The Project Gutenberg eBook of A Intrusa This ebook is for the use of anyone anywhere in the United States and most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included with this ebook or online at www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you will have to check the laws of the country where you are located before using this eBook. Title: A Intrusa Author: Júlia Lopes de Almeida Release date: March 9, 2022 [eBook #67594] Language: Portuguese Original publication: Brazil: Francisco Alves, 1908 Credits: Laura Natal Rodrigues (Images generously made available by Hathi Trust Digital Library.) *** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK A INTRUSA *** _Julia Lopes de Almeida_ A INTRUSA LIVRARIA FRANCISCO ALVES--EDITOR R. do Ouvidor, 134--Rio de Janeiro R. de S. Bento, 65--S. Paulo Rua da Bahia--Bello Horisonte 1908 NOTA: Este romance foi publicado em folhetim, no _Jornal do Commercio_ do Rio de Janeiro, em 1905. INDICE CAPITULO I CAPITULO II CAPITULO III CAPITULO IV CAPITULO V CAPITULO VI CAPITULO VII CAPITULO VIII CAPITULO IX CAPITULO X CAPITULO XI CAPITULO XII CAPITULO XIII CAPITULO XIV CAPITULO XV CAPITULO XVI CAPITULO XVII CAPITULO XVIII CAPITULO XIX CAPITULO XX CAPITULO XXI A INTRUSA I --Que temporal! --E um friosinho! Conhecem vocês nada mais gostoso do que ouvir-se o barulho forte da chuva quando se está agazalhado? Eu estou-me regalando! --Sempre o mesmo egoista! Como estás em tua casa!... mas... desalmado, lembra-te de nós! São quasi horas de me ir recolhendo aos meus penates. E alli o padre Assumpção, caso não fique pelo caminho, terá tambem que marchar um bom pedaço a pé. Ao Telles, esse o bond leva-o até ao quarto de dormir! Nasceu impellicado. Por essa feia noite de chuva, conversavam em casa do advogado Argemiro Claudio, no Cosme Velho, o seu grande amigo padre Assumpção, o deputado Armindo Telles e o Adolpho Caldas, homem de quarenta annos, sem profissão determinada, mas muito bem acceito nas rodas politicas e litterarias, que frequentava assiduamente. Tinham jantado tarde, fumavam agora na bibliotheca de Argemiro, sentados á mesa do poker. Menos por virtude que por cansaço, padre Assumpção não quizera tomar parte no jogo e andava pela sala sacudindo o panno da batina a cada impulso das suas largas passadas. Era alto, magro, anguloso, de uma côr pallida; e nas suas feições accentuadas, em que melhor condiria o sarcasmo, havia uma tal expressão de candura, que Adolpho Caldas costumava dizer: --O riso do Assumpção cheira a rosas brancas. O dr. Argemiro, advogado, conforme rezavam os diarios do Rio--dos mais distinctos do nosso fôro--jogava por jogar, sem vivo interesse, só para pretexto de chamar os amigos á sua casa de viuvo e de lhe dar uma palpitação de alma que lhe ia faltando... «Ah! uma casa sem mulher, afirmava elle, é um tumulo com janellas: toda a vida está lá fóra...» E lembrar-se que aquillo havia de ser para sempre! O dr. Argemiro Claudio de Menezes, descendente directo dos Iglesias de Menezes, nobres de Portugal, cujo solar brazonado existe ainda, bem que arruinado, naquelle reino, em terras limitrophes da Hespanha, á beira de um rio espelhento e de pinheiraes perdidos,--era um homem ainda moço, robusto, de carnes solidas e uns olhos negros, em que talvez a raça arabe transparecesse ainda, adoçada pelo cruzamento com a lusitana. A barba preta, talhada rente ao rosto pallido, tinha já um ou outro fio prateado, e o cabello muito curto desenhava-lhe a cabeça redonda e forte. Tinha as mãos pequenas, a attitude preguiçosa, em contradicção á energia do typo. Viuvo ha sete annos de uma formosa senhora, cujo retrato apparecia em todos os cantos da casa, elle protestára não tornar a casar-se. A mulher, filha dos Barões do Cerro Alegre, levara-lhe a melhor porção da sua vida. Do primeiro anno do seu casamento, que durara cinco, existia uma filha, Maria da Gloria. Vivia esta menina com os avós maternos, numa chacara dos suburbios, e andava agora pelos seus onze annos e os rudimentos de portuguez e de musica. Tanto como o pae e os avós, por ella se interessava o padrinho, padre Assumpção. Sem interromper a partida, o deputado Armindo Telles gabou-se: --Foi hoje um dos dias mais bellos da minha vida; não preciso de mais nada para julgar-me compensado dos enormes sacrificios que a deputação me tem custado... rios de dinheiro, noites de insomnia, descomposturas de outros partidos... de tudo colhi hoje o premio. Imaginem vocês que tive de luctar renhidamente com o proprio governo, molestar collegas, ir de encontro mesmo a principios que prezo de gratidão pessoal e de conveniencia propria, e que, arrostando tudo, como um soldado na guerra, consegui a minha victoria. Imaginem se não devo estar satisfeito! Uma victoria politica, já o disse Chartrier, embriaga melhor que o mais velho licor. --_Chartrier?_... perguntou com curiosidade o padre Assumpção. Armindo Telles pareceu não ouvil-o e continuou: --Infelizmente, temos agora na camara poucos talentos de combate. Carecemos de mais vivacidade... A indifferença de uns e a má vontade de muitos enfraquecem os golpes de um ou outro mais enthusiasta... Eu cruzei as minhas armas, nesta porfia, com os maiores talentos da camara e feri-os a todos sem piedade. Creei inimigos; pouco importa, mas triumphei! Adolpho Caldas, levantando os olhos das cartas em leque na mão gorducha, indagou, sorrindo: --Por que feito illustre glorificaste a patria? --Pelo reconhecimento do Simão da Cunha, o meu collega Simão da Cunha, que a camara em peso guerreava! Sob o bigode de Argemiro passou a sombra de um sorriso. Adolpho Caldas impregnou de candida ingenuidade os seus maliciosos olhos castanhos e disse apenas, como a procurar: --Cunha?... E depois: --Ah! o Simão! sim... é desempenado. Veste-se bem. --Não é aguia, affirmou Telles; mas é o que se chama--uma mediocridade operosa--e é, sobretudo, um homem de bem! --Isso em politica não tem valor... commentou o dono da casa. Mas que faz você ahi, padre Assumpção, remexendo nas estantes?! --Estou a ver se encontro algum livro de Chartrier... --Olha, o catalogo dos livros deve estar naquella gaveta, se acaso o Feliciano já o não deitou ao fogo! Eu já nem sei o que tenho... --O que você deve procurar é os sermões do Padre Vieira! disse malignamente Armindo Telles. --Não preciso; sei-os de cór. --Impinge-os como seus? --Impingil-os-ia se os deputados fossem á igreja; mas você sabe, aos outros não... tenho medo que percebam! Riram-se todos. Telles retrucou: --Ainda o hei de ver na tribuna parlamentar, padre! --Talvez. Os cilicios fazem os santos... mas eu, humilde padre, encontraria quem se batesse por mim com o mesmo denodo com que você se bateu pelo...? --Simão da Cunha. --Por esse senhor? --Eu mesmo. --Guarde as suas armas para melhor combate, amigo. Não tenho envergadura senão para um serviço--o divino. Cá tem você um livro precioso, Argemiro. --Qual é? --Vida de D. Frei Bertolameu dos Martyres. Adolpho Caldas commentou: --Solemnissimo! que bella lingua, reverendo! --Formosa! Frei Luiz de Souza tinha a quem sahir... Padre Assumpção ficou de pé, junto á alta estante de jacarandá, folheando o livro, muito attento. O deputado recolheu as cartas dos parceiros: ganhava o jogo. --A sabedoria dos proverbios está sendo compromettida... declarou Argemiro. Você prova que a felicidade em amor é compativel com a do jogo! Adolpho Caldas accrescentou: --Leito, tribuna e mesa. Ahi está um lema conveniente aos teus triumphos, Armindo! Telles sorriu, respondendo sem disfarçar a vaidade: --Leito e tribuna... vá; mas mesa, não sei porque! Caldas, baralhando as cartas, concluiu: --Mesa, empreguei eu na expressão lata, falando como um diccionario. Referi-me á mesa do orçamento, á mesa do baccarat e mesmo á do jantar. Não quero fazer-te a injustiça de suppôr que te alimentas a leite e a agua de Vichy... Começas a ter pança; não te pódes rir de mim; e jantaste hoje a meu lado, não te esqueças d'essa circumstancia; jantaste como um homem de boa consciencia e magnifico estomago! Fiquei-te considerando mais, depois que te vi comer. Argemiro observou, rindo: --É o exercicio da profissão! Armindo Telles respondeu: --Vocês confundem-me com o Araujo Braga... que trouxe da pasta a pratica da mastigação e leva mesmo a impudencia a ponto de dizer, como disse hontem á porta do Watson, á minha vista:--eu hoje só rôo subsidios e clientes. --Esse tem, ao menos, o merito da franqueza. A mim então só me apparecem causas pessimas, clientes já esfolados, em osso. Se eu não tivesse alguns bens, iria esmolar na esquina declarou Argemiro. O jogo chegára a um ponto que requeria a attenção absoluta dos jogadores. Ficaram largo tempo silenciosos, olhos fitos nas cartas, só entreabrindo a bocca para a passagem das expressões obrigadas do poker. Padre Assumpção continuava a sua leitura, de pé, com o hombro encostado ao angulo da estante. A batina muito escorrida desenhava-lhe o corpo esguio, descendo rente á moldura do movel, confundindo-se com elle na sombra do aposento. Os tres jogadores eram de bem differente aspecto. Em contraste ao todo severo do dono da casa, o deputado Armindo Telles alegrava a sala com os tons claros da sua roupa alvadia e da sua gravata escoceza picada por um rubi fulgurante. Representante do Paraná, que o tinha como um politico habil, presumia conhecer as coisas e os homens do Rio de Janeiro como os da sua terra, onde a familia carpia saudades da sua pessoa airosa e bem tratada. Maleavel, imprimia ao seu jornal de Curitiba as cambiantes politicas do seu partido e a vontade soberana do seu chefe, e dest'arte equilibrava-se na invejada posição de representante da nação. Claro, louro, sem barba, que raspava escrupulosamente, elle apparentava menos edade do que a que tinha realmente. Falava com socego, num agradavel timbre de voz. Ás vezes mesmo Caldas caçoava: --Na camara, quando o Armindo fala, não lhe escutam as palavras; ouvem-lhe a voz. _C'est la voix d'or_, do Congresso! Assim como a voz elle tinha macio o gesto, que parecia obedecer a um estudo, a que por certo não se applicára nunca... As mãos, pequenas, mostravam os anneis de preço sem se desviarem muito do peito, sempre resguardado por linhos claros e fatos correctissimos. Em frente d'elle, Adolpho Caldas, gordo e calvo, com um eterno charuto entalado entre os beiços carnudos, que o bigode castanho cobria, movia-se á vontade no seu _veston_ de panno preto, com um bom ar de despretenciosa superioridade. O Adolpho Caldas dizia-se rio-grandense, mas affirmavam alguns que elle era nascido em Montevidéo, de familia brasileira. Vivia desde os vinte annos no Rio de Janeiro, sempre na boa roda, de financeiros illustres e ministros afamados, chegando-se para as arvores de substanciosos fructos e boa sombra. Solteirão, intermediario de bons negocios, permittia se o luxo de uma viagem de longe em longe a Paris, cujos museus de quadros conhecia de cór. Tinha a paixão da pintura e lia bons livros portuguezes, classicos sobretudo. Era com elle que o padre Assumpção conversava ás vezes sobre litteratura antiga, certo de que os bons livros espirituaes, como os profanos, tinham a mesma admiração no juizo competente d'aquelle homem de tão experta sagacidade. Houve uma pequena pausa no jogo; o Feliciano entrou com os calices de Chartreuse. No abrir da porta ouviu-se o barulho da chuva batendo com força nos ladrilhos do terraço, e um arrepio de frio fez voltar-se o dr. Argemiro, que estava de costas para a entrada. --Ó Argemiro, onde arranjaste tu este Feliciano? perguntou Caldas, mirando o copeiro, um negro de trinta e poucos annos, esgrouviado e bem vestido. --Na familia de minha sogra... é filho da ama de minha mulher. --Se não fôsse reliquia de familia, pedia-t'o para mim. Feliciano serviu a todos como se não tivesse ouvido coisa nenhuma, substituiu por outros os cinzeiros já repletos e tornou a sahir, silenciosamente. --Se me não engano, observou o Armindo Telles, vi-o outro dia em casa da Lolóta... --Ah! tambem você?... --Que! ir á casa da Lolóta? Mas toda a gente vae á casa da Lolóta! --Até o Feliciano... murmurou Caldas. --Não! o Feliciano levava um recado. Ia com uma carta minha, corrigiu Argemiro. --Por isso ella discutiu leis com tanto apuro! Parabens. É uma mulher estonteadora... --Não sei, a minha carta era ácêrca de negocios; ella é minha cliente. --Homem puro, que nem sabe se as suas clientes são ou não são bonitas! Eu confesso-me peccador impenitente: quando vejo uma saia levanto logo os olhos para vêr se o rosto da dona é feiticeiro! Tape os ouvidos, padre Assumpção! O padre sorriu e não desviou os olhos da leitura. --Peccar ainda é e será a coisa melhor da vida, continuou o Armindo; peccado de amor, está claro. Ah, e neste Rio de Janeiro, por melhor que seja a vontade de resistir, ninguem foge á tentação! Você conhece o dr. Aguiar? --O da Caieira? --Esse mesmo. Pois quando pretende alguma coisa da camara ou dos ministerios, manda a mulher ás secretarias ou á casa dos deputados. A mim procurou-me ella um dia no hotel, e, como o negocio era reservado, tive de falar-lhe no meu quarto. O salão estava cheio. Ia linda! --E?... --O Aguiar entrou numa centena de contos; aliás a pretensão era justa; todavia, se a mulher fôsse feia, não digo isto por minha parte, creio que elle não arranjaria nada. O caso não dependia de mim, mas de quem «mais caso faz da formosura alheia»! Armindo interrompeu o assumpto para sorver um gole de Chartreuse. O padre Assumpção, talvez para desviar o assumpto mal encaminhado, por achar a proposito o trecho ou para fazel-o notar a Adolpho Caldas, leu alto uma phrase: «...um peccado chama outro peccado, e este outro vem logo acompanhado até crear devassidão e ficarem em estado de se darem por sem remedio. Miseravelissimo estado que abre as portas de par em par a todo o genero de vicio e apaga toda a memoria do Céo e da Eternidade». Padre Assumpção fechou o volumesinho de Frei Luiz de Sousa, pôl-o na estante e foi sentar-se ao lado de Argemiro. Estava á espera de uma estiada para se ir embora; mas a chuva cahia em torrentes fortes e continuadas. Houve um momento mesmo em que a tempestade pareceu recrudescer de furia. Assumpção confessou: --Estou com medo que o temporal d'esta tarde tenha quebrado a amendoeira do meu quintal... Os jogadores estavam absorvidos; mal o ouviram. D'ahi a pedaço, já desinteressado do poker e prestando attenção á bulha das aguas, Argemiro propoz que ficassem todos com elle: a casa tinha quartos para hospedes. Nenhum acceitou. Caldas confessou que não sabia dormir no Rio senão em cama feita pela sua _ménagère_ e padre Assumpção affirmou que a mãe não se deitaria senão depois de o vêr entrar. A partida prolongou-se até ás onze horas, em que deixaram os baralhos, e Armindo foi afastar as cortinas para olhar para a rua atravez dos vidros das janellas. --Chove ainda! E deve estar frio lá fóra! Parece-me que estou em Curitiba! Padre Assumpção, voltando-se para o dono da casa, disse: --Amanhã terei de ir á casa de tua sogra; queres alguma coisa para a nossa Maria? Nossa Maria era como o padre chamava a filha de Argemiro, a quem baptisára e adorava. --Nada... eu irei vel-a no domingo. Quero ver se para a semana ella vem passar uns dois dias commigo. --Aqui? --De que te espantas? --Ora essa! com quem a deixarás, quando tiveres de sahir? --Vaes rir... Botei hoje um annuncio no _Jornal_, pedindo uma moça para tratar da casa de um viuvo só. --Estás doido! Não caias nessa asneira... Olha que chamas o perigo para casa. --Não posso mais aturar o Feliciano; preciso de alguem que me ajude a supportal-o. Mas a razão vocês sabem. Quero que minha filha não se crie completamente alheia á sua casa, preciso mesmo da sua companhia, ao menos uma vez por mez. --E confiarás a nossa Maria a qualquer mulher desconhecida?! --Gloria não deixará os avós senão por um dia... É uma consolação fugitiva, a que eu procuro. Estou velho... Caldas preveniu: --Olha que essas madamas trazem anzóes nas saias... Quando menos pensares... estás fisgado... E tu que és bom peixe! É uma raça abominavel, a das governantes... Verás ámanhã que afluencia de francezas velhas á tua porta! Feia ou bonita, a mulher é sempre perigosa. Eu deixar-me-ia ficar socegadinho nos braços do Feliciano! --Que lembrança, por annuncio! repetia o padre. Ainda se não tivesses tua filha... --Preciso de uma mulher em casa, que não seja boçal como uma criada, mas que não tenha pretensões a outra coisa. Saberei indicar-lhe o seu logar. Nem quero vêl-a, mas sentir-lhe apenas a influencia na casa. É a minha primeira condição. --Acho-a acertada! Como já disse, só vêm para esse officio mulheres aposentadas, pela força da edade, de outros serviços! Feias mas habilidosas... No fim de algum tempo tu cahirás doente, ella será uma enfermeira carinhosa e a comedia acabará quasi sem se sentir. É o costume. O Assumpção reprova-te. Eu aviso-te. --Consultaste ao menos tua sogra? perguntou o padre. --Não. Ella, com receio de que eu lhe reclame a neta, negou-se sempre a coadjuvar-me nesse sentido. --Não tires de lá a nossa Gloria. Está muito selvagem, mas está muito bem. Realmente, essas senhoras vindas por annuncio para tratarem da casa de um viuvo só, devem trazer intenções muito exquisitas. Será preferivel uma velha. --Não! as velhas cheiram a gallinha, desde que não sejam de fina sociedade. Uma, que metti por experiencia em casa, encheu-me o jardim de patos e de perus, que ciscavam na grama. Quero uma mulher que tenha bôa vista, bom olfato e bom gosto. São as qualidades que eu exijo, por essenciaes, numa dona de casa. Quero uma moça educada. Armindo Telles, enfiando o sobretudo, de que levantou a golla até ás orelhas, offereceu-se para vir esperal-a no dia seguinte... Adolpho Caldas calçou as galochas, augurando que a moça educada teria mais de quarenta annos e não se resignaria a não conhecer _monsieur_... E concluiu:--cá estou para espectador da scena. Vamos rir. Só o padre Assumpção não enfiou sobretudo nem calçou galochas, limitando-se a tirar do cabide o seu grande guarda-chuva inglez. Elle alli estava para defender a afilhada de um mau contacto... previa desastres que procuraria obstar. Ora, como pudéra Argemiro cahir naquelle ridiculo... Sahiram os tres, calados, para a chuva; e o Feliciano, alagando os sapatos nos ladrilhos do vestibulo, desejou a todos--muito boas noites--e fechou a porta. II Era meio-dia quando um bond das Aguas Ferreas parou á entrada do Cosme Velho e uma moça desceu para a rua, com ar vexado. O bond continuou o seu caminho; ella consultou uma notasinha da carteira e entrou num predio côr de milho secco, ladeado por um jardim em meio abandono. Um rapazinho lavava o vestibulo; a moça olhou para elle ainda embaraçada e perguntou: --O dono da casa...? Felizmente, o pequeno não a deixou concluir; estava prevenido e gritou logo para dentro, fazendo correr uma porta de vidro que devassou um trecho do interior: --Ó seu Feliciano, venha cá! E voltando-se para a recem-chegada:--A senhora entre. Ella levantou cuidadosamente o seu vestido de lã preta, para que se não molhasse no chão enxarcado, e atravessou o vestibulo em bicos de pés. O rapazinho olhou e viu que ella levava as botinas esfoladas, tortas no calcanhar, e que tinha os artelhos finos. Mal ella chegava á porta do fundo, quando appareceu um negro, muito empertigado, com um arzinho desdenhoso e enfiado num dolman branco de impeccavel alvura. Ella repetiu a mesma phrase e elle fez-lhe um gesto para que o acompanhasse. Seguiram por um corredor até ao escriptorio do dr. Argemiro, que escrevia á secretária, no meio de um montão de papeis, muito atarefado, já prompto para sahir. Feliciano avisou da porta: --Uma pessoa que vem pelo annuncio! O advogado levantou os olhos e viu entrar na sala uma figura meio encolhida, que lhe pareceu ter um hombro mais alto que o outro e cujas feições não viu, porque vinham cobertas com um véu bordado e ficavam contra a claridade. --Tenha a bondade de sentar-se... permitta-me mais um momento e prestar-lhe-ei toda a attenção... Ella fez um gesto de assentimento e sentou-se perto da porta. Elle, bem illuminado pela claridade de fóra, apressou as ultimas notas, fazendo ranger a penna no papel. Chegada a vez de ordenar as folhas esparsas pela secretária e de acamal-as na pasta, para não perder muito tempo, foi dizendo: --Antes de mais nada, como estes annuncios reclamando senhoras para casas de viuvos são ambiguos e prestam-se a interpretações pouco airosas, digo-lhe desde já que preciso, para governante de minha casa, de uma senhora séria, uma senhora honesta, a quem eu possa francamente confiar minha filha, que é uma menina de onze annos. Ella móra fóra, mas deverá vir passar de vez em quando alguns dias em minha companhia... Sendo essa a condição essencial, não extranhará por certo que lhe peça algumas informações... Argemiro esperou um instante, a vêr se ella se decidia a falar sem ser interrogada; mas a coitada encolheu-se na cadeira e elle foi forçado a perguntar: --A senhora é viuva? --...Não senhor... sou solteira... --Ah... mas já governou alguma casa, naturalmente?... --Sim... senhor... --Bem... Desculpe-me a minuciosidade. Poderá dizer me em que casa desempenhou o cargo a que se propõe? Ella pareceu não entender; depois disse baixo: --Na minha... na de meu pae... --Ah!... O nome de seu pae é... --Meu pae morreu... e é por isso que eu... Houve uma pausa. Argemiro consultou o relogio. Era tarde. O diabo da mulher não serviria?! --Que edade tem? --Vinte e cinco annos... --É saudavel? A saude é tambem uma das condições que eu exijo. --Sou. --Pois, minha senhora, infelizmente tenho o tempo contado e não posso demorar-me. Vou procurar em poucas palavras fazer-me bem entendido; pesso-lhe que me escute com a maior attenção e que me responda com absoluta franqueza. Como lhe disse, quero uma governante para minha casa, que seja ao mesmo tempo uma companheira para minha filha nos dias em que ella vier vêr-me. Para isso é preciso que essa governante seja uma senhora séria, sobretudo educada, não digo instruida, mas que emfim não seja analphabeta e que tenha habitos de asseio, de ordem e de economia. É absolutamente preciso pôr um dique á impetuosidade das minhas despezas domesticas. Eu não posso tratar d'isso. A senhora dirigirá tudo, com energia, de modo a regularisar as coisas definitivamente. Para isso lhe darei toda a força moral. Ha uma clausula, que talvez lhe pareça absurda, mas é indispensavel na nossa situação, caso a senhora acceite as condições que estipulo... Elle parou, com ar interrogativo. Ella respondeu com um fio de voz tremula: --Perfeitamente... --É esta: não nos vermos senão quando isso fôr absolutamente indispensavel, ou melhor, não nos vermos nunca! A razão d'esta exquisitice, ou d'esta mania, não póde ser explicada por inteiro em poucas palavras; supponha, porém, que repouza só nisto: não querer eu que paire sobre quem deve velar por minha filha nem a sombra de uma suspeita! A minha casa é grande, tem dois pavimentos e eu passo o dia na cidade, só vindo jantar á noite. Na minha ausencia toda a casa será sua; desde que eu entre a senhora saberá e poderá evitar-me. Acha isso possivel? --Acho... --Concorda em que seja assim? --Concordo. --Pense na responsabilidade que vae assumir. --Já pensei... --Eu sou exigente. Quero sentir na minha casa a influencia de uma pessoa moça, saudavel e ordenada. Não quero vêr essa pessoa, por motivos que expuz e por outros particulares e que não vêem ao caso, como tambem já disse. Aviso-a de que sou commodista. A senhora julga-se com os predicados que apontei? --Julgo-me. --Tanto melhor; parece-me que nos entenderemos. Todavia, desejaria, repito, que a senhora me desse algumas informações a seu respeito. Como se chama? --Alice Galba. --Galba... tenho idéa de ter conhecido na minha infancia um velho com esse nome... um botanico, se me não engano... --Era meu avô... --Então seu pae... --Meu pae morreu ha dez annos... Argemiro puxou o relogio. Era a hora do bond; levantou-se apressado, apanhando a pasta e o chapeu. --A senhora veio tão tarde! E temos ainda uma coisa a combinar: o ordenado? A moça levantou-se com timidez. --O senhor dará o que entender... --Ora essa! Eu não sei. --Eu tambem não... É a primeira vez que me emprego... Argemiro presentiu sinceridade naquella confissão e olhou para a moça. Mal percebeu, atravéz do véo, um rosto magro e pallido. «Parece-me feia...» pensou elle comsigo, com uma pontinha de desgosto; e logo alto: --Onde poderei mandar prevenil-a? --Eu virei, quando determinar, saber a sua resposta. --Se quer ter esse trabalho... Venha então quinta-feira. Sómente, peço-lhe mais algumas informações sobre os seus antecedentes e que fixe o seu ordenado. Elle já se mostrava impaciente, caminhando para a porta, como a despedil-a. Ella fez uma reverencia timida e sahiu. Quando Argemiro chegou á rua, com a sua pasta pejada de papeis, viu Alice subir para o bond e notou, como o seu criado, que ella levava as botinas rotas e tinha os artelhos delicados. O diabo da rapariga fizera-o perder um tempo precioso, e talvez inutilmente. Quem sabe? talvez apparecesse outra mais geitosa. Tudo lhe desagradava nesta, desde os hombros encolhidos até ás botas esfoladas... Quando Argemiro voltou á casa para jantar, encontrou o padre Assumpção, que vinha trazer-lhe noticias de Maria da Gloria. --Tua filha pediu-me que te viesse hoje mesmo dizer que está com muitas saudades tuas. Que diabo fazes, que a não vais ver? --Bem sabes em que consumo as horas... uma estupidez! É tão longe aquillo, e minha sogra fecha tão cedo a casa!... Ah, estou morto por trazer minha filha, ao menos uma vez de quinze em quinze dias, para jantar commigo, encher esta minha casa triste de riso e de alegria. Como a achaste? --Magnifica, muito córada, forte! A avó exasperada porque ella não lhe pára no estudo. Quando eu cheguei estava ella encarapitada no muro, apanhando as amoras do visinho; quando entrou trazia o avental manchado e a saia toda descozida. A avó mostrou-me aquillo muito queixosa, mas Gloriazinha mal a deixava falar, tantos eram os beijos que lhe dava! Riram-se ambos, Argemiro e o padre. --A avó tem razão; minha filha já está muito crescida para aquelles modos de rapaz... --É uma criança... deixa-a. --Mas afinal, de quem é a culpa? Dos avós. Se ella morasse commigo seria muito outra. --Não estaria tão bem. --É uma selvagem... esta é que é a verdade; mal sabe lêr, rabisca umas letras em pessima calligraphia... e toca sem compasso umas intoleraveis lições do methodo! Já era tempo de saber muito mais. Não te parece? --Ora! sabe em que tempo se devem plantar os repolhos e podar as roseiras, como se córa roupa e se deitam gallinhas. É uma sciencia rara hoje em dia e muito util. Tua sogra pediu-me que lhe ensinasse o cathecismo, para a primeira communhão. --E tu... --Eu disse-lhe que deixasse a menina por emquanto adorar a Deus a seu modo. Quando eu entrei na chacara ella repartia fructas com a criançada pobre da vizinhança. --É brutinha, mas tem bons sentimentos... --É um anjo; o ser selvagem não é culpa sua; mudará com o tempo. --Não basta o tempo; estás convencido de que ella precisa de mais alguma coisa... Pobre criança, terei o direito de sacrifical-a ao egoismo da avó? Andamos errados conservando-a lá... não acoroções a minha negligencia; esta é a verdade. Se eu pudesse organisar a minha vida de outro modo... A proposito: veio hoje uma rapariga, pelo annuncio do jornal, offerecer-se para governante. Só uma! vês tu? E vocês a dizerem que viriam em rebanho! Antes viessem varias, poderiamos escolher. D'esta gostei pouco. Pareceu-me acanhada, toda torta. --Corcunda? --Não... não sei. Preciso da tua intervenção. Ella voltará quinta-feira á tarde; conversa tu com ella e decide tudo. Não quero tornar a vêl-a, mas desde já te digo que seja como fôr, direita ou torta, será preferivel a coisa nenhuma. --Vaes crear uma situação embaraçosa e insustentavel. Já não estás em edade de fantasias. --Fala para ahi. Que disse tua mãe? --Contra a minha espectativa, aprova a tua resolução... --Por força. --Mas não acredita que se possa viver sob o mesmo tecto com uma creatura sem nunca lhe pôr a vista em cima. --Com esta, coitadinha, parece-me que isso ha de ser facil. Confesso-te até que a sua fealdade me desconcertou. Eu desejaria uma governante bonita, ou pelo menos graciosa. A belleza suggestiona e dá a tudo que a rodeia um movimento de elegancia. Imagina, se ella effectivamente fôr aleijada. Será escarnecida pelos criados e furtará toda a originalidade á nossa situação! --Preferes o perigo... --Para pôr á prova a minha impassibilidade e dar-me ares de heroe--respondeu, rindo, Argemiro. Preciso exercitar a minha vontade e o meu sangue-frio. --Tolices! --Mas que queres que eu te diga, a ti que me conheces de cór e salteado?! Vens com uns ares exquisitos assustar-me com um futuro que não promette coisa nenhuma! Tu bem sabes que o verdadeiro motivo d'esta imposição está nisto: ser-me-ia penoso vêr agitar-se em torno de mim uma mulher, nesta casa, onde nenhuma outra entrou depois que morreu a minha. A minha viuvez é tão saudosa, tão _viuva_, que só vivo para sentil-a. Não digo senão a ti estas coisas, com medo de parecer ridiculo. Tu me comprehenderás: foste seu amigo, seu confessor, soubeste mais da sua alma do que eu mesmo, darás razão a este aferro. Amo minha mulher atravéz do tempo, com a mesma tenacidade dos primeiros dias. Ella preside á minha vida, soberanamente. Expliquei á outra, que ahi veio, que só uma razão me obrigava a impôr-lhe esta clausula extravagante: não querer dar azo á maledicencia e aos commentarios dos criados... Como se isso me importasse! --E ella? --Acceitou. --Emfim... acho que fazes mal. Mas isso é comtigo. Preferiria que te casasses, apezar... --Ah, isso nunca! Minha mulher, sabes bem, pediu-me que não me tornasse a casar; fez-me jurar... far-lhe-ei a vontade. Tanto mais que nenhuma mulher me interessa, a não ser... --A não ser... --Para essa especie de amores que só tem um sabor--o da frivolidade. Eu não sou santo, mas sou fiel. Acredites ou não, a verdade é que não me deito nunca sem beijar o retrato de Maria, desde o dia da sua morte pendente á minha cabeceira. Tenho a sensação de que a alma d'ella não sae d'esta casa que tanto amava; como que a sinto a envolver-me todo... Lá fóra sou um viuvo como outro qualquer, não me abstenho nem da côrte á mulher de salão, nem do abraço á mulher do peccado; mas logo que entro em minha casa, parece-me sentir as mãos finas de Maria segurarem as minhas e a sua voz, que não esqueço, repetir-me aquella sua phrase ciumenta e que era como que o seu estribilho:--ama-me, a mim só! a mim só! Houve uma pausa. Padre Assumpção observou: --A nossa Maria não se parece com a mãe... --Nada. --Sahiu a ti. --Talvez. Mas vamos jantar, que tenho de ir ao Lyrico. Á mesa, logo ao sentar-se, Argemiro viu á direita do seu prato um rasgão na toalha, do tamanho de um nickel; mostrou-o com um gesto de enfado ao padre Assumpção. --Naturalmente, uma dona de casa faz falta... observou este. Jantaram sem alegria; á sobremesa o criado foi buscar a caixa dos charutos e Argemiro, levantando o talher de christofle mostrou ao padre que o garfo tinha signaes de fogo na extremidade dos dentes, e que as laminas das facas começavam a bailar nos cabos. E tudo aquillo era novo! Padre Assumpção sorriu: --Agora reparas em tudo! Feliciano trouxe os charutos e Argemiro reconheceu que o negro se sortira abundantemente com os seus havanas. Sempre o mesmo abuso! Olhando com attenção para o criado, viu que elle ostentava cynicamente uma das suas camisas bordadas; tambem não estava certo de lhe haver dado já aquella bonita gravata roixa de bolinhas pardas. Como o padre Assumpção era considerado de casa, Feliciano, mesmo á vista d'elle, apresentou ao amo as contas da semana. --A ode do desperdicio! Era um batalhão de cifras encarreiradas, pelo almasso abaixo, atropellando-se no seu exaggero que as fazia saltar aos olhos de Argemiro. Desde o fornecedor das fructas finas, até á serzideira da roupa branca, todos tomavam vulto através a multiplicação do negro. --Vês, Assumpção? quasi um conto de réis numa quinzena, isto numa casa propria, onde ha adega e que a chacara do sogro enche de perús, ovos, leitões e hortaliça! No tempo de Maria passava-se melhor, havia mais gente e gastavase muito menos. --Ainda tens um recurso... --Qual? --Uma pensão... --Deus me livre! A casa de pensão é a valla commum da vida. Repugna-me! e voltando-se para o negro: --Olha cá, explica-me: porque, pagando eu tanto dinheiro a uma costureira, ella deixa buracos como este numa toalha de mesa? Que especie de costureira é essa? O Feliciano fazia-se de parvo quando lhe convinha. --É uma especie de velha... --Ah! uma especie abominavel! Despede-a. Acabado o jantar, padre Assumpção sahiu para a sua caminhada até ao largo do Machado, como de costume, e Argemiro foi vestir-se para o espectaculo. Quando, já encasacado, enfiava o sobretudo, viu o Feliciano estender-lhe um papel, murmurando com a maior naturalidade: --Mais uma conta que me esqueci de entregar; estava no fundo do bolso. --O teu bolso não tem fundo, nunca se póde encher! Que conta é essa? --Uma conta antiga, de um carro... Argemiro estava de bom humor. Riu-se. E sahiu pensando:--acabou-se o teu reinado, ladrão! O salão do Lyrico estava repleto. O primeiro acto ia quasi no fim. Agarrados um ao outro, o tenor e a soprano esguelavam-se em protestos de amor. O publico via aquillo com respeito e certa solemnidade. Argemiro levantou os olhos para o camarote da Pedrosa, que olhava exactamente para elle nesse momento. No primeiro intervallo subiu a apresentar a essa senhora os seus respeitos. Ella estendeu-lhe a mão enluvada, segurando-o com dominio, fazendo-o sentar-se ao pé de si. Pedrosa esquivou se para o corredor, em conversa com o Conselheiro Isaias e o dr. Sebrão. O Pedrosa almejava a pasta da fazenda; andava na occasião ostentando pelos jornaes grandes artigos financeiros, coalhados de algarismos encarreirados como formigas por entre a seccura sábia da phraseologia. Ah! como esses artigos espantavam uns e espicaçavam a maledicencia de outros, que os attribuiam ao Benedicto Lemos, um bohemio intelligente como o diabo e bebedo como uma gambá. Elle, o Pedrosa, adulava agora o Sebrão e o Conselheiro Isaias, ambos commensaes e amigos do Presidente da Republica. Era um homem arguto. A esposa, baixa, trefega, de um moreno pallido sob o qual se via arder uma alma ambiciosa, instigava-o a ir ao encontro das posições apparatosas da alta politica. Vingava-se do Destino a ter feito mulher, conservando-se moça através dos quarenta annos. Não era bonita, mas a sua expressão de desafio, que agradava aos homens e irritava as mulheres, tornava-a talvez um tanto original. Gostava de impôr a sua auctoridade. Para o Argemiro era de tão carinhoso acolhimento, que elle trabalhava por penetrar-lhe as intenções. Conversavam os dois, como se esperassem ambos uma palavra reveladora, quando entrou no camarote o Benjamim Ramalho, todo tezo no seu alto collarinho, com uma camelia branca na lapella e o cabello achatado sobre as orelhas pequenas e redondinhas. A Pedrosa mal disfarçou a sua contrariedade. Benjamim curvava-se deante d'ella numa reverencia. E depois de sentado: --Magnifico este primeiro acto. Não gostou? A Pedrosa respondeu quasi seccamente: --Muito. Benjamim olhou para o Argemiro, que poz o binoculo para o camarote da Vieirinha. A Pedrosa, percebendo o movimento do advogado, seguiu-lhe o exemplo. Benjamim ficou por um momento só, perplexo; hesitou, comprehendeu que chegára inopportunamente e acabou binoculando tambem a Vieirinha! Depois de um curto silencio ouviu-se a voz da dona do camarote num commentario de enfado: --Não é feia aquella senhora, mas veste-se muito mal... Benjamim, confirmando: --Realmente, não tem gosto... usa umas côres muito espantadas... Argemiro sorriu por dentro. A pobre da Vieirinha tinha um peccado: ser casada com um ministro, cuja pasta apanhára no ar quando vinha atirada ás mãos do Pedrosa! Argemiro, sem retirar o binoculo: --Então, Benjamim, você gostou muito do primeiro acto? --Absolutamente! --Homem feliz... --Porque?! --Porque póde gostar absolutamente de alguma coisa... quando para toda a gente tudo no mundo tem restricções... --Pois olhe, acudiu a Pedrosa sem poder disfarçar uma pontinha de inveja; pela sua insistencia em olhar para a Vieirinha, dir-se-ia que ella, ao menos para o senhor, não tem restricções. A Pedrosa tinha geito para dizer as coisas mais duras como se as tivesse fervido em mel. Falou rindo. Benjamim riu-se tambem e o advogado respondeu com um suspiro: --É que aquella senhora não permitte com facilidade que a gente a veja de perto... --Sim?! Deve ser para que não lhe vejam os defeitos... ou talvez tivesse estado num convento. A proposito, minha filha deixa ámanhã definitivamente o collegio das Irmãs de Sião. Vou buscal-a a Petropolis. Estou velha, com uma filha já moça!... Sabbado quero apresental-a aos meus amigos. Ella tem grande predilecção pelo sr. dr. Argemiro! Notou então o advogado que a Pedrosa o olhava com uma expressão differente, como se lhe visse na cara pela primeira vez qualquer coisa desconhecida... Intrigava-o aquillo, mas não achou a explicação até ao fim da visita; Benjamim atrapalhava-o. Em que pensaria a Pedrosa?... Ao sahir do camarote, sentiu-se agarrado no corredor pela mão do marido, que o reteve, apresentando-o ao conselheiro Isaias e ao dr. Sebrão, a quem alcunhou de Demosthenes brasileiro. Argemiro ouvira já o collega, num dos seus mais famosos discursos no Senado. O conselheiro Isaias approvou o cognome de Demosthenes dado ao Sebrão, lamentando que o Rio de Janeiro não tivesse, como a formosa Athenas, o gosto fino pela palavra, tão desbaratada aqui, e não considerasse a politica como uma das artes superiores... tambem elles conheciam o dr. Argemiro Cláudio e sabiam que elle escrevia actualmente um livro juridico de extraordinario interesse... Pedrosa, ufano da amizade dos tres, resplandecia de orgulho. Argemiro cumprimentou-o pelo seu artigo d'essa manhã. Bons argumentos; excellentes demonstrações! Pedrosa esfregou as mãos: sim, elle era sincero e estudara a questão a fundo. Fôra impelido á publicidade por uma serie de circumstancias muito especiaes; do contrario nunca sahiria do seu retiro, onde queimava as pestanas a lêr os mestres e a estudar as mais graves questões financeiras do paiz... O conselheiro Isaias affirmou: --Ainda não pude lêr o seu artigo; mas o Presidente leu-o e ficou bem impressionado. Pedrosa deu um saltinho involuntario: --O Presidente leu o meu artigo? Gostou? Ah, mas naturalmente! Elle ha de forçosamente vêr que eu não aponto alli senão erros da administração passada e que lhe tem acarretado a elle enormes embaraços... --Difficeis de vencer... --Facilimos, senhor, facilimos! --A verdade é que o Presidente não está bem rodeado e deixa-se influenciar pelos ministros, mais do que convém... objectou Sebrão. --Isso! approvou Pedrosa, estendendo a mão em fórma de juramento. Os outros olhavam para elle com certa admiração. Pedrosa continuou, um tanto confidencial: --Eu é que não quero dizer a ultima palavra... Nesse instante rompeu a musica e Argemiro achou mais interessante ir ouvir o segundo acto da Tosca, do que a ultima palavra do Pedrosa. Cumprimentou-os á pressa e caminhou para a escada. III O trem dos suburbios ia partir, quando Adolpho e Argemiro entraram na gare da Central. Adeante d'elles corria uma multidão pressurosa e atrapalhada, sobraçando embrulhos e arrastando crianças. --A hora do jantar aqui é uma hora perigosa, Argemiro! E digam que o feijãozinho não tem prestigio! Nesse instante sentiram-se empurrados. Eram umas senhoras que lhes tomavam a deanteira no assalto, muito nervosas, olhando para traz, a contar-se, com medo que não ficasse alguma extraviada. --Isto é uma ignominia. Obriga tua sogra a vir cá para baixo. --Imagina se não lhe tenho pedido! Cada vez que vou vêr minha filha é este horror! E perco um tempo! Caldas rogou uma praga. --Que foi isso?! olha se te mandam para o xadrez!... --Aquelle sujeito ia-me arrebatando o pacote dos _marrons_ de tua filha! Não lhe basta a carga. Gente amiga de embrulhos, a dos suburbios! Olha. --Não tenho tempo. Entra. Entraram ambos para um carro. Cheirava a carvão de pedra e havia calor. Argemiro continuou, depois de sentado: --Minha sogra tem razão; ella vive como uma abbadessa de convento rico; tem um prestigio por toda aquella redondeza que nem calculas... Muito boa, muito esmoler, é o centro de uma população de pobres e de familias que, se não dependem d'ella materialmente, acostumaram-se á sua tutela moral e não a dispensam. Eu comprehendo-a e dou-lhe razão. Ha ainda outro motivo que a obriga a viver na chacara: é o empenho de ter a neta só para si. Minha mulher, não sei se já te disse, era filha unica e criada com um mimo raro; durante o tempo em que vivi casado tive occasião