The Project Gutenberg EBook of Historia de Portugal: Tomo I, by 
Joaquim Pedro de Oliveira Martins

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Title: Historia de Portugal: Tomo I

Author: Joaquim Pedro de Oliveira Martins

Release Date: November 21, 2010 [EBook #34387]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

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Produced by Pedro Saborano






    *Notas de transcrio:*

    O texto aqui transcrito,  uma cpia integral do livro impresso
    em 1908.

    Foi mantida a grafia usada na edio original de 1908, tendo sido
    corrigidos apenas pequenos erros tipogrficos que no alteram a
    leitura do texto, e que por isso no foram assinalados.





HISTORIA DE PORTUGAL

TOMO I




                      *      *      *      *      *




J. P. OLIVEIRA MARTINS

OBRAS COMPLETAS

I. Historia nacional:

HISTORIA DA CIVILISAO IBERICA, 4. ed. (1897), 1 vol., br. 700 rs.
Enc. 900.

HISTORIA DE PORTUGAL, 7. ed. (1908), 2 vol., br. 1$400 rs. Enc. 1$800.

O BRAZIL E AS COLONIAS PORTUGUEZAS, 4. ed. (1888). 1 vol., br. 700 rs.
Enc. 900.

PORTUGAL CONTEMPORANEO, 4. ed. (1907). 2 vol., br. 2$000 rs. Enc. 2$400.

PORTUGAL NOS MARES, (1889), 1 vol., br. 700 rs. Enc. 900.

CAMES, OS LUSIADAS E A RENASCENA EM PORTUGAL, (1891). 1 vol., br. 600
rs. Enc. 800.

NAVEGACIONES Y DESCUBRIMIENTOS DE LOS PORTUGUESES, (_ed. do Ateneo de
Madrid_, 1892). 1 vol. (no entrou no commercio.)

A VIDA DE NUN'ALVARES, 2. ed. (1894). 1 vol., br. 2$000 rs. Cart.
2$400. Enc. (folhas doiradas) 3$200.

OS FILHOS DE D. JOO I, 2. ed., 2 vol., br. 1$400 rs. Enc. 1$800.

O PRINCIPE PERFEITO, (1895), 1 vol., br. 2$000 rs. Encad., folhas
doiradas, 3$200.

II. Historia geral:

ELEMENTOS DE ANTHROPOLOGIA, 4. ed. (1885), 1 vol., br. 700 rs. Enc. 900.

AS RAAS HUMANAS E A CIVILISAO PRIMITIVA, 2 vol., br. 1$400 rs. Enc.
1$800.

SYSTEMA DOS MYTHOS RELIGIOSOS, 3. ed. (1895), 1 vol., br. 800 rs. Enc.
1$000.

QUADRO DAS INSTITUIES PRIMITIVAS, 2. ed. (1893), 1 vol., br. 800 rs.
Enc. 1$000.

O REGIME DAS RIQUEZAS, 2. ed. (1894), 1 vol., br. 600 rs. Enc. 800.

HISTORIA DA REPUBLICA ROMANA, 2. ed., 1897, 2 vol., br. 2$000 rs. Enc.
2$400.

O HELLENISMO E A CIVILISAO CHRIST, 2. ed., 1 vol., br. 800 rs. Enc.
1$000.

TABOAS DE CHRONOLOGIA E GEOGRAPHIA HISTORICA, (1884), 1 vol., br. 1$000
rs. Encadernado 1$200.

III. Varia:

A CIRCULAO FIDUCIARIA, 2. ed., 1 vol., br. 800 rs. Enc. 1$000.

A REORGANISAO DO BANCO DE PORTUGAL, opusculo, (1877), br. 150 rs.

O ARTIGO BANCO, no _Diccionario Universal Portuguez_, (1877), 1 vol.,
br. 500.

POLITICA E ECONOMIA NACIONAL, (1885), 1 vol., br. 700 rs.

PROJECTO DE LEI DE FOMENTO RURAL, _apresentado  camara dos deputados na
sesso de 1887_, 1 vol., br. 300 rs.

ELOGIO HISTORICO DE ANSELMO J. BRAAMCAMP, _ed. part._ (1886), 1 vol.
(esgotado).

THEOPHILO BRAGA E O CANCIONEIRO, _opusculo_, (1869) (esgotado).

O SOCIALISMO, (1872-3), 2 vol., br. 1$200. (Esgotado)

AS ELEIES, _opusculo_, (1878), br. 200 rs.

CARTEIRA DE UM JORNALISTA: I. _Portugal em Africa_, (1891), 1 vol., br.
400 rs.

A INGLATERRA DE HOJE, CARTAS DE UM VIAJANTE, 2. ed., 1 vol., br. 600
rs. Enc. 800.

CARTAS PENINSULARES, (1895), 1 vol., br. 600 rs. Enc. 800.




                      *      *      *      *      *

                                HISTORIA

                                   DE

                                PORTUGAL

                                  POR

                         J. P. Oliveira Martins

                             Setima edio


                             TOMO PRIMEIRO


                                  1908
                     PARCERIA ANTONIO MARIA PEREIRA
                            LIVRARIA EDITORA
                         _Rua Augusta--44 a 54_
                                 LISBOA




                      *      *      *      *      *

                    Composto e impresso na typographia
                                    DA
                      Parceria ANTONIO MARIA PEREIRA
                          _Rua Augusta, 44 a 54_
                                  LISBOA







MEMORIA

DE

ALEXANDRE HERCULANO

mestre e amigo




ADVERTENCIA

    Antigamente foi costume fazerem memoria das cousas que se fazio,
    assi erradas, como dos valentes & nobres feytos. Dos erros porque se
    delles soubessem guardar: & dos valentes & nobres feytos aos bos
    fezessem cobia auer pera as semelhentes cousas faseram.

    _Coronica do Condestabre._


A historia  sobre tudo uma lio moral: eis a concluso que, a nosso
vr, se de todos os eminentes progressos ultimamente realisados no fro
das sciencias sociaes. A realidade  a melhor mestra dos costumes, a
critica a melhor bussola da intelligencia: por isso a historia exige
sobretudo observao directa das fontes primordiaes, pintura verdadeira
dos sentimentos, descripo fiel dos acontecimentos, e, ao lado d'isto,
a frieza impassivel do critico, para coordenar, comparar, de um modo
impessoal ou objectivo, o systema dos sentimentos geradores e dos actos
positivos.

O desenvolvimento do criterio racional e o predominio crescente dos
processos proprios das sciencias, baniram os modelos antigos e fizeram
da historia um genero novo. Nem os discursos moraes ou litterarios
_sobre_ a historia,  maneira do XVII seculo, nem o doutrinarismo secco
do XVIII que sobre factos e instituies mal conhecidos construia
systemas geraes chimericos, nem a opinio, muito seguida em nossos dias,
de considerar a historia unicamente nos seus phenomenos exteriores,
averiguando eruditamente as epochas e as condies dos successos,
merecem, a nosso vr, imitao.

Todos estes systemas, porm, ensaios successivos para determinar o
genero de um modo definitivo, teem um lado de verdade aproveitavel. Os
modelos classicos fizeram sentir o caracter moral da historia; os
modelos abstractos, a necessidade de comprehender os phenomenos n'um
systema de leis geraes; os modelos eruditos, finalmente, a condio
imprescriptivel de um conhecimento real e positivo da chronologia e dos
elementos que compem o _meio_ externo ou phisico das sociedades.[1]

Nada d'isto, porm,  ainda realmente a historia, embora todas essas
condies sejam indispensaveis para a sua comprehenso. O intimo e
essencial consiste no systema das instituies e no systema das idas
collectivas, que so para a sociedade como os rgos e os sentimentos
so para o individuo, consistindo, por outro lado, no desenho real dos
costumes o dos caracteres, na pintura animada dos logares e accessorios
que formam o scenario do theatro historico.

Estes dois aspectos so egualmente essenciaes; porque a coexistencia
independente dos motivos collectivos e naturaes, e dos actos
individuaes,  um facto incontestavel na vida das sociedades.

Na _Historia da civilizao iberica_ tratmos de estudar o systema de
instituies e de idas da sociedade peninsular, para expr a sua vida
collectiva, organica e moral. Tommos ahi a sociedade como um individuo,
e procurmos retratal-o phisica e moralmente. Agora o nosso proposito 
diverso. Tratando da historia particular portugueza, somos levados a
encarar principalmente o segundo dos aspectos essenciaes da historia
geral. A sociedade portugueza, como molecula que  do organismo social
iberico, peninsular, ou hespanhol--estas tres expresses teem aqui um
alcance equivalente--obedeceu, nos seus movimentos collectivos, ao
systema de causas e condies proprias da historia geral da peninsula
hispanica. Por isso procurmos sempre, na obra referida, indicar o modo
pelo qual as leis geraes se realisavam simultaneamente nas duas naes
hespanholas: duas, porque a historia assim constituiu politicamente a
Peninsula.

Metade da historia portugueza est, portanto, escripta na _Historia da
civilisao iberica_: a metade que trata da vida da sociedade, como um
ser organico. Comprehender-se-ha, pois, que nos abstenhamos agora de
repetir o que est dito, e que nos limitemos a enviar o leitor para esse
livro; indicando, quando fr necessario, o logar onde poder encontrar a
explicao das causas geraes a que no texto se tem de alludir.

Resta fazer a segunda metade: resta caracterizar o que ha de particular
na historia portugueza; resta fazer viver os seus homens, e representar
de um modo real a scena em que se agitam: tal  o programma d'este
livro, cujas difficuldades de execuo excedem em muito as do anterior.
N'esse, bastavam o conhecimento e o pensamento: um para nos dizer como
foram as cousas, outro para nos indicar o principio e o systema da
civilisao. Agora carece-se do faro especial da intuio historica, e
d'um estylo que traduza a animao propria das cousas vivas. Toda a
longanimidade do leitor ser pois necessaria para desculpar as
imperfeies da obra.

 mistr indicar ainda outro assumpto e prevenir uma impresso, natural
em quem ler successivamente as duas obras. A _Historia de Portugal_
consiste n'uma serie de quadros, em que, na maxima parte das vezes, os
caracteres dos homens, os seus actos, os motivos immediatos que os
determinam e as condies e modo porque se realisam, merecem antes a
nossa reprovao do que o nosso applauso. Crimes brutaes, paixes vis,
abjeces e miserias, compem, por via de regra, a existencia humana; e
por isso mais de um moralista tem condemnado o estudo da historia como
pernicioso para a educao.--Por outro lado, a _Historia da civilisao
iberica_ respira um enthusiasmo optimista que, ao primeiro exame,
pareceria contradictorio com o pessimo e mesquinho caracter que as
aces dos homens apresentam. Um exemplo bastar para demonstrar este
antagonismo: alm considermos as conquistas americanas e asiaticas uma
obra heroica, e agora veremos que montanha de ignominias foi o imperio
portuguez no Oriente.

Esta contradico, real para o criterio abstracto, no existe, porm,
para o criterio historico. Toda a boa philosophia nos diz que o homem
real  a imagem rude de um homem ideal, que essa imagem vive no mundo
inconscientemente, e que todas as aces dos homens, maculadas de
defeitos e vicios, obedecem a um systema de leis, idealmente sublimes. 
esta verdade que o povo consagrou quando formulou o adagio: Deus escreve
direito por linhas tortas.

Pesada esta considerao, que no podemos agora desenvolver de um modo
cabal, vr-se-ha como na historia de uma civilisao os caracteres
particulares das aces dos homens, fundindo-se no systema geral de
principios e leis que os determinam, perdem individualidade, e no valem
seno como elementos componentes de um todo superior: que sejam
humanamente bons ou maus, importa nada, porque s nos cumpre attender ao
destino que os determina, e a moral  um criterio incompetente para a
esphera ou categoria collectiva de que se trata.

Na esphera dos movimentos de instituies e idas, na categoria da vida
social, as aces dos homens so sempre absolutamente excellentes;
porque a supremacia da sociedade sobre o individuo consiste no facto da
existencia de uma consciencia superior da Ida, no organismo que se diz
sociedade. Os poetas picos, seres privilegiados cuja voz no  propria,
seno collectiva, so os orgos vivos da consciencia de uma civilisao:
assim Cames sente e exprime a grandeza historica do imperio das Indias,
que na propria opinio particular do poeta so uma Babylonia, um poo de
ignominias.

Esclarecido este lado do problema, embora de um modo incompleto e
rapido, resta-nos dizer que na segunda metade da historia, na que trata
dos individuos e dos episodios, na que pinta os costumes e os
pensamentos, o criterio  outro: por isso affirmmos que a historia 
uma lio moral. Nos vicios e nas virtudes, nos erros e nos acertos, na
perversidade e na nobreza dos individuos que foram, ha um exemplo
excellente. Na sabedoria ou na loucura dos actos politicos e
administrativos passados ha um meio de prevenir e encaminhar a direco
dos actos futuros. A historia , n'esse sentido, a grande mestra da vida.

Se os vicios, os erros, o crime e a loucura predominam sobre as
virtudes, os acertos, a nobreza e a sabedoria dos homens, como sem
duvida predominam, iremos por isso condemnar a historia por perniciosa?
No, decerto. Apresentar crua e realmente a verdade  o melhor modo de
educar, se reconhecemos no homem uma fibra intima de aspiraes ideaes e
justas, sempre viva, embora mais ou menos obliterada. Conhecer-se a si
proprio foi, desde a mais remota Antiguidade, a principal condio da
virtude.

    [1] V. _Th. da hist. universal_, nas _Taboas de chronol._,
        pp. VI-XXII.

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HISTORIA DE PORTUGAL

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LIVRO PRIMEIRO

Descripo de Portugal

            Onde a terra se acaba e o mar comea.
                       CAMES, _Lusiadas_, III, 20

                      *      *      *      *      *




I

Os lusitanos


O povo desde o qual os historiadores tem tecido a genealogia
portugueza est achado:  o dos lusitanos. Na opinio d'esses
escriptores, atravez de todas as phases politicas e sociaes da Hespanha,
durante mais de tres mil annos, aquella raa de celtas soube sempre,
como Anteu, erguer-se viva e forte: reproduzir-se, immortal na sua
essencia; e ns os portuguezes do seculo XIX temos a honra de ser os
seus legitimos herdeiros e representantes.

Com esta ironia encoberta mas grave, fustigava Alexandre Herculano[2] os
seus predecessores, historiographos nacionaes, e, segurando com valor a
frula magistral, castigava o povo culpado de acreditar n'uma tradio
que tem para o erudito, alm de outros defeitos, o de ser recente. S
desde o fim do XV seculo o nome de _lusitani_ comea a substituir o do
_portugalenses_, nos livros; mas essa innovao, perpetuando-se entre os
eruditos, torna-se por fim uma crena nacional e quasi popular.

Que valor merece a innovao? Nenhum; e por varios motivos. Tudo falta:
a conveniencia de limites territoriaes, a identidade da raa, a filiao
da lingua, para estabelecermos uma transio natural entre os povos
barbaros e ns. Ora estes argumentos, decisivos para o sabio
historiador, no nos parece a ns--perdoe-se-nos o atrevimento--que o
sejam. Outro tanto succede com todas as naes, ou quasi todas, desde
que procuramos estabelecer a arvore genealogica, indo aos arcanos de um
passado ignoto reconhecer a phisionomia dos mortos de muitos seculos e
determinar d'entre elles os primeiros avs de uma nao. Seria absurdo
exigir conveniencia de limites territoriaes, ou por outra, identidade de
fronteiras, entre a localisao de uma tribu primitiva, e a de uma nao
moderna: nem aos povos que hoje mais indiscutivelmente representam,
pura, uma raa, poderia fazer-se tal exigencia. Se ha ou no identidade
de raa,  exactamente o problema que deveria agitar-se; e, sem isso,
negal-o  proceder dogmatica e no scientificamente.

Allega-se que so indecisas as noes de Strabo com respeito s
fronteiras dos lusitanos; diz-se mais que no coincidem com as que
Augusto deu  provincia da Lusitania.[3] O geographo antigo, ora parece
incluir os callaicos nos lusitanos, entendendo as fronteiras d'estes
ultimos at  costa do norte da Peninsula; ora os separa, dando-lhes o
Douro como divisoria. A demarcao de Augusto adoptou esta segunda
verso. As fronteiras orientaes extendiam-se, quer para o geographo,
quer, depois, para a administrao romana, muito alm da raia
portugueza, incluindo Salamanca, e subindo quasi at proximo de Toledo.
D'alli para o sul, e depois para o nascente, seguindo o curso angular do
Guadiana, os lusitanos de Strabo e a Lusitania de Augusto tinham como
limite este rio, quasi desde as suas fontes, e at  sua foz, na costa
do nosso Algarve.

Se ligassemos, pois, um valor positivo s resenhas dos antigos
geographos, e um alcance social-historico  identidade das fronteiras
primitivas e actuaes, parece-nos que poucas naes poderiam com melhores
motivos achar na etimologia dos antigos o fundamento da sua vida
moderna. Alargue-se a fronteira do norte ao Minho (conquista da
Lusitania sobre a Gallecia) retria-se a fronteira de leste ao Douro
(conquista da Tarraconense sobre a Lusitania) e teremos feito coincidir
os antigos com as actuaes limites. Qual , dos primitivos, o povo que no
decurso da sua vida historica deixou de conquistar e de ser conquistado?
qual  o que no ganhou ou no perdeu, de um lado ou d'outro, sobre ou
para os visinhos?

Se a maneira porque, a partir do seculo XV ou XVI, os historiographos
nacionaes filiam o Portugal moderno na antiga Lusitania justifica as
fundadas ironias do nosso grande historiador, no nos parece que o
processo por elle seguido para negar a doutrina, seja conveniente, nem
at verdadeira a opinio de que entre portugueses e lusitanos nada haja
de commum. Quando hoje vimos renascer de um modo erudito, e d'alli
affirmar-se no espirito popular, a tradio nacional germanica, a
italiana e at a romania: que valor tem o facto da tradio lusitana ter
estado obliterada por seculos, para s resurgir n'uma epocha
relativamente proxima e de um modo erudito? Se os portuguezes da
Edade-media no sabiam de seus avs lusitanos, acaso saberiam de seus
avs, italos, romanos ou teutonicos, os piemonteses, os vallacos, ou os
prussianos at ao XVIII seculo? Acaso, tambem, ser-lhes-ha mais possivel
do que a ns estabelecer uma transio natural e uma historia
ininterrupta desde as primeiras edades at s modernas? No, decerto. Se
a erudio podesse demonstrar a unidade da raa iberica, ento os
lusitanos baixariam  condio de uma variedade sem autonomia; facto ,
porm, que pouco ou nada sabemos, nem de iberos em geral, nem de
lusitanos em particular, e por isso as fabulas dos velhos antiquarios
no merecem a atteno moderna. No haver, porm, acaso outro caminho
para atacar este problema?  falta de monumentos escriptos, nada poder
valer-nos? Entre a fabula ingenua dos antiquarios e as exigencias seccas
e formaes dos eruditos modernos, no estar outra via? Affigura-se-nos
que sim.[4]

Todos reconhecem hoje a indestructivel tenacidade das populaes
primitivas. Raizes profundas que nenhuma charrua destroe apesar de
revolta a leiva pelo ferro das conquistas, depois de esmagadas as folhas
e troncos pelo tropear dos cavallos de guerra, depois de queimados e
reduzidos a cinzas pelos incendios das invases: embora se lancem novas
sementes  terra e nasam vegetaes novas, essas raizes profundas
tornam a reverdecer, crescem, dominam um cho que  seu, e afinal
convertem ou esmagam, transformam ou exterminam, de um modo obscuro,
lento, mas invencivel as plantas intrusas.

A permanencia dos caracteres primitivos dos povos, facto hoje
indiscutivel, permitte fazer--consinta-se-nos a expresso--a historia ao
inverso: julgar de hoje para hontem, inferir do actual para o passado. A
questo da raa lusitana apresenta-se-nos pois n'estes termos: ha uma
originalidade collectiva no povo portuguez, em frente dos demais povos
da Peninsula? Crmos que a ha circumscripta porm a traos secundarios.
Crmos que as diversas populaes da Hespanha, individualisadas sim,
formam, comtudo, no seu conjuncto, um corpo ethnologico dotado de
caracteres geraes communs a todas. A unidade da historia peninsular,
apesar do dualismo politico dos tempos modernos,  a prova mais patente
d'esta opinio.[5]

Esse dualismo, porm, leva-nos tambem a crr que entre as diversas
tribus ibericas, a lusitana era, seno a mais, uma das mais
individualmente caracterisadas. No esquecemos, decerto, a influencia
posterior dos successos da historia particular portugueza: mas elles,
por si s, no bastam para explicar o feitio diverso com que cousas
identicas se representam ao nosso espirito nacional. Ha no genio
portuguez o que quer que  de vago e fugitivo, que contrasta com a
terminante affirmativa do castelhano; ha no heroismo lusitano uma
nobreza que differe da furia dos nossos visinhos; ha nas nossas letras e
no nosso pensamento uma nota profunda ou sentimental, ironica ou meiga,
que em vo se buscaria na historia da civilisao castelhana, violenta
sem profundidade, apaixonada mas sem entranhas, capaz de invectivas mas
alheia a toda a ironia, amante sem meiguice, magnanima sem caridade,
mais que humana muitas vezes, outras abaixo da craveira do homem, a
entestar com as fras. Tragica e ardente sempre, a historia hespanhola
differe da portugueza que  mais propriamente epica; e as differenas da
historia traduzem as dessimilhanas do caracter.

Poderemos regressar agora ao passado, e perguntar-lhe a causa primaria
d'este phenomeno? Decerto no. Ou sombras impenetraveis o encobrem, ou a
escassez do nosso saber nos no deixou ainda desvendal-o. Como
hypothese--e do nosso atrevimento ser escusa a nossa modestia--somos
levados a crr que a individualidade do caracter dos lusitanos (quer
n'elles incluamos os callaicos, quer no) provm de uma dose maior de
sangue celtico ou celta (questionou-se outr'ora sobre isto) que gira em
nossas veias, de mistura com o nosso sangue iberico. Os nomes proprios
de logares, os nomes de pessoas e divindades, tirados das inscripes
latinas da Lusitania e da Tarraconense, que constituem o nosso Portugal,
provam a preponderancia de um elemento celtico. As vagas indicaes dos
antigos falam-nos dos celtas das margens do Guadiana, e do-nol-os na
costa Occidental da Peninsula. Vale porm mais do que isso a analogia
evidente entre as manifestaes particulares dos lusitanos e dos
gallegos, e aquella phisionomia que os estudos eruditos sobre os celtas
da Frana e da Irlanda teem determinado a estes ultimos.[6]
Tentmos ha pouco esboar a nossa phisionomia differencial: escusado 
tornar agora ao assumpto. Se a ida de uma filiao dos lusitanos foi
expressa de um modo ridiculo pelos antiquarios classicos, a ida de uma
filiao celtica ou celta teve j a mesma sorte quando, quasi em nossos
dias, houve quem pretendesse filiar directamente o portuguez na lingua
dos bardos. Paz do esquecimento a todas as chimeras!

    [2] V. o seu retrato no _Portugal Contemporaneo_ (2. ed.) II,
        pp. 283 a 327.

    [3] V. _Hist. da civil. iberica_ (3. ed.) pp. 11-15 e
        _Taboas de chronol._, pp. 256-7.

    [4] V. cerca dos lusitanos. _As raas humanas_, I, pp. 198-201,
        e 209-11, _nota_.

    [5] V. _Hist. da civil. iberica_ (3. ed.) pp. XXXIV-XLIV.

    [6] V. _As raas humanas_, liv. II, p. 4.

                      *      *      *      *      *




II

Fundamentos da nacionalidade


Que valor tem o problema da nacionalidade perante a questo da
independencia politica?

Causas complexas, de ordem a mais diversa, e de merecimento mais
distante, circumstancias que no vm agora ao caso desenvolver, fizeram
com que no nosso tempo se substituisse, ao principio do equilibrio
internacional, o principio das nacionalidades, na organisao dos corpos
politicos independentes da Europa.[7]

Invasora como todas as doutrinas, e alm d'isso habilmente explorada
pelos estadistas, a das nacionalidades tentou--se no tenta
ainda--predominar absoluta no triplo conjuncto de causas naturaes que de
facto determinaram sempre, e sempre determinaro, a existencia das
naes: a geographia, a raa, e as necessidades de ponderao: uma vez
que a Europa  de facto uma amphictyonia. Sobre estes tres elementos
naturaes, ou antes coarctado por elles, o egoismo das naes e a ambio
dos imperantes talharam no mappa a delimitao das fronteiras. Por
escasso que seja o conhecimento da historia, ninguem ignora que de todos
tres o que mais impunemente tem sido e  atacado pela vontade dos
homens,  o primeiro. A rebeldia dos dois segundos traduz-se de um modo
mais immediato e efficaz nas guerras de equilibrio e nas guerras
commerciaes ou estrategicas. Guerras, propria e exclusivamente de raa,
so raras, se  que alguma houve; e os povos opprimidos por extranhos,
quando teem o sentimento como que religioso da communidade de origem,
extinguem-se, ou em revoltas estereis, ou emigrando. O equilibrio, o
commercio, a estrategia, porm, muitas vezes aproveitam o sentimento da
raa, fomentando-o, para dar com elle s guerras a sanco que n'outros
tempos se achava, de um modo analogo, nas crenas propriamente religiosas.

At hoje todas as successivas tentativas para descobrir a nossa _raa_
teem falhado. Latinos, celtas, lusitanos e afinal mosarabes, teem
passado: ficam os portuguezes, cuja _raa_, se tal nome convm empregar,
foi formada por sete seculos de historia. D'essa historia nasceu a ida
de uma patria, ida culminante que exprime a coheso acabada de um corpo
social[8] e que, mais ou menos consciente, constitue como
que a alma das naes, independentemente da maior ou menor homogeneidade
das suas origens ethnicas. O patriotismo tanto pde, com effeito, provir
das tradies de uma descendencia commum, como das consequencias da vida
historica. No ha duvida, porm, que, se assenta sobre a affinidade
ethnogenica, resiste mais ao imperio extranho do que quando provm
apenas de uma communidade de historia. No dia em que a independencia
politica se perde, obliteram-se mais rapidamente os caracteres
autonomicos, embora durante a lucta valham menos os elementos de fora
provenientes da homogeneidade ethnogenica. Assim tantas naes perderam
na Europa moderna a sua autonomia, sem que restem vestigios vivos da sua
antiga independencia; ao passo que as individualidades ethnicas
apparecem ainda hoje distinctas no seio de naes politicamente
unificadas desde largos seculos: taes so o paiz basco, a Galliza e o
Arago, na Hespanha: a Irlanda e a Escocia, de raa celtica, na
Inglaterra; a Provena, ou a Bretanha, em Frana: e, na Russia, a
Finlandia que  scandinava, ou as provincias balticas que so
germanicas.[9]

O patriotismo portuguez no  pois argumento a favor nem contra o
problema da unidade de sangue das populaes com que Portugal se formou.
O jornalismo e a politica podem explorar rhetoricamente todas as cousas,
confundindo-as; mas  sciencia impassivel e soberana fica mal deixar-se
arrastar por motivos inferiores. O patriotismo  excellente, no seu
logar. Negar que durante os tres seculos da dynastia de Aviz a nao
portugueza viveu de um modo forte e positivo, animada por um sentimento
arraigado da sua coheso, seria um absurdo. Essa coheso que fra ganha
nas luctas e campanhas da primeira dynastia, perde-se no XVI seculo, por
causa das consequencias do imperio oriental e da educao dos jesuitas.
Portugal acaba; os _Lusiadas_ so um epitaphio.

Deixemos pois celtas e lusitanos em paz, e aproximemo-nos dos tempos que
precederam a formao da monarchia portugueza. N'essa epocha, o Mondego
divide em duas metades o territorio nacional e as differenas typicas da
populao deviam ser ento ainda mais acentuadas do que o so hoje. Na
metade do sul o typo vae confundir-se com os limitrophes de alm da
fronteira do reino: e na metade do norte, diz um nosso illustre
escriptor[10], a Galliza, que tem comnosco de commum a
lingua, que  uma continuao natural da zona geographica portugueza,
podia muito melhor formar com Portugal uma nao, do que Portugal com
Castella. A Galliza, cuja lingua se tornou litteraria sob o nome de
portuguez[11], vem com effeito at ao Mondego: o mosteiro
de Lorvo d-se em antigos documentos como situado _in finibus Galleci_.

O fallecido Soromenho (_Or. da ling. port._) dizia que entre a lingua
usada na provincia de Entre-Douro-e-Minho e a que mais tarde apparece
nas terras do Cima-Ca e na Estremadura ha uma differena bastante
sensivel. Pde sem receio dizer-se que,  similhana do que succedia
alm dos Pyreneus, em Portugal havia tambem uma _langue d'oc_ e uma
_langue d'oil_, a lingua do Norte e a lingua do Sul... O Mondego  a
lingua divisoria... ainda um seculo depois de D. Diniz ter abandonado o
latim como lingua official. Esta differena coincide singularmente com
as differenas, evidentes para todos, no clima, na vegetao, no
caracter das populaes do Norte e do Sul do nosso paiz. E a
uniformidade posterior da lingua explica-se natural e comesinhamente
pelo facto de sete seculos de unidade nacional. A importancia que o
portuguez adquiriu repentinamente, diz o sr. Ad. Coelho (_A lingua
portugueza_), _resultou da introduco da cultura poetica na crte
portugueza_.  conhecido o papel da politica no sentido do unificar as
linguas do uma nao; abundam os exemplos de linguas substituidas, e nem
sempre a lingua denuncia a stirpe[12]. Os normandos perderam em Frana o
seu idioma scandinavo, os burgundios o os lombardos, na Frana e na
Italia, os seus idiomas germanicos;  maneira dos oseos e umbrios[13]
que tinham trocado pelo latim as suas linguas.

No se pretenda por frma alguma dizer, comtudo, que ao sul do Mondego
houvesse uma lingua diversa: diga-se, porm, que o argumento da _unidade
actual_ da lingua, depois de sete seculos de vida nacional, no tem
valor. Todos vem ainda hoje como  rara a populao no sul, menos
densos portanto os laos collectivos: e todos sabem como essas regies,
sujeitas por seculos a guerras exterminadoras habitadas por mosarabes,
invadidas por berberes, taladas pelo fanatismo almoravide[14] passaram
para sob o imperio da monarchia nascida na Galliza portugueza. Como no
receberiam a lingua do vencedor? No podia haver lucta entre duas
linguas romanicas, porque a arabisao do sul fra completa: podel-a-hia
haver entre o arabe e o portuguez, quando a populao captiva passava 
condio de escrava? quando as novas terras conquistadas eram povoadas
por colonias frankas, ou pelos cavalleiros hyerosalemitanos?

Por taes motivos parece evidente a ausencia de uma causa ethnogenica no
facto da formao da monarchia portugueza, cujas razes de existir so
comesinhas, praticamente comprehensiveis, sem theorias subtis. A lingua
vale decerto muito, como argumento: mas no valer nada o homem que a
fala? No se acham por esse mundo homens de uma mesma raa falando
idiomas diversos, e populaes de um mesmo idioma, pertencendo a raas
differentes?[15] Ora quem trilhou Portugal e a Hespanha visinha observou
decerto--ou no tem olhos para vr--uma affinidade incontestavel do
aspecto e do caracter, um parentesco evidente, entre as populaes dos
dois lados do Minho, dos dois lados do Guadiana, dos dois lados da raia
secca de leste. Se esses homens no falassem, ninguem distinguiria duas
naes. E por outro lado, confundiu j alguem um algarvio, ou um
alemtejano puro, com um puro minhoto? A historia commum funde, no
scinde; e quando vmos, depois de sete seculos, differenas to
marcadas, a observao dos homens leva-nos a crr que com effeito em
Portugal faltou uma unidade de raa, sobrando pelo contrario uma vontade
energica e uma capacidade notavel nos seus principes e bares. Com um
retalho da Galliza, outro retalho de Leo, outro da Hespanha meridional
sarracena, esses principes compozeram para si um Estado.[16]

                      *      *      *      *      *

A raa  de facto o mais tenue dos laos proprios para garantir a
coheso independente de um povo. E alm d'isso a doutrina--se
admittissemos a identidade d'ella e do facto--exigiria que  expresso
de raa se ligassem sempre certos caracteres correspondentes  vastido
necessaria,  eminencia sempre crescente das funces organicas, e 
originalidade activa, das naes modernas. Mal de ns, pois, se ao facto
de termos ou no termos sido os lusitanos, ou outros quaesquer, formos
pedir argumentos para defender a nossa independencia nacional; porque
esse facto no augmentar, nem a nossa fora, nem as nossas razes:
porque esse facto nem sequer chega para motivar a nossa separao da
monarchia leoneza.

No nos levantmos contra ella como lusitanos opprimidos: ns nem
tinhamos a menor ida de que fossemos lusitanos, ou qualquer outra
cousa. A populao do condado portucalense, ibera, cruzada de celtas,
romanisada, submettida ao governo dos godos, depois aos arabes, e
finalmente ao monarcha leonez, no podia ter decerto um sentimento de
coheso collectiva ou nacional, incompativel com o estado da sua
cultura, com a tradio, e com a situao social e politica:  isso o
que todos os documentos historicos nos revelam. Portugal, diz o snr.
Herculano, nascido no XII seculo em um angulo da Galliza, dilatando-se
pelo territorio do Al-Gharb sarraceno, e buscando at augmentar a sua
populao com as colonias trazidas de alm dos Pyreneus,  uma nao
inteiramente moderna.  decerto; sem isso, porm, impedir que tenha
raizes antigas. No confundamos esta questo com a da independencia, e
teremos, cremos ns, pisado o verdadeiro e solido terreno da historia.

A causa da separao de Portugal do corpo da monarchia leoneza no 
obscura, nem carece de largas divagaes para definir-se:  a ambio de
independencia do governador do condado, que o tinha do rei suzerano:  o
afastamento d'esta nova regio roubada aos sarracenos;  a necessidade
de pulverisao da soberania, que a alliana d'esta ida com a de
propriedade, e a ignorancia de meios administrativos capazes de manter a
ordem em terrenos dilatados, tornam inevitavel na Edade-media.[17]
Portugal separava-se, da mesma frma que o reino da Navarra
se dividira em tres, e pelos mesmos motivos. Portugal defende a
separao: o monarcha suzerano impugna-a. Debate-se mais de uma vez a
questo com as armas: no porque se chocassem os sentimentos nacionaes,
mas porque os principes defendiam o que era, ou julgavam ser,
propriedade sua. Estas primeiras guerras portuguezas no depem decerto
de um modo particular em favor da independencia, porque eram a lei de
toda a Hespanha, a lei de toda a Europa--podemos dizer assim.  um
preconceito fazer do conde D. Henrique o fundador consciente da
independencia de uma nao, quando o conde apenas cuidava da
independencia pessoal e propria. O sentimento de independencia nacional,
a ida de que os reis so os chefes e representantes de uma nao, e no
os donos de uma propriedade que defendem e tratam de alargar, bem se
pde dizer que s data da dynastia de Aviz, depois do dia memoravel de
Aljubarrota.[18]

No XII e XIII seculos Portugal  um certo territorio, propriedade de um
certo principe: d'onde vem? quem ? pouco importa. O conde D. Henrique
era francez. Assim, a epocha da primeira dynastia desmente por todos os
lados, e de todas as frmas, a ida de uma raa, possuindo, de um modo
mais ou menos definido, a consciencia da sua existencia collectiva.

 essa consciencia que d porm o caracter eminente  segunda dynastia,
ou de Aviz, em cujas mos Portugal desempenha um papel bem similhante ao
dos phenicios da Antiguidade.[19] Como aos phenicios succedeu aos
portugueses: no momento em que a razo de ser da sua aco na
civilisao da Europa desappareceu, a nao definhou, sumiu-se, perdendo
tudo at perder a independencia.

 verdade que a nossa independencia restaura-se em 1640. Mas como, de
que modo? Atrever-se-ha alguem a dizer que  uma resurreio? No ser a
historia da Restaurao a nova historia de um paiz, que, destruida a
obra do imperio ultramarino, surge, no XVI seculo, como no nosso
appareceu a Belgica, filho das necessidades do equilibrio europeu? No
vivemos desde 1641 sob o protectorado da Inglaterra? No chegmos a ser
positivamente uma feitoria britannica? E ainda no decurso d'esta
historia o Brazil veiu, enchendo-nos de oiro, prestar-nos um ponto do
apoio extra-europeu, e como que restaurar o antigo caracter do Portugal
manuelino, capital europa de um imperio ultramarino,  maneira da
Hollanda. E que melhor prova pde haver da nossa desorganizao do que a
durao ephemera da obra do marquez de Pombal--o estadista que concebeu
a verdadeira restaurao de Portugal, chegando por um momento a fazer
d'elle outra vez uma nao independente? que melhor prova do que a
reaco victoriosa de D. Maria I?

A perda do Brazil, reduzindo o reino  miseria, veiu mostrar a
fragilidade do nosso edificio politico. Os inglezes tiveram de nos
tutelar para manter, como lhes convinha, a dynastia de Bragana; e
passada, vencida a crise, appareceu com o liberalismo a impotencia
manifesta de restaurar a vida historica de uma nao imperial ou
colonial.[20]

No confundamos, pois, pelo amor de tudo o que ha sensato, o patriotismo
com as questes e problemas scientificos das origens naturaes ethnicas.
Tambem a Suissa, alleman, italiana, franceza, odiou o austriaco, 
maneira por que ns _odiamos Castella_. Basta a historia, basta o
interesse, para dar homogeneidade social e politica a um povo; e basta
essa homogeneidade para crear um patriotismo. Ora o patriotismo das
raas assim formadas exprime-se na aco, e no em miragens enganadoras
de um passado que a historia acaba. Na sua lingua, nas suas tradies,
no seu caracter, o celta da Irlanda encontra sempre um ponto de apoio
vivo e positivo. Quereis uma prova da differena? Os pontos de apoio que
ns buscamos so mortos ou negativos: morto o imperio maritimo e
colonial, a India, e toda a historia que terminou com os _Lusiadas_ em
1580: negativo, o _odio a Castella_, que nem nos opprime, nem nos odeia.

                      *      *      *      *      *

Se a unidade da raa primitiva se no v, menos ainda Portugal obedece
na sua formao s ordens da geographia: os bares audazes, vidos e
turbulentos so ao mesmo tempo ignorantes de theorias e systemas. Vo
at onde vae a ponta da sua espada: tudo lhes convm, tudo lhes serve,
com tanto que alarguem o seu dominio.

Por isso as fronteiras de Portugal oscillam durante os primeiros dois
seculos  merc dos azares das guerras, com Leo e Castella de um lado,
com os sarracenos do outro; e Portugal vem a ser formado com dois
fragmentos: do reino leonez, um, dos mirados sarracenos, outro.

Quando Fernando-Magno de Castella, descendo do oriente, conquistou a
moderna Beira aos musulmanos,[21] a Galliza encontrou em
Coimbra e na linha de defeza do Mondego uma fronteira que a punha ao
abrigo de futuras correrias, at ou alm do valle do Douro. Pelo meiado
do XI seculo a expresso geographica de Galliza ia, pois, at ao
Mondego; porm, as novas conquistas tinham sido constituidas pelo rei
n'um governo, ou condado, cujos limites eram, pelo norte, o Douro; e a
leste, uma linha passada por Lamego, Vizeu e Ca, e que, descendo de
novo  costa, acompanhava os pendores setentrionaes da serra da
Estrella. Condado de Galliza ao norte, de Coimbra ao sul do Douro,
sarracenos ao sul do Mondego: eis ahi a condio do territorio do
moderno Portugal na segunda metade do XI seculo.

J, porm, n'esta epocha, uma expresso a que no correspondia valor
politico, militar ou administrativo, apparece a designar o territorio de
entre o Douro e o Minho e a moderna provincia de Traz-os-Montes: a essa
parte do condado da Galliza chama-se j Portucale.

Nos ultimos annos do XI seculo correrias felizes deram ao celebre
Affonso VI a posse de Santarem, Lisboa e Cintra, alargando as fronteiras
christans at  linha do Tejo. Os nossos territorios de entre Mondego e
Tejo foram creados em condado ou governo, e confiados  guarda de
Gonalo Mendes da Maia, o nomeado _lidador_: e os tres governos que
tinham por limites successivos o Douro, o Mondego e o Tejo, constituiram
em favor do genro de Affonso VI, Raymundo de Borgonha, uma especie de
vice-reino. Breve foi, porm, a durao d'este periodo; porque logo em
1097, depois do desbarato do conde borguinho e da perda da fronteira do
Tejo, Affonso VI effectua uma nova diviso do territorio, dando
autonomia politica  expresso geographica de Portucale ou Portugal, e
annexando-lhe o antigo condado de Coimbra. O condado portucalense, por
tal frma engrandecido, foi dado a um primo do conde da Galliza, e os
seus dominios recuavam assim de golpe desde o Tejo at ao Minho. Esse
primo era o conde D. Henrique, tambem genro do poderoso Affonso VI.

Na primeira metade do XII seculo, o conde e a viuva sua herdeira levam
as fronteiras do seu Estado, para leste, at Zamora, e para norte, por
entre Minho e Bivey, at Tuy e Orense. As guerras civis dos Estados da
Peninsula davam e tiravam assim, constantemente, territorios e
povoaes. A fronteira norte-leste breve regressa, porm, aos seus
actuaes limites de alm-Douro; mas o governo de Affonso Henriques, o
primeiro que ousou quebrar de todo os laos tenues da vassallagem a
Leo, viu alargar-se do lado opposto a raia at  linha do Sado, desde
que, no meiado do XII seculo, Lisboa, Santarem, Cintra, Almada e
Palmella cairam definitivamente em seu poder, accrescentando novas
terras s do primitivo condado portucalense.

As fronteiras do norte e leste, no alm-Douro, eram j, ao tempo da
accesso de Sancho I ao throno, as mesmas de hoje: margem esquerda do
Minho, por Melgao a Lindoso, d'ahi a Bragana por Miranda, entestar com
o Douro no ponto em que agora se extremam Portugal e a Hespanha. A
fronteira de leste, entre Douro e Tejo, s no tempo de D. Diniz se
demarcou por onde hoje passa: no fim do XII seculo a raia seguia desde a
foz do Coa, rio acima, at  confluencia do Pinhel, e, acompanhando-o,
passava entre Sabugal e Sortelha, em demanda das fontes do Elga. D'ahi
ao Tejo, ento e agora, a fronteira  a mesma.

Ao sul do Tejo  difficil, seno impossivel, determinar
chronologicamente as fronteiras portuguesas. A nacionalidade do dominio
nas cidades do Alemtejo permittiria traar geographicamente a linha da
fronteira com uma aproximao conveniente, tanto mais que os territorios
de entre as cidades, devastados e ermos, eram posse de quem no momento
os pisava armado. Mas as successivas correrias de lado a lado, a tomada,
logo a queda; depois a reconquista de uma mesma cidade, s vezes n'um
periodo de mezes, tornam impossivel demarcar a fronteira antes da epocha
em que definitivamente uma certa regio passa para o dominio portuguez,
para d'elle no mais sar. Assim, a tomada de Evora em 1166 d  linha
do Sado, pouco antes conquistada, um ponto de apoio a leste contra as
fortalezas sarracenas de Jerumenha, Elvas e Badajoz. Por ahi a raia
portugueza iria at Marvo, acaso at Arronches.

Tal  a linha das primeiras fronteiras do moderno Portugal.

No primeiro quartel do XIII seculo, Alcacer do Sal, base estrategica da
linha sarracena ao sul, e Elvas, padrasto avanado da linha de leste,
cem em poder dos portuguezes; e  determinao final da nossa raia
alemtejana vem juntar-se, at ao meiado do seculo, a conquista do
Algarve, completando, entre o Guadiana e o mar, o moderno Portugal.

No ferir das guerras da conquista no so os musulmanos que pem um
freio  ambio pessoal dos principes, porque a sorte do imperio do
Islam estava lanada, e para a consummar concorriam todos os Estados
christos da Peninsula. Ser porventura a raa que delimita as
fronteiras da nova nao? Ocioso  j responder. Ser a geographia? No
parece; desde que vmos a raia cortar de lado a lado as planicies do
Alemtejo, as bacias do Tejo e do Douro, e cair perpendicularmente sobre
as cumiadas das montanhas em vez de lhes seguir a orientao. Qual dos
tres elementos nos resta? O equilibrio. O equilibrio  com effeito o
elemento ponderador:  ambio dos principes de Portugal oppe-se a
resistencia dos reis de Leo; as armas, invocadas, demonstram que, se um
dos antagonistas no tem fora bastante para submetter o adversario, o
outro tem de usar com prudencia de um poder limitado. Quando tenta
passar alm do Minho, ou adquirir para si Badajoz, a reaco mostra-lhe
at onde pde ir a aco dos meios de que dispe. Do equilibrio ou
ponderao das duas foras antagonicas nasce a determinao geographica
do Portugal moderno, para o qual s no extremo norte e no extremo sul,
sobre o Minho e sobre o Guadiana, se assentou em admittir uma fronteira
natural.

Estas j longas explicaes bastaro, parece-nos, a expr claramente o
nosso pensamento. Ha ou no ha uma nacionalidade portugueza? Questo
absurda, assim formulada. Evidentemente ha, se nacionalidade quer dizer
nao. Se por nacionalidade se entende, porm, um corpo de populao
ethnogenicamente homogeneo, localisado n'uma regio naturalmente
delimitada, insistimos em dizer que tal cousa se no d comnosco. Se por
nacionalidade se entende, finalmente, essa unidade social que a historia
imprime em povos submettidos ao regime de um governo, de uma lingua, de
uma religio irmans, como ns o temos sido durante sete seculos,
evidentemente a resposta s pde ser uma.

    [7] V. _Th. da hist. universal_, nas _Taboas de chron._,
        pp., XXII e segg.

    [8] V. _As raas humanas_, introd., pp. LXVII e segg.

    [9] V. _Instit. primitivas_, pp. 290-306.

    [10] O sr. F. Ad. Coelho.

    [11] V. _Hist. da civil. iberica_ (3. ed.), pp. 122-5.

    [12] V. As raas humanas, I, pp. 20-5.

    [13] V. _Hist. da repub. romana_, I, pp. 117-45.

    [14] V. _Hist. da civil. iberica_ (3. ed.) pp. 81-111.

    [15] V. _As raas humanas_, I, pp 20-5.

    [16] V. _Th. da hist. universal_, nas _Taboas de chronol._,
         pp. XXX-I.

    [17] V. _Th. da hist. universal_, nas _Taboas de chronol._,
         pp. XXVI-VII e _Instit. primit._, pp. 222 e segg.

    [18] V. _Instit. primitivas_, pp. 233-43.

    [19] V. _Raas humanas_, I, IV, 2, 3.

    [20] V. _Portugal contemporaneo_, II, pp. 119-37.

    [21] V. _Hist. da civil. iberica_ (3. ed.) pp. 116-7.

                      *      *      *      *      *




III

Geographia portugueza


Quando se observa o retalho da Peninsula, de que a historia fez
Portugal, separado do corpo geographico a que pertence, desde logo se v
como a vontade dos homens pde sobrepujar as tendencias da natureza. Os
rios e as serranias descem, perpendiculares sobre a costa occidental,
proseguindo uma derrota e provindo de uma origem que se dilatam para
muito alm das fronteiras, at ao corao do corpo peninsular. As
cumiadas das montanhas e os valles extensos mudam de nacionalidade
n'aquelle ponto convencional que aos homens aprouve fixar.

No falta, porm, quem pretenda encontrar, no nosso proprio territorio,
motivos determinantes da constituio primordial da nao: tanto pde a
obcecao doutrinaria! Diz um que essa separao dos litoraes  uma
regra;[22] nega outro o caracter arbitrario da linha das
fronteiras de leste, affirmando que essa linha coincide com os limites
extremos at onde os nossos rios so navegaveis. Decerto nunca os viu
quem tal affirma. No Guadiana apenas se navega at Serpa, e entretanto o
rio  portuguez nas duas margens at Monsars, formando a raia d'ahi at
Elvas. O Douro para cima da Regoa  to navegavel at Zamora como at 
Barca-d'Alva. No Tejo, passando Abrantes, tanto se vae at Alcantara,
como at Aranjuez. Onde est pois a concordancia da fronteira com a
parte navegavel dos rios? A allegada _base geographica_ da nacionalidade
desapparece pois, se  que uma tal expresso no quer apenas denunciar o
destino maritimo, como que phenicio, da nao.

As duas cousas no devem, porm, confundir-se, pois n'um caso
encontramos a causa determinante da aggregao social, emquanto no outro
se observa a consequencia do facto da existencia anterior d'essa
aggregao, fortuitamente constituida n'um litoral.  evidente que o
caracter maritimo e colonial da nao portugueza, na segunda dynastia,
no podia ter influido no facto j secular da independencia.  sabido
que D. Affonso Henriques, o author d'ella, no tinha navios, servindo-se
dos dos Cruzados para tomar Lisboa e Alcacer. A marinha foi uma creao
da monarchia e um producto da nao, depois de constituida: o caracter
maritimo  historico, no  primitivo em um povo rural, como era o
portuguez dos primeiros tempos, e ainda hoje o  o gallego. O movimento
de deslocao da capital do reino para o sul, as medidas de D. Diniz, as
de D. Fernando, depois a empreza do Infante D. Henrique, so momentos
successivos de uma historia que  o nervo intimo da vida portugueza.
Desde a reunio das esquadras cruzadas no Tejo para a conquista de
Lisboa, desde a introduco dos genovezes, que vieram ensinar-nos a
navegar, v-se comear a formar-se essa nao cosmopolita, destinada 
vida commercial, maritima e colonisadora.[23]

 essa a nao que a historia frma: e por isso mesmo que a vida
portugueza foi maritima, e o destino da sua historia o mar: por isso
mesmo avultam os elementos que diariamente tornam cosmopolitas as
cidades maritimas de um paiz cuja capital  um dos melhores portos do
mundo. Portugal foi Lisboa, e sem Lisboa no teria resistido  fora
absorvente do movimento de unificao do corpo peninsular.

Erguido em frente do mar como um amphitheatro cujos primeiros degraus as
ondas constantemente aspergem, o territorio portuguez, independente,
adquiriu d'esta localisao um caracter seu: ao mesmo tempo que nos
habitantes de Portugal acaso uma diversa combinao de sangue favorecia
uma tendencia particular. Assim como, porm, as cristas das montanhas,
e, pelo corao dos valles, o curso dos nossos rios, so as veias e os
tendes que nos ligam ao corpo peninsular; assim tambem no nosso sangue
os elementos primitivos accusam o facto de uma origem e de uma raa irman.

E se temos uma phisionomia moral, distincta sem ser diversa, tambem as
condies do nosso territorio nos do um genero de destino differente,
mas encaminhado a um mesmo fim. As navegaes e descobertas so a nossa
gloria e a nossa maior faanha. Mareando a interrogar as mudas ondas,
construimos; conquistando, derrocmos. Navegadores e no conquistadores,
desvendmos todos os segredos dos Oceanos; mas o nosso imperio no
Oriente foi um desastre, para o Oriente e para ns. A bordo fomos tudo;
em terra apenas podmos demonstrar o heroismo do nosso caracter e a
incapacidade do nosso dominio. Faanhas de homens que dirigem instinctos
devotos e pensamentos de cubia, eis ahi o que ns veremos ser o nosso
imperio oriental. Epopa do espirito indagador, audaz e paciente, as
nossas navegaes, as nossas exploraes colonisadoras, tornam-nos os
genios d'esse elemento mysterioso, para o qual, porventura, a nossa alma
celtica nos attrahia. Quando  Europa humilhada o castelhano impe a lei
com a espada e o mosquete, ns, amarrados ao banco dos remeiros,
segurando o leme, ferrando as velas, alargamos mar em fra a nau, com o
olhar perscrutador fixado nos astros que nos guiam. Vamos de manso, ao
longo das costas... Ninguem nos v: s as ondas ouvem as melopas
monotonas dos marinheiros, cujo rithmo obedece ao rithmo do quebrar da
vaga contra o costado.--Elles vo, emplumados e vestidos de ao,
arrogantes e cheios de imperio, com o seu grito stridente e tragico,
ensurdecer e estontear o mundo! Ninguem diria dois povos irmos; e
so-no, porque ambos obedecem a um motivo identico, a um pensamento
egual, que est no fundo da sua alma inconsciente, como a chamma que
arde no cerne da Terra, dando origem a rochas to diversas no aspecto,
na cr, na rigeza, na structura, no merito.

Portugal  um amphitheatro levantado em frente do Atlantico que  uma
arena. A vastido do circo desafia e provoca tentaes nos espectadores,
arrastando-os afinal  laboriosa empreza das navegaes, que era para
elles um destino desde que a politica os destacra do corpo da Peninsula.

                      *      *      *      *      *

Quando se percorre de norte a sul a estreita facha da nao occidental
da Hespanha, encontram-se os successivos prolongamentos das cordilheiras
peninsulares, galgando uns at ao mar, terminando outros mais distante
da costa. Entre elles abrem-se as bacias ou estuarios de rios parallelos
que podem dividir-se em dois systemas: o do norte e o do sul,
delimitados pela cordilheira da Estrella-Aire-Montejunto-Cintra.

No systema do norte, o Douro  a arteria central d'uma regio montuosa,
coroada nos limites setentrionaes e austraes pelas duas cordilheiras
culminantes da Galliza e da Beira. De uma e de outra, como socalcos ou
degraus successivos d'essa plata de montanhas que se fecha quem da
fronteira portugueza, descem outras serras, entre cujas depresses se
precipitam os rios nacionaes do norte: o Minho, que delimita a Galliza,
o Lima, o Cvado e o Ave, ao norte do Douro, e ao sul o Vouga e o
Mondego. As serras de entre Minho e Lima so as do Suajo; as de entre
Lima e Douro, as do Gerez e do Maro, separadas pelo Tamega, confluente
d'este ultimo; as d'entre Douro e Vouga, Montemuro; as d'entre Vouga e
Mondego, Caramullo.

No sul, as bahias do Tejo e Sado, divididas pela peninsula da Arrabida,
constituem o centro de um systema de caudaes irradiantes que cortam a
zona mais plana, limitada de um lado pela serra da Estrella, do opposto
pela do Algarve. Ao norte, na raiz austral da primeira, corre o Tejo,
desinternando-se de Castella; destacando-se d'este, para sueste, o
Sorraia, em plena planicie; e, mais pronunciadamente para o sul, o Sado,
que vae nascer no pendor norte das montanhas algarvias.

Se a metade norte de Portugal  fechada a leste por um systema de
contrafortes avanados dos Pyreneus cantabricos, a metade sul, theatro
das guerras castello-portuguezas, contradiz de um modo incontestavel a
opinio dos que vem na orographia a base necessaria da delimitao das
fronteiras nacionaes.

A comear do sul, o Guadiana fende a cordilheira andaluza penetrando no
interior da Peninsula. Curvando a sua orientao em Badajoz, o Guadiana,
depois de ter regado os nossos terrenos raianos, toma uma direco leste
atravez das largas campinas da Estremadura hespanhola que os tratados
apenas dividiram do nosso Alemtejo. N'esta metade austral da nossa
fronteira de leste, as planicies e as aguas do rio que as rega mudam de
nao sem mudarem de natureza; e outro tanto succede aos contrafortes
avanados que reunem n'um mesmo promontorio as serras de Guadalupe e a
Morena, e onde em Portugal assentam Portalegre ao norte, Evora ao sul.
No troo de fronteira ao norte d'esta como que garra lanada pela
ossatura da Hespanha no Portugal alemtejano, corre, primeiro, o amplo
valle em cujo centro deslisa o Tejo, prolongando-se com elle,
Estremadura em fra, at Toledo; e seguem, depois, as cumiadas da
Guardunha que dividem o Tejo do Zezere, apertando este rio contra a
serra da Estrella.

O pendor austral das serras do Algarve e a facha ou tapete de jardins
sobre que pousa a sua base o throno d'esses montes, formam uma ultima e
como que excepcional provincia geographica, vedeta sobre o continente
fronteiro, cujo clima e produces partilha.

                      *      *      *      *      *

Geognosticamente, o territorio portuguez pde dividir-se em tres regies
principaes: a das rochas igneas e paleozoicas, a dos terrenos
secundarios, e a dos terrenos terciarios.

Tracemos uma linha que, partindo de Aveiro para norte, ao longo da
costa, se dobre para nascente acompanhando a fronteira marginal do
Minho. D'ahi extende-se por toda a raia de leste at s serras do
Algarve, baixando-a em direco poente, para a prolongar com a costa at
Sines. Depois, interne-se a contornar a bacia do Sado, por Grandola,
Cercal, Panoias, Aljustrel, Ferreira, Torro at Vendas-Novas; em
seguida a do Sorraia, por Lavre, Mora, Ponte-de-Sr, cando sobre o Tejo
em Abrantes, e caminhando para norte por Thomar, Alvaiazere, Anadia--e
ter-se-ha encerrado em Aveiro um perimetro que abrange cerca de tres
quartas partes da superficie total da nao.  a regio dos terrenos
primitivos.

A dos terrenos secundarios compe-se de dois retalhos isolados. O
primeiro extende-se ao longo da margem direita do Tejo, desde Lisboa at
 Barquinha; entestando d'ahi at Aveiro com a linha anteriormente
traada, e vindo ao longo da costa, a descer para o sul, circumscrever a
serra de Cintra, chegando outra vez a Lisboa. O segundo  constituido
pelo litoral do Algarve, no pendor sul das serras, at ao mar.

A terceira regio, finalmente, a dos terrenos terciarios, desce pela
costa, desde a ponta do Bogio, ao sul do Tejo, at Sines, alargando-se
pelas duas zonas divergentes dos valles do Sado e do Sorraia,
contornados pela linha determinada antes ao delimitar a raia da primeira
regio.

Esta ultima , como se viu, a mais extensa e importante. Abrange as duas
provincias ao norte do Douro, a quasi totalidade das duas Beiras e do
Alemtejo, e boa metade do Algarve. A Estremadura quasi por si s compe
as duas segundas regies--uma ao norte, outra ao sul do Tejo[24].

Na do norte predominam os terrenos cretaceos e jurassicos, formando
tambem estes ultimos a quasi totalidade do retalho algarvio da segunda
regio. Uma pequena mancha de granitos em Cintra, os basaltos dos
arredores de Lisboa, e as dunas da costa, desde a Marinha-grande at
Aveiro, so os phenomenos esporadicos da geognosia d'esta parte de
Portugal.

Na regio do sul do Tejo apenas a Arrabida e S. Thiago de Cacem
apresentam breves nodoas de terrenos jurassicos; e estes, os terrenos
modernos formados pelas alluvies do Tejo e Sado e que lhes bordam as
margens, e os areaes da costa entre o Bogio e o cabo de Espichel, so as
unicas excepes do vasto lenol da regio dos terrenos terciarios.

Na primeira e mais extensa das zonas geognosticas de Portugal tambem o
Tejo pde dar lugar a uma diviso em duas sub-regies differentemente
caracterisadas. Tomadas ambas como um todo, os terrenos, schistosos
quanto  structura, e primarios ou paleozoicos quanto  edade,
predominam em massa, envolvendo as rochas eruptivas ou igneas. Porm ao
norte do Tejo o volume d'estas rochas, exclusivamente graniticas, 
proximamente egual  dos schistos; ao passo que ao sul, alm d'estes
ultimos predominarem, apparecem no s granitos mas porphyros e
diorites.

