisa e pallida, em
louvor d'aquella Divindade invisivel que, ao cabo d'infindos seculos, e
a despeito dos antogonismos e odios que as religies e a politica
semeavam, soube conduzir os Povos, por mil meandos e caminhos oppostos,
 conciliao e a Paz universal, que j hoje se desenha como o ideal do
seu futuro viver!

Esta solidariedade em que todos elles se encontram perante _a soluo
d'um Problema commum_,  uma das Verdades fundamentaes que j desceram
das regies da utopia e dos sonhos para o imperio dos factos.

O prestigio da sua causa e a rapidez dos seus triumphos so taes que tem
feito em meia duzia de lustros o que todas as religies do Passado no
conseguiram n'uma serie interminavel de seculos!

A sua aco avassaladora attinge as culminancias dos mais altos poderes
constituidos! At incita o proprio auctocrata de todas as Russias a
propor s mais naes do mundo o desarmamento geral, ou pelo
menos a reduco d'essas foras terriveis, a propores que no
contrariem os interesses dos Povos, a causa do Direito, e os principios
do Justo!...

Pode at dizer-se que os mais celebres capites, Alexandre, Julio Cesar
e Napoleo, sem o pensarem e sem o quererem, se tornaram os mais
poderosos semeadores d'este Ideal da Justia Moderna![1]

At s proprias foras da Natureza, no uso que o homem d'ellas est
fazendo abrindo canaes, levantando pontes, estendendo em todas as
direces dos quatro pontos cardeaes do globo uma rede infinita de
telegraphos e d'estradas, at ellas esto conspirando para o triumpho do
novo direito!...

A sua aco omnipotente, embora indirecta, accusa-se todos os dias na
vida intestina dos povos, nos seus interesses os mais materiaes; na
organisao das poderosas companhias transantlanticas, a vapor; na
celebrao dos tratados de commercio entre todos os povos do globo; na
publicao de revistas scientificas; na realisao de conferencias e de
exposies internacionaes, onde em tudo prodomina o espirito cosmopolita
e universal dos tempos modernos!

 um levantamento das almas a que  preciso levar um Ideal
espiritualista, um objectivo religioso, um culto emfim para que se
apposse das multides e se converta nos preceitos d'uma moral pratica,
no Labaro d'uma religio universal.

Por elle um povo illustre derramou j o mais generoso do seu sangue afim
de conquistar para o mundo dos factos, com o proprio sacrificio, _a
formula juridica d'este novo Direito_; e, a despeito da guerra
desapiedada dos representantes do velho regimen, a sua doutrina penetrou
em breve no espirito de todos os codigos!

Se estas conquistas extraordinarias, chamar-lhes-hemos assombrosas, de
Civilisao Moderna se alcanaram sem o concurso das religies
positivas, que lhes foram adversas, sem o proposito dos imperantes e dos
politicos, poder-se-ha calcular: que transformao profunda e rapida nos
destinos do universo se no vae operar, quando aquella Me que
preside  sorte dos povos, e que tem estado at hoje degredada nas
regies abstractas do pensamento, tomando uma forma visivel e humana, se
constituir na soberana por excellencia, na protectora dos fracos, na
redemptora dos opprimidos, na consoladora dos que choram, na f e
esperana dos que sonham, na mensageira em fim do Creador que, tanto
quanto  permittido s foras humanas, converter em realidades as
promessas de Jesus no sermo divino da Montanha!

 prevendo o culto que mais tarde as mulheres, os sabios e os justos lhe
ho de prestar, que esboamos este cantico religioso.

Para que esta aspirao se converta na religio do Futuro basta que a
Me de Jesus, esta creao poetica e encantadora do symbolismo
catholico, avocando a si a realidade da historia, e entrando nos usos e
costumes dos povos: synthetise o espirito de novos tempos e se torne a
fiel depositaria do pensamento do Creador na Terra, a mensageira da
Verdade, a distribuidora da Justia e do Amor, a Virgem Me dos Povos.

Ento todas as antiphonas e canticos que a Egreja hoje faz entoar em
honra da Me de Jesus, sero poucos para a glorificarmos!...

      [1]Laurent nos seus estudos sobre a _Historia da Humanidade_
      demonstra  saciedade quanto estes e outros heroes foram meros
      instrumentos d'uma causa superior, a vontade de Deus, em tudo o
      que fizeram.


AO NOVO CYCLO HISTORICO--NOVA LUZ! NOVO IDEAL!

