The Project Gutenberg EBook of As Farpas: Chronica Mensal da Politica, das
Letras e dos Costumes, by Ramalho Ortigo and Ea de Queiroz

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Title: As Farpas: Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes
       Agosto a Setembro de 1877

Author: Ramalho Ortigo and Ea de Queiroz

Release Date: July 6, 2005 [EBook #16214]

Language: Portuguese

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[Illustration: EA DE QUEIROZ--RAMALHO ORTIGO--AS FARPAS]

RAMALHO ORTIGO--EA DE QUEIROZ

AS FARPAS

CHRONICA MENSAL DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES

NOVA SERIE TOMO X

Agosto a Setembro 1877





Ironia, verdadeira liberdade! s tu que me livras da ambio do poder,
da escravido dos partidos, da venerao da rotina, do pedantismo das
sciencias, da admirao das grandes personagens, das mystificaes da
politica, do fanatismo dos reformadores, da superstio d'este grande
universo, e da adorao de mim mesmo.

P. J. Proudhon




SUMMARIO

Alexandre Herculano. O escriptor e o solitario de Valle de Lobos. A
critica dos vivos e a critica dos mortos. A benevolencia e a justia. A
influencia que teve e a que podia ter o grande escriptor. A misso dos
mestres O monumento da imprensa.--A recente viagem de suas magestades e
altezas. No Bussaco, em Vidago, no Porto. Algumas notas aos annaes
d'essa excurso.--Os attentados do sr. Barros e Cunha e a historia
d'este personagem. O poeta lyrico, o deputado, o leitor do _Times_, o
corteso, o ministro. Diagnostico e prognostico.--Algumas produces
musicaes: _As cutiladas do Passeio Publico_, polka; _A Roma! a Roma!_
valsa.--Algumas palavras aos srs. advogados.--Os exames das meninas no
Lyceu Nacional. Os fins da educao. Um programma de ensino para o sexo
feminino. Como se prepara a emancipao da mulher. Duas catastrophes: o
estado da litteratura feminina e o estado da cosinha nacional. Grito
afflictivo do paiz: Menos odes e mais caldo.

O homem que teve na terra o nome glorioso de Alexandre Herculano
pertence ao dominio da posteridade desde as 10 horas da noite de hontem,
14 de setembro de 1877.

Os que houverem de julgar na historia essa poderosa personalidade tero
de considerar que dois cidados, inteiramente diversos, existiram na
terra, succedendo-se um ao outro no individuo d'aquelle nome.

Um d'esses cidados  o historiador da nacionalidade portugueza e da
inquisio em Portugal, o romancista do _Monasticon_, o poeta da _Harpa
do Crente_, o profundo pensador, o sabio archeologo, o paciente erudito,
o critico penetrante, o valoroso trabalhador, o grande artista, o
inimitavel mestre.

O segundo dos cidados que passaram no mundo sob o nome de Alexandre
Herculano  simplesmente o illustre solitario de Valle de Lobos.

       *       *       *       *       *

Extranha evoluo d'um mesmo ser! Aquelle que na primeira metade da
existencia representa todas as vivas energias por meio das quaes o
espirito pde actuar no impulso d'uma civilisao e no aperfeioamento
d'uma sociedade, no  no segundo periodo da sua vida seno o objecto
passivo e inerte d'uma designao ascetica, imposta pela banalidade
rhethorica dos noticiarios--o _solitario illustre!_

       *       *       *       *       *

Como philosopho, como investigador, como critico, como poeta, Alexandre
Herculano cria em Portugal os estudos historicos; funda a mais
importante colleco dos modernos trabalhos litterarios--o _Panorama_;
enobrece a lingua com o seu stylo nitido e cortante em que a phrase tem
o lampejo e o golpe dos passes de espada; honra o officio das letras com
o porte rigido, austero e elegante de sua figura litteraria, em que se
denuncia o contorno do guerrilheiro portuense envolto no capote branco
dos romanticos de 1830, que elle sabia traar com o garbo marcial
d'Alfred de Vigny; cria escola; agrupa em volta de si uma mocidade que o
admira e que o idolatra; espede o grito de guerra, que pe em armas a
nova gerao que vem despontando atraz d'elle; chama  peleja o partido
ultramontano e desfecha elle mesmo os primeiros tiros que rompem as
hostilidades da liberdade com o clericalismo; lana finalmente as bases
do moderno movimento intellectual, suggere novas idas, novas
aspiraes, novos interesses moraes, impulsionando vigorosamente a sua
poca por meio das fecundas agitaes do espirito que acceleram nas
sociedades vivas a elaborao do progresso.

       *       *       *       *       *

Como _illustre solitario de Valle de Lobos_, Herculano rescinde a
sacrosanta escriptura da responsabilidade universal, por via da qual o
genio do homem se obriga tacitamente com a natureza a servil-a, como
sendo elle mesmo a mais poderosa das foras de que dispe o grande
universo; desdiz com o seu repentino silencio todas as affirmaes da
sua grande voz; abjura da luz diffundida pelas suas palavras  sombra
projectada pelas suas oliveiras; nega o movimento que creou pela inaco
em que caiu; desd finalmente todos os laos de solidariedade que o
prendiam aos seus compatriotas e aos seus similhantes, que vinculavam o
seu destino intellectual aos destinos da patria e da humanidade.

O dia do nosso grande lucto nacional no  aquelle em que expirou o
solitario illustre, mas sim aquelle em que deixou de existir para o
vertiginoso bulicio da vida publica o ardente escriptor, que no seio da
multido fluctuante, estrepitosa, leviana, indifferente, perfida,
traioeira, ingrata, lanava s praas e s ruas publicas, lamacentas e
sordidas, as suas idas de cada dia, nobres, castas, desinteressadas,
aladas pelo alphabeto typographico, adejando sobre as immundicias e
sobre as dejeces da cidade, como douradas abelhas impollutas, que vo
de alma em alma sacudindo das azas luminosas em pollen diamantino a
divina verdade.

       *       *       *       *       *

A isolao de Herculano no remanso esteril do dilettantismo bucolico,
comprometteu o destino mental d'uma gerao inteira. Pelo intenso poder
das suas faculdades reflexivas, pela eminencia do seu talento, pela
auctoridade da sua palavra, pela popularidade do seu nome, pela
reputao nunca discutida da sua honestidade, elle era o homem
naturalmente indicado para assumir o pontificado intellectual do seu
tempo. A ausencia d'essa auctoridade do espirito sobre o espirito foi
uma catastrophe para a gerao moderna.

Tudo se resentiu na sociedade portugueza, com o desapparecimento d'esse
alto poder moderador, destinado a ser o nucleo do seu governo moral.

 tribuna parlamentar nunca mais tornou a subir um homem cuja voz
firme, sonora e vibrante levasse at os quatro cantos do paiz a
expresso viril das grandes convices inflexiveis, dos altos e potentes
enthusiasmos ou dos profundos e implacaveis desdens. Essa pobre tribuna
deserta degradou-se successivamente at no ser hoje mais do que uma
prateleira mal engonada com algum lixo e o respectivo copo d'agoa.

A imprensa decaiu como decaiu a tribuna. Assaltada pelas mediocridades
ambiciosas e pelas incompetencias audazes, a imprensa tornou-se um
tablado de saltimbancos de feira, convidando o publico a 10 ris por
cabea, para assistir, entre assobios e arremessos de cenouras e de
batatas podres,  representao da desbocada comedia, declamada em giria
da matula por personagens sarapintados a vermelho e a ocre, que mostram
o punho arregaado e sapateiam as taboas, como em sarabanda de negros e
patifes, com os seus ps miseraveis.

A politica converteu-se em uma vasta associao de intriga, em que os
socios combinam dividir-se em diversos grupos, cuja misso 
impellirem-se e repellirem-se successivamente uns aos outros, at que a
cada um d'elles chegue o mais frequentemente que for possivel a vez
d'entrar e sair do governo. Nos pequenos periodos que decorrem entre a
chegada e a partida de cada ministerio o grupo respectivo renova-se,
depondo alguns dos seus membros nos cargos publicos que vagaram e
recrutando novos adeptos candidatos aos logares que vierem a vagar. 
este trabalho de assimilao e desassimilao dos partidos, que
constitue a vida organica do que se chama a politica portugueza.

A arte desnacionalisa-se e afasta-se cada vez mais do fio tradicional
que a devia prender estreitamente  grande alma popular.

A opinio publica, marasmada pela indifferena, deshabitua-se de pensar
e perde o justo criterio por que se julgam os homens e os factos.

Se um pensador da alta competencia e da grande auctoridade de Alexandre
Herculano tivesse persistido durante os ultimos vinte annos  frente do
movimento intellectual do seu tempo, essa influencia teria modificado
importantemente o nosso estado social.

Na politica ninguem como elle, com as suas opinies extremas e radicaes,
poderia originar a creao dos dois grandes e fortes partidos--o
partido conservador e o partido revolucionario,--de cuja controversia
depende essencialmente no s o progresso politico da sociedade
portugueza, mas a propria conservao do seu regimen constitucional.

Na imprensa ninguem como elle poderia elevar a auctoridade da
instituio com a sua palavra to scintillante, to denodada, to
propria para o debate, e com a sua experiencia to esclarecida pela
convivencia e pela cultura da historia.

Na opinio e no espirito publico, ninguem teria uma aco to segura e
to decisiva, porque ninguem como elle gosou em Portugal d'um to
inteiro prestigio e d'uma to completa e absoluta auctoridade.

Na arte, ninguem ainda mais proprio para levar a creao esthetica 
fonte nativa da inspirao,  tradio historica,  raiz da paixo e do
sentimento nacional.

       *       *       *       *       *

Exercer essa alta direco dos espiritos  nas sociedades modernas a
misso dos grandes homens. Dos eminentes escriptores europeus d'este
seculo Herculano foi o unico que espontaneamente abandonou na fora da
intelligencia e da vida o posto de honra a que chegra pelo esforo do
seu trabalho e pela posse dos mais felizes dons com que a natureza o
dotra.

Guizot, Michelet, Buckle, Proudhon, Stuart Mill, todos os modernos,
todos os que vieram depois de definido pela Revoluo o dogma do dever
social, viveram combatendo at  ultima hora e morreram com a penna na
mo.

Ha poucos dias ainda a Frana viu cair Thiers na estacada, em pleno
combate. Era um velho pequenino, valetudinario, quasi rachitico. Desde
muito tempo que elle era sufficientemente rico para gosar a
tranquilidade egoista, imperturbavel, do mais poderoso principe. A sua
longa vida fra uma serie nunca interrompida de combates, de derrotas,
de triumphos, das mais violentas commoes que podem opprimir e
dilacerar uma alma. Ha dez annos que poucos teriam como elle o direito
de solicitar um pouco de tranquilidade e um pouco de sombra. Elle
todavia permanece no ponto mais temeroso da peleja, e  a essa
pertinacia d'um s homem, to debil e to caduco que qualquer mulher
poderia pegal-o ao collo e adormecel-o como um baby, que a Frana deve a
sua reconstituio politica e social, e a democracia a affirmao mais
poderosa e mais energica d'uma republica no corao da Europa.

Na Inglaterra, no j um homem mas uma simples mulher, que teve um papel
decisivo no movimento das idas modernas, Miss Martineau, ferida por uma
leso do corao, desenganada pela medicina de que no pode ter mais
d'um anno de vida, concentra durante esse anno todas as suas faculdades
na concluso da sua ultima obra, conta a uma por uma em beneficio do seu
similhante as suas derradeiras pulsaes, e sob uma condemnao mais
peremptoria e mais tremenda que a de Condorcet, arranca da sua
invencivel vontade a energia precisa para escrever com a lucidez mais
profunda, com a firmeza mais viril, com a coragem mais heroica, o
admiravel livro em que depe com a ultima palavra o ultimo suspiro.

Uma celebridade subalterna, um simples poeta, um romancista, um talento
d'especialidade, tem o direito de fazer um livro e de se calar para
todo o sempre; mas o cidado em quem concorrem as multiplas aptides
cerebraes que constituem os espiritos superiores, as capacidades
dirigentes, no tem esse direito.

A benevolencia devida aos vivos pde levar-nos a respeitar nos actos de
cada homem um producto indiscutivel da sua liberdade; a verdade porm
devida aos mortos, a incorruptivel verdade, tem diante dos tumulos o
dever de considerar, em nome da justia e em nome da sociedade, todas as
condies que encaminharam ou desencaminharam uma existencia n'essa
linha ideal a que convergem as mais altas aspiraes da humanidade.

E  s assim que as geraes aprendem o que tem de agradecer e o que
tem de perdoar aos obreiros do passado, tirando d'esse juizo austero
sobre a misso dos que morreram, a regra moral a que tem de
submetter-se aquelles que esto vivos.

