The Project Gutenberg eBook of Segundo livro de crítica This eBook is for the use of anyone anywhere in the United States and most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included with this eBook or online at www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you will have to check the laws of the country where you are located before using this eBook. Title: Segundo livro de crítica arte e litteratura portugueza d'hoje (livros, quadros e palcos) Author: Luciano Cordeiro Release date: September 7, 2026 [eBook #79528] Language: Portuguese Original publication: Porto: Typographia Lusitana, 1871 Other information and formats: www.gutenberg.org/ebooks/79528 Credits: Rita Farinha, Laura Natal and the Online Distributed Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was produced from images generously made available by National Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) *** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK SEGUNDO LIVRO DE CRÍTICA *** [Illustration] SEGUNDO LIVRO DE CRITICA ARTE E LITTERATURA PORTUGUEZA D’HOJE (LIVROS, QUADROS E PALCOS) POR LUCIANO CORDEIRO R. & M. PORTO Typographia Lusitana 84--rua das Flores--84 1871. SEGUNDO LIVRO DE CRITICA [Illustration] SEGUNDO LIVRO DE CRITICA ARTE E LITTERATURA PORTUGUEZA D’HOJE (LIVROS, QUADROS E PALCOS) POR LUCIANO CORDEIRO R. & M. PORTO Typographia Lusitana--Editora 84--rua das Flores--84 1871. «Nem a amizade dos leitores póde encobrir os defeitos do escriptor, nem escurecer-lhe os acertos o odio; e entre estes dois extremos (ordinariamente viciosos) se levanta o tribunal da justiça dos desinteressados, por independentes, ou por não conhecidos, que costumam dar o louvor por premio aos benemeritos, e a censura por castigo aos culpados.» CONDE DA ERICEIRA--«PORT. REST.» Á MINHA FAMILIA NA PESSOA DE _Minha Mãe_ _A vós todos que sabeis o que são alegrias e desalentos do trabalho honesto e independente_ _e_ _á santa de tantas virtudes, á martyr de tantas dôres, á consoladora de tantas afflicções, á companheira em tantas tristezas, que a todos nos ampara e envolve em seu immenso amor,_ _Offereço._ ADVERTENCIA Tencionava o author abrir este _Segundo Livro de Critica_ com a resposta ás apreciações e objecções feitas ao primeiro. Uma exclusão teria que fazer, é claro, por dignidade propria e respeito pelos aquilatadores e contradictores sérios. Não responderia a uns estendaes typographicos de imbecillidade malévola, nem a uns grunhidos de rancores tisnados, que por muito honrados se devem dar já,--ella e estes,--com o conceder-lhes a gente o mais profundo e sincero desprezo. Circumstancias complexas, muito alheias á vontade do author, obrigaram-n’o porém a não avolumar mais a obra com a resposta em que entraria uma parte importante de gratidão propria, que protesta singelamente aqui, e de congratulação pelo protesto alheio. E consistiu este, não tanto em haver quem désse pela obra e a fizesse rapidamente desapparecer das estantes dos livreiros, apesar da real e positiva «conspiração do silencio», machinada por uns pobres homens em quem o máo senso pleiteia pujanças com o máo caracter,--como em haver quem provasse que não desdenhava o trabalho consciencioso e não descurava a litteratura séria e a critica-sciencia pela vida airada da litteratura banal e mandriona e pela lithurgia cynica dos cavalleiros do _reclame_, do _elogio mutuo_, do elogio proprio e do elogio pago. O primeiro _Livro de Critica_, foi simplesmente uma tentativa, ou antes uma expansão. Disse-se. Não perde nem ganha com o dizer-se. Aquillo sentia-se, pensava-se e sabia-se: escreveu-se. Aquillo para certas almas pequenas e para outras tantas grandes vaidades foi um escandalo. Mal avindo com ellas andava de ha muito o author ou antes ellas com este que não devia ignorar as infamias com que á mingua de coragem e em abundancia de policia para expedientes mais decisivos, costumam manejar as supracitadas contra quem as fere, piza ou despreza. Poupemos ao leitor a retrospecção do lodo que por ahi se tem erguido contra os que teem a ingenua coragem de affirmar a verdade da sua consciencia, e commettem o escandalo de lidarem por illustrar esta com o estudo, e de a concentrar no culto do trabalho honesto, quando lhe podiam comprar por modico preço uns fatos lantejoulados de arlequim com que fazer embasbacar as turbas em confraria de adestrados sujeitos. Deixemos isto: o nojo é communicativo: poupemol-o aos leitores, calando-o. Mas sejamos até caridosos,--se póde dizer-se assim n’este caso,--com os que o odio, e o desejo de vingança rala. Se lhes dá alguma satisfação o saberem que algum mal hão feito, confessemos-lhes que o hão conseguido; confessemos-lhes que tem feito soffrer muitos dissabores, muitos desgostos, muitas injustiças, muitas amarguras e desalentos a quem trabalhando em boa fé e em boa vontade, podia contar com adversarios leaes, mas não cuidava encontrar na sua vida publica, como na sua vida particular, tanta malquerença rancorosa, vingativa, desleal, infame. Orgulhem-se! Orgulhem-se os conspiradores do silencio, os infamadores das intenções, dos actos, dos caracteres e das intelligencias, os incitadores e provocadores de soluções escandalosas, os intrigantes cobardes, os invejosos anonymos, os salteadores do trabalho honesto, os denunciadores das consciencias firmes, os atravessadores do pão que a gente ganha honradamente com o suor do seu rosto. Orgulhem-se, já que não podem orgulhar-se de vêr dobrar a espinha dorsal a quem se preza de a conservar direita perante os odios, como perante as injustiças. Iamos, porém, dizendo que o primeiro _Livro de Critica_ fôra uma expansão, uma tentativa. Não se mirava a fundar eschola, nem a destruir egrejas litterarias, nem sequer a amolgar quaesquer fetiches de crendeira litteratura. Affirmavam-se, de feito, certas doutrinas, estabeleciam-se certos principios, mas nem a precipitação do trabalho e exiguidade da obra permittiram dar-lhes amplo desenvolvimento e comprovação--e d’ahi muitas falsas interpretações e muitas suppostas divergencias;--nem a affirmação d’uma doutrina implica questão de personalidades ou fanatismo e exclusivismo de crença, nem é para desprezar a doutrina pelo pouco correntio d’ella ou pela pequena valia de quem a affirma e sustenta. Mal vae ás egrejas dominantes que desdenham a idéa opposta que lhes brota ao lado. Uma idéa é como uma semente: germina, desenvolve-se, expande-se, floresce, fructifica, é arbusto, é arvore, é mãe de muitos arbustos e de muitas arvores depois. Ide-lhe lá discutir a obscura humildade do nascimento! E depois quem crê affirma o que crê, defende o que crê, combate pelo que crê. Isto não é a insinuação d’um conselho ou d’uma ameaça. Vem a proposito do silencio d’uns, e do antagonismo franco de outros. Folgamos com este. Houve quem contestasse, houve quem discutisse. Bem foi. O facto não é vulgar n’esta nossa sociedade atoniada, para quem as questões de principios passam desapercebidas ou indifferentes. O author d’este livro acredita que a critica póde e deve ser, aqui como lá fóra, uma cousa séria, conscienciosa, scientifica. Tem tido muitos desalentos e muitas amarguras no seu trabalho. Tem feito pouco e terá feito mal. Outros virão que façam mais e melhor. Mas faça-se isto. Com este pensamento abriu o author ha tempos uma _Revista critica_ na _Revolução de Setembro_. Uma grande parte d’essa Revista é o que constitue o presente Livro. São trabalhos geralmente deficientes em si e deficientes no conjuncto. As mesmas razões que houve para não juntar a este _Segundo Livro de Critica_ a resposta ás apreciações do primeiro, imperaram para não juntar aos trabalhos que se publicam outros sobre livros por mais d’um titulo importantes. Assim é que ficam reservados para outra occasião os estudos sobre a _Historia da Liberdade_, de Barros e Cunha; _O Christianismo e o progresso_, por D. Antonio da Costa; a _Instrucção nacional_, pelo mesmo; _Apontamentos historicos_, por Martins de Carvalho; _Leituras populares_, por J. Dubraz; a _Hostia de Ouro_, e _Peninsulares_, por Simões Dias; _Tasso_, por Candido de Figueiredo; _Campo e Cidade_, por J. C. Machado; _Contos côr de rosa_, por J. Ramalho Ortigão; _Physica_, por Benevides; _O papa rei_ e as cartas justificativas, por Geraldes; _La litteratura portugueza_, por Ortiz (Romero); _Visão dos Tempos_ (2.^a edição) e _Historia da Litteratura portuguesa_, por Theophilo Braga; _Eva_, de Santos Nazareth; _Apparições e Radiações da noite_, por Guilherme d’Azevedo_; Rosas e Nuvens_, por Souza Viterbo; _Solidões e Narrativas poeticas_, por Ernesto P. d’Almeida; _Os musicos portuguezes_, por J. de Vasconcellos; _Peregrinações d’Aldeia_, por Alberto Pimentel; _Versos_, de Costa Goodolphim; _Quadros de Historia portugueza_, por Silveira da Motta; _Tolices e escandalos d’hontem e hoje_, por F. Terencio (pseud.); _Os Reprobos_, por Adriano Anthero de Sousa Pinto; _A Phenix ou a Immortalidade_, por J. M. da Cunha Seixas; _Contos_, de Alvaro do Carvalhal; _Versos_, de M. R. C. Cadet; _Romanceiro do Algarve_, por Estacio da Veiga; _Theatro_, de F. G. d’Amorim; _Horas de Campo_, por A. Silva Pereira; _Peregrinas_, por Victoriano Palhares; _Eccos democraticos_, por P. Larra (Pernambuco); _Miniaturas_, por Antonio Candido Gonçalves Crespo; _Á beira mar_, por A. Loureiro; _Fructos verdes_, por F. Xavier da Silva; _Goivos da Aldêa_, por Fonseca Junior; _A Violeta_, por F. Gonçalves, e outras tantas obras por cuja offerta se reiteram aqui aos seus authores os agradecimentos.[1] Principalmente sentimos não poder incluir n’este volume sequer os estudos sobre: _O Christianismo e o progresso_, de D. Antonio da Costa, de quem quasi se pode dizer que inaugurou um genero novo e serio na nossa litteratura, que incita ao estudo das grandes questões de exegese religiosa e de politica social tão ventiladas lá fóra; bem como o _Papa-rei_, etc., etc.; _Historia da litteratura portugueza_, primeiro monumento e monumento verdadeiramente notavel,--unico no genero entre nós,--erguido por um talento robusto e corajoso, por um trabalhador incansavel, que seria gloria e veneração em qualquer paiz medianamente sensato e illustrado, pelo vulto mais saliente emfim da moderna geração litteraria, e um dos primeiros da nossa litteratura moderna: Theophilo Braga; E finalmente sobre os homens da nova geração, que tanto,--alguns--hão feito já, que tanto promettem e tanto podem fazer; imaginações valentes, corações generosos, boas vontades, estudiosos moços--bastantes emancipados já das mais banaes, ignorantes e malevolas theocracias litterarias de que ha memoria. Por circumstancias que é facil suppôr sahiu o primeiro _Livro_, com numerosos erros typographicos, alguns dos quaes serviram de thema a certos sujeitos de tão boa fé quanto profundo criterio. N’este volume alguns erros passaram ainda, que obrigaram a uma designação de _erratas_ que o ha-de acompanhar. Houve um doutor brazileiro que por nome não perca que esperdiçou tinta, papel e algumas columnas d’um jornal a demonstrar que o author não conhecia a litteratura brazileira porque no seu livro tres vezes apparecera Gonçalo Dias, por Gonçalves Dias, o que não podia ser assim repetidamente erro typographico affirmava o mesmo illustre sujeito, em cujo escripto appareciam ao mesmo tempo alterações muito maiores do que aquella. Ora não vale a pena investigar agora se foi erro typographico ou não. Podia não ser, e depois? Concluira-se simplesmente que o author não fazia litteratura de catalogo e importava-se pouco com os nomes e mais com as obras, etc., etc. Tranquillize-se pois o illustre doutor brazileiro, e vá-se entretendo com outras péchas, que não faltarão de certo. FOOTNOTES: [Footnote 1: Igualmente e por egual motivo agradeço aos editores da _Judia_, de Pinheiro Chagas; _Flores Agrestes_, de Bulhão Pato; _Fernanda_, traducção de E. Biester, e outros. _O A._] PRIMEIRA PARTE PRIMEIRA PARTE I ARTE E ARTISTAS[2] Entrei e fiquei assombrado. Julguei-me _in caverna maceriæ_ da arte. A pobre Magdalena viera por ventura penitenciar-se ali dos desvarios da mocidade e macerar a formosura que tantos simples mortaes perdera e que ao assomar aos portaes do céo podia distrahir os divinos varões nos extasis da graça e fazel-os estropear o canto-chão da bemaventurança eterna. Ora é cousa sabida entre os comprehensores d’estas cousas divinas que não se ganha facilmente a celestial morada dos S. Domingos de Gusmão e das Margaridas de Cortona, com as faces rosadas e frescas, os labios nacarados e humidos de volupia, os olhos faiscantes de desejos, os seios tumidos de vida e amor. N’isto Roquelan é um ignorante ao pé de Ribera.[3] Vêde a _Magdalena_ d’este: olhos cavos, bôca ennegrecida, faces ossudas, peito sem carne:--a carne é o Diabo,--cabellos como os de uma feiticeira de Shakspeare. «O bello é horrivel, o horrivel é bello.» A phrase foi roubada ao cathecismo. O poeta gigante apanhou-a enroscada nos artesões d’algum convento de monjas. Entrei. Uma esperança é pelo menos metade d’uma consolação. Buscava isso ali. Cá fóra vira a arte thuribulando Momo. Cigana ebria, coberta de guisos e papeis dourados, fascinava as turbas desmoralisadas com arremedos obscenos; embalava a geração no berço ao som da phraseologia da tarimba; substituia a methaphysica da velha moral pela embriaguez do lupanar, e dera um pontapé na tripode da veneranda Sybilla, não para abrir caminho á humanidade emancipada do velho erro, mas para chafurdar no chavascal do cynismo e salpicar de lodo a tribuna onde a nova ideia iria cedo proclamar a boa nova do futuro. Vira a arte, corrupta como as velhas d’Aristophanes tripudiar em aphrodysia devassa, sugar o veneno das cantharidas como se fosse o mel que abelhas da Hellada depozeram nos labios de Platão. Vira a arte, enfarinhada e grotesca, estorcendo-se n’uma aplestía torpe fascinar a multidão com o desespero da propria impotencia senil. Vira um Quasimodo d’intima fealdade, encarrapitar-se sobre o busto venerando de Palestrina, e os homens a estudarem-lhe as momices, e as mulheres aspirando-lhes soffregamente os halitos empestados. Palestrina! ... nouvel Orphée, après l’Orphée ancien... Que nome me cahiu agora dos bicos da pena! Nome que nos eccos da historia da arte se transforma em Gluck, Haydn, Beethoven, Mosart! Nome que é uma revolução enorme, confluencia de dois oceanos, como dizia Choron. Palestrina! o Jesus Christo da musica, como o chamava nos estos da sua mania sublime o mestre do Duprez e de Rachel.[4] _Puissant Palestrina, vieux maitre, vieux génie Je vous salue ici, père de l’harmonie_[5] Que dirias meu pobre Choron, meu grande fanatico, que ao sahir da egreja de Saint Geneviéve, fustigado por uma musica incorreta, bradavas: «_os monstros! os monstros! esphacelam-me as entranhas_», que dirias se visses assim sobre o altar dos teus idolos luminosos vomitar Offenbach e Lecocq! E eu via isto aqui n’este cantinho da velha Europa, n’esta _Parvonia_ que tantas intelligencias gigantes tem alimentado ou esmagado, que tantos corações generosos tem sentido pulsar ou tem feito morrer, que tantas inspirações tem amamentado ou perdido e ia procurar ali, á exposição dos nossos primeiros artistas, ao templo da nossa arte que ousava abrir as portas, que ora deviam ser como as portas de Jano, no meio da bachanal, eu ia, digo, procurar uma esperança, applaudir um protesto, alentar uma crença. Pois a adela que praguejava no palco podia ser a arte moderna? Pois a esthesia do nosso tempo fallava realmente pela gaitinha de Offenbach? Pois a arte perdera de todo a harmonia nervosa de que falla Broussais, e nem uma céllula cerebral vibrava sã e harmonica? Pois a arte não produzia já uma concepção grandiosa e verdadeira? Pois não podia sahir da immutabilidade absurda da concepção metaphysica sem se precipitar nos exageros do onanismo torpe? Na porta da galeria das bellas-artes portugueza, na ultima exposição de Pariz, traçara Theophilo Gautiér um ponto de interrogação. Fizera-lhes assim a critica. Os nossos artistas iam desmentil-a ou confirmal-a. Entrei e fiquei assombrado. Na minha frente escarnecia das illusões que ali me levavam, o _Camões_ de Rezende. Mais além, grudada na tela, sorria maliciosamente a _Venus_ de Fonseca. Não antecipemos juizos. Não tirem illações prematuras. Fiz um esforço supremo, despeguei os olhos dos dous estafermos e comecei a minha peregrinação na sala. Na _barraca_ queria eu dizer. Um francez diria: _Nos artistes au salon_, começando estes artigos. Tentado estive eu a epigraphal-os: «os nossos artistas na barraca.» O _salon_ não existe cá. Temos a _baraque_. E ainda bem que temos, que nem eu sei como n’esta epocha de economias, não se lembrou o ministro do reino[6] de economisar o armazem onde vegeta a Academia de _bellas-artes_, mandando pendurar os quadros nos postes dos telegraphos. É que postes e telegraphos tambem dão que pensar ao economico _estadista_, que bem vê elle na sua alta sabedoria que podemos viver optimamente com o macho e o almocreve. Abramos o catalogo. Entre nós catalogo e indice é uma e a mesma cousa. Para que lá por fóra nos não acoimem d’analphabetos, imprimimos em todas as nossas cousas o cunho do _a b c_ nacional. FOOTNOTES: [Footnote 2: Exposição da «Sociedade Promotora de Bellas-artes» em 1868.] [Footnote 3: Theop. Gautiér.--_Les beaux arts en Europe_. 1853.] [Footnote 4: _La Medécine des passions_, etc., par J. B. F. Descuret.--3.^{ieme} ed. 1860.--T. 2, pag. 418.] [Footnote 5: _Les voix interieures_, etc.--V. Hugo.] [Footnote 6: O bispo de Vizeu, Antonio Alves Martins.] I ANNUNCIAÇÃO (Thomaz José d’) Começa o catalogo com este nome, acompanhado da seguinte designação: «Professor da academia real de bellas-artes.» É nome applaudido e festejado. Impõe o titulo responsabilidade pesada. Importa-me pouco o titulo e o nome. Nada temos por agora com elles. A responsabilidade dos applausos e incensos com que por ahi atrophiam muitas intelligencias promettedoras, muitas reputações que surgem, cabem antes a quem baloiça o thuribulo e bate as palmas do que a quem se deixa asphixiar n’um ambiente de vaidade esteril e balofa para onde foi empurrado. Causam-me menos indignação ou tedio os ídolos anões do que nojo e compaixão as rans impertinentes que fazem de sereias e seduzem velhacamente os que no estudo aturado e consciencioso procuram elevar-se acima dos grasnos do atoleiro e que vão cahir n’elle, attrahidos pelas malditas. Compaixão para ellas, porque por mais que se entufem nem conseguem a ridicula gloria da ran da fabula. Nojo, por que a inveja e o ciume as faz malvadas e traiçoeiras. Falla quem bem por experiencia as conhece. Avesinha liberrima que lhes passe por cima da morada, em busca de novos horisontes, ha de receber-lhe o improperio. E n’este canto da Europa a ran impera como Bobeche no repertorio de Offenbach. A sciencia é uma heresia. O estudo é o pobre _cocu, battu, pendu_ da criticasinha parva que por ahi se estafa no canto-chão do _elogio-mutuo_. Não discuto se Annunciação é ou não o nosso primeiro artista. Concluira-se simplesmente uma vulgaridade: que era pobrissima a nossa arte. Não, que elle não tenha notaveis merecimentos. É talvez o nosso primeiro _animalista_. Podera dizer-se que é o unico. Vê-se pois que seria uma qualificação condicional, se qualificação fosse, esta. Nem podera deixar de ser assim Christino com o seu quadrinho: _Um sendeiro de 40 annos_, annuncia poder disputar tal titulo. Mas emfim Annunciação é um _animalista_ estudioso como poucos artistas nossos o são, adorador do desenho como um discipulo d’Ingrès e mostrando ás vezes que sabe amar a côr como um fanatico de Delacroix. A eschola ou genero d’animalistas filia-se talvez na revolução pantheistica da arte que começa porventura em Van Eych. Quando os _fundos-d’ouro_ do bysantino e do gothico, ou antes do mysticismo, cedem o logar aos _fundos-panoramas_, a vida jorra em ondas sobre a concepção artistica e a arte não desdenha mais, manifestação alguma da _mater naturam_, que a arte ascetica renegara. Expande-se a paizagem até absorver quasi a figura humana. A natureza é a grande fonte d’inspirações. Mas a natureza não é simplesmente o mar, a terra, os céos. É a vida em todas as suas manifestações, em toda a sua fecundidade, revelação e evolução. O animal, a _besta_, encontra na arte um sorriso de sympathia. Até ali fôra simplesmente um accessorio lendario, fantasioso ou grutesco. E depois, como o aspirar mystico vae cedendo o logar a preoccupações e inspirações mais positivas, mais humanas, se póde dizer-se assim, o homem assim como fixa na tela os horisontes e panoramas que o rodêam ou que o impressionam, e as scenas da vida real e commum, estuda tambem a _besta_ que o acompanha, auxilia, ou alimenta. O homem conversa com os seus irmãos e companheiros das classes inferiores. Quando a arte se faz biologica,--deixem-me dizer assim,--alargam-se indefinidamente os horisontes da concepção artistica. Desapparecem as hierarchias convencionaes. O animalista vale tanto como o pintor de deuses e heroes perante a esthetica positiva. Tem tantos direitos este genero como a pintura d’apparato de que falla Émeric David, pintura tantas vezes metaphysica, heroina, principesca e que tantas vezes tambem se reproduz na apotheose que desvaira na allegoria e se estorce no enthusiasmo retrospectivo, estudado e falso. E quando o pincel se faz bistori, e quando em vez de parar na fórma, vae estudando fibra por fibra, nervo por nervo a estructura intima da vida animal, quando ausculta as pulsações do coração da besta, as vibrações do cerebro inculto, o fluxo e refluxo das torrentes nervosas, quando emfim fixa na tela não a materia bruta, mas a materia relativamente intelligente e sensivel, quando dá ao pobre animal a _alma_,--para me servir d’uma expressão consagrada,--que o homem na sua concepção methaphysicamente egoista monopolisara,--o animalista tem realisado uma boa e grande acção, a arte tem sahido nobilisada do esforço supremo, e a natureza, sua mãe, ha de sorrir-lhe satisfeita e grata, por que a filha não a renegou e mentiu no meio dos esplendores do genio. Não é Annunciação um grande _animalista_, mas procura sel-o, pelo estudo consciencioso não simplesmente, da _linha_ e da _côr_, mas da _expressão_, que com tudo descura bastantes vezes tambem, por ventura por que o não acompanha no labor difficil uma intelligencia mais cultivada, uma esthesia mais robusta e original, um desprehendimento maior da _convenção_ e do _processo_. O processo é o grande vicio de Annunciação. A tyrannia da fórmula technica, atrophia-lhe a concepção. Comtudo o _processo_ d’Annunciação é fecundo em merecimentos. No primeiro quadro por exemplo, que o catalogo indica, devemos-lhe a profundidade de luz que é o principal merecimento d’esta pintura. Denomina-se ella: _Um aprisco_. O aprisco porém é um pretexto. É um accessorio quasi. O effeito de luz jorrada por uma janella rustica é que prende e em que se concentra a attenção. É o _caracter_ do quadro, se póde dizer-se assim. Defeito de composição que póde fazer-se perdoar pela sua boa execução technica do que devera ser accessorio e é elemento principal, mas defeito que não abona muito a verdade esthetica de qualquer quadro e que é por vezes artimanha d’officio. Mal vae ao artista que no interior da sua officina procura mais que tudo produzir nas turbas um effeito immediato e enganador que desvie ou vicie a critica da concepção artistica. Falsêa a arte. Redul-a a uma simples _besogne de practicien_, como diria Prudhon.[7] A lei da _convergencia dos effeitos_ não é apenas um principio de eschola. É uma lei natural do pensamento humano. É a logica espontanea da concepção artistica. Vem a proposito citar aqui as palavras de Taine.[8] «Nenhum elemento deve ficar inactivo ou desviar para outro objecto a attenção; seria uma força perdida ou uma força empregada contraproducentemente.» Não creio eu que Troyon, que como animalista, Annunciação parece querer imitar, nem Jadin que talvez lhe fornecesse ensinamento mais proficuo, mirem simplesmente áquelle genero de effeito, que impõe muitas vezes o sacrificio da verdade e implica naturalmente a ausencia de profundo e vasto sentimento esthetico por parte do pintor. Como paizagenista, Troyon é um nome respeitavel que vale tanto como os de Dupre e Cabat. Como animalista, se anda aquilatado inferiormente aos Desportes e Jadin, nem por isso o eximio pintor é um fazedor de quadros de falso effeito, sem concepção nem harmonia esthetica, antes as suas obras são technica e estheticamente consideradas como soberbos exemplares naturalistas no dizer de entendedores.[9] Descrevamos rapidamente o quadro. Um rebanho de ovelhas e carneiros recolhe ao aprisco. Preside ao acto uma aldean que se é a pastora tem alguma cousa de descuidada por que não ficou lá fóra para evitar o tresmalho. No fundo, onde se percebem alguns utensilios rusticos, ha uma especie de janella, dando entrada a um jacto de luz que corta obliquamente o quadro n’um quasi parallelogramo. Algumas hervas e traves, e ahi está o quadro. Singelo assumpto! Estrophe encantadora da odyssea rural! Como disse, o effeito de luz absorveu o pensamento do quadro, se o havia. Observando detidamente, acha-se certa dissonancia na gradação da luz, certo contraste demasiado brusco talvez, do jacto de luz que entra pela janella, com a claridade geral. Não se exigia de Annunciação que tivesse a gradação delicada de Vinci ou Corregio. Parece porém querer parodiar Rembrandt. O tom geral do quadro, é, creio, complementar do tom do jacto de luz e deve ter com elle uma consonancia natural.[10] Além d’isso a parte principalmente illuminada é salpicada, _picotada_ ou repintada de mais, como queiram. Nas paredes da janella é que este exagero se torna bem saliente. Ha ali de mais umas manchas côr de carne que lhe estão mal. Provavelmente quiz-se pintar tijolos. E já que estamos na janella acrescentaremos que as ramas das arvores são miserrimas e que a nesga de céo é simplesmente uma pasta de carregado azul. Tão cuidadoso foi o artista n’outras minuciosidades, n’outros _details_ como diria um francez, e tão pouco n’este. O desenho é geralmente correcto e consciencioso. Na figura da aldean que está de costas para o publico, ha muito _maneirismo_: uma pastorinha de Florian, de porte altivo e elegante. Annunciação está ainda com Leopoldo Robert. Pinta camponezes, é verdade, mas camponezes _adonisados_ como diz um critico. Um dia conversará com o pincel de Courbert. E apezar de tudo a aldean do _Aprisco_ tem grandes defeitos anatomicos. Cito um: a cabeça é chata. N’algumas figuras do rebanho, o desenho e o colorido são admiraveis pelo realismo consciencioso que denunciam. Ha porém uma cabeça sahida do meio da carneirada que parece pertencer antes a um camello. O solo é monótono. Emfim os dous melhores quadros de Annunciação n’esta galeria são o _Aprisco_ e o _Reparo_. Fallemos d’este. A mesma singeleza e naturalidade d’assumpto e aproximadamente as mesmas bellezas e defeitos de execução. Dois bois, uma vacca, um vitello, parados n’uma clareira, e olhando,--curiosos ou desconfiados,--para o sitio d’onde lhes vem por ventura ruido estranho ou onde descobrem objecto que os impressiona a todos. Desenho admiravel nos bois e na vacca, notando-se n’esta o _maneirismo_ habitual em certas figuras já conhecidas de Annunciação. O vitello tem mau desenho e mau colorido. O _processo_ obrigou a pintal-o com tintas diaphanas quasi, de fórma que o animalsinho parece encravar-se na vacca, cuja cabeça é pintada _a corpo_. O effeito do quadro faz lembrar Claude Lorraine. Como já apontei, ao _processo_ e á _convenção_, sacrifica-se ás vezes a verdade. Comparem-se os horisontes, nos pontos em que o arvoredo deixa vêr o céo d’azul carregado,--que indicaria ser noite, se fosse sequer ... céo,--com o illuminado do grupo, a cujos pés parece vir bater um raio de sol. Egualmente nas _tintas_ do arvoredo se falsêa a verdade da natureza. Abstenção feita d’estes defeitos, temos um desenho excellente, por vezes bom colorido, e a perspectiva bem estudada. Nem tudo isto acontece n’outro quadro de Annunciação intitulado: _O mercado_. No primeiro plano um velho aldeão de manta e cajado, encosta-se a uma vacca passando a mão direita por sobre o pescoço d’ella. Por baixo d’este vê-se um vitello. Em frente uma vendilhona com um burrico de ceirão pela arreata. N’outro plano um ribatejano a cavallo, em traje local, parece esperar que uma mulher que lhe está ao lado em pé, e com uma canastra aos pés, lhe restitua o troco d’algum dinheiro que d’elle recebeu e que está contando. Ao fundo varios grupos, arvores, barracas e carros, horisontes bem delineados e que melhor effeito apresentariam se a geometria aeria não estivesse brigando com a geometria linear. Ha grande monotonia de _brancos_. Os _ares_ são bons, a _mancha_ tem muitas durezas, unidade e expressão não existem quasi, o desenho incorrecto, principalmente na vacca e no vitello, e o colorido frouxo. Todos estes defeitos se revelam em muito maior escala, no quadro _Ovarinas_, que é um verdadeiro disparate artistico. Compõe-se de varios grupos de gente pescadora, que dariam para differentes quadros mediocres. Agrupamentos de _poseuses_, tons frios, desenho imperfeito, colorido frouxo, solo e ares monótonos. Soffrivel perspectiva aeria é o que o quadro tem de melhor. Tencionava demorar-me algum tempo mais com este pintor e fallar n’algumas composições d’elle que não apparecem agora na exposição. Nota-se em Annunciação uma alteração do pincel, que não chamarei com certeza progresso e que antes me parece tendencia para uma deploravel arte que amarrota no _processo_ e sacrifica ao _effeito_ immediato, a originalidade e a inspiração natural e espontanea. Sem uma imaginação de notavel pujança e fecundia, Annunciação estudava ao menos conscienciosa ou apaixonadamente o _natural_. E estuda ainda, mas como que o vemos já vacillar entre a grande eschola da natureza e as composições dos pintores contemporaneos francezes que tantas vezes parecem adoptar com Delacroix por finalidade da arte, a _illusão_ e a _impressão pessoal_ simplesmente. FOOTNOTES: [Footnote 7: _Du principe de l’art_, etc.--1865.] [Footnote 8: _De l’ideal dans l’art_, etc.--1867.] [Footnote 9: _Les beaux arts_, etc.--Gautiér.] [Footnote 10: _Traité du contraste des coleurs_, par Chevreuil.] II BARRADAS, (Augusto Cezar de Sousa e Castro)--CAMARA, (D. José Hermenegildo da)--CHAVES, (José Ferreira) Não quero ser injusto para com ninguem. Para muita gente os dois quadros de Barradas serão simplesmente uns _estudos_; os de Camara, uma _tentativa_, e de Chaves uma _estreia_. Não erram os que pensam assim. Erram porém se julgam que deve a critica passar desdenhosa e altiva por um estudo d’artista novato, por uma tentativa d’artista amador, por uma estreia d’artista estudioso, para ir esbarretear-se apenas entre as theocracias cá da terra, de merecimentos e direitos muito contestaveis por vezes. Ha por ahi uns sujeitos que se dizem criticos, que assim pensam e assim obram. São os que venderam ao demonio da popularidade a dignidade da critica e converteram de ha muito a escassa consciencia e a sciencia esfarrapada que possuiam, nos incensos thuribulados aos idolos piegas e occos que o _elogio-mutuo_ traz na rua em apotheosica procissão. São como _la gente dolorose ch’anno perduto il ben del intelleto_, que falla Dante: no embasbacamento ante as popularidades que por ahi se pavoneiam, perderam o amor pelo estudo, se alguma vez o tiveram, a veneração pelo trabalho, que vae sem estrondo construindo na obscuridade humilde um palacio ou formigueiro, ao qual,--como diz algures Dumas,--só a posteridade marcará a verdadeira altura, fixará a verdadeira duração. Pela minha parte, n’esta viagem de _tourist_, importando-me pouco com os _nomes_ e as _reputações_, não desprézo o arbusto humilde da planice pelo cedro enorme da montanha e registro egualmente no meu album a flôr modesta que me envia a medo os seus effluvios odorosos como arvore possante que me encanta e assombra, e em cujas ramas entoam as ventanias soberba melopéa. Seja dito de passagem que não encontrei por emquanto arvores taes, nem espero encontral-as em ambiente tão acanhado. Barradas expõe apenas duas composições que são dois _estudos_. A primeira é o proprio retrato do artista: tintas soffriveis, desenho consciencioso e certo _maneirismo_ no conjuncto. A segunda é o retrato d’uma senhora idosa;--«Cabeça de estudo»,--diz o author e bom estudo de cabeça é decerto. Ignoro se o artista se dedica especialmente ao _retrato_. É genero difficil em que por vezes naufragam boas reputações. Mais adiante fallarei d’elle. Mas com estudo aturado vencem-se maiores difficuldades. Formosa tentativa é de certo a de Camara, com o quadro: _A sentinella_. É noite e á beira-d’agua. A lua inunda em effluvios explendentes um céo profundo e sereno e pratêa as aguas adormecidas. Esperaes vêr os Elfos e as Nixes banhando-se n’este ambiente de luz e azul. Julgaes vêr o nenufar surgir do seio das vagasinhas para receber nas folhas melancolicas os osculos do alvissimo luar. Parece-vos que vae assomar á tona da agua a desditosa Ophelia, exhalando, com a ultima nota da balada, o derradeiro suspiro d’aquella existencia quasi-_feerica_. Engano. É que tem profundo e communicativo sentimento, este quadrosinho. Á beira das aguas erguem-se os muros sombrios d’uma fortaleza. Junto das ameias, encostado á espingarda, está um soldado, illuminado no perfil pelo clarão da lua e com a vista e com a imaginação talvez, perdida nos horisontes indecisos ou vagos. Quem sabe se a pobre sentinella não julga descobrir além o vulto triste e meigo d’uma mãe ou d’uma amante? Quem sabe se a terra da patria não lhe envia n’aquellas ondas de luz os échos do balar das ovelhas, os arômas do pinhal, os cantares domingueiros, o ruido d’azenha da aldeota onde o pobre homem nasceu e amou? Quem sabe se debaixo do capote grosseiro, a nostalgia lhe segreda as reminiscencias da infancia, os folgares e amores da mocidade que a lei absurda e cruel e a sociedade atiraram para os ares empestados da casérna ou do presidio? Pobre homem! Por que te quebraram a enchada com que talvez alimentavas tua mãe e irmãs? por que te esmigalharam a alegre viola que te amenisava as agruras da vida? por que te arrancaram da horta, da eira ou da cabana, e te arrojaram, com uma libré ás costas, com um instrumento assassino nas mãos, para as plagas inhospitas e selvagens da Africa e te disseram: «Aqui é o teu posto. Aqui é o teu mundo, o teu futuro, a tua vida; não penses, não sintas: vigia e mata; não és um homem, és um instrumento do homem contra o homem!» Fallei da Africa. Cahiu-me a palavra e não a risco. Disse-me alguem que Camara andara em tempo pelas nossas possessões africanas. Quem sabe se foi lá, em noite de luar tropical, encostado ás ameias derrocadas d’algum presidio, a conversar com algum _degradado_, que o quadro _A sentinella_ nasceu no pensamento do author? Quem sabe se é uma reminiscencia ou uma saudade? Uma lagrima ou um protesto? Ha nostalgia ali. O que todos podemos saber é que o quadro é uma tentativa brilhante. Tem a mais do que muitos sentimento e expressão. Technicamente é bastante imperfeito. Falta-lhe certa diaphaneidade no céo que é anilado de mais e deve o author-amador corrigir o processo, por maneira que obtenha d’elle certo macio de tintas. O desenho, que em muitos pontos é bom, o é n’outros indeciso. A perspectiva quasi sempre excellente. E agora a transição não é disparatada. Da _Sentinella_ de Camara passamos ao _Alabardeiro_ de Chaves. Soberba pintura. É um retrato ou uma phantasia? Não sei. O que é certo é que não ha ahi, ou se ha não se percebe, concepção esthetica. O que podera ser cousa para censurar, é infelizmente uma vulgaridade na Exposição. A arte é quasi sempre substituida pelo officio. Nem isto é uma censura. Presuppõe esta pintura a voluntariedade no facto. É um lamento. O _Alabardeiro_ é uma figura bem modelada a que não falta,--bem observada,--certa expressão energica. O desenho é excellente e consciencioso. A cabeça é a melhor da Exposição. Admiravel trabalho! Por equivoco annunciei atraz estes quadros de Chaves como uma estreia. Não são. Não podiam ser. Os cabellos e barba do alabardeiro, o desenho da figura, os fundos, o colorido energico e harmonico, a afoitesa do pincel, o excellente _patte_, como dizem os francezes, tudo denuncia Chaves como um artista de primeira plana, entre nós, já se vê. Não pertence aos _poetæ minores_ da nossa arte. Não foi uma estreia. Expõe producto de muito estudo, de consciencioso tirocinio e de aprimorado pincel. Outro quadro: _Flores_, do genero geralmente conhecido pelo nome de _natureza morta_, é inferior a outros do mesmo auctor que me lembra agora ter visto. Tem _durezas_ intoleraveis, falta de frescura, desenho por vezes incorrecto e desharmonia de côres, prejudicando o effeito. As _côres_ formam, como diz Taine, pela sua aproximação, como as notas musicaes pela sua successão, uma harmonia. «Por si mesmo e fóra do seu emprego sensitivo as côres como as linhas tem uma significação.»[11] FOOTNOTES: [Footnote 11: _De l’ideal dans l’art_, etc.--Taine.] III CHRISTINO (João) Christino é um colorista _enragé_, como dizem os francezes. Mergulha o pincel nos horisontes de fogo, nos céos de profundo azul, nos prados de esmeralda. Cobre a tela de tintas _quentes_, divide-a n’um mosaico de raios multicores e fascinantes, esboça-lhe ás vezes em cima alguns d’aquelles soberbos _magots_ de Van Ostade, mas no meio d’este delirio, que tem alguma cousa de pantheistico, nem sempre perde o sentimento da fórma, quasi sempre attesta uma sensibilidade delicada e intelligente, uma imaginação vigorosa, como não é facil encontrar nos nossos artistas, e constantemente comprova o sentimento da harmonia das côres, a despretenção e a liberdade do pincel, liberdade que redunda ás vezes em licença e absorve a arte na impressão pessoal do artista, como acontecia ao chefe da eschola romantica da pintura franceza, Delacroix. Com as suas bellezas e os seus muitos defeitos, com as suas valentias e aberrações, o pincel de Christino, --vê-se,--é um dos que mais poderiam fazer e dar, dos quantos possuimos. Ha muita consciencia nas suas valentias e muita imaginação nas suas aberrações. Ha ali uma vigorosa alma d’artista, como costuma dizer-se. Um dos melhores quadros d’este pintor, que se encontra n’esta exposição, é incontestavelmente o «_Sendeiro de 40 annos_.» Onde Christino foi buscar a certidão de edade do pobre animal, não sei. Sei que a transcreveu na tela. O _Sendeiro_ é uma reliquia archeologica que mais acatamento inspira do que muitas que conheço. Quarenta annos de trabalhos e provações, quarenta annos passados entre o arrocho e a mangedoura, com uma resignação mais que heroica, que nem as impertinencias da senilidade desmentem! Amen, dicas, asine; Jam satur de gramine. Amen, amen itera, Aspernare vetera;...[12] Com que serenidade de justo, espera o sendeiro a hora em que será arrojado por um despenhadeiro ou fornecerá aos corvos um banquete! O cerebro inculto não se lhe agita em tempestades philosophicas. Se por lá trabalha a ideia da immortalidade, vale ella mais como esperança d’uma alimentação melhor e de mais folgada vida, do que como receio de castigo eterno ou de peior passadio. Que maior castigo do que ter sido 40 annos sendeiro! N’este quadro, Christino aproxima-se de Landseer. Conhecem Landseer? É o psychologista dos cães, dos bois, dos cavallos, de todos os animaes que não são homens e que são ás vezes menos animaes do que elles. É um psychologista que de pincel em punho descobre maiores horisontes á intelligencia e ao sentimento do que muitos dos compendios methaphysicos por onde nos ensinam nas aulas a renegar a natureza e a insultar a vida animal. «Landseer dá aos seus queridos animaes a alma, o pensar, a poesia, a paixão. Fal-os viver uma vida intellectual quasi semelhante á nossa; com mais alguma audacia tirava-lhes o instincto e dava-lhes o livre-arbitrio; o que o inquieta não é a exactidão anatomica, as _attaches savantes_, a solidez da _mancha_, a mestria do _toque_:--é o _espirito_ do animal, e sob este ponto de vista nenhum pintor o eguala; devassa o segredo d’aquelles cerebros obscurecidos, sabe o que faz pulsar aquelles corações inconscientes, lê nas retinas embaciadas a vaga admiração que produz ali o espectaculo das cousas.»[13] Volvamos do quadro. Não é necessario descrevel-o. O titulo e o que fica dito, basta. O desenho é correcto, porque é verdadeiro, a perspectiva boa e o colorido vigoroso, harmonico e natural. Esta ultima qualidade nem sempre se encontra nos quadros d’este artista. As tintas são bem postas e os accessorios bem estudados. O quadro: «_O lago de Thun com o Grendelnald_» ao fundo, uma recordação de viagem, é um dos mais originaes de Christino e até da Exposição. Ignoro se foi por isto que o reprovou o _conselho dos competentes_. O colorido, que nos parece falso, tem exactamente o merecimento de se aproximar da verdade da atmosphera da Suissa, como é permittido a um pintor que não é _esmaltista_. Só estes é que traduzem verdadeiramente aquella pela intervenção da _madreperola_. O pinheiro do norte, que se destaca no quadro, é pintado com notavel mestria. Os _longes_ são soberbos, como os de quasi todos os quadros de Christino. No quadro que representa: «_Uma familia de pescadores do Tejo_» ha excellentes tintas, bom desenho ás vezes, mas escacez de expressão. O quadro n.^o 14 intitula-o o catalogo: «_Um episodio do Pilate junto a Lucerna._» Um episodio! Representa o quadro um vallesinho onde brincam duas cabras, se bem me lembro, e bordado por enormes rochedos tapetados de verdura. Alguns d’estes rochedos são admiravelmente desenhados e pintados. Um pinheiro do norte, que tambem n’este quadro apparece, não é inferior ao que já mencionei. Tons ... _madreperola_, tintas bem manejadas, _ares_ que exigem maior estudo e colorido exagerado n’alguns pontos. Os melhores quadros de Christino, aqui, são estes: O que representa: «_Margens do Ribatejo_,» tem bom desenho e boa tinta aqui ou ali, bellos _longes_, mas muitos defeitos. «_Visita do Palacio de Cintra_», por pouco que não é um esboço. Do «_Costume nacional_» melhor é não fallar. Não resiste á critica mais comesinha e indulgente. Christino é um artista intelligente e exuberante como poucos, e algumas vezes pouco consciencioso como muitos. Verdadeiro artista como quasi nenhuns. FOOTNOTES: [Footnote 12: Asinaria festa.] [Footnote 13: Theoph. Gautiér.--_Les beaux arts en Europe_, 1855.] IV DUARTE, (D. Hirmina Monteiro Teixeira)--ESTEVES, (Gustavo Adolpho Lincoln)--FIGUEIREDO, (José Augusto de) Merecem de certo uma saudação estes três _poetæ minores_, que, apesar de serem _minores_ na idade e no tirocinio artistico, se revelam já _poetæ_, timidos e humildes, o que lhes augmenta o encanto da sua poesia de pincel, e com manifestas tendencias para o culto da arte. A estreia de D. Hirmina é realmente brilhante e promettedora. Os seus dois quadros _a pastel_, um: «_Retrato de D. I. M. T. D._», em que a discipula de J. P. de Sousa se revela verdadeira artista, e o outro: «_Flôres, estudo copiado de pintura a oleo_,» não ficam deslocados n’uma Exposição como esta. A «_Innocencia_», estudo do natural de Esteves, é uma tentativa a medo; revela um pincel que quando procurar mais vigoroso e seguro colorido e souber amaciar mais as _tintas_ poderá captivar a critica. É artista estudioso, este. O «_Retrato_» de Figueiredo não desconceitua a academia de que o author é esperançoso alumno e promette-nos um artista de consciencia. V FONSECA, (Antonio Manoel) O quadro de Fonseca, representando uma pseudo-Venus, merecia um capitulo especial pelas considerações que naturalmente provoca aquelle representante da _pintura d’apparato_, pintura que parece querer morrer impenitente, contestando a evolução artistica, deturpando as concepções historicas e religiosas pelo plagiato, pela ignorancia, pela imitação inconsciente e inscientifica, renegando o progresso, que affirma, e o _meio_ que attesta; arte que se contradiz em cada manifestação, que desmente e desordena a historia nos exageros d’uma esthetica immobilista.--É a esthetica _official_, esthetica d’umas Academias em que o ensino artistico-scientifico é mais attinente ao aperfeiçoamento do officio e á imitação absurda dos _canones_ de velha arte, do que ao avigoramento, cultura e riqueza intellectual dos artistas. Fonseca não vive no tempo de Praxiteles e Apelles, e as Phryné, se existem, não lhes consente a policia que nos assombrem em fogos olympicos com a sublime nudez da sua plastica. O estudo do _nu_ anda esquecido e abandonado,--o que é o mal,--e a perfeição geometrica da fórma, elemento primordial na concepção artistica da Grecia, cedeu de ha muito o logar á expressão moral e á verdade da natureza. A idealidade transforma-se, como tambem se altera a fórma humana. Ticiano pinta Venus que parecem _Virgens_ e Rubens creou algumas á imagem das mulheres da sua terra, Venus de carnes flamengas, que não se aprimoraram na gymnastica, e de cabeças que por terem mais em que labutar do que as velhas Kypris guardam outras proporções com o corpo.[14] A Kypris, a verdadeira Venus grega, desapparece com o pensamento religioso, artistico e social da velha Grecia. Não é pois para admirar que Fonseca nos apresente a graciosa deusa sob a fórma d’uma Marion desabusada. _«Eh quoi! le monde marche et vous voulez retourner sur vos pas?»_--exclama com razão Carlos Perrier. Como é facil de suppôr o quadro não tem um pensamento, não representa uma ideia,--póde dizer-se:--não é uma concepção. Sob este ponto de vista teria que dizer que Fonseca não fizera _arte_,--permittam a expressão,--mas voluptuosidade. Ora eu prefiro suppôr e creio que mais da verdade me aproximo,--que no meio d’esta degenerescença da arte, em que o pensamento collectivo não existe, em que a concepção artistica tem quasi sempre que se amarrotar n’uma impressão pessoal ou n’uma imitação esteril, o velho professor procurou apenas um assumpto em que melhor podesse comprovar a pericia do seu pincel, a correcção do seu desenho. Provou-nos simplesmente uma vez mais que como desenhador lhe fallece por vezes a elegancia e a suavidade do contorno, e como colorista não tem largo e desafogado sentimento da harmonia das côres e das variantes da luz. E se o desenho pecca e se o colorido é desharmonico e desnatural, não poucas vezes no quadro a que me refiro tambem este não se salva pela composição, que é affectada e incompleta. Não se denuncia ali o culto da linha de Ingrès, a côr valente,--segura por assim dizer,--de Delacroix, nem a acção dramatica,--natural e energica,--de Delaroche. Na Venus a myologia superficial é mal estudada e n’alguns pontos absurda. Não posso affirmar que as proporções do corpo estejam ou não guardadas. A cabeça é por ventura pequena de mais. Quiz o artista naturalmente aproximar-se da verdade esculptural das Venus gregas. A cabeça das estatuas gregas e principalmente das Venus era pequenissima. Winkelmann, o Cuvier da arte, como lhe chama Thoré, dando as fórmulas e as regras de proporções da estatuaria hellenica, diz que a fronte para ser bella deve ser breve. A esthetica mobilista e de _imitação_ de certos artistas d’hoje, arvorou o formulismo classico em doutrina infallivel e unica, sem attender a que contra aquelle protesta até o mundo physico e que a transformação e variantes da cabeça humana no tempo e no espaço,--deixem dizer assim,--comprovadas pelos estudos historico-phrenologicos, bastam para contestar n’este ponto a theoria do _bello_ immovel e absoluto. Como diz Thoré, as Venus gregas não teem necessidade de cabeça. «Basta que lhes estejam bem collocadas as ancas sobre roliças coxas.»[15] «Finalmente,--diz Veron--«pelos testemunhos que temos, é facil de vêr que não é á cabeça que os antigos dão maior importancia. As partes que elles mais admiram nas estatuas são os braços, os seios, os joelhos e outras partes ainda, como o attesta o nome de Callipyge dado a uma Venus.»[16] E comprehende-se isto, alli na Grecia antiga, no seio do antigo antropomorphismo. Fonseca importou-se pouco com os braços; estudou e realisou um formoso seio, e deu á sua Venus umas coxas carnudas e lizas, sem verdade de _tom_ nem de desenho, geralmente, umas pernas que parecem cepos, como já alguem escreveu. Observe-se desde já que o joelho esquerdo está soffrivelmente estudado e que o pé fica abaixo de toda a critica. Antes porém de irmos mais além procuremos descrever o quadro. O que o catalogo diz é o seguinte: «A nympha Peristero, depois de transformada em pomba por Cupido, é _acolhida nos braços de Venus_, a quem está beijando». (Dicc. myth. de Chompré). Diz pouco e diz mal. Chompré falla d’uma aposta havida entre Cupido e Venus sobre qual apanharia em menos tempo certa quantidade de flôres. A nympha appareceu, coadjuvou Venus, e Cupido irritado pela derrota converteu Peristero em pomba. É mythologia _ad usum Delphini_, já se vê. O quadro é occupado em toda a sua largura por uma concha enorme, _assentando em rodas_, que não destoariam de certo n’um wagon. Dentro da concha ha um colchão verde,--a côr verde é o vicio de Fonseca,--umas almofadas brancas ornamentadas de roxos e uma outra cousa que póde ser um lençol ... olympico. Creio que foi Ticiano quem pintou uma Venus sobre roupagens brancas, o que o obrigou a prodigios de harmonia.[17] Quiz Fonseca luctar com difficuldades identicas, e diga-se a verdade, n’este ponto não foi infeliz. Sobre tudo isto emfim recosta-se a nua Venus. E a nympha Peristero? Peristero deve ser uma pomba,--das duas atrelladas á concha, e que sobre a mão esquerda da graciosa deusa faz exercicios acrobaticos, procurando achegar o bico aos labios semi-abertos d’aquella. A pomba em questão é feia, mas está bem pintada. Não sei se esta mythologia á Chompré conta algures que a Peristero, depois de convertida em pomba, fosse atrellada ao carro de Venus. O que me parece é que andára melhor o pintor que evitasse o absurdo de duas pobres pombinhas pucharem um carrão immenso por duas delgadas fitas. Prejudica isto a acção dramatica do quadro e cousa era que facil fôra evitar. Collocasse aquelle grupo, por exemplo, n’um meio _aerio_, permittam a expressão, em vez de querer alliar as condições de tracção cá d’este mundo de simples mortaes, com os predicados de locomoção olympica. Ou isolasse por exemplo a deusa do «dôce desejo» na feição puramente humana, _mortal_, que ella tanto gostava de tomar para se insinuar nos leitos dos felizes Anchises e brindar a humanidade com terriveis Enéas. Está-me lembrando aquelle magnifico hymno, attribuido a Homero, onde se conta como «um mortal, pela vontade dos deuses e do destino dormiu com uma deusa immortal, ignorando quem ella era.» Ali tinha soberbo assumpto esta pintura pagan. Ou ainda, désse-nos uma Venus brandamente «impellida sobre a molle espuma atravez as vagas do mar de tumultuosos ruidos, pelo bafejo humido do Zephyro.» (Homero). Volvamos porém ao quadro. Em pé, ao lado da Venus, está um rapazola acerejado, que pela aljava e arco denuncia ser Cupido. Em volta ha ainda uns meninos, cupidinhos, ou anjos feios, insignificativos e encarniçados, typos obrigados nas apotheoses de santos e nas concepções _pagans_ dos pintores _catholicos_, umas vezes carregando em nuvens d’algodão varão illustre ou respeitavel matrona do Christianismo, outras coroando de parras e rosas um Baccho ou uma Venus e escorropichando a taça do nectar olympico apoz uma orgia de _immortaes_. Do alto do quadro cahe uma cortina purpurea, que ninguem sabe onde prende, porque a regularidade monotona das prégas não permitte suppôr que os deuses meninos a pendurassem nos galhos das arvores, de que se vê o tronco á esquerda. E que tronco aquelle! E que panorama além! E que ares e que céos! Um _mestre_ não faz aquillo. Um homem que muita genta aceita e apregôa como representante d’uma eschola que mesmo na decadencia é grande como Ingrès, deve pelo menos, saber cumprir o preceito que Pythagoras aconselhava aos seus discipulos. Deve saber calar-se. Deve saber depôr a tempo o pincel e envolver-se no manto do seu renome, como o Cesar, para que o ridiculo da queda e as convulsões do passamento, não prejudiquem a grandiosidade do vulto e da ideia. Fonseca é filho e apostolo d’uma eschola que tem graves crimes para com a natureza, mas que tem grandes glorias na historia da arte. Que os filhos saibam honrar a mãe moribunda! Que essa eschola saiba cahir nobremente na arena como os velhos gladiadores no Circo! Este quadro de Fonseca não é uma gloria para a eschola nem para o artista. Aquillo não é de certo a Kypris graciosa, a deusa dos dôces sorrisos e dos dôces desejos, dos cabellos d’ouro e dos labios rivaes da rosa _æmula labris rosis_. As Venus que realisamos na arte são simplesmente mulheres desabusadas que nos acirram a sensualidade e que a sensualidade mais do que o culto puro da belleza plastica nos inspira. A _venusidade_ era uma especie de véo em que a concepção religiosa da Grecia envolvia na arte a nudez d’aquelle corpo incorruptivel. A Phryné tomava no marmore ou no bronze a magestade olympica. A hectaria desapparecia na _immortal_, e se Apelles a estreitava nos braços como Anchises quando julgava estreitar a filha d’Otreu, como este quando reconheceu em toda a sua magestade a grande deusa, o pintor lançou, talvez olhos devotos, não lubricos, á concepção realisada. O modêlo ali estava, mas acima d’ella estava o _ideal_ a um tempo--note-se,--religioso e artistico. Phryné era a mulher, em quem cevava a sensualidade; a Venus era a deusa, a immortal. Venus era uma religião. Essa religião passou. Ficou simplesmente a mulher nua, de bellas carnes e bellas fórmas. Eis a differença caracteristica. Dava o tratal-a para grosso volume. Julgaes que condemno o nú? Não. Digo simplesmente em vez de «Venus» escrevei: «Uma mulher nua». Estaes no vosso direito de nos dar o que suppondes ideal plastico da mulher, como nós de vos dizer: «A vossa obra é incompleta e falsa e immoral: a plastica é a arte da fórma, e a fórma na arte não é uma ideia, é a sua revelação. Daes-nos um gosto, não nos daes um ideal. Mentis á arte.» Mas quando nos dizeis: «Eis a Venus,» mentis á historia e á philosophia da arte. A Venus é uma concepção historica, religiosa e artistica determinada,--mythica,--por conseguinte d’um determinado crêr e pensar e idealisar. Fonseca tem a par de grandes defeitos, verdadeiras qualidades d’artista, e bem se póde chamar entre nós: um mestre. Ha pouco li em algures que Annunciação era fundador e chefe d’uma eschola d’arte. Impunha-se o monumental disparate com prosapia de verdade incontroversa e correntia, e bem possivel é que ella tenha passado como tal no julgado dos nossos critiqueiros piegas. Não sei como elles hão de considerar Fonseca. Pela minha parte considero-o como o unico homem que em a nossa pintura actual representa uma eschola e tem direito ao epitheto convencional e condicional de mestre. É claro que para o considerar assim não fico no estudo d’este seu quadro _pagão_, que é quasi um desastre na vida artistica de Fonseca, nem vou além da apreciação da sua technica, do seu _savoir-faire_, e ainda restringindo este, bastante. Duas palavras mais ácerca do quadro. Ha ali bellezas de dezenho e de colorido, bem notaveis; exemplo: a concha na sua totalidade quasi, algumas flôres, parte das roupagens, os seios da Venus, etc. Expõe mais Fonseca: «_O somno e a vigilancia_,» onde se patenteam os mesmos defeitos e as mesmas bellezas aproximadamente do quadro anterior. Uma mulher, nova, fresca, demasiado rosada, adormecida n’um sophá, sustem nos joelhos sobre uma almofada, de que perfeitamente se prescindia, uma creança nua, gorda e nacarada. Ao fundo um cão, sentinella domestica, parece guardar o somno dos dois. A mulher mostra um seio turgido e bem modelado, que não é porventura um seio de mãe. Ha ali alguma cousa de virginal. Fonseca, que por vezes parece ter bem arreigado e fecundo aquelle _sentimento da carne_, para me servir d’uma expressão admiravelmente rigorosa e significativa de Diderot, o _sentimento da carne_, que no dizer de Chaignet, é o desespero do artista e que póde ser a sua grande gloria, Fonseca, digo, desmente-se outras vezes pelo colorido desnatural, _repintado_, que dá ás suas figuras. É o que acontece á face da mulher e ao corpo da creança n’este quadro e em muitos pontos do anterior. A creança, além do colorido falso, é d’um desenho incorrectissimo. A perna esquerda não póde saber-se em que sitio do tronco prende. A cabeça parece a d’um velho rapado e ebrio. O vestido da mulher não tem côr definida quasi. Adivinha-se que é verde. Sempre a côr verde! chega-se a suspeitar que o artista padeça de achromatopsia. Denunciam-se os joelhos em posição tal que as pernas não poderiam ligar-se ao tronco. A cabeça e as mãos são muito _duras_. O mesmo acontece á pintura do cão. O assumpto está tractado com pouca naturalidade e é grande a _dissonancia_ de côres. Ha _tintas_ porém muito bem postas como em quasi todos os quadros de Fonseca. Conserva este artista, depois d’um longo tirocinio artistico, o defeito com que luctava Bandry na sua primeira maneira. «_C’est une tendance au pastiche!