The Project Gutenberg eBook of Historia geral da invasão dos francezes em Portugal e da restauração deste reino (Volume I) This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included with this eBook or online at www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you will have to check the laws of the country where you are located before using this eBook. Title: Historia geral da invasão dos francezes em Portugal e da restauração deste reino (Volume I) Author: José Acúrsio das Neves Release date: September 13, 2026 [eBook #79564] Language: Portuguese Original publication: Lisboa: Officina de Simão Thaddeo Ferreira, 1810 Other information and formats: www.gutenberg.org/ebooks/79564 Credits: Rita Farinha. Laura Natal and the Online Distributed Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was produced from images generously made available by National Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) *** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK HISTORIA GERAL DA INVASÃO DOS FRANCEZES EM PORTUGAL E DA RESTAURAÇÃO DESTE REINO (VOLUME I) *** [Illustration] HISTORIA GERAL DA _INVASÃO DOS FRANCEZES_ EM PORTUGAL, E DA RESTAURAÇÃO DESTE REINO, ESCRITA POR JOSÉ ACCURSIO DAS NEVES. TOMO I. [Illustration] LISBOA. M. DCCCX. Na Officina de Simão Thaddeo Ferreira. _Com licença da Meza do Desembargo do Paço._ _INTRODUCÇÃO._ Houverão escrevedores de papel nos ultimos tempos da França degenerada, que ousárão affirmar no excesso da sua fatuidade, que o que se chamava systema do equilibrio da Europa, não fôra já mais, senão o da preponderancia daquella potencia, pela superioridade, que sempre tivera sobre todas as outras potencias Europeas. Acaso ignoravão elles, que forão necessarias as dissensões da rosa branca, e da rosa vermelha, para os Francezes sacudirem o jugo dos Inglezes? Que a não serem as discordias, e a guerra civil da Alemanha, Carlos V. teria feito da França huma das provincias do seu Imperio? Que a infanteria Hespanhola esteve em posse de bater os exercitos Francezes, desde os tempos famosos de Gonçalo de Cordova, até ás ultimas campanhas do Conde de Fuentes? A França, he verdade, foi olhada por longos tempos como huma das principaes potencias, que figuravão no systema politico da Europa. Henrique VIII. de Inglaterra se tinha feito pintar com huma balança nas mãos, de que a França, e a Austria fazião os dous pratos, e com esta lenda: _Cui adhæreo præest_; mas tambem he certo, que a primeira nunca chegou a gozar as honras de preponderante, senão depois que Luiz XIV. as obteve, por meio do sensivel abatimento da segunda. A politica do Cardeal de Richelieu principiou esta grande obra, o valor, e os talentos de Turenne, Condé, e hum grande número de Generaes illustres a consummárão; mas não foi de longa duração. Colligárão-se a maior parte dos Estados Europeos contra os ambiciosos projectos de Luiz XIV.; e posto que forão inuteis, e desastrosas as primeiras confederações, por fim, não só conseguírão abater a grandeza deste Monarca vaidoso, mas estiverão a pontos de o precipitarem do seu proprio throno. Succedeo-lhe seu bisneto Luiz XV., ainda menino, e a desordem, em que se achavão as finanças, as chagas profundas, que as longas sanguinosas guerras tinhão imprimido no Estado, juntas ás perturbações da regencia, e a todos os males, que costumão acompanhar as minoridades dos Principes, concorrêrão á porfia, para conservarem a França em hum estado de perfeita languidez. Luiz XV., tornado maior, soube na verdade aproveitar-se dos recursos naturaes da Monarquia, para lhe restituir hum pouco de vigor; mas era hum Soberano moderado, e justo, que bem longe de aspirar a conquistas, não tirava a espada, senão a seu pezar, e não cessava de propôr a paz no meio das suas victorias. Depois da batalha de Fontenoy, vendo que os montes de cadaveres, os gritos dos moribundos, e o sangue, que tingia hum largo campo, arrancavão lagrimas ao Delfim, voltou-se para este, e disse--_Aprendei, meu filho, quanto a victoria he cara, e dolorosa._--_Escrevei á Hollanda_, dizia elle a hum dos seus Ministros, _que eu não peço senão a tranquillidade da Europa: não he a minha condição, he a dos póvos, que eu quero fazer melhor_. Esta moderação, que talvez o embaraçou de chegar áquelle gráo de esplendor, que podia esperar, se se conduzisse segundo as vistas do reinado precedente, devia produzir para a França vantagens incomparavelmente maiores, a tranquillidade, e a opulencia, mas as despendiosas guerras, que teve de sustentar na Europa, os revezes experimentados pela sua bandeira, e pelas suas colonias em todos os mares, e as importunidades de cortezãos ávidos, que abusárão da fraqueza dos seus ultimos annos, subvertêrão de novo as finanças, e fizerão com que por sua morte transmittisse o Estado a seu neto Luiz XVI. no mesmo gráo de abatimento, em que o herdára de seu bisavô. A marinha se achava anniquilada, o commercio sem vigor, 78 milhões tinhão sido consumidos por anticipação sobre as rendas públicas, o excedente das despezas montava a 22 milhões, e os crédores desesperavão do pagamento dos seus capitaes; e poderia então Luiz XVI. pensar em projectos de engrandecimento? Estava reservado aos assassinos, que o conduzirão ao cadafalso, o sujeitarem o continente ás suas leis, o fundarem hum Imperio monstruoso de huma especie nova, que firmando-se sobre as bases da liberdade, e igualdade, rematou no despotismo; que se sustenta pelos mesmos principios, por onde os outros se dissolvem, a crueza, a irreligião, e a immoralidade; que com todas as apparencias de libertador tomou todos os caractéres de usurpador. Melhorar, e reformar todos os ramos de administração pública, e principalmente as finanças, foi o objecto, a que Luiz XVI. dirigio todos os seus cuidados, desde que subio ao throno; e principiando por huma grande economia na sua casa, por supprimir as pensões abusivas, diminuir as pouco merecidas, por meio destas, e de outras admiraveis providencias fez pagar 24 milhões da divida exigivel, 50 da divida constituida, e 28 das anticipações; o crédito público principiou a restaurar-se, e raiárão dias de prosperidade sobre o horizonte da Monarquia Franceza. Luiz XVI. deo talvez hum passo errado em se intrometter nas contestações da Inglaterra com a America; mas foi arrastado pelas opiniões do seu conselho, e implicado a seu pezar em huma guerra, que da America se transportou bem depressa á Europa, e á qual se attribuem as desgraças do Rei, e da nação. Parece, que o Imperador de Alemanha José II. o tinha previsto, quando respondeo a Luiz XVI., que o consultava sobre este negocio--_Quanto a mim o meu officio he ser Realista_.-- Sem o apoio da França os Americanos terião provavelmente succumbido; com elle o espirito républicano tomou raizes, e penetrando a travéz de immensos mares, veio propagar-se no antigo mundo, e principalmente na fogosa, e volatil nação Franceza; mas que espantosa differença nos resultados! Os Americanos, mais sábios, do que altivos, fundárão huma constituição admiravel, reconhecida bem depressa por toda a terra, que tem feito a felicidade daquelles póvos; os Francezes com a presumpção de filosofos profundos, e legisladores consummados, destruindo huma Monarquia, que a pezar dos abusos, que são inseparaveis de todas as instituições humanas, os tinha conservado por muitos seculos naquelle gráo de felicidade, a que podião aspirar, nunca souberão substituir-lhe hum governo regular; e errando longos tempos por entre os escolhos do despotismo, e da anarquia, não tem feito senão opprimir, e destruir o mundo. Aquella desastrosa guerra arruinou de novo as finanças, exigio emprestimos, e ameaçou o crédito público; mas a dissipação, o _deficit_, e o desalento geral tinhão sido incomparavelmente maiores nos ultimos tempos de Luiz XIV., e Luiz XV., sem produzirem os horrores da revolução. Estes Monarcas, acabando de endividar o Estado, morrêrão socegadamente nos seus leitos, e Luiz XVI., quando se applicava todo a remediar a desordem produzida pela guerra, foi desenthronisado, como dissipador, e conduzido a hum cadafalso. Como os tempos erão mudados! A mesma mão, que o derribou do throno, foi a que abalou todos os governos: foi a revolução, e não o poder da França, a que destruio o systema politico da Europa. He nas lavas deste volcão que a geração presente deve procurar a origem das suas calamidades: he o resultado da grande luta, em que se achão empenhados os Soberanos, e os povos, o que deve fixar o destino das gerações futuras; e he por tanto nesta época, que as nações Europeas devem começar a sua Historia moderna. O quadro horroroso da revolução Franceza tem sido o objecto de muito bons pinceis: huns tem seguido como historiadores a sua marcha sanguinolenta, outros como filosofos se tem demorado em fazer pinturas energicas das suas atrocidades. O meu plano he differente: eu me limitarei a tocar aquelles factos, que tem huma relação immediata com a invasão dos Francezes em Portugal. Quereria seguir passo a passo todas as relações politicas, e militares, que tem havido desde então entre a corte de Portugal, e o governo Francez; mas ainda se não levantou senão hum canto do véo, que tem coberto huma grande parte destes successos importantes. O tempo, que tudo revela, descobrirá em fim muitas verdades, que o público ainda ignora; e mesmo sobre alguns factos já conhecidos alargará os raios da estreita esféra, em que me julgo envolvido. Procurarei seguir a marcha dos invasores, desde que puzerão os pés no territorio Portuguez; os seus hostís procedimentos para com hum Soberano, e huma nação, que os não provocárão; a partida do Principe Regente, e de toda a Real Familia para o Brasil; o modo, e os meios, de que se servírão, para occuparem, e domarem o reino; os principaes actos de oppressão, e espoliação, que praticárão em Portugal; fazendo especial menção dos insultos commettidos contra a religião, e seus ministros; o reciproco comportamento das tropas Francezas, e Hespanholas, acompanhando os successos com aquellas reflexões, que não são improprias do officio de Historiador. Muitas vezes eu descerei a factos particulares, que talvez pareceráõ minuciosos, para entrarem na Historia geral; mas que sem dúvida tem lugar no meu plano, porque me proponho a dar a conhecer o caracter da invasão, o espirito, e os costumes dos invasores. Passarei depois a referir os principaes acontecimentos da restauração do reino, consequencia immediata dos successos da Hespanha, e da fermentação, em que se achava o povo Portuguez, pela sua natural adhesão ao antigo governo, e á Familia Reinante, pela lembrança da sua felicidade preterita, e pelo sentimento das suas desgraças presentes. A luta dura ainda, e não me he licito prever, até onde me conduzirá o fio dos successos, e qual será a extensão da minha obra. Se eu quizesse fazer especial menção de todos os illustres Portuguezes, que fizerão serviços importantes á patria nesta gloriosa empreza, a minha Historia ficaria sendo huma collecção de nomes; com tudo eu procurarei tirar do esquecimento os mais distinctos d’entre elles: os libertadores da patria são dignos de recommendar-se ao reconhecimento do Soberano, e da nação, e seus nomes de serem transmittidos á posteridade com a gloria, que lhes he devida. Não farei differença de grandes a pequenos: pelas acções he que os homens se illustrão: o heroismo, e a virtude fazem a verdadeira grandeza. As leis da Historia, que por huma parte prohibem o silencio sobre os factos mais interessantes, e por outra exigem do historiador a verdade, e a imparcialidade, como o primeiro, e o mais essencial dos seus deveres, me obrigaráõ, bem a meu pezar, a referir alguns successos, ou circumstancias, que não poderáõ agradar a alguns dos meus compatriotas. Não o praticarei já mais, sem huma circumspecção tanto maior, e hum exame tanto mais apurado, quanto os factos forem mais importantes; não podendo porém jactar-me de ter conseguido, o que he impossivel, huma evidencia mathematica em objectos, que não tem outro fundamento, que a fé humana, peço a todos aquelles, que se julgarem offendidos pela minha pena, que em lugar de me accusarem de impostor, ou parcial, queirão fazer-me conhecer os erros, em que eu possa ter cahido; e pela minha docilidade em emendal-los conheceráõ elles, e conhecerá o mundo, que não sou dirigido por outros motivos, nem animado por outros desejos, que os de conservar, e transmittir á posteridade memorias fiéis, e circumstanciadas do que se passou em Portugal nesta época memoravel da nossa Historia. Publíco já o I. tomo, e irei successivamente publicando os mais, á proporção que os for escrevendo, para poder emendar nos subsequentes tudo o que se me mostrar, que he digno de correcção nos precedentes; e rogo aos meus compatriotas, que me assistão para este fim com os seus conhecimentos. Julgo não ter offendido nem o mais levemente ao meu Augusto, e Amado Soberano, aos seus respeitaveis Ministros, e ás illustres Personagens, que no seu Real Nome compõe hoje o governo de Portugal; mas se eu me engano, principio por supplicar-lhes o perdão desta culpa involuntaria, e ouso pedir-lhes com confiança, queirão auxiliar-me com os soccorros possiveis, para que possa deixar tão completo, como exacto, e verdadeiro este deposito importante, que deve ser tão util, como agradavel aos nossos vindouros. SENHOR, rejeitando com desprezo as arrogantes escandalosas proposições do usurpador, e fazendo abortar os seus projectos, vós vos tendes conduzido com o heroismo, e dignidade, que competem á Magestade da VOSSA COROA. Consultando unicamente o bem do VOSSO povo, vos mostrastes o PAI dos vossos vassallos. As minhas idéas propendem para esta verdade como para o seu centro; permitti pois, que eu escreva livremente os meus pensamentos, que elles não encontraráõ a GLORIA do VOSSO NOME, e podem interessar á nação, e á posteridade. HISTORIA DA _INVASÃO DOS FRANCEZES._ EM PORTUGAL. CAPITULO I. _As maximas dos revolucionarios da França provocão a todo o mundo. Principia a guerra entre a França, e grande parte das nações da Europa, e nella entra Portugal sómente como potencia auxiliar. Hostilidades da França contra Portugal; situação reciproca das duas nações, e serviços importantes feitos por D. Francisco de Sousa Coutinho na Guiana._ [Sidenote: ANNO 1789] [Sidenote: 1791] A Revolução Franceza ainda se achava no berço, e já ameaçava a tranquillidade de todos os póvos, e a existencia de todos os governos, pelas maximas de subversão geral, que annunciavão as declamações violentas, e o espirito de intolerancia, a que os revolucionarios se entregavão, sem medida, nem rebuço. Não tratavão aos Reis, senão de tyrannos, e aos póvos de escravos; e querendo obrigar a estes a que recebessem por força o barrete da liberdade, se propuzerão desde logo a levar a todo o mundo as suas reformas Filosoficas, isto he, a envolverem todo o mundo nas suas ruinas. Não contentes com a aberta profissão de maximas tão hostís, e insociaes, elles chegárão a reduzillas a huma lei escrita no decreto da Convenção nacional de 19 de Novembro de 1792, em que declaravão, que a nação Franceza concederia fraternidade, e soccorro a todos os póvos, que quizessem recobrar a sua liberdade: ás palavras seguírão-se as obras, ou o ataque geral, não só ás Monarquias, mas igualmente a todos os governos mixtos, e a todas as Républicas da Europa, e desde então devia conhecer-se, quaes erão a fraternidade, e a liberdade, que os Francezes revolucionados querião levar a todos os póvos. [Sidenote: 1791] Aquelle fatal decreto, e este comportamento hostil equivalião por certo a huma declaração de guerra contra todas as nações, que podião ter alguma relação com a França. Desde o anno de 1791 a Europa tinha começado a remexer-se contra a França. Em Coblentz se traçárão os primeiros planos, que ficárão por então sem effeito; em Pilnitz se fez huma coalisão mais séria, avistando-se alli o rei da Prussia, e o Imperador Leopoldo no mez de Agosto; mas a guerra não rompeo ainda; e esta demora foi talvez a que salvou a revolução, e perdeo a Europa; não concorrendo pouco para ella as desavenças, que subsistião entre a Hespanha, e a Inglaterra sobre a navegação do mar Pacifico, e costas do noroeste da America, que só forão terminadas em novembro seguinte. [Sidenote: 1792] [Sidenote: 1792] [Sidenote: 1793] Em abril de 1792 começárão as hostilidades; a prisão porém de Luiz XVI., e os ulteriores procedimentos do governo Francez contra este Monarca forão verdadeiramente os que ateárão o incendio. O Imperador, e o Rei de Prussia apparecêrão os primeiros sobre o theatro: forão-se-lhes seguindo as outras potencias; e assignaladamente foi a Convenção nacional a que declarou a guerra á Inglaterra em janeiro de 1793, e á Hespanha em março do mesmo anno, dando contra huma e outra, além de outros motivos particulares, a causa geral de não terem cessado de manifestar a sua malevolencia para com a Républica, e o seu apêgo á coalisão das cabeças coroadas. [Sidenote: 1793] Foi depois deste tempo que Portugal entrou a figurar nesta guerra, não como parte principal, mas como mera auxiliar, prestando a estas duas ultimas potencias os soccorros, que lhes devia na conformidade dos tratados, quando ellas os reclamárão. A Convenção tinha mandado hum emissario a Lisboa, que parece que trazia por objecto primario negociar o reconhecimento da Républica pela Rainha Fidelissima: era hum ponto melindroso; porque se Portugal, desejando manter-se nos principios de huma neutralidade, que lhe attrahiria vantagens incalculaveis, não tinha tomado parte directa na confederação contra a França, por motivos ainda mais fortes se oppunha á sua Politica abrir o exemplo de reconhecer hum governo revolucionario, que toda a Europa se propunha a anniquilar. Muito mais repugnava isto ás vistas do ministerio Portuguez, pelas estreitas relações de amizade, e de parentesco da Familia Reinante com o infeliz Luiz XVI.; considerando pois a politica, e o Direito publico, que subsistião entre as nações da Europa, o emissario Francez foi sim muito bem recebido pela Corte de Lisboa, como particular, mas não se lhe reconheceo caracter publico, e foi despedido sem concluir cousa alguma. [Sidenote: 1793] Menores que fossem as razões de aggravo, ellas terião excitado desejos de vingança em hum governo, que não obstante a crítica, e desesperada situação, em que nesse tempo se achava, já era revestido de todos os caractéres de invasor; e contando sobre a força revolucionaria dos seus principios, que fazia propagar por toda a parte, e lhe valião por exercitos numerosos, não procurava senão pretextos para fazer a guerra. [Sidenote: 1793] As hostilidades começárão sem declaração alguma contra Portugal, tendo por theatro sómente o mar. Hum navio, que voltava ricamente carregado da India, foi huma das primeiras prezas, que cahírão em poder do inimigo; seguírão-se muitas outras pertencentes a differentes portos; as praças de Lisboa, e Porto soffrérão perdas incalculaveis; o commercio do Brasil, e das outras colonias Portuguezas foi incommodado pela marinha Franceza, que era ainda consideravel, e principalmente por hum número extraordinario de armadores, sahidos das costas da França, e de varios pontos das suas colonias, que infestavão todos os mares, reduzindo-se quasi a nada o valor das prezas feitas aos Francezes pelos nossos navios. Nem as leis Portuguezas relativas ao corso, nem o genio da nação favorecião este commercio odioso. [Sidenote: 1793] Pela parte da terra a posição geografica dos Estados Portuguezes na Europa os punha a coberto de toda a invasão, tendo por intermediaria a Hespanha. Na America esteve a rica, e vasta colonia do Brasil a pontos de soffrer huma guerra mais fatal, por meio dos negros revolucionados da Guiana Franceza, que tinhão toda a facilidade, para levarem de proximo em proximo os seus principios até o centro dos dominios Portuguezes; porque além das circumstancias favoraveis a esta propagação, que offerecia a natureza do terreno, todo semeado de lagos, e rios navegaveis; até para cumulo de infelicidade acontecia que os escravos dos lugares confinantes das colonias Portugueza, e Franceza erão pela maior parte de huma origem commum, tirados huns e outros da costa de Cabinde. [Sidenote: 1793] A vigilancia do Governador da capitanía do Pará D. Francisco de Sousa Coutinho livrou deste perigo as possessões Portuguezas. Os Francezes, navegando ao longo da costa, penetravão até o interior da embocadura do rio das Amazonas, e no sertão tinhão estabelecido huma aldêa sobre o Araguari, do qual he facil a communicação até o das Amazonas por meio de varios lagos: aquelle Governador, sem se envolver em operações directas no continente, estabeleceo hum cruzeiro de muitas barcas canhoneiras até a embocadura do rio Oyapoc; e cortando assim toda a communicação dos Francezes por mar, os obrigou ao mesmo tempo a evacuarem a aldêa. Então fez elle mesmo recolher as nossas aldêas confinantes, para separar por meio de hum deserto as duas Guianas Portugueza, e Franceza: serviço assignalado feito á nação por este habil Governador, que tantas provas tem dado em muitas outras occasiões das suas luzes, e do seu patriotismo. CAPITULO II. _Hum exercito Portuguez he enviado em soccorro da Hespanha. Suas acções no Roussillon, e na Catalunha. Paz de Basiléa._ [Sidenote: 1793] [Sidenote: 1793] Em 20 de setembro de 1793 partio de Lisboa hum exercito auxiliar Portuguez para a Hespanha, o qual, depois de huma longa viagem, desembarcou em Rosas, porto, e praça da Catalunha. Compunha-se de seis regimentos escolhidos de infanteria, e hum corpo competente de artilheria ás ordens do General João Forbes Skellater, levando por Ajudante General o Conde de Assumar, hoje Marquez d’Alorna, Gomes Freire de Andrada, o Marquez de Niza, e huma porção consideravel da nobreza de Portugal acompanharão nesta occasião as nossas bandeiras, que depois de terem descançado longos annos no meio de huma paz profunda, hião desenrolar-se magestosas em hum paiz inimigo. Chegou este soccorro, quando os Hespanhoes, posto que triunfantes nos principios da campanha, começavão a ver declinar a gloria das suas armas. [Sidenote: 1793] Se examinamos a situação, em que se achava a França, quando ella mesma rompeo as hostilidades contra a Hespanha, este procedimento parece hum acto de desesperação da parte do governo Francez, que devia completar a sua ruina. As finanças, e todos os ramos da administração interna achavão-se em hum piedoso estado; o crédito público tinha desaparecido com a perda quasi total do papel-moeda; as facções dominavão desde hum ponto da França até o outro; Leão revoltava-se, e a guerra civil se accendia em varias partes; os Austriacos, e os Prussianos ameaçavão huma prompta invasão; e o governo Francez, que não contente com os inimigos, que já tinha, havia anticipado elle mesmo as hostilidades contra a Inglaterra, e a Hollanda, procurando mais hum outro, tão poderoso como a Hespanha, que podia esperar senão revezes? Elle os teve rápidos, e espantosos. Dumourier fugia com huma parte do seu exercito; os Prussianos fazião incursões na Alsacia; os Austriacos apoderavão-se de Valenciennes, Condé, Quesnoy, e Landrecie; os Hespanhoes penetravão pelo Rousillon; os Piemontezes em Mont-Blanc; Toulon entregava-se aos Hespanhoes, e Inglezes, que fortificando-se nesta cidade ameaçavão a Provença com os soccorros, que se lhes promettião da Italia; e a guerra de La Vendée tornava-se mais cruel do que nunca. [Sidenote: 1793] Mas a Convenção nacional, dominada pela facção de Marat, e pela dos Jacobinos, qual dellas a mais violente, occorreo a estas circumstancias espantosas com medidas não menos extraordinarias: fez-se levantar a nação em massa, decretou-se hum emprestimo de mil milhões, e forão presos, ou degollados muitos dos Generaes Francezes. Estas medidas violentas entre outros póvos, ou em differentes circumstancias, não terião feito senão aggravar as calamidades da nação: na França, e no tempo, em que o terrorismo fazia executar céga, e barbaramente todas as ordens, salvárão hum governo revolucionario, que era destinado a opprimir a Europa. Os inimigos externos da França forão rebatidos, palliou-se a guerra civil, e já desde o meado de setembro os Francezes entrárão a fazer incursões na Hespanha pela Catalunha, e Aragão, em quanto outros, commandados por Moncey, Fregeville, e De-Laborde, se avançavão pela Biscaya. [Sidenote: 1793] A chegada do exercito Portuguez reanimou o valor dos Hespanhoes. Os gelos, e as neves dos Pyreneos forão a sua hospedagem; e elle fez decidir logo a favor das armas alliadas a batalha de Ceret em 26 de novembro; e concorreo muito para o bom exito de outro combate em 7 de dezembro, em que forão ganhadas as baterias Francezas de Villa-Longa, que fazião frente ao campo da Trombeta, merecendo nessa occasião os mais assignalados elogios dos Generaes Hespanhoes. Não se distinguio menos na tomada de Banhuls, e postos adjacentes de Port-Vendre, Sant-Elme, e Colibre, rematando com outros successos prosperos a campanha de 1793, até fazer encerrar os inimigos na praça, e cidadella de Perpinhão. [Sidenote: 1794] [Sidenote: 1794] Huma nova tempestade se armava na França, que augmentando prodigiosamente as forças do seu governo, devia ser fatal aos alliados. Leão tinha-se rendido, e com ajuda de 25:000 homens, que se occupavão no cerco desta cidade, reforçava-se o de Toulon, que em fim os Hespanhoes, e Inglezes erão obrigados a evacuar: tudo então mudou de figura. Passados os mezes do inverno, em que as operações da guerra forão lentas sobre os Pyreneos, Dugommier, que tinha sido tirado do exercito dos Pyreneos orientaes (por este nome se designava o do Roussillon) para commandar o cerco de Toulon, achou-se de novo á frente delle com numerosas tropas de reforço: o mez de maio foi cruel para os alliados, que se vírão na precisão de evacuarem o Roussillon, para se entrincheirarem nas montanhas dos confins da Catalunha, onde pudérão manter-se com custo o resto do verão. Os Prussianos, e Austriacos tinhão ainda a vantagem ao norte da França; mas tambem principiárão a declinar com a perda de Valenciennes, em 27 de Agosto, o que lançou novos revezes para a parte dos Pyreneos, onde os Francezes multiplicavão ataques furiosos, que os nossos procuravão repellir com vigor. [Sidenote: 1794] Será sempre lembrado o dia 17 de Novembro, em que ficou prisioneiro o 1.^o regimento do Porto pelo valor, e intrepidez, com que quiz soster o inimigo: acção seguida de perto pela inteira derrota do exercito Hespanhol na sanguinosa batalha de Pons de Molins dada a 20, na qual perdeo a vida o General em chéfe Hespanhol Conde da União; pela perda da importante praça de Figueiras, em 28; pelo cerco de Rosas, principiado no mesmo dia, tendo-se retirado o exercito combinado até Gerona, ficando aberto aos Francezes o passo para o interior da Catalunha, e ameaçado todo o territorio até o Ebro. [Sidenote: 1795] O castello da Trindade foi evacuado pelos Hespanhoes, em 6 de Janeiro de 1795, e a praça de Rosas em 2 de Fevereiro seguinte: com tudo aqui se suspendêrão as conquistas dos Francezes por este lado da Hespanha, e passando a primavera, e parte do verão, sem acontecimento algum de grande consequencia, os alliados, e principalmente os Portuguezes principiavão a obrar na offensiva. Estes ultimos fazião mesmo huma irrupção na França, e tomavão Belver, e Puig-Cerdá, em 26 de Julho, ficando conquistada a Cerdanha, quando quatro dias antes tinha sido assignado em Basiléa o tratado de paz entre Carlos IV., e o governo Francez, que foi tão fatal á causa da peninsula, e de toda a Europa. [Sidenote: 1795] Por este modo ficou Portugal envolvido na guerra com a França, tendo entrado como auxiliar da Hespanha. Tão pouco zelou Carlos IV. os interesses do seu alliado, de seu genro, e de sua filha, que tão opportunos soccorros lhe tinhão dado! Apenas se estipulou no artigo XIII. daquelle tratado, que os prisioneiros Portuguezes serião restituidos como os Hespanhoes; porque tambem era necessario estipular-se a restituição dos Francezes aprisionados pelo exercito Portuguez. Accrescentou-se no artigo XV., que a Républica Franceza acceitava a mediação do Rei Catholico a favor de Portugal; expressões vãs, de que não devia resultar effeito util, e que se fizerão commuas aos Reis de Napoles, e Sardenha, ao Duque de Parma, e mais Principes da Italia. Até na conformidade do artigo XVI. se acceitavão os bons officios do mesmo Monarca a favor de qualquer outra das potencias belligerantes, que quizesse entrar em negociações com a França: officios, que sómente forão uteis ao governo Francez, e summamente funestos a muitos dos Principes da Europa. [Sidenote: 1795] [Sidenote: 1796] No principio desta guerra lamentavão os Francezes, que o ministerio da Hespanha fosse tirado das mãos do velho Aranda, para se entregar a hum moço falto de experiencia, e cheio de presumpção, que como tal era incapaz para o manejo dos negocios públicos,[1] mas este moço, que principiava então a apoderar-se do grande imperio, que veio a exercitar sobre a Hespanha, sendo tão habil cortezão, como Ministro inerte, já era nesta época o sustento do partido Francez na corte de Madrid. Fallo de D. Manoel Godoi, Duque de Alcudia, mais conhecido pelo titulo, que depois teve de Principe da Paz; e foi obra sua o tratado de alliança offensiva, e defensiva entre a França, e a Hespanha, concluido em S. Ildefonso a 18 de agosto de 1796, mais fatal ainda para a Europa, que o de Basiléa, pelas terriveis consequencias, que delle resultárão á causa geral. FOOTNOTES: [Footnote 1: Conta dada á Convenção nacional por B. Barrere em nome da Junta de defeza geral em 5 de Março de 1793.] CAPITULO III. _Projectos do governo Francez, e de Carlos IV. sobre Portugal. Continúa com este a guerra maritima. Ministerio do Conde de Linhares. Emprezas de Bonaparte. Negociações entre Portugal, e França._ [Sidenote: 1796] [Sidenote: 1796] Vagárão rumores de que além das condições manifestas do tratado de Basiléa existião entre o governo Francez, e o ministerio Hespanhol convenções secretas, ou ao menos projectos de occupar Portugal, para indemnizar ao Rei Catholico do terreno, que devia ceder á França para a parte dos Pyreneos: rumores, a que derão pezo as conferencias, que tiverão as duas Familias Reinantes Portugueza, e Hespanhola no mez de janeiro de 1796. Julga-se mesmo, que D. Rodrigo de Sousa Coutinho, (que daqui em diante designarei pelo seu titulo de Conde de Linhares) Ministro Plenipotenciario de Portugal em Turin, penetrára o segredo destas transacções, e avisára a nossa corte. Turin era na verdade hum dos principaes focos das negociações, e das intrigas da Europa, porque o Rei de Sardenha gozava ainda daquelle alto gráo de consideração, a que a sua corte tinha sido elevada, pela posição geografica dos seus Estados, e pela habilidade de hum grande número de Principes, que o precedêrão. Alli concorria hum grande número de Ministros estrangeiros; alli se formavão planos, e se discutião interesses, e por consequencia alli se sondavão os segredos dos gabinetes da Europa: he nesta arte principalmente que se exercitão, e se conhecem os talentos dos Embaixadores. A occupação de Portugal conformava-se muito aos desejos de Carlos IV. Ainda este Monarca era sómente Principe de Asturias, e já D. Francisco Innocencio de Sousa Coutinho, sendo Embaixador Portuguez em Madrid, avisava a nossa corte de que elle, fomentando o partido Aragonez, fazia reviver os seus pertendidos Direitos á Coroa Portugueza, roborados com os da casa de Parma por sua mulher. Que desgraça para a Hespanha, se com este engodo o seu Soberano a descubria inteiramente ás aggressões de huma potencia tão formidavel como a França, entregando-lhe huma parte dos Pyreneos, desta grande trincheira, com que a natureza a tinha vallado? [Sidenote: 1796] [Sidenote: 1796] Ou fosse porque estas pertenções não chegassem a adquirir a sua madureza, ou porque o Rei Catholico, não podendo resistir ás vivas commoções, que devia causar-lhe a presença de huma Real Familia, a que se achava tão estreitamente unido por laços os mais poderosos, abandonasse hum projecto, de que a execução estava reservada para tempos de maior desgraça, elle ficou por então sem effeito. Pareceo mesmo, que a corte de Madrid tomava huma parte activa nos interesses de Portugal; mas não podia prestar-lhe senão soccorros inuteis, pelo estado de perfeita nullidade, em que se havia constituido. Não era já a situação geografica de Portugal a que livrava este reino de huma invasão Franceza, porque a Hespanha lhe franquearia o passo, logo que fosse requerida com vigor: erão as campanhas da Italia, e da Alemanha, as quaes tinhão para aquellas partes occupadas a attenção, e as forças terrestres da Républica. [Sidenote: 1799] [Sidenote: 1796 a 1799] A guerra pois entre Portugal, e França continuou a ser maritima, porém mais ruinosa do que nunca para a primeira destas potencias, porque os portos da Hespanha, e das suas immensas colonias abertos aos navios de guerra, e aos corsarios Francezes expunhão a repetidos insultos todas as costas dos dominios Portuguezes na Europa, e nas outras partes da terra, a nossa navegação, e o nosso commercio em todos os mares. Não havia dia, em que não chegasse a noticia de alguma preza, o corpo mercantil soffreo grandes perdas, as bancarrotas se multiplicavão em todas as praças de commercio maritimo. Para aggravar estes males pôde tanto a influencia do governo Francez, que conseguio implicar por algum tempo os interesses de Portugal com os dos Estados-Unidos da America, o que seria summamente damnoso, pela suspensão das relações commerciaes, se felizmente se não conseguisse o terminarem-se as differenças sem grande difficuldade. [Sidenote: 1796 a 1799] O Conde de Linhares, que tendo voltado de Turin fôra nomeado Ministro e Secretario d’Estado dos negocios da marinha e dominios ultramarinos, pertendeo regenerar o Estado, e elle o teria conseguido debaixo de hum Principe, que he dotado de summa bondade, e sempre prompto a abraçar os projectos uteis aos seus vassallos, se a torrente, e encadeamento fatal dos successos lhe não tivessem obstado. Ministro infatigavel, tão vasto nos grandes objectos, como minucioso e exacto nos pequenos, experimentado no manejo dos negocios públicos, dotado de grandes luzes, de huma inteireza incorruptivel, e de hum patriotismo exaltado, era o homem, que a natureza tinha talhado para ajudar o Soberano, e dirigir o ministerio em tão críticas circumstancias. As suas vistas abraçárão desde logo todas as partes da administração publica, que lhe foi confiada: soárão planos de reforma por toda a parte, cuidou-se seriamente na defeza, e no melhoramento das colonias, no augmento das fábricas, e na protecção do commercio. As finanças devião prosperar, á proporção que fossem prosperando estes mananciaes fecundos da riqueza da nação, sendo presididas por huma administração sábia, e economica. [Sidenote: 1796 a 1799] Para se conseguirem estes fins, vio-se de repente, e quando menos se esperava, sahir das suas mãos huma marinha respeitavel, que fazia recordar o que foi Portugal em seculos mais ditosos, e o que póde vir a ser, quando a paz reconduzir dias serenos sobre o nosso horizonte, se se souber tirar partido das vantagens naturaes, que de todas as partes se nos offerecem. Estabelecêrão-se comboys para a segurança do commercio, e da navegação mercantil, aproximando-se por esta fórma, quanto era possivel, as porções dispersas do Estado; e huma parte dos nossos males foi curada. [Sidenote: 1796 a 1799] [Sidenote: 1796 a 1799] Em quanto o ministerio de Portugal se occupava em mudanças tão favoraveis, Bonaparte, que já tinha conseguido huma influencia desmarcada sobre a França, subjugava a Italia, e fazendo discorrer os seus exercitos victoriosos pela Carinthia, pela Carniola, e pelo Tyrol, forçava o Imperador de Alemanha no coração dos seus proprios Estados a huma paz, de que dictou em Leoben as condições, de que ao depois se formou o tratado de Campo-Formio. Por este modo se franqueava o caminho ao Directorio executivo (que desde a revolução de 4 de novembro de 1795 tinha arrogado o poder supremo) para novas emprezas, em quanto a liberdade Germanica dava os ultimos suspiros nas conferencias de Rastadt. Tremêrão desde então os outros gabinetes da Europa, que não estavão de todo cégos; mas errárão na escolha, e na extensão dos meios, para apartarem a tempestade, dividindo-se, e gastando em intrigas, e negociações o tempo, que devião aproveitar em se colligarem, e ajuntarem todas as suas forças, para resistir ao inimigo commum. Calculavão sómente sobre o poder dos Francezes, sem metterem já mais em linha de conta a força revolucionaria, e eis aqui a razão, porque elles tantas vezes errárão nos seus calculos. [Sidenote: 1796 a 1799] Achavão-se vedados os meios de conciliação entre Portugal e França; e pareceo huma grande felicidade o achar-se em París Antonio de Araujo e Azevedo, que acabára de servir como Ministro Plenipotenciario da corte de Portugal na Hollanda. Com elle se principiárão negociações, e sendo nomeado Plenipotenciario de S. M. F. junto á Républica Franceza, concluio com effeito hum tratado definitivo entre os dous governos, que não chegou a fazer-se público: erão taes os sacrificios, que a corte de Portugal não julgou conveniente o ratificallo. Póde julgar-se, quanto esta recusação do ministerio Portuguez devia accender a animosidade do governo Francez; mas duas cousas concorrêrão, para livrarem Portugal do perigo, e dos sustos, a renovação das hostilidades no continente, e a célebre expedição de Bonaparte, que apoderando-se de Malta, sem constar ainda do seu verdadeiro destino, tomou o caminho do Nilo, em lugar de voltar sobre as Hespanhas, como se receava. As esquadras Portuguezas, commandadas pelo Marquez de Niza, que adquirio nestas acções hum nome célebre, incommodárão gravemente os Francezes, principalmente no bloqueo de Malta, que esteve a pontos de cahir em poder das armas Portuguezas, e diante de Alexandria. Foi então que Bonaparte raivoso mandou pôr na ordem do dia do exercito do oriente, _que viria tempo, em que a nação Portugueza pagaria com lagrimas de sangue esta affronta, que fazia á Républica Franceza_. Tanto he certo, que já tinha projectada na sua mente a invasão de Portugal! CAPITULO IV. _Bonaparte usurpa o Imperio consular, e lança os fundamentos do seu systema continental. Desembaraça-se dos Imperadores da Russia, e da Alemanha, e faz invadir Portugal de acordo com Carlos IV._ [Sidenote: 1799] [Sidenote: 1799] A Revolução de 9 de novembro de 1799, que concentrou o poder absoluto nas mãos de Bonaparte com o disfarçado titulo de primeiro Consul, fará huma das mais importantes épocas da Historia moderna. Não se esperava tão depressa hum semelhante desfecho; mas cedo, ou tarde elle devia acontecer, enchendo o circulo, que o Abbade Raynal havia prescripto ás revoluções desta natureza.