de conhecer a mãe mais extremosa que jámais vi. Para mim foi de uma bondade e de uma ternura encantadora. Amava-me porque via bem quanto eu fazia a filha feliz... A neta reproduz para ella a filha morta. Gloria foi para casa da avó, muito pequena; foi ella quem a criou, julga-se com todo o direito a guardal-a para sempre... E é para tel-a só para si, nos mesmos logares em que cresceu minha mulher, que teima em não sahir do seu canto... --E comtigo não se conta? --Considera-me muito, mas entende, e com razão, que não posso ter Gloria em minha companhia. --E se te casares? --Ella sabe bem que isso não acontecerá nunca. Minha sogra herdou o ciume da filha... Sabes que minha mulher me pediu que não me tornasse a casar... --Todas as mulheres rogam aos maridos a mesma coisa, e afinal... todos os viuvos se casam! Mais depressa que os solteiros, nota. --Sinto-me bem assim. --Teu sogro aferra-se tambem por gosto a este sitio? --Por gosto e por economia. Elle explica melhor a sua predilecção pelo campo, dizendo que, á sombra das suas mangueiras, se sente mais longe da republica... --Ahi está! e eu nunca o ouvi falar em politica... --Não é homem que discuta factos consummados. Depois, está velho e é amigo do repouso... Fez-se botanico, para entreter os ocios da chacara. Teve uma mocidade tempestuosa; a mulher não foi feliz; agora então, para compensal-a, dá-lhe toda a soberania e é um cordeiro. O bom velho fez esquecido o mau rapaz... Argemiro reparou que ainda tinha nas mãos distrahidas um lequezinho de papel apanhado á entrada do vagão. Revirou-o entre os dedos: tinha uma vareta quebrada, unida ás outras por um fio de linha. --Deve ser d'aquella moça que se remecheu ha bocado procurando qualquer coisa... Pensei que lhe tivessem roubado o relogio! --Talvez faça falta... Era d'ella. Argemiro ao entregar-lhe o leque notou lhe um movimento de alegria mal disfarçada. Voltou a sentar-se e Caldas instou: --Influe teu sogro a vender as suas terras em Minas. O Barreto pediu-me para organizar uma colonia suissa, para a industria dos lacticinios... e convem-lhe adiccionar ás d'elle as terras do barão. Dão-lhe resultado? --Filho, não sei. Meu sogro é um homem calado e eu fujo de mostrar interesse por questões de dinheiro. Mas onde diabo vaes tu arranjar suissos?! --Á China, talvez... Que pergunta! Irei á Suissa, homem! --Sempre arranjas uns negocios! --Nunca os procuro. Elles entram por seus pés em minha casa; ahi, ou os recebo ou atiro-os pela porta fóra. Fica certo que negocios procurados não prestam. Não ha nada como um sujeito passar por homem rico, para enriquecer... O proprio individuo chega até a illudir-se e a ficar mais bonito... Conheces maior volupia que a do dinheiro, senhor absoluto do mundo todo? Só o que é bom e caro, dá prazer... Argemiro sorriu, lembrando-se do lequezinho quebrado, e do gesto de contentamento que fizera a dona ao rehavêl-o. Pobrezinha... Caldas, por ter confiança no amigo, entrou a falar-lhe baixo da sua cooperação nos relatorios do Vieirinha, ainda maior trabalho do que tivera com os relatorios do Theobaldo, quando ministro da fazenda... --Dize-me cá, atalhou Argemiro. Em que disposição está o presidente a respeito do Pedrosa, sabes? --O burro do Pedrosa vae ser ministro. Argemiro riu-se; Caldas retomou o fio das suas confidencias interrompidas. O trem corria de estação em estação, com os seus guinchos ensurdecedores. Uma criança chorava no collo da mãe afflicta; um grupo de rapazes amarellos e desdentados falava de eleições do Club Riachuelo, ao pé de uma senhora de cabellos grisalhos, bem vestida, e que viajava só. Lá fóra a paizagem estendia-se larga, banhada de sol escaldante. Um véu fino de pó dourava a atmosphera. Laranjeiras pequenas, de grandes fructos dourados, alegravam aqui e acolá um ou outro ponto dos campos mal tratados, onde em gramados secos trilhas barrentas descreviam linhas tortuosas. --Isto é desconsolador... observou Argemiro, apontando para a extensa pradaria, onde em vários trechos se agrupavam casinhas feias. --E este trem poderia rolar entre pomares cheirosos. O Brasil é a terra da flôr exquisita e da fructa saborosa. De um lado e de outro d'estas estradas, se tivessemos camponezes e agricultores de bom gosto, veriamos, Argemiro, lindas orchideas suspensas na galharia de arvores fructiferas. Olha bem para aquillo! É precizo não ter absolutamente gosto nem instincto, para se fazer uma cerca assim, de paus tortos, aqui no paiz do bambú. Do lindissimo bambú! Ah! o Japonez! que povo feliz e aproveitador... Vou lembrar ao Barreto instalarmos aqui uma colonia de Japonezes, com a condição de fazerem elles mesmos as suas casas e trazerem muitas musmés bonitas... --Condição essencial! --E que tu com toda a tua viuvez aproveitarias melhor do que eu... --Aprecio pouco o typo e detesto a raça... Adeante, o grupo de rapazes augmentára com outros sujeitos, que, abandonando os seus logares, tinham vindo discutir a eleição do club. Um dos moços, no calor da discussão, sentára-se no braço do banco em que viajava a senhora de cabellos grisalhos. Ella encolheu-se, com ar constrangido. O rapaz gritava aos outros: --Se eu não tivesse educação, não teria contido o impeto que tive de esbofetear o Andrade, alli mesmo no club! Um outro advertiu-o de que elle estava incommodando a viajante; elle levantou-se com uma desculpa e foi nesse instante que o trem parou em Madureira. Caldas e Argemiro encontraram na estação a victoria do barão, que os esperava. --Lá em casa todos bons? perguntou Argemiro ao cocheiro. --Todos bons. --Nota esta exquisitice, Adolpho; só me lembra que minha filha póde estar doente, no momento em que me approximo d'ella. Assalta-me então o terror de a ir encontrar de cama... A chacara do barão ficava a um kilometro da estação. O carrinho partiu ao galope de um cavallo ligeiro, e dez minutos depois transpunha o largo portão da chacara, seguindo até á porta da habitação, por uma extensa rua de mangueiras bellissimas. --Como isto repousa a gente! exclamou Caldas, aspirando com força o aroma da flôr de fructa e pascendo o olhar pela frescura d'aquellas sombras. --O Paraiso... murmurou Argemiro, esticando o pescoço, a vêr se via, ainda que de longe, a filha. Antes que o carro chegasse á casa, Maria da Gloria atravessou aos gritos um grande relvado lateral da rua e irrompendo d'entre as mangueiras atirou-se para o carro alegremente: --Papae! papae! O cocheiro mal teve tempo de diminuir a marcha do animal e ella trepou para o estribo, enfiando no carro a cara afogueada e risonha. O pae segurou-a, puxando-a para dentro, sem coragem de ralhar com ella por aquella imprudencia. Tentou falar, ella cobriu-lhe as barbas e a bocca de beijos. --Que exhuberancia! exclamou Caldas, rindo. Chegavam á porta do velho palacete dos barões do Cerro Alegre. No patamar da escada, o sogro de Argemiro, barbeado de fresco, com o seu corpo franzino dentro de brins bem alvejados e o boné de seda preta seguro na mão fina e nervosa, sorria á espera dos hospedes, a quem abraçou. --Mamãe? --Espera-os na sala do meio. Entrem. Argemiro aprendera com a mulher a chamar a baroneza de mamãe; percebendo agora quanto aquelle titulo commovia o coração da velha, continuava a dispensal-o de bom grado. Era como se a alma da morta lhe passasse pelos labios todas as vezes que dizia essas duas syllabas amadas. A baroneza era uma senhora gorda, alta, de lindos olhos negros e cabellos completamente brancos. Tinha as faces flacidas, a carne do pescoço descahida, a boca larga, a testa curta e ainda roubada pela espessura das sobrancelhas escuras. Cosia sentada em uma cadeira de balanço, ao lado de uma mesa redonda, coberta de um panno escuro e onde floria em um vaso um ramo de crysantemos pallidos. --Bemvindos sejais! exclamou ella com a sua voz forte, de contralto. Argemiro beijou-lhe a mão e sentou-se a seu lado. Caldas entreteve-se a conversar como barão, que, pedida a vénia, cobrira com o boné de seda os seus cabellos brancos e encaracolados. --Então, meu filho, como acha sua filha? --Forte... muito alta! --Cresce de dia para dia! Se não vivesse no campo, com esta liberdade, não sei que seria... Precisa ralhar com ella: está muito voluntariosa... --Tem a quem sahir... --A mãe era um cordeirinho... --Mas a avó é energica. E eu... --Você é um homem. Sua mulher puxava toda ao typo do pae; Gloriazinha sahiu mais a mim... olhe para aquellas sobrancelhas!... --Parecem uns bigodes! retrucou Argemiro para fazer zangar a filha. E depois de a beijar nos olhos: E a respeito de estudos? --Isso! falle-lhe nisso! É uma vadia de força... o avô não se cança de a chamar e de ensinar-lhe as lições. Mas santos de casa... --Pois chamemos os de fóra. Vae buscar os teus livros, Gloria. --Ora, papae... depois... eu... --O que ella quer é andar como os cabritos, aos saltos e correrias... eu, emfim, consinto nisso, porque com aquelle crescimento não deve haver sujeição... Graças a Deus, ella tem uma saude de ferro. --Por isso mesmo precisa ter outros modos... se a puzessemos em um collegio? Pelos olhos da baroneza passou a sombra de um desgosto e ella disse: --Se quizerem matal-a... O barão protestou: --Isso nunca. Collegios nem para rapazes. São logares de perdição. O que temos a fazer é interessal-a pelo estudo. --Mas como? --Ha de haver um meio... Ó Gloria, vae tocar a tua ultima lição, anda. A professora de musica não está descontente... Gloria amuou. --Eu não sei nada! --Como não sabes?! Vae tocar! --Não... --Gloria! --Não... --Esta menina! Argemiro olhava para a filha com desgosto. A baroneza interveio: --Depois do jantar teremos tempo; ella está com vergonha... manda botar o jantar na mesa, Gloria; depois tocarás... Gloria aproveitou o ensejo e correu para o interior, onde d'ahi a instantes soavam as suas gargalhadas fortes, muito barulhentas. O pae informou-se, voltando-se para o sogro: --Como vae ella na leitura? O velho abanou a cabeça, sorrindo; mas a avó exclamou, dirigindo-se ao Caldas: --Se ella quizesse! não imagina o talento que aquella menina tem! aprende tudo com uma facilidade espantosa, de relance! --Mas o diabo é que ella não quer! asseverou o avô, rindo. --Ora! não é tanto assim; o sr. Caldas é capaz de pensar que a nossa Gloria é uma analphabeta! --Quasi. --Ora, não digas isso! Ella lê... e escreve... e demonstra muito geito para a musica. Afinal, não se educa para doutora nem para professora. No meu tempo não se exigia tanto... --Não é razão. A mulher hoje precisa ser instruida, solidamente instruida, mamãe, e eu quero, eu exijo que minha filha o seja. --Está direito, mas sempre quero saber se o sacrificio do estudo tem compensações verdadeiras! Andar atrás de uma pobre creança o dia inteiro, fazendo-a conjugar verbos e compôr e recompôr orações grammaticaes, atirando-lhe para dentro da cabeça nomes de terras e complicações mathematicas; curvar-lhe a espinha em cima de mappas e linhas geometricas, cançar-lhe a vista antes de tempo, roubando-lhe a liberdade que dá saude, alegria e ousadia, olhem que não me parece obra de amôr nem de caridade! Eu, cá por mim, confesso: fujo da sala do estudo quando vejo meu marido chamar a neta para a lição... --Eu imagino que elle ha de ser muito rispido... commentou Caldas, sorrindo. Argemiro pegou nas mãos da sogra e disse: --Mamãe, talvez que a senhora tenha razão; mas a verdade é que a Gloria já chegou a uma edade em que não deve ser tratada como o animalzinho amimado que é. Precisamos preparal-a para o futuro, que é sempre incerto. Imagine que um dia, que infelizmente ha de vir, faltem á nossa Gloria os seus cuidados, os do avôsinho e os meus... que será d'ella, se fôr uma ignorante, ella que é tão impulsiva e... e tão geniosa; hein? --Quando isso acontecer, para longe o agouro, sua filha estará casada! --Estará ou não. E se fôr mal casada? Se o marido esbanjar toda a sua fortuna e a atirar depois ás ortigas? Os olhos da baroneza encheram-se de lagrimas; o velho pigarreou, advertindo o genro que avançara demais no caminho das hypotheses; mas a baroneza reagiu, sorrindo: --Gloria casará bem, com um homem que a ame e a respeite. Não faltava mais nada! minha neta mal casada! pobre... desprezada... precisando trabalhar para viver... que coisa horrivel! --O que é horrivel, mamãe, não é trabalhar; é não saber trabalhar! --Ora... a necessidade é o melhor mestre; se algum dia... oh! não! nem pensar nisso!... A minha Gloria nasceu para ser amada. Eu leio naquelles olhos esse destino... É um pouco brusca... é um tanto auctoritaria... ora adeus! os homens gostam d'isso. Riram-se e o riso abafou um suspiro em que o Argemiro murmurou: --Eu queria-a mais meiga... --Vovó! o jantar está na mesa! gritou Gloriazinha do corredor, fallando com a bocca cheia. --Já ella me foi ás nozes... não tenho remedio senão concordar que ella é um diabinho e que é assim que eu a amo! Foi só á sobremesa que Argemiro declarou ter tomado uma governante para casa, e querer d'ahi em deante ter uma visita da filha todas as semanas. Era um sacrificio para elle, homem tão occupado, ir alli a miude. Assim dividiriam o trabalho. A sua Gloriazinha iria jantar com elle todos os sabbados, que era o seu dia mais livre. A sogra parecia aterrada. --Uma governante!... quem a inculcou? perguntou ella, mal disfarçando a sua má impressão. --Ninguem; respondeu o genro placidamente; arranjei-a por annuncio. A baroneza pulou na cadeira. --Por annuncio! metteu em sua casa, na casa da milha filha, uma mulher por annuncio! E quer confiar-lhe a sua filha durante as horas em que ella estiver na cidade? Oh! meu amigo, isto não parece seu! --Que queria, mamãe, que eu fizesse! Quantas e quantas vezes lhe pedi que me ajudasse a arranjar uma preceptora para Maria e que fôsse ao mesmo tempo governante da minha casa, e a senhora não se quiz nunca dar a esse trabalho... afinal eu não lhe roubo a neta. Maria da Gloria irá só aos sabbados. É justo que eu tambem gose um pouco da companhia de minha filha. Voltará no proprio sabbado, ou no domingo pela manhã... --Era só o que faltava... Gloria dormir fóra de casa, entregue a uma mulher sahida Deus sabe de onde! Uma mulher de annuncio! Uma... A baroneza conteve-se; e depois de uma pausa, em que bateu com o garfo na mesa:--é velha, ao menos, essa creatura? --É moça... --Hein!? --Tem vinte e poucos annos. --Não é possivel, Argemiro, ter essa mulher em casa! --Porque?! --Não é conveniente... --Pois já lá está. Entrou esta manhã. --Poderá sahir esta noite... --Não. Eu já esperava esta tempestade, e pela millesima vez direi isto: Eu não podia dispensar em casa uma pessoa que soubesse dirigir os meus criados, coisa de que eu sou incapaz. Reparem bem para o Feliciano: veste-se no meu guarda-roupa, fuma os meus charutos, folhéa as minhas revistas e serve-se da minha carteira muito melhor do que eu! Os outros, por seu lado, roubam como pódem e trazem o serviço mal acabado, feito por favor... Além disso, _eu quero_ ter minha filha á minha mesa, uma vez por semana, ao menos, e não podia deixal-a só, entregue a homens, e que homens! Concordem que não é exigir muito! --Pois sim! Fizesse tudo isso, mas arranjasse governante respeitavel, mulher edosa e com bons certificados... Conheço o seu caracter, sei que não poria nunca minha neta em contacto com uma... Ahi tremeu o queixo á baroneza e ella concluiu suffocadamente: --Pobre da minha filha! Houve um silencio constrangido. O barão interrompeu-o: --Bom, bom! Está tudo determinado: aos sabbados Gloria irá visitar o pae. É muito justo... --A moça é bonita, papae? perguntou Gloria. A baroneza olhou para o genro com curiosidade. --Não sei... fallei-lhe uma vez só, e ella levava a cara tapada por um véu lavrado, muito espesso. Mas não me pareceu bonita; nem mesmo isso me importa. Quanto aos attestados, mamãe, ella deu-m'os e bons. O Padre Assumpção tomou algumas informações a seu respeito e todas excellentes. Está claro que eu não tomaria levianamente uma mulher, a quem, embora por poucas horas, terei de confiar minha filha. --Eu preferiria que você desmanchasse a casa e viesse morar comnosco... não sei o que parece ir uma mulher extranha para o logar de... minha filha... --Oh, mamãe, que lembrança! A senhora repare que esta é uma mulher mercenaria, uma alugada, pouco mais do que criada, não passa d'isso... O logar de Maria é insubstituivel no meu coração, bem o sabe, melhor que ninguem. Quanto a eu morar aqui, isso é absurdo; preciso viver na cidade: os meus negocios não me permittem este luxo do campo... Agora só lhe peço uma coisa: tomar esta minha resolução como irremediavel e acceital-a, ao menos, por algum tempo... Gloria assistira a toda a scena com muita attenção. O avô só no fim se lembrou da conveniencia de a afastar. Caldas, um pouco constrangido, demorava-se a descascar a sua laranja, conservando um silencio discreto, e foi só depois do jantar que elle pôde convencer o barão a vender as suas terras ao ministro para a formação da colonia suissa, exploradora dos lacticinios. A baroneza retirou-se para o seu quarto, declarando uma enxaqueca subita. Argemiro aproveitou o momento para conversar um bocado com a filha. --Escuta, meu amôr, porque é que tu não modificas esses teus modos de rapaz? Já estás crescida. Ella abraçou-o com frenesi pelo pescoço. --Olha que me amarrotas o collarinho! disse elle rindo. Não me respondes? --Eu não sei!... --Gostas de ir jantar commigo todos os sabbados? --Se gosto! Havemos de ir ao theatro, sim, papae? --Ainda é cedo... terás tempo... --Eu tenho uma vontade doida de ir ao theatro!... --Irás... irás, se fôres boasinha e docil a teus avós... teu avó queixa-se de que estudas pouco... não quero isso. --Não gosto de estudar; não gosto e não quero. --Não quero?! não quero! então isso é coisa que se diga?! --É. Eu não quero mesmo! Se o papae soubesse como é aborrecido estudar! Outro dia fiquei com tanta raiva que até rasguei o livro! --Oh! --Que espanto! olhe, foi assim: vovô lembrou-se de me chamar, exactamente quando eu ia para a horta ajudar a Emilia a apanhar vagens... --É muito divertido apanhar vagens? --É mais divertido do que estar sentada ao pé de vovô, na sala, com a penna na mão ou o livro deante dos olhos! Eu estava lendo e estava pensando na horta, estava escrevendo e estava pensando na horta, estava fazendo contas e a maldita horta não me sahia da cabeça!... Vovô ralhou commigo; eu não sei que disse e elle levantou a régua para me dar... vovó entrou, zangou-se com vovô... Sahiram os dois, eu fiquei sózinha... um pouco arrependida... quiz estudar... abri o livro, mas não sei o que é que tinha nos olhos, que não via bem... Então, desesperada, rasguei o livro... --O que tinhas nos olhos eram lagrimas, minha filha, lagrimas de remorso por ter respondido mal ao teu avô, que te ama tanto, e teres sido causa de outro desgosto ainda maior... --Oh! papae! exclamou Gloria, atirando-se de encontro ao peito de Argemiro, lacrimejante. --O que me vale é que tens bom coração... Durante a viagem de regresso, Argemiro e Caldas fallaram pouco. Um pensava na familia, o outro em negocios. Foi já quasi no fim que Argemiro desabafou: --Preciso tomar uma resolução séria a respeito de minha filha. Viste bem como a educam? O avô não sabe ser severo; a avó prejudica-a pelo seu excesso de amôr, e a menina cresce cheia de vontades e á lei da natureza! Se fallo em collegio, arrepiam-se; se fallo em trazel-a para mim... --Estás doido? têl-a comtigo, como? Olha que eu não quiz nem podia intervir naquella scena de familia; mas a tua sogra tem razão. Que diabo! uma mulher, arranjada por annuncio, póde lá tomar conta de uma menina que está exactamente na edade mais delicada da mulher! Deixa a pequena com os velhos e arranja-lhe uma preceptora ingleza ou allemã. Verás o milagre. Vocês custam a atinar com as coisas simples! São uns complicados... --Talvez tenhas razão... --Por força. Eis-nos chegados. Apparece ámanhã na Camara, ás duas horas; o Telles vae soltar o verbo. Não faltes. Argemiro chegou a casa muito fatigado e entrou para o seu quarto. Extranhou logo ao principio qualquer coisa que não pôde determinar o que fosse, mas que o impressionou bem. Ao pendurar a roupa no cabide de pé, viu que o tinham alliviado do grande peso de ternos de casimira, que o Feliciano deixava accumulados alli semanas e semanas, por preguiça de os escovar e guardar. Enfiando o robe-de-chambre, notou que lhe tinham pregado um botão que lhe faltava. E pensou: Realmente, só as mulheres sabem governar bem uma casa... Sentou-se ao lado de uma mesa a lêr um jornal, mas a folha descahiu-lhe das mãos e elle pôz-se a olhar para um retrato da mulher, suspenso em um cavalletezinho de prata fôsca. A saudade da sua morta revivia todas as vezes que vinha de vêr a filha; sentia-lhe a falta então, poderosamente. Se ella vivesse! Ah, se ella vivesse correria tudo suavemente! Argemiro levantou o retrato e contemplou-o de perto. Quantas vezes beijára aquella fronte larga e pallida, emmoldurada por cabellos loiros, que tão mal se adivinhavam na photographia! Que pena não ter Gloria herdado a finura d'aquellas feições, tão bem delineadas, tão puras, nem a doçura d'aquelle caracter, que só o ciume conseguia agitar. Pobre ciumenta, quantas torturas inventára para seu martyrio! Que imaginação a d'ella para crear fantasmas de amôres... Argemiro cerrou os olhos, depondo o retrato sobre a mesa; e calculou: se ella fosse viva estaria agora com trinta e dois annos... teriamos um rancho de filhos... um rapaz... Tanto desejei um rapaz!... e Maria teria outra educação... Pobre da minha filha, foi a sacrificada!... IV Num bello sabbado, o Barão do Cerro Alegre trouxe a neta á cidade e foi depôl-a no escriptorio do pae, que a esperava, já impaciente. O velho não se demorou; tinha horror ás ruas abafadas e ás feias salas dos escriptorios. Mostrava-se mesmo apressado em se desembaraçar da incumbencia, temendo ser cumplice em algum desastre que acontecesse a Maria, que via cercada de perigos, sempre que sahia da sua chacara. Ainda assim, não se pôde conter e recommendou ao genro: --Dizem que por ahi ha muitas febres... é preciso ter prudencia! A avó pede-lhe que não deixe a Maria comer dôces na confeitaria. Ella póde abusar, é gulosa... --Vá descansado; e obrigado! Emquanto Argemiro despachava uns papeis, Maria ora se debruçava na sacada, ora remexia todo o escriptorio do pae. Mas Argemiro tinha pressa tambem de atravessar as ruas com a sua Gloriazinha pela mão, e abreviou o trabalho. Sahiram; e as recommendações dos pobres velhos foram absolutamente esquecidas... Maria da Gloria agarrou-se ao pae, atordoada com o borborinho do povo com que ia esbarrando; aquillo alvoroçava-a sem divertil-a, mas a pouco e pouco, a cada paragem para uma conversa de minutos, em que os amigos do papae lhe beijavam a mão, como a uma princeza, acordava nella uma curiosidade extranha por esta vida da cidade, tão embaraçada de enleios. Queria ver tudo, retinha Argemiro em frente das vitrinas, embarafustava pelas lojas; e como via em exposição muitas coisas que não tivera nunca, exigia-as do pae, que, docil como a cêra molle, ia comprando tudo, sentindo-se ainda feliz por satisfazer assim a sua Maria, só d'elle, nesse sabbado bemdito. Quando chegaram ás Laranjeiras, o pae subiu logo para o seu quarto e recommendou a Gloria que esperasse na sala Alice Galba, a quem mandou avisar, pelo Feliciano, que viesse receber a menina. Maria recostou-se no sofá, esmagando no estofo as papoilas do seu chapeu á jardineira. A antipathia da avô suggerira-lhe instinctiva repugnancia por essa intrusa, como chamavam lá em casa a governante das Laranjeiras. Ah, mas Gloria tinha o seu plano, não deixaria que a outra tomasse confiança comsigo. Uma alugada, uma mercenaria! E dava-se ares de grande dama, muito atirada sobre os almofadões de pellucia, com uma expressão de desprezo afeiando-lhe a bocca e as suas faces rosadas, de criança. Realmente aquella attitude não era agradavel, o chapeu sobretudo incommodava-a mortalmente, e sentia enterrar-se-lhe nas costas, como um castigo, a ponta de um colchete. Supportou o sacrificio heroicamente, até que viu entrar na sala, com o modo mais simples e desembaraçado do mundo, uma moça, nem bonita nem feia, vestida de cinzento, com aventalzinho preto e um molho de chaves pendentes da cintura. Gloria impertigou-se mais. Alice approximou-se d'ella sorrindo e estendeu-lhe as mãos, duas mãos muito brancas e longas. Gloria levantou-se, sem se dignar tocar nessas mãos, e disse com aspereza: --Quero vêr o meu quarto. Alice contemplou-a com tristeza e curiosidade; depois, voltando as costas: --Siga-me... Atravessaram o corredor, subiram uma escada e entraram em um quarto forrado de azul, com janellas abertas para os lados do Sylvestre e duas camas brancas. --É aqui?! --É aqui. --De quem é esta cama? --Sua. --E aquella? --Minha. --Eu quero dormir sózinha; não sou medrosa. Arrange outro quarto para mim. Agora, tire-me o chapeu! Gloria sentou-se na cama, brutalmente. Alice tirou-lhe o chapeu e endireitou-lhe o cabello. A menina foi ao espelho, achou-se bem penteada e lá no fundo da sua consciencia concordou que jámais sentira pousar sobre a sua cabeça mãos mais habilidosas. Voltando-se, contemplou Alice de alto a baixo, e perguntou: --Quantos annos tem? --Vinte e tres. --Parece mais velha. Alice sorriu. --Eu tenho doze... --Parece mais criança... --Hein?! toda a gente diz que já pareço uma moça! É myope? --Parece criança no juizo, minha amiguinha, e é por eu vêr muito bem que lhe digo isto... Não seja má... venha lavar as mãos; seu pae espera-a para jantar; não está ouvindo o tympano? É o signal... Gloria tremia, sem atinar com a resposta para semelhante affronta. Depois, num desabafo: --Você é muito grosseira! Alice apoiou-se ás costas da cama e fechou os olhos. --Bem diz vovó: sempre é mulher de annuncio! --Quê?! Gloria não respondeu, e correu, rindo ás gargalhadas, para a mesa do jantar. Argemiro esperava-a de braços abertos. --Ah! como a tua alegria me faz bem ao coração! Senta-te aqui e conta-me: por que te ris tanto? --Por nada... átoa! --Átoa! como é bom rir átoa! Como eu preciso da tua innocencia ao pé de mim! Ri sempre, meu amôr!... Olha o guardanapo... Estás contente?... aqui tens o teu pãozinho... É a primeira vez que jantas sozinha com teu pae... que te parece? Olha a tua sopinha... Está a teu gosto? --Eu não quero sôpa. --Estás sem apettite? --Eu não gosto de sôpa. --Ah, aqui é preciso gostar de tudo, minha senhora! uma pessoa de educação nunca diz a uma mesa:--eu não gosto d'isto, eu não gosto d'aquillo... toma a tua sopinha... E agora dize-me: como achaste a D. Alice? --Horrenda. Feliciano sorriu, sorriu com tamanha indiscreção, que Argemiro reprehendeu-o com um olhar. --Seja boa e é o que se quer... precisas tratal-a com delicadeza e amizade; ouviste? é, graças a ella que te tenho hoje aqui... Queres vinho? muito pouco... com agua... assim... Ora, a minha Gloria! Tomára já ver-te moça e tomando conta definitivamente d'isto tudo, para ter-te sempre aqui... sempre! Gloria, que recusára a sôpa, comia agora com satisfação. O pae revia-se nella, todo contente. A mesa estava bem posta; desde que Alice entrára não deixára de haver flôres e fructas ao jantar. Gloria, confundindo a elegancia com o luxo, exclamou: --Que mesa rica, papae! --Se viesses jantar commigo antes da D. Alice estar aqui, não dirias isso, embora na mesa estivessem as mesmas porcellanas e os mesmos talheres. Repara nisto, minha filha, que a arte e o gosto dão ás coisas mais simples uma apparencia de conforto e de alegria muito agradaveis á vida. A minha mesa era triste... agora é assim! Feliciano franziu as sobrancelhas, mal humorado. Gloria confessou: --Lá em casa só se botam flôres na mesa em dia de visitas... --Porque tua avó é uma senhora velha e cansada. Compete agora a ti esse trabalho. Informa-te com a D. Alice a esse respeito. Ella parece perita na arte de fazer _bouquets_. Repara para aquelle... --Quem não sabe! --Pensas que é facil? --Tenho certeza. --Pois então incumbo-te de fazeres todos os dias um ramo para a mesa de teu avô... --Está dito. Argemiro não cessava de olhar para a filha, num embevecimento de noivo, muito sollicito em servil-a, provocando-lhe as expansões, com uma alegria de moço. Ella percebia a adoração e abusava, ora rindo, ora franzindo o narizinho aos pratos que o Feliciano lhe apresentava. Entre as peças da baixella figurava nesse dia na mesa do jantar um candelabro de prata fosca, que Argemiro reconheceu com difficuldade, tal era o tempo em que esse objecto vivêra segregado no fundo escuro de um armario. Na verdade, Alice caprichára em adornar a mesa! Seria uma homenagem a esse jantar de festa, só de dois talheres, para um homem quasi velho, e uma menina quasi moça? Quando o Feliciano offerecia a Gloria uma fatia de coelho assado, ella exclamou, batendo com o cabo do garfo na mesa: --D. Fuas morreu, papae! Argemiro contemplou-a com espanto; mas desatou logo a rir deante da expressão de seriedade quasi comica da filha. --O teu gato? --O meu coelho branco... Todas as manhãs, quando me levantava, a primeira coisa que eu fazia era correr para o páteo da criação... D. Fuas conhecia-me e vinha para mim... eu levava sempre muita couve para elle, e gostava de ver aquelle focinhinho, toca que toca, mastigando a verdura... Hontem desci, e nada de D. Fuas! Procura para aqui, procura para alli, e fomos achar o coitado embaixo da paineira, todo esticadinho, e ainda mais branco porque estava cobertinho de paina... Então eu e a Emilia fizemos uma cova, forramos a terra com a paina limpinha, deitámos alli D. Fuas, tornámos a cobril-o com paina, depois com terra, e acabou-se! --Choraste? --...Chorei... mas vovô prometteu-me outro! --Á saude do outro que ha de vir e que te consolará! Argemiro bebeu convictamente á saude do coelho, como se o fizera á de uma illustre personagem. Como elle adorava e era grato a tudo o que alegrasse a vida da sua Gloriazinha! Ouvia-a com tal interesse, que a chamma infantil dos olhos d'ella ateava-lhe n'alma curiosidades de criança, tambem. Eram dois meninos á mesa, áquella mesa que Alice enfeitara como para um noivado. Passaram então a discutir as qualidades dos animaes predilectos. Argemiro elogiou os gatos. Gloria repellia-os; preferia os cães e cães de fila, que mordessem os outros e a adorassem a ella! Confessou ter muito desejo de ver leões e elephantes. Contou que uma onça, fugida do Jardim Zoologico, andára rondando a chacara: mas que, visse o pae que exquisitice! ella só se lembrava de temer a féra á hora de ir para a cama, quando estava toda a casa fechada... De dia não; corria pela horta, pelo pomar... Mas á noite!... --És medrosa? Ella fez notar ao pae, com um olhar, o Feliciano. --Que mulherzinha! pensou Argemiro; e riu-se. Embora quizesse, elle não pôde prolongar a demora na mesa; Gloria ardia de impaciencia; comêra muito depressa, com a idéa de andar pela casa toda, a _sua casa_, que ella dentro de poucos annos governaria... E relanceou um olhar de dominio em redor de si. --Bem, meu amor, gira um pouco pela casa e vai depois fazer companhia á D. Alice... Feliciano informou: --Ella está jantando. --Ella janta na cozinha? perguntou Gloria no tom mais natural do mundo. --Não, filha; ella tem a sua mesa. --Então cada criado aqui tem a sua mesa? Lá em casa... Feliciano riu-se. Argemiro atalhou: --Não digas mais. D. Alice não é uma criada; representa aqui a dona da casa. --Tal qual como se fosse mamãe? Feliciano olhou de esguelha para o patrão. --Tal qual, não; basta dizer que á D. Alice eu não a vejo nunca, e que estava sempre ao pé de tua mãe; mas para manter a ordem da casa e dirigil-a, é como se fosse. O ciume da avó relampejava agora nos olhos da neta. Gloria olhava para o pae numa attitude de desafio. Toda ella crescera em um instante, como se a raiva a insuflára; e no momento mesmo em que ia formular um protesto, que lhe custava a articular, o padre Assumpção entrou na sala, dando risonhamente as bôas noites. Argemiro despegou vagarosamente os olhos da filha e ficou por um bocado alheio a tudo o mais, sem responder aos cumprimentos do amigo. --Que tens tu?! perguntou-lhe o padre, que lhe pousou no hombro a mão espalmada depois de ter abraçado a menina. --Nada... Chegas a proposito; vem ao meu escriptorio. Gloria, vai tocar um pouco; experimenta o teu piano, emquanto D. Alice acaba de jantar. --Eu não preciso d'ella!... resmungou a menina, dirigindo-se para a sala. --Ouviste? Eu não preciso d'ella! A prevenção da minha sogra imbuiu no espirito de minha filha uma antipathia medonha por esta pobre moça que tenho em casa e que ainda verdadeiramente nenhum de nós conhece! Ora, eu preciso de uma mulher em casa, exactamente para poder chamar minha filha a mim, e gosar, embora fortuitamente, a sua companhia; e vêm-me a criança cheia de azedumes e idéas preconcebidas contra a unica pessoa a quem posso confial-a! Como ha de ser? --Fazer com que se estimem. --Mas como?! Sem convivencia, e com más insinuações... não ha amisade possivel. A minha filha tem ciumes! Herdou o tormento da mãe, que tão bem conheceste, e o unico defeito da avó... isto é, herdaram ambas, d'ella, o mesmo sentimento, porque só são ciumentas de mim! Minha sogra confessa nunca ter tido ciumes do marido, e, entretanto, não dou um passo em que não sinta a sua vigilancia! A alma da filha parece ter-se incarnado nella, e é essa talvez a attracção poderosa que me chama a si... mas esse excesso de zelos vae estragar-me á pequena... Não imaginas o gesto de revolta que ella fazia no momento em que entraste, só porque eu prestigiava a governante! E agora?! --Agora vaes sahir por umas duas horas, e eu ficarei seroando com a nossa Maria e a tal senhora. Quero vel-as a ambas reunidas; não fazes obra acertada atirando tua filha, muito selvagem mas muito innocente, para os braços de uma creatura que tu não conheces... Convem estudal-a... --Mas, homem de Deus! não me trouxeste, tu mesmo, as melhores informações d'essa _tal senhora_? --Sim... disseram-me que é uma moça honesta... de boa familia... pobre... saude de ferro... Foi o que me disseram; mas isso bastará? Para governar teus criados, sim; para captar Maria e conviver, mesmo que por poucas horas, com ella... não! --Neste caso voltamos á mesma. Despeço a mulherzinha e nunca mais tornarei a ter a minha filha aqui, commigo, só commigo, livre um bocadinho d'aquella atmosphera da chacara, que a faz tão malcriada... tão aborrecida e até antipathica. Acabou-se. --Nada acabou; tudo começa agora. Foste sempre prejudicado pela tua impaciencia, homem! é tempo de te corrigires. Vai passear. Dizem que ha bonitas coisas ahi pelos theatros... resigna-te a perder um pouco do teu tempo indo ver qualquer d'ellas... Ahi tens o jornal, escolhe. --Não tenho pachorra... --Eu iria a uma magica. Contam maravilhas d'esta--_Fada Azul_... --És um homem innocente! --Sou padre... mas se te não diverte a magica, vae a outra parte, mas vae! Que diabo! lembro-te tão bom alvitre e ainda vacillas! --Vaes aborrecer-te... --Menos do que tu... --É possivel... --É certo. O teu chapeu está alli... queres que te procure a bengala?! --Parece-te que estou á espera que me dês com ella no lombo para então sahir? --Já me lembrei d'isso... --Se não fosses padre... --Não proporia zelar por tua filha com tamanho interesse... --Por que?! --Porque seria provavel que estivesse velando pela minha... Argemiro levantou os olhos para o padre Assumpção, com uma pontinha de espanto, e mal lhe percebeu nos labios finos um fio subtil de ironica amargura. --Está bem; cedo-te por instantes o meu logar e dir-me-ás depois se elle vale a solidão a que te condemnaste!... O padre Assumpção desceu á sala onde Maria arranhava o teclado com uma furia de gata brava. Encostou-se ao piano, ouvindo as desharmonias d'aquella criança, em que elle sentia um vago perfume da saudade materna. Quão differente fôra a mãe, toda delicadeza e graça, do que era agora a filha! Na penumbra da sala reconstruia-lhe o vulto airoso e fino, que os bandós loiros illuminavam de uma luz branda, de sol de primavera. Que linda a vira naquella mesma sala, áquella mesma hora... Maria levantou-se com impeto. O padre Assumpção attrahiu-a a si e beijou-a na testa, com infinita ternura. --O senhor está tremulo... Onde está papae? --Teu pae sahiu. Manda accender o gaz da saleta e convida D. Alice para vir passar o serão comnosco. --Não gosto d'ella... --Por que? --Não sei... e o senhor? --Eu gosto de toda a gente, minha filha... de uns mais... de outros menos, mas não quero mal a ninguem. Vae pedir á D. Alice, com muito bom modo, que nos faça o favor da sua companhia por umas duas horas... --Papae foi ao theatro? --Não. --Onde foi? --Não sei... d'ahi, talvez tivesse ido ao theatro... --Sem mim?! --Sem ti. --Que desaforo! --Hein?! Ah! Maria, precisamos mudar de genio... Não te quero assim... faze o que te disse, anda. --Vamos antes para a janella. --Não. Vae chamar D. Alice. --Ella é muito enjoada! muito feia! --Seja como fôr; quero conhecel-a. --Ah! se é só para isso! Que bicha! Maria percebeu de relance que havia uma intenção occulta naquella insistencia e movida pela curiosidade acabou por ceder á ordem do padre. E o serão correu tranquillamente. Alice trouxera a sua cestinha de trabalho e um livro de historias, confiando pouco nos seus meritos de conversadora. Vendo que Maria se impacientava, propoz-lhe ensinar-lhe um ponto facil de _crochet_, com a lã do seu agrado, Maria repelliu o offerecimento; mas, aconselhada pelo padre, acceitou-o por fim. Ella detestava os trabalhos de agulha, que achava difficeis de comprehender. Alice tinha o condão de explicar tudo com tamanha simplicidade e clareza que a intelligencia mais rebelde se esclarecia ás suas palavras limpidas e teimosas. Maria interessou-se, por fim, tentada por uma meada de lã vermelha; e, ora vendo ora tentando fazer, guiada pelas mãos pacientes e ageis da moça, conseguiu aprender não só esse ponto como outro mais complicado. --A senhora é paciente... Gosta de crianças? --Muito! --Tem irmãs pequenas? Alice olhou para o padre Assumpção com ar de queixa. Para que interrogal-a, naquella hora distrahida, acordando-lhe a saudade da familia ausente ou perdida? Foi isso que o padre pareceu sentir na expressão da moça. Entretanto, ella disse: --Tive... uma... Como Gloria se atrapalhasse, tirou-lhe o trabalho das mãos, adiantando-o um pouco, para influir a menina. --Repare bem; olhe... uma volta... outra volta... vou bem devagar... comprehende? Maria arrancou-lhe a agulha e o novello das mãos com impaciencia, morta por fazer ella mesma o trabalho. O padre reprehendeu-a; Alice sorriu. --Deixe... são todas assim! Decididamente, esta rapariga não é uma rapariga vulgar, pensava de si para si Assumpção, olhando para a moça. Havia no seu vestido pobre, de lã barata, uma elegancia reservada e distincta. O cabello, sem frizados, de um castanho escuro, desnudava-lhe a testa clara, enrolando-se num penteado de uma graça discreta. As mãos bem tratadas, longas e pallidas, traçavam os gestos com firmeza de quem conhece o seu valor; e a sua voz, um pouco grave, tinha a doçura de uma queixa disfarçada. As feições vulgares não lhe offereciam nenhum traço caracteristico, e o padre Assumpção impoz-se penitencias, para castigar a sua vaidade, presumindo que na curta convivencia de duas horas, pudesse conhecer bem uma mulher! Começava a ter medo de sympathisar com esta, e que esse sentimento lhe tolhesse mais tarde acções imprescindiveis para a salvação do amigo e de Maria... Conversaram os tres durante todo o serão. E afinal, qual foi o resultado de tantas palavras ditas e ouvidas? Nenhum... no serão o lucro correra todo para Gloria, que aprendera a fazer _crochet_ e ainda ficara de uma assentada dona da agulha e da meada de lã. V Argemiro ouvia um constituinte no seu escriptorio da rua da Quitanda. A causa era chôcha; o homem expressava-se mal, perdendo palavras sobre palavras. O advogado deixava-o fallar, olhando silencioso para os raminhos azues do papel reles, como se pedisse ás paredes encardidas a paciencia de que deviam estar impregnadas. Effectivamente, toda aquella casa, onde o cupim voraz trabalhava de parceria com os medicos especialistas, advogados e solicitadores, parecia derrear-se ao peso da sabedoria e da malicia. Á noite, fechados os escriptorios e cubiculos, os ratos, passeando por aquelles corredores e alcovas desertas, commentariam as chicanas, as mentiras e os segredos, com que a sciencia transfigura a verdade e uns homens enganam os outros... E não seriam poucos os ratos, porque ás vezes, mesmo á plena luz do meio-dia, surgia de qualquer canto obscuro o focinhito agudo de um d'esses roedores mais curioso, como a querer tomar contas do que se passasse; e a sua murrinha vagava na casa, de frente a fundo, enchendo-a como uma alma. O constituinte de Argemiro voltava ao principio da sua exposição; temia ter esquecido algum detalhe precioso, e a consulta era cara... foi num desses pontos de repetição que o criado