_» Como Bandry, é Fonseca geralmente incorrectissimo no desenho, fantasioso até á aberração no modelamento das suas figuras, desordenado na illuminação dos quadros. Vê-se que não ama o estudo do _natural_. Vicio de eschola. «_A morte d’Affonso d’Albuquerque_» é um esboço que Fonseca não deve completar para não perder. Os agrupamentos são bons, a côr está geralmente bem estudada e harmonisada, carecendo apenas a illuminação de afrouxar alguma cousa. O desenho é relativamente excellente, tanto tambem quanto o póde ser n’um esboço. As figuras teem vida e ao effeito geral não falta a unidade de pensamento e d’acção. É um quadro _condensado_, como diria About. A «_Cabeça de estudo_» é um estudo consciencioso que comprova uma vez mais o vigor e firmeza admiravel de pincel que Fonseca sabe conservar em tão avançada idade. Pena é que se lembrasse de pintar uma cara alva e rosada,--demasiado rosada talvez,--e umas barbas louras em fundo verde. Tem porém o colorido d’este pintor uma gomma suave, um certo macio de tintas que faz esquecer quasi a falta d’harmonia de tons. A poucos dos nossos artistas acontece isto. FOOTNOTES: [Footnote 14: _Livro de Critica_, pag. 88 a 90.] [Footnote 15: Thoré--_Le salon de 1844_.] [Footnote 16: Eug. Veron--_Superiorité des arts modernes, etc._] [Footnote 17: _Études sur les beaux arts_, etc.= Charles Perrier; _in fine_, creio.] VI GIRÃO, (José de Souza Moura)--KEIL, (Alfredo)--LAMBERTINI, (Hercules) No _Casal_, Girão denuncia fecundas tendencias de paizagenista e no quadro _Aves_ apparece-nos tão estudioso animalista como Annunciação. Julgam que é um professor que tem n’algibeira algum diploma d’academico ou que traz no peito alguma medalha concedida por qualquer _conselho de competentes_? Nada d’isso. Girão é simplesmente um discipulo da academia real de Bellas-artes, que honra a eschola e promette um magnifico pincel. O quadro _O Casal_, tem excellente perspectiva; o desenho é bom quasi sempre, o colorido fresco e harmonico. A verdade da natureza soffre talvez aqui ou ali. É que Girão vem da eschola, e na cathedra dos _mestres_ imperam ainda umas certas theorias _soi disant_ embellesadoras da natureza, que como diz Veran, creio, fazem lembrar as doutrinas dos escolasticos theologistas que appellam para a razão humana querendo provar a debilidade d’esta. Este idealismo naturalista, se póde dizer-se, cahe geralmente em _tours de force_ no desenhador e em aberrações taes no colorista, que a faculdade esthetica se atrophia e a verdade da natureza desapparece na concepção. _Quoi! vous savez qu’à blanchir un nègre on perd son savon et il faut encore vous aprendre qu’à redresser les bossus on perd sa peine! Tout est beau dans la nature. Hors de lá, point de salut._ (Gautier) O quadro _Aves_ representa o grupo de um gallo e duas gallinhas. Um verdadeiro sultão gallinaceo arrogante e despotico e duas hourís de gallinheiro. O desenho é admiravel de verdade principalmente no primeiro, o colorido harmonico e as tintas bem postas. _Uma obra de misericordia_, que representa uma mulher dando de comer a uma ranchada d’aves domesticas, n’um pardieiro, tem soffrivel _mancha_ e o desenho é n’alguns pontos incorrecto: é um quadro mediocre. Expõe Girão algumas paizagens que peccam quasi todas pela asperesa de tintas e pela indecisão do desenho. Parece porém que os _discipulos_ apostaram n’esta exposição dar batalha aos _mestres_. E se os _poetæ minores_ não podem cantar victoria, não devem tambem desanimar nos intentos. Honraram os mestres e honraram-se a si. Keil, por exemplo, promette bastante e a critica não póde deixar de conceder uma saudação e uma esperança aos tres quadros de natureza-morta, _bodegones_ como dizem os hespanhoes, em que se patentêa atravez de certa timidez e incorrecção de pincel, um delicado cultor d’este genero de pintura. Lambertini não é uma sombra n’este capitulo. A _mancha_ é imperfeita ainda, o desenho indeciso, mas ha nos seus quadros sentimentos e estudo que falta em muitos pintores já muito applaudidos. Com mais estudo e estudo mais desafogado, Lambertini, que já se revela artista, ha de dar-nos excellentes composições no genero que escolheu. E creio que não escolheu mal. Póde bem alliar n’elle a arte contemplativa de Ingrès com a arte dramatica de Delacroix. A natureza tambem tem seus extasis, que podem bem inspirar a Lambertini melhores quadros do que _A calma_, e seus dramas que podem reflectir mais acção, mais sentimento e mais harmonia em quadros como _A ventania_. São os dois melhores d’este pintor. VII LESSERE, (Prospero)--LUPI, (Miguel Angelo)--MACHADO, (Herculano Gomes) O quadro de Lessere tem o que Balzac chama _le brio des belles choses_. É esplendido. N’este genero:--_bodegones_, ou natureza-morta,--é a obra prima da Exposição. Intitula-se: _Flores e fructos_. Em quadros taes a ordenação dos objectos é geralmente illogica, a composição é quasi sempre absurda, por que difficilmente é natural. A unidade é attingida antes pela gamma das côres, pela harmonia dos tons, do que pela expressão, que é absorvida pela exacção e verdade do colorido e desenho. O pintor póde provar-nos que tem excellentes olhos, consciencioso pincel e fecundo sentimento da harmonia das côres. Não vae muito além d’este a manifestação da faculdade esthetica do pintor que enche as suas telas de fructos e flôres. É claro que só aos quadros n’estas condições me estou referindo e não aos de natureza-morta na sua totalidade. Feitas estas restricções póde afoitamente dizer-se que a pintura de Lessere é uma magnifica obra e faz a gloria do author. Colorista delicado e harmonico, desenhador excellente e minucioso nos primeiros planos e desmazelado nos ultimos como que para nos provar a verdade do verso: _Tout se commence en vers e tout s’acheve en prose._ Lessere sabe copiar a natureza sem a offender; dá ás suas flôres uma certa frescura que geralmente perdem na passagem do vergel para a tela quando as mãos que as transportam não teem como estas a pericia e mimos que a operação exige, e realisa-lhes o agrupamento sem esforço nem dissonancia como a mais habil e delicada ramalheteira. Flôres, parras, uvas, estão magistralmente estudadas; ás massas de verdura do solo falta muitas vezes miudezas de desenho e sobeja intensidade de côr; as aguas--que veem ali, creio, para o artista provar que sabe pintar uma rosa fluctuante n’ellas,--teem um _tom_ falso e o verde intenso dos _accessorios_ vegetaes á direita do quadro destôa com o colorido do assumpto principal e prejudica a unidade d’este. O fundo é descuidadosamente tractado. Parece-me por elle que Lessere pertence a certa _eschola_ franceza, cujos artistas, diz About, _ont la maladie d’acumuler des nuages pour obtenir des effectes de couleur_. É deploravel defeito em quadro de tão excellentes qualidades. Dizem os velhos: «Perdigão perdeu a penna, não ha mal que lhe não venha.» É o que aconteceu, parece, com Lupi. Depois d’aquella verdadeira catastrophe artistica, que nem pelas notaveis bellezas de desenho se fez desculpar, e que a Academia registrou sob o titulo de _Beijo de Judas_, é um novo desastre o _Retrato del rey D. Luiz_. A _portraiture_, como dizia Rabelais, e como Voltaire queria que se dissesse, a _retratura_ como nós podemos muito bem dizer, é genero difficil e perigoso, para qualquer artista, que se chame Holbein, Ingrès, ou Hypolite Flandrin, _quand même_. De Flandrin, dizia Ed. About, que nascera pintor de _retrato,--c’est á--dire: peintre de première force_. No retrato symbolico,--e ninguem como Ary Scheffer o realisou nos tempos modernos,--no retrato symbolico que não é o verdadeiro retrato, o pincel move-se ao impulso da inspiração da ideia actual,--individual ou collectiva. Nos retratos á Dubufe, extremo opposto, póde dizer-se, e inferior á _portraiture_ á Alberto Durer, retratos mercantís de que a burguezia faz enorme gasto, o artista pretende corrigir a natureza, _embellesando_ segundo as proprias impressões pessoaes o _original_ ou segundo as exigencias e caprichos d’este, e só consegue falsear natureza e arte. Retratistas ha tambem,--mesmo n’esta exposição os encontramos,--que põem a arte exclusivamente ao serviço do _incidente_, do que é um momento, um estado d’equilibrio instavel por assim dizer, uma anormalidade ás vezes na individualidade do _modêlo_, e esquecem completamente esta. O _incidente_ é uma modificação, attesta e confirma a individualidade, mas não a constitue, como das theorias estheticas do Dr. Vercher e d’outros podera deduzir-se. Acompanha-a, é um _accessorio_ fatal, mas não realisa isoladamente a unidade do _caracter_, a personalidade que o retratista é encarregado de estampar na tela. Por tudo isto, por muito mais que haveria a dizer, por muito ainda que está decerto no espirito de todos, se vê, quanto difficil e perigoso é este genero, que tão fecundo tem sido em aberrações e erros e onde teem naufragado tantas reputações, aliás justamente laureadas n’outros campos. E comtudo a regra é simples: Representae o homem, o individuo, tal qual elle é, na sua feição normal e predominante, e como os elementos e instrumentos da arte vos permittem, e tereis feito um _retrato_. Tendes para isso, linhas e côres, planos e tons. Ninguem póde seguramente dizer qual seja o _estylo_ de Lupi, na verdadeira accepção da palavra. O _processo_ parece absorvel-o. O que póde afoitamente dizer-se é que não nasceu retratista como Flandrin, nem longes tem da concepção de Scheffer, nem da fina execução de Dubufe; é que não é retratista. Amontôa os planos, falsêa os tons, não estuda o modêlo, não tem o sentimento da carne, nem da expressão. E comtudo,--curiosa cousa!--n’alguns quadros parece nada d’isto faltar a Lupi, antes se revela verdadeiro artista; conserva aqui ou ali a naturalidade dos planos,--permittam-me a expressão;--realisa uma certa harmonia de tons, uma gamma suave de colorido; e denuncia por vezes uma esthesia fecunda e delicada. O seu quadro, por exemplo, de Tintoreto retratando a filha morta, se lhe faltam os primeiros merecimentos teem estes ultimos. Como explicar isto? Simplesmente pela diversidade e porventura antinomia dos generos, pela irregularidade ou incompleto da esthesia, ou por outras circumstancias particulares e pessoaes? Não sei. No retrato do Rei D. Luiz I, o rosto tem _vida_, mas não tem similhança. Aqui ou ali a musculatura tem naturalidade, mas o desenho é na quasi totalidade incorrecto. Não tem continuidade. «Uma cabeça bem pintada,--diz um critico,--apresenta uma superficie não sómente _unida_ mas _una_.» O desenho do nariz é mais alguma cousa: é incorrectissimo. A carnadura tem certo frescor, mas colorido geralmente monotono e falso. O empaste dos cabellos é de principiante. Tem _vida_, disse, o rosto: Uma vida vulgar, indefinida, a expressão elementar da vida, por assim dizer, que não póde hoje faltar á arte na representação da figura humana, sob pena de ... não ser arte. Mas não a vida condensada, a vida propria, a vida determinada, caracteristica, _individual_, que constitue isto que se chama vulgarmente _feições_ d’este ou d’aquelle,--do _original_ n’este caso. Aqui é que reside a suprema difficuldade e o grande perigo da _retratura_. No vestuario e accessorios, Lupi não cahe n’uma especie de fethicismo do panno, da sêda e das joias, que é o vicio de muitos retratistas, mas esquece o preceito de Raphael, que dizia que o pintor devia pôr _todo_ o seu cuidado em _todas_ as cousas, e se o seu desenho aqui não augmenta em incorrecção, a _côr_ é como diria o critico acima citado _crue, disparate, et injurieuse_. Os _amarellos_ que fingem de douraduras na farda, são intoleraveis. A _mise-en-scene_ é banal e de convenção. N’isto todos os nossos retratistas que retratam _reis_ são eguaes. Parece que querem retratar ... a _realeza_. Posição e dimensões tem affectação e erro. O fundo e os accessorios são mal pintados: as _tintas_ mal postas. Defeito este talvez do _processo_. N’este ponto póde dizer-se d’este e d’outros quadros de Lupi, o que About, já tanto citado, dizia d’um ou outro retrato de Chaplin. «... _vu d’une certaine distance, a l’aspect martelé d’un travail de chandronnerie ou l’on pout compter les coups frappés par l’ouvrier. Ce n’est pas une vérité nouvelle que l’art doit cacher ses secrets_.» Lupi é um artista muito estudioso, mas _trabalha_ demais os seus quadros. Creio que Herculano Machado se dedica exclusivamente ao retrato. Apresenta tres n’esta Exposição. O primeiro _Retrato de B. P._, tem excellente fundo, musculatura demasiado geometrica, expressão affectada senão pedante. O desenho e o colorido são bons, menos talvez no fato. É um retratista do _incidente_ e de certo estampa-o bem na tela, qualidade excellente para outro genero de pintura. Dá-nos este artista, como poucos, a expressão momentanea, passageira, anormal, se póde dizer-se assim; mas o _retrato_ soffre com isto. A representação d’um individuo encolerisado, assombrado ou inebriado pelo enthusiasmo d’um instante, não é rigorosamente um _retrato_. E depois nota-se um curioso defeito nos retratos de Machado, pelo menos nos tres que expõe e é que se reproduz aproximadamente a mesma _expressão_ incidental, que diga-se sempre, não é facil definir. É expressão de _pose_, se póde dizer-se assim: _Mimi Pinson n’a qu’une robe._ No quadro: _Um ancião_, a cabeça do velho está muito bem estudada, os cabellos teem cuidadoso desenho e natural colorido, a carnadura é soffrivel, o pescoço parece alongado de mais. O quadro: _Uma menina_, parece representar um rapaz; tem bom fundo, _tintas_ bem postas e os tons bem harmonisados. VIII Um parenthesis Os Van Eych, marcam talvez uma revolução na arte. Os _fundos-d’ouro_ cedem o logar aos _fundos de luz_, ao panorama, á paizagem. A auréola, o _esplendor_ beatifico é substituido pela perspectiva da natureza. A desmystificação da arte começa. Relanceae a vista para além da arte. Distante vos fica já João Scot ou Thomaz d’Aquino. Aproxima-se Spinosa. Tudo isto se encadêa e explica como manifestações d’uma evolução. Não nos afastemos porém. A paizagem é um accessorio ainda. O pantheismo não suprime completamente o mystico. Conquista ou reconquista um logar. Alarga-o, expande-se e abarcará por vezes a tela flamenga ou a tela hollandeza. A evolução caracterisa-se exuberantemente em Hemling, nos admiraveis panoramas de Albert van Ouwater, etc. Quando a Italia invadir o norte, quando a arte do sul imprimir na arte septentrional o cunho do seu idealismo pagão, ha de aceitar o elemento revolucionario, ha de pactuar e alliar-se com elle. Já em Lucas Dammesz ou Lucas de Leyde se denuncia no naturalismo flamengo o idealismo grego e a sciencia de Leonardo de Vinci[18] Bernardo van Orley, não renegará Jan van Eych. Mas que distancia enorme! Em Winckebooms, (1478) como em Joaquim Patanier (1487) a natureza apresenta-se ainda enfaixada no _mystico_. Patanier tem um rival, grande como elle, tamanho como Grossært. É Henrique Met de Bles. Na paizagem hombrea com o primeiro e pinta a architectura como Jan Grossært ou _Genni Grossært_, (1490) como elle assignava ás vezes. Este annuncia já o italianismo. Não esquece porém as tradições da eschola de Bruges. A proposito: a eschola nacional tem ainda valentes campeões. São Quintino Messys, (1450), os Van Bruyn, João Schoorel d’Utrecht, Martin van Veen (Hemskerk) etc. E convém dizer ainda: a arte hollandeza abysma-se n’uma revolução politica e religiosa. É indispensavel attender a isto. Na eschola flamenga é facil ligar Rubens aos Van Eych. Na hollandeza é profunda a differença entre Rembrandt e a eschola de Leyde. Creio que Fortoul faz esta observação. Ha um ponto de contacto: a natureza do _meio_. O lutheranismo umas vezes destaca, outras aproxima. Virá Gerard Dow: uma revolução nova, como o calvinismo é uma revolução no lutheranismo. Póde contar-se porém de Wynautz (1606) a emancipação da paizagem. A vida animal não desapparece, mas o principal passa a ser accessorio,--formoso accessorio decerto,--como o podiam tractar nas paizagens esplendidas do mestre, discipulos que se chamam Wouwzermanz, habil _à croquer les cheveaux_ como diz Fortoul, se bem me lembro, Adriano van der Velde, _especialista_ de rebanhos, e--diga-se sempre,--paizagenista de primeira plana, e Lingelbach emfim. Não esqueçamos Berghem, Nicolau Berghem ou Nicolau d’Arlem (1624-1683) e o seu patricio e contemporaneo Ruysdael, já que estamos com os hollandezes. Não esqueçamos tambem Alberto Cuyp, soberbo animalista e paizagenista que sabe illuminar um quadro, diffundir e condensar a luz, _vaporisar_ a côr, como o Lorraine.[19] Berghem, diz algures um escriptor, é um hollandez da Italia. E João Booth, o seguidor de Claudio o Lorraine, que como Wynautz, tem quem lhe affirme,--o irmão, André Booth,--nas aureadas paizagens a vida animal? Jacques Ruysdael, (1639) o triste exilado de Harlem, a todos excede: tem mais encantos que todos; é o Ossian do pincel. Exilado na propria patria! Ruysdael nunca sahiu d’Harlem. Quando tantos seus irmãos em arte e em patria, se iam alegres e enthusiastas, aquecer-se ao sol do meio dia, quando a Italia era a Jerusalem, e para tantos, os jardins de Armida dos artistas, Ruysdael ficava-se na patria, triste e scismador. Por isso as paizagens d’elle são melancolicas, saudosas, elegiacas, quasi, dizem. E comprehende-se: que uma das maiores grandezas e das maiores desgraças, tambem ás vezes do homem, é poder identificar-se, fazel-o até involuntariamente, com a situação psychica do seu similhante, e tanto mais facilmente quanto as situações d’um e outro se aproximam na aspiração. Que de mundos luminosos não se agitaram para além dos horisontes sombrios que te apertam em circulo de ferro a inspiração enorme; oh pobre artista! Que de formosos panoramas hão desenrolar-se para além d’estes panoramas em que espalhas tristemente a vista? Nada d’isso verás, meu pobre sonhador! Nada d’isso é para ti, meu grande poeta! Os felizes são Wynautz, Bergham, Cuyp, o Lorraine, Booth, Pynaker e tantos mais. Creio que é Proudhon quem affirma não poderem viajarem os artistas. Porquê? Perdem a nacionalidade, a originalidade local dos seus pinceis ou das suas concepções! Pois o ideal conhece lá fronteiras? Pois a faculdade esthetica hade amarrotar-se, circumscrever-se a uma convenção patriotica, sacrificar-se á geographia politica? Pois se uma planta não encontra no solo em que germinou, condições de largo e fecundo desenvolvimento, que outro lhe póde dar, haveis deixal-a fenecer e estiolar-se antes, do que transportal-a e buscar-lhe condições de vida melhor? Pois não vedes como o arbusto ou a arvore sombreada se lança naturalmente para onde póde receber os raios solares? O nenuphar ergue-se até á superficie das aguas para ali se expandir em florescencias. A andorinha busca o ambiente que lhe convém, emigra do que deixou de convir-lhe. Pois o artista,--e porque não diremos o homem?--é como o arbusto, o nenuphar e a andorinha. Busca tambem o seu solo, ou seu clima. O seu clima moral deixem dizer assim, como o seu clima phisico. Busca o meio da sua ampla florescencia, que bem póde não ser o meio da sua germinação. As condições d’um facto não são as de outro, é sabido. Sabeis o que é a nostalgia? Ha uma nostalgia ás avessas. Ha saudade do que se não gosou, como ha saudade do que se viu e ama. Tirados do meio em que nascemos, e nos fizemos homem, para outro a que não estão porventura adequadas, mysteriosas ou conhecidas condições de vida,--na mais larga accepção da palavra,--sentimo-nos mal, intimamente ou physicamente infermados, sentimos ou o «gosto amargo d’infelizes», o «delicioso pungir d’acerbo espinho» de que falla o poeta, ou o empobrecimento e o estrago da vida organica, ou ambas as cousas juntas, que por ventura andam a ella intimamente ligadas. Vem isto a ser a nostalgia. Pois tambem nos sentimos ás vezes mal, no meio em que nascemos e vivemos; não nos basta o solo e o estado natal, tambem sentimos ir-nos fenecendo a vida physica ou psychica, tambem sentimos um desejo profundo, immenso, uma necessidade intima, irresistivel, violenta de sahirmos d’ali, de mergulharmos nos horisontes que nos rodeiam, de respirarmos outros ares, de pisarmos outro solo, emfim o «delicioso pungir do acerbo espinho» do ignoto, da ambição, do goso, da experiencia desconhecida e desejada, d’uma anciedade mysteriosa, mas angustiosa e persistente. É uma nostalgia ás avessas. Conservae um eucalyptus ou um cedro no vaso em que elle germinou, e de certo que fenecerá bem cêdo, podendo, transplantado para largo e bom terreno, assumir proporções giganteas, como a begonia se estiolará na charneca podendo viver largamente na estufa. O que é a emigração politica? Uma transplantação; é a individualidade politica que não encontra no _meio_ que abandona as condições de vida peculiar que, ou buscou realisar n’esse meio e não conseguiu, ou vae procurar n’outro. E o mesmo a emigração economica, se póde dizer-se assim: falta de determinadas condições economicas para determinada individualidade laboriosa. Porque havemos pois de condemnar a emigração artistica? Condemnaremos o homem que vae a terra estranha procurar os meios de vida que lhe escaceiam ou faltam na sua, porque no regresso póde ter esquecido o cunho da moeda nacional? O cunho que se exige na moeda artistica é o da verdade na manifestação, e da individualidade no ideal. E por isso mesmo não queiramos impôr feição determinada nossa á manifestação d’um ideal, tambem, por assim dizer, imposto. Tenhamos antes conta em não acceitarmos moeda falsa por legitima, só por que traz cunho que nos lisongeie as paixões ou a doutrina. O estudo do quilate, da liga, da natureza da moeda, das condições d’impressão do cunho, da configuração, relevo, feitura e significação ou symbolisação d’este, a explicação e a historia do conjuncto de tudo isto é o que pertence á critica, é que é a critica applicando-se e affirmando-se. Deixae, que não será a individualidade quem desmentirá o _meio_. Este hade attestar-se sempre n’ella como na determinada collectividade artistica. Nem serão as indicações ou restricções da critica que farão isto, nem ellas o podem evitar. Das sensações nos véem as ideias, e do _meio_ nos véem as sensações. O temperamento, o genio proprio, a individualidade emfim, tem suas condições de desenvolvimento e de manifestação, suas exigencias de esthesia e de laboração, que deveis ter em linha de conta quando fazeis a critica da arte, que é a manifestação sensivel do ideal e cuja feição collectiva se fórma natural e fatalmente sem imposições de critica, como a civilisação se fórma e transforma sem a imposição da vontade individual, contra ella ou fóra d’ella. Talvez se os artistas não viajassem, maiores fossem as differenças de escholas, de estylo, de feições artisticas, ou mais lentamente se realisariam certas evoluções, ou mais _nacionaes_, se póde dizer-se assim, seriam as artes. Mas seriam decerto mais pobres, mais lentas no seu desenvolvimento, menos exuberantes no seu progresso, menos espontaneas,--permitam a expressão, nas suas affirmações. E depois, que proveito? E depois, que necessidade? Tambem se os povos andassem mais arredados uns dos outros na sua vida moral, politica, economica, etc., mais se distinguiriam, mais conservariam seus habitos e feições peculiares, e tradições proprias, etc. E depois? Menos ricos seriam em civilisação. Não é a communicabilidade que atrophia, não é a riqueza que debilita. No aproveitamento d’uma e na applicação da outra é que a critica tem larga e fecunda acção. O culto da arte e o culto da patria são cousas independentes. Condemnae-lhes as reciprocas intolerancias, as repulsões e absorpções forçadas; não lhe condemneis a autonomia, a fecunda liberdade. As suas relações são lei ou facto natural e fatal. A natureza não se supprime, a fatalidade não se evita. =Longe porém vae este discorrer.= Isto porém,--disse-o já,--é jornadear de _tourist_. Que cousa mais natural do que subir a gente um outeiro que nos fica no caminho e ficarmos alguns momentos espraiando a vista pelos vastos panoramas que se estendem de redor? E já agora antes de me pôr de novo a caminho, deixem que demore a vista um momento mais na incidental inspecção. Comecei por fallar da paizagem. Citei alguns factos ou alguns nomes, da evolução naturalista da arte. Tateemos-lhe a explicação critica. Quando o pensar humano se resolve ou synthetisa na visão intima, na aspiração e na affirmação d’um mundo melhor ou antes d’uma vida espiritual eterna, immutavel, _sobrenatural_, além, acima ou fóra da natureza que nos rodeia e que somos, da natureza _material_;--quando a lucta ou dualismo, acreditado como real, do Mal e do Bem, acreditando como principios distinctos, se desdobra na crença da eternidade do Premio e do Castigo, da beatitude eterna e do eterno tormento, no triumpho do Bem e na sujeição do Mal a executar a lei ou arbitrio d’aquelle;--quando a concepção da vida presente é a affirmação d’uma dolorosa e fatal penitencia em que o Mal nos flagella, persegue, e tenta e seduz a cada momento e em cada logar, (_ubique daemon_)--quando a crença religiosa é a crença dominadora, renega a vida material, condemna ou previne os prazeres e as affirmações dos sentidos e faz do homem um viajeiro fraco, trôpego, impotente, cego, que só póde e só deve procurar guia, consolação e ensino na fé d’uma vida melhor e d’um melhor mundo, sua unica meta;--quando emfim o «meu reino não é d’este mundo,» isto é, quando este mundo é apenas pousada pobrissima e perigoso no caminho do _outro_, do sobrenatural: comprehende-se que o artista esqueça ou desdenhe o mundo que habita, a vida que o rodeia e a propria vida, os panoramas sensuaes que se lhe desenrolam de volta, e as sensações e inspirações que d’elles lhe venham; não veja ali o _bello_, não queira receber d’ali o _ideal_ artistico, porque o seu _bello_, o seu ideal renega a natureza, está fóra da natureza, no mundo das absolutividades, da perfeição suprema, do ignoto, do subjectivismo puro. O seu ideal reside em Deus. Forma-se pela abstracção, pela negação da materia, quasi. A expressão sensivel é uma necessidade da pequenez humana, a necessidade do hieroglypho, do signal, do symbolo. A plastica não é propriamente uma arte. Reduz-se a uma iconographia official ou tradicional, tem uma hermeneutica, vive n’um formulismo orthodoxo. Póde dizer-se que é uma orthodoxia iconographica, para os pintores-mosaistas de Bysancio, como em toda a pintura italo-bysantina de que Cimabue é o ultimo representante, por exemplo. E cousa curiosa: a tradição formulistica da arte do tempo de Andronic 1.^o prolonga-se no oriente christão, na arte isolada dos conventos, até modernamente. Haviam livros de lithurgia para a arte como para o culto,[20] e os chefes da Egreja tanto decretavam para os pinceis dos pintores como para a communhão dos fieis.[21] Ainda mesmo no fundo d’esses enormes _cœmeteria_ (_aræ sepulturarum_), chamados catacumbas de Roma, o symbolismo domina a arte nascente. Comprehende-se pois que o culto da _fórma_, que o amor da paizagem, que emfim a contemplação e a exploração da natureza material seja substituida,--elementos climatericos ou tradicionaes á parte,--na arte medieval pela ataraxia, pela serenidade beatifica, pela mystica aspiração, pelas figuras esguias em que o artista parece querer supprimir a _carne_, pelos _fundos-d’ouro_ em que ha alguma cousa da luminosa bemaventurança, ou de impotencia genial do artista para tractar o meio em que se agitam e mergulham as almas; pelas convulsões de pedra que parecem manifestar as perturbações, as aspirações, as nevroses do mysticismo; por todo este systema da _linha ascendente_ que exprime a sua aspiração, na phrase de Fortoul. Quando porém se vae alargando o sentimento positivo,--e o facto pertence mais á historia philosophica do que á historia da arte,--quando a vida real na fatalidade da sua acção, na exuberancia e continuidade das suas manifestações, na crescente multiplicidade das suas exigencias, estimulos e progressos, vae absorvendo o pensar humano, ao passo que elle á força de se exercitar e fortalecer por um lado na laboração metaphysica, e por outro na averiguação e estudo archeologico, vae tateando fóra da concepção mystica caminhos defesos ou despresados por ella--, quando saciado d’uma sobrenaturalidade vaga e mysteriosa, volve a procurar em a natureza material a revelação, a manifestação, a sede d’essa intelligencia infinita, d’esse infinito poder, para o qual debalde procurára formar um mundo ultra-ideal;--então tem já outros encantos para a arte a _realidade_, a natureza, ha n’esta uma vida e uma intelligencia opulentas; a plastica tem uma idealisação--isto é: póde ser uma arte, porque não é apenas um symbolo, mas uma revelação genial e completa; a paizagem poderá ser mais que um accessorio porque é mais do que uma passividade; unifica-se a natureza e a vida, sente-se o homem, não um viajeiro simplesmente, mas um habitante, ou companheiro ou filho d’essa natureza de exuberantes fórmas, de fecundia inesgotavel de sensações e existencias: a natureza geologica, athmospherica, vegetal, animal, etc., a realidade universal, a _materia_ emfim. Entra breve a arte n’um periodo realista, na larga accepção do termo. Ramificar-se-ha em arte socialista: a idealisação dos elementos, das phases da _realidade_ social; arte _animalista_, a idealisação da realidade _animal_; arte _naturalista_, a idealisação da realidade _natural_ na convencionada accepção da natureza extra-animal, etc. A idealisação é a affirmação do homem na natureza. Por isso dizia Bacon: a arte é o homem junto ás cousas. O homem, ou antes o pensar humano, modificou-se: outro é o ideal, por outro modo se affirma. Não renega a natureza; não a sacrifica. Abraça-a, reconhecea-a, explora-a. Não darão estes rapidos traços ideia d’uma evolução historica da arte? Evolução repetida, salva a chronologia e a geographia da ideia, encontramol-a talvez na Grecia, em Lyssipo, e nos revolucionarios da esculptura phideana, em Eupomdo, eschola de Sycione, nos revolucionarios da velha pintura dorica, como a encontramos nos fins do periodo medival, e na renascença do Sul. Que distancia enorme, percorrida! Os artistas já não procuram na oração purificar as suas inspirações como Vicente Joannes ou Fra Angelico, nem se maceram como Luiz de Vargas para calar as paixões da carne. Não cessam de ser homens á força de quererem ser divinos,--na phrase de Sadolet--e preferem á penitencia e aos extasis do ascetismo, a expansiva alegria e a dôce communicabilidade d’aquelles famosos banquetes,--que fazem lembrar os velhos _Komos_,--aconselhados e regrados por Marsilio Fiscino. A carne triumphou, ou antes triumphou a natureza. Na chamada peninsula iberica a arte tem especiaes elementos de desenvolvimento pelas especiaes condições historicas do _meio_, mas--um facto bem proeminente é a alliança da arte do norte, realisada pelos artistas que vão á Italia estudar-nos ou com os grandes mestres e pelos que do norte veem viajar ou estabelecer-se aqui. Bem conhecidos são os nomes dos principaes d’uns e d’outros e a historia da chamada eschola da Andalusia ou Sevilha dá sobeja comprovação.[22] Em Portugal, apesar dos esforços mais patrioticos que sensatos, d’alguns que pretendem affirmar a existencia d’uma eschola distincta de pintura, apenas póde reconhecer-se certa independencia e originalidade _nacional_ n’um curto periodo da historia da architectura. Fallando porém apenas da pintura, a existencia d’uns velhos e magnificos quadros de duvidosa procedencia, tem servido de base a numerosas hypotheses e questões, mas está bem longe de confirmar a existencia d’uma eschola distincta. O que ali se revela é a influencia directa do Norte e da Italia, demais, testificada pela historia, e que não chega a diluir-se, por assim dizer, na concepção d’um Velasquez ou d’um Murillo. Este assumpto é para tractar-se detidamente. É claro porém que a evolução naturalista, lentamente realisada no Norte e na arte italiana se reflecte aqui, onde a arte poucas vezes póde deixar de ser considerada nos elementos de progresso como uma importação. Deixemos agora o outeiro d’onde temos estado espalhando a vista por tão vastos e formosos horisontes, e continuemos o caminho pelos pobres campos da nossa arte contemporanea, onde não é raro encontrar bellas e promettedoras plantas a que só faltam talvez os mimos do clima artistico e as correcções da horticultura chamada critica. FOOTNOTES: [Footnote 18: Hyp. Fortoul--_De l’art en Allemagne_.] [Footnote 19: René Menard--_Gazette des Beaux-arts_, Mai. 1869.] [Footnote 20: A _Guia_ ou _Chave da pintura_, Manual do sec. XII (M. Didron, _Iconographie chrétienne_,) que indica até a côr que se deve dar aos trajes d’este ou d’aquelle personagem religioso, e outros. Ainda bastantes seculos depois escrevia Fr. Juan de Ayalla (Hespanha) o seu livro sobre o modo de pintar assumptos da religião.] [Footnote 21: Adriano 1.^o (sec. VIII) por exemplo, fixa as tres maneiras de representar o Christo. Em 1863 publicou Charles de Remusat um bello trabalho: «_Un musée chretien à Rome_, em que tracta este assumpto a respeito das chamadas catacumbas. Sobre estas, desde Bosio (_La Roma sotterata_) ou de Marchi, até Rossi, tem-se escripto immenso; podendo dizer-se que se tem operado uma completa revolução na critica da arte ou da esthetica christã.] [Footnote 22: Semanas depois da publicação do primeiro «Livro de Critica» obsequiou-me um erudito escriptor de Madrid com duas notaveis obras que não posso deixar de recommendar aos que desejem conhecer a historia da arte hespanhola. Intitulam-se: «_Murillo, su época, su vida, sus cuadros_, &c. Sevilla 1864. «_Pablo de Céspedes.--Obra premiada por voto unanime de la Academia de nobles-artes de San Fernando en el certámen de 1866_.--Madrid 1868. É seu author D. Francisco M. Tubino, que n’ellas revela a par d’um grande talento e d’um estudo solido e vasto, um bom senso e tacto critico de notavel profundesa e originalidade, que o collocou á altura dos primeiros criticos d’além dos Pyreneos. Não me envergonho de confessar que desconhecia aquellas duas notaveis obras. Muito é para sentir que tão pouco conheçamos em Portugal a arte e a sciencia dos nossos visinhos peninsulares, e muitos louvores cabem ao actual embaixador hespanhol em Lisboa, o snr. Fernandes de los Rios, que tem procurado e vae conseguindo attenuar este mal. Um patriotismo caturra até á imbecilidade, muitas vezes faz com que se olhe de travez para tudo o que de Hespanha nos vem. E bem boas cousas podem vir. Eu creio que o _iberismo_ como doutrina é um anachorismo ou uma ignorancia ou uma aberração, e como facto seria um retrocesso, uma oppressão commum, uma desgraça, mas rio-me de certas manifestações estereis ou grotescas, porque creio que a historia tem uma logica implacavel, e que a independencia d’um povo, a sua existencia politica basea-se principalmente n’uma consciencia collectiva esclarecida, forte e moral, n’uma politica e n’uma governação séria e positiva, n’uma vida social sadia e n’uma comprehensão firme dos principios da organisação do Estado, dos interesses do povo, dos direitos do cidadão, das necessidades e meios de reforma, etc. Ora a tal respeito estamos nós n’uma situação deploravel em que já vae attentando a Europa, como se vê das crueis gargalhadas e desdens que nos lança. Escusado é citar factos bem recentes. O mal será a Hespanha tomar-nos a dianteira no movimento civilisador, em quanto nós nos entretemos, desmoralisados e illudidos ... com bem pequenas e ridiculas cousas. É caso para se suppôr que somos nós os verdadeiros _ibericos_.] IX NEWTON (Izaias) Newton não é simplesmente um bom pintor, é um pintor de bem. _Rara avis!_ É mais: um pintor modesto, tranquillo, inspirado. Tem porém uma vulgaridade: falta de illustração, de conhecimentos, por conseguinte apoucamento de força, de exuberancia concepcional. Póde usar da divisa de Jan Van Eych: _Como posso._ Póde muito; muito nos promette. As suas paizagens este anno denotam já um grande estudo technico, uma grande consciencia e um grande progresso. Ha ali alguma cousa do pintor de Harlam: uma melancolia melodiosa,--permittam-me a expressão,--e um como que extasis tambem no meio d’esta atmosphera do meio-dia, turgida de luz, d’aromas; de sensualidade. Extasis, que prolongado, póde ser monotono. Ha nas suas paizagens uma certa suavidade de luz, uma liberdade de pincel, uma tranquillidade de imaginação que encanta devéras. A côr raramente falsêa a natureza, o desenho por pouco que não póde dizer-se irreprehensivel. O quadro a _Serra de Minde junto a Torres Novas_ é admiravel nos longes, tem bellas massas de verdura,--porventura picotadas mais aqui ou ali,--o colorido é geralmente bom, menos n’umas penedias á esquerda em que é falso, e nos ares aos quaes escacêa além d’isso uma certa diaphaneidade, que até a consummados mestres fallece. No quadro: _O valle de Bomfim_, ha um riacho de incorrecta perspectiva e longes e ares excellentes; boas massas de verdura, côr bem estudada e tintas magistralmente postas. Um outro: _A serra de Monsanto, arrabaldes da Lisboa_, que melhores titulos tinha á _medalha de prata_ que o conselho dos _competentes_ concedeu ao primeiro, tem soberba illuminação, bella perspectiva, aguas bem estudadas, mas onde os claros são falsos por vezes, bellos ares e massas d’arvoredo. O _Tejo em Tancos_, é quadro muito inferior aos precedentes, patenteando porém algumas das excellentes qualidades que elles manifestam e que fazem com que Newton seja o paizagenista de melhores esperanças que tem apparecido entre nós. Oxalá não fique em esperanças ou não fique simplesmente no que é. Póde ser muito, mas não é bastante. Procura impregnar as suas telas da coloração natural, _copía_ muito bem e muito conscienciosamente, póde dizer-se que é um pintor naturalista,--para me servir d’uma magnifica phrase de Max. de Camp a respeito de Brin,--_de ceux qui, comme Van Everdingen, s’imprégnent fortement de la nature, et, n’osant point l’interpréter cherchent à la rendre telle qui’ils la voient_.[23] Isto que poderia ser um systema talvez, póde ser uma impotencia concepcional, e não é decerto a mais larga manifestação da faculdade artistica. Entre a paizagem de pura phantasia e a paizagem de pura cópia, entre o conjuncto caprichoso de côres, de tons, de linhas, de objectos que teem a sua lei d’harmonia, de correlação, de existencia, de _realidade_ emfim só na mente, na convenção ou no processo do artista,--e a reproducção, a cópia servil, paciente e repetida, em que o esforço, a persistencia, a habilidade technica supprem a intenção esthetica, a concepção, o sentimento, a communicabilidade e a finalidade moral; em que o artifice póde revelar-se superiormente, mas em que o artista póde completamente desapparecer: entre estes dois extremos perigosos, ha um vasto campo em que a arte póde energicamente affirmar-se n’uma exuberancia sadia e fecunda, nobre, inspiradora, sincera, communicativa, verdadeira, _naturalista_. Percorrendo a exposição parisiense de 1863, dizia o critico atraz citado: «Um artista deve conceber a sua obra, vêl-a em si mesmo: a natureza vem em seu auxilio para esclarecel-o, para lhe dar o apoio dos seus innumeraveis documentos e rectificar-lhe as ideias. Collocar-se ingenuamente diante d’uma arvore, diante d’uma mulher, diante d’um cavallo, copiar isto o melhor que se póde, é simplesmente a missão d’artifice (_œuvrier_) e desgraçadamente é o que cada qual parece fazer hoje. O que mais dolorosamente impressiona quando se contempla as telas expostas, é a ausencia completa de composição. Os paizagistas enviam os seus _estudos_: um sitio, um aspecto, uma excepção da natureza impressionou-os de passagem: esboçam isto, terminam o trabalho na officina, enviam-n’o á Exposição e julgam ter feito um quadro: engano; fizeram uma _cópia_, e confesso que pela minha parte prefiro o original.» Pondo de parte as doutrinas espiritualistas de Max. Decamps, que não vem para agora discutir, este trecho é de rigorosa verdade. De Vernet se conta que costumava dizer, embora não costumasse fazer talvez: «Quando quero pintar abro a janella e olho», e Rembrandt dizia: «Quando cesso de pensar, cesso de pintar.» Duas grandes advertencias são estas que valem por dois principios que se completam, se não por completo systema. Disse ao começar este capitulo que os quadros de Izaias Newton apresentavam algumas vezes uma certa melancolia suave que nos encantava. É necessario não exagerar isto. É o sentimento esthetico, o elemento idealista a irromper do rigorismo systematico da _cópia_. Esta porém predomina no criterio inculto e na execução habilissima de Newton. Procura elle um _local_, um aspecto da natureza que reuna um certo numero de condições adequadas a certos effeitos e bellezas technicas, com que encha uma tela, mais do que traduzir uma concepção, uma acção esthetica, do que communicar um sentimento, do que assimilhar a natureza a uma idealisação, a um modo de ser psychico, a uma intenção, a uma finalidade moral. A intima e fatal alliança do ideal e da realidade sensivel na arte é que dá o que a principio notamos. Este systema porém, se de systema merece o nome, é ainda aggravado pela reproducção, pela exploração circumscripta e persistente d’aquelles effeitos e bellezas. A illuminação das paizagens de Newton, por exemplo, é sempre a mesma, posto seja sempre natural a coloração d’ellas. Variam os panoramas _copiados_, e parece-nos estar vendo o mesmo quadro com pequenas variantes. Fallar d’um é fallar de todos: excellentes massas de verdura, penedia, céos claros, muito sol; o mesmo dia ou a mesma hora, um mesmo aspecto da natureza rural. O animal poucas vezes apparece. Comprehende-se que a composição artistica poucas vezes exista. Newton póde vir a ser um excellente artista se não quizer ficar-se n’um copista excellente. O ter conseguido reproduzir a coloração natural, e adquirir uma firmeza, uma bravura, deixem dizer assim, de desenho, notavel, junto á consciencia do seu trabalho, são cousas muito importantes e aproveitaveis, e que o fazem avultar distinctamente na turba dos nossos pintores. Oxalá não estacione nem deixe atrophiar-se. Diga-se ainda, apezar do que fica observado: (que nem ha contradicção) póde affirmar-se que Newton se apresenta já n’esta Exposição como verdadeiro paizagista na accepção commum, e attenua a estreiteza de systema pela excellente escolha de _localidade_. Ha tambem n’algum quadro tentativa de composição e pela exagerada e systematica exploração d’esta, tambem póde vir grande mal ao artista. Em conclusão, como diz Chaignet, «a paizagem é o genero mais seductor e mais perigoso da pintura.... «A natureza é o theatro da vida do homem, e os seus aspectos parecem harmonisar-se com os nossos pensamentos. Ha mais: por uma illusão voluntaria, mas instinctiva, prestamos uma alma aos objectos, imaginamol-os á nossa semelhança, reflectimo-nos n’elles; ha pois, ao menos por nós e para nós, um ideal na natureza: a arvore medita, a fonte soluça, o vento suspira, a luz brinca e ri. Somos nós que depomos a vida na natureza e ali a admiramos depois. É pois já um acto esthetico, um acto d’artista, gozar as bellezas da natureza, e attribuir um caracter moral ás suas producções e aos seus espectaculos.»[24] NOTA.--Algumas considerações que alteram em parte a apreciação feita e publicada em 1868, foram suggeridas posteriormente por outros quadros. N’outros pontos, porém, não ha mais que o desenvolvimento das ideias então mal enunciadas, por causa das exigencias e condições d’uma publicação periodica. FOOTNOTES: [Footnote 23: «Le salon de 1863»--_Rev. des deux mondes_, 15 de Juin.] [Footnote 24: _Les princ. de la science du beau_--4^ieme partie. Paris, 1860.] X NUNES JUNIOR (Antonio José)--OLIVEIRA (D. Elisa) N’estas jornadas pelos campos das _bellas-artes_ tenho topado por mais d’uma vez, com pobres arbustosinhos que, mal brotados do solo, pendem logo para elle, estiolados e tristes á mingua de rocio e calor. Tenho lido em muitas telas, das que povoam as exposições, um verdadeiro martyrologio de trabalho, sem glorias, nem incitamentos, de corações que pulsaram obscuramente ao bafejo da inspiração artistica, no isolamento e nas trevas; de intelligencias que mal desabrochadas nos vergeis da arte, fecham a sua epopeia de esperanças e amor á mingua d’um raio de sol que a illumine e santifique. É isto bem triste. Para quem tem por noites mal dormidas, entre as paredes nuas d’um pardieiro, pendida a cabeça sobre o livro,--confidente de tantas dôres obscuras, companheiro de tantos trabalhos e de tantos revezes,--e sentido o sopro gélido da desesperança bater-lhe na fronte immurchecida em prematura senilidade; para quem sabe o que são esperanças que se estiolam ao desamparo, energias mortas por decepções atrozes, trabalhos d’annos esphacelados pelo desalento d’um minuto e recomeçados pela illusão d’outro, o martyrologio obscuro do trabalho alheio, é cousa santa e veneravel como a recordação do beijo extremo e veneravel da mãe que se finou. Quem escreveu já todo aquelle poema d’horrores e de esperanças, d’amores e desalentos, de energias inauditas e desesperos, de esforços sublimes e torpissimas injustiças? Quem uma vez lhe soletrou as estrophes humedecidas com o suor do sangue que atormentava as insomnias de Luthero, nunca lhe esquecerá os amargores da pungentissima leitura. Desculpem a divagação que vae longa. Tudo isto, porém, me suggeriu o nome d’um artista obscuro e trabalhador, que eu não conheço pessoalmente, mas que sei que é uma das victimas d’aquelle fatidico poema. Chama-se Antonio José Nunes Junior. Não lhe anda aureolado o nome pelo _conselho dos competentes_ cá da terra, e apenas d’um ou d’outro canto da imprensa lhe vae ao encontro dos esforços obscuros, uma palavra de esperança ou incitamento. O seu _Retrato do padre Antonio Vieira_, é um excellente retrato. O quadro tem defeitos; mas ha em todo elle um estudo tão consciencioso, uma despretenção de pincel tão pouco vulgar, tanto cuidado no estudo e execução _de todas as cousas_, como aconselhava Raphael; que é um verdadeiro modêlo e uma bella lição aos nossos retratistas e uma gloria artistica para um novel e obscuro pintor. Tres ou quatro linhas do padre Barros, segundo indica o catalogo, suppriram o modêlo, que Nunes só poderia talvez encontrar em gravuras deploraveis. Dizem aquellas assim: «Foi o padre Antonio Vieira de não pequena estatura; rosto comprido e magestoso; o nariz aquilino; bôca proporcionada; muita barba; o cabello na edade vigorosa, preto; todo branco na velhice; a côr morena; os olhos sobremaneira vivos, e que pareciam scintillavam.» Com isto fez-se o retrato. Está o respeitavel velho sentado n’uma poltrona de couro, com um papel n’uma mão e a outra descansando sobre modesta mesa onde se vêem uns livros e um crucifixo. Retratista haveria que traduzisse a magestade do rosto e o scintillante dos olhos por expressão e _pose_ pedante e affectada, escabichando nos exageros de Dubufe ou no symbolismo de Scheffer. O moreno da pelle, estragada pela edade, pela labutação e pelos sóes de differentes climas, apresenta, para os que não metterem em linha de conta estas circumstancias, uma certa aspereza que poderia denunciar impericia do pincel. Talvez alguma cousa haja d’isto, junto a um certo tom archaico de que se resente o quadro todo. As rugas da edade são demasiado geometricas, se póde dizer-se assim, mas a cabeça está muito bem modelada. As mãos, principalmente a direita, são _duras_. Os accessorios e as roupas estão excellentemente tractados. Os planos ou a perspectiva careciam de maior estudo, e é boa a _mise-en-scene_, porque tambem a tem um quadro de retrato. Em dois outros retratos expostos (n.^{os} 49 e 50) ha aspereza de tintas, boa musculatura e expressão natural. Uma _Cabeça de estudo_, é um excellente estudo e uma boa cabeça. A distribuição da luz e a musculatura são boas. As barbas reclamam maior cuidado de desenho. D. Elisa d’Oliveira, expõe dois quadros _a pastel_ que são bem promettedora estreia, e nem eu sei quem é mais feliz: se J. P. de Sousa em ter tão excellentes discipulas, se estas em o terem a elle por mestre. Habil mestre, é. XI PEDROSO (João)--THOMASINI (Luiz Assencio) Altero arbitrariamente a ordem do catalogo. Não julguem por isso que miro a uma classificação qualquer. Fôra difficil, senão impossivel, apresentar uma, natural e logica, n’um tempo e n’um logar em que imperam tantos elementos diversos,--heterogeneos até. Entrando na Exposição de 1836, dizia Alfredo de Musset: «_De quoi est-on d’abord frappé?_ «Nada de homogeneo, nenhuns pensamentos communs, nenhuma eschola, nenhuma _familia_, laço algum entre os artistas na escolha dos assumptos como na fórma. «Cada pintor apresenta-se isolado, e não sómente cada pintor, mas muitas vezes até cada quadro do mesmo pintor. As telas expostas ao publico não têem geralmente nem mães, nem irmãs; julga-se a gente n’aquelles tempos de decadencia em que a eschola bolonheza, querendo reunir todas as que distinguiam Florença, Roma e Veneza, acarretou ás artes tanta confusão.» Juntando os nomes dos dois conhecidos pintores de _marinhas_, não miro a constituir com elles um grupo, ou com estas uma familia artistica. Faço isto simplesmente por que o assumpto, o _genero_, se querem, tractado pelos dois artistas é o mesmo, o mesmo aproximadamente teria eu que dizer d’ambos e porque no pleito artistico que parece andar de ha muito travado entre elles, ha porventura injustiça de juizes que convém desfazer, erros e preconceitos dos contendores que bom é por interesses d’elles rectificar. Não ha intenção de systematisar. Thomasini, homem do mar, dizem-me que lança mão do pincel para registrar na tela as impressões e reminiscencias pessoaes da sua vida laboriosa. Tem visto sorrir-lhe lisongeiramente a criticasinha leviana e parcial da nossa terra, e aureolar-lhe o nome uma certa popularidade inculta e inconsciente que,--ainda assim,--satisfaz as vanidades de quem não se ala em illustrado criterio muito acima d’ella. Thomasini tem sido um artista feliz e ainda bem que o tem sido e é, porque mais afoitamente lhe podemos pedir contas dos incitamentos que tem recebido, dos applausos que lhe têem dispensado, do renome emfim em que lhe andam guindadas as telas. Com Pedroso não acontece o mesmo. Artista trabalhador, modesto como poucos, obscuro como tantos que trabalham e estudam, não tem que justificar uma reputação laureada de encomios e pasmos; não temos que lhe pedir contas por um nome thuribulado e glosado nos _outeiros_ em que se glosa quotidianamente o vocabulario panegyrista. É escusado dizer porque Pedroso não anda bifurcado n’uma reputação entufada. Não rememoremos miserias da nossa pobre vida artistica. Mas o que é certo é que dois quadros de Thomasini na presente exposição: «Trovoada no Rio de Janeiro» e «A corveta» abalariam a reputação mais solidamente architectada, e não me parece que as outras telas expostas, d’este artista, possam fazer esquecer aquellas lamentaveis quedas. Na «Trovoada» as duas _pinceladas_ amarellas e vermelhas que sabem d’um céo cinzento, e chato, e que se quer fazer passarem por dois raios convergindo para fulminar uma pobre barcaça que baloiça n’um mar opaco, são d’um tristissimo effeito e não abonam nem o criterio nem a technica do pintor. Ri-se a gente d’aquillo e pergunta: «Ha _tænia_ no Olympo?» O desenho do quadro não é mau; é até geralmente bom: os longes estão soffrivelmente tractados, e podiam ser excellentes os ares ... se as tintas estivessem bem postas. Mas os raios! No fixar,--deixem dizer assim,--a «vida em acção», na representação d’um momento dramatico da natureza como da sociedade ou do homem, as artes opticas, por conveniencia, por necessidade da propria unidade de composição e expressão, da propria verdade representativa, pelas condições da peculiar indole e recursos, têem que pôr de parte certos incidentes, que demais são implicitamente denunciados pela acção traduzida, e cuja representação seria uma falsidade, um absurdo, um effeito contra-producente. Entre elles estão os que pela sua instantibilidade inapreciavel por assim dizer, e pela sua natureza intangivel, não se prestam á representação permanente, á fixação, á determinação plastica. Que ha de commum, de semelhante, n’uma pincelada caprichosa, amarella e vermelha, suspensa permanentemente sobre um objecto, com o instantaneo e casual faiscar d’uma descarga electrica? Não é ridiculamente, audaciosamente falsa a representação? E que necessidade ha d’ella? Deixae que supponhamos o raio em vista d’aquelles bulcões tempestuosos. Precisaes para representar uma batalha, _pintar_ os milheiros de balas que se cruzam no ar? Esta fixação de instantaneos e consequentes incidentes não tem verdade esthetica e tiram-n’a á acção total, representada. Poderá talvez allegar-se que se tem _pintado_ muitas vezes raios. Assim poderá ser. Um disparate porém não justifica outro, e as condições criticas e concepcionaes da arte, não são hoje as d’outras eras. Demais, attenda-se a que se trata d’uma pintura, realista, ou d’_après-nature_. Continuemos, porém. O assumpto do quadro: «A corveta» é tirado do livro de versos «Ephemeros» de Gomes d’Amorim. Determina-se isto no catalogo. É uma explosão. Os versos são os seguintes: «_Abrem-se as vagas e um clarão terrivel Refulge sobre os mares! O espaço abala uma explosão horrivel E os tres navios voam pelos ares. Morrera satisfeito, O bravo portuguez amortalhado Nas quinas que levava sobre o peito!_» Póde _pintar-se_ isto?... A poesia tem meios de representação, instrumentos e effeitos bem diversos dos das artes opticas. Tem-se representado na tela, é verdade, muitas explosões e não vigoram completamente para o caso as considerações que ficam expostas atraz; note-se, comtudo, que geralmente se representam as explosões no meio da escuridão da noite, para pelo contraste se conseguir maior aproximação da verdade dos tons e effeitos. É uma convenção rasoavel. O «Cabo la Hogue» tem innegavelmente boas aguas, posto lhes falte uma certa diaphaneidade que difficil é encontrar nos nossos pintores de marinhas. O fundo é excellente. Ha certa harmonia e verdade de tons; a _mancha_ e o desenho são toleraveis. O mesmo acontece com o «Pernambuco de mar em fóra», titulo aliás equivoco. A «Bahia de todos os Santos» tem má perspectiva e soffriveis aguas. O «Arrogant», fragata ingleza, apresenta aguas mal desenhadas, picotadas de mais; bons fundos e bom desenho de navio. Na correcção do desenho naval é sempre Thomasini bem inferior a Pedroso. O quadro «O tenente Lopes d’Andrade» faz lembrar um outro do mesmo author, exposto ha tempos sob o titulo: «O patrão Joaquim Lopes». Onde estava o Joaquim Lopes? Onde está o tenente Lopes d’Andrade? Vê-se um navio desarvorado, um escaler que parece luctar com os vagalhões para o soccorrer e dois navios ao fundo. Isto é mais do que um homem, e o que é peior é que o homem não se vê. Consubstancia-se n’elle toda a acção? Nem é uma lisonja, porque é um absurdo. É tambem um quadro d’_illustração_ este. O catalogo refere-o ao n.^o 26 dos: «Annaes do Ultramar». As aguas estão soffrivelmente coloridas, os ares são bons, e o desenho dos navios é excellente. «A chegada» e o «Alagoas» têem bastantes incorrecções de desenho e colorido, mas bons fundos e ares. Thomasini não é de certo um auctor de marinhas consummado e falta-lhe muito para um completo artista. Tem porém um pincel arrojado; inspirado e eloquente por vezes, que precisa adquirir maior firmeza á custa de muito estudo. Á falta d’este junta-se a falta de criterio. É defeito geral entre nós, costumando de mais a mais exalçar-se o merecimento artistico pelas aberrações de concepção e pelo desprezo e carencia de cultura intellectual. Thomasini distanceia immenso de Newton na questão da verdade ou naturalismo da coloração. Ou não o procura ou escaceia-lhe o sentimento da côr _natural_. O caso é que quasi nunca a realisa. Não tem tambem clara consciencia das suas forças e das reservas e limites da arte que cultiva. Abalança-se a tentativas perigosas e a explorações impossiveis. Uma d’estas foi a d’aquella magnifica representação «camoniana» do Adamastor, na passagem do Cabo da Boa Esperança, ou das Tormentas. Quiz reunir a _illusão_ com a _realidade_ no mesmo ponto. Olhava-se para o quadro e via-se um Promontorio, isto é, a _realidade_ primeiro. Fixava-se mais attentamente, examinava-se, analysava-se e então é que se dava pelo que devia ser _illusão_ produzida pelo primeiro relancear a distancia; via-se então emfim que o Promontorio era o meio corpo d’um Gigante, o Adamastor. A illusão optica vinha depois da percepção exacta; curiosa mystificação! Fallemos agora de João Pedroso. O seu primeiro quadro n’esta Exposição é a «Noite d’inverno.» Paizagem ou marinha? Ambas as cousas, que nem ellas propriamente se differenceiam. Singelo e commovente quadro! Agua e céo, luz e azul, um braço de rio ou uma porção d’um lago, a lua derramando effluvios de luz nas aguas adormecidas, um barco grosseiro e dentro um pobre remador que parece extasiado ante aquelle formosissimo panorama. O céo não está limpido. Amontoam-se indecisamente as brumas e apenas--como n’uma clareira,--expande a lua o seu clarão suave e triste. Eis o quadro. Technicamente as tintas estão bem postas, os tons excellentemente estudados, o desenho é bom: emfim está tractado tudo com muito amor. Diga-se porém a verdade toda: ha pouca solidez de empaste e a perspectiva aerea não é irreprehensivel. Diz-se que houve exagero no emprego do azul. Parece-me injusta a accusação. Tenho amor a este quadro. Quasi o vi nascer e baptisei-o, a medo: «Uma noite d’inverno.» _La Muse est toujours belle ............................................ Car sa beauté pour nous c’est notre amour pour elle._ (A. DE MUSSET.) Ha no inverno noites d’aquellas, noites de luar alvissimo, de céo profundamente azul, d’ares finos e frios, de horisontes despidos da gaze d’emanações que ás vezes os envolve por noite estival. Soberbas noites! Não ha a volupia da brisa aquecida e perfumada, não ha a _morbidezza_ d’um luar tépido, sensual, permitam a expressão. A brisa traz-nos os frescores do pinheiral da encosta. Alenta, não amolece; vivifica, não embriaga, então. A lua ao erguer-se no horisonte não osculou um cimo requeimado. Mirou-se na chapada de neve da montanha. Sois as noites de trabalho, de energia, de pensamentos viris, dos fortes e puros amores, oh noites serenas de inverno! Perdoem a digressão. Nos quadros: «Corveta Estephania», «Esquadra ingleza», «Galeota hollandeza», «Vista da esquadra franceza em Spithead» e n’outros, o _pintor de marinhas_ se não desapparece, apresenta uma feição peculiar que está longe de satisfazer a arte nas suas melhores inspirações, não como ella se toma ás vezes, mas como e no que é realmente. Pedroso apresenta-se-nos simplesmente como um retratista--copista de navios. E admiravel retratista decerto! Que correcção de desenho, que exactidão e cuidado na representação do modêlo! Nem uma adriça de menos, nem um _cadernal_ a mais, quasi; as proporções da _guinda_ perfeitamente guardadas, o _massame_ cuidadosamente estudado, as fórmas contornadas com a mão firme e exacta. Ha, porém, nos quadros que mencionei, outros merecimentos. Por vezes as aguas e os ares são excellentemente tocados, e geralmente as tintas bem postas e bem harmonisados os tons. A «Fragata couraçada sahindo o Tejo» é um modêlo de desenho naval. Os ares, porém, estão mal estudados e o effeito da luz e do sol que desce no horisonte é realisado por tons exageradamente violentos e falsos. Os effeitos dos raios solares constituem grave difficuldade com que Pedroso lucta persistentemente, perigoso problema com que teima em arcar. Louvavel teimosia é de certo. A arte é uma Sphinx tão terrivel e embaraçadora, como a da mythologia. E Sphinx que tem alguma cousa da hydra de Lerno. Não propõe um problema; apresenta mil. Resolvido um, acode logo outro e outro. Surge uma cabeça por cada cabeça cortada. Onde está Œdipo? Onde está o Hercules? «Querena no Tejo», é quadro que reclama de certo mais estudo e mais cuidado, mas que ainda assim tem notaveis merecimentos. O desenho é excellente, o fogo está bem representado e o luar tem verdade. «Aguaceiro», «Navio corrido», «Ericeira», «Piloto do Havre», «A enxugar o panno», «Chalupa», «Á entrada do Havre», são quadros da eschola hollandeza de marinhas, que honram por vezes o auctor e lhe aconselham outras tantas mais estudo da natureza, muita constancia n’aquelle e muito amor a esta. Na «Vista do Tejo», ha tons exagerados. O «Aguaceiro» é um excellente quadro. Não me recordo se o _conselho dos competentes_ concedeu alguma medalha ao artista de que me estou occupando. Importa isso pouco. Que é um artista de merecimento, muito trabalhador e muito estudioso, é que importa que todos saibam, para fustigar com o exemplo as reputações adormecidas sobre os louros comprados ou colhidos nos quintalejos do compadrio e da _claque_. XII PEREIRA (Antonio Joaquim Gonçalves)--PRIETO (Joaquim) QUIGILCAR (D. Maria Pereira). Pena tenho eu que o unico quadro exposto de Pereira, seja um quadro mediocre. É uma paizagem. Atravez, porém, da inferioridade manifesta d’elle, denuncia-se um pincel, que póde, applicando-se, dar-nos cedo boas provas. Prieto anda com a _vocação_ errada. Não sei que espirito maligno lhe segredou um dia que abandonasse o genero: _natureza morta_ ou _bodegones_, que tão brilhantemente tractava, e o empurrou para a paizagem, e outros generos em que, apesar de toda a boa vontade que revela, não posso augurar-lhe triumpho. As suas paizagens marcam um retrocesso. O primeiro quadro que Prieto expõe é um _interior_. «Interior d’um castello» lhe chamou elle e não vale a pena pôr-lhe contradicta ao titulo. Quiz o artista provar-nos que sabia desenhar perspectiva e pintar architectura. Resolveu excellentemente a primeira parte do problema, mas emquanto á segunda ... esqueceu-se de provar-nos que sabia architectura. Construcção é termo correlativo, mas não é synonymo. Se o quadro se denominasse vagamente _um interior_, a responsabilidade n’aquelle sentido seria menor; mas dizer-nos que pintou o interior d’um castello e provar-nos o dito com uns pilares e abobadas e uma cadeia,--cousas excellentes n’um scenario de dramalhão ultra-romantico na Rua dos Condes, e umas figurinhas indecisas, etc., etc., é que é realmente importar-se pouco com o criterio do publico, e com a feição historica que o titulo parece denunciar. A perspectiva, porém, é boa, os effeitos de luz estão bem tractados; a mancha é excellente. «Azenha próximo á rua Frias (Bellas)», é uma das melhores paizagens de Prieto. Desenho correcto, boa harmonia de tons, tintas bem postas, bella illuminação e _massas_ verdes bem tocadas, maus ares: muita geometria _celeste_. «Paizagem tomada de Queluz», e «Paizagem e gado», são bellos quadros com os merecimentos e defeitos da que acabei de citar, indecisão e maneirismo de contorno. Mais quatro paizagens «no Alfeite», «em Ponte Pedrinha», «em Alverca», e «Margens do rio Nabão», quadros inferiores aos citados, completam a exposição d’este artista que pintava _bodegones_--como poucos ou nenhuns dos nossos artistas. Não me encanta o genero e mais estimava vêr Prieto primar nos que ora explora. Não me parece, porém, que o veja. «A alimentação» é o titulo do unico quadro de D. Maria da Silva Quigilcar. «A alimentação?» Um pão e um livro! Verdadeiro quadro symbolico, didactico ou philosophico: allemão. A idéa pela arte. Por aquella esquece a gente esta. Aquillo não é um _pastiche_, é uma concepção séria e moral. Technicamente o quadro póde valer de pouco, é producção d’um artista que começa; estheticamente vale de muito n’aquella admiravel singeleza. O titulo «Instrucção» no livro é que é um pleonasmo deploravel. XIII PINHEIRO (Manoel Maria Bordallo). Chama-se: «A prova do vinho novo», um dos quadros. É uma adega. A construcção denuncía gothicismo. Um _senhor_, um fidalgo vestido no gosto da epocha de Francisco I, aproximadamente, sentado n’uma poltrona antiga, parece ter vindo tomar contas aos seus _caseiros_,--deixem a palavra mais portugueza e menos humilhante que a de servos,--e provar o novo vinho dos seus vinhedos, após algum passeio ou caçada pelos arredores. Segura n’uma mão, que descansa em velha meza, um livro. Em pé, defronte d’elle, uma aldeona rechonchuda, boçal e acerejada, lança-lhe o vinho, d’um jarro que porventura destôa bem como outro que está no chão, da singeleza da scena que já não é das mais verosimeis, e da rudeza do _local_, pela luxaria das fórmas que parecem pertencer ao estylo de Cellini, e pelo metal do fabrico que semelha prata. Junto da moçoila, em pé tambem, em posição embaraçosa e humilde,--naturalissima,--com as duas mãos a segurarem nas abas do chapéo camponio que cahe sobre os joelhos, está um velho aldeão, em cujo rosto transparece o respeito tradiccional da dependencia convicta e a rusticidade ingenua da gente campesina. Esta é a scena. O colorido em geral é excellente e notavelmente vigoroso, e póde observar-se aqui ou ali alguma cousa da subtileza e desafogo da arte flamenga em que este quadro póde filiar-se. A luz e a sombra estão delicada e naturalmente distribuidas, e os trajes, como os accessorios, estão muito bem tratados. A expressão e contrastes de physionomias são cousas magnificas. «A Prova do Vinho Novo» é uma esplendida tentativa,--e das primeiras entre nós,--no genero em que Meissonier, sem exceder Metzu, imprimiu o cunho d’uma originalidade robusta e fecunda. É innegavelmente um dos primeiros quadros da Exposição, posto pareça não ter sido como tal considerado pelo criterio do _conselho dos competentes_. Escassissimo ou parcial criterio! E se ha a receiar em Bordallo os defeitos e aberrações em que tem cahido alguns discipulos de Meissonier, ha a reconhecer-lhe tambem o estudo, a boa vontade e a fina intelligencia de Chavet, _la plus heureuse victime_, como diz About do grande pintor de quadros microscopicos. Ha n’aquelle quadro, como em quasi todos d’este genero, de Bordallo, defeitos de perspectiva notaveis. Curiosa cousa! De Meissonier dizia em 1855 Theophilo Gauthier: «_Les seuls defauts qu’on pourrait relever chez lui, c’est de prendre en general despoints de perspective trop rapprochés et de ne pas faire flotter assez d’athmosphere autour de ses personnages: cela produit des lignes ascendantes désagréables; et fait venir les fonds en avant_...» Bordallo apresenta estes mesmos defeitos aggravados pela incorrecção do desenho de perspectiva linear, facto que eu não sei explicar em vista do trabalho minucioso e cuidadoso, do amor com que são tractados os accessorios e _detalhes_ que faz lembrar até o que de Granet dizia Musset em 1836. «O copo d’agua» é outro quadro no mesmo genero e menos singelo do que o titulo parece indicar. Um cavalleiro trajando á Luiz XV, segundo a accepção commum, sentado junto d’uma dama, a quem parece ter vindo fazer uma visita, toma d’uma bandeja que uma moçoila negra lhe apresenta, um copo d’agua; mais além um vulto de frade parecendo comer qualquer cousa; nos primeiros planos um gato adormecido e um traste que lhe é adequado; os fundos adornados de velhos quadros, etc. Eis o «copo d’agua». O desenho das figuras é correcto, o colorido vigoroso e estudado com um cuidado e amor que encanta. Os accessorios são admiraveis; citarei apenas os azulejos da parede á esquerda, e o quadro sacro que lhe está sobre-posto. As roupagens são n’um ou n’outro ponto uma maravilha. O mesmo apoucamento de espaço, d’_ar_, e a mesma incorrecção de perspectiva já citada, se observa aqui. O «Reclamo», quadro de diminutas dimensões tambem, é pintura de muita singeleza, naturalidade e frescôr, muito diversa de todas as composições, que conheço d’este artista e dos de quadros de _métier_ que por ahi vemos decantados. A este genero de _effeito_, antes que aos mentirosos effeitos de technica, deviam mirar certos artistas que só estudam em Troyon o processo e em Rose Bonheur o desenho. Um rapasola córado e alegre em trajes alemtejanos, n’uma velha janella com tendencias ogivaes, das que abundam nas estalagens provincianas,--tira d’uma flauta tosca alguma ariasinha campestre que vae annunciar á namorada a presença ou regresso do seu _bem_, como se diz na pittoresca e ás vezes tão expressiva locução rural. Ha tanta vida n’aquelle rosto franco e varonil, que se esquece quasi a gente de notar a _dureza_ exagerada da mão e a falta de relêvo n’alguns accessorios. E já que n’estes fallei, devo notar a roseira plantada n’uma caixa preza no peitoril da janella e a rosa branca n’um copo sobre aquelle. Concorrem para o effeito singelo e commovente do quadro e estão excellentemente tractadas. Esta rosa é quasi um symbolo. Lembra aquellas phrases de João Paulo: «A alma d’uma donzella semelha-se a uma rosa desabrochada: arrancae do calice uma só folha e todas as outras cahirão prestes.» «Juntae terra em redor da raiz que nutre esta planta delicada, mas não lh’a deixeis cahir no calice.» O desenho do quadro é em geral bom, o colorido muito estudado, apresentando uma suavidade e harmonia de tons que convergem para o effeito attrahente e immensamente sympathico do quadro. Bordallo parece tentar seguir a arte flamenga e hollandeza na exploração da vida domestica ou das phases obscuras e modestas da vida commum, n’alguns quadros recentes. É isto origem de muitos desdens e de muitas hesitações. O naturalismo franco, o ingenuo positivismo d’aquella chamada pintura flamenga e hollandeza,--e está-nos naturalmente acudindo á memoria o nome de Rembrandt,--não se casa com as _academias_, as _poses_ regulamentares ou phantasiosas, as convenções tradiccionaes ou as aberrações da arte classica ou romantica, ou eccletica, ou ambigua, que affirmando um ideal immobilista e ultra-natural, fixa as fórmulas de interpretação ou entrega esta á phantasia individual. Para a fórma como para o assumpto, para o sentimento esthetico como para a realisação plastica, ha um Deus Termino na velha critica artistica, desprezado o qual para passar além, cahe-se no _baixo_, no _grosseiro_, no _trivial_, profana-se a arte, rebaixa-se o artista, e conquistam-se os desdens e os anathemas dos aristocratas ou aristocratisadores da arte. E se mais complacente, como revolução, o romantismo permitte até certo ponto a exploração da vida real, commum, _humanisada_, é impondo-lhe alambicamentos e suppostos embellezamentos idealistas que a falseam e deturpam, é mutilando-a ou mascarando-a; é fazendo _a arte pela arte_. Decerto taes considerações, como outras que para traz ficam, mal podem applicar-se á nossa comesinha arte, que vive n’um circulo bem apoucado de doutrina e critica, mas o que é certo é que ellas explicam em grande parte as censuras e as hesitações de que fallamos, com relação a Bordallo. Não tem este larga força concepcional e larga illustração de criterio para umas e outras combater. A maioria das suas composições são insignificativas e phantasiosas. Geralmente póde applicar-se-lhe o que About dizia de Meissonier, guardadas as respectivas distancias: «_Précieux sans originalité, ingénieux sans imagination, adroit sans verve, serré sans puissance, élégant sans charme, subtil et fin plutot que délicat_...». Comtudo n’algumas outras composições ha pensamentos fecundos, inspiração sadia e propria, certa finalidade moral. Demais, Bordallo, é um innovador: enceta, tenta, tatêa. Não tem antecessores. Terá porém seguidores e fará victimas como o brilhante artista que acabei de citar. Não é a reducção das dimensões usuaes, a reducção da chamada grande pintura a pequenos quadros, a innovação mais importante decerto. Fortoul explica judiciosamente pelas condições climatericas,--causa mediata,--e pelas condições da _habitação_,--causa immediata,--a differença caracteristica de dimensões da pintura _profana_ do norte e do sul. O que mais ha a notar e admirar na pintura de Bordallo é o assumpto e a execução. Esta é d’uma minuciosidade escrupulosa e desesperadora, d’um toque, que, como diria About, á força de ser pertinaz quasi se torna impertinente, d’um colorido vigoroso, e trabalhado, imitando os nossos chamados quadros gothicos, etc. «_Il vide son sac dans chaque tableau et même dans chaque partie de tableau_.»[25] Os seus personagens trajam geralmente _costumes historicos_, mais ou menos phantasiosos. Os trajes modernos assustam ainda os artistas e de feito não se prestam facilmente a grandes effeitos e combinações de luz. Por isso procuram os artistas, entre elles, os mais pittorescos, ou lançam-se na phantasia mais ou menos franca. Ha n’isto muito de rotina e de apêgo ás tradições technicas e estheticas demais falseadas. FOOTNOTES: [Footnote 25: Ib.] XIV PINHEIRO (Raphael Bordallo) O unico _aguarellista_ que se apresenta na Exposição, é um moço neophyto n’este genero, que se póde dizer completamente abandonado entre nós. É Raphael Bordallo. Modestamente appellida elle as suas composições: «_Estudos a aguarella_», e formosos _estudos_ são decerto, que muito dão já e muito mais promettem. O «_Vendedor de phosphoros_», o «_Vendedor de palitos e rocas_», o «_Saloio_», o «_Jogo da marca_», e a «_Cabeça de estudo_», são producções brilhantes, que honram um pincel que mal começa agora a apresentar-se á critica, n’um genero que mal principia a conquistar logar modesto na nossa arte. Raphael não tem ainda a suavidade relativa de _tintas_ que caracterisa os mestres; os ares são exageradamente carregados; emfim o colorista _enragé_ do accidente como diria Veron, lucta com as exigencias e condições do genero. O desenho é geralmente indeciso ou mau. No «_Jogo da marca_», recente producção do sympathico artista, taes defeitos apparecem attenuados. É uma das melhores _aguarellas_ da Exposição. O grupo de rapazes está excellentemente estudado e apresenta no conjuncto e parcialmente um naturalismo encantador, deixem dizer assim, que é a principal belleza que Raphael Bordallo parece procurar. É mais do que um estudo. É uma bem estudada _aguarella_. Vi-a nascer quasi e foi ella que me consolidou as esperanças no talento d’este moço. Resta-lhe muito a fazer e principalmente muito a estudar. Raphael Bordallo é filho do artista de que precedentemente fallei: É uma familia d’artistas, aquella. Um outro filho, uma creança, ainda, maneia já o lapis com firmeza rarissima em mão infantil. XV RAMOS (Manoel Sanches) Por mais d’um motivo merece o artista hespanhol um artigo especial n’esta revista. Não póde elle ser tão desenvolvido quanto o requeria a _originalidade_ de pincel e assumpto que n’este artista se revela e o merecimento incontestavel d’elle, tudo correlativamente a esta exposição, já se vê. O primeiro quadro exposto é o que representa: «_A Virgem da Conceição_», reminiscencia de certo quadro bem conhecido de Murillo. É uma ascenção. O assumpto está tractado com notavel graciosidade, mimo e singeleza. Na pintura sacra do sul a plastica pagan impõe-se caracteristicamente. A concepção christã só a arte do norte a soube realisar nos tempos da sua fecunda autonomia esthetica, tempos de _renascença_ septentrional, como dizem os allemães; anteriores aos da _renascença_ do sul, lufada ardente que ao descer as serranias alpinas apaga na face pallida da Virgem gothica o clarão do extasis ascetico para lhe pôr nos labios o sorriso das Venus humanisadas e denunciar-lhe sob a tunica as fórmas das Phryneas. «Estas bellas santas, com a sua expressão christã--dizia Prudhon,[26]--me parecem seguramente mais bellas, que as deusas impassiveis dos Gregos ... Amo as santas de Raphael, apesar de santas, virgens, martyres e vestidas como são; o mesmo ainda da virgem Maria até ao seu casamento. Sim, fico amoroso d’esta bella e grande rapariga, imitada da Diana caçadora, e dada a um velho predestinado ao papel d’anjo guardião; não me acontece o mesmo das deusas antigas, apesar de nuas, nem de Diana, nem de Pallas, nem da Venus, etc. A _Madona_ só escapa ao meu amor pela criança que tem nos braços: é o respeito da maternidade que a salva.» «Por mais que se diga da arte ascetica, d’uma arte hostil ao culto da fórma, d’uma antithese da arte, se me atrevo a dizer assim, esta arte não é menos positiva e especifica; tem sua razão de ser, seu caracter, sua ideia, seu fim; produziu monumentos tão marcados com o cunho do genio como os dos gregos.» «Rachitica e chorosa nas suas figuras, monstruosa na sua architectura (vede esses botareos, contra-fortes, esses pilares giganteos servindo como de muletas ás abobadas vacillantes), ella affirma-se com tanta potencia e mais sublimidade que as suas antecessoras. A renascença como genialidade, originalidade, ideia artistica, fica-lhe inferior: é que no seu arrojo, na immensa maioria das suas producções, tem por fim alliar e fundar duas cousas as mais incompativeis, a espiritualidade do sentimento christão e a ideia das figuras gregas.» «Mixto de paganismo e espiritualidade ... attinge como a arte dos gregos o culto idolatrico da fórma. As Virgens de Raphael, se não são filhas de Venus, são menos filhas da compuncção: o _ar_ de espiritualidade que ha nas suas physionomias lucta com a sua belleza, o seu talhe, as suas mãos, os seus braços, o seu seio de nymphas. Menos divinas, mais humanas que as deusas do Olympo, inspiram um sentimento menos puro que o que se resente á vista d’uma estatua grega. A Venus de Milo, apesar de nua, é mais casta que a mais respeitavel das Madonas vestida até ao queixo e tendo nos braços o menino Jesus.»[27] De feito, como já atraz largamente se expôz, o _ascetismo_ da arte medival do norte traduz a espiritualidade christã; a concepção mystica da sobrenaturalidade por um lado e a degradação da materia por outro. O culto da plasticidade pagan, ou natural, corresponde a outro ideal, a outra concepção, e a sua alliança na renascença com a espiritualidade catholica prova simplesmente a dissolução, o derrocamento,--deixem assim dizer,--do modo de ser concepcional, collectivo, sem affirmar uma concepção nova. É a epocha das transformações, a epocha intermediaria e por isso eccletica e por isso da arte _ambigua_ como lhe chama Prudhon. Uma das autonomias mais accentuadas e caracteristicas da arte renascente do sul é a da pintura hespanhola, a da chamada eschola sevilhana principalmente. A idealidade da fórma envolve-se aqui n’uma religiosidade profunda, sincera, tradiccional, imaginosa até, que por causas complexas não attinge o ascetismo do norte nem se deixa dominar completamente pelo culto da plasticidade classica. É uma feição original, esta. Não chega, porém, a ser uma excepção ao que acaba de dizer-se. No fim de tudo o _meio_ impõe-se sempre á arte atravez do homem, e Murillo, o pintor popular e nacional, dá ás suas virgens o rosto das mulheres meridionaes «con sus rasgados e negros ojos, con su cútis moreno y con sus formas morbidas y sensuales»,[28] quer dizer: não renega na sua religiosidade o amor da fórma, o sentimento da carne emfim, a idealidade plastica, sensual, do meio-dia, não comprehende, não attinge o psychismo exclusivista christão. É um pintor catholico, e o catholicismo, attenda-se bem, é já a transformação do pensamento christão todo espiritualista, cujo _reino não é d’este mundo_, n’um pensamento social. N’esta differença está talvez em germen a reforma lutherana, producto genial do norte como o gothicismo. Simplesmente Murillo era um catholico profundamente crente, um filho d’aquelle povo «que creia servir á Dios quemando hereges»,[29] não tem o ascetismo do norte, mas não se deixa tambem absorver pelo classicismo pagan, e como nenhum pintor da renascença, sabia derramar sobre os seus personagens a luz d’uma beatitude ingenua, pura, que como que os isolava do mundo; dava a essas virgens de «formas morbidas y sensuales», «tanta idealidad sublime en la mirada, tanta dignidad en las actitudes, tanto recogimento en la espresion, que concluia por santificar aquellos mismos typos que en otras manos hubieran constituido ocasion de peligro sos estravios.» E o mesmo se póde dizer de Zurbaran e outros. Nos nossos tempos a pintura religiosa (catholica) corre mais perigos que nunca de falsidade, affectação e _pastiche_. Como feição collectiva é claro que não existe, como não existe arte pagan, nem arte alguma. É exactamente na carencia d’um ideal collectivo que está a feição e se querem a decadencia ou pelo menos a impotencia relativa da arte contemporanea. No acanhado individualismo das suas affirmações é tambem mais que duvidosa a verdade e espontaneidade da sua idealisação plastica. É por isso que nas poucas tentativas de pintura _catholica_ vemos simplesmente a apropriação mais ou menos disfarçada das velhas concepções, a _imitação_, quando não vemos a contrafacção e o _pastiche_ mercantil. É claro que ponho de parte a pequena parcella da pintura sacro-symbolica, ou da arte christã-racionalista a que falta a orthodoxia catholica. O Christo de Scheffer é pelo menos o Christo de Renan, e estas duas concepções artisticas não entram de certo no genero de que temos tratado. Voltemos porém atraz. Nas producções de Sanches denuncia-se muito trabalho de _copia_ dos mestres hespanhoes, de Murillo principalmente. Nas roupagens parece por vezes manifestar-se estudo de Zurbaran. Ha quadros porém de Sanches, d’uma precipitação e desleixo deploravel e em todos se vê falta de estudo do natural. A «Conceição» tem, como outros d’este artista, admiravel suavidade de contorno que quasi supprime a _linha_, doçura de expressão, bella e difficil harmonia de tons. As tintas estão bem postas geralmente, apresentando um certo macio e brilho pouco vulgares. O que se diz da «Conceição» póde dizer-se aproximadamente da «Nossa Senhora de Belem» e da «Divina Pastora». Como _retratista_, Sanches tem tambem bastante merecimento. Não pinta á Debufe nem escolhe o _incidente_ como certos retratistas. O desenho é geralmente bom e o colorido tem quasi sempre verdade. Os fundos é que ás vezes são mal escolhidos, provocando difficuldades d’harmonia com o que parece gostar de arrostar o artista; os accessorios pouco cuidadosamente estudados. Além d’estes ha ainda outros notaveis defeitos com outras bellezas nos retratos do «ex.^{mo} snr. Avellar» «Barão de Paiva Manso,» «ex.^{ma} snr.^a D. Carolina de N.», «D. Fernando Alegro», etc. FOOTNOTES: [Footnote 26: _Du principe de l’art_, etc.] [Footnote 27: _Prudhon_--«_Du principe de l’art_»--Paris 1865.--É curioso confrontar esta opinião de Prudhon com a de Carlos Lévêque, que decerto não está muito proximo d’elle em taes assumptos, mas que os estudou e conhece profundamente. Comparando a Venus da Farnésina á Venus de Milo, diz: «Os dois elementos rivaes são conciliados pelo sacrificio reciproco das suas pretenções extremas. Do paganismo, Raphael separou esta plasticidade que chama sobre si propria a vista; do mysticismo afastou o tosco e a austeridade. Não ha já entre o sentimento dos seus personagens e as suas fórmas corporeas senão uma consonancia suave. Os pagãos se revivessem não encontrariam tudo o que era seu e lamentariam um certo accrescimo de vitalidade _frémissante_. «Pelo contrario as almas devotas até ao ascetismo murmuravam já no seculo XVI e prantêam ainda hoje esta brilhante reintegração da fórma.» Isto com relação á obra raphaelesca que, diz Lévêque, «reconciliou Venus com Psyché e o corpo com a alma deixando a preeminencia a esta.» De Leonardo de Vinci porém, que não tem na sua opinião a «intuição da plasticidade eloquente e pura», diz: «Muito voluptuosa e não assás bella, a sua _Leda_ tem as coxas robustas, o busto curto e a expressão sensual. Para as mais diversas cabeças este mestre tão habil não tem mais que um sorriso, o sorriso fascinador e perturbador da _Monna Lisa_, que a gente se admira de ver brincar na bôca da Virgem e nos labios mysticos e maternaes de Santa Anna.» (_C. Lévêque_--«L’œuvre paienne de Raphael.»--Revue des deux mond. An. XXXVIII). Grave erro ha porém n’estas comparações da _estatuaria_ grega com a _pintura_ christã. As duas artes teem elementos diversos que implicam diversos effeitos estheticos.] [Footnote 28: _D. Francisco Tubino_--«Murillo; su época, su vida, sus quadros. Sevilla--1864.] [Footnote 29: Ib.] XVI REIS (D. Maria Guilhermina da Silva)--ROMA (D. Amelia Virginia)--SPERLING (Mad.)--TOLEDO (J. Garcia de). D. Maria Reis, manifesta innegavelmente progressos notaveis e manifesta um pincel firme e estudioso, e fecunda esthesia. Promette seguir de perto Newton (Izaias) e tomando tão excellente guia não terá com certeza a registrar desastre como o d’este anno no seu quadro: _Os patos no tanque_. Lave a talentosa artista a tela que desperdiçou n’aquillo e não se irrite injustamente com a critica, que por isso que é conscienciosa, lhe pede cousa melhor do que aquelle malfadado quadro, porque sabe que muito melhor póde a artista produzir. Dos criticos diz Ed. About, que teem: «_ ...pour ennemis naturels tous les artistes qui fond bien et que pourraient faire mieux. Leur devoir est de fondre sur eux sans déclarations de guerre, de les harceler á toute heure et de leur pousser l’epée dans les reins, jusqu’a ce qu’ils aient santé le fossé qui les sépare de la perfection._» Ora em outros quadros de D. Maria Reis, tenho eu a prova de que esta artista póde _faire-mieux_ e de que a critica se não deve alimentar a esperança de a vêr saltar o fosso que a separa da supposta perfeição que sonha About, póde esperar que não se despenhe n’elle. _Arrabaldes de Cintra_ é um quadro a que não faltam de certo bellezas, que bem compensam os defeitos. Bom desenho, magnificos _longes_, soffriveis _ares_ e o colorido suave e harmonico. _Paizagem no Linho_, _A manhã_, e _O pastor dando agua ao gado_, são quadros de incontestavel merecimento. Geralmente os primeiros planos dos quadros d’esta artista são maus, ao passo que os ultimos admiravelmente _tocados_ e estudados quasi sempre. Os quadros de D. Amelia Roma denunciam uma certa _feminilidade_,--permittam-me a expressão,--de pincel gracioso e elegante, que mais encantaria se o assumpto denunciasse mais cultivada esthesia ou mais elevada inspiração. N’este ponto,--diga-se a verdade,--todas as artistas da exposição foram excedidas pela sua distincta collega Quigilcar. Apezar do quadro: _A mesa de gabinete_, que tem muitas bellezas technicas, a artista de que ora trato parece dedicar-se apenas aos _bodegones_ ou quadros de _natureza-morta_, de que apresenta dois exemplares, que não chamarei magnificos, depois de ter dado epitheto egual á pintura de Lessere, mas que decerto promettem muito e denunciam já um pincel consciencioso e fecundo. O quadro: _O monte Branco, visto da aldeia de Chamounix_, é uma soberba paizagem que passou quasi desapercebida para o publico da exposição. É que como diz o critico que acima citei, _le public des expositions court aux peintures bruyantes comme dans les rues ... la foule s’attroupe au tour d’une maison où l’on crie_. Pois o quadro de mad. Sperling, em desenho como em colorido, pouco deixa a desejar. É uma habil artista. É um paizagenista notavel Toledo. Ha nos seus quadros uma certa illuminação monotona e fria que não parece ser de pintor nascido n’este calido ambiente de luz meridional. Os seus quadros teem todos aquelle cunho. Esta _identidade_ constante, que como diz Musset, difficulta muito a critica, não é decerto simplesmente um defeito de pincel. Toledo, verdadeira antithese de Christino, é comtudo como elle um artista que _ne peut lever la main sans que sa main le trahisse et sans que son œuvre ne le nomme_.[30] Desapparece por vezes a verdade da natureza n’esta personalidade da arte. A _Serra Nevada_ porém é um excellente quadro. A _mancha_ é geralmente boa, o desenho correcto, e os _ares_ pouco deixam a desejar. Não lhe é inferior o quadro _Sobreiras_, o que já não acontece com a _Paizagem com gado_, etc. O _ar_ é uma das grandes difficuldades da technica pictorica e onde os _processos_ melhor podem comprovar as suas vantagens relativas. E assim a _agua_ tambem. Para o pintor é bem verdadeira a phrase do grande poeta inglez: _perfida como a onda_. FOOTNOTES: [Footnote 30: Alf. de Musset, _Salon de 1836_.] XVII REZENDE (Francisco José) Rezende é uma charada. Se para _conceito_ me derem o seu quadro: _A procissão das almas_, injusta e vergonhosamente deprimido pelo _conselho dos competentes_, não hesitarei apesar d’um ou outro defeito do quadro em achar como _decifração_ um artista notavel, um verdadeiro artista como poucos o são n’esta terra. Se me derem o _Camões salvando os Luziadas_, encontrarei n’elle um artista mediocre. Que grande distancia! Percorrendo-a porém cuidadosa e imparcialmente, a conclusão critica será um _mezzo termine_: Rezende é um verdadeiro artista, mas não é nem um artista eximio nem um artista mediocre. Professor de pintura _historica_, a pintura historica,--tomada n’um sentido restricto que não é porventura o exacto,--póde dizer-lhe, como se diz no _Bajezet_: «_Tu ne saurais jamais prononcer que tu m’aimes._» O «Camões salvando os Lusiadas» é um _pastiche_ mentiroso e feio. Imaginem um homem corpulento, um naufrago,--diz o pintor,--sem expressão adequada, segurando-se com uma mão á borda d’um rochedo mal desenhado e mal colorido, e com o pé commodamente collocado n’um madeiro que sahe _ad hoc_ das suppostas aguas revoltas ao sopro da tempestade. O homem está voltado de frente para o publico e tem na mão direita convenientemente atirada para o que deve ser céo, como é do estylo, um rolo que póde imaginar-se ser de pergaminho. Adivinha-se que está alli o poema, e fica-se sabendo,--lendo o catalogo,--que aquelle homem é Camões. Ainda d’esta vez o pobre poeta não tem que agradecer aos artistas da sua terra. Depois do Camões do Loreto.... A espuma das ondas que por _convenção_ quebram somente a um canto do quadro, é um empaste de tinta d’um absurdo inexcedivel. A _mancha_ em geral é má e o desenho é parcialmente bom. O colorido é falso como a composição. «Jeremias» e «S. Paulo», são duas cabeças de estudo, estudos cheios de exaggeros e falsidades myologicas, mas onde não faltam tambem algumas bellezas. Os titulos são uma arbitrariedade artistica que seria insignificante e pueril se não representasse uma arrojada pretenção _manquée_. Quiz-se talvez condensar n’aquellas duas cabeças dois caracteres, dois genios, duas naturezas profundamente distinctas, acentuadas e exuberantes. «A Procissão das almas», é um quadro admiravel. Ha cinco ou seis figuras alli que bastam para fazer a reputação d’um artista. É um dos melhores quadros da Exposição. Mas n’este mesmo quadro manifesta Rezende a irregularidade de esthesia e de technica que é o principal e lamentavel defeito do talentoso artista. E note-se que não sou dos que mais se revoltam contra uma pequena _boneca_ que Rezende collocou a meio da sua composição, uma creança _cidadan_ que poderia servir de soffrivel contraste, se mais cuidado tivesse o auctor empregado n’elle. Ha aqui ou alli pequenos defeitos de desenho e composição, e soberbas difficuldades de harmonia vencidas por mão de mestre. «A caridade filial», «Camponezas de Braga e Vianna», «A indigencia», têem grandes incorreções de desenho e solidas bellezas de colorido e composição, apresentando um cunho sympathico e vigoroso de naturalismo que não é vulgar entre nós. XVIII RODRIGUES (José) O «Malmequer» é um mau quadro que podia ser um quadro excellente se o author attendesse mais á expressão que ao effeito do colorido, mais á verdade da natureza que á technica e á _convenção_. É a historia tantas vezes repetida de amorosa donzella que pede á flôr campesina o segredo d’um coração por cujo amor anhela. A palavra fatidica _malmequer_ foi a resposta da ultima folha cahida no regaço. No quadro em questão a enamorada donzella é uma mulher avermelhada, não sabemos se por abundancia de saude, se por voluptuosos desejos, se por epidemica enfermidade, contrastando-lhe desagradavelmente o acerejado das faces com a expressão d’intima tristeza, d’indizivel saudade que o artista soube dar-lhe magnificamente ao olhar scismador. Traja exoticas vestiduras de côres vivas e feias, não se perdendo apesar d’isso a harmonia do colorido, mas revelando-se mais ainda a falta de harmonia de expressão que é o grande defeito do quadro. «Os peixes» é um quadro admiravel. É dos taes que têem o «_brio des belles choses_». Desenho e colorido maravilham pela verdade e pelo estudo que patenteiam, e Rodrigues póde bem registrar n’esta soberba composição uma gloria do seu pincel. De todos os pintores da Exposição é seguramente este o que menos denuncia uma especialisação artistica, posto que o retrato seja geralmente como o genero em que prima. Talento vasto, pincel fecundo e inspirado por vezes, imaginação delicada e vontade energica para o estudo, Rodrigues é um dos nossos artistas que mais promettem dar para a arte nacional contemporanea se aquellas qualidades brilhantes lhe não forem atrophiadas, como a outros tem acontecido, pelo orgulho pedante e infecundo soprado sobre a tela pela critica parva e inconsciente das nossas theocracias litterarias, que felizmente para todos, vão sendo diariamente cerceadas e reduzidas ás suas justas proporções. «Penhascos da Mancha», «Dois marroquinos», «O antigo vendedor de agriões em Cintra», «O rapaz pedinte», e «A sésta do porco», são quadros que bem mereciam minuciosa crítica, que encerram numerosas bellezas e que confirmam os bons creditos de Rodrigues. Aquelle encyclopedismo artistico,--permittam-me a expressão--podia bem ser um _tour de force_, que o mercantilismo actual da arte justificasse e a verdadeira crítica tivesse de lastimar. Mas não é. Sem aconselhar a Rodrigues que inscreva sobre o portal da sua officina o _De omnibus rebus et quibus dei alius_, desejo sinceramente que elle se conserve independente dos exaggeros anti-estheticos do exclusivismo e da especialisação. A _Scena oriental_, excepção feita d’alguns accessorios, é um quadro _quasi_ mediocre. E já que fallei em accessorios, direi que o accessorio é o grande vicio e a grande virtude, o grande defeito e a grande belleza do pincel de Rodrigues. Parece isto um paradoxo e não é. Ninguem entre nós, como este artista, sabe pintar os accessorios, a não ser Bordallo, pae. Ninguem porém como Rodrigues esquece por elles o assumpto principal. Vêde-lhes os retratos. São d’um artista que se dedica fanaticamente _au culte de la dentelle et du satin_, como diz About. No _Retrato de D. Pedro V_ o rosto não tem vida, mas que immensa distancia não vae d’aquellas douraduras da farda aos _amarellos_ da do retrato do rei D. Luiz. Que cuidados, que estudo minucioso dos accessorios! Os _Retratos do snr. Y. Y. e sua esposa_ dão honra ao author. O defeito porém lá apparece tambem. Lá se revela tambem a brilhante qualidade. Rodrigues é retratista do accessorio, como outro artista da Exposição se revela retratista do incidente. O genero é difficil e está sujeito a estas aberrações. O verdadeiro retrato não é aquillo, mas diga-se a verdade: Nunes (no retrato do padre Antonio Vieira), Ramos e Rodrigues são os unicos retratistas toleraveis da Exposição, os que mais se aproximam da verdade do genero. O _Retrato de Henrique Feijó da Costa_ é excellente. _O guarda da linha ferrea_ é um quadro mediocre. Tem seus pontos de contacto com o quadro da _tœnia_ olympica de Thomasini. XIX Esculptura.--Desenhos.--Gravura.--Photographia. Calmels (Anatole Celestin) parece-me um esculptor consummado. Technicamente o busto do rei D. Luiz está excellentemente trabalhado, e os _Retratos dos filhos do snr. J. Larcher_ (medalhão em gesso) é um soberbo specimen. _Mais um anjo no céo_, é uma composição allegorica representando uma mãe pranteando junto d’um berço que a morte tornou solitario, e um anjo de proporções porventura relativamente exageradas, que leva nos braços a creança que se finou. É pouco mais ou menos que uma banalidade de necrologio. A posição da aza esquerda do celeste raptor é falsa: sacrificou-se a verdade á _convenção_ technica. O quadro está bem trabalhado. O _Amor da patria_, estatua em gesso de Nunes, é uma outra composição allegorica, cujo sentido não se adivinharia se o catalogo o não désse. Inconvenientes do genero. É um ferrabraz de capacete e corpo semi-nu, se bem me lembro, especie de Leonidas mestiço, como se aprazem os artistas sempre em symbolisar-nos o patrio amor. Cópia de cópia é a que se reduz esta arte _symbolica_, insignifica e mentirosa do nosso tempo. Lembram-me os nossos Mirabeau de casaca e luva branca que precisam despertar a fecundia e estimular a inspiração com alguns copos de cognac de Champagne, antes de fazer estremecer a fibra patriotica aos burguezes do bairro já preparados convenientemente pelos hymnos de qualquer phylarmonica, para o embasbacamento ante os feitos dos seus maiores. Segredos do officio. Tambem Napoleão recommendava aos seus quarteis-mestres o cuidadoso fornecimento d’agua-ardente, optimo estimulante de grandes enthusiasmos na soldadesca. É pois geralmente a que se reduz a arte _symbolica_ do nosso tempo: cópia de cópia, machina de _effeitos_, adulação e convenção. Fallece a inspiração sincera, desassombrada, vigorosa, porque escassea a crença, a convicção profunda, o _ideal_. Substitue-o a _academia_, o modêlo, o canon consagrado, a iconographia. Ha livros que ensinam como se ha de representar o amor patrio, o amor filial, todas as grandes paixões, ou antes todas as grandes existencias psychicas. Ha compendios para isto tudo. Depois, tal mestre _personalisou_, symbolisou por tal fórma tal paixão. _Abyssus, abysmum invocat._ Este é o extremo abysmo da arte. Mas emfim ha excepções. Uma, brilhantissima conheço: é Scheffer. Technicamente o trabalho de Nunes é uma maravilha de artista obscuro e trabalhador e uma das melhores cousas da Exposição. Brilhantemente se apresentam tambem os dois alumnos da Academia, Sá e Silva. O busto em gesso do primeiro é obra de mestre. Os desenhos de Keil confirmam as boas esperanças que a proposito d’este talentoso artista manifestei em artigo anterior. _Silva_ (Caetano Alberto da) é um gravador estudioso e delicado. Pelo menos como tal se apresenta nos trabalhos que expõe, trabalhos onde a par de muitos defeitos, não faltam bellezas. _Guimarães_ (João V. Pereira) expõe quatro photographias, representando os quatro quadros expostos de Annunciação. Provam bom estudo e promettem progresso. Pardal e filho (A. C.) confirmam uma vez mais a boa conta em que todos os teem de excellentes photographos. As suas photographias revelam estudo e boa vontade de progredir. As photographias de Relvas (Carlos) encantaram justamente o publico da Exposição. São esplendidas. Hombreiam muitas d’ellas com as melhores photographias inglezas e austriacas. Bem mereciam decerto um artigo especial e longo fôra elle se minuciosamente quizesse eu registrar todas as bellezas d’aquelles magnificos exemplares. A photographia não é decerto uma arte na mais elevada ou restricta accepção da palavra, e bem andou o conselho em fechar a Exposição ao diluvio de retratos com que o _processo_ photographico ameaçava invadil-a, mas as photographias do eximio _amador_ Relvas é que mereciam bem a excepção, e tinham direito a figurar ali. Isto mesmo deveriam reconhecer os despeitados, que melhor andariam promovendo uma exposição de photographias do que gastando tempo e tinta era manifestações d’injusto resentimento. D’alguns sabemos que fariam ali esplendida figura. SEGUNDA PARTE SEGUNDA PARTE I LIVROS E PALCOS Vieira de Castro--A REPUBLICA--2.^a edição--Porto, typographia Lusitana--1869--8.^o--50 paginas. A _casta_ é um producto sociologico. Geral e natural por tanto. Variavel na phenomenologia da lenda, evolutivo como elemento historico, encontramol-o sempre,--quasi imperceptivel ás vezes, distincto e robusto outras, como que annunciando anterioridades fecundas na genese das civilisacões. Ou ande mysteriosamente occulto no casulo da tradição theogonica, ou alteado nos appareça na evolução social ou nos cataclysmos politicos; quer se ampare á _lei_, quer se arrime ao _costume_, quer se traduza no _preconceito_, quer se explique pelas condições do meio social ou por uma especie de atavismo, como o que perpetua as variações morphologicas, physiologicas e pathologicas da _familia_ á custa da uniformidade da _raça_, ou as d’esta, á custa da uniformidade da _especie_,[31] o certo é que não podem olhos perspicazes e desanuviados deixarem de topar na _casta_ quando se entranharem pela historia philosophica das civilisações que foram e das civilisações que são. A evolução, lei fatal do Todo, como da infinitissima parte, regula naturalmente o modo de ser organico e funccional d’este elemento sociologico. Altera-se, modifica-se, transforma-se-lhes pois a denominação, com o modo de ser, atravez do espaço e do tempo, e a isto naturalmente se deve attribuir o andar a _casta_ registrada como uma caracteristica de civilisações já findas, quando é facto permanente, na historiographia das civilisações. Brahmane, Katria, Vassya sahiram do proprio corpo do Deus hindu. _Soudra_ nasceu-lhe do pé, e aos pés rojará. Soudra é o _escravo_ como Vassya o _burguez_. A _casta_ é uma ficção da lei? Não. Ali, como n’outras partes, as _castas_ são como as camadas geologicas. Na India como no Egypto a lei confirma o facto, regula-o, procura ás vezes obstar-lhe á natural evolução. Um monarcha egypciaco[32] prohibe a invasão mutua de _castas_, a passagem dos individuos de umas para outras. Que significa isto? Que tal invasão se realisava, que se dava tal passagem, que se modificava a _casta_. Não ha elementos immobilistas na historia, como os não ha na natureza. A _lei_ é um absurdo quando brada a um elemento social: «não passarás d’aqui.» Passemos da India ... á Scandinavia. A distancia é enorme. Enorme no tempo como no espaço. _Thræl_ é o _escravo_, o miseravel, o preguiçoso, o esfarrapado: «faz as sebes, arrotêa os campos, cuida dos porcos, guarda as cabras, remeche os estercos.»[33] A mulher d’elle chama-se a _serva_. _Karl_ é o _burguez_, o homem, o colono, o operario, o artista. Doma o boi, faz a charrua, construe a casa de madeira, edifica a granja, fabrica o carro.[34] A esposa chama-se: a _diligente_. _Jarl_ é o _nobre_. Caça, combate, nada. Heimdall (o _Rig_, o forte) chama-lhe filho, dá-lhe o nome, terras _hereditarias_, moradias antigas. Mas notae bem. Filhos de _Rig_ são Thræl, Karl e Jarl, como filhos de Brahma são o Soudra, Vassya, Katrya e Brahmane. É curioso isto. Jarl casa com a filha de Herser (o barão.) O ultimo filho dos dois é _Konr_, o chefe, o rei. A lenda e a historia explicam-se, e confirmam-se. Uma vez reconhecidas as _castas_ como elementos permanentes e evolutivos da historia, facil é percebel-as a presidirem á vida politica das sociedades, a dar-lhes a formula governativa, ou singularmente ou alliadas umas para se imporem ás outras, pelas proprias condições etiologicas, ou pelas variaveis circumstancias da evolução. Theocracia, aristocracia, monarchia, etc. etc., não serão formulas politicas diversas do predominio de diversas _castas_? Não vamos muito longe. O _feudalismo_ é o predominio do _Jarl_, do nobre, convertido em _Herser_, o barão. _Karl_, o burguez, reage, lucta; _Konr_, allia-se com elle para dominar os irmãos; vence, graças ao auxilio, e acaba por dominar os auxiliares, menos pela força propria, do que pela tibieza d’estes. Isto é,--com as naturaes variantes,--a historia moderna da Europa. O feudalismo morreu. A burguezia municipal depôz as armas e abdicou os foros. Estamos na monarchia pura. Não desappareceram as _castas_. Simplesmente o dominio politico passou para uma _casta_ nova, a casta real, se póde dizer-se assim. Impera _Konr_, por _direito divino_. Os mais laços que o prendiam á ascendencia de _Jarl_, romperam-se na esphera politica. Uma cousa me esqueceu n’este rapido relancear retrospectivo. O _thræl_ não é já o escravo. É o _servo_. Progresso grande. Como se realisou? É longo isto. Não cabe aqui narração tamanha. É uma historia enorme: sombria e esplendente, ensopada de sangue e de prantos, enramalhetada de palmas, intercortada por hosannas e triumphos. É o grande triumpho e o grande martyrologio. O homem emancipa-se do homem. Escravidão horrenda, inaudita, absurda. Emancipação em que só ha emancipados, se bem se averiguar. Está completa já? Não. O proletario existe, e o _proletario_ é o servo d’hontem. Novo progresso, progresso immenso, mas progresso incompleto. Olhae bem para o _velho regimen_. O nome traduz uma época. É o segundo capitulo da historia novissima. O primeiro é o feudalismo medival. É claro que fallamos da historia politica. No _velho regimen_ a casta subsiste. Já o dissemos. Modificada, transformada, adaptada ás novas condições do novo meio, é certo, mas distincta e robusta ainda na esphera politica. A _realeza_ é o ápice da pyramide. Temos porém a aristocracia, o sacerdocio, casta anómala e esphacelada já, fundindo-se n’aquella umas vezes, procurando em todas um apoio e um terreno de exploração; a _burguezia_, arrimada ao capital e ao trabalho, crescendo, alargando-se, invadindo as regiões superiores, preparando-se para as conquistar de todo; o proletariato, familia enorme em lucta intestina, soffrendo com a burguezia sêde e fome de liberdade e justiça, confundindo-se com ella nas aspirações e queixumes, illustrando-se, discutindo, observando e preparando-se.... Vêde o _interesse positivo_ progredindo, ramificando-se, desenvolvendo-se, e o _privilegio_ a sopeal-o, a amarrotal-o, a opprimil-o. O _privilegio_ é a confirmação legal da _casta_. Quando o _privilegio_ desapparece da lei, a _casta_ desappareceu da acção politica. Surgiu a _democracia_, o governo de todos por todos. Tal é a verdadeira _democracia_. Transforma-se a _idéa_ social. A collectividade legisla para si. Extrema-se a acção d’ella, a acção da _classe_ ou da _corporação_,--digamos a palavra, que é tempo,--extrema-se a acção do _individuo_. O verdadeiro equilibrio social é este. A _democracia_ será isto. A casta não morreu. Soffreu uma modificação mais. Deixou de ser _usurpadora_. Não invadirá o terreno da _collectividade_. Esta não poderá tambem invadir o terreno d’aquella, e nenhuma o _direito_ individual, o direito primo, o maximo direito. Vae longa esta digressão e nem por isso tem sido tão demorada e desenvolvida como o reclama a variedade e vastidão do terreno e a consciencia do estudo. Denunciamos atraz como ia caminhando a evolução que havia de romper o equilibrio, naturalmente instavel do predominio politico de certa ou certas _castas_. Um grande facto, um cataclysmo enorme, parece precipitar o resultado final da evolução. Esse cataclysmo chama-se a revolução franceza. Outras irrupções annunciaram a irrupção. Basta citar duas bem conhecidas: a revolução religiosa do seculo XVI, e a revolução ingleza. Não nos demoremos aqui. Não tem faltado quem apedreje a grande revolução. Não tem faltado, quem atire com as mãos contrahidas por uma colera que se nem sempre é justa, é justificada quasi sempre, punhados de lama á epopêa grandiosa escripta em letras de sangue e fogo, pelo seculo XVIII. Tem corrido, abundante, o pranto sobre as cabeças esmigalhadas pelo vendaval tremendo, e chovem ainda os insultos, sobre a memoria dos grandes homens que elle converteu em grandes assassinos. Ha prantos que indignam pelo exclusivismo absurdo do sentimento que os provoca. Ha insultos que enojam pela parcialidade da indignação que os produz. Ainda ha pouco, vimos saturar-se de lamurias a praça, a imprensa e a tribuna, por que um invasor atrevido, um usurpador insensato, baqueára em terras americanas, victima dos que elle victimára, e a Europa assistira de braços crusados e olhos enxutos á hecatombe de tantos cidadãos mandados assassinar por esse principe, pelo crime de defenderem a sua terra e o seu direito. Sejam logicos no pranto e no insulto. O assassinio _legal_ de Maximiliano foi uma nodoa infamante para a republica mexicana. Mas tal nodoa havia elle e _outros_ lançado sobre si, primeiro. A historia porém não se escreve com prantos e improperios. A revolução franceza não foi simplesmente uma explosão do _direito humano_, contra o absurdo arvorado em principio politico do _direito divino_. Foi o desespero da miseria a que o _velho regimen_ reduzira a França e a Europa:--revolução economica, foi a expansão estrondosa da crença racionalista que os desvarios e aberrações do catholicismo haviam fortificado, e que a propaganda philosophica havia desenvolvido:--revolução religiosa,--foi finalmente a precipitação da _idéa_ social, que se fôra subtilisando, permittam a expressão, até á metaphysica de Rousseau, e ao positivismo ainda tibio e vacillante dos economistas:--revolução social. Azados andavam os ares para a expansão de todas estas idéas. O _militarismo_ desvairado de Luiz XIV, a devassidão e prodigalidade das _castas_ preponderantes de que o reinado de Luiz XIV marca talvez o apogeu, a miseria e oppressão popular, a propaganda e lucta philosophica apressaram uma solução que foi e não podia deixar de ser incompleta e até certo ponto falsa e prejudicial, mas que deu á causa da civilisação europêa profundas e enormes vantagens. Adiantou muito, o vendaval, e grandes obstaculos destruiu n’um momento, que longos annos levariam a desfazer. Não creio na republica franceza, mas se a não tenho por ideal democratico, antes muito distanciada d’isso a vejo, não me parece justo nem rasoavel que ella sirva para apavorar as turbas, como d’ella se servem os que não amam e não querem o triumpho da democracia. Mentem á historia e á consciencia. A republica franceza foi uma ochlocracia, o predominio momentaneo das _castas_ até ali opprimidas ou desprezadas. Teve n’esse ponto o mesmo defeito que o _regimen_ destruido. Como porém a evolução não se completára no modo de ser intellectual e social, como dos _costumes_ e das _crenças_, não desapparecêra de todo o velho regimen, nas _instituições_ que subsistem ou surgem da revolução, cujo caracter triplice lhe não consentem que se localise era França, a tradição retoma importante logar e a velha idéa politica tem incontestavel parte. O _constitucionalismo_, que não é rigorosamente um systema historico-politico, que não tem uma philosophia, que é a um tempo transição e transacção, prova isto. O _constitucionalismo_ podéra bem chamar-se o reinado da _burguezia_, se esta, perdidas as suas gloriosas tradições e desmoralisada pela ignorancia em que desgraçadamente apresenta uma ferrenha teimosia, não se mostrasse hoje instrumento passivo de todos os systemas que a ajaezem e lisongeiem com ficticias honrarias e a garantam das aggressões d’um fantasma que ella mesmo avocou pela sua cobardia e obsecação e que se chama: o socialismo. A sybilla de Cumas fallou para todos os tempos. Hoje como hontem. A historia é uma cadeia immensa. Um elo prende n’outro elo. Onde prende no passado? Onde, no futuro? Mysterio d’hoje. Sciencia talvez d’amanhã. Mas uma coisa é sabida e comprovada. Nada se perde. A morte é a continuidade da vida. A vida é a grande alma, o grande facto do facto eterno: a materia. A vida é a suprema synthese phenomenal. O phenomeno é a suprema revelação humana. Mas transforma-se tudo. A historia confirma a lei. A lei é a evolução. Uma era morre. Uma aurora surge. Andam revoltos os mares e entroviscados os céos. Estremecem as montanhas altissimas, contorcem-se como vimes as florestas mais possantes ao sopro de ignoto vendaval. Pairam nos ares palavras d’horror e palavras de esperança. Ouvem-se blasphemias e hosannas, ameaças e saudações. Agitam-se as sociedades modernas em parto trabalhoso. Apocalypse enorme! Hoje como hontem é verdadeira a phrase do frade de Manfield: «Cáe o imperio, cáem os reis, cáem os padres: o mundo inteiro oscilla.» Relanceêmos a vista pela Europa contemporanea. Por toda a parte a agitação do mau estar, a lucta surda ou estrondosa dos interesses e idéas, a anciedade, a colera, a revolução. Na Inglaterra a oligarchia do _capital_ abalada pelas novas necessidades politicas e pelas crescentes necessidades sociaes. O _industrialismo_ vacillante, receioso ante a agitação geral. A idéa nova revolucionando o velho facto. Os tribunos do povo não se conservam já á porta do aristocratico senado. Invadem-no,--apostolos eloquentes e severos juizes,--e vão sentar-se nas cadeiras curules. Os verdadeiros _fenians_ são elles. John Ball, John Ball! pobre _doido_[35] de Kent, pobre Rousseau do seculo XIV, a tua idéa generosa illumina--cinco seculos passados,--os horisontes da velha terra ingleza. Não são já os _barões_, como no tempo de John _lack land_, que impõem á corôa o respeito dos seus direitos e interesses. A voz do povo é a voz suprema. A _casta_ vae-se e a democracia sóbe. _La marée monte_ ... Na França o _cesarismo_, é um acrobata grutesco e estafado. A quéda não póde demorar-se muito. Os esforços desageitados para manter um equilibrio que de hora em hora se vae tornando mais difficil, expõem-n’o a tremendas assuadas. O imperio morre d’onanismo. Apoiado a um militarismo esmagador, morre esmagado por elle. A oppressão do contribuinte, o pezo enorme do terrivel _imposto que faz chorar as mães_, como diz um economista notavel, «e que destroe lentamente as nacionalidades debilitando e depravando as raças» como diz Proudhon, o amarrotamento da acção individual e local, a agitação esterilisadora, a guerra, surda ou estrondosa que o imperio promove e que mantém o imperio, bastaram para fazer voár em estilhaços, n’um futuro mais ou menos proximo, a corôa tyrannica do homem de 2 de dezembro. Um grande facto revolucionou ha pouco a terra allemã. A tradição feudal foi garrotada em proveito da ambição monarchica. Diz-se: a Prussia absorveu a Allemanha. Não me parece que assim fosse. O _cesarismo_ prusso estendeu o manto, do Rheno á Baviera. Destruiu fronteiras condemnadas de ha muito, e