[2] Como enganou Bonaparte a hum povo de 25, ou 30 milhões de habitantes, que tinhão jurado hum odio eterno á Monarquia, e a tudo o que se assemelhasse ao poder arbitrario? Não o enganou: a mascara era muito visivel, para deixar de conhecer-se; mas todos estavão cançados das mortandades, dos tumultos, das depredações, e de todos os horrores da revolução, e da guerra; e corrêrão por isso atraz deste homem, que lhes promettia a paz, olhando-o como a taboa, que hia salvallos do naufragio universal. Bem conhecião, que se entregavão á discrição deste homem; mas cahírão de cançados, e pouco lhes importava a Républica, com tanto que achassem o repouso, que esperavão: esta esperança foi sómente a que os enganou. [Sidenote: 1799] [Sidenote: 1799] Como olhárão as cabeças coroadas para a elevação do primeiro Consul? Parece que pela maior parte considerárão como favoravel esta mudança, na persuasão de que para conservar o poder verdadeiramente monarquico, que usurpára, elle procuraria suffocar o fanatismo républicano, causa primaria de todas as desordens. Acceitárão contentes a fraternidade, que lhes offerecia, na esperança de que faria com elles causa commua, não conhecendo, que era a revolução a que o armava, que a mudança só consistia em tirar o poder das mãos de cinco oligarcas para as de hum só, e que o déspota devia ser-lhes mais fatal, por isso mesmo que concentrava em si todas as forças, até alli divididas pelos partidos. Desenganárão-se muito tarde, e quando quizerão resistir-lhe, não fizerão o devido uso das suas forças, e outra vez o digo, não se unírão, e por isso lhes aconteceo o que dizia Tacito dos antigos Gallos: _Dum singuli pugnant, universi vincuntur_: palavras bem dignas de estarem gravadas sobre as portas dos Ministros de todos os gabinetes da Europa. Não succedeo assim a Bonaparte: conhecendo, que só com as forças da França abatida, e assolada valia pouco, soube destramente ajuntar-lhe a força revolucionaria, e o seu poder ficou monstruoso. Apenas assentado no throno consular, lançou as linhas do seu systema continental, ou, o que não he menos provavel, o curso dos successos o foi conduzindo a elle, sem o ter premeditado. Consistia este systema (tem publicado os seus panegyristas) em restituir a tranquillidade ao mundo, desligando da Inglaterra as potencias continentaes, para a obrigar a fazer a paz maritima; mas, segundo tem mostrado os factos, era o systema de destruir a Inglaterra, como o mais poderoso baluarte da liberdade do continente, para segurar a escravidão da Europa. [Sidenote: 1799] [Sidenote: 1799] Portugal não podia deixar de ser muito particularmente considerado para este fim, não só como hum dos mais antigos, e fiéis alliados da Inglaterra, mas tambem como hum dos mais interessantes fuzis da cadêa, pela importancia dos seus portos, das suas colonias, e consequentemente do seu commercio: muito mais conservando o primeiro Consul gravados na sua mente os motivos de resentimento, que deixo referidos. Com tudo era necessario segurar primeiro as outras partes do continente, para depois voltar as vistas sobre este canto da Europa. [Sidenote: 1799] Em quanto Bonaparte fizera a guerra no Egypto, e na Syria, o Imperador de Alemanha, tendo rompido de novo as hostilidades, revolvia a Europa, apoiado pela poderosa assistencia do Imperador da Russia; e forão tão brilhantes os seus successos, e os dos alliados, que não só arrebatárão á França a maior parte das suas conquistas, mas o Directorio chegou a proclamar a patria em perigo. Neste estado se achavão as cousas, quando Bonaparte voltou á França, e effeituou a revolução de 9 de novembro, e então para prover á sua segurança, desempenhar o titulo de pacificador, com que illudia os Francezes, e chegar aos outros fins, a que se propunha, principiou negociações com a Inglaterra; e vendo que a não enganava com proposições illusorias, cuidou em desembaraçar-se das potencias continentaes, para voltar depois contra ella as suas armas. Quando estas proposições se discutírão no Parlamento Britanico, Mr. Pitt disse com energia, que abrindo-se huma carta geografica, era impossivel achar-se nella hum paiz, onde a França não tivesse commettido alguma devastação, ou infringido algum tratado, e passando a desenvolver o seu plano geral de usurpação, accrescentou: _Este systema foi invariavel debaixo de Brissot, como de Robespierre; de Sieyes, como de Barrás_. Podia por ventura esperar-se, que o favorecido de Barrás fosse menos fiel a estes principios, do qui o seu patrono, e todos os seus predecessores? [Sidenote: 1800] [Sidenote: 1801] Os Imperadores de Alemanha, e da Russia por si mesmos se tinhão desligado hum do outro: e este ultimo, estando já assás descontente com a Inglaterra, facilmente se deixou entrar nas vistas de Bonaparte. Desembaraçado de hum inimigo tão poderoso, o primeiro Consul pôde cahir com todas as suas forças sobre a Italia, e Alemanha; e depois de successos os mais assinalados, obrigou o Imperador a assinar a paz de Luneville, a qual lhe deixou toda a liberdade para impôr a lei ás potencias continentaes, que ainda contava por inimigas. Ainda bem o tratado de Luneville não estava concluido, já Bonaparte andava ás prezas com Portugal, servindo-se para o atacar do ministerio da corte de Madrid, sobre a qual continuava hum imperio absoluto. Nesta mesma capital se celebrou huma convenção entre S. M. C. e o primeiro Consul, em que se ajustou mandarem ambos invadir aquelle reino pelas suas tropas, e occupar hum quarto do seu territorio até a paz definitiva com a Inglaterra. Longos tempos nos foi desconhecida esta convenção; os Francezes porém a manifestárão á Europa em huma collecção dos seus tratados com as outras potencias desde a revolução.[3] [Sidenote: 1801] He para restituir á nação Portugueza (dizião os partidistas do Consul) a sua independencia, e o seu antigo poder, he para quebrar os seus ferros, e arrancalla a huma vassallagem humilhadora, que Bonaparte levou a guerra a Portugal. Elle quer regenerar esta nação, dar-lhe o conhecimento das suas forças, e a energia, que em outro tempo animou os conquistadores das Indias, e os rivaes dos Castelhanos; elle quer ser o protector de hum povo opprimido, e collocallo naquella ordem, que devem occupar os senhores do Brasil, e do Téjo.[4] As intenções de Bonaparte erão bem conhecidas; já vinha adiante o veneno das suas aleivosas promessas, e as operações da sua politica a respeito de Portugal em 1807, e 1808 mostrarião bem qual era a regeneração, e protecção, que elle meditava em 1801, se já não estivessem assás patentes por aquella fraudulenta convenção de Madrid. [Sidenote: 1801] Na conformidade della declarou a corte de Madrid guerra á de Portugal em 28 de fevereiro de 1801, quando esta se achava infelizmente em huma especie de abandono, porque a sua poderosa alliada a Gram-Bretanha lhe não podia prestar grandes soccorros de gente, achando-se nesse tempo empenhada nas suas expedições do Egypto. Alguns regimentos de emigrados forão os unicos auxilios estrangeiros, que Portugal pôde obter para fazer rosto ás forças unidas da França, e Hespanha; e parecendo por estas circumstancias, que o Rei Catholico não precisaria de grandes esforços para esta guerra, foi-lhe com tudo necessario principiar por huma forte contribuição nos seus Estados sobre o clero. Tal era o desarranjo, em que se achavão as finanças da Monarquia mais vasta, e rica do mundo! Tão impolítica era a guerra entre duas nações, que o interesse commum devia unir, entre dous Soberanos, que os laços do sangue devião fazer inseparaveis! FOOTNOTES: [Footnote 2: _Rayn. Hist. Philosoph. & Polit. &c. Tom. X. Gouvern. p. mihi. 23._ He hum monumento precioso contra a revolução Franceza a carta escrita pelo mesmo A. á Assembléa nacional de 1791, que vem na _Biblioth. de Condorcet Ann. III. T. I._] [Footnote 3: _Cod. Diplomat. Tom. II._ no artigo de Portugal.] [Footnote 4: _Tabl. Histor. et Polit. des operat. milit. et civ. de Bonap._] CAPITULO V. _Successos da campanha. Negociações de paz, e tratados de Badajoz._ [Sidenote: 1801] [Sidenote: 1801] Os mezes de março, e abril gastarão-se em preparativos, e em quanto S. M. C. fazia ajuntar tropas na Galliza, em Castella, e na Extremadura, e que o General S. Cyr era enviado de França, para residir junto ao General Hespanhol, e concertar com este as operações da campanha, huma divisão do exercito Francez com numerosa artilheria atravessava os Pyreneos ás ordens de Le-Clerc. O Principe da Paz, conhecendo que o golpe era seguro, quiz tambem figurar de guerreiro, pondo se á frente dos exercitos Hespanhoes. Os Portuguezes forão commandados pelo Marechal General Duque de Lafões, que pelo máo successo de nossas armas vio murchados em huma idade provecta os grandes creditos, de que tinha gozado em muitos annos de paz. As fronteiras de Portugal forão ameaçadas por differentes pontos, e para a sua defesa se formárão, como se pôde, tres pequenos exercitos, hum na provincia de Tras-os-Montes, commandado por Gomes Freire de Andrada, outro na Beira-baixa ás ordens de Dordaz, e o principal de todos no Além-Téjo, debaixo do commando immediato do Marechal. [Sidenote: 1801] Não se achava extincto nos Portuguezes o antigo ardor marcial. Gomes Freire quiz obrar na offensiva, e determinou tomar por surpreza a praça de Monterey. Resolvida a empreza, houve huma cêa, em que se bebeo á saude do futuro Governador designado para aquella praça, e no dia seguinte o General marcha com hum corpo de cavallaria, e infanteria ao longo do Tamega pela veiga de Chaves. Os seus guias errão o caminho, tomando a direita pela estrada de Monforte, em lugar de tomarem á esquerda pela que conduz em direitura a Monterey: erro na verdade bem extraordinario em huma jornada tão pequena, e em hum paiz tão conhecido; mas muito feliz, porque salvou talvez os nossos de ficarem perdidos. A praça tinha na verdade muito poucas forças, e poderia facilmente ser ganhada, cahindo-se sobre ella de improviso; mas os Hespanhoes forão avisados da nossa expedição, e tinhão-se emboscado a meio caminho em humas tortuosidades dá planicie; e quando o General Portuguez conheceo, que caminhava errado, e inclinou a marcha a procurar a verdadeira estrada, os seus flanqueadores forão dar em frente com as avançadas Hespanholas. Vendo-se então cortados, ou julgando, que o estavão, os nossos recuão com huma marcha apressada; e posto que muito incommodados nesta retirada, tiverão ainda tempo de recolher-se aos pontos, d’onde tinhão sahido, sem que o inimigo se atrevesse a entrar por aquelle lado em terras de Portugal. Foi esta a unica acção, em que entrou o exercito de Tras-os-Montes. [Sidenote: 1801] [Sidenote: 1801] Pela provincia do Além-Téjo he que que o inimigo formou o seu ataque verdadeiro. Em 20 de maio o Principe da Paz marchou de Badajoz á frente do seu exercito; e mandando reconhecer o terreno pelas suas guardas avançadas, as quaes tiverão seu encontro com as Portuguezas, despedio immediatamente hum emissario a praça d’Elvas com huma intimação arrogante, para que se rendesse, fazendo menção de que vinha á testa de 25:000 homens para combater. O Tenente General D. Francisco Xavier de Noronha era o Governador desta praça, que com os fortes de la Lippe, e de S. Luzia he a primeira de Portugal, e huma das mais importantes d’Europa, e tinha nesse tempo de guarnição 9:000 homens, entre tropa de linha, milicias, e paisanos. [Sidenote: 1801] Achava-se o Governador junto ao baluarte da parada, quando lhe foi apresentado o emissario; e sem dar hum passo, dali mesmo o despedio com huma resposta energica, e assás demonstrativa da resolução, em que se achava de defender-se até á ultima extremidade: resolução, que ainda manifestou melhor, pelas activas, e acertadas disposições, com que se preparou para huma vigorosa defesa. Teve com effeito a satisfação de conservar a praça ao seu legitimo Soberano, e conter o inimigo em respeito até o fim da campanha, não se atrevendo a investilla, nem mesmo a pôr lhe cerco regular, posto que a tivesse em bloquêo. Assentou o Principe da Paz o seu campo entre Badajoz, e Elvas, quasi a huma legua desta ultima praça, onde se chama Valle de cavalleiros decima, e Valle de cavalleiros debaixo; ponto verdadeiramente militar, porque continha em respeito a guarnição d’Elvas, e as suas patrulhas cortavão a communicação desta praça com a de Campo-maior. Fez postar mais hum corpo avançado na aldêa de S. Eulalia, d’onde observava os movimentos dos corpos Portuguezes, que estavão em Portalegre, não deixando livre a Elvas senão a estrada de Lisboa, e esta nem sempre, porque as patrulhas tambem muitas vezes a impedião. [Sidenote: 1801] Ao mesmo tempo, em que esta columna se encaminhou a Elvas, dirigírão-se mais tres, huma contra Olivença, outra contra Jurumenha, e a terceira contra Campo-maior. Olivença, e Jurumenha entregárão-se sem resistencia, de que resultou senhorearem-se rápidamente os Hespanhoes de Arronches, Portalegre, Castello de vide, Barbacena, Ouguella, e seus territorios. Campo-maior soffreo hum sitio de 17 dias, e capitulando na noute de 6 para 7 de junho, quando já tinha sido assinado o tratado de Badajoz, só veio a ser evacuada pela guarnição Portugueza a 9 do mez, quando erão bastantes algumas horas, para chegar a noticia da paz. Para que foi esta capitulação, e a evacuação subsequente, se na fórma do tratado a praça devia ser restituida á coroa de Portugal? Para servir á vaidade do Principe da Paz, que queria engrandecer o seu nome com conquistas imaginarias. Marvão foi atacada, mas não se rendeo. [Sidenote: 1801] Quando entrárão os Hespanhoes em Portugal, o nosso exercito do Além-Téjo tinha o quartel General em Portalegre, e estendia a sua direita até Monforte, a esquerda até Montalvão; fez immediatamente a direita hum movimento sobre Alpalhão, conservando-se Arronches, como posto avançado; a esquerda não mudou de posição. Os Hespanhoes atacárão então Arronches, onde forão batidos hum batalhão do 1.^o e outro do 2.^o regimento de Olivença, o que deo occasião a se retirarem para Alegrete dous batalhões de granadeiros, e dous de fusileiros, que a protegião. No dia seguinte todo o exercito fez a sua retirada sobre Gavião, e cinco depois para Abrantes, d’onde enviou o susto, e o desalento á capital do reino. [Sidenote: 1801] [Sidenote: 1801] Tinhamos depositos consideraveis no Crato, e em Niza, que com a retirada do exercito ficavão expostos. De Gavião se fez huma expedição, para salvar os do Crato, que se compunha de 600 homens, e 80 cavallos; mas inutilmente, porque em Flor da rosa foi surprendida, e feita quasi toda prisioneira por forças superiores. A esta acção derão tanta importancia os papeis Francezes, que della se falla em algumas obras como de huma batalha de grande vulto. Os depositos de Niza forão salvos pelo exercito da Beira-baixa, que tinha a direita em Villa-velha, occupando por primeira linha as margens do Elja, a esquerda em Salvaterra, e o quartel-general successivamente em Idanha a nova, ou Castello-branco. Para entreter este exercito hum corpo de Francezes ameaçou entrar por Segura; mas elle não teve parte em outra alguma operação da campanha. [Sidenote: 1801] [Sidenote: 1801] O Principe da Paz parecia destinar-se então a marchar para o sul do reino, onde outro corpo de Hespanhoes ameaçava penetrar por Ayamonte; porque já nesse tempo a primeira divisão do exercito Francez, que se dizia composta de 18:000 homens, tocava as nossas fronteiras por Cidade-Rodrigo; e era seguida por muitas outras tropas da mesma nação, de que o plano parecia ser dividirem-se em duas columnas, de que huma seguiria a corrente do Téjo até Lisboa, e outra a do Douro até o Porto. A situação de Portugal era consternadora. Foi necessario recorrer ás negociações, para suspender a guerra, e fazer sacrificios para segurar o exito das negociações. Ignoro a extensão destes sacrificios; sei porém, que se concedião grandes vantagens ao governo Francez, e que além disso foi necessario captar as boas graças do Principe da Paz, que governava a Hespanha, e comprar as de Luciano Bonaparte, que figurava por seu irmão o primeiro Consul, os quaes não erão homens de accommodar-se com pouco.[5] Para satisfazer á voracidade destas harpias, que querião devorar Portugal, foi necessario á nossa corte contrahir hum emprestimo de treze milhões de florins á casa de Amsterdão Hope, e á de Londres Barring e companhias, para cujo pagamento se applicárão huma parte do rendimento do tabaco, e os diamantes do Brasil, que se fossem enviando áquelles commerciantes, para os negociarem. Daqui sahírão tambem 10 milhões de cruzado, que, como veremos, custou o tratado de Madrid. [Sidenote: 1801] Foi encarregado de conferir com aquellas personagens Luiz Pinto de Sousa, (depois Visconde de Balsemão) hum dos Ministros d’Estado, o qual concluio em Badajoz os dous tratados de paz com a Hespanha, e a França. [Sidenote: 1801] Pelo artigo I. do tratado entre Portugal e Hespanha se restabeleceo a paz, e amizade entre as duas coroas, e se estipulou a restituição de todas as presas, que se fizessem no mar, depois da ratificação. Estipulou-se no II., que os portos de Portugal, e seus dominios se fecharião aos navios Britanicos. Pelo III. prometteo S. M. C. a restituição de todas as conquistas feitas a S. A. R. menos a praça de Olivença, e seu territorio até o Guadiana, que ficarião perpetuamente unidos á coroa Hespanhola. Pelo IV. se obrigou S. A. R. a não consentir, que houvessem nas fronteiras dos seus reinos depositos de effeitos de contrabando, que prejudicassem ao commercio, e interesses da coroa Hespanhola, mais do que aquelles, que pertencessem exclusivamente ás rendas Reaes da coroa Portugueza, e que fossem necessarios para o consummo dos seus territorios, onde se achassem depositados, dando-se por nullo, se neste, ou em outro artigo houvesse infracção, _o tratado, que agora se estabelece_, formaes palavras, _entre as tres potencias, comprehendida a mutua garantia, segundo se expressa nos artigos do presente_. [Sidenote: 1801] [Sidenote: 1801] O artigo V. he notavel, e mostra bem, assim como o II., e outros mais, as difficeis circumstancias, em que se achava a corte de Portugal, quando lhes deo a sua approvação. Dizia-se antigamente, logo que se via envolvida a Hespanha em alguma guerra, que esta potencia pagaria sempre as custas, como a mais rica; reverteo-se porém desta vez a condemnação contra Portugal, como o menos poderoso. Impôz-se a S. A. R. a obrigação de satisfazer sem demora, e entregar aos vassallos de S. M. C. todos os damnos, e prejuizos, que justamente reclamassem, causados pelas embarcações da Gram-Bretanha, ou de Portugal, durante a guerra com aquella, ou com esta potencia. Que horroroso sacrificio! Prometteo S. M. C. como em justa reciprocidade dar satisfação a S. A. R. sobre todas as presas feitas illegalmente antes da guerra actual pelos Hespanhoes, com infracção do territorio, ou debaixo do tiro de canhão das fortalezas dos dominios Portuguezes. Aqui parece, que o negociador Hespanhol quiz zombar do Plenipotenciario Portuguez. Que reciprocidade a de huma satisfação indefinida por dous, ou tres navios, que os Hespanhoes podião ter feito prisioneiros debaixo do tiro de canhão, ou com violação do territorio Portuguez, pela restituição das innumeraveis, e ricas presas, que os Inglezes lhes tinhão feito desde o principio da guerra! Mas era necessario curvar as circumstancias. [Sidenote: 1801] No artigo VI. se obrigou S. A. R. a reintegrar dentro de tres mezes, desde a ratificação do tratado, ao erario de S. M. C. os gastos, que as suas tropas deixárão de satisfazer, quando se retirárão da guerra da França, e que forão causados nella, segundo as contas apresentadas, ou que de novo se apresentassem pelo Embaixador Hespanhol, salvo qualquer erro dellas. Estas tropas erão as que tinhão ido auxiliar a S. M. C. e que tanto lhe tinhão prestado naquella guerra; admira por tanto, que Carlos IV., depois de seis annos de silencio, se lembrasse ainda de alguns restos, que tivessem deixado de pagar do que despendêrão na mesma guerra, tendo-se esquecido absolutamente de Portugal na paz de Basiléa, e recebendo agora tão avultadas indemnizações por factos, em que S. A. R. não era culpado. Os artigos seguintes contém varios arranjos sobre a evacuação do territorio Portuguez, occupado pelos Hespanhoes, restituição de prisioneiros, renovação dos antigos tratados de alliança defensiva, que existião entre as duas Monarquias; e no VIII. prometteo S. M. C. garantir a S. A. R. a inteira conservação dos seus estados, e dominios, sem a menor excepção, ou reserva. Foi feito este tratado em Badajoz a 6 de junho de 1801, e ratificado no palacio de Quéluz por S. A. R. em 14 do mesmo mez. FOOTNOTES: [Footnote 5: _O Livre rouge_ composto por _Burienne_, secretario confidente de Bonaparte, tendo decahido da sua graça, de que o A. do _Plutarc. Revol._ nos deo hum extracto, contem huma relação das extraordinarias despezas do mesmo Bonaparte, e traz a seguinte addição--sua guarda-roupa, louça, joias da coroa, que apropriou ao seu uso, e outras saqueadas ou extorquidas na Italia, Hespanha, e Portugal 2:000:000 fr.--Outra addição respectiva a Luciano diz--sua guarda-roupa, louça, baixella, pinturas, e diamantes, que extorquio da Hespanha, e Portugal, 4:000:000 fr.--O referido A. do _Plutarc._ na vida do mesmo Luciano, referindo-se a outro folheto _la Sainte Famille_, diz, que por conselhos de sua mãi, e de Talleyrand lhe fôra dada a embaixada rendosa da Hespanha, com o fim de vender a Toscana, e roubar Portugal. Accrescenta depois, que por suas negociações em Madrid, e Portugal augmentou 20 milhões de francos á fortuna de seu irmão, e 10 milhões á sua. Deixo aos meus leitores darem a estas obras o credito, que lhes merecerem.] CAPITULO VI. _O primeiro Consul não ratifica o tratado de Badajoz, e se conclue outro em Madrid, mais oneroso para Portugal. Digressão sobre a Guiana, e paz de Amiens._ [Sidenote: 1801] [Sidenote: 1801] Cessárão consequentemente as hostilidades entre Portugal, e Hespanha; e era de esperar, que igualmente cessassem com a França, porque fechados os portos de Portugal, e seus dominios aos navios da Gram-Bretanha, ficava preenchido o motivo apparente, que Bonaparte dava por causal desta guerra; mas como erão outros os motivos particulares, nem este sacrificio, nem outros igualmente grandes o convencêrão a ratificar o tratado, que lhe respeitava, e que tinha sido obra de seu irmão Luciano. As tropas Francezas, em lugar de retrocederem das visinhanças de Portugal, accumulavão-se cada vez mais em Salamanca, e immediações do reino de Leão; e tudo dava indicios de que o General S. Cyr se dispunha a invadir o territorio Portuguez independentemente dos Hespanhoes. Bonaparte chegou mesmo a fazer intimar a S. M. C. que se persistisse na observancia do tratado de Badajoz, teria por consequencia immediata a perda da ilha da Trindade,[6] e assim o vimos verificado nos artigos III., e IV. do tratado de Amiens. [Sidenote: 1801] [Sidenote: 1801] Forão pois necessarios novos sacrificios, novas negociações, e a mediação de S. M. C., para se obter do governo Francez o tratado de Madrid, ou para chegar mais ao fundo do negocio, foi necessario, que amadurecessem as negociações com a Inglaterra, e que o curso dellas obrigasse Bonaparte a suspender por então o seu plano invasor; e assim mesmo custou dez milhões de cruzados, que Portugal teve de dar em boa moeda ao governo Francez. Foi concluido em 29 de setembro de 1801 entre os plenipotenciarios respectivos, por parte de Portugal Cypriano Ribeiro Freire, e pela da França este mesmo Luciano Bonaparte, que assinára o de Badajoz. Dous dias depois se assinárão em Londres os preliminares com a Inglaterra. No artigo I. se determinou o restabelecimento da paz e boa harmonia entre as duas potencias, e o das suas relações politicas no mesmo pé, em que se achavão antes da guerra; devendo cessar as hostilidades por mar, e por terra no termo de 15 dias, contados desde as ratificações do tratado, para a Europa, e mares, que banhão as suas costas, e as da Africa para cá do equador, de 40 dias para os paizes, e mares da America, e Africa além do equador, e de tres mezes depois para os paizes, e mares situados ao oeste do cabo d’Horn, e a leste do cabo da Boa-esperança. Em consequencia do mesmo principio se determinou, que serião restituidas as presas, que se fizessem depois das referidas épocas nas paragens respectivas. A entrega de todos os prisioneiros de guerra, de huma e outra parte, foi igualmente determinada. [Sidenote: 1801] Estipulou-se no artigo II., que ficarião desde logo fechados, até á paz com a Inglaterra, todos os portos, e bahias de Portugal na Europa aos navios Inglezes de guerra, e de commercio; e pelo contrario abertos aos da França, e de seus alliados. Que para os portos, e bahias do ultramar seria obrigatorio da mesma fórma este artigo, desde as épocas estabelecidas no I. para a cessação das hostilidades. O artigo III. obriga Portugal a não fornecer, durante o curso daquella guerra, aos inimigos da républica Franceza, e de seus alliados soccorro algum em tropas, navios, armas, munições de guerra, viveres, ou dinheiro, debaixo de qualquer titulo, ou denominação, ficando revogados, e nullos todo o acto, promessa, ou convenção anteriores, que fossem contrarios a este artigo. O poder supremo do governo Francez dispensava por este modo na observancia de convenções as mais solemnes entre outras potencias, sem a concurrencia das partes interessadas. O artigo IV. respeita as demarcações da Guiana, e o V. a hum tratado de commercio, e de navegação, que devia negociar-se, para estabelecer definitivamente as relações commerciaes entre Portugal e França, convindo-se entretanto no seguinte: 1.^o Que as communicações serião restabelecidas immediatamente depois da ratificação, e as agencias, e commissarios de commercio repostos de huma, e outra parte na posse dos direitos, immunidades, e prerogativas, de que usavão antes da guerra. 2.^o Que os cidadãos, e vassallos d’ambas as potencias gozarião igual, e respectivamente de huma, e outra parte de todos os direitos, de que nellas gozão os das nações mais favorecidas. [Sidenote: 1801] 3.^o Que os generos, e fazendas procedentes do territorio, ou das manufacturas de cada hum dos dous estados serião reciprocamente admittidos, sem restricção, nem sujeição a mais direitos, que os impostos sobre os generos, e fazendas analogas, importadas por outras nações. 4.^o Que os pannos Francezes serião immediatamente admittidos em Portugal, como fazendas as mais favorecidas. 5.^o Que todas as estipulações relativas ao commercio, insertas nos tratados precedentes, e não contrarias a este, serião executadas provisoriamente, até á conclusão do tratado de commercio definitivo. [Sidenote: 1801] A demarcação dos limites das possessões Portugueza, e Franceza na Guiana tem sido muitas vezes o pomo da discordia entre as duas nações. O tratado de Lisboa em 4 de março de 1700 estabeleceo huma demarcação provisional, em consequencia do qual foi obrigada a corte de Portugal a fazer demolir os fortes de Araguari, e Camaú, ou Macapá com outros mais, e ficou a França na posse das terras, que estão ao norte. Veio depois o tratado de Utrecht em 11 de abril de 1713, que revogou o de Lisboa, e permittindo á corte de Portugal o reedificar aquelles fortes, lhe concedeo o pleno dominio, e soberania sobre as terras chamadas de Cabo do norte, e de todas as mais situadas entre o rio das Amazonas, e o de Oyapoc, ou de Vicente Pinsão, das quaes fez a corte de França a mais solemne, e formal desistencia pelos artigos VIII., IX., e X.; desistio da navegação do rio das Amazonas pelo XI., e se obrigou pelos XII., e XIII. a não consentir, que os moradores de Cayena, ou quaesquer outros de seus vassallos entrassem nos paizes assim cedidos, e sancionados a Portugal, para commerciarem, ou resgatarem escravos, nem mesmo missionarios Francezes, ou outras pessoas debaixo da sua protecção. [Sidenote: 1801] Ficárão pois bem definidos os limites das duas possessões pela costa do mar, fixando-se no rio de Oyapoc, ou de Vicente Pinsão; e nisto concordavão geralmente os geografos Francezes; mas as viagens de M. Condamine, a quem permittimos em 1744, quando voltava de fazer as suas observações astronomicas no Perú, sondar, e examinar as margens do rio das Amazonas, a sua embocadura, e as costas da Guiana Portugueza, derramárão novas sombras, e excitárão novas questões sobre esta materia. No seu diario[7] pertendeo mostrar este célebre viajante, que o rio de Vicente Pinsão era huma das embocaduras do Araguari, e hum braço de mar, que conduz a ella, e achou entulhado de area, e que sem razão se confundíra no tratado de Utrecht com o de Oyapoc, que fica 50 leguas ao norte. Não deixou a corte de França de aproveitar-se desta aberta, para renovar as suas pertenções sobre este vasto terreno, como se devessem prevalecer a huma desistencia tão solemne, como a daquelle tratado, a opinião, ou as conjecturas de hum geografo, apoiadas sómente sobre antigas cartas, e escritos. [Sidenote: 1801] [Sidenote: 1801] Consta, que no tratado feito em París por Araujo se tinha consentido, segundo as instrucções do Visconde de Balsemão, em se fixar a demarcação por huma linha parallela ao equador, tirada a dous gráos e meio de latitude septentrional. Procedia-se sobre numa errada carta de M. Anville, sem se conhecer, que esta linha, passando a travéz de possessões alheias, hia dar ao occidente no meio das terras Portuguezas, ficando para os Francezes o forte de S. Joaquim sobre o rio Branco, e entregando-se-lhes consequentemente a navegação deste, e do rio Negro, que desembocão no das Amazonas, do qual remontando pelo Madeira, que he hum dos mais consideraveis da America, e offerece poucos obstaculos á navegação, podião entranhar-se no centro do Brasil pela capitanía de Matto-grosso. Muitos outros lhe franqueavão até grandes distancias toda a margem direita do das Amazonas; e era tal o empenho dos Francezes em se senhorearem daquella parte da Guiana, que sem esperarem a ratificação do tratado, tiverão meios de fazer chegar ao governador do Pará avisos, para lha entregar. Felizmente elle palliou a execução, até receber ordens mais positivas, e em lugar dellas recebeo a certeza de ter ficado sem effeito o tratado. [Sidenote: 1801] Pelo de Madrid fixárão-se os limites no rio Carapatanuba, que entra no das Amazonas quasi a hum terço de gráo ao norte do equador acima do forte Macapá, seguindo o seu curso até o nascente do mesmo rio, d’onde continuarião para a grande cordilheira de montanhas, que faz a divisão das aguas, e seguirião as suas inflexões até o ponto, onde se aproxima mais do rio Branco, a dous gráos e hum terço da mesma latitude septentrional. Ainda peioravamos nesta demarcação, por ficar exposta a embocadura do rio das Amazonas; mas os preliminares de Londres, e depois o tratado definitivo de Amiens a vierão moderar, estabelecendo novos limites, que julgo serem os mesmos, que tinha designado M. de la Condamine, na embocadura do rio Araguari a mais affastada do Cabo norte, perto da ilha Nova, e da ilha da Penitencia, quasi a hum gráo e hum terço de latitude septentrional, seguindo o curso do rio até a sua nascente, e desta por huma linha recta até o rio Branco. [Sidenote: 1801] Nas demarcações antigas parece que se tinha sómente em vista regular os limites da costa. O interior das terras são na verdade desertos, só habitados por selvagens, e quasi desconhecidos, a pezar das viagens, que se contão ao longo do Orenoque, e em algumas outras paragens: he o paiz das fabulas, onde a travéz de lagos, e despenhadeiros a ambição dos Europeos tem apenas feito penetrar alguns miseraveis, que demandavão o lago Parimo, e os imaginarios thesouros do Eldorado. Na esperança de grandes riquezas, e tambem com o fim de expulsarem os Portuguezes dos seus estabelecimentos na Guiana, os Francezes chegárão em tempos mais antigos a principiar hum caminho, que desde as fontes do rio Orapu, que entra no Oyac a cousa de 8 leguas acima da sua embocadura defronte de Cayena, devia atravessar hum paiz immenso até o Amazonas. Tudo deve prevenir-se, e acautelar-se em hum tratado definitivo, principalmente quando se trata com governos emprehendedores, e poderosos, que não procurão senão abertas, para renovarem na occasião as suas tentativas; se he que o mais fraco se não vê obrigado a receber a lei do mais forte, como he frequente, quando se negoceia com potencias, que tem tomado a superioridade. [Sidenote: 1801] A paz de Amiens fechou na Europa o templo de Jano. Heróe, ou malvado! Este he o momento de te encheres de gloria, ou de te cobrires de infamia, de perpetuares o repouso das nações, ou as fazeres por longo tempo desgraçadas. Lança os olhos sobre a America septentrional, vê o famoso Washington terminando huma carreira verdadeiramente heroica, rodeado de amigos, e de filhos, que banhão de lagrimas o seu leito, e o enchem de bençãos pelos bens, que lhes fizera. Quanto he doce huma semelhante morte, se na morte se póde achar doçura! Se te não atreves a imitar o exemplo de Sylla, que abdicou o poder, e viveo tranquillo, ao menos imita o de Augusto, que arrogando o imperio, deo a paz ao mundo; e a prosperidade, de que fizeres gozar os póvos, escurecerá bem depressa em ti a qualidade de usurpador. Appareceráõ sómente as tuas virtudes, e ficaráõ escondidos os teus crimes. FOOTNOTES: [Footnote 6: _Cod. Diplomat. tom. II._ artigo de Portugal.] [Footnote 7: Differentes extractos do diario de _M. de la Condamine_ forão insertos na _Hist. Gener. de les Voyag._ o que respeita ao presente objecto acha-se no _tom. 53._] CAPITULO VII. _Renova-se a guerra entre a França, e a Gram-Bretanha, de que as commoções se sentem em Portugal. Lannes em Lisboa: suas negociações, e intrigas._ [Sidenote: 1802 a 1804] [Sidenote: 1802 a 1804] [Sidenote: 1802 a 1804] A huma paz momentanea seguio-se huma longa guerra, que provavelmente só deve terminar com a ruina de hum dos dous governos, em que o mundo tem fixos os olhos. Não farei longas digressões sobre historias estranhas, nem me declararei escritor partidista. A corte de Londres, e o governo consular enchêrão a Europa de queixas, e de manifestos: nelles devem procurar-se os motivos verdadeiros, ou apparentes da renovação das hostilidades. Não devo porém dispensar-me de fazer observar aos meus leitores, que quando o governo da França obtinha restituições, ajuntava novas terras ao seu imperio, intromettia-se nos negocios, e no governo dos póvos visinhos, dando huma nova constituição á républica Liguriana, mudando a fórma prescripta no tratado de Amiens á Ordem de Malta, sujeitando a républica Italiana á conscripção militar, enchendo a propria Inglaterra de espias, e emissarios, com o titulo de agentes de commercio, e ameaçando por muitas outras instituições o repouso da Europa, sobre a qual tomava Bonaparte hum tom de Dictador, sem disfarce. París começou a ser tratada pelo titulo de capital do mundo,[8] e tudo annunciava projectos, e empresas sem limites. A Inglaterra sem dúvida cogitava tambem nos meios de augmentar o seu poder maritimo, e este tem sido desde longo tempo o seu systema, assim como o principio das queixas formadas contra o seu governo. Felizmente ella tem conseguido o seu fim, porque a não ser este immenso poder maritimo, que outra força poderia haver, que resgatasse a Europa das cadeias da França? [Sidenote: 1802 a 1804] Os movimentos da nova guerra produzírão novas commoções no ministerio de Portugal, porque os tiros, que o governo Francez despedia sobre Londres, reverberavão sempre para o Téjo. Se Bonaparte não previsse, que a guerra se transportaria do mar para o continente, como veio a succeder, he natural, que cogitasse novos projectos de invasão nos Estados Portuguezes: as circumstancias o obrigárão a seguir outro plano, o de insistir em durissimas pertenções, para obrigar a corte de Lisboa a romper com a de Londres, ou ir defecando Portugal com exacções, para comprar huma neutralidade, mais ruinosa para o Estado, do que a propria guerra, assim como hia defecando a Hespanha com o pretexto de soccorros amigaveis. Defecadas, e exhauridas estas duas Monarquias, ellas cahirião sem remedio, em chegando o tempo, nem Bonaparte, que de primeiro Consul passou bem depressa a Imperador dos Francezes, podia deixar de olhar como hum passo necessario ao seu engrandecimento, e á conservação da sua nova dynastia, a destruição de duas Familias reinantes, em que circulava o sangue dos Bourbons, daquelles mesmos, de que usurpava o throno. [Sidenote: 1802 a 1804] Em março de 1802 tinha o primeiro Consul mandado por Embaixador á corte de Lisboa o célebre Lannes, este mesmo Marechal, que vimos ha pouco terminar os seus dias malfadados na batalha de Esling, para ser o agente de novas maquinações, o precursor de grandes infelicidades. Era o seu systema, já d’antes perpetuado no governo Francez, como aquelle, que mais quadra a hum governo invasor, mandar sempre Generaes por Embaixadores ás cortes, onde conservava relações, para de longe irem lançando os fundamentos da dominação Franceza, porque a fraude, e a prevaricação tem feito daquelles, que não devião ser senão puros orgãos das sinceras proposições dos seus Soberanos, huns espias disfarçados, huns motores de intrigas, huns revolucionarios, infractores daquelle mesmo Direito das gentes, que lhes concede a immunidade, e que serve de capa aos seus crimes. [Sidenote: 1802 a 1804] [Sidenote: 1802 a 1804] Entrou Lannes em Lisboa com o caracter de Plenipotenciario, e Enviado extraordinario, mais como hum General républicano, que vinha fazer conquistas, do que como Ministro de huma corte civilizada, que vinha exercer funcções diplomaticas. Perdoar-se-lhe-hia o não se cingir ás formulas ordinarias, o ostentar a ferocidade de hum guerreiro no meio de hum povo pacifico, e toda a altivez républicana perante os Ministros de hum governo monarquico, se fosse menos sinistro o verdadeiro objecto da sua missão, e menos violento o seu modo de proceder nos pontos essenciaes das suas relações politicas. Recebeo de SS. AA. RR. a primeira audiencia pública em 2 de abril, e desde então começou a trabalhar no plano, de que seu amo lhe confiára a execução. Era o mesmo, que alguns annos antes o Directorio executivo tinha confiado ao General Brune, e ao seu adjuncto Guinguiné perante a corte de Turin, para minar os fundamentos daquella Monarquia, e precipitar em fim do throno o Rei de Sardenha: o de privar a S. A. R. dos seus fiéis servidores, dos seus verdadeiros amigos, mudar o ministerio, arvorar em fim hum partido Francez em Lisboa, e lançar os alicerces da dominação de Bonaparte. Forão inuteis por longo tempo as tentativas de Lannes, e seria muito importante a relação exacta, e circumstanciada das suas operações diplomaticas; mas he esta huma parte da nossa Historia, que o véo ainda cobre. Em fim vendo, que não conseguia os seus intentos, que se dirigião especialmente contra aquelles Ministros, que empregavão todos os seus esforços em sustentar dignamente o Soberano sobre hum throno, de que se traçava a ruina, elle parte precipitadamente pela posta com direcção a París, tendo dado manifestas provas do seu arrebatamento, e deste ar grosseiro, e altivo, que se lhe havia notado, desde a sua entrada em Lisboa. [Sidenote: 1802 a 1804] A nossa corte expedio immediatamente vivas representações a Bonaparte sobre este desusado comportamento do seu Embaixador por hum correio, que o precedeo na marcha; e as representações sortírão na verdade huma parte do seu effeito; porque Bonaparte mandou suspender a entrada de Lannes em París, mas tambem mandou a Mr. Herman, este mesmo, que depois veio figurar na invasão de 1807, a pedir satisfações, pela facilidade, com que se lhe concedêrão os passaportes: as pertenções do governo Francez ficárão sempre no mesmo pé, ou ainda peior do que d’antes; e não tardou muito tempo, que Lannes não voltasse a Lisboa exercer de novo as suas funcções perante a nossa corte. Notou-se-lhe mais moderação, e chegou mesmo a merecer as boas graças de S. A. R. por effeito de certas maneiras agradaveis, que lhe escapavão para com este Soberano por entre toda a sua altivez natural, e talvez mais ainda, por hum ar de franqueza, que ostentava até nas suas pertenções as mais extraordinarias, a qual tem sempre grande imperio sobre as almas sinceras, e virtuosas. [Sidenote: 1802 a 1804] Mudárão pois algum tanto as negociações na exterioridade; mas no fundo nada diminuio o seu rigor: sobre ellas guardarei ainda o silencio, limitando-me a referir alguns factos públicos, para não enganar os meus leitores com conjecturas falliveis. He incontestavel, que achando-se em opposição os interesses da França com os da Gram-Bretanha, e procurando os Embaixadores destas duas potencias em Lisboa sustentar cada hum o partido da sua corte, daqui resultou huma guerra continuada entre ambos, e muitas vezes sobre pontos insignificantes, e de méro capricho, que punha em aperto a corte de Lisboa, pelos motivos instantes, e assás conhecidos, com que desejava satisfazer a ambos. Até nas gazetas vio a Europa exercitar esta guerra, e a Europa deveo admirar-se de que os representantes das duas cortes da maior representação do mundo descessem a estas ninharias, de que referirei dous exemplos, que me parecem mais notaveis. Não ponhamos porém na mesma linha a corte de Londres, e seus Ministros, com o governo Francez, e seus agentes: os factos mostrão assás, de qual das partes está a baixeza, e o ridiculo. [Sidenote: 1802 a 1804] [Sidenote: 1802 a 1804] Nasceo hum filho ao General Lannes, pouco tempo depois da sua primeira vinda a Lisboa; e querendo S. A. R. dar hum testemunho da sua benevolencia para com elle, lhe servio de padrinho no baptismo, brindando-o com hum magnifico presente daquelles, que tem lugar em semelhantes occasiões. Foi transmittida esta noticia á Inglaterra, e appareceo no correio de Londres de 30 de julho de 1802 hum artigo, que dizia em substancia: que o Principe do Brasil depositára sobre o berço do filho do General Lannes hum presente, que se avaliava em mais de 4000 _l. st._ (36 mil cruzados) o que devia attribuir-se mais depressa á dignidade daquelle que dá, do que ao merecimento do que recebe.