apresentou ao advogado um cartão da Pedrosa. --A mulher do Ministro! Argemiro abotoou o collete de fustão e prometteu ao homenzinho que faria tudo por elle, mas que se fosse embora!... O outro atropellou as ultimas perguntas e marcou nova entrevista. Atravez a meia parede de tabique ouvia-se na sala proxima o _frou-frou_ das sedas abafadas em lãs e um sussurro de vozes femininas. Logo, a Pedrosa não viera só... Argemiro não a via desde a noite em que fôra cumprimentar o marido pela sua nomeação. Que a traria alli? O aroma do _Bouton d'or_ introduzia-se pelas frinchas das portas, invadindo tudo, soberanamente. Argemiro considerou aquelle aroma como muito indiscreto, mas gostou. A Pedrosa afinal... Ora, com que então estava no seu escriptorio a mulher do Ministro!... elle ageitou o nó da gravata e foi recebel-a á porta. Ella entrou logo, com o olhar reprehensivo, o busto impertigado e um sorriso amigo na bocca descorada. Atrás d'ella vinha a filha, muito espigada, mais alta do que a mãe, com um arzinho petulante no rosto claro, de feições miudas. --Seu mau! então é preciso que a gente o venha ver aqui?! --Oh, minha senhora... --Não se desculpe, nem me agradeça a visita. D'ahi rompeu a fallar, queixando-se de não ter o marido um minuto de descanço que lhe permittisse tratar dos seus negocios particulares, vendo-se ella na contingencia de intervir, como fazia agora, a contragosto... Ia consultar o advogado e o amigo... Argemiro agradeceu. Emquanto a Pedrosa remexia na sua bolsinha de camurça, procurando um documento qualquer, o advogado olhou para a Sinhá, que não desviava o olhar de cima d'elle, numa expressão perturbadora, de mulher amorosa. --Diabo! pensou elle comsigo. A consulta representava um pretexto. O negocio dispensaria a intervenção do advogado; todavia, a Pedrosa parecia não se importar de passar por estupida: repetia as perguntas com uma difficuldade de comprehensão que dava tempo á filha de espichar a alma pelos olhos fóra. Mas o coração do viuvo parecia fechado a sete chaves e duro como uma pedra. Sinhá levantou-se, deu um giro pelo escriptorio, riu, fallou, interrompeu a mãe e sentou-se depois mais perto do Argemiro, deixando-lhe cahir de encontro a um joelho, por descuido, a sua linda sombrinha de seda e rendas brancas. Como o assumpto da consulta já não désse de si, a Pedrosa embarafustou por outras portas: as ultimas récitas do Lyrico, o jantar do Presidente, o casamento do Angelo Barros... aquelle Angelo que dizia ter feito tambem o juramento de ficar solteirão! E a proposito a Pedrosa perguntou ao Argemiro quando teria de assistir ao seu... --Eu já me casei, minha senhora... --Sabemos; mas ser viuvo é como ser solteiro... --Estou velho... --Pois sim, a verdade é que eu conheço mais de uma moça bonita que se daria por feliz se o senhor a escolhesse... Olhe, na festa da apresentação de Sinhá, houve uma que ficou enfeitiçada pelo senhor. Mãe e filha trocaram um olhar e riram alto. Depois, a Pedrosa continuou: --É raro o homem que enviuva que se não torne a casar; o que é a melhor prova a favor das mulheres... Ora, o seu coração por que ha de ser mais insensivel que os dos outros? Um segundo casamento é ainda uma homenagem ao primeiro... Só procuramos repetir os actos que nos trazem felicidade... --Será assim, mas o meu coração é pequeno para as saudades que tenho. Está todo occupado pela minha morta... Sinhá levou o lenço ao rosto e uma nuvem de _Bouton d'or_ adejou pela feia sala do escriptorio. Argemiro percebeu o movimento e deliciou-se com o aroma. Que significaria aquelle gesto? Colheria o lenço uma lagrima ou disfarçaria um sorriso? Seria elle realmente amado por aquella criança, ou simplesmente preferido por aquellas mulheres como um marido de posição? Deveria ter pena, ou deveria ter nojo? Ah! a pobre Sinhá talvez não tivesse culpa; quem era odiosa era a mãe, que assim o vinha provocar no logar do seu trabalho arrastando pelos degraus carunchosos d'aquella casa de homens, a sua filha solteira, apenas sahida do collegio! Mas a verdade era que o olhar da pequena perturbava-o, mais pela sua expressão, que pela sua fixidez. Obedeceria ella á suggestão da mãe, ou agiria a mãe em obediencia a uma supplica da filha? Argemiro, apesar de lisonjeado na sua vaidade de homem, começou a desejar a sahida das duas senhoras; mas a Pedrosa não parecia apressada e entrou pela seara da politica, como entrára pela do amor. Acertou no ponto de fascinação. Ella estava bem informada; Argemiro abriu ouvidos curiosos e dobrou-se na cadeira para escutal-a de mais perto. Ella era indiscreta, por ser com elle... pedia segredo de algumas affirmações, mostrando-se de vez em quando em opposição a actos do marido... --Pedrosa morre por servil-o em qualquer coisa... veja se inventa um pedido, para contental-o... concluiu ella, levantando-se com um arzinho malicioso nos olhos espertos. Sinhá imitou-a, quebrada de languidez, como desanimada... Argemiro observou-a de face; ella baixou os olhos, corando. Estava galante. --Recebemos ás sextas-feiras e Sinhá tem umas amigas novas que desejam conhecel-o... o senhor anda muito arredio, mas nem só de saudades vive o homem... é preciso distrahir-se e ser amigo dos seus amigos! Até sexta-feira? --Até sexta-feira. Sahiram, e ainda por alguns minutos vagou na atmosphera o aroma d'ellas. Argemiro poz-se a remexer nos seus papeis, pensando: --E haver quem se case assim, pescado, pescado como um peixe! Não seria mais digno que a Pedrosa viesse a mim e dissesse: minha filha ama-o desde a primeira vez que o viu; o senhor convem-me para genro; quer casar com ella? Elle mesmo se riu da idéa. Essa innocencia de costumes só passaria pela cabeça de um doido; e de mais pol-o-ia em embaraços. Que responderia elle á coitadinha? D'ahi, talvez que tudo fosse velleidade sua. Os seus cabellos começavam a estriar-se de branco e Sinhá deveria ter ideaes moços... Fôra com certeza illusão... Não lhe faltariam a ella, bonitinha e moça, bons partidos. Todavia... Apoderou-se d'elle uma doce tristeza. Não poderia amar nunca mais! Nunca mais? Fôra tamanho o encanto da sua Maria, que nenhuma outra mulher tivesse jámais o poder do o emocionar? Nenhuma! Ella perdurava no seu espirito como o conjunto de todas as perfeições. A sua figura esguia e branca, que a cabelleira aureolava de ouro pallido, plantara-se no seu coração como uma sentinella prompta a repellir á invasão de um sentimento amoroso, por mais leve e subtil que elle fosse. O continuo voltou, annunciando novo constituinte. Nas suas tócas os ratos faziam provisão de assumptos para os commentarios da noite, nos livres passeios das salas e corredores... e o novo consultor fornecer-lhe-ia materia para ironicas conclusões: era um velho que procurava salvaguardar os direitos da sua casa de jogo encapado em disfarces, com que espoliava incautos e viciosos. Argemiro indicou um collega mais habil no assumpto. O outro sahiu, elle poz-se a ler, á espera do Caldas para um negocio de valor. Razão tinham aquellas paredes para parecerem desgostosas e estarem enxovalhadas. Só a torpeza que rolava entre ellas! VI Desde que fôra entregue aos avós, era a primeira vez que Maria da Gloria dormia fóra de casa. A baroneza morria de impaciencia por vêl-a voltar; á tristeza da ausencia juntava-se um cuidado que a punha doente. Que teria succedido á sua netinha, longe do seu carinho e da sua vigilancia? Se ella chegasse com febre! Que idéa maldita a de tirarem a criança d'alli, para a metterem na cidade, por uma noite inteira! Mas a Maria chegou alegre. Saltou do carro sobraçando um grande embrulho de pasteis. A baroneza estendeu-lhe os braços, com os olhos luzindo de alegria. --Vem, meu amor! Eu estava com tantas saudades!! Coitadinha... --Coitadinha por que, vovó?! Eu estou boa. Gostei muito! --Ah, gostaste muito... Então não tiveste saudades minhas... --Tive, mas gostei. Tome estes pasteis, são muito bons. --Eu tambem tenho um doce guardado para ti. --Onde está? --Depois... escuta, conta-me o que fizeste. --Passeei com papae, toquei, brinquei... Já disse: gostei muito! --E... --E... e o que?! --A tal... a tal mulher, como a achaste? --D. Alice? É tão boa! sabe? hontem ella me ensinou a fazer crochet, e deu-me depois a agulha e o novello de lã! --Ora que prenda, _crochet_! Eu não aprecio isso. Ella é bonita ou feia? --É bonita! --Ah... Maria percebia bem que a avó não estava contente; mas continuava a açular o seu ciume, com maldade. --Tomaste banho hoje?... --Tomei. Foi D. Alice quem me penteou. Sabbado voltarei para lá, sim, vovó? --Já?! mal chegaste já pensas em voltar! --D. Alice pediu... --Ora, D. Alice! A baroneza retinha a neta a custo entre os braços. Maria tinha pressa de ir ver os coelhos e verificar se lhe tinham apanhado uma bella manga-rosa que ella trazia de olho havia dias... --Socega, menina! Olha para mim! --Estou com pressa... --Deixa-me tirar a faixa... como este laço vem mal dado... não has de ir com este vestido para o quintal! Que penteado! logo se vê que a tal mulher não tem geito para tratar de crianças! --Como não tem?! É tão delicada... --Dize-me cá: em que quarto está dormindo? --No quarto azul... --Da sala de jantar?! --Não. Em cima, aquelle do terracinho. --O gabinete de trabalho de Maria! Será possivel? Para uma empregada, um quarto tão bonito... E tu, onde dormiste? --Ao pé d'ella. --Na mesma cama?! --Não; mas no mesmo quarto... A baroneza suspirou. Ella não pudera conciliar o somno, em frente á cama vasia da neta! e a criança ingrata, ao lado da inimiga, nem pensara nella! O trabalho da baroneza seria agora afastar Maria quanto possivel da idéa de voltar á cidade. Disputal-a-ia á outra, a ferro e a fogo. A verdade é que Maria exagerava a sua sympathia por Alice, por perceber o desgosto da avó, assim como se comprazia em torturar Alice na ausencia da baroneza... No meio d'essa semana o Feliciano foi, a mandado de Argemiro, levar uma carta á chacara dos velhos. Gloria corria pela checara; o barão lia sob alpendre e a baroneza, a seu lado, serzia meias, socegadamente. O negro, todo emproado e bem vestido, entregou a carta á velha, que foi a mais prompta em estender a mão. --Então, Feliciano, como vae tudo por lá? O negro sorriu, meneou a cabeça e calou-se. --Que temos? indagou o barão. --Uma carta do Argemiro; pede-me que não me esqueça de mandar Maria no sabbado!... --Pois lá a levarei. --Não póde ser. Vou no domingo com ella á Tijuca; já está isso decidido. --Tijuca! que idéa é essa? --É uma idéa como outra qualquer! Estou sempre como os caracoes mettida em casa, e quando fallo em sahir lá vem tudo a baixo! --Estimo que saias; mas que diabo! vae noutro dia á Tijuca e deixa a pequena ir vêr o pae no sabbado, como se combinou. --Ha muitos sabbados; neste ella não poderá ir. Elle que venha jantar comnosco no domingo. Eu vou almoçar á Tijuca com a minha neta e voltarei ás quatro horas para casa. É uma promessa. --O Argemiro póde ficar sentido... --Que fique. Eu preciso mais da neta que elle da filha. Lá tem outras consolações... O Feliciano sorriu e approvou com a cabeça. O barão levantou-se e foi para o escriptorio responder ao genro. Antes mesmo que a baroneza perguntasse qualquer coisa, o Feliciano resmungou: --Aquella casa já não parece a mesma... se a senhora visse! Até me dá saudades de quem está no céu!... Pobre de quem morre! A baroneza suffocou o desejo de indagar do criado aquillo que mais queria, e recomeçou a trabalhar, limitando-se a offerecer: --Entre, Feliciano; vá lá dentro tomar uma chicara de café. --Obrigado; tomei _lunch_ lá em casa antes de sahir... apesar de que agora anda tudo muito contadinho... --Isso é bom. O tempo não está para estragos... --Sim, mas poupa-se de um lado para se gastar do outro; afinal, para o patrão as despezas talvez sejam maiores... D. Alice tem uma récua de parentes pobres... Para a gente ás vezes o pão não chega, entretanto não bate bicho-careta na porta que ella não dê do bom e do melhor do armario. Até vinho. --Até vinho! exclamou inconscientemente a baroneza; e logo, reprimindo se: a caridade é aconselhada por Deus... --Mas deve começar por casa... A senhora não diga nada ao patrão, porque elle agora é só: D. Alice na terra e Deus no ceu! --Ah... --A senhora sabe que eu sempre fui um empregado de confiança, que punha e dispunha de tudo como entendia; pois hoje não posso mover uma palha, que não me tomem satisfações. Ella, com o seu modo de santinha, faz tudo quanto lhe dá na cachóla! Eu não gosto de fallar, mas... ha certas coisas... hontem não affirmo, mas pareceu-me que D. Alice trazia no peito um alfinete... A baroneza pousou a costura nos joelhos e levantou os olhos para o negro. --A senhora não se lembra de um alfinete que Yayá sua filha gostava de usar e que representava uma andorinha de pedras? A velha corou até á raiz dos cabellos e abriu a bocca, como se lhe faltasse o ar. --Não diga nada ao patrão, pelo amor de Deus! eu não affirmo... Póde ser outro alfinete... sómente... --Cala-te!... É impossivel que as coisas chegassem até esse ponto!... Oh! minha filha! --A senhora perdôe... mas acho do meu dever... --Eu fallarei a Argemiro! --Pelo amor de Deus! a senhora me perde! Deixe eu adquirir certeza e depois lhe direi toda a verdade... juro por quem está no céu! Lá vem _seu_ barão... não diga nada a elle tambem! --Por que não? estás doido! Se não mentes, não deves temer coisa nenhuma! --É porque assim serei despedido e não poderei velar de perto pelo interesse de D. Gloria... A baroneza já não ouviu as razões do preto e gritou para o marido, num desabafo: --Sabes o que me disse o Feliciano?! Que a tal Alice se empavôa com as joias de nossa filha, joias que só podem ser usadas por Maria! Vê a que ponto chegou aquillo! E ainda querem levar a minha Gloria para lá! Nunca mais! O barão voltou-se furioso para o negro, que repetia afflicto as suas palavras:--não affirmo... parece-me... não digam nada, pelo amor de Deus! --Vá-se embora! E não me torne cá, seu patife! gritou-lhe o velho, fóra de si. Não queremos saber de nada, ouviu? De nada! Suma-se! A baroneza interveio a favor do rapaz, aconselhando-o a calar-se; entregando-lhe a resposta escripta pelo marido, accrescentou: --Gloria não iria, nem nesse domingo nem em nenhum outro! Passassem por lá sem ella! Era o que faltava! Foi exactamente nesse instante que a menina, percebendo o criado do pae, correu para elle com um ramo de rosas na mão. --Você já vae, Feliciano? --Já, sim senhora... --Bem; então leve estas rosas a D. Alice! A baroneza fez um gesto para impedir tal incumbencia; mas o barão travou-lhe do braço: --Deixa-a lá. --Minha pobre filha, exclamou a baroneza olhando para o céu; não sei como hei de defender-te sózinha! E os olhos encheram-se-lhe de pranto. --Lagrimas, ahi temos lagrimas! Mas, querida, repara que a nossa Gloria não offendeu em nada a memoria da mãe e lembra-te tambem de que, se fôr verdade o que pensas, o Argemiro é rapaz, não póde guardar a castidade de uma menina... Que mais queres? Amou a nossa filha, fêl-a feliz durante a vida e isso basta para lhe sermos muitissimo gratos. --Que favor! --Se ella vivesse, estou certo de que elle lhe seria fiel... mas d'ella já não resta senão a memoria. Os homens são vários, não exijas d'elles virtudes que não podem ter... Almas immaculadas só as das mães. --Para mim, Maria existe, sinto-a tão viva na minha saudade, que trahil-a me parece uma profanação! --Exactamente, porque és mãe. --Não achas tambem indigno que elle dê as joias da mulher a uma rapariga de maus costumes e que metteu em casa, precisamente na casa onde viveu a outra e que está ainda toda cheia d'ella? --Parece-te a ti. Elle, o viuvo, deve ter sentido o isolamento d'aquella casa, onde por nove annos viveu sózinho! Nove annos não são nove dias. Outro fosse elle... De mais a mais no Rio de Janeiro, que é a terra da tentação! --Defendes o Argemiro! --Tu havias de comprehendel-o e dar-lhe razão se... --Se eu fosse homem... --Ou se não fosses mãe de Maria... --Maria! Acredita, ella renasce todos os dias, sinto muitas vezes o peso d'ella sobre os meus joelhos, ou nos meus braços, como quando a adormecia... Vejo-a desde pequenina, e de quando andava por ahi correndo com o seu bibe branco e o cabello solto, lembras-te? Tão linda! até depois, já mocinha... e sempre, sempre, tenho-a commigo, só commigo! Ás vezes sinto nos dedos a seda dos seus cabellos tão finos e no rosto a doçura dos seus beijos... Sei que é illusão, mas quem nos diz que no mundo não seja tudo illusão? A alma perfeita e amorosa de Maria não está longe de nós, mesmo que esteja no céu. É a minha convicção. --Uma alma perfeita perdôa todas as offensas. --Mas soffre. Imagina a dôr, se do outro mundo ella vê o marido pregar amorosamente as suas joias ao peito de outra mulher, e que mulher, uma mercenaria! Maria foi ciumenta... Argemiro foi o seu unico amor! --Está bem; mas não acredites que elle tenha dado as joias da mulher á outra... --O Feliciano viu... --O Feliciano é um despeitado. --Quando te parece, és cego e és surdo! --Todos devem sêl-o em certas occasiões! --A tua opinião é talvez que me cale! --Que te cales e que mandes a nossa Gloria todos os sabbados visitar o pae. Elle assim o quer e manda, faça-se a sua vontade. --Isso nunca! Seria uma desmoralisação! O meu dever é velar por minha neta! --Argemiro é um homem sério e muito amigo da filha. --E nós? --Nós só somos responsaveis por ella para com o pae. --E perante Deus! --Deus... A proposito de Deus: pedi na carta ao Argemiro que trouxesse no domingo o Assumpção. --Padre Assumpção... que idéa! Se lhe fallassemos? --A que respeito? --A respeito das joias... Elle aconselhará o Argemiro e indagará de tudo... Se não estiver tambem fanatisado! O barão riu-se. --Faze o que quizeres; eu lavo d'ahi as minhas mãos. A baroneza, resolvida a agir, sentiu-se subitamente reanimada. Ella iria até ao inferno pela sua idéa. Defenderia, custasse o que custasse, a sua morta! Nessa mesma tarde telegraphou ao padre chamando-o. VII O domingo amanhecera de chuva; um bom dia para preguiça. Argemiro escreveu aos velhos desculpando-se por não ir vel-os e deliberou consagrar essa manhã aos seus papeis em desordem. Fôra uma providencia Gloria não ter vindo. Com tão feio dia... A verdade, que elle sentia, que o penetrava por todos os póros, era que a sua casa nunca lhe soubera tão bem. Havia um conforto novo, um aroma de malva ou de pomar florido, melhor luz, melhor ar, por aquelles compartimentos que o Feliciano, quando sózinho, enchia do cheiro de cigarros e de charutos. Sempre era um fumante! Agora não; percebia-se que o ar d'aquelles quartos tinha sido renovado e o ambiente purificado pelas roseiras abundantes do jardim. Argemiro sentiu nessa manhã, pela primeira vez, uma certa curiosidade de ver Alice; mas não procurou pretexto para isso, certo de que, estando muitas horas em casa, forçosamente esbarraria com ella por acaso. Deixava pois, e de bom grado, a esse senhor a responsabilidade do encontro. Dahi, a idéa da moça trazia-lhe á lembrança umas pobres botinas cambadas... O seu gabinete reluzia de asseio, cheirava bem, não precisava de mais nada. Começou tranquillamente a leitura dos jornaes. Estava em meio de um artigo quando o padre Assumpção bateu á porta. --Então! preguiçoso! --Entra. Como vês! Tens razão, preguiçoso! E nunca tanto como agora... absolve-me e senta-te. --Cá estou... bravo, como esta cadeira está bonita!... --Que cadeira? homem, é verdade... has de crêr? Ainda não tinha reparado... agora me lembro, ella tinha o estofo do espaldar esgarçado... Este lirio seria pintado por D. Alice? --Se t'o não pôz na conta do estofador... --Posso verificar já. Hontem á noite recebi uma caderneta com a nota das despezas do mez e... pasma, saldo a meu favor! Eu não dizia que o Feliciano era um abysmo? Que differença! basta olhar. Tu, que és mais observador, repara: está tudo luminoso, tudo limpido, tudo bem arranjadinho... hein? Ha outra atmosphera nesta casa; estou melhor aqui do que em parte nenhuma, porque em tudo me parece haver o proposito de me ser agradavel. Abre essa gaveta, e verás como está bem arranjadinha a minha roupa branca. Um primor! E o que me dilicia, é sentir a alma d'esta creatura, que aqui tenho embaixo do meu tecto, sem que nunca os meus olhos a vejam nem de relance... Ella esconde-se, ao mesmo tempo que se espalha pela casa toda. É a mulher-violeta, positivamente, não ha outra comparação! Esta será estafada em litteratura, mas na vida pratica talvez nunca tivesse tão boa applicação... A Gloria, que é tão rebelde, já aprendeu com ella alguma coisa... Faz _crochet_! É uma coisa abominavel, o _crochet_; mas, emfim, é uma prenda... Eu deveria ter tomado esta resolução ha mais tempo... Talvez não tivesse vindo esta mulher... Outra seria assim? --Não! Hontem, por exemplo, entrei em casa uma hora antes da do costume; atravessava o jardim, quando senti accordes no piano; mas accordes bem harmonicos, vibrados por dedos disciplinados, conscientes. Ouvindo-me tocar a campainha, ella fugiu da sala; e quando eu entrei, um pouco curioso, confesso-te, encontrei o piano aberto, mas a sala deserta... Logo, esta mulher é uma mulher educada: desenha, ahi está esse lirio, que o prova; sabe musica e escreve com firme calligraphia. Gloria tem aqui uma excellente companheira e a minha casa uma alma intelligente, que lhe faltava desde a morte de Maria, que aliás não era tão prendada... Emfim, emquanto eu me visto, examina essa caderneta, acolá, naquella mesa... --Para que, meu velho? Só a ti compete isso. Eu não entendo de cifras. Mesmo de almas, apesar de me ter dedicado a ellas, cada vez entendo menos... Estou um ignorantão. --Almoças commigo? Almoças, sim, e vaes vêr o que é uma mesa bem posta; sempre com flôres e com fructas. Esta mulher deve ter sido criada com luxo. Noto que ella gosta de rendas... Emfim, estou contente! --Lamento. --Hein? --Lamento. --Estás doido! --Não. --Explica-te. Ah! já sei! Pensas talvez que estou apaixonado?! Quem me dera, Assumpção, que assim fosse! Não sei que filtro mysterioso tinha a minha pobre Maria, que não me deixa amar mais ninguem!... Se eu fosse espirita explicaria isso bem, dizendo-te que a sinto á roda de mim, e que ella se interpõe mesmo entre os meus mais frivolos beijos! Mas sabes que não sou espirita, nem religioso. O que me apraz, nesta situação, é sentir em roda de mim a influencia de uma mulher moça, sem comtudo a vêr nunca. Gosto do silencio e da ordem e a sua presença me perturbaria; assim, ella preside á minha casa, sendo para mim como um ser immaterial, que não me impõe a maçada dos cumprimentos, e eu vivo rodeado de solicitudes, podendo conservar a minha impassibilidade. Não acredites que me seja possivel amar outra mulher, como amei a minha... O ciume d'ella creou tantos fantasmas que eu mesmo acabei por temel-os! --Pois foi para espantar um d'esses fantasmas, que tua sogra me chamou hontem. Jantei lá em cima. --Sim?! E Gloria? como a achaste? --Perfeita, isto é, perfeita quanto ao physico. Parece uma maçã madura. Até a pelle lhe cheira a fructa! Mas escuta: a baroneza, como toda a gente, menos eu, desconfia que tens pela tua governante uma adoração menos espiritual. --Já me tardava, o ciume! Maria vive naquelle coração como no meu! --Folgo que a comprehendas e a desculpes... que tencionas fazer? --Nada. Affirma-lhe tu que não existe ligação absolutamente entre essa pobre moça (que conheces muito melhor do que eu) e o viuvo da filha... --Já affirmei. --E então? --Não se contentou... --Achas então que devo despedir esta senhora, que me torna a vida agradavel, facil e boa, só por um capricho da minha sogra? --Acho. --Ora! isso é levar muito longe a minha affeição filial! --É uma medida de prudencia... --Mas se eu já te disse que estamos na mesma casa e é como se morassemos a cem leguas um do outro! De que côr são os seus olhos? nem sei. Dize a minha sogra que farei tudo por ella, menos isso... Com o governo da minha casa ninguem tem nada que vêr. Nada! Lê a caderneta, que é melhor. Verifica como tudo isso está em ordem, direitinho... Nem um guarda-livros! --Não digo que não. Amanhã terei de ir fallar com tua sogra, a respeito de um logar que arranjei no Asylo, para uma criança sua protegida. Desejaria levar-te em minha companhia. Ha algum tempo que não appareces por lá. Ella adora-te. Farás bem em socegal-a... Por hoje basta sobre o assumpto. És ainda moço, Argemiro, e o tempo fará o milagre que desejas... Temos outra conversa de interesse: Terás porventura entre as joias de tua mulher algum alfinetinho, ou broche, não sei bem como se chama, que possas levar á nossa Gloria? Ella deu bem as suas lições, segundo me disse o avô, e seria justo recompensal-a. Para incitamento, prometti-lhe que lhe levarias uma lembrança que tivesse pertencido á mãe... Sobretudo, é naquelle coração que se deve cultivar a adoração _d'ella_... Contraria-te a idéa? --Não será cedo para dar joias á minha filha? --Conforme a joia; vamos vêr... onde as tens? --No cofre. Espera... ou antes, vem commigo. Entraram para um gabinete contiguo e emquanto Argemiro escolhia a chave do cofre, Assumpção estremeceu á idéa de poderem verificar um roubo... Feliciano vira no peito de Alice um alfinete de Maria... a baroneza o dissera. Logo, se as joias faltassem... Era uma andorinha de pedras... Senhor! uma minuscula andorinha de pedras teria o poder de fazer tremer um homem?! A chave rangeu na porta do cofre e Argemiro tirou de dentro uma caixa de setim branco, amarellecido, que levou para cima da mesa. --Ha quanto tempo não mexo nisto! Faz-me saudades... Escolhe tu... --Não... escolheremos juntos... Argemiro abriu a caixa e logo Assumpção suspirou de allivio vendo reluzir as pedrarias dos anneis e das pulseiras. --Ella tinha muitas joias... gostava de brilhantes... e a Gloria, por emquanto, ainda não póde usar brilhantes... disse Argemiro. Collares, broches e pulseiras iam sendo retirados do cofre, com a maior attenção, num silencio commovido. Quantas vezes a dona lhes sorrira e os deslumbrára no meio d'aquelles adereços? Não brilhava tanto uma estrella, como os seus cabellos de ouro coroados por aquelle diadema... os anneis faziam-lhes saudades dos seus dedinhos pallidos e meigos. De repente, Assumpção gritou com jubilo: --Este! --Este? É tambem de brilhantes... --São uns diamantinhos modestos. E depois representa uma avezinha innocente, symbolo da primavera... leva-lhe esta andorinha, e colloca-a tu mesmo no peito de tua filha, em nome de sua mãe... --Mas que tens tu? estás tremulo, com os olhos razos d'agua! --Abraça-me, meu velho. Tambem eu tive saudades de Maria... Que queres? --Eras o seu confessor... e agora, com franqueza, dize-me: um homem que foi casado com um anjo d'aquelles, póde jámais pensar em outra mulher? --Póde; e pensarás e has de ser feliz. Quem sabe? talvez mais! Argemiro olhava para o padre, com certo espanto. --Agora fecha a caixa e apressa a tua _toillete_. Lembra-te que estou em jejum e com fome... --Vae descendo... Eu irei ter comtigo num minuto. Momentos depois sentavam-se á mesa. Alice armára uma cestinha de flôres e fructos, entrelaçando-as com umas pontas de renda. Argemiro apontou-as com o dedo: --Lembras-te do que te disse lá em cima? Gostos finos... rendas... flôres... Padre Assumpção sorriu, acenou que sim, desdobrou o seu guardanapo e começou: --Um pouco de politica: ouvi dizer que o... Um criado interrompeu a phrase, servindo os _hors d'œuvre_; mas logo depois a palestra enveredou afoitamente pelos labyrinthos da Camara e do Senado. VIII Provada a intriga do Feliciano, recomeçaram as visitas de Gloria ás Laranjeiras. A baroneza exigira segredo do que se passara, desejosa de que Argemiro conservasse em casa o criado, que já o fôra da filha. De resto, ella estava intimamente convencida de que o negro não mentira, mas se enganara. Convinha-lhe tel-o de guarda naquelle lar em ruinas, como se á sua voz de alarme ella pudesse correr e ainda salvar alguma coisa! A verdade, que percebia sem a confessar, é que a neta lucrava muito na conveniencia de Alice. Ella perdia aos poucos aquelles modos aggressivos de criança malcriada, começava a interessar-se pela vida e a abrir os livros com mais frequencia. E já não lhe bastavam as visitas curtas, do sabbado para o domingo; desejava extendel-as agora até ás segundas-feiras, cujas manhãs aproveitaria em passeios com a governante do pae. A Baroneza protestou indignada: --Mais essa! andar uma menina de bôa familia, collada ás saias encardidas de uma mulher suspeita, por essas ruas da cidade! Não faltava mais nada... Padre Assumpção interveio: --Consinta na primeira experiencia. D. Alice parece-me severa e digna de toda a confiança. Confesso-lhe que sinto uma certa curiosidade pela direcção que ella vae dando aos gostos da nossa Maria... Prometto velar pela sua neta. --Ah! Padre Assumpção, a Republica estragou nossa terra! Agora qualquer creatura parece digna de toda a confiança... Quem nos dirá quaes as tenções d'aquella creatura? Por mim tenho medo, apesar da sua vigilancia... Gloria zangou-se e fugia, aos repellões, dos braços da avó. Não haveria remedio senão ceder á vontade da criança, e a Baroneza cedeu, molestada, enfraquecida. Na primeira segunda-feira o padre Assumpção recebeu muito cedo uma cartinha da Baroneza: «Gloria está nas Laranjeiras; é hoje o dia determinado para o seu passeio. Confio-a á sua guarda; olhe por ella.--_Luiza_». Assumpção telegraphou a Alice. Esperal-a-ia no largo do Machado, ás tres horas. Logo que Maria deparou com o seu grande amigo sentado sózinho em frente á estatua, correu alegremente para elle e afogueada, risonha, abraçou-o com força. Elle mal teve tempo de interrogal-a e já ella, revelando uma piedade até então occulta no mais fundo do seu peito, lhe contou o que vira, toda enthusiasmada. Vinha do Instituto dos Surdos-mudos. --Ah, padre Assumpção, eu não sabia que havia gente assim, fechada dentro de si mesma, como me explicou D. Alice. Que desgraçados seriam se não houvesse aquella casa tão boa, e onde elles conseguem aprender tudo, como os homens perfeitos! Como a gente tem vontade de ser boa, quando vê coisas d'essas! E tremula, loquaz, desatou a descrever as aulas, as officinas, os dormitorios do estabelecimento, e os grupos dos alumnos, risonhos, limpos, socegados... Padre Assumpção voltou-se para Alice, que, sentada a seu lado, riscava a areia do jardim com a ponteira do chapeu de sol. --A senhora já foi preceptora? --Nunca... --Não podias ter empregado melhor o teu dia, minha Gloria; agradece a D. Alice ter-te feito conhecer infelizes, cuja existencia, como disséste, desconhecias... e que te despertaram tão bons desejos... Agora, vamo-nos embora, que tua avó deve estar impaciente! Maria beijou Alice na bocca, e ainda, depois, voltou-se da rua para lhe dizer adeus com a mão. Que differença entre esta despedida e o seu primeiro encontro... Padre Assumpção ia calado, meditativo. Que especie singular de mulher era aquella, que, com tão alto senso de moral, se sujeitava ao papel de governante da casa de um viuvo só? Humilhada em sua posição, maltratada por aquella menina orgulhosa, ella ia chamando habilidosamente a sua sympathia para os pobres e os infelizes. Seria por despeito ou por outro motivo mais maternal e em que a sua personalidade offendida não tomasse parte? Fosse qual fosse a razão, a verdade é que aquella simples visita a um instituto do seu bairro valera por todos os sermões com que elle procurara abrandar o coração altivo de Gloria. O tacto subtil d'aquella mulher começava a encantal-o; mas vinha-lhe medo de suggerir ao amigo essa impressão. Argemiro estava com o coração repousado, facil lhe seria o apaixonar-se e o padre não se esqueceria, cem annos que vivesse, das ultimas palavas trocadas por elle e a mulher moribunda: --Jura que te não tornarás a casar! --Juro. --Jura por Deus! --Juro pelo teu amor, juro por Deus! Fragilidade do coração humano, porque has de ser agrilhoada por palavras de ferro que se não podem partir?! Toda a scena da morte de Maria se reproduzia da memoria do padre, alli chamado para a ultima bençam. O som da voz d'ella ficara-lhe para sempre no ouvido, como nos olhos a sua imagem pallida... E não fôra elle só a testemunha d'aquella terrivel promessa: a mãe e o pae da moribunda ouviram com elle a voz de Argemiro, no inquebrantavel juramento! As azas do tempo têem forte envergadura; não cançam de voar, mas levam ás vezes comsigo pennas que se não mudam, embora fiquem disfarçadas entre outras que vão nascendo... Assumpção soffria por não encontrar remedio para os males futuros, que via proximos. O seu papel estava feito por si, tinha de acceital-o, fazendo, como religioso, cumprir-se um juramento dito em nome de Deus. Mas o amigo? mas o homem? mas aquella pobre mulher sózinha? Deveria consentir que a guerreassem como a uma inimiga? Elle não era cego nem era surdo. A obra de Alice era de paz e de beneficio. Fôra ella que modificara as impetuosidades d'aquella criança, cuja vontade omnipotente dobrava tudo e todos a seu bel-prazer. Seria isso um calculo, uma impostura? Especularia ella, servindo-se da filha para entrar no dominio do pae? Afinal, que se sabia d'ella? Que pertencia a uma boa familia decahida da fortuna e que passava por uma moça honesta... Em boas familias quantos maus germens existem e quantas mulheres honestas maquinam tramas infernaes! O confissionario ensinara-lhe que o bem e o mal nascem da mesma fonte sempre inconstante e fertil... A familia... Seria certo o que a Baroneza lhe insinuara? Dissera que uma récua de famintos ia tirar aos criados de Argemiro os pedaços que lhes competiam... A que horas? Como? Deveria tambem indagar d'isso?! Por que não, se esse era um meio de conhecer a mulher com quem talvez tivesse de luctar? E uma triste sympathia attrahia-o logo para a pobre governante, sempre bem arranjadinha nos seus vestidos surrados, sempre sorridente e sempre simples. --O senhor tambem parece mudo! disse Maria, rindo. --Estava pensando cá numas coisas... --Eu tambem. --Em que pensavas? --Em D. Alice. --Ah... e quaes eram as tuas conclusões? --Que é muito boa moça. --A razão deve estar comtigo. --Eu queria que vovó gostasse d'ella... --Ha de gostar. --Hum... --Mais tarde; dá tempo ao tempo. --Por que é que papae não quer vêr D. Alice? --Oh, filha, é... é porque teu pae... receia avivar as saudades de tua mãe... Já me tardava esta pergunta, disse elle de si para si. --Não entendo... --Tua mãe não era a dona da casa? --Era. --D. Alice não está desempenhando o papel de dona da casa? --Ah, mas não é mulher d'elle! --Ah!... --Nem come á mesa, nem apparece ás visitas... é, afinal, uma especie de criada! --Não. Ella governa os criados. É differente... --Tenho pena d'ella. Agora tenho pena d'ella... --Agora? --Antes não tinha... tinha raiva. --Mas... porque? ella queixou-se? --Não... não sei porque! mas acho aquillo exquisito! Mal sente os passos de papae, zás! foge! chega a ser engraçado! Realmente é uma situação de comedia, pensou Assumpção, rindo involuntariamente com Maria. E a situação prolongava-se. Argemiro, cada vez mais caseiro, não lobrigava nem a pontinha da saia de Alice, a quem, de resto, resolvera definitiva e absolutamente evitar, contente por sentir a influencia d'ella não só no seu lar como na sua filha. Maria aproveitava sempre as segundas-feiras em passeios, uma vez ao Jardim Botanico, outras aos asylos ou a novos bairros e differentes jardins, trazendo sempre impressões bem definidas e em que se percebia uma direcção cuidadosa e intelligente. A pouco e pouco a criança ia-se tornando mais observadora e mais piedosa. O padre Assumpção, que ia buscal-a sempre no ponto indicado por Alice, sentia arraigar-se-lhe a idéa de que esses passeios através da cidade desenvolviam melhor o espirito e o coração de Maria do que o mais volumoso livro de moral. Se vinha de visitar um asylo de velhos, com que meiguice Gloria falava dos seus cabellos brancos, dos seus passos tremulos e do seu triste sorriso desdentado! Se vinha da Tijuca, quantas exclamações de enthusiasmo para as bellas arvores poderosas e as quédas de agua da cascata e as lindas flôres sylvestres! Se vinha do mar, que de indagações curiosas sobre os navios e lanchas, e quantos elogios para as largas paizagens azues, varridas de ar fresco! A vida dos marinheiros, com os seus perigos, a dos pescadores com os seus atrevimentos, attrahiam a sua sympathia e a sua piedade. Ia vendo que o numero dos sacrificados é muito maior no mundo do que o dos felizes e assim se tornava menos selvagem e mais humana. Ora, o padre Assumpção sabia bem que tudo aquillo era reflexo e suggestão de Alice. Maria era intelligente, e as suas qualidades moraes, ainda informes, propendiam mais para a maldade que para o bem. Aquella metamorphose era, pois, toda, obra da moça, que parecia acolher a companhia da criança como um presente cahido do ceu... Realmente, ella estava tão só! O ciume da baroneza augmentava a cada novo triumpho de Alice, que lhe disputava a neta com furor. Soffria calada, não ousando queixar-se nem ao marido nem ao padre Assumpção, que ambos glorificavam com enthusiasmo a obra da moça. Fechada na sua chacara, á sombra das mais lindas mangueiras dos suburbios, ella maldizia a hora em que o genro chamara para casa aquella aventureira, cujo proposito percebia ás leguas. O Feliciano não voltára, e ella tinha pena... só elle lhe poderia dizer toda a verdade, por não estar enfeitiçado pela bruxa e por conhecel-a melhor que os outros, visto estar sempre na sua convivencia... Sua tenção estava feita. Havia de cumprir-se. Quando o negro, por acaso, apparecesse alli, ella puxar-lhe-hia pela lingua, de modo que ninguem mais o ouvisse senão ella... ah! e então, nada ficaria em meio! Com as idas de Maria á cidade rareavam as visitas de Argemiro á chácara; esse desgosto vinculava as suspeitas da baroneza; mas quando o genro se lembrava de ir vêl-a, achava geito de falar na filha a todo o instante, numa obstinação dolorosa e impertinente. --Você tem ido visitar o tumulo de Maria? Mandou reproduzir os retratos de Maria? e assim o nome da filha sahia-lhe constantemente da bocca, como a querer impôl-o á lembrança de todos. Os retratos de Maria, desde o de collo, de quatro mezes, até ao ultimo, em que o seu perfil delicado se voltava para o ceu, como a interrogal-o, alinhavam-se sobre o _guéridon_, sobre o piano, na sala de visitas, na saleta de trabalho e na sala de jantar, repetindo-se por toda a casa, para que nunca os olhos maternos deixassem de o encontrar... Ella vivia assim perpetuamente arrastada pela saudade, nunca conformada, e creadora da illusão! Argemiro identificara-se tanto com a sogra nesse sentimento, que para elle era como se Maria estivesse longe, muito longe, mas estivesse, e houvesse de voltar um dia. Era uma certeza tida pelo coração e não compartilhada pelo cerebro, mas que, sendo terrivel, não deixava de o consolar... Por seu lado, a baroneza temia vêl-o fugir para outras adorações, e não cessava de lhe lembrar a triste supplica da filha. Agora, porém, não se tratava de juramento; Argemiro não o violaria por amar Alice, dando lhe um lugar deixado vasio a seu lado. Esta solução, que ella não previra, enchia-a de dôr. Afinal elle não tinha outra esposa, mas tinha outra mulher! Por mais que dissessem, a baroneza não acreditava que dois entes moços, vivendo sempre na mesma casa, não se vissem nunca; e desesperava-a a idéa de atirar Maria todas as semanas para aquelle poço de hypocrisia e de immoralidade! IX A Pedrosa empenhava-se na conquista de Argemiro. Não contente de o convidar com insistencia, arrebanhava-lhe os amigos para os seus jantares das sextas-feiras, em que a sedução rescendia até nos molhos do peixe. Adolpho Caldas, que se gabava aos intimos de fazer os relatorios do ministro, traduzindo para portuguez castiço a linguagem quebradiça do homem de Estado, não faltava nunca a essas reuniões; e o deputado Telles, governista, assistia aos banquetes com o desassombro de quem concorria poderosamente para a felicidade e o prestigio d'aquella casa. Argemiro, o mais solicitado, era incerto. Só o padre Assumpção se esquivava sempre a essas honrarias, allegando que o seu sacerdocio o afastava de todos os gosos profanos. Para se aproximar tambem d'este amigo, a Pedrosa não lhe faltava ás suas missas das quartas-feiras, allegando devoção particular a S. José, patrono do marido e offerecendo pela mão da filha esmolas gordas para os seus pobres. A esmola vinda d'aqui, d'alli ou d'acolá, mata da mesma maneira a fome. É dinheiro. Padre Assumpção agradecia sinceramente. S. José que valesse áquellas almas interesseiras, que outras menos dignas iam á sombra do seu manto peccar na egreja, sem que do seu peccado resultasse algum bem para os necessitados... Que ambicionava afinal a Pedrosa? casar a filha com um homem de bem. Expôr a menina áquelle desfrute, não era por certo acção digna de uma mulher criteriosa; mas a boa justiça encontraria para ella certa indulgencia... Desgostavam-n'o mais as outras, que á sombra dos altares iam falar de amor, alli no interior sagrado da sua querida Matriz da Gloria! Pensaria por exemplo a Eugenia Duarte, que elle, padre, via com bons olhos a sua assiduidade na egreja? Fôra sua confessada, sabia-a casada, com filhos, um lar precisado da sua presença e do seu carinho... E lamentava os filhos d'essa mãe, abandonados todos os dias, á hora exactamente de saltar do leito e da bençam maternal... Outra, cuja presença o inquietava alli, era a Joaquininha Lobo, sempre com os pulsos cheios de rosarios, sempre a dobrar-se em profundas reverencias deante das imagens dos santos. Tambem essa fôra sua confessada, e debandara como as outras, affligidas pelos seus conselhos e pelas suas admoestações... O marido d'esta vivia em viagens, como official de marinha; ella rabeava pelas egrejas, dando entrevistas entre padre-nossos, sempre envolvida em grandes obras de beneficencia. Numa quarta-feira, sahia o padre Assumpção de dizer a sua missa, quando foi abordado no adro pela Pedrosa e a Sinhá, que o aguardavam com a competente esmola. Em baixo, junto aos degráus, esperava-as o _coupé_. O dia estava magnifico. --Reverendissimo! --Minhas senhoras... --Acabamos de receber a sua bençam e viemos esperal-o para darmos esta esmolinha aos seus pobres... --Meus ou dos outros, todos os pobres me merecem a mesma consideração. VV. Ex.