The Project Gutenberg eBook of Historia geral da invasão dos francezes em Portugal e da restauração deste reino (Volume IV) This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included with this eBook or online at www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you will have to check the laws of the country where you are located before using this eBook. Title: Historia geral da invasão dos francezes em Portugal e da restauração deste reino (Volume IV) Author: José Acúrsio das Neves Release date: September 25, 2026 [eBook #79650] Language: Portuguese Original publication: Lisboa: Officina de Simão Thaddeo Ferreira, 1811 Other information and formats: www.gutenberg.org/ebooks/79650 Credits: Rita Farinha, Alberto Manuel Brandão Simões, Laura Natal and the Online Distributed Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was produced from images generously made available by National Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) *** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK HISTORIA GERAL DA INVASÃO DOS FRANCEZES EM PORTUGAL E DA RESTAURAÇÃO DESTE REINO (VOLUME IV) *** [Illustration] HISTORIA GERAL DA _INVASÃO DOS FRANCEZES_ EM PORTUGAL, E _DA RESTAURAÇÃO DESTE REINO_, ESCRITA POR JOSÉ ACCURSIO DAS NEVES. _TOMO IV._ [Illustration] LISBOA. M. DCCCXI. Na Officina de Simão Thaddeo Ferreira. _Com licença da Meza do Desembargo do Paço._ HISTORIA DA RESTAURAÇÃO. CAPITULO XXVIII. _A revolução se estende pela provincia da Extremadura. Levantamento de Thomar, e outros successos analogos._ [Sidenote: 1808 Junho.] [Sidenote: 1808 Junho.] HUMA das primeiras terras da Extremadura Portugueza, onde a revolução penetrou, foi Thomar, villa assás consideravel, e mui célebre na nossa historia, situada em hum paiz, tão fertil, como agradavel, que o Nabão rega com as suas aguas, hum pouco acima d’onde se mistura com o Zezere. O sopro vinha descendo das provincias do norte; mas nos habitantes da propria villa estava a disposição, para o receberem, e elles fizerão o rompimento, sem auxilio algum estranho, não obstante a visinhança dos invasores, que ainda conservavão guarnições em Santarem, e Abrantes. [Sidenote: 1808 Junho.] Havia em Thomar alguns daquelles homens turbulentos, que se nutrem do transtorno geral do Estado, ou por indole, ou porque pertendem achar fortuna na subversão da ordem social; mas havia tambem daquelles, que debaixo mesmo dos cutéllos inimigos ousavão levantar a cabeça, e proclamar os direitos do Soberano, e da patria. Na loja de hum mercador se ajuntavão varios individuos d’ambas estas classes, e da fermentação, produzida pelas suas idéas oppostas, sahio o feliz resultado da restauração. Em hum dos ultimos dias de junho cahio a conversa sobre a gazeta de 3 do mesmo, que appareceo sobre o mostrador; e apoiando hum dos máos vassallos com muito calor as sordidas, e indignas declamações, que ella contém no artigo de Lisboa, contra o legitimo Governo do Principe Regente, acrescentando, que já estavão livres delle, e da Inquisição, não pôde o Padre Fr. Manoel da Pesqueira reprimir a cólera, que lhe inspirava este procedimento infame: arrancou huma faca da manga, e a cravou sobre o mostrador, gritando, que a cravaria da mesma fórma em todo o que se atrevesse a fallar contra o seu Principe, e Religião. Parece, que tambem ia tirando huma pistola, e se dispunha a punir alli mesmo a audacia do fallador, quando o contiverão, e a companhia se desfez em confusão. [Sidenote: 1808 Junho.] O Padre era hum religioso Franciscano natural de S. João da Pesqueira na provincia da Beira, e morador no convento da Annunciada de Thomar, para onde se recolheo muito desafogado, em quanto os mais assistentes tremião de medo, pelas consequencias, que erão de recear de hum acontecimento desta natureza, que em poucos momentos foi sabido por toda a villa. Residia alli nesse tempo Timotheo Verdier, o mesmo, de que fallei em outro lugar, e foi instado para interpôr os seus officios para com os seus compatriotas Francezes, a fim de que se não procedesse; fosse porém qualquer a parte, que elle tomou no negocio, o que resultou foi apparecerem em Thomar no dia 30 quasi ao escurecer oito officiaes do Corregedor mór da provincia, residente em Abrantes, para prenderem o Padre Pesqueira. [Sidenote: 1808 Junho.] Deixárão anoitecer, e encaminhando-se ao convento, intimárão as suas ordens ao Guardião, o qual deixando cear o Padre no refeitorio, segundo o costume, o chamou depois á portaria, para o entregar aos officiaes; mas elle, que andava sempre com olho vivo, apenas os descobrio, fez-lhes huma cortezia, e virou costas, correndo apressadamente á sua cella, a tomar as suas armas, e fogindo por hum lugar da cerca, onde não foi visto, não obstante o achar-se já rodeada de guardas. Então os officiaes se tornárão contra o Guardião, e o levárão prezo. Já o tinhão conduzido até á ponte, e tratavão de montarem nas suas bestas, para o levarem a Abrantes; mas amotinando-se entretanto o povo, que já dias antes andava em fermentação, ahi mesmo lhes foi tirado das mãos, e elles obrigados a voltarem mais depressa, do que tinhão vindo; levando na verdade inteiras as suas costellas, em attenção a serem Portuguezes. [Sidenote: 1808 Julho.] Com este acontecimento principiárão os vivas, e acclamações, em que o povo de Thomar se occupou o resto da noite, sem outros successos notaveis, que o descobrimento das armas Reaes em alguns lugares, e o pôrem-se a caminho para Coimbra o Juiz do povo Antonio d’Evora, e duas ou tres pessoas das que tinhão mostrado mais calor a pedirem soccorros, pois em Thomar faltavão absolutamente os meios de se sustentar o levantamento. Tambem houverão algumas vozes populares contra os que chamavão Judeos, (erão todos os que se sopunhão do partido Francez) mas sem resultado de grande consequencia. Os Magistrados dos ao principio não se intromettêrão com estes actos, nem para os auxiliarem, nem para se lhes opporem, o que na verdade os não desdoura no estado, em que se achavão as cousas; porque o tempo, e as circunstancias do rompimento não deixavão entrever senão hum exito desgraçado; mas passados alguns dias elles apoiárão os movimentos do povo, e o Juiz de fóra Vicente Paulo de Araujo teve tambem de partir para Coimbra, assim como hum dos Vereadores, e Antonio do Valle de Sousa e Menezes, a quem o mesmo povo tinha deferido o commando; porque o estado indefenso, em que se achavão, e a marcha de alguns corpos inimigos, que então se movião das visinhanças de Lisboa, fazião indispensavel, que se apressassem os soccorros; e infelizmente em Coimbra não havia ainda que repartir. [Sidenote: 1808 Julho.] [Sidenote: 1808 Julho.] [Sidenote: 1808 Julho.] Eu me admiro de que em huma relação, que corre impressa, se estabeleça a época da acclamação, e descobrimento das armas Reaes em Thomar no dia 9, quando sou testemunha occular de que tudo isto estava concluido desde 2, ou 3 de julho. Fogindo de Lisboa com a minha familia para as provincias, em que já se respirava livre, como fazião todos os bons Portuguezes, que tinhão meios para isso, apezar das apertadas ordens do governo intruso,[1] eu passei por aquella villa no dia 3. Alli pude em fim entregar-me com liberdade aos primeiros momentos de prazer no meio de hum fiel povo, que depois de 7 mezes de captiveiro acabava de quebrar os seus ferros, e se desfazia em ternos vivas ao legitimo Soberano. Tudo andava já ornado com o tope nacional, sem excepção de pessoa alguma, e alli me ornei tambem, e a todas as pessoas da minha comitiva com esta insignia. Vi trabalhar no descobrimento das armas Reaes do convento de Christo, vi dar as ordens, para se pôrem vigias em todos os pontos, por onde o inimigo podia penetrar, e achei algumas já estabelecidas, vi em fim cuidar em todas as disposições de defeza, que o estado da terra permittia. Mas tudo era ainda confusão, figurando sómente a authoridade do Juiz do povo, então residente em hum substituto do que havia partido para Coimbra, que a exercitava principalmente no rigoroso exame dos passageiros, deixando ao povo o mandar, e obrar, como a cada hum parecia; por cujo motivo aconselhei a alguns daquelles, com quem tratei, que cuidassem em organizar hum governo, a que todos obedecessem, senão querião ver destruida em breves momentos a sua obra; e fui então sciente de que já se andava tratando de o conferirem, como realmente conferírão, a Antonio do Valle. Continuando a minha jornada pela estrada do Espinhal, encontrei já revolucionados todos os póvos, por onde passei, vendo-me suspendido a cada passo pela severa policia dos paizanos, para os seus exames, e tendo de atravessar por entre os chuços, e espingardas velhas das suas sentinellas, e dos seus corpos de guarda, que guarnecião a estrada, e de fazer muitos rodeios, por causa das trincheiras, e cortaduras, que nella se havião formado. Á entrada do destricto de Cham-de-Couce estava a maior destas barreiras, commandada por hum official militar, de que sinto ignorar o nome, pela extraordinaria actividade, e enthusiasmo, que manifestava. A poucos passos encontrei o Corregedor da comarca José Firmino da Silva Giraldes, que andava visitando de cavallo os differentes postos, acompanhado de muitos officiaes civís, e militares. Aqui já se executavão as ordens de Coimbra. [Sidenote: 1808 Julho.] [Sidenote: 1808 Julho.] Presenciei tambem alguns symptomas destas commoções vertiginosas, que a desconfiança, e a effervescencia popular fizerão tão geraes por toda a parte do reino nesta revolução; mas tive occasião de igualmente observar por experiencia, o que a razão dicta a todo o homem cordato, que quando ás suspeitas se não ajunta a malignidade, são a prudencia, e o bom modo hum excellente salvo-conduto em taes conjuncturas. Este foi o escudo, que me livrou de ser molestado em toda a minha jornada, tendo hum magistrado, que as suas cans fazião respeitavel, e seguia a mesma estrada, experimentado huma sorte bem diversa quasi aos meus olhos no lugar dos Cabaços, por causa de huma resposta imprudente do seu boleeiro. Foi maltratado de palavras, e de mãos, e o caso chegaria a maiores excessos, se não impozesse ao povo tumultuoso a presença de sua mulher, que tendo-se já recolhido a huma estalagem, sahio desgrenhada, e correu pelas ruas, clamando que lhe não matassem seu innocente marido. [Sidenote: 1808 Julho.] Com tudo eu estive a pontos de não poder jactar-me de ter sahido sempre illeso: huma visita, que fiz ao Prior da villa de Miranda, para o qual levava huma carta de hum amigo de Lisboa, me ia implicando em circunstancias arriscadas. O Corregedor mór de Coimbra, retirando-se desta cidade, tinha-se hospedado em casa do Prior, o que atrahio sobre este as suspeitas, e a indignação do povo. Teve de ir a Coimbra, onde se justificou plenamente perante o Governador; mas a intriga de hum seu inimigo continuou a trabalhar contra elle, e eu passei por nada menos, que hum General Francez. Ainda se expediu huma escolta no meu alcance, que felizmente me não encontrou, porque lhe levava algumas horas de dianteira. Estas miudezas pareceráõ por ventura impertinencias na presente Historia? Eu escrevo para os leitores sensatos, e pensei não poder dar-lhes huma melhor idéa dos principios da revolução nesta parte do reino, do que referindo os factos, que eu mesmo presenciei, e aproveitando tudo aquilo, que mais os póde interessar, as circunstancias, que dão a conhecer a indole da revolução, o caracter, e o espirito dos póvos, que a fizerão. Voltarei agora os olhos para a parte de Leiria, e Nazareth, em cuja direcção ainda cheguei a ouvir de alguns lugares mais elevados o estrondo da artilheria. NOTAS DE RODAPÉ: [Footnote 1: Por hum decreto de Junot datado do 1.^o de julho, não só se prohibio a toda e qualquer pessoa o sahir de Lisboa, para se estabelecer em outra parte, sem passaporte de Lagarde, mas além disso se determinava, que se recolhessem áquella capital até 5 do mesmo mez todos os que della se tivessem ausentado, pena de prizão contra os chéfes das familias. Lagarde publicou na mesma data hum amplo regulamento para a execução deste decreto, de que foi encarregado.] CAPITULO XXIX. _Successos da expedição dos Academicos de Coimbra até Leiria. Restaura-se esta ultima cidade, e se procurão os meios de a pôr em estado de defeza. Levantamento de Nazareth, e povoações visinhas, e consequencias que teve._ [Sidenote: 1808 Junho.] A Expedição dos Academicos, que sahíra de Coimbra em 18 de junho, composta de 1 furriel, e 15 companheiros, estudantes, e soldados de cavallo, vinha fazendo levantar a paizanagem dos lugares, por onde passava, de que huma parte se lhe ia incorporando, de fórma que chegando a Leiria no dia 30, já se contavão huns 200, ou 300 combatentes, bem ou mal armados, marchando em tumulto, fazendo hum motim, e levantando huma poeira, que se ouvião, e divisavão de muito longe, e inculcavão a marcha de hum exercito. Em Condeixa, onde os nossos Academicos entrárão a 28 pelas 7 horas da tarde, forão recebidos com repiques de sinos, foguetes, e luminarias. Destinguio-se muito nos auxilios, que lhes prestou, o Regente do hospicio de Santo Antonio, armando-se, e acompanhando-os a varias diligencias, que consistião principalmente na prizão de alguns individuos, que erão suspeitos. [Sidenote: 1808 Junho.] A 29 proseguírão a sua marcha pela villa da Ega, onde fizerão em pedaços alguns editaes Francezes, que achárão affixados, descobrírão as armas Reaes por entre os mesmos applausos do povo, e passárão depois a Soure, onde praticárão os actos da restauração com as mesmas acclamações, musicas, e descargas de mosqueteria. O Padre Fr José de Santa Martha, hum dos da comitiva, recitou aos moradores desta villa huma exhortação pathetica, accommodada aos successos, que fez derramar muitas lagrimas; e com estas disposições se encaminhárão para o Pombal, onde forão dormir, e organizárão huma especie de Governo, incumbindo, com aprazimento dos póvos, á direcção de todos os negocios civís ao Vereador mais velho, e a dos militares a hum Capitão de milicias. [Sidenote: 1808 Junho.] As brigadas Francezas de Condeixa, e Pombal tinhão desamparado os seus postos, e reunindo-se á de Leiria, esperárão nesta cidade pelo resultado, tendo sempre promptos, e sellados os cavallos, de que nem de dia, nem de noite se separavão, e huma vigia em lugar eminente da parte de Coimbra. Apenas os nossos chegárão a este sitio, a vigia correo a toda a pressa levar a noticia aos seus, e os Academicos correrão tambem para a cidade, adiantando-se do grosso da paisanagem, e desfilando pela estrada ao longo do pinhal. Á entrada da cidade corre o rio Lis, e atravessando-a, a divide em dois bairros, chamados, hum o dos Agostinhos, e outro o dos Anjos: sobre elle está fundada huma ponte, e foi junto a ella ao de lá do rio, que os Francezes se postárão em linha de batalha; como quem se propunha a disputar a sua passagem; apenas porém sentírão o motim, e o som de hum grande tambor, que os nossos trazião, voltárão costas, e tomárão o caminho de Lisboa. Mettêrão-se primeiro pela estrada velha, que vai pela Batalha, mas voltárão depois para a nova; ou fosse para evitarem os precipicios da primeira, ou para melhor se poderem furtar á vista dos que os perseguissem. [Sidenote: 1808 Junho.] Os Francezes erão 22, e os Academicos, além de serem em menor número, nem todos pudérão continuar a marcha, porque vinhão muito mal montados; mas assim mesmo os restantes se lançárão como leões a trás dos Francezes, e depois de os terem seguido por espaço de huma legua, voltárão a Leiria com 3 prisioneiros, e varios despojos, que lhes tomárão. Deo-se huma relação circunstanciada desta expedição, assinada pelo seu commandante Victorino de Barros Carvalhaes, que por ordem do Governo de Coimbra se publicou na Minerva Lusitana: eu me separo della em alguns pontos, para evitar algumas exaggerações, de que a considero revestida; mas transcreverei a seguinte passagem, que offereço á crítica dos que a lerem, para que ao menos não fiquem escurecidos os nomes dos valorosos Academicos, que mais se distinguírão. [Sidenote: 1808 Junho.] [Sidenote: 1808 Junho.] _Perto de Leiria mandámos dois camaradas nossos a descobrir campo. Immediatamente forão cercados pela inimigo, e atacados, mas estes dois bravos Portuguezes disparárão suas pistolas, e fizerão recuar 22 Francezes. Informados por elles, e temendo nos escapasse a preza, deixámos as ordenanças de Pombal, e partimos a todo o galope para Leiria. Estavão os Francezes postados em linha de batalha na ponte desta cidade com animo de resistir. Nós os vemos, voamos a elles, e tudo foge. Mettemos á estrada Real em seu seguimento, mas os cavallos canção, e não podem avançar. Seis camaradas sómente pudérão seguir vinte Francezes fugitivos; seus nomes devem passar á mais remota idade.--José Joaquim de Sá, João Pedro Correa, Gonçalo Velêz Zuzarte, Joaquim Monge, Manoel José Soares da Cunha Paixão, Caetano Rodrigues de Macedo affugentárão com terror vinte soldados velhos, e aguerridos. Seis moços sem experiencia fazem tremer vinte heróes de Marengo, e de Iena! Quatro dragões Francezes de cavalleria forão aprisionados. Hum, por irmos já quatro sómente, foi desarmado, e dando sua palavra de honra de não arredar pé, a não cumprio, escapando-se. Não he de admirar em taes soldados hum tal procedimento!_ _Dos quatro camaradas dois se demorárão com hum Francez, que resistia, e dois partírão até os Carvalhos, perseguindo o resto. Estes dois bravos homens devem ser immortaes na Historia. Seus nomes são José Joaquim de Sá, e João Pedro Correa. O primeiro, arrebentando o seu cavallo nas alturas da Batalha, correo animosamente a pé com a espada em huma mão, e a pistola na outra em seguimento do inimigo; o segundo encarou só com tres inimigos, dos quaes ferio perigosamente hum gens-d’armes. Os resultados deste brilhante combate forão quatro prisioneiros, cinco cavallos, tres doentes, que se achavão no hospital, e quatro feridos, que ainda pudérão fugir. Da nossa parte não houve o mais pequeno perigo._ [Sidenote: 1808 Junho.] Entretanto a paisanagem se tinha espalhado pelas ruas da cidade, misturando os seus vivas com os dos habitantes da mesma. Hum frade Arrabido, que andava entre os Academicos, montado em hum macho, de jaqueta branca, espada na mão, e pistolas nos coldres, apanhando hum capote, que os Francezes tinhão largado, fez com elle hum grande reboliço na praça, atirando-o aos ares, e dando-lhes mil tratos, até que o deixou feito em retalhos; o que acabou de enthusiasmar o povo de hum modo extraordinario, entregando-se todo o resto do dia aos mais expressivos testemunhos do seu prazer, e ficando desde logo arvorado o estandarte da camara com as armas Reaes. [Sidenote: Julho.] [Sidenote: 1808 Julho.] No dia seguinte convocou-se a camara, nobreza, e povo: nesta assembléa lêo o Juiz de fóra Antonio Duarte da Fonseca Lobo a proclamação do Governador de Coimbra, e á imitação do que se havia praticado nesta cidade, passou-se a tratar do Governo de Leiria. Offereceo-se primeiro ao Bispo, que como bom patriota, e vassallo fiel, se prestou a quanto podesse fazer a bem da causa pública, menos o mandar; e em consequencia desta escusa deferio-se a Miguel Luiz da Silva e Ataíde, que o acceitou, com a condição de que o primeiro passo que désse seria ir a Coimbra, e mesmo ao Porto, se fosse necessario, pedir hum corpo de tropa, armas, munições, e os mais soccorros, que tudo alli faltava. Esteve-se pela condição, e com effeito Ataíde se poz immediatamente a caminho para Coimbra, ficando entretanto encarregados o Coronel de milicias, e o Capitão mór das ordenanças de apromptarem gente, estabelecerem corpos de guardas avançadas, e vedetas nos pontos, por onde o inimigo podesse avisinhar-se, para cujo fim se combinárão com os póvos do Pombal, Redinha, e mais terras adjacentes, dando-se todas as providencias, que permittia o estado da terra. [Sidenote: 1808 Julho.] Chegárão por este tempo a Leiria emissarios de Nazareth, a pedirem soccorro contra os Francezes, que guarnecião, e infestavão aquelles sitios; e huma parte do destacamento dos Academicos se poz logo a caminho, levando comsigo hum corpo de paizanos dos que se achavão mais bem armados. Os Academicos quizerão apropriar-se de toda a honra desta acção; mas he necessario dar a cada hum o que lhe pertence. [Sidenote: Junho.] [Sidenote: 1808 Junho.] [Sidenote: Julho.] No forte de Nazareth tinhão os Francezes huma guarnição de cincoenta e tantos homens com a competente artilheria; dahi a meia legua tinhão mais o forte de S. Gião, com duas peças de grosso calibre, e vinte e tantos homens, e huma força igual no de S. Martinho; correspondendo-se todos estes pontos por sinaes telegraficos, e tudo ás ordens de Miron, Tenente de artilheria Portuguez, que residia em Nazareth. O Juiz da Pederneira era obrigado a fornecer diariamente aos Francezes certa quantidade de viveres, e além destes foi intimado por ordem de Miron para apromptar rápidamente quinhentas rações de reserva, pena de ser saqueada a terra. Principiou o Juiz, e como as não podesse completar nas poucas horas, que lhe forão aprazadas, os Francezes começárão effectivamente o saque no primeiro de julho, e o continuárão a 2. Passando nesta occasião pela praia huma ordenança Franceza com despachos do forte de S. Martinho para o de Nazareth, os pescadores, justamente indignados contra o barbaro procedimento dos invasores, cahírão sobre ella, e a faqueárão, gritando: _morrão os Francezes_. Immediatamente foi quebrado o masto, em que se fazião os sinaes de communicação, e a sentinella, que o guardava, teve huma sorte igual á da ordenança; o povo correo de todas as partes em tumulto, e os Francezes intimidados se recolhêrão ao forte. [Sidenote: 1808 Junho.] Acabava de chegar a noticia da restauração de Leiria, e de publicar-se a proclamação do Governo de Coimbra, o que animou muito os póvos, e deo grande extensão aos seus movimentos. O Juiz de fóra de Alcobaça fez apromptar toda a polvora, que appareceo na villa, e andava por quatro arrateis (que quantidade para fazer frente ao inimigo!) ajuntárão-se as poucas espingardas, que havia, os chuços, as fouces, e os espetos, que consistia o principal armamento dos paizanos. Ao primeiro movimento os Francezes de S. Gião abandonárão o forte, deixando mal encravadas as suas duas peças, e enterrados dois barris de polvora: os de S. Martinho tambem fugírão, indo incorporar-se a Thomieres, que girava por entre as Caldas, Obidos, e Peniche, ficando os do forte de Nazareth cercados pelo povo, que destacou hum corpo de gente ao de S. Gião, para conduzir as peças, e os dois barris de polvora, que felizmente forão descobertos por huns rapazes, e algumas outras munições, que tambem se achárão. Aqui temos já os nossos com a artilheria prompta, para baterem o forte; mas faltava quem a soubesse dirigir. [Sidenote: 1808 Julho.] [Sidenote: 1808 Julho.] Dizia-se, que estava em Leiria hum numeroso exercito Hespanhol, e he o que sustentava os nossos na sua temeraria empreza. Era temeraria, não pelo destacamento Francez de Nazareth, sim pela visinhança das forças de Thomieres nos pontos, que occupava. Este General se pôs com effeito em movimento com alguns centenares dos seus soldados, e mandou hum emissario ao Geral dos Padres Bernardos, intimando-lhe, que tratasse de accommodar aquelles póvos, e que aliás marcharia com 600 homens reduzir tudo a cinzas; mas não passou de Obidos, fazendo adiantar sómente huma descoberta de doze, ou quatorze homens até o sitio da Barquinha, onde forão repellidos por hum destacamento dos nossos, composto de varios clerigos, e paizanos. Estavão dadas algumas providencias, como a cortadura de pontes, e estradas, para obstar á marcha do corpo inimigo; mas Thomieres desistio do seu projecto, por ser informado de que descião de Leiria, o que elle suppunha serem tropas regulares, e não erão senão paizanos mal armados, estudantes, frades, e clerigos: o povo apenas soube do seu retrocesso, cuidou sómente em estreitar o cerco do forte. [Sidenote: 1808 Julho.] Os repiques de sinos, com que na noite immediata forão recebidos os soccorros vindos de cima, o toque de hum tambor, e o fogo das duas peças, que logo na manhã seguinte rompeo contra o forte, davão tambem idéa aos sitiados de que havia chegado algum corpo de tropa regular; e foi talvez esta a razão, porque o seu fogo quasi cessou de todo, tendo sido contínuo no dia precedente, posto que sem mais desgraça, que a de ter ferido hum moço, que se affoitára a disparar sobre elles hum tiro de espingarda de cima de hum monte de area, que lhes ficava sobranceiro, e alli tinhão ajuntado os ventos, e consolidado alguns arbustos, que nelles nascêrão, e lançárão raizes. He sobre este monte de arêa que os nossos formárão huma especie de parapeito, e collocárão as peças, com as quaes se atirou todo o dia para o forte, mas sem effeito algum; porque como as peças se enterravão na arêa, desconcertava-se a pontaria, e as balas não acertavão nem no forte. Na noite que se seguio desertou hum artilheiro Portuguez, dos que se achavão no forte servindo ao inimigo, e veio incorporar-se aos nossos. Este homem fez mudar tudo de face, dando huma melhor direcção ao fogo. Huma bala acertou logo sobre a porta do forte, e lhe causou alguma ruina: com as muralhas estremecêrão tambem os animos de seus defensores, levantárão bandeira parlamentaria, e capitulárão, ficando prisioneiros de guerra; mas custou muito a salvallos das mãos do povo, e principalmente ao commandante Miron, que se lhe tinha feito extremamente odioso. [Sidenote: 1808 Julho.] Tomado o forte, voltárão os Academicos, e a paisanagem, que os tinha acompanhado, com os seus prisioneiros, deixando sómente cousa de 100 armas, e huma pequena parte das munições, que se havião achado, aos póvos de Nazareth, que por este modo ficárão novamente expostos aos insultos do inimigo, quasi sem meios alguns de lhe resistirem. [Sidenote: 1808 Julho.] Pouco espaço tinhão andado os nossos guerreiros, quando começárão a ouvir noticias confusas do ataque do inimigo contra Leiria (era na tarde do proprio dia desta acção desgraçada) e em Pataios as achárão mais bem verificadas. Adiantárão-se dois dos nossos, para se informarem exactamente deste successo, e trouxerão a certeza da catastrofe de Leiria aos nossos, quando já se achavão a menos de duas leguas de distancia desta cidade. Foi-lhes necessario mudarem de estrada, embrenhando-se por pinhaes, matas e silvados, até que depois de huma noite, e hum dia de marchas penosas, chegárão á Figueira com os seus prisioneiros, com os quaes forão dar em Coimbra huma entrada romanesca. De Coimbra forão os prisioneiros conduzidos para o Porto; e o mesmo se praticava com os mais, que se ião fazendo; porque em Coimbra senão julgavão seguros. [Sidenote: 1808 Julho.] Os póvos de Nazareth, e Pederneira, na triste situação, em que tinhão ficado, proseguião sempre a defensiva entre sustos contínuos, mas com grande valor. No dia 6 de manhã quatro atiradores, vantajosamente postados, fizerão retroceder no sitio da Barquinha cincoenta Francezes, que vinhão atacallos. Recorrêrão aos Inglezes, que occupavão as Berlengas, os quaes lhes mandárão alguns artilheiros, e peças de pequeno calibre, que com as que se pudérão aproveitar do forte fazião o número de dez, e forão collocadas no alto de Nazareth, para protegerem as povoações adjacentes. Os artilheiros tornárão logo a embarcar, ficárão as peças servidas pelos pescadores daquella costa, e assim permanecêrão muitos dias. Deve-se á sua exacção nas guardas, não só o terem aprisionado quatro espias, que remettêrão para bordo de hum brigue Inglez, mas tambem o fazerem acreditar, que tinhão alli desembarcado alguns centenares, ou milhares de Inglezes; idéa, que ainda trazião os Francezes, quando depois vierão com maiores forças destruir estas mesmas povoações, e que até então os tinha tido em respeito. He a este imaginario desembarque que alludia a expressão da gazeta de Lisboa de 14 de julho dos _cem meninos perdidos_, que dizia terem desembarcado na praia da banda de Nazareth, e costas visinhas de Alcobaça. CAPITULO XXX. _O General Margaron sahe de Lisboa, commandando huma divisão, para se oppôr á insurreição das provincias do norte. Ataque, e devastação de Leiria._ [Sidenote: 1808 Julho.] A 2 de julho sahio de Lisboa o general Margaron com huma divisão, que levava o destino vago de se oppôr á insurreição das provincias do norte. Avaliava-se a sua força em quatro a cinco mil homens, e no boletim 3.^o do exercito se fez o recenseamento das tropas, que a compunhão, a saber: o 3.^o batalhão do regimento n.^o 12.^o de infanteria ligeira, o do 82.^o de linha, os granadeiros, e atiradores do 47.^o e 48.^o, 6 peças de artilheria, hum esquadrão de caçadores a cavallo, e outro de dragões. As nossas guardas avançadas de paizanos descião até os Carvalhos, tres leguas abaixo de Leiria, e enviavão exploradores a maiores distancias: foi por estas que se soube na tarde do dia 4, que o inimigo se adiantava de Rio-maior. Esta noticia, transmettida immediatamente a Leiria, poz tudo em consternação, apezar de haverem incredulos, que a reputavão falsa, suppondo serem soldados das brigadas da estrada, esses que se tinhão avistado: avisos conformes se forão succedendo huns aos outros, e a breves passos todos se desenganárão de que realmente hum corpo inimigo marchava aceleradamente sobre Leiria. [Sidenote: 1808 Julho.] [Sidenote: 1808 Julho.] Na manhã desse mesmo dia tinha havido alguns movimentos na cidade, em consequencia dos rumores vagos, que já corrião de que ella estava proxima a ser atacada. Houve hum congresso das pessoas principaes na casa da camara, d’onde o Coronel de milicias, e o Capitão-mór expedírão ordens aos seus respectivos corpos, para se ajuntarem, e o Alcaide-mór Rodrigo Barba Correa Alardo, Coronel aggregado ao regimento Portuguez de cavalaria n.^o 10.^o, tendo mostrado muito patriotismo, e fallado com energia, foi proclamado Governador. Tinha-se feito sahir o estandarte da camara em procissão pelas ruas, recitando-se pelas mesmas huma proclamação, que incitava os póvos á defeza, e celebrado hum _Te Deum_ solemne na cathedral, officiando o Bispo. Tinhão-se mandado retocar as armas Reaes nos differentes lugares da cidade, onde forão destruidas por ordem do Governo intruso: tinhão-se mandado fazer novas bandeiras no antigo castello, o que já não houve tempo de se ultimar, e nada esqueceo, para influir enthusiasmo no povo. Faltava porém o essencial, porque sendo huns 800 homens os empregados nas guardas, e outros objectos do serviço, muitos delles começárão logo a abandonar os seus postos; e chegando apenas a 200 os que tinhão espingardas, para estes mesmos senão pudérão apromptar, senão 3 ou 4 cartuxos por espingarda: de artilheria não havia nem huma peça. [Sidenote: 1808 Julho.] Não se dormio na noite de 4 para 5, sendo tudo confusão, e anarquia, que augmentavão á proporção, que o perigo se avisinhava, e se conhecia a impossibilidade de resistir. Rodrigo Barba, prevendo os fataes effeitos de tanta desordem, ausentou-se pelo meio da noite, sem o participar a pessoa alguma, porque temia morrer ás mãos do povo, se se manifestasse o seu designio; e foi maior a confusão, quando se publicou a sua furtiva retirada. Passou-se o resto da noite, e a manhã seguinte em hum estado horroroso de agitação, e ao mesmo tempo de inactividade, que era o precursor de grandes desgraças. A jurisdicção civil era exercitada pelo vereador mais velho Alvaro Soares, porque os ministros tambem se retirárão, como, e quando pudérão, sem que com tudo resultassem suspeitas contra elles, á excepção do Corregedor, que foi por muito tempo a fabula do povo. Não tenho os dados precisos, para increpar, nem para abonar o seu comportamento: direi sómente de facto, que sendo apanhado na sua retirada, foi ignominiosamente prezo, e conduzido a Coimbra, de Coimbra ao Porto, e sómente solto depois de ter andado muitos mezes pelas cadêas. [Sidenote: 1808 Julho.] Constou na manhã do dia 5 que huma partida Franceza de 12 homens se tinha adiantado até o sitio da Canoeira, suburbio da cidade, e ahi estava roubando huma quinta: hum destacamento nosso cahio sobre ella, matou hum Francez, e trouxe cinco. O espectaculo de cinco inimigos prisioneiros ainda reanimou algum tanto os espiritos; mas apenas passados os primeiros momentos, recahio tudo em mortal apathia. Era meio-dia, e ainda se ignorava na cidade o número, e a disposição dos inimigos, que se sabia estarem muito proximos. Então Feliz Lourenço, feitor, e constructor da estrada Real, que já tinha mostrado muito patriotismo, e tinha sido o que retocára as armas Reaes, e dirigíra a mão de hum tosco official de pintor, para as cobrir com as tintas competentes, offerece-se para ir reconhecer as posições, ou a marcha dos Francezes. Partindo para este fim com huma patrulha de 30 homens, assim que sahírão da cidade, estes o forão abandonando, de fórma que no alto do Vieiro se achou sómente com hum companheiro: alli se separárão hum do outro, já á vista dos inimigos, que avançavão; e atravessando por entre pinhaes, fazendas, e vallados, conseguírão levar aos nossos o aviso: aviso innutil, porque nem lhes augmentava a sua diminuta força, nem podia minorar-lhes as desgraças. [Sidenote: 1808 Julho.] Naquelle mesmo sitio dispozerão os inimigos as suas tropas para cercarem a cidade, formando-se em meia lua, e collocando a artilheria no centro, que foi marchando a passos lentos, em quanto as pontas se estendião rapida, e silenciosamente, indo curvados os soldados, e com as armas baixas, para não serem vistos. Tanto que descobrírão as nossas avançadas, mandárão por parlamentario hum paizano, que tinhão apanhado, com intimação aos nossos, que depozessem as armas: foi muito mal recebido; e como os Francezes vissem, que se demorava, começárão o fogo a tempo que o cerco estava feito, tendo-se adiantado a ala direita inimiga pelo sitio da Mourãa para a cova do Picanço, e a esquerda pela Carvalha, Santa Clara, Bairro ruivo, e Ollarias, a fechar na costa do castello. [Sidenote: 1808 Julho.] Não podia esperar-se grande resistencia da parte dos nossos; com tudo foi disputado o passo da Portella, que o Coronel de milicias Isidoro dos Santos Ferreira não abandonou, senão depois de cruzarem sobre elle as balas. O Capitão-mór Manoel Trigueiros conservou-se a pé firme na casa da camara, até a ultima extremidade, dando as competentes providencias para as suas ordenanças e foi-lhe necessario, para escapar, o despir alli mesmo o uniforme militar, e disfarçar-se em trages de paizano pobre. [Sidenote: 1808 Julho.] Vencido o passo da Portella, deixárão ahi os Francezes o parque de artilheria junto á igreja de S. Bartholomeu com hum corpo unido, que seria de 700 homens: o mais espalhou-se pela cidade, e seus arrabaldes, matando, e roubando quanto se encontrava, e perpetrando os mais aggravantes attentados. Mulheres, crianças, velhos, enfermos, e aleijados era tudo sacrificado com igual impiedade. Os templos, as casas, as ruas, e os campos offerecião as mesmas scenas de mortandade, saque, sacrilegios, e libertinagem: nada escapou ao furor destes barbaros. O paço episcopal foi huma das primeiras casas, que procurárão, mostrando grande empenho por apanharem o Bispo; mas tinha-lhes escapado poucas horas antes, seguindo a estrada da Figueira, onde foi refugiar-se. No convento de Santo Antonio hum religioso estava confessando huma mulher, matárão o confessor, e a confessada, e depois se divertírão em arrastar pelas ruas o cadaver da mulher, trazendo ao seu lado espetado em huma baioneta hum filhinho de hum anno, que estava junto a ella. Hum infeliz paizano, que estava de guarda junto ás grades da cadêa, não teve tino, nem para fugir, nem para largar a arma: o proprio Margaron quiz ser o assassino, que o atravessasse com a sua espada, e como impellido pela força da estocada elle ficasse ainda em pé encostado á parede, o mandou acabar a tiros d’espingarda. [Sidenote: 1808 Julho.] Profanárão o recolhimento de Santo Estevão. A officialidade Franceza quiz fazer o mesmo ao convento das freiras de Santa Anna; mas a Abbadeça lhe appareceo á portaria á frente da communidade, e dispondo-se a sahir com cruz alçada, lhes impoz respeito. Não ficou escondrigio, que não remexessem, procurando riquezas; e aqui abrírão o exemplo de revolverem as proprias sepulturas, como depois tem praticado os novos bandos destas harpias devoradoras por todas as partes do reino, onde tem penetrado. Em varias igrejas arrombárão os sacrarios, e roubárão os vasos sagrados, espalhando pelo chão as sagradas Fórmas. [Sidenote: 1808 Julho.] Não saciados ainda com o sangue das victimas, de que os cadaveres juncavão as ruas da cidade, passárão a fazer huma caçada geral dos homens, que pudérão descobrir, e arrancar dos seus escondrijos, e os conduzírão ao sitio de São Bartholomeu, para ahi os arcabuzarem. Entrou neste número o mesmo Feliz Lourenço, de que proximamente fiz menção: apanhado por hum dos gend’armes, que tinhão estado na brigada de Leiria, logo este o conheceo, e lhe disse: _Oh! moço do Principe, e fez armas novas, ha de morrer_; e daqui se infere, que já sabia que elle tinha trabalhado na restauração das armas Reaes. Foi com effeito conduzido ao monte, onde já se achavão os outros infelizes, e immediatamente lançado por terra com huma grande pancada de coronha na cabeça, e começou a mais horrivel carniceria, que póde caber na impiedade dos homens. Estavão pela maior parte de joelhos, e com as mãos levantadas, supplicando huns piedade aos ceos, e outros a vida aos assassinos; e estes malvados, sem se commoverem a tantas lagrimas, e sem lhes tremerem as mãos, cevárão de sangue frio as espadas, e as baionetas nos corpos de tantas victimas, traspassando a todos com infinidade de golpes, e servindo-lhes de divertimento os seus dolorosos lamentos; só depois de os terem por este modo feito lutar com a morte, he que os acabárão com descargas de mosquetaria. [Sidenote: 1808 Julho.] Dois escapárão com vida naquelle acto; mas hum destes veio a espirar tres dias depois; o outro, que he Feliz Lourenço, ainda vive, mas em que estado? Com o corpo, e o rosto desfigurados pelos vestigios do fogo, e pelas cicatrizes de 28 picaduras de baioneta, com o olho esquerdo de menos, que lhe levou huma bala, com os ossos do antebraço direito despedaçados, innutilizados os tendões, e paralyzada a mão. He delle mesmo que eu tenho as particularidades deste successo espantoso, de que não resta alguma outra testemunha, a não serem os proprios assassinos. [Sidenote: 1808 Julho.] Acabada a mortandade, os assassinos estando dentro de huma cidade, achárão-se em hum deserto, sem outra companhia que a dos cadaveres, e alguns moribundos. Cuidou então Margaron nos meios de alliciar os fugitivos, para que se recolhessem a suas casas, e principalmente os officiaes de justiça, e hum Parocho: aquelles para lhe apromptarem viveres, este para fazer enterrar os mortos, e servir de medianeiro entre elle, e os póvos, para os fazer voltar aos seus lares. Appareceo com effeito o Parocho da Sé, e o General o tratou muito bem, permittindo-lhe o administrar os sacramentos aos feridos, que ainda conservavão a vida, e cuidar no enterro dos mortos; e forão successivamente sahindo das suas casas alguns outros habitantes da cidade, espavoridos, e ainda incertos da sua sorte. [Sidenote: 1808 Julho.] Pelo mesmo Parocho, e por outros canaes, que se lhe forão abrindo, fez publicar, que Leiria estava perdoada. Que perdão depois de tantos estragos! Que perdão, onde não havia crime! Sim o povo de Leiria se achava culpado, porque he hum crime para com os tyrannos todo o passo, que o homem possa dar para reasumir os seus direitos. Hum crime real teria este infeliz povo, se lhe fossem imputaveis as vergonhosas expressões de vil lisonja, com que quatro ou cinco homens tinhão pouco antes incensado os usurpadores com escandalo da nação. Póvos da Europa! Ponde os olhos em Leiria, e vede a recompensa, com que os Francezes do nosso tempo retribuem aquelles, que os chamavão seus irmãos primogenitos, que se davão por felices de se acharem situados na estrada militar, para melhor se assinalarem na cordialidade, com que os devião agazalhar, que os invocavão com os seus regeneradores, e se desfazião em elogios, e baixezas para com esse que chamavão o restaurador da nação Portugueza o seu Napoleão o grande, e para com o seu novo Rei promettido.[2] Mas lancemos de pressa o véo: nem o fiel povo de Leiria he culpado em taes baixezas, nem, quando o fosse, deveriamos aggravar mais com declamações extemporaneas o grande pezo das suas infedades. [Sidenote: 1808 Julho.] Junto na cidade hum sufficiente número de gente, deo-lhe Margaron huma especie de beija-mão (era o lobo acariciando os cordeiros) em que lhe fez huma missão pungente. Reiterou a palavra, que tinha dado, de suspender nos ulteriores procedimentos contra aquelle povo, e fez affixar hum edital, para que todos os habitantes da cidade, que andavão fugitivos, se recolhessem a ella dentro de 24 horas, pena de morte. [Sidenote: 1808 Julho.] Por ausencia dos magistrados, creou hum Governo civil, composto de hum Corregedor mór com dois adjuntos, os quaes erão dos fugitivos, que o chamado perdão geral tinha feito recolher. Acceitárão de boa fé estes empregos, sendo o Corregedor mór aquelle mesmo, que no dia 4 tinha publicado pelas ruas a proclamação patriotica: curvárão á viva força; e as funções da sua nova authoridade quasi se limitárão a fazer apromptar viveres para os Francezes. O Prior do convento da Graça padeceo a nota de ter sido feito Bispo de Leiria por Margaron. Este procedimento não me admiraria pela parte do General Francez, porque era huma bagatella no meio das extravagancias, e dos attentados desta gente, mas a verdade he, que não appareceo facto algum, que possa servir de fundamento a semelhante asserção, e que apezar de algumas complacencias do Prior para com os Francezes, antes, e depois da desgraça de Leiria, não consta (pelo menos de hum modo que chegasse ao meu conhecimento) se involvesse em maquinações contra o Estado. NOTAS DE RODAPÉ: [Footnote 2: São expressões relativas a huma carta, que se inserio na gazeta de Lisboa de 31 de maio de 1808.] CAPITULO XXXI. _Imposturas, e maquinações por occasião dos successos de Leiria, e de Thomar. Junot serve-se da authoridade dos Prelados, e superiores ecclesiasticos, tanto seculares como regulares, para conter póvos na obediencia ao governo intruso, e faz excommungar os que se levantassem. Margaron em Thomar._ [Sidenote: 1808 Julho.] DADAS as disposições referidas, poz-se Margaron em marcha com a sua tropa no dia 7. Não faltárão sustos de que tomasse o caminho de Coimbra; mas ou porque elle julgasse insufficientes as suas forças para marchar sobre este lado, ou porque fossem outras as ordens, que tinha, voltou sobre Thomar. Em quanto Margaron seguia esta estrada, publicava Junot em Lisboa o já citado boletim 3.