thronos que ha muito deviam ter desapparecido. Prestou um grande serviço á causa da liberdade, e esta, alentada e robustecida, protesta já contra a ambição da Prussia e prepara-se já para sacudir o jugo que o Cesar teutonico julgou poder impor-lhe. Na Austria o adagio paradoxal:--quem ganha, perde,--confirma-se. A Austria perdeu Sodowa e ganhou a consolidação e o socego interno pela inauguração d’uma politica liberal que reconheceu ser a sua salvação. A Austria libertou-se a um tempo do predominio oppressor do catholicismo e do preconceito do monarchismo unitario. É como que uma monarchia federal. Grande progresso que prepara um progresso maior. A Italia extorce-se nos braços d’uma politica fraca e inscientifica, que pensou em satisfazer-lhe as naturaes aspirações após uma grande revolução, apontando-lhe para uma _unidade_ monarchica, absurda, damnosa, retrograda, e felizmente irrealisavel pela indole hesitante e politicamente tibia da casa de Saboia. A Hespanha acaba de esmigalhar uma corôa e um systema. Os homens que foram conselheiros e executores d’essa corôa, obreiros e campeões d’esse systema, mais tarde victimas da propria obra, foram os que se collocaram na vanguarda da revolução, parece que para a sopear nas suas legitimas consequencias. Loucos! Querem desmentir as leis da historia, desconhecem a historia e a natureza politica do seu paiz, querem obstar ao triumpo da nova _idéa_ social! A revolução esmagal-os-ha. Mas é necessario vêr longe e fundo. Atraz da agitação politica, está a agitação economica, social e philosophica: lucta de interesses, d’instituições, e de idéas! Lucta tremenda! cahos esplendido! A concepção litteraria tradul-o. A arte fixa o genesis. O _Pensieroso_, o _Hamlet_, o _Faust_, são syntheses. Hamlet não é o tragico personagem de Saxe Grammaticus, nem Faust o doutor lendario da meia edade. A nossa era está n’elles. Volvamos, porém, ao terreno politico. O _estado_ oscilla no velho pedestal. As relações sociaes alteram-se. O interesse positivo vae abarcando tudo. O privilegio é um anachronismo já. Mas o anachronismo tem uma realidade legal ainda. O capital e o trabalho luctam. Denuncia-se porém a fusão fatal e proxima. Uma palavra fluctua como o espirito do deus hebraico sobre as aguas revoltas do novo genesis. Cospem-n’a umas vagas, saudam-n’a humildes outras, e ao reflexo d’ella lançam-se algumas, sublimes de furia e força, a rasgarem os horisontes enublados. É o grande verbo, a grande fórmula politica da nossa edade: _democracia_. A palavra é velha, mas o facto é novo. Tão novo, que não passa ainda d’uma aspiração quasi. A democracia ambicionada hoje não é a democracia d’outros tempos. É o estado moldado pela associação, é a generalisação do poder á custa da tradição da _casta_ e da _familia_, é a reducção da _auctoridade_ á expressão de liberdade collectiva, é o individuo engrandecido e emancipado á custa do velho poder do estado, é o estado simplificado até ás proporções de fórmula politica dos direitos e interesses collectivos e indivisos, é a harmonia dos elementos sociaes, realisada na suprema concretisação politica: o cidadão. A casta, como a familia, desapparece da esphera politica. O estado não representa os interesses, direitos e relações d’uma familia ou d’uma casta, mas de todas as castas e familias, isto é, de todos os individuos que o compõe. Logo, o individuo é a base, logo o direito e o interesse individual é a lei. Ao direito divino succede o direito humano, isto é, ao direito da força--em quaesquer phases objectivas d’esta--succede a força do direito em todas as relações etiologicas e physiologicas d’este. Fallamos em direito e não definimos a palavra. Entenda-se, porém, uma cousa, que implicitamente ficou assentada atraz. Não commungamos na escóla do _absoluto_. O direito é uma generalisação social da necessidade individual e da necessidade collectiva. A desharmonia accidental das duas produz os despotismos e as revoluções. Na harmonia de ambas está a liberdade e a paz. Não sei se alguem disse já isto. Ha talvez cousa parecida em Hobbes e Bentham, o que não quer dizer que aceite a doutrina d’aquelle em todas as suas consequencias, ou a d’este em todos os seus principios. «O direito é a vida», diz Lermenier. A idéa democratica, revolucionando as instituições e agitando o espirito publico em toda a Europa, não podia deixar de eccoar tambem entre nós, collectividade nacional, profundamente desmoralisada pela tradição e pela ignorancia, mas surdamente agitada tambem pelos elementos dissolventes que se gladiam na sociedade europea. O livro de Vieira de Castro «A Republica», não é pois um facto extemporaneo, como não é tambem um facto unico. Diz o notavel escriptor que «conhece bastante o espirito politico do seu paiz _e da sua época_, para falsamente se convencer de que já bateu a hora de apostolar a necessidade prática da fórma de governo mais completa, investigada e ensinada pela philosophia politica.» Que o espirito politico d’este povo, amortecido á mingua d’um ideal politico ou mesmo d’uma _idéa_ nacional que o represente na historia contemporanea, offereça á propaganda verdadeiramente democratica a resistencia da inercia e da indifferença; que os velhos preconceitos e a ignorancia obstem proficuamente á acção da idéa republicana, comprehende-se; mas do espirito politico do nosso paiz, ao da nossa época, a distancia é enorme, a confusão póde redundar no absurdo, e ainda quando assim não fosse, o apostolado distancea-se da realisação social do principio, fôra inutil se não a precedesse e surgisse apenas quando as condições do meio politico a dessem como resultante fatal. E mais é que em seguida á confissão da extemporaneidade do apostolado se diz: «Anda agora mais vivo e accezo o combate das tradições monarchicas e das idéas democraticas, que era já velho nos nossos dias.» E a verdade é esta. Não julga Vieira de Castro, que andem já completamente preparados os terrenos e os ares, para que se erga desassombradamente sobre as ruinas de _todas_ as monarchias actuaes, o edificio gigante da democracia, mas homem de grande intelligencia e de grande coração, que nem um nem a outra se lhe atrophiou como a tantos outros no ambiente esmagador das _conveniencias_ burguezas, homem que estuda e que sabe, Vieira de Castro ergue a voz eloquente para pronunciar o _credo_ scientifico da democracia, e saudar a grande palavra, a fórmula suprema, inscripta em letras de fogo nos horisontes das sociedades modernas. É que o novel tribuno não é d’esses escrevinhadores ignorantes e madraços, que embuçados no manto de uma popularidade ôcca e grutesca, abafam as grandes aspirações e inspirações da propria mocidade vigorosa e intelligente, e passam a vida a decorar e repetir monotonamente os preconceitos e doutrinas d’uma sociedade moribunda. Deixo para o diante fallar do segundo capitulo, e vou-me já á exposição doutrinaria do credo republicano de Vieira de Castro. E para que me não accusem de falsear ou esquecer n’uma synthese, que fôra direito e dever da critica fazer, certo cunho de individualidade afogueada pelo enthusiasmo da idéa ou desvairada pelo fascinamento da palavra, irei seguindo e estudando as expansões da crença e as fórmulas da doutrina d’essa individualidade mais propensa á apotheose metaphysica que ao averiguar profundo e ao discutir placido, melhor caracterisada pelo que Moreau de Tours denominava no bom senso da sua physiologia _erethismo mental_, do que pela exacção e isenção positivista de Comte. «_Na comparação abstracta_ de todas as fórmas de governo--diz Vieira--nenhuma é melhor nem peor. Façam rei absoluto _um santo_ e ninguem poderá levantar-se contra a dictadura _da verdade e da justiça, encarnadas n’elle_.» Este periodo illude os que não attentarem cuidadosamente n’elle. Dir-se-hia o philosopho, em gabinete isolado e tranquillo, longe das agitações e paixões do forum, entranhando a vista nos arcanos da historia e da natureza humana e extraindo do cadinho da observação sociologica aquella synthese formulistica. «Se os homens fossem anjos--disse Pinheiro Ferreira, se bem me lembro--o melhor governo seria o absoluto.» Melhores razões, creio, teria elle para dizer que se os homens fossem anjos, ou seria uma inutilidade o governo, ou só poderá haver uma fórma acceitavel e logica--por conseguinte a melhor,--o governo, de todos por todos. Pois nem essa identidade de natureza individual traria a identidade de direitos e por conseguinte a identidade politica na fórmula governativa? É _melhor_ ou _peor_ uma fórma de governo, segundo mais ou menos se harmonisa com a natureza humana nas suas leis universaes e nas suas condições sociologicas. Admittamos por um momento a _comparação abstracta_, e vejamos duas fórmulas governativas. Um homem governa de _motu proprio, sciencia certa e vontade absoluta_, um grupo d’homens. Um grupo d’homens _governa-se_; o estado é a expressão do poder indiviso, do collectivo interesse, do interesse e poder de todos, a base por consequencia é o poder e o interesse de cada um: o direito do estado é consequencia do direito do individuo. Eis a democracia. Na monarchia--e expozemos a sua fórmula _pura_--o contrario é que é o verdadeiro: o direito do individuo é consequencia do direito do estado. Como este não tem assim uma razão positiva de ser, como não é a expressão do poder de todos e do interesse de todos, mas sim do poder e do interesse d’um homem, d’uma familia, ou mais propriamente, d’uma casta, o systema consolida-se na consciencia publica pelo theologismo, a fórmula politica envolta na tradição explica-se pela metaphysica do _direito divino_. O direito divino! o grande absurdo, a grande contradicção, a grande chaga da historia! A _sciencia certa:_ isto é, a intolerancia, a negação da liberdade individual da ideia, da palavra, da crença. A _vontade absoluta:_ a negação da iniciativa, do poder, do interesse, da vontade individual. Tudo isto é logico. Tudo isto é horrivel. A historia explica ethiologia e funccionalmente tudo isto. Explica e justifica, mas se dissesse que tanto importava que os homens fossem socialmente propriedade d’um homem, como que fossem propriedade de si mesmo, negava-se a si propria, suprimindo a _personalidade_, a começar pelo direito humano, elemento evolutivo, mas constante e primordial da sociedade, elemento natural e fatal, quer o expliquem por uma subjectividade immanante de causas sobrenaturaes, quer lhe dêem a feição objectiva da necessidade individual. «Façam rei absoluto _um santo_ e ninguem poderá levantar-se contra a dictadura da _verdade e da justiça_, encarnadas n’elle.» Velha monarchia, estás justificada. Pedem-te até a resurreição. Os teus reis eram a encarnação _da verdade e da justiça_ divina. O monarcha era o delegado de Deus. _Omnis potestas a Deo_. Por isso Luiz XIV bradava: «L’etat c’est moi.» Por isso Luiz XIV escrevia a seu filho: «Tudo o que se encontra na extensão dos nossos estados, _de qualquer natureza que seja, pertence-nos_ com o mesmo titulo e deve ser-nos egualmente charo. Os dinheiros que estão em nossos cofres, os que andam nas mãos dos nossos thesoureiros _e os que nós deixamos andar no commercio dos nossos povos_, devem ser para nós egualmente dirigidos. «O céo fez os reis depositarios supremos da riqueza publica.» Era logico isto. «Domini est terra et plenitude ejus.» Pois bem. Em vez de Luiz XIV, que o catholicismo não canonisou, ponhamos um _santo_, S. Luiz, por exemplo, e ninguem deverá revoltar-se contra o poder absoluto, como fórmula governativa na opinião do snr. Vieira de Castro e de certos democratas metaphysicos. Mas dir-se-ha: «o _santo_ de que se falla não é simplesmente o varão que perante a egreja póde merecer tal nome. É a encarnação _da justiça e da verdade_.» Definam a palavra se podem. Fixem o facto, extremem, definam, se são capazes, esse ideal _absoluto_. A escóla da _absolutividade_ cae n’estas affirmações palavrosas. As entidades que julga crear fazem lembrar aquellas aberrações da _lucina sine concubito_ de velha medicina ou as de certa alchymia que lidava por crear o homem _ex contrario e ex abrupto_. Demais me tenho demorado n’este ponto. A historia do _santo_ de Vieira e dos _anjos_ do P. Ferreira, faz lembrar a phrase do barão Louis: «Dae-me boa politica e dar-vos-hei boas finanças.» É a mesma banalidade n’outro campo. Escassêz de principios, acanhamento de concepção, phrase empolada e petulante, julgando esconder e denunciando tudo isso. Notarei sempre que Vieira de Castro diz que «prefere o positivismo de Stahl ao idealismo de Hegel», o que desculpa as palavras que temos estado a discutir. Pois se está ainda no _positivismo_ de Stahl! Mas depois de estabelecer que «na _comparação abstracta_ de _todas_ as fórmulas de governo nenhuma é melhor e peor,» e nos apresentar para a tal comparação _abstracta_, concretisada a monarchia n’um santo, acrescenta: «Perante a philosophia dos _principios_ (abstractamente, é claro) a republica é a suprema verdade, porque a sua natureza _é a abnegação de todos_ os elementos sociaes por cada um; o seu fim é a _egualdade de cada um, nivelada_ pela liberdade de todos.» Sem commentar a primeira contradicção que é manifesta, é claro que se a republica é a suprema verdade e o poder absoluto, isto é, a monarchia pura, nas mãos de um _santo_ é a encarnação da _verdade_, deduz-se naturalmente que a _republica_ e a monarchia absoluta podem ser a mesma coisa, isto é, que podemos ter ao mesmo tempo e no mesmo paiz uma republica e um rei absoluto perante «a philosophia dos principios» de Vieira de Castro. Mas, vemos que a republica é (sem sairmos d’essa philosophia), a abnegação de todos os elementos sociaes por cada um, logo de todos por todos, e a realeza absoluta é a sujeição de todos a um; a republica é a «egualdade de _cada um_ (passe a phrase) nivelada pela liberdade de todos», e a realeza absoluta é a liberdade de um fazendo a desegualdade de todos. Não entro na contextura da phrase que se prestava de certo a illações bem disparatadas. Grave defeito é este de sacrificar tudo á fórma e forçar a intelligencia a _tours de force_ de extravagante lexicographia, por um arredondamento de periodo ou por uma melhor sonancia de phrase, o que tudo se podera conseguir sem prejuizo da ideia e da verdade lexicographica. A tendencia para basear a republica na abnegação e n’outras virtudes emprestadas a uma moral convencional e mystica, em vez de lhe procurar a razão positiva de ser na propria natureza humana e evolução historica, é coisa que fica para outro logar discutir. Vejamos, porém, como Vieira, tendo estabelecido que em _comparação abstracta_ nenhuma fórma de governo era melhor ou peior, faz o confronto «perante a philosophia dos principios (?)» entre a monarchia e a republica. «O monarchista ama o seu rei, _exalta a dedicação do homem pelo homem_, e põe a _sua_ salvação na hereditariedade da _sua_ dynastia!» O ponto de admiração vem no texto--mas pertence antes á critica. O monarchista póde amar ou não amar o seu rei; o que elle ama com certeza é o seu systema, e em quanto ao principio da hereditariedade, não é e não tem sido condição indispensavel de toda a fórmula monarchica, e muito bons monarchistas o não têem acceito, ou o têem desprezado. Não é tambem necessario ser monarchista para exaltar a dedicação do homem pelo homem, bons monarchistas tambem a tem deprimido e não vemos que ella seja elemento do machinismo monarchico. «A republica _adora_ a patria, sacrifica-se pelo estado e não se salva senão pela lei, que quer dizer justiça e egualdade, dualismo poderoso perante o qual todos os individuos são pequenos, mas todos os mesmos, addindo sempre uma mesma herança, fruindo o mesmo direito e legando sempre uma soberania!» Isto diz ainda o snr. Vieira de Castro, e ainda póde exclamar com Hamlet, o leitor e o critico: _Words, words, words!_ Onde se diz «Republica», bom é para o auctor que se entenda: «o republicano». Mas o monarchista não ama a patria, não se sacrifica pelo estado? Não nos demoremos. Na definição de lei continuamos a vêr a apotheose palavrosa. N’isto prefiro o _positivismo_ de Cicero: _Lex naturæ congruens_ ou _Ratio profecta a natura rerum_.» Ficamos tambem sabendo que na republica os «individuos são pequenos.» Julgavamos que todos eram socialmente grandes; maiores que em fórmula alguma politica. Vieira diz tambem: «A republica diz ao individuo: sê orgulhoso e livre, e faze o teu trabalho a civilisação da humanidade!» Que pequenez! Expõe-nos tambem que a republica só uma _aristocracia social_ reconhece: a do talento, uma só virtude civica: a do trabalho, _uma só_ religião _verdadeira_: a da honra. Significa isto que toma a serio esta costumeira banal e inscientifica que chama ao talento _aristocracia_, ao trabalho virtude, e á honra uma religião. De feito a honra que por ahi se apregoa é talvez uma religião por ser coisa de fé e não de sciencia. Diga-se de passagem que Montesquieu estabelecia como principio do despotismo o temor, como o das republicas a _virtude_, e como o das monarchias a _honra_. Quer-me parecer que via as coisas melhor, mais fundo. Longa e demorada vae já esta apreciação. Mas além de me deitar a grande tamanho, tem vindo de corrida, aos saltos quasi, pouco concatenada, e sem a systematisação que teria n’um livro, mas que não póde ter n’um periodico. Já agora vá assim ao cabo. A comprovação e a deducção historica no livro de Vieira de Castro teem defeitos identicos aos que rapidamente notei na abstracção philosophica, na generalisação doutrinaria e na partidaria apotheose. Muito a correr fallarei na apreciação, rapida tambem, que Vieira faz do estado politico e social d’esta nossa terrasinha, até por que já n’isto fallei. Diz o auctor da _Republica_ «que é noute em Portugal ha muitos mezes» e que «o crepusculo pavoroso d’essa noute condensou-o a _grève_ de janeiro.» Trata depois de justificar este epitheto _grève_ dado a uma balburdia politica que para ahi se fez em janeiro de 1868, graças ás ignorancias de muitos, á traficancia de não poucos, á nimia boa fé de bastantes, e á imprudencia d’alguns. Aquillo de certo não foi revolução nem revolta, a menos que se não tenha revolucionado a lexicographia para contento dos que andaram a promover e desenvolver o _movimento_. Mas Vieira não quer que se lhe chame tambem _movimento_. Diz que seria isso uma «blasphemia social!» Passe a phrase. Mas uma _grève_, o que é? Parece-me que a denominação de _movimento politico_ satisfaz todos os paladares. Um defeito tem de certo: é nada definir. Tem uma vantagem tambem: é de nada falsear. Houve ali alguma cousa de _grève_: mais collisão de ambições rasteirinhas, que de interesses legitimos, de ignorancias fanatisadas, que de grandes aspirações. Houve ali alguma cousa de revolta: menos revolta de opprimidos que de obsecados, de fecundas idéas que de pequenos interesses e arreigados preconceitos. Provocaram aquillo os fataes defeitos do pseudosystema constitucional, certos erros e imprudencias, ambições insoffridas e tradições exploradas e mentirosas. Façam porém outros, ou para outro logar fique a critica da malfadada agitação. Fulminada esta, escalavrados com algumas murraças palavrosas uns idolositos pecos e uns chefesinhos mais pecos ainda, cuja lista começando n’um Enguia e n’um Sentieiro feitos _reformadores_, acaba logicamente n’um bispo de Vizeu feito estadista e n’um Samodães basofiando de financeiro, saltita a imaginação de Vieira de Castro na historia geral europea, para nos dizer simplesmente que a «Reforma do seculo XVI e a revolução de 89 (porque não de 93?) _festejarão_ uma ascenção e uma victoria» e que «a tempestade de 48 deixára de si um lucto immenso.» Não me demorarei na apreciação d’aquelles grandes factos, de mais em mais aproximados da nossa misera _janeirinha_. Como quasi sempre, a idéa atufa-se na verbosidade soprada, a boa critica historica é sacrificada ao enfloramento da _fórma_, ou esta procura antes esconder a pobreza d’aquella. Ha felizmente, porém, aqui ou ali, o relampear d’um cerebro estremecido por aspiração generosa e sincera, por intuições esplendentes de verdade positiva, por idêas que denunciam consciencioso e aturado estudo. Se muitas vezes a linguagem de Vieira de Castro, não por demasia de imagens mas por exagero d’artificio, _Sort du bon naturel et de la vérité,_ o que, vá dizendo-se de passagem, não creio que consista em certa pieguice e banalidade de estylo que por ahi se quer impôr como modêlo; outras, espontanea e energica, traduz a idêa sem a rebaixar nem abafar, e dá em fórmulas precisas, syntheses que pelo menos não mentem á historia, á critica e ao bom senso. ...«venho defender a republica,»--diz Vieira de Castro--«porque ella é a consagração do direito maximo; porque é ella o pactolo da instrução universal, sua alimentação e sua eterna sede; porque é ella ainda o grito de morte inexoravel contra todos os feudalismos, a expropriação social de todos os cesarismos anachronicos, a condemnação irremissivel de todos os vadiismos politicos e de todos os servilismos cortesãos; porque é ella, emfim, e só ella, a verdadeira apotheose e o verdadeiro verbo da liberdade, a coroação augusta da unica realeza possivel depois da Divindade, a realeza do individuo.» Pondo de parte a Divindade, que não vem agora para o caso, Vieira de Castro collocando o direito individual como pedra angular da democracia, toca, embora não resolva nem desenvolvidamente exponha o grande problema, senão o grande principio da sociologia ou antes da politica _positiva_. Desembaraçada a sciencia politica dos elementos dissolventes e estranhos em que tem andado envolta, limpa de metaphysicas arbitrarias, emancipada de subjectivismos mysticos, ou incultos, ou tradicionaes, e de preconceitos historicos, e de anormalidades sociaes, e de formulismos falsos e nocivos, extremado que lhe seja o campo, feita a genese positiva, o direito do estado só no direito individual terá a sua razão de ser e a sua sancção, a _casta_, a _corporação_, a _familia_, a communidade de crença, não terão logar no campo politico, que lhes é estranho, a liberdade d’acção, de consciencia, de palavra não será considerada como generosa ou extorquida concessão do estado, mas como direito natural do individuo, cuja manutenção e segurança é missão e razão, é segurança e manutenção do estado. Este não será representante e campeão d’uma classe,--a associação proverá ao interesse collectivo d’ella,--porque perante o estado só existirá o cidadão, o homem, na sua personalidade constante e natural, não o homem que pensa d’esta ou d’aquella fórma, que tem esta ou aquella crença, mas o pensamento e a palavra que são de todos os homens, que por isso nenhum póde supprimir ou opprimir no outro, não o homem que trabalha n’este ou n’aquelle sentido, que exerce este ou aquelle mister, mas a acção que é a faculdade e necessidade de todos, e por isso a liberdade de cada um. O estado não se compõe de crentes d’um principio ou d’uma doutrina. A essas communidades de fé ou sciencia, chama-se egreja, seita, partido, escóla, ou como quizerem. O estado não se compõe de homens de uma dada posição, ou que exerçam um dado trafico, ou que representem uma dada tradição. A isso chama-se classe, ou corporação, ou casta. O estado compõe-se de seres que pensam, que obram, e nada tem com as diversidades de pensamento, com as variantes do trabalho humano. A harmonia que mantém, a sua razão de ser, a sua synthese suprema é o direito _do_ homem, não o direito _d’um_ homem, é o direito individual, não o direito d’uma classe, d’uma casta, d’uma crença. D’ahi a verdadeira democracia: governo de todos por todos. Unica consequencia; synthese logica e natural--_naturæ congruens_. E não se diga que este individualismo politico conduz á anarchia social. Não. A liberdade só limitada pela liberdade é a harmonia maxima. Attenda-se bem. Se cada um é livre no seu pensamento, na sua palavra, no seu trabalho, na sua propriedade, a licença, o roubo, o homicidio, a tolerancia, o monopolio economico ou politico são a negação d’essa liberdade, que o estado é obrigado a manter illesa e segura. Diz, e com razão, Vieira de Castro, que a democracia antiga é diversissima da democracia moderna. Podia mesmo dizer que no sentido exacto da palavra, que na deducção positiva dos principios, a democracia não attingira até hoje a sua fórmula exacta, e que esta anda enublada e indecisa no embate de idéas e interesses das modernas sociedades. Accrescenta, porém, que a democracia moderna é filha do christianismo e parece apresentar a grande republica americana, como realisação d’ella. Valia a pena discutir esta banalidade, que consiste em attribuir a determinada evolução religiosa ao christianismo, todos os progressos e melhorias, subordinar-lhe até todas as evoluções da idéa e do facto social, denunciadas ou fixadas na civilisação moderna. Preconceito estupendo que chega a inverter a razão logica dos factos, dando por causa o que é effeito, e a estabelecer dogmaticamente uma etiologia que tem sido o escolho da critica historica e o falseamento mais escandaloso d’ella! Faz lembrar esta banal doutrina dos effeitos do christianismo, o caso da porta de que falla Catullus (_ad janum mœchæ cujusdam_.) A porta é ré constante. Quando alguma malfeitoria se realisa, bradam todos: «porta! a culpa é tua!» «Verum isti populo janua quidque fecit, Qui, quacumque aliquid reperitur non bene factum, Ad me omnes clamant: _Janua, culpa tua est!_» A differença é que para todos os grandes e bons feitos, para todas as melhorias sociaes, o dito é: «Christianismo, é tua a gloria!» O mais curioso é que muitos dos que concorrem para a apotheose, se collocam fóra de todos os gremios religiosos que dizem representar a verdadeira doutrina christã,--talvez por calculada prudencia, porque sabem que a refutação fôra em tal caso facil e esmagadora. Architectam pois um Christianismo _ad hoc_, ou dão á palavra um sentido por tal modo vago e indeciso, que mal póde apossar-se d’elle a critica. O Christianismo é uma religião e toda a religião é pela propria natureza intolerante e exclusivista. Fallando em nome da _verdade absoluta_, consubstanciando-se com ella, não póde aceitar a verdade d’outras doutrinas, d’outras religiões. Nega-as, combate-as, e tende fatalmente a supprimil-as. Isto não é um bem nem um mal. É uma consequencia natural, exacta, constante, necessaria, fatal, emfim. Ora a democracia christã só permittiria christãos no seu seio; não podia,--sem se desmentir,--aceitar outras communidades de fé. Não as aceitando, desmentia-se tambem, porque abolia a liberdade de consciencia. N’um caso, contradicção com a fórmula religiosa; n’outro, contradicção com a fórmula politica. É que as duas não podem fundir-se sem se destruir mutuamente. Dirão talvez que uma democracia christã podia estabelecer a _tolerancia_ religiosa. É questionavel isso; mas a _tolerancia_ não é precisamente a liberdade: _la liberté serve n’est point liberté_, como dizia o austero L’Hopital, e accrescentarei ainda com Mirabeau: _La liberté la plus illimitée de la religion, c’est à mes yeux un droit si sacre que le mot_ tolerance, _qui voudrait l’exprimir me paraît en quelque sorte tyrannique_. O que de certo a supposta democracia christã não admittiria, seria atheus ou materialistas, e eu creio que n’um estado qualquer podem haver materialistas e que esses taes teem tanto direito a não acreditar em Deus ou Jehovah, como os que o não são a crerem na existencia d’elle. E sem querer levar mais longe a questão, fallarei rapidamente na republica dos Estados Unidos da America, com relação a este ponto, já que Vieira de Castro a cita com tamanho louvor. Os paes da nova America foram por longo tempo magnificos modelos de intolerancia brutal em materia religiosa. Apesar dos esforços generosos de Baltimore, William Penn e outros, só quando a guerra da independencia agrupou pela homogeneidade d’interesses e na defeza commum os paes da grande republica americana, divididos e inimisados pelas crenças religiosas, é que Washington—-o vulto grandioso, venerando e sympathico da epopêa da moderna democracia--conseguiu inscrever a liberdade da fé, e a separação da igreja e do estado como principio legal na historia da Nova-America. E digo como principio legal, porque a adopção d’ella foi mais uma necessidade politica, que a realisação das aspirações e exigencia da consciencia popular. Até 1830 conservou a Virginia as prescripções repressivas em materia religiosa, e hoje mesmo os tribunaes americanos perante os quaes é aceita a deposição de qualquer sectario, _affirmada_ ou jurada segundo os principios da sua seita, não aceitam o depoimento de um atheu ou de quem não professe qualquer crença religiosa. Mas a intolerancia era enorme n’outros tempos. Os primeiros colonisadores--perseguidos na Europa pelas suas crenças--não aprenderam no proprio soffrer a respeitar a fé alheia, e das mais extravagantes e odiosas oppressões foi theatro por muito tempo aquella terra americana. Nas differentes colonias a lei prescrevia o culto interno e externo, e fulminava com penalidades atrozes os que d’ella se afastassem, ou que a não cumprissem. Geralmente eram os catholicos os mais opprimidos. No Connecticut eram coimados os que não comparecessem ao serviço divino, e os _quakers_ ou outros dissidentes que tentassem estabelecer-se na colonia eram castigados com prisão, e, se reincidiam, eram-lhes cortadas as orelhas e atravessada a lingua por um ferro em brasa.[36] No Massachutts e New-Haven o padre que transpozesse a fronteira era condemnado á morte. Nos estados fundados pelos puritanos, a lei prohibia o fumar, trabalhar ao domingo, limpar a casa, fazer camas, cozer carne, cortar os cabellos e abraçar ou beijar os filhos em tal dia. Em Maryland se estabeleceram 200 familias catholicas com lord Baltimore á sua frente, por concessão de terras feita a este por Jacques I. Fôra Baltimore anglicano, e pelas barbaras represalias que vira exercerem os seus correligionarios contra os catholicos, volvêra ao gremio d’estes. Não era muito logica a renegação, mas parece que era profundo e sincero o odio ás perseguições religiosas, porque mal estabelecida a colonia, fez o generoso lord com que pelo seu _Acto de religião_ (1649) se estabelecesse o seguinte: «Attendendo que a repressão em materia religiosa tem produzido os mais perigosos resultados em todas as sociedades: para manter a paz e a tranquillidade no governo d’esta provincia e sobre tudo estabelecer reciproca caridade entre os seus habitantes, não serão incommodadas na sua crença nem no livre exercicio do seu culto _os que fizerem profissão de crer na divindade de Nosso Senhor_.» Era muito, mas não era tudo. Nem tal época dava para tanto. Acudiram os dissidentes expulsos d’outras partes, e cresceu de tal fórma o numero d’elles, que se desenvolveu breve uma terrivel intolerancia de que foram principaes victimas os catholicos. Meio seculo mais tarde ainda Penn se viu forçado a prohibir-lhes o exercicio do seu culto. Finalmente estabeleceu o congresso da independencia a completa reparação da egreja e do estado, declarou-se incompetente para decretar em assumptos religiosos, prohibiu que se exigissem juramentos de tal natureza para o preenchimento de quaesquer cargos, e hoje é geralmente grande o respeito ali pela liberdade de consciencia. O estado não tem religião, os filiados em todas as seitas e são ellas numerosissimas, pouco excedem de 10 milhões em paiz de 35. Porque se ha de insistir em chamar áquillo uma democracia christã, quando exactamente não ha religião official nem predominante, quando o estado se separa da religião, e finalmente quando a caracteristica fatal de toda a democracia deve ser o respeito pela liberdade do crer ou do não crer, isto é, pela liberdade da consciencia de cada um? A egreja official é a tyrannia da crença de um grupo sobre a consciencia do resto. A democracia, governo de todos por todos, não póde estabelecer como lei a unidade de crença, sem desmentir a liberdade de cada um. É desmentir-se a si proprio. O estado nada tem com a religião. Cada qual creia ou não creia, cada qual siga o que a sua fé lhe decreta ou a que a sua consciencia lhe indica. Não offenda a liberdade, a personalidade, a propriedade de outro, que é o que o estado tem por fim manter seguro e illeso, e pense embora que Christo é Deus, que o universo é governado por uma intelligencia e uma vontade suprema, por um ser talhado á similhança do homem, ou que só a materia é eterna no tempo e no espaço. Quanto a estabelecer como filha do christianismo a doutrina da democracia positiva, coisa é que não resiste a uma critica que se importe pouco com as banalidades arvoradas em dogmas correntios e muito com a observação, com a experiencia e com a historia registro d’ambas atravez dos seculos. «O mundo antigo não comprehendeu a democracia», diz Vieira de Castro. «Nem podia comprehendel-a. Era incompleto o sentimento que elle tinha da liberdade e do direito.» «O povo estava satisfeito se o deixavam tomar parte na confecção das leis; e ainda que ellas fossem a expressão da tyrannia, o engodado soberano não dava por isso de desvanecido pela sua cooperação legisladora. Por não a terem comprehendido, condemnaram Platão e Aristoteles a democracia.» Podiamos já perguntar ao illustre escriptor se era completo o sentimento que a meia edade tinha da liberdade e do direito como o comprehendemos hoje; se comprehendiam a democracia os evangelistas quando punham na bôca do mestre o «Dae ao Cesar o que é de Cesar», etc., se a comprehendia S. Paulo quando esboçava a doutrina do _direito_ divino, aconselhando aos romanos que obedecessem aos potentados da terra. «Omnis anima potestatibus sublimioribus subdita sit: non est enim potestas, nisi a Deo; quæ autem sunt, a Deos ordinatæ sunt», etc., etc. (_ad Romanos_. XIII). Comprehendia a democracia o douto africano que escreveu a _Cidade de Deus_, codigo social do christianismo, e onde transparece a doutrina aristotelica da escravidão? Comprehende a democracia a egreja romana? Ha n’este nosso tempo um facto curioso. Á face dos textos sagrados e com elles sómente armados, defendem escriptores sul-americanos a escravatura, contestada á face de sacros textos tambem por escriptores norte-americanos. Attendamos á evolução do pensamento humano, attendamos á relatividade das concepções sociaes, e não precisaremos falsear a historia nem deprimir passadas civilisações para estabelecer falsas e incompletas genealogias ao modo de ser social e intellectual do presente. Vamos concluir. Por entre os erros e os vicios, por entre as bellezas e conceitos que temos indicados, vae Vieira de Castro fazendo a apotheose da fórmula republicana e lavrando a condemnação do monarchismo sob qualquer fórmula. Algumas paginas dedica a dois cidadãos respeitaveis--um dos quaes, como bem diz, riscou com o facho da civilisação uma peripheria enorme e deixou illuminado um continente. Esse é Lincoln. Tamanho como Washington. O outro é Johnson. Honrado democrata como poucos, digno successor d’aquelle. Merecido e eloquente é o elogio. Conclue finalmente Vieira de Castro estabelecendo que «não ha historia em politica», que «ha principios fixos, eternos, invariaveis e absolutos», para logo em seguida declarar que «não ha systemas absolutos» e que «a sciencia politica, _de todas as sciencias sociaes a mais variavel_, é tambem a que necessariamente mais se transforma e modifica, _desapparecendo sempre, e sempre renascendo_, filha das peculiares circumstancias de uma occasião, das condições especiaes d’uma época; obediente á influição poderosa de principios novos e á acção fatal e intransmissivel do progresso e do tempo.» É o ultimo sacrificio da logica á palavra, da idéa e da critica nos altares da enflorada verbosidade. Ainda assim a idéa não se perde de todo. Mas o auctor da _Republica_ não quer a republica--«maxima perfeição governativa»,--para o seu paiz tão cedo, por que a ignorancia publica é grande, muito grande ainda, porque creio eu, não está ainda completa e robustecida a consciencia do direito individual, e em vez d’uma democracia illustrada, forte, pacifica, teriamos a ochlocracia dos cerebros incultos e dos corações inlapidados, teriamos em vez da liberdade de cada um a tyrannia e a guerra mutua, a oppressão de todos. Apregoa-se para ahi uma doutrina de soberania popular que mal interpretada ou mal comprehendida póde ser uma verdadeira tyrannia. Tyrannia de muitos tyrannos, isto é, o mal multiplicado pelo mal. É necessario cautela com as falsas democracias. Diz Vieira de Castro que em Portugal «não ha verdadeiramente republicanos.» Ha um anno dizia eu: «Em Portugal os apostolos conscientes e conscienciosos, austeros e leaes, sinceros e firmes, os verdadeiros apostolos da democracia verdadeira não existem por em quanto.» «Os que para ahi se dizem taes, são: uns, traficantes desvergonhados; outros, ignorantes atrevidos. «Conhecem aquelles superficialmente a democracia e negoceiam com ella; desconhecem-n’a os outros em todos os seus principios e consequencias, e prejudicam-n’a.» «Ouvir isto, indigna; dizel-o, punge.»[37] Disse-o, sinceramente pungido, e ouviram-n’o grandemente indignados os _democratas_ da janeirinha. Hoje não concordo completamente com o que então disse, nem com o que diz Vieira de Castro. Mas nem elle nem eu devemos apressar-nos em riscar a phrase, porque as excepções ainda não são tantas que desmintam absolutamente o dito. Ha muita ignorancia e muita metaphysica na democracia nascente. Bom é, porém, que intelligencias robustas e corações generosos, que homens como Vieira de Castro se lancem n’este apostolado nobilissimo, onde o estudo aturado e consciencioso é o primeiro dever, e a franqueza austera e firme o primeiro preceito. Menos custa, aqui, a combater adversarios, que a luctar com as ignorancias e paixões dos proselytos. EXPLICAÇÕES Diz o _Bem Publico_ que eu supponho «uma sociedade humana sem Deus», que «a reduzo a individuos», concluindo por «mutilar estes na ordem moral» e «suprimindo n’aquella o governo», o que na opinião do mesmo _Bem Publico_ é simplesmente «propôr uma sociedade que não é _sociedade_ e individuos que não são _individuos_». Vamos por partes. Eu não _suppuz_ uma sociedade humana sem ou com Deus. _Non fingo hypotheses._ Vi o estado decretando um deus, vi a sociedade politica, conjuncto de muitas consciencias, impondo a todas a crença d’algumas, de muitas até, como se a crença fosse cousa que se impozesse, que se supprimisse, que se confirmasse por um artigo de lei. O estado, disse, é o conjuncto de muitas _personalidades_. O seu fim é garantir-lhes a segurança e o progresso, nas varias manifestações d’ellas. Ora a manifestação suprema é a liberdade social, a liberdade de cada um perante cada um e todos: logo a liberdade do pensamento e da acção, logo «a liberdade só limitada pela liberdade», isto é, a liberdade do _Bem Publico_ acreditar no direito divino limitada pela minha liberdade de crer no direito humano, a liberdade do snr. Sousa Monteiro querer que o estado tenha uma religião official limitada pela liberdade de eu pensar que sendo o estado composto de muitas consciencias, isto é, de muitas crenças, e se quer ainda, de muitas religiões, ou ha de amalgamal-as todas n’uma, isto é, o christianismo com o mahometismo, com o judaismo, etc., etc., o monotheismo e o polytheismo, e ainda o theismo e o materialismo, etc., etc., para poder ter logicamente _uma religião_, ou não ha de ter nenhuma e deixar que cada qual tenha a sua, ou dar a preferencia a uma sobre as outras, e n’este caso é que _mutila_ as personalidades supprimindo a liberdade de consciencia, e d’uma sociedade faz uma cousa que não é uma _sociedade_. Ora a «liberdade só limitada pela liberdade», vê-se já que não é uma logomachia. Creia e faça o que quizer o _Bem Publico_, com tanto que não saia da sua liberdade para invadir a minha de fazer e crer o que quizer, sem prejuizo da liberdade do _Bem Publico_. Ora abusa da sua liberdade e invade e mutila a minha quem me prohibe que creia ou não creia n’um Deus, que o adore na egreja ou nos montes, que seja judeu como o snr. Sousa Monteiro tem a liberdade de ser catholico, que seja materialista porque a minha sciencia,--fraca e pequena decerto,--me dá essa crença, como o _Bem Publico_ tem a liberdade de _dizer_ ou de julgar _bom christão_, porque a sua fé tal crença lhe inspira. Quanto ás outras objecções teremos occasião de fallar breve. Eu não disse, creio, que o christianismo era filho da democracia. Affirmei e affirmo que esta não deriva e prescinde d’aquelle. Não será porém difficil provar que o christianismo é uma evolução do sentimento democratico. Ainda ha pouco sustentava douto allemão que Jesus fôra um apostolo do socialismo.[38] FLORES DO CAMPO, por João de Deus, publicadas pelo seu amigo José Antonio Garcia Blanco--Lisboa, typ. Franco-portugueza, 1868--Em casa de Ferin & Robin--1 vol. 16.^o--271 paginas. João de Deus é um personagem semi-lendario na tradição academica, e apesar de homem do nosso tempo, e tão do nosso que até com um diploma de deputado se nos apresentou ha pouco, anda-lhe o nome rodeado de quasi os mesmos fulgores e as mesmas sombras em que uma historia superficial ou mentirosa envolveu os velhos trovadores da Provença. Permittam-me uma digressão. Ha n’esta sociedade portugueza--já agora, ao que parece--condemnada a refocilhar em monturo de sanefas lantejouladas e rotas que lhe deixou o passado, e a dar ao mundo o triste espectaculo d’uma nacionalidade sem _ideia_ que a represente na historia philosophica de ámanhã, sem _ideal_ que lhe seja pharol e bussola na tormentosa navegação das sociedades d’hoje; ha, digo, n’esta nossa sociedade amortecida, extraordinarias visões, mysteriosos anceios, esforços convulsivos como que filhos de ignotos impulsos, que bem poderiam passar por agonias e paroxismos annunciadores da proxima dissolução, se um diagnostico escrupuloso não encontrasse antes n’aquillo promessas de reacção proxima, de rejuvenescimento que não vem longe, de evolução fatal, que em Portugal como em toda a parte, denuncia por aquellas aberrações e anormalidades a sua sublime prenhez d’uma nova ideia, d’uma era nova. Erguem-se no meio da grasnada petulante ou esteril da litteratura, vozes persistentes ... dôces ou enthusiasticas, sympathicas ou ameaçadoras ... frescas, novas, _originaes_--_raræ vocis!_--que parece irem na turba desmoralisada pôr em vibração alguma cellulazinha não contaminada do mal. E a turba põe-se a escutar, a applaudir, a aspirar soffregamente os frescores e doçuras, que tão enormemente se distanceiam dos miasmas do ambiente habitual, do sabor da habitual pitança. Alteiam-se, no meio da calaçaria geral, do geral e natural desanimo, vontades energicas que a pedraria da mestrança ignorante, intolerante e madraça não consegue desviar um momento da faina do estudo e da evangelisação scientifica. E a turba vae attentando n’ellas, vae sympathisando com aquelles revolucionarios heroicos do marasmo, vae comparando-os com os idolos anões que, sem ella saber como, nem porque se guindaram aos altares da sua admiração, vae fitando os novos horisontes para onde lhe apontam os novos chefes, vae-os seguindo já ao impulso d’uma necessidade indefinivel, mas fatal. Ha n’isto, já se vê, alguma cousa d’allucinação infantil. Crê-se que os novos Moysés levam comsigo, completas, as verdadeiras taboas da lei, e rasgarão com a magica varinha as brumas que envolvem a terra da promissão. Engano. Não lhes dão as forças para mais que um terço do caminho, se tanto. Mas isso mesmo é muito, é o que basta. Hão de apparecer novos guias. A questão é sahir da esterilidade do deserto. Citemos porém dois factos, tiremos dois exemplos, apenas, de tantos que podiamos apresentar da revolução litteraria que se realisa surdamente no seio da nossa pequena sociedade. Sejam elles, por hoje, dois poetas: Theophilo Braga e João de Deus; dois verdadeiros revolucionarios como outros de que para o diante terei de fallar. Um, apesar do mal que dizem d’elle, e do mal, que é maior talvez, que elle a si proprio faz, é inegavelmente um dos nossos poucos talentos originaes na concepção e na manifestação litteraria, na _idéa_ e na _fórma_, e se não é marco que no futuro atteste um grande e brilhante progresso na litteratura patria, é como que atrio imperfeito e tosco, mas espaçoso e altaneiro que póde servir d’entrada a _pantheon_ de esplendidos engenhos. E grande engenho é Theophilo, de certo. Por entre uma saraivada d’apodos e improperios de _mau gosto_ ou _má fé_, conquistou elle um logar elevado na poesia portugueza d’hoje, cujos magnates na maxima parte, persistem, com risivel teimosia, em trazer-lhe engastada na corôa á laia de fina joia, o carvão da ignorancia, ou em mascarem-n’a com um falso e retrogrado _classissismo_. Theophilo, porém, avançou menos do que devia. O _idealismo_ desvairou-o, o _romanismo_ póde perdel-o. Um dia a voz sympathica, insinuante, ora melancolica e dolorida, ora--bem poucas vezes!--alegre e enthusiastica de João de Deus, começou de fluctuar por sobre o borburinho cansado e monotono das nossas lettras. Não se sabe como nem quando foi. Perdeu-se a chronologia biographica nos encantos do _quasi_--extasis. Sabe-se sómente que a reputação do poeta não nos entrou na terra, dentro do cavallo de pao d’algum chefe _grego_, mestrão consummado n’estas machinações. Sabe-se tambem que João de Deus não andou por salas e officinas, annunciando a fazenda que tempos depois, atirada ao mercado, podia realisar o caso do _mons parturiens_. João de Deus apparecia-nos uma ou outra vez n’um periodico de Coimbra; ora nos segredava uma estrophe singela, e melodiosa pelo postigo d’uma typographia alemtejana; ora surgia em um periodico da capital a contar-nos umas duvidas que o magoavam, umas saudades indefiniveis que o pungiam, uns vagos amores que lhe andavam rumorejando lá dentro em vagas harmonias. E ninguem sabia quem era João de Deus. E ninguem procurava saber quem fosse; ou antes, julgavam todos sabel-o. Conheciam-n’o todos. Era um cerebro em ebullição, um coração em ataxia permanente, um estomago que valia por uma adega. João de Deus era um doudo que forrava as paredes do albergue com as folhas das _sebentas_; que dormia dentro da enxerga porque achava mais commodo isto do que dormir-lhe em cima; que se matriculava todos os annos na faculdade em que o secretario-universitario se lembrava de matriculal-o, que fôra de Coimbra a casa, d’algibeira vazia e lapis constantemente occupado em fazer magnificos versos ou magnificos desenhos; que se fizera um dia sacristão, e pozera n’outro, todo um bairro em sobresalto, subindo aos telhados para apostrophar a lua, etc., etc. E as anecdotas galantes succediam-se, e a cada nova poesia annexava-se uma historieta, e quando as poesias escasseavam, attribuiam-se ao poeta novas doudices, novas excentricidades, como a certo honrado e já defunto general se attribuiam quantos dispauterios o soalheiro burguez produzia. Se eu fosse biographo de João de Deus, havia talvez de lavrar aqui um protesto esmagador. Como não sou, limito-me a dizer o que penso do illustre algarviense. _Mais_ ou _menos_, todos somos poetas. N’este _mais_ e n’este _menos_, está, creio eu, o segredo da organisação _sensorial_, se póde dizer-se assim, organisação modificada é certo, mas não completamente transformada pelo _meio_ e pelo _habito_. Tal _sensação_ que n’uns individuos poria o cerebro n’um estado de effervescencia que lhe _exagerasse_ a realidade, a ponto muitas vezes de a substituir por uma concepção puramente subjectiva, em taes outros póde dar apenas o facto funccional em condições normaes e ordinarias, e concentrando-se, converter-se em reflexão. Precisava isto longo desenvolvimento. Ora como o primeiro modo de ser _sensorial_ póde dar-se em todos, mas com _mais_ ou _menos_ intensidade, com _maior_ ou _menor_ frequencia, digo eu, (e dizem bons escriptores), que todos são _mais_ ou _menos_ poetas. Isto quanto ao facto intellectivo. Quanto á expressão, o mesmo se póde dizer, sem receio de contestação séria. Pois na concepção como na palavra eu tenho João de Deus por verdadeiro poeta. Dizia Merck, homem de profundo bom senso, a Gœthe, seu amigo: «A tendencia irresistivel do teu genio é de imprimir a fórma poetica ás cousas _reaes_. Outros procuram um _soi-disant_ poesia, transformando em realidades, puras _imaginações_, o que só produz disparates.»[39] Sem concordar incondicionalmente com a primeira phrase do sensato allemão, sem querer acceitar a segunda como lei comprovada de critica litteraria, parece-me que de João de Deus se poderá dizer que reune as duas tendencias, as duas feições designadas, a _idealisação_ (phrase consagrada e porventura inexacta) do _real_, e a personificação, melhor talvez, a realisação plastica do _imaginario_. Como que as sensações sensoriaes[40] n’aquelle cerebro delicado, ou atravez aquelle organismo exageradamente impressionavel, se destacam algumas vezes do estimulo, ou alteram a natureza da propria objectividade e criam um mundo novo, um mundo mystico, permittam-me a expressão, a que o poeta dá uma realidade objectiva, moldando-o pelas manifestações plasticas do mundo em que vive. Acontece isto, porém, poucas vezes, nem podia deixar de ser assim, quando a indole da época e a illustração do poeta se estão oppondo á formação e sustentação d’estas concepções puramente subjectivas. Adivinha-se aqui ou ali a lucta tremenda que vae no cerebro de João de Deus, lucta que é a feição caracteristica do seculo, e que o manto esfarrapado do eclectismo immoral não consegue abafar; lucta entre o velho _crer_ e a _duvida_, a duvida, que como a hydra da mythologia surge após cada decepamento, e que não é possivel destruir como aquella, decepando-lhe o tronco. Ouvide um exemplo: «Prestes, se inda na rocha de granito, D’onde em tempo me vias, te sentares, Não olhes para a terra ou para os mares, _Olha sim para o céo, que é lá que habito_. «_Lá tão longe de ti, mas não do terno, Bondoso pae que os dois nos ha gerado, Só para mágoas não, que bem guardado Nos tem tambem no céo prazer eterno_.» Que profunda crença, que certeza _mystica_, se póde dizer-se assim, não rescende a suave _morbidezza_ d’estes versos! Ha ali alguma cousa do cantor da Bice. Vêde porém a tempestade que se annuncia; a duvida atravessou como um relampago o cerebro do poeta. Ouvide: «Não se é só pó no fim de tanta mágoa; _Senão_, diga-me alguem que allivio é este Que sinto quando á abobada celeste Alevanto os meus olhos rasos d’agua? «Mentem os céos _tambem_? Os céos maldigo. Feras, tigres _tambem_ o céo povoam? _Tambem_ os labios lá sorrindo coam Veneno desleal em beijo amigo? «_Mas na dôr é que os astros nos sorriem_, E os homens não sorriem na desdita. Astros! fio-me em vós, e Deus permitta Que os infelizes sempre em vós se fiem.» Refaz-se a crença, resurge a esperança consoladora: «Ha depois d’esta vida uma outra vida. _Não se reduz a nada o grão d’areia>, E havia a nossa alma, a nossa ideia_ Nas ruinas do pó ficar perdida?» Pobre sonhador! Aquelle segundo verso é um protesto ironico contra o teu ideal mystico, é o _grão d’areia_ que ha de intorpecer e desmandar todo o machinismo psycologico da tua crença! Continua: «_Isso que pensa e quer_ (até me admiro) Isso que a luz nos traz, que a luz nos leva, etc.» e accrescenta: «_Onde_, não sei eu bem, mas sei que existe Deus remunerador. Depois de mortos Hemos de vêr-nos, e um no outro absortos Fartar de glorias este amor tão triste. Tão triste e o coração que _me adivinha_ N’este supplicio nosso _este tormento!_» Fulge de novo o relampago, baqueia o edificio da crença; vêde que tormento: «_E morro sem te vêr!