The Project Gutenberg EBook of Ptria, by Guerra Junqueiro

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Title: Ptria

Author: Guerra Junqueiro

Release Date: April 24, 2007 [EBook #21209]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

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[Figura: Guerra Junqueiro]




GUERRA JUNQUEIRO


Nasceu em Freixo de Espada  Cinta em 12 de Setembro de 1850. Guerra
Junqueiro  o nosso maior poeta vivo e um dos maiores poetas portugueses
de todos os tempos. O seu gnio profundo e vasto, a sua sensibilidade
lrica verdadeiramente excepcional, o seu maravilhoso poder de expresso
e de evocao, permitiram-lhe ser grande em todos os gneros de poesia.
Desde as stiras violentas que so a _Velhice do Padre Eterno_ e a
_Morte de D. Joo_ at ao lirismo enternecido e humano dos
_Simples_, foi sempre um poeta original e forte, absolutamente
incomparvel; mas onde o seu gnio se manifesta em toda a sua gloriosa
expanso  na _Ptria_, stira e lirismo amalgamados na mais
imprevista grandeza pica, grito de esperana dum povo, redimido emfim
da sua decadncia antiga. Depois de publicar a _Ptria_, Junqueiro
evolucionou para uma mais larga compreenso do mundo e da vida; da as
suas _Oraes_, dum intenso lirismo panteista e cristo, no mais nobre
sentido desta palavra: da tambm _A Unidade do Ser_, livro em que a
sua prodigiosa e sempre moa imaginao se alia a um seguro conhecimento
dos fenmenos biolgicos.




*EA DE QUEIROZ*


_O Crime do Padre Amaro_, 1 vol.                                     1$20
_Primo Baslio_, 1 vol.                                              1$00
_O Mandarim_, 1 vol.                                                  $50
_Os Maias_, 2 vol.                                                   2$00
_A Relquia_, 1 vol.                                                 1$00
_Correspondncia de Fradique Mendes_                                  $60
_A Cidade e as Serras_, 1 vol.                                        $80
_A Ilustre Casa de Ramires_, 1 vol.                                  1$00
_Prosas Brbaras_, 1 vol.                                             $60
_Contos_, 1 vol.                                                      $60
_Cartas de Inglaterra_, 1 vol.                                        $50
_Ecos de Paris_, 1 vol.                                               $50
_Cartas familiares e bilhetes postais de Paris_, 1 vol.               $50
_As Minas de Salomo_ (traduo)                                      $60
_Notas Contemporneas_ (ideias sbre literatura e arte), 1 vol.      1$00
_Ultimas pginas_, 1 vol                                             1$00



*COELHO NETO*


_Serto_, 1 vol.                                                      $60
_A Bico de Pena_, 1 vol.                                              $70
_Agua de Juventa_, 1 vol.                                             $70
_Romanceiro_, 1 vol.                                                  $50
_Teatro_, vol. I                                                      $80
_Teatro_, vol. II                                                     $40
_Teatro_ vol. IV                                                      $50
_Fabulrio_, 1 vol.                                                   $50
_Jardim das Oliveiras_, 1 vol.                                        $50
_Esfinge_, 1 vol.                                                     $60
    gravuras, 1 vol.                                                  $50
_Inverno em Flor_. 1 vol.                                             $70
_Mistrios do Natal_, contos para crianas, 1 vol.                    $50
_Morto (O)_, memrias de um fuzilado                                  $60
_Rei Negro (O)_, 1 vol.                                               $80
_Miragem_, 1 vol.                                                     $60
_Capital Federal_, 1 vol.                                             $60
_Aplogos_, contos para crianas, com _A Conquista_, 1 vol.           $70
_A Tormenta_, 1 vol.                                                  $60
_Trva_, 1 vol.                                                       $70
_Banzo_, 1 vol.                                                       $50
_Teatro_, vol. V.                                                     $50
_O Turbilho_                                                         $70




[Figura: _Guerra Junqueiro_]




GUERRA JUNQUEIRO


_PTRIA_


    _Esta  a ditosa ptria minha amada_.

    Cames.



TERCEIRA EDIO


PORTO
Livraria Chardron, de Llo & Irmo,
editores--Rua das Carmelitas, 144


1915

Todos os direitos reservados





DO MESMO AUTOR

(Edies de LLO & IRMO)


_A Velhice do Padre Eterno_
 (edio profusamente ilustrada por Leal da Cmara), 1 vol. br.     1$00
_A Vitria da Frana_                                                $10
_Ptria_, 3.^a edio, 1 vol. br.                                    $80
_Finis Patriae_                                                      $30
_O Crime_                                                            $20
_Lgrima_                                                            $10
_Orao ao Po_                                                      $12
_Orao  Luz_                                                       $20
_Marcha do dio_                                                     $30


A ENTRAR NO PRLO:

    _Orao  Flor_.--_Orao ao Homem_.

A SAIR BREVEMENTE:

    _Unidade do Sr_ (estudo filosfico e scientfico).


PROPRIEDADE DOS EDITORES

_A propriedade literria e artstica est garantida em todos os pases
que aderiram  Conveno de Berne--(Em Portugal, pela lei de 18 de Maro
de 1911. No Brasil, pela lei n.^o 2577 de 17 de Janeiro de 1912)_.

Porto--Imprensa Moderna




    _ alma do meu amigo

    Dr. Jos Falco_





    _Aos meus amigos

    Baslio Teles

    Jos Pereira de Sampaio_





ACTORES


Um doido.
O rei.
Magnus, duque de S. Vicente de Fra.
Opiparus, prncipe d'Oiro Alegre.
Ciganus, marqus de Saltamontes.
Astrologus, cronista-mr de el-rei.
Iago, antigo co de fila, dentes pdres, obeso, gordura flcida.
Judas, co mestio de lbo, carcunda, sarnento, olhar falso, injectado de blis.
Veneno, fraldiqueirito ano, ladrinchador e lambareiro.




*PTRIA*


    Noite de tormenta. Cu caliginoso, mar em fria, ventanias trgicas,
    relmpagos distantes. O castelo do rei  beira-mar. Sala de armas.
    Nos muros, entre panplias, os retratos em p da dinastia de
    Bragana. Agachados ao lume, os trs ces familiares de
    el-rei,--Iago, Judas, Veneno. Entram Opiparus, Magnus e Ciganus.
    Sentam-se, afagando os ces. Magnus poisa na mesa um pergaminho com
    o slo rial.  o tratado com a Inglaterra.




SCENA I


CIGANUS, _apontando o pergaminho e rindo_:

Necrolgio a assinar pelo defunto!


MAGNUS, _com gravidade_:

             urgente:
Salvamo-nos...


OPIPARUS, _acendendo um charuto_:

            Perdendo a honra... felizmente!
Inda bem! inda bem! vai-se a _ria das Quinas_...


MAGNUS, _convicto_:

Glorioso pendo sbre um castelo em runas...


OPIPARUS:

O pendo! o pendo!... um trapo bicolor,
A que hoje o mundo limpa o nariz... por favor.


CIGANUS:

Emquanto a mim, que levem tudo, o reino em massa,
Pouco importa; o demnio  que o levem de graa.
Mas agora acabou-se!... e, em logar de protesto,
Vejamos antes se o ladro nos compra o resto...
Um bom negcio... hein?!... manobrado com arte...


OPIPARUS, _soprando o fumo do charuto_:

Dou por cem libras, quem na quer? a minha parte...


MAGNUS, _grandioso_:

Quando d'nimo leve o prncipe assim fala,
No se queixem depois que a dinamite estala,
Nem se admirem de ver o pas qualquer dia
Na mais desenfreada e tremenda anarquia!
Prudncia! haja prudncia, ao menos, meus senhores...
 grave a ocasio... gravssima!... Rumores
De medonha tormenta andam no ar... Cuidado!
No desanimo,  certo... Um povo que deu brado,
Uma nao herica entre as naes do mundo,
H-de viver...  longo o horizonte e  fecundo!...
Creio ainda no meu pas, na minha terra!...
Guardo a esp'rana...


OPIPARUS:

            Bem sei, no Banco de Inglaterra...
A esp'rana e dois milhes em oiro, tudo  ordem...
No  isto?...


MAGNUS, _embaraado_:

            Exagro... exagro... Concordem...
Sim, concordem... pouco me resta e pouco valho...
Mas o suor duma vida inteira de trabalho...
Economias... bagatela... um nada... era mister...
No dia d'manh, com filhos, com mulher...
Entendem, claro est... era preciso, emfim,
Segurana... No me envergonho... Emquanto a mim,
Posso falar de cara alta... o meu passado...


OPIPARUS:

Se  mesmo a profisso do duque o ser honrado!
 o seu modo de vida, o seu ofcio... Creio
Que  da... que  da que a fortuna lhe veio:
Ningum lho nega... O duque  dos bons,  dos puros...
E a virtude a render, a dignidade a juros
Acumulados... Francamente, eu noto, eu verifico
Que era caso de estar muitssimo mais rico...
O duque foi modesto: a honra de espartano
No a deu nem talvez a dois por cento ao ano!


MAGNUS, _sorrindo constrangido_:

M lngua!...


CIGANUS, _com seriedade irnica_:

            O nosso duque a ofender-se... que asneira!
O prncipe graceja... histrias... brincadeira...
 honradez do duque, inteiria e macissa,
Todo o mundo lhe faz a devida justia...
Mas vamos ao que importa,--ao bom pirata ingls...


MAGNUS:

El-rei assinar?... o que julga, marqus?


OPIPARUS:

El-rei nesse tratado  rei como Jesus,
E, portanto, vo ver que o assina de cruz.


CIGANUS:

Sem o ler. Quem duvda? Assinatura pronta!
Paris vale uma missa e Lisboa uma afronta.
E, em suma, concordemos ns que um mau reinado,
Por um bom pontap, fica de graa,  dado.
A el-rei manh nem lhe lembra. Tranqilo,
Dormir, jantar, pesar mais um kilo.
Uma bia de enxndia; um zero folgazo,
Bispote portugus com toucinho alemo,


OPIPARUS:

Sensualismo e patranha, indif'rena e vaidade,
Gabarola balofo e gluto, sem vontade,
s vezes moralista, (acessos de moral,
Que lhe passam jantando e no nos fazem mal)
Eis el-rei. Um egoismo obeso, alegre e loiro,
Unto j de concurso e de medalha d'oiro.
Termina a dinastia; e Deus, que a fez tamanha,
Pe-lhe um ponto final de oito arrobas de banha...
Laus Deo!


MAGNUS:

            Que m lngua! El-rei, coitado! uma criana,
Nem leve culpa tem nos encargos da herana...
No se aprende num dia a governar um povo...
E em casos tais, em tal momento, um homem novo,
Habituado  lisonja, habituado ao prazer...
Maravilhas ningum as faz... no pode ser!...
El-rei  bom! El-rei  um esprito culto,
Ilustrado... No digo, emfim, que seja um vulto,
Um talento, uma coisa grande de espantar;
Mostra, porm, cordura, o que no  vulgar...
Cordura e senso... Eu falo e falo com razo...
No minto... sou corts, nunca fui corteso!
Duque e plebeu... vim do trabalho honrado que maga...
No lisonjeio o povo e no adulo a C'roa.
Os defeitos d'el-rei?... No me custa o diz-lo:
Eu quisera maior int'resse... maior zlo...
Mais idade, afinal... Deixem correr os anos,
E ho-de ver o arquetipo exemplar dos sob'ranos.


OPIPARUS, _sorrindo_:

Ingnua hipocrisia, duque... Olhe que el-rei
Conhece-nos a ns, como ns a el-rei...


CIGANUS:

Sabem? D-me cuidado el-rei... d-me cuidado...
Melancolia... um ar de nojo... um ar de enfado...
Sem comer, sem dormir, no repousa um minuto,
E  rarssima a vez que le acende um charuto.


OPIPARUS:

Indcio bem pior: ha j seguramente
Trs dias que no vai  caa e que no mente.
Ora, se el-rei no mente e no fuma e no caa,
 que no anda bom, no anda...


MAGNUS:

            Que desgraa!
Pudera! ho-de afligi-lo, e com toda a razo,
As tremendas calamidades da nao.
Cada hora um desastre, um infortnio... Eu scismo,
Eu olho... e vejo perto o cairel dum abismo!


OPIPARUS:

Oh, nunca abismo algum tolheu el-rei, meu amo
De aldravar uma pta ou de caar um gamo.


CIGANUS:

E depois o cronista-mr, tonto e velhaco,
A insinuar-lhe, a embeber-lhe endrminas no caco,
Telepatias, bruxarias, judiarias
Do _Livro das Vises, Sonhos e Profecias_.
O que vale  que el-rei, um gordo hereditrio,
Pesa de mais para profeta ou visionrio.
No me assusta...


MAGNUS, _confidencial_:

            Marqus... dum amigo a um amigo!
Entre ns... fale franco: a ordem corre p'rigo?...
O mal-estar... desassocgo... uma aventura...
Os quarteis... Diga l: julga a C'roa segura?...


CIGANUS:

Segura e bem segura. Equivocar-me hei,
No entretanto, parada feita: jgo ao rei!
Neste lance... No outro... A inspirao  vria,
E bem posso mudar para a carta contrria.


OPIPARUS:

De maneira que apenas eu, sublime idiota,
Guardo fidelidade ao rei nesta batota!
Alapardou-se em mim o dever e a virtude!
Quando o trono de Afonso Henriques se desgrude,
Eu c vou com el-rei... Isto da ptria e lar
 boa fmea, bom humor e bom jantar,
O ditoso torro da ptria!... que imbecis!
No globo no h mais que uma ptria: Paris.
A nossa ento, que choldra! Infecta mercearia,
Guimares, Policarpo, Antunes, Braga & C.^a!
Um horror! um horror! No temam que proteste,
Se emigrando me vejo livre de tal peste.
Fico por l... no torno mais... fico de vez...
O que  preciso  bago... Ora, voc, marqus,
Adorvel canalha e salteador galante,
No me deixa embarcar el-rei como um tunante,
El-rei que vai viver por crtes estrangeiras,
Sem duas dzias de milhes nas algibeiras...
Eu sou trinchante-mr, e conservo o lugar,
Havendo, claro est, faises para trinchar!...


MAGNUS, _imponente_:

Incrvel! No momento grave em que a Nao
Dorme (ou finge dormir!)  beira dum vulco,
Nesta hora tremenda, hora talvez fatal,
H quem graceje como em pleno carnaval!
E assim vamos alegremente, que loucura!
Cavando a todo o instante a prpria sepultura...
No dia d'manh ningum pensa, ningum!
Os resultados v-los ho... caminham bem...
Divertem-se com fogo... Olhem que o fogo arde...
E extingui-lo depois (creiam-me) ser tarde...
J no  tempo... As lavaredas da fogueira
Abrasaro connosco a sociedade inteira!
A mim o que me indigna e ruborisa as faces
 ver o exemplo mau partir das altas classes,
Sem se lembrarem (doida e miservel gente!)
Que as vtimas seremos ns... infelizmente!
No abalemos, galhofando, assim  ta,
A gide do Scetro, o prestgio da C'roa!
Quando a desordem tudo infama e tudo ameaa,
A Rialeza  um penhor...


CIGANUS:

                        Destinado a ir  praa.
Questo d'anos, questo de ms ou questo d'hora,
Segundo ronde a ventania l por fora...
Observemos o tempo... anda brusco, indeciso...
No arme o diabo algum ciclone d'improviso!...
O trono, defend-lo emquanto nos convenha;
Depois... trono sem ps j no  trono,  lenha.
Queima-se; e no braseiro alegre a chamejar
Cozinhamos os dois, meu duque, um bom jantar!...
O duque a horrorizar-se!... Eu conspiro em segrdo...
Pode ouvir, pode ouvir... duque, no tenha mdo!
A repblica infame, a repblica atroz,
Uma bela manh ser feita por ns,
Meu caro duque!... E o presidente...
Ora quem... ora quem, duque de S. Vicente?!...
O duque! No h outro, escusado  lembrar!...
Um prestgio europeu... a independncia... o ar...
No h outro!... d'arromba!...  verdadeira altura!...
Todas as condies, todas... at figura!
Parece um rei! que nem j sei como se move
Com as trinta gran-cruzes...


MAGNUS, _lisonjeado_:

                        Upa!... trinta e nove!


CIGANUS:

Trinta e nove gran-cruzes, hn! no mesmo peito...
Caramba, duque!...  bem bonito...  de respeito!
E o povo gosta, deixe l... De mais a mais
Duque e plebeu...


MAGNUS, _com dignidade_:

            No me envergonho de meus pais!
Filho dum alfaiate... Honra-me a origem!...


CIGANUS:

                                    Sei...
E nobreza to nobreza  que a no d el-rei.
Nobreza d'alma! Emfim, meu duque, nem pintado
Se encontraria igual para chefe do Estado!
Queira ou no queira, pois, o meu ilustre amigo...


MAGNUS, _solene_:

Eu lhe digo, marqus... eu lhe digo... eu lhe digo...
Devagar... devagar... Um problema importante,
Que exige reflexo, maturao bastante...
Sou monrquico... Fui-o sempre!... Inda hoje creio
O trono liberal o mais slido esteio
Do Progresso e da Paz e a melhor garantia
Da justa, verdadeira e s Democracia.
No precisamos outras leis... H leis  farta!
Executem-nas!... Basta executar a Carta!
Cumpram as leis!... Dentro da Carta, realmente,
Cabem inda  vontade o futuro e o presente...
 ste o meu critrio... e j agora no mudo!...
Honrosas convices, filhas dalgum estudo
E muitas brancas... Mas, emfim, se as loucuras alheias...
Desvairamentos... circunstncias europeias...
Derem de si em concluso regmen novo,
Acatarei submisso os ditames do Povo!
Monrquico e leal... no entretanto, marqus,
Antes de tudo, sou e serei portugus!!
Ao bem da Ptria em caso urgente, em horas crticas
No duvido imolar opinies polticas!
Darei a vida at, quando preciso fr!!


CIGANUS:

El-rei que chega...


MAGNUS, _curvando-se_:

            Meu Senhor!


CIGANUS:

                        Meu Senhor!


OPIPARUS:

                                    Meu Senhor!




SCENA II

*Os mesmos e o rei*


    Os trs ces acodem festivos ao monarca


O REI, _sombrio e melanclico, repelindo os ces_:

Que noite!


CIGANUS:

            Vendaval furioso!


OPIPARUS:

                        Noite rara
Para uma ceia de champagne e mulher cara...


O REI:

Faz-me nervoso a noite...


MAGNUS:

                         da atmosfera espessa...
Elctrica... Atorda e desvaira a cabea...


O REI, _apontando o pergaminho_:

O tratado?


CIGANUS:

            O tratado.


MAGNUS:

                        Um pouco duro... El-rei...


O REI, _indiferente_:

Seja o que fr... seja o que fr... assinarei...


    Vai ao balco, ficando abstracto, a olhar a noite.


MAGNUS:

No h dvida; el-rei anda enfrmo...  evidente...


OPIPARUS:

Galhofeiro, jovial, bom humor permanente,
Scptico, dando ao demo as paixes e a tristeza,
Caador, toireador, conviva herico  mesa...
Pobre do rei... quem o diria!... que mudana!
Oxal que a loucura, a vir, lhe venha mansa...


CIGANUS:

O rato do cronista  que o tem posto assim,
Com mistrios em grego e aranzeis em latim...


    Trovo formidvel.


O REI, _voltando do balco_:

Que noite!


MAGNUS:

            Uma trovoada enorme!... Causa horror!...


    Ciganus desdobra o pergaminho e vai ler o tratado.


O REI:

Leitura intil... Deixa l... Seja o que fr...
Seja o que fr... adeus!... assinarei...


CIGANUS:

                                    Perfeito.
No h balas? Resignao; no h direito.
Se entra no Tejo de surpresa um coiraado,
Quem vai met-lo ao fundo, quem? A nau do Estado
Com bispos, generais, bachareis, amanuenses,
Pianos, pulgas, mangas d'alpaca e mais pertences?
A esquadra? vai a esquadra rial, um meio cento
De alcatruzes, bids e banheiras d'assento?
Sacrificar a vida  honra? Acho coragem,
Mas a honra sem vida  de pouca vantagem;
No se goza, no vale a pena. A vida  boa...
Defendamos a vida... e salvemos a C'roa.


MAGNUS, _eloqente_:

E salvemos a C'roa! A vida eu da-la-ia
Pela honra da Ptria e pela Monarquia!
Somos filhos de heris! mas nesta conjuntura
A resistncia  um crime grave, uma loucura!
Um pas decadente, isolado na Europa,
Sem recursos alguns, sem marinha e sem tropa,
Tendo no flanco, lerta, o velho leo de Espanha,
Arrojar doidamente a luva  Gran-Bretanha,
Oh, pelo amor de Deus! digam-me l quem h-de
Assumir uma tal responsabilidade?!!...
A ptria de Albuquerque, a ptria de Cames
Abolida era emfim do mapa das naes!
Guardemos nobremente uma atitude calma!
Recolhamos a dr ao ntimo da alma,
E o castigo do insulto, o prazer da vingana
A nossos netos o leguemos, como herana!
Que Deus h-de punir ( justiceiro e  bom)
A moderna Cartago, a triunfante Albion!
Saiba, porm, El-rei que o brio portugus
O defendemos ns ante o leopardo ingls,
 fra de critrio e sisuda energia,
No campo do direito e da diplomacia!
Com as Institues por norte e por escudo,
Fizemos tudo quanto era possvel!--tudo!!


OPIPARUS, _ao rei, galhofando_:

Quer o duque dizer que ambiciona o colar
Do Elefante Vermelho e do Pavo Solar...


MAGNUS, _com indignao e nobreza_:

No requeiro merc to grandiosa e to alta,
Conquanto seja ela a que ainda me falta.
O Elefante e o Pavo! Um colar e uma cruz
A que smente os reis e os prncipes tem jus!
No ouso... Mas, se um dia a gran munificncia
Da C'roa houver por bem, (floro duma existncia!)
Conceder-ma!...................................
Que, deixem-mo explicar: eu, medalhas e fitas,
No  por ser vaidoso ou por serem bonitas,
Que as ostento... Plebeu nasci, de bom quilate...
No o escondo a ningum: meu pai era alfaiate.
Ora, num peito humilde e franco uma medalha,
Como que atesta e diz ao homem que trabalha,
Ao povo que moireja em seu ofcio duro,
Que hoje na monarquia  dado ao mais obscuro
Guindar-se  posio mais alta e mais egrgia,
Por direito,--que  nosso! e por merc,--que  rgia!
Escritura de luz que em vivo amplexo abarca
O Povo e a Sob'rania augusta do Monarca!


CIGANUS:

Meu caro duque, muito bem... Vamos agora,
Resolvida a questo, assinar sem demora
O pergaminho...


O REI:

                        Assinarei... Deixem ficar.


CIGANUS:

E emquanto s convulses do leo popular,
Como diria o nobre duque, afoitamente
Respondo pelo bicho: um co ladrando  gente:
Dobrei guardas, minei as pontes  cautela,
E fica a artilharia em volta  cidadela.
No h p'rigo nenhum. Durma El-rei sem temor.
Boa noite, Senhor...


MAGNUS, _curvando-se at ao cho_:

                        Meu Senhor!


OPIPARUS:

                                    Meu Senhor...


    Saem os trs.


MAGNUS, _vai pensando_:

Ora, se o filho do alfaiate qualquer dia
Inaugurava ainda a quinta dinastia!...
Eu sentado no trono!... Eu rei de Portugal!!...
Que, rei ou presidente, emfim  tudo igual...
Muita finura agora e muita vigilncia,
Observando e aguardando as coisas a distncia!...
Magnus! lume no lho e no te prejudiques...
Eu suceder, caramba! a D. Afonso Henriques!!...




SCENA III

*O rei, s*


    O temporal aumenta. Relmpagos e troves.


O REI:

No me lembra de ver uma tormenta assim!...
Que demnio de noite!... Ando fora de mim,
Desvairado... Um veneno oculto me afogueia,
Que h trs dias que trago uma cabea alheia
Nestes ombros... Que inferno!...  esquisito...  esquisito!...
Foi beberagem m... droga horrenda... acredito!
Uns vgados de louco, um frenesim medonho...
Sonharei, porventura, e ser tudo um sonho?!...
Acordado ando eu, acordado a valer,
Que h trs noites no pude ainda adormecer!...
Peonha?... no!... A causa disto... a causa  o doido
O raio do fantasma, sse maldito doido
Que me persegue!... tenho mdo... e vergonha em diz-lo!...
E depois o cronista-mr, um pesadelo
Ambulante, um maluco agoireiro e scismtico,
Com aquelas vises estranhas de luntico,
Faz-me mal... faz-me mal... Que o leve o diabo... O certo
 que h dentro de mim desarranjo encoberto...
Uma insnia danada... um nervoso... um fastio...
Misantropia tal que no bebo, nem rio,
Nem de toiros me lembro emfim, nem de ir  caa!
Mau sangue... rvore m... Podre... podre...  de raa!...


UMA VOZ TRAGICA, _na escurido_:

Ai, na batalha destroado,
Ai, na batalha destroado,
Rta a armadura, ensangentado,
Debaixo duma rvore funesta
Fui-me deitar, fui-me deitar... dormir a ssta...
Fui-me deitar... dormi... dormi...
Endoudeci, enlouqueci
Debaixo duma rvore funesta!...


    Uivam os ces, espavoridos e furiosos.


O REI:

O doido! o doido! o doido!... H trs noites a fio
Que ste vlho alienado, horroroso e sombrio,
 volta do palcio, ave negra d'azar,
Anda a cantar!... anda a cantar!... anda a cantar!...


    Indo ao balco:


Ei-lo!

    (Ao claro dum relmpago, destaca-se, de sbito, fronteiro o
    castelo o vulto trgico do doido. Um gigante. Rto, cadavrico,
    longa barba esqulida, olhos profundos de alucinado, agitando no ar
    um bordo em crculos de agoiro, cabalsticos. O manto esvoaa-lhe
    tumultuoso, restos duma bandeira vlha ou dum sudrio).


      Morro de mdo!... H no sei que de extravagante,
De inquietador, na voz, nas feies, no semblante
Dste doido... Ser um doido porventura?...
Mal a sua voz acorda, rouca, a noite escura,
Logo os ces a ladrar, a ladrar e a gemer,
Como se entrasse a morte aqui sem eu a ver!...
Que raio de fantasma!...  coisa de bruxedo...
No ando em mim... no ando bom, tremo de mdo...
Esquisito!...


    Sentando-se ao fogo:


      Ora adeus!  do tempo...  da lua...
Nervoso... Passa... Mas, se o diabo continua
Com as trovas de agoiro, eu forneo-lhe o mote,
Mandando-o escorraar a cacete e a chicote.


    Vendo o pergaminho sbre a mesa:


O tratado... Uma lria... Enfastia-me j...
Mais preto menos preto, a mim que se me d?!
Por via agora duma horrenda pretalhada
Mil barafundas e alvorotos... Que massada!
Que massada!... Fazem-me doido, no resisto...


    Desenrolando o pergaminho:


 assin-lo, e pronto! acabemos com isto!


    Lendo alto:


Eu, rei de Portugal, sbdito ingls, declaro
Que  nobre imperatriz das ndias e ao preclaro
Lord Salisbury entrego os restos duma herana
Que dum povo ficou  casa de Bragana,
Dando-me, em volta, a mim e ao prncipe da Beira
A desonra, a abjeco, o trono... e a Jarreteira.
Cspite! um pouco forte... Ora adeus!... uma histria...
Chalaas... Devo a c'roa  ranha Vitria!


O DOIDO, _na escurido_:

Tive castelos, fortalezas pelo mundo...
No tenho casa, no tenho po!...
Tive navios... milhes de frotas... Mar profundo,
Onde  que esto?... onde  que esto?!...
Tive uma espada... Ah, como um raio, ardia, ardia
Na minha mo!...
Quem ma levou? quem ma trocou, quando eu dormia,
Por um bordo?!...
E tive um nome... um nome grande... e clamo e clamo,
Que expiao!
A perguntar, a perguntar como me chamo!...
Como me chamo? Como me chamo?...
Ai! no me lembro!... perdi o nome na escurido!...