ᵃs devem têl-os tambem... --Repelle então o nosso offerecimento?!--perguntou a Pedrosa desapontada. --Não tenho esse direito. Sómente, se me permittirem... eu ensinarei a uma das minhas velhinhas o caminho da sua porta, e a esmola será então, dada directamente, mais agradavel a ambas... --Isso não obsta... darei outra esmola á sua velhinha!... A Pedrosa continuava de mão estendida; e como o padre não a acceitasse logo, ella disse com a sua costumada vivacidade: --O sr. padre Assumpção desconfia de nós!... não crê por certo na sinceridade da nossa sympathia. Tem sempre reluctancia em acceitar as nossas esmolas! --Engana-se, minha senhora, engana-se! Não posso recusar o que não é para mim!... Todavia, desculpem-me a teimosia, a pessoa a quem eu destinaria esse dinheiro procural-as-á amanhã. Posso morrer de um momento para o outro... é bom que ella conheça as suas bemfeitoras... --Morrer! Quem fala nisso, ainda tão moço! Elle sorriu com ironia, sem responder. --Diga-me, que fim levou o nosso amigo Argemiro? Não ha quem o veja!... Não sei quem me disse têl-o visto ha dias com a filha... ella ainda mora com a avó? --Sim, minha senhora... --Então elle vive sózinho... absolutamente sózinho?... --Sózinho. --Que barbaridade!... Aquella ovelha está tresmalhada do seu rebanho... não lhe parece, padre Assumpção? --Ao contrario, Argemiro consagrando-se á saudade da sua mulher, está bem escudado contra os perigos do mundo... Mas, minhas senhoras, perdôem-me VV. Ex.ᵃs estar a entretel-as aqui, com este sol! --Ao contrario, eu... Mas o padre apressou-se no cumprimento e as duas senhoras não insistiram na conversa, percebendo que elle tinha uma preoccupação qualquer. Ficaram as duas ainda alguns segundos no alto da escada, vendo a longa figura secca e angulosa do padre atravessando, a grandes pernadas, o jardim. --É um homem difficil de conquistar... já não sei quantas esmolas lhe temos dado, não sei quantos convites lhe temos feito... parece antipathisar comnosco... --Se eu fosse a senhora não lhe dava mais nada, nem o tornaria a convidar para ir lá a casa. Por ser padre não deve ser grosseiro... --É o melhor amigo do Argemiro... Comprehendes que o não convido só pelos seus bellos olhos. --Ah... A Pedrosa olhou para a filha com certo espanto. --Mamãe espera mais alguem?! A Pedrosa, por unica resposta, começou a descer a escada, e ao entrar no _coupé_ gritou para o cocheiro: --Estação do Corcovado! Sinhá, sentando-se a seu lado, indagou curiosamente: --Vamos ao Corcovado! a esta hora! fazer o que? --Almoçar... --Sózinhas? E papae? --Teu pae não almoça hoje em casa. --Mas elle sabe? --Ha de saber, quando eu lhe disser. --E se elle não gostar?... --Tolinha... vejo que não tenho outro remedio senão ir-te dizendo já o que adiava para mais tarde. Não sahiste a mim na perspicacia... Sinhá olhava para a mãe com uma linda expressão de estupidez. --A razão por que vamos almoçar ás Paineiras não pôde ser desagradavel a teu pae. É esta: Está lá em cima no hotel o encarregado dos negocios da Inglaterra. Fui-lhe apresentada ha dias rapidamente: convém fazer-me lembrada... Aquelle homem póde ser muito util a teu pae. Apparecendo lá, como por acaso, elle forçosamente virá cumprimentar-nos. Almoçaremos talvez á mesma mesa e terei ensejo de lhe repetir o offerecimento de nossa casa. É uma relação util. A vida, minha filha, é como uma caixa vasia que os soffregos e os tolos enchem com tudo que topam, e os atilados só com coisas escolhidas. Se não fosse a minha tactica, pensas que teu pae teria alcançado as posições que tem tido?! --Julguei que fossem só os seus merecimentos que... --Tontinha! Só pelos merecimentos, sem um pouco de manha, ninguem faz nada neste mundo!... --Mas, sendo papae ministro a utilidade das relações é toda para o tal inglez! --Não, filha; o homem é consideradissimo no alto commercio e só por iniciativa d'elle podem advir para teu pae grandes sympathias... e choverem-lhe manifestações de apreço, que são sempre de um optimo effeito. Um banquete, por exemplo, offerecido pelo alto commercio a um ministro, pensas que não lhe accrescenta a importancia? É preciso ter faro para se perceber bem isso.... Catando-se seixinhos podem-se fazer castellos... Este é um proverbio inventado por mim e de que te não deves esquecer... --Mamãe não receia... --Quem tem medo não vae á guerra. E depois, medo de que? --Que percebam... --Faço tudo com muita diplomacia; sei disfarçar a minha vontade, fazel-a triumphar sem que ninguem a perceba. É um dom peculiar e que eu desejo transmittir-te. Mas acho-te muito frouxa; és ainda muito innocente, muito ingenua. Lá para deante, quando tiveres os teus trinta annos, me comprehenderás. Apesar de que eu, desde que me conheço sou assim... atilada e corajosa. Quando me casei, teu pae não passava de um advogado pobre... Quem o lançou na politica? Fui eu. Quem trabalhou para a sua eleição de deputado e que maior numero de votos alcançou? Fui eu. Quem o levou pela primeira vez ao paço de Suas Magestades? Fui eu, e tinha apenas vinte e dois annos!... Quem, depois de proclamada a Republica, o persuadiu de adherir e lhe arranjou uma cadeira no Senado? Eu. Quem o fez ministro agora? Eu. Eu sempre, servindo-me d'estas estrategias, aproveitando todas as occasiões e todas as sympathias, obsequiando um dia para insinuar no outro uma protecção que parecesse vir espontaneamente; realçando os méritos de teu pae, quer de espirito quer de coração, seguindo-o como um cão de caça segue o caçador, através de todos os perigos, corajosamente. --Se papae não tivesse qualidades extraordinarias, a senhora, por mais que fizesse, nada alcançaria!... interrompeu Sinhá, defendendo os brios paternos. --Ah! eu não havia de ser tão tola que me casasse com um insignificante. Casei por amor, mas tambem por vêr em teu pae um homem de altas tendencias. As mulheres são mais ambiciosas e mais activas. Homem que casar com mulher accommodada, está perdido. É outra maxima das minhas. Toma nota. --Homem que se casar com mulher accommodada... repetia Sinhá, quando a mãe continuou: --Já minha avó era assim. Casou todas as filhas com quem muito bem quiz. Os homens com herdeiras ricas, as filhas com senadores e conselheiros... --Com homens velhos... --Homens de posição. Que vale a mocidade sem dinheiro e sem brilho? --Oh! mamãe... --Não vale nada! --Papae era moço... --Nem tanto... Em todo o caso, maridos querem-se como os fructos: maduros. Teu pae era de familia distincta, excellentemente relacionado; percebi logo muito bem que seria feliz. E effectivamente elle tem sabido deixar-se levar. --Por quem?! --Que pergunta! Pelas circumstancias... e por mim! Olha que saber levar alguem a um destino desejado, sem que nem mesmo esse alguem perceba que vae sendo impellido por mãos alheias... é uma grande arte! É a minha. Mas, credo! em que disparada nos leva o João!... isto cança os animaes! --Leva-nos sem arte... disse a Sinhá, sorrindo. Ella tinha agora a fronte velada por uma sombra de tristeza. O vestido escuro, abotoado até ao queixo, fazia-lhe resaltar a pallidez do rosto emoldurado por dois ondeados bandós pretos. --A casa do Argemiro não deve estar longe... Ahi está o Argemiro! já não é muito moço... os cabellos começam a pintar. Entretanto, conheces algum rapaz mais distincto?! Sinhá não respondeu. A mãe, depois de ter esperado um pouco, continuou: --Elle fará a tua felicidade. É dos taes que precisam de ser estimulados... Tendo tantos recursos, não se serve de nenhum! Nem deputado é. --A eterna mania da politica... --Não ha nenhuma mais patriotica. Mas advirto-te que não deves alcunhar de _manias_ as minhas opiniões... --Mamãe desculpe... --Olha! a casa d'elle é aquella... é bonita... é própria... repara! Será tua... --Já reparei, mamãe!... --O unico inconveniente é a filha... --E elle não gostar de mim! accrescentou Sinhá. --Queiras tu! Para mim isso seria até um estimulo. Sempre gostei de vencer difficuldades... --Eu sou muito mais fraca... --Deixa isso por minha conta... --Mamãe!... Sinhá fez-se vermelha e não conseguiu dizer mais nada. Aquella palavra dita em tom de supplica parecia tel-a engasgado. Estava com os olhos cheios de agua. A Pedrosa continuou: --Trabalharei para a tua felicidade, como tenho trabalhado para a felicidade de teu pae. Digo-te isto só a ti e exijo que o não repitas a ninguem! É uma lição de experiencia, que te deve aproveitar. Infelizmente, no mundo só os expertos alcançam bom logar. Quem não tiver cotovellos não se metta nas multidões... --Outro adagio, mamãe? --Não é, mas póde servir... O padre Assumpção ainda ha de fazer o vosso casamento; e quero-lhe então ver a cara! Acha o pateta tão justo que o amigo exgote a mocidade a choramingar pela mulher defunta! --Deve ser bom, ser chorada assim! --Qual o que! nem a outra vê nada! Ella já em vida parece que não via grande coisa... Era tão vaga... tão vaporosa! --Bonita? --Hum... Delicada... Precisamos arrancal-a do coração de Argemiro. --Deixe-a... Não devemos guerrear os mortos! --Nem nos deixar vencer por elles. Endireita o teu chapeu... repara para o meu... está bem? --Está bem... O carro rodou ainda alguns minutos. Quando chegaram á estação, a Pedrosa recommendou ao cocheiro que as viesse esperar ás quatro horas, e subiram para o trem que estava a partir. Sinhá, perturbada pelas theorias da mãe e procurando uma das extremidades do banco, voltou o rosto para fóra e fez toda a viagem olhando para o matto. A Pedrosa não interrompeu o silencio; tambem ella precisava recolher-se, arregimentar as idéas, preparar a sua scena... Ás onze horas no jardim do hotel das Paineiras, não havia ninguem. A sombra das arvores derramava-se silenciosa sobre mezinhas núas. Só numa estavam restos de apperitivo em dois copos. A Pedrosa calculou logo que aquelle vermouth tivesse sido ingerido pelo encarregado dos negocios da Inglaterra--e olhou com sympathia para os calices sujos... Sinhá seguira até a extremidade do jardim e olhava para deante, para o valle despido de neblinas, resplandecendo no azul do dia. Entretanto, a Pedrosa encommendava o seu almoço alli mesmo, no ponto mais visivel do jardim, inquirindo ao mesmo tempo com a vista se o inglez estaria almoçando na sala de jantar... Não estava; e o criado, geitosamente interrogado, declarou ter Sua Excellencia descido no primeiro trem, para ir buscar um amigo a bordo do _Magdalena_. A Pedrosa olhou com raiva para os dois copos de vermouth e apressou o almoço! Sinhá contemplava a paizagem magnifica, afastada da mãe, perturbada por um sentimento que não saberia explicar. Era como se meia despertada de um sonho extravagante a sua consciência não pudesse determinar ainda bem a realidade da vida, presentindo-a apenas... Um dia de setim, macio, vasava sobre montes e mares uma luz clara, destacando as copas das arvores e os pedregulhos das praias, escorregando pelas encostas acolchoadas de matto, de onde irrompiam pios de aves e manchas alvinitentes das umbaúbas. Duas grandes borboletas de um azul doirado intensissimo, perseguiam-se, indo e vindo, ora ao pé, ora longe da moça, que as acompanhava com o olhar deslumbrado. Para onde ia uma, partia logo a outra, para voltarem juntas, pousarem no mesmo galho, beijarem a mesma flôr. Amam-se, e o amor deve ser aquillo, o não poder estar uma sem a outra, na ancia do beijo definitivo, do laço que as prende até á morte!... Felizes as borboletas, que procuram sózinhas os seus casaes... --O homem foi-se! exclamou a Pedrosa, approximando-se da filha. E logo depois: --Estás com os olhos chorosos! --É de olhar para a luz... --Bem, vamos almoçar. Ora que contrariedade! O bebado não podia escolher outro dia para ir buscar o amigo! Diz que foi buscar um amigo a bordo. Emfim, é um passeio... ha de fazer-nos bem... ficará para outra occasião... --A senhora não desiste? --Não. Nunca desisto do que emprehendo. Senta-te. Mas elles estão pondo alli outra mezinha... Tens fome? Eu perdi o appetite. Isto aqui sem companhia é insipido... E eu que dei ordem ao João para me esperar ás 4 horas. A outra mezinha era para um casal, a mulher morena e robusta, o marido já grisalho e magrinho. A Pedrosa reconheceu-os logo que os viu e disse á filha: --É a Marianninha Serpa, do Rio Grande... foi minha collega nas _Irmãs_. Deus queira que não me reconheça!... --Porque?! --Filhinha, assim como devemos procurar certas relações, devemos evitar outras... esta senhora é casada com um medico e tem d'elle não sei quantos filhos... abandonou a familia e participou agora a toda a gente o seu casamento com este... --O outro morreu de desgosto? --Não; em primeiro logar, porque o desgosto não mata; depois, porque elle tambem se casou com outra! Sinhá arregalou os olhos, espantada. A manhã era de revelações! Ella cuidára sempre que os laços do matrimonio eram indissoluveis... A grande poesia do casamento parecia-lhe estar na perpetuidade do amor e na perpetuidade do voto. Que era o casamento, então? um contracto quebradiço, sujeito a ser violado logo ao primeiro amúo? As idéas embaralhavam-se-lhe na cabeça. Ainda na vespera discutira-se á mesa, era sua casa, a lei do divorcio. E o proprio pae affirmára que ella jámais seria decretada no Brazil... Interrogou a respeito a mãe, que respondeu quasi em segredo: --Elles estão olhando para nós... disfarça... não convem falar nisso agora... A Marianninha já me conheceu... não fosse eu a mulher do ministro... verás como me abraça! Assim aconteceu. Pelos fins do almoço a Marianninha atirou o guardanapo para a mesa e arrastando o marido correu a falar á Pedrosa. --Petronilha! exclamou ella num arranco enternecido. A Pedrosa levantou-se com um sorriso cerimonioso e um ar de quem não atinava com o nome da outra... --Não se lembra da Marianninha Serpa! das irmãs? O _diabrete azul_, como me chamavam? --Ah! sim!... o diabrete azul... lembro-me!... Desculpe-me... mas estava tão longe!... --Mesmo depois d'isso encontrámo-nos varias vezes em casa do... Mas a Marianninha interrompeu-se para apresentar o marido. Pedrosa apresentou, por sua vez, a filha e os outros voltaram para o seu logar; faltava-lhes o café. --A vida é uma comedia... commentou a ministra. Vá a gente fiar-se... Eu não te disse? Viu que tinhamos acabado e não quiz deixar-nos sahir sem se apresentar. E agora teremos de ir cumprimental-as. Mas vão esperando que lhes offereça a casa... não por mim, que afinal não desgosto d'ella... A Marianninha é pianista, entretem; mas por causa da sociedade! Reuniram-se depois, passeando ao longo do aqueducto; era preciso fazer horas para descer. Marianninha tinha vivacidade, falava muito. O marido colhia avenças que Sinhá deixava cahir dos dedos distrahidos. Á hora da partida, o casal, obsequioso, offereceu a Sinhá uma caixa de passas de pecego do Rio Grande, lembrança acabadinha de chegar da sua terra. Logo que o trem se poz em movimento, a Pedrosa suspirou de allivio. Que dia! E, abrindo a caixa de pecegos, contemplou-os com approvação e disse: --A unica coisa boa do dia! Vê como estão bem arranjadinhos e como são bonitos. O fabricante tem arte... estes lacinhos de fita estão bem dados... E ella antes de fechar a caixa cheirou os pecegos. --Esta gente agora, seja onde fôr que nos encontre, ha de se atravessar deante de nós... Entendem lá comsigo que já nos obsequiaram. É o que se chama vir buscar lã... --Pare no n.° 273, disse a Pedrosa ao João, ao entrar no carro. --Na casa do dr. Argemiro? Para que, mamãe? Eu não entro! --É só por curiosidade... a esta hora elle não está em casa... deixo-lhe um cartão e a caixa dos pecegos... dir-lhe-ei depois que ia passar-lhe tambem um bilhete de caridade... --Mamãe, os pecegos são meus! --Não sejas gulosa. Aquillo fez-se só para presentes. E, afinal, para quem quero eu o Argemiro? _Les petits cadeaux entretiennent l'amitié_, dizem os francezes. Elle irá agradecer-m'os a casa e tu o receberás... --Mamãe! --A mamãe só quer a tua felicidade, descança! Quando o carro parou, a Pedrosa desceu e ordenou á filha que a acompanhasse. Sinhá hesitou antes de obedecer. O vestibulo da casa de Argemiro, resguardado da rua por um largo paravento de vidros lavrados, tinha uma porta lateral abrindo sobre o jardim e outra ao fundo, dando para uma saleta de espera. A Pedrosa dirigiu-se com a filha para a porta do fundo e ia tocar a campainha quando ouviu uma voz de mulher dando uma ordem. Depois, a porta abriu-se e a figura de Alice appareceu entre os humbraes. A Pedrosa arregalou os olhos, espantada: --Vejo que me enganei... não mora aqui o dr. Argemiro?! Alice acenou que sim, com a cabeça e um leve sorriso. --A familia... a filha... está? --A filha não mora aqui... A Pedrosa, percebendo que não falava a uma criada, observou Alice com extranheza, da cabeça aos pés. Sinhá murmurou: --Vamos, mamãe... Adivinhando a confusão das senhoras, Alice, despeitada, voltou-se para o Feliciano, que se approximava, e disse: --Feliciano, receba as ordens d'estas senhoras! Depois, cumprimentando-as, atravessou o vestibulo e sahiu pela porta do jardim. A Pedrosa acompanhou-a com a vista. Feliciano esperava impertigado, com um arzinho malicioso na fisionomia experta. A Pedrosa escreveu a lapis num bilhete de visita: «Dr. Argemiro.--Passando pela sua porta quiz deixar estes pecegos para a sua Gloria. Tinham-me informado que ella estava aqui. Cumprimentos.» Feliciano recebeu a caixa e o cartão e apressou-se em ir adiante abrir o guardavento e a portinhola do _coupé_. No carro a Pedrosa explodiu: --Que tal o viuvinho, hein?! E o bandido do padre, que ainda hoje affirmou que o hypocrita vive só com a sua saudade! Será o nome d'ella?! Deixa-a estar... vamos a vêr quem vence!... --Mamãe! --Mamãe! Mamãe! lá estás tu a balir como uma ovelhinha assustada! Ora o ladrão do Argemiro!... Este Rio de Janeiro está perdido! É por isso que ficam tantas moças solteiras... O _ménage_! já é com um descôco que falam na sua _ménagère_!... Se as mães não tomam sentido, ficam-lhes as filhas em casa... havemos de defendêl-as, custe o que custar... Ladrões! --Mas não pense mais no Argemiro... mamãe... --Hein?! que idéa, não pense no Argemiro! mas se elle é o marido que te convem! Julgas que é muito facil encontrar um homem que reuna tantos predicados? Só por ter uma _ménagère_? Desistir de um marido por causa de uma _ménagère_! Tolinha... isto até prova em seu favor... já não cheira á defunta... Depois, essa especie de mulheres só embaraçam os tolos. Acredita que muitas vezes é a amante quem atira, inconscientemente, um homem para os braços da esposa... Tu... bem! mas por emquanto não te posso dizer mais nada. Já falei demais. Sinhá olhava para a mãe com olhos de espanto. X Era uma fortuna cahir o anniversario de Maria num domingo. Sempre era um dia roubado á companhia da outra. O consumidor ciume trazia a baroneza doente, de uma tristeza sem remedio. Os beijos da neta sabiam-lhe a falsidade, os seus abraços, amollecidos, tinham perdido o impeto selvagem dos tempos de que a via ir fugindo tão depressa. Qualquer dia leval-a-iam de todo, sem que nem ella ao menos voltasse a cabeça para tráz, para um ultimo sorriso... Nem por ser exercitado no amor, o coração deixa de desvairar se o contrariam! Ás vezes, para o desabafo, a queixa subia-lhe aos labios descorados; mas o marido, inflexivel, acudia logo, com a crua lei do destino: --Acostuma-te: mais tarde ella terá de acompanhar o marido, como a avó acompanhou o avô, e a mãe acompanhou o pae. E ella então gemia, desconsolada: --Até lá, onde estarão os meus ossos! como se a idéa da morte a tranquillizasse. Se os pensamentos a atormentavam de dia, á noite perseguiam-n'a os sonhos. Alice, sempre a Alice, apresentava-se-lhe sob diversas fórmas, mas sempre com as mãos que nem garras. A insistencia da idéa penetrava-a de crenças novas. Debateu-se em vão, concentrada no seu canto, com os olhos no retrato da filha, que o tempo ia desvanecendo num descolorido suave. Assim se attenuasse na sua alma a dôr, como aquella sombra no papel! Por que ha de haver coisas eternas na vida transitoria? Já viu alguem reflectir-se uma imagem com fixidez em aguas de grande correnteza? A vida não faz outra coisa senão passar, e a d'ella então immobilisara-se num momento de horror? Uma noite, em sonhos, a filha appareceu-lhe lavada em pranto. Seus olhos, como dois ramos, de myozotis inundados, vinham varados pela tristeza moça do amor. Não houve outra queixa. A mãe comprehendeu-a. Era tempo de agir. Consultaria os espiritos, já que na terra não a ajudava ninguem. Lembrou-se de uma tal D. Alexandrina, da estação do Rocha. Contavam-se d'ella maravilhas, revelações estupendas! Preparou-se cedo. Vendo-a sahir do quarto, de chapeu e de capa, o marido espantou-se, tão raramente ella punha os pés na rua. --Vou á missa pedir a Deus saude e juizo para Gloria. Ella faz annos hoje... --Sei... A baroneza não sabia mentir. Ao mesmo tempo que falava, as faces tingiam-se-lhe de vermelho. Mas o marido não deu por tal; e ella sahiu. D. Alexandrina morava num sobradinho estreito, onde a baroneza entrou envergonhada. Fizeram-n'a esperar numa salinha de jantar atravancada por uma mesa coberta por um panno de aniagem, de franjas sujas, e uns caixotes acolchoados, á guiza de divans. Nas paredes, collados sobre os mandarins do papel desbotado, chromos de folhinhas e uma gravura representando o Marechal Floriano Peixoto. Depois de alguns minutos de espera, entrou D. Alexandrina, uma mulherzinha magra e morena, quasi sem queixo, de olhos redondos. A baroneza entrou, seguindo-a, para uma alcova, onde ardia uma lamparina em frente a um oratorio. Como na sala de jantar, havia alli profusão de imagens colladas ás paredes; sómente, estas eram apenas de santos. Uma cortina de chita corrida encobria um leito de que se viam sómente os pés. Ao cheiro do oleo da lamparina juntava-se o de manjericão, num copo. D. Alexandrina retirou um baralho de cartas de uma gaveta, pousou-o sobre a mezinha redonda, junto á qual se sentaram e, pedindo com ura gesto á baroneza que esperasse, voltou-se para o oratorio e rezou baixo, com os olhos e o queixinho a tremer-lhe. Finda a reza, a cartomante pediu á baroneza que partisse o seu baralho, de grandes cartas, e começou a operação. --A senhora tem uma inimiga... A baroneza fez que sim com a cabeça. --É uma mulher má, que abusa da sua confiança... --Da minha confiança?! --Repito o que está nas cartas... A senhora tem a receber uma grande herança... --Não... --Sim... d'aqui a um anno... Mas deve mudar-se da casa em que está, antes que lhe succeda um desastre... A sua inimiga é moça, é bonita e é pertinaz; ella alcançará tudo que deseja, se a senhora não se atravesar no seu caminho... Ella finge amar seu marido, por calculo... --Meu marido, não... meu genro! rectificou a baroneza, offendida. --A carta... diz um cavalheiro que a interessa... cuidei que se tratasse de seu esposo. Será de seu genro... --Póde saber-se quaes são as suas intenções? --Ser amada por elle e exploral-o. --Eu já desconfiava!... --Não se apoquente... ella será desmascarada a tempo... Não é livre... ama um rapaz pobre... com quem se encontra furtivamente... A senhora receberá uma carta... --Que mais? --O mais não digo; a senhora poderia ficar impressionada, sem vantagem... Seja prudente... queime a carta que receber... e esteja álerta... não convém intervir já... espere um pretexto, que não se fará esperar muito... a sua inimiga tem recursos... --Se tem! --E já conseguiu muita coisa... Recommende a seu genro cuidado, sobretudo com uns papeis lacrados que elle tem encerrados em um cofre! --Tenciona roubal-o?! --Por hoje não lhe posso dizer mais nada; concluiu D. Alexandrina, cerrando os olhos. A baroneza sahiu tonta. Era a primeira vez em sua vida que se abalançava a consultar uma adivinha. Envergonhava-se do seu acto; o marido censural-a-ia... fôra alli buscar um pouco de socego e sahia em maior confusão--aterrada! Fizera mal até então em não acreditar nas cartomantes: como pudera aquella adivinhar a existencia da inimiga e as suas idéas perigosas? Mas, porque não lhe dera a ponta da meada, por onde ella pudesse desfazer toda a teia? Tinha que esperar uma carta e só depois d'ella lida e desfeita em cinzas teria de entrar em scena! Entretanto, a outra iria tomando inteira posse do coração de Argemiro, que ella queria só cheio do amor e da saudade da filha! Era por causa d'aquelle coração que a sua doce Maria lhe apparecera banhada em lagrimas! Havia de luctar até restituil-o á morta! O carro entrava na larga rua das mangueiras da chacara, quando a baroneza viu o Feliciano a pé, sobraçando um grande embrulho. Ella fez parar o carro e chamou o negro. --Feliciano! Bote esse embrulho aqui e ajude-me a descer. Quero fazer um pouco de exercicio... E voltando-se para o cocheiro: Guarde isso no carro até á minha chegada. O carro partiu; a baroneza disse: --Feliciano, quero saber toda a verdade: Que se passa em casa de minha filha? O rapaz fingiu-se mais espantado do que estava e balbuciou: --Nada de mais... não senhora. --Não é verdade. Estou informada de que D. Alice conversa com o senhor doutor... nega, se és capaz. --Quem informou a senhora?! perguntou Feliciano, para não dizer que sim nem que não. --Alguem... Ella tem dias certos para sahir? --Sae com D. Gloria nas segundas-feiras... --Que bem me peza! Mas além d'essas vezes? --Nas quartas-feiras, á noitinha... --Sózinha? --Sózinha. --Precisas acompanhal-a de longe, uma d'essas vezes, e vir dar-me o resultado da tua espionagem... Deus me perdôe! mas é para bom fim! --Não posso... --Hein?! --Nas quartas-feiras o patrão está em casa; é o dia em que os amigos vão jantar e jogar com elle, e sou eu que sirvo... --O demonio prevê tudo! Ella não recebe visitas?... --Não senhora... --Estás comprado por ella! Deu-te bola! --A mim?! não! que a Feliciano Ermelindo Braga ella não engana... nem enrola! É muito experta mas eu tambem não sou tolo... --Feliciano, preciso que estejas sempre de olho vivo e vigiando a casa da tua antiga senhora. Lembra-te de como ella era tua amiga e tão condescendente! --Não me esqueço... --Se não te esqueces, dize a verdade: Argemiro não fala com essa mulher? --Á minha vista não, senhora. --Julgas que se falem?... A baroneza parou, envergonhada. O negro começou: --Ante-hontem, mal o patrão sahiu, eu entrei devagarinho na sala de visitas e vi D. Alice espiando, para o vêr, por detráz da cortina... Outra vez, entrei no escriptorio e ella estava encostada no cofre... --No cofre! É bom verificar sempre se o teu patrão se esquece de fechar o cofre... --Não era com o sentido no cofre, não, senhora; ella tinha tirado da parede o retrato de D. Maria e estava olhando de perto para elle!... --Que sacrilegio! com o retrato de minha filha nas mãos! --Já por duas ou tres vezes eu pilhei-a assim... parece que ella tem inveja... ou ciume... --Por que não contou isso ao seu patrão? --Deus me livre! Seu doutor parece que está enfeitiçado... não admitte que a gente diga nada. Tambem, ella pôde fazer o que quizer! Desde que aquella senhora entrou lá em casa, não fui mais senhor de arrumar uma camisa do patrão nas gavetas, nem de mecher nos seus papeis. Eu tenho de levar o taboleiro da roupa, para perto da commoda e é ella quem ageita tudo. Outro dia pareceu-me, não affirmo, vêl-a pôr um raminho verde em baixo das camisas de meia... A senhora sabe que ha certas artes de feitiçaria que só o diabo as entende... ella depois fecha tudo á chave... Quem poderá livrar o patrão? --O anjo custodio de minha filha! Feliciano, consta-me que ella ama um moço pobre e que o encontra de vez em quando. Falla verdade... elle não vae lá nunca? --Pobres vão lá... ás vezes até tenho vontade de enxotar aquella canalha toda... mas o patrão deu licença... --Impostora! Que dinheiro ella ganha para poder fazer tanta caridade! --Não, senhora, são os restos... ella tem lá uns devotos para a ceia... --A despensa está bem sortida! --A senhora não falle nisso ao patrão, porque elle disse outro dia ao padre Assumpção, á minha vista, que nunca em sua vida teve casa tão bem administrada como agora! --Nunca, em sua vida?! --Depois que D. Maria falleceu... --Ah... --Agora me lembro que foi lá um dia um moço procurar a D. Alice! --E... --Foi numa segunda-feira; ella tinha sahido com D. Gloria. --Então não a viu? --Não, senhora. --Mas ao menos não lhe perguntaste o nome? --Não quiz dizer... --Era fino... bonito? Ha de ser o tal! Estavam a curta distancia da casa quando Gloria sahiu correndo: --Vovó! Por que não me levou! Venha depressa! Vovô não quer-me deixar abrir o embrulho que veio no carro e eu sei que é para mim! Adeus, Feliciano. Como está D. Alice? --Em vez de perguntar por teu pae, perguntas ela... criada! Anda; vamos vêr o teu presente! --Papae virá logo... mas a D. Alice... --Basta! não quero que me tornes a fallar nessa creatura... ouviste? --Eu gosto d'ella... É bem boa! --Para o fogo. --Eu gosto d'ella muito! --Mas D. Gloria lá em casa trata a D. Alice com seccura... Observou o negro. --É mentira! Você é um mentiroso! protestou a menina, com raiva. --Gloria! --Que é, vovó? A baroneza não podia mais. Entrou e fechou-se no seu quarto. Arrependia-se já d'aquellas acções que praticara. Deus a livrasse de condemnar uma innocente, mas lhe désse forças para punir uma culpada. O que a affligia eram os meios de que lançara mão para conhecer a verdade. A espionagem do negro... a intervenção da cartomante... oh! como isso lhe repugnava agora, bem a sós com a sua consciencia! Valera a pena viver toda uma vida pura e nobre, para na velhice fazer aquelles desatinos? O retrato da filha, suspenso á cabeceira da cama, absolvia-a d'aquella culpa, sorrindo-lhe docemente d'entre a onda pallida dos cabellos soltos. A baroneza sentia nojo pelas armas que ia preparando para o combate. Repugnava-lhe ter de servir-se da adivinha e do Feliciano. Receava acreditar demasiadamente na primeira; temia fazer-se echo dos despeitos do segundo... e todavia acceitava as indicações da cartomante, espantada de lhe ter ouvido referencias tão verdadeiras... e déra o passo repugnante de induzir o criado á espionagem! --No dia em que eu receber a carta, revelarei tudo a meu marido, decidia ella; e se nada receber... não tornarei a voltar á D. Alexandrina... Que poderá aquella fraca creatura contra as disposições do destino? Velha tonta que eu sou! Á hora do jantar, quando a avó de Gloria appareceu na sala, notou toda a gente que ella estava pallida, com olheiras pizadas e um sorriso forçado que não conseguia levantar-lhe os cantos da bocca fatigada. A carne pallida e flacida do pescoço descahia-lhe sobre as rendas da gravata segura por um broche de esmalte representando a cabeça loira de Maria, cópia do seu ultimo retrato, e em que o doce perfil da moça parecia já velado por uma sombra de infinita tristeza. Os cabellos brancos, presos á nuca por um pente de tartaruga, illuminavam de reflexos de prata a sua fronte amargurada, em que o pensamento parecia perder-se no labyrinto das rugas. Argemiro correu a abraçal-a e sentiu-a fria ao beijo com que correspondeu ao seu. Accudiram logo todos a rodeal-a de cumprimentos. Adolpho Caldas fôra arrebanhado na rua, pedia desculpa para o seu _veston_ de trabalho, pondo nas mãos bondosas da velha um ramo de violetas, que ella prendeu junto ao broche da filha. Dr. Telles beijou-lhe os dedos curtos, de unhas sem brilho; e o padre Assumpção, lendo-lhe no rosto uma agonia extranha, fixou-lhe penetrantemente os olhos, que se turbaram, como a agua clara de uma lagôa a que uma pedra revolve o fundo. Gloria avançou radiante, com os braços cheios de pacotes de bonbons, de livros bonitos e de rosas. Tambem a D. Alice lhe mandara um presente pelo padre Assumpção! Era um vazinho para flôres, de crystal branco, mimosamente lavrado. Gloria entregou-o á avô, gabando-lhe a delicadeza; mas, no instante em que declarou o nome de Alice, os dedos da velha abriram-se tremulos, e o lindo vaso fez-se pedaços no soalho. Argemiro e o padre Assumpção trocaram um olhar rapido. Gloria exclamou, num grito lamentoso: --O meu vazinho! Ah! vovó! --Perdôa, filha... eu te darei outro egual, perfeitamente egual... não sei o que tenho nas mãos. Que sensaboria! --Realmente, censurou o barão, sem comprehender; não sei como se pode deixar çahir assim um objecto d'esses!... Foi pena, porque era um bonito veneziano... Gloria olhava para os destroços, com os olhos marejados e começava outra lamentação quando o pae a chamou para o terraço e a aconselhou a se mostrar resignada e alegre. Empurrou-a para a sala. Caldas foi ter com elles, e, rindo-lhe na cara: --Han! que te dizia eu, meu velho?! Eis-te em pleno romance, já no capitulo dos zelos! Para quem está de fóra, o caso é bonito; chega mesmo a ser interessante... _Ça marche_! --Cala-te, abelhudo. Foi uma injustiça. Se os meus olhos a não tivessem visto, não acreditaria nella. Tão delicada é quem a praticou que chego mesmo a suppôr não ter havido proposito no desastre! --Olha que a ingenuidade faz mal ao appetite, a acreditar no exemplo das ingenuas... Vamos nós á sopa, que cheira melhor que a tua intriga... --Vamos. --O Assumpção fez-se livido. Reparaste-lhe para o rosto? Não reparaste: tu estavas contemplando a tua alma! Não ha nada como ser espectador... Vi tudo e cresceu-me a admiração por tua sogra... foi transparente! Se amas a outra terás de luctar com esta. _Sapristi_! Quando as mães... --Estás doido! Eu lá amo a outra! Eu nem a vejo! Dou-te a minha palavra de honra, que nem a conheço! Caldas contemplava-o espantadissimo, repetindo: --Sério? Sério?! --Já te dei a minha palavra de honra! Que mais queres? --Não quero mais nada, filho, estou enthusiasmado! Basta-me o espanto, que é dos maiores que tenho tido em minha vida. É adoravel. Gloria, já risonha, veio puxal-os para a mesa, que o avô enfeitara toda de margaridas brancas. Dr. Telles discutia politica com o barão. A baroneza, affastando-se do padre, com quem conversava, designou o logar a cada um dos convivas e sentou-se á cabeceira. XI A casa do dr. Pedrosa era uma das mais antigas da rua do Senador Vergueiro. Á sua fachada, de velho estylo portuguez, a vaidade do dono mandara addicionar uma cimalha, que encobria as telhas aldeãs com os seus floreados medalhões de estuque e dois torreões lateraes, ligados ao corpo central por passadiços envidraçados, de caixilhos miudos. Dentro de um vasto jardim, fechado por gradil prateado, essa residencia ficava meio encoberta da rua por dois misericordiosos tamarineiros, altos e frondosissimos. Num dos torreões fazia o senhor ministro o seu gabinete de trabalho. O outro, todo esteirado e guarnecido de kakimonos, era chamado em casa o «pavilhão japonez», e destinado a Sinhá, que ahi recebia as amigas e pintava as suas timidas aquarellas. Era noite de recepção e a Pedrosa embarafustou pelo quarto da filha. --Estás prompta? --Sim, mamãe. --Que! de azul?! Não! muda de vestido. Branco, branco! Trouxe-te os meus brincos de perolas. Toda de branco, só com estas duas perolas nas orelhas, ficarás melhor. Como uma noiva... O olhar da mãe acariciava a filha, que sorriu com tristeza. A Pedrosa tornou a sahir, recommendando pressa; ella ia para a sala esperar os amigos; antes de abrir a porta puxou a filha a si e beijou-a com ternura. A moça começou passivamente a desenlaçar o seu vestido azul, pensando no ar mysterioso com que a mãe a attrahira naquelle beijo. Sem poder obedecer ás ordens maternas, que lhe haviam imposto pressa, ella, mal enfiou o seu vestido branco, deixou-se cahir sentada na beira do leito e alli ficou um largo espaço de tempo, com os olhos fixos no vacuo e os dedos embaraçados nas fitas desatadas do cinto. Tinha pensado muito desde aquelle passeio ao Corcovado e começava a comprehender o seu papel... A mãe offferecia-a ao Argemiro... era por causa d'elle que lhe puzera nas orelhas aquellas perolas, que pareciam queimal-a... Porque? Porque elle era rico e occupava na sociedade um logar brilhante... Amava-a elle? não!... amava-o ella? talvez... Na verdade, a imagem de Argemiro nunca se lhe apresentara senão levada pela mão da mãe... lembrava-se mesmo de que a primeira vez que o vira achara-o velho e triste... depois, a pouco e pouco, habituara-se a imaginar-se noiva d'aquelle homem sério, que todo o mundo dizia votado inteiramente á sua viuvez... e agora eil-a enciumada de uma mulher de cuja existencia até ás vesperas nem suspeitara e que occupava já o logar que a mãe lhe destinava a ella! A figura de Alice desenhava-se inteira deante dos olhos pasmados da moça. Revia-lhe o rosto de um moreno pallido, de feições irregulares; o talhe esbelto do corpo, as mãos longas, o vestido cinzento, alegrado por uma gravatinha azul... Que idéa faria d'ella o Argemiro? Um leve rubor subiu-lhe ás faces e ella escondeu o rosto entre as mãos geladas. A criada veio apressal-a. Sinhá levantou-se resolutamente e concluiu a sua _toilette_ sem hesitação. Quando entrou na sala, a mãe, entre um grupo de amigas, conversava com um homem gordo, de longos bigodes côr de vinhatico. Apresentou-a; era o encarregado de negocios de Inglaterra no Rio de Janeiro! Sinhá cumprimentou-o, admirada da habilidade da mãe; ella conseguira o seu desejo! Alli estava na sua sala o homem por quem ella subira inutilmente ao Corcovado. Bem o dissera ella: realizo todos os meus emprehendimentos! Attendendo ás visitas que rodeavam a mãe, Sinhá prestava attenção, a vêr se distinguia a voz de Argemiro entre as vozes dos homens que palestravam no gabinete do pae. Ahi, entre os livros de direito e de economia politica, arrumados em estantes de canella ou espalhados sobre a secretária e a mesa, conversavam animadamente Adolpho Caldas, Argemiro, dr. Sebrão, o Conselheiro Isaias e o dono da casa. --Fallem-me de tudo! exclamava o Pedrosa supplice, menos da politica! Vocês não imaginam! não lhes direi que estou farto d'ella até aos cabellos, por que sou careca; mas ultrapassa a minha força atural-a até nos cavacos entre camaradas. Conselheiro Isaias, lembrando-se lá comsigo do empenho de Pedrosa para alcançar a pasta, commentou do canto onde acolhera o seu corpinho murcho: --Percebe-se o sacrificio... Caldas levantou-se com estrondo, disfarçando a malicia do outro, e foi ao lampeão reaccender o charuto, emquanto Pedrosa continuava: --É muito grande, e só mesmo a patria poderia exigir tanto de mim. A acção de governar vae-se tornando cada vez mais difficil e mais perigosa nesta terra... Nós temos maus auxiliares e o povo tem má fé... A opposição agora serve-se de todos os meios para impedir-nos os passos, usando das armas mais perfidas, que são as do ridiculo e as da calumnia... --Essa senhora é velha como Socrates... não faça caso... disse o conselheiro. --Não faço caso, mas no fundo, francamente, desgosta-me. Trabalho sem interrupção e a final... --Não faz nada! disse o conselheiro rindo. --Não seja perverso, amigo! ou declare-se já contra mim! Quem sabe se é você o auctor d'aquelles versinhos que andam por ahi carpindo a minha falta de eloquencia e de desinteresse, que julgam as qualidades primordiaes para um homem de Estado! --E são... --Nego. Um politico, do que precisa, sobretudo, é de tenacidade, sangue-frio, patriotismo, sinceridade e um grande dominio sobre as suas paixões... além das qualidades superiores, que lhe são indispensaveis, de intelligencia e de illustração... --É por isso que o seu collega Marcondes está fazendo tão bonita figura!... Disse ainda o conselheiro, com um fundo suspiro. Riram-se todos, que bem conheciam os dotes fraquissimos do Marcondes. Pedrosa continuou, com um sorrizinho magnanimo: --Elle é bem intencionado, e trabalha! Ha dias em que