Entre Castello-de-Vide, Portalegre, Niza e o Crato, inscreve-se acaso o
maior e mais compacto affloramento de granitos ao sul do Tejo. Depois
d'este vem o de Evora, bracejando de um modo irregular, para norte at
Vimeiro, para nordeste at Lavre, e no lado opposto at Vianna, Aguiar e
S. Manos. Afinal, as pequenas nodoas de Galveas, de Santa Eulalia, de
Freia, de Reguengos, da Vidigueira, e de Valle-Vargo a nascente de
Serpa, completam o systema de affloramentos graniticos da sub-regio do
sul do Tejo. Os porphyros e diorites constituem um longo dorso que vem
de sueste a nordeste, desde Serpa, por Beja, Alvito, Torro, Alcaovas,
terminar junto de Cabrella, quasi na raia da regio terciaria. Alm
d'esta formao principal, encontram-se destacadas as manchas sporadicas
de Alter, de Bonnavilla, de Monforte, e as duas mais consideraveis de
Campo-maior e de Elvas, proximo da fronteira.

Ao norte do Tejo as condies variam. A massa de rochas eruptivas
predomina sobre a dos schistos. Depois do macisso schistoso da
Guardunha, entre Castello-Branco e o Fundo, transposto o valle do
Zezere, encontra-se a base alastrada da serra da Estrella, e afinal os
alicerces de Monte-muro. Os granitos vem desde a fronteira, entre
Alfaiates e a Barca d'Alva, pela Covilhan e Taboa ao sul, por Vizeu a
poente, entestar no Douro, cuja margem esquerda sobe at  raia de Leo.
Pequenas so as nodoas schistosas na rea circumscripta: S.
Joo-da-Pesqueira e Villa-nova-da-Foscoa, na margem do Douro:
Villa-da-Egreja s origens do Vouga; Pinhel e Valhelhas no pendor sul da
serra da Estrella.

Porm as abas occidentaes das serras da Guardunha, da Estrella e do
Montemuro, ladeadas ao sul pelo Tejo, formam duas vastas zonas de
terrenos paleozoicos, uma cortada pelo Zezere, outra pelo Mondego e pelo
Vouga: so estas zonas que vem raiar com a regio dos terrenos
secundarios at Aveiro, e com o mar desde Aveiro at  foz do Douro,
tendo de permeio a facha de dunas da costa.

Ao norte do Douro os schistos predominam para cima da linha
Regoa-Chaves, os granitos para baixo. Ao longo da costa, desde o Porto
at  Povoa, encontra-se, destacado, um affloramento de rochas
eruptivas; e, para leste, um outro nas serras do Gerez e do Suajo, a
poente do Tamega, lanando junto a Braga um ramo que vae, por Barcellos,
a Vianna e at Caminha.

A leste da linha Chaves-Regoa so irregulares e dispersos os
affloramentos eruptivos: acompanham a margem portugueza do Douro desde
Bemposta at Miranda; apparecem em dois pontos da extrema fronteira do
norte; vem de Montalegre, por Chaves at Valpassos e Torre-de-D. Chama;
e pela serra do Maro, desde Mondim e Ribeira-de-Pena, por Villa-Pouca e
Villa-Real, morrer junto ao Douro em Villarinho. Todo o resto, o Maro,
da Campean a Santa Martha, as alturas  esquerda do Corgo, a maxima
parte do valle do Tua, e todo o valle do Sabor, so formados pelos
terrenos paleozoicos.

    [22] V. _As raas humanas_, introd., pp. XXXI-II.

    [23] V. _O Brasil e as colonias portuguezas_ (2. ed.) pp. 1-29.

    [24] V. para a geologia terciaria do Tejo, os _Elem. de Anthropologia_
         (3. ed.), pp. 212-17, podendo cotejar-se o estudo da regio
         portugueza com o da Peninsula no seu todo na _Hist. da
         civil. iberica_ (3. ed.) pp. VII-XXI.

                      *      *      *      *      *




IV

A terra e o homem


Conhecida a orographia e a geognosia do territorio, brevemente
indicaremos o systema de caracteres agricolas e climatologicos, ambos
subordinados aos anteriores, e todos solidariamente ligados para formar
a phisionomia natural das diversas regies do territorio portuguez.

A sua antiga diviso em provincias obedecia mais a estas condies
naturaes do que a moderna diviso em districtos: as causas determinantes
de uma e de outra so o motivo d'esta differena. As provincias
formaram-se historicamente em obediencia s condies naturaes; os
districtos actuaes foram creados administrativamente de um modo at
certo ponto artificial. Umas provinham dos caracteres proprios das
regies, e a administrao limitra-se a reconhecer factos naturaes:
outros, determinados por motivos abstractos, nasceram de principios
administrativos e estatisticos (rea, quantidade de populao, etc.),
fazendo-os discordar o menos possivel dos limites naturaes, geographicos
e climatologicos. Por estes motivos ns agora estudaremos por
provincias, e no por districtos, o territorio portuguez; deixando para
o lugar competente o estudo das condies modernas da nao.[25]

A diviso das provincias apoiava-se em factos phisicos de um valor
eminente. Comeando pelo norte, o territorio de alm-Douro inscreve duas
zonas separadas pelo Tamega: a leste, Traz-os-Montes, a oeste,
Entre-Douro-e-Minho. Alm de obedecer, como se v,  geographia,
buscando nos rios fronteiras naturaes, a diviso das duas provincias
consagrava differenas essenciaes: as geognosticas j por ns observadas
(rochas eruptivas dominando a oeste, schistos a leste do Tamega), e alm
d'ellas as climatericas. Portugal, segundo j se disse n'outro lugar, 
em geral um amphitheatro de montanhas, levantado em frente do Oceano.
Esta circumstancia caracterisa para logo as regies de um modo tambem
geral, dividindo-as em duas categorias: as maritimas e as interiores; as
cis e as transmontanas; as que esto directamente expostas  aco das
brisas maritimas, e os declives orientaes, os valles interiores, e os
degraus ou socalcos das serras encobertas aos bafejos do mar por
cumiadas occidentaes sobranceiras.

Esta circumstancia d caracteres inteiramente diversos s duas
provincias do Douro-Minho e de Traz-os-Montes, divididas pelas serranias
do Gerez e do Maro, que roubam a ultima  aco das brisas maritimas.
Quem alguma vez transpoz o Tamega, decerto observou a profunda
differena da paizagem e do caracter e aspecto dos habitantes de quem e
de alm d'esse rio. O transmontano, vivo, gil, robusto, destaca-se para
logo do minhoto, obtuso mas paciente e laborioso, tenaz, persistente e
ingenuo. Alm do Tamega o clima  secco (40 a 60% de humidade relativa)
poucas as chuvas (500 a 1:000 millim. e no estio 70 a 80 apenas), grande
o calor no fundo dos valles apertados, mas temperado nas alturas;
intensos os frios hibernaes, que coroam de neve as montanhas e gelam a
agua pelas baixas (12 a 15 temp. mdia). quem, as brisas do mar,
estacadas na sua passagem pelas serras, condensam-se e produzem as
chuvas copiosas: por isso no Minho o pendor occidental das serras de
oriente  sarjado pelos numerosos e successivos rios parallelos, cujos
valles, reunindo-se junto  costa, formam ao longo d'ella a primeira das
planicies litoraes de Portugal. Habita essa regio pingue uma populao
abundante, activa, mas sem distinco de caracter, nem elevao de
espirito: consequencia necessaria da humidade e da fertilidade. Falta
essa especie de tonificao propria do ar secco e dos largos horizontes
recortados n'um cu luminoso e puro. O Minho  uma Flandres, no uma
Attica. As chuvas precipitam-se abundantes (1:200 a 2:000 mill. annuaes,
e no estio 80 a 200) sobre um cho lavrado de caudaes; a humidade (70 a
100%) torna flaccidos os temperamentos e entorpece a vivacidade
intellectual, que nem um frio demasiado irrita, nem um calor excessivo
faz fermentar,  maneira do que succede nas zonas genesiacas dos
tropicos. Temperado o clima (12 a 15), sem excessivos afastamentos
hibernaes, a populao satisfeita, feliz, e bem nutrida de vegetaes e de
ar humido, offerece a imagem de um exercito de laboriosas formigas sem
cousa alguma de aldo e brilhante de um enxame dourado de abelhas.

O clima determina a paizagem. Alm Tamega as louras messes do trigo, os
pampanos rasteiros, o carvalho nobre e o castanheiro gigante vestem os
pendores de elevadas serras, cujas cristas dentadas de rochas, no
inverno coroadas de neves, se recortam no fundo azul do firmamento,
dando fixidez e nobreza ao quadro, e infundindo o quer que  de elevado
no espirito. A natureza vive na luz, e a alma sente que os elementos
teem dentro em si foras que os animam.

quem Tamega o scenario muda: a humidade cria em toda a parte vegetaes
abundantes; no ha um palmo de terra d'onde no brote um enxame de
plantas: mas como o solo  breve, como a rocha afflora por toda a parte,
e os campos nascem do terreno vegetal formado nas anfractuosidades do
granito pelas folhas e ramos decompostos, e nos estuarios dos rios pelos
sedimentos das cheias, a vegetao  rasteira e humilde, o pinho
maritimo de uma constituio debil, o carvalho um pigmeu enleiado pelas
varas das vides suspensas. A densidade da populao completa a obra da
natureza n'uma regio onde o vinho no amadurece: o acido picante d-lhe
uma similhana das bebidas fermentadas do norte, cidra ou cerveja, e com
ella, ao genio do povo, caracteres tambem similhantes aos de bretes e
flamengos. A vegetao, de si mesquinha,  amesquinhada ainda pela mo
dos homens: as necessidades implacaveis da populao abundante produzem
uma cultura que  mais horticola do que agricola: pequeninos campos,
circumdados por pequeninos valles, orlados de carvalhos pigmeus,
decotados, onde se penduram os cachos das uvas verdes. No meio d'isto
formiga a familia: o pae, a me, os filhos, immundos, atraz d'uns
boisinhos anes que lavram uma amostra de campo, ou puxam a miniatura de
um carro. Sob um cu ennuveado quasi sempre, pisando um cho quasi
sempre alagado, encerrado n'um valle abafado em milhos, dominado em
torno por florestas de pinheiros sombrios, sem ar vivificante, nem
abundante luz, nem largos horizontes, o formigueiro dos minhotos, no
podendo despegar-se da terra, como que se confunde com ella; e, com os
seus bois, os seus arados e enxadas, frma um todo d'onde se no ergue
uma voz de independencia moral, embora amiude se levante o grito de
resistencia utilitaria.[26] A paizagem  rural, no  agricola; a poesia
dos campos  naturalista, no  idealmente pantheista. Quem uma vez
subiu a qualquer das montanhas do Minho e dominou d'ahi as lombadas
espessas de arvoredo, sem contornos definidos, e os valles quadriculados
de muros e renques de carvalhos recortados, sentiu decerto a ausencia de
um largo folego de ideal, e de uma viva inspirao de luz. Apenas aqui e
acol, engastado na monotonia da cr dos milhos, um canto do verde
alegre do linho vem lembrar que tambem no corao do minhoto ha um lugar
para o idyllio infantil do amor.

                      *      *      *      *      *

Descendo para o sul do Douro, entre a Beira montanhosa e a Beira
litoral, do-se differenas analogas s que distinguem o Minho e
Traz-os-Montes: analogas, dizemos, e no identicas, porque n'esta nova
regio comeam a sentir-se as influencias de causas geraes, como so as
da latitude. A zona anterior estanceia entre os parallelos de 41 e 42;
as Beiras descem at 39 30'. Portugal, inscripto entre 37 e 42, e
lanado como uma estreita facha norte-sul, tem na latitude das regies
uma causa geral a concorrer sempre com as causas particulares, quaes so
a altitude, a exposio e a constituio geognostica das montanhas, no
sentido de determinar os caracteres das suas differentes provincias.

N'esta de que agora nos occupamos, levanta-se ao centro a serra da
Estrella, a cujo pendor maritimo se chamou Beira-alta, dando-se aos
declives transmontanos oppostos, reunidos  Guardunha, o nome de
Beira-baixa. Tres zonas compem a regio das duas provincias: o litoral
formado pelos estuarios do Vouga e do Mondego, as serranias occidentaes
ou maritimas, e as orientaes ou transmontanas.

A serra da Estrella  a mais elevada das cordilheiras portuguezas;  o
prolongamento da espinha dorsal da Peninsula;  a divisoria das duas
metades de Portugal, to diversas de phisionomia e temperamento; 
finalmente como que o corao do paiz--e acaso nas suas quebradas e
declives, pelos seus valles e encostas, demora ainda o genuino
representante do lusitano antigo. Se ha um typo propriamente portuguez:
se atravez dos acasos da historia permaneceu puro algum exemplar de uma
raa ante-historica onde possamos filiar-nos,  ahi que o havemos de
procurar, e no entre os gallegos ao norte do Douro, nem entre os
turdetanos da costa do sul, nem entre as populaes do litoral cruzadas
com o sangue de muitas raas e com os sentimentos e costumes das mais
variadas naes.

O pastor quasi-barbaro d'essas cumiadas da serra a topetar com as nuvens
(1:800 a 2:000m. de altit.), abordoado ao seu cajado, vestido de pelles,
seguindo o rebanho de ovelhas louras,  talvez o descendente dos
companheiros de Viriato. Por essas eminencias, tapetadas de relva no
estio e de neves no inverno, nem as villas, nem as arvores se atrevem a
subir: s o pastor nmada as habita. Do alto do seu throno de rochas v
gradualmente ir nascendo a vida pelas encostas: primeiro o zimbro,
rasteiro e rodo pelo gado, circumda os altos ns; logo apparecem os
piornos, as urzes brancas, os carvalhos; depois, j a meia altura da
encosta, os castanheiros, as lavouras, e os enxames de aldeias; afinal,
na extrema baixa, o lenol de lagunas, tapete de esmeraldas engastadas
em fios de brilhantes, que o sol faceta ao espalhar-se no labyrintho dos
canaes.

A serra da Estrella, reforada ao norte pelo contraforte de Monte-muro,
fecha, com o Maro e o Gerez, uma muralha natural, onde os ventos do mar
estacam. Apenas cortada pelos valles do Douro e do Tua--duas
fendas--essa barreira, cujos picos sobem at 2:000m., encerra e protege
o Portugal do norte, sendo a principal causa das chuvas abundantes e do
clima creador do litoral de alm-Mondego.

O beiro, habitante da encosta occidental onde o ar  mais humido do que
em Traz-os-Montes (65 a 100%), as chuvas mais abundantes (700 a 1:200
millim.) e a temperatura identica: onde o castanheiro colossal, o cedro,
o carvalho e o pinheiro bravo pem na paizagem todos os tons e essa
grandeza propria de arvores que vivem seculos: o beiro  menos vivo,
mas mais robusto. Quem divagou por essas terras admirou decerto a
structura herculea dos seus homens, cuja face, no luzindo com os
brilhantes reflexos de vida interior, accusa todavia um pleno
desenvolvimento da vida animal. Bero dos audazes bandidos, anachronicos
representantes de uma independencia de outras edades,[27] a
Beira  o viveiro de musculosos trabalhadores, que vo todos os annos,
pelo estio, lavrar as glebas do sul do Tejo, levemente vestidos com as
bragas curtas de linho, descalos, com a camisola de lan agasalhando o
tronco, o barrete phrigio na cabea, a manta e a enxada ao hombro.

Descendo ao litoral, o beiro  amphibio: pescador e lavrador. A lavoura
nasce do mar: os carros so barcos, adubos o _molisso_ de algas e
mariscos. Ao lado de um talho de milho est uma marinha de sal. O mar
insinua-se pelos canaes retalhando a planicie, em cujo centro, como uma
arteria, corre placidamente o Vouga. A tres leguas da costa v-se
fundeado um barco: as mulheres cozem as redes, ao lado, sobre a terra
humida e negra, que os bois lavram, ou o cavador abre  enxada. O calor
(15 a 16), a humidade permanente (65 a 80%), fazem germinar breve as
sementes, multiplicam as colheitas, e as febres. Essa paizagem deliciosa
e original, indecisa entre o mar e a terra, e que nos enche de vivo
prazer, quando a dominamos desde os altos de Angeja  raiz das
montanhas, attrahe-nos como a sombra da manzanilha, cheia de frescura e
veneno. Os elementos, confundidos, vingam-se da temeridade dos homens.

A exposio oriental ou transmontana das abas da serra da Estrella e dos
cerros subalternos da Guardunha d  provincia da Beira-baixa um outro
aspecto: ha maior seccura no ar, e as chuvas so menos abundantes: os
olivaes medram melhor, e os hahitantes juntam  vida agricola a
industrial, tecendo as lans dos rebanhos da serra com a fora das
torrentes que se despenham nas quebradas do valle do Zezere.

J similhante por muitos lados ao alto Alemtejo, a Beira-baixa  a
transio da metade norte para a metade sul do paiz.

Caminhemos de oriente para occidente. O Alto-Alemtejo tem o clima de
Traz-os-Montes; a temperatura mdia  mais elevada (16 a 17.), porque a
menor altura das montanhas d frios menos intensos no inverno; as chuvas
estivaes so menores tambem (30 a 50 mill.). Fronteira aberta da
Hespanha, a raia apenas convencionalmente o divide da Estremadura
castelhana. As mesmas planicies onduladas, as mesmas culturas
cerealiferas, as mesmas florestas de sobros e azinhos, as mesmas vinhas,
os mesmos costumes, os mesmos homens, esto de um lado e do outro da
fronteira. Torrada pelo sol a face barbeada, de olhar vivo, gesto livre,
porte nobre e seguro, bizarro, folgaso, hospitaleiro e communicativo, o
alemtejano exprime no seu todo a grandeza um tanto austera do cho sobre
que vive. No  decerto um grego de Athenas, mas  um grego da Beocia.
Os seus campos so um granel, os seus montados um viveiro. Quando nas
longas e alinhadas estradas, entre lenoes de mattas de azinho escuro,
sob o calor de um sol dardejante, divisamos ao longe uma pequena nuvem
de poeira, que a luz illumina, e ouvimos o tilintar alegre das
campainhas e guizos nas colleiras dos machos-- o cazeiro, que a trote
largo, com a cara redonda e alegre, o ventre apertado nos seus cales
de briche preto, vae  feira de Villa-Viosa em maio, ou  de Evora em
junho, tratar dos negocios da lavoura. A distancia, vem o arreeiro no
seu carro toldado, guiando a rcua de machos carregados de odres de
vinho: logo o pastor com o guarda-mato de pelle de cabra, o cajado ao
hombro, conduzindo as ovelhas, a vara de porcos, gordos como texugos, ou
a boiada loura de longas hastes. O sol ardente d tom a todas as cres,
vida a todos os movimentos: suffoca-se, a poeira cga, e as bagas de
suor camarinham na testa. O alemtejano diz pouco, e raro canta; no 
misanthropia,  indifferena. O idyllio no pde seduzir a quem vive em
ampla communho com o campo largo, o cu sempre azul, o sol sempre em
fogo. Apenas, de vero, baila ao som da guitarra nas noites calmosas,
fazendo a vigilia aos seus santos favoritos, no para esquecer um
trabalho que lhe no de, mas para dar largas aos seus amores de um
momento.

Os que uma vez embarcaram abaixo de Serpa, onde as cataratas pem ponto
 navegao, Guadiana em fra at ao Algarve, tero sentido ao chegar 
foz a impresso de quem entra, de um serto, em um jardim: de quem deixa
uma gruta escura por uma planicie luminosa. Breve  a extenso do
Algarve, desde Villa-Real at Lagos, abrigado pela ponta do cabo de S.
Vicente; mas esse trajecto sombrio do Guadiana divide duas regies
caracteristicamente accentuadas. O algarvio  um andaluz. Ao contrario
do alemtejano, tudo o interessa, de tudo fala, agita-se em permanencia,
com uma vivacidade quasi infantil. No Algarve no ha o silencio e a
impassibilidade: ha o movimento constante, o falar, o cantar de uma
populao como a dos gregos das ilhas, ora embarcados nos seus navios
costeiros, ora occupados nos seus campos, que so jardins. Se a planicie
e os longos horizontes das montanhas do ao espirito a placidez solemne,
tambem o arrulhar constante da onda, sobre a qual, debruado como um
eirado, est o Algarve, pe no pensamento uma agitao permanente,
meio-tonta, mas encantadora. Ao calor de um sol j africano, durante o
estio, e no seio de uma constante primavera, durante o inverno, o
algarvio desconhece a aspereza da vida: nem os frios o obrigam 
industria para se vestir, nem a fome ao duro trabalho da enxada para
comer. Emquanto voga sobre o mar, mercadejando, pescando,
contrabandeando, crescem-lhe no campo a figueira, a amendoeira, a
laranjeira, cuja seiva o sol se encarrega de transformar todos os annos
em fructos. A alfarrobeira nas encostas da sua serra, a palma pelos
vallados, pedem apenas que lhes colham os fructos e os ramos; e o
mercador, no seu barco, ao longo da costa, espera as cargas, para as
trocar por dinheiro.

                      *      *      *      *      *

No decurso da nossa viagem deixmos em claro as mortiferas baixas do
Guadiana: nem vale a pena demorarmo-nos n'essa regio desolada; porque
agora, regressando pela costa acima, o litoral do Alemtejo e a parte
occidental da Estremadura transtagana partilham com ella os caracteres
tristonhos e doentios. Entramos na regio dos terrenos terciarios: as
aguas estagnam e apodrecem nas baixas; as populaes definham. Ou
torradas pelo arido suo, que os areaes ardentes no podem suavisar, e
sem montanhas que obriguem os vapores do mar a condensarem-se; ou
envenenadas pelos miasmas dos paes que o sol de fogo pe n'uma
fermentao permanente, as populaes amarellecidas e magras definham,
curvadas pelo trabalho mortifero das marinhas de sal, ou da cultura
pantanosa do arroz. So o contraste das baixas do norte do paiz, estas
baixas do sul. Alm, copiosas chuvas e uma humidade creadora; aqui o ar
secco (500 a 700 mil. annuaes, 30 a 50 no estio; humidade, 30 a 80%)
duro e carregado de emanaes mephiticas. Alm, uma temperatura branda;
aqui um calor (med. 17) excessivo. Alm, uma populao exuberante:
aqui, as solides e os areaes ns, matizados pela traioeira cevadilha,
e pelo loes orgulhoso, levantando com imperio o seu penacho cr de
fogo. Alm, homens laboriosos e familias; aqui tribus esfarrapadas em
choupanas, tiritando com o frio das sezes n'uma atmosphera de lume:
mulheres esqualidas, creanas verde-negras, homens na indifferenca de
desolao, ou na vertigem do crime.

                      *      *      *      *      *

Entre estas duas regies litoraes extremas est porm a central, a
vingar-nos da miseria de uma e da opulencia da outra. Quem desce, de
Canha e Alcacer-do-Sal at Setubal na peninsula de entre Tejo e Sado, e
domina, desde o promontorio da Arrabida, a paizagem circumdante, respira
afinal a longos traos uma plena vida e uma doce alegria. Acaso no ha
no reino panorama nem mais bello, nem maior, nem mais nobre, nem mais
variado. A nossos ps descem as anfractuosidades da serra vestidas de
espessas matas: as giestas douradas, as bagas carmineas dos medronhos, o
rosmaninho, a alfazema, misturando todos os seus aromas inebriantes.
Sobranceiros a Palmella, vemos-lhe os muros ameiados: Setubal desenha-se
no valle encastoada n'um jardim de laranjaes; no fundo quebram-se as
ondas contra as rochas do Cabo; e para o lado opposto as collinas da
fidalga Azeito ondulam por sobre o espesso tapete de pinhaes extendido
at ao Tejo. Erguendo a vista, divisamos alm do mar a ponta de S.
Vicente e o sul; para leste, Evora de um lado, as campinas do Riba-Tejo
do outro; para norte, Lisboa em amphitheatro sobre a sua bahia; alm
d'ella, Cintra e os montes da Estremadura cistagana, a qual, at ao
Mondego, frma a primeira zona extremenha, por onde vamos entrar no
exame da ultima das regies do nosso territorio.

O litoral do centro, entre o Mondego e o Tejo,  a parte mais benigna do
paiz. Ahi o ar temperado pelas brisas maritimas mantm um grau de
humidade, (60 a 85%), e as chuvas, regulares sem serem copiosas (700 a
800 mil. annuaes, e 20 a 30 no estio), uma rega, que fertilisam os
terrenos sem os tornar gordos, como os do norte. Nem o calor (15 a 16)
tisna de vero as vegetaes, nem o frio do inverno as atrophia. Por
tudo isto, a populao abunda, sem exorbitar, como no Minho; e o
habitante reune  laboriosidade de uma vida agricola a liberdade de uma
existencia mais ampla. Por tudo isto, alm dos caracteres geognosticos
da regio, a flora  variada, reunindo o pinheiro bravo e o manso, a
vinha, a oliveira e o carvalho, o trigo, o milho e o centeio. Desde os
campos que o Mondego todos os annos fertiliza, por Leiria e Alcobaa
vestidas de florestas, pelas veigas do Nabo, chegamos ao Tejo; e,
transpondo-o, entramos no seu valle, que  para ns como o Nilo  para o
Egypto. N'elle com effeito o campino nos traz  ida o typo d'essas
raas da Africa setentrional, lybios ou mouros, cujo sangue anda
misturado em nossas veias. A cavallo, de pampilho ao hombro, grossos
sapatos ferrados, gorro vermelho na cabea, o ribatejano, pastoreando os
rebanhos de touros nas campinas humidas e vicejantes,  como um beduino
do Nilo. A vasta planicie matizada de povoaes e bosques de choupos, de
salgueiros e de lamos, contornada ao longe pelas cumiadas das serras,
tem o caracter das paizagens do Egypto, ou de Tunis, dominadas pelo
esqueleto giganteo do Atlas[28].

Como o beiro, tambem o ribatejano reune  vida agricola a maritima ou
fluvial:  elle quem vem nos seus barcos de _agua-acima_, at Lisboa,
trazer o seu tributo de cereaes e fructas. Pelo Tejo, o Portugal
maritimo abraa o Portugal agricola fundindo n'uma as duas phisionomias
typicas da nao. Rio acima, o Alemtejo de um lado, a Beira do outro,
por esta frma se communicam com a populao maritima do litoral.
Lisboa, com Sines ao sul, Aveiro ao norte, eis os pontos cardeaes d'essa
costa Occidental, d'onde tantas grandes aventuras, to dilatadas viagens
se emprehenderam. Capital geographica, Lisboa  tambem a nossa capital
maritima; e se as viagens e descobertas so o corao da nossa historia
particular nacional, Lisboa  tambem a nossa capital historica. As
toadas plangentes que ao som da guitarra se ouvem por toda a costa do
occidente; essas cantigas, monotonas como o ruido do mar, tristes como a
vida dos nautas, desferidas  noute sobre o Vouga, sobre o Mondego,
sobre o Tejo e sobre o Sado, traduziro lembranas inconscientes de
alguma antiga raa, que, demorando-se na nossa costa, pozesse em ns as
vagas esperanas de um futuro mundo a descobrir, de perdidas terras a
conquistar ao mar?

Os sonhos cheios de encanto e melancolia, por to longos tempos
embalados pelo incessante murmurio do mar breto e pelo ciciar das
florestas druidicas; o carinho da natureza pelo homem, traduzido n'essas
lendas piedosas em que os animaes falam, os passaros veem fazer ninhos
na mo dos santos, e a voz das fadas se mistura com o ramalhar das
arvores e o murmurar das aguas: esse vaporoso e encantador boto da alma
celtica, porventura desabrochava no espirito nacional portuguez, quando
a concluso das guerras da independencia assim o ordenou.

D. Joo de Castro, o marinheiro, tem, como um druida, o amor ingenuo da
natureza:  vergonha e grande cubia dos homens, que por haver as
desventuras dos metaes cavam tanto a terra que lhe tiram fra as tripas,
derribam grandes outeiros, abaixam asperas e altissimas serras no andar
e olivel dos campos, e no contentes de _estragarem tanto a terra_,
rompem e furam pelo mar por haverem uma perla--e para esculdrinhar uma
obra maravilhosa da natureza so timidos e preguiosos!

    [25] V. _Portugal contemporaneo_, pass.

    [26] V. _Portugal contemporaneo_ (2. ed.), II, pp. 183-91.

    [27] V. _Portugal contemporaneo_, (2. ed.) II, pp. 51-3.

    [28] V. _Elem. de Anthropologia_ (3. ed.) p. 232.

                      *      *      *      *      *




V

A historia nacional


D'esta viagem, breve, pallida, e incorrectamente esboada,
ficaria--ousamos crl-o--no espirito do leitor uma impresso por isso
mesmo verdadeira. Pallida e como que indeterminada, sem fortes cres nem
linhas pronunciadas,  a phisionomia da nao, quer na paizagem, quer
nos homens. Nenhum trao profundo distingue a nossa geographia; benigno,
mdio ou temperado  o nosso clima, e tambem o nosso caracter.

Se alguma cousa de facto nos individualisa,  a falta de affirmao do
nosso genio. Aquellas a que poderemos chamar qualidades peculiares
nossas, consistem na facilidade com que recebemos e assimilamos as de
extranhos. Navegadores--e s por si este caracter no imprime em ns um
cunho distincto dos demais povos maritimos--a maneira por que nos
aventurmos ao mar, retrata ainda a nossa phisionomia collectiva: fomos
prudente e pacientemente ao longo das costas africanas, ou de ilha em
ilha, no oceano, caminhando passo a passo, avanando sempre, tenazes,
mas jmais temerarios[29].

Essa individualidade passiva do nosso genio traduz-se na nossa historia.
Ninguem busque n'ella movimentos originaes e profundamente
caracterisados por uma ida nacional: esperal-o-hia o castigo reservado
a todas as chimeras. Ninguem busque tampouco o systema de um
desenvolvimento proprio e organico, obedecendo a leis particulares, e
constituindo, no seu todo, aquillo a que se chama uma civilisao: por
esse lado apparecemos indestructivelmente ligados ao corpo peninsular; e
apesar de politicamente separados, obedecemos s leis geraes que lhe
determinam a vida historica. O conjuncto dos nossos pensamentos moraes,
o caracter dos movimentos que compem o systema do desenvolvimento das
instituies, o das condies das classes, e at as linhas geraes da
nossa vida politica, so apenas um aspecto do systema da historia da
peninsula iberica. Por isso ns, que, em outro livro,[30]
tratamos d'este assumpto, no voltaremos agora a occupar-nos d'elle,
para no fatigarmos o leitor com repeties inuteis. Procuraremos n'esta
obra determinar o modo particular, proprio ou nacional, com que
realismos um programma historico geral, definindo a nossa
individualidade collectiva; procuraremos tambem indicar os movimentos
politicos, em que resolutamente defendemos a nossa autonomia; e
finalmente mostrar que, sendo a ausencia de caracter nacional
affirmativo, e a malleabilidade com que recebemos e assimilamos as
influencias extranhas, o que mais pronunciadamente nos individualisa
como povo, a independencia da nao no proveiu de factos naturaes,
porm sim dos actos de vontade dos seus homens. Causas de outra ordem
houve de certo que vieram dar-lhes um apoio energico, e, no falando
agora nas maritimas e coloniaes, referimo-nos s influencias extranhas 
Hespanha, que por momentos nos pozeram, a ns, seus filhos, n'um estado
de antagonismo transitorio com o desenvolvimento da historia peninsular.
 sabido que a nossa primeira dynastia procedia de Borgonha; nos
primeiros tempos so numerosos os fidalgos e soldados estrangeiros entre
ns: e as conquistas de Lisboa, de Alcacer, do Algarve, effectuam-se com
o auxilio de exercitos e armadas forasteiros. Mais tarde veem combater
ao lado de D. Joo I os inglezes, com quem j ao tempo de D. Diniz
celebrramos tratados de commercio, e que, nossos alliados no tempo do
D. Fernando, nos impressionavam com os seus costumes e lettras. D'ento
data a generalisao dos nomes inglezes como Tristo, Jorge, Duarte, que
se comeam a encontrar ao lado dos antigos nomes romanos e gothicos. As
allianas inglezas repetem-se nos primeiros tempos da dynastia de Aviz,
at que o desenvolvimento do nosso imperio colonial nos torna soberanos.
Annexados  Hespanha depois, voltamos a depender da Inglaterra ou da
Frana, quando readquirimos a independencia. Generaes francezes
commandam as campanhas da Restaurao, patrocinada pela Frana; generaes
inglezes, as guerras do principio do seculo subsidiadas pela Inglaterra.
E duas vezes, quando se tentou chamar a nao  vida eminente da
sciencia; duas vezes, quando D. Joo III e o marquez de Pombal
reformaram a Universidade; duas vezes se importaram mestres extrangeiros.

De tudo o que deixamos escripto o leitor decerto comprehendeu j o
systema de preceitos a que vae obedecer o nosso estudo; e
affigura-se-nos ser este o caminho verdadeiramente scientifico de
encarar a historia nacional, despindo-a de illuses patrioticas, e de
phantasias chimericas. Mal de ns, se, amando do corao a nossa
independencia, imaginarmos que ella pde manter-se firme sobre um
alicerce de fabulas, contra a recta e indestructivel verdade da
sciencia! A independencia dos povos assenta sobre tudo na vontade
collectiva: tal foi a base da nossa, tal continuam a ser, se com a
vontade tivermos o juizo correspondente. Sem elle, o querer  apenas um
capricho.

Obedecendo pois ao enunciado, dividimos a historia patria em quatro
periodos successivos. No primeiro, o da dynastia de Borgonha, no nos
destacamos ainda bem do systema dos Estados peninsulares: somos um
d'elles, e a independencia provm exclusivamente do espirito separatista
da Edade-mdia personalisado no ciume absolutista dos reis e bares
portuguezes.--Depois de Aljubarrota, porm, o sentimento de
independencia nacional torna-se popular, desde que a revoluo do Mestre
d'Aviz o faz coincidir com o interesse particular da regio portugueza.
Entretanto a vida maritima fra-se desenvolvendo: e a nova dynastia
obedece conquistando o litoral da Africa aos marroquinos,  corrente
historica peninsular: e inicia, com as navegaes e descobertas, um
movimento particularmente nacional. Pde ento dizer-se que por um
momento Portugal esteve  testa da historia da Hespanha.

A terceira epocha abrange, a nosso vr, a infeliz empreza do Imperio
oriental, onde o movimento maritimo nos levou. Os elementos de vida
propria, formados na epocha anterior, produziram uma colonisao 
antiga e uma litteratura no-latina: n'estas duas circumstancias
provavamos faltar-nos uma fibra de intima originalidade nacional. A
perverso dos costumes, a vastido das emprezas, o limitado dos nossos
meios, os erros politicos, finalmente, condemnam-nos  perda da
independencia.--Se na quarta e final das epochas da nossa historia
voltamos a reganhal-a, a nossa vida apparece, comtudo, outra. Ao imperio
oriental perdido, vem a explorao e colonisao do Brazil
substituir-se, dando um ponto de apoio externo ao pequeno corpo europeu;
e mais tarde, perdido a seu turno o Brazil, voltamo-nos agora, a vr se
a Africa pde dar-nos os meios de custearmos as despezas de um paiz
pequeno e mediocremente abastado, sobre o qual pesam os encargos cada
vez maiores do machinismo nacional. Hollanda do extremo occidente,
radicada no corpo da Hespanha, como ella o est no corpo germanico, s
n'um ponto de apoio externo podemos fundar o alicerce de uma
independencia excepcional; s  custa de recursos coloniaes poderemos
talvez satisfazer as multiplas e dispendiosas exigencias da organisao
economica, scientifica e moral, hoje inseparaveis e indispensaveis 
existencia de uma nao.[31]

    [29] V. _O Brazil e as colonias portuguezas_ (3. ed.) pp. 2-6.

    [30] V. _Hist. da civil. iberica_ (3. ed.).

    [31] V. _O Brazil e as colon. port._ liv. IV-V, e
         _Portugal contemporaneo_ (2. ed.) liv. VI, 1, 3.

                      *      *      *      *      *




LIVRO SEGUNDO

HISTORIA DA INDEPENDENCIA

(DYNASTIA DE BORGONHA: 1109-1385)


    He nossa entenon curtamente fallar, nom come buscador de novas
    razoes, per propria invenom achadas, mas come aiumtador em huum
    breve moolho, dos ditos dalguns que nos prouguerom.

                                     F. LOPES, _Chr. de D. Pedro I_.

                      *      *      *      *      *




I

A separao de Portugal


O condado portucalense, creado nos ultimos annos do XI seculo a favor do
conde borguinho D. Henrique, genro de Affonso VI, pouco tempo existiu
sob o regime de uma vassallagem indiscutidamente reconhecida. Era essa a
epocha em que a Hespanha tendia a constituir-se n'um systema de Estados
independentes,  medida que successivas regies iam sando de sob o
dominio musulmano para o dos descendentes dos godos asturianos, ou dos
seus actuaes alliados;[32] e o condado portucalense obedecia a esta
tendencia geral, no empenho que o seu conde no mais encobriu desde a
morte do sogro.

 com effeito da data do obito de Affonso VI que deve contar-se a ra da
independencia de Portugal; embora por largos annos ella seja mais uma
ambio do que um facto: embora essa ambio traduza um pensamento que
os acontecimentos posteriores da historia impediram se realisasse.
Qualquer que fosse o valor dado no XI seculo  expresso geographica de
_Portucale_,  facto provado por todas as memorias e documentos d'esses
tempos, que para ninguem deixava de considerar-se o territorio de entre
Minho e Mondego como parte da Galliza. O facto da constituio do
condado de nada vale contra esta opinio; porque demasiado se sabe que a
formao dos Estados medievaes, na Peninsula e fra d'ella, jmais
obedecia s prescripes geographicas ou etimologicas. No se attribua
pois a causas d'esta ordem, nem  consciencia de uma solidariedade
nacional, o facto da desmembrao da Galliza dos fins do XI seculo. A
sciso que o Minho demarcou obedeceu apenas a motivos de ordem politica.

Isto mesmo, porm, deu causa a uma ambio, na qual devemos reconhecer o
principio da vitalidade da nao portugueza, durante estas primeiras e
ainda indecisas epochas da sua existencia. A solidariedade nacional
espontanea existia de facto para os gallegos; e desde que a Galliza fra
dividida pela politica em duas, quem e alm Minho, restava saber qual
d'essas metades tomaria sobre si o papel de representar um sentimento de
independencia, commum a todos os membros ainda ento disconnexos do
corpo peninsular.

Varias causas concorriam para attribuir este papel  metade portugueza
da Galliza; e porventura acima de todas o facto do merecimento pessoal
do conde portuguez. Circumstancias d'esta ordem eram decisivas n'uma
epocha em que a anarchia systematica da constituio da sociedade fazia
principalmente depender os destinos immediatos d'ella da perspicacia ou
da bravura dos seus chefes. Nada ha de commum entre a vida d'estes
tempos e a dos posteriores: e n'um certo sentido pde at dizer-se que
os factos de ordem politica so independentes dos de ordem social,
porque a sociedade  como um elemento passivo que por este lado (mas por
elle apenas) obedece s consequencias do desordenado capricho dos actos
e caracteres dos chefes militares que a governam, sem propriamente a
representarem.

Nos primeiros tres seculos, isto , na primeira epocha da historia
portuguesa, a independencia  um facto originado no merecimento pessoal
dos chefes militares dos bares de quem Minho. Nacionalidade
propriamente dita, no a ha; ou pelo menos no nol-a revelam os
monumentos historicos, unanimes, tambem, em revelar uma ambio
collectiva ou social que se estende a toda a Galliza. Ao merecimento
pessoal reune-se, nos primeiros monarchas portuguezes, a circumstancia
de serem os interpretes d'este sentimento. Por isso a tendencia
permanente e o principio claramente definido da politica portugueza, nos
primeiros seculos,  unificar a Galliza, constituindo a noroeste da
Peninsula um Estado to homogeneo, como o Arago ou a Navarra a
nordeste.

N'este proposito se filiam todas as guerras civis--se este nome convm
ainda aos conflictos entre Portugal e Leo--e as repetidas allianas dos
bares gallegos das duas zonas divididas pelo Minho. A facilidade com
que os reis portuguezes transpem armados as aguas d'esse rio, o se
apossam por varias vezes dos territorios da Galliza leoneza, so provas
evidentes da opinio exposta.

No quiz a sorte que chegasse a realizar-se este primeiro pensamento
politico, a que chamaremos hegemonia de Portugal na Galliza, para
usarmos de expresses modernas; antes ordenou que os limites
convencionaes do condado portucalense apenas inscrevessem o ponto de
partida da formao de uma nao, cujo caracter, ulteriormente definida,
proveiu principalmente da phisionomia geographica da regio; de uma
nao, repetimos, que veiu a perder a tradio d'essa primitiva origem,
desde que o genio das populaes de entre Mondego e Tejo sobrepujou o
das do norte, na direco e impulso dados  vida collectiva portuguesa.

Se n'esta primeira epocha da nossa historia o pensamento occulto que
dirige com maior ou menor consciencia a politica,  incontestavelmente o
da hegemonia de Portugal na Galliza, seria absurdo suppr que, ao lado
d'este principio, decadente desde certa epocha, se no fossem tambem
manifestando de um modo correlativo, e cada vez mais pronunciado, os
symptomas da deslocao do centro vital da nao.

A circumstancia que mais decisivamente determina este caracter da nossa
historia primitiva  a conquista dos territorios sarracenos de quem
Mondego, levada a cabo pelos bares portugueses, sem os auxilios do
suzerano de Leo.  este movimento que, principiando por quebrar os
laos de solidariedade entre os gallegos leonezes e os portugueses, vae
gradualmente addicionando a estes ultimos os _Lusitanos_ (seja-nos
licito dizer assim, para mais claramente definir o nosso pensamento) at
ao ponto de os ultimos predominarem na phisionomia posterior da nao,
transferindo de Guimares e de Coimbra, para Lisboa, a capital do reino:
fazendo substituir  vida rural, primeiro quasi exclusiva, a vida
commercial e maritima depois predominante e quasi absoluta.

A primeira epocha da historia portugueza offerece pois  observao do
critico dois movimentos[33], oppostos n'um sentido, concordes em outro,
que  o da affirmao positiva da independencia. Mas, se essa afirmao,
terminante nas guerras leonezas, e tambem nas sarracenas, exprime de um
lado a politica da hegemonia na Galliza, do outro exprime, de um modo
todavia inteiramente inconsciente e espontaneo, uma tendencia contraria.
 a da formao de uma nao _lusitana_, de que a Galliza portugueza
desce  condio de provincia ao norte, como o Algarve, mais
propriamente turdetano, vem a sel-o ao sul. O entre Douro e Guadiana,
isto , a espinha dorsal da Estrella, ladeada pelas Beiras ao norte,
polo Alemtejo a sul, pela Estremadura a poente: eis ahi o que, logo
desde o XIV seculo, comea a representar o corpo homogeneo da nao
portugueza.

                      *      *      *      *      *

No Portugal primitivo, a politica da hegemonia na Galliza no se
fundava, porm, smente em uma indeterminada ambio collectiva. Era um
pensamento decisivo e fixo dos monarchas, e trazia origens to antigas
como a propria constituio do condado portucalense.

Creado por uma desmembrao da Galliza, o condado cedido ao borguinho
no  natural que satisfizesse os desejos ambiciosos do principe. Como
as almas que, desorientadas pelas extravagancias do barbaro
christianismo medieval, viviam n'um estado de aspiraes nebulosamente
infinitas: assim a ausencia de um criterio fixo, intellectual ou moral,
e a lei da pura fora em que existiam, lanavam os bares n'uma vida de
aventuras, cujo criterio unico era a sua ambio, cujo unico limite era
o limite imposto por uma fora adversa. O poder do rei leonez era, para
o conde borguinho, o limite forado das suas temeridades.

Logo porm que Affonso VI morreu, deixando um vasto espolio a dividir,
D. Henrique exigiu para si um largo quinho. Quebrada pela morte a
cadeia da vassallagem a um rei poderoso, e acaso desobrigado j da
gratido para com um sogro que tanto favorecera o conde,  d'esta ra
que, a nosso vr, data a independencia de Portugal: e no da ra, de
resto indecisa e impossivel de determinar, em que Affonso Henriques
tomou para si o titulo de rei.  dar uma demasiada importancia ao facto
exterior e secundario do titulo, o fazer d'elle o symbolo da
independencia da nao. Apesar de rei, D. Affonso Henriques prestou
vassallagem: e a sua monarchia no , de facto, mais nem menos
independente, como monarchia, do que o condado de D. Henrique, ou o
infantado de D. Thereza. A fora e no a definio de um dominio, s
effectivo quando se estriba nas armas, eis ahi o que exclusivamente
caracterisa os movimentos dos seculos XI e XII.

Ora essa fora era j para D. Henrique um facto, desde que lhe morrera o
sogro. A unidade que o seu valente brao dava ao dominio sobre os
territorios herdados ou conquistados, levara-a Affonso VI comsigo para o
tumulo; e entre os dois herdeiros rivaes, D. Urraca e o rei de Arago, o
conde portugalense tinha um logar bem preparado para exercer a sua
astuciosa influencia, e para impr condies e preo a uma alliana que
ambos egualmente ambicionavam.

Passemos longe d'essas chronicas de perfidias, de violencias, de
adulterios e barbaridades que constituem a historia da herana de
Affonso VI. Como os generaes de Alexandre, os principes da Peninsula
retalham o manto do imperador: e a Edade-mdia, to phantasiosamente
pintada com traos de nobreza e galhardia, no  de facto menos corrupta
e asquerosa do que a edade dos satrapas do Oriente. A ferocidade  mais
violenta, a luxuria menos requintada, a perfidia mais ingenua, porque os
homens so verdadeiramente barbaros, e no gregos barbarisados[34].

Do pacto de alliana de D. Henrique e D. Urraca resultou o
engrandecimento do condado, para o norte na Galliza e para leste ao
longo da bacia do Douro, abrangendo Tuy, Vigo, Santiago, por um lado,
Zamora, Salamanca, Toro e at Valladolid pelo outro. A diviso e
demarcao do novo Estado chegou a fazer-se com a possivel solemnidade,
e com a concorrencia de bares leonezes e castelhanos. Era a definio
de um Portugal que a historia no consentiu se mantivesse.

N'este convenio ou tratado vieram posteriormente fundando-se todas as
pretenes dos soberanos portuguezes  posse da Galliza, e d'aquella
parte da Castella-velha geographicamente denominada Terra-de-Campos:
territorios que o conde D. Henrique soubera ganhar para si na disputa da
herana de Affonso VI. Tres annos apenas gosou o conde a posse d'esses
seus dilatados dominios. Morrendo, a mesma historia de ignominias,
adulterios e barbaridades ia assignalar o governo de sua viuva herdeira,
como tinha assinalado o da viuva do conde Raymundo. Eram irms tambem,
no caracter e nos appetites sensuaes, as duas filhas do D. Affonso VI.

Morrendo, o velho conde portuguez, ao sitiar Astorga, chamou para junto
de si o filho, em cujo peito borbulhavam ambies: Filho, toma esforo
no meu corao! Toda a terra que eu deixo, que  d'Astorga at Leo e
at Coimbra, no percas d'ella cousa nenhuma, que eu a tomei com muito
trabalho. Filho, toma esforo no meu corao! e s similhante a mim, e
s companheiro dos fidalgos e d-lhes todos os seus direitos, aos
concelhos. Filho, toma esforo no meu corao!

Tal era o testamento do conde; j deixava ao filho uma nao constituida
nas suas duas faces parallelas e correlativas: a nobreza, os concelhos.
E depois que houve castigado o filho d'estas cousas e outras muitas que
aqui no dizemos, morreu.

                      *      *      *      *      *

A viuva de D. Henrique, publicamente amancebada com o conde gallego
Fernando Peres, deu com os seus escandalos pretexto para uma revolta,
que poz em risco a conservao dos vastos dominios herdados de seu
marido. Assim tambem succedera a D. Urraca, perdida de amores pelo conde
de Trava.

Dissemos pretexto e no motivo, porque nos costumes ingenuamente
dissolutos da Edade-mdia a mancebia no era caso que offendesse o pudor
particular nem publico: os amantes das princesas offendiam, porm, o
ciume dos seus collegas em fidalguia; e o poder effectivo de que um
d'elles dispunha,  sombra do amor que o preferira, enchia de inveja e
odio os companheiros.

As memorias do tempo retratam-nos D. Thereza como uma mulher sagaz, viva
e bella. A astucia combinava-se no seu espirito com um amor que a levava
a _comprometter-se_, como diriamos na nossa linguagem moderna. Uma vez,
na cathedral de Vizeu, apresentou-se com o amante, no meio da egreja
apinhada de povo, e em frente do prelado que prgava. A authoridade dos
bispos corria ento parelhas com a rudeza das suas liberdades; e o de
Vizeu no duvidou dizer  rainha, em voz alta, do pulpito ou dos degraus
do altar, que abandonasse o amante ou se casasse: era um escandalo
aquella unio, uma vergonha proceder de tal modo. A condessa, vermelha
de colera e confuso, fugiu rapidamente da egreja seguida pelo amante.

Porque no succederia ao escandalo a vingana, para no quebrar a
constante alliana da impudicicia e da crueldade, dominantes na
Edade-mdia? Porque naturalmente as invectivas do bispo traduziam a
fora do partido dos invejosos e rebeldes, que j faziam do moo filho
de D. Henrique um pendo de revolta contra a viuva apaixonada. Nem por
to pouco se affligiria a consciencia do bispo, pois o clero demasiado
ouvia tambem os conselhos da carne, e os amores sacrilegos eram to
frequentes como os amores livres ou adulterinos.

A princeza no era menos sagaz do que voluptuosa, e adiava para mais
tarde a vingana. Beijos lascivos, perfidias indignas e barbaridades
ferinas, eis os elementos que constituiam a mulher da Meia-Edade. Os
dotes femininos eram naturalmente pervertidos por um ambiente de
brutalidade anarchica nos sentimentos e nas aces; e, quando a mulher
dispunha da aucthoridade e da fora, ou como a Fredegonda dos Merowigues
cevava em sangue a sua fra natureza, ou satisfazia n'uma impudicicia
desesperada as necessidades sensuaes do seu temperamento. Nem a
crueldade, nem a sensualidade eram menores nos homens: mas a natureza
que n'elles d o predominio aos pensamentos, como o d aos sentimentos
nas mulheres, fazia com que a rudeza dos primeiros andasse
subalternisada  ambio e aos calculos politicos, ou  bravura e s
faanhas guerreiras.

No se imagine, porm, a mulher da Edade-mdia um ser apenas formado de
crueldade e amor; menos se supponha D. Thereza uma similhante creatura.
A condessa, infanta ou rainha de Portugal--porque de todos estes titulos
usou--era tambem sagaz e astuta, qualidades que o filho veiu a herdar
com o sangue. No tinha o animo varonil de uma amazona, mas tinha a
perspicacia e o juizo proprios dos principes d'esses tempos. Sabia
moderar a colera e engulir affrontas como a de Vizeu, quando no podia
vingar-se d'ellas. O amor traduzia apenas uma exigencia dos sentidos,
deixando livre e independente a aco da intelligencia. No meio das
agitadas circumstancias do seu breve governo, no deixou abandonadas as
conveniencias proprias, como dona e senhora do Estado portuguez.

Muitas vezes se lem descripes de uma vida sentimental e heroica, em
que as mulheres andam loucas de paixes poeticas, e os homens, typos de
nobreza e audacia, so victimas dos conflictos do amor e da honra. No
ha nada mais differente da verdadeira, do que essa Edade-mdia das
operas. A carnalidade desenfreada, o cynismo e a perfidia, uma frieza
sempre calculadora, uma ambio feroz, uma avareza sordida, uma
corrupo de todas as fontes da vida moral: eis ahi o que de facto
constitue a vida aristocratica da Edade-mdia. Onde est a causa de
tamanhas desordens? Est na coexistencia e no conjuncto de condies
barbaras e de tradies cultas. D'onde provm a illuso com que muitos
suppozeram bellezas espontaneas nos caracteres, e nobres dedicaes nos
actos, creando com a phantasia um falso quadro de encantos? Da
ingenuidade dos typos barbaros.

Ha, com effeito, na natureza espontanea o quer que  de seductoramente
bello, que nos chama para uma regio de deleites inconscientes: assim
todas as descripes das sociedades primitivas produzem em ns uma
impresso vivificante, e desde logo somos levados a engrandecer e
nobilitar os homens ainda no corrompidos pelas aberraes da
civllisao.  mistr porm observar que taes homens primitivos no so
os do XI seculo; que na Edade-mdia existem e vivem, principalmente por
via da Egreja, todas as tradies da cultura antiga; e que a conjunco
da barbarie e do requinte lana nos caracteres uma semente de perverso,
prompta a rebentar em actos monstruosos, to corrompidos no principio,
como barbaros na frma.  popular o sentimento de tdio e nojo para com
o imperio de Byzancio; pois as causas originarias d'essa repugnancia so
tambem communs s sociedades no-latinas, ou no-godas da Hespanha.[35]
S variam as propores: os elementos combinados so os
mesmos. No Oriente a cultura  maior, os costumes mais requintados: aqui
 maior a rudeza, e a feio barbara predomina. Por isso os vicios
procuravam, alm, esconder-se sob o manto das convenes; e aqui se
expandem ingenua e francamente,  luz de uma ignorancia quasi primitiva.

                      *      *      *      *      *

Assim que D. Urraca morreu. Affonso VII, depois de reconquistadas ao
visinho aragonez as cidades de Castella, olhou para oeste, afim de
reconstituir de novo a monarchia leoneza, fazendo regressar ao seu
dominio os territorios de Campos e da Galliza. A invaso e a guerra
duraram apenas uma campanha; e a amorosa Thereza curvou-se ao imperio
das condies, reconheceu o facto da conquista, e confessou com
humildade a vassallagem ao sobrinho leonez.

Portugal retrahia-se aos primeiros limites--do Minho ao Mondego--do
condado creado por Affonso VI; e os calculos do conde borguinho
frustravam-se, depois de menos de vinte annos de indeciso dominio.

Esse infortunio da _regina_ de Portugal acabou de decidir os invejosos
do conde gallego, seu amante. As tendencias de sublevao, at ahi
sopitadas ou mal definidas, tomaram corpo e unidade; e a revolta
declarada dos bares achou nos desastres de 1127 motivo sufficiente para
se erguer em campo aberto.

Capitaneava a revolta o infante portuguez. No  esta a unica occasio
em que vemos erguerem-se em armas os filhos contra os paes, os irmos
contra os irmos, como prova de que, se os sentimentos andavam
pervertidos pelos instinctos brutaes, ou vinculos de familia eram apenas
laos tenues que se rompiam ao impulso de qualquer exigencia da colera
ou da ambio. Nem sentimentos, nem instituies fixas: uma anarchia
total no individuo e na sociedade, uma desordem acabada na moral e no
direito, eis ahi as bases historicas da Edade-mdia, cujo deus  a fora.

D. Affonso Henriques, o primeiro rei portuguez, ou capitaneava ou era o
pendo apenas--hypothese que a sua curta edade justifica--da revolta que
tinha por chefes o arcebispo de Braga D. Paio, Sueiro Mendes o _grosso_,
Ermigio Moniz, Sancho Nunes, genro da _regina_ Thereza, e Garcia Soares.
Aos pactos de Braga succedeu o encontro de Guimares. A rainha, abraada
ao seu amante, vinha seguida por bares fieis de quem, e pelos bares
de alm-Minho, que se tinham submettido a Affonso VII[36].
A batalha decidiu-se pelo filho, e a rainha fugiu a esconder no condado
do amante o desespero da derrota. De protectora, os acasos da guerra
faziam-na agora protegida; e a historia deve ainda ao conde gallego a
justia de mencionar que a no abandonou, quando a viu despojada do
poder e do titulo. Os prazeres da paixo acaso suavisariam  formosa
filha do grande Affonso a infelicidade das armas, e porventura tambem o
desespero maternal, se  que os vinculos de sangue tinham para a me um
merecimento superior ao que tinham para o filho.

No seio da barberie corrupta em que se revolvia, a Edade-mdia tinha,
porm, no s o instincto dos deveres, innato nos homens, como o medo
dos castigos divinos prgados por uma religio que at para o proprio
clero baixra s condies de um quasi fetichismo. As lendas contam que,
vencedor, o filho encarcerra a me, e pem na bocca de D. Thereza este
anathema terrivel: Affonso Henriques, meu filho, prendeste-me e
metteste-me em ferros e exherdaste-me da minha terra que me deixou meu
padre, e quitaste-me de meu marido: rogo a Deus sejas assi como eu sou,
e porque metteste ferros nos meus ps, quebradas sejam as tuas pernas
com ferros. Mande Deus que isto assim seja! E o anathema cumpriu-se em
Badajoz, annos depois, porque Deus vingador no perdoava os crimes
frequentes dos filhos contra os paes. Assim pensavam esses homens simples.

 batalha de Guimares ligava-se, porm, um alcance maior do que o de
uma simples questo de familia: era a ruptura de solidariedade entre as
duas metades da Galliza, e a victoria da portugueza sobre a leoneza. Era
o primeiro symptoma de uma direco nova, que se ia imprimindo na vida
historica nacional. Essa ruptura da solidariedade, e a fora da
monarchia leoneza sob Affonso VII, sero dois motivos concorrentes para
impedir que as tentativas do primeiro rei portuguez tenham sobre o norte
resultados efficazes.

Logo depois de Guimares, Affonso Henriques, preferindo o papel de
invasor ao de atacado, procura reivindicar as fronteiras perdidas em
1127 por D. Thereza. Duas vezes invade a Galliza transminhota: duas
vezes  forado a recuar, em 1130 e em 1132; mas depois de Guimares,
depois da lide de Val-de-Vez em que os portuguezes venceram, j a
independencia de facto estava conquistada. Sellados os preliminares de
paz, Affonso Henriques occupou-se em _acalmar_ as terras do seu senhorio
afim que nunca lhe acontecesse outro tal desavisamento, e conquistou
todallas fortalezas de portugal assy como se fossem de mouros.