O REI, _desvairado, erguendo-se_:

O doido!... Aquela voz de fantasma titnico
Gela-me o sangue e petrifica-me de pnico!
Porque?... Ignoro... O mesmo instinto singular,
Que faz ladrar os ces, mal o ouvem cantar...
Parece-me um algoz, um carrasco sangrento
D'alm campa, a marchar no escuro a passo lento,
Direito a mim!... L vem!... l vem vindo... no tarda!...
Quem me defende?... a minha crte? a minha guarda?
A minha guarda!... a minha crte!... Ah, bons amigos,
Como hei-de crer em saltimbancos e em mendigos,


    Sentando-se ao fogo, junto dos ces:


Se nem mesmo nos ces tenho confiana j!...


    Os trs ces, agachando-se-lhe aos ps, acariciam-no e lambem-no.


O REI, _enxotando Iago bruscamente_:

Iago... Iago!... Ento... basta de festas, v!...
Safado! cachorro imundo!... Olhem o odre
De gordura, j meio leso e meio podre!
Biltre!  fra de comesainas e de enchentes
Emprenhou-te a barriga e caram-te os dentes!
As unhas foi meu pai quem tas cortou de vez...
J nem s co... s porco; e inda em porco s m rs!
E lembrar-me eu de o ver, canzarro duro e bruto,
O ventre magro, o olhar em sangue, o plo hirsuto,
Capaz de trincar ferro e mastigar cascalho!...
E ei-lo agora: poltro! ventrudo-mr! bandalho!


    Iago redobra de festas. O rei d-lhe um pontap.


O bandalho! o bandalho!...

                                    E ste Judas esperto,
ste Judas, filho de lba e co incerto!...
Um chacal remeloso e sarnento e pelado,
Todo carcunda, esguio e vsgo, a olhar de lado!...
E acredita, o pandilha sorna, o safardana,
Sempre a beijar-me os ps, sempre a tossir de esgana,
Que me ilude!... Cachorro!... Ora diz l, meu traste:
Por quanto hs-de vender El-rei? j calculaste?...
E um Veneno, que  to pequeno e que  to mau!
Fraldiqueiro e feroz, pulgasita e lacrau!
Com ganas de trincar a humanidade inteira,
Vai trincando pasteis e barrigas de freira...


    Erguendo-se:


E so trs ces, trs ces! Iago, Judas, Veneno,
Um odre imundo, um chacal torto e um rato obsceno,
O meu amparo! Que vergonha!... Ao que eu cheguei!...
Trs podengos de esquina a tutelar um rei!
Mas, que demnio! sou injusto... a verdade, a verdade
 que guardam o prdio e fazem-me a vontade...
Por amor  rao e no amor ao dono?
Inda bem.... inda bem... tem de salvar o trono,
Se quiserem jantar... perdida a monarquia,
Adeus o regabofe e adeus a conesia!
Por isso esto, como drages, de sentinela
Junto do rei, junto da copa e da gamela.
Defendem-me. E eu ainda os insulto!... coitados!
Mandries e glutes, gostam de bons bocados...
Tambm eu... Porque os hei-de, afinal, descompor?
 da blis, da inquietao, do mau humor
Em que eu ando... Nem sei... que demnio! foi praga...
Raios partam o doido e essa abantesma aziaga
Do cronista!... No h que ver, fazem-me tonto!...


    Vendo o pergaminho:


Mais esta geringona inda por cima!


    Indo a assinar:


                                                Pronto!


O DOIDO, _na escurido_

Ai, a minh'alma anda perdida, anda perdida
Ou pela terra, ou pelo ar ou pelo mar...
Ai no sei dela... ai no sei dela... anda perdida,
E eu h mil anos correndo o mundo sem na encontrar!...
Pergunto s ondas, dizem-me as ondas:
--Pergunta ao luar...--
E a lua triste, branca e gelada,
No me diz nada... no me diz nada...
Pe-se a chorar!
Pergunto aos lbos, pergunto aos ninhos,
E nem as feras, nem os passarinhos
Me dizem onde habita, em que logar!...
Sangram-me os ps das fragas dos caminhos...
No tenho alma, no tenho ptria, no tenho lar!...
Ai, quanta vez! ai, quanta vez!
No passar talvez
A minh'alma por mim sem me falar!
Quem reconhece o cavaleiro antigo
Neste mendigo
Rto e doido... quem h-de adivinhar?!...
Adivinhava ela... adivinhava!...
O co no escuro, pela serra brava,
No vai direito ao dono a farejar?
Adivinhava...  que est presa...  que est presa!
Ontem sonhei... (lembro-me agora!) que est presa
Naquela bruta fortaleza,
Numa cova sem luz, num buraco sem ar,
E que os carrascos esta noite, de surpresa,
A vo matar! a vo matar! a vo matar!...
.........................................
Por isso o mar anda a rezar!...
Por isso a lua desmaiada,
Sem dizer nada... sem dizer nada...
A olhar p'ra mim, branca de dor, fica a chorar!...


    Ribombam troves, fusilam relmpagos. Os ces, espavoridos, ululam
    sinistramente.


O REI, _alucinado, clamando_:

 demais!  demais!... Pe-me o caco do avesso!...
Um frenesim... Que fria!... irrita-me... endoideo...
E anda s soltas ste ladro dste espantalho!...
Eu j o ensino, j o arranjo... um bom vergalho...
Marqus! marqus! marqus!




SCENA IV

*O rei, Opiparus e Ciganus*, acudindo


OPIPARUS:

                        Meu Senhor!...


CIGANUS:

                                                Meu Senhor!...


O REI, _alucinado_:

Vo-no prender!... vo-no prender!... Um salteador...
Tragam-mo aqui aos ps, de rastros, maniatado!...
Tragam-no aqui!...


OPIPARUS, _ parte_:

                        El-rei endoideceu, coitado!


CIGANUS:

Meu Senhor! meu Senhor, que indignao!... Dizei,
Alguem desacatou a pessoa d'el-rei,
Por acaso?


O REI:

            Um fantasma louco entre o arvoredo...


OPIPARUS:

Um fantasma?!... Iluso... O ar atorda...


CIGANUS:

                                                Mdo
De que? de agoiros infantis, de sonhos vagos?
Com ministros leais e escudeiros bem pagos,
Que teme el-rei?!...


O REI:

                        No foi vertigem, no foi sonho...
Um brutamontes alienado, um gigante medonho
Que me no deixa... Quero v-lo... Ide prend-lo... andai...


CIGANUS:

Mas que fantasma  sse aterrador?


O REI, _levando-os ao balco e apontando_:

                                                Olhai!
Alm!... alm!... alm!...


CIGANUS:

                                    Strambtica figura!...
 singular...  singular...


OPIPARUS:

                              Crime ou loucura...
Por certo um doido...


O REI:

                        H j trs noites, sem descanso,
Uivando loas sbre loas...


OPIPARUS:

                                                Doido manso...


O REI:

Ide prend-lo!... amordaai-o, maniatai-o!
No me larga esta insnia h trs noites!... Um raio
Dum profeta a grunhir cantoches de defuntos!...
Boa carga de pau... bom marmeleiro aos untos...
Mas vejam l que o diabo s vezes, com a telha,
No arme algum chinfrim... Peguem-no de cernelha!




SCENA V


    O rei, inquieto, preocupado, senta-se ao fogo. Os ces abeiram-se,
    uivando medrosos. Redobra a tormenta. Pestanejam, contnuos,
    relmpagos formidveis.


O DOIDO, _no escuro, em voz plangente
de embalar crianas_:

Os vivos tem mdo aos mortos,
Que andam de noite ao luar...
Fantasmas de mortos
So enganos mortos...
Deixem-nos andar... deixem-nos andar!...

Os vivos tem mdo aos mortos,
Que andam sonhando a penar...
Quimeras de mortos
So desejos mortos...
Deixem-nos sonhar... deixem-nos sonhar!...

Os vivos tem mdo aos mortos,
Que andam cantando a chorar...
As canes dos mortos
So suspiros mortos...
Deixem-nos cantar... deixem-nos cantar!...


O REI:

O doido! o doido! o doido!


A MESMA VOZ, _na escurido_:

No lhes tenham mdo... deixem-nos cantar...




SCENA VI


    Entram Ciganus e Opiparus acompanhando o fantasma, em meio de
    escudeiros armados e com archotes. O doido aparece tal qual o
    descrevemos: enorme, cadavrico, envolto em farrapos, as longas
    barbas brancas flutuando. Numa das mos o bordo. Na outra um vlho
    livro em pedaos. Lembra um doido e um profeta, D. Quixote e o rei
    Lear. O olhar, cavo e misterioso,  de sonmbulo e de vidente. O rei
    empalidece como um sudrio. Os ces ululam, furiosos e trmulos.


CIGANUS:

Eis o doido...  curioso ste Matusalem...
Como se chama? onde nasceu? de onde vem?
Ignora tudo... Canta e solua...


OPIPARUS:

                                                De resto,
No tem frias, nem anda armado: um doido honesto.


O REI:

Que estafermo!... que monstro!... Um espio, talvez...


OPIPARUS:

Deixou-se maniatar, prender, qual uma rs
Submissa... No, um doido...


CIGANUS:

                                    Um doido extravagante...
Quem s? Despacha a lngua... olha que ests diante
D'el-rei... Diz o teu nome...


OPIPARUS:

                                    O teu nome, vilo!


O DOIDO, _absorto_:

Como me chamo... como me chamo?...
Ai! no me lembro... perdi o nome na escurido...


CIGANUS:

Sempre a mesma resposta inaltervel...


O REI:

                                                Diz
De donde vens? onde nasceste? em que pas?
Nada temas... El-rei  bom, podes falar...


O DOIDO, _sonmbulo_:

No tenho alma... no tenho ptria... no tenho lar...


O REI:

Traz um livro na mo, reparai...


CIGANUS, _tomando o volume, que o
doido entrega, pesaroso_:

                                                Deixa ver...
Deixa-mo ver... um livro antigo... Sabes ler?
Tu sabes ler?


OPIPARUS:

                        Anda, responde, no te encolhas...


CIGANUS, _abrindo o livro_:

Nem princpio, nem fim; trapos todas as flhas.


    Folheando e lendo:


_Esta  a ditosa ptria minha amada...
........................................
Alguns traidores houve algumas vezes...
........................................
Porque essas honras vs, sse oiro puro
Verdadeiro valor no do...
........................................
A que novos desastres determinas
De levar stes reinos, esta gente?...
........................................
..............apagada e vil triteza_...


O REI:

Parece verso...


CIGANUS, _restituindo o livro_:

                                    Um alfarrbio fedorento,
Coisa de prgador, talvez... cheira a convento...


CIGANUS:

Quem sabe se algum vlho ermito alienado,
Dsses que vivem ss, longe do povoado,
Em ermos alcantis ou cavernas de fera...


OPIPARUS:

Onde dormes?


O DOIDO:

            Dormir!... dormir!... Oh, quem me dera
Dormir!... Oh, quem me dera esta cabea vaga,
Esta cabea tonta, arrim-la a uma fraga,
E quedar-me p'ra sempre esquecido no cho!...
E os mortos dormem... e eu morri... ento... ento
Porque no durmo?!...


    Vagueando os olhos esgazeados pelos retratos da dinastia de
    Bragana, e como que recordando-se gradualmente, em sonho, dum
    escuro passado, abolido e longnquo:


                        Olha os bandidos... os traidores!...
Bem nos conheo!... fram les... subtilmente


    Rosnam os ces, enfurecidos.


Com drogas ms e com venenos de serpente,
Sem eu saber, de noite e dia, a pouco a pouco,
Me levaram a alma e me tornaram louco...
Enlouqueceram-me, endoidaram-me os bandidos!...
A minha alma!... a minha alma!... Ouo gemidos...
So talvez dela... tem-na aqui encarcerada...
Onde ests, onde ests, alma desamparada?!...
Grita por mim!... onde  que ests?!... Ai, quero emfim
Ver-te comigo... Onde  que ests?!...


    Os ces, truculentos, investem com le. Resignado e com desprzo:


Ah, ces danados... ces d'el-rei... mordei, mordei
ste corpo sem alma!... Ah fsse outrora... outrora!...
E ai dos cachorros e do dono!... Assim... agora...
Mordei, mordei, ladrai, despedaai sem p'rigo
A minha carne e os meus andrajos de mendigo!...


CIGANUS:

Coitado! um noitib maluco e mansarro...


OPIPARUS:

Delrio de tristeza e de perseguio...


O REI:

Astrologus talvez o conhea...


CIGANUS:

                                    O farante!
Prgador, impostor, mgico, nigromante,
Meio raposa e meio c'ruja...


O REI:

                         tal e qual... perfeito...
Mas o demnio do mostrengo tem seu geito
Para enigmas... Quem sabe!... Ide-o chamar... talvez...




SCENA VII


    Opiparus vai em procura do cronista. O doido, sonmbulo, vagueia em
    trno do salo, contemplando os retratos. O rei ao lume, junto dos
    ces, segue-o com os olhos.


CIGANUS, _meditando_:

Bem complicado ste cronista!... Quem o fez
Teve artes de engendrar singular criatura,
Contraditria, ondeante, incerta, ambgua, obscura...
H duas almas no mostrengo: a que arquitecta
Quimeras vs e sonhos vos, a do poeta
Luntico, imbecil, mstico, iluminado,
Essa deix-la andar, que me no d cuidado!,
Mas a outra, a ambiciosa, a gulosa, a mesquinha,
A refalsada, (a verdadeira!) a igual  minha,
Essa mais devagar, Saltamontes... cautela!...
lho nela... lho nela...
O rei  tudo, o rei fraco... ste cronista
Discursa bem... convem no o perder de vista...
Intil. Afinal as duas almas ao cabo
Destroem-se uma  outra,  como Deus e o Diabo.
E emquanto que ambas a ferver, drogas contrrias,
Em mil combinaes, imprevistas e vrias,
Se desagregam, eu, tranqilo e resoluto,
Como tenho uma s, imagino e executo.
Ah, o cronista ambguo e magro e macilento
No pasmarei de o ver ainda num convento...
Bem capaz de morrer, jejuando, ermito...
A loucura subtil envolve-o...
                                                Que trovo!
Que relmpago!... Brada o vento... ulula o mar...
E ste doido esquisito e singular, a olhar...
A olhar... Que leve o demo a noite e a ventania...


O REI, _seguindo o doido com os olhos_:

Pois agora embirrou! no larga a dinastia...


O DOIDO, _absorto_:

Fantasmas de mortos
So enganos mortos...
No lhes tenham mdo... deixem-nos sonhar...




SCENA VIII


    Entram Opiparus e Astrologus.


O REI, _ao cronista-mr_:

                              Conheces porventura
ste doido?


ASTROLOGUS:

                        Conheo.


O REI:

                                     doido?


ASTROLOGUS:

                                                Na figura,
Na voz, no olhar, em tudo o podeis ler, Senhor.


O REI:

E como endoideceu?


ASTROLOGUS:

                                    De misria e de dr.


O REI:

H muito?


ASTROLOGUS:

            Vai fazer trs sculos...


CIGANUS:

                                    A vista
Do espantalho endojou a mioleira ao cronista...


O REI:

Trs sculos!... caramba! ento que idade tem?
Mil anos?...


ASTROLOGUS:

            Qusi...


OPIPARUS:

                  Pronto! endoideceu tambm!


ASTROLOGUS:

A mil no chega ainda; oitocentos...


CIGANUS:

                                    Coitado!
Endoideceu! doido varrido e confirmado!


O REI:

Gracejas?


ASTROLOGUS:

                  No perdi a razo, nem gracejo...
Acaso, meu Senhor, no vedes, como eu vejo,
Neste gigante, em seu aspecto e seu fadrio,
O quer que seja de extra-humano e de lendrio?
Maior que ns, simples mortais, ste gigante
Foi da glria dum povo o semideus radiante.
Cavaleiro e pastor, lavrador e soldado,
Seu torro dilatou, inspito montado,
Numa ptria... E que ptria! a mais formosa e linda
Que ondas do mar e luz do luar viram ainda!
Campos claros de milho moo e trigo loiro,
Hortas a rir, vergeis noivando em frutos d'oiro,
Trilos de rouxinis, revoadas de andorinhas,
Nos vinhedos pombais, nos montes ermidinhas,
Gados ndios, colinas brancas, olorosas,
Cheiro de sol, cheiro de mel, cheiro de rosas,
Selvas fundas, nevados pncaros, outeiros
D'olivais, por nogais frautas de pegureiros,
Rios, noras gemendo, azenhas nas levadas,
Eiras de sonho, grutas de gnios e de fadas,
Riso, abundncia, amor, concrdia, juventude,
E entre a harmonia virgiliana um povo rude,
Um povo montanhs e herico  beira-mar,
Sob a graa de Deus, a cantar e a lavrar!
Ptria feita lavrando e batalhando: Aldeias
Conchegadinhas sempre ao torreo de ameias.
Cada vila um castelo. As cidades defesas
Por muralhas, basties, barbacs, fortalezas.
E a dar a f, a dar vigor, a dar o alento,
Grimpas de catedrais, zimbrios de convento,
Campanrios de igreja humilde, erguendo  luz,
Num abrao infinito, os dois braos da cruz!
E le, o heri imortal duma empresa tamanha,
Em seu tuguriosinho alegre na montanha
Simples vivia,--paz grandiosa, augusta e mansa,
Sob o burel o arns, junto do arado a lana.
Ao plido esplendor do ocaso na arribana,
Di-lo-eis, sentado  porta da choupana,
Ermito misterioso, exttico vidente,
Olhos no mar, a olhar sonamblicamente...
--guas sem fim! ondas sem fim!... Que mundos novos
De estranhas plantas e animais, de estranhos povos,
Ilhas verdes alm... para alm dessa bruma,
Diademadas de aurora, embaladas de espuma!...
Oh, quem fra, atravs de ventos e procelas,
Numa barca ligeira, ao vento abrindo as velas,
A demandar as ilhas d'oiro fulgurantes,
Onde sonham anes, onde vivem gigantes,
Onde h topzios e esmeraldas a granel,
Noites de Olimpo e beijos d'mbar e de mel!
E scismava e scismava... As nuvens eram frotas
Navegando em silncio a paragens ignotas...
--Ir com elas... fugir... fugir!...--[~U]a manh,
Louco, machado em punho, a golpes de tit
Abateu impiedoso o roble familiar,
H mil anos guardando o colmo do seu lar.
Fez do tronco num dia uma barca veleira,
Um anjo  proa, a cruz de Cristo na bandeira...
Manh d'heris... levantou ferro... e, visionrio,
Sbre as guas de Deus foi cumprir seu fadrio.
Multides acudindo ululavam de espanto.
Vlhos de barbas centenrias, rosto em pranto,
Braos hirtos de dor, chamavam-no... Jmais!
No voltaria mais!... oh, jmais... nunca mais!...
E a barquinha, galgando a vastido imensa,
Ia como encantada e levada suspensa
Para a quimera astral, a msicas de Orfeus...
O seu rumo era a luz, seu piloto era Deus!
Anos depois volvia  mesma praia emfim
Uma galera d'oiro e bano e marfim,
Atulhando, a estoirar, o profundo poro
Diamantes de Golconda e rubins de Ceilo.
Naiades e trites e ninfas, ao de leve,
Moviam-na a cantar sbre espduas de neve.
No estandarte uma cruz esquartelando a esfera;
E Vnus, voluptuosa,  proa da galera

Com o anjo cristo, virgem risonha e nua,
A mamar alvorada em seus peitos de lua!...
O argonauta imortal, quimrico gigante,
Voltava dos confins da epopeia radiante,
Estasiados ainda os olhos vagabundos
D'astros de novos cus, floras de novos mundos!

Epopeia inaudita! Heri, le a viveu,
Sonhador, a cantou: schilo e Prometeu!
Inda em hinos de bronze, em estrofes marmreas
Vibra eterno o clangor dessas passadas glrias...
Mas a glria entontece e mata... Deslumbrado,
Trocou por armas d'oiro as armas de soldado,
Vestiu veludo e sda e lhamas rutilantes,
Estrelou de rubins, aljfares, diamantes
Sua espada de crte e seu gibo de gala,
E, em vez do catre duro e po negro de rala,
As molesas do Oriente e as orgias faustosas,
Com baixelas d'Olimpo e emanaes de rosas...
Perdida a antiga f, morta a virtude antiga,
Seu nimo d'heri, caldeado na fadiga
De mil empresas, mil combates de tits,
Domaram-no por fim braos de cortess.
Com o ferro vencera o oiro; em desagravo,
O oiro, que  mau, venceu-o a le, tornando-o escravo.
Ingrato abandonara o teto paternal,
Em cuja mesa  ceia alde, heri frugal,
Eram de sua estreme e rstica lavoira
O po moreno, o vinho claro e a fruta loira.
Deixou morrer o armento; e campos e vinhedos
Cobriram-se de tojo, ortigas e silvedos.
Em seus castelos e palcios rendilhados,
Sbre leitos de arminho e veludo e brocados,
Entre beijos de harem e pompas de raj,
Desfalecera o velho heri, caduco j.
Mas era bravo ainda, e por vezes nas veias,
Acordava-lhe o sangue, alvorando epopeias...
Num mpeto de febre, aceso, arrebatado
Na viso deslumbrante e fulva do passado,
Ergueu-se um dia, louco e triste, alma quimerica,
Olhos em brasa a arder na face cadavrica...
Aparelhou galees, velas brancas arfantes,
Cavaleiros aos mil, juvenis e brilhantes,
Galopando a cantar, descuidados e ledos
Lanas na mo, a pluma ao vento, aneis nos dedos,
Cada bca uma flor, cada arma um tesoiro,
Rodelas d'oiro, arnezes d'oiro, espadas d'oiro,
Pedrarias astrais em setins e em veludos,
Drapejar de pendes, reverberos de escudos,
E as trombetas varando o cu leve de anil
Co'o estridente clangor do seu furor febril!
E, olhos em brasa a arder na face cadavrica,
L partiu, l partiu, alma errante e quimrica,
 epopeia da glria, ao sonho aventureiro,
Ao sonho lindo... oh, sonho triste o derradeiro!...
Num mar d'areia, fogo em p turbilhonando,
Sob o vitrolo da luz redardejando,
Entre as carnagens do combate desvairado,
J trucidado, espostejado, aniquilado
Seu exrcito louco,--oh sonho louco e vo!--
O calmo heri, noite no olhar, gldio na mo,
Negro de fumo e p, rubro de chama e sangue,
Os ilhais estoirando ao seu corcel exangue,
Arrojou-se, como um destino, erecto e forte,
 sangrenta hecatombe,  paz de Deus,  morte!
E a morte no no quis: exnime e desfeito,
De lanadas crivado o arnez, crivado o peito,
Sob o corcel tombou, por milagre inda vivo!
Levaram-no depois sem acrdo e cativo.
Meio sculo preso e dbil... De repente,
Num assomo de fria e de clera ardente,
Partiu grilhes, abriu o ergstulo fatal
E voltou livre, livre! ao seu torro natal!...
Mas ento, oh tristeza, oh desonra, oh desgraa!
Feras do mesmo sangue, homens da mesma raa
Envenenaram-no!...


    Iago atira-se furioso ao cronista.


O REI, _dando-lhe um pontap_:

                        Silncio! deixa ouvir...
Tem cada uma ste cronista!...


    Iago no obedece. Outro pontap.


                                    Deixa ouvir!
E quem foi?... e quem foi?...


    Rosnam os ces, fusilando os olhos ao cronista.


ASTROLOGUS, _embaraado e perplexo_:

Quem foi?... Mistrio obscuro... enigma que se esconde...
J li sbre isso, no sei quando, nem sei onde,
Uma lenda qualquer...


    Os ces enfurecem-se.


O REI:

                        Iago! Judas!... caluda!


ASTROLOGUS:

Mas nesse ponto, meu Senhor, a histria...


    Os ces ameaam, desvairados.


                                           muda!...
....................................................
Envenenaram-no, eis o facto, eis a verdade.
E s escuras, extinta a imortal claridade,
Louco autmato errante, alma cega e funrea,
Veio andando atravs do tempo e da misria,
Mendigo como um co e mrtir como um Cristo,
At chegar, meu Deus, vergonha eterna! a isto!!...
Vde-o bem, vde-o bem, o rude heri d'outrora:
Teve o mundo nas mos, nos olhos d'guia a aurora.
E hoje, oh destino atroz! sem amparo e sem lar,
Tem andrajos no corpo e escurides no olhar!...
No no mandeis prender, eu vo-lo peo e requeiro!
 inofensivo...  manso e bom como um cordeiro...
Causam-vos mdo, porventura, umas baladas
Que anda  noite a cantar, canes d'almas penadas?...
 a doudice, hrrida e m, que tumultua
Ou nas voltas do tempo ou nas fases da lua...
No afronta ningum... Deixem-no ir, coitado!
Deixem-no com seu mal e seu negro cuidado,
A trovar pelo escuro e a viver pelos montes
De luz do sol, d'erva do campo e gua das fontes...
....................................................
Trs um livro na mo, reparai bem, Senhor:
Um livro usado, um livro gasto e sem valor...
Sem valor?!... Um tesoiro, uma histria de encanto,
Que le escreveu com sangue e hoje rega com pranto...
No a larga da mo, anda-lhe to afeito,
Que at dorme com ela escondida no peito...
Mas que misria a sua e que destino o seu!
Quer ler... e no soletra o livro que escreveu!
Muitas vezes de tarde encontro-o a meditar
Sbre rocha escarpada e nua  beira-mar...
Pega no livro ento, abre-o sfregamente,
E fica olhando, olhando, atnito e demente,
A epopeia d'outrora, a bblia do passado,
Que lgrimas de fogo em sec'los tem queimado...
Mas ai! que serve olhar, se os olhos so janelas,
E se a alma  quem v, quem espreita por elas!...
Fica a olhar... fica a olhar, hesitante e perplexo,
Balbucia, articula umas coisas sem nexo,
E, por fim, taciturno e torvo, aniquilado,
Como quem vislumbreia, horror!, o seu estado,
Fita as nuvens do azul... fita as ondas do mar...
E desata, em silncio, a chorar!... a chorar!...
E depois vem a noite... e ali dorme ao relento,
Desamparado, abandonado, ao frio, ao vento,
T que algum pescador, de manh, pela mo
O recolha ao seu lar e lhe d do seu po!...
.............................................


CIGANUS:

Bem o dizia eu... bem o dizia eu...
ste cronista no regula... endoideceu!
Que histrias que le inventa, o mgico!...


OPIPARUS:

                                                Perlendas
De visionrio tonto, inquiridor de lendas...
Vagueiam-lhe no caco obscuro, entre miasmas,
Lemures, avejes, duendes, monstros, fantasmas...


CIGANUS:

E no entanto calcula e discorre direito,
Se lhe cheira a questo de ganncia ou proveito...


O REI:

Tantas magicaes, tanto grego e latim
Turvaram-lhe a razo, deram com le assim.
Pobre cronista! anda na lua... As trapalhadas,
As pandangas que le arquitecta!... E bem armadas!
Bem armadas!... com certo dedo... Francamente,
s vezes o ladro qusi embarrila a gente!
Pe-se-me a fantasiar uns casos de mistrio,
Com tamanho palavriado e tanto a srio,
Que fico bsta!... Ora o rato! ora a inzonice!
Vejam l, vejam l, tudo que p'ra disse!
Os maranhes, a lenga-lenga, a choradeira
Sbre um doido, coitado, a car de lazeira!


    Designando o doido:


Coitado! meio nu, faminto, vagabundo,
De charneca em charneca, aos tombos pelo mundo,
Sem ningum... v-se bem que esta doida alimria
 de famlia pobre,  de gente ordinria.
E eu com receios e com mdo! Visto ao longe,
To alto, um vozeiro, as barbaas de monge,
Era um horror! coitado! um maluco, afinal...


    Aos guardas:


Deixem-no em liberdade e no lhe faam mal.
No o espanquem... Ningum lhe bata... ordens severas!
Ningum bate num doido; os doidos no so feras.
Tratem-no bem... com caridade... Para a ceia
Uma cdea de po e a gamela bem cheia.
Desgraado! E dormir... dorme perfeitamente
Na estrebaria ao p dos ces:  limpo e  quente.
Roupa grossa... Avisai l em baixo a canalha...
Duas mantas de l e trs feixes de palha.
No se esqueam! cumpram as ordens que lhes dei!


ASTROLOGUS, _curvando-se humildemente_:

 alma generosa! Oh magnnimo rei!
Que agradvel no  ser o cronista obscuro
De esprito to alto e corao to puro!


    O doido sai acompanhado dos guardas. Os ces perseguem-no, ladrando,
    at  porta. Desencadeia-se a tormenta. Raios, troves, aguaceiros,
    ventanias lgubres. O rei e os validos dirigem-se ao balco. O
    cronista acaricia os ces, galhofeiramente, sorrindo amvel.


