The Project Gutenberg EBook of A Cidade e as Serras, by Ea de Queirs

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Title: A Cidade e as Serras

Author: Ea de Queirs

Release Date: April 21, 2006 [EBook #18220]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A CIDADE E AS SERRAS ***




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EA DE QUEIROZ

A CIDADE E AS SERRAS


PORTO

LIVRARIA CHARDRON

De Lello & Irmo, editores

1901

Todos os direitos reservados




EA DE QUEIROZ

A CIDADE E AS SERRAS


PORTO

LIVRARIA CHARDRON

De Lello & Irmo, editores

1901

Todos os direitos reservados




Pertence no Brazil o direito de propriedade d'esta obra ao cidado
Francisco Alves, livreiro editor no Rio de Janeiro, que, para a garantia
que lhe offerece a lei n.^o 496 de 1 d'Agosto de 1898, fez o competente
deposito na Bibliotheca nacional, segundo a determinao do art. 13.^o
da mesma Lei.


_Porto--Imprensa Moderna_




[Figura de Ea de Queirs]




A CIDADE E AS SERRAS




Obras do mesmo auctor:


*Revista de Portugal.* 4 grossos volumes      12$000

*As minas de Salomo.* 1 volume      $600

*Os Maias.* 2 grossos volumes      2$000

*O crime do padre Amaro.* Terceira edio inteiramente refundida,
recomposta, e differente na frma e na aco da edio primitiva. 1 grosso
volume      1$200

*O primo Bazilio.* Quarta edio. 1 grosso volume      1$000

*A Reliquia.* 1 grosso volume      1$000

*O Mandarim.* Quarta edio. 1 volume      $500

*Correspondencia de Fradique Mendes.* 1 volume      $600

*A illustre casa de Ramires.* 1 volume      1$000




A CIDADE E AS SERRAS




I


O meu amigo Jacintho nasceu n'um palacio, com cento e nove contos de
renda em terras de semeadura, de vinhedo, de cortia e d'olival.

No Alemtejo, pela Extremadura, atravez das duas Beiras, densas sebes
ondulando por collina e valle, muros altos de boa pedra, ribeiras,
estradas, delimitavam os campos d'esta velha familia agricola que j
entulhava gro e plantava cepa em tempos d'el-rei D. Diniz. A sua quinta
e casa senhorial de Tormes, no Baixo Douro, cobriam uma serra. Entre o
Tua e o Tinhela, por cinco fartas legoas, todo o torro lhe pagava fro.
E cerrados pinheiraes seus negrejavam desde Arga at ao mar d'Ancora.
Mas o palacio onde Jacintho nascra, e onde sempre habitra, era em
Paris, nos Campos Elyseos, n.^o 202.

Seu av, aquelle gordissimo e riquissimo Jacintho a quem chamavam em
Lisboa o _D. Galio_, descendo uma tarde pela travessa da Trabuqueta,
rente d'um muro de quintal que uma parreira toldava, escorregou n'uma
casca de laranja e desabou no lagedo. Da portinha da horta sahia n'esse
momento um homem moreno, escanhoado, de grosso casaco de baeto verde e
botas altas de picador, que, galhofando e com uma fora facil, levantou
o enorme Jacintho--at lhe apanhou a bengala de casto d'ouro que rolra
para o lixo. Depois, demorando n'elle os olhos pestanudos e pretos:

--Oh Jacintho Galio, que andas tu aqui, a estas horas, a rebolar pelas
pedras?

E Jacintho, aturdido e deslumbrado, reconheceu o snr. Infante D. Miguel!

Desde essa tarde amou aquelle bom Infante como nunca amra, apesar de
to guloso, o seu ventre, e apesar de to devoto o seu Deus! Na sala
nobre da sua casa ( Pampulha) pendurou sobre os damascos o retrato do
seu Salvador, enfeitado de palmitos como um retabulo, e por baixo a
bengala que as magnanimas mos reaes tinham erguido do lixo. Emquanto o
adoravel, desejado Infante penou no desterro de Vienna, o barrigudo
senhor corria, sacudido na sua sege amarella, do botequim do Z-Maria em
Belem  botica do Placido nos Algibebes, a gemer as saudades do
_anginho_, a tramar o regresso do _anginho_. No dia, entre todos
bemdito, em que a _Perola_ appareceu  barra com o Messias, engrinaldou
a Pampulha, ergueu no Caneiro um monumento de papelo e lona onde D.
Miguel, tornado S. Miguel, branco, d'aureola e azas de Archanjo, furava
de cima do seu corcel d'Alter o Drago do Liberalismo, que se estorcia
vomitando a Carta. Durante a guerra com o outro, com o pedreiro livre
mandava recoveiros a Santo Thyrso, a S. Gens, levar ao Rei fiambres,
caixas de dce, garrafas do seu vinho de Tarrafal, e bolsas de retroz
atochadas de peas que elle ensaboava para lhes avivar o ouro. E quando
soube que o snr. D. Miguel, com dois velhos bahus amarrados sobre um
macho, tomra o caminho de Sines e do final desterro--Jacintho _Galio_
correu pela casa, fechou todas as janellas como n'um luto, berrando
furiosamente:

--Tambem c no fico! tambem c no fico!

No, no queria ficar na terra perversa d'onde partia, esbulhado e
escorraado, aquelle Rei de Portugal que levantava na rua os Jacinthos!
Embarcou para Frana com a mulher, a snr.^a D. Angelina Fafes (da to
fallada casa dos Fafes da Avellan); com o filho, o 'Cinthinho, menino
amarellinho, mollesinho, coberto de caros e leicenos; com a aia e com
o moleque. Nas costas da Cantabria o paquete encontrou to rijos mares
que a snr.^a D. Angelina, esguedelhada, de joelhos na enxerga do
beliche, prometteu ao Senhor dos Passos d'Alcantara uma cora
d'espinhos, de ouro, com as gottas de sangue em rubis do Pegu. Em
Bayonna, onde arribaram, 'Cinthinho teve ithericia. Na estrada
d'Orleans, n'uma noite agreste, o eixo da berlinda em que jornadeavam
partiu, e o nedio senhor, a delicada senhora da casa da Avellan, o
menino, marcharam tres horas na chuva e na lama do exilio at uma
aldeia, onde, depois de baterem como mendigos a portas mudas, dormiram
nos bancos d'uma taberna. No Hotel dos Santos Padres, em Paris,
soffreram os terrores d'um fogo que rebentra na cavalharia, sob o
quarto de _D. Galio_, e o digno fidalgo, rebolando pelas escadas em
camisa, at ao pateo, enterrou o p n numa lasca de vidro. Ento ergueu
amargamente ao co o punho cabelludo, e rugiu:

--Irra!  de mais!

Logo n'essa semana, sem escolher, Jacintho _Galio_ comprou a um
Principe polaco, que depois da tomada de Varsovia se mettera frade
cartuxo, aquelle palacete dos Campos Elyseos, n.^o 202. E sob o pesado
ouro dos seus estuques, entre as suas ramalhudas sedas se enconchou,
descanando de tantas agitaes, n'uma vida de pachorra e de boa mesa,
com alguns companheiros d'emigrao (o desembargador Nuno Velho, o conde
de Rabacena, outros menores), at que morreu de indigesto, d'uma
lampreia d'escabeche que lhe mandra o seu procurador em Monte-mr. Os
amigos pensavam que a snr.^a D. Angelina Fafes voltaria ao reino. Mas a
boa senhora temia a jornada, os mares, as caleas que racham. E no se
queria separar do seu Confessor, nem do seu Medico, que to bem lhe
comprehendiam os escrupulos e a asthma.

--Eu, por mim, aqui fico no 202 (declarra ella), ainda que me faz falta
a boa agua d'Alcolena... O 'Cinthinho, esse, em crescendo, que decida.

O 'Cinthinho crescra. Era um moo mais esguio e livido que um cirio, de
longos cabellos corredios, narigudo, silencioso, encafuado em roupas
pretas, muito largas e bambas; de noite, sem dormir, por causa da tosse
e de suffocaes, errava em camisa com uma lamparina atravez do 202; e
os creados na copa sempre lhe chamavam a _Sombra_. N'essa sua mudez e
indeciso de sombra surdira, ao fim do luto do pap, o gosto muito vivo
de tornear madeiras ao torno: depois, mais tarde, com a melada flr dos
seus vinte annos, brotou n'elle outro sentimento, de desejo e de pasmo,
pela filha do desembargador Velho, uma menina redondinha como uma rla,
educada n'um convento de Paris, e to habilidosa que esmaltava, dourava,
concertava relogios e fabricava chapos de feltro. No outomno de 1851,
quando j se desfolhavam os castanheiros dos Campos Elyseos, o
'Cinthinho cuspilhou sangue. O medico, acarinhando o queixo e com uma
ruga seria na testa immensa, aconselhou que o menino abalasse para o
golfo Juan ou para as tepidas areias d'Arcachon.

'Cinthinho porm, no seu afrro de sombra, no se quiz arredar da
Therezinha Velho, de quem se tornra, atravez de Paris, a muda, tardnha
sombra. Como uma sombra, casou; deu mais algumas voltas ao torno; cuspiu
um resto de sangue; e passou, como uma sombra.

Tres mezes e tres dias depois do seu enterro o meu Jacintho nasceu.

       *       *       *       *       *

Desde o bero, onde a av espalhava funcho e ambar para afugentar a
_Sorte-Ruim_, Jacintho medrou com a segurana, a rijeza, a seiva rica
d'um pinheiro das dunas.

No teve sarampo e no teve lombrigas. As Letras, a Taboada, o Latim
entraram por elle to facilmente como o sol por uma vidraa. Entre os
camaradas, nos pateos dos collegios, erguendo a sua espada de lata e
lanando um brado de commando, foi logo o vencedor, o Rei que se adula,
e a quem se cede a fructa das merendas. Na edade em que se l Balzac e
Musset nunca atravessou os tormentos da sensibilidade;--nem crepusculos
quentes o retiveram na solido d'uma janella, padecendo d'um desejo sem
frma e sem nome. Todos os seus amigos (eramos tres, contando o seu
velho escudeiro preto, o Grillo) lhe conservaram sempre amizades puras e
certas--sem que jmais a participao do seu luxo as avivasse ou fossem
desanimadas pelas evidencias do seu egoismo. Sem corao bastante forte
para conceber um amor forte, e contente com esta incapacidade que o
libertava, do amor s experimentou o mel--esse mel que o amor reserva
aos que o recolhem,  maneira das abelhas, com ligeireza, mobilidade e
cantando. Rijo, rico, indifferente ao Estado e ao Governo dos Homens,
nunca lhe conhecemos outra ambio alm de comprehender bem as Ideias
Geraes; e a sua intelligencia, nos annos alegres de esclas e
controversias, crculava dentro das Philosophias mais densas como enguia
lustrosa na agua limpa d'um tanque. O seu valor, genuino, de fino
quilate, nunca foi desconhecido, nem desapreciado; e toda a opinio, ou
mera facecia que lanasse, logo encontrava uma aragem de sympathia e
concordancia que a erguia, a mantinha emballada e rebrilhando nas
alturas. Era servido pelas cousas com docilidade e carinho;--e no
recordo que jamais lhe estalasse um boto da camisa, ou que um papel
maliciosamente se escondesse dos seus olhos, ou que ante a sua
vivacidade e pressa uma gaveta perfida emperrasse. Quando um dia, rindo
com descrido riso da Fortuna e da sua Roda, comprou a um sachristo
hespanhol um Decimo de Loteria, logo a Fortuna, ligeira e ridente sobre
a sua Roda, correu n'um fulgor, para lhe trazer quatro centas mil
pesetas. E no ceu as Nuvens, pejadas e lentas, se avistavam Jacintho sem
guarda chuva, retinham com reverencia as suas aguas at que elle
passasse... Ah! o ambar e o funcho da snr.^a D. Angelina tinham
escorraado do seu destino, bem triumphalmente e para sempre, a
_Sorte-Ruim_! A amoravel av (que eu conheci obesa, com barba) costumava
citar um soneto natalicio do desembargador Nunes Velho contendo um verso
de boa lio:

     Sabei, senhora, que esta Vida  um rio...

Pois um rio de vero, manso, translucido, harmoniosamente estendido
sobre uma areia macia e alva, por entre arvoredos fragrantes e ditosas
aldeias, no offereceria quelle que o descesse n'um barco de cedro, bem
toldado e bem almofadado, com fructas e Champagne a refrescar em gelo,
um Anjo governando ao leme, outros Anjos puxando  sirga, mais segurana
e doura do que a Vida offerecia ao meu amigo Jacintho.

Por isso ns lhe chamavamos o Principe da Gran-Ventura!

       *       *       *       *       *

Jacintho e eu, Jos Fernandes, ambos nos encontramos e acamaradamos em
Paris, nas Esclas do Bairro Latino--para onde me mandra meu bom tio
Affonso Fernandes Lorena de Noronha e Sande, quando aquelles malvados me
riscaram da Universidade por eu ter esborrachado, n'uma tarde de
procisso, na Sophia, a cara sordida do dr. Paes Pitta.

Ora n'esse tempo Jacintho concebra uma Ideia... Este Principe concebra
a Ideia de que o homem s  superiormente feliz quando  superiormente
civilisado. E por homem civilisado o meu camarada entendia aquelle que,
robustecendo a sua fora pensante com todas as noes adquiridas desde
Aristoteles, e multiplicando a potencia corporal dos seus orgos com
todos os mechanismos inventados desde Theramenes, creador da roda, se
torna um magnifico Ado, quas omnipotente, quas omnisciente, e apto
portanto a recolher dentro d'uma sociedade e nos limites do Progresso
(tal como elle se comportava em 1875) todos os gozos e todos os
proveitos que resultam de Saber e de Poder... Pelo menos assim Jacintho
formulava copiosamente a sua Ideia, quando conversavamos de fins e
destinos humanos, sorvendo bocks poeirentos, sob o toldo das cervejarias
philosophicas, no Boulevard Saint-Michel.

Este conceito de Jacintho impressionra os nossos camaradas de cenaculo,
que tendo surgido para a vida intellectual, de 1866 a 1875, entre a
batalha de Sadowa e a batalha de Sedan, e ouvindo constantemente, desde
ento, aos technicos e aos philosophos, que fra a Espingarda-de-agulha
que vencra em Sadowa e fra o Mestre-de-escla quem vencra em Sedan,
estavam largamente preparados a acreditar que a felicidade dos
individuos, como a das naes, se realisa pelo illimitado
desenvolvimento da Mechanica e da Erudio. Um d'esses moos mesmo, o
nosso inventivo Jorge Carlande, reduzra a theoria de Jacintho, para lhe
facilitar a circulao e lhe condensar o brilho, a uma frma algebrica:

Summa sciencia}
     X        }= Summa felicidade
Summa potencia}

E durante dias, do Odeon  Sorbonna, foi louvada pela mocidade positiva
a _Equao Metaphysica de Jacintho_.

Para Jacintho, porm, o seu conceito no era meramente metaphysico e
lanado pelo gozo elegante de exercer a razo especulativa:--mas
constituia uma regra, toda de realidade e de utilidade, determinando a
conducta, modalisando a vida. E j a esse tempo, em concordancia com o
seu preceito--elle se surtira da _Pequena Encyclopedia dos Conhecimentos
Universaes_ em setenta e cinco volumes e installra, sobre os telhados
do 202, n'um mirante envidraado, um telescopio. Justamente com esse
telescopio me tornou elle palpavel a sua ideia, n'uma noite de agosto,
de molle e dormente calor. Nos cos remotos lampejavam relampagos
languidos. Pela Avenida dos Campos Elyseos, os fiacres rolavam para as
frescuras do Bosque, lentos, abertos, canados, transbordando de
vestidos claros.

--Aqui tens tu, Z Fernandes, (comeou Jacintho, encostado  janella do
mirante) a theoria que me governa, bem comprovada. Com estes olhos que
recebemos da Madre natureza, lestos e sos, ns podemos apenas
distinguir alm, atravez da Avenida, n'aquella loja, uma vidraa
alumiada. Mais nada! Se eu porm aos meus olhos juntar os dois vidros
simples d'um binoculo de corridas, percebo, por traz da vidraa,
presuntos, queijos, boies de gela e caixas de ameixa scca. Concluo
portanto que  uma mercearia. Obtive uma noo; tenho sobre ti, que com
os olhos desarmados vs s o luzir da vidraa, uma vantagem positiva. Se
agora, em vez d'estes vidros simples, eu usasse os do meu telescopio, de
composio mais scientifica, poderia avistar alm, no planeta Marte, os
mares, as neves, os canaes, o recorte dos golphos, toda a geographia
d'um astro que circula a milhares de leguas dos Campos Elyseos.  outra
noo, e tremenda! Tens aqui pois o olho primitivo, o da Natureza,
elevado pela Civilisao  sua maxima potencia de viso. E desde j,
pelo lado do olho portanto, eu, civilisado, sou mais feliz que o
incivilisado, porque descubro realidades do Universo que elle no
suspeita e de que est privado. Applica esta prova a todos os orgos e
comprehendes o meu principio. Emquanto  intelligencia, e  felicidade
que d'ella se tira pela incanavel accumulao das noes, s te peco
que compares Renan e o Grillo... Claro  portanto que nos devemos cercar
de Civilisao nas maximas propores para gosar nas maximas propores
a vantagem de viver. Agora concordas, Z Fernandes?

No me parecia irrecusavelmente certo que Renan fosse mais feliz que o
Grillo; nem eu percebia que vantagem espiritual ou temporal se clha em
distinguir atravez do espao manchas n'um astro, ou atravez da Avenida
dos Campos Elyseos presuntos n'uma vidraa. Mas concordei, porque sou
bom, e nunca desalojarei um espirito do conceito onde elle encontra
segurana, disciplina e motivo de energia. Desabotoei o collete, e
lanando um gesto para o lado dos cafs e das luzes:

--Vamos ento beber, nas maximas propores, _brandy and soda_, com
gelo!

Por uma concluso bem natural, a ideia de Civilisao, para Jacintho,
no se separava da imagem de Cidade, d'uma enorme Cidade, com todos os
seus vastos orgos funccionando poderosamente. Nem este meu
super-civilisado amigo comprehendia que longe de Armazens servidos por
tres mil caixeiros; e de Mercados onde se despejam os vergeis e lezirias
de trinta provincias; e de Bancos em que retine o ouro universal; e de
Fabricas fumegando com ancia, inventando com ancia; e de Bibliothecas
abarrotadas, a estalar, com a papelada dos seculos; e de fundas milhas
de ruas, cortadas, por baixo e por cima, de fios de telegraphos, de fios
de telephones, de canos de gazes, de canos de fezes; e da fila atroante
dos omnibus, tramways, carroas, velocipedes, calhambeques, parelhas de
luxo; e de dois milhes d'uma vaga humanidade, fervilhando, a offegar,
atravez da Policia, na busca dura do po ou sob a illuso do gozo--o
homem do seculo XIX podesse saborear, plenamente, a delicia de viver!

Quando Jacintho, no seu quarto do 202, com as varandas abertas sobre os
lilazes, me desenrolava estas imagens, todo elle crescia, illuminado.
Que creao augusta, a da Cidade! S por ella, Z-Fernandes, s por
ella, pde o homem soberbamente affirmar a sua alma!...

--Oh Jacintho, e a religio? Pois a religio no prova a alma?

Elle encolhia os hombros. A religio! A religio  o desenvolvimento
sumptuoso de um instincto rudimentar, commum a todos os brutos, o
terror. Um co lambendo a mo do dono, de quem lhe vem o osso ou o
chicote, j constitue toscamente um devoto, o consciente devoto,
prostrado em rezas ante o Deus que distribue o co ou o inferno!... Mas
o telephone! o phonographo!

--Ahi tens tu, o phonographo!... S o phonographo, Z Fernandes, me faz
verdadeiramente sentir a minha superioridade de sr pensante e me separa
do bicho. Acredita, no ha seno a Cidade, Z Fernandes, no ha seno a
Cidade!

E depois (accrescentava) s a Cidade lhe dava a sensao, to necessaria
 vida como o calor, da solidariedade humana. E no 202, quando
considerava em redor, nas densas massas do casario de Paris, dois
milhes de sres arquejando na obra da Civilisao (para manter na
natureza o dominio dos Jacinthos!) sentia um socego, um conchego, s
comparaveis ao do peregrino, que, ao atravessar o deserto, se ergue no
seu dromedario, e avista a longa fila da caravana marchando, cheia de
lumes e de armas...

Eu murmurava, impressionado:

--Caramba!

Ao contrario no campo, entre a inconsciencia e a impassibilidade da
Natureza, elle tremia com o terror da sua fragilidade e da sua solido.
Estava ahi como perdido n'um mundo que lhe no fosse fraternal; nenhum
silvado encolheria os espinhos para que elle passasse; se gemesse com
fome nenhuma arvore, por mais carregada, lhe estenderia o seu fructo na
ponta compassiva d'um ramo. Depois, em meio da Natureza, elle assistia 
subita e humilhante inutilisao de todas as suas faculdades superiores.
De que servia, entre plantas e bichos--ser um Genio ou ser um Santo? As
searas no comprehendem as _Georgicas_; e fra necessario o socorro
ancioso de Deus, e a inverso de todas as leis naturaes, e um violento
milagre para que o lobo de Agubio no devorasse S. Francisco d'Assis,
que lhe sorria e lhe estendia os braos e lhe chamava meu irmo lobo!
Toda a intellectualidade, nos campos, se esterilisa, e s resta a
bestialidade. N'esses reinos crassos do Vegetal e do Animal duas unicas
funces se mantm vivas, a nutritiva e a procreadora. Isolada, sem
occupao, entre focinhos e raizes que no cessam de sugar e de pastar,
suffocando no calido bafo da universal fecundao, a sua pobre alma toda
se engelhava, se reduzia a uma migalha d'alma, uma fagulhasinha
espiritual a tremeluzir, como morta, sobre um naco de materia; e n'essa
materia dois instinctos surdiam, imperiosos e pungentes, o de devorar e
o de gerar. Ao cabo de uma semana rural, de todo o seu sr to
nobremente composto s restava um estomago e por baixo um phallus! A
alma? Sumida sob a besta. E necessitava correr, reentrar na Cidade,
mergulhar nas ondas lustraes da Civilisao, para largar n'ellas a
crosta vegetativa, e resurgir re-humanisado, de novo espiritual e
Jacinthico!

E estas requintadas metaphoras do meu amigo exprimiam sentimentos
reaes--que eu testemunhei, que muito me divertiram, no unico passeio que
fizemos ao campo,  bem amavel e bem sociavel floresta de Montmorency.
Oh delicias d'entremez, Jacintho entre a Natureza! Logo que se afastava
dos pavimentos de madeira, do macadam, qualquer cho que os seus ps
calcassem o enchia de desconfiana e terror. Toda a relva, por mais
crestada, lhe parecia reumar uma humidade mortal. De sob cada torro,
da sombra de cada pedra, receava o assalto de lacraus, de viboras, de
frmas rastejantes e viscosas. No silencio do bosque sentia um lugubre
despovoamento do Universo. No tolerava a familiaridade dos galhos que
lhe roassem a manga ou a face. Saltar uma sebe era para elle um acto
degradante que o retrogradava ao macaco inicial. Todas as flres que no
tivesse j encontrado em jardins, domesticadas por longos seculos de
servido ornamental, o inquietavam como venenosas. E considerava d'uma
melancolia funambulesca certos modos e frmas do Sr inanimado, a pressa
esperta e v dos regatinhos, a careca dos rochedos, todas as contorses
do arvoredo e o seu resmungar solemne e tonto.

Depois d'uma hora, n'aquelle honesto bosque de Montmorency, o meu pobre
amigo abafava, apavorado, experimentando j esse lento mingoar e sumir
d'alma que o tornava como um bicho entre bichos. S desannuviou quando
penetramos no lagdo e no gaz de Paris--e a nossa vittoria quasi se
despedaou contra um omnibus retumbante, atulhado de cidados. Mandou
descer pelos Boulevards, para dissipar, na sua grossa sociabilidade,
aquella materialisao em que sentia a cabea pesada e vaga como a d'um
boi. E reclamou que eu o acompanhasse ao theatro das Variedades para
sacudir, com os estribilhos da _Femme  Papa_, o rumor importuno que lhe
ficra dos melros cantando nos choupos altos.

Este delicioso Jacintho fizera ento vinte e tres annos, e era um
soberbo moo em quem reapparecra a fora dos velhos Jacinthos ruraes.
S pelo nariz, afilado, com narinas quasi transparentes, d'uma
mobilidade inquieta, como se andasse fariscando perfumes, pertencia s
delicadezas do seculo XIX. O cabello ainda se conservava, ao modo das
ras rudes, crespo e quasi lanigero: e o bigode, como o d'um Celta,
cahia em fios sedosos, que elle necessitava aparar e frizar. Todo o seu
fato, as espessas gravatas de setim escuro que uma perola prendia, as
luvas de anta branca, o verniz das botas, vinham de Londres em caixotes
de cedro; e usava sempre ao peito uma flr, no natural, mas composta
destramente pela sua ramalheteira com petalas de flres dessemelhantes,
cravo, azalea, orchidea ou tulipa, fundidas na mesma haste entre uma
leve folhagem de funcho.

       *       *       *       *       *

Em 1880, em Fevereiro, n'uma cinzenta e arripiada manh de chuva, recebi
uma carta de meu bom tio Affonso Fernandes, em que, depois de
lamentaes sobre os seus setenta annos, os seus males hemorroidaes, e a
pesada gerencia dos seus bens que pedia homem mais novo, com pernas
mais rijas--me ordenava que recolhesse  nossa casa de Guies, no
Douro! Encostado ao marmore partido do fogo, onde na vspera a minha
Nini deixra um espartilho embrulhado no _Jornal dos Debates_, censurei
severamente meu tio que assim cortava em boto, antes de desabrochar, a
flr do meu Saber Juridico. Depois n'um Post-Scriptum elle
accrescentava--O tempo aqui est lindo, o que se pde chamar de rosas,
e tua santa tia muito se recommenda, que anda l pela cozinha, porque
vai hoje em trinta e seis annos que casmos, temos c o abbade e o
Quintaes a jantar, e ella quiz fazer uma sopa dourada.

Deitando uma acha ao lume, pensei como devia estar boa a sopa dourada da
tia Vicencia. Ha quantos annos no a provava, nem o leito assado, nem o
arroz de frno da nossa casa! Com o tempo assim to lindo, j as mimosas
do nosso pateo vergariam sob os seus grandes cachos amarellos. Um pedao
de co azul, do azul de Guies, que outro no ha to lustroso e macio,
entrou pelo quarto, alumiou, sobre a poida tristeza do tapete, relvas,
ribeirinhos, malmequeres e flres de trevo de que meus olhos andavam
agoados. E, por entre as bambinellas de sarja, passou um ar fino e forte
e cheiroso de serra e de pinheiral.

Assobiando um _fado_ meigo tirei debaixo da cama a minha velha mala, e
metti solicitamente entre calas e piugas um Tratado de Direito Civil,
para aprender emfim, nos vagares da aldeia, estendido sob a faia, as
leis que regem os homens. Depois, n'essa tarde, annunciei a Jacintho que
partia para Guies. O meu camarada recuou com um surdo gemido de espanto
e piedade:

--Para Guies!... Oh Z Fernandes, que horror!

E toda essa semana me lembrou solicitamente confortos de que eu me
deveria prover para que pudesse conservar, nos ermos silvestres, to
longe da Cidade, uma pouca d'alma dentro d'um pouco de corpo. Leva uma
poltrona! Leva a _Encyclopedia Geral_! Leva caixas de aspargos!...

Mas para o meu Jacintho, desde que assim me arrancavam da Cidade, eu era
arbusto desarraigado que no reviver. A magoa com que me acompanhou ao
comboio conviria excellentemente ao meu funeral. E quando fechou sobre
mim a portinhola, gravemente, supremamente, como se cerra uma grade de
sepultura, eu quasi solucei--com saudades minhas.

Cheguei a Guies. Ainda restavam flres nas mimosas do nosso pateo; comi
com delicias a sopa dourada da tia Vicencia; de tamancos nos ps assisti
 ceifa dos milhos. E assim de colheitas a lavras, crestando ao sol das
eiras, caando a perdiz nos matos geados, rachando a melancia fresca na
poeira dos arraiaes, arranchando a magustos, serandando  candeia,
atiando fogueiras de S. Joo, enfeitando presepios de Natal, por alli
me passaram docemente sete annos, to atarefados que nunca logrei abrir
o Tratado de Direito Civil, e to singelos que apenas me recordo quando,
em vsperas de S. Nicolau, o abbade cahiu da egua  porta do Braz das
Crtes. De Jacintho s recebia raramente algumas linhas, escrevinhadas 
pressa por entre o tumulto da Civilisao. Depois, n'um Setembro muito
quente, ao lidar da vindima, meu bom tio Affonso Fernandes morreu, to
quietamente, Deus seja louvado por esta graa, como se cala um
passarinho ao fim do seu bem cantado e bem voado dia. Acabei pela aldeia
a roupa do luto. A minha afilhada Joanninha casou na matana do porco.
Andaram obras no nosso telhado. Voltei a Paris.




II


Era de novo Fevereiro, e um fim de tarde arripiado e cinzento, quando eu
desci os Campos Elyseos em demanda do 202. Adiante de mim caminhava,
levemente curvado, um homem que, desde as botas rebrilhantes at s abas
recurvas do chapo d'onde fugiam anneis d'um cabello crespo, reumava
elegancia e a familiaridade das coisas finas. Nas mos, cruzadas atraz
das costas, caladas d'anta branca, sustentava uma bengala grossa com
casto de crystal. E s quando elle parou ao porto do 202 reconheci o
nariz afilado, os fios do bigode corredios e sedosos.

--Oh Jacintho!

--Oh Z Fernandes!

O abrao que nos enlaou foi to alvoroado que o meu chapo rolou na
lama. E ambos murmuravamos, commovidos, entrando a grade:

--Ha sete annos!...

--Ha sete annos!...

E, todavia, nada mudra durante esses sete annos no jardim do 202! Ainda
entre as duas aleas bem areadas se arredondava uma relva, mais lisa e
varrida que a l d'um tapete. No meio o vaso corinthico esperava Abril
para resplandecer com tulipas e depois Junho para transbordar de
margaridas. E ao lado das escadas limiares, que uma vidraaria toldava,
as duas magras Deusas de pedra, do tempo de D. Galio, sustentavam as
antigas lampadas de globos foscos, onde j silvava o gaz.

Mas dentro, no peristillo, logo me surprehendeu um elevador installado
por Jacintho--apesar do 202 ter smente dois andares, e ligados por uma
escadaria to doce que nunca offendra a asthma da snr.^a D. Angelina!
Espaoso, tapetado, elle offerecia, para aquella jornada de sete
segundos, confortos numerosos, um divan, uma pelle d'urso, um roteiro
das ruas de Paris, prateleiras gradeadas com charutos e livros. Na
antecamara, onde desembarcamos, encontrei a temperatura macia e tepida
d'uma tarde de Maio, em Guies. Um creado, mais attento ao thermometro
que um piloto  agulha, regulava destramente a bocca dourada do
calorifero. E perfumadores entre palmeiras, como n'um terrasso santo de
Benares, esparziam um vapor, aromatisando e salutarmente humedecendo
aquelle ar delicado e superfino.

Eu murmurei, nas profundidades do meu assombrado sr:

--Eis a civilisao!

Jacintho empurrou uma porta, penetramos n'uma nave cheia de magestade e
sombra, onde reconheci a Bibliotheca por tropear n'uma pilha monstruosa
de livros novos. O meu amigo roou de leve o dedo na parede: e uma cora
de lumes electricos, refulgindo entre os lavores do tecto, alumiou as
estantes monumentaes, todas d'ebano. N'ellas repousavam mais de trinta
mil volumes, encadernados em branco, em escarlate, em negro, com
retoques d'ouro, hirtos na sua pompa e na sua auctoridade como doutores
n'um concilio.

No contive a minha admirao:

--Oh Jacintho! Que deposito!

Elle murmurou, n'um sorriso descorado:

--Ha que lr, ha que lr...

Reparei ento que o meu amigo emmagrecera: e que o nariz se lhe afilra
mais entre duas rugas muito fundas, como as d'um comediante canado. Os
anneis do seu cabello lanigero rareavam sobre a testa, que perdera a
antiga serenidade de marmore bem polido. No frisava agora o bigode
murcho, cahido em fios pensativos. Tambem notei que corcovava.

Elle ergura uma tapearia--entramos no seu gabinete de trabalho, que me
inquietou. Sobre a espessura dos tapetes sombrios os nossos passos
perderam logo o som, e como a realidade. O damasco das paredes, os
divans, as madeiras, eram verdes, d'um verde profundo de folha de louro.
Sdas verdes envolviam as luzes electricas, dispersas em lampadas to
baixas que lembravam estrellas cahidas por cima das mesas, acabando de
arrefecer e morrer: s uma rebrilhava, na e clara, no alto d'uma
estante quadrada, esguia, solitaria como uma torre n'uma planicie, e de
que o lume parecia ser o pharol melancolico. Um biombo de laca verde,
fresco verde de relva, resguardava a chamin de marmore verde, verde de
mar sombrio, onde esmoreciam as brazas d'uma lenha aromatica. E entre
aquelles verdes reluzia, por sobre peanhas e pedestaes, toda uma
Mechanica sumptuosa, apparelhos, laminas, rodas, tubos, engrenagens,
hastes, friezas, rigidezas de metaes...

Mas Jacintho batia nas almofadas do divan, onde se enterrra com um modo
canado que eu no lhe conhecia:

--Para aqui, Z Fernandes, para aqui!  necessario reatarmos estas
nossas vidas, to apartadas ha sete annos!... Em Guies, sete annos! Que
fizeste tu?

--E tu, que tens feito, Jacintho?

O meu amigo encolheu mollemente os hombros. Vivra--cumprira com
serenidade todas as funces, as que pertencem  materia e as que
pertencem ao espirito...

--E accumulaste civilisao, Jacintho! Santo Deus... Est tremendo, o
202!

Elle espalhou em torno um olhar onde j no faiscava a antiga
vivacidade:

--Sim, ha confortos... Mas falta muito! A humanidade ainda est mal
apetrechada, Z Fernandes... E a vida conserva resistencias.

Subitamente, a um canto, repicou a campainha do telephone. E emquanto o
meu amigo, curvado sobre a placa, murmurava impaciente _Est l?--Est
l?_, examinei curiosamente, sobre a sua immensa mesa de trabalho, uma
estranha e miuda legio de instrumentosinhos de nickel, d'ao, de cobre,
de ferro, com gumes, com argolas, com tenazes, com ganchos, com dentes,
expressivos todos, de utilidades misteriosas. Tomei um que tentei
manejar--e logo uma ponta malevola me picou um dedo. N'esse instante
rompeu d'outro canto um tic-tic-tic aodado, quasi ancioso. Jacintho
acudiu, com a face no telephone:

--V ahi o telegrapho!... Ao p do divan. Uma tira de papel que deve
estar a correr.

E, com effeito, d'uma redma de vidro posta n'uma columna, e contendo um
apparelho esperto e diligente, escorria para o tapete, como uma tenia, a
longa tira de papel com caracteres impressos, que eu, homem das serras,
apanhei, maravilhado. A linha, traada em azul, annunciava ao meu amigo
Jacintho que a fragata russa _Azoff_ entrra em Marselha com avaria!

J elle abandonra o telephone. Desejei saber, inquieto, se o
prejudicava directamente aquella avaria da _Azoff_.

--Da _Azoff_?... A avaria? A mim?... No!  uma noticia.

Depois, consultando um relogio monumental que, ao fundo da Bibliotheca,
marcava a hora de todas as Capitaes e o curso de todos os Planetas:

--Eu preciso escrever uma carta, seis linhas... Tu esperas, no, Z
Fernandes? Tens ahi os jornaes de Paris, da noite; e os de Londres,
d'esta manh. As Illustraes alm, n'aquella pasta de couro com
ferragens.

Mas eu preferi inventariar o gabinete, que dava  minha profanidade
serrana todos os gostos d'uma iniciao. Aos lados da cadeira de
Jacintho pendiam gordos tubos acusticos, por onde elle decerto soprava
as suas ordens atravs do 202. Dos ps da mesa cordes tumidos e molles,
colleando sobre o tapete, corriam para os recantos de sombra  maneira
de cobras assustadas. Sobre uma banquinha, e reflectida no seu verniz
como na agua d'um poo, pousava uma Machina-de-escrever: e adiante era
uma immensa Machina-de-calcular, com fileiras de buracos d'onde
espreitavam, esperando, numeros rigidos e de ferro. Depois parei em
frente da estante que me preoccupava, assim solitaria,  maneira d'uma
torre n'uma planicie, com o seu alto pharol. Toda uma das suas faces
estava repleta de Diccionarios; a outra de Manuaes; a outra de Atlas; a
ultima de Guias, e entre elles, abrindo um folio, encontrei o Guia das
ruas de Samarkande. Que macissa torre de informao! Sobre prateleiras
admirei apparelhos que no comprehendia:--um composto de laminas de
gelatina, onde desmaiavam, meio-chupadas, as linhas d'uma carta, talvez
amorosa; outro, que erguia sobre um pobre livro brochado, como para o
decepar, um cutello funesto; outro avanando a bocca d'uma tuba, toda
aberta para as vozes do invisivel. Cingidos aos umbraes, liados s
cimalhas, luziam arames, que fugiam atravs do tecto, para o espao.
Todos mergulhavam em foras universaes, todos transmittiam foras
universaes. A Natureza convergia disciplinada ao servio do meu amigo e
entrra na sua domesticidade!...

Jacintho atirou uma exclamao impaciente:

--Oh, estas pennas electricas!... Que secca!

Amarrotra com colera a carta comeada--eu escapei, respirando, para a
Bibliotheca. Que magestoso armazem dos productos do Raciocinio e da
Imaginao! Alli jaziam mais de trinta mil volumes, e todos decerto
essenciaes a uma cultura humana. Logo  entrada notei, em ouro n'uma
lombada verde, o nome de Adam Smith. Era pois a regio dos Economistas.
Avancei--e percorri, espantado, oito metros de Economia Politica. Depois
avistei os Philosophos e os seus commentadores, que revestiam toda uma
parede, desde as esclas Pre-socraticas at s esclas Neo-pessimistas.
N'aquellas pranchas se acastellavam mais de dois mil systemas--e que
todos se contradiziam. Pelas encadernaes logo se deduziam as
doutrinas: Hobbes, em baixo, era pesado, de couro negro; Plato, em
cima, resplandecia, n'uma pellica pura e alva. Para diante comeavam as
Historias Universaes. Mas ahi uma immensa pilha de livros brochados,
cheirando a tinta nova e a documentos novos, subia contra a estante,
como fresca terra d'alluvio tapando uma riba secular. Contornei essa
collina, mergulhei na seco das Sciencias Naturaes, peregrinando, n'um
assombro crescente, da Orographia para a Paleontologia, e da Morphologia
para a Crystallographia. Essa estante rematava junto d'uma janella
rasgada sobre os Campos Elyseos. Apartei as cortinas de velludo--e por
traz descobri outra portentosa rima de volumes, todos de Historia
Religiosa, de Exegese Religiosa, que trepavam montanhosamente at aos
ultimos vidros, vedando, nas manhs mais candidas, o ar e a luz do
Senhor.

Mas depois rebrilhava, era marroquins claros, a estante amavel dos
Poetas. Como um repouso para o espirito esfalfado de todo aquelle saber
positivo, Jacintho aconchegra ahi um recanto, com um divan e uma mesa
de limoeiro, mais lustrosa que um fino esmalte, coberta de charutos, de
cigarros d'Oriente, de tabaqueiras do seculo XVIII. Sobre um cofre de
madeira lisa pousava ainda, esquecido, um prato de damascos seccos do
Japo. Cedi  seduco das almofadas; trinquei um damasco, abri um
volume; e senti estranhamente, ao lado, um zumbido, como de um insecto
de azas harmoniosas. Sorri  ida que fossem abelhas, compondo o seu mel
n'aquelle massio de versos em flr. Depois percebi que o susurro remoto
e dormente vinha do cofre de mogne, de parecer to discreto. Arredei uma
_Gazeta de Frana_; e descornitei um cordo que emergia de um orificio,
escavado no cofre, e rematava n'um funil de marfim. Com curiosidade,
encostei o funil a esta minha confiada orelha, afeita  singeleza dos
rumores da serra. E logo uma Voz, muito mansa, mas muito dicidida,
aproveitando a minha curiosidade para me invadir e se apoderar do meu
entendimento, susurrou capciosamente:

--...E assim, pela disposio dos cubos diabolicos, eu chego a
verificar os espaos hypermagicos!...

Pulei, com um berro.

--Oh Jacintho, aqui ha um homem! Est aqui um homem a fallar dentro
d'uma caixa!

O meu camarada, habituado aos prodigios, no se alvoroou:

-- o Conferenophone... Exactamente como o Theatrophone; smente
applicado s esclas e s conferencias. Muito commodo!... Que diz o
homem, Z Fernandes?

Eu considerava o cofre, ainda esgazeado:

--Eu sei! Cubos diabolicos, espaos magicos, toda a sorte de horrores...

Senti dentro o sorriso superior de Jacintho:

--Ah,  o coronel Dorchas... Lies de Metaphysica Positiva sobre a
Quarta Dimenso... Conjecturas, uma massada! Ouve l, tu hoje jantas
commigo e com uns amigos, Z Fernandes?

--No, Jacintho... Estou ainda enfardelado pelo alfaiate da serra!

E voltei ao gabinete mostrar ao meu camarada o jaqueto de flanella
grossa, a gravata de pintinhas escarlates, com que ao domingo, em
Guies, visitava o Senhor. Mas Jacintho affirmou que esta simplicidade
montesina interessaria os seus convidados, que eram dois artistas...
Quem? O auctor do _Corao Triplo_, um Psychologo Feminista, d'agudeza
transcendente, Mestre muito experimentado e muito consultado em
Sciencias Sentimentaes; e Vorcan, um pintor mythico, que interpretra
ethereamente, havia um anno, a symbolia rapsodica do cerco de Troia,
n'uma vasta composio, _Helena Devastadora_...

Eu coava a barba:

--No, Jacintho, no... Eu venho de Guies, das serras; preciso entrar
em toda esta civilisaco, lentamente, com cautella, seno rebento. Logo
na mesma tarde a electricidade, e o conferenophone, e os espaos
hypermagicos e o feminista, e o ethereo, e a symbolia devastadora, 
excessivo! Volto manh.

Jacintho dobrava vagarosamente a sua carta, onde mettera sem rebuo
(como convinha  nossa fraternidade) duas violetas brancas tiradas do
ramo que lhe floria o peito.

--manh, Z Fernandes, tu vens antes d'almoo, com as tuas malas dentro
d'um fiacre, para te installares no 202, no teu quarto. No Hotel so
embaraos, privaes. Aqui tens o telephone, o teatrophone, livros...

Acceitei logo, com simplicidade. E Jacintho, embocando um tubo acustico,
murmurou:

--Grillo!

Da parede, recoberta de damasco, que subitamente e sem rumor se fendeu,
surdio o seu velho escudeiro (aquelle moleque que viera com _D.
Gallio_), que eu me alegrei de encontrar to rijo, mais negro,
reluzente e veneravel na sua tesa gravata, no seu collete branco de
botes de ouro. Elle tambem estimou vr de novo o si Fernandes. E,
quando soube que eu occuparia o quarto do av Jacintho, teve um claro
sorriso de preto, em que envolveu o seu senhor, no contentamento de o
sentir emfim reprovido d'uma familia.

--Grillo, dizia Jacintho, esta carta a Madame de Oriol... Escuta!
Telephona para casa dos Trves que os espiritistas s esto livres no
domingo... Escuta! Eu tomo uma douche antes de jantar, tepida, a 17.
Frico com malva-rosa.

E cahindo pesadamente para cima do divan, com um bocejo arrastado e
vago:

--Pois  verdade, meu Z Fernandes, aqui estamos, como ha sete annos,
n'este velho Paris...

Mas eu no me arredava da mesa, no desejo de completar a minha
iniciao:

--Oh Jacintho, para que servem todos estes instrumentosinhos? Houve j
ahi um desavergonhado que me picou. Parecem perversos... So uteis?

Jacintho esboou, com languidez, um gesto que os
sublimava.--Providenciaes, meu filho, absolutamente providenciaes, pela
simplificao que do ao trabalho! Assim... E apontou. Este arrancava as
pennas velhas; o outro numerava rapidamente as paginas d'um manuscripto;
aquell'outro, alm, raspava emendas... E ainda os havia para collar
estampilhas, imprimir datas, derreter lacres, cintar documentos...

--Mas com effeito, accrescentou,  uma scca. Com as molas, com os
bicos, s vezes magoam, ferem... J me succedeu inutilisar cartas por as
ter sujado com dedadas de sangue.  uma massada!

Ento, como o meu amigo espreitra novamente o relogio monumental, no
lhe quiz retardar a consolao da douche e da malva-rosa.

--Bem, Jacintho, j te revi, j me contentei... Agora at manh, com as
malas.

--Que diabo, Z Fernandes, espera um momento... Vamos pela sala de
jantar. Talvez te tentes!

E, atravs da Bibliotheca, penetramos na sala de jantar,--que me
encantou pelo seu luxo sereno e fresco. Uma madeira branca, laccada,
mais lustrosa e macia que setim, revestia as paredes, encaixilhando
medalhes de damasco cr de morango, de morango muito maduro e esmagado:
os aparadores, discretamente lavrados em flores e rocalhas,
resplandeciam com a mesma lacca nevada: e damascos amorangados estofavam
tambem as cadeiras, brancas, muito amplas, feitas para a lentido de
gulas delicadas, de gulas intellectuaes.

--Viva o meu Principe! Sim senhor... Eis aqui um comedoiro muito
comprehensivel e muito repousante, Jacintho!

--Ento janta, homem!

Mas j eu me comeava a inquietar, reparando que a cada talher
correspondiam seis garfos, e todos de feitios astuciosos. E mais me
impressionei quando Jacintho me desvendou que um era para as ostras,
outro para o peixe, outro para as carnes, outro para os legumes, outro
para as fructas, outro para o queijo! Simultaneamente, com uma
sobriedade que louvaria Salomo, s dois copos, para dois vinhos:--um
Bordeus rosado em infusas de crystal, e Champagne gelando dentro de
baldes de prata. Todo um aparador porm vergava, sob o luxo redundante,
quasi assustador d'aguas--aguas oxigenadas, aguas carbonatadas, aguas
phosphatadas, aguas esterilisadas, aguas de saes, outras ainda, em
garrafas bojudas, com tratados therapeuticos impressos em rotulos.

--Santissimo nome de Deus, Jacintho! Ento s ainda o mesmo tremendo
bebedor d'agua, hein?... _Un aquatico_! como dizia o nosso poeta
chileno, que andava a traduzir Klopstock.

Elle derramou, por sobre toda aquella garrafaria encarapuada em metal,
um olhar desconsolado:

--No...  por causa das aguas da Cidade, contaminadas, atulhadas de
microbios... Mas ainda no encontrei uma ba agua que me convenha, que
me satisfaa... At soffro sde.

Desejei ento conhecer o jantar do Psychologo e do Symbolista--traado,
ao lado dos talheres, em tinta vermelha, sobre laminas de marfim.
Comeava honradamente por ostras classicas, de Marennes. Depois
apparecia uma sopa d'alcachofras e ovas de carpa...

-- bom?

Jacintho encolheu desinteressadamente os hombros:

--Sim... Ea no tenho nunca appetite, j ha tempos... J ha annos.

Do outro prato s comprehendi que continha frangos e tubaras. Depois
saboreariam aquelles senhores um filete de veado, macerado em Xerez, com
gela de noz. E por sobremeza simplesmente laranjas geladas em ether.

--Em ether, Jacintho?

O meu amigo hesitou, esboou com os dedos a ondulao d'um aroma que
s'evola.

-- novo... Parece que o ether desenvolve, faz afflorar a alma das
fructas...

Curvei a cabea ignara, murmurei nas minhas profundidades:

--Eis a Civilisao!

E, descendo os Campos Elyseos, encolhido no paletot, a cogitar n'este
prato symbolico, considerava a rudeza e atolado atrazo da minha Guies,
onde desde seculos a alma das laranjas permanece ignorada e
desaproveitada dentro dos gomos sumarentos, por todos aquelles pomares
que ensombram e perfumam o valle, da Roqueirinha a Sandofim! Agora
porm, bemdito Deus, na convivencia de um to grande iniciado como
Jacintho, eu comprehenderia todas as finuras e todos os poderes da
Civilisao.

E, (melhor ainda para a minha ternura!) contemplaria a raridade d'um
homem que, concebendo uma ida da Vida, a realisa--e atravs d'ella e
por ella recolhe a felicidade perfeita.

Bem se affirmra este Jacintho, na verdade, como Principe da
Gran-Ventura!




III


No 202, todas as manhs, s nove horas, depois do meu chocolate e ainda
em chinelas, penetrava no quarto de Jacintho. Encontrava o meu amigo
banhado, barbeado, friccionado, envolto n'um roupo branco de pello de
cabra do Thibet, diante da sua mesa de toilette, toda de crystal, (por
causa dos microbios) e atulhada com esses utensilios de tartaruga,
marfim, prata, ao e madreperola que o homem do seculo XIX necessita
para no desfeiar o conjuncto sumptuario da Civilisao e manter n'ella
o seu Typo. As escovas sobretudo renovavam, cada dia, o meu regalo e o
meu espanto--porque as havia largas como a roda massia d'um carro
sabino; estreitas e mais recurvas que o alfange d'um mouro; concavas, em
frma de telha alde; ponteagudas em feitio de folha de hera; rijas que
nem cerdas de javali; macias que nem pennugem de rla! De todas,
fielmente, como amo que no desdenha nenhum servo, se utilisava o meu
Jacintho. E assim, em face ao espelho emmoldurado de folhedos de prata,
permanecia este Principe passando pellos sobre o seu pello durante
quatorze minutos.

No emtanto o Grillo e outro escudeiro, por traz dos biombos de Kioto, de
sedas lavradas, manobravam, com pericia e vigor, os apparelhos do
lavatorio--que era apenas um resumo das machinas monumentaes da Sala de
Banho, a mais estremada maravilha do 202. N'estes marmores simplificados
existiam unicamente dois jactos graduados desde _zero_ at _cem_; as
duas duchas, fina e grossa, para a cabea; a fonte esterilisada para os
dentes; o repuxo borbulhante para a barba; e ainda botes discretos,
que, roados, desencadeavam esguichos, cascatas cantantes, ou um leve
orvalho estival. D'esse recanto temeroso, onde delgados tubos mantinham
em disciplina e servido tantas aguas ferventes, tantas aguas violentas,
sahia emfim o meu Jacintho enxugando as mos a uma toalha de felpo, a
uma toalha de linho, a outra de corda entranada para restabelecer a
circulao, a outra de sda frouxa para repolir a pelle. Depois d'este
rito derradeiro que lhe arrancava ora um suspiro, ora um bocejo,
Jacintho, estendido n'um divan, folheava uma Agenda, onde se arrolavam,
inscriptas pelo Grillo ou por elle, as occupaes do seu dia, to
numerosas por vezes que cobriam duas laudas.

Todas ellas se prendiam  sua sociabilidade,  sua civilisao muito
complexa, ou a interesses que o meu Principe, n'esses sete annos, crera
para viver em mais consciente communho com todas as funces da Cidade.
(Jacintho com effeito era presidente do Club da _Espada e Alvo_;
commanditario do Jornal o _Boulevard_; director da _Companhia dos
Telephones de Constantinopla_; socio dos _Bazares unidos da Arte
Espiritualista_; membro do _Comit de Iniciao das Religies
Esotericas_, etc.) Nenhuma d'estas occupaes parecia porm aprazivel ao
meu amigo--porque, apesar da mansido e harmonia dos seus modos,
frequentemente arremessava para o tapete, n'uma rebellio de homem
livre, aquella Agenda que o escravisava. E n'uma d'essas manhs (de
vento e neve), apanhando eu o livro oppressivo, encadernado em pellica,
de um carinhoso tom de rosa murcha--descobri que o meu Jacintho devia
depois do almoo fazer uma visita na rua da Universidade, outra no
Parque Monceau, outra entre os arvoredos remotos da Muette; assistir por
fidelidade a uma votao no Club; acompanhar Madame d'Oriol a uma
exposio de leques; escolher um presente de noivado para a sobrinha dos
Trves; comparecer no funeral do velho, conde de Malville; presidir um
tribunal de honra n'uma questo de roubalheira, entre cavalheiros, ao
ecart... E ainda se acavallavam outras indicaes, escrivinhadas por
Jacintho a lapis:--Carroceiro--Five-oclock dos Ephrains--A pequena das
_Variedades_--Levar a nota ao jornal... Considerei o meu Principe.
Estirado no divan, d'olhos miserrimamente cerrados, bocejava, n'um
bocejo immenso e mudo.

Mas os affazeres de Jacintho comeavam logo no 202, cedo, depois do
banho. Desde as oito horas a campainha do telephone repicava por elle,
com impaciencia, quasi com colera, como por um escravo tardio. E mal
enxugado, dentro do seu roupo de pello de cabra do Thibet ou de grossas
pyjamas de pelucia cr d'ouro-velho, constantemente sahia ao corredor a
cochichar com sujeitos to apressados, que conservavam na mo o
guarda-chuva pingando sobre o tapete. Um d'esses, sempre presente (e que
pertencia decerto aos _Telephones de Constantinopla_), era
temeroso--todo elle chupado, tisnado, com maus dentes, sobraando uma
enorme pasta sebenta, e dardejando, d'entre a alta gola d'uma pelissa
poida, como da abertura d'um covil, dous olhinhos trvos e de rapina.
Sem cessar, inexoravelmente, um escudeiro apparecia, com bilhetes n'uma
salva... Depois eram fornecedores d'Industria e d'Arte; negociantes de
cavallos, rubicundos e de paletot branco; inventores com grossos rolos
de papel; alfarrabistas trazendo na algibeira uma edio unica, quasi
inverosimil, de Ulrich Zell ou do _Lapidanus_. Jacintho circulava
estonteado pelo 202, rabiscando a carteira, repicando o telephone,
desatando nervosamente pacotes, sacudindo ao passar algum embuscado que
surdia das sombras da antecamara, estendia como um trabuco o seu
memorial ou o seu catalogo!

Ao meio dia, um tam-tam argentino e melancholico ressoava, chamando ao
almoo. Com o _Figaro_ ou as _Novidades_ abertas sobre o prato, eu
esperava sempre meia hora pelo meu Principe, que entrava n'uma rajada,
consultando o relogio, exhalando com a face moda o seu queixume eterno:

--Que massada! E depois uma noite abominavel, enrodilhada em sonhos...
Tomei sulforal, chamei o Grillo para me esfregar com therebentina... Uma
scca!

Espalhava pela mesa um olhar j farto. Nenhum prato, por mais engenhoso,
o seduzia;--e, como atravs do seu tumulto matinal fumava incontaveis
cigarretes que o resequiam, comeava por se encharcar com um immenso
copo d'agua oxygenada, ou carbonatada, ou gazoza, misturada d'um cognac
raro, muito caro, horrendamente adocicado, de moscatel de Syracusa.
Depois,  pressa, sem gosto, com a ponta incerta do garfo, picava aqui e
alm uma lasca de fiambre, uma febra de lagosta;--e reclamava
impacientemente o caf, um caf de Moka, mandado cada mez por um feitor
do Dedjah, fervido  turca, muito espesso, que elle remexia com um pau
de canella!

--E tu, Z Fernandes, que vaes tu fazer?

--Eu?

Recostado na cadeira, com delicias, os dedos mettidos nas cavas do
collete:

--Vou vadiar, regaladamente, como um co natural!

O meu sollicito amigo, remexendo o caf com o pau de canella, rebuscava
atravs da numerosa Civilisao da Cidade uma occupao que me
encantasse. Mas apenas suggeria uma Exposio, ou uma Conferencia, ou
monumentos, ou passeios, logo encolhia os hombros desconsolados:

--Por fim nem vale a pena,  uma scca!

Accendia outra das cigarretes russas, onde rebrilhava o seu nome,
impresso a ouro na mortalha. Torcendo, n'uma pressa nervosa, os fios do
bigode, ainda escutava,  porta da Bibliotheca, o seu procurador, o
nedio e magestoso Laporte. E emfim, seguido d'um criado, que sobraava
um mao tremendo de jornaes para lhe abastecer o coup, o Principe da
Gran-Ventura mergulhava na Cidade.