[9] Foi necessario, que a corte de Portugal, para satisfazer aos mal fundados caprichos do Embaixador de França, contradissesse as reflexões do gazeteiro de Londres, mandando declarar na gazeta de Lisboa de 18 de setembro seguinte, que o presente procedêra de méra generosidade de S. A. R. e não dos motivos, que dava o correio de Londres. [Sidenote: 1802 a 1804] [Sidenote: 1802 a 1804] Á instancia do mesmo embaixador Lannes se inserio em hum supplemento extraordinario á gazeta de Lisboa de 13 de março de 1804 a conta dada ao governo Francez pelo Gram Juiz em 17 de fevereiro precedente, extrahida do monitor de 18 do mesmo, na qual se imputava descaradamente a S. M. Britanica, e ao governo Inglez a conspiração pertendida, ou verdadeira, contra o primeiro Consul, de que forão victimas illustres os Generaes Pichegrú, e Moreau. A Europa vio logo no correio de Londres de 17 de abril daquelle anno o sábio comportamento do Ministro, e do ministerio Inglez na sua digna resposta a huma tal injúria. Patenteou-se, que o Embaixador Britanico em Lisboa, Lord Robert Fitzgerald, fizera apresentar huma nota ao Secretario d’Estado Visconde de Balsemão, na qual dizia, que se abstinha por então de fazer huma queixa formal ao governo de S. A. R. sobre este objecto, contentando-se com observar, que este artigo infame era conforme ao estilo, e espirito do jornal official, de que era extrahido; mas indigno de se traduzir em Portugal; e que sentia, que o primeiro ensaio da liberdade da imprensa neste reino fosse em hum libello famoso inventado pelos inimigos de S. M. Britanica contra o mais antigo, e fiel alliado de Portugal. Que se reservava o usar desta liberdade de imprimir, para lhe dar hum _mente_ formal, tão depressa fosse authorisado pelo seu governo, se este não quizesse antes responder-lhe com o desprezo, que tantas vezes tinha manifestado a semelhantes ridicularias, com que em vão tinhão pertendido murchar a sua reputação, desde o princípio da revolução. O ministerio Portuguez portou-se sobre este ponto com a gravidade, e sabedoria, que lhe erão proprias: abandonou-se o negocio aos gazeteiros, e não teve mais consequencias. Não pôde encobrir-se ao público, e eu deixaria imperfeita esta Historia, se o não referisse, que o Conde de Linhares, e D. João d’Almeida, hoje Conde das Galvêas, erão as principaes personagens do ministerio Portuguez, contra os quaes se dirigião as inauditas pertenções Francezas. O Embaixador os julgava como chéfes do partido Inglez: o partido, que elles seguião, era o do Soberano, e da nação Portugueza. Diogo Ignacio de Pina Manique, Intendente geral da policia, e Administrador geral das Alfandegas, era outra victima, que se pertendia immolar; na apparencia por vexações feitas a Francezes pela repartição das Alfandegas; mas realmente pela vigilancia, com que procurava extirpar as sementes revolucionarias, descobrir, e punir todos aquelles, que as semeavão. [Sidenote: 1802 a 1804] Era necessario, que estes homens fossem sacrificados á ambição de Bonaparte, como em Turin o forão a do Directorio executivo o Conde de S. André, commandante da cidade, seu filho o cavalheiro Revel, o Presidente do Senado, e o cavalheiro de Osasco; por terem punido os rebeldes, os traidores ao seu Soberano. Terrivel exemplo, que devia ter aberto os olhos a todos os gabinetes da Europa sobre a politica atroz do governo Francez, e produzido huma combinação geral de todos elles, para destruirem até os elementos deste systema de usurpação, e de perfidia. [Sidenote: 1802 a 1804] O público, sempre attentivo, e sempre suspeitoso em observar objectos desta natureza, não perdia de vista hum só passo do Embaixador; elle admirava a firmeza, com que S. A. R. resistia ás suas tentativas; mas consternou-se, quando vio desatar o nó com a demissão, que pedírão dos seus empregos os Condes de Linhares, e das Galvêas. Manique foi substituido no de Administrador geral das Alfandegas; mas conservou sempre o de Intendente geral da policia, até que falleceo pouco tempo depois, não podendo na verdade satisfazer a todos os que exercitava, pela avançada idade, em que se achava constituido. Os amigos do Soberano, e da patria estremecêrão desde então pela segurança do throno, e da nação, receando ver reproduzida em Portugal a catastrofe do Piemonte; e só aquelles, que limitavão as suas vistas a hum ponto muito estreito, he que deixavão de presagiar as tristes scenas, que o tempo devia trazer-nos, vendo os projectos de ambição, que de dia em dia se augmentavão na corte das Tuilherias, o lethargo da Hespanha, e a destruição geral da Europa. Lastimoso periodo da nossa Historia, que o homem sensivel não póde discorrer sem lagrimas! He reservado ás almas ferozes o verem com indifferença aproximar-se o momento de ser derribada ás mãos da perfidia huma Monarquia de 7 seculos, abatido hum throno, em que se assentárão tantos Principes respeitaveis, perseguida, e expulsa huma Real Familia adorada dos seus póvos, destruidas as leis, os usos, e a propria religião do Estado. FOOTNOTES: [Footnote 8: Assinaladamente lhe foi dado este título pomposo em huma falla feita pelo Ministro do interior a 13 de julho de 1802, indo lançar a primeira pedra ao caes denominado _Bonaparte_ sobre o Sena, e no dia seguinte o primeiro Consul no meio do apparato de huma grande festa fez huma proclamação, em que proferio, que não havia cabeça alguma, que não curvasse debaixo do _imperio da igualdade_: destes rasgos podem citar-se muitos.] [Footnote 9: _Le Prince du Bresil a déposé sur le berceau du fils du Général Lannes un présent qu’on évalue au de-là de 4000 l. st. C’est le rang de celui qui done, plutôt que le mérite de celui qui reçoit, qu’il faut considérer ici pour expliquer la magnificence de ce cadeau_: são as palavras do correio de Londres.] CAPITULO VIII. _Portugal obtem, á custa de novos sacrificios, hum tratado de neutralidade; e fazendo o Principe Regente, para conservalla, todos os esforços compativeis com a dignidade da sua coroa, he mal correspondido por Bonaparte, que com tudo não póde ainda fixar os olhos sobre o occidente. Junot Embaixador em Portugal._ [Sidenote: 1804] [Sidenote: 1804] Dissipárão-se hum pouco os terrores com a certeza de ter sido reconhecida por hum solemne tratado com o primeiro Consul a neutralidade de Portugal, posto que á custa de grandes sacrificios. He quanto sei deste tratado, o qual se não tem feito público; porque he o que consta do manifesto da corte de Portugal contra a das Tuilherias, datado do Rio-de-janeiro no 1.^o de maio de 1808. Delle se mostra, que houve os sacrificios: correo geralmente em Portugal, que deitarão a seis milhões de cruzados, em Inglaterra chegárão a computallos em 17 milhões; e se entendião de francos, não era grande a differença; mas eu ignoro absolutamente a sua extensão. Incomparavelmente maiores serião os beneficios, que a neutralidade devia trazer a Portugal, se fosse duravel, e bem guardada; porque além da segurança, e tranquillidade da nação, bens incalculaveis, o nosso commercio livre, e a nossa bandeira franca em todos os mares serião mananciaes inexgotaveis de abundancia, e de riquezas. Mas que firmeza podia esperar-se da palavra de hum governo usurpador, que vendia tratados, para ter dinheiro, e faltava a elles, para fazer novas vendas? Ainda não havia tres annos, que Portugal lhe tinha comprado o de paz. [Sidenote: 1804] Tudo na verdade foi tranquillo nos primeiros tempos, que se seguírão ao tratado; e parecia que este estado de cousas devia ser duravel, porque além de ter Bonaparte em Portugal huma herdade tão fecunda, que nas suas necessidades lhe hia sempre contribuindo com alguns milhões, a neutralidade não era menos util á França, do que a Portugal no estado de interdicto, em que a Inglaterra tinha posto a navegação, e o commercio daquella nação: se queria os generos coloniaes, pelos portos, e nos navios Portuguezes lhe erão conduzidos: se queria dar sahida aos productos da sua agricultura, e das suas fábricas, por via de Portugal fazia as suas exportações. Veremos bem depressa, como a si mesmos se privárão os Francezes de tão grandes vantagens, pela maldita ambição de quererem dominar o mundo. [Sidenote: 1804] Huma esquadra Franceza, em que andava embarcado Jeronymo Bonaparte, irmão do Consul, correo entretanto os mares da America, entrando na Bahia de todos os Santos, achou todos os soccorros, que cabião no Direito das gentes; e esta mesma esquadra correspondia a huma tão generosa hospitalidade, queimando varios navios Portuguezes, bem como outros de differentes nações, que hia encontrando, sem outro motivo verdadeiro, ou apparente, que o evitar, que levassem noticias della a outras paragens: Direito novo, e bem digno de occupar hum titulo no codigo Napoleão. Promettêrão-se por parte do governo Francez indemnizações por este estrago; mas nunca se realizárão; e não quiz o Principe Regente comprometter de novo a tranquillidade dos seus póvos, por semelhante motivo. [Sidenote: 1804] Pelo contrario o governo Francez, tão prompto em fazer reclamações, como inexoravel em exigir satisfação a ellas, excogitava todos os pretextos imaginaveis, para haver indemnizações. O Governador das ilhas de S. Thomé, e Principe tinha demorado o navio Francez S. Jacques, que a ellas tinha aportado na primeira época da revolução, até receber a este respeito ordens do nosso ministerio. O Governador da ilha da Madeira procedeo da mesma fórma para com outro navio Francez, que entrou no seu porto; e como logo se seguírão as hostilidades, o ministerio os mandou reter, para servirem de indemnisação aos prejuizos, que recebessem da parte da França os vassallos Portuguezes: foi agora necessario pagallos, assim como satisfazer a muitas outras reclamações particulares, por preços exorbitantes, que o governo Francez lhes fez taxar. Tal era a reciprocidade entre as duas cortes! [Sidenote: 1804] Tomou o primeiro Consul o titulo imperial, e querendo parecer hum homem todo novo, não nas maximas, sim no apparato, até trocou o seu antigo nome de Bonaparte pelo de Napoleão, em que achava hum ar de grandeza, que convinha mais á magestade da sua nova ordem; e foi S. A. R. hum dos primeiros Soberanos, que o reconhecêrão nesta qualidade. Quiz ser coroado com huma pompa proporcionada ao seu poder, renovando o exemplo de Carlos Magno; mas com a differença, que Carlos Magno foi a Roma, para ser acclamado, e coroado pelo Papa Leão III., e Napoleão (daqui em diante o designarei pelo seu nome novo) fez vir a París Pio VII., para o coroar na Igreja de _Notre Dame_. Antes disso quiz dar hum espectaculo ao mundo, indo a Aix-la-Chapelle visitar o tumulo daquelle antigo Imperador do occidente, de quem se começou a appellidar successor, e recebendo alli os cortejos de varias cortes da Europa. [Sidenote: 1805] O Marechal Lannes foi assistir a esta acção, e lá foi tambem encontrar-se D. Lourenço de Lima com o caracter de Embaixador extraordinario, para comprimentar o Imperador em nome de S. A. R. O mesmo D. Lourenço de Lima ficou residindo junto á nova corte Imperial, em lugar de D. José Maria de Sousa, que com tanto zelo tinha promovido os interesses de Portugal; e parece que tambem se fez esta mudança, para comprazer com a vontade do Imperador, assim como foi substituido em Madrid Cypriano Ribeiro Freire pelo Conde da Ega. Teve em fim a corte de Portugal para com a das Tuilherias todas as condescendencias compativeis com a honra da coroa, e com os deveres do Soberano; porque que sómente tinha em vista salvar os seus Estados dos horrores da guerra; e foi no meio de todas ellas que o Imperador dos Francezes, em desprezo do tratado de neutralidade, renovou as suas antigas pertenções, para que esta mesma corte tomasse parte na guerra contra a Gram-Bretanha. [Sidenote: 1805] Pela ausencia do Marechal Lannes ficou servindo interinamente de Encarregado dos negocios da França M. Serrurier: veio substituillo o General Junot em abril de 1805, novo agente de iguaes maquinações, para consummar a obra, que o seu predecessor principiára; mas ella se achava tão adiantada, que o novo Embaixador não foi precisado a grandes trabalhos para o seu complemento. Era, ou estudadamente se mostrava, menos fogoso, e menos grosseiro, que Lannes; porém mais velhaco, e mais manhoso, ostentando tanto a magestade de representante de huma corte Imperial, quanto Lannes ostentára a altivez de hum républicano. Por entre os caractéres de huma avareza sordida começou logo a deixar conhecer os rasgos daquelle ar imperioso, com que hum dia tinha de governar Portugal. Sua mulher recebia como Soberana os cortejos da corte; e elle mesmo nunca se familiarizava com pessoa alguma, senão quando o pedião os seus interesses. Não fez tanto estrondo, como Lannes, ou ao menos a corte o não sentio tanto; por isso mesmo que as partes exteriores do edificio já estavão levantadas, e os animos mais preparados; mas trabalhou no que faltava ao interior, segundo as maximas do primeiro; porque hum e outro se encaminhavão ao mesmo fim, e tinhão recebido insinuações identicas. [Sidenote: 1805] Varias circumstancias embaraçavão ainda ao Imperador dos Francezes o fixar sériamente os olhos no occidente: repartia o seu tempo entre a acceitação das homenagens, que não cessavão de enviar-se ao seu throno dos differentes paizes da Europa, onde obrava a sua influencia, e o cuidado de organizar a Italia ao seu modo, e annexar o reino de Italia, e a républica Liguriana ao seu imperio. E quando menos o pensava, a Russia, e a Alemanha pegárão em armas contra elle, formando a terceira coalisão, mais infeliz, que as duas precedentes, a qual com tudo deo alguns mezes de repouso a Portugal, e até livrou este reino de hum tão importuno hospede como o Embaixador Junot, que foi continuar o seu governo de París, em quanto Napoleão marchava á frente dos seus exercitos para o Norte. CAPITULO IX. _Os Imperadores da Alemanha, e da Russia fazem huma guerra infeliz ao Imperador dos Francezes, de que resultão grandes mudanças na Europa. Negociações entre a França, e a Inglaterra. Novos projectos de Napoleão: a Hespanha faz armamentos; e Portugal he novamente ameaçado. Soccorros da Inglaterra._ [Sidenote: 1805] [Sidenote: 1805] Ninguem esperava, que as duas maiores potencias d’Europa unidas fizessem tão pouca resistencia ás armas Francezas; mas forão taes os successos, que tendo Napoleão sahido de París a 24 de setembro, rematou a campanha em 2 de dezembro com a memoravel batalha de Austerlitz, tendo destruido os exercitos Austriacos, penetrado até o coração dos Estados hereditarios do Imperador Francisco, e posto o Imperador Alexandre em circumstancias de não poder continuar a guerra. A 26 tinha elle concluido com o primeiro a paz de Presburgo, e negociava com o segundo; ficando-lhe aberta huma nova, e mais ampla carreira á sua ambição, e aterrada a Europa com o estrondo das suas victorias. Duzentos mil homens, que Napoleão tinha juntos sobre a costa do oceano, para a projectada invasão da Inglaterra, além das numerosas tropas, que ajuntou na França, Italia, e mais paizes, que dominava, e com os quaes cahio de improviso sobre os exercitos Austriacos, antes de se lhes unirem os Russianos, a falta de hum bom plano de combinação entre os alliados, ou da sua execução, a entrega de Mack, sem resistencia, com hum exercito de trinta e seis mil homens, defendido por huma das melhores praças da Europa, e outras fatalidades desta natureza forão as causas efficientes de acontecimentos tão estrondosos, e das funestas consequencias, de que forão seguidos. [Sidenote: 1806] O anno de 1806 será hum dos mais memoraveis nos annaes politicos d’Europa. O reino de Napoles he tirado ao seu legitimo Soberano, para ser dado a José Bonaparte; a républica da Hollanda transforma-se em Monarquia a favor de Luiz; desfaz-se o antigo Imperio Germanico, em desprezo das bases do tratado de Presburgo; e se levanta a confederação do Rheno, dominada por Napoleão com o titulo de Protector, a qual o Imperador d’Austria he obrigado a reconhecer, renunciando o titulo de Imperador de Alemanha, e os direitos a elle annexos. Que agigantadas obras, para serem concluidas em menos de seis mezes! [Sidenote: 1806] Então mesmo propunha Napoleão a paz (mas que paz!) á Inglaterra, e se abrião as negociações de Lord Yarmouth, e Lord Lauderdalle em París. Então se concluia hum tratado entre elle, e o Imperador da Russia por meio dos seus plenipotenciarios, de que o monitor de 23 de julho fazia huma participação official, transcrevendo a carta circular do Ministro da marinha a todos os portos de França, para serem tratados nelles como amigos os navios Russianos; e não tendo a França mais inimigos no continente, parece que esta era a occasião de licenciar as suas tropas, e não de augmentallas. Com tudo Napoleão mandava levantar mais cincoenta mil conscriptos: não era isto huma prova de que meditava novas emprezas? Parece, que ainda não tinha apartado bem os olhos do norte, pois que não esperára a ratificação do tratado com o Imperador Alexandre, e já os tinha fixados no occidente. [Sidenote: 1806] Corrêrão rumores na Europa de que Napoleão propunha novos desmembramentos a Alexandre: corrêrão outros de que a Hespanha tinha cedido quatro provincias á França, devendo Portugal servir-lhe de indemnisação; mas não ponhamos rumores a par de certezas. He sem dúvida, que no tempo, em que Napoleão mandava levantar os cincoenta mil conscriptos, a Hespanha principiava tambem a pôr tropas em pé de guerra, e Portugal fazia esforços para melhorar o seu exercito, e dar-lhe nova fórma. Não he menos certo, que os mezes de julho, e agosto forão de agitação para os gabinetes Portuguez, e Hespanhol. [Sidenote: 1806] [Sidenote: 1806] As tropas, que este ultimo mandava pôr em pé de guerra, serião para invadir Portugal, ou para resistir á França? Eu não tenho principios, para decidir esta questão. A conjunctura parecia opportuna para a execução do projecto, que as novas revoluções do norte fizerão ainda demorar até o outono de 1807; mas tambem póde ser, que o ministerio Hespanhol, a pezar do seu adormecimento, comprehendesse, ou suspeitasse então os perigos, que o ameaçavão, e quizesse fazer hum esforço, para quebrar as suas cadeias. A esta supposição dá grande pezo o continuar o armamento da Hespanha, ainda depois que Napoleão se vio obrigado a desistir das suas emprezas sobre o sul; de fórma que em novembro, quando elle se achava transportado ás margens do Vistula, se determinava hum novo alistamento de tropas, elevando-se o exercito Hespanhol de 118:000 homens, que contava, a 140:000; do que ultimamente tirou motivos de queixa o gabinete das Tuilherias na conta dada ao Imperador por Mr. Champagny em 24 de abril de 1808, accrescentando, que a nação Hespanhola fôra chamada toda a pegar em armas por huma proclamação anterior sómente nove dias á batalha de Jena, sendo esta a que desconcertou as vistas do ministerio Hespanhol. Mas tambem se a França, e a Hespanha não hião de acordo, se era justo, e bem fundado o resentimento do Imperador dos Francezes, que motivo teve elle, para suffocar as queixas no meio dos seus triunfos até 1808, fazendo sempre grandes elogios ao ministerio, e á nação Hespanhola? Fosse qualquer o motivo dos movimentos da Hespanha, elles terminárão tanto á vontade de Napoleão, que o proprio Carlos IV. pôz á sua disposição hum corpo respeitavel das suas tropas escolhidas, que o ajudárão a destruir a Prussia, e devastar o Norte, e de que vimos depois huma parte reconduzida aos seus lares por entre mil perigos, e trabalhos, ás ordens do Marquez de la Romana, cujo nome se cobrio de gloria nesta famosa retirada, que faz recordar a dos dez mil Gregos conduzidos por Xenofonte. [Sidenote: 1806] Talleyrand, o primeiro Ministro de Napoleão, vendo que as suas negociações com Lord Yarmouth não tomavão a direcção, que elle desejava, não teve dúvida em dizer-lhe sem rodeios, que se a Inglaterra não accedesse ás proposições, que se lhe fazião, hum exercito Francez marcharia a invadir Portugal. Não se póde levar mais longe o desprezo do Direito das gentes; mas que he o Direito das gentes, quando se acha em opposição com os interesses de nações poderosas, e emprehendedoras? He hum nome vão, que desapparece sempre, e sempre cede ás operações da politica, não daquella politica, de que fallão os Publicistas em seus tratados; porque essa he inseparavel da justiça, mas da que o uso tem adoptado, a qual não conhece outras regras, que as da conveniencia. Lord Yarmouth, sendo substituido em París por Lord Lauderdalle, chegou a Londres em 23 de agosto, e por esse mesmo tempo apparecia no Téjo huma grande esquadra Ingleza commandada pelo Almirante Jervis. Este grande homem, que pela sua idade parecia ter já abandonado o exercicio activo da sua carreira maritima, deixou ainda o seu repouso, para vir offerecer á corte de Portugal da parte do ministerio Britanico todo o genero de soccorros, ou fosse para o seu transporte aos estados do Brasil, projecto que já anteriormente tinha sido proposto a S. A. R. o Principe Regente, e até discutido em Londres, ou para pôr o reino em defeza. [Sidenote: 1806] Era hum acontecimento de muita importancia, para deixar de excitar os ciumes da Hespanha, e França; o que deo lugar a explicações, mas a corte de Portugal só vio na conducta do ministerio Inglez o esforço generoso de hum amigo, e de hum alliado fiel, que tratava de a pôr a salvo, sustentar os seus direitos, e desconcertar os planos de espoliação, que contra ella se meditavão. As contestações não tiverão consequencia, ou fosse porque da esquadra Ingleza nunca entravão no porto de Lisboa mais navios de guerra que os que permittem os tratados, ficando os mais fóra da barra, ou mais depressa porque a nova tempestade, que então mesmo se armou no Norte contra a França, fez com que Napoleão suspendesse outra vez a execução dos seus projectos contra o occidente; de fórma que pelos fins de setembro a crise era passada, e o Almirante se retirou de Lisboa com a sua esquadra. CAPITULO X. _Nova guerra contra a França, mais infeliz que as precedentes, e seguida de novas mudanças na Europa. Paz de Tilsit, e suas fataes consequencias. Napoleão volta a París, e no meio de grandes festas projecta novas usurpações._ [Sidenote: 1806] [Sidenote: 1806] A herança de Friderico o Grande era então ameaçada de desmembramentos, como os outros Estados Europeos; e o actual successor daquelle heróe, vendo imminente o perigo, abrio em fim os olhos, que huma venda lhe tinha cerrado por tão longo tempo. O Imperador Alexandre, que se tinha restabelecido hum pouco do assombro, em que o deixára a fatal campanha de 1805, propendia para huma nova guerra: unia-se-lhe a Suecia, a Saxonia á Prussia, e todos contra Napoleão; sendo sempre a Inglaterra a alma desta nova confederação, que hia atacar o poder da França com forças formidaveis, as quaes devião ser dirigidas pelo velho Duque de Brunswick, hum dos primeiros, e mais terriveis inimigos do nome Francez desde a revolução. [Sidenote: 1806] Dizia o Duque, que contra hum inimigo tal, como Napoleão, era necessario tomar bem as medidas, antes de se combater; mas Napoleão não lhe deo tempo a concertar os planos, nem a se combinarem os exercitos Russianos com os dos outros alliados; porque tinha ainda juntos aquelles, com que hum anno antes havia domado o poder Austriaco, e abatido o continente. Ainda forão mais rápidos os progressos das armas Francezas nesta guerra, do que na precedente, decidindo-se em huma só batalha a sorte da Prussia, e de tantas outras nações, cuja liberdade ficou sepultada nos campos de Jena. O Eleitor de Saxonia fez negocio, unindo-se ao usurpador; o Rei de Suecia ficou firme; mas perdeo bem depressa os seus Estados d’Alemanha. Restava ainda no Imperador da Russia hum poderoso baluarte; mas depois de alguns balanços tambem succumbio, mais depressa ás suggestões, do que ás armas de Napoleão; e a Europa perdeo até as esperanças de recobrar a sua independencia, quando vio os fataes arranjamentos de Tilsit. [Sidenote: 1806] Ficou desmantelada a Prussia, e enfreada ainda pelo seu mesmo antigo alliado o Eleitor de Saxonia, que adquirio o titulo de Rei, e o ducado de Varsovia. Fabricou-se no centro d’Alemanha o novo reino de Westphalia, para ser mais hum sustento do poder Francez, e foi dado a Jeronymo Bonaparte; a républica das sete Ilhas, e a de Ragusa se annexárão ao imperio da França; a Inglaterra perdeo toda a influencia no continente, e ficou excluida de quasi todos os portos das outras nações Europeas; o proprio Imperador da Russia, que figurou de patrono do Rei da Prussia, tambem participou dos despojos deste; e ficárão, elle de huma parte, e Napoleão da outra, segurando cada hum a sua extremidade da grande cadêa, com que ficárão maniatados os governos, e os póvos continentaes. Immortal Gustavo! Tu só d’entre os Monarcas do continente ousaste affrontar impávido o poder, e a vingança desta liga monstruosa, que jurou derribar-te do throno, e de que fizeste inuteis os esforços: tu só soubeste conservar illesa a honra dos diademas, e defender dignamente a causa das nações! Pôde a intriga arrancar-te huma coroa, de que a força não pudéra despojar-te; mas já mais te roubaráõ a gloria! Tu serás sempre o meu heróe, e a posteridade pronunciará o teu nome com respeito. [Sidenote: 1807 Julh.] [Sidenote: 1807 Julh.] A 9 de julho de 1807, dia, em que se trocárão as ratificações do tratado entre o Imperador dos Francezes, e o da Russia, e se concluio o outro tratado com a Prussia, sahio Napoleão de Tilsit; e daqui por diante o seguiremos sempre com os olhos, porque, removidos todos os obstaculos, que o prendião, elle não aparta mais os seus do occidente. Veio por Königsberg, onde se ratificou tambem a 12 este ultimo tratado, e pondo-se a caminho para París a 13, chegou a esta capital em 27 do mesmo, acompanhado de seu cunhado o Principe Murat, que veio ser huma das principaes personagens da tragedia, que immediatamente se pôz em scena sobre o theatro da Hespanha. Não corria, voava para onde o estavão chamando os seus novos projectos de ambição. [Sidenote: Agost.] [Sidenote: 1807 Agost.] A 2 de agosto deo elle audiencia pública ao corpo diplomatico no palacio de S. Cloud; e entre os Ministros estrangeiros, que assistírão a este acto, achavão-se os Embaixadores de Portugal, e Hespanha, sendo sempre dos primeiros a comprimentallo, e obsequiallo em todas as acções de cortejo, que se seguírão á sua chegada, e nas pomposas festas, com que o seu anniversario foi celebrado em París nos dias 15, e seguintes. Com tudo já se traçavão os planos de destruir aquellas duas Monarquias, e no meio da pompa, e dos prazeres destas festas não se perdia hum momento, em que se não trabalhasse em alguma nova usurpação. A corte de Lisboa já se via atacada com as extraordinarias pertenções de Napoleão, que por huma parte propunha sempre, como unico fim das suas negociações, o fechar os portos do continente á Gram-Bretanha, para a obrigar á paz maritima, e por outra não usava já de rebuço, para ostentar o seu verdadeiro systema de usurpação universal. [Sidenote: 1807 Agost.] O Imperador da Russia era o unico, a quem tratava ainda com contemplações, como o unico, de quem se temia. Em huma falla, que fez a 16 de agosto ao corpo Legislativo, elle tratava a este Soberano pelo titulo de _poderoso imperador do norte_: titulo, que podia ser-lhe dado ao acaso, e nascido sómente daquelle estilo oriental, que caracteriza os empolados discursos de Napoleão, e de toda a sua corte; no qual porém não deixárão os politicos de entrever ajustes secretos entre os dous Imperadores, para repartirem o continente; ficando hum _Imperador do norte_, e o outro _Imperador do meio-dia_. A França, dizia Napoleão no mesmo discurso, fica unida com os povos da Alemanha pelas leis da confederação do Rheno, e pelas do nosso systema federativo com os de Hespanha, Hollanda, Suissa, e Italia. O systema federativo da Hollanda, Suissa, e Italia estava consummado á força de canhões, e baionetas, o da Hespanha, e Portugal andava entre mãos. [Sidenote: 1807 Agost.] A 24 recebeo Deputações do corpo Legislativo, e do Tribunado; e M. Fontanes, Presidente do primeiro, se chamou o interprete do povo Francez, para levar em seu nome as homenagens ao throno, _que tem por bases_, dizia elle, _tantos troféos, e que governa a Europa_. M. Cretet, Ministro do interior, foi ainda mais longe em huma empolada relação do estado do imperio, e das acções do Imperador, que apresentou no mesmo corpo, dizendo: Que os desejos de S. M. Imperial erão, que a capital da França, tornada a _Metropoli do universo_, correspondesse á sua destinação. Não se podião insultar de hum modo mais positivo todos os governos da terra! O Corso despregava huma altivez, como nunca ostentárão os conquistadores da antiga Roma: os seus Ministros representão-se-me, como os Satrapas mais degenerados dos antigos Reis da Persia. Dormia entretanto a Hespanha, e todas as mais potencias continentaes, ou dormião, ou não podião bulir-se, deixando a corte de Portugal ás presas com hum inimigo tão poderoso, como Napoleão. CAPITULO XI. _Napoleão se declara para com Portugal, intimando-lhe proposições intoleraveis; fórma entretanto o exercito da Gironda, para o invadir, e começa as hostilidades, sem esperar a resposta. Situação da nossa corte; como responde ás proposições, e providencias, que toma nesta crise. Comportamento do ministerio Inglez._ [Sidenote: 1807 Agost.] [Sidenote: 1807 Agost.] As proposições intimadas á corte de Portugal pela das Tuilherias, de acordo com a de Madrid, erão as seguintes: 1.^a fechar todos os portos de Portugal á Inglaterra; 2.^a a apprehensão pessoal de todos os Inglezes residentes em Portugal; 3.^a a de todas as propriedades Inglezas. Accrescentava-se, que no caso de se recusar a algum destes artigos, se expunha a huma guerra immediata com a França, e Hespanha, tendo ordem o Encarregado dos negocios da primeira, e o Embaixador da segunda, para sahirem de Lisboa no 1.^o de setembro: mediavão sómente tres semanas para este praso. [Sidenote: 1807 Agost.] [Sidenote: 1807 Agost.] Recordemo-nos das antigas, e sempre continuadas relações entre as cortes de Londres, e de Lisboa, da sua estreita alliança, do comportamento generoso do ministerio Inglez para com o de Portugal em todas as crises, das consequencias de huma ruptura entre ambos, que serião sem dúvida a anniquilação do commercio, e a perda das colonias Portuguezas. Considere-se a constante conducta da Real Casa de Bragança, desde a sua elevação ao throno, nunca ambiciosa, nem emprehendedora, e sempre fiel aos principios da equidade, e da justiça: principios profundamente gravados no magnanimo coração do Principe Regente, por educação, e pela religião, a que tantas provas de apêgo tem dado na sua vida pública, e na particular; e então se conhecerá toda a dureza de taes proposições. Napoleão sabia bem, que elles não podião ser admittidas pela corte de Lisboa; e mesmo não era o seu complemento o que elle procurava, como desde longo tempo indicavão as proposições, e hum momento depois provárão os factos. [Sidenote: 1807 Agost.] Já o exercito da Gironda se hia ajuntando, e sendo o termo concedido á corte de Portugal, para dar a sua resposta, até o 1.^o de setembro, já neste dia o General Junot tinha marchado para Bayona a pôr-se á frente deste exercito, com que devia invadir os Estados de hum Soberano, que o tinha enchido de favores. Dizem, que o Marechal Lannes fôra primeiro escolhido para esta expedição, e que recusára encarregar-se della, lembrando das bondades, com que tinha sido tratado por S. A. R. Se este facto he verdadeiro, faz honra á memoria de Lannes, que não quiz aggravar com a nodoa da ingratidão os males, que no tempo de Embaixador tinha causado a Portugal; e he hum singular contraste com a vileza de Junot, favorecido como elle pelo mesmo Soberano, o qual se não envergonhou de usar das insignias, e do titulo de Gram-Cruz da ordem de Christo nos actos de usurpação, e mesmo á frente dos seus decretos de espoliação contra aquelle mesmo, de quem tinha estas honras. [Sidenote: 1807 Agost.] He tambem antes daquelle praso, que se passão, e se principião a executar as ordens do Imperador dos Francezes, para a apprehensão de todos os navios Portuguezes, que se achavão nos portos da França, e detenção das suas equipagens; de fórma que a resposta da corte de Lisboa devia encontrar no caminho, e em marcha o exercito, que vinha atacar Portugal, e foi achar principiadas as hostilidades, sem declaração alguma de guerra. Hum commercio muito activo ligava então as duas nações, consequencia necessaria, como já observamos, do bloquêo, e da destruição da marinha Franceza, da neutralidade de Portugal, e da guerra maritima das outras potencias: hum grandissimo número de navios se empregava nesta carreira, levando aos Francezes os generos coloniaes, que não podião haver por outros caminhos, e trazendo em retorno grão, fazendas, e outros artigos de producção da França, ou das suas fabricas; e foi por isso grande o número dos navios aprisionados, e grande a perda em gente, e effeitos. [Sidenote: Set.] [Sidenote: 1807 Set.] O ministerio de Portugal conheceo o perigo, e tratou de prevenir-se, para se aproveitar, sendo necessario, do ultimo recurso, que lhe restava, o de procurar a salvação em differente emisfério. Tentou com tudo o meio das negociações, offerecendo a Napoleão todos os sacrificios, que erão compativeis com as regras da justiça, e com a dignidade Real; mas experimentou huma inflexibilidade, que não foi possivel vencer, nem prestando-se a fechar os portos de Portugal aos Inglezes, que na apparencia era o objecto principal das negociações. Fez-lhe mesmo conhecer a resolução, que se havia tomado, de transferir o assento do governo para o Brasil, no caso de insistir a França nas suas pertenções; na persuasão de que o Imperador poderia abrandallas, conhecendo o transtorno, que este golpe hia causar nos seus planos: mas longe de produzir hum effeito semelhante, esta participação não fez mais que irritar-lhe o animo, influir para se apressarem as operações da invasão, e se accrescentar ás primeiras pertenções a de S. A. R. abandonar este projecto. [Sidenote: 1807 Set.] Achavão-se ainda por Embaixadores de S. A. R. o Conde da Ega em Madrid, e D. Lourenço de Lima em París; e não sei se cumprírão os seus deveres. O público os accusa altamente; mas o público muitas vezes se engana, e não permitta Deos, que a minha penna concorra para manchar a reputação alheia, sem motivos justificados. Dobrar a vontade de Napoleão não podião elles; nada porém os podia dispensar de interpôrem os seus officios com huma efficacia, que fosse a prova de toda a suspeita, e de enviarem a todo o momento informações exactas do que se passava ao ministerio. Da corte de França he que tudo dependia; a de Hespanha só obrava passivamente, estando ella mesma ás bordas do precipicio, sem o suspeitar. Hum Ministro habil em Madrid póde ser, que lhe abrisse os olhos, e salvasse a peninsula; e quando o não conseguisse, podia sondar os seus movimentos, e informar a corte de Portugal, para se prevenir a tempo. [Sidenote: Out.] Achava-se huma esquadra Portugueza no Estreito, para conter as piraterias dos corsarios Argelinos, que ultimamente tinhão ameaçado as nossas costas: mandou-se recolher, e puzerão-se promptos todos os navios de guerra, que erão capazes de navegar. Municiárão-se de todo o genero de provisões, como se estivessem para dar á véla sem perda de tempo; e o público, que via todos estes movimentos, perdia-se em conjecturas, porque as negociações continuavão sempre, e a corte não declarava suas intenções, até ver o final resultado; quando porém se vírão sahir de Lisboa as Legações Franceza, e Hespanhola, tudo foi consternação, annunciando-se de todas as partes tristes symptomas de huma ruina proxima. [Sidenote: 1807 Out.] Reanimárão-se por alguns instantes as esperanças com hum edital mandado affixar por ordem da Junta do commercio, em que ellas se davão ainda de se restabelecer a boa harmonia: foi talvez então, que se resolveo o fazer sahir de Portugal os Inglezes, e fecharem-se-lhes os portos; lisongeando-se a corte de que removidos por este modo todos os pretextos da guerra, se restabeleceria a tranquillidade; muito mais quando esta resolução era acompanhada de outras providencias, que assás provavão a deliberação, em que se estava, de dar-lhe promptamente o cumprimento. [Sidenote: 1807 Out.] Com tudo tanto se temia a invasão, que por ordens circulares da Secretaria d’Estado dos negocios da guerra aos Bispos, e mais Prelados seculares, e regulares, se mandárão inventariar as pratas das igrejas, pezar, e remetter a Lisboa, e a outros depositos pelo reino, como S. Cruz de Coimbra, Thomar, e Palmela para se conservarem em segurança, e se pôrem a salvo, quando fosse preciso; entendendo-se os Prelados com os Governadores das armas das provincias, para as remessas. Estas ordens forão declaradas por outras de 31 de outubro, para se não entenderem com os vasos sagrados, e com os necessarios, para o culto do Santissimo Sacramento. Oxalá que todas se tivessem recolhido, e que huma ilusão fatal não tivesse feito inuteis estas providencias. [Sidenote: 1807 Out.] Os Inglezes tiverão insinuação, para se apromptarem a sahir de Portugal no breve espaço de alguns dias, o que executárão com os effeitos, que pudérão liquidar; dando a Lisboa o triste espectaculo de ver arrancar do seu seio hum grande número de familias, que a pezar de estrangeiras se olhavão como compatriotas, pela sua longa habitação, e pelas relações, que tinhão contrahido neste reino; que se achavão ligadas aos Portuguezes, pelos vinculos da mais estreita alliança, e dos interesses reciprocos; e erão banidas méramente para satisfazer ás vistas ambiciosas, e aos caprichos de hum usurpador estrangeiro. Em 18 de outubro he que sahírão do Téjo em hum grandissimo número de navios de transporte, comboiados por huma fragata, e hum brigue. Esta scena fez lembrar a expulsão dos Judeos da Hespanha no tempo de Fernando, e Isabel; mas com esta differença: os Judeos sahírão em consequencia de huma ordem espontanea do governo Hespanhol; e posto que fatal aos seus interesses, conforme aos desejos da maioridade da nação, a que elles se tinhão feito odiosos; e os Inglezes deixárão Portugal, bem a pezar da nossa corte, e com sentimento universal de hum povo immenso, que os seguia com os olhos molhados em lagrimas. Triste presagio de scenas mais lastimosas! [Sidenote: 1807 Out.] Appareceo finalmente o edital de 20, affixado em 22 de outubro, pelo qual se fez público, que tendo sido sempre o maior desvélo de S. A. R. conservar em seus Estados a mais perfeita neutralidade, pelos conhecidos bens, que della resultavão aos vassallos da sua coroa, não sendo possivel conservalla por mais tempo, e considerando, quanto convinha á humanidade a pacificação geral, havia por bem acceder á causa do continente, unindo-se a S. M. o Imperador dos Francezes, e a S. M. Catholica; ordenando por tanto, que os portos deste reino (de Portugal) fossem logo fechados á entrada dos navios, assim de guerra, como mercantes da Gram-Bretanha. [Sidenote: 1807 Out.] Foi