The Project Gutenberg eBook of A saudade portuguesa This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included with this eBook or online at www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you will have to check the laws of the country where you are located before using this eBook. Title: A saudade portuguesa divagoçöes filológicas e literar-históricas em volta de Inês de Castro e do canter velho "Saudade minha - Quando te veria?" Author: Carolina Michaëlis de Vasconcellos Release date: October 13, 2026 [eBook #79776] Language: Portuguese Original publication: Porto: Renascença Portuguesa, 1914 Other information and formats: www.gutenberg.org/ebooks/79776 Credits: The Online Distributed Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was produced from images generously made available by The Internet Archive) *** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK A SAUDADE PORTUGUESA *** Direitos reservados A SAUDADE PORTUGUESA DA AUTORA Geschichte der portugiesischen Litteratur (Historia da Litteratura portuguesa).--1894. Cancioneiro da Ajuda--2 vol.--Halle, 1904. Randglossen zum altportugiesischen Liederbuch («Cotas ao Cancioneiro medieval português»).--Separatas da _Zeitschrift_.--1896 a 1905. Uma obra inédita do Condestavel D. Pedro de Portugal (Tragedia de la insigne reyna Dona Isabel).--Madrid, 1899. A Infanta D. Maria de Portugal e as suas damas (1521 a 1577).--Pôrto, 1902. Poesias de Francisco de Sá de Miranda.--Halle, 1885. Os Lusiadas, de Camões. Nova edição, segundo a do Visconde de Juromenha.--Leipzig, 1873. Vida e Obra de Luís de Camões. Versão anotada do original alemão de W. Storck.--Lisboa, 1898. Mestre Giraldo e os seus tratados de Alveitaria e Cetraria.--Lisboa, 1911. Investigações a respeito de Sonetos Portugueses e Castelhanos.--Paris, 1911. Algumas palavras a respeito de púcaros de Portugal.--1905. As capelas imperfeitas e a lenda das divisas gregas.--Pôrto, 1905. Notas Vicentinas.--Coimbra, 1912. Novos estudos sobre Sá de Miranda.--Lisboa, 1911. _CAROLINA MICHAËLIS DE VASCONCELLOS_ A SAUDADE PORTUGUESA DIVAGAÇÕES FILOLÓGICAS E LITERAR-HISTÓRICAS EM VOLTA DE INÊS DE CASTRO E DO CANTAR VELHO «SAUDADE MINHA--¿QUANDO TE VERIA?» [Illustration] EDIÇÃO DA RENASCENÇA PORTUGUESA PORTO Um estudioso do reino vizinho--J. Gomez Olerin--prepara uma edição, com aparato crítico, de um dos numerosos e belos dramas, escritos no século XVII por distintos poetas castelhanos sobre matéria portuguesa. E consultou-me, ha dias,[1] àcerca de um _Intermezzo_ musical nele contido: _Intermezzo_ destinado, como os demais, a produzir efeitos líricos de Ópera, segundo o gosto calderoniano, dominante no tempo de Felipe IV; mas neste caso especial escolhido de propósito na lírica _occidental_, afim de caracterizar como essencialmente português o assunto e o ambiente tragicamente sentimental e saudoso da respectiva peça.[2] Desde já direi que a canção foi colhida nas _Rimas_ de Camões; que a peça é relativa a Inês de Castro; saiu da pena florída do fértil e engenhoso autor do _Diablo Cojuelo_: Luís Vélez de Guevara,[3] e tem o titulo bem apropriado de _Reinar depois de morrer_ (_Reinar despues de morir_).[4] Os letrados costumam citá-la, nos seus Catálogos bibliográficos inesianos, dentro e fóra da península, como uma das melhores joias do teatro peninsular. Mas em regra esquecem em Portugal de juntar a essa avaliação a nota complementar e importante que, transposta em vernáculo, ela fez as delícias do público português, ainda nos séculos XVIII e XIX.[5] Outra particularidade distintiva é--conforme logo se reconhece na sugestiva epígrafe proverbial--que a peça é uma das tragédias de _Inês_ em que poetas de vulto entreteceram a tradição histórica com a tradição poetica, fabulada, da realmente grande e ostentosa paixão do iracundo Justiceiro, neto de D. Denis e de Santa Isabel, em que encarnara o amôr português na sua forma medieval: mixto singular de ternura e de rudeza, ou mesmo de ferocidade.[6] * * * * * Por ser assim aconteceu que, tencionando falar só da aludida canção portuguesa intercalada, distinguindo entre o lindo e sonoro Mote português, velho e popular: _Saudade minha, ¿quando te veria?_ ou, á antiga: _Suidade minha ¿quando vos veria?_ e as diversas _Voltas_, modernas e artisticas, em que poetas quinhentistas e seiscentistas o parafrasearam, ocupei-me tambem de Inês de Castro, na história e na literatura peninsular, assim como da _Saudade_ como ideia e como vocabulo,--tocando ainda, de leve embora, em alguns dos _Apócrifos_ mais afamados da poesia portuguesa afim de novamente insistir na opinião que as _Cartas de Egas Moniz_--aceites em geral como legítimas--são falsificações tão queridas, só por serem inspiradas no sentimento doce-amargo da _Saudade: the joy of grief_, como dizem os Ingleses. FOOTNOTES: [1] Este estudo foi escrito no mês de Junho de 1913, para a Revista _Dionysos_. Como ela morresse antes do tempo, entreguei-o aos patriotas que no Porto tentam reacender o facho sagrado do _Renascimento_. Queira o leitor inteirar-se do que digo no _Post-Scriptum_, de Abril de 1914, e foi acrescentado ainda durante a revisão das provas. [2] Alêm do pequeno Cantar de que trato, ha no drama a que me refiro, diversas outras composições alheias, líricas. Uma é cantada com acompanhamento de instrumentos de camara (Acto II, Scena 1); outra, sem ele (II 2.). Uma _Glosa_ é recitada (II 7.). O lindíssimo Romance tradicional, vivo ainda hoje: _Donde vas, el caballero? Donde vas, triste de ti?_ é entoado nos bastidores (III, 8.) (Cfr. Nota 9). Finalmente, talvez haja reminiscencias de um romance velho, hoje perdido, _Polos campos do Mondego_, relativo à propria Inês de Castro, no Acto II, scena 2. A respeito desse veja-se C. M. de V., _Romances Velhos em Portugal_, Madrid 1907, p. 66-75.--Quanto à cantiga de amigo _Saudade minha_, é da boca da companheira de Inês que sai. Inês acompanha apenas a primeira repetição do Mote, como refram da Volta I, conforme exponho no texto. [3] Luís Vélez de Guevara († 1644) é autor não só da afamada Novela satírica, imitada esplendidamente por Lesage. Compôs acima de quatrocentas peças teatrais. Entre as mais notáveis, das que se conservam, ha de assunto português alêm de _Reinar despues de morir_ apenas _El Rey D. Sebastian_. As melhores são as de historia espanhola: _Si el caballo vos han muerto_ e _Más pesa el rey que la sangre_.--Vid. _Biblioteca de Autores Espanholes_ Vol. 45, e Barrera y Leirado, _Catalogo del Antiguo Teatro Espanhol_, Madrid 1862. Do _Diablo Cojuelo_ ha boa edição moderna de A. Bonilla y San Martin (Vigo, 1902). [4] Como sub-título costuma-se alegar _Dona Inês de Castro_. Ignoro em qual das edições este é seguido do acrescento _La Garza de Portugal_. Este sobrenome, (abreviatura de _Colo de Garça_, que ocorre duas vezes no texto) foi transformado em apelido, nas reimpressões, defeituosas, de que me sirvo. Pelo menos na de Paris (Baudry, 1838) lê-se _Dona Inês de Castro Coello de Garza_ (I 5 e II, 9). Na mente de Guevara o subtítulo era _Inês laureada_. É o que deduzo da proposição final, dirigida, segundo o costume da época, ao público pelo último dos representantes: _Esta es la INÊS LAUREADA con que el poeta da fin a su tragedia en quien pudo reinar despues de morir._ É repetição quasi textual do que pouco antes el-rei D. Pedro dissera ao seu séquito. Os editores descartariam o sub-título por ele lembrar demasiadamente a _Nise Laureada_ de Jeronimo Bermúdez. [5] Nem todos sabem que a _Inês de Castro_ do Português Nicolau Luís, iniciador do teatro de cordel, é mera tradução de _Reinar despues de morir_, e que a scena final desse drama, relativa à coroação da defunta teve de ser acrescentada à _Nova Castro_ de J. B. Gomes,--por exigencia do publico. Tanto gostavam dela. Na 5.ᵃ ed. de 1830 essa scena é atribuida a J. J. Bordallo. Innocencio da Silva, _Diccionario Bibliografico e Biografico_ Vol. VI 286; T. Braga, _Curso_ p. 336 e sobretudo Sanchez Moguel, _Reparaciones Historicas_, p. Madrid 1894 p. 141. P. S.--Nunca duvidei de que o drama de Guevara fosse representado em Lisboa, mas só ha dias que possuo a prova: um _Soneto a uma Representação de Reinar despues de morir em Lisboa_. Encontrei-o numa Miscellánea manuscrita da Biblioteca de Coimbra (N.ᵒ 408, f. 45). [6] Entre os autores dramáticos que se contentaram com meras alusões a esses acontecimentos ulteriores, avultam o Dr. Antonio Ferreira, Domingos Quita, e Manuel de Figueiredo. I Com respeito aos dramas de _Inês_, considero como tradição histórica não só o amor de perdição do herdeiro da coroa, e ao seu desenlace sangrento; mas tambem aos seus reflexos de alêm-tumba. Isto é ao iníquo intercâmbio dos executores portugueses da ordem régia contra expatriados castelhanos, e à tremenda vingança neles realizada. Chamo histórico tambem, tanto ao cortejo funebre imponente de Coimbra a Alcobaça, como ao juramento solene, ou sacro perjúrio, enunciado pelo filho de Afonso IV, depois de entronado, com relação ao seu casamento clandestino; e à configuração de Inês, na estátua sepulcral jazente, com coroa de rainha. Tres actos consecutivos, intimamente ligados entre si e com o quarto e último: o da vingança tomada nos algozes.--Actos cujo conjunto é único na história de todas as nações, e bem merece a fórmula de «grande desvairo», cunhada por Fernão Lopes.[7] São os factos, numa palavra, narrados com eloquência, mas sem exageros, por esse patriarca dos historiadores portugueses que, pela sua vez, se baseia em escritores mais antigos e em documentos coevos.[8] A narração dele tem, portanto, «fundamento sobre a verdade», mesmo se a tradição popular houver começado, quer na vida de Inês, quer na noite do seu enterro, a envolver os factos no seu manto diáfano.[9] Fabulosa, fantasiosa é, pelo contrário, a dramática fusão e transformação dos tres actos fúnebres, distanciados na realidade, em um só, verdadeiramente lúgubre: _a coroação do_ cadáver que fora exumado.--Seis anos após o prematuro fim da _mísera e mesquinha_ _que despois de ser morta, foi rainha!_ _die nach dem Tod als Kön’gin trug die Krone!_[10] Transformação de resto quasi inevitável, e de tal intensidade poética que foi sobretudo ela que se vulgarizou dentro e fóra do país, e inspirou poetas e pintores.[11] Fantasiosa tambem, mas sem tanto alcance, embora muito mais bela, é a lenda: que Pedro mandara colocar o túmulo de Inês, não junto do seu, lado a lado, no cruzeiro de Alcobaça, como realmente fizera, mas pés contra pés, para que no momento de acordarem ao som da trombeta do Juizo Final, ambos pudessem, mais uma vez, confundir os seus olhos:--os pretos de azeviche do moreno Justiceiro com os verde-claros da loira amada, por cuja têz branca corria o sangue azul, gótico, de D. Guterre, tronco dos Castros.[12] Fábula é grande parte do que se conta da _Quinta das Lágrimas_, da _Fonte dos Amores_,[13] e dos canos de água que levavam a correspondência dos dois amantes, tal qual séculos antes, na Bretanha céltica, as missivas de Tristão a Isolda. Fábula é a tardia afirmação de semi-eruditos: que o cruel e gaguejante príncipe fôra trovador e autor de certas Cantigas, de sentimentalidade pálida, convencional, cortesanesca, ao modo do século XV, ou em formas que são posteriores ainda.[14] De todas essas ficções, alguma parte passou aos dramas inesianos em geral; e em especial à obra de Luís Vélez de Guevara. Conforme já disse é sobretudo a lenda lôbrega da _Coroação_ que aproveitou. Essa constitue a última e impressiva scena da peça. * * * * * Em poucas palavras direi como esta lenda se desenvolveu, a meu vêr. Em germe já estava nos tres feitos históricos em que Pedro desabafara, rude mas sinceramente, os seus impulsos vingativos.[15] Outros o reconheceram antes de mim.[16] Mas a scena, de inventiva dantesca, não desabrochou logo na primeira tentativa de narrar em verso a desdita de Inês. Nas relativamente curtas Trovas a modo de rimance, que devemos a um dos sucessores de Fernão Lopes, ao Cronista de D. João II e coleccionador do _Cancioneiro Geral_, diz ele apenas singela e _criteriosamente_: Em todos seus testamentos[17] a decrarou por molher; e por s’isto melhor crêr; fez dous rricos moymentos em qu’ambos vereys jazer: rey, rraynha, coroados, muy juntos, nam apartados no cruzeyro d’Alcobaça.[18] Nas estrofes que precedem este trecho, Garcia de Rèsende conta a vingança executada em aqueles que mataram Inês, e alude ao facto de seus filhos serem infantes e ascendentes de reis e imperadores, em virtude de declarações e instrumentos régios com força de lei: Outra moor honrra direy: como o princepe foy rrey, sem tardar, mas muy asynha a fez alçar por rraynha: sendo morta, o fez _por ley_.[18] _Por ley!_ E não exumando e coroando o cadáver, em representação teatral. Na tragédia do Dr. Antonio Ferreira, primeira das inesianas, e primeira europeia que trata, ao modo grego, com córos, de um assunto histórico, moderno e nacional, ha igualmente na scena do fim, só vagas promessas de Pedro: _Tu serás cá Rainha, como fôras_[19] (Entendo: _como terias sido, se vivesses_) _Teus filhos, só por teus, serão Infantes._ Lembro a quem me lêr que essa peça foi escrita antes de 1569, provavelmente em 1557, e talvez representada e publicada então, embora não se saiba hoje de impressão anterior à de 1589.[20] No famigerado Episódio dos _Lusiadas_ que, mais ainda do que o drama aludido, espalhou a fama de Inês através do mundo culto, tambem não ha senão alusões circunspectas. Alêm do verso alado da _mísera e mesquinha_, o outro que chama a Pedro _aquele que despois a fez rainha._[21] Não foi portanto nas maravilhosas oitavas da epopeia, foi nos hendecassílabos menos poéticos de Ferreira que a ideia, não só da _Coroação_, mas a de um _tálamo-funebre_, foi haurida (antes da união passageira dos dois reinos) por um dramaturgo castelhano que nos deu uma _Nise Coroada_ ou _Laureada_ como Parte Segunda, independente, da sua _Nise Lastimosa_. Peça que felizmente ficou única; não teve quem a imitasse. * * * * * Na _Nise Lastimosa_, que é tradução livre do drama de Ferreira, como de ha muito está provado definitivamente,[22] o autor Jerónimo Bermúdez--António da Silva no frontispício da edição-príncipe[23]--acrescentara aos ditos do autor português apenas dois hendecassílabos, como prenúncio da continuação planeada, dizendo: Acá serás tu reina como fueras si el cielo tu valor no envidiara;[24] Tus hijos solamente por ser tuyos seran reconocidos por infantes. TU INOCENTE CUERPO SERÁ PUESTO EN TÁLAMO REAL. Na _Laureada_, impressa juntamente com a _Lastimosa_, de 1575 a 77,[25] é que o clérigo galego-castelhano, que se familiarizara com o truculento assunto português, desenvolve, e exalta, com aquela retórica empolada que um pouco mais tarde se fez gongorismo, em cinco Actos ou Scenas, tambem com coros, tanto o dito do sarcófago-talamo, como os outros em que D. Pedro ameaçara o rei seu pai com rebeldias, e com estranhas crueldades os assassinos de Inês. Eis o _Argumento_, que precede o drama: I--Muerto el rey don Alonso, hereda el príncipe su hijo, llamado como su cuñado el de Castilla y como el otro de Aragon. Viene á coronarse á Coimbra, donde lo suelen hacer los reyes (?).--II e III--Primero que reciba la corona (?) entrega tres Castellanos al rey D. Pedro de Castilla en trueco de los tres alevosos; _y desentierra á D. Inês de Castro y se casa publicamente con ella y la corona por reina_.--IV--Traenle de Castilla á Álvaro Gonzalez merino mayor, que fué él que le dió las puñaladas y á Pero Coello, porque Diego Lopez Pacheco acogióse à Aragon donde murio miserablemente.--V--De los dos hace justicia mandandoles en su presencia arrancar los corazones, al uno por las espaldas y al otro por los pechos. O texto de Bermudez, que merece o título de «Inês vingada», é irrepresentável e repugnante, apesar da altissonância das palavras. Por isso mesmo foi dentro em breve substituido nos palcos peninsulares por outros muito melhores em que a Coroação do cadáver forma não o assunto todo, mas apenas a scena final. Tido em conta de facto verdadeiro pelo público, essa Coroação passou à historiagrafia oficial--por intermédio do fabulista-mór da historia e da literatura nacional: Manuel de Faria e Sousa. Esse autor, benemérito como Camonista, embora tambem nessa qualidade inventasse bastante amenizando com fábulas a vida do Poeta, introduziu a Coroação de Inês na sua _Europa_, no _Epitome de historia portuguesa_, e no Comentario dos _Lusiadas_ (1639)--Canto III. Aí afirma afoito, ou antes isento de escrúpulos, haver visto documentos fidedignos relativos a tal acto. Documentos desconhecidos a Fernão Lopes, a Lopez de Ayala (o Cronista de Pedro o Cruel de Espanha), a Garcia de Resende, ao Dr. Antonio Ferreira e a Luis de Camões--isto é a todos quantos até então se haviam ocupado de Inês. E tambem a todos os posteriores historiógrafos. Antes dessa propagação oficial da Coroação, que fôra inventada pelo dramaturgo castelhano, ela já tinha dado entrada em várias obras poéticas: Numa balada do Romancista Garcilaso de la Vega (1587)[26]; em um poema épico, em seis cantos de Juan Suárez de Alarcon, entitulado _La Infanta Coronada_ (1606)[27]; e naquela nova _Tragedia famosa de D. Inês de Castro, Reina de Portugal_, a que acima aludi (1612).[28] O autor, Licenciado Mexia de Lacerda, teve de resto a lealdade de citar como modelo que imitara, a _Nise_ de Bermúdez.[29] Entre meras alusões à coroação apontarei uma de Juan Ruiz de Alarcon, impressa em 1627. Em uma das suas comedias de carácter, o notabilíssimo inventor do tipo do «Mentiroso», diz: _Reina de Portugal despues de muerta fué la divina Inês jurada, de telas de oro y de dolor cubierta._[30] Guevara finalmente, cujo drama me leva a estas observações, avaliando com acerto os limites positivos e estéticos de representações teatrais, precipita e condensa habilmente, como Lacerda, os acontecimentos posteriores à morte de Inês. Segundo ele, Afonso o Bravo falece _imediatamente_ depois da degolação, ainda antes de D. Pedro ter sido informado do trágico sucesso, de sorte que _como rei_ pode, acto contínuo, dar ordens de um lado para o enterro, do outro lado para a vingança e coroar _simbolicamente_ o corpo ainda não sepulto da amada (em presença do seu aliás deminuto séquito, que realiza o beija-mão fúnebre). Suprimindo as ordens, translado os versos relativos à Coroação: CONDE. ¿Donde vas, señor? PRINC. A ver á mi dona Inês hermosa, á mi difunta esposa, á la que _reina ha de ser_. * * * * * (Descubren á dona Inês muerta sobre unas almohadas) * * * * * ¿Como és posible (ay de mi!)? ¿Como, como puede ser que quien á mi me dió el ser te diese la muerte á ti? Por su cuello (pena fiera!) corre la purpura helada, en claveles desatada! * * * * * Nuño de Almeida, á Violante de mi parte la decid que os entregue una corona que yo á mi esposa la dí cuando me casé, en señal de que reinaria feliz si viviera... ... (Criados con una corona, se la ponen a D. Inês y besanla la mano) NUÑO. Esta es la corona de oro. PRINC. De otra manera entendi, que fuera Inês coronada. Mas pues no lo consegui en la muerte se corone. Todos los que estais aqui, besad la difunta mano de mi muerto serafin... Yo mismo seré el rey de armas;-- _Silencio, silencio_,--oid: ¡Esta es la Inês laureada! esta es la reina infeliz que mereció en Portugal _Reinar despues de morir!