       *       *       *       *       *

Quando o dia social de Jacintho se apresentava mais desafogado, e o co
de Maro nos concedia caridosamente um pouco de azul agoado, sahiamos
depois d'almoo, a p, atravs de Paris. Estes lentos e errantes
passeios eram outr'ora, na nossa edade de Estudantes, um gozo muito
querido de Jacintho--porque n'elles mais intensamente e mais
minuciosamente saboreava a Cidade. Agora porm, apesar da minha
companhia, s lhe davam uma impaciencia e uma fadiga que desoladoramente
destoava do antigo, illuminado extasi. Com espanto (mesmo com dr,
porque sou bom, e sempre me entristece o desmoronar d'uma crena)
descobri eu, na primeira tarde em que descemos aos Boulevards, que o
denso formigueiro humano sobre o asphalto, e a torrente sombria dos
trens sobre o macadam, affligiam o meu amigo pela brutalidade da sua
pressa, do seu egoismo, e do seu estridor. Encostado e como refugiado no
meu brao, este Jacintho novo comeou a lamentar que as ruas, na nossa
Civilisao, no fossem caladas de gutta-percha! E a gutta-percha
claramente representava, para o meu amigo, a substancia discreta que
amortece o choque e a rudeza das cousas. Oh maravilha! Jacintho querendo
borracha, a borracha isoladora, entre a sua sensibilidade e as funces
da Cidade! Depois, nem me permittiu pasmar diante d'aquellas dourejadas
e espelhadas lojas que elle outr'ora considerava como os preciosos
museus do seculo XIX...

--No vale a pena, Z Fernandes. Ha uma immensa pobreza e seccura
d'inveno! Sempre os mesmos flores Luiz XV, sempre as mesmas
pelucias... No vale a pena!

Eu arregalava os olhos para este transformado Jacintho. E sobretudo me
impressionava o seu horror pela Multido--por certos effeitos da
Multido, s para elle sensiveis, e a que chamava os sulcos.

--Tu no os sentes, Z Fernandes. Vens das serras... Pois constituem o
rijo inconveniente das Cidades, estes sulcos!  um perfume muito agudo e
petulante que uma mulher larga ao passar, e se installa no olfacto, e
estraga para todo o dia o ar respiravel.  um dito que se surprehende
n'um grupo, que revela um mundo de velhacaria, ou de pedantismo, ou de
estupidez, e que nos fica collado  alma, como um salpico, lembrando a
immensidade da lama a atravessar. Ou ento, meu filho,  uma figura
intoleravel pela preteno, ou pelo mau-gosto, ou pela impertinencia, ou
pela rellice, ou pela dureza, e de que se no pde sacudir mais a viso
repulsiva... Um pavor, estes sulcos, Z Fernandes! De resto, que diabo,
so as pequeninas miserias d'uma Civilisao deliciosa!

Tudo isto era especioso, talvez pueril--mas para mim revelava, n'aquelle
chamejante devoto da Cidade, o arrefecimento da devoo. N'essa mesma
tarde, se bem recordo, sob uma luz macia e fina, penetramos nos centros
de Paris, nas ruas longas, nas milhas de casario, todo de calia parda,
erriado de chamins de lata negra, com as janellas sempre fechadas, as
cortininhas sempre corridas, abafando, escondendo a vida. S tijolo, s
ferro, s argamassa, s estuque: linhas hirtas, angulos asperos: tudo
secco, tudo rigido. E dos chos aos telhados, por toda a fachada,
tapando as varandas, comendo os muros, Taboletas, Taboletas...

--Oh, este Paris, Jacintho, este teu Paris! Que enorme, que grosseiro
bazar!

E, mais para sondar o meu Principe do que por persuaso, insisti na
fealdade e tristeza d'estes predios, duros armazens, cujos andares so
prateleiras onde se apilha humanidade! E uma humanidade impiedosamente
catalogada e arrumada! A mais vistosa e de luxo nas prateleiras baixas,
bem envernisadas. A relles e de trabalho nos altos, nos desvos, sobre
pranchas de pinho n, entre o p e a traa...

Jacintho murmurou, com a face arripiada:

-- feio,  muito feio!

E accudiu logo, sacudindo no ar a luva de anta:

--Mas que maravilhoso organismo, Z Fernandes! Que solidez! Que
produco!

Onde Jacintho me parecia mais renegado era na sua antiga e quasi
religiosa affeio pelo Bosque de Bolonha. Quando moo, elle construira
sobre o Bosque theorias complicadas e consideraveis. E sustentava, com
olhos rutilantes de fanatico, que no Bosque a Cidade cada tarde ia
retemperar salutarmente a sua fora, recebendo, pela presena das suas
Duquezas, das suas Cortezs, dos seus Politicos, dos seus Financeiros,
dos seus Generaes, dos seus Academicos, dos seus Artistas, dos seus
Clubistas, dos seus Judeus, a certeza consoladora de que todo o seu
pessoal se mantinha em numero, em vitalidade, em funco, e que nenhum
elemento da sua grandeza desapparecera ou deperecera! Ir ao Bois
constituia ento para o meu Principe um acto de consciencia. E voltava
sempre confirmando com orgulho que a Cidade possuia todos os seus
astros, garantindo a eternidade da sua luz!

Agora, porm, era sem fervor, arrastadamente, que elle me levava ao
Bosque, onde eu, aproveitando a clemencia d'Abril, tentava enganar a
minha saudade d'arvoredos. Emquanto subiamos, ao trote nobre das suas
egoas lustrosas, a Avenida dos Campos-Elyseos e a do Bosque,
rejuvenescidas pelas relvas tenras e fresco verdejar dos rebentos,
Jacintho, soprando o fumo da cigarrete pelas vidraas abertas do coup,
permanecia o bom camarada, de veia amavel, com quem era doce philosophar
atravs de Paris. Mas logo que passavamos as grades douradas do Bosque,
e penetravamos na Avenida das Acacias, e enfiavamos na lenta fila dos
trens de luxo e de praa, sob o silencio decoroso, apenas cortado pelo
tilintar dos freios e pelas rodas vagarosas esmagando a areia,--o meu
Principe emmudecia, mollemente engilhado no fundo das almofadas, d'onde
s despegava a face para escancarar bocejos de fartura. Pelo antigo
habito de verificar a presena confortadora do pessoal, dos astros,
ainda, por vezes, apontava para algum coup ou vittoria rodando com
rodar rangente n'outra arrastada fila--e murmurava um nome. E assim fui
conhecendo a encaracolada barba hebraica do banqueiro Ephraim; e o longo
nariz patricio de Madame de Trves abrigando um sorriso perenne; e as
bochechas flacidas do poeta neo-platonico Dornan, sempre espapado no
fundo de fiacres; e os longos bands pre-raphaelitas e negros de Madame
Verghane; e o monoculo defumado do director do _Boulevard_; e o
bigodinho vencedor do Duque de Marizac, reinando de cima do seu phaeton
de guerra; e ainda outros sorrisos immoveis, e barbichas  Renascena, e
palpebras amortecidas, e olhos farejantes, e pelles empoadas d'arroz,
que eram todas illustres e da intimidade do meu Principe. Mas, do topo
da Avenida das Acacias, recomeavamos a descer, em passo sopeado,
esmagando lentamente a areia; na fila vagarosa que subia, calhambeque
atraz de landau, vittoria atraz de fiacre, fatalmente reviamos o
binoculo sombrio do homem do _Boulevard_, e os bands furiosamente
negros de Madame Verghane, e o ventre espapado do neo-platonico, e a
barba talmudica, e todas aquellas figuras, d'uma immobilidade de cera,
super-conhecidas do meu camarada, recruzadas cada tarde atravs de
revividos annos, sempre com os mesmos sorrisos, sob o mesmo p d'arroz,
na mesma immobilidade de cera; ento Jacintho no se continha, gritava
ao cocheiro:

--Para casa, depressa!

E era pela Avenida do Bosque, pelos Campos-Elyseos, uma fuga ardente das
egoas a quem a lentido sopeada, n'um roer de freios, entre outras egoas
tambem d'ellas super-conhecidas, lanavam n'uma exasperao comparavel 
de Jacintho.

Para o sondar eu denegria o Bosque:

--J no  to divertido, perdeu o brilho!...

Elle acudia, timidamente:

--No,  agradavel, no ha nada mais agradavel; mas...

E accusava a friagem das tardes ou o despotismo dos seus affazeres.
Recolhiamos ento ao 202, onde, com effeito, em breve embrulhado no seu
roupo branco, diante da mesa de crystal, entre a legio das escovas,
com toda a electricidade refulgindo, o meu Principe se comeava a
adornar para o servio social da noite.

E foi justamente numa d'essas noites (um sabado) que ns passamos,
n'aquelle quarto to civilisado e protegido, por um d'esses brutos e
revoltos terrores como s os produz a ferocidade dos Elementos. J
tarde,  pressa (jantavamos com Marizac no Club para o acompanhar depois
ao _Lohengrin_ na Opera) Jacintho arrocheava o n da gravata
branca--quando no lavatorio, ou porque se rompesse o tubo, ou se
dessoldasse a torneira, o jacto d'agua a ferver rebentou furiosamente,
fumegando e silvando. Uma nevoa densa de vapor quente abafou as
luzes--e, perdidos n'ella, sentiamos, por entre os gritos do escudeiro e
do Grillo, o jorro devastador batendo os muros, esparrinhando uma chuva
que escaldava. Sob os ps o tapete ensopado era uma lama ardente. E como
se todas as foras da natureza, submettidas ao servio de Jacintho, se
agitassem, animadas por aquella rebellio da agua--ouvimos roncos surdos
no interior das paredes, e pelos fios dos lumes electricos sulcaram
faiscas ameaadoras! Eu fugira para o corredor, onde se alargava a nevoa
grossa. Por todo o 202 ia um tumulto de desastre. Diante do porto,
attrahidas pela fumarada que se escapava das janellas, estacionava
policia, uma multido. E na escada esbarrei com um reporter, de chapo
para a nuca, a carteira aberta, gritando sofregamente se havia mortos?

Domada a agua, clareada a bruma, vim encontrar Jacintho no meio do
quarto, em ceroulas, livido:

--Oh Z Fernandes, esta nossa industria!... Que impotencia, que
impotencia! Pela segunda vez, este desastre! E agora, apparelhos
perfeitos, um processo novo...

--E eu encharcado por esse processo novo! E sem outra casaca!

Em redor, as nobres sdas bordadas, os brocateis Luiz XIII, cobertos de
manchas negras, fumegavam. O meu Principe, enfiado, enchugava uma
photographia de Madame d'Oriol, d'hombros decotados, que o jorro bruto
maculra d'empolas. E eu, com rancor, pensava que na minha Guies a agua
aquecia em seguras panellas--e subia ao meu lavatorio, pela mo forte da
Catharina, em seguras infusas! No jantamos com o duque de Marizac, no
Club. E, na Opera, nem saboreei Lohengrin e a sua branca alma e o seu
branco cysne e as suas brancas armas--entallado, aperreado, cortado nos
sovacos pela casaca que Jacintho me emprestra e que rescendia
estonteadoramente a flores de Nessari.

       *       *       *       *       *

No domingo, muito cedo, o Grillo, que na vspera escaldra as mos e as
trazia embrulhadas em sda, penetrou no meu quarto, descerrou as
cortinas, e  beira do leito, com o seu radiante sorriso de preto:

--Vem no _Figaro_!

Desdobrou triumphalmente o jornal. Eram, nos _Echos_, doze linhas, onde
as nossas aguas rugiam e espadavam, com tanta magnificencia e tanta
publicidade, que tambem sorr, deleitado.

--E toda a manh, o telephone, si Fernandes! exclamava o Grillo,
rebrilhando em ebano. A quererem saber, a quererem saber... Est l?
Est escaldado? Paris afflicto, si Fernandes!

O telephone, com effeito, repicava, insaciavel. E quando desci para o
almoo, a toalha desapparecia sob uma camada de telegrammas, que o meu
Principe fendia com a faca, enrugado, rosnando contra a massada. S
desannuviou, ao ler um d'esses papeis azues, que atirou para cima do meu
prato, com o mesmo sorriso agradado com que de manh sorriramos, o
Grillo e eu:

-- do Gran-Duque Casimiro... Rato amavel! Coitado!

Saboreei, atravs dos ovos, o telegramma de S. Alteza. O que! o meu
Jacintho inundado! Muito chic, nos Campos-Elyseos! No volto ao 202 sem
boia de salvao! Compassivo abrao! Casimiro... Murmurei tambem com
deferencia:--Amavel! Coitado! Depois, revolvendo lentamente o monto
de telegrammas que se alastrava at ao meu copo:

--Oh Jacintho! Quem  esta Diana que incessantemente te escreve, te
telephona, te telegrapha, te...?

--Diana?... Diana de Lorge.  uma cocotte.  uma grande cocotte!

--Tua?

--Minha, minha... No! tenho um bocado.

E como eu lamentava que o meu Principe, senhor to rico e de to fino
orgulho, por economia d'uma gamella propria chafurdasse com outros n'uma
gamella publica--Jacintho levantou os hombros, com um camaro espetado
no garfo:

--Tu vens das serras... Uma cidade como Paris, Z Fernandes, precisa ter
cortezs de grande pompa e grande fausto. Ora para montar em Paris,
n'esta tremenda carestia de Paris, uma cocotte com os seus vestidos, os
seus diamantes, os seus cavallos, os seus lacaios, os seus camarotes, as
suas festas, o seu palacete, a sua publicidade, a sua insolencia, 
necessario que se aggremiem umas poucas de fortunas, se forme um
syndicato! Somos uns sete, no Club. Eu pago um bocado... Mas meramente
por Civismo, para dotar a cidade com uma cocotte monumental. De resto
no chafurdo. Pobre Diana!... Dos hombros para baixo nem sei se tem a
pelle cr de neve ou cr de limo.

Arregalei um olho divertido:

--Dos hombros para baixo?... E para cima?

--Oh para cima tem p d'arroz!... Mas  uma scca! Sempre bilhetes,
sempre telephones, sempre telegrammas. E tres mil francos por mez, alm
das flores... Uma massada!

E as duas rugas do meu Principe, aos lados do seu afilado nariz, curvado
sobre a salada, eram como dous valles muito tristes, ao entardecer.

Acabavamos o almoo, quando um escudeiro, muito discretamente, n'um
murmurio, annunciou Madame d'Oriol. Jacintho pousou com tranquillidade o
charuto; eu quasi me engasguei, n'um sorvo alvoroado de caf. Entre os
reposteiros de damasco cr de morango ella appareceu, toda de negro,
d'um negro liso e austero de Semana Santa, lanando com o regalo um
lindo gesto para nos socegar. E immediatamente, n'uma volubilidade
docemente chalrada:

-- um momento, nem se levantem! Passei, ia para a Magdalena, no me
contive, quiz vr os estragos... Uma inundao em Paris, nos
Campos-Elyseos! No ha seno este Jacintho. E vem no _Figaro!_ O que eu
estava assustada, quando telephonei! Imaginem! Agua a ferver, como no
Vesuvio... Mas  d'uma novidade! E os estofos perdidos, naturalmente, os
tapetes... Estou morrendo por admirar as ruinas!

Jacintho, que no me pareceu commovido, nem agradecido com aquelle
interesse, retomra risonhamente o charuto:

--Est tudo secco, minha querida senhora, tudo secco! A belleza foi
hontem, quando a agua fumegava e rugia! Ora que pena no ter ao menos
cahido uma parede!

Mas ella insistia. Nem todos os dias se gozavam em Paris os destroos
d'uma inundao. O _Figaro_ contra... E era uma aventura deliciosa, uma
casa escaldada nos Campos-Elyseos!

Toda a sua pessoa, desde as plumasinhas que frisavam no chapo at 
ponta reluzente das botinas de verniz, se agitava, vibrava, como um ramo
tenro sob o bolio do passaro a chalrar. S o sorriso, por traz do vo
espesso, conservava um brilho immovel. E j no ar se espalhra um aroma,
uma doura, emanadas de toda a sua mobilidade e de toda a sua graa.

Jacintho no emtanto cedera, alegremente: e pelo corredor Madame d'Oriol
ainda louvava o _Figaro_ amavel, e confessava quanto tremera... Eu
voltei ao meu caf, felicitando mentalmente o Principe da Gran-Ventura
por aquella perfeita flr de Civilisao que lhe perfumava a vida.
Pensei ento na apurada harmonia em que se movia essa flr. E corri
vivamente  ante-camara, verificar diante do espelho o meu penteado e o
n da minha gravata. Depois recolhi  sala de jantar, e junto da
janella, folheando languidamente a _Revista do Seculo XIX_, tomei uma
attitude de elegancia e d'alta cultura. Quasi immediatamente elles
reappareceram: e Madame d'Oriol, que, sempre sorrindo, se proclamava
espoliada, nada encontrra que recordasse as agoas furiosas, roou pela
mesa, onde Jacintho procurava, para lhe offerecer, tangerinas de Malta,
ou castanhas geladas, ou um biscouto molhado em vinho de Tokai.

Ella recusava com as mos guardadas no regalo. No era alta, nem
forte--mas cada prega do vestido, ou curva da capa, cahia e ondulava
harmoniosamente, como perfeies recobrindo perfeies. Sob o vo
cerrado, apenas percebi a brancura da face empoada, e a escurido dos
olhos largos. E com aquellas sdas e velludos negros, e um pouco do
cabello louro, d'um louro quente, torcido fortemente sobre as pelles
negras que lhe orlavam o pescoo, toda ella derramava uma sensao de
macio e de fino. Eu teimosamente a considerava como uma flr de
Civilisao:--e pensava no secular trabalho e na cultura superior que
necessitra o terreno onde ella to delicadamente brotra, j
desabrochada, em pleno perfume, mais graciosa por ser flr d'esforo e
d'estufa, e trazendo nas suas ptalas um no sei qu de desbotado e de
ante-murcho.

No emtanto, com a sua volubilidade de passaro, chalrando para mim,
chalrando para Jacintho, ella mostrava o seu lindo espanto por aquelle
monto de telegrammas sobre a toalha.

--Tudo esta manh, por causa da inundao?... Ah, Jacintho  hoje o
homem, o unico homem de Paris! Muitas mulheres n'esses telegrammas?

Languidamente, com o charuto a fumegar, o meu Principe empurrou para a
sua amiga o telegramma do Gran-duque. Ento Madame d'Oriol teve um _ah!_
muito grave e muito sentido. Releu profundamente o papel de S. A. que os
seus dedos acariciavam com uma reverencia gulosa. E sempre grave, sempre
sria:

-- brilhante!

Oh, certamente! n'aquelle desastre tudo se passra com muito brilho,
n'um tom muito Parisiense. E a deliciosa creatura no se podia demorar,
porque fizera marcar um logar na egreja da Magdalena para o sermo!

Jacintho exclamou com innocencia:

--Sermo?...  j a estao dos sermes?

Madame d'Oriol teve um movimento de carinhoso escandalo e dr. O qu!
pois nem na austera casa dos Trves dera pela entrada da quaresma? De
resto no se admirava--Jacintho era um turco! E, immediatamente celebrou
o prgador, um frade dominicano, o Pre Granon! Oh d'uma eloquencia!
d'uma violencia! No derradeiro sermo prgara sobre o amor, a
fragilidade dos amores mundanos! E tivera coisas d'uma inspirao, d'uma
brutalidade! Depois que gesto, um gesto terrivel que esmagava, em que se
lhe arregaava toda a manga, mostrando o brao n, um brao soberbo,
muito branco, muito forte!

O seu sorriso permanecia claro sob o olhar que negrejra dentro do vo
negro. E Jacintho, rindo:

--Um bom brao de director espiritual, hein? Para vergar, espancar
almas...

Ella acudiu:

--No! infelizmente o Pre Granon no confessa!

E de repente reconsiderou--aceitava um biscouto, um clice de Tokai. Era
necessario um cordial para affrontar as emoes do Pre Granon! Ambos
nos precipitramos, um arrebatando a garrafa, outro offerecendo o prato
de bonbons. Franzio o vo para os olhos, chupou  pressa um bolo que
ensopra no Tokai. E como Jacintho, reparando casualmente no chapo que
ella trazia, se curvra com curiosidade, impressionado, Madame d'Oriol
apagou o sorriso, toda seria, ante uma cousa seria:

--Elegante, no  verdade?...  uma creao inteiramente nova de Madame
Vial. Muito respeitoso, e muito suggestivo, agora na Quaresma.

O seu olhar, que me envolvera, tambem me convidava a admirar. Approximei
o meu focinho de homem das serras para contemplar essa creao suprema
do luxo de Quaresma. E era maravilhoso! Sobre o velludo, na sombra das
plumas frizadas, aninhada entre rendas, fixada por um prgo, pousava
delicadamente, feita de azeviche, uma Cora de Espinhos!

Ambos nos extasiamos. E Madame d'Oriol, n'um movimento e n'um sorriso
que derramou mais aroma e mais claridade, abalou para a Magdalena.

O meu Principe arrastou pelo tapete alguns passos pensativos e molles. E
bruscamente, levantando os hombros com uma determinao immensa, como se
deslocasse um mundo:

--Oh Z Fernandes, vamos passar este Domingo n'alguma cousa simples e
natural...

--Em qu?

Jacintho circumgirou os olhares muito abertos, como se, atravez da Vida
Universal, procurasse anciosamente uma cousa natural e simples. Depois,
descanando sobre mim os mesmos largos olhos que voltavam de muito
longe, canados e com pouca esperana:

--Vamos ao Jardim das Plantas, vr a girafa!




IV


N'essa fecunda semana, uma noite, recolhiamos ambos da Opera, quando
Jacintho, bocejando, me annunciou uma festa no 202.

--Uma festa?...

--Por causa do Gran-Duque, coitado, que me vai mandar um peixe delicioso
e muito raro que se pesca na Dalmacia. Eu queria um almoo curto. O
Gran-Duque reclamou uma ceia.  um barbaro, besuntado com litteratura do
seculo XVIII, que ainda acredita em ceias, em Paris! Reuno no domingo
tres ou quatro mulheres, e uns dez homens bem typicos, para o divertir.
Tambem aproveitas. Folheias Paris n'um resumo... Mas  uma massada
amarga!

Sem interesse pela sua festa, Jacintho no se affadigou em a compr com
relevo ou brilho. Encommendou apenas uma orchestra de Tziganes (os
Tziganes, as suas jalecas escarlates; a melancolia aspera das Czardas
ainda n'esses tempos remotos emocionavam Paris): e mandou, na
Bibliotheca, ligar o Theatrophone com a Opera, com a Comedia-Franceza,
com o Alcazar e com os Buffos, prevendo todos os gostos desde o tragico
at ao picaro. Depois no domingo, ao entardecer, ambos visitamos a mesa
da ceia, que resplandecia com as velhas baixellas de D. Galio. E a
faustosa profuso de orchideas, em longas sylvas por sobre a toalha
bordada a sda, enroladas aos fructeiros de Saxe, trasbordando de
crystaes lavrados e filagranados d'ouro, espalhava uma to fina sensao
de luxo e gosto, que eu murmurei:--Caramba, bemdito, seja o dinheiro!
Pela primeira vez, tambem, admirei a copa e a sua installao abundante
e minuciosa--sobretudo os dois ascensores que rolavam das profundidades
da cozinha, um para os peixes e carnes aquecido por tubos d'agua
fervente, o outro para as saladas e gelados revestido de placas
frigorificas. Oh, este 202!

s nove horas, porm, descendo eu ao gabinete de Jacintho para escrever
a minha boa tia Vicencia, em quanto elle ficra no toucador com o
mancuro que lhe polia as unhas, passamos n'esse delicioso palacio,
florido e em gala, por bem corriqueiro susto! Todos os lumes electricos,
subitamente, em todo o 202, se apagaram! Na minha immensa desconfiana
d'aquellas foras universaes, pulei logo para a porta, tropeando nas
trevas, ganindo um _Aqui d'Elrei_! que tresandava a Guies. Jacintho em
cima berrava, com o mancuro agarrado s pyjamas. E de novo, como serva
ralassa que recolhe arrastando as chinellas, a luz resurgiu com
lentido. Mas o meu Principe, que descera, enfiado, mandou buscar um
engenheiro  Companhia Central da Electricidade Domestica. Por precauo
outro creado correu  mercearia comprar pacotes de velas. E o Grillo
desenterrava j dos armarios os candelabros abandonados, os pesados
castiaes archaicos dos tempos inscientificos de D. Galio: era uma
reserva de veteranos fortes, para o caso pavoroso em que mais tarde, 
ceia, falhassem perfidamente as foras bisonhas da Civilisao. O
Electricista, que acudira esbaforido, afianou porm que a Electricidade
se conservaria fiel, sem outro amuo. Eu, cautelosamente, soneguei na
algibeira dous ctos de estearina.

A Electricidade permaneceu fiel, sem amuos. E quando desci do meu
quarto, tarde (porque perdera o collete de baile e s depois d'uma busca
furiosa e praguejada o encontrei cahido por traz da cama!), todo o 202
refulgia, e os Tziganes, na antecamara, sacudindo as guedelhas, atiravam
as arcadas d'uma valsa to arrastadora que, pelas paredes, os immensos
Personagens das tapearias, Priamo, Nestor, o engenhoso Ulysses,
arfavam, boliam com os ps venerandos!

Timidamente, sem rumor, puxando os punhos, penetrei no gabinete de
Jacintho. E fui logo acolhido pelo sorriso da condessa de Treves, que,
acompanhada pelo illustre historiador Danjon (da Academia Franceza),
percorria maravilhada os Apparelhos, os Instrumentos, toda a sumptuosa
Mechanica do meu super-civilisado Principe. Nunca ella me parecera mais
magestosa do que n'aquellas sdas cr de aafro, com rendas cruzadas no
peito  Maria-Antonietta, o cabello crespo e ruivo levantado em rolo
sobre a testa dominadora, e o curvo nariz patricio, abrigando o sorriso
sempre luzidio, sempre corrente, como um arco abriga o correr e o luzir
d'um regato. Direita como n'um solio, a longa luneta de tartaruga
acercada dos olhos miudos e turvamente azulados, ella escutava deante do
Graphophono, depois deante do Microphono, como melodias superiores, os
commentarios que o meu Jacintho ia atabalhoando com uma amabilidade
penosa. E ante cada roda, cada mola, eram pasmos, louvores finamente
torneados, em que attribuia a Jacintho, com astuta candura, todas
aquellas invenes do Saber! Os utensilios misteriosos que atulhavam a
mesa d'ebano foram para ella uma iniciao que a enlevou. Oh, o
numerador de paginas! oh, o collador d'estampilhas! A caricia
demorada dos seus dedos seccos aquecia os metaes. E supplicava os
endereos dos fabricantes para se prover de todas aquellas utilidades
adoraveis! Como a vida, assim apetrechada, se tornava escorregadia e
facil! Mas era necessario o talento, o gosto de Jacintho, para escolher,
para crear! E no s ao meu amigo (que o recebia com resignao) ella
offertava o fino mel. Affagando com o cabo da luneta o Telegrapho, achou
a possibilidade de recordar a eloquencia do Historiador. Mesmo para mim
(de quem ignorava o nome) arranjou junto do Phonographo, e cerca de
vozes d'amigos que  doce colleccionar, uma lisonjasinha redondinha e
lustrosa, que eu chupei como um rebuado celeste. Boa casaleira que vae
atirando o gro aos frangos famintos, a cada passo, maternalmente, ella
nutria uma vaidade. Sofrego d'outro rebuado, acompanhei a sua cauda
sussurrante e cr d'aafro. Ella parra deante da Machina-de-contar, de
que Jacintho j lhe fornecera pacientemente uma explicao sapiente. E
de novo roou os buracos d'onde espreitam os numeros negros, e com o seu
enlevado sorriso murmurou:--Prodigiosa, esta prensa electrica!...

Jacintho accudiu:

--No! No! Esta ...

Mas ella sorria, seguia... Madame de Treves no comprehendera nenhum
apparelho do meu Principe! Madame de Treves no attendera a nenhuma
dissertao do meu Principe! N'aquelle gabinete de sumptuosa Mechanica
ella smente se occupra em exercer, com proveito e com perfeio, a
Arte de Agradar. Toda ella era uma sublime falsidade. No escondi a
Danjon a admirao que me penetrava.

O facundo Academico revirou os olhos bogalhudos:

--Oh! e um gsto, uma intelligencia, uma seduco!... E depois como se
janta bem em casa d'ella! Que caf!... Mulher superior, meu caro senhor,
verdadeiramente superior!

Deslisei para a bibliotheca. Logo  entrada da erudita nave, junto da
estante dos Padres da Egreja onde alguns cavalheiros conversavam, parei
a saudar o director do _Boulevard_ e o Psychologo-feminista, o auctor do
_Corao Triple_, com quem na vspera me familiarisra ao almoo, no
202. O seu acolhimento foi paternal: e, como se necessitasse a minha
presena, reteve na sua mo illustre, rutilante de anneis, com fora e
com gula, a minha grossa palma serrana. Todos aquelles senhores, com
effeito, celebravam o seu Romance, a _Couraa_, lanado n'essa semana
entre gritinhos de gzo e um quente rumor de saias alvoroadas. Um
sobretudo, com uma vasta cabea arranjada  Van Dick e que parecia
postia, proclamava, alado na ponta das botas, que nunca penetrra to
fundamente, na velha alma humana, a ponta da Psychologia Experimental!
Todos concordavam, se apertavam contra o Psychologo, o tratavam por
mestre. Eu mesmo, que nem sequer entrevira a capa amarella da
_Couraa_, mas para quem elle voltava os olhos pedinches e famintos de
mais mel, murmurei com um leve assobio:--uma delicia!

E o Psychologo, reluzindo, com o labio humido, entalado n'um alto
collarinho onde se enroscava uma gravata  1830, confessava modestamente
que dissecra todas aquellas almas da _Couraa_ com algum cuidado,
sobre documentos, sobre pedaos de vida ainda quentes, ainda a
sangrar... E foi ento que Marizac, o duque de Marizac, notou, com um
sorriso mais afiado que um lampejo de navalha, e sem tirar as mos dos
bolsos:

--No emtanto, meu caro, n'esse livro to profundamente estudado ha um
erro bem estranho, bem curioso!...

O Psychologo, vivamente, atirra a cabea para traz:

--Um erro?

Oh, sim, um erro! E bem inesperado n'um mestre to experiente!... Era
attribuir  esplendida amorosa da _Couraa_, uma duqueza, e do gosto
mais puro,--_um collete de setim preto_! Esse collete, assim preto, de
setim, apparecia na bella pagina de analyse e paixo em que ella se
despia no quarto de Ruy d'Alize. E Marizac, sempre com as mos nos
bolsos, mais grave, appellava para aquelles senhores. Pois era
verosimil, n'uma mulher como a duqueza, esthetica, pre-raphaelitica, que
se vestia no Doucet, no Paquin, nos costureiros intellectuaes, um
collete de setim preto?

O Psychologo emmudecera, colhido, trespassado! Marizac era uma to
suprema auctoridade sobre a roupa intima das duquezas, que  tarde, em
quartos de rapazes, por impulsos idealistas e anceios d'alma
dolorida--se pem em collete e saia branca!... De resto o director do
_Boulevard_ condemnra logo sem piedade, com uma experiencia firme,
aquelle collete, s possivel n'alguma mercieira atrazada que ainda
procurasse effeitos de carne nedia sobre setim negro. E eu, para que me
no julgassem alheio s coisas dos adulterios ducaes e do luxo, acudi,
mettendo os dedos pelo cabello:

--Realmente, preto, s se estivesse de lucto pesado, pelo pae!

O pobre mestre da _Couraa_ succumbira. Era a sua gloria de Doutor em
Elegancias-Femininas desmantelada--e Paris suppondo que elle nunca vira
uma duqueza desatacar o collete na sua alcova de Psychologo! Ento,
passando o leno sobre os labios que a angustia ressequira, confessou o
erro, e contrictamente o attribuiu a uma improvisao tumultuosa:

--Foi um tom falso, um tom perfeitamente falso que me escapou!... Com
effeito!  absurdo, um collete preto!... Mesmo por harmonia com o estado
da alma da duqueza devia ser lilaz, talvez cr de reseda muito
desmaiada, com um frouxo de rendas antigas de Malines...  prodigioso
como me escapou! Pois tenho o meu caderno de entrevistas bem annotadas,
bem documentadas!...

Na sua amargura, terminou por supplicar a Marizac que espalhasse por
toda a parte, no Club, nas salas, a sua confisso. Fra um engano de
artista, que trabalha na febre, vasculhando as almas, perdido nas
profundidades negras das almas! No reparra no collete, confundira os
tons... E gritou, com os braos estendidos para o director do
_Boulevard_:

--Estou prompto a fazer uma rectificao, n'uma _interview_, meu caro
mestre! Mande um dos seus redactores... manh, s dez horas! Fazemos
uma _interview_, fixamos a cr. Evidentemente  lilaz... Mande um dos
seus homens, meu caro mestre!  tambem uma occasio para eu confessar,
bem alto, os servios que o _Boulevard_ tem feito s sciencias
psychologicas e feministas!

Assim elle supplicava, encostado  estante, s lombadas dos Santos
Padres. E eu abalei, vendo ao fundo da Bibliotheca Jacintho que se
debatia e se recusava entre dous homens.

Eram os dois homens de Madame de Treves--o marido, conde de Treves,
descendente dos reis de Candia, e o amante, o terrivel banqueiro judeu,
David Ephraim. E to enfronhadamente assaltavam o meu Principe que nem
me reconheceram, ambos n'um aperto de mo molle e vago me trataram por
caro conde! N'um relance, rebuscando charutos sobre a mesa de
limoeiro, comprehendi que se tramava a _Companhia das Esmeraldas da
Birmania_, medonha empreza em que scintillavam milhes, e para que os
dous confederados de bolsa e d'alcva, desde o comeo do anno, pediam o
nome, a influencia, o dinheiro de Jacintho. Elle resistira, n'um enfado
dos negocios, desconfiado d'aquellas esmeraldas soterradas n'um valle da
Asia. E agora o conde de Treves, um homem esgrouviado, de face
rechupada, erriada de barba rala, sob uma fronte rotunda e amarella
como um melo, assegurava ao meu pobre Principe que no Prospecto j
preparado, demonstrando a grandeza do negocio, perpassava um fulgr das
_Mil e Uma noites_. Mas sobretudo aquella excavao de esmeraldas
convidava todo o espirito culto pela sua aco civilisadora. Era uma
corrente de idas occidentaes, invadindo, educando a Birmania. Elle
acceitra a direco por patriotismo...

--De resto  um negocio de joias, de arte, de progresso, que deve ser
feito, n'um mundo superior, entre amigos...

E do outro lado o terrivel Ephraim, passando a mo curta e gorda sobre a
sua bella barba, mais frisada e negra que a d'um Rei Assyrio, affianava
o triumpho da empreza pelas grossas foras que n'ella entravam, os
Nagayers, os Bolsans, os Saccart...

Jacintho franzia o nariz, enervado:

--Mas, ao menos, esto feitos os estudos? J se provou que ha
esmeraldas?

Tanta ingenuidade exasperou Ephraim:

--Esmeraldas! Est claro que ha esmeraldas!... Ha sempre esmeraldas
desde que haja accionistas!

E eu admirava a grandeza d'aquella maxima--quando appareceu, esbaforido,
desdobrando o leno muito perfumado, um dos familiares do 202, Todelle
(Antonio de Todelle), moo j calvo, d'infinitas prendas, que conduzia
Cotillons, imitava cantores de Caf Concerto, temperava saladas raras,
conhecia todos os enredos de Paris.

--J veio?... J c est o Gran-Duque?

No, S. Alteza ainda no chegra. E Madame de Todelle?

--No poude... No soph... Esfolou uma perna.

--Oh!

--Quasi nada... Cahiu do velocipede!

Jacintho, logo interessado:

--Ah! Madame de Todelle anda j de velocipede?

--Aprende. Nem tem velocipede!... Agora, na quaresma,  que se applicou
mais, no velocipede do padre Ernesto, do cura de S. Jos! Mas hontem, no
Bosque, zs, terra!... Perna esfolada. Aqui.

E na sua propria cxa, com a unha, vivamente, desenhou o esfolo.
Ephraim, brutal e serio, murmurou:--Diabo!  no melhor sitio! Mas
Todelle nem o escutra, correndo para o director do _Boulevard_, que se
avanava, lento e barrigudo, com o seu monoculo negro semelhante a um
pacho. Ambos se collaram contra uma estante, n'um cochichar profundo.

Jacintho e eu entramos ento no bilhar, forrado de velhos couros de
Cordova, onde se fumava. Ao canto d'um divan, o grande Dornan, o poeta
neo-platonico e mystico, o Mestre subtil de todos os rithmos, espapado
nas almofadas, com um dos ps sob a cxa gorda, como um Deus indio, dois
botes do collete desabotoados, a papeira cahida sobre o largo decote do
collarinho, mamava magestosamente um immenso charuto. Ao p d'elle,
tambm sentado, um velho que eu nunca encontrra no 202, esbelto, de
cabellos brancos em anneis passados por traz das orelhas, a face coberta
de p de arroz, um bigodinho muito negro e arrebitado, findra
certamente alguma historia de bom e grosso sal--porque deante do divan,
de p, Joban, o suprmo Critico de Theatro, ria com a calva escarlate de
gso, e um moo muito ruivo (descendente de Colygny), de perfil de
periquito, sacudia os braos curtos como azas, e gania: delicioso!
divino! S o poeta idealista permanecera impassivel, na sua magestade
obesa. Mas, quando nos acercamos, esse Mestre do rythmo perfeito, depois
de soprar uma farta fumarada e me saudar com um pesado mover das
palpebras, comeou n'uma voz de rico e sonoro metal:

--Ha melhor, ha infinitamente melhor... Todos aqui conhecem Madame
Noredal. Madame Noredal tem umas immensas nadegas...

Desgraadamente para o meu regalo Todelle invadiu o bilhar, reclamando
Jacintho com alarido. Eram as senhoras que desejavam ouvir no
Phonographo uma aria da Patti! O meu amigo sacudiu logo os hombros,
n'uma surda irritao:

--Aria da Patti... Eu sei l! Todos esses rolos esto em confuso. Alm
d'isso o Phonographo trabalha mal. Nem trabalha! Tenho tres. Nenhum
trabalha!

--Bem! exclamou alegremente Todelle. Canto eu a _Pauvre fille_...  mais
de ceia! _Oh, la pauv', pauv', pauv'_...

Travou do meu brao, e arrastou a minha timidez serrana para o salo cr
de rosa murcha, onde, como Deusas n'um circulo escolhido do Olympo,
resplandeciam Madame d'Oriol, Madame Verghane, a princeza de Carman, o
uma outra loura, com grandes brilhantes nas grandes farripas, e
d'hombros to ns, e braos to ns, e peitos to ns, que o seu vestido
branco com bordados d'ouro pallido parecia uma camisa, a escorregar.
Impressionado, ainda retive Todelle, rugi baixinho:--Quem ? Mas j o
festivo homem correra para Madame d'Oriol, com quem riam, n'uma
familiaridade superior e facil, Marizac (o duque de Marizac) e um moo
de barba cr de milho e mais leve que uma penugem, que se balouava
gracilmente sobre os ps, como uma espiga ao vento. E eu, encalhado
contra o piano, esfregava lentamente as mos, amassando o meu embarao,
quando Madame Verghane se ergueu do soph onde conversava com um velho
(que tinha a Gran-Cruz de Santo Andr), e avanou, deslizou no tapete,
pequena e nedia, na sua copiosa cauda de velludo verde-negro. To fina
era a cinta, entre os encontros fecundos e a vastido do peito, todo n
e cr de nacar, que eu receava que ella partisse pelo meio, no seu lento
ondular. Os seus famosos bands negros, d'um negro furioso, inteiramente
lhe tapavam as orelhas; e, no grande aro d'ouro que os circumdava,
reluzia uma estrella de brilhantes, como na fronte dos anjos de
Boticelli. Conhecendo sem dvida a minha auctoridade no 202, ella
despediu sobre mim ao passar, como raio benefico, um sorriso que lhe
liquescia mais os olhos liquidos, e murmurou:

--O Gran-Duque vem, com certeza?

--Oh com certeza, minha senhora, para o peixe!

--P'ra o peixe?...

Mas justamente, na antecamara, rompeu, em rufos e arcadas triumphaes, a
marcha de Rakoczy. Era elle! Na Bibliotheca, o nosso retumbante mordomo
annunciava:

--S. Alteza o Gran-Duque Casimiro!

Madame de Verghane, com um curto suspiro d'emoo, alteou o peito, como
para lhe expr melhor a magnificencia eburnea. E o homem do _Boulevard_,
o velho da Gran-Cruz, Ephraim, quasi me empurraram, investindo para a
porta, na immensa sofreguido de Pessoa Real.

Precedido por Jacintho, o Gran-Duque surgiu. Era um possante homem, de
barba em bico, j grisalha, um pouco calvo. Durante um momento hesitou,
com um balano lento sobre os ps pequeninos, calados de sapatos rasos,
quasi sumidos sob as pantalonas muito largas. Depois, pesado e risonho,
veio apertar a mo s senhoras que mergulhavam nos velludos e sdas, em
mesuras de Crte. E immediatamente, batendo com carinhosa jovialidade no
hombro de Jacintho:

--E o peixe?... Preparado pela receita que mandei, hein?

Um murmurio de Jacintho tranquillisou S. Alteza.

--Ainda bem, ainda bem! exclamou elle, no seu vozeiro de commando. Que
eu no jantei, absolutamente no jantei!  que se est jantando
deploravelmente em casa do Joseph. Mas porque se vai jantar ainda ao
Joseph? Sempre que chego a Paris, pergunto: Onde  que se janta agora?
Em casa do Joseph!... Qual! no se janta! Hoje, por exemplo,
gallinholas... Uma peste! No tem, no tem a noo da gallinhola!

Os seus olhos azulados, d'um azul sujo, rebrilhavam, alargados pela
indignao:

--Paris est perdendo todas as suas superioridades. J se no janta, em
Paris!

Ento, em redor, aquelles senhores concordaram, desolados. O conde de
Treves defendeu o Bignon, onde se conservavam nobres tradies. E o
director do _Boulevard_, que se empurrava todo para S. Alteza, attribuia
a decadencia da cozinha, em Frana,  Republica, ao gosto democratico e
torpe pelo barato.

--No Paillard, todavia...--comeou o Ephraim.

--No Paillard! gritou logo o Gran-Duque. Mas os Borgonhas so to maus!
os Borgonhas so to maus!...

Deixra pender os braos, os hombros, descoroado. Depois, com o seu
lento andar balanado como o d'um velho piloto, atirando um pouco para
traz as lapellas da casaca, foi saudar Madame d'Oriol, que toda ella
faiscou, no sorriso, nos olhos, nas joias, em cada prga das suas sdas
cr de salmo. Mas apenas a clara e macia creatura, batendo o leque como
uma aza alegre, comera a chalrar, S. Alteza reparou no apparelho do
Theatrophone, pousado sobre uma mesa entre flres, e chamou Jacintho:

--Em communicao com o Alcazar?... O Theatrophone?

--Certamente, meu senhor.

Excellente! Muito chic! Elle ficra com pena de no ouvir a Gilberte
n'uma canoneta nova, as _Casquettes_. Onze e meia! Era justamente a
essa hora que ella cantava, no ultimo acto da _Revista
Electrica_...--Collou s orelhas os dous receptores do Theatrophone, e
quedou embebido, com uma ruga sria na testa dura. De repente, n'um
commando forte:

-- ella! Chut! Venham ouvir!...  ella! Venham todos! Princeza de
Carman, para aqui! Todos!  ella! Chut...

Ento, como Jacintho installra prodigamente dois Theatrophones, cada um
provido de doze fios, as senhoras, todos aquelles cavalheiros, se
apressaram a acercar submissamente um receptor do ouvido, e a permanecer
immoveis para saborear _Les Casquettes_. E no salo cr de rosa murcha,
na nave da Bibliotheca, onde se espalhra um silencio augusto, s eu
fiquei desligado do Theatrophone, com as mos nas algibeiras e ocioso.

No relogio monumental, que marcava a hora de todas as Capitaes e o
movimento de todos os Planetas, o ponteiro rendilhado adormeceu. Sobre a
mudez e a immobilidade pensativa d'aquelles dorsos, d'aquelles decotes,
a Electricidade refulgia com uma tristeza de sol regelado. E de cada
orelha attenta, que a mo tapava, pendia um fio negro, como uma tripa.
Dornan, esbroado sobre a mesa, cerrra as palpebras, n'uma meditao de
monge obeso. O historiador dos Duques d'Anjou, com o receptor na ponta
delicada dos dedos, erguendo o nariz agudo e triste, gravemente cumpria
um dever palaciano. Madame d'Oriol sorria, toda languida, como se o fio
lhe murmurasse douras. Para desentorpecer arrisquei um passo timido.
Mas cahiu logo sobre mim um _chut_ severo do Gran-Duque! Recuei para
entre as cortinas da janella, a abrigar a minha ociosidade. O Philologo
da _Couraa_, distante da mesa, com o seu comprido fio esticado, mordia
o beio, n'um esforo de penetrao. A beatitude de S. Alteza, enterrado
n'uma vasta poltrona, era perfeita. Ao lado o collo de Madame Verghane
arfava como uma onda de leite. E o meu pobre Jacintho, n'uma applicao
conscienciosa, pendia sobre o Theatrophone to tristemente como sobre
uma sepultura.

Ento, ante aquelles seres de superior civilisao, sorvendo n'um
silencio devoto as obscenidades que a Gilberte lhes gania, por debaixo
do solo de Paris, atravez de fios mergulhados nos esgotos, cingidos aos
canos das fezes,--pensei na minha aldeia adormecida. O crescente de lua,
que, seguido d'uma estrellinha, corria entre nuvens sobre os telhados e
as chamins negras dos Campos-Elyseos, tambem andava l fugindo, mais
lustrosa e mais dce, por cima dos pinheiraes. As rs coaxavam ao longe
no Pego da Dona. A ermidinha de S. Joaquim branquejava no cabeo,
nuasinha e candida...

Uma das senhoras murmurou:

--Mas, no  a Gilberte!...

E um dos homens:

--Parece um cornetim...

--Agora so palmas...

--No,  o Paulin!

O Gran-Duque lanou um _chut_ feroz... No pateo da nossa casa ladravam
os ces. D'alm do ribeiro respondiam os ces do Joo Saranda. Como me
encontrei descendo por uma quelha, sob as ramadas, com o meu varapau ao
hombro? E sentia, entre a sda das cortinas, n'um fino ar macio, o
cheiro das pinhas estalando nas lareiras, o calor dos curraes atravez
das sebes altas, e o susurro dormente das levadas...

Despertei a um brado que no sahia nem dos eidos, nem das sombras. Era o
Gran-Duque que se erguera, encolhia furiosamente os hombros:

--No se ouve nada!... S guinchos! E um zumbido! Que massada!... Pois 
uma belleza, a canoneta:

Oh les casquettes,
Oh les casque-e-e-tes!...

Todos largaram os fios--proclamavam a Gilberte deliciosa. E o mordomo
bemdito, abrindo largamente os dous batentes, annunciou:

--_Monseigneur est servi_!

Na mesa, que pelo esplendor das orchideas mereceu os louvores ruidosos
de S. Alteza, fiquei entre o ethereo poeta Dornan e aquelle moo de
pennugem loura que balouava como uma espiga ao vento. Depois de
desdobrar o guardanapo, de o accomodar regaladamente sobre os joelhos,
Dornan desenvencilhou da corrente do relogio uma enorme luneta para
percorrer o _menu_--que approvou. E inclinando para mim a sua face de
Apostolo obeso:

--Este Porto de 1834, aqui era casa do Jacintho, deve ser authentico...
Hein?

Assegurei ao Mestre dos Rythmos que o Porto envelhecra nas adegas
classicas do av Galio. Elle afastou, n'uma preparao methodica, os
longos, densos fios do bigode que lhe cobriam a bocca grossa. Os
escudeiros serviram um consomm frio com trufas. E o moo cr de milho,
que espalhra pela mesa o seu olhar azul e dce, murmurou, com uma
desconsolao risonha:

--Que pena!... S falta aqui um general e um bispo!

Com effeito! Todas as Classes Dominantes comiam n'esse momento as trufas
do meu Jacintho... Mas defronte Madame d'Oriol lanra um riso mais
cantado que um gorgeio. O Gran-Duque, n'uma silva de orchideas que
orlava o seu talher, notra uma, sombriamente horrenda, semelhante a um
lacrau esverdinhado, de azas lustrosas, gordo e tumido de veneno: e
muito delicadamente offertra a flr monstruosa a Madame d'Oriol, que,
com trinado riso, solemnemente, a collocou no seio. Collado quella
carne macia, d'uma brancura de nata fina, o lacrau inchra, mais verde,
com as azas frementes. Todos os olhos se accendiam, se cravavam no lindo
peito, a que a flr disforme, de cr venenosa, apimentava o sabor. Ella
reluzia, triumphava. Para ageitar melhor a orchidea os seus dedos
alargaram o decote, aclararam bellezas, guiando aquellas curiosidades
flammejantes que a despiam. A face vincada de Jacintho pendia para o
prato vasio. E o alto lyrico do _Crepusculo Mystico_, passando a mo
pelas barbas, rosnou com desdem:

--Bella mulher... Mas ancas seccas, e aposto que no tem nadegas!

No emtanto o moo de loura pennugem voltra  sua estranha mgoa. No
possuirmos um general com a sua espada, e um bispo com seu baculo!...

--Para que, meu caro senhor?

Elle atirou um gesto suave em que todos os seus anneis faiscaram:

--Para uma bomba de dynamite... Temos aqui um explendido ramalhete de
flres de Civilisaco, com um Gran-Duque no meio. Imagine uma bomba de
dynamite, atirada da porta!... Que bello fim de ceia, n'um fim de
seculo!

E como eu o considerava assombrado, elle, bebendo golos de
Chateau-Yquem, declarou que hoje a unica emoo, verdadeiramente fina,
seria aniquillar a Civilisao. Nem a sciencia, nem as artes, nem o
dinheiro, nem o amor, podiam j dar um gosto intenso e real s nossas
almas saciadas. Todo o prazer que se extrahra de _crear_ estava
esgotado. S restava, agora, o divino prazer de _destruir_!

Desenrolou ainda outras enormidades, com um riso claro nos olhos claros.
Mas eu no attendia o gentil pedante, colhido por outro
cuidado--reparando que em torno, subitamente, todo o servio estacra
como no conto do Palacio Petrificado. E o prato agora devido era o peixe
famoso da Dalmacia, o peixe de S. Alteza, o peixe inspirador da festa!
Jacintho, nervoso, esmagava entre os dedos uma flr. E todos os
escudeiros sumidos!

Felizmente o Gran-Duque contava a historia d'uma caada, nas coutadas de
Sarvan, em que uma senhora, mulher de um banqueiro, saltra bruscamente
do cavallo, n'um descampado, sem arvores. Elle e todos os caadores
param--e a galante senhora, livida, com a amazona arregaada, corre para
traz d'uma pedra... Mas nunca soubemos em que se occupava a banqueira,
n'esse descampado, agachada atraz da pedra--porque justamente o mordomo
appareceu, relusente de suor, e balbuciou uma confidencia a Jacintho,
que mordeu o beio, trespassado. O Gran-Duque emmudecera. Todos se
entre-olhavam, n'uma anciedade alegre. Ento o meu Principe, com
paciencia, com heroicidade, forando pallidamente o sorriso:

--Meus amigos, ha uma desgraa...

Dornan pulou na cadeira:

--Fogo?

No, no era fogo. Fra o elevador dos pratos, que inesperadamente, ao
subir o peixe de S. Alteza, se desarranjra, e no se movia, encalhado!

O Gran-Duque arremessou o guardanapo. Toda a sua polidez estalava como
um esmalte mal posto:

--Essa  forte!... Pois um peixe que me deu tanto trabalho! Para que
estamos ns aqui ento a cear? Que estupidez! E porque o no trouxeram 
mo, simplesmente? Encalhado... Quero vr! Onde  a copa?

E, furiosamente, investiu para a copa, conduzido pelo mordomo que
tropeava, vergava os hombros, ante esta esmagadora colera de Principe.
Jacintho seguiu, como uma sombra, levado na rajada de S. Alteza. E eu
no me contive, tambem me atirei para a copa, a contemplar o desastre,
emquanto Dornan, batendo na cxa, clamava que se ceasse sem peixe!

O Gran-Duque l estava, debruado sobre o poo escuro do elevador, onde
mergulhra uma vela que lhe avermelhava mais a face esbraseada.
Espreitei, por sobre o seu hombro real. Em baixo, na treva, sobre uma
larga prancha, o peixe precioso alvejava, deitado na travessa, ainda
fumegando, entre rodellas de limo. Jacintho, branco como a gravata,
torturava desesperadamente a mola complicada do ascensor. Depois foi o
Gran-Duque que, com os pulsos cabelludos, atirou um empuxo tremendo aos
cabos em que elle rolava. Debalde! O apparelho enrijra n'uma inercia de
bronze eterno.

Sdas roagaram  entrada da copa. Era Madame d'Oriol, e atraz Madame
Verghane, com os olhos a faiscar, na curiosidade d'aquelle lance em que
o Principe soltra tanta paixo. Marizac, nosso intimo, surgiu tambem,
risonho, propondo uma descida ao poo com escadas. Depois foi o
Psychologo, que se abeirou, psychologou, attribuindo intenes sagazes
ao peixe que assim se recusava. E a cada um o Gran-Duque, escarlate,
mostrava com dedo tragico, no fundo da cova, o seu peixe! Todos
afundavam a face, murmuravam: l est! Todelle, na sua precipitao,
quasi se despenhou. O periquito descendente de Colygny batia as azas,
ganindo:--Que cheiro elle deita, que delicia! Na copa atulhada os
decotes das senhoras roavam a farda dos lacaios. O velho caiado de p
d'arroz metteu o p n'um balde de gelo, com um berro ferino. E o
Historiador dos Duques d'Anjou movia por cima de todos o seu nariz
bicudo e triste.

De repente, Todelle teve uma ida!

-- muito simples...  pescar o peixe!

O Gran-Duque bateu na cxa uma palmada triumphal. Est claro! Pescar o
peixe! E no gozo d'aquella facecia, to rara e to nova, toda a sua
colera se sumra, de novo se tornra o Principe amavel, de magnifica
polidez, desejando que as senhoras se sentassem para assistir  pesca
miraculosa! Elle mesmo seria o pescador! Nem se necessitava, para a
divertida faanha, mais que uma bengala, uma guita e um gancho.
Immediatamente Madame d'Oriol, excitada, offereceu um dos seus ganchos.
Apinhados em volta d'ella, sentindo o seu perfume, o calor da sua pelle,
todos exaltamos a amoravel dedicao. E o Psychologo proclamou que nunca
se pescra com to divino anzol!

Quando dois escudeiros estonteados voltaram, trazendo uma bengala e um
cordel, j o Gran-Duque, radiante, vergra o gancho em anzol. Jacintho,
com uma paciencia livida, erguia uma lampada sobre a escurido do poo
fundo. E os senhores mais graves, o Historiador, o director do
_Boulevard_, o Conde de Treves, o homem de cabea  Van-Dick, sorriam,
amontoados  porta, n'um interesse reverente pela phantasia de S.
Alteza. Madame de Treves, essa, examinava serenamente, com a sua nobre
luneta, a installao da copa. S Dornan no se erguera da mesa, com os
punhos cerrados sobre a toalha, o gordo pescoo encovado, no tedio
sombrio de fera a quem arrancaram a posta.

No emtanto S. Alteza pescava com fervor! Mas debalde! O gancho, pouco
agudo, sem presa, bamboleando na extremidade da guita frouxa, no
fisgava.

--Oh Jacintho, erga essa luz! gritava elle, inchado e suado. Mais!...
Agora! Agora!  na guelra! S na guelra  que o gancho o pde prender.
Agora... Qual! Que diabo! No vae!

Tirou a face do poo, resfolgando e affrontado. No era possivel! S
carpinteiros, com alavancas!... E todos, anciosamente, bradamos que se
abandonasse o peixe!

O Principe, risonho, sacudindo as mos, concordava que por fim fra
mais divertido pescal-o do que coml-o! E o elegante bando refluiu
sofregamente para a mesa, ao som d'uma valsa de Strauss, que os Tziganes
arremearam em arcadas de languido ardr. S Madame de Treves se demorou
ainda, retendo o meu pobre Jacintho, para lhe assegurar quanto admirava
o arranjo da sua copa... Oh perfeita! Que comprehenso da vida, que fina
intelligencia do conforto!

S. Alteza, encalmado pelo esforo, esvasiou poderosamente dous copos de
Chateau-Lagrange. Todos o acclamavam como um pescador genial. E os
escudeiros serviram o _Baro de Pauillac_, cordeiro das lezirias
marinhas, que, preparado com ritos quasi sagrados, toma este grande nome
sonoro e entra no Nobiliario de Frana.