O CRONISTA, _afagando Iago_:

Iago, meu bom amor! faz'as pazes comigo!
Sabes quanto te quero e sei que s meu amigo...
No te zangues... perdo... congracemo-nos, v!
O doido foi-se embora e no torna a vir c...
Havia de eu perder afeies como a tua,
Por causa dum maluco a divagar na lua?!...
Anda, no sejas mau... faz'as pazes comigo...
Meu protector... meu defensor... meu vlho amigo!...


    Ameigando Judas:


E ste Judas!... to bom... to leal... to sincero!...
Como eu gosto de ti, Judas! como eu te quero!...


    Pegando no Veneno ao colo:


E o meu Veneno! o meu _bijou_! a rica prenda!...
Que amor de co!... que perfeio!... Nem de encomenda!...
 de apetite o meu Veneno, o meu tesoiro...
Uma beijoca, v, no focinhito loiro!...


    Afagando os trs ces simultaneamente:


E, para liquidar agravos duma vez,
Disponho-me esta noite a cear com vocs!


O REI, _despedindo o cronista_:

Cronista, vai dormir... boa noite... Deus queira
Que o sono te refresque um pouco a maluqueira...


O CRONISTA _sai, pensando_:

Na batalha da vida evidente se torna
Que ou havemos de ser martelo ou ser bigorna.
Concluso natural do dilema singelo:
Evitar a bigorna triste... e ser martelo.
Monstruoso, feroz, horrvel, mas em suma
Ponderemos que a vida  curta,--e que h s uma!




SCENA IX


O REI, _sentando-se cmodamente ao fogo_:

Ora do doido estou eu livre! Agasalhei-o,
Matei-lhe a fome, e agora quente, o ventre cheio,
Cama bem farta, vai dormir e repousar,
E no volta por certo esta noite a cantar...


    Repotreando-se alegremente.


Uff! sinto-me bem! volto a mim...


    Trincando um charuto e voltando-se para Ciganus:


                                          D-me lume.
Ia perdendo o vcio...  da regra...  o costume...
Em no fumando, mau negcio! ando esquisito...
Pois manh caada e toirada, 'st dito!
Hei-de abater, e sem fazer l grandes fras,
Dze toiros, trezentas lebres e cem coras.


OPIPARUS, _parte_:

J mente... Vai melhor!


    Tiros ao longe. Clamor distante. Os ces ululam.


O REI, _sobressaltado_:

                                    Ouvi... ouvi!... ouvi!...
Tiros... detonaes...  prximo daqui...
Fusilaria!... Ouvi... Que demnio se passa?!...


CIGANUS:

So os guardas d'El-Rei, que andam de noite  caa...


O REI:

De noite  caa!


CIGANUS:

                  Montaria aos lbos, meu Senhor...


O REI:

Dei cabo dum aqui h tempos... Que vigor,
E que tamanho! Era de noite... foi na estrada...
Cau logo no cho  primeira mcada!
Tenho morto dzias de lbos e de lbas,
Nenhum assim: pesava umas quarenta arrobas.


OPIPARUS, _parte_:

Sim senhor, eis El-Rei j no estado normal!


    Ouvem-se marteladas cavas e repetidas nos subterrneos profundos do
    palcio.


O REI:

Que barulho l baixo!... Um estrondo infernal
De marteladas!... Santo Deus! nem trinta diabos juntos,
Pregando a toda a pressa esquifes de defuntos!


OPIPARUS, _rindo_:

Gente carpinteirando em tbuas e barrotes,
No para esquifes, meu Senhor; para caixotes!
Mandei encaixotar (a providncia  boa)
Os milhes do tesoiro e as baixelas da c'roa.
E em quanto  c'roa, Senhor meu,
Ningum lha roubar, ningum!, defendo-a eu.
O trono... o que  um trono? uma simples cadeira
De veludo j gasto e de vlha madeira.
, pois, minha profunda e sbia opinio
Deix-lo ir sem resistncia... A c'roa, no!
A c'roa  d'oiro fino, esmeraldas, diamante,
Turquezas e rubins... (uns dois milhes cantantes!)
E portanto, Senhor, havemos de lev-la,
H-de ir connosco, ao p de ns, dentro da mala!


CIGANUS, _pensando e rindo_:

C'roa de procisso... rica para um andor:
Pedras falsas; troquei-lhas eu; vidros de cr.


OPIPARUS, _continuando_:

E comido o banquete e devorada a presa,
Bem nos importa a ns erguermo-nos da mesa!
Partiremos a rir, terminado o _dessert_,
Levando cada qual na algibeira o talher...
Com trs milhes de renda, um peclio feliz,
Grande vida a dum rei destronado em Paris!...


O REI:

 cnico, mas tem pilhria ste demnio!...


OPIPARUS:

Bom estmago e ventre livre: um patrimnio!
A vida  ba ou m, faz rir ou faz chorar,
Conforme a digesto e conforme o jantar.
Pode cr-lo, Senhor, toda a filosofia,
Ou tristonha ou risonha ou alegre ou sombria,
Deriva em ns, to orgulhosas criaturas,
De gastro-intestinais combinaes obscuras.


O REI:

E a moral?


OPIPARUS:

            Rica fara a moral! No me ilude.
Examinem qualquer vendedor de virtude,
Casto como um carvo, magro como um asceta:
A abstinncia  impotncia, o jejum  dieta.
O diabo, meu Senhor, j vlho e desdentado,
Sifiltico, a abanar como um gato pingado,
O trazeiro sarnoso, em gangrena a medula,
Exaurido a chupes de luxria e de gula,
Sentindo-se perdido e rabiando, afinal
Quis vingar-se do mundo... e inventou a moral!


O REI, _pensando_:

E, se eu s pontaps desancasse esta corja,
Ia s malvas... adeus! tinha banz na forja!...


    Fundeou na praia uma galera de corsrios. Desembarcam.


O DOIDO, _na escurido_:

A lua morta bia nas nuvens toda amarela...
Corvos marinhos, corvos daninhos poisam sbre ela...

Tiram-lhe os olhos, comem-lhe a bca, j com grangrena...
Astros errantes, agonizantes, choram de pena...

Choram de pena, tremem de mgoa, morrem de dr...
Na noite escura canta a Loucura, grita o Pavor...

Lbas tinhosas d'olhos d'enxofre saltam valados...
Pobres dos gados!... pobres dos gados pelos montados!...


O REI:

Olha o doido!... L torna o doido... Eu logo vi...
Canta p'ra at 'stoirar... canta p'ra!...
Bom telhudo! em pelote e com ste nordeste,
A ladrar cantoches  lua!... Que lhe preste!


CIGANUS:

Deixe l! faz-lhe bem... faz-lhe bem... P'r mania
No h nada melhor do que o vento e gua fria.


    Rebenta, fora, um grande tumulto. O rei e os validos assomam-se ao
    balco. Vem debandando, clamorosa, a revolta vencida. Soldados,
    prisioneiros, feridos, moribundos em macas. Ais de estertor, pragas,
    vivas avinhados, gritos de mulheres, choros de crianas. Os ces,
    truculentos, ululam na varanda.


O REI:

Que  isto?!... que estardalhao!... que chinfrineira!...
Gritarias... um rodilho... Temos asneira...
Temos coisa... no h que ver, temo-la armada...


CIGANUS, _rindo_:

 a guarda d'El-Rei, de volta da caada.
Os monteiros so bons... a matilha  valente...


OS SOLDADOS, _em clamor_:

Viva El-Rei! viva El-Rei!


O REI:

                        Compreendo. Excelente!
Ora que espiga! por um triz, hn! por um triz,
No vou s malvas! Ando em sorte!... fui feliz!...
Iam-me empandeirando! um cheque e mate ao rei!
Ora a cfila! ora a cambada!... Se eu o sei,
Com mil bombas! que os desfazia!... Eu lhes diria!
Oh, que porradaria! oh, que porradaria!
Rebentava-os! dava-lhes conta do bandulho
E dos cornos, mas  paulada! era a 'stadulho!
Quando o trono cair, sem lenha  que no cai...
Mostarda rija! O banazola de meu pai
Tinha-os em mau costume... Isto agora  p'rigoso...
Aqui h unhas p'ros coser... ol, se os coso!


    Entra um cavaleiro, portador duma mensagem.


CIGANUS, _depois de a ler_:

Montaria real! Foi covil por covil:
Feras mortas oitenta e prisioneiras mil.


O REI:

Dois gajes duma cana! Obra de lei!... Entrego
Nas vossas mos o meu destino, como um cego.
Marqus, fao-te duque; e ao ducado acrescento
Quinze milhes... Encaixa a histria no oramento...
Opiparus, a ti, reinadio e marau,
Pago-te os ces: trezentos contos...


OPIPARUS:

                                    No  mau;
Recebendo eu o blo e fazendo a partilha;
O meu grande credor sou eu. Quanto  matilha,
Que se esfalfe a ganir... No me incomoda nada...


O REI, _voltando-se para os ces_:

Iago, aboca! Olha o petisco: uma embaixada!
Fao-te embaixador! hn, que empanzinadelas!...
Que vidinha!... Um sulto num harem de cadelas!...
A ste Judas circunspecto que hei-de eu dar?
O Conselho d'Estado;  prprio e  bom logar.
Conselheiro, portanto. E o Veneno? O Veneno,
Conde e ministro. Um felizardo o meu pequeno!
Um catita!


    Acendendo um charuto e indo  varanda:


            Perfeitamente! Ora Deus queira
Que abichemos um dia bom p'ra pagodeira!
Um dia alegre! O tempo muda... ronda ao norte...
Magnfico! ho-de ver dze toiros de morte,
Desembolados! Inauguro emfim a minha praa:
Vai o Botas, o Pintassilgo e o Calabaa.


O DOIDO, _na escurido_:

Ao luzir d'alva semeei de flores
Uma encosta deserta ao p do mar
Cravos, lrios, jasmins, goivos, amores,
Aucenas e rosas de toucar.
Ao redor vinha verde e trepadeiras,
Medronheiros, figueiras, romanzeiras...
Lindo jardim! Lindo pomar!
Como no monte no havia fonte,
Desatei a chorar para o regar...
Depois, oh meus feitios!
Enchi de abelhas d'ouro cem cortios
E dez pombais com pombas de luar...
Olha o lindo jardim!... olha o lindo pomar!...
E enxada ao ombro, j raiava a aurora,
Abalei a cantar!...
Foi h mil anos... Venho mesmo agora
De ver a linda encosta  beira mar...
Lindo jardim! lindo pomar!
As aucenas deram-me gangrenas
E os jasmins podrides a fermentar!...
Os cravos deram cravos... mas de cruzes!
E as roseiras espinhos de toucar...
Sbre as ervas no cho crepitam luzes,
Fogos ftuos de larvas a bailar...
S dos goivos, Senhor, brotaram goivos,
Destilando loucura e rosalgar...
Olha o lindo jardim! olha o lindo pomar!
Os figos das figueiras so caveiras
E os medronhos so balas de matar...
Oh, que lindas roms nas romanzeiras!
Coraes fusilados a sangrar!...
Inda bem, que em vez d'uvas nas videiras
H rosrios de dor para eu rezar...
Olha o lindo jardim! olha o lindo pomar!
De dentro dos cortios, que feitios!
Voam corvos e c'rujas pelo ar...
E dos pombais, aos centos,
Nuvens de abutres agoirentos,
Que sbre as romanzeiras vo poisar!...
Olha o lindo jardim! olha o lindo pomar!
.........................................
.........................................
 de encantar a natureza!... ai que beleza!
Quantas florinhas para a minha mesa!...
Deus, quanta fruta para o meu jantar!...
Lindo jardim... lindo pomar!...




SCENA X

*Os mesmos e Magnus*, que entra majestoso e solene.


O REI:

Chega ao calhar... Ento, meu duque, a trabuzana
Foi ba... Por um triz, iam-nos  pavana!


MAGNUS, _grandioso_:

Valeu-lhe, meu Senhor, (da isto a quem da!)
Haver trs homens, como ns, junto da C'roa,
Para a salvar dum grande abismo!... A situao...


O REI:

Ganhou hoje, meu duque, o Elefante e o Pavo.


MAGNUS:

Nem sei como exprimir a Vossa Majestade
A alegria que sinto!...  de mais! que bondade!
A gr-cruz do Pavo!... Nunca o julguei... Em suma,
Feliz!... morro feliz... J no h mais nenhuma!


O REI, _a Ciganus_:

E agora?


CIGANUS:

            Meu Senhor,  dormir sem cuidados!
Os mortos cemitrio e os vivos...


OPIPARUS:

                                    Enforcados.


CIGANUS:

Talvez que sim, talvez que no...
 conforme: o rigor, a clemncia, o perdo,
Tudo s vezes convm, tudo tem seu logar...
Enforco-os, claro est, se os puder enforcar.
No podendo, enxovia; e, se a nao revlta
Clama contra a priso... deix-los hei  solta.
Enforcados, melhor. Eu, gente que deteste,
Quero em vez de canhes a guard-la um cipreste.
Mas, se matando arrisco a prpria vida, no:
Converto-me, de algoz furioso em bom cristo...
Reinar, eis o importante; o modo  secundrio.
 conforme se pode;  dia a dia; vrio.
Fica melhor um rei num corcel de batalha,
O chicote na mo, contemplando a canalha.
Inspira assim terror, incute mdo e f.
No h, porm, cavalo?  governar a p.
E, se ainda precisa atitudes mais chatas,
 governar de toda a forma,--at de gatas!
O caso  governar, seja l como fr:
Com manhas de toupeira ou vos de condor,
Por caminho sinuoso ou caminho direito...
Eu, para governar, a tudo me sujeito,
Indo de cara alegre at ao sacrifcio
De ser exemplarmente honesto... por ofcio!


    Continua a tormenta. Prosseguem os vivas. Os ces ladrando sempre.


MAGNUS, _sentencioso_:

Nas vistas do marqus h pontos em que abundo,
Pontos em que discordo. O mal  mais profundo!
Talhemos com firmeza o mal pela raz!
Nas circunstncias desastrosas do pas,
Quando um vento de insnia brava nos arrasta,
Quando abusos de toda a ordem, toda a casta,
Andam impunes; quando a moral e o direito
J no levam sequer  noo de respeito,
 noo do dever, urge com brevidade
Dar fra  C'roa e dar prestgio  autoridade!
Eu com rude franqueza o digo: o caso  srio!
Ns vivemos (se isto  viver!) num baixo imprio!
Olhem bem ao redor: uma orgia! um entrudo!
Abocanha-se tudo, emporcalha-se tudo,
Nem o sacrrio da famlia se venera,
No h reputao, ainda a mais austera,
Que a no manchem... um lodaal, um tremedal de escombros,
E ns a vermos isto e a encolhermos os ombros!
 de mais!  de mais! Vamos todos a pique!
 necessrio um termo!  necessrio um dique!
Sursum corda! Que El-Rei leve a bandeira em punho!
E inda h gente... inda h gente! inda h homens de cunho!
Inda h muita aptido, muita capacidade
E muita honra!... O que  mister  uma vontade!
Obre El-Rei com firmeza! obre El-Rei sem demora!
Qual o cancro que dia a dia nos devora?
Toda a gente que v, toda a gente que pensa
Pe o dedo na chaga e conclue: a descrena!
Se o mal vem da descrena, ataque-se a questo!
Religio, Senhor e mais religio!
Deus e mais Deus! tendo ns Deus e a fra armada,
No h receio algum; dormir descansada
A monarquia. Deus, embora neste meio,
Queiram ou no,  sempre Deus!...  ainda um freio!


OPIPARUS, _galhofeiro_:

E o profeta, que nos censura e nos fulmina,
Tem palcio, grande estado, mesa divina,
 _joisseur_ como dez banqueiros elegantes,
E, facto escandaloso! a respeito de amantes
Cultiva sobretudo (s vezes com seus p'rigos...)
Esta especialidade: a mulher dos amigos!


MAGNUS, _furioso_:

Safa! que lngua! que veneno!...


O REI:

                        E o duque atomatado!
Como se no pudesse um ministro d'estado
Regalar-se com vinhos bons ou fmea alheia!
Deixe-os morder de raiva.  tudo inveja, creia.
Gosto dum vlho assim, danado e atiradio...
Um vlho folgazo... Simpatiso com isso.
 c dos meus...  c dos meus...


MAGNUS, _risonho e vaidoso_:

                                    Na juventude,
Rapaz... como rapaz... vamos! fiz o que pude!...
A crnica inda o lembra... Hoje o caso  diverso...
Aos sessenta j custa a endireitar um verso!


O REI:

Magano!


MAGNUS:

            Hoje no!... S em pequenas dozes...
Falta o melhor... So mais as vozes do que as nozes...


O REI, _gracejando_:

Mas o que a mim me espanta, e no entra na bola,
 sair-nos o duque um perfeito carola!
Se a ranha estivesse, inda d'acrdo, admito...
Mas entre homens prgar sermes acho esquisito,
Meu caro duque... Estou a v-lo qualquer ano,
Entrapado em burel, frade varatojano!


MAGNUS, _solene_:

Distingo, meu Senhor, distingo: sou cristo,
Co'as rdeas do govrno e do poder na mo.
Catlico e de lei, sob o ponto de vista
Administrativo, e nada mais. Como estadista,
Eu considero a Igreja uma pedra angular
Da ordem! Quero o trono achegado ao altar!
A Igreja tem prestgio! a Igreja  um sustentculo!
Convm ao scetro ainda a amizade do bculo!
O homem pblico em mim, o defensor da C'roa,
 desta opinio. Sustento-a e julgo-a ba.
Mas c dentro, no fro interno, a ss comigo,
Eu, o particular e o filsofo, digo-o
Alto e bom som, digo-o de cara e sem temor:
No h ningum! ningum! mais livre pensador!
Eu admiro Voltaire!... Eu encontro-me em dia
Com a marcha do globo e da filosofia.


O REI, _galhofando_:

Se a Ranha lhe sente ideas desordeiras...


MAGNUS:

Leio Voltaire, mas quero os frades!...


OPIPARUS:

                                    E eu as freiras...


CIGANUS:

Por mim desejo tropa, em logar de irmandades.
Mas, se a ranha quer os frades, venham frades.
Com certo geito e condies, inda afinal
Se atamanca de Deus um bom guarda rural...


    Trovo retumbante. A caverna da noite incendeia-se de oiro, abrasada
    a relmpagos. Ais e lamentos. Gritos ferozes de soldados. Uivam os
    ces. Sente-se ao longe um rumor imenso de multides que debandam.


MAGNUS, _meditando_:

Que demnio!... cheira a chamusco... Volta a dana...
Olha que brincadeira!... Isto, se a coisa avana,
Vai tudo raso, vai tudo em cacos pelo ar!
No me sinto aqui bem... Nada! ponho-me a andar!...
Uma histria qualquer...


    Ao rei:


                        Meu Senhor, a duquesa...
(Foi dste abalo repentino, esta surpresa...)
Achou-se mal, deu-lhe um febro... em tal estado,
Que no gosto... no gosto... inspira-me cuidado...
E se El-Rei o permite...


O REI:

                        Ignorava... Ora essa,
Meu caro duque! Ande ligeiro, v depressa...
Boa noite... Dormir um pouco, e s cinco e meia
Na toirada. Curro catita!  de mo cheia!


    O rumor longnquo, de mar humana, avana, trgico, na escurido
    profunda. Surge na praia uma nau gigante, embandeirada de negro.
    Uivam os ces.




SCENA XI


O REI:

Ouvi!


OPIPARUS:

            O mar.


CIGANUS:

                  No  o mar; a ventania.


O REI:

Tambm no... Escutai... escutai...


OPIPARUS:

                                    Dir-se-ia
O confuso estridor, desordenado e vrio
Dum exrcito louco, em tropel tumulturio...


    O rei com os validos assoma-se ao balco. Hordas inmeras de
    esfarrapados, multides de mendigos, turbas espectrais, homens e
    mulheres, vlhos e crianas, ululando, gritando, praguejando, baixam
    a montanha em direco  praia, numa torrente caudalosa, numa levada
    contnua de sofrimento e de misria. E o poro tenebroso do
    navio-fantasma engulindo, aos cardumes, vertiginosamente, aquela
    humanidade enlouquecida. E a enxurrada sinistra, avolumando,
    alastrando, cada vez mais tumulturia e bramidora. Dir-se-ia um povo
    de malditos, debandando a um cataclismo inexorvel! Povo imenso, no
    tem fim, mas o navio no tem fundo. Cabe tudo l dentro. Os ces, na
    varanda, rosnam, sombrios e provocantes.


O REI:

Que quer isto dizer?! que chinfrineira  esta?!...
Que balbrdia!... que multides sombrias!... temos festa!...
Oh, com mil raios! temos festa... H banz novo...
Que 'stardalhao... Um mar de gente!... um mar de povo,
A correr, a crescer... Gritos, uivos, bramidos...
Era uma vez, marqus!... Pronto! estamos perdidos!...


CIGANUS, _fleumtico, acendendo um charuto_:

Coisa vulgar, Senhor: emigrantes, misria...


O REI:

Cuidei que era chinfrim de novo... Ora a pilhria!
Cuidei que era chinfrim... E antes o fsse! Ao cabo,
Zurzia-os duma vez a pontaps no rabo!
Punha-os de mlho! A garotada jacobina
Hei-de-lhe eu amolgar as trombas numa esquina!
Chegando-me  nariz os vinagres, cautela!
D-me a fria... e caramba!  d'alto l com ela!
Em vora uma vez, h coisa de dois anos,
Salta-me num caminho um bando de ciganos,
Era de noite, mais escuro do que um prego,
Atiro-me, arremeto s doidas como um cego,
E esbandulhei quarenta e quatro!... Um bom chinfrim!...


OPIPARUS:

A canho Krup?


O REI, _sacando, da algibeira, um navalho
de ponta e mola_:

            A naifa!


    Com um gesto esfaqueante:


                        Eu c  isto: assim!


O DOIDO, _na escurido_:

A fome e a Dor escaveiradas
Ululam roucas nas estradas,
Irms sinistras de mos dadas...
Misericrdia! Misericrdia!
Na escurido, entre lufadas,
Que pavorosas debandadas
De multides desordenadas...
Misericrdia! Misericrdia!
Turbas gemendo esfarrapadas,
Por ventanias e nevadas,
Filhos ao colo, ao ombro enxadas,
Sem luz, sem po e sem moradas!...
Misericrdia! Misericrdia!
E em salas d'oiro, iluminadas,
H beijos, risos, gargalhadas...
Misericrdia! Misericrdia!
E, por outeiros e quebradas,
Tombam choupanas arrunadas...
Mortas... desfeitas em ossadas...
Misericrdia! Misericrdia! Misericrdia!


OPIPARUS:

Que bela voz! Dava um bartono estrondoso
O diabo do maluco!...


O REI:

                  A mim faz-me nervoso,
No sei porque... Faz-me nervoso... Embirro,  doena...
Mas quanto povilu! que turbamulta imensa
De esfaimados, de miserveis no abandno,
Rafeiros a latir, sem albergue e sem dono!
Vejam isto...


CIGANUS:

            A misria  lama,  sangue, e  pranto,
A fermentar em crime e em veneno. Portanto
Precisa esgto; quer-se um esgto e despej-la
Contnuamente num poro ou numa vala.
Emigrar ou morrer; degrdo ou cemitrio.
O hlito da pobreza imunda  deletrio.
De trapos de mendigo e lenis de vilo
Faz a anarquia flamejante o seu pendo.
Curta distncia vai da indigncia  rapina,
Da mo que implora  que estrangula e que assassina.
Dorme em cada esfaimado um tigre. H que evitar
Na rua aglomeraes de ventres sem jantar.
A misria despeja-a Deus, a Providncia,
Do seu vaso nocturno ao saguo da existncia.
Que fazer contra a lei de Deus, contra o Destino?
Arredar para longe o excremente divino,
Para bem longe, de maneira que a infeco
No nos perturbe a ns, Senhor, a digesto...


O REI:

 triste, mas emfim que remdio lhe dar?!


OPIPARUS:

Comer, beber, dormir, jogar, caar, danar!
Festas, Senhor! Muitas e vs, loucas e vrias!
No h jantar? Funo. No h po? Luminrias.
A pobreza anda rta, a canalha anda nua?
Girndolas ao ar e msicas na rua.
A fome e a dor bramem de noite, uivam nas eiras?
Matinadas, clarins, vivas ao rei, bandeiras.
Alegria! gozar! folgar! nada de luto!
Bombas! Salvem canhes de minuto a minuto!
E a cada grito de misria ou de estertor
O cantar dum Te-Deum e o rufar dum tambor.
D-se  plebe faminta uma estrondosa orgia,
Um banquete real, monstro,--em scenografia!
Que bela ida! Armar de improviso um galeo,
--Tbuas, cinbrio, gsso, andrinopla e carto,--
P-lo em rodas, tirado a parelhas d'Alter,
A crte dentro, o patriarca, o chanceler,
El-rei de c'roa d'oiro, a ranha taful,
Asas novas de arcanjo, uma branca outra azul,
Eu ao leme, pendes, msicas, auriflamas,
Bispos e generais, o nncio, arautos, damas,
Com brilhantes a arder em veludo e em brocado,
--Tripulao emfim de baixel encantado,
A navegar de rua em rua, e praa em praa,
Atirando  misria,  nudez,  desgraa,
A carga inteira a plenas mos: ldo em confeitos,
Gargalhadas, sermes de entrudo (alguns perfeitos!)
Drogas de charlates, ditos de saltimbanco,
Cinza, areia, impudor, fome... e notas de banco!
................................................
E por ltimo a rir sentamo-nos  mesa,
A despejar champagne em favor da pobreza!


O REI:

Despovoa-se tudo!


CIGANUS:

                        Um xodo...


OPIPARUS:

                                    Senhor,
Grande mimo de Deus para um rei caador!
Terra despovoada e morta, sem ningum,
 terra inculta. Bem, perfeitamente bem.
Ora uma terra inculta, (, meu Senhor, um facto)
No d vinho, nem po, nem meloais,--d mato.
E o mato bravo e as brenhas virgens do a caa
Com mais fartura, variedade e doutra raa.
Pelos jardins d'agora, em dez anos talvez,
Andaremos ao lbo e ao cabrito monts.
Olivedos, vergeis, campos, lezrias, prados
Criaro a raposa, aninharo veados.
E onde hoje h couves e mas, El-Rei, feliz,
Galopando a primor, montear javalis!


    Trovo formidando. Um relmpago lvido abrasa as profundidades cavas
    do horizonte. As rvores, de sbito, aparecem nuas e hirtas, sem uma
    flha. Dos ramos, batidos do vento, pendem enforcados. Dir-se-iam
    esqueletos de rvores gente. Nuvens de abutres pairam em volta,
    crucitando.


O REI:

Pavoroso!


OPIPARUS:

            Ora adeus! nada mais natural:
A fome trs a morte, os mortos cheiram mal,
E o cheirete dum morto, assim dependurado,
Para um corvo  melhor que o dum faiso trufado.


O DOIDO, _na escurido_:

Olha as macieiras que mas que do:
Gangrena por fora, dentro podrido!

Lavrador-cveiro, lavrador-cveiro,
As mas escusam de ir ao madureiro...

Oh, que estranhos figos que h nos figueirais:
Mordidos d'abutres!... Figos que do ais!...

Lavrador-cveiro, lavrador-cveiro,
Colhe-me essas bebras que j teem mau cheiro...

Se  fruta de embarque, vai pelo caminho
Desfazer-se toda nos caixes de pinho...

Fruta de tal raa, cavador lunar,
S a quer a Morte para o seu jantar!...


O REI:

Dou s vezes razo ao tonto do cronista...
Que lhe querem! no  agradvel  vista,
Por noite negra uma bandada de milhafres,
Grasnando e devorando,  maneira de cafres,
Uma ceia de carne podre...