^o que contém as façanhas da expedição de Leiria. E que affectação, que impostura na narração dos factos! He muito util o conhecerem-se, para que os Francezes, e as suas decantadas proezas appareção hum dia como são, e não como elles se pintão. [Sidenote: 1808 Julho.] Não he nada, inventou Junot hum exercito de 7$ insurgentes das provincias do norte, reunidos em Leiria, e marchando armados sobre Lisboa, publicando que vinhão destruir o exercito Francez. Fez-lhes dar huma batalha campal pela divisão de Margaron, em que os Francezes tinhão feito desapparecer tão rápidamente as vantagens do número, e da posição dos insurgentes, que ametade de tropas, e a totalidade da artilheria não tiverão tempo de entrarem na acção. Annunciou consequentemente o completo desbarato do nosso exercito, deixando quinhentos insurgentes mortos no campo da batalha, e os mais largando as armas, para fugirem, ficando ao mesmo tempo libertados alguns dragões das brigadas de correspondencia, que isoladamente tinhão sido prezos. Segue-se hum paragrafo muito notavel a respeito da humanidade do General. _A perda do inimigo_, diz o boletim, _mais consideravel haveria sido, se o senhor General Margaron não tivesse contido a indignação das tropas: passado porém o instante do combate, foi a moderação igual ao valor, e a ordem seguio de perto a victoria._ Sepulcros de Leiria! Convencei a impostura, com que tem enganado o mundo estes salteadores, tão cruéis, como pérfidos, e enganadores. [Sidenote: 1808 Julho.] Remata o boletim, fazendo o elogio das tropas, e officiaes da expedição, sendo hum dos que merecerão a sua particular attenção o Principe de Salm-Salm; este monstro, que já principiei a dar a conhecer, e que nascido na Alemanha tem adoptado no serviço de Napoleão a crueza, e as maximas dos mais resolutos corifeos da sua escóla. Referem os nossos papeis públicos, que elle públicamente se jactava de que nesta barbara expedição tinha feito morrer ás suas mãos cinco frades, e que cahindo em seu poder huma mulher pejada, lhe soubera fazer de tal fórma a operação, que de hum só golpe matára a mãi, e o feto.[3] [Sidenote: 1808 Julho.] Tinha muitos companheiros na devassidão dos costumes, e na sua conducta atroz, e violenta; mas fez-se além disso muito célebre pela grosseria do seu trato. Mudou de aboletamentos em Lisboa, sendo contínuas, e extraordinarias as insolencias, que fazia nas casas onde entrava. Ultimamente, estando de quartel em huma boa casa junto ao largo do Quintella, hum dos lugares mais públicos da cidade, sahia muitas vezes ao mesmo largo a toda a hora do dia, a pegar nos pés dos seus cavallos, para se ferrarem, nú de corpo e pernas, sómente com humas chinellas nos pés, e huma sobrecasaca branca sobre a pelle. A seguinte carta he huma outra impostura, que Junot então manejava por meio das seus agentes em Thomar, pertendendo com ella seduzir, e aterrar os outros póvos, para que senão levantassem. [Sidenote: 1808 Julho.] Carta. _Ill.^{mo} e Ex.^{mo} Senhor. Motins populares, excitados pelo fanatismo, que em todos os tempos se tem servido da ignorancia para os seus malvados fins, obrigárão a nobreza, e povo de Thomar a fazerem actos contrarios ao governo estabelecido por S. M. I. e R., mas actos feitos por força são nullos, e logo que cessa a força ha obrigação de assim o declarar. Isto he o que fazemos, supplicando a clemencia de V. Ex.^{ca} para com aquelles, que forão allucinados com opiniões falsas, segundo as determinações de V. Ex.^{ca} pois que os que forão forçados, diante da justiça de V. Ex.^{ca} estão livres. E se do agrado de V. Ex.^{ca} for, que a este respeito, e para instrucção do povo se affixe alguma proclamação, fallohemos, em cumprimento das ordens de V. Ex.^{ca} de quem temos a honra de ser, &c._ [Sidenote: 1808 Julho.] Foi publicada esta carta na gazeta de Lisboa de 8 de julho com 21 assinaturas entrando neste número as de alguns daquelles mesmos, que tinhão sido mais fervorosos no acto da restauração. Ajuntou-se-lhe huma nota de que havendo-se manifestado em Thomar hum principio de insurreição, os frades, e a mais vil canalha forão os unicos, que tomárão parte nesta chamada revolta; que porém os habitantes honrados se derão pressa a dirigir a Junot a referida carta: que em consequencia tivera ordem o General, que marchava sobre Thomar, para que destinguisse esta villa da cidade de Leiria, a qual tinha persistido no seu criminoso delirio, e por isso recebêra o castigo merecido, como Béja, e Villa-viçosa: que a mesma sorte estava reservada a todas as povoações, que ousassem revoltar-se. [Sidenote: 1808 Julho.] Que aggregado de calumnias, e de insolencias! Só os frades, e a mais vil canalha tinhão tomado parte na revolução de Thomar? Se assim fosse, a vil canalha[4] se tornaria a porção mais illustre deste povo, porque as acções brilhantes são as que tirão o homem da obscuridade; mas a verdade he, que em frades, ou por occasião de frades teve principio o levantamento, que porém todas as classes do povo concorrêrão unanimemente, para o complemento da restauração. Foi no heroismo, e não na violencia, que assentou esta generosa resolução dos habitantes de Thomar: foi o patriotismo, e não o fanatismo quem os conduzio a quebrarem o jugo, que os opprimia: foi virtude, que merece os mais assignalados elogios, e não crime, pelo qual devessem humilhar-se, e pedir perdão aos opressores. [Sidenote: 1808 Julho.] Nunca apoiarei baixezas; mas seja-me permittido deixar cahir algumas penadas, que adocem o procedimento dos que assignárão a carta; pois que a natureza não foi pródiga em conceder aos homens aquelle alto gráo de valor, e de firmeza, que os póde conduzir, a soffrerem voluntarios o martyrio, pelo bem da patria. Considere-se o espantoso exemplo de Leiria, a proximidade do barbaro Margaron com a sua divisão, o estado inerme dos habitantes de Thomar, e a sua posição do meio das terras invadidas, sentiremos menos repugnancia em desculpar hum acto, que com tudo não podemos louvar. Muito fizerão elles em largarem das suas mãos a carta com hum testemunho, que mostrará a todo o tempo, em que for lida com reflexão, que ella foi hum parto da violencia. _Isto he o que fazemos, diz ella, supplicando a clemencia de V. Ex.^{ca} para com aquelles, que forão allucinados com opiniões falsas, segundo as ordens de V. Ex.^{ca}_ Foi pois por ordens expressas de Junot que se escreveo a carta: forão as baionetas as que dirigírão a pena.[5] [Sidenote: 1808 Julho.] [Sidenote: 1808 Julho.] Temos hum monumento mais extraordinario de huma semelhante violencia na pastoral de 2 de julho, que se publicou em Lisboa em nome do Collegio, _sede vacante_: peça memoravel, que tem sido impressa por varias vezes (ultimamente no _Observ. Portug. pag._ 348) e com vergonha do seculo presente nos reconduz ás idéas tenebrosas dos seculos XI., e XII. Nestes tempos de ignorancia virão-se os Papas, e os Bispos levar suas emprezas até o excesso de excommungarem, e desenthronizarem hum grande número de Soberanos, desligando os vassallos do juramento de fidelidade. Foi necessario, que os contínuos combates entre o sacerdocio, e o imperio assolassem a Europa por muitos seculos, para raiar em fim o clarão de dias mais tranquillos. Chegou este tempo feliz, estabelecêrão-se os limites dos dois poderes sobre bases, que parecião innabalaveis, como cimentadas pela razão, e pela memoria horrorosa de tanto sangue humano, que o seu desconhecimento tinha feito derramar. Forão os Francezes os que mais trabalhárão nesta obra, levando-a a hum ponto, que degenerou em excesso; pois chegárão a cobrir de hum tal ridiculo as censuras ecclesiasticas, que raras vezes se fallava dellas nas conversações particulares, nas bellas companhias, e nos circulos diplomaticos, sem que excitassem rizo, e mofa. [Sidenote: 1808 Julho.] Tal era o estado da opinião a este respeito nos fins do seculo XVIII., e principios do XIX.; e foi então que apparecêrão outros Francezes armados, no meio de hum povo sempre cioso da sua independencia nacional, e sempre fiel aos seus Soberanos, dictando decretos, não já a hum Papa, ou a hum Bispo, mas a huma simples congregação capitular, que fulminavão excommunhões, e anathemas, perdimento de cargos, e officios, com inhabilidade para mais os haver, contra todo aquelle, que directa, ou indirectamente, de palavra, por factos, ou escritos, em público, ou em particular, procurasse commover os espiritos; para recobrarem a sua liberdade, e o seu Principe, ou resistirem aos usurpadores, e muito particularmente contra todos os que conservassem armas em suas casas. E achárão hum texto na Epistola de S. Paulo _ad Romanos_, para apoiarem esta doutrina! Faltava esta extravagancia, para servir de ornamento aos annaes politicos dos reformadores da Europa! Eu não faria justiça ao Collegio Patriarcal, senão affirmasse, que foi hum parto de positiva violencia, como he bem sabido. [Sidenote: 1808 Julho.] Os Prelados, e superiores ecclesiasticos, tanto seculares, como regulares, tiverão insinuações, e ordens analogas: até o Guardião do seminario do Varatojo foi inquietado no seu proprio retiro. Em 7 de julho se vio este pobre religioso (Fr. Paulo de Santa Teresa, era o seu nome) com hum correio á porta, que lhe levava ordem de Junot, para que nesse mesmo dia pelas 5 horas da tarde lhe viesse fallar a Lisboa. Poz-se a caminho, levando em sua companhia o Padre Fr. Francisco das Chagas; mas a distancia, e o seu instituto, que os obrigarão a andarem a pé, não lhes permittírão o chegarem ao quartel-general senão pelas 5 da tarde do dia seguinte. Junot os recebeo com palavras doces, dizendo-lhes, que estava bem informado de que tinhão grande força, para persuadirem os póvos com seus sermões; que queria por tanto, que mandassem prégadores a Leiria, e ao Além-Téjo, para conterem aquellas terras na obediencia. Desculpou-se o Guardião, que a rogos dos Bispos tinha mandado em outubro precedente a varias terras todos os Padres capazes de missionarem, e que por isso não havia então no seminario senão alguns, improprios deste ministerio, huns por muito velhos, outros por muito moços, e sem principios; que porém para lhe fazer a vontade, mandaria vir os que estavão em Aveiro, e em Viseu. Perguntando-lhe então Junot, quantos erão os Padres, que havia no seminario, e respondendo o Guardião, que vinte, o cordeiro apparente tornou-se em leão verdadeiro. _Ah! f ... franciscanos_, exclamou Junot, _em vinte Padres não tendes quem vá para as partes, que eu determino! Ah rebeldes, tenho entendido, que os que estão em Aveiro, e Viseu andão rebellando os póvos._ [Sidenote: 1808 Julho.] Com estes, e outros discursos semelhantes esteve moendo os frades por boa meia hora, e vendo, que nada conseguia do Guardião, retirou-se furioso para hum aposento immediato, e fechou a porta com grande estrondo; mas com a reacção da pancada tornou a abrir-se em parte, e virão elles, que Junot se poz a escrever. O Guardião de assombrado ficou feito huma estatua; mas o companheiro o advertio, que era bom irem aballando, antes que outra vez começasse a scena: assim o fizerão, e acabou o entremez. [Sidenote: 1808 Julho.] Entretanto seguia Margaron a sua derrota, e a 9 foi apresentar-se em Thomar com a divisão do seu commando. Principiou por impôr huma contribuição de 10$ cruzados, para serem pagos pelos conventos, e corpo do clero: convocou a camara para lhe fazer prestar juramento de fidelidade a Napoleão, fez vir á sua presença o Corregedor da comarca João de S. Payo Freire d’Andrade, que se tinha refugiado para dalli quatro leguas, e o inquietou, e aos outros ministros com perguntas sobre a sublevação daquelle povo, e motivos porque a não tinhão cohibido; mas não procedeo, senão com ameaças. Estando proximo a partir, com o pretexto de novos motivos, impoz nova contribuição de outros 10$ cruzados, com ordem de serem logo pagos, para cujo fim reteve por algum tempo em refens hum freire conventual da ordem de Christo, hum franciscano, e hum capucho. Dadas estas disposições, e outras tendentes á manutenção da terra, que lhe levárão tres dias completos, se poz com effeito em marcha para Lisboa, levando ainda hum consideravel número de bestas, que extorquio aos póvos de Thomar, além dos roubos da tropa: forão as penitencias medicinaes, que acompanhárão a indulgencia plenaria, que lhes concedêra Junot. Por esse mesmo tempo descia tambem ao longo do Téjo o General Loison com a sua divisão, voltando da sua famosa expedição da Beira, de que vou agora continuar o fio. NOTAS DE RODAPÉ: [Footnote 3: _Relaç. Breve, e Verdad. da Entr. dos Franc. em Portug. Pag. 103. Verdad. Vida de Bonap. cap. XIV._] [Footnote 4: A expressão _vil canalha_ na frase usual denota sómente os individuos de baixa plebe, e não os criminosos, e notados de infamia, como poderia entender-se, tomada a mesma expressão em sentido mais rigoroso.] [Footnote 5: Factos desta natureza trazem sempre comsigo, eu o confesso, o cunho da escravidão, e da ignominia; mas seria desconhecer inteiramente os principios da imputabilidade das acções humanas pôr na mesma linha os miseraveis instrumentos passivos, de que os invasores se servírão, com terror ou com violencia, para as suas maquinações, e os verdadeiros criminosos, que a elles se unírão de bom grado, para atreiçoarem o Soberano, e destruirem a Monarquia. São factos, que respeitão principalmente ao Soberano, e quando este manifesta sobre elles a sua vontade, os vassallos não devem transgredir os seus limites; julgo pois a proposito pôr aos olhos dos meus leitores dois documentos, que mostrão assás o benigno, e humano modo de pensar do nosso bom Soberano, e do seu ministerio sobre este objecto; o primeiro he a Carta Regia expedida da corte do Rio de Janeiro ao Juiz do povo de Lisboa em 11 de janeiro de 1809; o segundo he o Aviso da Secretaria do Governo dos Negocios do reino a Lucas de Seabra da Silva, servindo de Regedor, datado de 20 de maio do mesmo anno. Carta Regia. _Muito honrado Juiz do povo da minha cidade de Lisboa. Eu o Principe Regente vos envio muito saudar. Nas representações, que fizestes em nome do povo, por occasião da restauração dessa cidade, aos Generaes Inglezes, e outras pessoas empregadas no meu Real serviço, e que sobírão á minha Real Presença, me dais evidentes provas do vosso patriotismo, e zelo pelo bem público, e felicidade da Monarquia, manifestando-se tambem por ellas os sentimentos de fidelidade, e amor, que reina nos corações desse povo leal, que vendo-se livre, pela Divina Providencia, do jugo tyrannico dos Francezes, acaba de proclamar aquella Paternal Soberania, que por sete seculos fez a felicidade da nação, e mais que tudo a regeo com tal doçura, que a sua conservação devia ser preciosa a hum povo fiel, e que não podia esquecer-se de huma tão suave memoria. Continuai a conservallo nos mesmos puros sentimentos; lembrai-lhes sempre que o seu Soberano não tem outras vistas, senão a de fazello feliz. Que nas ordens dadas ao Governo, que o hade reger, verá isto mesmo assignalado com indeleveis caracteres; e que esperando, que elle se mostre obediente aos meus delegados, me lisongeo tambem, que nos seus procedimentos contra os máos mostrará a maior moderação, deixando, que a lei, e o magistrado, seu orgão, se encarregaem unicamente dos castigos dos réos, de que o meu coração piedoso me deixa esperar, que não seja grande o número, pois não desejo confundir os erros dos tímidos, e pusilanimes com os crimes dos verdadeiramente mal intencionados. Espero com o favor do ceo, que irei ver-vos, logo que as circunstancias o permittão, e dar-vos provas do muito affecto, que tenho a hum tão leal povo. Escrita no palacio do Rio de Janeiro, &c._ Aviso. _O Principe Regente N. S. foi servido ordenar, que se declarasse aos magistrados, que malevolos, que se vendêrão aos Francezes, e com elles maquinárão a subversão da Monarquia, não se devem confundir com aquelles, que por temor, e por julgarem o mal irremediavel, se unírão ao Governo Francez: o que participo a V. S.^a, para que o faça presente na Casa da Supplicação, e o communique aos outros magistrados da sua jurisdicção. Deos guarde a V. S.^a Secretario d’Estado dos negocios do reino em 20 de maio de 1809.--João Antonio Salter de Mendonça--Senhor Lucas de Seabra da Silva._ Recommendo á lembrança, e á reflexão dos meus leitores o que deixo escrito sobre materias, que tem muita analogia com esta, no _cap. XXIII do tom. I_. Não sou contradictorio, mas desejo distinguir os factos, quando não são identicos, e reduzir a sua imputabilidade aos verdadeiros principios, que a regem. Tendo porém dito relativamente ao Cardeal Patriarca Mendonça, e á sua pastoral de 8 de dezembro de 1807, que o manhoso Junot, para delle a extorquir, abusava de seus provectos annos, que o visitava, e lhe mandava recados obrigadores, &c. tenho agora de declarar a palavra _visitava-o_ (pag. 290) para que della se não deduza huma noção erronea. Junot cumprimentava repetidas vezes o Cardeal, mandando-lhe visitas, (frase familiar) e recados obrigadores, e procurando alliciallo por todos os meios, que podia; mas não o chegou a visitar corporalmente. Esteve destinado o dia para se effeituar este cortejo público com grande pompa, mas aggravou-se entretanto a doença do Cardeal, e seguio-se a sua morte, que prevenio a representação de mais esta farça. Accrescentarei mais, que vinhão de tão longe as idéas de seduzir o Cardeal, aliás conhecido por bom Portuguez, honrado, e fiel servidor de toda a Familia Real, que o mesmo Junot, quando veio residir em Lisboa com caracter ministerial, lhe entregou huma carta para elle do proprio Napoleão, em que o tratava de primo, e o enchia de lisonjas. Aproveito esta occasião, para corrigir o que disse relativo á Academia Real das Sciencias no _tom. II. cap. XL. pag. 220_. Os factos, que referi, forão assás públicos, e a gazeta de Lisboa de 12 de abril de 1808 os annunciou em hum artigo, que tinha os caracteres de official, referindo os nomes dos deputados, que apresentárão a Junot o titulo de socio honorario, que elle sómente aceitára, e copiando o discurso, que nesta occasião recitára perante elle hum dos mesmos deputados. Com tudo a Academia, fazendo-me a honra de me admittir no número dos seus socios correspondentes, me deo occasião a conhecer pelos seus proprios papeis, que, apezar de todas as apparencias, não cooperou em corpo para estes factos, nem talvez lhe forão communicados em sessão regular: pelo menos não ha vestigios disso nas suas actas: as corporações não respondem pelos actos, que não authorizão, ainda que sejão praticados debaixo do seu nome por alguns dos individuos, que as compõem.] CAPITULO XXXII. _Loison parte de Almeida com a sua divisão. Hostilidades que commette na Guarda, e Alpedrinha. Levantamento da Covilhã, e outros successos daquella expedição._ [Sidenote: 1808 Julho.] A 3 de julho sahio Loison de Almeida com a sua divisão, e chegou á Guarda pela tarde. Os habitantes desta cidade tinhão tido o valor de se levantarem no dia presente, formando, ainda que com pouca consistencia, hum Governo, de que o Bispo era Presidente, sem se assombrarem com a visinhança deste corpo inimigo, e sem poderem contar com meios alguns de defeza. [Sidenote: 1808 Julho.] Era hum domingo, e dia de feira, quando Loison se aproximou; e vendo as entradas da cidade cheas de povo, ainda que quasi tudo sem armas, parou algum tempo a meia legua de distancia, não se atrevendo a chegar-se mais, em quanto as suas observações lhe não fizerão conhecer a qualidade de gente, que tinha á vista. No antigo, e desmantelado castello havia huma peça de ferro, que, por ter estado exposta ás injúrias do tempo havia seculos, se achava toda esfoguenada, e destruida, sem aparelhos, e até sem azas; em huma palavra, incapaz de todo o serviço: assim mesmo alguns enthusiasmados paizanos a conduzírão sobre hum carro para huma eminencia sobranceira á estrada. Eis-aqui todo o trem, e apparato, com que se disputava a Loison a sua passagem. [Sidenote: 1808 Julho.] Feitos pois os reconhecimentos, este General fez avançar os seus soldados, e disparar muitos tiros todos ao vento, porque a gente desappareceo logo aos primeiros movimentos. Entrárão, e saciárão o seu furor sobre alguns velhos, aleijados, e mendigos, que fiados na sua innocencia, e na piedade, que o seu aspecto devia excitar, se tinhão deixado cahir em poder destes barbaros, que os assassinárão cruelmente. Dizem, que Loison procurava com muito empenho pelo Mithra: o Mithra (bem se entende que era o Bispo) tinha-lhe escapado, mas com grande risco. A esta tarde sanguinosa seguio-se huma noite de rapinas. A maior parte das casas foi saqueada, de que resultou aos inimigos hum consideravel despojo: roubárão tambem o deposito público; exigírão dinheiro ás freiras; levárão ouro, prata, roupas, e animaes; despedaçárão móveis, entornárão pipas, praticárão quanto a licença, e a cobiça lhes inspiravão, e continuárão no dia seguinte a sua marcha. [Sidenote: 1808 Julho.] Taes forão em resumo os successos da Guarda; mas o boletim 4.^o do exercito Francez os pintou de huma maneira bem differente. Os rebeldes, collocados em duas linhas, com flancos cobertos por pontos fortes, e o centro sustido por duas peças de artilheria, Loison atacando os atiradores com presença de animo, e intrepidez, e rechaçando-os com perda enorme, as linhas procurando manter-se, mas sendo ao mesmo tempo forçadas, rotas em varias partes, e cercadas, huma matança terrivel, de que resultárão mais de mil Portuguezes estendidos sobre o campo de batalha, e Loison perseguindo os restos dispersados, e entrando na Guarda a passo de ataque: eis-aqui como Junot representou aos olhos do público esta gloriosa façanha do famoso heróe de hum só braço. [Sidenote: 1808 Julho.] Por este tempo se levantou tambem a Covilhã, villa notavel, que o grande trato de lanificios tem feito populosa, e rica, a qual se estende sobre huma ramificação da serra da Estrella no seu flanco meridional 6 leguas abaixo da Guarda. O Zezere, que corre em pequena distancia, e huma infinidade de regatos, que cahem das montanhas, ajuntão a fertilidade á amenidade dos seus campos, e ás vistas soberbas, e pitorescas, que ornão este paiz, hum dos mais deliciosos de Portugal. A villa acha-se hum pouco desviada da estrada, e a sua posição a salvou de ser destruida. Logo que se effeituou na Guarda o levantamento no dia 2, expedírão-se avisos á Covilhã (assim como a outras mais terras em roda) os quaes concorrêrão com outros do Governador de Coimbra; e foi em consequencia delles, que o Juiz de fóra Caetano de Mello da Gama Araujo e Azevedo acclamou das suas janellas o nome do Principe Regente a 3 pelas 9 horas da manhã. De tarde repetio-se a acclamação pelas ruas em concurso, e procissão solemne da camara, e de hum grande número de pessoas de todas as ordens; sendo conduzido o estandarte Real pelo Tenente-Coronel do 1.^o regimento de milicias da comarca Gregorio Tavares. Estava destinado o dia 4 para a celebração de hum _Te Deum_; mas chegando nesse mesmo dia pelas 7 horas da manhã a noticia dos estragos da Guarda, e da marcha de Loison, foi necessario suspender nas funções da igreja, para se cuidar nas de defeza. [Sidenote: 1808 Julho.] Gregorio Tavares pôde reunir huns 200 homens, quando muito, do seu dissolvido regimento. O Juiz de fóra, e os officiaes das ordenanças ajuntárão hum maior número de paizanos, que tratárão de armar do modo possivel, e distribuir pelos postos de mais importancia: polvora achou-se bastante, mas faltavão as balas, que sómente pudérão fazer-se depois de passado o perigo, e tambem as espingardas erão em pequeno número. O povo manifestava hum grande enthusiasmo; e aquelles, que se tinhão posto á sua frente para o dirigir, muita actividade, e muito patriotismo; forão porém manchadas estas bellas disposições com o sangue de dois infelizes: exporei o facto. [Sidenote: 1808 Julho.] [Sidenote: 1808 Julho.] Achavão-se estabelecidos na Covilhã hum Irlandez, chamado Mattheus Reynolds, homem assás industrioso, e com muitos conhecimentos das artes, e hum outro estrangeiro, que lhe servia de lingua, e de ajudante, encarregados da construcção de huma nova máquina, para a fiação das lãs da fabrica. Estes homens, que como estrangeiros, e póde ser por genio, tinhão pouca communicação com a gente da terra, não tomárão a parte activa, que o povo quereria, nestes seus movimentos. Quando se andava pelas casas pedindo a cada hum as armas, e munições, que tinha, tambem se foi ter com elles, e não quizerão dar as suas, fazendo-se por isso mesmo suspeitos ao povo, que em consequencia os apertou mais vivamente, e elles se encerrárão em casa. Em hum instante foi esta rodeada, e sahindo o lingua com huma espada na mão, como quem queria brigar, apenas ia pondo os pés na rua, cahio morto no meio da multidão. Então Reynolds se fechou depressa por dentro, e rompeo no desvario de sobir a huma janella, e fazer fogo sobre o immenso povo, que tinha concorrido; immediatamente huns investírão a porta outros as janellas, e outros mesmo aos telhados, e o infeliz, querendo atravessar por entre a multidão, cahio opprimido, e atordoado com pancadas, mas não morto. Pedio confissão, e he o que lhe salvou a vida, porque suspendeo o furor popular: era tal o estado, em que se achava, que o conduzírão em huma tumba para a misericordia, conseguio porém restabelecer-se, e foi depois remettido para o Porto. Muitas balellas se espalhárão a respeito destes estrangeiros, e penso que sem fundamento verdadeiro. Registrárão-lhes exactissimamente a casa, e achando-lhes alguns arrateis de polvora, e huma porção de balas de cobre, que provavelmente lhe servirião de alguma cousa para o uso das suas máquinas, chamárão-lhes traidores, e publicárão, que tinhão correspondencias com os inimigos, e conservavão para elles grandes depositos de armas, e munições, até das balas de cobre figurárão balas envenenadas, e da pertinaz resistencia, que se propuzerão fazer, tirou-se por conclusão, que esperavão os Francezes, pensando pelo ruido do povo que ouvião serem estes que vinhão já entrando na terra. [Sidenote: 1808 Julho.] He muito provavel que Loison se não propoz a entrar na Covilhã; se se propozesse não havia alli forças, que lhe podessem obstar. Foi seguindo a estrada direita, e na tarde do mesmo dia 4 se avistou a 2 leguas da villa para as partes de Belmonte, ficando-lhe de permeio o Zezere. Toda a noite seguinte foi de grande reboliço, e Gregorio Tavares teve o arrojo de ir com hum piquete observar o inimigo junto ao lugar de Caria, onde tinha acampado: Loison o que queria era ver-se livre do meio de tantos póvos insurgidos, e por isso, sem acceitar desafios, levantou campo, e continuou seu caminho, ficando em poder dos nossos hum extraviado, que foi conduzido á Covilhã com grande alvoroço, e declarou, que a columna inimiga era de 4$400 homens, e não levava artilheria. [Sidenote: 1808 Julho.] [Sidenote: 1808 Julho.] Á vista do prisioneiro levantou-se hum franciscano chamado Fr. José da Madre de Deos, natural, e morador da Covilhã, e disse: _Pois eu não heide tambem ir buscar alguns prisioneiros!_ Foi dito e feito: sahio acompanhado sómente de hum paizano valoroso chamado o Bichinho, passando o Zezere unírão-se-lhe mais quatro paizanos do lugar de Pera-boa, e forão dar com sete Francezes junto á Capinha, de que matárão hum, e aprizionárão os seis restantes. Foi este o primeiro passo da carreira patriotica, e militar do Padre Fr. José da Madre de Deos, em que depois se distinguio muito, qual outro frade do habito branco,[6] principalmente no bloqueio de Almeida. Eu o conheci ultimamente em Lisboa, solicitando licença para ir levantar huma guerrilha contra o exercito de Massena. O Fundão despovoou-se, mas Loison não entrou nesta villa, porque se não desviou da estrada. Assim mesmo lhe forão ficando por aquellas terras bastantes prisioneiros, que provavelmente se extraviavão, por não poderem seguir a marcha. [Sidenote: 1808 Julho.] Alpedrinha tinha tambem quebrado o jugo, por unanime, e espontanea resolução dos seus habitantes, apenas alli constárão os successos do Porto, e Coimbra, communicados por dois Academicos no dia 2 de julho. A 4 reunírão-se as differentes classes do povo, e fizerão celebrar hum auto público da solemne acclamação, seguido de huma função de igreja, servindo de inflammar mais os animos o chegar nesse mesmo dia a Alpedrinha a célebre proclamação de Junot--_Que delirio he o vosso?_--a qual foi promptamente reduzida a mil bocados. Neste acto nomeou o povo para seus Governadores em 1.^o ao Juiz de fóra João Pedro Ribeiro de Carvalho, em 2.^o ao Capitão-mór das ordenanças, para cuidarem nos meios de organização, e defeza. [Sidenote: 1808 Julho.] Principiavão a tomar-se as medidas competentes, e já se havião expedido emissarios para as terras daquellas visinhanças, quando de repente se vio accommettida a villa por huma grande parte da divisão de Loison, que acabava de chegar á Atalaya. Os paizanos, ainda que em pequeno número, e mal armados, ousárão disputar-lhe a entrada, animados principalmente pelo cura da terra, mas em poucos momentos forão desbaratados, ainda que sem perda por então. Os barbaros lançárão hum cordão á roda da villa, e introduzírão nella huma columna das suas tropas, que foi matando quanto encontrou, sem perdoar ás proprias crianças; insultou os templos, roubando-lhe as suas preciosidades; arrombou o sacrario da igreja matriz, e não achando o vaso sagrado, lhe furtou huma cruz preciosa, que nelle se guardava; entregou em fim a terra a hum saque geral, a que se seguio o incendio de varias casas, e a destruição de muitas outras. O Juiz de fóra, relatando estes estragos em huma carta official, que escreveo ao Governador de Coimbra, diz, que a perda se calculou em mais de meio milhão: somma extraordinaria para huma terra tão pequena. [Sidenote: 1808 Julho.] Chegou a atrocidade dos invasores ao ponto de tirarem de casa de hum boticario da villa a hum pacifico velho seu tio, levando-o para o campo, onde o queimárão vivo á vista da paizanagem fugitiva, que de alguns montes visinhos ouvia ainda os seus lamentos. A hum outro deixárão estendido, tendo-lhe arrancado os olhos, cortado o nariz, e os orgãos da geração. E quem diria, que o bom Charlot, a cuja humanidade tributei os meus respeitos (tom. I. cap. XIX.) foi o commandante desta expedição? expedição de tigres, que todos são os mesmos, em se lhes offerecendo occasião! Felizmente era quasi sol posto quando entrárão na villa, ainda se derramárão pelo campo, e pelos montes, e apanhárão alguns fugitivos nos desfiladeiros de Alcongosta, e alturas de N. Senhora da Serra; sobreveio a noite, que servio de asylo aos mais. Chegando á Covilhã a noticia destes successos, ainda o Juiz de fóra, e o Tenente-Coronel de milicias chegárão a pôr em movimento hum corpo escolhido de ordenanças, e as mesmas milicias, para irem atacar o inimigo; mas este sahio logo no dia 6 de Alpedrinha, e foi dormir ás Sarzedas. Nesta travessa passou a 3 leguas de Penamacor, e era precisamente quando esta villa fazia o seu levantamento. No mesmo dia 6 ficárão dispostas as cousas, e a 7 de manhã se procedeo a acclamação solemne, seguindo-se o estabelecimento de huma junta. [Sidenote: 1808 Julho.] Nas Sarzedas os Francezes, além dos roubos, e estragos particulares, arrombárão, e despojárão a igreja principal, como já tinhão praticado em novembro de 1807, tirárão do sacrario o vaso sagrado, e espalhárão as sacrosantas Fórmas pelo pavimento. Achando a terra despovoada (he huma das que mais tem soffrido em todas as invasões desde 1807) arrancárão portas, queimárão santos, e commettêrão as maiores hostilidades. Pretextavão estes procedimentos com a fuga dos póvos; mas o infeliz Capitão-mór das Sarzedas, que tinha ficado em sua casa, não deixou por isso de experimentar a humanidade destes hospedes: elles o descalçárão, roubárão, e insultárão; só lhes faltou tirarem-lhe a vida. [Sidenote: 1808 Julho.] Semelhantes ultrajes ião praticando em muitas outras terras, por onde passavão; e aqui vem a proposito addicionar com os seguintes factos a narração dos que por estes mesmos sitios tinhão perpetrado em 1807, quando entravão como amigos. Em Villa de Rei fizerão cavalharices da misericordia, igreja paroquial, e ermidas, e deixárão envolvida no esterco das bestas huma imagem do Senhor morto, que se guardava na misericordia. Em casa do Capitão-mór da mesma villa despedaçárão hum crucifixo, atirárão com elle á imundicie, e degollárão huma imagem de S. João Baptista. Na villa de Mação acutilárão o Senhor dos Passos. Na ermida de S. Domingos junto á ribeira do Codoy, termo do Sardoal, queimárão as imagens dos santos, que achárão; e no convento de Santo Antonio de Abrantes tambem já tinhão no fogo a de S. Francisco, mas acudio-lhe hum frade, &c. &c. &c. E depois de milhares de factos desta natureza, perpetrados públicamente, e sem rebuço pelo exercito Francez, ainda Junot ousava dizer-nos em suas proclamações: _A vossa religião não he ella a nossa? Tem ella soffrido alguns ultrajes?_ Tornando a Loison, este General foi seguindo sempre a estrada por Abrantes, e ao longo do Téjo até Santarem, fazendo espalhar mil imposturas proprias a inspirarem terror aos póvos, para o não inquietarem na sua marcha. NOTAS DE RODAPÉ: [Footnote 6: Houverão nesta época dois dominicanos, que os nossos papeis públicos honrárão com este appellido de _frades do habito branco_; hum delles he o célebre Fr. José Joaquim da Ascensão, de quem fallei no tom. III. cap. XVIII., que póde tambem chamar-se _o dos oculos_, porque com elles no nariz fazia as suas admiraveis pontarias; o outro he Fr. Antonio Pacheco, prégador, e mestre authorizado na sua ordem, que se póde destinguir por ser _o da farda_. Este tambem combateo contra Loison na expedição da Regua, incorporado na columna de Guimarães, e na volta levou huma rica farda, que se diz ser daquelle General, e a depositou no templo de N. Senhora da Oliveira, tendo sobido ao pulpito com ella na mão, batendo-lhe com hum páo, e enthusiasmando o povo com hum discurso analogo, e acompanhou o nosso exercito até o Vimeiro.] CAPITULO XXXIII. _Nova expedição dos Francezes contra as provincias do norte, e destruição de Nazareth, e mais povoações adjacentes. As tropas Francezas retrocedem de Leiria, e tomão differentes destinos. Notavel assassinato em Lisboa._ [Sidenote: 1808 Junho.] EM Santarem achou Loison ordem de Junot, para tomar o commando de huma nova expedição contra as provincias do norte de Portugal, e era o maior esforço do seu poder vacillante. A sua força sobia a 10$, ou 12$ homens, conduzidos por Kellerman, e Thomieres, indo tambem Brenier, Solignac, e outros Generaes, tomando Alcobaça por ponto de reunião. [Sidenote: 1808 Junho.] [Sidenote: 1808 Julho.] Foi nesta occasião que Loison obrigou Kellerman a repôr ao Prelado do convento dos Padres Bernardos as cem moedas, que lhe tinha extorquido:[7] eis-aqui o facto. Kellerman chegou primeiro, e servia-lhe de lingua Vanzeller, ex-frade grillo, que desde estes tempos adquirio hum nome odioso, pela sua adhesão ao partido Francez: o Geral tinha fugido, e consequentemente Vanzeller se dirigio da parte de Kellerman ao Prior, pedindo-lhe 50$ cruzados, e dizendo sem rodeios, que os Generaes o que querião era dinheiro. Desculpando-se o Prior, que o não havia, porque tudo se achava esgotado com as requisições precedentes, Vanzeller lhe replicou, que sacrificasse tudo o que havia no convento, e que com isso fazia a sua fortuna, porque lhe não tardaria muito a nomeação de Patriarca de Lisboa; depois de muitas altercações vierão a ajustar-se em cem moedas, com as quaes se satisfez Kellerman. Estas gentes pedião sempre com largueza; mas quando se lhe não proporcionavão os meios de haver por manhas ou por força tudo o que querião, acceitavão o que se lhes dava. Chegou Loison no dia seguinte, (15 de julho) e fazendo vir á sua presença o Prior, perguntou-lhe com semblante carregado, que dinheiro lhe extorquira Kellerman: o Priori o quiz occultar, porque nada mais desejava, que o ver-se livre de hum, e de outro; mas as instancias, e mesmo as ameaças de Loison o obrigárão a depôr a verdade. Prometteo-lhe então Loison, que promptamente lhe faria restituir aquelle dinheiro, recommendando-lhe ao mesmo tempo, que se o mesmo, ou algum outro General lhe fizesse semelhantes extorções, o avisasse, escrevendo-lhe a qualquer parte, onde elle Loison existisse. Com effeito o secretario de Kellerman foi pouco depois de entregar as cem moedas ao Prior com todos os sinaes de humilhação, e queixando-se amargamente de Loison, que andava intrigado com Kellerman. [Sidenote: 1808 Julho.] [Sidenote: 1808 Julho.] Na noite de 14 para 15 fez Thomieres huma digressão para as partes de Nazareth, com o fim de destruir, e saquear as povoações daquella costa, com hum corpo de 3$ homens, e algumas peças de artilheria, as quaes não chegárão a servir. Dividio esta tropa em tres colunas, de que huma pôde, ao abrigo das trévas, metter-se debaixo da nossa mal servida artilheria, em quanto as outras se encaminhárão á povoação pelo centro, e pelo pinhal, que lhe fica á direita. Logo que os nossos presentírão a sua marcha, lhes fizerão algum fogo, mas sem direcção determinada; as mesmas trévas porém, que os inhabilitavão para fazerem pontaria, os favoreceo tambem, e ao povo, para se refugiarem pela beiramar para a parte do pinhal. Ficárão sómente, por embriagados, ou por incautos, huns poucos dos que servião de artilheiros, e tambem huma mulher, e alguns velhos, que todos forão espingardeados junto ás peças, excepto hum, que os Francezes reservárão, para lhes servir de guia, que ainda depois quizerão espingardear no terreiro de Alcobaça, e escapou á força de rogativas, e de protestos. Entrárão pois os Francezes em Nazareth, que entregárão ao saque, e ao fogo; mas este sómente se ateou em 13, ou 14 casas. O famoso templo de N. Senhora de Nazareth, hum dos mais frequentados, ricos, e respeitados de Portugal, e que os nossos Monarcas tem tomado debaixo da sua immediata protecção, foi roubado, e profanado. Levárão-lhe os seus ornamentos ricos, joias, dinheiro, e preciosidades: despedaçárão o mais, quebrárão huma imagem do Menino Jesus, acutilárão hum Crucifixo, fizerão o orgão em pedaços, comprehendêrão no roubo os vasos sagrados, e lançárão por terra o Santissimo Sacramento. [Sidenote: 1808 Julho.] Descêrão á praia, e aqui foi a maior destruição. De trezentas, ou mais casas, que comprehendia a povoação deste lugar, sómente escapárão quatro, as mais ficárão reduzidas a cinzas; e não deixárão rede, ou barco que não queimassem. Foi do número das casas incendiadas huma barraca, que alli tinhão os Padres Bernardos, a qual lhes servia de casa de arrecadação dos direitos do pescado, escapando a capella, da qual tirárão varias imagens de Santos, que espingardeárão no areal, onde depois forão achados os fragmentos. [Sidenote: 1808 Julho.] Voltárão á Pederneira, saqueárão a povoação, e duas igrejas, lançando-lhe tambem o fogo; que com tudo fez aqui menos estrago. Entrárão finalmente em Alcobaça cheios de presumpção, e de alegria, como se viessem de ganhar huma grande victoria, e podendo só gloriar-se de terem feito daquellas povoações montes de cinzas, e reduzido os seus numerosos habitantes aos extremos da miseria, não só pela destruição, e roubo de suas casas, e quanto tinhão nellas, mas tambem pela sensivel perda dos seus barcos, e redes, sendo quasi tudo pescadores. Avalia-se a perda em mais de 500$, ou 600$ cruzados; o que não admira, porque em mais de 200$ se calculão os diamantes, e preciosidades do templo de N. Senhora de Nazareth. Não posso deixar de lastimar, que os encarregados da sua administração, e das chaves do cofre não tivessem dado as providencias, para salvarem, como podião, estas riquezas. Derão os inimigos idéa de quererem continuar a mesma devastação por todos os coitos de Alcobaça, pois que o seu delicto era o mesmo; servio-lhes porém de resgate o dinheiro usurpado ao convento. [Sidenote: 1808 Julho.] Continuou a expedição pela estrada de Leiria, onde foi causar novos sustos, e principiar novo saque, o que fez que os seus habitantes a tornassem a deixar deserta. Passárão os Francezes além da cidade, e acampárão no alto das Olhalvas: seu destino era sem dúvida varrerem, e punirem os _rebeldes_ da Beira, como Junot tinha feito publicar na gazeta de 14 de julho, mas os Generaes não se atrevêrão a passar mais adiante, aterrados com a noticia de que o exercito grande (era o imaginario exercito Hispano-Portuguez, em que tanto se havia fallado) já estava no Pombal. O que tinha chegado a esta villa era hum piquete de Academicos com algum povo, que chegárão a adiantar-se até os Machados, deitando foguetes, e fazendo muita bulha. Era em huma madrugada, tendo já os Francezes passado duas noites, e hum dia naquelle acampamento, e cuidando provavelmente Loison, que outra vez lhe cahia em cima o Pezo da Regua, fez levantar as suas tropas, e retrocedeo com ellas, deixando no rocio de Leiria, em sinal da sua precipitação, alguns barris de bolacha. Loison seguio a estrada nova para Lisboa, Thomieres veio procurar as suas antigas posições de Caldas, Obidos, e Peniche, seguindo tambem Kellerman este caminho por Alcobaça; e agora o veremos com o Prior dos Padres Bernardos. Incendios, raios, mortes he o que podia esperar-se; mas teve Kellerman a bondade de se accommodar com cento e doze moedas, em lugar das cem que Loison lhe tinha feito restituir. [Sidenote: 1808 Julho.] A 20 desembarcou Loison em Lisboa junto ao terreiro do paço por entre hum numeroso povo, que alli concorreo, pela expectação que causava a chegada deste homem célebre, que por muitas vezes se tinha julgado morto. Todos querião desenganar-se, se era verdade, que alli vinha o Maneta: desenganárão-se, e tiverão o desgosto de o verem passar, e os seus soldados com as mochillas recheadas dos fructos de tantos saques. [Sidenote: 1808 Julho.] [Sidenote: 1808 Julho.] Não lhes permittio Junot muitos dias de descanço. A 23 passou elle huma apparatosa revista geral de todas as tropas no centro de Lisboa, onde ficárão designados os corpos para huma nova expedição para o Além-Téjo, que havia de partir a 25, commandada pelo mesmo Loison, levando tambem Margaron, e Solignac por subalternos. O rocio, o terreiro do paço, as ruas augusta, e aurea, a do arsenal, e o largo do pelourinho virão-se repentinamente, e sem se conhecer o fim, cobertos de tropas, por entre as quaes passou Junot acompanhado dos seus Generaes, e do seu estado maior com todo o apparato de hum guerreiro. Durou a revista desde as 5 até as 8 horas da tarde, e entretanto toda a Lisboa tremeo de susto: he o que pertendia Junot, que não desprezava meio algum de inspirar terror aos póvos, para os manter quietos. Foi sem dúvida com as mesmas vistas que elle mandou commetter no dia 24 o assassinato, que vou referir. Que he a morte de hum miseravel desconhecido no meio de tantos estragos, e tanta carniceria, como temos visto? Com tudo este assassinato praticado no centro da capital do reino causou grande sensação pelas suas circunstancias. Havia em Lisboa hum homem chamado Manoel José, que tinha sido empregado havia annos em correio no serviço do arsenal da fundição, e desde muito tempo se reputava por mentecapto, até por extravagancias do seu vestuario, com que se fazia muito célebre: estas extravagancias, ou o matárão, ou servírão de pretexto para isso. Foi encontrado no mencionado dia (era hum domingo) junto á igreja de Santos, vestido com huma jaqueta branca, toda cheia de laços, ou bocadinhos de fita encarnada; immediatamente o prendêrão, e conduzírão a casa do General De-Laborde, Governador de Lisboa, onde concorreo Lagarde, e se lhe fez hum conselho de injustiça, de que resultou ser fuzilado no meio do terreiro do paço contra a estatua equestre. As fitinhas passárão por insignias da revolução, e o mentecapto por emissario dos insurgentes; e com tanta presteza se adquirírão as provas, e se lhe fez o processo, que sendo prezo pelas 10 horas da manhã, nesse mesmo dia cessou do existir ás 3 da tarde. Tal foi o apparato, taes os auspicios, com que sahio de Lisboa a expedição, que foi cobrir de sangue, e de estragos as ruas de Evora. NOTAS DE RODAPÉ: [Footnote 7: Por incidencia toquei este facto no tom. I cap. XIX.; mas equivocadamente o referi como acontecido com o Geral, e elle aconteceo com o Prior, que era o Prelado, que por ausencia daquelle fazia as suas vezes.] CAPITULO XXXIV. _Continuão-se os movimentos do Além-Téjo. Successos de Béja, e de Campo-maior, e operações das suas juntas._ [Sidenote: 1808 Julho.] NÓS deixámos o Algarve, não só livre de inimigos, mas tambem enviando soccorros para o Além-Téjo, e esta provincia toda levantada, menos Elvas, e suas immediações, onde os Francezes ainda se conservavão com forças. [Sidenote: 1808 Julho.] Ao sul o Corregedor de Béja com os soccorros, que obtivera do Algarve, fazia huma figura estrondosa. Huma junta alli creada, de que elle era Presidente, e a que obedecião outras subalternas, creadas em algumas terras daquella parte da provincia, exercitou o poder supremo; e nisto não praticou, senão o mesmo que muitas outras praticárão, e posso dizer que com iguaes direitos. Algumas lhe precedião em tempo, mas ella pertendia a primazia, querendo derivar a sua antiguidade desde o primeiro levantamento em 24 de junho: por este principio não considero que a Junta de Béja tivesse direito, para obrigar as outras a lhe serem subordinadas; he porém certo, que ella promovia com vigor os progressos da restauração, e he nisto que todas as juntas, todas as authoridades devião ambicionar preferencias. [Sidenote: 1808 Julho.] Dissenções politicas fizerão, que esta junta formasse hum Governo separado nas terras, que lhe obedecião, e não conservasse boa intelligencia com as outras da provincia, e com o Governo do Algarve, o que era muito nocivo ao justo fim, a que todos se propunhão. Talvez deo muita extensão aos seus poderes, e obrou com demasiado apparato; mas tambem não se lhe póde negar muita energia. Quanto ao Corregedor, he certo que teve contra si huma grande parte dos chéfes civís, e militares da provincia, e que não será facil encontrar-se hum homem em todo o periodo na nossa revolução, que tenha sido pintado com cores mais diversas. Huns o figurão como o patriota mais zeloso, e activo, e outros o fazem até hum traidor, que quizera vender o reino aos Hespanhoes. Estas contradições são effeitos naturaes dos partidos: o Corregedor de Béja existe ainda em processo, esperemos, que a sentença venha fixar, se for possivel, a opinião pública. [Sidenote: 1808 Julho.] O Coronel José Lopes de Sousa foi hum dos Deputados da Junta de Béja, e ella o fez Marechal de Campo, nomeando para seu Ajudante d’ordens ao Capitão Sebastião Martins Mestre, com o posto de Tenente-Coronel do regimento de infanteria, que de novo principiou a formar-se, denominado de voluntarios de Béja. Cuidou-se igualmente na reorganização do de cavallaria de Olivença, que se achava desfeito, em huma casa d’armas, e em hum grande número de estabelecimentos, que se todos podessem concluir-se, farião de Béja huma cidade muito importante. Mandárão para alli conduzir-se os dinheiros públicos; mas em algumas terras se preferio o remettellos para o Algarve, e foi este hum dos motivos, que muito influírão nas contestações. Os Francezes tinhão evacuado inteiramente as terras da comarca, e no dia 13 foi mandado Sebastião Martins Mestre, sómente com 30 soldados de infanteria, e 20 de cavalleria, para organizar as ordenanças, e formar o cordão ao sul do rio Sadão, o que effeituou com 1800 homens dos destrictos de Grandola, e S. Thiago de Cassem. Concorreo depois para a acclamação do Principe Regente em Alcacer do Sal a 26, fazendo crear ahi huma junta do Governo; e para segurança deste ponto importante, mandou assestar sobre as margens do rio no sitio de Montalvo quatro peças de ferro, que achou em Melides. Por este modo se estreitárão daquella parte os Francezes da Extremadura, cujas partidas não ousavão alongar-se muito de Setubal, e Palmella, que ainda occupavão. [Sidenote: 1808 Julho.] Ao norte da provincia a junta de Campo-maior, e as authoridades subalternas tinhão adiantado muito as suas vistas, e os seus habitantes desenvolvido huma actividade, e hum patriotismo, que lhes fazem honra. Chamárão-se a Campo-maior as milicias de Portalegre, Crato, e Avís, todos os militares, que alli quizessem concorrer, para se reorganizarem os corpos, a que pertencião, e mesmo os reformados de todas as praças, para serem empregados, como melhor conviesse. Muitos concorrêrão, de que alguns servírão sómente com meio soldo, e outros gratuitamente, segundo as suas possibilidades, e patriotismo; aos que precisavão contribuio-se com soldo inteiro. Para facilitar, e dirigir estas operações com mais energia, creou-se a 11 de julho a huma junta militar, subordinada á do Governo, á qual deo esta as seguintes instrucções, para lhe servirem de regimen. [Sidenote: 1808 Julho.] 