Eu comi com o appetite d'um heroe de Homero. Sobre o meu copo e o de
Dornan o Champagne scintillou e jorrou ininterrompidamente como uma
fonte de inverno. Quando se serviram ortolans gelados, que se derretiam
na bocca, o divino poeta murmurou, para meu regalo, o seu soneto sublime
a Santa Clara. E como, do outro lado, o moo de pennugem loura
insistia pela destruio do velho mundo, tambem concordei, e, sorvendo o
Champagne coalhado em sorvete, maldissemos o Seculo, a Civilisao,
todos os orgulhos da Sciencia! Atravs das flres e das luzes, no
emtanto, eu seguia as ondas arfantes do vasto peito de Madame Verghane,
que ria como uma bacchante. E nem me apiedava de Jacintho que, com a
doura de S. Jacintho sobre o cpo, esperava o fim do seu martyrio e da
sua festa.

Ella findou. Ainda recordo, s tres horas da noite, o Gran-Duque na
antecamara, muito vermelho, mal firme nos ps pequeninos, sem acertar
com as mangas da pelissa que Jacintho e eu lhe ajudamos a
enfiar--convidando o meu amigo, n'uma effuso carinhosa, a ir caar s
suas terras da Dalmacia...

--Devo ao meu Jacintho uma bella pesca, quero que elle me deva uma bella
caada!

E emquanto o acompanhavamos, entre as alas dos escudeiros, pela vasta
escada onde o mordomo o precedia erguendo um candelabro de tres lumes,
S. Alteza repisava, pegajoso:

--Uma bella caada... E tambem vae Fernandes! Bom Fernandes, Z
Fernandes! Ceia superior, meu Jacintho! O _Baro de Pauillac_,
divino!... Creio que o devemos nomear Duque... O Senhor Duque de
Pauillac! Mais um bocado da perna do Senhor Duque de Pauillac. Ah!
Ah!... No venham fra! No se constipem!

E do fundo do coup, ao rodar, ainda bradou:

--O peixe, Jacintho, desencalha o peixe! Excellente, ao almoo, frio,
com mlho verde!

Trepando canadamente os degraus, n'uma molleza de Champagne e somno em
que os olhos se me cerravam, murmurei para o meu Principe:

--Foi divertido, Jacintho! Sumptuosa mulher, a Verghane! Grande pena, o
elevador...

E Jacintho, n'um som cavo que era bocejo e rugido:

--Uma massada! E tudo falha!

       *       *       *       *       *

Tres dias depois d'esta festa no 202 recebeu o meu Principe
inesperadamente, de Portugal, uma nova consideravel. Sobre a sua quinta
e solar de Tormes, por toda a serra, passra uma tormenta devastadora de
vento, corisco e agua. Com as grossas chuvas, ou por outras causas que
os peritos diro (como exclamava na sua carta angustiada o procurador
Silverio), um pedao de monte, que se avanava em socalco sobre o valle
da Carria, desabra, arrastando a velha egreja, uma egrejinha rustica
do seculo XVI, onde jaziam sepultados os avs de Jacintho desde os
tempos de el-rei D. Manoel. Os ossos veneraveis d'esses Jacinthos jaziam
agora soterrados sob um monto informe de terra e pedra. O Silverio j
comera com os moos da quinta a desatulhar dos preciosos restos. Mas
esperava anciosamente as ordens de sua exc.^a...

Jacintho empallidecra, impressionado. Esse velho solo serrano, to rijo
e firme desde os Godos, que de repente ruia! Esses jazigos de paz
piedosa, precipitados com fragor, na borrasca e na treva, para um negro
fundo de valle! Essas ossadas, que todas conservavam um nome, uma data,
uma historia, confundidas n'um lixo de ruina!

--Coisa estranha, coisa estranha!...

E toda a noite me interrogou cerca da serra e de Tormes, que eu
conhecia desde pequeno, por que o velho solar, com a sua nobre alameda
de faias seculares, se erguia a duas legoas da nossa casa, no antigo
caminho de Guies  estao e ao rio. O caseiro de Tormes, o bom
Melchior, era cunhado do nosso feitor da Roqueirinha:--e muitas vezes,
depois da minha intimidade com Jacintho, eu entrra no robusto casaro
de granito, e avalira o gro espalhado pelas salas sonoras, e provra o
vinho novo nas adegas immensas...

--E a egreja, Z Fernandes?... Entraste na egreja?

--Nunca... Mas era pittoresca, com uma torresinha quadrada, toda negra,
onde ha muitos annos vivia uma familia de cegonhas... Terrivel
transtorno para as cegonhas!

--Coisa estranha! murmurava ainda o meu Principe, agourado.

E telegraphou ao Silverio que desatulhasse o valle, recolhesse as
ossadas, reedificasse a Egreja, e, para esta obra de piedade e
reverencia, gastasse o dinheiro, sem contar, como a agua d'um rio largo.




V


No emtanto Jacintho, desesperado com tantos desastres humilhadores--as
torneiras que dessoldavam, os elevadores que emperravam, o Vapor que se
encolhia, a Electricidade que se sumia, decidiu valorosamente vencer as
resistencias finaes da Materia e da Fora por novas e mais poderosas
accumulaces de Mechanismos. E n'essas semanas de Abril, emquanto as
rosas desabrochavam, a nossa agitada casa, entre aquellas quietas casas
dos Campos-Elyseos que preguiavam ao sol, incessantemente tremeu,
envolta n'um p de calia e d'empreitada, com o bruto picar de pedra, o
retininte martelar de ferro. Nos silenciosos corredores, onde me era
dce fumar antes do almoo um pensativo cigarro, circulavam agora, desde
madrugada, ranchos d'operarios, de blusas brancas, assobiando o
_Pett-Bleu_, e intimidando os meus passos quando eu atravessava em
fralda e chinellas para o banho ou para outros retiros. Apenas se varava
com pericia algum andaime obstruindo as portas--logo se esbarrava com
uma pilha de taboas, uma ceira de farramentas ou um balde enorme
d'argamassa. E os pedaos de soalho levantado mostravam tristemente,
como n'um cadaver aberto, todos os interiores do 202, a ossatura, os
sensiveis nervos d'arame, os negros intestinos de ferro fundido.

Cada dia estacava deante do porto alguma lenta carroa, d'onde os
creados, em mangas de camisa, descarregavam caixotes de madeira, fardos
de lona, que se despregavam e se descosiam n'uma sala asphaltada, ao
fundo do jardim, por traz da sebe de lilazes. E eu descia, reclamado
pelo meu Principe, para admirar uma nova Machina que nos tornaria a vida
mais facil, estabelecendo d'um modo mais seguro o nosso dominio sobre a
Substancia. Durante os calores, que apertaram depois da Asceno,
ensaiamos esperanadamente, para refrescar as aguas mineraes, a
Soda-Water e os Medocs ligeiros, tres geleiras, que se amontoaram na
copa successivamente desprestigiadas. Com os morangos novos appareceu um
instrumentosinho astuto, para lhes arrancar os ps, delicadamente.
Depois recebemos outro, prodigioso, de prata e crystal, para remexer
phreneticamente as saladas; e, na primeira vez que o experimentei, todo
o vinagre esparrinhou sobre os olhos do meu Principe, que fugiu aos
uivos! Mas elle teimava... Nos actos mais elementares, para alliviar ou
apressar o esforo, se soccorria Jacintho da Dynamica. E agora era por
interveno d'uma machina que abotoava as ceroulas.

E simultaneamente, ou em obediencia  sua Ida, ou governado pelo
despotismo do habito, no cessava, ao lado da Mechanica accumulada, de
accumular Erudio. Oh, a invaso dos livros no 202! Solitarios, aos
pares, em pacotes, dentro de caixas, franzinos, gordos e repletos de
auctoridade, envoltos em plebeia capa amarella ou revestidos de
marroquim e ouro, perpetuamente, torrencialmente, invadiam por todas as
largas portas a Bibliotheca, onde se estiravam sobre o tapete, se
repimpavam nas cadeiras macias, se enthronisavam em cima das mesas
robustas, e sobretudo trepavam contra as janellas, em sofregas pilhas,
como se, suffocados pela sua propria multido, procurassem com ancia
espao e ar! Na erudita nave, onde apenas alguns vidros mais altos
restavam descobertos, sem tapume de livros, perennemente se adensava um
pensativo crepusculo de outono emquanto fra Junho refulgia. A
Bibliotheca transbordra atravs de todo o 202! No se abria um armario
sem que de dentro se despenhasse, desamparada, uma pilha de livros! No
se franzia uma cortina sem que de traz surgisse, hirta, uma ruma de
livros! E immensa foi a minha indignao quando uma manh, correndo
urgentemente, de mos nas alas, encontrei, vedada por uma tremenda
colleco de Estudos Sociaes, a porta do Water-Closet!

Mais amargamente porm me lembro da noite historica em que, no meu
quarto, moido e molle d'um passeio a Versalhes, com as palpebras
poeirentas e meio adormecidas, tive de desalojar do meu leito,
praguejando, um pavoroso Diccionario de Industria em trinta e sete
volumes! Senti ento a suprema fartura do livro. Ageitando, com murros,
os travesseiros, maldisse a Imprensa, a Facundia humana... E j me
estirra, adormecia, quando topei, quasi parti a preciosa rotula do
joelho, contra a lombada d'um tomo que velhacamente se aninhra entre a
parede e os colches. Com furor e um berro empolguei, arremessei o tomo
affrontoso--que entornou o jarro, inundou um tapete rico de Daghestan. E
nem sei se depois adormeci--porque os meus ps, a que no sentia nem o
pisar nem o rumor, como se um vento brando me levasse, continuaram a
tropear em livros no corredor apagado, depois na areia do jardim que o
luar branqueava, depois na Avenida dos Campos-Elyseos, povoada e ruidosa
como n'uma festa civica. E, oh portento! todas as casas aos lados eram
construidas com livros. Nos ramos dos castanheiros ramalhavam folhas de
livros. E os homens, as finas damas, vestidos de papel impresso, com
titulos nos dorsos, mostravam em vez de rosto um livro aberto, a que a
brisa lenta virava docemente as folhas. Ao fundo, na Praa da Concordia,
avistei uma escarpada montanha de livros, a que tentei trepar,
arquejante, ora enterrando a perna em flacidas camadas de versos, ora
batendo contra a lombada, dura como calhau, de tomos de Exegese e
Critica. A to vastas alturas subi, para alm da terra, para alm das
nuvens, que me encontrei, maravilhado, entre os astros. Elles rolavam
serenamente, enormes e mudos, recobertos por espessas crostas de livros,
d'onde surdia, aqui e alm, por alguma fenda, entre dois volumes mal
juntos, um raiosinho de luz suffocada e anciada. E assim ascendi ao
Paraiso. Decerto era o Paraiso--porque com meus olhos de mortal argila
avistei o Ancio da Eternidade, aquelle que no tem Manh nem Tarde.
N'uma claridade que d'elle irradiava mais clara que todas as claridades,
entre fundas estantes d'ouro abarrotadas de codices, sentado em
vetustissimos folios, com os flocos das infinitas barbas espalhados por
sobre resmas de folhetos, brochuras, gazetas e catalogos--o Altissimo
lia. A fronte super-divina que concebera o Mundo pousava sobre a mo
super-forte que o Mundo crera--e o Creador lia e sorria. Ousei,
arrepiado de sagrado horror, espreitar por cima do seu hombro
coruscante. O livro era brochado, de tres francos... O Eterno lia
Voltaire, n'uma edio barata, e sorria.

Uma porta faiscou e rangeu, como se alguem penetrasse no Paraiso. Pensei
que um Santo novo chegra da Terra. Era Jacintho, com o charuto em
braza, um molho de cravos na lapella, sobraando tres livros amarellos
que a Princeza de Carman lhe emprestra para lr!

       *       *       *       *       *

N'uma d'essas activas semanas, porm, a minha atteno subitamente se
despegou d'este interessante Jacintho. Hospede do 202, conservava no 202
a minha mala e a minha roupa: e, acostado  bandeira do meu Principe,
ainda occasionalmente comia do seu caldeiro sumptuoso. Mas a minha
alma, a minha embrutecida alma, e o meu corpo, o meu embrutecido corpo,
habitavam ento na rua do Helder, n.^o 16, quarto andar, porta 
esquerda.

Descia eu uma tarde, n'uma leda paz de idas e sensaes, o Boulevard da
Magdalena, quando avistei, deante da Estao dos Omnibus, rondando no
asphalto, n'um passo lento e felino, uma creatura secca, muito morena,
quasi tisnada, com dous fundos olhos taciturnos e tristes, e uma matta
de cabellos amarellados, toda crespa e rebelde, sob o chapo velho de
plumas negras. Parei, como colhido por um repuxo nas entranhas. A
creatura passou--no seu magro rondar de gata negra, sobre um beiral de
telhado, ao luar de Janeiro. Dous poos fundos no luzem mais negra e
taciturnamente do que luziam os seus olhos taciturnos e negros. No
recordo (Deus louvado!) como rocei o seu vestido de sda, lustroso e
encebado nas pregas; nem como lhe rosnei uma spplica por entre os
dentes que rangiam; nem como subimos ambos, morosamente e mais
silenciosos que condemnnados, para um gabinete do Caf Durand, safado e
mrno. Deante do espelho, a creatura, com a lentido d'um rito triste,
tirou o chapo e a romeira salpicada de vidrilhos. A sda poida do
corpete esgarava nos cotovellos agudos. E os seus cabellos eram
immensos, d'uma dureza e espessura de juba brava, em dous tons
amarellos, uns mais dourados, outros mais crestados, como a cdea de uma
torta ao sahir quente do forno.

Com um riso tremulo, agarrei os seus dedos compridos e frios:

--E o nomesinho, hein?

Ella sria, quasi grave:

--Madame Colombe, 16, rua do Helder, quarto andar, porta  esquerda.

E eu (miseravel Z Fernandes!) tambem me senti muito srio, trespassado
por uma emoo grave, como se nos envolvesse, n'aquella alcva de Caf,
a magestade d'um Sacramento.  porta, empurrada levemente, o creado
avanou a face nedia. Ordenei uma lagosta, pato com pimentes, e
Borgonha. E foi smente ao findarmos o pato que me ergui, amarfanhando
convulsamente o guardanapo, e a tremer lhe beijei a bocca, todo a
tremer, n'um beijo profundo e terrivel, em que deixei a alma, entre
saliva e gsto de pimento! Depois, n'uma tipoia aberta, sob um bafo
molle de leste e de trovoada, subimos a Avenida dos Campos-Elyseos. Em
frente  grade do 202 murmurei, para a deslumbrar com o meu luxo:--Mro
alli, todo o anno!... E como ao mirar o Palacete, debruada, ella
rora a matta fulva do pello crespo pela minha barba--berrei
desesperadamente ao cocheiro; que galopasse para a rua do Helder, n.^o
16, quarto andar, porta  esquerda!

Amei aquella creatura. Amei aquella creatura com Amor, com todos os
Amores que esto no Amor, o Amor divino, o Amor humano, o Amor bestial,
como Santo Antonino amava a Virgem, como Romeu amava Julietta, como um
bode ama uma cabra. Era estupida, era triste. Eu deliciosamente apagava
a minha alegria na cinza da sua tristeza; e com ineffavel gsto afundava
a minha razo na densidade da sua estupidez. Durante sete furiosas
semanas perdi a consciencia da minha personalidade de Z
Fernandes--Fernandes de Noronha e Sande, de Guies! Ora se me affigurava
ser um pedao de cra que se derretia, com horrenda delicia, n'um forno
rubro e rugidor: ora me parecia ser uma faminta fogueira onde
flammejava, estalava e se consumia um mlho de galhos seccos. D'esses
dias de sublime sordidez s conservo a impresso d'uma alcva forrada de
cretones sujos, d'uma bata de l cr de lilaz com sotaches negros, de
vagas garrafas de cerveja no marmore d'um lavatorio, e d'um corpo
tisnado que rangia e tinha cabellos no peito. E tambem me resta a
sensao de incessantemente e com arrobado deleite me despojar,
arremessar para um regao, que se cavava entre um ventre sumido e uns
joelhos agudos, o meu relogio, os meus berloques, os meus anneis, os
meus botes de punho de saphira, e as cento e noventa e sete libras em
ouro que eu trouxera de Guies n'uma cinta de camura. Do solido,
decoroso, bem fornecido Z Fernandes, s restava uma carcassa errando
atravz d'um sonho, com as gambias molles e a baba a escorrer.

Depois, uma tarde, trepando com a costumada gula a escada da rua do
Helder, encontrei a porta fechada--e arrancado da hombreira aquelle
carto de _Madame Colombe_ que eu lia sempre to devotamente e que era a
sua taboleta... Tudo no meu ser tremeu como se o cho de Paris tremesse!
Aquella era a porta do Mundo que ante mim se fechra! Para alm estavam
as gentes, as cidades, a vida, Deus e Ella. E eu ficra ssinho,
n'aquelle patamar do No-ser, fra da porta que se fechra, unico ser
fra do Mundo! Rolei pelos degraus, com o fragor e a incoherencia d'uma
pedra, at ao cubiculo da porteira e do seu homem que jogavam as cartas
em ditosa pachorra, como se to pavoroso abalo no tivesse desmantelado
o Universo!

--Madame Colombe?

A barbuda comadre recolheu lentamente a vaza:

--Ja no mora... Abalou esta manh, para outra terra, com outra porca!

Para outra terra! com outra porca!... Vasio, negramente vasio de todo o
pensar, de todo o sentir, de todo o querer--boiei aos tombos, como um
tonel vasio, na corrente aodada do Boulevard, at que encalhei n'um
banco da Praa da Magdalena, onde tapei com as mos, a que no sentia a
febre, os olhos a que no sentia o pranto! Tarde, muito tarde, quando j
se cerravam com estrondo as cortinas de ferro das lojas, surdiu, d'entre
todas estas confusas ruinas do meu ser, a eterna sobrevivente de todas
as ruinas--a ideia de jantar. Penetrei no Durand, com os passos
entorpecidos d'um resuscitado. E, n'uma recordao que m'escaldava a
alma, encommendei a lagosta, o pato, o Borgonha! Mas ao alargar o
collarinho, ensopado pelo ardor d'aquella tarde de Julho, entre a poeira
da Magdalena, pensei com desconfrto:--Santissimo Nome de Deus! Que
immensa sde me fez esta desgraa!... De manso acenei ao moo:--Antes
do Borgonha, uma garrafa de Champagne, com muito glo, e um grande
copo!... Creio que aquelle Champagne se engarrafra no Ceu onde corre
perennemente a fresca fonte da Consolao, e que na garrafa bemdita que
me coube penetrra, antes d'arrolhada, um jorro largo d'essa fonte
inneffavel. Jesus! que transcendente regalo, o d'aquelle nobre copo,
embaciado, nevado, a espumar, a picar, n'um brilho d'ouro! E depois,
garrafa de Borgonha! E depois, garrafa de Cognac! E depois
Hortel-Pimenta granitada em glo! E depois um desejo arquejante de
espancar, com o meu rijo marmelleiro de Guies, a porca que fugira com
outra porca! Dentro da tipoia fechada, que me transportou n'um galope ao
202, no suffoquei este santo impulso, e com os meus punhos serranos
atirei murros retumbantes contra as almofadas, onde _via_, furiosamente
_via_ a matta immensa de pello amarello, em que a minha alma uma tarde
se perdera, e tres mezes se debatera, e para sempre se emporcalhra!
Quando o fiacre estacou no 202 ainda eu espancava to desesperadamente a
besta ingrata, que, aos berros do cocheiro, dous moos accudiram e me
sustiveram, recebendo pelos hombros, sobre as nucas servis, os restos
canados da minha colera.

Em cima, repelli a sollicitude do Grillo que tentava impr ao _si_ Z
Fernandes, a Z Fernandes de Guies, a immensa indignidade d'um ch de
macella! E estirado no leito de D. Galio, com as botas sobre o
travesseiro, o chapo alto sobre os olhos, ri, n'um doloroso riso,
d'este Mundo burlesco e sordido de Jacinthos e de Colombes! E de repente
senti uma angustia horrenda. Era Ella! Era a Madame Colombe, que
esfuzira da chamma da vela, e saltra sobre o meu leito, e desabotora
o meu collete, e arrombra as minhas costellas, e toda ella, com as
saias sujas, mergulhra dentro do meu peito, e abocra o meu corao, e
chupava a sorvos lentos, como na rua do Helder, o sangue do meu corao!
Ento, certo da Morte, ganindo pela tia Vicencia, pendi do leito para
mergulhar na minha sepultura, que, atravs da nevoa final, eu distinguia
sobre o tapete--redondinha, vidrada, de porcelana e com aza. E, sobre a
minha sepultura, que to irreverentemente se assimilhava ao meu vaso,
vomitei o Borgonha, vomitei o pato, vomitei a lagosta. Depois, n'um
esforo ultra-humano, com um rugido, sentindo que, no smente toda a
entranha, mas a alma se esvasiava toda, vomitei Madame Colombe! Recahi
sobre o leito de D. Galio... Recarreguei o chapo sobre os olhos para
no sentir os raios do sol. Era um sol novo, um sol espiritual, que se
erguia sobre a minha vida. E adormeci, como uma creancinha docemente
embalada n'um bero de verga pelo Anjo da Guarda.

De manh, lavei a pelle n'um banho profundo, perfumado com todos os
aromas do 202, desde folhas de limonete da India at essencia de jasmin
de Frana: e lavei a alma com uma rica carta da Tia Vicencia, em letra
farta, contando da nossa casa, e da linda promessa das vinhas, e da
compota de ginja que nunca lhe sahra to fina, e da alegre fogueira do
pateo em noite de S. Joo, e da menininha muito gorda e cabelluda que
vira do ceu para a minha afilhada Joanninha. Depois,  janella, bem
limpo de alma e de corpo, n'uma quinzena de sedinha branca, tomando ch
de Nap, respirando os rosaes do jardim revividos pela chuva da
madrugada, considerei, em divertido pasmo, que, durante sete semanas, me
emporcalhra, na rua do Helder, com um estardalho muito magro e muito
tisnado! E conclui que padecera d'uma longa sezo, sezo da carne, sezo
da imaginao, apanhada n'um charco de Paris--n'esses charcos que se
formam atravs da Cidade com as aguas mortas, os limos, os lixos, os
tortulhos e os vermes d'uma Civilisao que apodrece.

       *       *       *       *       *

Ento, curado, todo o meu espirito, como uma agulha para o Norte, se
virou logo para o meu complicado Principe, que, nas derradeiras semanas
da minha infeco sentimental, eu entrevira sempre descahido por cima de
sophs, ou vagueando atravs da Bibliotheca entre os seus trinta mil
volumes, com arrastados bocejos de inercia e de vacuidade. Eu, na minha
pressa indigna, s lhe lanava um distrahido--que  isso? Elle, no seu
moroso desalento, s murmurava um scco-- calor!

E, n'essa manh da minha libertao, ao penetrar antes d'almoo no seu
quarto, no soph o encontrei enterrado, com o _Figaro_ aberto sobre a
barriga, a Agenda cahida sobre o tapete, toda a face envolta em sombra,
e os ps abandonados, n'uma soberana tristeza, ao pedicuro que lhe polia
as unhas. Decerto o meu olhar reallumiado e repurificado, a brancura das
minhas flanellas reproduzindo a quietao das minhas sensaes, e a
segura harmonia em que todo o meu ser visivelmente se movia,
impressionaram o meu Principe--a quem a melancolia nunca embotava a
agudeza. Ergueu mollemente um brao molle:

--Ento esse capricho?

Derramei, sobre elle todo o fulgor d'um riso victorioso:

--Morto! E, como o Snr. de Malbrouck, morto e bem enterrado. Jaz! Ou
antes, rola! Com effeito deve andar agora rolando por dentro do cano do
esgoto!

Jacintho bocejou, murmurou:

--Este Z Fernandes de Noronha e Sande!...

E, no meu nome, no meu digno nome assim embrulhado n'um bocejo com
desprendida ironia, se resumiu todo o interesse d'aquelle Principe pela
suja tormenta em que se debatera o meu corao! Mas no me melindrou
esse consummado egoismo... Claramente percebia eu que o meu Jacintho
atravessava uma densa nevoa de tedio, to densa, e elle to afundado na
sua molle densidade, que as glorias ou os tormentos d'um camarada no o
commoviam, como muito remotas, intangiveis, separadas da sua
sensibilidade por immensas camadas de algodo. Pobre Principe da
Gran-Ventura, tombado para o soph de inercia, com os ps no regao do
pedicuro! Em que lodoso fastio cahira, depois de renovar to bravamente
todo o recheio mechanico e erudito do 202, na sua lucta contra a Fora e
a Materia!--E esse fastio no o escondeu mais do seu velho Z Fernandes
quando recomeou entre ns a communho de vida e de alma a que eu to
torpemente me arrancra, uma tarde, deante da Estao dos Omnibus, no
charco da Magdalena.

No eram certamente confisses enunciadas. O elegante e reservado
Jacintho no torcia os braos, gemendo--Oh vida maldita! Eram apenas
expresses saciadas; um gesto de repellir com rancr a importunidade das
coisas; por vezes uma immobilidade determinada, de protesto, no fundo
d'um divan, d'onde se no desenterrava, como para um repouso que
desejasse eterno; depois os bocejos, os cos bocejos com que sublinhava
cada passo, continuado por fraqueza ou por dever inilludivel; e
sobretudo aquelle murmurar que se tornra perenne e natural--Para
que?--No vale a pena!--Que massada!...

Uma noite no meu quarto, descalando as botas, consultei o Grillo:

--Jacintho anda to mucho, to corcunda... Que ser, Grillo?

O venerando preto declarou com uma certeza immensa:

--S. Exc.^a soffre de fartura.

Era fartura! O meu Principe sentia abafadamente a fartura de Paris:--e
na Cidade, na symbolica Cidade, fra de cuja vida culta e forte (como
elle outr'ora gritava, illuminado) o homem do seculo XIX nunca poderia
saborear plenamente a delicia de viver, elle no encontrava agora
frma de vida, espiritual ou social, que o interessasse, lhe valesse o
esfro d'uma corrida curta n'uma tipoia facil. Pobre Jacintho! Um
jornal velho, setenta vezes relido desde a Chronica at aos Annuncios,
com a tinta delida, as dobras rodas, no enfastiaria mais o Solitario,
que s possuisse na sua Solido esse alimento intellectual, do que o
Parisianismo enfastiava o meu doce camarada! Se eu n'esse vero
capciosamente o arrastava a um Caf-Concerto, ou ao festivo Pavilho
d'Armenonville, o meu bom Jacintho, collado pesadamente  cadeira com um
maravilhoso ramo de orchideas na casaca, as finas mos abatidas sobre o
casto da bengala, conservava toda a noite uma gravidade to estafada,
que eu, compadecido, me erguia, o libertava, gozando a sua pressa em
abalar, a sua fuga d'ave solta... Raramente (e ento com vehemente
arranque como quem salta um fosso) descia a um dos seus Clubs, ao fundo
dos Campos-Elyseos. No se occupara mais das suas Sociedades e
Companhias, nem dos _Telephones de Constantinopla_, nem das _Religies
Esotericas_, nem do _Bazar Espiritualista_, cujas cartas fechadas se
amontoavam sobre a mesa d'ebano, d'onde o Grillo as varria tristemente
como o lixo d'uma vida finda. Tambem lentamente se despegava de todas as
suas convivencias. As paginas da Agenda cr de rosa murcha andavam
desafogadas e brancas. E se ainda cedia a um passeio de Mail-coach, ou a
um convite para algum Castello amigo dos arredores de Paris, era to
arrastadamente, com um esforo to saturado ao enfiar o paletot leve,
que me lembrava sempre um homem, depois d'um gordo jantar de provincia,
a estalar, que, por pollidez ou em obediencia a um dogma, devesse ainda
comer uma lampra de ovos!

Jazer, jazer em casa, na segurana das portas bem cerradas e bem
defendidas contra toda a intruso do mundo, seria uma doura para o meu
Principe se o seu proprio 202, com todo aquelle tremendo recheio de
Civilisao, no lhe dsse uma sensao dolorosa de abafamento, de
atulhamento! Julho escaldava: e os brocados, as alcatifas, tantos moveis
rolios e ffos, todos os seus metaes e todos os seus livros, to
espessamente o opprimiam, que escancarava sem cessar as janellas para
prolongar o espao, a claridade, a frescura. Mas era ento a poeira,
suja e acre, rolada em bafos mornos, que o enfurecia:

--Oh, este p da Cidade!

--Mas, oh Jacintho, por que no vamos para Fontainebleau, ou para
Montmorency, ou...

--P'ra o campo? O que! P'ra o campo?!

E na sua face enrugada, atravs d'este berro, lampejava sempre tanta
indignao, que eu curvava os hombros, humilde, no arrependimento de ter
affrontosamente ultrajado o Principe que tanto amava. Desventurado
Principe! Com o seu dourado cigarro d'Yaka a fumegar, errava ento pelas
salas, lenta e murchamente, como quem vaga em terra alheia sem affeies
e sem occupaes. Esses desaffeioados e desoccupados passos
monotonamente o traziam ao seu centro, ao gabinete verde,  Bibliotheca
d'ebano, onde accumulara Civilisao nas maximas propores para gozar
nas maximas propores a delicia de viver. Espalhava em trno um olhar
farto. Nenhuma curiosidade ou interesse lhe sollicitavam as mos,
enterradas nas algibeiras das pantalonas de sda, n'uma inercia de
derrota. Annulado, bocejava com descoroada molleza. E nada mais
instructivo e doloroso do que este supremo homem do seculo XIX, no meio
de todos os apparelhos reforadores dos seus orgos, e de todos os fios
que disciplinavam ao seu servio as Foras Universaes, e dos seus trinta
mil volumes repletos do saber dos seculos--estacando, com as mos
derrotadas no fundo das algibeiras, e exprimindo, na face e na indeciso
molle d'um bocejo, o embarao de viver!




VI


Todas as tardes, cultivando uma d'essas intimidades que entre tudo o que
cana jmais canam, Jacintho, s quatro horas, com regularidade devota,
visitava Madame d'Oriol:--por que essa flr de Parisianismo permanecera
em Paris, mesmo depois do Grand-Prix, a desbotar na calma e no cisco da
Cidade. N'uma d'essas tardes, porm, o Telephone, anciosamente repicado,
avisou Jacintho de que a sua dce amiga jantava em Enghien com os
Trves. (Esses senhores gozavam o seu vero  beira do lago, n'uma casa
toda branca e vestida de rosinhas brancas que pertencia a Ephrain).

Era um domingo silencioso, ennevoado e macio, convidando s
voluptuosidades da melancolia. E eu (no interesse da minha alma) suggeri
a Jacintho que subissemos  Basilica do _Sacr-Coeur_, em construco
nos altos de Montmartre.

-- uma secca, Z Fernandes...

--Com mil demonios! Eu nunca vi a Basilica...

--Bem, bem! Vamos  Basilica, homem fatal de Noronha e Sande!

E por fim logo que comeamos a penetrar, para alm de S. Vicente de
Paula, em bairros estreitos e ingremes, d'uma quietao de provincia,
com muros velhos fechando quintalejos rusticos, mulheres despenteadas
cozendo  soleira das portas, carriolas desatreladas descanando diante
das tascas, gallinhas soltas picando o lixo, cueiros molhados seccando
em canas--o meu fastidioso camarada sorriu quella liberdade e singeleza
das cousas.

A vittoria parou em frente  larga rua de escadarias que trepa, cortando
viellasinhas campestres, at  esplanada, onde, envolta em andaimes, se
ergue a Basilica immensa. Em cada patamar barracas d'arraial devoto,
forradas de panninho vermelho, transbordavam de Imagens, Bentinhos,
Crucifixos, Coraes de Jesus bordados a retroz, claros molhos de
Rosarios. Pelos cantos, velhas agachadas resmungavam a Av-Maria. Dois
padres desciam, tomando risonhamente uma pitada. Um sino lento tilintava
na doura cinzenta da tarde. E Jacintho murmurou, com agrado:

-- curioso!

Mas a Basilica em cima no nos interessou, abafada em tapumes e
andaimes, toda branca e scca, de pedra muito nova, ainda sem alma. E
Jacintho, por um impulso bem Jacinthico, caminhou gulosamente para a
borda do terrao, a contemplar Paris. Sob o ceu cinzento, na planicie
cinzenta, a Cidade jazia, toda cinzenta, como uma vasta e grossa camada
de calia e telha. E, na sua immobilidade e na sua mudez, algum rolo de
fumo, mais tenue e ralo que o fumear d'um escombro mal apagado, era todo
o vestigio visivel da sua vida magnifica.

Ento chasqueei risonhamente o meu Principe. Ahi estava pois a Cidade,
augusta creao da Humanidade! Eil-a ahi, bello Jacintho! Sobre a crosta
cinzenta da Terra--uma camada de calia, apenas mais cinzenta! No
emtanto ainda momentos antes a deixaramos prodigiosamente viva, cheia
d'um povo forte, com todos os seus poderosos orgos funccionando,
abarrotada de riqueza, resplandecente de sapiencia, na triumphal
plenitude do seu orgulho, como Rainha do Mundo coroada de Graa. E agora
eu e o bello Jacintho trepavamos a uma collina, espreitavamos,
escutavamos--e de toda a estridente e radiante Civilisao da Cidade no
percebiamos nem um rumor nem um lampejo! E o 202, o soberbo 202, com os
seus arames, os seus apparelhos, a pompa da sua Mechanica, os seus
trinta mil livros? Sumido, esvado na confuso de telha e cinza! Para
este esvaecimento pois da obra humana, mal ella se comtempla de cem
metros de altura, arqueja o obreiro humano em to angustioso esforo?
Hein, Jacintho?... Onde esto os teus Armazens servidos por tres mil
caixeiros? E os Bancos em que retine o ouro universal? E as Bibliothecas
atulhadas com o saber dos seculos? Tudo se fundiu n'uma nodoa parda que
suja a Terra. Aos olhos piscos de um Z Fernandes, logo que elle suba,
fumando o seu cigarro, a uma arredada collina--a sublime edificao dos
Tempos no  mais que um silencioso monturo da espessura e da cr do p
final. O que ser ento aos olhos de Deus!

E ante estes clamores, lanados com affavel malicia para espicaar o meu
Principe, elle murmurou, pensativo:

--Sim,  talvez tudo uma illuso... E a Cidade a maior illuso!

To facilmente victorioso redobrei de facundia. Certamente, meu
Principe, uma Illuso! E a mais amarga, por que o Homem pensa ter na
Cidade a base de toda a sua grandeza e s n'ella tem a fonte de toda a
sua miseria. V, Jacintho! Na Cidade perdeu elle a fora e belleza
harmoniosa do corpo, e se tornou esse ser resequido e escanifrado ou
obeso e afogado em unto, de ossos molles como trapos, de nervos tremulos
como arames, com cangalhas, com chins, com dentaduras de chumbo, sem
sangue, sem febra, sem vio, torto, corcunda--esse ser em que Deus,
espantado, mal pde reconhecer o seu esbelto e rijo e nobre Ado! Na
Cidade findou a sua liberdade moral: cada manh ella lhe impe uma
necessidade, e cada necessidade o arremessa para uma dependencia: pobre
e subalterno, a sua vida  um constante sollicitar, adular, vergar,
rastejar, aturar; rico e superior como um Jacintho, a Sociedade logo o
enreda em tradies, preceitos, etiquetas, ceremonias, praxes, ritos,
servios mais disciplinares que os d'um carcere ou d'um quartel... A sua
tranquillidade (bem to alto que Deus com elle recompensa os Santos)
onde est, meu Jacintho? Sumida para sempre, n'essa batalha desesperada
pelo po, ou pela fama, ou pelo poder, ou pelo gzo, ou pela fugidia
rodella d'ouro! Alegria como a haver na Cidade para esses milhes de
seres que tumultuam na arquejante occupao de _desejar_--e que, nunca
fartando o desejo, incessantemente padecem de desilluso, desesperana
ou derrota? Os sentimentos mais genuinamente humanos logo na Cidade se
deshumanisam! V, meu Jacintho! So como luzes que o aspero vento do
viver social no deixa arder com serenidade e limpidez; e aqui abala e
faz tremer; e alm brutamente apaga; e adiante obriga a flammejar com
desnaturada violencia. As amizades nunca passam d'allianas que o
interesse, na hora inquieta da defeza ou na hora sofrega do assalto, ata
apressadamente com um cordel apressado, e que estalam ao menor embate da
rivalidade ou do orgulho. E o Amor, na Cidade, meu gentil Jacintho?
Considera esses vastos armazens com espelhos, onde a nobre carne d'Eva
se vende, tarifada ao arratel, como a de vacca! Contempla esse velho
Deus do Hymeneu, que circula trazendo em vez do ondeante facho da Paixo
a apertada carteira do Dote! Espreita essa turba que foge dos largos
caminhos assoalhados em que os Faunos amam as Nymphas na boa lei
natural, e busca tristemente os recantos lobregos de Sodoma ou de
Lesbos!... Mas o que a Cidade mais deteriora no homem  a Intelligencia,
por que ou lh'a arregimenta dentro da banalidade ou lh'a empurra para a
extravagancia. N'esta densa e pairante camada d'Idas e Formulas que
constitue a atmosphera mental das Cidades, o homem que a respira, n'ella
envolto, s pensa todos os pensamentos j pensados, s exprime todas as
expresses j exprimidas:--ou ento, para se destacar na pardacente e
chata Rotina e trepar ao fragil andaime da gloriola, inventa n'um
gemente esforo, inchando o craneo, uma novidade disforme que espante e
que detenha a multido como um mostrengo n'uma Feira. Todos,
intelectualmente, so carneiros, trilhando o mesmo trilho, balando o
mesmo balido, com o focinho pendido para a poeira onde pisam, em fila,
as pgadas pisadas;--e alguns so macacos, saltando no topo de mastros
vistosos, com esgares e cabriolas. Assim, meu Jacintho, na Cidade,
n'esta creao to anti-natural onde o solo  de pau e feltro e
alcatro, e o carvo tapa o ceu, e a gente vive acamada nos predios como
o panninho nas lojas, e a claridade vem pelos canos, e as mentiras se
murmuram atravs d'arames--o homem apparece como uma creatura
anti-humana, sem belleza, sem fora, sem liberdade, sem riso, sem
sentimento, e trazendo em si um espirito que  passivo como um escravo
ou impudente como um histrio... E aqui tem o bello Jacintho o que  a
bella Cidade!

E ante estas encanecidas e veneraveis invectivas, retumbadas
pontualmente por todos os Moralistas bucolicos, desde Hesiodo, atravez
dos seculos--o meu Principe vergou a nuca docil, como se ellas
brotassem, inesperadas e frescas, d'uma Revelao superior, n'aquelles
cimos de Montmartre:

--Sim, com effeito, a Cidade...  talvez uma illuso perversa!

Insisti logo, com abundancia, puchando os punhos, saboreando o meu facil
philosophar. E se ao menos essa illuso da Cidade tornasse feliz a
totalidade dos sres, que a manteem... Mas no! S uma estreita e
reluzente casta goza na Cidade os gozos especiaes que ella cria. O
resto, a escura, immensa plebe, s n'ella soffre, e com soffrimentos
especiaes que s n'ella existem! D'este terrao, junto a esta rica
Basilica consagrada ao Corao que amou o Pobre e por elle sangrou, bem
avistamos ns o lobrego casario onde a plebe se curva sob esse antigo
opprobrio de que nem Religies, nem Philosophias, nem Moraes, nem a sua
propria fora brutal a podero jmais libertar! Ahi jaz, espalhada pela
Cidade, como esterco vil que fecunda a Cidade. Os seculos rolam; e
sempre immutaveis farrapos lhe cobrem o corpo, e sempre debaixo d'elles,
atravs do longo dia, os homens labutaro e as mulheres choraro. E com
este labor e este pranto dos pobres, meu Principe, se edifica a
abundancia da Cidade! Eil-a agora coberta de moradas em que elles se no
abrigam; armazenada de estofos, com que elles se no agasalham;
abarrotada de alimentos, com que elles se no saciam! Para elles s a
neve, quando a neve ce, e entorpece e sepulta as creancinhas aninhadas
pelos bancos das praas ou sob os arcos das pontes de Paris... A neve
ce, muda e branca na treva: as creancinhas gelam nos seus trapos: e a
policia, em torno, ronda attenta para que no seja perturbado o tpido
somno d'aquelles que amam a neve, para patinar nos lagos do Bosque de
Bolonha com pellias de tres mil francos. Mas qu, meu Jacintho! a tua
Civilisao reclama insaciavelmente regalos e pompas, que s obter,
n'esta amarga desharmonia social, se o Capital dr ao Trabalho, por cada
arquejante esfro, uma migalha ratinhada. Irremediavel , pois, que
incessantemente a plebe sirva, a plebe pne! A sua esfalfada miseria  a
condio do esplendor sereno da Cidade. Se nas suas tigellas fumegasse a
justa rao de caldo--no poderia apparecer nas baixellas de prata a
luxuosa poro de _foie-gras_ e tubaras que so o orgulho da
Civilisao. Ha andrajos em trapeiras--para que as bellas Madamas
d'Oriol, resplandecentes de sdas e rendas, subam, em doce ondulao, a
escadaria da Opera. Ha mos regeladas que se estendem, e beios sumidos
que agradecem o dom magnanimo d'um _sou_--para que os Ephrains tenham
dez milhes no Banco de Frana, se aqueam  chamma rica da lenha
aromatica, e surtam de collares de saphiras as suas concubinas, netas
dos Duques d'Athenas. E um povo chora de fome, e da fome dos seus
pequeninos--para que os Jacinthos, em janeiro, debiquem, bocejando,
sobre pratos de Saxe, morangos gelados em Champagne e avivados d'um fio
d'ether!

--E eu comi dos teus morangos, Jacintho! Miseraveis, tu e eu!

Elle murmurou, desolado:

-- horrivel, comemos d'esses morangos... E talvez por uma illuso!

Pensativamente deixou a borda do terrao, como se a presena da Cidade,
estendida na planicie, fosse escandalosa. E caminhamos devagar, sob a
molleza cinzenta da tarde, philosophando--considerando que para esta
iniquidade no havia cura humana, trazida pelo esforo humano. Ah, os
Ephrains, os Trves, os vorazes e sombrios tubares do mar humano, s
abandonaro ou affrouxaro a explorao das Plebes, se uma influencia
celeste, por milagre novo, mais alto que os milagres velhos, lhes
converter as almas! O burguez triumpha, muito forte, todo endurecido no
peccado--e contra elle so impotentes os prantos dos Humanitarios, os
raciocinios dos Logicos, as bombas dos Anarchistas. Para amollecer to
duro granito s uma doura divina. Eis pois esperana da terra novamente
posta n'um Messias!... Um decerto desceu outrora dos grandes Ceus; e,
para mostrar bem que mandado trazia, penetrou mansamente no mundo pela
porta d'um curral. Mas a sua passagem entre os homens foi to curta! Um
meigo sermo n'uma montanha, ao fim d'uma tarde meiga; uma reprehenso
moderada aos Phariseus que ento redigiam o _Boulevard_; algumas
vergastadas nos Ephrains vendilhes; e logo, atravs da porta da morte,
a fuga radiosa para o Paraiso! Esse adoravel filho de Deus teve
demasiada pressa em recolher a casa de seu Pae! E os homens a quem elle
incumbira a continuao da sua obra, envolvidos logo pelas influencias
dos Ephrains, dos Trves, da gente do _Boulevard_, bem depressa
esqueceram a lio da Montanha e do lago de Tiberiade--e eis que por seu
turno revestem a purpura, e so Bispos, e so Papas, e se alliam 
oppresso, e reinam com ella, e edificam a durao do seu Reino sobre a
miseria dos sem-po e dos sem-lar! Assim tem de ser recomeada a obra da
Redempo. Jesus, ou Guatama, ou Christna, ou outro d'esses filhos que
Deus por vezes escolhe no seio d'uma Virgem, nos quietos vergeis da
Asia, dever novamente descer  terra de servido. Vir elle, o
desejado? Porventura j algum grave rei d'Oriente despertou, e olhou a
estrella, e tomou a myrrha nas suas mos reaes, e montou pensativamente
sobre o seu dromedario? J por esses arredores da dura Cidade, de noute,
emquanto Caiphaz e Magdalena ceam lagosta no Paillard, andou um Anjo,
attento, n'um vo lento, escolhendo um curral? J de longe, sem moo que
os tanja, na gostosa pressa d'um divino encontro, vem trotando a vacca,
trotando o burrinho?

--Tu sabes, Jacintho?

No, Jacintho no sabia--e queria accender o charuto. Forneci um
phosphoro ao meu Principe. Ainda rondamos no terrao, espalhando pelo ar
outras idas solidas que no ar se desfaziam. Depois penetravamos na
Basilica--quando um Sachristo nedio, de barrete de velludo, cerrou
fortemente a porta, e um Padre passou, enterrando na algibeira, com um
canado gesto final e como para sempre, o seu velho Breviario.

--Estou com uma sde, Jacintho... Foi esta tremenda Philosophia!

Descemos a escadaria, armada em arraial devoto. O meu pensativo camarada
comprou uma imagem da Basilica. E saltavamos para a vittoria, quando
alguem gritou rijamente, n'uma surpreza:

--Eh Jacintho!

O meu Principe abriu os braos, tambem espantado:

--Eh Mauricio!

E, n'um alvoroo, atravessou a rua, para um caf, onde, sob o toldo de
riscadinho, um robusto homem, de barba em bico, remexia o seu absintho,
com o chapo de palha descahido na nuca, a quinzena solta sobre a camisa
de sda, sem gravata, como se descanasse n'um banco, entre as sombras
do seu jardim.

E ambos, apertando as mos, se admiravam d'aquelle encontro, n'um
domingo de vero, sobre as alturas de Montmartre.

--Oh! eu estou aqui no meu bairro! exclamava alegremente Mauricio. Em
familia, em chinellos... Ha tres mezes que subi para estes cimos da
Verdade... Mas tu na Santa Colina, homem profano da planicie e das ruas
d'Israel!

O meu Principe mostrou o seu Z Fernandes:

--Com este amigo, em peregrinao  Basilica... O meu amigo Fernandes
Lorena... Mauricio de Mayolle, velho camarada.

Mr. de Mayolle (que, pela face larga e nariz nobremente grosso, lembrava
Francisco de Valois, Rei de Frana) ergueu o seu chapeu de palha. E
empurrava uma cadeira, insistia que nos accommodassemos para um absintho
ou para um bock.

--Toma um bock, Z Fernandes! lembrou Jacintho. Tu estavas a ganir com
sde!

Corri lentamente a lingua sobre os beios, mais scos que pergaminhos:

--Estou a guardar esta sdesinha para logo, para o jantar, com um
vinhosinho gelado!

Mauricio saudou, com silenciosa admirao, esta minha avisada malicia. E
immediatamente, para o meu Principe:

--Ha tres annos que te no vejo, Jacintho... Como tem sido possivel,
n'este Paris que  uma aldeola e que tu atravancas?

--A vida, Mauricio, a espalhada vida... Com effeito! Ha tres annos,
desde a casa dos Lamotte-Orcel. Tu ainda visitas esse santuario?

Mauricio atirou um gesto desdenhoso e largo, que sacudia um mundo:

--Oh! Ha mais d'um anno que me separei d'essa bicharia heretica... Uma
turba indisciplinada, meu Jacintho! Nenhuma fixidez, um dilletantismo
estonteado, carencia completa e comica de toda a base experimental...
Quando tu ias aos Lamotte-Orcel, e  Parola do 37, e  _Cerveja ideal_,
o que reinava?...

Jacintho catou lentamente as suas recordaes por entre os pllos do
bigode:

--Eu sei!... Reinava Wagner e a Mithologia Eddica, e o Raganarock, e as
Nornas... Muito Pre-Raphaelismo tambem, e Montagna, e Fra-Angelico... Em
moral, o Renanismo.

Mauricio sacudia os hombros. Oh, tudo isso pertencia a um passado
archaico, quasi lacustre! Quando Madame de Lamotte-Orcel remobilra a
sala com velludos Morris, grossas alcachofras sobre tons d'aafro, j o
Renanismo passra, to esquecido como o Cartesianismo...

--Tu ainda s do tempo do culto do _Eu_?

O meu Principe suspirou risonhamente:

--Ainda o cultivei.

--Pois bem! Logo depois foi o Hartmanismo, o Inconsciente. Depois o
Nietzismo, o Feudalismo espiritual... Depois grassou o Tolstosmo, um
furor immenso de renunciamento neo-cenobitico. Ainda me lembro d'um
jantar em que appareceu um mostrengo d'um slavo, de guedelha sordida,
que atirava olhos medonhos para o decote da pobre condessa d'Arche, e
que grunhia com o dedo espetado:--Busquemos a luz, muito por baixo, no
p da terra!--E  sobremeza bebemos  delicia da humildade e do
trabalho servil, com aquelle Champagne Marceaux granitado que a Mathilde
dava nos grandes dias em copos da frma do San-Gral! Depois veio
Emersonismo... Mas a praga cruel foi Ibsenismo! Emfim, meu filho, uma
Babel de Ethicas e Estheticas. Paris parecia demente. J havia uns
desgarrados que tendiam para o Luciferismo. E amiguinhas nossas,
coitadas, iam descambando para o Phallismo, uma moxinifada
mystico-brejeira, prgada por aquelle pobre La Carte que depois se fez
Monge Branco, e que anda no Deserto... Um horror! E uma tarde, de
repente, toda esta massa se precipita com ancia para o Ruskinismo!

Eu, agarrado  bengala, bem fincada no cho, sentia como um vendaval que
redemoinhava, me torcia o craneo! E at Jacintho balbuciou, esgazeado:

--O Ruskinismo?

--Sim, o velho Ruskin,... John Ruskin!

O meu ditoso Principe comprehendeu:

--Ah, Ruskin!... _As sete lampadas da Architectura_, _A Cora de
Oliveira Brava_...  o culto da Belleza.

--Sim! O culto da Belleza, confirmou Mauricio. Mas a esse tempo eu,
enojado, j descera de todas essas nuvens vs... Pisava um cho mais
seguro, mais fertil.

Deu um sorvo lento ao absintho, cerrando as palpebras. Jacintho
esperava, com o seu fino nariz dilatado, como para respirar a Flr de
Novidade que ia desabrochar:

--E ento? ento?...

Mas o outro murmurou, dispersamente, por entre reticencias em que se
velava:

--Vim para Montmartre... Tenho aqui um amigo, um homem de genio, que
percorreu toda a India... Viveu com os Toddas, esteve nos mosteiros de
Garma-Khian e de Dashi-Lumbo, e estudou com Gegen-Chutu no retiro santo
de Urga... Gegen-Chutu foi a decima-sexta encarnao de Guatama, e era
portanto um Boddi-sattva... Trabalhamos, procuramos... No so vises.
Mas factos, experiencias bem antigas, que vem talvez desde os tempos de
Christna...

Atravs d'estes nomes, que exhalavam um perfume triste de vetustos
ritos, arredra a cadeira. E de p, deixando cair sobre a mesa,
distrahidamente, para pagar o absintho, moedas de prata e moedas de
cobre, murmurava com os olhos descanados em Jacintho, mas perdidos
n'outra viso:

--Por fim tudo se reduz ao supremo desenvolvimento da Vontade dentro da
suprema pureza da Vida.  toda a sciencia e fora dos grandes mestres
Hindus... Mas a pureza absoluta da vida, eis a lucta, eis o obstaculo!
No basta mesmo o Deserto, nem o bosque do mais velho templo no alto
Thibet... Ainda assim, meu Jacintho, j obtivemos resultados bem
extranhos. Sabes as experiencias de Tyndall, com as chammas
sensitivas... O pobre chimico, para demonstrar as vibraes do som,
tocou quasi s portas da verdade isoterica. Mas qu! homem de sciencia,
portanto homem d'estupidez, ficou quem, entre as suas placas e as suas
retortas! Ns fmos alm. Verificmos as _ondulaes da Vontade_! Deante
de ns, pela expanso da energia do meu companheiro, e em cadencia com o
seu mandado, uma chamma, a tres metros, ondulou, rastejou, despediu
linguas ardentes, lambeu uma alta parede, rugiu furiosa e negra,
resplandeceu direita e silenciosa, e bruscamente abatida em cinza
morreu!

E o extranho homem, com o chapeu para a nuca, ficou immovel, de braos
abertos e os olhares esgazeados, como no renovado assombro e no transe
d'aquelle prodigio. Depois, recahindo no seu modo facil e sereno,
accendendo de vagar um cigarro:

--Uma d'estas manhs, Jacintho, appareo no 202, para almoar comtigo, e
levo o meu amigo. Elle s come arrz, uma pouca de salada, e fructa. E
conversamos... Tu tinhas um exemplar do _Sepher-Zerijah_ e outro do
_Targum d'Onkelus_. Preciso folhear esses livros.

Apertou a mo do meu Principe, saudou este assombrado Z Fernandes, e
serenamente seguiu pela quieta rua, com o chapeu de palha para a nuca,
as mos enterradas nas algibeiras, como um homem natural entre cousas
naturaes.

--Oh Jacintho! Quem  este bruxo? Conta!... Quem  elle, santissimo nome
de Deus?

Recostado na vittoria, ageitando o vinco das calas, o meu Principe
contou, concisamente. Era um nobre e leal rapaz, muito rico, muito
intelligente, da antiga casa soberana de Mayolle, descendente dos Duques
de Septimania... E murmurou, atravs do costumado bocejo:

--O desenvolvimento supremo da vontade!... Theosophia, Buddhismo
isoterico... Aspiraes, decepes... J experimentei... Uma massada!

Atravessamos, callados, o rumr de Paris, sob a molleza abafada do
crepusculo de vero, para jantar no Bosque, no Pavilho d'Armenonville,
onde os Tziganes, avistando Jacintho, tocaram o _Hymno da Carta_ com
paixo, com langor, n'uma cadencia de _czarda_ dolorosa e aspera.

E eu, desdobrando regaladamente o guardanapo:

--Pois venha agora para a minha rica sde esse vinhosinho gelado!
Grandemente o mereo, caramba, que superiormente philosophei!... E creio
que estabeleci definitivamente no espirito do Snr. D. Jacintho o salutar
horror da cidade!

O meu Principe percorria, catando o bigode, a Lista-dos-Vinhos, em
quanto o Copeiro, esperava com pensativa reverencia:

--Mande gelar duas garrafas de champagne S.^t Marceaux... Mas antes, um
Barsac velho, apenas refrescado... Agoa de Evian... No, de Bussang!
Bem, d'Evian e de Bussang! E, para comear, um bock.

Depois, bocejando, desabotoando lentamente a sobrecasaca cinzenta:

--Pois estou com vontade de construir uma casa nos cimos de Montmartre,
com um miradouro no alto, todo de vidro e ferro, para descanar de tarde
e dominar a Cidade...




VII


Julho findra com uma chuva refrescante e consoladora:--e eu pensava em
realisar finalmente a minha romagem s cidades da Europa, sempre
retardada, atravs da primavera, pelas surprezas do Mundo e da Carne.
Mas, de repente, Jacintho comeou a rogar e a reclamar que o seu Z
Fernandes o acompanhasse, todas as tardes, a casa de Madame d'Oriol! E
eu comprehendi que o meu Principe ( maneira do divino Achilles, que,
sob a tenda, e junto da branca, insipida e docil Briseis, nunca
dispensava Patoclo) desejava ter, no retiro do Amor, a presena, o
confrto e o soccorro da Amizade. Pobre Jacintho! Logo pela manh
combinava pelo telephone com Madame d'Oriol essa hora de quietao e
doura. E assim encontravamos sempre a superfina Dama prevenida e
solitaria n'aquella sala da rua de Lisbonne, onde Jacintho e eu mal
cabiamos, suffocavamos na confuso, entre os cestos de flres, e os
ouros rocalhados, e os monstros do Japo, e a galante fragilidade dos
Saxes, e as pelles de feras estiradas aos ps de sophs adormecedores, e
os biombos de Aubusson formando alcvas favoraveis e languidas...
Aninhada n'uma cadeira de bamb lacada de branco, entre almofadas
aromatisadas de verbena da India, com um romance pousado no regao, ella
esperava o seu amigo, n'uma certa indolencia passiva e mansa que me
lembrava sempre o Oriente e um Harem. Mas, pelas frescas sedinhas
Pompadour, parecia tambem uma marquezinha de Versalhes canada do grande
seculo; ou ento, com brocados sombrios e largos cintos cravejados, era
como uma veneziana, preparada para um Doge. A minha intruso, na
intimidade d'aquellas tardes, no a contrariava--antes lhe trazia um
vassallo novo, com dous olhos novos para a contemplar. Eu era j o seu
_cher Fernandez_!