nem tenho tempo de beijar minha filha... O homem publico é um galé, principalmente neste nosso paiz, em que os mais puros devotamentos são sempre interpretados ás avessas! --Muito bem! Apoiado! exclamou o conselheiro, levantando-se. --Eu sei que você é um homem corajoso, desde aquella celebre caçada que fizemos juntos em Theresopolis... lembra-se? perguntou, sorrindo, o dr. Sebrão ao Pedrosa. --E com bastantes saudades! --Quem tem edade e competencia para arcar com o peso de uma pasta é alli o amigo Argemiro... disse o conselheiro Isaias. Argemiro protestou; era um homem sem maleabilidade; não podia servir bem á politica. Ao mesmo tempo o dr. Sebrão, voltado para Adolpho Caldas, começou a descrever a caçada feita com o Pedrosa e outro amigo nas florestas da serra. --Tinham-nos fallado em javalis. Uma madrugada partimos da Varzea, montados nuns velhos cavallos de aluguel, nós e mais um velhote de Theresopolis, que se inculcara como excellente guia. Levavamos boas armas, bom farnel para o almoço, estando combinado voltarmos a jantar com a familia. Trotámos para o alto, o velhote na frente, nós muito esperançosos, atrás. Chegados a um certo ponto amarrámos os animaes e mettemo-nos a pé pelo matto. Imaginem que entrar nas florestas da serra é como entrar na treva. Alli, para se ser bom caçador é preciso ter affeito a vista á escuridão do hervaçal e ter creado sobre a epiderme uma segunda pelle, ou melhormente uma especie de couro, onde os espinhos se quebrem sem lograr ferir. Cada vez que os nossos pés se afundavam no colchão de folhas mortas, a idéa de ser mordido pelas cobras juntava-se ao prazer de conseguir matar algum porco do matto. O guia assegurava ter encontrado signaes: galhos quebrados, rastro de animaes em fuga. Seguimol-o com fé. Era prudente almoçar cedo. Comemos á beira do Paquequer, entre touceiras cheirosas de lirios côr de marfim. As aguas convidavam. Quiz banhar-me, mas o Pedrosa ponderou que a fresquidão da lympha applacaria o meu humor sanguinario, que antes deveria ser exacerbado por um golfinho de paraty... Tropeçando em troncos, enrodilhando-nos em cipós, alagando-nos até ao queixo em vallas, passámos o dia inteiro á espera da porcada glorificadora! Mas os diabos dos porcos, zombando dos caçadores sem cães, deram-nos ao desprezo. Escureceu. Quer dizer: o negrume ainda se fez mais negro. O guia, desnorteado, levava-nos para um lado, para outro, sem achar sahida... Tiritando de frio, rodeados pelo fragor da agua e do vento, alli passámos uma noite pavorosa; eu gemendo com dôres nas articulações, Pedrosa febril e impressionado com a idéa do susto que havia de estar curtindo a nossa boa D. Petronilha... Só no outro dia, ás dez horas, esfomeados, lanhados e rotos, conseguimos sahir da mata. Correu todo o mundo a vêr-nos. As familias choravam. Tinham andado pelas estradas, á noite, com archotes, gritando por nós... Tivemos de passar cabisbaixos e envergonhadissimos por entre os curiosos... explicar aventuras... imaginarias... E querem vocês saber? Passaramos a noite a pequena distancia de um hotel! O barulho da agua e do vento abafou os outros rumores que nos denunciariam essa salvação. Foi uma tragedia comica! --A evocação não foi das mais felizes para consolar o amigo Pedrosa das suas attribulações! disse ainda o murcho conselheiro Isaias, levantando-se do seu canto. E depois, para o Argemiro: --É tempo de irmos prestar as nossas homenagens ás senhoras; não lhe parece? Levantaram-se todos e iam para a sala, quando o dr. Telles, entrando pela porta do jardim, reteve o Pedrosa, que deixou sahir os outros e se ficou com o deputado confabulando sobre politica. Caldas, antes de entrar na sala, puxou Argemiro de parte e, com o pretexto de acabar o charuto, encostado ao gradil do passadiço, espalhando baforadas para o jardim, foi avisando: --Olha que a Pedrosa já teve uma conferencia commigo a teu respeito, esta tarde! --Hein?! --Não me faças repetir palavras: aviso-te de que já se sabe por aqui que tens uma _ménagère_ moça, bonita... e que os conceitos são naturaes. Quero dizer: maldosos. --Ora! --Ora! mais nada? --Então? que lhe respondeste? --Fiquei meio burro... disse-lhe que effectivamente tu tinhas uma _ménagère_, mas que a não conhecias! --E ella? --Riu-se. --Riu-se?! --Escandalosamente. Eu tambem me ri. --Tu?! --Que querias que eu fizesse? Crias uma situação de comedia e impões seriedades de melodrama? --Mas que tem ella com a minha vida? Já se viu uma tal indiscreção? É boa! --Cubiça-te para genro. Sabes perfeitamente disso! Estás farto, fartissimo de o saber, e ainda te admiras? Ora, meu velho! --Mas essa senhora já deve estar convencida de que não lhe acceito a filha. Não quero casar! Aposto em como não aproveitaste a occasião para lhe dizer isto?! --Certamente que não! mas afinal aquella rapariga que lá tens em casa, é séria ou não é séria? --Eu presumo que sim. --Se é séria, manda-a embora, porque a comprometes; se não é... não deves ter escrupulos em fazel-a passar como tal! --E minha filha? Lembra-te que tenho uma mulher em casa, não tanto pela boa ordem de minha vida como para poder recebel-a e guardal-a de vez emquando commigo... E depois, sabes que mais?! pouco me importo com a opinião dos outros! Deita fora o charuto. Vou despedir-me lá dentro. Estou enojado. Lá te espero quarta-feira. Não te esqueças... --Ó egoista! lá irei com um baralho novo! Argemiro entrou na sala a tempo de applaudir a Sinhá, que acabava de tocar uma _rêverie_ ao piano. Vendo-o, a Pedrosa foi ao seu encontro: --Pensei que fosse hoje todo do meu marido! Chego a ter ciumes da politica, acredite! Elle sorriu. --Foi pena que não tivesse ouvido Sinhá desde o principio... ella toca com muito sentimento... anime-a... diga-lhe, embora mentindo... que a apreciou... as suas palavras são o melhor incentivo para ella... A Pedrosa procurou a filha com a vista, para approximal-a de Argemiro, mas já a moça desapparecera da sala. Argemiro percebeu-lhe a contrariedade no olhar e apressou-se em dizer meia duzia de banalidades, á espera do momento de se despedir. Mas a Pedrosa tinha que dividir a sua attenção. Estava com a casa cheia, e as moças mostravam desejos de dançar... Por fortuna, as sobrinhas, as tres filhas do dr. Adão, ajudavam-n'a a armar as quadras para os lanceiros, tirando pares e influindo os moços, que se deixavam arrastar, por complacencia, para o meio da casa... Como faltasse o pianista, foi mesmo a Pedrosa para o piano, rompendo com força os primeiros compassos da quadrilha. Argemiro aproveitou aquelle instante de alegria, para ir buscar o chapeu e o sobretudo ao pavilhão japonez e sahir para a rua sem ser visto. O pavilhão estava a meia luz, para que toda a força do gaz convergisse para a sala. Nas paredes forradas de esteirinha as japonezas dos kakimonos requebravam-se entre os setins das suas _kobaias_ e o ouro das borboletas e dos crysanthemos dos seus penteados... Carinhas de marfim, graciosamente pendidas sobre os hombrinhos estreitos, pareciam offerecer as cerejas das boquinhas para a guloseima de um beijo. Aves e insectos delicados, de azinhas transparentes, voejavam entre os galhos de pecegueiro em flôr, nos pannos cinzentos dos biombos. No meio do pavilhão, um enorme vaso bojudo, fabricado em Kioto, sustinha um profuso ramo de camelias brancas, grandes e silenciosas... Os passos de Argemiro morreram ao entrar no pavilhão, abafados na esteirinha, e elle dirigira-se para o fundo, onde deixára o agasalho, quando Sinhá sahiu de tráz do biombo e veio ao seu encontro, trazendo-lhe ella mesma nas mãos a capa e o chapeu. Argemiro não pôde conter um movimento de surpreza. Ella, muito séria, com uma gravidade que a tornava linda, estendeu para elle o agasalho e disse com um fio de voz suave e triste: --Agradeço a sua resolução... vá-se embora e peço-lhe que não volte, senão quando souber que eu já não estou aqui... Para o senhor isso não será um sacrificio; e quanto a nós... a saudade que nos deixar será attenuada pela certeza do seu respeito e da sua estima... Toda de branco, naquella meia luz em que bailavam insectos e sorriam japonezas, a figura grave da moça resuscitava uma visão de sonho, que perturbava o espirito de Argemiro. Elle curvou-se, beijou-lhe as pontas dos dedos gelados e com a voz engasgada pela commoção, affirmou: --Eu não a tinha comprehendido, distanciado como estou da sua edade e da sua perfeição... Consinta que eu volte no dia em que o seu coração de menina tiver encontrado um outro coração, moço e digno d'elle! Bastará então uma palavra sua: venha! Sinhá não respondeu. Argemiro acceitou o agasalho das mãos d'ella e sahiu, commovido, tonto. Fóra, as estrellas palpitavam luminosamente no fundo avelludado do ceu. O ar cheirava a flôres. E o viuvo caminhava a pé, sózinho, pensando nas surprezas d'esta vida de civilisação, e revendo a pallidez da moça, o seu olhar sincero e transparente. Não teria elle repellido a felicidade? Entretanto, vendo-o sahir, Sinhá recolheu-se para tráz do biombo, chorando devagarinho, devagarinho, em segredo. XII «Bem dizem os romancistas, que os romances se fazem por si. Creada a personagem, posta no meio em que terá de agir, ella caminhará por seus pés até ao ponto final do ultimo capitulo. Acontece por isso que o auctor tem ás vezes verdadeiras surprezas, como se todos os actos dos seus heróes não fossem obra sua! Concebida a idéa fundamental do livro, está creado o sopro de vida que o animará. A difficuldade está toda no primeiro impulso! Hei de sempre lembrar-me de uma noite em que fui encontrar o Thadeu, pallido, passeando agitadissimo pelo escriptorio, com um verdadeiro ar de furia. --Que tens tu?! perguntei-lhe assustado, de entre portas. Voltou para mim os olhos esgazeados e disse, com uma sinceridade commovedora: --Tenho que o patife do Braz apaixonou-se por tal fórma pela Delfina, que não sei como hei de casal-o com a Lucinda! E apontava com o dedo colerico para as folhas esparsas do seu romance, desordenadas por um vento de insubmissão. O caso era grave. Entrei, sentei-me e fiquei calado, assistindo ao duello fantastico de um romancista com a sua personagem revoltada. Por fim aventurei timidamente, querendo valer áquella afflicção: --Por que não casas essa tal Lucinda com outro... que diabo! --Com outro?! estás doido! Ella adora o Braz e não póde absolutamente casar com outro. Seria um desastre! Com o Braz é que ella ha de casar, _quer elle queira, quer não queira_! O desespero do romancista era tão evidente e profundo, que eu não ri. Fiquei desde então convencido de que a ficção, como a realidade, obedece a leis de imprevisto e de fatalidade. Li depois o romance... O Braz não casou com a Lucinda. Porque não quiz, está claro! Adolpho, acabando de dizer estas palavras, soltou uma baforada de fumo, afundou mais o corpo na larga poltrona do Argemiro e suspirou: --Está-se bem aqui! --Não achas? Pois essa poltrona amavel estava encerrada no quarto dos badulaques por imprestavel! Foi ella que a arrancou de lá, mandou-a ao estofador e pôl-a aqui. E guerreiam uma mulher que me presta taes serviços! --Deixa guerrear... Na vida como nos folhetins, os romances fazem-se por si... Vê tu o trabalho e os manejos da Pedrosa em que deram! Surprendeu-me tanto o que me disseste da filha, que estou quasi apaixonado por ella... Palavra! nunca a suppuz capaz de uma scena tão fina. Parece do Thadeu. --E estava linda! --Demais a mais!... E depois de uma pausa: A tua governante é bonita? Disse-me a Pedrosa que não. Por isso infiro que sim. --Não sei... --Deixa-te de asneiras: sê franco. --Já te disse. --Ella leva o seu rigor até aos teus amigos? --Parece. A não ser o Assumpção... --Teria graça se o nosso Assumpção atirava a batina ás urtigas por amor da tua... --Cala-te, impio! --Estou calado! Mas é cada vez mais adoravel, o Assumpção! Para mim, elle tem lá dentro coisa occulta, obra de feitiçaria, que nem a minha sagacidade nem talvez a tua intimidade pôde adivinhar... Não te parece? --Não. Nelle ha só o amor do ceu... mais nada... --Estás seraphico! Pois tu acreditas que hoje em dia, um homem valido se faça padre só por amor do ceu? Qual, historias! Elles escolhem a vida clerical como poderiam escolher outra qualquer acommodada ao seu egoismo e á sua habilidade... Os intelligentes pensam tanto na vida eterna como eu ou tu, mas fazem nesta o que podem para chegarem a bispos... Tenho um medo d'elles que me pélo... O nosso Assumpção é um exemplar unico, faz-me lembrar um d'esses sacerdotes virtuosos dos romances anti-clericaes, com que o auctor adula o sentimento dos leitores piegas... O que me agrada sobretudo no Assumpção é que elle é mais amigo da humanidade que dos santos; e gasta-se mais em esmolas que em jejuns... Não vês o recato em que elle envolve as suas acções e as suas idéas? Annulla a sua personalidade, como para dar vulto ao facto e pôr em toda a evidencia a personalidade alheia... A palavra _eu_ parece que lhe morre na garganta antes de lhe chegar á bocca, e todavia elle é intelligente. Já me tenho servido da sua bibliotheca; é opulenta em obras classicas portuguezas. Se fosse escriptor, seria um defensor da lingua! --O valor do Assumpção, para mim, que o conheço desde bem moço, está principalmente no coração. Elle é bom. Ás vezes penso que elle estaria melhor num logarejo qualquer do interior, ensinando crianças e animando a pobreza a supportar a vida, do que no Rio de Janeiro. Dizes bem. Elle não é luctador nem ambicioso; é um resignado e um meigo. Se eu tivesse um irmão não lhe quereria mais. Entretanto, o Assumpção nunca me confiou o seu segredo, que elle guardou sempre com tamanho recato que tive escrupulo em interrogal-o. Por que não havemos de acreditar na vocação? Elle sempre foi um mystico. A mãe, uma senhora adoravel, fez tudo para desvial-o do sacerdocio; batalhou como uma heroina; mas elle dizia-se chamado por Deus, e Deus venceu a vontade materna. Fomos sempre amigos. Elle vivia com a sua illusão, eu com o meu peccado; e com tão oppostas idéas nunca offendemos a nossa amisade. É verdade que elle me contagiou um pouco do seu sentimentalismo. É mais forte do que eu, que não lhe transmitti nem uma sombra da minha personalidade... --Não lhe conheceste nem uma paixão? --A dos livros, de que fallaste ha pouco; e essa mesma ha alguns annos é que me dá a impressão de ser a taboa fluctuante do seu naufragio! --E tua filha? --Sim, elle adora minha filha! --Ora pois, já tem com que se entreter. Dá-me outro charuto. São magnificos os teus charutos... Realmente, está-se bem aqui. Estou vae não vae a raptar-te a tua Alice! --Psiu! falla baixo... --Receias que ella esteja atráz da porta? --Quem sabe?... --Não duvides! uma governante de casa de um viuvo só, vinda por annuncio de jornal... deve ter ao menos um defeitozinho, e olha que o da curiosidade é quasi virtuoso... Antes do que me disse a Pedrosa, eu suppuz que vocês estivessem a mangar commigo, e que a tua mulherzinha fosse por ahi uma matrona gorda, de cabellos pintados e verruga no queixo. Mas a Pedrosa, mais afortunada do que eu, esbarrou de cara com ella, e pela raiva com que lhe ficou, deduzi que a rapariga deve ser bonita... --A Pedrosa disse-te isso? --Disse que era feia. --Então! --Por isso mesmo fiquei sabendo que o não é. As mulheres nesse assumpto são sempre contradictorias. Para experimental-a, exclamei com ar de desgosto: --Oh, minha senhora, uma velha! E ella logo, muito indignada: --Velha?! moça! e toda presumpçosa, com a sua gravatinha azul! --Pensou, talvez, que a gravata fosse minha! --E d'ahi!... Ó diabo, corre aquelle reposteiro! --Falla á vontade. Ninguem nos ouve. --Que confiança! --Absoluta. --É extraordinario! --É extraordinario. Desde que esta mulher entrou em minha casa eu sou outro homem, muito mais tranquillo e muito mais feliz. Nunca a vejo, mas sinto-a; a sua alma de moça como que enche estas salas vasias, de juventude e de alegria. Sózinho com os criados, eu abandonava-me. Ia ás vezes para o almoço de chambre e de chinellos; passava pelo jardim sem olhar para os canteiros; e no escrupulo de alterar as coisas da antiga ordem em que as dispuzera minha mulher, deixava-as envelhecer monotonamente, sem uma reforma que as alegrasse. Eu estava mofado, tinha bolor na alma. Botava pontas de cigarros pela casa... estava, emfim, de um desmazelo torpe! Depois, sentindo a influencia d'ella, percebendo-lhe os gostos finos, que em tudo se demonstravam, comecei a exigir de mim habitos mais cortezes e a tratar a minha pessoa com mais consideração e maior carinho. A idéa de que ella poderia ver-me por uma fresta de veneziana, quando eu ia para a rua, fazia-me prestar attenção ao meu jardim e observar o seu progresso e melhor tratamento... Almoçando, eu via na cadeira vasia em frente ao meu logar, a minha governante a observar por que maneira eu levava o garfo á bocca ou enchia o copo de vinho. Retomei insensivelmente os meus habitos de elegancia, prejudicados com o abandono em que por tantos annos vivi nesta casa, dirigida por um preto ladino. Entrando da rua, nunca surprendi a minha governante, como aconteceu á Pedrosa; mas ella vinha e vem ao meu encontro num aroma fresco de pomar florido, e que eu nunca sentira antes da sua estada nesta casa. Tu o disseste ha bocado:--Está-se bem aqui!--A pouco e pouco as coisas mudas que me rodeavam, e que só suggeriam idéas saudosas e melancholicas, foram-se despindo d'esse aspecto doentio e talvez tolo e animando-se em novos polimentos ou côres risonhas, que me davam saude. Cadeiras velhas, esgarçadas no estofo, atiradas para uma alcova do porão, subiram lustradas e estofadas de novo para os cantos desguarnecidos das salas, onde o conforto é muito maior do que foi sempre! Repara para o assoalho: um espelho! Vê as cortinas: resplandecentes! Em um meio que se asseava cada vez com maior primor, eu tive de corrigir-me dos defeitos que ia adquirindo na solidão e no desmazelo... Estou só, sentindo que sou o alvo da attenção e da magnanimidade de alguem... Esta caricia sem mãos sabe-me bem; tanto mais que me dispensa o trabalho do agradecimento! Se não a queria ver antes, por prudencia, não a quero ver agora, por egoismo,--para não desfazer esta illusão agradavel e exquisita, mas bem sincera. Uma noite, entrando inesperadamente em casa, senti que alguem fugia precipitadamente da sala. Não pude vencer a minha curiosidade; entrei. Junto á janella do jardim, perto de uma cadeira de balanço, encontrei um livro aberto. Ergui-o. Cheirava a flôr de fructa. Era um romance inglez. A minha governante lia inglez! foi a sua primeira revelação. Depuz o livro fechado sobre a mesa e vi o nome d'ella escripto na capa. Para sympathizar com ella bastaria talvez isso; para respeital-a, o modo porque tem sabido corrigir Gloria das suas brutalidades de menina malcriada... --Como terminará tudo isto! --Não terminará. Emquanto ella se sujeitar a este papel, eu ficarei muito bem naquelle em que estou. Se não... ir-se-á embora e tratarei de arranjar outra pelo mesmo processo escandaloso, mas commodo. --Hum!... --Afinal, talvez seja facil... --É impossivel, digo-lo eu! Essa mulher deve ter vindo acossada por uma grande miseria! Lembra-me uma garça maritima que vi caçar na floresta do alto da Serra! Tinha fugido á tempestade sózinha, branca, até áquellas paragens desconhecidas e inhospitas. Pobre ave do mar! --Mataram-na? --E empalharam-na. --Esperemos que esta não tenha a mesma sorte. --Pelos desejos da tua sogra! --Que ciumenta! como se pudesse haver alguem neste mundo que me fizesse esquecer Maria! --Ha... --O tempo? Caldas não respondeu, e sorriu. E depois: --Dizem que fama sem proveito faz mal ao peito. A tua governante morrerá tisica! --Coitada... defende a quando se te offerecer ensejo. Eu sou tão mau que a sacrifico ao meu bem-estar. É á minha imperfeição! Ignominioso! não achas? --Humano. Ella veio ao encontro d'esse desastre. Tinha obrigação de prevêl-o. Talvez o desejasse... Que somos nós todos? Poços de mysterio! Que póde esperar uma mulher que se aluga--por mais que te repugne a expressão, ella é corrente aqui--para tomar conta e governar a casa de um homem só? O teu egoismo explica-se; tu pagas esse direito; agora a sua sujeição, meu Argemiro, é que não tem duas faces por onde possa ser encarada. Para mim, ella é, unica e simplesmente, uma especuladora. --Não digas isso! --Por que te indignas? --Não... --Acaba... --Sem ter posto os olhos nunca em cima d'esta pobre moça, eu parece que a conheço já ha muito... Ella fiava-se naturalmente na sua altivez para defender-se de qualquer assalto. Porque não acreditar que tenha, como tu disseste, vindo acossada pela miseria, estonteadamente, até á minha porta? A unica impressão que tenho d'ella, no dia em que a contratei, foi a de lhe ver as botinas esfoladas... Não lhe vi o rosto, que o trazia velado; mas vi-lhe os pés. Caprichosa como revela ser em tudo, bem vês que só por grande necessidade se sujeitaria a andar assim... --Porque só uma pobre se sujeita a tal posição, naturalmente; mas as pobres honestas têm outros meios de ganhar o pão, menos suspeitos e sobretudo menos arriscados... Tua sogra tem uma certa pontinha de razão na insensatez do seu ciume... De fóra ninguem póde acreditar que esta situação não seja senão uma fantasia. --Mas que têm com isso? --Nós outros, nada; mas tua sogra talvez tenha alguma coisa, por causa da tua filha! --Não é por causa de Maria... é por mim! Minha sogra é uma sentinella sempre álerta na defesa do meu coração. Ella não se importa que me roubem os haveres ou que eu esbanje a minha fortuna; que eu tenha ou não tenha amigos, que eu trabalhe ou que descançe, que eu soffra ou que eu me divirta; o que ella não quer, absolutamente, é que eu ame! Maria ha de viver eternamente deante dos meus olhos, como vive deante dos seus, e hei de manter até ao meu ultimo alento a promessa que lhe fiz de não tornar a casar-me... --Tolice... --Que queres! --Maria era um anjo... mas hoje é um phantasma; e um homem não póde viver abraçado a uma sombra... --Dize-lhe isso... --Na primeira occasião. --Não a mortifiques. Eu, bem o sabes, estou perfeitamente de accordo com ella. --É o que te parece. Em todo caso, dou-te um conselho: despede a tua governante, ou dá um piparote nestas convenções romanticas em que te embaraças e trata-a como toda a gente trata as governantes... Parece-me que nos temos occupado demais com uma creatura que talvez não mereça tanto... --Ou talvez mais... --É o que eu digo! --Não te entendo. --Não admira, visto que nem te entendes a ti! Só te direi outra coisa, para concluir: a imaginação é uma amiga perigosa, e tu estás abusando d'ella. --Estás tolo e sybilino. Na tua, queres dizer que acabarei apaixonado por uma mulher que vivo em minha casa e que me obstino em não conhecer, julgando, talvez, que me occupo em pensar nisso! Mas, nada! Eu penso tanto na minha governante, que talvez seja picada de bexigas, ou desdentada, como penso na Sinhá, que tem os olhos que sabes e a pelle lindissima. Fiel á minha morta, não por virtude, mas porque não encontro no mundo mulher que se lhe compare, eu deleito-me no sacrificio de viver abraçado a sombras... É a minha exquisitice... --Faze-te espirita. --Nunca. --Como espectador, eu estou gostando do caso. O que te peço é licença para conquistar a menina... --Tens toda.... --E se ella acceitar a côrte? --Tanto melhor para ti... --Não impões condições? --De não ser em minha casa... --Sabes onde é a d'ella? --Não sei de onde veio, nem presumo para onde irá! --Como num sonho! --Tal qual! O relogio do escriptorio marcava seis horas quando o dr. Telles e o padre Assumpção entraram em casa de Argemiro. Telles resplandecia. Tinha falado nessa quarta-feira na Camara. Via-se-lhe na cara, núa de pêllos, a vaidade, e todo o corpo emproado num terno de sobrecasaca côr de avelã, parecia impertigar-se com mais satisfação. De vez em quando elle olhava com um sorrizinho para as unhas reluzentes, como se relesse nellas o seu discurso famoso e sensacional... Assumpção vinha triste, com um ar fatigado, que mal dissimulava, dizendo-se amollecido por uma grande caminhada a pé. Emquanto os outros, com o calix de vermouth na mão, discutiam o ultimo escandalo da camara, elle, recostado no divan, levantou o olhar para o retrato de Maria, suspenso na parede em frente, com o seu doce perfil de loira a esvair-se já no embranquecimento das tintas. A belleza... a bondade... a juventude... tudo com o tempo se esvae, como o fumo delevel. Na curta passagem da vida, confundem-se á distancia todos os traços, os que marcam os caminhos da alegria, como os que vêm da tristeza... A saudade do passado é o nevoeiro que envolve tudo na mesma claridade enganadora e opaca... XIII A noite estava escura. Alice levantou a golla do casaco e, puxando o véuzinho até ao queixo, desatou a andar em direcção ao largo do Machado, sem paciencia de esperar o bond á porta de casa. Atrás d'ella, a curta distancia, Feliciano não lhe tirava os olhos de cima, cosendo ás paredes o seu corpo esguio. A sombra, protectora de segredos, confundia-se com a côr do seu rosto, esvaindo-lhe a imagem. Os tacões da moça batiam na calçada em pancadinhas miúdas e sonoras; os delle dir-se-iam forrados de velludo. A espionagem tem azas de morcego, teme a luz, mas espalma-se na treva sem rumor nem receio. Seu elemento é o mysterio. O desejo do mal é silencioso. Oh, se elle pudesse estender as unhas afiadas e fazer sangrar na escuridão a carne branca d'aquella mulher! Não fôra ella quem o desprestigiara diante dos outros que elle dominara antigamente como senhor? Todas as suas fraquezas, os seus crimesinhos de infidelidade não tinham sido farejados e descobertos por essa creatura imperativa e doce a um tempo? Nem uma palavra lhe sahira dos labios, mas a verdade salta pelos olhos quando a não deixam sahir pela boca. Ella sabia tudo. Tratava-o como um inferior, uma machina de serviço, sempre necessitada de direcção. Não fôra para isso que elle aprendera a ler na mesma cartilha da sua antiga Yayá! Revoltado contra a natureza que o fizera negro, odiava o branco com o odio da inveja, que é o mais perenne. Criminava Deus pela differença das raças. Um ente misericordioso não deveria ter feito de dois homens iguaes dois seres dissemelhantes! Ah, se elle pudesse despir-se daquella pelle abominavel, mesmo que a fogo lento, ou a afiados gumes de navalha, correria a desfazer-se d'ella com alegria. Mas a abominação era irremediavel. O interminavel cilicio duraria até que no fundo da cova o verme puzesse a nú a sua ossada branca... Branca! Era a mulher branca que elle preferia, desprezando com asco as da sua raça. A superioridade d'aquella que ia toc-toc na sua frente, exasperava-o. O seu humor inalteravel, os seus habitos de asseio e de ordem não lhe tinham dado ensejo para a intriguinha facil e perturbadora. Chegara o dia de castigar a affronta d'aquella branca intromettida, que elle odiava, e ardia por esmagar com a divulgação de algum segredo que a compromettesse. Desprezava o ardil pela verdade; mas, se esta lhe escapasse, então recorria a tudo, até ao feitiço de algum velho parceiro africano... Mas d'esse recurso extremo só lançaria mão quando não pudesse contar com os da sua intelligencia e malignidade. Tinha ainda na memoria uma sentença materna: «quem faz feitiço morre de feitiço» e essa idéa affligia-o. A mãe era filha de mina. Devia saber... Aquella branca pobre e presumpçosa, que era mais do que elle na ordem das coisas, para o tratar assim por cima do hombro, com um arzinho superior de patrôa fidalga? --Ella ha de me pagar! O que elle queria agora era saber bem da sua vida, penetrar no mysterio d'aquella existencia fluctuante, sem raizes conhecidas; assenhorear-se de um segredo que a tornasse escrava da sua vontade poderosa. Como aos de Adolpho Caldas, ella tambem representava aos seus olhos o encardido papel de especuladora. Não era outra coisa; mas a intrusa teria o seu castigo, zurzido com mão de ferro, na hora marcada pela sua justiça. O arrependimento entraria então no coração de Argemiro. O bond tardava e Alice não diminuia o rythmo dos passos. Antes assim; elle gostava de ir andando a pé, atrás d'aquella figurinha nervosa e fugidia. Quem tanto se apressa, corre para a felicidade, que para o aborrecimento o passo é tardo. Pensava o negro: ella vai para alguma entrevista de amor... Isso contrariava-o... e crescia-lhe com essa idéa a raiva pela usurpadora dos seus regalados descanços e da sua autoridade de chefe! Ella matara o seu prestigio. Viesse quem viesse depois d'ella, encontraria lançada na casa a semente da desconfiança. Fôra um dia o Feliciano, que lia jornaes nas cadeiras do amo, com deliciosos charutos entalados entre os beiços! Um bond! E o bond parou a um gesto de Alice, que subiu para um dos bancos da frente, conchegando com um arrepio o casaco côr de mel ao corpo friorento. Feliciano, em pé na platafórma, não a perdia de vista. No largo do Machado ella desceu e passando pela frente da igreja tomou a direcção da rua Bento Lisboa. O negro, a pequena distancia, ia atrás d'ella, dando graças ao vento que fazia ulular o arvoredo da praça, abafando outros rumores. Na rua Bento Lisboa, Alice accelerou a marcha. Parecia levada por um grande desejo. Feliciano espiava-a afflicto, numa anciedade! A sua admiração era não vêr apparecer um homem, a quem ella désse o braço, que a compromettesse e o ajudasse na intriga... De resto, elle não queria crêr, queria denunciar! --De repente estacou; a moça sumira-se na portinha negra de uma casa antiga, meio arruinada. Feliciano passou, tornou a voltar, sondou com olhar atrevido o corredor escuro, procurou vêr se estaria alguem a quem pudesse fazer qualquer pergunta na vizinhança, encostou-se a um humbral fronteiro e esperou, indignado, contra aquellas paredes, que um murro de homem deitaria abaixo e que lhe escondiam o mysterio desejado! O vento e o pó obrigavam os moradores do lugar á reclusão. As janellas fechadas entristeciam a rua, ordinariamente animada. Que se passaria lá dentro? Feliciano esteve uma ou duas horas á espera, como um vigia cuidadoso, firme no seu posto. Nem uma restea, um tenue fio de luz vinha cortar a treva d'aquella fachada muda! O negro tinha impetos de ir encostar o ouvido ás janellas ou penetrar no corredor, cançado de esperar, numa impaciência que o adoecia. Eram quasi dez horas quando ouviu rumor de vozes e reconheceu a de Alice. Depois a moça reappareceu, puxando a porta sobre si. A casa, impenetravel, guardava o seu segredo. Alice deslisava na sombra com o mesmo passo apressado. Dir-se-ia que igual desejo a levava ao ponto de onde partira tres horas antes! Desnorteado, Feliciano hesitava se deveria acompanhar Alice, cujo destino conhecia, se ficar mais alguns instantes esperando alguem que por ventura sahisse d'aquella casa. Alice nunca entrava nas suas quartas-feiras depois das dez horas; logo, ella marchava para o Cosme Velho. Interessava-o agora quem ficava alli. Começaram a cahir grossos pingos de chuva e a escuridão era apenas dissimulada pelos lampeões de gaz. Já sem receio de ser surprehendido, Feliciano verificou o numero da porta por onde Alice sahira, mas só se afastou quando ouviu que a ferrolhavam de dentro. «Quem estava, fica... logo, vou-me embora». E elle voltou, intrigado, aborrecido, com maior odio ainda por aquella mulher que se lhe escapava de entre os dedos fracos quando julgava prendel-a para toda a vida! Emfim já sabia alguma coisa: aprendera o caminho da tóca, onde ella vinha furtivamente todas as semanas, em horas e dias determinados... Quem se fia em mulheres está bem servido!... pensava comsigo o negro, desandando no seu caminho. Esta inda é peor do que as outras, porque é fingida. Fingida como Judas! --Ella ha de me pagar... Alice deu volta á casa pelo jardim e entrou por uma porta do fundo, evitando um encontro provavel com Argemiro, que falava alto no escriptorio, junto á saleta da frente. Cançada, sentou-se um momento na sala de jantar, antes de subir para o seu quarto, vigiando a porta do escriptorio, prompta a fugir num relance, caso elle apparecesse. Com as mãos abandonadas nos joelhos, sorria com amargura ás palavras de Argemiro, que lhe chegavam nitidamente aos ouvidos. Elle arengava contra as mulheres. Os outros davam-lhe razão, citavam exemplos destacados de escandalos, riam-se alto, declarando o casamento uma instituição prejudicada. A uma phrase atrevida de Argemiro, respondeu Adolpho Caldas maliciosamente: --Emquanto pelo annuncio do _Jornal_ acudirem governantes moças para as casas de viuvos sós... Mas é que nem todos são viuvos, meu caro! Telles riu alto; a voz de Assumpção disse qualquer coisa que a palestra dos outros suffocou. Poderiam gritar. Alice tapara os ouvidos com os dedos e subiu correndo para o seu quarto, onde se fechou por dentro. Quem falava agora na sala era o padre Assumpção: --Ainda ha mulheres tão puras como as mais puras de todos os tempos. Tenho ouvido muitas Ruths no confessionario, e conhecido almas adoraveis de innocencia e de bondade. Vocês conhecem-nas pelas exterioridades, eu pelos sacrificios,--que são ordinariamente as sacrificadas que nos vêm pedir conselho e consolação. Tenho encontrado em meu caminho sublimes abnegações, sempre por parte das mulheres... --Porque os homens não se confessam!... --Confessam-se alguns, mas não dizem tudo, ou, quando o dizem, fazem tremer! Tenho muito respeito pela mulher e sobretudo pela mulher pobre, porque nunca a pobreza deixou de ser affrontada, nem a mulher deprimida... --Meu evangelico Assumpção, parece-me que a tua psychologia está errada! Nós sacrificamo-nos muito mais... --Nós sacrificamo-nos pelas idéas; ellas sacrificam-se por nós, que somos menos compensadores e mais ingratos... --Bonitas coisas você deve ter ouvido, padre! A mim o que me espanta e revolta, é que ainda haja paes e maridos que consintam nessa abominação do confessionario. A religião não poderia ter inventado coisa mais vil nem mais repugnante. Vamo-nos embora. --Vamo-nos embora, que a noite está negra que nem uma alma peccadora, disse Telles, ao mesmo tempo que Adolpho continuava: --A minha confissão é que tu não ouves, padre! que me mandarias pelo telegrapho para o inferno. Basta que eu te confesse isto: amanhã darei um assalto á tua bibliotheca. Preciso de Rodrigues Lobo... D'aquelle--_Pastor Peregrino_. Assumpção, procurando o chapeu, exclamou: «Cabellos que na côr formosa e pura Estaes ao mesmo sol fazendo inveja, Que confiança em vós será segura...» Mas o Telles interrompeu: --Olhem que o Argemiro está com somno e eu morto por me ver na pensão!... Desceram, e, já na rua, o padre relembrou ainda uma phrase do classico: --_Deixai-me enganosas alegrias, que eu não busco, na ventura senão, o que a meu desterro sem esperança e á minha vida desesperada convém._ --Sinto cheiro a bafio quando ouço classicos, commentou o deputado. Adolpho accendia um charuto. Assumpção adiantou-se para mandar parar o bond. XIV A baroneza não recebera ainda a carta annunciada pela cartomante e andava inquieta, doente. Gloria voltava radiante todas as segundas-feiras das visitas paternas e não tinha na boca senão o nome de D. Alice. Aquillo fazia recrudescer o desespero da pobre senhora. --D. Alice! D. Alice! não falas senão da tal D. Alice! que personagem! --Eu gosto d'ella... Prendendo as mãos da neta, puxando-a para si, a avó perguntava entre supplicante e imperativa: --Mas que te faz essa mulher para lhe quereres assim? --Nada... passeia commigo... conversa... --Tenho medo d'essas conversas... É a tal historia dos sapatinhos de ferro! --Da vaquinha Victoria? --Sim... Que te diz ella? --Tantas coisas... Hontem fomos ao Jardim Zoologico. Vovó ha-de crer? Ella contou-me a vida d'aquelles bichos todos! --Mentiras... Que póde ella saber! --Eu contei a papae e elle affirmou que era verdade! --Ah! tu contas a teu pae tudo que ella te diz? Bem disse eu! é a tal historia dos sapatinhos de ferro... Um dia ha-de enterrar-te coma a madrasta fez á outra. --Mas se ella não é minha madrasta! Nem diz nada de mal... Vovó pergunte só ao padre Assumpção. Elle tambem gosta de conversar com ella. Hontem estavam muito tristes... --Ambos?! --Ambos. A baroneza riu-se. --De que se ri, vovó? --De nada... achei graça! Ia bem vestida a tua D. Alice? --Assim... assim... ella anda quasi sempre com o mesmo vestido, quando sae. É pobre... --Ella usa anneis?... tem alguma joia?... A neta admirou-se de ver a avó tão córada de repente; e, antes de responder á pergunta, exclamou: --Nunca vi vovó tão vermelha! E depois, naturalmente:--Não usa anneis... tambem não usa joias. --Nunca te falou da familia?... --Nunca... Papae me recommendou que eu nunca lhe perguntasse por isso! --Ah! teu pae recommendou!... --Por que seria, vovó? --Por que geralmente mulheres assim não têm familia. --Coitadas! Mas assim como? D. Alice é como as outras! --Talvez mais bonita... --Não... Hontem então ella estava com os olhos tão pisados! --Pobre infeliz! --Eu queria que vovó gostasse d'ella! --Para quê? Estamos muito bem assim... Cada um no seu lugar! --Já tenho aprendido muita coisa com ella... --Deus queira que não aprendas tudo! --Papae gosta que ella me ensine! --Ah... --Padre Assumpção tambem... Elle hontem assistiu á minha primeira lição de desenho. Uma lição só por semana é pouco... Vovó deixa D. Alice vir cá de vez em quando dar-me outra lição? --Nunca! Gloria recuou espantada; a velha conteve-se, e depois: --Os retratos de tua mãe ainda estão nos mesmos logares? --Estão... um em cima do piano... outro no escriptorio... outro no quarto de papae... --Já tiraram o do quarto de _toilette_?! --Ah! é verdade! e outro no quarto de _toilette_! Como vovó se lembra! --Minha pobre filha! --O do quarto de papae está ficando branco... --Até desapparecer! É que a imagem de Maria está-se sumindo ao mesmo tempo da memoria e do papel! disse a Baroneza abafando um suspiro. --Da memoria de quem? --Vai brincar, minha Gloria; corre, faze das tuas brutalidades antigas... quero ouvir os teus gritos, as tuas risadas .. Onde está a tua cabrinha? Já nem fazes caso d'ella! --Como não?! D. Alice até me prometteu uma colleira para ella! --Já me tardava... As mãos da avó affrouxaram. Gloria fugiu para o quintal. --Está tudo acabado! venceu e domina todos. Gloria, a filha da minha filha, talvez já ame a outra mais do que a mim!... Tem trabalhado, a maldita... e não ha quem defenda a minha pobre Maria! Nem o Assumpção... ninguem!... A Baroneza revia a scena, que não lhe sahia deante dos olhos: Maria, recostada nos almofadões da cama, muito diaphana, com os cabellos loiros espalhados sobre os hombros magros e os olhos engrandecidos, circulados de violeta... Á sua cabeceira, em pé, o padre Assumpção, livido, com os olhos velados por uma expressão de agonia dominada. Argemiro, de joelhos ao lado da moribunda; ella aos pés da cama, de mãos postas, olhando, na insensata esperança do milagre! Na sua alma echoava ainda a vózinha da filha: --Jura, Argemiro, que não te tornarás a casar... --Juro! --Jura que viverei sempre no teu coração! --Juro! A voz d'ella era como um sopro; a d'elle, formidavel! Maria morreu sorrindo, com os dedos embaraçados nos cabellos do esposo... Não falara na filha... não olhara para a mãe. Fôra toda d'elle... e elle repellia aquella imagem angelical, para substituil-a pela de uma mercenaria! Aquella amaldiçoada. Como expulsal-a d'alli?! Não estaria perdendo muito tempo?... Uma tarde, o Feliciano procurou-a; e ao relatar-lhe a sua espionagem ella mandou-o calar-se. Não queria saber de nada por esse modo. Que se fosse embora! O negro não pôde reprimir um movimento de espanto. Não fôra ella que o impellira áquillo? Fôra, mas em um momento de desanimo e de fraqueza. Envergonhara-se. Readquiria a calma; estava feito o seu plano. O negro foi despedido sem explicações e com a prohibição de acompanhar a moça. Feliciano sahiu murcho, maldizendo as mulheres. A baroneza dirigiu os seus passos pesados de mulher gorda para o escriptorio do marido, que se entretinha na collecção do seu herbario. --325... murmurava o barão, olhando para as suas listas; e depois: --Que temos? perguntou elle, sem levantar a cabeça, mas percebendo no ar qualquer novidade. --Que tomei uma deliberação. --Qual?... --Ir morar com Argemiro. --Hein? --Ir morar com Argemiro. --Ora essa! O barão tirou os oculos e olhava agora de face para a mulher. --Que idéa! --Como outra qualquer... meu velho... --Qual! nós lá podemos viver na cidade! --Por que não? --Por que?... por tudo! Tu gostas d'esta liberdade... ha trinta annos que te enterraste aqui e que d'aqui não tens querido sahir para nada... Eu, ao principio, confesso, fazia sacrificio; hoje não. Olha para esta mesa: Vês? estou catalogando as minhas plantas... plantadas aqui na minha chacara e tratadas só por mim!... --Virás á chacara de vez em quando. --Estás doida! --Nunca o estive menos! --No tempo em que Maria era viva nunca pensaste nisso, e então agora.... Ora adeus! --No tempo de Maria eu não era lá precisa para nada; e agora sou. --Precisa? Em casa do Argemiro?! Para que? Estás sonhando... --Bem acordada. Vocês é que estão dormindo... --Hum... já sei... deixa lá a rapariga em paz, minha velha ciumenta; exclamou o barão, rindo e cavalgando de novo a luneta no nariz. --Tambem tu!... --Tambem eu... Que diabo! tu imaginas um mundo ao teu feitio e queres governal-o a teu bel-prazer? Guerrear a moça? por que? Porque é limpa, economica, dirige bem a casa do teu genro e ainda por cima dá lições uteis á tua neta? mas isso é uma insensatez! --Para que te servem os olhos? para que te serve o entendimento e a moral? Já te esqueceste das ultimas palavras da nossa Maria? Não as ouviste tão de perto e tão bem como eu? --A nossa Maria... morreu... --Para ti e para os ingratos; não para mim, sua mãe, que a adoro e a vejo sempre deante dos meus olhos! Como é triste a morte, que até faz esquecidas as filhas aos proprios paes! O barão retirou de novo os oculos, collocou um peso sobre os papeis em que catalogava as suas plantas e contemplou a mulher demoradamente, com tristeza. Ella estava abatida, com os olhos empapuçados, as faces emaciadas, o pescoço mais molle e pellancoso. --Minha pobre velha! tem paciencia e resigna-te. Comprehendo a tua magoa, mas é preciso esforçares-te por comprehender tambem o mundo tal como elle é. Imagina que a tua neta é ella, a nossa Maria, e concentra nella todo o teu carinho e todo o teu amor... já não peço nada para mim... bem vês! Gloria é a filha da tua filha, vive para ella aqui, no meio das tuas arvores e não penses no que vae lá por baixo, pela casa dos outros. --Casa de minha filha. --De teu genro. Tua filha já não existe. --Para mim existe! E depois, tu não vês que já me vão tambem roubando a neta? D'aqui a pouco estaremos sós! --Não... não é tanto assim! --Desde que o Argemiro tem aquella peste em casa... --Que está satisfeito e tem o seu lar em ordem. Se em vez de ser sogra fosses mãe d'elle, tu bemdirias essa pobre rapariga... Tem juizo, minha filha, não vivas com os olhos fixos num fantasma e pensa na realidade das coisas. --Seria bom... se o Argemiro não violasse o juramento que fez... ao _fantasma_... como tu lhe chamas! --Escuta; quando elle jurou fez bem em jurar. Acreditava então poder cumprir tal juramento, e caso mesmo não acreditasse juraria do mesmo modo, porque essa era a vontade de uma moribunda. Nossa filha morreu sorrindo, graças a essa promessa. Não me interrompas! O Argemiro foi um marido raro, amoroso, serio e deu á mulher a mais ampla e perfeita felicidade. Ella acabou. Elle foi (se ainda o não é) fiel á sua memoria por muitos annos. Se agora tivesse alguma paixão, nada terias que dizer. Elle ainda é moço, e essa circumstancia basta para explicar tudo. Somos-lhe muito obrigados. --Achas então muito natural e muito bonito que elle ponha a filha em contacto com a... --Não acabes! --Tambem tu a defendes! --Tambem eu! --Mas não a conheces! --Conheço o Argemiro. Basta-me. Elle já nos expoz mais de uma vez em que condições tinha essa moça em casa. Se elle lhe entrega a filha é porque a julga digna de a receber--e não pódes negar a influencia moral que ella tem exercido sobre tua neta! Gloria repete palavras e pratica acções que reflectem um grande senso moral. É ou não é verdade isso? --Quem nos diz que não seja essa uma obra de hypocrisia? --Ora, adeus! --Vocês estão cegos! --Só tu vês! --Só eu. --Pois antes fosses cega, que a tua clarividencia só te faz mal. De que te serve perceber ao longe tanta coisa que ninguem mais vê? --Serve-me para defender quem não tem mais ninguem por si! --Se tua filha do ceu te escutasse, choraria! --Fazes bem em dizer: _tua filha_. Ella é só minha, agora! --Bom... acalma-te... --Estou calma. --Nesse caso dir-te-ei ainda que o Argemiro é senhor do seu nariz e que nós não temos autoridade, absolutamente, para mettermos o bedelho na sua vida. Fará o que muito bem quizer. De mais, que jurou elle a Maria? Não se tornar a casar. Casou? Não. Logo... --Mas vive como tal... --Sabes que mais?! Deixa-me trabalhar... lamento-te muito, mas não posso argumentar comtigo. 