A elaborao psychologica das causas que levaram o espirito de Herculano
a quebrar as suas relaes mentaes com a sociedade,  um importante
estudo a que se acham obrigados aquelles que viveram na intimidade e na
confidencia do grande escriptor. A sociedade precisa de saber que grau
de responsabilidade lhe cabe no emudecimento d'essa voz. Porque a
isolao d'Herculano no  um simples episodio biographico,  um facto
social,  um dos mais tristes phenomenos da decadencia portugueza.

O exemplo do _solitario de Valle de Lobos_ ser profundamente nocivo, se
no for cabalmente explicado como uma fatalidade sociologica.

Todos aquelles que trabalham com dedicao e com honra, que se
consideram responsaveis diante dos seus similhantes pela concluso do
trabalho que a si mesmos se impuzeram, que se dedicam  sua misso, que
vem n'ella uma parte integrante da grande obra collectiva da
humanidade, todos aquelles que teem na vida um fito superior e
desinteressado, esto sujeitos em cada dia, em cada hora, em cada
instante,  grande lucta da consciencia com as suggestes do egoismo,
com a ingratido dos homens, com a calumnia, com a traio, com o
desdem.  perigoso para os que teem ainda, no meio da dissoluo geral
dos caracteres, esse vivo sentimento da solidariedade, essa corajosa
dedicao do martyrio, essa persistencia no lento suicidio que  a vida
de todos os que pensam e de todos os que luctam, o ver de repente
sossobrar e afundir-se na fria impassibilidade e na tenebrosa
indifferena o alto luminar destinado a indicar a uma gerao inteira o
arduo e penoso rumo do dever.


       *       *       *       *       *


Lemos em um jornal que a imprensa de Lisboa, reunida em assembla para o
fim de pagar  memoria de Alexandre Herculano o tributo da sua
admirao, resolvera abrir uma subscripo destinada a elevar um
monumento ao insigne escriptor. Parece, segundo o mesmo boato, que no
est ainda resolvido de que natureza ser o monumento em projecto.

Se tivessemos a immerecida honra de sermos considerados pela imprensa
como um de seus membros, eis o que proporiamos.

       *       *       *       *       *

A obra monumental, posto que ainda incompleta do finado escriptor, a sua
_Historia de Portugal_,  possivel que houvesse j sido lida, mas, com
quanto escripta ha muitos annos, no foi por emquanto estudada.

Em todo o longo trabalho de investigao, de critica, d'analyse, de
deduco, que constitue a materia d'esses quatro volumes, o publico
portuguez no viu seno dois factos extremamente subalternos na obra do
philosopho e na obra do artista:--a negao do milagre d'Ourique e das
crtes de Lamego.

O historiador da nossa nacionalidade no foi olhado se no debaixo d'um
aspecto,--o aspecto das nossas supersties.

As origens do direito, da arte, da propriedade, da religio, da familia,
da patria interessaram-nos d'um modo to mediocre que nunca nos
suggeriram uma ida clara sobre qualquer d'esses phenomenos.

De to multiplos problemas suscitados ou resolvidos pelo historiador da
nossa vida civil, um unico nos commoveu at as mais intimas
profundidades do nosso organismo social: Se Jesus Christo tinha ou no
tinha vindo cavaquear com D. Affonso Henriques na vespera d'uma batalha,
e se a derrota dos mouros fora ou no o resultado d'uma operao
estrategica combinada de commum accordo entre os dois poderosos inimigos
do kalifado de Cordova, o filho do conde D. Henrique e o filho de Deus.

Todas as demais questes debatidas nos quatro volumes da _Historia de
Portugal_ passaram inteiramente despercebidas do jornalismo portuguez, o
qual no teve ainda, at hoje, occasio de publicar um artigo
scientificamente fundamentado cerca do papel do nosso primeiro
historiador na direco dos estudos historicos e na comprehenso das
leis fundamentaes da nossa evoluo social.

A homenagem que a imprensa deve prestar a Alexandre Herculano  a
publicao d'esse estudo, porque o primeiro dever dos jornalistas
perante um grande escriptor  mostrar que o leram. Com relao a
Herculano essa divida est por saldar, e a imprensa tem que
desempenhar-se d'ella com tanta mais promptido, quanto  certo que o
seu longo silencio podia ter sido uma das causas que levaram o iniciador
dos trabalhos historicos portuguezes a talhar para si mesmo a triste
mortalha em que desceu envolto para o tumulo--a mortalha do desprezo.
No conseguiu merecer-lhe mais o espirito dos contemporaneos.


       *       *       *       *       *


Annaes da viagem de suas magestades e altezas pelos seus reinos segundo
os telagrammas publicados por toda a imprensa e da aco civilisadora da
mesma viagem sobre o espirito dos povos segundo os alludidos documentos.

CAPITULO I

Bussaco... d'agosto. Sua magestade Anjo da Caridade acaba, de chegar esta
secular floresta acompanhada suas altezas Preciosos Penhores. Anjo
passeou matta. Jantou 6 horas. Preciosos Penhores foram Cruz Alta
companhia um dos seus preceptores. Jubilo povo inexcedivel.

CAPITULO II

Bussaco... d'agosto. Sua magestade Anjo encontrou interessante menino na
serra e afagou. Commoo todos visitantes que presencearam acto Anjo
afagar menino chegou lagrimas. Preciosos Penhores foram p Fonte Fria.
Jantar Anjo, Preciosos Penhores e Damas, 6 horas, 14 minutos, tempo
medio. Jubilo povo augmenta progressivamente.

CAPITULO III

Bussaco... agosto. Anjo apreciou mediocremente rouxinoes gorgeando
secular floresta. Chamados  pressa para gorgear na balseira bauda de
infanteria 14 e cysne Mondego D. Amelia Jenny. Jubilo povo excitado por
Quatorze e por Cysne innarravel.

CAPITULO IV

Bussaco... d'agosto. Sua magestade Anjo recusa licena a _touristes_
comerem saborosos peixes ria d'Aveiro em secular floresta. Preciosos
Penhores pequeno passeio durante 1 hora, 28 minutos, 14 segundos.
Jubilo povo augmenta.

CAPITULO V

Bussaco... d'agosto. Desmente-se noticia Anjo prohibir _touristes_
petisqueira saborosos peixes ria Aveiro secular floresta. N'este mesmo
momento secular floresta saborosos peixes esto sendo comidos
_touristes_ com approvao d'Anjo. Preciosos Penhores pequeno passeio
meia hora e 16 1/2 segundos. Jubilo povo toca raias.

CAPITULO VI

Bussaco... d'agosto. Sua magestade Anjo e suas altezas Preciosos
Penhores acabam de partir Porto, comboyo expresso. Anjo e Preciosos
Penhores no mais a secular floresta. Raias ultrapassadas por jubilo
povo.

CAPITULO VII

Vidago... d'agosto. Sua magestade Excelso Soberano, acompanhado duas
phylarmonicas e quarenta maiores contribuintes montados quarenta
maiores eguas, chegou sem novidade real saude. Indiscriptivel jubilo
povo.

CAPITULO VIII

Vidago... d'Agosto. Excelso Soberano foi tomar aguas 10 horas. Voltou
tomar aguas 4 horas. Jantou 6 horas. Centenares de pessoas presencearam
acto Excelso Soberano tomar aguas. Grande ardor geral pelas instituies
monarchicas e pela dynastia. Jubilo povo tende a augmentar, se possivel
fr.

CAPITULO IX

Vidago... d'agosto. Excelso Soberano encontrou real passagem dois
rapazes de joelhos. Excelso Soberano afagou. Lagrimas punhos faces
pessoas viram Excelso Soberano afagar rapazes joelhos. Jubilo povo toca
zenith.

CAPITULO X

Vidago... d'agosto. Excelso soberano partiu tarde acompanhado
phylarmonicas, contribuintes e maiores egoas. Estes logares, ausencia
excelso soberano e real sequito, convertidos triste ermo. Jubilo povo
impossivel descrever palavras humanas.

CAPITULO XI

Porto... d'agosto. Hoje, fim da tarde, entrada triumphal n'este Baluarte
liberdade sua magestade Anjo da Caridade acompanhada de suas altezas
Louras Creanas. Jubilo povo de Baluarte e concelhos ruraes adjacentes
delirante.

CAPITULO XII

Porto... d'agosto. Presidente camara municipal disse a Anjo da Caridade
que Baluarte se gloriava ter Anjo no seio. Jubilo povo frenetico.

CAPITULO XIII

Porto... d'agosto. Louras creanas passear Palacio Crystal. Anjo no
passeiar Palacio Crystal. Jubilo povo febril.

CAPITULO XIV

Porto... d'agosto. Anjo e Louras Creanas foram photographar-se ao
atelier Fritz. Duas innocentes meninas entregaram ramos de flores a Anjo
da Caridade. Anjo afagou. Circumstantes lagrimas em fio pelas faces.
Anjo e Louras Creanas retrataram-se em cinco posies differentes, que
so todas as posies de que  susceptivel o corpo humano, a saber: em
p, sentados, ajoelhados, acocorados e deitados. Jubilo povo
vertiginoso.

CAPITULO XV

Porto... d'agosto. A este Baluarte liberdades patrias acaba chegar
augusto Neto heroico Pedro IV. Presidente camara municipal disse
Baluarte se gloriava ter Neto heroico Pedro no seio. Colxas dos
defensores Baluarte s janellas. Jubilo povo epileptico.

CAPITULO XVI

Porto... d'agosto (urgente) Rapazes achados Vidago por Neto heroico
Pedro IV entraram Baluarte liberdade em exposio triumphal. Rapazes
precediam coche real de joelhos em carruagem descoberta. Jubilo povo,
vendo rapazes exposio joelhos carruagem descoberta, inultrapassavel.

CAPITULO XVII

Porto... d'agosto. Neto heroico Pedro IV, Anjo Caridade e Louras
Creanas regressam hoje comboyo expresso a Lisboa. Governador civil,
bispo, senhoras, beijar mo Neto, Anjo, Louras Creanas. Derradeiro
adeus estao. Baluarte liberdade sem Louras Creanas, Anjo e Neto,
medonho ermo. Jubilo povo intradusivel linguagem humana.


NOTAS


AOS ANNAES DA VIAGEM DE SUAS MAGESTADES E ALTEZAS

A

_Desmente-se noticia Anjo prohibir touristes petisqueira etc._
Informaes subsequentes ministradas aos jornaes pelo _Banhista de Luso_
explicam a materia do capitulo que principia pelas palavras acima
reproduzidas.

Os _touristes_ a quem foi denegada licena para celebrarem um _pic-nic_
dentro da floresta do Bussaco, requereram respeitosamente a sua
magestade que se dignasse conferir-lhes a permisso de comerem os peixes
que tinham pescado para o _pic-nic_, no j dentro, mas sim fra da
matta.

Foi a este segundo requerimento, attendendo s supplicas dos _touristes_
e ao estado em que comeavam a achar-se os peixes, que sua magestade se
dignou de deferir de um modo inteiramente amavel e munificente.

O precedente estabelecido pelos touristes do Bussaco deixa-nos porm
immersos na mais acerba incerteza cerca dos pontos da superficie solida
do reino em que nos  licito comermos peixe sem invadirmos as
residencias de suas magestades.

Porque, desde o momento em que no s as grandes serras mas tambem as
bacias dos valles adjacentes se consideram, pela jurisprudencia invocada
no Bussaco, como dependencias dos aposentos da real familia, ficamos
perplexos sobre se o safio que pescmos esta manh no logar do Bico na
praia da Cruz Quebrada o poderemos comer em nossa casa sem por este
facto invadirmos, posto que inconscientemente, a sala de jantar dos
nossos reis. E pedimos ardentemente para sermos esclarecidos sobre a
soluo d'este problema:

Dado um safio pescado  linha na ponta do Bico na praia da Cruz
Quebrada; achando-se a Cruz Quebrada na dependencia geologica do Pao de
Queluz pelo valle da ribeira do Jamor, e do Pao da Ajuda pelas
quebradas e pelas vertentes da serra de Monsanto; achando-se por outro
lado o safio ao lume dentro do seu respectivo tacho, entre duas camadas
de cebola e tomate, com o competente fio d'azeite e o devido pimento;
tendo tido cinco minutos de fervura e havendo sido sacudido por duas
vezes sem se destapar o tacho;

Pergunta-se:

Se podemos passar a comer o safio, collocados na dita latitude da Cruz
Quebrada, entre os reaes paos de Queluz e da Ajuda, sem por esse acto
faltarmos ao respeito devido  inviolabilidade das montanhas, dos valles
e das ribeiras que suas magestades se dignaram eleger para residir.

Esperamos, com o safio ao lume e com o acatamento mais profundo pelas
reaes ordens, que o sr. Barros e Cunha, encarregado juntamente com o sr.
Alcobia de transformar as matas do reino em aposentos de sua magestade,
queira dizer-nos se o monte em que habitamos pertence ou no ao numero
d'aquelles que s. ex. se acha mobilando para recreio de suas magestades
em collaborao com o seu socio nas reformas do ministerio das obras
publicas o sr. estofador Alcobia.