E apenas descerrava os labios avivados de vermelho, semelhantes a uma
ferida fresca, e comeava a chalrar--logo nos envolvia o burburinho e a
murmurao de Paris. Ella s sabia chalrar sobre a sua pessoa que era o
resumo da sua Classe, e sobre a sua existencia que era o resumo do seu
Paris:--e a sua existencia, desde casada, consistira em ornar com
suprema sciencia o seu lindo corpo; entrar com perfeio n'uma sala e
irradiar; remexer em estofos e conferenciar pensativamente com o grande
costureiro; rolar pelo Bois pousada na sua vittoria como uma imagem de
cra; decotar e branquear o collo; debicar uma perna de gallinhola em
mezas de luxo; fender turbas ricas em bailes espessos; adormecer com a
vaidade esfalfada; percorrer de manh, tomando chocolate, os Echos e
as Festas do _Figaro_; e de vez em quando murmurar para o marido--Ah,
s tu?... Alm d'isso, ao lusco-fusco, n'um soph, alguns certos
suspiros, entre os braos d'alguem a quem era constante. Ao meu
Principe, n'esse anno, pertencia o soph. E todos estes deveres de
Cidade e de Casta os cumpria sorrindo. Tanto sorrira, desde casada, que
j duas prgas lhe vincavam os cantos dos beios, indelevelmente. Mas
nem na alma, nem na pelle, mostrava outras maculas de fadiga. A sua
Agenda de Visitas continha mil e tresentos nomes, todos do Nobiliario.
Atravs, porm, desta fulgurante sociabilidade arranjra no cerebro
(onde de certo penetrra o p d'arroz que desde o collegio acamava na
testa) algumas Idas Geraes. Em Politica era pelos Principes; e todos os
outros horrores, a Republica, o Socialismo, a Democracia que se no
lava, os sacudia risonhamente, com um bater de leque. Na Semana Santa
juntava s rendas do chapeu a Cora amarga de espinhos--por serem esses,
para a gente bem-nascida, dias de penitencia e dr. E, deante de todo o
Livro ou de todo o Quadro, sentia a emoo e formulava finamente o
juizo, que no seu Mundo, e n'essa Semana, fsse elegante formular e
sentir. Tinha trinta annos. Nunca se embarara nos tormentos d'uma
paixo. Marcava, com rigida regularidade, todas as suas despezas n'um
Livro de Contas encadernado em pellucia verde-mar. A sua religio intma
(e mais genuina do que a outra, que a levava todos os domingos  missa
de S. Philippe du Roule) era a Ordem. No inverno, logo que na amavel
cidade comeavam a morrer de frio, debaixo das pontes, creancinhas sem
abrigo--ella preparava com commovido cuidado os seus vestidos de
patinagem. E preparava tambem os de Caridade--porque era boa, e
concorria para Bazares, Concertos e Tombolas, quando fossem patrocinados
pelas Duquezas do seu rancho. Depois, na primavera, muito
methodicamente, regateando, vendia a uma adela os vestidos e as capas de
inverno. Paris admirava n'ella uma suprema flr de Parisianismo.

Pois respirando esta macia e fina flr passamos ns as tardes d'esse
julho em quanto as outras flres pendiam e murchavam na calma e no p.
Mas, na intimidade do seu perfume, Jacintho no parecia encontrar esse
contentamento d'alma, que entre tudo que cana jmais cana. Era j com
a paciente lentido com que se sobem todos os Calvarios, os mais bem
tapetados, que elle subia a escadaria de Madame d'Oriol, to suave e
orlada de to frescas palmeiras. Quando a appetitosa creatura, com
dedicao, para o entreter, desdobrava a sua vivacidade como um pavo
desdobra a cauda, o meu pobre Principe puxava os pllos do bigode
murcho, na murcha postura de quem, por uma manh de Maio, em quanto os
melros cantam nas sebes, assiste, n'uma egreja negra, a um responso
funebre por um Principe. E no beijo que elle chuchurreava sobre a mo da
sua dce amiga, para se despedir, havia sempre alacridade e allivio.

Mas ao outro dia, ao comear da tarde, depois de errar atravs da
Bibliotheca e do Gabinete, puxando sem curiosidade a tira do telegrapho,
atirando algum recado molle pelo telephone, espalhando o olhar
desalentado sobre o saber immenso dos trinta mil livros, remexendo a
collina dos Jornaes e Revistas, terminava por me chamar, j com a
preguia triste da faanha a que se impellia:

--Vamos a casa de Madame d'Oriol, Z Fernandes? Eu tinha marcadas para
hoje seis ou sete coisas, mas no posso,  uma secca! Vamos a casa de
Madame d'Oriol... Ao menos l, s vezes, ha um bocado de frescura e paz.

E foi n'uma d'essas tardes, em que o meu Principe assim procurava
desesperadamente um bocado de frescura e paz, que encontramos, ao meio
da escadaria suave, entre as palmeiras, o marido de Madame d'Oriol. Eu
j o conhecia--porque Jacintho m'o mostrra uma noite, no Grand Caf,
ceiando com danarinas do _Moulin Rouge_. Era um moo gordalhufo,
indolente, de uma brancura cra de toucinho, com uma calvice j sria e
j lustrosa, constantemente acariciada pelos seus gordos dedos
carregados de anneis. N'essa tarde, porm, vinha vermelho, todo
emocionado, calando as luvas com colera. Estacou diante de Jacintho--e
sem mesmo lhe apertar a mo, atirando um gesto para o patamar:

--Visita l acima? Vai achar a Joanna em pessima disposio... Tivemos
uma scena, e tremenda.

Deu outro puxo desesperado  luva cr de palha, j esgaada:

--Estamos separados, cada um vive como lhe appetece,  excellente! Mas
em tudo ha medida e frma... Ella tem o meu nome, no posso consentir
que em Paris, com conhecimento de todo o Paris, seja a amante do
trintanario. Amantes na nossa roda, v! Um lacaio, no!... Se quer
dormir com os creados que emigre para o fundo da provincia, para a sua
casa de Corbelle. E l at com os animaes!... Foi o que eu lhe disse!
Ficou como uma fera.

Sacudiu ento a mo do Jacintho que era da sua roda--rebolou pela
escadaria florida e nobre. O meu Principe, immovel nos degraus, de face
pendida, cofiava lentamente os fios pendidos do bigode. Depois, olhando
para mim, como um sr saturado de tedio e em quem nenhum tedio novo pde
caber:

--J agora subamos, sim?

       *       *       *       *       *

Parti ento, com muita alegria, para a minha appetecida romagem s
Cidades da Europa.

Ia viajar!... Viajei. Trinta e quatro vezes,  pressa, bufando, com todo
o sangue na face, desfiz e refiz a mala. Onze vezes passei o dia n'um
wagon, envolto em poeirada e fumo, suffocado, a arquejar, a escorrer de
suor, saltando em cada estao para sorver desesperadamente limonadas
mornas que me escangalhavam a entranha. Quatorze vezes subi
derreadamente, atraz de um creado, a escadaria desconhecida d'um Hotel;
e espalhei o olhar incerto por um quarto desconhecido; e estranhei uma
cama desconhecida, d'onde me erguia, estremunhado, para pedir em linguas
desconhecidas um caf com leite que me sabia a fava, um banho de tina
que me cheirava a ldo. Oito vezes travei bulhas abominaveis na rua com
cocheiros que me espoliavam. Perdi uma chapelleira, quinze lenos, tres
ceroulas, e duas botas, uma branca, outra envernizada, ambas do p
direito. Em mais de trinta mezas-redondas esperei tristonhamente que me
chegasse o _boeuf-a-la-mode_, j frio, com mlho coalhado--e que o
copeiro me trouxesse a garrafa de Bordeus que eu provava e repellia com
desditosa carantonha. Percorri, na fresca penumbra dos granitos e dos
marmores, com p respeitoso e abafado, vinte e nove Cathedraes. Trilhei
mollemente, com uma dr surda na nuca, em quatorze muzeus, cento e
quarenta salas revestidas at aos tectos de Christos, heroes, santos,
nymphas, princezas, batalhas, architecturas, verduras, nudezes, sombrias
manchas de betume, tristezas das formas immoveis!... E o dia mais dce
foi quando em Veneza, onde chovia desabaladamente, encontrei um velho
inglez de penca flammejante que habitra o Porto, conhecra o Ricardo, o
Jos Duarte, o Visconde do Bom Successo, e as Limas da Boa Vista...
Gastei seis mil francos. Tinha viajado.

Emfim, n'uma bemdita manh d'outubro, na primeira friagem e nevoa
d'outomno, avistei com enternecido alvoroo as cortinas de seda ainda
fechadas do meu 202! Affaguei o hombro do Porteiro. No patamar, onde
encontrei o ar macio e tepido que deixra em Florena, apertei os ossos
do Grillo excellente:

--E Jacintho?

O digno negro murmurou, d'entre os altos, reluzentes collarinhos:

--S. Exc.^a circula... Pesadote, fartote. Entrou tarde do baile da
Duqueza de Loches. Era o contracto de casamento de Mademoiselle de
Loches... Ainda tomou antes de se deitar um ch gelado... E disse a
coar a cabea: Eh! que massada! Eh! que massada!

Depois do banho e do chocolate, s dez horas, consolado e quentinho
dentro do roupo de velludo, rompi pelo quarto do meu Principe, de
braos abertos e sedentos:

--Oh Jacintho!

--Oh viajante!...

Quando nos estreitamos, fartamente, eu recuei para lhe contemplar a
face--e n'ella a alma. Encolhido n'uma quinzena de panno cr de malva
orlada de pelles de martha, com os pellos do bigode murchos, as suas
duas rugas mais cavadas, uma molleza nos hombros largos, o meu amigo
parecia j vergado sob o pezo e a oppresso e o terror do seu dia. Eu
sorri, para que elle sorrisse:

--Valente Jacintho... Ento como tens vivido?

Elle respondeu, muito serenamente:

--Como um morto.

Forcei uma gargalhada leve, como se o seu mal fsse leve:

--Aborrecidote, hein?

O meu Principe lanou, n'um gesto to vencido, um _oh_ to cansado--que
eu compadecido de novo o abracei, o estreitei, como para lhe communicar
uma parte d'esta alegria solida e pura que recebi do meu Deus!

       *       *       *       *       *

Desde essa manh, Jacintho comeou a mostrar claramente,
escancaradamente, ao seu Z Fernandes, o tdio de que a existencia o
saturava. O seu cuidado realmente e o seu esfro consistiram ento em
sondar e formular esse tdio--na esperana de o vencer logo que lhe
conhecesse bem a origem e a potencia. E o meu pobre Jacintho reproduziu
a comedia pouco divertida d'um Melancolico que perpetuamente raciocina a
sua Melancolia! N'esse raciocino, elle partia sempre do facto
irrecusavel e massio--que a sua vida especial de Jacintho continha
todos os interesses e todas as facilidades, possiveis no seculo XIX,
n'uma vida de homem que no  um Genio, nem um Santo. Com effeito!
Apezar do appetite embotado por doze annos de Champagnes e mlhos ricos
elle conservava a sua rijeza de pinheiro bravo; na luz da sua
intelligencia no apparecra nem tremor nem morro; a boa terra de
Portugal, e algumas Companhias macissas, pontualmente lhe forneciam a
sua doce centena de contos; sempre activas e sempre fieis o cercavam as
sympathias d'uma Cidade inconstante e chasqueadora; o 202 estourava de
confrtos; nenhuma amargura de corao o atormentava;--e todavia era um
Triste. Porque?... E d'aqui saltava, com certeza fulgurante,  concluso
de que a sua tristeza, esse cinzento burel em que a sua alma andava
amortalhada, no provinham da sua individualidade de Jacintho--mas da
Vida, do lamentavel, do desastroso facto de Viver! E assim o saudavel,
intellectual, riquissimo, bem-acolhido Jacintho tombra no Pessimismo.

E um Pessimismo irritado! Porque (segundo affirmava) elle nascera para
ser to naturalmente optimista como um pardal ou um gato. E, at aos
doze annos, emquanto fra um bicho superiormente amimado, com a sua
pelle sempre bem coberta, o seu prato sempre bem cheio, nunca sentira
fadiga, ou melancolia, ou contrariedade, ou pena--e as lagrimas eram
para elle to incomprehensiveis que lhe pareciam viciosas. S quando
crescra, e da animalidade penetrra na humanidade, despontra n'elle
esse fermento de tristeza, muito tempo indesenvolvido no tumulto das
primeiras curiosidades, e que depois alastrra, o invadira todo, se lhe
tornra consubstancial e como o sangue das suas veias. Soffrer portanto
era inseparavel de Viver. Soffrimentos differentes nos destinos
differentes da Vida. Na turba dos humanos  a angustiada lucta pelo po,
pelo tecto, pelo lume; n'uma casta, agitada por necessidades mais altas,
 a amargura das desilluses, o mal da imaginao insatisfeita, o
orgulho chocando contra obstaculo; n'elle, que tinha os bens todos e
desejos nenhuns, era o tdio. Miseria do Corpo, tormento da Vontade,
fastio da Intelligencia--eis a Vida! E agora aos trinta e tres annos a
sua occupao era bocejar, correr com os dedos desalentados a face
pendida para n'ella palpar e appetecer a caveira.

Foi ento que o meu Principe comeou a ler apaixonadamente, desde o
_Ecclesiastes_ at Schopenhauer, todos os lyricos e todos os theoricos
do Pessimismo. N'estas leituras encontrava a reconfortante comprovao
de que o seu mal no era mesquinhamente Jacinthico--mas grandiosamente
resultante d'uma Lei Universal. J ha quatro mil annos, na remota
Jerusalm, a Vida, mesmo nas suas delicias mais triumphaes, se resumia
em Illuso. J o Rei incomparavel, de sapiencia divina, summo Vencedor,
summo Edificador, se enfastiava, bocejava, entre os despojos das suas
conquistas, e os marmores novos dos seus Templos, e as suas tres mil
concubinas, e as Rainhas que subiam do fundo da Ethiopia para que elle
as fecundasse e no seu ventre depozsse um Deus! No ha nada novo sob o
sol, e a eterna repetio das coisas  a eterna repetio dos males.
Quanto mais se sabe mais se pena. E o justo como o perverso, nascidos do
p, em p se tornam. Tudo tende ao p ephemero, em Jerusalm e em Paris!
E elle, obscuro no 202, padecia por ser homem e por viver--como no seu
throno d'ouro, entre os seus quatro lees d'ouro, o filho magnifico de
David.

No se separava ento do _Ecclesiastes_. E circulava por Paris trazendo
dentro do coup Salomo, como irmo de dr, com quem repetia o grito
desolado que  a summa da verdade humana--_Vanitas Vanitatum_! Tudo 
Vaidade! Outras vezes, logo de manh o encontrava estendido no soph,
n'um roupo de sda, absorvendo Schopenhauer--emquanto o pedicuro,
ajoelhado sobre o tapete, lhe polia com respeito e pericia as unhas dos
ps. Ao lado pousava a chavena de Saxe, cheia d'esse caf de Moka
enviado por emires do Deserto, que no o contentava nunca, nem pela
fora, nem pelo aroma. A espaos pousava o livro no peito, resvalava um
olhar compassivo para o pedicuro, como a procurar que dr o
torturaria--pois que a todo o viver corresponde um soffrer. Decerto o
remexer assim, perpetuamente, em ps alheios... E quando o pedicuro se
erguia, Jacintho abria para elle um sorriso de confraternidade--com um
adeus, meu amigo que era um adeus, meu irmo!

Esse foi o periodo esplendido e soberbamente divertido do seu tdio.
Jacintho encontrra emfim na vida uma occupao grata--maldizer a Vida!
E para que a podsse maldizer em todas as suas frmas, as mais ricas, as
mais intellectuaes, as mais puras, sobrecarregou a sua vida propria de
novo luxo, de interesses novos d'espirito, e at de fervores
humanitarios, e at de curiosidades supernaturaes.

O 202, n'esse inverno, refulgiu de magnificencia. Foi ento que elle
iniciou em Paris, repetindo Heliogabalo, os Festins de Cr contados na
Historia Augusta: e offereceu s suas amigas esse sublime jantar cr de
rosa, em que tudo era roseo, as paredes, os moveis, as luzes, as louas,
os crystaes, os gelados, os Champagnes, e at (por uma inveno da
Alta-Cozinha) os peixes, e as carnes, e os legumes, que os escudeiros
serviam, empoados de p rosado, com librs da cr da rosa, em quanto do
tecto, d'um velario de seda rosada, cahiam petalas frescas de rosas... A
Cidade, deslumbrada, clamou--Bravo, Jacintho! E o meu Principe, ao
rematar a festa fulgurante, plantou deante de mim as mos nas ilhargas e
gritou triumphalmente:--Hein? Que massada!...

Depois foi o Humanitarismo: e fundou um Hospicio no campo, entre
jardins, para velhinhos desamparados, outro para creanas debeis  beira
do Mediterraneo. Depois com o major Dorchas, e Mayolle, e o Hind de
Mayolle penetrou no Theosophismo: e montou tremendas experiencias para
verificar a mysteriosa _exteriorisao da motilidade_. Depois,
desesperadamente, ligou o 202 com os fios telegraphicos do _Times_, para
que no seu gabinete, como n'um corao, palpitasse toda a vida Social da
Europa.

E a cada um d'estes esforos da elegancia, do humanitarismo, da
sociabilidade, e da intelligencia indagadora, voltava para mim, de
braos alegres, com um grito victorioso:--Vs tu, Z Fernandes? Uma
massada!--Arrebatava ento o seu _Ecclesiastes_, o seu Schopenhauer, e,
estendido no soph, saboreava voluptuosamente a concordancia da Doutrina
e da Experiencia. Possuia uma F--o Pessimismo: era um apostolo rico e
esforado: e tudo tentava, com sumptuosidade, para provar a verdade da
sua F! Muito gozou n'esse anno o meu desgraado Principe!

No comeo do inverno, porm, notei com inquietao que Jacintho j no
folheava o _Ecclesiastes_, desleixava Schopenhauer. Nem festas, nem
Theosophismos, nem os seus Hospicios, nem os fios do _Times_, pareciam
interessar agora o meu amigo, mesmo como demonstraes gloriosas da sua
Crena. E a sua abominavel funco de novo se limitou a bocejar, a
passar os dedos molles sobre a face pendida palpando a caveira.
Incessantemente alludia  morte como a uma libertao. Uma tarde mesmo,
no melancolico crepusculo da Bibliotheca, antes de refulgirem as luzes,
consideravelmente me aterrou, fallando n'um tom regelado de mortes
rapidas, sem dr, pelo choque d'uma vasta pilha electrica ou pela
violencia compassiva do acido cyanidrico. Diabo! O Pessimismo, que
apparecera na Intelligencia do meu Principe como um conceito
elegante--atacra bruscamente a Vontade!

Todo o seu movimento ento foi o d'um boi inconsciente que marcha sob a
canga e o aguilho. J no esperava da Vida contentamento--nem mesmo se
lastimava que ella lhe trouxesse tdio ou pena. Tudo  indifferente, Z
Fernandes! E to indifferentemente sahiria  sua janella para receber
uma Cora Imperial offerecida por um Povo--como se estenderia n'uma
poltrona rta para emmudecer e jazer. Sendo tudo inutil, e no
conduzindo seno a maior desilluso, que podia importar a mais rutilante
actividade ou a mais desgostada inercia? O seu gesto constante, que me
irritava, era encolher os hombros. Perante duas ideias, dois caminhos,
dois pratos, encolhia os hombros! Que importava?... E no minimo acto,
raspar um phosphoro ou desdobrar um Jornal, punha uma morosidade to
desconsolada que todo elle parecia ligado, desde os dedos at  alma,
pelas voltas apertadas d'uma corda que se no via e que o travava.

       *       *       *       *       *

Muito desagradavelmente me recordo do dia dos seus annos, a 10 de
Janeiro. Cdo, de manh, recebra, com uma carta de Madame de Trves, um
aafate de camelias, azaleas, orchideas e lyrios do valle. E foi este
mimo que lhe recordou a data consideravel. Soprou sobre as petalas o
fumo do cigarro e murmurou com um riso de lento escarneo:

--Ento, ha trinta e quatro annos que eu ando n'esta massada?

E como eu propunha que telephonassemos aos amigos para beberem no 202 o
Champagne do Natalicio--elle recusou, com o nariz enojado. Oh! No!
Que horrivel scca!... E bradou mesmo para o Grillo:

--Eu hoje no estou em Paris para ninguem. Abalei para o campo, abalei
para Marselha... Morri!

E a sua ironia no cessou at ao almoo perante os bilhetes, os
telegrammas, as cartas, que subiam, se arredondavam em collina sobre a
meza d'ebano, como um preito da Cidade. Outras flres que vieram, em
vistosos cestos, com vistosos laos, foram por elle comparadas s que se
depe sobre uma tumba. E apenas se interessou um momento pelo presente
de Ephraim, uma engenhosa meza, que se abaixava at ao tapete ou se
alteava at ao tecto--para que, senhor Deus meu?

Depois do almoo, como chovia sombriamente, no arredamos do 202, com os
ps estendidos ao lume, em preguioso silencio. Eu terminra por
adormecer beatificamente. Acordei aos passos aodados do Grillo...
Jacintho, enterrado na poltrona, com umas tesouras, recortava um papel!
E nunca eu me compadeci d'aquelle amigo, que canra a mocidade a
accumular todas as noes formuladas desde Aristoteles e a juntar todos
os inventos realisados desde Tharamenes, como n'essa tarde de festa, em
que elle, cercado de Civilisao nas maximas propores para gozar nas
maximas propores a delicia de viver, se encontrava reduzido, junto ao
seu lar, a recortar papeis com uma tesoura!

O Grillo trazia um presente do Gran-Duque--uma caixa de prata, forrada
de cedro, e cheia d'um ch precioso, colhido, flr a flr, nas veigas de
Kiang-Sou por mos puras de virgens, e conduzido atravs da Asia, em
caravanas, com a venerao d'uma reliquia. Ento, para despertar o nosso
torpr, lembrei que tomassemos o divino ch--occupao bem harmonica com
a tarde triste, a chuva grossa alagando os vidros, e a clara chamma
bailando no fogo. Jacintho accedeu--e um escudeiro acercou logo a meza
de Ephraim para que ns lhe estreassemos os servios destros. Mas o meu
Principe, depois de a altear, para meu espanto, at aos crystaes do
lustre, no conseguiu, apezar de uma suada e desesperada batalha com as
molas, que a meza regressasse a uma altura humana e cazeira. E o
escudeiro de novo a levou, levantada como um andaime, chimerica,
unicamente aproveitavel para o gigante Adamastor. Depois veio a caixa do
ch entre chaleiras, lampadas, coadores, filtros, todo um fausto de
alfaias de prata, que communicavam a essa occupao, to simples e dce
em caza de minha tia, _fazer ch_, a magestade d'um rito. Prevenido pelo
meu camarada da sublimidade d'aquelle ch de Kiang-Sou, ergui a chavena
aos labios com reverencia. Era uma infuso descorada que sabia a malva e
a formiga. Jacintho provou, cuspiu, blasphemou... No tomamos ch.

Ao cabo d'outro pensativo silencio, murmurei, com os olhos perdidos no
lume:

--E as obras de Tormes? A egreja... J haver egreja nova?

Jacintho retomra o papel e a thesoura:

--No sei... No tornei a receber carta do Silverio... Nem imagino onde
param os ossos... Que lugubre historia!

Depois chegou a hora das luzes e do jantar. Eu encommendra pelo Grillo
ao nosso magistral cozinheiro uma larga travessa d'arroz dce, com as
iniciaes de Jacintho e a data ditosa em canella,  moda amavel da nossa
meiga terra. E o meu Principe  meza, percorrendo a lamina de marfim
onde no 202 se inscreviam os pratos a lapis vermelho, louvou com fervr
a ideia patriarchal:

--Arrz dce! Est escripto com dois _ss_, mas no tem dvida...
Excellente lembrana! Ha que tempos no cmo arrz dce!... Desde a
morte da av.

Mas quando o arrz dce appareceu triumphalmente, que vexme! Era um
prato monumental, de grande arte! O arrz, massio, moldado em frma de
pyramide do Egypto, emergia d'uma calda de cereja, e desapparecia sob os
fructos seccos que o revestiam at ao cimo, onde se equilibrava uma
cora de Conde feita de chocolate e gomos de tangerina gelada! E as
iniciaes, a data, to lindas e graves na canella ingenua, vinham
traadas nas bordas da travessa com violetas pralinadas! Repellimos,
n'um mudo horror, o prato acanalhado. E Jacintho, erguendo o copo de
Champagne, murmurou como n'um funeral pago:

--_Ad Manes_, aos nossos mortos!

Recolhemos  Bibliotheca, a tomar o caf no conchego e alegria do lume.
Fra, o vento bramava como n'um rmo serrano: e as vidraas tremiam,
alagadas, sob as bategas da chuva irada. Que dolorosa noite para os dez
mil pobres que em Paris erram sem po e sem lar! Na minha aldeia, entre
crro e valle, talvez assim rugisse a tormenta. Mas ahi cada pobre, sob
o abrigo da sua telha v, com a sua panella atestada de couves, se
agacha no seu manto ao calor da lareira. E para os que no tenham lenha
ou couve, l est o Joo das Quintas, ou a tia Vicencia, ou o abbade,
que conhecem todos os pobres pelos seus nomes, e com elles contam, como
sendo dos seus, quando o carro vae ao matto e a fornada entra no frno.
Ah Portugal pequenino, que ainda s dce aos pequeninos!

Suspirei, Jacintho preguiava. E terminamos por remexer languidamente os
jornaes que o mordomo trouxera, n'um monte facundo, sobre uma salva de
prata--jornaes de Paris, jornaes de Londres, Semanarios, Magazines,
Revistas, Illustraes... Jacintho desdobrava, arremessava: das Revistas
espreitava o summario, logo farto; s Illustraes rasgava as folhas com
o dedo indifferente, bocejando por cima das gravuras. Depois, mais
estirado para o lume:

-- uma scca... No ha que lr.

E de repente, revoltado contra este fastio oppressor que o escravisava,
saltou da poltrona com um arranque de quem despedaa algemas, e ficou
erecto, dardejando em torno um olhar imperativo e duro, como se
intimasse aquelle seu 202, to abarrotado de Civilisao, a que por um
momento sequer fornecesse  sua alma um interesse vivo,  sua vida um
fugitivo gsto! Mas o 202 permaneceu insensivel: nem uma luz, para o
animar, avivou o seu brilho mudo: s as vidraas tremeram sob o embate
mais rude de agua e vento.

Ento o meu Principe, succumbido, arrastou os passos at ao seu
gabinete, comeou a percorrer todos os apparelhos completadores e
facilitadores da Vida--o seu Telegrapho, o seu Telephone, o seu
Phonographo, o seu Radiometro, o seu Graphophono, o seu Microphono, a
sua Machina d'Escrever, a sua Machina de Contar, a sua Imprensa
Electrica, a outra Magnetica, todos os seus utensilios, todos os seus
tubos, todos os seus fios... Assim um Supplicante percorre altares
d'onde espera soccorro. E toda a sua sumptuosa Mechanica se conservou
rigida, reluzindo frigidamente, sem que uma roda girasse, nem uma lamina
vibrasse, para entreter o seu Senhor.

S o relogio monumental, que marcava a hora de todas as capitaes e o
curso de todos os planetas, se compadeceu, batendo a meia-noite,
annunciando ao meu amigo que mais um Dia partira levando o seu
pzo--diminuindo esse sombrio pzo da Vida, sob que elle gemia, vergado.
O Principe da Gran-Ventura, ento, decidiu recolher para a cama--com um
livro... E durante um momento, estacou no meio da Bibliotheca,
considerando os seus setenta mil volumes estabelecidos com pompa e
magestade como Doutores n'um Concilio--depois as pilhas tumultuarias dos
livros novos que esperavam pelos cantos, sobre o tapete, o repouso e a
consagrao das estantes d'ebano. Torcendo mollemente o bigode caminhou
por fim para a regio dos Historiadores: espreitou seculos, farejou
raas: pareceu attrahido pelo explendor do Imperio Byzantino: penetrou
na Revoluo Franceza d'onde se arredou desencantado: e palpou com mo
indeliberada toda a vasta Grecia desde a creao de Athenas at a
aniquilao de Corintho. Mas bruscamente virou para a fila dos Poetas,
que reluziam em marroquins claros, mostrando, sobre a lombada, em ouro,
nos titulos fortes ou languidos, o interior das suas almas. No
appeteceu nenhuma d'essas seis mil almas--e recuou, desconsolado, at
aos Biologos... To massia e cerrada era a estante de Biologia que o
meu pobre Jacintho estarreceu, como ante uma cidadella inaccessivel!
Rolou a escada--e, fugindo, trepou, at s alturas da Astronomia:
destacou astros, recollocou mundos: todo um Systema Solar desabou com
fragor. Aturdido, desceu, comeou a procurar por sobre as rimas das
obras novas, ainda brochadas, nas suas roupas leves de combate.
Apanhava, folheava, arremessava: para desentulhar um volume, demolia uma
torre de doutrinas: saltava por cima dos Problemas, pisava as Religies:
e relanceando uma linha, esgravatando alm n'um indice, todos
interrogava, de todos se desinteressava, rolando quasi de rastos, nas
grossas vagas de tomos que rolavam, sem se poder deter, na ancia de
encontrar um Livro! Parou ento no meio da immensa nave, de cocoras, sem
coragem, contemplando aquelles muros todos forrados, aquelle cho todo
alastrado, os seus setenta mil volumes--e, sem lhes provar a substancia,
j absolutamente saciado, abarrotado, nauseado pela opresso da sua
abundancia. Findou por voltar ao monto de jornaes amarrotados, ergueu
melancholicamente um velho _Diario de Noticias_, e com elle debaixo do
brao subiu ao seu quarto, para dormir, para esquecer.




VIII


Ao fim d'esse inverno escuro e pessimista, uma manh que eu preguiava
na cama, sentindo atravs da vidraa cheia de sol ainda pallido um bafo
de Primavera ainda timido--Jacintho assomou  porta do meu quarto,
revestido de flanellas leves, d'uma alvura de aucena. Parou lentamente
 beira dos colxes, e, com gravidade, como se annunciasse o seu
casamento ou a sua morte, deixou desabar sobre mim esta declarao
formidavel:

--Z Fernandes, vou partir para Tormes.

O pulo com que me sentei abalou o rijo leito de pau preto do velho D.
Galio:

--Para Tormes? Oh Jacintho, quem assassinaste?...

Deleitado com a minha emoo, o Principe da Gran Ventura tirou da
algibeira uma carta, e encetou estas linhas, j decerto relidas,
fundamente estudadas:

--Ill.^{mo} e exc.^{mo} snr.--Tenho grande satisfao em communicar a
v. exc.^a que por toda esta semana devem ficar promptas as obras da
capella...

-- do Silverio? exclamei.

-- do Silverio. ...as obras da capella nova. Os venerandos restos dos
excelsos avs de v. exc.^a, senhores de todo o meu respeito, podem pois
ser em breve trasladados da egreja de S. Jos, onde tm estado
depositados por bondade do nosso Abbade, que muito se recommenda a v.
exc.^a... Submisso, aguardo as prestantes ordens de v. exc.^a a respeito
d'esta magestosa e afflictiva ceremonia...

Atirei os braos, comprehendendo:

--Ah! bem! Queres ir assistir  trasladao...

Jacintho sumiu a carta no bolso.

--Pois no te parece, Z Fernandes? No  por causa dos outros avs, que
so ossos vagos, e que eu no conheci.  por causa do av Galio...
Tambem no o conheci. Mas este 202 est cheio d'elle; tu ests deitado
na cama d'elle; eu ainda uso o relogio d'elle. No posso abandonar ao
Silverio e aos caseiros o cuidado de o installarem no seu jazigo novo.
Ha aqui um escrupulo de decencia, de elegancia moral... Emfim, decidi.
Apertei os punhos na cabea, e gritei--_vou a Tormes_! E vou!... E tu
vens!

Eu enfiara as chinellas, apertava os cordes do roupo:

--Mas tu sabes, meu bom Jacintho, que a casa de Tormes est
inhabitavel...

Elle cravou em mim os olhos aterrados.

--Medonha, hein?

--Medonha, medonha, no...  uma bella casa, de bella pedra. Mas os
caseiros, que l vivem ha trinta annos, dormem em catres, comem o caldo
 lareira, e usam as salas para seccar o milho. Creio que os unicos
moveis de Tormes, se bem recordo, so um armario, e uma espinetta de
charo, cxa, j sem teclas.

O meu pobre Principe suspirou, com um gesto rendido em que se abandonava
ao Destino:

--Acabou!... _Alea jact est!_ E como s partimos para abril, ha tempo de
pintar, d'assoalhar, d'envidraar... Mando d'aqui de Paris tapetes e
camas... Um estofador de Lisboa vae depois forrar e disfarar algum
buraco... Levamos livros, uma machina para fabricar gelo... E  mesmo
uma occasio de pr emfim n'uma das minhas casas de Portugal alguma
decencia e ordem. Pois no achas? E ento essa! Uma casa que data de
1410... Ainda existia o Imperio Byzantino!

Eu espalhava, com o pincel, sobre a face, flocos lentos de sabo. O meu
Principe accendeu muito pensativamente um cigarro; e no se arredou do
toucador, considerando o meu preparo com uma atteno triste que me
incommodava. Por fim, como se remoesse uma sentena minha, para lhe
reter bem a moral e o succo:

--Ento, definitivamente, Z Fernandes, entendes que  um dever, um
absoluto dever, ir eu a Tormes?

Afastei do espelho a cara ensaboada para encarar com divertido espanto o
meu Principe:

--Oh Jacintho! foi em ti, s em ti que nasceu a ideia d'esse dever! E
honra te seja, menino... No cedas a ninguem essa honra!

Elle atirou o cigarro--e, com as mos enterradas nas algibeiras das
pantalonas, vagou pelo quarto, topando nas cadeiras, embicando contra os
postes torneados do velho leito de D. Galio, n'um balano vago, como
barco j desamarrado do seu seguro ancoradouro, e sem rumo no mar
incerto. Depois encalhou sobre a mesa onde eu conservava enfileirada,
por gradaes de sentimentos, desde o dagarreotypo do pap at 
photographia do _Carocho_ perdigueiro, a galeria da minha Familia.

E nunca o meu Principe (que eu contemplava esticando os suspensorios) me
pareceu to corcovado, to minguado, como gasto por uma lima que desde
muito o andasse fundamente limando. Assim viera findar, desfeita em
Civilisao, n'aquelle super-requintado magricellas sem musculo e sem
energia, a raa fortissima dos Jacinthos! Esses guedelhudos Jacinthes,
que nas suas altas terras de Tormes, de volta de bater o moiro no Salado
ou o castelhano em Valverde, nem mesmo despiam as fuscas armaduras para
lavrar as suas chans e amarrar a vide ao olmo, edificando o Reino com a
lana e com a enxada, ambas to rudes e rijas! E agora, alli estava
aquelle ultimo Jacintho, um Jacinthiculo, com a macia pelle embebida em
aromas, a curta alma enrodilhada em Philosophias, travado e suspirando
baixinho na miuda indeciso de viver.

--Oh Z Fernandes, quem  esta lavradeirona to rechonchuda?

Estendi o pescoo para a Photographia que elle erguera d'entre a minha
galeria, no seu honroso caixilho de pellucia escarlate:

--Mais respeito, Snr. D. Jacintho... Um pouco mais de respeito,
cavalheiro!...  minha prima Joanninha, de Sandofim, da Casa da Flr da
Malva.

--Flr da Malva, murmurou o meu Principe.  a casa do Condestavel, de
Nun'alvares.

--Flr da Rosa, homem! A casa do Condestavel era na Flr da Rosa, no
Alemtejo... Essa tua ignorancia trapalhona das coisas de Portugal!

O meu Principe deixou escorregar mollemente a photographia da minha
prima d'entre os dedos molles--que levou  face, no seu gesto horrendo
de palpar atravez da face a caveira. Depois, de repente, com um soberbo
esforo, em que se endireitou e cresceu:

--Bem! _Alea jacta est!_ Partamos pois para as serras!... E agora nem
reflexo, nem descano!...  obra! E a caminho!

Atirou a mo ao fecho dourado da porta como se fosse o negro loquete que
abre os Destinos--e no corredor gritou pelo Grillo, com uma larga e
aodada voz que eu nunca lhe conhecera, e me lembrou a d'um Chefe
ordenando, n'alvorada, que se levante o Acampamento, e que a Hoste
marche, com pendes e bagagens...

Logo n'essa manh (com uma actividade em que eu reconheci a pressa
enjoada de quem bebe oleo-de-ricino), escreveu ao Silverio mandando
caiar, assoalhar, envidraar o casaro. E depois do almoo appareceu na
Bibliotheca, chamado violentamente pelo telephone, para combinar a
remessa de mobilias e confortos, o director da _Companhia Universal de
Transportes_.

Era um homem que parecia o cartaz da sua Companhia, apertado n'um
jaqueto de xadrezinho escuro, com polainas de jornada sobre botas
brancas, uma sacola de marroquim a tiracolo, e na botoeira uma roseta
multicor resumindo as suas condecoraes exoticas de Madagascar, de
Nicaragua, da Persia, outras ainda, que provavam a universalidade dos
seus servios. Apenas Jacintho mencionou Tormes, no Douro...--elle
logo, atravez d'um sorriso superior, estendeu o brao, detendo outros
esclarecimentos, na sua intimidade minuciosa com essas regies.

--Tormes... Perfeitamente! Perfeitamente!

Sobre o joelho, na carteira, escrevinhou uma fugidia nota--emquanto eu
considerava, assombrado, a vastido do seu saber Chorographico, assim
familiar com os recantos d'uma serra de Portugal e com todos os seus
velhos solares. J elle atirra a carteira para o bolso... E ns, seus
caros senhores, no tinhamos seno a encaixotar as roupas, as mobilias,
as preciosidades! Elle mandaria as suas carroas buscar os caixotes, a
que poria, em grossa letra, com grossa tinta, o endereo...

--Tormes, perfeitamente! Linha Norte-Hespanha-Medina-Salamanca...
Perfeitamente! Tormes... Muito pittoresco! E antigo, historico!
Perfeitamente, perfeitamente!

Desengonou a cabea n'uma venia profundissima--e sahiu da Bibliotheca,
com passos que devoravam leguas, annunciavam a presteza dos seus
Transportes.

--V tu, murmurou Jacintho muito serio. Que promptido, que
facilidade!... Em Portugal era uma tragedia. No ha seno Paris!

Comeou ento no 202 o collossal encaixotamento de todos os confortos
necessarios ao meu Principe para um mez de serra aspera--camas de penna,
banheiras de nickel, lampadas Carcel, divans profundos, cortinas para
vedar as gretas rudes, tapetes para amaciar os soalhos broncos. Os
sotos, onde se arrecadavam os pesados trastes do av Galio, foram
esvasiados--porque o casaro medieval de 1410 comportava os trems
romanticos de 1830. De todos os armazens de Paris chegavam cada manh
fardos, caixas, temerosos embrulhos que os emmaladores desfaziam,
atulhando os corredores de montes de palha e de papel pardo, onde os
nossos passos aodados se enrodilhavam. O cozinheiro, esbaforido,
organisava a remessa de fornalhas, geleiras, bocaes de trufas, latas de
conservas, bojudas garrafas de aguas mineraes. Jacintho, lembrando as
trovoadas da serra, comprou um immenso pra-raios. Desde o amanhecer,
nos pateos, no jardim, se martellava, se pregava, com vasto fragor, como
na construco d'uma cidade. E o desfilar das bagagens, atravs do
porto, lembrava uma pagina de Herodoto contando a marcha dos Persas.

Das janellas, Jacintho com o brao estendido, saboreava aquella
actividade e aquella disciplina:

--V tu, Z Fernandes, que facilidade!... Sahimos do 202, chegamos 
serra, encontramos o 202. No ha seno Paris!

Recomera a amar a Cidade, o meu Principe, emquanto preparava o seu
Exodo. Depois de ter, toda a manh, apressado os encaixotadores,
descortinado confortos novos para o abandonado solar, telephonado gordas
listas de encommendas a cada loja de Paris--era com delicia que se
vestia, se perfumava, se floria, se enterrava na vittoria ou saltava
para a almofada do phaeton, e corria ao Bosque, e saudava a barba
talmudica do Ephraim, e os bands furiosamente negros da Verghane, e o
Psychologo de fiacre, e a condessa de Trves na sua nova caleche de
oito-molas fornecida pelas operaes conjunctas da Bolsa e da alcva.
Depois arrebanhava amigos para jantares de surpreza no Voisin ou no
Bignon, onde desdobrava o guardanapo com a impaciencia d'uma fome
alegre, vigiando fervorosamente que os Bordeus estivessem bem aquecidos
e os Champagnes bem granitados. E no theatro das _Nouveauts_, no
_Palais Royal_, nos _Buffos_, ria, batendo na cxa, com encanecidas
facecias d'encanecidas faras, antiquissimos tregeitos d'antiquissimos
actores, com que j rira na sua infancia, antes da guerra, sob o segundo
Napoleo!

De novo, em duas semanas, se abarrotaram as paginas da sua Agenda. A
magnificencia do seu trage, como imperador Frederico II de Suabia,
deslumbrou, no baile mascarado da Princesa de Cravon-Rogan (onde tambem
fui, de moo de forcado.) E na _Associao para o Desenvolvimento das
Religies Esotericas_ discursou e batalhou bravamente pela construco
d'um Templo Budhista em Montmartre!

Com espanto meu recomeou tambem a conversar, como nos tempos de Escla,
da famosa Civilisao nas suas maximas propores. Mandou encaixotar o
seu velho telescopio para o usar em Tormes. Receei mesmo que no seu
espirito germinasse a ida de crear, no cimo da serra, uma Cidade com
todos os seus orgos. Pelo menos no consentia o meu Jacintho que essas
semanas da silvestre Tormes interrompessem a illimitada accumulao das
noes--porque uma manh rompeu pelo meu quarto, desolado, gritando que
entre tantos confortos e frmas de Civilisao esqueceramos os livros!
Assim era--e que vexame para a nossa Intellectualidade! Mas que livros
escolher entre os facundos milhares sob que vergava o 202? O meu
Principe decidiu logo dedicar os seus dias serranos ao estudo da
Historia Natural--e ns mesmos, immediatamente, deitamos para o fundo
d'um vasto caixote novo, como lastro, os vinte e cinco tomos de Plinio.
Despejamos depois para dentro, s braadas, Geologia, Mineralogia,
Botanica... Espalhamos por cima uma camada aeria de Astronomia. E, para
fixar bem no caixote estas Sciencias oscillantes, entalamos em redor
cunhas de Metaphysica.

Mas quando a derradeira caixa, pregada e cintada de ferro, sahiu do
porto do 202 na derradeira carroa da _Companhia dos Transportes_, toda
esta animao de Jacintho se abateu como a efervescencia n'um copo de
Champagne. Era em meados j tepidos de Maro. E de novo os seus
desagradaveis bocejos atroaram o 202, e todos os sophs rangeram sob o
peso do corpo que elle lhe atirava para cima, mortalmente vencido pela
fartura e pelo tedio, n'um desejo de repouso eterno, bem envolto de
solido e silencio. Desesperei. O que! Aturaria eu ainda aquelle
Principe palpando amargamente a caveira, e, quando o crepusculo
entristecia a Bibliotheca, alludindo, n'um tom rouco,  doura das
mortes rapidas pela violencia misericordiosa do acido cyanhidrico? Ah
no, caramba! E uma tarde em que o encontrei estirado sobre um divan, de
braos em cruz, como se fosse a sua estatua de marmore sobre o seu
jazigo de granito, positivamente o abanei com furor, berrando:

--Accorda, homem! Vamos para Tormes! O casaro deve estar prompto, a
reluzir, a abarrotar de cousas! Os ossos de teus avs pedem repouso, em
cova sua!... A caminho, a enterrar esses mortos, e a vivermos ns, os
vivos!... Irra! So cinco de Abril!...  o bom tempo da serra!

O meu Principe resurgiu lentamente da inercia de pedra:

--O Silverio no me escreveu, nunca me escreveu... Mas, com effeito,
deve estar tudo preparado... J l temos certamente creados, o
cosinheiro de Lisboa... Eu s levo o Grillo, e o Anatole que envernisa
bem o calado, e tem geito como pedicuro... Hoje  Domingo.

Atirou os ps para o tapete, com heroismo:

--Bem, partimos no Sabbado!... Avisa tu o Silverio!

Comeou ento o laborioso e pensativo estudo dos Horarios--e o dedo
magro de Jacintho, por sobre o mappa, avanando e recuando entre Paris e
Tormes. Para escolher o salo que deviamos habitar durante a temida
jornada, duas vezes percorremos o deposito da Estao d'Orleans,
atolados em lama, atraz do Chefe do Trafico que entontecia. O meu
Principe recusava este salo por causa da cr tristonha dos estofos;
depois recusava aquelle por causa da mesquinhez afflictiva do
Water-Closet! Uma das suas inquietaes era o banho, nas manhs que
passariamos rolando. Suggeri uma banheira de borracha. Jacintho,
indeciso, suspirava... Mas nada o aterrou como o trasbordo em Medina del
Campo, de noite, nas trevas da Velha Castella. Debalde a Companhia do
Norte de Hespanha e a de Salamanca, por cartas, por telegrammas,
socegaram o meu camarada, affirmando que, quando elle chegasse no
comboio de Irun dentro do seu salo, j outro salo ligado ao comboio de
Portugal esperaria, bem aquecido, bem allumiado, com uma ceia que lhe
offertava um dos Directores, D. Esteban Castillo, ruidoso e rubicundo
conviva do 202! Jacintho corra os dedos anciosos pela face:--E os
saccos, as pelles, os livros, quem os transportaria do salo de Irun
para o salo de Salamanca? Eu berrava, desesperado, que os carregadores
de Medina eram os mais rapidos, os mais destros de toda a Europa! Elle
murmurava:--Pois sim, mas em Hespanha, de noite!... A noite, longe da
Cidade, sem telephone, sem luz electrica, sem postos de policia, parecia
ao meu Principe povoada de surprezas e assaltos. S acalmou depois de
verificar no Observatorio Astronomico, sob a garantia do sabio professor
Bertrand, que a noite da nossa jornada era de lua cheia!

Emfim, na sexta-feira, findou a tremenda organisao d'aquella viagem
historica! O sabbado predestinado amanheceu com generoso sol, de
affagadora doura. E eu acabava de guardar na mala, embrulhadas em papel
pardo, as photographias das creaturinhas suaves que, n'esses vinte e
sete mezes de Paris, me tinham chamado _mon petit chou! mon rat
cheri!_--quando Jacintho rompeu pelo quarto, com um soberbo ramo de
orchideas na sobrecasaca, pallido e todo nervoso.

--Vamos ao Bosque, por despedida?

Fomos-- grande despedida! E que encanto! At nas almofadas e molas da
vittoria senti logo uma elasticidade mais emballadora. Depois, pela
Avenida do Bosque, quasi me pezava no ficar sempiternamente rolando, ao
trote rimado das eguas perfeitas, no rebrilho rico de metaes e vernizes,
sobre aquelle macadam mais alisado que marmore, entre to bem regadas
flres e relvas de to tentadora frescura, cruzando uma Humanidade fina,
de elegancia bem acabada, que almora o seu chocolate em porcellanas de
Sevres ou de Minton, sahira d'entre sdas e tapetes de tres mil francos,
e respirava a belleza de Abril com vagar, requinte e pensamentos
ligeiros! O Bosque resplandecia n'uma harmonia de verde, azul e ouro.
Nenhuma cova ou terra solta desalisava as polidas alleas que a Arte
traou e enroscou na espessura--nenhum esgalho desgrenhado desmanchava
as ondulaes macias da folhagem que o Estado escva e lava. O piar das
aves apenas se elevava para espalhar uma graa leve de vida alada;--e
mais natural parecia, entre o arvoredo sociavel, o ranger das sellas
novas, onde pousavam, com balano esbelto, as amazonas espartilhadas
pelo grande Redfern. Em frente ao Pavilho de Armenonville cruzamos
Madame de Trves, que nos envolveu ambos na caricia do seu sorriso, mais
avivado quella hora pelo vermelho ainda humido. Logo atraz a barba
talmudica de Ephraim negrejou, fresca tambem da brilhantine da manh, no
alto d'um phaeton tilintante. Outros amigos de Jacintho circulavam nas
Acacias--e as mos que lhe acenavam, lentas e affaveis, calavam luvas
frescas cr de palha, cr de perola, cr de lilaz. Todelle relampejou
rente de ns sobre uma grande bycicleta. Dornan, alastrado n'uma cadeira
de ferro, sob um espinheiro em flr, mamava o seu immenso charuto, como
perdido na busca de rimas sensuaes e nedias. Adeante foi o Psychologo,
que nos no avistou, conversando com um requebro melancolico para dentro
d'um coup que rescendia a alcova, e a que um cocheiro obeso imprimia
dignidade e decencia. E rolavamos ainda, quando o Duque de Marizac, a
cavallo, ergueu a bengala, estacou a nossa vittoria para perguntar a
Jacintho se apparecia  noite nos quadros vivos dos Verghanes. O meu
Principe rosnou um--no, parto para o sul...--que mal lhe passou
d'entre os bigodes murchos... E Marizac lamentou--porque era uma festa
estupenda. Quadros vivos da Historia Sagrada e da Historia Romana!...
Madame Verghane, de Magdalena, de braos ns, peitos ns, pernas nas,
limpando com os cabellos os ps do Christo!--O Christo, um latago
soberbo, parente dos Trves, empregado no Ministerio da Guerra, gemendo,
derreado, sob uma cruz de papelo! Havia tambem Lucrecia na cama, e
Tarquinio ao lado, de punhal, a puxar os lenoes! E depois ceia, em
mezas soltas, todos nos seus trajes historicos. Elle j estava
aparceirado com Madame de Malbe, que era Agrippina! Quadro portentoso
esse--Agrippina morta, quando Nero a vem contemplar e lhe estuda as
frmas, admirando umas, desdenhando outras como imperfeitas. Mas, por
polidez, ficra combinado que Nero admiraria sem reserva todas as frmas
de Madame de Malbe... Emfim collossal, e estupendamente instructivo!

Acenamos um longo adeus quelle alegre Marizac. E recolhemos sem que
Jacintho emergisse do silencio enrugado em que se abysmra, com os
braos rigidamente cruzados, como remoendo pensamentos decisivos e
fortes. Depois, em frente ao Arco de Triumpho, moveu a cabea, murmurou:

-- muito grave, deixar a Europa!

       *       *       *       *       *

Emfim, partimos! Sob a doura do crepusculo que se enublra deixamos o
202. O Grillo e o Anatole seguiam n'um fiacre atulhado de livros, de
estojos, de paletots, de impermeaveis, de travesseiras, de agoas
mineraes, de saccos de couro, de rolos de mantas: e mais atraz um
omnibus rangia sob a carga de vinte e tres malas. Na Estao, Jacintho
ainda comprou todos os Jornaes, todas as Illustraes, Horarios, mais
livros, e um saca-rolhas de frma complicada e hostil. Guiados pelo
Chefe do Trafico, pelo Secretario da Companhia, occupamos copiosamente o
nosso salo. Eu puz o meu bonet de sda, calcei as minhas chinellas. Um
silvo varou a noite. Paris lampejou, fugiu n'um derradeiro claro de
janellas... Para o sorver, Jacintho ainda se arremessou  portinhola.
Mas rolavamos j na treva da Provincia. O meu Principe ento recahiu nas
almofadas:

--Que aventura, Z Fernandes!

At Chartres, em silencio, folheamos as Illustraes. Em Orleans, o
guarda veio arranjar respeitosamente as nossas camas. Derreado com
aquelles quatorze mezes de Civilisao adormeci--e s acordei em Bordeus
quando Grillo, zeloso, nos trouxe o nosso chocolate. Fra, uma chuva
miudinha pingava mollemente d'um espesso ceu de algodo sujo. Jacintho
no se deitra, desconfiado da aspereza e da humidade dos lenoes. E,
mettido n'um roupo de flanella branco, com a face arripiada e
estremunhada, ensopando um bolo no chocolate, rosnava sombriamente:

--Este horror!... E agora com chuva!

Em Biarritz, ambos observamos com uma certeza indolente:

-- Biarritz.

Depois Jacintho, que espreitava pela janella embaciada, reconheceu o
lento caminhar pernalto, o nariz bicudo e triste, do Historiador Danjon.
Era elle, o facundo homem, vestido de xadrezinho, ao lado d'uma dama
rolia que levava pela trella uma cadellinha felpuda. Jacintho baixou a
vidraa violentamente, berrou pelo Historiador, na ancia de communicar
ainda, atravs d'elle, com a Cidade, com o 202!... Mas o comboio
mergulhra na chuva e nevoa.

Sobre a ponte do Bidassoa, antevendo o termo da vida facil, os abrolhos
da Incivilisao, Jacintho suspirou com desalento:

--Agora adeus, comea a Hespanha!...

Indignado, eu, que j saboreava o generoso ar da terra bemdita, saltei
para diante do meu Principe, e n'um saracoteio de tremendo salero,
castanholando os dedos, entoei uma petenera condigna:

A la puerta de mi casa
Ay Soledad, Soleda... ... ... .

Elle estendeu os braos, supplicante:

--Z Fernandes, tem piedade do enfermo e do triste!

--_Irun_! _Irun_!...

N'essa Irun almoamos com succulencia--por que sobre ns velava, como
Deusa omnipresente, a Companhia do Norte. Depois el jefe d'Aduana, el
jefe d'Estacion, preciosamente nos installaram n'outro salo, novo, com
setins cr d'azeitona, mas to pequeno que uma rica poro dos nossos
confortos em mantas, livros, saccos e impermeaveis, passou para o
compartimento do _Sleeping_ onde se repoltreavam o Grillo e o Anatole,
ambos de bonets escocezes, e fumando gordos charutos.--_Buen viaje_!
_Gracias_! _Servidores_!--E entramos silvando nos Pyreneos.

Sob a influencia da chuva embaciadora, d'aquellas serras sempre eguaes,
que se desenrolavam, arripiadas, diluidas na nevoa, resvalei a uma
somnolencia dce;--e, quando descerrava as palpebras, encontrava
Jacintho a um canto, esquecido do livro fechado nos joelhos, sobre que
cruzra os magros dedos, considerando valles e montes com a melancolia
de quem penetra nas terras do seu desterro! Um momento veio em que,
arremessando o livro, enterrando mais o chapo molle, se ergueu com
tanta deciso, que receei detivesse o comboio para saltar  estrada,
correr atravez das Vascongadas e da Navarra, para traz, para o 202!
Sacudi o meu torpr, exclamei:--oh menino!... No! O pobre amigo ia
apenas continuar o seu tedio para outro canto, enterrado n'outra
almofada, com outro livro fechado. E  maneira que a escurido da tarde
crescia, e com ella a borrasca de vento e agoa, uma inquietao mais
aterrada se apoderava do meu Principe, assim desgarrado da Civilisao,
arrastado para a Natureza que j o cercava de brutalidade agreste. No
cessou ento de me interrogar sobre Tormes:

--As noites so horriveis, hein, Z Fernandes? Tudo negro, enorme
solido... E medico?... Ha medico?

Subitamente o comboio estacou. Mais grossa e ruidosa a chuva fustigou as
vidraas. Era um descampado, todo em treva, onde rolava e lufava um
grande vento solto. A machina apitava, com angustia. Uma lanterna
lampejou, correndo. Jacintho batia o p:-- medonho!  medonho!...
Entreabri a portinhola. Da claridade incerta das vidraas surdiam
cabeas esticadas, assustadas.--_Que hay_? _Que hay_?--A uma rajada,
que me alagou, recuei:--e esperamos durante lentos, calados minutos,
esfregando desesperadamente os vidros embaciados para sondar a
escurido. De repente o comboio recomeou a rolar, muito sereno.

Em breve appareceram as luzinhas mortas d'uma estao abarracada. Um
conductor, com o casaco de oleado todo a escorrer, trepou ao salo:--e
por elle soubemos, emquanto carimbava apressadamente os bilhetes, que o
trem, muito atrazado, talvez no alcanasse em Medina o comboio de
Salamanca!

--Mas ento?...

O casaco de oleado escorregra pela portinhola, fundido na noite,
deixando um cheiro de humidade e azeite. E ns encetamos um novo
tormento... Se o trem de Salamanca tivesse abalado? O salo, tomado at
Medina, desengatava em Medina:--e eis os nossos preciosos corpos, com as
nossas preciosas almas, despejados em Medina, para cima da lama, entre
vinte e trez malas, n'uma rude confuso hespanhola, sob a tormenta de
ventania e d'agua!

--Oh, Z Fernandes, uma noite em Medina!

Ao meu Principe apparecia como desventura suprema essa noite em Medina,
n'uma _fonda_ sordida, fedendo a alho, com gordas filas de percevejos
atravez dos lenoes d'estopa encardida!... No cessei ento de fitar,
n'um desassocego, os ponteiros do relogio:--emquanto Jacintho, pela
vidraa escancarada, todo fustigado da chuva clamorosa, furava a
negrura, na esperana de avistar as luzes de Medina e um comboio
paciente fumegando... Depois recahia no divan, limpava os bigodes e os
olhos, maldizia a Hespanha. O trem arquejava, rompendo o vasto vento da
planura desolada. E a cada apito era um alvoroo. Medina?... No! Algum
sumido apeadeiro, onde o trem se atardava, esfalfado, resfolgando,
emquanto dormentes figuras encarapuadas, embrulhadas em mantas,
rondavam sob o telheiro do barraco, que as lanternas baas tornavam
mais soturno. Jacintho esmurrava o joelho:--Mas por que pra este
infame comboio? No ha trafico, no ha gente! Oh esta Hespanha!... A
sineta badalava, moribunda. De novo fendiamos a noite e a borrasca.