desde então sómente, que se cuidou em augmentar o exercito, restringindo-se por decreto de 22 de outubro os privilegios para o recrutamento, e mandando-se augmentar os regimentos de infanteria a 1200 praças cada hum, achando-se nesse tempo muito reduzidos. Por Alvarás de 21 se mandárão formar as brigadas das ordenanças do reino, e crear os dous regimentos de milicias de Lisboa oriental, e Lisboa occidental, a que depois se deo o nome de voluntarios Reaes de milicias a pé; e por decreto de 29 do mesmo o corpo de voluntarios Reaes a cavallo, mas nenhum destes corpos se organizou então; nem devião olhar-se estas ordens, senão como disposições para a guerra maritima, muito principalmente, porque o exercito foi mandado retirar das fronteiras, e dos outros pontos, que occupava no interior, para ir guarnecer os portos, e fortalezas da costa. Tanto he falsa a imputação, que depois se fez ao ministerio Portuguez na conta dada ao Imperador dos Francezes pelo Ministro das relações exteriores com antidata de 20 do mesmo outubro, em que se pertendêrão justificar os procedimentos hostís da França contra Portugal, arguindo-se-lhe o procurar metter tempo de permeio, em quanto não chegavão a esquadra, e o exercito, que tinhão ido fazer a expedição de Dinamarca; e que os preparativos militares, que fazia, erão contra a França! [Sidenote: 1807 Out.] O ministerio Inglez, informado de todos estes movimentos, aquiescia a elles, conhecendo, que erão consequencias inevitaveis da situação apertada, em que se achava o seu antigo, e fiel alliado. Da Inglaterra vierão a maior parte dos navios, para transportar de Portugal os subditos da Gram-Bretanha, e continuárão ainda as funções diplomaticas perante o ministerio Portuguez de Lord Strangford, que era então o Embaixador Britanico em Lisboa, ao qual se deve muito, pelos esforços, que fez para salvar a corte, sem comprometter os interesses da Gram-Bretanha. Na mesma obra trabalhava o nosso embaixador em Londres D. Domingos Antonio de Sousa Coutinho com hum zelo, e hum patriotismo, que lhe fazem honra. [Sidenote: 1807 Out.] E que fructo tiraria a Inglaterra de romper com Portugal nesta situação desesperada, senão o apressar a ruina de hum reino, que queria proteger? Não podia, nem conservallo contra as forças unidas da França, e da Hespanha, nem evitar a clausura dos seus portos, a prisão, e espoliação dos Inglezes, que nelle se achassem, e cavaria a sepultura de hum Soberano, e de huma Familia, cuja prosperidade tinhão tanto no coração S. M. e a nação Britanica. O unico ponto, em que insistio fortemente o ministerio Inglez, e que S. A. R. sustentou sempre com firmeza, foi o não admittir tropas Francezas em Portugal, e era precisamente aquelle, de que Napoleão menos podia ceder; porque encontrava directamente o seu plano invasor. Para aggravar mais a triste sorte de Portugal, o erario se achava exhausto, e no giro se sentia huma tão grande falta de numerario, que para o augmentar, e consequentemente as rendas do Estado, forão convidados os particulares por decreto de 31 de outubro a entrarem com as suas pratas na casa da moeda, ou por donativo, ou por emprestimo, ou mesmo para serem cunhadas por sua conta. S. A. R. deo o exemplo, mandando cunhar huma porção das pratas da coroa. CAPITULO XII. _Disposições pérfidas de Napoleão, para destruir de hum só golpe as Monarquias Portugueza, Hespanhola, e Hetrusca. Intrigas da Hespanha, urdidas pelo Principe da Paz. Convenções de Fontainebleau. Junot entra em Hespanha, e se encaminha a Portugal._ [Sidenote: 1807 Out.] [Sidenote: 1807 Out.] Deixemos por hum pouco a corte de Lisboa nestas agitações cruéis, e voltemos os olhos para a das Tuilherias, que toda occupada no projecto de anniquilar de hum só golpe todos os ramos existentes da antiga casa de Bourbon, e usurpar os thronos de Portugal, Hespanha, e Hetruria, dava hum espectaculo ao mundo, unico no seu genero, e assás demonstrativo do poder da ambição. O projecto era grande, e Napoleão, conhecendo huma parte das suas difficuldades, determinou pôr em acção todas as molas da intriga, como precursoras, e auxiliadoras das suas armas, servindo-se da Hespanha, para destruir Portugal, e Hetruria, e cavando simultaneamente as bases da Monarquia Hespanhola, para cahir hum momento depois, sem lhe custar grandes esforços. [Sidenote: 1807 Out.] A posteridade lerá com espanto, que Carlos IV. foi o instrumento, de que se servio Napoleão, para privar o seu neto do reino d’Hetruria, que herdára, e de que era regente huma sua filha, mãi deste Principe ainda menino; para derribar outro throno, em que se achava assentada outra sua filha; para se desenthronizar a si proprio, admittindo no coração da sua Monarquia os exercitos usurpadores, que com differentes pretextos lhe occupárão as praças principaes, as provincias, e a propria capital; e em fim para usar de todos os meios possiveis, a fim de embaraçar seu filho primogenito na restauração da coroa, que não soubera conservar. Mas tudo isto são verdades notorias á geração presente, as quaes excitão menos a sua admiração, porque já tinha visto este mesmo infeliz Monarca abandonar a causa dos Soberanos, e das nações d’Europa, para se unir aos assassinos dos chéfes do ramo primogenito da sua casa, tornar-se o cooperador da destruição de tantos governos, e assinaladamente do de seu irmão Fernando II. de Napoles; e porque sabe, que tudo isto era a obra de hum pérfido valido, que tendo-se apoderado da direcção do ministerio Hespanhol, tudo sacrificava ao seu engrandecimento, e na epoca, em que estamos, punha já os olhos em huma soberania. [Sidenote: 1807 Out.] O Principe da Paz D. Manoel de Godoi, que já principiei a dar a conhecer em outro lugar, era este valido, e o agente das maquinações de Napoleão na Hespanha; e o seu favorito D. Eugenio Izquierdo o medianeiro, por onde corrião as correspondencias, e com quem se concertavão os planos em París, onde residia com o caracter de Ministro Plenipotenciario da corte de Madrid, sem que nas outras repartições do ministerio Hespanhol constasse da sua commissão, e negociações, nem mesmo do seu caracter. O poder, e a audacia do valido erão taes, que elle se abalançou a nada menos, que á perdição do Principe das Asturias, successor immediato ao throno. Este Principe foi preso por ordem do Rei seu pai, com o pretexto de huma conjuração, que se acaso existio, não era mais que hum esforço legitimo, e louvavel, para salvar a nação Hespanhola da sua escravidão, e evitar a queda proxima da Monarquia. A nação, que por huma parte estava possuida de hum amor extremo para com o Principe, e por outra conhecia o horror da sua propria situação, deo hum grito, que intimidou o valido, obrigando-o a retroceder; de fórma que foi elle mesmo o medianeiro de huma conciliação momentanea do pai com o filho, e da soltura deste. [Sidenote: 1807 Out.] [Sidenote: 1807 Out.] Beauharnois, Embaixador de França em Madrid, tinha-se mettido anticipadamente com o Principe das Asturias, que suggerido por elle pedia ao Imperador dos Francezes huma Princeza da sua familia em casamento; e Carlos IV. queixava-se ao mesmo das relações clandestinas, que o Embaixador entretinha com o Principe.[10] Ardia por este modo a corte de Madrid em facções, e caminhava apressadamente á sua dissolução por entre as dissensões da familia Real, urdidas pela mão encuberta do usurpador; e já entrava na Hespanha ás ordens do General De-Laborde a primeira divisão do exercito contra Portugal, mas ainda sem plano fixo entre Napoleão, e Carlos IV. Acumulavão-se ao mesmo tempo nas fronteiras novas tropas Francezas, e se enviavão de París para Bayona todas as disponiveis, para virem bem depressa atear o incendio, que devia abrazar toda a peninsula. O plano fixou-se na apparencia pelo tratado, e convenção de Fontainebleau; mas veremos pelos successos, que só ficou fixado o que era do interesse de Napoleão. Fontainebleau! Quando Francisco I., e os seus successores te embellecião com huma magnificencia, que admirava os nacionaes, e os estrangeiros, mal pensavão elles, que trabalhavão para hum usurpador! O retiro, onde S. Luiz hia entregar-se aos actos de huma virtude austera nos momentos, que lhe ficavão livres da administração dos negocios públicos, torna-se agora a habitação do crime, e da intriga! Em Fontainebleau tinha Napoleão fixado por algum tempo a sua residencia, e dalli estendeo hum braço para a Hespanha, e outro para a Italia, para abraçar, e annexar ao seu Imperio o que lhe faltava destas regiões. Vejamos, como traçou a obra naquelle tratado, e convenção. [Sidenote: 1807 Out.] Determinou-se pelo I. artigo do tratado que a provincia d’Entre Douro e Minho com a Cidade do Porto se daria em toda a propriedade, e Soberania ao Rei d’Hetruria com o titulo de Rei da Lusitania septentrional, em compensação do reino d’Hetruria, que pelo artigo IX. foi cedido ao Imperador dos Francezes, pelas formaes palavras: _S. M. ElRei d’Hetruria cede em toda a propriedade, e Soberania o reino d’Hetruria a S. M. o Imperador dos Francezes, Rei d’Italia_; e com tudo o Rei cedente não assignou, nem foi parte neste tratado. Pelo artigo II. se derão ao Principe da Paz as provincias do Além-Téjo, e Algarve em toda a propriedade, e Soberania, para que as desfructasse com o titulo de Principe dos Algarves. Determinou-se no III., que as provincias da Beira, Tras-os-Montes, e Extremadura Portugueza ficarião em deposito até a paz geral, para se dispôr dellas, segundo as circumstancias, e conforme se conviesse entre as partes contratantes. [Sidenote: 1807 Out.] O IV., V., e VI. regulão o modo da successão, com que os descendentes do Rei d’Hetruria, e do Principe da Paz devião possuir o reino da Lusitania septentrional, e o Principado dos Algarves, que era segundo as leis da successão, que estavão em uso na familia reinante d’Hespanha; concedendo-se por investidura do Rei d’Hespanha, tanto o reino, como o Principado, na falta de descendentes, ou herdeiros legitimos; sem que já mais pudessem ser reunidos debaixo de huma mesma cabeça, ou á coroa d’Hespanha. No VII. se estabeleceo, que tanto o Rei da Lusitania, como o Principe dos Algarves reconhecerião por protector a S. M. Catholica; e que sem a intervenção desta não poderião fazer, nem a paz, nem a guerra. No VIII. se providenciou, que os mesmos vinculos tivesse para com S. M. C. o novo Soberano das provincias da Beira, Tras-os-montes, e Extremadura Portugueza, no caso de serem entregues na paz geral á Real casa de Bragança em troca de Gibraltar, Trindade, e outras colonias, que os Inglezes tinhão conquistado sobre a Hespanha, e seus alliados. [Sidenote: 1807 Out.] No X. se determinou, que em se effeituando a occupação definitiva das provincias de Portugal, os differentes Principes, que devião possuillas, nomearião de acordo commissarios, para fixarem seus limites naturaes, assim como se entenderião as duas partes contratantes, segundo o disposto no XIII., para fazerem huma divisão das ilhas, colonias, e outras propriedades ultramarinas de Portugal. Tal era a sorte, que se traçava aos estados Portuguezes! Pelo XI. se obrigou Napoleão a garantir a S. M. C. a possessão dos seus estados do continente da Europa ao sul dos Pyreneos; e pelo XII. a reconhecello por Imperador das duas Americas, quando tudo estivesse preparado, para tomar este titulo: o que poderia effeituar-se na occasião da paz geral, ou o mais tardar dentro de tres annos. E ainda Carlos IV. acreditava em paz geral com Napoleão! [Sidenote: 1807 Out.] A convenção separada contém o seguinte plano da occupação de Portugal. Segundo o disposto no artigo I. hum corpo de tropas Francezas de vinte e cinco mil homens de infanteria, e tres mil de cavallaria devia entrar na Hespanha, e dirigir-se a Portugal em direitura a Lisboa; e unir-se-lhe-hia outro de oito mil homens de infanteria, e tres mil de cavallaria de tropas Hespanholas, com trinta peças de artilheria. Na fórma do II. devia ao mesmo tempo huma divisão de tropas Hespanholas de dez mil homens tomar posse das provincias d’Entre Douro e Minho, e Tras-os-montes; e outra de seis mil homens apoderar-se da provincia do Além-Téjo, e reino dos Algarves. Na fórma do III. as tropas Francezas serião sustentadas pela Hespanha, e seus soldos pagos pela França, durante todo o tempo do seu transito pela Hespanha. [Sidenote: 1807 Out.] Na fórma do IV. desde o momento, em que as tropas combinadas tivessem entrado em Portugal, as provincias da Beira, Tras-os-montes, e Extremadura Portugueza (que devião ficar sequestradas) serião administradas, e governadas pelo General commandante das tropas Francezas, e as contribuições, que se lhes impuzessem, reverterião a beneficio da França. As provincias, que devião formar o reino de Lusitania septentrional, e o principado dos Algarves, serião administradas pelos Generaes commandantes das divisões Hespanholas, que nellas entrassem; e as contribuições, que se lhes impuzessem, reverterião a beneficio da Hespanha. Na fórma do V., que o corpo do centro estaria ás ordens do commandante das tropas Francezas, e a elle subordinadas as tropas Hespanholas, que se lhe unissem; se porém o Rei d’Hespanha, ou o Principe da Paz julgassem a proposito passar a este corpo de exercito, o General das tropas Francezas, e estas mesmas estarião ás suas ordens. [Sidenote: 1807 Out.] Na fórma do VI. hum novo corpo de quarenta mil homens de tropas Francezas se reunirião em Bayona, o mais tardar até 20 de Novembro proximo, para estar prompto a entrar na Hespanha, e se transferir a Portugal, no caso de que os Inglezes enviassem reforços, e ameaçassem atacallo. Este mesmo corpo não entraria porém na Hespanha, até que as potencias contratantes se puzessem de acordo a este respeito, &c. Tanto o tratado, como a convenção, tendo sido celebrados a 27 de outubro entre Izquierdo, como Plenipotenciario do Rei d’Hespanha, e o General Duroc, Plenipotenciario de Napoleão, devião ser ratificados dentro de vinte dias, o mais tardar, e trocadas as ratificações em Madrid. O mesmo Napoleão os firmou com o seu sello, e assinatura a 29, e de tal fórma tinha dispostas as cousas, que no dia seguinte entrou em Hespanha o General Junot com o resto do exercito do seu commando, e se encaminhou para as fronteiras de Portugal, e se estava apromptando em França o segundo exercito da Gironda, que devia chegar a Bayona dahi a pouco tempo. [Sidenote: 1807 Out.] [Sidenote: 1807 Out.] Fazendo huma breve reflexão sobre os ajustes de Fontainebleau, o Principe da Paz pensou adquirir a soberania do reino do Algarve, a provincia do Além-Téjo, com o titulo de Principado, e parece pela occupação, que depois fizerão por este lado as tropas Hespanholas, que elle devia estender-se até o Téjo, comprehendendo aquella parte da Extremadura Portugueza, que fica na margem esquerda deste rio: a Rainha Regente d’Hetruria devia indemnizar-se, e á sua casa com a cidade do Porto, e provincia d’Entre Douro e Minho da perda do reino, que se lhe tirava; e Carlos IV. além do engrandecimento, que esperava da partilha das ricas, e vastas colonias Portuguezas, e da suzerania sobre Portugal, já se imaginava elevado á dignidade de Imperador das duas Americas; que he assim que se illudem as almas fracas, e vaidosas. Foi porém o resultado ficarem sem cousa alguma o Principe da Paz, e a casa d’Hetruria; o Rei d’Hespanha depois de ter ajudado a usurpar Portugal, e admittido no interior dos seus Estados as tropas Francezas, que vinhão despojallo, perder a propria coroa, e ver assolada a sua antiga, e poderosa Monarquia; e Napoleão, que segundo a letra do tratado não era mais que hum depositario de tres provincias de Portugal, levantar-se com os despojos de todos elles, com os quaes conseguiria hum immenso augmento de poder, se desta vez o não enganassem as suas vistas. FOOTNOTES: [Footnote 10: Não entro na miuda relação de todos estes factos; porque he do meu plano aproveitar sómente os que tem connexão immediata com os successos de Portugal. Podem ver-se amplamente detalhados na _Exposição dos factos_ de D. Pedro Cevallos, obra digna de andar entre as mãos de todos os que sabem ler.] CAPITULO XIII. _Viagem de Napoleão á Italia, em quanto os seus satéllites marchão para o occidente. Ultimos esforços da corte de Portugal, para satisfazer á das Tuilherias. Entrada de huma esquadra Russiana em Lisboa, e bloquêo deste porto pelos Inglezes._ [Sidenote: Nov.] [Sidenote: 1807 Nov.] Dadas todas as disposições referidas, e despedida de França a legação Portugueza, Napoleão, em quanto os seus satéllites marchavão para o occidente a devastar estas regiões defecadas, e sem forças pelas suas extorsões, mas livres até então dos furores da guerra, encaminhava-se para a Italia com grande apparato; dando a esta viagem, como observa, Cevallos, huma importancia tal, que podia julgar-se, que hia fixar o destino do universo, e sendo de suspeitar, que realmente não tinha outro objecto, que o de chamar alli a attenção pública, e allucinar os póvos, em quanto as suas vistas se dirigião a usurpar Portugal, e Hespanha. De caminho fez despejar da Toscana a Rainha regente, e toda a familia Real de hum modo o mais repentino, despojando o palacio, e as caixas públicas de huma corte, que ignorava o tratado, e que era victima tão innocente, como a de Portugal. Tão prompta foi a execução do artigo IX. do tratado de Fontainebleau! [Sidenote: 1807 Nov.] A agitação, em que deixamos a corte de Portugal, augmentou-se ainda com a chegada de D. Lourenço de Lima, seguida poucos dias depois pela do Conde da Ega, despedido formalmente de Madrid, assim como o primeiro o tinha sido de París. Ella deo então o ultimo passo, para satisfazer á das Tuilherias, expedindo ordens pela repartição do Secretario d’Estado Araujo em 5 de novembro: 1.^o ao Intendente geral da policia, para fazer arrolar todos os Inglezes existentes em Portugal, excepto os naturalizados, e os que se devessem reputar como taes pelas suas occupações uteis, principalmente nas manufacturas, e dar as providencias, para se não deixarem sahir sem nova ordem; 2.^o ao Administrador geral das alfandegas, para que fizesse inventariar as mercadorias Inglezas, e quaesquer outras propriedades pertencentes a individuos da mesma nação, e fazer dellas deposito, para ficarem em sequestro bem seguras, e conservadas, remettendo-se os inventarios á Secretaria d’Estado dos negocios do reino. Em consequencia desta mesma baixou quatro dias depois outra ordem, para se suspender em varios leilões particulares de bens, e effeitos pertencentes a negociantes Inglezes, a fim de tambem se inventariarem, e ficarem em sequestro. [Sidenote: 1807 Nov.] [Sidenote: 1807 Nov.] O Principe Regente se promettia sem dúvida, e com solidos fundamentos, achar meios de salvar a sua honra, e a sua justiça, compromettidas na apparencia com estas providencias, na generosidade do ministerio, e da nação Britanica, ou, o que he mais provavel, em hum novo sacrificio pecuniario, para indemnizar os lesados. Além disso os Inglezes, depois das participações, que se lhes fizerão, tinhão tido muito tempo, para se pôrem a salvo com as suas propriedades, que pudessem liquidar; e era por tanto de esperar, que não importarião em grande quantia as que ainda se achassem em Portugal. Na verdade não forão muitas as que apparecêrão por esta diligencia; porque se fez com a suavidade, que era propria de Ministros, que conhecião o principio, d’onde emanavão as ordens, e não tinhão interesse em aggravar a execução dellas: do que ao depois se fez cargo á nossa corte na segunda conta dada ao Imperador dos Francezes pelo seu Ministro das relações exteriores M. Champagny em 2 de janeiro de 1808; mas mostrou o tempo, quando vierão rebuscadores mais ávidos, que ainda existião no reino cabedaes consideraveis, pertencentes a vassallos da Gram-Bretanha. Com tudo estas providencias não produzirão outro effeito, que o de implicarem Portugal por alguns dias com ambos os partidos. Lord Strangford, que já tinha representado á corte, que S. M. Britanica tinha feito quanto a amizade, e a lembrança da antiga alliança podião justamente exigir, sem mostrar sentimento pela clausura dos portos, mas que, se as cousas subissem de ponto, a guerra era inevitavel, tirou em fim as armas Inglezas da casa da sua residencia, pedio os seus passaportes, dando por acabada toda a sua correspondencia diplomatica, e chegando dahi a alguns dias defronte da barra a esquadra Ingleza commandada por Sir Sidney Smith, que tinha sido enviada de prevenção, retirou-se para ella, e se declarou bloqueado o porto de Lisboa. [Sidenote: 1807 Nov.] A nossa corte enviou ainda hum correio com despachos a Napoleão, e successivamente o Marquez de Marialva, huma das primeiras personagens do reino, com o caracter de Embaixador extraordinario; mas a usurpação de Portugal estava irrevogavelmente decidida, e o Marquez não tinha ainda passado a Hespanha, quando as tropas Francezas já tinhão penetrado as nossas fronteiras. [Sidenote: 1807 Nov.] Não contribuio pouco para tornar mais pezado o bloquêo de Lisboa o successo, que vou referir. Nos dias 10, 11, e 13 de novembro tinha entrado no Téjo a esquadra Russiana do Almirante Siniavin, composta de nove náos, e duas fragatas (huma destas tornou a sahir em 9 de dezembro) com os seus competentes preparos de artilheria, gente, e munições. Sabia-se muito bem, que ella vinha de Corfú, voltando do Arquipelago, onde tinha obrado juntamente com os Inglezes contra a Porta, e em cujas paragens já não era precisa, em razão do armisticio concluido entre as cortes de Petersburgo, e Constantinopla, e não podendo encaminhar-se aos portos da Russia naquella estação, por causa dos gelos do Baltico, era natural, que procurasse hum outro onde invernasse, e fizesse os concertos, de que alguns navios precisavão. Em toda a sua travessa nenhum lhe offerecia tantas commodidades para estes objectos, como o de Lisboa; e por isso nada tinha de extraordinaria a sua entrada no Téjo.[11] Mas o povo, e principalmente a classe dos que se mettem a fallar em politica, gostando tanto de ler no futuro, como de formar systemas sobre os factos preteritos, e querendo sujeitar tudo ás regras da sua imaginação, e aos planos, que inventa; que muitas vezes se engana, mas algumas tambem acerta, decidio logo, que esta esquadra era mandada ás ordens de Napoleão, e para cooperar segundo o seu plano. [Sidenote: 1807 Nov.] [Sidenote: 1807 Nov.] Olhava-se para as personagens, com quem se lidava, e o pensamento remontava a huma epoca mais atrazada. Em resultado da occupação da Pomerania pelos Francezes, e dos arranjamentos de Tilsit, os Inglezes ficavão excluidos de todos os portos das costas meridionaes do Baltico. He verdade, que não tinha sido convencionada a clausura dos da Russia, mas era facil de conhecer, que ella não tardaria, nem o rompimento entre esta potencia, e a Inglaterra, a pezar da mediação do Imperador Alexandre, que acceitou Napoleão no artigo XIII. do tratado entre ambos, para se negociar a paz entre a França, e a Inglaterra. Os successos mostrarão, que esta mediação foi mais huma farça, para se colorarem projectos de usurpação; e disso mesmo se descobrião vestigios naquelle proprio tratado, e artigo, pelo limitado termo de hum mez desde as ratificações, estabelecido, como condição indespensavel, para a acceitação da Inglaterra, ao mesmo tempo que sem limitação alguma aceitou Alexandre no artigo XXIII. a mediação de Napoleão, para as negociações com a Porta. Faça-se sómente reflexão na distancia, que vai de Tilsit a Londres, e na incerteza das viagens maritimas, e ver-se-ha, se era sincero o estabelecimento do termo peremptorio de hum mez. Napoleão além disso ajuntava forças tão consideraveis no Holstein, que parecião não ter outro destino, que o fechar o Sunda aos Inglezes, e obrigar a Dinamarca a declarar-se tambem contra elles. E que immensa força naval se não acharia então á disposição da França, para invadir a Inglaterra, se a execução de todas as partes do plano correspondesse ás vistas de Napoleão? A de todos os portos do continente da Europa, á excepção sómente dos da Suecia, onde a intrepidez de Gustavo não tinha ainda deixado penetrar a influencia Franceza. [Sidenote: 1807 Nov.] Discorria-se pois, que em quanto do norte se enviasse huma grande expedição composta das esquadras Russiana, e Dinamarqueza, e se puzesse em acção toda a força existente nos portos da Hollanda, França, e Hespanha, os Francezes, senhores de Portugal, devião fazer huma outra de Lisboa com a esquadra Portugueza, e com a Russiana do Almirante Siniavin. O projecto era grande, a execução duvidosa, pelos obstaculos, que lhe opporião a marinha Ingleza, a energia, e o valor do governo, e da nação Britanica; mas não deixava de assustar, mesmo pela incerteza do seu exito. Não he certo, que Napoleão o tivesse assim traçado, pelo contrario eu terei occasião de referir factos no decurso desta obra, que deixão pouca duvida de que a esquadra Russiana, quando entrou no Téjo, não veio em consequencia de plano concertado com Napoleão, nem obrava segundo as suas vistas; mas era bem de presumir, que elle não perderia hum momento em aproveitar-se das circumstancias favoraveis, que o fio dos successos lhe fosse apresentando. [Sidenote: 1807 Nov.] Muito tempo antes que Siniavin entrasse em Lisboa, tinha o ministerio Britanico descarregado sobre Copenhague, e sobre a marinha Dinamarqueza hum golpe decisivo, que o livrou destes cuidados pela parte do norte. Elle se tranquillizava, quanto a Lisboa, com o rigoroso bloquêo do Téjo, que não terminou, senão com a conducção da esquadra Russiana para os portos da Inglaterra, menos duas náos, que por incapazes ficárão, e estão ainda no de Lisboa. O embarque do Principe Regente, e de toda a Real Familia Portugueza na sua esquadra para o Brasil acabou de desvanecer todos os receios. Assim mesmo he hum facto bem verificado, que Napoleão tentou ainda servir-se daquella esquadra Russiana, e dos restos da Portugueza, que ficárão no Téjo, não já para a invasão da Inglaterra, sim contra os estabelecimentos Portuguezes, e Hespanhoes da America. FOOTNOTES: [Footnote 11: Constou, que quizera entrar em Cadiz; mas que o commandante Inglez, que fazia o bloquêo deste porto, lho não consentíra, sem dúvida para não poder depois cooperar com as forças navaes Franceza, e Hespanhola; porque o comportamento da Russia para com a Inglaterra já era equivoco.] CAPITULO XIV. _Chega a Lisboa a noticia da entrada dos Francezes em Portugal, e dão se as providencias para a retirada da corte, e de todos os que a quizessem acompanhar. Estabelecimento do governo do Reino._ [Sidenote: 1807 Nov.] [Sidenote: 1807 Nov.] Por huma fatalidade, que custa muito a explicar, o Principe Regente não foi exactamente informado no tempo, em que o devêra ser, das marchas do inimigo: já este pisava o territorio de Portugal, e ainda em Lisboa se suppunha, que elle estava em Salamanca. Tenho de huma personagem muito verdadeira, e muito respeitavel, que recebêra cartas pelo correio ordinario de Chaves, e outros lugares das fronteiras, em que se fazião as competentes participações do número, do tempo, e do misero estado, em que as tropas Francezas vinhão marchando pela Castella: ellas serião logo presentes a S. A. R. se chegassem a tempo; mas só forão recebidas muitos dias depois do seu embarque, tendo sido retardadas no correio. Julgo muito provavel, que em 22 de novembro chegou a noticia de que o exercito se aproximava, mas a 24, dia em que elle estava em Abrantes, he que a corte teve a participação formal, e circumstanciada. Lecor, Ajudante d’ordens do Marquez d’Alorna, que governava as armas do Além-Téjo, e por elle encarregado de huma commissão, de que não tenho adquirido senão noções contradictorias, e de que por tanto me absterei de fallar com certeza, fez o importante serviço de vir informar a S. A. R. das noticias, que tinha conseguido sobre os movimentos do inimigo: o Juiz de fóra de Abrantes tambem expedio avisos, que chegárão mais tarde, e outros concorrerião por differentes vias. [Sidenote: 1807 Nov.] [Sidenote: 1807 Nov.] No mesmo dia 24 entrou igualmente no Téjo huma fragata Ingleza com bandeira parlamentaria, pela qual se receberão participações, que logo se annunciárão de importantes. Correo-se em fim a cortina, que tantas sombras tinha derramado sobre os objectos, e S. A. R. deveo então conhecer os seus verdadeiros amigos, aquelles, que sempre lhe pintarão as maquinações da corte das Tuilherias com as verdadeiras cores, que as distinguem. Achava-se a Real Familia em Mafra, onde havia muito tempo, que tinha fixado a sua residencia, a cinco leguas de Lisboa; mas o Principe Regente costumava muitas vezes vir ao palacio da Ajuda, (residencia ordinaria dos nossos Soberanos, em quanto elle se não incendiára) e ahi ficava dias inteiros em hum quarto, que para esse fim se havia apromptado, quando os negocios públicos o exigião. Foi esta huma das occasiões, em que assim o praticou, e recebida a noticia fez convocar hum conselho d’Estado, em que ficou decidida a retirada para o Brasil. Eu não sei, se o Conde de Linhares tinha já dirigido a S. A. R. em outro conselho hum discurso energico, em que lhe mostrava a necessidade de pôr em execução este projecto: sei porem, que tempos depois foi apresentado como tal hum papel a Junot, de que este General fez presente a seu amo. A nova corre em hum momento por toda a capital, e vai espalhar o terror em hum povo immenso, que tendo fluctuado por muito tempo entre os sustos, e as esperanças, se fixava em fim em huma perspectiva de horrores, e de calamidades. [Sidenote: 1807 Nov.] Todas as providencias forão dadas para hum prompto embarque, para o qual forão avisados officialmente os Ministros d’Estado, os Conselheiros, e as personagens distinctas, que o Principe Regente resolveo, que o acompanhassem. Insinuações, e ordens amplas forão igualmente dadas, para se receberem a bordo da esquadra, e dos navios de transporte, que se achavão promptos, todos os Portuguezes, que quizessem sahir, e pudessem accommodar-se nelles, e com preferencia os individuos do corpo militar, e da marinha, aos quaes foi dada a liberdade de irem, ou ficarem, á excepção daquelles, a que por ordens particulares se determinou o destino. Até se expedírão ordens ao consulado, para se facilitarem os embarques de fato, e mesmo de fazendas dos passageiros, sem pagarem direitos. [Sidenote: 1807 Nov.] Nada escapou á vigilancia do Soberano, para auxiliar a retirada de todos os seus vassallos, que querião fugir á escravidão; mas erão muitos os que pertendião embarcar, e poucos os navios. Aquelles mesmos, que posteriormente forão emigrando de Portugal, achavão na esquadra Ingleza os auxilios necessarios, para se transportarem á Inglaterra, ao Brasil, ou áquelles lugares, que as circumstancias permittião: os que aportárão á Inglaterra, lá mesmo forão encontrar soccorros pecuniarios, com que se lhes mandou assistir por intervenção do Embaixador Portuguez em Londres D. Domingos Antonio de Sousa Coutinho, chegando esta despeza a 58& lb. st. (522& cruzados) e a 2& o número dos vassallos Portuguezes, que por alli se transportárão para o Brasil. [Sidenote: 1807 Nov.] No dia 26 appareceo o decreto, em que o Principe Regente fez pública a sua intenção de transportar-se com S. Magestade, e toda a Real Familia á cidade do Rio-de-janeiro até a paz geral; pois que a pezar de ter procurado por todos os meios possiveis conservar a neutralidade, exhaurindo o erario, e chegando a fechar os portos dos seus reinos aos vassallos do seu antigo, e leal alliado o Rei da Gram-Bretanha, via, que pelo interior de Portugal marchavão tropas do Imperador dos Francezes, a quem se havia unido no continente, na persuasão de não ser mais inquietado, e que estas tropas se encaminhavão á capital, dirigindo-se mui particularmente contra a sua Real pessoa: tomando igualmente em consideração evitar as funestas consequencias, que podião seguir-se de huma defeza, que seria mais nociva, que proveitosa, e o persuadir-se, que os seus leaes vassallos serião menos inquietados, ausentando-se S. A. Real. [Sidenote: 1807 Nov.] Pelo mesmo decreto estabeleceo o governo de Portugal, nomeando para governarem estes reinos em sua ausencia o Marquez d’Abrantes, o Tenente General Francisco da Cunha de Menezes, o Principal Castro, que tambem ficou sendo Regedor das justiças, Pedro de Mello Breyner, que serviria ao mesmo tempo de Presidente do erario Regio, na falta, e impedimento, em que se achava por molestias Luiz de Vasconcellos e Sousa, o Tenente General D. Francisco Xavier de Noronha, e na falta de qualquer delles o Conde Monteiro mór, (hoje Marquez d’Olhão) a quem tinha nomeado presidente do Senado da camara, com assistencia dos dous Secretarios o Conde de S. Payo, e em seu lugar D. Miguel Pereira Forjaz, e o Desembargador do Paço, procurador da Regia coroa João Antonio Salter de Mendonça. A estes Governadores encarregou, pela grande confiança que nelles tinha, e larga experiencia das cousas do governo, de que erão dotados, o regerem, e administrarem estes reinos, de modo que ficasse salva a consciencia de S. A., fazendo justiça com imparcialidade, e distribuindo os premios, e os castigos, conforme os merecimentos. [Sidenote: 1807 Nov.] Foi huma triste consolação para a nação Portugueza da orfandade, em que hia ficar, o ver, que o seu Principe em momentos de tanta angustia procedêra com tanto acerto na organização do governo do reino, pondo em primeiro lugar hum Fidalgo da maior representação da corte com as honras de parente da casa Real, e enchendo-o com vogaes, e secretarios illustres por suas qualidades, e talentos, tendo todos a seu favor o voto público. He pena, que huma epoca mais tranquilla não désse lugar a que fossem mais felices os seus trabalhos, e que as desgraças da nação fizessem mesmo vacillar com o tempo, se os serviços, que alguns delles forão depois vistos prestar aos invasores, e os empregos, que acceitárão do governo intruso, prejudicárão a sua reputação. Hum delles (o Conde de S. Payo) tirou a espada em defeza do Soberano, e da patria, logo que esta pôde respirar, e ainda a não tem mettido na bainha: largo campo se offerece tambem aos outros, para fixarem a opinião pública a seu favor, por meio de acções de patriotismo. Este decreto sahio acompanhado das instrucções, que ficárão servindo de lei fundamental ao governo do reino, as quaes mostrão, pela sua brevidade, que forão a obra de poucos momentos; e pela sua substancia, que emanavão de hum Soberano, que só consultava o bem dos seus vassallos. Reduzem-se aos seguintes artigos: I. Que os Governadores do reino prestarião o juramento do estylo nas mãos do Cardeal Patriarca; e cuidarião com todo o desvelo, vigilancia, e actividade na administração da justiça, distribuindo-a imparcialmente, e conservando em rigorosa observancia as leis deste reino. [Sidenote: 1807 Nov.] II. Que guardarião aos nacionaes todos os privilegios, que por S. A. R. ou pelos Senhores Reis seus antecessores se achavão concedidos. III. Que decidirião pela pluralidade de votos as consultas, que lhes fossem apresentadas pelos tribunaes respectivos, regulando-se sempre pelas leis, e costumes do reino. IV. Que proverião os lugares de letras, e os officios de justiça, e fazenda, na fórma até então praticada por S. A. R. V. Que cuidarião em defender as pessoas, e bens dos seus leaes vassallos, escolhendo para os empregos militares os que delles se conhecessem capazes. VI. Que procurarião, quanto possivel fosse, conservar o reino em paz, e que as tropas Francezas fossem bem aquarteladas, e assistidas de todo o necessario: evitando-se todo, e qualquer insulto, que se pudesse perpetrar, castigando-o, quando acontecesse, e conservando sempre a boa harmonia, que se deve praticar com os exercitos das nações, a que nos achavamos unidos no continente. [Sidenote: 1807 Nov.] VII. Que quando acontecesse por qualquer modo faltar algum dos Governadores nomeados, seria eleito á pluralidade de votos, quem lhe succedesse. Lord Strangford, animado pelos mesmos desejos, que sempre mostrara de conciliar os interesses das duas nações, e conhecendo sem dúvida as intenções favoraveis da sua corte, tomou a seu cargo abrir de novo a sua correspondencia com a de Portugal. Pedindo, e obtendo para este fim huma audiencia, voltou a Lisboa, teve conferencias importantes com o nosso ministerio; e a boa harmonia ficou restabelecida, e mais firme que nunca entre S. A. R. e S. M. Britanica; continuando sempre a clausura dos portos de Portugal aos Inglezes, e o bloquêo de Lisboa por estes, porque resolveo o Principe Regente não se desviar dos principios, que tinha abraçado, para evitar aos Francezes todo o pretexto de hostilidades. CAPITULO XV. _Embarque da Real Familia, e da corte, sua sahida do porto de Lisboa, e circumstancias principaes deste memoravel successo._ _Nos patriæ fines, & dulcia linquimus arva:_ _Nos patriam fugimos..._ [Sidenote: 1807 Nov.] [Sidenote: 1807 Nov.] Logo que o embarque foi resolvido, o Principe Regente tinha dado as ordens, para que toda a Real Familia se transferisse de Mafra ao palacio de Quéluz, onde ficava mais proxima, e mais livre de algum desastre; pois que o inimigo caminhava a marchas forçadas com direcção á capital. Tudo se executou promptamente, e a 26 S. A. R. passou tambem áquelle palacio, para dar algumas disposições, e provavelmente, para confortar as mais pessoas Reaes neste triste lance; mas talvez era elle o proprio, que mais precisava de ser confortado. Queria fallar, e não podia; queria mover-se, e convulso não acertava a dar hum passo: caminhava sobre hum abysmo, e apresentava-se-lhe á imaginação hum futuro tenebroso, e tão incerto, como o oceano, a que hia entregar-se. Patria, capital, reino, vassallos, tudo hia abandonar repentinamente, com poucas esperanças de tornar a pôr-lhes os olhos, e tudo erão espinhos, que lhe atravessavão o coração. [Sidenote: 1807 Nov.] O golpe o tinha apanhado tão desprevenido, que dous, ou tres dias antes tinha proferido com toda a satisfação, que com as providencias, que havia dado, estava em fim tranquillo da parte dos Francezes. As disposições estavão feitas, he verdade, havia muito tempo; mas não passavão de méra precaução, para hum perigo, que se julgava muito remoto. Tanto isto he certo, que as provisões da esquadra se tinhão consumido em grande parte, humas com o tempo, outras por descaminhos: os proprios toneis da aguada de algumas das náos se tinhão extraviado, sendo agora preciso mandarem-se fazer outros de madeira nova, muito improprios para hum semelhante uso, e tudo foi confusão, e desarranjo, para se apromptar em poucos dias o puro indispensavel para huma viagem tão dilatada. [Sidenote: 1807 Nov.] Amanheceo finalmente o dia 27 de novembro, aprazado para o embarque, e a aurora perdeo todos os seus encantos sobre o horizonte de Lisboa neste dia funesto. Os meus leitores me desculparáõ, se acharem, que me desvio por alguns instantes daquelle estilo singelo, que he proprio do Historiador: os acontecimentos, em que agora se exercita a minha pena, são assás extraordinarios, para deixarem de occupar algumas paginas; e quem poderia separar delles as cores patheticas, que os caracterizão? Apparecêrão com o dia pelas ruas, e pelas praias de Belém bandos errantes de pessoas de ambos os sexos, e de todas as idades, em cujos rostos estavão pintadas a mágoa, e a desesperação: chegou a temer-se, que no excesso da sua dôr rompessem em algum desatino contra os que julgavão culpados na desgraça pública. Na verdade o ajuntamento não era ainda demasiado, quando appareceo a primeira carruagem da Casa, na qual erão conduzidos S. A. R. o Principe Regente, e o Infante d’Hespanha o Senhor D. Pedro Carlos; tanto em razão da distancia da cidade a Belém, como por se ignorarem as horas, em que as pessoas Reaes devião embarcar; mas foi crescendo; e quando aquelle Augusto Senhor se apeou sobre o cáes, tudo parecia querer precipitar-se sobre elle, de fórma que na descida dos degráos lhe era necessario ir fazendo com o braço a acção de desviar o povo, que o rodeava. O largo não estava ainda guarnecido de tropa, e até o piquete de cavallaria, que acompanhava a S. A. R. se demorou alguns minutos: servírão-lhe de guarda dous soldados do corpo da policia, que alli se achavão. [Sidenote: 1807 Nov.] Ao aspecto deste Principe adorado dos seus vassallos, e agora tão consternado, e abatido, todos emmudecêrão, e as proprias lagrimas lhes ficárão tolhidas, mas a dor bem pintada nos seus semblantes. Não era menos tocante a atidão do Principe: os seus pés tremulos, e sem firmeza mal podião sustentar o seu corpo vacillante: o fysico sentia as impressões violentas do moral. Seu rosto nadava em lagrimas; porque os seus olhos erão duas torrentes: e he assim que foi levado ao escaler, e neste á esquadra, sendo os adeoses, que dava ao seu povo, mais, e mais lagrimas, que lhe cahião. [Sidenote: 1807 Nov.] [Sidenote: 1807 Nov.] A multidão não apartou os olhos deste espectaculo, senão para os fixar em outro não menos doloroso. Todas as mais Pessoas Reaes, tendo sahido de Quéluz junto ao meio-dia, apparecem no largo de Belém, e seguem os passos do Principe Regente. Havia 16 annos que a Rainha N. S. tinha sido roubada, pelo estado da sua saude, ás vistas do seu povo: apparece-lhe agora, mas em que terriveis circumstancias! Em outro tempo nunca se mostrava em público, senão entre applausos, inspirando prazer, e derramando graças; agora não póde a sua presença inspirar senão saudade, e amarguras. Esta Augusta Soberana mostrou huma grande resignação no seu infortunio: foi a primeira das Pessoas Reaes, que sahio de Quéluz, e dizem, que vendo correr o seu coche com pressa, clamára, que a levassem devagar, porque não fugia: demorou-se hum pouco sobre o cáes, por não ter chegado a cadeirinha, em que a conduzírão ao escaler. Seguião-se as Serenissimas Senhoras Princeza viuva, e Infanta D. Maria Anna, igualmente consternadas e afflictas, e por ultimo S. A. R. a Senhora Princeza D. Carlota, levando comsigo no oitavado[12] todos os seus Augustos Filhos, as duas Camareiras móres, e a ama de leite. Os tenros Infantes hião brincando, como quem ignorava os desastres proprios, e de toda a Real Familia, a Mãi mostrou em todo este acto hum valor heroico, superior ao seu sexo. Em Quéluz toda a manhã tinha sido incansavel em arranjar a familia, e dar todas as providencias, que as circumstancias exigião: sobre o cáes de Belém esteve ella mesma fazendo embarcar as criadas, e mais pessoas da comitiva, segundo a ordem, que lhes destinava, com huma presença de espirito inimitavel. Vio arrancar da sua companhia os seus innocentes, e amados Filhos, e ainda foi superior a este golpe. Ao ouvir-se o susurro confuso, e melancolico do povo, e ao ver neste dia, e no seguinte coberto o Téjo de huma infinidade de embarcações, todas empregadas em conduzir fato; o largo de Belém entulhado de caixas, camas, fardos, carruagens, e mil objectos, que tornavão mais fúnebre esta scena, dir-se-hia, que Lisboa inteira passava instantaneamente a ser evacuada. _Hæc facies Trojæ, cum caperetur, erat._ [Sidenote: 1807 Nov.] [Sidenote: 1807 Nov.] Repartio-se a Real Familia por differentes náos das que compunhão a esquadra; não só para mais facilidade das accommodações, mas tambem para não perecer toda, se a tantas desgraças o destino augmentasse ainda a de hum naufragio. Ceos, protegei a innocencia! Não pôde porém sahir do Téjo nesse dia, nem no seguinte; porque hum rijo temporal cerrava a barra; e entretanto o inimigo redobrava os esforços, para surprendella. Mr. Herman, auxiliado pelo Portuguez José de Oliveira Barreto, chegou ainda a Lisboa na vespera da partida, e tentou por meios pérfidos seduzir a S. A. R. para retroceder do seu heroico projecto, e cahir nas mãos dos assassinos; mas achou vedados todos os canaes para as suas insidiosas proposições. Ceos, vingai tantos crimes! Reproduzião-se momentaneamente os perigos, e os sustos, em quanto a esquadra não sahio da barra: para os diminuir, mandárão-se desguarnecer algumas das fortalezas, e encravar a artilheria das principaes baterias, que fazem frente ao Téjo; mas respirou-se em fim ao amanhecer do dia 29, quando se vio o tempo sereno, e hum vento favoravel, que permittio levantar-se o ferro, e pôr-se em poucas horas toda a esquadra sobre o mar alto. As collinas de Lisboa, donde se descobre a barra, vírão-se então coroadas de immenso povo, que a seguia com os olhos, e rogava mil bens ao deposito augusto, que ella conduzia. Deos abençôe, e prospere esta Real Familia, ouvindo os votos, e preenchendo os desejos dos seus fiéis vassallos, da grande massa da nação Portugueza! Atravessando por entre a esquadra Ingleza, a Rainha, o Principe Regente, e toda a Real Familia recebêrão da parte della os cortejos, que erão devidos a Soberanos da sua ordem, e que devião esperar-se do representante, e delegados de hum Monarca, e de hum governo tão estreitamente unidos á corte de Portugal, e que olhavão com razão o transporte desta corte para a America, como hum dos mais assinalados triunfos da sua politica. Compunha-se a esquadra Portugueza de oito náos, tres fragatas, tres brigues, huma escuna, e huma charrua; a saber: _Commandante em chefe o Vice-Almirante Manoel da Cunha Souto-maior._ Nomes dos navios. |Peças.