Paginas 78 a 90

Estas duas poesias so o desdobramento, a synthetisao dos CANTOS
consagrados  _Paz dos Povos_, ao _Homem_ e  _Mulher_, vendo n'estes os
principaes factores da civilisao, e  Humanidade, como typo ideal da
Verdade e da Belleza, na realisao progressiva do destino Humano.

Enviamos o leitor para o que expozmos nas respectivas notas,
porque ali lhe ser facil descortinar o systema de philosophia que se
converteu para ns nos preceitos de uma moral substancialmente humana,
verdadeira e pratica; a que se reduz no fim de contas toda a religio do
futuro.


APELLO SUPREMO--REFUGIO ULTIMO

Paginas 91 a 97

Estas duas poesias so o complemento da que publicmos a pag. 8 sob a
denominao _Presentimentos_. Foram escriptas no mesmo periodo, quatro
annos antes de constituirmos familia, isto , de entrarmos na _pratica
obscura e quotidiana do verdadeiro altruismo_, principio moral em que
assenta a familia, a primeira e a mais sagrada das nossas instituies,
e que  a base da religio e da philosophia.

Carecem ambas pelo seu ardente mysticismo, ou melhor diremos pelo seu
exagerado lyrismo, repassado de desalento e dr, da correco que o
conhecimento das leis da vida e as lices de historia nos trouxeram com
o andar dos tempos e que, sob o mesmo espirito religioso, traduzimos nos
CANTOS  _Humanidade_,  _Mulher_, ao--_Homem_, aos _Filhos_ e
designadamente nos dois canticos anteriores ao _Novo Cyclo Historico,
Nova Luz! Novo Ideal!_

A confiana nas Grandes Leis da Vida e da Historia, na Natureza e na
Humanidade, deu-nos foras e animo para as luctas em que nos temos visto
assediados toda a vida, resignao e paciencia na adversidade, f
inabalavel na regenerao do Mundo pela sciencia, pela justia e pelo
amor, quando se entrar definitivamente, sem peias, sem fices, e sem
mentiras, no imperio da Verdade, no regimen da liberdade absoluta!...

Este appello Supremo para Deus onde, ao cabo de tantos desenganos e
dissabores, esperamos encontar o nosso refugio ultimo, no significa
outra coisa.

Os sonhos de justia que, desde Jesus, nos transmittiram as geraes
transactas, para lhes darmos cumprimento, ho-de encontral'o nas
geraes futuras que, por seu turno, legaro aos seus legitimos
herdeiros, novos ideaes e com estes novas esperanas!

Esta  que  a verdadeira glorificao de Deus na Humanidade pela
revellao continua e progressiva da Historia!...

Sob este ponto de vista, poder-se-hia dizer que estas duas ultimas
poesias no so j a expresso verdadeira do nosso actual modo de pensar
e sentir.


AO SOL

Paginas 108 a 111

Escrevemol'a debaixo das impresses dos cantos sagrados da India, no
_Rig Veda_ e sob a alta concepo que Renan fazia de Deus e do Sol
quando affirmava que antes da Humanidade attingir aquella unidade e
synthese suprema das almas, s o Sol tinha tido direito  adorao e
culto dos Povos.

Sentimos a seu respeito, por intuio, o que mais tarde a sciencia nos
revellou em obras memoraveis como o so alguns dos trabalhos de
Flamarion sobre astronomia e designadamente o prodigioso e fascinante
livro de Buchner _La Lumire et Vie_, que nos revellou com uma pujana
de saber e de logica inexcedivel, e uma linguagem colorida e vigorosa
incomparavel, as incalculaveis maravilhas da natureza que anteviamos com
olhos apenas d'um poeta enamorado.

Se escrevessemos este CANTO depois da leitura d'estes livros, a nossa
linguagem teria sido de certo mais vibratil e as imagens de que nos
serviriamos mais vivas e mais bellas.

A ida fundamental da sua concepo teria ficado, porm, a mesma; a
mesma, a nossa admirao, o nosso culto por esse glorioso vivificador
dos mundos; por esse prodigioso distribuidor da luz, que, a ter de
desapparecer do espectaculo das coisas visiveis, como lh'o
prophetisam os seus admiradores e chronistas, o no faria sem deixar
atraz de si, n'uma serie ininterrupta de seculos, a mais oppulenta das
heranas, a mais genuina glorificao do heroe Bemfeitor por
excellencia!