Resignadamente comecei a percorrer um _Jornal do Commercio_, antigo,
trazido de Paris. Jacintho esmagava o espesso tapete do salo com
passadas rancorosas, rosnando como uma fera. E ainda assim se escoou, s
gottas, uma hora cheia de eternidade.--Um silvo, outro silvo!... Luzes
mais fortes, longe, palpitaram na neblina. As rodas trilharam, com rijos
solavancos, os encontros de carris. Emfim, Medina!... Um muro sujo de
barraco alvejou--e bruscamente,  portinhola aberta com violencia,
apparece um cavalheiro barbudo, de capa  hespanhola, gritando pelo snr.
D. Jacintho!... Depressa! depressa! que parte o comboio de Salamanca!

--Que no hay un momento, caballeros! Que no hay un momento!

Agarro estonteadamente o meu paletot, o _Jornal ao Commercio_. Saltamos
com ancia:--e, pela plataforma, por sobre os trilhos, atravs de
charcos, tropeando em fardos, empurrados pelo vento, pelo homem da capa
 hespanhola, enfiamos outra portinhola, que se fechou com um estalo
tremendo... Ambos arquejavamos. Era um salo forrado de um panno verde
que comia a luz escassa. E eu estendia o brao, para receber dos
carregadores aodados as nossas malas, os nossos livros, as nossas
mantas--quando, em silencio, sem um apito, o trem despegou e rolou.
Ambos nos atiramos s vidraas, em brados furiosos:

--Pare! As nossas malas, as nossas mantas!... P'ra aqui!... Oh Grillo!
Oh Grillo!

Uma immensa rajada levou os nossos brados. Era de novo o descampado
tenebroso, sob a chuva despenhada. Jacintho ergueu os punhos, n'um furor
que o engasgava:

--Oh! Que servio! Oh que canalhas!... S em Hespanha!... E agora? As
malas perdidas!... Nem uma camisa, nem uma escova!

Calmei o meu desgraado amigo:

--Escuta! eu entrevi dous carregadores arrebanhando as nossas cousas...
Decerto o Grillo fiscalisou. Mas na pressa, naturalmente, atirou com
tudo para o seu compartimento... Foi um erro no trazer o Grillo
comnosco, no salo... At podiamos jogar a manilha!

De resto a sollicitude da Companhia, Deusa omnipresente, velava sobre o
nosso conforto--pois que  porta do lavatorio branquejava o cesto da
nossa ceia, mostrando na tampa um bilhete de D. Esteban com estas doces
palavras a lapis--_ D. Jacintho y su egregio amigo, que les d gusto_!
Farejei um aroma de perdiz. E alguma tranquillidade nos penetrou no
corao sentindo tambem as nossas malas sob a tutella da Deusa
omnipresente.

--Tens fome Jacintho?

--No. Tenho horror, furor, rancor!... E tenho somno.

Com effeito! depois de to desencontradas emoes s appeteciamos as
camas que esperavam, macias e abertas. Quando cahi sobre a travesseira,
sem gravata, em ceroulas, j o meu Principe, que no se despira, apenas
embrulhra os ps no _meu_ paletot, nosso unico agasalho, resonava com
magestade.

Depois, muito tarde e muito longe, percebi junto do meu catre, na
claridadezinha da manh, coada pelas cortinas verdes, uma fardeta, um
bonet, que murmuravam baixinho com immensa doura:

--V. exc.^as no tem nada a declarar?... No ha malinhas de mo?...

Era a minha terra! Murmurei baixinho com immensa ternura:

--No temos aqui nada... Pergunte v. exc.^a pelo Grillo... Ahi atraz,
n'um compartimento... Elle tem as chaves, tem tudo...  o Grillo.

A fardeta desappareceu, sem rumor, como sombra benefica. E eu readormeci
com o pensamento em Guies, onde a tia Vicencia, atarefada, de leno
branco cruzado no peito, de certo j preparava o leito.

Acordei envolto n'um largo e doce silencio. Era uma Estao muito
socegada, muito varrida, com rosinhas brancas trepando pelas paredes--e
outras rosas em moitas, n'um jardim, onde um tanquesinho abafado de
limos dormia sob duas mimosas em flr que rescendiam. Um moo pallido,
de paletot cr de mel, vergando a bengalinha contra o cho, contemplava
pensativamente o comboio. Agachada rente  grade da horta, uma velha,
diante da sua cesta de ovos, contava moedas de cobre no regao. Sobre o
telhado seccavam aboboras. Por cima rebrilhava o profundo, rico e macio
azul de que meus olhos andavam agoados.

Sacudi violentamente Jacintho:

--Acorda, homem, que ests na tua terra!

Elle desembrulhou os ps do meu paletot, cofiou o bigode, e veio sem
pressa,  vidraa que eu abrira, conhecer a sua terra.

--Ento  Portugal, hein?... Cheira bem.

--Est claro que cheira bem, animal!

A sineta tilintou languidamente. E o comboio deslisou, com descano,
como se passeasse para seu regalo sobre as duas fitas d'ao, assobiando
e gozando a belleza da terra e do ceu.

O meu Principe alargava os braos, desolado:

--E nem uma camisa, nem uma escova, nem uma gotta d'agoa de Colonia!...
Entro em Portugal, immundo!

--Na Regoa ha uma demora, temos tempo de chamar o Grillo, rehaver os
nossos confortos... Olha para o rio!

Rolavamos na vertente d'uma serra, sobre penhascos que desabavam at
largos socalcos cultivados de vinhedo. Em baixo, n'uma esplanada,
branquejava uma casa nobre, de opulento repouso, com a capellinha muito
caiada entre um laranjal maduro. Pelo rio, onde a agoa turva e tarda nem
se quebrava contra as rochas, descia, com a vela cheia, um barco lento
carregado de pipas. Para alm, outros socalcos, d'um verde pallido de
rezeda, com oliveiras apoucadas pela amplido dos montes, subiam at
outras penedias que se embebiam, todas brancas e assoalhadas, na fina
abundancia do azul. Jacintho acariciava os pellos corredios do bigode:

--O Douro, hein?...  interessante, tem grandeza. Mas agora  que eu
estou com uma fome, Z Fernandes!

Tambem eu! Destapamos o cesto de D. Esteban d'onde surdiu um bodo
grandioso, de presunto, anho, perdizes, outras viandas frias que o ouro
de duas nobres garrafas d'Amontillado, alm de duas garrafas de Rioja,
aqueciam com um calor de sol Andaluz. Durante o presunto, Jacintho
lamentou contrictamente o seu erro. Ter deixado Tormes, um solar
historico, assim abandonado e vasio! Que delicia, por aquella manh to
lustrosa e tepida, subir  serra, encontrar a sua casa bem apetrechada,
bem civilisada... Para o animar, lembrei que com as obras do Silverio,
tantos caixotes de Civilisao remettidos de Paris, Tormes estaria
confortavel mesmo para Epicuro. Oh! mas Jacintho entendia um palacio
perfeito, um 202 no deserto!... E, assim discorrendo, atacamos as
perdizes. Eu desarrolhava uma garrafa de Amontillado--quando o comboio,
muito sorrateiramente, penetrou n'uma Estao. Era a Regoa. E o meu
Principe pousou logo a faca para chamar o Grillo, reclamar as malas que
traziam o aceio dos nossos corpos.

--Espera, Jacintho! Temos muito tempo, O comboio pra aqui uma hora...
Come com tranquillidade. No escangalhemos este almocinho com arrumaes
de maletas... O Grillo no tarda a apparecer.

E corri mesmo a cortina, porque de fra um padre muito alto, com uma
ponta de cigarro collada ao beio, parra a espreitar indiscretamente o
nosso festim. Mas quando acabamos as perdizes, e Jacintho confiadamente
desembrulhava um queijo manchego, sem que Grillo ou Anatole
comparecessem, eu, inquieto, corri  portinhola para apressar esses
servos tardios... E n'esse instante o comboio, largando, deslisou com o
mesmo silencio sorrateiro. Para o meu Principe foi um desgosto:

--Ahi ficamos outra vez sem um pente, sem uma escova... E eu que queria
mudar de camisa! Por culpa tua, Z-Fernandes!

-- espantoso!... Demora sempre uma eternidade. Hoje chega e abala!
Paciencia, Jacintho. Em duas horas estamos na Estao de Tormes...
Tambem no valia a pena mudar de camisa para subir  serra! Em casa
tomamos um banho, antes de jantar... J deve estar installada a
banheira.

Ambos nos consolamos com copinhos d'uma divina aguardente Chinchon.
Depois, estendidos nos sophs, saboreando os dois charutos que nos
restavam, com as vidraas abertas ao ar adoravel, conversamos de Tormes.
Na estao certamente estaria o Silverio, com os cavallos...

--Que tempo leva a subir?

Uma hora. Depois de lavados sobrava tempo para um demorado passeio pelas
terras com o caseiro, o excellente Melchior, para que o Senhor de
Tormes, solemnemente, tomasse posse do seu Senhorio. E  noite o
primeiro brodio da serra, com os piteus vernaculos do velho Portugal!

Jacintho sorria, seduzido:

--Vamos a ver que cozinheiro me arranjou esse Silverio. Eu recommendei
que fosse um soberbo cozinheiro portuguez, classico. Mas que soubesse
trufar um per, afogar um bife em molho de moella, estas cousas simples
da cozinha de Frana!... O peor  no te demorares, seguires logo para
Guies...

--Ah, menino, annos da tia Vicencia no sabbado... Dia sagrado! Mas
volto. Em duas semanas estou em Tormes, para fazermos uma larga
Bucolica. E, est claro, para assistir  trasladao.

Jacintho estendera o brao:

--Que casaro  aquelle, alm no outeiro, com a torre?

Eu no sabia. Algum solar de fidalgote do Douro... Tormes era n'esse
feitio atarracado e massio. Casa de seculos e para seculos--mas sem
torre.

--E logo se v, da estao, Tormes?...

--No! Muito no alto, n'uma prega da serra, entre arvoredo.

No meu Principe j evidentemente nascra uma curiosidade pela sua rude
casa ancestral. Mirava o relogio, impaciente. Ainda trinta minutos!
Depois, sorvendo o ar e a luz, murmurava, no primeiro encanto de
iniciado:

--Que doura, que paz...

--Trez horas e meia, estamos a chegar, Jacintho!

Guardei o meu velho _Jornal do Commercio_ dentro do bolso do paletot,
que deitei sobre o brao;--e ambos em p, s janellas, esperamos com
alvoroo a pequenina Estao de Tormes, termo ditoso das nossas
provaes. Ella appareceu emfim, clara e simples,  beira do rio, entre
rochas, com os seus vistosos girasoes enchendo um jardimsinho breve, as
duas altas figueiras assombreando o pateo, e por traz a serra coberta de
velho e denso arvoredo... Logo na plataforma avistei com gosto a immensa
barriga, as bochechas menineiras do chefe da Estao, o louro Pimenta,
meu condiscipulo em Rhetorica, no Lyceu de Braga. Os cavallos decerto
esperavam,  sombra, sob as figueiras.

Mal o trem parou ambos saltamos alegremente. A bojuda massa do Pimenta
rebolou para mim com amizade:

--Viva o amigo Z Fernandes!

--Oh bello Pimento!...

Apresentei o senhor de Tormes. E immediatamente:

--Ouve l, Pimentinha... No est ahi o Silverio?

--No... O Silverio ha quasi dois mezes que partiu para Castello de
Vide, vr a me que apanhou uma cornada d'um boi!

Atirei a Jacintho um olhar inquieto:

--Ora essa! E o Melchior, o caseiro?... Pois no esto ahi os cavallos
para subirmos  quinta?

O digno chefe ergueu com surpreza as sobrancelhas cr de milho:

--No!... Nem Melchior, nem cavallos... O Melchior... Ha que tempos eu
no vejo o Melchior!

O carregador badalou lentamente a sineta para o comboio rolar. Ento,
no avistando em torno, na lisa e despovoada Estao, nem creados nem
malas, o meu Principe e eu lanamos o mesmo grito de angustia:

--E o Grillo? as bagagens?...

Corremos pela beira do comboio, berrando com desespero:

--Grillo!... Oh Grillo!... Anatole!... Oh Grillo!

Na esperana que elle e o Anatole viessem mortalmente adormecidos,
trepavamos aos estribos, atirando a cabea para dentro dos
compartimentos, espavorindo a gente quieta com o mesmo berro que
retumbava:--Grillo, ests ahi, Grillo?--J d'uma terceira-classe, onde
uma viola repenicava, um jocoso gania, troando:--No ha por ahi um
grillo? Andam por ahi uns senhores a pedir um grillo!--E nem Anatole,
nem Grillo!

A sineta tilintou.

--Oh Pimentinha, espera, homem, no deixes largar o comboio!... As
nossas bagagens, homem!

E, afflicto, empurrei o enorme chefe para o forgo de carga, a
pesquizar, descortinar as nossas vinte e trez malas! Apenas encontramos
barris, cestos de vime, latas de azeite, um bah amarrado com cordas...
Jacintho mordia os beios, livido. E o Pimentinha, esgazeado:

--Oh filhos, eu no posso atrazar o comboio!...

A sineta repicou... E com um bello fumo claro o comboio desappareceu por
detraz das fragas altas. Tudo em torno pareceu mais calado e deserto.
Alli ficavamos pois baldeados, perdidos na serra, sem Grillo, sem
procurador, sem caseiro, sem cavallos, sem malas! Eu conservava o
paletot alvadio, d'onde surdia o _Jornal do Commercio_. Jacintho, uma
bengala. Eram todos os nossos bens!

O Pimento arregalava para ns os olhinhos papudos e compadecidos.
Contei ento quelle amigo o atarantado trasfgo em Medina sob a
borrasca, o Grillo desgarrado, encalhado com as vinte e trez malas, ou
rolando talvez para Madrid sem nos deixar um leno...

--Eu no tenho um leno!... Tenho este _Jornal do Commercio_.  toda a
minha roupa branca.

--Grande arrelia, caramba! murmurava o Pimenta, impressionado. E agora?

--Agora, exclamei,  trepar, para a quinta,  pata... A no ser que se
arranjassem ahi uns burros.

Ento o carregador lembrou que perto, no casal da Giesta, ainda
pertencente a Tormes, o caseiro, seu compadre, tinha uma boa egua e um
jumento... E o prestante homem enfiou n'uma carreira para a
Giesta--emquanto o meu Principe e eu cahiamos para cima d'um banco,
arquejantes e succumbidos, como naufragos. O vasto Pimentinha, com as
mos nas algibeiras, no cessava de nos contemplar, de murmurar:-- de
arrelia.--O rio defronte descia, preguioso e como adormentado sob a
calma j pesada de maio, abraando, sem um sussurro, uma larga ilhota de
pedra que rebrilhava. Para alm a serra crescia em corcovas doces, com
uma funda prega onde se aninhava, bem junta e esquecida do mundo, uma
villasinha clara. O espao immenso repousava n'um immenso silencio.
N'aquellas solides de monte e penedia os pardaes, revoando no telhado,
pareciam aves consideraveis. E a massa rotunda e rubicunda do Pimentinha
dominava, atulhava a regio.

--Est tudo arranjado, meu senhor! Vm ahi os bichos!... S o que no
calhou foi um selimsinho para a jumenta!

Era o carregador, digno homem, que voltava da Giesta, sacudindo na mo
duas esporas desirmanadas e ferrugentas. E no tardaram a apparecer no
corrego, para nos levarem a Tormes, uma egua rua, um jumento com
albarda, um rapaz e um podengo. Apertamos a mo suada e amiga do
Pimentinha. Eu cedi a egua ao senhor de Tormes. E comeamos a trepar o
caminho, que no se alisra nem se desbravra desde os tempos em que o
trilhavam, com rudes sapates ferrados, cortando de rio a monte, os
Jacinthos do seculo XIV! Logo depois de atravessarmos uma tremula ponte
de pau, sobre um riacho quebrado por pedregulhos, o meu Principe, com o
olho de dono subitamente aguado, notou a robustez e a fartura das
oliveiras...--E em breve os nossos males esqueceram ante a incomparavel
belleza d'aquella serra bemdita!

Com que brilho e inspirao copiosa a compozera o divino Artista que faz
as serras, e que tanto as cuidou, e to ricamente as dotou, n'este seu
Portugal bem-amado! A grandeza egualava a graa. Para os valles,
poderosamente cavados, desciam bandos de arvoredos, to copados e
redondos, d'um verde to mo que eram como um musgo macio onde
appetecia cahir e rolar. Dos pendores, sobranceiros ao carreiro fragoso,
largas ramadas estendiam o seu toldo amavel, a que o esvoaar leve dos
passaros sacudia a fragrancia. Atravez dos muros seculares, que sustem
as terras liados pelas heras, rompiam grossas raizes colleantes a que
mais hera se enroscava. Em todo o torro, de cada fenda, brotavam flres
silvestres. Brancas rochas, pelas encostas, alastravam a solida nudez do
seu ventre polido pelo vento e pelo sol; outras, vestidas de lichen e de
silvados floridos, avanavam como pras de galeras enfeitadas: e,
d'entre as que se apinhavam nos cimos, algum casebre que para l
galgra, todo amachucado e torto, espreitava pelos postigos negros, sob
as desgrenhadas farripas de verdura, que o vento lhe semera nas telhas.
Por toda a parte a agua sussurrante, a agua fecundante... Espertos
regatinhos fugiam, rindo com os seixos, d'entre as patas da egua e do
burro; grossos ribeiros aodados saltavam com fragor de pedra em pedra;
fios direitos e luzidios como cordas de prata vibravam e faiscavam das
alturas aos barrancos; e muita fonte, posta  beira de veredas, jorrava
por uma bica, beneficamente,  espera dos homens e dos gados... Todo um
cabeo por vezes era uma cera, onde um vasto carvalho ancestral,
solitario, dominava como seu senhor e seu guarda. Em socalcos verdejavam
laranjaes rescendentes. Caminhos de lages soltas circumdavam fartos
prados com carneiros e vaccas retouando:--ou mais estreitos, entalados
em muros, penetravam sob ramadas de parra espessa, n'uma penumbra de
repouso e frescura. Trepavamos ento alguma ruasinha de aldeia, dez ou
doze casebres, sumidos entre figueiras, onde se esgaava, fugindo do lar
pela telha v, o fumo branco e cheiroso das pinhas. Nos cerros remotos,
por cima da negrura pensativa dos pinheiraes, branquejavam ermidas. O ar
fino e puro entrava na alma, e n'alma espalhava alegria e fora. Um
esparso tilintar de chocalhos de guizos morria pelas quebradas...

Jacintho adiante, na sua egua rua, murmurava:

--Que belleza!

E eu atraz, no burro de Sancho, murmurava:

--Que belleza!

Frescos ramos roavam os nossos hombros com familiaridade e carinho. Por
traz das sebes, carregadas d'amoras, as macieiras estendidas offereciam
as suas mas verdes, porque as no tinham maduras. Todos os vidros
d'uma casa velha, com a sua cruz no topo, refulgiram hospitaleiramente
quando ns passamos. Muito tempo um melro nos seguia, de azinheiro a
olmo, assobiando os nossos louvores. Obrigado, irmo melro! Ramos de
macieira, obrigado! Aqui vimos, aqui vimos! E sempre comtigo fiquemos,
serra to acolhedora, serra de fartura e de paz, serra bemdita entre as
serras!

Assim, vagarosamente e maravilhados, chegamos quella avenida de faias,
que sempre me encantra pela sua fidalga gravidade. Atirando uma
vergastada ao burro e  egua, o nosso rapaz, com o seu podengo sobre os
calcanhares, gritou:--Aqui  que estmos, meus amos! E ao fundo das
faias, com effeito, apparecia o porto da quinta de Tormes, com o seu
brazo de armas, de secular granito, que o musgo retocava e mais
envelhecia. Dentro j os ces ladravam com furor. E quando Jacintho, na
sua suada egua, e eu atraz, no burro de Sancho, transpozemos o limiar
solarengo, desceu para ns, do alto do alpendre, pela escadaria de pedra
gasta, um homem nedio, rapado como um padre, sem collete, sem jaleca,
acalmando os ces que se encarniavam contra o meu Principe. Era o
Melchior, o caseiro... Apenas me reconheceu, toda a bocca se lhe
escancarou n'um riso hospitaleiro, a que faltavam dentes. Mas apenas eu
lhe revelei, d'aquelle cavalheiro de bigodes louros que descia da egua
esfregando os quadris, o senhor de Tormes--o bom Melchior recuou,
colhido de espanto e terror como diante d'uma avantesma.

--Ora essa!... Santissimo nome de Deus! Pois ento...

E, entre o rosnar dos ces, n'um bracejar desolado, balbuciou uma
historia que por seu turno apavorava Jacintho, como se o negro muro do
casaro pendesse para desabar. O Melchior no esperava s. ex.^a! Ninguem
esperava s. ex.^a!... (Elle dizia _sua incellencia_)... O snr. Silverio
estava para Castello de Vide desde maro, com a me, que apanhra uma
cornada na virilha. E de certo houvera engano, cartas perdidas... Porque
o snr. Silverio s contava com s. exc.^a em setembro, para a vindima! Na
casa as obras seguiam devagarinho, devagarinho... O telhado, no sul,
ainda continuava sem telhas; muitas vidraas esperavam, ainda sem
vidros; e, para ficar, Virgem Santa, nem uma cama arranjada!...

Jacintho cruzou os braos n'uma colera tumultuosa que o suffocava. Por
fim, com um berro:

--Mas os caixotes? Os caixotes, mandados de Paris, em fevereiro, ha
quatro mezes?...

O desgraado Melchior arregalava os olhos miudos, que se embaciavam de
lagrimas. Os caixotes?! Nada chegra, nada apparecera!... E na sua
perturbao mirava pelas arcadas do pateo, palpava na algibeira das
pantalonas. Os caixotes?... No, no tinha os caixotes!

--E agora, Z Fernandes?

Encolhi os hombros:

--Agora, meu filho, s vires commigo para Guies... Mas so duas horas
fartas a cavallo. E no temos cavallos! O melhor  vr o casaro, comer
a boa gallinha que o nosso amigo Melchior nos assa no espeto, dormir
n'uma enxerga, e manha cedo, antes do calor, trotar para cima, para a
tia Vicencia.

Jacintho replicou, com uma deciso furiosa:

--manh troto, mas para baixo, para a estao!... E depois, para
Lisboa!

E subiu a gasta escadaria do seu solar com amargura e rancor. Em cima
uma larga varanda acompanhava a fachada do casaro, sob um alpendre de
negras vigas, toda ornada, por entre os pilares de granito, com caixas
de pau onde floriam cravos. Colhi um cravo amarello---e penetrei atraz
de Jacintho nas salas nobres, que elle contemplava com um murmurio de
horror. Eram enormes, d'uma sonoridade de casa capitular, com os grossos
muros ennegrecidos pelo tempo e o abandono, e regeladas, desoladamente
nas, conservando apenas aos cantos algum monte de canastras ou alguma
enxada entre paus. Nos tectos remotos, de carvalho apainelado, luziam
atravs dos rasges manchas de co. As janellas, sem vidraas,
conservavam essas macissas portadas, com fechos para as trancas, que,
quando se cerram, espalham a treva. Sob os nossos passos, aqui e alm,
uma taboa pdre rangia e cedia.

--Inhabitavel! rugia Jacintho surdamente. Um horror! Uma infamia!...

Mas depois, n'outras salas, o soalho alternava com remendos de taboas
novas. Os mesmos remendos claros mosqueavam os velhissimos tectos de
rico carvalho sombrio. As paredes repelliam pela alvura cra da cal
fresca. E o sol mal atravessava as vidraas--embaciadas e gordurentas da
massa e das mos dos vidraceiros.

Penetramos emfim na ultima, a mais vasta, rasgada por seis janellas,
mobilada com um armario e com uma enxerga parda e curta estirada a um
canto: e junto d'ella paramos, e sobre ella depuzemos tristemente o que
nos restava de vinte e trez malas--o meu paletot alvadio, a bengala de
Jacintho, e o _Jornal do Commercio_ que nos era commum. Atravs das
janellas escancaradas, sem vidraas, o grande ar da serra entrava e
circulava como n'um eirado, com um cheiro fresco d'horta regada. Mas o
que avistavamos, da beira da enxerga, era um pinheiral cobrindo um
cabeo e descendo pelo pendor suave,  maneira d'uma hoste em marcha,
com pinheiros na frente, destacados, direitos, emplumados de negro; mais
longe as serras d'alm rio, d'uma fina e macia cr de violeta; depois a
brancura do co, todo liso, sem uma nuvem, d'uma magestade divina. E l
debaixo, dos valles, subia, desgarrada e melancolica, uma voz de
pegureiro cantando.

Jacintho caminhou lentamente para o poial d'uma janella, onde cahiu
esbarrondado pelo desastre, sem resistencia ante aquelle brusco
desapparecimento de toda a Civilisao! Eu palpava a enxerga, dura e
regelada como um granito de inverno. E pensando nos luxuosos colches de
pennas e molas, to prodigamente encaixotados no 202, desafoguei tambem
a minha indignao:

--Mas os caixotes, caramba?... Como se perdem assim trinta e tantos
caixotes enormes?...

Jacintho saccudiu amargamente os hombros:

--Encalhados, por ahi, algures, n'um barraco!... Em Medina, talvez,
n'essa horrenda Medina. Indifferena das Companhias, inercia do
Silverio... Emfim a Peninsula, a barbarie!

Vim ajoelhar sobre o outro poial, alongando os olhos consolados por co
e monte:

-- uma belleza!

O meu principe, depois de um silencio grave, murmurou, com a face
encostada  mo:

-- uma lindeza... E que paz!

Sob a janella vicejava fartamente uma horta, com repolho, feijoal,
talhes de alface, gordas folhas de abobora rastejando. Uma eira, velha
e mal alisada, dominava o valle, d'onde j subia tenuemente a nevoa
d'algum fundo ribeiro. Toda a esquina do casaro d'esse lado se
encravava em laranjal. E d'uma fontinha rustica, meio afogada em rosas
tremedeiras, corria um longo e rutilante fio d'agua.

--Estou com appetite desesperado d'aquella agoa! declarou Jacintho,
muito srio.

--Tambem eu... Desamos ao quintal, hein? E passamos pela cosinha, a
saber do frango.

Voltamos  varanda. O meu Principe, mais conciliado com o destino
inclemente, colheu um cravo amarello. E por outra porta baixa, de
rigissimas hombreiras, mergulhamos n'uma sala, alastrada de calia, sem
tecto, coberta apenas de grossas vigas, d'onde s'ergueu uma revoada de
pardaes.

--Olha para este horror! murmurava Jacintho arripiado.

E descemos por uma lobrega escada de castello, tenteando depois um
corredor tenebroso de lages asperas, atravancado por profundas arcas,
capazes de guardar todo o gro d'uma provincia. Ao fundo a cozinha,
immensa, era uma massa de frmas negras, madeira negra, pedra negra,
densas negruras de felugem secular. E n'este negrume refulgia a um
canto, sobre o cho de terra negra, a fogueira vermelha, lambendo tachos
e panellas de ferro, despedindo uma fumarada que fugia pela grade aberta
no muro, depois por entre a folhagem dos limoeiros. Na enorme lareira,
onde se aqueciam e assavam as suas grossas peas de porco e boi os
Jacinthos medievaes, agora desaproveitada pela frugalidade dos caseiros,
negrejava um poeirento monto de cestas e ferramentas; e a claridade
toda entrava por uma porta de castanho, escancarada sobre um quintalejo
rustico em que se misturavam couves lombardas e junquilhos formosos. Em
roda do lume um bando alvoroado de mulheres depennava frangos, remexia
as caarolas, picava a cebola, com um fervor afogueado e palreiro. Todas
emmudeceram quando apparecemos--e d'entre ellas o pobre Melchior,
estonteado, com o sangue a espirrar na nedia face d'abbade, correu para
ns, jurando que o jantarinho de suas Incellencias no demorava um
credo...

--E a respeito de camas, oh amigo Melchior?

O digno homem ciciou uma desculpa encolhida sobre enxergasinhas no
cho...

-- o que basta! acudi eu, para o consolar. Por uma noite, com lenoes
frescos...

--Ah, l pelos lenoesinhos respondo eu!... Mas um desgosto assim, meu
senhor! A gente apanhada sem um colxosinho de l, sem um lombosinho de
vacca... Que eu j pensei, at lembrei  minha comadre, V. Inc.^{as}
podiam ir dormir aos _Ninhos_, a casa do Silverio. Tinham l camas de
ferro, lavatorios... Elle sempre  uma legoasita e mau caminho...

Jacintho, bondoso, accudiu:

--No, tudo se arranja, Melchior. Por uma noite!... At gsto mais de
dormir em Tormes, na minha casa da serra!

Sahimos ao terreiro, retalho de horta fechado por grossas rochas
encabelladas de verdura, entestando com os socalcos da serra onde
lourejava o centeio. O meu principe bebeu da agua nevada e lusidia da
fonte, regaladamente, com os beios na bica; appeteceu a alface
rechonchuda e crespa; e atirou pulos aos ramos altos d'uma copada
cerejeira, toda carregada de cereja. Depois, costeando o velho lagar, a
que um bando de pombas branqueava o telhado, deslismos at ao carreiro,
cortado no costado do monte. E andando, pensativamente, o meu Principe
pasmava para os milheiraes, para os vetustos carvalhos plantados por
vetustos Jacinthos, para os casebres espalhados sobre os cabeos  orla
negra dos pinheiraes.

De novo penetramos na avenida de faias e transpozemos o porto senhorial
entre o latir dos ces, mais mansos, farejando um dono. Jacintho
reconheceu certa nobreza na frontaria do seu lar. Mas sobretudo lhe
agradava a longa alameda, assim direita e larga, como traada para
n'ella se desenrolar uma cavalgada de Senhores com plumas e pagens.
Depois, de cima da varanda, reparando na telha nova da capella, louvou o
Silverio, esse ralao, por cuidar ao menos da morada do Bom-Deus.

--E esta varanda tambem  agradavel, murmurou elle mergulhando a face no
aroma dos cravos. Precisa grandes poltronas, grandes divans de verga...

Dentro, na nossa sala, ambos nos sentamos nos poiaes da janella,
contemplando o doce socego crepuscular que lentamente se estabelecia
sobre valle e monte. No alto tremeluzia uma estrellinha, a Venus
diamantina, languida annunciadora da noite e dos seus contentamentos.
Jacintho nunca considerra demoradamente aquella estrella, de amorosa
refulgencia, que perpetua no nosso Co catholico a memoria da Deusa
incomparavel:--nem assistira jmais, com a alma attenta, ao magestoso
adormecer da Natureza. E este ennegrecimento dos montes que se embuam
em sombra; os arvoredos emmudecendo, canados de susurrar; o rebrilho
dos casaes mansamente apagado; o cobertor de nevoa, sob que se acama e
agasalha a frialdade dos valles; um toque somnolento de sino que rola
pelas quebradas; o segredado cochichar das aguas e das relvas
escuras--eram para elle como iniciaes. D'aquella janella, aberta sobre
as serras, entrevia uma outra vida, que no anda smente cheia do Homem
e do tumulto da sua obra. E senti o meu amigo suspirar como quem emfim
descana.

D'este enlevo nos arrancou o Melchior com o doce aviso do jantarinho de
suas Incellencias. Era n'outra sala, mais na, mais abandonada:--e ahi
logo  porta o meu super-civilisado Principe estacou, estarrecido pelo
desconforto, escassez e rudeza das coisas. Na mesa, encostada ao muro
denegrido, sulcado pelo fumo das candeias, sobre uma toalha de estopa,
duas velas de sbo em castiaes de lata alumiavam grossos pratos de
loua amarella, ladeados por colheres de estanho e por garfos de ferro.
Os copos, d'um vidro espesso, conservavam a sombra roxa do vinho que
n'elles passra em fartos annos de fartas vindimas. A malga de barro,
atestada de azeitonas pretas, contentaria Diogenes. Espetado na cdea
d'um immenso po reluzia um immenso facalho. E na cadeira senhoreal
reservada ao meu Principe, derradeira alfaia dos velhos Jacinthos, de
hirto espaldar de couro, com a madeira roda de caruncho, a clina fugia
em melenas pelos rasges do assento poido.

Uma formidavel moa, de enormes peitos que lhe tremiam dentro das
ramagens do leno cruzado, ainda suada e esbrazeada do calor da lareira,
entrou esmagando o soalho, com uma terrina a fumegar. E o Melchior, que
seguia erguendo a infusa do vinho, esperava que suas Incellencias lhe
perdoassem porque faltra tempo para o caldinho apurar... Jacintho
occupou a sde ancestral--e, durante momentos (de esgazeada anciedade
para o caseiro excellente) esfregou energicamente, com a ponta da
toalha, o garfo negro, a fusca colhr de estanho. Depois, desconfiado,
provou o caldo, que era de gallinha e rescendia. Provou--e levantou para
mim, seu camarada de miserias, uns olhos que brilharam, surprehendidos.
Tornou a sorver uma colherada mais cheia, mais considerada. E sorriu,
com espanto:--Est bom!

Estava precioso: tinha figado e tinha moela: o seu perfume enternecia:
tres vezes, fervorosamente, ataquei aquelle caldo.

--Tambem l volto! exclamava Jacintho com uma convico immensa.  que
estou com uma fome... Santo Deus! Ha annos que no sinto esta fome.

Foi elle que rapou avaramente a sopeira. E j espreitava a porta,
esperando a portadora dos piteus, a rija moa de peitos trementes, que
emfim surgiu, mais esbrazeada, abalando o sobrado--e pousou sobre a mesa
uma travessa a trasbordar de arroz com favas. Que desconsolo! Jacintho,
em Paris, sempre abominra favas!... Tentou todavia uma garfada
timida--e de novo aquelles seus olhos, que o pessimismo ennovora,
luziram, procurando os meus. Outra larga garfada, concentrada, com uma
lentido de frade que se regala. Depois um brado:

--Optimo!... Ah, d'estas favas, sim! Oh que fava! Que delicia!

E por esta santa gula louvava a serra, a arte perfeita das mulheres
palreiras que em baixo remexiam as panellas, o Melchior que presidia ao
brodio...

--D'este arroz com fava nem em Paris, Melchior amigo!

O homem optimo sorria, inteiramente desannuviado:

--Pois  c a comidinha dos moos da quinta! E cada pratada, que at
suas Incellencias se riam... Mas agora, aqui, o Snr. D. Jacintho, tambem
vae engordar e enrijar!

O bom caseiro sinceramente cria que, perdido n'esses remotos Parizes, o
Senhor de Tormes, longe da fartura de Tormes, padecia fome e mingava...
E o meu Principe, na verdade, parecia saciar uma velhissima fome e uma
longa saudade da abundancia, rompendo assim, a cada travessa, em
louvores mais copiosos. Diante do louro frango assado no espeto e da
salada que elle appetecera na horta, agora temperada com um azeite da
serra digno dos labios de Plato, terminou por bradar:-- divino! Mas
nada o enthusiasmava como o vinho de Tormes, cahindo d'alto, da bojuda
infusa verde--um vinho fresco, esperto, seivoso, e tendo mais alma,
entrando mais na alma, que muito poema ou livro santo. Mirando,  vela
de sbo, o copo grosso que elle orlava de leve espuma rosea, o meu
Principe, com um resplendr d'optimismo na face, citou Virgilio:

--_Quo te carmina dicam, Rethica_? Quem dignamente te cantar, vinho
amavel d'estas serras?

Eu, que no gosto que me avantagem em saber classico, espanejei logo
tambem o meu Virgilio, louvando as douras da vida rural:

--_Hanc olim veteres vitam coluere Sabini_... Assim viveram os velhos
Sabinos. Assim Romolo e Remo... Assim cresceu a valente Etruria. Assim
Roma se tornou a maravilha do mundo!

E immovel, com a mo agarrada  infusa, o Melchior arregalava para ns
os olhos em infinito assombro e religiosa reverencia.

       *       *       *       *       *

Ah! Jantamos deliciosissimamente, sob os auspicios do Melchior--que
ainda depois, prvido e tutelar, nos forneceu o tabaco. E, como ante ns
se alongava uma noite de monte, voltamos para as janellas desvidraadas,
na sala immensa, a contemplar o sumptuoso co de vero. Philosophmos
ento com pachorra e facundia.

Na Cidade (como notou Jacintho) nunca se olham, nem lembram os
astros--por causa dos candieiros de gaz ou dos globos de electricidade
que os offuscam. Por isso (como eu notei) nunca se entra n'essa
communho com o Universo que  a unica gloria e unica consolao da
Vida. Mas na serra, sem predios disformes de seis andares, sem a
fumaraa que tapa Deus, sem os cuidados que como pedaos de chumbo puxam
a alma para o p rasteiro--um Jacintho, um Z Fernandes, livres, bem
jantados, fumando nos poiaes d'uma janella, olham para os astros e os
astros olham para elles. Uns, certamente, com olhos de sublime
immobilidade ou de subllime indifferena. Mas outros curiosamente,
anciosamente, com uma luz que acena, uma luz que chama, como se
tentassem, de to longe, revelar os seus segredos, ou de to longe
comprehender os nossos...

--Oh Jacintho, que estrella  esta, aqui, to viva, sobre o beiral do
telhado?

--No sei... E aquella, Z Fernandes, alm, por cima do pinheiral?

--No sei.

No sabiamos. Eu, por causa da espessa crosta de ignorancia com que sahi
do ventre de Coimbra, minha Me espiritual. Elle, porque na sua
Bibliotheca possuia trezentos e oito tratados sobre Astronomia, e o
Saber, assim accumulado, frma um monte que nunca se transpe nem se
desbasta. Mas que nos importava que aquelle astro alm se chamasse
Syrius e aquelle outro Aldebaran? Que lhes importava a elles que um de
ns fosse Jacintho, outro Z? Elles to immensos, ns to pequeninos,
somos a obra da mesma Vontade. E todos, Uranos ou Lorenas de Noronha e
Sande, constituimos modos diversos d'um Sr unico, e as nossas
diversidades esparsas sommam na mesma compacta Unidade. Molleculas do
mesmo Todo, governadas pela mesma Lei, rolando para o mesmo Fim... Do
astro ao homem, do homem  flr do trevo, da flr do trevo ao mar
sonoro--tudo  o mesmo Corpo, onde circula, como um sangue, o mesmo
Deus. E nenhum fremito de vida, por menor, passa n'uma fibra d'esse
sublime Corpo, que se no repercuta em todas, at s mais humildes, at
s que parecem inertes e invitaes. Quando um Sol que no avisto, nunca
avistarei, morre de inanio nas profundidades, esse esguio galho de
limoeiro, em baixo na horta, sente um secreto arrepio de morte:--e,
quando eu bato uma patada no soalho de Tormes, alm o monstruoso Saturno
estremece, e esse estremecimento percorre o inteiro Universo! Jacintho
abateu rijamente a mo no rebordo da janella. Eu gritei:

--Acredita!... O sol tremeu.

E depois (como eu notei) deviamos considerar que, sobre cada um d'esses
gros de p luminoso, existia uma creao, que incessantemente nasce,
perece, renasce. N'este instante, outros Jacinthos, outros Zs
Fernandes, sentados s janellas d'outras Tormes, contemplam o co
nocturno, e n'elle um pequenininho ponto de luz, que  a nossa possante
Terra por ns tanto sublimada. No tero todos esta nossa frma, bem
fragil, bem desconfortavel, e (a no ser no Apollo do Vaticano, na Venus
de Milo e talvez na Princeza, de Carman) singularmente feia e burlesca.
Mas, horrendos ou de ineffavel belleza; collossaes e d'uma carne mais
dura que o granito, ou leves como gazes e ondulando na luz, todos elles
so sres pensantes e teem consciencia da Vida--porque decerto cada
Mundo possue o seu Descartes, ou j o nosso Descartes os percorreu a
todos com o seu Methodo, a sua escura capa, a sua agudeza elegante,
formulando a unica certeza talvez certa, o grande _Penso logo existo_.
Portanto todos ns, Habitantes dos Mundos, s janellas dos nossos
casares, alm nos Saturnos, ou aqui na nossa Terricula, constantemente
perfazemos um acto sacrosanto que nos penetra e nos funde--que 
sentirmos no Pensamento o nucleo commum das nossas modalidades, e
portanto realisarmos um momento, dentro da Consciencia, a Unidade do
Universo!--Hein, Jacintho?...

O meu amigo rosnou:

--Talvez... Estou a cahir com somno.

--Tambem eu. Remontamos muito, Ex.^{mo} Snr.! como dizia o Pestaninha
em Coimbra. Mas nada mais bello, e mais vo, que uma cavaqueira, no alto
das serras, a olhar para as estrellas!... Tu sempre vaes amanh?

--Com certeza, Z Fernandes! Com a certeza de Descartes. Penso _logo
fujo_! Como queres tu, n'este pardieiro, sem uma cama, sem uma
poltrona, sem um livro?... Nem s de arroz com fava vive o Homem! Mas
demoro em Lisboa, para conversar com o Cesimbra, o meu Administrador. E
tambem  espera que estas obras acabem, os caixotes surjam, e eu possa
voltar decentemente, com roupa lavada, para a trasladao...

-- verdade, os ossos...

--Mas resta ainda o Grillo... Que animal! Por onde andar esse perdido?

Ento, passeando lentamente na sala enorme, onde a vela de sbo j
derretida no castial de lata era como um lume de cigarro n'um
descampado, meditmos na sorte do Grillo. O estimado negro ou fra
despejado nas lamas de Medina, com as vinte e sete malas, aos
gritos--ou, regaladamente adormecido, rolra com o Anatole no comboio
para Madrid. Mas ambos os casos appareciam ao meu Principe como
irremediavelmente destruidores do seu conforto...

--No, escuta, Jacintho... Se o Grillo encalhou em Medina, dormiu na
Fonda, catou os percevejos, e esta madrugada correu para Tormes. Quando
manh desceres  Estao, s quatro horas, encontras o teu precioso
homem, com as tuas preciosas malas, mettido n'esse comboio que te leva
ao Porto e  Capital...

Jacintho saccudiu os braos como quem se debate nas malhas d'uma rede:

--E se seguiu para Madrid?

--Ento, por esta semana, c apparece em Tormes, onde encontra ordem
para regressar a Lisboa e reentrar no teu sequito... Resta o
interessante caso das minhas bagagens. Se manh encontrares na Estao
o Grillo, separa a minha mala negra, e o sacco de lona, e a chapelleira.
O Grillo conhece. E pede ao Pimenta, ao gordalhufo, que me avise para
Guies. Se o Grillo aportar Tormes, esfogueteado de Madrid, com toda
essa malaria, deixa as minhas cousas aqui, ao Melchior... Eu manh
fallo ao Melchior.

Jacintho sacudiu furiosamente o collarinho:

--Mas como posso eu partir para Lisboa, manh, com esta camisa de dous
dias, que j me faz uma comicho horrenda? E sem um leno... Nem ao
menos uma escova de dentes!

Fertil em idas, estendi as mos, n'um bello gesto tutelar:

--Tudo se arranja, meu Jacintho, tudo se arranja! Eu, largando d'aqui
cedo, pelas seis horas, chego a Guies s dez, ainda sem calor. E, mesmo
antes do almoo e da cavaqueira com a tia Vicencia, immediatamente te
mando por um moo um sacco de roupa branca. As minhas camisas e as
minhas ceroulas talvez te estejam largas. Mas um mendigo como tu no tem
direito a elegancias e a roupas bem cortadas. O moo, n'um bom trote,
entra aqui s duas horas; tens tempo de mudar antes de desceres para a
Estao... Posso metter na mala uma escova de dentes.

--Oh Z Fernandes! Ento mette tambem uma esponja... E um frasco d'agoa
de colonia!

--Agoa d'alfazema, excellente, feita pela tia Vicencia...

O meu Principe suspirou, impressionado com a sua miseria esqualida, e
esta dadiva de roupas:

--Bem, ento vamos dormir, que estou esfalfado de emoes e d'astros...

Justamente Melchior entreabria a pesada porta, com timidez, a avisar que
estavam preparadinhas as camas de suas Incellencias. E seguindo o bom
caseiro, que erguia uma candeia, que avistamos ns, o meu Principe e eu,
ainda ha pouco irmanados com os astros? Em duas saletas, que uma
abertura em arco, lobrego arco de pedra, separava--duas enxergas sobre o
soalho. Junto  cabeceira da mais larga, que pertencia ao senhor de
Tormes, um castial de lato sobre um alqueire; aos ps, como lavatorio,
um alguidar vidrado em cima duma tripea. Para mim, serrano d'aquellas
serras, nem alguidar nem alqueire.

Lentamente, com o p, o meu super-civilisado amigo palpou a enxerga. E
decerto lhe sentiu uma dureza intransigente, porque ficou pendido sobre
ella, a correr desoladamente os dedos pela face desmaiada.

--E o peior no  ainda a enxerga, murmurou emfim com um suspiro.  que
no tenho camisa de dormir, nem chinelas!... E no me posso deitar de
camisa engommada.

Por inspirao minha reccorremos ao Melchior. De novo, esse benemerito
providenciou, trazendo a Jacintho, para elle desafogar os ps, uns
tamancos--e para embrulhar o corpo uma camisa da comadre, enorme, de
estopa, spera como uma estamenha de penitente, com folhos mais crespos
e duros do que lavores de madeira. Para consolar o meu Principe lembrei
que Plato quando compunha o _Banquete_, Vasco da Gama quando dobrava o
Cabo, no dormiam em melhores catres! As enxergas rijas fazem as almas
fortes, oh Jacintho!... E  s vestido de estamenha que se penetra no
Paraiso.

--Tens tu, volveu o meu amigo seccamente, alguma coisa que eu leia? No
posso adormecer sem um livro.

Eu? Um livro? Possuia apenas o velho numero do _Jornal do Commercio_,
que escapra  disperso dos nossos bens. Rasguei a copiosa folha pelo
meio, partilhei com Jacintho fraternalmente. Elle tomou a sua metade,
que era a dos annuncios... E quem no viu ento Jacintho, senhor de
Tormes, acaapado  borda da enxerga, rente da vela de sbo que se
derretia no alqueire, com os ps encafuados nos scos, perdido dentro
das speras pregas e dos rijos folhos da camisa serrana, percorrendo
n'um pedao velho de Gazeta, pensativamente, as partidas dos
Paquetes--no pde saber o que  uma intensa e veridica imagem do
Desalento.

Recolhido  minha alcova espartana, desabotoava o collete, n'um
delicioso cansao, quando o meu Principe ainda me reclamou:

--Z Fernandes...

--Dize.

--Manda tambem no sacco um abotoador de botas.

Estirado commodamente na rija enxerga murmurei, como sempre murmuro ao
penetrar no Somno, que  um primo da Morte, Deus seja louvado! Depois
tomei a metade do _Jornal do Commercio_ que me pertencia.

--Z Fernandes...

--Que ?

--Tambem podias metter no sacco ps dos dentes... E uma lima das
unhas... E um romance!

J a meia Gazeta me escapava das mos dormentes. Mas da sua alcova,
depois de soprar a vela, Jacintho murmurou entre um bocejo:

--Z Fernandes...

--Hein?

--Escreve para Lisboa, para o Hotel Bragana... Os lenoes ao menos so
frescos, cheiram bem, a sadio!




IX


Cedo, de madrugada, sem rumor, para no despertar o meu Jacintho, que,
com as mos cruzadas sobre o peito, dormia beatificamente na sua enxerga
de granito--parti para Guies.

Ao cabo d'uma semana, recolhendo uma manh para o almoo, encontrei no
corredor as minhas malas to desejadas, que um moo do casal da Giesta
trouxera n'um carro com recados do Snr. Pimentinha. O meu pensamento
pulou para o meu Principe. E lancei pelo telegrapho, para Lisboa, para o
Hotel Bragana, este brado alegre:--Ests l? Sei recuperaste Grillo e
Civilisao! Hurrah! Abrao!--S depois de sete dias, occupados n'uma
delicada apanha de aspargos com que outr'ora civilisra a horta da tia
Vicencia, notei o silencio de Jacintho. N'um bilhete postal renovei,
desenvolvi o grito amigo:--Ests l? So os prazeres da Baixa que assim
te tornam desattento e mudo? Eu, todo aspargos! Responde, quando chegas?
Tempo delicioso! 23^o  sombra. E os ossos?...--Veio depois a devota
romaria da Senhora da Roqueirinha. Durante a lua nova andei n'um crte
de matto, na minha terra das Corcas. A tia Vicencia vomitou, com uma
indigesto de murcellas. E o silencio do meu Principe era ingrato e
ferrenho.

Emfim uma tarde, voltando da Flor da Malva, de casa da minha prima
Joanninha, parei em Sandofim, na venda do Manoel Rico, para beber de
certo vinho branco que a minha alma conhece--e sempre pede.

Defronte,  porta do ferrador, o Severo, sobrinho do Melchior de Tormes
e o mais fino alveitar da serra, picava tabaco, escarranchado n'um
banco. Mandei encher outro quartilho: elle acariciou o pescoo da minha
egua que j salvra d'um esfriamento: e, como eu indagasse do nosso
Melchior, o Severo contou que na vspera jantra com elle em Tormes, e
se abeirra tambem do fidalgo...

--Ora essa! Ento o snr. D. Jacintho est em Tormes?

O meu espanto divertiu o Severo:

--Ento v. exc.^a... Pois em Tormes  que elle est, ha mais de cinco
semanas, sem arredar! E parece que fica para a vindima, e vai l uma
grandeza!

Santissimo nome de Deus! Ao outro dia, domingo, depois da missa e sem me
assustar com a calma que carregava, trotei alvoroadamente para Tormes.
Ao latir dos rafeiros, quando transpuz o portal solarengo, a comadre do
Melchior accudio dos lados do curral, com um alguidar de lavagem
encostado  cintura.--Ento o snr. D. Jacintho?... O snr. D. Jacintho
andava l para baixo, com o Silverio e com o Melchior, nos campos de
Freixomil...

--E o Snr. Grillo, o preto?

--Ha bocadinho tambem o enxerguei no pomar, com o francez, a apanhar
limes doces...

Todas as janellas do solar rebrilhavam, com vidraas novas, bem polidas.
A um canto do pteo notei baldes de cal e tijellas de tintas. Uma escada
de pedreiro descanra durante o Dia Santo arrimada contra o telhado. E,
rente ao muro da capella, dois gatos dormiam sobre montes de palha
desempacotada de caixotes consideraveis.

--Bem, pensei eu. Eis a Civilisao!

Recolhi a egua, galguei a escada. Na varanda, sobre uma pilha de ripas,
reluzia n'um raio de sol uma banheira de zinco. Dentro encontrei todos
os soalhos remendados, esfregados a carqueja. As paredes, muito caiadas
e nas, refrigeravam como as d'um convento. Um quarto, a que me levaram
tres portas escancaradas com franqueza serrana, era certamente o de
Jacintho: a roupa pendia de cabides de pau: o leito de ferro, com
coberta de fusto, encolhia timidamente a sua rigidez virginal a um
canto, entre o muro e a banquinha onde um castial de lato resplandecia
sobre um volume do _D. Quichote_; no lavatorio pintado de amarello,
imitando bamb, apenas cabia o jarro, a bacia, um naco gordo de sabo; e
uma prateleirinha bastava ao esmerado alinho da escova, da thesoura, do
pente, do espelhinho de feira, e do frasquinho de agua de alfazema que
eu mandra de Guies. As tres janellas, sem cortinas, contemplavam a
belleza da serra, respirando um delicado e macio ar, que se perfumava
nas resinas dos pinheiraes, depois nas roseiras da horta. Em frente, no
corredor, outro quarto repetia a mesma simplicidade. Certamente a
previdencia do meu Principe o destinra ao seu Z Fernandes. Pendurei
logo dentro, no cabide, o meu guarda-p de lustrina.

Mas na sala immensa, onde tanto philosophramos considerando as
estrellas, Jacintho arranjra um centro de repouso e d'estudo--e
desenrolra essa grandeza que impressionava o Severo. As cadeiras de
verga da Madeira, amplas e de braos, offereciam o conforto de
almofadinhas de chita. Sobre a mesa enorme de pau branco, carpinteirada
em Tormes, admirei um candieiro de metal de tres bicos, um tinteiro de
frade armado de pennas de pato, um vaso de capella transbordando de
cravos. Entre duas janellas uma commoda antiga, embutida, com ferragens
lavradas, recebera sobre o seu marmore rosado o devoto peso d'um
Presepio, onde Reis Magos, pastores de surres vistosos, cordeiros
d'esguedelhada l, se apressavam atravez d'alcantis para o Menino, que
na sua lapinha lhes abria os braos, coroado por uma enorme Cora Real.
Uma estante de madeira enchia outro pedao de parede, entre dois
retratos negros com caixilhos negros; sobre uma das suas prateleiras
repousavam duas espingardas; nas outras esperavam, espalhados, como os
primeiros Doutores nas bancadas d'um concilio, alguns nobres livros, um
Plutarcho, um Virgilio, a Odyssea, o Manual de Epictecto, as Chronicas
de Froissart. Depois, em fila decorosa, cadeiras de palhinha, muito
novas, muito envernisadas. E a um canto um mlho de varapaus.

Tudo resplandecia de asseio e ordem. As portadas das janellas, cerradas,
abrigavam do sol que batia aquelle lado de Tormes, escaldando os
peitoris de pedra. Do soalho, burrifado de agua, subia, na suavisada
penumbra, uma frescura. Os cravos rescendiam. Nem dos campos, nem da
casa, se elevava um rumor. Tormes dormia no esplendor da manh santa. E,
penetrado por aquella consoladora quietao de convento rural, terminei
por me estender n'uma cadeira de verga, junto da mesa, abrir
languidamente um tomo de Virgilio, e murmurar, appropriando o doce verso
que encontrra:

Fortunate Jacinthe! Hic, inter arva nota
Et fontes sacros, frigus captabis opacum...

Afortunado Jacintho, na verdade! Agora, entre campos que so teus e
aguas que te so sagradas, colhes emfim a sombra e a paz!

Li ainda outros versos. E, na fadiga das duas horas de egua e calor
desde Guies, irreverentemente adormecia sobre o divino
Bucoliasta--quando me despertou um berro amigo! Era o meu Principe. E
muito decididamente, depois de me soltar do seu rijo abrao, o comparei
a uma planta estiolada, emmurchecida na escurido, entre tapetes e
sdas, que, levada para vento e sol, profusamente regada, reverdece,
desabrocha e honra a Natureza! Jacintho j no corcovava. Sobre a sua
arrefecida pallidez de super-civilisado, o ar montesino, ou vida mais
verdadeira, espalhra um rubor trigueiro e quente de sangue renovado que
o virilisava soberbamente. Dos olhos, que na Cidade andavam sempre to
crepusculares e desviados do Mundo, saltava agora um brilho de meio-dia,
resoluto e largo, contente em se embeber na belleza das coisas. At o
bigode se lhe encrespra. E j no deslisava a mo desencantada sobre a
face,--mas batia com ella triumphalmente na cxa. Que sei? Era um
Jacintho novissimo. E quasi me assustava, por eu ter de aprender e
penetrar, n'este novo Principe, os modos e as idas novas.

--Caramba, Jacintho, mas ento...?

Elle encolheu jovialmente os hombros realargados. E s me soube contar,
trilhando soberanamente com os sapatos brancos e cobertos de p o soalho
remendado, que, ao acordar em Tormes, depois de se lavar n'uma dorna, e
d'enfiar a minha roupa branca, se sentira de repente como
_desannuviado_, _desenvencilhado_! Almora uma pratada de ovos com
chourio, sublime. Passera por toda aquella magnificencia da serra com
pensamentos ligeiros de liberdade e de paz. Mandra ao Porto comprar uma
cama, uns cabides... E alli estava...

--Para todo o vero?

--No! Mas um mez... Dois mezes! Emquanto houver chourios, e a agoa da
fonte, bebida pela telha ou n'uma folha de couve, me souber to
divinamente!

Cahi sobre a cadeira de verga, e contemplei, arregalado, quasi
esgazeado, o meu Principe! Elle enrolava n'uma mortalha tabaco picado,
tabaco grosso, guardado n'uma malga vidrada. E exclamava:

--Ando ahi pelas terras desde o romper d'alva! Pesquei j hoje quatro
trutas, magnificas... L em baixo, no Naves, um riachote que se atira
pelo valle da Seranda... Temos logo ao jantar essas trutas!