_ Cabeça douda Desassisado amor? sonhar afflicto Um sonho até morrer...» Pobre Hamlet! _...the rest is silence_ «Um sonho até morrer.... Não: resuscito; Morto tenho vivido a vida toda.» Pobre Faust! O _insufficiente_ (das Unzulœngliche) atormenta-te, porque te fascina o _inenarravel_ (das Unberchreiblichee.) Que tempo precioso perde comtigo o sensato Mephistopheles! Preferes á gargalhada que te chama á realidade da vida, o _chorus mysticus_ que te amargura a existencia com a mentira da miragem! João de Deus é rigorosamente um artista _insaciavel_: _Satiari artis copiditate non quit_, como diria Plinio. Adivinha-se em cada estrophe d’elle um ancear indefinivel, um vago aspirar, se póde dizer-se assim, uma como que miragem que attrahe o poeta, que o alenta umas vezes e o desespera não poucas, que parece enviar-lhe dos visos do horisonte uns suaves frescores, envoltos em deliciosos perfumes, e que, como a miragem do deserto, lhe foge sempre aos labios sequiosos. E o pobre viandante vae caminhando e cantando sempre. É um descantar dolorido geralmente, como que um descantar de saudade do que sonhou e não acha, e não gosa, e não encontra no caminho; como que de _saudade_ do que lhe foge sempre, deixem-me usar a dôce palavra, que bem sei eu que não fica ella bem lexicographicamente applicada. E assim com a imaginação embalada por um vago _ideal_ vae João de Deus _poetisando_, como Gœthe, na opinião do seu já citado amigo, tudo o que no caminho encontra. Poucas vezes se lhe altera a harmonia cerebral ao impulso d’uma vibração mais violenta. Os successivos amores--fundem-se quasi n’uma abstracção, parecem subtilisar-se até no _feminino eterno_ do cantor do Fausto. Hoje Margarida, ámanhã Helena, depois ... Depois quem sabe? Hoje Marina. É uma recordação. «Como esse olhar é dôce! Dôce da mesma sorte, Como se nunca fosse Toldado pela morte! «Como se alumiasse O sol ainda em vida As rosas d’essa face Agora corcomida! «Colhesse-as eu mais cedo, E logo que alvorece Já não tivesse medo Que a terra m’as comesse! ................... «Se um dia nos meus braços Te desbotasse as côres, Passavam os abraços... Passavam os amores!... «Oh não: mil vezes antes No céo lá onde habitas, E os rapidos instantes Que vens e me visitas «N’este degredo nosso Que tanta gente estima, E eu, só porque não posso, Não largo e vou lá cima. «Vem tu cá abaixo. Abala, etc. ................... «Ha uma hora ou mais, Marina! que contemplo A casa de teus paes Que é para mim um templo. ................... «É esta vida um mar, E bem se póde a gente, Marina, comparar Á rapida corrente; «Que vae de lado a lado Por esses valles fóra, Sem nunca lhe ser dado Ter a menor demora. «Pára quando a engole Aquelle mar sem fundo «Nem pára, é como o sol E como todo o mundo ................... Custa a resistir á tentação de transplantar para aqui completas, estas magnificas _singelezas_. Não ha n’aquillo alguma coisa do que é espontaneo e bello na _Vita Nuova_? Mas, como dissemos, o poeta aproxima-se tambem do Faust na volubilidade artistica. «Maria! vêr-te á porta a fazer meia, Olhando para mim de vez em quando, É o que n’esta vida me recreia. ................... «E eu pallido, Maria! o pensamento Não é trabalho que nos dê saude, Esta imaginação é um tormento. ................... «É que a gente na sua mocidade Não cabe em si, não pára de contente, E assim fui eu na flôr da minha edade. «Tu eras n’esse tempo simplesmente A flôr que vae nascendo e mais valia Seres tão terna ainda e innocente. «Já esse lindo pé que tens, Maria! Esse quadril tão largo e cinta estreita Me não vinha á idéa noite e dia; «Esses encontros de mulher perfeita, Esse peito redondo e arqueado Como a pomba farta e satisfeita; «Talvez vivesse então mais socegado, Ou já que a minha sorte é sempre triste, Ao menos não andasse enfeitiçado. ................................. Depois é Margarida. «Oh! que formosos dias, Margarida! Esses etc. etc. Depois ... Ha nomes que não se proferem, que não se denunciam. São como certo nome do Deus judaico. O poeta diz simplesmente: _No leito nupcial_. Um nome depois d’isto fôra mais que uma profanação. Julgaes, porém, que ides ouvir uma recriminação amarga ou uma indiscripção villan? «Dorme, estatua de neve, Vergontea de marfim, Tocar que impio se atreve No que é sagrado assim. «Dois são: o mais, mysterio Vedado á terra, Deus Talvez do solio ethereo Nem baixe os olhos seus. «Respeita-os, tapa-os, como Japhet e Sem, o pae... Pende sagrado pomo, A vista ergue-se e cáe. «Ergue-se e cáe, conforme A lei que o manda assim, Ergue-se e ... dorme, dorme, Vergontea de marfim! ................... «Não segue acaso a sombra Teu corpo sempre, flôr, E pois porque te assombra Meu insensato amor? ................... Depois é Beatriz. «Tu és o cheiro que exhala Ao ir-se abrindo uma flôr, Tu és o collo que emballa Suas primicias d’amor. «Tu és um beijo materno, Tu és um riso infantil, Sol entre as nuvens do inverno, Rosa entre as flôres d’abril «Tu és a rosa de maio, Tu és a flamula azul, Que atam á flecha do raio As nuvens negras do sul. ................... E assim vae cantando sempre, de nome em nome, e de mysterio em mysterio e d’amor em amor, de duvida em duvida, de saudade em saudade, d’anceio em anceio. Não ha Beatriz que o retenha e lhe oiça o «_Ecce Deos fortior me veniens dorminabitur mihi_.» Um dia encontra uma mulher formosa, joven, alegre. Ama. Será amado? «Amas-me a mim! perdôa, É impossivel! Não, Não ha quem se condôa Da minha solidão. «Como podia eu triste Ah inspirar-te amor, Um dia que me viste Se é que me viste ... flôr. .................. «Via-te arfar o seio... Córar ... mudar de côr, E embora, ah! não, não creio, Tu não me tens amor! E o sonho foi-se a visão desappareceu. Como se chamava aquella mulher? Vão lá saber como se chama a estrella cadente que rasga a amplidão do espaço e desapparece n’ella? Outro dia é poeta que se afasta, que foge, porque receia macular com o seu halito o puro fulgor da estrella. «Tenho-te muito amor, E amas-me muito, creio, Mas ouve-me, receio Tornar-te desgraçada. O homem, minha amada, Não perde nada, gosa; Mas a mulher é rosa... Sim a mulher é flôr! «Ora a flôr, vê tu No que ella se resume... Faltando-lhe o perfume, Que é a essencia d’ella, A mais viçosa e bella, Vê-a a gente e ... basta. Sê sempre, sempre casta! Terás ... quanto possuo!» Vou findar com as transcripções, que bastam as que ficam feitas para comprovar o que ácerca d’estas mimosas poesias e d’este original poeta tenho dito e hei de para diante dizer. Não posso, porém, resistir á tentação de citar ainda uns trechos d’uma das mais bellas e caracteristicas composições de João de Deus. Podesse eu transcrevel-a toda! Não tem nome. Chamam-lhe alguns «A vida.» Innumeras vezes tem ella feito cessar as alegrias das salas e interrompido brilhantes festas como o austero bispo de certa poesia de Thomaz Ribeiro, para mendigar ao sentimento das damas um condoimento de triste sympathia pelas intimas amarguras do poeta. Tem por epigraphe aquellas formosas palavras de Tasso: _Cosi trapassa al trapassar d’un giorno,_ etc. e começa: «Foi-se-me pouco a pouco amortecendo A luz que n’esta vida me guiava, Olhos fitos na qual até contava Ir os degraus do tumulo descendo. «Em se ella anuveando, em a não vendo, Já se me a luz de tudo anuveava; Despontava ella apenas, despontava Logo em minha alma a luz que ia perdendo. «Alma gemea da minha, e ingenua e pura Como os anjos do céo (_se o não sonharam_...) Quiz mostrar-me que o bem, bem pouco dura. «Não sei se voou, se m’a levaram, Nem saiba eu nunca a minha desventura Contar aos que ainda em vida não choraram.» Estas linhas fazem recordar Camões. Ha n’este tristuras que se manifestam por versos parecidos, mas eu prefiro estes ao tão conhecido soneto da «Alma minha gentil,» etc. Parece denunciar-se n’esta singeleza _morbida_, se póde dizer-se assim, mais sentimento e espontaneidade. Vamos mais além. Que superabundancia de imagens! Que riqueza e variedade de _sensação_! Que esplendidos quadros! Que magnificencia de colorido! «Ah! quando no seu collo reclinado, Collo mais puro e candido _que arminho_, _Como abelha na flôr do rosmaninho_ Osculava seu labio perfumado; «Quando á luz dos seus olhos ... (que era vêl-os, E enfeitiçar-se a alma em graça tanta!) Lia na sua bôca a _Biblia santa_ Escripta em lettra _côr dos seus cabellos_; «Quando a sua mãosinha pondo um dedo Em seus labios de _rosa pouco aberta, Como timida pomba_ sempre álerta, Me impunha ora silencio, ora segredo; «Quando, _como a alveloa_, delicada E linda _como a flôr_ que haja mais linda Passava _como o cysne_ ou _como ainda_ Antes do sol raiar, _nuvem dourada_; ................................. «Quando a _cruz_ do collar do seu pescoço, _Estendendo-me os traços, como estende_ _O symbolo d’amor que as almas prende,_ _Me dizia..._ o que ás mais dizer não ouço; ................................. «Quando _o ouro_ da trança aos ventos dando E _a neve_ do seu collo e seu vestido --_Pomba_ que do seu par se ia perdido, Já de longe lhe ouvia o peito arfando;[41] «Tinha _o céo_ da minha alma as sete côres», etc. .............................. .............................. «Que é d’esses cabellos d’ouro De mais subido quilate, D’esses labios escarlates, Meu thesouro! «Que é d’esse halito, que ainda O coração me perfuma! Que é de teu collo de espuma Pomba linda! .............................. .............................. «De dia a estrella d’alva empallidece; E a luz do dia eterno te ha ferido. Em teu languido olhar adormecido Nunca me um dia em vida amanhecesse. «Foste a concha da praia. A flôr parece Mais ditosa que tu. Quem te ha partido, Meu calix de crystal, onde hei bebido Os nectares do céo ... se um céo houvesse! «Fonte pura das lagrimas que choro![42] Quem tão menina e moça desmanchado Te ha pelas nuvens os cabellos d’ouro .............................. «A vida é o dia d’hoje, A vida é ai que mal sôa, A vida é sombra que foge, A vida é nuvem que vôa; A vida é sonho tão leve Que se desfaz como a neve E como o fumo se esvae: A vida dura um momento Mais leve que o pensamento, A vida leva-a o vento, A vida é folha que cáe! «A vida é flôr na corrente, A vida é sopro suave, A vida é estrella cadente, Vôa mais leve que a ave; Nuvem que o vento nos ares, Onda que o vento nos mares Uma após outra lançou, A vida--penna cahida Da aza da ave ferida, De valle em valle impellida, A vida o vento a levou! .............................. .............................. «_Talvez_ é hoje a Biblia, o livro aberto Que eu só ponho ante mim nas rochas, quando Vou pelo mundo vêr se a posso vêr; E onde como a palmeira do deserto, Apenas vejo aos pés inquieta, ondeando, A sombra do meu ser.» .............................. Depois d’isto comprehende-se que João de Deus se proprozesse a traduzir o _Cantico dos Canticos_. Como, se bem me lembro, diz Herder, os elementos primordiaes da poesia hebraica são a _sensação_ e a _imagem_ e posto que, no meu entender, a boa critica não possa monopolisar aquella feição em favor apenas d’aquella poesia, porque ella é caracteristica de todas as litteraturas na sua genese, e nos primeiros periodos de constituição, em quanto predominam no homem os sentimentos elementares, como diz Veron[43]; comtudo a poesia hebraica, propriamente tal, quasi não chega a ultrapassar o periodo d’aquelle predominio. Poderiam talvez accusar-se os versos, que acabo de transcrever, de certo _garridismo_, que mal iria ao sentimento que exprimem, se a violencia d’esse sentimento, o estado de exaltação sensorial não estivessem justificando o que parece defeito aos leitores que não sintam a transfusão psychologica que muitos hão de experimentar ante aquelles versos magnificos. A poesia de João de Deus é verdadeira musica. Se eu estivesse agora para combater os que julgam como Lamartine[44] que a _versificação_, o rhythmo, a cadencia, a rima, são cousas indifferentes á poesia na «época adiantada e verdadeiramente intellectual dos povos modernos»; os que teem tudo isso, como Heine (cit. por Max. Buchon) por completa puerilidade, para valente comprovação me podiam servir os versos do nosso poeta. São elles geralmente como que uma psalmodia. Alia-se a musica e a poesia que tantos querem distancear, como se o rhythmo fosse apenas elemento especial d’uma arte. João de Deus como que tem uma rhythmopea espontanea. Sahe-lhe o verso moldado pela idéa e pelo sentimento, e n’este como n’aquelle a modulação existe pelas fataes variantes dos estimulos e das vibrações cerebraes. Procuraram os gregos systematisar as relações do rhythmo para com a idéa e o sentimento, como se fôra possivel marcar limite numerico aos modos de ser do pensamento, ou aos productos da activividade intellectual e esthetica. Se, pois, em muitos casos, são acceitaveis as velhas regras, geralmente a rhythmopea deve ser producto espontaneo, e não _canon_ de escóla. E porque se dá o primeiro caso em João de Deus, é que talvez se revela nos seus versos, bem salientemente, o cunho da personalidade, condição especial d’uma obra poetica. É necessario não perder aquella de vista, por que, como diz o critico francez, que atraz citei, o verdadeiro merecimento, na poesia, está antes na esthesia do poeta do que na do leitor. Ora bastam as transcripções que fiz para vêr como a personalidade do poeta, o seu sentir e pensar se patenteam na expressão, na _fórma_, que em outros escriptores mal disfarça com arrebiques e europeis a carencia da sensibilidade e inspiração pessoal. Ha mais _poesia_ n’algumas _singelezas_ de João de Deus do que em muitos _versos_ laureados que por ahi correm como modêlos de _metrificação_, e que bem podem sêl-o, o que não basta de certo. «Mais poesia em pobre margarida Que aos pés se piza, enthesourada vejo, Que em muita madreperola polida Que as cinzas guarda de finado arpejo.» Toquei eu agora n’uma das melhores poesias de João de Deus, poesia que elle diz ser fragmento e fragmento que bem faz desejar a apparição da obra toda. Vou ainda transcrever alguns trechos que lançam de certo muita luz sobre o vulto, quasi lendario do poeta, em pontos menos esclarecidos pelas transcripções anteriores. «Padre, ministro do Crucificado, É bom ferreiro affeiçoando o ferro Com que hade prestes ir rompendo o arado Os campos d’este secular desterro. Melhor explicam um lugar sagrado Bigorna e malho que o explica o berro Do bonzo inutil; que ásperos abrolhos Não viram nunca seus inchados olhos. ............................. «Eu não sou dos que a patria sua adoram Como adora o seu Deus o fiel crente. Vejo que todos n’uma patria moram E sobre todos vejo um céo sómente: Mas ame cada qual; que se outros choram Nas mãos dos tigres que só comem gente, Tambem meus olhos choram seu tormento D’onde quer que seus ais me traga o vento. ............................. «Na montanha da Fé, mulher formosa Se ante mim a seus pés desenrolasse Como o demonio a vastidão pasmosa Que elle dava a Jesus se o adorasse, E me pedisse em premio uma só cousa Ás mãos de minha mãe furtar a face; Eu lançava-lhe o cuspo... ............................. «Vêde-a ao berço sofrega de vida, Que a sua é pouca para dar ao filho, _Ella_ em cama de espinhos, mal vestida, _Elle_ enfaxado em berço de tomilho; _Ella_ em contínua, azafamada lida, _Elle_ vendo se apanha á luz o brilho... _Já descobrindo em tão tenrinha edade Que toda a sua sêde é de verdade._ ....................................... ....................................... «Irmãs da Caridade! A caridade Tem só duas irmãs--a Fé e a Esperança: Não traja as côres só d’uma irmandade, Traja as côres do Arco d’alliança; Leva sósinha o pão da piedade, Tira da roda essa infeliz creança... Roda da vida que anda de tal sorte Que em se lhe dando é já contar com a morte.» «Bemdita sejas tu, victima triste, D’um peito amante e d’um amante ingrato! Que nunca á mesma loba lançar viste Inda mamando o cachorrinho ao matto; Bemdita sejas tu que o que pariste Teu fructo, imagem tua e teu retrato, Conservas como espelho onde te vejas; Bemdita sejas tu, bemdita sejas. ....................................... ....................................... «Acaso é só dourada altiva estola Que liga os corpos em mãos ligando, Confunde corações e faz em summa Que a Deus se elevem duas almas n’uma?» Ahi tendes o apostolo, o campeão social. Não lhe acceiteis muito embora a doutrina. Acatai-lhe a generosidade, a grandeza da _idêa_, a robustez da convicção. Que poema original, magestoso e bello não será aquelle! Colligir as poesias de João de Deus que por ahi andavam dispersas, mutiladas e perdidas, foi de certo um grande serviço ás patrias lettras. Prestou-o o snr. José Antonio Garcia Blanco. Poeta mais original, mais rico, mais verdadeiro, do que aquelle não conheço na litteratura portugueza e tanto como elle ha de ser difficil de encontrar entre nós, na litteratura d’hoje. Um certo _mysticismo_ mal definido que recendem as suas poesias é menos producto da tradição que originalidade genial. João de Deus é um homem do meio-dia com o vago ancear d’um poeta do norte. Opprime-o o _insufficiente_ como ao Faust. Se lhe désse para ser philosopho, onde iria parar?... Como poeta tem alguma cousa de Ossian, com alguma cousa de Gœthe.... É incontestavelmente o nosso melhor _lyrico_ actual e um dos primeiros com relação aos que temos tido, na accepção consagrada do termo. Melhor se dissera _elegiaco_, mas nem agora importam classificações que de mais peccam por incompletas nem inexactas, nem vem a pello averiguações criticas, sobre inuteis, improficuas. Já dizia Horacio: _Qui tamen exiguos elegos emiserit auctor, Grammatici certant et ad huc judice lis est._ Expressão d’um momento psychico, d’uma situação actual da alma, essencialmente pessoal, egoista até, na sua genese, o lyrismo ou a _elegia_ conserva na manifestação e evolução artistica como principaes elementos a espontaneidade e a individualidade moral. As feições e as condições d’esta, revelam-se n’elle directamente sem que fique,--porque é arte,--manietado á personalidade determinada. Por um lado, generalisa-se a commoção, o sentimento, deixem dizer assim; ha como que uma transmissão, uma transfusão do modo de ser psychico; afinam-se pela lyra d’alma do poeta as almas dos que o escutam. Por outro lado a natureza de expansão intima e pathetica implica na poesia lyrica uma rythmopea expressiva, livre, viva, exuberante, uma elocução franca, ampla, simples, sem mesquinhez ou affectação, concreta sem monotonia, etc., etc. É o que acontece geralmente, como fica notado, na poesia de João de Deus. Áparte a sentida espontaneidade, a exuberancia idealisadora, a impressionabilidade pathetica, as notaveis virtudes do genio poetico de João de Deus, tem elle prestado tambem á lingua e principalmente ao verso portuguez serviços relevantes; tem-lhe dado riquezas e corrigido muitos vicios, consagrados alguns pela geral degenerescença artistica, e affirmado emfim no meio da poesia arrebicada e hypocrita, que quasi se póde dizer a predominante entre nós, uma feição verdadeiramente original e fecunda em lições e exemplos de verdade e de bom senso esthetico e critico. João de Deus não pensou decerto nunca em fazer _eschola_, nem é consoante com isso a sua poesia, principalmente individual e psychologica. Mas o seu exemplo de naturalidade e singeleza, que uma imaginação feracissima sabe conveniente e brilhantemente enflorar sem falsear ou opprimir, e de espontanea harmonia,--a verdadeira, a intima harmonia entre a arte e o ideal,--não tem cahido completamente em terreno sáfaro ou improductivo e boas provas ha já do seu aproveitamento. Metro e linguagem do nosso poeta encerram riquezas notaveis e podem exercer salutar influencia. Pois, apezar de tudo, João de Deus vegeta para ahi ao desamparo, triste, pobre e esquecido, como é fado dos bons, honestos e aproveitaveis talentos, n’esta terra de gallegos lantejoulados, de agiotas boçaes, de vendilhões de consciencias e de litterateiros ignorantes, que veem a ser pelos modos os firmes sustentaculos e os esplendidos luminares da patria. GLORIAS PORTUGUEZAS, por A. A. Teixeira de Vasconcellos.--Tomo I--Typographia Portugueza, MDCCCLXIX--XVI--159. É o snr. Teixeira de Vasconcellos, escriptor de notavel fecundia e elegante e correcta fluencia, que, se não tem--e não tem de certo--enriquecido a patria litteratura com monumentos concepcionalmente originaes e elevados, nem exercido n’ella influencia profundamente benefica e caracteristica--que nem a tanto deitam, cremos, as suas aspirações--, não tem, como tantos, explorado systematicamente o marasmo, o mau gosto e o mau senso litterario _ainda_ vigente, para trepar a tripode manca e ridicula na angariação charlatã de ridicula e manca popularidade. As suas obras apresentam a caracteristica do _narrar_ facil e singelo em que tamanho soube tornar-se Garrett, faltando-lhe d’este, porém, a graciosidade, o mimo, o adelgaçamento de tintas e a finura do desenho, em que--diga-se de passagem--elle substituia algumas vezes a espontaneidade pela _affectação_, o natural pelo arrebique. Sabe Teixeira de Vasconcellos geralmente evitar o vulgar descambamento n’uma certa logomachia convencional e garrida, verbosidade embonecrada e sédiça, _bimbeloterie_ de phrases _bonitas_ que por ahi anda feirada como formosa e _poetica_ dicção e que a final de contas não passa de elixir ou pomada milagreira com que se lambusam, em guisa de embellezamento e enfeite, e com que vão illudindo incautos e basbaques: a madraçaria e a ignorancia. Ha pouco escreviamos nós: «Imaginação afeita a divagar terra a terra, intelligencia litterariamente cultivada, mas que não parece ter-se mergulhado nunca em profundas locubrações scientificas; Teixeira de Vasconcellos, é um _flaneur_ da litteratura,--sem grandes entufamentos, geralmente despretencioso, delicado e galanteador, tratando as idéas como se fossem damas e os adversarios com os cavalheirismos convencionaes do duello.» O peior é que assim trata a historia tambem, o que simplesmente quer dizer que lhe faltam as principaes qualidades de historiador: a coragem e o desassombro para a dissecção critica da tradição, a despreoccupação e a severidade da analyse, a elevação, a liberdade, a espontaneidade da synthese. Entra no vasto labyrintho da historia como quem entra no _toilette_ de fidalga e elegante dona em cujo album é necessario escrever uma pagina galante. Quando muito, entra alli como quem entra n’um _pantheon_, com a preconcepção da magestade dos vultos que lá vae encontrar, ou n’um templo com toda a reverencia de uma fé profunda e firme. Com tal preconcepção, comprehende-se que se não possa ser verdadeiro historiador, e hoje menos que nunca que mais do que nunca anda revolta a exegese critica. A muito longe nos deitariam estas considerações, mas confirma plenamente o que já fica dito o preambulo do livro _Glorias Portuguezas_, preambulo que tem principalmente da proclamação _patriotica_ o falseamento ou a mystificação da historia em proveito da tradição e dos preconceitos vulgares. N’elle demoraremos principalmente a attenção. Começa assim: «Fortalecem as tradições o homem. «Inspiram-lhe brios. «Estimulam as virtudes da familia, e servem-lhe de norte. Honram as nações. São-lhes glorias.» Acode aqui naturalmente e sem malicia a ideia de acrescentar:--«quando fortalecem, quando inspiram, quando estimulam, quando servem, quando honram, quando gloriam...» Ha tradições e tradições. É evidentemente falsa aquella generalisação affirmada, mas destacada como vem, não vale a pena discutil-a. Continúa: «É dever _celebrar_ os varões _insignes_. Não só dever, tambem é serviço publico. Fallar e escrever _com louvor_ dos que _procederam rectamente_, não póde ter-se em conta de inutil, etc.» Conforme: tudo é relativo n’estas regiões sublunares. Util é de certo para todos e perante todas as doutrinas moraes, _historiar_, o que não vem a ser o mesmo que _celebrar_, estudar e dizer _como_, _porque_ e _para que_ procederam n’este ou n’aquelle sentido certos homens que determinadas condições historicas e psychicas levantaram bem alto na corrente dos tempos, investigar as primicias, os fins ou as consequencias de certas existencias historicas, o que não é o mesmo, nem tem o mesmo fim que _fallar_ e _escrever d’ellas com louvor_. O louvor indica adhesão individual e partidaria e já não queremos observar que o louvor a este ou áquelle vulto tira á historia o caracter da collectividade, da _unicidade_ de causas e effeitos, de leis e condições objectivas que ella tem. O _heroworship_ deturpa a critica. Vico vale mais do que Carlyle. A historia não é a apotheose. Um homem é um elo. A historia estuda, e patentea a cadêa immensa, que se estende atravez do espaço e do tempo, modificando-se com um e com outro, e que se chama «humanidade». Mas a biographia? De certo a biographia é uma parcella da historia, mas biographar não implica louvar. A boa biographia obedece á lei da historia: «_Eam esse historiæ legem, nequid falsi dicere audeat, ne quid veri non audeat._» «A historia tem por lei nada ousar dizer que seja falso, e nada ousar calar que seja verdadeiro», dizia Tacito: E o _louvor_ é isto? É isto o _elogio historico_? _O louvor dos que procederam rectamente!_ Mas onde está a bitola d’esse proceder? N’uma moral subjectiva e individual? A historia não é isso, ou antes a historia não deve ser isso. Entrou felizmente n’um caminho _positivo_. De certo não póde emancipar-se completamente das condições da pessoalidade moral do historiador. Mas este é que deve emancipar-se da preconcepção apologetica, que ha de fatalmente falseal-a. Vamos, porém, seguindo o «preambulo». Continúa elle: «A poder de valentia e de perseverança _fizemos_ da terra portugueza estado independente e _defendemos com ardor e tenacidade o solo da patria sempre e contra quantos nos vieram aggredir. Não poderam subjugar-nos os leões de Castella e facilmente nos desprendemos_ das garras vigorosas com que nos empolgaram as aguias francezas. «_Até ás sagazes pretenções da curia romana soubemos resistir com vantagem. «Eramos fortes!_» Com outras tantas asseverações, egualmente fundadas, podia concluir-se: «Eramos fracos.» A final de contas de nada valia a conclusão. Era tão falsa como a outra. De que força se falla? Parece que de força moral, da energia do sentimento collectivo, do sentimento patriotico, se querem assim. É isso qualidade ingenita e exclusiva? Ponhamos, porém, de parte esta questão; deixemos em socego o primeiro periodo do trecho citado, que bem se vê se podia ou não ser contestado, ou se encerra uma verdade historica comprovada, e fecunda em ensinamento e gloria. A dominação dos sessenta annos, e a singela historia narrativa da dominação e guerra dos francezes, desmentem cathegoricamente o periodo seguinte. Contra o ultimo podem citar-se muitos factos. Não é necessario recorrer ás luctas entre o poder civil e o poder ecclesiastico nos primeiros tempos da monarchia, luctas que são reflexo do movimento de emancipação civil que se operava em toda a Europa, ou antes da reacção do direito romano, do _jus civile_ contra o _jus canonicum_, que á propria Inglaterra se estende em 1163. Temos por cá nome correspondente ao de Thomas-à-Becket, na sua significação na exegese historica. Mas não é necessario ir tão longe, nem citar Sancho II, e tantos outros nomes e factos. Basta citar a inaudita exploração realisada n’este canto da Europa pela curia romana no tempo do imbecil e fanatico João III. _Eramos fortes!_ Mas quando, ou até quando? Eramos: não somos? Eramos fortes! Mas ... «_Eam esse historiæ legem ne quid falsi dicere audeat, ne quid veri non audeat._» Não basta dizer que _fomos_ fortes. A historia assim tratada tambem diz que _fomos_ fracos. A fundação da monarchia não foi simplesmente negocio de valentia e de perseverança. Ficou-nos mal a valentia bastantes vezes, e entibiou-se outras tantas a teimosia _nossa_ ou antes a dos aventureiros christãos vindos de além Minho ou de além dos Pyreneus e das populações mosarabes d’este tracto de terra europea. Valeram-nos tambem as intrigas domesticas ou a diplomacia de certos magnates ambiciosos, taes como as do conde borgonhez Henrique, as da condessa ou rainha Thereza, etc. E que importa isso? Que importam os factos a que devemos a independencia, comtanto que independentes queiramos e saibamos ser. Que necessidade ha de falsear a historia para nos afidalgar a origem? A historia tambem conta o que fomos no reinado de Fernando, o que valiamos quando o duque d’Alba passeiou os seus velhos guerreiros até Lisboa, quando o «Demonio do meio-dia» era jurado e acclamado por todo o Portugal, etc., etc. Realisamos grandes commettimentos e commettemos grandes vergonhas. Se nós,--os homens d’hoje--nos orgulhamos dos primeiros, porque não confessaremos as segundas? A umas e aos outros anda avesso o espirito da época e as condições da moderna civilisação. Mas o historiador tem de ser como o anatomista. _Inquinandæ sunt manus_. Tem de macular as mãos muitas vezes para tatear bem e affirmar seguro. Não temos a viver do que fomos, e se rejeitamos--os que rejeitam,--no individuo a aristocracia dos pergaminhos, para que quereremos para a collectividade a aristocracia e o orgulho d’uma historia mal feita. Não somos maiores ou menores--isoladamente,--do que os nossos antepassados. A evolução nas idéas e nos factos, a transformação do viver collectivo e do collectivo pensar, supprime como absurda a comparação. Maior influencia no mundo tiveram nossos antepassados em determinada época e por determinadas condições sociaes: na época dos _descobrimentos_. Mas exactamente a prova de que a acção collectiva,--nacional, se querem--não póde isolar-se na exegese historica, não é o producto de determinadas vontades, é que não podemos ser o que então foram nossos antepassados. Com que direito nos deprimem por isso? Onde está a nossa culpa? Querem deprimir-nos, apontando para os nossos avós, sem metterem em linha de conta a evolução do sentimento historico e do facto social, como certos classicos caturras,--a gente do _ideal_ absoluto,--deprimem os artistas modernos apontando-lhes para os monumentos da arte grega sem attenderem á evolução do sentimento artistico e ás proprias evoluções da _fórma_, que como diz Burger, se bem nos lembramos, protesta até pelo estudo comparado da phrenologia contra a imitação plastica da arte grega. O nosso grande mal, a nossa enfermidade terrivel, é a _tradição_, ou antes, é a má, a falsa, a absurda historia;--a historia _patriotica_. Fundaram com valentia a nossa independencia certos homens, outros a perderam, não sabemos se por vulgar antithese palavrosa devemos dizer: «por cobardia». No esbroamento do imperio de Carlos V, reganhou-se o que se perdêra quasi sem protesto da _nossa_ parte sessenta annos antes. Invadiram Portugal os francezes, e de Portugal foram expulsos passado algum tempo. Souberam _alguns governos_ portuguezes resistir ás pretenções da curia romana _algumas vezes_. «Eramos fortes! exclama Teixeira de Vasconcellos. Podiamos ser fracos. Tudo isso é relativo. O que é necessario é não isolar esses factos, julgal-os á superficie, entretecer com elles uma corôa civica, ou dizer-nos:--«Assim é-se forte.» De nada nos serve a superficial lição que não podemos reproduzir o exemplar mais ou menos falseado. O que é necessario, o que é inutil, o que é fecundo, o que é lição, é estudar e expôr todos esses factos á luz d’uma critica despreoccupada, desapaixonada, severa, cuidadosa, imparcial que «nada ouse dizer que seja falso, que nada ouse calar que seja verdadeiro», separar os elementos puramente relativos, as concreções historicas e legendarias, e extrahir a _lei_, o principio, a _essencia_, se póde dizer-se assim; estudar o facto como consequencia, como manifestação d’uma causa, investigar esta, investigar as relações, as condições sociologicas, e d’este estudo desassombrado e profundo, deduzir,--se quer deduzir-se,--a _finalidade_ historica, _finalidade positiva_, deixem-nos assim dizer, que póde não servir aos interesses d’um patriotismo parvo, mas que serve a sciencia e o povo, governantes e governados. A historia assim não é pythonissa charlatã, nem aduladora que desvaire e obsequeie. É escóla que ensina e facho que dirige. É medicina de semeiologia escrupulosa, de diagnostico sensato, de receituario prudente. Não é deslumbramento: é ensinamento. Não é elixir milagreiro,--vão-se os milagres com os deuses,--: é advertencia, explicação e conselho. Não é purpura lantejoulada;--vão-se as lantejoulas e as purpuras com os reis;--é livro aberto ás dôres e aos anceios do presente. Mas dir-se-ha: «trata-se d’um prologo, d’um preambulo.» Decerto: mas é que esse prologo representa, além d’um livro, um homem e mais que um homem, uma doutrina, um systema e uma sociedade. E não deixaremos de fazer justiça a esse homem, que elle mesmo escreveu alli palavras que revelam uma intenção excellente. Nova rajada patriotica affirma que «aperfeiçoamos as instituições politicas da edade média»; que «nas côrtes nacionaes _lançamos os fundamentos do governo representativo_»; que «acatamos o _principio popular_ na eleição do _mais querido dos nossos reis,_» e que «_aspirámos_ a gosar de _grande numero de liberdades_ muito antes que as _vissemos inscriptas_ nos modernos codigos das outras nações». Somma total: «Eramos politicos». Podiamos dizer aproximadamente o mesmo que dissemos da phrase «Eramos fortes». Limitar-nos-hemos a algumas observações ligeiras. Quando e em que _aperfeiçoamos_ as instituições medivaes? E admittindo tal aperfeiçoamento, só entre nós se realisou elle? Para além das nossas fronteiras não soffreram taes instituições transformação ou evolução que podesse chamar-se aperfeiçoamento? Pela nossa parte não vemos que a historia denuncie facto caracteristico na transformação do regimen politico dos povos na meia edade que seja exclusivo a Portugal. Falla-se, porém, das côrtes nacionaes e affirma-se que _lançámos_ n’ellas os fundamentos do regimen representativo! Eis resolvido um dos mais embaraçosos problemas da historia moderna. Eis proclamado o nosso direito á patente de invenção d’aquelle systema. _Eureka!_ O parlamentarismo achou a sua origem. Descobriu-se-lhe a genese historica. Não foi para isso necessario investigar o viver da provincia romana no meio do cataclysmo dos barbaros. Não foi necessario incommodar estes e interrogar-lhe as tradições e costumes. Fiquem em socego as _Principum concilia_, as _Witenagemote_, as assembléas nacionaes dos Franks e tantas outras instituições similhantes d’arrevesados nomes. Não vale a pena bolir na organisação politica do imperio romano para vasculhar alli a morphologia do systema electivo ou representativo. Até á Grecia podéramos ir; mas para que incommodar Solon, Kleisthenes ou Ephialtes? _Fomos nós_ que lançamos os fundamentos do systema representativo! E as côrtes são obra nossa? Devem sel-o. Provavelmente adivinharam-nos as intenções liberaes os povos que nos precederam na genese politica e historica. D’aqui a proclamar Ulysses fundador de Lisboa, a collocar Illion nas visinhanças de Setubal e a dizer que a lingua fallada no Eden era a nossa e não a castelhana ou a hollandeza, como queriam certos patrioticos philologos, pouco vae. De nós podia até dizer Teixeira de Vasconcellos o que Livio dizia do imperio romano: que se seguia immediatamente aos deuses: _Maximi secundam deorum opes_. Ora realmente causam pasmo asseverações d’aquellas da parte d’um escriptor notavel, intelligencia litterariamente cultivada e séria. Aquillo não se discute. Continuemos. O que é o _principio popular_? _Words, words, words!_ E que principio é esse que acatamos na eleição de João I? É o que aconselhava Alvares Paes ao mestre de Aviz:--«Fazei por esta guisa: dae aquillo que vosso não é»--e que o _regedor e defensor do reyno_ tanto explorou e praticou? Que teve o povo, que tem a democracia moderna com a usurpação ou eleição _juridica_ de João I? Realisava-se uma evolução, uma revolução no facto social, e João I, ou antes a extravagante trindade de João das Regras, Nuno Alvares e Alvaro Paes, confirmam essa revolução. João das Regras é quem mais avulta sobre ella e João das Regras é o direito romano, a _lei_, o _novo_ regimen. Vamos a caminho da monarchia _pura_. João I, o mais _querido_, annuncia João II, e Manoel o _mais venturoso_, e João III o _mais devoto_. A democracia não tem nada que agradecer a estes senhores. O povo é o joguete, o martyr, o explorado de todos elles. Aqui, como lá fóra--por que a evolução é geral,--a realeza apoia-se na burguezia para domar o feudalismo ou a fidalguia secular ou clerical, e acaba por se erguer isolada, forte e despotica sobre ambas. Foi o que se deu na França, onde como bem diz Lermenier, a realeza moderna «_trouva ... son développement le plus complet et le plus fécond._» Foi o que parallelamente se deu na Inglaterra, onde n’aquelle intuito Simão de Monfort altera a instituição parlamentar, pela introducção da nobreza secundaria e da burguezia, como Filippe, o Bello, introduz nos Estados geraes o _terceiro estado_. Os Tudors aproveitaram a obra. Diz velha chronica: «_Comes Leycestriæ caute prœvidens ne forté magnates regni quos flexibiles et mutabiles reputavit contra se aliquid acceptare præsumerent, præmeditalis cautelis disposuit majores depremire et eorum potentiam annihilare ut exinanitis majorum viribus liberius et facilius vulgares sibi populos subjugaret._» (Chron. Thom. Wykes, cit. por Mackint.) Foi o que se fez por cá. Circumstancias peculiares facilitaram mais a victoria ou a evolução. Se não tivemos um Luiz XI, tambem nos faltou um Carlos o Temerario. O punhal substituio a espada, e o assassinio supprimiu as delongas da lucta, e da diplomacia. Não sabemos se mais cedo do que por lá fóra se _aspirou_ aqui, a gosar de quaesquer liberdades, nem é facto extraordinario que a _aspiração_ precedesse a _inscripção_ d’aquellas nos codigos. O contrario é que fôra para admirar. Como tambem não sabemos de que liberdades se trata, melhor é passar adiante. «Eramos politicos!» Temos já descobertas duas qualidades caracteristicas em a nossa velha nacionalidade: «Eramos _fortes_» e «eramos _politicos_.» O que entendeis por ser politico um povo? O que quereis dizer com o vosso: «Eramos politicos?» A politica é uma sciencia e tanto basta para que não seja qualidade ingenita e exclusiva de uma nação. É uma arte, o que quer dizer que não é uma propriedade. É a sciencia das relações e condições sociaes sob o ponto de vista do individuo para com o estado, e dos estados entre si. Responde-nos por ella a _historia_. É a arte de prever, preparar, regularisar, harmonisar as evoluções do facto _individual_ com o facto _collectivo_, de satisfazer a necessidade publica pela lei, e ahi a tendes fallando-nos pela _legislação_. Ahi tendes a relatividade affirmada na abstracção, ou antes a relatividade do facto correspondendo á relatividade do principio. A sciencia diz: em taes condições dá-se tal facto, quer dizer, a tal facto preside tal lei. Eis a politica-sciencia. Uma observação ainda. A _sciencia_ presuppõe o _homem_: nova relatividade, determinadas condições humanas, isto é, determinado pensar, sentir, viver, elaborar, conceber, generalisar.... Por isso se diz: a sciencia progride, isto é, o homem transforma-se psycamente; a sciencia d’hoje não é a sciencia d’hontem, a politica d’um seculo ou d’um povo não é a politica d’outro povo e d’outro seculo. Diversos _meios_ physicos ou moraes, diversas necessidades, diversas condições de qualquer natureza, diversos estimulos, isto é, diversas concepções e diversas acções. Existe a unicidade scientifica no meio da variabilidade concepcional, é certo, nem uma desmente a outra. Explicam-se. Quando se diz, pois, «Fomos politicos», é necessario saber se o fomos perante a _sciencia politica_ d’então, se perante a sciencia politica d’hoje, se olhamos os factos á luz das ideias da sua existencia historica, se á luz da nossa existencia actual. A boa critica, a critica positiva, manda que os olhemos primeiro, no seu _meio_ historico, para os conhecermos, comprehendermos, mas não podemos julgal-os simplesmente ahi, isolando-os do estudo das suas consequencias e dos progressos da sciencia que deram á critica novos materiaes de apreciação e que já para aquella retrospecção prestam importantes materiaes. É então que completamos o juizo critico que se compõe da analyse e synthese, de dissecção historica e de elaboração philosophica, do _facto_ e da _lei_. São cousas triviaes, banaes até, estas que temos vindo expondo, mas não é demais lembral-as quando tão falseado anda o senso critico. Mas a politica é uma arte tambem. Tem pois um _ideal_;--_idealis_, relativo á ideia,--primeira relatividade, e _meios_ de realisação, relatividade nova, cousa relativa á elaboração e concepção individual ou collectiva, ás condições actuaes da sciencia e da vida social. Exemplifiquemos: um _ideal_ preside á politica em determinada época, entre nós, com relação aos judeus. Por ventura a conversão d’elles, a _christanisação_ completa da nação. Meios de realisação segundo o pensar geral da época: a lei oppressora, a expulsão dos que não se convertam, o roubo dos filhos, o baptismo forçado etc. etc. A politica da época era aquillo, salvos protestos isolados. Torquemada podia bradar-nos: «Sois politicos!» Justificava-se a torpe tragedia dos Estaus. E podemos nós hoje dizer, perante aquelles e tantos outros factos: «Eramos politicos»? E porque se hão de esquecer uns e pregoar isoladamente outros, falseando-os ainda em cima? Quer dizer-se com o «Eramos politicos», que _soubemos_ preparar no mundo dos factos as evoluções do mundo idealogico; que sagaz e prudentemente _providenciamos_ o futuro; que nos _precavemos_ contra cataclysmos politicos com notavel pericia; que _soubemos_, tateando o presente, conjurar os males por vir, e que n’esse presente se annunciavam; que antes de arrotear e semear, _estudamos_ o terreno e as condições da sementeira? etc. etc. Mas não está, contra tal asseveração, protestando a historia, e o nosso proprio viver actual? Se alguma vez _soubemos_ preparar um futuro desafogado e próspero, geralmente semeamos imprudentemente ventos e colhemos tempestade, como diz a phrase popular. Fôra enfadonha a exemplificação. Temol-a até nas condições da nossa situação presente. Numerosas e complexas são as causas. Não discutamos responsabilidades que menos pertencem ellas a homens, do que a certas condições fataes; historicas, sociaes, climatericas, economicas, etc. «_Ne pourrions nous pas nous persuader, une bonne fois, que notre pays n’est pas tout sur ce globe; que la terre entière ne tourne point autour de lui, comme dans les cosmogonies antiques le soleil et les étoiles tournaient autour de la terre?_»--(Odysse-Barot). Mas não só «_eramos fortes e politicos_.» Mais assevera Teixeira de Vasconcellos: «Eramos doutos.» «Eramos artistas.» «Eramos estadistas», diz elle. Podiamos observar-lhe que tambem ha hoje, como outr’ora, doutos, artistas e estadistas, o que não quer dizer que sejamos ou fossemos todos estadistas, artistas e doutos. Caracterisar um povo por qualidades geraes, determinar criticamente n’uma synthese a feição original d’uma collectividade politica, é difficil e perigoso, mas comprehende-se e justifica-se. Com relação a nós póde dizer-se que é impossivel. Não temos caracteristica exclusiva e propria. Póde o dizer isto quisilar certo patriotismo. Optimo remedio, é elle deixar as berratas e as _lanterninhas_ pelo estudo, e descobrir na exegese historica da nossa nacionalidade, o que se dá por assentado que não existe. No entanto, podemos socegar que não periga com tal asseveração a nossa independencia nacional. A legitimidade d’esta perante os mais povos está em a nossa vontade, e perante a sciencia em o nosso interesse. Mas vae distancia immensa de estudar o genio e indole d’um povo, resultante de tantas condições diversas e exprimil-a n’uma synthese caracteristica, a realisar esta pela reunião arbitraria d’um pequeno numero de factos individuaes e não só essencialmente individuaes, mas principalmente filhos de condições especiaes em que se collocaram certos individuos. Diz-se que um individuo é douto quando adquiriu pelo estudo um certo peculio scientifico. Diz-se que um individuo é estadista quando se realisam n’elle condições que não são ingenitas. Mas chamar estadista a uma nação é querer substituir o que se chama caracter nacional, não pelo caracter individual sequer, o que seria já um erro enorme, mas pelo caracter professional ou scientifico,--excepcional até,--d’um ou d’alguns individuos, o que tem alguma coisa de ridiculo a final de contas. Suppôr nos membros d’uma collectividade nacional, certas qualidades proprias d’ella, é rasoavel, mas querer impôr ao grupo qualidades especiaes d’um ou d’outro ou de alguns membros d’ella, é simplesmente absurdo. E por que _fomos_ doutos? 1.^o Porque: «_avultamos_ na Europa civilisada pela reforma da legislação e pela cultura das sciencias e lettras.» Não discutamos se avultamos e em que avultamos, o que não seria mau saber-se comtudo, por que de certo não fomos só nós que reformamos a legislação e cultivamos lettras e sciencias. Mas avultamos tambem n’algumas epochas por não reformarmos ou reformarmos mal e por cultivarmos mal e pouco sciencias e lettras. É escusada, cremos, a exemplificação. 2.^o Porque «foram as ordenações affonsinas o _primeiro_ codigo civil _do seu tempo_.» Qual tempo? Primeiro, em quê? As «Ordenações Affonsinas», mandadas codificar por João I, continuadas por Duarte, e terminadas na regencia do duque de Coimbra e menoridade de Affonso V, em 17 de julho de 1446, não foram,--é clarissimo,--na ordem chronologica a primeira codificação da Europa moderna, nem são na ordem critica um verdadeiro codigo civil e sobretudo o primeiro codigo civil do tempo, durante o qual vigoraram. Cremos que não é necessario exemplificar isto. Não vale a pena incommodar Walter ou Canciani, citar a _lei gombetta_, o _Papiniano_, o codigo Wisigodo, o breviario d’Alarico, a lei Salica, o codigo frank, as _capitulares_ de Karl, o grande, o _Magnus Ericson_, etc., etc. Isto, já se vê, com relação á chronologia; que, com relação á critica, nem merece a pena discutir o que seja um codigo civil, nem precisa de defeza a jurisprudencia do _tempo_, que deve ser os seculos XV e XVI. Nem é necessario por tão pouco vascular a legislação medival e da renascença, nem desempoeirar os _Articuli Magnæ Chartæ_, o _Confirmatio Chartarum_, etc. etc. 3.^o Porque: _Os Lusiadas ainda são_ a principal epopeia do mundo. _Os Lusiadas_ são obra d’um homem, e a prova de que elle se elevava muito acima do nivel da sua nação, é que não foi comprehendido e apreciado; viveu e morreu obscuro e pobre. Não é a revelação artistica da alma social da sociedade em que apparece. Com que direito se diz: _eram doutos_ ... porque _fizemos Os Lusiadas_? Podiamos dizer com mais acerto: tão indoutos e miseraveis eramos que não comprehendemos _Os Lusiadas_ e deixamos morrer á fome o seu auctor. Parece-nos que haveria injustiça em ambas as asseverações. Não discutiremos agora a supposta primasia. De que bitola se servirá para estas apreciações Teixeira? 4.^o Porque: a _Castro_ de Ferreira se não póde chamar chronologicamente a primeira tragedia da Europa, merece este nome pela incontestavel primasia que leva á _Sophonisba_ de Trissino. Ainda bem que o distincto litterato não se lembrou d’esta vez de nos angariar para o nosso pobrissimo theatro as honrarias da prioridade. Admittamos a primasia dogmaticamente proclamada incontestavel da _Castro_ sobre a _Sophonisba_. Duas observações porém. Ainda a _Castro_ não apparecêra e já os gentis homens do _Inner Temple_ representavam (1561) a _Gordobuc_, de lord Buckhurst, que tanta sensação produziu e tantos encomios mereceu a Sydney. A _Castro_ publicou-se em 1587. Dez annos antes, em 1577, publicara o dominicano gallego fr. Jeronymo Bermudes a _Nise lacrimosa_. Comparando-se verso por verso as duas obras, vê-se que são quasi sempre exactamente a mesma, com a unica differença de que a _Nise_ é escripta em castelhano e a _Castro_ em portuguez. Isto é grave. Plagiou Ferreira? Póde desconfiar-se, mas no estado da questão não póde asseverar-se positivamente. Mas tambem seria grave injustiça affirmar que Bermudes, ou Antonio da Silva como querem outros, plagiasse a obra que dez annos depois appareceu sem protesto ou noticia alguma de tal facto. É sabido que a _Nise lacrimosa_ tem um complemento na _Nise laureata_ e que ha especialidades de metrificação na _Castro_ que pertencem mais a Bermudes que a Ferreira. Ora ahi está como a _Castro_ podia bem ser superior á _Sophonisba_ de Trissino, ou á _Gordobuc_ de Buckhurst, sem que d’ahi nos viesse gloria alguma. E demais, por ser douto--e ninguem nega que o fosse--Ferreira, não se segue que possamos empavesar-nos com o fructo do trabalho d’elle e bradarmos:--_Eramos doutos_. Depois a _Castro_ será a affirmação mais cathegorica e completa da tragedia _classica_ em Portugal, se póde dizer-se assim. Aqui mesmo tem anterioridades identicas: não é primeira. O _classico_ foi a apropriação das formulas da velha arte á expressão da sociedade moderna; e Antonio Ferreira, versadissimo no theatro grego e latino, já então representado e traduzido em Portugal, soube realisar, como poucos, a aproximação. Mas criticamente «é a _Castro_ a primeira tragedia da Europa?» E note-se que não se fixa periodo historico, como não se determina feição critica! e que assim a affirmação tanto contende com Eschylo, Sophocles e Seneca, como com Shakspeare, etc. Para que proseguir? «Que não fomos somenos em bellas artes» póde bem affirmar-se, mas não devemos esquecer os tantos e tantos notaveis e obscuros artistas estrangeiros que do norte e da Italia nos vieram ensinar a arte e erguer-nos muitos d’esses grandes monumentos que ainda hoje tanto admiramos, na architectura, como na pintura; e folgamos por vêr que não é Teixeira de Vasconcellos dos que para ahi a esmo proclamam a existencia de uma escóla de pintura nossa, para a qual arranjaram já seis Grão Vascos, e descobriram critica confirmação n’um «fogareiro nacional» e em moedas portuguezas pintadas n’alguns quadros. Mas não pára ainda esta especie de ladainha patriotica, que nem por artistica se recommenda, mas vamos nós parar na apreciação d’estas syntheses criticamente falsas,--falsas na ideia e na fórma,--como se tem visto. Passemos pelo «Eramos navegadores», notando simplesmente que as numerosas descobertas dos seculos 15.^o e 16.^o dão realmente á historia portugueza uma feição salientemente caracteristica, filha de circumstancias especiaes de época que fôra enfadonho expôr aqui, mas que nem por isso aquella phrase se póde ter como verdadeira synthese historica e nacional, caracteristica. Passemos pelo «Eramos estadistas», sem nos demorarmos a estudar este curioso periodo: «Tratámos negocios importantissimos com todas as côrtes da Europa, e assim nos congressos como nos gabinetes frustramos as machinações dos nossos adversarios. Não nos intimidou a arrogancia de Cromwell; soubemos ganhar a amisade poderosa de Richelieu; e conseguimos triumphar da astucia italiana de Mazarino.» Segue-se est’outro, tão curioso como o antecedente: «_No seculo passado e nos annos já decorridos do actual, mantivemos com firmeza o nosso direito contra inimigos poderosos, e das negociações ou dos combates sahimos sempre honradamente._» Nem sempre, se dá licença. Nem sempre ... se a historia não é apenas o registro dos factos que podem lisongear orgulhos nacionaes, algumas vezes illegitimos, tantas vezes absurdos, e geralmente injustos. Ora quem não se lembrará, lendo isto, de factos bem pouco lisongeiros para taes e tantos orgulhos? Lembrou-se de certo Teixeira de Vasconcellos, e, francamente, envergonhar-nos-íamos, por elle, de os lembrar a quem tão solida e antiga reputação de escriptor illustrado tem. Lamentamos apenas que sacrificasse a illustração e o criterio ao _effeito_ patriotico, á expansão verbosa de um patriotismo exagerado até o fanatismo, como tantas outras vezes, como por exemplo, quando diz que «póde jactar-se aos cincoenta e tres annos da sua edade de nunca ter tido _pensamento que não fosse portuguez!_ Pensamento portuguez! Faz-nos isto lembrar certo professor de geographia que indicava aos alumnos as divisões dos povos pela côr dos atlas. «A Patagonia é um paiz amarello», dizia elle, e aprendiam os rapazes. Folgamos, porém, lendo as seguintes palavras após a extensa ladainha patriotica que para cumulo da infelicidade Teixeira de Vasconcellos fechou com a seguinte phrase: «_Ainda eramos portuguezes_», já espirituosa e maliciosamente interpretada por um periodico reaccionario. Eis as palavras a que nos referimos, que se não são completamente exactas, pela superfluidade critica de quem as escreveu, mostram comtudo excellentes intenções e mais illustrado criterio do que as citadas atraz: «São mui diversas das que briosamente cumpriram os homens de outros seculos, as obrigações dos portuguezes de hoje. Onde antigamente se crearam esforçados cavalleiros, valentes homens d’armas e audazes navegadores (podia tambem fallar de frades illustrados, de frades ignorantes e fanaticos, de pirateadores sanguinarios, etc., etc.) é mister agora principalmente educar cidadãos e preparar agentes efficazes da civilisação moderna, etc. etc.» Cabe aqui bem um protesto. Póde alguem accusar-nos de fazermos critica negativamente patriotica. Simplesmente diremos que a critica é uma sciencia e não tem nada com o patriotismo. Assim como na phrase de notavel escriptor não ha duas economias politicas como não ha duas algebras, assim não ha duas criticas como não ha duas historias na accepção scientifica do termo, perante a geographia politica. Podiamos acrescentar, substituindo a França pelo nosso paiz, as seguintes palavras de Odysse Barot (_Lettres sur la philos. de l’histoire_). ...«não cedemos a ninguem em patriotismo; nem por isso, porém, deixaremos de persistir em pensar que se abusa exageradamente da _bandeira da França_, do _papel da França_, da _influencia legitima da França_, da _preponderancia da França_, da _missão da França_, do _pavilhão da França_, do _dever_ e do _poder da França_. Ha alguma simpleza e bem pouca modestia em nos proclamar incessantemente o primeiro povo do mundo, os primeiros soldados do mundo. Não ha primeiro povo do mundo, nem primeiros soldados do mundo. Todas as nações se valem pouco mais ou menos.» «Se muito nos orgulhamos de ser francez quando passamos na rua de Castiglione, não nos cremos por isso auctorisado a olhar por sobre o hombro, o universo inteiro.» E já que citamos o talentoso redactor da _Liberté_, attenda o snr. Teixeira de Vasconcellos a esta phrase d’elle: _Les idées les plus respectables, revêtues d’une phraseologie banale perdent leur parfum et deviennent mesquines et vulgaires. Ne vous semble-t-il pas entendre l’ouverture de_ «Guillaume Tell» _exécutée par un orgue de Barbarie?_ Bem sabemos que é este escriptor dos que não aceitam de boamente e vontade as modernas e fataes evoluções da lingua e da concepção philosophica. No _quinhentismo_ ou na «Arcadia» desejára ficar-se e que ficassem todos a saborear os deleterios lambedores do «_portuguezissimo de portuguezes e para portuguezes_», phrase mascavada, guindada ás attitudes de sapiente conceito. E se, mais talentoso e prudente do que outros escriptores, não rompe bruscamente com a revolução que é fatal na arte e na sciencia, nem por isso deixa passar occasião de por entre a sua phrase singela, fluente e arcadiana, lavrar protestos que por mal de seus peccados lhe sáem geralmente como o seguinte: «O tratado de mr. Rottesk pertence ás _constellações nebulosas_ da philosophia d’além do Rheno.» É porém de justiça confessar, repetimos, que não é este escriptor dos que tamanha animosidade, acinte e injustiça por ahi mostram, contra os modernos estudos, e contra os que se afastam da sua rotina e idolatria. Quizeramos fazer a critica d’um livro e não temos quasi sahido do preambulo d’elle. É que estava aqui condensada a doutrina que presidiu á sua formação, doutrina aceita e correntia geralmente, que é necessario ir combatendo,--o que a final de tudo é facil,--nas suas concepções falsas e prejudiciaes, nos seus conceitos intolerantes e illusorios. Compõe-se o livro de quatro biographias, ou mais propriamente, elogios historicos, exhumados da historia do seculo 18.^o e parte do seculo 19.^o, em Portugal. São elles: o de Silvestre Pinheiro Ferreira, vulto notavel e por muitos titulos respeitavel, a quem comtudo não nos parece bem applicada a denominação de «primeira gloria portugueza nos annos já decorridos d’este seculo», José Corrêa da Serra, o duque de Lafões, D. João, e a marqueza d’Alorna. Não discutamos a escolha d’estes sugeitos, nem Teixeira de Vasconcellos procura estabelecer-lhe as suas influencias no viver litterario ou scientifico ou politico, que alguma teve o primeiro, comtudo. Justifica o panegyrista a escolha nas seguintes palavras: «Limitamos aos seculos decimo oitavo e decimo nono as nossas investigações, por entendermos que as acções dos personagens d’esse tempo são mais analogas aos costumes actuaes e servem melhor para lição e exemplo.» Aceite quem quizer o exemplo e a lição. Observaremos, porém, que o seculo se destaca profundamente do nosso, nas ideias, nos costumes, e na acção, na laboração philosophica e na laboração social. Ainda assim parece-nos que personagens mais dignos de estudo, mais adequados a lição e exemplo para o momento presente se podéra achar. Está o livro fluente, correcta e por vezes eloquentemente escripto, e mais uma prova é do que dissemos no começo d’esta apreciação. Acerca-se Vasconcellos, da historia,--escriptor elegante ou elegante _flaneur_ da arte,--como quem entra na alcova de fidalga dona para lhe escrever, em album formoso, galante pagina. Lembramo-nos muitas vezes, lendo-o, da fina ironia com que Rebello da Silva fallava uma vez no curso superior de lettras dos que julgariam ter commettido um crime, fallando d’um rei não lhe terem anteposto o respeitoso: «senhor» «o senhor rei Fulano, a senhora rainha Sicrana». Não falta a esta etiqueta cortezã o nosso escriptor. Corrigidos os exageros patrioticos e as mystificações criticas de que demos bastantes exemplos, é um livro excellente, este. Se não fizer grande bem, não ha a receiar d’elle mal algum e foram as melhores, de certo, as intenções de quem o escreveu. Antes procurassem escrever livros d’aquelles certos litteratos,--_verbosi in refacili, in difficili muti_, como diria Cujas,--do que andassem feirando umas bugigangas de nulla valia. HAMLET E ROSSI AOS MEUS PARTICULARES AMIGOS E DISTINCTOS MEDICOS J. M. ALVES BRANCO E J. T. DE SOUZA MARTINS. Á beira da sepultura dizia Luthero: «Cáe o imperio, cáem os reis, cáem os padres. O mando inteiro oscilla.» A sociedade medival agonisava. _Dies iræ, dies illa Solvet sæclum in favilla Teste David cum Sybilla!_ Realisava-se a evolução. Renascia a Europa. Cumes não mentiu. Assomava no oriente o grande dia. The grey-eyed morn smiles on the frowing night[45] Havia muito que Colombo saudára o sol nas praias americanas. Gama vencêra o Adamastor e rasgára os horisontes d’ouro e azul Dolce color d’oriental affiro.[46] que escondia a India. O mundo moderno sahia da incubação enorme. A Europa acordava. Derrubava a cella estreita, as grossas paredes do castello feudal, e aspirava soffregamente as auras da liberdade. A voz possante do frade de Manfeld troava ainda por sobre a terra e o mar, como fluctuava o espirito do deus judaico por sobre o cahos inicial. Guttemberg construíra o pharol immenso, de cujos reflectidores o pensamento humano reverberava a immensa luz. A arte secularisa-se. Os pobres pescadores galileos haviam descido das cupulas das basilicas para receber de Veroneso a purpura dos doges e irem no «paraizo sensual»[47] de Tintoreto banquetear-se como os _immortaes_ do Olympo. Nos labios das _virgens_ de Raphael brincava o sorriso da Fornarina, e Roma, a prostituta papal, apeára na igreja de Santa Maria del Populo o quadro da _madona_ para o substituir pelo seu na figura de Venozza. Os _fundos-d’ouro_ haviam desapparecido com as figuras asceticas da arte medival. O panorama surgira na tela, alargára-se, expandia-se ao impulso do pantheismo nascente. A sciencia secularisa-se tambem. Como o Virgilio, transfigurado pelo pensamento da meia-edade, acompanhára Dante na peregrinação tenebrosa, até ás portas do céo christão, o Aristoteles assimilhado pela escholastica, falseado pelo mysticismo, abandonava o homem ao assomar para este a luz da _vita nuova_ ou da nova ideia. Para que tudo confirmasse a transição, Juste Lipse, o _ecletismo_, a philosophia da dissolução social, tergiversava, sophismava, compillava, procurava conciliar tudo e não creava nada. Erguiam-se sobre o cahos vultos gigantes como os de Galileo, de Kepler, de Bacon, de Montaigne. Tremenda era a lucta. O demonio que alta noute torturava Luthero:--_multas noctes mihi satis amarulentas et acerbas reddere ille novit_,--fazia verter ainda a muitas frontes aquelle suor de sangue que o véo nupcial de Catharina de Bora não conseguira talvez enxugar na face do frade revolucionario. Outro, porém, era o pensamento que vibrava no cerebro possante do seculo XVI: outra a ideia que agitava as vigilias dos campeões do futuro. «Il Pensieroso», de Miguel Angelo, não se extorce aterrorisado ante as visões pavorosas do Dante:--o homem medival. Revolve-se-lhe lá dentro um mundo novo, e os collossos de pedra, que o cercam, parecem esperar que o pensador acorde da longa meditação e lhes sopre a vida com o enthusiastico _Eureka!_ O pensamento humano não descia já com o santo irlandez (Patrick), nem com o poeta italiano ás regiões temerosas e pestilentas, aos _lugentes campi_ (Virgilio), á _cittá dolente_ (Dante), onde ha o eterno ranger de dentes, o trabalho e o _tristor_ dos precitos. Volvia olhos agradecidos para a natureza, saudava a Ceres fecunda e eterna, a grande mãe, e bradava com o padre Lourenço do _Romeo and Juliet_: The earth, that’s nature’s mother, is her tomb What is her burying grave, that is her womb; etc. --«Da terra nasce tudo, e tudo volve a ella. É berço e tumulo. Immenso é o dom que tem as plantas, as pedras e as suas verdadeiras qualidades. Tudo o que na terra existe tem uma razão de ser.» Ou estremecia ante o vago, o _ignoto_, o immenso, e murmurava com Hamlet, o _Pensieroso_ do norte: To be or not to be, that is the question. Um homem dizia: «Esta batalha recorda a hora indecisa da manhã em que a treva moribunda lucta com a luz nascente ... e que não sendo já noite não é dia ainda. Semelha um vasto mar, que agitado pelo fluxo, ora lucta violentamente contra o vento, ora recua ante a violencia do adversario. N’um momento é a vaga que vence, n’outro é o vento que triumpha. Combatem corpo a corpo, a vêr quem vencerá e não ha vencedor nem vencido ... Vou sentar-me n’este outeiro...» To whom God will there be the victory.