1.^o _Que nenhum dos officiaes apresentados perante a junta tivesse outros que aquelles ordenados por S. A. R. a cujo serviço se julgou que devião concorrer todos para gloria da nação Portugueza, gloria de cada hum dos nacionaes, em quem parece dever apparecer antes o patriotismo que o interesse mercenario, em cuja intelligencia deverião estar todos aquelles, que concorressem a alistar-se debaixo das bandeiras Portuguezas._ 2.^o _Que todos os apresentados, e por apresentar servirião no seu posto effectivo, com o soldo deste, e graduação do posto immediato, em quanto os seus serviços não davão occasião a outros premios._ 3.^o _Que os officiaes apresentados só serião empregados no serviço das companhias postas pelo Estado, em que já se cuida, e trabalha, e de nenhuma sorte nas companhias voluntarias, se os que as apresentão nisso não convierem._ [Sidenote: 1808 Julho.] 4.^o _Que os officiaes apresentados, vindos dos corpos de milicias, não entraráõ no serviço de tropa de linha, se os seus meritos pessoaes, ou quaesquer outras circunstancias recommendaveis não obrigarem a determinar o contrario._ 5.^o _Que os Coroneis encarregados de organizar estes corpos serão responsaveis pela fiel execução de todas, e de cada huma destas determinações, á honra dos quaes, e zelo do serviço de S. A. R. se confiava a dita organização._ [Sidenote: 1808 Julho.] Para fazer frente á grande despeza, que exigião todos estes estabelecimentos, não bastavão os rendimentos ordinarios da alfandega, e outros ramos do patrimonio Regio, e do Estado. Além dos dinheiros, que se aprehendêrão, como vimos, (_tom. II. cap. XXVII._) a Antonio Joaquim dos Santos por ordem de Moreno, e de dois mil e tantos alqueires de trigo, que por ordem delle se ião conduzindo para Lisboa, e lhe forão igualmente tomados a meia legua da praça, recorreo-se a outros meios extraordinarios, como foi ás terças partes dos rendimentos dos morgados daquelle destricto, a huma porção dos trigos do celeiro episcopal, e em fim a donativos, e emprestimos, que produzírão importantes sommas. O certo he, que nos primeiros tempos, não só forão pagas por Campo-maior as tropas Portuguezas, mas tambem as Hespanholas; como porém viessem a escassear os meios, passárão as Hespanholas a ser pagas por Badajoz. [Sidenote: Agost.] [Sidenote: 1808 Agost.] Moreno ao principio fez-se arbitro destes dinheiros, recebendo-os, e despendendo-os sem dar contas: quando estas se lhe pedião, contemporizava, e talvez para se subtrahir a dallas, pedio a demissão de Presidente da junta do Governo, que lhe não foi concedida, para se attrahir ao ajustamento. Vendo-se que tudo era innutil, deo-se modo a que elle segunda vez pedisse a demissão, e se lhe acceitou, entrando em seu lugar o Coronel Diogo Pereira da Gama, e continuando sempre Moreno no governo da Praça, até que a instancias da junta de Campo-maior a de Badajoz o mandou retirar com o batalhão de voluntarios de Valencia, substituindo-o pelo Brigadeiro D. Francisco de Trias, que entrou em 18 de agosto com o 2.^o regimento de tropas ligeiras de Cataluña. As desavenças da junta de Campo-maior com Moreno a ião envolvendo tambem em desconfiança com o General Galluzo, que apoiava Moreno, as quaes sómente se desvanecêrão se todo, com a entrada do General Leite em 27 de agosto, que acceitou a presidencia da junta. [Sidenote: 1808 Agost.] Para deixar concluido este negocio, direi mais, que crescendo diariamente as despezas, á proporção que augmentava o número das tropas, e esgotando-se sensivelmente os recursos, a junta do Governo creou huma junta de finanças, com amplos poderes sobre este ramo de administração, até com o de estabelecer novos impostos. Para ampliar tambem os outros estabelecimentos creou outra junta denominada de policia, que verdadeiramente era hum tribunal de inconfidencia. Campo-maior tinha-se tornado huma corte, principalmente depois da desgraça de Evora, concorrendo alli para se refugiarem, não só os militares, mas tambem hum grande número de familias de Elvas, Arronches, Portalegre, e de muitas outras terras do Além-Téjo. Para dar huma melhor idéa do estabelecimento da junta de finanças, copiarei o auto da sua instalação, que ao mesmo tempo lhe servio de regimento. [Sidenote: 1808 Agost.] [Sidenote: 1808 Agost.] _Aos 9 do mez de agosto de 1808 nesta junta provisional desta villa de Campo-maior comparecêrão os deputados eleitos para a junta de finanças, cujos nomes são os seguintes--o Doutor Corregedor, e Juiz de fóra José Joaquim Carneiro de Carvalho, Presidente--o Reverendo Doutor João Baptista de Aguiar--o Reverendo Beneficiado José Coelho Pereira--Jorge Manoel Galvão de Moraes Sarmento--Diogo Lopes Bernardo--o Capitão João Nunes Ferreira--Mattheus José--João de Mattos, Secretario--José Freire de Pina Ozorio, Continuo--, e lhes foi declarado o seu poder, inspecção, e authoridade, na fórma seguinte: Em 1.^o lugar que elles podião inspeccionar sobre os meios de procurar fundos para entrarem na caixa nacional, indagando aquelles recursos, que a sua prudencia, e zelo do Real serviço lhes subministrassem, para o fornecimento das tropas. Em 2.^o lugar, que elles erão authorizados por esta junta provisional do Governo, em nome de S. A. R., a fazer a cobrança, não só dos direitos Reaes já vencidos, mas até daquelles a vencer, pelo exigir a urgencia do Estado. Em 3.^o lugar que elles erão authorizados a infligir as penas da lei, quando por omissão, resistencia, ou rebeldia alguem recusasse a satisfação, e pagamento dos referidos direitos, ou de alguma nova imposição, que pela referida junta de finanças lhe fosse feita em utilidade da nação. Em 4.^o lugar terão sempre em vista os deputados da junta, que quando a necessidade o exija, elles possão proceder á arrecadação de todas as dividas, que houverem, respectivas a S. A. R., sejão pecuniarias, ou de generos, e mesmo quando faltem todos, e quaesquer recursos, que possão vender, ou empenhar os bens vagos da corôa, por qualquer titulo que seja. Finalmente he encarregada a mesma junta de finanças de vigiar com o maior cuidado, zelo, e fidelidade sobre a melhor economia na administração da Real fazenda, sendo obrigados a huma rigorosa responsabilidade, no caso de qualquer omissão, ou negligencia. E para a todo o tempo constar, se mandou lavrar este termo de nomeação, e declaração, &c._ He datado em 9 de agosto, e assignado pela junta do Governo. [Sidenote: 1808 Agost.] A junta de finanças não podia fazer milagres: crescião progressivamente as despezas, e os recursos diminuião, a pezar de se chamarem para Campo-maior os dinheiros públicos de Portalegre, Arronches, Alter, e Ouguella; de fórma que, por unanime consentimento da camara, e povo, se recorreo á venda de hum moio de terra, denominada da defeza de S. Pedro, dividindo-se em sortes, e impondo-se-lhes pensões para o conselho, a quem pertencia a administração destas terras.[8] Era já pelos fins de agosto, chegou o General Leite, e no 1.^o de setembro poz as tropas em movimento com direcção a Lisboa, o que alliviou aquella parte da provincia do Além-Téjo de hum pezo, com que não podia. NOTAS DE RODAPÉ: [Footnote 8: He muito usual no Além-Téjo o methodo de se medirem os terrenos por moios e alqueires; medição, que varia em quantidade nas differentes terras. O moio tem 60 alqueires, o alqueire em Campo-maior he huma extensão da superficie de 900 varas quadradas.] CAPITULO XXXV. _Lobo, e Moretti proseguem nas suas operações. Levantamento de Borba, Villa-viçosa, &c. Junta suprema, e grandes projectos em Estremoz._ [Sidenote: 1808 Julho.] [Sidenote: 1808 Julho.] FALLANDO do norte, e sul da provincia, não deve o centro ficar esquecido. Antonio Lobo Infante, e D. Friderico Moretti, que deixamos em Jurumenha, continuavão as suas operações com vigor. Os editaes, e proclamações, que dalli expedião, erão acompanhados de cartas ás Authoridades públicas das terras, a que se dirigião, nas quaes, além de lhes lembrarem as suas obrigações, lhes recommendavão, que convocassem as differentes classes dos póvos, para dizerem livremente o partido, que querião abraçar; porque a Hespanha, que tão liberalmente nos protegia, desejava distinguir os amigos, e os inimigos do Soberano, e da patria. Por este meio conhecêrão mui breve, que todos suspiravão pelo Governo legitimo. Então se poz Lobo em campo, para ir fazer o levantamento nas terras, onde podesse abranger, ficando Moretti em Jurumenha, onde tinhão concorrido mais algumas tropas Hespanholas. Lobo authorisava-se com ordens, e forças d’Hespanha; mas sahio sem credenciaes, e sem tropas: não lhe fizerão falta, porque em nenhuma parte encontrou opposição. Principiou por Borba, onde fez organizar no dia 10 huma junta, de que foi Presidente João da Sylveira; e passou immediatamente a Villa-viçosa, onde tambem se creou junta a 12 debaixo da presidencia do Tenente-Coronel José Ribeiro. Teve o cuidado de restabelecer o antigo regimen do palacio Real, e da tapada, e foi discorrendo pelas terras visinhas, e dando as providencias opportunas, para que os póvos se armassem. [Sidenote: 1808 Julho.] Entretanto movêrão-se os habitantes de Estremoz, instados pelas intimações de Moretti, e organizárão a sua grande junta, composta de muitos Deputados, e tres Presidentes, sendo destes o principal o Juiz de fóra Antonio Gomes Henriques Gaio. A esta rendêrão logo vassalagem as juntas de Borba, e de Villa-viçosa, ficando caracterizada por suprema do Além-Téjo, segundo as insinuações de Moretti, e ordens do Governo de Badajoz; mas não estendeo muito a supremazia ao sul, e ao norte, porque Béja, e Campo-maior lhe não cedêrão a que tinhão tomado. A seguinte correspondencia aclara as suas idéas, e dá a conhecer huma parte dos seus projectos. [Sidenote: 1808 Julho.] [Sidenote: 1808 Julho.] Apenas a junta de Campo-maior soube da instalação da de Estremoz, mandou comprimentalla, solicitando ao mesmo tempo a sua união, e cooperação para a causa geral, por meio desta carta: _Illustrissimos Senhores: A junta desta villa de Campo-maior vai a communicar-se com a junta de Governo dessa villa; em primeiro lugar agradecendo a V.^{as} S.^{as} o patriotismo de se unirem para a defeza da Religião, dos nacionaes, dos direitos da nação, e do Principe Regente. Tem de expôr os seguintes artigos, sobre que espera immediatamente a resposta para bem commum da nação: Em primeiro lugar espera, que V.^{as} S.^{as} concordem em huma reciproca alliança, e soccorro com esta junta, respondendo-nos, que nos prestaráõ todos os soccorros, que V.^{as} S.^{as} nos poderem prestar, assim de munições, e armas, como de homens, principalmente todos os individuos, que ahi existem do regimento n.^o 15, que esperamos, que venhão por ordem dessa junta, para se apromptarem nesta, que lhes dará o destino: igualmente esperamos de V.^{as} S.^{as} todas as noticias respectivas ao inimigo commum, e seus movimentos, para nos prestarmos hum mutuo soccorro com antecipação, no caso de as circunstancias o pedirem; ficando V.^{as} S.^{as} na certeza de que em recompensa, e agradecimento dos beneficios corresponderá esta junta ao que se lhe pedir com toda a brevidade. Campo-maior 15 de julho de 1808._ Assignados os membros da junta. [Sidenote: 1808 Julho.] [Sidenote: 1808 Julho.] A junta de Estremoz respondeo com a seguinte Provisão. _D. João por Graça de Deos, &c. e em seu nome a suprema junta do Governo d’Além-Téjo em Estremoz. Faz saber a vós Presidente, e Deputados da junta da villa de Campo-maior, que sendo vista a vossa conta em data de 15 do corrente, em que demandaes os nossos votos sobre a boa intelligencia entre esta, e essa junta, unindo-nos á causa commum, em defeza da Religião, do Principe, e da patria, contra o inimigo commum, os Francezes, se vos responde, louvando o vosso zelo, e patriotismo, e que reinará sempre entre todas as juntas huma boa harmonia, e concordia, para se conseguirem os importantes fins, a que nos propomos. Em quanto se não vai estabelecer a grande, e suprema junta no quartel general d’Evora, cuja presidencia se reunirá no meu reverendo Arcebispo da dita cidade, e no Tenente-General dos meus exercitos Francisco de Paula Leite, encarregado do Governo das armas desta provincia, que ora he Presidente desta suprema junta, vos ordeno, que não tomeis até nova resolução disposição alguma nessa junta, que não seja na qualidade de particular governativa dessa villa, fazendo-vos saber por ora, que deve haver huma exacta uniformidade de soldos no exercito, regulando-vos pela minuta inclusa, assignada pelo meu Deputado Secretario, no que diz respeito ao soldo dos soldados, e officiaes inferiores: o que tudo vos hei por muito recommendado: cumpri-o assim. O Principe Regente nosso Senhor o mandou pelos Deputados abaixo assignados da sua suprema, e Real junta do Governo do Além-Téjo. José Bento Augusto Lamego, Secretario, e Deputado da junta a fez em Estremoz a 19 de julho de 1808. José Moreira Rodrigo de Carvalho--Francisco José Marques Tervel._ Minuta, a que se refere a provisão. _Dos soldos, que devem ter os officiaes inferiores, e soldados interinamente. A cada huma destas praças se dará diariamente 120 rs., e hum pão. Estremoz em junta de 19 de julho de 1808. O Deputado Secretario da junta José Bento Augusto Lamego._ Além de outros mais papeis, foi acompanhada a mesma provisão de humas instrucções por artigos, que tinhão emanado directamente de Moretti, com o titulo de _Apontamentos para intelligencia da suprema junta de Estremoz_. Copiando-as, eu dou huma idéa exacta dos principios, sobre que esta junta começou os seus trabalhos, e do complicado jogo, a que se pertendia sugeitar o governo da provincia. [Sidenote: 1808 Julho.] 1.^o _A junta do Governo de Estremoz deve ser reconhecida pelas de mais particularidades da provincia, como primaz, tanto em attenção á sua posição local, como por ser huma praça d’armas._ 2.^o _Todos os seus decretos, edictos, patentes, nomeações, ordens, &c. devem principiar na fórma seguinte: D. João por Graça de Deos Principe do Brasil, Regente de Portugal, &c. e em seu Real Nome a junta suprema d’Além-Téjo, &c._ 3.^o _Em attenção a isto a junta suprema, e Vogaes, Presidentes della terão o tratamento d’Alteza, por representarem a Augusta Pessoa do seu Soberano._ [Sidenote: 1808 Julho.] 4.^o _Haverá em Estremoz as juntas seguintes, que deveráõ pelo menos ser compostas de tres vogaes, e hum Presidente, o qual terá dois votos, a saber: 1.^a junta militar, em que devem ser vogaes precisamente todos os chéfes dos corpos militares, e o Intendente geral do exercito: 2.^a huma junta de fazenda, em que precisamente devem ser vogaes alguns lavradores ricos, commerciantes, assentistas, &c. e será presidida pelo Intendente geral do exercito, sendo igualmente vogal o Thesoureiro geral: 3.^a huma junta de aggravos, cujos vogaes serão advogados, commerciantes, e precisamente alguns religiosos: a esta junta acudiráõ todos os que se acharem aggravados pelas outras, devendo ser o ultimo recurso a junta suprema. Estas tres juntas terão o tratamento de Excellencia._ 5.^o _Em todas as villas deve haver huma junta governativa, que obedecerá só á junta suprema, pois que as tres acima mencionadas só tem voto consultivo._ 6.^o _Estas juntas das villas nomearáõ hum individuo cada huma, para que as represente na junta suprema d’Estremoz, de que são vogaes natos: he directamente a elles, que a junta suprema passará as ordens, que devem executar-se nas villas mencionadas._ [Sidenote: 1808 Julho.] 7.^o _Sendo hum dos pontos essenciaes, a reunião de officiaes para a formação dos corpos em defeza da patria, a junta suprema dará hum gráo a todos os que se apresentarem debaixo das suas bandeiras. Esta graça geral não impede, que se dê outro gráo áquelle, que tiver feito serviços importantes, ou se lhes defira commando._ 8.^o _He da maior consequencia o regulamento dos soldos militares, pois não deve pretender-se, que sirva com honra, e estimulo aquelle, a quem falta quasi a subsistencia; devendo suprimir-se a variedade de soldos para hum mesmo gráo, pois deve suppôr-se, que todos os que tem a honra de vestir uniforme servem com igual merecimento._ 9.^o _A junta suprema deverá dispôr o alimento das tropas, e para isso passaráõ a Estremoz de cada villa o número, que houver, ou se possa haver de milicias, e ordenanças, devendo só ficar nos póvos os mais precisos, por ser huma causa tão justa a que os reclama._ [Sidenote: 1808 Julho.] 10.^o _Cada villa disporá se paguem as tropas com a maior escrupulosidade, nomeando para isso hum pagador, que deverá estar ás ordens do Intendente da provincia._ 11.^o _As tropas Hespanholas auxiliares serão pagas semanalmente ao pret d’Hespanha: os chéfes de cada corpo se entenderáõ a este respeito com o intendente geral do exercito._ 12.^o _Deve cuidar-se em que nunca faltem comestiveis, e estes se venderáõ por preços regulares._ [Sidenote: 1808 Julho.] Era difficil montar todas as rodas de huma máquina tão composta, principalmente em hum tempo, em que a escassez dos recursos não permittia fazer senão pequenas cousas; todos estes estabelecimentos ficárão sómente em palavras, e em papel, menos a junta suprema, que nos dez dias de sua existencia trabalhou muito nos negocios da guerra: a da fazenda durou hum dia. Além das villas de Borba, e Villa-viçosa, submettêrão-se logo a Estremoz o Alendroal, Terena, Arraialos, Veiros, Evora-monte, Vimioso, Souzel, Avíz, Fronteira, &c. [Sidenote: 1808 Julho.] Principiou logo a reorganizar-se o regimento de milicias de Estremoz, e levantou-se dos differentes corpos extinctos, e principalmente dos regimentos n.^o 3.^o, e 15.^o o batalhão de voluntarios de Estremoz, que dizem chegára a ter 600 praças, de que porém só entrárão 380 na acção de Evora. Armárão-se tambem algumas tropas montadas em cavallos, e eguas, e em Villa-viçosa a companhia de miqueletes de 100 praças. Expedírão-se emissarios ao Algarve, e a Badajoz, pedindo-se soccorros principalmente em armamento: do Algarve vierão sim respostas favoraveis do General, e da junta, mas não soccorros, nem para isso houve tempo; de Badajoz entrárão com effeito alguns corpos de tropa, e hum parque de 5 peças de artilheria, e hum obuz, servido por 60 artilheiros Portuguezes, que tudo marchou depois para Evora. Mandárão-se vir petrechos de guerra dos armazens da praça de Mourão, e trabalhou-se em reparar o que pôde aproveitar-se dos que os Francezes tinhão innutilizado. Os armazens de Estremoz estavão fornecidos de 17$, ou 18$ espingardas, muitas espadas, e pistolas, e immensa quantidade de polvora: tudo mandou Kellerman destruir na sua retirada para Lisboa; mas não se executou bem esta ordem, porque exigia muito trabalho. Os canos das armas de fogo ficárão pela maior parte em bom estado, nas coronhas era a maior ruina, e os fechos tinhão sido lançados de monte na cisterna; andárão-se agora tirando, e se arranjárão até o ataque de Evora humas 600 espingardas capazes de servirem. A polvora tambem se tinha lançado na cisterna, e alguma foi amassada com barro; mas ainda se aproveitou huma grande quantidade della, que ficára em estado de poder beneficiar-se. Todas estas disposições, e outras mais ficárão embargadas pelos successos, que rápidamente se seguírão, nos quaes vou agora entrar. CAPITULO XXXVI. _O General Leite se põe á frente dos negocios públicos e o assento do Governo se transfere para Evora. Estabelecimentos, que se fizerão nesta cidade: providencias, e disposições, para se receber o inimigo._ [Sidenote: 1808 Julho.] DA provisão expedida pela junta de Estremoz á de Campo-maior temos visto, que a 19 já o General Leite se achava á frente do Governo, e que se tratava de se transferir o assento deste para Evora, constituindo-se nesta cidade o ponto central das operações civís, e militares do Além-Téjo; vejamos como se effeituárão estas mudanças. [Sidenote: 1808 Julho.] Leite, que desde 23 de junho se conservára retirado na quinta chamada do Roque, junto a Evora, e a quem Lobo tinha escrito hum carta energica, persuadindo-o a tomar o commando, deliberou-se em fim a 17 de julho, e marchou neste mesmo dia para Villa-viçosa, onde se achava Lobo. A 18 de manhã foi tambem alli ter Moretti, e tendo conferido todos tres, sahírão de tarde Lobo, e Moretti para Borba, Leite para Estremoz, e aqui novamente se ajuntárão, e conferirão a 19, ficando logo decidida a translação do Governo para Evora, onde se estabeleceria a grande junta, que reassumisse a supremazia, debaixo da presidencia do Arcebispo, e do General; terminadas por este modo (ao que parecia) as questões das outras juntas, e de alguns militares, que perterdião o commando. Não sei se errárão em não escolherem hum ponto menos exposto, e mais fortificado: o exito foi infeliz. [Sidenote: 1808 Julho.] As honras da primazia, huma vez conseguidas, custão sempre a largar, principalmente quando são acompanhadas do poder. A junta de Estremoz reconheceo promptamente a authoridade do General, e lhe concedeo de bom grado o primeiro assento; teve com elle huma larga sessão, em que se tratou dos negocios públicos, e tudo ia de acordo; chegando porém ao ponto de submetter-se á nova junta, que ia formar-se, o caso não passou sem debates. Hum frade d’entre os vogaes teve a resolução de propôr ao General, que se retirasse, porque era necessario discutirem-se certos pontos, a que não convinha, que estivesse presente: ia-lhe custando caro, porque o General nos primeiros movimentos da sua bilis alterada, pareceo querer lançar-lhe as mãos, mas reprimio-se, limitando-se a palavras. A junta ficou em confusão; porém o Juiz de fóra, que tinha nella a preponderancia, que lhe davão o seu cargo de Presidente, e a sua actividade, serenou tudo: chamando de parte o frade, o convenceo de que era necessario ceder á razão, e sacrificar os caprichos, as considerações particulares ao bem público, e adoçou, como pôde, o General. [Sidenote: 1808 Julho.] Lavrou-se pois hum auto no livro da junta de Estremoz, pelo qual cedeo esta a primazia, de que até alli usára, transferindo-a para a junta, que se estabelecesse em Evora; e se ficou sempre conservando como subalterna; e desta maneira ficou concluido hum negocio, que não podia ter hum differente exito, pois que o dirigião de acordo o General Portuguez, e o Commandante das tropas Hespanholas. Moretti commandava então huns 1$ homens de todas as armas, e tinha o seu campo em Villa-Real d’Hespanha, d’onde tirava os mantimentos, para não incommodar o Além-Téjo, e tambem para não ser incommodado pelas partidas da guarnição Franceza d’Elvas. [Sidenote: 1808 Julho.] Alguns dias antes tinha elle procurado sondar, e incitar os animos dos habitantes de Evora, por meio de huma das suas costumadas cartas, e tinha-se-lhe respondido em huma conferencia de pessoas authorizadas, e de confiança, que a cidade mais rica, e populosa da provincia, e ao mesmo tempo a mais proxima a Elvas, onde o inimigo tinha o seu assento, não devia levantar-se, sem contar com o apoio de 8$ homens. Esta resposta tinha deixado perplexo a Moretti sobre a disposição daquelle povo; mas Leite, que o conhecia melhor, não hesitou em marchar immediatamente para Evora, dadas em Estremoz as disposições concernentes á nova ordem de cousas, que ia estabelecer-se. Levou comsigo, como pessoas da sua maior confidencia, os mesmos Moretti, e Lobo, e o capitão João Cardozo Moniz: hum corpo de 200 infantes, e 100 cavalleiros os precedeo, e levou áquella capital a gostosa noticia da prompta chegada do General. [Sidenote: 1808 Junho. a Agost.] Foi no dia 20 quasi ao sol posto que elle se apresentou ás portas d’Evora: o Corregedor da comarca José Paulo de Carvalho, e muitas outras pessoas da destincção o vierão receber fóra da cidade, e á porta de Avíz o esperava hum numeroso concurso de povo, por entre o qual foi atravessando com a sua comitiva até a casa da camara, que já estava preparada, para o receber. O Provedor da comarca, e o Juiz de fóra achavão-se ausentes; o primeiro por motivos estranhos a este negocio, o segundo por perseguido pelo povo, como suspeito de adherencia ao partido Francez: foi prezo, injuriado, conduzido a Coimbra, e depois ao Porto; obteve porém sentença, que o julgou innocente. O enthusiasmo chegou ao seu cume, quando, passados alguns momentos, Leite, e Moretti apparecêrão nas varandas com hum retrato do Principe Regente, mostrando-o ao povo, que enchia as ruas, e collocando-o depois debaixo de hum docel, que alli se tinha arranjado para este fim. [Sidenote: 1808 Julho.] Do paço do conselho partírão para a cathedral, onde o Arcebispo D. Fr. Manoel do Cenaculo Villas Boas os esperava, e entoou hum _Te Deum_, findo o qual se retirárão, o povo para se entregar a festas, e demonstrações de alegria, o General, e as mais pessoas de representação, para tratarem do regulamento dos negocios públicos. Principiárão pela organização da junta, que segundo o systema de Moretti, ou do Governo de Badajoz, devia reunir a si os deputados das juntas subalternas, que devião estabelecer-se nas cabeças de todas as comarcas da provincia, creando-se ainda outras juntas subordinadas a estas em todas as villas de cada comarca; e não podendo tudo do isto ficar desde logo arranjado, se estabeleceo a suprema de Evora na maneira seguinte: Nomeárão-se Presidentes o Arcebispo, e o General, Vice-Presidentes o Corregedor, e o Coronel Francisco Pereira da Silva Souza e Menezes, Secretario o Juiz dos orfãos José Francisco Fernandes Correa, e para Deputados o Bispo do Maranhão, que residia em Evora, e varias dignidades, conegos, e pessoas de destincção, entrando neste número tres dos Deputados da junta de Estremoz em attenção a ter esta conservado, ainda que por poucos dias, as honras da suprema. [Sidenote: 1808 Julho.] No dia seguinte recebeo o Arcebispo o juramento destes novos empregados na cadeira arquiepiscopal, depois de huma Missa solemne; e dalli se passou immediatamente a celebrar a primeira sessão da junta em huma das salas do paço do mesmo Arcebispo, e a darem-se as providencias opportunas, para se consolidar a obra, e se organizar a administração civil, e militar. [Sidenote: 1808 Julho.] Expedírão-se circulares, para que todas as juntas do Além-Téjo reconhecessem por suprema a de Evora, como estabelecida na capital da provincia, e presidida pelas maiores authoridades legitimas. Mandou-se, que marchassem para esta cidade as tropas já organizadas, e que se cuidasse na reorganização dos corpos, que as outras juntas ainda não tinhão reorganizado. Fizerão-se alguns despachos militares, ainda que poucos, e entre elles o de Antonio Lobo para Coronel de cavalleria, e o de seu filho Jeronymo Lobo Infante de Lacerda para Alferes da mesma arma; e para dizer tudo em poucas palavras, tratou-se da organização, armamento, e defeza dos póvos do modo, que as circunstancias o permittião, participando-se tudo á junta de Badajoz, e agradecendo-se lhe os soccorros, que generosamente e nos ministrava. Mas a máquina principiava apenas a dar os seus primeiros movimentos, quando huma força superior a foi destruir. [Sidenote: 1808 Julho.] Alexandre de Lima, que estava em Aldêa Gallega encarregado por Moretti de vigiar os movimentos do inimigo, avisou para Evora, que Loison tinha passado o Téjo com a sua divisão, mas com pouca certeza sobre a força deste corpo; certeza que nunca chegou a haver naquella cidade antes do ataque, nem talvez forão exactos (eu o creio) os calculos, que depois se fizerão. Recebido o aviso, Moretti deo ordem, para ser recolherem algumas das suas tropas, que ainda estavão em Villa-Real: pedírão-se reforços a Badajoz, que não vierão, e expedírão-se officios, para acelerar a marcha já ordenada dos corpos Portuguezes de Campo-maior, Castello de Vide, Portalegre, &c. que não chegárão, nem podião chegar a tempo; porque a 26, e já tarde forão expedidos os officios, acompanhados de itinerarios, na conformidade dos quaes as tropas de Campo-maior, ponto mais visinho que os outros, devião chegar a Evora em 31 do mez. Nos mesmos officios se declaravão por prevenção os lugares, onde se devião reunir as mesmas tropas, no caso de não poderem já entrar em Evora. Notarei de passagem, que tendo-se tambem officiado a Galluzo, para que reforçasse a guarnição de Campo maior com tropas Hespanholas, visto que as Portuguezas tinhão ordem para sahirem desta praça, este General, em lugar de annuir a isto, fez aviso a Campo-maior, para que as nossas tropas não sahissem, como realmente não sahírão; o que prova, que ou Galluzo desconfiava da empreza, ou não reinava a melhor harmonia entre elle, e as authoridades de Evora. [Sidenote: 1808 Julho.] Em principio de execução do projecto, que se concebêra, de guarnecer os postos principaes da esquerda do Téjo, tinhão-se já feito adiantar para Montemór o novo 650 infantes, e 50 cavalleiros, commandados pelo Coronel Aniceto Simão Borges com 4 peças de campanha, e dois obuzes. Apenas se soube, que o inimigo marchava em força consideravel, em hum conselho militar presidido pelo General Leite se mandou reforçar este ponto pelo Coronel de artilheria Vicente Antonio com 400 soldados, e 2 peças de 4, ou para o suster, sendo possivel, ou ao menos para proteger a retirada, dirigindo a sua marcha de modo que cobrisse a estrada de Arraiolos. [Sidenote: 1808 Julho.] [Sidenote: 1808 Julho.] Este corpo, ames de chegar ao seu destino, encontrou já em retirada o primeiro; porque o Coronel Aniceto, ignorando o soccorro, que se lhe enviava, se não julgou com forças, para esperar alli o inimigo. Voltárão pois em confusão, e entrárão em Evora na manhã de 28 espalhando o terror, e publicando, que estavão vendidos. O povo, sempre facil em receber impressões desta natureza, entregou-se a convulsões anarquicas, que custárão muito a suspender. Tinha-se publicado, que os inimigos, que marchavão contra Evora, não excedião a 800, e os authores desta noticia, que com toda a verosimilhança a espalharão sinceramente, ou porque a acreditassem, ou porque quizessem com ella tranquillizar o povo, e prevenir os effeitos do terror, passárão agora por traidores, que querião entregar a cidade. Começou-se principalmente a murmurar contra o Corregedor José Paulo, trazendo-se-lhe á collação factos da sua anterior conducta, e sobre tudo o de hum caldeireiro, que nesse mesmo dia foi prezo, e depois arguido de que era hum emissario, que levava cartas daquelle ministro para os Francezes. De tarde tocou-se a rebate, e houve huma revista de todas as classes do povo, em que appareceo José Paulo, armado como os outros: os seus movimentos, e o seu semblante forão espiados, sem que com tudo ninguem ousasse romper contra elle. Tomou depois o expediente de retirar-se, antes que o inimigo chegasse; expediente, que se representava o mais prudente, mas de que o exito foi, como veremos, o mais desgraçado. Dispuzerão-se patrulhas, e piquetes de cavalleria, para vigiarem o campo durante a noite, debaixo das ordens do Tenente-Coronel Francisco Manoel Couceiro da Costa, em cujo serviço foi exactamente auxiliado pelos seus officiaes. Amanheceo o fatal dia 29, e chegárão a Evora a marchas forçadas os miqueletes de Villa-viçosa, e a legião de voluntarios estrangeiros, commandada pelo seu sargento-mór D. Antonio Maria Gallego, que na tarde precedente sahíra de Jurumenha, tendo feito 11 leguas de caminho em prazo tão limitado. Estas tropas, com as que já existião em Evora, fazião hum total de 1770 homens, a saber: [Sidenote: 1808 Julho.] _Tropa Portugueza._ O batalhão de voluntarios de Estremoz 380 h. A companhia de miqueletes de Villa-viçosa 100 A companhia de caçadores d’Evora 100 Cavalleiros, que se levantarão em Evora 60 Ditos de differentes companhias d’eguas 60 ----- 700 _Tropa Hespanhola._ A legião de voluntarios estrangeiros 400 2 companhias de granadeiros provinciaes 200 1 companhia de tropas ligeiras 100 Cavalleria 250 Artilheria a cavallo 90 Artilheria a pé 30 ---- Total 1770 Erão estas as unicas forças, que os nossos tinhão, para opôrem a hum corpo inimigo, que era seguramente de mais de 6$ homens, e que a opinião pública, e a maior parte dos nossos escritos fazem sobir a mais de 8$. CAPITULO XXXVII. _Ataque d’Evora, saque, mortandade horrorosa, e outras consequencias deste successo desgraçado. Mudanças de Governo, e novas juntas, assassinio do Corregedor._ [Sidenote: 1808 Julho.] [Sidenote: 1808 Julho.] PELAS 7, ou 8 horas da manhã derão parte as nossas vedetas de que se descobria o inimigo: tocou-se á generala, e as tropas tomárão os postos, que os nossos chéfes lhes tinhão destinado, na fórma seguinte; Apoiárão a direita no moinho de S. Bento em huma eminencia a hum quarto de legua da cidade, e neste lugar estavão collocadas quatro peças do calibre 4 com huma companhia de artilheiros a cavallo, que teria 80 homens, 300 infantes, e 50 cavallos. Apoiárão a esquerda no ponto da quinta dos cucos com huma peça de 3, servida por 10 artilheiros a pé, cousa de 200 paizanos de pé, e 60 homens montados em eguas. No centro postárão 2 obuses, servidos por 10 artilheiros a cavallo sobre o oiteiro de S. Caetano, e nas faldas se collocárão a legião de voluntarios estrangeiros, e o batalhão de Estremoz. Na frente destes corpos formavão a cortina os miqueletes de Villa-viçosa, e caçadores de Evora; 200 cavallos Hespanhoes, e 60 Portuguezes á esquerda do mesmo outeiro. [Sidenote: 1808 Julho.] As baterias erão commandadas pelo Coronel Vicente Antonio de Oliveira, pelo Tenente-Coronel Domingos Franco, e pelo Tenente-Coronel Hespanhol D. Luiz de Michelena. As milicias Hespanholas pelo Coronel Victoria; o batalhão de Estremoz pelo Coronel Aniceto Simão Borges; o de voluntarios estrangeiros pelo Sargento-mór D. Antonio Maria Gallego; a cavalleria Hespanhola pelo Tenente-Coronel Ramos, e a Portugueza pelo Tenente-Coronel Francisco Manoel Couceiro; os caçadores de Villa-viçosa pelo Coronel Antonio Lobo. O General Leite postou-se na bateria do centro; Moretti andou sempre volante correndo por toda a parte, onde julgava mais necessaria a sua presença. [Sidenote: 1808 Julho.] Começou o fogo ás 11 da manhã, e a nossa artilheria conteve o inimigo por espaço de huma hora. Avançárão os Generaes Francezes, para reconhecerem as nossas posições, e tendo até alli conduzido a sua tropa em batalhão cerrado, a dividírão em tres colunas, com que atacárão, deixando huma boa parte em reserva. A do centro dirigio-se contra o nosso, as dos flancos contra a nossa direita, e esquerda, pertendendo forçallas, ou volteallas. Percebendo-se alguma fraqueza na nossa esquerda, foi esta reforçada com 40 homens, para sustentarem a peça, que ahi se tinha collocado; e seguio-se hum combate obstinado, em que os nossos fizerão mais do que se podia esperar, pois se defendêrão por mais de 4 horas contra hum inimigo tão superior em número, e em disciplina, sem lhe permittirem avançar terreno, e fazendo-lhe grande matança. A cavalleria foi a que mostrou fraqueza, conservando-se sempre na retaguarda, sem entrar em combate, a pezar das repetidas instancias dos chéfes, e retirando-se em fim antes de tempo. Depois da sua retirada, ainda a infanteria ficou firme, mas adiantando os Francezes a sua reserva, e ameaçando envolvella, teve tambem de começar a retirada. [Sidenote: 1808 Julho.] Biencardi refere, (he hum facto memoravel) que vendo hum artilheiro nosso, que os Francezes nos ganhavão a posição da direita, raivoso, e atrevido se arriscara a pegar o fogo a hum carro de polvora, para demorallos, arriscando-se a ser envolvido nas ruinas, e que obrando felizmente o fogo á vontade do temerario, arrebentára sobre os inimigos, que retrocedêrão assombrados, em quanto os nossos, envolvidos com o fumo, continuárão a retirar-se. O General Leite retirou-se mesmo por fóra da cidade para Olivença, com os seus officiaes d’ordens; os artilheiros sustentárão-se nos seus postos até o fim da acção, e ainda levárão na retirada algumas peças: o seu habil commandante Vicente Antonio de Oliveira mereceo os maiores elogios. Ao mesmo tempo que elles entravão tambem na cidade Moretti, e Lobo pela porta do Rocio, e achando-a totalmente desamparada, Moretti encarregou a Lobo o prover á sua defeza, e correo a avisar o Arcebispo, para que sem demora cuidasse em salvar a vida: o Arcebispo respondeo-lhe com serenidade, que tratasse de conservar a sua, para continuar a enobrecella, sem cuidar nos poucos, e inuteis dias, que a elle Prelado podião restar. Lobo preencheo a sua commissão, fazendo assestar á porta duas peças, e encarregando da sua direcção o Tenente-Coronel Domingos Franco, o que servio de proteger a retirada das nossas tropas, e officiaes, que se forão salvando, como pudérão; mas foi causa de ficar prisioneiro Domingos Franco, e lhe ia custando a vida. [Sidenote: 1808 Julho.] [Sidenote: 1808 Julho.] A defeza da cidade estava incumbida ao Coronel Francisco Pereira da Silva: de cinco portas, que ella tem, tres se tinhão tapado de pedra, e barro, conservando-se sómente abertas as duas para o serviço, e tinhão-se tambem tapado da mesma fórma algumas brechas, e buracos das muralhas; mas além de serem estas muito velhas, e fracas, tinhão sómente por defensores alguns clerigos, frades, e outras pessoas semelhantes. Era pois impraticavel o repellir-se hum assalto em momentos, em que a confusão reinava por todas as partes: ainda se matou bastante gente aos Francezes do alto das muralhas; mas Evora foi forçada por differentes pontos, para offerecer ao mundo hum espectaculo dos mais horrorosos, que conta a Historia. No meio do reboliço geral escapou quem pôde. As tropas Hespanholas, e o seu commandante Moretti recolhêrão-se a Jurumenha; mas deve passar á posteridade o valor de D. Antonio Maria Gallego, que com a legião de voluntarios estrangeiros fez ainda hum fogo terrivel aos inimigos nas ruas da cidade, sem querer nunca retirar-se, até que em fim ficou prisioneiro, depois de huma grande perda da sua gente. O batalhão de Estremoz, os caçadores, e a cavalleria d’Evora dispersárão-se, a companhia de Villa-viçosa recolheo-se a esta villa. [Sidenote: 1808 Julho.] Erão quatro horas da tarde quando se tocou a degola, e começou a mortandade, e o saque. Villa-viçosa, Béja, Leiria, Guarda, Alpedrinha, e Nazareth, onde temos visto praticadas tantas atrocidades, não offerecem todas juntas hum espectaculo comparavel ao desta cidade rica, e populosa, de que por desgraça ficou hum grande número dos habitantes, sem poder escapar em tempo opportuno. As suas tropas, as suas baterias, as suas velhas muralhas, o erro, em que estavão sobre o número de inimigos, que os vinhão atacar, forão as causas da sua maior ruina. Para maior desgraça tendo havido votos na junta, e passando mesmo pela pluralidade, que se favorecesse a evasão dos que quizessem retirar-se, esta resolução, ou foi revogada, ou ao menos ficou sem effeito. Nos ultimos momentos da acção, quando todas as esperanças erão perdidas, tudo queria precipitar-se das muralhas, mas era tarde. A cavalleria Franceza formava o cerco á cidade, em quanto a infanteria penetrava pelas ruas, e por isso a maior carniceria foi sobre os infelizes fugitivos, que ião cahir naquella, quando fugião desta. Muito povo se refugiou ás igrejas; mas as igrejas não lhe servírão de asylo. Os Francezes embocárão duas peças ás portas da Cathedral, onde o concurso era maior, e então o Arcebispo se animou a apresentar-se a Loison, que lhe fallou com arrogancia, taxando de criminoso este Prelado, que as cans, o porte, e as virtudes fazião venerando; mas com effeito abrandou a cólera de Loison, que até prometteo fazer cessar a execução das suas ordens sanguinarias; com tudo as atrocidades continuárão. Que longa, e que horrorosa tarde a de 29 de julho de 1808 em todo o recincto de Evora, e seus suburbios! [Sidenote: 1808 Julho.] O Bispo do Maranhão, muitos religiosos, clerigos, personagens respeitaveis, e muito centenares de pessoas de ambos os sexos, e de todas as classes, forão sacrificados cruelmente pelo ferro dos assassinos: o saque acompanhava as mais operações. Continuárão as atrocidades toda a noite, e toda a manhã seguinte, com a circunstancia de que tendo-se embriagado huma grande parte dos barbaros, ajuntárão os desatinos, e as extravagancias de espiritos alienados ás barbaridades de homens feridos. Pelas 11 horas do dia 30 he que appareceo a ordem de Loison, que mandou pôr termo ao saque legal, (saque legal, que expressão! chamo-lhe legal, porque entra nos principios, e nas leis destes dignos successores dos Vandalos, dos Hunos, e de todos os monstros, que o inferno tem vomitado, para affligirem a especie humana) mas a soldadesca não esteve pela ordem, e sómente suspendeo o seu furor, quando não houve mais o que roubar, e que destruir. [Sidenote: 1808 Julho.] Forão profanados os templos, e isto já era do costume, despedaçadas as santas imagens, roubados os vasos sagrados, em varias igrejas insultadas, e espalhadas pelo chão as sagradas formas. Andava-se a caça de clerigos, e de frades, como em huma monteria se procurão as feras; as casas religiosas soffrêrão como as particulares. Quanto soffrerião a decencia, e a honestidade até nos asylos consagrados á virtude, percebe-se, sem que seja necessario dizer-se. [Sidenote: 1808 Julho.] Pareceráõ lugares communs, e declamações vagas tantas repetições de semelhantes factos, applicados a differentes terras: são lugares communs, he verdade, porque os factos são habituaes aos invasores, de que refiro as acções: apparecêrão em Evora os mesmos, que tinhão sido em Leiria, e Nazareth; o Loison das Caldas, da Guarda, e de Alpedrinha he o mesmo, que assollou a capital do Além-Téjo. Vejão-se os folhetos: _Evora no seu abatimento_, e _Evora lastimosa_ conhecer-se-ha, que eu não exaggero. Neste ultimo vem relações muito circunstanciadas, escritas por varios Religiosos authorizados, que attestão de vista as mortes, sacrilegios, attentados, que os Francezes commettêrão nas igrejas, e conventos de Evora _extra muros_, e horrorizão: o A. promette dar na 2.