| Postos dos Command. | Nomes dos Commandantes. | | | Náos. Principe Real | 84 |Capitão de mar e guerra. |Francisco José do Canto Castro e Mascras. Rainha de Portugal | 74 | idem |Francisco Manoel Souto-maior Meduza | 74 | idem |Henrique da Fonseca de Sousa Prego D. João de Castro | 74 | idem |D. Manoel João Locio. Affonso d’Albuq. | 74 | idem |Ignacio da Costa Quintella. Principe do Brasil | 74 | idem |Francisco de Borja Salema Garção. Conde D. Henrique | 74 | idem |José Maria d’Almeida Martim de Freitas | 74 | idem |D. Manoel de Menezes. Fragata Golfinho | 40 | Capitão de fragata. |Luiz da Cunha Moreira. Minerva | 44 | Capitão de mar e guerra.|Rodrigo José Ferreira Lobo. Urania | 40 | Capitão de fragata. |D. João Manoel. Brigues. Voador | 22 | idem |Francisco Maximiano de Sousa. Vingança | 20 | idem |Diogo Nicoláo Keating. Lebre | 22 | Capitão de mar e guerra.|Daniel Thompson. Escuna Curiosa | 16 | Primeiro Tenente. |Isidoro Francisco Guimarães. Charrua Thetis | | idem |Paulo José Miguel de Brito. [Sidenote: 1807 Nov.] A escuna Curiosa não pôde seguir viagem; porque sendo gravemente damnificada por hum temporal, que a esquadra experimentou logo á sahida, teve de entrar outra vez no Téjo, quando se achava já dominado pelas armas Francezas. Tambem ficárão a náo Vasco da Gama; porque, por falta de equipagens, lhe foi tirada a sua, para guarnecer a Meduza; as fragatas Carlota, e Benjamim, por se não terem apromptado a tempo; e tres charruas, por intrigas de alguns commandantes; além de varios outros navios de guerra, por incapazes de navegar. Ajuntárão-se á esquadra varios navios mercantes, fazendo ao todo humas 36 vélas, em que além da Real Familia, criados da casa, e Fidalgos, que a acompanhárão, forão huma grande parte da officialidade, e tropa, que se achavão na corte, tanto de terra, como do mar, e alguns milhares de pessoas particulares. Muitos mais irião, se os navios os pudessem receber; mas foi tal o aperto, e a confusão, que forão muitos pais, e maridos, deixando os filhos, e as mulheres, e _vice versa_: muitos deverião depois encontrar-se tambem em terra, sem o esperarem; porque embarcárão em differentes navios, sem saberem huns dos outros. [Sidenote: 1807 Nov.] Para maior desgraça, hum grandissimo número de navios, que tambem se dispunhão a sahir, não pudérão apromptar-se a dar á véla, senão depois da entrada de Junot em Lisboa, que os fez estacionar todos no porto, á excepção da galera denominada o _Chocalho_, sobre a qual chegou ainda a fazer-se fogo, que porém teve a fortuna de escapar por entre as balas. A ribeira das náos ficou em huma anarquia: mandou-se-lhe tirar a sua guarda; porque pertencia ao corpo da brigada da marinha, o qual teve ordem de embarcar, sem se darem as ordens para ser rendida; em quanto se não conheceo, e providenciou esta falta, e se não restabeleceo a administração economica desta repartição, furtou quem pôde. Até houve hum mestre, que chegou a levantar o ferro a huma escuna Real, para a levar, dizem que furtada; e conseguiria o seu intento, se não fosse embaraçado pelo Auditor da marinha. O regimento de Peniche, tanto que soube do embarque de S. A. R., pôz-se em marcha rápida, para o acompanhar: o commandante ainda foi admittido na esquadra; mas o corpo do regimento já não pôde ser recebido; e vendo-se sem chéfe, debandou-se inteiramente. D. José Carcome se offereceo aos dispersos, que hia encontrando, para os commandar, e com effeito conseguio ajuntar hum consideravel número, que conduzio ao abarracamento da Cruz dos 4 caminhos, onde por muitos dias estiverão concorrendo outros, que de novo hião incorporar-se á sua bandeira. Nos mais corpos de tropa, que se achavão em Lisboa, e suas visinhanças, houve tambem huma grande deserção; e póde dizer-se, que não houve nestes momentos criticos quem deixasse de sentir os effeitos da terrivel convulsão, que devia imprimir em todas as partes do Estado a precipitada ausencia do Soberano. [Sidenote: 1807 Nov.] Da esquadra Ingleza se destacárão quatro náos, o _Marlborough_, o _Monarca_, o _London_, e o _Bedford_, para acompanharem a Familia Real; e he desta fórma que foi navegando para o occidente o primeiro dos Soberanos d’Europa, que executou o projecto, que alguns outros tinhão formado de transportar-se ás regiões do novo mundo. Agora o deixaremos engolfado no oceano, e voltaremos os olhos sobre o continente. FOOTNOTES: [Footnote 12: _Oitavado_ era huma carruagem assim chamada, em razão da figura.] CAPITULO XVI. _O governo he instalado, e principia no exercicio das suas funcções. Ordens de Napoleão a Junot para avançar rápidamente com o seu exercito. Entrada deste em Portugal, e sua marcha até Lisboa._ [Sidenote: 1807 Nov.] Logo que se ultimou o embarque das Pessoas Reaes no dia 27 de novembro, que foi quasi pelo fim da tarde, os Governadores do reino se congregárão, e indo a casa do Cardeal Patriarca, que, além de decrepito, se achava doente, para prestarem nas suas mãos o juramento, ficárão instalados no exercicio das suas funcções, principiando logo na noute immediata a dar as providencias para o governo do reino, no qual S. A. R. se não intrometteo mais, em quanto se conservou no Téjo. Foi sim consultado sobre alguns pontos, para cujo fim passárão á esquadra no dia seguinte o Marquez d’Abrantes, e o Conde de S. Payo: as pessoas sensatas pensárão sem dúvida, que os Governadores obrárão segundo as instrucções, que recebêrão, em alguns actos, a que o povo indiscreto não saberia assignar as causas, como a suspensão das ordens, para se encravar a artilheria das baterias do porto de Lisboa, já executadas em grande parte, e a deputação mandada a Junot, para o comprimentar no caminho, composta do Tenente General Martinho de Sousa e Albuquerque, e do Brigadeiro Stokler. [Sidenote: 1807 Nov.] Derão-se immediatamente as providencias, para a recepção das tropas Francezas, da fórma que S. A. R. ordenara; e para o General em chéfe se mandou apromptar o palacio da Bemposta, transportando-se a elle grande parte dos preparos, e adornos de Quéluz. Mas suspendamos por hum pouco no que se passava em Lisboa, para nos transportarmos ás fronteiras de Portugal, e acompanharmos o inimigo na sua marcha. Em outro lugar deixo notados os movimentos, que causou no espirito de Napoleão o conhecimento de que S. A. R. se propunha a transferir-se com a corte para o Brasil, no caso d’elle não desistir das suas intoleraveis pertenções: parece ter sido huma consequencia delles a ordem positiva, que expedio a Junot, para avançar rápidamente com o seu exercito; de fórma que devia achar-se em Lisboa precisamente no 1.^o de dezembro. Vamos ver incessantemente, como Junot a executou tão promptamente, que ainda se anticipou hum dia áquelle praso. [Sidenote: 1807 Nov.] [Sidenote: 1807 Nov.] Diz hum estimavel A.[13] o qual tem feito serviços assignalados á patria nos excellentes escritos, com que tem concorrido a sustentar o valor, e o patriotismo da nação, no meio das crises mais violentas, que era o plano de Bonaparte senhorear-se da pessoa do nosso amado Principe, obrigallo a escrever cartas aos Governadores do Brasil, metter tropa na esquadra Russiana, que se achava surta no porto de Lisboa, e nas náos Portuguezas, que se pudessem apromptar, para irem tomar aquella grande colonia; de cuja expedição vinha encarregado o General de Laborde, com o titulo de Governador geral da America Portugueza. Que o Principe devia depois ser remettido a París para a _Manegerie_, ou casa dos Reis, segundo a expressão dos Francezes, em quanto Portugal entrava para a communhão da peninsula, esperando pela sua sorte, até que acontecesse outro tanto á Familia Real d’Hespanha. Esta era na verdade a opinião publica, desde o momento da invasão; e accrescenta aquelle escritor, depois de ter annunciado, que a Inglaterra publicára este plano: _e Talleyrand, dizem, fora quem o divulgára_. [Sidenote: 1807 Nov.] Não acreditarei, que Talleyrand levasse até este ponto a infidelidade para com seu amo, sem temer o rigor das suas vinganças; e já principiei a dar algumas idéas sobre o destino da esquadra Russiana, e sobre as expedições, que se projectarão contra a America, ficando reservada para os lugares competentes a mais ampla narração destes factos; o que porém posso attestar agora he, que o ter-se traçado a surpreza de toda a Real Familia, dos parentes da casa, e das personagens mais distinctas do reino, e a sua remessa para França, são factos assás verificados, para se poderem dar como indubitaveis. Devia praticar-se em Portugal o que alguns mezes depois vimos na Hespanha, e irei dizendo como Junot principiou a executar huma parte das ordens, de que vinha encarregado por Napoleão, não tendo podido executar as mais, por ter chegado tarde. Nós o deixamos atravessando a Hespanha com o exercito do seu commando: em Salamanca he que deo principio ás suas marchas mais violentas, de fórma que sendo 40 leguas dahi a Alcantara, as atravessou em cinco dias, por caminhos pessimos, semeados de rochedos, e cortados de ribeiras, por baixo de chuvas, e por entre montanhas cobertas de neve. Todo o exercito vinha summamente fatigado, e faminto, sem ter comido pão a maior parte deste tempo, não lhe tendo o governo Hespanhol feito apromptar o necessario, e affirmando mesmo os Governadores de Cidade-Rodrigo, e Alcantara, que não tinhão tido avisos para a sua recepção. Em Alcantara mesmo, onde chegou a 17 de Novembro, se não pôde obter senão meia ração para as tropas; e para isto mesmo foi necessario pedir o General Hespanhol Carraffa emprestimos sobre o seu proprio credito. [Sidenote: 1807 Nov.] Este General ajuntava alli a divisão do seu commando, que devia ficar debaixo do de Junot, segundo a convenção secreta de Fontainebleau. Elle tinha ordem do seu governo, para ajuntalla em Salamanca, e Valhadolid, ao que obstou Junot fazendo com elle por meio de hum Ajudante de campo, que lhe tinha mandado adiante, que suspendesse nos arredores de Alcantara as tropas, que conduzia, e consistião no regimento de Maiorca de 1500 homens, 400 Dragões de la Reina, 150 mineiros, e 2 companhias de artilheria ligeira com 12 peças. Estas as unicas tropas Hespanholas, com que Carraffa acompanhou Junot, a pezar do que se tem dito, e escrito; mas aquelle General deixou ordem em Alcantara, para que o viessem seguindo as mais tropas da sua divisão, logo que fossem chegando. [Sidenote: 1807 Nov.] Era impossivel a Junot fazer continua a marcha rápida do exercito, sem lhe dar algum descanço; mas logo no dia 8 mandou descobrir o terreno até o Rosmaninhal, e os seus descubridores lhe trouxerão a certeza das disposições pacificas do paiz, e de que era ainda desconhecida nelle a aproximação das tropas Francezas. A 19 mandou entrar em Portugal pelo mesmo caminho a sua vanguarda, a qual fazia parte da 1.^a divisão, e se compunha do regimento 70.^o de linha, 1 companhia de mineiros, e 300 homens de cavallaria ligeira Hespanhola. A 20 entrou elle mesmo com o resto desta 1.^a divisão, que se compunha das tropas seguintes, fazendo o melhor de 8600 homens na sua totalidade. 1^a Brigada. O 15.^o Regimento de linha. 47.^o Regimento idem. 1 Batalhão do 4.^o regimento Suisso. 1 Companhia de artilheria ligeira Hespanhola com 6 peças. 2.^a Brigada. O 86.^o Regimento de linha. 1 Regimento Hespanhol de infanteria (de Murcia) com 1500 homens. 1 Companhia de artilheria ligeira com 6 peças. [Sidenote: 1807 Nov.] Foi entrando successivamente pela estrada de Salvaterra, Idanha a nova, e Castello-branco a segunda divisão, composta de 1.^a Brigada. 1 Batalhão do 2.^o regimento de infanteria ligeira. 1 Batalhão do 4.^o idem. 1 Batalhão do 12.^o idem. 1 Batalhão do 15.^o idem. 100 homens de cavallaria Hespanhola, e 1 companhia de mineiros. 2.^a Brigada. 1 Batalhão do 32.^o regimento de linha. 1 Batalhão do 58.^o idem. 1 Batalhão Suisso. Quatro peças de 4, e dous obuzes Francezes pertencentes á primeira divisão, divididas pelas duas brigadas. [Sidenote: 1807 Nov.] A 3.^a divisão, assim como a cavallaria, e a artilheria da 2.^a e 3.^a divisão, e as equipagens do exercito demorárão-se mais alguns dias, pelo crescimento subito de algumas ribeiras. A artilheria, e os caixões chegárão com muitas ruinas, por ter sido tudo conduzido por bois, e homens do paiz, em falta de cavallos capazes; o pessoal vinha em hum estado lastimoso, e hum grande número de cavallos tinha morrido; mas nada disto embaraçou a sua marcha por hum paiz, que hião atravessar como inimigos reaes, posto que aleivosamente conseguírão o tratamento de amigos. [Sidenote: 1807 Nov.] [Sidenote: 1807 Nov.] Não se acreditaria, senão fosse hum facto, não só público em toda a Europa, mas até consignado pela imprensa em hum grande número de monumentos publicados por ordem do proprio Junot, para servirem de eterno labeo á sua fama, e á de seu amo, que depois de tantas hostilidades, e tão notorios testemunhos de usurpação, este General vinha enganando os póvos na sua marcha com palavras de amizade, e de protecção; ao mesmo tempo que o seu exercito os roubava, e devastava. Desde que entrou em Portugal, fez espalhar huma aparatosa proclamação, datada do seu quartel general de Alcantara a 17, pela qual fazia constar, que entrava com as suas tropas a marchas forçadas, para ir salvar a bella cidade de Lisboa da sorte de Copenhague, fazendo causa commum com o nosso amado Principe contra o tyranno dos mares, (a Gram-Bretanha) a quem este tinha declarado a guerra. _Habitantes pacificos do campo_, (continuava a proclamação) _nada receeis. O meu exercito he tão bem disciplinado, como valeroso. Eu respondo sobre a minha honra pelo seu bom comportamento. Ache elle por toda a parte o agazalho, que lhe he devido como a soldados de Napoleão o Grande. Ache elle, como tem direito a esperar, os viveres, de que tiver precisão; mas sobre tudo o habitante dos campos fique socegado em suas casas. Eis o que vos prometto. Guardar-vos-hei a minha palavra._ Segue-se a promessa, a qual consiste em que todo o soldado, que fosse achado roubando, seria punido com o mais rigoroso castigo. Que todo o individuo que tivesse percebido alguma contribuição injusta, seria conduzido a hum conselho de guerra, para ser julgado segundo todo o rigor das leis. [Sidenote: 1807 Nov.] O bom Marco Aurelio, o bom Trajano, e o filosofo Julião ostentárão elles hum procedimento mais humano, huma conducta mais regular? He verdade, que não estavão bem especificadas as penas para os delinquentes Francezes, não sendo já muito boa a opinião, em que se tinhão as suas leis em materia de roubos, e extorsões; e tambem he verdade, que erão bem fulminantes, e definidas as ameaças aos Portuguezes, que ousassem resistir. _Todo o individuo_ (prosegue a proclamação) _do reino de Portugal, não sendo soldado de tropa de linha, que se apanhar fazendo parte de qualquer ajuntamento armado, será arcabuzado. Todo o individuo convencido de ser chefe de ajuntamento, ou de conspiração tendente a armar os cidadãos contra o exercito Francez, será arcabuzado. Toda a villa ou aldêa, em cujo territorio for assassinado hum individuo pertencente ao exercito Francez, pagará huma contribuição, que não poderá ser menos que tres vezes o seu rendimento annual. Os quatro habitantes principaes serviráõ de refens para o pagamento da somma; e para que a justiça seja exemplar_ (hum exercito auxiliar não vem fazer justiça, e huma justiça como esta contra os vassallos da potencia auxiliada) _a primeira cidade, villa, ou aldêa, onde for assassinado hum Francez, será queimada, e arrazada inteiramente_. [Sidenote: 1807 Nov.] Taes as promessas, e taes as ameaças, com que entrou o exercito Francez em Portugal: o fecho da peça não he menos digno de ser conservado á posteridade. _Mas eu quero-me persuadir, que os Portuguezes hão de conhecer os seus verdadeiros interesses, que auxiliando as vistas pacificas do seu Principe, nos receberáõ como amigos; e que particularmente a bella cidade de Lisboa me verá com prazer entrar nos seus muros á frente de hum exercito, que só a póde preservar de ella ser preza dos eternos inimigos do continente_. [Sidenote: 1807 Nov.] [Sidenote: 1807 Nov.] A _palavra_, e a _honra_ do General em chéfe achavão-se solemnemente empenhadas pelo bom comportamento das suas tropas; era necessario, que estas as desempenhassem dignamente, como _soldados de Napoleão o Grande_. Assim que o exercito se vio em hum paiz, onde julgava, que tudo lhe era permittido, foi huma torrente devastadora, que hia destruindo tudo diante de si. As aldêas despovoavão-se de habitantes, e a tropa, que queria tudo, e não achava cousa alguma, porque nada estava prevenido, mettia-se pelas casas, roubava, e queimava quanto encontrava: a propria officialidade não perdoava mesmo áquellas, em que se aquartelava, e em que recebia o melhor agasalho. Olivaes, pinhaes, e outros arvoredos erão destruidos, huns para servirem de barracas, outros para o lume; povoações inteiras entregues á pilhagem; templos profanados, e roubados, sem se perdoar aos vasos sacrosantos; e imagens sagradas sacrilega, e brutalmente queimadas, ou picadas com as baionetas. Á 20 ainda em Castello-branco se ignorava a marcha do inimigo; apenas pelas 4 horas da tarde se espalhou huma voz, que estavão Francezes na Zibreira, e ás 6 da mesma tarde apparece hum official encarregado do aquartelamento, levando já comsigo os Magistrados da terra, a participar no paço do Bispo, que dalli a duas horas entrava De-Laborde com hum corpo de 3000 homens. Assim se verificou; e no dia seguinte pela tarde chegou Junot, e se dirigio ao mesmo paço, onde ninguem o esperava; do que elle logo se mostrou assás desgostoso, fazendo com que se lhe patenteassem todas as portas. He verdade, que não tratou mal ao Bispo, nem lhe roubou a livraria, como se tem publicado em alguns escritos; mas os seus Ajudantes levárão alguns objectos, de que se agradárão, e provavelmente com a esperança de acharem dinheiro, lhe revolvérão os livros; não o achando, resolvêrão-se a pedillo, e algum obtiverão: hum delles, depois de terem partido, voltou das Sarzedas a pedir mais dinheiro para o proprio Junot, a titulo de emprestimo; e tambem o levou. Levárão mais a este Prelado duas bestas de serviço, e por huma casualidade deixárão de levar-lhe huma unica parelha, que tinha, e huma pequena mula, em que costuma montar nas suas visitas. As intenções parecião ser de lhe alimparem a casa, e he deste modo, que Junot em pessoa, e os officiaes mais addictos a elle executavão a proclamação de Alcantara! [Sidenote: 1807 Nov.] O Barão de Castello novo, que se achava naquella cidade, foi maltratado por Junot, por lhe apparecer vestido de paisano, tendo hum emprego militar, e porque exigindo delle cavallos, o Barão lhe respondeo, que os não tinha; resposta, a que o mesmo Junot replicou com hum _mente_. O General em chéfe, e as tropas, que o acompanhavão, demorárão-se sómente huma noute em Castello-branco; mas que noute! Eu usarei da expressão de huma pessoa muito authorizada da mesma cidade, que quiz ter a benignidade de ministrar-me algumas informações: _esta noute foi huma imagem do inferno_. Continuando nos dias seguintes a passagem das tropas, em hum delles foi arrombada a porta da igreja Paroquial de S. Maria do Castello, e igualmente a do sacrario da mesma: roubárão o vaso sagrado, e lançárão por terra, e por cima do altar as sagradas Particulas; e não foi esta sómente a igreja, em que aquelles ímpios praticárão semelhantes abominações. Que principio de protecção para com os póvos, e para com a santa religião, que estes bandos de foragidos não cessão de ultrajar, e que os seus chéfes fingem professar, ajuntando a tantos crimes huma criminosa hypocrisia! [Sidenote: 1807 Nov.] [Sidenote: 1807 Nov.] A 23 pelas 3 horas da tarde chegou a Abrantes a vanguarda, e a 24 pela manhã entrou Junot com a parte do seu exercito, que o acompanhava: os proprios Generaes vinhão conduzindo rebanhos de gado, que vendião para se utilizarem do seu preço, como se viessem de hum saque. Junot expedio immediatamente a vanguarda para Punhete, junto ao Zezere, e ficou cuidando em aprovisionar o exercito; porque pensou achar nesta villa grandes commodidades. Ordenou immediatamente ao Juiz de fora José de Macedo Ferreira Pinto, que lhe fizesse apromptar 12 mil rações, e 12 mil pares de çapatos, com a combinação de impôr huma contribuição á terra de 300 mil cruzados novos, e o tratou tão asperamente, que este digno magistrado logo na noute seguinte evitou com a fugida os resultados, que podião seguir-se. Ficando vago por este motivo aquelle emprego, Junot, depois que tomou o governo do reino, o conferio a hum moço, filho da mesma terra, que se não tinha habilitado, nem frequentado as aulas da Universidade, querendo por esta fórma mostrar-se agradecido a seu pai Rodrigo Soares de Bivar, em cuja casa se aquartelára, pelas grandes despezas, que fez na sua hospedagem. Até para o vestir lhe deo camisas! Intimidada a villa de Abrantes com o justo receio de huma execução militar, despachou correios para Thomar, e outras terras visinhas, para se comprarem todos os çapatos, que se achassem feitos, e se empregarem todos os çapateiros em fazer os que lhes fosse possivel. Trabalhou-se o resto desse dia, e toda a noute, os particulares concorrêrão com os que tinhão para o seu uso, e pela tarde do dia seguinte se teria apromptado a 3.^a ou 4.^a parte dos que se pedírão; com o que se accommodou com effeito Junot, convencido da impossibilidade de se apromptar em tão curto praso a totalidade. Quanto ás rações, proveo-se o exercito, segundo permittião as circumstancias da terra, e não confórme os desejos do General. [Sidenote: 1807 Nov.] Em Abrantes não deixárão estes novos Vandalos de renovar algumas das costumadas scenas da sua irreligião. Fizerão quartel da igreja de S. Antonio, e dos altares mangedouras para as bestas. Hum coronel, que se aquartelou no convento dos Capuchos, fez todo o genero de insolencias ao Guardião, servindo-se delle até para lhe descalçar as botas, e por fim intimou-lhe, que lhe trouxesse todo o dinheiro do convento. A colheita foi pequena, como devia esperar-se de hum convento de Capuchos; mas o coronel, que não attendia a razões, lhe intimou novamente, que lhe fosse buscar mais dinheiro, ou o faria fuzilar: o bom frade não teve então outro recurso, senão fugir, deixando o convento entregue á rapacidade Franceza. [Sidenote: 1807 Nov.] Foi nesta villa que Junot obteve noticias mais circumstanciadas de Lisboa, ainda que não erão verdadeiras em tudo. Disserão-lhe, que o Principe Regente fazia embarcar a toda a pressa huma parte da Familia Real, e grande numero de Fidalgos; que a esquadra Ingleza bloqueava o Téjo, tendo a bordo as tropas da expedição de Copenhague, dizião huns, e 16& homens vindos de proposito d’Inglaterra, dizião outros. Principiou então a desconfiar do exito da sua empreza, e recorrendo aos ardís da sua artificiosa politica, tentou ainda enganar a nossa corte com perfidias diplomaticas. Perguntou se haveria hum homem, que quizesse ir rápidamente a Lisboa fazer hum grande serviço ao Principe Regente: inculcárão-lhe Joaquim Manoel Raposo, e foi este o portador de huma carta de Junot a Araujo, a que deo o titulo de confidencial, que porém imaginava, e se não enganou, que seria vista por S. A. R. As particularidades desta carta são ainda encubertas; mas sabe-se, que ella não servio senão de mais hum aviso á corte da aproximação do exercito Francez, e de hum novo incentivo, para apressar o embarque. [Sidenote: 1807 Nov.] A vanguarda parou em Punhete; porque o Zezere, rio caudaloso, e grande, lhe negava a passagem: para a dirigir, e accelerar sahio Junot de Abrantes no dia 26. Durante a campanha de 1801 tinha-se construido alli huma ponte de barcas, e estas se achavão dispersas em differentes sitios: aquelle General as fez ajuntar, e depois de algumas tentativas, que tornava inuteis a força da corrente, pela muita chuva, que tinha cahido nos dias precedentes, conseguio em fim restabelecer a ponte, tendo já feito passar algumas tropas em bateis. Affogárão-se algumas pessoas das que trabalhavão na construcção desta obra; mas he sem fundamento o que se tem publicado da grande perda de gente, que tivera Junot na passagem do Zezere. [Sidenote: 1807 Nov.] A 27 dormio na Gollegã, e offerecendo-se-lhe novos embaraços nos pantanosos campos, e nas vallas, que tinha de atravessar até Santarem, os franqueou todos na manhã de 28, e foi jantar a esta ultima villa em casa do Capitão mór de Aviz, tendo despedido pelo Téjo a Herman, e a José de Oliveira Barreto com a nova commissão, de que já fallei, e da qual não vio melhor fruto, do que da de Joaquim Manoel Raposo. Este ultimo ahi o foi encontrar, e augmentar-lhe os cuidados com a resposta, que lhe trazia. O dono da casa foi quem o pagou: pedindo Junot hum cavallo, e occultando elle hum muito formoso, que tinha, o General, todo transportado de colera, arremetteo com a espada para o matar: acudio a mulher do pobre Capitão mór, banhada em lagrimas; e pôde conseguir a commutação de tão rigorosa pena em outra muito suave em si mesma, mas muito sensivel para hum homem, que gozava de grande consideração naquella terra. Junot na sua marcha o fez ir diante de si a pé, e com a cabeça descoberta, até á escada da cadêa pública, e dalli o despedio com ignominia. [Sidenote: 1807 Nov.] No Cartaxo, aldêa bastantemente grande, a 2 leguas de Santarem, he que veio pousar nesse dia o General em chéfe. Era huma hora para as duas depois da meia noute, e estava elle na sua cama, quando lhe chega a noticia de que com effeito a Familia Real tinha embarcado. Levanta-se nú, dá pancadas ao vento, bate o pé, e tudo he reboliço na casa; manifestando assás pelos transportes da sua ira, quanto lhe era amargo perder o fruto principal das suas fadigas no momento, em que se estava já ensaiando, para lançar as mãos sobre a presa. [Sidenote: 1807 Nov.] Apenas apparece a manhã, elle se põe em acção de marcha, e caminhou até as 9, ou 10 horas da noute, para chegar a Sacavem. Foi neste dia que recebeo os Deputados, que lhe enviárão os governadores do reino, e de que tambem já fallei; e igualmente o forão buscar de seu proprio marte (com bastante mágoa o direi) alguns Portuguezes degenerados, pela maior parte Pedreiros-livres, que infiéis ao Soberano, e á patria, se apressárão a offerecer os seus infames serviços ao satéllite do usurpador. Junot parece ter dado a este facto huma importancia muito maior, porque assim convinha aos seus designios, inculcando por hum grande partido o que apenas consistia em huns poucos de miseraveis, ou de criminosos, corridos da fortuna, e perdidos de dividas, que esperavão melhorar na mudança de governo, e na subversão geral. Elle chegou a lisongear-se de que o povo de Lisboa, animado pela aproximação do exercito Francez, poderia resolver-se a embaraçar a sahida da esquadra. Louca esperança! Esse refugo desprezivel, essa raça bastarda, e impura, que se atreve a manchar o nome Portuguez, era olhada com horror por toda a nação, e assinaladamente pelo fiel povo de Lisboa, que ama tanto o seu legitimo Soberano, como aborrece os usurpadores. Este mesmo era o dia, em que a esquadra largava o Téjo, deixando confundidos os projectos de Napoleão, e malogradas as diligencias de Junot. Na manhã do dia 30 continuou muito cedo a sua marcha, de fórma que ás 9 horas estava ás portas de Lisboa, tendo mandado hum destacamento, porque teve quem lho advertisse, a tomar posse do deposito de Beirolas, onde se achavão quarenta mil arrobas de polvora. FOOTNOTES: [Footnote 13: _Oliv. verdad. vid. de Bonap._] CAPITULO XVII. _Proclamação de Junot aos habitantes de Lisboa: sua entrada nesta capital, e sua digressão a Belém, e á bateria do Bom-successo. Elle mette tropas na torre de S. Julião, e volta a Lisboa aquartelar-se em casa do Barão de Quintella._ [Sidenote: 1807 Nov.] [Sidenote: 1807 Nov.] Na madrugada do mesmo dia tinha apparecido affixada pelas ruas, e praças de Lisboa huma nova proclamação de Junot nas duas linguas Franceza, e Portugueza; porque o engano, e a perfidia o precedião sempre na sua marcha. Era semelhante áquella, que tinha feito propagar desde Alcantara, com as mesmas expressões de amizade, e de protecção, e as mesmas exclamações contra os Inglezes, ainda mais aggravadas pelo traductor Portuguez, como he facil de observar, combinando-se o original com a traducção; mas com a differença, que deixava já entrever huma parte dos attentados, que brevemente pôz em prática, contra o mesmo Soberano, que vinha auxiliar, pondo-o na esteira de hum emigrado, porque se transferíra de huma cidade para outra dos seus Estados. Até aqui vinha d’acordo com o Principe Regente salvar Lisboa da sua ruina, agora vem sómente proteger a nação, e deplora a desgraça do seu respeitavel Soberano, que arrastado por máos conselhos se entregára nas mãos dos pérfidos Inglezes! Tudo erão laços artificiosos, com que se procuravão surprender os fiéis Portuguezes, de fórma que se achassem maniatados, sem terem sentido os ferros. Mas a peça he tão interessante, tão extraordinaria, e tão demonstrativa da maldade destes pérfidos, (não os Inglezes) que eu não posso dispensar-me de a transcrever toda inteira, posto que tem sido impressa muitas vezes. O Governador de París, Primeiro Ajudante de campo de S. M. o Imperador e Rei, General em chéfe, Gram-Cruz da Ordem de Christo nestes Reinos. Habitantes de Lisboa. [Sidenote: 1807 Nov.] [Sidenote: 1807 Nov.] O meu exercito vai entrar na vossa cidade. Eu vinha salvar o vosso porto, e o vosso Principe da influencia maligna da Inglaterra. Mas este Principe, alias respeitavel pelas suas virtudes, deixou-se arrastar pelos conselheiros pérfidos, de que era cercado, para ser por elles entregue aos seus inimigos; atrevêrão-se a assustallo quanto á sua segurança pessoal;[14] os seus vassallos não forão tidos em conta alguma, e os vossos interesses forão sacrificados á cobardia de huns poucos de cortezãos. Moradores de Lisboa, vivei socegados em vossas casas: não receeis cousa alguma do meu exercito, nem de mim: os nossos inimigos, e os malvados sómente devem temer-nos. O grande Napoleão meu amo envia-me para vos proteger, eu vos protegerei. _Junot._ _Le Gouverneur de París, Premier Aide de Camp de Sa Majesté l’Empereur & Roi, Général en Chef, Grand-Croix de l’Ordre de Christ de Portugal. Habitans de Lisbonne._ [Sidenote: 1807 Nov.] _Mon armée va entrer dans vos murs. Elle y venait pour sauver votre port et votre Prince de l’influence de l’Angleterre._ _Mais ce Prince, si respectable par ses vertus, s’est laissé entrainer aux conseils de quelques méchans qui l’entouraient, et il est allé se jetter dans les bras de ses ennemis._ _On l’a fait trembler pour sa propre personne, ses sujets n’ont été comptés pour rien, et vos intérêts ont été sacrifiés à la lâcheté de quelques Courtisans!_ _Habitans de Lisbonne: soyez tranquilles dans vos maisons, ne craignez ni mon armée, ni moi; nous ne sommes à craindre que pour nos ennemis, et pour les méchans._ _Le grand Napoleon mon maître m’envoye pour vous protéger; je vous protégerai._ Junot. [Sidenote: 1807 Nov.] [Sidenote: 1807 Nov.] He necessario confessar, que este engano produzio o seu effeito em huma parte do povo inexperto, quando se virão a quantidade, a qualidade, e o estado das tropas, com que Junot entrou em Lisboa. Consistião em hum regimento de granadeiros, e no 70.^o de linha, sem huma peça de artilheria: algumas outras tropas o seguião de perto; mas em pequeno número, porque a rapidez das marchas, e o máo tempo fazia com que as mais ficassem muito atrazadas. De-Laborde, que acompanhára Junot até Santarem, ficou alli com alguma força, ajuntando os dispersos, e dando providencias para os transportes. Huma grande parte dos soldados erão imberbes, e tendo-se ajuntado huma diarrhea a todas as incommodidades das marchas, do tempo, do máo trato, e dos caminhos, vinhão todos, inclusos os Generaes, tão fatigados, rotos, e desfigurados, que mais excitavão a piedade, do que o terror dos espectadores. Não se via entrar hum regimento, hum batalhão, ou outro algum corpo de tropa, sem que ficassem passando por horas inteiras os estropiados, que coxeando o seguião de longe: muitos ficavão deitados pelas estradas, ou encostados ás paredes, e os habitantes dos campos, menos compassivos que os das cidades, não deixavão, quando se lhes offerecia a occasião, de ir alliviando a estes infelices de huma vida tão pesada. Não se sabia, que Junot, além do commando do exercito, vinha encarregado de funcções diplomaticas, cujo exercicio tem valido mais aos Francezes, do que as suas acções militares: ignorava-se o número de tropas, que se seguião incessantemente á 1.^a divisão do exercito Francez, e que ao mesmo tempo se movião tambem as Hespanholas, para invadirem Portugal por differentes pontos; e chegou por isso a pensar-se, que a commissão daquelle General se limitaria a guarnecer os portos, e a costa maritima, para os ter fechados aos Inglezes; conservando o reino ao seu legitimo Soberano. A illusão foi breve. [Sidenote: 1807 Nov.] A entrada de Junot em Lisboa com o seu exercito foi marcada com hum dia procelloso: o vento era rijo, e copiosa a chuva; mas assim mesmo, sem se demorar na cidade, se encaminhou logo a Belém pela estrada do Rato; e entrando na bateria do Bom-successo, que era commandada por Stockler, foi dalli desenganar-se com os seus proprios olhos de que a esquadra Portugueza tinha sahido, e a Ingleza não entrára, limitando-se sómente ao bloquêo do porto. Sempre tirou por fruto do seu trabalho embaraçar a sahida dos navios, que se dispunhão a dar á véla, como já notei. Despedio logo o 2.^o batalhão do regimento 70.