_ Dos sucessores basta referir que alguns se cingiram ao exemplo de Bermudez, Mexia de Lacerda e Guevara, admitindo a _Coroação_, ao passo que outros, menos crédulos e mais históricos, seguiram o Dr. Ferreira, Garcia de Resende e Fernão Lopes. Entre os historiadores, os do século XVI aceitaram unánimes como facto provado o casamento e a Coroação, fiados nas afirmações oucas e vans de Faria e Sousa. Isso vale tanto dos continuadores da _Monarquia Lusitana_ e dos cronistas de Alcobaça como do renovador da _Crónica de D. Pedro I_ (o P.ᵉ José Pereira Bayão). Mesmo escritores do nosso tempo «respeitaram» a «Tradição»,--sem se atreverem a desmascarar essa Esfinge, e a resolver os enigmas que ela se esforça a propôr aos Édipos modernos.[31] FOOTNOTES: [7] «Semelhante amor qual el rei D. Pedro houve a D. Inês raramente foi achado em alguma pessoa». É verdade, com quanto em nação alguma faltassem principes e reis que se apaixonaram «onde não deviam». Nem faltam favoritas de reis e príncipes, sacrificadas à razão de estado ou ao bem geral e que com a vida pagaram o lindo e doce engano. Baste citarmos a Inês austríaca _Agnes Bernauer_, piedosamente enaltecida por escritores notaveis em dramas e novelas, tal qual a Inês portuguesa. Nomeio as tragedias de Friedrich Hebbel (1855); A. Boettger, (1845) e Melchior Meyr (1862). Pessoalmente, eu não posso esquecer que depois de Inês veio Teresa Lourenço. E só o posso perdoar porque essa foi a bemaventurada mãe de D. João I--figura em tudo superior aos filhos de Inês. Os documentos falam ainda de outras donas e donzelas que despertaram o interesse momentaneo de D. Pedro. Só na poesia ele é o viuvo inconsolavel. Cfr. todavia Anthero de Figueiredo _D. Pedro e D. Inês_ p. 224 e 294. [8] A _Cronica de D. Pedro_ de Fernão Lopes, está hoje accessivel a todos, na reimpressão barata da _Biblioteca de Clássicos Portugueses_ (Lisboa 1895). A de _D. Afonso IV_, em regra atribuida a Ruy de Pina, deve sair tambem nela. Os documentos encontram-se na _Cronica_ do Padre Pereira Bayão e na _Historia Genealogica da Casa Real_. [9] De proposito digo a _tradição_. Quanto à _poesia_, não ha no Romanceiro português nenhum texto relativo ao caso triste e digno de memoria, que seja popular. Sòmente as belas Trovas de Garcia de Rèsende. O romance _Polos campos do Mondego_, a que aludí na Nota 2.ᵃ, se existiu, já não _subsiste_. É por isso que os castelhanos que dramatizaram o tragico sucesso, como Guevara e antes dele Mexia de Lacerda, intercalaram nas suas peças outro Romance relativo a uma amante degolada: o já citado, que principia _Donde vas, el caballero? donde vas, triste de ti?_ É o que em Portugal se chama _Bernal Francês_, (2.ᵃ Parte); o _Gran-Soldado_ na Galiza; _La Aparicion_ nas Asturias; _La Condessa Muerta_ em Catalunha. Por causa da sua intercalação em dramas inesianos, ha lá fóra quem o trate de _Romance de D. Inês de Castro_. (Vid. A. Schaeffer, _Geschichte des Spanischen Nationaldramas_ (Leipzig 1890)). Quanto ao _Romance Donde vas_, veja-se um artigo meu na _Revista Lusitana_ II 222, que nem de longe é exhaustivo. [10] _Lusíadas_ III, 120,--_W. Storck, Saemmtliche Werke des Camoens_, Vol. VI. [11] Ha diversos Catalogos das obras que Inês inspirou a poetas e pintores etc. Extensa, documentada e correcta é todavia apenas a _Bibliografia Musical e Coreografica_ (italiana) de Manuel P. P. de Almeida Carvalhaes (Lisboa 1908).--As restantes bibliografias são úteis, mas incompletas, e de modo algum isentas de erros. Tenho em mente os apontamentos soltos de Bernardes Branco; os de Karl von Reinhardstoettner; o _Catalogo Camoniano_ de T. Braga; o cuidadoso de Brito Aranha; e o resumo de A. de Figueiredo nas Notas do seu veemente romance que realmente merece a classificação de «historia posta em arte». Não completo as listas, nem emendo os erros, porque passei os meus materiais a um joven candidato alemão, que tem em obra uma dissertação sobre os dramas de Inês, lusofilo de Münster-in-Westphalen, onde desde Schlueter e Storck florescem os estudos portugueses. Espero poder em breve dizer mais alguma coisa do trabalho de Th. Heinermann. Em outra monografia alemã, distribuida ha pouco, camoniana e não inesiana, ha uma Nota compacta sobre dramas dedicados a Inês na Alemanha. Entitula-se: Dr. Wilhelm Wilmsmeier, _Camoens in der deutschen Dichtung des 19 Jahrhunderts. Ein Beitrag zum Künstler. Drama_, Erfurt 1913. [12] Destes pontos todos trata-se lùcidamente, na Memoria tão belamente ilustrada, de M. Vieira Natividade: _Ignêz_ (sic) _de Castro e Pedro o Crú per ante a iconographia de seus tumulos_ (Lisboa 1910).--Pouquissimos reparos tenho de fazer ao texto. Um deles, de ordem geral, já o enunciei diversas vezes com relação a outras publicações portuguesas. O Sr. Natividade quer provar que o escultor-chefe, guiado pelo próprio D. Pedro, nos deu representações fidedignas de scenas verídicas, com absoluto rigor historico. Julga portanto não só possivel mas necessário que um artista que põe historia em arte se cinja estreitamente aos factos. Como se fosse facil apurar factos com objectividade! Como se o génio não tivesse o dever de eliminar do positivo tudo quanto é accidental! Como se fosse possivel transformar a natureza em arte sem esse processo de idealização! Como se desde Horacio, e antes de Horacio, não houvessem existido as licenças poeticas! _Pictoribus atque poetis quidlibet audendi semper fuit aequa potestas._ Quer-me parecer que no procedimento do ilustre Alcobacense ha inversão da regra que é necessario proscrever a poesia da historia. E acho curioso que exactamente neste país, onde todos em geral costumam sacrificar nas aras da fabula, se queira usar de tal rigor anti-estético com os que são fabuladores _ex-oficio_. Mesmo o maior genio português, pregoeiro fiel das virtudes e dos defeitos nacionais, e que soube realmente transformar em poesia a historia portuguesa, tinha ou ostentava horror às façanhas _fantasticas, fingidas, mentirosas de um Ariosto._ O outro reparo, ou a outra dúvida refere-se ao modo do assassinato de Inês: _degolação_, segundo o intérprete das esculturas, e _punhaladas_, segundo a opinião geralmente seguida. [13] Varios espiritos criteriosos já conheceram o que ha de fantasioso nas tradições relativas à _Fonte das Lagrimas_ etc.--Umas páginas críticas, que eu lhe dediquei num artigo destinado à _Arte e Natureza em Portugal_ ficaram inéditas e perderam-se. [14] Provei na _Historia da Literatura Portuguesa_ (§ 74, 75 e 103), que os versos atribuidos a _Pedro o Crú_ não podem ser obra dele. Mas como ela esteja redigida em alemão, e pouco acessível, tenciono expôr a materia oportunamente em português, num estudo sobre os _Apócrifos da Literatura Portuguesa_. Anthero de Figueiredo introduziu uma dessas Cantigas, erradamente atribuidas ao amante de Inês, no lindo «Conto» que lhe dedica a p. 237, mas declara expressamente em Nota (p. 249 ss.) que não acredita na autenticidade dela, nem mesmo em qualquer actividade poetica do Cruel Justiceiro.--Ainda bem! P. S.--Da mesma opinião é Afonso Lopes Vieira, conforme se vê na maravilhosa _Conferencia_ sobre _Inês de Castro na Poesia e na Lenda_ que realizou no Claustro do Mosteiro de Alcobaça, em Agosto de 1913. [15] Justiçar, castigar... que é senão o desejo instintivo da vingança?--Prevenir o mal, acusarmo-nos a nós, e não aos outros da parte que temos nos erros das instituições defeituosas, que deixamos reger-nos, e remedia-los, eis como devia ser a Justiça ideal. [16] Quanto à _Coroação_ veja-se sobretudo o artigo crítico, bem-feito, de Sanchez Moguel. A. de Figueiredo (Nota 39) e Vieira Natividade (p. 84 s.) cingem-se aos resultados a que ele chegou. [17] Hoje conhece-se um só testamento de D. Pedro. O publicado por A. C. de Sousa nas _Provas da Historia Genealogica da Casa Real_, Vol. I p. 279 seg. Nele ha com relação aos túmulos a frase: _E mandamos deitar o nosso corpo dentro na Igreja do Mosteiro de Alcobaça no logo hu temos a nossa sepultura_.--No tempo de Garcia de Resende, parece que se sabia de mais redacções do Testamento. [18] _Cancioneiro Geral_ f. 222^b: Vol. III p. 624 da edição de Stuttgart. [19] A meu ver, falta aqui um verso, em que o Dr. Ferreira diria o que vai no texto, ou coisa equivalente. Talvez _se cruel o meu pai não te matasse_. Na versão castelhana ha, conforme mostro no texto, _se o ceu teu valor não envejara_. [20] Com relação à _Ines_ de Ferreira veja-se Julio de Castilho, _Antonio Ferreira_, Rio 1875, Vol. I, Cap. XII e XIII p. 216-242; J. M. Rodrigues _Fontes dos Lusiadas_, Cap. VI e C. M. de Vasconcellos, _Portugiesische Litteraturgeschichte_ § 134. [21] _Lusiadas_ III 132, 4. [22] Antes das provas dadas por Julio de Castilho, a verdade já fôra reconhecida e proclamada pelos proprios Espanhoes. Vid. Barrera y Leirado _Catálogo_ p. 38 e 39. [23] _Primeras Tragedias Españolas: Nise lastimosa y Nise laureada: Doña Ines de Castro y Valladares, princesa de Portugal_, compuestas por Antonio de Sylva; Madrid por Francisco Sanchez, 1577.--Tem Dedicatoria do Autor, e um Soneto laudatorio, de Diego Gonzalez Duran, o qual descobre o nome verdadeiro do autor, dizendo _Jeronimo Bermudez ha compuesto las tragedias de Nise, lastimosa eu su pasion, y en muerte laureada._ A pontuação é minha.--Vide Salvá, _Catálogo_ N.ᵒ 1117. [24] Já falei deste verso na Nota 19. Bem pode ser estivesse assim na redacção primeira da Inês de Ferreira. [25] Sirvo-me da 3.ᵃ impressão. Ela está no _Tesoro del Teatro Español_, Paris Baudry 1838, Vol. I. A 2.ᵃ está no tomo VI do _Parnaso Español_ de Sedano. [26] Duran, _Romancero_ N.ᵒ 1237. Coronóse el Portugues segun su fuero en Coimbra, coronando juntamente por reina y mujer legítima los huesos de Doña Ines que desenterrar hacia, funestas bodas y exequias celebrando un mismo dia; y de los tres dos cogiendo hizo dellos cruel justicia. Coimbra! e o talamo-funebre! O que por ora não apurei é se nas _Continuações_ e _Refundições_ da _Cronica de Espanha_ de Afonso o Sabio, que conduzem a historia portuguesa até 1450, se fala extensamente de Inês de Castro, e se elas se baseiam, como é provavel, em Fernão Lopes e Lopez de Ayala. As unicas noticias anteriores a esses dois que eu conheça, estão nos _Livros de Linhagens_. Muito laconicas naturalmente, são ainda assim dignas de atenção. Nos passos respectivos (_Portugaliae Monumenta Historica: Scriptores_ p. 221, 278, 286, 287).--D. Pedro é apelidado o Justiçoso e caracterizado como amador gracioso. Só num dos quatro passos se diz que casou com D. Inês de Castro. [27] Vid. Gallardo, _Ensayo_ N.ᵒ 3979. Esse poema épico foi impresso em Lisboa, onde Suarez de Alarcão ocupava um posto oficial. [28] Vid. _Biblioteca de Autores Españoles_ Vid. 43 e Adolff Schaeffer, _Das Spanische National drama_, Vol. I p. 273 e 285. [29] O drama _Ver y creer_ de Matos Fragoso, reimpresso no Vol. 47 da _Bibl. de Aut. Esp._, é citado ainda na Bibliografia inesiana de Anthero de Figueiredo como Segunda Parte de _Reinar despues de morir_. Mas ele não diz respeito a Inês de Castro, como já foi exposto por Sanchez Moguel. [30] _Siempre ayuda la Verdad_ (1627) Vid. _Bibl. de Aut. Esp._, Vol. 48 p. 232. Muito antes de Alarcon, antes mesmo da _Inês_, de Bermudes, e do Dr. Ferreira, já houvera referencias a D. Pedro como _amador gracioso_ em dramas peninsulares. Na _Eufrosina_ de Jorge Ferreira de Vasconcellos lê-se p. ex. na Jornada V, Scena 5, num gentil discurso sobre a principal inclinação dos Portugueses, o passo seguinte: _ainda despois da morte da Garça, ele_ (sc. D. Pedro) _quis apurar sua afeição com obras dela publicas_. [31] Tenho em mente entre outros o historiador Henrique Schaeffer. Vejam a versão portuguesa da sua _Historia de Portugal_ publicada por J. Pereira de Sampaio. Vol. I p. 357. (Porto, 1893). II Quanto à cançãozita portuguesa, entoada no drama castelhano de Vélez de Guevara, pelas duas protagonistas femininas, Inês e sua dama Violante, os problemas respectivos são de resolução relativamente fácil: Por que razão foi ela escolhida? De onde provêm? Como se deve ler? Haverá algo de positivo na lenda tardia que transforma o cruel Justiceiro em pálido trovador? Vejamos primeiro o texto, tal como foi impresso, na edição-príncipe de _Reinar despues de morir_.[32] Só emendo erros evidentes de letras e de pontuação, substituindo, alêm disso, os ss antigos e longos pelos curtos, assim como os _uu_ consoantes por _vv_. A Scena 6.ᵃ do Acto I representa-nos Inês de Castro na Quinta que habitava à beira do Mondego. Voltando fatigadíssima de uma caçada, triste e «saudosa» do seu «bem» ausente, ela repousa numa camilha, e adormece emquanto a dama vai cantando afim de mitigar as suas penas. Essa principia dizendo: VIOL. Descansa, señora, pues. INÊS. Todo disgusto me dá. VIOL. Quieres, señora, que cante para divertir tu pena, _una letra nueva y buena_ que te alegre? INES. Si, Violante. Canta, y no por alegrar mi pena, te lo consiento, sino porque a mi tormento quisiera un rato aliviar. _Canta Viol._ _Saudade minha, ¿quando vos veria?_ INES. Diga el pensamiento, pues solo él lo siente, adorado ausente, lo que de vòs siento, mi pena y tormento se trueque en contento con dulce porfia: _¿Saudade minha quando vos veria?_ _Canta Viol._ Minha saudade, caro penhor meu, ¿a quem direi eu tamanha verdade? a minha vontade de noite e de dia * * * * *[33] Saudade minha ¿quando vos veria?[34] A _Volta_ portuguesa, tal como está, não se compreende. A edição-príncipe, de que me sirvo (por favor do Ex.ᵐᵒ Snr. Olerin), fôra impressa em 1652, oito anos depois da morte de Guevara!--Editores posteriores tentaram corrigi-la. Mas não acertaram. Em lugar de porêm: _Á minha vontade_ (ou melhor ainda: _Na minha vontade_) _de noite e de dia_ _sempre vos teria!_ (ou _sempre vos veria!_) e como refram, repetido a meu vêr pelas duas damas, ou só por Inês: _Saudade minha ¿quando vos veria?_ eles puseram A minha vontade _cuidosa persuade_ de noite e de dia saudade minha quando vos veria. No último capitulo deste ensaio darei mais algumas indicações a respeito da deturpação evidente tanto da Volta castelhana, como da portuguesa. Por ora só direi que a edição de 1652 erra tambem, a meu vêr, em colocar a _Volta 1.ᵃ_ em boca de _Inês_, como se fosse um improviso dela. Acho preferível fazermos entrar a Amante de voz baixa apenas na _repetição_ do refram, que é um apelo ao bem ausente, como quem, meio adormecida, começa a sonhar. Reconhecendo isso, é que nas edições posteriores, em que substituiram _una letra nueva y buena_ por una _letrilla muy buena_, atribuíram positivamente a Inês e Violante juntas, a primeira repetição de _Saudade minha_, como refram. Em todo o caso, a _saudade_ de Inês,--o _ausente adorado_--o _caro penhor meu_--só pode ser Pedro, seu príncipe. * * * * * Na fôrmula _una letra nueva y buena_ creio reconhecer que Guevara _não_ pensava de modo algum em atribuir, com licença poetica, o Mote da _Saudade_, cantado por Inês, ao proprio príncipe. Não pensava em igualá-lo assim a Sancho I, que positivamente escrevera uma linda bailada para sua amada Maria Paes Ribeiro.--Nem houve entre os que se ocupavam de Pedro e Inês, quem se lembrasse de o fazer.--A scena transcrita passou despercebida aos que acreditam no talento poético do neto de D. Denis, e lhe atribuem pálidos e artificiosos versos forjados no século XVII, e outros verdadeiros, mas alheios, do século XV. * * * * * Sem entrar em pormenores que já dei, laconicamente, em outra parte[35] e conto dar de novo, ampliados, num estudo sobre os _Apócrifos_, assento aqui a notícia significativa que o autor dessa fábula foi o mesmo Faria e Sousa que propagou a lenda da Coroação. Ele abstraiu-a, de boa fé ou de má fé, mas sem sombra de crítica, de uma epígrafe do _Cancioneiro Geral_.[36] O _Rey Dom Pedro_, que aí figura como poeta e autor de uns quatro Vilancetezinhos, cortesanescos, sem valor, _a uma senhora_ designada com pessimo gosto como _seu deus segundo_, em imitação de Alvaro de Luna e D. Juan II de Castela, não é, não pode ser o Justiceiro. Um deles está escrito em espanhol. É outro _Rei D. Pedro_: o Condestavel, filho do Regente, expatriado depois do desastre de Alfarrobeira e falecido em idade juvenil como _Rei_ (intruso) _de Aragão_ (em 1467)--autor de mais alguns Vilancetezinhos, conservados em Miscelaneas castelhanas, e de tres Poemas filosóficos. Esses, de larga envergadura, foram redigidos em castelhano, porque foi em Castela que o desterrado teve de viver sete anos, e porque foi nesses sete anos que aprendeu a arte nova, dantesca, de poetar, adestrado pelo exemplo do Marquês de Santilhana.[37] As notícias do fabulador eram, de resto, tão vagas e tão pouco substanciaes, e estavam tão escondidas na _Europa_ e no _Epítome_,[38] que, acolhidas e propagadas por poucos curiosos[39], só no fim do século XVIII começaram a vir à superfície e a avultar pouco a pouco, com novas fábulas e hipóteses, rendendo finalmente uma edição in-folio, mas de poucas paginas, das _Poesias del rei D. Pedro de Portugal_![40] * * * * * Afim de tornar plausível o meu scepticismo e a minha atribuição, basta dizer que a forma fixa do _Vilancete_ vingou só no seculo XV. As formas poeticas usadas antes de 1355 são, pelo contrário, as provençalescas! A linguagem falada por Pedro e Inês era a galego-portuguesa dos trovadores e jograes, de que não ha vestígio nas obras latinizadas do Condestavel. Cantares de amor, cantares de amigo, cantigas de escarnho e maldizer, pastorelas, serranilhas, canções de gesta, lais de Bretanha, e raríssimas _cantigas de vilão_--eis os géneros que o Conde de Barcelos, bastardo de D. Denis, tio portanto do príncipe D. Pedro, ia coligindo, em vida de Inês, num enorme _Livro das Trovas_, salvando do olvido tudo quanto restava dos reinados de Afonso IV, D. Denis, o Bolonhês, Sancho Capelo, Afonso II, e Sancho o Velho.[41] A esse primeiro período da arte lírica peninsular de 1200 até 1350 podia pertencer apenas o _Mote_, a _Letrilha_, o _Cantarzinho_, o _Refram_, o _Distico_ sentido, sonoro e de caracter popular _Suidade minha, ¿quando te veria?_ Mais abaixo tentarei demonstrá-lo. Mas de modo algum podia pertencer a esse período, a _Volta_ portuguesa em forma de _Vilancete_ que Luiz Vélez de Guevara intercalou em _Reinar despues de morir_, e na qual ele é parafraseado. A Volta castelhana, essa é (salvo erro) obra, fraca, do proprio Guevara. A portuguesa, já o disse, saiu das _Rimas_ de Luís de Camões. Por ora direi apenas que tal hibridez, a junção de uma Volta castelhana a outra portuguesa, é desusada, sem ser única. Vou lembrar mais um caso; parecido, não igual. Caso duplamente importante, visto que é indício de peso, (se não for prova) das origens portuguesas de uma obra de fama universal, hoje existente só em redacção castelhana. E é de mais a mais, a quási única amostra de versos do 1.º período da lírica portuguesa que passaram ao 2.º, luso-castelhano. A obra de fama universal a que me refiro é o _Amadis_. A canção intercalada é a que diz Leonoreta fin’ roseta bela sobre toda fror, fin’ roseta non me meta en tal coita voss’amor. Escrita pelo trovador _João Lobeira_ conserva-se no Cancioneiro Colocci-Brancuti.[42] O processo adoptado pelo redactor castelhano foi o de traduzir (mal) duas estrofes do original, e de acrescentar outra, de tipo diverso (uma _décima do século_ XV), em substituição da terceira, portuguesa, que não se prestava a ser fácil e literalmente castelhanizada. * * * * * De hà muito eu conhecia o Distico velho e popular que dá ao «bem» ausente o nome carinhoso, triste e doce de «_Saudade minha_» expressando em seguida todos os dissabores da ausência na breve pregunta «_Quando te veria?