^a parte, que ainda se não publicou, as dos conventos, e igrejas _intra muros_. E que largo campo offereceráõ ellas á contemplação do homem sensivel! Concluido o saque, e a mortandade, procurou Loison povoar de novo a terra com os seus habitantes fugitivos. Deo-lhes hum Corregedor, e hum Juiz de fóra, em lugar dos ministros ausentes, que occupavão estes cargos; e estabeleceo huma junta, para ficar governando debaixo do nome Francez, á qual deo por Presidente o Arcebispo. [Sidenote: Agost.] [Sidenote: 1808 Agost.] Esta junta Franceza teve exercicio até 14 de agosto, em que os seus membros, comprehendido o Arcebispo, forão conduzidos a Béja, por ordem da junta desta cidade, e prezos em lugares proporcionados ás suas qualidades; ficando por esta fórma novamente supprimido em Evora o governo Francez. O Juiz dos orfãos, que era o unico ministro da terra, que se achava presente, entrou a servir as varas da Correição, e Provedoria em nome do Principe Regente, e passou a dos orfãos, e do geral, em falta de vereadores, ao Bacharel Antonio Mexia Fouto Galvão Pereira. Assim permanecêrão as cousas, até que em 26 de agosto, por huma nova commissão da junta de Béja, se estabeleceo outra em Evora, que governou tambem em nome do Principe Regente, até que pela total expulsão dos Francezes se reorganizou em Lisboa o Governo legitimo do reino, estabelecido por S. A. R. [Sidenote: Julho.] [Sidenote: 1808 Agost.] O infeliz José Paulo de Carvalho, que deixámos fugindo de Evora, para escapar á morte, foi encontralla, e de hum modo cruel ás mãos do povo de Moura. Seguia o caminho d’Hespanha, mas alguns Portuguezes, e Hespanhoes, que tambem fugião, forão clamando contra elle, que era hum traidor, e que tinha entregado a cidade, o que amotinou os póvos. Foi prezo no lugar da Povoa de Moura, e logo ahi o quizerão acabar: tenho de boa parte, que o Prior da terra chegou a conseguir o applacar o tumulto; mas que huma imprudencia de pessoa, que sem dúvida desejava conservar a vida ao Corregedor d’Evora, fôra a que transtornou tudo, e lhe apressou a morte; mas o Prior se acha em processo, como complice deste assassinio, e não anteciparei a seu respeito o meu juizo. O certo he, que José Paulo foi morto no sitio da Cubica em 31 de julho, no meio de tormentos horrorosos. Tambem se imputou á junta de Serpa o ter decretado esta morte, e o seu Deputado Miguel Francisco Palma foi judicialmente accusado de dar esta voz; acha-se porém desvanecida a sua culpa por sentença da Casa da Supplicação, que o julgou innocente. CAPITULO XXXVIII. _Continuão-se os successos de Estremoz, e de Elvas. Entrada, e comportamento de Loison nestas praças; sua retirada, e outros acontecimentos do norte do Além-Téjo._ [Sidenote: 1808 Agost.] TODA a provincia ficou assombrada com a desgraça de Evora, e principalmente Estremoz, que pela sua proximidade, e pelos actos, que alli acabavão de praticar-se, era a terra, que com mais razão tinha a temer os primeiro encontros de hum inimigo victorioso, barbaro, e irritado. Ás primeiras noticias do combate, o povo entrou em tremores; ao primeiro rumor do máo successo, cahio em frenesi, e rompeo em desatinos. [Sidenote: 1808 Agost.] Esperava-se alli a tropa organizada do regimento de Castello de vide, e não veio, o que causou grande descontentamento. Chegando nesse meio tempo de Portalegre em commissão Jorge d’Aviles, official honrado, de que brevemente tornarei a fallar, imputou-se-lhe o ter sido quem suspendêra a marcha daquellas tropas, e consequentemente passou a ser tratado como partidista Francez. Esta arguição tornava-se de manifesta falsidade, pela incoherencia das circunstancias, com que a envolvião; mas foi necessario a Jorge d’Aviles refugiar-se á casa, onde os membros da junta se achavão congregados, e não pudérão estes prestar-lhe asylo, senão subtrahindo-o, e conservando-o escondido grande parte do dia a hum troço de gente, que o seguio, e o pertendeo assassinar, mesmo em presença da junta, e já dentro da sala. [Sidenote: 1808 Agost.] Chegou á junta huma carta, em que se lhe participava o exito infeliz do combate, e todos os seus membros ficárão na maior consternação, sem que algum delles se arriscasse a communicar estas noticias ao povo, que rodeava as casas: quiz-se-lhe ler a carta de huma janella, mas os chuços, e as espingardas mettêrão respeito; com tudo era necessario dar providencias, ou de defeza, para a qual não havia meio algum, ou de evacuação, ou qualquer outra, que salvasse a terra, e os momentos erão preciosos. Deliberárão-se pois a sahirem, e promoverem a evacuação: passando por entre o povo, bastou a sua marcha triste, e silenciosa, para se confirmarem as idéas, que já havia, e elles mesmos as forão communicando separadamente a algumas pessoas mais cordatas, para se propagarem sem estrondo, e poder cada hum tomar as suas medidas. De tres peças, que havia montadas, para defenderem as brechas da muralha, huma se precipitou no fosso, e as outras se salvárão para Olivença: o que se deveo principalmente aos cadetes Durão, e Manoel Ignacio de Carvalho, que até com as suas mãos as forão puchando parte do caminho. [Sidenote: 1808 Agost.] Entretanto soárão na populaça as vozes de traição, e foi procurado o Juiz de fóra, para ser assassinado, tendo até este momento logrado os maiores applausos, justamente devidos á sua actividade, e patriotismo: felizmente foi advertido deste movimento tumultuario por hum aviso opportuno, e pelas gritarias do proprio povo; o que lhe deo tempo a refugiar-se em lugar occulto, saltando muros summamente difficeis. O povo, reconduzido do seu delirio a idéas mais justas por pessoas de juizo, já lhe renovava com públicas acclamações os testemunhos da sua confiança; e elle, ouvindo o motim, ignorava ainda, se era decretada a sua vida, ou a sua morte. Depois de o terem procurado innutilmente por muito tempo, foi descoberto por hum amigo, e instruido dos ultimos sentimento do povo, appareceo-lhe. Ajuntárão-se algumas pessoas condecoradas, disse cada hum o seu parecer, e resolvêrão, como unico meio de salvar a terra, mandarem huma deputação a Loison, a comprimentallo, e pedir-lhe perdão. [Sidenote: 1808 Agost.] Nomeárão-se os deputados, mas nenhum quiz acceitar a commissão, sem que primeiro se enviasse hum emissario com huma carta a Loison, communicando-lhe o projecto, e pedindo a sua approvação. O emissario o alcançou ainda em Evora, e foi conduzido á sua presença com o braço levantado, e huma toalha na mão, para ser respeitado como parlamentario. Loison prometteo debaixo de palavra de honra, que trataria bem os deputados, e só então he que houve deputação, e teve os cortejos, que desejava; porque, a pezar da sua victoria, conhecia o perigo de entrar em novos combates com póvos levantados, que á força de repetições o irião debilitando, e podião em fim destruillo. [Sidenote: 1808 Agost.] Entrou pois amigavelmente em Estremoz a 2 de agosto, e não só não fez violencias, mas fez pagar tudo o que se gastou com a sua tropa, e deo liberdade a alguns dos prisioneiros, que trazia de Evora: os que reservou, e conduzio para Elvas, forão o Tenente-Coronel Domingos Franco, o célebre D. Antonio Maria Gallego, 12 Suissos, e alguns Hespanhoes. Mostrou-se admirado de se terem alli levantado tão depressa tantas tropas, sabendo que Kellerman tinha mandado destruir o armamento; e como conhecesse o mal, que se executára esta diligencia, mandou continualla; mas apenas deo costas, não se trabalhou mais nella. Logo no dia 3 partio para Elvas, e fez acampar a sua gente no rocio do calvario entre a horta do Paraiso, e a igreja de N. Senhora da boa fé. Admira, que passando tão perto de Borba, e Villa-viçosa, nada intentasse contra estas terras, o que se attribuio á brevidade, com que quiz entrar em Elvas, antes que os Hespanhoes o embaraçassem. [Sidenote: Julho.] [Sidenote: 1808 Julho.] Temos deixado em silencio os successos de Elvas desde a retirada de Kellerman, e a primeira praça de Portugal merece algumas considerações sobre o que nella se passou, durante o periodo, de que vamos tratando. Vimos, que aquelle General deixára o commando das tropas Portuguezas existentes no serviço da França, e o das ordenanças ao General Portuguez Miranda, o de toda a artilheria da praça, e fortes ao capitão Francez Collet; accrescentarei agora, que o commando geral ficou ao Coronel Miquel, homem avarento, suspeitoso, e violento, que por estas qualidades tinha já d’antemão adquirido o odio do povo. A guarnição Franceza, que Kellerman deixára na praça, e seus fortes, consistia no seguinte: na praça 4 companhias de Suissos; no forte de la Lippe outras 4 de Suissos, e 3 do regimento 86.^o de infanteria de linha; no forte de Santa Luzia 1 de Suissos, e outra do mesmo regimento n.^o 86. [Sidenote: 1808 Julho.] Todas as mais tropas levou comsigo aquelle General; por cujo motivo se vio Miquel na necessidade de fazer reentrar no serviço o regimento Portuguez de artilheria n.^o 3.^o, que delle fora dispensado alguns dias antes; o que deo causa a continuar a deserção dos nossos, que aproveitando-se das occasiões de entrarem de guarda, se passavão para Badajoz, e Jurumenha, sendo hum dos que desapparecêrão o proprio Coronel, que era este mesmo Vicente Antonio, de que tenho fallado tratando do ataque d’Evora. Depois que este se ausentou, o regimento se debandou inteiramente, procurando, os officiaes, e soldados cada hum o melhor meio de se escapar, e deixando pela maior parte as armas, e munições, que Kellerman, de enfurecido, poz á pilhagem dos Francezes. [Sidenote: 1808 Julho.] Vendo-se Miquel, por estes factos, e pelo progressivo levantamento dos póvos, cada vez em maior aperto, cuidou tambem em fazer conduzir para os fortes quantas armas, e munições lhe foi possivel, e em inutilizar o resto. Fez destruir inteiramente os armazens de cordagens, pannos, utensis, ferramentas, e gastar inutilmente nos exercicios muita polvora, pois a havia de superabundancia á que podia conservar-se nos fortes; e ultimamente na noite de 8 para 9 de julho forão encravadas as bocas de fogo de grosso calibre, exceptuando as dos flancos das portas, e as que se destinavão para serem conduzidas aos mesmos fortes. O proprio Miquel, receoso de alguma conspiração contra a sua vida, tinha feito preparar para si hum quartel no forte de la Lippe, e dormia humas vezes nelle, e outras na praça. Não erão mal fundados os seus receios, porque diariamente crescia contra elle o odio público, que o seguinte facto levou ao mais alto ponto. Na manhã do mesmo dia 8 foi encontrado, e prezo por suspeito hum Alemão, que fallava Portuguez, e Hespanhol; achárão-lhe na algibeira 28 luizes duplos, e querendo Roque mór (official d’ordens de Miquel) apropriar-se delles, não faltou a ministrar as provas, de que era hum espia, que trazia papeletas de Badajoz, e as affixava em Elvas; e administrou-se-lhe justiça com tal presteza, que na tarde desse mesmo dia foi fuzilado entre a praça, e o forte de Santa Luzia. Este processo, e o de Manoel José em Lisboa, fazem muita honra ao codigo pennal dos Generaes Francezes! [Sidenote: 1808 Julho.] Mui breve recebeo Miquel a recompensa. Logo na noite immediata, recolhendo-se da praça ao forte de la Lippe, acompanhado de hum Engenheiro Francez, cahírão ambos em huma emboscada, que os esperava nos olivaes junto á fonte do rio de Mello, tendo sahido para este fim de Campo-maior, e entrando nella alguns dos Elvenses, que se tinhão refugido áquella praça: deo-se-lhes huma descarga, de que resultou matarem-lhe os cavallos, e ficar Miquel estendido com huma ferida, de que veio morrer a Lisboa. Por occasião deste successo houve alarme nos fortes; mas os Francezes estavão tão assustados, que sendo isto logo ao anoitecer, deixárão ficar o seu Governador assim ferido sobre o campo toda a noite, sem o virem soccorrer, nem conduzir. [Sidenote: 1808 Julho.] Durante a molestia do Coronel Miquel, o substituio no governo o Capitão Collet, e foi hum tempo de terror para o povo de Elvas; porque o Capitão Miquel, filho do Coronel, e commandante do forte de la Lippe, ameaçava, que faria fuzilar tudo, se seu pai morresse da ferida, sendo especialmente observadas as familias dos medicos, e cirurgiões Portuguezes, que erão obrigados a vigiar pela saude daquelle inimigo implacavel, e tinhão a pensão de lhe assistirem por seu turno cada hum 24 horas. Crescião as ameaças, e os sustos, á proporção que o ferido peiorava; e por medo chegárão a desertar de Elvas algumas familias, o que Collet pertendeo evitar com mais politica, prohibindo a emigração, e promettendo, que nada aconteceria do que promettia Miquel filho. [Sidenote: Agost.] [Sidenote: 1808 Julho.] Neste estado se achavão as cousas ao tempo da entrada de Loison em Elvas, o qual, apenas chegou, fez publicar, que nessa mesma noite marchava contra Badajoz, e na verdade poz em movimento algumas das suas tropas, que chegárão quasi a meio caminho, e retrocedêrão com huma violenta contra-marcha. Esperava talvez alguma deputação de Badajoz, como a de Estremoz; mas se erão essas as suas vistas, enganou-se. Pertendia levar tudo pelo terror, e com este fim exaggerava muito o número das suas tropas: quando estas se achavão proximas a entrar em Elvas, o commissario Francez Serres, tratando com o Juiz de fóra sobre o artigo de se lhes apromptarem rações, lhe communicou, que erão 17$ para 18$ homens; e verificou-se depois, que no assento sómente se apromptárão para 6$. No dia seguinte ao da sua chegada fizerão huma feira dos trastes, e preciosidades, que trazião do saque de Evora; e não deixarei em esquecimento, que houverão pessoas de probidade, que andárão comprando muitos vasos sagrados, e outros objectos do culto Divino, para os restituirem ás igrejas, a que pertencião. [Sidenote: 1808 Agost.] Procedeo Loison em Elvas _á obra pia_ de mandar fuzilar dois Suissos dos que trouxera prisioneiros, commutou a pena de morte, pela de galés por cinco annos, a quatro dos mesmos, e he necessario dizer tudo, fez soltar os seis restantes. Os Hespanhoes ficárão por sua ordem na mais horrivel prizão do forte de la Lippe, menos D. Antonio Maria Gallego, que foi transferido para a cadea pública, d’onde alguns patriotas o resgatárão depois, comprando o carcereiro, que tendo posto primeiro a sua familia em Badajoz, abrio a porta a este, e aos mais prezos, e com elles fugio tambem, salvando-se cada hum como pôde: Gallego desceo por huma corda atada á boca de uma peça; o que sendo presentido, foi causa de hum alarme geral entre os Francezes da praça, e fortes, e de se fazer muito fogo para os fossos; diligencias, que o escuro da noite fez infructuosas, e a que nos dias immediatos se seguírão outras, igualmente innuteis, de terrores, e buscas exactas nas casas dos particulares da cidade. [Sidenote: 1808 Agost.] Loison tambem decretou a morte do Tenente-Coronel Franco, como rebelde, e o mandou avisar, que se dispozesse para este acto: Nos cortejos forçados, que lhe fizerão o Bispo, Cabido, Ministros, e outras personagens destinctas, alguns se animárão a rogar-lhe por elle, mas foi em vão. Protestou muito respeito ao Bispo, que aproveitando-se desta aberta, reiterou as mesmas súpplicas, mas ainda debalde, até que em fim, possuindo de hum zelo verdadeiramente apostolico, exclamou, que pois lhe não concedia aquelle favor, passava a rogar-lhe hum outro, que era o de dar-lhe a mesma sorte, que se preparava a Franco, pois que aborrecia a vida, huma vez que lhe não podia servir para resgatar a de hum infeliz seu subdito: dobrou-se então a inflexibilidade de Loison, e Franco foi salvo. [Sidenote: 1808 Agost.] [Sidenote: 1808 Agost.] Informado Loison de que ainda existia em Elvas a prata das igrejas da comarca, e provedoria, depositada debaixo das ordens do Juiz de fóra, (que ainda servia de Corregedor) poz em aperto este ministro, para que a entregasse. Hum thesoureiro do exercito o foi procurar para este fim da parte do General; e elle lhe respondeo com presença de espirito, que a prata já não existia debaixo da sua inspecção, porque Kellerman tinha disposto della. O thesoureiro insiste pela execução da ordem que levava, e não obtendo do Juiz de fóra outra resposta, sahe, e torna e entrar hum momento depois com huma escolta para o conduzir prezo. Apertado lance! Valeo ao Juiz de fóra a firmeza, com que insistio, que tanto dispozera Kellerman da prata, que della tinha mandado remetter 2500 marcos para o forte de la Lippe, e entregar os 500 restantes a hum certo Antonio Banhasco, fornecedor de viveres, e que se indagasse a verdade destes factos. Banhasco veio á falla, e perguntando-se-lhe se tinha recebido por ordem de Kellerman aquelles 500 marcos de prata, respondeo promptamente: _forão 800, e não 500_. Tinhão-se-lhe com effeito entregado os 800 marcos, e remettido para o forte os 2500; mas erão da prata de Villa-viçosa, que o mesmo Kellerman tinha feito conduzir para Elvas, e nada tinha com essa a da comarca desta cidade: a reticencia desta circunstancia, e a concordancia de Banhasco com o Juiz de fóra, salvárão a prata, e o Ministro. Na noite de 4 para 5 marchou de Elvas Loison com a sua divisão, guardando respeito a Badajoz, onde com tudo reinava a consternação, causada pelos successos de Evora. Publicou, que ia contra Campo-maior, e com effeito mandou huma intimação a esta praça, para que se rendesse, por hum criado de Guilherme Alexis, fabricante de chapéos em Elvas, e sacrificou huma partida de 25 Francezes, que deixára na sua recta-guarda com ordem de se lhe irem unir em Campo-maior. Forão prezos o emissario, e os 25 Francezes, que todos se remettêrão para Badajoz, quando Loison já ia tomando ao largo para Portalegre; e foi esta a resposta, que os de Campo-maior derão á intimação. [Sidenote: 1808 Agost.] Campo-maior era na verdade o unico ponto fortificado pelos nossos ao norte da provincia, se exceptuamos Marvão, que a pezar de ser huma pequena praça, e ter nesse tempo huma guarnição diminuta, he fortissima por natureza: tudo o mais se achava aberto, e sem mais tropas, que as dos corpos, que principiavão a reorganizar-se em Castello de vide, e Portalegre. [Sidenote: 1808 Agost.] Já em 30 de julho tinha havido hum grande reboliço por aquellas terras, em consequencia de avisos communicados ao Juiz de fóra, e á junta de Portalegre pelo Corregedor da comarca, e pelo Governador de Castello de vide D. Vicente Peres, de que os inimigos tinhão entrado em Estremoz, e se encaminhavão para aquella cidade. D. Vicente chegou a pôr-se em campo a 31, e com elle marchárão tambem algumas tropas: armou-se a paizanagem, conduzida pelos officiaes d’ordenanças; os frades, e os clerigos formárão huma companhia separada, e todos marchavão com semblante de não deixarem hum só inimigo com vida. Foi por então rebate falso, e quando pouco depois se apurárão as noticias de Evora, e da verdadeira marcha de Loison, tudo se deixou possuir de grande terror, que na verdade não era panico. Os Hespanhoes abandonárão Portalegre, e Castello de vide. Hum corpo de infanteria, que principiava a levantar-se em Portalegre debaixo do commando de Jorge d’Aviles Zuzarte de Sousa Tavares e Campos, cavalheiro rico, que o fardou á sua custa, e fez a maior parte das outras despezas, (he hoje hum batalhão de caçadores) e o regimento de infanteria n.^o 8.^o que se reorganizava em Castello de vide pelo seu Tenente-Coronel commandante Manoel Pereira de Campos, retirárão-se para Campo-maior a 3 de agosto, e se submettêrão á junta. [Sidenote: 1808 Agost.] Nestas circunstancias pois o Bispo, e as pessoas, que mais figuravão em Portalegre, tomárão o unico partido prudente, que se lhes offerecia, qual o de abandonarem a cidade, onde com effeito entrárão os inimigos a 6. Aqui se entregárão aos roubos, e violencias do costume além disso impozerão á terra huma contribuição de 100$ cruzados, com ordem de serem pagos logo. Cobrárão, e roubárão por conta della quanto pudérão, sem que ninguem lhes pudesse tomar contas, e a final partírão, levando comsigo seis pessoas das principaes, que achárão na terra, em refens de 61$ cruzados, que dizião dever-se-lhe. No caminho conseguírão dois delles o poderem voltar para Portalegre, com promessas de irem solicitar a cobrança, os outros obtiverão a sua liberdade nos campos da Rolissa, e do Vimieiro. [Sidenote: 1808 Agost.] De Portalegre inclinou Loison a sua marcha para o Téjo, e desceo junto a elle por Abrantes, d’onde fez huma divergente para Thomar, seguindo depois o destino, que adiante veremos. Corria apressado, porque para a costa fronteira se ouvia já o estrondo das armas Britanicas, descendo das margens do Mondego. Temendo que se levantassem os póvos, por onde passava, vinha mandando adiante ordens, para se apromptarem rações para hum grande exercito, e publicando, que já entravão por Bragança 20$ Francezes, que vinhão de reforço; o que deo motivo a huma galante anecdota. Hum dos ministros territoreaes, que recebeo esta ordem de Loison, e que a tinha (assim como todos os outros) de Lagarde, para lhe participar todas as novidades, mandou-lhe com effeito esta dos 20$ Francezes; Lagarde, apenas a teve, correo levalla a Junot, ajuntárão-se os Generaes, e outros funcionarios públicos, e loucos de prazer combinárão o tal exercito com a batalha de Rio Secco, de que tinhão algumas noticias confusas, e fizerão publicar nos quarteis, pelas esquinas, e na gazeta a seguinte [Sidenote: 1808 Agost.] Ordem do dia. _Quartel-general de Lisboa 14 de agosto de 1808. Soldados! Houve huma grande batalha entre o exercito Francez, e o exercito Hespanhol reunido nas provincias de Castella, e de Galliza entre Benavente, e o Douro: o exercito Hespanhol foi completamente batido, e perdeo a maior parte da artilheria. O general Francez prosegue nas suas vantagens, e 20$ homens do seu exercito entrárão em Portugal pela cidade de Bragança. Esta forte divisão marcha para Lisboa, e em breve, valorosos soldados, podereis abraçar os vossos camaradas. Como elles, haveis contentado a Napoleão o grande: como elles sereis recompensados; o vosso General em chéfe saberá fazer-vos ante S. M. a justiça, que mereceis. Rodeados de inimigos, huma parte dos quaes na verdade se acha enganada, estejamos sempre promptos a combater, e a perdoar._ Firmado o proprio Junot. Nem hum homem entrou de reforço em Portugal, e eis-aqui o exercito que marchava por Bragança: quanto á batalha, veremos o que foi. CAPITULO XXXIX. _Operações do General Leite, e do Conde de Castro-marim, depois da desgraça de Evora. As tropas do Algarve sobem para o Além-Téjo: seus movimentos, e das que já tinhão sobido anteriormente._ [Sidenote: 1808 Agost.] [Sidenote: 1808 Agost.] ENTRETANTO o General Leite reunia em Olivença alguns dispersos dos da acção de Evora, mas em número pouco consideravel. Antonio Couceiro da Costa foi-se-lhe incorporar com o principio de hum corpo de cavalleria, que estava formando em Estremoz; outro porém de infanteria, que nesta mesma villa estava organizando o Sargento mór Antonio Tavares Magessi, dissolveo-se com as noticias de Evora. Dalli pedio tambem o General novos soccorros a Badajoz; não só se lhe não concedêrão, não cabendo provavelmente no possivel, mas até se lhe obstava indirectamente á reunião dos soldados Portuguezes, convidando-os debaixo de capa, para se alistarem na legião de voluntarios estrangeiros. Houve mesmo principios de descontentamento entre Leite, e Galluzo, bem pouco favoraveis ao progresso da causa geral d’ambas as nações. [Sidenote: 1808 Agost.] A Olivença mandou Leite recolher os dinheiros públicos da provincia que pôde, encarregando esta commissão a Antonio Lobo; e desenganado em fim do pouco, que alli podia fazer, partio nos fins d’agosto para Campo-maior, como vimos, vencidos já os Francezes, e quasi encurralados em Lisboa por Lord Wellington, e deo as suas disposições para marchar com as tropas que havia, na direcção desta capital. O Conde de Castro-marim, que estava em Evora, tomou a mesma resolução, e nesta marcha se unírão todas as tropas Portuguezas do Além-Téjo, e do Algarve, formando hum só exercito, debaixo do commando do mesmo Conde, segundo as ordens do Governo do Porto, a que obedecêrão, tanto elle, como o General Leite, e que forão o resultado de representações dos emissarios de Campo-maior, fundadas na demora de Leite em Olivença. He necessario continuarmos o fio dos successos do Algarve, para sabermos como o Conde de Castro-marim se achava naquella posição com as suas tropas. [Sidenote: Julho.] [Sidenote: 1808 Julho.] Evacuado de inimigos todo o Algarve, e despedidos para Béja os primeiros soccorros ás ordens de Lopes, e Mestre, (_tom. III. cap. XXII._) o General, e o conselho continuárão com vigor na reorganização das tropas, embaraçados sempre pela escassez dos recursos, principalmente em dinheiro, e armamento: muito pouco terião feito, a não serem os soccorros de armas, que os Hespanhoes nos enviárão, objecto em que se deve muito ao Marquez de Carrion, Presidente da junta de Ayamonte. Forão-se enviando mais alguns corpos para o Além-Téjo, como huns 100 homens para a comarca de Ourique, e hum segundo destacamento para Béja de 400 infantes do regimento n.^o 14.^o com 4 peças, e 1 obuz. Mandavão-se tambem para Evora, a requisição do General Leite, huns 60 cavallos, e 40 barris de polvora, que por não poderem chegar a tempo, ficárão em Béja, assim como algum armamento, e munições. Não sei o número de tropas, que pelos fins de julho se tinhão organizado no Algarve: Couto, ou Cabreira debaixo deste nome, dá-nos 6 regimentos completos, e 800 eguas, a que alli chamavão cavalleria de ordenança, certamente exaggera em mais de ametade. [Sidenote: 1808 Julho.] Chegadas as cousas a este ponto, resolveo-se, que o General entraria com estas forças no Além-Téjo; mas primeiro quizerão expedir ao Principe Regente huma participação circunstanciada do que se passava nesta parte dos seus Estados, e foi escolhido para emissario della José Joaquim da Horta Machado, que sahio do porto de Faro em hum hiate a 8 de agosto. Cousa de hum mez antes tinha sahido do mesmo porto, e com igual destino hum fragil cahique, de que era mestre Manoel Martins Garrocho, e piloto Manoel de Oliveira Nobre, homens na verdade de profissão maritima, mas pouco instruidos, e inteiramente faltos de prática nestas viagens de longo, curso. Sem levarem mais gente do que a sa companha, se arrojárão temerariamente ao immenso lago, que separa os dois mundos; na ilha da Madeira tomárão outro piloto mais prático, e forão levar ao Soberano a noticia de que os seus fiéis vassallos do antigo continente tinhão acclamado o seu nome com gloria, e se achavão occupados com heroismo em despedaçar os ferros da tyrannia. [Sidenote: 1808 Agost.] He indizivel o alvoroço, com que os nossos navegantes forão recebidos pela Familia Real, e por toda a corte. O Principe Regente os encheo de graças, e lhes mandou dar hum navio melhorado, para voltarem ao reino. Querendo das maior extensão ás suas graças, e perpetuar de hum modo honroso a memoria dos importantes serviços do povo de Olhão, erigio este lugar em villa, por Alvará com força de lei de 15 de novembro de 1808, ordenando, que se denominasse _Villa de Olhão da Restauração_, que gozasse de todos os privilegios, liberdades, franquezas, honras, isenções, de que gozão as villas mais notaveis do reino, e que os seus habitantes pudessem usar de huma medalha, que tivesse gravada a letra--O--com a lenda: _Viva a Restauração, e o Principe Regente Nosso Senhor._ O Conde de Castro-marim foi contemplado com o titulo de Marquez de Olhão. [Sidenote: 1808 Agost.] A destruição de Evora produzio huma horrivel fermentação em Faro: o povo amotinou-se em 7 de agosto com o pretexto de traições imaginarias, não obedecendo ás Authoridades legitimas, nem mesmo ao General, que debalde tentou socegallo, e ameaçando romper nos maiores excessos contra os que soppunha infiéis, ao mesmo tempo que mostrava a maior impaciencia por combater os inimigos. Custou muito a apasiguar o tumulto; mas sendo prezos na noite seguinte os cabeças de motim, tudo reentrou na ordem. [Sidenote: 1808 Agost.] Seguio-se immediatamente a marcha das tropas para o Além-Téjo, sahindo em destacamentos dos diversos pontos, que occupavão, e formando-se em duas colunas, de que huma, commandada por Antonio Hypolito, Coronel do regimento d’infanteria n.^o 2.^o (de Lagos) tomou a estrada de Almodovar, e a outra, commandada pelo General em pessoa, a de Mertola. O General tendo encarregado o Bispo do Algarve da presidencia do conselho, e do governo das armas, e provido á defeza do paiz, entregando a inspecção do centro, e da esquerda ao Coronel Joaquim José Ferreira, a da direita ao Capitão Balthazar de Azevedo Villas-boas, sahio de Faro com o seu quartel-general a 10 de agosto, e foi sobindo para Mertola ao longo do Guadiana. Tinha-se tomado Béja por ponto de união, onde devião ajuntar-se todas as tropas do Algarve, e as mais que alli houvesse, para cooperarem contra o inimigo. Se se realizasse este plano, devião fazer huma força consideravel, porque além de hum corpo de voluntarios de Béja, e do regimento de cavalleria n.^o 3.^o, que se havião levantado nesta cidade, tinhão concorrido mais, a instancias do Corregedor, varios corpos Hespanhoes, que fazião hum total de 1300 homens, commandados por D. Jaime Moreno, mas não se pôde realizar, pelos seguintes acontecimentos. [Sidenote: 1808 Agost.] O receio, que houve em Béja, de que Loison, sahindo de Evora inclinasse para alli a sua marcha, foi causa de se chamar de Alcacer do sal Sebastião Martins Mestre com as tropas, que commandava, ficando as margens do Sadão novamente expostas ás incursões dos Francezes de Setubal, e Palmella. Mestre, recebendo a ordem a 30 de julho, partio immediatamente; e não omittirei hum rasgo de patriotismo, e de soffrimento das suas tropas, que deve excitar gratidão, e ternura. Sahírão pela manhã, sem terem comido, nem podido apromptar pão, caminhárão todo o dia a marchas forçadas, sem acharem viveres, e chegárão pela noite á villa de Odivella tão contentes, como se nada lhes tivesse faltado. Aqui tambem não havia rações: foi necessario, que Mestre, e o seu Ajudante Antonio de Brito Villalobos pegassem em huma alcofa, com que andarão pelas portas pedindo pão, que junto a hum pouco, que apromptou o Capitão mór, fez huma porção sufficiente, para se repartir a quarto de pão por cabeça, que lhes servio de almoço, jantar, e cêa. [Sidenote: 1808 Agost.] Chegárão a Béja, e passou o perigo; porque Loison tomou differente direcção; mas os Francezes de Setubal aproveitárão-se da occasião, para invadirem Alcacer, que achárão deserta. A junta fugitiva desta villa, e as de S. Thiago de Cassem, e Grandola recorrêrão á de Béja, e ao General do Algarve. Tinha-se então ordenado em Béja huma nova expedição, para ir soccorrer Evora, que se achava novamente ameaçada, talvez ainda mais pelas oscillações politicas, do que pelos Francezes: recordemo-nos de que foi em 14 de agosto, que por ordem da junta de Béja se prendêrão em Evora as Authoridades estabelecidas por Loison. Era commandada por Mestre, e compunha-se de 400 soldados de infanteria do Algarve, duas peças de artilheria com a sua competente guarnição, hum pequeno corpo de cavalleria, e 300 Hespanhoes pertencentes aos regimentos de Siguença, Llerena, e Ayamonte. [Sidenote: 1808 Agost.] No mesmo dia 14, chegando a expedição a Aguas de peixe, foi avisado Mestre da entrada dos Francezes em Alcacer, o que o obrigou a destacar huma pequena força, para os ir reconhecer. Mandou adiante o seu Capellão Fr. Manoel da Horta, homem de muita vigilancia, e actividade, para espiar os seus movimentos, levando huma carta para o Juiz de fóra, em que o commandante lhe recommendava, que fizesse apromptar rações para 4$ homens, com que na noite seguinte alli ia entrar. Era hum estratagema, de que usou Mestre, para intimidar os Francezes, se a carta cahisse em seu poder, como effectivamente cahio logo nas primeiras guardas, tendo Horta desempenhado muito bem o seu papel, vestido de paizano com hum alforje ás costas. [Sidenote: 1808 Agost.] Mestre continuou a sua marcha, segundo as ordens que tinha, encontrando as povoações desertas, os caminhos, e os bosques cheios de familias errantes, carregadas com o seu precioso, pelo terror, que lhes inspirava a proximidade dos Francezes. Em Aguiar recebeo novas ordens da junta de Béja, e de Lopes, para que retrocedesse sobre Alcacer: o mesmo Lopes se poz tambem em marcha com o resto das tropas Hespanholas, e o General do Algarve expedio iguaes ordens á columna, que seguia a estrada de Almodovar; de fórma que ao mesmo tempo caminhavão contra os Francezes por tres pontos diversos forças, que lhes erão muito superiores. Graindorge era o commandante Francez: não esperou os nossos, retirando-se para Setubal, com tanta precipitação, que deixou alguns viveres, e os proprios barcos, em que as suas tropas tinhão sido conduzidas. [Sidenote: 1808 Agost.] A 17 de manhã entrou Mestre em Alcacer, que ainda achou com muito pouca gente; a 18 entrou tambem Lopes; e a columna do Algarve ficou desembaraçada, para seguir o seu primeiro destino. Os Francezes não se derão então por seguros em Setubal, tendo os nossos tão proximos pela parte da terra, e sendo observados da parte do mar pela fragata Ingleza Comus, que pairava por aquellas aguas; e por isso tratárão de abandonar este importantissimo ponto. Lopes recebeo entretanto ordens, para que a 24 se achasse em Evora com as suas tropas, e estas, percebendo-o, entrárão a clamar, que se achavão descalças, mas que tinhão pés para caminharem para diante, e não para trás: manifestavão hum ardor extraordinario por se arrostarem com os inimigos, e Lopes, desejando aproveitallo, despedio Mestre para Béja, a pedir licença á junta, e ao General (que já alli se achava) para ir occupar Setubal, o que facilmente lhe foi concedido á vista das circunstancias, e da importancia daquelle ponto. A 26 entrou Lopes em Setubal, quando os Francezes acabavão de retirar-se para Almada, sobre o Téjo em frente de Lisboa, deixando huma guarnição de cousa de 300 homens no antigo castello de Palmella, que podia incommodar muito os nossos pela sua posição; mas que foi logo posta em bloqueio, pelas nossas grandes guardas. [Sidenote: 1808 Agost.] Tinha sido a 19, que o General entrou em Béja, onde se demorou até 29, em que partio para Evora, á espera das bagagens, que tinhão ido pelo Guadiana até Mertola, e ahi se demorárão, por falta de conducções: aproveitou o tempo em estabelecer a sua correspondencia com o General Leite, e fazer as suas combinações com este, e com os Governadores das praças. As tropas Hespanholas retirárão-se para Badajoz no dia 22, por ordem do Governo de Sevilha; e o General do Algarve deo a sua entrada em Evora a 30, tendo deixado em Béja a major parte das tropas, que o tinhão acompanhado. Nestas posições os deixaremos por agora, porque ainda temos muito campo a discorrer, antes que tenhão lugar os successos posteriores. CAPITULO XL. _Reflexões sobre as difficuldades de se organizar o exercito: trabalhos sobre este objecto, e providencias, que se derão nas provincias do norte, para se conseguirem os subsidios._ [Sidenote: Junho. a Agost.] [Sidenote: 1808 Junho. a Agost.] PORQUE razão, tendo nós visto trabalhar incessantemente, e com tanta actividade por toda a extensão do reino, á excepção do que os Francezes occupavão, que desde os principios de julho não era huma 3.^a parte, e desde os de agosto nem hum 8.^o, não vemos ainda em campo hum exercito Portuguez, que mereça este nome? Muitas causas concorrêrão, huma geraes, e outras particulares, que he muito facil descubrirem-se na situação geral do reino, e na direcção dos negocios públicos de cada provincia. Hum exercito não se fórma com palavras: he necessario ajuntarem-se primeiro as suas bases, que consistem em homens, cavallos, dinheiro, armas, e munições; e he necessario depois disso disciplinar-se e aguerrir-se. [Sidenote: 1808 Junho. a Agost.] Tudo se achava consumido por hum inimigo summamente destro em destruir, e que sobre a destruição dos póvos pôde sómente lançar os alicerces do seu poder violento, e odioso. Pela invasão os inimigos se apoderárão do nosso erario, absorvêrão as rendas públicas, desorganizárão toda a nossa força armada, enviando para França o melhor das nossas tropas, dissolvendo as mais, e usurpando, ou consummindo immenso armamento; pelas contribuições, e roubos devorárão a substancia dos particulares, e introduzírão a desanimação geral, que, junta ao bloqueio dos nossos portos, fez desapparecer o commercio, fechar as fabricas, e adormecer a industria, e a propria agricultura, verdadeiras fontes da riqueza das nações em geral, e dos individuos em particular. Occupavão Lisboa, privando-nos dos immensos recursos desta capital; e quando as provincias ião levantando a cabeça, não cessavão de paralyzar-lhes os movimentos, por meio daquelles pezados golpes, com que tantos estragos nos causárão, como aconteceo principalmente na Extremadura com a expedição de Margaron a Leiria, e Thomar; na Beira baixa com a de Loison, quando voltou de Almeida; e em todo o Além-Téjo com a do mesmo General a Evora. Não só devastavão as desgraçadas terras, por onde passavão, mas diffundião o terror a 10, e a 20 leguas de distancia, pondo os póvos em consternação, e em fugida, e transtornado-lhes todas as suas medidas de insurreição, e defeza. [Sidenote: 1808 Junho. a Agost.] [Sidenote: 1808 Junho. a Agost.] Em taes circunstancias são tão grandes as difficuldades de se formar hum exercito, que sómente póde fazer dellas huma idéa exacta quem mette mãos á obra, e as encontra por experiencia. Homens he o que apparecia mais facilmente, ainda que para se ajuntarem, e organizarem era necessario tempo; dinheiro, por maiores que fossem os esforços do patriotismo, já mais podia equilibrar as despezas: depois de todos os donativos, emprestimos, e impostos, os lavradores, esta classe que devia ser a mais privilegiada, forão os que o pagárão; porque sendo necessario sustentar-se a tropa, e não havendo dinheiro, para se pagar o preciso, ia se buscar-se onde o havia: he o que eu mesmo observei, e oxalá que não tivesse visto derramar muitas lagrimas, que occasionou este systema, que as circunstancias então fizerão inevitavel, com damno irreparavel de muitas familias, e da agricultura em geral. [Sidenote: 1808 Junho. a Agost.] [Sidenote: Junho. a Agost.] [Sidenote: 1808 Junho. a Agost.] [Sidenote: 1808 Junho. a Agost.] [Sidenote: 1808 Junho. a Agost.] Pelo que pertence ao armamento, olhando em grosso para o que se praticava em todas as terras, que se ião levantando, sendo sempre o primeiro passo o lançar-se mão de todas as armas, e munições, que podião descobrir-se, parecia que em pouco tempo poderião armar-se completamente 150$, ou 200$ homens. Sómente na cidade do Porto, disserão os nossos peridiocos, e acreditou o público, que no primeiro dia da revolução apparecêrão 50$ homens fornecidos de armas, e munições: [9] isto mesmo soou em Inglaterra, [10] e os Francezes andárão sempre assustados com os nosso exercitos das provincias do norte; e com tudo que vimos nós? Foi necessario mendigarem-se armas d’Hespanha, e da esquadra Ingleza, e que Lord Wellington na sua chegada ás nossas costas desse ainda 4$ espingardas, para podermos contar no fim de dois mezes com huma força armada disponivel de 15$, ou 16$ homens entre tropas regulares, e milicias. Faço este calculo, contando o exercito do General Bernardim Freire d’Andrada, que, quando sahio de Coimbra em 10 de agosto, era de 7$618 praças, quasi 3$ com que o General Leite sahio de Campo-maior no 1.