O melhor talvez--permittam-nos os srs. Barros e Alcobia suggerirmos esta
ideia--seria, para no estafar muito o ministerio de suas excellencias
com o despacho de repetidas peties do caracter da nossa, que suas
excellencias assignalem com marcos geodesicos as regies que vo ser
forradas de papel para aposentos reaes, e que n'esses postes se
especifique com os devidos letreiros: _Aqui se pode comer o saboroso
peixe_ ou _Aqui o saboroso peixe se no pode comer_.

E o paiz todo beijar reconhecido a mo energica dos srs. conselheiros
da coroa Alcobia e Barros e Cunha!

B

_Rapazes achados Vidago por Neto heroico Pedro IV entraram Baluarte
liberdade em exposio triumphal._ Correspondencias minuciosas explicam
detidamente o episodio narrado n'este capitulo.

El-rei encontrava todos os dias, em determinado ponto dos seus passeios,
dois rapazes que se ajoelhavam por occasio da passagem de sua
magestade. El-rei commovido com a precocidade de uma bajulao to
vigorosa manifestada em annos to verdes, indagou-se uma tal affirmao
de subserviencia procedia de prelees previas dadas por algum aulico
ou se representava um movimento instinctivo no caracter dos dois
adolescentes. Descobriu-se que os meninos ajoelhavam por effeito da mais
pura pusilanimidade organica. Sua magestade resolveu, em vista de to
honrosas informaes, levar comsigo os dois esperanosos jovens e
encarregar-se da sua educao. Foram esses dois rapazes os que entraram
em trinmpho na cidade do Porto, indo em carruagem descoberta e
precorrendo as ruas adiante da carruagem de sua magestade. No sabemos
se durante todo o precurso do cortejo os rapazes se conservaram, como
deviam, sempre de joelhos. O que  certo  que o quadro a que nos
referimos commoveu muito as pessoas que o presencearam, segundo
asseveram todas as noticias do Porto e de Vidago.

Folgamos de poder completar as informaes colhidas por el-rei cerca
dos seus pupillos com o fructo das nossas proprias indagaes, porque 
de saber que os rapazes de joelhos no apparecem unicamente a sua
magestade, apparecem a todos aquelles que viajam nas estradas do Minho e
de Traz-os-Montes. O que escreve estas linhas por mais de uma vez se
encontrou com o commovente quadro, no deixando nunca de o saudar com
um expressivo meneio do seu bordo, perante o qual os rapazes em joelhos
se punham em p com uma velocidade cheia de convico e de enthusiasmo.
E ns, ento, diziamos-lhes com a mais pesada voz:

--Ah! poltres! Ah! covardes! Ah! sapos! Que se torno a encontrar algum
de joelhos deante de mim, applico-lhe uma carga de pau, que lhe ponho o
lombo mais negro que o de um melro! Teem o atrevimento de pedir esmola,
seus sicarios?... E ainda por cima se me desculpam com o exemplo de
Jesus Christo?! _Nosso Senhor tambem pediu_!!... Em que escola
aprendeste tu a cartilha, meu grande camello?... O que tu merecias  que
eu te metesse uma zaragatoa de pimenta n'essa bocca para te ensinar a
blasphemar! Jesus pediu esmola, mas no foi para que tu a pedisses
tambem, grande vadio! Jesus pediu esmola para te honrar com a sua
confraternidade, para te mostrar que apesar de teres lendeas, de
trazeres as orelhas sujas e de andares descalo, tens, pelo facto de ser
homem, uma origem divina e que te deves respeitar tanto a ti proprio
como se fosses um imperador ou um rei. Para te tornares digno do grande
obsequio que te fez Jesus andando pelo mundo a pregar a igualdade e a
fraternidade de todos os homens, feitos, segundo o mesmo Jesus,  imagem
e similhana de Deus, a tua obrigao  lavar a cara e as orelhas,
conquistar pelo trabalho uns sapatos para esses ps e trazer-me essa
cabea levantada e firme como quem tem a convico de ser tanto como
qualquer outro. Foi para isso que te ensinaram que Deus andou pelo mundo
a pedir, percebeste, grande mariola? Deus pediu para se parecer comtigo,
dando-te por esse modo a aspirao de te pareceres egualmente com elle
fazendo-te uma pessoa limpa e honesta. Deus consentiu em pedir pela
mesma razo que consentiu em ser crucificado, no para dar o exemplo da
mendicidade e do homicidio, mas sim ao contrario para que a sociedade se
reconstituisse no sentido de no tornar a haver quem enforcasse nem quem
pedisse. O po nosso de cada dia ganha-se com essas duas pernas que Deus
te deu para trabalhares e no para te pres de joelhos nos caminhos a
pedir esmola a quem passa. Jesus nunca se ajoelhou seno debaixo do
trabalho representado pela sua cruz ou diante do amor representado por
sua me. De joelhos perante a minha fora ou perante o meu dinheiro tu
s indigno da tua gerarchia d'homem e no passas de uma besta sordida e
immunda.

Depois de praticas da natureza d'esta, que nunca deixamos de fazer aos
rapazes que nos appareceram ajoelhados pelos caminhos, e as quaes
praticas sempre acompanhamos de temerosos gestos mostrando o punho
cerrado e os bicos dos nossos sapatos--de tres solas repregados de
terriveis tachas vingadoras, de duas azas, do tamanho de
moscardos--concluiamos por uma eloquente perorao perguntando aos
rapazes onde era a escola.

Temos a honra de informar sua magestade el-rei que os rapazes que
apparecem de joelhos pelas estradas no sabem nunca onde fica a escola.

Os paes no os ensinam a ler. Creados na abjeco da mendicidade,
habituados a fingir, a choramigar, a carpir, costumados desde pequenos a
serem maltratados, repellidos, injuriados, tornam-se homens servis,
rasteiros, malevolos, vingativos, mandries e covardes.

So elles os que em maior numero contribuem para o consumo das facas de
ponta, para o exercicio das policias correccionaes, para o repovoamento
successivo das cadeias e dos hospitaes.

Sua magestade esqueceu que, em quanto esses rebentos da preguia, esses
embries do vicio e da miseria se ajoelhavam aos seus ps, outros
pequenos cidados uteis estavam na escola ou nos casaes circumvisinhos,
uns aprendendo a ler, outros ajudando as suas mes a metter o po ao
forno, a deitar o feno s vacas, a acarretar a lenha, a enfeichar as
medas ou a debulhar o milho.

Sua magestade, agasalhando os vadios e expondo-os em triumpho aos olhos
dos laboriosos, deu um exemplo que influir nos costumes e a que podmos
chamar:--o premio Monthyon da malandrice.


       *       *       *       *       *


Um attentado unico sem precedentes nos fastos do arbitrio executivo
acaba de ser impunemente perpetrado contra a ordem moral por um ministro
da cora, o sr. Barros e Cunha.

Quando os erros dos ministros versam sobre os negocios das suas
respectivas secretarias a critica pode consideral-os sem protesto, como
phenomenos normaes em um regimen em dissoluo destinado a acabar um
pouco mais tarde ou um pouco mais cedo.

Quando porm a aco do poder exorbita da mancommunao ministerial, da
intriga parlamentar e da fico administrativa, para invadir a esphera
do trabalho individual e para violar accintosamente os direitos
inalienaveis dos cidados, a critica deixa ento de proceder pelo
desdem, e embora continue a sorrir, tem o dever de pegar no mesmo tio
com que Renaldo de Montauban chamusca no poema gaulez as barbas de
Carlos Magno, e de barbear s. ex. o alto funccionario delinquente.

       *       *       *       *       *

Precisamos de esboar um pouco de mais alto a physionomia do personagem
antes de nos occuparmos da natureza dos seus ultimos actos.

Antigo poeta lyrico de inspirao canalisada pelos jornaes poeticos e
pelos albuns das meninas provincianas, o sr. Barros e Cunha, abandonando
a carreira poetica, foi enviado na idade madura  camara dos deputados
na qualidade de leitor do _Times_ por um circulo do reino em que se no
sabia inglez.

Classificado desde logo na familia zoologica dos mediocraceos, foi
declarado inoffensivo pela unanimidade dos votos de ambos os lados da
camara. O uso quotidiano de uma palavra irresponsavel, que elle debalde
tentava sublinhar malignamente sem conseguir que ninguem se occupasse em
a controverter, deu-lhe a facilidade de emittir intermitentemente um
determinado numero de sons articulados sem connexo logica, sem forma
litteraria, sem criterio philosophico, sem intuito politico, os quaes
sons reunidos constituem a colleco dos discursos parlamentares de s.
ex..

Todos se lembram de o ter visto em cada uma das sesses das ultimas
legislaturas levantar-se do seu logar no meio da indifferena bocejante
da camara e da galeria, folhear os numeros do _Times_ collocados sobre a
sua carteira, e abrir o dique da incontinencia oratoria, despejando as
palavras n'um tom de melopa com a sua voz ao mesmo tempo doce e nazal,
como a de quem falla por um nariz de assucar.

No discurso proferido viam-se desfilar processionalmente as diversas
partes da orao, cadenceadas, graves, acertando o passo, olhando para
acenar, esperando umas, correndo outras para alinhar o prestito, fazendo
roda entre parentheses para entoar um moteto, detendo-se para fazer
signaes orthograficos a um adjectivo retardatario, continuando em
seguida, para tornarem a parar d'ahi a pouco em torno de um verbo
irregular, e proseguirem outra vez atraz de uma interjeio de duvida ou
incerteza. At que, sentindo-se cahir a tarde, principiando a esfalfar
os membros do discurso, comeando os adjectivos a sentarem-se pelos
passeios, os substantivos a tirarem as botas a os adverbios a pedirem de
beber, via-se finalmente, ao longe, por entre as tochas, envolto no p
do caminho, apontar o andr com um simulacro de uma ida velha,
carcomida, safada, sacudida  rua de todas as casas, impellida adeante
das vassouras por todos os varredores, apanhada successivamente por
todas as carroas, e por ultimo arrancada do monturo ou do esgoto,
lavada, grudada, repintada, retingida, posta em p, especada entre duas
ripes e produzida em publico por s. ex., n'uma exposio solemne, ao
fundo de seis columnas de prosa alambicada e caturra.

Estas fallas eram acompanhadas por s. ex. com variados gestos
carinhosos e piegas: j de quem amamenta as methaphoras que tem ao
colo, j de quem acaricia e afaga buliosos tropos adjacentes, j de
quem com o bico do lapis seguro nas pontas dos dedos se compraz em picar
no ambiente argumentos hypotheticos voejantes entre o orador e a mesa
adormecida.

Elle no entanto sorria de quando em quando, ironico e triumphal,
circumgirando pela sala no fim de cada periodo um olhar destinado a
indicar ao auditorio que dentro do seu pequenino craneo a malicia de
Bertholdinho se achava alliada  finura de Polycarpo Banana.

Uma vez pelo menos em cada um d'esses discursos, quando o orador
parando, tirava da algibeira da sobrecasaca o seu leno branco e batia
com os ns dos dedos na carteira para que lhe renovassem o copo d'agua,
vozes de deputados repentinamente extremunhados applaudiam-o. O que no
consta  que ninguem se lembrasse nunca de o contrariar.

       *       *       *       *       *

Cahido o dente do sr. Fontes e chamado o sr. marquez d'Avila para formar
novo ministerio, o sr. Barros e Cunha entrou no gabinete a titulo de
caracter conciliador. Deputado s cortes em successivas legislaturas,
tendo a palavra em quasi todas as sesses, to vigorosamente havia
servido a causa ecletica da banalidade que no conseguira crear um unico
adversario. Taes foram os titulos que levaram s. ex. aos conselhos da
cora.

Repentinamente investido no cargo de ministro das obras publicas, do
commercio e da industria, s. ex. para quem a industria, o commercio, as
obras, eram outros tantos porticos inaccessiveis, envoltos nas trevas
mais augustas, resolveu seguir uma linha de proceder que o levasse 
popularidade sem o intrometter na gerencia e na direco dos negocios.

Para esse fim s. ex. comeou a passear as ruas de Lisboa montado na
imagem rhetorica em que Napoleo nos apparece nos discursos do sr.
Manuel da Assumpo. Aos sabbados s. ex. tomava o caminho de ferro e
dirigia-se em carruagem salo a todos os pontos da provincia em que
houvesse uma fabrica, uma officina, um monumento publico para que olhar,
e uma phylarmonica para o ir esperar  _gare_.

No desempenho d'esta primeira parte do seu programma s. ex. foi de uma
actividade e de uma energia sem exemplo. Amanhecia a cavallo, anoitecia
a cavallo, e deitava-se na cama, altas horas, para dormir um
momento--tambem a cavallo. Estes exercicios de gineta amestraram o
cavallo de s. ex. at o ponto de poder elle proprio ser ministro--em
liberdade.