_» muito singela, mas ainda assim quintessência, alfa e ómega, de todos os suspiros nostálgicos. Conhecia tambem algumas parafrases dele, e o verdadeiro autor da volta portuguesa, escolhida por Guevara, para caracterizar o amor de Inês. Por isso pude, sem tardar, transmitir ao Snr. Olerin um punhado de apontamentos, éditos, e inéditos.[43] Em forma concisa, bem se vê. Suficientes para o aparato crítico do drama espanhol. Insuficientes todavia para Portugal, onde de um tempo para cá poetas e filósofos se ocupam com fervor da psicologia da alma nacional, e do sentimento doce-amargo que lhes parece ser o traço mais característico da apaixonada ternura portuguesa. Mais uma vez com as mãos na enorme massa lírica peninsular, que já tantas vezes tenho revolvido, aproveitei o ensejo para, individualmente, acabar com aquelas parcelas da matéria, até agora acumuladas, que dizem respeito à _Saudade_ antiga. De propósito talhei este artigo de sorte que a sua essencia possa entrar no futuro em qualquer de tres estudos maiores em que, vagarosamente, vou trabalhando: quer seja no entitulado _Portugal na literatura castelhana_,[44] quer no _Cancioneiro Peninsular dos tempos antigos_, que está bastante adiantado,[45] quer num tratadito sobre a _Saudade_, que me fôra pedido pelo incansavel director da _Revue Hispanique_ para acompanhar aquela hoje já célebre _Carta do Conde de Portalegre sobre os mistérios da Saudade_,[46] que nos prova que, cá e lá, já em fins do seculo XVI a _Saudade_ era considerada quasi como filosofia ou religião nacional. Na ocasião não cheguei a redigí-lo, por não estar preparada a acompanhá-la com uma selecta do que em prosa e verso estava escrito a respeito dela. FOOTNOTES: [32] _Reynar despues de morir._ Comedia famosa de Luís Vélez de Guevara. _Comedias de los mejores y más insignes ingenios de Espanha._ Lisboa 1652. (f. 89^v.) Na Biblioteca Nacional de Madrid ha dois exemplares, marcados _R 12230_ e _R 4432_. Ambos sem portada e preliminares. [33] Esses pontos de reticência são meus. No original ha uma linha em branco. [34] Os erros principais consistem na omissão de um verso; e na substituição de _à_ (ou _na_) por _a_. São relativamente poucos. Um texto português, impresso tão bem em Hespanha, até é _ave-rara_. Na minha colecção, bastante grande, mal haverá dois, tão isentos de grafias incorrectas e de formas espúrias (como p. ex. _minho_ por _meu_). [35] _Historia da literatura portuguesa_ §§ 74 e 75 e sobretudo p. 233 Nota 6. [36] Vol. II p. 67-68 da edição de Stuttgart; ou f. 72 da edição-principe. As informações de Garcia de Resende, relativas ao Infante e Regente D. Pedro e ao Condestavel seu filho, são insuficientes quási todas. Baste lembrar que ele atribue ao Regente o Poema do _Menosprezo do Mundo_ (vol. II p. 73). Inutil é repetir que o _Cancioneiro Geral_ abrange a colheita do 2.ᵒ período da lirica occidental, de 1450 a 1516, e que as unicas composições anteriores, de pouco, à data inicial indicada, são uns versos exactamente do Regente D. Pedro e de D. Juan de Mena. (ib. p. 70-73). [37] O Marquês de Santillana é autor da Carta importante em que possuimos o mais antigo esboço de uma historia das literaturas neo-latinas. [38] _Europa III_ 354; _Epítome III Cap. 9_. [39] P. ex. no _Panegirico por la Poesia_ (que é de 1627), mas cujo autor conhecia as ideias de Faria e Sousa. [40] De Pereira Caldas, Porto 1876. [41] O Conde de Barcelos faleceu em 1354. D. Inês foi degolada (?) em 1355. [42] N.ᵒ 230. Vid. _Zeitschrift_ Vol. IV p. 347; e _Cancioneiro da Ajuda_ Vol. II p. 55; Groeber, _Grundriss_ II, 2 § 59. [43] Falei de _Saudade minha_ em 1885 no Comentário das _Poesias de Sá de Miranda_ (N.ᵒ 59, p. 746). Já então soube mencionar algumas composições literárias sobre o tema, assim como a única composição musical de que tenho vaga notícia. Posteriormente, em 1907, afirmei _brevi manu_ nos _Romances Velhos em Portugal_ (p. 73) que a Volta portuguesa, aplicada por Velez de Guevara a Inês de Castro, é obra de Camões. [44] Já dei amostras diminutas desse estudo no _Círculo Camoniano_, em forma de _Contribuições para a Bibliografia Camoniana_: num artigo sobre o Soneto _Sete anos de pastor Jacob servia_; em outro relativo à Cantiga _Justa fue mi perdicion_ (a refazer); em Nótulas a que dei o título de _Materiais para o Indice Expurgatório da lírica camoniana_, assim como em vários opúsculos relativos a _Sonetos e Sonetistas_. [45] Tambem deste meu Cancioneiro, que se compõe sobretudo de Vilancetes e Cantigas, palacianas e populares, castelhanas e portuguesas, citadas e parafraseadas de 1450 em diante, já publiquei amostras, de longe em longe. P. ex. uma relativa a _Olvidé y aborreci_, num esboço sobre Garci Sanchez de Badajoz, em _Revista Crítica de Historia y Literatura_, Madrid 1897, e em _Notas ao Cancioneiro Inedito_, na _Revue Hispanique_ XXI. Outra amostra refere-se à Cantiga _Ven muerte tan escondida!_ Vid. _Homenagem a Rodolfo Renier_, Torino 1913. [46] Vol. VIII _Correspondencia de Dona Magdalena de Bobadilla_. III Em tal colecção ou selecta do muito que se tem dito àcerca do «amargo gosto de infelizes, delicioso pungir de acerbo espinho», ha evidentemente demasias. É inexacta a ideia que outras nações desconheçam esse sentimento. Ilusória é a afirmação (já quasi quatro vezes secular), que mesmo o vocábulo _Saùdade_--_mavioso nome que tão meigo soa nos lusitanos labios_,--não seja sabido dos Bárbaros estrangeiros (_estrangeiro_ e _bárbaro_ são sinónimos), não tenha equivalente em língua alguma do globo terráqueo e distinga unicamente a faixa atlântica, faltando mesmo na Galiza de alêm-Minho. Ha quatro vozes peninsulares, de origem neo-latina todas elas, que são sinónimas de saùdade. E todas elas foram já citadas por críticos nacionais e estrangeiros. Certo é apenas que não correspondem plenamente ao termo português. Certo, sobretudo, que não têm nem de longe, na economia dos respectivos idiomas-irmãos, a importância e freqùência da saùdade na lingua portuguesa;[47] nem tão pouco o _quid_, o não-sei-quê, de misterioso que lhe adere. Isso vale tanto do castelhano _soledad soledades_ (do mesmo modelo etimológico, evidente),[48] como do asturiano _senhardade_, de _singularitate_;[49] vale tanto do vulgarismo galiziano _morrinha_,[50] como do catalão _anyoransa anyorament_[51], usado a miude por Ausias March, esse Petrarca catalão, nos seus sentidíssimos _Cants damor_ e _Cants de Mort_,[52] e usado hoje na propria Castela.[53] Plena concordância ha, porém, entre _Saùdade_ e a _Sehnsucht_ dos Alemães,[54] tão penetrantemente exteriorizada na figura comovedora de Mignon, a expatriada (a _heimatlose_), e nas belas canções de Goethe que principiam Conheces o país onde o limão florece? Kennst du das Land wo die Zitronen blühn? Só quem conhece a saùdade sabe quanto eu vou sofrendo. Nur wer die Sehnsucht kennt, weiss was ich leide. Em ambas elas vibra maviosamente a mágoa complexa da saùdade: a lembrança de se haver gozado em tempos passados, que não voltam mais; a pena de não gozar no presente, ou de só gozar na lembrança; e o desejo e a esperança de no futuro tornar ao estado antigo de felicidade. Mas em regra a _Sehnsucht_ alemã tem caracter metafísico. Aspira a estados e a regiões ideais, sobrehumanas, ao _Além_.[55] Apesar dessas conformidades não nego de maneira alguma que o doloroso e doentio achar-menos d’aquilo que amamos--pessoa ou coisa--provocado pelo _allontanamento_ quer corporal quer espiritual, o _ricordarsi dei tempo felice nella miseria_, fosse mais frequente do que alhures, na terra portuguesa, e nos séculos dos Descobrimentos e das Conquistas longinquas na África, Ásia, América.[56] Nem nego que a Saùdade seja traço distintivo da melancólica psique portuguesa e das suas manifestações musicaes e líricas, muito mais do que a _Sehnsucht_ é característica da alma germánica. Reflectida, filosófica, acatadora do imperativo categórico da Razão pura, ou hoje em dia, do imperativo energético da actividade ponderada, essa tem muito maior força de resistência contra sentimentalismos deletérios. A saùdade e _o morrer de amor_ (outra face do mesmo prisma de terna afectividade e da mesma resignação apaixonada) são realmente as sensações que vibram nas melhores obras da literatura portuguesa, naquelas que lhe dão nome e renome. Elas perfumam o meigo Livro de Bernardim Ribeiro e os livros que estilisticamente derivam dele, como a _Consolação de Israel_ de Samuel Usque, e as _Saùdades da Terra_ de Gaspar Frutuoso. Perfumam as _Rimas_ de Camões e os Episodios e as Prosopopeias dos _Lusiadas_.--Perfumam as _Cartas da Religiosa Portuguesa_; e as criações mais humanas de Almeida-Garrett, a Joaninha dos olhos verdes e as figuras todas de _Frei Luis de Sousa_. Não faltam no Cancioneiro do povo; nem já faltavam, na sua fase arcaica, nos reflexos cultos da musa popular que possuimos, isto é nos cantares de amor e de amigo dos trovadores galego-portugueses, no período que se prolongou até os dias de Pedro e Inês, conforme já disse. Logo no alvorecer da poesia, ainda antes de 1200, surgem naturalmente lindos lamentos de amor e de ausência. Encontro-os naquela singela composição, em que o robusto rei D. Sancho o Velho desdobra o sentimento da saùdade nas suas duas componentes principaes: _cuidado e desejo_. Ingénua bailada, escrita para a graciosa Ribeirinha que o enfeitiçara com o condão e as artes mágicas do eterno feminino, confórme eu tive a ventura de revelar aos bons Portugueses.[57] Ai eu, coitada!--como vivo en gran cuidado--por meu amigo que ei alongado!--muito me tarda o meu amigo--na Guarda! Ai eu, coitada!--como vivo en gran desejo--por meu amigo que tarda, e non vejo!--muito me tarda o meu amigo--na Guarda![58] Um _ai_, anteposto à ultima frase de cada estrofe aumentaria a força da sugestão, segundo o meu ouvido. Mas o antigo trovador não o entendeu assim; e a música talvez entoasse melodiosamente esse _ai_ não pronunciado. Escuso de notar, pois já houve quem notasse, a deliciosa cadência rítmica desses versos de amigo, «tão musical que a gente julga estar vendo a garbosa flexura do corpo de D. Maria Paes Ribeiro, acompanhando-se na cítara quando ensaiava, na presença do rei, a .... comédia das saùdades.»[59] _Comédia?_ nesse caso, por ventura!--Drama íntimo provavelmente em outro primor de lirismo ancestral, em que um coevo de Sancho I, parente e adorador da mesma inspiradora Ribeirinha, e na minha opinião, o mais velho dos trovadores portugueses de que possuimos versos _autênticos_--exala a sua própria mágoa, seu pesar, seu lento morrer de amor, sua saudade cuidosa: Como morreu quen nunca ben ouve da ren que mais amou, e quen viu quanto receou dela, e foi morto por ên: _Ai mia senhor, assi moir’eu!_ Como morreu quen foi amar quen lhe nunca quis ben fazer, e de quen lhe fez Deus veer de que foi morto con pesar: _Ai mia senhor, assi moir’eu!_ Com’ ome que ensandeceu, senhor, con gran pesar que viu, e non foi ledo nen dormiu depois, mia senhor, e morreu: _Ai mia senhor, assi moir’eu!_ Como morreu quen amou tal dona que lhe nunca fez ben, e quen a viu levar a quen a non valia, nen a val: _Ai mia senhor, assi moir’eu!_ Depois do falecimento de D. Sancho, a Ribeirinha foi raptada, mas casou com outro adorador, é preciso sabê-lo para compreender a última quadra.[60] * * * * * Verdade é que nesses tempos arcáicos, os trovadores ainda não conglobavam sempre clara e definitivamente os sentimentos todos que hoje constituem a _saùdade_ nesse mesmo e só nesse vocábulo. As fórmas primitivas _so-e-dade_ _so-i-dade_ _su-i-dade_ ainda não se haviam cristalizado na mais melodiosa de _saudade_. Mais melodiosa, e tambem mais expressiva e repleta, por ter havido fusão inconsciente com a ideia da _sa(l)udade_ ou _salvação_ e redenção da alma (conforme terei de expôr). Ainda se referiam essencialmente ao estado de _solidão_ e abandono do que está triste. Mas as qualidades ternas, suaves, submissas, resignadas da paixão portuguesa, já lá estão, com certeza. _Lá_ quer dizer: nos dois exemplos que aleguei, e em dúzias de exemplos paralelos. Alguns trovadores já tinham chegado mesmo a ligar a _soïdade_, o significado de sensação de _soidão_ ou _solidão_ e de abandono que inspiram o amor e a ausência:--nostalgia portanto.--Logo darei exemplos. FOOTNOTES: [47] Se as prosas em que ha definições da _saudade_ são numerosas, as poesias por ela inspiradas, são infinitas. Não se abre um livro clássico ou moderno, nem mesmo um Jornal, sem encontrarmos versos saudosos. [48] Os substantivos _soledad_ e _senhardade_ parecem-se tanto como os adjectivos _solo_ e _señero_. A formula correspondente _soo e senheiro_ usava-se outrora em Portugal. _Senheiro_ é _singularius_, derivado de _senho_ (_senlho_)<_singulus_. [49] Mais abaixo terei de mostrar que esse nome vulgar da saudade, usado apenas na Galiza, e sinonimo de _sarna_, _ronha_, é de origem desconhecida. Note-se que _morrinha_ não figura no Dicionario galego de Cuveiro-Piñol, nem no de Valladares. [50] _Anyoransa_ e o verbo _anyorar_ estão em todos os Dicionários da lingua catalã. O verbo é registado sempre com o significado _achar menos_; _desiderare_; _rei absentiam deflere_. Na linguagem arcaica dizia-se _enyorar_, _enyoransa_, _enyorament_. A par dessas formas havia _entrenyorar_.--A única etimologia, proposta até hoje, é _ignorare_. (Subak em _Zeitschrift_ XXIX p. 421; Meyer Lübke N.º 4258; Körting Nº 4760). Formalmente serve bem. E semasiologicamente não serve mal. _Se entrenyorar_ fosse a forma primitiva, podia comtudo provir de _entrenya_<_interania_, a que corresponde o castelhano _entraña_, português _entranha_, francês _entraille_. _Amor entranhado_ é locução bem conhecida, e _entranhar-se_ verbo bastante usado. Tendo _entre_ em conta de prefixo dispensavel, omitiriam-no, como aconteceu em _cobrar_ de _recuparere_, _sanha_ de _insania_, _salobre_ de _insalubre_. Esta minha etimologia seria mais segura, se a par de _enyorament enyoransa_ houvesse _entrenyor_ ou _entrenyura_; e se de _tristor_, _dulzor_ etc. (_duzor_) tivessem saído _entristorar endulçorar_ Cfr. _amargurar_, etc. [51] Vid. Ausias March, _Obras_, Barcelona 1864. Eis alguns exemplos: Lo rosinyol de tal cas se _entrenyora_ si lo seu cant sa enamorada espanta. (_Amor_ LXII). Lo amor del cos en son delit la enbalça, mes no trobant son propi se _entrenyora_. (ib. LXXXVII). ¿Qui si no es foll demana si _m’enyor_ essent absent d’aquella que ’m fa viure? (ib. XXVII). Cfr. XXXII, 8 e XLVII. [52] Sem aspas. No _Poema de Mio Cid_, editado e anotado por Ramon Menendez Pidal (Madrid 1913), leio a p. 112: «Cierto que en el Mio Cid la añoranza que sienten los desterrados de _Castiella la gentil_ y la veneracion dei héroe hacia el rey que personifica la patria tienen ternura y magnanimidade aunque no lleguen a la grandeza tragica de Roland.» [53] Podia mencionar tambem os vocabulos suecos: _längtan_ saudade, desejo, almejo; e _längta_ almejar, ter saudade (alemão _verlangen_). [54] Gonçalves Viana já o disse num artigo critico sobre a _Gramatica_ de Jules Cornu, publicado na Revista _O Positivismo_, Vol. IV. Claro que, alêm das duas poesias apontadas no texto, ha na literatura alemã duzias relativas a _Sehnsucht_. Vid. _Die Hundert besten Gedichte_ N.ᵒ 22 e 51. [55] Para dar ideia do emprego de _Sehnsucht_ nesse sentido vou extrair alguns trechos do livro que por acaso li, logo depois de haver esboçado este artigo. É a _Vida de Nietzsche_ escrita por Richard M. Meyer (München 1913). 1) Mystik ist religiöser Individualismus, ist die _Sehnsucht_ der frommen Seele, mit Überwindung aller hemmenden Instanzen, unmittelbar zu Gott zu gelangen (p. 22.). 2) So spricht denn der grosse philosophische Dichter auch geradezu die _Sehnsucht_ nach dem Wunder, die Forderung des Wunders aus (p. 43). 3) Wenn so dem Verächter dunkler barbarisch-abergläubischer Vorzeit der uralte Mythus von dem Wunderschiff das ohne Steuer und Lenkung zum rechten Ziel führt, wieder Symbolik der _Sehnsucht_ nach dem Wunderland wird, wie stark muss diese sein (ib. 43). 4) So stark dass ein platter Rationalist, wie man den Verfasser der Stunden der Andacht zu schelten pflegt, dass Zschokke selbst beredt wird und poetisch in seiner _Sehnsucht_ nach dem Schauen des Unendlichen (ib.). 5) So verschlingt sich mit der symbolischen Verehrung des Werkes die ... _Sehnsucht_ nach dem vollendeten Moment (p. 59). 6) Annette von Droste weiss dass die _Sehnsucht_ poetisch ist, und nicht der Besitz (p. 76). 7) Die zwei Seelen (des _Faust_) vereinen sich in _einem_ Gedanken: in der _Sehnsucht_ nach einem Moment, der Begierde und Genuss ausschliesst zugleich und befriedigt; in der _Sehnsucht_ nach einer überirdischen Erhebung die offenbart was sonst nur geahnt wird, in der _Sehnsucht_ nach jenem höchsten Augenblick den auch nur vorgefühlt zu haben, dem resigniertesten Greis zum Lebensglück werden muss (p. 76). [56] _Na Epanafora_ 3.ᵃ (p. 239-292) em que conta a historia de Roberto Machim e Anna de Arfet D. Francisco Manuel de Melo, diz isso mesmo em estilo tão clássicamente belo que não resisto ao gosto de transcrevê-lo: «E pois parece que lhes toca mais aos Portugueses que a outra nação do mundo o dar-lhe conta desta _generosa paixão_, a quem sómente nós sabemos o nome, chamandolhe _Saudade_, quero eu agora tomar sobre mi esta noticia. Florece entre os Portuguezes a saudade por duas causas mais certas em nós que em outra gente do mundo, porque de ambas essas causas tem seu princípio: _Amor_ e _Ausencia_ são os pays da saudade, e como nosso natural he entre as mais nações conhecido por amoroso, e nossas dilatadas viagens ocasionam as mayores ausencias, de ahi vem que donde se acha muyto amor e ausencia larga, as saudades sejão mais certas, e esta foi sem falta a razão porque entre nós habitassem como em seu natural centro. Mas porque tenho por certo que fui eu o primeiro neste reparo parece que não será reprehensivel, que me detenha algum tanto, por fazer a notomia em hum afecto, o qual ainda que padecido de todos, não temos todavia averiguado se compete às injurias, ou aos beneficios, que do amor recebemos humanos: ou se sem amor tambem se podem experimentar _saudades_. Do Amor, houve quem disse: _Era o unico afecto de nossa alma_, porque até o Odio, que he do Amor a cousa mais dessemelhante, se afirma ser o mesmo Amor, porque he certo que ninguem pode ter Amor a hua cousa, que não tenha odio à cousa que fôr contraria àquella que ama; ou de outro modo: ninguem pòde odiar hua cousa que não ame aquella cousa contraria da que aborrece. Se esta regra fosse certa (de cuja validade não disputo) bem se seguia que, sem Amor não póde haver _saudade_: comtudo nós vemos que muytas vezes a _saudade_ se contrahe com cousas que antes da saudade nós amavamos. He a Saudade hua mimosa paixão da alma, e por isso tão sutil que equivocamente se experimenta deixandonos indistinta a dor da satisfação. He hum mal de que se gosta, e hum bem que se padece; quando fenece, trocasse a outro mayor contentamento, mas não que formalmente se extinga, porque se sem melhoria se acaba a saudade, he certo que o amor e o desejo se acabarão primeiro; não he assi com a pena: porque quanto he mayor a pena he mayor a saudade; e nunca se passa ao mayor mal, antes rompe pellos males, conforme sucede aos rios impetuosos, conservarem o sabor de suas agoas, muyto espaço despois de misturarem com ondas do mar mais opulento. Pello que devemos dizer que ella he hum suave fumo do fogo do Amor e que do proprio modo que a lenha odorifera lança hum vapor leve, alvo e cheiroso, assi a Saudade modesta e regulada dá indicios de hum Amor fino, casto e puro. Não necessita de larga ausencia: qualquer desvio lhe basta para que se conheça. Assi prova ser parte do natural apetite da união de todas as cousas amaveis, e semelhantes; ou ser aquella falta que da devisão dessas taes cousas procede. Compete por esta causa aos racionaes, pella mais nobre porção que ha em nós; he legitimo argumento da immortalidade de nosso espiritu por aquella muda illação que sempre nos está fazendo interiormente de que, fóra de nós, ha outra cousa melhor que nós mesmos com que nos desejamos unir. Sendo esta tal a mais subida das saudades humanas, como se dissessemos hum desejo vivo, hua remenicencia forçosa com que apetecemos espiritualmente, o que não havemos visto jámais nem ainda ouvido: e temporalmente o que está de nós remoto e incerto. Mas hum e outro fim sempre debaixo das promessas de bom e detestavel. Esta he em meu juizo a theorica das saudades, pellos modos que sem as conhecer as padecemos, agora humana, agora devinamente.» [57] Vid. _Cancioneiro da Ajuda_, Vol. II p. 593. [58] _Cancioneiro Colocci Brancuti_ N.