325... parece-me que era este o numero... --Como és frio... --Sou velho; e tenho juizo. --Tambem eu sou velha... --Mas és mulher, e vives mais do sentimento que da razão... Alimentas a idéa de que tua filha sente, soffre, existe, e exiges que ella occupe um lugar que infelizmente está bem vasio... Deleitas-te em revolver saudades; fixas-te em pensamentos de que devêras fugir; a morte assusta-te; a idéa do _nada_ apavora-te e crêas então um mundo á parte para tua filha, que, se continúa a viver, é só no teu cerebro, mais ainda do que no teu coração! Reage contra essa tortura... --É a minha consolação... --É o teu desespero! --Não é... talvez deva ser como dizes... mas eu agarro-me a esta illusão, para poder supportar a saudade... --Não chores... --Sinto-me tão sózinha! --E eu? --Fugiste-me... --Não, minha velha, estou e estarei comtigo até á morte. O que te fiz soffrer na mocidade, quero redimir na velhice... Tua mãe, sim, teria razão de queixa contra mim; tu não a tens contra o Argemiro! Nossa filha, repara o que eu digo--_nossa filha_--gosou emquanto viveu; já foi uma felicidade! Tu esperaste por mim algumas vezes até alta noite... lembra-te! Ella nunca esperou... Fiz-te chorar, do que me arrependo; o Argemiro só a fez sorrir.. Foi por causa do teu ciume de esposa, muito justificado, que escolheste este ermo para viver... Sujeitei-me. Venceste. Hoje, arrependido, vivo cosido ao agasalho das tuas saias e acredita que, se morreres antes de mim... creio que me fecharei vivo no teu caixão... O Barão dizia estas coisas rindo, mas com os olhos afogados em pranto; a mulher, chorando francamente, approximou-se e uniu os seus labios tremulos aos labios murchos do marido. --Vai descançar! disse-lhe elle, afagando-a. Ella sahiu; elle limpou os olhos, esteve algum tempo a pensar em coisas distantes; depois, com um suspiro, voltou ao seu catalogo: --325... Os dias passavam lentamente para os dois velhos. A baroneza não dormia; tinha ao levantar-se o rosto pallido e os olhos vermelhos. O barão entristecia-se por não lhe saber dar remedio. Que fazer? Deixal-a finar-se... e penar com ella. Á proporção que as visitas da filha se prolongavam nas Laranjeiras, Argemiro, occupadissimo em novas causas, deixava de apparecer na chacara. Esse afastamento era tambem motivo de censura e tristeza. O tempo leva tudo comsigo, menos a saudade das mães pelos filhos mortos; pensava a baroneza em silencio, junto á janella, olhando vagamente para o campo pallido, cortado pelas linhas negras das altas e ramalhudas mangueiras, sob cuja sombra Maria correra em menina, entre a polvilhação d'oiro da cabelleira desatada, ou scismara, em mulher, aquellas doces scismas que a idealisavam tanto. Parecia-lhe que, se procurasse bem, encontraria na terra as pegadas mimosas da filha e que seria ingratidão abandonar aquelle lugar em que ella vivera a doce vida da criança e da moça... Em vão o materialismo do marido lhe affirmava que o corpo branco da pobrezinha apodrecêra como um lirio cortado, no fundo negro da cova, e que já d'elle não existia senão um feixe de ossos, tão pequeno, que caberiam todos no seu cofre de lembranças! Em vão o padre Assumpção lhe dizia que a alma bondosa da sua santa estava no ceu, longe de tudo e de todos, voltada como uma açucena para os pés do Senhor! O que ella sentia é que sob a roupagem fluidica, a sua Maria estava a seu lado, ora sentada sobre os seus joelhos, como quando tinha dez annos, ora seguindo com o olhar ciumento o Argemiro, como nos tempos de casada; e que existia, que tinha o seu lugar na terra! O sol desmaiava; as mangueiras com a tarde faziam-se mais negras. Um sabiá cantava, outro mais longe respondia, e a baroneza, dorida, persuadia-se de que a melancolia mais amarga é a dos velhos, porque não tem a suavisal-a nem o mais tenue raio de esperança! Ás vezes Gloria, entrando bruscamente na sala, quebrava-lhe o devaneio. Morena, forte, com os cabellos pretos cobrindo-lhe as orelhas em ondas accentuadas, ella afastava a imagem loira e fidalga da mãe para o fundo esfumado do sonho; e, palpitante de vida e de força, vinha lembrar á velha que só se devia consumir por ella. --De onde vens? Como te sujaste... trazes palhas no cabello... Olha o vestido rasgado! --Quando pulei a cerca... --Pulaste a cerca! muito bonito! Então uma menina pula cercas?! --Foi para entrar na horta... --Vem cá... deixa-me abotoar-te... ora... ora .. Os dedos da baroneza prolongavam de proposito a operação, só pelo prazer de estarem em contacto com o corpo adorado da neta. A menina debatia-se por fim, morta por correr para o pomar ou para o jardim. --Fica quieta... --Vovó! ande depressa... --Para que? --Ainda não dei couve aos coelhos e quero engordal-os para levar um a D. Alice. Ella disse que... --Bom. Vae-te embora! A neta, percebendo tudo, cahia-lhe aos beijos nas faces e nos cabellos, rindo, apertando-a nos braços vigorosos. --Vovósinha do meu coração! Como eu amo esta avó! Como eu adoro esta avó! Então sentava-se e contava as historias lá de fóra: O vovô ainda não percebera que as formigas estavam-lhe dando no pé de absintho... A mangueira grande do pasto estava com herva de passarinho. Ella já avisára o João... A gallinha pedrez apparecêra com dez pintinhos nascidos no matto e havia um ninho de pintasilgos na limeira da horta... A avó sorria, ella incitava-a a sahir com ella pela avenida das mangueiras, até lá abaixo ao portão, para ver uma paineira da estrada toda coberta de flôres! Completamente rosada! A avó, puxada pela neta, arrastava os passos pesados pela aléa deserta e só nesses curtos momentos o seu pensamento tinha repouso. Segurando na mãozinha da neta, dizia comsigo: --Deixa-me aproveitar bem a companhia d'ella, antes que ma levem! Mas lá chegava o sabbado, em que a levavam, ou o avô, ou o padre Assumpção, que ia ás vezes cedo almoçar com os amigos e buscar a pequena. Sem ser annunciado, elle, bom andarilho, vinha a pé desde a estação, uns bons dois kilometros, até á chacara. Quando ás vezes o percebiam, elle já estava dando os bons dias na sala da entrada; outras occasiões os olhos anciosos de Gloria descortinavam-lhe ao longe a batina negra, destacando-se no fundo luminoso do portão aberto. A menina corria para elle; e a avó, encostada á janella, via-o approximar-se, com tristeza... O padre parecia-lhe então um carrasco, connivente com os projectos criminosos da outra e os actos hypocritas do genro. Não o via sempre prompto a defender a _outra_ e a elogiar a moral severa de Argemiro? Tambem elle esquecia essa pobre Maria, tambem elle trahia o cumprimento da sua ultima vontade! É bem verdade que os mortos vão depressa!... Num sabbado, depois de ter visto Gloria entrar no carro com o avô, a caminho da cidade, a baroneza dirigiu-se para a sua saleta de costura, e tentou acabar um avental da neta; mas os dedos preguiçosos paravam no ar e o aventalzinho escarlate cahiu-lhe sobre os joelhos tão incompleto, depois de meia hora de manuseado, como estava antes. Arguia em mente a sua fraqueza e indolencia. Via irem as coisas por agua abaixo e não fazia nem sequer um aceno para prendel-as! Não era tempo de tomar uma resolução? A culpabilidade dos outros atemorizava-a? O dever das mães não é defender os filhos até á morte? A sua passividade não era, portanto, um crime, e não seria tempo de pôr em acção o seu desejo, até agora suffocado pelas mãos dos outros, de rehaver para a sua Maria o coração de Argemiro e guardal-a lá dentro, como santa unica em devoto oratorio?! Á força de pensar nisso, materializava as imagens, dava corpo e sangue ás suas idéas, prompta a bater-se por ellas até ao ultimo alento. Recriminava-se agora da sua altivez, mandando calar-se o negro quando este lhe ia relatar o resultado da sua espionagem... Que tola generosidade fôra a sua, e de que desencontrados sentimentos são victimas as criaturas humanas... Repellira tambem o alvitre da cartomante, cançada de esperar pela carta annunciada... Vinham-lhe agora tentações de voltar lá, a vêr se ao menos encontrava alguem a seu favor! Que falta lhe fazia um braço em que se apoiar!... Certamente que a cartomante não lhe devia merecer absoluta fé... mas não acertara ella em muitos pontos com a verdade? A _Inimiga_ e as suas machinações não lhe tinham saltado aos olhos logo no principio da consulta? Dever-lhe-ia negar o poder da adivinhação? E em vez de negar, não seria prudente recomeçar? Uma elucidação... O aventalzinho escarlate cahira para o assoalho, e nos resedás da janella um beija-flôr destemido batia as azas delirantemente. Eram tres horas da tarde quando a baroneza, muito afogueada, subiu a escadinha ingreme da D. Alexandrina. Como na primeira vez, teve de esperal-a longamente na sala de jantar, entre chromos pregados a gomma na parede e aniagens sujas de cortinas. Um cãozinho rateiro rosnava a um canto, de focinho desconfiado erguido para as sedas pretas da velha bem tratada. Depois de uns minutos que se afiguraram longuissimos á consultante, a portinha do quarto abriu-se e D. Alexandrina appareceu, com o queixinho sumido em um riso largo de boas-vindas. A baroneza, em tom queixoso: --Não recebi a tal carta annunciada pela senhora... --Ha-de recebel-a .. as cartas não mentem! Ainda não é tarde... Entre... Nessa segunda-feira o passeio fôra ao Instituto dos Cegos. Gloria voltava cora a alma cheia de espanto. Divizando no banco do jardim o padre Assumpção, pontual na espera, correu para elle com enthusiasmo. Alice acompanhava-a a distancia, com ura sorriso placido. --Adivinhe onde eu fui, padre Assumpção! --A algum lugar muito bonito, porque os teus olhos reflectem maravilhas! --Acertou. Fui ao Instituto dos Cegos!... --Ah! mas... pareceste-me tão alegre! --Pois então! eu imaginava que todos os ceguinhos vivessem amargurados... zangados... que no escuro em que vivem não se entretivessem com coisa nenhuma, nem pudessem lêr, nem tocar, nem nada... Quando D. Alice me disse: vamos ao Instituto dos Cegos... eu não respondi nada, por vergonha, mas fiquei com medo... --Os cegos nunca fizeram mal a ninguem... --Não sei... mas eu tive medo de ficar com pena! Alice chegava nesse momento; o padre cuprimentou-a e recebendo a menina, despediu-se d'ella. Gloria abraçou a moça com frenesi e partiu, em companhia do padre, para o escriptorio do pae. No bond recomeçou a conversa: --Então hoje gostaste do passeio... --Muito! Quando chegamos eu estava aborrecida; mas logo que passei pela primeira sala fiquei interessada. D. Alice ia-me mostrando todas as coisas com tanta paciencia... tudo muito limpo e as cegas tão risonhas! Havia lá uma menina chamada Rosinha, da minha edade... e mais adeantada do que eu! --Porque é estudiosa. --Mas eu vejo! --É que não basta vêr... --D. Alice levou uns biscoitos para as crianças... Se o senhor visse a algazarra que ellas fizeram! São conhecidas de D. Alice... Uma tocou piano e um mocinho, violino... Fiquei admirada... nunca imaginei que os cegos pudessem ser felizes. --São, alli, porque não tem tempo de pensar na sua desgraça, tão occupadas têm todas as horas. Assististe ás aulas? --Assisti... leram... deram geographia... --Foste ás officinas? --Fui. Vi empalhar cadeiras, fazer escovas... --Ahi está: lendo, tocando, enramando vassouras ou fazendo outro qualquer trabalho, elles estão sempre entretidos. É uma casa santa, aquella em que puzeste hoje os teus pés. Guarda na memoria a lembrança d'esse passeio, que te servirá de conforto quando ouvires mais tarde falar mal dos homens... Se não houvesse bondade, ninguem iria ao encontro da miseria, nem protegeria os fracos... --Foram as palavras de D. Alice, quando sahimos de lá... --Ah, ella disse isto mesmo? --Tal e qual... --É extraordinario!... que mais te disse? --Que todos nós devemos conhecer as casas em que se pratica o bem na nossa terra, para as bemdizermos e conduzir até á sua porta os necessitados de seu soccorro... Disse que o Rio de Janeiro é uma cidade generosa e que nós todos devemos fortifical-a no empenho de agasalhar os infelizes. --Ella tem razão! --Quando eu lhe disse que os cegos já não me pareciam desgraçados, ella mostrou-me o mar... o ceu... os morros... os barquinhos de vela... e perguntou-me depois se eu não teria pena de não ver tudo aquillo. É o exemplo vivo, a commoção aproveitada para o exemplo moral... pensou o padre. Quem teria inoculado naquella mulher esta delicadeza, este tacto de educadora, tão raro? Ella conhece as plantas dos jardins e ensina os nomes das nossas arvores; sabe de cór as casas de caridade e chama para ellas a sympathia das crianças, interessando-as ao mesmo tempo pela grande familia dos infelizes... sujeita-se a exercer um lugar suspeito, aceitando todas as condições que lhe impõem e revela uma sensibilidade rara em todos os actos em que a podemos apreciar... Será ella na verdade a mulher perigosa, não pelo que calcula e inventa, mas pelo que merece? Não será prudente encobrir, tanto quanto possivel, essa feição singular do seu caracter ao Argemiro?... Gloria não repetirá ao pae as palavras que me disse, fica-lhe no coração o sentido, mas a memoria não as guardará com a mesma fidelidade... Eu serei mudo... Convém ser mudo. Elle quer guardar a sua independencia... e nem percebe que já está captivo! Diz que não. É sincero quando o diz... pensa que não. Nunca a vê... Mal lhe ouviu a voz um dia... Entretanto, só se alegra quando entra em casa... já não olha com o mesmo olhar saudoso para o retrato de Maria. Se a governante sae, estando elle em casa, logo se aborrece. É exquisito. Não a ouve... não a vê, mas sente-a! Como acabará tudo, se ella não fôr o que parece?... Ha almas tão complicadas, tão indecifraveis! A d'esta mulher assusta-me... preciso defender o Argemiro... sou o unico amigo em contacto com ambos... Ella é difficil... eu desageitado. Se eu fosse mais corajoso e ella mais franca... Mentirosa?... não me parece... mas é possivel. Minha mãe gostou d'ella. Mas o coração de minha mãe é propenso á sympathia. O melhor coração da Terra!... Argemiro mudou. Está illuminado... Ella envolve-o com um cuidado excessivo... é isso que me faz scismar... Emfim, seja como fôr, a verdade é que a minha Gloria tem aproveitado. Cá em baixo parece outra. Deixa a casca selvagem com a avó, e fica de setim! Teremos isso de lucro! Porque, afinal, para tudo o mais o remedio é a inercia. Gloria era esperada pelo avô no escriptorio do pae e, como o velho tivesse pressa, as despedidas foram precipitadas. Só depois d'elles sahirem Assumpção reparou na expressão aborrecida do amigo. --Que novidades temos? Estás com uma cara! --Imagina: minha sogra vem morar commigo! --Felicito-te. Terás assim tua filha sempre a teu lado. Parece-me que já lhe pediste isso mesmo ha tempos. --Quando enviuvei. Então não quiz. E agora... --Quer. É natural. --Mentes; não achas natural. Tu percebes tudo tão bem como eu. --Direi mais: acho que faz bem. --Em espionar-me?! --Defender-te. --Quem me ameaça? --A tua imaginação. --Vocês são todos uns imbecis! --Talvez... --Metteu-se-lhes uma asneira em cabeça e é alli! Eu sempre quero saber que mal fez a pobre moça á minha sogra! E a vocês todos, que a guerream... mas guerream porque? porque traz a minha casa alegre, cheirosa, bonita, limpa; porque economisa o meu dinheiro, fazendo-me passar bem como nunca, e ainda corrige a minha filha de feios vicios de educação! A eterna malicia faz d'isto um enredo e mette-se-me no caminho para me perturbar. Tu sabes que eu quero muito á minha sogra; depois da morte de Maria redobrou por ella o meu affecto e a minha consideração... Sabes que tenho um grande prazer em vel-a, em estar a seu lado, em chamal-a mamãe... como uma criança... como minha mulher fazia... Sabes que sou fiel ao passado e ao juramento que fiz; sabes tudo isso e sabes tambem que sou profundamente egoista, que amo a ordem, o silencio, o socego, o conforto e a liberdade! A liberdade, sobretudo! Aquella creatura que tenho em casa não é uma mulher; é uma alma, que me não constrange absolutamente em nada. Levanto-me, deito-me, saio, entro, janto, converso, ralho ou rio, sem ter que dar por isso a minima satisfação a ninguem. Vaes vêr agora! Minha sogra e ella são incompativeis... --Talvez não... --Sim, com certeza! Abre-se a guerra. A moça sae. O Feliciano readquire o perdido prestigio. Começa o desbarato dos charutos, das camisas engommadas e das gravatas. A mobilia ficará com pó; a comida será atirada para os pratos como para os cães. Minha sogra, velha e pesada, não poderá subir e descer as escadas na fiscalização dos quartos. Os retratos de Maria apparecerão rodeados de perpetuas e sempre-vivas, flôres da minha especial embirração; aquelle perfume suave que me entrou em casa com esta rapariga, desapparecerá com ella; abrirão a porta do gallinheiro para o jardim e seccarão roupas no gradil do terraço do fundo... Verás! Á noite não poderei passear no meu quarto, como costumo fazer, com receio de incommodar a mamãe, que tem somno leve e soffre de enxaquecas; e terei mesmo, para socegal-a, de apagar a vela muito antes de adormecer, porque tem medo de incendios!... Assumpção sorriu. --Que pretexto dá para essa resolução? --Doença. Está doente e precisa de vir morar ao pé dos medicos!... --Effectivamente, achei-a abatida outro dia... --A doença d'ella, sabes qual é? ciumes! Vem vigiar-me... pôr obstaculos... fazer scenas... Como se eu me sujeitasse! --Não... --Não?! És innocente! Mas eu fujo, invento uma viagem. Parto! --Para onde? --Não sei... para o inferno. --Pobre senhora... --Eu adoro-a, Assumpção! adoro-a, lá, á sombra das suas mangueiras, afundada na sua cadeira de balanço, cheirando a alecrim e dizendo as coisas maternaes que sabe dizer. Mas em minha casa atrapalha-me... desarranja-me a vida... altera-me o socego. Pensa commigo: minha sogra pôde viver em companhia da Alice? --Pôde... --Como?! --Pedindo-lhe para não se immiscuir em nada na direcção da casa... --Seria bom se ella não viesse já com o proposito de supprimir a outra. Engole-a. Verás que a engole logo na primeira entrevista. --Exaggeras... --Estás convencido d'isto, tão bem como eu. Não a defendas, nem disfarces! --Quem te deu essa noticia, o barão? --Sim. Quando vocês entraram elle acabava justamente de pedir-me que lhe dispensasse um quarto em minha casa. Outra coisa: o meu quarto eu não o dou; e a não ser o meu, o unico quarto nas condições de servir-lhes é o que dei á governante... terei de a desalojar... é desagradavel isso não te parece? Será necessaria a tua intervenção. Agora levo em capricho, não quero vêr nem falar com aquella moça. Uma sacrificada á brutalidade dos outros. --De que me incumbes? --De ir communicar isso mesmo á coitada e combinar com ella os arranjos do quarto... --Tua sogra descerá?... --Amanhã. Ella entra por uma porta e a Alice sahirá pela outra; é o que vae acontecer. --Talvez não... --Vê se com o teu prestigio de padre e a tua diplomacia consegues conciliar as coisas... --A baroneza desconfia de mim... --Ah, já notaste! --Todavia, procurarei ellucidal-a. Ninguem acredita, a não serem os amigos intimos, que mantenhas no segredo da casa a situação que fazes transparecer cá fóra... Não censures tua sogra, pela mesma persuasão, que... --Persuada-se do que quizer; mas não lhe assiste o direito de impedir a minha vontade e a minha liberdade de homem, de fazer o que eu muito bem entender. Nem minha mãe seria capaz d'isso, nesta situação... --Não te exaltes... --Meu sogro notou com certeza o meu sorriso amarello... --Pobres velhos! --Só os lamentas a elles! E a mim?... Assumpção. não quiz dizer a quem mais lamentava, mas a figura pallida de Alice atravessou-lhe o espirito numa aureola de piedade. A sua commissão era muito delicada, e nem sabia por onde começar. Argemiro passeava agitado pelo escriptorio, falando entrecortadamente: --Exactamente agora, que tenho tanto trabalho... aquelle doce socego... ainda hontem escrevi até ás duas horas... Qual!... E aquella mania da comida sem sal?!... E eu que aprecio os salgados... Outra coisa que eu abomino... o cheiro do tal matte queimado! E o senhor meu sogro não dispensa o matte!... Logo de manhã cedo é cada chicara! O Feliciano vae rejubilar-se! Se me apparecer com a cara alegre, mato-o!... Se não fossem certas considerações... Ah! os meus livros, tão bem arrumadinhos... Has de crêr? Depois que ella está lá em casa nunca achei uma falta e nem uma traça na minha bibliotheca! Antes, era um desespero! O Feliciano tinha aquillo em uma desordem... Eu estava agora tão bem... tão bem!... Que castigo! --Tranquillisa-te... tudo se ha de arranjar. Por quanto tempo vêm os teus velhos? --Tempo indeterminado. Quer dizer: toda a vida! --Se elles soubessem d'este acolhimento... --Sabem. Presumem! Minha sogra com que fim vem cá para baixo? Com o fim de escangalhar a minha felicidade. Pensa que eu amo, que sou correspondido e vem pôr-se entre os meus beijos e os da pobre rapariga... O que conseguem com isso tudo? Despertar-me a curiosidade e obrigarem-me talvez a apaixonar-me de verdade. E ainda se hão de queixar... de mim, quando eu confessar isso! Verás. Assumpção sorriu, dando razão ao amigo, sem se entretanto manifestar. --Envergonho-me antecipadamente do que se vae passar lá em casa... --Tua sogra é delicadissima... --É ciumenta! e os ciumentos chegam a praticar desatinos! Lembras-te de Maria? Um anjo; mas quando lhe dava para ter zelos... perdia a cabeça! --Tal qual a mãe... Decididamente, eu vou-me embora!... --Parece-me prudente conversares hoje com D. Alice. --Nunca... já agora, não quero! Tem paciencia, meu velho, fala-lhe tu... és tão bom, tens-te interessado tanto pela minha vida, que não sei já dar um passo sem ti... e quando o dou não sou feliz. Estou a falar-te e a reparar numa coisa: vocês nunca alludem ao nome da minha governante sem o acompanharem do _dom_... vejo que ella inspira respeito a toda a gente... deve effectivamente ser uma mulher fina e educada... D. Alice!... pois a D. Alice vae soffrer vexames. --Não sejas tolo. --Verás. --Espera-me hoje para o jantar. Conversarei depois com a... D. Alice. Ella é cordata e conhece o seu logar. Dás-lhe demasiada importancia. Afinal, ella é uma empregada... uma subalterna. Não exaggeres os melindres e tranquillisa-te. Que mais ordena meu principe ao seu _mordomo_? --Que me abrace e me perdôe. Assumpção sentiu no abraço do amigo uma ternura intensa. Ama-a... pensou elle comsigo tristemente. Elle ainda o não sabe... mas a verdade é que ella já lá está dentro... XV Intoleravel, o Feliciano, ao servir nessa tarde á mesa. Sem pronunciar uma unica palavra e mais impertigado ainda que de costume nuns collarinhos que lhe roçavam as orelhas, percebia-se que no seu mutismo e seriedade elle suffocava de contentamento. Quando o olhar de Argemiro o lobrigava espigado aos cantos, esperando ordens, desviava-se com uma impressão exquisita e que não podia definir. Durante todo o jantar desgostou-o a figura limpa e correcta do negro, approximando-so e afastando-se maciamente, conforme as exigencias do serviço. Em frente de Argemiro o padre Assumpção, encostando os hombros quadrados no alto espaldar da cadeira de couro, dilatava as narinas ao aroma das frescas rosas que alegravam a mesa. Para tornar uma hora agradavel basta ás vezes bem pouca coisa... pensava elle comsigo. Uma toalha bem limpa... umas flôres orvalhadas... esmaltes de loiças reluzindo... e já os olhos e o olfacto tem um repasto regalador... Ámanhã, as coisas estarão de outra maneira, que é vezo de inimigos contradizerem-se em tudo. E então Argemiro confessará o que ainda pensa ignorar... --Acredita, meu velho, estás hoje com a fisionomia differente! Salvaste com certeza alguma alma do purgatorio... --Talvez... mas talvez sejam tambem effeitos de um sonho que tive esta madrugada. Imagina: eu estava sentado a um orgam de uma cathedral enorme, e de tão peregrina belleza, que nenhuma haverá assim sobre a terra... Por toda a vastidão do templo estendia-se uma luz pallida, de alvorecer ou de luar, desenhando nas naves os rendilhados das rosaceas e as figuras dos vitraes... Eu tocava musicas solemnes e de tão concentrado, tão profundo sentimento, que as lagrimas me cahiam dos olhos aos pares, quando acordei, e tenho andado todo o dia com a alma cheia de harmonias. Se eu fosse moço, teria corrido ao Instituto de Musica a vêr se tornaria um dia possivel tal ventura... Por que hão de vir tão tarde semelhantes sonhos?! --Para que se não realizem. --É isso. Minha mãe, lembras-te? adorava a musica, e o piano poucos segredos teria para ella. Foi pena que não me tivesse transmittido essa prenda... A arte da musica é perfeitamente compativel com o sacerdócio e eu teria uma valvula para as minhas febres... --Escreve... --A palavra é indiscreta e arrastaria o meu temperamento, que eu trago fechado á chave... --Nunca pensei que elle se submettesse a isso! És um forte, Assumpção! --Nunca pensaste, porque?! --Por que te conheço desde pequeno. No collegio ou em casa, foste sempre um rebelde. Não posso esquecer-me do dia em que minha mulher, nesta mesma sala, alli, naquelle canto, me disse que tu ias tomar ordens. --Effectivamente, foi ella a primeira pessoa a quem confiei essa resolução! --Como eu protestasse, indignado contra a idéa (que sempre me foi muito desagradavel), ella observou: Tu te zangas! pois eu estimo... Elle será o meu confessor!--Tudo isso vae longe... --Para mim não. Parece-me que tudo se passou hontem... No meu sonho, esta madrugada, reviveram essas commoções... As imagens da cathedral, todas de marmore branco, tinham, na opacidade da pedra, a expressão humana das creaturas que amei na minha adolescencia e na minha mocidade... As melodias gloriosas que eu derramava pela vastidão do templo eram formadas pelas vozes d'ellas, resuscitadas miraculosamente naquellas endeixas sacras... Não eram só vozes humanas que eu reconhecia nas sonoridades da minha musica, eram tambem outros sons que tenho sempre guardados no ouvido: o ranger da porta do seminario... o badalar do sino para a minha primeira missa... e o rugido das sedas de tua mulher no dia em que me foi fazer a sua primeira confissão... Nunca me esqueci... foi como um ruflar de azas... Pois a minha alma transportava essas impressões em largos canticos, vendo as imagens extaticas todas voltadas para a chuva do meu pranto e sentindo a minha alma encher o mundo! Um sonho de artista genial, e em que eu gosei as alegrias fecundas da creação. Não te parece que sejam os artistas os homens mais felizes da terra? --Tenho convivido pouco com elles, e como não me basta imaginar... Quem sabe? Olha, toma vinho. Creio que não te basta o da missa... --Pouco mais. Que é isso?! --Nada... Argemiro tivera um pequeno sobresalto involuntario, vendo a mão negra do Feliciano pegar na porcellana côr de leite do seu prato. --Nunca te aconteceu, ao ter qualquer impressão, sentir mau ou bom gosto na boca? --Nunca, respondeu o padre. --Pois agora foi como se eu tivesse tomado uma colher de sumo de limão! O olhar de Argemiro acompanhou o vulto do negro, que se dirigia para a copa. Assumpção argumentou: --Está nas tuas mãos o remedio. --Despedil-o? --Pois então? --Acabo por fazer isso mesmo. Realmente não ha nada como a ignorancia para certa gente. Meu sogro fez de um moleque humilde, um homem ruim... Se em vez de o mandar para a escola, com bolsa a tiracolo e sapatinhos de botões, o deixassem na modestia da cozinha ou da estrebaria, elle não teria agora nem a revolta da sua côr nem a da sua posição... O que o torna mau é a inveja e a sua ignorancia mal desbastada. --Elle não é tão mau assim! --Defende-o agora! O Feliciano voltou com a sobremesa, um doce novo, desconhecido de ambos e que o copeiro não teve remedio senão confessar ter sido preparado por D. Alice, receoso de que ella o ouvisse por detrás das portas. --Depois do café, ao entrarem os dois sózinhos para a bibliotheca, Argemiro notou: --Foi o meu ultimo dia de bem-estar. Reparaste? nada faltou. É uma alegria, uma casa assim! E rara, eu sei, nas minhas condições, rarissima! Perfeita, a minha governante! se tem defeitos, nunca os deixa transparecer... nem é possivel que os tenha... --Estás doido! Ella é uma mulher como muitas; sómente cuidadosa de não perder um emprego bem remunerado; mais nada. --A esta accusas! --Não. Esclareço-te. Jogaste uma cartada, foste feliz, dá-te por bem pago por estes largos mezes de tranquillidade. Suppondo que tua sogra se incompatibilise com a D. Alice, acharás depois outra governante nas mesmas condições. Esta é tão perfeita como será a outra, desde que tenhas com ella as mesmas exigencias que tiveste com esta... --Pensas então que seja só movida pelo interesse pecuniario que ella tão bem se desempenha de tudo? --Penso... que isso concorrerá! --Pensas que só o interesse de agradar e de conservar um emprego mesquinho dicte as lições de moral e de desenho que ella dá a Gloria?! --Concorrerá... --És mau; ou não és sincero! Eu falo com imparcialidade, porque, como sabes, ella para mim não é uma mulher, mas uma alma. Não a vejo, não lhe toco, a sua imagem material é-me tão indifferente como um pedaço de pau ou uma pedra. Para mim basta-me a sua representação, neste aroma, peculiar d'ella e que erra subtilmente por toda a minha casa; nesta ordem, que me facilita a vida, e no gosto com que ella embelleza tudo em que toca e em que pousa a vista. É uma educada. Afigura-se-me que ella deve ter estudado á sombra de castanheiros inglezes, entre campos de tulipas e de jacinthos, tão diversa ella me parece dever ser das outras mulheres. Não me digas que é feia. Já sei que o é; mas deixa-me com esta phantasia, que me sabe bem... Ahi vem o Adolpho. São os passos d'elle. É bom que venha cortar este idylio. Os idylios são como os sonhos: tambem ás vezes vêm tarde!... Foi um lindo sonho, o teu! --Bom! elle já tem consciencia do perigo... pensou comsigo Assumpção. Adolpho Caldas appareceu entre os humbraes da porta, com as largas faces rubicundas crestadas de sol. Fôra a Paquetá por causa de uma mulher. Não valera o sacrificio... E o serão passaram-n-o a falar de amor, de politica e de negocios. No outro dia, ás onze horas da manhã, um carro conduzia os barões e Gloria, da Central para as Laranjeiras. Estava um dia, como dizia Eça, arrepiado. Pequeninas nuvens cinzentas em fórma de escamas sobrepunham-se no azul do ceu. Nas ruas andava gente agazalhada. Um ventinho humido filtrava-se por entre as ramas empoeiradas do arvoredo das praças. O barão sumia-se no assento do fundo, entre as dobras fartas da saia castanha da mulher, que uma expressão de firmeza e resolução animava. No assento da frente, Gloria, com um largo chapeu de fitas amarrotadas, observava tudo o que via de relance pelas calçadas. Commentavam a falta de Argemiro. Por que não teria vindo Argemiro á estação? Feliciano, esse viera, e lá ficara despachando malas e embrulhos para casa. Bem bom rapaz, o Feliciano. A baroneza preparava o animo para conflictos! Bem suspeitava de que o genro não estaria contente, elle que tanto a estimava havia poucos mezes! Ia emfim ver o focinhosinho d'essa D. Alice, que se metia em tudo, estragando a felicidade da familia. Era o fermento mau; era a colher de veneno, a gota de azeite rançozo no leite doce e fresco! Como a receberia ella? Como uma creada grave?... como uma dona de casa? A baroneza preparava-se mentalmente: para tal caso, tal attitude... O carro ia depressa, abalando o figado doente do barão, que se submettia a tudo contrariado, e fazendo tremer a papada flacida da baroneza. A sombra das suas lindas mangueiras, o socego das suas salas amplas, abertas para o silencio dos campos ramificados por grossas veias de aguas fugitivas, o recorte azul das montanhas afastadas, que lhe era doce contemplar da sua varanda ao pôr do sol, affiguravam-se-lhe bens perdidos para sempre, como se não de bairro, mas para outro paiz estivesse de mudança! --Arre! exclamou o barão, sem poder soffrear uma praga, a um arranco do carro que lhe abalou todas as visceras. --Tem paciencia, meu velho! aconselhou a baroneza, voltando-se para elle, não menos abalada. --O Feliciano escolheu o carro peor que encontrou! Decididamente... Outro balanço cortou-lhe a phrase e o barão suspirou, lamentando de si para si a sua perdida liberdade da chacara, vigiando as suas plantas, os viveiros de passaros, os seus estudos de botanica, praticos, gostosamente feitos pelas orvalhadas madrugadas de Maio! Desacostumara-se de olhar para as paredes, odiava a cal. --O mar! gritou Gloria com alegria. O carro entrára no cáes da Lapa. A baroneza demorou o olhar sobre a neta. Estava certa de que ella a atrapalharia... era um obstaculo á execução dos seus planos. Depois cerrou as palpebras, sem querer ver a rua por onde a sua Maria passára rigida, fechada á chave, entre galões d'ouro, caminho do Cajú... Desde esse dia que não tornára áquelle bairro, em que a sua imaginação teimosa insistia em fazer de Maria o mesmo ser animado e doce que fôra em tempos perdidos. Fugira da realidade amarga para o sonho consolador, onde resistia ás solicitações da verdade... Porque não afagar uma illusão, quando ella suavisa um soffrimento? --Vovó está doente?! --Não.... Vae-me custar... --A culpa não é minha! observou o barão. --Ninguem te accusa; descança. --Que é que vae custar, vovó? --Nada... filha... Gloria voltara a olhar para a rua, rindo de umas coisas, admirando-se de outras. Quando o carro parou á porta de Argemiro, a baroneza, dominando a dôr em que o seu coração se dissolvia, estendeu a mão ao genro, que descera á rua para ajudal-a a sahir da carruagem. A baroneza atravessou o vestibulo com passo firme e vagoroso. Argemiro sentia no braço o peso da sua mão gorda alvejando entre as malhas negras da luva de retroz... --Fez boa viagem? perguntou-lhe elle carinhosamente. Mas era pedir muito, pedir-lhe que falasse. Ella não respondeu. Os seus olhos, de um azul turvo, interrogavam a porta do interior da casa, onde Maria vinha recebel-a outr'ora... Penetrou na saleta com o mesmo silencio prudente. As lagrimas estavam-lhe na garganta. Gloria embarafustou pela casa, á procura de D. Alice. O barão sentou-se em frente da mulher e do genro, enxugando a calva humida, com movimentos nervosos. Argemiro esperava... Cançou-se. O constrangimento dos velhos fez-lhe pena. Começou: --Esta casa é a mesma de ha oito annos, menos, muito menos alegre, mas egualmente sua. O que lhes peço é que se dirijam á governante, _D. Alice_, que tem plenos poderes para qualquer determinação, e com ella se entendam sobre tudo o que desejarem. É uma moça distincta e a sua convivencia espero que lhes seja tão agradavel quanto a sua gerencia nesta casa me é util... Estas ultimas palavras disse-as todo voltado para a sogra, que o ouvia sem pestanejar e muito séria. Elle continuou: --Como sabem, esta senhora vive nesta casa sem que eu a conheça; e já agora manterei até ao fim esta situação, que parecerá exquisita a toda a gente, menos aos senhores... É um ponto sobre o qual não desejo insistir e por isso limito-me a pedir-lhes que a tenham na conta mais de uma amiga da familia, proveitosa principalmente á minha filha, do que de simples despenseira... O barão espiava o effeito das palavras do genro no rosto da baroneza. Pallido, mais descahido sobre as pelles molles do pescoço, elle alongara-se, emmurchecido. As rugas faciaes, das narinas ao queixo, cavavam-se fundas, denegrindo a brancura enluarada da pelle. A boca fina esquecera a habitual expressão, arqueando-se muda sob o nariz pequenino e afilado. Só os seus olhos aguados, ensombrados por sobrancelhas inda negras, reflectiam contornos movediços de pensamentos dolorosos. Argemiro articulava as palavras com propositada clareza; dizia ainda: --A minha vida é passada na rua. Não esperem nunca por mim. As suas horas serão distribuidas aqui como eram lá em cima. O hospede sou eu. O barão esboçou um protesto. A baroneza agradeceu, e a porta escancarou-se para dar passagem ao Feliciano sobraçando embrulhos. Atraz d'elle o carregador, as malas, a confusão! Argemiro allegou necessidade de uma entrevista cuja hora se approximava, e fugiu. Chegara a hora de vêr a outra, a tal D. Alice, que deveriam tratar como pessoa da familia!... Se valera a pena vir de tão longe para isso! Pessôa da familia... que heresia e que escarneo! A facilidade com que se dizem certas coisas! Como se uma creatura qualquer, pudesse entrar por uma familia a dentro, como por um hotel, sem cerimonia! Para que tinha vindo? para verificar um facto já conhecido?... não estariam ainda a tempo de voltar para traz, para a felicidade silenciosa das suas velhas mangueiras, e das suas aguas fugitivas? Isso seria razoavel, se não houvesse a vingar a doce Maria, tão abandonada... Pobre filha, ter o seu lar, o seu logar, invadido por uma intrusa de má morte... O Rio de Janeiro era decididamente a capital da perdição. Quem lhe dera ter nascido e vivido numa villa inculta, sem outros