^o de setembro, as tropas, que conduzia o General do Algarve, e o pequeno corpo de observação (de menos de 2$) formado em Tras-os-montes, e Beira alta, com que o General Bacellar fazia os seus movimentos pela Beira baixa, e Extremadura, combinado com a divisão Hespanhola do Marquez de Valadares, que seria de huma força pouco maior. Havia mais alguns pequenos corpos, quasi tudo milicias, que ficárão fazendo o bloqueio de Almeida ás ordens do Marechal José Antonio Botelho, e não ficou outra alguma tropa nas provincias, á excepção da indispensavel para as guarnições, que era muito pouca; porque as ordenanças fazião quasi todo o serviço, e no Porto, onde se precisava o maior número, o ficárão fazendo huns 400 homens de infanteria, que, a requisições do nosso Governo ao de Galliza, tinhão alli proximamente entrado com hum esquadrão de cavalleria, que se unio ao exercito de Bernardim. [Sidenote: 1808 Junho. a Agost.] No meio da apparente abundancia de armas, o Governo do Porto conheceo tanto a sua falta real, que, apenas organizado, as mandou pedir a Inglaterra por intervenção do Ministro da nossa corte em Londres; mas o Governo Britanico se achava então tão pouco disposto, por motivos politicos, a deixar sahir armas para o continente, que, para se obterem as que nos forão remettidas directamente, foi necessario recorrer-se á causal do armamento da Leal Legião Lusitana, de que o casco se formou em Inglaterra. O Bispo do Porto tambem sahio logo com huma proclamação a pedir cavallos quasi pelo amor de Deos, e a mesma, requisição fez depois a junta por hum edital de 11 de julho, e por ordens expedidas para as differentes terras das tres provincias do norte, de que a execução foi especialmente encarregada ás Authoridades ecclesiasticas. Com tudo o exercito já estava a marchar de Coimbra, e ainda a cavalleria estava muito mal armada, como mostra hum outro edital da mesma junta do Porto, datado de 8 de agosto, que fez huma nova requisição de espingardas, pistolas, e espadas capazes de servirem para o uso, tanto da cavalleria, como da infanteria, _das quaes_, accrescentava o edital, _ha presentemente a maior necessidade_, e huma proclamação do General Bernardim da mesma data, que fazia semelhantes pedidos em Coimbra. [Sidenote: 1808 Junho. a Agost.] Hum dos maiores embaraços, em que se vírão o Governo, e o General, proveio de falta de officiaes. Procurárão-se, e escolhêrão-se os mais habeis, e se encarregárão da organização das tropas, dando-se-lhes os planos, e assignando-se-lhes os lugares para reorganizarem os antigos regimentos, e os novos batalhões, de que a formatura tinha já sido decretada pelo Principe Regente antes da trasladação da corte para o Brasil, que porém se não tinha chegado a executar. Logo no dia 20 de junho ficárão destinados os differentes corpos, e assignados os quarteis, onde se devião levantar, na fórma seguinte: _Regimentos d’infanteria de linha._ N.^o 6 } 18 } Porto. 9 Viana. 21 Braga. 12 Chaves. 24 Bragança. 11 } 23 } Viseu. _Regimentos de Cavalleria._ N.^o 6 Porto. 9 Braga. 11 Viseu. 12 Chaves. _Batalhões de caçadores._ Do Minho Braga. Do partido do Porto Porto. De Tras-os-montes Villa-Real. Da Beira Viseu. [Sidenote: 1808 Junho. a Agost.] [Sidenote: 1808 Junho. a Agost.] [Sidenote: 1808 Junho. a Agost.] Recolhidos ao Porto Bernardim Freire, e D. Miguel Pereira Forjaz, forão estes os que se puzerão á testa dos negocios militares, e por consequencia os que carregárão com estas disposições; mas sempre debaixo das ordens do Bispo, e da junta. Os seus trabalhos, e os de tantos subalternos, que se empregavão nesta obra erão contrariados a cada passo por muitas outras difficuldades, principalmente no artigo dinheiro, porque a despeza se augmentava progressivamente, á medida que crescia o número das tropas, se adiantavão as operações de defeza, e se preparavão as de ataque, sendo muito tenues os fundos públicos, que o Governo tinha á sua disposição. Já vimos huma parte das medidas, que se tomárão logo ao principio sobre este objecto: foi depois necessario ampliarem-se humas, e recorrer-se a outras de novo, a pezar das consideraveis sommas, que produzírão os donativos voluntarios. Sómente no Porto avultárão elles desde 30 de junho até 29 de julho, segundo as listas que se publicárão, e andão insertas no Leal Portuguez, o seguinte. Em dinheiro Rs. 32:776$286 Alqueires de milho 2$472 Lençoes 3 Arrobas de bacalháo 40 Peças de panno de lã 72 Peças de cré 9 Pares de meias 1$072 Varas de panno de linho 1$258-1/4 Ditas de estopa 17 Alqueires de centeio 1$128 Pares de çapatos 30 Arrobas de arroz 198, e arrates 18 Chapéos de Braga 60 Forão tambem muito consideraveis os donativos de Coimbra, Braga, Viana, e de todas as mais cidades, villas, e lugares daquellas provincias; porque até nas mais pequenas aldêas, e entre as ultimas classes do povo produzírão o seu effeito as proclamações do Governo, e as dos Bispos, e superiores ecclesiasticos, communicadas pelos ministros civís, e pelos parocos. No Porto foi incumbida a arrecadação dos donativos aos officiaes da Meza da misericordia: para as provincias adoptou-se o methodo de recebedorias particulares nas aldêas, debaixo da inspecção dos Parocos, e Juizes das freguezias, d’onde devião passar a outras, tambem particulares, nas cabeças dos termos, debaixo da inspecção das camaras, destas ás geraes das cabeças das comarcas, e finalmente ao thesouro público, creado no Porto em 7 de julho. [Sidenote: 1808 Junho. a Agost.] Declarou-se extincta a contribuição dos 40 milhões de cruzados, imposta pelo Governo Francez, mandando-se porém recolher ao thesouro, a titulo de donativos, as quantias, que já estivessem cobradas nos depositos respectivos. Lançou-se mão dos rendimentos das commendas das ordens militares, comprehendida a de Malta, pertencentes a pessoas, que existissem fóra das provincias, que tinhão reconhecido o Governo legitimo, dos da Bulla da cruzada, e da Patriarcal, pois que Lisboa, para onde aliás deverião remetter-se, estava ainda em poder do inimigo, das sobras das sizas, dos liquidos das confrarias, e dos dinheiros applicados para as obras públicas, nas quaes se mandou suspender, durante a urgencia do Estado. Em data de 19 de julho se estabeleceo hum regulamento, que deo fórma a todas estas arrecadações. Na de 20 se ampliou o imposto de 4$800 rs. por cada pipa de vinho, que se exportasse pelas barras de Aveiro, Figueira, e Viana, e se estabeleceo de novo o de 9$$600 rs. por cada pipa de azeite, que sahisse pela barra do Porto, e por qualquer outro dos portos das provincias do norte. Na mesma data se mandou proceder a effectivo sequestro em todos os bens, direitos, e acções, por qualquer modo pertencentes a individuos da nação Franceza, que não estivessem naturalizados em Portugal, levantando-se o que se havia feito por ordem do Governo intruso, nas propriedades Inglezas. [Sidenote: 1808 Junho. a Agost.] A 29 mandou-se abrir hum emprestimo de dois milhões de cruzados, com o juro de 5 por cento, a que se hypothecou o rendimento do novo imposto sobre o vinho, e azeite, com a promessa de que o capital se iria amortizando, á proporção que as circunstancias o permitissem, e mesmo pelos soccorros pecuniarios, que se esperavão da Gram-Bretanha; e que aquelles, que quizessem entrar com quantias sem vencimento de juros, serião os primeiros reembolsados, e se lhes attenderia este rasgo de patriotismo, como hum particular, e grande serviço á nação, e ao Soberano. [Sidenote: 1808 Junho. a Agost.] A 8 de agosto se impoz a contribuição de 20$000 rs. metalicos pelo consumo de cada pipa de aguardente, e pela exportação das que sahissem pelas barras do Porto, Aveiro, Figueira, Villa de Conde, Viana, e Caminha, e de 2$400 rs. tambem metalicos por cada pipa de vinagre, que se exportasse pelos referidos portos. A 25 se expedírão ordens mais precisas, para a cobrança dos atrazados da imposição respectiva ao encanamento do rio Lima, cujo rendimento entrava na ordem dos outros das obras públicas, applicados para as despezas da guerra. Tambem se dispoz a favor do Estado das terças partes das fazendas confiscadas pelos Francezes, pelo simples facto da origem Ingleza, que ainda existião nas Alfandegas, sem serem resgatadas, com a declaração de que ás duas partes dos lanificios Inglezes embargados se darião os competentes despachos, e as terças pertencentes ao fisco poderião ser substituidas por igual quantidade de covados de panno azul, e na sua falta, de qualquer outra cor da qualidade daquelle, que serve para o fardamento da tropa. Vierão em fim os soccorros pecuniarios de Inglaterra, que chegárão a milhão e meio de cruzados. [Sidenote: 1808 Junho. a Agost.] A junta suprema, para facilitar a expedição dos negocios militares, tinha feito suspender na dos forenses por edital de 26 de junho, mandando sobrestar em todas as causas judiciaes, tanto na Relação, como nos juizos, e auditorios subalternos, exceptuando as que respeitavão á policia, inconfidencia, e segurança pública, e resalvando ás partes seu direito: esta suspensão foi levantado por outro edital de 20 de julho, menos para as pessoas empregadas no exercito, e a seu beneficio, quando o requeressem. NOTAS DE RODAPÉ: [Footnote 9: _Leal Portug._ de 27 de junho de 1808.] [Footnote 10: A primeira noticia official, que me consta chegasse a Inglaterra do levantamento de Portugal, foi communicada pelo Almirante Cotton em carta datada da náo Hybernia defronte do Téjo a 22 de junho de 1808, remettendo outra, que havia recebido do commandante da chalupa, ou brigue Eclipse diante do Porto. Huma, e outra, traduzidas, são as seguintes. Carta do Almirante. _Senhor, inclusa remetto para instrucção dos Lords do Almirantado a cópia de huma carta, que tenho recebido do Capitão Creyke da chalupa de S. M. o Eclipse, referindo as circunstancias do estado dos negocios no Porto. Tenho a honra de ser, &c._ Carta do commandante da chalupa. _Chalupa de S. M. Elipse. Barra do Porto 20 de junho._ _Senhor. Depois da relação, que tive a honra de vos entregar a 10 de junho, o Porto tem padecido duas revoluções, e estado successivamente nas mãos dos Francezes, e dos vassallos do Principe Regente. Depois que os Hespanhoes entregárão as fortalezas á guarda dos Portuguezes, e se arvorárão as bandeiras nacionaes, os Francezes conseguírão restabelecer a sua authoridade, em consequencia das fracas, e indeterminadas medidas do Governador Luiz de Oliveira, que agora se acha prezo como traidor, e a conservárão até o dia 16 que era o de Corpus Christi, em que ha huma grande festividade nacional, e tem sido o costume dos Portuguezes terem neste dia os seus regimentos em armas com as bandeiras da nação. O Governador Oliveira, em consequencia das ordens de Junot, tentou estabelecer na procissão a bandeira Franceza em lugar da Portugueza: este violento ataque contra os costumes da nação excitou murmurações na populaça, que chegou ao ponto de não querer acceitar huma especie de accommodação, que o Governador lhe propunha, e a 18 pela tarde que foi hum dia antes da minha chegada aqui, o povo se excitou a tal gráo de furia, que apoiado pelos ecclesiasticos se levantou em massa, arrombou os armazaens, munio-se com 25$ jogos de armamento, e junto com as tropas regulares formou hum exercito summamente resoluto, e enthusiasmado. Desde este momento cessou toda a authoridade Franceza, e todo o homem, ou Francez, ou suspeito de apaixonado dos Francezes foi prezo. O bispo do Porto foi eleito Governador, e já se mandou hum exercito de 20$ homens contra os Francezes que se tinhão adiantado com 900 homens até 6 leguas distante do Porto. O enthusiasmo passou de huns a outros, e as provincias Portuguezas de Tras-os-montes, Minho, e parte septentrional da Beira, á imitação dos Hespanhoes, se tem posto em armas, resolutos a extirpar do reino os Francezes. Segundo a mais moderada conta, além do que ha no Porto, se podem estimar em mais de 100$ homens; todos os regulares, que forão dissolvidos pelos Francezes, se estão outra vez formando com a maior presteza, e brevemente se uniráõ aos outros. Eu fallei hoje com S. Excellencia o Governador, e fui conduzido entre acclamações, e vivas do povo: á manhã tenho de mandar huma partida de gente montar as peças de hum navio do Brasil, cujo commando se deo a hum Inglez, e se destina para obrar como bateria fluctuante para defender a ponte, em caso que os Francezes tenhão a temeridade de se lhe aproximarem, posto que não ha por hora que temer semelhante acontecimento. Se me for requerida alguma polvora, eu a darei; porém elles tem presentemente abundancia de armas, munições, e mantimentos. Os Portuguezes detestão os Francezes a tal ponto que o Capitão Ihones, e eu, depois de termos pedido a vida do Intendente da policia Francez, tivemos a maior difficuldade em o trazermos como prisioneiro para o bote, e só o illimitado amor, e respeito, que ha para com os Inglezes, pôde obstar a que o enraivecido povo o não fizesse em pedaços. Tenho a honra de ser, &c._ Não falla em 50$ homens armados, no Porto; mas suppõe 25$ jogos completos de armas só em huma tarde, 100$ homens pelo menos, além dos do Porto, em armas; e hum exercito de 20$ que sahíra da cidade contra os Francezes. Pessoa de inteiro credito, e que tem obrigação de não ignorar estes factos, me asseverou, que na verdade havia no Porto 15$ armas; mas que quasi tudo fora destruido, ou extraviado pelo povo no confuso armamento dos primeiros dias da revolução.] CAPITULO XLI. _Primeiras communicações entre o norte, e o sul do reino. A sua falta, e a de harmonia entre as juntas, e funccionarios de cada huma das provincias, novas causas, que retardão os progressos da restauração._ [Sidenote: 1808 Junho. a Agost.] SE as provincias do norte se tivessem desde o principio correspondido, e combinado com as do sul; se houvesse melhor harmonia entre as differentes juntas, não se terião adiantado muito mais os progressos da restauração? Não me erigirei censor dos Governos, e dos funccionarios públicos, mas não deixarei passar os factos interessantes, sem aquellas reflexões, que são da rigorosa competencia do Historiador. [Sidenote: 1808 Julho.] Os habitantes da Beira, e do Além-Téjo se achavão já restituidos ao mesmo Soberano, e trabalhavão igualmente na restauração da monarquia; mas estas provincias, tocando se pelo Téjo na extensão de 9 ou 10 leguas, descendo de Montalvão até Casa-branca, parecião separadas por huma barreira impenetravel, ou por hum deserto immenso, ignorando-se em huma os successos da outra. Os grandes focos da revolução, que os mais proximos erão Coimbra ao norte, e Campo-maior ao sul, achavão-se mui distantes, e os póvos, de que as vistas são ordinariamente muito curtas, assás implicados nas lidas domesticas, para se occuparem em communicações remotas: concorria para os espantar daquellas paragens a proximidade de Abrantes, onde os Francezes conservárão guarnição até 17 de agosto; com tudo com mais hum pouco de trabalho, o norte se teria communicado com o sul, e unidos os recursos, as forças, e os movimentos, seria o resultado mais prompto, e decisivo. Vou referir, como se abrírão as primeiras correspondencias bem verificadas. Corrião no Além-Téjo vozes vagas de que as provincias do norte se tinhão levantado, e fallava-se de Coimbra de hum modo tal, que dava a conhecer, que esta cidade figurava muito na revolução; mas nada se sabia com certeza. Hum sargento do corpo Academico chamado Caetano José da Fonseca, que appareceo em Campo-maior a 18 de julho, foi o primeiro que alli deo noticias mais positivas, as quaes forão levadas a Badajoz, e desde este momento o Governo Hespanhol, e o Portuguez de Campo-maior concebêrão o projecto de se ligarem com Coimbra. [Sidenote: 1808 Julho.] A este tempo chegou a Badajoz a noticia de ter sido derrotado na Andaluzia o exercito Francez do General Dupont, e Galluzo, querendo estender a fama deste successo glorioso, em que tanto se interessava a causa d’ambas as nações alliadas, a participou por cartas, não só ao Governador de Campo-maior Moreno, mas tambem á junta, que se sopunha haver em Coimbra. Enviou ambas a Moreno, com recommendação de que remettesse a que se destinava para Coimbra por portador, que fosse encarregado de ir communicando a noticia a todos os Generaes, e authoridades Portuguezes, que podesse encontrar: Cesario, e Xara, que erão sempre os primeiros em offerecer-se para as commissões mais trabalhosas, e arriscadas, apresentárão-se immediatamente, para serem os portadores. [Sidenote: 1808 Julho.] Nos primeiros dias da residencia de Moreno em Campo-maior Cesario tinha sido o seu braço direito: com elle he que se entendia, não consentia, que se desviasse muito tempo do seu lado; e para que nunca se lhe impedisse a entrada no seu quartel, lhe deo desde logo o seguinte bilhete, por elle firmado: _Siempre que presente este documento la persona de Francisco Cesario, se le permita pase hasta mi camara a qualquiera hora de la noche, y dia: Campo-maior 3 de julio de 1808--Moreno._--O congresso do dia 5 já derramou entre elles algumas sombras; porque foi Cesario quem artificiosamente procurou, que elle se convocasse, para o estabelecimento do Governo Portuguez; e o artigo contas, que tambem era promovido por Cesario, acabou de os indispôr. Moreno pois consentio facilmente, que fosse elle o portador, pois que a sua presença principiava a ser-lhe pezada. [Sidenote: 1808 Julho.] Sahio Cesario de Campo-maior em 25 de julho, acompanhado de seu irmão João Antonio Aparicio, que, como elle, ardia em desejos de destinguir-se no serviço da patria.[11] Apenas derão as costas, chegárão novos correios, que não só confirmárão a derrota de Dupont, mas accrescentavão já a noticia de ter este General capitulado, e deposto as armas com todo o seu exercito; e resolvendo-se a expedição de novo portador com estas communicações, foi escolhido Xara, que desempenhou na ligeireza o nome, sahindo hum dia depois de Cesario, e chegando primeiro do que elle ao seu destino. Cesario tinha-se demorado em alguns rodeios, para satisfazer aquella parte da sua commissão de ir espalhando a noticia pelos Generaes, e authoridades Portuguezas, que podesse encontrar. [Sidenote: 1808 Julho.] Forão recebidos em Coimbra com indizivel alvoroço, causando, além de hum grande prazer pelas noticias que trazião, huma novidade pelo não esperado, como se viessem enviados de hum outro mundo. Informados alli dos grandes movimentos, que se fazião ao norte do Douro, Cesario, e Xara caminhárão para o Porto, onde chegárão a 31 de julho, e João Antonio Apparicio voltou a Campo-maior com as informações precisas sobre o estado, em que se achava aquella parte do reino. [Sidenote: Agost.] [Sidenote: 1808 Agost.] No Porto forão os nossos mensageiros igualmente bem recebidos: o Bispo, a junta, o General, e D. Miguel Pereira Forjaz lhes fizerão o maior agazalho possivel, vendo completos os seus desejos, pelo que pertencia á provincia do Além-Téjo. Cesario lhe fez algumas requisições, em que foi attendido, obtendo particularmente alguns soccorros para o hospital de Campo-maior, que quasi lhe devia a sua existencia, e por isso mesmo elle mais os estimou, como forão duas caixas com instrumentos cirurgicos. A 3 de agosto sahírão daquella cidade de volta para o Além-Téjo, levando despachos do Bispo, e do General para o Marquez de Valadares, que soppunhão dever encontrar em Castello-branco, para o Arcebispo de Evora, e para a junta de Badajoz: levárão tambem abertos varios planos, e instrucções, para a reorganização, e reducção dos corpos de tropa das differentes armas. Erão as intenções do Governo, e do General do Porto modelarem o Além-Téjo, pelo que alli se praticava, e promoverem a união das differentes authoridades da provincia debaixo de hum só Governo, que tivesse por cabeça o Arcebispo. [Sidenote: 1808 Agost.] Em Coimbra vierão saber da catastrofe de Evora; e continuando a sua viagem, duas leguas antes de chegarem a Castello-branco, em lugar de noticias do Marquez de Valadares, que ainda não tinha descido para a Beira-baixa, principiárão a encontrar os caminhos cheios de gente banhada em lagrimas, e curvada com o pezo de seus filhos, ou dos seus móveis, despovoando as terras, que tão longe chegava o terror de Loison, e da sua divisão, que por esse tempo, como vimos, se tinha aproximado ao Téjo por aquelle lado, e passando á margem direita ia seguindo a estrada de Abrantes. Para se desviarem delles, Cesario, e Xara entrárão na Hespanha pela Zibreira, proseguírão viagem por Aliseda, Villar d’ElRei, e Badajoz para Campo-maior, d’onde poucos dias depois tornárão a sahir para Coimbra em novas commissões do serviço. Como Evora se achava de novo submettida ao governo Francez, abrírão-se em Campo-maior as cartas, que erão dirigidas ao Arcebispo, e se apropriárão a esta praça algumas das instrucções, que continhão. [Sidenote: Julho.] [Sidenote: 1808 Julho.] [Sidenote: Agost.] Do Algarve sahírão tambem por ordem do Governo Sebastião Duarte da Ponte Negrão, e apos elle Pedro Coelho Xavier, quartel-mestre, despachado em Capitão do regimento de artilheria n.^o 2.^o a procurarem noticias, e abrirem communicações com o norte. Sahírão primeiro do Algarve, do que Cesario, e Xara de Campo-maior, porém demorárão-se mais no caminho, tanto em razão de maior distancia, como por fazerem a marcha mais lenta, concorrendo para o levantamento de algumas terras do baixo Além-Téjo, que ainda obedecião aos Francezes. Sebastião Duarte passou por Alvito a 18 de julho, achou-se em Evora a 20 quando ahi se fez a acclamação, atravessou a comarca de Aviz em direitura a Tancos, e chegou a Coimbra a 28, quando tambem alli chegava Cesario. Coimbra era o ponto do seu destino, mas por ordem do Governador desta cidade passou tambem ao Porto, onde chegou a 5 de agosto, tendo dado huma volta pela Figueira, para se apresentar a Lord Wellington, que estava desembarcando com as tropas do seu commando. [Sidenote: 1808 Agost.] Quando entrou no Porto, já ia encorporado com Pedro Coelho, e voltárão ambos por Viseu, Pinhel, Guarda, Covilhã, e Castello-branco, encarregados de officios do Governo para o General Bacellar, e outros chéfes militares: nesta ultima cidade se separárão, entrando Sebastião Duarte em Hespanha por Alcantara, Valencia, e Badajoz em varias commissões, e seguindo Pedro Coelho a estrada direita a levar os officios dirigidos ao General do Algarve, que a esse tempo já tinha sobido para o Além-Téjo, e os recebeo em Mertola a 15, ou 16 de agosto. [Sidenote: 1808 Agost.] No Além-Téjo a comarca de Ourique, e nos primeiros tempos da revolução a de Béja tiverão grande correspondencia, e união com o Algarve, como he facil de ver, pelo que deixo escrito; mas para as comarcas superiores tambem as communicações se estabelecêrão muito tarde. A junta de Estremoz no dia immediato á sua instalação mandou dois deputados com cartas ao General, e junta do Algarve, participando-lhes o seu estabelecimento, e pedindo-lhes soccorros: obteve respostas, mas não soccorros, nem houve tempo para estes chegarem. A mesma participação, e as mesmas requisições fez o General Leite ao Algarve, e a Béja, apenas organizada a junta de Evora, mas com igual successo. Repetio officios mais instantes a pedir soccorros, quando soube, que os Francezes marchavão em força contra o Além-Téjo; mas o exito desgraçado, que as cousas rápidamente tiverão, cortou o fio a esta correspondencia, até o tempo, em que o General do Algarve entrou em Béja, concorrendo para isso a separação, em que se poz esta cidade, e a demora de Leite em Olivença, territorio Hespanhol, o que não deixou de lhe ser estranhado, principalmente em Campo-maior, d’onde se lhe fizerão convites, para transferir para alli a sua residencia. Temos visto tres juntas no Além-Téjo, e huma no Algarve, que simultaneamente se arrogavão o poder, e as prerogativas de supremas; temos visto as contestações, que tiverão, o scisma declarado da de Béja, que levou comsigo as da sua dependencia, e he quanto basta para se fazer idéa da falta de nexo, e de harmonia, que reinou entre ellas. NOTAS DE RODAPÉ: [Footnote 11: A João Antonio Aparicio deve-se, além d’outros serviços, o ter concorrido, até com risco de sua vida, para a restauração de Portalegre, onde se apresentou para este fim com cartas de Campo-maior. Não foi bem succedido; porque deo com hum mal intencionado, ou hum fraco, que o quiz perder; de fórma que elle se vio obrigado a dilacerar as cartas, e ausentar-se, sem se declarar. Voltou depois com a escolta dos 12 Hespanhoes, de que fallei (_tom._ _III. cap. XXVII._) o que foi bastante para os fiéis habitantes de Portalegre abraçarem á primeira voz a espontanea resolução, que lhes dictavão seus corações.] CAPITULO XLII. _Commoções populares na cidade do Porto: Proclamações, e outros procedimentos por occasião das mesmas. Expedições em consequencia de hum rebate falso; ajuntamentos, prizões, e outros resultados._ [Sidenote: 1808 Junho. a Agost.] [Sidenote: 1808 Junho. a Agost.] AS provincias do norte obrárão mais de concerto entre si, porque a pezar de não terem ficado absolutamente livres das contestações das juntas subalternas, todas se submettêrão á do Porto, como vimos, e houve por isso unidade de plano, e maior união de forças, do que nas provincias do sul. Tambem o norte foi mais feliz, em razão de não ter sido incommodado por corpo algum inimigo, depois da expedição de Loison: a guarnição de Almeida era muito fraca, para ousar mostrar-se muito além dos seus muros, e mesmo não tardou em ser posta em bloqueio, mas elle soffreo horrorosamente das commoções populares; e para se formar idéa do estado de fermentação, em que continuava a propria capital do Porto nos fins de junho, e principios de julho, podendo apenas a authoridade do Governo, e dos magistrados, a do General, e a força armada com os disturbios populares, bastará ler-se a seguinte proclamação, que publicou, e fez affixar o Intendente geral da policia. [Sidenote: 1808 Junho. a Agost.] [Sidenote: 1808 Junho. a Agost.] [Sidenote: 1808 Junho. a Agost.] Proclamação. _Moradores do Porto, o vosso demasiado zelo, e summa desconfiança, pôde bem levar-vos ao precipicio, e isso he o que pertende o tyranno, para vos fazer sucumbir. Se vós confiais no supremo Governo, que constituistes, prestrai-lhe sugeição, que elle he muito capaz de vos defender, e eu em seu abono porei a minha cabeça; se porém desconfiais de mim, o remedio he prompto; porque eu vou já dimittir o cargo, que nem pedi, nem ambiciono. Não he nesta occasião só que eu tenho feito ver a minha fidelidade; sempre por ella mereci a estima do Soberano, já ha muito que algum de vós a conhece, e talvez em tempo, que a minha vida se arriscasse. Eu ainda conservo os mesmos sentimentos, os Jacobinos ainda não pudérão abalar a minha constancia; como porém a vida he preciosa, eu a desejo dar mais em beneficio da patria do que sacrificalla em hum tumulto. Eu quero antes morrer como simples soldado em qualquer acção, do que soffrer de vós a injuria de desconfiardes da minha honra, e fidelidade. Muitos ministros ha nesta Relação de mais luzes, e por isso mais capazes do lugar de Intendente geral da policia: fazei justiça ao seu merecimento, e ide pedir outro ao supremo Governo que eu de boa vontade vos quero fazer a vossa. Tenho mais gosto de ir acompanhar meu filho ao exercito, onde o fiz alistar, do que occupar o lugar, para o qual apenas me julgaria capaz no tempo de quietação, e não do tumulto, em que desgraçadamente vos vejo; no meio deste, confesso, se faz mister mão, que seja mais habil. Se a vossa desconfiança nasce da falta de proposição dos réos, sabei que eu desejo fazer as cousas de fórma, que não seja notado de sanguinario; desejo ajuntar nas sentenças todas as provas, que poder descobrir, para que a minha honra não padeça. Se em França se faz outra cousa, esta desgraçada potencia não serve hoje de modélo ás outras; os réos estão bem seguros, hão de ser punidos conforme as suas culpas, a devassa, que pelas nossas leis se requer, ainda hontem se principiou. Que desejo he este tão arrebatado do sangue de huns poucos de individuos dos quaes já não temos nada a recear, e que brevemente podereis ver no lugar, que merecem pelos seus crimes? Não são estes os que vos devem merecer cuidado; aos que estão em Lisboa, e Almeida he que devemos accommetter, e vencer: correi pois mais a alistar-vos no exercito, e a unir as vossas forças contra os inimigos externos, do que contra estes já prezos, dos quaes em poucos dias, vos prometto, vejaes a triste sorte, sendo culpados. Dai-me algum tempo, porque hum homem mal convalescido de huma doença, e occupado em muitas outras cousas, não póde fazer mais, do que faz: concedendo-me tempo, eu vos prometto desempenhar as obrigações do meu officio, e vingar com o castigo dos réos a religião, a patria, e o Principe offendidos. Porto, e Intendencia geral da policia 1 de julho de 1808._ Não he menos notavel a proclamação do Bispo Governador, que se segue. [Sidenote: 1808 Junho. a Agost.] [Sidenote: 1808 Junho. a Agost.] Proclamação. _Portuguezes, pelo ceo, por Jesus Christo ouvi hum Governo, que vos ama, que quer a vossa felicidade, e que trabalha por ella. Que fazeis com as vossas turbulencias, com os vossos tiros, e com a vossa falta de ordem, e de subordinação, a quem está prompto a conduzir-vos, a levar-vos com ordem ao inimigo, e a poupar as vossas vidas? Que tiros não perdeis, que devião empregar-se no inimigo, e ao depois hão de faltar-vos? Que sinaes não estaes dando ao inimigo, para se acautelar, e surprender-vos? Portuguezes, ouvi a quem vos ama: os Francezes hão de accommetter-nos n’hum golpe de mão, e de noite, estais perdidos, se vos não subordinaes, e ouvis o Governo. Os tiros, os toques de tambores, os sinos dão aos inimigos hum sinal certo, onde estaes, onde se acha a força, e onde fica a fraqueza. Aos inimigos encobrem-se os destinos, para o accommetter, para melhor se acautelar, e sahir-lhes ao encontro, quando elles menos o pensão: he este o meio de vencellos, sugeitai-vos aos superiores em tudo, e por tudo, se quereis vencer, aliás ficais desgraçados: a força sem ordem he a de hum valente touro, que cede á industria, e destreza de hum fraco, e debil capinha. Pelo que ha de mais sagrado no ceo, e na terra, por Jesus Christo roga-vos o Governo, que vos sogeiteis aos vossos chéfes, formando-se as ordenanças nas suas companhias. Se vos pozerem em hum posto, ahi deveis permanecer para quando chegar a occasião do vosso combate. Os que estão avançados accommettem primeiro, e matando diminuem os inimigos: os segundos quando chega a sua vez, minorão os contrarios com as mortes, que lhes dão: os terceiros vencem, e destroem o resto. Mas se em montão ides aos postos, destroçados ahi que resta? Ficais todos perdidos: que desgraça! A vossa energia deve ser dirigida pela arte: deixai-vos conduzir, e sereis vencedores. Viva o Principe Regente, viva Portugal, vivão os Portuenses, &c._ [Sidenote: 1808 Junho. a Agost.] [Sidenote: 1808 Junho. a Agost.] O Chanceller, e outros funcionarios públicos tambem fizerão proclamações em conformidade, e até appareceo huma do povo ao mesmo povo. Representações, e súpplicas não bastavão, era necessario accelerar o processo dos prezos, como na verdade se accelerou, em consequencia de varias ordens, e prometter sangue. Estremecião os póvos com o receio de se verem novamente invadidos por hum inimigo terrivel, que ainda occupava a capital, e huma parte do reino, e de que lhe arrebatassem segunda vez o thesouro, que acabavão de reconquistar; e este receio os fazia summamente suspeitosos, pensando encontrarem traidores para qualquer lado, que se voltassem; e ajuntando-se muitas vezes ás desconfianças dos temerosos a maldade de alguns individuos, que abusavão da credulidade innocente, para satisfazerem a paixões criminosas, o patriotismo se convertia em furor. Mas não confundamos actos particulares de erro, ou de malicia de alguns individuos com as operações do povo em geral. Eu terei ainda occasião de fazer algumas reflexões a este respeito, mas para evitar prevenções, adianto-me a dizer, que bem longe de criminar o povo, eu o desculpo, e me admiro de que não fossem mais sanguinarios os seus desatinos. Muitas vezes se entregou a excessos, e muitas vezes perseguio victimas innocentes, (nem todas o erão) ou porque se enganou, ou porque abusárão delle; mas a revolução era a obra do povo, e o povo não sabe fazer de outra fórma as suas revoluções: continuemos com os factos. [Sidenote: 1808 Junho. a Agost.] [Sidenote: 1808 Junho. a Agost.] Deixei incompleta a historia da desgraça de José Cardoso de Menezes, (_tom. III. cap. XIV._) com a qual se envolveo a do Tenente Luiz Paulino, o mesmo que no dia 6 tinha assistido ao congresso convocado por Bellesta: accrescentarei agora algumas circunstancias, que não devem ficar ommissas.[12] O portador da carta, que motivou as suspeitas, era hum homem tão conhecido por emissario de correspondencias sinistras, que o povo o chamava _correio de Junot_, e quando José Cardoso foi conduzido no meio do primeiro tumulto á presença do Bispo, o acompanhou Luiz Paulino, tomando a sua defeza, e apresentando huma carta, que dizia ser a propria, que tinha occultado o emissario: era meia folha de papel dobrada em dois quartos, de que sómente o primeiro tinha letras, e este rasgado ao meio transversalmente, de fórma que faltava a ametade inferior, apparecendo sómente a superior; e a escrita, que continha, não dava idéas da menor suspeita. Tinha-se visto, que o emissario dilacerára a carta com os dentes, e lançára os fragmentos ao rio, e não era crivel, que com os dentes fizesse hum rasgo direito, como o que apparecia no papel, que se mostrava: por tanto a defeza de José Cardoso, e de Luiz Paulino não se julgou convincente; mas o Bispo, que queria levar as cousas com a sua prudencia do costume, os convidou a ficarem no seu palacio, até que o povo se dissuadisse de os perseguir. Luiz Paulino acceitou prudentemente a offerta: José Cardoso a repugnou, de que lhe resultárão os trabalhos, que referi no lugar competente. [Sidenote: 1808 Junho. a Agost.] Continuárão successivamente os rebates nos dias immediatos, e espalhando-se em hum delles a voz de que os Francezes de Loison tinhão penetrado até o Carvoeiro a 3 leguas da cidade, onde sómente esperavão, que abaixasse a maré, para descerem com ella pelo Douro, não só o povo, mas tambem o Governo ficou em sustos. Tudo se armou, e correo para aquelles sitios, debaixo do commando do Coronel do regimento de cavalleria n.^o 9.^o Francisco Guedes Carvalho e Menezes da Costa, em quem recahíra o Governo das armas pela prizão de José Cardoso; e em quanto esta comitiva seguia as duas margens do rio, subia tambem por elle acima huma expedição de quatro barcas Biscainhas, armadas rápidamente em canhoeiras, por ordem do Bispo, que deo o commando dellas ao Tenente de cavalleria José Pereira da Silva Berredo, hoje Tenente-Coronel commandante do corpo da policia da cidade do Porto, official de que o mesmo Prelado fazia grande confidencia, e se achava encarregado de hum reducto nas alturas de Villa-nova. Este ultimo ponto sempre ficou guarnecido, assim como as margens inferiores do Douro. [Sidenote: 1808 Junho. a Agost.] Seguio-se a noite, que foi pavorosa: o Bispo a passou quasi toda recostado sobre huma varanda, sem querer jámais retirar-se a tomar algum repouso, como lhe querião persuadir, e não houve mais socego, em quanto não chegárão na manhã seguinte os avisos de que o inimigo não apparecia. Então as barcas vierão fundear junto á quinta do Prado, onde o Bispo em pessoa lhes veio passar huma revista, e ahi se conservárão armadas, para guarnecerem o rio, debaixo das ordens do mesmo José Pereira da Silva, que poucos dias depois (em 6 de julho) foi encarregado por Portaria daquelle Prelado de estabelecer pelas suas margens os pontos de defeza, e os de communicação pelos angulos das montanhas. O grosso da gente tambem voltou para a cidade; mas Luiz Paulino, que aproveitára esta occasião, para sahir do palacio episcopal, e se mostrar em público como bom militar, e bom patriota, adiantou-se com hum destacamento, e duas peças de campanha desde Valongo, onde os nossos tinhão collocado huma bateria, para as partes de Lamego, procurando o inimigo. Dias antes tinha sido a refrega da Regua, e Loison se havia ausentado daquellas terras. [Sidenote: 1808 Junho. a Agost.] Em huma dessas noites, quando tudo parecia ter entrado em quietação, sobreveio hum novo reboliço, que poz a cidade em grande agitação. Huma voz soou para a parte da ponte, que dizia: _estamos perdidos, já os inimigos rompêrão as baterias_, referia-se ás das alturas de Villa-nova. O effeito foi instantaneo, e caminhando já muita gente, e algumas peças nesta direcção, se ouve bradar outra voz além do rio: _atirem para cá, que elles já aqui estão_. Julgue-se o terror, e o espanto, que estas vozes devião produzir! Com tudo os nossos passárão a ponte, e em lugar de inimigos encontrárão huma escolta de milicianos de Aveiro, que conduzião huma leva de prezos para as cadêas do Porto, já se sabe, por Jacobinos. [Sidenote: 1808 Junho. a Agost.] Recolhido Luiz Paulino da sua expedição, foi metter-se em novos trabalhos: em lugar de applausos pelos seus serviços, achou huma cadêa, onde o encerrárão. Ao referido caso da carta ajuntavão-se outras razões, e sobre tudo não podia o povo perdoar-lhe a grande convivencia, em que o tinha visto com os Francezes no tempo, em que estes governavão: menores que fossem os motivos, não escapava Luiz Paulino á prizão. Não sei se todos estes factos se liquidárão, devo porém accrescentar em abono da verdade, que sendo elle companheiro de José Cardoso, não só na prizão, mas tambem no processo, tiverão ambos sentença de absolvição. [Sidenote: 1808 Junho. a Agost.] José de Sousa e Mello, homem rico, e deputado da junta da companhia de vinhos do alto Douro, foi hum dos mais corridos pelo povo, como partidista de Francez: cercárão-lhe tumultuariamente as casas, e conseguindo elle fugir, divulgou-se que estava escondido no convento das religiosas carmelitas, e este foi immediatamente cercado de innumeravel povo. Dizião huns, que estava escondido em huma sepultura, e por consequencia propunhão, que se revolvessem todas, até o acharem; dizião outros, que se tinha disfarçado em habito de freira, e a esta voz a multidão se dispunha a arrombar as portas do convento; insulto que a Abadeça procurava evitar, fallando de dentro do povo á porta fechada, mas o povo não a escutava. Acudio Raymundo José Pinheiro ao tumulto, e a pezar do seu grande ascendente sobre a populaça, esteve a pontos de ser sacrificado, ouvindo tambem sobre si a voz de traidor. Raymundo nesta extremidade puchou por hum Crucifixo, de que andava armado para semelhantes occasiões, e com elle nas mãos fez huma exclamação, de que resultou entrarem todos a gritar: _Viva o nosso Principe, viva o nosso Bispo, viva o senhor Raymundo José Pinheiro_, e dissolver-se o tumulto. De todos os procedimentos, e prizões sobre factos desta natureza, os de maior vulto forão os respectivos a Candido, e Mariz: merecem hum capitulo separado, nesta Historia. NOTAS DE RODAPÉ: [Footnote 12: Desejando ser exacto, e cumprir o que tenho promettido (_tom. I. pag. 15._) sou muitas vezes obrigado a ampliações, restricções, declarações, e até deslocar alguns factos, com prejuizo da boa ordem: espero, que se desculpem estes defeitos, que poderei emendar hum dia, se as circunstancias me permittirem fazer huma reimpressão desta obra, e que por agora são inevitaveis em huma Historia escrita com intervallos, e que comprehende tantos, e tão diversos factos, de que as memorias me não podem chegar todas ao mesmo tempo.] CAPITULO XLIII. _Movimentos sediciosos contra o General Bernardim. Prizão, e processo de Candido, e de Mariz: exito, que tiverão estes successos._ [Sidenote: 1808 Junho. a Agost.] [Sidenote: 1808 Junho. a Agost.] COM o descontentamento de Luiz Candido, e com as suas pertenções crescião contra elle as suspeitas, que mui breve se convertêrão em terror: era o alvo, que feria os olhos do público, porque as antecedencias o fazião mais mal visto, e talvez porque os do seu partido o punhão á frente, e se rebaçavão com mais destreza; porém Mariz era mais perigoso, porque tinha melhor cabeça. Hum, e outro passavão por officiaes muito habeis, e por isso o Governo, não só senão oppoz no principio á authoridade, que ião tomando, mas escutava os seus planos; muito principalmente sendo Mariz do corpo da junta suprema. Maior seria ainda a sua influencia, se chegasse a ter effeito huma junta militar, que se pertendeo organizar, para a qual chegárão elles a estar designados, e alguns outros individuos do seu partido. Propuzerão o estabelecimento de hum corpo denominado _leal legião do Porto_, que devia compôr-se, de todas as armas, e de que Candido devia ser o commandante, o qual não só chegou a ser approvado, mas até se nomeárão muitos dos seus officiaes, e se fizerão os modélos para o uniforme. Com este pretexto começárão a apparecer em público, e principalmente Luiz Candido, com apparato, e insignias, que se fizerão notaveis; e o que era mais decisivo, com huma escolta de artilheiros para a sua guarda, que principiando por duas ordenanças, se foi augmentando até hum número assás consideravel, constituindo mais huma verdadeira força armada, do que hum destinctivo honorifico. [Sidenote: 1808 Junho. a Agost.] Chegando por este tempo ao Porto Bernardim Freire de Andrada, foi recebido com applausos universaes; Luiz Candido porém, ao mesmo tempo que o cortejou com frieza, se lhe apresentou com ostentação de General, singularizando-se principalmente por hum grande chapéo de plumas, que deixou espantados alguns dos assistentes, e que depois tem sido hum terrivel documento contra elle; porque a pezar de haver outros mais substanciaes, ha balanças, em que as plumas pezão como o chumbo. [Sidenote: 1808 Junho. a Agost.] Reconhecido Bernardim por General em chéfe, deo principio ao seu commando por huma visita ás obras de fortificação, e huma revista ás tropas no campo de Santo Ouvidio, o que se executou com assistencia de hum grande concurso de gente. Já antecipadamente havião suspeitas, bem ou mal fundadas, de que se tramava huma conspiração contra o General, e mesmo contra a junta suprema, e advertido o General, entrando no palacio do Bispo antes de ir para o campo, e estando ahi com a mais officialidade Candido, e Mariz, lhes ordenou com politica, que o acompanhassem, e com a mesma se portou para com elles em toda a acção, evitando por este modo todos os pretextos de rompimento. Dizem que ao descer as escadas do palacio Candido estivera fallando em segredo com as ordenanças da sua escolta, e que estas lhe disserão em voz alta: _Nós não fazemos senão o que V. S.