Quem era Affonso Henriques? J amestrado no officio de reinar,  maneira
porque ento se entendia um tal officio, o moo principe reunia as
condies necessarias para consolidar uma independencia at ahi
precaria. Era audaz, temerario at, pessoalmente bravo, qualidade nem
to commum no tempo, como a muitos acaso parea. Fraco general, ao que
se v, porque as batalhas feridas com as tropas leonezas perdeu-as
sempre, era feliz guerrilheiro. Capitaneando um troo de soldados, caa
de improviso sobre um logar, e a furia irresistivel do ataque deu-lhe a
maior parte das suas victorias. Nem a grandeza das emprezas o assustava,
nem as distancias o impediam de acudir a um tempo, do extremo norte,
quasi ao extremo sul no paiz. A estes dotes militares reunia outros no
menos valiosos, na precaria situao em que se apossra do reino. Era
secco, astuto, friamente ambicioso, sem chimeras, nem illuses. Era um
espirito agudo e pratico, e isso fazia boa parte da sua fora. Mal dos
politicos ao mesmo tempo apostolos! Como a tenra haste que verga  mais
leve brisa do cannavial, assim Affonso Henriques, sem rebuos obedecia,
logo que a sorte lhe era adversa. Passada a tormenta erguia-se; e 
facilidade astuta com que se humilhava, respondia logo a teima perfida
com que se rebellava. Isto fazia-o indomavel. Tinha o quer que  de
fugitivo, na sua politica e no modo porque fazia a guerra. Ubiquo
militarmente, era nos negocios um proteu. Os seus amigos, leonezes,
sarracenos, no achavam por onde prendel-o. Submisso e humilde quando se
achava vencido, subscrevia a todas as condies, acceitava todas as
durezas; para logo mentir a todas as promessas, rasgar todos os
tratados, com uma franqueza ingenua, uma simplicidade natural, que
chegavam a espantar a propria Edade-mdia. Nem brios cavalleirosos, nem
sentimentos de familia, nem odios pessoaes, nem vinganas estupendas:
nenhuma chimera, nenhuma grande ambio, nenhum sentimento poetico,
enchiam a sua cabea, estreita, e inteiramente occupada pela ida fixa
de consolidar a sua independencia. O predominio absoluto de uma ida
pratica, servida por uma intelligencia lucida, por um caracter sem
grandeza, e por uma valentia provada, tornavam-no invencivel, ainda
mesmo quando era batido. A sua teima fazia-o similhante a uma lamina de
ao, um instante vergada por um esforo momentaneo, logo estendida
quando livre, e impossivel de manter curvada desde que se acha solta. O
seu pensamento tinha a tenacidade da mola, e no a rigeza do bronze nem
o peso do chumbo. Vivia dentro do seu Portugal como um javardo no seu
refoio: assaltado, investia, despedaando tudo com as fortes prezas.
Perseguido, fugia. No tinha a nobreza do leo, nem a astucia ferina do
tigre: possuia apenas a tenacidade brava e bronca do javali. Um fraco
apenas lhe notam, embora os actos da sua vida no denunciem que esse
defeito o prejudicasse muito: gostava de ser adulado.

Affonso Henriques foi quem verdadeiramente consummou a separao de
Portugal, no pelos meritos proprios apenas, mas porque a direco
politica do reino comeou no seu tempo a ser encaminhada pelos factos no
sentido de definir de um modo positivo a independencia da nao.

Uma parte dos bares da Galliza leoneza, sublevados contra o suzerano,
acolheu-se em 1137 sob a proteco de Affonso Henriques, prestando-lhe
vassallagem, e, assim, de novo se levantou a questo das fronteiras do
norte de Portugal. Affonso VII no pudera, nos annos anteriores, descer
a rebater as invases do turbulento visinho, occupado como estava a
debellar o navarro; agora, porm, tinha j os movimentos livres, e
apressou-se a submetter a Galliza. Por seu lado Affonso Henriques era
solicitado a defender a fronteira austral, onde os sarracenos tinham
vindo n'uma lgara feliz derrocar o castello de Leiria.  por estes
annos que o destino de Portugal se debate entre a Lusitania e a Galliza,
quando a actividade do guerreiro  solicitada, ora do norte contra os
leonezes, ora do sul contra os sarracenos. Oscillante ainda e indeciso,
breve assistiremos ao definitivo pender da balana no sentido do
alargamento das fronteiras austraes.

A simultaneidade do ataque leonez e sarraceno em 1137 obriga Affonso
Henriques a curvar a cabea, assignando as pazes de Tuy, nas quaes
desiste das suas pretenses de alm-Minho, confessando, ao mesmo tempo,
vassallagem ao suzerano de Leo. _Ut arundo fragilis ferebatur_: vergava
como o cannavial o principe, a este sopro da fortuna adversa! Desistia
de tudo, da ambio e at da independencia. Quem se fia, porm, na
palavra do pertinaz batalhador? Defendido o seu senhorio por norte, no
se demora a persistir n'uma guerra leal mas perigosa. Espera melhor
oocasio para a desforra; porque lhe no custa subscrever a um tratado,
a que no pensa decerto submetter-se, seno emquanto a fora das cousas
a isso o violentar. No assim os fronteiros de nordeste que, apesar das
pazes de Tuy, continuam a guerra por conta propria: to frageis eram
ainda os laos, que reuniam os vassallos ao conde soberano de Portugal!
De Tuy, o leonez, subindo pelo valle do Lima atravez da Galliza
portugueza que assolra, vae encontrar as mesnadas dos ricos-homens
sublevados nos Arcos-de-Val-de-Vez. Resam as tradies de um torneio ou
_bufurdio_[37] em que os cavalleiros inimigos batalharam
por seus exercitos, vencendo os portuguezes na estacada, onde numerosos
combatentes ficaram mortos, segundo as regras da cavallaria. Apesar de
victoriosos, porm, os portuguezes no podiam resistir a Affonso VII,
tanto mais que D. Affonso Henriques desistira de continuar uma guerra
improficua.

Que fazia entretanto o principe? Tratava da desforra de Leiria; e em
1139 levava a cabo o temerario fossado de Ourique, pagando uma estocada
com outra; e preludiando esse duello de morte, entre Portugal e o
Al-Gharb sarraceno, com um golpe que foi, com a rapidez penetrante do
raio, ferir o corpo musulmano quasi junto a Chelb ou Silves, o corao
da Hespanha austral. A esta aventura temeraria, mas feliz, ia succeder
em curtos annos a empreza mais seria e importante da conquista da linha
estrategica do Tejo: facto de um alcance capital, n'esse periodo em que
o futuro destino da nao fluctuava ainda indeciso entre a Galliza e a
Lusitania.

                      *      *      *      *      *

Desde que o antigo condado portucalense, batido na sua tendencia de
absorver a Galliza, conquistava a regio de entre Mondego e Tejo,
chegando a avanar padrastos ameaadores para o sul, era evidente que um
novo Estado se formava; e esse Estado nascia dos actos proprios do conde
portuguez, no de concesses ou beneficios do suzerano. Esse Estado era
pois um reino, uma vez que a esta palavra andava ligada, de um modo mais
ou menos definido, a ida da independencia, segundo o direito politico
dos godos. Foi, portanto, quando o plano de se apossar do sul do reino
comeou a occupar o espirito do guerreiro, orgulhoso pela victoria de
Ourique, isto , em 1139 ou 1140 (a erudio no conseguiu determinar a
ra) que Affonso Henriques tomou para si o titulo de rei. O caso no era
novo, porque por vezes a me usra chamar-se rainha de Portugal;
dava-se, porm, agora a circumstancia de que esse titulo, embora
juridicamente usurpado, o era com tamanho fundamento, que nunca mais
deixou de ser o dos soberanos portuguezes.

A razo politica da independencia, evidente hoje para a critica, no o
estava de certo para o rei, a quem as conquistas apenas satisfaziam a
ambio, e o titulo a vaidade. Via-se mais poderoso e grande; mas no
tinha de certo a consciencia de que isso importasse o primeiro passo no
caminho da formao de uma nova nao peninsular. Ferido, tirra do
sarraceno uma desforra completa; mas faltava ainda apagar a nodoa de
Tuy, rasgar esses tratados que ligavam, como vassalla,  cora soberana
de Leo, a sua cora ainda mal assente, o seu reino precario ainda. Uma
volta da fortuna podia outra vez precipital-o, das eminencias onde as
suas ambies o erguiam, na humilde condio de conde de Portugal.

Em Val-de-Vez Affonso VII assignra os preliminares de uma paz que os
acontecimentos dos annos posteriores no tinham consentido se traduzisse
n'um tratado definitivo; e agora no era j licito ao leonez exigir, nem
ao portuguez acceitar as duras condies de uma perfeita vassallagem.

O papado exercia ento na Europa uma especie de suzerania espiritual
sobre os principes christos; porque no meio d'esses guerreiros, bravios
e timidos como selvagens, o sacerdote tinha verdadeiramente o poder de
condemnar em nome de Deus.[38] Uma excommunho valia muitas
vezes mais do que um exercito. Assim, o cardeal Guido, legado do papa, 
quem em 1143 dicta em Zamora, onde Affonso Henriques foi vr-se com o
imperador (d'esse titulo usava Affonso VII) as condies do tratado de
paz. O portuguez desiste ahi das suas pretenes s fronteiras cedidas
por D. Urraca, e Affonso VII por seu turno reconhece a independencia do
novo reino e o titulo do seu soberano. Esta soberania e independencia
no eram, porm, absolutas. Na jerarchia feudal havia graus diversos de
suzerania e vassallagem correspondente; e os tratados de Zamora
alteravam a natureza, mas no quebravam de todo os laos que prendiam
Portugal ao corpo da grande monarchia peninsular. Affonso Henriques
ficava sendo um rei, mas o seu reino nem por isso deixava de fazer parte
do imperio da Hespanha; nem elle proprio, por tal frma, deixava de
ficar n'uma situao subalterna perante o imperador. Era uma vassallagem
politica, substituindo a pura vassallagem pessoal do regime anterior. O
direito feodal no se obliterra, porm, ainda ao ponto de prescindir de
uma obrigao pessoal; e por isso o soberano portuguez continuava a ser
vassallo do visinho, no como soberano, mas como senhor de Astorga, para
esse effeito doada a Affonso Henriques.[39]

Estas subtilezas propriamente byzantinas, inspiradas pela politica
ecclesiastica que imprimia o seu cunho ao feodalismo, formavam um
systema de enganos reciprocos, de mentiras mais ou menos sinceras, com
que se revestiam os actos brutaes da fora, e os actos perfidos da astucia.

Affonso Henriques, _regendi imperii jam bene sciolus_, mestre acabado na
arte de enganar e na arte de combater, tinha j formado o seu plano, e
por isso subscrevia sem reserva a todas as exigencias do tratado. A
independencia e a soberania que elle lhe dava eram apenas pessoaes e
vitalicias, e nas idas aristocraticas a hereditariedade era inseparavel
do dominio. O seu reino era pois um falso reino, desde que, no havendo
no direito politico dos godos outra base para a successo, alm da
electiva, ou Portugal seria por sua morte absorvido no imperio
hespanhol, em via de cristalisao, ou o filho de Affonso Henriques
teria de recomear a debater com as armas a questo vital da
independencia. Os termos do tratado decerto o no illudiam,
garantindo-lhe apenas pessoalmente a independencia e a soberania; e se
da parte do leonez houvera o intento perfido de o enganar, elle
preparava uma lico ao mestre, e to eloquente como fra cruel a lico
que dera ao sarraceno.

Entre os dous litigantes o italiano perspicaz foi provavelmente o
conselheiro de ambos. Guido, como o insecto artificioso e cheio de
habilidades, teceu a trama. Ao leonez mostraria o modo de illudir o
adversario: conceder-lhe tudo, deixando esse tenue cordo umbilical de
Astorga, para no momento opportuno fazer reverter os territorios
portuguezes ao corpo da monarchia soberana. Voltando-se depois, com um
sorriso, diria baixo ao portuguez, que o tratado no valia nada de
principio a fim, se elle quizesse seguir-lhe os conselhos. Todas as
habilidades do imperador provariam inuteis: tinha um meio
seguro!--Affonso Henriques devia ouvir com atteno tenaz as
confidencias do cardeal. Havia um direito superior ao direito feodal:
era o canonico. Havia um soberano, rei dos reis: o papa. Porque no
seria Affonso Henriques vassallo do papa? Collocasse os seus reinos sob
a suzerania papal, e nenhum imperador das Hespanhas ousaria tocar-lhes.
S assim a sua cora ficaria segura na cabea, d'elle e de seus
descendentes. A suzerania do papa era de resto infinitamente menos
incommoda. Reduzia-se a uma pequena somma de dinheiro. Um nada! Quatro
onas de ouro por anno, nem mereciam a pena contar-se deante da
independencia de facto. Se o rei acceitasse, elle proprio em pessoa
redigiria a carta, elle que redigira o tratado; elle proprio seria
portador da missiva ao papa. Se viera a Hespanha fazer a paz, iria de
Hespanha com o corao contente, por ter conquistado mais um vassallo
para a Egreja.--E mais um censo annual para o thesouro romano,
accrescentaria mentalmente!

Affonso Henriques desde logo acceitou. Pouco lhe importava o censo,
porque no tinha sequer a certeza de ser fiel ao pagamento. O cardeal
illudia-se, se suppunha que o rei tremia das excommunhes: um rei que
no havia de hesitar em rasgar as bullas pontificias, e pr e depr
bispos, como bem lhe approuvesse!

O cardeal partiu levando a carta do rei; e emquanto este ia formando a
teno de supprimir o pagamento do censo, logo que lhe conviesse
fazel-o, o cardeal foi pela viagem ruminando o modo de colher as onas
de ouro, sem se inimisar com o leonez. S annos depois Affonso VII veio
a saber como o visinho e j quasi mulo illudira as disposies do
tratado de Zamora. Insistindo com o papa para que recusasse a
vassallagem, no o consegue; mas tampouco Affonso Henriques consegue
aquillo por que pagra o preo de quatro onas de ouro annuaes; pois nas
piedosas cartas que lhe escreve, como suzerano a vassallo, o papa
cuidadosamente evita chamar-lhe _rei_, e _reino_ a Portugal.

Em vo Affonso Henriques insta e exige. Por fim, j nos derradeiros
annos do seu reinado, e  custa de um presente de mil morabitinos e do
augmento do censo annual, Alexandre III decide-se, e sancciona-lhe o
titulo, garantindo-lhe a hereditariedade, sob condio de preito e
confirmao outorgada aos seus successores.

                      *      *      *      *      *

Portugal, que j a esse tempo tinha uma razo de ser territorial
independente da Galliza, achava agora um fundamento juridico de
independencia de Leo. A suzerania do papa collocava o novo reino ao
abrigo das pretenes da monarchia leoneza; e se Affonso Henriques no
saa da condio subalterna de vassallo, porque apenas mudra de
protector ou suzerano, o facto  que na mudana ganhava uma liberdade
real, esperando o que de facto veiu a conseguir: que a vassallagem se
tornasse nominal apenas.

Ainda no tempo do primeiro rei portuguez de novo se ateia a guerra com
Leo; mas basta um exame superficial dos monumentos historicos para vr
que o caracter e as condies d'essa nova campanha so j totalmente
outros. No  um vassallo rebelde pugnando pela independencia:  o
choque de duas monarchias que reciprocamente se reconhecem como taes. A
serie de guerras entre os diversos estados da Peninsula--caminho por
onde ella chegou a determinar as condies definitivas das suas
constituies politicas--tem na campanha de 1160 um episodio. Affonso
Henriques, j rei de facto e de direito, j senhor da linha estrategica
de Santarem, e possuindo alm d'isso, como vedetas avanadas para o sul,
varias praas do Alemtejo, dispunha de foras sufficientes para pesar
com a sua espada no debate das questes politicas dos Estados
peninsulares. Desde que se decidisse a fazel-o,  natural que a velha
ambio das fronteiras dilatadas de norte e nordeste fosse a causa
efficiente dos seus actos.

Fernando II de Leo casra com uma filha do rei portuguez, mas nem ao
genro nem  filha Affonso Henriques cedia os seus ambiciosos propositos.
Raras vezes a politica tomou em considerao os vinculos de familia. O
rei de Leo usurpra a cora de Castella, e contava que a esposa lhe
trouxesse a alliana do portuguez; porventura teria havido
intelligencias positivas entre os dois monarchas. Quando com uma livre
audacia se rompiam as pazes mais solemnes, que admira que se mentisse a
convenios ou ajustes privados? Affonso Henriques era, como se sabe,
mestre na arte de reinar. O facto  que, logo um anno depois do
casamento da infanta, aproveita o momento em que o rei Fernando se
achava a braos com a insurreio dos castelhanos, para mandar seu filho
e herdeiro, Sancho,  batalha de Arganal, onde foi batido (1165).
Invadindo em pessoa a Galliza, o rei apossra-se facilmente de Tuy e do
districto de Toronho at ao Lerez, seguindo d'ahi para leste (1166).
Essa nova occupao portugueza da Galliza dura at ao desastre de
Badajoz (1169).

Correndo ento ao sul, Affonso Henriques decide-se a consolidar as suas
possesses do Alemtejo, conquistando Badajoz aos sarracenos. Este acto,
porm, era simultaneamente um episodio da guerra com Leo, porque o wali
de Badajoz se collocra sob a suzerania de Fernando II, e porque a praa
ficava para fra dos limites de leste, marcados em Zamora s futuras
conquistas do rei de Portugal sobre os musulmanos.

A cidade caiu sobre o ataque do portuguez. Colhidos por surpreza, os
defensores encerraram-se na alcaova, resistindo. Poz-se o cerco, mas
entretanto o rei de Leo, avisado, correu a defender o que era seu; e
Affonso Henriques foi colhido entre dois inimigos. De sitiante viu-se
cercado.

Afinal o temerario capito caa em poder do adversario, afinal o caador
colhia-o fra do refoio. Debate-se, estrebuxa e, ainda vencido, lucta
desesperado; mas est pesado, velho e gasto. Faltam-lhe as foras para
arremetter como d'antes, com a cabea baixa e as presas activas, contra
a matilha dos lebreus. Tropea e ce.  colhido. Cumpria-se o anathema:
Deus castigava o filho que prendera sua me! Prisioneiro, curva-se
submisso, recolhendo a colera e os dentes aulados, perante o seu nobre
vencedor. Tal nome convem de facto a Fernando II, cuja magnanimidade
perdoou as perfidias e ataques do visinho e sogro. Restitua o que
roubou, guarde o que  seu, e v em paz! Cabisbaixo, com o joelho
ferido, a coxear, Affonso Henriques parte d'alli a Santarem, concluir o
que lhe resta de vida. No tem coleras, nem fundas magoas pela afronta
que soffreu: s lamenta a virente Galliza, perdida para todo o sempre.

Como o avarento, em cuja alma a paixo exclusiva absorveu todos os
sentimentos e paixes humanas, assim na alma de Affonso Henriques a
monomania da conquista, doena vulgar nos principes da Edade-mdia,
atrophira o desenvolvimento de tudo o mais. Mas, se entre os consocios
de uma patria irman, se entre os herdeiros de uma historia commum, ha o
amor por essa patria e a venerao pelos antepassados, nenhum merece na
alma dos portuguezes respeito maior, do que o primeiro de todos aquelles
a cujo brao esforado se deve a obra da constituio politica da nao.
N'este sentido as manias chegam a ser sublimes. Um salteador , no
raro, um verdadeiro heroe; a perfidia  uma virtude, a crueldade  um
titulo de gloria, porque o espirito collectivo substitue o criterio
moral e abstracto pelo criterio historico, o qual tem como base a
consagrao dos factos consummados.

A separao de Portugal foi um facto consummado, graas ao valente
mediocre, tenaz, brutal e perfido caracter de Affonso Henriques.

    [32] V. _Hist. da civil. iberica_ (3. ed.), liv. III, 1.

    [33] Resumimos  politica o campo das nossas observaes, por
         termos deixado na _Hist. da civil. iberica_ desenhados
         os traos geraes dos movimentos propriamente sociaes. V.
         Livro III; pass.

    [34] V. _Hist. da repub. romana_, I, pp. 309-48.

    [35] _V. Hist. da civil. iberica_ (3. ed.) pp. 113 e segg.

    [36] V. _Instit. primitiv._, p. 215.

    [37] V. _Instit. primitivas_, p. 165.

    [38] _Th. da hist. universal_, nas _Taboas de chronol._, XXXII-III.

    [39] V. _Quadro das instit. primit._, pp. 267-75.

                      *      *      *      *      *




II

A conquista do Al-Gharb


Nas suas emprezas contra Leo, Affonso Henriques, batido sempre como
guerreiro, conseguira desforrar-se dos desbaratos com a astucia. Das
duas faces que apresenta a historia da fundao da monarchia, vimos a
primeira: resta-nos vr a segunda. Assistimos aos actos do politico;
vamos assistir agora s fecundas emprezas do conquistador.

O principe trazia para a guerra as manhas da crte, sem prejudicar a
firmeza necessaria, a bravura, o sangue-frio e a audacia. Com este
conjuncto de elementos dava um caracter original  guerra (_novo genere
pugnandi_). Ia de noute, s escondidas (_furtim_), como um chefe de
bandidos em assalto a algum villar, fortificado, no pendor de uma serra
distante (_quasi per latrocinium_). Assim investiu e tomou Santarem.
Assim conquistou a maior parte dos castellos das provincias de Belatha
e Al-Kassr, este inimigo de Deus! diz o chronista arabe. O ponto de
ataque era de antemo escolhido. Por uma noute escura e tempestuosa
punha-se a caminho com um troo de homens resolutos: dir-se-hia uma
quadrilha de salteadores. Galgavam rapidamente as distancias, e chegados
ao destino, apeiavam-se, approximando-se caladamente dos muros. Affonso
Henriques encostado  escada, era o primeiro a subir com o punhal preso
entre os dentes. Parava, escutava, com o olhar agudo, a respirao
suspensa: afinal pousava ancioso o p entre as ameias, e apertando o
punhal nas mos, cozia-se com os muros. Na sombra no o distinguiam.
Caa como um falco sobre a sentinella, e apunhalava-a antes que ella
podesse tugir um grito. Entretanto os companheiros iam subindo. O bando
reunia-se na esplanada, armado e resoluto, o ao grito de Santiago!
caa sobre a guarnio adormecida e trucidava-a. Tal foi o modo por que
este inimigo de Deus tomou a maior parte dos castellos das provincias de
Belatha e Al-Kassr!

Havia porm ainda outra maneira de guerrear, cuja inveno no pertence
a Affonso Henriques: era o systema de lgaras, fossados ou correrias,
atravez dos extensos territorios fronteiros. De um lado e de outro,
n'uma zona mais ou menos larga, conforme o ordenavam a constituio
geographica e a estrategia, desdobravam-se as charnecas periodicamente
assoladas. Aqui e alm, apertadas em cintos de muralhas, ficavam as
povoaes, em cuja volta, como oasis, appareciam malhas de terrenos
agricultados. Confiar ao nervo e  velocidade dos cavallos o transpr as
passagens perigosas d'esses desertos onde as sortidas dos castellos
podiam cortar a retirada, e cair impetuosamente sobre as searas,
incendiando-as, sobre os rebanhos, roubando-os, sobre os tardivagos,
matando-os; talando os campos, cortando as arvores, incendiando as
casas, e voltando rapidamente com as prezas feitas: tal era o processo
egualmente seguido por christos e sarracenos; reduzido j a um systema
de invases annuaes na epocha das colheitas, e contado como principal
recurso financeiro da rude economia do tempo.

Se a tomada de Santarem (1147)  um typo da primeira especie, a batalha
de Ourique, ou Orik (1139),  o typo da segunda. A fortuna accendia a
audacia de Affonso Henriques, que levou o fossado por entre as fortes
posies de Santarem e Alcacer, deixando Palmella, Cintra e Lisboa na
retaguarda; atravessando o Tejo, para ir talar os campos de Chelb ou
Silves, emporio sarraceno da Hespanha lusitana. Poucas vezes, porm, um
fossado era apenas uma correria e um saque. As guarnies dos castellos
passavam signal, combinavam sortidas; e o episodio de uma batalha
acompanhava quasi sempre a obra de depredao. A batalha de Ourique,
qualquer que tivesse sido a importancia numerica dos combatentes, deu a
Affonso Henriques uma victoria que o encheu de animo para entrar em
campanhas mais regulares e fecundas.

Os primeiros nove annos do governo do principe tinham sido absorvidos
pelas questes leonezas, quando em 1137 uma invaso sarracena veiu
destruir Leiria, que elle erguera para defender Coimbra das subitas
investidas dos inimigos. Ourique desforrou-o do desastre, que o rei por
outro lado remediava reconstruindo o castello, ento fronteiro do
extremo sul dos seus Estados. Mas logo o musulmano responde, voltando
como uma onda que, alastrando o territorio christo, vae rolando at aos
altos de Trancoso, deixando pela segunda vez derrubadas as muralhas de
Leiria. Affonso Henriques consegue dominar a invaso, que retrocede ao
abrigo da linha do Tejo; e retribue logo a visita com uma tentativa
frustrada sobre Lisboa. Depois, alliado ao wali de Mertola contra o de
Santarem, vae assolar os districtos de Merida e Beja. Nos intervallos
d'estas correrias, o rei ferira as batalhas do tratado de Zamora, e
ganhra a victoria que lhe preparou o cardeal Guido.

O periodo de dez annos que est entre 1137 e 1147 offerece n'estas
guerras o aspecto de um movimento que oscilla, como um pendulo suspenso
de um ponto que  Lisboa: invases sarracenas para o norte, portuguesas
para o sul do Tejo, instabilidade de resultado de ambas. O eixo d'este
movimento era evidentemente Lisboa e o systema das suas linhas de
defeza--Cintra-Almada-Palmella-Santarem. A conquista da linha do Tejo
tornava-se a condio indeclinavel, no j do alargamento, mas at da
conservao da monarchia de Affonso Henriques.

Demasiado, porm, sabia elle que os recursos militares de que dispunha,
se chegavam para os fossados annuaes, se bastavam para conquistar _quasi
per latrocinium_ os castellos isolados, eram demasiado escassos para
tentar empreza to vasta como a da conquista do systema de fortalezas
que formavam o nucleo defensivo do centro do que foi depois o reino
portuguez. Na tentativa frustrada que fizera sobre Lisboa em 1140 fra
ajudado por uma esquadra de Cruzados. As suas esperanas estribavam-se
n'um auxilio d'essa ordem: at porque, sem foras navaes para entrar no
Tejo--ainda ento no havia marinha militar--seria absurdo tentar a
empreza.

Entretanto, sete annos iam passados depois d'essa primeira appario dos
Cruzados, sem que outros viessem proporcionar-lhe occasio para realisar
os seus designios. Impaciente, orgulhoso ainda com o resultado da
correria de Beja (1145), seguro do lado de Leo pelas pazes de Zamora,
forte pela confirmao do seu titulo, confiado na proteco papal--o
sangue pula-lhe nas veias, e decide tomar Santarem, (1147) _ sua moda_,
isto , por surpreza. Pela calada da noute appareceu  raiz das muralhas
da villa. Pozeram-se escadas. Subiu um furtivamente e abafou uma _vela_
(sentinella); depois subiu outro, depois terceiro, e depois que todos
tres foram em cima do muro, a vela que estava em cima do caramancham,
quando sentiu Mem Moniz que se ia alongando, disse-lhe: Manahu! e elle
respondeu-lhe em aravia e fel-o descer, e logo que foi em baixo
cortou-lhe a cabea e deitou-o aos de fra. E ento elles poseram outra
escada e subiram por ambas o mais toste que poderam, e foram tantos que
se apoderaram do muro e britaram as portas por onde entraram elrey e os
que com elle foram. E d'esta guisa foi furtada a villa de Santarem aos
mouros. O resultado correspondeu pois ao plano, e quem sabe se a
temeridade teria arrastado o rei a proseguir do mesmo modo contra
Lisboa? No foi, porm, necessario. Esse anno vieram os Cruzados[40] por
quem suspirava, e com elles metteu hombros  empreza.

A guerra toma desde ento um caracter regular de cercos e campanhas. Os
meios correspondem aos propositos, e estes  ida da nao que comeava
a definir-se.

                      *      *      *      *      *

A tomada de Lisboa lavra a acta do nascimento da nao portugueza, at
ahi envolvida nos limbos da gerao. O cerco affigura-se-nos como o
concilio internacional, uma especie de congresso guerreiro, em que a
Europa baptisa o recem-vindo  luz da historia. Creado pelos actos
geradores da vontade de um homem, abrigado pela gide da Egreja,
Portugal tem a existencia confirmada pela sanco dos exercitos cruzados
da Europa. O caracter cosmopolita da sua vida futura, da sua ulterior
phisionomia politica, parece ter-lhe sido desde logo imposto, como um
baptismo, quando, em frente d'essa piscina do Tejo, onde fundeiam
duzentas naus coroadas pelos pavilhes de tantas naes da Europa, se
estende o cordo do exercito de flamengos, lotharingios, allemes e
inglezes.

As columnas dos cavalleiros cruzados combatem ao lado das mesnadas dos
bares portuguezes, estendendo-se em meia lua, a investir o morro de
Lisboa; e com as pontas apoiadas contra o rio, formam metade do cinto
que a armada, fundeada no Tejo, encerra. Com os frankos e inglezes,
colossaes de estatura, rubros de sangue, herculeos de musculos, vem
italianos sagazes, mestres consummados na arte das minas ou sapas. Sobre
os navios e do lado da terra a arte acorre em auxilio da fora. Os
inglezes montavam as suas manganellas ou catapultas, os frankos as suas
torres; e Affonso Henriques pasmava d'esses maravilhosos instrumentos
deante dos quaes a escada e o punhal do salteador nocturno pareciam
miseraveis. Acaso a comparao offendia a sua opinio, bem fundada, de
atrevido; acaso achava mais rapido e simples confiar o resultado aos
seus expedientes favoritos de condr: o facto  que decidiu comear por
um assalto. Foi no dia 3 de agosto que pela primeira vez rebombou a
trovoada dos golpes do moganons, o stridente sibilar das settas
despedidas do alto das torres, e das pedras soltas das fundas,[41]
o clamor apocalyptico dos combatentes, erguendo um cro de
imprecaes ferozes, proferidas nas mais desvairadas linguas.  tormenta
dos sons respondiam os relampagos do pez, do azeite, da estopa
incendiada, que os muros de Lisboa vomitavam sobre os assaltantes,
ajudando o sol que, illuminando a scena, congestionava as cabeas dos
filhos da algida Germania, da Britannia ou da Frankonia. s ondas de
lume, ao lume do sol, veio juntar-se um novo claro de chammas e de
grossas voltas de fumo negro que subia cravejado de scentelhas a
perder-se no ar: as torres ardiam! O assalto era repellido; a tentativa
falhra.

Comeou o cerco. Em poucos dias a voracidade feroz dos homens louros do
norte destruiu quanto havia em torno de Lisboa: hortas e pomares,
villas, cazaes e granjas. Dentro da cidade escasseiavam os mantimentos,
e bandos de soldados fugiam com fome: do alto dos muros, os que ficavam
perseguiam-nos com surriadas de pedras. Os gastadores minavam, atulhando
a sapa com lenha cortada nos arredores: no dia decisivo, o fogo,
consumindo esses transitorios esteios, roubaria a base s muralhas. Os
italianos construiam uma grande torre, que ficou terminada em meiado de
outubro, quando a resistencia de Lisboa tocava o extremo. Queimaram-se
os robles da sapa, assestaram-se os tiros, prepararam-se as columnas de
soldados, e deu-se o assalto, logo que se ouviu o estrondo de um panno
inteiro das muralhas que se derrocava do lado do oriente.

Lisboa capitulou. Os Cruzados cevaram o amor do ouro, da prata, e das
mulheres formosas, (_auri et argenti et pulcherrimarum fminarum
volupias_) que os levava  Syria; e Affonso Henriques tomou posse da
cidade. As fortalezas satellites de Lisboa no podiam resistir: Cintra,
Palmella, e Almada Cairam em curto espao nas mos dos vencedores.

A base geographico-maritima de Portugal estava ganha para no mais se
perder; e se o rei fra o author do facto da separao, era o rei quem
todos os dias ia adiantando a obra de uma independencia positiva e
formal. Lisboa no valia menos, para tal fim, do que a proteco de Roma.

                      *      *      *      *      *

Esses dias de Zamora e de Lisboa (1143 e 47) marcaram o apogeu do
reinado do primeiro monarcha portuguez. Batido em Badajoz pelo genro
leonez (1169), foi-o tambem nas suas novas conquistas, pelo sarraceno
(1161-71). Affonso Henriques no era j o mesmo homem: a edade
quebrra-lhe o vigor de outros annos; e o perdo de Badajoz e as armadas
dos Cruzados deviam ter quebrado tambem a cega confiana que punha nos
seus recursos e habilidades. Via que no corao dos homens podia haver
mais do que ambio e manha; e na arte da guerra processos mais valiosos
do que a escada e o punhal, a _razzia_ e o assalto nocturno. Taes
observaes, acompanhadas pela ferida do joelho que o conservava tolhido
roiam o velho capito no seu antro de Santarem (1171).

O enthusiasmo da tomada de Lisboa tinha-o impellido a proseguir,
aproveitando a commoo triste dos vencidos e o apparecimento de novas
frotas que agora, christan Lisboa, demandavam o Tejo, para refrescar,
nas suas viagens para a Palestina.

Al-Kassr, ou Alcacer-do-Sal, era, para alm de Lisboa, o centro
estrategico da linha de defeza do Alem-Tejo, que guardava Chelb ou
Silves. Logo depois de rendida Palmella, Affonso Henriques, confiando
demasiado nas proprias foras, investira, s e ao modo antigo, o
castello de Alcacer, mas fra cruelmente vencido (1151). Annos depois,
vale-se do auxilio de uma frota ingleza, sem conseguir render a desejada
praa (1157), que afinal ce perante o ataque combinado das foras
portuguezas e alliadas da Cruzada de 1158. Evora e Beja cedem tambem por
essa occasio; e dir-se-hia que Silves, desguarnecida da sua linha de
fortalezas fronteiras, ia cair rapidamente nas mos do afortunado principe.

No era, porm, assim. Essas successivas conquistas das praas do
Alemtejo no tinham a importancia decisiva que tivera a de Lisboa.
Levantadas como pontas de rocha isoladas, no meio dos vastos campos
desolados, as praas do Alemtejo offereciam aos guerreiros abundantes
prezas; e por isto os Cruzados de to boa vontade paravam aqui, a
preludiar na Hespanha o programma feito para a Syria. Saqueadas,
incendiadas, porm, ou arrazadas, o seu valor para o reino era por certo
lado pequeno ou nullo. O rei no dispunha de foras bastantes para
guarnecer to numerosos castellos e to dilatadas fronteiras. J para
conseguir manter a linha do Tejo, tivera de doar s ordens
monastico-militares estrangeiras (Hospital, Templo, Santiago) as praas
rayanas de Thomar, de Palmella, de Leiria. Os territorios despovoados e
ns no vinham augmentar-lhe o numero de soldados, nem a riqueza. Para
que isso succedesse era mister que a paz e o tempo fomentassem o
desenvolvimento natural das foras economicas. Assim, desde que as
armadas dos Cruzados, abarrotadas de prezas, largavam a bahia do Tejo,
Affonso Henriques, tornando a achar-se a ss com os seus recursos
militares, era forado a abandonar as conquistas avanadas do Alemtejo.
Annos havia, tomra e deixra Beja: e agora (1158), das praas
conquistadas, apenas guarnecia e conservava Alcacer.

Estas campanhas do Alemtejo esto perante Silves como, antes, as da
Estremadura perante Lisboa: emquanto o sarraceno pisar o Algarve, sero
precarias todas as conquistas n'este largo trato de terreno devastado
que no poder nutrir-se e prosperar, emquanto no estiver ao abrigo das
invases. Porque no foi Affonso Henriques cair directamente sobre
Silves, aproveitando-se de alguma esquadra de Cruzados, em vez de
consumir as suas foras na empreza esteril das correrias, conquistas e
saques das praas do Alemtejo? Porque evidentemente lhe faltava a larga
vista das aguias dominadoras, tendo s o que  commum a todas as aves de
rapina: o ataque fulminante, e a garra cheia de fora e tenacidade.

Depois de saquearem Alcacer, os Cruzados tinham partido; e a noticia dos
successivos desastres dos ultimos onze annos decidira os almuhades[42]
a tratar seriamente de pr cobro aos progressos de Affonso
Henriques. Invadem o Alemtejo; e junto de Alcacer, seis mil portuguezes
mortos, o exercito desbaratado, decidem a perda de todo o Alemtejo
(1161) pondo em perigo Lisboa. Os sarracenos chegaram a tomar Palmella e
Almada, mas julgaram prudente abandonar esses pontos destacados na
peninsula de entre o Tejo e Sado. Desde que outras emprezas obrigaram a
retirar o exercito almuhade depois de fortificar Alcacer, j Affonso
Henriques, e os seus discipulos em aventuras podiam  vontade recomear
as correrias e assaltos. Effectivamente, em 1162, um troo de burguezes
toma Beja por surpreza; e em 1166 um bando de salteadores, com Giraldo 
frente, de escada ao hombro, punhal nos dentes, entra uma noute em
Evora, que saqueia e atulha de cadaveres. Eram portugueses? eram
sarracenos? eram de uns e d'outros; eram uma das muitas companhias de
bandidos que batalhavam por conta propria, sem noo de patria a que
pertencessem, nem de religio que seguissem. Tinham por culto apenas a
ladroagem, e adoravam o deus do estupro, do saque, da matana. Eram de
todas as naes; e falavam uma algaravia, mosarabe nos christos,
_most_'latina nos musulmanos--uma lingua franca.

Affonso Henriques no podia socegar vendo essas faanhas. Eil-o outra
vez a cavallo, Alemtejo em fra, a correr charnecas e arremetter
cidades: Moura, Serpa, Alconchel, e, internando-se pela Estremadura
hespanhola, Caceres o Tordjala, ou Trujillo (1166). Essa era a sua
paixo, o seu furor. Que importa, se, apenas voltava costas, logo se
erguia de novo a bandeira musulmana nas muralhas que escalra  traio?
Elle tambem voltaria, no vero seguinte, a repetir a sua faanha. E
assim, por falta do genio militar do conquistador, as scenas
repetiam-se, os castellos passavam successivamente de mo em mo, e
portuguezes e sarracenos apenas podiam chamar seu ao terreno que
actualmente pisavam. Se as foras proprias do portuguez lhe no
consentiam outra cousa: se, sem o auxilio dos Cruzados, no podia
abalanar-se  empreza de Silves, melhor fra sacrificar a paixo ao
interesse proprio, consolidando o dominio, do que pr em perigo o
Portugal cistagano, por consumir de um modo esteril as foras militares
do novo reino nas correrias transtaganas. O rudo capito no tinha porm
intelligencia para tanto: a correria arrastava-o, a presa seduzia-o, e a
guerra governava-o a elle, em vez de ser elle quem governava a guerra.
Sem plano fixo,  toa,  aventura, internra-se at Trujillo e queria
tomar Badajoz, invadindo territorios que, apesar de sarracenos, eram
vassallos do visinho monarcha de Leo. A sua loucura teve a sorte de
todas as loucuras; e j o vimos coxeando e duplamente ferido, no joelho
e nos brios, caminhar a esconder a sua vergonha em Santarem (1169).

O desastre de Badajoz devia ter soado por todo o Al-gharb, onde as
correrias e faanhas do bando de Affonso Henriques espalhavam a angustia
e o terror; e o musulmano, inimigo por patria e religio, no devia ao
bulhento principe a generosidade magnanima do genro leonez. Um novo e
poderoso exercito transpe o Tejo, e vem cercar o ferido em Santarem
(1171). Acode-lhe Fernando II que, como verdadeiro rei, sabia calar os
resentimentos pessoaes, deante de um perigo commum para todos os
principes christos da Peninsula. Duas vezes salvo pelo genro que o
vencera; humilhado, abatido, ferido e velho, Affonso Henriques j no 
o irrequieto soldado de outros tempos. Santarem que ganhra por esforo
proprio, escalando os muros, era o seu tumulo. Ahi n'um leito gemia
dores de muitas especies: todo o Alemtejo estava perdido; e agora (1184)
Jussuf, o grande mir de Marrocos, vinha em pessoa, dirigindo o
exercito, cercal-o outra vez. Acudiria o genro outra vez a salval-o?
Cinco annos havia que o exercito musulmano passeiava triumphante pelos
seus reinos. No pudera entrar em Abrantes, mas tinha destruido Coruche,
que era para a defeza de Lisboa e da linha do Tejo, como fra Leiria
para Coimbra e para a linha do Mondego. Evora apenas resistiria s
invases, que tinham levado Alcacer e Serpa, Beja, Moura, Jerumenha e
todo o Alemtejo (1179-82). Como o javali, encerrado no covil e perdido,
o guerreiro contava as horas, e antecipadamente sentia o penetrar das
lanas nas suas carnes abatidas pela edade, e o quebrar dos seus ossos
to rijos ainda, mas mal governados pelos tendes flacidos. Chorava;
talvez se arrependesse dos seus erros. Feliz porm mais uma vez, os
acasos imprevistos concorriam para o salvar.  magnanimidade do genro
devera o no ter ido acabar n'alguma masmorra escondida nas montanhas
das Asturias; e a esta circumstancia, verdadeiramente excepcional, de um
principe generoso, devera tambem o salvar-se do primeiro cerco. Em vez
de Fernando, que no acudiu agora, veiu em seu auxilio a sorte que matou
o mir de Marrocos, e espalhou uma peste no meio do exercito almuhade.

Levantou-se o cerco, Affonso Henriques pde respirar ainda livre os
ultimos annos da sua j acabada vida.

                      *      *      *      *      *

O pensamento que elle no soubera ou no pudera realisar, coube ao filho
e herdeiro pr em pratica. O modo serio de conquistar o Alemtejo era ir
com os Cruzados, por mar, investir Silves. Logo que Sancho I herdou o
reino, e desde que appareceu no Tejo a primeira armada, decidiu-se levar
a cabo a empreza. J ento havia uma frota portugueza; e se 
constituio geographica do corpo da nao faltava a metade meridional,
o corao, Lisboa, pulsava j independente e vivo; os navios da primeira
expedio do Algarve so d'isso a prova. Abria-se agora uma segunda
epocha; e, ou filha do genio do monarcha, ou proveniente da expanso
natural das foras nacionaes, ou resultado das duas causas combinadas, o
facto  que, entrados n'uma segunda edade, respiramos um ar diverso,
observamos um typo differente e uma nova phisionomia da nao.

Consolidam-se as conquistas, povoam-se e fortificam-se as villas, comea
a esboar-se a administrao, abandona-se a guerra de escada e punhal.
Ha um pensamento na politica e uma ida nas campanhas. Sancho I  j um
rei: Affonso Henriques fra como um bandido,  imitao de Pelayo.

O districto de Chenchir ou Al-faghar--assim os arabes denominavam o
nosso moderno Algarve,--era o que  hoje ainda: um jardim estendido
sobre a costa, e apoiado contra um muro de serras que o defendem dos
ventos do norte. A guerra no conseguira mirral-o, como succedeu  costa
da Berberia, fronteira. Retalho da Africa, scindido pelo mar do Calpe,
no Algarve tinham os arabes achado um pedao da sua patria. O clima, a
flra, no eram bem europeus; e quem, nos fins do XII seculo, visitasse
Silves, ou Chelb, dir-se-hia transportado a uma cidade oriental. D'entre
as varias raas que tinham vindo  Peninsula, foram os arabes do Yemen
que principalmente a povoaram. Chelb ao sul, Hayrun (Faro) mais ao
norte, eram as duas cidades principaes do Al-faghar; mas a primeira
excedia em muito a segunda. Contava cerca de trinta mil habitantes, era
opulenta em thesouros e formosa em construces. Davam-lhe a primazia
entre as cidades da Hespanha arabe. Vestida de palacios coroados pelos
terraos de marmore, cortada de ruas com bazares recheiados de
preciosidades orientaes, cercada de pomares viosos e jardins, Chelb era
a perola de Chenchir, onde os prodigos da Mauritania vinham gosar com as
mulheres formosas, de puro sangue arabe, os seus ocios luxuosos. Era ao
mesmo tempo uma praa temivelmente fortificada.

Quando pela primeira vez as armadas combinadas, dos portuguezes e dos
Cruzados, appareceram na costa de Al-faghar, Chelb intimidou os
guerreiros frisios e dinamarquezes, a ponto de lhes dominar a avidez com
que namoravam uma preza de tamanho quilate. No se atreveram a atacar,
limitando-se a tomar Albur (Alvr), e retirando com um saque abundante.

Para os Cruzados, homens louros do norte que, sob a ingenuidade azul dos
olhos, escondem uma crueldade fria e pratica e um desvairado appetite
dos gosos vedados aos climas setentrionaes, a empreza de Chelb tinha o
valor da riqueza a roubar, das bellas mulheres, d'esse Oriente
mysterioso e seductor, a gozar sobre os leitos de sedas da India ou nos
ffos tapetes da Persia. Eram voluptuosidades que antegostavam;
calculando ao mesmo tempo os thesouros de pedrarias, os marfins, os
estofos preciosos, a myrrha, o incenso, os metaes reluzentes, com que
voltariam s suas agrestes serras, s suas costas algidas, deslumbrar as
noutes veladas  luz baa da candeia, de azeite de phoca. Positivos e
praticos ao mesmo tempo, mediam bem o impossivel da aventura, e por isso
preferiram  temeridade de atacar Chelb, a modestia de saquear Albur.
Bastava-lhes o que levavam.

No succedia outro tanto a Sancho I. A conquista do Al-faghar tinha para
elle um alcance maior. E os portuguezes mais familiarisados com as
seduces dos costumes arabes, menos sensiveis s tentaes da carne,
mais abertos aos arrebatamentos da paixo, como todos os homens do sul,
tinham um proposito mais firme e intenes diversas.

Logo depois da primeira tentativa frustrada no proposito essencial,
appareceu no Tejo uma segunda e mais poderosa armada de guerreiros do
norte. Decidiu-se ento a conquista de Silves. Sancho e as tropas
portuguezas iriam por terra, atravez do Alemtejo, investir a cidade pelo
norte, cortando os soccorros de Alcacer e das demais praas
transtaganas: emquanto as armadas combinadas iriam por mar e, subindo a
ria de Silves, poriam o cerco pelo sul, apoiando-se nos navios.

Silves, collocada n'uma eminencia e defendida por fortes muralhas, em
cujo recinto, no corao da cidade, se erguia a almedina ou alkassba,
estava ligada a uma torre albarran por uma couraa. A torre defendia uma
vasta cisterna que dava agua  cidade: conquistal-a seria, portanto, o
preludio do cerco. Desembarcados, os Cruzados comearam por assolar os
arrabaldes, destruindo quintas e casaes, trucidando os tardivagos,
incendiando e roubando, segundo a regra invariavelmente seguida n'estas
emprezas. Quando em torno dos muros no havia mais do que destroos,
ruinas e cinzas, atacaram a torre albarran. Foi em 21 de julho de 1189,
esta primeira tentativa frustrada. Em 29 chegou por terra el-rei Sancho,
cerrou-se o cerco, e prepararam-se os meios do ataque decisivo. Os
sitiados, no desespero, aulavam o furor e a cubia dos inimigos com
insultos e crueldades. Nas ameias da torre albarran penduravam pelos ps
os prisioneiros christos; e alli, em frente do exercito, como exemplo e
ameaa, matavam-nos s lanadas. Era ardente o furor, incansavel o
trabalho. Estavam preparadas e promptas as machinas de guerra: comearam
os assaltos. Os allemes tinham montado um vae-vem coberto, cujas pontas
de ferro trabalhavam impunemente na derrocada dos muros: era a _origa_
dos gregos, a _testudo_ de Vitruvio, o _ericius_ das guerras dos
romanos, em portuguez _ourio_--uma catapulta couraada contra as massas
de estopa a arder em azeite que sobre ella os defensores vasavam. Muitas
torres, numerosos trons batiam os muros e levantavam os sitiadores 
altura das ameias. A albarran cau por fim, entulhou-se a cisterna. As
fontes dos pateos ajardinados de Chelb deixaram de correr, e a sede veiu
auxiliar as machinas e as armas dos christos. Os musulmanos,
fortificados na almedina, resistiam, comtudo.

O cerco entrava desde esse momento n'uma phase nova. Os assaltos
repetiam-se, infructiferos, e a alkassba parecia intomavel.
Soccorreram-se s artes dos mineiros de Italia; mas os arabes eram
egualmente mestres na engenharia. As galerias subterraneas cruzavam-se,
encontravam-se, rompiam-se. Fatigados de pelejar em vo,  luz de um sol
abrazador, transferiram os combates para o corao da terra. Os
gastadores eram soldados, e rijas batalhas eccoaram n'essas galerias. A
lenha accumulada ardia presa do fogo; e  luz das chammas, buscavam-se,
um a um, os inimigos, ferozes como tigres, punhal ou alfange em punho, e
estrangulavam-se, despedaavam-se, como feras. O crepitar do fogo
acompanhava as imprecaes roucas, e nos olhos havia mais chammas do que
nos montes de troncos e ramos incendiados. O sangue corria dando  lama
das galerias subterraneas a cr do barro com que em tempos mais felizes
os arabes ladrilhavam os seus eirados alegres e os seus pateos ajardinados.

A furia dos combates era excitada pelos calores da sde. Os sitiados
ardiam em febres. Viam-se ns estendidos sobre as lages das ruas, sobre
os ladrilhos das casas, para refrescar a pelle. Comiam o barro do cho.
Estorciam-se, desesperados, e morriam pelas esquinas. As ruas deixavam
apodrecer os cadaveres, e as mes engeitavam os filhos, quebrando-lhes
os craneos tenros contra as umbreiras das portas.

Nos sitiantes a furia era outra. Durava j um mez o cerco, o no fra
para to demorada campanha que os Cruzados tinham vindo. A alkassba no
caa! os perros musulmanos no se rendiam! Entretanto elles, Cruzados,
iam morrendo de feridas, de insolaes; e o despojo promettido no
chegava. No podiam perder assim o seu tempo. Isto diziam uns; outros
no queriam abandonar o trabalho gasto, e despedir-se de uma presa meio
conquistada. Sancho I, desanimado, pensou em retirar. Ento rebentaram
as iras; porque a segunda opinio vencera no animo dos Cruzados. Quasi
chegaram s mos, os portuguezes e os homens louros do norte. Finalmente
a alkassba rendeu-se nos primeiros dias de setembro; mas isso deu logar
a novas rixas. O rei queria uma cidade, e no um despojo. Os Cruzados
queriam o contrario. Sancho offereceu pagar-lhes o valor da presa; os
Cruzados recusaram. Havia uma cousa que o rei no podia pagar com ouro:
era o delirio do saque, a orgia das matanas e dos estupros. Esses
ferozes caadores de mouros queriam retoiar-se pelo interior das
alcovas mysteriosas, e enterrar os braos nas arcas dos thesouros,
ensopar em sangue as almofadas macias sobre que iam abraar as morenas
filhas do Yemen.

Cevados, partiram logo. Sancho pedia-lhes que acabassem a empreza,
tomando Hayrun. Recusaram; no queriam arriscar os lucros, e estavam
turgidos de goso. S ambicionavam tornar  patria, para contar os seus
feitos, e depr aos ps das louras e ingenuas donzellas do norte, de
suas noivas e de suas filhas, os collares, os brincos, as manilhas de
ouro arrendado, que tinham roubado nos leitos, com a honra e a vida, s
filhas de Mafoma.

Sancho I, no podendo seduzil-os, nem convencel-os, desistiu da empreza;
e deixando Silves guarnecida, e occupado o oeste do Algarve, retirou
para o norte. Afim de consolidar a conquista, tomou Beja. Mas, emquanto
o velho Faro se conservava em poder do sarraceno, no devia o rei
portuguez considerar seu o Al-faghar.

                      *      *      *      *      *

Effectivamente durou pouco o primeiro dominio portuguez no extremo sul
do reino. Quando o filho de Jussuf, Jacub, chegou a soccorrer Chelb, j
a cidade estava perdida; e elle no soube ou no pde retomal-a.
Vingou-se irrompendo pelo reino; e, galgando o Tejo, assolou a
Estremadura toda, pondo cerco a Thomar. Tampouco soube ou pde vencer, e
retirou-se; mas para voltar no anno seguinte. Ento Silves cau de novo
em poder do sarraceno (1191) que, victorioso, tomou Beja, e na sua
_gaswat_ fulminante, veiu ameaar Lisboa, desde os muros de Almada,
conquistada.

Portugal recuava outra vez aos limites do Tejo; porm Silves, embora
perdida, indicava o futuro inevitavel d'este longo e mortifero duello. O
rei occupava-se em consolidar os seus Estados, povoando, e organisando a
administrao. Na impossibilidade de levar a cabo a conquista do
Al-faghar, enfraquecido militarmente o reino pelas correrias,
desilludido sobre a efficacia do auxilio dos Cruzados, abandonou com
razo o systema das lgaras e surprezas, com que, sem conseguir
manter-se um dominio estavel, se extenuavam as foras vivas da nao. O
seu governo sabio preparou as decisivas emprezas posteriores.

A primeira d'essas foi a tomada de Alcacer em 1217. No tempo de Affonso
II j os portuguezes se tinham achado na batalha das Navas de Tolosa
(1212), em que os principes christos da Peninsula, tomando uma cruel
desforra do desastre de Alarcos, deram o ultimo golpe no dominio
sarraceno. Affonso II no tinha amor pela guerra. O lado organisador e
administrativo do governo de seu pae imprimira-lhe paixes pacificas.
Instigava-o ainda mais a sua avareza natural, e a condio dura em que a
fraqueza dos ultimos annos de Sancho I o collocara, por ter doado o
reino inteiro, thesouros e castellos, aos nobres e ao clero. Affonso II
no quiz tomar parte da empreza de Alcacer, porque andava occupado a
reivindicar para si o reino.

Kassr-al-Fetah, Castello-da-porta ou da entrada, se dizia essa chave do
Alemtejo; e sem a posse de um tal ponto estrategico, eram vans as
tentativas de consolidao do dominio portuguez ao sul do Tejo. Castello
sobre todos nocivo, chamam-lhe as memorias coevas, (_Castrum super omnia
castra nocivum_, GUSUINI CARMEN) porque d'ahi iam annualmente para
Marrocos cem prisioneiros christos, arrebatados aos territorios
fronteiros at Lisboa, nas lgaras de todos os annos.

Com o auxilio de uma forte esquadra de Cruzados, Alcacer ficou
definitivamente em poder dos christos no meiado de 1217. Nove annos
depois, Sancho II, em quem renascia o espirito guerreiro dos avs,
recomeou a conquista do Algarve, caminhando ao longo da fronteira de
leste, valle do Guadiana abaixo, e tomando successivamente Elvas, Serpa,
Moura, Mertola, Ayamonte, Tavira e Cacella, que os arabes denominavam
Hisn-Kastala (1226). As deploraveis pendencias que lhe roubaram a cora
no deixaram a Sancho II consummar a conquista do Algarve, que no meiado
do XIII seculo ce por fim (1249), obscuramente, em poder do usurpador
da cora fraterna, Affonso III.

Consolidada a separao, constituido geographicamente o paiz, resta-nos
agora observar os movimentos internos da nao; para vrmos como dentro
d'ella se affirma a independencia, s plena e cabalmente definida,
porm, na crise que poz termo  dynastia de Borgonha.

    [40] V. nas _Taboas de chronologia_, a das Cruzadas, a p. 219.

    [41] V. na _Hist. da repub. romana_, I, pp. 251-5, a descripo
         das machinas de guerra dos antigos, que eram as da Edade-mdia.

    [42] _Taboas de chronologia_, pp. 43 e 271.

                      *      *      *      *      *




III

A monarchia e a justia


D. Diniz foi um avro. Affonso IV um homem de juizo, Pedro I um doido
com intervallos lucidos de justia e economia. Assim A. Herculano
caracterisa os tres monarchas, a quem j fra concedido reinar sobre
Portugal integralmente constituido, dentro dos limites das suas
fronteiras actuaes. Mas que eram ento um rei e um reino?

Errada ida formar d'essas epochas aquelle que no puder desprender-se
das impresses resultantes de periodos mais proximos de ns. Foi s
desde o XV seculo que o desenvolvimento das naes peninsulares
permittiu aos reis comearem a ter consciencia do caracter
juridico-social do seu cargo[43]. At ao XIV seculo, os
Estados peninsulares, ou--limitando-nos agora ao campo exclusivo das
nossas observaes--Portugal, no merece propriamente o nome de nao,
se a este vocabulo dermos o valor moderno. As comparaes illustram
superiormente a historia: e em nossos dias temos exemplos de similhana
quasi absoluta. Esses principados slavos, onde a occupao da Turquia
jmais deixou de encontrar resistencias, so como foram a Hespanha. O
Montenegro reproduz as tradies das Asturias, ninho dos bandidos de
Pelayo; a Servia ou a Herzegovina, em cujas campinas, avassalladas pelo
turco, as quadrilhas dos indomitos montanheses veem periodicamente fazer
as suas razzias, so como foi Portugal. A historia repete-se ainda na
independencia final, ganha pela irradiao do fco de resistencia
invencivel.

Regies fadadas a tal existencia no podem ser propriamente naes: no
attingiram esse momento de existencia collectiva, no sairam dos
periodos preparatorios da organisao. O processo tem, n'este caso, dois
graus caracteristicos. Primeiro apparece o bando, depois a familia. O
rei  o chefe dos bandidos, antes de ser o protector, o pae, dos seus
subditos. Se a guerra  antes um systema de rapinas do que uma successo
de campanhas, a justia  tambem mais a expresso arbitraria de um
instincto, do que a applicao regular de um principio. A sociedade que
se desenvolve de um modo espontaneo,  lei da natureza, vae
successivamente definindo as idas collectivas,  maneira que progride
na serie das frmas evolutivas do seu organismo[44].

A substituio do principio da justia--no qual incluimos as relaes
entre individuos, e entre classes e instituies--principio militar,
marca o momento da primeira transformao que  a passagem do organismo
do bando para a frma social primitiva: a familia nacional, cujo pae ou
patriarcha  o rei.

A loucura de D. Pedro I vale, portanto, a nosso vr, tanto como o
bandidismo de Affonso Henriques. Os dois reis so os dois typos--da
guerra e da justia. Assim como a primeira era selvagem e feroz, assim a
segunda  irregular, cheia de caprichos e arbitraria. Mas se Affonso
Henriques foi o chefe do bando, D. Pedro I  decerto o _pae_ da familia
portugueza.

O seu furor justiceiro no  mais louco, do que o furor guerreiro do
primeiro rei. Tentmos esboar a phisionomia d'essa epocha primitiva:
buscaremos agora, indo beber  fonte limpa das chronicas mais proximas,
accentuar as feies do segundo periodo. Na guerra no havia regra, nem
planos: era uma correria solta. Na justia no ha processos, nem
garantias:  o dominio livre do capricho. Mas se, n'um caso, a bravura
engrandecia e a victoria exaltava os actos do bandido, no outro, a
rectido dava fora, e a proteco paternal coroava as decises do
_kadi_. O rei  o grande Juiz da familia portugueza: a sua vontade 
lei, as suas sentenas so oraculos[45].