Aos olhos dos outros astros, seus competidores, sob a cupula infinita
dos ceus, morreria destituido da sua antiga grandeza, para dar vida e
continuao a novos mundos, como Jesus, no Calvario, pregado na cruz,
deu a sua alma aos povos para redimil-os!...

Esta poesia, a instancias de Anthero do Quental, foi publicada por
Guilherme de Azevedo e por isso pouco ou nada altermos da frma que
primitivamente lhe dmos.


 ARVORE

Paginas 127 a 131

Foi escripta na epocha em que costumavamos passar parte do vero em
companhia do Dr. Antonio da Silva Gayo, no Bussaco, n'esta montanha a
que nos prendiam to gratas recordaes da nossa vida universitaria!...

Ali fomos como cultores do Bello e do Justo em perigrinao sagrada
muitas e muitas vezes, umas em companhia d'amigos como Anthero do
Quental, Jos Julio Rodrigues, Philomeno da Camara, e outras vezes, e
estas em maior numero, sosinhos, fazendo a p todo o longo percurso
desde Coimbra, mas encontrando larga e generosa compensao nas suas
sombras impenetraveis e profundas, na sua solido e paz absolutas, to
propicias  contemplao e ao estudo!

Antes do caminho de ferro do Norte, que o pz em communicao facil com
o resto do Paiz, o Bussaco viveu longos annos, e para o bem d'elle,
quasi completamente esquecido dos homens.

S almas d'eleio, pouco conformadas com a realidade das coisas, s um
ou outro amante da Natureza, iam ali de vez em quando procurar na sua
quietao e silencio, to cheios de mysterios e tradices de
mysticismo christo, _eloquentes lies_ sobre os problemas da vida,
sobre os multiplos e complicados destinos do corao e da consciencia,
postos no mundo ante esta interminavel e ininterrupta sequencia--de luz
e de sombra--de dias e de noites de prazeres e de dres, de sonhos e
desenganos!

Talvez mais do que ninguem, n'estes tempos de gosos faceis e interesses
materiaes, ns fomos d'este pequeno numero.

A nossa paixo pela Montanha levou-nos a convencer o santo padre
Mauricio a viver ali comnosco, pouco depois da nossa formatura,
abandonando a sua modesta habitao em Luso, nos mezes de Novembro e
Dezembro.

Ali estivemos entretidos os dois, elle de dia com os trabalhos j ento
iniciados, com o nosso protesto, por Moraes Soares, de noite com as suas
candidas e piedosas oraes; ns com os nossos livros dilectos, com os
nossos passeios solitarios e lucubraes litterarias. Um viver simples,
sobrio e puro, de que ainda hoje guardamos vivissimas saudades!

Mais tarde pelos melhoramentos e pequenas casas de habitao mandadas
ali construir, o Bussaco attrahiu de Coimbra e seus arredores, de Lisboa
e Porto, e at das Ilhas dos Aores, algumas familias distinctas, no
numoro das quaes quaes sobrelevava a todas a de Silva Gayo.

Foi este pela vivacidade e graa de seu espirito brilhante, pelo encanto
incomparavel da sua palavra facil, d'artista e de sabio, e sua esposa
pela gentileza singular do seu porte, pela bondade e abnegao nunca
desmentidas para com todos, foram elles que mais concorreram a chamar ao
Bussaco uma concorrencia selecta e a tornar inolvidaveis os dias ali
passados.

Foi ali que Silva Gayo escreveu e retocou algumas das paginas mais
commoventes do seu _Mario_, de _Frei Caetano Brando_ e da _Magdalena_.
Foi ali tambem que compozmos algumas das nossas poesias mais repassadas
do pantheismo espiritualista que em todas mais ou menos se nota.

Foi  sombra d'aquelles arvoredos adoraveis, e sob estas beneficas
influencias de arte, que se crearam, n'uma incansavel e vibrante
alegria, os dois filhos de Gayo e de D. Emilia Paredes, Manuel da Silva
Gayo e Mario Gayo, os quaes mais tarde se haviam de distinguir como dois
talentos comprovados, um na poesia, outro na musica!

Foi ali que mais tarde succumbiu, victima d'uma tysica de larynge,
aquelle formoso espirito que foi gloria das sciencias e lettras patrias,
cercado dos solicitos carinhos de sua incomparavel esposa, das lagrimas
silenciosas e amargas do bom padre Mauricio e das nossas.