^a mandar_. [Sidenote: 1808 Junho. a Agost.] Entre as mais disposições o General naquelle acto mandou descarregar as peças, que estavão carregadas. Sabia-se, que não havia inimigos, que alli podessem temer-se a mais de 30, ou 40 leguas de distancia, e era muito temivel o abuso daquella arma em hum povo tão propenso a tumultos, como temos visto, o que justifica o procedimento do General; mas houve quem lhe lançou veneno, pintando-o como hum acto de traição; e seguio-se lhe hum amotinamento formal. Recolhia-se o General, e sem novidade até á rua das flores; aqui hum clerigo revoltoso, e já marcado pelos seus máos costumes, sahe do meio do povo, e lhe lança as mãos ás redeas do cavallo, dizendo: _Não queremos este General_: o povo, que era muito, entra em fermentação, acodem officiaes, e outras pessoas benemeritas, de que hum subjuga o clerigo com huma pancada; o General expõe em huma falla, que não acceitára aquelle posto, senão porque o Bispo, e a junta o chamárão para elle, e que o não seria se o não quizessem; faz em fim conhecer a pureza das suas intenções. Nisto se levanta huma voz, que diz: _Viva o nosso Principe_, _viva o nosso Bispo_, _viva o nosso General_: a multidão repete as mesmas vozes, e não só se conseguio suffocar por esta fórma a desordem, mas o negocio terminou com illuminação da cidade na noite immediata em obsequio ao General, acompanhada de oiteiro, e coros de musica á sua porta. O Bispo mandou prender o clerigo, e prezo o conservou até depois da morte do General. [Sidenote: 1808 Junho. a Agost.] Era este o estado das cousas, quando D. Miguel Pereira Forjaz, foi unir-se no Porto a seu cunhado o General Bernardim, ficando Nuno Freire de Andrada com a commandancia das armas em Coimbra; e he muito notavel, que por este modo se associassem ao mesmo tempo a dirigirem a Restauração estes dois irmãos, e hum cunhado, que tambem se tinhão associado em pedir a demissão de seus cargos no tempo do Governo Francez: todos a obtiverão em janeiro precedente, com poucos dias de intervallo huns dos outros. Bernardim, e D. Miguel fizerão reviver a idéa de huma junta militar, presidida, como a suprema, pelo Bispo, mas distincta em vogaes, e nas operações; não a mesma, que estava projectada desde os primeiros dias da revolução, mas outra de novo, que chegou a organizar-se, e a celebrar huma conferencia: esta foi muito fria; e como tambem influisse nella o partido de Mariz, e Candido, e a junta suprema a não olhasse bem, os mesmos, que a tinhão procurado organizar, concorrêrão agora para que ella se dissolvesse por si mesma. [Sidenote: 1808 Junho. a Agost.] Candido via por este modo cada vez mais mortificado o seu orgulho, escapando-lhe todos os meios de se apoderar do Governo, que era o seu unico fim, e não o de huma contrarevolução a favor dos Francezes, como alguns lhe imputárão. Instou então mais vigorosamente pela organização do seu novo corpo da legião: sendo porém advertido o Bispo de que as suas intenções não erão sinceras, e confirmado nesta idéa pela combinação de outros successos, e pela escolha dos individuos, que se propunhão para officiaes daquelle corpo, decretou de acordo com as mais authoridades maiores, que Candido fosse prezo; e não sei se diga, que as cousas se julgárão tão adiantadas, que o proprio Governo temeo não poder executar esta diligencia, sem romper a explosão. [Sidenote: 1808 Junho. a Agost.] Para aplanar as difficuldades, o Bispo fez semblante de annuir ás instancias de Candido, e Mariz sobre a organização do corpo, aprazou-lhes huma manhã, para virem ao palacio a tratar deste objecto, e deo logo ordem ao Capitão Carlos Correa Pinto de Figueiredo, para fazer as prizões, logo que elles entrassem. Raymundo José Pinheiro, que reunia huma grande parte de suffragios da tropa, e do povo, (os artilheiros seguião a Candido, e Mariz) teve tambem ordem, para vigiar os seus movimentos. Alguns dias antes Candido se tinha transferido para hum quartel dos de Santo Ovidio, onde dormia; e Raymundo ahi o foi procurar acompanhado de alguns officiaes na manhã aprazada: chegando em frente do quartel, elles o virão á janella em mangas de camiza, e poucos momentos depois sahir, encaminhar-se para casa de Mariz na fórma do seu costume, e partirem ambos para o palacio. [Sidenote: 1808 Junho. a Agost.] [Sidenote: 1808 Junho. a Agost.] Mariz dirigio-se para a sala da tocha, e Candido para a da livraria, onde Carlos Correa lhe deo a voz de prezo, que elle recebeo sem resistencia; mas o prender-se hum, e ficar o outro em liberdade ia tendo consequencias perigosas. Mariz voltou, e disse ao seu companheiro: _Anda, Candido, vamos fallar ao senhor Bispo_; e Candido respondeo, que estava prezo. _Tu prezo_, replicou Mariz, _quem te prendeo, que não perdesse a vida! Não tinhas essa espada! Eu vou fallar ao senhor Bispo, e te venho soltar._ Correo, e achando fechadas as portas interiores, sahio a huma janella a gritar ao povo, que acudisse ao seu libertador, que estava em perigo. O Bispo, que se tinha encerrado, porque esperava o golpe, sendo informado destes movimentos, apresentou-se a Mariz, quando se vinha retirando da janella, e o increpou com resolução, e elle balbuciente lhe perguntou, se o mandava prender, e respondendo-lhe o Bispo, que sim, humilhou-se, pedindo-lhe que lhe valesse; ao mesmo passo porém que esto Prelado lhe promettia valer-lhe, Mariz se levantou, e fugio rápidamente. Ao fundo da escada o cura da Sé lhe lançou a mão, e puchando elle pela espada, para resistir, acudio o Capitão José Monteiro Guedes, e o segurou, intimando-lhe, que o matava, se desse hum passo; e por este modo ficárão detidos no palacio Candido, e Mariz, como dois cordeiros. [Sidenote: 1808 Junho. a Agost.] Entretanto os soldados da escolta de Candido, e Mariz quizerão mover-se: tres chegárão a sobir, pedindo com arrogancia, que lhe entregassem o seu commandante; porque se era innocente o querião solto, se culpado o querião atar á boca de huma peça: forão detidos, e seguros, ficando tudo tranquillo no interior do palacio. No exterior forão Raymundo, e outros officiaes os que serenárão o povo, e tropa, que se ião entregando ás oscillações do costume: o Bispo, quando appareçeo á janella, vio Raymundo em huma acção notavel; andava tirando as armas aos artilheiros com a mão direita, e ajuntando-as no braço esquerdo, depois as ia entregando ás suas ordenanças. Com tudo a fermentação tinha chegado a tal ponto, que acontecendo estes factos pela manhã, os prezos forão demorados no palacio até depois da meia noite, e só então he que se julgou poderem ser transportados em segurança para a cadêa. Fez-se-lhe o processo, e em consequencia do que por elle se averiguou, forão condemnados, Candido a pena ultima, e Mariz a degredo para Angola. Derão-se as ordens para a execução da sentença, e Candido chegou a estar no oratorio: preparou-se o patibulo, sahio a campa da misericordia a tocar pelas ruas, e o povo se congregou, para ver o padecente; chegado porém o negocio a este ponto, levantou-se huma voz, que tinhão tirado o prezo da cadêa, para o subtrahirem á execução. Com effeito Candido, e Mariz já estavão na fortaleza de S. João da fós, para serem passados a bordo de hum navio, e conduzidos ao Brasil á disposição do Principe Regente, por ordem do Governo, que tomou esta deliberação, (que com tudo não passou sem debates) em attenção a serem os primeiros sentenciados por hum tal motivo depois da restauração. [Sidenote: 1808 Junho. a Agost.] Tendo-se receado alguns dias antes huma sublevação, por se proceder á captura de Luiz Candido, houve agora hum grande tumulto, porque o não enforcavão. Tal he a indole do povo! Muitos mil homens se amontoarão á roda da cadêa, querendo-a forçar, ameaçando de morte o carcereiro, se lhes não desse conta dos prezos, e propondo-se a outros desatinos. Por mais representações que se lhes fizessem, a nada cedião, até que o Bispo se appresentou no meio delles, e a sua presença, as suas práticas, e as suas bençãos obrárão como por encanto, fazendo entoar novos vivas, e dispersar todo aquelle ajuntamento em poucos momentos. Forão destacados dois conegos pelas ruas, com o mesmo fim de serenarem o povo; mas o Governo sempre julgou conveniente dar-lhe huma satisfação no seguinte [Sidenote: 1808 Junho. a Agost.] Edital. _A junta provisional do Governo supremo faz saber ao público, que o réo Luiz Candido Cordeiro Pinheiro Furtado, sendo condemnado á morte por sentença desta Relação, pelo crime atrocissimo, e cujo perdão só póde depender immediatamente da incomparavel piedade de S. A. R., a dita junta, em testemunho do respeito, e fidelidade, que consagra em nome de toda a nação ao seu Augusto Principe, se julgou obrigada a abster-se de lhe outorgar o perdão implorado, e a remetter o mesmo réo com as suas culpas, e sentença á soberana presença do dito Senhor, para resolver o que for justo na sua Real consideração. Porto 29 de julho de 1808. Bispo, Presidente, e Governador._ [Sidenote: 1808 Junho. a Agost.] Pela prizão de Mariz ficou vago hum lugar de Deputado da junta suprema, o qual passou a encher-se com o Provedor de Viana Francisco Ozorio da Fonseca, magistrado na verdade benemerito, mas que foi admittido principalmente, como deputado da junta, que se havia estabelecido nesta villa, e que sómente com esta condição consentio em ser suprimida, ficando sempre o General Caldas com o Governo das armas. Antonio Ribeiro Braga, que, como vimos, fora tambem eleito deputado da junta suprema, não se apromptou nos primeiros tempos para servir; e querendo depois entrar, quando as cousas já appresentavão huma face menos escabrosa, julgou-se, que a sua concurrencia se podia bem dispensar. CAPITULO XLIV. _Negocios da provincia de Tras-os-montes. Tumultos em Bragança, e em Villa-nova de Foz-Coa, e procedimentos, a que derão causa. Considerações sobre os Judeos._ [Sidenote: 1808 Junho. a Agost.] OS negocios da provincia de Tras-os-montes proseguião na mesma marcha, em que os deixámos: a reorganização do exercito, o bloqueio de Almeida, e a defeza das fronteiras, que por aquelle lado começárão a ser ameaçadas desde o meado de julho pelo corpo d’exercito do Marechal Bessieres, erão os principaes objectos, a que tinha de attender-se. [Sidenote: 1808 Junho. a Agost.] A pezar das desconfianças, por não dizer contestações, que sempre continuárão entre a junta provincial de Bragança até a sua extinção, e a suprema do Porto, o General Sepulveda se tinha conservado em perfeita harmonia com o Bispo Governador, e cedendo aos convites deste; determinou em fim partir para o Porto: era o seu intento tomar o commando do exercito nascente, como General mais antigo. Na declinação de huma importante molestia, e ainda muito atenuado de forças, partio de Bragança a 5 de julho, encaminhando-se por Chaves a Villa-Real, onde lhe era preciso demorar-se alguns dias, para ordenar as cousas desta parte da provincia. Por toda a parte o recebião os póvos, como o seu libertador, e em Villa-Real lhe estava preparado hum cortejo mais pomposo: derão-lhe huma entrada magnifica, e na sua presença fez a camara recitar em seu louvor a oração, que corre impressa, e de que já em outro lugar fiz menção. Estando a partir desta villa, sobrevierão os tumultos de Bragança, acontecidos nos dias 19, 20, e 21, que lhe embaraçárão a jornada, de fórma que não sahio da provincia senão em agosto, quando o nosso exercito já seguia o Inglez com direcção á capital do reino. Huma falsa noticia de que os Francezes se aproximavão pela parte da Hespanha, deo motivo a hum rebate, e do rebate resultárão os tumultos; porque o povo, tendo-se ajuntado, e não apparecendo inimigos, voltou-se contra aquelles Portuguezes, que julgava traidores, ou que os cabeças de motim por taes fazião passar; o que recahia principalmente contra os que erão apontados, como descendentes de origem Hebraica. [Sidenote: 1808 Julho.] Logo na manhã do dia 19 huma multidão desenfreada entrou a clamar contra as Authoridades estabelecidas, e correndo ao castello, forçou as portas, e se fez senhora das armas, que nelle se achavão. Tentou tambem apoderar-se do armazem da polvora, ao que obstou o Sargento-mór da praça Antonio Corrêa de Castro Sepulveda, filho do General, e muito respeitado do povo, vendo-se com tudo precisado a mandar distribuir algumas pequenas porções della pelos amotinados, para os satisfazer. [Sidenote: 1808 Julho.] A junta, pensando apagar o fogo, não fez senão ateallo convocando o povo, para que se ajuntasse na tarde desse mesmo dia no largo de Santo Antonio, a fim de o trazer á razão: apenas congregado, entrou a clamar contra a propria junta, pedindo a exclusão da maior parte dos seus membros, e nomeando outros em seu lugar. Passou depois a registrar as casas dos particulares, que lhe erão mais odiosos, sendo a sua maior furia contra hum chamado por alcunha o _Olhos de vidro_, do qual se dizia, que tinha feito huma figura do General Sepulveda, e a fregíra em huma certã: quebrárão-lhe, e estragárão-lhe quanto tinha em casa, e até os vidros das janellas. Enfurecêrão-se igualmente contra hum tal Lobo, e hum tal Sá, imputando-se principalmente a este o ter correspondencias com os Francezes. Prendêrão a todos tres, e quizerão logo fuzilar o Sá, chegando a apontar-lhe as armas, e parece que a desfechar alguma espingarda velha, que por felicidade não tomou fogo: foi sempre escapando no meio de huma escolta, e conduzido com os outros á prizão. [Sidenote: 1808 Julho.] Da populaça o espirito de insubordinação, e de revolta se communicou á tropa. Os soldados do regimento de cavalleria n.^o 12.^o, que se achavão reunidos, levantárão-se contra o seu proprio Coronel Amaro Vicente Pavão, que nesse tempo era hum dos membros da junta, caracterizando-o, de falsario, e dizendo, que o não querião por chéfe. Tentárão matallo, e hum individuo da plebe lhe encarou a espingarda, e ia a desfechar com elle, o que evitou o Sargento-mór da praça, mettendo-lhe por baixo o braço, e levantando-a: a bom concerto o deixárão vivo; mas hum chamado Nicolao lhe intimou, que se não intrometesse a mandar cousa alguma, sem primeiro o participar ao Senhor Viseu. Por esse facto ficámos sabendo, que estes dois homens erão grandes personagens nesta scena. O Viseu, assim chamado por ser natural da cidade deste nome, era hum çapateiro, que neste tumulto tinha adquirido huma ascendencia desmarcada sobre a populaça: o Nicoláo, hum taberneiro, que enfatuado pela força do povo se declarou General, intitulando-se o Loison Portuguez, o que foi muito bem recebido, por ter elle hum braço aleijado, como o Loison Francez. Chegou a adquirir, hum tal imperio, que mandava a hum corpo de tropa que se movesse, e o corpo se movia; a hum homem, que se confessasse para morrer, e o homem se confessava. [Sidenote: 1808 Julho.] Informado Sepulveda em Villa-Real destas desordens, mandou seu genro Francisco de Figueiredo Sarmento, para as socegar, com alguma tropa; mas quando este chegou a Bragança, já a tormenta tinha declinado. No dia 21 tinha ella crescido, em razão de ser dia de feira, e as authoridades públicas, vendo que tudo ia a submergir-se em um abysmo horroroso, tomárão vigor nas suas medidas: cahírão nesse mesmo dia á noite sobre os chéfes dos amotinados, e conseguírão prendellos; logo na manhã seguinte os remettêrão para Chaves, e de Chaves para o Porto. Dado este passo, tudo ficou socegado, impondo respeito hum esquadrão de cavalleria de Miranda, e o regimento de milicias, de Bragança: o Governador do Bispado, o Major de milicias Manoel Ferreira de Sá Sarmento, o Conego Bento de Figueiredo Sarmento, e outras pessoas caracterizadas tambem concorrêrão muito para o restabelecimento da tranquillidade; mas sempre foi necessario, para accommodar o povo, fazer-lhe a vontade em alguns pontos, sendo hum delles o trabalhar-se no concerto de algumas peças velhas, e collocarem-se em certos lugares. [Sidenote: 1808 Junho. a Agost.] O Corregedor da comarca procedeo a huma devassa, em que ficárão muitos culpados, que se forão livrando ordinariamente. He muito notavel, que a voz pública nunca os criminou pelos excessos, em que se havião precipitado, á excepção dos roubos, que commettêrão: ainda a respeito destes, muitos os defendião, sustentando tenazmente, que as casas, que tinhão sido saqueadas, o devião ser, e que os ministros estavão peitados pelos Judeos. Tal era a opinião geral do povo. [Sidenote: 1808 Junho. a Agost.] Os tumultos de Villa-nova de Foz-Coa forão ainda mais pezados, e tiverão huma perfeita analogia com os de Bragança na sua origem, e progressos. Villa-nova he a terra de maior povoação da comarca de Trancozo, e huma das mais ricas da Beira alta, pelo muito commercio, que alli se faz, tanto em sedas, como em bacalháo, arroz, e outros generos, e comestiveis, que por aquelle ponto se distribuem pelas terras comarcans de Portugal, e Hespanha: offerece-lhe estas vantagens a sua posição junto ao Douro, que he navegavel até as suas visinhanças em huma grande parte do anno, ajudada pela industria dos seus habitantes. Nella se achavão estabelecidos desde tempo immemorial muitos dos que se apontão como descendentes das tribus de Israel, e em cujas mãos principalmente se achava concentrado este trafico, e por consequencia muita riqueza; o que era bastante, prescindindo de outras razões, para excitar a inveja, e emulação de muitos daquelles mesmos, a quem nutrião, e abastavão com a sua industria. [Sidenote: 1808 Junho. a Agost.] Tinha rompido a revolução em Villa-nova de Foz-Coa nos fins de junho, quando Loison fazia a sua travessa de Viseu para Almeida, e nos primeiros momentos não houve senão zelo, e patriotismo; havendo porém alguns mal intencionados, que se aproveitárão dessa occasião, para darem exercicio ás suas paixões criminosas, o zelo, degenerou bem depressa em frenezi, e a par dos _vivas_ ao Principe Regente começou a ouvir-se: _morrão os Francezes, e os Judeos, que os protegem_. Estas vozes, na apparencia patrioticas, forão o sinal da revolta, abrindo o campo a scenas horrorosas. Houve hum rebate falso de que os Francezes marchavão contra a villa, e ao toque dos sinos o povo se levantou em massa, e chegou a caminhar algum espaço. Verificando-se porém, que os inimigos não vinhão, voltou ainda em tumulto, e se lançou sobre hum grande número de casas dos seus compatriotas, que entregou ao saque, sempre com as mesmas vozes: _morrão os Francezes, e os Judeos_. A voz pública dos que não tiverão parte nos tumultos, crimina sem rebuço, como authores da desordem, a certos homens prepotentes, que querião extorquir dos Judeos, ou dos que por taes se designavão, grandes sommas de dinheiro, e se servírão da populaça, instrumento sempre prompto para taes emprezas, e muito principalmente nas circunstancias, que o tempo apresentava; respeitarei porém os seus nomes, pois que os orgãos da lei os não tem dado por culpados. [Sidenote: 1808 Junho. a Agost.] Era hum grande ajuntamento de povo miudo com espingardas, fouces, piques, picaretas, machados: huns arrombão as portas, outros fazem buracos nas paredes, ou abatem os telhados, entrão todos, quebrão bancas, cadeiras, e tudo o que guarnecia as casas, e estas em pouco tempo ficão destruidas, e até arrancados os seus pavimentos. Os moveis preciosos, e todos os objectos de valor, que podião conduzir-se, forão roubados, não cessando o saque, senão com a total ruina de vinte e tantas familias das mais ricas da terra. [Sidenote: 1808 Junho. a Agost.] Dos infelizes, que a populaça procurava, alguns pudérão fugir, outros forão insultados por mil maneiras, e arrastados á cadêa pública: alli mesmo os sediciosos lhes encaravão as armas, e elles tremendo, e com as mãos levantadas pedião, que lhes poupassem as vidas. Felizmente a todos as conservárão, o que attribuo á segurança, em que os mesmos sediciosos julgavão a sua preza; porque na verdade elles se tinhão de tal modo apoderado da força, que tendo principiado este horroroso espectaculo nos fins de junho, continuou com todo o calor por espaço de quatorze, ou quinze dias, sem que houvesse authoridade, ou poder, que contivesse as desordens; e ainda nos principios de agosto a junta de Moncorvo, ou o seu Presidente, officiava ao Bispo, á junta, ao Chanceller da Relação do Porto, e ao Marechal Botelho, para darem providencias, que as fizessem cessar. [Sidenote: 1808 Junho. a Agost.] Bem quizerão a mesma junta de Moncorvo, e o seu Presidente atalhallas no seu principio, mas não tiverão forças. Com este intento fizerão destacar da guarda, que estava na barca do Pocinho, huma patrulha; mas sobindo á villa, soffreo huma descarga, com que teve de retroceder. Alguns dos miseraveis fugitivos de Villa-nova forão refugiar-se em Moncorvo, e daqui resultou huma especie de guerra civil entre as duas villas. O Douro divide os dois territorios, e não passava hum individuo da parte de Moncorvo para a de Villa-nova que não fosse insultado, e até lhe rasgavão os passaportes, como emanados de authoridades illegaes: encarregando este ramo de singular policia a huma companhia, que armárão, denominada de voluntarios, a qual não era senão hum bando de faciosos, que infestavão a margem meridional do rio. [Sidenote: 1808 Junho. a Agost.] [Sidenote: 1808 Junho. a Agost.] O contagio lavrou por Freixo de Numão, e terras visinhas, passou o Douro, e penetrou mesmo até Moncorvo; mas a junta evitou os seus progressos, fazendo prender em huma noite, e á mesma hora os seus principaes agentes. Tiverão a mesma sorte, e forão remettidos para o Porto o capitão da célebre companhia de voluntarios de Villa-nova, e hum seu companheiro, que tinhão ousado passar o rio: a não serem estas medidas vigorosas, a provincia de Tras-os-montes ia arder em fogo, e os seus habitantes se dispunhão para se degollarem huns aos outros. Dois filhos do Desembargador Thomaz Ignacio de Moraes Sarmento,[13] (o Presidente da junta de Moncorvo) estiverão a pontos de pagarem com as vidas as torturas, que seu pai causava aos revoltosos. Nos principios de agosto passavão elles por Freixo de Espada á cinta com mais tres companheiros, (todos o erão nos estudos de Coimbra) e sendo conhecidos, forão prezos como Jacobinos: os tres ultimos conseguírão facilmente o serem soltos, mas quanto aos filhos do Conselheiro, gritava o povo que morressem. O Juiz de fóra lhes quiz valer, mas os revoltosos entrárão tambem a clamar contra elle, de fórma que para todos se livrarem da morte, foi necessario dizer-lhes o Juiz de fóra, que tivessem paciencia, e mandallos conduzir á prizão. Deo-se parte deste successo a Moncorvo, d’onde immediatamente sahio huma escolta, para ir resgatar os prezos, com o pretexto de os conduzir para as cadêas desta villa: o Coronel commandante dos postos do Douro destacou tambem 60 milicianos com o mesmo objecto, que quando chegárão, já a escolta tinha concluido o negocio.[14] [Sidenote: Junho. a Agost.] [Sidenote: 1808 Junho. a Agost.] O Governador do Porto expedio ordens ao Desembargador Thomaz Ignacio, para tomar conhecimento destes factos; ao que este ministro se escusou, pelos fundamentos de falta de saude, e de se achar implicado no negocio, por causa dos insultos commettidos contra seus filhos. Em consequencia foi commettida esta diligencia ao Desembargador Jeronymo Caetano de Barros Araujo e Beça, com a clausula de que se lhe não admittiria escusa alguma: elle tambem a desejava, por tocar a hum povo visinho da sua patria; teve porém de obedecer. [Sidenote: 1808 Junho. a Agost.] Tres mezes e meio gastou na devassa, e exames, de que resultou serem prezos alguns dos réos, tendo fugido a maior parte delles para Hespanha, d’onde ainda em outubro de 1809 voltárão quarenta e tantos, para fazerem novos disturbios, dando a voz: _morrão estes cães, e viva o nosso Principe, que já voltou_: isto por occasião de terem passado a Villa-nova de Foz-Coa alguns officiaes de justiça, a sequestrar-lhes os bens, com os quaes, assim como com outros das terras visinhas, tiverão os revoltosos varias pendencias. Não ha muitos tempos fui eu informado de que alguns dos perseguidos pelo furor popular se não tinhão recolhido a suas casas, as quaes offerecem ainda monumentos horrorosos da destruição. Soffreo immenso a industria, e a riqueza daquelle povo, que por este modo se acha assás punido dos seus crimes, e largo tempo terão ainda de sentir-se em Villa-nova de Foz-Coa as fataes consequencias de tão sediciosos tumultos. [Sidenote: 1808 Junho. a Agost.] [Sidenote: 1808 Junho. a Agost.] Não devo deixar em esquecimento, que o Juiz ordinario desta villa procedeo a huma devassa, a que servio de corpo de delicto a fama, que tinha chegado aos seus ouvidos, de que havião malevolos, que antes, e depois da restauração dizião mal do nosso amado Principe, e do seu Governo, approvando o dos Francezes intrusos neste reino, e mostrando descontentamento de que os Portuguezes sacudissem o seu pezado jugo; e de que muitas pessoas, esquecidas do temor de Deos, proferião blasfemias, e fazião destincção de dois differentes Deoses. Vê-se pelo contexto da devassa, que isto queria dizer o Deos dos Christãos velhos, e o dos Christãos novos, como se não fosse o mesmo, suscitando-se esta odiosa differença, que em todos os tempos, desde que se introduzio, tem produzido tantos males, e que nem as luzes do seculo, em que vivemos, nem a voz da humanidade, e da politica, nem as severas penas comminadas pelas nossas leis tem podido desterrar.[15] Ha ainda muitos Portuguezes, que a este respeito são hoje o mesmo, que erão os de 1506: não podem persuadir-se de que de hum Judeo de origem possa fazer-se hum bom Christão, e he este o pensar commum do povo. Cruel sorte tem perseguido, a pezar dos clamores de muitos homens sábios, e humanos, aos miseraveis descendentes de hum tronco tão famoso, desde o tempo, em que Roma forão vendidos em público mercado, regulando-se o seu preço por cabeça, pelo dos animaes, de que não comião a carne; e no meio das perseguições forão sempre industriosos, fazendo o commercio, e attrahindo as riquezas. Huma vez que abração o Christianismo, não ha razão alguma para os distinguir dos outros Christãos, sendo descendentes, como observa o nosso Legislador moderno, do mesmo, e identico sangue, de que sahírão os fundadores da igreja.[16] [Sidenote: 1808 Junho. a Agost.] Li hum traslado daquella informe devassa, e são horrorosas as cousas, que contém. São blasfemias proferidas contra Deos, e contra os seus Santos, Crucifixos enterrados em esterqueiras, cruzes quebradas, e cobertas de escremento humano, affirmativas de que já não governava o Deos dos Christãos velhos, porque estava prezo, e de que estes havião de pagar hum tanto para baptizarem os filhos, tanto para se confessarem, e tanto para irem á Missa, maledicencias contra o Soberano, remessas de dinheiro para Almeida ao General Loison, &c. Accrescentão varias testemunhas terem proferido alguns dos culpados, que Junot era seu primo; e o mais extraordinario he que para tudo se achárão testemunhas presenciaes, que depozerão de vista, e de factos proprios. O Juiz sentenciou a devassa em 4 de agosto, pronunciando hum grande número de culpados, e mandou remetter para o tribunal da Inquisição de Coimbra as culpas respectivas á religião; mas a remessa não teve effeito. [Sidenote: 1808 Junho. a Agost.] [Sidenote: 1808 Junho. a Agost.] [Sidenote: 1808 Junho. a Agost.] Observarei de passagem, que a mesma animosidade contra os Judeos, que se manifestou em Bragança, e em Villa-nova de Foz-Coa, appareceo igualmente em Viseu, na Covilhã, no Fundão, e em todas as terras do reino, onde ha fama de elles se acharem estabelecidos; e por toda a parte se lhes fizerão as mesmas imputações de adherencia aos Francezes. Por ventura terião ellas algum justo fundamento? No geral não o creio, no particular alguns individuos poderia haver, que merecessem esta nota, assim como os houve em todas as classes, e jerarquias de pessoas: como Historiador eu devo referir os factos com pureza; como cidadão esforçar-me em destruir preoccupações contrarias ao bem, e ás leis do meu paiz. Napoleão tem por politica concedido aos Judeos prerogativas, e liberdades, a que erão pouco acostumados desde a dispersão das tribus de Israel; o que na verdade he hum motivo assás forte para os metter nos seus interesses: he o mesmo, que affecta praticar para com os Catholicos na Italia, e onde o Catholicismo tem o predominio, e para com os protestantes, onde estes são os mais fortes, o que praticou para com os Mahometanos no Egypto, e na Syria, e o praticaria para com os Parsis, os Bramines, e os Bonzos, se chegasse a penetrar até as regiões do oriente; mas tiraremos nós daqui, sem outras premissas, as consequencias de que o Protestante, o Judeo, o Mahometano, o Parsi, o Bramine, e o Bonzo são traidores? Demais, os Synedrios da França, da Hollanda, e da Alemanha nada tem com os Judeos dispersos, e izolados de Portugal, que, confundidos na massa da nação, como os descendentes dos Carthaginezes, dos Romanos, dos Suevos, dos Godos, dos Arabes, e de outros póvos, que habitárão o nosso paiz, ao menos no exterior se conformão aos usos, e ás leis do Estado: devemos suppôr, que tambem no interior, não são responsaveis aos homens pelos segredos das suas consciencias, e estão sogeitos aos nossos tribunaes por todas as suas transgressões puniveis, e manifestadas por actos externos; mas de nenhuma fórma ao povo, e aos individuos em particular. [Sidenote: 1808 Junho. a Agost.] Não he difficil achar na intolerancia religiosa, e politica dos Judeos, enquanto formavão hum corpo de nação, para com os outros póvos o odio, em que erão tidos por toda a parte; não admira, que ainda depois de dispersos fossem perseguidos em Roma, e nos outros paizes, onde cerceavão as moedas, fazião conspirações, e praticavão usuras intoleraveis; mas porque razão procuraremos ainda hoje, que estes motivos tem cessado, eternizar o odio entre nós, e elles? Consideramos o que com este abuso temos perdido, e o que fizemos ganhar á Inglaterra, e á Hollanda, e toleremo-los, pois que elles nos não perturbão no nosso culto, na nossa tranquillidade, nas nossas leis, e nos não cerceão as nossas moedas; restando ainda a indagar, no fim de tudo, os titulos genealogicos, que a travez dos seculos verificão a sua origem. Como observantes do Christianismo, devemos desejar que todo o mundo abrace as suas santas maximas, mas não tornar-nos perseguidores; temos mesmo rigorosa obrigação de amar todos os homens. Abracemos pois o Judeo, o Protestante, o Mahometano, o Bramine, o Bonzo, e até o A. do Correio Brasiliense, se se limitar a escrever tolices. NOTAS DE RODAPÉ: [Footnote 13: No _tom._ III. _pag._ 158. se lhe deo por equivocação o titulo de Conselheiro.] [Footnote 14: Quando a junta de Moncorvo, que alias foi incansavel nos seus trabalhos sobre outros muitos, e mui importantes objectos, não tivesse feito outra cousa, que o preservar aquella parte da provincia das commoções anarquicas, já era hum grande serviço feito á nação. Teve inimigos, que a pertendêrão desacreditar, e ás mais authoridades estabelecidas naquella villa, e eu mesmo participei da censura, pelo que disse em seu abono no _tom. III cap. XII._, notando-se-me particularmente, como huma falsidade, o ter affirmado (_pag._ 156) que o Capitão-mór aggregado João Carlos de Oliveira, recitára em 24 de junho por ordem da camara, e perante o povo, huma proclamação patriotica, incitando-o a tomar as armas, quando tal proclamação não houvera. Não he muito regular o responder pela imprensa a criticas clandestinas; mas quando procedem, como esta, de pessoas constituidas em dignidade, e que impõe pelo seu caracter, onde chegão desfigurão a verdade, e por isso he necessario combatellas, mais por credito da mesma verdade, do que pelo do escritor. A proclamação, não só existio, e foi recitada pelo referido Capitão-mór em presença de milhares de testemunhas, que podem attestar o facto, mas publicou-se, e imprimio-se na 1.^a _parte dos Papeis officiaes da junta da Segurança, e Administração pública da Torre de Moncorvo pag._ 5, d’onde a vou copiar. Ponho-a aos olhos dos meus leitores, para que os que tiverem ouvido a censura possão estar prevenidos contra quaesquer outras igualmente desarrasoadas, que de ordinario provém de pessoas, a quem os factos desagradão. Proclamação. _Honrados habitantes de Moncorvo, e seu districto. A nossa patria foi huma das mais distinctas povoações destes reinos nas crizes politicas, que nelles tem acontecido. Os nossos veneraveis antepassados forão dos primeiros Portuguezes, que segurárão a Corôa ao immortal Rei o Senhor D. João I, Augusto chéfe da religiosa, e distincta Casa de Bragança. Este grande Monarca honrou com a sua presença o nosso destricto, confiando-se na decidida fidelidade dos nossos antepassados. O mesmo patriotismo mostrárão, quando o throno de Portugal foi restituido aos nossos legitimos Reis da Casa reinante de Bragança. Estes factos, que a mais authentica Historia, e monumentos de illibada fé nos testemunhão, são vehementes estimulos, para não degenerarmos de taes progenitores na terrivel collizão, que produz este ajuntamento. As grandes virtudes do nosso Augusto Principe, que a Providencia adoravel do Omnipotente inspirou, para tomar huma resolução heroica, que segurando a sua alta dignidade, trouxe comsigo o desengano dos Castelhanos, que hoje reconhecem dever só confiar no valor, e união dos Portuguezes, serião hum motivo sobejo, para sacrificarmos as vidas, e fazendas, para lhe defender, e conservar os seus reinos, que terião sido os mais felizes, a não se ter impedido pelos scelerados, que devastão, e arruinão a Europa. Mas nós temos outros motivos, que tambem nos obrigão a sacrificar as vidas, para lançar fóra destes reinos tão injustos inimigos. A religião iria a fazer-se hum simples manejo de politica. Os ecclesiasticos, que são hum ornamento da monarquia, serião despojados dos seus bens, e da subsistencia, que a piedade Portugueza lhes conferio, e sem a qual não ha dignidade; as lições da perseguição do ímpio Juliano são a regra, que o governo Francez pertende induzir nestes reinos. A innocencia das nossas donzellas, e o decoro das nossas matronas está ameaçado pela depravação de hum Governo sem religião, sem moralidade, e que só quer introduzir a dissolução, e o atheismo. Pertendião recrutar a nossa mocidade, para fazella perecer entre os gelos, e neves das regiões septentrionaes, ou nas escaldadas arêas dos caminhos para o Indostão, para desta maneira nos cortarem os meios de regenerarmos a nobreza, e virtude da nação Portugueza, tão valorosa, célebre, e conspicua nos annaes do mundo. Nós todos com o pretexto de protecção estamos roubados, os templos destituidos das decorações, e riqueza, que a piedade lhes havia conferido. Eis-aqui os dignos objectos, que vamos a defender. Á nossa união presidirá moderação, e prudencia, para na defeza do Principe Nosso Senhor não sermos notados de barbaridade, ou de espirito de furor popular: firmes neste proposito repitamos: Viva o Principe Regente, viva Portugal, viva Moncorvo._] [Footnote 15: Carta de lei de 25 de maio de 1773. Ditas d’ElRei D. Manoel do 1.^o de marco de 1507, e d’ElRei D. João III. de 16 de dezembro de 1524.] [Footnote 16: Lei de 25 de maio de 1773.] CAPITULO XLV. _Acclamação em Viseu: Tumultos, que se lhe seguírão, e procedimentos sobre elles._ [Sidenote: Junho.] OS tumultos acontecidos em Viseu começárão pelo mesmo tempo que os de Villa-nova de Foz-Coa; e posto que tiverão menor extensão, não forão menos estrondosos, pelas personagens que entrárão em scena. [Sidenote: 1808 Junho.] Foi no dia 30 de junho que se fez a acclamação nesta cidade, descobrindo-se as armas Reaes, e procedendo-se á acção de graças na cathedral, com assistencia do Bispo, General, Corregedor, Juiz de fóra, camara, clero, nobreza, e povo. Cantou-se o _Te Deum_, e o Bispo fez huma breve oração analoga ao acto, em que recommendou, e persuadio a paz e unanimidade entre todos, a subordinação ás authoridades, e confiança nas suas operações. O povo lhe conferio o Governo civil, e elle o acceitou, deixando o militar ao General, que servia de Governador das armas da provincia. [Sidenote: 1808 Julho.] Acabada esta acção, assentou-se que o estandarte da camara sahisse em procissão pelas ruas, e aqui principiou a desordem. Antes de sahir, levantou-se huma voz, para não ser levado pelo Vereador a que pertencia, e em consequencia lhe foi violentamente arrebatado das mãos, e passou para as de hum Advogado, que depois foi Vereador intruso. Quando se recolhia a procissão, e passava pelas visinhanças do paço Episcopal, levantárão-se outras vozes, para que o estandarte não fosse restituido á casa do conselho, d’onde sahíra, e onde constantemente se conservava; e havendo altercações a este respeito, se exaltou de tal fórma o furor da innumeravel populaça, que chegárão a haver armas apontadas contra o Juiz de fóra, e Vereadores. Foi necessario obedecer á força maior, e o estandarte foi depositado no paço episcopal debaixo de sentinellas postas pelo povo. Acabada esta scena, repetírão-se vozes tumultuarias, requerendo hum Juiz do povo, emprego, que não costumava haver naquella cidade, adiantando-se a indicar o individuo, que para isso destinavão, e dois Advogados que se lhe derão por assessores, hum dos quaes fez o principal papel nas desordens que se seguírão, e veio a morrer nas cadêas do Porto. As vozes forão ainda obedecidas, e o homem ficou feito Juiz do povo. [Sidenote: Junho.] [Sidenote: 1808 Junho.] Este mesmo individuo appresentou-se no dia seguinte (1.^o de julho) no palacio episcopal de Fontello, suburbio de Viseu, onde o Bispo estava presidindo a huma junta, composta do General, Corregedor, Juiz de fóra, officiaes da camara, e muitas outras pessoas de todas as classes, e no meio deste congresso disse com ousadia: que na vespera, quando o mesmo povo tinha acclamado com o Senado a Regencia de S. A. R. pelos lugares públicos da cidade, o elegêra a elle unanimemente para seu Juiz, a fim de desempenhar as funções determinadas no regimento dado a semelhantes cargos nas maiores, e mais bem reguladas cidades do reino, e que agora neste acto pedia a S. Ex.^{ca} R.^{ma} lhe deferisse juramento, porque o povo, novamente congregado, ratificava a sua eleição, como constava de huma fé do escrivão da camara, que produzia. O Bispo, o General, e adjuntos não se animárão a repellir esta pertenção, e desde este momento o Juiz do povo, a quem o escrivão da camara passou a lavrar o auto do juramento, ficou sendo mais que Bispo, e mais que General. [Sidenote: 1808 Julho.] No dia seguinte, congregando-se hum ajuntamento semelhante ao precedente, comparecêrão nelle 24 individuos, que se annunciárão nomeados pelo Juiz do povo para constituirem huma junta, pedindo tambem, que lhes fosse deferido o juramento, o que da mesma fórma se lhes concedeo, lavrando-se outro auto pelo escrivão da camara, com individuação dos seus nomes, e prestação do juramento com os formularios do costume. Pelo arbitrio desta notavel junta, baptizada com o nome de junta dos prudentes, se ficou regendo a cidade nos artigos mais importantes, fazendo-se hum livro para se escreverem as suas actas, o qual foi rubricado pelo Corregedor, e ás deliberações que ella tomava, obedecião religiosamente as authoridades legitimas, sendo de ordinario a sua execução acompanhada da presença do Juiz do povo, principalmente desde o dia 11, em que os tumultos chegárão ao seu auge. [Sidenote: 1808 Julho.] O General era hum rigoroso observante das leis, e a pezar de que no Porto se tinha estabelecido o soldo de 80 rs. para os soldados, como ainda não tinha recebido ordens a este respeito, mandava pagar no seu destricto sómente o antigo de 40 rs., o que foi hum grande motivo de descontentamento para a tropa. No dia 10 de julho o esperárão á sahida do seu palacio huns 12, ou 14 soldados transmontanos, e lhe fizerão huma falla muito forte a este respeito: o General tambem fortemente lhes respondeo, que aquelle soldo de 40 rs. era o da lei, que lhes não mandava pagar outro, e que se continuassem a fazer motim, tambem na fórma da lei havia de proceder contra elles. Foi o que acabou de os indispôr. [Sidenote: 1808 Julho.] Aconteceo nesse mesmo dia já depois de noite chegar-lhe hum parente, que elle hospedou no seu palacio, e houve quem inventasse, que era o General Loison, o que decididamente ateou a revolta. He necessario recodarmo-nos da recepção, que se fez em Viseu a Loison, e da conferencia que precedeo a sua entrada, (_tom. III. cap. XVIII._) e conheceremos o principio da indisposição do povo contra o General, ministros, e camara; que não seria agora, ajuntando-se-lhe a das tropas? O Corregedor, na verdade homem de probidade, escapou á tormenta, porque se soube amoldar ao povo, e os militares nada tinhão a discutir com elle. Naquella noite se inflammárão no ultimo ponto os espiritos da populaça, e se preparárão os disturbios do dia 11. Logo pela manhã appareceo tudo amotinado, e o Juiz do povo, pretextando-se com as instancias deste, pôde extorquir do virtuoso, e innocente Bispo[17] huma portaria dirigida ao Corregedor da comarca, para fazer prender o General. Apresentada ao Corregedor, este foi paleando a execução por algumas horas; e entretanto o povo procedeo ás vias de facto. [Sidenote: 1808 Julho.] O mesmo Juiz do povo requereo tambem ao Bispo a prizão do Juiz de fóra, e deposição dos Camaristas, e do Capitão-mór, e não podendo obter ordem por escrito para estes actos, disse que a obtivera de palavra para a prizão do Juiz de fóra, e foi acreditado. Este Ministro refugiou-se em casa de huma das pessoas principaes da cidade, e alli se dirigio o Juiz do povo com huma escolta a procurallo. Depois de huma busca exacta foi descoberto em hum forro da casa, e o proprio Juiz do povo acompanhado da escolta o conduzio á cadêa pública de hum modo o mais indecente por entre as vozerias, e insolencias da populaça. [Sidenote: 1808 Julho.] Ao mesmo tempo com pouca differença lhe invadírão por duas vezes a casa, quebrando-lhe os seus móveis, e ornatos, roubando objectos de valor, e espancando a familia, que se vio obrigada a fugir, para evitar mais injúrias. Entre os outros objectos do saque, achárão-se-lhe tres fardas Francezas, e huns baús de fato: foi hum triunfo para a populaça, e soldados amotinados, que entrárão a clamar, que aquellas erão as fardas, e aquelle o fato do General Loison, e dos seus officiaes; sem advertirem, que as fardas erão de durante com galões falsos, e só proprias para a representação de huma farça, em que realmente tinhão servido muito tempo antes. [Sidenote: 1808 Julho.] O palacio, ou quartel-general foi igualmente invadido desde as 10 horas da manhã com repetidas incursões do povo, e da tropa, que empenhando-se em descobrir o General, praticárão ao mesmo tempo as maiores indignidades no edificio, e seus ornatos, tudo pertencente ao Visconde da Lapa, nos móveis, e em quanto se achava de propriedade do mesmo General. Forão arrombadas as portas, quebradas as vidraças, desmantelados os tectos, os lustres, as bancas, as cadeiras, os tremós feitos em pedaços. Houve quem denunciasse, que o General se tinha escondido em hum vão occulto de huma das salas, e lá o forão achar pelas duas horas da tarde, e o conduzírão á cadêa com mil ignominias; escapando com vida, como por milagre. Ainda continuou o saque na manhã seguinte, perdendo o General quanto possuia em móveis, sem escaparem as cousas mais insignificantes; de fórma que quando depois foi mandado soltar por ordens do Governo do Porto, teve de demorar-se na cadêa, até se lhe fazerem humas botas, com que podesse apparecer em público. Tinha o General destinado o dia, em que foi prezo, para dar huma cêa á officialidade Portugueza, que existia em Viseu, e achando-se-lhe os preparos, a multidão entrou a gritar, que erão para hospedar os Francezes. Huns poucos de amotinados, rompendo o forro de hum segundo andar, darão alli com hum vulto, e tão cégos andavão, que immediatamente começárão em gritarias, e com demonstrações do maior regozijo a annunciar, que era Loison. Tira-se para fóra o vulto, e posto á luz clara, acha-se ser hum preto do General, que o medo tinha conduzido áquelle escondrijo. [Sidenote: 1808 Julho.] No mesmo dia forão depostos os Vereadores, e o Capitão-mór, e suplantados por outros, que o Juiz do povo escolheo, e acceitárão estes empregos, senão todos, ao menos a maior parte constrangidos. Ao Advogado, de que fallei ha hum momento, tocou nesta promoção anarquica o lugar de terceiro Vereador. Taes forão os abortos, que resultárão do ajuntamento de mais de 3$ pessoas, que naquella manhã de 11 de julho se levantárão em massa na praça do collegio, e adro da Sé, para onde deitão as janellas do paço episcopal chamadas das amêas, de huma das quaes foi acclamado Generalissimo o Bispo, que sem dúvida gemeria no fundo do seu coração a vista de tantas desordens. Derão-lhe por Ajudante-General Antonio da Silveira Pinto da Fonseca, commandante das tropas Transmontanas, que se achavão em quarteis de transito na mesma cidade. [Sidenote: 1808 Julho.] Chegando a noticia destes monstruosos excessos ao Bispo, e á junta do Porto, expedírão-se ordens ao Provedor de Lamego, datadas de 20, 21, e 25, para que passasse logo a Viseu a informar-se de tudo, averiguando com a maior exactidão possivel, se da parte do General houvera alguma culpa, que motivasse, ou podesse justificar os procedimentos tumultuarios, ou se ella tinha sido sómente da parte dos agentes, e complices, e quaes elles fossem, com destincção dos principaes cabeças. Passou com effeito a Viseu o ministro informante, e procedendo a summario de testemunhas, averiguações, e exames, enviou á junta tres informações separadas com data de 4 de agosto: 1.