A justia de Pedro I caracterisa-se, pois, para ns, com o merecimento
de um typo, da mesma frma que a guerra de Affonso Henriques. So tambem
os dois individuos symbolicos, por isso mesmo que so como que doidos.
As phisionomias dos outros reis esbatem-se mais no fundo do quadro,
confundem-se de um modo mais ou menos completo na massa dos sentimentos
do povo; e os seus actos acompanham o desenvolvimento das foras e
instinctos collectivos, sem os dominarem de uma frma superior e typica.
O leitor perspicaz no esquece que estas apreciaes excluem a do
merecimento individual das pessoas. Sancho I tem uma bella vida
tristemente rematada n'um torpor de fraqueza. Affonso II tem uma
phisionomia commum e antipathica, sem nobreza, mas forte e penetrante.
Sancho II possue muito do seu predecessor em nome. Affonso III
destaca-se pela educao franceza, que lhe ensinara a dissimulao, a
perfidia, de mos dadas com o bom-senso governativo. Diniz  um avro;
Affonso IV  um homem de juizo, no dizer de Herculano. Todos reunidos,
porm, n'um grupo, formam um corpo de phisionomias indecisas ou communs:
so mais ou menos guerreiros, so pessoalmente melhores ou peiores, o
que  historia importa pouco; so bons ou maus administradores da
republica, seu patrimonio, cuja riqueza fomentam, acompanhando o
desenvolvimento natural da sociedade.

No principio e no fim d'esta serie esto, porm, os dois individuos
typos, os dois loucos--um, phrenetico, brandindo o punhal mortifero;
outro, carrancudo e fero, empunhando o latego do algoz e a vara de juiz,
ou risonho e folgaso, danando e cantando nas ruas no meio da sua
familia, como um pae.

Pedro I tinha a paixo da justia; era n'elle uma mania, como em seu av
o fra a guerra. No prescindia de julgar todos os delictos. Os
criminosos vinham  crte, desde os remotos confins do reino. Quando
algum chegava, manietado, e o rei comia, levantava-se pressuroso da
meza, e trocava a vianda pela tortura. Prazia-se em ajudar e dirigir os
algozes; indicava os expedientes e processos para obter a confisso dos
ros. Nunca abandonava o aoute: enrolado  cinta em viagem, tomava
d'elle, e por suas mos castigava o facinora que no caminho lhe traziam.
Os adulteros mereciam-lhe um odio especial: jmais lhes perdoava. D.
Pedro tinha um escudeiro, Affonso Madeira, _luitador e trovador de
grandes ligeirices_, a quem embora amasse _mais que se deve aqui dizer_,
o rei mandou castrar, porque peccou com Catarina Tosse.--O rapaz
engrossou e morreu depois da _sua natural door_. Certa mulher era infiel
ao marido, que nem por isso se offendia: offendeu-se o rei, e mandando-a
queimar, respondeu ao esposo desolado que lhe devia alviaras pelo ter
vingado. Havia um homem casado, com filhos, mas que antes da boda
forara a mulher. Roussou? morra. Enforcou-o, entre os choros e
supplicas da esposa e dos filhos. O seu odio aos peccados da carne
perseguia com furor as alcouvetas; e as feiticeiras no lhe mereciam
menos cuidados.

Quando o tomavam os ataques da furia justiceira, a gaguez fazia ainda
mais terrivel a expresso da sua phisionomia. A fala no lhe deixava
traduzir bem as cleras; e rubro, grosso, agitando o latego, n'um
delirio, mettia espanto. Os gagos, porm, teem isto de particular: tanto
o defeito accrescenta ao horror na furia, como pe nas horas mansas o
quer que  de bonhomia quasi ironica. Era assim D. Pedro. Caador tenaz,
descansava do officio de juiz nas corridas do monte, seguido pelos moos
com os nebris e falces, e pelas matilhas de caens. Ento o seu rosto
aplacava-se, e era benigno, bemfazejo, liberal, folgaso. _Foi grande
criador de fidalgos._ Gloto, passava horas esquecidas  meza, onde a
vianda era em grande abastana.

Punir os maus, enfrear os fortes, querendo fazer graa e merc ao nosso
poboo era o seu constante desvelo paternal. Nas crtes que reuniu em
Elvas (maio de 1361) v-se pelas respostas aos capitulos dos povos como
o seu governo era protector. Queixavam-se os conselhos de que as casas
dos mestres das ordens, dos bispos e priores, dentro das villas, caam
em ruinas; e o rei decide de um modo simples: _filhem_ as nossas
justias aos proprietarios o que for necessario para as obras. Filhem
mais, para as pr em grangeio, as herdades e vinhas ermas. Os
ricos-homens veem ao concelho e pousam em casa de mulheres honestas,
perdendo-lhes a reputao; pousam nas adegas e nos celleiros de trigo, e
fazem d'elles cavallarias, allega o povo--e o rei ameaa o fidalgo que
assim fizer. O clero, isento como estava dos servios militares da hoste
ou do appellido, recusa-se a acudir na hora de um perigo imminente? Que
os clerigos acudam com os leigos, diz o rei, quando haja fogo ou inimigos.

Mas o nosso poboo s vezes exige de mais, como uma creana que se
sente adorada. Modere-se: o rei  um pae, mas o pae  um juiz, sempre
benigno e amoravel porm. Quando recusa, no se v arrogancia, apenas
uma reserva prudente: mostrem e declarem aquello em que lhis vam contra
seus foros, graas e mercees que ham e que, nos lhas faremos guardar.
Exigir que as meretrizes e barregans andem estremadas pelo trajo, 
querer muito n'essa Edade-mdia prostituta e adultera, faminta e
leprosa, que vive de carnalidades, violencias e feiticerias: Tragam
suas vestiduras como as poderem aver, porque perderiam muito em os
pannos que teem feitos e nos adubos que em elles tragem. Mas quando o
povo se queixa do que soffre com os servios militares, obrigado o
villo a ter cavallo e armas desde que possue uma certa _quantia_ de
bens, o rei attende e ordena que no sejam quantiados a nenhum os pannos
de seu vestir e de sua mulher at dois pares, nem as roupas de suas camas.

Sobre a cabea do povo humilde pesam duas ameaas constantes: o nobre
com a sua violencia, o judeu com a sua manha. O fidalgo e o onzeneiro
so a desgraa da gente, a perdio das filhas e a ruina das searas.
Quem nos proteger seno o rei? Se o judeu onzenar, responde este, ns
o mandaremos matar e lhe tomar quanto houver. Mas ninguem se atreva com
elle, a no ser a justia, que anda sobranceira a todos, a tudo. De uma
vez D. Pedro mandou matar dois escudeiros por terem roubado a um judeu;
e se tambem cortou a cabea a outro, dos bons, de Entre-Douro-e-Minho,
por ter partido os arcos de uma cuba de vinho a um pobre lavrador, foi
elle o proprio que mandou degolar o sobrinho do alcaide de Lisboa por
depennar as barbas a um porteiro.

A justia havia de ser tremenda quando os costumes eram barbaros,
corruptos e ingenuos ao mesmo tempo; quando o incesto, o adulterio, o
assassinato, o estupro, o roubo, e essa offensa extravagante da
merdinbuca (_stercum in ore_), to frequente nos foraes, acompanham as
linhagens das familias e enchem as paginas das cartas dos
concelhos.[46] O juiz no ser um algoz, mas  mistr que
seja um tyranno; e o symbolo da justia no est na balana com o seu
fiel sensivel, mas antes na espada e no latego, na furia e no amor, no
capricho benevolente e na sanha vingadora de um rei temido como foi D.
Pedro.

Assim como a sua justia era, pois, destituida de magestade, assim o
eram as suas folganas. Dir-se-hia um rustico feito rei; e acaso por
isso o povo o amava tanto. No tinha distinces, nem delicadezas, no
sentimento, nem no trato. Em tudo era brutal. Se confundia em si o juiz
e o algoz, as suas festas eram _kermesses_ extravagantes e plebeias. Os
instinctos aristocraticos e as frmas da cortezia nobre, os torneios, as
lanas, no tinham n'elle um amador. Era um democrata, um _tyranno_ 
moda antiga, em cujo espirito encarnara toda a brutalidade popular: por
isso mesmo era adorado! Os seus castigos terriveis, passando de bocca em
bocca, faziam-lhe um pedestal de fora; e as suas continuas folganas
populares cimentavam essa fora com o amor intimo que nos merece quem
tem comnosco a irmandade de gostos. O povo via-se rei na pessoa de D.
Pedro.

Quando voltava em bateis de Almada para Lisboa, a plebe lisboeta saa a
recebel-o com danas e trebelhos. Desembarcava, e ia  frente da turba,
danando ao som das _longas_ (trombetas) como um rei David. Estas folias
apaixonavam-no quasi tanto, como o seu cargo de juiz. Por ellas chegava
a fazer loucuras. Certas noites, no pao, a insomnia perseguia-o:
levantava-se, chamava os trombeteiros, mandava accender tochas; e eil-o
pelas ruas, danando e atroando tudo com os berros das longas. As
gentes, que dormiam, saam com espanto s janellas, a vr o que era. Era
o rei. Ainda bem! ainda bem! que prazer vel-o assim to
ledo!--Vestiam-se todos  pressa, desciam ainda tontos de somno; e as
ruas, um momento antes silenciosas e negras, brilhavam com as luzes, e
tinham o clamor da multido em vivas e o movimento das danas universaes.

Era uma loucura? Seria. A Edade-mdia  uma vertigem. O povo, afflicto
pelas miserias do mundo e pelos terrores do co, vivia n'um sonho feito
de dres positivas e de medos transcendentes: rodopiava n'um _sabbath_.
Deus abenoe o rei que nos defende por sua mo! que vem comnosco bailar
s noites por essas ruas lugubres! que persegue os incantadores e
feiticeiras!  o nosso justo juiz, o nosso bom pae, o nosso amigo e
irmo: adoremol-o!

No eram s justia e festas que o rei lhes dava: era po. Sabio
administrador, juntava grandes thesouros; e esta noticia augmentava, ao
medo e ao amor, o respeito por um rei to bom. A brutalidade e o egoismo
dos costumes medievaes traduzia-se a miude n'um flagello terrivel--a
fome, de que o pobre povo soffria sempre mais ou menos. A fome e as
guerras geravam pestes. A primeira metade do seculo XIV fra uma cadeia
de desgraas. No anno do Senhor, de 1830, diz o livro de Ceia, foi a
pestilencia grande e morreram ento em dois mezes cento e cincoenta
religiosos. Os lazaros eram tantos e to antigos que D. Diniz
deixara-lhes em testamento duas mil libras. Em 1333 houve fome, e os
mortos j no cabiam nos adros das egrejas, enterrados aos seis em cada
cova. No dia de S. Bartholomeu do anno de 1346, tremera a terra a ponto
de os sinos tocarem nas torres, pavorosamente, um dobre de finados,
annunciando o acabar do mundo. Depois veiu a peste de 48; e em 55, dois
annos antes da morte de Affonso IV, foi a secca, havendo outra fome
medonha. Da gafaria para a cova, ameaado por todos, na terra e no co,
o povo infeliz e faminto congregava-se em volta do throno protector,
adorando o rei justiceiro e providente, inimigo das pestes, das guerras,
das fomes, e sentia-se rico dos thesouros guardados nas torres do
castello. Alm d'isso, D. Pedro fartava-o. As suas folias no eram s
danas e musicas. Quando Affonso Tello foi armado cavalleiro houve uma
kermesse monumental. Durante a vigilia d'armas, cinco mil tochas
illuminavam as ruas, desde S. Domingos at ao pao; e o rei, entre as
alas de lumes, radioso e bom, na sua gaguez, danou com o povo a noite
inteira. Ao outro dia o Rocio estava coalhado de tendas e montanhas de
po e grandes tinas cheias de vinho. Nas fogueiras, em espetos
collossaes, assavam-se vaccas inteiras. Havia de comer para toda Lisboa.
O povo exultava, n'esses gapes da monarchia.

A velha tragedia dos seus amores e da sua rebellio augmentava-lhe ainda
as sympathias. O tyranno apparecia, justiceiro e bondoso, sobre o fundo
de um azul de amores infelizes que encantavam a alma popular. Ignez de
Castro, a sombra de um anjo, coroava-o de alm do tumulo. Mas esta
piedosa recordao era, na alma do rei, um espinho que o mordia sem
cessar. O seu genio cruel pedia vinganas. Entendeu-se com o visinho de
Castella, e pde haver s mos dois dos assassinos. O povo no approvou
o escambo; e o rei muito perdeu de sua fama, diz o chronista. O castigo
dos assassinos foi duro: D. Pedro estava fra de si, as palavras
atropellavam-se-lhe na garganta, e no podendo satisfazel-o as muitas
injurias, deshonestas e feias, vingou-se a chicotear os infelizes na
cara. A sua colera attingia a ironia soez. Queria cebola e vinagre, para
comer o Coelho em molho-de-villo. Por fim mandou que lhes arrancassem,
vivos, os coraes, a um pelo peito, a outro pelas costas. Gozou-lhes a
morte, e acabou vingado.

Pedro I  a viva imagem da Edade-mdia, politica e domestica. Todos os
vicios e todas as virtudes, a fereza e a ingenuidade, os odios terriveis
e as amisades espontaneas, sommadas n'um caracter primitivo onde acaso
alguma lepra dos vicios civilisados antigos punha nodoas novas, formavam
o caracter d'esse rei que  verdadeiramente um symbolo. Por isso o povo,
vendo-se n'elle retratado, o adorou.

                      *      *      *      *      *

A politica da independencia puzera no seio da familia portugueza um
membro, cujas arrogancias e pretenes ameaavam desnortear o fiel da
justia social. O clero aspirava a usurpar a authoridade  monarchia.
Alm da fora que as tradies juridicas lhe davam; alm da authoridade
espiritual e do espectro das bullas de excommunho, pavor das almas
ingenuamente crentes; alm do poderio fundado n'uma riqueza excessiva e
na machina absorvente da mo-morta, poo onde caam as heranas e
legados dos rudes batalhadores arrependidos; alm de todas as causas
geraes, o clero invocava em Portugal um argumento particular: o rei era
vassallo, o papa suzerano. Por tal preo obtivera Affonso Henriques um
simulacro de sanco juridica para a sua rebellio.

A situao do clero catholico no seio da primitiva sociedade
portugueza--e das coevas em geral--resulta de um tal concurso de
elementos heterogeneos, que nenhuma das faces do systema dos costumes
retrata, melhor do que esta, a confuso cahotica d'esse novo mundo que
se formava sobre as ruinas e destroos do antigo. Politicamente, o facto
de um poder, superior por ter um fundamento transcendente, estranho ao
poder civil,  a primeira causa de conflictos.[47] Perante
a Egreja, todos so egualmente subditos, desde o rei at ao infimo dos
_viliores_. A base religiosa d'esse poder consolida-se com a fora que
d a riqueza. Os bares, crendo de facto na verdade da revelao, e
n'uma outra vida onde ho de ser julgados, teem uma religio feita de
medo; e como no fundo so barbaros, vivem na terra  lei da fora,
remindo com esmolas e legados,  hora da morte, os longos rosarios de
crimes. Julgando-se proximos a apparecer perante o supremo juiz,
reconhecendo  hora da morte a inutilidade da fora e da perfidia
perante quem tudo pde e tudo v, compram o perdo com o fructo das
rapinas e dos crimes; e assim formam o alicerce de um poder real,
verdadeiro e mundano. Salvos os mortos, os que ficam teem de entender-se
com o clero herdeiro; teem de debater por todos os meios a influencia e
o poder, para outra vez,  hora da morte, repetirem os actos causadores
das luctas que lhes encheram a vida. Por tal frma se encerra um circulo
vicioso que a politica no pde romper, porque a religio o no
consente. Desde que as raas germanicas, avassallando o imperio antigo,
no tinham podido desenvolver a sua independencia religiosa e acceitaram
o christianismo, fora era que assim fosse, emquanto os dogmas christos
governassem as consciencias.

N'este sentido  perfeitamente legitima a influencia do clero; e no o 
menos por virtude da authoridade que lhe d o saber, com effeito j
pervertido, mas ainda preponderante sobre reis e principes analphabetos.
Legitima a sua influencia, historicamente legitima a sua fora, o clero,
porm, recebia por seu turno a aco reflexa do meio ambiente em que
vivia. Era to avro, to feroz, to barbaro, to vicioso, como os
seculares; e a sua cultura accrescentava ainda, aos defeitos da
brutalidade, os da civilisao. As perversidades requintadas, as
perfidias subts tinham n'elle os melhores mestres; e por sua via
entravam no corpo de uma sociedade barbara. Os sacerdotes eram os
educadores politicos dos principes, quando no eram os seus declarados
adversarios. Ensinavam as manhas, a quem apenas sabia commetter os actos
brutaes. Aos vicios do instincto sabiam juntar as perversidades da
intelligencia.

Se os principes da Egreja influiam de tal modo, a plebe ecclesiastica
acompanhava as massas no rodopio lugubre e sanguinario da dana infernal
da Edade-mdia. Os homens da Egreja commettiam todos os crimes.
Sacerdotes, habitando os templos e os mosteiros, os seus erros eram
outros tantos sacrilegios, pela qualidade dos delinquentes e pela
condio do lugar. Roubavam, feriam, matavam, mentiam. Os casados
andavam bigamos; os solteiros, publicamente amancebados. Davam o brao
s prostitutas, viviam com ellas, e desfloravam donzellas. Engeitavam os
filhos, repudiavam as esposas. Alm de criminosos, eram indignos.
Faziam-se carniceiros em praa publica, matando e degollando as rezes,
vendendo carnes. Eram jograes, tafues, bufes. Escondiam a cora,
deixavam crescer o cabello, e abandonavam o trajo ecclesiastico, para
mais  solta poderem abandonar-se aos seus desvarios.

E, obrando taes crimes, desvirtuando por tal modo os legitimos
privilegios do sacerdocio e da illustrao, no deixavam de reclamar o
fro de uma justia especial. D'ahi resultava que o rei podia enforcar
um ro, por ser secular, e o cumplice ecclesiastico ficava impune.
Testemunhas seculares no valiam contra elles, e ecclesiasticas no
appareciam, porque o vedava a solidariedade da classe. O desvario era
tamanho, que havia quem chegasse a ordenar-se, unicamente para commetter
crimes impunemente.

Juntem-se estes costumes aos costumes bravios da epocha; junte-se mais a
serie de conflictos politicos e economicos, levantados pela condio
particular da Egreja; addicione-se a situao especial de vassallo em
que Affonso Henriques collocra o throno portuguez--e desde logo se
comprehendero os motivos dos longos e pittorescos conflictos da
primeira poca da historia nacional.

A erudio lanou para o campo das lendas os episodios tradicionaes do
tempo de Affonso Henriques; mas a historia no pde desprezar esses
traos pittorescos com que o povo retrata, infiel mas typicamente, as
tendencias e os costumes. Sabe-se a historia do bispo negro de S. Cruz
de Coimbra; e os monumentos remotos contam o que Affonso Henriques, se
no fez, poderia ter feito ao legado que veiu de Roma excommungal-o por
se ter levantado contra a me, pela ter mettido a ferros e no a querer
soltar--segundo resa a chronica. Era homem muy bravo de grande coraom
o principe a quem a rebeldia do clero irritava. Foi esperar o legado ao
Vimieiro, chegou-se a elle, travou-lhe do cabeo, sacou da espada e
quizera cortar-lhe a cabea. Os cavalleiros do rei acudiram: Diro em
Roma que sois herege! O cardeal tremia de medo, o rei de colera, mas
baixou a espada e voltou: Pois quero que Portugal no seja excommungado
em todos os meus dias e que no leveis d'aqui ouro, nem prata, nem
bestas, seno tres! E proseguia exigindo uma carta de Roma garantindo a
posse d'isto (Portugal) ca eu o ganhei com esta minha espada. O
sobrinho do cardeal ficaria em refens: teria a cabea cortada se a carta
no viesse em quatro mezes. O cardeal, diz-se, prometteu, annuindo a
tudo; e o leitor sabe, pelo modo como lhe contmos os pactos de Zamora,
qual  a verdade que esta scena pittoresca exprime. O rei que em sua
mancebia foi muito bravo e esquivo, prosegue a lenda, feitas as pazes,
disse ao cardeal: Agora vede como sou herege! E despindo-se,
mostrou-lhe as feridas de todo o corpo, contando-lhe as batalhas em que
as tinha havido. Resolvida a contenda, satisfeita a cubia, aplacada a
colera, apparecia depois do guerreiro violento o homem timido e crente,
com a viso do inferno e o terror da excommunho.

Por isso os prelados de Braga, Coimbra e Porto eram como tres reis no
reino, cujos limites j para um unico provavam escassos. Se as guerras
da separao, primeiro, depois a conquista do sul do reino e a
deslocao do seu centro para Lisboa, marcam os momentos geographicos
decisivos da historia da independencia, a resoluo dos conflictos
ecclesiasticos e a consolidao do poder monarchico marcam, decerto, o
movimento tambem decisivo d'essa historia, sob o aspecto mais intimo e
organico da justia social.

Dos tres reis mitrados, o do Porto foi o que mais trabalhos deu aos
monarchas portuguezes. O reinado de D. Sancho I, to brilhantemente
iniciado pela conquista de Silves, e com tanta sabedoria dirigido para a
consolidao do centro assolado do paiz,  dos mais notaveis na historia
dos conflictos com o clero. O rei era to irascivel como credulo:
acompanhava-o sempre uma feiticeira, diariamente consultada. No tinha o
furor bellico do pae, nem a energia justiceira do neto: parece ter sido
um homem commum, mas serio.

Na primeira decada do XIII seculo governava o bispado do Porto Martinho
Rodrigues, homem atrevido, ambicioso, cheio de fora e vicios. A
authoridade da cora limitava-se por esses tempos ao velho Porto, hoje o
suburbio de Gaya, e o bispo imperava na cidade. Exaces e tyrannias,
communs a todos os senhorios feudaes, levaram os burguezes do Porto a
rebellar-se contra o bispo, invocando o auxilio que o rei lhes no
refusou. Acclamado pelo povo, Sancho I entra na cidade; arrombam-se as
portas das egrejas, a turba invade e assola os templos, conspurca os
altares; e o bispo fica cinco mezes preso no palacio episcopal, at que
finge submetter-se s exigencias, com o proposito, que realisa, de ir a
Roma pedir desforra ao papa. Entretanto o de Coimbra encerrava os
templos e negava os servios religiosos aos fieis: era esse um dos meios
ordinarios de combate. Sancho I vae a Coimbra, faz de bispo, obriga os
padres,  fora, a celebrarem os officios divinos, mandando arrancar os
olhos aos recalcitrantes.

Voltou a final (1210) Martinho Rodrigues, de Roma, com bullas de
Innocencio III. O nuncio ou legado do papa devia em pessoa lel-as ao
rei; porque o chanceller Julio, valendo-se da ignorancia do soberano,
usava alterar o que lia. Sancho I ouviu com humildade a monitoria papal.
Estava doente, j fatigado da vida, e na perspectiva da proximidade da
viagem para o outro-mundo, memorava tudo o que tinha feito, os desacatos
e sacrilegios. Os remorsos enchiam de terror o seu animo duro, obtuso e
bravio. Curvou-se e penitenciou-se. Este era sempre o momento infallivel
da victoria da Egreja: a superstio entregava-lhe, manietados e
submissos, os seus terriveis inimigos, na hora da morte imminente.
Sancho I pedia aos monges de Alcobaa que rezassem por sua alma esses
lugubres psalmos, que pareciam aos infelizes como um ecco das terriveis
symphonias da eternidade. Reclinado no leito da morte, o rei, apavorado,
via a face medonha do supremo Juiz; e sentia-se j precipitado nos
abysmos ardentes, no seio das chammas crepitantes, rodo, macerado pelos
monstros diabolicos, a gritar em dres infernaes.

Desistiu de tudo; abandonou  sua miseranda sorte os burguezes fieis,
deu rendas, legados, terras, senhorios. Deu mais at do que possuia!
Conseguiria por tal preo obter o perdo? Os padres diziam-lhe que sim,
e abenoavam-no promettendo-lhe a salvao.

Fra da camara, onde o rei agonisava (1211), o herdeiro, Affonso II,
vulgar e obeso, avarento e incapaz de perceber a situao cruel do pae,
ruminava porm, com o chanceller Gonalo Mendes, discipulo de Julio, o
plano da desforra. Comeou por confirmar tudo o que o fallecido dora ao
clero, porque primeiro tinha que liquidar contas com os irmos e com o
seu partido. Sancho I deixra-lhes metade do reino. Affonso queria-o
inteiro para si: e era muito bastante para vr que no podia bater-se ao
mesmo tempo com todos os adversarios. Faltava no caracter do filho a
nobreza do caracter do pae. Nas crtes de 1211 confirma ainda a iseno
dos cargos publicos, mas prohibe ao mesmo tempo ao clero a compra de
bens de raiz. O de Braga protesta, e Affonso II manda-lhe arrazar os
campos, destruir as granjas e confiscar as rendas. Estava outra vez
declarada a guerra entre a monarchia e o clero. O rei morre,
impenitente, apesar das ameaas das bullas de Honorio III.

O segundo Sancho tinha muito do caracter do primeiro: era sinceramente
devoto, e na Edade-mdia a sinceridade implicava certeza de derrota. 
verdade que j a este tempo o terror das excommunhes diminuira: to
excessivo uso o clero dellas tinha feito. Os interdictos e a denegao
de sepultura em sagrado eram acompanhamento constante de todas as
pretenes ecclesiasticas. Se, porm, a fora das armas canonicas
mingura, no tinha diminuido o poderio positivo do clero, que era a
classe mais opulenta do reino. O que os bispos exigiam de Sancho era
demasiado; e como lhes foi negado, depozeram o bom e valente rei (1245).
Em Frana, o usurpador subscreveu a tudo; sentado no throno, o terceiro
Affonso, soube defender-se como se defendera o segundo. Trazia de fra a
muita experiencia, a manha, e a pertinacia consummadas, que aprendera
nas crtes mais polidas da Europa central.

Evidentemente o clero baixa n'esta longa e interessante batalha. O
fundamento juridico das suas pretenes vae gradualmente fugindo, 
medida que as tradies romanistas e o espirito secular inspiram as
aces dos monarchas, primando sobre as maximas do direito canonico.
Esta substituio traduz o aclaramento gradual que se d nas
consciencias,  maneira que as supersties infantis d'essas primeiras e
obscuras alvoradas, se vo abrindo no dia claro do renascimento da
cultura intellectual.

D. Diniz (1279-325) j no  analphabeto, e mede bem o valor da
sciencia: prova-o a fundao das Escholas. Por outro lado, v que a
principal causa da fora do clero est no ultramontanismo, palavra ento
desconhecida ainda para exprimir a influencia e authoridade soberanas
dos papas sobre as Egrejas nacionaes. Libertar-se d'essa perigosa
interveno era o meio de diminuir a gravidade dos conflictos. Acaso a
tradio dos concilios da Hespanha visigothica influiu para a creao
das assemblas de prelados, cujas _concordatas_, registrando os fros da
Egreja, a subtrahiam  influencia estrangeira, por tornarem nacional o
clero e internas as suas questes. O rei, que assim fomentava a educao
e nacionalisava a Egreja, cimentando por outro lado o desenvolvimento
economico do paiz, tinha uma intuio dos caracteres modernos das
naes. Portugal caminhava de facto, rapidamente, na estrada da sua
independencia, isto , da sua constituio organica. O povo costumou-se
a dizer: El-rei D. Diniz fez tudo o que quiz.

Pedro, o justiceiro, com a sua typica individualidade conclue de um modo
terminante e brusco a velha questo da influencia de Roma, quando
estabelece o _placito regito_: Nenhumas bullas, nem lettras pontificias
sero publicadas em Portugal sem consentimento meu.

Procedia summariamente: e a sua politica, toda pessoal, acclamada com
enthusiasmo por um povo que o adorava, era a voz indomavel da nao que
falava por sua bocca. A sua loucura era a synthese do pensamento
collectivo. Quando o bispo do Porto reagiu, o rei foi l em pessoa, diz
a chronica, fechou-se com elle n'uma sala, despiu o gibo para ficar
mais  vontade: trazia por baixo uma saia de escarlata. O bispo,
transido de susto, esperava, sem ousar pedir soccorro. D. Pedro
chegou-se e, placidamente, tirou-lhe a capa; desenrolou o latego, e
correu-o a aoites, dizendo-lhe a rir, gaguejando: vae! anda! toma!

No podia conceber leis, a cuja sombra os criminosos ficassem impunes; e
por isso dava-se-lhe pouco de enforcar os padres.--E as regalias da
Egreja?--Vam-no enforcando, respondia com bom humor e pausa, porque no
podia falar depressa. Vam-no enforcando: por esse caminho l vae para
Jesus Christo, seu vigario, que no outro-mundo o julgar!

E ficava-se a rir, vendo o tonsurado espernear na forca.

Tudo mudra. Os tempos eram diversos; as excommunhes, papeis
rabiscados; as regalias da Egreja, uma tradio apenas. O rei parado,
com os olhos na forca, ria!

E diziam as gentes que taes dez annos nunca ouve em Portugal como estes
que reinara el-rei dom Pedro.(Ferno Lopes.)

                      *      *      *      *      *

A fidalguia no tem uma historia to grave como a do clero. As condies
peculiares da constituio do reino portuguez augmentavam ainda os
embaraos que em toda a Hespanha houve para a formao acabada de um
feudalismo.[48] Todos os conflictos da nobreza com a Cora
proveem, no de uma questo de ambio politica, no de um pensamento
definido de emancipao revolucionaria, como a do clero; mas da avareza,
da cubia, da brutalidade pessoal dos homens, nos quaes  mistr incluir
tambem os reis.

A no serem, por outro lado, as revoltas do Porto, e as guerras entre
Bragana e outros concelhos transmontanos, por causa do senhorio de
Lamas, nada se encontra em Portugal que d ida de uma descentralisao
de dominio politico, similhante  que lavra para alm das nossas
fronteiras[49].

Poucos so os conflictos entre o rei e os bares que no tenham por
origem a _pilhagem_ dos realengos. Distante, e por isso mais fraca a
aco da Cora, o fidalgo do logar no receava chamar seu e apossar-se
violentamente do terreno visinho, pertencente ao rei. Alm d'isto, os
nobres forjavam titulos, inventavam doaes, para _honrarem_ territorios
sujeitos  aco das justias reaes. D'estas causas provinham confuses
inextricaveis, que a fora apenas decidia. Quando o mordomo do rei, ou o
seu aguazil, appareciam a cobrar um tributo ou reclamar um preso, o
fidalgo usurpador, ou, do terreno, ou do privilegio apenas, saa com os
seus homens: Ca por aqui  _honra_! E enforcava-os. Enforcava-os, ou
matava-os mais barbaramente ainda. Um porteiro, que ia fazer uma
penhora, teve as mos cortadas, e foi depois assassinado. Outro, atado 
cauda de um cavallo, foi de rastos, levado a galope em volta de toda a
_honra_. Um foi _pendurado pelos braos_. Outra vez o fidalgo _prendidit
eos per gargantas_: os processos eram to barbaros como o latim.

Entretanto, embora destituidas de um alcance ou significao
politico-feudal, no faltam nas primeiras epochas portuguezas revoltas e
desordens oriundas das necessidades bulhentas da fidalguia. Batalhar era
o unico meio de passar o tempo, ganhando fama e dinheiro ou terras. Mais
pacifico o reino occidental da Peninsula, em aquell tempo os fidallgos
portuguezes hiam a Castella muitas vezes por se provarem pellos corpos
quando em Portugall mesteres nom avia. Mesteres eram desordens, como a
que assolou o paiz no tempo de Sancho II e levou  deposio do rei. Eis
aqui um episodio do livro das _Linhagens_: E este Raymo Viegas de
Portocarrero, sendo vassallo d'elrey D. Sancho de Portugal, veio uma
noute a Coimbra com a companha de Martim Gil Soverosa, onde el-rey jazia
dormindo na sua cama; e roubaram-lhe a rainha D. Mecia sua mulher de
apar d'elle e levaram-na para Ourem. O rei lanou-se apoz d'elles e s
os pde alcanar em Ourem que era ento muy forte. Disse-lhes que
abrissem as portas, pois era elrey D. Sancho, e levava seu preponto
vestido de seus signaes e seu escudo e seu pendo ante si, e deram-lhe
muy grandes stadas e muy grandes pedradas no seu escudo e no seu pendo
e assim se houve ende (d'alli) a tornar. Mesteres eram estas guerras
civis frequentes; mesteres, porm, menos nobres, eram as vinganas
crueis exercidas sobre o povo inerme, como a de um tal Martim Esteves,
que matou os doze melhores homens de Alter-do-Cho por deshonra que lhe
ahi fizeram.

Mesteres ainda, so os desaggravos do thalamo to a miude violado. Houve
um Dom Rodrigo Gonsalves casado com Dona Ignez Sanchez; ella, estando no
Castello de Lanhoso, fez maldade com um frade de Boiro, e o marido,
certo d'isto, chegou ahi, cercou as portas do castello, e queimou-a a
ella e ao frade e homens e mulheres e bestas e caens e gatos e gallinhas
e todas as cousas vivas, e queimou a camara e pannos de vestir e cama, e
no deixou cousa movel.

Nos mesteres amorosos tambem essa gente barbara se provava pellos
corpos mas sem necessidade de ir a Castella. Quando em to pouco se
tinha a vida alheia, como se teria em muito a honra? De Affonso
Henriques, o rei muito bravo e esquivo em mancebo, conta a historia
que foi um dia hospedar-se em Unho, a casa de um homem-bom que havia
nome Gonalo de Sousa, e emquanto elle ia adubando o comer, foi elrey
vr-lhe a mulher que tinha por nome Dona Sancha Alvares e
comeou-lh'a... E Dom Gonalo de Sousa entrou pela porta e viu assim ser
e pesou-lhe d'ahi muito e disse-lhe: Senhor, levantae-vos, ca adubado o
tendes. E o rei foi sentar-se, e comeu e partiu; e o marido pegou da
esposa, montou-a n'um jumento com a cara para a cauda, e mandou-a assim
 crte entregar ao rei.

Estes escrupulos do fidalgo no eram, porm, geraes, e fazem-lhe honra.
A promiscuidade repugnante, o incesto, o sacrilegio so casos communs.
Um fez um filho em Tereja Mendes, abbadessa de Lorvo e levou-o para a
crte, onde D. Diniz lhe deu muito bem e muita merc. Outro ouve um
filho, Ruy, que foi privado d'elrey D. Diniz e ouvidor de sua caza. Os
reis, os nobres teem barregans publicas e legies de bastardos. Quando
D. Maria Paes, amazia de Sancho I, vinha do enterro do rei em Coimbra,
encontrou em Avelans Gomes Loureno, que lhe sau ao caminho e a
_filhou_ por fora, roussando-a. Elvira Annes roussou-a Ruy Gomes de
Briteiros. E D. Ferno Mendes, o bravo, foi o que matou sua madre na
pelle da ussa e pose-lhe os caens, porque lhe baralhara com a barregan.
A bestialidade nem respeita o sangue, nem um incesto impede o casamento
das nobres damas. Dona Thereza Gil foi de mau preo e ouve filhos de
seu primo co-irmo; Dom Pedro Garcia _jouve_ com sua irman e fez em
ella semel. Dona Mor Garcia no foi casada, mas roussou a seu irmo
Pedro e fez em ella Martim Tavaya. Outrotanto succedeu a uma Maria
Mendes, que depois casou com Loureno Soares de Valladares.  longa a
lista das torpezas das _Linhagens_ da fidalguia. Taes so os poeticos
amores da Edade-mdia, cujo brio  perfidia, cuja bravura  crueldade,
cuja nobreza  astucia. A carne, o sangue e o ouro, a orgia bestial, a
carniceria e o roubo so os elementos d'essas historias, em que a rudeza
barbara apparece manchada de podrides asquerosas.

O roubo e o assassinato compem essa epopa aristocratica, cujos amores
so _roussos_, estupros, adulterios, cujo espirito  a avareza e a
perfidia.[50] _Filhar_ as terras do rei,  a primeira das
emprezas da _cavallaria_ em Portugal. E o rei no vale mais do que os
cavalleiros. Quantas vezes, com effeito, no seria usurpadora a sua
interveno? quantas vezes a ira brutal do fidalgo no teria um
fundamento justo? Affonso II leva metade do seu reinado a espoliar da
herana os irmos, e todo elle a _inquirir_ o fundamento legal da posse
dos dominios aristocraticos: faz-se ida da regularidade do segundo
processo, depois de observada a primeira faanha. A confuso  to
grande, que D. Diniz (1309) decide abolir todas as _honras_ posteriores
a 1290.

 tambem no seu tempo que um outro acto de grande alcance vem diminuir o
poder da nobreza, de um modo analogo ao que succedera ao clero. Assim
como, fra da nao, o clero tinha em Roma o seu chefe supremo; assim
tambem as Ordens militares, estabelecidas em Portugal, tinham fra do
reino os seus mestrados. Nacionalisar as Ordens militares (1310)
equivalia ao que se conseguira com as assemblas do clero. O _Templo_,
poderosa machina destruida por Clemente V, legava os seus bens ao
_Hospital_, mas os tres reis de Castella, Arago e Portugal, _como todos
tres fuessemos uno a catar nuestro drecho_, conseguem nacionalisar os
bens dos templarios.  com elles que D. Diniz funda a ordem portugueza
de Christo.

                      *      *      *      *      *

Os monges militares[51] tinham representado um papel
importante no movimento da reconstituio economica dos territorios
portuguezes. Desde os primeiros tempos que s Ordens jerosalemitanas
fra confiada a guarda de numerosas povoaes. O Templo, o Hospital e o
Sepulcro fruiam de abundantes doaes; e Affonso Henriques concedera 
primeira a tera parte de todas as conquistas ao sul do Tejo.  inopia
de foras para levar a cabo as grandes emprezas de Lisboa, Alcacer e
Silves, pontos decisivos da conquista do sul do reino, remediavam os
Cruzados; mas as esquadras partiam com o saque, e ssinhos os
portuguezes no podiam conservar o adquirido. N'este motivo se fundra a
concesso permanente de terras s Ordens militares. Como vimos, Sancho
II estendeu as fronteiras do reino pelo alto-Alemtejo; e sem recursos
para conservar as conquistas, chamou para o reino os cavalleiros de
Santiago e Calatrava, cujo mestrado era castelhano.

Tal era o unico meio de guarnecer os castellos dispersos pelas vastas
campinas assoladas do sul do reino. A instabilidade do dominio e a
escassez da populao--ainda hoje sentimos as consequencias d'essas
prolongadas guerras--no permittiam que a cultura se estendesse; e 
falta de productos da terra, christos e sarracenos tinham de
soccorrer-se ao systema de correrias e algaras permanentes. Como em
nossos tempos na Servia, o lavrador trabalhava armado, na limitada rea
aproveitada em torno dos lugares fortificados. Alm da occupao
constante de _alancear mouros_, havia os grandes fossados annuaes, no
tempo em que as searas estavam maduras; e isto fazia precaria e
transitoria a agricultura. Todas estas causas reunidas produziam em
resultado a devastao universal, j consummada na edade de que nos
occupamos. Nos foraes dos primeiros seculos da monarchia, o alfoz dos
concelhos  demarcado por uma certa penedia no alto da serra, pelo
carvalho insulado, pela _velha_ estrada mourisca, por certa pedra de cr
diversa; jmais por casas, villares ou granjas.

O norte do reino, abrigado das invases, defendido pelas linhas
estrategicas do Tejo e do Mondego, no era, desde seculos, theatro da
guerra santa. As depredaes, menos geraes e menos frequentes, provinham
ahi apenas das rixas dos senhores e das guerras civis. Affonso II mandou
arrasar as propriedades do arcebispo de Braga. As guerras entre os
filhos de Sancho I, as commoes que acompanharam a queda de Sancho II,
a rebellio armada de Affonso (depois IV) contra seu pae, a do viuvo de
Ignez de Castro, entre outras, trouxeram decerto ruinas e desastres, mas
no para comparar com as assolaes do sul, nem sequer com os males dos
primeiros tempos, quando a ambio de conquistar a Galliza fazia do
Minho o theatro das luctas quasi constantes com Leo.

As guerras castelhanas do tempo de D. Fernando teem um novo theatro,
porque o antigo condado portucalense descera j  condio de provincia
portuguesa. O corao do reino est em Lisboa, a terra querida d'elrey
Diniz, _ca hy nascera, hy fora criado y bautizado, e hy fora rey_. Nem o
norte do Mondego, rico e populoso, nem o sul do Sado, demasiado bravio e
inhospito, chamam a atteno administrativa dos governos. Toda ella se
applica para o centro do reino, a renovar e agricultar, e para o
desenvolvimento da navegao e do commercio pelo magnifico porto onde
todos os navios, em viagem dos mares do norte para o Mediterraneo,
vinham refrescar, desde que Lisboa era christan. D. Diniz lavrou o
primeiro tratado mercantil com a Inglaterra (1308). Os armadores da
Normandia, da Flandres e da Inglaterra, j no fim do XIII seculo
demandavam o Tejo, para mercadejar; e os cuidados dos reis no se
limitavam apenas a favorecer esse commercio, porque as plantaes de
vastos pinhaes nas costas teem como motivo proporcionar madeiras s
construces navaes, e ao mesmo tempo defender as terras da invaso das
dunas, no litoral de entre o Tejo e Mondego.

O ultimo d'esta serie de phenomenos que demonstram a formao crescente
de um organismo nacional,  o apparecimento de Lisboa, a cidade querida,
como um centro de actividade maritima e commercial. Definitivamente
separado de Leo, obliteradas as ambies da absorpo da Galliza,
geographicamente completo at ao mar do Algarve, rota a dependencia
feudal de Roma, nacionalisado o clero e as Ordens militares, fortalecido
o poder dos reis, iniciada a organisao da justia, da administrao,
do ensino--o corpo da nao portugueza, at ahi acephalo, achava em
Lisboa a capital. A cidade do Tejo dava mais do que um centro de vida
organica, dava um destino definido--o maritimo--a uma nao que na terra
da Hespanha no tinha individualidade, nem por uma indole homogenea e
particular dos habitantes, nem por uma conformao especial e autnoma
do territorio.

Corintho ou Veneza do occidente, Lisboa _grande cidade de muytas e
desvairadas gentes_ era mais do que a capital do reino: era a razo de
ser da sua independencia.

    [43] V. _Hist. da civil. iberica_ (3. ed.) liv. III, 4.

    [44] V. _Instit. primit._, pp. 233 e segg.

    [45] V. _Instit. primitivas_, pp. 137-47.

    [46] V. para os usos judiciaes, etc., na Edade-mdia portuguesa,
         o _Quadro das Instit. primit._, pp. 17-18, 154, 163-4, 170-1,
         175-8 e 181-205; e _Regime das Riquezas_, pp. 172-4.

    [47] V. _Hist. da civil. iberica_ (3. ed.) pp. 158 e segg.

    [48] V. _Hist. da civil. iberica_ (3. ed.) pp. 127-32 e 143-9.

    [49] V. _Hist. da civil. iberica_ (3. ed.) pp. 135-43

    [50] V. _Instit. primit._, pp. 98 e 157.

    [51] V. _Instit. primit._, p. 263.

                      *      *      *      *      *




IV

A crise


Quando Portugal se encaminhava, por fim, no sentido de uma rapida e
definitiva constituio, quiz o acaso que o throno coubesse por herana
a um principe de fracas, mas sympathicas qualidades.

    Do justo e duro Pedro nasce o brando
    (Vede da natureza o desconcerto!)
    Remisso e sem cuidado algum Fernando.

O filho de Pedro I era uma infeliz creatura, mal equilibrada nas suas
qualidades e defeitos. No era, decerto, aquelle homem de que a nao
carecia para consolidar de um modo seguro a sua independencia; e n'um
sentido pde dizer-se que as condies em que se achou foram a causa dos
males de que muito soffreu. Faltava-lhe a firmeza necessaria para
realisar os planos concebidos por uma intelligencia perspicaz. Era
inventivo, mas era chimerico. Media o alcance dos actos e pensamentos,
mas no sabia pesar o valor dos meios. O corpo de leis que promulgou
para fomentar a navegao e o commercio, honraro eternamente a sua
intelligencia e a fina percepo com que via no desenvolvimento maritimo
o futuro da patria. A obra consideravel das fortificaes da capital
(1377) concorre tambem a mostrar que reconhecia a verdade--cruamente por
elle aprendida--de que Portugal era j, e seria sempre Lisboa.
Accusam-no modernos sabios de ter defraudado a moeda: mas que outro
remedio havia ento contra a penuria do thesouro? que outros exemplos
davam os demais principes? que outro exemplo damos ns ainda hoje,
quando, para no cercear o peso ou diminuir o toque do ouro, cunhamos
papel?--Accusam-no porque _hordenou almotaaria em todallas cousas_
(1375): e que outro remedio havia, na curta sciencia do tempo, contra os
monopolios e agiotagens, mais funestos na paz do que as batalhas dos
tempos de guerra? Tarifar os generos e os salarios foi medida applaudida
quasi at nossos dias; obrigar os detentores  venda dos cereaes,
determinar a partilha dos gros, foram actos de salvao publica
repetidos ainda depois de D. Fernando, e sempre que uma crise obriga a
suspender as garantias, ou justia civil. Mas o rei que cerceava as
moedas e ordenava a almotaaria em todas as cousas, era o que fundava a
marinha mercante nacional: era o que, olhando para o mar, no se
esquecia da terra, obrigando os proprietarios dos maninhos alemtejanos a
cultival-os, ou a aforal-os. A administrao de D. Fernando  um
cesarismo. O desenvolvimento politico e economico da nao chegava a um
momento de crise organica traduzida por uma crise militar e dynastica. A
populao e a riqueza tinham crescido de um modo notavel desde que,
havia mais de um seculo, terminra a reconquista do territorio aos
musulmanos. O censo que annos depois se fez (1417) d ao reino 4:800
besteiros de conto, ao Porto 8:500 habitantes, e a Lisboa 63:750.
Pullulavam enxames de aldeias e casaes pelos campos agricultados, e
muitas villas que depois definharam eram ainda importantes: Sines,
Cezimbra e Mertola. Algumas cidades eram muito maiores do que so hoje:
Evora e Beja, Santarem, Thomar, Leiria. D. Fernando herdou o reino
robusto e forte.

Mas o pobre rei, to bom e to sagaz, tinha porm um fraco, que
estragava tudo: era doido por mulheres. Singular na edade-mdia, a
pessoa de D. Fernando parece estar no fim de uma epocha historica, como
um indicio e um typo mal esboado de futuros personagens. Superior na
intelligencia, acaso por isso mesmo era desmandado no modo de proceder.
Talvez lhe conviesse o nome de sceptico, especie moral que o
desenvolvimento da inteligencia, sem o desenvolvimento parallelo da
vontade, ou do caracter, faz to commum em nossos dias. Para Cesar, D.
Fernando era, porm, bondoso de mais: tinha um fundo de sinceridade que
o perdia, porque  indifferena no reunia o cynismo. Era, no fundo, um
pobre homem de talento. Este genero de individuos  sempre sympathico; e
por isso o povo, embora chegasse a mofar, nunca o odiou. As suas
fraquezas, prazeres e amores sempre foram criticados com benevolencia. O
povo sabia que no fundo o caracter do rei no era perverso. No o podia
respeitar nem temer, mas sorria-se amigavelmente das suas
extravagancias. Era o filho prodigo da nao.

s suas qualidades e vicios sympathicos reunia o ser formoso, agil,
cavalleiro como os bons, caridoso, affavel, gran criador de fidalgos e
muito companheiro com elles, cavalgante, torneador, grande justador e
lanador atavolado--o jogo era uma das basofias do fidalgo
medieval--dadivoso para com todos, e grande agasalhador de estrangeiros.
A toda a gente queria bem, mas de um modo familiar e singelo, que no
infundia respeito. Os reis de fra, sabendo-o to singularmente bom e
simples, riam-se d'elle.

Era um infeliz, no sentido que a expresso tem popularmente em
castelhano. Dava tudo pela caa: uma paixo desenfreada. S falcoeiros
de besta contava quarenta e cinco, e no estava satisfeito: queria
povoar com elles uma rua inteira em Santarem. Quando mandava por aves,
nunca lhe trouxessem para menos de cincoenta, entre aores e falces,
gerifaltes e negris, todas _primas_. Tinha um regimento de mouros para
apresarem as garas e outras aves, que iam buscar a caa nas lagas. No
perdoava sequer os innocentes pombos. Eram s legies as matilhas de
ces para coelhos, rapozas e lebres. Correr lebres ou atirar aos pombos
era o seu _grande sabor e desenfadamento_. O do seu av Henriques fra
correr mouros e atirar s ameias dos castellos: os tempos, os
temperamentos, eram j inteiramente diversos.

Ainda assim, no era a caa que perdia o rei. Namorado sempre e
mulherengo, amador de mulheres o achegador a ellas, diz F. Lopes,
tinha um feitio terno, _amavioso_. A carnalidade arrastava-o aos maiores
excessos, e  provavel que tivesse vicios ingenuos. Sua irman solteira,
a infanta D. Beatriz, fra cinco vezes offerecida, outras tantas
recusada, a diversos principes, nas varias combinaes politicas que a
sua fertil imaginao creava, e que a sua indolencia invencivel punha
logo de parte. A crte d'essa irman era um viveiro de donas, onde o rei
permanentemente satisfazia os seus gostos mulherengos. Foi n'essa crte
que viu e se perdeu de amores por Leonor Telles. Parece, comtudo, que
antes d'isso no amava; porque  proprio dos temperamentos, como era o
do rei, no ter paixes. A sua delicia era o gozar indolente dos
carinhos e meiguices das mulheres, no era amar. No  provavel, pois,
a suspeita deshonesta que alguns tinham da virgindade da infanta ser
por elle minguada. Bastavam ao rei os jogos e fallas to a meude
misturadas com beijos e abraos e outros desenfados de similhante
preo. S aos fortes coraes  dado amar e enlouquecer. D. Fernando
no tinha essa virilidade de caracter. Distincto, perspicaz, engenhoso
de espirito, bom, affavel de genio, faltavam-lhe o valor que faz os
homens, e a vontade que faz os reis. Era uma indolencia formada de
espirito e sensualidade; uma creatura romantica e sympathica; uma
mulher, fraca e intelligente, sentada no throno. Leonor Telles
conquistou-o, porque tinha o genio de um Homem; e o segredo d'essa
alliana tenaz no est n'uma paixo do rei, est na inverso das
pessoas e dos sexos. Ella fez-se rei; elle tornou-se a amante, passiva,
indolente, sensual.

                      *      *      *      *      *

O tempo de D. Fernando foi uma serie de guerras com o visinho reino de
Castella. As muitas desgraas d'essas emprezas loucas tiveram de bom o
affirmar de um modo terminante a independencia formal e positiva da
nao, como se da batalha de Aljubarrota.  maneira de certas
enfermidades agudas, quando atacam o homem de temperamento indeciso e
constituio debil, na edade em que attinge a virilidade, e determinam
uma revoluo organica, fixando e consolidando a saude--assim as guerras
castelhanas de D. Fernando. so, para Portugal, uma crise. O seu destino
vacillante, os seus orgos esboados apenas, soffrem a prova de uma
commoo violenta. Acordam outra vez as tentaes antigas, j
anachronicas, da conquista da Galliza; o reino  mais de uma vez
invadido; a miseria, a ruina, as devastaes e a penuria affligem, como
uma febre ardente, o corpo da nao. Falta decerto um rei que a dirija,
um homem forte que a represente e guie; mas isso mesmo concorre para
caracterisar a crise, demonstrando que a vitalidade collectiva existia
j, e no provinha apenas da imposio forte de um brao guerreiro. Em
dois seculos Portugal tornara-se de um amalgama de populaes ruraes,
cuja unidade estava apenas no genio dos seus bares, em um organismo,
cuja consciencia de uma vida collectiva era real e definida. Tal , a
nosso vr, o merecimento d'essa revoluo nacional, cujo supposto chefe,
o Mestre de Aviz,  mais o instrumento do que o heroe.

No precipitemos, porm, a narrativa.

D. Fernando julgra convir-lhe apoiar a usurpao do throno de Castella
por Henrique de Trastamara, quando o poder do rei D. Pedro ainda chegava
para bater o rival em Najera. Depois que o usurpador, voltando de Frana
com o auxilio de Duguesclin, consegue desthronar o rei perdido, D.
Fernando julga conveniente alliar-se ao do Arago e ao mouro de Granada,
contra o Trastamara victorioso. Formra o chimerico plano de bater o
vencedor com o partido vencido que o invocava; esperando sentar-se no
bello throno de Castella, de que promettia um retalho ao aragonez, outro
ao granadino. A empreza no destoava dos antecedentes historicos; porque
o regime politico da Hespanha, retalhada em varias monarchias, era um
systema de conquistas successivas de reinos. Era, porm, chimerica por
dous motivos, um ignorado ento, outro evidente: a incapacidade do rei,
e o destino que marcava  Hespanha a soluo unitria. Se Portugal pde
escapar aos preceitos d'esse fado, deveu-o ao movimento que, por lhe dar
Lisboa, fazia d'elle uma nao cosmopolita, commercial e maritima, e no
propriamente hespanhola: outra Hollanda, no corpo de outra
Allemanha[52].

A politica de D. Fernando era, pois, historicamente insensata, falta que
seria absurdo irrogar ao rei; mas era tambem pessoalmente absurda,
porque os seus planos eram chimeras, to breve nascidas como
abandonadas. Haveria no espirito do rei o pensamento, mais ou menos
definido, de se substituir ao castelhano na obra da unificao politica
dos Estados peninsulares? Nada authorisa a suppol-o; e at porque tal
pensamento no estava ainda cabalmente definido para os monarchas de
Castella.

O facto  que D. Fernando declarou a guerra e abriu a campanha,
invadindo a Galliza (1369); mas sua ida foi de tal guisa que mais sua
honra fora no ir alla dessa vegada. Muitos bares gallegos correram a
recebel-o, a acclamal-o. Tradies de outras eras? Ambies, ainda
vivas, de uma independencia, que mais de uma vez tinham considerado
solidaria com a soberania de Portugal?  provavel; mas  tambem certo
que a rapina era o motivo immediato da adheso, porque muytos vinham-se
a ele e pediam-lhe os bees dos que se iam para D. Henrique, o que era
dado ledamente. O inimigo, de Castella, fazia outro tanto. O conde
Andeiro foi o mais caloroso dos partidarios gallegos de D. Fernando.
Sau ao encontro do rei, alvoroado, a gritar: Hu vem aqui meu senhor
Elrey D. Fernando? E o rei, esporeando o cavallo, radioso e feliz por
uma to facil conquista, vendo-se j sentado no throno de Castella,
avanou, respondendo: Eu som! eu som! A invaso tornava-se um passeio
at  Corunha; mas pouco adivinhavam ambos, o conde e o rei, quanto
haviam de pagar caro os prazeres desses dias breves.

O castelhano corre sobre a Galliza, e D. Fernando foge a esconder-se em
Coimbra. A resaca assoladora vem at Braga e Guimares, atravez de todo
o Minho. A provincia inteira gritava por soccorro: Aqui d'el-rei, contra
o castelhano!--O rei, indeciso, indolente, esperava a realisao da sua
chimera:--no  mister batalhar; Castella inteira vem entregar-se, como
se entregra, de braos abertos, a Galliza!--Passeava-se, entretanto,
com o exercito, entre Santarem e Lisboa. Ia, vinha, avanava e
retrocedia, to tonto que j o povo da capital ria d'esses passeios:
_exvollo vae, exvollo vem!_[53]

Afinal em Coimbra--cidade funesta aos dois Fernandos[54]--decidiu-se a
acudir ao Minho, quando o rei de Castella, depois de assolar tudo, tinha
j partido para alm da fronteira. Pela raia, porm, o batalhar
continuava, e tambem na costa andaluza o bloqueio maritimo: j Portugal
tinha armadas. Mas a guerra dilatava-se; e Castella, decididamente, no
o chamava para seu rei. Comeou a _assentar-se del a covardice_,
abandonou os alliados; e aborrecido e desilludido por esta vez, assignou
as pazes de Alcoutim.

A sua chimera s, porm, o deixou quieto por tres annos.

D. Pedro tinha morrido em Montiel, assassinado s mos de Trastamara
(1369); a filha mais velha do defunto era casada com o duque Joo de
Lencastre, da casa de Inglaterra: d'ahi vinham as pretenes d'este 
cora castelhana e o bravo duello que a Inglaterra e a Frana debateram
na Hespanha por muitos annos. A influencia franceza era dominante em
Castella; e para logo, nas successivas e ulteriores convulses, a
alliana ingleza venceu em Portugal. D. Fernando, ou movido pelo desejo
de desforra, ou pensando ainda nas suas velhas ambies, e esperando
ludibriar o alliado, assigna em Braga (1372) o tratado de alliana com o
inglez, contra o castelhano. Henrique de Trastamara, em cuja crte
andavam diversos fidalgos portuguezes, como os gallegos da invaso
anterior andavam com D. Fernando, manda Pacheco (o terceiro assassino de
D. Ignez de Castro) vr se effectivamente o rei se dispunha  guerra.
Era to voluvel o seu caracter, que o castello no acreditava ainda.
Voltou Pacheco: sem duvida o rei estava disposto a entrar em campanha.
Ento D. Henrique, com bondade, lhe pede que abandone essa chimera, e
insta pela paz. Elle, excitado pelas _hespanholadas_ de Affonso Tello,
suppe que a fraqueza era o motivo da insistencia. Inuteis as
observaes, o rei de Castella prefere invadir a ser invadido; e
rapidamente entra pela Beira (1372), ce sobre Lisboa, cujo crco uma
esquadra, ao mesmo tempo partida de Sevilha, encerra por mar (1373).

Que fazia D. Fernando? Do alto dos muros de Santarem, onde se fechra,
via passar o exercito inimigo, sem ousar mover-se. Dois motivos lh'o
impediam. Esperava a toda a hora o soccorro do inglez; e se o fructo
d'essa guerra lhe era destinado a elle, bom seria que em pessoa o
disputasse. Deixar, porm, invadir assim o reino, pr crco  capital,
abandonar o povo, abandonar Lisboa, era vergonhoso, decerto. Mas se
n'esses dias Leonor Telles, enferma, estava de cama, com as dres do
parto? Como havia de o pobre rei acudir aos dois deveres? A quem
obedecer primeiro: ao tyranno politico, a cora, ou ao domestico, a
rainha? Como todos os fracos, decidiu-se pelo mais proximo; tapou os
ouvidos aos clamores da nao, para attender s aos ais da enferma. No
era por paixo que o fazia, era por indolencia: sempre esperava que
Lisboa afinal havia de resistir, e saberia defender-se!

Com effeito, no se enganava. A cidade valia muito mais do que o rei.
Quando viu approximar-se o castelhano, chegou a ser temeraria; porque
pretendeu defender com barricadas os arrabaldes, fra dos muros. Lisboa
tinha a homogeneidade na resistencia; e em vo D. Diniz (o infante que
por condemnar o casamento de Leonor Telles fugira para Castella), em vo
Pacheco e os mais portuguezes de D. Henrique buscavam convencer os
lisbonenses da vantagem da rendio. No estamos agora no norte, meio
gallego, onde a ida de nacionalidade vogava indecisa nos dois lados do
Minho: estamos no corao do paiz, e n'uma terra sem tradies leonezas,
que no foi _separada_, que nunca obedeceu a outro rei mais do que ao
portuguez, a quem deve o que . Inuteis as tentativas de D. Diniz, de
Pacheco, e dos mais, o exercito approximou-se. Viu-se ento a temeridade
de defender os arrabaldes; e  pressa, recolheram-se todos para dentro
dos muros. O enxame acudia s portas, correndo curvado com o peso das
trouxas, das arcas, onde salvra o que tinha mais precioso. Vinham as
familias em grupos, as mes, carpindo, arrastando os cordes de
creanas, espantadas de tudo aquillo. J os castelhanos entravam pelos
casaes e quintas dos arredores: o lume ardia ainda na lareira, a porta
estava aberta, os quartos vasios. Arrazaram e queimaram tudo, desde as
hervas at aos telhados.