CIGANUS:

                        Que limpeza!
Deixe-os comer... deixe-os comer... Varrem a mesa.
Mortos e mortos na floresta  dependura,
Um aougue... No h cveiro, nem h cura,
Nem tochas, nem latim para tanta carcassa...
Os corvos, meu senhor, enterram-nas de graa.
Admirveis glutes, em bambocha funrea
Liquidam numa noite a questo da misria.
Jantam-na. Devorado o problema. Afinal
Restam ossos; convm: tem fosfato de cal,
Bom adubo...
            E no entanto o pas, meu Senhor,
 uma beleza! uma beleza! encantador!
Trinta portos ideais, um cu azul marinho,
A melhor fruta, a melhor caa, o melhor vinho,
Balsmicos vergeis, serranias frondosas,
Clima primaveral de mandries e rosas,
Uma beleza! Que lhe falta? nicamente
Oiro, vida, alegria, outro povo, outra gente.
Raa estpida e m, que por fortuna agora
Torna habitvel ste encanto... indo-se embora!
Deixe morrer, deixe emigrar, deixe estoirar:
Dois boqueires de esgto,--o cemitrio e o mar.
Que precisamos ns? Libras! libras, dinheiro!
Libras d'oiro a luzir! Onde as h? No estrangeiro?
Muito bem; o remdio  clarssimo,  visto:
Obrigar o estrangeiro a tomar conta disto.
Imprios d'alm-mar, alquilam-se, ou ento
Sorteados,--em rifa, ou  praa,--em leilo.
E o continente  d-lo a um banqueiro judeu,
Para um casino monstro e um bordel europeu.
Fazer desta cloaca, onde a misria habita,
Um paraso por aces,--cosmopolita.
Dar jgo ao mundo, ao globo! uma banca tremenda!
Calculo eu da uns mil milhes de renda.
O comrcio, dez mil... O trnsito, sem conta...
Cifras, Senhor, de pr uma cabea tonta!
De minuto a minuto, expressos e vapores,
Sempre a golfar carregaes de jogadores,
Montes de malas, sacos d'oiro, (libras, luses!)
Nuvens de cortess, danarinas e actrizes,
Equipagens, _Barnoums_, _touristes_, saltimbancos,
Vinte raas,--mongis, negros, mestios, brancos,
Um ruidoso vaivm humano que circula,
Todo fausto, esplendor, alta luxria e gula,
O mylord, o nababo, a Rssia, a ndia, a Amrica,
Numa promiscudade esplndida e quimrica!
E todo ste pas, den de regabofe,
Iluminado  noite a faris Jablokoff!
Que maravilha! que surpresa! que grandeza!
E que tesoiros nesta rica natureza,
Cultivando-a a primor! Em logar d'erva e searas,
Plantas de luxo: coisas finas, coisas caras.
Eu imagino, (dando os mximos descontos)
Que o reino lucrar uns trezentos mil contos,
Smente a produzir, ao ar livre e em estufas,
Ananazes, faises, pio, champagne e trufas.


    Relmpagos e troves. Paisagem deserta. A nau fantasma, cortada a
    amarra, bamboleia nas ondas, prestes a largar. Uma sombra disforme,
    como de ave gigante, voa na escurido.


O REI:

Um bacamarte! uma clavina! uma escopeta!...
Cheguem da... salta depressa uma escopeta!
Salta depressa! que vo ver como rebento
s escuras aquela guia...  num momento
J duma ocasio, (que pontaria a minha!)
Com um balsio matei oito: iam em linha.
A escopeta, marqus!


CIGANUS:

                        No lhe serve de nada;
 a bandeira do castelo. Uma rajada
Sem dvida, Senhor, quebrou o mastro e leva
Num frangalho o pendo errante pela treva.


OPIPARUS:

ptimo! de manh flutuar no baluarte
Pendo novo. Tem cinco quinas o estandarte;
Uma quina de mais; suprime-se,  evidente:
Nos baralhos, Senhor, h quatro nicamente.


    O navio fantasma, que levantou ferro, desaparece ao longe.


O DOIDO, _na escurido_:

 nau gigante,  nau soturna,
Galera trgica e nocturna,
Que levas, dize, no poro?...

O vento chora sbre o mundo,
Chora de raiva o mar profundo...
Que levas, dize, no poro?...

A lua, aziaga e macilenta,
Olha-te exnime e sangrenta...
Que levas, dize, no poro?...

Asas carnvoras em bando
Poisam nas vrgas crucitando...
Que levas, dize, no poro?...

Teu cavername exala miasmas,
Teus marinheiros so fantasmas...
Que levas, dize, no poro?...

Teu pendo negro vai a rastros,
So cruzes negras os teus mastros...
Que levas, dize, no poro?...

--Dentro do esquife, amortalhada,
Levo uma ptria assassinada,
No meu poro!...


O REI:

ste ladro do doido irrita-me!  demais!
No se cala, caramba!  demais!  demais!
J no posso... Marqus, se o diabo me enfernisa,
Outra noite co'a lenga-lenga; uma camisa
De fras, bom vergalho, e, sem d nem piedade,
Enxvia ou masmorra onde grite  vontade.


    Abre um relmpago o horizonte. As carcassas nuas dos enforcados
    baloiam ao vento nas rvores despidas. Nem viv'alma. No crro dum
    monte erguem os piratas uma cruz descomunal, manchada de sangue.
    Uivam os ces.


O REI:

Uma cruz negra alm!...


CIGANUS:

                        Onde?... No vejo nada...


O REI:

Uma cruz toda negra e toda ensangentada!...


CIGANUS:

Foi decerto iluso...


    Rindo:


                   calvrio feroz
Que espera algum...


OPIPARUS:

                  Nenhum de ns... nenhum de ns...
Poderemos dormir tranqilos, sem receio
Dum calvrio onde apenas haja a cruz do meio...


    Uivam os ces sinistramente.


O DOIDO, _na escurido_:

Em noite sem lua, numa nau sem leme, fui descobrir mundos,
Mundos pelo mar...
O vento sopra, o vento sopra...
Quanta areia negra faz turbilhonar!
--Mundos a voar... mundos a voar...

Por manh doirada, galeo doirado vinha cheio d'oiro!...
Rubins scintilantes,
Prolas, diamantes...
Vinha cheio d'oiro...
O vento sopra, o vento sopra...
Que cinza de campas se alevanta ao ar...
--Meu oiro a voar... meu oiro a voar...
Castelos nas praias, galeras nas ondas, reinos d'alm-mar!...
O vento sopra, o vento sopra...
Que bandos de nuvens!... vo-se a desmanchar!...
Castelos... galeras... reinos d'alm-mar...

Foi um sonho lindo... foi um sonho lindo...
Como  bom sonhar!...
Acordei sem alma... quem me encontra a alma...
Quem ma torna a dar!
Queimou-se o casebre... s ties escuros, s carves escuros,
Inda a fumegar...
(Quem ma torna a dar!)
Que bem dormiria debaixo dos muros...
To quente!... debaixo das pedras do lar!
Oh, que inverneira! oh, que inverneira!
Crestou-me o vinhedo, secou-me o pomar!
A terra levou-a... deixou-me s fragas...
Deixou-me s fragas, para as eu calcar...
Peguei na minha dor, botei-a s fragas...
No tinha mais que semear!
O que viria, o que viria
Da minha dor na primavera a rebentar?...
Um tronco despido me brotou das fragas,
(Que singular! que singular!)
Um tronco despido,
Sem ramos, sem flhas... um tronco no ar!
Depois medrou tanto, como por encanto,
Que andadas trs luas era secular!
E nem uma flha e nem um raminho,
Onde um passarinho poisasse a cantar!...
Um tronco no ar!
Mas de repente, de repente
Deitou dois braos, logo um par!
Braos estendidos, abertos e nus,
Como que a chamar... como que a chamar...
Mas, oh Deus! que vejo! uma perfeita cruz,
Uma cruz erguida sbre um grande altar!...
Minha dor nas fragas, entre uns estilhaos
De rochedos duros no que veio a dar!...
.............................................
Inda bem! Ora inda bem que j no mundo h braos,
Para me abraar!...


O REI:

J 'stou farto de cantoches, de ventania
E dos agoiros!... Passa das trs;  qusi dia...
Vamos dormir...


    Apontando o pergaminho:


                        C deixo esta lria assinada.
Falaremos depois. _Rendez-vous_ na toirada.




SCENA XII


O REI, _s, ao fogo, olhando o pergaminho_:

Belo! toca a assinar o papelucho e cama.
Vo-se os pretos! Adeus, pretangada e moirama!
Inda bem! J ningum desde hoje me seringa,
Levantando questes dum cafre ou duma aringa.
Durmo esta noite como um odre. Para insnias
O remdio  mandar  tuba as colnias.
Que se governem! tudo s quintos! tudo  fava!


    Olhando os retratos da dinastia:


O que diriam disto os maganes?... Gostava
Duma palestra com vocs... Vinha n'altura...


    Trovo retumbante. Os ces ululam. Diante do rei, varado de
    assombro, ergue-se de improviso o fantasma de D. Joo IV. O rei quer
    falar, quer fugir, mas paraltico de mdo, olhar atnito, nem um
    gesto, nem um ai, nem um grito. Desfalece, cando imvel.




SCENA XIII


O ESPECTRO DE D. JOAO IV, _ar untuoso, manhoso,
beato, falso e pusilnime_:

Tens mdo de assinar? Pesa-te a assinatura?
Vais ouvir meu conselho:
                        nimo bravo e ardente,
Em lacaios fieis predicado excelente.
Num monarca j no... A fraqueza traioeira,
D'olhos de lince e passos mortos de toupeira,
Vence tudo... Precisa um rei de heroismo audaz?
Serve-se dos heris e fica le em paz.
Nada que nos perturbe a digesto e o sono;
Para dar bom assento  que se fez o trono.
Os reis so reis e os homens ces, em vrio estado:
Ou ces de caa ou ces de fila ou ces de gado...
Mas tudo ces. Chicote a uns e a outros festa,
Eis do govrno a arte;  bem clara; s esta.
Com os homens, assim. Com Deus, trato diverso.
Tu s o rei dum povo, le o rei do universo.
Depois da morte h inferno e paraso; ento
Lida sempre com Deus, como bom corteso.
Vale a pena. Medita as chamas infernais,
As mil cobras de fogo em doudas aspirais,
Enleiadas a ns!... que tortura! que horror!
Ah, vale a pena servir Deus e ter-lhe amor!
No s a Deus; aos santos todos! E a Maria,
 Virgem-Me, oh filho! a essa, noite e dia
 rezar;  rezar de joelhos na capela!
A nada atende Deus como a um pedido dela.

Firma o tratado. Firma-o de pronto e sem receio.
Entre as hostes iguais a dvida, no meio,
Hesita,  bem de ver... Mas neste caso, em suma,
No encontra a razo hesitao alguma.
O teu povo dum lado e o breto do outro lado;
Ora, entre um borrego e um leopardo esfaimado,
No h brio a atender, h vida a defender.
O leopardo  o mais forte: assina... tem de ser.
A fera vem bramindo e quer do teu jantar;
Chicote-la? No; pode-te estrangular.
Dividirs com ela; e tu, quietinho e manso,
Fica  mesa comendo o resto com descanso.
Creio que para ti e para herdeiros teus
H-de ainda chegar talvez, graas a Deus.
Graas a Deus e  Virgem-Me, a quem eu dei
A tutela do reino e o corao do rei.


    Desaparece.


O DOIDO, _na escurido_:

Dum duque fiz um rei; e o rei me disse: Vamos
Ouvir  igreja (era de noite) o meu Te-Deum laudamus.
Era de noite... era de noite... na encruzilhada,
Quando me viu, cantou um galo preto uma alvorada.
Bonita festa, (disse eu entrando) bonita festa!
Que igreja esta
Tantos panos escuros... tantos panos escuros,
Velando os muros!
E um esquife sombrio
Num catafalco... um grande esquife negro, inda vazio!...
Mas coisa horrenda e de pasmar,
O altar! o altar!
Crucificado num madeiro um cordeirinho branco exangue
E treze tochas de gangrena azul, chorando sangue!...
Veio da sacristia a cleresia... Olhai, olhai
O padralhame que a vai!
Raposas sarnentas e lbos gordos ulcerados,
--Dominus vobiscum!--todos paramentados e mitrados.
E era um bode de andaina vermelha o sacristo,
Um bode carcunda, ventrudo e lanzudo, galhetas na mo.
E quem cantou a missa de pontifical
Foi o rei! era o rei... tal e qual! tal e qual!
Mas tinha rabo de raposa e tinha olhos de chacal!
Cantava de papo, cantava de papo,
E a bca imunda, sem tirar nem pr, uma bca de sapo!
O Esprito baixou ento divinamente,
Poisou no rei, e o rei lhe disse:--Ol! ol, Vicente--
E as dois rgos ao fundo, que rouquides!
Grunhindo troves por entre os cantoches!
E toda a padralhada, no seu cartimpcio,
--Oremus! Oremus! Santo Incio e mais Santo Incio!--
E ao levantar a Deus emfim,
De hstia e clix na mo, o rei voltou-se para mim:
--ste vinho  o meu sangue. ste po negro  o meu corpo:
Toma l o meu sangue, toma l o meu corpo.--
Cuspiu no clix, deu-mo a beber, bebi... bebi...
E a hstia impura, nem sei de azda como a enguli!
E envenenado fiquei... envenenado fiquei
Pelo corpo do rei, pelo sangue do rei!
Envenenado e paralisado,
Mas inda a ver, inda a sentir... como um dormir
De defunto acordado...
Ento o rei pegou num cutelo, abriu-me o peito,
Meteu as mos... e tirou-me a alma com todo o geito!
Era uma virgem, corpo de deusa, branca e nua,
Como que feita, num sonho triste, do alvor da lua...
A minha alma aquela! a minha alma aquela!
Oh, nunca a imaginei assim, to formosa e to bela!
Mas que ar de nojo e de amargura
Envolvendo-a, plida e branca, em noite escura!
Deitaram-na ao caixo, pregaram-lhe a tampa s marteladas,
E o rei,--Oremus! Oremus! Oremus!--
s gargalhadas.
E no madeiro o cordeiro manso, dolorido,
Deu o seu ltimo gemido...
E expiraram no altar
As treze velas bentas de rosalgar...
E a cleresia pela noite, em chusma, como assombros,
Debandando e levando o esquife, aos encontres, nos ombros...
E a mim deitaram-me a dormir num fraguedo deserto,
Sem alma, com o peito um rasgo de sangue, todo aberto!...
Ei-lo aqui... ei-lo aqui... Nunca o deixei cicatrizar...
Que  para a alma, quando me volte, poder entrar...
As almas no morrem...
As almas no morrem...
Nem Deus, tendo-as feito,  capaz de as matar!...




SCENA XIV


O ESPECTRO DE D. AFONSO VI, _que entra
alucinado, hemiplgico, azorragando, furioso,
uma matilha de ces imaginria_:

Ah, marotos! ladres!... ladres!... perros danados!...
Vo inda perseguir-me  tumba stes malvados!
Assassinos! ladres! Nem no sepulcro existe
Repouso para um morto, alvio para um triste!
Nem debaixo da terra emfim, vboras ms,
Me deixais, me deixais apodrecer em paz!
Nem morto dormirei... coitada criatura!
E como o sono eterno  bom,  noite escura!...
Ah, como  bom dormir... dormir... dormir... dormir!...
No ter alma, no ver, no gemer, no sentir!...
Sem reino, sem mulher, sem irmo, sem cuidado,
Dormir... dormir!... Que brando leito de noivado!...
.....................................................
Mas foram-me acordar, os malditos!... J sei...
O que querem de mim... J sei... J sei... s tu, El-Rei?
Foi mandado d'El-Rei... J sei... lembro-me agora!...
.....................................................
Assina tudo... assina tudo e sem demora.
Tens mdo de perder o trono, de o largar?
Ah, deixa-o ir, deixa levar, deixa roubar!...
Que leve trono e scetro e c'roa quem quiser...
Para ti... para ti... guarda os ces e a mulher.
Guarda a mulher... guarda a mulher! Bem conta nela!
Tens irmo? Tens irmo!... Pobre de ti!... cautela!...
No h crer em irmos, nem h fiar em mes!
Que levem tudo, tudo... excepto a amante e os ces!...
Oh, as noites d'amor!... oh, as manhs de caa!...


    Indo a sar e parando de repente, ao ver os ces:


Tens fracos ces... Adeus... Fracas ventas... m raa!...


O DOIDO, _na escurido_:

Quem me roubou da fronte o meu diadema?...
Quem ostenta na fronte o meu diadema?...
--Teu irmo!
Teu irmo!

Quem abraa a ranha no meu leito?...
Alva, loira e mimosa no meu leito?...
--Teu irmo!
Teu irmo!

Quem bate as brenhas com meus ces de caa,
Ao luzir d'alva com meus ces de caa?...
--Teu irmo!
Teu irmo!

Quem nesta campa me enterrou em vida?!...
Quem nesta campa me enterrou em vida?!...
--Teu irmo!
Teu irmo!

Ai, arranca-me os olhos por piedade!
Ai, arranca-me a vida por piedade!
Irmo! irmo! irmo!!...

............................................


O ESPECTRO DE D. AFONSO VI, _assomando ao balco_:

Um doido enorme! alm... na escurido... alm...
Doido sou eu tambm... doido sou eu tambm...
Pobre doido!... infeliz... coitado! algum irmo
Lhe roubou a mulher...


    Ao rei:


                        Tens mulher?... Tens irmo?...
No h crer em irmos, nem h fiar em mes...
Guarda a mulher...


    Desaparecendo:


Oh, que estupor de ces!... oh, que estupor de ces!...




SCENA XV


O ESPECTRO DE D. PEDRO II, _tipo de valento
de cavalharias, brigo de estrdias, sanguinrio
e crapuloso, sifiltico e bbado_:

Tu sabes escrever? Assina. Porque no?
Ora o grande poltro,
Que  preciso borrar-se e andar de ngoas sujas,
P'ra lanar no papel, conho! trs garatujas!
Mdo de quem? Do povo? O povo com que lidas
 cavalo velhaco e de manhas sabidas.
Monta-lo com temor? Adeus! cospe-te fra.
Mas, sentindo-te firme e nos ilhais a espora,
Cai-te em breve a mo e a preceito o governas.
E, se escabreia, ai dele! estoira-lo entre as pernas.
Vamos ns a saber, diz-me l sem rodeios:
s homem? quer dizer:--tem-los bons?--tem-los cheios?
Meu irmo no os tinha,
E por isso ficou sem reino e sem ranha.
Para inimigos forca; ou antes emboscadas,
Despachando-os de vez a tiro e a cutiladas.
Pedem tais aventuras
Gente rija; hs mister de quadrilhas seguras:
Mulatos, valentes, briges, ral feroz,
Que te adivinhe o olhar, pronta  primeira voz.
Tive-os duros de lei! homens sem embaraos
Para estoirar, de frente, o diabo a clavinaos!
 nobreza mercs e favor... mas cautela!
Desconfia, vigia... e reparte com ela.
Emfim, guarda bem paga, lerta e satisfeita,
E atrs de cada muro um co de lbo  espreita.
E nada mais, e nada mais! gozar, gozar
 vontade e sem mdo, at Deus te levar:
Correr toiros, domar corceis, adestrar fras,
Batidas pelo monte ao javali e s coras,
Mesa opulenta, vinho antigo, cama vasta,
E fmeas boas e a granel, de toda a casta!
Mulherio de truz, s dzias, sejam elas
Freiras ou barregs, com marido ou donzelas.
E agora, adeus. Assina. Os ingleses, que diabo!
 quem nos vai guardando os fagotes, e ao cabo,
A trco duns sertes com negros de m raa,
Mercam-nos inda a pinga e vestem-nos de graa!


    Desaparece.


O DOIDO, _na escurido_:

Era a ranha uma sereia,
Corpo de neve... Ameia-a e desejei-a.
Meu irmo era o rei; sem dor e sem abalo,
Mandei mat-lo.
Arranquei-lhe do peito o corao:
Batia inda por ela... Dei-o a um co.
E fomos para a igreja iluminada
Eu, meu irmo e a minha amada.
Ns a casar,
le a enterrar.
Quem me casou a mim
Disse-lhe a le o ltimo latim.
A sepultura
Tinha quarenta braas de fundura.
Despenhado o caixo, entulhou-se o coval
De pedra e cal.
Boas noites, irmo!...
Boas noites, irmo!...
E fui-me alegremente, oh, que ventura a minha!
A noivar co'a ranha.
Deitamo-nos na cama, apagmos a luz,
E ao irmos enlaar, furiosos e nus,
Como doidas serpentes,
Os desejos ardentes
Abramos, horror! na escurido,
Entre ns dois, amortalhado e morto, meu irmo!
Meu irmo! meu irmo!... Era le... apalpeio-o...
L estava escancarada a facada no seio...
Meti-lhe dentro a mo...
No achei corao...
Era le! era le! era le!
Cuidei em no matar, sem me lembrar
Que j morrera!... Louca, a ranha tremia...
Quis atir-lo ao cho... era de bronze! era de bronze, no podia.
Quisemos-nos erguer, fugir, fugir!... e de repente
Quedamo-nos os dois paralticamente,
Ali imveis, sem um gesto, sem um grito,
De sentinela toda a noite ao cadver maldito!...
Oh, noite imensa!
Oh, noite imensa!
Oh, noite imensa!
Que eternidade!... Emfim, desmaiada e gelada,
Eis a alvorada!
Erguemo-nos do leito...
E o morto, aconchegando o sudrio no peito,
Cravou em ns, indo-se embora,
Aquele olhar nocturno e triste que apavora!...
Fitamo-nos ento os dois amantes:
Oh, que semblantes!
Nosso cabelo em desalinho,
Alvo de arminho,
Acusava dez sculos de dor!
Brando leito d'amor!... brando leito d'amor!...
Todas as noites depois dessa, todas, todas,
Vem meu irmo s minhas bodas!
Deita-se entre ns dois amortalhado
At ser dia... Que noivado!... oh, que noivado!...
..................................................
No te quero ver mais,  meu algoz,  meu espectro!
Leva a ranha... leva a c'roa... leva o scetro...
Leva-me tudo e deixa-me dormir,
Dormir em paz!... dormir! dormir! dormir! dormir!...




SCENA XVI


O ESPECTRO DE D. JOAO V, _velho, asqueroso,
idiota, meio paraltico. Tartamudeia desconexamente,
embrulha a ladanha com a Martinhada,
engole uma hstia santa, depois uma
pastilha afrodisaca, geme, chora, d um
arrto, baba-se e desaparece_.


O DOIDO, _na escurido_:

Mora num convento, com onze mil freiras,
Um bode doirado, chamado Sulto:
So mas as monjas, loiras ou trigueiras,
E o bode frascrio como um garanho.
Ao dar meia noite, com fria insensata,
Na trre da igreja dobra o carrilho;
Martelam nos sinos badalos de prata,
De imunda, de horrvel configurao!...
Milheiros de luzes, brandes macerados
Tremulam no templo... que imenso claro!
Fascam diamantes, lampejam brocados,
Incenso da Arbia va em turbilho!
Os santos e as santas, alfaias e altares,
 tudo oiro virgem, que sintilao!
Crepitando fogos de gemas solares,
Topsios da Prsia, rubins do Indosto.
Debaixo dum plio de lhama purprea
Levanta-se um leito rtilo e pago:
O leito do bode, Senhor da Luxria,
Com mais pedrarias que o de Salomo.
J o rgo reba, frementes e nuas,
As onze mil monjas vm em procisso...
Os olhos de chama, trazeiros de luas,
Rezando palavras de abominao!...
Mitra coruscando, sdas fulgurosas.
A cruz sbre o peito, bculo na mo,
Conduz a teoria das monjas ansiosas,
Um bispo castrado, que  seu guardio.
O bode rebrame no leito de pluma...
Acercam-se as freiras... e o bispo capo
Entrega-as ao bode, d-lhas uma a uma,
Com ar de respeito, com venerao...
So onze mil noivas, so onze mil bodas...
Formidavelmente gira o corrilho...
E o monstro lascivo padreia-as a todas,
Num delrio tremens de fornicao!
Depois do execrando, bruto cevadoiro,
O bode, desfeito de devassido,
Toma um semicpio numa concha d'oiro,
Em gua benzida pelo capelo.
E, sinos calados, extintas as luzes,
Entregues as freiras ao seu guardio,
Persigna-se o bode, fazendo trs cruzes,
E em paz adormece como bom cristo.
E ao cabo duns meses, final de tais contos,
As monjas nas celas, com toda a razo,
Parem arcebispos, mitrados e prontos,
Exemplo mui alto de gran devoo!...




SCENA XVII


O ESPECTRO DE D. JOS, _que vem de manso,
desconfiado, olhando  volta, como temendo
o quer que seja. Depois, baixinho, ao ouvido
do rei_:

O marqus no est?... V l... Guardas segrdo?
Ento assina... Adeus... pode vir... tenho mdo!...


    Desaparece.


O DOIDO, _na escurido_:

Diz o rei  amante: Vem para os meus braos!
--Ardem nos teus braos ndoas do meu sangue!...

Vem para os meus braos, dorme no meu peito...
--Ardem no teu peito ndoas do meu sangue!...

Dorme no meu peito, junto dos meus lbios...
--Ardem nos teus lbios ndoas do meu sangue!...

Oh, que ideias loucas, meu amor doirado!...
Fui  caa aos lbos, venho ensangentado.

Deitam-se na cama... Longe, ao p do mar,
Centos de martelos, truz! a martelar!...

--Ai, levantam forcas!... Pesadelo horrendo!...
Um bergantim d'oiro que te esto fazendo...

Beija o rei a amante com lascivo ardor...
Vem da noite funda gritos de estertor...

--Matam-me os parentes!... bem lhes oio os ais!...--
So as rlas, filha, pelos pinheirais...

Beijam-se um ao outro, presos por abraos,
Sente-se nas trevas um mover de passos,

E entram degolados, arquejando arrancos,
Trs fantasmas, vde-os! com sudrios brancos!...




SCENA XVIII


O ESPECTRO DE D. MARIA I, _louca, furiosa,
delirando_:

Meu pai!... meu pai!... meu pai!... meu pai!...
Castigo eterno, chamas do inferno!...
Meu pai!... meu pai!...
Olha os diabos... olha os diabos...
Coriscos os cornos, serpentes os rabos!...
Ui! o marqus!... ui! o marqus!...
Num caldeiro em brasa, a derreter em chumbo, a ferver em pez!
Vo-me coser! j estou a arder! j estou a arder!...
Kyrie Eleyson! Kyrie Eleyson! Kyrie Eleyson!
Miserere nobis! ora pro nobis!
Jesus! Jesus! Jesus! Jesus!
Levem a purga!... levem a seringa!... no me quero purgar!
No me quero purgar... no tenho ventre... sou feita de ar...
D. Rosa! D. Rosa!  D. Rosa!!...
Acode depressa! anda depressa, que me deitam ao mar!...


    Desaparece.


O DOIDO, _na escurido_:

Satans, zombando, fez um rei de espadas,
Fez um rei de espadas com um co tinhoso;
Com o co tinhoso fez um sapo coxo;
Com o sapo coxo fez um porco bravo;
Com o porco bravo fez um bode d'oiro;
Com o bode d'oiro fez um corvo negro;
Com o corvo negro uma galinha doida...
Ko-ko-ro-c! Ka-ka-ra-c?!...
A galinha doida que  que parir?!...




SCENA XIX


O ESPECTRO DE D. JOAO VI:

Toca a sentar! deixa sentar esta carcassa,
J roda do bicho e comida da traa!
Um corpo que pesou talvez seus dois quintais,
Ou mais,
Hoje  isto! olha l, mira-me bem em trno:
Uns vinte arrteis d'osso e outros tantos de corno!
P'ra que diabo  que Deus fez a alma imortal,
No me diro?! O corpo, acho eu natural
Que engordasse e medrasse em paz na eterna glria;
Mas a alma! ora cebo! Uma alma incorprea,
Sem bca, sem nariz, sem barriga, sem nada,
Que no come um leito, nem funga uma pitada,
Deus me perde a asneira, uma indrmina assim,
Inda que le a engenhou, no me convm a mim!
A morrer por morrer, antes a alma; em suma,
O desgsto era leve, a perda era nenhuma.
E o corpo desalmado, escorreito e perfeito,
sse  que Deus com todo o geito
O devia levar, dando-lhe a eternidade,
P'ra comer como um porco e roncar como um frade.
Neste mundo em que'stou, nesta vida infinita,
Grande falta me faz a barriga, acredita!
Os miolos, j no... E, caso estranho, agora
Penso muito melhor do que pensava outrora...
Do-me ideias! que espiga!... Atribuo tais factos
A andar-me na caveira uma poro de ratos.
Ideias!... Qual a ideia humana, por sublime,
Que se compare ou se aproxime
Dum peru com arroz, bem gordo e bem tostado?!
Que  a vida? jantar! E a morte? ser jantado!
Comer ou no comer, eis a eterna questo.
Mas comer com descanso e com satisfao.
Comer em paz; sem um remorso e sem fadigas.
Nada de inquietaes mortais, nada de brigas!
Temor a Deus, mesa de abade, cama quente
E rir a gente!
Eu fui um infeliz como no h segundo,
Um malaventurado aos tombos pelo mundo!
A mulher uma cabra; os filhos um veneno;
Sustos; o hemorroidal, v l, desde pequeno!
E no parar! sempre em bolandas, sempre  ta...
Que vida! E como a vida, apesar disso,  boa!
Oh, cantoches em Mafra!... oh, merendas no Alfeite!...
Oh, sstas de Queluz em Junho!... Que deleite!...
Manda ao demnio a guerra, a mulher e os cuidados!
Enfardela-me a cem milhes de cruzados
Em peas d'oiro, assina o que tens de assinar,
Veste o capote, leva a c'roa e pe-te a andar!
Deixa os ingleses... Fracas bstas!... raa vil!...
Muda-te p'r Brasil... Muda-te p'r Brasil!
Fruta maravilhosa e sbditos leais...
Eu, no teu caso, at no voltava c mais.
E o povo, adeus!... que se governe... emfim, pacincia...
E c lhe fica, que mais quer? a Providncia!...
.........................................................
Boas noites...  tarde... o sepulcro me chama...
Vou-me deitar... Que fria e triste a minha cama!
Glo e chumbo!... Os lenis, farrapos com matria,
Nem me tapam sequer os ossos, que misria!
E depois sbre mim, em cardumes, aos centos,
Pulgas da eternidade, os vermes fedorentos!
Ai, no jazigo escuro, a esfarelar-me em p,
Consola-me uma ideia nica, uma s:
No tornar a sofrer (oh podrido calada!)
Nem de hemorridas, nem de gases, nem de nada!...