ᵒ 456. [59] Vid. Conde de Sabugosa, _Donas de tempos idos_, Lisboa 1912 (p. 47). [60] _Cancioneiro da Ajuda_, Vol. I p. 76 e II p. 317 seg. IV Abro parêntese, ou abro um Capitulo novo, afim de explicar porque me servi do epíteto _autentico_ com relação à Cantiga de Sancho I e à do seu coevo Pay Soares de Taveirós, modelos em que podemos aprender como é que namorados portugueses suspiravam antes de 1200, e até 1350. Ninguêm que esteja familiarizado com a verdadeira poesia arcáica (galego-portuguesa), isto é, com as dezasete centenas de cantigas profanas do Cancioneiro Geral do primeiro período da literatura portuguesa, e tambem com as quatrocentas e tantas composições sacras de Afonso, o Sábio: Hinos encantadores, e ingénuas narrativas de Milagres de Nossa Senhora; ninguem que conheça os assuntos, o espírito, as formas metricas e a linguagem dessas primitivas cantigas de amor, singelas, sinceras e comedidas como as duas amostras que apresentei: de sintaxe um tanto complicada, talvez, mas sempre típica, e quanto à exteriorização das ideias, sem requintes e circunlóquios retóricos e sem figuras audazes; pobres mesmo de ideias, visto que em regra cada composição só contêm um único pensamento que é repetido, levemente variado, em tres ou quatro estrofes cantáveis. Ninguêm repito que conheça a fundo esses monumentos poderá aceitar como legítimos produtos da musa lusitana aqueles artefactos complexos, forgicados num idioma pseudo-arcaico, que se chamam _Cartas de Egas Moniz Coelho_ (primo do mais afamado, que foi protótipo da lealdade portuguesa.) Nem por um minuto. Ha de repeli-los instintivamente, como falsificações; e depois, reflectidamente se os analisar com sciência e consciência. Nem lhes ha de valer a conjectura que antes de 1200 haveria, como houve sempre e ha depois de 1900, estilistas e pensadores muito individualistas, _sui generis_. Tudo, absolutamente tudo prova a falta de autenticidade das _Cartas_.[61] A não-existência de pergaminhos ou papeis vetustos, com letra paleográficamente aceitável, que contenham essas _Cartas_. A nefasta época em que surgiram: entre 1580 e 1640, era de triste decair do sentimento nacional. O pouco crédito dos autores que os propagaram.[62] O facto que anteriormente não houvera nem a mais leve alusão aos amores desse Egas. A falta p. ex, de uma parca fórmula que nos _Livros de Linhagens_ o nomeie e caracterize quer como amante infeliz (o que morreu de amor), quer como poeta (o que foi bom trovador). A falta ai mesmo de notícias a respeito da infiel Ouroana, concentradas em algum dos epítetos usuaes com que os Linhagistas punham no pelourinho _aquelas que foram más_.[63] Quanto à linguagem, as _Cartas_ são simplesmente monstruosas. Uma bárbara mixórdia incoerente, anti-histórica e anti-estética, de termos cultos _desusados_, de termos dialectaes, só usados nas camadas baixas da Galiza, e de formações completamente arbitrárias inventadas _ad hoc_ e nunca documentadas. Quanto à prosódia e à métrica, as _Cartas_ são posteriores de muito a época de Afonso Henriques em que os impostores e os crédulos as colocam! _São modernas, seiscentistas, quanto à concatenação de ideias, em dez e em treze coplas sucessivas._ Refalsadas sobretudo quanto ao modo de dizer, ao estilo artificiosamente rude e grosseiro. Tão inaceitáveis que foi preciso serem reescritas, refeitas com arte e engenho, mas também com suprema liberdade interpretante, por um excelso poeta lírico como Almeida-Garrett, não para serem adoptadas e consagradas pelo génio popular--_isso é e será sempre impossível_--mas para que os historiadores, os críticos, os psicólogos e intérpretes musicais do coração português, os elogiassem, e «contrastassem» com o seu voto--ao passo que as cantigas realmente autênticas, adulteradas embora por copistas estrangeiros, são (na maior parte) _compreensíveis, fáceis mesmo_, e promovem comoção estética, sem que seja preciso modernizá-las.[64] A de Sancho I e a de Pay Soares de Taveirós são flores silvestres, de poucas pétalas, despretenciosas, mas cheias de graça e aroma; para mim, muito mais humanas e belas do que aquelas flores hieráticas de garrido papel que é costume tratar de _Reliquias venerandas_. * * * * * Compreendo que taes Relíquias de altar enganassem os Seiscentistas, e mesmo os investigadores do século XIX, anteriores à publicação do _Cancioneiro da Vaticana_, do _Cancioneiro Colocci-Brancuti_, do _Cancioneiro da Ajuda_ e das _Cantigas de Santa Maria_, anteriores sobretudo à edição crítica do _Cancioneiro de D. Denis_! Compreendo que Almeida-Garrett em 1850 e mesmo T. Braga em 1868 não pudessem nem quisessem perceber a fraude; e que as razões de J. P. Ribeiro não os convencessem. Então a nobre sciência da linguagem ainda não se aclimara em Portugal. Mas como explicar que ainda hoje os intérpretes da «alma lusiada» desdenhem tanto do saber lingùístico? Como explicar que espíritos cultos como Bruno, Afonso Lopes Vieira, Tomás Borba, não se persuadam de que “_a língua é base_”, e é a mais genial, a mais original e nacional obra de arte que cada nação cria e desenvolve? Tento explicar o estranho anacronismo pelo que ha de _saudosismo_ ostensivo naquelas falsificações. Sim, ostensivo! Os impostores eram bons patriotas: tanto Frei Bernardo de Brito, Frei Manuel dos Santos, Frei Rafael de Jesus como Miguel Leitão de Andrade, e Manuel de Faria e Sousa, apesar da pecha de espião que lhe fôi lançada, e apesar das recriminações contra o uso que fez da língua castelhana. Só falsificavam _ad maiorem Portugaliolae gloriam_, como já fizera o Humanista André de Rèsende. Viviam na era funesta em que a união de Espanha e Portugal lhes havia despertado a ambição de apresentarem documentos históricos e líterários, portugueses, mais arcáicos do que os de Castela. Viviam na era que revelara a sagazes observadores e espíritos criadores como Cervantes, Lope de Vega, Calderon, Tirso de Molina, Quevedo, e tambem a talentos de segunda ordem com Vélez de Guevara, os contrastes evidentes que ha entre a alma castelhana, épica, e a lírica da nação portuguesa, com a sua afectuosidade, sua mágoa saudosa e o seu morrer de amor.[65] Ao «ouro fulgente de paixão amorosa» que as Cartas exalam (segundo um dos escritores nossos coevos que citei) nem mesmo fez dano o pechisbeque do estilo: aquele _corpo de oiro_, aquele _arcaboiço de feição_, aquelas _grenhas despelhar_, e aquela _lúzia cara_, nem tão pouco a frase rude _ós socos bos finca morto o coração_! nem a expressão _carulhos me fagam cego_! nem os demais contrasensos lingùísticos do _Traga-Mouros_ e do _Rouço da Cava_. Eles encontram lá... o que lá procuram. O claro-escuro especial do amor à portuguesa. «Dentro do amor um elemento terno, um sentido tímido e profundo, todo apaixonado, mas sem violência; todo sensual, mas sem brutalidade... A mulher amada... senhora do culto supremo... não fantasioso, etéreo, irrealizável, para alêm da vida... mas religiosamente amada sobre a terra, na sua alma e no seu corpo. Se de ela houver de se apartar, no seu coração tê-la-á sempre presente pelo poder evocatório e magia lírica da _saudade_». É um poeta, amador do povo e compreendedor de outros poetas, que viu tudo isso, e muito mais, nas Cartas apócrifas de Egas Moniz, e tenta por isso estribá-las, interpretá-las... comparando-as... ai de nós! não com as _autenticas_ poesias dos Cancioneiros, como devia, mas sim com fábulas e novelas, contadas por outros fabulistas, pseudo-historiadores.[66] FOOTNOTES: [61] Claro é que, alêm das _Cartas de Egas Moniz_, tenho em mente todos os mais _Apocrifos_: tanto o _Rouço da Cava_ e a _Canção do Traga-Mouros_ que cito no texto, como a de _Mem Vasques de Briteiros_, e igualmente a _Carta de Santo Antonio_, uma das relativas a _Aljubarrota_, e as _Endechas do Condestavel_. Com relação à musica, já lamentei mais de uma vez que nenhum Português se abalançasse até hoje a «ensoar» alguma bailada, alba, serranilha ou barcarola do primeiro período; nem tão pouco os melhores Vilancetes do segundo e terceiro. Só escolheram as ilegitimas _Cartas_! Ao mesmo tempo repeti sempre que na douta Alemanha houve quem escrevesse e houve quem cantasse, em concerto publico, algumas cantigas de amigo del rei D. Denis e de seus jograis galego-portugueses. [62] Ninguêm sabe ou soube dos originaes. As copias surgiram milagrosamente. Entre 1600 e 1640. Deixo os pormenores para o estudo especial, prometido de ha muito. [63] _Nom foi boa dona--foi maa dona--foi maa molher--foi de mao preço--de pouca pro--de maus feitos--foi maa--valeu pouco--fez torto a seu marido._ Eis as frases mais comedidas usadas nos Livros de Linhagens. [64] João de Deus traduziu uma (a 55.ᵃ do _Cancioneiro da Vaticana_). Mais exacto seria dizer que a transcreveu, grafando-a à moderna. Pouco mais foi preciso. Eu alterei tres sílabas de outra: substituí o estríbilho _e u é?_ (_et ubi est?_) por _onde está?_ para evitar o duplo hiato--pecado contra o espírito santo da filologia, de que já me acusei e arrependi. Vid. _As cem melhores poesias líricas da lingua portuguesa_ p. x e 1. [65] Não são poucos os desabafos ironicos dos nossos vizinhos sobre a _ronca enamorada_ dos Portugueses, as _eternas saudades_, o _morrer de amor_, o _derretido_, o _açucarado_, o _seboso_ do temperamento occidental. Apontei alguns em 1883 (_Zeitschrift_ VII p. 429). [66] Esta subtil definição é de Afonso Lopes Vieira. Foi enunciada na sua linda conferencia sobre _O Povo e os Poetas Portugueses_ (Lisboa 1910). Faço-a minha, mas não com relação às _Cartas de Egas Moniz_. A respeito dessas eu disse-lhe com franqueza que continuava a repeli-las como falsas, artificiosas, amaneiradas,--um grande desvairo de palavras. V Vou tentar o exame lingùístico dos vocábulos _saudade_ e _saudoso_.--Não que eu queira, ou possa, renovar-lhes a base. Todos os que, entre nacionais e estrangeiros, dissertaram a respeito das _saudades_, reconheceram como étimo evidentíssimo o plural latino e feminino _solitates_. Os antigos indicam-no sem entrar em pormenores. No século XV o rei-filósofo D. Duarte que, no _Leal Conselheiro_, compara a _ssuydade_ com outros vocábulos quasi sinónimos.[67] No século XVII, o quarto Conde de Portalegre (Silva e Meneses) na Carta espirituosa a Magdalena de Bovadilla, sobre os mistérios da saudade portuguesa e a conformidade ou diferença dela e da _soledad_ castelhana, a que já aludi.[68] Igualmente, Manuel de Faria e Sousa, no seu judicioso comentário aos «saudosos campos do Mondego», mencionados no Episódio de Inês de Castro.[69] D. Francisco Manuel na _Epanáfora_ terceira,[70] não traz nota alguma etimológica. Os modernos, claro que se viram obrigados a demonstrar a etimologia. P. ex. o erudito Milá y Fontanals, predecessor de Menêndez y Pelayo, ao tratar da poesia popular da Galiza,[71] e tambem nos _Trovadores em Espanha_.[72] Sobretudo, o nosso Gonçálves Viana,[73] e o ilustre catedrático de New-Haven, a quem devemos não só a primeira edição crítica e comentada do _Cancioneiro de D. Denis_[74] e o _Cancioneiro_ (de transição) _Galego-castelhano_,[75] mas tambem numerosos tratados especiais sobre fenómenos linguísticos e literários, peninsulares. Nova é sòmente a minha maneira de historiar mais minuciosamente as evoluções de forma e de significado; e a tentativa de explicar de que modo, por influxos psicológicos--associação de ideias e etimologia popular--o vocabulo herdado _so-e-dade_, passando por _soïdade_, que deu _suïdade_ (_ssuydade_), chegou a ser _saùdade_, em tempos relativamente modernos, mas que por ora não se podem fixar com exactidão. Do quinto estádio _sáudade_ já se passou na boca do vulgo, a um sexto, pelo menos em Lisboa, onde pronunciam _sòdade_ por _soudade_. Mas é de crer que, por afecto à fama já universal da palavra, a parte culta da nação não deixe generalizar-se essa vulgarização e continue a pronunciar _sàudade_. _Soedade soìdade suïdade_ sempre contaram na poesia arcaica por quatro sílabas, correspondentes às do latim _solitates_, de que saíram, por evoluções fonéticas normais: queda do _l_ intervocálico; redução das outras duas consoantes mediais, de dentais fortes a brandas; redução de _i_ átono a _e_ surdo; finalmente pronúncia de _o-e_ como _o-i_ e redução a _u-i_ que, pela tendência do português a formar ditongos decrescentes se deviam fundir necessariamente num _úi_.[76] A forma primitiva _so-e-dade_ perdurou na Galiza até o século XV. Podem verificá-lo nos textos bilingùes do _Cancioneiro Galego-Castelhano_, que abrange as poesias líricas da idade de transição do primeiro ao segundo período (1350 a 1450), incluindo as de _Macias, o Namorado_.[77] Ha mesmo poetas de hoje que a empregam, p. ex. D. Rosalia de Castro e Curros Enriquez nos _Aires de minha terra_. A par dela, já se encontra comtudo, em compositores do século XIII, a segunda forma _so-i-dade_, segundo as provas contidas nas _Cantigas de Santa Maria_.[78] A terceira, _suidade_, é hoje a mais viva na boca do vulgo galiziano,[79] usada tambem por poetas ilustrados que se esforçam em erguer a linguagem literária os dialectos ancestrais.[80] Em Portugal tivemos igualmente, após o pre-histórico _soedade_ (de que eu não posso indicar exemplo), o arcaico _so-i-dade_, documentado nas _Cantigas del-rei D. Denis_.[81] O ulterior _su-i-dade_ ficou sendo a forma preferida dos escritores clássicos até 1580, acompanhado do adjectivo _suidoso_ de que, parece, não se fazia uso fóra das fronteiras.[82] Preferida. De modo algum exclusiva. _Saudade_ e _saudoso_, privativamente portuguesas, foram subindo, pouco a pouco, da boca de semi-cultos, às camadas sociais superiores, dos verdadeiramente letrados. Venceram todavia em toda a linha só depois de Alcacer-Quebir, nos sessenta anos em que, conforme deixei dito acima, a união ensinou a convertidos e não-convertidos a distinguir, a amar, e a cultivar com especial carinho tudo quanto era fundamentalmente português, e tambem a chorar em Babel-Espanha por Zião-Lisboa. Luis de Camões, que pessoalmente teve tanta ocasião de sentir _saudades_--no Ribatejo, em Ceuta, na India, na China, em Moçambique--Luis de Camões empregava ainda, sem diferença de sentido, ora _soidade_ e _soidosa_, ora _saudade_ e _saudoso_.[83] Por isso, por _soidade_ ser usadíssimo até 1580, surpreende, e muito, que _saudade_--forma evolutiva, alterada em virtude de processos analógicos--se encontre, isolada, num códice com prosas do século XIV, anteriores a Ceuta e às empresas marítimas patrocinadas pelo Infante D. Henrique, para logo desaparecer de novo, não tornando a surgir senão no século XVI. Na segunda metade do XV, nos textos versificados do Cancioneiro de Rèsende, é que eu procurei, e continuarei a procurar, as auroras da forma nacional. Seria bom por isso que algum romanista de Lisboa, ou algum experto da Torre do Tombo ou Biblioteca Nacional, examinasse de novo o precioso códice alcobacense N.º 266, que já nos trouxe tanta noção importante àcerca da linguagem arcaica, com o intuito de fixar, se a letra dele é realmente do século XIV; e principalmente, se a f. 116 se lê, na _Vida de Santo Amaro_, o trecho seguinte: _E entom disse Leomites_: «_meu senhor e meu amigo Amaro, grande saudade ora me leixades_.» E novamente a f. 119: _E Vellijdes lhes disse_: «_Ay amigas, nom choredes ante ell, que auerà gram coyta e gram saudade_.»[84] Se não houver emenda de segunda mão nesse passo, nem tão pouco erro de leitura ou escrita da parte do editor do texto Otto Klob, em geral muito cuidadoso, e se a letra for realmente _do século XIV_, então teremos de aceitar como provada a existencia de _saudade_, com o significado de hoje, no tempo de Pedro e Inês, de pouco uso embora. No primeiro trecho, _saudade_ é positivamente emenda de _saude_, segundo a reprodução _sau[da]de_ do próprio Klob. E _saude_ dava sentido nela. Mas não o dá no segundo passo, onde Klob imprime _saudade_, como se realmente assim estivesse no original. Nele só serve _saudade-tristeza_. E não _saudade-salvação_ de _saude_ nem _salutate_.[85] Seja como fôr, certo é que _saudade_ de _soidade_ ou _suidade_ não é evolução fónica. O ditongo _oi_, como equivalente de _ou_, e representante de _au_ originario, é normal. _Coisa cousa_ provêm de _causa_; _oiro ouro_ de _auru_; _loiro louro_ de _lauru_, etc. Anormal é o oposto: _au_ de _oi_. De mais a mais, num periodo em que todos pronunciavam ainda _so-i-dade_.[86] Temos de recorrer, repito-o, à analogia, à associação de ideias, ou à etimologia popular, isto é a processos psicológicos, para encontrarmos a chave do enigma e explicar a substituição esporádica de _o-i_ por _au_, que, aumentando a sonoridade melancólica do vocábulo, aumentou ao mesmo tempo sua significação: o conteúdo, o espírito, a alma.[87] O influxo que houve, pode ou deve provir de palavras que principiavam com _saud_... Distingo dois grupos, diversos, comquanto aparentados. Primeiro, o verbo _saudar de salutare_ com o substantivo _saude-salute_, populares e muito usados. Segundo: o substantivo culto, mas bíblico, e por isso até certo ponto popularizado que acabo de citar: _saudade_ de _saludade_<_salutate_ o qual significava _salvação_ (_Heil_), e substituia às vezes (em Espanha) o adj. lat. SALUTARIS (heilsam.) Na boca do vulgo _saludade_ devia forçosamente passar a _saudade_. Já outros autores supuseram influxo de _saude_ em _saudade_.[88] Mas não disseram como se realizaria o fenómeno, surpreendente realmente, visto que entre _salus salutis_ e seus derivados, e a doentia _soidade_, e mais derivados de _solus_, ha um abismo, que nem mesmo com ajuda de _saludat_ na acepção de _salvação_ se transpõe a contento. Eis o que penso e como combino _suidade_ com _saude_ e com _saludade_, e _solus_ com _salutaris_. Ainda nos nossos dias, no século XX, os populares, e não só eles, principiam as suas produções epistolográficas, tão curiosas e instructivas, desejando _saude_ a quem está longe, em terras estranhas, ou pelo menos afastado deles corporal ou espiritualmente. E fecham-n’as _saudando_ esse ente, ou enviando-lhe _saudações_ mil, assim como aos demais parentes, amigos, conhecidos que por acaso estejam na companhia dele. «Estimo que ao receberes esta (ou: desta) estejas de perfeita saude, em companhia de quem mais desejas, pois a minha, ao fazer desta é boa, graças a Deus.» «Em primeiro lugar o que desejo a V. Ex.