No rei assentra outra vez a covardice: e, como o inglez no acudia,
acceitou a paz, e foi de Santarem a Vallada assignal-a (1373). Quanto
eu _haarricado_ venho! dizia a rir, na volta. Effectivamente no queria
mal algum a D. Henrique; e, se a empreza falhra, o melhor era fazer
cara alegre, e acabar por uma vez com o muito que, do crco, padecia
Lisboa. Alm d'isso, agradra-lhe o trato do inimigo: agradra-lhe
tanto, que lhe concedeu a irman, D. Beatriz, para casar com o irmo do
castelhano, Sancho. Triste destino o d'esta princeza, que era, nas mos
do rei, como os joguetes que as creanas do, tiram, voltam a dar, ao
sabor do seu capricho infantil!

Este mesmo modo de que usava com a irman, estava reservado  filha: a
outra Beatriz nascida em Santarem durante a invaso precedente. Henrique
de Trastamara tinha morrido; e o herdeiro, Joo I, na ida de reunir as
duas coras de Castella e Portugal, pedira a D. Fernando (que no tinha
outro filho) a mo da pequena D. Beatriz; ao que este annuira,
celebrando-se tratados, porque para casamento era cedo ainda: a pequena
teria oito annos, se tanto.

Mas o rei, diz o chronista, trazia sempre sua fala com os inglezes, o
mais encobertamente que podia. Que falas eram essas? Era a alliana de
Lencaster, na qual D. Fernando via talvez ainda luzir a possibilidade de
realisar a sua chimera. O conde Andeiro, que na primeira guerra abrira a
Galliza ao portuguez, fra desterrado para Inglaterra, na occasio de
Alcoutim, por exigencia do castelhano. Era Andeiro o confidente do rei,
e o seu agente para com Lencaster. Veiu de Inglaterra, escondido, a
Extremoz, onde o rei, ao tempo, assistia: trazia novos tratos e
combinaes, com a promessa de uma esquadra. O rei acceitou com
facilidade, e afianou ao duque inglez a mo da filha promettida ao de
Castella.

D'esta vez decidiu-se a proceder com energia. O castelhano, porm, j
conhecedor de tudo, mandra comear as escaramuas pelas fronteiras de
entre Tejo e Guadiana, theatro das faanhas de Nunalvares (o futuro
condestavel, que agora comea a sua epopa) em quanto dispunha o grosso
das foras para a campanha de Lisboa. A energia do portuguez consistiu
em enviar a esquadra a Sevilha destruir a inimiga. Com effeito, em
quanto mandasse no Tejo, Lisboa no podia ser efficazmente cercada. Mas
a _sandia presumpo_ de Affonso Tello perdeu a esquadra em Saltes
(1381). A armada castelhana, victoriosa, entrou no Tejo, trazendo a
bordo o infante D. Joo, irmo do rei, filho de D. Pedro o cr, que se
homisira de c por ter assassinado a mulher, Maria Telles, irman de
Leonor. Tambem lhe tinham acenado com a mo da pequena D. Beatriz, e a
ambio perdera-o! D. Joo repete as palavras de D. Diniz na campanha
precedente; mas  recebido a tiro, o infeliz. As surriadas de trons e
virotes exprimiram a eloquencia independente de Lisboa; e o infante,
humilhado, levou para Castella o desmentido formal a todas as sedies
que annuncira e promettera.

Chegou, afinal, por mar o Lencaster com os seus, trazendo novo alimento
 guerra, j accesa por todo o Alemtejo. Castella declarra-se pelo papa
de Avinho, Clemente VII: os inglezes e o rei D. Fernando pronunciam-se
pelo papa de Roma. Urbano VI. A religio vinha azedar ainda mais os
odios dos combatentes. E os inglezes do duque, mercenarios o barbaros do
Norte duro, lanaram-se a este pedao do Meio-dia, como lebreus famintos
a um regabofe. Estas gentes dos inglezes, refere o chronista, no vinham
como a defender a terra, mas para a destruir e buscar todo o mal,
matando, roubando e forando mulheres. Nem se limitavam a to pouco. De
uma guerra que lhes era indifferente, nas causas e motivos, entre povos
inimigos que no distinguiam, inimigos eram para elles todos, e cevar-se
o seu constante proposito. Guerreavam por conta propria, para saquearem.
Tomam aos portuguezes Monsars, o Redondo e Evora; e as populaes, por
fim desesperadas, acodem-se ao processo classicamente peninsular das
surprezas e assassinatos. As gentes comearam a matar muitos d'elles
escusamente, a ponto de que mais de um tero ficou enterrado pelos
campos e aldeias do Alemtejo. Na extraordinaria confuso em que a
indolencia e as chimeras do rei punham o paiz, j cada um combatia por
si proprio, com o proposito unico da defeza nacional.

Se os inglezes deixaram em volta do Tejo alguma cousa a roubar, ou algum
campo a queimar, os castelhanos da esquadra, desembarcando, quando o
exercito anglo-luso tinha subido para Evora a encontrar o inimigo,
acabaram a obra destruidora n'uma razzia monumental, a que no escapou
eira nem beira, nem arvore, nem cousa viva. Em volta das muralhas de
Lisboa ficou tudo um deserto morno e secco.

Pela terceira vez assentou no rei a covardice; e sem combater, voltando
as costas ao inglez logrado, assignou as pazes de Badajoz com o
castelhano (1381). De novo a pequena infanta D. Beatriz torna a ser
promettida a outro noivo: Fernando, de Castella, que no vem ainda,
comtudo, a ser seu marido; porque, ao voltar para casa, o rei Joo,
enviuvando, teima no antigo plano da fuso dos reinos. O casamento da
filha com o valetudinario monarcha visinho,  o ultimo e o mais
insensato dos actos de D. Fernando. Extinguia-se com elle a dynastia; e
por herana legava, do leito da morte, a independencia em perigo ao povo
que, apesar de to dorido, ainda e sempre lhe queria.

                      *      *      *      *      *

Fra no viveiro feminino da crte da irman que o rei Fernando vira
Leonor Telles. Era a terceira Leonor que escolhia para companheira, e
foi, desastradamente, a unica que veiu a ter. A primeira, de Arago,
recusou-lh'a o perspicaz pae, por vr quanto era defeituoso e fraco o
caracter do promettido genro. A segunda, de Castella, repudiou-a, desde
que viu e se namorou da terceira.

Maria Telles, irman de Leonor, era aia da infanta D. Beatriz. Leonor,
casada, vivia no seu solar da Beira. Estava em Lisboa, de passagem, a
visitar a irman, quando o rei a viu. Como comearam esses amores? Os
antecedentes do rei e o caracter da futura rainha deixam vr bem que no
deveu ter havido uma d'estas paixes fulminantes, communs nos homens
d'armas, mas de que D. Fernando era incapaz, e Leonor Telles tambem.

A fria ambio calculadora era commum s duas irms. A aia da infanta,
por quem o infeliz e louco D. Joo se namorra com paixo, preparra-lhe
cuidadosamente uma entrevista,  noute, no seu quarto. Quando o infante
chega, soffrego de amor, v um altar e um padre diante do leito.
Casemo-nos primeiro, amaremos depois. O infante, coacto pela paixo,
casou-se para amar; mas a aia pagou mais tarde, com a vida, o erro de
brincar com um leo, como so fra um rafeiro.

Leonor Telles tinha em si o saber sufficiente para ensinar: no carecia
das lies da irman. Percebeu que o rei, nas suas ligeirices, a preferia
 propria infanta; mas o papel de amante no lhe convinha: queria o de
rainha. Foi-se deixando ficar, e acirrava com tentaes a inclinao do
monarcha sensual e passivo. Era louan, aposta, e de bom corpo. D.
Fernando costumou-se s denguices da sereia: nos fracos, o costume gera
necessidades imperiosas, a que tudo sacrificam. Com o tempo, a ida de
que Leonor era casada, naturalmente a insistencia com que ella, sria e
affectando decro, falaria na necessidade de voltar para casa, para o
marido, fizeram sentir ao rei a impossibilidade de quebrar o habito dos
seus amores innocentes e molles. A indolencia  muito mais teimosa nas
suas exigencias do que a fora; um habito sensual tem maior tenacidade
do que uma paixo. Leonor Telles devia saber isto perfeitamente. O
momento decisivo approximava-se: no podia continuar por mais tempo em
Lisboa, o marido chamava-a, as ms linguas podiam falar...

O rei lembrou-se ento de que para alguma cousa lhe podia servir sel-o:
desmancharia esse casamento, porque uma dama to senhoril e casta no
podia ser sua amante. D. Fernando no tinha, o ingenuo, nem ponta de
cynismo. Falou seriamente, em particular,  irman. Mulheril como era,
este caso tinha maior gravidade do que uma guerra com Castella, pelo
repudio da princeza que lhe estava promettida nos tratados de Alcoutim.
Melhor fizera elrey, dizia o povo, tel-a por tempo e depois casar com
outra mulher. Bons conselhos! para quem vivia todo na atmosphera
feminina e molle da crte de D. Beatriz, onde Maria Telles reinava. Como
se Maria, Leonor, no fossem excellentes senhoras, recatadas, mas
seductoras na sua terna dignidade!

Maria poz por condio o casamento; Leonor Telles concordou em que muito
queria ao rei, mas ainda mais ao seu nome. Combinaram tudo em segredo, e
foram, s escondidas, ao norte, casar-se (1371) a Lea do Bailio, junto
ao Porto. Tinham, com effeito, medo de Lisboa. Quando regressaram 
crte e os rumores se confirmaram, as opinies moveram-se na capital. O
commum das gentes accusava o rei com odios apaixonados; mas no faltavam
os experientes a observar placidamente, que no era maravilha; j a
outros acontecera cousa semelhante; todo o homem namorado tinha uma
especie de sandice; o amor era como dr que doe e no doe ao mesmo
tempo. Muita gente se ria do marido infeliz que sensatamente fugira
para Castella, e para prevenir os motejos mandra pr no barrete dois
cornos de ouro em frma de plumas; muitos notavam a facilidade com que o
papa fazia e desfazia casamentos; e esta cumplicidade da religio e do
amor no augmentava em nada o respeito pela Egreja. Em summa, desde que
o riso entrava na questo, o odio do povo no era muito; e Lisboa
esperava para ver o resultado d'essa comedia, e tomar o pulso ao
caracter da rainha. Ninguem sabia ainda de quantas manhas elle era formado.

Mas nem em todos a longanimidade era to grande; e uma parte da plebe
decidiu-se a pedir contas, a reclamar garantias, e at a protestar.
Esses adivinhavam a perversidade da rainha. No rei assentou a covardice,
e Leonor Telles no podia ainda contar com partido proprio. Fugiram,
pois, s escondidas, para Santarem: e o povo, burlado, ficou em vo
esperando o rei no atrio de S. Domingos, para onde o comicio fra
aprazado. Pelo caminho, na fuga, o rei carinhoso observava: Olha
aquelles villes traidores, como se juntavam: prendiam-me certamente, se
l vou. E no podia esconder o susto, conchegando-se ao collo da
rainha, no seio d'uma inclinao protectora. Leonor Telles sorria,
calada. Era rainha, mas apupada: o plano da vingana acordava-lhe no
animo, e tambem o desdem por esse pobre rei, perdido e fraco.

Este primeiro acto da nova rainha foi decerto o seu primeiro erro. Desde
logo, at os mais indulgentes viram que no havia remedio; e o partido
dos seus inimigos cresceu em numero e ganhou foras e atrevimento. Ella
prejudicra os seus planos por um acto precipitado; e todos os esforos
que empenhava em ganhar sympathias eram vos. Era mui grada e liberal a
quaesquer que lhe pediam, mas quanto fazia tudo damnava; e a sua
caridade e as suas manhas no podiam encobrir os seus deshonestos feitos.

Com effeito, a rainha nem melhorava a fraqueza do rei, nem o afastava
das suas loucuras e emprezas perdidas; e por sobre isto era
reconhecidamente m. Accusavam-na de ter preparado o assassinato da
irman pelo infante seu marido; e era publico que, no meio da agitao da
terceira guerra castelhana, tentra matar o Mestre de Aviz, forjando
para tanto um falso alvar. O povo j a descrevia como uma fra
sangrenta; e o povo sabia quantos odios comprimidos ella guardava contra
essa Lisboa miseravel que a insultava e a apupava. Toda a gente se
sentia offendida, humilhada, com a humilhao do pobre rei. Contava-se
como era com elle ousada e faladora; e como el-rei, submisso e
indolente, curvava a cabea e se calava. Era uma desgraa que entrra no
palacio. Depois, alm de cruel, sanguinaria, e descomposta no modo, era
de uma deshonestidade publica. Todos sabiam que nas barbas do marido
tinha o amante no pao. E o pobre rei no desconfiava, na sua cegueira.
Quando o Andeiro viera de Inglaterra, escondido, com os tratos de
Lencaster, el-rei recolheu-o na torre do seu pao de Extremoz. A sala da
sesta era o quarto do conde; e o rei ia-se, e a rainha vinha passar
horas esquecidas a ss com o amante. O rei, como homem de so corao,
no via o que escandalisava a todos. Pouco se lhe dava d'isso a ella,
chegando a fazer gala dos seus desvarios. O adulterio e a crueldade, o
prazer e o sangue, alliavam-se bem n'esse genio perverso, mas
intelligente e altivo, to desdenhoso como impudico. Queria firmar sobre
o odio uma fora que no pudera conquistar pelo amor. Repellida,
accusada, escarnecida por um povo, para quem talvez quiz ser boa,
decidiu impr-se-lhe pelo desabrido do odio e pelo desplante do
comportamento. Vingava-se  maneira antiga, como uma Clepatra.

No outomno de 1383 falleceu D. Fernando; e logo que a tampa caiu sobre o
caixo do defunto, rebentou a revoluo.

                      *      *      *      *      *

A revoluo de 1383-5 tem um caracter de um Juizo-de-Deus. A dynastia
mentira ao papel justiceiro: morra por ello! Por uma serie de
extravagancias domesticas e politicas, D. Fernando levra a uma crise a
obra lenta e demorada da independencia nacional, iniciada com uma espada
por Affonso Henriques, assegurada com um aoite por Pedro o cr. 
verdade que no deixra de fomentar a consistencia material interna do
corpo da nao; mas de que valia isso, pois que a deixava outra vez a
braos com o problema vital da successo, o problema da independencia?

Logo que o rei morreu, os differentes actores da tragedia comearam a
tomar os seus logares na scena.

O castelhano immediatamente encarcera em Toledo o infante D. Joo, o
mais perigoso dos seus mulos por direito de herana, mas perdido
perante o povo pela nodoa do ataque de Lisboa, na esquadra inimiga.

A rainha viuva, julgando o momento opportuno para conquistar sympathias,
representa uma scena de prantos. Abandonra por um instante a sua
politica de vingana, agora que tudo podia perder, se a no escudassem o
respeito, ou o amor dos seus. Ella no queria entregar o reino a
Castella: queria que a filha fosse acclamada rainha, e ella, como
regente, rei de facto. Talvez pensasse em casar-se com o Andeiro, a quem
parece amava do corao: seria esse o castigo fatal dos seus crimes, por
ser a causa da sua perdio?

Como a rainha sabia a ruim opinio que havia a seu respeito, fingia-se
mui desconsolada e chorava em grandes prantos. Em uma camara escura,
coberta de d, com lagrimas e soluos--que s mulheres no faltam quando
lhes servem--se lamentava, com as visitas, do seu desamparo,
queixando-se do governo que o rei dra ao reino, agora pobre e infeliz.
(Ferno Lopes) Na sua dr, na boa vontade que tem de servir a nao
(para que ella a no expulse do throno) est por tudo. Com effeito, a
morte do marido punha-a  merc da vontade do povo. Era em tudo
obedecida, assim dos povos como dos grandes; mas bem via que essa
obediencia nada tinha de pessoal, porque ninguem a amava, nem a
respeitava. De um momento para outro podia perder tudo. Os de Lisboa
queriam que se constituisse um conselho de governo composto de dois
homens-bons de cada comarca: annuiu a essa tutela. Quando fra a
acclamao da rainha D. Beatriz, mulher do castelhano, observra os
tumultos geraes e os votos desencontrados das cidades. Em Lisboa, a
acclamao provocra rixas e conflictos; muita gente era pelo infante D.
Joo ou pelo infante D. Diniz, que andavam por Castella; outros
gritavam: _Arreal, arreal, cujo for o reino, leval-o-h!_ Em Santarem o
infante D. Joo foi positivamente acclamado. Elvas, para no se decidir,
no meio de tanta confuso, gritou: _Arreal, arreal, por Portugal!_

Esse era effectivamente o grito da nao: por Portugal! Ninguem se
recommendava bastante, no animo do povo, para merecer uma cora
disponivel, para se sentar n'um throno vago. O que Portugal no queria,
era que n'esse throno viesse sentar-se o castelhano. A rainha no o
queria tampouco; e era toda esforos para ganhar a si o povo, para
herdar de facto o reino. Organisada a regencia, pensou desde logo na
guerra; porque o rei de Castella j se preparava para vir occupar
Portugal. Nomeou os fronteiros do reino, e deu ao Mestre de Aviz a zona
de entre Tejo e Guadiana.

Havia porm dois homens que, no fundo, protestavam: Nunalvares e Alvaro
Paes. O primeiro  a mais nobre, a mais bella figura que a Edade-mdia
portugueza nos deixou. O typo cristallisado nos romances, o typo do
cavalheirismo e da pureza, tinha encarnado na pessoa do futuro
condestavel. Usava muito de ouvir e lr livros de historias, e
especialmente usava mais lr a historia de Galaaz, em que se continha a
somma da tavola redonda. Tinha a nobreza ideal do cavalleiro, e a
castidade de um mystico. Era uma aucena na alma, e um leo na bravura e
na generosidade. Resistira por muito tempo ao pae que o queria casar,
porque no curava de mulheres, nem isso lhe alegrava o corao. Por tudo
isto, a infamia da rainha abraada ao amante, e as lagrimas fingidas
pelo marido, cravam-lhe as faces de pejo e enchiam-no de indignao.
Nunca a obra indispensavel de salvar Portugal podia levar-se a cabo com
tal mulher: Deus no consente aos impuros os grandes actos, Um dia,
passeando s no pao, a cuidar no que havia de ser do reino,
occorreu-lhe a ida de que s a morte do Andeiro podia pr termo s
desgraas publicas.

O cavalleiro tinha ento 24 annos; e esse rapaz, typo ingenuo e puro de
virtude,  a imagem de uma nao, tambem joven, e ainda crente n'um
futuro proximo.  indignao da candidez forte junta-se a sabedoria fria
e o calculo experiente de Alvaro Paes, padrasto do futuro gro-doctor.
Tudo se conspirava para matar o Andeiro, para perder a rainha.--Era
verdadeiramente o juizo de Deus, cuja sentena, logo que fosse publica,
seria acclamada pela nao inteira. Isto assegurava ao mestre de Aviz
Alvaro Paes em Lisboa. Falava por sua bocca a cidade que Leonor Telles
tanto odiava, e que tamanhos medos tinha da rainha. Pensaria j o author
do plano do dia 6 de dezembro (1383) na fundao de uma nova dynastia?
Queria acaso matar apenas o valido para aterrorisar a rainha; e
entregal-a, assim, manietada, ao poder de uma oligarchia urbana, em que
Lisboa se arrogasse o papel de defensora do reino, tendo  frente de um
conselho de governo, com a regente vilipendiada e coacta, o Mestre,
homem simples, por instrumento e chefe? Era um plano atrevido, mas mais
de uma vez posto em pratica por diversas cidades opulentas da Hespanha.
No contava, porm, Alvaro Paes, nem com a arte que os annos
desenvolveram no Mestre; nem com o generoso e nobre caracter de
Nunalvares; nem com a fora invencivel dos futuros textos e doutrinas do
gro-doctor Joo das Regras.

Combinado o programma do dia 6, Alvaro Paes abraou e beijou o Mestre.
N'esse dia foi este ao pao despedir-se da rainha: partia para a sua
fronteira do Alemtejo. Momentos depois voltou acompanhado por alguns
fidalgos dos seus. A rainha, surprehendida, interrogou-o.--A fronteira
era muito _grossa_, levava pouca gente, os arrolamentos estavam errados,
queria examinal-os...

Leonor Telles estava ento na sua camara, sentada no meio das suas
damas, costurando, sobre o estrado. De joelhos, aos ps da rainha, o
Andeiro, de corpo bem disposto, _lustroso_, viril (40 annos), vestindo,
apesar do luto, um gibo de setim cramesi e um tabardo de panno preto,
sem o burel branco do estylo, falava manso com ella. Era um quadro de
familia, e tudo parecia sereno, menos o tom e o aspecto do Mestre e dos
seus, de p, carrancudos e indecisos, como quem tem na mente um crime.

A rainha, inquieta, mas simulando indifferena e sangue frio, chamou o
escrivo da puridade e mandou abrir o livro dos vassallos da comarca:
Escolhesse o Mestre os que quizesse. O escrivo de p, com o livro
aberto, ia lendo, indifferentemente _item_, _Dom_... etc, mas o Mestre
no lhe prestava grande atteno. Uns perante outros, os personagens da
tragedia adivinhavam-se, mas no se confessavam. S, porventura, o
escrivo, no seu tabardo negro, com a voz monotona, era sincero. Andeiro
levantou-se, sau a outra sala, a avisar os seus sequazes: o que o
Mestre vendo, receiou perder-se, ou que o ensejo lhe fugisse. Levou-o
comsigo para fra. A rainha, no meio das suas damas, sobre o estrado,
costurava. O momento agudo da crise chegra: era mistr consummar o
acto. O Mestre empurra ento o conde para o vo de uma janella. Elle ia
a fallar... sendo, porm, mais tempo de o matar, do que de o ouvir,
deu-lhe uma cutilada na cabea, a valer. Desarmado, o infeliz no podia
defender-se; e assim que inclinou a cabea rachada pelo meio, a gente do
Mestre acabou-o alli s estocadas. Foi uma faanha arteiramente
combinada, barbara e cobardemente executada. Nunalvares, quando a mesma
soluo lhe occorrera, pensou decerto n'um plano diverso.

Consummado o assassinato, poz-se em scena a comedia do contra-regras,
Alvaro Paes. Foi mandado um pagem a gritar pelas ruas que acudissem ao
Mestre, que o matavam no pao. Entretanto, dentro d'elle, era grande o
alvoroo. Uns fugiam pelas janellas, outros pelos telhados: todos
corriam como doidos, cheios de susto, e se acotovellavam nos corredores
e entre as portas. A rainha levantando-se, ao ouvir que lhe tinham
matado o amante, rugiu de colera, como a fera a quem roubam os filhos:
era a sua cruel fraqueza! Viu tambem a sua vida em perigo, e por ventura
n'este momento desejou a morte[55]. Animosa, mandou perguntar ao Mestre,
que n'um eirado do palacio,  vontade, descanava das commoes
violentas, se tambem a queria matar. Elle voltou, respeitosamente, que
no. Era um homem simples, costumado a vr em Leonor Telles a mulher do
rei: e por isso, alm de ser muito novo (26 annos), no se atrevia a
tanto. Era fogoso, brutal, e de instinctos pesados: um instrumento capaz
de executar os planos manhosos do Alvaro Paes, prompto para tudo, porque
no distinguia bem a linha que separa a nobreza da villania--como, de
resto, succedia a quasi todos os homens d'armas da Edade-mdia. Foram a
revoluo, os companheiros e depois a mulher, quem fez d'elle na edade
madura um sabio rei.

Na rua, Alvaro Paes vinha a cavallo (por excepo rara, que era velho j
e pesado)  frente da procisso de energumenos, bradando por desvairadas
maneiras. A plebe, investindo com o palacio, quebrava os cancellos de
ferro, trazia escadas para o assalto e montes de lenha para queimar
tudo. Era uma algazarra incrivel de improperios e nomes deshonestos,
dirigidos  rainha. J de dentro havia medo de que o fogo pegasse, e que
o fim da tragedia fosse um incendio justiceiro. Extenuavam-se a gritar
que o Mestre estava vivo, Andeiro morto; mas ninguem tinha ouvidos no
meio do clamor da turba. Por fim, o Mestre de Aviz appareceu a uma
janella e foi victoriado: Vinde para ns, gritavam-lhe, e de ao dmo
esses paos! Alli mesmo, ao p do palacio, ficava a S; Era necessario
solemnisar a festa com os repiques dos sinos, conforme a plebe o
ordenava; mas os padres, recolhidos no alto da torre, no sabiam o que
queriam d'elles: e por esse crime foram precipitados  rua o bispo e
mais dois: e os cadaveres, arrastados ao Rocio, ahi ficaram para pasto
dos caens.

Tambem o Mestre j sentia fome, depois de tamanho dia. Foi com Alvaro
Paes comer socegadamente. O homem cumprira o que tinha promettido: e, 
mesa, na satisfao da victoria, instruiu o rapaz sobre o que lhe
restava fazer: pedir perdo  rainha, depois de jantar. Quem sabe?
dir-lhe-hia elle, mastigando, mais tarde... casar com ella... E o
mestre, bastardo, pobre, ambicioso e simples, via abrirem-se-lhe
horisontes seductores.

Com effeito, depois de jantar, o Mestre de Aviz foi ao pao e, de
joelhos, pediu perdo  rainha. Tamanha simplez encheu-a a ella de
espanto. Estava calada, no sabia que responder: e como o pobre
insistia, ella, afinal com desdem, voltou-lhe: Falemos de outras
cousas... O Mestre saa desorientado e corrido, atraz d'elle as suas
guardas, quando a rainha, seguindo-os, deu de chofre com o cadaver do
conde empoado em sangue e coberto com um tapete velho. No pde mais
conter-se; e o seu animo, perdido, rebentou em duras queixa: Enterrae-o
ao menos, j que o mataste to deshonradamente! Elles no curaram
d'isso, nem se doeram do adverbio da rainha, e foram para suas pousadas.
Era tempo perdido.

Ao outro dia a rainha partiu para Alemquer--suffocada em odios contra
Lisboa: queria vel-a arrazada e queimada de mau fogo, queria uma
tonelada de linguas das suas mulheres. Queria uma vingana, uma desforra
que dsse brado ao mundo. Que lhe importavam,  sua alma desvairada, a
nao e a independencia? No egoismo absoluto de uma paixo, esquecia
tudo; e por isso mudou de rumo  sua politica, e convidou o rei de
Castella a vir tomar posse de Portugal. Perdia-se irremediavelmente.

Entretanto a maxima parte da nobreza acompanhava-a, e a fidalguia era
ento o exercito. Uns no queriam pactuar com a revolta da plebe de
Lisboa, nem curvar a cerviz ao imperio de Alvaro Paes. Outros eram fieis
 legitimidade da regencia. O resto dos que no acompanhavam a rainha e
grande parte das classes mdias eram pelo infante D. Joo, preso em
Toledo. O plano de Alvaro Paes e o partido do mestre de Aviz caiam
tanto, que, desanimado, o ultimo decide-se a abandonar a empreza e a
fugir para Inglaterra--como fez depois o seu successor na historia, o
Prior do Crato. Poderam, porm, contel-o. Para que? Para o decidirem a
uma segunda vergonha. Eram incapazes de nenhuma grande audacia, de
nenhum plano temerario; e s um d'esses poderia dar a victoria. No
sentiam o palpitar violento de uma nao forte que aspirava  vida. Os
seus meios eram mesquinhos, soezes e crueis. Conquistaram o castello em
Lisboa, levando  frente de si as mulheres e os filhos dos que o
defendiam pelo infante D. Joo. Angariavam sequazes, comprando-os a
dinheiro, segundo a regra de Alvaro Paes: _dae o que no  vosso,
promettei o que no tendes, e perdoae a quem vos errou._ A rapina e a
impunidade eram o alicerce da fora do partido, j ridiculamente
alcunhado do _Mexias de Lisboa_. O segundo plano proposto, para evitar a
fuga do _Mexias_, era a antiga ida commum e soez de Alvaro Paes:
casal-o com Leonor Telles. O Mestre accedeu; e propoz o caso  rainha,
que respondeu com uma gargalhada. Podia-se acaso descer mais? No podia.

Quem faz, porm, os Messias  o povo. Valham pouco, valham nada, pouco
importa. So um lbaro, onde a turba escreve um moto. Vo, mas no
guiam. Portugal com effeito gerava uma revoluo messianica; pedia em
altos brados que o salvassem; tinha a consciencia de que podia e havia
de ser salvo. Esta fora latente e invencivel, era, porm, ignota para a
simplez do Mestre e para o lerdo instincto de Alvaro Paes. Andavam ambos
como cgos em torno de um pharol, sem o verem. Eram ambos como certos
animaes das trevas, a quem a desnecessidade priva de olhos.

Para vr e para sentir a gravidade do momento, para conceber a audacia
da revoluo, era mistr, ou a ingenua candura dos fortes, ou a refinada
sabedoria dos mestres. O de Aviz teve a fortuna de encontrar dois homens
que o fizeram rei, e tornaram o seu titulo ridiculo de _Mexias_, no
titulo verdadeiro e forte de Defensor-do-reino, positivo messias da
nao (1384).

Termina o reinado de Alvaro Paes, desde que o futuro condestavel e o
gro-doctor tomam conta, um da guerra, outro da politica. Temerarias,
audazes, quasi loucas ambas, exprimem ambas a suprema sabedoria; porque
traduzem o at ahi indefinido querer do povo, e empregam os meios unicos
de salvao. Nunalvares faz de toda a fronteira o theatro de incessantes
campanhas, pouco ou nada attende s ordens do Defensor-do-reino, por
vezes desobedece formalmente.  medida que o Mestre via o resultado das
armas do nobre capito, ia reconhecendo a propria inferioridade; e a
simplez natural do seu genio tinha de bom o abrir-lhe os olhos 
verdade. Nos actos alheios, aprendia a pesar os seus, ganhando com isso
a attitude de um moderador prudente. Era sbia a arte com que ponderava
os conflictos inevitaveis de Nunalvares com Joo das Regras: do
cavalleiro idealista e heroico, e do habil, consummado politico: do
representante ingenuo de douradas phantasias, com o frio calculador das
cousas positivas; do ultimo homem da Edade-mdia, com o primeiro do novo
Portugal monarchico. Entre ambos, o Mestre de Aviz era um pendulo
regulador das duas foras em opposio.

A politica ia buscar outra vez as allianas inglezas, acordando a antiga
ambio castelhana da casa de Lencaster; e a guerra, ora terrivel em
batalhas, ora fidalga em reptos e duellos, ia acordar por todo o paiz a
revoluo. Os grandes, os alcaides das terras, eram por Castella ou pelo
infante D. Joo; mas o povo era pelo Messias: cria e esperava o milagre.
Formavam-se _unies_ espontaneas; e as levas de populares conquistavam
para o Mestre os castellos e villas fortificados aos senhores e aos
alcaides dos concelhos.

Uma grande parte do reino obedecia ao governo de Lisboa; mas a rainha, o
rei de Castella e o exercito invasor, na sua marcha sobre a capital,
occupavam Coimbra. Leonor Telles acabou ahi. Arrependida de ter chamado
o castelhano que a desprezava; reconhecendo que erradamente, por uma
precipitao, forjra por suas proprias mos as cadeias do seu
captiveiro, vendo agora quanto se illudira, e que erro fra o seu em no
avaliar a justa vitalidade do paiz, tentou ainda urdir uma trama para se
libertar, perdendo o genro e a filha. Os seus planos falharam; e anojada
e cheia de desespero, seguiu a ordem do genro, que de Coimbra a mandou
enterrar no mosteiro de Tordesillas. Como acabaria a sua vida? Quem
sabe? talvez arrependida, santamente amortalhada no burel monastico?
acaso roda de desespero, impenitente?

O exercito castelhano desceu sobre Lisboa, e este segundo crco da
capital (1384) foi mais cruel ainda do que o primeiro, no tempo de D.
Fernando. Veiu a fome perseguir os heroicos lisbonenses, que andavam j
doentes das cousas que comiam. Por fra a peste alastrava, porm, de
cadaveres os arrayaes castelhanos; e quando, um dia, a rainha de
Castella, pretendente de Portugal, adoeceu tambem, os inimigos
levantaram o crco. O povo encontrava n'isto motivos para crer n'uma
proteco do cu.

Por mais de um anno se prolongaram ainda as guerras pelas provincias
afastadas; mas Lisboa, Coimbra e todo o centro do paiz era, j em 1385,
pelo Mestre. Os ultimos actos da revoluo iam consummar-se: as crtes
de Coimbra e a batalha de Aljubarrota.

Em Coimbra o gro-doctor  o general e o chefe. Essa batalha de
discursos era diversa, mas no menos brava de pelejar; porque uma grande
parte da nobreza, decidida a defender o reino do castelhano, no o
estava a acclamar rei o Mestre de Aviz. Legitimista, considerava-se
ligada ao infante D. Joo; e a unio dos fidalgos, completa para a
defeza, no existia, agora que se tratava de consolidar, com uma nova
dynastia, a independencia e a constituio definitiva do reino.

O rei de Castella era schismatico e excommungado por apoiar Clemente VII
contra Urbano VI; e alm d'isso os maus costumes de Leonor Telles no
deixavam ter certeza sobre a legitimidade de D. Beatriz.--Todos apoiavam
Joo das Regras, porque ninguem queria o castelhano.--D. Joo,
continuava o doutor (e aqui principiavam os murmurios)  bastardo,
porque el-rei D. Pedro jmais se casou com D. Ignez de Castro.--Um
momento houve em que Nunalvares esteve a ponto de brigar com o
_roncador_ Martim Vasques, o chefe dos _leaes_; e as crtes por um triz
se tornavam n'uma batalha. Interveiu o Mestre de Aviz, apasiguando o
exaltado capito, melhor no campo do que no conselho.

Ahi reinava o _gro-doctor_. Alm de illegitimos, continuava sem se
perturbar, os filhos de D. Ignez de Castro tinham tomado armas contra a
patria; e este argumento, proprio a impressionar os leaes, pesou, mas
no os decidiu. Ento o doutor lanou mo das reservas e venceu.
Apresentou as bullas, nas quaes o papa recusra acceder aos pedidos do
rei D. Pedro para a legitimao dos filhos. Podia haver prova mais
solemne? Ousaria ainda alguem conservar duvidas? E apoz isto desenrolava
todas as consequencias: a diviso das foras do reino perante o
castelhano, inimigo commum; a impossibilidade de acclamar rei um
principe preso em Castella, etc. O ataque era irresistivel; e tudo
cedeu, declarando-se vago o throno, e elegendo-se para o occupar o
Mestre de Aviz, D. Joo I.

Que melhor prova podia dar-se da vitalidade da nao e da sua
independencia j acabada, do que estas crtes de 1385, em que ella
exalta uma dynastia, sem base na tradio nem na herana, unicamente
enraizada no querer absoluto, commum dos portuguezes?  s n'este
momento que bem de facto se pde dizer terminada a historia da
independencia; porque a dynastia de Borgonha trazia comsigo o peccado
original da doao primitiva, segundo o direito feodal: o reino era um
senhorio, sublevado, como por tantas vezes e por to longos tempos o
tinham sido, na propria Hespanha, a Galliza e a Biscaya.[56] Agora as
cousas mudavam; e mudavam, porque a nao, alargando-se para o sul,
recebendo novas gentes em seu seio, fomentando a actividade commercial e
maritima em Lisboa, ao mesmo tempo que se constituia interna ou
organicamente, era j um ser diverso do antigo, e um ser dotado de vida
independente e propria. A crise, que temos vindo historiando--com um
vagar desculpavel pela sua significao excepcional--parece ter, para a
vida nacional portugueza, a importancia que a natureza d s crises que
determinam a passagem de uns para outros dos seus typos organicos.[57]

No bastava porm uma acclamao, era necessario um baptismo,  nova
monarchia. Aljubarrota respondeu com as armas  eloquencia das crtes;
e, victorioso no conselho e no campo, o throno de D. Joo I ficou
inabalavel. Segundo o parecer dos inglezes, seus alliados e mestres na
nova tactica militar com que vieram a esmagar em Azincourt a cavallaria
franceza, o Mestre d'Aviz entrincheira o seu pequeno exercito.
Nortberry, Hartcelle e d'Artherry, capites, traaram a _carriagem_.
Cortaram-se ramos de arvores com os quaes se levantou uma estacada para
paralysar as cargas da cavallaria; ao meio d'essa estacada um carreiro
estreito, internamente bordado por archeiros e bsteiros de p, estava
aberto, como uma tentao e um lao ao ardor fidalgo dos inimigos.

A desproporo do numero era grande entre os combatentes. O castelhano
trazia comsigo vinte mil homens de cavallo, nos quaes entravam dois mil
francezes, gasces e bearnezes: com a peonagem, o seu exercito ia a mais
metade. Em volta de D. Joo I no havia mais de duas mil lanas,
oitocentos bsteiros, e quatro mil pees: alguns elevam a dez mil o
total. Evidentemente, s a fora da arte podia vencer a desproporo do
numero. Pelo meio dia appareceu o exercito inimigo, victoriosamente
composto na galhardia das armas reluzentes com o sol, dos pendes e
bandeiras blazonadas, das mesnadas dos ricos homens da Hespanha e da
Frana meridional, montados nos seus cavallos de guerra. Os portuguezes,
calados, humildes e obscuros, por detraz das suas trincheiras, esperavam
o choque d'essa brilhante mle. Havia em muitos valentia e enthusiasmo,
mas no faltava o temor, menos ainda a deciso firme de morrer vencidos,
na desesperana de rebater um ataque to poderoso. O condestavel e os
cavalleiros excitavam o ardor bellico; os bispos, confessando,
absolvendo, dando a commungar, distribuiam a paz s consciencias,
preparavam para a morte, accendendo a coragem com os odios religiosos.
Havia exaltao, votos singulares, ditos agudos, mas sobradas duvidas
sobre o resultado do dia. Os padres resavam no seu latim: _Verbum caro
factum est_, e os soldados traduziam d'esta frma o evangelho: muito
caro feito  este: Havia at medo n'essas levas de gente bisonha do
campo, soldados sados de uma populao rural; mas uns trinta pees que
fugiram, apavorados, foram trucidados pelos castelhanos: o que nos
prestou o servio de evitar as deseres, consolidando o proposito da
defeza.

O exercito inimigo no se tinha decidido ainda sobre o modo de operar.
Uns optavam pela prudencia: vinham de longe, cansados da viagem, no
tinham comido ainda: esperassem, e os portuguezes, como javardos no seu
covil, seriam forados a sar por lhes faltar o mantimento. Outros
achavam uma vergonha, para to fidalgos cavalleiros, o parar deante
d'uma estacada mal defendida por um punhado de soldados bisonhos. Apesar
do rei vir em andas, doente com sezes, venceu a ultima opinio, e
atacaram galhardamente. Em esto os ginetes dos inimigos provavam a
miude d'entrar na carriagem dos portuguezes, mas tudo achavam apercebido
de guisa que lhes non podiam empecer. De frma que os castellos tiveram
de apear e combater com armas curtas. (F. Lopes).

Realisava-se a previso, e a batalha acabou por um destroo completo da
cavallaria orgulhosa. O rei de Castella fugiu nas suas andas. Toda a
bagagem do seu exercito caiu em poder dos vencedores. Eram carretas e
azemolas sem numero e dezenas de milhar de cabeas de gado.

Como para a Europa central foi depois Azincourt, assim Aljubarrota foi
na Hespanha: o ultimo dia da cavallaria feodal, e o primeiro ensaio
d'esses combates de p, com que dois seculos mais tarde a infanteria
castelhana de Carlos V havia de conquistar a Europa.

A Edade-mdia portugueza acaba no dia de Aljubarrota, com a primeira
epoca da nao, com o periodo da sua formao trabalhosa e lenta. Novos
horizontes, vastas ambies, pensamentos ainda inconscientes de um largo
futuro, amadurecem encobertos, no seio da nao, formada, acclamada,
baptizada em sangue. Chama-a de longe um dubio tentador--o Mar!

    [52] V. _As raas humanas_, I, pp. XXXI-III.

    [53] Curiosa coincidencia a repetio d'esta scena em 1834 na
         guerra civil: (_Portugal contemporaneo_ (2. ed.), II, pp. 371).

            D. Pedro vae
            D. Pedro vem,
            Mas no entra
            Em Santarem!

         O estribilho do tempo de D. Fernando acabava--_de Lisboa
         a Santarem_.

    [54] V. _Portugal contemporaneo_ (2. ed.), II, pp. 291.

    [55] V. _Instit. primit._, p. 157.

    [56] V. _Hist. da civil. iberica_ (3. ed.) a pp. 118-21 os
         quadros dos estados peninsulares.

    [57] V. _Elem. de Anthropologia_ (3. ed.), pp. 13-20.

                      *      *      *      *      *




LIVRO TERCEIRO

A CONQUISTA DO MAR TENEBROSO

(DYNASTIA DE AVIZ: 1385-1500)


    ... quantas vezes estive mettido de baxo das bravas ondas por saber
    o fundo das barras e para que parte endereavam os canais, e entrada
    dos rios at ento nunqua lavrados cubertos de bravo mato; e asi
    mesmo que para alcansar a verdade das rotas, fluxos do mar, voltas e
    remansos de rios, surgidouros de portos, abriguo de enseadas,
    deferena das agulhas, altura das cidades, e fazer tavoas de cada
    lugar e rio em que se contem a mostra da terra, baxos, restingas,
    rotas, e como se devem de entrar, perdi muita parte da saude e
    disposio natural.

              DOM JOHAM DE CASTRO, _Primeiro roteiro da costa da India._

                      *      *      *      *      *




I

O Infante D. Henrique


Desde o miado do XII seculo que se propagra na Europa a noticia da
existencia de um imperio christo no extremo Oriente. O nuncio da Egreja
da Armenia falra ao papa (Eugenio III) em um principe, chamado Joo,
cujos dominios estavam situados para alm da Armenia e da Persia, e que
reunia ao Imperio o sacerdocio: era um papa do extremo Oriente, e fizera
numerosas conquistas, o Preste-Joham.[58] Esta lenda, espalhada na
Europa, excitava tanto mais a pia curiosidade dos christos, quanto
essas distantes regies se pintavam como paraizos carregados de ouro e
encantos.

Durante a Edade-mdia, vogavam tambem extravagantes lendas cerca do
Atlantico.[59] As tradies obliteradas pela ignorancia davam caracteres
phantasticos s antigas viagens dos carthaginezes ao longo das costas
d'Africa, e s ilhas do mar atlantico.[60] Esse infinito de aguas, onde
mergulhavam todas as costas conhecidas, povoava-se de monstros e sombras
extravagantes; era o Mar Tenebroso! Os homens do norte, que nas suas
barcas tinham descido desde os mares gelados do plo a piratear nas
costas da Frana, foram caindo para o sul; e j no XV seculo tinham
chegado s Canarias, j commerciavam ao longo da costa africana, para
cima do cabo Bojador, onde tambem, por terra, chegavam os berberes de
Marrocos.[61]

As tradies dos geographos antigos, idealisadas pela imaginao bretan,
tinham dado logar  formao de lendas maravilhosas. O mar tenebroso era
um oceano de luz, semeado de ilhas verdes onde havia cidades com
muralhas de ouro resplendente: ao cabo das longas e perigosas viagens
estava o paraizo terreal. Para os geographos arabes, menos fecundos em
phantasias, o mar tenebroso era uma vasta e infinita campina, a acabar
n'um cahos de nevoeiros e vapores aquosos; e, ainda que os mareantes,
diz Ibn-Khaldn, conheam os rumos dos ventos, no havendo, para alm,
paiz algum habitado, perder-se-ho irremediavelmente, porque o limite do
oceano no  outro, seno o proprio oceano.

Alm d'estas tentaes maritimas, havia a ambio do Oriente e do seu
commercio, accendida em toda a Europa pelas Cruzadas; e mais
particularmente na Hespanha, pelo contacto intimo em que a occupao
arabe a puzera com os monopolisadores d'esse commercio, durante a
Edade-mdia. Hormuz[62] era o emporio mercantil de todos os mercadas do
oceano indico. D'ahi as carregaes se dirigiam para a Europa e para a
Asia do norte, seguindo derrotas diversas. As da Asia iam em cfilas,
caminho da Armenia, por Trebizonda, engolphar-se na Tartaria; as da
Europa, ou vinham por mar a Sus, e d'ahi em caravanas, pelo Cairo, a
Alexandria, ou seguiam por terra o valle do Euphrates a Bagdad, passando
em Damasco, no seu caminho de Beirut, sobre o Mediterraneo.

Tinha, porm, no comeo do XV seculo, a empreza encetada com tamanho
vigor e tino pelo infante D. Henrique, o pensamento determinado de
chegar por mar--como veiu a chegar-se--ao imperio do Preste-Joham das
Indias? Parece-nos que no. Devassar o mar tenebroso em demanda das
ilhas de que havia uma noticia mais ou menos vaga; reconhecer e ir
occupando gradualmente a costa occidental da Africa--parecem ter sido
emprezas ainda no ligadas n'esse tempo com a da viagem aos reinos do
Preste-Joham. Esta viagem, comtudo, no occupava menos o espirito do
principe, que pensava leval-a a cabo por um caminho differente: por
terra. A conquista de Ceuta prende-se directa e principalmente a este
pensamento. Architectos arabes da Hespanha tinham ido pelo interior da
Africa at Timboktu, cujos palacios rivalizavam com os de Cordova ou de
Granada. Ceuta era a chave maritima do imperio de Marrocos; e,
porventura, atravez da Africa se poderia chegar ao dourado Oriente. Em
todo o caso a terra offerecia um campo de explorao mais definido do
que esse mar incognito, infinito, cheio de trevas.

No ambicioso espirito do infante, cabiam as duas emprezas: conquistar o
imperio marroquino, ou pelo menos o seu litoral, para garantir o
monopolio do commercio do Sudo;[63] e ao mesmo tempo conquistar s
trevas as ilhas d'esse mar desconhecido, seguindo tambem o longo das
costas occidentaes para as visitar e explorar. Tenaz e at duro de
caracter, D. Henrique sacrifica tudo aos progressos da sua empreza: nem
o dobram as lagrimas do irmo infeliz sacrificado em Tanger, nem as
supplicas do outro irmo, o nobre D. Pedro, talvez por sua culpa morto
em Alfarrobeira. s conquistas da Africa immola os dois principes; s
navegaes os seus ocios, as rendas da Ordem de Christo, e as vidas
obscuras dos muitos que morreram ao longo das costas, ou na vasta
amplido dos mares terriveis. Dominado por um grande pensamento, 
deshumano, como quasi todos os grandes-homens; mas, no limitado numero
dos nossos nomes celebres, o de D. Henrique est ao lado do primeiro
Affonso e de Joo II. Um fundou o reino, outro fundou o imperio ephemero
do Oriente: entre ambos, D. Henrique foi o heroe pertinaz e duro, a cuja
fora Portugal deveu a honra de preceder as naes da Europa na obra do
reconhecimento e vassallagem de todo o globo.

                      *      *      *      *      *

A candida nobreza de Nunalvares, a sabedoria do gro-doctor Joo das
Regras, a exploso da fora nacional, tinham feito de D. Joo I quasi um
heroe: os seus illustres filhos fazem d'elle o mais feliz dos paes.
Ditoso homem mediocre a quem tudo favorece, deu-lhe a sorte uma esposa
virtuosa e nobre na princeza, cuja lio e cujo exemplo pem a semente
das suas grandes aces no corao dos infantes--D. Pedro, acaso o typo
mais digno de toda a historia nacional; D. Fernando, cujos meritos
desapparecem perante o do martyrio que o santificou; D. Duarte, o rei
sabio e feliz: D. Henrique, finalmente, em cujo cerebro ferviam os
destinos futuros de Portugal.  uma pleiade de homens celebres,
presidindo a uma nao constituida e robusta. Com taes elementos
consegue-se tudo no mundo. Bons guerreiros,  antiga, os infantes no se
parecem, comtudo, j com os antigos personagens. A crte apresenta uma
phisionomia diversa: dir-se-hia uma Academia. D. Duarte occupa-se em
cousas sbias, escreve o seu _Leal conselheiro_. D. Pedro, cujas
dilatadas viagens chegaram a formar lenda, traz comsigo vasta lio,
muitos livros, cartas, conhecimentos; a litteratura e a geographia
occupam-no por egual, e tambem escreve: dedica ao irmo primogenito o
seu tratado da _Virtuosa benfeitoria_.  noute, nos seres, lem-se,
_pouco, passo, e bem apontado_, como D. Duarte manda na sua obra, as
historias seductoras de Galaaz, de Merlim, de Tristo. No  uma crte
da Edade-mdia,  j uma crte da Renascena, cheia de idas novas e de
uma cultura eminente. A educao transforma a politica, e as theorias
monarchicas da Italia so applaudidas e adoptadas. Bole-se na
legislao, limitam-se os privilegios aristocraticos e burguezes,
adianta-se a obra da unidade organica do corpo nacional. Os principes,
valentes e sabios, so estadistas, no moderno sentido da palavra; e o
rei, que na mocidade obedecera aos impulsos de Nunalvares, s lies de
Joo das Regras, obedece agora aos incitamentos dos filhos, que lhe
mostram, com os livros e os mappas, a conveniencia de ir tomar
Ceuta--primeiro acto de uma longa e ambiciosa historia que desenrolavam
perante os ouvidos soffregos do antigo Mestre de Aviz. A rainha,
orgulhosa nos filhos, approva tanto, que, j moribunda, ainda obriga o
marido a partir. D. Joo I, passivo agora e sempre, obedece; e, do
principio ao fim da sua fecunda existencia, parece fadado a ornar-se com
os louros por outrem ganhos, a ceifar a seara que outro semeou. Tinha
porm a habilidade propria dos homens de juizo--a de pesar, vr, e
julgar com rectido.

                      *      *      *      *      *

Os planos de D. Henrique mereciam a plena approvao do rei, que lhe
dava ampla liberdade para proseguir; e at o incitaria, se o infante
carecesse de estimulo. J no proprio anno de Ceuta. D. Henrique fizera
uma primeira tentativa, enviando uma frota a sondar e reconhecer a costa
da Africa.

Terminada a empreza de Ceuta, poz decididamente mos  obra, e
estabeleceu-se em Sagres. Era uma lingua de rocha cravada nas ondas e
acoitada pelas ventanias do noroeste. Estava-se alli como a bordo; e a
academia do infante parecia uma nu, em que vogavam os destinos ainda
ignotos da nao. Os antigos tinham chamado _sacrum_, sagrado, a esse
promontorio, e o nome de agora tambem traduzia, no pensamento e na
linguagem, a passada denominao. Sagres ia ser no XV seculo, como fra
nos velhos tempos, o pedestal de um templo. Acreditavam os antigos
celtas, do Guadiana espalhados at  costa,[64] que no templo circular
do promontorio sacro, se reuniam s noutes os deuses, em mysteriosas
conversas com esse mar cheio de enganos e tentaes, aberto ao capricho
dos homens para os tragar. Agora, os modernos herdeiros dos druidas
erguiam em Sagres um novo templo, onde tambem s noutes, no deuses, mas
homens, se entretinham em falas com os ignotos mares, com as regies
desconhecidas. O espirito era o mesmo, a religio era outra:--era a da
Renascena--a sciencia, a tentao irresistivel que arrastava os homens
para a natureza; que os fazia extenuarem-se a desflorar a virgindade dos
mares, a interrogar a mudez das noutes, na sua ancia de saber, de
dominar, de conhecer o mundo inteiro e os seus segredos: quantas vezes
estive mettido debaixo das bravas ondas, por saber o fundo das barras e
para que parte endereavam os canaes!

Em Sagres reunira o infante todos os recursos de que ento dispunham a
cosmographia e a arte de navegar. D. Pedro trouxera-lhe das suas viagens
o manuscripto das peregrinaes de Marco Paolo. Esses livros, os mappas
de Valseca, as narrativas e roteiros dos pilotos, as rudes cartas
maritimas, faziam vergar as mesas, a que o infante, tendo ao lado o seu
cosmographo, Jayme de Mayorca, ento celebre, rodeado de discipulos,
passava os dias a discorrer, as noutes a interrogar, silenciosamente, os
enygmas propostos nos textos e desenhos. Como Raymundo Lullio, entre as
drogas e retortas do seu laboratrio se extenuava a buscar o principio
da vida, os corpos simples ou elementares da materia para obter o
segredo da existencia physica e organica: assim o infante procurava
desvendar os segredos das ilhas e dos continentes, dos golphos e
enseadas, velados pelo manto azul-negro do Mar Tenebroso.

Essa paixo naturalista da Renascena nos seus primeiros tempos, essa
tenaz curiosidade scientifica, differia essencialmente do mysticismo
religioso da Edade-mdia, eivado de phantasias kabbalisticas, e da
ingenuidade das mythogenias primitivas. O homem j preferia a sciencia 
imaginao: rejeitava as fabulas, e confiava tudo aos processos e aos
meios positivos. Ora manifesto , diz, um seculo depois, Pedro Nunes,
que estes descobrimentos de costas, ilhas e terras firmes no se fizeram
indo a acertar; mas partiam os nossos mareantes mui ensinados e providos
de instrumentos e regras de astrologia e geographia, que so as cousas
de que os cosmographos ho de andar apercebidos. Levavam cartas mui
particularmente rumadas, e no j as que os antigos usavam, que no
tinham mais figurados que doze ventos, e navegavam sem agulha. A
bussola, o astrolabio e o quadrante j guiavam as expedies maritimas
enviadas annualmente de Sagres pelo infante, a sondar o Oceano, ou a
descer a costa para o sul. Porto-Santo, a Madeira e os Aores foram por
esta frma arrancadas s trevas do mar.[65] Mas, apesar das
successivas investidas, no se conseguira ainda dobrar o cabo Bojador,
limite extremo at onde a costa era conhecida: havia doze annos que os
navios iam e voltavam sem resultado. Era uma barreira natural, junta a
um muro de terrores phantasticos.

Gil Eannes parte, afinal, em 1434, e volta com a desejada nova. O mundo
no acabava alli, sabia-se j; mas seria possivel ir alm d'esse
_finis-terrae_ da Africa? Gil Eannes voltou para responder
affirmativamente. Dissiparam-se, portanto, os sustos; e os navios foram
seguindo, costa abaixo, por Cabo-Verde, a Guin, onde, cheios de
satisfao, os mareantes aprisionam os primeiros negros--os azenegues do
Senegal.[66]

Era um antegosto das horrorosas faanhas a que as tentaes do mar os
haviam de conduzir; mas as perdas de gente e dinheiro, j sensiveis, o
dilatado das viagens, sem consequencias fecundas, esfriavam nos animos o
enthusiasmo do principio. No acabava, jmais, a costa da Africa! e o
Preste-Joham e os encantos do Oriente traduziam-se apenas pela
_malagueta_ da Guin.[67]

O infante morreu em 1460, e com a sua morte parou o movimento das
navegaes. A empreza, primeiro esboada, parecia colossal de mais para
as foras da nao: no podiam ellas vencer de todo, nem o Mar, nem
Marrocos; e o que se tinha conseguido, perante os resultados praticos,
desanimava, e fazia sentir cansao.

                      *      *      *      *      *

Antes de nos alongarmos na historia d'essa empreza, cabe-nos o dever de
registrar brevemente a da formao das foras navaes portuguezas,
indispensaveis para o emprehendimento das viagens de descoberta e das
expedies militares  costa da Berberia.

Pde dizer-se que, at ao fim do XII seculo, no ha marinha na Hespanha
occidental. As luctas da reconquista, ento feridas, eram-no por terra
exclusivamente; e a impericia maritima dos christos, junta aos
relativos progressos dos arabes concorriam para tornar difficil a
conservao das praas litoraes conquistadas. Os primeiros dispunham
apenas de pequenas lanchas costeiras; emquanto os segundos tinham navios
regularmente armados e equipados, com que percorriam toda a costa
occidental, refrescando nos seus portos, abastecendo-os de munies e
gente quando estavam cercados, e desembarcando a miude, com o fim de
talar os campos dos christos e captivar os tardivagos ou indefesos. J,
porm, no XI seculo o bispo de Compostella tinha mandado vir de Genova
pilotos, sob cuja inspeco construiu duas gals que foram s costas do
Algarb sarraceno pagar em moeda egual antigas e grossas dividas. Os
genovezes foram os nossos mestres na arte de navegar.

Mas desde o meiado do XII seculo o exame das armadas de Cruzados, com
cujo auxilio Lisboa e depois Alcacer foram tomadas, tinha vindo
accrescentar os conhecimentos: demonstrando ao mesmo tempo que, sem o
imperio no mar, jmais poderia levar-se a cabo a conquista do sul do
reino.  empreza de Silves, no tempo de Sancho I, vo j navios
portuguezes; e o que escrevemos sobre o caracter mais regular e
systematico da politica e das campanhas d'esse reinado leva-nos a crr
que d'ahi deve datar-se a fundao da marinha militar portugueza. Com
effeito, essa marinha existe nos reinados de Sancho II e de Affonso III,
como o provam as expedies maritimas que terminaram pela conquista
definitiva do Algarve, e as faanhas do lendario Fuas Roupinho. Havia
ento j um corpo de tropas especiaes de embarque.

Que eram esses navios, porm? O leitor de certo viu alguma vez, de
tarde, ao cair do sol, o recolher dos barcos, voltando do mar, nas
praias de Ovar ou da Povoa-de-Varzim. Viu a construco e os typos
d'esses navios primitivos, e as pittorescas physionomias dos seus
tripulantes: eis ahi uma esquadra do XIII seculo.[68] Vel-a-ha, real e
verdadeiramente, se, com a imaginao, substituir por armas os
utensilios da pesca. E quando os barcos, encalhados na areia humida,
descarregaram--hoje o peixe, ento as presas, os mantimentos e a
gente--homens e mulheres, fincadas as mos sobre os joelhos, curvados,
com o dorso contra o costado do barco, em linha ao longo d'elle,
impellem-no, manobrando ao som de um canto rythmico, para o fazer rolar
sobre toros at ficar em secco, distante dos perigos das ondas. Essa
scena repetia-se para pr a enxuto, e para pr a nado as embarcaes; e
Sancho II realisou um progresso, ainda hoje desconhecido nas nossas
praias de pescadores: mandou construir _debadoyras_ (cabrestantes) para
encalhar, tirados por cabos, os navios. No tempo de Affonso III j o
poder maritimo portuguez  de tal ordem, que os nossos navios vo em
soccorro a Castella, e o papa nos convida a acompanhar as gentes do
norte  Cruzada.