    Desaparece.


O DOIDO, _na escurido_:

Que noite escura! Que noite escura!
Bramem as ondas cavernosas...
A grande armada vai largar...
Oh, a armada do rei!... oh, as naus pavorosas
Na escurido, turbilhonando, a baloiar!...
So esquifes morturios,
So fretros com velas de sudrios,
Tumbas negras nas ondas a boiar!...
Ai que gemidos, que alaridos
De multides na praia, olhando o mar!...
L vem o rei... l vem a crte... e luzes, luzes
De brandes, de tocheiros a sangrar...
Vai a embarcar?... vai a enterrar?... No trazem cruzes,
Nem h sinos por mortos a dobrar...
Oh, a lgubre, estranha comitiva
A bandada de espectros singular!...
 gente morta?...  gente viva?...
Procisses de defuntos a marchar!...
Cortesos, cavaleiros e soldados,
Tudo esqueletos descarnados,
Olhos de treva e crnios de luar!...
Ladeiam cches fnebres doirados...
So os cches d'El-Rei... vai a enterrar?...
L se apeiam as damas das liteiras...
Gestos de manequins, rir de caveiras...
Fitas e plumas sltas pelo ar...
Olha a ranha, vem em braos, morta e doida.
Morta e doida a clamar que a vo matar!...
E o rei!... olhem o rei!... que rei de entrudo!...
Um porco em p, com manto de veludo
E c'roa na cabea, a andar, a andar!
Mas reparem... tem cornos!  cornudo!
Dois chavelhos de boi no seu logar!
Um rei, que  porco e tem chavelhos!
Um rei, que  porco e tem chavelhos!
Que fantasia! enlouqueci... ando a sonhar!...
Mas bem no vejo! eu bem no vejo,
C'roa de rei, tromba de porco e chifres no ar!...
.................................................
Ci de rastros, chorando, o povo inteiro,
Beija-lhe a crte as patas e o trazeiro...
E le a grunhir! e le a roncar!...
.................................................
L vo as naus... l vai o rei com seus tesoiros...
E l ficam na praia, como agoiros,
As multides soturnas a ulular!...
.................................................
.................................................
Olha uma guia rubra, uma guia bifronte,
Incendiando o horizonte,
A voar, a voar, a voar!...
Ai dos rebanhos!... ai dos rebanhos!...
guia de extermnios, onde irs poisar?!




SCENA XX


O ESPECTRO DE D. MARIA II:

Inclina um rei perante um rei (somos iguais)
A realeza. Perante um vassalo, jmais!
O monarca ao monarca ( irmo com irmo)
Dobra o orgulho sem infmia; o rei ao povo, no!
Assina, e j! Prncipe vil, que se amedronte,
Usa, mas sem direito, um diadema na fronte.
Povo em rebelio, no  povo,  canalha.
Beija-te os ps?--indulto. Ergue o brao?--metralha.
Faltam soldados e clavinas? Pouco importa:
El-Rei de Espanha os mandar; tem-los  porta


    Desaparece.


O DOIDO, _na escurido_:

Tremia a ranha de me ouvir cantar...
Oh, loucura minha, desventura minha!
Cantigas so asas, fazem-nos voar...
Mandou-me prender, mandou-me espancar.

E eu desatei a rir, eu desatei a rir,
E trs dias cantei com mais trs noites a seguir!...

No dormia a ranha de me ouvir cantar...
Oh, loucura minha, desventura minha!
Cantigas so graas para no chorar...
Mandou-me prender, mandou-me enforcar.

Chegaram as tropas e eu, desarmado,
Zs! desbaratei-as com o meu cajado!

E pus-me a cantar! e pus-me a cantar!

Tremendo, a ranha disse ento ao rei:
Emquanto o no matem no descansarei.
Com teus cavaleiros vai-mo tu buscar,
Traz-mo aqui de rastros para o degolar.

Veio o rei  frente dum grande estado,
Zs! desbaratei-o com o meu bordo!
 de temer,  de temer
Um doido varrido com um pau na mo!...

E sempre a cantar! e sempre a cantar!

Ento a ranha, vileza traioeira!
Chamou inimigos d'alm da fronteira...
E tantos! e tantos!... Que havia de eu fazer?...
Quebrei de raiva o meu bordo e deixei-me prender...

Levado de rastros aos ps da ranha,
Cuspiu-me na cara!
Oh, vergonha minha! por fortuna minha,
Melhor me matara!... melhor me matara!...
O gsto que teve durou-lhe bem pouco...
Foi ela que morreu!... foi ela que morreu!...
Vi-a passar j no caixo, ia a enterrar...
E sabeis o que eu fiz? (o que  ser louco!... o que  ser louco!...)
Desatei a chorar!...




SCENA XXI


O ESPECTRO DE D. LUIS

Que remdio, meu filho! assina tudo... assina tudo...
Glria, Ptria, Dever,
Bom de dizer!
Assina tudo e vai andando... vai andando...
Do mister de reinar, que Deus te deu em sorte,
Faz, como eu fiz, modo de vida e no de morte.
E a vida  boa!
A alegria do sangue, os regalos da C'roa,
A mulher, o charuto, o livro, o leito, a mesa,
Lista civil, paz e descanso... Com franqueza,
A vida  boa, e vale a pena de a gozar,
Como nctar precioso e raro,--devagar!
Com um pouco de astcia, um pouco de bondade,
Covardia risonha e indolncia de frade,
Conseguirs viver alegrssimamente
At ser posto de escabeche em S. Vicente.
E, se o destino te arrancar o scetro, vai-te embora
Filosficamente, sem demora,
Dedicando no exlio uns cios eruditos
A traduzir em portugus os meus escritos...


    Vae a sar e retrocede.


 verdade, Pedro faltou... faltou... no veio...
Pedro! meu pobre irmo! Acordei-o, chamei-o,
Quis levantar-se, ergueu a fronte, abriu o olhar,
Exalou um suspiro... e tombou a chorar!...


    Desaparece.


O DOIDO, _na escurido_:

O reino  podre... o rei  podre...
Oh, que fedor! oh, que fedor!
Quando a planta apodrece, a podrido
Germina em margaridas pelo cho...
Quando apodrece a carne, a sepultura
Touca-se de verdura...
Lepras e pus, chagas e cancros
Do jasmineiros, do lrios brancos...
Mas do reino e do rei apodrecido,
Oh, que fedor! oh, que fedor!... que tem nascido?
Mais podrides a fermentar,
Envenenando a terra, envenenando o ar.
A gente morreu toda envenenada...
 cr de sangue a lua,  de crepe a alvorada!...
Desfolharam-se os bosques pelos montes,
H nas rochas gangrena, h peonha nas fontes!
Destruram-se os ninhos
E emigraram, chorando, os passarinhos!
Vivo, s eu fiquei neste monturo
De ldo escuro!
O reino  podre... o rei  podre... tudo  podre...
Oh, que fedor! oh, que fedor!...


O REI, _volvendo a si, atnito e desordenado_:

Olho e custa-me a crer!... tonto!... a cabea vria,
 roda... J nem sei... Que noite extraordinria!...
Que noite!... aparies, vises, troves, um pandemnio
De inferneiras, de bruxarias do demnio!...
Eu 'starei doido ou 'stou sonhando?!... Que aventura! oh que aventura
Monstruosa!... Perco a razo... foge-me a vista...
O ladro do maluco e o diabo do cronista
Deram-me volta  cachimnia, esfutricada
J de tanto banz e de tanta noitada!...
Quem pudesse dormir!...


    Vendo o pergaminho:


                        Assinemos de vez
Esta lria...


    Assinando e chamando:


            Marqus!


    Aterrado, em altos gritos:


                        Marqus! marqus! marqus!
Raios os partam! ningum ouve... tudo dorme!...
Szinho!!...


O DOIDO, _na escurido_:

            Oh, que fedor!... oh, que fedor!...


O REI:

                        Ah, o mostrengo enorme,
Eu lhe darei a cantilena!... Para agoiros,
Quatro estoiros  queima-roupa! quatro estoiros!


    Surge o espectro de Nunalvares, vestido de monge carmelita. O rei
    desfalece de novo. Os ces investem, mas, diante do olhar
    sbre-humano do condestvel, recuam trmulos, como obedecendo a um
    fludo mgico.


O ESPECTRO DE NUNALVARES:

Por teus avs chamaste. Um falta ainda,
Falta a raz da rvore de morte,
Que em ti, vergntea exausta, expira e finda.

Oh, miseranda, lastimosa sorte,
A dste corao desbaratado,
Que outrora se julgou to puro e forte!

Deu com le a gangrna do pecado,
Qual um bicho escondido que apodrece
Um deleitoso fruto embalsamado.

Nada valem tenes, nem vale a prece:
 das obras que vem  criatura
O galardo e a pena que merece.

No acuso de ingrata a sorte dura;
Volvo-me contra mim nicamente
Em meu desassossgo e m ventura.

Tamanino inda eu era, inda inocente,
Alma cndida e pura, como a rosa
Aberta junto d'gua ao sol nascente

Quando uma noite uma viso fermosa
Me aparece e me diz com voz divina,
Ao mesmo tempo clara e misteriosa:

Li numa estrla d'oiro a vria sina
Que a esforadas, magnnimas empresas
E a feitos no obrados te destina.

Mas que valem altssimas grandezas,
Mas que valem as pompas e as vitrias,
Se a mundano desejo andarem presas?!

S da f, s do bem quedam memrias;
Tudo o mais  poeira, um vo rudo,
Uns tumultos de sombras ilusrias...

Cavaleiroso corao ardido
A grande termo levar seus feitos,
Quando ponha em Jesus alma e sentido.

Melhor que duro arnez, defendem peitos
Virtude adamantina e graa clara,
Com que Deus abroquela os seus eleitos.

S casto como a luz beijando a seara,
Firme qual entre as ondas o rochedo,
Manso como ovelhinha em pedra d'ara.

E, como o sol d'Abril veste o arvoredo,
D'armas resplandecentes vestirs
O teu corpo d'heri, vioso e ledo.

S pela Ptria e Deus batalhars.
De tua larga mo caiam na terra,
Num gesto grande a beatitude e a paz.

Seja neve dos pncaros da serra
Teu limpo corao, bondoso e humano,
Quer na tranqilidade, quer na guerra.

A tirania ao fim pune o tirano.
Contra o injusto volta-se a injustia,
E a maldade  aos maus que faz o dano.

Arreda para longe dio e cubia;
Contra fero inimigo um bravo alento,
Contra amargura e dor alma submissa.

Viva dentro da carne o pensamento,
Na pureza da virgem confinada
Dentro da cela branca dum convento.

E a carne exultar transfigurada,
Qual a nuvem escura em cu ligeiro,
Em lhe batendo a luz da madrugada.

De tal guisa, vencendo-te primeiro,
A todos vencers como um leo,
Formidvel e nobre cavaleiro.

E de Cristo e da Ptria em defenso
Brilhar tua lana como um raio,
Mandar tua voz como um trovo!

Assim falou (se me abalou julgai-o!)
A graciosa viso, que se desfez
Pouco a pouco em suavssimo desmaio.

Donzel eu era j, quando outra vez
As mesmas falas ela, de improviso,
Me repete co'a mesma candidez.

Todo cheio de lgrimas e riso,
Num enlevo quedei, numa ansiedade,
Mais que da terra j, do paraso.

E  celeste, benfica deidade
Jurei suas razes maravilhosas
Puramente cumprir e de vontade.

Jurei que nunca minhas mos culposas
Mulher manceba haviam de tocar,
Feita que fra de luar e rosas.

Jurei, unido em Cristo  luz do altar,
Pr batalha de morte a meus desejos
E meus vcios da carne assossegar.

Anos do mundo, breves ou sobejos,
Fadigaes da vida to mesquinha,
Com seus ais, com seu pranto, com seus beijos,

Tudo votei sem pena e bem asinha
 cruz do Redentor e  cruz da espada,
Ao meu Deus verdadeiro e  ptria minha,

Jurando guardar sempre, e bem guardada,
[~U]a alma pura em natureza pura,
Qual em mbula d'oiro hstia sagrada.

Ai, de mim! ai, de mim! faltei  jura!
Ai, de mim! ai, de mim! porque uma peste
Logo te no queimou, lngua perjura?!

Ah, donosa viso, viso celeste,
Bem devera de ter descortinado
Naquelas altas falas que me deste,

Que eu, em vcio d'amor sendo gerado,
Remiria na carne aborrecida
Pela gr penitncia o gr pecado.

Madre senhora!  madre estremecida!
Antes ficaras tu noiva e donzela,
E eu no abrisse o olhar  luz e  vida!

 padre carinhoso!  madre bela!
Vossa culpa cau no vosso fruto,
E, com a culpa amarga, o nojo dela!

Queixa no hei de vs; a mim imputo
Lstima e dano, que me s provm
Dste bichoso corao corrupto.

Por vs criado fui, como ningum;
Vs me guiastes com suave geito,
Desde menino a alma para o bem.

Remidor dum pecado eu fra eleito;
Assim mo disse a cndida viso,
E mo escreveu com lgrimas no peito.

Quando tu, padre meu, alto varo,
Mulher me cometeste, logo ansioso
Se me agastou, nublado, o corao.

E toda a noite o arcanjo luminoso
Repetindo: No deixes, filho meu,
Glria celestial por triste gzo!

E a misria da carne me venceu!
 padres! perdoai, chorai comigo,
Que o vosso algoz tirnico fui eu!

Eis aqui vosso algoz, vosso inimigo;
Por mim no purgatrio estais sofrendo,
E eu sofro, alm do meu, vosso castigo.

Oh, destino cruel! oh, caso horrendo!
A livrar-vos da falta me hei proposto,
E sou o Judas negro que vos vendo!

Nem pra aqui meu transe e meu desgsto.
Como de olhar-me,  sol deslumbrador,
No se te muda em noite a cr do rosto?

Como no gelas, dize, de pavor,
Vendo que em fraco peito miservel
Cabe tromenta assim de nojo e dr?!

 terra triste!  cu inexorvel!
Que ventre de mulher pariu um dia
Desaventura a esta assemilhvel?!

Nobres guerras armei, como cumpria,
D'nimo afoito a rudes castelhanos,
Desbaratando-os Deus por minha via.

Contra seu vo furor, contra seus danos,
Batalhei desde a alva alegradora,
Ao derribado ocaso de meus anos.

Sangue de irmos verti... Vertido fra
Novamente mil vezes, sem piedade,
Que alma no  de irmo alma traidora.

Ptria minha gostosa, quem no h-de,
Em risonho sabor, vida e fortuna
Dar por teu livramento e majestade!

Como a de fogo altssima coluna
Vai do povo de Deus na dianteira,
Afim que se no perca ou se desuna,

Tal na frente das hostes, sobranceira,
Contra duro inimigo acovardado,
Tremeu sempre no ar minha bandeira.

 que nela Jesus ia pregado,
Jesus, rei das estrlas, rei do mundo,
Meu capito fermoso e sublimado.

Ordenara, porm, o cu profundo,
Que em tal cometimento era mister
Carne sem ndoa e corao jucundo.

E estas mos (ai do feito em que as puser!)
Tocado haviam j, tornadas lama,
Com vil desejo, em corpo de mulher.

Fsse a Virgem celeste a minha dama,
Se, como Galaaz, heri invito,
Alcanar me propunha honrada fama.

Deus castigou-me o corao maldito:
Pois que sbre le ainda vem pesando
O carrgo mortal do meu delito.

 cidadela da pureza, quando
Um vcio te faz brecha, sem tardana,
Prestes os mais acodem galopando.

Em minha carne, um dia honesta e mansa,
Por onde entrou luxria malfazeja,
Entrou ira e soberba, entrou vingana.

Inda me sangue o peito lagrimeja
da boa e m teno, que, desvairadas,
Armaram nele horrfica peleja.

Oh, pelejas da alma encarniadas!
So as outras uns jogos inocentes,
Com o furor das tuas comparadas.

Anjos d'asas de luz resplandecentes,
Sculos dia e noite a batalhar
Com demnios, com tigres, com serpentes!

Ah, nem ouso de espanto relembrar
Essa guerra feroz, que j no arde,
Entre meu crime duro e meu pezar...

To animoso, nela fui covarde;
To vencedor, a mido fui vencido,
E a vitria, se a hei, me chegou tarde.

Uma noite em que mais me vi perdido,
Com afincada raiva e crua sanha
Dos demnios ardentes combatido.

A viso me ressurge em forma estranha,
E em to grande e mortal melancolia,
Que nunca em mim a houve assim tamanha.

Um longo vu de d ela vestia,
Numa tal soledade e desconfrto,
Que a dissreis a Virgem na Agonia.

Meiga, sem me falar, o olhar absorto
Pousou em mim ento, como se fsse
[~U]a madre encarando um filho morto.

No seio me verteu, divina e doce,
Lagrima d'oiro, e, com suspiro etreo,
Silenciosa esmaiando, evaporou-se.

 lgrima de dr, por que mistrio
Sbitamente ao nimo torvado
Me deste paz, clareza e refrigrio?...

Todo eu me senti purificado:
Num ditoso sofrer o meu tromento,
Numa pena bemvinda o meu cuidado...

Tal o msero rei, que vai sangrento
De perdida batalha, alfim se lana
Em ditoso e profundo acostamento.

Descobrira que a dr  irm da esp'rana;
E que ao alto perdo, no azul divino,
S a humildade, a rastros, se abalana.

J liberto de esprito malino,
Com as veras palavras de Jesus
Assentei de acordar o meu destino.

De mundanrios bens fcil dispuz;
Que s virtude  oiro, e a mr grandeza
Da terra so trs pregos numa cruz.

Dentro de mim, numa fogueira acesa,
Queimei glria e valor: no ficou nada
Mais que melancolia e que tristeza.

Parti a lana; pendurei a espada;
Com bordo de pastor ou de ceguinho,
Bem andamos de noite esta jornada.

Fama grande do mundo to mesquinho,
Dando s trombetas com ardor, no va,
Onde va, cantando, um passarinho.

E onde h,  meu Jesus, se a dor te cra,
Se  teu vestido sangue e o vinho fel,
Pena digna de ns, que bem nos da?!

Sem escudo, sem cota, sem laudel,
Minha triste nudez arrecolhida
Numa samarra triste de burel,

Determinei findar misria e vida
L em partes inspitas, distantes,
Entre gente comum desconhecida.

stes olhos, que arderam relumbrantes,
Verteriam de dor sangue coalhado,
Qual os olhos de Job verteram d'antes.

stes ps, que no vcio ho caminhado,
Manariam gangrna, j desfeitos,
Como os ps de Jesus Crucificado.

stes braos, altivos de seus feitos,
De logar em logar, cdeas de po
Buscariam, rendidos e sujeitos.

E esta abatida alma de cristo,
No crcere da carne prisioneira,
 mingoa mr,  mr tribulao,

Gostosa sorriria e prazenteira,
Qual o bom lavrador, em vlha idade,
Sorri festivalmente ao po na eira.

E, j em Deus o esprito e a vontade,
Me acolheria s solides dum ermo,
Na derradeira angstia e pouquidade.

L houvera afinal benigno termo,
Se, em to grande, humildosa desventura,
Prouvera a meu Jesus de conceder-mo.

D'El-Rei me veio o embargo; e na clausura
D'A que, chorando estrlas, nos conforta,
Em silncio, escondi minha amargura.

Vida do mundo, junto dessa porta,
Com o rouco fragor que tudo abala,
Aos ps, em sombra v, me cau morta.

Dir-se-ia que o mar perdera a fala,
E a terra se volvera em nuvemsinha,
Bastando um ai de dor a evapor-la.

J diversa era ali a ptria minha;
Que o trono do meu rei era uma cruz,
E o cho, banhado em sangue, o da ranha.

 Ranha da Angstia!  Rei Jesus!
Venha a ns sse imprio onde reinais,
Todo amor, todo esp'rana e todo luz!

Venham a nosso peito os vossos ais!
A nossas mos,  Cristo, os vossos cravos!
Maria,  nossa alma os teus punhais!

Venham a ns as chagas, que so favos!
Venham tua agonia e teu madeiro,
A ns,  Rei do Cu, a teus escravos!

Dias de soledade e de mosteiro
Eu os vivi, na temerosa esp'rana
Da alva do meu dia derradeiro.

Esta dr, que abrandou, que se fez mansa,
Ali chorou aos ais, como perdida
Num deserto, de noite, uma criana.

E oh, alvio da alma arrependida!
Quanto mais afincado era o tromento,
Mais nos ombros ligeira a cruz da vida!

Como no ar o vento sbre o vento,
Como no mar a vaga sbre a vaga,
S na dr tem a dr sossegamento.

E com a flha nua duma adaga
Todo eu me prazia em revolv-la
Dentro do corao a hedionda chaga!

Qual as tuas, Jesus, quisera eu v-la,
De purpurina abrir-se numa rosa,
De inflamada acender-se numa estrla.

Toda imunda, porm, toda verdosa,
S matria escorria peonhenta,
S gangrna letal, cadaverosa.

E eu a escarnava com a mo cruenta,
E eu lhe metia, para no sarar,
Carves a arder na bca pestilenta.

Mas a Virgem tristssima, a chorar,
Lhe derramava, blsamo divino,
O lumioso perdo daquele olhar.

Era assim, irmmente cristalino,
O da viso anglica e suave,
Que amistosa me foi desde menino.

E, a to cndida luz, meu pezar grave
Ia alvorando, como rocha bruta,
Que pouco a pouco se fizesse em ave.

J da lcera ardente, qusi enxuta,
Manava um soro apenas, filho ainda,
De podrido to negra e to corrupta.

Hora do livramento, hora bemvinda,
Uma noite, em um sonho d'esplendor,
Ma predizeu, chorando, a Virgem linda.

E, abraando e beijando o Redentor,
Sem angstia enfadosa, sem quexume,
Dei a alma nas mos do Criador.

Esbulhada de vcio e de azedume,
s regies celestes foi voando,
Como plida luz solta do lume.

Numa nvoa, a boiar, quedou sonhando:
Sonho de dr feliz, dr sem memria,
Nvoa d'ante-manh que vem raiando.

No era ainda ali perptua glria;
Mas falecera j da vida ausente
A remembrana amarga e merencrea.

Sono d'alma levssimo, inocente,
Em msicas de estrlas embalado,
Quem o dormir pudera eternamente!

E um vu de lua cheia, engrinaldado,
A Virgem desdobrou, em ar divino,
Sbre a encantada paz do meu cuidado.

Era uma graa, um bem que eu no defino...
Jucundo enlvo... candidez airosa...
Num presepe, a sonhar, feito menino...

E uma luzinha ao longe, misteriosa,
Cantando-me as canes que me cantava
Minha madre no bero, em Frol da Rosa...

Oh, descuidado alvio!... no cuidava
Que das culpas do mundo temeroso
Esta essncia revel jazia escrava.

Deus a espertou do sono deleitoso,
E, por mais a punir, inda um momento
A banhou, ao de leve, em claro gzo.

S as estrlas, s o firmamento
Recontar poderiam, se quisessem,
Meu desvairo, meu nojo e meu tromento!

Convinhveis palavras me falecem,
As que as bcas dos homens deitam fra
Tribulaes daquelas no conhecem.

L d'alta estncia donde venho agora,
L donde o Eterno me elegeu pousada,
Duzentos anos grandes, hora a hora,

Vi eu, alma em tromento, alma calada,
Minha ptria, a meu sangue redimida,
Por meu sangue afinal desbaratada!

Por sangue do meu sangue foi trada;
Eu que alentos lhe dei, lhe dei nobreza
Ao cabo lhe arranquei nobreza e vida!

Os filhos dos meus filhos, oh, tristeza!
A danaram com raiva to medonha,
Que nem lbos a ho contra uma presa.

Descendentes da mngua e da vergonha,
Rprobos eram, pois  justa a lei
Que do cncaro mau cria a peonha.

Feze-os a sina herdeiros do meu rei,
Por que um a um no trono dessem conta
Dste perdido reino, que eu livrei.

E eu l daquela altura que amedronta,
Sem poder abalar, correr asinha,
Vingar com mo sanhosa a dura afronta!

Em vo, oh, dr cruel! oh, dr mesquinha!
Alevantava splicas piedosas,
 dos anjos tristssima Ranha!

Ela vertia lgrimas fermosas...
E nasciam estrlas como flores,
Canteiros de boninas e de rosas...

Porm, Deus era surdo a meus clamores!
Mais pesavam meus crimes na balana,
Que os teus olhos de luz,  Me das Dores!

Tal um peito rasgado duma lana,
Que em torvao eterna agonizara,
Sem alvio, sem morte e sem esp'rana!

 filha!  anjo pulcro!  alva clara!
Antes em leda e tenra meninice
Uma vbora m te envenenara!

Antes bca de monstro te engulisse,
E daquele rro o fruto miserando
Teu ventre criador nunca o parisse!

Vozes tais eu gemia, seno quando
Oio como o ruir d'[~u]a montanha,
Como um trovo de sbito estoirando!

Deus arrasara a nobre flor da Espanha!
Nem a Virgem do Carmo em seu mosteiro
O defendeu de clera tamanha!

Virgem do Carmo! v-la num braseiro,
Misturada com pedras e destroos,
V-la eu! seu algoz, e seu cveiro!!...

A igreja, que por mr dos olhos vossos
Alevantei,  Virgem da Piedade,
Minha infmia a ruu contra os meus ossos!

Grito d'alma naquela imensidade
To agudo expedi spitamente,
Que fez branca de dr a Eternidade!

Assim horrenda, assim direitamente,
Em quejanda e cruel desaventura
No foi posto no orbe um ser vivente!

J dois sculos idos de amargura,
Acreditei que emfim o Criador
Houvera d da triste criatura:

Do meu sangue de lstima e de horror
Cavaleiroso prncipe foi nado,
Qual nasce duma campa ebrnea flor.

Ah, o nobre donzel, d'olhar fadado,
A imagem de mim mesmo era talvez,
Quando isento do vcio e do pecado.

Risonha aurora em noite se desfez...
Breve expirou, qual expiraram breve
Dentro em mim a virtude e a candidez.

No perda o Eterno a quem lhe deve:
De culpa grande a ofensa lhe devia,
E o castigo aturado, o julgou leve.

Minha dr empenosa acabaria
Com teu acabamento e sorte infanda,
ltimo rei de infanda dinastia.

Criatura nojenta e miseranda!
 vtima final! j na procela
Descubro o raio, a arder, que Deus te manda!

E a ptria! o meu amor! a ptria bela!...
Em que mngua eu a vejo!... Quem a abraa,
Quem vai lidar at morrer por ela?!...

J o mundo a meus olhos se adelgaa!...
Montes, fraguedos, tudo se evapora...
So nuvens... sonho... sombra v que passa...

Qusi liberto j!... no tarda a hora...
Sorri-me a Virgem!... como vem brilhante!...
Deus! quanta luz!... que mar de luz! que aurora!...