ᵃ é saude e mil felicidades». Nas formulas finais as _saudações_ obrigatórias são hoje substituidas em regra por «vesitas e recomendações» banais (_o bien des choses_ dos Franceses). Continua comtudo a haver quem mande «muitas saudades, pois as minhas só ao verte é que terão fim». Claro que outr’ora, nos tempos de Ceuta, Arzila, Çafim, Mazagão, da India, e do Brasil, muitos diriam _suidades_, e essas seriam realmente sentidas e significativas. Não sempre, porque a natureza humana é má desde Adão e Eva. Não tenho presente exemplo algum em que, apar de SUIDADES se enviassem tambem desejos de _salvação_, mas estou certa de que entre gente devota, sinceramente religiosa, não faltaria quem assim procedesse, empregando _saudade_ no sentido de _salvação_. Pelo contrário, disponho de diversas Cartas em que _saude_ e _saudade_ andam de mãos dadas. Uma carta de Africa, arbitráriamente atribuída a Luís de Camões, mas seguramente do seu tempo, principia: Por usar costume antigo _saude_ mandar quisera e mandara se tivera... mas... amor dela é inimigo. Pois me deu em lugar dela _saudade_ em que ando, _saudades_ cem mil mando... e não ficando sem ela.[89] Entendo: pois em lugar de _saude_ Amor me deu a _soidade_ em que ando, envio-te cem mil queixas àcerca dessa _soidão_, e da mágoa que ela me causa, e desejos de que ela acabe com a _salvação salutar_ e _saudável_ da nossa reunião. Viremo-nos para uma carta em prosa: a que provêm daquela D. Magdalena de Bovadilla, com a qual o Conde de Portalegre e D. Diego de Mendoza discutiam sobre a _saudade_ portuguesa. Escrita em 1593, no estilo cavalheiresco, amadisíaco, a que o _D. Quixote_ deu o golpe de morte, ela começa familiar e incorrectamente: «_La saudosa Corisanda à su caballero D. Florestan salud le embia sì, en falta de la mia, hallar la pudieres_“. E a resposta principia: _Don Florestan a su dama torna la salud que le ha embiado_”.[90] Dessas tais fôrmulas convencionaes, e de outras semelhantes,[91] milhares de vezes repetidas, isto é: da _saude_, das _saudações_ e das _suidades_ à antiga (e talvez de desejos de _saudade_, (_salutate_) enviadas e tornadas) é que a, meu ver, sairam as _saudades_ modernas em que ha parte de tudo isso: da _saude_ desejada aos ausentes; das _saudações_ com eles trocadas; da sensação de _soedade soidade suidade_ provocada pelo afastamento; e do desejo da única _salvação_ possivel.[92] Ambas as minhas amostras de missivas são literárias, infelizmente. Mas ¿de onde tirar cartas realmente _particulares_, íntimas, escritas na idade-média em Portugal, se ainda hoje os analfabetos de Portugal perfazem quasi setenta procentos, e se Cartas autobiográficas são espécies raríssimas em Portugal? Se existissem, talvez soubessemos ao certo se entre as fórmulas tradicionaes houve algumas em que se falava não de _saude_ mas positivamente, quer da _saudade saludade_, no sentido biblico de _salvação_; quer de _saidade-sãidade sanitate_, palavra que ainda não mencionei, mas que tambem, reduzida a _saidade_ pode ter actuado em _soidade_. Da existência de ambos esses vocábulos posso ministrar provas antigas. _Sãidade_ ocorre nas _Cantigas de S. Maria_, no N.ᵒ 67, 14 onde se fala de um servente _que y servir non vẽera con míngua de sãidade_, e tambem na 331 a em que se conta como a Virgem, a um menino doente _lle deu logo sãidade_. O livro afamado de Ovídio _De remedio amoris_ é citado na _Grande et Genèral Estoria_ de Afonso o Sábio como _El libro de las_ SANIDADES _del amor_.[93] De _saludat_, posso apontar apenas um exemplo, castelhano, bíblico, como já disse. É tradução de um verso do Cantico de Samuel: _quia laetata sum in salutari tuo_ (1 Reg. 2, 1), isto é: _porque me alegré yo en aquel que es la tu_ SALUDAT (_denn ich freue mich Deines Heils_).[94] Mas visto que todos os antigos textos biblicos portugueses são tradução _literal_ de redacções castelhanas, tal como elas eram intercaladas na _Cronica Geral_ de Afonso o Sábio, é muito provável que cá se dissesse tambem: _porque me alegrei naquele que é a tua sa(l)udade_. Num codice de Evora é que talvez se encontre esse passo, ou seu equivalente.[95] FOOTNOTES: [67] É no muito citado capítulo XXV do _Leal Conselheiro_ «_Do nojo, pesar, desprazer, avorrecimento e suydade_,» que se lêm as seguintes reflexões sensatas. «E a suydade... he huum sentido do coraçom que vem da sensualidade (hoje diriamos sensação) e nom da rrazom e faz sentir aas vezes os sentidos da tristeza e do nojo». «... Se algua pessoa por meu serviço e mandado de mim se parte, e della tenho _suydade_, certo he que de tal partyda nom ey sanha, nojo, pezar, desprazer nem avorrecymento, ca prazme de sseer e pesarmya se nom fosse; e por se partir, alguas vezes vem tal _suydade_ que faz chorar e sospirar como se fosse de nojo... E quando nos vem algua nembrança dalguum tempo em que muyto folgamos, nom geeral mas que traga ryjo sentydo, e por conhecermos o estado em que somos seer tanto melhor, nom desejamos tornar a el por leixar o que possuymos, tal lembramento nos faz prazer, e a myngua do desejo per juyzo determinado da rrazom nos tira tanto aquel sentydo que faz a _suydade_ que mais sentymos a folgança por nos nenbrar o que passamos que a pena da myngua do tempo ou pessoa...» «E aquesta _suydade_ he sentyda com prazer mais que com nojo nem tristeza... Quando aquella triste lembrança faz sentir grande desejo... com esta _suydade_ vem nojo ou tristeza mais que prazer.» O resto não é menos interessante. Bom seria que muitos o lessem. [68] Vid. _Revue Hispanique_ VIII, 55-59. _El Conde a Dona Magdalena de Bovadilla sobre la diferencia o conformidad de la saudade portuguesa y soledad castelhana._ [69] _Lusiadas Comentados_ (1639) Vol. II c. 178. Eis como o Comentador explica os _saudosos campos do Mondego_: «En dos maneras deveys entender aqui el _Saudosos_. Una, regalados, i que de puro bellos combidan a ser logrados con soledad: otra que aun oy estan llenos de soledad i dolor de la ausencia de Inês, i del modo della: porque _saudosos_ es derivacion de _saudade_: i aunque a algunos parece que en Castellano falta voz equivalente a esta, no ay duda que lo es Soledad: Advirtiendose que _saudade_ en portugues no es otra cosa que _soidade_, derivado de _soidam_, que derechamente es _soledad_; i el dezir _saudade_ es corrupcion: pero vino a ser corrupcion como la del vino quando se buelve finissimo vinagre, que siendo tal es mas saludable (!) i un apetito regalado i oloroso: assi la corrupcion de _Soidade_ en _Saudade_ para el oydo portugues vino a parar en voz regalada i mas significativa, que la verdadera, del desseo, pena i dolor ternissimo del bien ausente; i significacion que no se ajusta em otra lingua». [70] 3.ᵃ _Epanafora_ p. 239. [71] _Romania_ Vol. VI p. 59. [72] Milá y Fontanals, _Obras Completas_, Vol. II p. 533, Anotação. [73] _Positivismo_ IV p. 169 e _Apostilas_ Vol. II p. 407. Escusado é acrescentar que tanto no _Manual Etimologico_ de F. A. Coelho, como na _Gramática Portuguesa_ de J. Cornu se regista _saudade_ < de _solitate_. [74] Henry R. Lang., _Das Liederbuch des Königs D. Denis von Portugal_, Halle 1894. [75] New-York 1902. No Comentario ha, a p. 199, uma nota muito substancial a respeito de _soidade_. [76] As evoluções do adjectivo correlativo devem ter sido iguais. Posso documentar as formas correspondentes à _soidade suidade saudade_. Em todas, _soidoso suidoso saudoso_, houve queda da sílaba pretónica -_da_-. Este processo de simplificação (_haplologia_ ou _braquiologia_, em terminologia scientifica), tendente a desfazer reduplicações fortuitas, nota-se tambem em _idoso vaidoso caridoso maldoso bondoso cuidoso_. Só apar das ultimas duas ha tambem formas plenas: _bondadoso_ e _cuidadoso_, neste último caso com leve divergencia de sentido. Já tratei disso diversas vezes, oralmente e em letra redonda, citando paralelos franceses, castelhanos e latinos, e tambem outros grupos portugueses como _tragicomico_, _jocoserio_, etc. [77] Vid. _Cancionero Gallego-Castellano_, verso 788; 814; 1704.--É nas obras de Afonso Alvares, de Villasandino, e nas de Pero Vélez de Guevara (antepassado por ventura do autor de _Reinar despues de morir_) que ocorre a forma _soedade_. De propósito vou reproduzir integralmente a primeira dessas poesias galegas, comquanto ela esteja impressa desde 1860 no _Cancioneiro de Baena_ (1860). Reconhecendo que ela deriva das _Serranilhas_ do primeiro período, e foi ideada em territorio português, por um poeta que suponho oriundo da Vila Sandim de cá, o leitor talvez se resolva a familiarizar-se com a bela edição de H. R. Lang: Entre Doiro e Minho estando, ben preto (= perto) de Salvaterra, fui (= foi) filhar comigo guerra un rousinol que cantando estava de amor; e cando vido que triste seia, dixo «Amigo, en gran folia te vejo estar cuidando. «Vejo-te morrer cuidoso, e non podes viver muito, noite e dia dando luito a teu coraçon pensoso. E será mui perdidoso o Amor en te perder; por én te manda dizer que non sejas tan queixoso. «Eu sei ben, sen falimento ta morte e ta SOEDADE; andas por saber verdade de teu alto pensamento, e trages maginamento, cuitado; ca tu fezeste una gran dona ser triste por teu fol departimento. «Desto non ajas pavor que quen de amor se cinge, por moitas vezes se finge que lh’o faz fazer temor. E tu sei ben sabedor que av(e)rás dela bon grado, se fores leal provado en loar seu gran valor.» Respondi-lhe con gran sanha: «Rousinol, se Deus te ajude, vai-te ora _con saude_ palrar por essa montanha; que aquesta cuita tamanha é meu prazer e folgura, nembrando-me a fermosura de minha senhor estranha. «D’Amor sempre ouve mal e de ti, seu messageiro; sempre te achei palreiro, mentidor descomunal. Non te posso dizer al mas conven de obedecer a(a) de nobre parecer que no mundo muito val.» Notem a singeleza da dição tambem nesse produto do período de transição. Na segunda das poesias a que me refiro, temos a frase _Choran con gran soèdade estes meus olhos cativos_ (Baena 14, e 20). Na terceira (ib. N.º 322) que é jocosa, _soedade_ significa _solidão_, _abandono_, _desamparo_. O motejador diz a uma dona muito nobre, mas muito velha, feia e pobre: _Eu, porque vejo vossa soedade, venho-vos esto, senhora, a dizer._ [78] No _Canc. Gal. Cast._ v. 932 fala-se de _sa gentil figura que de mia gran soidade muitas vezes é folgura._ Nas _Cantigas de S. Maria_ o vocábulo _soidade_ aparece em N.º 48, 67 e 379. [79] No _Cancioneiro popular da Galiza_, publicado por Ballesteros (3 Vol. 1885-1886), ha numerosas coplas, relativas à _suidade_ ou às _suidades_. P. ex. Meu amor, meu amorinho, ond estás, que non te vexo? _morro-me de suidades_ e dia e noite em ti penso. [80] No volume I das _Obras Completas_ da ilustre poetisa galega D. Rosalia de Castro e Murguia (Madrid 1909-1912), isto é nos deliciosos _Cantares Gallegos_ (p. 105), vejo empregada essa forma p. ex. nos versos _Tal m’acoden as SUIDADES_ (3 sílabas) _tal me queren afrixir quinda mais feras m’afogan si as quero botar de min_. P. S.--Mas não exclusivamente. Revendo os volumes encontrei _soidades_ nas _Folhas Novas_ (p. 28, 31, 33, 57, 162); _soledade_ (ib. 62 e 65); _soedad_ (p. 49); _saudoso_ (p. 61); e finalmente _soidá_, pl. _soidás_ (ib. 163, 291, 296, etc.)--forma reduzida, popular, que ainda não mencionei. [81] _D. Denis_, verso 748 e 2078; _Cancioneiro da Ajuda_, verso 8717. [82] _Suidade suidoso_ são freqùentissimos no Cancioneiro de Rèsende, na Menina e Moça; nas Obras de Sá de Miranda, Diogo Bernardes, Heitor Pinto, Mousinho de Quevedo. [83] Vejamos a Elegia II. Desabafando, no Desterro de Ceuta, as suas magoas em carta a um amigo diz: _Mas na minha alma, triste e saudosa a saudade escreve, e eu traslado_; e logo a seguir: Ando gastando a vida trabalhosa e espargindo a continua _soidade_ ao longo de uma praia _soidosa_. e pouco depois novamente Amor e _saudade_ nem licença me dão para matar-me. Outros exemplos, posteriores a 1500, ha no _Canc. Geral_ (II 491, 523, 551); na _Eufrosina_ de Jorge Ferreira de Vasconcellos (II, 5; N.° 5).--Só de 1600 em diante, nas _Bucólicas_ de Francisco Rodrigues Lobo, e de Eloy de Sá Soto mayor, creio que elas prevalecem. [84] _Romania_, Vol. XXX p. 511 e 515. Lang foi o primeiro que reparou na existência de _saudade_ na _Vida de Santo Amaro_. Sem surpresa, porêm. [85] Falta-me verificar, quais são as palavras que no texto castelhano, e no original latino correspondem a _saudade_. [86] Ainda assim, lembro-me de um vulgarismo em que _au_ substitue _ou_, proveniente de _ob_. É _desaustinado_ por _desoustinado_,--isto é _obstinado_, precedido do prefixo reforçativo _des_ que ha em _des-infeliz_, _des-inquieto_, _desvelado_, etc. [87] A par de _suidade_ de _solitate_, havia outra _suidade_, rara e erudita. Em linguagem jurídica _suidade_ indica «identidade de herdeiros forçados». É um derivado do possessivo _suus_ (cfr. _sui-cídio_). Mas supondo mesmo que o desejo de diferençar as duas palavras surgisse em alguma cabeça, ele não podia actuar num termo vetusto, familiar a toda a nação. E se actuasse, ainda assim ficava por explicar por que motivo o inventor teria escolhido a forma com _au_. [88] Sobretudo Gonçalves Viana, o agudo Etimologista, nos artigos acima citados. [89] Vid. Edição da Actualidade, Fasciculo V p. 207, ou Ed. Juromenha, Vol. IV p. 147. Tratei das _Cartas da Africa_ em _Zeitschrift_ VII p. 414-420. [90] _Revue Hispanique_ VIII p. 51 e 53. [91] _Dios os dé salud_ (ib. p. 5) e _Vai-te ora com saude_ (_Cancionero Gallego-Castellano v. 805_). [92] Por esta razão hoje ninguêm deveria repetir com Faria e Sousa, e com a 7.ᵃ edição do Diccionario de Moraes, que _saudade_ é corrupção de _soidade_; nem tão pouco que _soedade_ é derivado de _soidão_. [93] Vid. _Revista de Filologia Española_, Vol. I p. 105. [94] Vid. _Romania_ XXVIII p. 373. Hoje _sanidade_ é termo tecnico, empregado p. ex. por veterinarios que falam de _sanidade pecuaria_. [95] Eis outras traduções arcaicas castelhanas do mesmo passo: _ca so yo alegre en el tu salutable_ (ib. p. 377); _ca me alegraste con la tu salvacion_ (403); _ca yo deleitada so con la tu salvacion_ (530). Nas Biblias modernas portuguesas temos: _porque me alegrei na salvação que vem de ti_ (Pedro Pereira de Figueiredo); _porquanto me alegro em tua salvação_ (J. F. d’Almeida). VI Tratemos agora do significado, da ideia, da alma de _soidade saudade_. Como representante legítimo e directo de _solitate_, irmão-gêmeo do castelhano _soledad_, e primo do italiano _solità_, claro que o galego-português _soedade_ era, na primitiva, aquilo que hoje é uso designar-se com SOIDÃO, proveniente de outro derivado latino de _solus_: _solitudine_; em francês _solitude_. Não por via directa. _Soidão_ foi abstraído do plural _soidões_, por analogia com os vocábulos em -_ão_ originariamente, -_on_ como _nação_--_naçon_--_natione_; _impressão_--_impresson_--_impressione_, que normalmente tiveram e têm -_ões_ no plural.[96] _Soedade_ designava um lugar ermo; o estado da pessoa que está _só_ ou _solitária_, sem companhia, quer no meio do mundo, quer apartada do mundo; mas tambem significava isolamento, em abstracto. Visto que sempre houve e ha quem ame a _solidão_, cingindo-se ao ditado _antes só do que mal acompanhado_, compreende-se que à soedade muita vez se aposessem qualificativos como _amena_ e _deleitosa_, comquanto para a grande maioria fosse e seja triste. Das acepções fundamentaes de _soedade_ ha vestígios ainda na _soidade_ do século XVI. Recorrendo ao Poeta dos Lusíadas vejo que ele emprega _soidade_ como equivalente de lugar vasto, ermo e solitario, p. ex. onde diz Lá numa soidade, onde estendida a vista polo campo desfalece.[97] Do sentido _isolamento_ derivaram muito cedo outros empregos abstractos: o de _ausencia_, _abandono_, _falta_, _mingua_, _carencia_, não só de pessoas, mas tambem de coisas necessárias ou desejadas, e o de _desamparo_, _tristeza_, _melancolia_.--Finalmente chegamos àquele _dó de alma_ que se costuma apoderar de quem está só e senheiro. Por extensão designa o _mal de ausencia_, a _nostalgia_. (_Heimweh_, o desejo de revêr o _home, sweet home_). Todos os desabrimentos, cuidados, e desejos da solidão, a mágoa (conforme já defini a _saudade_) de já não se gozar um bem de que em tempos se fruia, a vontade de volver a desfrutá-lo no futuro, e mesmo a de possuir aquilo que nunca se possuiu: a bem-aventurança, o céu. Tudo isso, ou pelo menos, parte disso, já no tempo dos trovadores, no tempo de D. Denis, no de seu pae, e seu avô e sogro. Afonso, o Sabio, fala p. ex. da _soidade de agua_ de que sofria certo convento;[98] da sua _soidade_ pessoal relativa a um projecto arquitectónico que muito queria ver realizado em Santa Maria do Porto;[99] mas tambem da _suidade_ causada por uma pessoa cuja presença lhe teria sido agradável.[100] Um poeta da côrte do Bolonhês refere-se à _soidade_ das terras que receava ter de abandonar.[101] O proprio D. Denis, ainda infante e namorado, exclama: _Que soïdade de mha senhor ei!_ (_v. 748_) e numa cantiga feminina ele põe na boca da amada o grito _Non poss’eu, meu amigo, com vossa soïdade_![102] Á vista disso, o influxo de _saude saudar saudação_ das Cartas, e o da _sa(l)udade_ bíblica, é mais formal e estético do que ético. Consiste sobretudo em ter descartado de _saudade_ a ideia originária de _solidão_, reservando-a para essa forma culta, e para _soidão_. Uma vez feita esta separação, foram os poetas, de Bernardim Ribeiro a Camões, e de Camões a Garrett, de Garrett a Antonio Nobre, Teixeira de Pascoaes, Correia de Oliveira e Afonso Lopes Vieira que encheram a _saudade_ de tudo quanto de vago, e misterioso e apaixonado e melancolico se desentranha da alma nacional.[103] * * * * * Pela carta dirigida por D. João da Silva e Meneses a D. Magdalena, vê-se às claras que em 1593 a _saudade_ já passava por ser um vocábulo privativamente português, e denominava um sentimento doce-amargo, tambem privativamente português. Esse luso-português, grande amigo de D. Diego de Mendoza e D. Simão da Silveira, dois agudíssimos intelectuaes cortesanescos, embora fracos poetas, esforça-se em ridicularizar o uso e abuso que já então se fazia de SAUDADE, e defende a sua absoluta conformidade com a _soledad_ castelhana.[104] * * * * * Concluindo e resumindo: o sentido primitivo de _soedade-solitate_, e o de _soidade suidade_ foi retirado do representante moderno e trespassado a _soidão solidão_. Esse representante moderno, nascido da fusão de _soidade_ com _saudade-salutate saudar saude saudações_, ficou apenas com os sentidos derivados de _a_) lembrança dolorosa de um bem que está ausente, ou de que estamos ausentes, e desejo e esperança de tornar a gozar dele _b_) expressão desse afecto dirigido a pessoas ausentes. Esse bem desejado, ausente, pode ser: tanto a terra em que nascemos, o lar e a familia, os companheiros da infância, como a bem-amada, ou o bem-amado. Com respeito a esse sentido, designa sobretudo o vácuo nostalgico ou o peso esmagador que nas ausências dilata ou oprime o coração humano--agravado, quantas vezes, pelo arranhar da consciência (o «gato» de Heine); pelo remorso que nos acusa de não havermos estimado, aproveitado e efusivamente reconhecido o bem que possuíamos. FOOTNOTES: [96] A respeito do sufixo -_dõe_ como representante de -_tudine_, veja-se J. Cornu, _Romania_ VIII e IX e tambem C. M. de Vasconcellos, _Mestre Giraldo_ p. 187.