Mas eu, avido pela historia d'aquella ressurreio:

--Ento, no estiveste em Lisboa?... Eu telegraphei...

--Qual telegrapho! Qual Lisboa! Estive l em cima, ao p da fonte da
Lira,  sombra d'uma grande arvore, _sub tegmine_ no sei qu, a lr
esse adorvel Virgilio... E tambem a arranjar o meu palacio! Que te
parece, Z Fernandes? Em tres semanas, tudo soalhado, envidraado,
caiado, encadeirado!... Trabalhou a freguezia inteira! At eu pintei,
com uma immensa brocha. Viste o comedoiro?

--No.

--Ento vem admirar a belleza na simplicidade, barbaro!

Era a mesma onde ns tanto exaltaramos o arroz com favas--mas muito
esfregada, muito caiada, com um rodap bezuntado d'azul estridente onde
logo adivinhei a obra do meu Principe. Uma toalha de linho de Guimares
cobria a mesa, com as franjas roando o soalho. No fundo dos pratos de
loua forte reluzia um gallo amarello. Era o mesmo gallo e a mesma loua
em que na nossa casa, em Guies, se servem os feijes dos cavadores...

Mas no pteo os ces latiram. E Jacintho correu  varanda, com uma
ligeireza curiosa que me deleitou. Ah, bem definitivamente se
esfrangalhra aquella rede de malha que se no percebia e que outr'ora o
travava!--N'esse momento appareceu o Grillo, de quinzena de linho,
segurando em cada mo uma garrafa de vinho branco. Todo se alegrou em
vr na quinta o si Fernandes. Mas a sua veneranda face j no
resplandecia, como em Paris, com um to sereno e ditoso brilho de ebano.
At me pareceu que corcovava... Quando o interroguei sobre aquella
mudana, estendeu duvidosamente o beio grosso:

--O menino gosta, eu ento tambem gsto... Que o ar aqui  muito bom,
si Fernandes, o ar  muito bom!

Depois, mais baixo, envolvendo n'um gesto desolado a loua de Barcellos,
as facas de cabo d'osso, as prateleiras de pinho como n'um refeitorio de
Franciscanos:

--Mas muita magreza, si Fernandes, muita magreza!

Jacintho voltava com um mao de jornaes cintados:

--Era o carteiro. J vs que no amuei inteiramente com a Civilisao.
Eis a Imprensa!... Mas nada de _Figaro_, ou da horrenda _Dois-Mundos_!
Jornaes de Agricultura! Para aprender como se produzem as risonhas
messes, e sob que signo se casa a vinha ao olmo, e que cuidados
necessita a abelha provida... _Quid faciat laetas segetes_... De resto
para esta nobre educao, j me bastavam as _Georgicas_, que tu ignoras!

Eu ri:

--Alto l! _Nos quoque gens sumus et nostrum Virgilium sabemus_!

Mas o meu novissimo amigo, debruado da janella, batia as palmas--como
Cato para chamar os servos, na Roma simples. E gritava:

--Anna Vaqueira! Um copo d'agoa, bem lavado, da fonte velha!

Pulei, immensamente divertido:

--Oh Jacintho! E as aguas carbonatadas? e as phosphatadas? e as
esterilisadas? e as sodicas?...

O meu Principe atirou os hombros com um desdem soberbo. E acclamou a
appario d'um grande copo, todo embaciado pela frescura nevada da agoa
refulgente, que uma bella moa trazia n'um prato. Eu admirei sobretudo a
moa... Que olhos, d'um negro to liquido e serio! No andar, no quebrar
da cinta, que harmonia e que graa de Nympha latina!

E apenas pela porta desapparecera a explendida appario:

--Oh Jacintho, eu d'aqui a um instante tambem quero agua! E se compete a
esta rapariga trazer as cousas, eu, de cinco em cinco minutos, quero uma
cousa!... Que olhos, que corpo... Caramba, menino! Eis a poesia, toda
viva, da serra...

O meu Principe sorria, com sinceridade:

--No! no nos illudamos, Z Fernandes, nem faamos Arcadia.  uma bella
moa, mas uma bruta... No ha alli mais poesia, nem mais sensibilidade,
nem mesmo mais belleza do que n'uma linda vacca tourina. Merece o seu
nome de Anna Vaqueira. Trabalha bem, digere bem, concebe bem. Para isso
a fez a Natureza, assim s e rija; e ella cumpre. O marido todavia no
parece contente, porque a desanca. Tambem  um bello bruto... No, meu
filho, a serra  maravilhosa e muito grato lhe estou... Mas temos aqui a
fmea em toda a sua animalidade e o macho em todo o seu egoismo... So
porm verdadeiros, genuinamente verdadeiros! E esta verdade, Z
Fernandes,  para mim um repouso.

Lentamente, gozando a frescura, o silencio, a liberdade do vasto
casaro, retrocedemos  sala que Jacintho j denominra a _Livraria_. E,
de repente, ao avistar n'um canto uma caixa com a tampa meio despregada,
quasi me engasguei, na furiosa curiosidade que me assaltou:

--E os caixotes? Oh Jacintho?... Toda aquella immensa caixotaria que ns
mandamos, abarrotada de Civilisao? Soubeste? Appareceram?

O meu Principe parou, bateu alegremente na cxa:

--Sublime! Tu ainda te lembras d'aquelle homemsinho, de sacco a
tiracollo, que ns admiramos tanto pela sua sagacidade, o seu saber
geographico?... Lembras? Apenas fallei em Tormes, gritou que conhecia,
rabiscou uma nota... Nem era necessario mais! Oh! Tormes,
perfeitamente, muito antigo, muito curioso! Pois mandou tudo para
Alba-de-Tormes, em Hespanha! Est tudo em Hespanha!

Cocei o queixo, desconsolado:

--Ora, ora... Um homem to esperto, to expedito, que fazia tanta honra
ao Progresso! Tudo para Hespanha!... E mandaste vir?

--No! Talvez mais tarde... Agora, Z Fernandes, estou saboreando esta
delicia de me erguer pela manh, e de ter s uma escova para alisar o
cabello.

Considerei, cheio de recordaes, o meu amigo:

--Tinhas umas nove...

--Nove? Tinha vinte! Talvez trinta! E era uma atrapalhao, no me
bastavam!... Nunca em Paris andei bem penteado. Assim com os meus
setenta mil volumes: eram tantos que nunca li nenhum. Assim com as
minhas occupaes: tanto me sobrecarregavam, que nunca fui util!

       *       *       *       *       *

De tarde, depois da calma, fomos vaguear pelos caminhos colleantes
d'aquella quinta rica, que, atravs de duas legoas, ondula por valle e
monte. No m'encontrra mais com Jacintho em meio da Natureza, desde o
remoto dia d'entremez em que elle tanto soffrera no sociavel e policiado
bosque de Montmorency. Ah, mas agora, com que segurana e idyllico amor
elle se movia atravs d'essa Natureza, d'onde andra tantos annos
desviado por theoria e por habito! J no arreceiava a humidade mortal
das relvas; nem repellia como impertinente o roar das ramagens; nem o
silencio dos altos o inquietava como um despovoamento do Universo. Era
com delicias, com um consolado sentimento de estabilidade recuperada,
que enterrava os grossos sapatos nas terras molles, como no seu elemento
natural e paterno: sem razo, deixava os trilhos faceis, para se
embrenhar atravs de arbustos emaranhados, e receber na face a caricia
das folhas tenras; sobre os outeiros, parava, immovel, retendo os meus
gestos e quasi o meu halito, para se embeber de silencio e de paz: e
duas vezes o surprehendi attento e sorrindo  beira d'um regatinho
palreiro, como se lhe escutasse a confidencia...

Depois philosophava, sem descontinuar, com o enthusiasmo d'um
convertido, avido de converter:

--Como a intelligencia aqui se liberta, hein? E como tudo  animado
d'uma vida forte o profunda!... Dizes tu agora, Z Fernandes, que no ha
aqui pensamento...

--Eu?! Eu no digo nada, Jacintho...

--Pois  uma maneira de reflectir muito estreita e muito grosseira...

--Ora essa! Mas eu...

--No, no percebes. A vida no se limita a pensar, meu caro doutor...

--Que no sou!

--A vida  essencialmente Vontade e Movimento: e n'aquelle pedao de
terra, plantado de milho, vae todo um mundo de impulsos, de foras que
se revelam, e que attingem a sua expresso suprema, que  a Frma. No,
essa tua philosophia est ainda extremamente grosseira...

--Irra! mas eu no...

--E depois, menino, que inesgotavel, que miraculosa diversidade de
frmas... E todas bellas!

Agarrava o meu pobre brao, exigia que eu reparasse com reverencia. Na
Natureza nunca eu descobriria um contorno feio ou repetido! Nunca duas
folhas d'hera, que, na verdura ou recorte, se assemelhassem! Na Cidade,
pelo contrario, cada casa repete servilmente a outra casa; todas as
faces reproduzem a mesma indifferena ou a mesma inquietao; as idas
teem todas o mesmo valor, o mesmo cunho, a mesma frma, como as libras;
e at o que ha mais pessoal e intimo, a Illuso,  em todos identica, e
todos a respiram, e todos se perdem n'ella como no mesmo nevoeiro... A
_mesmice_--eis o horror das Cidades!

--Mas aqui! Olha para aquelle castanheiro. Ha tres semanas que cada
manh o vejo, e sempre me parece outro... A sombra, o sol, o vento, as
nuvens, a chuva, incessantemente lhe compem uma expresso diversa e
nova, sempre interessante. Nunca a sua frequentao me poderia fartar...

Eu murmurei:

-- pena que no converse!

O meu Principe recuou, com olhares chammejantes, d'Apostolo:

--Como que no converse? Mas  justamente um conversador sublime! Est
claro, no tem ditos, nem parola theorias, _ore rotundo_. Mas nunca eu
passo junto d'elle que no me suggira um pensamento ou me no desvende
uma verdade... Ainda hoje quando eu voltava de pescar as trutas...
Parei: e logo elle me fez sentir como toda a sua vida de vegetal 
isenta de trabalho, da anciedade, do esforo que a vida humana impe;
no tem de se preoccupar com o sustento, nem com o vestido, nem com o
abrigo; filho querido de Deus, Deus o nutre, sem que elle se mova ou se
inquiete... E  esta segurana que lhe d tanta graa e tanta magestade.
Pois no achas?

Eu sorria, concordava. Tudo isto era de certo rebuscado e especioso. Mas
que importavam as requintadas metaphoras, e essa metaphysica mal madura,
colhida  pressa nos ramos d'um castanheiro? Sob toda aquella ideologia
transparecia uma excellente realidade--a reconciliao do meu Principe
com a Vida. Segura estava a sua Resurreio depois de tantos annos de
cova, da cova molle em que jazera, enfaixado como uma mumia nas faixas
do Pessimismo!

E o que esse Principe, n'esta tarde me esfalfou! Farejava, com uma
curiosidade insaciavel, todos os recantos da serra! Galgava os cabeos
correndo, como na esperana de descobrir l do alto os esplendores nunca
contemplados d'um Mundo inedito. E o seu tormento era no conhecer os
nomes das arvores, da mais rasteira planta brotando das fendas d'um
socalco... Constantemente me folheava como a um Diccionario Botanico.

--Fiz toda a sorte de cursos, passei pelos professores mais illustres da
Europa, tenho trinta mil volumes, e no sei se aquelle senhor alm  um
amieiro ou um sobreiro...

-- um azinheiro, Jacintho.

J a tarde cahia quando recolhemos muito lentamente. E toda essa
adoravel paz do co, realmente celestial, e dos campos, onde cada
folhinha conservava uma quietao contemplativa, na luz docemente
desmaiada, pousando sobre as cousas com um liso e leve affago, penetrava
to profundamente Jacintho, que eu o senti, no silencio em que
cahiramos, suspirar de puro allivio.

Depois, muito gravemente:

--Tu dizes que na natureza no ha pensamento...

--Outra vez! Olha que massada! Eu...

--Mas  por estar n'ella supprimido o pensamento que lhe est poupado o
soffrimento! Ns, desgraados, no podemos supprimir o pensamento, mas
certamente o podemos disciplinar e impedir que elle se estonteie e se
esfalfe, como na fornalha das cidades, ideando gozos que nunca se
realisam, aspirando a certezas que nunca se attingem!... E  o que
aconselham estas collinas e estas arvores  nossa alma, que vela e se
agita:--que viva na paz d'um sonho vago e nada appetea, nada tema,
contra nada se insurja, e deixe o Mundo rolar, no esperando d'elle
seno um rumor de harmonia, que a emballe e lhe favorea o dormir dentro
da mo de Deus. Hein, no te parece, Z Fernandes?

--Talvez. Mas  necessario ento viver n'um mosteiro, com o temperamento
de S. Bruno, ou ter cento e quarenta contos de renda e o desplante de
certos Jacinthos... E tambem me parece que andamos leguas. Estou
derreado. E que fome!

--Tanto melhor, para as trutas, e para o cabrito assado que nos
espera...

--Bravo! Quem te cosinha?

--Uma afilhada do Melchior. Mulher sublime! Has de ver a canja! Has de
ver a cabidella! Ella  horrenda, quasi an, com os olhos tortos, um
verde e outro preto. Mas que paladar! Que genio!

Com effeito! Horacio dedicaria uma ode quelle cabrito assado n'um
espeto de cerejeira. E com as trutas, e o vinho Melchior, e a cabidella,
em que a sublime an de olhos tortos puzera inspiraes que no so da
terra, e aquella doura da noite de Junho, que pelas janellas abertas
nos envolveu no seu velludo negro, to molle e to consolado fiquei,
que, na sala onde nos esperava o caf, cahi n'uma cadeira de verga, na
mais larga, e de melhores almofadas, e atirei um berro de pura delicia.

Depois, com uma recordao, limpando o caf do pello dos bigodes:

-- Jacintho, e quando ns andavamos por Paris com o Pessimismo s
costas, a gemer que tudo era illuso e dr?

O meu Principe, que o cabrito tornra ainda mais alegre, trilhava a
grandes passadas o soalho, enrolando o cigarro:

--Oh! que engenhosa besta, esse Schopenhauer! E maior besta eu, que o
sorvia, e que me desolava com sinceridade! E todavia,--continuava elle,
remexendo a chavena--o Pessimismo  uma theoria bem consoladora para os
que soffrem, porque desindividualisa o soffrimento, alarga-o at o
tornar uma lei universal, a lei propria da Vida; portanto lhe tira o
caracter pungente d'uma injustia especial, commettida contra o
soffredor por um Destino inimigo e faccioso! Realmente o nosso mal
sobretudo nos amarga quando contemplamos ou imaginamos o bem do nosso
visinho:--porque nos sentimos escolhidos e destacados para a
infelicidade, podendo, como elle, ter nascido para a Fortuna. Quem se
queixaria de ser cxo--se toda a humanidade coxeasse? E quaes no seriam
os urros, e a furiosa revolta do homem envolto na neve e friagem e
borrasca d'um inverno especial, organisado nos ceus para o envolver a
elle unicamente--em quanto em redor, toda a Humanidade se movesse na
luminosa benignidade d'uma Primavera?

--Com effeito, murmurei eu, esse sujeito teria immensa razo para
urrar...

--E depois, clamava ainda o meu amigo, o Pessimismo  excellente para os
Inertes, por que lhes attenua o desgracioso delicto da Inercia. Se toda
a meta  um monte de Dor, onde a alma vae esbarrar, para que marchar
para a meta, atravez dos embaraos do mundo? E de resto todos os Lyricos
e Theoricos do Pessimismo, desde Salomo at o maligno Schopenhauer,
lanam o seu cantico ou a sua doutrina para disfarar a humilhao das
suas miserias, subordinando-as todas a uma vasta lei de Vida, uma lei
Cosmica, e ornando assim com a aureola de uma origem quasi divina as
suas miudas desgraazinhas de temperamento ou de Sorte. O bom
Schopenhauer formla todo o seu schopenhauerismo, quando  um philosopho
sem editor, e um professor sem discipulos; e soffre horrendamente de
terrores e manias; e esconde o seu dinheiro debaixo do sobrado; e redige
as suas contas em grego nos perpetuos lamentos da desconfiana; e vive
nas adegas com o medo de incendios; e viaja com um copo de lata na
algibeira para no beber em vidro que beios de leproso tivessem
contaminado!... Ento Schopenhauer  sombriamente Schopenhauerista. Mas
apenas penetra na celebridade, e os seus miseraveis nervos se acalmam, e
o cerca uma paz amavel, no ha ento, em todo Francfort, burguez mais
optimista, de face mais jocunda, e gozando mais regradamente os bens da
intelligencia e da Vida!... E o outro, o Israelita, o muito pedantesco
rei de Jerusalem! quando descobre esse sublime Rhetorico que o mundo 
Illuso e Vaidade? Aos setenta e cinco annos, quando o Poder lhe escapa
das mos tremulas, e o seu serralho de trezentas concubinas se lhe torna
ridiculamente superfluo. Ento rompem os pomposos queixumes! Tudo 
vaidade e afflico de espirito! nada existe estavel sob o sol! Com
effeito, meu bom Salomo, tudo passa--principalmente o poder de usar
trezentas concubinas! Mas que se restitua a esse velho sulto asiatico,
besuntado de Litteratura, a sua virilidade,--e onde se sumir o lamento
do Ecclesiastes? Ento voltar, em segunda e triumphal edio, o extase
do _Livro dos Cantares_!...

Assim discursava o meu amigo no nocturno silencio de Tormes. Creio que
ainda estabeleceu sobre o Pessimismo outras coisas joviaes, profundas ou
elegantes;--mas eu adormecera, beatificamente envolto em Optimismo e
doura.

Em breve porm, me fez pular, escancarar as palpebras molles, uma rija,
larga, sadia e genuina risada. Era Jacintho, estirado n'uma cadeira, que
lia o D. Quixote... Oh bem aventurado Principe! Conservra elle o agudo
poder de arrancar theorias a uma espiga de milho ainda verde, e por uma
clemencia de Deus, que fizera reflorir o tronco secco, recuperra o dom
divino de rir, com as facecias de Sancho!

Aproveitando a minha companhia, as duas semanas de bucolica occiosidade
que eu lhe concedera, o meu Jacintho preparou ento a ceremonia to
falada, to meditada, a trasladao dos ossos dos velhos Jacinthos--dos
respeitaveis ossos como murmurava, cumprimentando, o bom Silverio, o
procurador, n'essa manh de sexta feira, em que almoava comnosco,
mettido n'um espantoso jaqueto de velludilho amarello debruado de seda
azul! A ceremonia, de resto, reclamava muita singeleza por serem to
incertos, quasi impessoaes, aquelles restos, que ns estabeleceriamos na
Capellinha do valle da Carria, na Capellinha toda nova, toda nua e toda
fria, ainda sem alma e sem calor de Deus.

--Por que emfim v. ex.^a comprehende,--explicava o Silverio passando o
guardanapo por sobre a larga face suada e por sobre as immensas barbas
negras, como as d'um turco--, n'aquella mixordia... Oh! peo desculpa a
v. ex.^a! N'aquella confuso, quando tudo desabou, no pudmos mais
conhecer a quem pertenciam os ossos. Nem sequer, fallando verdade, ns
sabiamos bem que dignos avs de v. ex.^a jaziam na capella velha, assim
to antigos, com os letreiros apagados, senhores de todo o nosso
respeito, certamente, mas, se v. ex.^a me permitte, senhores j muito
desfeitos... Depois veio o desastre, a mixordia. E aqui est o que
decidi, depois de pensar. Mandei arranjar tantos caixes de chumbo,
quantas as caveiras que se apanharam l em baixo na Carria, entre o
lixo e o pedregulho. Havia sete caveiras e meia. Quero dizer, sete
caveiras e uma caveirinha pequenina. Mettemos cada caveira em seu
caixo. Depois... Que quer v. ex.^a? No havia outro meio! E aqui o Snr.
Fernandes dir se no acha que procedemos com habilidade. A cada caveira
juntamos uma certa poro d'ossos, uma poro rasoavel... No havia
outro meio... Nem todos os ossos se acharam. Canellas, por exemplo,
faltavam! E  bem possivel que as costellas d'um d'aquelles senhores
ficasse com a cabea d'outro... Mas quem podia saber? S Deus. Emfim
fizemos o que a prudncia mandava... Depois, no dia de Juizo, cada um
d'estes fidalgos apresentar os ossos que lhe pertencerem.

Lanava estas cousas macabras e tremendas, penetrado de respeito, quasi
com magestade, espetando, ora em mim, ora no meu Principe, os olhinhos
agudos e relusentes como vidrilhos.

Eu approvei o pittoresco homem:

--Perfeitamente! Andou perfeitamente, amigo Silverio. So to vagos, to
anonymos, todos esses avs! S faz pena, grande pena, que se
tresmalhassem os restos do av Galio.

--No estava c! accudiu Jacintho. Vim a Tormes expressamente por causa
do av Galio, e por fim o seu jazigo nunca foi aqui, na Capellinha da
Carria... Felizmente!

O Silverio saccudia gravemente a calva trigueira:

--Nunca tivemos o ex.^{mo} sr. Galio. Ha cem annos, Snr. Fernandes, ha
cem annos que se no depositava na capella velha corpo de cavalheiro c
da casa.

--Onde estar ento?...

O meu Principe encolheu os hombros. Por esse Reino... Na egrejinha, no
cemiterio d'alguma das freguezias numerosas, onde elle possuia terras.
Casa to espalhada!

--Bem! conclui. Ento, como se trata d'ossadas vagas, sem nome, sem
data, convem uma ceremoniasinha muito simples, muito sobria.

--Quietinha, quietinha! murmurou o Silverio, dando um forte sorvo
assobiado ao caf.

E foi quietinha, d'uma rustica e doce singeleza, a ceremonia d'aquelles
altos senhores. Cedo, por uma manh, levemente enevoada, os oito caixes
pequeninos, cobertos d'um velludo vermelho mais de festa que de funeral,
com molhos de rosas espalhados, contendo cada um o seu montesinho
d'ossos incertos, sahiram aos hombros dos coveiros de Tormes e dos moos
da quinta, da Egreja de S. Jos, cujo sino leve tangia, na enevoada
doura da manh,--quanto fina e levemente!--como pia um passarinho
triste. Adiante, um airoso moo de sobrepelis, erguia com zelo a velha
cruz prateada; abrigando o pescoo sob um immenso leno de rap, de
quadrados azues, o velho e corcovado sacristo segurava pensativamente a
caldeirinha d'agoa benta; e o bom abbade de S. Jos, com os dedos entre
o breviario fechado, movia os labios, n'uma lenta, murmurosa resa, que
ia, pelo doce ar, espalhando mais doura. Logo atraz do ultimo cofre, o
mais pequenino, o da caveirinha pequena, Jacintho caminhava; e eu, a
estalar dentro d'um fato preto de Jacintho, tirado  pressa d'uma das
malas de Paris quando, de manh, j tarde para mandar a Guies, me
lembrei que toda a minha roupa era de cores festivaes e pastoris.

Depois marchava o Silverio, solemnissimo, com um immenso peitilho, onde
as barbas immensas se alastravam, negrissimas. De casaca, com o grosso
beio descahido, descahido todo elle por aquella melancolia de enterro
que se juntava  melancolia da serra, o Grillo enfiava no brao a sua
coroa, enorme, de rosas e d'heras. Por fim seguia o Melchior, entre um
rancho de mulheres, que, sumidas na sombra dos lenos pretos, desfiando
longos rosarios, rosnavam surdas av-marias, atravez d'espaados
suspiros, to doridos como se inconsoladamente lhes doesse a perda
d'aquelles Jacinthos. Assim, pelas varzeas entrecorridas de regueiros,
lenta nos recostos dos mattos, escorregando mais rapida, pelos corregos
pedregosos, seguia a procisso, sempre com a cruz adiante, alta e
prateada, rebrilhando por vezes n'um breve raiosinho de sol que,
vagarosamente, surdia da nevoa desfeita. Ramos baixos de lodo ou de
salgueiro passavam uma derradeira caricia sobre o velludo dos caixes.

Um regato por vezes nos acompanhava, com discreto fulgir entre as
relvas, sussurrando e como resando tambem, alegremente: e nos
quintalinhos umbrosos,  nossa passagem, os gallos, de cima das pilhas
de matto, faziam soar o seu clarim festivo. Depois, adiante da fonte da
Lira, como o caminho se alongava, e desejassemos poupar o nosso velho
abbade, cortamos atravez d'uma seara, j alta, quasi madura, toda
entremeada de papoulas, O sol radiou: sob a brisa larga, que levra a
nevoa, toda a messe ondulou n'uma lenta vaga dourada, em que se
balouavam os esquifes; e, como enorme papoula, a mais vermelha,
rutilava o guarda sol de panninho logo aberto pelo sacristo para
abrigar o abbade.

Jacintho tocou no meu cotovello:

--Que lindos vamos! Ora v tu a Natureza... N'um simples enterrar
d'ossos, quanta graa e quanta belleza!

Na Capellinha, nova, dominando o valle da Carria, solitaria e muito
nua, no meio d'um adro, ainda mal alisado, sem uma verdura de relva, uma
frescura d'arbusto, dous moos seguravam  porta molhos de tochas, que o
Silverio distribuiu, a passos graves, com cortezias, solemnissimo.
Dentro as curtas chammas, mal luziam, mal derramavam a sua amarellido
triste, esbatidas na relusente brancura dos muros estacados, na jovial
claridade que cahia das altas vidraas bem polidas. Em torno dos
esquifes, pousados sobre bancos, que pesados velludilhos recobriam, o
abbade murmurava um suave latim, emquanto ao fundo as mulheres, sumidas
na sombra dos seus negros lenos, gemiam _amens_ agudos, abafavam um
respeitoso soluo. Depois, tomando levemente o hyssope, ainda o bom
abbade aspergiu, para uma derradeira purificao, os incertos ossos dos
incertos Jacinthos. E todos desfilamos por diante do meu Principe,
timidamente encostado  umbreira, com o Silverio ao lado esmagando
contra o peitilho as barbas inamensas, a face descahida, cerradas as
palpebras como contendo lagrimas.

No adro, o meu Principe accendeu regaladamente um cigarro pedido ao
Melchior:

--E ento, Z Fernandes, que te pareceu a ceremoniasinha?

--Muito campestre, muito suave, muito risonha... Uma delicia.

Mas o Abbade, que se desvestira na Sachristia, appareceu, j com o seu
grande casaco de lustrina, e seu velho chapeu desabado, trazidos pelo
moo da Residencia, n'um sacco de chita. Jacintho, immediatamente lhe
agradeceu tantos cuidados, a affavel hospitalidade que offerecera aos
ossos, durante a construco da Capellinha nova. E o suave velho, todo
branquinho, de faces ainda menineiras e coradas, com um claro sorriso de
dentes sadios, louvava Jacintho, que assim viera de to longe, em to
longa jornada, para cumprir aquelle dever de bom neto.

--So avs muito remotos, e agora to confusos! murmurava Jacintho
sorrindo.

--Pois mais merito ainda o de v. ex.^a. Respeitar um av morto, bem 
corrente... Mas respeitar os ossos d'um quinto av, d'um setimo av!

--Sobretudo, Snr. Abbade, quando d'elles nada se sabe, e naturalmente
nada fizeram.

O velho sacudiu risonhamente o dedo gordo:

--Ora quem sabe, quem sabe! Talvez fossem excellentes! E por fim, quem
muito se demora no mundo, como eu, termina por se convencer que no mundo
no ha cousa ou ser inutil. Ainda hontem eu lia n'um jornal do Porto,
que por fim, segundo se descobriu, so as minhocas que estrumam e lavram
a terra, antes de chegar o lavrador e os bois com o arado. At as
minhocas so uteis. No ha nada inutil... Eu tinha l na residencia uma
poro de cardos a um canto da horta, que me affligiam. Pois reflecti e
terminei por me regalar com elles em xarope. Os avs de v. ex.^a por c
andaram, por c trabalharam, por c padeceram. Quer dizer: por c
serviram. E, em todo o caso, que lhes rezemos um Padre-Nosso por alma
no lhes pde fazer seno bem, a elles e a ns.

E assim, docemente philosophando, paramos n'um souto de carvalheiras,
onde esperava a velhissima egoa do Abbade, por que o santo homem agora,
depois do rheumatismo do ultimo inverno, j no affrontava rijamente
como antes os trilhos duros da serra. Para elle montar, filialmente
Jacintho segurou o estribo. E emquanto a egoa se empurrava pelo corrego
acima, quasi tapada sob o immenso guarda sol vermelho em que se abrigava
o velho, ns recolhemos a casa mettendo pela serra da Lombinha, atravez
dos milhos, e depressa, porque eu estalava, aperreado, dentro da roupa
preta do meu Principe.

--Esto pois accommodados estes senhores, Z Fernandes! S resta rezar
por elles o Padre-Nosso, que recommenda o abbade... Smente, eu no sei,
j no me lembro do Padre-Nosso.

--No te afflijas, Jacintho: peo  tia Vicencia que reze por mim e por
ti.  sempre a tia Vicencia que reza os meus Padre-Nossos.

Durante essas semanas que preguicei em Tormes, eu assisti, com
internecido interesse, a uma consideravel evoluo de Jacintho nas suas
relaes com a Natureza. D'aquelle periodo sentimental de contemplao,
em que colhia theorias nos ramos de qualquer cerejeira, e edificava
Systemas sobre o espumar das levadas, o meu Principe lentamente passava
para o desejo da Aco... E d'uma aco directa e material, em que a sua
mo, emfim restituida a uma funco superior, revolvesse o torro.

Depois de tanto _commentar_, o meu Principe, evidentemente, aspirava a
_crear_.

Uma tardinha, ao anoitecer, sentados no pomar, no rebordo do tanque, em
quanto o Manoel hortelo apanhava laranjas no alto d'uma escada arrimada
a uma alta laranjeira, Jacintho observou, mais para si do que para mim:

-- curioso... Nunca plantei uma arvore!

--Pois  um dos tres grandes actos, sem os quaes segundo diz no sei que
Philosopho, nunca se foi um verdadeiro homem... Fazer um filho, plantar
uma arvore, escrever um livro. Tens de te apressar, para ser um homem. 
possivel que talvez nunca prestasses um servio a uma arvore, como se
presta a um semelhante!

--Sim... Em Paris, quando era pequeno, regava os lilazes. E no vero 
um bello servio! Mas nunca semeei.

E como o Manoel descia da escada, o meu Principe, que nunca acreditra
inteiramente--pobre homem!--no meu saber agricola, immediatamente
reclamou o parecer d'aquella auctoridade:

--Oh Manoel, oua l, o que  que se poderia agora semear?

Como cesto das laranjas enfiado no brao, o Manoel exclamou, atravez
d'um lento riso, entre respeitoso e divertido:

--Semear, patro? Agora  antes colher... Olhe que j se anda a limpar a
eirasinha para a debulha, meu patro.

--Pois sim... Mas sem ser milho nem cevada... Ento alli no pomar, rente
do muro velho, no se podia plantar uma fila de pecegueiros?

O riso do Manoel crescia.

--Isso sim, meu senhor! Isso  l para os Santos ou para o Natal. Agora
s a couvinha na horta, a beldroega, os espinafres, algum feijosinho em
terra muito fresca...

O meu Principe sacudiu com brando gesto estes legumes rasteiros.

--Bem, boa noite, Manoel. Essas laranjas so da tal laranjeira que diz o
Melchior, muito doces, muito finas? Ento leve para os seus pequenos.
Leve muitas para os pequenos.

No! o empenho era crear a arvore. Pela arvore contemplada na serra em
sua verdadeira magestade, na beneficencia da sua sombra, na frescura
emballadora do seu rumorejar, na graa e santidade dos ninhos que a
povoam, comera talvez, lentamente, o seu amor novo da Terra. E agora
sonhava uma Tormes toda coberta d'arvores, cujos fructos e verduras, e
sombras, e rumorejos suaves, e abrigados ninhos, fossem a obra e o
cuidado das suas mos paternaes.

No silencio grave do crepusculo, que descia, murmurou ainda:

--Oh Z Fernandes; quaes so as arvores que crescem mais depressa?

--Eh, meu Jacintho... A arvore que cresce mais depressa  o eucalypto, o
feiissimo e ridiculo eucalypto. Em seis annos tens ahi Tormes coberta de
eucalyptos...

--Tudo to lento, Z Fernandes...

Porque o seu sonho, que eu comprehendia, seria plantar caroos que
subissem em fortes troncos, se alargassem em verdes ramarias, antes de
elle voltar ao 202, no comeo do inverno...

--Um carvalho!... Trinta annos, antes que seja bello! Desanmo!  bom
para Deus, que pode esperar... _Patiens quia aeternus_. Trinta annos!
D'aqui a trinta annos, arvores s para me cobrirem a sepultura!

--J  um ganho. E depois para teus filhos, Jacintho...

--Filhos! onde os tenho eu?

-- o mesmo processo dos castanheiros. Semeia. No faltam por ahi terras
agradaveis... Em nove mezes tens uma planta feita. E quanto mais
tenrinhas, e mais pequeninas, mais essas plantas encantam.

Elle murmurou, crusando as mos sobre o joelho:

--Tudo leva tanto tempo!...

E  borda do tanque nos quedamos, calados, na fresca doura do
anoitecer, entre o cheiro avivado das madresilvas do muro, olhando o
crescente da lua, que surdia dos telhados de Tormes.

E decerto esta pressa de se tornar entre a Natureza no mais um
sonhador, mas um creador, arremessou vivamente o seu interesse para os
gados! Repetidamente, nos nossos passeios atravez da quinta, elle lhe
notava a solido.

--Faltam aqui animaes, Z Fernandes!

Imaginava eu, que elle appetecia em Tormes o ornato elegante de veados e
paves. Mas um domingo, costeando o largo campo da Ribeirinha, sempre
escasso d'agoas, agora mais resequido por vero de tanta seccura, o meu
Principe parou a considerar os tres carneiros do caseiro, que retouavam
com penuria uma relvagem pobre.

E, de repente, como magoado:

--Justamente! Aqui est o espao para um bello prado, um immenso prado,
muito verde, muito farto, com rebanhos de carneiros brancos, gordissimos
como bolas de algodo pousadas na relva!... Era lindo, hein?  facil,
no  verdade, Z Fernandes?

--Sim... Trazes a agoa para o prado. Agoas no faltam, na serra.

E o meu principe encadeando logo n'esta inspirada idea outra, mais rica
e vasta, lembrou quanta belleza daria a Tormes encher esses prados,
esses verdes ferregiaes, de manadas de vaccas, formosas vaccas inglezas,
bem nedias e bem luzidias. Hein? Uma belleza. Para abrigar esses gados
ricos, construiria curraes perfeitos, d'uma architectura leve e util,
toda em ferro e vidro, fundamente varridos pelo ar, largamente lavados
pela agoa... Hein? Que formosura! Depois, com todas essas vaccas, e o
leite jorrando, nada mais facil e mais divertido, e at mais moral, que
a installao d'uma queijeira,  fresca moda Hollandeza, toda branca e
reluzente, de azulejos e de marmore, para fabricar os Camemberts, os
Bries... os Coulommiers... Para a casa, que conforto! E para toda a
serra, que actividade!

--Pois no te parece, Z Fernandes?

--Com certeza. Tu tens, em abundancia, os quatro Elementos: o ar, a
agoa, a terra, e o dinheiro. Com estes quatro elementos, facilmente se
faz uma grande lavoura. Quanto mais uma queijeira!

--Pois no  verdade? E at como negocio! Est claro, para mim o lucro 
o deleite moral do trabalho, o emprego fecundo do dia... Mas uma
queijaria, assim perfeita, rende. Rende prodigiosamente. E educa o
paladar, incita a installaes eguaes, implanta talvez no paiz uma
industria nova e rica! Ora com essa installao, perfeita, quanto me
poder custar cada queijo?

Fechei um olho, calculando:

--Eu te digo.... Cada queijo, um d'esses queijinhos redondos, como o
Camembert ou o Rabaal, pde vir a custar-te, a ti Jacintho queijeiro,
entre duzentos e cincoenta e trezentos mil ris.

O meu Principe recuou, com dous olhos alegres espantados para mim.

--Como trezentos mil ris?

--Ponhamos duzentos... Tem a certeza! Com todos esses prados, e os
encanamentos d'agoa e a configurao da serra alterada, e as vaccas
inglezas, e os edificios de porcellana e vidro, e as maquinas, a
extravagancia, e a patuscada bucolica, cada queijo te custa, a ti
productor, duzentos mil ris. Mas com certeza o vendes no Porto por um
tosto. Pe cincoenta ris para a caixa, rotulos, transporte, commisso,
etc. Tens apenas, em cada queijo uma perda de cento e noventa e nove mil
oitocentos e cincoenta ris!

O meu Principe no desanimou.

--Perfeitamente! Fao um d'esses espantosos queijos por semana, ao
sabbado, para o comermos ns ambos ao domingo!

E tanta energia lhe communicava o seu novo Optimismo, to anciosamente
aspirava a crear, que logo, arrastando o Silverio e o Melchior por
cabeos e barrancos, largou a percorrer a quinta toda, para determinar
onde cresceriam, ao seu mando inspirado, os verdes prados, e se
ergueriam, rebrilhantes no sol de Tormes, os curraes elegantes. Com a
esplendida segurana dos seus cento e nove contos de renda, no surgia
difficuldade, risonhamente murmurada pelo Melchior, ou exclamada, com
respeitoso pasmo, pelo Silverio, que elle no afastasse brandamente, com
geito leve, como um galho de roseira brava atravessado n'uma vereda.

Aquellas rochas, alm, empecendo? Que se arrancassem! Um valle importuno
dividia dous campos? Que se atulhasse! O Silverio suspirava, enxugando
sobre a escura calva um suor quasi d'angustia. Pobre Silverio! Rijamente
sacudido na doce pachorra da sua administrao, calculando despezas que
se affiguravam sobrehumanas  sua parcimonia serrana, forado a
arquejar, sem descano, sob soalheiras de Junho, o desgraado retomra
na Serra o geito que Jacintho deixra em Paris,--e era elle que corria
pelas longas barbas tenebrosas os dedos desalentados... Emfim uma tarde
desabafou comigo, a um canto da varanda, em quanto Jacintho, na
livraria, escrevia a um seu amigo de Hollanda, o conde Rylant, Mordomo
Mr da Corte, pedindo desenhos, e planos, e oramentos d'uma queijeira
perfeita.

--Pois, Snr. Fernandes, se toda esta grandeza vae por diante, sempre lhe
digo que o Snr. D. Jacintho enterra aqui na serra dezenas de contos...
Dezenas de contos!

E como eu alludia  fortuna do meu Principe, a quem todas essas obras
to vastas, que alterariam o antiquissimo rosto da serra, no custavam
mais que a outros o concerto d'um socalco,--o bom Silverio atirou os
longos braos para as coxas gordas, ainda mais desolado:

--Pois por isso mesmo, Snr. Fernandes! Se o Snr. D. Jacintho no tivesse
a dinheirama, recuava. Assim,  zs zs, para deante; e eu no o censuro
pela ideia. Lograsse eu a renda de S. Ex.^a, que me atirava tambem a uma
lavoura de capricho. Mas no aqui, Snr. Fernandes, n'estas serranias,
entre alcantis. Pois um senhor que possue aquella linda propriedade de
Montemr, nos campos do Mondego, onde at podia plantar jardins de
desbancar os do Palacio de Crystal do Porto! E a Velleira? O Snr.
Fernandes no conhece a Velleira, l para os lados de Penafiel? Isso 
um condado! E uma terra ch, boa terra, toda junta, alli em volta da
casa, com uma torre. Um regalo, Snr. Fernandes. Mas sobretudo Montemr!
L  que eram prados e manadas de vaccas inglezas, e queijeira e horta
rica, de fartar, e ahi trinta pers na capoeira...

--Ento que quer, Silverio? O Jacintho gosta da serra. E depois este  o
solar da familia, e aqui comearam no seculo XIV os Jacinthos...

O pobre Silverio, no seu desespero, esquecia o respeito devido  secular
nobreza da casa.

--Ora! at ficam mal ao Snr. Fernandes essas ideias, n'este seculo da
liberdade... Pois estamos l em tempos de se fallar em fidalguias, agora
que por toda a parte anda tudo em Republica? Leia o _Seculo_, Snr.
Fernandes! leia o _Seculo_, e ver! E depois eu sempre quero vr o Snr.
D. Jacintho, aqui no inverno, com o nevoeiro a subir do rio logo pela
manh, e a friagem a trespassar os ossos, e ventanias que atiram
carvalheiras de raizes ao ar, e chuvas e chuvas que se desfaz a
serra!... Olhe, at mesmo por amor da saude o Snr. D. Jacintho, que 
fraquinho e acostumado  cidade, necessita sahir da serra. Em Montemr,
em Montemr  que s. ex.^a estava bem. E o Snr. Fernandes, to amigo
d'elle e assim com tanta influencia, devia teimar, e berrar, at que o
levasse para Montemr.

Mas, infelizmente para a quietao do Silverio, Jacintho lanra raizes,
e rijas, e amorosas raizes na sua rude serra. Era realmente como se o
tivessem plantado d'estaca n'aquelle antiquissimo cho, d'onde brotra a
sua raa, e o antiquissimo humus refluisse e o penetrasse todo, e o
andasse transformando n'um Jacintho rural, quasi vegetal, to do cho, e
preso ao cho, como as arvores que elle tanto amava.

E depois o que o prendia  serra era o ter n'ella encontrado o que na
Cidade, apesar da sua sociabilidade, no encontrra nunca,--dias to
cheios, to deliciosamente occupados, d'um to saboroso interesse, que
sempre penetrava n'elles, como n'uma festa ou n'uma gloria.

Logo de manh, s seis horas, eu, no meu quarto, mexendo ainda
regaladamente o meu corpo nos colches de fresco folhelho, sentia os
seus rijos sapates pelo corredor, e o seu cantarolar, desafinado, mas
ditoso como o d'um melro. Em poucos instantes escancarava com fragor a
minha porta, j de chapeu desabado, j de bengalo de cerejeira,
disposto com reservado fervor para os trilhos conhecidos da serra. E era
sempre a mesma nova, quasi orgulhosa:

--Dormi hoje deliciosamente, Z Fernandes. To bem, com uma tal
serenidade, que comeo a acreditar que sou um justo! Um dia lindo!
Quando abri a janella, s cinco horas, quasi gritei de puro gosto!

Na sua pressa, nem me deixava demorar na frescura da banheira; e quando
eu repetia a risca mal comeada do cabello, aquelle antigo homem das
trinta e nove escovas, protestava contra esse desbarato effeminado d'um
tempo devido aos fortes gozos da terra.

Mas quando, depois de acariciar os rafeiros no pateo, desembocavamos da
alameda de platanos, e deante de ns se dividiam matutinamente, mais
brancos entre o verde matutino, os caminhos colleantes da quinta, toda a
sua pressa findava, e penetrava na Natureza, com a reverente lentido de
quem penetra n'um Templo. E repetidamente sustentava ser contrario 
Esthetica,  Philosophia e  Religio, andar depressa atravs dos
campos. De resto, com aquella subtil sensibilidade bucolica que n'elle
se desenvolvera, e incessantemente se afinava, qualquer breve belleza,
do ar ou da terra, lhe bastava para um longo encanto. Ditosamente
poderia elle entreter toda uma manh, caminhar por entre um pinheiral,
de tronco a tronco, callado, embebido no silencio, na frescura, no
resinoso aroma, empurrando com o p as agulhas e as pinhas seccas.
Qualquer agua corrente o retinha, enternecido n'aquella servial
actividade, que se apressa, cantando, para o torro que tem sde, e
n'elle se some, e se perde. E recordo ainda quando me reteve meio
domingo, depois da Missa, no cabeo, junto a um velho curral
desmantellado, sob uma grande arvore,--s por que em torno havia
quietao, doce aragem, um fino piar d'ave na ramaria, um murmurio de
regato entre canas verdes, e por sobre a sbe, ao lado, um perfume,
muito fino e muito fresco, de flores escondidas.

Depois, quando eu, velho familiar das serras, me no abandonava aos
mesmos extasis que a elle lhe enchiam a alma ainda novia--o meu
Principe rugia, com a indignao d'um poeta que descobre um mercieiro
bocejando sobre Shakspeare ou Musset. Eu ria.

--Meu filho, olha que eu no passo d'um pequeno proprietario. Para mim
no se trata de saber se a terra  _linda_, mas se a terra  _boa_. Olha
o que diz a Biblia! Trabalhars a quinta com o suor do teu rosto! E
no diz contemplars a quinta com o enlevo da tua imaginao!

--Podra! exclamava o meu Principe. Um livro escripto por Judeos, por
asperos semitas, sempre com o turvo olho posto no lucro! Repra, homem,
para aquelle bocadinho de valle, e consegue no pensar, por um momento,
nos trinta mil reis que elle rende! Vers que pela sua belleza e graa
elle te d mais contentamento  alma que os trinta mil reis ao corpo. E
na vida s a alma importa.

Recolhendo ao casaro, j o encontravamos com as janellas meio cerradas,
os soalhos borrifados para aquellas quentes restias de sol de junho, que
depois do almoo docemente nos retinham na livraria, preguiando.

Mas realmente a alegre actividade do meu Principe no cessava, nem
amollecia, sob o peso da ssta. A essa hora, em quanto pelo arvoredo
mudo os mais agitados pardaes dormiam, e o sol mesmo parecia repousar,
immovel na rutilancia da sua luz, Jacintho com o espirito
acordado,--vido de sempre gosar, agora que reconquistra essa
faculdade,--tomava com delicia o _seu livro_. Por que o dono de trinta
mil volumes era agora, na sua casa de Tormes, depois de resuscitado, o
homem que s tem um livro. Essa mesma Natureza, que o desligra das
ligaduras amortalhadoras do tedio, e lhe gritra o seu bello _Ambula_,
caminha!--tambem certamente lhe gritra _et lege_, e l. E libertado
emfim do envolucro suffocante da sua Bibliotheca immensa, o meu ditoso
amigo comprehendia emfim a incomparavel delicia de _lr um livro_.
Quando eu correra a Tormes, (depois das revelaes do Severo na venda do
Torto,) elle findava o D. Quichote, e ainda eu lhe escutra as
derradeiras risadas com as cousas deliciosas, e de certo profundas, que
o gordo Sancho lhe murmurava, escarranchado no seu burro. Mas agora o
meu Principe mergulhra na _Odyssea_,--e todo elle vivia no espanto e no
deslumbramento de assim ter encontrado no meio do caminho da sua vida, o
velho errante, o velho Homero!

--Oh Z Fernandes, como succedeu que eu chegasse a esta edade sem ter
lido Homero?...

--Outras leituras, mais urgentes... O _Figaro_, George Ohnet...

--Tu leste a _Illiada_?

--Menino, sinceramente me gabo de nunca ter lido a _Illiada_.

Os olhos do meu Principe fuzilavam.

--Tu sabes o que fez Alcibiades, uma tarde, no Portico, a um sophista,
um desavergonhado d'um sophista, que se gabava de no ter lido a
_Illiada_?

--No.

--Ergueu a mo e atirou-lhe uma bofetada tremenda.

--Para l, Alcibiades! Olha que eu li a _Odyssea_!

Oh! mas de certo eu a lra, corridamente, com a alma desattenta! E
insistia em me iniciar, elle, e me conduzir, atravs do Livro sem egual.
Eu ria. E rindo, pesado do almoo, terminava por consentir, e me
estirava no canap de verga. Elle, deante da mesa, direito na cadeira,
abria o livro gravemente, pontificalmente, como um missal, e comeava
n'uma lenta ode sentida. Aquelle grande mar da _Odyssea_,--
resplandecente e sonoro, sempre azul, todo azul, sob o vo branco das
gaivotas, rolando, e mansamente quebrando sobre a areia fina ou contra
as rochas de marmore das Ilhas divinas,--exhalava logo uma frescura
salina, bem vinda e consoladora n'aquella calma de Junho, em que a serra
se entorpecia. Depois as estupendas manhas do subtil Ulysses e os seus
perigos sobrehumanos, tantas lamurias sublimes, e um anceio to
espalhado da Patria perdida, e toda aquella intriga, em que embrulhava
os Heroes, lograva as Deusas, illudia o Fado, tinham um delicioso sabr
ali, nos campos de Tormes, onde nunca se necessitava de subtileza ou de
engenho, e a Vida se desenrolava com a segurana immutavel com que cada
manh sempre o Sol egual nascia, e sempre centeios e milhos, regados por
agoas eguaes, seguramente medravam, espigavam, amadureciam... Emballado
pela recitao grave e monotona do meu Principe, eu cerrava as palpebras
docemente. Em breve um vasto tumulto, por terra e ceu, me alvoroava...
E eram os rugidos de Polyphemo, ou a grita dos companheiros d'Ulysses
roubando as vaccas de Apollo. Com os olhos logo esbugalhados para
Jacintho, eu murmurava: _Sublime!_ E sempre, n'esse momento o engenhoso
Ulysses, de carapuo vermelho e o longo remo ao hombro, surprehendia com
a sua facundia a clemencia dos Principes, ou reclamava presentes devidos
ao Hospede, ou surripiava astutamente algum favor aos Deuses. E Tormes
dormia, no esplendor de Junho. Novamente, eu cerrava as palpebras
consoladas, sob a caricia ineffavel do largo dizer homerico... E meio
adormecido, encantado, incessantemente avistava, longe, na divina
Hellade, entre o mar muito azul e o ceu muito azul, a branca vela,
hesitante, procurando Ithaca...

Depois da ssta o meu Principe de novo se soltava para os campos. E a
essa hora, sempre mais activa, voltava com ardor aos seus planos, a
essas culturas de luxo e elegantes officinas que cobririam a serra de
magnificencias ruraes. Agora andava todo no esplendido appetite d'uma
horta que elle concebera, immensa horta ajardinada, em que todos os
legumes, classicos ou exoticos, cresceriam, soberbamente, em vistosos
talhes, fechados por sebes de rosas, de cravos, de alfazma, de
dhalias. A agoa das regas desceria por lindos corrgos de loua
esmaltada. Nas ruas, a sombra cahiria de densas latadas de moscatel,
pousando em esteios revestidos d'azulejo. E o meu Principe desenhra o
plano d'esta espantosa horta, a lapiz vermelho, n'um papel immenso, que
o Melchior e o Silverio, consultados, longamente contemplaram,--um
coando risonhamente a nuca, o outro com os braos duramente crusados, e
o sobrlho tragico.

Mas este plano, o da queijaria, o da capoeira, e outro, sumptuoso, d'um
pombal to povoado que todo o ceu de Tormes s tardes se tornaria branco
e todo fremente d'azas--no sahiam das nossas gostosas palestras, ou dos
papeis em que Jacintho os debuxava, e que se amontoavam sobre a meza,
platonicos, immoveis, entre o tinteiro de lato e o vaso com flres.

Nem enxadada fendera terra, nem alavanca deslocra pedra, nem serra
serrra madeira, para encetar estas maravilhas. Contra a resistencia
rebolada e escorregadia do Melchior, contra a respeitosa inercia do
Silverio se quedavam, encalhados, os planos do meu Principe, como
galeras vistosas em rochas ou em ldo.

No convinha bolir em nada, (clamava o Silverio) antes das colheitas e
da vindima! E depois, (acrescentava o Melchior com um sorriso de grande
promessa) para boas obras mez de Janeiro porque l ensina o dictado:

Em Janeiro--mette obreiro
Mez meante--que no ante.

E, de resto, o goso de conceber as suas obras e de indicar, estendendo a
bengala por cima de valle e monte, os sitios privilegiados que ellas
aformoseariam, bastava por ora ao meu Principe, ainda mais imaginativo
que operante. E, em quanto meditava estas transformaes da terra, muito
progressivamente e com um amavel esforo, se ia familiarisando com os
homens simples que a trabalhavam. Na sua chegada a Tormes, o meu
Principe soffria d'uma estranha timidez diante dos caseiros, dos
jornaleiros, e at de qualquer rapazinho que passasse, tangendo uma
vacca para o pasto. Nunca elle ento se demoraria a conversar com os
moos, quando  borda d'um caminho ou n'um campo em monda elles se
endireitavam de chapeu na mo, n'um respeito de velha vassalagem. De
certo o empecia a preguia, e talvez ainda o pudico recato de transpor
toda a immensa distancia que se alargava desde a sua complicada
super-civilisao at  rude simplicidade d'aquellas almas
naturaes:--mas sobretudo o retinha o medo de mostrar a sua ignorancia da
lavoura e da terra, ou de parecer talvez desdenhoso de occupaes e de
interesses, que para os outros eram supremos e quasi religiosos. Remia
ento esta reserva com uma profuso de sorrisos, de doces acenos,
tirando tambem o chapeu em cortezias profundas, com uma tal emphase de
polidez que eu por vezes receava que elle murmurasse aos jornaleiros:
Tenha v. ex.^a muito boas tardes;... Creado de v. ex.^a!

Mas agora, depois d'aquellas semanas de serra, e de j saber (com um
saber ainda fragil,) a epocha das sementeiras e das ceifas, e que as
arvores de fructa se semeiam no inverno, j se aprazia em parar junto
dos trabalhadores, contemplar descanadamente o trabalho, dizer cousas
affaveis e vagas.

--Ento, isso vae andando?... Ora ainda bem!... Este bocado de torro
aqui  rico... O talude ali adeante est precisando concerto...

E cada um d'estes to simples dizeres lhe era doce, como se por meio
d'elles penetrasse mais fundamente na intimidade da terra, e
consolidasse a sua encarnao em homem do campo, deixando de ser uma
mera sombra circulando entre realidades. J por isso no crusava no
caminho o mocinho atraz das vaccas, que no o detivesse, o no
interrogasse: Para onde vaes tu? De quem  o gado? Como te chamas? E,
contente comsigo, sempre gabava gratamente o desembarao do rapaz, ou a
esperteza dos seus olhos. Outra satisfao do meu Principe era conhecer
os nomes de todos os campos, as nascentes d'agua, e as delimitaes da
sua quinta.

--Vs acol, para alm do ribeiro, o pinheiral. J no  meu,  dos
Albuquerques.

E com a perenne alegria de Jacintho as noites da serra, no vasto
casaro, eram faceis e curtas. O meu Principe era ento uma alma que se
simplificava:--e qualquer pequenino goso lhe bastava, desde que n'elle
entrasse paz ou doura. Com verdadeira delicia ficava, depois do caf,
estendido n'uma cadeira, sentindo atravez das janellas abertas, a
nocturna tranquillidade da serra, sob a mudez estrellada do ceu.

As historias, muito simples e muito caseiras, que eu lhe contava, de
Guies, do abbade, da tia Vicencia, dos nossos parentes da Flr da
Malva, to sinceramente o interessavam que eu encetra, para seu regalo,
a chronica completa de Guies, com todos os namoricos, e as faanhas de
foras, e as desavenas por causa de servides ou d'aguas. Tambem por
vezes nos enfronhavamos, com afferro n'uma partida de gamo, sobre um
bello taboleiro de pau preto, com pedras de velho marfim, que nos
emprestra o Silverio. Mas nada de certo o encantava tanto como
atravessar as casas, p ante p, at uma saleta que dava para o pomar, e
ahi ficar encostado  janella, sem luz, n'um enlevado socego, a escutar
longamente, languidamente, os rouxinoes que cantavam no laranjal.




X


N'uma dessas manhs--justamente na vespera do meu regresso a Guies--, o
tempo, que andra pela serra to alegre, n'um inalterado riso de luz
rutilante, todo vestido d'azul e ouro, fazendo poeira pelos caminhos, e
alegrando toda a natureza, desde os passaros at os regatos,
subitamente, com uma d'aquellas mudanas que tornam o seu temperamento
to semelhante ao do homem, appareceu triste, carrancudo, todo
embrulhado no seu manto cinzento, com uma tristeza to pesada e
contagiosa que toda a serra entristeceu. E no houve mais passaro que
cantasse, e os arroios fugiram para debaixo das hervas com um lento
murmurio de chro.

Quando Jacintho entrou no meu quarto, no resisti  malicia de o
aterrar:

--Sudoeste! gralhas a grasnar por todos esses soutos... Temos muita
agua, Snr. D. Jacintho! Talvez duas semanas d'agua! E agora  se vae
saber quem  aqui o fino amador da Natureza, com esta chuva pegada, com
vendaval, com a serra toda a escorrer!

O meu Principe caminhou para a janella com as mos nas algibeiras:

--Com effeito! Est carregado. J mandei abrir uma das malas de Paris e
tirar um casaco impermeavel... No importa! Fica o arvoredo mais verde.
E  bom que eu conhea Tormes nos seus habitos d'inverno.