[48] Este homem era Guilherme Shakspeare. Shakspeare não é um _bardo_, não é Taillefer ... qui mult bien chantout Sur un cheval qui tost alout. (Wace.) maneando a espada no combate e incitando á victoria um exercito. Shakspeare não é o poeta d’uma ideia, d’uma acção, d’um _heroe_; não escreve uma «Illiada», uma «Eneida» ou um «Lusiadas». Shakspeare é apocalyptico como a sua época. Collocado entre Henrique III e Cromwell, entre o rei devasso e assassino, que Leão X cognominára de _defensor da fé_ e o republicano velhaco e traidor, assistiu a parte da representação do drama cahotico d’uma dissolução politica e d’uma dissolução religiosa, drama sangrento em que rolaram muitas cabeças formosas, _sabbath_ enorme em que tripudiavam muitas paixões odientas, apocalypse d’anjos e demonios, de luz e trevas, de suspiros d’amor e uivos d’agonia, de gritos de esperança e d’imprecações de desespero. Tel art, telle milieu.[49] A revolução religiosa banira do theatro os _mysterios_. O mysticismo medival--abandonava aquella tribuna. A época arrancára o manto ascetico á arte, e esta apparencia trajada _a la moda_ por mãos habeis, transfigurada na concepção shakspeariana: a duvida, a ambição scientifica para desvendar o _ignoto_, para fixar o vago, para conhecer o _immenso_, o fatalismo funccional da natureza, a laboração sensorial intercortada pelo antagonismo dos estimulos, a lucta psychologica da tradição com os novos elementos sociaes, lucta que ora produz nas vontades e nas intelligencias a indecisão,--doudice _contemplativa_,--a neutralisação, se póde dizer-se assim, das vibrações cerebraes, eguaes e contrarias, ora a allucinação, a paixão, a concentração da ideia, a perda da _harmonia nervosa_ (Broussais), o predominio absoluto, n’um momento dado d’uma cellula, que vibrou violentamente á voz d’uma violenta excitação peripherica, ou d’um violento _estimulus_ interior. Entre todas as obras,--collossaes todas,--de Shakspeare, avulta, destaca-se uma figura sombria; tragica para uns, heroica e graciosa para outros,--e a maioria dos commentadores allemães está d’este lado,--impertinente, absurda quasi, para alguns, enigmatica para todos, immensa como o dramaturgo inglez. Proteotica creação! Quando não é um corpo, é uma visão; quando não é uma visão, é uma reminiscencia, uma ameaça, um lamento, um suspiro, um _flatus vocis_, um vaporsinho, como a _aura_ com que a velha physiologia explicava a acção nervosa. Quando se não vê, ouve-se; quando se não ouve apalpa-se; quando não se apalpa, aspira-se, adivinha-se até: _Hamlet!_ Nos enleios de Julieta, nos desesperos de Romeo, na tormenta inaudita do coração de Othello, no cynismo do _honest’ Yago_, na gargalhada de Falstaf, no «Macbet», na «Comedy of Errors», nos «Henry IV», «Henry V» e «Henry VI», no «King Lear», no «Midsummer night’s dream», na «Tempest», por toda a parte, emfim, sempre _Hamlet_! Hamlet apparece-nos uma vez, completo, grande, distincto. Diz-nos:--«Aqui me tendes, estudae-me, medi-me, comprehendei-me.» ... This is I Hamlet the Dane. E pullulam os commentadores, e discutem os criticos, e agita-se multidão numerosa e brilhante de redor do gigante. Do you see yonder cloud that’s almost in shape of a camel? ............................................. Methinks it is like a weasel. ............................................. Or like a whale? E se Shakspeare resuscitasse podia bem dizer com o seu Hamlet e a respeito d’elle: The fool me to the top of my bent. (_Acto 3.^o, scena 2.^a_) Não brado: _Anchio son pittore!_ Não serei eu quem tenha a vaidade de dizer: O «Hamlet» é isto. É homem dos tempos modernos na genese da sua civilisação; Hamlet, isolado do machinismo dramatico do seculo VI, é um homem do nosso tempo, homem da _transição_, homem d’uma sociedade genesica, se póde dizer-se assim; Hamlet resolve-se em D. Juan ou no Faust. Não poderia com verdade dizer-se isto? E diga-se de passagem uma cousa. Marlowe é contemporaneo de Shakspeare, e Marlowe escreveu a historia do doutor Faust--_The Tropical story of the life and death of the doctor Johns Faustus_--pouco antes do poeta de Strasford _conceber_ o seu Hamlet. Hamlet e Faust apparecem-nos nos horisontes do tempo moderno! Não é curioso? O Hamlet de Saxo-Grammaticus, passando para o romance francez de Belleforest, alterou-se de certo. Novo meio historico e natural, nova feição litteraria, nova personalidade genial, tudo isso presuppõe ou impõe modificação consciente ou inconsciente, mas fatal, da concepção ou do facto primitivo. A meia-edade, por exemplo, assimilhou Aristoteles, e fez de Virgilio um precursor do Christo. Os gregos e troyanos, cantados por Lydgate (_Troy book_), são personagens do seculo XIII, posto que o monge de Bury julgue e confesse escrever «a unica historia verdadeira e sincera das guerras entre os troyanos e os gregos.»[50] Racine esforçou-se em vão por demonstrar a fidelidade historica das suas concepções classicas. O meio natural e historico imprimem fatalmente o seu cunho na subjectividade genial, e como diz um critico[51] «toda a gente reconhece hoje que os heroes de Racine estão mais proximos do seculo XVII do que da antiguidade, são mais francezes do que gregos, turcos, ou troyanos.» Que differença entre a Ephigenia d’elle e a pobre donzella que nos retratou Euripedes! Pois assim o Hamlet do Saxo-Grammaticus, romantisado pelo _historiographo_ Belleforest,[52] passando das mãos d’este para as de Shakspeare e para os palcos ou _estrados_ do Globe ou do Read Bull Theatre, recebeu necessariamente do novo apresentante, do novo meio e das condições peculiares da nova feição litteraria, um cunho caracteristico, uma _personalisação nova_. Choron,[53] o pobre melomaniaco, dizia: «Imaginem um oceano immenso, cujas vagas rolam pausadas e magestosas: é a musica antiga. Do outro lado, outro mar ergue enfurecido as ondas até ao céo e d’ali precipitam-se ellas repentinamente no abysmo. É a musica moderna. Pois bem; Palestrina é o ponto de juncção dos dois oceanos...» De Shakspeare podia dizer-se cousa parecida. D’um lado, a meia edade com a sua fé, o seu ascetismo, o seu ideal mystico, com as suas visões celestes, ou infernaes, com os seus pavores e aspirações, satanisando a _carne_; constantemente perseguida pelo _inimigo_: _ubiquaæ demon_ com quem contracta no _pacto_, a quem se humilha no _Sabbath_; a meia edade com a sua alchimia intellectual, chamada _escholastica_, em que a subjectividade mystificada se estorce n’um circulo vicioso, partindo de Deus para chegar a Deus: _ab Jove principum_; a meia edade com os seus amores subtilisados até ao _extasis_, syllogisados, permittam a expressão, «_até ao amor que move o sol e os outros astros_», (Dante); a meia edade emfim com o seu espirito cavalheiroso, as suas vagas tristezas, as suas immensas miserias, os seus crimes inauditos, as suas ambições e as suas tradições. Vêde agora do outro lado o outro mar: immenso, furioso, imponente, esmagando nas roscas das suas vagas a velha crença, revolvendo os mundos reconditos do seu seio, cahindo extenuado aqui sob o bulcão que lhe opprime a juba, erguendo-se além ou logo para fazer recuar as brumas dos seus horisontes, procurando supprimir o _vago_, abraçar o infinito. É o mundo moderno com toda a exuberancia da sua vida, com todo o antagonismo dos seus _estimulos_, com toda a desordem do seu pensar e sentir, com toda a mobilidade ou incerteza das suas concepções, observando, averiguando, luctando, _duvidando_... Não procureis um ponto de juncção que não o encontraes de certo. Encontram-se dous mares ... podeis estremar as aguas? Olhaes para além e vêdes Dante; estaes na meia edade. Avançaes dous seculos quasi,--e que são dous seculos na historia das evoluções sociaes?--vêdes Shakspeare. Estaes no mundo moderno. A _virgem_ bysantina animou-se, sorriu ... é a Fornarina ou a Mona Lisa de Leonardo ou a Venus de Corregio. Beatriz desce das regiões de luz, dos _fundos-d’ouro_ medivaes, póde dizer-se assim,--para o meio da sociedade nova. É Desdemona, ou Julieta ou Ophelia. A _mulher_ eclypsou a _rosa-mystica_. Em Hamlet parecem confluir os dous oceanos, luctarem as duas sociedades, uma já extenuada e combalida, a outra debil, indecisa, receiosa ainda. Não: Hamlet não é, com certeza, apenas um filho saudoso e nobre que vinga o assassinio do pae. Não é tambem apenas o monomaniaco homicida com a _idéa fixa_ da vingança, idéa produzida por uma preoccupação sinistra que lhe provoca sinistras visões. Se Hamlet fosse aquillo, porque não realisaria em tantas occasiões que teve a vingança tremenda, se como elle mesmo diz: «_a man’s life’s no more than to say, one,_» e se pede á _sombra_ do pae que lhe revele o barbaro assassinio para que elle «...with wings as swift «As meditation, or the thoughts of love, o vingue? Hamlet é um doudo? «Póde ser que eu julgue necessario fingir as aberrações da doudice», diz elle aos seus amigos Horacio e Marcellus. Que vale isso, porém? É um incidente apenas, um expediente e mais nada. Hamlet raciocina, argumenta, sophisma, moralisa, graceja, calcula, vacilla, accusa a propria indecisão: «Yet I, A dull and muddymettled rascal, peak, Like a John a--dreams, impregnant of mycause, etc.» _(Acto 2.^o, scena 2.^a)_ duvida da apparição do pae «...The sprit that I have seen May be a devil; and the devil hath power To assume a pleasing shape...» _(Ib.)_ aborrece o mundo, despreza a mulher, despreza-se a si proprio, crê no fatalismo «...If it be now’tis not to come; if it be not to come it will be now...» e morre pronunciando o fatal «The rest is silence!» Hamlet encoleriza-se, mas a cólera não é a paixão predominante d’aquella existencia contradictoria. Hamlet vinga-se, mas a vingança não é a _idéa fixa_ d’aquelle cerebro constantemente sacudido por vibrações contrarias. «La cholère, diz Charron,[54] du premier coup en chasse et bannist loing la raison et le jugement, afim que la place luy demeure tout entière; puis elle remplit tout de feu, de fumée, de tenebres et de bruit...» Hamlet pensa, julga, observa, ensina e poucas, mui poucas vezes, é _comme un navire qui n’a ni governail, ni patron, ni voiles, ni avirons_.[55] Hamlet odeia, vinga-se, mas o odio d’elle é antes uma misanthropia incoherente, indecisa, _comica_ ás vezes, se póde dizer-se assim. Hamlet é um homem de bom-senso e um homem supersticioso ao mesmo tempo, é sombrio e gracioso, tem palavras tristes e sinistras, e gargalhadas francas e puras, é homem da côrte, misanthropo enfadonho, é homem galanteador e philosopho, é sabio e doido.... É assim que se me apresenta o vulto original e enygmatico. Atravez de tudo aquillo, ou no _fundo_ de tudo, sente-se a laboração sensorial desordenada pelo antagonismo dos estimulos, muitas vezes a neutralisação reciproca das vibrações cerebraes, pouquissimas a perda da _harmonia nervosa_, o predominio, a generalisação da vibração d’uma cellula, junto tudo isto a um caracter concentrado e probo, que se indigna ou pasma ao vêr a mulher do rei Hamlet partilhar o leito conjugal com outro homem, com seu proprio cunhado, decorridos dois mezes de viuvez! ... Trailty, thy name is women, etc. «Fragilidade, o teu nome é _mulher!_ ............................................. «It is not, nor it cannot come to, good diz Hamlet; a idéa de que a ligação incestuosa será fatal importuna-o. Uns amigos dizem-lhe que viram o fantasma do pae, pergunta-lhes se a physionomia d’elle era sombria, ameaçadora e murmura: «My father’s spirit in arms! all is not well! Quando, conversando com a _sombra_, sabe d’ella o crime de Claudius, Hamlet diz: «O, my prophetic soul! my uncle! A volubilidade da mãe, a perfidia do tio, a ligação d’ambos, o servilismo dos cortezãos, a saudade pelo pae, abalam-lhe o _sensorium_, apossam-se-lhe quasi da acção intellectiva, geram-lhe a descrença, o desprezo quasi pela vida presente, generalisação fatal! fazem-no repellir Ophelia, ao passo que a reacção da consciencia, e da sciencia, do _meio_, se faz sentir tambem, vigorosa e constante, e o tornam,--n’esta lucta intima e enorme--o joguete d’um fatalismo que elle desconhece, mas confessa. A vingança, pois, representa na concepção quasi um papel secundario; é a _machina_, o esqueleto da acção dramatica que por mais d’uma vez se despega d’ella, para elevar-se ou baixar-se, mover-se livremente ao sopro da subjectividade genial e da reacção do _meio_ natural e historico. O «Hamlet» é mais um drama que uma tragedia,--na accepção vulgar d’estas palavras,--é menos uma tragedia ou um drama que um _poema_. Ha pouco appareceu o _Hamlet_ no palco lisbonense. Um dos primeiros tragicos europeus propoz-se a apresentar-nos o vulto gigante que tem sido e continuará a ser o desespêro dos criticos. E não contente com apresental-o em scena, foi-nos dizendo antecipadamente o que era o Hamlet. Era tarefa enorme que podia patentear apenas enorme vaidade. O que para mim, foi, digo-o já. Foi uma enorme decepção. Pelo que do Hamlet escreveu Rossi vi simplesmente que Rossi não conhecia o _Hamlet_ de Shakspeare ou que eu não conhecia o _Hamlet_ de Rossi. Esta ultima hypothese incommodou-me pouco. Quiz confirmar ou desfazer a primeira. Fui vêr Rossi no _Hamlet_. Rossi fascina. Fascinou-me no _Othello_, encantou-me na _Juliet and Romeo_. Passadas as primeiras impressões, relendo socegadamente na minha solidão aquellas obras giganteas do gigante inglez, rememorando a interpretação que lhes dera o grande tragico italiano, é que eu pude apreciar devidamente este e aquella. Não junto um epitheto novo aos que teem cahido como corôas--demasiado pezadas algumas--sobre a fronte de Rossi, na sua passagem triumphal pelo palco lisbonense. Não serei eu tambem quem me enfileire nos caturras patriotas que choramingam a depreciação dos contrabandeados productos da arte nacional, e teimam em carregar com uns idolosinhos de _pasta_ que a apparição de Shakspeare no theatro da terra fez por momentos esquecer, apezar dos grasnos d’algum critiqueiro de _confraria_. Por hoje não aprecio Rossi. Fallo simplesmente da interpretação do _Hamlet_. Rossi parece ter visto o _Hamlet_ atravez um falso prisma: a imitação de Ducis. Dá-nos um orphão supersticioso, colerico, enfadonho por vezes, ameaçador e apaixonado quasi sempre, que braceja furioso a cada canto e berra a cada momento, que protesta constantemente vingar o assassinado pae, e só deixa perceber á gente que se não vinga para que a peça não tenha dois ou tres actos de menos. Vulto sombrio e completamente tragico, grandioso, imponente, bello, quasi sempre, nas expansões da paixão, sympathico, insinuante nas suas tristezas e aberrações, foi o que nos deu Rossi, e se o _Hamlet_ de Shakspeare fosse aquillo, de certo que a interpretação tinha sido magestosa e grande. Mas a obra do poeta inglez foi deturpada pelas amputações sacrilegas que o traductor lhe fez, e a concepção genial ficou reduzida a uns personagens de vulgar tragedia, a uma acção inverosimil e incoherente, a um dizer deslocado.... Deslocado, digo, porque o _philosophar_ profundamente original e caracteristico do Hamlet shakspeariano não tem logar no cerebro agitado pela cólera, concentrado na idéa da vingança, allucinado pela paixão, d’aquelle Hamlet meridional, d’aquelle Hamlet corso, deixem-me dizer assim, que Rossi nos apresentou. Por isso quasi sempre a emphase, a entonação energica, a gesticulação violenta do tragico desmentem a concentração da idéa,--a laboração sensorial em que procuram conciliar-se as sensações periphericas ou intimas, os estimulos diversos, as vibrações que se contrariam,--todo aquelle trabalho, aquella lucta, psycologica emfim, surda e constante, que a palavra do protogonista denuncia e impõe a toda a acção dramatica. A entrada de Rossi em scena, impressionou-me desagradavelmente. Entrou elle, sombrio ou carrancudo, triste, ou brusco, voltou-se para a platéa, e deixou-se ficar immovel, emquanto os companheiros de scena papagaiavam detestavelmente os seus papeis. Fez-me lembrar aquillo a apresentação das figuras dos velhos _autos_. Aqui, como em muitos logares, a interpretação está indicada pelo dramaturgo. Hamlet anda triste e saudoso, e o casamento de sua mãe, tão proximo da morte do pae, amargura-o, preoccupa-o mais ainda. O rei diz-lhe: «How is it that _the clouds still hang_ on you?» Mas Hamlet, homem da côrte.... The cortier ... «The expectancy and rose of the fair state The glass of fashion...» como lhe chama Ophelia, responde com esta lisongeria: «Not so, my lord, Iam too much i’the sun.» A rainha pede-lhe que não volva a Wiltenberg, e elle responde concordando. «...Tis a _loving_ and a _fair_ reply. ................................................ This _gentle_ and _unforc’d_ accord.» Pois aquelles _qualificativos_ não indicavam a _interpretação_ a Rossi? O monologo que se segue disse-o elle magistralmente, posto que alguem podesse antes vêr um lamento no que elle interpretou como imprecação. Estas expansões de dôr, não se extremam: imprecação e lamento confundem-se. Na scena da visão, Rossi cahe por vezes em _poses_ de rotineira tragedia, desculpaveis porém pela indecisão e originalidade da acção e da palavra. Não acontece o mesmo no dialogo com Polonius, onde Hamlet _diz_ bem. Que bellissima scena que é esta e a que se lhe segue: o _trio_ de Hamlet, Guildenstern, e Rosencrantz! Que verdade! que estudo profundo do homem! É uma dessecação. É a histiologia d’um modo de ser do pensamento humano. Hamlet preoccupado, extenuado, agitado pelas impressões successivas que lhe roubaram as crenças, as illusões do seu caracter probo, da sua florida mocidade, saudoso pelo pae que tanto amava, vendo a mãe que pouco tempo havia lamentava nos estos do desespêro a perda do amado esposo, lançar-se nos braços d’outro homem, d’um _irmão_; vendo n’este um fratricida, um ambicioso assassino, ignobil, vil, generalisa a decepção atroz, despreza a mulher pela sua volubilidade immoral, desconfia do homem pela sua perfidia, vê no mundo uma prisão ... _in which there are many confines, wards and dungeons; Denmark being one of the worst_ ... busca nos livros, n’algum livro talvez de velha escholastica, uma consolação, uma certeza, uma esperança sequer d’uma vida melhor, um guia, uma solução, e que lhe diz o livro? _Word, words, words!_ Reage, porém, o _meio_ social, reage a consciencia, reagem n’aquelle cerebro em lucta outras cellulas vibradas por outros estimulos, Hamlet duvida, fraqueja-lhe a generalisação da dôr, _ ... there is nothing either good or bad, but thin king makes it so..._ Que relampago! Extenuado pela lucta sensorial diz: ... I could be bounded, etc. «Encerrado n’uma casca de noz, crer-me-hia monarcha de immenso imperio, se não tivesse maus sonhos...» Horrenda lucta! O que é um sonho?... «A dream itself is but a shadow.» Depois, conversando com os comediantes, Hamlet, graceja e ensina, raciocina e corrige. Rossi não. Rossi é brusco, sombrio, tragico. O tão conhecido monologo «To be or not to be.... que manifestamente traduz uma meditação, uma lucta intima, uma concentração,--se querem do pensamento,--um interrogatorio que a consciencia faz a si propria, interpreta-o Rossi por uma expansão, pela explosão quasi d’uma paixão sanguinaria, e dá á palavra uma emphase falsissima. Não discuto a gesticulação violenta, affectada e oratoria de mais. Podia notar simplesmente que se n’aquelle momento as vibrações cerebraes se resolvem n’um facto puramente intellectual: a meditação, por exemplo,--os musculos não interveem, e o bracejar de Rossi é desnatural. Ha no proprio drama ou tragedia certas regras de declamação que Rossi não devêra desprezar e que são a condemnação d’elle muitas vezes. Basta lembrar as que Hamlet dá ao primeiro comediante na scena 2.^a do 3.^o acto. O dialogo com Ophelia é magnificamente interpretado, posto tenha tambem o colorido demasiado tragico que o traductor inconsciente ou inconsciencioso derramou pela obra toda. Póde dizer-se o mesmo da scena da representação, que vae magistralmente por parte de Rossi, até ao final em que elle se desmanda completamente e falsêa o papel para se lançar n’uma expansão furiosa e do _effeito_. Quando Hamlet, encontrando o rei a sós e orando, vae para o matar e por um raciocinio puramente medival, _theologico_, o não mata, Rossi patentea não comprehender a concepção shakspeariana, ou preferir sacrificar a verdade d’elle e a verosimilhança da acção ao _effeito_. Hamlet apaixonado, sonhando vingança, furioso como o vimos no final da scena da _representação_, teria feito aquelle longo raciocinio e deixado passar a occasião tão propicia? Longo vae este escripto, e muito me fica ainda por dizer. Disse-o já. Rossi é um grande actor. O _Hamlet_, porém, que elle nos dá, não é, no meu entender, o _Hamlet_ de Shakspeare. Dos outros actores, que entram na representação da famosa tragedia, não vale a pena fallar. Vão todos detestavelmente. Denuncia-se a tradição de Schrœder, o grande actor shaksperiano: todos os personagens desapparecem ante o vulto de Hamlet. Casalini é uma excepção; mas excepção menos brilhante e completa do que se podia esperar. Esta gentil creação, Ophelia, não foi talvez ainda bem comprehendida apezar da critica de Tieck. J. D. Ramalho Ortigão--EM PARIS--Porto, typographia Lusitana--1869--1 vol. 8.^o «_Proponho-me_ singelamente _conversar_ com a despresumpção plena de quem não tem compromissos nenhuns para ser embiocado e sórna, _um_ sugeito que nunca foi empregado publico, nem pretendeu ser deputado, um periodista de profissão, máu litterato, mas mais litterato do que outra cousa, contente do seu officio, alegre da sua vida, orgulhoso da sua independencia, desgraçado ás vezes por bem pouco, feliz quasi sempre com muito pouco tambem,--com um bom sol descoberto, um céo azul, umas arvores verdes, a saude no corpo, a paz na alma, e a liberdade no coração.» Este periodo vale um programma, caracterisa o livro, suppre uma profissão de fé. É o _Lasciate ogni speranza voi ch’entrate_ aconselhado á critica, para que dispa cá fóra a sciencia, a austeridade da observação e do estudo, coisas que de pouco lhe serviriam de portas a dentro d’onde impera soberanamente a _non chalance_. _Em Paris_ é menos um livro d’impressões de viagem, de alegres devaneios e superficiaes observações. É menos isso talvez ainda do que uma palestra de botequim, em nove _capitulos_, em nove noutes rapidamente passadas em folgazan companhia e deleitoso ambiente, uma palestra enthusiastica, juvenil, _ligeira_, turgida de engraçados commentarios, de imaginosas divagações, de pasmos e conceitos, de interjeições e interrogações que se reduzem quasi sempre a fascinamentos de estudantinho provinciano, a expansões de fresca intelligencia, de coração sadio e generoso, a baforadas de pedantismo _janota_, e que redemoinham enroscadas nos vapores do champagne, até se perderem nos ares sem deixarem vestigios--máus ou bons--na intelligencia, ou se afogam desastrosamente algumas vezes n’uma _mayonese_ de _confecção_. Abre formosamente o livro. Abstenção feita d’uns cacophatons triviaes e d’umas incorrecções que mais para o diante incommodam devéras ás vezes, Ramalho Ortigão, que não creio que ande procurando um diploma de _classico_ na feira das patrias lettras, mas que póde e deve trazer a ella melhor acabados productos, apresenta-se no _Prologo em viagem_ escriptor elegante e conceituoso, intelligencia fina, odorada pelos mais delicados perfumes da fada gentil e risonha, chamada mocidade, sentimentos bons, illuminados pelo sol abençoado que nos acalenta no berço, nos alimenta na adolescencia, nos alenta e aquece ainda nas invernias da edade e que se chama «a familia.» Quem ha que não sentisse um dia como que escacear-lhe o ar no seu ambiente habitual, ou estremecer-lhe o cerebro ante o vago dos horisontes do seu mundosinho? Quem ha que não ficasse uma tarde com os punhos fincados na face, a contemplar o sol desapparecendo nos visos do patrio céo, e não sentisse espicaçar lá dentro como que um espinho acerbo que pareceria saudade se não fosse faltar-lhe o delicioso pungir de que falla o poeta, e sobejar-lhe tantas vezes o amargor d’uma ironia esmagadora? Quem ha que não tenha sentido um dia a necessidade de viajar, _de mudar de logar_, na phrase pittoresca de Descuret, de _vêr mundo_, como diz o povo? Quantos doidos, isto é, quantos martyres, quantos Chorons e Mentelli não conta a historia d’esta nostalgia _ás avessas_? Imaginem Choron mettido n’uma _camisa de força_ ou amordaçado, no meio d’um concerto enorme: não seria isto um supplicio de Tantalo? Supponham o outro, o pobre monomaniaco hungaro, prohibido ou impedido de comprar um livro ou de folhear uma monographia: não realisaria o mytho de Promotheu? E quantos Promotheus, conheço eu, cidadãos eleitores e elegiveis, excellentes rapazes que frequentam por desfastio os bailes de mascaras, sorriem e polcam nas salas, escrevinham folhetins e recebem quotidianamente na imprensa meia duzia de elogios e porção egual de injurias, e que teem a esphacelar-lhes o seio as garras aduncas do abutre, e que sentem pular-lhe para o espaço, para o _desconhecido_, para os horisontes que lhes recebem os olhares saudosos, a intelligencia, quando o pobre corpo, quando a vida lhe anda algemada a um poste, á roda do qual tem fatalmente que gastar-se, sem que outros ares a bafejem, sem que outros panoramas se lhe desenrolem de redor! «Vem um bello dia em que esta visão,» diz Ramalho--«esta miragem, este sonho, esta febre, esta doença, póde mais do que nós.» «A vida habitual pésa em nosso espirito como o trambolho no pé d’uma gallinha, dilatam-se-nos os pulmões, _tresdobra-nos_ a vida, falta-nos o ar em nossas casas, falta-nos a agua em nossas fontes, falta-nos o espaço em nossas ruas. A cidade de então é pequena, e o passeio _é pouco_. Quer-se a viagem, a liberdade, a largueza da terra, a vastidão do mar e a amplidão do céo,--o mundo!» «Não ha outro remedio n’estes casos se não fazer o que eu fiz: arranjar a mala e partir.» Excellente remedio na verdade, mas infelizmente Ramalho podia bem dizer da receita o que mad. du Châtelet dizia do seu livro sobre a _felicidade_: (Reflex. sur le bonheur) que não era para toda a gente. «...tous les états ne sont pas susceptibles de la même espèce de bonheur...» Deixemos, porém, estas _variações_ melancolicas sobre um _motivo_ trivial em todos os livros de viagem. Ramalho arranjou a mala e partiu. Entregou a mala e a pessoa ás ondas, e as solidões oceanicas, aquella quasi insulação do homem no «_seio puro da natureza_, em que fica comsigo só e _com Deus_», subtileza de imaginação romanesca, que em livro menos _ligeiro_ merecia de certo a correcção do critico; aquella immensidade que assombra, aquelles panoramas fantasticos que o sopro da ventania faz e desfaz em horisontes movediços, aquellas harmonias das vagas, tudo isso e tudo o mais que não se encontra em terra, tem para certas organisações, para certos modos de ser do pensamento e da esthesia extraordinarios encantos, encantadoras impressões. O mar! «Elle, que conhece o segredo»--diz Ramalho Ortigão--«de transformar em perola uma gôta d’agua, sabe do mesmo modo chrystalisar a dôr convertendo-a na melancolia.» Eu não creio que o elegante escriptor adoptasse o systema de certo folhetinista de quem diz Champefleury «qui depuis trente ans accomplit regulièrement le métier des Danaides en remplissant son feuilleton de phrases vides,» e cuja habitual occupação era inventar «bellas phrases.» Parece-o, porém, ás vezes, e sem querer fallar de muitas phrases e periodos inteiros em que se denuncia o predominio da mentira da palavra litteraria, como diz Saint-Beuve, (_Port Royal_, 11.^o vol.) aponto apenas o que acabo de transcrever. Pois a perola é resultado d’uma transformação mysteriosa da gota d’agua salgada? Shakspeare disse tambem que as vagas transformavam os raios da lua em lagrimas de sal «The sea’s thief, whose liquid surge resolves The moon into salt tears ... Magnifica phrase! «Ah! la belle phrase!» como diria o folhetinista de Champfleury. Infelizmente, porém, o progresso da sciencia supprimiu estas phrases bellas e a litteratura não é a negação da sciencia. A _dôr chrystalisando-se_, e dando _assim a melancolia_, é coisa que na falta de explicação melhor póde encontrar a que nos dá Gozzi: (Cit. por Champf.) «O empolamento das idéas e dos sentimentos passa para a expressão, aguentado pela _ignorancia dos escriptores_.» Ora as phrases em questão se não são _occas_ não são tambem _cheias_ de verdade scientifica nem de verdade litteraria. Em vez d’aquella temos o disparate, em vez d’esta a impropriedade e o absurdo da _figura_. E se n’isto insisto, é porque os dois graves defeitos se reproduzem muito para o diante. De divagação em divagação pouco tenho dito do livro. Na minha opinião o «prologo» e o «epilogo» são as melhores partes d’elle. O caminho entre estes dois marcos vae ladeado de anecdotas mais ou menos galantes, de observações de _dandy_, enramalhetadas por boa intelligencia, que não descura completamente o estudo, com narrações de visitas feitas pelo author, e de palestras ouvidas ou sabidas por elle, com advertencias sobre varios processos e acepipes culinarios mais em voga ou mais do _tom_, com indicações de _Guia de Viajante_ ácerca dos melhores _restaurants_, dos melhores _gargots_, etc. etc. As mulheres e os jantares occupam o principal logar do livro. A respeito das primeiras faz o auctor a seguinte curiosa declaração: «Segundo a ultima estatistica da população, apresentada ao imperador pelo snr. Baroche, ha em França 19.014:109 homens e 19.053:965 mulheres, isto é, 38 mil mulheres _a maior_. «Estas 38:000 mulheres, em um paiz onde não se auctorisa a polygamia, estão _naturalmente_ impossibilitadas de ser esposas e mães.» «Com quanto estas mulheres _banidas_ da familia _sejam as primeiras que os estrangeiros encontram_ ao chegar a Pariz, cumpre observar que se não tratou d’ellas no decurso d’estas notas.» Isto é absurdo. Nem todas essas mulheres _a maior_ merecem a insinuação, nem ella póde poupar as _cocottes_ e congeneres que tantas paginas merecem do escriptor, e em innumeros casos tambem são dignas de figurar junto das _mulheres_ que os estrangeiros primeiro encontram ao chegar a Pariz. O desprêso pela desmoralisação feminina, se conhecesse proporção, devêra andar na razão directa da jerarchia social, se jerarchias podessem haver _n’isto_. A prostituta esfarrapada vale tanto como a que a enlamea com as rodas do seu _oito molas_, ou como a que se pendura ao braço d’um homem que em nomenclatura legal se denomina seu _marido_. E não ha no que deixo dito baforada d’uma certa moral caturra e hypocrita a quem somos devedores de grossa somma d’immoralidades sociaes e individuaes. Para mira um vicio é uma enfermidade. Tem como tal uma etiologia, tem ou póde deixar de ter uma cura. É um facto pathologico como qualquer outro, e a anathomia pathologica n’este caso abrange não só o individuo mas o _meio_ domestico, o _meio_ social; como a physiologia: as _funcções_, as condições de desenvolvimento e de acção de todos esses elementos. _Em Paris_ é verdadeiramente uma palestra descuidada, ligeira, _fina_, insinuante e agradavel. As chistosas anecdotas e as observações e divagações superficiaes succedem-se, enlaçam-se, amontoam-se e atropelam-se. O galanteio abunda e o _sal attico_ não escasseia de certo. A linguagem tem por vezes grandes entroviscamentos, e ao estylo não faltam arrebiques de casquilho. N’isto me refiro principalmente á pasmosa superabundancia de palavras francezas que bem se podiam,--o que outras vezes não acontece,--escusar. Escripto sem pretenção a ensinamentos nem a investigações, como o auctor declara, não póde a critica exigir-lhe muito. Diz-nos que em Paris ha a mulher _chien_, a _chicard_, a _chic_, e a _charme_, progressão ascendente, e o _diner en ville_, _diner en campagnie_, e o _diner en partie fine_, e o _diner en tête-à-tête_, e o _diner en famille_, cuja progressão ninguem fixou, mas de cuja existencia todos sabemos, e o _petit abruti_, _petit efflanque, petit défoncé_, _poulet de Pâques_, o _petit crevé_ em summa, animalejo que só tem de cerebro a parte propriamente vegetativa e que melhor fôra para honra da animalidade que nem n’essa se assemelhasse a ella. Falla-nos nos _soupeurs_, bemaventurada confraria donde teem sahido grandes intelligencias e grandes idéas; de varios escriptores e escriptoras; de muitas obras litterarias e de muitos pratos de culinaria parisiense, e descamba uma vez em eloquente verrina a Ponson du Terrail e companhia, ultima consequencia do romantismo tresloucado, e que está para o _romance_, como Napoleão para a _politica_, e Offenbach para a musica moderna; synthetisações mais ou menos perfeitas d’uma épocha de transição e d’uma sociedade profundamente impotente, cahotica, indecisa, ecletica, corrupta. «Se isto é, como alguns dizem,--diz Ramalho Ortigão,--o occaso da intelligencia, concordemos em que é um brilhante um crepusculo cheio de harmonias consoladoras e de luminosas esperanças para uma radiante aurora.» Que Ramalho Ortigão, que tenho por valente intelligencia, e generoso coração, se enfileire tambem nos que andam derrocando as brumas que impedem ainda o apparecimento d’essa aurora é o que desejo devéras, posto que não possa esperar das garantias e vantagens do trabalho, rasoavel incentivo para acudir ao chamamento quem mais póde ganhar escrevendo livros como o _Em Pariz_. OS SOLTEIRÕES, no Principe Real Em boa hora reapparece Victorien Sardou no palco portuguez e não podéra em melhor companhia apparecer, de braço dado como vem com Latino Coelho e Santos. Quando qualquer ran entufada de pedante vaidade julga assumir as proporções do touro de descampado e em vez de agradecer a honra da critica e a complascencia dos amigos, braveja estonteada e grasna insolencias contra quem a viu hontem agachada e encolhida a louvaminhar, hypocrita; quando a rapsodia piegas anda guindada na apotheose até ás altitudes luminosas da verdadeira arte, bom é que um raio d’esta esplenda tambem, a contrastar com os fogachos e foguinhos de artificio; que um pedaço de bom mineral venha annullar a ganga de contrabando que anda feirada como ouro de lei. Em boa hora subiu á scena portugueza, e á portugueza trajada por habil artista a comedia-drama _Les Vieux garçons_, (os solteirões), uma das mais brilhantes manifestações de um talento possante, fecundo e original como poucos tem hoje o theatro francez, e que pena é se desvaire tão amiudadas vezes na exploração systemathica dos _effeitos_, quando outras tanto sabe aproximar-se de Holberge ou Molière. Nas obras de Sardou o desenho das _figuras_ precede o plano da _composição_, os _typos_ são anteriores á _acção_, o colleccionamento de retratos e caricaturas,--e retratos á Flandrin, e caricaturas dignas de Gavarni, antecede a idéa e a disposição do _quadro_. O _quadro_ vale por uma exposição. Sardou vae desenhando a esmo os typos que encontra na rua e nas salas e na historia,--Sardou explora a historia tambem: a _Patrie_ é um exemplo,--e vae lançando os _croquis_ na carteira. Um dia dizem: «Oh, Sardou, quando dás tu um drama.» Ou então, lembra-se elle de fazer um quadro. Pega em meia duzia dos bellos desenhos, funde-os ao calor da imaginação possante,--se póde dizer-se assim,--e o quadro faz-se. D’esta vez aconteceu que os desenhos eram os de tres homens, tres mulheres e tres amphibios de casaca, ou antes, tres typos meio homens e meio mulheres, especie de sereias, masculinas na alcova, e femininas na sala, animalejos exoticos que em nome da _honra_ espetam um marido n’um florete, e em nome da galanteria prostituem uma mãe junto do berço do filho, tudo isto gente de um mundo exotico tambem que se chama o _grande mundo_, mundo excepcional e fidalgo no systema planetario da tolice humana. Nove typos: Tres maridos que se aborrecem ou aborrecem, tres esposas que se enfastiam ou enfastiam, e tres devassos que exploram o fastio das esposas e o aborrecimento dos maridos: _a vida do grande mundo!_ Faltava um typo que não enfastiasse, que não se aborrecesse, que não explorasse. Sardou arranjou dous. Desenhou Antonia (Virginia), uma menina talvez do seu conhecimento, sahida ha pouco do convento, sem ter lá deixado a frescura da intelligencia, sem ter de lá trazido a immoralidade do coração, ingenua _à outrance_ que anda pura e illeza n’aquelle turbilhão de lama e de sedas, typo que póde ser absurdo como póde ser simplesmente excepcional. O outro é um rapaz De Nantya (D. d’Almeida), que a mãe n’uma expiação terrivel e solitaria, livrou do contagio da devassidão, creança proba que não teve tempo ainda de se enfastiar por que não gosou, e de aborrecer porque não se embruteceu, no fastigio d’aquella aristocracia relaxada, cujas proezas consistem na conquista d’um thalamo impoluto, na morte d’um marido honestamente caturra, e no abandono d’uma mulher a quem a honestidade pezava de mais e a cabeça de menos. Em geral costumam ellas justificarem-se com o pezo da sua fraqueza, como se tendo tido a coragem de ser infames, não podessem ter a coragem de ser honestas. Com isto fez-se _Les vieux garçons_. Os _Solteirões_ são tres typos admiraveis. Principalmente Mortemer (Santos) é um relevo esplendidamente _acabado_. Tartufo, atrevido, galanteador, sagaz, chacal umas vezes, toupeira outras, leão altivo tantas, é em volta d’elle que se desenvolve a acção. Homem costumado a não topar nas suas conquistas, com outros obstaculos que não sejam os que se arredam com o florete, com a galanteria persistente, com a amabilidade traidora, com a fascinação da paixão habilmente simulada, com o ouro emfim, encontra-se um dia em sua propria casa, por uma traição planeada e realisada por elle, sentado no mesmo sophá, com uma creança, uma donzella leviana, porque é inexperiente, franca porque é ignorante, amoravel porque é boa, mulher nova, formosa, elegante, que elle julgava ser facil presa, cuja conquista antegosava já, e que o fascina por essa mesma leviandade da inexperiencia, que o subjuga por essa mesma franqueza, que o assombra por essa mesma ignorancia, que o commove, que o desarma, que o desnorteia, mulher que elle faz sahir do seu quarto sem a estreitar nos braços, sem lhe afoguear as faces com os labios incendidos na ardencia dos desejos. _De Veaucourtois_, (A. Pedro) outro solteirão libertino, cambado, zarolho, enrugado por uma senilidade devassa, ophthalmiada pelas terriveis enfermidades da crapula que lhe andam já comendo os lobulos cerebraes, demais amesquinhados de nascença, idiota e abjecto, é um typo magnifico tambem, porventura _picotado_ de mais para nos servirmos do termo de pintura, typo esmiuçado com pertinacia rancorosa até ao exagero do ridiculo e da abjecção. O terceiro dos _vieux garçons_ é apenas o esboço d’um immoralão parvo, mas esboço em que ha linhas traçadas com mão firme de mestre. Apresentando-nos, porém, os tres celibatarios libertinos, Sardou não quiz contrastar-lhe o precario, as miserias, a futilidade ou a immoralidade da vida, com a vida de tres maridos burguezmente pacatos, amigos de suas mulheres e de seus filhos, gente temente a Deus, respeitadora da honra do proximo e dos principios de moral domestica, herdados com as courellas dos paes e decorados com os padres-nossos das mães. Tambem não se propôz a formular a these psychico-social do lar domestico, nem sentiu estremecer-lhe o cerebro na laboração philosophica do _ideal_ da familia. Não poz ao lado do celibato estouvado, e _conquistador_ hoje, frio, solitario e doloroso ámanhã, o lar domestico acalentado pelo amor da esposa, confortado pela mutua transfusão de duas existencias que se completam e comprehendem; ao lado da _Illiada_ dos solteirões devassos ou frivolos ou inuteis ou prejudiciaes não abriu a odyssea tranquilla e esplendida:--idyllio e epopêa a um tempo, da _familia_. A familia! Pois ha cousa mais monotona e villã para aquella sociedade embonecada e espartilhada e perfumada dos salões, onde o marido é apenas o editor d’uma gazeta de frivolidades e galanteios, de que é principal proprietario a _moda_, e onde geralmente o _adulterio_ é folhetinista de semana? Não. São tres fidalgos maridos os que Sardou contrapõe aos tres solteirões fidalgos. Um ao cabo da lua de mel não encontra na esposa os _chic_ das rameiras galantes das suas orgias passadas. Aborrece-se. Os outros amam _rasoavelmente_ as mulheres, presam caturramente a sua honra, temem os solteirões, espiam como belleguins a dita _honra_ e as ditas mulheres, mas como gente elegante e do _grande mundo_ parecem esperar que a honra se vá e as mulheres se percam para desaffrontar com o florete ... a sua inaudita e aristocratica toleima. Acontece ás vezes que só desaffrontam os seductores da presença de suas impertinentes pessoas, deixando-se atravessar pela arma dos que lhe deshonraram as esposas. E salva-se a _honra_, ficando o marido estendido no campo, e a mulher prostituida, livre para se prostituir de novo sobre o tumulo d’elle! Não nos alonguemos, porém. Como em quasi todas as peças de Sardou, os typos valem mais que a _acção_. Esta é apenas um pretexto para a exhibição d’aquelles. É um defeito? Não. É um systema. A acção principal cifra-se em pouco. De Nantya ama Antonia e está proximo a casar com ella. É filho adulterino d’uma dama fidalga que atraiçoou o marido: cousa vulgar. Pae não conhece. Mortimer, o padre-mestre solteirão, projecta _conquistar_ Antonia, e dá-se então a scena magnifica de que fallamos já. O pobre noivo sabe que a sua futura mulher estivera em casa de Mortimer, desafia este, que por uma serie de circumstancias, habil e naturalmente combinadas, descobre que De Nantya é seu filho. Não o diz, mas declara não se bater. É insultado rijamente pelo adversario, vem a final a declarar-lhe que é seu pae, explica-se tudo, todas estas ventanias encontradas acirraram uns atomosinhos de dignidade e de sentimento são que haviam ainda no caracter do solteirão conquistador, solteirão _artista_ a final de contas, que vê raiar na sua velhice o sol que o acalenta e illumina: a _familia_, quando outros só terão o coveiro indifferente que lhe atire em nome da salubridade publica, a terra do cemiterio sobre as carnes apodrecidas. Em tudo isto ha certa verdade chan. Não se sacrifica á preoccupação d’uma _finalidade_ individualista e systematica, nem á affirmação da _moralidade_ serodia, estafada e falsa do premio da virtude e do castigo do vicio. O typo porventura inverosimil da peça é o de Antonia, a ingenua _à outrance_. Anda-lhe exagerada, até ao absurdo quasi, a ingenuidade juvenil. As tres esposas são esboços apenas. O mais acentuado é o da mulher devota e leviana, que alia as rezas do _divino_ com a leitura de eroticos romances e a correspondencia adultera. É tempo de fallar da traducção e da intrepretação theatral da obra de Sardou. Com relação á primeira só diremos que está _geralmente_ e soffrivelmente correcta e fluente. De ha muito que do theatro francez anda banida a verbosidade soprada e pretenciosamente florida, que por cá se arreia com os fóros de _poesia bonita_. Sobre isto de _poesia bonita_, coisa parecida a futil _cocotte_ que por ahi feira seducções entre platéas basbaques, havia muito que dizer. O traductor soube conservar uma linguagem natural e espontanea, sem entroviscamentos de pretenciosa _sensiblerie_, nem descambamento da elegancia caracteristica no estylo do auctor. A _execução_ theatral é esplendida, magistral até, por parte de Santos e de Antonio Pedro. De ha muito que Santos não nos apparecia em scena. Appareceu-nos agora a concorrer ao logar de primeiro actor da scena portugueza. Nunca o vimos interpretar melhor, com mais finura e com mais naturalidade tão difficil papel como o de Mortemer. Magnifico no primeiro acto, salvo alguns exageros de apresentação, foi admiravel tambem no dialogo com Antonia (Virginia) no terceiro. E era difficil a situação creada por Sardou. Um rosto ora assombrado, ora duvidoso, ora commovido por ignotas sensações, a palavra enleada, o pensamento oscillante, tudo isto comprehendeu e soube esplendidamente interpretar José Carlos dos Santos. Receiavamos,--francamente o dissemos,--que Antonio Pedro, typo comico, descahisse no comico chulo. Não aconteceu assim. O papel difficilimo que lhe estava a cargo, foi sustentado de principio ao fim com admiravel mestria e serenidade de interpretação. Virginia foi bem. Foi até muito bem. O exclusivismo forçado d’indole de certas collocações technicas theatraes traz comsigo fatalmente a inverosimilhança e o desnatural. Não se é _ingenua_ como não se é _galan_ toda a vida nem em todos os momentos. Fixar a phrase, ou sujeitar a existencia ao predominio absoluto d’uma qualidade ou d’um facto de momento, tem graves inconvenientes. Fica isto para tratar mais tarde. Virginia desempenha com estudo e consciencia o seu papel d’Antonia, a _ingenua_. Os outros actores interpretam todos os seus papeis na mesma altura. Geralmente mal. Domingos d’Almeida é exageradamente emphatico Sullivan exageradamente gritador. Gil é porventura quem melhor vae. Nunca ouvimos applausos mais bem merecidos que os que a platéa dispensou a Santos, a Antonio Pedro e a Virginia. SALVINI E A CRITICA (UMA RESPOSTA) De certo Lisboa não tem admirado maior actor que Salvini. Admirou simplesmente um tão grande como elle, não ha muito tempo ainda. Salvini é do tamanho de Rossi. Que o sol que hoje nos illumina não faça esquecer o sol que nos aqueceu hontem. O simile suscita um contraste que resolve o confronto. O talento de Salvini lembra o fogo das vestaes. Bruxelea puro, interrupto, sereno, ante os altares da arte. Altares por outras gerações levantados e onde sacrificaram gerações que dormem de ha muito nas catacumbas da historia. Mas as multidões d’hoje curvam-se ainda diante dos altares illuminados pelo facho sagrado. Vale este pelo que valem aquelles. Diga-se, porém, ainda. Altares são, marmoreos, polidos, esculpturados de magnificas, de portentosas figuras, mas a arte na sua evolução sociologica abandonou-os de ha muito. Têem a magestade olympica de Eleusis, e com ella alguma coisa da ataraxia hieratica das creações de Phidias. Trazem todas aquellas figuras na fronte bafejadas pelo sopro creador do genio, a lei fatal ou convencional (convencional tantas vezes!...) da sua existencia artistica. São como que mumias-gigantes, agitadas pela electricidade d’um fatalismo exterior, se póde dizer-se assim. Deixadas a si proprias valem para nós ... o que valem os fosseis. O _classicismo_ é menos que um anachronismo, é uma aberração. É mais que um absurdo historico, quando quer ser mais que uma archeologia litteraria. Envolva-se embora no manto esfarrapado da critica do _absoluto_, que só faz com isso tornar-se mais absurdo ainda se é possivel, desmentindo-se e contradizendo-se a si proprio, depois de ter tentado contradizer e desmentir a _natureza_. A natureza! A grande mestra! Quero dizer a grande mãe! Não nos alonguemos. Diz-se: Salvini é natural. Grande encomio que parece querer converter-se em grande arma. Arma contra Rossi. Tem havido já quem tente com a pseudo _naturalidade_ de Racine desmentir ou offuscar a uberrima _naturalidade_ de Shakspeare. _Naturalidade!_ Palavra elastica. Pelo menos palavra indefinida. Salvini, affirma-se, não esquece que Otello é um homem. Que importa dizer isto? A questão é saber se elle esquece que Otello é Otello. A questão é dizer quem Otello é na concepção shaksperiana, quem Otello é na interpretação plastica de Salvini, que Otello vimos na interpretação de Rossi. O folhetim do snr. Andrade Ferreira diz-nos, o que melhor fôra que não dissesse, e deixa de dizer o que era necessario que fosse dito, para que ao menos acreditassemos que o folhetinista sabia do que fallava. Por mim, dou-me por convencido de que sabia. Mas no _Jornal do Commercio_ appareceu um critico. Permitta que quem trabalha conscienciosamente por sêl-o lhe objecte e combata as asserções que tem por falsas. Um illumina, o outro incendiava. Um revela-nos a simplicidade magestosa e logica e geometrica, deixem-me dizer assim, da velha tragedia--atravez da tragedia de _convenção_ ou da tragedia de _propaganda_ do moderno theatro classico. Salvini é a realisação corporea d’aquellas figuras, em que a existencia psychica se resolve n’uma formula escolastica, em que a acção moral se resume n’uma regra de _convenção_, em que o _todo_ é parte passiva d’um machinismo talhado em falseada tradição e em cego sectarismo artistico. Não é Salvini, que não é _natural_. É o seu repertorio que mente á natureza. Em vez de apregoar a _naturalidade_ do grande actor, melhor fôra notar-lhe a exacção. Salvini é _exacto_. Veremos logo que é condicional este appellido. O artista desapparece na fidelidade da interpretação. Julgamos no _Orestes_ applaudir o actor e é a figura heroica modelada por Alfieri que nos assombra. Cremos saudar Salvini na _Zaira_ e é sobre o tumulo de Voltaire que vão cahir as corôas. Notamos uma cousa. Muitas vezes applaudia-se uma phrase, não pelo _dizer_, que era demorado ou acentuado de mais para ser natural, mas pelo pensamento que nos era sympathico. Rebentavam menos enthusiasticas as palmas a um gesto, filho da propria critica ou comprehensão do auctor, do que a um episodio da acção que se casava com o sentir e pensar das platéas. Mas não nego, ninguem poderá negar que além de _exacto_, Salvini é _natural_ por vezes, exacto na interpretação da obra e exacto na interpretação da natureza humana em dados momentos. Estudou esta tambem e embora a pantomima e a voz d’elle não tenham grande variedade nem grande abundancia de recursos, de _nuances_, de cambiantes, apezar de certa reproducção monotona de _gesto_, e da pobreza de modulações da voz, o seu _dizer_ é geralmente verdadeiro, a _pose_ e _la peche du sentiment_ quasi nunca se denunciam. Educado, porém, no _classicismo_ e dedicado á interpretação das creações d’elle, Salvini é demasiado frio, regrado, formulista, para poder interpretar _exacta_ ou naturalmente o repertorio shakspeariano. Melhor fôra que enriquecesse o seu com as obras primas do theatro classico e banisse d’elle uns dramalhões insossos e disparatados, indignos do seu grande talento e perigosos para quem se apresenta ante as mais illustradas platéas. Mas a verdade é esta. As figuras de Shakspeare não são estatuas contornadas, modeladas n’uma esthetica tradicional. Não é facil submetter aquelles colossos agitados por um turbilhão de paixões, que é onde se lhe gera o desenvolvimento artistico, a regras e fórmulas determinadas, fixar todos os contornos, palpar todas as arestas, determinar todas as exterioridades. E que fosse? Os personagens de Shakspeare vivem uma vida toda psychica ... Demais--são quasi abstracções. Despidas das concreções indispensaveis para a vida scenica, fica-nos uma idéa, ou um sentimento ou um modo de ser sensorial como no Hamlet, ou um modo de ser do sentimento como no _Otello_. O _Otello_! eis o pomo da discordia entre os admiradores de Salvini e os de Rossi. Quem é _Otello_? É um cavallo selvagem (_barbary horse_) como lhe chama Yago, um exotico vagabundo (_an extravagant and wheeling stranges_) como o appellida Rodrigo, um ladrão (_foul thief_) um feiticeiro (_ ...an abuser of the world, a practiser of arts inhibited_) um homem horrendo (_to fear, not to delight_) como diz Brabantio, um mouro de raça real, (_royal siége_) um filho do deserto, costumado a liberrima vida (_my_ unhoused _free_ condition) como elle proprio diz, uma natureza franca (_a free and open nature_) nobre, generosa, inculta, como a cada passo se revela? É tudo aquillo e isto principalmente. É um Quasimodo e um Cherubin. É um homem que póde _...tenderly be led by th’nose As asses are._ Ahi têem o homem inexperiente das miserias e traições da vida social, o homem que «desde que os braços tiveram o vigor dos sete annos concentrou na guerra todo o seu amor, e do vasto mundo pouco póde dizer, fóra das aventuras guerreiras»; _and little of this great world_ can I speak, _More than pertains to feats of broil and battle._ E como Rossi interpretava isto! Não era um cafre, decerto. Era uma alma selvagem, um homem inculto, tostado pelo atavismo da raça, pelo ardor do clima meridional e pelo sol dos campos da batalha, subjugado, ameigado pelo amor de uma creança alva, loura e doce: _sweet Desdemonas_, que elle receiava quasi tocar, com medo de que as mãos grosseiras não machucassem aquella gentil florinha das margens do Adriatico. Ha até quem queira que Otello seja um negro e quem, discutindo com as variantes lexicographicas da palavra _black_ no tempo de Shakspeare, veja n’elle apenas um africano entrigueirecido pelo clima ardente e pelo atavismo physico da sua raça. É um mouro. N’isto não ha contestação. D’aqui, porém, a dal-a, o que faz o critico do _Jornal do Commercio_, como filho e representante da esplendida civilisação arabe, _que senhoreou a Europa (?)_ isto é, como um homem culto, como uma natureza modificada, abrandada, permittam-nos a expressão, por um viver social, civilisado e regrado, vae distancia immensa, na historia, na lenda e na critica. Otello mesmo faz por vezes uma especie d’autobiographia. Conta a sua vida, tempestuosa sempre, vida de desastres e luctas, vida aventureira e bellicosa como a que ainda hoje levam muitas tribus do norte d’Africa. É essa vida original, desordenada, perigosa, que encanta Desdemona e lhe faz vêr no feio mouro um como que heroe lendario e excepcional. Otello confessa a rudeza dos seus costumes e linguagem, e estranho á vida d’uma sociedade culta não lhe conhece o enredado dos caminhos, não póde,--note-se isto,--disfarçar as primeiras desconfianças de que é enganado e como diz Yago deixa-se: _Tenderly be led by th’nose._ Mas dizia o snr. Andrade Ferreira, dissera já o _Jornal do Commercio_, e dizem outros, que não é natural que a florescente republica veneziana tomasse a seu serviço e désse importantissimo posto a um homem semi-selvagem, principalmente _n’aquelles tempos!_ Quaes tempos? _...nemo quærit nec scire laborat_, como diz a Catullo a porta que todos accusam, sem querer saber as causas dos factos accusados. _Aquelles tempos!