rumores que os dos ribeiros, do vento ou do sino da ermidinha branca e socegada! Aquella saleta... sim... a mobilia era a mesma... mas tinha outra disposição... e haviam accrescentado alguns objectos novos... tapetes... quadros... idéas de mulher voluptuosa! Argemiro, sempre que sahia, tocava a campainha electrica da porta de um modo especial, como um aviso á Alice para que ella pudesse circular á vontade por toda a casa. Era a unica communicação que lhe fazia directamente, sem perceber que sentia certo contentamento ao executal-a. E a campainha tilintou na casa silenciosa. Os velhos contemplavam-se interrogativamente, ainda na saleta, ambos tristes e constrangidos, quando Gloria entrou na sala pela mão da governante. O barão levantou-se, a baroneza olhou para a moça com dura frieza. Ella alli estava em frente, nem submissa nem altiva, um pouco pallida, pela intuição talvez de vir ao encontro de inimigos. --Vovó! É D. Alice! Mas a avó de Gloria, reprehendendo o enthusiasmo da neta com um olhar, cumprimentou a moça de um modo quasi imperceptivel. O barão precipitou-se, para um aperto de mão e para apanhar a bolsinha e o lenço da mulher, pousados no sofá. --Meu quarto está prompto? Perguntou a baroneza, como se falasse a uma criada. --Está... sim, minha senhora... queira seguir-me... --Não é preciso: eu sei o caminho; Gloria! vem tu commigo! A baroneza abriu a porta do corredor e arrastando a neta sahiu, acompanhada pelo marido, que levava as mãos cheias de embrulhos, fingindo-se muito atrapalhado com elles. Alice sorriu. Certamente a vida é ás vezes bem amarga e dura de ganhar!... Que deveria ella esperar?.. fosse o que fosse, esperaria até ao fim! XVI Padre Assumpção morava para os lados da Lapa, numa casa encravada no morro de Santa Thereza, velha e esguia como uma torre, com frente de dois andares para uma rua tranquilla e fundos rentes a um jardimzinho bem cultivado. Entre o habitante e a habitação havia certas analogias de fórma e de caracter. Tinham ambos a silhueta fina e o aspecto melancolico e fatigado. E se as paredes grossas, da velha construcção, davam a idéa da firmeza que o vulto ossudo do padre suggeria, as rosas brancas entrelaçadas junto ao telhado, no jardim do morro, fariam lembrar a doçura dos seus sentimentos impregnados de idealidade... As janellas de guilhotina, dos compartimentos superiores, viviam escancaradas para o azul da bahia, taes como os olhos do Assumpção para um sonho infinito... Todo o edificio, da base ao cimo, parecia socegado; a loja era habitada por um casal de surdos-mudos, cujos gosos e soffrimentos não varavam paredes nem vãos; o primeiro andar pela mãe de Assumpção, e o andar superior, mais resumido, por elle só, que o enchia com os seus livros e as mobilias antigas do seu quarto. A paz, se o silencio é paz, seria só apparente. O casal de mudos era pobre, e viviam ambos sob a canga do trabalho, cosendo botinas para as fabricas de calçado. D. Sophia, a mãe de Assumpção, confessava desgostosa não ter criado o filho para Deus, mas para si. Aquella batina preta era o espantalho dá sua alegria. Para ella, o mysticismo do filho fôra uma fórma de doença a que não soubera dar remedio, e as maiores queixas voltava-as contra si propria, que o deixara afinal enveredar por aquelle caminho de sacrificio. Ella educara-o para o mundo, para a familia, para o amor! Sonhara com outra filha, a mulher d'elle, que a ajudaria a amimal-o, e lhe daria meia duzia de netos fortes e bonitos! O sacerdocio reduzira a cinzas as suas esperanças luminosas. Tudo acabava, tudo morria nelle, que se abatera de repente, como uma vela rota no meio do temporal. De que lhe servira ter-lhe insuflado o amor pela natureza, pela gloria, pela patria; ter-se sacrificado tanto para o tornar physica e moralmente um forte, se elle lhe escapara, por entre as mãos frageis, para o vacuo? Pobres mães, como os seus designios sahem errados! A quantos sacrificios ella se sujeitara, quando elle era pequeno, com o pensamento de que mais tarde ella teria de tudo a compensação, vendo o seu filho gosar a vida larga e amplamente! E eil-o um concentrado... um padre! Fôra o collegio dos padres que lhe inspirara aquillo, ou alguma paixão? Elle nunca o dissera. E que importava a causa, se o effeito alli estava e irremediavel! Amorosa e amiga de crianças, ella lamentara em moça não ter podido dar irmãos ao seu filho, que o alegrassem, arrastando-o em correrias; companheiros de infancia, confidentes amigos da mocidade! E era d'ahi tambem que lhe nascêra a visão d'aquelle futuro ruidoso, quando ella já velha visse a sua casa invadida pelo riso e a jovialidade dos netos! E o filho, desegual no humor, ora timido, ora arrebatado, cresceu sob a suggestão d'esse sonho. O que lhe valia a ella era a amizade do Argemiro, que mais velho um anno que o amigo, lá o entretinha com as alegrias do seu temperamento robusto. Eram vizinhos, estudavam no mesmo collegio, amavam os mesmos poetas, completavam-se pelas suas semelhanças e dessemelhanças. A amizade do Argemiro foi um allivio para D. Sophia. Bem percebia ella não bastar á felicidade do filho! Os dois rapazes viviam como irmãos! Passaram-se annos assim, até que um dia entraram ambos em casa, um radiante, outro constrangido. Que se passara? Não o soube nunca; mas por mal d'ella o constrangido era o filho, que entrou a empallidecer... a não dormir... emquanto o outro prosperava! --Meu filho! que tens? --Nada... --Escondes-me alguma coisa! --Nada... --Quero-te alegre! --Mas eu estou alegre... acredite que estou alegre e que sou feliz. Era sempre o que elle affirmava. --Elle mente-me! pensava a mãe amargurada. E a sua obra, a alegria, a ambição de glorias que, durante tantos annos se esforçara por implantar no filho, sumia-se, derrocava-se, sem que lhe fosse possivel, a ella, amparal-a para a reconstruir! --Elle mente-me... Ella queria-o franco, risonho, amigo da vida. Elle retrahia-se, tomava ares abstratos, entregava-se a leituras philosophicas e a estudos incompativeis com a sua edade. Ella não entendia bem d'aquillo, mas presentia um perigo, sem forças para o combater... --Elle mente-me... Era a sua amargura. O filho tornára-se de uma sensibilidade doentia; fugia da sociedade, evitava a propria mãe, que se encolhia chorosa, para o não aborrecer. Aos vinte e tres annos vio-o morto com uma febre. E aos vinte e cinco--padre! Não o quiz contrariar, não se podia oppôr. Elle lá teria uma razão, differente d'aquella que allegava e que ella espiára em vão! Não fôra chamado por Deus ao sacerdocio, fôra levado por uma causa extranha, mas inabalavel. Sonhar! de que vale o sonho que não fructifica, flôr que se esfolha e de que nem o aroma sequer permanece como suave consolação! Ella sacrificára-se para tornar aquelle filho um vencedor, um homem! e eil-o mystico, retrahido, isolado do mundo para que o destinára! Ella pedira-lhe uma nora, elle trouxera-lhe uma batina, e á sua indagação angustiosa: --Meu filho, que tens?! Respondia ainda: --Nada. Eu estou contente... Eu sou feliz! --Mente-me! Pensava ella comsigo, disfarçando as lagrimas. O que lhe valia era a amizade de Argemiro. Esse sim, era um rapaz solido, pratico, como ella desejara o seu... Ah, não se podia esquecer nunca! No dia em que Assumpção, pallido e tremulo, lhe confiara a resolução de ser padre, ella levantara para elle a mão, como no tempo de criança, em que se via forçada a corrigil-o... Elle estendera-lhe a face, como Christo; ella retrahira-se, desatando num pranto soluçado. Negava o seu consentimento; não queria! O homem não nasce para o celibato, mas para a familia; a missão ensinada por Deus é a de creador! affirmava. E toda afflicta: --Mas, que determinou semelhante idéa, meu filho? --A vocação... --Não... não! Tens algum desgosto comtigo! --Não tenho nada. Eu sou feliz... --Elle mente-me! gemia sempre a mãe, por dentro, com os olhos extaticos no semblante impassivel do filho. Elle tornava-se de pedra e era em vão que ella se debatia á espera de um milagre que nunca se realizou. Teve que ceder, mas sem resignação. O que lhe valia agora era a pobreza. Começou a repartir as suas migalhas com os vizinhos necessitados. Toda a sua actividade empregava-a a bem dos outros. Chamou para casa duas crianças orphãs e entretinha-se a ensinal-as e a vestil-as. --Quando eu morrer, dizia ella ao padre, tu olharás por elles como se fossem teus filhos! Forçava-o assim á paternidade; obrigando-o a amal-as, empurrando-as para os seus joelhos, contando-lhe as suas gracinhas, fazendo-o adorado por ellas. Até já achava nas crianças traços da familia! Assumpção deixava-se assaltar e abria os braços aos pequenos; mas a sua predilecção não estava alli. A proposito de tudo falava em Gloria. Era a sua preoccupação. Uma selvagem! A mãe não tinha ciumes. Sorria. Se elle tivesse tres filhos amaria os tres, mas em verdade se preoccuparia mais com a menina! Os de casa eram rapazes, ambos de origem extrangeira, orphãos de italianos desconhecidos. Gloria, essa era uma continuação dos entes que mais se prendiam ao seu passado, do Argemiro e d'aquella suave Maria, que o estimara como irmã. D. Sophia encontrara a salvação nos pequenos a que se dedicava. O seu espirito carecia do sonho. O filho cortara pela raiz todos os que floresciam nella até ao dia em que se fez padre... Com o correr dos tempos, fôra-se habituando á batina do filho, mas continuava a frequentar pouco a egreja, certa de que Deus a ouviria egualmente do seu humilde canto. Assumpção mudara tambem; perdera a taciturnidade, interessava-se pouco a pouco pela vida. Mas a salvação de D. Sophia eram os pequerruchos, muito clarinhos e loiros, taes quaes ella sonhara os netos. Um começava a falar, o outro já dizia tudo numa meia lingua que era uma musica deliciosa. Ella, que tinha o espirito creador e era, sobre todas as coisas, amiga da humanidade, toda se desvelava em aperfeiçoar aquelles dois seres, cahidos como mercê divina nos seus braços saudosos. Já decretara: um seria medico, o outro seria engenheiro; e ambos produziriam obras beneficas e se casariam com bondosas mulheres! Assumpção sorria, animando a phantasia da sua querida velha. A experiencia de nada serve aos teimosos: e ella era uma obstinada. Não fôra elle acalentado com as mesmas esperanças enganosas, certezas que ficaram em esboço nos dias da mocidade? Ás vezes ainda, interrompendo o silencio do serão, D. Sophia suspirava: --Quando me lembro, meu filho... --Não se lembre; apague da lembrança o que lhe não fôr agradavel! Assim, sou mais seu... --És de Deus. Eu sou humana e amo a humanidade acima de tudo o mais! Não sei a que fonte foste buscar esse mysticismo, que te isolou do mundo para que te criei. A tua profissão obriga-me a respeitar-te, a temer-te quasi... ha occasiões em que deixo de ver em ti o meu filho, sujeito á minha auctoridade, para só considerar o sacerdote, o julgador que me ha de punir ou absolver... Ás vezes, tambem, era elle que falava, consolando-a: --A sua vida conjugal foi curta. Meu pae não lhe deixou senão a impressão da felicidade estonteadora. Periodos longos de casamento desvanecem quasi sempre encantos que julgariamos eternos. Assim, vivo para um ideal que não me póde trazer desillusões... Depois, acredite: se eu não fosse padre, seria egualmente celibatario... A voz d'elle era morna, abafada por um desgosto calado, amigo do segredo. A mãe fingia acreditar naquella inspiração do ceu, descida a contentar a alma silenciosa do filho. O facto estava consummado, toda a reacção seria loucura; procurava resignar-se. Em vão. A egreja era a sua rival, tirara-lhe o filho dos braços, impuzera-lhe o sacrificio por norma e a solidão por dever! Ainda se elle tivesse um organismo de combatente, de luctador! Se o visse no parlamento... se o lesse nos livros... mas Assumpção talhara-se na fórma rustica e accommodada do capellão de aldeia, alma simples em corpo simples, servo humilde dos homens e de Deus! Por fortuna, elle era muito tolerante; parecia-lhe a ella, ás vezes, que elle se vestira de batina por commodidade egoista, como um meio de fugir ás assiduidades dos outros homens e á solicitação das mulheres... Era um meio de viver no mundo fóra do mundo, conforme as exigencias da sua neurasthenia... Passado um longo periodo de abatimento e de taciturnidade, Assumpção readquiria a calma de outros dias, e foi então que principiou a interessar-se pelas leituras portuguezas, a enriquecer a sua modesta bibliotheca de livros classicos e a jardinar no terreno do morro, para onde abria a porta do seu quarto. Argemiro enviuvara, e era á influencia da sua companhia, muito mais assidua, que D. Sophia attribuia esse milagre. Agora elle revelava uma preoccupação: Gloria! A menina era o seu cuidado melhor. Lamentava-se de a ver muito solta, creada sem disciplina, como uma selvagemzinha! A avó era uma santa, dizia elle, mas incompetente para a dirigir. Depois, a invocação constante que ella fazia da filha morta, chegara a criar em todos de casa como que a illusão de que de facto ella existia, invisivel, vigiando com saudade a sua orphã... D. Sophia commentava: --É uma especie de loucura, a que algumas mulheres são sujeitas; mas não me consta que nenhuma a tivesse levado a esse grau! Os filhos unicos acarretam grandes desequilibrios aos paes. É mais uma razão para te interessares pela pobre menina. Realmente, os mortos vão depressa... quando não deixam as mães no mundo! Faze por esclarecer a baroneza. Que se resigne á idéa de que, da linda Maria só existem os ossos... --Tal affirmação não ficaria bem na minha bocca... --Não estará na tua consciencia? Sorris?! pois então, filho, alimenta a fogueira em que a pobre senhora se consome. Levas-lhe! achas e phosphoros, não te espantes de a veres arder! Se a alma existe, a de Maria trocaria o ceu para estar ao pé da filha... Era extremosa! E nesse caso a baroneza tem razão... Assumpção jardinava. De joelhos na terra, podava uma--Principe negro--quando a mãe subiu acompanhada de visitas: Alice e Gloria. --É quando eu gosto de o ver de joelhos!--exclamou rindo D. Sophia, apontando para o filho, que levantou os olhos surprendido. --Aqui! --Viemos visitar D. Sophia!--exclamou Gloria. O senhor não merece!... Ha dois dias que não vae lá! Vovó está zangada! De mais a mais, papae foi para S. Paulo! --Han?! --Foi, sim. No mesmo dia em que viemos da chacara elle foi chamado por um telegramma! Não sabia? --Não! Houve uma troca de olhares involuntaria entre Alice e Assumpção. Que! pois ella desconfiaria?!... A moça voltara-se para o terracinho, olhando agora para o mar, muito azul. Assumpção pedia desculpas, tinha as mãos sujas de terra. Correu a laval-as, emquanto D. Sophia mandava vir cadeiras para o jardim. --Isto sempre é mais bonito que lá dentro. Casa de uma velha e de um padre não tem alegria. Sentem-se aqui, olhando para o mar... assim. A vista é bonitinha, hein? Com que então, Sr.ᵃ D. Maria da Gloria, está muito adeantada? --Qual! --Não?! pois é pena: está ficando uma moça! E voltando-se para Alice: --Como esta menina cresce! Acho-lhe uma differença!! É o pae! --Sim... parece-se, confirmou Alice. Gloria não se sujeitou á cadeira, levantou-se para revistar os canteiros e uns caixotinhos que via pregados ao muro. As duas senhoras conversavam e tão entretidas pareciam uma com a outra, que Assumpção ao voltar do lavatorio, preferiu ir avisar Gloria de que não mexesse nos caixotinhos, que eram casas de abelhas e iria perturbal-as. --Eu já tinha pensado nisso, respondeu a menina. Ainda hontem D. Alice me explicou, no jardim lá de casa, a vida d'esses bichinhos. Tudo no mundo tem interesse, não é verdade? Eu tinha raiva das abelhas desde aquelle dia, lembra-se, em que fui picada no pescoço por uma d'este tamanho! Tive uma dôr! Pois agora já até quero bem ás abelhas... O caso é haver quem nos explique as coisas! --Que te explicou D. Alice a respeito? --Que as abelhas frequentam as flôres para chupar-lhes o mel, transportando o pollen de umas para as outras e... --E explicou-te tambem o que era pollen? --Certamente! com uma flôr na mão. Uma açucena! --Conta tudo! --Numa lição só não se póde aprender muito! Assim mesmo eu percebo bem D. Alice, exactamente porque ella não ensina,--conversa. Falou das abelhas... falou das mariposas, disse historias que eu não sabia e de que gostei... Prometteu levar-me á Tijuca para vêr borboletas azues muito grandes, que ha lá... Mas vovó... creio que não me deixará ir só com ella... Se o senhor fosse! --Irei. Gloria bateu as palmas com alegria, mas de repente tornou-se séria, olhando para uma roseira completamente coberta de flôres. --Queres um ramo? --Não. A ultima vez que fomos ao cemiterio encontrámos uma porção d'aquellas rosas no tumulo da mamãe... Foi o senhor! E vovó pensou que tivesse sido papae!... --Foi teu pae... levou-as d'aqui,... mas não lhe digas nada, que elle não gosta que se fale nisso! Olha para o mar! --O seu jardim é muito pequenino! --Basta para mim... olha este rainunculo... Emquanto Assumpção fazia Gloria vêr as suas flôres, D. Sophia conversava com Alice. Mandara subir os pequenitos. A moça puzera um nos joelhos e annelava os cabellos do outro carinhosamente. Que se dizia? Menos do que se adivinhava. A sympathia nascera logo entre ambas. Assumpção pousou por um instante os olhos nellas e desviou-os para além, para o infinito... Tinha sido aquelle o sonho da mãe: uma mulher moça a seu lado, cercada de crianças lindas... A tarde morria afogada em azul. Já no ceu brilhava a meia lua, e uma neblina prateada vinha da barra, cobrindo o mar. --É tarde, Gloria... --Adeus! Nessa noite, ao chá, D. Sophia disse ao filho: --Aconselha Argemiro a casar-se com aquella moça. Ella fará a sua felicidade. E depois, baixo e num suspiro: --Já que não póde fazer a tua. XVII A praia de Botafogo regorgitava: era dia de regatas. Por todo o cáes o povo apinhado olhava para o mar, coalhado de barcas, palpitante de luz. Nas archibancadas, á beira d'agua, as _toilettes_ claras das moças despertavam a idéa de grandes flôres variegadas, desabrochadas ao sol, e, na rua, carros e bonds arrastavam-se cheios, vagarosos, por entre a multidão. Mas a belleza era o mar, cuja superficie apenas enrugada e de um azul violento, toda se paletava de escaminhas de ouro. Andavam pelo terceiro pareo. Baleeiras velozes, bem remadas, demandavam as balisas na ancia da victoria; outras, em repouso, deixavam-se balouçar pela agua, mollemente, emquanto lá no alto as gaivotas espalmavam as azas, tranquillamente. --Bellos rapazes! observou Adolpho Caldas, olhando com enthusiasmo para a tripulação das baleeiras. Arlindo Telles accenou com a cabeça que sim, e chupou com mais força e maior satisfação o seu havana. Caldas continuava a meia voz: --Contempla áquelles biceps e córa! Homem da cidade, da manhosa politica e das sobrecasacas bem feitas, não te envergonhas dos teus braços deante d'áquelles?... --Se eu discutisse a murros... --Quanto mais vigoroso é o braço, mais franca é a lingua!... Digo-te por mim, que as minhas banhas sentem-se humilhadas, offendidas, por áquelles musculos. A nossa raça salva-se. Ainda bem para os paes de familia... Vê o modo energico e bem rythmado por que os remos d'esta baleeira vêm golpeando a agua... Telles soprou a baforada do seu charuto aromatico, e respondeu: --Prefiro olhar para o pavilhão e as archibancadas... Se os rapazes são fortes, as mulheres são bonitas, e eu guardo para ellas, em todos os tempos e logares, a minha predilecção. Hum! isto hoje está _chic_... Se as galerias da Camara tivessem esta sociedade... eu falaria todos os dias!... --Vês que as mulheres dão mais apreço ao musculo que ao verbo... Empresta-me o binoculo. Dança-se nas barcas... --D. Maria Helena está no pavilhão... tambem lá estão as Tavares... a Chiquita Maia... A Pedrosa e a filha. Precisamos cumprimental-as. --Depois... Deixa-me beber saude pelos olhos. Faze outro tanto, que precisamos ambos de lavar a alma... --Chegou agora a Joanninha Mendes... --E _ella_? indagou Adolpho sem desassestar o binoculo da barca, onde se dançava. --Ainda a não vi... mas ha de vir! --Lá passam os vermelhos a deanteira! --Não... por emquanto ainda são os azues... --Os demonios têm força... Agora! --Bravo! --Viva! --Bravo! gritaram muitas vozes a um tempo, numa explosão de enthusiasmo. Ao lado d'elles um moço gordo berrava, agitando o chapeu. Telles sacudiu a cinza do charuto da lapella da sua sobrecasaca avelã, onde sorria a graça de uma orchidea lilaz, e voltou-se todo para o pavilhão. Sinhá debruçava-se no pavilhão do jury, com as faces afogueadas e o olhar chamejante. A seu lado, a mãe lambiscava _bonbons_ e as Moreiras, do Cattete, sacudiam os lenços com frenesi: --É o Boqueirão! --É o Flamengo! --Não... --É! --Bravo! --Bravo! Os nomes dos clubs andavam no ar, como as gaivotas. Afinal, um d'elles ganhou o pareo. Rompeu a musica e a baleeira victoriosa veio receber as saudações, que rebentavam em palmas por todo o cáes, como uma onda. Ao passar pelo pavilhão, Sinhá, toda debruçada, vermelha como uma rosa, atirou-lhe o seu ramo de violetas. Aparou-o no ar um rapaz loiro, batido de sol, de rija musculatura e olhos brilhantes. Trocaram um sorriso luminoso. --A mocidade!... a mocidade! É isto... um aroma que atravessa o espaço... um relampago que illumina a vida, para deixar saudades... Este sim! commentava Caldas comsigo, lembrando-se do Argemiro; e concluiu: Agora a Sinhá escolheu bem... isto é, não escolheu, achou. Aquillo é amor! E dirigindo-se ao Telles:--Vamos agora cumprimentar as senhoras, com escala pelo «buffet». Estou com sede. O deputado acariciava o queixo nú com a mão gorducha, em que rutilava um rubi. Seus olhos vivos, de pestanas curtas, furavam por entre cabeças e hombros, á busca de alguem. Á roda commentavam o pareo. Havia descontentes; moças indignadas, outras quasi chorosas, rapazes amuados. Tinham perdido. Mas outros e outras gesticulavam com alegria por aquelle triumpho, que dava mais uma medalha ao club da sua sympathia. Falava-se alto nas archibancadas. Os sons da banda de marinheiros no _Toureiro da Carmen_, não permittiam segredos. Em toda a linha do cáes os guarda-sóes de côres differentes, lembravam uma vegetação movediça de cogumelos fantasticos, desde os pequeninos, das crianças que assistiam á festa sentadas no paredão, com o olhar estúpido para o quadro polichromo, até aos grandes, protectores de velhos prudentes e amigos da sombra. Corria uma aragem forte. Agitavam-se no ar os galhardetes vistosos e as bambinellas do pavilhão central, como a acenar a toda gente que fosse para alli, gosar aquelle quadro de luz! O deputado impacientava-se. Adolpho parecia grudado ao «buffet», comendo sandwiches e bebericando cerveja, no meio de um grupo de remadores muito adulados pela admiração dos outros. Trocavam-se brindes apressados; e na alegria, até um velhote pallido e encartolado trauteava a _Carmen_, acompanhando as sonoridades da banda. O intervallo acabava-se. Ouviu-se o estampido do signal de partida. Voltaram-se para o mar. --Lá vem _ella_! Exclamou Telles a meia voz, sobresaltado. --Um ibisco! observou Adolpho, olhando para uma lancha que se approximava do cáes. O ibisco era a madame Senra, toda de escarlate, com os bandós doirados rebrilhando sob as papoilas do chapeu. Ella agitava a sombrinha vermelha, rindo-se para o Telles, que se precipitou alvoroçado e inconveniente para a receber no desembarque, sem attenção aos bigodes retorcidos do Senra e á escolta de moças que a acompanhavam. Caldas imaginou: «O patife do Telles vae passar uma hora feliz, uma hora ligeira, d'essas que suspendem a vida! Porque será que as mulheres bonitas dão geralmente preferencia aos banaes? Esta é linda. Uma flôr!... Sempre que a vejo sinto os meus pensamentos transformarem-se em abelhas... ella mesma deve sentir-se como que nimbada por um adejo de azas... volupia dos olhos, tentados pela sua graça... Não se me dava!... Que lhe dirá o idiota do Telles? Sua Excellencia alcançará alli o que não alcança na Camara: chegar ao fim?... Pois é bem boa esta cerveja, e vou tomar mais um copo... Talvez chegue... sim... ella não é rigida... uma flôr»! A Pedrosa vira-o agora. Cumprimentava-o de longe. Que maçada! era preciso ir dizer adeuzinho á Pedrosa! «O amor faz falta, continuava a meditar Adolpho; desinteressa a gente de tudo... É um abandono, uma estupidez!» Acotevelando o povo, elle sahiu do «buffet» e entrou no pavilhão central, ao mesmo tempo que uma cesta de flôres e uma bandeija de _bonbons_. --Entrei num momento sympathico... concluiu elle para si. E foi cumprimentar as senhoras. Lá fóra renovava-se a scena: --Bravo! --Viva Icarahy! --Viva... Vasco da Gama! --Viva... a! Voavam as flamulas e os galhardetes; outra baleeira veio passear o seu triumpho, beirando o cáes, onde a multidão estrondeava em palmas. Na lindeza do ceu, de um azul carregado e limpido, resaltavam as côres maravilhosamente. Os perfis dos morros, rochosos uns, verdejantes outros, destacavam-se em todas as suas linhas, com surprehendentes minucias. Nas archibancadas as linhas das mulheres eram como orlas de flôres de matiz viçoso que as ondas tivessem deposto na terra maravilhada. --O _sport_ é a alma do Rio, affirmava a Pedrosa a uma amiga, no momento da approximação de Adolpho. Veja que enthusiasmo! Decididamente, elle veio substituir os bailes... hoje dança-se pouco. O remo e o _foot-ball_ roubam os pares ás moças... não é verdade, dr. Caldas? --Protestando contra o titulo, confirmo, como não podia deixar de confirmar... --Protesta por modestia?... --Por consciencia... --Outros o usam com menos justiça... eu teimarei em chamal-o doutor... Porque não nos tem apparecido? Elle desculpou-se, e, como se tivessem aconchegado mais as pessoas do grupo, deixou-se ficar, envolvido nos perfumes dos vestidos bonitos que o cercavam. Sinhá, sempre voltada para o mar, não perdia de vista uma baleeira onde um rapaz loiro se condecorára com um ramo de violetas... A mãe fallava, fallava sempre, semeando sentenças, no seu palavreado animado e imperativo. O marido não a acompanhara. Lá tinha tempo para se divertir! Os altos negocios do Estado suffocavam-n'o; vivia numa rêde de conferencias, projectos e estudos de responsabilidade. Se todos tivessem a sua sinceridade! --Faziam-lhe justiça... observaram. --Qual! os sacrificios eram de tal ordem, que não transpareciam completamente cá fóra... Um verdadeiro escravo das suas idéas, o marido! A politica é despotica... o que lhe valia era não ter ciumes... De resto, concluia ella, para dizer algo em ar de sentença: no amor, quando o ciume entra pela porta, a confiança salta pela janella! _Em todo o sentido_,--e sublinhava com o olhar a phrase--nunca deixára de confiar no marido. Cultivava a illusão, se é que era illusão, como quem cultiva uma plantinha rara, de flôres miraculosas. E assegurava:--Está nisso o segredo da felicidade feminina! As moças nem a ouviam, inclinadas sobre os peitoris, á espera! Era agora o pareo do Campeonato. Crescia o enthusiasmo. Quem ganharia a taça de ouro? Soou o tiro, signal da partida. Arfavam as bambinellas de renda do pavilhão e as tiras garrulas das bandeirolas ao sopro salitrado da aragem. Um rosario de marrequinhas desfiou-se no ar com o susto. Nas archibancadas os leques e as fitas multicores agitavam-se numa palpitação violenta. --Acceita este raminho de violetas, Sinhá? Disse Caldas com malicia. O seu cahiu ao mar... --Acceito, com a condição de poder dar a este o mesmo destino que dei ao outro... Para tomar as flôres da mão de Adolpho, Sinhá voltou-se e relanceou depois o olhar em torno do pavilhão. --Olhe quem está alli!... disse ella á mãe, baixinho, apontando com os olhos um certo ponto do cáes. A mãe seguiu-lhe a direcção e tambem Adolpho, que lhe não perdera os movimentos. Padre Assumpção estava de pé, e unida á sua murcha batina preta, Gloria esticava o pescoço para vêr bem o mar. A Pedrosa trocou um olhar com a filha e voltou as costas ao padre. Sinhá demorou-se um pouco a contemplar com sympathia o perfil incorrecto de Gloria e o seu vestidinho de fustão branco sem laços. Depois, voltou-se para a bahia: calara-se a musica, e as baleeiras cortavam a agua céleres, vigiadas pelas barcas e por escaleres admiravelmente tripulados. «A mãe não se esqueceu... mas a filha é já indifferente ao Argemiro... Amores novos...» E já as lanchas guinchavam atordoadoramente, quando Adolpho metteu os hombros por entre a multidão. XVIII A pouco e pouco, autorizada pela ausencia do genro, a baroneza tomara posse da casa. O marido intervinha ás vezes, aconselhando que deixasse á outra todas as determinações, ao que ella respondia--se valêra a pena ter sahido da chacara para se pôr á tutela da inimiga! --Não, meu velho, tem paciencia, eu estou de sentinella á ultima vontade de minha filha. Elle jurou: terá de cumprir o juramento. Esta mulher é mais perigosa do que eu pensei, porque é tambem hypocrita e sabe conquistar pelo geito toda a gente. Menos a mim! Gloria pertence-lhe. Já me tem feito chorar, a filha da minha filha, por quem tanto me desvelei sempre! Até parece que já lhe vou perdendo o amor... Não percebes o calculo? --Não percebo nada. A rapariga trata como pode de ganhar a sua vida. O que tu fazes, filha, não é digno de ti. Inventaste uma paixão, onde talvez não exista nem sympathia, e vives a debater-te deante de fantasmas. A moça é fina; não é do estofo commum das governantes, isso é certo... Mas sabes lá, tu que tens vivido sem necessidades, a que sacrificios obriga a pobreza? --Não faltam officios! --Mas sobejam concorrentes... Eu sei o que vae por ahi! Olha: vou apontar-te um exemplo: o Dr. Theobaldo Ribas. Lembras-te? Um engenheiro distinto! Está com um emprego secundario numa companhia de empreitadas; a familia habita numa casinhola de porta e janella na Cidade Nova e póde-se adivinhar o que se passa lá dentro, entre oito crianças fracas e o casal sem recursos... Eu, francamente, não sei mesmo como esta pobre moça ainda te atura. Pelas desfeitas que lhe tens feito, se fosse outra... --Ter-se-ia ido embora. É o que eu digo. Não tem brio. Mas o meu partido está tomado: custe o que custar e seja como fôr, hei de pol-a fóra d'aqui. --Não faças isso! --Ora essa! por que não? --Não estás em tua casa! --Estou na casa de minha filha. --Para o que te deu! Tua filha só existe na tua imaginação. Capacita-te d'isso, pelo amor de Deus! É um caso de obstinação incomprehensivel, em ti, que foste sempre tão criteriosa. Acalma-te... e voltemos para a nossa chacara. Eu estou farto de cidade até aqui! E apontava para a calva. --Voltaremos... deixa estar... eu tambem já não posso mais... A minha vida é um inferno... Todos esquecem, todos gosam, só eu vivo acorrentada ao passado, e revendo a todos os instantes a scena horrivel da morte de Maria! Está aqui tudo, tudo, estampado em meus olhos, enterrado no meu peito. A minha vida parou naquella hora! Não vejo, não ouço, não sei de mais nada. Os annos e os mezes têm corrido para mim ignorados. A minha existencia é a existencia da minha filha. O coração d'ella ficou dentro do meu. É o que eu sinto! Hei de defendel-o até ao ultimo extremo! Ás vezes, tambem eu acredito na loucura... Ao principio, emquanto Gloria era só minha, sentia até certa suavidade em conviver assim com a minha morta... Nota que já não digo: a nossa! mas agora, agora que a inimiga, a intrusa, me rouba tambem o amor da minha neta, sinto dentro de mim um clamor de choro que não posso suffocar, por mais que me esforce! Sou uma abandonada. --Gloria adora-te, como sempre... --Foge-me... esquiva-se... acha a minha companhia monotona... A _outra_ conta-lhe historias, mostra-lhe gravuras, saracoteia-se com ella pelas ruas, até já a surprendi pulando na corda com a menina, como se fossem duas collegas, da mesma edade! As crianças gostam de alegria. É natural que a minha Gloria a prefira a mim! Tenho ciumes d'ella, sim, tenho muitos ciumes... E inda queres que a poupe e que me deixe roubar sem um protesto. Nunca! --Consulta um medico... a tua excitação é doentia... --Já me tardava! Um medico, e agua de flôr de laranjeira! A _outra_ tambem te conquistou, a ti. Se te mandar dançar sobre a sepultura de Maria... tu dançarás? --Talvez! --Ainda o confessas! --Mas, filha, que queres que eu faça?! Tenho pena de ti, mas não te posso dar razão. Quizeste vir, vim. Consumme-se o sacrificio. Faze o que entenderes, comtanto que voltemos depressa para a chacara. Consente, porém, que eu lamente a _outra_, como tu lhe chamas, e que a ache digna de maiores considerações. Agora deixa-me prevenir-te de que o Argemiro se cançou do desterro e volta ámanhã. --Escreveu-te? --Telegraphou a D. Alice, pedindo-lhe que mandasse o Feliciano esperal-o á Central. --Ora, vê tu! telegraphou á _outra_, em vez de o fazer a ti, como era natural. Queres mais claro?! --Eu sou hospede. É ella quem põe e dispõe aqui. --É a dona da casa! --Tal qual. --E achas isso toleravel? --Perfeitamente. É paga para isso. --Elle deve chegar?... --Ámanhã, ás oito da manhã. --São?... --Tres horas da tarde. --Tão pouco tempo! --Achas pouco?! repara que ha um mez e dois dias que elle partiu; e para quem conhece os hábitos do Argemiro, faz espantar tamanha demora... --Fugiu de nós... --Já pensei nisso... --E eu que o amava como filho! --E ainda lhe queres muito bem. --Não... --Lembras-te de ser sogra, quando já não o és... --Sou. --Em vida de Maria o teu genro era para ti um deus! --Porque fazia a sua felicidade. Mas agora trahiu-a... Vamos lá para baixo. Onde estará Gloria mettida! Ámanhã... elle volta ámanhã... e eu tenho sido tão cobarde... não sei o que me dá, quando vejo aquella mulher! Delambida. E em baixo d'aquella pelle macia ella tem uma alma de ferro. É dura. --O Argemiro não ha de gostar quando souber que nunca a admittimos á nossa mesa... --Ella ia á d'elle, porventura? --É differente. --Ora... --Tambem não lhe agradará a confiança exaggerada que dás ao Feliciano... --É cria de casa... --É um velhaco. --Tambem te desagrada? --Completamente. --Pobre rapaz... Prouvera a Deus que a _outra_ fosse tão sincera... O barão limitou-se a sorrir, com escarneo e tristeza. Desceram. A baroneza gritou: --Feliciano! onde está minha neta? --No quarto de D. Alice... --Vá chamal-a. E depois, como para si: a casa não é tão pequenina assim; o diabinho da menina mette-se naquelle quarto maldito... para que?! O barão desceu ao jardim, calado, sem disfarçar o seu aborrecimento e um certo pavor. Começava a scena... Feliciano batia com os nós dos dedos na porta da governante. --D. Gloria? --Que é? respondeu ella de dentro. --Sua avó está chamando a senhora... --Diga a vovó que já vou. Estou desenhando! A baroneza exasperava-se, passeando na sala de jantar. E como a menina não apparecesse logo, ella gritou: --Feliciano! --Senhora?... --Então? O negro sorriu malevolamente: --Estão conversando... --Bata outra vez! Diga que venha já! Desaforo! Feliciano voltou a bater, maciamente, sem impaciencia. --D. Gloria? --Já vou! Diga a vovó que espere só um bocadinho... Era demais! aquillo precisava ter um fim. Até a neta lhe desobedecia! Sim, senhores! A obra da outra estava completa! A não ser o negro, todos conspiravam contra ella. Até o marido... até a filha da sua filha! Pela porta aberta da saleta ella via na parede fronteira o retrato da filha, muito desbotado, esvaindo-se, cercado por uma moldura de ébano. «Emquanto eu viver, meu amor, será lembrada a tua ultima vontade... não me esqueci; eu vivo só para a tua memorial...» Pensou ella. E depois, por entre dentes: --Parece que ella está fazendo de proposito... mas commigo não se brinca! Feliciano rondava a scena, disfarçadamente, polindo com um trapo de camurça os trastes já polidos. Fôra por manha que entreabrira a porta da sala, quasi sempre fechada, bem em frente ao retrato da morta e, sem parecer olhar, elle vigiava todos os movimentos da baroneza. Ella tremia de raiva por não vêr chegar a menina. --Ora já se viu uma coisa assim! Querem maior provocação! E apontando para o relogio: ha mais de cinco minutos! Isto não póde continuar... Está bonito! E imperativamente, furiosamente: --Feliciano?! --Senhora? Apezar da sua mascara de seriedade, percebia-se, que o negro estava por dentro contentissimo. --Diga a D. Gloria, uma vez por todas, que venha já ou que eu vou buscal-a pelas orelhas! Feliciano quiz prolongar aquelle desespero e arrastou os movimentos, calculando o tempo para maior accumulação de odio; mas a baroneza, impaciente, passou-lhe á dianteira e caminhou pelo corredor para o quarto da governante. --É agora! pensou o negro, encostando-se a um humbral, para vêr. Gloria, já de pé, punha em ordem a sua pasta de desenhos, e Alice cosia perto da janella, quando a baroneza, empurrando com força a porta do quarto, apenas encostada, entrou, livida de raiva, no aposento. --Vovó! Alice levantou-se, perplexa. --Já, lá para dentro! não ouviu? Ha que tempos a mandei chamar e a senhora é assim que obedece ás minhas ordens?! Quem manda aqui? Sou eu, ou é aquella mulher? Diga! --Vovó... eu... --Nem uma desculpa! Não quero ouvir mais nada! Tudo é mentira! Já; lá para dentro! e não me torne a pôr os pés neste quarto. --Vovó... --Cale a bocca! ande!... ande! E, pela primeira vez em sua vida, a baroneza empurrou com as mãos fechadas, brutalmente, o corpo da neta. --Saia d'aqui! já disse! Rode depressa, antes que eu perca a cabeça! Fuja! que está-me ficando perdida pelas más companhias! E, sem interromper o tom de furia, com os olhos vermelhos, a papada tremula, voltou-se para Alice: --Quanto á senhora, não é precisa para nada aqui. Se fosse outra teria comprehendido que já é demais. Eu sou sufficiente para tomar conta da casa de minha filha. Veja quanto se lhe deve e retire-se hoje mesmo. Alice, com os olhos engrandecidos pelo espanto e pela lividez nervosa das faces, respondeu, forçando a calma: --Não conheço a senhora sua filha. --É demais! --Considero a casa como do seu genro e só elle poderá dispensar os meus serviços. --Isso é um atrevimento! --É uma resposta. --Bem me diziam que a senhora não era apenas uma criada, mas tambem a amante de Argemiro! --Enganaram-na. Nem uma, nem outra coisa. --Se fosse outra, eu não precisaria dizer tanto, para que já estivesse lá fóra! Capacito-me de que realmente a sua companhia é prejudicial á minha neta e não hesito em pôl-a na rua. Saia! Alice não respondeu, fixando os olhos no rosto transtornado da baroneza. E depois, com raiva subjugada: --E se eu não quizer?... --Sahirá á força. De mais a mais, é cynica! --Sou honesta. Estou de guarda a um logar que me confiaram e que deffenderei até á morte. Seu genro chega ámanhã. Partirei depois d'elle ter entrado nesta casa. Antes, não! não, não e não! --Ah, a amaldiçoada! Imagina talvez que Argemiro a prefira a mim! Exclamou a baroneza com uma gargalhada insultuosa. Alice mordeu os beiços para não responder: todo o corpo lhe tremia, como num accesso de febre. Gloria corrêra para o quintal. E era como se a casa se desmoronasse sobre a sua cabeça. Que razão teria a avó para querer tanto mal á D. Alice? Que iria succeder?! A quem gritar por socorro? A voz da baroneza perseguia-a. Sentia nos hombros o peso das suas mãos irritadas. Quem lhe diria!... A loucura?! Seria a loucura?! Deveria chorar pela avó, pela sua razão perdida, ou salvar a moça, que ficara sózinha em sua frente? mas salvar como, se ella tinha medo? Gloria atirou-se chorando para o jardim, na ancia da liberdade e do silencio. O avô ao vêl-a comprehendeu tudo e correu a amparal-a. --Que tens, meu amor?! Animada pela presença do velho, a menina agarrou-o com força. --Venha, vovô... corra... vovó é injusta... é má... está dizendo coisas terriveis á D. Alice... não sei o que é... Vovó me bateu!... pelo amor de Deus... ande depressa! O avô resistia; mas, ao ouvir-lhe as palavras--vovó me bateu--endireitou-se num espanto e olhou de perto para os olhos da neta. Não! ella não mentia. Os alegres olhos da sua Maria da Gloria estavam cheios de lagrimas, em que boiavam uma grande decepção e uma terrivel dôr. --Ah, se papae estivesse aqui! O barão apressou-se, agarrado á neta; mas ao approximar-se do quarto estacou. Não devia entrar. Não queria entrar. Em vão a neta o impellia, supplicando-lhe que interviesse. Elle sabia. A mulher não cederia por nada d'esta vida. O mal estava feito; para que recomeçal-o? Não conseguindo abalar o avô, Gloria avançava sózinha para o quarto, affrontando tudo, quando a baroneza sahiu, hirta, com os labios afinados e pallidos, os olhos circulados de rôxo. A menina recuou espantada. Nunca a avó lhe parecera tão alta. --Que estás fazendo aqui? Eu não te disse que não tomasses a pôr os pés neste quarto?!