Mas como o Melchior lhe affianra que a chuvinha s viria para a
tarde, Jacintho decidiu ir antes d'almoo  Corujeira, onde o Silverio
o esperava para decidirem da sorte d'uns castanheiros, muito velhos,
muito pittorescos, inteiramente interessantes, mas j roidos, e
ameaando desabar. E, confiando nas previses do Melchior, partimos sem
que Jacintho se vestisse  prova d'agoa. No andaramos porm meio
caminho, quando, depois d'um arrepio nas arvores, um negrume carregou,
e, bruscamente, desabou sobre ns uma grossa chuva obliqua, vergastada
pelo vento, que nos deixou estonteados, agarrando os chapeus,
enrodilhados na borrasca. Chamados por uma grande voz, que se esganiava
no vento, avistamos n'um campo mais alto,  beira d'um alpendre, o
Silverio, debaixo d'um guarda-chuva vermelho, que acenava, nos indicava
o trilho mais curto para aquelle abrigo. E para l rompemos, com a chuva
a escorrer na cara, patinhando na lama, contorcidos, cambaleantes,
atordoados no vendaval, que n'um instante alagra os campos, inchra os
ribeiros, esboroava a terra dos socalcos, lanra n'um desespero todo o
arvoredo, tornra a serra negra, bravamente agreste, hostil,
inhabitavel.

Quando emfim, debaixo do vasto guarda-chuva com que o Silverio nos
esperava  beira do campo, corremos para o alpendre, nos refugiamos
n'aquelle abrigo inesperado, a escorrer, a arquejar, o meu Principe,
enxugando a face, enxugando o pescoo, murmurou, desfallecido:

--Apre! que ferocidade!

Parecia espantado d'aquella brusca, violenta colera d'uma serra to
amavel e accolhedora, que em dous mezes, inalteradamente, s lhe
offerecera doura e sombra, e suaves ceus, e quietas ramagens, e
murmurios discretos de ribeirinhos mansos.

--Santo Deus! Vem muitas vezes assim, estas borrascas?

Immediatamente o Silverio aterrou o meu Principe:

--Isto agora so brincadeiras de vero, meu senhor! Mas ha de V. Ex.^a
vr no inverno, se V. Ex.^a se aguentar por c! Ento  cada temporal,
que at parece que os montes estremecem!

E contou como fra tambem apanhado, quando ia para a Corujeira.
Felizmente, logo pela manh, quando sentiu o ar carrancudo e as
folhinhas dos choupos a tremer, se acautelra com o chapeu de chuva e
calra as suas grandes botas.

--Ainda estive para me abrigar em casa do Esgueira, que  um caseiro de
c. Aquella casa, ali abaixo, onde est a figueira... Mas a mulher tem
estado doente, j ha dias... E como pde ser obra que se pegue, bexigas
ou coisa que o valha, pensei comigo: Nada, o seguro morreu de velho!
Metti para o alpendre... E no passra um credo quando lobriguei a V.
Ex.^a... Coisa assim!... E o Snr. D. Jacintho  voltar para casa, e
mudar-se, que temos um dia e uma noite d'agoa.

Mas, justamente, a chuva comera a cahir perpendicular, d'um ceu ainda
negro, onde o vento se calra; e para alm do rio e dos montes havia uma
claridade, como entre cortinas de pano cinzento que se descerram.

Jacintho repousava. Eu no cessra de me sacudir, de bater os ps
encharcados, que me arrefeciam. E o bom Silverio, passando a mo
pensativa sobre o negrume das suas barbas, reflectia, emendava os seus
prognosticos:

--Pois, no senhor... Ainda esta! Nunca pensei.  que tornejou o vento.

O alpendre que nos cobria assentava sobre duas paredes em angulo, de
pedra solta, restos d'algum casebre desmantelado, e sobre um esteio
fazendo cunhal. N'esse momento s abrigava madeira, um cuculo de cestos
vasios, e um carro de bois, onde o meu Principe se sentra, enrolando um
cigarro confortador. A chuva desabava, copiosa, em longos fios
reluzentes. E todos tres nos callavamos, n'aquella contemplao inerte e
sem pensamento, em que uma chuva grossa e serena sempre immobilisa e
retem olhos e almas.

-- Snr. Silverio, murmurou lentamente o meu Principe, que  que o
senhor esteve ahi a dizer de bexigas?

O procurador voltou a face surprehendido:

--Eu, Ex.^{mo} Snr.?... Ah sim! a mulher do Esgueira!  que pde ser,
pde ser... No imagine V. Ex.^a que faltam por c doenas. O ar  bom.
No digo que no! Arsinho so, agoasinha leve. Mas s vezes, se V. Ex.^a
me d licena, vae por ahi muita maleita.

--Mas no ha medico, no ha botica?

O Silverio teve o riso superior de quem habita regies civilisadas e bem
providas...

--Ento no havia d'haver? Pois ha um boticario, em Guies, l quasi ao
p da casa aqui do nosso amigo. E homem entendido... o Firmino, hein,
Snr. Fernandes? Homem capaz. Medico  o Dr. Avelino, d'aqui a legoa e
meia, nas Bolsas. Mas j V. Ex.^a v, esta gentinha  pobre!... Tomaram
elles para po, quanto mais para remedios!

E de novo se estabeleceu um silencio, sob o alpendre, onde penetrava a
friagem crescente da serra encharcada. Para alm do rio, a promettedora
claridade no se alargra entre as duas espessas cortinas pardacentas.
No campo, em declive deante de ns, ia um longo correr de ribeiros
barrentos. Eu terminra por me sentar na ponta d'um madeiro, enervado,
j com a fome aguada pela manh agreste. E Jacintho, na borda do carro,
com os ps no ar, cofiava os bigodes humidos, palpava a face, onde, com
espanto meu, reapparecera a sombra, a sombra triste dos dias passados, a
sombra do 202!

E, ento, surdiu por traz da parede do alpendre um rapasito, muito
rotinho, muito magrinho, com uma carita miuda, toda amarella sob a
porcaria, e onde dous grandes olhos pretos se arregalavam para ns, com
vago pasmo e vago medo. Silverio immediatamente o conheceu.

--Como vae a tua me? Escusas de te chegar para c, deixa-te estar ahi.
Eu ouo bem. Como vae a tua me?

No percebi o que os pobres beicitos descorados murmuraram. Mas Jacinto,
interessado:

--Que diz elle? Deixe vir o rapaz! Quem  a tua me?

Foi o Silverio que informou respeitosamente:

-- a tal mulher que est doente, a mulher do Esgueira, ali do casal da
figueira. E ainda tem outro abaixo d'este... Filharada no lhe falta.

--Mas este pequeno tambem parece doente!--exclamou Jacintho. Coitadito,
to amarello!... Tu tambem ests doente?

O rapasinho emmudecera, chupando o dedo, com os tristes olhos pasmados.
E o Silverio sorria, com bondade:

--Nada! este  sosinho... Coitado,  assim amarellado e enfezadito, por
que... Que quer V. Ex.^a? Mal comido! muita miseria... Quando ha o
bocadito de po  para todo o rancho. Fomesinha, fomesinha!

Jacintho pulou bruscamente da borda do carro.

--Fome? Ento elle tem fome? Ha aqui gente com fome?

Os seus olhos rebrilhavam, n'um espanto commovido, em que pediam, ora a
mim, ora ao Silverio, a confirmao d'esta miseria insuspeitada. E fui
eu que esclareci o meu Principe:

--Homem! est claro que ha fome! Tu imaginavas talvez que o Paraiso se
tinha perpetuado aqui nas serras, sem trabalho e sem miseria... Em toda
a parte ha pobres, at na Australia, nas minas d'ouro. Onde ha trabalho
ha proletariado, seja em Paris, seja no Douro...

O meu Principe, teve um gesto d'afflicta impaciencia:

--Eu no quero saber o que ha no Douro. O que eu pergunto  se aqui, em
Tormes, na minha propriedade, dentro d'estes campos que so meus, ha
gente que trabalhe para mim, e que tenha fome... Se ha creancinhas, como
esta, esfomeadas?  o que eu quero saber.

O Silverio sorria, respeitosamente, ante aquella candida ignorancia das
realidades da Serra:

--Pois est bem de vr, meu senhor, que ha para ahi caseiros que so
muito pobres. Quasi todos...  uma miseria, que se no fosse algum
soccorro que se lhes d, nem eu sei!... Este Esgueira, com o rancho de
filhos que tem,  uma desgraa... Havia V. Ex.^a de vr as casitas em
que elles vivem... So chiqueiros. A do Esgueira, acol...

--Vamos vl-a! atalhou Jacintho com uma deciso exaltada.

E sahiu logo do alpendre, sem attender  chuva, que ainda cahia, mais
leve e mais rala. Mas ento Silverio alargou os braos deante d'elle,
com anciedade, como para o salvar d'um precipicio.

--No! V. Ex.^a l na casa do Esgueira  que no entra! No se sabe o
que a mulher tem, e cautella e caldo de gallinha...

Jacintho no se alterou na sua polidez paciente:

--Obrigado pelo seu cuidado, Silverio... Abra o seu chapeu de chuva, e
vante!

Ento o Procurador vergou os hombros, e, como S. Ex.^a mandava, abriu
com estrondo o immenso pra-agoas, abrigou respeitosamente Jacintho,
atravs do campo encharcado. Eu segui, pensando na esmola sumptuosa que
o bom Deus mandava quelle pobre casal por um remoto senhor das Cidades!
Atraz vinha o pequenito perdido n'um immenso pasmo.

Como todos os casebres da serra, o do Esgueira era de grossa pedra
solta, sem reboco, com um vago telhado, de telha musgosa e negra, um
postigo no alto, e a rude porta que servia para o ar, para a luz, para o
fumo, e para a gente. E em redor, a Natureza e o Trabalho tinham,
atravs d'annos, accumulado ali trepadeiras e flres silvestres, e
cantinhos d'horta, e sebes cheirosas, e velhos bancos roidos de musgo, e
panellas com terra onde crescia salsa, e regueiros cantantes, e videiras
enforcadas nos olmos, e sombras e charcos espelhados, que tornavam
deliciosa, para uma Ecloga, aquella morada da Fome, da Doena e da
Tristeza.

Cautelosamente, com a ponteira do guarda-chuva, Silverio empurrou a
porta, chamando:

--Eh! tia Maria... Ol rapariga!

E na fenda entreaberta appareceu uma moa, muito alta, escura e suja,
com uns tristes olhos pisados, que se espantaram para ns, serenamente.

--Ento como vae a tua me?--Abre l a porta, que esto aqui estes
senhores...

Ella abriu, lentamente, e ia murmurando n'uma voz dolente e arrastada
mas sem queixume, que um vago, resignado sorriso acompanhava:

--Ora, coitada! como ha de ir? Malzinha... malzinha.

E dentro, n'um gemido que subia como do cho, d'entre abafos, amodorrado
e lento, a me repetiu a desconsolada queixa:

--Ai! para aqui estou, e malzinha, malzinha!...

O Silverio, sem passar da porta, com o guarda-chuva em riste, meio
aberto, como um escudo contra a infeco, lanou uma consolao vaga:

--No ha de ser nada, tia Maria!... Isso foi friagem! No foi seno
friagem!

E, sobre o hombro de Jacintho, encolhido:

--J V. Ex.^a v... Muita miseria! At lhe chove l dentro.

E, no pedao de cho que viam, cho de terra batida, uma mancha humida
reluzia, da chuva pingada de uma telha rta. A parede, coberta de
fuligem, das longas fumaraas da lareira, era to negra como o cho. E
aquella penumbra suja parecia atulhada, n'uma desordem escura, de
trapos, de cacos, de restos de coisas, onde s mostravam frma
comprehensivel uma arca de pau negro, e por cima, pendurado d'um prego,
entre uma serra e uma candeia, um grosso saiote escarlate.

Ento Jacintho, muito embaraado, murmurou abstrahidamente:

--Est bem, est bem...

E largou pelo campo para o lado do alpendre como se fugisse, emquanto o
Silverio decerto revelava  rapariga, a presena augusta do fidalgo,
por que a sentimos, da porta, levantar a voz dolorida:

--Ai! Nosso Senhor lhe d muito boa sorte! Nosso Senhor o acompanhe!

Quando o Silverio, com as grandes passadas das suas grandes botas, nos
colheu, no meio do campo, Jacintho parra, olhava para mim, com os dedos
tremulos a torturar o bigode, e murmurava:

-- horrivel, Z Fernandes,  horrivel.

Ao lado, o vozeiro do Silverio trovejou:

--Que queres tu outra vez, rapaz? Vae para a tua me, creatura!

Era o pequeno rotinho, esfaimadinho, que se prendia a ns, n'um immenso
pasmo das nossas pessoas, e com a confusa esperana, talvez, que
d'ellas, como de Deuses encontrados n'um caminho, lhe viesse affago ou
proveito. E Jacintho, para quem elle mais especialmente arregalava os
olhos tristes, e que aquella miseria, e a sua muda humildade,
embaraavam, acanhavam horrivelmente, s soube sorrir, murmurar o seu
vago: Est bem, est bem... Fui eu que dei ao pequenito um tosto,
para o fartar, o despegar dos nossos passos. Mas como elle, com o seu
tosto bem agarrado, nos seguia ainda, como no sulco da nossa
magnificencia, o Silverio teve de o espantar, como a um passaro, batendo
as mos, e de lhe gritar:

--J para casa! E leve esse dinheiro  me. Roda, roda!...

--E ns vamos almoar, lembrei eu olhando o relogio. O dia ainda vae
estar lindo.

Sobre o rio, com effeito, reluzia um pedao d'azul lavado e lustroso; e
a grossa camada de nuvens j se ia enrolando sob a lenta varredela do
vento, que as levava, despejadas e rtas, para um canto escuso do ceu.

Ento recolhemos lentamente para casa, por uma vereda ingreme, que
ensinra o Silverio, e onde um leve enchurro vinha ainda, saltando e
chalrando. De cada ramo tocado, rechuvia uma chuva leve. Toda a verdura,
que bebera largamente, reluzia consolada.

Bruscamente, ao sahirmos da vereda para um caminho mais largo, entre um
socalco e um renque de vinha, Jacintho parou, tirando lentamente a
cigarreira:

--Pois, Silverio, eu no quero mais estas horriveis miserias na quinta.

O Procurador deu um geito aos hombros, com um vago _eh_! _eh_!
d'obediencia e dvida.

--Antes de tudo, continuava Jacintho, mande j hoje chamar esse Dr.
Avelino para aquella pobre mulher... E os remedios que os vo buscar
logo a Guies. E recommendao ao medico para voltar manh, e em cada
dia; at que ella melhore... Escute! E quero, Melchior, que lhe leve
dinheiro, para os caldos, para a dieta, uns dez, ou quinze mil ris...
Bastar?

O Procurador no conteve um riso respeitoso. Quinze mil ris! Uns
tostes bastavam... Nem era bom acostumar assim, a tanta franqueza,
aquella gente. Depois todos queriam, todos pedinchavam...

--Mas  que todos ho-de ter, disse Jacintho simplesmente.

--V. Ex.^a manda, murmurou o Silverio.

Encolhera os hombros, parado no caminho, no espanto d'aquellas
extravagancias. Eu tive de o apressar, impaciente:

--Vamos conversando e andando!  meio dia! Estou com uma fome de lobo!

Caminhamos, com o Silverio no meio, pensativo, a fronte enrugada sob a
vasta aba do chapeu, a barba immensa espalhada pelo peito, e a barraca
exorbitante do guarda-chuva vermelho enrolada debaixo do brao. E
Jacintho, puxando nervosamente o bigode, arriscava outras idas
bemfazejas, cautelosamente, no seu indominavel medo do Silverio:

--E as casas tambem... Aquella casa  um covil!... Gostava de abrigar
melhor aquella pobre gente... E naturalmente, as dos outros caseiros so
pocilgas eguaes... Era necessario uma reforma! Construir casas novas a
todos os rendeiros da quinta...

--A todos?...--O Silverio gaguejava,--emudeceu.

E Jacintho balbuciava aterrado:

--A todos... Emfim, quero dizer... Quantos sero elles?

Silverio atirou um gesto enorme:

--So vinte e coisas... Vinte e tres! se bem lembro. Upa! Upa! Vinte e
sete...

Ento Jacintho emmudeceu tambem, como reconhecendo a vastido do numero.
Mas desejou saber, por quanto ficaria cada casa!... Oh! uma casa
simples, mas limpa, confortavel, como a que tinha a irm do Melchior, ao
p do lagar. Silverio estacou de novo. Uma casa como a da Ermelinda?
Queria Sua Ex.^a saber? E alijou a cifra, muito d'alto, como uma pedra
immensa, para esmagar Jacintho:

--Duzentos mil ris, Ex^mo Senhor! E  para mais que no para menos!

Eu ria da tragica ameaa do excellente homem. E Jacintho, muito
docemente, para conciliar o Silverio:

--Bem, meu amigo... Eram uns seis contos de ris! Digamos dez, por que
eu queria dar a todos alguma mobilia e alguma roupa.

Ento o Silverio teve um brado de terror:

--Mas ento, Ex.^mo Senhor,  uma revoluo!

E como ns, irresistivelmente, riamos dos seus olhos esgazeados de
horror, dos seus immensos braos abertos para traz, como se visse o
mundo desabar,--o bom Silverio encavacou:

--Ah! V. Ex.^{as} riem? Casas para todos, mobilias, pratas, bragal, dez
contos de ris! Ento tambem eu rio! Ah! ah! ah! Ora viva a bella
chalaa!... Est ba a risota!

E subitamente, n'uma profunda mesura, como declinando toda a
responsabilidade n'aquelle disparate magnifico:

--Emfim, V. Ex.^a  quem manda!

--Est mandado, Silverio. E tambem quero saber as rendas que paga essa
gente, os contractos que existem, para os melhorar. Ha muito que
melhorar. Venha voss almoar comnosco. E conversamos.

To saturado d'espanto estava o Silverio, que nem recebeu mais espanto
com essa melhoria de rendas. Agradeceu o convite, penhorado. Mas pedia
licena a Sua Ex.^a para passar primeiramente pelo lagar, para ver os
carpinteiros que andavam a concertar a trave do rio. Era um instante, e
estava em seguida s ordens de S. Ex.^a.

Metteu a corta matto, saltando um cancello. E ns seguimos, com passos
que eram ligeiros, pela hora do almoo que se retardra, pelio azul
alegre que reapparecia, e por toda aquella justia feita  pobresa da
serra.

--No perdeste hoje o teu dia, Jacintho, disse eu, batendo, com uma
ternura que no disfarcei, no hombro do meu amigo.

--Que miseria, Z Fernandes! Eu nem sonhava... Haver por ahi,  vista da
minha casa, outras casas, onde creanas teem fome!  horrivel...

Estavamos entrando na alameda. Um raio de sol, sahindo d'entre duas
grossas, algodoadas nuvens, passou sobre uma esquina do casaro, ao
fundo, uma viva tira d'ouro. O clarim dos gallos soava claro e alto. E
um doce vento, que se erguera, punha nas folhas lavadas e luzidias um
fremito alegre e doce.

--Sabes o que eu estava pensando, Jacintho?... Que te aconteceu aquella
lenda de Santo Ambrosio... No, no era Santo Ambrosio... No me lembra
o santo... Nem era ainda santo... apenas um cavalleiro peccador, que se
enamorra d'uma mulher, puzera toda a sua alma n'essa mulher, s por a
avistar a distancia na rua. Depois, uma tarde que a seguia, enlevado,
ella entrou n'um portal de egreja, e ahi, de repente, ergueu o veu,
entreabriu o vestido, e mostrou ao pobre cavalleiro o seio roido por uma
chaga! Tu, tambem andavas namorado da serra, sem a conhecer, s pela sua
belleza de vero. E a serra, hoje, zs! de repente, descobre a sua
grande ulcera...  talvez a tua prepararo para S. Jacintho.

Elle parou, pensativo, com os dedos nas cavas do collete:

--- verdade! Vi a chaga! Mas emfim, esta, louvado seja Deus,  das que
eu posso curar!

No desilludi o meu Principe. E ambos subimos alegremente a escadaria do
casaro.




XI


No dia que seguiu estas largas caridades recolhi a Guies. E, desde
ento, tantas vezes trotei por aquellas tres legoas entre a nossa e a
velha alameda dos Jacinthos, que a minha egoa, quando a desviava d'essa
estrada familiar, conduzindo a uma cavallaria familiar, (onde ella
privava com o garrano do Melchior) relinchava de pura saudade. At a tia
Vicencia se mostrava vagamente ciumenta d'aquella Tormes, para onde eu
sempre corria, d'aquelle Principe de quem incessantemente celebrava o
rejuvenescimento, a caridade, os piteus, e as chimeras agricolas. J um
dia com um gro de sal e ironia,--o unico que cabia n'um corao todo
cheio d'innocencia,--ella me dissera, movendo com mais vivacidade as
agulhas da sua meia:

--Olha que te podes gabar! At me tens feito curiosidade de conhecer
esse Jacintho... Traze c essa maravilha, menino!

Eu rira:

--Socegue, tia Vicencia, que o trarei agora, para o dia dos meus annos,
a jantar... Damos uma festa, haver um bailarico no pateo, e vem ahi
toda essa senhorama dos arredores. Talvez at se arranje uma noiva para
o Jacintho.

Eu, com effeito, j convidra o meu Principe para este natalicio. E de
resto convinha que o senhor de Tormes conhecesse todos aquelles senhores
das boas casas da serra... Sobretudo, como eu lhe dizia rindo, convinha
que elle conhecesse algumas mulheres, algumas d'aquellas fortes
raparigas dos solares serranos, por que Tormes tinha uma solido muito
monastica; e o homem, sem um pouco do Eterno Feminino, facilmente se
enrudece e ganha uma casca aspera como a das arvores, na solido.

--E esta Tormes, Jacintho, esta tua reconciliao com a Natureza, e o
renunciamento s mentiras da Civilisao  uma linda historia... Mas,
caramba, faltam mulheres!

Elle concordava, rindo, languidamente estendido na cadeira de vime:

--Com effeito, ha aqui falta de mulher, com M. grande. Mas essas
senhoras ahi das casas dos arredores... No sei, estou pensando que se
devem parecer com legumes. Sans, nutritivas, excellentes para a
panella--mas, emfim, legumes. As mulheres que os poetas comparam s
Flores so sempre as mulheres das Crtes, das Capitaes, s quaes,
invariavelmente, desde Hesiodo e de Horacio, se rendem os poetas... E
evidentemente no ha perfume, nem graa, nem elegancia, nem requinte,
n'uma cenoura ou n'uma couve... No devem ser interessantes as senhoras
da minha serra.

--Eu te digo... A tua visinha mais chegada, a filha do D. Theotonio, com
effeito, salvo o respeito que se deve  casa illustre dos Barbedos,  um
mostrengo! A irm dos Albergarias, da quinta da Loja, tambem no
tentaria nem mesmo o precisado Santo Anto. Sobretudo se se despisse,
por que  um espinafre infernal! Essa realmente  legume, e no dos
nutritivos.

--Tu o disseste: espinafre!

--Temos tambem a D. Beatriz Velloso... Essa  bonita... Mas, menino, que
horrivelmente bem fallante! Falla como as heroinas do Camillo. Tu nunca
leste o Camillo... E depois, um tom de voz que te no sei descrever, o
tom com que se falla em D. Maria, em peas de sentimento. Tu tambem
nunca viste o Theatro de D. Maria... Emfim, um horror! E perguntas
pavorosas. V. Ex.^a. Snr. Doutor, no se delicia com Lamartine? J me
disse esta, a indecente!

--E tu?

--Eu! Arregalei os olhos... Oh Lamartine!. Mas, coitada,  uma
excellente rapariga! Agora, por outro lado, temos as Rojes, as filhas
de Joo Rojo, duas flores, muito frescas, muito alegres, com um cheiro
e um brilho a sadio, e muito simples... A tia Vicencia morre por ellas.
Depois ha a mulher do Dr. Alypio, que  uma belleza. Oh! uma creatura
esplendida! Mas, emfim,  a mulher do Dr. Alypio, e tu renunciaste aos
deveres da Civilisao... Alm disso, mulher muito sria, toda absorvida
nos seus dous pequenos, que parecem dous anjinhos de Murillo... E quem
mais? J agora, quero completar a lista do pessoal feminino. Temos a
Mello Rebello, de Sandofim, muito engraada, com cabello lindo... Borda
na perfeio, faz doces como uma freira do antigo Regimen... Havia
tambem uma Julia Lobo, muito linda, mas morreu... Agora no me lembro
mais. Mas falta a flr da Serra, que  a minha prima Joanninha, da Flr
da Malva! Essa  uma perfeio de rapariga.

--E tu, primo Z, como tens tu resistido?

--Somos como irmos, creados de pequeninos, mais acostumados e
familiares que tu e eu... A familiaridade esbate os sexos. A me d'ella
era a unica irm da tia Vicencia, e morreu muito nova. A Joanninha,
quasi desde o bero que se creou em nossa casa, em Guies. O pae  bom
homem, o tio Adrio. Erudito, antiquario, colleccionador... Collecciona
toda a sorte de cousas exquisitas, campainhas, esporas, sinetes,
fivellas... Tem uma colleco curiosa. Elle ha muito que deseja vir a
Tormes, para te visitar... Mas, coitado, soffre da bexiga, no pde
montar a cavallo. E a estrada da Flr da Malva aqui  impossivel para
carruagens...

O meu Principe espreguira longamente os braos:

--No, est claro! eu  que hei-de visitar teu tio, e a tia Vicencia...
Desejo conhecer os meus visinhos. Mas mais tarde, quando socegar. Agora
ando todo occupado com o meu povo.

E com effeito! Jacintho era agora como um Rei fundador d'um Reino, e
grande edificador. Por todo o seu dominio de Tormes andavam obras, para
o renovamento das casas dos rendeiros, umas que se concertavam, outras
mais velhas, que se derrubavam para se reconstruirem com uma larguesa
commoda. Pelos caminhos constantemente chiavam carros, carregados de
pedra, ou de madeiras cortadas nos pinheiraes.

Na taberna do Pedro,  entrada da freguezia, ia um desusado movimento,
de pedreiros e carpinteiros contractados para as obras;--e o Pedro, com
as mangas arregaadas, por traz do balco, no cessava de encher os
decilitros com uma vasta enfusa.

Jacintho, que tinha agora dous cavallos, todas as manhs cedo percorria
as obras, com amor. Eu, inquieto, sentia outra vez, latejar e irromper
no meu Principe o seu velho, maniaco furor d'accumular Civilisao! O
plano primitivo das obras era incessantemente alargado, aperfeioado.
Nas janellas, que deviam ter apenas portadas, segundo o secular costume
da serra, decidira pr vidraas, apezar do mestre d'obras lhe dizer
honradamente, que depois d'habitadas um mez, no haveria casa com um s
vidro. Para substituir as traves classicas queria estucar os tectos;--e
eu via bem claramente que elle se continha, se retesava dentro do
Bom-senso, para no dotar cada casa com campainhas electricas. Nem
sequer me espantei, quando elle uma manh me declarou que a porcaria da
gente do campo provinha de elles no terem onde commodamente se lavar,
pelo que andava pensando em dotar cada casa com uma banheira. Desciamos
n'esse momento, com os cavallos  redea, por uma azinhaga precipitada e
escabrosa; um vento leve ramalhava nas arvores, um regato saltava
ruidosamente entre as pedras. Eu no me espantei--mas realmente me
pareceu que as pedras, o arroio, as ramagens e o vento, se riam
alegremente do meu Principe. E alm d'estes confortos, a que o Joo,
mestre d'obras, com os olhos loucamente arregalados chamava as
grandezas, Jacintho meditava o bem das almas. J encommendra ao seu
architecto, em Paris, o plano perfeito d'uma escola, que elle queria
erguer, n'aquelle campo da Carria, junto  capellinha que abrigava os
ossos. Pouco a pouco, ahi crearia tambem uma bibliotheca, com livros
d'estampas, para entreter, aos domingos, os homens a quem j no era
possivel ensinar a lr. Eu vergava os hombros, pensando:--Ahi vem a
terrivel accumulao das Noes! Eis o livro invadindo a Serra! Mas
outras idas de Jacintho eram tocantes,--e eu mesmo me enthusiasmei, e
excitei o enthusiasmo da tia Vicencia com o seu plano d'uma Creche, onde
elle esperava ter manhs muito divertidas vendo as creancinhas a
gatinhar, a correr tropegamente atraz d'uma bola. De resto, o nosso
boticario de Guies estava j apalavrado para estabelecer uma pequena
pharmacia em Tormes, sob a direco do seu praticante, um afilhado da
tia Vicencia, que tinha publicado um artigo sobre as festas populares do
Douro no _Almanach de Lembranas_. E j fra offerecido o partido medico
de Tormes, com ordenado de 600$000 ris.

--No te falta seno um Theatro! dizia eu, rindo.

--Um theatro no. Mas tenho a ida d'uma sala, com projeces de
lanterna magica, para ensinar a esta pobre gente as cidades d'esse
mundo, e as cousas d'Africa, e um bocado de Historia.

E tambem me ensoberbeci com esta innovao!--E quando a contei ao tio
Adrio, o digno antiquario bateu, apezar do seu rheumatismo, uma palmada
tremenda na cxa. Sim, senhor! Bella ida! Assim se podia ensinar
quella gente illetrada, vivamente, por imagens, a Historia Santa, a
Historia Romana, at a Historia de Portugal!... E voltado para a prima
Joanninha, o tio Adrio declarou Jacintho um homem de corao!

E realmente pela Serra crescia a popularidade do meu Principe.
N'aquelle, guarde-o Deus, meu senhor! com que as mulheres ao passar o
saudavam, se voltavam para o vr ainda, havia uma seriedade d'orao, o
bem sincero desejo de que Deus o guardasse sempre. As creanas a quem
elle distribuia tostes, farejavam de longe a sua passagem,--e era em
torno d'elle um escuro formigueiro de caritas trigueiras e sujas, com
grandes olhos arregalados, que se ainda tinham pasmo, j no tinham
medo. Como o cavallo de Jacintho uma tarde se chapra, ao desembocar da
alameda, n'umas grossas pedras que ahi deformavam a estrada, logo ao
outro dia um bando d'homens, sem que Jacintho o ordenasse, veio por
dedicao ensaibrar e alisar aquelle pedao perigoso de caminho,
aterrados com o risco que correra o bom senhor. J pela serra se
espalhava esse nome de bom senhor. Os mais edosos da freguezia no o
encontravam sem exclamarem, uns com gravidade, outros com grandes risos
desdentados:--_Este  o nosso bemfeitor_! Por vezes, alguma velha corria
do fundo do eido, ou vinha  porta do casebre, ao avistal-o no caminho,
para gritar, com grandes gestos dos braos magros: Ai que Deus o cubra
de benos! Que Deus o cubra de benos!

Aos domingos, o padre Jos Maria, (bom amigo meu e grande caador) vinha
de Sandofim, na sua egoa rua, a Tormes, para celebrar a missa na
Capellinha. Jacintho assistia ao officio na sua tribuna, como os
Jacinthos d'outras eras, para que aquelles simples o no suppuzessem
estranho a Deus. Quasi sempre ento elle recebia presentes, que as
filhas dos caseiros, ou os pequenos, vinham muito corados, trazer-lhe 
varanda, e eram vasos de manjarico, ou um grosso ramalhete de cravos, e
por vezes um gordo pato. Havia ento uma distribuio de cavacas e
merengues de Guies, s raparigas e s creanas,--e, no pateo, para os
homens circulavam as infusas de vinho branco. O Silverio j sustentava
com espanto, e redobrado respeito, que o Snr. D. Jacintho em breve
disporia de mais votos nas eleies que o Dr. Alypio. E eu proprio me
impressionei, quando o Melchior me contou que o Joo Torrado, um velho
singular d'aquelles sitios, de grandes barbas brancas, hervanario,
vagamente alveitar, um pouco adivinho, morador mysterioso d'uma cova no
alto da serra, a todos affirmava que aquelle bom senhor era El-Rei D.
Sebastio, que voltra!




XII


Assim chegou Setembro, e com elle o meu natalicio, que era a 3 e n'um
Domingo. Toda essa semana a passra eu em Guies, nos preparos da
vindima,--e de manh cedo, n'esse Domingo illustre, me fui debruar da
varanda do quarto do saudoso tio Affonso, vigiando a estrada, por onde
devia apparecer o meu Principe, que emfim visitava a casa do seu Z
Fernandes. A tia Vicencia, desde a madrugada, andava atarefada pela
cosinha e pela copa, porque, desejando mostrar ao meu Principe o
pessoal da serra, convidra para jantar algumas familias amigas, dos
arredores, as que tinham carruagens ou carroes, e podiam, pelas
estradas mal seguras, recolher tarde, depois d'um bailarico campestre,
no pateo, j enfeitado para esse effeito de lanternas chinezas. Mas logo
s dez horas me desesperei, ao receber, por um moo da Flr da Malva,
uma carta da prima Joanninha, em que dizia a pena de no poder vir
porque o Pap estava desde a vespera com um leiceno, e ella no o
queria abandonar. Corri indignado  cosinha, onde a tia Vicencia
presidia a um violento bater de gemas d'ovos dentro d'uma immensa
terrina.

--A Joanninha no vem! Sempre assim! Diz que o pae tem um leiceno...
Aquelle tio Adrio escolhe sempre os grandes dias para ter leicenos, ou
para ter a pontada...

A boa face redondinha e corada da tia Vicencia enterneceu-se.

--Coitado! ser em sitio que no se pudesse sentar na carruagem!
Coitado! Olha, se lhe escreveres, dize-lhe que ponha um emplastrosinho
de folhas d'alecrim.  com que teu tio se dava bem.

Eu gritei simplesmente para o moo, que dava de beber ao burro no pateo:

--Dize  Snr.^a D. Joanninha que sentimos muito... Que talvez eu l
apparea manh.

E voltei  janella, impaciente, por que o relogio do corredor, muito
atrazado, j cantra a meia hora depois das dez e o Principe tardava
para o almoo. Mas, mal eu me chegra  varanda, appareceu justamente na
volta da estrada Jacintho, de grande chapeu de palha, no seu cavallo,
seguido do Grillo que, tambem de chapeu de palha, e abrigado sob um
immenso guarda-sol verde, se escarranchava no albardo da velha egoa do
Melchior. Atraz, um moo com uma maleta  cabea. E eu, na alegria de
avistar emfim o meu Principe trotando para a minha casa d'aldeia, no dia
dos meus trinta e seis annos, pensava n'outro natalicio, no d'elle, em
Paris, no 202, quando, entre todos os esplendores da Civilizao, ns
bebemos tristemente _ad manes_, aos nossos mortos!

--_Salv_! gritei da varanda. _Salv, domine Jacinthi_!

E entoei, para o accolher, n'um alegre tarantantan, o hymno da carta!

--Isto por aqui tambem  lindo!--gritou elle de baixo. E o teu palacio
tem um soberbo ar... Por onde  a porta?

Mas eu j me precipitava para o pateo--onde Jacintho, apeando, contou
alegremente os tormentos do Grillo, que nunca montra a cavallo, e no
cessra de berrar ante os perigos d'aquella aventura.

E o digno preto, offegante, lustroso de suor, e livido sob o esplendor
da sua negrura, exclamava, apontando com a mo tremula para a pobre
egoa, que solta, de cabea pensativa, parecia de pedra, sobre as patas
mais immoveis que marcos:

--Pois se o si Fernandes visse! Uma fera, que nunca veiu quieta. Sempre
para a esquerda, sempre para a direita, p aqui, p alm! S para me
sacudir! S para me sacudir!

E no resistiu. Com a ponta do guarda-sol atirou uma pontoada vingativa
contra a egoa, sobre o albardo.

Subindo a escadaria ligeira, penetrando no alegre corredor, com a sua
janella ao fundo engrinaldada de rosinhas, Jacintho louvava grandemente
a nossa casa, que o repousava das rijas muralhas, das grossas portas
feudaes de Tormes. E no seu quarto agradeceu os cuidados maternaes da
tia Vicencia, que enchera de flores os dois vasos da China sobre a
commoda, e adornra a cama com uma das nossas colxas da India mais
ricas, cr de canario, com grandes aves d'ouro. Eu sorria, enternecido.
Ento estreitamos os ossos n'um grande abrao, pelo natalicio... Trinta
e oito, hein, Z Fernandes?--Trinta e quatro, animal! E o meu
Principe abrindo a mala, sobria maleta de philosopho, offereceu os
nobres presentes, que so devidos, como diz sempre o astuto Ulysses na
Odyssea. Era um alfinete de gravata, com uma saphira, uma cigarreira de
aro fosco, adornada de um florido ramo de macieira em delicado esmalte,
e uma faca para livros de velho lavor Chinez. Eu protestava contra a
prodigalidade.

-- tudo das malas de Paris... Mandei-as abrir hontem  noite. E tomei a
liberdade de trazer esta lembrana  tua tia Vicencia. No vale nada...
 s por ter pertencido  princeza de Lamballe.

Era uma caldeirinha d'agoa benta, em prata lavrada, d'um gosto florido e
quasi galante.

--A tia Vicencia no sabe quem  a princeza de Lamballe, mas ficar
encantada! E  uma garantia, por que ella suspeita da tua religio, como
homem de Paris, da terra das impiedades... E agora, lavar, escovar, e ao
almoo!

A tia Vicencia pareceu toda surprehendida, e logo encantada com o meu
camarada, que ella suppuzera realmente um Principe, arrogante, escarpado
e difficil. Quando elle lhe offereceu a caldeirinha, com um delicado
pedido para se lembrar d'elle nas suas oraes, duas largas rosas,
mais roseas e frescas que as rosas que enchiam a mesa, cobriram as faces
redondas da boa senhora, que nunca recebera to piedoso presente, com
to linda palavra. Mas o que sobretudo a captivou foi o tremendo
appetite de Jacintho, a enthusiasmada convico com que elle,
accumulando no prato montes de cabidella, depois altas serras d'arroz de
forno, depois bifes de numerosa cebolada, exaltava a nossa cosinha,
jurava nunca ter provado nada to sublime. Ella resplandecia:

--At faz gosto, at faz gosto!... Ora mais uma d'estas batatinhas
recheadas...

--Com certesa, minha senhora! at duas! As minhas raes, em mesas
d'estas, to perfeitas, so sempre as de Gargantua.

--No cites Rabelais, que a tia Vicencia no conhece os auctores
profanos! exclamava eu, tambem radiante. E prova esse vinho branco c da
nossa lavra, e louva Deus que amadurece tal uva.

E o almoo foi muito alegre, muito intimo, muito conversado, sobre as
obras de Jacintho em Tormes, e a sua Creche, que enlevava a tia
Vicencia, e as esperanas da vindima, e a minha prima Joanninha, que
tinha o pap doente, e o pessimo estado dos caminhos. Mas o
enternecimento maior foi quando, ao servir o caf, o creado poz ao lado
de Jacintho um pires com um pau de canella, o seu estranho e costumado
pau de canella. No o esquecera a tia Vicencia! Ali tinha o seu pausinho
de canella!--Queria que elle, em Guies, continuasse os seus habitos
como em Tormes... E aquelle pau de canella foi o symbolo de adopo do
meu Principe como novo sobrinho da tia Vicencia.

Ella em breve recolheu  cosinha, aos preparativos do banquete. Ns
fumamos um preguioso charuto no jardim, ao p do repuxo, sob a
recolhida sombra do cedro. Depois, inexoravelmente, como proprietario,
mostrei ao meu Principe a propriedade toda, com desapiedada
minuciosidade, sem lhe perdoar uma leira, um regueiro, uma arvore, um p
de vinha. S quando a sua face comeou a opar e a empallidecer, de
canao, e que do entendimento totalmente atordoado s lhe escorria um
vago--muito bonito! bella terra!-- que voltei os passos para casa,
tornejando ainda n'uma volta larga para lhe mostrar o lagar, uma
plantao d'espargos, e o sitio onde existira a ruina d'um velho castro
romano. Ao penetrarmos de novo, pelo jardim, na fresca sala, ainda o
empurrei, como uma rez, para a livraria do meu bom tio Affonso, para lhe
mostrar as preciosidades, uma magnifica chronica de D. Joo I por Ferno
Lopes, a primeira edio do _Imperador Clarimundo_, uma _Henriada_, com
a assignatura de Voltaire, foraes d'El-Rei D. Manoel, e outras
maravilhas. Elle respirava fechando o derradeiro pergaminho, quando eu o
arrastei  adega, para que admirasse a famosa pipa, que tinha, em
relevo, na madeira do tampo, as complicadas armas dos Sandes. Eram
quatro horas. O meu Principe tinha o ar esgaseado e livido. Cravando
n'elle os olhos inexoraveis, olhos em que eu mesmo sentia reluzir a
ferocidade, declarei que iriamos agora vr a tulha. Mas ento, com as
mos nos rins, elle murmurou, humildemente, n'um murmurio de creana:

--No se me dava de me sentar um poucochinho!

Tive ento piedade, abri as garras, deixei que elle se arrastasse, atraz
de mim, para o seu quarto, onde freneticamente descalou as botas, se
atirou para um fresco canap forrado de ganga, murmurando n'um
abatimento profundo:--Bella propriedade!

Consenti generosamente que elle adormecesse,--e eu mesmo desci a
verificar se a Gertrudes dispusera bem as escovas, as toalhas de renda,
no quarto onde os convidados, em breve, ao chegar, lavariam as mos,
escovariam a poeira da estrada. E justamente, uma caleche rodava no
pateo, a velha caleche do D. Theotonio, com a parelha rua. Espreitando
da janella descobri, com prazer, que chegava s, de gravata branca, sob
o guarda-p, sem a horrendissima filha. Corri alegremente ao quarto da
tia Vicencia, que, ajudada pela Catharina, abrochava  pressa as suas
pulseiras ricas de topazios.

--Tia Vicencia! chegou o D. Theotonio! Felizmente vem sem a filha... No
se demore, os outros no tardam. O Manoel que esteja bem penteado, de
gravata bem teza!... Vamos a vr como corre a festa!




XIII


Ai de mim! a festa no meu anniversario no se passou com brilho, nem com
alegria!

Quando o meu Principe entrou na sala, com uma elegancia, (onde eu senti
as malas de Paris, abertas na vespera)--uma rosa branca no jaqueto
preto, collete branco lavrado e trespassado, copiosa gravata de sda
branca, tufando, e presa por uma perola negra,--j todos os convidados
estavam na sala,--o D. Theotonio, o Ricardo Velloso, o Dr. Alypio, o
gordo Mello Rebello, de Sandofim, os dois manos Albergarias, da quinta
da Loja--; todos de p, n'um pelloto cerrado. Em torno do soph onde a
tia Vicencia se installra, um magotesinho de cadeiras reunira as
senhoras,--a Beatriz Velloso, de cassa branca sobre sda, que a tornava
mais aeria e magra, com a sua trunfa immensa de cabello riado; as duas
Rojes, (com a tia Adelaide Rojo) vermelhinhas como camoezas, ambas de
branco; e a mulher do Dr. Alypio, de preto, esplendida como uma Venus
Rustica... E foi na sala, como se realmente entrasse um Principe,
d'esses paizes do Norte onde os Principes so magnificos, muito
distantes dos homens, e aterram as gentes. Um silencio, como se o tecto
de carvalho descesse, nos esmagava: e todos os olhos se enristaram
contra o meu desgraado Jacintho, como n'uma caada hind, quando  orla
da floresta surge o Tigre Real. Debalde,--nas confusas, apressadas
apresentaes, com que eu o levava atravez da sala,--os seus apertos de
mo, os sorrisos, o vago murmurio, da sua honra, do seu prazer foram
repassados de sympathia, de simplicidade. Todos os cavalheiros
permaneciam reservados, observando o Principe, que subira  serra: e as
senhoras mais se aconchegavam  sombra da tia Vicencia, como ovelhas 
volta do pastor, quando na altura assoma o lobo. Eu, j inquieto, lancei
o D. Theotonio, o mais ornamental d'aquelles cavalheiros.

--O Snr. D. Theotonio foi muito amavel em vir, Jacintho. Raras vezes sae
da sua linda casa da Abrujeira.

O digno D. Theotonio sorriu, cofiando os espessos bigodes brancos, de
velho brigadeiro:

--V. Ex.^a chegou directamente de Vienna?

No! Jacintho viera directamente de Paris, com o amigo Z Fernandes. D.
Theotonio insistiu:

--Mas certamente visita muitas vezes Vienna...

Jacintho sorria surprehendido:

--Vienna, porque?... No. Ha mais de quinze annos que no vou a Vienna.

O fidalgo murmurou um lento _ah_! e ficou calado, de palpebras baixas,
como revolvendo analyses profundas, com as mos cruzadas sob as abas da
longa sobrecasaca azul.

Eu ento, vigilante, lancei o Dr. Alypio:

--O nosso Doutor, meu caro Jacintho,  o mais poderoso influente de todo
o districto.

O Doutor curvou a cabea bem feita, com um bello cabello preto,
admiravelmente alisado e lustroso. Mas a tia Vicencia, que se erguera do
sof, chamava o meu Principe, porque o Manoel annuncira o jantar,
mudamente, mostrando apenas,  porta da sala, a sua corpulenta
pessoa,--inteiriado e vermelho.

 mesa, onde os pudins, as travessas de doce d'ovos, os antigos vinhos
da Madeira e do Porto, nas suas pesadas garrafas de cristal lapidado,
fundiam com felicidade os seus tons ricos e quentes, Jacintho ficou
entre a tia Vicencia e uma das Rojes, a Luizinha, sua afilhada, que,
por costume velho, quando jantava em Guies, sempre se collocava 
sombra da sua ba madrinha. E a spa, que era de gallinha com macarro,
foi comida n'um to largo e pesado silencio que eu, na ancia de o
quebrar, exclamei, ao acaso, sem pensar que me achava em Guies depois
de tanto tempo e em minha prpria casa:

--Deliciosa, esta sopa!

Jacintho echoou:

--Divina!!

Mas como todos os convidados certamente estranharam este meu brado, e a
excessiva admirao de Jacintho, o silencio, carregado de cerimonia,
mais se carregou de embarao. Felizmente a tia Vicencia, com aquelle seu
bom sorriso, observou que Jacintho parecia gostar da comida
portugueza... E eu, sempre no intuito d'animar a conversa, nem deixei
que o meu Principe confirmasse o seu amor da cosinha vernacula, e
gritei:

--Como gostar! Mas  que delira!... Pudera! Tanto tempo em Paris,
privado dos piteus lusitanos...

E como, ditosamente, me lembrra o prato de arroz doce preparado na
occasio do natalicio de Jacintho, pelo cosinheiro do 202, contei a
historia, profusamente, exaggerando, affirmando que esse arroz doce
continha _foie gras_, e que sobre a sua ornamentada pyramide fluctuava a
bandeira tricolor, por cima do busto do conde de Chambord! Mas o arroz
doce de Paris, assim estragado to longe da Serra, no interessra
ninguem. Puxou apenas alguns sorrisos de polida condescendencia, quando
eu, alternadamente, me voltava para um cavalheiro, para uma senhora,
insistindo, exclamando:--Extraordinario, hein?

D. Theotonio observou, mysteriosamente, que o cosinheiro sabia para
quem cosinhava. E a bella mulher do Dr. Alypio ousou murmurar, corando:

--Havia de ser bonito prato, e talvez no fosse mau!

Eu, sempre na ancia de espiritualisar o banquete, de produzir
conversao, ataquei com desabrida alegria a Snr.^a D. Luiza, por ella
assim defender a profanao do nosso grande acepipe nacional! Mas, pobre
de mim! to excessiva e ruidosamente interpellei a formosa senhora, que
ella se enconchou, emmudeceu, toda corada, e mais formosa assim. E outro
silencio se abatia sobre a mesa, como uma nevoa, quando a tia Vicencia,
providencial, se desculpou para com Jacintho de no ter peixe! Mas qu!
ali na Serra era impossivel, ainda a peso d'ouro, ter peixe, a no ser a
pescada salgada, ou o bacalhau. O excellente Rojo, com aquelle seu
modo, to suave que cada syllaba para correr mais docemente parecia
lubrificada com oleos santos, lembrou que o Snr. D. Jacintho possuia uma
larga facha do rio Douro com privilegio para a pesca do savel. Jacintho
no sabia, nem imaginava que houvesse saveis... O Dr. Alypio no se
admirava por que essas pescas tinham sido vendidas ao Cunha brasileiro,
ha vinte annos, na mocidade do Snr. D. Jacintho. E hoje, segundo o D.
Theotonio, no valiam dois mil ris. Se j no ha saveis!... E a
proposito das antigas pescas do Douro se ia formando, em torno da mesa,
entre os homens mais visinhos, lentas cavaqueirinhas ruraes, que as
senhoras aproveitavam para cochichar, no desabafo d'aquelle silencio
cerimonioso, que viera pesando cada vez mais desde a spa at os frangos
guisados. Receoso de que essa orla de murmurios lentos, sem brilho e sem
alegria, se estabelecesse de novo, me abalancei (para animar), a
interpellar Jacintho, recordando a famosa aventura do peixe da Dalmacia
encalhado no ascensor.

--Isso foi uma das melhores historias que nos succederam em Paris! O
Jacintho, por causa d'um peixe muito raro, que lhe mandra o Gro-Duque
Casimiro, dava uma magnifica ceia, a que o Gro-Duque... o Gro-Duque
Casimiro, o irmo do Imperador...

Todos os olhos se desviaram para o meu Jacintho, que se servia de
ervilhas:--e o Mello Rebello quasi se engasgou, n'um sorvo precipitado
ao copo, para contemplar no meu amigo algum reflexo do Gro-Duque. E eu
contei, com profuso, o peixe encalhado, o Gro-Duque pescando, o anzol
feito com um gancho da Princeza de Carman, o duque de Marizac, cahindo
quasi no poo do elevador... Mas no se produziu um unico riso, e a
atteno mesma era dada com esforo, por cortezia. Debalde eu
arremessava aquelles nomes magnificos de principes e princezas,
misturados a cousas picarescas... Nenhum dos meus convidados
comprehendia o maquinismo do elevador, um prato encalhado n'um poo
negro... Perante o gancho da princeza as Albergarias baixaram os olhos.
E a minha deliciosa historia morreu n'uma reticencia, ainda mais
regelada pela exclamao innocente da tia Vicencia:

--Oh! filho, que cousas!

Mas, como Jacintho se enfronhra de repente n'uma larga conversa com a
Luizinha Rojo, que ria, toda luminosa e palradora,--todos, como
libertados do peso cerimonioso da sua presena augusta, se lanaram nas
conversinhas discretas, a que o champagne, agora, depois do assado, dava
mais viveza. Eram os soturnos murmurios, em torno da mesa, que
definitivamente se perpetuavam. Foi ento que desisti de animar o
jantar. Mergulhei com a bella mulher do Doutor Alypio na grande questo
social d'esse tempo em Guies, o casamento da D. Amelia Noronha com o
feitor! E eu defendia a D. Amelia, os direitos do amor, quando se
alargou um silencio,--e era Jacintho, que se debruava, de copo na mo.

--Velho amigo Z Fernandes,  tua! Muitos e bons, e sempre em companhia
de tua tia e minha senhora, a quem peo para saudar.

Todos os copos, onde a espuma morria sobre um fundo de champagne, se
ergueram n'um largo rumor de amisade, e boa visinhana. Eu acenei ao
Manoel, vivamente, para encher os copos; e logo, tambem de p, atirando
para traz a sobrecasaca:

--Meus senhores, peo uma grande saude para o meu velho amigo Jacintho,
que pela primeira vez honra esta casa fraternal... Que digo eu? que pela
primeira vez honra com a sua presena a sua querida patria! E que por c
fique, pelas serras, muitos annos, todos bons.  tua, meu velho!

Outro rumor correu pela mesa, mas ceremonioso e sereno. A nossa
oratoria, positivamente, no incendira as imaginaes! A tia Vicencia
fez tilintar o seu copo, quasi vasio, com o de Jacintho, que tocou no
copo da sua visinha, a Luizinha Rojo, toda resplandecente, e mais
vermelha que uma peonia. Depois foi um encadeamento de saudes, com os
copos quasi vasios, entre todos os convidados, sem esquecer o tio
Adrio, e o Abbade, ambos ausentes, ambos com furunculos. E a tia
Vicencia espalhava aquelle olhar, que prepra o erguer, o arrastar de
cadeiras,--quando D. Theotonio, erguendo o seu copo de vinho do Porto,
com a outra mo apoiada  mesa, meio erguido, chamou Jacintho, e n'uma
voz respeitosa, quasi cava:

--Esta  toda particular, e entre ns... Brindo o ausente!

Esvasiou o copo, como em religio, pontificando. Jacintho bebeu
assombrado, sem comprehender. As cadeiras arrastavam,--eu dei o brao 
tia Albergaria.

E s comprehendi, na sala, quando o Dr. Alypio, com a sua chavena de
caf e o charuto fumegante, me disse, n'um d'aquelles seus olhares
finos, que lhe valiam a alcunha de _Dr. Agudo_:--Espero que ao menos,
c por Guies, no se erga de novo a forca!... E o mesmo fino olhar me
indicava o D. Theotonio, que arrastra Jacintho para entre as cortinas
d'uma janella, e discorria, com um ar de f e de mysterio. Era o
miguelismo, por Deus! O bom D. Theotonio considerava Jacintho como um
hereditario, ferrenho, miguelista,--e na sua inesperada vinda ao seu
solar de Tormes, entrevia uma misso politica, o comeo d'uma propaganda
energica, e o primeiro passo para uma tentativa de Restaurao. E na
reserva d'aquelles cavalheiros, ante o meu Principe, eu senti ento a
suspeita liberal, o receio d'uma influencia rica, nova, nas Eleies
proximas, e a nascente irritao contra as velhas ideias, representadas
n'aquelle moo, to rico, de civilisao to superior. Quasi entornei o
caf, na alegre surpreza d'aquella sandice. E retive o Mello Rebello,
que repunha a chavena vasia na bandeja, fitei, com um pouco de riso, o
_Dr. Agudo_.

--Ento, francamente, os amigos imaginam que o Jacintho veio para Tormes
trabalhar no miguelismo?

Muito serio, Mello Rebello chegou o seu grosso bigode  minha orelha:

--At corre, como certo, que o Principe D. Miguel est com elle em
Tormes!

E como eu os considerava esgazeado, o Dr. Alypio--to agudo!--confirmou:

-- o que corre... Disfarado em creado!

Em creado? Oh! santo Deus! Era o Baptista! Justamente, Ricardo Velloso
veio, puxando do seu cigarrinho, para o accender no meu charuto. E o bom
Rebello logo invocou o seu testemunho.--Pois no corria, que o filho de
D. Miguel estava em Tormes, escondido?...

--Disfarado em lacaio, confirmou logo o digno Rebello.

Accendeu o cigarro, soprou o fumo, e erguendo muito as sobrancelhas
meditativas:

--Se assim , l me parece desplante... Que eu no desgostava de o vr.
Dizem que  bonito moo, bem apessoado. Mas emfim, meu tio Joo Vaz
Rebello foi partido s postas, a machado, nas prises d'Almeida... E se
recomeam essas questes, mau, mau! Ora o seu amigo...

Emmudeceu. Jacintho, que se libertra do velho D. Theotonio, e ainda
conservava um resto de riso, d'assombro divertido, vinha para mim,
desabafar:

--Extraordinario! Vejo que, aqui, na serra, ainda se conservam, sem uma
ruga, as velhas e boas ideias...

Immediatamente, sem se conter, Mello Rebello acudiu:

-- conforme o que V. Ex.^a chama _boas ideas_.

E eu agora, furioso com aquella disparatada inveno, que cercava
d'hostilidade o meu pobre Jacintho, estragava aquella amavel noite
d'annos, intervim, vivamente:

--Tu jogas o voltarete, Jacintho? No jogas... Ento vamos arranjar duas
mesas... O D. Theotonio ha de querer cartas.

E arrastei Jacintho para as senhoras, que de novo se aninhavam  sombra
da tia Vicencia, estabelecida no seu canto do sof. Todas se callavam,
parecia encolherem-se ante a appario do meu Principe, como pombas
avistando o abutre. E deixei o temido homem affirmando  mulher do Dr.
Alypio (um pouco desgarrada do bando das aves timidas) que lhe dera
grande prazer aquella occasio de conhecer as suas visinhas de Tormes...
Ella abrira nervosamente o leque, sorria, e nunca de certo Jacintho
admirra na Cidade uma bocca mais vermelha, dentinhos mais rutilantes.
Mas depois d'organisar a mesa do voltarete, tive de abancar, eu, para
substituir o Manoel Albergaria, que era dispeptico, se declarra
affrontado, e desejava respirar um momento na varanda. Todos aquelles
cavalheiros, de resto, se queixavam de calor. Mandei abrir as janellas
que davam sobre as mimosas do pateo. O Velloso, ao baralhar, parava,
bufando, como opprimido:

--Est abafado... Ainda temos trovoada!

E o Dr. Alypio, inquieto, por que tinha uma hora d'estrada at casa, e
uma das egoas da caleche era escabriada, correu  janella, espreitar o
ceu, que ennegrecera, morno e pesado.

--Com effeito, vae cahir agoa.