O reinado de D. Diniz marca uma segunda ra na historia da marinha
nacional. Reciprocamente indispensaveis a marinha mercante e a militar,
os cuidados do rei administrador dirigem-se principalmente a fomentar a
primeira, cuja importancia o tratado de commercio, feito em 1308 com a
Inglaterra, accusa. Alm d'isto o rei applica-se a melhorar o porto de
Paredes, na costa ao norte do cabo da Roca, defendendo-o contra as
dunas, que, apesar de tudo, o invadem e destroem. Com este mesmo
pensamento mandaria semear o pinhal de Leiria. Tambem no seu tempo, por
morte do conde do mar, Nuno Cogominho, em cuja familia esse cargo
andra, vem tomar o almirantado da armada portugueza o genovez Pezzagna.
Nacionalizada, a familia dos Peanhas tem por largos tempos o condado do
mar, ou almirantado, como j,  moda arabe, se dizia ento.

Os progressos realisados no XIV seculo preparam os recursos poderosos,
com que, no seguinte, o infante D. Henrique pde levar de frente as duas
emprezas a que votra a sua existencia. D. Fernando, o _amavioso_ e
infeliz rei, merece n'esta historia uma meno condigna. Apesar das
chimeras da sua politica tornarem em derrotas as suas emprezas, a
sabedoria e o alcance economico da sua legislao do-lhe o direito de
preeminencia na historia da formao do poder naval dos portuguezes. J
ento a alfandega de Lisboa rendia, por anno, de 35 a 40 mil
dobras:[69] o que demonstra o progresso commercial do reino,
e comprova a opinio expressa no livro anterior, da deslocao do centro
de gravidade nacional do norte para o sul, e da nova phisionomia
adquirida depois do antigo caso da separao do condado portuguez do
corpo da monarchia leoneza.

O rei que pretendia, com justia, impedir aos proprietarios a deteno
improductiva das terras, obrigando-os a lavral-as, ou a dal-as a quem
por elles o fizesse, era o mesmo que, n'um corpo de leis, protegia e
fomentava o commercio maritimo de Lisboa, j ento uma cidade
cosmopolita. Os genovezes, os lombardos, os aragonezes, os mayorquinos,
milanezes, corsos, biscainhos, gentes de to variadas partes--de toda a
Hespanha e das costas circum-mediterraneas--fixavam-se em Lisboa a
commerciar. Pelo Tejo saam cada anno para cima de doze mil tonneis de
vinho, sem contar o dos navios da segunda carregao, em maro. Os
navios eram j maiores e tinham coberta. O chronista chama  capital
grande cidade de muitas e desvairadas gentes. Era uma Veneza que se
formava para succeder  antiga; e, como nas cidades republicanas da
Italia, tambem o commercio era privilegio dos mercadores, prohibido aos
nobres e clerigos, sendo vedado aos estrangeiros negociar fra do
porto-franco de Lisboa.

O rei D. Fernando assistia ao pleno desenvolvimento de uma potencia
commercial e maritima: e o que fez em favor do seu progresso demonstra a
lucidez do seu espirito. O rei em pessoa era armador e negociante de
certos generos exclusivos. Creou _bolsas_ de seguros maritimos, mutuos,
em Lisboa e no Porto, com o producto de uma taxa especial lanada sobre
o commercio, instituindo o cadastro ou estatistica naval. Reduziu a
metade os direitos de importao dos generos trazidos por navios
nacionaes, estabelecendo assim um direito differencial de bandeira, a
cuja sombra se multiplicou o numero dos navios mercantes portugueses.
Deu, aos que desejassem construil-os, a faculdade de cortar madeiras nas
mattas reaes. Isentou de direitos os materiaes de construco naval, e
os navios construidos fra, por conta de nacionaes: e o mesmo concedeu 
exportao dos generos do primeiro carregamento de navios novos. Por
sobre esta proteco efficaz e energica, emprestava ainda aos armadores
capitaes para commerciarem, ficando interessado com elles no dizimo dos
lucros, que se liquidavam duas vezes ao anno.

N'outro logar dissemos que o governo de D. Fernando fra um cesarsmo, e
com effeito o foi de todos os modos: na sbia proteco dada ao fomento
material da nao, na violencia das medidas de salvao publica, na
desordem dos costumes da crte, e no caracter bondoso e ingenuamente
devasso do rei. Este Cesar do fim da Edade-mdia preparava o caminho 
nao, cuja vida brilhante de dois seculos, afastada da estrada
ordinaria da agricultura e da industria, ia ser a vida de uma Roma
imperial, de uma Carthago, de uma Veneza: metropole acanhada de um
imperio colossal, subordinada nos seus destinos ao merecimento
individual dos governantes autocratas, mais do que  fora espontanea de
um espirito nacional, ao machinismo activo de um systema de instituies
e classes, organicamente construido e funccionando normalmente. De todos
os fundadores do Portugal maritimo D. Fernando  o maior; e se as
queixas formuladas, ao decair do XVI seculo, contra os que afastaram os
portuguezes do arado para o leme, do campo para o mar, teem razo
absoluta--a sabedoria de D. Fernando foi como o peior dos erros. Cames
fulminava, pela bocca do velho do Restello, os que arrastavam Portugal
para o mar; como Plutarcho tambem condemnou Themistocles por ter lanado
os athenienses no caminho das emprezas maritimas.

Mas esses lamentos do espirito utilitario, se teem um cunho de verdade
positiva, teem tambem um escasso merecimento historico. No tivesse a
Grecia sido colonisadora e maritima, e a sua voz educadora jmais se
teria ouvido no mundo. Outrotanto diremos de ns. No tivessemos
alargado pelo mar um nome sem razo de ser na Europa, e, jungidos 
Galliza virente e  Castella farta, teriamos tido menos fome e menos
dres, menos miserias decerto, mas nenhuma honra, tambem, na historia. O
proprio nome de Portugal no teria existido, seno como lembrana
erudita de um certo condado, que, nas mos de principes astutos e
atrevidos, conseguira viver alguns seculos separado do corpo da nao
hespanhola.

Traduzir isto apenas uma vaga e sentimental banalidade? No, decerto.
Infeliz de quem no viveu; e viver, para os homens e para as naes,
differe de absorver, digerir e segregar, porque  mais do que satisfazer
as necessidades organicas. Alm d'isto, o destino, fatalidade,
providencia, determinao, ou como se queira dizer--traduzido com as
successivas palavras, antigas, actuaes ou futuras, um mysterio
eterno--elege ou condemna--escolham tambem os sectarios entre as duas
expresses--os homens e as naes a uma determinada obra. Ns fomos
elegidos ou condemnados a conquistar para o mundo esse Mar Tenebroso que
o enchia de vagas ambies ou de funebres terrores.

Era este o momento opportuno de dizermos todo o nosso pensamento cerca
da empreza nacional, do seu destino, da sua misso, ou como aprouver
melhor chamar-lhe. A viagem das Indias, que vamos contar--descrevendo
previamente a derrota, por Ceuta e Tanger, e, no reino, pela
consolidao do poder cesaro dos reis--necessitava ser julgada: agora
que, ainda no molhe os tripulantes, sobre a amarra os navios, se no
desferrou o panno, nem se deram as salvas da partida.

Essa esquadra, que fundeia no Tejo, era j poderosa ao tempo de D.
Fernando. Os cuidados do rei em favor da marinha mercante abraavam
tambem a marinha de guerra. A armada que foi bloquear Sevilha (1372)
era, no dizer do chronista, _formosa campanha de ver_. Mice Lanarote
Peanha, da linhagem do genovez, ia de almirante; e o cosmopolitismo da
nova patria portugueza v-se bem no nome dos capites: um Joo Focin
castelhano, um Badasal de Spinola, um Brancaleon. Como Roma, Lisboa
recebia no seu seio e nacionalisava gentes de toda a parte; e d'este
agglomerado de caracteres, naturalmente inorganico, sair, no momento
culminante do XVI seculo, um espirito superior ao espirito
nacional-natural e a noo de uma patria moral ou ideal, como foi a
patria de Virgilio.

A esquadra de Sevilha contava trinta e duas gals, trinta nus redondas,
afra as que vieram _per ella da costa do mar_. Vinte e tres mezes teve
bloqueado o Guadalquivir, e retirou com a paz. Outra frota, quasi to
poderosa como esta, foi ainda ao Mediterraneo, na seguinte guerra de
Castella, para soffrer o desastre de Saltes (1381) consequencia da
temeridade do fanfarro Affonso Tello.

Agora, fundeada no Tejo, a armada, espera o rei e os principes para ir
conquistar Ceuta, em Africa.

    [58] V. _As raas humanas_, I, pp. 96-9.

    [59] V. _Hist. da civil. iberica_ (3. ed.) pp. VII-VIII e
         _Elem. de Anthropol._ (3. ed.) pp. 126-7 e 215-17.

    [60] V. _As raas humanas_, liv. IV, 2.

    [61] _Ibid._, pp. 111-18.

    [62] Seguiremos em geral a orthographia de Kiepert nos seus Atlas,
         com referencia aos nomes geographicos do Oriente, traduzidos
         nas nossas chronicas pelo ouvido dos soldados da India.

    [63] V. _As raas humanas_, I, pp, 94-6 e _O Brazil e as colon.
         port._, (2. ed.), pp. 244-8.

    [64] V. _As raas humanas_, I, p. 184.

    [65] V. A chronologia particular das viagens de descoberta no
         _Brazil e as colonias portuguezas_ (2. ed.) pp. 2-3.

    [66] V. _As raas humanas_, I, pp. 116-7.

    [67] V. _O Brazil e as colon. port._, (2. ed.), pp. 14-5.

    [68] V. no _Regimen das riquezas_, pp. 81-8, a evoluo dos
         vehiculos maritimos.

    [69] A dobra continha 4 libras e 2 soldos; 50 dobras compunha o
         marco de ouro cojo valor moderno  de 120$000 rs; a dobra
         equivaleria pois a 2$400 rs.; e o rendimento da Alfandega a de
         84 a 96 contos. Havendo no porto, como diz o chronista,
         400 a 500 navios de carregao e em Sacavem e no Montijo,
         a carga do vinho e do sal, 60 ou 70 em cada logar, suppondo
         que esses navios se substituissem quatro vezes, fazendo quatro
         viagens n'um anno, e sabendo ns que a sua lotao mdia
         regularia por 100 toneladas--vemos que o movimento do porto
         attingia mais de 200:000 toneladas de generos diversos.
         Comparando-a com o rendimento da alfandega, faremos ida
         do grau de franquia do porto.

                      *      *      *      *      *




II

Portugal em Africa


Todos estavam impacientes por partir; mas o vento norte fresco, o vento
de mono, assobiava contra as paredes do quarto onde jazia moribunda,
com a peste, a rainha D. Philippa. Ninguem pozera na empreza melhor amor
do que ella: mandra fazer tres espadas cravadas de pedraria para os
filhos, que em Ceuta haviam de ser armados cavalleiros; mas o destino
no lhe consentiu vr terminada a faanha. Morreu; e ainda no se tinham
acabado de arrancar das paredes do convento de Odivellas os pannos de d
do enterro, quando a armada partia. Morrera a 20; so hoje 25 do mez de
julho de 1415.

As pazes celebradas com Castella no anno anterior tinham dado o socego a
uma crte onde fervia o desejo de praticar grandes cousas. Diz-se que o
rei pensra em abrir em Lisboa um torneio de um anno, onde viriam os
mais celebres cavalleiros da Europa medir-se com os portuguezes; mas
esse plano extravagante foi substituido pelo projecto mais sensato de ir
a Ceuta. Para no prevenir os inimigos, conservra-se um segredo
absoluto sobre o destino da grossa frota que se reunia em Lisboa. Todos
temiam: o aragonez, e principalmente o mouro de Granada. Vinham de
varias partes soldados e navios. D. Duarte apparelhra em Lisboa oito
galees, e D. Henrique tinha chegado do Porto com uma diviso de
cincoenta e dois navios de toda a classe. Havia inglezes, francezes e
allemes na armada, que, depois de inteiramente reunida, contava 33
galees grandes, 27 menores, de tres bancos de remeiros, 32 galeras e
120 fustas, transportes, e outros vasos secundarios. Iam embarcados
cincoenta mil homens.

Ao passarem  vista do cabo de S. Vicente os navios baixaram as velas
_por razam das reliquias que ali havia_. Ainda em Sagres no existia ao
tempo a eschola do infante, mas o preito dado ao logar sagrado para
muitos parecer symbolico. Era esta a primeira grande empreza maritima
de Portugal; ou antes e melhor, era a primeira vez que as esquadras
portuguezas saam de Lisboa com o fito de alargar o reino para alm do
mar. Inexperientes ainda os pilotos, as correntes do estreito dispersam
a poderosa armada, parte da qual  arrastada at Malaga, indo o resto
fundear em Ceuta.

No nos permittem as propores d'esta obra narrar todas as batalhas e
cercos, nem isso importa; pois que, salvas excepes que temos tomado em
conta, todos se parecem entre si. Nenhum caracter novo, nem particular,
apresentou a tomada da cidade que, colhida de improviso, no pde
resistir. Os moradores abandonaram-na depois de um combate em que
obtiveram a prova da inutilidade da defeza; e os christos saquearam a
cidade deserta, arrancando as columnas de alabastro, os marmores das
portas e janellas, os tectos lavrados em paineis dourados, dos palacios
da opulenta Ceuta. Emquanto a turba dos soldados se espalhava pelos
meandros das ruas e pelas casas da cidade abandonada, os fugitivos, de
longe, sobre as collinas, bradavam desesperados e miseraveis n'um triste
clamor de perdidos. Ficavam-lhes alm, dentro dos muros da cidade
tomada, afra tudo o que possuiam, os cadaveres insepultos dos muitos
que na vespera tinham morrido no combate.

Ceuta era portugueza; e uns sinos, antigamente tomados em Lagos, serviam
desde logo para solemnisar a sagrao da mesquita dos infieis. O infante
D. Henrique, principal author, denodado executor da empreza, recebeu o
titulo de duque, novo ento em Portugal. Todos os tres irmos foram
armados cavalleiros.

Que se faria porm de Ceuta? Muitos opinavam pelo abandono, recolhido,
como estava, o saque: eram os que ignoravam os vastos designios do
infante, ou os no approvavam.

Ceuta guardou-se como principio de mais dilatadas emprezas.

                      *      *      *      *      *

Vinte annos decorridos--em que o infante se dra principalmente aos seus
trabalhos de Sagres,--e vendo acaso que as descobertas das ilhas do
Atlantico no valiam assaz perante os sonhos da sua ambio, e que ao
longo de Africa pouco se adiantou por mar, torna a preoccupal-o a idea
das conquistas marroquinas, desde tempo postas de parte. A Atlantida
mysteriosa teimava em no apparecer; ou reduzia-se afinal  Madeira, ou
ao archipelago aoriano, onde no havia, nem encantos, nem muralhas
d'ouro, nem estranhas gentes: s desertos cerrados de florestas, bravios
de abrir, e pouco remuneradores. O reino encantado do Preste-Joham
fugiria deante dos navios aventureiros, como uma miragem enganadora?

J D. Joo I morrera a este tempo, e governava o reino o bom, infeliz D.
Duarte. O ambicioso irmo levou-o a emprehender a conquista de Tanger,
depois de ter convencido a que o acompanhasse o infante D. Fernando. O
rei, ou approvou, ou no teve energia bastante para se oppr  temeraria
empreza. No conselho em que ella se debateu, porm, o outro irmo, D.
Pedro--cuja sensatez parece tel-o j a esta epocha afastado de uma
crte, onde a irrequieta ambio de D. Henrique governava--observa que
tudo falta, para esperar um bom exito. No havia dinheiro para custear o
exercito, e, sem grande cargo de sua consciencia, o rei no o podia
tomar aos povos. Mudar a moeda (enfraquecel-a) em proveito proprio, no
o devia: fallece-vos o principal cimento da passagem! Posto que Tanger
se tomasse, e Arzilla, e Azamor, que se lhes faria? Do reino, despovoado
e mingoado, era loucura enviar gente a guarnecel-as: seria trocar boa
capa por mau capello, perder Portugal sem por isso ganhar a Africa. O
exemplo dos castelhanos no colhia, porque dispunham de mais vastos
recursos.--O infante vira muito mundo, e aprendera a medir pelo seu
justo peso a importancia limitada da nao. A ignorancia, me de todas
as temeridades e audacias, no o cegava.

D. Henrique, pertinaz, decidido e, por sobre isso, violento e sem
carinho, no perdoou decerto a sabia prudencia com que o irmo se
oppunha aos seus designios. As relaes de ambos, j frias, azedaram-se
talvez; e porventura aqui esteja o motivo da indifferena com que D.
Henrique ouviu os rogos do irmo, quando mais tarde lhe pedia que o
servisse perante o sobrinho, Affonso V--indifferena que decerto
concorreu para a morte de D. Pedro em Alfarrobeira, se porventura a no
causou.

As advertencias do principe no conselho eram tanto mais graves, quanto
os seus argumentos eram absolutamente fundados, positivos; e grandes os
creditos da sua opinio, merecido o respeito que todos tributavam ao seu
caracter. Por isso, apesar da nenhuma brecha que os argumentos, por via
de regra, fazem nas teimas, o rei (ou D. Henrique) julgou necessario
escudar-se com o parecer do papa. Consultou-se, pois, Roma; e a
resposta, que de l veiu honra o nome do que a deu: Se as terras foram
christans e ha templos convertidos em mesquitas, a guerra  santa; se o
no foram, deve distinguir-se: so visinhos incommodos e pem em perigo
os christos? admoestem-se, ameacem-se e s em ultimo caso se recorra s
armas. No  este, porm, o caso? ento, deixem-nos em paz, porque a
terra e a abundancia d'ella  do Senhor, que faz nascer o sol sobre os
bons e os maus, e d de comer a todas as aves do cu.

Esta ultima das tres hypotheses indicadas pelo papa era a verdadeira, o
que no impediu o infante de proseguir na sua teima. A gente do reino
havia esta ida por to pesada, que a mais d'ella preferia pagar as
multas (impostas aos refractarios ao alistamento) a arriscar as vidas.
Nem as multas, nem o dinheiro do rei, nem os emprestimos, bastavam,
porm, para supprir o oramento da armada; e por isso lanou-se mo dos
bens dos orfos. Porm, apesar de tudo, dos 14:000 homens com que se
contava para a ida, apenas 6:000 se conseguiu reunir.

Partiram, afinal, os dois irmos; mas logo um mau agoiro entristeceu os
soldados: o vento despedaou a bandeira do infante, quando a
desfraldava. Essa bandeira, sobre que o mouro havia de cuspir affrontas,
ia j rota de Portugal...

O resultado correspondeu s previses geraes: depois de batida, a
expedio portugueza teve de capitular sob os muros do Tanger (1437),
deixando D. Fernando em refens de Ceuta, que era o preo da liberdade do
exercito. Tristes lagrimas de desespero orvalharam ento as areias da
costa africana: no seriam as ultimas, nem as mais copiosas. D. Henrique
voltava com as reliquias da sua expedio, deixando o irmo preso. Que
el-rey se lembre de mim... roguem por minha alma, que  a ultima vez que
nos veremos! dizia o infeliz ao despedir-se, em lagrimas. D'alli os
mouros levaram-no a Fez. Ia como Isaac para o altar, ou como Jesus para
o Calvario. Conduziram-no montado n'um sendeiro mui magro, desferrado,
tendo por freio umas tamias, a sella esfarrapada, os ares
despregados. Deram-lhe tambem uma canna, para guiar a azemola. Atraz
d'elle iam os outros prisioneiros amarrados sobre as bestas de carga. A
gente acudia ao caminho de Fez, chamada pelo prego: Venham vr o rei
dos christos! E os apupos, as pedradas, os escarros, caam sobre os
infelizes, chouteando, na sua paixo, esmagados por um sol abrazador.
Uns, com os apupos, remordiam-se colericos; o infante, submisso e
conformado, lembrava-se de que outro tanto, e mais ainda, soffrera Jesus
por elle. Antes, porm, ser de uma vez crucificado, do que acabar
lentamente nas lobregas estrebarias de Fez, varrendo as immundicies,
comido de bichos, devorado de febres, porque nem a lentido do martyrio
lhe poupou o cadaver aos insultos da turba. Pendurado n, pelos ps, nas
ameias da cidade, foi a sorte que lhe deram. Antes, pregado na cruz,
tivesse expirado como Christo. O pobre infante  o primeiro martyr da
nossa epopa; e se nos honramos do muito que fizemos,  agora o momento
de deixar aqui uma lagrima de saudade e pena por esse infeliz precursor
do nosso imperio!

                      *      *      *      *      *

De volta ao reino, e salvo, D. Henrique oppoz-se decididamente  entrega
de Ceuta. O rei, lavado em lagrimas pela sorte do irmo, morreu logo no
anno seguinte, triste e taciturno. Com a deshumanidade de um apostolo,
D. Henrique sacrificava tudo e todos  sua f. Por cousa nenhuma
consentiria que se entregasse Ceuta: e os reinos do Preste-Johan? e o
imperio do Oriente? Homens, familia, palavra, tudo era vo, diante
d'essa miragem que, desde tantos annos, lhe punha a cabea em delirio.

Com o seu brao conquistra Ceuta: arrastra a Tanger o irmo; deixra-o
l perdido, nas mos fras dos inimigos: tudo isto eram holocaustos no
altar da sua ida. Quem sabe se elle mesmo no choraria a ss a
crueldade do seu destino, e a desgraa do irmo que levra ao cepo do
sacrificio? No , comtudo, provavel. Pelo menos, a impresso que o
leitor d'estas historias recebe da narrao dos seus actos consecutivos,
 a de que no caracter do infante no primava a humanidade.

Voltou a encerrar-se em Sagres, com os seus livros, os seus mappas, os
seus cosmographos e mareantes: voltou a olhar para o mar--pois que, por
largos annos, para sempre talvez! estava perdida metade da sua empreza.
Os seus navegadores iam vogando e _resgatando_[70] ao longo
da costa da Africa: e as ilhas dos Aores iam successivamente saindo dos
arcanos do Mar Tenebroso. O papa (Nicolau V) dava-lhe o senhorio e
dominio sobre todas as descobertas na Africa (1454): e o infante, no
meio das contrariedades, no desanimava na sua f.

Entretanto o reino passra, das mos da rainha viuva, para as do infante
D. Pedro (1438) e d'estas, finalmente, para as de Affonso V (1446);
entretanto miseraveis intrigas, a que D. Henrique no quiz oppor-se para
salvar o irmo que lh'o pedia, tinham levado  desgraa de Alfarrobeira
(1449); e o infante, com a influencia que exercia no curto espirito do
sobrinho, facilmente o decide a lanar-se nas aventuras africanas: j
morrera D. Pedro, para vir repetir o que dissera nas vesperas de Tanger.
Quando, em 1460, morreu D. Henrique, esse principe to funesto aos seus,
mas to proveitoso para o reino, j Affonso V tinha conseguido tomar
Alcacer-Seguer (1458). Dez annos depois, a conquista de Arzilla importa
a rendio de Tanger. O dominio portuguez na costa de Marrocos chegava
ao apogeu; mas qual era o resultado d'essas emprezas? Vinha por ahi a
Portugal o commercio das Indias, como D. Henrique pensra? No.
Monopolisado pelos arabes no Oriente, logo que Ceuta foi para elles
perdida, desviou-se para outros portos do Mediterraneo. Varrida essa
illuso, que restava? Uma serie de praas fortes, eschola de soldados,
fonte de permanentes conflictos, esteril em proventos, pasto para a van
necessidade batalhadora da nao: precipicio aberto, que ia tragando,
improficua e ingloriamente, muitas foras vivas do paiz. A opinio do
sabio principe D. Pedro era absolutamente verdadeira: ns no tinhamos
recursos, no reino pequeno e pobre de gente, para povoar Marrocos; e
mudar parte de uma populao escassa, de Portugal para a Africa, era
trocar uma boa capa, por um mau capello.  conquista de Ceuta movera
ainda uma illuso: mas agora, varrida ella, as campanhas de Africa eram
uma serie de emprezas quixotescas, que viriam a terminar pela doidice
varrida de D. Sebastio.

Contra uma opinio muito acceite, ns pensamos, pois, que a deciso de
D. Joo III, abandonando as praas africanas, s peccou por serodia; e
que Portugal nada tinha a esperar do seu dominio na Barberia--desde que
o destino o levava para o Oriente, e desde que era manifestamente
provado no poder chegar-se l por via de Marrocos. Incidente na nossa
vida nacional, o dominio portuguez das praas do litoral d'Africa 
apenas um episodio da grande historia das descobertas e conquistas
ultramarinas; e o seu melhor merecimento foi de servir de eschola para
os guerreiros da India, de posto de acclimao--como hoje Malta ou
Gibraltar, para os inglezes. Para padro das faanhas de Affonso V e das
lanadas de Lopo Barriga, no valia a pena que custou, ainda quando no
fosse a causa da final catastrophe de D. Sebastio.

    [70] _Regime das Riquezas_, pp. 92 e 107-9.

                      *      *      *      *      *




III

O principe perfeito


Perfeito no quer dizer sem nodoa, mas sim acabado, completo; no tem
aqui uma significao moral, tem um valor politico. D. Joo II  um
exemplar _perfeito_ do genero dos principes da Renascena, para quem
Machiavel escreveu (um pouco depois) o cathecismo:  um mestre da
moderna arte de reinar.

O exemplo mesquinho da pessoa do antecessor e pae, Affonso V, as
desordens do reino e a fraqueza do rei, tinham educado o espirito agudo
e observador do moo principe.

A tragedia de Alfarrobeira (1449) comera com um crime o espectaculoso
mas triste reinado do _africano_; e o epitheto dado ao rei ajudou a
formar a tradio de um homem cheio de valor e tenacidade, coisa que o
pobre Affonso V jmais foi. Combater com denodo, n'um momento de furia,
era uma qualidade commum que lhe no faltava; mas d'ahi ao valor
consummado vae uma distancia enorme. O grande defeito da sua mocidade
fra a facilidade com que se deixava lisongear. Tutelado na sua
menoridade, pela me primeiro, pelo tio e sogro depois, o pobre rei
soffreu as consequencias communs a quasi todos os principes, como elle
acclamados em creanas. Em volta do rei, pupillo de futuro imperante,
formou-se um partido de adversarios da regencia, ambiciosos a quem no
satisfazia o juizo do infante D. Pedro, cheios de esperanas na
liberalidade e no caracter desegual do moo rei. Exploravam-lhe as
fraquezas, aulando-lhe os odios nos momentos de colera, distrahindo-o
com facecias e ditos nas horas de abatimento, gabando-lhe tudo: os
arremeos e as cobardias, a brandura e a colera, como aduladores de
officio. Da insensatez do rei esperavam colher uma farta rao de
beneficios e presentes. Apesar de o infante j ter feito entrega da
regencia, temiam-no ainda sobremaneira, e no cessavam de o malquistar
no animo do sobrinho e genro. D. Pedro em vo instava com o irmo, D.
Henrique, para que desmanchasse essas perfidias. Aborrecido de viver,
desejoso de deixar o mundo, o ex-regente via que tudo se conspirava para
o perder. Era grande principe, de grande conselho, prudente, de viva
memoria, bem latinado, e assaz mixtico em sciencias e doutrinas de
letras, e dado muito ao estudo. Era um dos poucos, a quem a sabedoria
tornra realmente bons.

Os seus brios offendidos, a perfidia dos validos, o tonto desvairamento
do rei, levaram ao encontro de Alfarrobeira, quando o principe vinha 
crte justificar-se das calumnias: e vinha armado, por saber que no
caminho o esperavam para o matar. Effectivamente o mataram, a elle, e ao
seu fiel Achates, o nobre conde de Avranches, typo de lealdade
cavalheiresca, sempre rara, e agora de todo ausente em crtes
italianisadas. Morto o seu principe, o conde prepara-se para morrer
tambem, vingando-se:  corpo! j sinto que no podes mais; tu, minha
alma, j tardas! E com furia, defendia-se e matava. Quando por fim o
derrubaram, ferido, cruzou os braos, dizendo: Fartar, rapazes! vingar,
vilanagem! E morreu, trespassado de lanas.

Livre do importuno conselheiro, Affonso V e os fidalgos da sua roda, to
simples e estouvados como o rei, puderam abandonar-se  vontade ao
capricho das suas loucuras e batalhas. Fatigando o povo com impostos,
desbaratando com prodigalidades o patrimonio da cora, o rei, levado
pela sua mania, sacrifica tudo s correrias africanas, que a
decomposio interna do imperio marroquino j tornava possiveis.

Mais de vinte annos consumiu em taes emprezas que o envelheceram. Era
corpulento, e com os annos tornra-se gordo, a ponto de no poder j
usar seno vestiduras soltas. Tinha a barba espessa, e era calvo; os
cabellos ennegreciam-lhe as mos, as orelhas, o nariz, accusando a
vulgaridade e a violencia bravia do seu temperamento. Apesar de bem
proporcionado, era to commum no aspecto como no espirito. Brutal e
vingativo, obtuso mas teimoso, e at cruel, a sua phisionomia reproduzia
a do commum dos homens d'armas; e imprimiu o cunho a esses guerreiros de
Africa, broncos, sem o menor requinte de perversidade fina, nem ponta de
elevao distincta: como touros que marram s cegas e qualquer destro
bandarilheiro dma.

Foi isto mesmo que succedeu a Affonso V em Frana, onde Luiz XI se
fartou de rir do simples, illudindo-o com promessas, fatigando-o com
viagens, picando-o com ironias perdidas, carregando-lhe a nuca de
lisonjas, cumprimentos e attenes, como o bandarilheiro faz ao touro,
quando o carrega de vistosas farpas, bem aguadas.

Affonso V fra a Frana pedir auxilio, porque o castelhano batera-o. Em
1474, Henrique IV de Castella ao morrer, deixava por herdeira D. Joanna,
a _beltraneja_ (assim os adulterios da me tinham denominado a filha)
confiando o governo do reino ao visinho de Portugal, e pedindo-lhe que
casasse com a sobrinha. Affonso V julgou que o reino de Castella era a
nova Africa da sua velhice, e poz-se em campo para conquistar a cora
testada; conquistar, dizemos, porque os castelhanos invocavam contra a
_beltraneja_ os mesmos argumentos que, um seculo antes, ns invocavamos
contra a mulher de Joo I, D. Beatriz. Castella offerecia o throno a
Isabel, como ns o tinhamos dado ao Mestre de Aviz.

Affonso V poz-se em campo. J ao seu lado se via a reservada figura do
filho. Receioso das loucuras do velho, arrancra da sua fraqueza um
titulo secreto, pelo qual o rei annullava todas as doaes superiores a
dez mil ris de renda que fizesse durante a guerra. O pae dava e no
dava, o filho dobrava cuidadosamente o papel, guardando-o para o futuro...

A batalha de Toro (1476) no foi propriamente uma derrota militar,
mas foi uma derrota para o rei e para as suas ambies. O pobre
velho, gordo, estafado, sem poder comsigo, foi correndo abrigar-se
em Castro-Nuo, e deitou-se logo a dormir. Avendao, o fidalgo do
lugar, declarra-se por elle: mas a mulher, castelhana esperta,
apontava-lhe o volume de carnes, para alli deitado a resonar
ruidosamente, como os gordos, e dizia ao marido:--Olha l por quem te
perdeste!--Effectivamente o rei no valia para cousa alguma. Os
castelhanos rebeldes desde logo reconheceram o seu erro, e Affonso V
tomou a resoluo de ir pedir a Luiz XI que lhe valesse.

O principe herdeiro aprendia muito, porque observava tudo, com o seu
olhar profundo e sagaz. Deixou ir o pae, e ficando a reger o reino,
continuou, por amor da honra, mas sem calor, uma guerra que elle decerto
via no conduzir ao fim desejado. Emquanto o pae andava por fra,
acclamaram-no, ou acclamou-se rei: diz-se que de Frana lhe viera uma
abdicao. Porm Affonso V, desilludido afinal, decidiu-se a voltar; e o
principe entregou-lhe immediatamente a cora. Guardal-a, para que? Se
elle, de facto, continuava a reinar em nome do pae, desfeiteado,
vencido, quasi moribundo? Todas as maximas que Machiavel escreveu no seu
livro do _Principe_, tinha-as antecipadamente D. Joo II na memoria:--
melhor ser louvado do que aborrecido, mas s quando isso no prejudica;
o bem  preferivel ao mal, quando se pde escolher entre ambos para se
conseguir um fim.--Por isso, como sabio principe, decidia-se a reinar
sob o nome do pae, j inteiramente docil e subjugado por tantas
miserias, esperando o momento proximo de outra vez tomar o nome de
rei--mra formalidade.

No decorrer de dois annos (1479-81) a paz, negociada pelo principe
_perfeito_, fazia da _beltraneja_, encerrada n'um convento, a
_excellente-senhora_, e do rei um cadaver, afogado n'uma agonia de
afflices pungentes.

O filho no tinha nada dos loucos desvarios do pae, e desde logo vira o
absurdo da guerra de Castella. Seria mais nobre e cavalleiroso proseguir
valentemente na defeza dos direitos da cora, da honra do velho, e da
vida e sorte da infeliz princeza confiada  guarda de Portugal? Seria.
Mas D. Joo II pensava (Machiavel) que o principe no deve preoccupar-se
com a infamia dos seus actos, quando sejam necessarios  conservao do
Estado; e que, depois de tudo bem pesado, praticar uma certa virtude
pde muitas vezes trazer a ruina, quando a infamia traria comsigo a
segurana e a fortuna.

Este era effectivamente o caso em 1479. Dizia o principe que tempos
havia para usar de coruja, tempos para voar como falco. No traduzia,
porventura, com uma conciso mais eloquente, as palavras do
italiano?--O principe dever imitar bem os brutos (porque ha duas
maneiras de combater: com as leis e com a fora; a primeira dos homens,
a segunda dos brutos) e saber empregar as artes da raposa e do leo;
pois o leo no se defende dos laos, nem a raposa dos lobos:  portanto
mistr ser raposa para conhecer as redes, e leo para assustar os
lobos.--D. Joo II, menos classico ainda, recorria aos exemplos
venatorios da Edade-media; tempos havia para usar de coruja, tempos para
voar como falco!

Os filhos de D. Joo I, abrindo as portas da nao  cultura da
Renascena, chamando sabios, viajando, formando bibliothecas, tinham
lanado  terra dura do velho Portugal as sementes italianas. Affonso V
rebentra do solo como um cardo antigo, rijo e bravo, cheio de espinhos.
Fra um aborto, ou um anachronismo medieval. D. Joo II nascia
italianisado, com todos os vicios e virtudes da cultura da Renascena. A
sua crte era um retrato das pequenas crtes de Italia; e o principe
como um italiano, cheio de perfidias e ambies, de lucidez e de manha,
de instinctos sanguinarios e fortes decises politicas.

Os tempos de coruja tinham acabado, porque no carecia mais de pactuar
com as tontices do pae; rei agora (1481), seria o falco. Mas para ser
verdadeiramente rei, teria de vestir ainda muitas vezes o habito da ave
nocturna, at vr por terra o poder d'essa fidalguia que os erros do pae
tinham ensoberbado. Isto, porm, no satisfazia ainda as suas largas
ambies. O _homem_, como Isabel de Castella o designava com espanto,
mirava mais longe. A possibilidade de vir a sentar-se, elle ou os seus
herdeiros, no throno de uma Hespanha unida, affagra-lhe o espirito em
moo, e chegou a esperar (antes de Toro) realisal-a. Depois, rechaado,
mas no desesperado, fez de coruja em 1479; contando voar de falco no
momento opportuno. Nem paravam ahi as suas ambies: lembrava-se do
fallecido infante D. Henrique, e dos vastos planos, abandonados, que
tinham fervido n'aquelle cerebro. A sua monarchia dilatava-se da
Hespanha  India: e com a Peninsula na Europa, com a Africa, a India, o
encantado reino do Preste-Joham, sonhou a monarchia de Philippe II...

                      *      *      *      *      *

N'uma s cousa o portuguez primava ao italiano: era sobrio, severo,
detestava o luxo--que prohibiu. A sua crte apresentava o quer que  de
funebre e austero, sempre agradavel a portuguezes. A sua figura, tambem,
nada tinha de imponente, nem de graciosa. Os habitos de coruja davam-lhe
mais caracter do que os de falco: s duas aves, porm, pedia a cr que
punha em tudo, o negro. De maravilhoso engenho, subida agudeza, e
_mixtico pera todalas cousas_, de memoria viva e esperta, faltavam-lhe
porm os dotes exteriores. No tinha elegancia, nem no corpo, nem no
dizer: arrastava as palavras, falava a custo e com uma voz fanhosa. Era
alvo, mas com umas veias de sangue que o faziam com menencoria ser muy
temido. Inspirava medo sem infundir amor. Aos 37 annos j tinha cans na
barba o nos cabellos; s n'essa edade deixou de ser abstemio. A fora
muscular, dote necessario aos principes dos bons tempos, tornava-o
celebre: cortava com um golpe de espada tres e quatro tochas de cera
reunidas. Muy grande astucioso e acquiridor, sem deixar de ser inteiro
e dadivoso, era muy manhoso em todalas boas manhas que um principe deve
ter. A natureza no o ajudava, decerto; e tambem, na sua educao de
principe, deixava de obedecer  regra de Machiavel: No  necessario
ser-se dotado de todas as qualidades, mas  indispensavel
affectal-as;--possuil-as e servir-se d'ellas pde chegar a ser perigoso:
fingil-as  sempre util;--seja-se fiel, clemente, humano, religioso e
integro; mas de modo que, senhor de si, se possa e saiba fazer todo o
contrario, quando a isso o caso obrigue.--D. Joo no era, nem
clemente, nem humano, e no julgava necessario ao seu papel fingil-o:
isso fazia com que muitos o detestassem, o que era um mal: fazendo com
que, se a maior parte o temia, ninguem o amasse, o que se tornava peior
ainda. A perspicacia e authoridade no eram n'elle bastantes para que
soubesse envolvel-as n'uma simulada bonhomia, porque doura ou
humanidade no as havia na sua alma. No hesitava perante o assassinato,
 italiana, mas tinha a fraqueza portugueza de confessar como isso se
praticava. Lopo Vaz, a quem Affonso V fizera conde, levantou-se em Moura
defendendo o titulo revogado ou no confirmado, e o rei por no fiar j
d'elle... determinou de o mandar matar... por certos cavalleiros que
manhosamente l mandou e o mataram  traio, aos quaes o principe fez
boas mercs. Mas o cardeal D. Jorge da Costa, o _alpedrinha_, vendo-se
ameaado, temeu e fugiu para Roma: o rei expozera-lhe um modo facil do
acabar com elle--mandal-o tomar por quatro moos de esporas, afogal-o em
um rio e dizer que caira e se afogra por desastre.

Assim que o pae morreu, D. Joo II convocou crtes (1482) e mostrou quem
era. Mandou examinar as jurisdies dos donatarios da cora,
prescrevendo que os corregedores entrassem nas terras de doao no
cumprimento dos mandados regios, abolindo o direito de asylo dos
criminosos usurpado por muitos terrenos no coutados; e ao mesmo tempo
que assim coarctava as regalias historicas da nobreza, punha cobro s
invases anarchicas dos fidalgos no fro dos concelhos, prohibindo o
lanamento de _pedidos_, o intrometterem-se na jurisdio do crime e nas
eleies e officios municipaes. O rei, inspirado pelas novas idas
cerca da authoridade soberana, comeava por investir com a nobreza:
seria o successor, D. Manoel, que, reformando os foraes, atrophiaria a
outra face do systema duplo de instituies, cujo equilibrio mais ou
menos estavel formra a vida politica da Edade-media[71].
Mas D. Joo II via-se tambem forado a emendar os erros do pae, como o
segundo Affonso tivera tambem de fazer  morte de Sancho I. O moo rei
decidira formalmente revogar as doaes do antecessor, reivindicar para
a cora o que os fidalgos tinham pilhado ao pobre, gordo, Affonso V. De
todos esses fidalgos, o chefe era o poderoso duque de Bragana, cujos
dominios contavam cincoenta villas, cidades e castellos, alm de
propriedades sem numero; cuja mesnada subia a 3:000 de cavallo e mais de
10:000 infantes; um rei no reino, do qual possuia, pelo menos, a tera
parte. Costumado a considerar o rei como egual, da linhagem de reis, e
herdeiro do famoso condestavel, o duque sincera e ingenuamente
acreditava na justia da sua rebeldia. Deservia muito grandemente o
rei, fazendo-lhe guerra calada, e carteava-se com o conde de Athouguia,
seu tio, ento em Castella, homem prudente, que buscava dissuadil-o,
respondendo-lhe em enygmas ao gosto da epocha: Tal no deveis cuidar,
quanto mais commetter... quereis abrir uma fonte para matar vossa
sede... achareis a agua to quente que vos ho de l ficar as unhas...
_tradiderunt quos deligebam_. Com effeito, era atraioado, e o rei
tinha os seus espies por toda a parte. Um certo Figueiredo vinha a
escusas referir tudo a D. Joo II, que lhe respondia, com a sua voz
demorada, baixa e fanhosa: Guarda-te o melhor que puderes, e depois te
farei merc.--O espio ia e tornava, e quando, afinal, o duque foi
preso por surpresa e executado, o rei deu a mo a beijar ao Figueiredo:
At agora fiz que te no conhecia, d'ora avante olharei por ti. Pede o
que quizeres: ha tempos de coruja e tempos de falco...

O duque foi degollado publicamente no rocio de Evora (1483), depois de
um simulacro de processo. Effectivamente, em taes causas os processos
so apenas formulas. A fora impera  solta nas demandas politicas, por
isso mesmo que ellas pem em questo os fundamentos organicos da
sociedade, e portanto a lei civil. O duque e o rei eram inimigos velhos;
e aos odios antigos vinham juntar-se agora as intenes, rebeldes em um,
tyrannicas no outro. Entretanto, o caracter desnaturado da politica dos
reis na Renascena levava D. Joo II a representar um papel repugnante,
dando ao vencido uma palma como que de martyr; ao passo que a
sobranceria do fidalgo, quasi-rei, lhe mantinha a dignidade altiva at
sobre o cadafalso. Recusa prestar-se a responder no tribunal, a tomar
parte na comedia que o indigna; e quando os carrascos, afflictos, lhe
vestem o derradeiro trajo, uma loba roagante, capello e carapua de d,
com os pollegares atados por uma fita ao cinto, elle observa
serenamente: Soffrerei tudo, e mais um barao ao pescoo, se S. A.
mandar!

A morte, to digna, do duque de Bragana excitou ambies de vingana na
nobreza, e positivamente comeou a tramar-se o assassinato do rei, que o
sabia. Os seus espies andavam por toda a parte; e a politica dependia
das intrigas de alcova e dos servios dos miseraveis. O rei usava de
todos os instrumentos, e o _sancta sanctis_ da razo-d'Estado absolvia-o
de todos os crimes. Havia um Tinoco, privado do bispo d'Evora, o qual
tinha por manceba uma irm d'elle, e que por isso lhe queria muito. O
rei descobriu o caso, e comprou-o. Tinoco veiu, disfarado em frade, a
Setubal, contar a conspirao em que o prelado estava, e de que o duque
de Vizeu era chefe; e recebeu cinco mil cruzados em ouro e um beneficio
de seiscentos mil ris, porque D. Joo II no regateava o preo dos bons
servios. Estava compilada e tratada a segunda e desleal desaventura de
que se causou a triste morte do duque de Vizeu. O rei chamou-o a
Setubal, e matou-o por suas mos s punhaladas. Prescindiu de processo,
mas no de um auto posthumo, com o fim de justificar o seu crime, e a
perseguio dos mais conjurados. O bispo de Evora foi mettido no fundo
de uma cisterna, em Palmella, onde com peonha acabou a vida; os outros
foram assassinados ou justiados, onde quer que os encontraram os
algozes do rei; e um, que conseguira fugir para Frana, nem por isso
escapou com vida, porque o rei mandou l um sicario matal-o.

O principe _perfeito_ mostrava-se consummado na arte de reinar, e
ninguem ousava j resistir-lhe. A primeira metade do seu programma
estava realisada--agora o falco ia alargar os seus vos amplos!

Ninguem lhe resistia, mas no fundo da consciencia alguma cousa o
denunciava como assassino. Uma noute, em Santarem, acorda em sobresalto,
ouvindo alguem chamal-o. Quem era? Ninguem. Illuses! dizia-lhe a rainha
no leito: era _cousa m_ que andava pelos vos dos telhados.[72]
O rei no socegava, porm, e levantou-se, vestiu um roupo,
tomou a espada e a rodela, na mo esquerda uma tocha, e viu que uma
sombra o guiava. Quem era? Abria as portas diante do rei, e mostrava-lhe
o caminho. Foram assim at aos vos dos telhados, a sombra e o rei. Aos
gritos da rainha acudiram todos, e acharam-no no soto, despejado,
alegre e seguro, diz o chronista mentindo palacianamente. A coruja
noctivaga perseguia o ambicioso falco: a educao do principe no
conseguira apagar de todo a consciencia do homem.

                      *      *      *      *      *

Fernando e Isabel, de Castella, que lhe haviam tomado o pulso, ainda em
tempo do pae, admiravam-lhe muito as qualidades e tinham-no em grande
conta. Elle, nem por ter tratado as pazes de 1479, desistira dos seus
grandiosos planos. Os reis castelhanos tinham uma filha, D. Joo II um
filho: o casamento de ambos seria talvez um meio, mais simples e mais
rapido do que uma guerra, para dar ao herdeiro um grande throno.
Tratou-se, ajustou-se e fez-se o casamento (1490); e n'esse dia de
grandes esperanas, o rei sombrio e fanhoso quiz mostrar que tambem
sabia ser magnifico. As bodas de Evora ficaram celebres, e
principalmente o banquete, uma _kermesse_ formidanda. Na sala do jantar,
onde os noivos, o rei, e toda a crte se achavam, appareceu uma vasta
machina: era um estrado com rodas, tendo em cima um carro com dois bois,
 canga. Os bois estavam assados inteiros, com as pontas e as patas
doiradas; e o carro carregado de carneiros tambem assados, tambem
inteiros, com as armas doiradas. Vinha um fidalgo, de aguilhada ao
hombro a dirigir o carro, e moos empurrando a machina. Deram a volta da
sala, cumprimentando o castelhano, que gabou muito a ida; e entre os
applausos de todos, o carro saiu, e bois e carneiros foram dados ao
povo, pasmado fra. Terminado o idyllio culinario, foram-se todos 
comida, a crte e o povo. Nos velhos tempos do rei D. Pedro essas festas
eram uma s: o rei comia na rua entre os seus, e bailava, ao som das
_longas_, com as raparigas da rua.

 noute houve _mmos_, que ficaram celebres.


    Entrou (el-rei) pelas portas da sala com nove bateis grandes, em
    cada um seu mantedor, e os bateis mettidos em ondas do mar feitas de
    panno de linho e pintadas de maneira que parecia agua. Com grande
    estrondo de artilheria, que troava, e trombetas, atabales, e
    menistres altas, que tangiam, e com muitas gritas e alvoroos de
    muitos apitos de mestres, contramestres e marinheiros, vestidos de
    brocados e sedas, com trajos de allemes, em bateis cheios de tochas
    e muitas velas doiradas accesas, com toldos de brocado e muitas e
    ricas bandeiras.

    E assim vinha uma nau  vela, cousa espantosa, com muitos homens
    dentro e muitas bombardas, sem ninguem vr o artificio como andava,
    que era cousa maravilhosa.

    O toldo de brocado e as velas de tafet branco e roxo, a cordoada de
    ouro e seda, e as ancoras doiradas. E assi a nau, como os bateis,
    com muitas velas de cra douradas todas accesas, e as bandeiras e
    estandartes eram das armas d'el-rey e da princeza, todas de damasco
    e doiradas, e vinha diante do batel d'el-rey, que era o primeiro
    sobre as ondas, um muito grande e formoso cysne com as pennas
    brancas e doiradas, e apoz d'elle vinha na pra do batel o seu
    cavalleiro em p, armado de ricas armas, e guiado d'elle, e em nome
    d'el-rey sau com sua falla e em joelhos deu  princesa um breve,
    conforme sua teno, que era querel-a servir nas festas do seu
    casamento; e sobre concluso de amores desafiou para justa de armas,
    com oito mantedores, a todos os que o contrario quizessem combater.

    E por rei de armas, trombetas e officiaes para isso ordenados, se
    publicou em alta voz o breve e desafio, com as condies das justas
    e grados d'ellas, assi para o que mais galante viesse  teia como
    para quem melhor justasse. E acabado, os bateis botaram pranchas
    fra, e saiu el-rey com seus requissimos mmos, e a nu e bateis,
    que enchiam toda a sala, se saram com grandes gritos e estrondo de
    artilharia, trombetas, atabales, charamellas e sacabuxas, que
    parecia que a sala tremia e queria car em terra.

    El-Rey danou com a princeza, e os seus mantedores com damas que
    tomaram, e logo veio o duque com fidalgos da sua casa, com outros
    requissimos mmos. E veio outro entremez muito grande, em que vinham
    muitos mmos mettidos em uma fortaleza, entre uma rocha e mata de
    muitas verdes arvores e dois grandes selvagens  porta, com os quaes
    um homem de armas pelejou e desbaratou, e cortou umas cadeas e
    cadeados que tinham cerradas as portas do castello, que logo foram
    abertas, e por uma ponte levadia sairam muitos e mui ricos mmos; e
    em se abrindo as portas, saram de dentro tantas perdizes vivas e
    outras aves, que toda a sala foi posta em revolta e cheia de aves
    que andavam voando por ella at que as tomavam. E sado este grande
    e custoso entremez, veiu outro em que vinham vinte fidalgos, todos
    em trajos de peregrinos, com bordes dourados nas mos, e grandes
    ramaes de contas douradas ao pescoo, e seus chapeus com muitas
    imagens, todos com manteos que os cobriam at ao joelho, de brocados
    e por cima com remendos de veludo e setim... E assi vieram muitos e
    ricos mmos que no digo... e danaram todos at antemanhan; e foi
    tamanha festa que, se no fra vista de muitos, que ao presente so
    vivos, eu a no ousara escrever.


O principe _perfeito_ sabia tambem ser magnifico, e qual um Medicis, no
momento opportuno. De facto, o casamento affagava-lhe as esperanas e
ambies, abrindo horizontes de novas grandezas.

Ainda Colombo no descobrira a America, mas o futuro imperio do principe
Affonso alargava-se j por ignotas regies. D. Joo II queria dar, em
troca de Castella, um bom dote ao herdeiro; queria-o, alm de imperador
da Hespanha inteira, e da Italia hespanhola, imperador dos Estados
orientaes do Preste-Joham. As propostas de Colombo, apesar de recusadas,
excitavam-no; e por terra e mar enviava expedies em busca do lendario
principe. A empreza iniciada pelo infante D. Henrique proseguia nas mos
do rei, que tomra a peito descobrir os mundos remotos. O seu poder
naval era j to grande, que o Tejo via com pasmo o famoso galeo de mil
tonneis, monstro boiando n'agua, erriado de canhes. Nunca os
estaleiros tinham produzido navio to grande; nunca at ahi surgira a
ida que o rei teve de artilhar as caravelas, dando um alcance e uma
mobilidade desconhecida aos trons do mar. No seu pensamento havia um
proposito firme de o subjugar, desvendando-o at aos seus ultimos
confins, dissipando inteiramente as trevas e mysterios das ondas. Mandou
aperfeioar as bussolas, desenhar cartas maritimas para orientao das
rotas; commettendo esses estudos a uma Junta em que entraram os seus
phisicos, mestre Jos e mestre Rodrigo, ambos judeus, com o famoso
allemo Behaim, discipulo de Joo Monte-Regio, que em Vienna estudra
astronomia com o celebre Purbach. Foi essa junta que inventou as taboas
da declinao do sol, permittindo aos navios alongarem-se das costas,
rumando seguros em alto mar. Traavam-se como que estradas sobre as
ondas, estradas to mysteriosas como as regies da Mina, cuja navegao
costeira a astucia do rei envolvia em descripes terriveis para
afugentar rivaes-- maneira do que os phenicios tinham feito, quando os
romanos pretendiam seguil-os nas suas viagens mediterraneas.[73]
A posse dos segredos das costas e dos segredos das rotas
enchia de confiana o animo do rei no futuro grandioso do seu imperio. O
cabo da extrema Africa, limite por tanto tempo invencivel, tinha j
recebido o nome de Boa-Esperana! (1486).

Aladas esperanas eram todas essas que o rei afagava, olhando a cabea
do filho. N'este momento, a que podemos e devemos chamar revelador, D.
Joo II teve a consciencia do famoso destino que se preparava 
Hespanha: do seu imperio universal, da extraordinaria vastido do seu
poder politico, e da sua influencia moral. Symbolisava tudo isso na
cabea do filho amado; porque a cegueira dos homens careceu sempre das
lunetas de um symbolo para vr de certo modo a realidade das cousas. Os
symbolos passam, as cousas ficam; e da mesma frma os homens morrem e as
idas vivem eternamente. E, na sua fraqueza, o espirito humano amortece,
desespera e ce quando v apagado ou destruido o symbolo em que para
elle estava, mesquinhamente, a realidade inteira.

O funesto acaso da queda de um cavallo, matando o principe Affonso
(1491), foi para D. Joo II como o tiro do caador, quando n'um instante
precipita, s voltas, o passaro que de azas pandas vogava, inebriado, no
oceano do ar e da luz. O largo vo do falco estacou, e todas as
illuses se apagaram deante do cadaver gelado do principe, casado de um
anno. Essa vida que se finra, levava comsigo todos os sonhos doirados,
todas as esperanas, todas as chimeras!

Foi um choro universal. El-rey por tamanha perda, tamanho nojo e
sentimento, se trosquiou. E elle e a rainha se vestiram de muito baixo
panno negro. E a princeza trosquiou os seus bellos cabellos e se vestiu
de almafega e cabea coberta de negro vaso. Nas exequias, os homens, as
mulheres, at as creanas, tomados de vertigem, arrancavam as barbas e
os cabellos, davam bofetadas nas faces, batiam com as cabeas nas quinas
da ea funeraria, e arranhavam o rosto a fazer sangue. O luto era geral
e desvairado.  imitao do rei e da princeza viuva, toda a gente andava
tosquiada; o os que no podiam, por pobres, comprar o burel, que
encarecera excessivamente, adoptaram trajos extravagantes: as mulheres
vestiam as saias do avsso, e os homens punham em cima de si os saccos
de forragens e os xaireis ou cobertas das bestas de carga.

Este incidente imprevisto da morte do principe  um dos que obrigam a
meditar sobre o valor do acaso na historia. Tivesse-se consummado a
unio dynastica de Portugal ao resto da Hespanha j unificado, e a
historia da Peninsula, a historia da Europa, seriam diversas.[74]
Que papel teria tido no mundo um imperio exclusivamente
senhor de todas as regies descobertas? Que teria succedido, se Carlos V
e a dynastia austriaca no viessem reinar em Hespanha, pondo nas mos de
um homem o imperio da Allemanha, da Italia e da Peninsula iberica? Acaso
a unio, realisada no periodo ascencional da Hespanha, se tivesse
consolidado abafando o cristallisar da alma portugueza na ra classica e
abastardando a semente que nos deu Cames. Unido ento, Portugal ficaria
como se nunca tivesse existido, por isso que no chegra ainda a
formular o seu pensamento historico, nem a consummar a sua empreza...

D. Joo II, humilhado, abatido, e rapado por d, voltou a envergar o
habito da coruja, para morrer (1495). Agonisante, mal podendo articular
j as palavras, com uma voz arrastada e fanhosa que a proximidade da
morte fazia satanica, dizia, encostando a cabea felina sobre a mo
descamada: Persigam-me sem d os filhos do Bragana!

    [71] V. _Hist. da civil. iberica_ (3. ed.) p. 137-49.

    [72] _V. Systema dos mythos relig._, p. 291.

    [73] V. _As raas humanas_, liv. IV, 3.

    [74] V. _Theoria da hist. universal_, nas _Taboas de chronol._,
         pp. XXXII-III.

                      *      *      *      *      *




      IV

      Em demanda do Preste-Joham das Indias


No vero de 1486 tinha Bartholomeu Dias partido de Lisboa, para dobrar o
Cabo da Boa Esperana; o que de facto conseguiu, no podendo porm ir
mais vante, porque lh'o no consentiram as tripulaes assustadas. No
mesmo anno mandra o rei, por terra, para o Oriente, Antonio de Lisboa e
Pero Montaroyo, que no passaram de Jerusalem, por s ahi reconhecerem
que, no sabendo falar o arabe, no podiam intentar a viagem.

No anno seguinte, portanto, escolhem-se dois homens que sabem arabe,
para ir por terra descobrir o Preste-Joham. A viagem por mar, ou se
abandonava por parecer impossivel, ou aprazava-se para mais tarde:
quando houvesse informaes mais cabaes, colhidas nas expedies por
terra. Affonso de Payva e Pero da Covilhan partiram de Lisboa, via
Napoles, com cartas de credito sobre o principe banqueiro, Cosme de
Medicis. D'ahi os viajantes embarcam para Rhodes, depois para
Alexandria, d'onde seguiram pelo Cairo para Tur, (Tor) na praia do mar
Vermelho ao sop do Sinai, como mercadores, acompanhando as caravanas.
De Tur foram a Aden, onde se separaram: Covilhan para a India, Payva
para Sukin (Suaquem) na costa da Abyssinia; aprazando o encontro, 
volta, no Cairo.

Covilhan, em Aden, embarcou para Kananor, no Malabar, e d'ahi foi a
Kalikodu (Calecut) e a Ga. Atravessou, depois, o oceano indico, indo
parar a Sofala, onde colheu noticias sobre a costa oriental da Africa, e
sobre a ilha da Lua (Madagascar). Voltou logo ao Cairo, pressuroso de
enviar a Lisboa as importantes informaes obtidas, e ahi soube da
prematura morte de Payva. Recebidas em Lisboa as cartas do viajante, D.
Joo II recambiou logo os arabes seus emissarios, com ordem de visitarem
Hormuz e a costa da Persia. Executada essa misso, Covilhan, cujo
primeiro dever era obter noticias do Preste-Joham, partiu para a
Abyssinia. J por esta epocha o encantado principe que, segundo Marco
Paolo, habitava a Asia central, fra transferido para a Nubia: e a lenda
personalisava no obscuro Negus o extravagante monarcha, to falado e
admirado em tempos anteriores. Covilhan, de quem no houve outras
cartas, por largos annos aprendra no Oriente a verdade; mas no podia
transmittil-a para Portugal. Preso, sem ser maltratado, favorecido e
rico pelo contrario, viveu por trinta e tres annos na Ethiopia,[75]
onde acabou.

Se a sua viagem no saciava a curiosidade principal do monarcha
portuguez, se o Preste-Joham continuava a ser um mytho, o facto  que
mais valiosos resultados se tinham obtido. A Covilhan cabe a honra de
ter marcado o itinerario da navegao da India, affirmando que pelo sul
da Africa se chegaria ao Oriente. Nas cartas que enviou do Cairo, dizia
que os navios que navegassem ao longo da costa da Guin, chegariam,
proseguindo, ao extremo sul do continente africano: e que, aproando ahi
para leste, em direco da ilha da Lua, por Sofala, se encontrariam no
caminho da India.