    Queda enlevado, exttico, sbre-humano. Irradia oiro. Descortina,
    sbito, numa panplia, a vlha espada de Aljubarrota. O gldio
    herico entre cutelos de verdugos! Como eximi-lo  afronta, se j
    mos de eleito no devem tocar em ferros homicidas! Embora!
    Arranca-o, beija-o, ergue-o na dextra, e, da varanda, olhando a
    noite, em voz soturna de trovo:


Cavaleirosa espada relumbrante!
Se nesse ldo amargo um brao existe
De profeta e de heri, que te alevante!

Inda bem que na lmina persiste,
Em crua remembrana e galardo,
Do sangue fraternal a ndoa triste.

Descobre o gldio a quem o houver na mo,
Que ante a justia recta e verdadeira,
No h padre, nem madre, nem irmo!

Porm, se a ptria, j na derradeira
Angstia e mngua onde a lanou meu dano,
Terra d'escravos , terra estrangeira,

Rtila espada, que brandi ufano!
Antes um vlho lavrador mendigo
Te erga a custo do cho, piadoso e humano!

Volte  bigorna o duro ao antigo;
E acabes, afinal, relha de arado,
Pelos campos de Deus, a lavrar trigo.


    Arrojando a espada ao abismo da noite:


Deus te acompanhe! Seja Deus louvado!


    Desaparece. O rei fica no cho, imvel e sem acrdo.




SCENA XXII


    O espectro de Nunalvares atravessa, resplandecendo, a escurido
    nocturna. Enxerga a distncia, o vulto fantstico do doido. Pra,
    surpreendido. Contemplam-se.


O ESPECTRO DE NUNALVARES, _melanclico,
fitando o doido_:

Se esta alma, h trs sculos gemendo,
Em carne humana andasse, e, dia a dia,
A perdio da ptria fra vendo,

No semblante de louca amostraria
Aquela dr soturna e tenebrosa,
Aquele olhar de pasmo e de agonia!...


O DOIDO, _absorto_:

Oh, que figura estranha e luminosa!...
Que apario aquela!...
E eu j a vi... eu j a vi... lembro-me dela...
Mas onde foi?... Cabea tonta!... Onde seria?!...
Ah, ah, j me recordo!... quando eu vivia,
Tive assim um parente... um irmo... Um irmo?
Eu nunca tive irmo!...
Oh, que loucura! oh, que loucura!
Mas eu conheo ste fantasma... esta figura...
Aquele ar singular de guerreiro e de monge...
Eu conheo-o... Mas onde foi?... quando  que foi?... l muito ao longe...
Muito ao longe... Ora espera!... J sei! No era irmo, no era!...
Fui eu prprio!... Fui eu assim!... Fui eu! fui eu! fui eu!
 tal e qual...  exacto,
O meu retrato!...
Fui eu!...
...............................................................
Ah, fui eu... um outro eu... que andou no mundo e j morreu!...




SCENA XXIII


    Corre, de braos abertos, para o espectro, que sbitamente se
    evapora. Relmpago abrasador. Trovo medonho. Chovem os raios no
    castelo. O incndio, num minuto, veste-o de lavaredas fabulosas.
    Estrondos de exploses, derrocamentos de muralhas, gritos de
    angstia, alaridos de pnico.


O DOIDO, _triunfante, num regosijo de
criana, vendo as lavaredas a brilhar_:

Olha o palcio a deitar chamas dos telhados!...
A arder!... a arder!...
L arde o rei, o trono, a crte, os ces... Ah, ces danados,
Ides morrer queimados!
Tudo a arder!... tudo a arder!...
Que lavaredas! Que esplendor! Ai, que alegria!
Parece dia!...
Vo os galos cantar
E trinar, de surpresa, a cotovia!...
Rolos de fumo em sangue pelo ar...
Desabamentos... vigamentos a estoirar...
Oh, que fogueira!... oh, que fogueira!... Ai, que alegria!
Que chamas d'oiro relumbrantes!... Andem v-las...
Olha a subirem para o cu milhes de estrlas.
Tantas estrlas, tantas, tantas,
Que o castelo abrasado
Vai-nos deixar o cu azul todo estrelado!
 lavaredas d'oiro!  lavaredas santas!
Subi! subi! subi!... dai luz e dai calor!...
Vs que no tendes fogo em vossas casas,
(Que lindas brasas! que lindas brasas!)
Vinde assentar-vos e aquecer-vos ao redor!
Oh, surdi de tropel, em alcateias,
Miserveis, famintos, vagabundos!
Surdi das tocas negras das aldeias,
Dos matagais profundos,
Das pocilgas, dos antros, das cadeias,
E em turba-multa, em debandada, aos milhes, aos milhes,
Vinde aquecer as mos neste braseiro,
Vinde aquecer as mos, vinde aquecer os tristes coraes!...
J vai florir nas sebes o espinheiro,
J vo florir nas bcas virgens as canes!...
............................................................
Dobram os sinos... dobram os sinos... Deixa dobrar!
Foi Deus que deitou fogo quilo tudo...
Quem no h-de apagar?!...
Repica os sinos, meu sineiro campanudo,
Que  volta da fogueira as mas todas vo bailar!...
............................................................
E eu vou ter, que prazer!
Mal sabeis... mal sabeis o que eu vou ter!...
A minha alma! a minha alma!... nova... nova,
Como um sol de alelua a refulgir!
Ela estava ali presa numa cova...
Ardeu o rei, ardem os ces... e vai fugir!


    O incndio devorou o palcio. Ardeu tudo: mrmore e madeira, rei e
    cortesos, oiros e brocados, alfaias e baixelas. Salvaram-se os
    ces; nada mais. De entre os escombros, fumegando, ergue-se
    religiosamente, em ascenso eucarstica, um vulto anglico de
    mulher. O corpo  de luar de opala, a tnica de luar de neve, e os
    olhos, fundos e dolentes, de luar de lgrimas. Peito manando sangue,
    olhos chorando estrlas, caminha suspensa, direita ao doido, num
    sonambulismo vago e melanclico. Poisa em terra, com a graa area
    dum arcanjo.  a alma do doido. Trezentos anos sem se verem!
    Contemplam-se. Como esto mudados!...


O DOIDO, _em frente da alma, j recuperando
a lucidez_:

 alma vagabunda, alma exilada,
Eis teu corpo infeliz, tua triste morada:
V, que abandno e que pobreza!
Ningum te espera! nem candil na escada,
Nem banquete na mesa!
Vens tranzida de frio a tiritar?...
No h lume no lar!
Vens morta de misria e de aflio?...
No h vinho, nem po!
Vens fatigada repousar?... Porm,
No h leito tambm!
Tua casa deixaste,
Teu albergue natal desamparaste,
Numa noite d'horror...
E os ventos e as procelas
Desmantelaram portas e janelas,
Desmoronaram tetos com furor...
Restam negras paredes lastimosas
Do teu ninho d'amor!...
H cardos na varanda em vez de rosas,
Luto e morte nas salas pestilentes...
Na alcova onde dormias,
(Oh, mal dirias! mal dirias!)
Hoje dormem as c'rujas e as serpentes!...
E tu,  alma triste, alma exilada,
Branca, da alvura mesta dos sudrios,
De que prises, de que gals, de que calvrios,
Vens a rastros assim crucificada!
Quem te cobriu de lgrimas e sangue?
Quem trespassou teu corao exangue
De tanta dr e tanta punhalada?!
Regressas ao teu lar, alma divina,
Para morrer aqui;
E no teu lar contemplas uma runa,
E le uma sombra em ti!...
...............................................
Entra no lar... entra no tmulo... descansa,
Alma pobre, varada de amarguras,
Alma sem f e sem esp'rana!
Entra no lar abandonado... entra s escuras...
Deita-te a um canto sonolentamente,
E extinta e muda, vulto vago, informe,
Nunca mais abras teu olhar silente,
Dorme! repousa eternamente... dorme!
...............................................


    A alma embebe-se-lhe no corpo.


Alma a expirar, claro sombrio,
Porque vieste
Iluminar um tmulo vazio?!...
Porque vieste
Ressuscitar de novo, inda um momento,
A poeira do meu nada?!... Antes o vento
A sacudisse innime e delida
Na eterna paz do eterno esquecimento!
Memria! espelho fnebre da vida,
Porque me vens de sbito trazer
A apagada, a esquecida
Imagem tormentosa do meu ser!
Que despertar medonho
Da catica noite do meu sonho!...
Antes o sonho louco, o sonho vo!
Cavaleiro magnnimo de outrora,
Contempla o teu retrato... olha-o agora...
Nem a ti prprio te conheces, no!
E s tu, s tu,  cavaleiro antigo,
ste plido e trpego mendigo,
ste mendigo ensangentado e nu!...
Nem semelhana leve achas contigo?
Repara bem... repara bem... s tu!...
.........................................................


    Num mpeto de orgulho e de vanglria:


E astros do cu, povos da terra, ondas dos mares,
Viram passar, como [~u]a guia ovante,
O meu pendo quimrico nos ares!
Retumbaram meus feitos de gigante
Pelo universo, em ecos seculares!
Cavaleiro e argonauta vagabundo,
Gravaram sbre terra e mar profundo
Mil roteiros de luz os passos meus,
Como se houvera circundado o mundo,
Listrando-o a fogo, o Esprito de Deus!
Minha abrasada crena visionria,
Medindo o globo inteiro, achou-o estreito...
E a alma da humanidade, imensa e vria,
N[~u]a mar de assombros, tumulturia,
Bateu um dia junta no meu peito!
Vinham bandos de frotas portentosas
Preas de reis trazer-me alegremente:
Maravilhas estranhas, caprichosas,
De longnquas cidades fabulosas,
Beros d'oiro do sol resplandecente!...
Nas mil trres, mais altas do que a Fama,
Do meu emprio vasto olhando o mar,
Via-se o globo e a cruz como auriflama,
E sbre globo e cruz, d'asas de chama,
Minha epopeia homrica a cantar!...
.............................................
Ah, do sono da morte enregelado
Porque havias de,  alma, despertar?!...
Que  da grandeza herica do passado,
Que  das trres d'outrora olhando o mar?!...
Blocos no cho, vestidos d'heras,
Ameias, grgulas, esferas,
Poeiras de sonhos, de quimeras,
Luto, nudez, desolao,
Eis os restos de tantos extermnios,
De tanta dr e tanta maldio!...
J nem cabe sequer em meus domnios
 magra sombra v do meu bordo!
Rgios palcios, fortalezas,
Mosteiros, campas, catedrais,
Orgulhosos padres de mil empresas,
Conspurcados de lama e de impurezas,
Entre montes de entulho e silveirais!
Meus imprios distantes divididos,
Minha terra natal inculta e s!...
Loucos de dr, em torvos alaridos,
Correm bandos de aldees espavoridos,
Miserveis tropeis de luta e d...
Por mim passam atnitos, julgando
Ver um monstro maldito,
Um espectro soturno e formidando...
Da escurido do nada ressuscito...
Abro os olhos na treva... estendo as mos...
E de mim fogem com horror, clamando,
Meus parentes, meus filhos, meus irmos...
............................................
Deus, onde ests?!...
Deus! a mentira eterna!...
Algum lbo voraz,
Mais piedoso que o cu que nos governa,
Pode emprestar-me um antro, uma caverna,
Onde se durma e se agonize em paz?!...
............................................


    Ao cabo dum longo e meditativo silncio:


Oh justia do Esprito divino,
Pensando bem, bem clara te revelas
Na trgica lio do meu destino!
Minhas glrias passadas!...  por elas,
Que eu hoje estou sofrendo e me crimino!
Minhas glrias!... infmias e vergonhas
De ladro, de pirata e de assassino!
Que brbaras, que atrozes, que medonhas,
A escorrer sangue negro e pestilento,
As vejo em trno a mim neste momento,
Essas glrias nefandas, que eu supus
D'oiro e de luz!
A epopeia gigante!
Empresas imortais! feitos sublimes!
Grandeza louca dum instante...
Misria eterna... meus eternos crimes!
....................................................
Novos mundos eu vi, novos espaos,
No para mais saber, mais adorar:
A cubia feroz guiou meus passos,
O orgulho vingador moveu meus braos
E iluminou a raiva o meu olhar!
No te lavava, no, sangue homicida,
Nem em mil milhes d'anos a chorar!...
Cruz do Glgota em ferro traduzida,
Minha espada de heri,  cruz de morte,
Cruz a que Deus baixou por nos dar a vida;
Vidas ceifando, desumana e forte,
Ergueste imprios, subjugando o Oriente,
Mas Deus soprou... ei-los em nada...
E te cravou a ti, vermelha espada,
Nesta alma de lbo eternamente!
 espada de dr, abre-me o peito!
Rasga de lado a lado o corao!
Rasga-o, meu Deus, e torna-mo perfeito,
Que eu te bemdigo e louvo e me sujeito,
Sem uma queixa, aos golpes da tua mo!
Seja feita, Senhor, tua vontade,
Venha o remorso igual  iniquidade,
Deus de justia e luz, Deus de perdo!
..........................................
Nunca nascido houvera o resplendor
Do dia, em que no abeto milenrio
Pus o gume do ao com furor!

Antes aparelhara o meu calvrio,
Antes a minha tumba silenciosa
Com o tronco do roble funerrio!

Antes mil vezes, do que a aventurosa
Barca ligeira, que levou seu guia
Dos desastres  praia fabulosa!

E, a meus golpes crueis, eu bem ouvia
Uma alma no roble que chorava,
Um corao l dentro que gemia!

Um corao de av que perdoava,
S com ais de amargura respondendo
A cada novo golpe que eu lhe dava.

Eu os traduzo hoje, eu os entendo,
Os merencreos ais vaticinantes
Das lgrimas de fel que estou bebendo!

 sombra de teus ramos verdejantes,
 rvore formosa, bem quisera
Adormecer eu inda como dantes!...

No abatessem minhas mos de fera
O teu corpo sagrado, roble augusto,
Patriarca da lei vestido de hera!

Fsse eu ainda o campons adusto,
Lavrador matinal, risonho e grave,
D'alma de pomba e corao de justo!

Sentisse eu inda a msica suave
Da candura feliz no peito agreste,
Qual em rrida brenha um trino de ave!

Em vez do mundo (fome, guerra e peste!)
Conquistasse, por nica vitria,
Os tesoiros sem fim do amor celeste.

Nunca de feitos meus cantasse a Histria;
Ignorasse o meu nome a voz da Fama
E a minha sombra humilde a luz da Glria.

Vivesse obscuro e triste, erva da lama;
Nas alturas, porm, fsse contado
Entre os que Deus aceita, os que Deus ama.

No mundo, bicho ignoto e desprezado;
Mas, nos reinos l luz adamantina,
Um cavaleiro grande e sublimado.


    Cai-lhe o livro das mos. Erguendo-o e beijando-o com fervor:


E contudo, alma infame e libertina,
Em teu horror, esqulido e sangrento,
Uma luz existiu, que era divina!

Uma luz existiu, que num momento
Fez o dia mais claro e mais jucundo,
Ps mais crca da terra o firmamento!

 lira d'oiro que abalaste o mundo!
Sonho d'astros!...  flgida epopeia!
Canta, d vida nova ao moribundo!

Da clera do Eterno a mar cheia,
Naus, barbacs, palcios, de imprevisto
Levou tudo nas ondas, como areia...

Levou tudo nas ondas... ficou isto!
Ficou na mo exangue a lira d'oiro,
E  por ela existir que eu inda existo!...

Lira de Orfeu! meu nico tesoiro!
Bem como a voz do mar enche uma gruta,
Encheu o azul teu canto imorredoiro!

Pudesse eu, d'alma livre e resoluta,
Olhos no fogo da manh nascente,
Erguer ainda os braos para a luta!

No, como outrora, para a luta ardente
Da riqueza e grandeza, que  vaidade...
Da fortuna, que  sombra que nos mente...

Seja a hora do prlio a Eternidade!
E o globo estreito a arena, onde no cansa
A batalha do Amor e da Verdade!

Cavaleiro de Deus, ergue-te e avana!
Pe na bigorna os cravos de Jesus;
Bate-os cantando...  o ferro da tua lana!

Faz a hstea da lana duma cruz;
Vai, cavaleiro, de viseira erguida,
D lanadas magnnimas de luz!...

E ho-de estrlas sangrar de cada f'rida,
Que em rosrios, ardendo, choraro
Uma a uma no Glgota da Vida.

Ah, sonho de esplendor, que sonho em vo!
Pe os olhos em ti, alma de hiena,
Em teu rebaixamento e escurido!...

Como nascer em ptrida gangrna,
Sob os olhos de Deus, a flor de encanto,
Vaso de ideal, a mstica aucena!

Como? chorando; derretendo em pranto
As mculas do crime; e o criminoso,
Vestido de esplendor, ficar santo.

A Dr, a eterna Dr, eis o meu gzo.
O po do meu banquete, cinza escura,
E o meu vinho jovial, fel amargoso.

 a Dr quem liberta a criatura:
Ou em misria humana ande encarnada,
Ou em tigre feroz ou rocha dura.

Oh, abrasa-me a alma envenenada,
Faz em carvo meu corao perverso,
Dr temerosa, Dr idolatrada,

 Dr, filha de Deus, me do universo!


    Longo silncio. Transe-lhe a alma, de repente, um frmito de
    angstia. Adivinha no escuro, marchando, a Fatalidade inexorvel.
    Suor de Agonia. Com um ai cruciante:


A hora grande, a hora imensa,
J por um fio est suspensa...
No tarda muito que ela d!...
Carne medrosa, porque tremes?...
 alma ansiosa, porque gemes?...
Porque?!...
Arde na Dr, carne maldita!
Revive em Dr, alma infinita!
Na Dr bemdita espera e cr!...


    Marcha de tropel, na escurido, um bando de corsrios, gigantes
    espadados e membrudos, rosto sanguneo, cabelos de oiro fulgurando.
    Entoam, epilpticos de alcool, uma cano infrene e vagabunda.
    Relampeiam as armas,  claridade vermelha dos archotes. O andar 
    deliberado e resoluto, como o de quem trilha, s escuras, uma vereda
    j sabida.  que na dianteira, a escaminh-los, Iago e Judas trotam
    sombrios e ofegantes. Um dos marinheiros, brincando, meteu o Veneno
    no blso. Os ces, pelo instinto, levam a horda temerosa em direco
    ao doido. Apenas o descobrem, estacam de sbito, ladrando raivosos e
    covardes, como a dizer:--Ei-lo! A o tendes.--O vlho heri, plido
    de morte, fita-os soberanamente desdenhoso. Rodeiam-no, tumultuando
    e clamorando. Brilham adagas, lminas frias de cutelos. Deitam-lhe
    algmas, do-lhe bofetes, insultam-no, mascarram-no de ldo,
    cospem-lhe na cara. E a face do heri sobre-humanamente resplandece,
    como zurzida por estrlas. Em meio de chufas e labus o arrastam ao
    alto da montanha, onde a cruz negra e sanguinolenta lhe estende os
    braos para a Dr. Com vilipndio o desnudam, por escrnio lhe
    cingem uma tanga de cafre, e, a marteladas truculentas, desumanos o
    pregam no madeiro brbaro. Ao tpo da cruz, desenhada a sangue, esta
    ironia:--_Portugal, rei do Oriente_!--Expele o seio do mrtir um ai
    agudo, lana angustiosa de varar infinitos. E a Dr o exalta, a Dr
    o diviniza:  de alabastro o corpo macerado, as longas barbas
    ondeantes de luar choroso, e os olhos fundos e profticos, duas
    cavernas de noite, com estrlas.  volta, os verdugos tripudiam e
    cantam. Bcas aguardentadas rugem blasfmias e sarcasmos. Atiram-lhe
    pedras, que se convertem em rosas. Atiram-lhe estrco, e chegam-lhe
    lrios e aucenas. Os ces, furibundos, pulam em vo, desaustinados,
    a ver se o mordem; e, insaciveis, abocanham o toro do madeiro,
    lambendo vidamente o sangue fresco a gotejar. Depois, escumantes de
    raiva, ladram  cruz, hienas possessas e diablicas. Varreu a
    tormenta. A noite desmaia. J os aventureiros, levando os ces,
    embarcam na galera. Os olhos do moribundo pairam em volta,
    suplicantes. Cemitrio deserto. Ningum. Campos revoltos, carcaves
    tenebrosos, ossadas de penedias, um castelo derrudo fumegando,
    esqueletos de gente em esqueletos de rvores, terra de pavor, terra
    de morte, onde a nica vida, bruxoleante,  uma agonia numa cruz.
    Qusi a expirar, soltando um gemido:


Pranto, que manas dos meus olhos,
Bemdito s!
Bemdito s, porque s o mar de pranto
Que os meus crimes verteram pelo mundo...
Sangue a correr das minhas f'ridas,
Bemdito s!
Bemdito s, porque s o mar de sangue
Do meu orgulho e minha iniquidade...


    Sbito, numa viso interior, descobre em roda dele as naes
    armadas, crco de lbos  volta duma presa. J no estertor,
    agonizando:


Deus! abandonas-me!...


    Expira. Clareia, roxa, a manh de Novembro, triste lenol de
    misericrdia, a que limpassem forcas ou calvrios. Um aldeo senil e
    vagabundo, caminha ao longe, trpegamente, como um fantasma, em
    direco  cruz. Rto, cheio de lama e de sangue, no bordo aos
    ombros uma taleiga, e, escondida no peito, aninhada nos braos, uma
    criancinha forte e luminosa. Vlho e doente, perdeu-se de noite na
    debandada trgica, no alcanou o navio, j o no enxerga... onde
    ir le!... onde ir le!... Por montes e mares circundeia os olhos,
    enublados de horror, desorbitados de loucura... Ningum! ningum!
    ningum! Campos desertos, ondas sem uma vela, e nos bosques,
    mirrados, sem uma flha, carcassas ptridas... ningum!... Dum povo
    exilado ficra le s, cadver ambulante, espectro bisonho, a chorar
    num ermo, com o seu netinho nos braos. Aproximando-se da cruz,
    reconhece o doido, o estranho doido inofensivo, que a horas mortas
    vagueava, ululando, por cerros e quebradas, e a quem le tantas
    vezes, benignamente, dera agasalho e dera po. Quem o
    crucificou?!... Porque seria?!... Mete mdo e respeito... Que
    estatura de homem!... que gigante!... Morto, semelha um Deus!... E,
    fronte descoberta,--Av-Maria, cheia de graa, o Senhor  convosco,
    bemdita sois vs entre as mulheres...--E os olhos da criana devoram
    a cruz, estrlas inocentes, cheias de angstia e cheias de alma...
    H naquele olhar uma inconscincia misteriosa, que adivinha... Luz
    enigmtica, vem de longe, do fundo do passado, morrendo ao longe, em
    sonho, nas obscuridades do porvir... Esse vlho fantasma, com sse
    menino ao colo, lembra a derradeira rvore dum bosque, rvore na e
    carcomida, com uma florinha ltima no tronco. Flor de morte!... flor
    d'esp'rana!... Nasceu dum cadver, e dela se ho-de gerar, talvez,
    os rumorosos bosques de manh!... O aldeo, assombrado, meio louco,
    procura o castelo do rei... evaporou-se... j o no avista. Em
    frente, na montanha, s lavaredas e runas. Vai descendo, descendo,
    descendo, e l ao fundo estaca de improviso, inclina-se, e v no
    cho, abandonada, uma arma guerreira.  o montante de Nunalvares.
    Empolga-o a custo. Os braos da criancinha estendem-se com avidez,
    numa alegria doida... Nobre montante, qual o teu destino? Sulcars,
    relha de arado, a gleba deserta dsse campons? Nas mos dessa
    criana, um dia homem, brilhars acaso, espada de fogo e de justia?
    Mistrio... mistrio... Invisivelmente, sadando a luz, as cotovias
    gorgeiam...


FIM




ANOTAES




Balano patritico:

Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambsio, fatalista e
sonmbulo, burro de carga, bsta de nora, agentando pauladas, sacos de
vergonhas, feixes de misrias, sem uma rebelio, um mostrar de dentes, a
energia dum coice, pois que nem j com as orelhas  capaz de sacudir as
moscas; um povo em catalpsia ambulante, no se lembrando nem donde vem,
nem onde est, nem para onde vai; um povo, emfim, que eu adoro, porque
sofre e  bom, e guarda ainda na noite da sua inconscincia como que um
lampejo misterioso da alma nacional,--reflexo de astro em silncio
escuro de lagoa morta;

Um clero _portugus_, desmoralizado e materialista, liberal e ateu, cujo
vaticano  o ministrio do reino, e cujos bispos e abades no so mais
que a traduo em eclesistico do fura-vidas que governa o distrito ou
do fura-urnas que administra o concelho[1]; e, ao p dste clero
indgena, um clero jesutico, estrangeiro ou estrangeirado, exrcito de
sombras, minando, enredando, absorvendo,--pelo plpito, pela escola,
pela oficina, pelo asilo, pelo convento e pelo confissionrio,--fra
superior, cosmopolita, invencvel, adaptando-se com elasticidade
inteligente a todos os meios e condies, desde a aldeola nfima, onde
berra pela bca epilptica do fradalho milagreiro, at  rica sociedade
_elegante_ da capital, onde o jesutismo  um dandismo de sacristia, um
beatrio chic, Virgem do tom, Jesus de high-life, prdicas untuosas
(monlogos ao divino por Coquelins de fralda) e em certos dias, na
igreja da moda, a bonita missa encantadora,--luz discreta, flores de
luxo, paramentos raros, cadeiras cmodas, latim primoroso, e hstia
_glace_, com pistache, da melhor confeitaria de Paris;

Uma burguesia, cvica e polticamente corrupta at  medula, no
discriminando j o bem do mal, sem palavra, sem vergonha, sem carcter,
havendo homens que, honrados (?) na vida ntima, descambam na vida
pblica em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda
a infmia, da mentira  falsificao, da violncia ao roubo, donde
provm que na poltica portuguesa sucedam, entre a indiferena geral,
escndalos monstruosos, absolutamente inverosmeis no Limoeiro[2];

Um exrcito que importa em 6.000 contos, no valendo 60 ris, como
elemento de defesa e garantia autonmica;

Um poder legislativo, esfrego de cozinha do executivo; ste criado de
quarto do moderador; e ste, finalmente, tornado absoluto pela abdicao
unnime do pas, e exercido ao acaso da herana, pelo primeiro que sai
dum ventre,--como da roda duma lotaria;

A Justia ao arbtrio da Poltica, torcendo-lhe a vara a ponto de fazer
dela um saca-rlhas;

Dois partidos monrquicos, sem ideias, sem planos, sem convices,
incapazes, na hora do desastre, de sacrificar  monarquia ou meia libra
ou uma gota de sangue, vivendo ambos do mesmo utilitarismo scptico e
pervertido, anlogos nas palavras, idnticos nos actos, iguais um ao
outro como duas metades do mesmo zero, e no se amalgamando e fundindo,
apesar disso, pela razo que algum deu no parlamento,--de no caberem
todos duma vez na mesma sala de jantar;

Um partido republicano, qusi circunscrito a Lisboa, avolumando ou
diminuindo segundo os erros da monarquia, hoje aparentemente forte e
numeroso, manh exaurido e letrgico,--gua de pa inerte,
transbordando se h chuva, tumultuando se h vento, furiosa um instante,
imvel em seguida, e evaporada logo, em lhe batendo dois dias a fio o
sol ardente; um partido composto sobretudo de pequenos burgueses da
capital, adstritos ao sedentarismo crnico do metro e da balana, gente
de balco, no de barricada, com um estado maior pacfico e desconexo de
vlhos doutrinrios, moos positivistas, romnticos, jacobinos e
declamadores, homens de boa-f, alguns de valia mas nenhum _a valer_; um
partido, emfim, de ndole estreita, acanhadamente poltico-eleitoral,
mais negativo que afirmativo, mais de demolio que de reconstruo,
faltando-lhe um chefe de autoridade abrupta, uma dessas cabeas firmes e
superiores, olhos para alumiar e bca para mandar,--um dsses homens
predestinados, que so em crises histricas o ponto de intercepo de
milhes de almas e vontades, acumuladores elctricos da vitalidade duma
raa, crebros omnmodos, compreendendo tudo, adivinhando tudo,--livro
de cifras, livro de arte, livro de histria, simultaneamente humanos e
patriotas, do globo e da rua, do tempo e do minuto, fras supremas,
fras invencveis, que levam um povo de abalada, como quem leva ao colo
uma criana;

Instruo miservel, marinha mercante nula, indstria infantil,
agricultura rudimentar;

Um regime econmico baseado na inscrio e no Brasil, perda de gente e
perda de capital, autofagia colectiva, organismo vivendo e morrendo do
parasitismo de si prprio;

Liberdade absoluta, neutralizada por uma desigualdade revoltante,--o
direito garantido virtualmente na lei, posto, de facto,  merc dum
compadrio de batoteiros, sendo vedado, ainda aos mais orgulhosos e mais
fortes, abrir caminho nesta porcaria, sem recorrer  influncia tirnica
e degradante de qualquer dos bandos partidrios;

Uma literatura iconoclasta,--meia dzia de homens que, no verso e no
romance, no panfleto e na histria, haviam desmoronado a cambaleante
scenografia azul e branca da burguesia de 52, opondo uma arte de
sarcasmo, viril e humana,  frandulagem pelintra da literatura oficial,
carimbada para a imortalidade do esquecimento com a cruz indelvel da
ordem mendicante de S. Tiago;

Uma gerao nova das escolas, entusiasta, irreverente, revolucionria,
destinada, porm, como as anteriores, viva mar dum instante, a refluir
andina e aptica ao charco das convenincias e dos interesses, dela
restando apenas, isolados, meia dzia de homens inflexos e direitos,
indenes  podrido contagiosa pela vacina orgnica dum carcter moral
excepcionalissssimo;

E se a isto juntarmos um pessimismo canceroso e corrosivo, minando as
almas, cristalizado j em frmulas banais e populares,--_to bons so
uns como os outros, corja de pantomineiros, cambada de ladres, tudo uma
choldra, etc. etc._,--teremos em sinttico esbo a fisionomia da
nacionalidade portuguesa no tempo da morte de D. Lus, cujo reinado de
paz podre vem dia a dia supurando em gangrenamentos tercirios.