Nas suas digresses pelos centros fabris das redondezas da Extremadura o
zelo de s. ex. pelos principios do seu programma administrativo no
conhecia limites. Eis uma amostra do caracter d'essas viagens
hebdomadarias:

S. ex. chega a Thomar pelo trem do correio s 12 horas 45 m. da tarde.
Uma phylarmonica espera-o na estao de Payalvo e acompanha-o ao som do
hymno da carta at casa do sr. conde de Thomar. s duas horas da
madrugada s. ex. ceia e levanta tres brindes a Thomar,  real familia e
 carta. A' 4 horas 25 minutos encerramento de s. ex. nos aposentos que
lhe estavam reservados e leitura do _Times_ at s 5 horas 30 minutos.
A's 5 horas 31 minutos s. ex. descala metade das botas e repousa um
momento deitando-se sobre uma orelha e escutando com a outra os eccos do
hymno da carta. A's 6 horas, convergencia das foras musculares de s.
ex. sobre os puchadores das suas botas e pedido d'agua morna para a
barba de s. ex. A's 7 horas, sabida de s. ex. dos aposentos que lhe
estavam reservados, presena de s. ex. no terrao da casa e asperso
dos raios visuaes de s. ex. sobre a paisagem circumjacente. A's 8 horas
recepo da camara municipal e dos tres ou quatro maiores contribuintes.
A's 9 horas almoo com brindes de s. ex.  carta, a Thomar e  real
familia. A's 10 horas ida para a fabrica de fiao. As' 12 horas lunch
na fabrica e brindes de s. ex.  real familia, a Thomar e  carta. A' 1
hora da tarde volta para Thomar, jantar e brindes de s. ex.  carta, 
real familia e a Thomar. A's 3 horas 36 minutos partida, cortejo, hymno
pela phylarmonica na estao de Payalvo e regresso de s. ex.  capital.

       *       *       *       *       *

Uma vez por semana, s quintas feiras, s. ex. acompanhava os seus
collegas ao Pao. Tendo mostrado sobre o chouto da allegoria do sr.
Manuel da Assumpo que possuia uns rins de bronze; tendo provado nas
digestes accumuladas das mayonaises do sr. conde de Thomar e dos
pudings da fabrica de fiao que era dotado de um estomago d'ao, s.
ex. aproveita os seus encontros com o soberano para convencer a crte,
de que reune a esses dotes anathomicos a feliz particularidade de uma
espinha de cebo.

Submettido ao olhar de suas magestades constatou-se que a posio
vertical de s. ex. dobrava como uma vela ao sol, sob a temperatura de
35 graus Reaumur. Contemplado pela rainha s. ex. deprimia-se
progressivamente, acachapando-se. O seu uniforme fazia as pregas de uma
concertina que se fecha. A rainha, caridosa, olhava ento para outra
parte a fim de que os tecidos democraticos do seu secretario de estado
no acabassem de derreter, deixando nos degraus do throno, como despojo
de quanto representara no Pao o departamento das obras publicas, um
fardamento, uma calva e uma nodoa.

Impedido de fundir, s. ex. procura manifestar por outros actos o ardor
do seu zelo como novo aulico.

Para esse fim atropela as disposies legislativas que regulavam o
arrendamento das casas do Bussaco entregues  administrao geral das
mattas, rescinde os contractos legalmente feitos com os arrendatarios,
expulsa as familias que habitavam o convento, e offerece este a sua
magestade a rainha para ella passar a estao calmosa--nas casas dos
outros.

Desde o tempo dos antigos aposentadores mres, que precediam os reis
absolutos nas suas viagens e faziam despejar as casas occupadas por seus
donos para n'ellas se instalar a corte, nunca o servilismo ousara fazer
reviver para lisongear os reis um dos mais oppressivos privilegios
monarchicos, o privilegio das aposentadorias, abolido desde 1820. Os
mais atrevidos e insolentes mandes no ousaram jmais ultrajar por tal
modo o direito e a liberdade. Era preciso para isso ter como o sr.
Barros e Cunha a natureza chineza de um mandarim; pousar no pao to
passivamente e to irresponsavelmente como pousa um boneco de porcelana,
acocorado a um canto n'uma prostrao burlesca, bolindo automaticamente
com a cabea e deitando a lingua de fora ou mettendo-a para dentro,
segundo leva ou no leva da real mo um piparote na nuca.

Para bajular el-rei como bajulra a rainha o mandarim sr. Joo Gualberto
determina que obras extraordinarias se faam na estrada de Vidago e
manda abonar por conta do ministerio das obras publicas salarios na
importancia exorbitante de 1$200 ris por dia aos operarios empregados
em um dos lanos da estrada alludida.

       *       *       *       *       *

Estes factos porm, definindo cabalmente o mandarim pela sua face de
cortezo, no o definiam sufficientemente pelo seu lado de ministro. Os
conselheiros de s. ex. tangeram-o na nuca para o fazer deitar de fora
algumas portarias. Aproveitou-se o pretexto das obras da Penitenciaria,
e s. ex. principiou a verter portarias sobre essas obras. Foi ento que
no _Diario do Governo_ appareceu o documento que nos propomos analysar e
comeamos por transcrever:

Sua magestade el-rei, a quem foi presente o processo relativo ao
contrato celebrado em 18 e 19 de setembro de 1876 pelo director das
obras da penitenciaria central de Lisboa com Joo Burnay, para
fornecimento de ferros para as obras d'aquelle estabelecimento,
considerando:

1. Que esse contrato se encontra viciado;

2. Que n'elle se no observou o que dispe o artigo 10. do
regulamento de 14 de abril de 1856 e circular de 15 de maio de 1862;

3. Que no se abriu praa nem se fez deposito algum, conforme dispe
a circular de 15 de maio de 1857, e as clausulas e condies geraes de
empreitadas das obras publicas de 8 de maro de 1861;

4. Que ao contrato, por conta do qual o empreiteiro recebeu
adiantadamente na importancia de 88.889$312 ris, falta a approvao do
governo, segundo o disposto no artigo 2. das mesmas clausulas e
condies geraes e da circular de 15 de maio de 1862:

Ha por bem ordenar que se d por findo e terminado o dito contrato,
procedendo-se  liquidao dos artigos j fornecidos ou em deposito,
observando-se de futuro todas as prescripes em vigor n'este ministerio
para quaesquer contratos em que elle tenha de interferir.

O que, pela secretaria de estado dos negocios das obras publicas,
commercio e industria, se communica ao director das obras publicas do
districto de Lisboa, para os devidos effeitos, em referencia ao seu
officio datado de 26 de junho ultimo.

Pao, em 3 de julho de 1877.--_Joo Gualberto de Barros e Cunha._

Para o director das obras publicas do districto de Lisboa.

       *       *       *       *       *

Por esta portaria rescinde-se sem mais appellao nem aggravo um
contrato bilateral feito entre um industrial, o sr. J. Burnay, e o
governo. Ora o governo no  um poder pessoal, de caracter intermitente
ou caduco, que acabe com o sr. Avelino e que recomece com o sr. Barros e
Cunha. O governo  uma entidade impessoal e constante.

O sr. Barros e Cunha  obrigado como ministro a manter todos os
contractos feitos pelo seu ministerio, porque em quanto ministro o sr.
Barros e Cunha no  um individuo,  o governo. O governo fez um
contracto com o sr. Burnay, esse contracto acha-se em execuo, o
governo porem resolve por sua propria auctoridade rescindir o mesmo
contracto, e manda passear o sr. Burnay. Vejamos com que fundamentos
juridicos se annulla, sem mais formalidade que a publicao de uma
portaria, um contracto de similhante natureza:

O sr. Barros e Cunha allega em primeiro logar:

_Que o contracto se acha viciado_. A isto responde o engenheiro
constructor da Penitenciaria e signatario do contracto por parte do
governo que a viciao allegada consiste em se haver alterado a data em
que o sr. Burnay se compromette a concluir os seus trabalhos, mudando-se
os numeros 1877 em 1876. O resultado d'esta viciao era collocar o sr.
Burnay sob a aco de uma multa por no ter concluido a sua obra no
praso prefixo.  evidente que no podia ser o sr. Burnay que viciasse o
contracto raspando um algarismo que o interessa e substituindo-o por
outro que o prejudica.

A viciao do contracto  por tanto um facto necessariamente alheio 
interveno do sr. Burnay.

A legislao invocada nos considerandos 2. e 3., no tem cabimento,
porque todos os regulamentos das empreitadas das obras publicas previnem
os casos em que _a concorrencia possa prejudicar a rapidez ou a
perfeio do trabalho_ e em que o _deposito pde ser substituido por
fiana ou por outras garantias prestadas pelo empreiteiro_. E ambos
estes principios so reconhecidos pelo sr. Barros e Cunha, o qual
contractou elle mesmo novas obras com o sr. Burnay depois da publicao
d'esta portaria, sem abrir concurso e sem fazer deposito.

As affirmaes contidas no considerando n. 4, so puramente falsas,
como j declararam publicamente os engenheiros Ferraz e Burnay. A falta
da approvao do governo  uma mentira e o adiantamento de 88:886$312
ris  uma calumnia.

Suppondo porem que as obras devessem ser feitas por concurso e mediante
deposito, perguntamos: que responsabilidade pelo facto de no haverem
sido satisfeitas essas clausulas pde caber ao fabricante, ao fornecedor
ou ao empreiteiro com quem o governo contractou? Queriam por acaso que
fosse o sr. Burnay quem abrisse o concurso? que fosse elle quem a si
mesmo se obrigasse ao deposito? Se no se cumpriram as formalidades a
que a portaria se refere, a culpa  unicamente do governo. Como  pois
que o governo rescinde um contracto por um facto cuja culpa  d'elle e
no do individuo com quem elle contractou?

Podem aquelles que tem negocios com o governo ficar sujeitos a
similhante arbitrio?

Pde o governo annullar assim um contracto em que se acham envolvidos
interesses avultados d'aquelle com quem  feito unicamente porque o
governo diz reconhecer que no contractou nos termos em que devia ter
contractado?

Foi approximadamente isso mesmo o que fez a camara municipal com relao
ao contracto do Passeio Publico. A camara rescindiu o contracto, mas o
governo dissolveu a camara. Quem  que ha de dissolver o governo reu de
delicto egual ao da camara?

Em vista de um to flagrante attentado contra os seus interesses
industriaes, contra o seu credito e contra a sua honra, porque a
portaria alludida  cheia de vagas insinuaes insultantes e injuriosas
apesar de cobardemente rebuadas, o sr. Joo Burnay representou ao
governo requerendo que se lhe d vista do processo em que  ao mesmo
tempo accusado e punido, e que sobre o mesmo processo sejam ouvidos os
fiscaes da cora e da fazenda. O sr. Barros e Cunha no despachou esta
petio e manteve os effeitos da sua portaria absurda, falsa,
calumniosa, e infamante.

 a isto que ns chamamos o mais violento dos attentados perpetrado pelo
arbitrio executivo contra a ordem moral e contra os direitos dos
cidados.

       *       *       *       *       *

O sr. Barros e Cunha  um criminoso diante do codigo e diante da carta.

A carta torna-o responsavel no artigo 103 por tres delictos que
commetteu publicando a portaria de 3 de julho de 1877: por abuso do
poder, por falta de observancia da lei, e pelo que obrou contra a
liberdade e contra a propriedade de um cidado.

Perante o codigo attentou contra dois dos direitos que a lei civil
reconhece e protege como fonte e origem de todos os outros,--contra o
direito de apropriao e contra o direito de defesa (artigo 359).

A insinuao feita ao sr. Burnay de ter viciado um contracto que elle
no viciou e de haver recebido a titulo de adiantamento uma quantia que
elle no recebeu, colloca o signatario da portaria que encerra essa
calumnia sob a aco do artigo 2364 do codigo civil, que diz o seguinte:

A responsabilidade criminal consiste na obrigao, em que se constitue
o auctor do facto ou da omisso (na portaria ha a omisso e o facto) de
submetter-se a certas penas decretadas na lei, as quaes so a reparao
do damno causado  sociedade na ordem moral. A responsabilidade civil
consiste na obrigao, em que se constitue o auctor do facto ou da
omisso, de restituir o lesado ao estado anterior  leso, e de
satisfazer as perdas e damnos que lhe haja causado.

Um s caso previsto no codigo pode relevar o sr. Barros e Cunha da
responsabilidade civil e da responsabilidade criminal da portaria que
perpetrou. Esse caso  o de completa embriaguez ou de provada demencia.