^a relativa ao General, 2.^a ao Juiz de fóra, 3.^a de observações com hum epilogo de varias providencias, que julgou conveniente lembrar, segundo as circunstancias individuadas na 1.^a, e 2.^a. [Sidenote: 1808 Agost. e Set.] [Sidenote: 1808 Set.] Apresentadas estas informações, a junta as remetteo ao Chanceller, que servia de Governador das justiças, com todos os papeis relativos a este negocio, e ordem para que os fizesse entrar em Relação, e se lhe consultasse o que parecesse em huma commissão especial de cinco Desembargadores. Com effeito em 31 de agosto sobio a consulta, e em consequencia della baixárão duas cartas para o Desembargador dos aggravos Francisco Sabino Alvares da Costa Pinto, hum dos da commissão, ambas datadas de 9 de setembro. Em huma dellas se lhe determinou, que passado logo a Viseu, fizesse soltar o General, e o Juiz de fóra, e os fizesse reconhecer, e restituir ao exercicio dos seus empregos; que os officiaes da camara, e o Capitão-mór fossem igualmente reintegrados, declarando-se nullas, e tumultuarias as substituições, que lhes tinhão sido feitas, e as nomeações do Juiz do povo, e dos seus vinte e quatro. Na outra, que fizesse prender os réos, de que tratava o Provedor de Lamego em suas informações, remettendo-os com segurança ás cadêas da Relação, e que abrisse huma devassa, a que ficassem servindo de corpo de delicto, aquella resolução, as mesmas informações, e os precedentes summarios, passando a pronunciar, e prender quaesquer outros cabeças, e réos dos delictos commettidos, que por ella de novo se reconhecessem. Apresentou-se o Desembargador nomeado em Viseu, com o auxilio de huma companhia de infanteria, e outra de cavalleria, tiradas das tropas que estavão acantonadas em Coimbra; fez soltar os prezos, restabeleceo as authoridades legitimas, supprimio as intrusas, e principiou a devassa. Chegou entretanto a noticia do restabelecimento do nosso Governo na capital do reino; aquelle ministro lhe deo conta do estado do negocio, e teve em resposta, que concluisse a devassa. Assim o praticou, fazendo capturar novos réos, que igualmente remetteo para as cadêas do Porto, dando por concluida a diligencia em 10 de fevereiro de 1809, e remettendo ao Governo os autos, e huma conta muito circunstanciada, em consequencia da qual se expedio a seguinte [Sidenote: 1808 Set.] [Sidenote: 1808 Set.] Carta Regia. _Manoel Francisco da Silva e Veiga Magro de Moura do Meu Conselho, Desembargador Honorario da Meza do Desembargo do Paço, e Chanceller da Relação, e Casa do Porto. Amigo. Eu o Principe Regente vos envio muito saudar. Sendo-me presente a conta, que deo o Desembargador Francisco Sabino Alvares da Costa Pinto da devassa, e mais diligencias, a que procedeo com muito trabalho, e zelo do meu Real Serviço sobre o tumulto de Viseu, em que forão prezos o Tenente-General encarregado do Governo das armas da provincia da Beira, e o Juiz de fóra da dita cidade com o extracto das provas, que dellas resultão contra os réos pronunciados: E convindo muito á boa administração da Justiça, que os mesmos réos sejão promptamente julgados: Sou servido nomear o Desembargador Antonio José de Carvalho Pires, para Juiz Relator da dita devassa, diligencias, e todos os mais papeis respectivos, para os sentenciar em Relação breve e summariamente, pela verdade sabida, com os adjuntos que lhe nomeardes, sem embargo de quaesquer privilegios, leis, e despachos em contrario. O que me pareceo participar-vos, para que assim o tenhaes entendido, e façaes executar. Escrita no palacio do Governo em 20 de fevereiro de 1809. Marquez das Minas--Francisco da Cunha e Menezes--D. Francisco Xavier de Noronha._ Ainda não estava executada esta carta, quando os Francezes segunda vez entrárão no Porto, commandados pelo Marechal Soult. No forçamento tumultuario das cadêas perpetrado pelo povo no fatal dia 22 de março de 1809 sahírão todos os réos, que nellas se achavão: alguns se tem depois reconduzido á prizão; de outros não houve mais noticia. NOTAS DE RODAPÉ: [Footnote 17: Estas palavras não forão escritas ao acaso. A virtude, e a sinceridade são dons, que eu penso ninguem ousará negar a este respeitavel Prelado de todos os que o conhecerem. Eu sou do número destes, desde que ouvi as suas lições no meu 3.^o anno do curso de leis.] CAPITULO XLVI. _Acclamação em Viana: tumultos nos Arcos de Valdevez, suas consequencias, e como se fizerão cessar._ [Sidenote: 1808 Junho.] NO mesmo dia 11 de julho, em que vimos tão perturbada a tranquillidade pública na cidade de Viseu, o furor anarquico produzia estragos na villa dos Arcos de Valdevez, que fazem hum artigo muito interessante na historia dos nossos desatinos: para dar a descripção delles com as noções precisas, he necessario remontar a successos anteriores, de que supprirei neste lugar o que no seu competente ficou omisso. [Sidenote: 1808 Junho.] Espalhados os elementos da revolução por toda a provincia d’Entre Douro e Minho, elles se fixárão, e produzírão o resultado da restauração em Viana, huma das villas mais consideraveis do reino, logo no dia 19 de Junho, immediato ao da restauração do Porto. Ao meio dia a nobreza, e povo se ajuntárão no campo do forno, e acclamárão o Principe Regente: passárão ao castello, onde disparárão algumas peças em sinal de alegria, e espalhando-se depois pelas ruas, forão procurar o Juiz de fóra, que servia de Corregedor da comarca, Domingos José Vieira da Motta Gomes, o qual de boa vontade se lhes unio, e congregárão-se em camara. Alli se reduzio a methodo o que sem esta medida não seria senão confusão: fez-se hum auto, estabeleceo-se a junta do Governo, de que já tenho fallado, e da qual foi nomeado Presidente o General Caldas, Vice-Presidente o mesmo Juiz de fóra, e Deputados os Camaristas, e dois homens de negocio. Esta foi a sua primeira organização, que depois se alterou, ajuntando-se-lhe outros membros, e entre estes o Provedor da comarca. [Sidenote: 1808 Junho.] Desta junta se expedírão logo ordens para as differentes terras da comarca, convidando-as a fazerem causa commum com a sua capital, e forão muito bem recebidas por toda a parte. Á villa dos Arcos chegarão ellas no dia 21, e a 22 congregando-se a camara, nobreza, e povo foi acclamado o nosso legitimo Soberano, a quem se prestou juramento de fidelidade por entre as maiores demonstrações de prazer, com assistencia espontanea, e cooperação do Juiz de fora Antonio José Soeiro de Gouvea, que mesmo debaixo do Governo intruso tinha dado demonstrações do seu patriotismo na demora, e falta de cumprimento ás suas ordens. O resto do dia empregou-se em dar graças a Deos, e em testemunhos de prazer por este feliz successo, reinando em todos estes actos a mais perfeita harmonia: o socego público não foi perturbado o mais levemente, nem ainda no dia seguinte, em que se convocárão as ordenanças, e se distribuírão por ellas as armas, que havia. [Sidenote: 1808 Junho.] Não succedeo assim a 10 de julho, em que se passou huma revista geral ás mesmas ordenanças, e seu armamento: este dia nos offereceo desgraçadamente novas provas de que sendo muito facil insinuarem-se os principios de sedição, e desorganização com os de fidelidade, e patriotismo, he nos grandes ajuntamentos que elles entrão em fermentação, e, combatendo-se, produzem os choques violentos, principalmente quando se dá tempo aos individuos do baixo povo, para se entreterem, conversarem, e communicarem huns aos outros as suas idéas. Hum susurro confuso, e desprezado se sentio nesta occasião, e foi o percursor dos tumultos proximos. [Sidenote: Julho.] [Sidenote: 1808 Julho.] A 11 pelas 10 horas da manhã, sobre dois, ou tres avisos, que noticiavão o desembarque de 20$ Francezes em Espozende, e os davão entrando já pelas portas de Ponte de Lima, os sinos da villa tocárão geralmente a rebate, e forão seguidos pelos de todas as aldêas visinhas. Congregando o povo da terra, o Sargento-mór commandante das ordenanças toma com elle o caminho de Ponte de Lima: era na verdade hum ajuntamento numeroso, porém marchava com armas tão desiguaes, e em tanta confusão, que a sua ruina seria infallivel, ao primeiro encontro de qualquer corpo inimigo bem armado. Por fortuna era fabuloso o desembarque, tendo origem no engano, com que humas barcas Hespanholas, que apparecêrão defronte de Espozende, forão tomadas por parte de huma expedição composta de pequenas embarcações, que se dizia ter sahido dos portos de França, navegando terra a terra para as costas da Peninsula. Retrocedeo pois o povo para a villa; mas informado de que esta se achava entregue á furia dos póvos das freguezias do norte, faltou-lhe aquelle valor, que tinha mostrado contra os inimigos externos; debandou-se, fugindo huma parte para as montanhas, e a outra procurando veredas escusas, quando podião evitar o progresso das desordens, se todos marchassem para a villa em ordem, e unidos aos seus chéfes. [Sidenote: 1808 Julho.] [Sidenote: 1808 Julho.] Aquelles póvos se tinhão com effeito abalado dos seus lares para irem combater os Francezes, mas ainda em maior confusão que os da villa; e o que vierão fazer foi pôr tudo em tumulto, e horror. Vinhão entrando na villa aos magotes, presididos por hum Capitão, ou hum Abbade; não tendo porém nem pão nem munições, forão-se accumulando, e pedindo providencias, mas não apparecia quem lhas desse, porque além da insufficiencia dos meios, a terra estava quasi deserta. Appareceo Luiz Antonio de Araujo e Amorim, e hum Vereador, homens capazes de impôrem respeito, o primeiro por ser alli bem conhecido, e se ter empregado nos Lugares de Letras, e o segundo pelo seu cargo; forão depois apparecendo os outros Vereadores, e juntos em camara providenciavão o que podião. Á proporção que o ajuntamento se augmentava, manifestou-se, e cresceo extraordinariamente a fermentação, dirigindo-se principalmente a animosidade do povo contra o Juiz de fóra, o qual se tinha refugiado para aquellas mesmas freguezias do norte, provavelmente por falta de valor, o que era bem desculpavel a hum homem da sua profissão em huma conjunctura, de que não podião prever-se senão resultados funestos, consideradas as noticias, que se davão como certas, e o desordenado armamento dos póvos. [Sidenote: 1808 Julho.] Mandava nessa occasião o Corregedor de Barcellos varios despachos do serviço a algumas terras da sua comarca, e por huma casualidade singular era portador delles hum homem, a quem faltava hum braço: dirigindo-se pelos Arcos, cahio em poder destes furiosos, que o prendêrão, e baptizárão por Loison. Tomárão-lhe os despachos, e os abrírão; mas nem assim se desenganárão da sua loucura, e forão conduzindo o homem para a casa da camara. Ainda estavão com este a contas, quando appareceo outro rodeado de immenso povo, e prezo como elle, porque tinha sido achado com varias cartas: estas se abrírão, e achárão-se innocentes, o que não obstante, tanto o primeiro, como o segundo, forão mettidos na cadêa. [Sidenote: 1808 Julho.] Já a este tempo os amotinados se abalançavão a emprezas maiores. Entrárão a perguntar pelo Juiz de fóra, e a pedir a Luiz Antonio de Araujo, que lhe mandasse passar as ordens: ainda se não declaravão, mas entendia-se, que erão as ordens para a prizão do Juiz de fóra. Depois de longos debates a este respeito, apparece atravessando a praça hum grande tropel de gente, e no meio delle hum homem toureado de todas as partes, roto, ferido, insultado, reduzido em fim ao estado mais lastimoso que he possivel imaginar-se: era o Juiz de fóra, que já conduzião prezo dos montes, onde tinha sido apanhado, e ao qual ainda investião huns a dar-lhe pancadas com páos, e outros a quererem atravessalo com os chuços. Para salvar a vida foi-lhe necessario pedir misericordia a hum dos chéfes dos amotinados, que por huma especie de vaidade lhe concedeo a sua protecção, conduzindo-o á cadêa, e livrando-o por este modo momentaneamente das mão da populaça. A poucos momentos quizerão ir assassinallo mesmo á prizão, e o terião feito, a não os embaraçar o feliz aggregado de varias circunstancias favoraveis. Ordenárão a hum clerigo, que se achava presente, que o fosse confessar; e como este lhes representasse, que ainda não tinha jurisdicção para administrar este Sacramento, respondêrão-lhe: _nós lha damos_. Entrou o clerigo, e aconselhando ao Juiz de fóra, que se fingisse morto, sahio outra vez, e perguntou á populaça em tom de enfado: _para que o tinhão mandado confessar hum homem, que já estava morto?_ Por tal passou o Juiz de fóra, tocárão-se os sinos a defunto, e escapou com vida. [Sidenote: 1808 Julho.] Quando se deliberava em camara sobre os meios de atalhar as desordens, forão insultados os membros della, despedaçadas, e lançadas pelas janellas as cadeiras, em que se assentavão, a séde do Juiz, e as portas do paço do conselho, e incendiado o seu arquivo. Dalli passárão os revoltosos a continuar o incendio em varias casas da villa, e registrar as outras, com o pretexto de averiguarem, se havia nellas algum Francez, mas com o fim real de as roubarem, e saquearem, como fizerão. Com o mesmo intento se propuzerão a arrombar as portas da igreja matriz do Salvador. Arderão inteiros seis cartorios do público, escapando com muito trabalho o das sizas, e o dos orfãos. Alguns religiosos, e outras pessoas de probidade, que tentavão reduzir os sediciosos por suas práticas, tinhão bem depressa de desistir do seu louvavel projecto, porque elles lhe appresentavão a morte diante dos olhos. [Sidenote: 1808 Julho.] Attentárão contra a vida do Sargento-mór das ordenanças, e o depozerão do seu posso, bem como a varios Capitães, aos tres Coroneis, (hum effectivo, e dois aggregados) do regimento de milicias, ao Sargento-mór do mesmo, e aos escrivães do Juiz de fóra, passando a prover em differentes sogeitos todos estes cargos da jerarquia civil, e militar. Para General nomeárão hum frade capucho: tambem depozerão dois, ou tres Abbades, chegando no seu frenezi a darem jurisdicção para confessar, a hum clerigo que a não tinha: desvarío unico, e singular na nossa Historia! A 12 continuárão a sua obra, creando huma junta de Governo, que tacitamente supplantava a camara, mas com poderes mais exhuberantes. Foi composta de dois religiosos, e tres seculares: estes procedêrão de boa fé, acceitando prudentemente os cargos, e conservando a farça por alguns dias, com a esperança bem fundada de poderem por este modo restabelecer a boa ordem. Não admire o figurarem tantos os frades, porque os revoltosos erão animados por hum frade intrigante, de que tenho muita satisfação em ignorar o nome. [Sidenote: 1808 Julho.] Da nomeação da junta fez-se hum papel informe, summamente curioso; porque comprehendia varios artigos de legislação, dignos em todo o sentido das cabeças, que os produzírão. Abolírão as leis do reclutamento, taxárão os preços do leite, carne, e vinho, prohibírão a exportação do pão para fóra do reino, negárão acção ao contracto do mutuo, suspendêrão o curso das causas forenses durante a guerra, proscrevêrão as citações por officiaes de justiça, e a solução das oblatas aos Parocos, escapando com difficuldade os dizimos, e absolvêrão em fim os foreiros de pagarem aos seus senhorios os direitos dominicaes. A imaginação facilmente comprehende, que estas leis emanavão daquelles mesmos, que tinhão pertendido assassinar o Juiz de fóra, e deposto os seus officiaes, que queimárão o arquivo da camara, e os cartorios, onde se conservavão os titulos, os processos, e as execuções, de que se doião: o mais extranho he, que elles legislavão para o reino em geral, e não para o seu destricto em particular; publicando, que querião levar a Viana o seu reverendo General, para ahi o instalarem no commando. [Sidenote: 1808 Julho.] Para acalmar esta desatinada plebe, lembrou huma função d’igreja, e procissão com o Santissimo Sacramento pelas ruas: assistírão a huma, e outra cousa os da terra, e os de fóra; mas estes com as suas armas. Houve hum sermão apropriado ás circunstancias, que fez derramar muitas lagrimas, e os revoltosos se resolverâo com effeito a recolherem-se ás suas casas, mas conservárão os roubos, e não indemnizárão os que tinhão soffrido. [Sidenote: 1808 Julho.] A 13 se espalhárão rumores de que elles se dispunhão para virem commetter novos insultos, e em consequencia se armou a gente da villa, debaixo da direcção do Tenente-Coronel de milicias Bento Alexandre de Brito Sousa Castro e Amorim, sogeitando-se a huma rigorosa disciplina, exercicios, patrulhas, e rondas nocturnas. Soltou-se o Juiz de fóra, que partio immediatamente para Viana. Na tarde desse mesmo dia os membros da junta abdicárão voluntariamente o Governo, que tinhão da mão dos faciosos, entregando-o á camara, restabelecendo, e reconhecendo as authoridades legitimas. A 14 houve justos receios de que se renovassem os tumultos, por ser dia de feira. O povo da villa occupou as suas entradas, e sahidas, e prendeo 23 homens das aldêas, de que alguns erão conhecidos por complices, e motores das desordens, e todos os mais suspeitos, porque vinhão armados. Não se julgou segura a cadêa da villa, e por isso forão remettidos para a da Barca. [Sidenote: 1808 Julho.] A 15 chegárão de Viana duas companhias de infanteria, e alguns artilheiros com huma peça, para segurarem a villa. Estiverão nella até o 1.^o de agosto, e servírão de guarda ao Provedor de Guimarães Manoel Marinho Falcão de Castro, que por ordem da junta do Porto foi syndicar dos referidos, acontecimentos. Subírão de 40 os culpados na devassa, ficando de fóra muitos outros, por não serem conhecidos. Grande parte daquelles povoou as cadêas do Porto, d’onde sahírão nos tumultos de março de 1809: forão processados, e sentenciados alguns, que realmente se achavão prezos, e copío a sentença, porque aclara a Historia.[18] NOTAS DE RODAPÉ: [Footnote 18: Sentença proferida na correição do crime da cidade do Porto, contra os amotinadores tumultuarios na villa de Arcos de Valdevez, em 10, e 11 de julho de 1808. _Acordão em Relação, &c. Vistos estes autos, que na conformidade das leis se fizerão summarios aos réos prezos--Manoel Luiz de Brito,--Patricio Mendes,--José Antonio Gonçalves,--Antonio Carlos Fernandes,--Alexandre José Rodrigues,--e Francisca Luiza (a Migalha:)--perguntas que lhes forão feitas: allegação de facto, e direito._ _Mostra-se, que por occasião do rebate do inimigo, acontecido em a villa dos Arcos de Valdevez, e seus districtos, na noite de 10 de julho de 1808, e na manhã seguinte, descêrão os montanhezes de algumas freguezias da villa dos Arcos, que devendo dirigir-se contra o mesmo inimigo, ou existente, ou supposto, como muitos louvavelmente fizerão; muito pelo contrario se precipitárão nos mais horrorosos, e malvados desatinos, perpetrando crimes de todas as qualidades, com manifesto insulto da propria soberania: Por quanto, prova-se plenamente, que os amotinados, sem outra causa mais do que as particulares vinganças, interesses, e resentimentos, atrevidamente se arrojarão a lançar mão do Juiz de fóra dos Arcos--Antonio José Soeiro de Gouvêo,--espancando-o, e ferindo-o gravemente com cruel barbaridade, o arrastárão, e conduzírão assim á cadêa pública, aonde coberto de opprobrios foi encerrado, ao mesmo passo que despoticamente puzerão em plena liberdade os que se achavão criminosos, e legitimamente prezos; passando depois ao paço do concelho, destruírão a cadeira, e docél com as armas Reaes, e todos os mais trastes que achárão, não escapando á sua maligna ferocidade as portas, janellas, e sacadas, que deitárão ao terreiro, e depois queimárão: no mesmo dia dilacerárão os titulos públicos da camara: atacárão os cartorios públicos, entregando ás chammas os processos, e documentos públicos, e particulares, que affianção, e sustentão os direitos dos póvos: depozerão as authoridades legitimas, sendo deste número o Juiz de fóra, e o Sargento-mór das ordenanças,--Gaspar de Queirós,--quando entrava na villa com a bandeira em a mão, acompanhado de immenso povo, que briosamente corrêra contra o inimigo, e que havia verificado ser falso o rebate, o que fazião público para tranquillizar os animos, mas com baldado trabalho. No seguinte dia, para cúmulo de suas maldades, passarão solemnemente a constituir o illegal, e novo governo projectado, chegando a tal ponto a sua temeraria ousadia, que no mesmo acto fizerão leis, contrarias ás do reino, e tendentes á subversão da monarquia, como tudo se prova do infame, e original papel a fol. 11. do primeiro appenso, que muitos assignárão; sendo provas evidentes dos muitos ferimentos feitos ao referido ministro, bem como dos estragos do paço do conselho, camara, e cartorios públicos os nove exames que decorrem de fol. 19 até fol. 25 do dito appenso, os quaes servem de corpo de delicto a devassa a que procedeo o Desembargador Provedor de Guimarães por ordem especial da junta provisional do Governo supremo, em consequencia da representação da junta de Viana do Minho a fol. 4, em a qual narrando os escandalosos crimes, pedia promptas, e ulteriores providencias, além de algumas que opportunamente havia dado, e com as quaes felizmente tinha conseguido restabelecer a segurança, e tranquillidade pública._ _Mostra-se, que o réo--Manoel Luiz de Brito,--estudante, solteiro, de idade de 24 annos, segundo sua declaração, natural, e morador em a freguezia de Santa Comba de Eiras, termo da villa dos Arcos, teve grande parte em todos os tumultos, e crimes atrocissimos já mencionados; provando-se pelas testemunhas presenciaes de números 3, 4, 10, 11, 20, 30, 35, 48, 49, 51, 56, e 73; as quaes são corroboradas com as de ouvida de números 15, 16, 18, 33, 34, 39, 44, e 45, que este réo não sómente em ambos os dias foi visto entre os tumultuarios, mas que fora o que tirára a--Gaspar de Queirós--a bandeira da camara, que trazia na qualidade de Sargento-mór, erigindo-se em cabeça de motim, e capitaneando os ranchos para a destruição da casa do conselho, e camara, soltura dos prezos, incendios dos cartorios, espalhando vozes sediciosas, de que se jactava, assignando finalmente o infame papel, como do mesmo se prova, cujo sinal o mesmo réo conhece, e confessa em suas perguntas, no appenso número 17, não desvanecendo de modo algum as suas provadas culpas com as escusas, que allega em suas perguntas, nas quaes nega a maior parte das imputações; e confessando haver tirado a bandeira a--Gaspar de Queirós,--e ter assignado o papel; declara, que o primeiro facto foi para socegar o povo, e sem violencia, o que não prova; e o segundo da assignatura, que o praticára por lhe dizerem que era huma declaração, que devião fazer os que quizessem ir contra o inimigo, defeza convencida pelas testemunhas da culpa, além de inverosimil, e improvavel._ _Mostra-se igualmente, que o réo--Patricio Mendes, ou Patricio José de Sousa,--de idade de 46 annos, natural, e morador na freguezia de Azere, termo da villa dos Arcos, casado, e jornaleiro, teve muita parte nos tumultos, e principalmente nos incendios dos differentes cartorios, sendo dos primeiros que buscava arrombar as janellas, e incendiar os papeis; como jurão de vista as testemunhas números 6, 20, 25, 38, 51, e 63, e singularmente o comprova a testemunha número 30, de que o réo fora jactar-se á sua loja, não só de ser o author das desordens, mas de ameaçar quem o reprehendia; jurando contra o réo de publicidade sobre os incendios as testemunhas números 10, 33, 34, e 37, provas exuberantes, que o réo não convence de modo algum, antes mais se confirmão pela absoluta negativa a que recorre de não ter estado em a villa dos Arcos na occasião dos tumultos._ _Mostra-se mais que o réo--José Antonio Gonçalves--de appellido o Peralta, de idade 60 annos, natural, e morador na freguezia de Perozello, termo da villa dos Arcos, casado, e official de sarralheiro, se acha envolvido em os mesmos crimes, fazendo-lhe culpa as testemunhas de vista de números 1, 49, 50, e 51, jurando a primeira ver o réo entre outros, indo todos á destruição da casa, e cartorio do escrivão--Domingos de Sousa Dias;--e advertindo-os do mal que ião fazer, lhe respondêrão, que tudo era bem feito, e que se calasse; a segunda o vio conduzir no dia 12 os membros do novo governo; a terceira jura igualmente, como a primeira, ver o réo no dia 11 em rancho tumultuario, e de facto proprio, que estando em a rua da Boleta, o réo o agarrára, obrigando-o a que lhe fosse mostrar os cartorios; e que em razão da sua repugnancia lhe déra huma pancada sobre o hombro esquerdo, com a qual lhe rasgára o capote: jurando a quarta ver o réo em differentes sitios rasgando papeis, e deitando-os ao lume. Nenhuma defeza em suas perguntas inimizade, ou suspeição juridica contra as testemunhas, negando absolutamente achar-se na villa dos Arcos nos tumultos, sem que se possão reputar singulares as testemunhas, quando concordão todos em ver, e conhecer o réo na villa dos Arcos nos mesmos dias, e insultos praticado da mesma natureza._ _He igualmente comprehendido nos mesmos crimes o réo--Antonio Carlos Fernandes,--de idade de 37 annos, natural, e morador na freguezia de Villela, casado, e ceareiro, depondo as testemunhas números 67, 72, e 73, que não sómente o virão entre as tumultuarias; mas a primeira jura ter o réo ir em companhia de outros a casa do official do Juiz de fóra dos Arcos--José Pereira Ladisco,--a quem arrombárão a porta, furtárão alguns móveis, e quebrárão outros: a segunda affirma que na occasião em que se fez a destruição da casa do conselho, víra o réo em huma das sacadas tocando o sino; a qual he corroborada com a terceira, que nessa mesma occasião pouco depois o vio no terreiro com outros, que entrárão a proferir, que havião ir queimar os cartorios dos escrivães, como se effeituou: accresce contra este réo ter assignado o infame papel, já mencionado, como se mostra do mesmo; e o réo confessa nas suas perguntas appenso número 16, declarando fora violentado, o que não prova de modo algum, negando ter estado em a villa dos Arcos em o dia 11, não só contra o que jurão as referidas testemunhas, mas contra o seu proprio facto, e confissão judicial em as primeiras perguntas número 5 appenso, e que lhe forão feitas pelo mesmo Juiz devassante, declarando então ver o co-réo--Manoel Luiz de Brito--tirar a bandeira a--Gaspar de Queirós--o que igualmente nega, quando o confessa o mesmo co-réo, e pelo que se acha convencido, sem razão, ou prova, que o escuse das imputações criminosas._ _Contra o réo--Alexandre José Rodrigues,--natural da freguezia de S. Vicente, e morador na de S. Martinho de Perozello, termo da villa dos Arcos, casado, sarralheiro, de idade de 33 annos, ha na devassa tres testemunhas de vista, que lhe fazem culpa de números 35, 51, e 62, jurando a primeira que o réo fora tambem dos cabeças dos motins, entrando na destruição do paço do conselho, arrombamento, e queima dos cartorios; concordando com a segunda, em quanto jura que víra o réo em differentes sitios rasgando papeis, e lançando-os ao fogo; as quaes de algum modo são corroboradas com a terceira, bem que singular, em quanto depõe que o víra insultar o Juiz de fóra em a cadêa, trazendo-lhe á memoria humas chaves, que lhe havia mandado aprehender; mostrando grande satisfação na eleição, que acabava de fazer-se do novo governo, e nas desordens, e incendios, factos negados pelo réo em suas perguntas, bem como haver estado nos Arcos, sem outra defeza, ou prova, que exclua a sua culpa; confessa com tudo ser verdade a aprehenção das chaves, mandada fazer pelo Juiz de fóra; no que combina com o depoimento da testemunha número 62._ _Em iguaes culpas se acha incurso--Francisca Luiza,--de alcunha a Migalha, mulher de--Manoel de Jesus,--homem pardo, natural, e morador na freguezia de Gondaris, termo da villa dos Arcos, de idade de 38 annos; por quanto as testemunhas números 25, 59, e 67 jurão ver a ré entre os tumultuarios, incitando-os com vozes, atirando com pedras, e lançando ao lume alguns móveis, que se achavão na rua, accrescentando a testemunha número 67 ouvir no dia 12 jactar-se a ré públicamente de ter dado huma pedrada, e hum bofetão em o Juiz de fóra. Nenhuma defeza produzio, ou razões, que convenção as suas culpas; e nas perguntas confessa achar-se em a villa dos Arcos nos dias 11, e 12 dos tumultos, para onde fora curiosamente contra vontade do seu marido, sem que fizesse crimes, ou excessos, tendo sómente dado alguns vivas como o outro povo, quando se fizerão as novas eleições._ _Por tanto, e o mais dos Autos condemnão aos réos--Manoel Luiz de Brito, e Antonio Carlos Fernandes,--a que sejão levados pelas ruas públicas desta cidade com baraço, e pregão ao lugar da forca, e que nella morrão morte natural para sempre; depois do que lhes serão separadas as cabeças, e levadas a villa dos Arcos de Valdevez, aonde serão cravadas em postes altos, que para esse fim se levantaráõ no terreiro público, e alli serão conservadas até que o tempo as consuma; e outro sim os condemnão em o perdimento de todos os seus bens para o fisco, e camara Real._ _Aos réos--Patricio Mendes, ou Patricio José de Sousa, José Antonio Gonçalves, Alexandre José Rodrigues,--condemnão a que assistão ao supplicio, e depois vão degradados, o primeiro com açoutes, toda a vida para as galés de Angola; o segundo por toda a vida para o reino de Angola; e o terceiro para Moçambique por toda a vida; e além destas penas em duzentos mil réis para o fisco, e camara Real o primeiro; e o segundo, e terceiro em cem mil réis cada hum para as despezas da Relação._ _A ré--Francisca Luiza,--a Migalha, em dez annos para o Rio Negro, e quarente mil réis para despezas; e a todos nas custas dos autos. Porto 18 de agosto de 1810,--Carvalho. Dr. Figueiredo. Dr. Ribeiro Viera. Faria. Malheiro. Mosqueira._ _Sentença sobre os primeiros embargos. Acordão em Relação; &c. Que sem embargo dos embargos, que por sua materia não recebem, cumpra-se o Acordão embargado, e paguem os embargantes as custas. Porto 20 de agosto de 1810.--Carvalho. Dr. Figueiredo. Dr. Ribeiro Vieira. Faria. Malheiro. Mosqueira.--_ _Sentença sobre os segundos embargos. Acordão em Relação, &c. Que sem embargo dos segundos embargos, que não recebem, cumpra-se a Sentença embargada, e paguem os embargantes as custas. Porto 20 de agosto de 1810.--Carvalho. Dr. Figueiredo. Dr. Ribeiro Vieira. Faria. Malheiro. Mosqueira._] CAPITULO XLVII. _Attentados contra o Corregedor de Guimarães. Reflexões sobre a situação perigosa da Monarquia nesta época, comportamento dos póvos, e Governo das juntas._ [Sidenote: 1808 Julho.] [Sidenote: 1808 Julho.] EM Guimarães tambem houverão movimentos sediciosos contra o Corregedor da comarca Antonio Manoel Borges; mas estes forão nascidos de intrigas, e motivos particulares, que não affectárão em grande a massa popular. Aquelle ministro, que vimos ter promovido com tanto zelo a restauração em Guimarães, este a ponto de ser victima do odio de alguns seus inimigos, que pertendêrão fazer suspeito, e dirigir contra elle o ferro dos assassinos. Foi elle o que de seu motu proprio, e por effeitos de puro patriotismo, e fidelidade mandára convocar o povo da villa em 18 de junho pelo seu escrivão José Antonio de Miranda, e meirinho Placido Machado Pereira, para que pelas 4 horas da tarde. Se achasse no largo de N. Senhora da Oliveira, e o que ahi em companhia de Monsenhor Miranda levantou a voz: _Viva o nosso Principe, e vivão os Portuguezes_;[19] e era o mesmo que estava dando as mais energicas providencias para o armamento, quando lhe maquinárão a sorte, que só he devida aos traidores. [Sidenote: 1808 Julho.] O povo chegou a dar demonstrações de se envolver neste abominavel projecto, mas conteve-se, e defendeo o Corregedor, conhecendo o zelo, com que promovia, e accelerava a expedição; que se formava por aquellas terras, para acudir ás margens do Douro, quando forão invadidas por Loison. A camara da Amarante lhe dirigio hum officio em 20 de junho, pedindo-lhe polvora, e bala, e vi huma attestação, que ella lhe passou a 22, muito honrosa pelos seus distinctos serviços nesta occasião, de que faz prova. [Sidenote: 1808 Julho.] Como pois os intrigantes não achassem accesso a seus ardis entre o povo de Guimarães, voltárão-se para o de Braga, que quizerão seduzir, ou a huma parte delle, no seu transito para Amarante. Hum frade, que vinha naquella massa informe, chegou a apontar a espingarda contra o Corregedor, que estava em huma janella de Jeronymo Vaz no sitio do Toural, proferindo as palavras: _morra o Corregedor, que he hum traidor_: hum outro frade o embaraçou, e pôde arrancar aquelle ministro das mãos de hum seu implacavel inimigo, que se achava presente, e ancioso por lhe ver o termo desastroso, que lhe havia preparado. A innoccencia triunfou da calumnia, e o revoltoso frade chegou depois a proferir: _enganárão-me_. Ainda os intrigantes não perdêrão as esperanças: procurárão o apoio do regimento de milicias, e conseguírão armar 84 dos seus mais façanhosos soldados, influidos por alguns dos seus officiaes mais graduados, para matarem o Corregedor. O Sacristão-mór de N. Senhora da Oliveira á custa de muito trabalho os pôde desviar do crime de assassinio; mas não evitar que elles prendessem alguns officiaes daquelle ministro, espancassem outros, e estorvassem por muito tempo o exercicio da Real jurisdicção. [Sidenote: 1808 Julho.] Não creio que houvesse hum tempo, em que o homem pastou erva pelos campos, ou bolota pelos bosques; mas se o houve, o homem devia ser a mais cruel de todas as féras. Não he porque eu supponha, como alguns Filosofos sombrios, que o homem he máo por natureza: não farei tão grande injúria á creatura mais perfeita, que sahio das mãos da natureza; mas porque por isso mesmo que o Creador lhe quiz dar hum gráo de perfeição mais sublime, o prendou com as paixões, sem as quaes seria mais insipido, mais inerte que os brutos, e com a liberdade, sem a qual nenhum merecimento podião ter as acções humanas; paixões, e liberdade tão funestas ao homem, quando as não sogeita a hum freio, que tambem existe na sua propria natureza. [Sidenote: 1808 Julho.] Este freio he a razão; mas a experiencia nos mostra desgraçadamente quanto elle he fraco para domar as paixões violentas, pelo abuso, que o homem faz das suas faculdades. Todos querem suplantar a seu igual, todos desejão o bem alheio, todos propendem para a satisfação dos seus prazeres, o que a cada passo os implica com os homens, e para a vingança, que os céga; e conduzidos por hum turbilhão violento precipitão-se nos maiores excessos, preferindo sempre os bens imaginarios, que os cercão de perto, aos verdadeiros, que só divisão ao longe. E criminaremos nós o A. da natureza de ter deixado a especie humana ao desamparo em hum mar tormentoso, contentando-se com dar aos homens hum remedio tão fraco contra males tão violentos! Não. Elle lhes inspirou o congregarem-se em sociedades, e sogeitarem-se a huma religião, e a hum governo, que são as molas poderosas, que auxilião razão, e segurão até hum certo ponto a tranquillidade do mundo. [Sidenote: 1808 Julho.] A mola da religião he na verdade mais debil, porque se sustenta na opinião, sempre varia, e sogeita a oscillações: a do governo he mais vigorosa, porque tem por base a força; mas se huma vez chega a quebrar-se, o choque he espantoso. Filosofos, que se julgavão perfeitos no conhecimento da indole das sociedades, e dos Governos, forão os que preparárão com as suas theorías esta horrorosa revolução, que ainda hoje envolve o mundo nas suas ruinas, e de que Luiz XVI, e o seu Conselho terião provavelmente evitado os effeitos, ao menos por algum tempo, se previssem as consequencias da convocação da assembléa dos Notaveis, e dos Estados do reino, em huma época tão turbulenta. Importa muito conservar a memoria destes factos: são elles os que interessão a posteridade, e não aquelles que servem sómente de satisfazer huma vã curiosidade. Quando o Governo se dissolve, para entrar na anarquia, a nação se anniquila afogada em sangue; quando se dissolve, para passar a hum outro, o intervallo sempre he terrivel. [Sidenote: 1808 Julho.] Portugal achava-se neste ultimo caso: felizmente o intervallo foi breve, e mesmo não chegou a existir em muitas das suas terras. O Governo legitimo tinha desapparecido diante do ferro dos invasores, o intruso foi despedaçado nas provincias, subjugada ainda a capital do reino, e impossibilitados os Governadores legitimos de reentrarem no exercicio das suas funções: eis-aqui huma situação a mais crítica, em que jámais se pode achar huma nação. He então que se levantão, e se combatem os partidos, precursores da anarquia; seguem-se os tumultos, e as desordens de todo o genero, contra as quaes nada póde o partido da razão, porque não he senão o da parte pensadora, e justa; isto he, o da centesima millesima parte do genero humano. [Sidenote: 1808 Julho.] Na verdade temos visto, que esta funesta disposição dos espiritos para a desordem produzio mais, ou menos os seus effeitos por toda a extensão da monarquia; mas recordemo-nos dos horrores, que produzio em França a extinção do Governo legitimo, e abençoemos a Providencia, que nos preservou de tanto estrago: congratulemo-nos de que sómente tenhamos visto correr algumas gotas, em lugar de ondas de sangue, que ás mãos dos nossos concidadãos podião ter innundado Portugal. Sobre tudo o que honra muito a nação he, que no meio das suas mesmas convulsões anarquicas não appareceo huma unica voz sediciosa, que ousasse proclamar contra a fórma do Governo estabelecido, ou contra o Soberano legitimo; de fórma que quando depois os Governadores do reino forão restabelecidos, achárão hum povo tão docil, e tão subordinado, como senão tivesse existido em semelhante crise. [Sidenote: 1808 Julho.] Homens pouco experientes tem criminado as juntas, como focos de desordens: quanto se enganão! O principio das desordens estava na natureza das cousas, e forão as juntas as que lhe oppozerão os primeiros diques. O Governo das juntas era imperfeito, eu convenho, e muitas dellas tinhão defeitos inherentes á sua constituição; mas assim mesmo forão ellas as que sustiverão o Estado nos primeiros momentos da revolução: depois nos derão a mão os nossos alliados, e com o seu soccorro a monarquia foi salva. Aproxima-se o tempo de tratarmos da parte activa, que estes tomárão nas operações militares de Portugal, mas primeiro devemos lançar outra vez os olhos para a Hespanha, onde se praticavão os grandes movimentos, de que dependia a sorte de toda a peninsula. NOTAS DE RODAPÉ: [Footnote 19: Omitti estas circunstancias no _tom. III. cap. XIII._, onde toquei a restauração de Guimarães, por não terem ainda chegado ao meu conhecimento, posteriormente fui dellas informado, além de outras vias, por attestações conformes dos proprios escrivão, e meirinho.] CAPITULO XLVIII. _Conclue-se a nova constituição d’Hespanha em Bayona. José Bonaparte em Madrid: batalha de Rio Secco, e effeitos que produzio._ [Sidenote: 1808 Julho.] ORGANIZADA em Bayona a nova constituição Hespanhola, tão apressada, e ligeiramente, como costumão os modernos constructores de codigos, e de governos de fabrica Franceza, e os seus dignos discipulos, o congresso legislador a appresentou a José Bonaparte, já baptizado em Rei d’Hespanha e Indias para lhes prestar a sua approvação. Esta não era mais do que a expressão da vontade de seu irmão, que do interior do seu gabinete fabricava, ou dirigia todos estes actos. Usava desta arte, para dominar os Hespanhoes em nome de hum fantasma, tão desprezivel pelos seus talentos, como pela sua conducta, e principios moraes, ajuntando por este modo a tantas outras usurpações a da maior das monarquias existentes, com a mesma mão, com que acabava de traçar os decretos de união dos Estados da Toscana ao seu imperio, e o patrimonio dos successores de S. Pedro ao seu reino de Italia. [Sidenote: 1808 Julho.] A farça do Rei José, ou D. José, como principiou a denominar-se para conservar hum simulacro da antiga corte de Madrid, conformando-se ao seu ritual, e aos usos da nação, teve verdadeiramente o seu começo a 7 de julho, dia, em que se appresentou no congresso, e recebeo o juramento de fidelidade dos Padres conscriptos, que o compunhão, e que, arrogando falsos poderes em nome do povo Hespanhol, se não tinhão alli ajuntado, senão para fazerem o enterro da sua desgraçada monarquia. Desde este momento principiou José a espalhar mercês traidoras, (e já d’antes tinha feito algumas) com que pertendia segurar no seu partido os mais distinctos Hespanhoes, que o rodeavão, como realmente conseguio de alguns, e a publicar leis, e decretos a montes. [Sidenote: 1808 Julho.] Feira a sua troca com Murat, que passou a ser promovido Rei de Napoles, e tendo-se despedido dos seus antigos vassallos Napolitanos por meio de huma proclamação, que lhes mandou pelo correio, tão pathetica, que faria enternecer os troncos, e as pedras insensiveis, partio de Bayona a 9, acompanhado de toda a caterva, que o seguia. Entrando no territorio Hespanhol pela ponte de Bidassoa, teve a satisfação de encontrar alguns Alcaides, e outros officiaes das terras, por onde passava, que sahião a cumprimentallo; mas o seu prazer sobio de ponto no quarto dia da sua jornada, quando recebeo junto á cidade da Victoría os cortejos de huma deputação, que o esperava por parte da pequena provincia de Alava. Demorou-se hum pouco na estrada, para despachar de dentro mesmo do seu coche hum correio a seu irmão com estas gratas noticias, e aproveitou hum dia de descanço, que teve na mesma cidade, para dirigir huma proclamação aos Hespanhoes, communicando-lhes a sua entrada neste paiz, e expressando-lhes os sentimentos de cordialidade, de que se affectava possuido para com elles. Não lhe esqueceo hum paragrafo contra o chamado inimigo commum do continente, que procurava (dizia elle) com as suas intrigas separar da Hespanha as Indias; e he este mesmo Rei proclamador o que depois temos visto aconselhar os póvos destas mesmas Indias Hespanholas, que pois lhe não querião obedecer, se revoltassem contra a sua mãi patria. Que caracter! [Sidenote: 1808 Julho.] [Sidenote: 1808 Julho.] Em quanto se encaminhava a Madrid, onde chegou a 20 pela tarde, e era em fim proclamado nesta capital com o apoio de 30$000 assassinos, o Marechal Bessieres procurava consolidar-lhe as mal seguras bases do seu reinado, domando os póvos da Castella Velha, e do reino de Leão com o ferro, e com o fogo. O exercito Hespanhol da Galliza, e Asturias tinha-se reunido debaixo do commando do General Blake, que coberto de gloria segue ainda hoje a fortuna das nossas armas; e ajuntando-se-lhe algumas tropas da Castella ás ordens do seu Capitão-General D. Gregorio de la Cuesta, que se tem feito célebre na presente guerra, e actualmente Capitão-General das ilhas Baleares, formárão hum corpo respeitavel (ainda que pela maior parte composto de recrutas) que ameaçava a segurança, não só de Bessieres, mas tambem da propria Madrid. Vio Bessieres a necessidade de atacar este exercito, e reunindo para este fim as suas forças, deo nas visinhanças de Rio Secco a sanguinolenta batalha de 14 de julho, de que as consequencias serião fataes para Hespanha, e Portugal, senão fossem reparadas por hum exercito mais feliz, e mais disciplinado ao de lá da Serra Morena. Os Francezes publicárão em Madrid huma relação desta batalha, que se reduz ao seguinte. [Sidenote: 1808 Julho.] Tendo se posto em movimento no dia 13 o corpo de exercito do Marechal Bessieres, situou-se, collocando a esquerda em Ampudia, e a direita na torre de Marmajon. A 14 seguio a sua marcha com direcção a Palacios, e chegando a este povo se descobrírão perto de 200 cavallos, e mui breve todo o exercito dos _insurgentes_, o qual se formou em duas linhas sobre o serro alto, e escarpado, que cobre a cidade de Medina de Rio Secco. Bessieres manobrou com a idéa de collocar se com a maior parte das suas forças entre as duas linhas inimigas, movimento que executou rápidamente. A divisão do General Lassalle accommetteo pela frente o serro, em quanto o General Merle, apoiado pelo General Mouton, e pela guarda imperial, atacava a esquerda. Em hum instante o posto foi tomado á viva força, perdendo os _insurgentes_ 1$500 mortos, a maior parte á bayoneta: a cavalleria ligeira commandada por Lassalle accommetteo, e completou a victoria. Com tudo a segunda linha dos Hespanhoes tendo avançado contra a esquerda dos Francezes, foi atacada pelo flanco por huma parte da divisão do General Merle, por alguma cavalleria da guarda imperial, e por hum esquadrão do 10.