O advento do materialismo burgus, inaugurado pela ironia scptica do
Rodrigo, acabava pela galhofa cnica do Mariano. O riso de sibarita,
levemente amargo, desfechava no riso canalha, de garoto de aljube. O
patusco terminava em malandro.

A burguesia liberal, mercieiros-viscondes, parasitagem burocrtica,
bacharelice ao piano, advogalhada de S. Bento, _morgadinhas_, _judias_,
sinos, estradas, escariolas, estaes, inauguraes, locomotivas
(religio do Progresso, como les diziam), todo sse mundo de vista
baixa, moralmente ordinrio e intelectualmente reles, ia agora liquidar
numa infecta _dbcle_ de casa de penhores, num Alcacer-Kibir
esfarrapado, de feira da ladra.

A nao, como o rei, ia cair de podre.

O conflito ingls e a revoluo brasileira, dois custicos, puseram a
nu, de improviso, toda a nossa debilidade orgnica,--misria de corpo e
misria de alma.

Falecimento e falncia. Runas. Montes de vergonhas, trapos de leis,
cisco de gente, lama de impudor, carcassas de bancos, famintos
emigrando, porcos digerindo, ladroagem, latrinagem, um salve-se quem
puder de egoismos e de barrigas, derrocada dum povo numa estrumeira de
inscries,--700 mil contos de calote pblico, a bela colheita do torro
portugus, regado a oiro, a libras, desde 52 at 90.

A crise no era simplesmente econmica, poltica ou financeira. Muito
mais: nacional. No havia apenas em jgo o trono do rei ou a fortuna da
nao. Perigava a existncia, a autonomia da ptria. Hora grande,
momento nico. A revoluo impunha-se. Republicana? Conforme. Se o
monarca nos sasse um alto e nobre carcter, um grande esprito, juvenil
e viva encarnao de ideal herico, tanto melhor. A revoluo estava
feita. Imprimia-se, dum dia ao outro, no Dirio do Govrno.

Mas feita com quem, perguntaro, se tudo era ldo? Feita com o elemento
moo do exrcito e da marinha, com qusi todo o partido republicano[3],
com individualidades ntegras e notveis dos partidos monrquicos, com a
juventude das escolas, com um sem-nmero de indiferentes por nojo e por
limpeza, com os duzentos homens de srio valor intelectual dispersos nas
letras, nas scincias, no comrcio e na indstria, e com o povo, o povo
inteiro, que acordaria, Lzaro estremunhado, da sua campa de trs
sculos,  voz dum vidente, ao grito dum Nunalvares.

O portugus, aptico e fatalista, ajusta-se pela maleabilidade da
indolncia a qualquer estado ou condio. Capaz de heroismo, capaz de
cobardia, toiro ou burro, leo ou porco, segundo o governante. Ruge com
Passos Manuel, grunhe com D. Joo VI.  de raa,  de natureza. Foi
sempre o mesmo. A histria ptria resume-se qusi numa srie de
biografias, num desfilar de personalidades, dominando pocas. Sobretudo
depois de Alcacer. Povo messinico, mas que no gera o Messias. No o
pariu ainda. Em vez de traduzir o ideal em carne, vai-o dissolvendo em
lgrimas. Sonha a quimera, no a realiza.

O prprio Pombal  o _Desejado_? No. Fez-se temer, no se fez amar.
Cabea de bronze, corao de pedra. Moralmente, ignbil. Rancoroso,
ferino, alheio  graa, indiferente  dr. Inteligncia vigorosa,
material e mecnica, sem vo e sem asas. Um brutamontes raciocinando
claro. Falta-lhe o gnio, o dom de sentir, nobreza herica, vida
profunda,--humanidade, em suma. Mquina apenas. No criou, produziu. A
criao vem do amor, a gnese  divina. Criar  amar. Por isso a obra
lhe foi a terra. Pulverizou-se. S dura o que vive. Uma raz esteia mais
que um alicerce. Pombal em trs dias, num deserto, quis formar um
bosque. Como? Plantando traves. Adubou-as com mortos e regou-as a
sangue. Apodreceram melhor.

Sei muito bem que o estadista no  o santo, que o grande poltico no 
o mrtir, mas sei tambm que toda a obra governativa, que no fr uma
obra de filosofia humana, resultar em geringona anecdtica, manequim
inerte, sem olhar e sem fala.

A ductilidade, qusi amorfa do carcter portugus, se torna duvidosas as
energias colectivas, os espontneos movimentos nacionais, facilita, no
entanto, de maneira nica, a aco de quem rege e quem governa. Cera
branda, os dedos modelam-na  vontade. Um grande escultor, eis o que
precisamos.

H, alm disso, bem no fundo dste povo um peclio enorme de
inteligncia e de resistncia, de sobriedade e de bondade, tesoiro
precioso, oculto h sculos em mina entulhada.  ainda a sombra daquele
povo que ergueu os Jernimos, que escreveu os Lusadas. Desenterremo-la,
exumemo-la. Quem sabe, talvez revivesse!

Fra o rei um _homem_, que a nacionalidade moribunda se levantaria por
encanto. E bem se me dava a mim da questo poltica, da forma de
govrno. Essencial, a forma do governante. Prefiro uma boa repblica a
uma boa monarquia. A coroa de rei, de pais a filhos transmissvel, como
a coroa de Vnus; o trono hereditrio como as escrfulas,--absurdo
evidente. Mas se de absurdos anda cheio o mundo! Salta-se menos da
_majestade_  _ex.^a_ que da _ex.^a_ ao _tu_. Impero eu mais no meu
criado que o rei em mim[4]. H em cada burgus uma monarquia. Milhes de
burgueses, milhes de absurdos. E eliminam-se acaso numa hora?

No se tratava por emquanto de modalidades orgnicas de existncia;
tratava-se de existir. Problema social e problema poltico marchariam
evolutivamente na rbita ininterrupta do seu destino. Quando um vapor
alagado vai ao fundo, discute a marinhagem construes navais? Primeiro
salv-lo, o estaleiro depois. Quer dizer: a revoluo urgente no era
social, nem poltica, era moral. Nem havia a escolher entre monarquia e
repblica, pois que, para escolher entre duas coisas,  necessrio
existirem, e a repblica, tanto custava a realizar, que ainda at hoje a
no fizemos.

A segurana da ptria exigia inadiavelmente  frente do govrno um homem
de superior inteligncia, de altivo carcter, de nimo herico e
resoluto. Era-o D. Carlos? obedeceramos a D. Carlos. Uma alma, uma
vassoira e uma carroa; de nada mais precisava. Varrer, limpeza geral,
pr isto decente! Tal embaixador levantra castelos de milionrio com o
dinheiro da nao? Transferi-lo de embaixada: representante vitalcio do
Limoeiro em frica. Tal ex-ministro compra as quintas, vendendo a
vergonha? Penhora e priso. Os bens ao errio, o corpo  penitenciria.
Deslaar gr-cruzes e chumbar grilhetas. Norte e Leste, lamas do Tejo,
Banco Lusitano, obras do estado, etc., etc., todas essas montureiras
gangrenadas,--poios de escndalos, obscenamente fermentando ao ar
livre,--queim-las a calcium, purific-las a vitrolo. Calcamos
infmias, respiramos veneno. Que um ciclone de justia nos purificasse o
ar e desentulhasse as estradas. Caminho livre, atmosfera nova! Quem
baldeou o pas  ruina,  misria do lar,  indigncia da alma? Idiotas?
Aposent-los em onagros. Bandidos? Met-los na cadeia.

E a questo econmica? Resolvida por si. Direi mais: til e necessria.
Mas resolvida de que forma? Pelo sacrifcio de todos, pela abnegao
colectiva. As ptrias, como os indivduos, s se regeneram sofrendo. A
dr  salvadora. No h virtude sem martrio, no h Cristo sem cruz. A
Redeno vem da Paixo. A vida fortalece-se na angstia. Nem s a do
homem, a vida inteira, a vida universal. A procela avigora o roble, e o
ferro candente adquire a tmpera, mergulhando-o em glo. Quando a
desgraa parece matar uma nao,  que tal nao estava morta. O
custico, que levantou o doente, decompe o cadver.

Resumindo: desastres, misrias, vergonhas, infortnios, calamidades,
subjugadas com energia e padecidas com nobreza, enseivariam de novo
alento o corao exnime da ptria. O raio lascou a rvore? Brotaria,
amputada, com maior violncia. A alma habita na raz.

Mas seria possvel conjurar quatro milhes de interesses, quatro milhes
de egoismos, num mpeto de f herica e de renncia? Era. Digo-o sem
hesitar. O sibarita que ria, o cevado que ronque. Era! O esprito, como
o fogo, consome traves, calcina pedras, derrete metais. O facho duma
alma pode incendiar uma Babilnia. Um iluminado pode abrasar um imprio.
Tem-se visto. O cofre-forte  de ferro, a libra  de oiro, o egoismo 
de bronze, mas a electricidade impalpvel, invisvel, impondervel,
volatiliza tudo num momento. Ora o esprito  a electricidade de Deus.
Nada lhe resiste. Devora sculos, evapora mundos. Jesus e Buda,--um
crucificado, o outro mendigo,--refazem o globo, pem nova mscara 
criao. Joana d'Arc e Nunalvares, irmos gmeos, redimem duas ptrias.
Focos ambulantes de esprito divino, arrastam e vencem,--magnetizando. O
cu  contagioso como a lepra.

Claro que o milagre exige a f. Nem todos os sbios juntos escreveriam
os evangelhos. A lngua do homem, sem a lngua de fogo, no apostoliza,
discursa. Um Doutor no  um Messias.

A metempsicose, em moderno, do grande Condestvel, eis o meu sonho. Um
justiceiro e um crente. Brao para matar, bca para rezar. Pelejas como
as de Valverde s se ganham assim: ajoelhando primeiro. O Nunalvares de
hoje no usaria cota, nem escudo, mas, ao cabo, seria idntico. A mesma
chama noutro invlucro. No combateria castelhanos, combateria
portugueses. O inimigo mora-nos em casa. Aljubarrota no Terreiro do Pao
e os Atoleiros... nos mil atoleiros de infmias que enodoam as ruas, e
obstruem o trnsito. Queramos um justo inexorvel, um santo herico,
com a verdade nos lbios e uma espada na mo. Os quadrilheiros que
infestam Lisboa e os sub-quadrilheiros que infestam as provncias,
anul-los, esmag-los num dia, numa hora, sem pena e sem remorso,
vasando-os logo,--atascadeiro de baixezas, ldo de malandros,--pelo
buraco infecto duma comua. Depois pregar a tampa. Um colector _in pace_,
um cano de esgto jazigo de famlia.

E, removidos os focos epidmicos, voltaria em breve a sade geral. A
obra de reconstruo, inda que lenta, marcharia sem estrvo. Humanizar o
ensino, nacionalizar a indstria, um clero portugus e cristo, a
justia fora da poltica, o exrcito fora de S. Bento, os burocratas
para a burocracia, o professorado para as escolas, o poder legislativo
entregue s fras independentes e vivas do pas, arrotear o solo,
colonizar a frica,--tudo era possvel, tudo era simples, desde que nos
dessem uma f, uma crena, vida luminosa,--uma alma!

Alma! eis o que nos falta. Porque uma nao no  uma tenda, nem um
oramento uma bblia. Ningum diz: a ptria do comerciante Arajo, do
capitalista Seixas, do banqueiro Burnay. Diz-se a ptria de Herculano,
de Camilo, de Antro, de Joo de Deus. Da mera comunho de estmagos no
resulta uma ptria, resulta uma pia. Scios no significa cidados. O
burgus estpido, perante as calamidades que nos assaltam, computa-as em
libras, redu-las a dinheiro. Parece que se trata duma mercearia em
decadncia. Dvida flutuante, impostos, cmbios, cotaes, alfndegas,
cifras, dinheiro, nada mais. A runa moral no entra na conta nem por um
vintm. Deve e h-de haver, eis o problema. Direito, Justia, Honra,
Pundonor,--palavras! Se o gigo das compras andasse farto e os negcios
corressem, podiam encafuar Jesus Cristo na penitenciria e sua Me no
aljube, que a rcua burguesa, dizendo-se catlica, no se moveria. O
cmbio estava ao par.

Falir um banco, que desastre! Falir uma alma...--Mas que demnio  isto
de falir uma alma?--

Ouve l, burgus rotundo. Um exemplo. Ouviste j nomear por acaso o
Fialho de Almeida? Vagamente. Ora bem; sse Fialho  a mais rica
natureza artstica que Portugal tem gerado h duas dzias de anos. Um
talento grande, rutilando em gnio por instantes. Em gnio, sim. Leiam
os _Pobres_, o _Filho_, a _Vlha_, o _Idlio triste_. Natureza de
sensibilidade vibrtil, agudssima, qusi mrbida. Depois portugus,
idolatrando o seu Alentejo, adorando a sua ptria, instintivamente,
orgnicamente, como a raz adora a terra.

A uma tal natureza, em Lisboa, de 90 a 93, hora a hora assistindo 
decomposio putrefacta daquela percevejaria nausente, no lhe era
lcito o refgio nirvnico dos metafsicos ou dos _hbeis_ na decantada
trre de marfim. O Fialho estava pobre e o marfim muito caro. ndole
ardente e valorosa, palpitante de plebeismo robusto, de humanidade
sangunea, olvidou planos de arte, sonho alado, quimera astral, e de
chicote nas unhas, mordaz e mordendo, arremeteu contra a fandangagem da
sociedade lisboeta, como algum que marchando direito a um nobre
destino, se atirasse de repente s ondas, aventurando a vida,--para
salvar um bbado.

Entre os projectos literrios do admirvel artista, um havia mais que
todos acariciado e fecundo, os _Cavadores_, rstico poema, sntese
sublime da vida da terra, da planta e do campons, obra de fisiologista,
de psiclogo e de poeta, reumando sangue, transpirando lgrimas, drama
tangvel e real, movendo-se numa atmosfera enigmtica de infinito e de
sonho. Um livro elevado. Lisboa rasgou-lho. Em troca deu-lhe os _Gatos_.
Dum poeta pico fez isto: um varredor da Baixa. O Fialho durante trs
anos varreu o Chiado, espiolhou a Havanesa, catou S. Bento. Os trapos
converteram-no em trapeiro. A guia baixou a milhafre. O milhafre 
til, depura e limpa. Os _Gatos_ foram, em parte, uma obra de justia,
por vezes de clera. Mas o rancor dos bons denota ainda bondade. S os
grandes idealistas desceram a grandes satricos. Cristo dava chicotadas.

Nos _Gatos_ estoira de quando em quando um rugido de tigre.  o melhor
do panfleto. O resto, tirante algumas pginas literrias, maravilhosas,
descamba na insignificncia,--cisco, anecdotas, noticirio, zero. O
estilo no basta. Uma melancia em bronze no deixa de ser uma melancia.
Os _Gatos_ tem valor moral e valor de arte. Mas ste  relativo, e
portanto inferior, e aquele ineficaz, e por tanto menos proveitoso.
Varrer Lisboa nos _Gatos_, acho bem; varr-la no _Dirio do Govrno_,
acharia ptimo. Concluso: o desmantelamento da sociedade portuguesa
actuou no esprito impressionvel dum grande poeta, esterilizando-lhe a
gnese da obra humana, imorredoira, e fecundando-lhe a semente da obra
particularista e transitria. Desviou do seu curso natural a gua
lmpida que regava pltanos e searas para com ela inundar estrumeiras e
desentupir esgotos.

Bom burgus, compreendes agora o que  a falncia dum esprito? Calcula,
pois, em 2 milhes de conscincias[5], o dficit moral, a runa
interior, que os teus guarda-livros no escrituram nas agendas. Perdeste
dinheiro, meu rico homem, na quebra fraudulenta dum banco? O Fialho e
ns perdemos os _Cavadores_ na quebra fraudulenta duma nao. O prejuzo
maior foi o nosso. O nosso, o da ptria. Porque  mister que to diga,
bom burgus: sem o banco de Portugal ficaramos pobres 30 anos. Mas sem
os Lusadas ficaramos pobres para sempre. As libras voltam. O gnio no
se repete. Por isso, burgus odioso, te no lamento. Mais ainda:
regalam-me s vezes, Deus me perdoe, os teus desastres, lembrando-me que
s te levantars honradamente, quando se te der, de fome, um n nas
tripas! Idiota! Nem egoista s. Vs apenas dinheiro, e ho-de deixar-te
sem camisa. Inda bem. S nu ficars decente.

Continuemos. A nao, mais do que de libras, carecia de alma. Quem lha
daria? Quem a tivesse como o sol tem luz: infinita. Pobre D. Carlos! Que
havia de le dar,--mediocridade palrdia, j aos 25 anos atascado no
cebo dinstico, nas banhas brigantinas! Alma? Bem alma, no; qusi,
pequena diferena: lama. Uma inverso de duas letras. Ligeiro lapso,
cuja emenda  esta: Viva a repblica!

O rei falhra. Nulo, insignificante. Pedir-lhe gnio, heroismo,
grandeza, sublimidade,--o mesmo que pedir astros a uma couve ou raios a
uma abbora.

A existncia da ptria dependia da revoluo. O rei no pde, no soube,
ou no quis faz-la. Em suma, no a fez. Perdeu-se. Que restava? Faz-la
o povo. No a fazendo, perdia-se tambm.

O rei, em vez de cortar o cancro, identificou-se com le. Chaga maior,
operao mais grave. J ningum suprimir o cancro, sem suprimir a
realeza.

O republicanismo no  aqui uma frmula de direito pblico;  a frmula
extrema de salvao pblica. No prdio em chamas h s uma janela
aberta. Preferem os monrquicos morrer queimados, por a janela estar
pintada de vermelho? Fsse ela branca, que eu saltaria sem escrpulos.

Republicano e patriota tornaram-se sinnimos. Hoje quem diz ptria, diz
repblica. No uma repblica doutrinria, estpidamente jacobina, mas
uma repblica larga, franca, nacional, onde caibam todos. No dum
partido, da nao. Presidente o melhor. Foi por acaso miguelista?
Embora. Uma revoluo por seleco de caracteres.

Tal movimento cvico, espiritualizado e grande, requeria pelo menos
um homem. Existe? Existiu: Jos Falco.

Jos Falco! Alma to nobre de patriota no a conhecerei jmais. A ideia
de ptria, feita verbo, nela encarnra divinamente. Hstia sublime!
Trigo de comunho deu-nos a f, e trigo de vitico, na hora da nossa
morte, d-nos ainda a esperana.

 volta de mim vejo monturos, dentro de mim encaro cinza. Tudo acabou,
no  verdade? Melanclicamente revolvo a cinza, poeira de quimeras, e
uma flmula fulge, uma brasa crepita...  a alma dele... No quer
apagar-se. Mesmo dentro de ns, tmulos cerrados, contina ardendo.
manh de tais campas podem brotar ainda lavaredas.

Grande homem! Como o sangue em momento de pnico reflue de chofre ao
corao, dir-se-ia que na hora suprema toda a alma da ptria naquela
alma se ajuntra.

Em Jos Falco a inteligncia era robusta, a scincia enorme, mas a
grandeza moral incomparvel e soberana. Dizia o que pensava, fazia o que
sentia. Um justo. Portanto, um solitrio. Querendo viver puro, viveu em
si mesmo. Isolou-se. Nem ambicioso, nem vaidoso. Nos altos pncaros, de
glo e de luz, no h micrbios.

Egoista intelectual? Nunca. nimo generoso, os problemas sociais
cativaram-no. A sociedade evitou-a. Livros e famlia: crebro pensando,
corao amando.

Mas o sentimento da ptria com tal furor e febre lhe girava no sangue,
to inato e profundo lhe ardia l dentro, que aquele homem de ideias
instantaneamente se volveu, como por milagre, em homem de aco. O rudo
molestava-o; procurou o rudo. A turba incomodava-o; procurou a turba.
Agitou-se trs anos em movimento frentico. Ptria! Ptria! a viso
constante, o sonho de toda a hora! Fogo sagrado, fogo devorador.
Queimou-se, abrasou-se nele. Auto-de-f dum corpo nas lavaredas duma
crena.

O patriotismo tornra-se em Jos Falco um misticismo. Compreende-se
bem. Ideia to inflamvel, em to candente natureza moral sublima-se,
ilumina-se, perde-se no xtase, no enlvo, no transcendentalismo
religioso. Aquele homem exalava de si o quer que fsse de sobrenatural e
de divino. Sentia-se que no grande momento arriscaria tudo: famlia e
vida, fortuna e lar. Atravs do crente apercebia-se o heri. Por isso
arrastava. A eloqncia vinha-lhe espontnea, dominadora, magntica. No
a eloqncia literria dos artistas. Eloqncia de alma, verbo interior,
luz de uma chama.

Depois naquele homem tudo era portugus, sbrio, simples, varonil,
vernculo: figura, gesto, palavra, intonao, modo de vestir, maneira de
andar. Tudo beiro, tudo nosso. Nem um galicismo. Austero e risonho,
violento e meigo,--a singeleza na grandeza. Lembrava ainda o
Condestvel. Como le, esprito herico, brao de ferro para o comando,
bca de santo para a piedade.

Extenuado e letrgico, pressentindo a morte, nunca desanimou. Pois a
doena da ptria no era ainda bem mais grave? Por ela sim, desejaria
viver, desejaria morrer. A fra fsica abandonava-o, s a vontade
sbre-humana o tinha de p. Era j uma existncia feita de
ressurreies, um ideal galvanizando um cadver.

Dizia-nos le, qusi no fim: No duro muito; aproveitem-me.

Morria da a meses.

No h uma ntima e dolorosa afinidade entre a alma quebrantada dum
povo, baldadamente, durante sculos, evocando um Messias, e a breve
apario dum redentor, miragem sbita, que mal se desenha se desfaz?

Tal a rvore-espectro, frutos de aurora sonhando, caveiras torvas
produzindo, que um dia gerou, milagre de amor! o pomo de oiro
deslumbrante, e o viu desprender, esbroando em cinza, do galho n, do
ramo estril de esqueleto...

rvore nocturna, a morte gira-te nas veias, e os frutos de Ideal que tu
concebes j trazem no mago, quando nascem, as larvas deletrias do
sepulcro...

Desiludido, assim o creio por vezes. Depois a um golpe de sol, o
Quichote revive, exalto-me de novo, de novo espero... Florinha azul,
beijo de Deus,--divina Esperana...

       *       *       *       *       *

Escrevi h ano e meio as pginas que a ficam. Tencionava complet-las,
documentando-as. Intil. O inqurito definitivo  montureira circundante
 a ferro e fogo, no a pena e a tinta, que deve executar-se.

Ampliarei ainda estas anotaes com o protesto que foi dado a lume,
quando o govrno tolheu a homenagem a Guilherme Braga.  um rpido exame
dos planos ltimos da monarquia. Por isso o transcrevo. Ei-lo:


O govrno probiu a manifestao anti-jesutica, que hoje deveria
realizar-se no cemitrio de Agramonte em volta da campa do grande poeta
Guilherme Braga.

Os jesutas so o auxiliar da monarquia. Atacando-os, atacamos o Rei. O
ministrio no o permite. No h que estranhar.  lgico.

Desde a crise do _ultimatum_ ingls, que tanto podia significar uma onda
de vida nova como o estertor dum moribundo, resvala a nao, dia a dia,
ao letargo estpido da indiferena. Estar morta? Estar catalptica? O
futuro, breve talvez, o vai dizer.

Mas na opinio do mundo, j Portugal no existe. Dura, mas no existe.
Dura geogrficamente, mas no existe moralmente. A Europa j considera
isto uma coisa defunta, esplio a repartir, iguaria a trinchar.
Salva-nos da gula dos comensais a rivalidade dos apetites. No dia em que
se harmonizem devoram-nos.

Como resistir? pela fra fsica? impossvel. No h balas nem libras,
no h ouro nem ferro. Qual o meio ento? Um nico: a fra moral. No
vale tudo, mas vale alguma coisa. Na balana da realidade efmera, os
canhes pesam como bronze, e o Direito e a Justia pesam como ar. Sim;
s vezes, no sempre.

Houve profetas que domaram lees: mrtires que aterraram algozes. E
quando um homem ou um povo sucumbem altivos em nome da verdade, sse
homem ressuscitar nas conscincias, e sse povo ressuscitar na
Histria. O justo, expirando na Cruz, ao terceiro dia levanta-se do
tmulo. O covarde, mergulhando em ldo, em ldo agoniza e em ldo se
transforma.

Qual era, pois, a grande misso de um govrno em Portugal? Fazer de
quatro milhes de espritos um s esprito, juntar quatro milhes de
vontades numa s vontade. Raios de luz divergentes, aquecem;
convergentes abrasam. Um cento de meias abnegaes individuais
perdem-se, qusi estreis, na indiferena colectiva. No mudam aos olhos
da Europa a fisionomia portuguesa. Mas a abnegao e o sacrifcio de
todos, a comunho unnime e grandiosa num ideal de Justia, num ideal de
Ptria, transfigurar-nos-ia por encanto, de povo de chatins em povo de
heris, de mortos com direito ao cemitrio, em gente viva com direito ao
po, com direito  luz.

E o problema religioso, nada mais singelo: na esfera do pensamento,
liberdade absoluta; na esfera dos actos, tolerncia recproca.

O povo dos campos mantm a sua f tradicional. Quando se dirige a Deus
precisa ainda uma lngua: o Padre. Faltando-lhe a hstia, falta-lhe
Cristo. Levando-lhe a igreja, levam-lhe o Cu.

O Catolicismo  roble caduco, mas nos galhos exangues, de verdura
plida, inmeras aves inocentes gorgeiam ainda, fabricam o ninho em que
adormecem. No lancemos o machado ao tronco do roble, sem dar aos
coraes ingnuos, que o povoam, outra verdura calma onde se abriguem. O
mundo rla no infinito; no infinito deve igualmente girar o esprito do
homem. Ai dos que vivem s na terra, olhando o horizonte com o olhar da
carne! sses no vivem. Andam kilmetros e contam horas, mas o Espao 
a jornada da alma e o Tempo a hora eterna que no finda. O homem sem o
ideal sbre-humano, regressa  bestialidade donde veio.

Se o cavador miservel no comunga em Cristo seno pela hstia, que a
hstia lhe seja oferecida, mas cndida e branca, em mos de misericrdia
e de pureza. Organizem um clero nacional e cristo, evangelista pela
virtude, embora catlico pelo dogma. Varram da Igreja a estrumeira
poltica; para bispos escolham santos, e a questo religiosa desaparece
num momento. Spinosa ou Schopenhauer entender-se-iam muito bem com S.
Francisco de Assis.