       *       *       *       *       *

Cumpre notar que o cidado Joo Burnay sobre quem pesa uma tal offensa
no  um empreiteiro vulgar, um especulador de concursos ficticios
simulados para apadrinhar intrigantes. Joo Burnay  um engenheiro de
primeira classe, um mathematico distincto, uma intelligencia largamente
cultivada, um caracter de uma honestidade inviolavel. Como trabalhador
elle  o mais elevado exemplo que se pode propor  mocidade portugueza.
Nenhum outro homem da gerao moderna espalhou como elle em volta de si
pelo puro exercicio das suas faculdades creadoras uma to grande e to
preciosa actividade.  o proprietario e o chefe de uma grande officina
modelo do seu genero. Pelo exforo do seu talento extrae da natureza os
elementos que fazem subsistir honradamente na sociedade de Lisboa alguns
centenares de familias. Todo o paiz em movimento de civilisao se
lisongearia de o poder contar entre os seus filhos mais prestanles e
mais benemeritos, porque  por meio da iniciativa de homens como elle
que os estados se moralisam e se enriquecem.

Na nossa sociedade estagnada pela indolencia e pela corrupo elle 
impunemente estorvado, calumniado, atraioado na mais legitima das suas
aspiraes--a aspirao do trabalho, por um ministro filho da intriga
constitucional, sahido do parlamentarismo mais banal e mais chato, no
exercendo nunca o trabalho nem sendo capaz de o respeitar em quem o
exerce, tendo vivido sempre no parasitismo da politica, no produzindo
coisa alguma, no tendo finalmente servido aos seus similhantes para
outra cousa que no seja empobrocel-os quando come e corrompel-os quando
governa.

       *       *       *       *       *

Todavia no queremos mal ao sr. Barros e Cunha. Elle  simplesmente o
producto fatal do seu meio. Inspira-nos um interesse sympathico a triste
maneira de acabar que o est esperando. Os seus erros successivos
offerecero  critica e ao ataque uma vasta superficie exploravel. As
suas faculdades no lhe permittiro defender-se.

D'aqui lhe fazemos uma prophecia: ser medonhamente batido e
deploravelmente derrotado, no porque offendeu o direito na pessoa de um
trabalhador obscuro, o engenheiro Joo Burnay, no porque foi injusto,
mas sim porque  inhabil e porque  fraco.  isto, e no aquillo, o que
nunca lhe perdoaro os partidos politicos com os quaes ir dentro em
pouco achar-se em hostilidade. Ser o alvo das retaliaes mais
violentas, dos discursos mais acerbos na camara, dos artigos mais
explosivos na imprensa. Ho de cercal-o como cercam os ces um javardo
condemnado  morte. O improperio ha de se lhe aferrar s espaduas e ha
de mordel-o na nuca. A ironia ha de rir-lhe no nariz com uma gargalhada
feroz, mostrando-lhe os dentes anavalhados e agudos,--de jacar. A
logica ha de lanar-lhe ao pescoo a sua golilha forrada de puas de
ferro e hade leval-o de rastos por um grilho atraz d'ella. A pilheria
ha-de pr-lhe rabos. A chalaa ha-de pegal-o com breu  cadeira de
ministro. A chufa ha de coser-lhe as abas da casaca a um trambolho. A
pulha ha-de deitar-lhe ps de sapatos. A laracha ha-de esguichal-o com
tinta de campeche. A chacota ha-de fazer-lhe sair do nariz bandeirolas e
baralhos de cartas. A troa ha-de dar-lhe no ventre estrondosas palmadas
de zabumba em theatro de feira.

E ns apiedar-nos-hemos, por que nos magoam os espectaculos em que se
destroe para sempre a dignidade de um homem.  por isso que damos ao sr.
Barros e Cunha um conselho amigavel. S. ex. pde ser ainda um cidado
util e respeitavel. O que no pde  alliar esses titulos com o de
ministro e secretario de estado dos negocios das obras publicas,
commercio e industria.

Ha uma cousa mil vezes mais meritoria do que ser um mau ministro,  ser
modestamente um bom homem. S. ex. pde ser bom homem. Seja-o. Seja-o
para honra sua e dos seus similhantes. Demitta-se. V para sua casa.

Ser um ministro do genero de s. ex.  facil. No o ser, porm no 
mais difficil. V para casa. Dizem-nos que  rico.  alm d'isso
anglomano. V para casa cultivar esmeradamente a sua anglomania, sem
desdouro para si nem para a especie de que faz parte. A exiguidade do
seu craneo, cuja circumferencia mede uma quantidade de centimetros
extremamente inferior  que a sciencia anthropologica exige para a
elaborao das grandes e fortes idas, no o impede ainda assim de ser,
por exemplo, um cultivador modesto e prestante. Os chapeus do fallecido
sr. Thiers, do sr. Disraelli, do sr. de Bismark cahem at o pescoo de
s. ex. e deixam a sua pobre cabecinha tanto  larga dentro d'elles como
um ovo dentro d'um sino. Mas ninguem tem obrigao de possuir
precisamente o cerebro d'um reorganisador e d'um estadista.

A massa cephalica de que s. ex. dispe habilita-o perfeitamente para
ser muito util, dirigindo a cultura da celebre batata-rim, to rara, to
preciosa, to procurada no mercado de Londres. S. ex. poderia ainda
tentar nas suas vastas propriedades a creao em grande escala dos
coelhos,  moda ingleza, o fabrico da manteiga, a queijaria, a
piscicultura, o aperfeioamento das raas lanigeras, o estabelecimento
das pateiras e das capoeiras-modelos, etc. Se s. ex. applicasse as
foras do seu nervosismo a prestar  humanidade esses servios modestos
mas valiosos, s. ex. teria as grandes alegrias, as profundas
satisfaes tranquillas das naturezas harmonicas, e o seu nome seria
querido e abenoado como o d'um cidado prestadio e d'um homem de bem.

Persistindo em ser um politico, s. ex. deixar apenas na terra o
desprezo com que a humanidade castiga aquelles que, imaginando servil-a,
no fizeram seno prejudical-a.

Assim como a ferocidade, a incompetencia tem tambem os seus Attilas. A
differena , que uns requeimam a herva, os outros comem-a. O estrago 
o mesmo.


       *       *       *       *       *


O registo das produces musicaes portuguezas foi enriquecido durante o
periodo a que se refere este volume com tres novas obras, qual d'ellas
mais caracteristica e mais monumental. Passamos a consagrar a cada uma a
atteno que lhe  devida.

       *       *       *       *       *

_As Cutiladas do Passeio Publico_  o titulo de uma polka refutativa dos
principios estheticos por onde os doutos costumavam at hoje determinar
as fontes da inspirao artstica.

Aos elementos que concorrem para a gestao de uma obra d'arte, a
orientao ethnologica, a tradio nacional, o solo, o clima, os
aspectos da paizagem, temos de accrescentar uma nova fora geradora:--a
fora da pancadaria.

Na occasio em que os bons e pacificos burguezes de Lisboa tomavam o
fresco de uma noite de julho no Passeio Publico do Rocio, do qual elles
so os legitimos e directos senhores, a policia invade o alludido
passeio e a pretexto de no estar plenamente liquidada a questo
juridica de quem deve accender os candieiros e fechar as portas, a
policia expulsa violentamente do seu passeio os burguezes e as suas
respectivas mulheres, as suas mes, as suas irms e as suas filhas.

 saida do passeio, uma fora de soldados da guarda municipal que
acudira em reforo da policia, encontra-se de frente com os burguezes
que saem do jardim publico e procura recalcal-os para cima dos sabres
policiaes que do lado opposto lhes veem picando os rins. N'esta
conjunctura o publico, sentindo-se tanto  sua vontade como se o
quizessem atarrachar entre as duas laminas de uma prensa, pergunta, por
onde  que se lhe permitte que fuja. A municipal considera indiscreta
essa pergunta, e desembainhando os seus sabres acutila os burguezes e as
suas familias com o ardr bellicoso de um exercito encarregado da
transformar o paiz n'uma almondega.

Os restos do picado feito pela guarda municipal para alimento da ordem
clamam vingana a altos brados. O acaso fornece-lhes armas, que elles
regeitam. As cadeiras em que estavam sentados no jardim poderiam com
vantagem desarticular alguns dos ossos mais importantes da fora
publica. As bengalas a que se apoiavam os chefes de familia, brandidas
com intima convico, chegariam talvez a introduzir alguma poro de
cana da India e de sentimentos piedosos nos cerebros da soldadesca.
Finalmente alguns bons socos applicados com arte no deixariam de fazer
render as costellas e o espirito das tropas a uma conciliao amigavel.

As sobras da chacina marcial da porta do Passeio acham porem
insufficientes para o seu despique todos esses recursos. Os briosos
canhos, vingadores da bordoada recebida  chucha calada, recolhem-se a
suas casas pedindo s furias punio para os algozes e arnica para as
victimas.

Ao cabo de uma semana de recolhimento e de agua de vegeto, o desforo
popular rebentou finalmente, inexoravel e tremendo, sob a forma de
polka.

Expulso s cutiladas e aos cachaes de um jardim que  seu, cuja
propriedade e cuja posse elle pagou e repagou muitas vezes com impostos
e contribuies municipaes, o povo de Lisboa vinga-se da carnificina que
o estropia e da violao que o esbulha de uma propriedade que  to
legitimamente sua como a mesa a que janta ou a cama em que dorme, pondo
o caso em musica e em dansa de roda!

 Lisboa! Lisboa! como tu ests demudada do que foste! Nos periodos
ainda os mais vergonhosos da tua velha historia, no tempo d'esse fraco
rei que fez fraca a forte gente, tu tinhas ainda um Ferno Vasques,
simples remendo, que  frente de alguns populares reptava o proprio
soberano a vir  igreja de S. Domingos dar-lhe satisfao dos seus
actos mais intimos, da propria soluo de seus amores. Hoje levas
pontaps de um sargento na mesma parte do corpo que nobilitaste no
presente seculo sentando-te nas cadeiras da representao nacional; e
tendo feito um codigo dos teus inviolaveis direitos, tendo promulgado
uma constituio, possuindo uma carta, um parlamento, uma imprensa,
todas as garantias da liberdade, tu, que na idade gothica, chegavas com
o teu brao poderoso  cora de um rei absoluto, no chegas hoje, na era
nova do direito, s orelhas de um cabo de esquadra!

Ao p da mesma igreja para onde ha quinhentos annos tu emprasavas o
chefe augusto do Estado, levas agora tapona do policia Antunes, e a nada
mais o emprasas seno a propinar-te uma segunda sova quando reajas 
primeira!

Misera Lisboa! lastima a tua sorte: os teus remendes acabaram. Chora,
cidade de marmore e de lixo, que os teus remendes morreram!

Aquelles que no vo de uma escada cosiam calas ou talhavam gibes, que
no queriam ser vereadores, nem deputados, nem funccionarios publicos,
que eram simplesmente o povo, bruto mas digno, no sabendo intrigar mas
sabendo bater, no tendo a imprensa nem a policia correccional, mas
tendo ao canto da porta um cacete ou um chuo, esses taes, que eram a
arraia miuda, umas vezes soffredora e mansa, outras vezes vingadora e
terrivel, esses desappareceram. J no tens rudes filhos da plebe, tens
delicados filhos de Minerva e de Thalia. A cultura moderna fez-te
philarmonica. Substituiste a fora da unio pela _Unio e Capricho_.
Quando te no chegam ao pello tocas o hymno. A phrase _levar para o
tabaco_ ha de modificar-se para teu uso na nova frmula--_levar para a
musica_.

Agora, como te abriram a cabea um pouco mais profundamente que o
costume, despicaste-te com uma polka especial.

As trombetas das tuas quarenta philarmonicas populares, que trombeteiam
indistinctamente por tudo, que trombeteiam pelas instituies e pelos
santos, pela carta e pelo Senhor dos Passos da Graa, pela restaurao
de 1640 e pelo enterro do bacalhau, pela real familia e pelo cyrio da
Atalaia, por Garibaldi e por Santo Antonio de Padua, essas trombetas
que expressavam alegremente o prurido dos teus jubilos principiam a
expressar de um modo egualmente alegre o prurido das tuas confuses.
Violam desaforadamente a tua propriedade e a tua pessoa e tu collocas
essa questo de direito e de dignidade no terreno patusco dos bailes
campestres! Expulsam-te do teu jardim adiante dos bicos das botas do
habil Antunes ou do habil Castello Branco; trincham-te a cabea com a
semceremonia com que se trincham os meles; e tu danas a polka, a tua
polka brilhante, _As cutiladas do Passeio Publico!_

O que receamos por ti,  querida Lisboa,  que na proxima tosa que te
appliquem, alm de te quebrarem os ossos, te quebrem tambem os
instrumentos musicaes, privando-te assim dos meios de flauteares a
vingana monumental e tremenda. Occorre-nos lembrar aos grandes centros
democraticos da capital a conveniencia de fundar uma reserva de
clarinetes para que nunca se encontre desarmada perante a prepotencia da
tyrannia a vindicta dos povos.