As hastes das mimosas ramalhavam, arripiadas: e o ar que agitava as
cortinas era intermittente, estonteado. De certo na sala, entre as
senhoras, surgira a mesma inquietao, porque a tia Albergaria
appareceu, avisando o mano Jorge.

Era prudente pensar em partir, a noite ameaava... E o Dr. Alypio,
puxando o relogio, propoz que, levantada aquella remissa, se preparasse
a marcha. Justamente o Albergaria recolhia da varanda desaffrontado,
alliviado com um calice de genebra: e rotomou as suas cartas,
annunciando tambem que vinha ahi uma trovoada valente.

Voltando  sala, encontrei Jacintho muito alegre entre as senhoras, que
se familiarisaram, escutando cheias de riso e gosto, a historia da sua
chegada a Tormes, sem malas, sem creados, to desprovido que dormira com
a camisa da caseira! Mas a minha pobre noite d'annos findava,
desorganisada. A tia Albergaria rondava de janella em janella, assustada
com a volta  Roqueirinha, espreitando a treva abafada. Calando
lentamente as luvas, a bella mulher do Dr. Alypio perguntava se ainda
havia a remissa. E a tia Vicencia apressra o ch, que o Manoel seguido
pela Gertrudes, com a bandeja de bolos, j comeava a servir s
senhoras. Jacintho, de p, offerecendo chavenas, gracejava:

--Ento tanta pressa, tanto medo, por causa d'uma trovoadinha?

Ellas replicavam, familiarizadas, n'uma crescente sympathia pelo meu
Principe:

--Ora o senhor falla bem, porque fica debaixo de telhas...

--Sempre o queriamos vr... se fosse agora para Tormes, com esta noite
cerrada!

O voltarete findra nas duas mesas: e aquelles cavalheiros, das
janellas, gritavam ordens para o pateo negro, onde as carroagens
esperavam atreladas:

--Desce a cabea da victoria,  Diogo!

--Accende o lampeo, Pedro! Sempre ajuda a luz das lanternas.

A creada Quiteria chegava  porta com os braos carregados de chales, de
mantilhas de renda. Como uma das Albergarias ia no assento de deante na
victoria, eu corri a buscar o meu casaco de borracha, para ella se
abrigar se a chuva viesse. E s o D. Theotonio, que tinha at casa
apenas meia legoa de estrada boa, se no apressava, filado outra vez no
meu Principe, que levava para os cantos mais solitarios, em conversas
profundas, que o seu dedo solemne, espetado, sublinhava gravemente. Mas
a tia Albergaria gritou que j chovia;--e ento foi uma pressa das
senhoras, que beijocavam vivamente a tia Vicencia, em quanto os homens,
na ante-camara, enfiavam aodadamente os palets.

Jacintho e eu descemos ao pateo para acompanhar aquella debandada,--e
uma a uma, a traquitana do Dr. Alypio, a victoria das Albergarias, a
velha e immensa caleche dos Vellosos, rolaram sob a noite, entre os
nossos desejos de boa jornada. Por fim D. Theotonio calou as luvas
pretas e entrou para a sua caleche, dizendo a Jacintho:

--Pois, primo e amigo, Deus permitta que, do nosso encontro, e do mais
que se passar, algum bem resulte a esta terra!

Subindo a escada, o meu Principe desabafou:

--Este Theotonio  extraordinario! Sabes o que descobri por fim?... Que
me toma por um miguelista, e imagina que eu vim para Tormes preparar a
restaurao de D. Miguel?!

--E tu?

--Eu fiquei to espantado, que nem o desilludi!

--Pois sabe mais, meu pobre amigo. Todos pensam o mesmo, esto
desconfiados, e receiam vr de novo erguidas as frcas em Guies! E
corre que tu tens o Principe D. Miguel escondido em Tormes, disfarado
em creado. E sabes quem elle ? o Baptista!

--Isso  sublime! murmurou Jacintho, com uns grandes olhos abertos.

Na sala, a tia Vicencia nos esperava desconsolada, entre todas as luzes,
que ardiam ainda no silencio e paz do sero debandado:

--Ora uma cousa assim! Nem quererem ficar para tomar um copinho de
gelea, um calice de vinho do Porto!

--Esteve tudo muito desanimado, tia Vicencia! exclamei desafogando o meu
tedio. Todo esse mulherio emmudeceu; os amigos com um ar desconfiado...

Jacintho protestou, muito divertido, muito sincero:

No! pelo contrario. Gostei immenso. Excellente gente! E to simples...
Todas estas raparigas me pareceram optimas. E to frescas, to alegres!
Vou ter aqui bons amigos, quando verificarem que no sou miguelista.

Ento contamos  tia Vicencia a prodigiosa historia de D. Miguel
escondido em Tormes... Ella ria! Que cousa! E mau seria...

--Mas o Snr. Jacintho, no ?

--Eu, minha senhora, sou socialista...

Acudi, explicando  tia Vicencia, que socialista era ser pelos pobres. A
doce senhora considerava esse partido o melhor, o verdadeiro:

--O meu Affonso, que Deus haja, era liberal... Meu pae, tambem e at
amigo do Duque da Terceira...

Mas um rude trovo rolou, atroou a noite negra:--e uma batega d'agoa
cantou nos vidros, e nas pedras da varanda.

--Santa Barbara! gritou a tia Vicencia! Ai aquella pobre gente!... At
estou com cuidado... As Rojes, que vo na victoria!

E correu para o quarto, na sua pressa de accender as duas velas
costumadas no oratorio, ainda antes de ir guardar as pratas, a resar o
tero, com a Gertrudes.




XIV


Ao outro dia, depois d'almoo, eu e Jacintho montamos a cavallo para um
grande passeio at  Flr da Malva, a saber de meu tio Adrio, e do seu
furunculo. E sentia uma curiosidade interessada, e at inquieta, de
testemunhar a impresso que daria ao meu Principe aquella nossa prima
Joanninha, que era o orgulho da nossa casa. J n'essa manh, andando
todos no jardim a escolher uma bella rosa ch para a botoeira do meu
Principe, a tia Vicencia celebrra com tanto fervor a belleza, a graa,
a caridade, e a doura da sua sobrinha toda-amada, que eu protestei:

--Oh! tia Vicencia, olhe que esses elogios todos competem apenas 
Virgem Maria! A tia Vicencia est a cahir em peccado de idolatria! O
Jacintho depois vae encontrar uma creatura apenas humana, e tem um
desapontamento tremendo!

E agora, trotando pela facil estrada de Sandofim, lembrava-me aquella
manh, no 202, em que Jacintho encontrra o retrato d'ella no meu
quarto, e lhe chamra uma _lavradeirna_. Com effeito, era grande e
forte a Joanninha. Mas a photographia datava do seu tempo de vio
rustico, quando ella era apenas uma bella forte e s planta da serra.
Agora entrava nos vinte e cinco, e j pensava, e sentia,--e a alma que
n'ella se formra, afinra, amacira, e espiritualisava o seu esplendor
rubicundo.

A manh, com o ceu todo purificado pela trovoada da vespera, e as terras
reverdecidas e lavadas pelos chuviscos ligeiros, offerecia uma doura
luminosa, fina, fresca, que tornava doce, como diz o velho Euripedes ou
o velho Sophocles, mover o corpo, e deixar a alma preguiar, sem pressa
nem cuidados. A estrada no tinha sombra, mas o sol batia muito de leve,
e roava-nos com uma caricia quasi alada. O valle parecia a Jacintho,
que nunca ali passra, uma pintura da Escola Franceza do seculo XVIII,
to graciosamente n'elle ondulavam as terras verdes, e com tanta paz e
frescura corria o risonho Serpo, e to affaveis e promettedores de
fartura e contentamento alvejavam os casaes nas verduras tenras! Os
nossos cavallos caminhavam n'um passo pensativo, gosando tambem a paz da
manh adoravel. E no sei, nunca soube, que plantasinhas silvestres e
escondidas espalhavam um delicado aroma, que eu tantas vezes sentira,
n'aquelle caminho, ao comear o outomno.

--Que delicioso dia! murmurou Jacintho. Este caminho para a Flr da
Malva  o caminho do ceu... Oh Z Fernandes, de que  este cheirinho to
doce, to bom?

Eu sorri, com certo pensamento:

--No sei...  talvez j o cheiro do ceu!

Depois, parando o cavallo, apontei com o chicote para o valle:

--Olha, acol, onde est aquella fila d'olmos, e ha o riacho, j so
terras do tio Adrio. Tem alli um pomar, que d os pcegos mais
deliciosos de Portugal... Hei de pedir  prima Joanninha que te mande um
cesto d'elles. E o dce que ella faz com esses pcegos, menino,  alguma
cousa de celeste. Tambem lhe hei de pedir que te mande o dce.

Elle ria:

--Ser explorar de mais a prima Joanninha. E eu (por que?) recordei e
atirei ao meu Principe estes dous versos d'uma ballada cavalheiresca,
composta em Coimbra pelo meu pobre amigo Procopio:

--Manda-lhe um servo querido,
Bem hajas dona formosa!
E que lhe entregue um annel
E com um annel uma rosa.

Jacintho rio alegremente:

--Z Fernandes, seria excessivo, s por causa de meia duzia de pcegos,
e d'um boio de dce.

Assim riamos, quando appareceu,  volta da estrada, o longo muro da
quinta dos Vellosos, e depois a capellinha de S. Jos de Sandofim. E
immediatamente piquei para o largo, para a taverna do Trto, por causa
d'aquelle vinhinho branco, que sempre, quando por ali a levo, a minha
alma me pede. O meu Principe reprovou, indignado:

--Oh! Z Fernandes, pois tu, a esta hora, depois d'almoo, vaes beber
vinho branco?

-- um costumesinho antigo... Aqui  taverninha do Trto... um
decilitrosinho... A almasinha assim m'o pede.

E paramos; eu gritei pelo Manoel, que appareceu, rebolando a sua grossa
pansa, sobre as pernas tortas, com a infusa verde, e um copo.

--Dous copos, Trto amigo. Que aqui este cavalheiro tambem aprecia.

Depois d'um pallido protesto, o meu Principe tambem quiz, mirou o
limpido e dourado vinho ao sol, provou, e esvasiou o copo, com delicia,
e um estalinho de alto apreo.

--Delicioso vinho!... Hei de querer d'este vinho em Tormes... 
perfeito.

--Hein? Fresquinho, leve, aromatico, alegrador, todo alma!... Encha l
outra vez os copos, amigo Trto. Este cavalheiro aqui  o Snr. D.
Jacintho, o fidalgo de Tormes.

Ento, de traz da umbreira da taverna, uma grande voz bradou, cavamente,
solemnemente:

--Bemdito seja o pae dos Pobres!

E um extranho velho, de longos cabellos brancos, barbas brancas, que lhe
comiam a face cr de tijolo, assomou no vo da porta, apoiado a um
bordo, com uma caixa de lata a tiracolo, e cravou em Jacintho dous
olhinhos d'um brilho negro, que faiscavam. Era o tio Joo Torrado, o
propheta da Serra... Logo lhe estendi a mo, que elle apertou, sem
despegar de Jacintho os olhos, que se dilatavam mais negros. Mandei vir
outro copo, apresentei Jacintho, que crra, embaraado.

--Pois aqui o tem, o senhor de Tormes, que fez por ahi todo esse bem 
pobreza.

O velho atirou para elle bruscamente o brao, que sahia cabelludo e
quasi negro, d'uma manga muito curta.

--A mo!

E quando Jacintho lh'a deu, depois de arrancar vivamente a luva, Joo
Torrado longamente lh'a reteve com um sacudir lento e pensativo,
murmurando:

--Mo real, mo de dar, mo que vem de cima, mo j rara!

Depois tomou o copo, que lhe offerecia o Trto, bebeu com immensa
lentido, limpou as barbas, deu um geito  correia que lhe prendia a
caixa de lata, e batendo com a ponta do cajado no cho:

--Pois louvado seja nosso Senhor Jesus Christo, que por aqui me trouxe,
que no o meu dia, e vi um homem!

Eu ento debrucei-me para elle, mais em confidencia:

--Mas,  tio Joo, oua c! Sempre  certo voc dizer por ahi, pelos
sitios, que El-Rei D. Sebastio voltra?

O pittoresco velho apoiou as duas mos sobre o cajado, o queixo
d'espalhada barba sobre as mos, e murmurava, sem nos olhar, como
seguindo a percusso dos seus pensamentos:

--Talvez voltasse, talvez no voltasse... No se sabe quem vae, nem quem
vem. A gente v os corpos, mas no v as almas que esto dentro. Ha
corpos d'agora com almas d'outr'ora. Corpo  vestido, alma  pessoa...
Na feira da Roqueirinha quem sabe com quantos reis antigos se topa,
quando se anda aos encontres entre os vaqueiros... Em ruim corpo se
esconde bom senhor!

E como elle findra n'um murmurio, eu, atirando um olhar a Jacintho, e
para gosarmos aquelles estranhos, pittorescos modos de vidente, insisti:

--Mas,  tio Joo, voc realmente, em sua consciencia, pensa que El-Rei
D. Sebastio no morreu na batalha?

O velho ergueu para mim a face, que se enrugra n'uma desconfiana:

--Essas cousas so muito antigas. E no calham bem aqui  porta do
Trto. O vinho era bom, e V. S.^a tem pressa, meu menino! A flr da Flr
da Malva l tem o paesinho doente... Mas o mal j vae pela serra abaixo
com a inchao s costas. D gosto vr quem d gosto aos tristes. Por
cima de Tormes ha uma estrella clara. E  trotar, trotar, que o dia est
lindo!

Com a magra mo lanou um gesto para que seguissemos. E j passavamos o
cruzeiro quando o seu brado ardente, de novo revoou, com solemnidade
cava:

--Bemdito seja o Pae dos Pobres.

Direito, no meio da estrada, erguia o cajado como dirigindo as
acclamaes d'um povo. E Jacintho pasmava de que ainda houvesse no reino
um Sebastianista.

--Todos o somos ainda em Portugal, Jacintho! Na serra ou na cidade cada
um espera o seu D. Sebastio. At a loteria da Misericordia  uma forma
do Sebastianismo. Eu todas as manhs, mesmo sem ser de nevoeiro,
espreito, a vr se chega o meu. Ou antes a minha, por que eu espero uma
D. Sebastiana... E tu, felizardo?

--Eu? Uma D. Sebastiana? Estou muito velho, Z Fernandes... Sou o ultimo
Jacintho; Jacintho ponto final... Que casa  aquella com os dous
torrees?

--A Flr da Malva.

Jacintho tirou o relogio:

--So tres horas. Gastamos hora e meia... Mas foi um bello passeio, e
instructivo.  lindo este sitio.

Sobre um outeirinho, afastada da estrada por arvoredo, que um muro
cerrava, e dominando, a Flr da Malva voltava para Oriente e para o Sol
a sua longa fachada com os dous torrees quadrados, onde as janellas, de
varanda, eram emolduradas em azulejos. O grande porto de ferro, ladeado
por dous bancos de pedra, ficava ao fundo do terreirinho, onde um
immenso castanheiro derramava verdura e sombra. Sentado sobre as fortes
raizes descarnadas da grande arvore, um pequeno esperava segurando um
burro pela arreata.

--Est por ahi o Manoel da Porta?

--Ainda agora subio pela alameda.

--Bem: empurra l o porto.

E subimos, por uma curta avenida de velhas arvores, at outro terreiro,
com um alpendre, uma casa de moos, toda coberta d'heras, e uma casota
de co, d'onde saltou, com um rumor de corrente arrastada, um molosso, o
Trito, que eu logo soceguei fazendo-lhe reconhecer o seu velho amigo Z
Fernandes. E o Manoel da Porta correu da fonte, onde enchia um grande
balde, para nos segurar os cavallos.

--Como est o tio Adrio?

Surdo, o excellente Manoel sorrio, deleitado:

--E ento vossa excellencia, bem? A Snr.^a D. Joanninha ainda agora
andava no laranjal com o pequeno da Josepha.

Seguimos por ruasinhas bem areadas, orladas d'alfazema e buxo alto, em
quanto eu contava ao meu Principe que aquelle pequenito da Josepha era
um afilhadinho da prima Joanna, e agora o seu encanto e o seu cuidado
todo.

--Esta minha santa prima, apesar de solteira, tem ahi pela freguezia uma
verdadeira filharada. E no  s dar-lhes roupas e presentes, e ajudar
as mes. Mas at os lava, e os penteia, e lhes trata as tosses. Nunca a
encontro sem alguma creancita ao collo... Agora anda na paixo d'este
Jossinho.

Mas quando chegamos ao laranjal,  beira da larga rua da quinta que
levava ao tanque, debalde procurei, e me embrenhei, e at gritei:--Eh,
prima Joanninha!...

--Talvez esteja l para baixo, para o tanque...

Descemos a rua, entre arvores, que a cobriam com as densas ramas
encruzadas. Uma fresca, limpida agoa de rega corria e luzia n'um caneiro
de pedra. Entre os troncos, as roseiras bravas ainda tinham uma frescura
de vero. E o pequeno campo, que se avistava para alm, rebrilhava com
doura, todo amarello e branco, dos malmequeres e botes d'ouro.

O tanque, redondo, fra esvasiado para se lavar, e agora de novo o
repuxo o ia enchendo d'uma agoa muito clara, ainda baixa, onde os peixes
vermelhos se agitavam na alegria de recuperarem o seu pequeno oceano.
Sobre um dos bancos de pedra que circumdavam o tanque pousava um cesto
cheio de dhalias cortadas. E um moo, que sobre uma escada podava as
camelias, vira a Snr.^a D. Joanna seguir para o lado da parreira.

Marchamos para a parreira, ainda toda carregada de uva preta. Duas
mulheres, longe, ensaboavam n'um lavadoiro, na sombra de grandes
nogueiras. Gritei:--Eh l? Vocs viram por ahi a Snr.^a D. Joanna? Uma
das moas esganiou a voz, que se perdeu no vasto ar luminoso e doce.

--Bem: vamos a casa! No podemos farejar assim, toda a tarde.

-- uma bella quinta, murmurava o meu Principe encantado.

--Magnifica! E bem tratada... O tio Adrio tem um feitor excellente...
No  o teu Melchior. Observa, aprende, lavrador! Olha aquelle
cebolinho!

Passamos pela horta, uma horta ajardinada, como a sonhra o meu
Principe, com os seus talhes debruados d'alfazema, e madresilva
enroscada nos pilares de pedra, que faziam ruasinhas frescas toldadas de
parra densa. E dmos volta  capella, onde crescia aos dous lados da
porta uma roseira ch, com uma rosa unica, muito aberta, e uma moita de
baunilha, onde Jacintho apanhou um raminho para cheirar. Depois entramos
no terrao em frente da casa, com a sua balaustrada de pedra, toda
enrodilhada de jasmineiros amarellos. A porta envidraada estava aberta:
e subimos pela escadaria de pedra, no immenso silencio em que toda a
Flr da Malva repousava, at  ante-camara, d'altos tectos apainelados,
com longos bancos de pau, onde desmaiavam na sua velha pintura as
complicadas armas dos Cerqueiras. Empurrei a porta d'uma outra sala, que
tinha as janellas da varanda abertas, cada uma com a gaiola d'um
canario.

-- curioso!--exclamou Jacintho. Parece o meu Presepio... E as minhas
cadeiras.

E com effeito. Sobre uma commoda antiga, com bronzes antigos, pousava um
presepio semelhante ao da livraria de Jacintho. E as cadeiras de couro
lavrado tinham, como as que elle descobrira no soto, umas armas sob um
chapo de Cardeal.

--Oh senhores! exclamei. No haver um creado?

Bati as mos, fortemente. E o mesmo doce silencio permaneceu, muito
largo, todo luminoso e arejado pelo macio ar da quinta, apenas cortado
pelo saltitar dos canarios nos poleiros das gaiolas.

-- o Palacio da Bella adormecida no bosque! murmurou Jacintho, quasi
indignado. D um berro!

--No, caramba! Vou l dentro!

Mas,  porta, que de repente se abrio, appareceu minha prima Joanninha,
crada do passeio e do vivo ar, com um vestido claro um pouco aberto no
pescoo, que fundia mais docemente, n'uma larga claridade, o explendor
branco da sua pelle, e o louro ondeado dos seus bellos
cabellos,--lindamente risonha, na surpreza que alargava os seus largos,
luminosos olhos negros, e trazendo ao collo uma creancinha, gorda e cr
de rosa, apenas coberta com uma camisinha, de grandes laos azues.

E foi assim que Jacintho, n'essa tarde de Septembro, na Flr da Malva,
vio aquella com quem casou em Maio, na capellinha d'azulejos, quando o
grande p de roseira se cobrira todo de rosas.




XV


E agora, entre roseiras que rebentam, e vinhas que se vindimam, j cinco
annos passaram sobre Tormes e a Serra. O meu Principe j no  o ultimo
Jacintho, Jacintho ponto final--por que n'aquelle solar que decahira,
correm agora, com soberba vida, uma gorda e vermelha Theresinha, minha
afilhada, e um Jacinthinho, senhor muito da minha amisade. E, pae de
familia, principira a fazer-se monotono, pela perfeio da belleza
moral, aquelle homem to pittoresco pela inquietao philosophica, e
pelos variados tormentos da phantasia insaciada. Quando elle agora, bom
sabedor das cousas da lavoura, percorria comigo a quinta, em solidas
palestras agricolas, prudentes e sem chimeras--eu quasi lamentava esse
outro Jacintho que colhia uma theoria em cada ramo d'arvore, e riscando
o ar com a bengala, planeava queijeiras de cristal e porcellana, para
fabricar queijinhos que custariam duzentos mil ris cada um!

Tambem a paternidade lhe despertra a responsabilidade. Jacintho possuia
agora um caderno de contas, ainda pequeno, rabiscado a lapis, com
falhas, e papeluchos soltos entremeados, mas onde as suas despezas, as
suas rendas se alinhavam, como duas hostes disciplinadas. Visitra j as
suas propriedades de Montemr, da Beira; e concertava, mobilava as
velhas casas d'essas propriedades para que os seus filhos, mais tarde,
crescidos, encontrassem ninhos feitos. Mas onde eu reconheci que
definitivamente um perfeito e ditoso equilibrio se estabelecera na alma
do meu Principe, foi quando elle, j sabido d'aquelle primeiro e ardente
fanatismo da Simplicidade--entreabrio a porta de Tormes  Civilisao.
Dous mezes antes de nascer a Theresinha, uma tarde, entrou pela avenida
de platanos uma chiante e longa fila de carros, requisitados por toda a
freguesia, e acuculados de caixotes. Eram os famosos caixotes, por tanto
tempo encalhados em Alba de Tormes, e que chegavam, para despejar a
Cidade sobre a Serra. Eu pensei:--Mau! o meu pobre Jacintho teve uma
recahida! Mas os confortos mais complicados, que continha aquella
caixotaria temerosa, foram, com surpreza minha, desviados para os sotos
immensos, para o p da inutilidade: e o velho solar apenas se regalou
com alguns tapetes sobre os seus soalhos, cortinas pelas janellas
desabrigadas, e fundas poltronas, fundos sofs, para que os repousos,
por que elle suspirra, fossem mais lentos e suaves. Attribui esta
moderao a minha prima Joanninha, que amava Tormes na sua nudez rude.
Ella jurou que assim o ordenra o seu Jacintho. Mas, decorridas semanas,
tremi. Apparecera, vindo de Lisboa, um contra-mestre, com operarios, e
mais caixotes, para installar um telephone!

--Um telephone, em Tormes, Jacintho?

O meu Principe explicou, com humildade:

--Para casa de meu sogro!... Bem vs.

--Era rasoavel e carinhoso. O telephone porm, subtilmente, mudamente,
estendeu outro longo fio, para Valverde. E Jacintho, alargando os
braos, quasi supplicante:

--Para casa do medico. Comprehendes...

Era prudente. Mas, certa manh, em Guies, accordei aos berros da tia
Vicencia! Um homem chegra, mysterioso, com outros homens, trazendo
arame, para installar na nossa casa o novo invento. Soceguei a tia
Vicencia, jurando que essa machina nem fazia barulho, nem trazia
doenas, nem attrahia as trovoadas. Mas corri a Tormes. Jacintho sorrio,
encolhendo os hombros:

--Que queres? Em Guies est o boticario, est o carniceiro... E,
depois, ests tu!

Era fraternal. Todavia pensei: Estamos perdidos! Dentro d'um mez temos a
pobre Joanna a apertar o vestido por meio d'uma machina! Pois no! o
Progresso, que,  intimao de Jacintho, subira a Tormes a estabelecer
aquella sua maravilha, pensando talvez que conquistra mais um reino
para desfear, desceu, silenciosamente, desilludido, e no avistamos mais
sobre a serra a sua hirta sombra cr de ferro e de fuligem. Ento
comprehendi que, verdadeiramente, na alma de Jacintho se estabelecera o
equilibrio da vida, e com elle a Gran-Ventura, de que tanto tempo elle
fra o principe sem Principado. E uma tarde, no pomar, encontrando o
nosso velho Grillo, agora reconciliado com a serra, desde que a serra
lhe dera meninos para trazer s cavalleiras, observei ao digno preto,
que lia o seu _Figaro_, armado de immensos oculos redondos:

--Pois, Grillo, agora realmente bem podemos dizer que o Snr. D. Jacintho
est firme.

O Grillo arredou os oculos para a testa, e levantando para o ar os cinco
dedos em curva como petalas d'uma tulipa:

--S. ex.^a brotou!

Profundo sempre o digno preto! Sim! Aquelle resequido galho de Cidade,
plantado na serra, pegra, chupra o humus do torro herdado, crera
seiva, afundra raizes, engrossra de tronco, atirra ramos, rebentra
em flres, forte, sereno, ditoso, benefico, nobre, dando fructos,
derramando sombra. E abrigados pela grande arvore, e por ella nutridos,
cem casaes em redor a bemdiziam.




XVI


Muitas vezes Jacintho, durante esses annos, fallra com prazer n'um
regresso de dous, tres mezes, ao 202, para mostrar Paris  prima
Joanninha. E eu seria o companheiro fiel, para archivar os espantos da
minha serrana ante a Cidade! Depois conveio em esperar que o Jacinthinho
completasse dous annos, para poder jornadear sem desconforto, e
apontando j com o seu dedo para as cousas da Civilisao. Mas, quando
elle, em Outubro, fez esses dous annos desejados, a prima Joanninha
sentiu uma preguia immensa, quasi aterrada, do comboio, do estridor da
Cidade, do 202, e dos seus esplendores. Estamos aqui to bem! est um
tempo to lindo! murmurava, deitando os braos, sempre deslumbrada, ao
rijo pescoo do seu Jacintho. Elle desistia logo de Paris, encantado.
Vamos para Abril, quando os castanheiros dos Campos-Elyseos estiverem
em flr! Mas em Abril vieram aquelles cansaos que immobilisavam a
prima Joanninha no divan, ditosa, risonha, com umas pintas na pelle, e o
roupo mais solto. Por todo um longo anno estava desfeita a alegre
aventura. Eu andava ento soffrendo de desoccupao. As chuvas de Maro
promettiam uma farta colheita. Uma certa Anna Vaqueira, crada e bem
feita, viuva, que surtia as necessidades do meu corao, partira com o
irmo para o Brazil, onde elle dirigia uma venda. Desde o inverno,
sentia tambem no corpo como um comeo de ferrugem, que o emperrava, e,
certamente, algures, na minha alma, nascera uma pontinha de bolor.
Depois a minha egoa morreu... Parti eu para Paris.

Logo em Hendaya, apenas pisei a doce terra de Frana, o meu pensamento,
como pombo a um velho pombal, voou ao 202,--talvez por eu vr um enorme
cartaz em que uma mulher nua, com flres bacchanticas nas tranas, se
estorcia, segurando n'uma das mos uma garrafa espumante, e brandindo na
outra, para o annunciar ao Mundo, um novo modelo de saca-rolhas. E oh
surpresa! eis que, logo adeante, na estao quieta e clara de Saint
Jean-de-Luz, um moo esbelto, de perfeita elegancia, entra vivamente no
meu compartimento, e, depois de me encarar, grita:

--Eh, Fernandes!

Marizac! O duque de Marizac! Era j o 202... Com que reconhecimento lhe
sacudi a mo fina, por elle me ter reconhecido! E, atirando para o canto
do vagon um palet, um masso de jornaes, que o escudeiro lhe passra, o
bom Marizac exclamava na mesma surpreza alegre:

--E Jacintho?

Contei Tormes, a serra, o seu primeiro amor pela Natureza, o seu outro
grande amor por minha prima, e os dous filhos, que elle trazia
escarranchados no pescoo.

--Ah que canalha! exclamou Marizac com os olhos espetados em mim! 
capaz de ser feliz!

--Espantosamente, loucamente... Qual! no ha adverbios...

--Indecentemente--murmurou Marizac muito serio. Que canalha!

Eu ento desejei saber do nosso rancho familiar do 202. Elle encolheu os
hombros, accendendo a cigarette:

--Todo esse mundo circula...

--Madame d'Oriol?

--Contina.

--Os Trves? o Ephraim?

--Continuam, todos tres.

Lanou um gesto languido.

--Durante cinco annos, em Paris, tudo contina... As mulheres com um
pouco mais de ps d'arroz, e a pelle um pouco mais molle, e melada. Os
homens com um tanto mais de dispepsia. E tudo segue. Tivemos os
Anarchistas. A princeza de Carman abalou com um acrobata do Circo de
Inverno... E--e voil!

--Dornan?

--Contina... No o encontrei mais desde o 202. Mas vejo s vezes o nome
d'elle, no _Boulevard_, com versos preciosos, obscenidades muito
apuradas, muito subtis.

--E o Psychologo?... Ora, como se chamava elle?...

--Contina tambem. Sempre com as feminices a tres francos e cincoenta...
Duquezas em camisa, almas nas... Cousas que se vendem bem!

Mas quando eu, encantado, ia indagar de Todelle, do Gro-Duque, o
comboio entrou na estao de Biarritz:--e rapidamente, apanhando o
paletot e os jornaes, depois de me apertar a mo, o delicioso Marizac
saltou pela portinhola, que o seu creado abrira, gritando:

--At Paris!... Sempre rue Cambori.

Ento, no compartimento solitario, bocejei, com uma estranha sensao de
monotonia, de saciedade, como cercado j de gentes muito vistas,
murmurando historias muito sabidas, e cousas muito ditas, atravez de
sorrisos estafados. Dos dous lados do comboio era a longa planicie
monotona, sem variedade, muito miudamente cultivada, muito miudamente
retalhada, d'um verde de rezeda, verde cinzento e apagado, onde nenhum
lampejo, nem tom alegre de flr, nem acidente do solo, desmanchavam a
mediocridade discreta e ordeira. Pallidos choupos, em renques pautados e
finos, bordavam canaesinhos muito direitos e claros. Os casaes, todos da
mesma cr pardacenta, mal se elevavam do solo, mal se destacavam da
verdura desbotada, como encolhidos na sua mediocridade e cautella. E o
ceu, por cima, liso, sem uma nuvem, com um sol descrado, parecia um
vasto espelho muito lavado a grande agoa, at que de todo se lhe safasse
o esmalte e o brilho. Adormeci n'uma doce insipidez.

Com que linda manh de Maio entrei em Paris! To fresca e fina, e j
macia, que, apesar de cansado, mergulhei com repugnancia no profundo,
sombrio leito do Grand-Hotel, todo fechado de espessos velludos, grossos
cordes, pesadas borlas, como um palanque de gala. N'essa profunda cova
de pennas sonhei que em Tormes se construira uma torre Eiffel e que em
volta d'ella as senhoras da Serra, as mais respeitaveis, a propria tia
Albergaria, danavam, nas, agitando no ar saca-rolhas immensos. Com as
commoes d'este pesadello, e depois o banho, e o desemmalar da mala, j
se acercavam as duas horas quando emfim emergi do grande porto, pisei,
ao cabo de cinco annos, o Boulevard. E immediatamente me pareceu que
todos esses cinco annos eu ali permanecera  porta do Grand-Hotel, to
estafadamente conhecido me era aquelle estridente rolar da cidade, e as
magras arvores, e as grossas taboletas, e os immensos chapeus emplumados
sobre tranas pintadas d'amarello, e as empertigadas sobrecasacas com
grossas rosetas da legio d'honra, e os garotos, em voz rouca e baixa,
offerecendo baralhos de cartas obscenas, caixas de phosphoros
obscenas... Santo Deus! pensei, ha que annos eu estou em Paris! Comprei
ento, n'um kiosque, um jornal, a Voz de Paris, para que elle me
contasse, durante o almoo, as novas da Cidade. A mesa do kiosque
desapparecia, alastrada de jornaes illustrados:--e em todos se repetia a
mesma mulher, sempre na, ou meia despida, ora mostrando as costellas
magras, de gata faminta, ora voltando para o Leitor duas tremendas
nadegas... Eu outra vez murmurei:--Santo Deus! No caf da Paz, o creado
livido, e com um resto de p de arroz sobre a sua lividez, aconselhou ao
meu appetite, por ser to tarde, um lingoado frito e uma costelleta.

--E que vinho, snr. Conde?

--Chablis, snr. Duque!

Elle sorrio  minha deliciosa pilheria,--e eu abri, contente, a Voz de
Paris. Na primeira columna, atravez d'uma prosa muito retorcida, toda em
brilhos de joia barata, entrevi uma Princesa na, e um Capito de
Drages, que soluava. Saltei a outras columnas, onde se contavam feitos
de cocottes de nomes sonoros. Na outra pagina escriptores eloquentes
celebravam vinhos digestivos e tonicos. Depois eram os crimes do
costume.--No ha nada de novo! Puz de parte a Voz de Paris,--e ento
foi, entre mim e o lingoado, uma lucta pavorosa. O miseravel, que se
frigira rancorosamente contra mim, no consentia que eu descollasse da
sua espinha uma febra escassa. Todo elle se ressequira n'uma sola
impenetravel e tostada, onde a faca vergava, impotente e tremula. Gritei
pelo mo livido, o qual, com faca mais rija, fincando no soalho os
sapatos de fivella, arrancou emfim quelle malvado duas tirinhas, finas
e curtas como palitos, que engoli juntas, e me esfomearam. D'uma garfada
findei a costelleta. E paguei quinze francos com um bom luiz d'ouro. No
trco, que o moo me deu, com a polidez requintada d'uma civilisao
muito diffundida, havia dous francos falsos. E por aquella dce tarde de
Maio sahi para tomar no terrao um caf cr de chapo cco, que sabia a
fava.

Com o charuto acceso contemplei o Boulevard, quella hora em toda a
pressa e estridor da sua grossa sociabilidade. A densa torrente dos
omnibus, calhambeques, carroas, parelhas de luxo, rolava vivamente,
como toda uma escura humanidade formigando entre patas e rodas, n'uma
pressa inquieta. Aquelle movimento continuado e rude bem depressa
entonteceu este espirito, por cinco annos affeito  quietao das serras
immutaveis. Tentava ento, puerilmente, repousar n'alguma forma immovel,
omnibus parado, fiacre que estacra, n'um brusco escorregar da pileca:
mas logo algum dorso apressado se encafuava pela portinhola da tipoia,
ou um cacho de figuras escuras trepava sofregamente para o omnibus:--e,
rapido, recomeava o rolar retumbante. Immoveis, de certo, estavam os
altos predios hirtos, ribas de pedra e cal, que continham,
disciplinavam, aquella torrente offegante. Mas da rua aos telhados, em
cada varanda, por toda a fachada, eram taboletas encimando taboletas,
que outras taboletas apertavam:--e mais me canava o perceber a tenaz
incessancia do trabalho latente, a devorante canceira do lucro,
arquejante por traz das frontarias decorosas e mudas. Ento, emquanto
fumava o meu charuto, extranhamente se apossaram de mim os sentimentos
que Jacintho outr'ora experimentra no meio da Natureza, e que tanto me
divertiam. Ali,  porta do caf, entre a indifferena e a pressa da
Cidade, tambem eu senti, como elle no campo, a vaga tristeza da minha
fragilidade e da minha solido. Bem certamente estava ali como perdido
n'um mundo, que me no era fraternal. Quem me conhecia? Quem se
interessaria por Z Fernandes? Se eu sentisse fome, e o confessasse,
ninguem me daria metade do seu po. Por mais afflictamente que a minha
face revelasse uma angustia, ninguem na sua pressa pararia para me
consolar. De que me serviriam tambem as excellencias d'alma, que s na
alma florescem? Se eu fosse um santo, aquella turba no se importaria
com a minha santidade; e se eu abrisse os braos e gritasse, ali no
Boulevard-- homens, meus irmos! os homens, mais ferozes que o lbo
ante o Pobresinho d'Assis, ririam e passariam indifferentes. Dous
impulsos unicos, correspondendo a duas funces unicas, parecia estarem
vivos n'aquella multido,--o lucro e o gso. Isolada entre elles, e ao
contagio ambiente da sua influencia, em breve a minha alma se
contrahiria, se tornaria n'um duro calhau de Egoismo. Do ser que eu
trouxera da Serra s restaria em pouco tempo esse calhau, e n'elle,
vivos, os dous appetites da Cidade,--encher a bolsa, saciar a carne! E
pouco a pouco as mesmas exageraes de Jacintho perante a Natureza me
invadiam perante a Cidade. Aquelle Boulevard reumava para mim um bafo
mortal, extrahido dos seus milhes de microbios. De cada porta me
parecia sahir um ardil para me roubar. Em cada face, avistada 
portinhola d'um fiacre, suspeitava um bandido em manobra. Todas as
mulheres me pareciam caiadas como sepulchros, tendo s podrido por
dentro. E considerava d'uma melancolia funambulesca as frmas de toda
aquella Multido, a sua pressa aspera e v, a affectao das attitudes,
as immensas plumas das chapeletas, as expresses postias e falsas, a
pompa dos peitos alteados, o dorso redondo dos velhos olhando as imagens
obscenas das vitrines. Ah! tudo isto era pueril, quasi comico da minha
parte, mas  o que eu sentia no Boulevard, pensando na necessidade de
remergulhar na Serra, para que ao seu puro ar se me despegasse a crosta
da Cidade, e eu resurgisse humano, e Z-Fernandico!

Ento, para dissipar aquelle pesadume de solido, paguei o caf e parti,
lentamente, a visitar o 202. Ao passar na Magdalena, deante da estao
dos omnibus, pensei:--Que ser feito de Madame Colombe? E, oh miseria!
pelo meu miseravel ser subiu uma curta e quente baforada de desejo bruto
por aquella besta suja e magra! Era o charco onde eu me envenenara, e
que me envolvia nas emanaes subtis do seu veneno. Depois, ao dobrar da
rue Royale para a Praa da Concordia, topei com um robusto e possante
homem, que estacou, ergueu o brao, ergueu o vozeiro, n'um modo de
commando:

--Eh, Fernandes!

O Gro-Duque! O bello Gro-Duque, de jaqueto alvadio e chapeu tyrolez
cr de mel! Apertei com gratido reverente a mo do Principe, que me
reconhecera.

--E Jacintho? Em Paris?...

Contei Tormes, a serra, o rejuvenescimento do nosso amigo entre a
Natureza, a minha dce prima, e os bravos pequenos, que elle trazia s
cavalleiras. O Gro-Duque encolheu os hombros, desolado:

--Oh l, l, l!... Peuh! Casado, na aldeia, com filharada... Homem
perdido! Ora no ha!... E um rapaz util! que nos divertia, e tinha
gosto! Aquelle jantar cr de rosa foi uma festa linda... No se fez, no
se tornou a fazer nada to brilhante em Paris... E Madame d'Oriol...
Ainda ha dias a vi no Palacio de Gelo... Potavel, mulher ainda muito
potavel... No  todavia o meu genero... Adocicada, leitosa, pommadada,
neve  la vanille!... Ora esse Jacintho!...

--E Vossa Alteza, em Paris com demora?

O formidavel homem baixou a face, franzida e confidencial:

--Nenhuma. Paris no se aguenta... Est estragado, positivamente
estragado... Nem se come! Agora  o Ernest, da Praa Gaillon, o Ernest,
que era maitre-d'hotel do Maire... J l comeu? Um horror. Tudo  o
Ernest, agora! Onde se come? No Ernest. Qual! Ainda esta manh l
almocei... Um horror! Uma salada Chambord... palhada, indecentemente
palhada! No tem, no tem a noo da salada! Paris foi! Theatros, uma
estopada. Mulheres, hui! Lambidas todas. No ha nada! Ainda assim, n'um
dos theatritos de Montmartre, na Roulotte, est uma revista, que se v:
_Para c as mulheres_!--engraada, bem despida... A Celestine tem uma
cantiga, meia sentimental, meia porca, o _Amor no Water-Closet_, que
diverte, tem topete... Onde est, Fernandes?

--No Grand-Hotel, meu senhor.

--Que barraca!... E o seu Rei sempre bom?

Curvei a cabea:

--Sua Magestade, bem.

--Estimo! Pois, Fernandes, tive prazer... Esse Jacintho  que me desola!
V vr a Revista... Boas pernas, a Celestine... E tem graa o tal _Amor
no Water-Closet_.

Um rijissimo aperto de mo,--e S. Alteza subiu pesadamente para a
victoria, ainda com um aceno amavel, que me penhorou... Excellente
homem, este Gro-Duque! Mais reconciliado com Paris, atravessei para os
Campos-Elyseos. Em toda a sua nobre e formosa larguesa, toda verde, com
os castanheiros em flr, corriam, subindo, descendo, velocipedes. Parei
a contemplar aquella fealdade nova, estes innumeraveis espinhaos
arqueados, e gambias magras, agitando-se desesperadamente sobre duas
rodas. Velhos gordos, de cachao escarlate, pedalavam, gordamente.
Galfarros esguios, de tibias descarnadas, fugiam n'uma linha esfusiada.
E as mulheres, muito pintadas, de bolero curto, cales bufantes,
giravam, mais rapidamente ainda, no prazer equivoco da carreira,
escarranchadas em hastes de ferro. E a cada instante outras medonhas
machinas passavam, victorias e phaetons a vapor, com uma complicao de
tubos e caldeiras, torneiras e chamins, rolando n'uma trepidao
estridente e pesada, espalhando um grosso fedor de petroleo. Segui para
o 202, pensando no que diria um grego do tempo de Phidias, se visse esta
nova belleza e graa do caminhar humano!...

No 202, o porteiro, o velho Vian, quando me reconheceu, mostrou uma
alegria enternecedora. No se fartou de saber do casamento de Jacintho,
e d'aquelles queridos meninos. E era para elle uma felicidade que eu
apparecesse, justamente quando tudo se andra limpando para a entrada da
primavera. Quando penetrei na amada casa senti mais vivamente a minha
solido. No restava em toda ella nem um dos costumados aspectos que
fizessem reviver a velha camaradagem com o meu Principe. Logo na
ante-camara grandes lonas cobriam as tapessarias heroicas, e egual lona
parda escondia os estofos das cadeiras e dos muros, e as largas estantes
d'ebano da Bibliotheca, onde os trinta mil volumes, nobremente
enfileirados como Doutores n'um Concilio, pareciam separados do mundo
por aquelle panno que sobre elles descera depois de finda a comedia da
sua fora e da sua auctoridade. No gabinete de Jacintho, de sobre a mesa
d'escripta, desapparecera aquella confuso de instrumentosinhos, de que
eu perdera j a memria: e s a Mechanica sumptuosa, por sobre peanhas e
pedestaes, recentemente espanejada, reluzia, com as suas engrenagens,
tubos, rodas, rigidezes de metaes, n'uma frieza inerte, na inactividade
definitiva das cousas desusadas, como j dispostas n'um Museu, para
exemplificar a instrumentao caduca d'um mundo passado. Tentei mover o
telephone, que se no moveu; a mola da electricidade no accendeu nenhum
lume: todas as foras universaes tinham abandonado o servio do 202,
como servos despedidos. E ento, passeando atravez das salas, realmente
me pareceu que percorria um museu d'antiguidades; e que mais tarde
outros homens, com uma comprehenso mais pura e exacta da Vida e da
Felicidade, percorreriam como eu, longas salas, atulhadas com os
instrumentos da Super-Civilisao, e, como eu, encolheriam
desdenhosamente os hombros ante a grande Illuso que findra, agora para
sempre inutil, arrumada como um lixo historico, guardada debaixo de
lona.

Quando sahi do 202 tomei um fiacre, subi ao Bosque de Bolonha. E apenas
rolra momentos pela avenida das Acacias, no silencio decoroso,
unicamente cortado pelo tilintar dos freios e pelas rodas vagarosas
esmagando a areia, comecei a reconhecer as velhas figuras, sempre com o
mesmo sorriso, o mesmo p d'arroz; as mesmas palpebras amortecidas, os
mesmos olhos farejantes, a mesma immobilidade de cra! O romancista da
_Couraa_ passou n'uma victoria, fixou em mim o monoculo defumado, mas
permaneceu indifferente. Os bands negros de Madame Verghane,
tapando-lhe as orelhas, pareciam ainda mais furiosamente negros entre a
harmonia de todo o branco que a vestia, chapo, plumas, flres, rendas e
corpete, onde o seu peito immenso se empolava como uma onda. No passeio,
sob as Acacias, espapado em duas cadeiras, o director do _Boulevard_
mamava o resto do seu charuto. E n'um grande landeau, Madame de Trves
continuava o seu sorriso de ha cinco annos, com duas pregasinhas mais
molles aos cantos dos labios seccos.

Abalei para o Grand-Hotel, bocejando,--como outr'ora Jacintho. E findei
o meu dia de Paris, no Theatro das Variedades, estonteado com uma
comedia muito fina, muito acclamada, toda faiscante do mais vivo
parisianismo, em que todo o enredo se enrodilhava  volta d'uma Cama,
onde alternadamente se espojavam mulheres em camisa, sujeitos gordos em
ceroulas, um coronel com papas de linhaa nas nadegas, cosinheiras de
meias de sda bordadas, e ainda mais gente, ruidosa e saltitante, a
esfusiar de cio e de pilheria. Tomei um ch melancolico no Julien, no
meio de um aspero e lugubre namoro de prostitutas, fariscando a preza.
Em duas d'ellas, de pelle oleosa e cobreada, olhos obliquos, cabellos
duros e negros como clinas, senti o Oriente, a sua provocao felina...
Interroguei o creado, um medonho ser, d'uma obesidade balofa e livida,
d'eunuco. O monstro explicou n'uma voz roufenha e surda:

--Mulheres de Madagascar... Foram importadas quando a Frana occupou a
ilha!

Arrastei ento por Paris dias d'immenso tedio. Ao longo do Boulevard
revi nas vitrines todo o luxo, que j me enfartra havia cinco annos,
sem uma graa nova, uma curta frescura de inveno. Nas livrarias, sem
descobrir um livro, folheava centenas de volumes amarellos, onde, de
cada pagina que ao acaso abria, se exhalava om cheiro mrno d'alcova e
de ps d'arroz, entre linhas trabalhadas com effeminado arrebique, como
rendas de camisas. Ao jantar, em qualquer restaurante, encontrava,
ornando e disfarando as carnes ou as aves, o mesmo mlho, de cres e
sabores de pomada, que j de manh, n'outro restaurante, espelhado e
dourejado, me enjora no peixe e nos legumes. Paguei por grossos preos
garrafas do nosso adstringente e rustico vinho de Torres, ennobrecido
com o titulo de Chteau isto, Chteau aquillo, e p postio no gargalo.
 noite, nos theatros, encontrava a Cama, a costumada cama, como centro
e unico fim da vida, attrahindo, mais fortemente que o monturo attrahe
os moscardos, todo um enxame de gentes, estonteadas, frementes
d'erotismo, zumbindo chacotas senis. Esta sordidez da Planicie me levou
a procurar melhor aragem d'espirito nas alturas da Collina, em
Montmartre; e ahi, no meio d'uma multido elegante de Senhoras, de
Duquezas, de Generaes, de todo o alto pessoal da Cidade, eu recebia, do
alto do palco, grossos jorros de obscenidades, que faziam estremecer de
goso as orelhas cabelludas de gordos banqueiros, e arfar com delicia os
corpetes de Worms e de Doucet, sobre os peitos postios das nobres
damas. E recolhia enjoado com tanto relento d'Alcova, vagamente
dispeptico com os mlhos de pomada do jantar, e sobre tudo descontente
comigo, por me no divertir, no comprehender a Cidade, e errar atravez
d'ella e da sua Civilisao Superior, com a reserva ridicula d'um
Censor, d'um Cato austero. Oh senhores!--pensava,--pois eu no me
divertirei nesta deliciosa Cidade? Entrar comigo o bolor da velhice?

Passei as pontes, que separam em Paris o Temporal do Espiritual,
mergulhei no meu doce Bairro Latino, evoquei, deante de certos cafs, a
memoria da minha Nini; e, como outr'ora, preguiosamente, subi as
escadas da Sorbonne. N'um amphitheatro, onde sentira um grosso susurro,
um homem magro, com uma testa muito branca e larga, como talhada para
alojar pensamentos altos e puros, ensinava, falando das instituies da
Cidade Antiga. Mas, mal eu entrra, o seu dizer elegante e limpido foi
suffocado por gritos, urros, patadas, um tumulto rancoroso de troa
bestial, que sahia da mocidade apinhada nos bancos, a mocidade das
Escolas, Primavera sagrada, em que eu fra flr murcha. O Professor
parou, espalhando em redor um olhar frio, e remexendo as suas notas.
Quando o grosso grunhido se moderou em susurro desconfiado, elle
recomeou com alta serenidade. Todas as suas ideias eram frias e
substanciaes, expressas n'uma lingoa pura e forte; mas, immediatamente,
rompe uma furiosa rajada de apitos, uivos, relinchos, cacarejos de
gallo, por entre magras mos, que se estendiam levantadas para
estrangular as ideias. Ao meu lado um velho, encolhido na alta gola d'um
macfrelane de xadrezes, contemplava o tumulto com melancolia, pingando
endefluxado. Perguntei ao velho:

--Que querem elles?  embirrao com o professor...  politica?

O velho abanou a cabea, espirrando:

--No...  sempre assim, agora, em todos os cursos... No querem
ideias... Creio que queriam canonetas.  o amor da porcaria e da troa.

Ento, indignado, berrei:

--Silencio, brutos!

E eis que um abortosinho de rapaz, amarellado e sebento, de longas
melenas, umas enormes lunetas rebrilhantes, se arrebita, me fita, e me
berra:

--_Sale Maure_!

Ergui o meu grosso punho serrano,--e o desgraado, n'uma confuso de
melenas, com sangue por toda a face, alluio, como um monto de trapos
molles, ganindo desesperadamente, em quanto o furaco de uivos e
cacarejos, guinchos e silvos, envolvia o Professor, que cruzra os
braos, esperando, com uma serenidade simples.

Desde esse momento decidi abandonar a fastidiosa Cidade; e o unico dia
alegre e divertido que n'ella passei foi o derradeiro, comprando para os
meus queridinhos de Tormes brinquedos consideraveis, tremendamente
complicados pela Civilisao,--vapores de ao e cobre, providos de
caldeiras para viajar em tanques; lees de pelle veridica rugindo
pavorosamente, bonecas vestidas pela Laferrire, com phonographo no
ventre...

Finalmente abalei uma tarde, depois de lanar da minha janella, sobre o
Boulevard, as minhas despedidas  Cidade:

--Pois adeusinho, at nunca mais! Na lama do teu vicio e na poeira da
tua vaidade, outra vez, no me pilhas! O que tens de bom, que  o teu
genio, elegante e claro, l o receberei na Serra pelo correio.
Adeusinho!

Na tarde do seguinte Domingo, debruado da janella do comboio, que
vagarosamente deslisava pela borda do rio lento, n'um silencio todo
feito d'azul e sol, avistei, na plata-forma da quieta estao da minha
aldeia, os Senhores de Tormes, com a minha afilhada Thereza, muito
vermelha, arregalando os seus soberbos olhos, e o bravo Jacinthinho, que
empunhava uma bandeira branca. O alvoroo ditoso com que abracei e
beijei aquella tribu bem amada conviria perfeitamente a quem voltasse
vivo d'uma guerra distante, na Tartaria. Na alegria de recuperar a
Serra, at beijoquei o chefe Pimentinha, que a estalar d'obesidade se
aodava gritando ao carregador todo o cuidado com as minhas malas.

Jacintho, magnifico, de grande chapo serrano e jaqueta, de novo me
abraou:

--E esse Paris?

--Medonho!

Abri depois os braos para o bravo Jacintinho.

--Ento para que  essa bandeira, meu cavalleiro?

-- a bandeira do Castello! declarou elle, com uma bella seriedade nos
seus grandes olhos.

A me ria. Desde essa manh, logo que soubera da chegada do Ti-Z,
appareceu de bandeira, feita pelo Grillo, e no a largra mais; com ella
almora, com ella descera de Tormes!

--Bravo! E, prima Joanninha, olhe que est magnifica! Eu, tambem, venho
d'aquellas pelles meladas de Paris... Mas acho-a triumphal! E o tio
Adrio, e a tia Vicencia?

--Tudo optimo! gritou Jacintho. A serra, Deos louvado, prospera. E
agora, para cima! Tu hoje ficas em Tormes. Para contar da Civilisao.

No largo por traz da estao, debaixo dos eucalyptos, que revi com
gosto, esperavam os tres cavallos, e dous bellos burros brancos, um com
cadeirinha para a Thereza, outro com um cesto de verga, para metter
dentro o heroico Jacinthinho, um e outro servidos  estribeira por um
creado. Eu ajudra a prima Joanninha a montar, quando o carregador
appareceu com um masso de jornaes e papeis, que eu esquecera na
carruagem. Era uma papelada, de que me surtira na Estao d'Orleans,
toda recheada de mulheres nuas, de historietas sujas, de parisianismo,
d'erotismo. Jacintho, que as reconhecera, gritou rindo:

--Deita isso fra!

E eu atirei, para um monto de lixo, ao canto do Pateo, aquelle putrido
rebotalho da Civilisao. E montei. Mas ao dobrar para o caminho
empinado da serra, ainda me voltei, para gritar adeus ao Pimenta, de
quem me esquecera. O digno chefe, debruado sobre o monturo, apanhava,
sacudia, recolhia com amor aquellas bellas estampas, que chegavam de
Paris, contavam as delicias de Paris, derramavam atravez do mundo a
seduco de Paris.

Em fila comeamos a subir para a Serra. A tarde adoava o seu esplendor
d'estio. Uma aragem trazia, como offertados, perfumes das flres
silvestres. As ramagens moviam, com um aceno de doce acolhimento, as
suas folhas vivas e relusentes. Toda a passarinhada cantava, n'um
alvoroo de alegria e de louvor. As agoas correntes, saltantes,
lusidias, despediam um brilho mais vivo, n'uma pressa mais animada.
Vidraas distantes de casas amaveis, flammejavam com um fulgor d'ouro. A
serra toda se offertava, na sua belleza eterna e verdadeira. E, sempre
adiante da nossa fila, por entre a verdura, fluctuava no ar a bandeira
branca, que o Jacinthinho no largava, de dentro do seu cesto, com a
haste bem segura na mo. Era _a bandeira do Castello_, affirmra elle.

E na verdade me parecia que, por aquelles caminhos, atravez da natureza
campestre e mansa,--o meu Principe, atrigueirado nas soalheiras e nos
ventos da serra, a minha prima Joanninha, to doce e risonha me, os
dois primeiros representantes da sua abenoada tribu, e eu--, to longe
de amarguradas illuses e de falsas delicias, trilhando um solo eterno,
e de eterna solidez, com a alma contente, e Deus contente de ns,
serenamente e seguramente subiamos--para o Castello da Gran-Ventura!


Fim




ADVERTENCIA


Desde a pagina 241, at o final, as provas d'este livro no foram
revistas pelo auctor, arrebatado pela morte antes de haver dado a esta
parte da sua escripta aquella ultima demo, em que habitualmente elle
punha a diligencia mais perseverante e mais admiravelmente lucida.

Aquelle dos seus amigos e companheiro de letras, a quem foi confiado o
trabalho delicado e piedoso de tocar no manuscripto posthumo de Ea de
Queiroz, ao concluir o desempenho de tal misso, beija com o mais
enternecido e saudoso respeito a mo, para todo sempre immobilisada, que
traou estas paginas encantadoras; e faz votos por que a reviso de que
se incumbiu no deslustre muito grosseiramente a immortal aureola com
que ficar resplandecendo na litteratura portugueza este livro, em que o
espirito do grande escriptor parece exhalar-se da vida n'um terno
suspiro de doura, de paz, e de puro amor  terra da sua patria.

24 de abril de 1901.




*LIVRARIA CHARDRON de Lello & Irmo*

96--CLERIGOS--98


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*Tolstoi*

A Sonata de Kreutzer      $400






End of the Project Gutenberg EBook of A Cidade e as Serras, by Ea de Queirs

*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A CIDADE E AS SERRAS ***

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Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
http://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at http://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org

Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
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increasing the number of public domain and licensed works that can be
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($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
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particular state visit http://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
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Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
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with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
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Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
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