_ Já ouvimos collocar a acção do _Otello_ no seculo XIII. Ha simplesmente o inconveniente de que a parte principal da acção se passa em Chypre, que só em 1471 Catherina Cornaro pediu para a ilha o protectorado veneziano, que só em 1489 Chypre pertence a Veneza, que a perde em 1571, tendo os turcos emprehendido contra ella uma expedição em 1570 sob Mostapha que parece ser aquella a que Shakspeare se refere, segundo alguem. Devera, pois, querendo-se fixar historicamente a _acção_ do _Otello_, o que nos parece com relação a esta como a outras obras do poeta inglez, senão absurdo, insignificativo, collocal-a no seculo XVI. Fazer, porém, d’um marido d’aquelle tempo,--ainda que não fosse um mouro semi-selvagem,--um marido como os que Alexandre Dumas, filho, nos pinta nos seus romances parisienses, e como Salvini fazia, é disparate monstruoso. E depois não ha que admirar que a republica de Veneza tomasse a seu serviço e confiasse emprezas militares d’um homem inculto, desconhecido, aventureiro. De soldados aventureiros andou inundada a Italia, a Europa toda até, e a quem varios estados confiavam a propria defeza. A gente aventureira confiamos nós, confiou o Portugal d’outras éras a defeza de suas possessões, ou ella propria as ia defender e sustentar. Em a novella de Giraldini Cinthio (_Hécatommithi_, etc.) que serviu de _motivo_ á tragedia shakspeariana, o heroe d’esta é um mouro valentissimo a quem a republica de Veneza manda com soldados defender Chypre, confiando na sua experiencia militar, como outros estados fizeram com audaciosos aventureiros, que deixaram nome na historia, como não aconteceu áquelle. Shakspeare fazendo-o seu heroe é que lhe deu maiores proporções sociaes, mas o mouro conserva-se em toda a tragedia, na acção e pela confissão propria, um homem rude até á brutalidade, e virgem em cortezanias e requintes da sociedade, como um filho do deserto. Rossi interpretava-o assim. Interpretava-o _naturalissimamente_. Arrebatava-se, bramia, enfurecia-se? É certo. Não tinha, como não teem as figuras do grande poeta inglez, a magestade regrada, marmorea, fria, das concepções do _classicismo_, e Salvini interpretando Otello como interpretava o seu papel na _Zaira_ ou no _Orestes_, é que falseava a concepção shakspeariana, é que mostrava não conhecer a differença enorme de generos, é que não era _natural_. Citam as regras do mestre? Pois bem: o mestre disse: «_From the word to the action, from the action to the word_.» Não quer isto dizer, de certo, que quando a paixão irrompe, liberrima, feroz, selvagem, a palavra seja cadenceada e calculada, o gesto estudadamente magestoso e regrado, que brinque o sorriso ensaiadamente hypocrita nos labios, etc. Aqui, o grito é _natural_, o desordenado e a violencia do gesto é _natural_, a contracção e o fulo da face é _natural_. «_...suit the action to the word, the word to the action_». Esta é a regra. Esta é a _naturalidade_. Ora a acção do Otello reduz-se a uma paixão profunda, inculta e liberrima, que desviada por mãos traidoras do seu curso benefico, deixem-me dizer assim, ennovela em tempestuosos vagalhões a branca Ophelia, que trazia acariciada nos mimos d’um leal e venturoso amor, e a rouba ao mundo, para que a não roubem a ella. Amor e ciume. Como Shakspeare pintou isto sabem-n’o todos. A todos assombra. Não amarrotou em _convenções_ de escóla, em subjectivismos metaphysicos, em regras de tradição, não moldou por _canons_ a verdade _naturalista_. A natureza foi sempre o seu unico _canon_. Como interpreta Salvini, interprete do _classicismo_, a concepção shakspeariana? «Otello--diz o critico de Barcelona de que transcrevi aqui algumas apreciações--Otello se nos presentó pequeño, mas razonador que apasionado, frio en los momentos en que los celos devoran su alma, frio en las escenas amorosas, sentimental despues de haber muerto á sua esposa y de conocer cuan injustamente lo havia hecho, y de maneras sobrado acompassadas, con sus ribetes de vulgares», etc. Quer dizer, Salvini interpretou o Otello como representava as tragedias _classicas_ e os dramalhões insossos e absurdos com que nos mimoseou. Aqui ao menos era _exacto_, no Otello,--abstenção feita d’alguns incidentes do _dizer_, nem _exacto_ nem _natural_. A palavra não interpretava a acção, esta não se harmonisava com aquella. Dizer e gesto,--com pequenas excepções--desmentiam a concepção genial. Mutilou-se esta. Deturpou-se a tragedia em partes essenciaes. E não digam que o defeito era da traducção italiana, porque era a mesma de que se serviu Rossi, e este apresentou-nos a scena em que Otello vê o fatidico lenço nas mãos de Cassio,--scena indispensavel--e não trouxe Desdemona á bôca da scena, para começar alli a estrangulal-a e ir acabar o feito na camara conjugal--scena absurda. «Y a Desdemona--continúa sensatamente o critico hespanhol,--a la pura y encantadora creacion de Shakspeare, quien la hubiera conocido en aquella muchacha coquetuela, casquivana, con aires de doncella andariega y aspecto de maestra en burlas y amorios, y mas aparentada con las Margaridas Gautiers y hembras de su estofa que con los ideales Julietas, Ofelias y Mirandas? «Y para mas contrahacer las figuras antójasele a Desdemona poner-se un vestido de hoy con mangas perdidas para darle color de epoca, _y a Otello encajarse un trajo de zuavo de la Argelia, con bordados de oro en la espalda y bocamangas, una cimitarra, especie de sable de caballeria por añadidura_.» Houve quem no leito de triste enfermidade declarasse Salvini, no palco, _unico_, naturalmente por sobrenatural revelação. Não profundemos mysterios. Os basbaques litterarios decoraram logo o appellido, que não me lembro se fôra já, pela mesma chancellaria, concedido a Rossi. Para mim, este é do tamanho d’aquelle, mas é necessario que cada qual se conserve na esphera natural do seu talento artistico. D. FREI CAETANO BRANDÃO, drama em 5 actos, por A. Silva Gayo.--Coimbra, 1869. Na litteratura _official_ d’hoje e da nossa terra, geralmente litteratura de _petits dames_ e de _petits crevés_, cousa parecida com os vinagres aromaticos, com a _pomada Miranda_, o _bouquet de Manilha_, o _extracto de ylangyland_, e as _essencias_ e _pós de toillete_, a critica ou o que se chama tal, é dama casquilha, delambida e pretenciosa, que se apraz em andar sempre enfronhada n’um sentimentalismo affectado e piegas, saracoteando a sua toleima inaudita por entre artificiaes vergeis de logomachia vazia e serodia verbosidade de diminutivos e de _phrases bonitas_. O estudo incommoda-lhe os nervos e a consciencia anda-lhe aforada ao thuribulo. Mas que ella se acontente com o imperar na sua alcova ou nos seus quintalejos, sobre os seus apaniguados madraços ou relaxados já. Pois não lhe bastam as victimas que tem feito? Não lhe bastam os bons engenhos que tem gangrenado e perdido? Não lhe bastam as esperanças que tem machucado no thuribulo, as intelligencias valentes que tem atoniado na vaidade? Fique-se a recortar figurinos para dal-os como obra sua depois. Fique-se a repintar-se de verniz e vermelhão como prostituta engelhada que não se propõe a tentar sagazes Ricord, mas a feirar seducções e a ganhar a vida entre basbaques libertinos. Deixe-se de querer fazer renomes como as creanças fazem bolhas de sabão. Deixe-se de querer subir de _cocotte_ a pythonisa inspirada. Chocalhe á vontade os pechibeques e arregace as contrabandeadas sedas entre os seus adoradores obsecados ou interessados, mas não invada com as suas petulancias e leviandades o templo da sciencia para subir a tripode sagrada a decretar-nos toleimas e ignorancias com entono de _presieuse ridicule_ que tem folheado meia duzia de novellas parvas, decorado piegas elegias e rapsodiado folhetins galantes. Não venha cá estontear-nos alguma cabeça que se debruce sobre os livros, com os deslumbramentos d’uma popularidade facil, infecunda, e tola. Ora eu muita pena teria que a cabeça estonteada fosse a de Silva Gayo. Cabeça de si pouco propensa ás locubrações scientificas e pouco litterariamente cultivada, sem originalidade na concepção, nem força plastica bastante para uma idealisação elevada e carateristica, as suas obras d’arte são um desfastio, uma tentativa, que a esta luz vistas, não provocariam da boa critica, grandes severidades e exigencias se as não guindassem a altitudes pasmosas, e as não quizessem apresentar como modelos, quando a pouco mais do que a imitações se elevam. Verdade é que Silva Gayo é já homem adiantado em annos e não póde esperar as benevolencias que a _mancebos de esperanças_ é praxe conceder, acontecendo ás vezes ficarem eternamente em esperanças os mancebos indulgenciados. Verdade é que Silva Gayo é um medico, um professor de medicina, isto é, um biologo, um physiologista. _Debet esse_. A proposito do romance d’um medico dizia ha pouco o dr. Montanier na _Gazette des Hospitaux_: «Não ha, em ultima analyse, questão alguma que seja absolutamente estranha aos medicos. Porventura, pessoa alguma está mais apta do que elles a bem julgar do desenvolvimento das paixões, seu encadeamento, sua relação com os caracteres dos personagens postos em scena: as questões de psychologia e de moral são da sua competencia e emfim as questões de physiologia tão singularmente desfiguradas pelos authores modernos pertencem-lhes em bom direito. Outras vezes o romancista entra de _plein pied_ na medicina e accommette questões importantes que não podem ser-lhes indifferentes.» Broussais (_De l’irrit, et de la folie_) diz: «Uma cousa me pesa: é que os medicos que cultivam a physiologia não reclamem mais do que metade da sciencia das faculdades intellectuaes e que os homens que não fizeram mais do que um estudo especial das funcções queiram apropriar-se d’esta sciencia sob o nome de psychologia.» Deixem-me citar tambem uma phrase _ad hoc_ de Vulpian: «A certo ponto de vista, a psychologia toda é do dominio da physiologia.» Littre denomina aquella: physiologia psychica, e outros physiologia cerebral. De feito a psychologia como sciencia independente do estudo da funcção organica, e não só independente mas superior quando não contrario, póde prestar-se á exploração de velhas ou novas metaphysicas, mas no estado presente de _positivismo_ scientifico, mal se comprehende que seja aceita por um medico-professor e litterato. Ora o drama _Fr. Caetano Brandão_, de Silva Gayo, é uma obra essencialmente psychologica. Concepção? Finalidade? Vão lá perguntar por isso! Uma mulher casada que perde o marido, que o suppõe morto, que captiva dos indios em terra de Santa Cruz e comprada por um _explorador_ (?) com este casa em hora angustiosa para elle e de quem «nunca ouviu uma palavra que elle não dissesse a uma filha.» Este _explorador_ é um velho de «78 annos, cego, cabellos brancos, grande sobretudo, bengala alta, rosto com expressão de intelligencia e de bondade,» diz a rubrica; e aquella mulher, Margarida, de «34 annos, no vigor da belleza; cabellos arripiados, porte grave, vestida na moda (?) mas sem exageração nem pretenções,» tem um filho, um Aleixo, um rapazelho pedante, de «17 annos, buço, cabellos compridos, etc.» que é filho do primeiro marido e que a um fazedor de folhetins aprouve declarar como typo sem egual em todo o theatro contemporaneo.[56] Um dia apparece o primeiro marido; a mulher não sabe por qual dos dois decidir-se, e Fr. Caetano Brandão, o apostolo, o venerando arcebispo dá tractos á imaginação para conciliar a moralidade de uma mulher casada continuar vivendo na alcova d’outro homem. Nada resolve, nada consegue, senão presidir ao desenvolvimento de uma acção--francamente immoral, condemnada pelo bom senso, pela religião que o arcebispo representa, pela lei civil, pela propria _caridade_ em cuja affirmação philosophica, triste e rasteirinha philosophia! o author faz consistir a _causa finalis_ como diria Kant da sua obra. Não disse bem. Uma coisa resolve por inspiração que parece querer-se apresentar-se como divina. É o fazer com que o filho, o tal Aleixo, inste com o pae para que sáia da casa onde a mãe vive com outro homem e a deixe lá ficar ou a elle, e quando o pae se resolve a deixar ambos e a ir-se delongada, exclama o venerando prelado «com as mãos erguidas para o céu e cahindo de joelhos:» «Oh! amor de pae! «Oh! familia! «Oh! caridade! Juntem-se todos esses pontos de admiração e está feita a critica. Mas retrocedamos. As seguintes palavras do arcebispo valem por uma synthese critica do drama: «Que problema! É o duello entre o _direito_ e a _caridade_. É peior, porque Alvares (_o primeiro marido_) tambem merece _caridade_. Ai! de um lado o direito, a força, a paixão ... do outro a _desgraça resignada_ ... (instando) mas se me perguntassem! (Pausa pequena, resoluto). Protegia o _infeliz_. (Com uncção) «Oh! providencia!» Esta providencia é o arbitrio! Fr. Caetano devia conhecer outra Providencia, a que conhecia Santo Agostinho, quando dizia por exemplo: _Lex est ratio divina, vel voluntas Dei ordinem naturalem conservari juvens per._--Protejo o infeliz! diz Fr. Caetano. E quem é o infeliz? Não é o que tem por si o direito, a força e a paixão? O que depois de tantos trabalhos e angustias e saudades encontra a mulher que é sua esposa, a mãe de seu filho, nos braços de outro homem, embora esse outro homem só tenha sido para ella e no dizer d’ella um pae, do que é permittido duvidar e rasoavelmente, e o que afinal pouco importa investigar? Pois então o infeliz é só a desgraça _resignada_, o velho que tem fluido longos dias de felicidade, em quanto o outro traz a alma requeimada por longos annos de desventura, de abandono, de isolamento e vem ao cabo d’elles com uma saudade e com um amor immenso, encontrar a mulher nos braços de outro homem? Pois que dôr é egual a esta dôr, a este derradeiro espedaçar da taboa em que o naufrago se apega no meio dos vagalhões que lhe teem ido esphacelando a existencia? Pois o que reclama o primeiro marido? «A restituição do que lhe compete», «aquella porção» de felicidade que «o direito natural e divino lhe tem adjudicado como propria e que ninguem lhe póde negar impunemente», para nos servirmos de umas palavras do grande arcebispo de Braga, não do Fr. Caetano hesitante, contradictorio, absurdo até do drama, mas do Fr. Caetano Brandão historico, verdadeiro, que muito outro é. Que responde o arcebispo do drama? «Entre vós e ella ... ha um velho invalido e _nobilissimo_ e uma creança generosa e boa, vosso filho.» E por isso que esta creança é seu filho e por isso que o homem com quem vive sua mulher é nobilissimo e invalido, é que Alvares deve abandonar o filho e a mulher ao invalido, ir-se triste e só, e é que se deve conservar o homem nobilissimo na ignorancia de que concorre para uma acção immoral e para um sacrificio sobre immoral, absurdo! Que logica e que caridade! Nem caridade para com Alvares, nem caridade para com o nobilissimo, etc. Nem a caridade é isto, nem que o fosse devera um homem sensato, um pensador, um homem de sciencia e consciencia affirmal-a assim. Aqui era combatel-a como uma aberração dissolvente e criminosa. A _affeicionidade_, como diria Broussais, tem seus exageros que conduzem á etisia ou á monomania; ao crime até! E a _caridade_ do arcebispo é criminosa perante a religião que elle representa e perante a lei social que elle pela propria profissão é obrigado a acatar e cumprir. Não discutamos agora o direito natural. Que oppõe a tudo aquillo o arcebispo do drama? Não as subtilezas metaphysicas da escolastica jansenista ou jesuita, mas o arbitrio accommodicio, uma inspiração.... que nada affirma, nem resolve, nem proclama, que adia, intriga e se estafa em sentimentalismo fallaz, incongruente, piegas. Nem doutrina propria, nem doutrina catholica. Onde pára o grande e austero vulto de Frei Caetano Brandão? Porque não tem o arcebispo para com o homem _nobilissimo_, seu particular amigo, a caridade de lhe dizer a verdade, do lhe bradar: «Velho honrado, deshonras-te, vivendo com esta mulher. Em tua casa está um homem que tem sobre ella direitos de marido, com quem ella conferenceia occultamente, a quem faz protestos de amor.» Pois não diz frei Caetano que bem conhece o grande valor e nobreza do velho? Diz, porém, ao primeiro marido: «Aquelle velho que viste é uma alma generosa, tem 78 annos _e no calor dos seus affectos só lerieis uma juventude!_ Encontrou _quando era sadio e forte uma formosa mulher_ desamparada e pobre no mundo, _se bem que rica, á vista de Deus de bondade e d’um tenro menino suspenso ao peito_; deu a esta mulher com tudo o que tinha o seu nome e ao menino tão grande, tão santa amisade ... _que não vol-o sei contar_; hoje é cego, elle que viu e tanto amou o que viu!» E depois? Depois ... esta mulher formosa e de 19 annos nunca foi mais para o homem _sadio e forte_, que tudo lhe deu e que com ella casou, do que uma filha desde os 19 aos 34 annos! E depois? _Arcebispo:_ «...Agora socegar e vamos para o almoço.» (Note-se que a scena e o almoço é em casa do segundo marido.) _Alvares_ (o primeiro marido) «...Não sou homem que me sente á mesa d’aquelle, que não estimo e a quem o meu direito _vae causar penas_, etc.» E depois? _Aleixo_ (o rapaselho) ... «Vamos para o almoço que nos espera.» _Alvares, encantado(!)_ --«Vamos meu Aleixo; vamos para onde quizeres!» E finalmente: «_Arcebispo,_ passando adiante d’elles; Aleixo curvado dando-lhe passagem: «Um pae!» --Um canalha! é que devera dizer. E lá se vão todos, primeiro marido, segundo marido, mulher d’ambos, arcebispo e filho afinarem uns pelos outros os apparelhos digestivos á mesa do cego. Aquella constante asseveração de que a mulher formosa viveu 15 annos com um marido que a amava tanto e tanto, que fôra sadio e forte, e _no calor dos affectos_ era moço ainda aos 78 annos, condescendendo elle em lhe ser simplesmente pae, uma especie de ennucho voluntario; esta asseveração de platonismo de alcova conjugal tantas vezes repetida e _até pela propria mãe feita a um filho de 17 annos_, tem além da absurda inverosimilhança, alguma cousa de torpe em si e nos fins a que se propõe. É como dizer: «Descança homem. «Que importa que tua mulher depois de te abraçar no quintal se escoe pela porta do quarto de outro homem, o vá beijar e abraçar e ameigar tambem, se elle e eu te affirmamos que esse tal é um ennucho que tem só a mania de ser pae de sua mulher e que como não se embriaga não provocará o caso das filhas de Loth! E depois é um velho, e cego, está com os pés para a cova ... Deixa-os lá viver tranquillos. Não sejas impaciente como aquelle Cinésias da «_Lysistrata_» d’Aristophanes.» Ai, espiritualistas! espiritualistas! que tanto calumnias os que o não são e cahis n’estas _materialidades_ infames onde não vos acompanham os materialistas que abocanhaes e não comprehendeis! Tendes bem extravagantes subtilezas para justificar torpezas bem vis, Larragas de sotaina ou de fraque! Vejam lá em que se cifra a honra d’uma mulher e a dignidade de um marido! Mas o arcebispo, o apostolo, o mestre, o que faz? Nada ou peior que nada. A affirmação da _caridade_ cede ás vezes o logar á da amisade parcial. Ouçam. É elle quem falla: «Eu sou padre: devo ser ministro da verdade _e a verdade é_ que a mulher e o filho ... podem, _devem_ ser reclamados por Luiz Alvares. Que lucta é pois esta na minha alma? _Bem sei_. «É filha da minha affeição a Diogo; é o _egoismo da verdade(?)_ que me obriga a protegel-o. (Pausa) «Será? (meditando.)» E conclue destemperadamente com o «Protegia o infeliz» já citado, visto que «_ambos_ (os maridos) são nobres e bons; _mas um com os dias contados; outro com larga vida;_ ambos a amarem com extremo uma creança (que é filha d’um) e uma mulher (que é mulher do mesmo), mas um a tel-os como o sol do seu outono, o outro como a luz da primavera, etc.» Ai pobre arcebispo de Braga, pobre frei Caetano Brandão, venerando bispo do Pará, que te mascararam em poetastro piegas, em falso sacerdote, e em tonto alcoveto de bigamia! Mas não paremos aqui. O _Frei Caetano_ theatral dá ao segundo marido o testamento em que o primeiro institue por herdeiro o filho, menor d’aquelle e de Margarida. Já não era d’admirar que Alvares o acceitasse, mas emfim, tem ainda seus escrupulos: não acceita. O arcebispo mette o rapaselho na intriga para pôr fóra d’aquella casa o marido legitimo que ali se deixára ficar como villão em casa do sogro e afinal vão conseguil-o, bradando frei Caetano: Oh! amor de pae! oh! familia! Oh! caridade! o que para ironia seria torpe e para sinceridade é absurdo, quando entra o segundo marido que já de tudo soubera e tentára resolver o problema pelo suicidio. Vem elle muito a proposito cortar o nó gordio e dar um desfecho á peça que estava em perigo de não ter nenhum. É um desfecho simples: o segundo marido não se suicida, mas vem annunciar a todos que morre. Diz: «...Não vá para longe, snr. Alvares! Aceito a sua generosidade (?) porque me sinto a morrer. Bem haja! Ouvirei na extrema hora as duas adoradas vozes! (com um sorriso triste, para o arcebispo) Não me suicidei ... mas não pôde o coração com tanto. «Não me deixeis agora, arcebispo ... poucas horas esperarás! Todos ... tão bons...! (Encostado ao arcebispo; levantando o rosto lentamente para o céo) Caetano! Creio em Deus! _Tableau_. «Cáe o panno rapido.» Falta bradar o arcebispo: «Socegae, agora vamos jantar.» Este sujeito, que morre tanto a proposito, era minutos antes um materialista ferrenho por convicção e sciencia. A este respeito havia muito que dizer. O arcebispo discute com Diogo o materialismo d’este. Note-se que estamos em Portugal e no seculo 18. Diz Diogo: «Sou a _ephemera_ aggregação de _moleculas de materia_, a _sombra_ fugitiva d’um corpo que é a _especie_ (!) E porque sou isto, nem tenho alma, _unidade_ que reside n’aquella.» Ficamos sabendo que a _unidade_ é a alma, e a _alma_ é a unidade, que sem uma não ha a outra e muitas mais coisas curiosas. Responde o arcebispo, depois de perguntar se na hora extrema _não terá saudades_, o que pelos modos é cousa facil de saber, e d’elle lhe affirmar positivamente que sim: «Mas a saudade é a reminiscencia e é affecto, etc. E _se não tens unidade_, etc., como tens saudades? Pois a materia terá sentimento?» Replica Diogo: «Será um sentimento cousa mais maravilhosa que um raio de luz ou de calor, _tão_ subtil e impalpavel? Parece-te grosseira a materia?» Argumento esmagador do arcebispo: --«Ah Diogo!...» E deitam-se a discutir o movimento, a materia, a creação, a attracção, etc. O arcebispo é um dialecto terrivel: --«E d’esse modo demittes Deus, como já demittiste a alma, a _unidade individual_, etc.»--Amas ... padeces moralmente ... pensas na dôr, etc.--... vens dizer-me que tudo é materia!»--«Grosseiras doutrinas! etc.»--«Não tens direito de me dizer: despreza as tuas _hypotheses_ e curva-te reverente diante das _minhas_, etc.--«O mundo exterior não póde dar-te a idêa de infinito, etc.--«Quero fugir d’esse materialismo, etc.» Qualquer aprendiz de logica, entre os frades do tempo, discutia com mais acerto. Qualquer _racionalista_ de instrucção secundaria rir-se-hia dos dois contendedores. Além d’isto ha na discussão anachronismos intoleraveis. Principios proclamados ha meio seculo lá fóra andam ali fluctuando, embora falseados e mal comprehendidos, n’uma discussão supposta nos arredores de Braga e no seculo passado. Aqui não ha luva a erguer. Collocada a questão do espiritualismo e do naturalismo assim, que vale transplantal-a para a critica? Esperava outra cousa d’um professor de medicina, que era de suppôr que tivesse estudado as graves questões da sciencia moderna e principalmente da moderna physiologia. Não lhe serviu de nada a sciencia para a sua obra. Conservou-se no campo d’uma psychologia metaphysica, facil e arbitraria, estafada e insoluvel. O seu drama é uma obra sem idealisação propria nem original, sem concepção elevada e congruente; um desfastio ... Já o dissemos, que está muito longe de nos dar um verdadeiro e consumado artista. Esta falta de originalidade já a notara no _Mario_. Mais se affirma aqui pela já tão apregoada aproximação entre o _Frei Caetano_ e o _Frei Luiz de Souza_, um dos nossos maiores monumentos litterarios. Mas quanto se distanceam na idealisação, na grandiosidade concepcional! Quiz-se explorar a ideia em proveito d’uma these moral talvez, mas nem se comprehendeu aquella nas condições complexas e naturaes, principalmente historicas, em que a tractou Garrett, nem a these «combate entre a _justiça stricta_ e a _caridade_,» mal formulada, teve desenvolvimento consoante e rasoavel. Mas a distancia é tamanha que nem vale a pena demorarmo-nos na approximação critica. No _Frei Caetano_ ha typos bem esboçados e a linguagem, que está longe de ser vernacula, é geralmente natural,--grande merecimento de certo,--fluente e espontanea quasi sempre. Não ha a constante verbosidade garrida e absurda que ahi tanto impera. Se uma ou outra vez a _declamatoria_ ôcca apparece, é isso filho da debilidade de criterio scientifico e esthetico. Póde dizer-se o que ha pouco dizia d’um livro um critico francez: «_Il y a de la declamation mais de la declamation convaincue; il y a de l’emphase, mais de l’emphase sincère._» Na linguagem do marujo ha a banalidade da locução nautica de que bem se podera prescindir, longos e desnaturaes circumloquios de _giria_ maritima, etc. Ha _situações_ menos artisticamente combinadas; na dialogação, Gayo é quasi sempre infeliz ou imperito, aqui como no _Mario_, etc. Se Gayo não se fascinar com os exaggerados e prematuros encomios e se mais do coração e menos preoccupado com velhas _convenções_ e ideias, se deitar ao estudo e souber aproveitar para a arte o muito que a sciencia de que é professor nos seus variadissimos ramos lhe ha de fornecer, póde breve dar-nos obra de mais subido quilate. Talento é elle, creio, que muito mais poderá fazer. Não se fascine com popularidades inscientes ou venaes. Cala-se aqui o critico. Muito mais tencionava dizer quando comecei esta apreciação. Affazeres de outra ordem me tolhem o proseguimento. O amigo não maculou, creio, a dignidade da critica. Em campos diametralmente oppostos, podem bem respeitar-se critico e criticado, e tenho a consciencia de que não desmereci agora,--pelo menos voluntariamente, o conceito de imparcial em que me tem tido. Tambem importam-me pouco os conceitos alheios. Digo o que penso e o que sinto. Faça cada qual o mesmo, que ganharão com isso todos.[57] Nada mais se póde accrescentar agora. Discute-se liberrimamente a obra. O homem, porém, morreu. É natural e conscienciosamente obrigatorio o silencio. Bem bastam para nos preoccupar as injustiças dos vivos. Os que foram não podem já justificarem-se, defenderem-se, ou convencerem-se. Se não o fizeram quando deviam e podiam, não lhe devemos agora tomar contas. Uma cousa só acrescentaremos: é que Silva Gayo era um aproveitavel talento que muito de bom podia ainda dar á litteratura patria. A critica desassombrada podia acirrar-lhe os brios e fazel-o trabalhar muito. Mas outras estimulações houve bem menos sinceras, leaes e proficuas.--Oh! se houve.... FRANCISCO LUIZ GOMES (Á MOCIDADE ESTUDIOSA DA INDIA PORTUGUEZA) Abro n’esta revista um parenthesis de mágoa.[58] Antes de fallar d’um livro que vive nas regiões luminosas da critica, vou fallar d’um homem que morreu na triste solidão dos mares. Um livro é a vida, a acção, o trabalho, a lucta, a força, a _ideia_: a grande luz e a força grande. _Debet esse_. Um livro é um facho. É uma alavanca. É um mundo. O oleo que alimenta este facho, a mão que dirige esta alavanca, a _lei_ que governa este mundo, chama-se: a _ideia_. Quem fabrica este oleo, quem move esta mão, quem gera esta lei? A _vida_. A vida é a alma de tudo, de tudo mãe: _alma mater, alma parens_. Quereis vel-a, estudal-a, palpal-a, dissecal-a? Não ha telescopio que a devasse na immensidade do espaço; não ha livro que a insule na immensidade do tempo; não ha balança que a pese na immensidade da materia; não ha bistori que a disseque na immensidade de si propria. E comtudo sente-se, sentimol-a em tudo. Em toda a parte está. Chama-se _movimento_ ... é tudo; chama-se _combustão_ ... é tudo; chama-se _força_ ... é tudo; chama-se _actividade_ ... é tudo; chama-se _materia_.... Não é tudo, dizem. É tudo o que sentimos. Materia e vida não serão termos correlativos d’organismo e funcção? Mas ha uma cousa que chamam _morte_. O que é? Quem a definiu? Quem a viu, como a define? Podia talvez definir-se; uma solução de continuidade no organismo e na funcção. Um homem morreu; isto é, um organismo transforma-se, um modo de ser funccional cessa. Mas o homem pensa. Eis o infinito. O homem cria. Eis a immortalidade. Relatividade fatal e suprema: o _homem_, isto é o organismo, isto é a funcção, isto é o _meio_, isto é a vida individual, a concreção da vida. Não faço uma biographia. Não escrevo um necrologio. Estimava e respeitava um homem, que como eu, trabalhava, amava e soffria; anceava por saber, lidava por honrar-se, e envelhecia prematuramente no estudo. Estimava e respeitava um homem, que como eu, suspirára muitas vezes em plaga longiqua pela sonhada luz, pelo illusorio calor da vida febril dos grandes focos de civilisação; passára horas angustiadas no isolamento, na pobreza, no trabalhar sem esperanças, no desalento sem consolações, nas injustiças sem conforto, na obscuridade odienta e fria, com o coração a pular-lhe cheio de vida, com a intelligencia a revoltar-se cheia de força, e a sphinx sombria da realidade actual a pousar-lhe mão esmagadora sobre o coração vigoroso, sobre o cerebro enfebrecido. Oh vós que não sabeis o que taes horas são, o que taes horas valem aos vinte annos, passae risonhos e orgulhosos, envoltos na primavera da vossa felicidade, mas procurai conserval-a bem e não insulteis os que padecem fome e sede de justiça e verdade, de luz e calor; terriveis fomes e sedes terriveis! Oh vós, os que sentis desde o berço banhar-vos a fronte roseada a ventura; cuja vida desliza alegremente á superficie de bonançoso mar, sabei que ha frontes amarellecidas que guardam agonias tremendas e que tremendas tempestades aureolam desde o berço. Não vêdes essas tempestades, não conheceis essas agonias, oh gentes venturosas! Não pensaes até que em mar de leite e em balsamicos laranjaes,--que para tantos é isso a vida,--se estorçam Tantalos em desespêro horrivel. Não comprehendeis Promotheu algemado, felizes que sois! O homem de quem fallo luctou e soffreu muito. Chegou ao cabo da lucta com a morte enroscada no corpo. Venceu ... e morreu. Fincou no chão marco que lhe recordasse o nome e foi-se.... Recebeu-lhe o corpo apodrecido o sombrio mar. Immenso tumulo! Deixem, pois, que um homem que lucta e na lucta morrerá, saude o que luctou e morreu. Não faltam saudações aos vivos. Saúdo um morto. Á luz de Indra abriu pela primeira vez os olhos Francisco Luiz Gomes. Na India nasceu, n’aquella velha India, na immensa, na esplendida, na lendaria, na historica, na fecunda terra dos _Vedas_ e do _Ramayana_, florescencia magnifica, e do _Mahabarat_, magnifica elegia e magnifica epopeia d’uma decadencia; terra mysteriosa, berço e altar do pantheismo, _vagina gentiarum, alma mater_ da civilisação moderna. Mas a India d’hoje, a India moderna, outra é. Já o arya não convida em espontaneos hymnos o luminoso _Maghavet_ á refeição sobre a relva. _Sita_, a _Çri_, a «abundante» não desce já á planicie. As «brilhantes» _Devis_, as _devaptnis_ dos deuses não misturam o leite e o mel esperando a chegada dos esposos, e a _Saramá_ não ullula na immensidade do espaço, nem _Ahi_ cobreja na immensidade do céu. Salve India vedica, mysteriosa India, mysteriosa mãe! Muitos seculos e muitas revoluções passaram por alli, revolvendo o solo e as gerações e a historia e a sociedade e o pensamento humano. A velha sociedade indiana morreu. O que a India d’hoje é, repugnaria dizel-o, a quem superficialmente a visse, a quem fanatisado pelo passado, não comprehendesse o presente, a quem obsecado pela tradição, rejeitasse a civilisação. É um tumulo profanado pela brutalidade idiota e esgravatado pelas compridas unhas do industrialismo. E que outra cousa podéra ser? Se isolada se tivesse conservado, como a China, seria talvez como ella «um frasco de fætus», na expressão de Hugo. Os inglezes teem-n’a explorado e vexado muito, é certo, mas teem-lhe injectado o sangue sempre novo do progresso; chamado ao gremio da civilisação a moderna, a velha India. O que nós fizemos alli ... demais anda rememorado. E com a memoração de suppostas e verdadeiras glorias, é natural andar o lamento por muitas e grandes desgraças. Na historia portugueza a India affirma-se n’uma grande gloria e n’um cataclysmo grande. É um triumpho e uma decadencia. É uma ovação e um epitaphio. É uma epopeia que abre com o vulto cavalleiroso de Vasco da Gama saudando os horisontes purpureados onde se esconde o velocino dos novos argonautas e fecha com uma infamia enlodando o vulto venerando de João de Mascarenhas. A India! Esta palavra é metade da nossa historia. Palavra escripta em lettras de ouro tantas vezes, e tantas em lettras de sangue, e tantas ainda em lettras de fogo accêso e acirrado por um monstro infamissimo chamado «santo officio». A India! Epopeia que é epilogo de outra epopeia: os _descobrimentos_. Nome d’uma grande terra, que é hymno apotheosico d’um grande nome: Affonso d’Albuquerque. Este homem vale um imperio. Funda um que morre com elle. Hoje temos n’aquellas longiquas paragens uma parte de nós mesmo, de que cuidamos tanto como de nós e todas as nossas coisas cuidamos. Miseria inaudita! Somos já agora o galho mais apodrecido e inutilisado da grande e caduca arvore latina. Punge dizer isto. No meio d’esta quadra vertiginosa de progresso social, ficamo-nos a rememorar glorias que ainda bem não podem voltar; quedamo-nos a scismar grandezas, que felizmente passaram á historia, e a remirar em contemplação idiota, os farrapos lantejoulados que nos deixaram as revoluções dos tempos e das idéas. Demais nos temos alongado, porém. Nasceu pois na India portugueza, em Goa, freguezia de Novelim, em 31 de maio de 1829, Francisco Luiz Gomes, filho do cirurgião-medico Francisco Salvador Gomes e de sua esposa D. Adeolata Furtado. Gente muito considerada entre os seus patricios pela sua illustração e posição social era esta, e até em conta de leal e intelligente conselheiro era tido o medico, pelos homens da governança d’aquellas terras. Em subido conceito o tiveram especialmente os governadores Lopes de Lima, conde das Antas e Ferreira Pestana, e os arcebispos Gualdino e Torres. Não teve, pois, Francisco Luiz Gomes que luctar, como tantos outros ao desabrochar da vida, com os estupidos preconceitos e prosapias das hierarchias sociaes, perante as quaes mais vale o acaso do nascimento, o nome e a situação paterna, do que o merecimento, o caracter e o trabalho proprio. Deixo a outros o narrarem o desenvolvimento do notavel engenho do moço indiano nos labores academicos; o fixarem-lhe a chronologia dos seus progressos escolares. Não faço uma biographia, já o disse. Estudou com afinco, e seguiu com valentia a vereda seguida já por seu pae. Cirurgião militar, mostrou quanto valia, principalmente na campanha de Sataris. Quando os Fonddus Saunts, revoltados contra os inglezes, se refugiaram em Goa, Francisco Luiz Gomes foi escolhido para interprete na questão suscitada por este facto. Devidamente apreciado pelos seus patricios, escolheram-n’o elles para procurador á junta geral do districto. Não satisfaziam, porém, estas distincções a nobre ambição de Luiz Gomes. Sentia-se algemado alli. Era-lhe escasso o solo que pisava, pesados e atrophiadores os ares que bebia. Almejava por immergir-se n’esses horisontes longiquos d’onde lhe vinham canticos de mysteriosas sereias, clarões de irresistivel fascinação, acenos de veladas formosuras! Fugia-lhe para aquem a imaginação; impellia-o para a Europa, para este foco esplendido de civilisação, a vontade intelligente e possante. Diz um seu parente e amigo: «Mas em quanto o paiz e o governo, apreciando devidamente os seus serviços, se compraziam em vêl-os continuar, elle olhava tudo isso com um certo ar de indifferença! Não lhe podia embriagar a melhor posição, em que aqui estivesse collocado. O seu desejo, a sua ambição toda era ir á Europa. Desde menino era este o seu unico e maior desideratum. Elle lia, escrevia, fallava, andava, dormia, sonhando sempre Lisboa. Bem sabia elle que lá o esperava um futuro brilhante--um vasto horisonte para os seus vôos gigantescos. E não se enganava, E não se enganou.»[59] Era a febre do _ignoto_, a fascinação do _desconhecido_ que o atormentava. A patria era-lhe alguma cousa parecida com um exilio. Filho da India, a Europa devia ser-lhe madrasta odienta. Pois não. Era amante fascinadora, era visão esplendida em ancear dolente, em amargo scismar. Ha saudades do que nunca se viu. São saudades de um sonho. É o almejar pela realisação d’elle. Quem as não tem sentido! Quem em plaga solitaria, não se quedou um dia, a scismar, com os olhos esbugalhados nos horisontes, e um livro, algum d’estes livros que nos cáem nas mãos ao desabrochar da vida, que se consubstanceiam comnosco, que são nossos confidentes, e nós mesmos na mocidade, e que depois ingratamente esquecemos ou escarnecemos, aberto sobre o joelho, recebendo as lagrimas ardentes--oh, lagrimas abençoadas!--que nos deslisam pelas faces ... nem a gente sabe porquê! Oh dias das minhas amarguras de creança ambiciosa! horas do meu desespêro solitario e do meu solitario ancear por outros céus e por outro solo, como eu me recordo de vós, hoje que vos desejára tanto, hoje que não tenho um colo amigo onde encoste a fronte enfebrecida, um rosto d’anjo,--oh minha santa e boa mãe!--que me enxugue, encostando-se ao meu, as lagrimas de sangue que se choram na vida. Creança taciturna que eu era! Chamam-me triste e scismador. Por doido me tinham uns pobres alarves que me viam sósinho e immovel passar horas esquecidas com olhos fitos na amplidão dos mares, sempre com um livro na mão, sempre com os olhos no horisonte! Quadra terrivel aquella. Estalava-me o peito com dôres, assustava-se a familia com os receios de terrivel enfermidade, e o medico cobria-me de mostarda o corpo. Coitados de todos elles que não me comprehendiam! É que me faltava o ar no meio d’aquelles ares balsamicos; faltava-me a luz no meio da primavera, escasseava-me o solo e o céu n’aquellas varzeas solitarias e sob aquelle céu immenso. Alguma cousa, como uma nostalgia, era aquillo! Que louco sonhar! Perdoae esta triste divagação. É que bem tristes saudades me despertou uma carta que tenho aqui do pobre Luiz Gomes. Uma carta que vale por muitos livros. Lêde-a e julgae. A Lamartine a escreveu elle: Lisbonne le 5 janvier 1867.--Monsieur.--Je suis né dans l’Inde orientale, dans ce pays qui fut le berceau des poesies, des philosophies et des histoires, et qui en est a present le tombeau. J’appartiens á cette race qui composa le Mahabarat et inventa les échecs--deux oeuvres qui portent en elles quelque chose d’eternel et d’infini. Mais cette nation qui faisait de ses poèmes ses codes et formulait la politique en un jeu, ne vit plus. Elle survit imprisonnée dans sa patrie épuisée par sa fécondité et obscurcie au milieu de l’éclat de sa gloire. En se débattant contre les barreaux de sa cage, cet oiseau a perdu ses plumes qui le faisaient remonter au-dessus de l’Hymalaia; en pleurant la liberté qu’on lui a dérobée et la lumière qui l’a fui, ce rossignol a oublié son chant dont les notes retentissaient dans le ciel. Je demande pour l’Inde la liberté et de la lumière! pour moi plus heureux que mes compatriotes, je suis libre. _Civis sum._ Ces titres, monsieur, étaient assez pour me recommander à vous qui admirez ma patrie et aimez l’humanité. Il y en a encore d’autres: j’ai lu vos _Confidences_ et tout ce que vous avez écrit jusqu’ici. Cette lecture ne m’a pas enivré; elle a fortifié mon âme en la charmant; elle ne m’a pas ébloui; elle m’a éclairé. Emouvoir la nature par la nature c’est la tout votre génie. Les cordes de votre lyre sont des fibres détendues de votre cœur. Dieu, homme, nature: voilà ce que j’ai senti en vos livres. Il y a dix huit ans que j’ai lu l’épisode de Graziella. C’était un beau jour de mai. Assis sur un roc, je tenais ouvert sur mes genoux le volume des _Confidences_; un figuier d’Inde, aux feuilles larges et rondes me voilait de ses ombres; un petit ruisseau bordé de saules m’envoyait ses murmures plaintifs, de grosses larmes tombaient des mes yeux sur les pages du livre, en même temps que le figuier, effleuré par un soufle de la brise y versait le baume des ses fleurs. C’est qu’en feulletant ce livre, j’avais souslevé un linceul. Il y avait une morte devant moi. Je voyais le visage blanc et adoré de Graziella et ses lèvres demicloses qui semblaient avoir prononcé à moitié:--_Je l’aime, je l’aime, je l’aime_. En répandant sur elle en fleurs humectées de la rosée des larmes, moi et le figuier, nous lui rendions les derniers devoirs. Qui aurait pu dire à cette pauvre fille d’un vendeur de poisson, que les larmes brulantes dont elle tachait votre volume de _Paul et Virginie_ lui seraient rendues vingt ans après par des hommes et des pays aux quels elle n’avait jamais songé? Votre douleur s’est repandus dans l’orbe comme un nuage. Elle se fond en pluie de larmes sur le tombeau de Graziella. Vous n’avez pas écrit cet épisode, vous l’avez découvert. Un cœur de femme de seize ans le portait; vous frappâtes le cœur et l’épisode en jaillit tout éclatant de beauté de sa simplicité et de sa naiveté. Depuis ce jour lá vous faites partie de cette famille idealle avec laquelle je vis et que j’aime. Vous n’etiez pas seul ici-bas monsieur de Lamartine, vous avez des frères, des enfants, des parents qui n’ont pas votre sangue mais qui ont votre âme. Ils ne vous parlent pas, ils ne vous veront peut être jamais; ils parlent de vous á Dieu, ils prient pour vous, ils vous donnent les larmes, ce sincère suffrage du cœur. Avoir des admirateurs c’est un droit du génie; mais pour être cheri de tant de cœurs, il fallait leur avoir donné le sien tout entier. Les livres que j’ai l’honneur de vous envoyer sont un témoignage de ma reconnaissance. Ils ne son bons qu’à cela. Je vous ai écrit moimême de longues lettres. Vous ne les avez pas reçues, car elles n’étaient pas destinées à vous être envoyées. C’étaient des extases pleins de pudeur et de sincerité. Encore une grâce. J’espère aller à Paris. Ce serait pour moi un des jours les plus heureux de ma vie celui au j’aurais le plaisir de voir l’écrivan qui a touché le plus les fibres de mon cœur et de dire--_Virgilium vidi tantum!_--De l’amour aux personnes et aux choses, au desir de les voir il n’y a qu’un pas. Votre voyage en orient en est la preuve. Un des mes compatriotes, mr. Avila, que a bien voulu être auprès de vous l’interprete des mes sentiments de respect et de reconnaissance m’a remis le buste que vous avez en la complaisance de m’offrir. Je ne saurais trop vous remercier de tant de bonté! Le souvenir de tout ce que vous avez écrit anime pour moi ce visage immobile et sculpté en pierre, et répand sur ses traits un jour sans ombre. J’ai l’honneur d’être, monsieur--Votre très humble serviteur et sincère admirateur--_Francisco Luiz Gomes_. Esta carta foi entregue a Lamartine por um compatriota e dedicado amigo do escriptor portuguez, o engenheiro architecto Avila. A elle devo tambem uma cópia. Profundamente commovido findou o poeta a leitura d’ella com os olhos rasos de lagrimas e exclamando: «Très jolie!... très jolie!... très jolie!... charmante!... charmante!... charmante!... Votre ami est un vrais talent. Quel âge a-t-il? Je desire bien lui voir.» Francisco Luiz Gomes conseguira vêr realisado o seu ardente desejo de vir á Europa. Eleito deputado ás côrtes em 1859, tomou assento no parlamento no anno seguinte, e não ficou, como tantos outros, immergido na obscuridade, mal estremecida pelas palestras e pedidos de campanario antes da ordem do dia. N’aquelle logar para onde a desmoralisação e ignorancia publica, e o feudalismo dinheiroso da burguezia atira em cada eleição tantos alarves que melhor andariam á rabiça do arado do que ás cangas dos governos e das facções; n’aquelle logar, onde a intelligencia, o estudo comprovado, e a honestidade firme deviam ser unicos titulos de admissão, e onde mais avultam pelo contrario os do pedantismo, da velhacaria e da ignorancia lorpa, Francisco Luiz Gomes começou de certo a sentir as amarguras e nojos da vida politica em Portugal, mas soube afastar-se das mediocridades mudas e das mediocridades verbosas, e conquistar breve e brilhantemente um nome entre os homens verdadeiramente illustres pelos seus talentos, estudos e trabalhos no parlamento, que todos lhe estenderam, sem distincções partidarias, cordealmente a mão. Revelou-se orador fluente, consciencioso e elevado, tratando as questões á altura dos principios e procurando emancipar-se da _pelotica_ de nomes que é quasi toda a politica portugueza. Reeleito varias vezes deputado, o seu nome foi mais de uma vez lembrado em occasião de crise ou formação de ministerios, e não andava ainda a governação publica rebaixada ás condições rasteirinhas do officio de cortador _economico_ ou de marçano financeiro em proveito de qualquer entidade bruta ou pedante. Collaborador na _Revolução de Setembro_ e redactor da _Gazeta de Portugal_, a sua posição na imprensa politica não foi menos digna nem menos brilhante do que na vida parlamentar. Os estudos economicos,--e já é necessario quando se pronuncia esta palavra, declarar que se falla da sciencia,--attrahiam-n’o e prendiam-n’o. Nas viagens que fez a Pariz e a Londres teve occasião de relacionar-se com notaveis economistas e entre outros com Miguel Chevalier, a quem dedicou o seu _Essai sur la théorie de l’économie_, etc. E já que d’este livro fallei, vem a proposito formular aqui a lista das obras do distincto escriptor portuguez, pela ordem chronologica da sua publicação: 1.^o _De la question du coton en Anglaterre et dans les possessions portugaises de l’Afrique occidentale_, etc.--Lisbonne--Impr. de la societé typ. Franco-Portug. 1861. 8.^o gr.--32 pag. 2.^o _A liberdade da terra e a economia rural da India portuguesa_, etc.--Lisboa--Typ. Universal--1862. 8.^o peq.--102 pag. É dedicado ao snr. José da Silva Mendes Leal, então ministro da marinha. 3.^o _Os brigadeiros Henrique Carlos Henriques e Joaquim José Xavier Henriques.--Esboço historico_, etc.--Lisboa--Typ. Universal--1863. 8.^o peq.--39 pag. É dedicado á ex.^{ma} snr.^a D. Anna M. d’Almeida Henriques. 4.^o _Os Brahmanes.--Romance_, etc. Lisboa--Typ. da _Gazeta de Portugal_--1866. 8.^o, peq.--IX--315 pag. É dedicado ao fundador e redactor da _Gazeta_, o snr. Antonio Augusto Teixeira de Vasconcellos. 5.^o _Essai sur la théorie de l’économie politique et de ses rapports avec la morale et le droit_, etc.--Paris (Impr. de E. Martinet)--1867. 8.^o gr.--XII--232 pag. É dedicado a M. Michel Chevalier. 6.^o _Le Marquis du Pombal_, de que adiante fallarei e que é de certo a obra mais importante de Francisco Luiz Gomes. Uma outra inedita e incompleta deixou elle, dizem-me,--sobre a historia da administração na India portugueza. Aqui devo registrar o meu agradecimento ao meu talentoso e bom amigo, e que o era tambem do pobre Luiz Gomes, José Paulo Diniz, pelos esclarecimentos que obsequiosamente me forneceu. Atormentado por enfermidade terrivel, a que não puzera termo o tão apregoado clima da Madeira, o illustre indiano abandonou a arena politica, e depois de concluir precipitadamente o seu livro _Le Marquis du Pombal_, pobre e sem collocação social aqui, que lhe assegurasse a subsistencia,--que tal é geralmente o futuro de quem em Portugal estuda e se entrega a estes labores da intelligencia,--resolveu regressar á patria, porventura com bem amargas decepções dos sonhos com que de lá viera inebriando-se. A ultima vez que o vi foi no «Gremio Litterario», recostado n’uma poltrona, emmagrecido e atormentado, como se lhe andassem a tortural-o as agonias do esfacelamento da morte. E andavam de certo. Pungia profundamente vêl-o assim. Nomeado commissario dos estudos, creio, para a sua terra natal, escrevia-me elle dias depois a sua primeira carta. Ausentára-se por alguns dias da redacção o nosso amigo A. R. de Sampaio, e dirigia-se-me elle por isso, para me pedir que fizesse publicar-lhe a carta, aquella bella e triste carta, que de certo não esqueceram os leitores da _Revolução_. Era um adeus á beira do tumulo. Eu nunca fallei a este homem. Em fainas diversas andavamos mourejando, que nunca nos appareceu occasião de nos encontrarmos no trabalho, nem nos sobejou tempo de nos procurarmos no descanso. E para que nos haviamos de procurar? Conhecia-mo-nos. Um do outro sabiamos. Com quanta gente nos correspondemos, n’esta vida do estudo e do trabalho litterario, sem que nunca se tocassem as mãos? E nem por isso são menos profundas as affeições. A India portugueza vestiu-se de lucto, desde Gôa a Dio, ao saber da morte do seu filho extremoso. É que aquelles povos lhe deviam muito. Advogado leal dos seus interesses, a sua morte foi profundamente sentida e a dôr que ella produziu manifestou-se eloquentemente. Se não me escasseasse o espaço registrava aqui as innumerosas manifestações de pesar de que nos dão noticia os jornaes indianos. A mocidade estudiosa, a briosa população das aulas, não ficou indifferente á perda do seu illustre professor. Entre outras manifestações dignissimas eu colloco acima de todas uma de que apenas ligeira noticia tenho: a da fundação d’um premio escholar, intitulado premio «Luiz Gomes». Era Francisco Luiz Gomes membro do _Bombay branch of the asiatic society_, associado estrangeiro da _Société d’économie politique_, e proposto havia sido recentemente para socio da academia das sciencias de Lisboa, d’esta curiosissima academia que escancara triumphalmente as portas a qualquer fazedor de versinho piegas e as conserva calafetadas contra muitos dos homens mais talentosos ou mais estudiosos do paiz, como Sampaio, Theophilo Braga, João de Deus, e tantos outros. Ao menos lembrára-se um homem, o snr. conde d’Avila, do nome respeitavel de Francisco Luiz Gomes. LE MARQUIS DE POMBAL--ESQUISE DE SA VIE PUBLIQUE--_par Francisco Luiz Gomes, etc. Lisbonne, imprimerie Franco-Portugaise, 1869--In 8.^o gr.--377._ Saudei um morto. Vou fallar rapidamente de um livro que foi a sua despedida e é o seu monumento. Volvo a este modesto cantinho onde tenho affirmado uma causa que julgo grande e util. Affirmação bem modesta tambem, que me tem angariado por ahi certos amuos e odiosinhos de varias excellentes pessoas que, a par do guindado dos seus respectivos renomes, da official respeitosidade dos seus letreiros litterarios, da grandiosidade dos seus bestuntos e infusa sciencia, e das mais partes de que resam as decretaes do elogio mutuo e da ignorancia geral, teem realmente bem singulares pequenices d’animo, bem tristes atarracamentos de consciencia. Quizilam-se por exemplo devéras, e desnorteam ás vezes, com o dizer-lhe simplesmente um pobre homem, humildemente apoiado nos livros, o que pensa, sente e sabe de tantas grandezas e prosapias. E peior é que alguns d’estes grandes sujeitos, se encolhem e agacham até se confundirem com certos vermesinhos repugnantes, e gastam o tempo e as portentosas sapiencias em intrigar a occultas como qualquer simples mortal, e a morder á traição como qualquer canito velhaco. Aguias imponentes a quem o sol incommóda, que estonteam guindadas ás alturas onde deviam viver, que se confundem umas vezes com empavesados perus, e outras com enraivecidas gallinhas. Ridiculos e maus! Gente perdida pela vaidade desbragada, e que não comprehende que a honra a critica, embora a corrija e castigue; que póde respeital-a e estimal-a o critico, sem que tenha de infamar a sua missão, e mentir á dignidade da sciencia e da consciencia, fazendo d’esta ventoinha á mercê das conveniencias e relações pessoaes, e d’aquella thuribulo de fetiches pêcos. Ridiculos e maus! Gente desleal e obsecada, que não sabe respeitar nem quer comprehender a independencia de caracter, a franqueza de opinião, o amor do estudo e do trabalho, o culto desassombrado da verdade critica, e que, hypocritas, se pregoam apostolos e exemplares de tudo isso. Sabem elles sequer, o que tudo isso é? Ridiculos e maus! Mas longa vai a digressão. Francisco Luiz Gomes não era de certo d’esses vaidosos obsecados, e vivo que elle fosse, podéra eu fallar desassombradamente da sua obra, que não tinha elle aprendido nem lhe soffreria o animo que aprendesse, com certos escrevinhadores empavesados, a proclamar a inviolabilidade das suas obras e opiniões á custa da inviolavel liberdade do pensamento e da palavra dos outros. Ha um monumento a levantar a um grande vulto portuguez. Monumento que seria lição e exemplo, como devem ser hoje os monumentos erguidos á memoria d’um homem. A _estatua_ não, que é anachronica, e irracional perante o espirito moderno. A estatua comprehendia-se na Grecia anthropomorphica, como disparatava na meia-edade mystica. O monumento de que fallo seria um livro ou antes muitos livros. A historia imparcial, exacta, _documentada_, da administração de Sebastião José de Carvalho emfim. A publicação official e franca e completa dos documentos d’essa administração singular, que é a um tempo affirmação cathegorica e firme da monarchia burguesa e absoluta já em meio quasi da tempestade crescente da Revolução, e quadra de emancipação, reformação e de preparação d’um futuro positivo: seria um grande serviço á historia e uma proveitosa lição a todos. Ennegrecido e escalavrado pela diffamação rancorosa e calumniosa, exalçado e aureolado pelo fanatismo do _heroworship_ parvo, o vulto de Sebastião José de Carvalho pertence mais á lenda popular e á critica parcialissima dos partidos, do que á historia séria, fria, desapaixonada e philosophica. E grande vulto é de certo: vulto enorme, que tomando das mãos d’uma realeza imbecil ou fraca, o sceptro de ferro, traça com elle uma periféria grande e luminosa no tempo e no espaço. Lá fóra podem estudar-se facilmente as administrações de homens como Colbert, Sully, Turgot, nas publicações officiaes dos documentos que elles firmaram com seus nomes. Aqui deixam-se apodrecer n’uns archivos impossiveis as paginas da nossa historia politica, que publicadas, esmagariam uns sujeitinhos patriotas que entre o ferrar alimarias e o governar uma nação não acham distancia sensivel ás aspirações velhacas das suas lorpissimas pessoas. A obra de Francisco Luiz Gomes é um nobre e grande esforço. Andou o pobre escriptor a acabar de estragar os pulmões com o pó e a humidade d’esses _archivos_ inauditos, folheando os bolorentos papeis d’onde se vão obliterando tantas coisas não sabidas e que tanto conviera saber, perdendo a vista e cansando o espirito na decifração e reconstrução d’esse drama a um tempo medonho, e ridiculo, enorme, ensanguentado, risivel, monstruoso, representado em Portugal no seculo passado: e conseguiu dar-nos a final um livro, que como dissemos, é uma despedida,--este o seu grande defeito,--com a precipitação do anceio, as indecisões e hesitações da soffreguidão, o incompleto, emfim, de quem sente avisinhar-se a hora da partida e tantas coisas tem ainda para dizer, e teme lhe falte o tempo para o adeus que será o ultimo. De certo o trabalho de Francisco Luiz Gomes na exposição e na critica dos factos é o melhor--o mais complexo e exacto se póde dizer-se assim--de quantos ha sobre a vida publica do marquez de Pombal. Mas é um esboço--como o proprio auctor reconheceu--, um bello esboço na verdade, onde se denunciam as hesitações da concepção e do lapis, e o apressurado da execução, a par de certos traços firmes e de certos pontos de composição desafogada e original. Como historia d’um momento gravissimo, não só na vida nacional como na vida europea, o livro de Luiz Gomes tem muito de biographia, e tambem, deve dizer-se, esta ultima feição lhe quiz principalmente dar o auctor. Como biographia mantém-se quasi exclusivamente nas exterioridades da acção politica, e mal nos revela uma ou outra intimidade da acção individual. Não foi assim que Audin escreveu a vida de Luthero. Não esqueceu pelo reformador, pelo revolucionario, o filho, o esposo, o pae, o amigo. Assim como a historia d’uma nação n’um dado momento exige o estudo das anterioridades, que constituem por assim dizer a genese do modo de ser actual, a historia da acção politica de um homem exige, para ser completa, exacta, imparcial e instructiva, a averiguação do _meio_ e da _pessoalidade_ intima, deixem dizer assim. É cousa importantissima esta. Ainda tendo em conta de systema philosophico a theoria dos Charlyles de todos os tempos e paizes; ainda crendo que homens extraordinarios appareçam ás vezes incumbidos sobrenaturalmente d’uma missão revolucionaria, e ao impulso da sua intelligencia e da sua vontade inspirada revolvam a sociedade e marquem á historia horisontes providenciaes, ha de concordar-se que taes homens, encontrando uma sociedade feita, isto é, tradições, consciencias, vontades e intelligencias laborando, hão de assimilhar moralmente elementos favoraveis, e topar com energicas resistencias, que fatalmente transparecem na sua supposta acção sobrenatural, explicam esta na historiographia das civilisações, e a ligam criticamente á anterior acção da humanidade. Accrescente-se a isto ainda a propria natureza individual. Ora exactamente no livro de Luiz Gomes a exterioridade, a acção social, a acção revolucionaria, revelando-se por vezes, firme e largamente, não deixa logar ao relevo da _pessoalidade_, e ao panorama do _meio_, em que tal acção se gera e desenvolve. Acontece, pois, que temos face a face, quasi sempre, o estadista com a mascara politica afivelada, em _meio_ mal conhecido, e por isso sob influencias e com intentos mal indicados. E um inconveniente mais se revela ainda. Homem enthusiastica e profundamente liberal, Luiz Gomes encontrou-se muitas vezes em terrivel antagonismo com as doutrinas e medidas do ministro que fallava em nome do _poder real_ supremo e absoluto, _directamente recebido de Deus_, como diz a formula official. É uma das grandes difficuldades que tem a vencer o historiador, a de calar as suas paixões e crenças partidarias perante factos que as desmentem e indignam, mas que têem uma justificação, uma razão de ser legitima e natural no logico desenvolvimento da acção humana atravez do tempo e do espaço. E como diz Spinosa, a violencia d’aquellas paixões combinadas de mais com as influencias do _meio_,--social, n’este caso,--é tal, que não póde dominal-a o homem. «_Vis et incrementum cujus cumque passionis, ejusque ni existendo, perseverantia definitur potentia causæ externæ cum nostra camparata adeoque hominis potentiam superare potest._» (Sp. cit. por Lermenier.) Se o homem é um historiador, a historia é falseada. Mas ao lado do mal, o illustre judeu, indica o remedio, remedio difficil de que muitas vezes não consegue ou não lembra lançar-se mão: «_Affectus coerceri nec tolli potest nisi per affectum contrarium et fortiorem affectu coercendo._» Ao profundo amor da liberdade, opponha o historiador, mais profundo amor da verdade e da dignidade da historia. Quão poucos fazem isto? Procurou fazel-o Luiz Gomes, caracter honesto e consciencioso, que, como