Porm, os homens que h muito dirigem os destinos da Nao, ltimas
varreduras do constitucionalismo agonizante, qusi sempre democratas
vazios aos vinte anos, e cnicos redondos aos quarenta, so incapazes de
um plano de govrno, gerado numa filosofia superior, amoldado a uma
razo prtica luminosa e traduzido em factos, por uma vontade inabalvel
e contnua. Que les, francamente, visam apenas salvar o seu interesse,
o seu egoismo e as suas lantejoulas de medocres.

Conservam a realeza no intuito de se conservarem a si prprios. Mas uma
realeza moribunda s entre mortos alcanar reinar. Fazer do Pas um
cemitrio de almas, eis o problema. As associaes protestam?
Dissolvidas. Os clubes ameaam? Trancados. As Crtes incomodam, s
vezes? Suprimem-se. Os jornais irritam? Cadeia. Todo o obstculo,
desfaz-lo: se  venalidade, pela compra; se  moralidade, pela tirania.
H conscincias que se indignam? Prendam-nas. H gente que se revolte?
Fuzilem-a. Ordem! muita ordem! Quer dizer: Silncio! Digerir e calar. O
Pas inteiro uma campina raza, e nela manobrando, ovante e livre, o
general Queirs. Olhai: galopa de Norte a Sul e nem um montculo para
surpresas, uma ravina para emboscadas. Planura perfeita: bem ch, bem
unida e bem morta. Vivos, a municipal e a polcia.

Receio, pois, de quem? da burguesia liberal? Por via de regra o burgus,
liberal ou no, traz nos intestinos um polcia ingnito: o mdo. Anda
guardado.

Receio do operrio? O operrio portugus  sofredor e humilde. A grande
indstria concentra-se em Lisboa e Prto, onde a polcia usa revlvers e
a municipal Kropatcheks. Contudo, a mar do socialismo invade,
formidvel, os parlamentos europeus.  cautela, proteger S. Bento.
Decreta-se uma lei, inutilizando o voto ao operrio: eleitor, s vezes;
elegvel, nunca.

Receio do exrcito? Lisonge-lo... e diminu-lo. O exrcito  a
municipal.

ptimo. S fica uma nuvem negra: os campos, a plebe da enxada. Horda
infinita. Na alucinao da misria, quem a h-de conter? O Queirs? O
Graa? No chegam. S um Queirs em cada aldeola, um Graa em cada
freguesia. O perigo, enorme, vem da. Meio milho de esfarrapados com
ste general--a Fome, tornam-se invencveis. Existe apenas um recurso:
Deus. Muito bem. Trate-se com Deus.

_Il y avec le ciel des accommodements_. H efectivamente. Mas conforme o
co, e conforme o Deus. O Deus dos Evangelhos, por exemplo,  um Deus
esquisito, no presta. Leva  submisso, nunca  ignomnia. Capaz de
gerar um mrtir, nunca um hipcrita. Depois, a sua doutrina igualitria,
em certos temperamentos, cria alucinados, produz rebeldes. O Niilismo 
filho bastardo de Jesus. E le, o prprio Deus, numa crise de clera,
no desatou s chicotadas? Com o Deus do Calvrio, abrigo de humildes,
redentor de plebes, um homem de estado, espelho de cordura, no deve
entrar em negcios. Arrisca-se.

Quer-se um Deus malevel, arguto, scptico, inteligente: o Deus da
Companhia de Jesus. Ora a est um Deus civilizado, sem preconceitos,
til a um govrno. Instrudo e metdico, ambicioso e cauteloso. Boa
educao, boas maneiras, limpeza de roupas, latim excelente.

Sabe catequizar uma duquesa ou fanatizar uma peixeira. Dispe de
infernos com lavaredas de fogo ou lavaredas de gaze, de cus
confortveis para gente rica e cus de quinto andar para a canalha.
Harmoniza o lausperene com a quermesse, S. Carlos com Santo Incio, um
sermo com um baile, e o Esprito-Santo da Igreja de S. Lus com o tiro
aos pombos na tapada da Ajuda.

Por isso a monarquia firmou aliana com o Jesuta, e o Jesuta vai
esburacando o sub-solo moral da ptria portuguesa. Alastrou, minou,
furou sem ningum ver. Debaixo da terra. Agora aparece. Caminhou na
sombra, de joelhos, como um larpio. Agora mostra-se. Mostra-se e
desafia. A rde escura da sua influncia abrange a rea da nao.
Colgios e conventos em todas as cidades, em todas as provncias.
Levantou baluartes, estratgicamente, escolhendo o terreno. Julga-se
inexpugnvel. Manobra  luz, desfila em batalhes, forma em revistas. 
a guarda municipal da conscincia portuguesa. O seu Deus corresponde-se
com o ministrio, tem entrada na crte e verba no oramento.

Perguntaro: Se o govrno dispunha do clero, por que chamou o jesuta?
Se havia de casa o abade, por que recorreu ao missionrio?  que o
abbade, desmoralizado pelo constitucionalismo em sessenta anos de
tranquibrnia eleitoral, perdeu, lentamente, aos olhos do campons, o
carcter augusto de intermedirio de Jesus. O missionrio, ainda no.

E eis a porque o govrno pactuou com o jesuta, e nos inibe de
responder, como desejvamos, quela entrudada grotesca de Santo Antnio,
que durante semanas emporcalhou as ruas de Lisboa. Carnaval sacrlego! A
humildade, a virtude e a pureza do sublime franciscano, enxovalhadas e
calcadas em correrias de titeriteiros e de bbedos! O discpulo cndido
da mais anglica alma que ventre materno deu  luz, exposto a
glorificaes mercenrias, a apoteoses aviltantes! Para celebrar a dr,
foguetrios e msicas! Para celebrar a mansido, toiradas e baionetas!
Para celebrar a renncia, jogos e toiros, galopes e clarins! Um banquete
suntuoso, uma ranha constelada de jias, convivas em fardalhes
auriluzentes, damas cobertas de brocado, na mesa opulenta uma hecatombe
luculiana, e um burgus anafado e ventrudo, ao dessert, copo de
champagne na mo, erguendo um brinde (com arrotos),  doura, 
singeleza evanglica do amigo do _Poverllo_, de Santo Antnio de
Lisboa! E no fulminou Deus o animalejo estercorrio!

E, por fim, aquela debandada de entremez eclesistico, em que os padres
de Jesus, loucos de terror, cegos de covardia, largavam da mo as coroas
e as insgnias, para melhor se escapulirem, desordenados e fedorentos.

Iremos a Agramonte, iremos silenciosos, a um e um, esconder em flores o
tmulo modesto dsse belo poeta, a quem a sociedade, em troca do Gnio,
doou amarguras e vilipndios. Tardia romagem da nossa indesculpvel
ingratido. E, emquanto a protestos ruidosos, s um a fazer. Mas sse
deve faz-lo a nao inteira, e sem pedir licena aos governantes.
Protesto nico e definitivo, donde resulte uma sociedade virtuosa e
nobre, equitativa e harmnica, impregnada, nas leis e nos costumes, da
moral sublime de Jesus, e refractria, portanto,  moral ambgua do
Jesuta.


       *       *       *       *       *

Eis a, em sntese, a obra do rei e do govrno. Obra de estupidez, obra
efmera. Imbecis. Conhecem, da Eternidade, o minuto em que jantam, e, do
Espao, as dze cabeas de comarca onde fazem bulha. Raciocinam com os
ps, com as mos, com os olhos, com os ouvidos, com o estmago. No
crnio, farelos. Supem-se grandes, e no existem. Mandam, decretam, do
ordens, e no existem. S espiritualmente se existe, vivendo no
infinito, e les, espiritualmente, moram no vo duma escada.

E julgam, os idiotas, salvar o rei! Por que forma? J o disse: tornando
o pas um cemitrio de almas. Dinastias agonizantes querem vasalos
defuntos. Entre quatro milhes de cadveres um ventre com duas pernas,
dois braos, uma abbora nos ombros e uma espada na mo, a distncia,
movendo-se, ilude ainda: parece gente. Rodeiam-no baionetas, cavaleiros
o guardam. Contra quem? contra os mortos. Invencvel ento, no 
verdade? Perdido, inteiramente perdido. Se os mortos ressurgem, le
evapora-se. Se tudo  findo, se os Lzaros se no levantam, quando
chegarem os corvos, principiaro por le o seu banquete. Ou devorado
pela nao, ou devorado pelo estrangeiro. A nao acorda?  o exlio.
Submete-se?  que est morta, e, das naes que morrem, as naes vivas
se alimentam.

Mas, por emquanto, folga. O dia de hoje pertence-lhe. O estado  o rei.
Cidado h um nico: D. Carlos. Os deveres so nossos, os direitos,
dele.  dele o meu pensamento,  dele a minha blsa,  dele a minha
vida. Estrangula-me as ideias, arromba-me a gaveta, ou corta-me o
pescoo, conforme queira. A justia  um relgio que le atrasa, adianta
ou faz parar, segundo lhe d na vontade. Decreta a Lei e nomeia o Juiz.
O parlamento  o seu capricho. Entre uma toirada e uma ferra, escreve
ordenaes com uma navalha. O pas  D. Carlos. Seja. E quem  D.
Carlos? A vai um retrato que  um libelo:

_Trre do Outo_. Esta primeira fantasia rgia de sua majestade importou
em duzentos contos de ris, ou mais, subtrados ao tesouro.
Jurdicamente, um crime. Artsticamente, uma indecncia.

_Exquias de D. Lus, mandadas celebrar pelo municpio de Lisboa,
capital do reino_: Sua majestade, apesar de convidado, no quis
assistir. Foi-se aos coelhos para o Alfeite. Se vagueiam no ar as almas
dos que morrem, a de D. Lus I, nesse dia, chumbou-a porventura, ao
levantar da hstia nas exquias, a filial escopeta do Snr. D. Carlos.

_Ultimatum ingls_: Roubados e insultados. O pas protesta, num vigoroso
movimento de indignao e de clera. Uma criatura houve que ficou
impassvel: o rei. No teve aquela mo um gesto de furor, no encontrou
aquela bca uma palavra de altivez. No dia seguinte, em carro
descoberto, charuto a arder, expunha D. Carlos, na Avenida, aos
transentes atnitos, a inconscincia lrpa da sua figura habitual.

_Convnio ingls_: O art. 75.^o da constituo do reino diz o seguinte:
_O rei  o chefe do poder executivo e o exercita pelos seus ministros de
Estado. So suas principais atribues_:  8.^o _Fazer tratados_. Bem.
De duas, uma: ou o rei conhecia o convnio que o Snr. Barjona negociava
em Londres, ou no o conhecia. Naquela hiptese, todas as injrias,
todos os doestos, toda a lama aviltante, que a nao, s mos ambas,
arremessou ao convnio, cem, de chofre, em sua majestade. Se era alheio
ao convnio, alheio e indiferente a um acto nacional, de vida ou de
morte para a honra da ptria, ento ou sua majestade  um miservel ou
sua majestade  um irresponsvel[6]. Daqui no h fugir.

Chegam a Lisboa as bases do convnio. O Snr. D. Carlos em 21 de Agosto
de 1890, ao procurar nos jornais o anncio dos teatros, viu-as
naturalmente, viu-as de-certo. Ignorncia, agora, no a pode alegar.
Conhecia o crime. Que fez? Abram as _Novidades_ de 22 de Agosto. No
artigo editorial, violentssimo, h stes perodos:

Na histria da nossa decadncia, levantou-se um novo e runoso padro.
O tratado do Snr. Hintze Ribeiro segue-se nesta srie lamentosa ao
tratado de Methwen, e deixa-o no escuro.

Em nossa honra e conscincia, diremos alto e bom som: o tratado firmado
em nome de Portugal com a Inglaterra  um padro de imperecvel
ignomnia, e o dia, em que o seu texto completo fr publicado no _Dirio
do Govrno_, dever ser considerado por todos os cidados amantes do seu
pas como um verdadeiro dia de luto nacional.

E mais adiante, na 3.^a coluna, sob o ttulo--_As festas em Sintra_, _o
Rally paper_, _o Baile_,--escreve ainda o mesmo jornal:

Conforme estava anunciado, realizou-se ontem em Sintra, nos terrenos da
Granja do Marqus, o _Rally paper_. Perto das 3 horas chegaram el-rei e
a ranha num _landeau_  Daumont, acompanhados pela Snr.^a D. Josefa
Sandoval, veador Antnio de Vasconcelos e oficial s ordens A. de
Serpa.

Segue uma comprida nomenclatura de altos senhores e nobilssimas damas,
que, em volta do rei, tomaram parte na funo.

E conclue a notcia:

Na retirada, suas majestades vinham em carro descoberto, escoltados por
todos os jogadores que tinham entrado na partida, e seguidos por mais de
duzentas carruagens descobertas, conduzindo tudo o que h de mais
elegante em Sintra.

E eis a como o rei de Portugal e tudo que h de mais elegante em Sintra
encaravam a imperecvel ignomnia do tratado de 20 de Agosto de 1890.
Hipp, hipp, hurrah! God save the King! Viva Salisbury! Viva D. Carlos!
Que imundcie!

Sua majestade, ainda  ltima hora, doente, no castelo da Pena, queria a
recomposio do gabinete Serpa, isto , mantinha o convnio. Foi o Snr.
Joo Crisstomo quem determinou a queda do govrno, afirmando ao rei
que, se le insistisse, a revoluo era inevitvel.

Sintetizando: O tratado de 20 de Agosto, no juzo da imensa maioria do
pas, qusi a unanimidade, significava a ltima das afrontas, a ltima
das vergonhas. Pois o Snr. D. Carlos deixou-o negociar, no dia que le
chegou a Lisboa celebrou uma festa, sustentou-o meses contra a vontade
clara da nao, largando-o apenas, humilhado, diante das baionetas e da
revolta.

O pas, rasgando-o, rasgou-lho na cara.

_Revolta do Prto_: O Verbo era de luz. Encarnou mal. Da o desastre. A
lava purprea, no abrindo cratera, rompeu, angustiosa, por uma fenda.
Colem o ouvido na montanha: h troves l dentro. Um dia dstes ser
vulco. Adiante...

O municpio do Prto, em 12 de Fevereiro de 91, dirigiu ao rei uma
mensagem. Copio dela estas frases:

No basta repelir e condenar os factos,  mister, mais que tudo,
inquirir das causas que os tornam possveis e mesmo fceis. E a
conscincia nacional, interrogada, responde sem hesitar que erros de
muitos anos; abusivas tolerncias em toda a espcie de deveres sociais e
pblicos; quebras freqentes de disciplina, tanto na classe militar como
em toda a ordem de servios pblicos; relaxao no cumprimento das
obrigaes de cada um; irresponsabilidade freqente para faltas de toda
a ordem; deplorveis complacncias acobertadas com o que abusivamente se
chama a doura dos nossos costumes, tais parecem as causas gerais que
permitiram e facilitaram to deplorveis acontecimentos. E a cmara
municipal do Prto, neste momento intrprete dos sentimentos da cidade,
entende que faltaria ao seu dever, se no chamasse a ateno de V. M.
sbre stes males, que  dever de todos os cidados, desde a mais
elevada gerarquia  mais humilde condio, combater e destruir a todo o
custo, se quisermos salvar a nossa ptria do inevitvel naufrgio das
naes que chegam a semelhante estado..


(Extracto da representao da Cmara do Prto ao Rei, em 12 de fevereiro
de 91.)


Eis agora o extracto da resposta do Snr. D. Carlos:

O sustentamento da justia e a rigorosa aplicao das leis so o
fundamento moral de toda a sociedade bem organizada; a pblica
administrao tem de ser necessriamente econmica e modesta; a poltica
precisa de se mostrar, agora e sempre, evidentemente elevada e
respeitvel nos seus intentos e nos seus caracteres dominantes. stes
salutares princpios que a digna vereao municipal do Prto me relembra
na sua mensagem, professo-os eu como verdades fundamentais, e tenho-os
para normas inquebrantveis da minha magistratura constitucional. Diz-me
a conscincia que lhes tenho sido fiel; e se ainda no pude mostrar toda
a minha profunda dedicao pela nossa ptria, tem sido isso devido ao
pouco tempo da minha vida de rei, desgraadamente assombrada por
acontecimentos de que me no cabe a responsabilidade, mas de que sinto,
como os que muito a sentem, a triste e dolorosa significao.

Que quer isto exprimir? Que a cmara do Prto, com o aplauso de D.
Carlos, justificou a revolta de 31 de janeiro. Embora lhe desaprovassem
a forma, justificavam-lhe a essncia. Mas a braveza dum acto, quando a
razo o determina, desculpa-se bem. H um julgador que diz a um ru: A
lei condena-te, mas a verdade absolve-te. Que faz sse juiz, quando le
 um rei? Perdoa.

Volveram anos. Os grandes criminosos, a que se referia a mensagem do
municpio do Prto, onde  que esto? Nas mais altas dignidades,
rodeando o trono.

E o tenente Coelho, meu senhor? onde  que est le? Apodrecendo em
frica.

_Viagem do Snr. D. Carlos ao Prto, depois do 31 de janeiro_: Mais dum
ano decorrera, antes de sua majestade se abalanar  viagem. Serenados
os nimos, mete-se a caminho. Os estudantes, em Combra, assobiam-no.
Chega ao Prto. Desfila o cortejo. Ao lado do carro de sua majestade
seguia um chefe de esquadra, a p, durindana ao vento. Entala-se-lhe o
gldio numa das rodas, partindo-se em bocados. O monarca desembanha,
veloz, a sua espada de comandante em chefe, e bizarramente lha entrega
com donairosa cortesia. L est na esquadra.

_Baile do ministro ingls, em Sintra_: No vero de 1892 dava o ministro
ingls uma festa pomposa em honra do Snr. D. Carlos. Sua majestade
aceitou-o. O ministro ingls, naquele instante, era a Inglaterra. O
soberano de Portugal era a nao portuguesa. Pois o rosto que levra a
bofetada sangrenta ia ver-se aos espelhos do animalejo que lha dera! Ia
limpar os escarros ao guardanapo de quem lhos atirou!

Um rei que a fatalidade inexorvel, que o destino impiedoso submetesse,
algemado, a similhante vergonha, choraria de raiva lgrimas de sangue, a
no guardar no ntimo da alma, como D. Carlos, o retrato de D. Joo VI,
num pataco falso. Desejaria eu ver, em lance de tal ordem, a grande e
melanclica figura de D. Pedro V. Que trgica altivez e que dorida
nobreza no exprimiria o seu olhar! E D. Carlos? D. Carlos, em toda
aquela noite pavorosa, jogou descuidadamente o _bleuff_, espcie de
batota, com dois casquilhos elegantes do mundanismo que se diverte.
Verifiquem, lendo o _Jornal do Comrcio_, que relatou o baile.
Acrescento mais: quem o relatou assistiu a le.

_Dissoluo das crtes_. _Primeiro golpe de estado_: O Snr. D. Carlos,
um belo dia, farto de atirar s perdizes, alveja  queima-roupa o cdigo
poltico da nao. Com que fim? Salvar-nos, salvar a ptria. Era a vida
da ptria, que, em risco iminente, o constrangia  ditadura. Espesinhava
os cdigos, para manter a nacionalidade, sacrificando (com que mgoa!) o
juramento do rei  existncia do reino. Acto solene, acto grandioso.
D'ora-avante quatro milhes de espritos do seu esprito viveriam.
Escultor dum povo, cinzelador duma raa, ia fazer histria, fazer
humanidade. Como Deus, trabalhava em almas. Um rei idealista, que em tal
momento, no fogo divino duma obra de arte,--quadro ou esttua, msica ou
poema,--quisera sublimar-se, escolheria naturalmente uma obra elevada,
de essncia religiosa, de feitio herico. Guilherme, o visionrio,
escutaria o _Lohengrin_. Carlos, o gordo, foi ao _Brasileiro Pancrcio_.
Os jornais o disseram. Textual: ao _Pancrcio_. Perfeito, simblico.

_Regresso da expedio  Guin_: Vai um bando de homens, filhos da
misria, a terras inspitas e distantes jogar a vida pela ptria.
Chegam, cumprido o dever, exaustos e dizimados. Quem lhes sai ao
encontro? O rei? O rei, quela hora, ou andava s lebres ou palitava os
dentes. Galardoou-os com meia dzia de crachs. Eram poucos. Muito bem:
que os rifassem. E rifaram-nos!

_Pndega a Paris_: Vinte e quatro dias no crebro do mundo. Que trouxe
de l sua majestade? Recibos e gravatas.

_Viagem  Inglaterra_: Quando em 30 de Janeiro de 1891 compunha eu ste
verso,--_A desonra, a abjeco, o trono... e a Jarreteira_--, envolvia a
Jarreteira, em ltimo logar, a mxima ignomnia. To grande, que parecia
hiperblica. Vaticinei, adivinhei. Ei-la, a insgnia infamante, na perna
esquerda do Snr. D. Carlos. Na outra, j a ranha Vitria, no dia 11 de
Janeiro, lhe havia soldado uma grilheta.

_Viagem  Alemanha_: Dias antes do roubo de Keonga houve baile no Pao.
Na quadrilha real, em frente da Snr.^a D. Amlia, quem? O ministro
alemo. No bastava. Deveria D. Carlos envergar, de joelhos, uma libr
prussiana. E foi enverg-la. Contam os jornais que lha improvisaram numa
noite, em dze horas. Escudeiro novo de senhor to grande, queria logo
vesti-la.

_O entrro de Joo de Deus_: Reinou alguns anos o Snr. D. Carlos, sem se
lembrar um minuto de que Joo de Deus existia. Compreende-se. Da
_Heresta_ a uma frra a distncia  larga. Sobrevem,--justia
imanente!--a apoteose nacional do grande lrico. A alma da ptria, num
vago desejo de renascer, contrapunha a soberania do esprito  soberania
da carne; a pureza, vestida de beleza,  traficncia, vestida de
impudor; a idealidade mstica dum gnio ao crasso materialismo visceral
da imunda rcua dos governantes. E eis logo o Snr. D. Carlos a admirar o
poeta e a visit-lo em sua casa, deitando-lhe  garganta, a ver se o
prende, uma coleira qualquer de S. Tiago. O intuito evidenciava-se:
erigir a glria de Joo de Deus em pra-raios da monarquia. Mas a
homenagem, tardiamente hipcrita, no iludiu o senso ntimo da
juventude, radiosa origem espontnea daquela consagrao de amor e de
verdade. Na festa de D. Maria gelou-se  volta de D. Carlos um silncio
de morte. Nem um viva. Aclamava um povo o seu maior gnio, a suprema
flor da idealidade duma raa, e o chefe dsse povo era afastado, como um
intruso, que ningum convidra, que ningum ali conhecia.

Volvido um ano morre Joo de Deus. As Necessidades e o Terreiro do Pao
afectam, decorativamente, pungidoras mgoas. O snr. Hintze, lgubre e
solene, banhado em pranto, de joelhos, rouqueja trmulo, fitando o
cadver, esta despedida angustiosa: _Adeus, Mestre_! Como se o Joo de
Deus houvera sido alfaiate, barbeiro ou sapateiro, nicas mestranas que
a esttica do Snr. Hintze poderia aquilatar devidamente.

Quarenta mil homens, _a p_, seguiram o fretro. Na cauda, _em trs
cches_, trs paquidermes do ministrio, espapaados e sonolentos, a
ruminar asneiras.

E o Snr. D. Carlos, que os meus olhos buscaram, em vo, ansiosamente,
durante quatro horas, onde  que estava, onde estaria le? Duas gazetas
o disseram no mesmo dia, em telegrama indntico, de Mafra. Ei-lo:
_Mafra, 15, s 8 da noite. O Snr. D. Carlos retirou hoje s 5 e meia da
tarde; o resultado da caada foi: 10 galinholas, 5 gamos e 15 coelhos_.
Por alma do sublime poeta do amor e das estrlas, das florinhas e das
aves, dos anjos e das crianas, rezou o Snr. D. Carlos,
inconsolavelmente, uns trinta tiros de espingarda. Dez Padre-Nossos na
grelha, cinco Av-Marias de escabeche e quinze Salv-Ranhas,  Colete
Encarnado, em mlho de vilo.

_A cultura intelectual de sua majestade_: Transcrevo, duma publicao
comemorativa do centenrio Henriquino, ste famoso documento do Snr. D.
Carlos.  um autgrafo. Diz assim:

_Para celebrar a imorredoura memria, do Infante D. Henrique, nada
encontro melhor, do que, transcrever, a estncia de Cames, que serve de
epgrafe  excelente e benemrita, traduo, do notvel livro de
Major_.

Leram? Que indigncia de frase e que pontuao! Um estudantinho imberbe
no escreveria aquilo.

E eis a, a ligeiros traos, a vera efgie de sua majestade o Snr. D.
Carlos. Quem a olhar, exclamar por fra: Viva a Repblica! Nesta
agudssima crise nacional a repblica  mais do que uma simples forma de
govrno.  o ltimo esfro, a ltima energia, que uma nao moribunda
ope  morte. Viva a Repblica!  hoje sinnimo de--Viva Portugal!




Notas:


[1] H excepes individuais, claramente. A fisionomia geral, no
entanto,  aquela.

[2] Se o Nazareno, entre ladres, fsse hoje crucificado em Portugal, ao
terceiro dia, em vez do Justo, ressuscitariam os bandidos. Ao terceiro
dia? que digo eu! Em 24 horas andavam na rua, sos como pros, de farda
agaloada e gr-cruz de Cristo.

[3] Continuaria a haver algumas dzias de republicanos, por coerncia,
brio pessoal ou teima doutrinria. O esprito republicano que alastrou
no pas, esse extinguia-se, ou antes no se tinha gerado.

[4] Um rei segundo a Carta, entende-se.

[5]  meia conscincia por habitante. Talvez excessivo.

[6] Irresponsvel segundo Lombroso, no segundo a Carta.




COLECO LUSITANIA

Cada volume, elegantemente enc. em percalina, $50 ctvs.


*Volumes publicados at Janeiro de 1919*:

1--_Amor de Salvao_, por C. C. Branco.
2--_Riquezas do pobre_, por C. C. Branco.
3--_Eusbio Macrio_, por C. C. Branco.
4--_Corja_, por C. C. Branco.
5--_Cartas de Amor_, por Sror Mariana.
6 e 7--_Nossa Senhora de Paris_, por V. Hugo.
8--_Amores do Diabo_, por C. C. Branco.
9--_Frei Lus de Sousa_, por A. Garrett.
10--_Jos Blsamo_ e _Mata-a, ou ela te matar_, por C. C. Branco.
11 e 12--_Madame Bovary_, por Flaubert.
13--_Menina e Ma_, por Bernadim Ribeiro.
14--_Brasileira de Prasins_, por C. C. Branco.
15--_Cames_, por A. Garrett.
16--_Romance dum homem rico_, por C. C. Branco.
17--_Cartas do meu monho_, por A. Daudet.
18--_Freira no subterrneo_, por C. C. Branco.
19--_Viagens na minha terra_, por A. Garrett.
20--_Carrasco de Vtor Hugo Jos Alves_, por C. C. Branco.
21--_Rafael_, por Lamartine.
22--_Arco de Sant'Ana_, por A. Garrett.
23--_Mosaico e Silva_, por C. C. Branco.
24 e 25--_Noventa e trs_, por V. Hugo.
26--_A Religiosa_, por Diderot.
27--_Livro de Consolao_, por C. C. Branco.
28--_Atala, Ren, o Ultimo Abencerragem_, por Chateaubriand.
29 e 30--_Ultimos dias de Pompeia_, por Lord Lytton.
31--_Mulheres da Beira_, por Abel Botelho.
32--_O Alfageme de Santarm_ e _D. Filipa de Vilhena_, por Garrett.
33--_Fior d'Alisa_, por Lamartine.
34--_Maria da Fonte_, por C. C. Branco.
35--_O ilustre Dr. Mateus_, por Erkmann-Chatrian.
36--_Cludio_, por Lamartine.
37--_Dama das Camlias_, por A. Dumas.
38--_No Bom Jesus do Monte_, por C. C. Branco.
39--_Manon Lescaut_, pelo Abade de Prvost.
40--_Contos escolhidos_, por J. Brando.
41--_Os Sacrificados_, por J. Grave.
42--_O Senhor Deputado_, por J. L. Pinto.
43--_Eugnia Grandet_, por Balzac.
44--_Os que amam e os que sofrem_, por J. Grave.
45--_Infmia de Frei Quintino_, por U. Loureiro







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work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
http://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at http://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit http://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including checks, online payments and credit card donations.
To donate, please visit: http://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.


Most people start at our Web site which has the main PG search facility:

     http://www.gutenberg.org

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including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
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