--Rugiu ella ao topar com a menina. --Vovó... Mas a avó não quiz ouvil-a, e agarrando-a por um braço foi-a levando, numa furia. O marido, mettido num vão de janella, não a interrompeu, temendo exacerbal-a com as suas ponderações. Passado o offêgo do desabafo ella se explicaria. Apiedava-se de um rumorzinho de chôro que lhe parecia perceber agora no quarto da D. Alice. As mulheres são terriveis, pensava elle, devoram-se umas ás outras, como animaes de especie differente... Até a minha, que foi sempre incapaz de torcer o pescoço a uma gallinha, dá-se agora, depois de velha, ao prazer de torturar uma creatura sua semelhante... E, afinal, coitada, quem soffre mais é ella... que não encontra remedio para a sua doença. Aquillo já é doença... E ora aqui chegámos, ao desfecho que ella tanto ambicionava e eu tanto temia... E agora? Que se teriam dito?... E nunca a sua chacara cheirosa, os verdes campos macios, cortados de mangueiras e aguas remançosas, lhe fizera tão fundas saudades. As suas flôres do horto, preparadas para a distilaria, estariam morrendo nos pés e o seu catalogo interrompido, amarellecendo no fundo inerte de uma gaveta. Olhando para as flôres do genro, elle via as outras, as suas: o absyntho, as marcellas medicinaes, o sabugueiro vaporoso, as malvas bemfazejas, o limonete perfumado e mil outras, confundindo-se nos tons azulados ou verdes das suas ramagens bem alimentadas. Olhava para as rosas pensando nas papoilas, quando o Feliciano lhe disse atrás das costas, com uma vozinha ciciada: --Sá Baroneza tá chamando o senhor... O barão não quiz olhar para o negro e subiu para o quarto, abafando um suspiro. Que mais? XIX --Assumpção! --Argemiro... --Fizeste bem em vir esperar-me; estou doido por conversar comtigo; disseram-te lá em casa que eu chegaria hoje? --Naturalmente... eu não poderia adivinhar!... olha a tua mala... Pareces-me magro... --Um pouco... --Boa viagem? --Regular... Como está a minha gente? E tua mãe? --Dá a mala ao carregador... Conversaremos em caminho. --Tens razão; e eu estou com pressa de chegar a casa. Decididamente, abomino os hoteis. Que desconforto! que aborrecimento! que noites! Ah! Assumpção, nunca o meu cantinho me pareceu tão delicioso como nesta ausencia. Isto deve ser velhice.,. os meus ossos não se afazem a outros colchões, nem a minha cabeça a almofadas que não sejam as costumadas. Has de acreditar que soffri de insomnias em S. Paulo? Depois eu não tinha noticias! Gloria escreveu-me duas cartinhas; tu nenhuma... Nenhuma! inacreditavel o teu descuido! Meu sogro escreveu-me tambem, mas só fallava na mulher e na neta. É verdade, o Caldas tambem me escreveu... Referia-se a ti... --Tiveste então cartas de todos!... Sahiam da Central. Argemiro acenou para um carro. --De todos... mas incompletas... Só tu me poderias dizer tudo; és intimo de minha casa, mais intimo do que eu! Comprehendes que eu fugi! --Porque, homem?! --Nem sei porque... medo do barulho, da intriga... de não poder conter o meu máo humor. Estava enervado, aborrecido... Depois arrependi-me. Não tinha que fazer; bocejava pelas ruas... o hotel indispunha-me commigo mesmo. Estou como o caracol,--não posso sahir da minha casa sem perder a vida... Acredita: até do cheiro da minha casa eu tinha saudades! Parece-me incrivel que um sujeito de vida bem organizada goste de viajar. Tu nunca viajaste. É uma maçada! Mas que diabo, tu não me dizes nada! --Não me dás tempo... --Tens razão; mas estou cheio até á raiz dos cabellos. Mal conversei durante a viagem; estava com a lingua entorpecida. Este cocheiro é um lorpa... não toca os animaes! De que te ris?! estou morto por beijar minha filha! Muito crescida? Tens ido lá todos os dias? Tens estado sempre com todos?... --Todos os dias, não... mas quando vou estou com todos... --Minha sogra ainda se demorará cá por baixo?... Isso é o que me interessa mais saber. --Ignoro... Eu tenho frequentado menos a tua casa, receando que os barões achassem importuna a minha assiduidade... --Estás doido! Sabes que te estimam muito! Bem... e... não houve por lá nenhuma questão... --Tem paciencia, escuta. --Mau! --Hontem á noite recebi uma carta de teu sogro, pedindo-me para vir esperar-te hoje á Central, e prevenir-te de que a D. Alice só espera por ti para deixar a casa. Argemiro não respondeu logo, e, arregalando os olhos, voltou-se para o amigo, muito desapontado. --A noticia não é amavel e acredita, Argemiro, que a dou com pena. Mas já agora deixa-me dizer-te que mais uma vez andaste impensadamente... Não deverias ter sahido de casa nesta occasião, tanto mais que já temias qualquer incidente desagradavel... --Não consinto! Ah, eu é que não consinto; e o dono da casa sou eu! Porque sae a D. Alice? Não sabes?... Eu imagino: picuinhas... alfinetadas... tanto a aborreceram, tanto a azedaram, tanto a mordiscaram, que ella não pôde mais! Era o que eu temia, lá longe! Parece que estava adivinhando. Um inferno. Ora o que me esperava! E agora? Dize-me: e agora?! --Arranja-se outra... --Estás tolo! Outra! A facilidade com que se dizem asneiras... Nem tu pensas no que estás dizendo. Conheço-te bem; sei qual é a tua opinião a respeito d'ella... Eu é que fui um asno, um idiota; não devia ter consentido na vinda de minha sogra para casa. Foi ella que escangalhou a minha felicidade com as suas bobagens de velha tonta. Disseste bem, fiz mal em fugir. Fugi por pusilanimidade... pelo eterno prazer do socego e do bem-estar. Fresco bem-estar, o dos hoteis! E agora, hein?! arranja-se outra! ora, que resposta! Se ha outra como aquella! --Tu nem a conheces... --Nunca a vi, mas conheço-a, adivinhei-a; abstrae da personalidade. Ella é o meu conforto, a minha segurança, a minha felicidade. Agora explica-me tudo: que lhe fizeram? --Não sei, filho; mas creio que nada. Teu sogro, temendo a tua decepção, como se se tratasse de uma terrivel catastrophe, escreveu-me hontem o que eu já te disse. A minha surpreza foi quasi do tamanho da tua. Sómente, eu espero conciliar as coisas. --Ah, eu não... Acabou-se. Volto á ignominia do Feliciano. Não. O Feliciano roda hoje mesmo a pontapés. Cachorro... Outra... outra... onde encontral-a? Pensas que ha muitas mulheres assim, por ahi, á espera das minhas ordens? Tu estás bem convencido do contrario... Eu sei que a consideras muito... Já a tens defendido, á minha vista, quando a accusam. Por mim, declaro-te que acabei de conhecel-a nesta ausencia... Por acaso, no dia da partida, juntei alguns livros avulsos pelas mesas e metti-os na mala. Em uma das minhas noites de insomnia, no hotel, abri um d'esses livros, e verifiquei com espanto que elle pertencia a D. Alice. Lá estava o seu nome, por signal com uma letra bem bonita... Era um livro inglez de poesias. A minha governante lê versos; e demais a mais em inglez! Folheei o livro com alguma curiosidade... Havia versos sublinhados, notas feitas á margem... Sabes que do meu exame de inglez não me ficou patavina... o livro não me poderia divertir; entretanto, não sei por que, era o unico que me interessava! Comprei um diccionario e pude mais ou menos penetrar um pouco no mysterio... Comprehendes que isto não poderia deixar de impressionar-me... --Ella é intelligente... --Muito. Para ter certeza d'isso eu não precisava das poesias inglezas; bastava-me a mudança radical de minha filha. Negarás isso?! --Não... --Lembras-te? Gloria era terrivel, intratavel, brutinha! E agora? Está docil, risonha, delicada. A avó perdia-a com os seus mimos e a D. Alice salvou-a. Tens reparado na bôa pronuncia franceza de minha filha? Na vespera da minha partida ella leu-me uns exercicios do methodo. Fiquei espantado. Um prodigio!... Logo, esta mulher que ensina francez, lê versos inglezes, faz aguarellas razoaveis e interpreta ao piano trechos classicos, como já eu ouvi, sem que ella o percebesse... é uma rapariga de fina educação e que não me resigno a perder por caprichos de terceiros! As minhas flôres! Porventura tive eu nunca, nem mesmo no tempo de Maria, rosas como tenho agora?! É ou não é verdade que o meu jardim é um dos mais bellos do bairro?! --É... --E quem o transformou? Ella. Ainda agora, lendo o livro do Shelley, sentindo-lhe o perfume peculiar e que em poucos dias ella espalhou por toda a minha casa, capacitei-me de que a alma d'essa mulher é rara e voltada para tudo que torna a vida agradavel. Ainda não lhe descobri defeitos... --Ha de tel-os. --É humana... e portanto, queres dizer que se fosse perfeita seria defeituosa... Talvez seja feia... Sabia-me agora bem o imaginal-a. --Occupavas-te nisso? --Ás vezes; é natural: quando eu pegava no livro, e sobretudo quando sentia o seu aroma... Qualquer outro faria o mesmo... não te parece? --Talvez... --Sou-lhe muito grato. Asseguro-te que nunca me vi tão lisonjeado, tão contente da vida, como agora nestes ultimos tempos. Era uma atmosphera amorosa a da minha casa. --Não ha bem que sempre dure... --Ora que noticia! E eu que vinha morto por sentil-a! Assumpção sorriu. --De que te ris?! --Da tua expressão. --É sincera. --Sei. Mas não desesperes... Realmente, a tua governante governou de mais; mas estou de accordo em que deves procurar guardal-a junto de tua filha; e talvez isso não seja tão difficil como te parece! --É impossivel. --Tentemos... --Como se teria dado o rompimento? --Não sei. A carta do teu sogro é laconica e succinta. Deveria mostrar-t'a, mas esqueci-a em casa. --Naturalmente, minha sogra espicaçou-a de tal forma, que a pobre perdeu a paciencia e despediu-se. Guerras de mulher. Conheces nada mais indigno? Picadas de alfinetes embebidos em veneno... Eu sei! Estou agora arrependido de ter vindo de carro... O bond daria mais tempo e conversariamos melhor. Foi uma cacetada! Conheces nada mais importuno que a velhice? Até cheira mal! E que vae ser de Gloria?... Pensará a avó que lhe entrego a neta? pois sim! É minha, de casa não me torna a sahir. Afinal, a prejudicada será ella... coitada! Mas com que direito commetteram meus sogros semelhante vilania?! Tu não me explicas nada! --Filho, já disse o que tinha a dizer-te! D'aqui a pouco estaremos nas Laranjeiras; será então tempo de averiguar o caso. Lembro-te que a baroneza anda adoentada... que é muito sensivel, e que toda a sua antipathia por D. Alice se funda no ciume... --Tolices! --Tolices ou não. Suppõe que trahiste o que prometteste a Maria... --E que trahisse! não era razão!... --São modos de pensar... Tua sogra arvorou-se em sentinella do teu coração, já o disseste. Ella não quer lá dentro senão a imagem da filha. --E não existe outra. Está farta de saber que eu não conheço esta mulher. Já enfada dizer e ouvir isto: nunca a vi! Nunca! --Mas gostas de sentil-a... ha pouco o disseste. Avisei-te do perigo, procurei afastar-te... conheço a tua imaginação; mas fui tão fraco que não consegui o que devera ter conseguido... Não faz mal. --Em vez de imaginação dize: egoismo. Aterra-me a idéa de voltar á desordem antiga... aos roubos do negro... á negligencia da casa, ao desperdicio da despensa. Era um inferno. É só isso que me incommoda... mais o abandono de minha filha... Não terei remedio senão pôl-a num collegio... Eu não tenho tempo de me occupar de tantas coisas e já tenho abusado muito da tua amizade. Estou atarantado... Vê se me salvas! Só tu! --Antes de mais nada, logo que chegarmos sóbe ao teu quarto, com o pretexto do descanço, banho e mudança de roupa. Entretanto eu irei fallar a D. Alice. Ella me dirá a verdade... Prepararei o terreno. --Contas com a sua sinceridade? --Absolutamente. É uma mulher simples. --Mais uma virtude... E depois? É natural que meus sogros desejem fallar primeiro... Emfim, o que fôr soará! Pessima recepção!... Maldita a hora em que sahi de casa! --Estás tragico! Mal imaginavas que um annuncio do _Jornal do Commercio_ te trouxesse tantas complicações! O que nós rimos da tua lembrança, naquella noite em que nos declaraste a tua resolução. Tudo podiamos prevêr, menos isto! --Ainda vocês negam a força occulta que obriga o individuo a executar, ás vezes, as mais extravagantes resoluções! Quando eu me lembro do ridiculo que vocês me atiraram á cara por causa d'aquelle annuncio! Eu mesmo o escrevi sem esperança, numa hora de raiva contra o Feliciano. Tudo se me affigurava melhor. Quem poderia crêr, porém, que fosse tão bom? Parece-me agora que a minha mão, ao escrever aquelle pedido de governante, num annuncio, puxou o fio do destino d'esta mulher... Lembras-te? Não appareceu mais ninguem! Dar-se-á o caso de só ella o ter lido? --Não. Eu tambem o li... o Caldas... tua sogra... --Já me tardavam as caçoadas. Não tens o direito de rir de um afflicto. Estou até com medo de parecer grosseiro e tratar mal os velhos! --Elles nem terão culpa... sim, é possivel que a D. Alice já estivesse resolvida a isto mesmo. Quem nos dirá? Não fez um pacto para toda a vida... Argemiro calou-se, olhando attonito para o amigo. Quem sabe? E depois: --É pena que não me possas dar informações completas... Ella... nunca te fez confidencias... não terá tenções?... --De que? --Casar, por exemplo! Que diabo! --Deve ter. É moça... Não sei. Minha mãe gostou d'ella... --Ah! D. Sophia viu-a? --Levou a Gloria a visitar-nos uma tarde, e emquanto eu mostrava as flôres e a vista á tua filha, ella entreteve-se com minha mãe. --E D. Sophia então disse-te?... --Que aquella moça faria a felicidade do homem com quem se casasse. Sabes a mania casamenteira de minha mãe. Ella julga, como foi feliz, que a unica felicidade perfeita na terra é a da familia... Quantas vezes a surprehendo com os olhos nublados sobre a minha batina de celibatario! Então, para vel-a sorrir, sabes o que eu faço? Carrego ao collo os seus petizes, que estão lindos e nedios como leitõezinhos. E a verdade é que já os amo tambem, a ambos. O Jorge adormece á noite nos meus braços; emquanto minha mãe cose, embalo-o na cadeira de balanço, até vel-o pegadinho no somno. Ao principio eu fazia isso para dar satisfação á minha mãe; mas hoje já o faço por gosto proprio. É bonito o somno de uma criança... E o brutinho não adormece sem que eu lhe cante a «Senhora Sant'Anna Passou por aqui... » Minha mãe conseguiu atar-me a outros seres de mais longo futuro... não morrerá nella o meu interesse pela vida! Chegámos á tua porta. Lá está tua filha no jardim. Depois de beijar Gloria e apertar a mão fina e molle do sogro, que desceu ao vestibulo a recebel-o, Argemiro subiu ao seu quarto. A baroneza descançava ainda: não a vira nem de passagem. Argemiro subiu a escada do quarto, com as narinas dilatadas, farejando o aroma subtil e inconfundivel da sua casa. Na saleta, um ramo de _La France_ e de resedá representou-lhe ao espirito a figura desconhecida de Alice, que elle sentia, emfim, naquella ordem e naquelle cheiro que lhe alegravam o lar. O Feliciano fôra ao carro buscar a mala, e não merecera resposta ao cumprimento que fizera ao patrão. --O homem vem zangado... pensou elle comsigo. Que dirá quando souber! Pela primeira vez, Argemiro procurou, através das venezianas do seu quarto, vêr se descortinava o vulto ao menos da sua governante. Chegava-lhe a curiosidade pela sua pessoa. Um desejo de matar saudades de uma desconhecida! Voltou para o interior do quarto. Em cima da sua mesinha estava uma carta fechada, sobrescriptada por mulher. --Quem sabe se será a sua despedida? pensou; e abriu-a com presteza. Leu: «Meu amigo: Fui pedida em casamento e desejo apresentar-lhe o meu noivo. Estou radiante! Venha. _Sinhá_.» Sinhá!... o pavilhão japonez... Fechava-se o panno sobre essa fantasia, cujo interesse se deixara todo para o fim. Estimava a felicidade da moça. Levar-lhe-ia uma prenda que o lembrasse no seu lar, eternamente. Era feliz, essa. Começava. E elle? Estava no fim. Sem destino, aborrecido, cançado... e ancioso! XX --Feliciano! diga á Sr.ᵃ D. Alice que eu desejo fallar-lhe... --Ella está na sala de jantar, com D. Maria da Gloria... --Bem, então não á incommode; eu vou lá. O barão sumira-se atrás do genro, pela escada acima, e o padre Assumpção seguiu pelo corredor. Gloria enfeitava uma cesta de flôres e fructas, dirigida pela governante. Era para o centro da mesa do almoço. Assumpção parou entre portas, ouvindo-as sem ser presentido: «...tenha o cuidado, Gloria, de combinar as côres, de modo que umas façam resaltar as outras... por exemplo, sempre que tiver flôres escuras, como estas rôxas, ponha-as ao lado de brancas ou de amarellas... Refresque o musgo com agua todos os dias... não consinta na mesa de seu pae nenhuma falta... você já está uma mocinha... Hoje, por exemplo, offereça-se para lhe descascar uma laranja, e assim procure servil-o todos os dias... Não... essa maçã não fica bem ahi... repare que é da mesma côr do pecego... ponha-a antes aqui, entre esta camada de musgo... Assumpção interrompeu-as: --D. Alice... Alice voltou-se. Estava pallida, com os olhos pizados de choro. Gloria exclamou: --Ah! padre Assumpção! estou muito triste. --Já sei; vae brincar um pouco, minha filha, preciso fallar com a tua mestra... --Eu não sou mestra... --Assisti ainda a um trecho de lição!... --Conselhos... só... Gloria, entretanto, sussurrava ao ouvido do padrinho: --Faça com que ella fique cá em casa, sim?! E sahiu correndo. --Sabe o que a Gloria me pediu? --Adivinho... --Recebi hontem uma carta do barão, dizendo-me que a senhora quer deixar esta casa... --Despediram-me. --Hein?! --Despediram-me. Assumpção quedou-se attonito deante da moça. --Não se admire; os meus serviços deixaram de ser precisos, já sou de mais aqui. --Mas... --Presenti no senhor um amigo, e sei que me defenderá mais tarde. Isto já é uma compensação! D'aqui a duas horas sahirei d'esta casa... A voz tremeu-lhe, um rubor cobriu-lhe as faces, e concluiu: --Logo que tenha feito as contas com o Dr. Argemiro... --Suppuz que a resolução tivesse sido sua, e por isso procurei-a em primeiro logar, desejando convencêl-a a mudar de idéa... --Enganou-se... Fui posta na rua, e se não fosse corajosa teria abandonado hontem mesmo o meu posto. Não quero que saiba pela minha bocca do que se passou. Outros lh'o dirão. Só lhe peço uma coisa: affirmar que eu sou uma rapariga absolutamente honesta, se acaso ouvir qualquer allusão desairosa... --Não ouvirei; todos a consideram aqui e eu sei bem quem a senhora é. Estive em sua casa. --O senhor! --Mas não o disse a ninguem. Descance. Permitta que a deixe, para ir fallar á baroneza. Vejo que era a ella que eu me deveria dirigir primeiro... Em todo caso, prometta-me não sahir sem fallar com o Argemiro. --É só por isso que eu espero... Assumpção contemplou-a. Ella fizera-se de novo como um lacre. --Que tenciona dizer-lhe? --Prestar-lhe as minhas contas. Tenho tudo em ordem. É questão para uns vinte minutos... Dizem-se num minuto mais de cem palavras... pensou o padre comsigo; terão tempo de conversar!... O Feliciano entrava e sahia, remexendo nos talheres, abrindo e fechando gavetas, maciamente. Sentindo passos na escada, Alice fugiu para o interior. O padre voltou-se. Era o barão. O velho approximou-se. --Então... como recebeu o homem a noticia? --Mal... --Hum... foi o diabo!... --A senhora baroneza?... --Oh, você sabe, minha mulher não póde tolerar a outra. Aquillo é uma doença. Doença que nem os medicos nem os padres curam... Esgotei todos os argumentos a favor d'esta pobre rapariga; afinal, comprehendi que o melhor seria deixar correr a agua ao sabor da corrente. Os factos brutaes resolvem ás vezes questões delicadas melhormente do que palavras doces. Depois, esta situação é intoleravel e não podia ser prolongada, sob pena de ver a minha mulher no hospicio ou na sepultura... Sacrificio por sacrificio, mais vale o da moça... lá terá na propria mocidade consolação para os seus desgostos... se esse nome merece o dissabor do desemprego. Afinal, não devemos exaggerar os factos. Casas não faltam para essa especie de serviço. Mais lamento eu o Argemiro, que vae voltar aos embaraços antigos logo que tornemos para a chacara... Veja você se conhece alguem nas condições de substituir esta moça... D. Sophia talvez possa indicar... --D. Alice é insubstituivel. --Ora, ora! tambem você! --Eu, mais do que ninguem, posso affirmal-o. Como sabe, Argemiro pediu-me que tomasse informações da governante, logo que se decidiu a confiar-lhe a filha... A mim bastava-me vêl-a e ouvil-a para perceber que a nossa Gloria estava bem entregue... mas a missão era tão delicada, que insisti em leval-a até o fim, mais com o proposito de defender a pobre moça d'estes ataques, previstos, do que por desconfiar d'ella. O acaso ajudou-me. Um amigo de meu pae, o coronel Barredo, que tem a especialidade de saber a chronica de meio mundo, veio ao meu encontro, e por me ter visto a conversar com ella, desandou a fallar a seu respeito, poupando-me o trabalho de uma inquirição, para que me faltava o geito... --Isso seria vago... --Era positivo. O Barredo estava ao facto de tudo, conhecia até a fórmula do contracto entre Argemiro e D. Alice! Ha d'esses homens extraordinarios, cujas vistas perfuram paredes e desvendam mysterios... Ainda nós não sabemos do que se passa em nosso interior e já elles estão senhores do nosso segredo! --As informações que elle deu foram então... --Magnificas. Terei occasião de repetil-as agora deante da Sr.ᵃ baroneza. --Pelo amor de Deus, não tente uma reconciliação! Seria recomeçar! --Não se tractará senão de uma reparação. Mas sempre os conheci justos e amigos de fazer bem. --Caridade bem entendida por nós mesmos é começada... --Não se falla agora de caridade, mas de justiça! --Dir-se-ia discutir-se a sahida de um ministro de Estado!... --Esta é mais sensivel e merece maior ponderação. --Emfim, o que está feito está feito. Parece-me que não vou agora pedir á _menina_ que fique, pelo amor de Deus! Eu fiz muito dirigindo-me a ella e pedindo-lhe desculpa pela fórma por que minha mulher a despediu... --Ah! e ella o que disse? --Gaguejou umas coisas, fez-se vermelha, eu creio que o estava tambem, e voltei para o meu quarto mandando ao diabo as mulheres! Ah! Assumpção, estou morto pelas minhas mangueiras e o socego da minha casa. Passou-me a edade das fantasias, mas não me posso cohibir de lamentar minha mulher. Ella está doente, levanta-se de noite, não dorme sem o retrato de Maria em baixo do travesseiro... É o seu fanatismo. A sua religião! O amor de mãe desvaira-a... Que soffrimento! A mim, já me quer mal por eu defender o Argemiro, quando allude á probabilidade de outros amores! Veja só... Assumpção não respondeu; olhava machinalmente para o jardim bem relvado, fresco das regas e illuminado pelo fulgor dos ibiscos vermelhos e os cachos rôxos das viuvinhas. Aqui e alli, roseiras de qualidade vergavam as hastes molles ao peso de grandes rosas perfumadas. Em baixo da janella, num heliothropo florido, palpitavam borboletinhas brancas... O barão interrogou o padre sobre o ultimo facto politico. Assumpção respondeu apenas. Mal entendia d'isso, apezar dos esforços da mãe com o sentido de o interessar pela vida... A ambição pessoal dos homens fazia-lhe mal aos nervos... Feliciano passou assobiando pela porta do quarto de Alice. Fôra um desafogo á alegria que lhe alvoroçava a alma; mas conteve-se antes de entrar na sala, onde o esperava um olhar de censura do padre. Pouco lhe importou. Alma de negro não é alma de cão. Senão, veriam d'ahi por deante quem mandaria alli! Quando Argemiro desceu para o almoço, foi avisado de que a sogra o esperava na sala de visitas. A conversa precisava discreção,--imaginou logo do que se tratava. Ia ser bonita, a historia! Onde se teria mettido a Alice? Vinha-lhe agora uma curiosidade doida de a vêr! Na sala encontrou os sogros e Assumpção, com um ar de solemnidade que o desorientou. A baroneza derramava pelo sofá as dobras da sua saia, em frente ao retrato da filha, suspenso sobre um _guéridon_, entre dois grandes jarrões cheios de rosas brancas. Só faltam as velas!... pensou comsigo Argemiro, dando com a vista naquella especie de oratorio. A sogra, emmagrecida e pallida, chamou-o para seu lado, e antes mesmo de qualquer cumprimento, foi-lhe dizendo: --Meu filho, de accôrdo com a ultima vontade d'aquella que está alli, despedi hontem a sua governante. Sei que lhe dou um desgosto com isto e lamento-o; mas a minha consciencia impunha-me este acto de salvação para a sua alma e de paz para o espirito amoroso da nossa pobre Maria! --Eu não a comprehendo... mamãe! --Argemiro! a minha convivencia nesta casa com essa mulher provou-me que as minhas suspeitas tinham fundamento. Ella ama-o. Argemiro não conteve um movimento de surpreza: --É impossivel! --Antes eu tinha a intuição d'isso; tive depois as provas, toda a certeza. Encontrei-a muitas vezes aqui, olhando para o seu retrato; vejo a ternura com que ella aperta nos braços sua filha, o desvello exaggerado com que trata tudo que diz respeito á sua pessoa e como enrubece ao pronunciar o seu nome. Affirmo-lhe que o ama. Eu nunca me enganei. Certa d'esta verdade, deliberei despedil-a antes da sua chegada, do que não me arrependo, por que era tempo de acabar a comedia, que não podia ser presenceada por minha neta. --Minha senhora! --Ah! já não diz minha mãe!... Era ainda... Emfim! peço-lhe desculpa se o offendi. --Fallemos com calma. Não sei em que lingua hei de dizer, para fazer-me entendido: que nem sequer sei a côr dos olhos d'essa senhora, cujas feições ignoro e cuja voz mal tenho ouvido a distancia! É bonita? é feia? Que me importa! Nunca a vi. Não quero vêl-a. Para mim ella não é uma mulher, é uma alma apenas, que me enche a casa de perfumes, de conforto, de doçura, como nunca tive em minha vida. --Nem no tempo de Maria?! Era o que faltava ouvir? --Mas não fallemos do passado, pelo amor de Deus! --Como não, se a elle está você preso por um juramento?! Nega ter jurado á minha filha, na hora da morte, fidelidade eterna?! --Não deixei ainda de cumprir tal promessa; mas não teria escrupulo em fazel-o se as condições da minha vida o exigissem. Esse juramento foi sincero, mas mesmo sem sinceridade eu o faria naquelle transe, para adoçar o passamento de minha mulher... --Quer você dizer com isso que romperá tal juramento...?! --Sem escrupulo, já disse. --A religião prohibe-o que o faça! --Eu não sou religioso. --Ah! vêem?! elle tambem a ama! Minha pobre filha! Minha pobre filha! A baroneza estava tremula, ameaçadora. Crescera de estatura, passavam-lhe pelos olhos fulgores de mocidade e de odio. --Se a religião não lhe impõe o cumprimento do dever, appello ao menos para a sua honra. Não a terá tambem?! --A minha honra obriga-me antes a defender essa pobre moça calumniada, do que a manter um voto que já produziu o seu effeito e de que nesta hora me liberto. A baroneza recuara espavorida, com olhos de assombro. O marido sumia-se, encolhendo-se todo para dentro de si mesmo. A velha voltou-se afflicta para Assumpção, como a pedir soccorro. Seria possivel que elle, padre, testemunha de tudo, não viesse em seu auxilio?! Elle comprehendeu-a e encheu-se de dó, ao mesmo tempo que dizia: --Argemiro tem razão; a sua honra obriga-o a defender essa moça, muito mais digna de consideração que de desconfiança. Foi ainda influenciada por paixões terrenas que sua filha exigiu do marido essa promessa. Desprendida do mundo, a sua alma tornou-se toda tolerancia e doçura, e seria offendel-a imaginar que os sacrificios d'aquelles a quem amou lhe sejam caros... --Sacrificios! --Ao contrario; no ceu, só será completo o seu goso se na terra vir felizes aquelles que a choraram. Creia, minha amiga, a pessoa que a senhora condemna com tamanha injustiça é de uma perfeição moral difficil de attingir. Eu respondo por ella como se fôra minha irmã. --Detesto-a! --Ha de estimal-a um dia. --Nunca! --Bastará que eu lhe conte isto: A baroneza abandonava-se, com desanimo, sentindo-se muito só. Os outros esperavam, voltados para Assumpção. Elle começou: --Esta moça, que toda a gente recebeu com certa malignidade, de que eu não fui isento, exerce o encargo de governante d'esta casa para manter uma velha paralytica e um velho cego, verdadeiros cacos humanos, que ella visita todas as quarta-feiras piedosamente e de quem é o amparo. Filha unica de um advogado brasileiro, Constantino Galba e neta materna do General Vitalino Ortiz, logo que perdeu a mãe, foi mandada a educar num dos melhores collegios da França, onde viveu até que, por morte do pae, ficando quasi reduzida á miseria, voltou ao Brasil. Aqui, por toda familia viu-se entre dois criados, uma velha que já fôra ama do pae, e o marido, antigo camarada do avô. Bens, só tinha uma casinhola velha em que se accommodou com o casal dos derradeiros amigos. Encararam os tres a vida com animo. O homem trabalhava ainda e viveram quasi sete annos dos recursos d'esse trabalho e de outros, incertos, de D. Alice: costuras... pinturas... bordados... Afinal lá chegou um dia em que o velho teve de sahir de scena. Cegou. Trabalhara demais. Com o desgosto e outras fadigas da edade, fica-lhe a mulher paralytica; e eis a nossa D. Alice entre esses dois seres de redobrado peso. Redobrou tambem ella de actividade nos trabalhos manuaes... propoz-se a dar lições... mas não lhe appareciam discipulos; os trabalhos, mal remunerados, não matavam a fome aos seus velhos... Foi por essa occasião que appareceu no _Jornal do Commercio_ um annuncio offerecendo um bom ordenado a uma senhora para governar a casa de um viuvo. Ella não hesitou. Os seus velhos teriam pão, ella um pouco mais de descanso... A filha do advogado, a neta do general, sujeitou-se a esse emprego para matar a fome aos seus criados. A baroneza olhava para Assumpção, interrogativamente. Seria verdade tudo aquillo?... Elle continuava: --A pobreza apura os dotes naturaes da creatura; ella trouxe para aqui a experiencia do sacrificio... Ouçam agora: quando leva dinheiro para casa, o velho, zeloso, apalpa-lhe o pescoço, os pulsos, os dedos, a vêr se ella tem joias... A velha acha tudo pouco! Elle préga-lhe moral... desconfia... a outra queixa-se de necessidades... Ella socega a um, promette á outra e volta para os sarcasmos d'esta situação e para as pirracinhas do Feliciano. Senhora baroneza! Isto que eu lhe digo é a verdade. Eu vi. A baroneza nem pestanejava. Sumira-se-lhe a côr dos beiços. Estava livida. Argemiro curvou-se todo para o amigo: --Viste? --Vi! Um dia fui chamado a levar soccorros espirituaes a um doente. Era a paralytica. Foi junto á sua cadeira de rodas, que o marido me contou toda a historia de D. Alice. Conheciam-me de nome e preferiram-me a outro padre qualquer, exactamente para me fallarem d'ella, e pediram-me que a protegesse! O velho tinha medo; conhecia as tentações do mundo e a fraqueza das mulheres... queria ouvir da minha bocca palavras que o socegassem. Soceguei-o. No dia seguinte voltei, a saber da paralytica; tinha melhorado. Estava eu lá, quando, percebendo os passos de D. Alice, os velhos supplicaram-me que me occultasse. Ella ficaria vexada se me visse alli; occultei-me. Foi do meu esconderijo que assisti á scena de humilhações a que me referi. Não tinham bastado as minhas affirmações; o cego apalpou nervosamente os dedos, os pulsos, as orelhas da moça, á procura da joia compromettedora... A paralytica pediu-lhe goloseimas. Enjoara tudo. Morria de fraqueza... Agora, senhora baroneza, creio que não preciso dizer mais nada... O barão levantou-se: --Luiza, não te parece que devemos pedir perdão a essa senhora? Mas a mulher não respondeu. Parecia petrificada no seu logar, com os olhos fitos no retrato mudo da filha. XXI Chegára a hora da prestação de contas. Argemiro escrevia á secretária, quando Alice entrou na sala. Como da primeira vez que se fallaram, ella ficava contra a claridade, encolhida no seu vestido de lã barata, escura, e com o véo descido até ao queixo. Estava prompta para sahir; esperava ordens... Argemiro remexeu nos papeis. Abriu um caderninho encarnado, que a moça reconheceu de longe. Era o caderninho dos assentamentos do mez, que ella lhe mandára sommado e com saldo. Sem saber porque, Argemiro sentia-se embaraçado, e foi com certa timidez que convidou a moça a sentar-se. --Estou bem... --Não; sente-se. --Obrigada... Ella parecia querer ficar em pé, prompta para fugir! Elle gaguejou: --Então... Evidentemente não sabia como principiar. De repente: --Os seus cadernos estão numa ordem admiravel. Realmente eu nunca imaginei que uma senhora entendesse tanto de contas... é um guarda-livros! Comtudo... parece-me encontrar aqui um pequeno engano... Alice approximou-se, com um arrepiozinho de susto. Elle, indicando-lhe uma cadeira, a seu lado: --Tenha a bondade de sommar... Offereceu-lhe a penna, que ella mesma molhou no tinteiro. Estavam sós. A casa em silencio. Alice sentou-se, com afflicta curiosidade, e levantando o véo baixou os olhos para o caderno, recomeçando a sommar as parcellas indicadas. Entretanto, elle contemplava-a pela primeira vez. Era mais bonita do que pensava: tinha a pelle suave, os olhos pestanudos e o cabello escuro e abundante... A mão esguia, branca, movia-se sobre o papel, num leve tremor nervoso. Argemiro pensava: «Fui um estupido; eu deveria ter apressado este instante. Ella é deliciosa! E aspirava num deleite o aroma que vinha d'ella, aquelle cheiro de cidrilha, de malva, ou flôr de fructa e que constituia já uma das suas necessidades. Alice córava intensamente. Não atinava com o erro! --Não acho... confessou por fim. --Entretanto, elle não é pequeno... Alice levantou com espanto os olhos para Argemiro; elle fixou-os com ternura. Estremeceram ambos. Ella tornou a baixar a vista para o caderno. Letras e cifras dançavam estonteadoramente. Argemiro percebeu-lhe a commoção. Bem dissera a sogra! E com alegria: --Quer que lhe aponte o engano? --Se faz favor... --Está aqui! Argemiro apontou para a verba que representava o ordenado da moça, apressando-se em continuar: --A senhora reduziu esta quantia... --Foi o que nós combinámos!... --Combinámos o dobro. --Affirmo-lhe que não. --Devo-lhe muito... --Não me deve nada. --Tel-a-ei offendido? --Não... Estava elle outra vez encalhado. Nem para traz nem para deante, sem saber que dizer, todo olhos para o rosto, que já desapparecia sob o véozinho bordado. --D. Alice! A moça respondeu com um olhar timido. Elle calou-se. Parecia-lhe impossivel aquella estupidez! --Então a senhora vae-se mesmo embora... --É preciso. --Se Gloria lhe pedisse para ficar... Ella é tão sua amiga... --Nem assim... Argemiro levantou-se e disse com voz grave e resoluta: --Tem razão. O seu logar não é aqui, agora que a vi e a conheço. Só lhe peço uma coisa: que me consinta ir amanhã á sua casa, em companhia de minha filha... pedir-lhe perdão... Alice esboçou um gesto de protesto. Receava chorar se fallasse. Elle approximou-se e ficaram ambos calados, adivinhando-se atravéz do silencio, até que Maria da Gloria gritou da porta: --D. Alice! o Feliciano já levou a sua mala! Dois mezes depois, numa linda manhã, os barões assistiram ao casamento de Argemiro e de Alice, feito por Assumpção, testemunhado por Adolpho Caldas, Telles e D. Sophia. A ceremonia foi simples e sem lagrimas. A baroneza conteve-se. Muito pallida, d'entre as sedas negras do vestido, ella adquirira pelo esforço energico da vontade, uma rigidez de estatua. Nem um musculo das faces lhe tremia. Com as mãos pousadas nos hombros da neta, ella parecia olhar para tudo como do alto de uma torre, imperturbavelmente. Á tarde Assumpção foi visital-a. Tinham voltado á chacara do suburbio. Gloria correu a recebel-o no portão. Estava decidido que ella viveria alli uns mezes, para consolar a avó. Achava agora tudo tão bonito! O avô lá andava no horto, verificando o estado das suas plantas, alegre como um patinho n'agua! Ella estava por alli á cata de mangas maduras... Assumpção acariciou-lhe a cabeça e entrou sózinho na saleta da baroneza. Ella alli estava no seu cantinho costumado, febril, com o corpo alquebrado, descahido, os olhos avermelhados entre as palpebras empapuçadas. Vendo-o, chamou-o a si; e segurando-lhe as mãos, numa queixa soluçada: --Minha filha tornou a morrer hoje, Assumpção; agora está só commigo, e eu já vou perdendo as forças para chorar... --Não a chorará sózinha... murmurou elle quasi em segredo, córando. Ella voltou-se, e contemplou-o num mixto de esperança e de assombro. --Você?... Elle olhou silenciosamente para a batina, como para explicar tudo. Transfigurada, num movimento inconsciente, alegre, ella apertou-o nos braços e exclamou: --Meu filho! FIM *** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK A INTRUSA *** Updated editions will replace the previous one—the old editions will be renamed. Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright law means that no one owns a United States copyright in these works, so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the United States without permission and without paying copyright royalties. Special rules, set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to copying and distributing Project Gutenberg™ electronic works to protect the PROJECT GUTENBERG™ concept and trademark. 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START: FULL LICENSE THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK To protect the Project Gutenberg™ mission of promoting the free distribution of electronic works, by using or distributing this work (or any other work associated in any way with the phrase “Project Gutenberg”), you agree to comply with all the terms of the Full Project Gutenberg™ License available with this file or online at www.gutenberg.org/license. Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg™ electronic works 1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg™ electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to and accept all the terms of this license and intellectual property (trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy all copies of Project Gutenberg™ electronic works in your possession. 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It exists because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from people in all walks of life. Volunteers and financial support to provide volunteers with the assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg™’s goals and ensuring that the Project Gutenberg™ collection will remain freely available for generations to come. In 2001, the Project Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure and permanent future for Project Gutenberg™ and future generations. To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 and the Foundation information page at www.gutenberg.org. Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non-profit 501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal Revenue Service. The Foundation’s EIN or federal tax identification number is 64-6221541. Contributions to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent permitted by U.S. federal laws and your state’s laws. The Foundation’s business office is located at 809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887. Email contact links and up to date contact information can be found at the Foundation’s website and official page at www.gutenberg.org/contact Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation Project Gutenberg™ depends upon and cannot survive without widespread public support and donations to carry out its mission of increasing the number of public domain and licensed works that can be freely distributed in machine-readable form accessible by the widest array of equipment including outdated equipment. Many small donations ($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt status with the IRS. The Foundation is committed to complying with the laws regulating charities and charitable donations in all 50 states of the United States. Compliance requirements are not uniform and it takes a considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up with these requirements. We do not solicit donations in locations where we have not received written confirmation of compliance. To SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any particular state visit www.gutenberg.org/donate. While we cannot and do not solicit contributions from states where we have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition against accepting unsolicited donations from donors in such states who approach us with offers to donate. International donations are gratefully accepted, but we cannot make any statements concerning tax treatment of donations received from outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff. Please check the Project Gutenberg web pages for current donation methods and addresses. Donations are accepted in a number of other ways including checks, online payments and credit card donations. To donate, please visit: www.gutenberg.org/donate. Section 5. General Information About Project Gutenberg™ electronic works Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg™ concept of a library of electronic works that could be freely shared with anyone. For forty years, he produced and distributed Project Gutenberg™ eBooks with only a loose network of volunteer support. Project Gutenberg™ eBooks are often created from several printed editions, all of which are confirmed as not protected by copyright in the U.S. unless a copyright notice is included. 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