^o para ir guarnecer a torre de S. Julião; fortaleza situada na boca da barra, e de que este General se agradou muito, notando sómente ás suas baterias o serem todas formadas sobre pedra. Dadas estas providencias, voltou para Lisboa, tendo ajuntado á sua guarda alguns destacamentos de tropa Portugueza, que viera encontrando desde Sacavem, e fazião a principal, por não dizer a unica segurança da sua pessoa. [Sidenote: 1807 Nov.] Tomou então pelas ruas principaes da cidade, levando huma marcha, que se assemelhava a triunfal, posto que hum pouco desfigurada pela chuva, que cahia, e pela lama, que cobria os seus vestidos, e os da sua cohorte. Foi por este modo atravessando por entre hum grande, e melancolico concurso de povo, que a curiosidade, e não o gosto attrahia ás ruas, e ainda mais ás janellas; e com grandes cortezias hia magestosamente correspondendo a qualquer inclinação de cabeça, ou ao mais leve sinal de cortejo, que se lhe fizesse. He por meio destas maneiras affectadas, e filhas do seu systema, que elle se propôz constantemente desde a sua entrada em Lisboa a temperar, se pudesse, o seu caracter violento, a rudez, a crueldade, e a avareza dos officiaes, e soldados, que commandava, não obstante o serem qualidades combinadas até certo ponto com o plano, que vinha executar, e a elle necessarias; as quaes por tanto, ou emanavão das suas ordens, ou erão por elle toleradas. [Sidenote: 1807 Nov.] Em lugar de encaminhar-se ao palacio da Bemposta, elle foi aquartelar-se em casa do Barão de Quintella, huma das mais ricas, e opulentas da capital. Não entrarei, como outros fizerão, na indagação dos motivos, que o decidirão nesta escolha, objecto de que nenhum interesse resultaria á posteridade: direi sómente, que Junot melhorou muito em hospedar-se em huma casa tal, onde foi tratado, e assistido esplendidamente, em quanto residio em Lisboa, não só do preciso, mas até dos objectos do seu grande luxo, sem lhe custar hum real, não obstante o receber do Senado da camara para o seu tratamento huma contribuição mensal de doze mil cruzados. FOOTNOTES: [Footnote 14: E atreve-se Junot a fallar desta fórma, depois do tratado de Fontainebleau, e da commissão, de que elle mesmo vinha encarregado!] CAPITULO XVIII. _Primeiras operações politicas, e militares de Junot em Lisboa. Herman he introduzido no governo, e no erario. Retrato deste homem. Usurpação dos bens da coroa, e dos patrimoniaes da casa Real da ribeira das náos, e mais arsenaes. Sequestro das propriedades, e manufacturas Inglezas. Principia o desarmamento da nação. Conducta dos Governadores do reino._ [Sidenote: 1807 Nov.] [Sidenote: 1807 Nov.] A inconsideração, e a facilidade de escrever tem sido levadas a hum ponto tal, que houve quem fizesse imprimir, que quando chegou Junot, os Governadores do reino o estavão esperando nas lojas da casa do Barão de Quintella. Não descerei ao baixo officio de lisongeiro; mas não deixarei passar falsidades tão notorias, em prejuizo do decoro de personagens tão respeitaveis, como aquellas, de quem o Principe Regente confiou a administração dos seus reinos. Nenhum dos membros do governo foi esperar Junot nas salas, quanto mais nas lojas daquella casa: se algum o foi esperar ao caminho, ou se encontrou com elle no de Belém, o que não deve admirar, porque o caminho de Belém he o mesmo da Ajuda, onde então se congregavão[15] com a assiduidade, que exigião as circumstancias, não foi revestido de caracter público, nem authorizado pelo corpo do governo, e toda a civilidade decente, que praticasse em comprimentallo, nada tinha de reprehensivel, pois que elle entrava como o General de huma nação alliada. [Sidenote: 1807 Nov.] A verdade he, que tratando os Governadores do reino entre si do modo, porque o devião comprimentar, assentárão, que primeiro o fossem procurar cada hum de per si, e só passados dous, ou tres dias he que o forão visitar em corpo. Junot não figurava ainda, senão de General de hum exercito auxiliar, e os Governadores do reino representavão a pessoa do Soberano; mas nem quando o procurárão separados, nem quando juntos em corpo, lhes deo assento: tal era a grosseria, e a altivez do seu caracter! Estas erão as suas qualidades naturaes; tudo o que dellas se affastava era affectado, e filho da sua astuta politica. Quando o proprio governo era assim tratado, que podião esperar os tribunaes, e as outras corporações do reino, e os particulares de todas as ordens? [Sidenote: 1807 Nov.] Aproveito esta occasião para dizer de passagem, que o Desembargo do Paço, este antigo, e venerando tribunal, que em outro tempo era presidido pelos Soberanos em pessoa, e que até o dia de hoje tem conservado sem contradicção a primazia entre todos os outros, foi algum tempo depois insultado por aquelle General, até por via do seu porteiro com recados, e expressões tão grosseiras, que se os costumes hodiernos os permittem aos Generaes da França, em Portugal são intoleraveis na boca de hum simples particular bem nascido. Querendo abolir o Almirantado não usou de mais formalidades, que o mandar fechar as portas da casa deste tribunal, sacudindo os officiaes, e empregados das suas mezas, bem como em outro tempo o célebre Cromwel sacudira dos seus assentos os membros do Parlamento Inglez. Mas voltemos sobre os nossos passos, sem nos entranharmos muito em factos, que tem huma data mais recente. [Sidenote: 1807 Dez.] No 1.^o de dezembro, e seguintes continuárão a entrar em Lisboa tropas Francezas, o que deo lugar a Junot para mandar immediatamente hum batalhão a guarnecer a importante fortaleza de Cascaes, e se ir apoderando tambem das que ficão no interior do porto, e das principaes guardas da cidade, sendo as primeiras as dos arsenaes Reaes. Na da fundição commandava hum simples official inferior, o qual teve o valor de não querer render-se ao official Francez, que com a sua gente o hia substituir, sem que se lhe apresentasse ordem do General Portuguez, que era nesse tempo o Marquez de Vagos. Dizem, que huma semelhante contestação experimentárão os Francezes na guarda principal do terreiro do Paço; mas he certo que em nenhuma encontrárão huma resistencia formal. [Sidenote: 1807 Nov.] Foi logo no mesmo dia que Junot procedeo á primeira, e mais importante das suas operações politicas, sem a qual todas as mais lhe serião inuteis, a de introduzir Herman na corporação do governo, com o titulo de commissario do governo Francez. Este commissario apresentou-se com o decreto da sua nomeação[16] aos Governadores do reino congregados em conselho para entrar no exercicio da sua commissão: temeo-se, que quizesse arrogar a presidencia, ou o primeiro lugar; mas a prudencia, e dexteridade, de que se usou, foi causa de que elle se contentasse com hum dos assentos inferiores, que achou vago. [Sidenote: 1807 Dez.] Eu quizera neste lugar instruir perfeitamente os meus leitores sobre o caracter, e conducta de Herman, por ser hum dos individuos, que mais figurárão na usurpação do reino, sem gastar tempo em indagações sobre o que tinhão sido em França este, e os mais empregados civis, e militares, pois só me importa o que vierão ser em Portugal; mas como poderei descrever hum homem, que nem pela fysionomia cheguei a conhecer? Arriscarei mui breves palavras, pelo que póde colligir-se das suas acções públicas. A commissão, de que Herman viera encarregado no tempo da embaixada de Lannes, já era bastante para o fazer odioso; a outra, de que ultimamente o incumbíra Junot, e de que ha pouco dei huma idéa, o faz abominavel aos bons Portuguezes. Tinha espirito, e sendo muito timido por natureza, era ao mesmo tempo facilissimo em irar-se; mas sabia adoçar os effeitos do seu genio, por meio de certos agrados naturaes, e de hum comportamento estudado. Fez-se célebre pela sua astucia, e manhas diplomaticas, qualidades, pelas quaes mereceo a Napoleão o escolhello, e aggregallo a Junot, para vir ser em Portugal o seu inspirador, e o seu braço direito, pelo que pertencia ás operações do governo interno: he por isso que Junot teve sempre tantas contemplações para com este homem, que ainda depois de muito descontente do seu comportamento, se atrevia apenas a queixar-se delle. Sabia viver, e debaixo de huma inculcada isenção não foi dos que menos souberão promover os seus interesses. A este retrato de Herman pede a imparcialidade, que eu accrescente, que elle com o tempo chegou a mostrar algum interesse pela nação Portugueza, e displicencia pelo systema depredador dos seus compatriotas. Forão estes os motivos, porque veio a incorrer na indignação dos Generaes Francezes, sem exceptuar o proprio Junot, e sobre tudo na de Lagarde. [Sidenote: 1807 Dez.] Assistia Herman a todas as deliberações do governo, e ainda que sem voto nas mesmas, exercitava sobre ellas huma grande authoridade indirecta, semelhante á dos tribunos da plebe entre os Romanos; porque quando lhe desagradavão, não se esquecia de lembrar aos Governadores do reino, que erão contrarias ás idéas do General em chéfe, e que nas mãos deste estava o poder da força: bem se vê pelas circumstancias do tempo, que isto era hum _veto_ formal. Servia além disso de mensageiro das ordens directas, ou indirectas, que Junot queria expedir ao corpo do governo. [Sidenote: 1807 Dez.] Poucos dias depois o mesmo Herman foi introduzido no governo do erario Regio, com o titulo de administrador geral das finanças.[17] Mas não he isto o mais extraordinario. Hum facto, que nunca deverá esquecer, he o ter-se introduzido igualmente hum Berthelot, com o titulo de recebedor geral das contribuições, e rendas de Portugal, por nomeação do proprio Imperador dos Francezes, datada de Fontainebleau a 17 de novembro precedente, e que esta nomeação se apresentasse, e registasse sem pejo, nem rebuço, nas contadorias respectivas, para ficar perpetuado mais este monumento do pouco respeito, que se tinha á decencia, e á justiça, apar daquella proclamação datada de Alcantara hum dia depois da mesma; proclamação, na qual Junot annunciava aos póvos, que vinha com o seu exercito auxiliar-nos contra os Inglezes de acordo com o Principe Regente; e apar tambem das solemnes promessas de protecção, e amizade na outra aos habitantes de Lisboa. [Sidenote: 1807 Dez.] Vírão-se então no governo de Portugal as contradicções mais singulares, que tem visto o mundo. No palacio da Inquisição, que faz huma das frentes da grande praça do Rocio no centro de Lisboa, se congregavão os legitimos Governadores do reino, e davão ainda as leis em nome do verdadeiro Soberano: passada sómente huma rua, que desemboca na mesma praça, já reinava Napoleão sobre o tribunal do erario. As ordens, que se passavão por esta repartição, forão desde este momento concebidas na fórma seguinte: _Em nome do imperador dos Francezes, Rei d’Italia, e por nomeação, e ordem de S. Excellencia o Governador de París, primeiro Ajudante de campo do dito senhor, General em chéfe, &c. Francisco Antonio Herman, commissario Francez junto ao conselho da regencia, e administrador geral das finanças. Faço saber, ou mando, &c_. [Sidenote: 1807 Dez.] Os arsenaes de terra, e os depositos d’armas tinhão já cahido em poder dos Francezes. Não tardou em seguir a mesma ordem o arsenal Real da marinha, que era hum dos primeiros objectos, em que os Francezes fixavão os olhos. Junot não esperou mais, que a chegada do capitão de _vaisseau_ (corresponde a mar e guerra) Magendie, para o pôr á frente desta repartição,[18] e se apoderar de todos os objectos a ella pertencentes. Era a mania do tempo fazer proclamações: Magendie sahio tambem com a sua no estylo Napoleonico aos officiaes do porto, mestres, e contra-mestres de todo o gráo, carpinteiros, calafates, &c. prégando-lhes subordinação, assiduidade, e actividade, promettendo grandes premios ao zelo, e talentos, castigos á desobediencia, e falta de serviço, e que elles se alegrarião com a nova ordem de cousas, que hia nascer. [Sidenote: 1807 Dez.] Os bens da coroa, e os patrimoniaes da casa Real tinhão hum direito muito particular a gozarem da protecção do exercito Francez. Em primeiro lugar, assim que Junot entrou em Lisboa, apropriou-se para si, e para a sua grande officialidade, e empregados, dos cavallos, arreios, carruagens, e outros mais objectos. Não sei, como fizerão a partilha, he de presumir, que o General em chéfe ficasse de melhor quinhão; e elle era visto nas funções públicas ostentar huma magnificencia, e hum luxo extraordinario com o trem da casa. Loison foi a Mafra mandar fazer camisas dos lançoes de finissima cambraia, que servião nas camas das Pessoas Reaes; ricas peças de bordado, e de tisso forão queimadas, para se lhes aproveitar o ouro; riquissimos trastes, muito ouro, e muita prata, que se não pôde embarcar na esquadra, cahírão em poder destas aves da rapina, principalmente em Mafra, e em Quéluz, onde os palacios Reaes estavão magnificamente adornados, e providos, principalmente a casa chamada de mantieria, onde existião roupas preciosas, serviços de meza, trastes de prata, e a mobilia correspondente. [Sidenote: 1807 Dez.] Ao mesmo tempo, em que se procedia a esta primeira operação, fazia-se tambem hum inventario do que existia nos mesmos palacios Reaes, e dos mais bens da coroa, e se pôz tudo em sequestro. E ainda se dava a voz do Soberano sequestrado! Este mesmo procedimento se praticava com as casas dos fidalgos, e mais pessoas, que acompanhárão a corte, e todos se tratárão de emigrados. Não sei como forão esses inventarios, e sequestros, mas he certo, que elles não evitárão novas dilapidações, novos roubos. Os particulares, por principio de protecção, tiverão logo huma contribuição de dous milhões de cruzados, imposta por Junot a titulo de emprestimo forçado[19] para a sustentação do exercito, que vinha devastar o reino. Pagárão-se pontualmente, e foi o corpo do commércio o que supportou este pezo. [Sidenote: 1807 Dez.] O sequestro das propriedades Inglezas, e o desarmamento da nação forão tambem objectos, que occupárão incessantemente a attenção de Junot, e sobre elles principiou a legislar por decretos de 4 de dezembro. Quanto ás propriedades Inglezas, mandou confiscar todas as existentes em Portugal, impondo a quem as tivesse em seu poder, e o que he mais, a quem soubesse de algumas, que se tivessem occultado, a rigorosa obrigação de as manifestar, com a combinação de graves penas, sendo huma dellas o pagar dez vezes o valor dos objectos não denunciados. As mercadorias de manufactura Ingleza ficarião igualmente sujeitas ao confisco, pelo simples facto da sua origem, fossem quaesquer os possuidores. Era huma consequencia necessaria da guerra, que Napoleão tinha declarado ás producções, e manufacturas da Gram-Bretanha, a que póde dar-se com propriedade o nome de roubo universal, porque atacando indistinctamente a todos os possuidores, ataca a todas as nações da terra. Junot teve a bondade de moderar depois este decreto,[20] contentando-se com o 3.^o do valor das fazendas confiscadas pelo simples facto da sua origem, sendo possuidas por Portuguezes. [Sidenote: 1807 Dez.] O desarmamento da nação era hum ponto muito crítico, para se levar ao fim, em quanto ella não estivesse bem segura. Por principio contentou-se Junot com prohibir o uso das armas de fogo, e o caçar sem licença do General de-Laborde (a quem já tinha nomeado commandante de Lisboa) pena de ser considerado o infractor como vagabundo, e matador de estradas, e como tal conduzido a huma commissão militar. O caçador, e o matador de estrada são equiparados, que proporção nas penas! Não he menos singular a razão deste decreto dada no seu preambulo: _Considerando que debaixo do pretexto de caça se commettem diariamente assassinios, e a intenção do General em chéfe he fazer destruir com ordem a caça naquelles terrenos, onde ella fossa ser prejudicial, &c_. Para destruir a caça, prohibe com pena de morte o caçar: que incoherencia! Mas o certo he, que de-Laborde achou este decreto muito coherente aos seus interesses; porque foi copioso canal, por onde lhe corrião grossas quantias; pois que vendia por bom dinheiro as licenças para caçar. [Sidenote: 1807 Dez.] [Sidenote: 1807 Dez.] Que devião fazer em taes circumstancias os Governadores do reino: seria da sua obrigação resistir a tantos attentados, e tão repetidos actos de usurpação? Não devião, nem podião. _Não devião_; porque seria obrar contra o plano adoptado por S. A. R. e sacrificar inutilmente a nação a males horrorosos. S. A. R. tinha sido informado das marchas dos inimigos, e sabia tanto das suas intenções pérfidas, que no decreto de 26 de novembro fez público aos seus vassallos, que elles se dirigião muito particularmente contra a sua Real Pessoa; e com tudo conservando-se no Téjo até o dia, em que a vanguarda do exercito Francez chegou a Sacavem, não só não deo providencias algumas para a defeza, mas deixou em pé as recommendações, que fizera ao governo naquelle decreto, para o fazer aquartelar, e tratar como hum exercito alliado. Era sem dúvida o plano evitar-lhe todo o motivo, ou pretexto de rompimento, como melhor se declarou depois no manifesto datado do Rio de Janeiro no 1.^o de maio de 1808; e se o não fosse, não deixaria S. A. R. de authorizar a esquadra Ingleza, para entrar no porto, e se senhorear das fortalezas da barra, ao menos para salvar huma grande parte do povo, e das riquezas de Lisboa. _Não podião_; porque he com exercitos, e não com palavras que se resiste a hum inimigo poderoso, e armado; e o exercito Portuguez, além de dividido, e disperso, em consequencia das ultimas posições, que S. A. R. lhe mandára tomar, estava tão diminuto, pela deserção, occasionada principalmente na confusão do embarque da nossa corte, e pela falta dos que a acompanhárão, que ainda Junot não tinha 8 dias de residencia em Lisboa, e já estava nas suas mãos hum mappa, que lhe representava apenas 15& homens sobre o papel nos 24 regimentos de infanteria Portugueza, e calculava, que não excederião a 12& effectivos. Que bella resistencia se podia fazer com este exercito? [Sidenote: 1807 Dez.] Eu convenho, que no primeiro dia bastava hum aceno dos Governadores do reino ao povo de Lisboa, para desapparecerem em hum momento o General Junot, e todos os guerreiros, que o acompanhavão: dahi a poucos dias já se não podia com elles. E demos, que se destruião as primeiras tropas; que triste resultado teria para a nação esta inconsiderada defeza? Como se havia de resistir a mais de 50& homens entre Francezes, e Hespanhoes, que já a esse tempo entravão, ou estavão promptos a entrar nas nossas fronteiras, e aos numerosos exercitos com que a França, e Hespanha unidas os farião seguir, sendo preciso! Resistencia he o que querião os barbaros Francezes, não só para pretextarem a usurpação do reino, mas tambem para poderem dar os saques. Misera Hespanha, tu nos estás dizendo o que aconteceria a Portugal! [Sidenote: 1807 Dez.] Foi por tanto huma grande felicidade para a nação, que o corpo do governo á custa mesmo de grandes sacrificios, e soffrimentos pessoaes dos seus membros continuasse no systema pacifico, que o Principe Regente tinha adoptado: Que os Francezes, posto que guiados pelo seu interesse proprio, conservassem esta authoridade intermedia, que servio muito de adoçar os primeiros actos da invasão, por isso mesmo que della se servião, para a execução de muitos dos seus decretos: que se désse ao tempo o que o tempo só podia remediar, esperando-se a occasião opportuna, para quebrar os ferros, quasi sem se derramar o sangue Portuguez. Isto são verdades palpaveis, e o contrario idéas não só falsas, mas perigosissimas, como tendentes a excitar a desconfiança entre os governos, e os póvos, a qual, em lavrando com calor, raras vezes deixa de ter por consequencia a ruina dos Estados. FOOTNOTES: [Footnote 15: Poucos dias depois, por commodidade das partes, transferírão o lugar das suas sessões para o palacio do Rocio.] [Footnote 16: Decreto de Junot do 1.^o de dezembro de 1807.] [Footnote 17: Por decreto de Junot de 3 de dezembro de 1807.] [Footnote 18: Por decreto de 4 de dezembro de 1807.] [Footnote 19: Por decreto de 1 de dezembro de 1807.] [Footnote 20: Por outro do 1.^o de fevereiro de 1808] CAPITULO XIX. _Sustos de Junot em Lisboa. Este General estende as suas tropas para a costa maritima do norte. Oppressão e extorsões do exercito Francez naquella capital, e conducta dos seus Generaes, e officialidade._ [Sidenote: 1807 Dez.] [Sidenote: 1807 Dez.] Entretanto Junot não deixou de passar por grandes sustos, principalmente da parte dos Inglezes, que continuavão sempre a bloquear o porto de Lisboa com huma esquadra, que nunca descia de 8 náos de linha, e algumas vezes excedia muito esta força. Era hum homem naturalmente timido, ou pelo menos deo muitas provas disso em Portugal; e se o ter-se entranhado até á capital com tão poucas, e tão miseraveis tropas parece destruir esta idéa, advirta-se, que elle não marchava, senão com huma cabal certeza das disposições pacificas do paiz, e do estado de dispersão do exercito Portuguez. Como não ficaria este General, quando logo no 1.^o de dezembro o embaçárão com a noticia de que os Inglezes tinhão feito hum desembarque em Peniche, praça, e ponto importante da costa a 12 leguas ao norte de Lisboa, achando-se elle ainda quasi sem tropas, e não tendo hum só official de artilheria? Naquelle mesmo dia lhe chegava a 1.^a divisão, mas em pessimo estado; a 2 a cavallaria toda desmontada; a 4 a 2.^a divisão; e a 5 a 3.^a ambas ellas tão diminutas, e enfraquecidas, como a 1.^a; e finalmente a 6 he que começou a respirar, vendo-se por huma parte rodeado de huma grande porção do seu exercito, e sendo por outra informado de ter sido falsa a noticia do desembarque dos Inglezes. [Sidenote: 1807 Dez.] Então mesmo lhe chegava a nova de que a divisão Hespanhola, commandada por Solano, vinha atravessando o Além-Téjo, e não tardou muito a de se encaminhar Taranco para a cidade do Porto com a outra divisão Hespanhola, que devia occupar as provincias do norte. Pôde pois Junot alargar mais as suas vistas, e destinou immediatamente a 2.^a divisão do seu exercito, commandada por Loison, para ir cobrir a costa ao norte de Cascaes, tomando a posição de Torres-vedras, e tendo hum regimento em Peniche, e hum batalhão em Mafra. [Sidenote: 1807 Dez.] A entrada, e accumulação das tropas Francezas causou huma extraordinaria oppressão em Lisboa. Era tal a miseria, em que vinhão os proprios Generaes, que pedião camisas, meias, botas, &c. pelas casas, em que se aquartelavão: deixando de accumular factos, que forão muito obvios, e frequentes em Lisboa, referirei hum mais notavel, que tenho da propria boca da pessoa, em cuja casa se passou. O General de cavallaria Margaron hospedou-se na villa de *** em casa de ***, e exigio deste para o seu uso huma camisa, hum colete, hum lenço do pescoço, outro quadrado, huns çapatos, e humas botas: o seu criado pedio huma camisa, a sua cozinheira, e o marido desta pedírão camisas, meias, e outros mais objectos. Quando os Generaes vinhão neste estado, que seria do resto do exercito? Não mediou porém muito tempo, que o ouro, e a prata não entrassem a brilhar sobre as cabeças, e em ricos fardamentos da officialidade, e que a maior parte dos individuos, que a compunhão, e do grande número de empregados, que seguião o exercito, não entrasse a fazer avultadas remessas para França em letras, dinheiro, e effeitos, e especialmente em algodão, cujo preço fizerão triplicar, e ainda mais, pela grande concurrencia das suas compras. Donde vinha este cabedal, senão dos infelices habitantes de Lisboa, que erão implacavelmente depenados por estas aves de rapina? [Sidenote: 1807 Dez.] Os soldados conservárão-se por mais tempo na miseria, e mesmo huma grande parte delles não chegou a sahir della; porque erão menos contemplados, e tinhão menos occasiões de se apropriarem dos bens alheios; mas fazião o que podião. Tambem me contentarei com hum exemplo, pelo qual se póde julgar o mais. Os que se aquartelárão no convento de S. Domingos, chegárão hum dia a arrancar do mesmo portas, e janellas, e a pôllas em leilão, para se aproveitarem do preço das madeiras, e ferragens. Foi huma praga, que cahio sobre todos os conventos da cidade, levando os estragos, e a profanação até o santuario; sem que esta fórma de aquartelamentos evitasse huma finta rigorosa aos particulares, a titulo de camas, nas muitas que se exigião. A rua augusta, e a dos fanqueiros forão as mais fintadas neste objecto; porque os mercadores das classes de lã, e seda, e de fazendas brancas, além de contribuirem com as camas, que delles se exigião proporcionalmente com os mais habitantes abastados, levárão-lhes grandes quantidades de fazendas para cobertores, colchões, &c. com promessas de pagamento, que nunca vírão. [Sidenote: 1807 Dez.] Era rarissimo o individuo do exercito Francez, que dava o mais pequeno sinal de religião: se alguma vez entravão nas igrejas, não era senão para as ultrajar: o Santissimo Sacramento exposto não era mesmo bastante, para lhe arrancar da cabeça as barretinas. A igreja paroquial de N. S. das Mercês na rua Formosa tambem servio de quartel a estas tropas huma noute: he huma igreja muito pequena, e muito comprehensivel aos olhos; pôde por isso a vigilancia dos seus padres, que toda essa noute a vigiarão, e acautelarão o mais precioso, que sómente furtassem hum castiçal de cobre de Macáo, pensando talvez ser de prata. Passárão para huma ermida visinha, e nella estacionárão, servindo-se do altar, e do retábulo para usos os mais profanos, e indecentes. [Sidenote: 1807 Dez.] Os officiaes não querião igrejas, nem conventos: servião-lhes as casas dos habitantes ricos, das quaes passavão a dispôr, como senhores, sendo á custa dellas sustentados com grandeza, e grande parte delles aproveitando-se pública, e descaradamente da prata, e trastes preciosos, com que erão servidos. A honra das familias era compromettida, se huma vigilancia activa não podia salvalla; e o mais barato era conduzirem para estas casas, sem rebuço, mulheres do mundo, para servirem, com escandalo, aos seus immundos, e brutaes prazeres. Abusárão tanto nas casas, em que se aquartelavão, do imperio, que lhes dava o presumido titulo de conquistadores, que o General em chéfe se vio obrigado a advertillos na ordem do dia de 9 de dezembro, que se fez pública por editaes, que elles devião considerar-se simplesmente como estando de guarnição, sem direito a pedirem nas mesmas casas mais do que alojamento, lume, e luz. Mas que effeito podia produzir esta ordem contra o exemplo, que o proprio Junot estava dando em casa do Barão de Quintella, e os outros Generaes naquellas, em que se aquartelavão? Continuou-se como d’antes, ou talvez com maior excesso. [Sidenote: 1807 Dez.] [Sidenote: 1807 Dez.] O Marquez d’Angeja, tendo acompanhado a Familia Real, ficou incluido por este facto no número dos emigrados. A sua casa, assim como a dos outros, foi entregue a hum sequestro não obstante o terem ficado nella a Marqueza sua esposa, e seus filhos, e ao mesmo tempo ao braço militar de hum grande número de officiaes insolentes, que lhe fizerão os maiores estragos. Entre amos, e criados chegou a ter ao mesmo tempo quarenta e tantos destes temiveis hospedes. Destruirão-lhe, ou roubárão-lhe roupas, louças, e móveis preciosos, alimpavão a cozinha com finos adamascados, e derão huma bofetada em hum criado da mesma casa, porque em certa occasião apparecêra na meza hum guardanapo menos aceado, levárão em fim a sua insolencia a ameaçarem hum innocente filho da Marqueza, que havião de obrigallo a lhes alimpar as botas. Offendida de tantos ultrages, e privada dos meios da sua subsistencia, e de seus filhos, esta senhora espirituosa levou por muitas vezes as suas queixas ao General em chéfe, e tinha sempre os olhos na esquadra Ingleza, como aquella, de que esperava hum dia o resgate. Conta-se, que o General, alludindo a esta mesma circumstancia, dizia com hum sorriso amargo, que a Marqueza d’Angeja era huma excellente mulher para ElRei D. Sebastião. De-Laborde, tendo aproveitado o que lhe pareceo no palacio Real da Bemposta, passou a roubar o do Secretario d’Estado Araujo, e depois o do Duque de Cadaval. Loison fez-se senhor da casa de Bandeira, huma das de maior riqueza de Portugal, e foi encher-se no palacio Real de Mafra. Thomiers, e Kellerman por toda a parte do reino, onde transitárão, fizerão roubos inauditos; os mais á proporção; e eu não findaria, se quizesse continuar a lista: contentar-me-hei por agora com accrescentar breves palavras a respeito do General em chéfe. [Sidenote: 1807 Dez.] Junot, do qual já fallei, tratando da repartição das bestas, e do trem da casa Real, veio prevenido de França com seu cunhado Jufre para lhe servir de capa, e fazerem ambos a sua colheita; colheita, que devia ser proporcionada ás personagens, e digna em tudo de hum General em chéfe Francez dos mais estimados de Napoleão. A este Jufre fez administrador geral dos dominios, o que lhe deo occasião a entrar, quando queria, pelos palacios Reaes, e pelas casas dos que chamavão emigrados. He notavel o valor, com que se avançava a tudo, sem se embaraçar com inventarios, e sequestros; mas he provavel, que estas diligencias particulares fossem a causa da demora consideravel, que houve em se nomearem administradores ás casas sequestradas, depois das ordens para os sequestros. [Sidenote: 1807 Dez.] Pertendeo-se salvar na esquadra, em que a corte se transportára, huma porção de prata da santa igreja Patriarcal, que deitava a 14 carros; mas depois de ter estado para este fim sobre o cáes de Belém, teve de voltar outra vez para a casa do thesouro da mesma igreja; porque não foi possivel o embarcar-se. Toda ella devia ficar prisioneira de guerra, visto que pertendêra emigrar, e com effeito não tardou Jufre em ir lançar-lhe a mão, acompanhado de outro official, e com tanta avidez, que forão prevenidos com hum martello, e tendo fechado a porta por dentro, estiverão abrindo, e examinando os caixões, sem que lhes causassem vergonha as martelladas, que deixavão ouvir. Aos 14 carros ajuntárão mais huma rica, e magestosa banqueta do altar do Santissimo Sacramento, peça das mais preciosas, que se conhecião neste genero, a qual tinha sido mandada fazer por hum dos mais célebres artistas de França. [Sidenote: 1807 Dez.] Depois das colheitas geraes, Junot, e Jufre se entregárão a negociações as mais sordidas. A venalidade da justiça rendeo-lhes muito. As licenças para a sahida dos navios era outro ramo de receita muito fertil, em que parece, que levava alguma parte o General de-Laborde, como commandante superior de Lisboa. A Thiebault, como chéfe do estado maior, ficou pertencendo a gage importante dos passaportes dos passageiros; mas isto são objectos, que já pertencem a huma época posterior: a pena foge, he necessario reprimilla. O historiador imparcial, que por entre os prejuizos, e as paixões procura sempre a verdade, tem elle algum titulo, que o dispense de dizer o bem, tendo publicado o mal? Entre o bando immenso dos grosseiros, e malevolos Francezes tambem apparecêrão, ainda que muito raros, alguns espiritos bem nascidos, em que a moral, e a decencia exercitavão o seu justo imperio; erão principios bebidos em tempos mais ditosos. Apparecêrão mesmo alguns, que detestando as cadêas, que os havião ligado ás bandeiras de Napoleão, deploravão a triste sorte de Portugal, e das mais nações opprimidas: com tudo cooperando com os tyrannos, elles se fazião complices dos seus crimes. [Sidenote: 1807 Dez.] Até entre os Generaes Francezes se encontravão algumas virtudes! Apar dos de-Laborde, Loison, Kellerman, Thomiers, Margaron, Avril, Salmsalm, e tantos outros de nome igualmente odioso, appareceo hum Charlot, que soube pelas suas boas qualidades, e pela doçura dos seus costumes captivar os póvos de Torres-vedras, e hum Travot, que encantou os de Cascaes, Oeyras, e Paço d’arcos. Bem longe de os tyrannizar, e espoliar, elle os consolava nas suas desgraças, e até repartia esmolas pelas familias dos miseraveis pescadores, de que são povoados aquelles lugares, vendo-os privados dos meios da sua subsistencia, pelas reiteradas prohibições de irem ao mar, emanadas de Junot, para prohibir a communicação com a esquadra Ingleza. [Sidenote: 1807 Dez.] Mas quanto não he perigosa a escola de Napoleão, e dos seus semelhantes! Aquelle anjo da paz, a quem se notou sómente por aquelles sitios o não poder resistir á tentação de se apropriar de hum pequeno navio de marfim, pertencente á casa do Marquez do Pombal, obra de muito gosto, e muito delicada, não mereceo iguaes creditos em outras partes; talvez porque era muito brando, para reprimir a canalha, que o rodeava. Os meus leitores ainda se admiraráõ mais, quando souberem, que Loison, o malvado Loison, o escandalo, e a execração de todas as provincias de Portugal, se mostrou em muitas occasiões com dignidade: parece que sentia remorsos, que algumas vezes lhe revolvião a sua alma estragada. Em Alcobaça obrigou elle a Kellerman a que restituisse instantaneamente ao Geral do convento 100 moedas, que acabava de extorquir-lhe; e entrando casualmente na igreja em hum dia festivo, vio-se, que se lhe arrazárão os olhos de lagrimas. Quem póde comprehender semelhante gente? He para lastimar, que entre tantos máos apparecessem tão poucos bons! Mas por outra parte até nisto se manifestou a providencia, que queria salvar Portugal: se se multiplicassem os Travots, e os Charlots, talvez que a nação Portugueza tivesse adormecido nos ferros. CAPITULO XX. _Descreve-se o estado de Portugal, e principalmente de Lisboa antes da invasão, e o que ficárão sendo depois della._ [Sidenote: 1807 Dez.] Lisboa, e todo o Portugal se julgarião muito felices, se fossem sómente estes os males, que sentírão com a invasão Franceza: muitos outros, não menos graves, affectárão a nação inteira, e com especialidade aquella capital. Vejamos rápidamente o que erão, e o que ficárão sendo com a entrada dos Francezes, para se poder formar juizo sobre a extensão das suas desgraças. [Sidenote: 1807 Dez.] Os escritores estrangeiros, e a maior parte dos nacionaes, que arrastados pela força do costume se não tem ainda atrevido a sacudir o imperio, que os estrangeiros adquirírão sobre nós, no tempo em que eramos cégos, esforção-se em representar os Portuguezes em hum piedoso estado, no que toca á agricultura, commercio, e manufacturas. Os que escrevêrão pelo meio do seculo XVIII., e alguns annos depois, querendo pintar a nação Portugueza do seu tempo, a pintárão sómente, qual ella tinha sido no da sua maior degradação. Os que se lhes seguírão, pouco instruidos sobre o estado de Portugal, forão continuando pelo mesmo trilho; e os nossos repetírão o que elles disserão, não se julgando com liberdade, para pensarem de outra fórma. Com tudo as cousas erão bem mudadas. [Sidenote: 1807 Dez.] O brilhante reinado do Senhor Rei D. José faz huma época muito memoravel, e muito feliz na nossa historia: debaixo das providentes vistas deste Monarca famoso, o genio creador do Marquez do Pombal animou grandemente a agricultura, e o commercio, e fez sahir do nada as fabricas, deixando o caminho aberto aos seus successores, para restituirem á Monarquia Portugueza aquelle alto gráo de esplendor, e de prosperidade, a que em outro tempo a tinhão elevado os conquistadores da India. Pensa-se, ou diz-se vulgarmente, que tudo se anniquilou depois delle; mas os nossos olhos nos convencem do contrario. O commercio, entregue a si mesmo, prosperou sempre; a agricultura, recompensando ao lavrador os seus trabalhos, não retrogradou; e as fabricas, mais ou menos favorecidas, segundo as circumstancias do tempo, e das cabeças, conservárão-se na maior parte, algumas prosperárão, e mesmo se levantárão outras de novo. A guerra principiada na America septentrional, e transportada á Europa, implicando tantas bandeiras, em quanto a Portugueza conservava a sua neutralidade, fez dar hum grande vôo á navegação, e por consequencia ao commercio de Portugal. [Sidenote: 1807 Dez.] Veio depois o governo do nosso amado Principe, cujas intenções beneficas se fizerão sentir por toda a parte. Ministros tão sábios, como laboriosos, auxiliando os desejos do Soberano, trabalhárão á porfia na grande obra da prosperidade dos vassallos. Sobre tudo o genio emprehendedor, e reformador do Conde de Linhares estendeo os olhos, desde o primeiro momento do seu breve ministerio, para tudo o que dependia da sua repartição, tudo animou, e tudo fez prosperar, adiantando mais em tão curto espaço, do que antes delle se tinha feito em muitos annos, principalmente no que respeita á navegação, e ás relações coloniaes. Não quero dizer, que a industria, e todas as artes uteis chegassem em Portugal ao maior ponto de perfeição, de que erão susceptiveis: nem as circumstancias o permittírão, nem podia ser a obra de tão pouco tempo; digo porém, que conseguírão hum adiantamento muito superior ao que se lê, e ao que se pensa. [Sidenote: 1807 Dez.] Sinto não poder dar aos meus leitores, como desejava, mappas exactos, que representassem o estado do nosso commercio, e da nossa agricultura: ver-se-hia, que o commercio era florentissimo, propendendo a balança visivelmente a nosso favor, e que a agricultura prosperava a olhos vistos. Vião-se, he verdade, entrar em Lisboa todos os annos numerosas carregações de trigo, e milho; mas deve dar-se o grande desconto do muito, que tambem se consumia destes generos em prover a immensidade de navios, que entravão, e sahião pela barra, e então se conhecerá, que não he tão grande a falta de pão, nem tão dependente do estrangeiro a subsistencia dos habitantes de Lisboa, como vulgarmente se acredita. O calculo de Mr. de Real, que assentava, que Portugal não produzia pão para a metade do consumo dos seus habitantes,[21] he bem inaplicavel ao seculo presente, e era mesmo bem errado para o seu tempo. A falta, qualquer que pudesse ser, era abundantemente supprida pelas grandes exportações de vinhos, azeites, e outras producções do solo Portuguez. [Sidenote: 1807 Dez.] Dou a seguinte tabella, sobre cuja exactidão se póde contar, que representa a exportação dos productos das nossas fabricas para os differentes estabelecimentos Portuguezes do ultramar no anno de 1801, dividida pelas suas differentes classes, da qual se verá, que montava a sua importancia a 10 milhões 30& cruzados e 321&709 rs. Quanto não estavamos longe do misero estado, em que nos pintava (e com elle nos pintárão muitos outros) o Barão de Bielfeld, dizendo, que as manufacturas não existião absolutamente em Portugal?[22] [Sidenote: 1807 Dez.] A mesma neutralidade, em quanto a pudemos conservar na presente guerra, posto que comprada, como vimos, a peso de ouro, produzio vantagens incalculaveis ao reino, e particularmente a Lisboa. O nosso commercio tornava-se cada vez mais activo; e já notei assinaladamente o que se fazia para os portos de França. Para se poder formar hum juizo prudente sobre as riquezas, que se tinhão concentrado em Portugal, bastará reflectir nas repetidas, e largas sangrias, que este reino tinha soffrido, e no que ainda achárão os Francezes. A grandeza, e a opulencia da capital continuavão em hum augmento progressivo: era, e he huma das maiores, e os Francezes não hesitavão em chamar-lhe a mais rica cidade da Europa. Tudo repentinamente mudou de face debaixo do terrivel açoute dos nossos barbaros usurpadores. [Sidenote: 1807 Dez.] O nosso grande commercio era maritimo; e quando o exercito Francez se aproximava ás nossas fronteiras, já elle se tinha anniquilado, bem como a navegação, pelo bloquêo dos nossos portos. Os navios, que estavão dentro, ficárão estacionados; os que andavão por fóra, não pudérão mais entrar. E que grande número de pessoas, e de familias não ficou por este motivo reduzido á miseria? Ajuntemos a este número o de quarenta mil pessoas, que se empregavão nas fabricas; porque estas parárão de repente, á excepção de algumas, de que as manufacturas tinhão hum consumo indispensavel no paiz; e isto por duas razões: 1.^a porque cessou aquella grande exportação para as colonias, que era quem as sustentava; 2.^a porque o justo receio das scenas de depredação, que immediatamente se forão seguindo, fez com que todo o possuidor de fazendas só tratava de reduzillas a dinheiro, e todo o possuidor de dinheiro de occultallo, e guardallo; sendo huma consequencia necessaria o augmentar-se extraordinariamente o número dos vendedores, e diminuir-se na mesma proporção o dos compradores. Com o tempo se deveria tambem ajuntar a estas causas a falta das materias primeiras, mas esta certamente não existio no momento da invasão. [Sidenote: 1807 Dez.] Pelas mesmas razões diminuio incrivelmente o luxo, e perdeo os meios de subsistir huma infinidade de pessoas, que delle os tiravão. Ninguem mais cuidou em obras, tanto públicas, como particulares; e para se conhecer o extraordinario augmento, que por este artigo devia receber a grande lista dos desgraçados, basta ver no Almanach de 1807 a dos mestres de officios, que nesse anno os exercitavão em Lisboa: não erão só desgraçados os mestres, e officiaes; mas com elles todas as suas familias. [Sidenote: 1807 Dez.] Grande parte das pessoas, que vivião do paço, não pudérão acompanhar a Real Familia, e ficárão na miseria. Aquella profusão da ucharia Real, que fôra o objecto de muitos clamores indiscretos, sustentava huma multidão de individuos, que agora ficárão morrendo de fome, assim como todos os que vivião de tenças, juros, e outras pensões do erario; porque nada mais se pagou, depois que os Francezes lançárão sobre este as suas ávidas mãos. Em fim não houve hum só individuo, que não sentisse mais ou menos as consequencias da desgraça pública, por effeitos daquella cadêa imperceptivel, que liga as fortunas de todos os homens constituidos debaixo da mesma sociedade. A propria agricultura recebeo toques tão sensiveis, que Junot se vio na necessidade de fazer expedir ordens por differentes repartições, tendentes a persuadir aos habitantes dos campos, que semeassem as suas terras, o que não querião fazer, por se persuadirem, e infelizmente com razão, que semeavão para os usurpadores recolherem os frutos;[23] e na de conceder certas isenções no fatal decreto da contribuição de 100 milhões fr.