D'estas e das mais informaes recebidas se compoz o programma da
atrevida expedio do anno de 1497, cujo destino marcado era desde logo
Kalikodu, ou Calecut, como c lhe chamavam, e onde Covilhan estivera.
Vasco da Gama foi escolhido por D. Manuel (j a esse tempo D. Joo II
tinha tres annos de fallecido) para commandar a expedio. Era um homem
ousado mas prudente, e reunia s qualidades militares as de marinheiro,
cousa ento commum, e depois ainda. Succedeu o mesmo a Affonso
D'Albuquerque, a D. Joo de Castro, e a muitos outros; e a esta
circumstancia deve dar-se um merecido alcance. A separao das aptides
no vinha embaraar os planos; e havia uma unidade no mando, porque o
capito era tambem o piloto.

O maior juizo e prudencia dirigiam os preparos da expedio. Pesavam-se
e debatiam-se todas as noticias do Covilhan, commentando-as com os
conhecimentos anteriores. Examinavam-se os roteiros e cartas; e
Bartholomeu Dias de viva voz contava tudo o que lhe succedera, os
embaraos com que havia a luctar, as difficuldades a vencer. Com a sua
larga experiencia dirigia a construco dos navios, banindo os exageros
nas dimenses, recommendando a solidez dos cavernames. O descobridor do
Cabo devia acompanhar a expedio at S. Jorge da Mina, e ficar ahi no
_resgate_ do ouro. Eram quatro nus pequenas, para poderem entrar em
todos os portos, visitar todas as angras, passar os baixios, ao longo
das costas. A sua construco ia aprimorada e forte, como jmais se
vira: madeiras escolhidas, sans, e de exagerada grossura, pregadura bem
atacada, demorado e cuidadoso calafeto. As attenes no eram menores
com o equipamento: levavam tres _esquipaes_ de velas armadas e mais
apparelhos, cordoalha tres vezes dobrada, e mantimentos, armaria e
bombardas em abastana. Levavam seis padres de pedra lioz com o brazo
portuguez e a esphera armillar, que o rei adoptara por emblema,
esculpidos. Um havia de ser collocado na bahia de S. Braz, outro na foz
do Zambeze, outro em Moambique, outro em Melinde, outro em Calecut,
outro na ilha de Santa Maria. Iam dois capelles a bordo de cada navio;
iam linguas ou interpretes negros, cafres e arabes; iam dez condemnados
para qualquer sacrificio necessario, e finalmente iam cento e quarenta e
oito soldados. Tinham-se escolhido os melhores pilotos, e o rei no
consentia que se poupasse em cousa alguma. Vinha em pessoa examinar o
estaleiro, e demorava-se a conversar com os mestres, ouvindo as
observaes de Bartholomeu, de Pedro Dias, e Vasco da Gama, que lhe
mostrava o novo astrolabio de Behaim, tosco triangulo de madeira, mas
muito efficaz. Pelo modelo tinham-se mandado fazer outros, mais
pequenos, de lato.

Tres dos navios levavam os nomes dos tres archanjos: _S. Gabriel_,
capitanea, de 120 toneis, _S. Miguel_ (antigamente _Berrio_) e _S.
Raphael_ de 100 toneis. O nome do quarto, de 200 toneis, desconhece-se.

No fim de junho estavam todos concluidos, promptos e fundeados no mar,
em frente da egreja de Restello, onde os capites velaram a noute de 7
de julho. No dia seguinte, depois da missa, acompanhados pelo rei e por
todo o povo da cidade, seguiram em procisso para a praia, cantando, com
tochas nas mos, e embarcaram.

Diz Cames que, n'este momento,

    ... hum velho d'aspeito venerando,
    Que ficava nas praias entre a gente,
    .....................................
    C'hum saber s d'experiencias feito,
    Taes palavras tirou do experto peito:
    ......................................
    Oh maldito o primeiro que no mundo
    Nas ondas vela poz em scco lenho!

No peito de muitos havia, com effeito, uma condemnao formal por essa
teima persistente dos monarchas em sacrificar dinheiro e gente  chimera
das navegaes.[76] A prudencia de experiencias feita, ronceira e fria,
no acreditava no exito, depois de tantas tentativas falhadas. O
resultado havia de votar contra ella; mas as palavras do poeta
prophetisavam as consequencias funebres d'um imperio, que todos porm,
os audazes e os prudentes, acclamaram quando Vasco da Gama voltou.
Cames, assistindo j ao declinar do sol, pde contar as fomes soffridas
no mar, os temporaes e os naufragios, as peregrinaes nos reinos
adustos do terrivel Adamastor, e o collar de esqueletos brancos
estendidos ao longo dos areaes das duas Africas--um rosario de tragedias
funebres! Pde tambem contar as ondas de protervia e crimes, d'esse mar
da India, que se estirou at  Europa para afogar Portugal em vasa.

                      *      *      *      *      *

Com sete dias de viagem, a 15 (julho), chegam s Canarias, onde um
nevoeiro dispersa a pequena frota, que, entre 23 e 27, se reunia outra
vez em Cabo-Verde, para d'ahi partir em 3 de agosto. Tres mezes gastaram
para descer at Santa Helena (nov. 7), onde refrescaram, porque tinham
seguido ao largo, sem se internarem no golpho da Guin. Desembarcaram
tambem para reconhecer a altura, com o astrolabio, porque a bordo no
lh'o consentiam os balanos dos navios; tiveram algumas escaramuas com
os indigenas, e partiram afinal no dia 16 de novembro. A 19 estavam 
vista do cabo Tormentoso ou da Boa-esperana, dois nomes que egualmente
justificou d'esta vez. Tres dias alli andaram, batidos pelos temporaes.
O vento e o mar eram tantos, que os navios mettiam as postias debaixo
de agua, e difficilmente se diria se andavam sobre as ondas, ou de
envolta com ellas. No alto dos castellos,  ppa, levavam as nus
retabulos pintados, com a imagem dos santos do seu nome; e quando o mar
lanava com estrepito os paineis, sobre o tendal, toda a tripulao das
nus empallidecia de susto. Era um triste prognostico, e parecia que o
favor divino os queria desamparar. Mares crueis e espantosos vinham pela
ppa arrebatando os bateis, arremeando-os contra os costados das nus,
avariando os lemes. Amainavam as velas, cortavam os tendaes, comeavam a
alijar carga ao mar... Por fim o tempo abonanou: Nosso Senhor seja
louvado, que nas maiores fortunas soccorre com a sua infinita
misericordia!

Dobrado o cabo a 22, no dia 25 fundeavam na bahia de S. Braz, onde as
calmarias os foraram a demorar-se at 7 do mez seguinte. Navegando uma
semana ao longo da costa austral d'Africa chegam a 15 aos ilheus-Chos,
derradeiro termo da viagem de Bartholomeu Dias. Comeavam agora a seguir
as instruces do Covilhan, o piloto ausente pelas terras do
Preste-Joham, a quem demandavam. Queriam seguir ao longo da costa, mas
as correntes, a que haviam grande medo, lanavam-nos para o plago do
sul, vasto e perdido. Os marinheiros revoltam-se inutilmente: Vasco da
Gama, como um destino, inexoravel e prudente na sua audacia, venceu as
revoltas e as correntes.

Saam por fim do Mar Tenebroso, e s agora se podia considerar vencido o
temivel cabo. As tempestades e as correntes amansaram. De dia a calma e
o cu de azul puro:  noute, por duas ou tres vezes, no topo dos
mastros, brilhava a luz de S. Fr. Pedro Gonalves, o Sant'Elmo de
Lisboa. Tudo eram promessas de bonana. Subiam aos mastros a vr os
signaes do milagre, e traziam, com devoo, os pingos de cera verde que
o santo l deixra. s vezes chegavam a brigar contra algum incredulo, e
mais de um d'esses pagou _por ello_. Os marinheiros recordavam-se
piamente do seu santo, que ficra em Lisboa, e de Xabregas, onde cada
anno o levavam em procisso, vestindo o melhor que tinham, pondo os seus
ouros, coroados de coentros e flores, com bailes, musicas, folias e
merendas, pelas hortas do arrabalde. O bom santo protegia-os: j se no
rebellavam, e alegres proseguiam, confiados tambem na pericia e valor do
capito, que os domava com intrepidez.

A 10 de janeiro tomavam terra em Inhambane, communicando com os cafres:
a 22 tinham subido at Quilimane, onde veem visital-os a bordo
_fidalgos_, com toucas de seda lavradas na cabea. Pela primeira vez
chegavam _ India_. Viam gentes diversas, e signaes d'essa civilizao
distante, demandada com tanto ardor. Emergiam do mar d'Africa e da
obscura sombra do continente negro. Esses _fidalgos_, para quem olhavam,
porm, quasi com amor, como irmos, seriam os seus mais crueis inimigos.

Ficam um mez em Quilimane, para reparar os navios e restaurar a saude,
porque o escrobuto comera a lavrar com fora nas tripulaes; e,
partidos, chegam em 2 de maro a Moambique. Os symptomas anteriores
augmentam: veem mais, muitos _fidalgos_: esto, decididamente, s portas
da India! vo afinal chegar ao imperio do Preste!

O que observavam augmentava-lhes o desejo, avivando-lhes a curiosidade.
Tudo era novo para elles, mas tudo avigorava as esperanas de virem a
encher-se com o saque dessas cousas brilhantes, marfins e sedas, ouros e
pedras, que luziam nos toucados e vestidos dos _fidalgos_ de Moambique.
Em volta da esquadrilha fundeada vogavam os navios da terra, sem coberta
nem pregaria: as taboas cosidas a couro, e velas de esteiras de
palma.[77] Os mouros vinham mercadejar com elles. O proprio
sulto em pessoa quiz cumprimentar Vasco da Gama, que o recebeu a bordo.
Pediu-lhe pilotos que o guiassem  India,  terra do Preste-Joham;
pediu-lhe informaes cerca do famigerado imperador. O mouro disse-lhe
que o Preste era um poderoso principe, com muitas cidades n'aquella
costa, grandes navios e muita copia de mercadores: foi, pelo menos, isso
o que Vasco da Gama percebeu, e taes novas encheram-no de alegria.

Mostrou-se depois o sulto perfido, e a esquadrilha, sem os pilotos, foi
seguindo, costeiramente at Mombas (8 de abril), onde um acaso a salvou
da traio que _os mouros_ lhe preparavam. Elles tinham descortinado j
perigosos concorrentes n'esses homens vindos por mar s regies que,
desde a Arabia, o Egypto e a Nubia, eram at ahi imperio seu e
indisputado. Salvo por um milagre, Vasco da Gama seguiu a Malinda (15),
onde o _sulto_ o acolheu bem; mas no confiando mais n'esses _fidalgos_
do Zamgebar, aproveitou de um mouro que se deixra ficar a bordo em
Moambique, e que succedeu conhecer a rota para Kalikodu. Fizeram-se ao
mar, e em vinte e seis dias (24 de abril a 19 de maio) estavam na India.
Durra a viagem dez mezes e onze dias.

Foi ento que o seu espanto chegou ao auge. Tudo o que j tinham visto
no dava uma ida, nem distante, do que viam agora, desembarcados. O
esplendor e o fausto natural do Oriente enchiam-nos de admirao e
cubia; e na sua ignorancia religiosa viam por toda a parte os christos
do Preste. Os indigenas adoravam a Virgem Maria; e os nossos
prostravam-se tambem deante de Nossa Senhora na pessoa de Gauri, a deusa
branca, Sakti de Shiva, o destruidor. Esta confuso, augmentada ainda
por no se entenderem no que diziam, dava logar a scenas ingenuamente
comicas. Alguns, duvidosos, observavam que, se os idolos eram diabos, a
sua reza era s para Deus; e com esta reserva mental ficavam quietos na
consciencia. Para augmentar o espanto, veiu ter com elles um _mouro_ a
falar portuguez: Boa ventura! boa ventura! muitos rubis! muitas
esmeraldas!

E nada d'isto era um sonho, eram sem mentir, puras verdades. Os
indigenas abraavam-nos, e os broncos alemtejanos, os beires, os
marinheiros do Tejo, ingenuos e ignorantes, abraavam-nos tambem, na
effuso de um instincto humano, como patricios. Dir-se-ia que se
conheciam de muito, e que pouco ou nada os distinguia: de Lisboa  India
era uma curta distancia, porque o sentimento no tem bitolas. Eram todos
christos, tambem tinham reis! o mundo era um s, e o homem o mesmo em
toda a parte! A naturalidade ingenua com que se praticavam as maiores
cousas,  a grande prova da fora heroica dos homens da Renascena.

Por esse tempo, na India--e com este nome designamos todas as costas e
ilhas incluidas entre os meridianos de Sus e de Tidor, e entre 20 de
latitude S. e 30 N., theatro das campanhas portuguezas--na India,
dizemos, raas estranhas impunham uma especie de dominio em tudo
similhante ao que foi depois o dos portuguezes: um monopolio
commercial-maritimo, e como consequencia d'elle, feitorias, colonias e
Estados. Os povos que ns iamos despojar d'esse dominio eram os arabes e
os ethiopes, os persas, os turkomanos e os afghans, que, descendo do mar
Vermelho e do mar da Arabia, confundidos na onda religiosa do islamismo,
tinham avassalado a peninsula do Indo ao Ganges, e a Africa oriental
desde Adal at Monomotapa. Estendendo-se para o extremo Oriente iam,
como ns fomos, at Kambodja e Tidor nas Molucas, atravez do Arakan e do
Pegu, da peninsula de Malaka e de Birma e Shan (Sio) no continente,
atravez de Sumatra e Borneo e pelo meio do archipelago de Sunda. A todas
essas gentes chamaram os portuguezes _mouros_,[78] expresso generica j
usada na Europa para designar os sectarios do Islam, e por isso tambem
adoptada agora que, to longe e atravez de tantos mares, iamos
encontrar-nos de novo, frente a frente, com o _turco_, antagonista do
_christo_ em todo o mundo.

Al diablo que te doy! Quien te trouxe ac? assim um mouro de Tunis, em
Kalikodu, cumprimentava o portuguez; e como em Moambique e em Mombas,
os _mouros_ (usaremos d'ora vante d'esta expresso generica, j
explicada) induzem ou obrigam o Samudri-rajah (amorim), rei ou conde--a
India vivia n'um regime simili-feodal--de Kalikodu, a exterminar os
portuguezes. Kalikodu era o emporio commercial da costa do Malabar, e os
dominios do seu rajah formavam o chamado reino de Kanar.

Facil seria, sem duvida, convencer o principe de que Vasco da Gama era
um pirata, o seu rei uma burla; e sem o pensarem, decerto, os mouros de
Kalikodu definiam antecipadamente o dominio portuguez, que s veiu a
differenar-se d'uma pirataria commum, em ser uma rapina organisada por
um Estado politico. Convencido ou violentado, o rajah manda perseguir os
navegantes, que embarcam e se defendem (agosto 30.) Depois de uma
estao, de alguns mezes na ilha de Anjediva, sobre a costa, Vasco da
Gama decide voltar; e faz-se de vela para Portugal em 10 de julho de 98.
Um anno depois, no mesmo dia, chegava a Lisboa. Na viagem, separou-se da
frota Nicolau Coelho em Cabo Verde, e Vasco da Gama veiu pela Terceira,
sepultar ahi o irmo que morrera no mar.

O enthusiasmo foi grande em Lisboa,  chegada de Vasco da Gama: tambem
D. Manuel tinha as suas Indias, e Portugal o seu Colombo! E o
Preste-Joham, que noticias? E de Covilhan? Nada. O navegador conseguira
vencer o Cabo e achar a India, mas no conseguira decifrar o enigma, que
a este tempo j contava tres seculos de successivas indagaes.

Pouco viriam essas a importar para a historia. O essencial era a
decifrao do outro enigma, ainda maior--o do Mar Tenebroso. Pouco
faltava j; e em vinte annos mais, no haveria, na rotunda superficie do
globo, um canto de terra incognita, nem um palmo por explorar na vasta
amplido dos mares. Debaixo das bravas ondas, por saber os segredos da
terra e os mysterios e enganos do oceano, os portuguezes, com uma
curiosidade heroica, tomaram em suas mos o futuro da Europa, e do
mundo. No anno seguinte ao da descoberta da India, Pedro Alvares Cabral,
que para l fra mandado com uma imponente esquadra, no resiste 
tentao da curiosidade. Descendo no Atlantico, em direco de leste,
uma pergunta incessante o persegue: que haver para o poente? Para esse
lado descobriu Colombo umas Indias no hemispherio norte: acaso haver
mais Indias no hemispherio do sul? Amarou para oeste, a indagar, a
vr... Mais uns mezes, na longa viagem do Oriente, que importavam? Com
effeito, descobriu o Brazil;[79] a terra de oeste vinha, desde o extremo
norte at ao extremo sul, estendendo-se ao longo, nos dois hemispherios.
S ento a America se pde dizer inteiramente descoberta.

A noticia das novas terras encontradas impressionou pouco Lisboa; na
crte ardia o desejo de descobrir o Preste, o encantado Preste-Joham; de
fazer com elle um bom tratado, para chamar a Portugal um pouco, ao
menos, das tantas cousas boas que Vasco da Gama vira por seus olhos, e,
contadas, enchiam de cubia o espirito de toda a gente. Cabral fra
mandado a isso, e no a descobrir terras: j eram demais as Cruzes, e os
nomes do repertorio escasseavam j para denominar ilhas e cabos, portos
e bahias, costas e continentes. Desejava-se outra cousa, ferviam outras
esperanas:

Boa ventura! boa ventura! muitos rubis! muitas esmeraldas!

                      *      *      *      *      *

Tomarem-no por um pirata enchera de colera Vasco da Gama. Alm da
necessidade de mostrar ao amorim perfido o poder do rei de Portugal,
era indispensavel desaggravar os brios do fidalgo offendido. No podia
ir d'esta vez, mas para outra seria a sua vingana.

Logo que Vasco da Gama chegou, decidiu-se, pois, enviar uma grande
armada  India; porque agora, sabido o caminho, no havia mais receios,
nem motivos, para reduzir o numero, nem a lotao dos navios. Pedro
Alvares Cabral fra nomeado almirante da frota, que contava treze nus,
e levava mil e duzentos homens.

A construco dos navios tinha progredido com a frequencia e exteno
das viagens. Naus e gals, embarcaes de vela e remo, tinham-se
preparado melhor, augmentando em dimenses. No primeiro quartel do XVI
seculo, porm, quando a avidez commercial no pervertia ainda a
prudencia, a lotao ordinaria no excedia 400 toneladas.[80]
A nu navegava  vela, jogando dos costados a artilheria, no
convez ou sob a coberta.  ppa e pra, nos castellos, luxuosamente
ornados de lavores e douraduras, assentavam tambem canhes; e nos cestos
de gavea havia pequenas colubrinas. De um a outro castello corria um
baileu ou varanda volante, d'onde, nos combates, atiravam os
mosqueteiros, e se passava  abordagem dos navios inimigos. Muitas nus
andavam munidas de rostos ou espores de ao nas pras, para a
investida. As gals, navios de remo, dividiam-se em _bastardas_ e
_subtis_: as primeiras de 27 bancos a tres remeiros e 7 peas grossas;
as segundas de 25 bancos e 5 peas apenas. A artilheria grossa jogava
smente  pra, nos costados: entre os remeiros, collocavam-se, porm,
umas peas menores, a que se chamava _beros_. Havia, alm d'isto, as
_fustas_, gals pequenas de 16 ou 20 bancos de dois remos, com duas
peas grossas. As gals, comtudo, tambem velejavam: e para isso tinham
dois mastros, onde levavam latinos; as fustas um s. Havia, porm, gals
que, por se approximarem mais da armao das nus, se diziam
_bastardas_: armavam dois mastros, mas no do traquete tinham duas velas
redondas, e cestos de gavea, como as nus.

A esquadra de Pedro Alvares Cabral levantou ferro do Tejo no dia 9 de
maro do anno de 1500. Os gritos da marinhagem, para alar a um tempo os
viradores nos cabrestantes, melopa triste e funebre como o mar; o surdo
roar das amarras nos escovens; o apito dos mestres, dirigindo as
manobras; as bandeiras multicolores soltas ao vento; e as velas meio
desdobradas nos mastros, formavam o vivo quadro da nao que tambem
partia, no anno de 500, j confessada e bem disposta, para essa longa
viagem de pouco mais de um seculo, cheia de escrobutos e naufragios, ao
cabo da qual a esperava um tumulo, vasto como  o mar, mudo como elle 
nas calmas funebres dos tropicos.

No havia protestos agora, seno esperanas, cubias, ambies. No
partiam  aventura; partiam  conquista do que tinham descoberto, e
queriam trazer para Portugal, para casa. Ninguem duvidava do exito, e o
capito levava cartas solemnes do rei para o amorim. Em troca d'ellas,
da sua alliana, dos presentes que lhe mandavam, viriam os rubis e as
esmeraldas, a pimenta e a canella, monopolisada pelo turco, inimigo de
Deus!

J na praia comeava a levantar-se a basilica, monumento ingenuo d'essa
religio do commercio, erguido a Jesus e  Pimenta--os dois deuses que
viviam no cu portuguez (ou carthaginez): dois deuses piamente adorados,
mas servidos ambos de um modo egualmente barbaro.

O almirante acaso pensava, j no Tejo, n'esse rumo de Oeste, o de
Colombo, que o levaria  America; e porventura acreditava pouco na
existencia do lendario Preste-Joham, por cuja causa tantas viagens se
tinham feito. No o mandavam descobrir, mandavam-no conquistar; mas elle
queria tambem inscrever o seu nome na lista dos que, durante o seculo
anterior, tinham pouco a pouco rasgado as trevas do mar mysterioso. A
sua viagem, alm de iniciar o dominio portuguez na India, teve, com
effeito, as duas consequencias desejadas. Varreu as duas lendas, a do
Preste e a do Mar Tenebroso: descobriu o Brazil, e veiu dizer a D.
Manuel que o supposto imperador do Oriente era um miseravel rei preto,
infiel, acantonado nas montanhas invias da Abyssinia.

Atraz de uma lenda, attrahido por uma voragem, Portugal descobrira os
continentes e ilhas do Atlantico e chegra  India. Por uma illuso,
consummra a realidade que espantava o mundo inteiro. O mundo  uma
miragem, e os homens sombras levadas pelos sabios ventos do destino...

Reconhecidas as terras, sulcados os mares, por occidente e por oriente,
faltava porm ainda reunir essas duas metades do mundo conhecido, e
dar-lhe a volta, para se saber que cabia todo, inteiro, nas mos do
homem: eis ahi o valor da viagem de Magalhes, vinte annos mais tarde.

No ha mais trevas no mar; consummou-se a grande conquista. Mas uma nova
empreza se desenha agora: devorar o descoberto, digerir o mundo.

Portugal inteiro embarca para a India na esquadra de Cabral[81].

    [75] V. _Regime das riquezas_, p. 109.

    [76] V. _Hist. da repub. romana_, p. I, XIX, _intr._

    [77] V. _Regime das riquezas_, pp. 85-6.

    [78] V. nas _Raas humanas_, a ethnographia do Oriente a
         pp. 70-85, 90-105 e 122-41 do vol. I.

    [79] V. no _Brazil e as colon. port._ p. 3 (2. ed.) a descoberta
         das costas brazileiras.

    [80] V. no _Brazil e as colonias port._ (2. ed.) a composio
         typo de uma nau da India, a p. 34 _nota_.

    [81] _Hist. da republ. romana_, I, pp. 217-8.

                      *      *      *      *      *




LIVRO QUARTO

A VIAGEM DA INDIA


    Ds o primeiro dia que com a vista a experiencia propria me acabei
    de desenganar do grande erro que at alli me trazia a fama das
    cousas da India... me nasceu logo um desejo ardentissimo de fazer
    por esta via um grande e extraordinario servio.

    RODRIGUES DA SILVEIRA, _Reformao da milicia e governo do Estado da
    India oriental._

                      *      *      *      *      *




I

D. Francisco d'Almeida


Em 13 de Setembro do anno de 500 chegou Cabral a Kalikodu. No ia, como
Vasco da Gama fra--como descobridor; ia como embaixador,  frente de
uma poderosa armada, para no ser tomado por pirata, mas sim pelo
emissario, que era, do nobre monarcha portuguez, portador das suas
cartas e propostas de alliana para o rajah de Kalikodu. Como tal foi
effectivamente recebido, n'uma audiencia solemne. Os portuguezes,
vestindo as suas melhores roupas, as suas armas mais bellas e polidas,
pensavam impr de ricos ao monarcha do Oriente; mas os representantes da
pobre e forte Europa iam ficar deslumbrados com as magnificencias da
India opulenta. O brilho das armaduras era offuscado pelo rutilar da
pedraria cujas chammas impediam a vista. O rajah vinha em um palanquim
ou andor trazido aos hombros pelos nobres, recostado sobre almofadas de
seda, entre colchas lavradas de fio de ouro cando em pregas franjadas
com borlas cravejadas de pedras preciosas, e pannos de carbaso de linho
finissimo, cuja alvura sorria ao lado da vermelhido sanguinea das sedas
e brocados. Corria a compasso o andor coberto por um pallio de seda
franjado de ouro, e dentro d'este duplo sacrario via-se o rajah negro
rutilante de pedras preciosas. Cegava olhal-o. Aos lados do pallio iam
pagens com leques de pennas de pavo agitando o ar, e  beira do
palanquim os que levavam as insignias da soberania: a espada e a adaga,
e estoque de ouro, a flor de liz symbolica, o gomil de agua, e
finalmente a copa onde o rei cuspia o betele, cujo mascar faz os dentes
cr de rosa e d muito bom bafo.

Em toda a volta e prolongando-se na cauda da procisso, charangas de
musicos atroavam o ar com os seus tambores, com os tam-tams de prata e
de ouro, suspensos por cordeis em bambus altos, com as trombetas
enormes, umas rectas, outras curvas, levantadas para o ar, e que davam
aos musicos o aspecto de elephantes com trombas douradas, cujos
pavilhes se viam cravejados de rubis e esmeraldas. Vinha uma grande
trompa de ouro levada por dois homens a cavallo! Os musicos, negros, iam
ns, com manilhas nos braos e nas pernas, e  cinta um panno cobrindo
as vergonhas. Ns iam os nayres e mais tropas do rajah, esgrimindo aos
saltos em pyrrhicas singulares, parecendo atacados de furia, com as suas
armas variadas: alfanges curvos para os golpes de cutilada, espadas
largas e ponteagudas para as estocadas, espadas triangulares com o
vertice nos copos e na ponta a base espalmada, arcos e molhos de frechas
de bambu delgados, lanas com anneis tilintantes e guizos, correndo,
saltando e gritando em brados: Cucuya! como na hora das batalhas. Mais
ao largo, o povo mudo, n'uma impassibilidade de orientaes, olhava.

A recepo do embaixador fez-se no _arame_ do rajah,  beira-mar,
pavilho de frma oitavada erguido sobre esteios, todo rendado de
varandas e lavores, marchetado de marfim, chapeado de prata e ouro em
folhas, com pinaculos e corucheos que se desenhavam levemente no fundo
azul do ceu--to azul como o do mar onde fundeava a esquadra de Pedro
Alvares Cabral. Na longa praia apinhavam-se as choas dos pescadores e
galeotes e por entre ellas a multido negra, espantada. Para o interior
avistava-se a cidade, com os palacios e jardins do rei, dos nobres e dos
ricos, docemente abrigados contra o sol inclemente pela sombra dos
palmares e dos bosques de arvores aromaticas. No meio de um turbilho de
gritos de guerra, de sons de trombetas, o cortejo encaminhou-se para o
palacio do rajah.

Ahi o amorim estava sentado sobre o vllo preto, insignia da realeza,
no seu throno de prata com braos de ouro e as espaldas cravejadas de
rubis, diamantes e esmeraldas, no meio da sua crte, recostado em macias
almofadas de seda, sobre ffos tapetes da Persia, somnolento e immovel.
Negro, n, um vo de linho branco descia-lhe em pregas desde o umbigo
at aos joelhos, com a ponta cada e n'ella enfiados anneis de ouro e
rubis. Da extremidade pendia uma perola enorme. Os dedos, braos,
estavam cobertos de anneis e manilhas. Das orelhas caam arrecadas de
ouro cravejadas:  cintura trazia um cinto de ouro. Ao pescoo collares
rolios, de ouro tambem; e duas voltas de um fio de perolas, grandes
como avellans, que desciam at ao umbigo, suspendiam um enorme corao
de ouro encastoando a mais bella, a maior esmeralda. Nos cabellos
compridos e apanhados em n no alto da cabea havia perolas e pingentes,
e a cora era um deslumbramento. O thesouro inteiro de Kalikodu sara 
luz. Ao lado do rajah, em p, viam-se os pagens ns com pannos de
purpura, apresentando as espadas e adagas de copos de ouro cravejados, e
junto ao soberano o da copa de ouro com a toalha a tiracollo, e o da
boceta cravejada de brilhantes, com o sal delido em agua de rosas, onde
molhava as folhas de betele, antes de as dar ao brahmane-mr, que detraz
das espaldas do throno as passava religiosamente ao rajah, para mascar.
Outros pagens tinham as toalhas, perfumadas de almiscar, com que nas
occasies devidas esfregavam os braos e as pernas nas do soberano
reluzentes de manilhas cravejadas de rubis. Em torno havia castellos de
alfaias: vasos e urnas de bronze, de prata, de ouro, e os lampadarios de
metal amarello sempre accesos, segundo os ritos ordenavam. Os escrives,
de p, tinham debaixo do brao as longas folhas de palmeira, seccas,
onde se registravam as leis e tratados, em sulcos abertos pelos
estyletes de ferro, que balouavam entre os dedos. Em frente de Pedro
Alvares Cabral, que, sentado, lia a carta de D. Manoel em arabigo,
estava a credencia com os presentes que trazia: uma taa e duas massas
de prata, quatro almofadas de brocado e dois pannos de Arraz, de um
desenho primoroso. A crte, de p, escutava em torno. Mais longe
agrupavam-se as mulheres do rajah, untadas de sandalo, e nas da cintura
para cima, com as cabeas coroadas de flres, e collares de contas de
ouro, e pedraria, manilhas grossas nas pernas, braceletes, e anneis
fulgurantes. O rajah tinha mais de mil, entre amantes e varredeiras,
escravas e embostadoras. Para alm das columnatas de alabastro, nos
pateos inundados de sol, viam-se os elephantes submissos, com os seus
collares de campainhas e guizos, cobertos por xaireis de seda recamada
de ouro; viam-se os pallios e leques do cortejo do soberano; os trues e
os fakires, rebolando-se no cho, desgrenhados, a uivar gritos. Depois
formavam alas, ou esgrimiam com tregeitos e cutiladas, os nayres,
bucellarios do rajah, casta singular e polyandra de quem disse o poeta:
geraes so as mulheres porm smente para os da gerao de seus
maridos.[82] Mas o que sobretudo enchia de espanto e cubia os
portuguezes, envergonhados da sua pobreza, eram os rios luminosos da
pedraria que, destacando-se do fundo acobreado das pelles indigenas, os
cegavam: As chammas que d'elles saam impediam a vista! Sobre o ouro
de Sofala, eram os rubis do Peg, os diamantes do Dekkan e de Narsinga,
as saphiras de Simhala (Ceylo) e os seus topazios e turquezas,
jacinthos e amethistas. Eram as bellas esmeraldas de Babylonia!

De parte a parte, comtudo, passada a recepo solemne, no se entendiam
bem; e os escrives em balde mostravam as longas folhas de palmeira
escriptas, agitando os estyletes de ferro, a indicar as passagens das
leis que julgavam oppr-se ao que pensavam serem os pedidos dos
portuguezes. Estes, em tregeitos, esforavam-se por lhes fazer perceber
que queriam pr alli feitorias, para trazerem por mar, para a Europa, as
preciosidades da India; e no cessavam de affirmar quante el-rey de
Portugal era poderoso e forte. Apesar de no ter tantos ouros nem
pedrarias tinha o bronze das suas peas e o ferro das suas granadas!
accrescentavam com decidida importancia. Os escrives iam
comprehendendo, desconfiados: e os portuguezes desconfiavam tambem dos
sorrisos do rajah. Apesar d'isto, porm, foi concedido o que pediam; e
Cabral fundou a primeira feitoria portugueza na India, em Kalikodu.

Logo os mouros vieram reclamar contra os intrusos que os despojavam: e
favorecidos pelo indigena, caram sobre a feitoria, trucidando os
portuguezes que l havia: cincoenta ao todo. Comeava a historia da
India. Seguiram-se logo as terriveis represalias do almirante. Tomou dez
nus de mercadores arabes, passou  espada mais de 500 homens
tripulantes, e, bombardeando a cidade, poz-lhe fogo. O incendio de
Kalikodu, em 16 de dezembro do anno 1500, era a funebre aurora da
historia oriental. Se as pedrarias tinham cegado os olhos dos
portuguezes, agora as chammas cegavam os olhos afflictos do rajah,
n'essa noute de cruel memoria.

Incendiada Kalikodu, o almirante foi com a esquadra entrar em Katchi
(Cochim) um pouco ao sul, na mesma costa de Malabar, mas j para alm
dos dominios do rajah perfido de Kalikodu. O terror da recente faanha
abriu-lhe os braos do pequeno soberano de Katchi; e fundou-se ahi, em
boa paz e amizade, uma feitoria, tomando o almirante, entretanto,
refens, para segurana. Triumphra; o brahmane rajah de Katchi,
revoltra-se abertamente contra o amorim seu suzerano. No meiado de
janeiro (1501) partiu Cabral para Kananor: ahi carregou as suas nus de
pimenta e canella, e regressou ao reino. Dos treze navios com que
partira um anno antes, apenas tres o acompanhavam: cinco, desgarrados,
voltaram por diversas vias, e outros cinco foram tragados pelo Mar
Tenebroso. Esse inimigo terrivel, embora vencido, no estava domado, e a
primeira expedio da India, este primeiro acto da tragedia de mais de
um seculo, esboava j todos os elementos da aco: assassinatos e
incendios, morticinios e naufragios; a espada e a pimenta; as armas do
guerreiro em uma das mos, as balanas do mercador na outra; uma
Carthago moderna--e, no fundo, a voragem aberta do mar, prompto a
devorar homens, navios e riquezas; a fonte perenne do vicio, entornando
caudaes de torpezas!

                      *      *      *      *      *

Da curta historia anterior da India resultavam dois factos: a inimisade
perfida do rajah de Kalikodu, e a feitoria de Katchi. Castigar
terrivelmente o primeiro e consolidar, fortificando-a, a ultima, foi o
principal motivo da segunda armada, que em 1502 (fevereiro) partiu de
Lisboa para o Oriente, sob o commando de Vasco da Gama, o capito
desapiedado, o fidalgo offendido nos brios pelo miseravel _amorim_.

A historia da viagem  um horror; e a desforra do capito uma prova
d'essa frieza sanguinaria, impassivel e cruel, que effectivamente existe
no temperamento, quasi africano, do portuguez. Obliterada na sujeio ou
na paz, rebentou sempre com o dominio e com a victoria, na guerra. Se
taes sentimentos, vivos na alma do Gama, inspiram os seus actos, a sua
campanha no obedece a um plano, nem no seu rude espirito cabem as
largas vistas do estadista. Se algumas levava, reduziam-se a espantar a
India com a crueldade das suas faanhas, e a dominal-a com o terror dos
seus morticinios. Grande sobre as ondas, em lucta com os temporaes,  a
imagem da nao, cuja grandeza est na coragem e na teima com que soube
vencer o Mar Tenebroso. Um terramoto agitou o mar da India quando o Gama
pela segunda vez o trilhava; e o almirante, imagem da bravura pica do
povo portuguez, acreditou e disse que at as proprias ondas tremiam com
medo nosso--com medo d'elle!

Navegando porm no mar das Indias, com toda a artilheria carregada de
metralha, para arrasar Kalikodu, encontra o Gama uma nu de mercadores
arabes que ia para Meka ou voltava, nas romarias constantes  santa
Kaaba. Alm da tripulao, o navio trazia duzentos e quarenta homens
passageiros, com suas mulheres e filhos. Era isto no dia 1 de outubro de
1502, de que me lembrarei toda a minha vida! escreve o piloto ainda
horrorisado, ao recordar como a nu foi cobardemente incendiada, com
todos os que continha, e que morreram desesperados no fogo ou no mar. Ia
a bordo um flamengo, que assim refere a occorrencia: Tommos uma nu de
Meka, onde iam a bordo 300 passageiros, entre elles mulheres e creanas;
e depois do sacarmos mais de 12:000 ducados de dinheiro e pelo menos
10:000 de fazenda, fizemol-a saltar com os passageiros que continha, por
meio de polvora, no 1. de outubro. Satisfeito de si, o capito rumou
para Kalikodu. Mandou intimar ao rajah a expulso de todos os mouros,
que eram cinco mil familias, das mais ricas da cidade: dizendo-lhe que
qualquer creado d'el-rey D. Manuel valia mais do que elle, _amorim_; e
que seu amo tinha poder para fazer de cada palmeira um rei!--Como era de
vr, o rajah recusou; e o capito que, ao fundear, apresra um numero
consideravel de mercadores no porto, mandou cortar-lhes as orelhas e as
mos, e amontoados n'um barco, foram com a mar varar na praia, levando
a resposta do Gama  recusa do afflicto principe.[83] Comeou logo o
bombardeio (2 de novembro). A cidade ardia outra vez; e  populao em
choros, respondiam as risadas ferozmente cynicas dos marinheiros,
abrigados detraz das amuradas dos navios, junto s peas que vomitavam
fogo. Era uma inepcia, uma barbaridade e uma covardia; porque as curtas
lanas e as settas dos indigenas no podiam medir-se com as granadas,
despedidas de longe, de bordo das nus. O Gama, cada vez mais satisfeito
de si, foi-se a visitar o porto amigo de Katchi; e decidiu regressar ao
reino por Quilua, d'onde trouxe o ouro com que o rei D. Manuel fez uma
custodia para o seu templo dos Jeronymos. Vinha contente da brava
desforra que tomra: o _amorim_ estava punido!

Deixra o Gama na India uma parte da sua armada sob o commando de
Vicente Sodr, personagem to eminentemente celebre como o proprio
almirante, cujo tio era. Fidalgo, este amava as faanhas brutaes e
estrondosas; o outro queria mais  pirataria e ao roubo. Com effeito,
assim que o Gama partiu da costa do Malabar, o de Kalikodu, invocando
porventura direitos de suzerano sobre o visinho de Katchi, exigiu d'elle
a expulso dos portuguezes da feitoria. Mas os ataques repetidos ao
poderoso rajah do Canar ensoberbeciam os seus vassallos, e fomentavam a
decomposio do systema politico de Hindustan. O de Katchi resistiu,
implorando o auxilio do Sodr, que pouco se lhe dava da feitoria, e a
abandonou para ir ao corso das nus de Meka: era trabalho de mais
proveito e menor risco piratear de parceria com a cora portugueza nas
costas de Adal e da Arabia,  embocadura do mar Vermelho.[84]
O producto das nus de Meka pertencia, metade ao rei de
Portugal, metade s tripulaes: cabendo aos soldados uma parte, aos
marinheiros duas, outras duas aos bombardeiros, quatro aos pilotos e
outro tanto ao mestre. Pilhavam todos, de brao dado com a Cora.

Vicente Sodr andava n'isto, ao mesmo tempo que Ruy Loureno, por sua
conta e risco, varria a costa de Zamgebar, caava navios e cobrava
tributos aos sultes.

O dominio portuguez adquiria logo de comeo o caracter duplo que jmais
perdeu, apesar de todas as tentativas posteriores de regularisao e de
ordem. Era no mar uma anarchia de roubos, na terra uma serie de
depredaes sanguinarias. Vasco da Gama ensinra o modo de imperar com o
fogo e o sangue; Sodr indicava o modo de ceifar no mar, pela abordagem,
as nus de Meka. A pirataria e o saque foram os dois fundamentos do
dominio portuguez, cujo nervo eram os canhes, cuja alma era a Pimenta.

Na artilheria, effectivamente, estava o segredo do poder dos invasores
da India. Ao tempo em que o Gama voltava da sua segunda viagem, partia
de Lisboa uma terceira esquadra (1503, abril) com Affonso de Albuquerque
e Duarte Pacheco a bordo. Foram a Katchi acudir ao rajah, na sua guerra
com o de Kalikodu, e construiram a primeira fortaleza na India.
Albuquerque voltou ao reino; Pacheco ficou em Katchi com as tropas e
navios preparados para o ataque. O heroe--porque este bateu-se como uma
fra, no seu covil de Kambalaan, nobre, desinteressada e
bravamente--desde logo disse que _toda a festa havia de ser de
artilheria_. De que serviam com effeito as armas brancas e de arremeo,
principal equipamento dos indigenas, que mal sabiam usar dos mosquetes e
bombardas, perante o vomitar distante da metralha? Isto explica a
possibilidade da resistencia dos setenta homens de Pacheco, brandamente
auxiliados pelos naturaes, contra os cincoenta mil que se do ao
exercito do Samudri-rajah de Kalikodu. As surriadas da mosquetaria
auxiliavam decerto, mas a defeza decisiva consistia nas ondas de
metralha, que n'um instante varriam as jangadas cobertas de gente que
vinham por mar, e as columnas cerradas dos nayres armados de settas e
lanas investindo por terra. Mas nem por si s a artilheria seria capaz
de resistir  onda massia das columnas inimigas, se a coragem, a
rapidez fulminante das marchas, a ubiquidade--pde dizer-se assim--do
primeiro heroe soldado do Oriente no animasse os poderosos meios de
defeza. Quatro mezes durou o assedio de Katchi, que terminou pela
derrota do Samudri-rajah.

A esquadra de Lopo Soares de Albergaria trouxe para o reino (1505)
Duarte Pacheco: um homem simples que, por voltar carregado de feridas,
mas leve de dinheiro e diamantes, foi parar  capitania de S. Jorge da
Mina, para de l vir em ferros por _capitulos_ que d'elle deram; para
jazer no carcere por muito tempo, e acabar esquecido e pobre. A sorte
d'este heroe, diz Goes, foi de calidade que se pode d'elle tirar
exemplo para os homens se guardarem dos revezes dos reis e principes e
da pouca lembrana que muitas vezes tem d'aquelles a que so em
obrigao. Pacheco voltou, pois, do Oriente, e na India ficou, por
capito do mar, Telles Barreto com a misso de _correr as nus de Meca_.
A armada trazia para o reino, a bordo, Pacheco--um infeliz!--e uma carga
abundante de especiarias e cousas ricas. A crte, o rei, em Lisboa,
quizeram muito mais s segundas, do que ao primeiro.

Entretanto a este devia D. Manuel a consolidao do seu imperio
oriental, incipiente ainda. Pacheco demonstrra aos naturaes e aos
arabes que os portuguezes no eram apenas piratas; e podiam fazer mais
do que bombardear impunemente uma cidade desarmada, ou tomar nus de
indefesos mercadores e romeiros. A faanha de Katchi fra o baptismo de
sangue do novo imperio; e o baluarte, de p, atestava a fora dos novos
dominadores.

Mas j do principio, tambem, surgia a ultima das pragas da India: a
inveja, a sizania, os odios, a maledicencia, com que, uns aos outros, os
homens do ultramar se abocanhavam na crte; e a inepcia do governo do
rei, incapaz de pesar o valor das palavras, de medir o alcance das
accusaes, e de ser justo e sabio. A lisonja reinava, e sobre ella o
favoritismo.

Cinco annos tinham decorrido depois da viagem de Cabral; havia j uma
fortaleza em Katchi; estava batido o de Kalikodu; os navios portuguezes
pirateavam em liberdade no mar da India; e numerosas nus de Meka iam
sendo apresadas. Esboava-se o futuro imperio, anarchicamente, mas j
por frma to decisiva, que era mistr organisal-o, dar-lhe uma lei e
uma direco.

                      *      *      *      *      *

D. Francisco de Almeida foi o homem escolhido para governador da India,
constituida em vice-reino. Das tres successivas phisionomias que o
imperio portuguez no Oriente apresenta,  elle quem lhe imprime a
primeira; dos tres vice-reis mais notaveis,  elle o primeiro tambem.
Sem o heroismo antigo de Albuquerque, um Annibal;[85] sem a
sympathica pureza ingenua de um Castro, imitador fiel dos typos de
Plutarcho; Francisco de Almeida, valente como soldado, habil como
almirante,  sobretudo um estadista.

Pondo de parte o merecimento absoluto d'essa politica commercial,
fecundo systema de explorar uma regio inteira, fielmente executado mais
tarde e com tamanho exito pelos hollandezes, o facto  que, para
conseguir o fim desejado de roubar aos arabes o imperio, e a venezianos
e arabes o commercio do Oriente, a politica de Francisco de Almeida, sem
grandeza,  lucida, perspicaz e forte. O governo da India formou tres
grandes homens: Castro, que se pde dizer um santo; Albuquerque, a quem
melhor cabe o nome de heroe: Almeida, que  um sabio administrador, um
feitor intelligente.

No seu caminho para a India, o primeiro viso-rei foi ajustar as contas
antigas com o sulto de Mombas, e arrazou-lhe a cidade (1505, agosto
14.) Levava tambem ordens para construir fortalezas em Quilua, Kananor,
Anjediva, alm da de Katchi, que seria augmentada e reparada, depois dos
damnos soffridos no anno anterior. No iam ento as ambies do governo,
no reino, mais alm d'esse pedao da costa oriental da Africa, com as
estaes fronteiras na costa do Malabar. Entretanto no pensamento do
viso-rei, maduro pela observao local e pela prova de uma primeira
guerra maritima com que o impenitente rajah de Kalikodu o recebera,
formulava-se j todo o seu plano de dominio. No duvidou expol-o a D.
Manuel na carta que lhe escreveu, e que  um dos documentos mais
importantes da historia portugueza no Oriente.

Toda a nossa fora seja no mar, dizia; desistamos de nos apropriar da
terra. As tradies antigas de conquista, o imperio sobre reinos to
distantes, no convm.[86] Destruamos estas gentes novas
(os arabes, afghans, ethiopes, turkomanos) e assentemos as velhas e
naturaes d'esta terra e costa: depois iremos mais longe. Com as nossas
esquadras teremos seguro o mar e protegidos os indigenas, em cujo nome
reinaremos de facto sobre a India; e se o que queremos so os productos
d'ella, o nosso imperio maritimo assegurar o monopolio portuguez,
contra o turco e o veneziano. Imponhamos pesados tributos, exageremos o
preo das licenas (_cartazes_) para as nus dos mouros navegarem nos
mares da India e isso as expulsar: as nossas armadas daro corso aos
contrabandos. No  mal decerto que tenhamos algumas fortalezas ao longo
das costas, mas smente para proteger as feitorias de um golpe de mo;
porque a verdadeira segurana d'ellas estar na amisade dos rajahs
indigenas, por ns collocados nos seus thronos, por nossas armadas
apoiados e defendidos. Substituamo-nos, pura e simplesmente, ao turco; e
abandonemos a ida de conquistas, para no padecermos das molestias de
Alexandre. O que at agora se tem feito  uma anarchia e um esboo
apenas; um systema de matanas, de piratarias e desordens, a que 
mistr pr cobro.--A primeira condio de um imperio seguro  um
pensamento definido, e tal era o do viso-rei.

As difficuldades appareciam-lhe tanto mais fortes, quanto as guerras
passadas eram com bestas, agora as temos com venezianos e turcos do
Soldo. Com effeito, a antiga impunidade, de que os nossos gosavam 
sombra da artilheria, desapparecia, desde que o veneziano e o do Egypto,
vendo em perigo o seu poder no Oriente, tinham lanado ao mar Vermelho
uma esquadra poderosa, e to bem artilhada como as nossas. A guerra
tomava um caracter novo; e os portuguezes j no se encontravam apenas a
braos com as armas brancas do indigena. Apparecera a polvora do lado
dos inimigos; e a esta grave e nova phase das cousas veiu juntar-se, no
animo do viso-rei, o resultado cruel da temeridade do filho, que em
Tchala (Chaul) morrera batido pela esquadra egypcia: a armada de
_Mirocem, capito-mr do Soldo do Gram Cairo e de Babylonia_--como se
dizia no tempo.

Confirmando a doutrina com o exemplo, esporeado pelo desejo de vingar a
morte do filho,[87] e pela necessidade de destruir essa
armada que ameaava matar  nascena o dominio portuguez na India.

    ... vem o pae com animo estupendo,
    Trazendo furia e magoa por antolhos.

Descendo pelo Mar Vermelho, a esquadra egypcia viera deitar ferro em
Diu, na costa do Gujert (Guzarate), impondo ao indio a obrigao de ser
defendido. Entre _mouros_ e portuguezes, que uns a outros disputavam a
presa do commercio do Oriente, os rajahs, perseguidos pela proteco de
ambos, no sabiam as mais das vezes por quem se decidir, incertos do
lado para onde a victoria final penderia. Os vencedores foram sempre os
fieis alliados de todos os fracos. Tal era a situao do indio de Diu.
No teve remedio seno acompanhar os rumes, e aprisionar os portuguezes
da esquadra batida de Loureno d'Almeida, guardando-os como penhor, e
base de argumentos e desculpas para com o viso-rei--caso este vencesse
com a nova armada em que vinha.

Effectivamente D. Francisco d'Almeida subia ao longo da costa, deixando
apoz si o rasto de cinzas e sangue, que por toda a parte annunciava a
passagem dos portuguezes. As faulhas do incendio de Deval (Dabul) e os
lamentos da populao dispersa chegavam at  ria onde fundeavam as
esquadras do egypcio e do de Diu, j engrossadas com as trezentas fustas
que o de Kalikodu envira tambem, para vr se conseguia exterminar por
uma vez os incommodos visitantes.

O egypcio, apesar de victorioso, temia o viso-rei; e fundeada a
esquadra, dispozera que picassem as amarras os navios assim que fossem
abalroados, dando  costa, e arrastando comsigo os portuguezes, sobre os
quaes as lanchas e fustas dos indios cairiam ento desapiedadamente. Mas
o viso-rei, percebendo o ardil, mandou preparar as ancoras  ppa, e os
navios inimigos foram sosinhos varar na praia. Era 3 de fevereiro (1509)
festa de S. Braz, pelo meio dia. A virao do mar soprava fresca pela
ppa dos navios portuguezes, quando a _capitaina_ desfraldou o guio
azul  pra e, toda empavezada, no meio dos gritos de Senhor Deus;
misericordia! Santiago! ao som das charangas de trombetas, soltou a
primeira banda de artilheria. Um clamor immenso de vozes, de trompas, de
tiros lhe respondeu, e a batalha generalisou-se com artilheria e arma
branca,  abordagem. A confuso de gentes que alli combatiam era
inextricavel; e os pavilhes da Cruz e do Crescente, erguidos nos
mastros dos navios, abrigavam os sentimentos mais extravagantes, as
crenas mais disparatadas.  que no se combatia, nem pela f, nem pela
patria: disputava-se com furor o saque da India; e a cubia torna irmos
os homens de todas as fs, os filhos de todas as raas. Havia allemes e
francezes por bombardeiros a bordo das nus portuguezas; havia indios,
brahmanes e at _mouros_. Havia, do lado opposto, na confuso dos
navios, desde o nubio at ao arabe, desde o ethiope at ao afghan; havia
musulmanos de toda a casta, persas, e _rumes_ do Egypto--mercenarios de
todas as partes, a que se dava este nome generico; havia ao lado da
multido dos infieis, o veneziano, renegado ou catholico, mas sobretudo
mercador, que por ordem da sua republica vinha como artilheiro defender,
no mar da India, os interesses solidarios dos seus socios no commercio
oriental. Em volta da populao confusa da esquadra dos _rumes_,
apinhava-se em seus juncos a massa obscura dos indios, de Diu no
Gujert, de Kalikodu no Kanar.

Os navios portuguezes eram poucos, mas solidos, e ainda bem construidos
e artilhados; as suas guarnies no excediam mil homens. Eram nus
principalmente; mas tambem gals, _bastardas_ e _subtis_, e _fustas_--os
_avisos_ d'essas antigas esquadras. As nus vomitavam fogo das amuradas.
Nos castellos de ppa e pra fusilava a artilharia menor, baptisada com
os nomes da monteria feodal, _aguias_, _sacres_ e _falces_, _lees_ e
_serpes_, _pedreiras_ que arrojavam balas de granito, _beros_,
_camellos_, _colubrinas_ e _esperas_. Nos bailos, de ppa  pra, os
mosqueteiros despediam continuas surriadas de balas; e as xaretas de
corda, presas nas amuradas, defendiam as nus das abordagens dos juncos
e galeotas dos indios. A bordo das gals, o capito sobre o
chapiteu--Jesus! S. Thom! Ave-Maria!--excitava os soldados que, de
espada e rodella, se juntavam  pra para a abordagem dos navios
inimigos, ou da ppa, a tiros, caavam mouros. As enxarcias appareciam
crivadas de settas. Da pra tambem, o castello das gals vomitava fogo;
e o ligeiro navio, cando perpendicularmente sobre o contrario,
rasgava-lhe o ventre com o esporo, despedaava-lhe os remos, crivava-o
de balas. Sentados os forados, ns e negros, acorrentados aos bancos,
remavam agil e poderosamente; obedecendo aos gritos do comitre que, de
espada em punho, corria na coxia, entre as platas dos bancos,
distribuindo cutiladas. Sob a coberta, junto ao paiol defendido por
colchas e cobertores escorrendo agua, o capito-do-fogo distribuia a
polvora, tirando-a s gamellas dos caldeires. E os bombardeiros, com os
murres e bota-fogos a bom resguardo, obedeciam  ordem de atirar. Os
bailus, d'onde a taifa dos soldados se lanava s abordagens, defendiam
com a mosqueteria os remeiros; e as velas estavam carregadas nos
mastros, por causa dos incendios. O fogo punha um elemento novo n'este
antigo modo de batalhar no mar.[88] No meio do enxame das gals e
caravelas,[89] correndo  caa dos paros fugitivos, os navios de vela,
de typos novos, nus e galees, urcas e carracas, eram como fortalezas
fluctuantes, vomitando lume, estrondos, fumo, naufragios e morte.

Tingiram-se mais uma vez de vermelho as aguas do mar das Indias;
morreram innumeros; boiavam feridos, pedindo misericordia e recebendo
tiros: e por fim, depois de todos os episodios e scenas proprias d'estas
tragedias, a victoria foi pelo vice-rei que destruiu rumes e indios.
Esta batalha naval tinha uma importancia superior ainda  das victorias
de Duarte Pacheco em Katchi: porque os indios, meditando e observando,
reconheciam que a phalange portugueza no era s invencivel para elles:
era-o tambem para os rumes do Egypto, e para a artilharia de Veneza...

O de Diu, que estivera sempre indeciso, ao vr o resultado da batalha,
veiu pressuroso, desculpar-se, entregar logo os prisioneiros da empreza
anterior. Guardra-os para os salvar das garras ferozes dos rumes, a
quem desejava todo o mal, sem lhes ter podido resistir. Mandava-os
carregados de presentes e parabens, por to grande victoria, que o
libertava da odiosa tyrannia dos rumes.

No chapiteu da sua nu, o almirante e vice-rei contemplava a scena de
carnagem, agora muda, e os destroos que boiavam com os cadaveres no mar
tinto em sangue; e estava glorioso e contente no meio dos seus, que
contavam com verbosidade os episodios, o que tinham feito, como se
tinham sado, cada qual de seu lance... quando chegaram  borda, n'uma
almadia, os prisioneiros forros, gritando alegres, a pedir que os
recebessem. O vice-rei lembrou-se ento que lhe faltava o filho, e se
foi assentar na tolda com um leno na mo, que no podia estancar as
lagrimas que lhe corriam! Acudiram todos a consolal-o; e elle,
tomando-lhe os animos, ergueu-se, e disse-lhes enxugando os olhos, e
tratando-os por filhos, que isso j passra e traspassra a sua alma,
que se alegrassem todos agora com a boa vingana que Nosso Senhor por
sua misericordia lhes dava!

E regressando, conformado com a sua sorte, ao passar em frente de
Kananor, salvou  terra para celebrar a victoria; mas, para acabar de
vingar a morte do filho, mandou amarrar prisioneiros s boccas das
bombardas, e as cabeas e membros despedaados dos infelizes iam cair na
cidade como pelouros... A morte do filho transtornra o seu lucido
espirito, mudando as suas opinies antigas de estadista n'um furor
carniceiro, attestado pela devastao da costa do Gujert. Cedra tambem
s intrigas e maledicencias dos capites que tinham vindo de Hormuz,
fugindo ao mando terrivel de Albuquerque, atemorisados pela loucura das
suas emprezas tytanicas. Bulhavam, o governador que acabava o praso do
governo, e Albuquerque j nomeado de Lisboa para lhe succeder; e  crte
haviam chegado noticias perfidas de excessos commettidos pelo sabio
vice-rei. Em paga dos seus trabalhos esperava-o a masmorra de Duarte
Pacheco; porm, na viagem para o reino, deu  costa da Cafraria, o foi
morto pelos negros s pedradas e zagunchadas.

                      *      *      *      *      *

O seu plano de governo, por ser sabio, era chimerico, pois que a India
era uma loucura. S homens de genio, como Albuquerque, poderiam tornar
grande uma empreza condemnada; s, como Castro, um santo podia resalvar
o brio portuguez da nodoa de uma ignominia formal.

Para que o nosso dominio fosse maritimo e mercantil apenas, era
necessario que essas tradies estivessem na alma portugueza, como
tinham estado, n'outras edades, na alma de Carthago, e como agora
estavam na de Veneza. Em Portugal, o espirito patrio fra formado pela
religio e pela cavallaria; e exigir dos soldados d'Africa que no
desembarcassem dos navios, convencel-os de que o verdadeiro modo de
conquistar fosse prescindir do governo, era querer uma cousa impossivel.
Alargar, ao contrario, os dominios portuguezes, avassallar territorios,
fazer conquistas, e crear um imperio  antiga, como o de Alexandre e o
dos romanos, era o pensamento commum--naturalmente deduzido dos
antecedentes militares da nao, e agora fomentado de um modo especial
pela cultura classica, enlevo de todos os bons espiritos da Europa. A
ida de que Portugal era uma Roma preoccupava os reis e os escriptores,
que se fatigavam a procurar origens e a indicar analogias, de certo
verdadeiras. Albuquerque fez vivo em si um tal pensamento, e viu-se o
Scipio d'essa Roma[90], ou antes o Alexandre da nova Grecia.

Alm dos motivos intimos que tornavam inacceitavel a politica commercial
e maritima do primeiro vice-rei da India, havia motivos mais praticos.
Uma das suas justas exigencias era a da prohibio do commercio aos
soldados, magistrados e capites do Oriente. Com effeito, o dominio, tal
como elle o concebia, no era um saque: era uma proteco armada a um
commercio, franco por um lado, monopolio do Estado, ou apanagio da
cora, pelo outro. Os capites e governadores seriam simultaneamente
agentes commerciaes de S. A., excelso mercador da Pimenta. Isto exigia
uma fleugma de que s os hollandezes foram capazes, e ainda assim 
custa de salarios que supprimem as tentaes.