Emquanto  dignidade humana... lalarilol... e emquanto  liberdade,
ao direito e  civilisao... larillil... que nos importa isso?...
Com as cabeas retalhadas pelos sabres policiaes o que ns queremos 
panno adesivado...llar... e fios... trolarilol!

Como o philpsopho Diogenes a unica coisa que pedimos aos grandes da
terra, alm de unguentos,  que nos no interceptem o _sol... e d!_

       *       *       *       *       *

O sr. Padre Conceio Borges fez cantar no theatro da Trindade uma
operetta de que o dito clerigo compoz ao mesmo tempo o libretto e a
partitura. O publico, pateando enthusiasticamente ambas as coisas, poz a
pea fra da scena  primeira recita, privando-nos do prazer de assistir
ao notavel espectaculo, de que hoje nos resta apenas o titulo--_Vamos a
ellas_!

Quem so _ellas? Ellas_, na bocca, no pensamento, na inteno do sr.
Padre Conceio Borges, cremos que no podem ser seno as missas.

Mergulhamos como Curcio at o fundo de todas as hypotheses que esse
perigoso problema nos suggere e no vemos que, sem offensa do grave
caracter sacerdotal do sr. Padre Borges, se possa admittir que _ellas_
no sejam as missas para serem qualquer outra coisa.

Ora sendo para as missas quo o sr. Padre Conceio quer ir e sendo para
as missas que ns somos convocados a acompanhal-o, segundo a unica
interpretao que pode ter o seu titulo, parece-nos que Sua
Reverendissima torceu bastante caminho e que iria muito mais direito ao
seu fito se, em vez de ter mettido pelo palco da Trindade com o seu
spartito em punho, fosse directamente com a sua batina--para a sacristia
das Mercs.

       *       *       *       *       *

_A Roma! a Roma!_  o titulo de uma valsa annunciada ao publico pelo
periodico religioso _A Nao_, e destinada a servir os mesmos designios
piedosos que levaram o sr. Conceio Borges _a ellas! a ellas!_

Nada mais commodo do que esta interveno da valsa nas praticas da
penitencia e no regimen depurativo das almas para a mais elevada
comprehenso dos interesses espirituaes e dos destinos eternos! Ir para
Deus no pelas escabrosidades do martyrio mas pelas cadencias do
cotillon  um dos mais notaveis servios que a arte podia prestar 
alliana da religio e do _chic_.

Affirmar o dogma dansando  uma ideia que vae revolucionar
completamente os usos das salas. Nos bailes do proximo inverno
inclinar-nos-hemos deante das meninas religiosas e diremos:

--Querer v. ex., minha senhora, ajudar esta alma a sahir do abysmo da
impiedade conferindo-lhe a honra da proxima valsa?

E a menina a quem um homem se dirigir n'esses termos responder erguendo
os olhos ao cu.

--Sim pelas sete dres da Virgem Immaculada.

E iremos em seguida para a verdade sacrosanta e eterna, aos pares
deslisando em gyros ondulantes sobre os _parquets_ polidos, cingindo com
o brao direito os espartilhos palpitantes e electricos, segurando na
mo esquerda um pulso delicado e macio, calado em luvas perfumadas que
chegam ao cotovello. Respiraremos o aroma penetrante do Iris de Florena
exhalado das rendas aquecidas no seio do nosso par, sentiremos nas
pontas agudas do bigode o contacto dos seus cabellos seccos e frisados,
e no hombro o leve peso tepido e carinhoso do seu corpo d'ave. E
conversaremos:

--Como a religio  boa! como  ineffavel!... Eu sinto a voz do meu
corao contricto e humilhado exclamar como esta valsa: a Roma! a Roma!

--E comea a ter crenas?

--Oh! sim!... com impacincia! com frenesi! com delirio!...
Esqueamo-nos do mundo vil! Bem hajas tu que me chamaste para a f!...
Tu, minha candida pomba da arca!... Tu, minha estrella dos Magos!... Tu,
meu anjo da guarda!...

--Bemdito e louvado seja Nosso Senhor, que me permittiu a mim, sua
indigna serva, o encaminhar para o gremio da nossa Santa Madre Igreja
uma alma que ia perder-se! Acredita na infallibilidade do nosso Summo
Pontifice, no acredita?

--Acredito com furia, com raiva, com epilepsia! No sente como o meu
corao bate?...  pelos dogmas,  pelos concilios, que elle assim bate!
Oh! maldito seja o seculo com os seus erros! maldito seja o mundo com os
seus enganos! Amanh precisamente tinha eu que fazer na secretaria dos
Extrangeiros: no vou! no estou para isso! Para onde eu vou  para o
mez de Maria. Que me demittam, se quizerem! que me ponham na
disponibilidade! Que me importam a mim os bens terrenos? Prefiro
perdel-os a encontrar-me no ministerio com o addido italiano que
blasfema, que bebe a sua agua de Nossa Senhora de Lourdes...

--Oh! se  um sacrilegio, cale-se por Deus! Podem ouvir-nos os pares que
nos seguem... Dariamos escandalo no meio da sacratissima valsa!

--Que eu lh'o diga ao ouvido, na sua pequenina orelha que parece uma
joia de marfim cinzelada por Benvenuto Cellini para ornamento da
cabecinha de uma Notre Dame de Lorette!... Elle bebe-a ao almoo...

--Deus do cu!

--Entre a costelleta e a omelette...

--Virgem Maria!

--Misturada com vinho de Pauillac...

--Santos e Santas da crte celeste!

--Em partes eguaes, metade vinho, metade agua...

--Mas vae para o inferno essa alma!

--Est claro que sim. E  bem feito!

--Se no houvesse o inferno e o purgatorio elles ficavam-se a rir.

--Mas l est o castigo, ol! O fogo eterno e o ranger dos dentes por
todos os seculos dos seculos sem fim no  uma chimera. Ho-de
amargal-as, que ha de ser um consolo--para ns!

--Amen! Amen, Jesus Maria Jos!

Assim conversaro elles e ellas durante a piedosa valsa _A Roma! a
Roma_! Pela escada de Jacob d'essa musica sagrada as almas alar-se-ho
ao empyreo, e iro pela via lactea fra, sempre valsando, a demandarem a
entrada para os sales de baile de Jehovah, prolongao logica das
nossas soires ao divino.


       *       *       *       *       *


Aos srs. advogados

Meus caros senhores.--Escrevo-lhes estas linhas de cima de um boi, para
onde resolvi vir habitar durante o mez corrente e o mez seguinte.
Separa-me do amavel e discreto ruminante um tenue sobrado. Eu oio-o
mastigar pausadamente com a regularidade do tic-tac do meu cuco, elle
ouve-me o ranger da penna, e raramente batemos para cima ou para baixo a
pedir qualquer coisa um ao outro. A respirao d'elle  perfumada com o
aroma do feno. Nunca cheira a caarola suja nem a cano, como os predios
da baixa. No escreve obscenidades na parede da escada, e--coisa que lhe
perguntei antes de o vir habitar--no toca piano.

De quando em quando, pela sesta, calo os sapatos ferrados, pgo no
cajado que nos est ouvindo quelle canto, accendo um charuto e saio de
cima do boi para percorrer as montanhas circumvisinhas.

Em alguns casaes amigos permittem-me a troco do preo de meio alqueire
de farinha o prazer de amassar eu mesmo o meu po, de o enrolar, de o
metter ao forno e de o trazer s costas para casa, d'ahi a dez minutos,
embrulhado n'um guardanapo, que ato pelas quatro pontas e que enfio no
meu varapau.

Nas eiras collaboro na debulha, tomando as redeas de esparto das duas
velhas eguas intonsas e ossudas e pondo-nos a trotar todos tres, ellas
adiante de mim e eu atraz d'ellas, por cima da palha.

Tenho tambem relaes nos moinhos, e cultivo a convivencia de moleiros
obsequiosos que, quando lhes assobio, veem em mangas de camisa ao
postiguinho, e conversam para baixo comigo cerca do vento provavel
para o outro dia.

 n'estas excurses em torno do boi sobre que resido que eu tenho ouvido
os casos que me levam a dirigir aos srs. advogados estas humildes
regras.

       *       *       *       *       *

Em toda a circumferencia rustica a que serve de centro o meu boi, no
mais extenso raio a que teem chegado os pregos dos meus sapatos, no ha
familia que no tenha contribudo com algumas libras para o cofre dos
srs. advogados. Sempre que algum dente das multiplas engrenagens do
machinismo administrativo roa pelo ser de um pobre homem do campo,
elle, aterrado com a ameaa da coisa odiosa que o obrigaram a reconhecer
como a prepotencia mais implacavel sob o nome de justia, vae ao
advogado para que este o illucide.

Os principios geraes da organisao social que nenhum cidado devia
ignorar n'um paiz representativo so para a maioria dos portuguezes o
mysterio mais profundo e mais insondavel. O homem do campo,
especialmenie, no tem ida alguma das attribuies dos poderes a que
elle se acha subordinado como um dos membros do corpo collectivo que se
chama o paiz. No sabe seno de um modo deploravelmente vago e ambiguo o
que  a camara municipal, a juiz de paz, o juiz de direito, o escrivo
da fazenda, o administrador do concelho, a junta de parochia, o conselho
do districto, a commisso do recenseamento, o delegado de saude, a
policia, etc. De sorte que, em cada acto da vida civil em que o
desgraado se acha sob a aco de uma d'essas formas porque lhe apparece
o principio da auctoridade, recorre ao letrado.

--C est comnosco a justia! diz elle  mulher ao receber qualquer
papel official.

--Seja pelas cinco chagas de Christo! suspira a mulher com as lagrimas
nos olhos, atando as mos na cabea.

--M raios partam a justia e mais aquelle que a inventou, que se o
apanhasse a geito, rachava-o de meio a meio com o sacho ceboleiro! e
tinha alma de lhe beber o sangue!

Que o aviso recebido seja uma intimao para limpar o poo, para remover
a estrumeira, para pagar um relaxe, para ser jurado, para mandar um
filho  inspeco, para comparecer na camara, no tribunal, na
administrao ou na recebedoria, os lamentos so os mesmos, as mesmas
pragas, a mesma deliberao final de perder o trabalho de um dia, de
fazer a barba de vespera, de vestir o fato novo, de metter o p de meia
com os fundos de reserva na algibeira da japona e de ir de manh cedo
para a cidade a consultar um doutor. Como os mais pobres so tambem os
mais ignorantes, so os pobres os que mais consultam e os que mais
pagam. O procurador ou d um simples conselho e custa isso cinco
tostes, ou faz um requerimento e custa mil ris, ou redige um recurso e
custa uma libra, ou toma conta da questo e pede dinheiro adiantado para
as primeiras despesas, e custa vinte mil ris.

Acontece muitas vezes que o consultante no tem dinheiro e pediu
emprestado o fundo do p de meia. A necessidade porm de consultar o
letrado  para elle uma fatalidade como a necessidade de consultar o
medico. Com uma differena: Todos os medicos teem uma hora por dia em
que do consultas gratuitas aos pobres doentes. Os advogados no teem
egual caridade com os ignorantes pobres. Alm do soccorro
desinteressado de todos os medicos, os doentes tem ainda o banco dos
hospitaes. Para os ignorantes no ha recurso nenhum. A escola 
inteiramente inutil para lhes acudir, porque a escola portugueza no
ensina aos cidados quaes so os seus direitos nem quaes os meios de
defesa perante a violao d'elles. E no emtanto a sociedade tem muito
maior responsabilidade no facto da ignorancia do que no facto da doena.
O Estado, que tem consultorios gratuitos para a saude, deveria com
dobrada raso ter consultorios egualmente gratuitos para a justia. Os
advogados pela sua parte, no contribuindo como contribuem os medicos
para prestar  sociedade na maxima amplitude os servio desinteressados
que a sciencia Ihe deve, do-nos dos sentimenaltruistas da sua classe,
por tantos outros titulos respeitavel, uma ida bem triste.

Os srs. advogadosa dizem-se os protectores do orpho e da viuva, o que
nos os impede de protegerem pelo mesmo preo os que opprimem a viuva e
os que tyrannisam o orpho.

Os srs. advogados so com o ardor mais convicto e mais eloquente os
defensores da causa da justia e do direito e bem assim da causa
contraria.

Os raptos de eloquencia por meio dos quaes os srs. advogados fulminam
com heroica imparcialidade tanto o crime como a innocencia, so
conscienciosamente tarifados para que o publico escolha segundo o preo
que deseja pagar.

Entre os movimentos oratorios mais caros ha o grito estridente, a
punhada cava no peito, as lagrimas bailando nos olhos, a _commoo que
se apodera do proprio orador_, o desfallecimento, a syncope, etc.