^o regimento de cassadores, ao mesmo tempo que investia em frente o 2.^o batalhão do 14.^o regimento provisional. O movimento dos Hespanhoes ficou frustrado, e a columna, que o intentára, ficou destruida: então elles se retirárão em desordem para todas as partes: houve hum momento, em que procurárão defender-se em Medina de Rio Secco, porém o General Mouton, sem responder ao seu fogo, se apoderou da terra á bayoneta. [Sidenote: 1808 Julho.] [Sidenote: 1808 Julho.] [Sidenote: 1808 Julho.] O General Lassalle á frente da cavalleria ligeira perseguio os fugitivos, causando-lhes grande mortandade, pois perecêrão mais de 5$, além de hum grande número de feridos: tomárão-se-lhe 15 peças de artilheria, e huma grande quantidade de munições. A perda do exercito Francez limita-se a 300 feridos, e huns 50 mortos. Esta relação deve servir, quando muito, para se fazer huma idéa das disposições geraes da batalha, mas não das suas particularidades, e das perdas d’ambos os partidos, a respeito das quaes he bem sabido quanto os Francezes as costumão desfigurar: por ella se mostra ao menos que hum exercito Hespanhol, composto de recrutas, e de paizanos, mas conduzido por Generaes habeis, e valorosos, soube combater, e disputar o terreno a hum inimigo infinitamente superior em disciplina. Ha outra relação dada por hum acreditado official Inglez, que se achava ao alcance dos factos, a qual faz consistir a força dos Francezes em 10$ infantes, e 2$ cavallos com huma numerosa artilheria; a dos Hespanhoes em 14$ infantes, sómente 800 cavallos, e hum corpo de paizanos: diz, que os Hespanhoes atacárão no primeiro encontro com grande impeto, chegando a romper a linha inimiga, e tomar-lhe quatro peças de artilheria, que porem a grande superioridade da cavalleria, e artilheria dos Francezes lhes fizera perder a vantagem, obrigando-os a retirar-se com perda de 13 peças: que os inimigos soffrêrão tanto, que se não atrevêrão a entrar em Rio Secco senão 4 horas depois da batalha, nem a seguir os Hespanhoes na retirada, que fizerão para as partes de Benevente em boa ordem. Não tenho principios para avaliar a perda que houve de huma, e outra parte: Blake em huma carta, que escreveo a Bessieres, avaliou a dos prisioneiros Hespanhoes, em 400 a 500; e he certo que o successo foi mui contrario á causa da peninsula, sendo huma das perdas mais sensiveis a do valoroso Conde de Maceda, em que os Gallegos tinhão as mais bem fundadas esperanças, o qual ficou morto no campo da batalha. Cuesta foi o que cobrio a retirada dos Hespanhoes. [Sidenote: 1808 Julho.] [Sidenote: 1808 Julho.] [Sidenote: 1808 Julho.] A entrada dos Francezes em Rio Secco foi marcada por hum sem número de attentados, e atrocidades contra os seus habitantes nas suas pessoas, honras, e fortunas, que se publicárão nos periodicos da Hespanha, e forão depois verificadas perante os Tribunaes de Madrid por relações officiaes das justiças. Ao saque das casas ajuntou-se o incendio, ao roubo dos templos os sacrilegios. Depois destas bellas acções ainda Bessieres tentou por cartas seduzir Blake, para que se convertesse ao partido Francez, com o pretexto de poupar sangue humano, protestando-lhe, que a casa de Bourbon jámais reinaria, em quanto a França, e huma grande parte da Europa existissem na sua actual situação. Blake lhe respondeo, como hum digno General Hespanhol, que não reconhecia outro Soberano senão Fernando VII. de Bourbon, ou seus legitimos herdeiros; que se porém acontecesse, que esta infeliz familia se extinguisse inteiramente, então reconheceria sómente por seu Soberano o povo d’Hespanha, representado nas Cortes geraes: Que este modo de pensar se não limitava sómente a elle; pois nisto exprimia os sentimentos de todo o exercito, e de toda a nação, excepto hum pequeno número de homens, que se governava pelo mais grosseiro interesse pessoal: Que estivesse persuadido de que o informava do estado verdadeiro das cousas, e se não enganasse com a submissão forçada de alguns lugares occupados pelas tropas Francezas, tomando-a por huma mudança de opinião dos seus habitantes: Que desenganasse o seu Imperador; e que se era verdade que elle possuia huma alma filantropica, elle renunciaria ao projecto de subjugar a Hespanha: Que a pezar de quaesquer successos parciaes, que o mesmo obtivesse, sempre era evidente, que seu irmão nunca poderia reinar sobre este paiz, menos que o tivesse reduzido a hum deserto coberto de sangue dos Hespanhoes, e das tropas empregadas nesta injusta empreza. Em attenção a esta resposta, e ao comportamento de Blake, o conselho de Governo o nomeou Governador, e Capitão-General da Galliza, e Presidente da Real Audiencia, continuando no commando do exercito até a conclusão da guerra. Ficou aberta aos Francezes a estrada Real de Toro, e Çamora, pela qual se adiantárão immediatamente, levando o terror até as fronteiras de Portugal, e das fronteiras até o interior do paiz, e mesmo ao Porto. Na verdade hum dos primeiros objectos do inimigo era restabelecer a communicação dos seus exercitos da Hespanha com o de Portugal; e temos visto as diligencias, que a este fim praticou Junot, tanto pelo norte, como pelo sul, nas ordens, e expedições, de que encarregou Loison, Kellerman, Avril, e outros Generaes. As fronteiras de Tras-os-montes por Miranda, e Bragança erão as ameaçadas de mais perto: temia-se tambem a estrada de Almeida. [Sidenote: 1808 Julho.] [Sidenote: Julho 1808.] Em data de 21 de julho chegou ao Porto huma carta de Bragança, annunciando, que os Francezes já tinhão entrado em Çamora, o que era falso; mas repetindo-se os avisos, que indicavão proximo o perigo, e chegando officios do General Sepulveda, e de outros empregados, a pedir soccorros ao Governo, foi necessario attender a este objecto com transtorno consideravel do plano geral de operações, que se havia formado, e principiava a executar-se. Mandou-se hum official de cavalleria a Chaves, e Bragança, para se informar mais exactamente dos movimentos do inimigo, munido de poderes para dar aos Capitães móres, e mais commandantes militares as ordens, que as circunstancias exigissem. Alguns corpos, e parte da artilheria, que estavão destinados a marchar com o exercito para Lisboa, tiverão de tomar differente direcção; e o General Bacellar, que tinha ordens para se adiantar com o seu corpo de observação para a Beira baixa, as teve agora para se conservar nas margens do Douro, a fim de poder acudir ás fronteiras de Tras-os-montes, ou da Beira alta, segundo o caminho, que os Francezes tomassem. Desvaneceo-se o perigo, e dissiparão-se os sustos com os resultados da batalha de Baylen, de que agora vou fallar. CAPITULO XLIX. _Operações militares na Andaluzia. Os Francezes perdem a batalha de Baylen, e depõem as armas._ [Sidenote: 1808 Julho.] [Sidenote: 1808 Julho.] DESDE os fins de junho o corpo de exercitos do General Dupont, o mais completo, e aguerrido que os Francezes tinhão na Hespanha, achava-se em huma má posição. Os estragos de Cordova tinhão irritado os animos dos Andaluzes, e chamado para aquelles sitios as melhores tropas da Hespanha, commandadas por Generaes acreditados: D. Francisco Xavier Castaños era o General em chéfe; La Peña, o Marquez de Coupigny, e o illustre Reding, que tantos serviços fez á Hespanha, até que pereceo na Cataluña de huma ferida, que recebeo no campo da honra, e de quem não posso recordar-me sem mágoa, commandavão divisões. Possuidos de hum furor marcial, e animados de huma cólera implacavel contra os invasores, os Hespanhoes suspiravão pelo combate: as partidas fizerão o seu primeiro ensaio nas montanhas, interceptando aos inimigos os seus hospitaes volantes, os medicamentos, e muitos bagagens: a vanguarda do exercito principiou por desalojallos de varios pontos, e da mesma Cordova, arrojando-os para as partes de Jaen. A 15 se avistárão os dois exercitos em Andujar, e houve huma acção muito seria, em que a victoria se declarou pelos Hespanhoes, e desde este momento conheceo Dupont a sua fraqueza, e tratou unicamente de medidas defensivas, pedindo soccorros aos Generaes Savary, e Beliard, que occupavão a Castella nova, collocando as divisões dos Generaes Vedel, e Gobert, seus subalternos, de modo que a primeira vigiasse os caminhos para Jaen, e Ubeda, e a segunda o da Carolina, para conservar a sua communicação com Madrid. Os Hespanhoes pela sua parte fizerão as suas disposições, para envolver, e cortar os inimigos, de fórma que nenhum escapasse; e no dia 17 fizerão hum conselho militar, em que ficou decidido o ataque geral, concorrendo muito para isso as cartas interceptadas de Dupont para Savary, e Beliard, as quaes manifestárão a fraqueza, e o aperto, em que o mesmo Dupont se considerava, e as horrorosos privações, em que existia o seu exercito. A descripção da batalha está na relação circunstanciada que o General em chéfe deo ao seu Governo, depois de ter colligido os principaes factos, que lhe respeitão: he a seguinte. [Sidenote: 1808 Julho.] _Serenissimo señor. Las infinitas ocupaciones y movimientos, que sucesivamente se han ido multiplicando, en razon de las posiciones del exercito y plan de campaña, no me han permitido el que á estas horas se hayan recogido todos los detalles necesarios para informar á V. A. exactamente de las principales ocurrencias, que han podido merecer atencion en la brillante y rapida campaña, que por ahora debemos considerar como terminada por la completa victoria y demas consecuencias de la batalla de Baylen, no obstante podré informar a V. A. de las circunstancias mas interesantes, en razon de los informes, y relaciones que me han pasado los Generales de la primera y segunda division, D. Teodoro Reding, y Marques de Coupigni (cuyos originales acompaño), y por su contenido tendrá V. A. los precisos conocimientos para formar una idea de todo lo ocurrido, reservándome el remitir á V. A. en lo sucesivo las demas noticias que puedan convenir, y para lo que he dado las órdenes correspondientes á los gefes de las divisiones._ [Sidenote: 1808 Julho.] [Sidenote: 1808 Julho.] _En la madrugada del 16 del corriente tomó sus disposiciones el General Reding, para amenazar y entretener al enemigo en su posicion de Mengibar, mientras que con el grueso de las fuerzas de su mando verificaba el paso del rio á distancia de media legua para el vado que llaman del Rincon: esta operacion se hizo con la mayor felicidad: el enemigo fue desalojado de todas sus posiciones, perseguido hasta las enmediaciones de Bailen, y batido de todas partes: su General Gober fue morto, y despues de haber logrado el objecto, y obtenido quantas ventajas pudieran esperar-se, la division repasó el rio con el mayor orden se ocupó su antiga posicion hasta la tarde siguiente del 17, en que libres todas aquellas inmediaciones de enemigos, y en disposicion de poderse pasar el Guadalquivir por qualquier punto, volvió á ponerse en movimento, pasó el rio por los vados inmediatos al pueblo, tomó su pozicion en las alturas que tenia sobre su frente en donde al amenecer del dia 16 se reunió la division del Marques de Coupigni, y ambas se pusieron en marcha para Bailen con el objecto de atacar el enemigo._ [Sidenote: 1808 Julho.] [Sidenote: 1808 Julho.] [Sidenote: 1808 Julho.] _Verificada la llegada d’estas diviziones a Bailen, se dieron las órdenes necesarias, y se dispozicieron las colunas de ataque con direccion á Andujar, pero á las 3 de la mañana del 19, en que se estaba formando la tropa para emprender la marcha, el General Dupont, que con su exercito habia salido de Andujar al anochecer del dia 18, atacó a nuestro campo y empezó el fuego de su artilleria, con designio sin duda de surprehendernos. En el momento se dirigieron con celeridad todas las tropas de las divisiones, conducidas por sus gefes, á los puntos atacados, auxiliados de la artilleria, siendo tan vivos sus movimientos, que la primera compañia de artilleria á caballo, y aun de batalla, sufrió algunas cuchilladas de los enemigos, y tomando el orden de colunas, segun los puntos que ocupaban las tropas, marchó la division de la izquierda compuesta de guardias Valonas, Suizos de Reding, Bujalance Ciudad-Real, Truxillo, Cuenca, Zapadores, y regimiento de caballeria de España á atacar las alturas inmediatas y flancos del enemigo. Despues de una resistencia mui viva fue desalojado, perdiendo dos piezas de artilleria; y habiendose reunido los enemigos en un cuadro, fue atacado con mucho ardor por el regimiento Suizo de Reding, y por los Reales guardias Valonas que lo sostenian. El enemigo fue enteramente roto, y tuvo que retirarse sobre el puente, cuyo movimiento le obligó á retroceder de su centro hasta mas de media legua; y reunido con una reserva que venia de Andujar, volvió á atacar dos veces este punto, siendo rechazado la primera por nuestra infanteria y caballeria, logrando solamente en la segunda volvier á posesionarse del puente, de cuyo resultado seguió el General Dupont sus designios de ataque contra nuestro centro y derecha. Quando aclaró el dia nuestras tropas estaban ya en posesion de las alturas que antes ocupaban, y el enemigo emprehendió sus ataques por varios puntos de la linea, teniendo la ventaja de formar sus colunas á cubierto de nuestros fuegos, por la mejor posicion que ocupaban, protegido de su artilleria. En todos los puntos fue rechazado, y aun perseguido, apezar de lo vigurozo de sus ataques, que ripiteó sin mas interrupcion que la necesaria para replegarse y formar nuevas colunas sin haber podido ganar terreno alguno, aunque en varias ocasiones rompió nuestras lineas con una intrepidez propria de unas tropas acostumbradas á vencer, llegando hasta las nuestras baterias, que fueron servidas en este dia de un modo que asombró y aterró á los enemigos, pues no solo desmontaron al instante su artilleria, si nó que desbarataban quantas colunas se presentaban. A las 12 y media del dia, fatigado el enemigo, y desesperado por no haber podido conseguir ventaja alguma, emprendió el último ataque en que el General Dupont y demas Generales se pusieron á la cabeza de las colunas; y á pezar de la intrepidez y esfuerzos mas extraordinarios, los resultados fueron iguales á los de los ataques anteriores, y en este estado pidió el General Dupont entrar en capitulacion, y se suspiendieron las hostilidades en uno y otro exército, quedando en sus respectivas poziciones._ [Sidenote: 1808 Julho.] _El Mariscal de campo Marques de Coupigni, gefe de la segunda division, de comun acuerdo con el General Reding, gefe de la primera, acudió con sus fuerzas a los puntos mas vivos de los tres ataques generales, y con sus conocimientos y valerozo exemplo contribuyó á los felices resultados, de que va hecha mencion. El Brigadier D. Francisco Venegas Saavedra, gefe de la vanguardia, y situado al costado derecho, hizo en este dia servicios mui distinguidos, y contribuyó singularmiente á que el enemigo fuese batido en aquel punto._ (Seguem-se elogios a varios officiaes, e corpos de tropa que mais se distinguírão na acção, e prosegue o officio.) [Sidenote: 1808 Julho.] [Sidenote: 1808 Julho.] _Si la conducta de los Generales Reding y Coupigni es digna del mayor elogio, no lo es menos la del Teniente General D. Manuel de la Peña, que con su cuerpo de reserva, y la tercera division al mando del Mariscal de campo D. Félix Jones, se posesionó la mañana del 15 de los visos de Andujar, desde cuyas alturas incomodó tanto al enemigo, que le mató mucha gente, y desmontó dos piezas de artilleria, quando su perdida fue cortisima. La sorpresa que causo á Dupont la posicion de estas dos divisiones, y el rezelo de que le atacasen por el puente y vados inmediatos, sin duda le hizo concebir il proyecto de abandonar la ciudad, que verificó en la noche del 18 por el camino de Bailen: noticiozo de este movimiento al amanecer del 19 dió el General la Peña las órdenes convenientes, y se puso en marcha para pasar por Andujar, y perseguir al enemigo en su retirada: nombró su vanguardia, compuesta de los batallones de Campo-maior y Valencia, tiradores de Africa, 40 carabineros Reales, regimiento de caballeria del Principe y 4 piezas de artilleria volante, todo al mando del comandante del citado de Campo mayor D. Rafael Menacho, y el resto de la reserva lo dividió en dos secciones, la primera al mando del Mariscal de campo D. Narcizo de Pedro, compuesta del regimiento de dragones de Pavia, y de los de infanteria de granaderos provinciales, Africa y Zaragoza, y la segunda al del Marques de Jelo del regimiento de caballeria, dragones de Sagunto y escuadron de Carmona, y los de infanteria de Burgos, Cantabria, milicias de Lorca, una compañia de zapadores, y 150 Suizos de Reding, con 4 piezas de artilleria cada una: la marcha tan rapida de estas tropas hasta alcanzar las del enemigo, el cansacio, excesivo calor, necesidad y sed que resistieron, patentiza de un modo incontrastable sus deseos de batir-se; y si no tuvieron esta dicha, á lo menos aterraron con su aproximacion al enemigo; de modo que los 4 primeros cañonazos que tiró la vanguardia, y que indicaron á Reding y Coupigni la posicion de Peña, obligaron a que Dupont se decidiese a capitular, para lo qual mandó varios parlamentarios, de que resultó cesasen las hostilidades, y quedasen los dos exercitos en las poziciones que tenian._ [Sidenote: 1808 Julho.] _Durante esta suspension, el General Bedel com su division que estaba en Garroman, hizo un movimiento sobre Bailen, faltando á las leis da la guerra; y en consecuencia se reunió á la Peña el resto de la division de Jones, tomando ambas posiciones de ataque sobre la de Dupont é intimándole se rindiese á la discrecion, sin dar lugar á mas parlamentos; pero este hizo que Bedel volviese á ocupar el punto de donde habia salido, y se concertó la capitulacion._ _El General la Peña recomienda justamente el merito de los Generales, gefes, officiales, y soldados, que estuvieron baxo sus órdenes, y en quiens notó los deseos mas vehementes de venir á las manos con el enemigo, y con loque se hicieron acrudores al digno nombre de Españoles._ [Sidenote: 1808 Julho.] [Sidenote: 1808 Julho.] _Mientras que las quatro divisiones obraban con arreglo al plano de ataque que se habia prescrito, el Teniente-Coronel D. Juan de la Cruz en cumplimiento de mis enstrucciones se dirigió con las tropas de su mando al N. O. de Andujar, pasó el rio por el puente de Marmolejo, y se situó en las alturas de la Sementera sobre el flanco derecho del enemigo: en esta posicion colocó por su primera linea el batallon de atiradores de Cadix al mando de su Sargento-mayor D. Francisco O-Donell; sobre su derecha el de tiradores d’España á las del Coronel D. Juan de Villalba; y á su izquierda el de voluntarios de Carmona al mando de su commandante D. Josef Asmenich, dexando para cuerpo de reserva á las ordenes del Marques del Campohermozo las compañias de las costas de Granada y 150 tiradores de Montoro, que mandaba el Capitan D. Francisco Nuño. En este órden, y adelantándose los indultados de Málaga, y guerrillas de cada cuerpo á reconocer los olivares de las inmediaciones, fueron atacados por los enemigos en la mañana del 16, de modo que se vieron en la necesidad de replegar-se sobre los tiradores de Cadiz, que los sostuvieron bizarramente: sin embargo, como las fuerzas enemigas eran mui superiores, fue preciso se replegase tambien este batallon sobre los demas cuerpos, que ya le sostenian, y en cuya accion se distinguieron los tiradores de España y voluntarios do Carmona, que á porfia se empeñaron; de modo que el enemigo tuvo que abandonar el campo de batalla, dexando mas de 30 muertos, y llevandose una multitud de heridos. Por nuestra parte tuviemos 17 de los primeros, y 25 de los segundos: despues de esta gloriosa accion se transfirieron las tropas á las alturas de las Peñas del Moral, donde permanecieron hasta que advirtiendo abandonaba el enemigo á Andujar, la noche del 18 dirigiendose por el camino de Bailen, emprendieron su marcha á ocupar el pueblo de Baños para comunicarse con la division del General Reding, y combinar con ella sus movimientos; pero antes de verificarlo principiaron á oir el fuego, que por su viveza y constancia no dexó duda del encuentro de Dupont con nuestras divisiones; y desde este momento aceleró Cruz su marcha, de modo que sus avanzadas se situaron á dos tiros de fusil del enemigo, y le imposibilitaron se surtiese de agua del rio por aquella parte._ [Sidenote: 1808 Julho.] _Cruz elogia con justicia los gefes, oficiales, y tropas de su mando asi por su bizarria en los combates parciales que sostuvieron, como por su constancia, sufrimiento, y resignacion al excesivo calor, marchas forzadas por lo escabroso de la sierra, escasez de agua, y aun de pan._ _El dia 22 desfilaron delante de nuestro exército las tropas de la division de Dupont, en numero de 8242 hombres, rindiendo sus armas, aguilas, y banderas, quedando prisioneros de guerra. La division del General Bedel, en numero de 10$ hombres, entregó tambien sus armas, y artilleria el dia 23._ _La perdida de los enemigos asciende a 2$200 muertos en el campó de batalla, y 400 heridos: la nuestra ha sido de 243 muertos, entre ellos 10 oficiales, y 735 heridos, inclusos 24 oficiales._ _Los oficiales de mi estado mayor han llenado su deber en todos ramos, y contribuido á la organizacion del exército en el pie respetable en que se halla._ [Sidenote: 1808 Julho.] [Sidenote: 1808 Julho.] [Sidenote: 1808 Julho.] _Finalmente, Serenisimo Señor, seria interminable esta relacion si hubiese de expresar uno por uno todos los que se han hecho dignos del nombre Español; baste decir que el enemigo se batió con ventaja en todos sentidos: 1.^o por ser superior en fuerza pues constaba de 12$ hombres; y aunque las tropas de Reding y Coupigni, unicas que entraron en funcion, componian proximamente un total de 14$, se desmembró de esta fuerza un cuerpo considerable, que debió observar los movimientos del General Bedel, que estaba sobre Guarroman: 2.^o por haber tomado posicion de ataque quando nuestras divisiones de Bailen entraban en el orden de marcha: 3.^o por ser mas numerosa su artilleria: 4.^o por las incalculables ventajas, que lleva consigo un exército que ataca sobre el que es atacado, y casi sorprehendido en un movimiento de marcha: 5.^o por su completa organizacion con el competente numero de Generales, gefes, subalternos: y todos los demas auxílios y requisitos de sus trenes, bien acondicionados, y dispuestos á todo movimiento de colunas y maniobras; y 6.^o en fin por la calidade de sus tropas bien disciplinadas, aguerridas, y acostumbradas a vencer. Este exército pues tan superior al nuestro de Bailen no solo ha sido batido y derrotado, sino que ha sido precisado á rendir las armas, experimentando la ultima humillacion militar, que el mismo ha hecho sufrir á todas las demas naciones de Europa; y las decantadas aguilas imperiales, que las avasallaron, han venido á ser trofeo del venturoso exército Español de Andalucía en los campos de Bailen. Nuestras tropas en lucha tan desigual se han hecho superiores á si mismas con una constancia heroica, pues arrostrando peligros, fatigas, hambre y calores mantuvieron tal firmeza contra los ataques del enemigo, que cada soldado parecia haver echado profundas raices en el puesto que defendia, y demostraron tanta velocidad, y ardimiento en las cargas sobre los Francezes, que estos mismos no han hallado exemplo de comparacion en ninguno de los muchos exércitos con quienes han medido sus fuerzas. El acreditado Real cuerpo de artilleria, ademas de participar de todos los afanes y triunfos referidos, ha inmortalizado su gloria con admiracion de ambos exércitos, pudiendose asegurar, que sus oportunos, rápidos movimentos, y el acierto de su fuego (que desmontó 14 piezas al enemigo) señalaron desde luego, ó por mejor decir fixaron desde el principio la victoria._ [Sidenote: 1808 Julho.] _Tal es en compendio lo acaecido en la memorable batalla de Bailen. V. A. honró mi córto merito, confiándome el mando de unas tropas por la mayor parte bisoñas; pero eran Españoles, y ya son heroes: nada me dexaron que hacer ni que desear en la batalla, y ahora me veo confuso, no hallando expresiones que basten para decir quanto merecen de la patria. Quartel-general de Andujar 27 de julio de 1808--Serenisimo Señor--Xavier de Castaños._ CAPITULO L. _Consequencias da batalha de Bailen. Os exercitos patrioticos perseguem os Francezes; estes fogem, e vão acantonar se junto ás fronteiras da França. Estabelecimento da junta central._ [Sidenote: 1808 Julho.] O Conde de Tilli em hum officio, que dirigio á junta suprema de Sevilha, datado de Andujar a 21, principiou dizendo, que no dia precedente a Hespanha, ou fallando mais propriamente, o exercito, tinha ganhado a mais completa victoria, que a nação tinha visto por muitos seculos; que o seu resultado era huma cópia exacta da acção de Pavia. O Conde de Tilli pensou muito bem, e eu accrescento, que a acção de Bailen teve consequencias muito mais importantes que a de Pavia; nada menos que a salvação das duas Monarquias Hespanhola, e Portugueza. [Sidenote: 1808 Julho.] Não só forão comprehendidas na capitulação as tropas Francezas, que entrárão em combate, mas igualmente todas as outras, que tinhão passado a Serra Morena, ficando por este modo diminuido o exercito Francez da Hespanha em mais de 20$ homens das suas melhores tropas,[20] e livre de inimigos todo o paiz desde os visos da serra até o mar. Os reinos de Valencia, e Murcia já o estavão pelo valor, com que tinhão repellido o corpo d’exercito do Marechal Moncey, e a existencia dos Francezes ficou sendo precaria em todos os pontos da peninsula. [Sidenote: 1808 Julho.] Sómente a 28 chegou aos Francezes de Madrid a certeza de huma tão grande perda, e com ella ficárão tão espavoridos, que não tratárão mais, senão de enfardarem o fato para abalarem; e com fama precipitação, que nem tempo tiverão para commeterem aquelles attentados, que entrão hoje na essencia dos seus exercitos. Principiárão o roubo do erario, mas nem esse pudérão concluir, todos entregues ao cuidado de se salvarem, e ao seu Rei intruso, que com effeito por esta vez chegou a gozar dos seus 10 dias de reinado, se o contamos desde a sua entrada em Madrid, e 5 sómente se desde a sua proclamação solemne. O Rei, a sua corte, o seu exercito, os seus sequazes, e hum grande número de familias Francezas, que não quizerão ficar expostas ao resentimento do povo, abandonárão a capital, levando sobre si as imprecações dos seus habitantes. Entre os mais Hespanhoes infiéis, que seguírão a nova corte, contão-se com dor os ministros Dom Mariano Luiz de Urquijo, D. Miguel José de Azanza, D. Gonçalo O-Farril, D. José Mazarredo, e o Conde de Cabarrus, que tão fiéis tem permanecido a causa dos usurpadores, e tão fataes serviços lhes tem prestado contra a patria. Do Retiro, em outro tempo habitação dos prazeres tão embellecida pelas artes, os Francezes tinhão feito huma fortaleza; e correndo o povo a este sitio, conduzido pela curiosidade, vio que elles alli tinhão deixado armas, artilheria, officinas, munições, porém tudo destruido: as peças estavão encravadas, o armamento amassado, e vião-se ainda nadar muito barris de polvora sobre hum tanque immenso, que fazia hum dos principaes ornamentos dos jardins. [Sidenote: Agost.] [Sidenote: 1808 Agost.] Entretanto marchavão triunfantes o exercito victorioso para Madrid, o General Castaños, e o Conde de Tilli para Sevilha, onde entrárão no 1.^o de agosto. Huma deputação da junta suprema os esperava, e os conduzio á Cathedral, para renderem as graças ao Omnipotente, e depois á mesma junta, onde o vencedor de Bailen recebeo huma corôa triunfal, que illustres damas lhe tinhão preparado com as suas mãos delicadas. Tinha elle feito voto de offerecer a sua victoria a S. Fernando, o conquistador de huma parte da monarquia Hespanhola; a 4 o foi cumprir na capella propria do Santo, e depositou esta mesma corôa ante o seu corpo, que neste dia estava descoberto. Em roda se pendurárão algumas das armaduras dos couraceiros Francezes, as bandeiras, e as aguias legionarias, que não tinhão sido despedaçadas no calor da acção. [Sidenote: 1808 Set.] De Sevilha partio Castaños a incorporar-se no exercito, que entrou em Madrid por baixo de hum arco triunfal, entre os mais assignalados testemunhos do enthusiasmo, e da alegria universal. O de Murcia, e Valencia, composto de 8$ homens, commandados por D. Pedro Gonzales Llamas, entrou tambem naquella capital, e daqui sahírão hum, e outro no alcance dos Francezes, que seguião o caminho das fronteiras. Bessieres retrocedeo para Burgos, e não podendo aqui permanecer, porque Blake se adiantava pela nossa esquerda com o seu exercito, reparado, e augmentado depois da acção de Rio Secco, forão todos os Francezes reunir-se para as margens do Ebro. Quizerão sustentar-se em Lagroño, mas sahio-lhes pela nossa direita Palafox com o exercito de Aragão, e ameaçados em frente, e pelos flancos, tiverão de ir acantonar-se junto ás fronteiras da França, perdendo até Bilbáo por algum tempo.[21] [Sidenote: 1808 Set.] Não bastava arrojallos para hum canto da Hespanha, era necessario expulsallos de todo, e vedar-lhes a entrada; era necessario preservar a Monarquia da sua dissolução, estreitar os vinculos sociaes, e unir as forças do grande povo Hespanhol, sogeitando-o a hum só Governo. Quanto á primeira parte, não o pudérão os Hespanhoes conseguir; e os Francezes, ficando senhores dos importantissimos pontos de S. Sebastião na Biscaya, Pamplona na Navarra, Barcellona, e Figueiras na Cataluña, guardárão as chaves do territorio Hespanhol pelo norte, e pelo sul para a nova irrupção, que depois verificárão. Quanto á segunda, tirárão-se maravilhosamente do negocia, por unanime acordo das juntas provinciaes, dos Tribunaes, e grandes Authoridades do reino, estabelecendo a junta central. [Sidenote: 1808 Set.] Este corpo, formado dos deputados das juntas provinciaes, debaixo da prezidencia do Conde de Florida-blanca, e tendo por Secretario a Dom Martin de Guaray, dois homens illustres por seus talentos, e patriotismo, a que a Hespanha deve grandes serviços, congregou-se pela primeira vez a 25 de setembro no palacio de Aranjuez. Mais de dois terços dos deputados se achavão presentes, os mais não tinhão ainda chegado: ajuntárão-se pelas 9 horas da manhã na Sacristia da Capella Real, ouvírão Missa, em que officiou o Bispo de Laodicea (era hum dos deputados) Coadejutor do Arcebispo de Sevilha, prestárão o juramento dos santos evangelhos perante a imagem do Senhor Crucificado, e começárão desde logo a exercer as funções do Governo supremo, em nome de Fernando VII. [Sidenote: 1808 Set.] Era a formula do juramento: Que serião leaes ao seu Soberano Fernando VII., e defenderião seus direitos, e soberania; que promoverião a conservação dos direitos, privilegios, leis, e usos da nação, principalmente os que dissessem respeito á successão da Familia reinante; que promoverião todos os objectos conducentes ao bem geral, e felicidade do reino, ou ao melhoramento dos seus costumes; que em todas as cousas, que fossem de segredo, o guardarião, protegendo as leis contra todo o mal, e perseguindo os inimigos dellas, até com risco das proprias vidas. _Se assim o fizerdes_, concluia o Prelado, que aceitava os juramentos, _Deos vos ajude; e senão, elle vos castigue, como a quem invoca o seu santo nome em vão. Amen._ Nós nos temos admirado de que a nação Portugueza, composta apenas de tres milhões de individuos na Europa, se tenha tão felizmente preservado dos horrores da anarquia no meio das suas convulsões politicas, de que em toda ella se não encontrasse hum perverso, que ousasse levantar huma voz sediciosa contra o soberano legitimo, ou contra a fórma do Governo estabelecida, não obstante a situação perigosa a que os successos a tinhão conduzido; e não nos admiraremos de que se unissem tão perfeitamente as vontades de 10, ou 11 milhões de habitantes, que povoão a Hespanha?[22] [Sidenote: 1808 Set.] [Sidenote: 1808 Set.] Havia na verdade huma grande differença nas circunstancias. Os Francezes não tinhão invadido todas as provincias da Hespanha, não desarmárão a nação, não se apoderárão de todos os seus recursos, enfraquecêrão mas não anniquilárão o exercito, não pudérão em fim precipitar o corpo immenso da Monarquia Hespanhola naquelle gráo de absoluta desorganização, a que reduzírão Portugal; e por isso quando os Hespanhoes se levantárão nas provincias livres, d’onde se communicou o impulso ás occupadas, achárão mais recursos, tiverão armas, tropas, Generaes, que lhes servião de centro, e de apoio, e lhes davão maiores vantagens, não só para combaterem os inimigos, mas tambem para manterem a ordem na administração interna, tanto civil, como militar. Com tudo sempre foi maravilhoso não apparecerem choques mais violentos (alguns houverão, mas todos serenárão com facilidade) entre as differentes juntas, que todas se tinhão pacificamente subordinado á Central, e que em fim fosse esta plena, e perfeitamente reconhecida, e obedecida, não só na Hespanha mas em toda a extensão dos seus vastos dominios. A Providencia quer salvar a peninsula, mas sem recorrermos ás causas sobrenaturaes nós as achamos sufficientes desta especie de prodigio na firmeza de caracter da nação Hespanhola, no seu amor, e fidelidade á casa reinante, a pezar das nodoas lançadas sobre o Governo de Carlos IV. pela funesta influencia de Godoy, na sua adhesão aos costumes, ás leis, e á religião do seu paiz, e sobre tudo na conducta barbara, e impolitica dos invasores. [Sidenote: 1808 Set.] [Sidenote: 1808 Set.] As suas violencias, os seus attentados, abrangendo a todas as classes de pessoas, suscitárão-lhes outros tantos inimigos, quantos os habitantes da Hespanha, com a unica excepção do pequeno número de individuos, que por maldade, por loucura, ou por interesse adoptárão o seu partido: os meninos podem apenas balbuciar alguns sons mal articulados, e já as mãis os ensinão a repetir imprecações contra elles. Atacando os principios da religião, e a immunidade individual, e real das pessoas, e bens da igreja, profanando, e invadindo os templos, e as casas religiosas, elles revoltárão muito especialmente contra si esta ordem tão extensa, e poderosa, e que tanto influe nos póvos, o corpo ecclesiastico, e religioso. O ultimo censo da povoação de Hespanha nos deo 91$258 individuos do clero secular, comprehendendo os addidos ao serviço da igreja, 61$327 religiosos regulares, e 31$400 religiosas: são perto de 200$ pessoas espalhadas pela extensão da monarquia, prégando huma nova cruzada contra os Francezes. Os seus crimes pois lhes attrahírão o odio universal da nação: as perfidias do seu Imperador, e principalmente as que praticou contra Fernando VII., o idolo dos Hespanhoes, e contra toda a Real Familia, produzírão este volcão, estas chammas, que só devem apagar-se com sangue Francez. _Fim do tomo IV._ NOTAS DE RODAPÉ: [Footnote 20: A Arithmetica dos Historiadores he commummente, como a dos Politicos, muito defeituosa, e por isso eu me abstenho de semelhantes calculos, quando não tenho bons principios, em que me funde: para avaliar a perda dos Francezes em Bailen, fundo-me no proprio officio de Castanhos, que computa em 8$242 os da divisão de Dupont que depuzerão as armas, em 10$ os da divisão de Bedel, que com 2$200 Mortos fazem 20$200 homens.] [Footnote 21: Não posso dispensar me de referir hum facto, que os periodicos publicárão, e servio, de divertimento á Europa. Em Lagroño o Rei José subio a hum pulpito, e fez hum sermão ao povo em Italiano, (não tendo tido tempo de aprender o Hespanhol) que o Patriarca das Indias depois traduzio no mesmo pulpito. Tal era o desarranjo destas cabeças!] [Footnote 22: Graças aos infatigaveis cuidados do Governo Hespanhol, de que as ordens sobre este objecto tem sido mais felizmente executadas do que em Portugal: temos bases sobre que fundemos hum calculo aproximativo da povoação d’Hespanha, que se não afastará muito da verdade. O senso de 1807 deo-nos hum total de 10:268$150 habitantes, o de 1797 publicado em 1801 nos dá 10:541$221, tendo havido hum augmento de 273$071 individuos em 10 annos: calculando sobre hum augmento progressivo nos seguintes, com a mesma proporção, acharemos perto de onze milhões no de 1808. Desde esto tempo a povoação d’Hespanha deve ter soffrido horrorosamente.] INDICE dos CAPITULOS DO IV. TOMO. CAPITULO XXVIII. _A revolução se estende pela provincia da Extremadura. Levantamento de Thomar, e outros successos analogos._ Pag. 3 CAPITULO XXIX. _Successos da expedição dos Academicos de Coimbra até Leiria. Restaura-se esta ultima cidade, e se procurão os meios de a pôr em estado de defeza. Levantamento de Nazareth, e povoações visinhas, e consequencias que teve._ 14 CAPITULO XXX. _O General Margaron sahe de Lisboa, commandando huma divisão, para se oppôr á insurreição das provincias do norte. Ataque, e devastação de Leiria._ 31 CAPITULO XXXI. _Imposturas, e maquinações por occasião dos successos de Leiria, e de Thomar. Junot serve-se da authoridade dos prelados, e superiores ecclesiasticos, tanto seculares como regulares, para conter os póvos na obediencia ao governo intruso, e faz excommungar os que se levantassem. Margaron em Thomar._ 46 CAPITULO XXXII. _Loison parte de Almeida com a sua divisão. Hostilidades que commette na Guarda, e Alpedrinha. Levantamento da Covilhã, e outros successos daquella expedição._ 65 CAPITULO XXXIII. _Nova expedição dos Francezes contra as provincias do norte, e destruição de Nazareth, e mais povoações adjacentes. As tropas Francezas retrocedem de Leiria, e tomão differentes destinos. Notavel assassinato em Lisboa._ 81 CAPITULO XXXIV. _Continuão-se os movimentos do Além-Téjo. Successos de Béja, e de Campo-maior, e operações das suas juntas._ 92 CAPITULO XXXV. _Lobo, e Moretti proseguem nas suas operações. Levantamento de Borba, Villa-viçosa, &c. Junta suprema, e grandes projectos em Estremoz._ 105 CAPITULO XXXVI. _O General Leite se põe á frente dos negocios públicos, e o assento do Governo se transfere para Evora. Estabelecimentos, que se fizerão nesta cidade: providencias, e disposições, para se receber o inimigo._ 118 CAPITULO XXXVII. _Ataque d’Evora, saque, mortandade horrorosa, e outras consequencias deste successo desgraçado. Mudanças de Governo, e novas juntas: assassinio do Corregedor._ 132 CAPITULO XXXVIII. _Continuão-se os successos de Estremoz, e de Elvas. Entrada, e comportamento de Loison nestas praças; sua retirada, e outros acontecimentos do norte do Além-Téjo._ 145 CAPITULO XXXIX. _Operações do General Leite, e do Conde de Castro marim, depois da desgraça de Evora. As tropas do Algarve sobem para o Além-Téjo; seus movimentos, e das que já tinhão sobido anteriormente._ 166 CAPITULO XL. _Reflexões sobre as difficuldades de se organizar o exercito: trabalhos sobre este objecto, e providencias, que se derão nas provincias do norte, para se conseguirem os subsidios._ 179 CAPITULO XLI. _Primeiras communicações entre o norte, e o sul do reino. A sua falta, e a de harmonia entre as juntas, e funccionarios de cada huma das provincias: novas causas, que retardão os progressos da restauração._ 197 CAPITULO XLII. _Commoções populares na cidade do Porto. Proclamações, e outros procedimentos por occasião das mesmas. Expedições em consequencia de hum rebate falso: ajuntamentos, prizões, e outros resultados._ 209 CAPITULO XLIII. _Movimentos sediciosos contra o General Bernardim. Prizão, e processo de Candido, e de Mariz: exito que tiverão estes successos._ 225 CAPITULO XLIV. _Negocios da provincia de Tras-os-montes. Tumultos em Bragança, e em Villa-nova de Foz-Coa, e procedimentos, a que derão causa. Considerações sobre os Judeos._ 238 CAPITULO XLV. _Acclamação em Viseu. Tumultos, que se lhe seguírão, e procedimentos sobre elles._ 263 CAPITULO XLVI. _Acclamação em Viana: tumultos nos Arcos de Valdevez, suas consequencias, e como se fizerão cessar._ 279 CAPITULO XLVII. _Attentados contra o Corregedor de Guimarães. Reflexões sobre a situação perigosa da monarquia nesta época, comportamento dos póvos, e Governo das juntas._ 294 CAPITULO XLVIII. _Conclue-se a nova constituição d’Hespanha em Bayona. José Bonaparte em Madrid: batalha de Rio Secco, e effeitos que produzio._ 311 CAPITULO XLIX. _Operações militares na Andaluzia. Os Francezes perdem a batalha de Baylen, e depõem as armas._ 324 CAPITULO L. _Consequencias da batalha de Baylen. Os exercitos patrioticos perseguem os Francezes; estes fogem, e vão acantonar-se junto ás fronteiras da França. Estabelecimento da junta central._ 343 =NOTAS DE TRANSCRIÇÃO= Os erros tipográficos evidentes foram corrigidos. A pontuação, a hifenização e a ortografia foram tornadas consistentes quando uma preferencia predominante foi encontrada no texto original; caso contrário, não foram alterados. Nesta versão, o carácter “caret” (acento circumflexo) foi utilizado com ou sem chaves para representar letras sobrescritas. O símbolo adotado para o mil neste texto é o cifrão. Como algumas notas de rodapé são muito extensas (páginas 55, 253 e 294), as notas laterais correspondentes ao mesmo período foram resumidas. A nova arte da capa original incluída neste e-book está em domínio público. *** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK HISTORIA GERAL DA INVASÃO DOS FRANCEZES EM PORTUGAL E DA RESTAURAÇÃO DESTE REINO (VOLUME IV) *** Updated editions will replace the previous one—the old editions will be renamed. Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright law means that no one owns a United States copyright in these works, so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the United States without permission and without paying copyright royalties. Special rules, set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to copying and distributing Project Gutenberg™ electronic works to protect the PROJECT GUTENBERG™ concept and trademark. Project Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you charge for an eBook, except by following the terms of the trademark license, including paying royalties for use of the Project Gutenberg trademark. 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