--Formas paralelas de _solidõe_ são p. ex. _ingratidõe_, _solicidõe_, _mansidõe_, _podridõe_, arcaismos que evolucionaram para _ingratidão_, _mansidão_, etc. [97] Soneto 72 (respectivamente 75): _Quando de minhas magoas a comprida_. [98] Cantiga 48: _a fonte Dos monges que ant’avian Da agua gran soïdade_. [99] Cantiga 379: _Et el Rey de ueer esto avia gran soïdade_. [100] Cantiga 67: _Venna logo! ca de ver l ei soydade_. [101] _Pero das terras averei soidade De que m’or ei a partir despagado! Cancioneiro da Ajuda_ v. 8718. [102] _Cancioneiro de D. Denis_ v. 2078. [103] _Solidão_ é assunto de uma das _Cartas_ do Cavaleiro de Oliveira (I 27). É estranhavel que não se ocupasse tambem da _saudade_ portuguesa. [104] «Yo soy tan grosero que ninguna (sc. diferencia) hallo (sc. entre _saudade_ e _soledad_) fuera de las letras con que se escriven, como entre la _enveja_ y la _envidia_.»--Tanto na Biblioteca Nacional de Madrid como na de Evora ha muita obra manuscrita de D. Juan de Silva.--Ele fora um dos Governadores de Portugal em 1580. VII Soledad em castelhano teve e tem, de facto e de direito, todas as acepções da antiga _suidade_ e da _solidão_ moderna: sitio ermo; falta de companhia; carência de uma pessoa que carinhosamente nos sirva de amparo e alívio.[105] Alêm disso tem significados especiais. _Soledades_, em regra fúnebres, são um género poetico, bastante cultivado em Hespanha, mas tambem por Portugueses.[106] _Soledás_ andaluzas são outra espécie popular.[107] Mas tambem teve, excepcionalmente embora, principalmente nos quarenta anos de união, (por influxo de Portugal portanto), o significado de «mal de ausência, mágoa amorosa, orfandade intelectual». Ás locuções _haver_, _ter_, _sentir saudades de alguem_; _fazer_, _deixar_, _causar_, _mandar_, _enviar_, _dar saudades a alguem_, correspondiam _haber_, _sentir_, _hacer soledad_. Incompletamente, pois faltam (salvo erro) _tener_, _dexar, causar_, _mandar_, _evocar_, _dar soledades_, no sentido de _saudações suidosas_. Dos numerosos passos comprovativos que conheço, escolho meia-dúzia, dos que me parecem significativos. O Bucolista Juan de Encina diz, em uma das Eglogas vergilianas que adaptou a actualidades castelhanas de 1490: _E Coridon, en persona del autor de aquesta obra, canta la SOLEDAD que Castilla sentia cuando los reyes iban à Aragon_.[108] Perto de 1550, Núñez de Reinoso, cuja dependência de Bernardim Ribeiro ainda não está bem elucidada, cantava: _SOLEDAD de Espanha siento! ............. y por Coimbra pasámos do cresció mi soledad por la ver._[109] Um vilhancico, musicado pouco depois por Juan Vazquez, principia: _Soledad tengo de ti, Oh tierra donde naci!_[110] Posterior é uma frase de Gongora, desafectada como as que trasladei, contida numa sua Carta familiar: _Cuanto es mayor el ruído de la corte, tanto es mayor la soledad que V. S. I. me hace_.[111] Nos séculos XVIII e XIX _soledad-saudade_ saiu do uso (salvo erro). Hoje os letrados preferem o catalanismo _anyoranza_, já o disse. Alguns empregam _saudade_. Na Galiza mantêm-se todavia, a par de _suidade_ e _soedade_ a forma _soledades_. O povo canta: Nón podo co’as soledades agolletar o xustillo! que me quedan meus amores na outra banda do rio![112] Antes de tirar conclusões, vejamos ainda algumas traduções de textos portugueses por escritores castelhanos, e no fim um passo do Amadis. * * * * * No _Palmeirim de Inglaterra_, de Francisco de Morais, defeituosamente e a furto vertido por Luis Hurtado de Toledo,[113] e na _Eufrosina_ de Jorge Ferreira de Vasconcellos, franca e conscienciosamente nacionalizada, por F. de Ballesteros Saavedra, mas de modo algum impecavelmente,[114] não se encontra sempre _soledad_ como equivalente de _saudade_; e muito menos vezes _soledoso_ como representante de _saudoso_.[115] Os dois tradutores tiraram-se de embaraços; ora omitindo trechos, ora alterando-os arbitráriamente; ora substituem o substantivo, menos mal ou menos bem, por _sentimento_, _recuerdo_, _memoria_, _tristeza_, _pesar_, _dolor_, _amargura_, _melancolia_, _ansiedad_, _desconsuelo_, _anhelo_, _deseo_; ora até, por descuido, por vocabulo tão improprio como _suavidad_.[116] Ora empregam _soledad_ como Encina, Reinoso, Vazques, Gongora. Se autores cultos que não nasceram na Galiza, mas eram conhecedores da lírica portuguesa, em parte mesmo amigos de poetas de cá, em parte até pisaram o solo de Portugal, empregam de 1490 a 1600 e tantos, _soledad_, no sentido de _saudade_, é evidentemente fútil e improductivo querer provar as origens occidentais do _Amadis_ pelo facto de logo no princípio se dizer del-rei Perion que ele tinha o ânimo muito atormentado _por la gran soledad que de su amiga sentia_.[117] Eu pelo menos contento-me por ora com a hipótese que os primeiros que introduziram na literatura do país vizinho as significações abstractas de _soledad_, seriam Portugueses, que de 1450 em diante poetaram em castelhano. A novidade agradou. Foi imitada por bastantes; essencialmente, por amigos de Portugal e da lirica portuguesa, mas não chegou a preponderar nem a perdurar e vulgarizar-se. Se não fosse assim, o único expediente racional e natural teria sido, adoptarem de vez _saudade_ e _saudoso_, como adoptaram _sarao_, _fumar_, _chuvasco_, _vigia_, etc., e como cá tinham adoptado _airoso_, _bonina_, _vislumbre_, _lhano_ etc. Mas apenas dois dos autores que citei nestas Divagações, se lembraram dele: D. Magdalena de Bovadilha _la saudosa Corisanda_, e o proprio autor de _Reinar despues de morir_. No seu _Diablo Cojuelo_ é esse humoristico figurão que um dia acorda _con algunas saudades de su dama_.[118] Na tragédia inesiana, o _Penedo da Saudade_ (_das Saudades_, no Romance pastoril das _Ribeiras do Mondego_, de Eloi Sá de Soutomaior) é transformado por Guevara em _El Penedo de las Ansias_.[119] * * * * * É tempo de regressarmos ao Mote e suas Voltas. Todavia, devo dizer mais duas palavras a respeito de _saudade_ na boca do vulgo português. Ele conhece-a bem. Dedicou-lhe quadras lindas. A mais característica parece-me ser a que diz: A ausência tem uma filha que tem por nome _saudade_. Eu sustento mãe e filha, bem contra minha vontade.[120] Numerosas vezes trata-a todavia com ironia, sentenciosamente. _Se saudades matassem... muita gente morreria! Saudades são securas... meu amor, dá cá a borracha!_ Ou mais rudemente ainda: _Saudade é sarna... Saudade é ronha._[121] _Sarna_ e _ronha_. Estamos perto da _morrinha_ que na Galiza é nome da _sarna_ e da _saudade_! Isso leva-me a mencionar que tambem foi o povo que deu o nome de _saudades_ a várias flores roxas, do róseo mais claro, serapintado de alegria branca, até aquela côr escura de violeta que a tradição chama de meio-luto ou das viuvas. Sobretudo à _scabiosa arvense_ dos campos, de agradavel perfume, e à _atro-purpureata_ dos jardins.[122] _Scabiosa_--de _scábies_, que é a propria _sarna--ronha--morrinha_! FOOTNOTES: [105] Vid. Gallardo, _Ensayo_, Vol. IV p. 600: e _Arte de Galanteria_ p. 91; _Diccionario Enciclopedico Hispano-Americano_ s. v. _Soledad_; e _Diccionario de la Academia_, s. v. [106] Vid. Garcia Perez, _Catálogo de Autores portugueses que escreveran en castelhano_ p. 45; _Biblioteca de Autores Españoles_, Vol. XXXII p. 435, 441, 463, 483 e Vol. LXIII p. 51; D. Francisco Manuel de Mello, _Obras Metricas_ Vol. II p. 287 e seg. [107] Vid. Menendez y Pelayo, _Origenes de la Novela_ p. CCXXI.--Privativo do reino vizinho é tambem o emprego de _Soledad_ como nome de lugares situados em regiões desertas, assim como de pessoas (por devoção a _N. S. de la Soledad_). [108] _Egloga_ VII. Ela foi reimpressa na _Antologia_ de Menendez Pelayo, Vol. VII p. 72. Eu suponho que Encina esteve em Portugal. [109] Gallardo, _Ensayo_, III c. 991. [110] Ib. IV c. 931. [111] _Revue Hispanique_ X p. 185. [112] Ballesteros Vol. II p. 39. O verso segundo significa «apertar o meu colete». [113] Ha reimpressão da tradução castelhana na _Nueva Biblioteca de Autores Españoles_, Vol. XI.--Numa obra minha, inédita, sobre o _Palmeirim_ faço o estudo comparado do original e da versão. [114] Ib. Vol. XVI.--Essa versão é digna de estudo porque representa o primeiro estádio do texto português da _Eufrosina_, não expurgado pela _Mesa Censória_. Conto publicar os resultados importantes que apurei na colação. [115] _Soledoso_ está nos Diccionarios, mas só com o significado: _solitário_. Em obras literarias não é de uso freqùente. [116] No Cap. 10 do _Palmeirim_ ha o seguinte: trayendo ocupados los ojos en la _suavidad_ que aquellas arboles y corrientes de aguas hacian.--No 15.ᵒ lê-se: Vernao _estava trasportado y envuelto en la suavidade que aquella musica le hacia_.--Soledad = saudade figura nos cap. 8 e 9.--Na _Eufrosina_ I 6 a formula portuguesa _com saudades_ é substituida por _muy cuidadosas_. [117] _Amadis_, Cap. 2. [118] Encontro _saudade_ no _Tranco_ V, p. 47 da reprodução da edição-príncipe do _Diablo Cojuelo_ de 1641, que devemos a Adolfo Bonilla y San Martin (Vigo 1902). Na nota explicativa (p. 223) vejo que Roque Garcia acolheu _saudades_ no seu _Diccionario Etimologico de la Lengua Castellana_ e que tambem o _Diccionario de Autoridades_ o regista. De outros Portuguesismos e Galeguismos ocupei-me em uma das minhas _Lições_ de 1913. [119] Acto I, Scena VI. Confundindo a _Fonte dos Amores_ com o _Penedo da Saudade_ é que D. Pedro diz: Queremonos tan conformes, Son tan unas nuestras almas Que á un arroyo ó fuentecilla Adonde algunas mañanas Sale á recibirme Ines, Todos los de la comarca Llaman por lisonjearnos _El penedo de las Ansias_. [120] _Mil Trovas_ N.ᵒ 3.--Cfr. 366, 710, 712, 721, 724, 727, 903. P. S.--No novíssimo _Cancioneiro Popular_ que menciono na Nota 150, ha mais trovas relativas à _Saudade_. Vid. _Secção XV_ p. 157-169; mas tambem N.ᵒ 252; e as paginas 52-56 da Introdução. Nas quadras 439, 440, 441 temos a alocução _Minha Saudade_ do Mote antigo. [121] Claro que ha muitos mais anexins sentenciosos, relativos à saudade. P. ex. _As saudades são filhas do amor, mas enteadas do engano.--Bom é largar saudades quando o tempo desengana.--Saudade é fraco remédio, mas é doce engano._ [122] _Dipsácea_, de capitulo oblongo, freqùentissima e viçosissima nos campos saudosos do Mondego. Mas sobretudo de grande resistencia. Um lindo ramo que me deram em Coimbra, em fins de Abril deste ano (1913) esteve aqui sobre a minha escrevaninha, durante semanas. Notemos ainda que, segundo o pensar do povo, as saudades do campo são medicinaes. Boas contra doenças do peito são tambem antídoto contra a... _ronha_. Isso não me admira, visto estar conforme com o ditado antigo: _Nomen omen_. Ou tambem _Nomen numen_. Dizem-me que ha saudades brancas (_scabiosa leucantha_) e que o nome é aplicado tambem a uma perpetua (_xeranthemum annuum_). VIII Regresso aos versos: _Saudade minha ¿quando vos veria?_ O nome carinhosamente dado neles, origináriamente à amada, como objecto de cuidados, desejos, recordações e desejos, mas ao amado, na aplicação que Luis de Guevara lhe deu, corresponde ao popular _meu bem_, e lembra o _desiderium meum_ de Catulo.--_O ausente adorado_ da Volta primeira, e mesmo o _doce penhor meu_ (ou _doce senhor meu_) da segunda, são modernismos e cultismos de pessimo gosto. Isolados, esses versos são um _Cantar Velho_. Acompanhados de _Voltas_ são um _Mote_ (à francesa) ou _Motto_ (à italiana). _Mote_ e _Voltas_ juntas constituem um _Vilancete_. Que significa essa terminologia? _Cantar velho--Cantarcilho--Cantarcico_ era, no século XV, toda a composição rítmica, tradicional, transmitida oralmente nas asas do _bel-canto_, quer fosse realmente de origem popular, nascida na solidão agreste de serras e charnecas entre pastores, quer fosse redigida apenas em estilo popular por vates cultos palacianos.[123] Composição curta e de carácter lírico. Muito curta até: de tres versos, (trística ou tríada), de dois (dística), ou de um só (monóstica).[124] Verdade é que tais Cantarcilhos aparecem tambem com o nome de _Cantiga_,[125] mas em regra, esse é reservado para as composições de quatro versos (_aabb--abab--abba_): as coplas, quadras, ou _trovas_, que do século XVI em diante constituem o Cancioneiro Popular de Portugal.[126] No segundo período da lírica peninsular o _Cantar Cantarcilho Cantarcico_ teve ainda outro nome. O de _Rifão_ (pl. _rifãos_). Este é alteração de _refran_ (pl. _refrães_). _Refran_, pela sua parte, era o nome arcaico do _estribilho_,[127] isto é do _desfecho_ ou da _desfecha_ de um dos dois géneros de cantigas palacianas que trovadores e jograis compuseram no primeiro período, desfecho que muita vez era verdadeiro Cantarcilho, quer tradicional e anónimo, quer de autor conhecido. _Alheio._ As cantigas de refram eram singelas, fáceis, populares, de estrofes curtas, cantáveis e de bailada, segundo tipos nados e criados em terras de Espanha. Os jograis favorecem-n’as e opunham-n’as às mais complicadas, _de maestria_, importadas quanto à forma, do estrangeiro (da Provença e França do Norte). O mesmo nome de _refram_ chegou tambem a designar e designa, de 1500 em diante, de preferência, cantares sentenciosos: os verdadeiros adágios ou proverbios que na primitiva tinham tido o nome de _verbos_, _palavras_, _exemplos_.[128] Em todas as colecções de _Adágios, Proverbios, Rifãos e Anexins da Lingua Portuguesa_[129] ou de _Refranes que dizen las viejas trás el fuego_ no país vizinho,[130] pode-se constatar, sem grande trabalho, que nesse espantosamente rico tesouro da sabedoria tradicional da nação, ha quanto à forma, muitos monósticos (rítmicos ou arítmicos), muitos dísticos rimados, com assoantes, como Olhos verdes / em poucos os veredes; Corvos a corvos / não se tiram os olhos (e esses perfazem a classe mais numerosa), mas tambem bastantes trísticos, como: Quem quiser molher formosa, ao sábado a escolha, não ao domingo na boda;[131] e mesmo quadras, como: Quem tempo tem / e tempo atende, Tempo vem / que se arrepende.[132] Pelo outro lado ha entre os cantares que, no tempo aureo, moças em cabelo iam cantando e bailando pelas ruas ao som rítmico do adufe ou pandeiro ou de ferrinhos e soalhas de romarias, ha, digo, bastantes sentenciosas, de saber proverbial.[133] Entre _refrão_, como hoje se pronuncia, e _cantar_ não haveria outra diferença senão a que separa a experiência dos velhos, enunciada didacticamente, da inexperiência cantarolada dos moços. Nem sempre essa existe. A nota satírica, picaresca, é comum a todas as idades e todas as classes sociais. Querem provas documentais? Monósticos, disticos e tríadas proverbiais, e como tais registadas em todas as colecções, foram utilizadas com o título de _Cantar Velho_ por todos os poetas clássicos; ora como meras citações, ora como Mote de Vilancetes--às vezes em forma um tanto alterada, enobrecida por eles. Pelo outro lado, o próprio título de _cantar_, _cantarcilho_, _cantarcico português_ é dado no teatro castelhano a proverbios entoados no palco. O grande poeta épico que às mãos cheias tirou do peculio popular materiais pitorescos, parafraseou entre outros os rifões 1) Perdigão perdeu a pena, não ha mal que lhe não venha! 2) Não quero, não quero! deitai-m’o no capelo! 3) Amor louco, amor louco: eu por vós, e vós por outro! Só dou tres exemplos porque _tres é conta que Deus fez_.[134] Aliás, eu citaria ainda os ditados dos _Olhos verdes_, curiosos a mais de um respeito. O dístico do _Perdigão_, (em que se exemplifica a antiquíssima e internacional experiência que _um mal nunca vem só_, ou _bem venhas mal, se vieres só_!) é ainda hoje citado e cantado em Tras-os-Montes, acompanhado freqùentemente de outros dísticos parecidos. Directamente recolhi da tradição oral o que reza: O pavão, caíu-lhe a pena, não ha mal que lhe não venha. Impresso vi-o com o teor arcaico Quando ao gavião lhe cai a pena, tambem lhe caem as asas. Ao dístico do pavão, ligava a pastorinha que o cantou em Urros, as variantes Oliveira não tem folha, o pavão comeu-lh’a toda; e outra acudiu com A videira não tem folha, a cabra lh’a comeu toda. Por natural associação de ideias faziam seguir o provérbio da oliveira, da quadra: Com a pena do pavão e sangue das minhas veias, hei de escrever ao meu bem que anda em terras alheias.[135] O segundo provérbio relativo ao _não_ fingido, em que se figura de modo dramático a ideia tambem universal que _dádivas quebrantam penhas_, ouvi-o em Vigo, na forma castelhana: No quiero, no quiero! Pero... écha me-lo en el sombrero! A variante _No quiero, no quiero, echadlo en la capilla_, li-a na versão castelhana, já mencionada, da _Eufrosina_.[136] Nos Refraneiros nacionais encontro mais quatro redacções diversas. _Não quero, não quero; deitai-m’o aqui no capelo_ ou _botai-m’o aqui na mão_. _Não o quero, não o quero; deita-m’o neste capelo._ Aplicando-o a um caso particular e recordando por ventura ádagios vulgares sobre o amarelo, é que Luís de Camões o transformou em _Não quero, não quero gibão amarelo_.[137] O terceiro proverbio dos que aleguei, comum à peninsula inteira, perdura tal qual, e foi citado e glosado tanta vez que todos o devem conhecer.[138] Sá de Miranda, o benemérito reformador da arte lírica nacional, douto em musica, e de alma poetica, embora a luta material com a _lingua materna_, ainda mal adestrada em 1520, não lhe deixasse dar livre expansão ao que sentia e pensava, tambem aproveitou belos cantares proverbiaes. Entre eles: Taño-os yo, mi pandero, taño-os y pienso en al.[139] A esse, glosou-o com tanta ternura que tradutores como o alemão Geibel, e compositores como Rubinstein se inspiraram nele. A forma realmente popular, é todavia muito mais singela e rasa: _As mãos no pandeiro, e em al o pensamento_.[140] Quanto a proverbios portugueses, intercalados em comédias castelhanas, sirva-nos de amostra o picaresco que diz O homem que a molher não guarda, merece de trazer albarda. Aponto-o na tardia peça celestinesca de _La Lena_, irrepresentavel como todas as Celestinas. Aí é cantarolado pelo protagonista ciumento que diz: _atengo-me al cantarcico português_ _etc._[141] De quadras, hoje vivas, e já familiares a Quinhentistas, posso lembrar (não pela primeira vez), uma que ocorre naquela _Carta_ de girões, vinda da Africa, atribuida, conforme disse no Capitulo III, a Luis de Camões, sem razão bastante.[142] Repito o informe, porque ninguêm, que eu saiba, lhe prestou a devida atenção. Uma das oitavilhas da Carta termina com a exclamação Triste del, triste que muere si ai paraiso no vá![143] Levando-a estereotipada em qualquer recanto da memória, exactamente por ser um dos girões que eu não soubera elucidar, ouvi um dia, durante um passeio na bela estrada de Viana a Ponte do Lima, a voz aguda de uma boieirinha que cantava a seguinte letra galego-portuguesa: Coitadinho do que morre se ao paraiso não vai! O que fica, logo come, e da magoa se desfai. (_desfai--desfaz_). Assim encaminhada para os Cancioneiros populares procurei, cheia de satisfação, nos que possuo. E como _quem bem busca sempre encontra_, são-me hoje familiares mais algumas variantes, em que o povo censura aqueles que são, humana ou deshumanamente, olvidadiços. Duas, achei-as no _Cancioneiro Popular Galego_ de Ballesteros. Quasi iguais às que ouvira cantar, rezam: Coitadiño do que morre s’ô Paraíso non vai: o que queda logo come e do pesar se desfai.[144] Probe do triste que morre, s’ô reino de Dios non vai. os que quedan logo comen, y o pesar logo se vai.[145] Outra é da vila portuguesa de Cadaval: Coitadinho de quem morre se ao paraiso non vai. Quem cá fica sempre come, logo o desgosto lhe sai. Lá mesmo, reduzem tambem a quadra a metade, sentenciando, sem graça: Coitadinho de quem morre! Quem cá fica sempre come.