O tempo preciso para expr a questo e para levar a evidencia ao
espirito do auditorio depende tambem do accordo previo, segundo a
tabella dos preos. Como tempo  dinheiro, quem quer mais tempo paga
mais caro. Quando o ru  abastado ou opulento a questo no se
esclarece seno  noite, e o jury tem de jantar no tribunal. Quando o
ru  pobre bastam quinze ou vinte minutos para elle ir socegado para a
cadeia. O que escreve estas linhas j ouviu esta concisa orao de
defesa: Srs. jurados eu no tenho que dizer seno duas palavras: Esse
selvagem (apontando para o ru) estava bebado. Assim se justificava o
crime de um homem que no tinha pago as circumstancias attenuantes ao
defensor.

       *       *       *       *       *

No ser util que, assim como fazem os medicos, os srs. advogados
restrinjam o campo, que offereccem s correrias do epigramma,
introduzindo alguma caridade nas suas relaes com os pobres? No
poderia cada um de s. ex.'as, destinar algumas horas d'um dia ou dois
por semana, para dar consellhos gratuitos? Eis o que se nos offerece
lembrar aos srs. advogados para que, no interesse da sua classe, s.
ex.'as se dignem de o considarar em algum dos seus momentos d'ocio.


       *       *       *       *       *


Os jornaes do mez passado trasbordaram de annuncios e de noticias pouco
mais ou menos do teor seguinte:

       *       *       *       *       *

Mais um floro acaba de ser acrescentado  cora da sr. D. Jeronyma,
directora do bem conhecido e acreditado collegio de _Nossa Senhora da
Santssima Purificao,_ rua de tal, numero tal, quarto andar, lado
esquerdo. Foi hontem examinada em instruco primaria e approvada com
dez valores, no lyceu nacional, a menina Elvira Fernandes, alumna do
referido collegio. O nosso amigo Polycarpo Fernandes, extremoso pae da
jovem examinanda, profundamente grato ao zelo da sr. D. Jeronyma e aos
carinhos dos examinadores de sua debil e tmida menina, a todos
consagra, por este meio, seus indeleveis agradecimentos.

       *       *       *       *       *

A inundao dos artigos d'este genero prova que o exame publico no lyceu
nacional comea a tornar-se um fim na educao ministrada s meninas nos
collegios de Lisboa.

A pedagoga sr. D. Jeronyma envida toda a honra da sua taboleta, todas
as idas da sua cuia e toda a actividade dos seus chinelos de trazer nas
classes para dotar com o maior numero de exames as alumnas confiadas s
_rclames_ das suas distribuies de premios.

Este anno a menina Fernandes foi approvada em instruco primaria. Para
o anno proximo ser approvada em francez. D'aqui a tres annos obter
egual exito com relao  lingua ingleza.

O sr. Fernandes, cada vez mais reconhecido, ter publicado a esse tempo
dez ou doze agradecimentos ao esclarecido zelo da sr. D. Jeronyma, e
recobrar completamente educada a sua filha. A infatigavel e benemerita
professora _d-a por prompta_ para entrar na sociedade mais escolhida.
Ella sabe as linguas, toca o piano e tem, segundo o programma da sr. D.
Jeronyma, _as prendas de mos proprias do seu sexo_. Estas prendas
consistem em fabricar palmitos de papel e em bordar entes fabulosos, de
uma monstruosidade mythologica, feitos a ls, a matis, ou a missanga,
com olhos de vidro, beios de vidro, e lagrimas tambem de vidro, sobre
um retalho de panno que se encaixilha e que tem por baixo, a oiro, a
data da confeco do monstro feita em cruz, e em formosas letras de
bastardinho, egualmente a canotilho de ouro:

_Elvira Fernandez me fecit._

       *       *       *       *       *

Ao fim de um anno de vida domestica D. Elvira esqueceu as linguas, das
quaes aprendeu precisamente o indispensavel para _escapar_, caindo-lhe
um thema facil e um examinador _carinhoso_, como muito bem dizia
Polycarpo nos seus annuncios de agradecimento. Esqueceu as linguas
porque as no pratica na conversao ou no estudo, e no sabe uma
palavra das leis da linguistica, que fixam e systematisam os
conhecimentos theoricos da formao das palavras.

Resta-lhe a faculdade de patinhar no piano a _Prire d'une vierge_ ou
_Les cloches du village_, e de continuar a bordar em seda ou em casimira
os abortos que derramam compungidamente o seu choro de vidrilhos nas
almofadas do salo, aos cantos do sof, e sobre os assentos das
poltronas.

Polycarpo reconhecer ento--demasiado tarde, ai de mim! ou antes ai
d'elle! ou melhor ainda ai de ns todos!--que D. Elvira possue, no
estado mais exemplarmente encyclopedico, a ignorancia cabal de tudo
quanto precisa de saber a mulher para ser na casa uma das rodas em que
versa a familia sensata e dignamente constituida, na qual Elvira tem a
sua difficil funco que exercer como filha, como irm, mais tarde como
esposa, e finalmente como me.

       *       *       *       *       *

De tal modo os exames das meninas no lyceu nacional, compromettem
absolutamente os fins da educao, desviam-a do verdadeiro ponto de
vista pedagogico, so uma ostentao ridicula, offendem o bom gosto,
desprimoram a delicadeza e a dignidade senhoril, assopram o pedantismo,
incham a frivolidade e incapacitam a mulher para a misso a que ella 
chamada na familia.

       *       *       *       *       *

Entendemos portanto que--desde o momento em que Fernandes  bastante
obtuso para no prever os perigos da falsa educao ministrada a sua
filha, e no s no protesta contra o programma absurdo de D. Jeronyma,
mas antes lhe enderessa applausos de um enthusiasmo inexcedivel,--ao
Estado cumpre intervir; no se tornar solidario das illuses de
Fernandes; e proteger Elvira. Como? Retirando a Fernandes e a D.
Jeronyma o direito de a levarem a exame.

       *       *       *       *       *

_Levar a exame_! S a palavra  um ultrage
da dignidade feminil. Submetter pelo despotismo
do direito paterno tudo quanto ha mais delicado,
mais melindroso, mais susceptivel de corromper-se--o
espirito virginal de uma menina,--ao
interrogatorio official de um mestre que durante
vinte minutos vae exercer sobre aquella
alma a tyrannia espiritual de um confessor! Um
tal inquerito, um tal julgamento, pde ser desculpavel
na educao de um rapaz, para quem
o exame  uma habilitao legal para a sua carreira
civil; na educao de uma menina portugueza
similhante prova  inadmissivel e equivale
a uma amputao do decoro.

Ora se nenhuma mestra e se nenhum pae tem o direito de cortar as orelhas
a uma creana para a tornar mais bonita, assim nenhum pae e nenhuma
mestra podem ter a auctoridade de fazer examinar uma menina para a
tornar mais educada.

Pelo que, a obrigao do Estado seria prohibir os exames da instruco
primaria e de instruco secundaria para todas as pessoas do sexo
feminino que no juntem ao requerimento de matricula attestado de
maioridade e de emancipao legal.

       *       *       *       *       *

Em um exame de instruco primaria n'um dos nossos lyceus deu-se este
dialogo:

_O examinador_--Que faz a menina quando se vae deitar?

_A examinanda_--Quando me vou deitar...

_O examinador_--Sim! Quando se vae deitar o que faz? Diga.

_A examinanda_(crando at  raiz do cabello e baixando os
olhos)--Quando me vou deitar... dispo-me.

_O examinador_--E depois de se despir?... Responda! Depois de se despir
o que faz?... A menina no ouve?... Ou finge que no ouve?... O que faz
depois de se despir?

_A examinanda_--Tenho vergonha...

_O examinador_--No tenha vergonha. Responda para diante!

_A examinanda_--Depois de me despir o que eu fao ...

E n'este ponto a examinanda, com a face afogueada pelo rubor do pejo,
com os olhos cheios das lagrimas do terror, na lingua adoravel dos cinco
annos, n'essa lingua que os homens s fallam s suas mes na pureza da
innocencia primitiva, n'esse dialecto infantil ainda mais casto do que
as linguas mortas, traduziu a locuo de Plinio: _urinam ex se
emittere_.

O professor a que nos referimos foi intimado a no proseguir pelo
presidente da mesa, o sr. Augusto Soromenho, cujo testemunho invocamos.

 assim que nos exames de instruco primaria se averigua se as alumnas
sabem ou no civilidade.

       *       *       *       *       *

Se a sr. D. Jeronyma carece das noes precisas para dirigir a educao
de uma menina,  preciso dar-lhe essas noes, ou prohibil-a de educar,
restringindo-lhe o direito de corromper a intelligencia da infancia.

A reforma da instruco das mulheres  em Portugal ainda mais urgente
que a da instruco dos homens.

As linguas no constituem instruco, porque no ministram
conhecimentos, so apenas meios de os adquirir.

Esses conhecimentos indispensaveis  mulher deveriam constar, na
educao elementar, dos seguintes ramos de ensino:

1. Curso de aceio e de arranjo;

2. Curso de cozinha (chimica culinaria).

3. Contabilidade, escripturao e economia domestica.

       *       *       *       *       *

No curso do primeiro anno dos collegios toda a menina aprenderia,
juntamente com as necessarias habilitaes litterarias para adquirir
idas, as seguintes noes praticas:

Os processos scientificos mais perfeitos de lavar e de enxugar a roupa
branca, o fato, as rendas finas, os tulles, as sedas, os tapetes, as
esponjas, as escovas; de conservar e concertar todos os objectos do uso
domestico; de regular o uso do banho, de lavar o cabello, de fazer os
melhores ps de dentes, a melhor pomada, a melhor agua de _toilette_; de
arejar e de desinfectar os aposentos; de polir os metaes e as madeiras;
de encerar os soalhos; de limpar os vidros e as laminass dos espelhos;
de envernisar os quadros; de concertar os livros e as estampas.
Aprenderia ainda os methodos mais hygienicos ou mais racionais: de
escolher os aposentos de uma casa, segundo o fim a que cada um d'elles
se destina; de dispor os moveis; de pendurar os quadros; de collocar a
bateria das caarolas; de montar a despensa e a garrafeira; de fazer os
inventarios e os roes; de dobrar e guardar a roupa branca e a roupa de
mesa em lotes numerados; de pr a mesa para os grandes e para os
pequenos jantares.

Este curso completar-se-ia com algumas noes accessorias: dos
differentes generos de mobilia e do seu estylo caracteristico nas pocas
mais notaveis da historia da arte ornamental; das principaes louas,
vidros, crystaes, tecidos empregados nos estofos da mobilia e no
vestuario, e historia da fabricao d'esses estofos.

No curso de chimica culinaria, do segundo anno do collegio, a menina
aprenderia, primeiro que tudo, a fazer um caldo.

O caldo  a base do toda a alimentao sabiamente dirigida, no porque o
caldo de per si s constitua um alimento importante, mas porque  o
caldo bem feito que estimula o systema intestinal e o habilita para uma
boa digesto.

Toda a mulher que no sabe fazer um caldo, deveria ser prohibida de
dirigir uma casa. Sobre a ignorancia culinaria da maior parte das
senhoras portuguezas pesa a responsabilidade tremenda da dyspepsia
nacional.

No temos estomagos sos porque no temos mulheres instruidas. Esta
affirmao pde parecer uma phantasia do estylo;  uma pura verdade
physiologica e  um facto social. Em Lisboa ignora-se completamente o
que  um caldo, porque esse delicado producto chimico s o sabem
preparar os cozinheiros de 5:000 francos de ordenado. As familias que
no podem aggregar-se funccionarios d'esse preo e que no so dirigidas
por senhoras que saibam o seu officio, tomam, em vez de caldo, um
liquido gorduroso e opaco, mais ou menos condimentado e indigesto. A
condio essencial do caldo bem feito  que elle contenha a maxima
quantidade de materias odoriferas extradas da carne, (vid. Liebig), que
no tenha o minimo vestigio de gordura, que seja aromatico e
perfeitamente transparente.

Se tivessemos alguma esperana de que a sr. D. Jeronyma o ensinasse s
suas educandas, dir-lhe-iamos como um caldo se faz. Mas a sr. D.
Jeronyma acha mais util ensinar o que  o _substantivo_. Como se alguem
no mundo precisasse, para o que quer que fosse, de saber o que o
_substantivo_ ! Como se immensas pessoas (em cujo numero nos contamos),
no estivessem mesmo convencidas de que jmais existiu na natureza o
_substantivo_, e que elle  uma pura chimera menos interessante que o
papo!

Ha todavia no mundo quem no seja inteiramente da opinio da sr. D.
Jeronyma. Um dos sabios mais eminentes do mundo actual, o sr. Wirchow,
demonstrava ha pouco tempo em Berlim que a intima correlao que existe
no seio de uma sociedade entre a condio das mulheres e o progresso da
civilisao depende de uma outra correlao no menos intima que existe
entre a mulher e a cozinha. O principal agente do temperamento de um
povo, do seu caracter, da formao das suas idas,  a sua alimentao.
 principalmente pela sua inflencia na cozinha que a mulher civilisada
governa o mundo e determina o destino das sociedades.