Foi d'ali, ai de ns, noite memoravel e terrivel! que tivemos
d'acompanhar ssinhos os seus restos mortaes at ao cemiterio da
Conchada em Coimbra, onde pouco depois do romper da manh, alguns dos
seus collegas, admiradores e amigos, avisados do seu enterro, vieram
comnosco prestar-lhe as ultimas homenagens dos vivos!...

Voltemos aos dias felizes em que Silva Gayo ainda abrigava a esperana
de debellar o mal que o vinha minando, apesar de pairar s vezes como
uma sombra sinistra no seu lucido espirito, a ida d'um desenlace
fatal!! Foi ento que escrevemos este CANTO,  _Arvore_.

Estavamos installados na capella de Santa Thereza, a cuja entrada se
levanta um d'aquelles cedros collossaes e magestosos do Bussaco, que so
o privilegio e o orgulho d'esta floresta, a mais opulenta e formosa de
quantas conhecemos dentro e fra do paiz.

Foi ali, tendo em frente dos nossos olhos aquelle gigante secular dos
bosques, que compozmos esta poesia onde o leitor encontrar a expresso
mais genuina do nosso amor pela estabilidade das foras da Natureza,
representada no que ellas teem de mais bello e nobre, a arvore.


 TERRA

Paginas 132 a 139

De todos os nossos trabalhos litterarios  este o que nos mereceu maior
solicitude e carinho para deixarmos por nossa morte um testemunho do
muito que ammos a Natureza e dos impagaveis beneficios que d'ella em
toda a nossa vida recebemos.

Sobre a sua influencia na formao dos caracteres escrevemos um poemeto
denominado _Passeio ao Campo_ e que faz parte do quarto livro das
_Irradiaes_, _No Lar_.

Concebemos e composmos esta poesia n'aquella aldeia obscura de
Carvalhaes, a que nos referimos na nota primeira.

Quizmos propositadamente que assim fosse, porque depois dos jardins e
da quinta da nossa casa do Arco, na Ilha do Fayal, onde nascemos e
brincmos e das pedras vulcanicas e negras da Aldeia do Guindaste, na
Ilha do Pico, onde, em plena liberdade dos campos, em convivio intimo
com a Natureza, perante o espectaculo do mar e d'um sem numero de
pequenos vulces extinctos passmos os mais deleitosos dias da meninice,
pedras negras que ainda hoje, pelas recordaes que encerram, nos
sorriem mais bellas e fulgentes que os brilhantes, nenhuma terra ammos
tanto como esta aldeia poetica de Carvalhaes.

Foi alli que  sombra de pequenos bosques, de altos e extensos
pinheiraes, balsamicos e sonorosos, de frescos relvados e de alamos e
carvalhos frondosos, no adro da capella da Senhora das Neves, que lhe
fica proxima, foi ali que lendo os nossos poetas mais dilectos,
Virgilio, Cames, Joo de Deus e Victor Hugo, tommos verdadeiro amor
pelo rythimo e harmonia do verso, e abandonamos para os assumptos d'arte
a prosa, onde fizemos os nossos primeiros ensaios, sendo ainda creana,
tomando ento por modelo a Byron, dos poetas da nossa meninice o mais
festejado e glorioso.

Foi n'esses arredores deliciosos da Bairrada e do Bussaco onde longos
annos armazenmos inconscientemente em companhia do nosso chorado
condiscipulo Jos Augusto Salgado, no nosso mundo interior a poesia que
annos mais tarde, em 1867, nos irrompeu espontanea da alma, quando as
saudades de Coimbra e da nossa vida academica nos subjugaram a ponto de
abandonarmos interesses j creados e estabelecermo-nos de novo na Luza
Athenas!... Foi ento que tomamos o grau de licenciado em Direito na
esperana de fazermos parte do corpo docente da Universidade, mas d'onde
tivemos de sahir, pouco depois do nosso casamento, para n'um meio mais
amplo angariarmos os escassos recursos d'uma vida honesta.

Esta poesia, desejando ns que fosse de todas a mais perfeita,  no
entanto a que hoje aos nossos olhos tem maiores defeitos, sendo um
d'elles a sua extenso.

Preferiamos deixal-a nas propores das outras, suas congeneres e irms,
mas j agora, assim imperfeita, ficar sendo o depoimento mais vehemente
e sincero do muito que quizmos  Terra, nossa me, ao Amor,  Luz e 
Vida!

 falta d'heroes a quem consagrassemos os nossos CANTOS, preferimos as
Foras e as maravilhas da Natureza, que sendo obras de Deus, so por
isso eternamente grandes e bellas para se constituirem na fonte pura e
inexgotavel do Ideal.