[24] aos povos, por onde tinha passado o exercito do seu commando, pelos estragos, que este lhes havia causado. [Sidenote: 1807 Dez.] O homem compassivo sentia repugnancia em sahir de sua casa; porque pelas ruas de Lisboa se não encontravão senão bandos de infelices, que apenas podião alcançar escassos soccorros, para prolongarem tristemente os seus dias, em quanto por entre elles passeavão os nossos tyrannos insultando orgulhosa, e impunemente a miseria pública com vãs promessas de grandes venturas. Não restava a tantos desgraçados senão hum de dous meios, pedirem, ou furtarem: felizmente propenderão para o primeiro, perdendo-se no meio da calamidade geral a vergonha, e a repugnancia, que a mendicidade costuma inspirar a todos aquelles, que o longo habito não tem feito acostumar a esta sordida profissão. Mas que esmolas podião alcançar tantos mendigos, sendo tão pequeno o número dos que as podião dar? Huma grande parte dos carpinteiros, pedreiros, fabricantes, e outros artistas, involuntariamente ociosos, nutrindo-se de esperanças, cobrião continuadamente os altos de santa Catharina, chagas, buenos-aires, e outros sitios elevados, lançando os olhos para a esquadra Ingleza, contando os navios della, e parecendo-lhes a todo o instante, que a vião entrar no Téjo, para resgatar Lisboa. Estes ajuntamentos não forão ignorados por Junot, nem lhe podião ser indifferentes; mandava dispersallos por justiça, e dizem, que elle mesmo foi pessoalmente para este fim huma, ou mais vezes a santa Catharina. [Sidenote: 1807 Dez.] Que terriveis consequencias da fatal revolução, que experimentou Portugal; e que multidão de victimas sacrificadas á ambição de hum só homem? Retratando estas scenas, eu não tenho dado por factos meras producções d’imaginação. Referi, sem exaggerar, o que eu mesmo presenciei, em quanto as circumstancias me não permittírão abandonar a habitação desta cidade infeliz, para ir passar o restante da tragedia no fundo de huma provincia, onde os males se não sentião tanto, e ao menos se diminuia o tormento das almas sensiveis; porque se não via a cara aos tyrannos, e se presenciava menos fome, e menos miseria. Não preciso dar satisfações aos meus compatriotas, e contemporaneos, porque sabem, que he verdade quanto escrevo: attesto aos vindouros, que não peguei na pena, para deshonrar a imprensa com mentiras, e tornar odioso o meu nome com calumnias. FOOTNOTES: [Footnote 21: _Scienc. du Gouvernem. Tom. II. Chap. VII. Sect. III. XXXII._] [Footnote 22: _Inst. Polit. Tom. III. chap. I. §. V._] [Footnote 23: Veja-se especialmente o edital de 29 de dezembro de 1807.] [Footnote 24: Art. XXIII. do decreto respectivo do 1.^o de fevereiro de 1808.] CAPITULO XXI. _Teme-se a fome em Lisboa. A bandeira Franceza he arvorada no castello de S. Jorge; fermentação do povo, e suas consequencias._ [Sidenote: 1807 Dez.] Ao sentimento das calamidades presentes ajuntavão-se as idéas de hum futuro espantoso. Os viveres, e especialmente o pão, escasseavão diariamente em Lisboa, e calculava-se, que antes de dous, ou tres mezes haveria huma falta absoluta deste ultimo genero, de que nenhum povo da terra faz maior uso, que o de Portugal. Que seria então de huma cidade, como Lisboa, povoada de duzentos, e cincoenta mil habitantes? [Sidenote: 1807 Dez.] Tanto se receou esta falta, que ainda antes de entrarem os Francezes em Portugal, tinha sido prohibida por hum edital do senado a factura de todo o genero de bolos, e biscoitos.[25] Esperava-se, como consequencia necessaria do bloquêo do Téjo; e Junot tanto foi com estas ideas, que para prevenir a subsistencia do seu exercito, mandou vir trigo d’Hespanha, e fez tambem diligencias, para virem algumas carnes. Taranco solicitou iguaes providencias a favor da provincia d’Entre Douro e Minho. Tantos, e tão justos motivos erão bem capazes de irritar qualquer outra nação, quanto mais a Portugueza, conhecida por espirituosa em todos os tempos, e sempre impaciente do jugo estrangeiro; era porém necessario curvar na presença das baionetas, e da metralha de hum inimigo, que se apoderára pérfidamente da cidade, e fortalezas, em quanto fraco, e inerme, e que hia estendendo ousadamente os braços, á medida que se vigorava, e augmentava em forças. [Sidenote: 1807 Dez.] Junot conservava sempre a Lisboa o respeito, que he devido a huma cidade tão populosa; de fórma que depois de tantos, e tão decisivos actos de usurpação, deixava ainda tremular a bandeira Portugueza sobre o castello de S. Jorge. A parte pensadora dos seus habitantes não se deixava illudir com esta apparencia; mas o grande número ainda conservava esperanças, até que em fim chegou tambem o seu desengano. [Sidenote: 1807 Dez.] A 13 de dezembro pelas 9, ou 10 horas da manhã entrárão a desfilar tropas para o rocio; e reunida alli huma boa parte do exercito Francez, apparece junto ao meio-dia em grande pompa o General em chéfe, rodeado do estado maior, e de huma numerosa officialidade. Huma salva geral desperta então os olhos, e a attenção de muitos milhares de espectadores, que por curiosidade tinhão concurrido, e vê-se arvorada no castello a bandeira de tres cores, e supprimidas as Reaes quinas: ficárão conhecendo até os incredulos, que a nação Portugueza tinha cahido em poder das aguias. Seguio-se huma falla breve, e altisonante do General em chéfe aos bravos da Gironda, agradecendo-lhes em nome de Napoleão, e no seu, a constancia, com que tinhão soffrido os trabalhos, e as fadigas da sua penosa marcha, para virem salvar a mais bella cidade da oppressão, e da desordem, (não havia oppressão, nem desordem, em quanto elles as não trouxerão) e terem finalmente a gloria de verem arvorada no seu porto a bandeira Franceza. Rematou com tres _vivas_ ao Imperador Napoleão, a que o exercito respondeo com outros tantos. [Sidenote: 1807 Dez.] O povo Portuguez não respondeo senão com hum triste susurro, assás demonstrativo da raiva, e indignação, que agitavão todos os espiritos, lendo naquella bandeira funesta a confirmação da desgraça pública, e as novas calamidades, que esperavão a nação. O Marquez d’Alorna, atravessando a praça, recebeo muitos vivas dos Portuguezes, que tinhão nelle fitos os olhos, como em hum dos seus principaes Generaes, que no caso de huma revolução podia servir-lhes de cabeça, ou de ponto de reunião: ignoro, se nesse tempo elle merecia ainda este conceito. Tudo annunciava huma grande fermentação; mas tudo se tranquillizou em poucos momentos; porque não houve hum homem assás resoluto, que fizesse hum sinal de rompimento, e provavelmente nem Junot, nem o seu exercito conhecêrão por então o perigo, que corrião; mais entregues á sua gloria, ou para melhor dizer, á sua vaidade, contemplando já o Téjo tão domado, como o Sena, do que attentos em observar o aspecto melancolico, e os surdos movimentos de hum grande povo, que os cercava. [Sidenote: 1807 Dez.] [Sidenote: 1807 Dez.] Hum novo insulto estava preparado á nação, representada em huma grande parte da nobreza de Lisboa, e no proprio corpo do governo, que Junot convidára para hum festim, com que queria celebrar este grande triunfo; exceptuando porém, d’entre as personagens, que compunhão este corpo respeitavel, o Desembargador do paço João Antonio Salter de Mendonça. Não sei, se houverão outros motivos particulares para esta excepção; mas offerecem-se alguns tão obvios, que he impossivel desconhecellos, ainda que se queira olhar com indifferença para este successo. Além das grandes virtudes moraes, de que he dotado este Ministro respeitavel, o seu espirito se illustra com huma vasta erudição, e hum conhecimento profundo das leis, e dos usos da nação, a que tem sempre mostrado o maior apego. He por estas qualidades, e pelo seu conhecido patriotismo, que o seu nome se tem feito célebre, e estimavel na carreira da magistratura, e que S. A. R. tendo-lhe dado testemunhos manifestos de hum particular agrado, o elevou ao primeiro tribunal do reino, e ao emprego de procurador da Regia coroa, hum dos mais importantes da vida togada, e o destinou, para encher na sua ausencia o lugar, em que ElRei D. Sebastião tinha collocado em iguaes circumstancias o célebre Miguel de Moura, hum dos homens de maior merecimento da sua idade.[26] Estas qualidades, e estes empregos não podião ser indifferentes ao General em chéfe de hum exercito, que vinha usurpar Portugal. Bem quereria elle dar huma semelhante exclusiva, não só deste convite, mas até da sua presença ao corpo do governo todo inteiro; pois o aborrecia, e olhava com desprezo; mas não convinha ás suas vistas, nem tão pouco ao esplendor do seu triunfo. [Sidenote: 1807 Dez.] Era no fim da tarde, tinha-se já comido muito, e as taças do bom vinho levavão a alegria a todos os cerebros, que a podião receber em dia tão infausto, quando chega huma _parte_, seguida bem depressa de varias outras, que põe tudo em silencio. Conheceo-se inquietação no General em chéfe, que não tardou em manifestar aos seus convidados, que o povo de Lisboa se tinha amotinado, fazendo conhecer ao mesmo tempo aos chéfes do governo Portuguez, que elles lhe servirião de garante pelos transportes, a que o mesmo povo se pudesse entregar. E he para isto que os tinha convidado! [Sidenote: 1807 Dez.] Depois de disperso o ajuntamento da praça do rocio, tinha-se conservado pelas ruas principaes da cidade hum concurso de gente maior, que o ordinario; o que procedia sem dúvida da expectação, em que ficára o público com os successos da manhã, mas sem plano, ou concerto algum determinado. Não se fez isto reparavel, por ser domingo, dia consagrado ao ocio, devendo-o ser a outros fins; e não se prevenírão consequencias, que se não cogitárão. No terreiro do paço, onde se achava hum maior número de individuos, alguns do baixo povo provocárão com gracejos a varios soldados Francezes, que passavão montados em cavallos estropiados, e cobertos de mataduras, que levavão a beber: os Francezes quizerão corresponder com insultos mais pezados, e travárão pendencia. Chega entretanto hum soldado Portuguez do corpo da policia, e querendo metter-se de permeio, he prezo pelos Francezes, e conduzido ao corpo da guarda principal do mesmo terreiro, que já nesse tempo era occupada por estes. O povo quer tirar o prezo das mãos dos conductores, e não o conseguindo, se apresenta ousadamente diante da guarda, reclamando-o com vigor, e augmentando-se o tumulto, investe com páos, e pedras: hum official he ferido, e está a pontos a guarda de ser desarmada. Varias patrulhas Portuguezas do corpo da policia o prevenírão, e aplacárão por hum pouco o tumulto, de fórma que Junot, e os seus convidados tiverão tempo de acabar o seu jantar, e passarem á opera do theatro de S. Carlos. Alli representou este General em huma nova farça, fazendo estender do seu camarote sobre a platéa a bandeira Franceza por entre vivas, dados sómente por Francezes, e recebidos tão friamente pelos Portuguezes, que muitos sahírão do theatro com indignação, abandonando aquelle triste espectaculo aos escravos da tyrannia. [Sidenote: 1807 Dez.] No mesmo tempo, em que tudo era frieza no theatro de S. Carlos, ardião em fogo as principaes ruas de Lisboa. Tinha-se augmentado consideravelmente o ajuntamento popular no terreiro do paço, e não podendo ser contido pelas patrulhas, rompeo pela rua aurea, communicou-se rápidamente pelas outras visinhas, e lavrou pela maior parte da cidade. Homens, mulheres, rapazes, tudo gritava pelas ruas, e praças: _Viva Portugal, vivão as cinco chagas, e morra a França_. Forão então necessarias providencias mais energicas, corrêrão tropas de todas as partes, puzerão-se em acção algumas peças de campanha, para as quaes se forão buscar munições ao arsenal da fundição, e fez-se fogo de mosquetaria sobre o povo; de que resultou hum pequeno número de mortos, sendo provavelmente as sombras da noute, apenas diminuidas com os furtivos raios da lua, os que evitárão a maior effusão de sangue, que era de esperar das muitas descargas, que se ouvírão por mais de 3 horas em differentes lugares da cidade; de fórma que sómente ás 9 da noute se conseguio extinguir o tumulto. Concorrêrão tambem muito para este fim as guardas da policia, que erão as que tomárão a parte principal nesta acção, como mais proprias para socegar o povo, por isso mesmo que erão de Portuguezes, e que desejando poupar o sangue dos seus compatriotas, atiravão sómente para o ar. [Sidenote: 1807 Dez.] Na manhã seguinte appareceo muito reforçada a guarda do terreiro do paço, e este guarnecido de hum forte destacamento de infanteria, cavallaria, e algumas peças de artilheria: numerosas patrulhas rondavão tambem as ruas, e a porta do General em chéfe foi igualmente fortificada com duas peças. Estas medidas, em lugar de desarmarem, e conterem o povo, o irritárão mais. Hum paisano avança a hum soldado Francez na praça do rocio, e o lança por terra com huma grande pancada: hum outro investe com hum arrojo inaudito a hum official da guarda do terreiro do paço, e cahe morto de hum tiro: estes os sinaes de hum novo rompimento, que ainda perturbou a tranquillidade da capital por algumas horas; mas ao meio-dia tudo estava em socego, tendo havido mais huma, ou duas victimas do furor Francez. [Sidenote: 1807 Dez.] Acabado o tumulto, eu vi montes de gentes pelas ruas áquella mesma hora do meio-dia, apontando para o ceo, e mostrando huma luzente estrella, que dizião ver com certos sinaes, que erão, no seu conceito, os da vingança celeste contra os Francezes. O povo não achou armas, nem pontos de apoio, e he por isso, que a estrella deixou de ser mortifera. [Sidenote: 1807 Dez.] Sanguinosa noute, e sanguinoso dia serião estes, se aos inesperados, e imprevistos movimentos do povo se tivessem ajuntado, ou alguma tropa Portugueza, ou algum chéfe habil, que servisse de guia, e de ponto de reunião a multidões desarmadas, e sem cabeça; porque por huma parte era este o momento, em que existião concentradas em Lisboa mais forças Francezas, do que em alguma época, e por outra os espiritos populares estavão tão dispostos para a insurreição, que esta não podia deixar de fazer-se universal, e encarniçada. Alguns corpos de tropa Portugueza, que ainda existião na capital, enfurecêrão-se, e he provavel que não deixarião de fazer causa commua com o povo, se não houvesse a precaução de lhes embaraçarem a sahida dos seus quarteis. A legião estava da parte de Almada, e constou, que chegára a huma tal fermentação, que houve d’entre ella quem andasse procurando barcos, para a mesma se transportar áquem do Téjo. [Sidenote: 1807 Dez.] Porque razão obrou de diverso modo o corpo da policia? Teria elle abraçado o partido da França contra o seu Soberano, e a sua nação? Do contrario deo bastantes provas este corpo valeroso, e estimavel na feliz restauração do reino; mas era governado pelo seu chéfe o Conde de Novion, a quem obedecia cégamente, pela severa disciplina, em que elle o tinha creado; e Novion, esquecido de que o Principe Regente lhe déra a mão, salvando-lhe a vida, quando os Francezes lha querião tirar, e enchendo-o de honras, e de fortuna, quando, reduzido á miseravel condição de hum simples emigrado, lhe faltava até hum bocado de pão, para matar a fome, se havia tornado hum Francez tão legitimo, que merecêra a Junot o fazello commandante d’armas de Lisboa, e hum dos principaes executores das suas iniquas ordens. Elle acompanhou depois este General, quando foi obrigado a evacuar este reino. Perdemos hum excellente official de policia; mas hum dos homens mais ingratos, e infiéis, que vio Portugal. FOOTNOTES: [Footnote 25: Edital do senado da camara de 16 de novembro de 1807.] [Footnote 26: El Rei D. Sebastião na segunda, e infeliz jornada d’Africa nomeou para Governadores do reino na sua ausencia a D. Jorge d’Almeida, Arcebispo de Lisboa, Francisco de Sá, D. João Mascaranhas, e Pedro d’Alcaçova, _com assistencia do Secretario do reino_ Miguel de Moura. Este foi o modelo, que seguio S. A. R. na creação do nosso actual governo, como se faz visivel pela frase, instrucções, e outras circumstancias fielmente copiadas.] CAPITULO XXII. _Aventura terrivel, e jocosa dos bravos da Gironda na igreja do Santissimo Sacramento de Lisboa._ [Sidenote: 1807 Dez.] Temos marchado longo tempo sobre mortos, e desgraçados; procurarei agora diminuir o desgosto dos meus leitores, entretendo-os por alguns instantes com hum acto desta mesma peça, em que o comico predomina sobre o trágico. O viajante, que, cançado de huma trabalhosa marcha por cima de montanhas áridas e escabrosas, encontra no seu caminho hum campo ameno, e coberto de flores, não desgosta de demorar-se hum pouco, espraiando por elle as vistas, e os passos. [Sidenote: 1807 Dez.] Hum ajuntamento de povo, perseguido por huma patrulha Franceza na noute de 13 de dezembro, se encaminhou, da rua do chiado para a calçada do Sacramento, e vendo aberta a igreja deste nome, entrou por ella dentro, pensando achar alli hum seguro asylo: esperança indiscreta; porque os templos não são baluartes, que resistão aos soldados de Napoleão. Não quizerão estes ver outra cousa; e tomando a igreja por hum castello, tratárão immediatamente de a forçarem por assalto. Dérão da rua a sua primeira descarga para a porta; e não foi dirigida ao ar, porque as balas forão cravar-se no alto do paravento, e como a rua he muito baixa, e a entrada da igreja rodeada de hum parapeito assás elevado, devião encontrar na linha da sua projecção o lugar, por onde os vultos lhe ficavão descobertos. Esta primeira operação lhes alimpou de inimigos os exteriores da fortaleza, e os deixou senhores da porta: entrão de golpe, e dão segunda descarga, que como a primeira se dirigia aos vultos; porque huma das balas foi cravar-se no supedaneo do altar de N. S. da Piedade, outra em hum dos ciriaes do altar-mór, e as demais pelos degráos do cruzeiro. [Sidenote: 1807 Dez.] [Sidenote: 1807 Dez.] Qual não foi então o assombro dos nossos guerreiros, vendo, que os seus inimigos se tinhão convertido em espectros! Lanção os olhos pelo interior, e não descobrem senão humas figuras de gente, vestidas de negro até os pés, com humas camisas brancas sobre os hombros, e outras embrulhadas em roupetas da mesma côr, porém mais curtas, porque apenas lhes cobrião os joelhos, e abertas por diante; sobre os hombros tinhão, em lugar de camisas, humas mursas igualmente negras, e nestas (cousa espantosa!) embutidas certas figuras quasi circulares, que se lhes representavão talismanos, nas quaes se misturavão horrivelmente as tres cores branco desmaiado, amarello, e vermelho muito vivos, figurando distinctamente corpos humanos entre chammas. No meio destes espectros estava hum, que tinha na mão hum grande chuço levantado, e todos elles immoveis com aspecto terrivel, e melancolico, que parecia ameaçar com a morte, e o inferno!!! Santo Deos, soccorrei-nos! Para fazer mais horrorosa esta scena, elles divisão sobre o pavimento hum grande caixão, todo coberto de hum panno negro com suas listras amarellas, rodeado de medonhas tochas, e sobre elle huma cousa, que parecia hum feretro, e entendido em cima outro espectro, de que não podião descobrir senão a cabeça, e as mãos de côr livida, com que parecia emprazallos para comparecerem no juizo final! [Sidenote: 1807 Dez.] Mas os bravos da Gironda não se intimidão com espectros; e em lugar de investirem a elles com as baionetas, ou com as espadas, como em outro tempo tinha praticado o cavalleiro dos leões em huma aventura semelhante, lanção-lhes as mãos, porque os querem conduzir de presente ao General em chéfe; e os espectros são tão pacificos, que assim mesmo com as suas sotanas, camisas, roupetas, e talismanos se deixão conduzir pelo meio das ruas até o quartel-general. Alli são lançados todos sobre huma tarimba; e sendo examinados de mais perto, conhece-se então, que erão os quietos, e socegados padres daquella paroquial igreja, e os irmãos das almas da freguezia de S. Justa, que estavão dando á sepultura huma defunta, quando entrou o tropel; e todos trespassados de medo, ficárão immoveis, em quanto o povo se escapava pela sacristia, e por huma porta, que conduz da igreja para umas casas visinhas. Depois de terem estado muito tempo sobre a tarimba, forão conduzidos por varios recantos da casa, e em huma passagem estava hum official Francez, que distribuia gratuitamente bofetadas, e pontapés: favorecidos com estes generosos mimos, elles conseguírão em fim ver outra vez a escassa luz das estrellas; mas não erão ainda acabados os seus trabalhos. [Sidenote: 1807 Dez.] [Sidenote: 1807 Dez.] Os mesmos bravos da Gironda os forão conduzindo novamente por varias ruas da cidade, e sempre debaixo das armas, até o convento de S. Francisco, e os entregárão no corpo da guarda, donde forão passados a huma loja terrea, cujos adornos consistião em hum monte de areia, e hum armario velho, á qual veio fazer-lhes varios interrogatorios, e consolallos hum bom religioso, que ao mesmo tempo lhes trouxe hum candieiro acceso, e huma bilha de agua, (que lhes servio de grande refrigerio, porque o medo lhes tinha seccado muito as gargantas) e trabalhou toda aquella noute a favor dos presos. Por effeito das suas diligencias forão estes conduzidos a huma casa do mesmo convento, onde estava erecto hum tribunal, de que Piton era o presidente;[27] e alli forão ouvidos verbalmente. Gritavão alguns Francezes assistentes, durante o acto, quando vião, que todos se justificavão (erão 36, inclusa huma pobre velha, que a sua devoção conduzíra á igreja) _pois tantos innocentes_? Outros se lançavão aos pertendidos talismanos, que era o distinctivo dos irmãos das almas, e clamavão: _este he o sinal da revolução_? Não se esquecêrão de perguntar com hum particular cuidado pelo que trazia o grande chuço na mão; e verificou-se, depois de exactas informações, e pela inspecção ocular, que o pertendido chuço não era senão a vara do governo da irmandade. Em fim triunfou a innocencia: os presos, consolados outra vez com as esperanças, que veio dar-lhes o bom frade, forão remettidos para o corpo da guarda, onde se conservárão até ás 9, ou 10 horas da manhã seguinte, em que forão postos em liberdade tendo sido primeiro fintadas por hum sargento as suas pobres bolsas para aguardente, a que não chegárão a tomar o gosto, e ouvindo submissamente hum sermão, que lhes mandou fazer Junot, para que fossem submissos, e honrados. Voltárão á igreja, para enterrarem o cadaver, que tinha ficado insepulto; e quando quizerão trocar as sobrepellizes pelos seus capotes, algum dos padres se achou sem elle, e outros perdêrão os chapéos; mas ficárão todos muito satisfeitos de que lhes tivessem conservado as cabeças, acabando, sem sangue, e sem maior estampido, esta galante mascarada. Os factos são exactamente verdadeiros, e o leitor saberá facilmente discernir as ligeiras cores, que derramei sobre elles, para os tornar mais alegres. FOOTNOTES: [Footnote 27: Piton era hum sargento do corpo da policia, que Junot promoveo a alferes, pelos grandes serviços, que fez aos Francezes, aos quaes a final acompanhou para França.] CAPITULO XXIII. _Medidas, que tomou Junot por occasião dos successos de 13, e 14 de dezembro. Como fazia servir á sua causa a voz dos ministros da religião. Seus projectos a respeito do exercito Portuguez, e como procedeo á sua reducção._ [Sidenote: 1807 Dez.] [Sidenote: 1807 Dez.] Huma breve, mas estrepitosa proclamação aos habitantes de Lisboa, que se imprimio, e affixou pelas ruas desta cidade, foi o remate dos successos de 13, e 14 de dezembro. Nella promettia huma vingança terrivel, por esta, que chamava rebellião, de ousarem atirar ás suas tropas. _Eu os conheço_, dizia elle dos pertendidos chefes da insurreição, _elles pagaráõ com a sua cabeça o insulto, que se atrevêrão fazer contra a bandeira Franceza_: como podia conhecellos, se elles não existião? Passa depois a decretar: Que todo o ajuntamento, de qualquer natureza que fosse, ficava prohibido: Que todo o individuo, que se encontrasse armado em hum ajuntamento, seria conduzido a huma commissão creada por decreto da mesma data, (14 de dezembro) e condemnado a 3 mezes de prisão, não se tendo servido das armas, e á morte, tendo-se servido dellas: Que todo o individuo preso em hum ajuntamento, e convencido de ser cabeça do motim, soffreria a pena de morte. [Sidenote: 1807 Dez.] A execução não correspondeo por esta vez ás ameaças. Ficárão nas cadéas alguns presos dos que se apanhárão naquelles tumultos, e mesmo com armas; mas forão-se soltando, sem que a nenhum delles se impuzesse pena grave; e foi esta huma outra consequencia do respeito, que Junot guardava á numerosa povoação de Lisboa, temendo espantalla, e revoltalla com procedimentos fortes daquelles, que tantas vezes se repetírão nas outras terras, que lhe não merecião esta contemplação. [Sidenote: 1807 Dez.] Foi visivel o medo, que lhe resultou destes successos, concorrendo muito para isso a esquadra Ingleza, da qual receava sempre, que tomasse parte nas perturbações de Lisboa, auxiliando os seus habitantes. Sabendo, que no dia 15 dous Inglezes tinhão sido trazidos a ella em hum barco de pescadores, não se poupou a diligencias, para os descobrir, mas forão baldadas. Mandou multiplicar, e reforçar as patrulhas, sendo-lhe necessario mandar vir para este fim algumas tropas das que guarnecião as fortalezas. Fez espalhar hum grande número de espiões, e vigiava por meio de huma inquisição severa sobre toda a qualidade de ajuntamentos; sendo sempre o corpo da policia o que o auxiliava em todas estas manobras, pela efficacia, com que o servia o ingrato Novion. Cuidou igualmente em tirar sem perda de tempo de dentro de Lisboa as outras tropas Portuguezas, que ahi se achavão. O dia 17 de dezembro foi especialmente marcado pelo grande número de tropas Francezas, que rondavão as ruas desta capital, e hum dia de luto para os Portuguezes, que vião substituidas por este apparato hostil as salvas, e outras demonstrações de alegria pública, com que nos mais annos se celebrava o anniversario da Soberana; e se recordavão com saudade de todas as delicias daquella paz inalteravel, de que tinhão gozado á sombra da serenissima casa de Bragança, tão horrivelmente contrastadas com o estado presente. [Sidenote: 1807 Dez.] A noute do natal, que costumava sempre ser de hum extraordinario concurso de gente pelas ruas, e igrejas, foi neste anno de hum tristissimo silencio, tendo havido o cuidado de se prohibirem o canto da psalmodia, e a celebração das mais funções do costume nessa noute, e o toque dos sinos depois das ave-marias em todos os tempos do anno, por ordens do Cardeal Patriarca.[28] Não só os ajuntamentos, mas tambem os toques de sino fazião estremecer o coração de hum General, tão timido, quando encarava o perigo, como atrevido, quando se julgava em perfeita segurança. [Sidenote: 1807 Dez.] He assim, que se abusava da grande mola da religião, para insultar a mesma religião, e das authoridades Portuguezas, para se segurar o grilhão, que se tinha lançado aos Portuguezes! O cunho da escravidão via-se impresso por todas as partes. Bem conhecia Junot (e seu amo o teria instruido nestas maximas) o imperio, que tem sobre os póvos, que professão o catholicismo, a voz do clero, e especialmente a dos seus pastores, e por isso em todo o tempo da sua intrusa dominação tratou de a fazer servir aos seus fins, extorquindo dos prelados por destreza, ou violencia, ordens, e pastoraes, que imprimião huma mágoa, e huma indignação profunda no espirito daquelles verdadeiros Portuguezes, a que os ferros não tinhão tirado o senso, e a liberdade de pensar, que porém não deixavão de impôr a hum grande número de entes fracos, aos quaes se conformava a obediencia passiva aos oppressores, que, se os não libertava dos incommodos, e da vergonha do cativeiro, ao menos os dispensava dos perigos de huma resistencia heroica. [Sidenote: 1807 Dez.] Ao terceiro dia, depois da chegada de Junot a Lisboa, tinhão baixado por ordem do mesmo Cardeal Patriarca circulares aos parocos, para prégarem aos seus freguezes a paz, e concordia, em que devião conservar-se com os Francezes, fazendo-o assim participar aos prégadores, e confessores, para que nas cadeiras, e nos confessionarios propagassem estes mesmos principios. He assim, que as cadeiras da verdade, e os tribunaes da penitencia se fazião servir a mais injusta das causas! Foi ainda mais sensivel a pastoral daquelle prelado de 8 de dezembro, que a 10 appareceo fixada pelas portas dos templos da capital, e successivamente o foi pelas das igrejas paroquiaes do patriarcado, na qual com expressões as mais energicas se recommendava a obediencia aos usurpadores, engrandecendo com mil elogios a bondade de Napoleão, e do seu cruel delegado. He deste modo que a primeira personagem da igreja Lusitana, e huma das primeiras, pela sua representação entre os grandes de Portugal, servia aos oppressores da religião, e do estado. Demos lhe a desculpa de que era hum velho decrepito, cuja cabeça já propendia para o tumulo. O manhoso Junot, para extorquir delle esta pastoral, abusou da fraqueza de tão provectos annos; visitava-o, mandava-lhe recados obrigadores, e punha em pratica todas as maneiras de huma lisonja seductora. [Sidenote: 1807 Dez.] O Inquisidor geral, Bispo titular do Algarve, sahio tambem com a sua pastoral de 22 de dezembro, semelhante em tudo á do Cardeal Patriarca, referindo-se a esta, citando-a, e seguindo-a tão literalmente, que he claro, que a tomou por modelo. Huma, e outra tem sido impressas mais de huma vez, e impressas correm em varias collecções. Alguns outros dos Bispos, e mais Prelados do reino seguírão o mesmo exemplo, com mais, ou menos energia, segundo o seu modo de pensar, ou mais depressa, segundo o maior, ou menor valor, de que erão dotados. [Sidenote: 1807 Dez.] Conheço, que a resistencia naquella época seria provavelmente, não só inutil, mas fatal aos Portuguezes; e não chamarei traição, ou perfidia o que sómente foi fraqueza; mas em taes circumstancias não era melhor, que os pastores da igreja guardassem o silencio? Posso eu considerar conforme ás maximas do evangelho o engrandecer os tyrannos com louvores, prégar subordinação aos destruidores do altar, usurpadores do throno, e devastadores da nação? Poderei eu já mais olhar, como huma virtude, o pertender suffocar os esforços heroicos de hum grande povo, se elle os fizesse, para sacudir os ferros, e restituir-se ao legitimo governo do seu Soberano? A tyrannia forcejará sem dúvida, para consagrar huma semelhante doutrina, que seria o mais firme apoio do seu poder; mas a justiça, e a humanidade reclamaráõ sempre contra ella, e convidaráõ os homens áquelles esforços sublimes, tanto mais heroicos, quanto mais arriscados, sem os quaes huma nação, huma vez encadeada, já mais conseguiria os meios de recobrar a sua independencia. [Sidenote: 1807 Dez.] Devo accrescentar para satisfação dos bons Portuguezes, e reivindicação da honra do clero Lusitano, que a pusillanimidade de hum pequeno número dos seus pastores, que não ousárão imitar tantos exemplos de valor, e de constancia, que nos deixárão os padres venerandos da igreja primitiva, e que o seu pastor supremo nos está dando no momento, em que escrevo, foi bem depressa assás purgada pelas acções brilhantes de civismo, de intrepidez, e valor marcial, com que todo este corpo respeitavel correo ás armas, e se assinalou gloriosamente na época da nossa restauração, desde o primeiro momento, em que soou a voz da independencia nacional. A reducção do exercito Portuguez não podia deixar de ser hum dos objectos principaes, em que Junot trazia as vistas; e sabe-se, que elle concebeo logo o projecto de o reduzir, por meio de baixas, e reformas, á força correspondente ao seu plano, que era o seguinte. Devião formar-se tres legiões, a primeira, e principal, denominada a legião do Téjo, devia ser composta de hum regimento de infanteria de linha, dous batalhões cada hum de nove companhias, cada huma das quaes seria composta das seguintes praças. 1 Capitão em 1.^o 1 Capitão em 2.^o 1 Tenente 1 Segundo Tenente 1 Sargento maior 1 Furriel 4 Sargentos 2 Tambores 8 Caporaes 60 Soldados -- 80 A 9.^a companhia de cada batalhão devia ser o deposito do mesmo; e por esta razão o 1.^o capitão desta companhia seria o commandante do deposito; o 2.^o capitão o do vestuario. Ella teria dous primeiros tenentes, e dous 2.^{os}, hum dos primeiros tenentes seria quartel-mestre, e hum dos segundos tenentes official pagador. Em cada regimento haveria hum ajudante-maior, e hum coronel, e dous tenentes-coroneis. Em cada batalhão hum ajudante-maior, e hum ajudante official inferior; e em fim a mesma organização de estado-maior, que no exercito Francez. [Sidenote: 1807 Dez.] Teria mais a legião do Téjo hum batalhão de infanteria ligeira, com a mesma organização que o batalhão de linha, tendo hum commandante em 1.^o e hum em 2.^o que faria as funcções de major, e ajuntar-se-lhe-hia hum batalhão de artilheria de 500 homens, organizado em 6 companhias, e hum regimento de tropas ligeiras de 6 esquadrões, de 96 homens cada hum. A segunda legião, chamada a legião do Douro, seria composta sómente de hum batalhão de linha, hum batalhão de infanteria ligeira, quatro companhias de artilheria, e quatro esquadrões de cavallaria. [Sidenote: 1807 Dez.] A terceira legião, chamada a legião dos Algarves, seria da mesma força da precedente. Do restante da cavallaria devia Junot tirar os cavallos necessarios para a remonta do seu exercito, e mandar os mais para os exercitos Francezes da Hespanha. Era a sua tenção, que fossem remettidas para França as duas legiões do Douro, e dos Algarves, que erão as dos paizes occupados pelos Hespanhoes; e queria conservar comsigo a do Téjo, e distribuilla pelas divisões do seu exercito. Nesta reducção não entrava o corpo da policia, que se conservaria sempre em Lisboa, com a denominação de regimento das guardas de Lisboa. Ou a execução deste plano dependesse de novas ordens de Napoleão, ou fossem outros os motivos, Junot a tinha demorada, e parece que os successos de 13, e 14 de dezembro forão os que o despertarão, para tratar em primeiro lugar da reducção. Adiante veremos, que Napoleão o que quiz foi apanhar em França as tropas Portuguezas, sem se embaraçar com planos de organização. [Sidenote: 1807 Dez.] Commetteo pois Junot esta diligencia ao Marquez d’Alorna por decreto de 22 de dezembro; e na mesma data o nomeou Inspector geral, e commandante das tropas Portuguezas das provincias de Tras-os-montes, Beira, e Extremadura. Mandárão-se dar baixas a todos os officiaes inferiores, e soldados, que tivessem mais de oito annos, e despedir os que tivessem menos de seis mezes de serviço: com a differença que os despedidos por terem menos de seis mezes deixarião nos depositos dos seus regimentos as barretinas, fardas, armas, e capotes; e os que tinhão mais de oito annos só deixarião armas, e capotes, podendo levar as fardas. Impunha-se-lhes a obrigação de residirem nas suas provincias, o que já lhes dava idéa de que poderião hum dia ser outra vez chamados. [Sidenote: 1807 Dez.] Junot governava sómente as tres provincias de Tras-os-montes, Beira, e Extremadura; mas entendia-se com os Generaes Hespanhoes Taranco, e Solano, que governavão as outras; porque todos se dirigião por hum plano commum, e por isso a reducção das tropas se decretou, e executou em todo o reino. Tanto a ordem de Taranco, como a de Solano a este te respeito, são de 31 de dezembro: a de Taranco he quasi identica á de Junot, a de Solano differe em pontos essenciaes; porque limita as baixas aos soldados casados, e aos que tivessem preenchido o tempo legal, e as pedissem; deixando porém reservado ao seu arbitrio o conceder baixas, ou licenças a todos os que as pedissem com causas attendiveis. Comprehende além disso o licenciamento absoluto das milicias das provincias do seu commando. Taranco encarregou a reducção da tropa a Damião Pereira da Silva, coronel do regimento de infanteria Portugueza N. 9, Solano ao General Gomes Freire d’Andrade. FOOTNOTES: [Footnote 28: A ordem, que prohibio as funções d’igreja na noute do natal, he de 19, e a que prohibio o toque dos sinos depois das ave-marias de 23 de dezembro. Nesta ultima exceptuarão-se os casos de incendio, e da sahida do Santissimo Sacramento a algum enfermo, mas neste só por tres vezes, e com pouca frequencia: 1.^a para chamar os fiéis; 2.^a para sahir; 3.^a para se recolher o Santissimo.] CAPITULO XXIV. _Occupação das provincias do norte, e sul pelas tropas Hespanholas, e estado, em que ficou entretanto a de Tras-os-montes. Operações mais notaveis dos Generaes Taranco, e Solano. Novas maquinações de Napoleão; e começão as desconfianças, e os movimentos do povo, e da corte d’Hespanha._ [Sidenote: 1807 Dez.] [Sidenote: 1807 Dez.] He necessario dar agora huma succinta idéa da occupação das provincias do norte, e sul pelas tropas Hespanholas; pois que temos principiado a fallar das operações dos seus Generaes. A divisão Carraffa, que tinha principiado a entrar com Junot em Portugal, separou-se delle em Abrantes, e tomou o caminho de Thomar, onde impôz huma contribuição de quatro mil cruzados, e depois se encaminhou lentamente para as margens do Douro por Coimbra, onde roubou dez mil cruzados do deposito da cidade, que se achava em S. Cruz. Esta divisão, como vimos, fazia parte do exercito de Junot; mas este General tinha concebido já hum odio incrivel aos Hespanhoes, posto que conservava sua predilecção a favor de Carraffa, pelos serviços, que lhe fizera em Alcantara; e forcejava sempre por ver-se livre delles: além disso naquella digressão vagarosa servião de freio aos póvos d’entre Téjo e Douro, para onde Junot não podia ainda repartir outras forças; e se Taranco se demorasse, era necessario ir segurar a importante cidade do Porto, por onde podião sahir grande parte dos habitantes, e das riquezas de Portugal, sendo a segunda cidade do reino em grandeza, e opulencia, e achando-se tambem nella a prata das igrejas do Bispado, e de Braga. Esteve com effeito o Porto sem tropa alguma estrangeira oito, ou dez dias depois da sahida da nossa corte; e que bella occasião, para se pôrem a salvo tantas riquezas? Alguns bons patriotas pertenderão ainda salvar-se, e ao mais que pudessem, no navio _Amor da patria_, que estava prompto a dar á véla em 4 de dezembro, mas obstárão-lhe authoridades civís, e militares daquella cidade; o capitão do navio foi reprehendido, e ordens rigorosas embaraçárão a sahida de qualquer outro, que a tentasse. [Sidenote: 1807 Dez.] Quando Carraffa chegou ao Porto, já Taranco se tinha apoderado da provincia d’Entre Douro e Minho com a sua divisão, que devendo ser de 10& homens, na fórma da convenção de Fontainebleau, foi sómente ao principio de 6&: para preencher aquelle número se lhe unírão até 4& homens da divisão Carraffa, augmentada successivamente em Portugal pelas tropas vindas da Hespanha. A de Taranco, tendo-se formado na Galliza, entrou pelo Minho seguindo a estrada de Valença, e depois que no Porto se concentrárão tropas Hespanholas sufficientes, com o pretexto de algumas desordens, que houverão entre soldados de huma e outra nação, se mandárão retirar desta cidade as Portuguezas, que já erão poucas, menos as companhias fixas de artilheiros as quaes ficárão conservadas, e chegavão a huns duzentos homens. Com tudo a boa harmonia se conservou sempre entre o povo Portuguez, e os Hespanhoes, pela severa disciplina, em que Taranco continha o seu exercito, e pela prudencia, moderação, e bom comportamento deste General, que seria de huma memoria saudosa para os habitantes daquella provincia, se pudessem esquecer-se de que era o General de hum usurpador, e encarregado de executar planos de usurpação. [Sidenote: 1807 Dez.] Pela sua proclamação, datada do Porto em 13 de dezembro recommendou aos habitantes do Minho, e Tras-os-montes, que vivessem quietos, e tranquillos na confiança de que o seu exercito os não incommodaria nas suas leis, usos, e costumes; que o tratassem com a sincera amizade, que persuadia o seu valor, e caracter humano, e acharião huma exacta correspondencia. Continúa com declamações identicas ás que Junot proclamára em Alcantara contra os Inglezes, e ameaças contra a cidade, villa, ou aldêa, em que se disparasse hum tiro contra a tropa Hespanhola; mas sendo tão sincero, como Junot foi pérfido nas suas promessas, não teve occasião de usar do rigor. [Sidenote: 1807 Dez.] Fazia da sua parte quanto era possivel, para adoçar a sorte daquelles póvos, e diminuir as calamidades da invasão. Se não pôde evitar de todo os damnos, e estragos, que sempre trazem comsigo as passagens, e os aquartelamentos de tropas, ainda as mais disciplinadas, ao menos não apparecêrão nas terras do seu commando as contribuições, os grandes roubos, e as devastações, em que ardião o centro, e o sul do reino. Não se intromettia no governo civil, deixando pacificamente aos tribunaes, e ministros o uso da jurisdição, que tinhão em nome do nosso legitimo Soberano. Creou sim hum novo tribunal de fazenda; mas composto de Portuguezes, e com o fundamento de que era necessario, para prevenir o desarranjo, em que ficárão as rendas Reaes, pela ausencia do Principe Regente. Na verdade as circumstancias o exigião; não pela falta de Soberano, pois esta se achava supprida pelo legitimo governo, que fazia as suas vezes; mas porque executando-se, posto que momentaneamente, o desmembramento do reino traçado em Fontainebleau, era necessario dar nova fórma á administração da Real fazenda das provincias invadidas pelos Hespanhoes; pois que a respeito dellas cessava a jurisdicção do erario de Lisboa. [Sidenote: 1807 Dez.] Não appareceo huma só ordem de Taranco, que désse idéa aos Portuguezes de que tinhão mudado de Soberano, se não he a carta de 15 de dezembro, dirigida ao Chanceller da relação do Porto, em que lhe participava as ordens, que recebêra do Principe da Paz, para facilitar o commercio de carnes, e outros generos de Hespanha para Portugal, _que devia já reputar-se como huma parte do territorio Hespanhol_, separado da Inglaterra, e sem recursos por mar.