elle proprio diz, só affirma aquillo de que está perfeitamente convencido; que tentou o assumpto com os sentimentos mais calmos, e procurando evitar qualquer impulso estranho ou hostil; que finalmente procurou com ardor a verdade. E conseguiu-o muitas vezes. No conflicto das suas doutrinas economicas com as aberrações monopolistas e proteccionistas de Sebastião José de Carvalho, tremeu-lhe mais de uma vez a penna, e não pôde deixar de escrever eloquente condemnação, que infelizmente nem sempre é justa, se attendermos ao espirito da época e ao modo de ser economico da sociedade portugueza do seculo passado. E não nos devemos deixar fascinar pelas brilhantes theorias da economia politica, sciencia ou antes esplendido ramo da sciencia social, que não está completo ainda, porque esta não se acha ainda solida e positivamente constituida. É sobretudo louvavel o desassombro com que Luiz Gomes desmente certas lendas patrioticas de que se tem aureolado o vulto de Carvalho, e com que apea este das altitudes de semi-deus, onde os hão guindado preconceitos e fanatismos absurdos. O _Marquez de Pombal_, de Luiz Gomes, é simplesmente um homem, um grande homem, uma intelligencia robusta, e tenaz, sujeita como todas a deploraveis erros; uma vontade possante, energica, como todas sujeita a hesitações e fraquezas. O longo drama da expulsão dos jesuitas é cuidadosa e largamente esboçado, e na horrivel tragedia dos Tavoras, vê-se o coração generoso de Luiz Gomes estremecer de indignação, mas dominado pela consciencia austera do historiador. Precavendo-se, porém, contra o vulgar exagero do panegyrico, com relação a Carvalho, Luiz Gomes, parece-me ter-se aproximado involuntariamente do defeito contrario; ter olvidado muitas legitimas glorias d’aquelle homem e da administração d’elle, ou ter passado por ellas com rapidez demasiada, ao passo que é minucioso,--e devia sel-o,--na exposição das faltas, das contradicções e até dos crimes de Sebastião José de Carvalho. E finda a leitura do livro, fica-nos vacillante e incommodada a consciencia, como se não lograsse attingir a synthese d’aquelle quadro. E não attinge de certo. É que aquillo,--repetimos,--é simplesmente um esboço, com o incompleto de tal trabalho. A parte critica principalmente é frouxa e superficial, talvez por não assentar em estudo anterior, desenvolvido e profundo da sociedade politica e da pessoalidade intima. Escripto com a natural elegancia e fluencia de estylo de Luiz Gomes, o livro póde apresentar numerosos defeitos na lingua em que é escripto, que não me pertence averiguar agora. Sei simplesmente que ha alli paginas escriptas com uma eloquencia espontanea e commovedora. Falta a esta obra uma cousa importantissima. É a _notação_. Curiosissimos documentos teve nas mãos Luiz Gomes, que muito era para desejar vêr em parte, pelo menos copiados alli, e além d’isso a comprovação, ou pelo menos a indicação documental tem numerosas vantagens e dá a obras d’esta natureza maior auctoridade. Ainda n’isto se denuncia a precipitação com que foi feito este trabalho. Sei eu, e não posso lealmente calar, que o pobre Francisco Luiz Gomes reconhecia estas imperfeições da sua obra, e muito hesitou em dar-lhe publicidade, visto que o deteriorado estado da sua saude não permittia que fizesse as correcções e désse á obra uma derradeira demão. A administração de Sebastião José de Carvalho ha de ainda servir de thema para muitos livros. Ainda ha pouco sahiu dos prélos de Coimbra um opusculo de Emygdio Garcia, de que terei occasião de fallar sobre aquelle assumpto que de certo é um dos mais importantes da nossa tão esquecida historia moderna. O livro de Luiz Gomes será, creio, por muito tempo, o melhor trabalho analytico sobre o grande reformador portuguez, e de excellente guia póde servir a quem queira estudar aquelle vulto extraordinario fóra da lenda popular, e do panegyrico ou da verrina facciosa. PHEBUS MONIZ, por Oliveira Martins[60] Isto é raro. Um livro que não se fez annunciar pela foguetaria dos _criticos do bem_, que appareceu na rua desempenado e sósinho, quando outros veem vergando sob o peso de ramarias e coroas, que paes e padrinhos lhes lançam em cima, e aguentados por duzias de reputações _já feitas_, é coisa de pasmar, mas de facil explicação para quem souber que não anda o author filiado em certa _camarilha litterata_ de que Scribe nos fallou um dia. Olhem-n’o, estudem-n’o, analysem-n’o, auscultem-n’o, apalpem-n’o bem. Leiam-n’o. É um bom livro. Chama-se «Phebus Moniz.» Este nome é de per si só uma accusação. É um epigramma quasi. No meio d’este nosso enthusiasmo _monumental_, d’esta nossa azafama em não ficarmos a dever nada a ninguem, e de pagarmos as dividas nacionaes com estatuas e philarmonicas, esqueceramos o nome honrado do tribuno popular do seculo XVI para nos lembrarmos dos Quebedos, dos Sá de Menezes e dos Corte Reaes, poetas de cutiladas, consciencias amphibias,--mais _nossos_ por isso talvez--que convivem com as glorias patrias e beijam as botas aos invasores e carrascos do seu paiz. Isto era natural. Áquelles deviamos não sei quantos milhares de versos façanhudos e retumbantes,--poesia de canhão e de sangue;--que ninguem lê, mas que nos enchem um bom espaço das nossas livrarias. Mas Phebus Moniz! Que fez? Que lhe devemos? Quem é? É simplesmente um dos vultos mais respeitaveis, mais grandiosos, mais sympathicos da historia do povo portuguez. É simplesmente o ultimo lampejo que a nossa velha sociedade despede, ao atufar-se por sessenta annos no charco podrissimo de uma fidalguia corrupta, d’uma burguezia cobarde, de um clero traidor; ao cahir polluida de vermes nos braços ensanguentados da politica cynica e fanatica a um tempo, sinistra e grutesca da Castella Filippica. Em volta do tribuno veem agrupar-se as tradições patrioticas, os manes dos que morreram pela liberdade da sua terra e dos que lhe inscreveram o nome em letras de immorredoura luz nos fastos das civilisações. Phebus Moniz é um gigante. É um homem de bem no reinado do cardeal-rei! A sua palavra vigorosa, ungida de patriotismo e bom senso, inspirada pela historia severa e incorruptivel, desce como azorrague luminoso sobre aquella immensa orgia de canalha fidalga e de burguezia immoral. Na borda do precipicio, Phebus estende a mão por sobre aquelle a Pinto Ribeiro. O sol mergulha no occidente, mas no seio das trevas prendem-se os elos da historia patria. Pinto Ribeiro é mais feliz do que Phebus. É mais pequeno tambem. Elle e a sua gente lançam um velho pelas janellas, encareceram uma mulher, desarmam um punhado de mercenarios, e carregam um João IV, com a corôa de um João I. Valem bem uma estatua, valem. Mas Phebus? Vale um livro. Meditem bem na differença. É profunda. Phantasiar um _heroe_, trajal-o a capricho de galas ou farrapos, fazer-lhe irradiar, ou pôr-lhe a volitar em roda uma multidão cahotica e immensa de peripecias extravagantes, de anecdotas engenhosas, de scenas lugubres, de inverosimeis _intrigas_: é fazer do romance um espectaculo de prestidigitação, ou da faculdade imaginativa um acrobata mais ou menos perito. Mas arrancar das paginas da historia um vulto ou um grupo, um nome ou uma época, fazer d’aquelle um pretexto para a historiographia d’esta, converter o romance em lição da intelligencia, exemplo para o coração, advertencia para a vida actual, guia para os caminhos do futuro, collocar a imaginação ao serviço da historia e não esta á vontade d’aquella, pol-a ás ordens de uma propaganda justa, positivista, harmonica com o pensar e sentir da moderna humanidade, abolir o romance pelo romance,--disparidade identica á arte pela arte,--para fazer do romance pela facilidade da evangelisação, pelo magnetismo da faculdade imaginativa, pela amenidade da aprendizagem e do ensino: uma these; realisar n’elle uma manifestação da proficuidade da historia, isto é, um fim directo e praticamente utilitario: é que é missão mal comprehendida por muitos, deturpada por não poucos, acceita por alguns apenas, satisfeita por pouquissimos ainda; dos penultimos, é certissimamente,--dos ultimos mesmo, creio eu que é tambem,--o author do «Phebus Moniz,» romance que abre esplendidamente com um estudo synthetico,--despretencioso e profundo,--das causas remotas e proximas do desabamento da nossa autonomia e fecha com uma nota eloquente sobre o estado presente da Europa, que é como que o complemento doutrinario do livro e a explicação natural do seu apparecimento. Registre-se já um facto. Traz a introducção a data:--Maio de 1866. Finda a nota em outubro de 1867. A critica não devo desprezar isto. Que de trabalhos e progressos n’um anno! Que de ideias novas que surgem do estudo, que de novas doutrinas que se desenrolam no espirito, que de novos focos de luz se fazem na sciencia e na vida! Sabem-n’o todos. Experimentam-n’o muitos. É por isso que a nota final vem alli a proposito. Teremos occasião de o notar ligeiramente. Á leitura detida fica o pôr bem em relevo aquelle facto. É por vezes, uma desculpa, outras uma elucidação. Quem póde dizer-me onde acaba a meia edade, e onde a renascença começa? Quem póde fazer-me a generalisação dos factos que esta abraça, e a synthese natural das ideias e sentimentos que ella representa, para que eu possa consideral-a uma quadra distincta, harmonica, collectiva do espirito humano na historia das civilisações? Quantas vezes a palavra, que devêra ser sempre a traducção fiel da ideia e o espelho leal dos factos, deturpa escandalosamente aquella e desfigura estes! Creio eu que, com a palavra _renascença_, cousa egual acontece. Toda a explosão do sentimento e pensar autóchthono,--da _originalidade_, emfim,--de uma raça ou de um povo, amarrotada ou opprimida por influencias estranhas, ou anormalidades historicas, é _renascença_. O reapparecimento de uma civilisação desthronada, moldando-se aos meios e circumstancias actuaes, é _renascença_. Renascença é a tradição feita carne. Renascença é a tradição feita progresso. Theodorico e Cassiodoro e Boccio e Abélard e Bacon, _renascenças_. Pedro de Montereau em França, a cathedral de Koln (Cologne), Ervin de Steinbach, em Straburgo: _renascenças_. Renascenças, emfim: Meister Wilhelm e os Van Eyck e Wohlgemuth, o Shakspeare da arte, e Kranach, o Raphael de Luthero, e Guido, e Giotto e Nicolau de Pisa, e Miguel Angelo. _Renascença_ no seculo XV, no seculo XIV, no seculo XIII, no seculo XII, _renascenças_ successivas, revoluções parciaes, progressos isolados, mas constantes, durante toda a meia-edade, época de laboração e trevas, genesis, ou se querem, cadinho enorme, onde revolvem as ruinas das velhas civilisações, as ideias e sentimentos das sociedades esphaceladas, os instinctos e tendencias, o aspirar e sentir de uma humanidade nova. É d’alli que jorram, ou antes que são impellidos os elementos embryonarios da nova éra. Moldando-se á indole moral de cada povo, affeiçoando-se ás condições physiologicas de cada grupo, morrem uns depois de terem dado tudo quanto traziam de necessario e util, vigoram e crescem outros depois de terem despido tudo o que os afeiava e corrompia. Alguns ha, porém, que cousa alguma de utilidade nos legam, que cousa alguma de necessario realisam: elementos de desordem e desmoralisação; instituições em paroxismos crueis, doutrinas nos delirios do passamento, ideias debilitadas e dissolventes, que veem interpôr-se e obstar, por vezes, ao connubio de dois elementos vivos de progresso. Mas fazer uma quadra completa e distincta na historia da Europa, do movimento, de ha tanto annunciado, na arte italiana, por uma modificação natural da arte florentina; fazer derivar d’elle todos os progressos e revoluções que se reflectem na historia dos seculos XV e XVI, e cuja corrente se estende atravez toda a meia-edade, referir á mesma causa--secundaria, e contingente--factos de primaria importancia e logica fatalidade que se gladiam na consciencia, na razão, e na historia:--Carlos V e Luthero, o livre exame e a fogueira, o protestantismo austero e simples e o catholicismo luxuoso, pagão, por exemplo, é, creio eu, erro, que por muito vulgar e correntio, vemos convencionalmente acceito como verdade incontroversa, obstando á investigação desapaixonada das causas e origens. Cáe infelizmente tambem o author do «Phebus Moniz» n’este preconceito, quando, fazendo da «_renascença_» uma quadra unitaria, na apparição pelo menos, denominando-a interrupção na marcha do progresso humano, filia n’ella como elementos da propria indole, a intolerancia religiosa, e a monarchia pura,--a primeira, elemento de todas as épocas, necessidade e lei de todas as religiões; a segunda, conclusão logica da meia-edade; e ambas elementos de desordem e desmoralisação, que esta nos lega não sei eu se como um sarcasmo, se como um incentivo ao progresso. Abstráia Oliveira Martins do movimento ou da revolução que chama _renascença_, embora lhe dê a generalisação e unidade de feição que lhe dá, e veja-se o _throno_ e o _altar_, o throno despotico e o altar intolerante, lhe não ficam de pé, como consequencia natural e unica do estado dos espiritos e da successão dos factos da meia-edade. O throno e o feudalismo, ou, entre nós, o throno e a alta nobreza secular ou clerical, luctam encarniçadamente. O terceiro estado[61], a communa, o municipio ou o concelho--como quizerem--não hesita, não póde hesitar entre ambos. Está do lado do throno. É apoiado n’elle que este destroe aquelle. Depois o «municipio» «homem feito», talvez, como diz o snr. Martins, mas certissimamente homem ignorante e desasisado, acceita quasi sem lucta umas vezes, outras pedindo até, como por exemplo em França[62], a tutela do seu alliado por conveniencia, do seu inimigo por natureza, tutela que breve se converte em jugo pesadissimo, mesmo em Portugal, onde, diz o author do «Phebus»--o governo de todos, na mão de um só, encontra em D. Manoel um são e patriarchal caracter. O exercito, a milicia permanente, a cavallaria da meia-edade com libré e salario--D. Quixote feito Sancho Pansa, ordeiro umas vezes, outras buliçoso por conta do throno e do altar, eis um elemento mais, em que a monarchia se apoia, e que o municipio lhe fornece. Depois, a intolerancia religiosa, manifestando-se em perseguições, carnificinas e _quemaderos_ não annunciará simplesmente os paroxismos e delirios derradeiros do catholicismo, que enroscando-se na monarchia temporal--sua desejada amante--se inebria na volupia do crime e morre na impenitencia da doidice? O Vaticano, no dizer do snr. Martins, symbolisa uma nova soberania de Roma. O Vaticano! Os velhos despotas do Egypto construiam montanhas enormes de pedra, onde julgavam que as suas mumias, ao abrigo do tempo e dos homens, chegariam illesas ao termo final da peregrinação _celeste_. A conservação da carne era-lhes a garantia da bemaventurança do espirito[63]. Pois o Vaticano é a pyramide funeraria do catholicismo--ou para nos servirmos d’uma subtileza vulgar--do papado. Miguel Angelo e Raphael julgam fazer uma apotheose, e escrevem um epitaphio. Mysticismo e naturalismo! Contradicção fatal. Lucta demorada em que a natureza ha de vencer. E venceu. Pelas gotteiras da cathedral germanica o espirito humano foge do carcere em que o catholicismo o ia matando á fome, e desvairando á sêde. Porque o mysticismo é isto. Fome da intelligencia. Sêde do coração. Vae passado o cahos diluviano. A pomba abandona a arca, afugentada pelos gemidos dolorosos que sáem dos esquifes mortuarios, e pelo tripudio dos embriagados pilotos. Mergulha-se no espaço, despenha-se de rocha em rocha, atravessa os mares, fita e saúda o sol esplenduroso que surge. Fez-se aguia. Perseguem-na, encarceram-na, algemam-na a um pelourinho d’oiro, que chamam throno, lançam-lhe em cima um manto cesareo,--trapo que á custa de muitas infamias e abberrações e trevas,--conquistou um logar na historia? Cuidado! A aguia ha de espedaçar as algemas, alluir o carcere, e surgir. Será por momentos abutre. Á Reforma succederá a Revolução. O poder absoluto, a intolerancia religiosa, a occupação militar permanente das Indias, isto é: a desmoralisação da consciencia publica, a atrophia da vida politica, o relaxamento do espirito patriotico, a zizania na familia nacional, a lucta estrondosa das consciencias, a expulsão da terra patria d’um grupo poderoso, trabalhador e rico, os braços a fugirem ao commercio, á industria, á agricultura, para irem de espada em punho roubar as alheias riquezas e liberdades, o cerceamento constante da população activa pela guerra ou pelas perseguições do fanatismo, a degradação do trabalho, a corrupção nos espiritos e na acção, e por cima de tudo isto a ambição monarchica e secular de Castella a espreitar o momento de cahir sobre a presa descuidosa, eis as causas capitaes a que Martins attribue, e crêmos que a boa critica historica com elle, a quéda da nossa autonomia. O cardeal-rei, homem timorato e pequeno, verga sob o peso d’uma corôa que não fôra talhada para tão misera cabeça. Com os pés na sepultura, oscilla entre a influencia e ameaças de Castella e uns restos de pundonor nacional. O ouro e as promessas de Filippe vão comprando as consciencias e arredando as difficuldades. Pollulam os sophistas de pergaminhos e genealogias reaes, os trapeiros de imaginarios direitos, os pregoeiros de deslumbrantes futuros. Rigorosamente, esta cafila de comediantes e charlatães, é um luxo obrigado n’estas empalmações politicas. Mas a questão aqui não é de convencimentos nem discussões. É de compra e venda apenas. Nem todos, porém, concorrem ao mercado vilissimo. Consciencias ha que o ouro dos sicarios castelhanos, capitaneados ou protegidos por um rei demente ou traidor, não póde comprar. Ergue-se ás vezes rochedo inaccessivel onde se julga encontrar sahida facil para a desejada planicie. Abre-se aos pés enorme barranco, quando parecia que a estrada era plana e suave. Nuvemsinha que dissereis trazer no seio a bonança, despede medonho temporal. Phebus Moniz é isso. Chamado ás côrtes pelo phantasma coroado, como se a voz lhe tivesse de sahir d’uns labios venaes e traidores, o honrado tribuno apparece na tela da historia como um protesto vivo contra a corrupção geral, contra a venda da patria pela realeza e pela aristocracia transfuga, e contra as pretenções mentirosas d’um estrangeiro á terra portugueza. Quereis conhecer a montanha que surge repentinamente na estrada? «Eu, senhor, não sahi do meu buraco, para fazer o que não devo á liberdade do reino, em que nasci, e que de mim a confiou; não sou eu homem que se haja de dobrar por ameaças nem medos, porque mais póde em mim o receio de faltar um ponto á minha obrigação, do que tudo quanto no mundo ha; e assim, senhor, não sei para que me fizeste cá vir, se quereis dar o reino a Castella», etc. Quereis sondar o barranco? Lembrai-vos que estamos no seculo XVII, e ouvi: «E vossa alteza poderá fazer d’este corpo o que quizer, que em seu poder está, mas na alma não tem jurisdicção; nem ella virá nunca a dar tal consentimento.» Quereis vêr como da nuvemzinha jorra o temporal? «Que falta é esta de amigos, que pobreza de vassallos leaes? porque não tenho por amigos do vosso serviço, nem por creados leaes, quem tal vos aconselha. Porquê, quereis que vos estale o reino nas mãos? Não vê Vossa Alteza a nodoa que põe em seu nome? Aonde se dirá com honra que se entregou este reino a Castella por temor de se defender do seu poder?».[64] ....................................................... _Que exemplos a futuros escriptores!_ diria o poeta. Que lição aos tribunos presentes! direi eu. Começa, pois, aqui o romance de Oliveira Martins. Não lhe acompanharemos a acção, desde o ponto de partida:--convocação das côrtes em Almeirim, e explosão estrondosa do bom senso, audacia e patriotismo de Phebus, até ao desfecho tragico:--a morte do honrado tribuno e o esmagamento da independencia portugueza sob as patas do cavallo do duque d’Alba. Corre o enredo romanesco em boa e santa paz com a historia,--cousa pouco vulgar--e sem que o senso commum tenha de lhe pedir contas das costumadas demazias e aberrações,--cousa menos vulgar ainda. Manifesta-se, porém, aqui ou alli--n’uma ou n’outra scena, n’este ou n’aquelle fio do engenhoso tecido, certa inexperiencia e hesitação do artista, certa precipitação do fabrico. No estylo, revela-se principalmente este facto. Falta-lhe por vezes a unidade na fluencia, a naturalidade na dicção, a facilidade e exactidão na tropologia. Não ha ainda alli um estylo já feito, caracteristico, harmonico. Tal defeito, porém, desapparece já nos ultimos capitulos, e em a nota final. Procurou-se corrigil-o na introducção e quasi se conseguiu. A descripção do desastre de Alcantara e da morte de Phebus, são verdadeiramente eloquentes. A palavra não falsêa a inspiração, e a personalidade moral do auctor imprime n’esta o cunho sympathico da grandiosidade, justiça e pureza dos principios democraticos. Sigismundo Krasinski, o inspirado poeta dos «Psalmos do Futuro», honrar-se-hia com a paternidade d’aquelle magestoso capitulo em que Phebus-Moniz, ao ultimo lampejar da vida, vê atravez os destroços e tenebrocidades de uma orgia do despotismo e da intolerancia, atravez os crepes da liberdade, as lagrimas de sangue das consciencias, os desvarios e atrocidades do throno e do altar, surgir esplendurosa aurora, tingir-se o espaço com as côres do arco-iris, fulgir a imagem ideal do futuro, brotar do cahos medonho á luz benefica da verdade um mundo de liberdade, egualdade e fraternidade. Mas este livro tem um merecimento supremo. Tem uma utilidade. Tem um fim. É uma these. É um evangelho quasi. Os protagonistas apparecem alli como os vicios e as virtudes appareciam nos velhos _autos_, personificados nos actores. Não ha, porém, o fanatismo de uma crença a impôr e extremar o assumpto, nem este a tyrannisar a naturalidade da acção, nem esta ultima a nullificar os heroes. N’isto está uma immensa difficuldade vencida, e uma grande victoria ganha. De Phebus já fallamos. Descrevendo-o, o romance fez-se historia. Fez-se philosophia até. Aquelle vulto que se ergue nos visos do abysmo não é simplesmente uma lição a vindouros. É a demonstração de que só ha uma cousa eterna e incorruptivel nas nações: a _nacionalidade_, como só ha uma cousa indestructivel nos povos, a familia; como só ha um facto supremo na historia: a sociedade. Corrompe-se uma geração, opprime-se um povo, destroe-se um estado, algema-se uma nação; mas o sentimento nacional, ampliação senão consequencia, do sentimento de familia e ambos do sentimento de sociabilidade que porventura a physica e a chimica terão um dia a velleidade de querer explicar á historia, fica arreigado ao solo devastado, ou ao mutilado grupo, para sarar e robustecer este, para fecundar de novo aquelle e surgir á luz do dia triumphante e incontestavel. Por isso dissemos já. Prendem-se os élos da nossa historia nas trevas da dominação castelhana. Melhor disseramos: não se quebram. Phebus dá a mão a Pinto Ribeiro. Manoel de Souza Coutinho, recebendo com as labarédas do incendio os mandões traidores, illumina a fachada do palacio dos Almadas, no dia da resurreição da patria. Voltemos ao romance. Conhecemos Phebus na historia. É o mesmo na biographia. Na tribuna como em casa. Vulto venerando sempre! Nem o romancista podia deixar de o apresentar assim. Fôra mentir ao bom senso da arte. Em casa, perfuma-lhe e alegra-lhe a vida o amor das filhas. Anna e Maria são dous typos eternos. Anna é um d’esses specimens desgraçadissimos de uma moral balôfa e contradictoria, que mais é myopia social do que facho e guia seguro. Procurou o auctor alliviar aquella pobre realidade de todos os tempos, da sua vulgaridade vergonhosa. Anna é uma d’estas mulheres de intelligencia curta, e coração depravado ou frio, que só dão o amor a quem lh’o pagar com luxurias e ostentações. O amor! Deixae passar a blasphemia. Anna ama o luxo, a riqueza, o esplendor ficticio das fidalgarias, dos pergaminhos e das _burras_; mas é afinal de contas uma pobre creança, que não faz dos olhares armadilha, nem da virtude mercancia. Perde-se. Alonso Domingues fascina-a. É esbelto, audacioso, espadachim, traja com gosto, ostenta dourada fidalguia. Rapta Anna. Depois, a pobre menina abandonada e com um filho de sua desgraça nos braços, arrasta-se até ao «paterno ninho», com a vergonha que não perdêra, com o amor, que não esfriára, com o desespêro d’este e d’aquella no coração, e a vida a fugir-lhe dos pulmões em golfadas de sangue. Anna póde bem symbolisar um certo _iberismo_ ignorante e inconsciente, que o esplendor do poder o fascina e endoudece. O vulto da filha mais velha de Phebus não se destaca porventura bem distincta e harmonicamente na tela do romance, talvez pela complacencia desculpavel do auctor. Ha, porém, n’ella feições admiravelmente desenhadas, e que nos despertam por vezes sympathia, sem que esta seja simplesmente filha da compaixão. Na concepção do vulto de Maria esmerou-se o sentimento esthetico do romancista. Deu-nos um composto de graça e candura, de amor e resignação admiravel. Quasi se adivinha que houve um modêlo vivo para aquella pintura, e que o auctor, não podendo devassar os segredos de uma organisação desfeita ha tanto tempo, procurou em roda de si e achou a inspiração para a sua obra. O desenho não sahiu infelizmente irreprehensivel. Maria apresenta-nos por vezes uma certa perspicacia pretenciosa que lhe vai mal. Exemplo: quando explica pelas riquezas da India a decadencia da patria. Maria ama Fernão da Silva. Aqui fraqueja tambem o enredo. Perde-se ás vezes e por muito tempo a lembrança d’aquelles pobres amores. Fernão e Alonso são outros dous vultos typicos. Alonso é a politica castelhana d’então em pessoa. Tigre com unhas de chacal. Soldado com roupeta de jesuita. Carrasco com ademanes de cavalleiro. Espadachim de taberna com fallas de sala e requebros da côrte. Sinistro e grutesco a um tempo. Terrivel e ridiculo. Fernão é o Portugal d’aquellas eras, com a consciencia da propria fraqueza, com a hesitação do presente, com todos os receios e medos do futuro, mas com todos os impetos tambem do sangue que lhe referve ainda nas veias. Impetos que redundam aqui n’uma desgraça, além n’uma covardia derradeira, apoz uma derradeira gloria. Fallece-nos o tempo e o espaço para fallar do cardeal-rei, do prior do Crato, e do duque de Bragança, o primeiro, um velho tonto, fraco e medroso; estes dous ambiciosos contaminados da corrupção do tempo; um dos quaes se rehabilita perante a historia pela valentia com que se bate em Alcantara, e pela persistencia com que lucta contra o infortunio. Todos estes vultos foram cuidadosamente estudados, magistralmente desempenhado, e julgados com imparcial justiça e criterio por Oliveira Martins. Outro tanto podemos dizer dos vultos secundarios que no romance se agitam, movidos pela imaginação do auctor, e pela mão da historia. Está-me a _nota final_ do romance de Oliveira Martins reclamando a attenção e a penna. Força-me, porém, a ser breve a escassez do tempo e a prolixidade d’este escripto. A fusão dos povos que Martins denomina--iberos--e que habitam esta pseudo-peninsula--Luso-hispanica, sob uma fórma democratica e federativa, é pelo auctor do _Phebus_ considerado um facto fatal n’um futuro remoto ainda. Para elle,--fraternidade,--e federação,--dos povos são um principio e um facto correlativos. Este consequencia d’aquelle. É vulgar tal erro. Os que creem na unidade da familia humana, podem vêr na fraternidade dos povos, como principio, a traducção de um facto natural, a sancção moral d’elle, sem que por isso vejam na federação a sua consequencia. Na familia existem os laços naturaes, bom é que exista tambem a harmonia moral, sem que seja necessario que a autonomia de um membro se perca na vontade de todos. Podia até quebrar-se essa harmonia ou converter-se na que a tyrannia realiza ás vezes. Harmonia na apparencia. Desordem no fundo. Contradicção que encerra um mundo de injustiças, atrocidades e odios. Contradicção d’onde nascem as revoluções. Não vão agora julgar-me inimigo mortal de todo o systema federativo. Erravam. Ha dous argumentos gravissimos ainda contra a prégada fuzão. O desnecessario d’ella. A fraternidade prescinde da federação. A impossibilidade d’ella se realisar, a não ser parcialmente. Este adverbio encerra mais de um argumento ainda. Não nos demoremos, porém, n’este ponto. No que Martins é principalmente eloquente e exacto, é na descripção que nos faz do estado cahotico e anómalo da Europa moderna, na averiguação das origens e da deducção de algumas das consequencias d’elle. Camillo Castello Branco--MYSTERIOS DE FAFE; romance social--Lisboa--Livraria de Campos Junior, editor (impr. de Sousa Neves) 1 vol. 8.^o, 250 pag. A grande tamanho me deitára esta revista, longo tempo me exigira ella e não me eximira eu facilmente ao sacrificio das dimensões e indole que lhe planeei, se a fallar d’um livro de Camillo Castello Branco, abandonasse a obra pelo auctor, ou fazendo d’aquella pretexto e d’este ponto de partida, me deitasse a criticar os tantos livros do romancista portuense. Deixo isso para outro logar que me não obrigue a penna a restricções e acanhamentos, e para outra occasião que espero não se demore muito. É Camillo Castello Branco uma das mais fecundas e originaes intelligencias da nossa litteratura contemporanea, onde a originalidade é já agora cousa que mal se enxerga,--_rara avis_ n’este mercado de traducções e plagiatos, e a fecundidade não é de certo o mais saliente caracter. E não aquilato esta simplesmente pelo numero crescido de livros que tem produzido Camillo, que uns podiam ser apenas paraphrases e reproducções de outros, e dá-se isso com alguns, mas principalmente pela variedade de concepções, pela mobilidade de esthesia e ideia, pela diversidade de machinismo, etc. etc. Vá-se notando sempre que eu fallo de Camillo, romancista. Não costuma elle, e bem haja por isso, transplantar para o romance nacional costumes e vida d’uma sociedade estrangeira, nem grudar-lhe personagens exoticos, recortados nos figurinos de Pariz. Se a sua galeria de typos e aventuras romanescas é pequena, se os typos se nos apresentam estafados e serodias as aventuras, é que tambem a sociedade portugueza, ou antes a sociedade portuense, que Castello Branco principalmente explora, pequena e amortecida, não offerece vasto terreno para cultivo, nem variada vegetação para estudo. _Mar-morto_ onde vivem tranquillas Sodomas e Gomorras quintessenciadas, com grande despêgo do que por lá fóra póde ir, e com profundo desprezo do que por esses seculos adiante póde resmungar a historia, a nossa sociedadesinha nacional não é sacudida por vendavaes de ideias, nem revolucionada pelo estremeção de vulcões, que por esses mundos além rugem ameaçadores ou bufam incandescencias que cauterisam muitas chagas do corpo social. Tambem o movimento, a agitação d’interesses, de aspirações, de sentimentos não é grande por cá, a vida escorrega enxabidamente por entre meia duzia de escandalos, regularmente os mesmos, de habitos estupidamente inalteraveis, de ideias e sentimentos monotonamente eguaes, tradicionalmente conservados e acatados. Com isto, e com muito mais que haveria a dizer, justifica-se um dos grandes defeitos de Camillo. Difficil será encontrar livro d’elle onde não appareça o pseudo-brazileiro ricasso, labrego, cynico e commendador, o janota devasso, pretencioso, ridiculo e poetastro, a mulher hypocrita, immoral,--meretriz das salas, convenientemente acobertada das prescripções legaes, por um contracto de casamento ou um titulo de nobreza,--o morgado provinciano, boçal como o commendador brazileiro, devasso como o poetastro portuense, typo valentão que por acaso tem umas ideias de moral adquiridas com as courellas paternas, e que geralmente ao cabo de certas acrobatices nas salas da cidade invicta, desapparece da scena, para transpôr as fronteiras ou voltar com os pulmões apodrecidos para o meio da sua criadagem arcabuzeira e barbuda. Isto tudo polvilhado d’umas ideias methaphisicas de moral e entremeado d’uns pobres personagens que tem certas ideias de gloria, honra, dever e amor, havidas da tradição e acceitas em guisa de correntios dogmas, pobres personagens que vão successivamente cahindo como certos batalhões de cartas, que fazem os rapazes, n’uma realidade desconsoladora: eis o que constitue geralmente a galeria romanesca de Camillo. A imaginação possante d’elle, salva-o da monotonia, mas não afasta por vezes a impertinencia da redundancia. A concepção varia, altera-se o machinismo, mas as peças d’este quasi são sempre as mesmas. É um defeito que bem se póde perdoar pela virtude de não ir o romancista recrutar em terras estranhas typos e acção que podiam alimentar a variedade, mas disparateriam com as condições, indole e verdade da sociedade e do viver nacional. O romance _Mysterios de Fafe_ não é de certo dos de menor valia na bibliographia de Camillo, antes por um dos melhores architectados, mais verdadeiros e mais originaes, permittam a phrase--o tenho eu. «Esta novella contém adulterios, homicidios, missionarios e outros scirros sociaes,» diz o auctor no seu humoristico _Aviso ás pessoas incautas_. De feito a acção do romance redemoinha n’um vertice de immoralidades e crimes, que deve apavorar os paes sisudos que apenas consentem em tirar as filhas das redomas de pudicicia em que as trazem mettidas, para as levar a vêr e ouvir as obscenidades descaradas ou as reticencias mais obscenas que estas, de Offembach e companhia, que pelos modos o snr. Mendes Leal anda tratando de «rehabilitar», ou para lhes prégarem prudentes conselhos, frechando á doutrina de que devem vêr no casamento uma venda, em que mais lucram, se o comprador tiver uma _burra_ recheada, do que se fôr um pobre homem intelligente, honesto e trabalhador. Pois apesar de tudo, o livro _Mysterios de Fafe_ é esplendida lição, posto não mire a dal-a, creio, o auctor, que com _humour_ por ventura azedado de mais e descambando amiudamente para o cynismo, nos vae narrando escandalos, e miserias da vida provinciana, mal deixando apparecer a propria personalidade que não seja para atirar com um sarcasmo á esthesia methaphysica com que deitamos a perder as mulheres e nos perdemos a nós. Eu disse que o _humour_ de Camillo Castello Branco descambava por vezes para o cynismo e creio ter dito uma verdade já conhecida por todos. Aquillo tambem não é vicio d’elle sómente, é degenerescença de planta transportada para clima diverso d’aquelle em que se gerou e vive. O _humour_ é inglez como o _esprit_ é de França. Ponto é este que fica para discutir. O certo é que ha em Camillo uma persistencia de ironia, deixem-me dizer assim, uma universalidade de sarcasmo, que deleitando a principio, cansa, incommoda pela continuidade, como diz Chaignet, se bem me lembro, que acontece com certos bebados vomitando, dos quadros de Teniers, ou como acontecerá a toda a gente fitando por muito tempo a monice sarcastica de certas figuras ajoujadas sob as cantarias das cathedraes gothicas. Voltando, porém, ao livro _Mysterios de Fafe_, direi que a acção corre, tecida por mãos de mestre, regular e natural, e os typos são geralmente modelados com primor e zelo, sem que possa deixar-se de notar n’um ou n’outro certo refinamento de colorido, ou demasiada rapidez de evolução. Rigorosamente «_Mysterios de Fafe_» não é um quadro, mas uma serie d’elles. Ha alli assumpto para mais de um romance e typos que se disputam a primasia, mas que o auctor soube enlaçar n’uma acção em que a unidade artistica não desapparece. D. Grabriella e as filhas, Francisco Roixo, a esposa e o sogro, Caetano d’Athaide e Silverio e Pedro das Eiras, Domingas e o missionario, personagens excellentemente esboçados, e alguns excellentemente _acabados_, prendem-se, explicam-se, completam-se facil e claramente sem obrigarem a longos rodeios ou a triviaes inverosimilhanças. Em quanto ao estylo ha a dizer uma cousa. Na ultima _maneira_ do escriptor portuense desappareceram de certo muitas das incorrecções das anteriores, mas surge aqui ou alli o archaismo a impôr-se com pretenções de purismo severo. Antes assim, porém. Além d’isso, aquella persistente ironia não dá largas á idealisação poetica, e fecha por isso as correspondentes alturas á palavra. Corre porém esta, pura, natural e fluente quasi sempre n’este livro, que mais desenvolvida apreciação merece e tivera se não me andassem já demoradas outras de livros cuja offerta d’aqui agradeço. Francamente: abri o novo romance de Camillo com pessima prevenção. Não o lêra no _Jornal do Commercio_, onde foi publicado em folhetins. Mal corrêra, porém, algumas paginas, alegrei-me por ver que não estava a contas com _obra de fancaria_, como infelizmente me tem sahido alguns livros do nosso romancista. Uma cousa que admiro n’este,--deixem-me declarar,--é a coragem de escrever um livro de dois em dois mezes aproximadamente, como não deixo tambem de admirar a coragem do editor ante um publico, que, diga-se a verdade, não se mostra corajoso ante a lettra redonda. O Funccionalismo, por A. de Oliveira Pires = Lisboa, typ. Universal, 1869--in-8.^o, 24 pag. Desmoralisada pela ignorancia, que é enorme, e pela especulação que não é menor, a consciencia publica tem andado agitada contra a classe de empregados publicos, que faz responsavel por males em que ella bem pequena parte tem. Fôra valente estimulo á hilaridade, se não provocasse antes tedio e desgosto aos que amam ainda o bom nome da patria, essa cruzada repugnante de analphabetos e refractarios ao imposto, contra uma classe que elles consideram ou fingem considerar parasita, que reduziriam se podessem ás condições dos antigos illotas, e que é a que mais serviços publicos tem dado para a historia d’esta terra, a que mais illustração possue, e aquella finalmente onde em grande parte o trabalho é peior remunerado. Nem vale a pena discutir isto ou tentar convencer adversarios que geralmente tem odio mortal á _lettra redonda_ e á logica. Cafila de agiotas, trapaceiros e ignorantes, que nunca pensaram em estudar dois dedos de sciencia politica, e que riem boçalmente de tudo o que lhes cheire a sciencia, pensarão em salvar as _burras_ recheadas, levantando o antagonismo de classes, e carregando nos alambasados hombros com o andor d’uma governação imbecil que lhes satisfizesse os odios e decretasse a expoliação dos que reputam inimigos. A muitos, se soubessem historia, bastava talvez lembrar-lhes uma data para lhes mitigar os furores. Essa data é _1848_...... Na causa do _funccionalismo_ em Portugal anda presa a causa do proletariato. Cuidado! Se as sommas absorvidas pelo funccionalismo são grandes, se este é exageradamente numeroso, se a _sinecura_ existe e o _esbanjamento_ vos apoquenta os bestuntos, procurae, patriotas _de momento_, estudar o systema, obviar-lhe aos males, planear uma reformação sensata. _Sublata causa, tollitur effectus._ «Ergue-se uma voz, ainda que fraca»--diz o snr. Oliveira Pires,--do seio d’esta grande corporação, chamada os _servidores do estado_, unicamente para ir chamando ao bom caminho a opinião desvairada e com o fim de protestar contra a perseguição, não em nome de falsas vaidades ou de interesses illegitimos, mas em nome d’um principio sagrado nas sociedades civilisadas, em nome do _direito_.» Vae o snr. Pires defendendo o empregado publico com notavel clareza e imparcialidade, expondo as oppressões de que aquelle tem sido victima, até á desvergonhada expoliação, condecorada com o nome de _deducções_, pela qual o estado tira ao trabalho d’um proletario, que lhe rende 500$000 ou 700$000 rs. muito mais do que ao estado paga um capitalista que faz 50:000$000 ou 100:000$000 de rendimento liquido. Trata egualmente das _incompatililidades_ prégadas pelos reformadores tyrannetes e tacanhos, que por pouco não querem tirar aos empregados publicos a liberdade da palavra e do pensamento. A liberdade religiosa anda-lhe roubada e a liberdade politica, estão ameaçados de perdel-a. O opusculo está escripto em boa linguagem com louvavel serenidade de espirito e pena é que o auctor não désse maior desenvolvimento ao assumpto, que bem o merecia elle. FIM DO SEGUNDO VOLUME. FOOTNOTES: [Footnote 31: O _atavismo_ é rigorosamente a hereditariedade da raça, mas phenomenos ha n’elle que dependem da hereditariedade da familia, como certas disposições morbidas, etc.] [Footnote 32: Cito de memoria, se erro não vem d’ahi grande mal á doutrina. Creio que é Bunsen ou Champollion, ou ambos, além d’outros, que fallam d’isto.] [Footnote 33: Conto de Rig.] [Footnote 34: Ib.] [Footnote 35: _Doido_ lhe chama Froisard.] [Footnote 36: Para não me alongar, cito apenas os exemplos denunciados n’um _christianissimo_ artigo que tenho diante dos olhos, publicado por E. Jouveaux na _Revue moderne_--Mai, 25--1869. Muitos mais poderia citar.] [Footnote 37: «A ordem do dia» VII.--Lisboa, 1868.] [Footnote 38: Esta apreciação critica foi publicada na «Revolução de Setembro» vae em dois annos. Sahe tal qual sahiu então, para bem se julgar das previsões e reflexões que se fizeram e que os factos confirmaram. Ainda vinha longe Sedan, a cambalota final do Cesarismo napoleonico. Muitos a julgavam impossivel e riram-se da previsão. Bem se diz: «_Rira bien qui rira le dernier._» O estudo consciencioso e desafogado podia rir-se agora tambem, se não tivesse antes e muito para lamentar. Duas palavras mais. Uma catastrophe immensa estrasfegou o talento brilhante que produzira a «_Republica_.» Não faltaram pedras sobre o misero. Parecia que havia pressa em acabar de esmagar um grande talento, cujos fulgores incommodavam muitos noitibós. Esta azafama que ainda não vae extincta fez com que se hesitasse na insersão aqui da apreciação critica, porque se receiava que alguma alma podre e hypocrita, quizesse fazer entrar tal publicação no estrasfego odiento. Vae d’ahi, reflectiu-se que era melhor não pensar no que entençasse a tal alminha, e inserir-se o escripto que demais, dava alguns traços do caracter psychico de Vieira, por maneira que não teve o auctor que alterar quando verificou o esboço pelo conhecimento pessoal que travou depois com o talentoso e ardente moço. Depois, aqui discute-se uma obra, não um homem. Oh, sobre este havia bem que dizer, havia. Havia que levantar as gravissimas questões amarrotadas, desdenhadas, esmagadas no Tribunal pela ignorancia e má fé mais desaforadamente petulante, pelo _caturrismo_ d’um _veredictum_ que tem toda a brutalidade d’um facto em bruto. Oh! se havia que dizer do homem, do _veredictum_, e da sociedade!...] [Footnote 39: _Gœthe et Schiller_, por E. Rambert (Revue Suisse--feb. 1869).] [Footnote 40: Quando digo _sensações sensoriaes_, fallo das sensações _externas_ e _internas_, como vulgarmente se classificam, e não excluo as que se dão sem realidade objectiva que as provoque, e que constituem o estado pathologico da _allucinação_, estado a que porventura se poderia reduzir algumas vezes, creio, o _mens divinior_ dos antigos. Esta ultima observação é minha, as anteriores são de Luys (_Recherches sur le système nerveux_, etc., etc., cit. par Littré) e E. Littré--_De la méthode en psychologie_ (Phil. posit.--Revue--1.^er vol.)] [Footnote 41: Seguia-se a seguinte quadra, que não apparece na collecção, e que eu acho não só egual em belleza ás citadas, mas superior a algumas: «Quando o _annel_ da bôca lusidia, Vermelha _como a rosa cheia d’agua_ Em beijos á saudade abrindo a mágoa _Mil rosas_ pela face me esparzia; ] [Footnote 42: Variante: «Oh lagrima das lagrimas que choro!» ] [Footnote 43: _Superiorité des arts modernes._] [Footnote 44: _Cours fam. de litt._] [Footnote 45: Shaksp.--_Rom. and Julieta._] [Footnote 46: Dante.] [Footnote 47: Edgar Quinet.] [Footnote 48: _Henry IV_--act. 2. scena 5.^a] [Footnote 49: Stuppuy.] [Footnote 50: _Troy book_, cit. por Coquerel--_Hist. abr. de la litt. anglaise_.] [Footnote 51: Eug. Veron--_Superiorité des arts modernes_.] [Footnote 52: Belleforest apparece-nos condecorado com o titulo de historiographo de Henrique III. A sua obra foi traduzida no tempo de Shakspeare com o titulo de _Historie of Hamblett_, Coquerel, etc.] [Footnote 53: _Descurets_.] [Footnote 54: Cit. por Descurets.] [Footnote 55: Ib.] [Footnote 56: Os tres maiores escandalos que pelos modos tenho comettido, são: 1.^o Rir-me da collocação do menino Aleixo em typo sem egual no theatro contemporaneo. 2.^o Rir-me mais ainda do titulo de «primeiro critico contemporaneo» com que um periodico lisboeta agraciou um sujeito qualquer cá da terra. 3.^o Augmentar-se-me a hilaridade com a noticia de que uma comediasita _allegorica_ do snr. Gayo vinha a rivalisar vantajosamente com as de Aristophanes. No fim de tudo não é preciso recorrer a João Paulo ou Hobbes para explicar aquelle riso, creio.] [Footnote 57: Além d’esta, (publicada na _Revolução de Setembro_), appareceram tres outras apreciações criticas do drama: uma de Garcia Navarro, um dos mais formosos e solidos talentos que tem sahido da Universidade, outra de Oliveira Martins e outra de Ramalho Ortigão. Todas concordavam nos pontos essenciaes, embora cada qual tivesse sua feição particular. Apreciações panegyristas appareceram bastantes, entre ellas uma em que o auctor partia da confissão menos ingenua do que se podia julgar, de que fôra commensal do dramaturgo e lhe devia obsequiosidades, etc., etc. Revelações ... de critica _leal_. Andou accesa na imprensa uma guerrasinha e não faltaram injurias aos que não afinaram pelo diapasão encomiastico. Não vale a pena mexer n’isso. Convém, porém, transcrever as seguintes linhas publicadas na _Revolução de Setembro_: DECLARAÇÃO.--O _Diario Popular_ publica hoje o seguinte: «Do nosso amigo e distincto escriptor, o snr. Silva Gayo, recebemos a seguinte carta, que nos damos pressa de publicar. Devemos dizer, segundo indicação do snr. Gayo, _que a carta se deve suppôr dirigida a todos os nossos collegas_ da imprensa lisbonense: «Bussaco, 21 d’outubro de 1869. «_Meus presados amigos e senhores.--Não posso resignar-me a estar longe dos meus amigos_, quando vejo publicados insultos, que, por minha causa, lhes dirigem. «Ahi vão duas palavras firmadas com o meu nome, de que vv. farão o uso que tiverem por mais digno. «Não sou inimigo, nem depreciador do snr. Luciano Cordeiro; mas tambem não sou amigo de s. exc.^a, com quem, duas ou tres vezes apenas, e _accidentalmente_, fallei.--Dá-me este senhor o seguinte _conselho_: «Não se fascine com popularidades inscientes ou _venaes_.» «Esta palavra é um insulto atirado a mim, e a quantos me tem honrado.--Mais abaixo diz o mesmo senhor: «O AMIGO não maculou, creio, a dignidade da critica.» «Permitta-me o snr. Cordeiro que eu, por honra dos meus amigos, não aceite na minha a mão que parece estender-me.--Nada mais.--_A. Silva Gayo_.» O publico importa-se pouco que o snr. Gayo seja ou não inimigo, depreciador ou amigo da minha humilde pessoa; e sem prosapia o digo, não me importa tambem com isso mais do que o publico. Recebi do snr. Gayo cumprimentos muito lisongeiros e «protestos de muita consideração» que me não pesaram no animo nem deviam pesar, creio, quando tive de fazer a critica das obras que aquelle senhor sujeitou á minha apreciação humilde, offerecendo-m’as. Não conhecia, de nome sequer, o snr. Gayo, quando elle se lembrou,--não sei se _accidentalmente_,--enviar-me o seu livro _Mario_ pelo nosso commum amigo Manoel d’Arriaga, que foi tambem quem mais tarde me apresentou o auctor. Falla o snr. Gayo em insultos dirigidos aos seus amigos. Nada tenho com isso, mas se receber insultos por causa do snr. Gayo, indicasse ser amigo d’elle, teria--_malgré moi_,--que considerar-me hoje tal. Entenda, porém, que a palavra _amigo_, empregada na minha critica, não tem a significação importante e restricta que parece dar-lhe, e que o conselho: «não se fascine com _popularidades_ inscientes ou venaes», significa que taes popularidades existem ou podem existir e _fascinal-o_, mas não que eu confunda com ellas os panegyricos de tres ou quatro amigos de s. exc.^a, alguns dos quaes respeito fóra do campo da critica litteraria, e os applausos da platéa do D. Maria II em algumas representações e a algumas phrases do _Fr. Caetano_. Tenha paciencia o snr. Gayo, mas d’aquillo a uma _popularidade_ vae por ora distancia enorme. E felizmente que vae. Com relação ao ultimo periodo da declaração do snr. Gayo, dir-lhe-hei que se engana. Não lhe estendi a mão e sinto-me inclinado a arrepender-me de ter-lhe recebido a sua mão na minha, alguma vez. Melhor fôra que a do snr. Gayo se occupasse em defender a sua obra nos pontos em que por mãos leaes e honradas foi atacada, do que a escrever estas declaraçõesinhas insignificativas d’auctor amuado. Nada menos. ] [Footnote 58: _Revolução de Setembro_, n.^o 8271.] [Footnote 59: _A India Portugueza_--Anno IX, n.^o 463.] [Footnote 60: «Jornal do Commercio», n.^{os} 4251 e 4252, transc. por varios periodicos de Portugal e Brazil.] [Footnote 61: Que se bem me lembra, Guizot diz, ter só existido em França. A razão duvída, a historia nega-o.] [Footnote 62: Guizot.--Hist. de la civilisation _en France_.] [Footnote 63: Isto não é por ora ponto positivamente historico. Vid. Busen, «Logar do Egypto na historia da Civilisação.»] [Footnote 64: Discurso de Phebus Moniz.--Memorias da Academia das Sciencias, cit. por Rebello da Silva e Oliveira Martins.] INDEX PRIMEIRA PARTE I--ARTE E ARTISTAS.--Á entrada d’uma exposição de _bellas artes_.--Cousas contemporaneas--Cousas de cá 1 _Annunciação_ (Th. José) A pseudo-critica do _elogio_ 6 _Alimalistas_--A besta 8 _Annunciação._--O processo--Convergencias de effeitos--Troyon--Quadros--As figuras humanas 9 _Barradas_ (A. C. de S. e Castro).--_Camara_ (D. José).--_Chaves_ (José Ferreira).--Ainda a pseudo-critica--_Estudos_ de Barradas--Quadro de Camara--Quadros de Chaves 15 _Christino_ (João).--Caracter artistico.--Um quadro alimalista--Os animaes--Paizagens 20 _Duarte_ (D. Herminia) 24 _Esteves_ (Gustavo) 24 _Figueiredo_ (José) 24 _Estudos_ 24 _Fonseca_ (A. Manoel).--O estudo _nu_--As pseudo-Venus da arte moderna--A arte retrograda--Ausencia de critica--A _Venus_ de Fonseca--Logar de Fonseca--Desenho e colorido--Quadros e estudos 25 _Girão_ (José) 36 _Keil_ 36 _Lambertini_ (Hercules).--Ensaios--Idealismo naturalista 38 _Lessere_ (Prospero) 38 _Lupi_ (Miguel Angelo) 38 _Machado_ (Herculano).--Bodegones--A retratura--Alberto Durer e Scheffer--Debufe e Flandrin 38 _Um parenthesis._--O panorama--Evoluções artisticas e sociaes--Flamengos--Italianismo--As viagens dos artistas 45 Critica artistico-philosophica--Arte religiosa--Arte naturalista--Evoluções 53 _Newton_ (Isaias).--Quadros--Paizagem e paizagistas 62 _Nunes_ (Junior) 68 _Oliveira_ (D. Elisa).--O trabalho obscuro--Um bello retrato--Estudos 68 _Pedroso_ (João) 71 _Thomasini_ (Luiz).--Um e outro--Quadros--Exigencias e condições da arte 71 _Pereira_ (A. J. Gonçalves) 82 _Prieto_ (Joaquim) 82 _Quigilcar_ (D. Maria Pereira).--Quadros 82 _Pinheiro_ (M. M. Bordalo).--Quadros á Meissonier--A arte d’hoje--Convenção--Hesitações 84 _Pinheiro_ (Raphael Bordalo).--Aquarellas-ensaios 91 _Ramos_ (M. Sanches).--Pintura religiosa--Considerações historico-criticas--Quadros 92 _Reis_ (D. Maria G.) 99 _Roma_ (D. Amelia) 99 _Sperling_ (Mad.) 99 _Toledo_ (J. Garcia) 99 _Rezende_ (Francisco).--Incongruencias--Quadros 103 _Rodrigues_ (José) 105 Esculptura--Desenhos--Gravuras--Photographia 109 _Calmels_ 109 _Nunes_ 109 _Sá_ 111 _Silva_ 111 _Keil_ 111 _Silva_ (Caetano Alberto da) 111 _Guimarães_ (J. V.) 111 _Pardal_ 111 _Relvas_ (Carlos) 111 SEGUNDA PARTE II--LIVROS E PALCOS.--_Vieira de Castro_--_A Republica_. A casta--India--Egypto--Scandinavia--Evoluções sociaes--Realeza e burguezia--Direito humano e direito divino--O constitucionalismo--Revolução--A Europa contemporanea--A Allemanha--O cesarismo--_Democracia_--O livro de Vieira de Castro 115 _João de Deus_--_Flores do Campo_--João de Deus--A poesia--O subjectivismo--Trechos--Rythmopea--caracter artistico--A poesia lyrica 157 _Teixeira de Vasconcellos_--_Glorias Portuguezas_--Caracter litterario--A historia-galante--O louvor-systema--A analyse, objecções e refutações 187 _Hamlet_ e _Rossi_.--A nova éra--Hamlet e Faust--Shakspeare--Hamlet physio-philosophico--Intrepretação do _Hamlet_ 214 _J. D. Ramalho Ortigão._--_Em Paris_ 237 _Os Solteirões no Principe Real._--Sardou--O drama--Mulheres e maridos e amantes do _grande mundo_ 246 _Salvini e a Critica._--Classicismo e naturalismo--_O Othello_ 255 _Frei Caetano Brandão._--Litteratura official e critica delambida--O drama--Explicações 266 _Francisco Luiz Gomes._--O homem--O livro: _Le Marquis du Pombal_ 285 _Oliveira Martins_--_Phebus Moniz_--O romance historico--As renascenças--A decadencia portugueza--Phebus Moniz--O romance 311 _Camillo Castello Branco_--_Mysterios de Fafe_ 330 _Oliveira Pires_--_O Funccionalismo_--A guerra aos funccionarios 336 ERRATAS PAG. LINHAS ONDE SE LÊ DEVE LÊR-SE 3 7 Hellade Hellada 7 12 que lhe passe que lhes passe 20 7 emprego insitivo emprego sensitivo 27 25 mythologia myologia 29 22 ornamautadas ornamentadas 30 15 colloca-se collocasse 32 17 Anchises, Anchises 33 1 dizer-vos dizer 43 5 mas desenho. mas o desenho. 43 14 não póde hoje faltar que não póde faltar hoje 68 4 rócio rocio 147 14 a crerem na existencia d’estes a crerem na existencia d’elle 151 8 e com a historia, registro d’ambas e com a historia registro d’ambas 180 15 as almas dos que os escutam as almas dos que o escutam 215 4 Realisa-se Realisava-se 215 4 Renasce Renascia 215 6 Assoma Assomava E varias outras erratas haveria a consignar á indulgencia do leitor, mas não queremos enfadal-o com a longa indicação. =NOTAS DE TRANSCRIÇÃO= Os erros tipográficos evidentes foram corrigidos. A pontuação, a hifenização e a ortografia foram tornadas consistentes quando uma preferência predominante foi encontrada no texto original; caso contrário, não foram alterados. Os ítens listados nas Erratas foram devidamente corrigidos. Nesta versão, o carácter “caret” (acento circumflexo) foi utilizado com ou sem chaves para representar letras sobrescritas. A nova arte da capa original incluída neste e-book está em domínio público. *** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK SEGUNDO LIVRO DE CRÍTICA *** Updated editions will replace the previous one—the old editions will be renamed. Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright law means that no one owns a United States copyright in these works, so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the United States without permission and without paying copyright royalties. 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It exists because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from people in all walks of life. Volunteers and financial support to provide volunteers with the assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg’s goals and ensuring that the Project Gutenberg collection will remain freely available for generations to come. In 2001, the Project Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure and permanent future for Project Gutenberg and future generations. To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 and the Foundation information page at www.gutenberg.org. Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non-profit 501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal Revenue Service. The Foundation’s EIN or federal tax identification number is 64-6221541. Contributions to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent permitted by U.S. federal laws and your state’s laws. The Foundation’s business office is located at 41 Watchung Plaza #516, Montclair NJ 07042, USA, +1 (862) 621-9288. Email contact links and up to date contact information can be found at the Foundation’s website and official page at www.gutenberg.org/contact Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation Project Gutenberg™ depends upon and cannot survive without widespread public support and donations to carry out its mission of increasing the number of public domain and licensed works that can be freely distributed in machine-readable form accessible by the widest array of equipment including outdated equipment. Many small donations ($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt status with the IRS. The Foundation is committed to complying with the laws regulating charities and charitable donations in all 50 states of the United States. Compliance requirements are not uniform and it takes a considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up with these requirements. We do not solicit donations in locations where we have not received written confirmation of compliance. To SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any particular state visit www.gutenberg.org/donate. While we cannot and do not solicit contributions from states where we have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition against accepting unsolicited donations from donors in such states who approach us with offers to donate. 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