Em Londres os mais importantes jornaes, como a _Quaterly Review_, teem
chamado para este assumpto a atteno dos poderes publicos e da
iniciativa particular por meio de muitos artigos successivos cerca da
regenerao da cozinha, da arte de jantar, do estudo comparativo das
cozinhas dos differentes pvos, etc.

A Inglaterra comprehendeu finalmente que a circumstancia de no saberem
as suas mulheres fazer bom caldo constituia uma inferioridade nacional e
compromettia o destino do povo inglez. Para remediar este mal, que
obstava ao desenvolvimento e ao aperfeioamento physico e moral dos seus
habitantes, a Inglaterra fundou, em 1876, um notavel estabelecimento
publico de educao feminina intitulado _Escola nacional de cozinha_. O
numero das alumnas matriculadas na nova escola subiu rapidamente a cerca
de duas mil. Para satisfazer as necessidades do ensino foi preciso
estabelecer no menos de vinte e nove succursaes da escola de
cozinheiras. Entre as alumnas que frequentam essas escolas figuram
meninas das mais aristocraticas familias da Inglaterra. Algumas esto
inscriptas como simples ouvintes e assistem aos trabalhos tomando as
competentes notas nos seus cadernos; muitas outras atam o avental e
descem aos processos indo trabalhar alegremente  banca das operaes,
ou junto do fogo, vigiando a cassarola e o espeto.

Um s facto basta para evidenciar a vantagem d'esta especie de ensino na
economia domestica: As classes de cosinha da instituio britanica esto
divididas em varias seces dependentes do oramento a que as familias
teem de cingir as suas despezas; ha uma seco destinada a ensinar os
meios de alimentar do modo mais hygienico e mais agradavel uma familia
que no possa applicar  cozinha mais que uma verba de 1$600 ris por
semana! Em Portugal to descurado est este importante assumpto que, no
obstante a fertilidade do nosso solo e a benignidade do nosso clima, 
inteiramente impossivel estabelecer com 1$600 ris por semana um
conveniente regimen alimenticio para uma familia de quatro pessoas.

O curso de cozinha nos collegios portuguezes deveria ser organisado
praticamente como na Inglaterra, ensinando-se s alumnas o valor chimico
das principaes substancias empregadas na alimentao, o seu preo
ordinario no mercado, a sua aco physiologica sobre o nosso organismo,
o modo de variar os jantares segundo as occupaes de cada dia, segundo
o temperamento de quem tem de os assimilar, e segundo as estaes do
anno em que elles houverem de ser feitos.

       *       *       *       *       *

No curso de contabilidade do terceiro anno dos collegios, as alumnas
deveriam aprender a escripturar methodicamente a receita e a despeza da
familia, suppostos dados rendimentos, desde os mais estreitos at os
mais avultados, calculando desde o principio do anno o modo de manter o
balano entre as posses e os gastos, lanando em conta de receita todos
os proventos e fixando-se nas verbas de despeza proporcional nos
differentes capitulos oramentaes: a renda da casa, a acquisio e os
reparos da mobilia, o vestuario, o servio, a illuminao, a lavagem, as
despezas imprevistas, e o _fundo de reserva_--verba essencial,
indispensavel em todo o oramento, grande ou pequeno, de toda a casa
sabiamente dirigida.

       *       *       *       *       *

Fortalecida com a educao feita n'estas bases, esboadamente expostas,
a mulher ter dado o primeiro passo, mas o passo definitivo para a sua
verdadeira emancipao. Porque emancipar-nos no  em ultimo resultado
mais do que isto: habilitamo-nos a prestar na sociedade servios
equivalentes ou superiores quelles que recebemos. Com a mulher
invencivelmente armada com as aptides que requisitamos para que ella
seja a alma do governo domestico, o casamento deixa de ser a ruina com
que nos ameaa o proloquio vulgar: _uma casa  uma loba._ No; a casa,
dirigida como a mulher deveria aprender a dirigil-a,  a ordem,  o
methodo,  a economia,  a estabilidade,  a fixao do destino,  o
baluarte do homem. A funco da mulher bem educada  essencialmente
protectora. Na lucta da vida por meio da alliana conjugal e da ligao
domestica, o homem  a espada, a mulher  o escudo. O fim da educao
feminina  compenetrar a mulher da responsabilidade da sua misso e
fortificar-lhe o brao que tem de ser o nosso amparo querido, o nosso
doce refugio.

Se a mulher imagina que o casamento, seu natural destino,  um facto
dependente dos encantos da sua belleza e do seu agrado, a mulher
engana-se deploravalmente. Os modernos trabalhos estatisticos provam com
factos n'um periodo do cem annos que o numero dos casamentos est sempre
em relao constante com o preo dos trigos. Se o po encarece os
casamentos diminuem. A' baixa no preo do po corresponde pelo contrario
uma elevao proporcional no numero dos casamentos. O casamento,
portanto  um facto moral estreitamente ligado no a um phenomeno
esthetico mas a um phenomeno economico. A base do casamento  a
economia. A economia domestica  a primeira das aptides com que deve
dotar-se a mulher.

       *       *       *       *       *

Em todos os paizes civilisados, por toda a parte do mundo, a educao da
mulher est passando por uma revoluo profunda suscitada pelos esforos
de todos os pensadores. A educao vulgar da mulher moderna
reconheceu-se que constituia um elemento dissolvente da dignidade e da
aspirao das sociedades contemporaneas. Na antiga Roma a doura, a
graa, a ternura, todos os attractivos sentimentaes que ainda hoje vemos
cultivados na educao das mulheres honestas eram attributos exclusivos
das cortezs. Um critico notou como nas comedias de Plauto as matronas
no conhecem as effuses e os arrebatamentos da paixo; no so timidas
nem scismadoras; tem o ar decidido, fallam em tom firme e viril. As
meninas ricas eram educadas em casa com seus irmos por escravos
instruidos e letrados; recebiam as mesmas lies e estudavam nos mesmos
livros. As pobres iam s escolas publicas, no Forum, juntamente com os
rapazes, como actualmente acontece nos Estados Unidos.

Na idade mdia, quando os bomens, dedicando-se inteiramente ao officio
das armas, no tinham tempo de cultivar o espirito pelo estudo, as
senhoras da alta sociedade, como vemos nas condessas de Champagne, na
me de Godofredo de Bulhes, na amante de Abeilard, recebiam a mais
esmerada educao litteraria. Sabiam o latim, conheciam os antigos
poetas e os moralistas e estudavam os elementos da physiologia e da
meteorologia nas obras dos arabes.

Em todas as civilisaes a mulher bem educada se habilita para
desempenhar o papel que lhe cabe na harmonia social.

Na nossa poca de fria analyse, de implacavel utilitarismo, a primeira
das obrigaes da mulher consiste em tornar-se util. Ser util  para
ella o grande segredo de ser querida, de ser forte, de ser dominadora.
Toda a educao feminina tem de partir d'este principio.

       *       *       *       *       *

A alta cultura do espirito, to necessaria  mulher para que ella assuma
na sociedade a parte do poder a que tem direito, no se ministra nas
escolas, adquire-se pelo esforo e pela applicao individual dirigida
por um criterio, por um methodo, por uma disciplina, que a mulher s
pde adquirir na grande escola pratica da vida domestica. Todas as
noes que nos possa ministrar o estudo das sciencias mais superiores
esto subordinadas para a sua assimilao no nosso espirito a esta noo
previa: a noo da responsabilidade e do dever. Ora essa noo
primordial s a adquire a mulher nas praticas da vida domestica.

O aperfeioamento intellectual das mulheres no s no  incompativel,
como algumas julgam, com a perfeita direco do _mnage_, mas antes
depende essencialmonte do grave estado de espirito que essa direco
impe.

Em Portugal, onde a sciencia do governo da casa  to lastimosamente
ignorada, vejamos quaes so as produces do espirito feminino, quaes
so os fructos da educao litteraria desalliada da educao domestica.

Os almanachs da sr. D. Guiomar Torrezo tem o grande valor historico
de serem o repositorio d'esses fructos.  por esses almanachs que a
posteridade tem de julgar do valor intellectual das nossas
contemporaneas.

Acabamos de folhear do principio ao fim um numero do _Almanach das
Senhoras_, que temos presente. Temos tambem presente a _Gazeta das
Salas_, egualmente redigida por senhoras. Deus nos defenda de que
qualquer estrangeiro procure julgar sobre estas produces litterarias
do estado do espirito feminino na sociedade portugueza! Em todas estas
colleces dos trabalhos intellectuaes das nossas mulheres--sentimos
dizel-o--no ha um s artigo grave, serio, meditado, revelando
conhecimentos praticos, aspiraes elevadas, pensamentos nobres. De
tantos problemas sociaes que affectam a condio da mulher na sociedade
contemporanea e que sollicitam a atteno d'ella, para serem resolvidos
pela parte mais interessada e mais compentente da humanidade, nem um s
foi julgado digno do estudo d'alguma das senhoras que fazem imprimir e
publicar os seus escriptos em Portugal! Estas senhoras produzem
versos--no como os de madame Hackerman, cujos poemas recentemente
publicados constituem uma revoluo na poesia moderna e so o grito mais
profundo e mais lancinante que ainda expediu no mundo a alma mais
sedenta de verdade e de justia,--mas sim trovas d'uma sentimentalidade
de segunda mo, sem ideal, sem paixo, d'uma pieguice grotesca.
Escrevem tambem pequenos contos ou novellas d'amores infelizes, cujos
personagens se tratam por excellencia e se requebram em artificios d'um
dandysmo, cuja legitimidade est longe de poder ser absolutamente
garantida, no dizemos j n'um congresso de _gentlemen_, mas n'um
simples tribunal de cabelleireiros. E  para nos dar estes lamentaveis
fructos da sua educao exclusivamente litteraria, que tanta menina
honesta sacrifica o tempo que devia consagrar aos nobres trabalhos do
_mnage_, tornando-se, em vez d'uma digna mulher util, apta para
acompanhar, para comprehender e para ajudar o homem, uma pobre e misera
creatura neutra, desorientada da vida real, incapaz de qualquer emprego
na vida pratica, cheia de falsas aspiraes, de desenganos e de tedios
permanentes.

Compare-se o _Almanach das Senhoras_, com as colleces estrangeiras
collaboradas por mulheres.  esse o melhor modo de reconhecer como a
educao pratica da _mnagre_, eleva o espirito, como a educao
litteraria do collegio portuguez o deprime e avilta.

O _Jornal das donas de casa da Allemanha_, tem aperfeioado
profundamente os costumes e os habitos da vida domestica.

Na Inglaterra o texto da grande _Revista das mulheres inglezas_ consta
de artigos de critica litteraria ou de costumes, de philosophia, de
physiologia, de economia politica e de economia domestica, de narrativas
de viagens, relatorios, estatisticas, receitas culinarias, noes
praticas. No ha um romance sentimental, nem uma poesia lyrica, nem uma
rclame de modas.

Taine cita no seu livro cerca da Inglaterra varios artigos de mulheres
publicados nas _Transactions of international association for the
promotion of social sciences_. Os artigos intitulam-se:

_Escolas districtaes para os pobres na Inglaterra_, por Barbara Collett;

_Applicao dos principios de educao s escolas das classes
inferiores_, por Mary Carpenter;

_Estado actual da colonia de Mettray_, por Florence Hill;

_Estatistica dos hospitaes_, por Florence Nightingale;

_A condio das mulheres operarias em Inglaterra e em Frana_, por
Bessie Parkes;

_A escravatura na America e sua influencia na Gr-Bretanha,_ por Sarah
Remand;

_Melhoramento das nurses nos districtos agricolas,_ por mistress
Wigins; _Relatorio da sociedade fundada para fornecer trabalho s
mulheres,_ por Jone Crowe, etc..

Todas estas auctoras, de quem Taine obteve informaes pelos muitos
amigos que tinha na sociedade ingleza, eram mulheres de casa, passando
uma vida extremamente simples e retirada.

Assim temos que na Inglaterra e na Allemanha a escola das _mnagres_
produz as mais graves e mais importantes escriptoras. Em Portugal a
educao literaria, segundo os programma dos lyceus, nem d _mnagres_
nem d literatas.

Se o ensino das mulheres se reformasse de modo que dsse alguma coisa?...





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Politica, das Letras e dos Costumes, by Ramalho Ortigo and Ea de Queiroz

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and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
https://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at https://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org

Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit https://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including including checks, online payments and credit card
donations.  To donate, please visit: https://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.

Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.

Most people start at our Web site which has the main PG search facility:

     https://www.gutenberg.org

This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.

*** END: FULL LICENSE ***