[146] Finalmente posso transcrever a própria redacção divergente, castelhana, que o autor da _Carta da Africa_ tinha em mente. Ela faz parte de uma _Ensaladilha_ antiga, por mim descoberta ha anos num _Pliego Suello_ de 1545, num volume precioso da Biblioteca Nacional de Lisboa. Especializando o estado civil e o sexo de quem morre e de quem cá fica (sem saudades, nem lembranças), lá dizia o povo malicioso De tres dias muerto está... la viuda casar se quiere. Triste del, triste que muere si al paraiso no vá![147] Esta é que era familiar tambem a Jorge Ferreira de Vasconcellos, pois repetidas vezes suspirava: _Triste del triste que muere!_[148] Seria obra anónima do povo? Por causa da acção profunda que a musa popular exerceu na aulica, de 1200 em deante, ficaremos sempre na incerteza sobre a fonte primeira de certas ideias e fórmulas poéticas, hoje comuns a ambas.[149] Contentemo-nos com julgá-las nacionais, ou nacionalizadas.[150] * * * * * Do _Mote_ passo ás _Voltas_. Mas não sem ainda ter lembrado que o francesismo _Mote_, representante, como o italiano _Motto_, do vulgarismo latino _muttum_ (palavrinha) entrou em Portugal no tempo da segunda dinastia, com a moda cavalheiresca dos torneios e das devisas, e com a musica nova dos _lais_ e _virolais_, sendo aplicado então primeiro as _invenções_ subtis e requintadas dos cavalheiros. Pouco depois designava no paço as mesmas quando serviam de tema de Voltas e Glosas aos poetas, em substituição dos singelos e antiquados _Cantarcillos_ populares. Finalmente cada tema (ou letra), quer alheia, quer inventada pelo proprio glosador, recebia o nome de _Mote_. Em segundo lugar cumpre dizer tambem que o nome de conjunto--de _Vilancete_ ou _Vilhancico_--dado ao _Mote_ (ou _Refram_) e às Voltas, deriva de uma especie antiga e seguramente agreste, que na época dos trovadores fôra levada do campo ou das serras, onde pastores guardavam os seus rebanhos, cantando à flauta o seu _Ailaliloré_, às ruas das cidades e aí imitadas por jograis de profissão. Pastoril de nascença, a _Cantiga de vilão_ conservou-se pastoril nos _Vilhancicos do Natal_, cultivada sobretudo por músicos e poetas occidentais em forma muita vez dialogada. Á cantiga de Leonoreta é dada no Amadis esse nome de Vilancete. * * * * * Das _Cantigas de vilão_ dos trovadores fala-se no Tratado importante relativo à Arte poetica, que acompanha o Cancioneiro-Colocci-Brancuti, mas num trecho infelizmente tão deturpado (Cap. VIII) que não é possivel restituí-lo e interpretá-lo.[151] Quanto a textos que sanassem essa falta, tambem subsiste apenas um, de caracter popular. É na rubrica explicativa da cantiga n.ᵒ 1043 do Cancioneiro da Vaticana[152] que se regista o modelo primitivo que o autor pretendia imitar. Seu teor é Ó pee d’ũa torre baila corpo [gracioso].[153] ¡Vêde-lo cos, ay cavalheyro! Evidentemente uma bailada realistica. O remedo jogralesco consta de dísticos (com rimas em vez de assoantes), seguidos do mesmo refram (_aaB_) e com certeza cantados com a melodia preexistente. O escudeiro João de Gaia escarnece nele de um alfaiate de Lisboa, vilão cujo filho, apesar dessa humilde origem, fora erguido a empregado da cozinha, copa e mesa de um prelado, e quanto à hierarquia social, a cavaleiro. Neste intuito ri-se do traje do alfaiate. Vosso pai na rua ant’a porta sua: Vêde-lo cos, ay cavaleyro! Ant’ a ssa pousada en saia pretada: Vêde-lo cos, ay cavaleyro! En meyo da praça en saia de baraça: Vêde-lo cos ay cavaleyro! Ha no Cancioneiro mais alguns remedos (CV. 1045 e 1046) e uma cantiga incompleta (citada no n.ᵒ 1062), talvez popular: Vós avede-los olhos verdes, matar-m-iades con eles.[154] Dessas amostras depreendo que a primitiva _Cantiga de vilão_ era uma bailada, de forma singela, e conteudo realístico, curta como todas as produções populares; composta de um refram exclamatório, monóstico, e de um distico narrativo ou descritivo, com rima quer assoante, quer consoante: _aaX_ quando o refram era cantado no fim, _Xaa_ quando no principio. Outras vezes era composta sómente de um dístico assonantado. O moderno Vilancete,[155] claro que é bastante mais extenso: ao _Mote_ de tres versos (ou de dois), mas às vezes tambem de um só verso, segue-se uma Volta, ou seguem-se varias. Cada uma consta de sete versos, dos quais os quatro primeiros formam uma quadra; os ultimos tres são ligados pela rima tanto ao Mote como à quadra; todos em redondilha maior ou menor. O esquema é portanto XAA (ou AAX): bcbccAA.[156] FOOTNOTES: [123] Após anos de estudo adoptei a definição que _poesia popular é aquela que o povo canta_. [124] O esquema das rimas varia entre 1) _aaa_; 2) _aax_; 3) _xaa_; 4) _axa_. _Xis_ indica o verso branco, (sem rima). [125] _Cantiga_ (_Cântiga_ na Galiza) era a principio a designação geral de todas as composições cantadas, quer fossem _de amor_, ou _de amigo_, quer _de escarnho_ ou _de maldizer_. [126] Na Galiza, que é melhor conservadora ainda do que o Portugal, de coisas e costumeiras e formas linguísticas e prosodias arcaicas, continuam vivas, na boca do vulgo, _bailadas paralelísticas_, _muïnheiras_ e _tríadas_, que na margem direita do Minho rareiam muito. [127] _Refram_ é o francês _refrain_, substantivo verbal, derivado de _refrangere_, requebrar, com acepção musical, segundo a opinião hoje prevalescente. [128] Vid. C. M. de Vasconcellos, _Tausend portugiesische Sprichwörter_, Braunschweig--1905.--É uma colecção de mil proverbios, que principiam com a letra _a_, colhidos quer na boca do povo, quer em textos portugueses, sobretudo arcaicos; com introdução histórica. [129] Sirvo-me da colecção impressa em Lisboa, em 1780. As iniciais, registadas, no frontispicio, F. R. I. L. E. L. significam Francisco Rolland, Impressor Livreiro Em Lisboa etc. Este estudioso diz que tirou os proverbios dos melhores autores nacionaes, mas no Prologo informa que a maior parte provêm do Vocabulario de Bluteau, fonte aliás excelente. A ordem alfabetica é a dos assuntos, entitulados _v. g._ _abarcar_, _abelha_, _abril_, _abrolhos_, etc. Acho-a insuficiente, enfadonha e enganadora, visto que cada proverbio se repete tres, quatro, cinco e mais vezes, conforme o numero dos vocabulos lexicográficos nele contidos. Dou a preferência à ordem puramente alfabética, com numeração seguida. Só no fim dou um _Indice_ remissivo dos assuntos. [130] É o título da mais antiga colecção peninsular de proverbios que conheço (uns 728). Ela é atribuida em geral a Iñigo Lopez de Mendonça, Marquês de Santillana. Talvez sem razão. Ha reimpressão, critica, moderna de Urban Cronan (_Revue Hispanique_, Vol. XXV, 1911). [131] Eis senhos exemplos de todas as ligações possiveis, que citei na Nota 124: 1) _Mula que faz him / Mulher que sabe latim / Raramente tem bom fim._ 2) _Mula que faz him / Mulher que sabe latim / Raramente acaba bem._ 3) _Tudo te farei; / Mas casa com duas portas, / Não ta guardarei._ 4) _A moça em se enfeitar / A velha em beber / Gastam todo o seu haver._ [132] Quadras proverbiais, ou Proverbios em forma de quadra, constam em regra de dois disticos rimados (aa bb).--Exemplo: _Mulher de mercador que fia, escrivão que pregunta pelo dia, oficial que vai à caça, não ha mercê que deus lhe faça!_ Mas tambem ha bastantes do tipo _abab_ ou _xaxa_.--Exemplos: _Minha galinha pedrês põe-me dois ovos ao dia. Se ela posesse tres, melhór conta me faria._ _Não compres mula manca, cuidando que ha de sarar; Nem cases com mulher má cuidando que ha de amansar._ [133] Os exemplos são numerosos. Um dos mais conhecidos diz: _Não ha vinho como o tinto, não ha carne como o carneiro, não ha cor como o azul, não ha amor como o primeiro._ [134] Todos os tres estão, com leves variantes, na colecção de Rolland (p. 215; 59; 24). [135] Luís de Camões meteu o ditado na sua _Carta_ II _em Prosa_ (ed. da _Actualidade_, Fascicúlo VI, 211). A volta principia _Perdigão que o pensamento_. Outra Volta ha entre as Redondilhas (ib. V p. e 136): _Em um mal outro começa_.--O insigne autor das _Fontes dos Lusiadas_, querendo provar amores do Poeta com a Infanta D. Maria, referiu a Redondilha, a essa arrojada empresa (na qual não creio). Vid. _A Infanta D. Maria_ p. 121 e 228. [136] _Nueva Biblioteca de Autores Españoles_, Vol. 14 p. 100. [137] Tambem esse ditado figura na Carta II (ed. citada, VI p. 211). [138] Camões parafraseou a redacção castelhana (ib. p. 107). Cfr. _Tausend Sprichwörter_ N.ᵒ 682. [139] Sá de Miranda, _Poesias_ N.ᵒ 72. Na Anotação (a p. 751) digo quem se havia servido do Mote antes de Miranda, e quem o utilizou posteriormente. [140] Vid. Rolland, sub _voce pandeiro_ (p. 198). Aí se regista a variante: _Nem é tudo verdadeiro o que diz o pandeiro_. [141] Vid. _Nueva Biblioteca de Autores Españoles_, Vol. XIV p. 422. [142] Já falei dessa _Trova_ no estudo sobre _Romances Velhos em Portugal_ (p. 205, Nota), mas hoje estou um pouco melhor informada do que em 1907. [143] _Redondilhas_ ha 209. [144] _Cancioneiro Popular Galego_, Vol. I p. 187. [145] Ib. IX 247. [146] _Revista Lusitana_ VI 120. [147] _Reservados_ N.ᵒ 126. [148] _Eufrosina_, Acto II Scena 5 (p. 130 da Ed. de 1786). O caso de que tratei no texto, não é o unico que conheço. Já mencionei nos _Romances Velhos_ (p. 207) a quadra _Aí tens meu coração e a chave para o abrir; eu não tenho mais que darte nem tu mais que me pedir._ citada pelo autor da _Eufrosina_ e por Luis de Camões. No Minho e na Galiza ainda cantam hoje: Toma lá meu coração e a chave de o abrir; não tenho mais que te dar, nem tu mais que me pedir. (_Mil Trovas_ N.ᵒ 240). _O meu corazon che mando e unha chave para o abrir; nin eu teño mais que darche nin ti mais que me pedir._ (_Canc. Gal._ III _14_). Num Bailado castelhano de 1908 encontro tres quadras populares juntas: 1.ᵒ) Os olhos de minha dama são negrilhos da Guiné; frecheiros sem ser tiranos, negros sem cautivos ser. Ai Jesus que me mata de amores Você! (_Bailes del Paracumbé de Angola á lo portuguès_ em Nueva _Biblioteca de Autores Castellanos_, Vol. XVII p. CCXX.--Cfr. T. Braga, _Canc. Popular_ p. 81--a cuja lição eu poderia juntar diversas. 2.ᵒ) Coa neve das vossas mãos, todo o meu fogo acendêis. Quem viu jamais entre a neve tão vivas chamas arder? Ailalilolé! Aililalailé! 3.ᵒ) Ailila lailé! Aililá, meu bem! Quem lhe bebera o orvalho que a vossa boquinha tem! [149] Vid. _Cancioneiro da Ajuda_, Vol. II, Cap. IX e X, e a obra importante de A. Jeanroy, _Les origines de la poésie lyrique en France au moyen-âge_. (Paris, 1889). [150] Quanto a esse problema, de peso (do qual não se póde tratar nas proporções acanhadas de uma _Nota_,) veja-se a Introdução das _Mil Trovas_, em que Alberto de Oliveira e Agostinho de Campos confessam que diversas das que publicam, têm autores conhecidos e ilustres. Consagradas pela voz do povo tornaram-se anónimas e populares. Podia provar as origens cultas de várias. Baste todavia um exemplo, importante. Todos os lusitanófilos e demófilos estrangeiros distinguem naturalmente algumas quadras com a sua admiração particular. Alêm da quadra da _Alma_, imortalizada por Byron et Musset, (ultima no Ramalhete que publiquei nas _Cem Melhores Poesias da Lingua Portuguesa_, Londres 1910), eles veneram os versos sacros que dizem: No ventre da virgem-mãe encarnou divina graça: entrou e saiu por ela como o sol pela vidraça. É a penúltima da minha colecção. Presenti sempre que essa delicada e profunda _concepção_ poetica da _Conceição_ era obra de um espirito culto. Imaginei que ela entrara no dominio universal com algum Hino à Virgem-Mãe (romançado, como as _Cantigas de Santa Maria_ de Afonso, o Sábio) talvez por algum dos clerigos a que se devem _Autos do Natal_. Cantada nos palcos primitivos, dentro e fóra da igreja, a ideia se transformaria em quadra anonima e popular. No meu empenho de lhe descobrir as origens, ainda não cheguei a resultados completos. Mas posso apontar duas redações em vulgar literário, uma castelhana e outra francesa. A castelhana faz parte de um _Auto_ assaz pedantesco, de Fernão de Yanguas, do 1.ᵒ quartel do seculo XVI. Nele se dedicam à Virgem os versos Si el sol entra y sale por una vidriera sin punto dañarla, crebar ni herir, mejor pudo Dios entrar y salir dexandola virgen, como antes lo era. A redacção francesa diz: «exactamente assim como o vidro, quando o raio do sol a trespassa, fica inteira e não se parte nem se quebra, exactamente assim o teu corpo de Virgem, ficou ileso e são.» Mais tout ainssy con la verriere do soleil qui demeure entiere quant son ray par mi oultre passe que ne la bríse ne la quasse, ainsy demeura ton corpe sain. A prova, comquanto incompleta, é irrespondível. Ao povo fica comtudo a gloria de, com ternura e compreensão do belo, haver acolhido a ideia e apurado a forma, consagrando essa obra de uma mentalidade e sentimentalidade privilegiada... Infelizmente devo acrescentar aqui a proposição condicional «se o povo realmente canta a quadra da Conceição.» Eu confesso, com mágoa, que ainda não a ouvi; nem tão pouco a da _Alma_--e que desconheço as musicas respectivas. Se elas realmente não _existem_, que os criem e propaguem os inspirados do nosso tempo! Selectas como as _Mil Trovas_ deveriam ser espalhadas abundantemente, dadas em prémio a alunas distintas, para no futuro combaterem eficazmente tanta banalidade e tanta grossaria que nos ferem os ouvidos e a alma nas ruas das cidades, e tambem nas aldeias. P. S.--A esse alto fim visa o belo _Cancioneiro Popular_ (colecção de 563 trovas selectas), com um estudo critico de Jaime Cortesão, que acaba de saír, como Vol. I da _Biblioteca Lusitana_, publicada pela _Renascença Portuguesa_. (Junho de 1914). [151] Vid. Ernesto Monaci, _Miscellanea de filologia ìn memoria di Caix-Canello_, Florença 1886. A p. 420 lê-se: Cap. VIII. _Ovtrossy outras cantigas fazem os trobadores a que chamam de vilãos._ [152] Salvo erro, a _Cantiga de vilão_ está tambem no Cancioneiro _Colocci-Brancuti-Monaci_. Oxalá o ilustre e benemérito possuidor nos dê finalmente as variantes do precioso codice, pelas quais anseio desde 1880, porque devem espalhar luz sobre muito ponto escuro! [153] _Gracioso_ não está no texto. Na impressão está _corpo piolo_, lição deturpada de que se deve deduzir conjecturalmente um adjectivo em -_olo_ (antes do que em -_ôso_). Qual seria? _Lijolo_ de _leviolus_? _friôlo_ (por _fríolo_ < _frivolus_), de que saiu _frioleira_?--_Corpo friolo_ seria corpo de gracilidade ou magreza excepcional (como costumava ser o dos alfaiates das Historias e dos anexins)? A conjectura _bayla corpo e corre_, que dava consoante perfeita, não se póde deduzir das letras transmitidas. [154] Por eu conhecer diversas redacções desse _refram dos olhos verdes_, tenho-o em conta de _cantar velho_. Uma, faz parte da Cantiga N.ᵒ 758 do _Cancioneiro da Vaticana_ (a mesma, em que se fala de _suidades_); nas _Redondilhas_ de Luís de Camões ha umas tres; e no _Refraneiro_ existe o adagio: _Olhos verdes, em poucos os veredes_. [155] Cada vez que me ocupo de Vilancetes como descendentes de _Cantigas de vilão_, canta-me na memoria a singela poesia de Goethe _Gefunden_, em que ele compára a mulher simples mas viçosa que desposou, com uma flor silvestre cuidadosamente transplantada por ele para o jardim da sua casa. [156] Letras iguais designam _consoantes_, _x_ a carencia de rima, conforme já deixei dito mais àcima. Maiusculas indicam o estribilho ou refram que ora é repetido literalmente, ora com alterações exigidas quer pelo sentido, quer pela sintaxe. IX _Em Saudade minha, ¿quando vos veria?_ a pregunta exclamatoria e a rima, meramente vocálica, denunciam origem popular. A substituição de _minha_ por _mia_, ideada por um filólogo-poeta, com o intuito de dar ao Mote forma mais perfeita (feitio palaciano), deve ser regeitada decididamente, muito embora o proponente fosse muito versado em literatura e lingua portuguesa. Eis os motivos porque voto pela reprovação do alvitre de W. Storck, que teve de ocupar-se do Mote no Comentario às Redondilhas de Luis de Camões, por esse ser um dos poetas que escreveram Voltas a _Saudade minha_.[157] Em primeiro lugar _minha_ está em todas as edições das _Rimas_. Mesmo nos manuscritos antigos, subsistentes, não ha divergência a esse respeito.[158] Nem tão pouco nos outros glosadores, que logo vou enumerar. Em segundo lugar, a pronuncia _mía_ em textos portugueses, impossivel hoje, já o era no século XVI. A formação _minha_ que é evolução de _mĩa_, e nascera do arcaico e primitivo _mha_, sob o influxo de _mim_<_mi_<_mihi_<, com nasalação provocada pelo _m_ inicial (como em _muim maem_), a formação _minha_ já existia no tempo de Afonso X, e seu genro português Afonso III, embora a principio só se empregasse quando era enfáticamente colocada depois do substantivo--o que é o caso em _Saudade minha_. _Mia_ existia como forma conjunta, átona, e prepositiva. Mas nessa função era monossilábica. Tinha ditongo ascendente. Pronunciava-se: _miá_, e escrevia-se em regra _mha_.[159] Em terceiro lugar: as rimas assoantes _minha veria_ estão em harmonia perfeita com as rimas de inúmeros dísticos e tristicos populares, recolhidos da boca do vulgo por Luis de Camões e seus coevos, ou a eles entregues pelas damas da côrte para que, explicando-os, lhes tecessem lisonjas.[160] Alêm dos que já citei mais acima (_Amor louco--Perdigão--Não quero_) ha Voltas do autor dos _Lusiadas_ p. ex. sobre: Caterina bem promete! Coifa de beirame Descalça vai pela neve; Ora má como ela mente! Namorou Joane. Assim vai quem Amor serve. Tende-me mão nele Menina dos olhos verdes Sois formosa e tudo tendes Vós, senhora, tudo tendes Que um real me deve! ¿Porque me não vedes? Senão que tendes os olhos verdes. Senão que tendes os olhos verdes. Creio que isso basta[161] O Cantar velho de _Saudade minha_, se não for criação verdadeiramente popular, nascida nalguma das _solidões_ ou _soedades_, em que nasceram as _saudades_ em geral, conforme provei, então saiu (e eu acho mais provavel saisse) da alma de algum português culto em que a ternura nacional arraigara profundamente. Neste caso, como em todos os demais, é impossivel decidir entre as duas possibilidades. Em todo o caso, versos com o arcaismo _suidade_ que, em 1500 e tantos, eram tratados de _Cantar velho_ por Sá de Miranda, datam pelo menos do século XV: do tempo do Condestavel D. Pedro de Portugal. A esse eu já quis atribuir outro Mote lindíssimo (conservado, como o da _Saudade_, pelo mesmo bom Português, velho e relho.) E a esse pertencem aqueles _Vilancetes_ que alguns historiadores quiseram atribuir ao Rei Justiceiro, referindo-os a Inês de Castro. Alêm disso, penso que versos, a que o bom do Sá de Miranda apôs o letreiro _Alheio_, passavam aos seus olhos por obra de algum palaciano, quer conhecido, quer desconhecido. * * * * * Para findar registarei agora as diversas Voltas de Quinhentistas e Seiscentistas portugueses que são anteriores a Luis Velez de Guevara e ao seu drama _Reinar despues de morir_. 1.ᵒ) _Francisco de Sá de Miranda_ († 1558). Vid. _Poesias_, ed. de C. M. de Vasconcellos, Halle 1885, p. 47. N.ᵒ 59: Vilancete XVIII; _Notas_, a p. 746. «A este Cantar velho: _¿Suidade minha, quando vos veria?_» Em alguns manuscritos ha: _A este vilancete velho.--Alheo._ A Volta inicial principia _Por terra já assi_ Estrofes 2+3×7.--Rimas singulares:--ababacc (_i ança ia; ejo ado; estas eito._). 2.ᵒ) _Luis de Camões_ († 1580).--Vid. _Rimas_, ed. Juromenha, Vol. IV. p. 126: N.ᵒ 109.--_Notas_ a p. 466. Mote: _Saudade minha ¿quando vos veria?