[29] Quando era precisado a fallar nas suas ordens dirigidas a Portuguezes em sua Magestade Catholica, era sempre com grande melindre. [Sidenote: 1807 Dez.] A provincia de Tras-os-montes foi ainda mais feliz, porque não conheceo Francezes, nem Hespanhoes; o que procedeo talvez de terem discordado Junot, e Taranco a respeito do governo della. Ambos expedião ordens para esta provincia; mas chegavão frias, porque nenhum a occupou com as suas tropas: apenas alguns pequenos destacamentos Hespanhoes fizerão nella reconhecimentos em differentes occasiões, com o pretexto de procurarem desertores. [Sidenote: 1807 Dez.] Era governada por hum velho respeitavel, o Tenente General Manoel Jorge Gomes de Sepulveda, a quem huma avançada idade não tinha feito, senão augmentar os estimulos da honra, e os sentimentos de fidelidade; que com as suas milicias, e depois com as ordenanças sómente, e com o amor, e respeito, que lhe consagravão aquelles póvos, os soube manter em paz, e conservar illeso o antigo solar da Casa de Bragança, sem que nelle recebessem a menor quebra as suas Reaes armas, para ter hum dia a gloria de ser o que lançou o primeiro fundamento ao exercito Portuguez, que servio na restauração do reino. Estavão as armas Reaes no castello, e as da Real Casa de Bragança na porta do Loreto, na fonte de S. Jorge, e no poço de S. Francisco, e nenhumas se cobrírão. As religiosas de S. Clara unicamente occultárão com huma pouca de argamassa as do seu convento. [Sidenote: 1807 Dez.] A divisão do Marquez do Soccorro, D. Francisco Maria Solano, ajuntou-se em Badajoz, tendo vindo da Andaluzia. He notavel a ordem do dia, que este General fez publicar ao seu exercito no 1.^o de dezembro. _A ferocidade nunca foi valor_, principiava a ordem, _he sempre huma prova de barbaridade, e as mais das vezes de cobardia.... Quando o Governo Portuguez nos dá provas da sua amizade, recebendo-nos no seu territorio, seria corresponder-lhe de hum modo indigno do caracter Hespanhol, seria faltar a todas as leis, e converter em inimigas estas mesmas armas protectoras. A guerra tem os seus direitos, e as suas leis; e só póde ter lugar entre os chéfes dos governos: nós os governados não estamos authorizados a fazella, senão á voz dos chéfes; o mais tudo he assassinio, e á justiça universal pertence o castigo deste cobarde delicto, odioso á humanidade inteira_. Continúa a ameaçar todos os individuos do seu exercito com hum severo, e irremissivel castigo, se se affastassem dos seus deveres, e manchassem o nome Hespanhol; e falla na importante commissão, de que vinha encarregado; mas não declara a sua natureza. Foi summamente agradavel aos Portuguezes a sensação, que lhes causou esta peça, assim que della tiverão conhecimento, pelo contraste, que fazia com a conducta do exercito Francez. Parecia, que Solano não tinha em vista, senão fazer huma invectiva contra as perfidias de Junot, e contra as barbaridades das suas tropas; e com tudo o mesmo Solano, posto que não authorizasse os assassinios, os roubos, e as dilapidações particulares, entrou logo a cuidar em contribuições, e em seguir as vistas de Junot, pelo que pertencia ao plano geral de usurpação. Obraria conforme as ordens do seu ministerio, e elle o tinha assim annunciado; mas não era elle o mesmo ministerio, que tambem as expedia para Taranco? O plano não era tambem commum a este? [Sidenote: 1807 Dez.] He necessario pois procurarmos huma razão particular da essencial differença, que se observou na administração da provincia d’Entre Douro e Minho, e na das provincias do Além-Téjo, e Algarve, a qual, ou consistia no differente caracter dos dous Generaes, ou na disparidade das ordens, de que hum, e outro erão munidos. Recordando-nos de que a primeira era destinada simplesmente a uma compensação a favor da casa de Toscana, e as outras devião constituir o Principado do valído de Carlos IV., não nos admiraremos de que principiasse logo a pezar mais sobre estas o jugo oppressivo daquelle candidato. [Sidenote: 1807 Dez.] Apresentou-se Solano por Elvas sobre o territorio Portuguez, tendo já mettido, na praça de Campo-maior o regimento de Cordova; e querendo senhorear-se das praças, e fortalezas, encontrou algumas difficuldades, de que resultou fazer huma especie de composição interina com alguns dos commandantes Portuguezes. Passou entre salvas pelo caminho coberto daquella cidade, mas sem entrar na praça: metteo algumas tropas nella, e nos fortes respectivos; mas na praça ficárão servindo simultaneamente os Portuguezes, e Hespanhoes, ficando cada huma das nações senhora de huma das portas, e repartindo-se as mais guardas entre huns, e outros. Pela ausencia do Marquez d’Alorna, ficou governando as armas da provincia do Além-Téjo, e a praça d’Elvas o Brigadeiro Antonio José de Miranda Henriques; este foi conservado no governo della em 1.^o e introduzido em 2.^o o Hespanhol D. Vicente Maria Maturana. Conservou-se igualmente a bandeira Portugueza; e ficárão da mesma fórma nas outras praças os Governadores Portuguezes; e Solano, mettendo tropas em Estremoz, veio assentar o seu quartel General em Setubal, servindo-se de dous regimentos da divisão Carraffa, por não julgar suficiente a sua, a qual era sómente de 5 a 6 mil homens. [Sidenote: 1807 Dez.] Foi consultado Junot a respeito das difficuldades feitas a Solano sobre a occupação das praças; e decidindo, que devião entregar-se-lhe, o General Hespanhol se vio em hum momento senhor absoluto, não só da provincia do Além-Téjo, mas tambem do reino do Algarve, e da parte da Extremadura Portugueza, que fica ao sul do Téjo, enviando destacamentos para huma, e outra parte, á proporção que a localidade, e as circumstancias o pedião. [Sidenote: 1807 Dez.] O Augusto Nome de S. A. R. foi substituido pelo de S. M. C. e Solano passou, não só a governar as armas destas provincias, mas a legislar em nome do Monarca Hespanhol sobre a justiça, finanças, e todos os mais objectos da administração pública. Servio-se na verdade dos Governadores, e mais funccionarios públicos, que achou estabelecidos, mas debaixo da authorização do novo governo. Como cessava a jurisdicção da casa da Supplicação para estas provincias, creou hum Juiz maior com superioridade a todos os outros magistrados, e nomeou para este importante cargo a D. José Maria Sotello, este mesmo, que temos visto seguir na Hespanha o partido dos usurpadores, e pertender com proposições infames corromper a fidelidade dos illustres vogaes, que compõe a Junta central. Este mesmo homem entrou da sua parte a legislar sobre differentes pontos de economia, e de justiça, de fórma que o General, de acordo com o Juiz maior, fizerão com as suas novas instituições nas provincias, que dominavão, mudanças mais essenciaes nas leis, e nos usos da nação, do que o proprio Junot em Lisboa. [Sidenote: 1807 Dez.] Creou mais hum Superintendente, Hespanhol de nação, para a arrecadação da Real fazenda, e ultimamente (adiantarei os successos, para deixar concluida esta materia) formou Solano hum tribunal em Setubal, denominado tribunal superior da paz, para conhecer das appellações, e outros objectos, a que deo regimento em data de 24 de janeiro de 1808. Nomeou para o compôrem hum presidente, que era o mesmo Juiz maior, quatro deputados, escolhidos d’entre os ministros territoriaes, e hum secretario com assento, e voto no tribunal nas materias, que não fossem de justiça. Poucos dias mediárão, que não visse anniquilados todos os seus regulamentos, e destruida a imaginaria soberania daquelle, que lhe expedia as ordens, e não tinha feito, senão roubar as possessões de hum senhor pacifico, e tranquillo, para entregallas a hum usurpador, que o enganára, e com o qual estava bem longe de poder medir as forças. [Sidenote: 1807 Dez]. Assim que Napoleão conseguio da corte de Madrid, que as suas proprias tropas o fossem ajudar na usurpação de Portugal, cuidou por meio de hum comportamento estudado, em conservar na irresolução, e no terror o Rei Catholico, e o Principe da Paz, o qual conheceo em fim, que a sua authoridade declinava, e suspeitou o engano, mas já muito tarde, quando vio, que novas tropas Francezas entravão na Hespanha. Pelo artigo VI. da convenção de Fontainebleau devia Napoleão ajuntar em Baiona hum segundo exercito de quarenta mil homens, para estar prompto a entrar na Hespanha, e transferir-se a Portugal, no caso de que os Inglezes enviassem reforços, e ameaçassem atacallo: eis aqui a aberta, que elle tinha tido o cuidado de deixar, para introduzir á falsa fé no centro da monarquia Hespanhola todas as tropas, que lhe fossem precisas, para subjugalla. Os Inglezes não mandárão reforços a Portugal, contentando-se sómente com o bloquêo dos portos; mas não faltárão pretextos a Napoleão, para fazer entrar o seu exercito no territorio Hespanhol, occupar as chaves dos Pyreneos, e as margens do Ebro. Á proporção que estas tropas se hião adiantando, e engrossando, augmentava-se a fermentação do povo, e a desconfiança da corte d’Hespanha, de que se manifestárão symptomas evidentes desde os fins de dezembro. [Sidenote: 1807 Dez.] O Principe da Paz escreveo a Junot, pedindo-lhe, que fizesse voltar á Hespanha a divisão Carraffa, com o fundamento de que os Inglezes ameaçavão invadir as costas da Andaluzia; mas provavelmente para se servir destas tropas, para os projectos, que desde então traçava a corte, e que alguns mezes depois fizerão brotar a revolução de Aranjuez. Já se fallava de huma viagem da Familia Real d’Hespanha a Cadix, e Junot, informado destes rumores, os participava a seu amo, ponderando-lhe, se seria huma viagem ás suas colonias, como tinha praticado a corte de Portugal; e sem annuir á proposta do Principe da Paz, reteve a divisão Carraffa, para por este modo sopear a parte das forças Hespanholas, de que podia dispôr. FOOTNOTES: [Footnote 29: Por outra ordem posterior, expedida por Taranco ao superintendente das alfandegas, determinou este General, que se despachassem os viveres vindos d’Hespanha com ametade dos direitos, e sem a multiplicidade de emolumentos do costume.] CAPITULO XXV. _A divisão Loison se estende desde o cabo da Roca até S. Martinho, e Nazareth. Extorsões deste General, de Thomiers, e de seus subalternos por esta parte do reino, e outros successos, com que remata o anno de 1807._ [Sidenote: 1807 Dez.] Deixo dito no lugar competente o destino, que deo Junot á divisão do seu exercito, commandada por Loison, continuarei agora esta materia. Tendo este General chegado a Lisboa em 4 de dezembro, a 8 já tinha o seu quartel em Torres-vedras, onde fez ajuntar os Corregedores desta mesma Villa, de Alemquer, Riba-Téjo, Alcobaça, e Leiria, para tratar com elles o modo de fazer as excessivas requisições, com que forão atormentados os póvos destas comarcas, com o pretexto da subsistencia do exercito. Intimações severas se fizerão a estes ministros, para fazerem executar á mão armada, se fosse preciso, todas as que lhes fossem feitas pelo commissario de guerra Priston, declarando se illegaes todas as que não partissem desta origem, excepto as que fizesse o General Thomiers.[30] [Sidenote: 1807 Dez.] [Sidenote: 1807 Dez.] Este General commandava huma das brigadas da divisão, e fez o seu assento em Peniche: esteve algum tempo em Colares, onde assolou quintas, e pomares os mais deliciosos do reino Charlot commandava a outra, e estabeleceo o seu quartel em Torres-vedras; em quanto este ultimo ganhava a benevolencia dos póvos pela sua humanidade, o outro adquiria hum nome odioso pela sua crueza, e rapacidade. As requisições, que fez Thomiers em gados, vinho, grãos, &c. forão immensas: só ao mosteiro de Alcobaça coube dar dos seus graneis 228 moios, e seis alqueires em trigo, milho, cevada, e legumes, e por aqui se póde julgar do mais á proporção. Suspeitava-se, que Thomiers repartia o seu producto com Loison, e he certo, que estes generos pela maior parte se conduzião para Peniche, e ahi erão vendidos por preços muito diminutos, ás vezes nos proprios sacos, em que erão levados. A 19 de dezembro já se achavão tropas Francezas guarnecendo o porto de S. Martinho, e o forte da Nazareth. Fizerão hum novo forte de madeira em S. Gião, de que as despezas assim como as de outras obras nos fortes de S. Martinho, e Nazareth, sahião da comarca, havendo toda a presumpção de que Thomiers recebia de Lisboa o dinheiro para ellas; e só alguns mezes depois forão tambem guarnecer a Figueira, ficando entretanto sem defeza toda aquella costa até o Porto. [Sidenote: 1807 Dez.] Em Alcobaça esperava achar hum Potosi; porque desde Baiona, dizia elle mesmo, lhe não tinhão fallado, senão nas riquezas desta casa, de que avaliava as rendas em mais de meio milhão: o seu comportamento para com ella foi coherente com estas idéas. Instado pela devoção, que lhe inspirava o retiro dos filhos de S. Bernardo, hum dos mais antigos, e veneraveis de Portugal, se propôz a ir visitallo. A 27 de dezembro foi almoçar no forte de S. Martinho com Toutan, hum dos commandantes Francezes daquelles sitios, que para o brindar com mais hum prato, mandou ao campo de Alfeizarão matar a tiro de espingarda huma vacca, só para lhe aproveitar a lingua, deixando estendido o corpo; refiro este facto, porque serve de dar a conhecer as grandezas destes homens á custa dos Portuguezes. De S. Martinho foi pernoitar á Nazareth em casa do Reitor, que tratando-o o melhor, que lhe foi possivel, recebeo em recompensa mil vexações com o fim de lhe ser extorquido dinheiro; e a 28 finalmente avistou os santos muros de Alcobaça, em que de tão longe trazia o pensamento. [Sidenote: 1807 Dez.] Não sabião os religiosos, que este era o dia, em que havião de receber huma tão importante visita; posto que pensavão bem, que não passarião sem ella. Thomiers tinha tido o cuidado de occultar a sua jornada, para os ter em suspensão, e os apanhar de surpreza. Foi chamado á pressa o prelado, e com alguns padres o veio receber ao topo da escada: avança o General com tão grande impeto por entre elles, que faltou pouco para os lançar por terra, e rompe na expressão: Que se o Principe de Portugal recebesse por aquella fórma hum General Francez, elle se não dispensaria de o levar preso; e voltando-se para a sua comitiva, que na maior parte era composta de Portuguezes, obrigou a todos a que pusessem os chapéos na cabeça, reprehendendo-os de os levarem nas mãos. [Sidenote: 1807 Dez.] Pedio hum quarto, para onde se recolheo; e seguindo-o o prelado, e mais padres, nenhum foi recebido por espaço de 5 horas; mas o prelado foi logo atacado por Sibron, official Portuguez de nação, e Francez pelo comportamento, que commandava o forte da Nazareth, e servia de lingua a Thomiers, com proposições as mais instantes, para entregar a este General os suppostos thesouros da casa. Representou-se ao General, que não estava bem informado; porque o mosteiro, em lugar de thesouros, tinha grandes dividas passivas; e foi necessario levarem-se-lhe os livros da administração das rendas, e do cofre, donde elle vio com effeito hum alcance de mais de sessenta contos de rs. Que impressão não devia causar esta demonstração em hum espirito como o de Thomiers, tão penetrado da sagrada fome do ouro? O seu ar sombrio, e as exactas pesquizas, que fez por toda a casa, até nas cavalhariças, o mostrarão bem; mas em fim no dia 30, depois de ter dado idéas de romper estradas dalli até Peniche, de conduções de artilheria, e do estabelecimento de hum hospital no mosteiro, para o que mandou préviamente que se fornecesse bem a botica, os padres o vírão partir alegre, e cortez para com todos ficando elles ainda mais alegres com a ausencia de hum tal hospede. [Sidenote: 1807 Dez.] Não tardou porem huma nova embaixada ao prelado: annunciou-se-lhe, que o hospital estabelecido na villa das Caldas hia transferir-se para o mosteiro; mas que podia evitar-se esta mudança, mandando-se ao General algum dinheiro, para lá ir assistindo aos doentes. Levárão-se-lhe a Obidos por principio de colheita 200 moedas, e o bom Thomiers foi tão sensivel a esta offerta, que em sinal do seu reconhecimento brindou o prelado com hum presente de duas pescadas, duas arraias, e dous enxarrocos: rasgo admiravel da generosidade Franceza dos nossos tempos, que ainda por obsequios os mais assinalados, leva raras vezes a tal excesso os testemunhos de gratidão. [Sidenote: 1807 Dez.] Á sombra das azas destas harpias famintas a pilhagem se fazia geral por toda a parte, e mesmo era authorizada, como hum direito, que competia, dizião descaradamente os Francezes, aos conquistadores em hum paiz, que lhes abríra as portas como a amigos, e que elles olhavão como conquista. A licença de costumes era a mais desenfreada em todo o genero de vicios, em toda a parte onde existião Francezes. Nem Travot em Cascaes, nem Charlot em Torres-vedras podião evitar huma dissolução geral, que se fizera familiar a todo o exercito, e que o General em chéfe animava com o seu exemplo na capital do reino. Os seus repetidos festins erão sempre acompanhados de certas danças, e liberdades, que lhe servião muito bem para attrahir ao seu partido hum grande número de ociosos, e libertinos; mas que erão abominados por todos os verdadeiros Portuguezes, que se não tinhão podido resolver a trocar pelas novas liberdades Francezas os antigos principios de educação, bebidos na escola dos nossos maiores. Entre outros mimos, com que Junot presenteou a nação Portugueza, elle nos deixou huma dança, que conserva o seu nome, e que os pais, e maridos honrados não querem ver executada por suas filhas, e mulheres. [Sidenote: 1807 Dez.] Até o tempo, de que vou fallando, mostrava-se Junot pouco satisfeito com a esquadra Russiana do Almirante Siniavin, e não era sem motivo; porque além de estar consumindo perto de dez mil rações por dia, o que se fazia muito sensivel, pelas circumstancias, em que se achava Lisboa, era notavel o tom de independencia, em que se conservava a officialidade Russiana, e o pouco agrado, que testemunhava aos Francezes. Junot a suspeitou mesmo de intermediaria da esquadra Ingleza com Lisboa. Chegou em fim a noticia da declaração de guerra do Imperador Alexandre a S. M. Britanica, participada ao Almirante por via do ministerio Francez; e rematárão os successos do fatal anno de 1807. com huma noticia de tanto prazer para Junot, e todo o seu partido, a qual extinguio as esperanças, que os Portuguezes, e huma grande parte da Europa fundavão ainda na corte de Petersburgo. FOOTNOTES: [Footnote 30: Para se fazer alguma idéa do que importarião as requisições ordinarias para toda a divisão, ajuntarei neste lugar huma relação do que se mandava apromptar só ao Corregedor de Alcobaça no principio de cada semana, para a meza do General Loison. 1 duzia de garrafas de vinho do Porto. 2 ou 3 garrafas ... dito da Madeira. Doces de boa qualidade. 6 arrateis de vélas de cera. 1 provisão de café. 2 presuntos. 6 gallinhas. 5 perús. 6 duzias d’ovos. 1 provisão de manteiga. 1 pão de assucar. 12 arrateis d’assucar ordinario. ] CAPITULO XXVI. _Festins dos Francezes. Cuidados de Junot, e ordens, que recebe de Napoleão. Inconvenientes da divisão de Portugal, e estado das rendas públicas. Guypuy em Almeida. Nova estrada militar. Licenciamento, e desarmamento das milicias._ [Sidenote: 1808 Jan.] [Sidenote: 1808 Jan.] Principiou o anno novo com hum banquete dado por Junot á officialidade Russiana, e nos prazeres, em danças, e banquetes passava muitos dias a officialidade Franceza, em quanto longas fileiras de habitantes desgraçados, que em outro tempo vivêrão na abundancia, regavão com lagrimas inuteis as praças, e as ruas da infeliz Lisboa, julgando-se muito felices, quando obtinhão alguns miseraveis restos, com que matassem a fome, que os devorava; e em quanto o proprio Junot via augmentar-se rápidamente a miseria pública, e contava elle mesmo no particular com os horrores, a que devia conduzir esta crise violenta. Os seus prazeres não deixavão de ser algumas vezes interrompidos com bocados amargos: causava-lhos sempre a esquadra Ingleza, a qual se vio muito reforçada, precisamente desde o tempo, em que chegou a noticia da declaração de guerra da Russia á Gram-Bretanha; e quando o vento o permittia, vinha ancorar na enseada de Cascaes, provocando por este modo a raiva impotente dos seus, e nossos inimigos. [Sidenote: 1808 Jan.] Não podia tambem disfarçar o cuidado, em que o tinha a incerteza dos sentimentos de Napoleão a seu respeito. Não tinha recebido ainda resposta aos primeiros officios, que lhe dirigíra de Lisboa; e a pezar da efficacia das suas diligencias, receava sempre o resentimento do Imperador, por lhe ter escapado a presa, que fazia hum dos primeiros pontos do plano, que viera executar. Dissipárão-se em fim os seus receios a este respeito a 8 de janeiro pela meia noute, em que chegou ao seu quartel General o ajudante Bataglia, e no dia seguinte, em que veio hum correio, ambos com despachos de Napoleão, que lhe fizerão conhecer, que este o conservava na sua graça. O primeiro corpo do exercito d’observação da Gironda recebeo então o titulo de exercito de Portugal; e o que levou a alegria a todos os individuos, que o compunhão, foi huma garrafa de vinho, e hum vestido completo por homem, que Napoleão lhes mandou dar de gratificação. Que saudes, e que vivas se não ouvírão ao generoso despenseiro de tantas mil garrafas! [Sidenote: 1808 Jan.] Então mesmo recebeo Junot huma parte das ordens, que veio a executar em fevereiro, e de que he provavel, que espaçou o cumprimento, principalmente pelo que respeita á contribuição de 100 milhões de fr., por não estar decidida ainda a sorte das provincias occupadas pelos Hespanhoes. Como havia de effeituar-se huma exacção tão violenta sómente em tres provincias, que não contém ametade da povoação de Portugal? E não só por esta razão era este hum negocio, que Junot tinha tomado a peito; mas tambem pelo grande embaraço, em que se via, querendo sustentar o exercito, e hum grandissimo número de empregados, e satisfazer a todas as mais despezas necessarias pelas rendas do estado, e não podendo dispôr das que tinhão a sua origem nas provincias, que os Hespanhoes occupavão. Não era tambem hum pequeno estimulo a ambição de querer governar o reino todo inteiro. [Sidenote: 1808 Jan.] Deixando de receber as rendas públicas daquellas provincias, o erario de Lisboa tambem ficava desonerado de satisfazer as dividas, e encargos relativos ás mesmas; porém a diminuição da despeza não correspondia á da receita, porque o assento do governo, e o grandissimo número de tribunaes, e de empregados na capital exigião huma massa desproporcionada á das provincias. O rendimento das alfandegas era hum dos canaes mais rendosos da fazenda Real, e achava-se anniquilado pela ruina do commercio, e suppressão repentina das importações, e exportações. Todos os outros ramos tinhão soffrido toques fataes pelo mesmo impulso da invasão Franceza, que levava a paralysia a todos os principios da prosperidade pública. As pertenções de Junot erão muito conformes ás intenções de seu amo; e por isso forão por este muito bem recebidas, decidindo, que no seu nome seria governado o reino de Portugal todo inteiro. Dado este passo, soltou-se a maior difficuldade, que ainda se offerecia á execução das extraordinarias scenas de destruição, e de roubo, de que reservo o tratar para o seguinte tomo. [Sidenote: 1808 Jan.] Subjugada a capital do reino, tranquillas as provincias, a tropa Portugueza existente dispersada, e collocada em pontos, em que não podia prejudicar aos oppressores da patria, mettidos alguns dos principaes commandantes nos interesses de Junot, que não cessava de fazer-lhes grandes promessas da parte de Napoleão, e guarnecidos de tropas Francezas os pontos importantes de Santarem, e Abrantes com outros mais, este General não temia as revoltas intestinas, e começava a socegar da banda do mar. Elle tinha fortificado os pontos principaes da costa, e principalmente a embocadura do Téjo, feito varias obras de fortificação em Cascaes, torre de S. Julião, &c. e mandado construir morteiros, de que achou grande falta. Contava huma só praça forte da parte da terra nas provincias do seu commando, que devia guarnecer com as suas tropas, e na verdade esteve occupada pelas Portuguezas até os principios de janeiro: he a de Almeida, huma das de primeira ordem, e a chave de Portugal pela parte da Beira. Elle então a guarneceo effectivamente com huns 800 homens de tropas Francezas, compostas de differentes detalhes, guarnição que reforçou depois com hum batalhão Suisso; e nomeou para seu governador o célebre Guypuy, homem brutal, e de baixa esfera; mas hum dos mais valerosos guerreiros do seu bando, se o valor consiste na crueldade, e nos roubos. [Sidenote: 1808 Jan.] A entrada de Guypuy em Almeida foi de hum verdadeiro cavalleiro andante. Marchava elle acompanhado por varios gendarmes, dragões, e outros militares, que ao todo erão huns 30 de cavallo, servindo-lhes de guia hum Portuguez infiel, bem conhecido pelo sobrenome de Gama: tanto que chegou á Cruz das almas, que fica a poucos passos da praça, os mandou formar com as espadas nuas, e marchou com elles a trote; chegados porém á frente da barreira elle lhes grita, que marchem a grande galope. Tudo vai pelos ares sobre as pontes, e até o interior da praça, e o campião, vendo-se dentro della, se volta para os seus, e lhes diz muito satisfeito: _Esta he nossa, está tomada de assalto_. Todas as disposições estavão feitas d’ante-mão, para se lhe entregar o governo della, sem a menor opposição; e he assim que os heróes de Jena tomárão todas as praças de Portugal. [Sidenote: 1808 Jan.] Senhor de Almeida, Junot mandou abrir a sua nova estrada militar. (a de Abrantes foi descontinuada, por incapaz, e substituida pela de Elvas, em quanto esta nova se não abrio) para a passagem das suas tropas, e transportes, que desde esta mesma praça atravessava o centro da Beira, e do reino até Coimbra, e de Coimbra até Lisboa; estabelecendo em toda ella brigadas, e commissões, de que tirava o duplicado interesse de ter os póvos em respeito, e facilitar as marchas. Não servio pouco esta nova estrada, para transportar aos paizes, que a bordão, os actos de protecção, de que as primeiras tropas tinhão dado tão extraordinarios exemplos pela de Abrantes; e por ella mesma passou logo a correr para França huma parte das riquezas roubadas em Portugal. [Sidenote: 1808 Jan.] Estas passagens de tropas, e de transportes forão hum grande recurso a Guypuy; porque lhe servírão de pretexto, para as inauditas requisições, a que continuadamente estava procedendo; não só dentro da praça, mas até á cidade da Guarda, e outras povoações remotas, em viveres, roupas, prata, &c. não pedia senão por duzias, e por grozas, por exemplo, doze duzias de talheres, doze duzias de toalhas, até em huma occasião mandou pedir á Guarda doze duzias de espelhos. Inquietou todos os magistrados das visinhanças com estas requisições, e tambem roubou a prata das igrejas, e hum consideravel número de calices dos altares ambulantes, que havia na praça. Dizem, que os Inglezes lhe fizerão restituir huma parte, quando entrárão em Almeida, em consequencia da convenção de Cintra. [Sidenote: 1808 Jan.] Não faltava a Junot, para sopear de todo a nação Portugueza, senão o desarmamento dos póvos, objecto sobre que já tinha dado o primeiro passo, que vimos, prohibindo o uso das armas de fogo: agora deo outro mais decisivo, dissolvendo, e desarmando as milicias, em que consistia a principal força do paiz, por decreto de 11 de janeiro. Mandou aos coroneis, que fizessem ajuntar as armas em casa dos capitães, donde serião conduzidas ao arsenal de Lisboa, as da provincia da Extremadura até o 1.^o de fevereiro, as da Beira até 10, e as de Tras-os-montes até 20 do mesmo; ficando responsaveis por qualquer demora os coroneis, capitães, corregedores, e juizes de fóra. [Sidenote: 1808 Jan.] Os Generaes Hespanhoes concebêrão tambem o projecto de desarmar os póvos, e licenciar as milicias; porque era geral, ainda o direi huma vez, e emanado da mesma fonte o plano, porque todos se guiavão; mas posto que principiárão a dar as ordens, não as executárão. Para a provincia de Tras-os-montes, não só se expedírão as de Junot, mas tambem outras de Taranco: o General Sepulveda representou a este a desnecessidade, e os inconvenientes, que dahi podião resultar, e Taranco aquiesceo á sua representação. Foi Junot o que, depois de tomar a si o governo de todo o reino, repetio ordens mais apertadas para as provincias, que d’antes occupavão os Hespanhoes. As armas daquella de Tras-os-montes ficárão parte em Chaves, e parte nos differentes lugares, de que erão procedentes, não obstante o mandarem-se remetter para o Porto. Sómente forão remettidas para esta cidade as do regimento de milicias de Villa-Real; porque indo no caminho, quando se effeituou a acclamação de S. A. R. em Bragança, e mandando os officiaes, que as conduzião, perguntar ao governador do Porto Luiz de Oliveira, se devião continuar com ellas, ou retroceder, tiverão em resposta, que continuassem. [Sidenote: 1808 Jan.] Nas outras provincias fez-se o que se pôde, conforme a maior, ou menor devoção, com que erão cumpridas as ordens do governo intruso. Fallando em geral, he certo, que as armas dos milicianos se não podião occultar; que porém as dos particulares ficárão pela maior parte em poder de seus donos, a pezar das gravissimas penas combinadas a todos os que as não entregassem nas ultimas ordens expedidas por Junot, no tempo em que os successos da Hespanha, e mesmo os de Portugal ameaçavão já de perto a sua segurança, e das quaes fallarei mais amplamente, quando for lugar opportuno. Os póvos estavão com a maior prevenção contra semelhantes determinações, e só os cobardes consentião em ser desarmados. _Fim do Tomo I._ INDICE DOS CAPITULOS DESTE I. TOMO. _Introducção, em que se faz huma pintura abbreviada do estado da França antes da revolução, e das suas emprezas depois della; e se dá huma idéa do plano da presente obra._ Pag. 3 CAP. I. _As maximas dos revolucionarios da França provocão a todo o mundo. Principia a guerra entre a França, e grande parte das nações da Europa, e nella entra Portugal sómente como potencia auxiliar. Hostilidades da França contra Portugal, situação reciproca das duas nações, e serviços importantes feitos por D. Francisco de Sousa Coutinho na Guiana._ 19 CAP. II. _Hum exercito Portuguez he enviado em soccorro da Hespanha. Suas acções no Roussillon, e na Catalunha. Paz de Basiléa._ 27 CAP. III. _Projectos do governo Francez, e de Carlos IV. sobre Portugal. Continúa com este a guerra maritima. Ministerio do Conde de Linhares. Emprezas de Bonaparte. Negociações entre Portugal, e França._ 36 CAP. IV. _Bonaparte usurpa o imperio consular, e lança os fundamentos do seu systema continental. Desembaraça-se dos Imperadores da Russia, e d’Alemanha, e faz invadir Portugal d’acordo com Carlos IV._ 45 CAP. V. _Successos da campanha. Negociações de paz, e tratados de Badajoz._ 54 CAP. VI. _O primeiro Consul não ratifica o tratado de Badajoz, e se conclue outro em Madrid, mais oneroso para Portugal. Digressão sobre a Guiana, e paz de Amiens._ 68 CAP. VII. _Renova-se a guerra entre a França, e a Gram-Bretanha, de que as commoções se sentem em Portugal. Lannes em Lisboa, suas negociações, e intrigas._ 80 CAP. VIII. _Portugal obtem, á custa de novos sacrificios, hum tratado de neutralidade, e fazendo o Principe Regente, para conservalla, todos os esforços compativeis com a dignidade da sua coroa, he mal correspondido por Bonaparte, que com tudo não póde ainda fixar os olhos sobre o occidente. Junot Embaixador em Portugal._ 95 CAP. IX. _Os Imperadores d’Alemanha, e da Russia fazem huma guerra infeliz ao Imperador dos Francezes, de que resultão grandes mudanças na Europa. Negociações entre a França, e Inglaterra. Novos projectos de Napoleão. A Hespanha faz armamentos, e Portugal he novamente ameaçado. Soccorros da Inglaterra._ 104 CAP. X. _Nova guerra contra a França, mais infeliz que as precedentes, e seguida de novas mudanças na Europa. Paz de Tilsit, e suas fataes consequencias. Napoleão volta a París, e no meio de grandes festas projecta novas usurpações._ 113 CAP. XI. _Napoleão se declara para com Portugal, intimando-lhe proposições intoleraveis; fórma entretanto o exercito da Gironda, para o invadir, e começa as hostilidades, sem esperar a resposta. Situação da nossa corte; como responde ás proposições e providencias, que toma nesta crise. Comportamento do ministerio Inglez._ 121 CAP. XII. _Disposições pérfidas de Napoleão para destruir de hum só golpe as monarquias Portugueza, Hespanhola, e Hetrusca. Intrigas da Hespanha, urdidas pelo Principe da Paz. Convenções de Fontainebleau. Junot entra em Hespanha, e se encaminha a Portugal._ 135 CAP. XIII. _Viagem de Napoleão á Italia, em quanto os seus satéllites marchão para o occidente. Ultimos esforços da corte de Portugal, para satisfazer á das Tuilherias. Entrada de huma esquadra Russiana em Lisboa, e bloquêo deste porto pelos Inglezes._ 148 CAP. XIV. _Chega a Lisboa a noticia da entrada dos Francezes em Portugal, e dão-se as providencias para a retirada da corte, e de todos os que a quizessem acompanhar. Estabelecimento do governo do reino._ 159 CAP. XV. _Embarque da Real Familia, e da corte; sua sahida do porto de Lisboa, e circumstancias principaes deste memoravel successo._ 170 CAP. XVI. _O governo he instalado, e principia no exercicio das suas funcções. Ordens de Napoleão a Junot para avançar rápidamente com o seu exercito. Entrada deste em Portugal, e sua marcha até Lisboa._ 183 CAP. XVII. _Proclamação de Junot aos habitantes de Lisboa: sua entrada nesta capital, e sua digressão a Belém, e á bateria do Bom-successo. Elle mette tropas na torre de S. Julião, e volta a Lisboa aquartelar-se em casa do Barão de Quintella._ 208 CAP. XVIII. _Primeiras operações politicas, e militares de Junot em Lisboa. Herman he introduzido no governo, e no erario. Retrato deste homem. Usurpação dos bens da coroa, e dos patrimoniaes da casa Real, da ribeira das náos, e mais arsenaes. Sequestro das propriedades, e manufacturas Inglezas. Principia o desarmamento da nação. Conducta dos Governadores do reino._ 218 CAP. XIX. _Sustos de Junot em Lisboa. Este General estende as suas tropas para a costa maritima do norte. Oppressão, e extorsões do exercito Francez naquella capital. Conducta dos seus Generaes, e officialidade._ 237 CAP. XX. _Descreve-se o estado de Portugal, e especialmente de Lisboa antes da invasão, e o que ficárão sendo depois della._ 251 CAP. XXI. _Teme-se a fome em Lisboa. A bandeira Franceza he arvorada no castello de S. Jorge; fermentação do povo, e suas consequencias._ 263 CAP. XXII. _Aventura terrivel, e jocosa dos bravos da Gironda na igreja do Santissimo Sacramento de Lisboa._ 277 CAP. XXIII. _Medidas, que tomou Junot por occasião dos successos de 13, e 14 de dezembro: como fazia servir á sua causa a voz dos ministros da religião. Seus projectos a respeito do exercito Portuguez, e como procedeo á sua reducção._ 284 CAP. XXIV. _Occupação das provincias do norte, e sul pelas tropas Hespanholas, e estado em que ficou entretanto a de Tras-os-montes. Operações mais notaveis dos Generaes Taranco, e Solano. Novas maquinações de Napoleão; e começão as desconfianças, e os movimentos do povo, e da corte d’Hespanha._ 298 CAP. XXV. _A divisão Loison se estende desde o cabo da Roca até S. Martinho, e Nazareth. Extorsões deste General, de Thomiers, e seus subalternos por esta parte do reino, e outros successos, com que remata o anno de 1807._ 314 CAP. XXVI. _Festins dos Francezes. Cuidados de Junot, e ordens, que recebe de Napoleão. Inconvenientes da divisão de Portugal, e estado das rendas públicas. Guypuy em Almeida. Nova estrada militar. Licenciamento, e desarmamento das milicias._ 324 =NOTAS DE TRANSCRIÇÃO= Os erros tipográficos evidentes foram corrigidos. A pontuação, a hifenização e a ortografia foram tornadas consistentes quando uma preferencia predominante foi encontrada no texto original; caso contrário, não foram alterados. Nesta versão, o carácter “caret” (acento circumflexo) foi utilizado com ou sem chaves para representar letras sobrescritas. O símbolo adotado para o escudo português neste texto é o cifrão. A nova arte da capa original incluída neste e-book está em domínio público. *** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK HISTORIA GERAL DA INVASÃO DOS FRANCEZES EM PORTUGAL E DA RESTAURAÇÃO DESTE REINO (VOLUME I) *** Updated editions will replace the previous one—the old editions will be renamed. Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright law means that no one owns a United States copyright in these works, so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the United States without permission and without paying copyright royalties. Special rules, set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to copying and distributing Project Gutenberg™ electronic works to protect the PROJECT GUTENBERG™ concept and trademark. Project Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you charge for an eBook, except by following the terms of the trademark license, including paying royalties for use of the Project Gutenberg trademark. If you do not charge anything for copies of this eBook, complying with the trademark license is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose such as creation of derivative works, reports, performances and research. 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