Foi Esta a divindade em cujo altar depozemos a alma e a vida, e quem em
troca nos deu a pureza de corao e valentia d'animo para luctarmos
contra a adversidade e salvarmos no meio da nossa pobreza os thesouros
da nossa F.


AOS ASTROS

Paginas 140 a 143

Reservmos para o final d'este livro de canticos religiosos a poesia
_Aos Astros_, porque podemos dizer com toda a Justia, imitando David,
que os _Ceus proclamam a Gloria de Deus_!

A Luz no mundo das coisas visiveis e o Pensamento no mundo invisivel das
almas, so os dois principaes factores do movimento e da Vida no
Universo e na historia.

Ambos concorrem para a soluo d'um problema commum.

Dovorciados at hoje pelas religies positivas, productos da ignorancia
inevitavel dos povos primitivos, tendem a fundir-se n'uma _Unidade
Suprema_, para a qual convergem todas as foras vivas da Natureza, as
revellaes da Historia e as descobertas scientificas dos ultimos
tempos!

O que podero estes dois eternos agentes da Verdade na soluo dos
destinos dos povos, j o podemos antever pelas grandes e luminosas
syntheses historicas a que hoje attinge todo o espirito culto ao
contemplar, como ns o fizemos, os despojos das civilisaes extinctas
que se archivam nos grandes museus--no British Museum, em Londres; no
Louvre, em Paris; nas gallerias de Pit, em Florena; nas do Vaticano, em
Roma; e ao vermos reunidas as maravilhas da arte e industrias modernas
nos certamens internacionaes das grandes exposies!...

Pelo que j temos at agora conquistado com o poder creador da nossa
Ida e com o auxilio que nos prestam as foras inexgotaveis da Natureza,
o que  j hoje authentico, real e verdadeiro: o homem no tem motivos
para desesperar do termo da sua jornada no percurso indefinido e
infinito dos tempos, e sentar-se  margem do caminho, e no meio d'este,
a chorar como Jeremias, ou a apostrophar como Job a Justia Eterna pela
ingratido dos homens e pela dureza dos fados! O homem nem deve
considerar-se j hoje um revoltado contra Deus e por este punido, ora,
segundo o genio semitico, com a expulso de Ado e Eva do Paraizo, ora,
segundo o espirito Helenico, com o aguilhoamento de Prometheu nas
montanhas do Caucaso e o despedaamento das suas carnes pelos bicos e as
garras dos abutres!

Pela mais exacta comprehenso das leis do Universo e da Historia, o
homem tende a tirar da antithese do Mal e do Bem, cujo antagonismo
permanente, em perpetua lucta, constitue todo o Mysterio do Passado, a
Synthese Suprema chamada Verdade e que adoramos sob o nome de Deus.

Perante esta luz, de intensissimo fulgr e de alcance infinito, as
paginas da historia escripta pelo homem, so apenas por ora uma gloriosa
introduco aos fastos da Humanidade que os seculos futuros completaro,
e cuja sequencia s pde denunciar-se nas vises e nos sonhos dos Poetas
e dos Philosophos!

Na prespectiva da morte, quando para ns se quebram os vinculos da Vida
e se fecham para sempre as paginas da historia, apraz-nos abrir o Livro
que j est escripto, o _Livro da Vida Eterna_--_os Ceus_--e
consagrar-lhes este CANTO, que escripto ha vinte e sete annos atraz, 
ainda hoje a traduco fiel do nosso pensar e do nosso sentir.

No desdenhariamos de que sobre a nossa sepultura fossem escriptas as
tres ultimas quadras d'este CANTO, porque n'ellas resumimos toda a f
que trazemos no corao.

Lisboa, 29 de maro de 1899.





End of the Project Gutenberg EBook of Cantos Sagrados, by Manuel de Arriaga

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1.F.3.  LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a
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receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a
written explanation to the person you received the work from.  If you
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1.F.4.  Except for the limited right of replacement or refund set forth
in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
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If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
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providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
with this agreement, and any volunteers associated with the production,
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harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
that arise directly or indirectly from any of the following which you do
or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
https://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at https://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit https://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including including checks, online payments and credit card
donations.  To donate, please visit: https://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.


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     https://www.gutenberg.org

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