_ Voltas: _Este tempo vão._ As _Voltas_ que foram reproduzidas em todas as edições, de 1595 em diante, sem Variantes, são quatro. Elas têm as Rimas singulares: abbaacc: _ão assa ia; ança ida; or endo; ade eu_. Eu tirei do Cancioneiro manuscrito que foi propriedade do Visconde de Juromenha, alêm de algumas variantes,[162] uma estrofe inédita, que anteposta às outras, diz: A vista alongando pelo que desejo, tudo longe vejo mais longe este _quando_! Emquanto mais ando, mais me foge o dia quando vos veria! Acho-a superior às conhecidas! De mais a mais ela lembra com insistencia o sugestivo Mote, que eu quis atribuir ao Condestavel: Quien viese aquel dia quando quando quando saliese mi vida de tanto bando! _Cantar velho_ e _Cantar Alheo a que ajudaram muitos_, quando alguêm o indigitou aos _aficionados_. A ultima Volta de Camões diz, renovando a carinhosa alocução contida no Mote (que se repete na 3.ᵃ, na formula _Saudosa dor_) e reforçando-a ainda Minha saudade, caro penhor meu, ¿a quem direi eu tamanha verdade? Na minha vontade de noite e de dia sempre vos teria. Para estar em harmonia com as estrofes iniciaes deveria ser: _sempre vos veria_. Mas o Poeta afastou-se da regra tambem na 3.ᵃ Volta, que termina _vos estimaria_. Por certo, o leitor reconhece na 4.ᵃ estrofe, que trasladei, a Volta portuguesa, cantada em _Reinar despues de morir_? E se ele aproveitar o ensejo e comparar as Voltas de Camões com as de Miranda, Caminha e Frei Agostinho da Cruz etc., ha de reconhecer tambem que Guevara não a escolheu, de modo algum, por ser a mais bela, mas unicamente porque, para os seus fins dramáticos, precisava de um texto em que houvesse a alocução _Saudade minha_. Por um momento pelo menos, o público havia de julgar que o cantar fôra dirigido pelo apaixonado D. Pedro a Inês de Castro, e era por ela aplicado ao «adorado ausente». Ou então, não houve escolha alguma. Guevara aproveitou a unica Volta de _Saudade minha_ que lhe era familiar: a única que era realmente cantada em Castela, mas cujo autor nem mesmo conhecia. (Numa das observações finaes deste Ensaio está a explicação dessa hipotese). Curioso é que o tradutor alemão não vertesse nessa Redondilha _Saudade_ com _Sehnsucht_, _Sehnen_ ou _Ersehnte_. Uma vez emprega _Lust und Wehen_, mostrando nesse desdobramento que para ele ha na saudade, por triste que ela seja, algo de deleitoso e ameno: _the joy of grief_. 3.ᵒ) _Pedro de Andrade Caminha_ († 1589) Vid. _Poesias Ineditas_, ed. do Dr. J. Priebsch Halle, 1898, p. 364: N.ᵒ 368. _A este Cantar Velho._ _Saudade minha_, etc. Notas a p. 549. Voltas: _A vida se esconde_ Rimas singulares: abbaacc _onde ejo_; _ida to_; _entos ade ia_. 4.ᵒ) _Frei Agostinho da Cruz_ († 1619) Vid. _Poesias Ineditas_ ed. do Dr. Mendes dos Remedios, no _Archivo Bibliografico_ de Coimbra, Vol. I a VIII, p. 45. Mote: _Saudade minha_ Voltas: _Este doce quando._[163] Rimas singulares: _ando ejo_; _er ero_; _era ido_; _ade eis_. Isto é: _abbaacc_, segundo a regra. As estrofes 1 e 2 terminam repetindo _quando vos veria_; na 4.ᵃ ha repetição do Mote inteiro; na 3.ᵃ apenas _Saudade minha_. 5.ᵒ) _Miguel Leitão de Andrade_ († 1632) Víd. _Miscellânea_, ed. de 1867: _Dialogo_ XVI p. 338.--Sem titulo.--As duas Voltas que principiam _Alegre lugar_ são dirigidas a Coimbra! Rimas: _ar iso_; _ento or_. Isto é abbaacc.--cc é mera assoante: _vida Colimbria_; _vida minha_. 6.ᵒ) _D. Francisco de Portugal_ († 1632) Vid. _Divinos y Humanos Versos_, Lisboa, 1652 p. 60. Mote: _Saudade minha_ Voltas: _Este mal sobejo._ Rimas singulares: _ejo ena_; _emo ivo_; _ade; endo_; _em al_: _abbaacc_--Nas repetições do Mote ha duas vezes consoantes em--_ia_, outras duas em--_inha_. * * * * * Como se vê, todos esses poetas, redigiram as suas Voltas em forma de Vilancete e em português. 7.ᵒ) _Luis Velez de Guevara_ († 1644) é, salvo erro, o primeiro não-português que glosou o Mote tradicional. É pelo menos provável (mas não certo) que a Volta castelhana, cantada em _Reinar despues de morir_ seja dele, e não de outro poeta, mais antigo. O drama foi impresso em 1652, 1697, 1838 e 1861.[164] Começa: _Diga el pensamiento_. Rimas: iento iente.--Talvez originàriamente um verdadeiro Vilancete, mas pelo tipo comum _abba aacc_?--Na impressão--principe está deturpado em _abbaaaccc_, como o leitor pode verificar recorrendo ao Capítulo II deste opusculo, talvez só por introdução erronea do Mote repetido. A Volta portuguesa, camoniana, como provei, está igualmente deturpada. Por omissão de um verso (o 6.ᵒ). Lição correcta seria a seguinte: VIOLANTE ENTOA: _Saudade minha, ¿quando vos veria?_ Diga el pensamiento, pues solo él lo siente, adorado ausente, lo que de vós siento! Mi pena y tormento, se trueque en contento con dulce porfia! INÊS Y VIOLANTE Saudade minha, ¿quando vos veria? VIOL. CANTA Minha saudade, caro penhor meu, ¿a quem direi eu tamanha verdade? Na minha vontade de noite e de dia sempre vos veria! Saudade minha ¿quando vos veria?[165] Essa repetição era exigida evidentemente pela música: a primeira vez seria realizada pelas duas damas, a segunda só por Violante, visto que Inês se adormecera, conforme expliquei. * * * * * Mas com que música cantariam nos teatros castelhanos o intermezzo lirico do drama inesiano de Luis Velez de Guevara? Segundo li no _Catálogo_ de Barrera y Leirado, ha (ou houve?)[166] uma composição musical manuscrita de _Saudade minha_ no Vol. I de uns _Bailes_, que em 1860 se guardavam na Biblioteca de Aureliano Fernandez Guerra y Orbe. Seria ela escrita de proposito para a estreia de _Reinar despues de morir_?--ou já existiria antes de 1644, na data incerta, em que o drama foi escrito? Que o verifique em Madrid o Ex.ᵐᵒ Snr. J. Gomez Ocerin, pois prepara nova edição.[167] E se valer a pena, que torne publica a composição musical! É esse o prémio, não vil, que peço pelo trabalho que tive em desenvolver neste Ensaio as indicações positivas que lhe dera em resposta à sua pergunta. * * * * * Luiz Velez de Guevara não é de modo algum o único poeta castelhano que entre 1580 e 1640 pagou o seu tributo de admiração à história e à musa lirica dos Lusitanos. Já me referi em outras partes a homenagens de Tirso de Molina, Quevedo, Lope de Vega, Alarcon Cervantes, Calderon[168] e oportunamente juntarei a elas outras, em parte anteriores, em parte posteriores à epoca da união. Para esta vez _sat prata biberunt_. _Sat nimisque._ FOOTNOTES: [157] Vid. _Sämmtliche Gedichte_, Vol. I p. 393 (N.ᵒ 137). [158] Num artigo crítico (_Zeitschrift_ IV 604, Nota 13) tratei do Cancioneiro manuscrito de Juromenha. [159] Aos pronomes possessivos da primeira pessoa, duplos e de função divergente, isto é: a _mhá_ e _mía_ (_mĩa minha_) correspondiam _sa_ e _sua_, _ta_ e _tua_. Hoje todos estão reduzidos a uma só forma. Prevaleceram as absolutas _minha tua sua_. Da antiga pronuncia _miá_ ha vestígio na boca do vulgo. Eu, pelo menos, julgo ouví-la em exclamações como _oh mhà mãe_. [160] Nos assaz numerosos casos, em que subsistem diversas Voltas e Glosas de cantares velhos, escritas umas por Sá de Miranda, outras por Diogo Bernardes, Andrade Caminha, D. Manuel de Portugal, Jorge de Montemór, Luís de Camões, é muito provavel que o tema fosse indicado a todos esses poetas palacianos por damas inspiradoras e letradas como D. Francisca de Aragão, naquele curto e prometedor espaço de tempo em que o jovem príncipe D. João começava a ser iniciado no culto das musas. Já expus esta ideia num estudo sobre as _Poesias Ineditas_ de Pedro de Andrade Caminha, impressa na _Revue Hispanique_, Vol. VI. (1899). [161] Nas _Obras_ de Sá de Miranda, claro que ha tambem _Cantares velhos_ com rimas assonantes (p. ex. N.ᵒ 26 e 60; nos N.ᵒˢ 29, 30, 54, 136 ha consoantes). [162] _Zeitschrift_, Vol. VI, p. 607 e VIII 440: _Cancioneiro de Juromenha_ f. 23 (N.ᵒ 44). Nas estrofes 1.ᵃ, 2.ᵃ, 5.ᵃ, o ultimo verso é _Quando vos veria?_ na 3.ᵃ, _vos estimaria_; na 4.ᵃ, _semprevos teria_, lição que eu gostava de substituir por _veria_. No verso 8.ᵒ proponho tambem _vir_ em vez de _ver_. O Ex.ᵐᵒ Snr. J. M. Rodrigues afirma na _Infanta D. Maria_ não compreender a estrofe que diz Vede esta mudança Se está bem perdida. Em tão curta vida Tão longa esperança! Se este bem se alcança Tudo sofreria Quando vos veria. E supõe que o poeta diria Vede esta ordenança Se está bem urdida? Baseando-me nas lições do Manuscrito Juromenha, suprimo o ponto depois de _perdida_ e entendo _Vede, em tal mudança, se está bem perdida em tão curta vida tão longa esperança!_ Se este bem se alcança, Tudo (sc. _eu_) sofreria! Mas ¿quando seria? [163] Desse doce _quando_, falei no Comentario às _Poesias_ de Miranda (N.ᵒ 136), no estudo sobre _O Condestavel D. Pedro_ (Madrid 1899) e nos _Novos Estudos sobre Sá de Miranda_ (Lisboa 1911). [164] A lição da edição-príncipe, que o Snr. Ocerin vai reproduzir, já a trasladei no Capitulo II. Na edição de 1838, o texto está muito mais deturpado. O editor, que não o compreendia, tomou p. ex. a liberdade de introduzir um verso na triada camoniana, transformando-a em quadra. Nem mesmo conhecia a _saudade_ pois diz _Saude_ miña, cuando vos veria? Miña _saude_ caro _siñor_ meu a quien _diré_ eu tamaña verdade? _La miña_ vontade cuidosa persuade de noite e de dia saude miña cuando vos veria? Não sei, se a cantiga já tinha esse mesmo teor na impressão de 1697, e se o tem na de 1861. [165] _Comedias de los mejores y mas insignes ingenios de España_, Lisboa 1652.--_Comedias de los mejores etc._, Colonia 1697, conforme ficou dito na Nota 39.--_Tesoro del Teatro Español_, Paris Baudry: Vol. IV _Teatro Escogido desde el seculo_ XVII 1838.--_Biblioteca de Autores Españoles_, Vol. XLV, Madrid 1861. [166] _Catalogo Bibliografico y Biografico del Teatro Antiguo Español_, Madrid 1860 (p. 647). [167] É meu ardente desejo que o Sr. Ocerin tambêm publique a música de _Ven, muerte, tan escondida_ (_Vid._ _Nota_ 45). [168] Na Nota, 44 já citei os artiguitos que a esse respeito publiquei no _Circulo Camoniano_ de Joaquim de Araujo, a quem de coração desejo prontas melhoras. POST-SCRIPTUM Como o artigo que eu destinára ao _Dionysos_, ficasse a dormir durante meses, devo acrescentar-lhe algumas palavras. Onde falo de _demasias_ na apreciação da saudade portuguesa, eu pensava no grupo de poetas novos que almejam por uma ressurreição nacional. Ouvira dizer que sobre a base do _afecto_ mais caracteristico da alma portuguesa eles queriam erigir todo um sistema de _filosofia_ e de _religião_ nacional--_O Saudosismo_--mas tambem que as ideias que iam expandindo a esse respeito na Revista _A Águia_, eram _ultra-românticas_. Desconhecia comtudo as conferências e publicações respectivas. Pouco depois de eu haver redigido, a bem dos amigos de Madrid, as paginas relativas a Inês e à _Saudade minha_, tive ensejo de as ler, graças à gentileza de um dos devotos mais ardentes da _Renascença Portuguesa_: o Ex.ᵐᵒ Snr. Jaime Cortesão. A ele devo: o estudo filológico de seu benemerito pae A. A. Cortesão, _Breves Considerações Filologicas_, publicadas em _A Águia_ N.ᵒ 4; duas Conferencias do poeta-pensador Teixeira de Pascoaes: 1) _O Espirito Lusitano ou o Saudosismo_ (Porto 1912), ilustrado com a figura do _Desterrado_ de Soares dos Reis, e o lema _O Desterrado é a esfinge da raça_.--2) _O Genio Português na sua expressão fisiologica, poetica e religiosa_ (1913).--Posteriormente vieram os estudos críticos e oposicionistas de Antonio Sergio: _Epistolas aos Saudosistas_ (_Águia_ N.ᵒ 22)--_Regeneração e tradição, Moral e Economia_ (N.ᵒ 25) e a _Resposta a Antonio Sergio_ de Teixeira de Pascoaes (N.ᵒ 26). Na _Revista de Historia_ (de 1913 N.ᵒ 5) saiu um artigo sobre _O Desterrado_, no segundo dos _Ensaios de Crítica e de Esthetica_, em que o autor, Henrique de Vilhena, incluiu definições subtis da Saudade e regista versos a ela dedicados. Quanto a _Inês de Castro_, saiu a 2.ᵃ edição, revista, de _O grande Desvayro_ de Antero de Figueiredo (1914) e a _Conferencia--Inês de Castro na Poesia e na Lenda_, realizada no claustro do Mosteiro de Alcobaça por Afonso Lopes Vieira (1914). Sem entrar em discussões, advirto o leitor apenas de que, se de antemão conhecesse esses tão valiosos e interessantes escritos, teria dado outra forma às minhas divagações filológicas, ligeiramente retintas de filosofia, nas quaes ora me afasto do modo de ver dos _Saudosistas_, ora me encontro com eles. INDICE PAG. I 11 II 23 III 33 IV 41 V 49 VI 61 VII 67 VIII 73 IX 87 Post-Scriptum 99 Anotações 103 ACABOU DE SE IMPRIMIR NA TIPOGRAFIA DA «RENASCENÇA PORTUGUESA» PRAÇA DA REPUBLICA, 160, 161, 162, PORTO, AOS 21 DE JULHO DE 1914, TIRANDO-SE DEZ EXEMPLARES EM PAPEL DE LINHO NUMERADOS E RUBRICADOS PELA AUTORA. Notas A versão original não continha as âncoras de três notas de rodapé--as de números 146, 155 e 167. Uma adivinação do lugar apropriado foi feito pelo transcritor. Alguns erros evidentes de acentuação, pontuação e ortografia foram corrigidos. As notas de rodapé foram colocadas ao final de cada capítulo. Por esse motivo, a seção de Anotações listada no Indice não existe nesta versão. *** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK A SAUDADE PORTUGUESA *** Updated editions will replace the previous one—the old editions will be renamed. Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright law means that no one owns a United States copyright in these works, so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the United States without permission and without paying copyright royalties. Special rules, set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to copying and distributing Project Gutenberg™ electronic works to protect the PROJECT GUTENBERG™ concept and trademark. Project Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you charge for an eBook, except by following the terms of the trademark license, including paying royalties for use of the Project Gutenberg trademark. If you do not charge anything for copies of this eBook, complying with the trademark license is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose such as creation of derivative works, reports, performances and research. Project Gutenberg eBooks may be modified and printed and given away—you may do practically ANYTHING in the United States with eBooks not protected by U.S. copyright law. Redistribution is subject to the trademark license, especially commercial redistribution. START: FULL LICENSE THE FULL PROJECT GUTENBERG™ LICENSE PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK To protect the Project Gutenberg™ mission of promoting the free distribution of electronic works, by using or distributing this work (or any other work associated in any way with the phrase “Project Gutenberg”), you agree to comply with all the terms of the Full Project Gutenberg License available with this file or online at www.gutenberg.org/license. Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg electronic works 1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to and accept all the terms of this license and intellectual property (trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy all copies of Project Gutenberg electronic works in your possession. 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The following sentence, with active links to, or other immediate access to, the full Project Gutenberg License must appear prominently whenever any copy of a Project Gutenberg work (any work on which the phrase “Project Gutenberg” appears, or with which the phrase “Project Gutenberg” is associated) is accessed, displayed, performed, viewed, copied or distributed: This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of the Project Gutenberg™ License included with this eBook or online at www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you will have to check the laws of the country where you are located before using this eBook. 1.E.2. 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LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the “Right of Replacement or Refund” described in paragraph 1.F.3, the Project Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project Gutenberg™ trademark, and any other party distributing a Project Gutenberg™ electronic work under this agreement, disclaim all liability to you for damages, costs and expenses, including legal fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE PROVIDED IN PARAGRAPH 1.F.3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH DAMAGE. 1.F.3. 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Except for the limited right of replacement or refund set forth in paragraph 1.F.3, this work is provided to you ‘AS-IS’, WITH NO OTHER WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO WARRANTIES OF MERCHANTABILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE. 1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages. If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any provision of this agreement shall not void the remaining provisions. 1.F.6. 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It exists because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from people in all walks of life. Volunteers and financial support to provide volunteers with the assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg’s goals and ensuring that the Project Gutenberg collection will remain freely available for generations to come. In 2001, the Project Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure and permanent future for Project Gutenberg and future generations. To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 and the Foundation information page at www.gutenberg.org. Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non-profit 501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal Revenue Service. The Foundation’s EIN or federal tax identification number is 64-6221541. Contributions to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent permitted by U.S. federal laws and your state’s laws. The Foundation’s business office is located at 41 Watchung Plaza #516, Montclair NJ 07042, USA, +1 (862) 621-9288. Email contact links and up to date contact information can be found at the Foundation’s website and official page at www.gutenberg.org/contact Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation Project Gutenberg™ depends upon and cannot survive without widespread public support and donations to carry out its mission of increasing the number of public domain and licensed works that can be freely distributed in machine-readable form accessible by the widest array of equipment including outdated equipment. Many small donations ($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt status with the IRS. The Foundation is committed to complying with the laws regulating charities and charitable donations in all 50 states of the United States. Compliance requirements are not uniform and it takes a considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up with these requirements. We do not solicit donations in locations where we have not received written confirmation of compliance. To SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any particular state visit www.gutenberg.org/donate. While we cannot and do not solicit contributions from states where we have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition against accepting unsolicited donations from donors in such states who approach us with offers to donate. 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