Desde que o rei era o primeiro negociante, porque no seria o vice-rei o
segundo, os capites das fortalezas e das armadas os terceiros, os
soldados os derradeiros? S isto era, evidentemente, logico; e, apesar
de todas as confuses, quem bem observa, descobre sempre que a historia
obedece  logica. Ninguem distinguia bem, na era de 500, entre a pessoa
individual do rei e a pessoa abstracta ou symbolica do monarcha. No se
separavam Rei e Estado; e s com esta perspicacia moderna poderia
convencer-se o rude soldado da India de que o commercio, bom para o rei,
era mau para elle; de que uma virtude podia ser um vicio, por mudarem as
condies. Alm d'isto, os portuguezes lanavam-se, famintos, ao
banquete do Oriente, como seculos antes os povos do norte, ao banquete
da Gallia, da India, da Hespanha[91]. Ninguem seria capaz
de lhes arrancar dos dentes essas carnes palpitantes, que devoravam com
ancia; e eram inevitaveis as consequencias funestas, que D. Francisco
d'Almeida previa sabiamente.

Fleugmatico e pontual no cumprimento dos seus deveres duplos de capito
e caixeiro, o vice-rei, ao mesmo tempo que expunha para Lisboa os seus
planos de governo, mandava os seus relatorios commerciaes, como um
correspondente ao seu patro de Genova ou de Veneza. O vice-rei estudra
como geographo o Oriente; e para fundamentar o seu plano de imperio
maritimo dizia, com Barros, que a India tem entradas e sadas de que
seu commercio vive, e que so como o corpo animado, que, se lhe tiram a
entrada e sada das cousas que o sustentam, no tem mais vida. O
principal estado consiste na navegao, escrevia o vice-rei; s com ella
se governar no mar Vermelho e no golpho persico, essas duas correntes
da exportao da India; s com ella na peninsula de Malaka, que  a
transio da India para o extremo Oriente; s com ella manteremos o
privilegio da passagem do cabo da Boa-Esperana, caminho que descobrimos
para a Europa. Albuquerque em Hormuz, em Goa, em Malaka, assentou na
terra firme os limites do imperio que para o seu antecessor devia vogar
fluctuante sobre as ondas.

Estadista e geographo, D. Francisco d'Almeida era ao mesmo tempo um
mercador cuidadoso e at habil. Dava ao rei minuciosas informaes dos
generos, preos e pezos. E o lacre que V. A. diz lhe mande, ser
maravilha haver-se, porque estas nus (portadoras de cartas) partem
cedo, e as nus que o trazem do Peg e Martamo (Martaban) veem tarde.
Espero por uma boa somma d'elle, porque o tenho mandado trazer... E assi
V. A. me manda que a pimenta v limpa e secca, e que o pezo se faa com
nossas balanas e pezos... e d-se tal aviamento que, com duas balanas,
t vespora pesaram mil quintaes. Se os navios no chegassem to
avariados, em vinte dias carregariam e partiriam. O baar de Cochim
(Katchi) tem tres quintaes e trinta arrateis de pezo velho, e custa o
quintal mil e quinhentos ris e meio.--Mandei noticiar com preges que
todos trouxessem pimenta, e que logo se lhes pagaria  vista:  o meio
de bater os mouros, que so regates e compram fiado. Acodem os gentios
com pimenta, e levam o cobre muito alegres.--Quanto  pimenta e drogas
que vo ao Levante, so de Malaca, Sumatra e Diu, onde nasce muita
pimenta longa e redonda, e muito bem sei por onde passa e em que tempo:
falta-me o principal.--O aljofar e perolas que me manda que lhe envie
no os posso haver, que os ha em Ceylo e Carle (?); os sinabafos,
porcellanas e mais cousas de jaez so de mais longe. As escravas que
quer, tomam-se depressa: que as gentias d'esta terra so pretas e
mancebas do mundo, como chegam a dez annos.--Tem cobre aqui para cinco
annos, vermelho sem numero, chumbo e azougue, pannos de lan a
apodrecer, escarlatas, espelhos, oculos, chapus, e sellas ginetas, que
 mui certa mercadoria para c. E contina assim, misturando toda a
especie de mercadoria, desde as escravas mancebas do mundo, at s
perolas e aljofar.--Porque no manda S. A. papel? Seria um excellente
negocio.

Eis ahi o motivo intimo, o principio fundamental, o cuidado superior do
rei e dos seus governadores na India.[92] D. Manuel perdoava tudo, os
crimes e os roubos, as carnificinas e as brutalidades, os incendios e as
piratarias, com tanto que lhe mandassem o que elle sobretudo
ambicionava: curiosidades, primores e riquezas para encher os seus paos
de Lisboa, e deslumbrar o papa em Roma com a sua magnifica embaixada.
Manda pimenta e deita-te a dormir, dizia mais tarde, da crte para a
India, Tristo da Cunha, ao filho Nuno, governador. O saque do
Oriente--este  o nome que melhor convm ao nosso dominio--ia ordenado
de Lisboa.

    [82] V. _Quadro das instit. primit._, pp. 264-7.

    [83] Ento mandou aos bateis que fossem roubar os pageres (barcos)
         que eram dezeseis e as duas nos, em que todos acharam arroz e
         muitas jarras de manteiga e muitos fardos de roupa. Ento tudo
         isto recolheram aos navios e a gente toda das nos grandes, e
         mandou que recolhessem o arroz que quizessem, que tomaram quatro
         pageres, que vasaram, que no quizeram mais. Ento o Capito-mr
         mandou a toda a gente cortar as mos e orelhas e narizes e tudo
         isto metter em um pager, em o qual mandou metter o frade tambem
         sem orelhas, nem narizes, nem mos, que lhas mandou atar ao
         pescoo com uma ola (folha, carta) para el-rey em que lhe dizia
         que mandasse fazer caril para comer do que lhe levava o
         seu _frade_.

         E a todos os negros, assim justiados, mandou atar os ps,
         porque no tinham mos para se desatarem, e porque se no
         desatassem com os dentes com pos lhes mandou dar n'elles
         que nas bocas lh'os metteram por dentro, e foram assim
         carregados uns sobre os outros embrulhados no sangue que d'elles
         corria e mandou sobre elles deitar esteiras e ola secca e lhe
         mandou dar as vlas para terra com o fogo posto, que eram mais
         de 800 mouros, e o pager do _frade_ com todas as mos e orelhas
         tambem  vla para terra sem fogo, com que foram logo ter a
         terra, onde acudiu muita gente a apagar o fogo e tirar os que
         acharam vivos com que fizeram seus grandes prantos.
         Gaspar Correia, _Lendas_, I, p. 302.

    [84] ... em que no mar tomaram nos de Cambaya e Calecut que iam
         para Meka, a que roubaram o melhor que acharam de que se
         carregaram os navios e caravellas quanto poderam e mormente
         roupas de muito preo e muitos mantimentos e mouros para dar
         s bombas, e no se occuparam em carregar os navios de pimenta
         e drogas que levavam as nos de Calecut que a todas, umas e
         outras, poseram fogo e queimaram com toda a gente sem a nenhum
         darem vida, mas Vicente Sodr mandou que os Mouros que tinham
         tomado para a bomba todos os tornaram com os outros e todos
         foro mortos. Gaspar Correia, _Lendas_, I, pp. 365-6.

    [85] V. _Hist. da republica romana_, I, pp. 215-80.

    [86] V. _Hist. da republica romana_, I, pp. 211 e segg.

    [87] O Viso rey estava assentado em uma janella que vinha sobre
         a praya com o Capito e com outros fidalgos, e vendo o geito
         da caravella e o capito d'ella d'arte que desembarcava, se
         tirou da janella e se assentou dentro em uma cadeira e poz
         o brao na cadeira e sobre a mo encostou a face direita e disse:

         --Esta caravella me traz a nova que eu tenho no corao; pois
         que as nos de Cochim vieram sem meu filho,  que elle  morto.

         Ao que o Camacho entrou com grande tristeza no rosto, o qual
         antes que fallasse, o Viso rey lhe fallou dizendo:

         --Camacho, ainda que meu filho seja morto, porque no salvaste
         esta fortaleza: pois no  do pae do morto? Que meu filho no
         era mais que um s homem... Nem me fica outro.

         O Camacho no lhe respondeu, mas poz os joelhos no cho e com
         muitas lagrimas disse:

         --Senhor, Nossa Senhora perdeu a seu bento filho posto na Cruz
         entre dois ladres, e vs perdestes o vosso filho pelejando com
         os turcos do Soldo.

         O Viso rey com o rosto muy seguro lhe disse:

         --Ora vos ide a descanar e mandae  caravella que faa sua
         costumada salva e eu mandarei na Egreja fazer signal pelo
         defunto e acodir gente e lhe diro paternosters pela alma,
         porque quem o frango comeu hade comer o galo ou pagal-o.

         Com o que se recolheu para uma ante-camara, onde assentado, o
         Capito e fidalgos moveram pratica de sustancias consolatorias
         para abrandar tamanha dor como sentiam que o pae devia ter com
         a morte de tal filho. Ao que o Viso rey lhes foi  mo, dizendo:

         --Eu no me posso escusar da dor que a carne me d, como pae,
         de fora da natureza, mas espero em Nosso Senhor que me ajudar
         por sua misericordia, e com a ajuda de meus amigos ma dar
         alegria n'esta dor que ora tenho, em que acabando a vida ser
         para mim o mr descano. Vo-se Vossas Mercs embora, que as
         palavras de conforto so das mulheres para suas amigas, quando
         pranteam seus filhos mortos em acontecimentos como ora foi
         d'este meu.

         E lhes fazendo sua cortesia se recolheu  sua camara.
         Gaspar Correia, _Lendas_, I, 775.

    [88] V. quadros das batalhas navaes dos antigos, _Hist. da republ.
         romana_, I, pp. 193-8.

    [89] No tm cestos de gavea (as caravelas) nem as vergas fazem
         angulos rectos com os mastros, mas pendem obliquas d'uma ala
         que  triangular, roa quasi pelas amuradas. As vergas que se
         amuram aos costados do navio so pela parte de baixo grossas
         como mastareus, e adelgaam at ao cimo da vela. De vasos
         d'esta feio se servem na guerra maritima os portuguezes,
         pelo muito ligeiros que elles so, sendo-lhes mui maneiro
         apontar  pra ou  ppa o conto d'estas vergas, e ainda a
         meio costado do navio passalas da direita para a esquerda
         segundo lhes faz feio, ferrar o panno ou disferillo das
         vergas, a que o atam pelo cepo da entenna, com quem as velas
         abrem a base do angulo: e qual lhes sopra o vento, tal lhe
         apresentam o bojo da vela no tardios. Todo o vento lhe fas
         geito, de modo que com vento de ilharga bolinam em direitura,
         como se foram arrazadas em ppa, e para ir o mesmo navio em
         senso contrario no tem mais que mudar o velame, o que muy
         prestes se prefaz. Osorio, _Vida e feitos d'el-rey D. Manuel_
         (tr. F. M. do Nascimento) I, p. 193.

    [90] V. _Hist. da republ. romana_, I, pp. 292 e segg.

    [91] V. _As raas humanas_, I, pag. 358 e segg. e _Hist. da
         civilisao iberica_ (3. ed.), pag. 34 e segg.

    [92] _V. Regime das riquezas_, p. 90 e segg.

                      *      *      *      *      *




II

Affonso de Albuquerque


As cousas da India fazem grandes fumos! costumava dizer o novo
governador. Mas que _fumos_ eram esses? Eram a vaidade e os erros de
tantos pigmeus que o gigante via formigar activamente, encelleirar, e,
depois de gordos e ricos, pavonearem-se na crte, allegando servios,
com a basofia de quem tudo sabia das cousas do Oriente. Fumos, com
effeito, eram todos esses para o governador, que aprendera nas suas
primeiras viagens, e agora levava j bem definido o seu plano. Levava
sem o saber os seus _fumos_ tambem: porque em fumo se havia de tornar o
imperio ephemero que construia na mente...

Quando em 1506 partira de Lisboa, o rei tinha-o mandado como subalterno,
na armada de Tristo da Cunha; mas o genio do guerreiro no se reprimia
com isso, nem estava decidido a esperar que o tempo lhe desse o mando
absoluto, para pr em pratica o seu plano gigantesco. Elle sabia demais
que, no chos da India, cada qual trabalhava por sua conta e risco; e
que, n'esse vasto campo de batalha, as manobras no obedeciam ao mando
de um general; iam ao acaso, segundo a audacia e o genio dos capites.
De Lisboa a Zamgebar uma armada era um exercito; no mar da India o
exercito fraccionava-se em batalhes independentes, e cada capito era
senhor de proseguir, conforme o seu plano, na vasta empreza de saquear o
Oriente. O plano de Albuquerque no era o de um saque, era o de um imperio.

A esquadra de Tristo da Cunha foi de caminho, como introduco,
arrasando, queimando e saqueando Juba (Oja) e Barava (Brava),[93]
na costa, acima de Zamgebar, dirigindo-se a Sokotra--essa
ilha que, junto  ponta extrema da Africa, pelo norte, o cabo de
Jar-Hafun (Guardafui), era a vedeta sobre a entrada do mar Vermelho, e a
estao onde os navios de corso s nus de Meka se deviam abastecer e
refrescar. Os arabes defenderam a sua ilha em vo; e Cunha matou-os
todos, sem ficar um s, e construiu a fortaleza, deixando-a guarnecida.
Feito isto, dirigiu-se  India, destacando Albuquerque (impaciente quasi
at  rebeldia, durante a delonga da construco do forte) com seis
navios e quinhentos homens, para a caa das nus, no Estreito.

Afinal, o capito commandava! Afinal dispunha de uma phalange sua! e
resolveu no perder um s dia. Logo que as velas de Tristo da Cunha
desappareceram, na sua viagem para a India, Albuquerque largou de
Sokotra para a costa da Arabia, ao longo da qual foi subindo
vagarosamente, assolando tudo. Formra o plano de comear por Hormuz as
suas conquistas, marcando primeiro o limite por norte e occidente, para
mais tarde ir ao oriente, pr em Malaka o extremo do seu imperio.
Hormuz, Sofala e Malaka so tres quinas de um triangulo, cuja base mede
70 graus em longitude, cuja altura, at ao vertice de Hormuz, conta 50
em latitude.

Foi a 10 de agosto do anno de 507 que Affonso de Albuquerque largou de
Sokotra, em direco do golpho Persico. A sua esquadrilha compunha-se de
seis navios apenas, e no contava mais de quinhentos homens; mas a
poderosa unidade que o mando do atrevido capito imprimia, a confiana
que todos tinham no seu genio e na sua sabedoria, e tambem nos mosquetes
e artilharia das nus, tornavam poderosa como um arite esta pequena
diviso. Para nos servirmos da expresso de Francisco d'Almeida,
tratava-se apenas de combater _com bestas_; e no havia ainda que temer
em Hormuz a artilharia dos rumes, nem os bombardeiros venezianos. A
novidade de um engenho de guerra e a audacia de um guerreiro  antiga,
iam levar a cabo uma empreza, de facto espantosa, como as de Alexandre
ou de Cyro.

Seguindo os exemplos d'esses famosos, cuja sombra Albuquerque tinha na
mente, punha em pratica os antigos meios orientaes. Avanava no meio de
um cro de afflies e mortes, precedido por uma columna de incendios,
para que, ao chegar, a vanguarda do terror precipitasse os animos na
abjeco. Assim ia ao longo da costa da Arabia assolando e devastando
todos os logares vassallos do suzerano de Hormuz. Primeiro arrazou
Kalht (Calayate) que  feito de casas de pedra, terradas e muitas
cobertas de palha, casas espalhadas e mal armadas e fra do logar  mo
direita um palmar de palmeiras de tamaras, onde estavam uns poos de
agua de que bebiam. O logar assenta ao longo d'agua, e por detrs ha
grandes serranias de pedra viva, e no mar alguns zambucos e nus que vem
aqui carregar cavallos e tamaras e peixe salgado. (G. C., _Lendas_).

Em Karayt (Curiate), que lhe resistiu, cortou as orelhas e o nariz a
todos os prisioneiros, soltando-os para irem, lavados em sangue e
mutilados, annunciar por toda a parte a fama do seu poder. Em
Khor-Fakhan (Orfacate) reduziu tudo a cinzas; e como em Karayt, mutilou
todos os prisioneiros. Entre elles, porm, estava um velho letrado
persa, de longas barbas brancas, que vivia de admirar Alexandre, cujo
livro possuia. O velho applaudia o portuguez, commentando o livro com as
faanhas do novo heroe; e applaudia-se a si por ter ainda em vida
assistido  resurreio do filho de Olympias. Acclamava o portuguez, ou
o grego, confundindo a realidade com a historia; e de joelhos,
adorando-o, deu o seu livro a Albuquerque. O novo Alexandre perdoou-lhe.

Em Makt (Mascate), j na entrada do golpho, e quasi fronteiro a Hormuz,
tinham vindo acudir a curar-se, chorando, os fugitivos de Karayt e
Khor-Fakhan, atroando os ares com a fama do poder terrivel d'esse heroe
que se approximava. Tremiam todos de susto; mas quando a esquadrilha
appareceu diante da poderosa cidade, ainda houve quem pensasse em
resistir, por vr que os navios eram to poucos. Ignoravam, porm, que
cada um d'elles, com os seus canhes escondidos por detraz das amuradas,
era um vulco prompto a rebentar em lava, um inimigo perfido cuja fora
latente no podia medir-se. Maskt foi bombardeada. A mesquita onde os
infelizes se tinham refugiado cau a machado, e os captivos, mutilados,
foram fugindo, chorando, reunir-se  gente da cidade escondida nas
serras. Havia cadaveres em todas as ruas e o fogo posto comeava a
crepitar lavrando nos armazens cheios de azeite e de melao. As
labaredas subiam, zumbia ao longe o clamor dos desgraados, e  maneira
que o terribil heroe se alongava na praia com os seus para regressar aos
navios, os _mouros_ vinham anciosos e cheios de medo vr se podiam ainda
salvar algumas migalhas da sua cidade, pasto das chammas vivas. Era em
vo. Como uma tromba devastadora, Albuquerque proseguiu deixando um
rasto de sangue e cinzas. Hormuz estava proximo, e cumpria que a onda do
terror, que fra crescendo, estoirasse agora de um modo pavoroso.

Hormuz era ento a joia mais preciosa da cora da Persia. Chamavam-lhe
_a pedra do annel_ das Indias. Era a Londres oriental, onde todos os
productos do Oriente vinham desembarcar; d'onde saam nas longas
caravanas que se dirigiam a Bagdad e ao Cairo, para a Tartaria e o
Turquestan, por toda a Asia do norte. Os armadores levavam por mar a
Hormuz a pimenta, o cravo das Molucas, o gengibre, o cardamomo, os paus
de sandalo e brazil, os tamarinhos, o aafro, a cera, o ferro, as
cargas do arroz de Dekkan, os ccos, as pedrarias, as porcellanas, o
benjoim, os pannos de Kambai, de Chala, de Deval, e os cinabasos de
Bengala. Ahi vinham, de Aden, no estreito de Bab-el-Mandeb, o cobre, o
azougue, os brocados, os chamalotes, e tudo quanto Veneza mandava da
Europa, pelo caminho de Alexandria, a Sus, via do mar Vermelho. Toda a
Persia se abastecia em Hormuz dos generos de fra; por Hormuz toda ella
mandava importar os productos indigenas. Os navios carregavam ahi a seda
e o almiscar, rhuibarbo de Babylonia, e as rcuas de cavallos da Arabia,
to queridos no Dekkan, em Kambai e nos Estados da contra-costa de
Cholomandalam (Coromandel) at Bengala, na foz do Ganges. Contra o arroz
e os pannos que levavam, os commerciantes traziam de Hormuz as tamaras,
o sal das suas collinas coloridas, as passas, o enxofre e o aljofar
grosso, muito procurado em Narsinga.

A cidade era em si pequena, mas um brinco. Era uma terra de luxo e
prazer, uma crte de mercadores. As casas, recheiadas de cousas
preciosas, eram thesoiros ou museus, com paredes forradas de marmores,
columnatas, eirados, pateos ajardinados e fontes preciosas. A vida
custava ahi carissimo, porque o luxo absorvia todos os recursos
naturaes. A terra, uma salina, era esteril de si: tudo vinha da Persia,
da Arabia, da India: mas os mercadores tinham defronte, alm, na costa
firme, as quintas e hortas, onde iam com frequencia. Ahi o platano
magestoso do Oriente, o lamo esguio e esbelto, o negro cypreste
meditativo, destacavam-se no meio das hortas viosas, das quintas e
jardins de rosas, povoados de rouxinoes, abrigando nas encostas  sua
sombra as vinhas ferteis. Os pomares regados estavam coalhados de
laranjeiras, de fructos de ouro e flres de neve perfumada; de
macieiras, pecegos, albaquorques; de figueiras de frmas extravagantes e
amplas folhas; de granadas, com os fructos rebentados a sorrir nos seus
gros cr de rubi. No cho serpeavam as redes de hastes dos meloaes,
louros e perfumados; e das latadas e parreiras caam com peso os cachos
de uvas preciosas de todas as cres. Por entre os bastos pomares e do
seio dos jardins de rosas, levantava-se orgulhosa e nobre a palmeira,
com o seu turbante de folhas agudas, carregada de tamaras.

Nas ruas da formosa cidade, em frente dos bazares, sob os toldos que a
defendiam da luz e do calor do sol, formigava uma populao de varias
raas, de cres diversas, occupada em comprar, em vender; mais occupada
ainda em gozar a vida no seio de uma devassido torpe. O calor e os
perfumes inebriavam os sentidos, e acordavam todos os instinctos
sensuaes. Vinham ali vender neve, de trinta leguas do interior da
Persia. Amar era o primeiro de todos os commercios de Hormuz; e o persa,
alto, elegante e formoso, entregava-se a todos os desvairamentos da
pederastia. Por isso as mulheres valiam pouco, eram at aborrecidas em
Hormuz. Os pobres escravos, moos e mutilados, enchiam os harens dos
ricos, e os bordeis para o commum dos mercadores. Era uma devassido
abjecta, e um luxo desenfreado. Os personagens, nos seus passeios, iam
sempre seguidos por pagens, com toalhas e jarras de prata e bacias com
agua. Havia musicas e festas por toda a parte e as bandas e orchestras
andavam constantemente nas ruas onde os mercadores expunham  venda o
aljofar em colchas purpurinas. Os trajos eram dos mais preciosos
estofos, e sobre as camisas brancas de algodo finissimo vestiam-se
tunicas de chamalote ou gran, cingidas por almejares com grandes adagas
ornadas de ouro e prata e pedras preciosas. Os broqueis eram redondos,
forrados de seda; os arcos acharoados, ou de corno de bufalo com cordas
de seda. Usavam, alm do arco e da frecha, do escudo e da adaga,
machadinhas e maas de ferro, todas preciosamente lavradas e tauxiadas
de ouro e prata. Os mouros diziam que o mundo era um annel e a pedra
Hormuz. S a alfandega rendia meio milho de xerafins.[94]

As noticias de Maskt, os mutilados de Karayat e Khor-Fakhan encheram de
terror essa populao embriagada na orgia de uma vida de delicias. No
porto havia, com effeito, uma poderosa armada que escondia as aguas:
eram centenas de nus e galees, uma infinidade de terradas. Tinham-se
arrestado os navios dos mercadores e do seio da frota estava a nu de
Cambaya, a _Meri_, de mil toneis, com gente basta e numerosa artilharia.
Havia o melhor de duzentos galees de remo com arrombadas de saccas de
algodo to altas que escondiam os remeiros. O persa que vestia os
laudeis, em vez de corpos de ao, couraava tambem de algodo os navios.
As terradas alastravam o mar, carregadas de gente armada, com
estandartes garridos que era cousa fermosa para ver. Na terra, ao
longo da praia, havia de quinze a vinte mil homens formados com as suas
musicas de trombetas e anafis. As gaitas do mar e terra eram tantas que
parecia que se fundia o mundo! Mas os fugitivos abanavam a cabea
desesperados, contando como os seis, seis navios apenas portuguezes!
traziam no ventre uns monstros de fogo destruidores! E o soldo persa,
afflicto, no sabia de que modo receber a visita de Albuquerque e dos
seus navios, que j estavam, terriveis mas quietos como um volco em
paz, fundeados no meio do porto, entre os galees de Hormuz. Albuquerque
exigia-lhe que abandonasse o persa, e se declarasse vassallo do
portuguez; e o infeliz estava decidido a abandonar tudo, para que
deixassem em paz--quando o capito, enfadado com as delongas e
subtilezas, rompeu inopinadamente o fogo. Comeou a varejar em torno o
estendal de barcos, reduzindo-os a uma massa de destroos, de naufragios
e cadaveres que era horroroso de vr. Estava como um lobo no meio de um
rebanho de ovelhas. No era uma batalha, era uma carnagem. Os fugidos
nadavam n'um mar rubro de sangue, perseguidos pelas almadias em que os
soldados matavam n'elles s lanadas e cutiladas. Da amurada das nus os
grumetes e pagens rasgavam-lhes o ventre com os croques, pondo pastas de
visceras fluctuantes no mar de sangue. Houve grumete que matou assim
oitenta _mouros_. E emquanto a armada de Hormuz e as tropas do sulto
eram chacinadas, desmanchava-se o lanol de barcos como uma teia cujas
malhas se soltam. Havia correrias sobre as ondas, e de espao a espao o
mar sorvia uma atalaia com a gente e as armas. Outras, j ardendo, iam
fugindo em chammas, como trombas de fogo correndo, vogando  merc do
vento que era um grande espectaculo para vr. Ainda oito dias depois
do sanguinario caso havia cadaveres boiando no mar, e os portuguezes em
lanchas occupavam-se n'essa particular especie de pesca. A colheita era
abundante, os cadaveres aos centos, os trajos ricos, e muitos os anneis
e alfinetes, as adagas e punhaes tauxiados de ouro e prata com joias
engastadas. Denudados, vinham a bordo as familias reconhecer os
cadaveres e leval-os piedosamente, em lagrimas, aos seus sepulcros. A
faanha fra to grande, que parecia milagre: pois no se viam nos
corpos mortos as chagas das frechas, no havendo similhante arma entre
os nossos? Milagre! diziam os soldados e os capites, perante esse caso
tristemente revelador da confuso do combate com o novo Alexandre da India.

O pobre sulto de Hormuz, afflicto, immediatamente accedeu a tudo:
consentiu que Albuquerque levantasse uma fortaleza e pagou-lhe vinte mil
xerafins de tributo. E d'este concerto se fizeram duas cartas, uma em
folha de ouro, a modo de livro, escripta em arabico com letras abertas a
buril e suas brochas de ouro com tres sellos de ouro dependurados por
cadeias; a outra em parsi, que era a linguagem commum da terra, e em
papel com letras de ouro. E ambas estas cartas mandou Affonso
d'Albuquerque a el-rei D. Manuel.

                      *      *      *      *      *

Hormuz escapara, rendendo-se, aos horrores de um saque: mas isto mesmo
desesperava os capites e soldados da esquadrilha, que murmuravam,
cubiosos de tamanha riqueza desenrolada diante de seus olhos. No
comprehendia para que se haviam de demorar alli, a construir uma
fortaleza; quando, a no saquearem a cidade, mais valia partirem para o
rendoso corso das nos de Meka, na bocca do Estreito. A intriga
insinuava-se, dizendo que o capito-mr queria construir a fortaleza
para si, e fazer-se rei de Hormuz, levantando-se contra o de Portugal:
na India no havia ainda mais tradio do que a do saque maritimo, e o
pensamento imperial de Albuquerque chegava a no ser comprehendido. Nem
em tres annos, diziam, voltariam  India, perdendo occasio de carregar
as quintaladas que tinham de ordenado. A cubia de mos dadas com a
violencia e a cegueira agitavam perigosamente as guarnies.
Albuquerque, impassivel, proseguia. De uma vez que lhe levaram um
requerimento quando vigiava pessoalmente a obra da fortaleza, tomou-o
assim dobrado como lh'o deram, e sem o ler metteu-o debaixo de uma pedra
do portal da torre que se estava erguendo. O baluarte ficava cimentado
com as queixas. Mas as lages no pesavam bastante para as abafar, e
recrudesceram. Alm do mais, os queixosos reclamavam a metade dos 20:000
xerafins pagos pelo de Hormuz, que, esperanado n'estas desordens,
confiado em promessas de sedio, e nos auxilios que o persa lhe
enviava, ousou romper as hostilidades. Viera com effeito o cheik Yar
(Xaquear) trazendo comsigo quatro mil arabes. Albuquerque estava n'um
serio perigo, e outro qualquer perder-se-hia. Os capites recusavam ir
ao combate; mas elle, arrancando as barbas, aos punhados, ao capito
Nova, levou diante de si os soldados, ssinho, s cutiladas. Dos seis
navios, porm, fugiram-lhe tres, que vieram para a India contar ao
vice-rei as loucuras e barbaridades do conquistador: no podiam resistir
ao seu mando _terribil_, s lhes era dado fugir! Albuquerque retirou
tambem de Hormuz, quando viu a impossibilidade de levar por diante a
empreza, abandonado por metade das suas foras. Levantou ferro, voltou a
Sokotra aprisionar as nus de Meka, e mais um navio o abandonou ahi:
nenhum podia supportar o ferreo mando do heroe.

Em novembro de 508, depois de ter voltado ainda outra vez a Hormuz,
estava de regresso  India, em Kananor, onde abriu a carta de Lisboa,
que lhe confiava o governo do Oriente. N'esse momento a violencia do seu
genio furioso arrebatou-o: queria castigar os capites insubordinados,
queria sobretudo terminar rapidamente o plano das suas conquistas; e
foram necessarios os rogos de D. Francisco de Almeida, a quem o filho
acabava de morrer, para consentir na expedio naval de Diu. S quando,
mezes depois, chegou  India a fidalga armada de D. Fernando Coutinho,
poderam terminar as deploraveis contendas, entre o vice-rei e o seu
successor. Coutinho levava de Lisboa ordem expressa de tomar Kalikodu;
e, cheio de basofias, lanou-se na empreza em que achou a morte.
Engolfados na matana e no saque, no meio de parte da cidade incendiada,
os portuguezes foram por sua vez trucidados, quando os inimigos os
colheram dispersos e sem armas.

S e livre, absoluto senhor do imperio nascente, Albuquerque entregou-se
com franqueza e deciso ao seu projecto. A primeira condio d'elle era
a fundao de uma cidade, uma capital portugueza--cousa que at ento
no existira. Katchi, cujo rajah desde o principio se abrara aos novos
invasores, era uma cidade India, onde possuiamos apenas uma fortaleza,
abrigo da feitoria e guarda de um porto amigo. Albuquerque elegeu Goa
para capital. Collocada a meia altura da costa Occidental da peninsula,
bom porto, a cidade reunia as condies desejaveis. Fazia elle ento
parte do reino de Vijajapur (Bijapor) fraco que no fim do XV seculo se
separra do de Dekkan, declarando-se o seu khan independente, sob o
titulo de adil-shah (Adil-Khan, Hidalco); e o adil-shah do Vijajapur,
ao tempo de Albuquerque, tinha por nome Yusuf. Por este governava em Goa
Sipahdar, a quem os nossos chamaram Sabaio. Em fevereiro de 510
Albuquerque tomou Goa por surpreza; e pela primeira vez houve no Oriente
um Estado portuguez. At ento, depois de uma batalha, a tomada de um
logar significava apenas a substituio da suzerania indigena pela
nossa; e o estabelecimento de feitorias e a construco de fortalezas,
tinham smente em vista assegurar o commercio e a cobrana das preas ou
tributos de vassallagem, segundo o plano do primeiro vice-rei.
Albuquerque iniciava um systema differente; creava uma cidade
propriamente portugueza; e com o novo governador, o nosso dominio
desembarcava dos navios para a terra firme. A um systema de colonias,
como fra em volta do Mediterraneo o dos phenicios ou o dos gregos,
substituia-se um imperio, como Annibal o sonhra na Italia, e Alexandre
o fundou na Asia. Albuquerque, porm, no pensava em fazer de Goa uma
cidade portugueza, no sentido de ser exclusivamente habitada por
europeus: seria chimerico. Faltava-lhe gente, e para obviar a isto
fomentou os cruzamentos de portuguezes com mulheres indigenas, creando,
tanto em Goa como depois em Malaka[95], uma populao de mestios, que
mais tarde se tornou um dos elementos de dissoluo do nosso imperio.
Sob o dominio portuguez, os naturaes viveriam livremente na sua
religio, com as propriedades garantidas, mas sujeitos ao imperio
protector e soberano de Portugal.[96] Era um plano correspondente ao que
mais tarde os inglezes pozeram em pratica, sem todavia cruzarem com os
indigenas: da mesma frma que os hollandezes preferiram os planos
maritimo-commerciaes de D. Francisco d'Almeida.

Goa occupou ao governador todo o anno de 510; porque o _Sabaio_, tomado
por surpreza em fevereiro, voltou no vero; e os soldados de Albuquerque
no quizeram resistir-lhe. Apesar do desespero e das maldies, da furia
e das ameaas do governador, abandonaram a cidade e embarcaram. Os
planos de Albuquerque pareciam loucuras aos bandidos e piratas da India,
que alm de lhes no comprehenderem o alcance, se viam privados de
saques, apenas fartos de guerra. Goa perdeu-se em agosto; mas logo
tornou para o dominio portuguez, ganha por assalto em novembro. Os
soldados obedeciam, porque o commando do governador era _terribil_,
desapiedada a sua crueldade genial, fervorosa a sua f catholica.
Alexandre cria-se um deus, Albuquerque _viu_ mais de uma vez os milagres
do cu nas horas do combate. Em Goa viu Santiago: um cavalleiro de armas
brancas, no manto uma cruz vermelha, pelejando contra os
_mouros_[97]--conforme a tradio historica portugueza. Nas cidades da
costa da Arabia, viajando para Hormuz, as suas crueldades tinham sido
barbaras: em Goa no o foram menos. Alm queria impr pelo medo; aqui
destruia como politico. Todos os _mouros_ de ambos os sexos, de todas as
edades, mais de seis mil, foram mortos; e queimados vivos os que se
tinham refugiado na mesquita, sendo a terra assim despejada, porque
para socego d'ella s devia conter gentios. Era o logar escolhido para
capital do imperio dos novos gregos pelo moderno Alexandre.

Consolidada a posse da capital, no corao da India, Albuquerque
voltou-se rapido para as duas emprezas que rematariam o seu imperio:
Malaka e Hormuz. Embarcou, logo no principio de 511, e tocando em
Ceylo, a terra encantada das pedras preciosas, delicias do mundo,
patria da canella e das perolas, achamol-o, j em maio, em frente de
Malaka, no extremo Oriente.

Malaka, na ponta da peninsula da Indo-China, sobre o estreito a que d o
nome, era para esta regio, como Hormuz, a norte-leste, para a outra.
Assim como alm se permutavam os generos da India com os da Arabia e da
Persia, e em Adem com os do Egypto; assim em Malaka se faziam todas as
trocas dos productos occidentaes da China e das Molucas, e de todo o
extremo Oriente. De Malaka iam as nus a Ternate e a Tidor, a Banda e a
Ambon, em procura do precioso cravo; e o estreito andava coalhado de
_juncos_ de Java, conduzindo  cidade o arroz, as carnes, a caa e os
_crizes_ tauxiados de fino ao, em troca dos damascos e brocados, que
levavam de retorno para as ilhas do archipelago. Amphibios, os malaios
viviam no mar em permanencia, com a casa e a familia a bordo; e os seus
_juncos_, com enxarcias de verga, iam buscar a Malaka os pannos de
Paleakat e de Mahabalipurum (Meliapor), na costa de Coromandel, e as
drogarias de Kambai.

Do saque de Malaka, o governador reservou para si apenas seis lees de
bronze, destinados ao seu tumulo. Sem se demorar, avassalou todo o
archipelago malaio, levantando fortalezas e deixando guarnies; e,
segura a porta oriental da India, voltou-se a Goa, de caminho para
Hormuz e Aden, a consolidar o imperio pelo occidente. Em fevereiro de
513 se com uma armada para Aden, que no consegue tomar; viaja em torno
do Mar Vermelho, incendiando e bombardeando as costas; mas no sente
foras para levar a cabo o seu plano de conquistar a Arabia, indo a Meka
despedaar a santa Kaaba. A campanha de 513 no tem portanto resultado
positivo, desde que Aden consegue resistir s investidas do governador.
Adiou pois para outra vez esses planos, que eram a cupula do seu
edificio e a chave do imperio que vinha construindo. Conquistada Aden,
as duas emprezas que meditava eram relativamente faceis na sua
simplicidade temeraria. Levaria quatrocentos homens de cavallo em
taforeas ou caravellas e iria desembarcar em Liumbo, partindo n'um
galope at Meka, logar santo mal guardado por gente prostrada em
adoraes. Roubaria o thesouro sagrado e o proprio corpo do propheta:
com ambos se resgataria o Santo-Sepulcro de Jerusalem, captivo.
Consumar-se-hia a obra mallograda das Cruzadas, tradio piedosa que na
Renascena passara das naes do norte para a Italia e para a Hespanha,
arrastando mais tarde Portugal a Alcacerquibir. Ao mesmo tempo, e por
outro lado, a grande empreza do mar Vermelho descarregaria um golpe
mortal no Egypto, que era a joia do imperio dos turcos e o arsenal de
onde vinham as armadas  India. O seu plano consistia em cortar uma
serra muy pequena que corre ao longo do rio Nilo, na terra do Preste
Joham, para lanar as correntes d'elle por outro cabo que no fossem
regar as terras do Cairo.[98] Desviando o Nilo seccaria o Egypto.[99]
J pedira a D. Manuel que lhe mandasse officiaes da Madeira, onde os
havia mestres no crte das serras para formar as levadas de rega dos
canaveaes. Tudo isto continha a empreza de Aden, cujo mallogro cortou os
vos s ambies grandiosas do heroe.

Embora no cu, l para os lados das terras do Preste abexim, tivesse
fulgurado aos olhos do mystico e terrivel heroe uma cruz vermelha,
Christo abandonara-o na empreza. Quando o famoso milagre surgiu,
Albuquerque e todos, ingenuamente, crentes na misso divina em que
andavam, caram de rastos adorando a cruz.[100] E o capito, para
corresponder ao cu, mandou tanger os cros de trombetas, responder com
artilheria aos cumprimentos de Jesus. Lavrou-se um _estromento_
assignado pelas guarnies, que veiu para D. Manuel, com a carga de
pimenta, afervorar a piedade mystica da crte carthagineza.

Como, porm, apesar do milagre, nada se fez, Albuquerque em 514 volta-se
para Hormuz, cujo dominio no estava seguro. Outro Alexandre em
Persepolis, o heroe condemnou-se em Hormuz: a grandeza das suas faanhas
tinha-lhe feito nascer um orgulho, que j no distinguia o bem do mal.
Orientalisado como o imperador, cujos exemplos seguia, no lhe bastavam
j a crueldade, nem a fora: appellava para a perfidia; e
intromettendo-se nas miseraveis politicas dos persas, chamou  sua tenda
para uma festa o ministro que ento governava o principe idiota de
Hormuz, e assassinou-o covarde e friamente, substituindo-se-lhe. Estava
proximo da cova: e a sorte no queria que  historia d'este heroe
faltasse o epilogo frequente da historia dos heroes: uma abjeco.
Tampouco a verdade consente que se esconda um fraco de vaidade e
fraqueza commum. Alexandre mimoseava os litteratos de Athenas para que o
exaltassem: Albuquerque mandava anneis de pedras preciosas ao chronista
Ruy de Pina para escrever com melhor vontade os memoraveis feitos da
India.

De volta de Hormuz a Goa morreu na viagem: a morte salvava-o, como
fizera a D. Francisco de Almeida, dos ferros que tinham servido a Duarte
Pacheco. A crte de Lisboa j o mandra substituir no governo por Lopo
Soares de Albergaria, que, chegando, comeou por condemnar o seu
predecessor, exaltando todos os que lhe eram inimigos. Antes de acabar,
Albuquerque pegou da penna e dirigiu uma carta ao rei--quando esta
escrevo a V. A. estou com um soluo que  signal de morte! E pedia-lhe
que lhe honrasse a memoria e protegesse o filho: o que o rei fez, honra
lhe seja. Agonisando, via-se incomprehendido pela tacanha crte de
Lisboa, e acceitava de bom grado a morte: Mal com os homens por amor
d'elrey, mal com elrey por amor dos homens, bom  acabar. E acabou, 
vista de Goa. Era homem de mean estatura, rosto comprido e corado. Era
avisado latino e de grandes ditos: falava e escrevia muito bem; mui
facil na conversao, muito grave no mandar, muito manhoso no negociar
com os mouros, muito temido e amado de todos. Nascera filho segundo de
uma familia de sangue nobre, e educara-se na crte militar de Affonso V,
viveiro da gerao dos capites da India amestrados nas guerras de
Africa. Fra em 1480 na esquadra mandada a Napoles em auxilio do rei
Fernando contra os turcos, e nove annos depois partira para Africa a
defender a fortaleza da Graciosa, em Larache, contra os mouros. Era
estribeiro-mr de D. Joo II e j um grande fidalgo quando, em 1503, D.
Manuel o mandou  India pela primeira vez. Foi, voltou com bons
creditos, mas sem nada ter feito de singular; provavelmente observou e
aprendeu muito, levando j um plano formado quando o rei o mandou como
capito na esquadra de Tristo da Cunha. D'essa ida comea a historia
que narrmos e que termina agora com a sua morte.

Os soldados, a bordo, amortalharam-no no habito de Santiago com
borzeguins e esporas, espada  cinta, na cabea uma carapua de velludo
e aos hombros uma beca tambem de velludo. O enterro subiu em lanchas, e
era tamanho em todos o choro e pranto, que parecia fundir-se o rio de
Goa. Ao desembarcar, foi levado aos hombros dos soldados, sob o pallio,
pelas ruas da cidade que conquistara; e os gentios, vendo-o com os olhos
meio abertos, a longa barba atada at  cinta, fluctuando, no o criam
morto: Deus o chamara para alguma faanha no cu! Voltaria breve. E por
muito tempo houve romarias ao sepulchro do heroe, vindo os naturaes
pedir-lhe justia contra os desmandos e perfidias dos portuguezes,
offerecendo-lhe boninas e azeite para a sua lampada. Do extremo Oriente,
desde o Pgu at  China, ficaram-lhe chamando o Leo-do-mar.[101]

                      *      *      *      *      *

Hormuz, Goa, Malaka, os tres pontos cardeaes do imperio fundado por
Albuquerque no breve periodo de cinco annos (1507-11), valiam o dominio
em todo o mar das Indias e a vassallagem de todas as costas, desde
Sofala, em Africa, ao cabo de Jar-Hafun; desde Khor-Fakhan, na Arabia,
at ao golpho Persico; desde o Indo at ao cabo Kumari (Comorim); d'ahi
s boccas do Ganges, e descendo pelo Arakan e pelo Pgu, at Malaka--com
as ilhas dispersas de Madagascar e Sokotra, Anjediva, os archipelagos de
Lakkha (Laquedivas) e de Malaja (Maldivas), Sinhala (Ceylo),[102] e
Sumatra e Java, Borno e as Molucas, at aos pontos extremos de Banda e
Ambon. Com effeito, depois de Malaka e da viagem temerosa mas esteril de
513 a Aden, todo o Oriente pasmava e tremia de Albuquerque, o
_terribil_. A Goa vinham de toda a parte embaixadas e tributos; todos os
principes queriam a amisade do portuguez, e a seus ps arrastavam a
cora os rajahs de Ahmednagar e de Kambai, de Vijajapur e de
Narsinga,[103] o shah da Persia e os sultes de Sio, do Pgu, do
Arakan; e at o proprio _Hidalco_, o adil-shah do Kanar, consentindo a
fortaleza de Kalikodu, comprada com tanto sangue, seguia o exemplo do
Gujert, do Konkana, do Karnataka e de Bengala. Desde o Indo at ao
Ganges, pelo Cabo Kumari, desde Kambai at Golkonda, o litoral da
peninsula estava inteiramente submettido ao jugo portuguez.

Entretanto este imperio no podia dizer-se ainda construido: era um
esboo apenas. Como depois de uma victoria brilhante os timidos se
curvam todos perante o vencedor, assim acontecia no Oriente. Lanado na
politica de conquistas, o imperio portuguez ganhava a primeira batalha;
mas no podia decerto ensarilhar as armas, emquanto a costa da Arabia e
as margens do mar Vermelho se conservassem em poder dos inimigos. Os
naturaes da India, avassallados por uma corrupo antiga, acceitavam o
dominio de qualquer vencedor; mas era necessario, para o manter, que a
victoria fosse decisiva. Ora o inimigo, o _mouro_, fra batido, mas no
fra expulso. Como n'uma doena, tinham-se debellado muitos symptomas,
mas no se destruira o principio morbido. Aden continuava a ser o
emporio do dominio commercial maritimo dos arabes e egypcios no Oriente;
o mar Vermelho, o Sus, no extremo fundo d'esse estreito corredor, as
boccas sempre abertas, para vasar sobre a India navios, artilheria e
soldados. O dominio, que os portuguezes se propunham substituir,
continuava; e do caracter dual ou mixto que a occupao da India
apresentava, resultaria um estado de guerra permanente com os _mouros_ e
com os naturaes, que ora os preferiam a elles, ora a ns. Ninguem, nao
alguma seria capaz de resistir a um seculo inteiro de similhante vida. O
destino do imperio portuguez no Oriente dependia do exclusivo do
dominio, desde que era impossivel pactuar ou dividir a presa entre os
dois caadores rivaes.

O genio de Affonso de Albuquerque adivinhava isto com toda a lucidez:
Aden, Meka, o mar Vermelho, eram a sua preoccupao: Tres cousas, diz o
filho e commentador, ha na India que so escapolas de todo o commercio
das mercadorias d'aquellas partes, e chaves principaes d'ella. A
primeira  Malaka, que est em tres graus na entrada e sahida do
estreito de Singapura; a segunda Aden, que est em vinte e um graus de
altura e na entrada e sada do mar Rxo; a terceira  Hormuz, a qual
est em quinze graus e na entrada e sada do estreito do mar da Persia.
Este Hormuz, a meu vr,  a principal de todas. E se el-rey de Portugal
tivera senhoreado Aden podera chamar-se senhor de todo o mundo. Dar um
golpe mortal no islamismo era, alm de retribuir em Meka a affronta
humilhante de Jerusalem, mostrar aos musulmanos do Oriente que Jesus
podia mais do que Mafoma. Mas se o genio excepcional de Albuquerque no
bastou para levar a empreza ao fim, como poderiam bastar para isso os
pigmeus que lhe succederam? Valentes muitos ou quasi todos, incansaveis
no mar e na terra, os governadores da India foram extenuando em um
seculo de guerra permanente as limitadas foras da nao, sem pensamento
politico, sem plano definido,  ta e  merc d'um capricho, ou d'uma
ida a que o ciume imbecil da crte limitava constantemente os vos. A
primeira politica, a maritima, fra abandonada com a queda de Francisco
de Almeida; a segunda politica, a imperial, condemnada com a deposio e
morte de Albuquerque. Faltava assim a condio essencial de um dominio
estavel e seguro: uma tradio.

Esta falta, comtudo, provinha de causas mais intimas, umas nacionaes,
outras chronologicas. O absurdo espirito da politica de Lisboa, e a j
provada incapacidade dominadora dos portuguezes, esto na primeira
categoria: na segunda esto os costumes e idas de tempos relativamente
barbaros. Os portuguezes, ao pr p na India, faziam o mesmo que os
povos germanicos, ao descer dos Alpes sobre a Lombardia: cevavam-se. A
historia de Affonso de Albuquerque em Hormuz (1507) demonstra bem quanto
era impossivel impr disciplina e ordem em campanhas que tinham no saque
o exclusivo motivo.

    Fomos ao rio de Meca,
    Pelejmos e roubmos
    E muito risco passmos.

Estas palavras de Gil-Vicente resumem a historia da India; e com taes
elementos era possivel saqueal-a, era impossivel dominal-a.

Por isso, n'esse seculo de 500 que a historia da India abrange, o
conjuncto dos caracteres da occupao portugueza frma dois systemas: o
da rapina, contra o qual protesta e reage em vo a espada militar de
Albuquerque; e depois o da simonia, contra o qual, em vo tambem, reage
a vara justiceira de D. Joo de Castro.

Estudemos agora o primeiro, a seu tempo estudaremos o segundo. Todos os
soldados de Antonio da Silveira, um capito que andava pela costa, entre
Chala e Daman, trouxeram fato, escravos e dinheiro, com que foram
contentes; e assolaram tudo em tanta maneira que se despovoaram todolos
logares da fralda do mar, que pela terra dentro dez leguas no havia
gente. Em Barava, destruida por Tristo da Cunha, os barbaros cortaram
as mos e as orelhas s mulheres para furtarem as manilhas e brincos de
ouro. A tomada de Mangaluru ficou celebre: Foi entrada com muito valor,
e dentro d'ella fizeram os nossos espantosas cruezas, no perdoando a
sexo nem a idade, nem ainda s alimarias. D. Paulo de Lima deu na
cidade de Johore (Jor)--escreve  esposa--e assolou-a _com o favor
divino_. N'outro logar os combatentes, empilhados contra os muros,
pedem aos da frente que, _por amor de Deus_, lhes deixem matar um
_mouro_.  approximao dos portuguezes, despovoam-se as cidades e fogem
todos com terror: assim aconteceu em Bintang. Albuquerque sustentou por
tres annos, no mar da Arabia, a sua armada com as presas das nus de
Meka. Quando os portuguezes occuparam as terras de Bardez fizeram mui
grandes males de roubos, tyrannias, tirando as mulheres e filhas
formosas a seus maridos, e outras corrompiam, e as furtavam e tornavam a
vender. O de Hormuz queixava-se de que, em paz, lhe tiravam, a elle e
aos seus, parentas de que (os nossos) faziam uso, tornando-as christans
a seu pesar. O roubo e a luxuria, alliados aos inimigos, davam lugar a
interminaveis guerras: assim os capites de Malaka originaram as de
Johore e do Atchim (Achem); e nas Molucas a cidade de Bachian,
despovoada e vasia, foi incendiada, indo-se os barbaros s sepulturas
dos reis furtar os ossos, na esperana de receber por elles, mais tarde,
um grosso resgate. Roubando e pirateando  solta, o genio aventuroso dos
portuguezes larga as azas, e os exploradores vo at aos confins do
mundo, fiados no seu atrevimento. Dois heroes das _Peregrinaes_ teem
uma historia extravagante. Um, Antonio de Faria, vae  China roubar os
sepulcros dos imperadores; outro, Diogo Soares de Albergaria, obtm o
titulo de irmo do rei de Pgu, com duzentos mil cruzados de renda e o
commando do exercito:  o rei, mas morre assassinado, por ter furtado
uma rapariga. Nem se julgue que s pelos confins do mundo oriental
portuguez, em Hormuz ou em Malaka, ou s pelas costas, nos seus navios,
a furia dos portuguezes se desmanda em ferocidades anarchicas. Na
propria Ga, capital, a vida  um combate. Pelas ruas ha batalhas e
cadaveres insepultos. Um governador prende certos salteadores
portuguezes, manda-os ferrar no rosto, junto  picota, e degredar para o
Brazil: logo um peloto de amigos se amotina em armas para os libertar,
e, no podendo conseguil-o, vae a bandear-se para os mouros inimigos: o
governador manda-os desorelhar e amarrar aos bancos das gals; fogem e
fortificam-se, e  necessario tomar  fora o reducto; prisioneiros,
so, afinal, amarrados vivos a elephantes, e esquartejados.  conhecida
a tragedia em que a amante de D. Paulo de Lima, precipitando-se das
janellas do seu palacio de Pangin, morreu, e o seductor, de espada e
rodella, abriu caminho por entre a gente armada que acudia com o marido.

At dentro das proprias egrejas havia rixas, a tiros: viam-se homens
car assassinados no confessionario, e nos degraus dos altares,  meza
da communho; e uma vez foi morto com um tiro o bispo quando levava a
hostia, em procisso, pelas ruas.

Era uma anarchia barbara; e decerto os naturaes lamentavam a m-sorte
que os condemnava a supportar tantas crueldades ferozes. Antes o mouro
indolente e molle, e o antigo tempo que placidamente corria no seio de
uma orgia podre mas calma, nos braos do luxo, da opulencia e dos
prazeres! Como demonios vomitando fogo, negros nas suas armaduras, esses
portuguezes eram enviados para os desgraar, para os punir talvez! E
levas esfarrapadas de fugitivos, n'um cro unisono de lagrimas e
afflices, acompanhavam por toda a parte a visita dos terriveis
forasteiros, que no sabiam fazer-se amar do indio, to submisso, to
bem disposto para obedecer e servir.

Os _fumos_ da India (como Albuquerque dizia) embriagavam os pobres
portuguezes, limitados na Europa  poro congrua do bragal e do ao,
sujeitos a uma forada sobriedade e a costumes mais presos. Na India o
_fumo_ desenfreava o animal, que se retouava delirante nas sedas e nos
perfumes, nas fructas e nas mulheres, coberto de diamantes, abarrotado
de pardaus de oiro. Breve, porm, esse _fumo_ se dispersou no ar; e a
desolao universal trouxe a miseria, o luxo trouxe a fraqueza; e 
violencia de barbaros, os portuguezes juntaram a mesquinhez de chatins.

    [93] Ao que se achou presente Tristo Alvares, que era feitor do
         capito-mr, que no consentiu que ninguem tomasse nada e com
         Joo Rodrigues Pereira que o ajudou levaram tudo ao capito-mr,
         o qual logo tudo mandou qubrar e ameaar e deu ao capito e
         aos fidalgos da repartio primeira a cada um um quintal de
         prata e a Affonso de Albuquerque tres, porque nunca estes
         capites e fidalgos se apartaram para ir roubar.
         G. Correia, _Lendas_, I, 677.

    [94] O xerafin (as hrafi) = 12 rupia = 1 cruzado. Duarte Barbosa
         da-lhe a equivalencia de 300 reis.

    [95] V. _Raas humanas_, I, pp. LX-I.

    [96] No consentia o governador A. de A. que os portuguezes tratassem
         (negociassem), dizendo que onde tratassem haviam de querer ser
         poderosos e valorosos e no ser humildes como mercadores, do
         que se recreceriam males de os matarem e perderem suas
         fazendas... e tambem que, se os mouros vissem que lhes
         tomavamos seus tratos nos teriam mr odio, e mais, que os
         homens, andando tratando, andavam fra do servio de Deus e
         d'Elrey, de que elle daria muitas contas a Deus: pela qual
         razo no consentia que nenhum homem andasse fra do servio
         d'Elrey. Com esta pragmatica os portuguezes eram muito temidos
         por cavalleiros e no mercadores, e to temidos e obedecidos
         que ainda que um s portuguez fosse em uma almadia, se o
         topassem naus de mouros, todas amainavam e lhe iam obedecer,
         mostrando-lhe seus cartazes que tinham para navegar, que todos
         eram assignados por A. de A.--Gaspar Correia, _Lendas_, I, 518.

    [97] V. _Systema dos mythos relig._, p. 331.

    [98] V. _Hist. da civil. iberica_ (3. ed.) p. 243.

    [99] V. _As raas humanas_, I, pp. 106-10.

    [100] V. _Syst. dos mythos relig._, p. 331.

    [101] Ainda hoje os indios chamam _Affonso d'Albuquerque_ a um
         certo peixe, do tamanho da corvina, e cujo nome zoologico
         no podemos apurar. Diz a lenda que o Leo do Mar no morreu:
         afundou-se, e revive n'esses animaes marinhos. A maxilla
         inferior do peixe, descarnada, tem o aspecto aproximado das
         figuras portuguezas do seculo XVI: o barrete, as barbas
         ponteagudas e longas, etc. Os indios pintam esses ossos,
         dando-lhes phisionomia humana e guardam os _Affonsos de
         Albuquerques_ como fetiches.

    [102] V. _Inst. primit._, p. 3.

    [103] V. _Ibid._, pag. 163.

                      *      *      *      *      *




III

D. Joo de Castro


Morto Albuquerque, as cousas da India voltam ao estado anterior; e
abandonada a politica imperial, torna-se  politica maritima; ou antes o
dominio fluctua ao acaso, indeciso entre os dois planos. Lopo Soares
proseguiu ainda as guerras de conquista, acabando de avassallar Ceylo e
as Molucas. Vasco da Gama voltou pela terceira vez  India, como
vice-rei, para vr se podia pr cobro s desordens e  corrupo interna
das colonias: foi com elle que se inaugurou o systema das successes,
mandadas de Lisboa em cartas, que s se abririam por ordem numerica, na
falta de cada vice-rei, para prevenir as frequentes desordens, a que
dava lugar a transmisso do governo. O almirante morreu tres mezes
depois de chegado, succedendo-lhe D. Henrique de Menezes; a este, Pero
Mascarenhas, e o usurpador Lopo Vaz de Sampaio, to celebre pelas suas
perfidias.

Nuno da Cunha tomou posse do governo em 1528 em condies difficeis. As
torpezas dos governos anteriores tinham sublevado contra ns os
monarchas do Hindustan. O de Kambai, ao norte, com o de Kalikodu,
inimigo antigo, ao sul, estavam desde tempo em guerra aberta comnosco,
de mos dadas com os _mouros_, nossos rivaes. O governador, em quem os
dotes de guerreiro primavam, decidiu reunir todas as suas foras para ir
tomar Diu, na costa do Gujert, castigando por um modo ruidoso a
insubordinao do de Kambai.

Quem via a esquadra com que Nuno da Cunha se foi a Diu, podia avaliar a
transformao que trinta annos apenas, ou menos ainda, tinham produzido
no caracter dos portuguezes. Ninguem os tomaria j pelos descendentes de
Pedralvares Cabral, envergonhados da sua pobreza em Kalikodu; nem sequer
pelos piratas domesticados com a disciplina de Albuquerque: pareciam j
mouros, na opulencia e nos costumes. A esquadra era das maiores, seno a
maior de todas as que se tinham reunido na India: constava de
quatrocentas velas, entre as quaes mais de quarenta vasos maiores, e
multido de bergantins, galeaas, fustas e catures. Apoz ella vinham os
juncos malaios com mantimentos, e um cardume de zambucos e cotias de
taverneiros, gente da terra, vendendo comestiveis e vinho. Capites e
soldados tinham-se preparado como para uma funco, luxuosamente
vestidos, carregados de pedras preciosas e ricas armas tauxiadas. As
mulheres enxameavam a bordo, esposas e amantes da gente da guarnio; e
alm das mulheres os escravos eram numerosos. O governador tinha
promettido premios de 1:000, 500 e 300 pardaus aos primeiros que
successivamente subissem s muralhas. Era uma expedio mercenaria, e
no uma aventura de bandidos. Isto exprimia a transformao que j se
tinha operado; e o governador, apesar dos seus meritos, nada podia
contra ella.

Seguindo as boas tradies, a esquadra foi ao longo da costa deixando o
seu rasto de carnificinas e investidas covardes, contra os pontos
indefesos; e quando chegou em frente de Diu, rompeu o bombardeio. Dentro
da cidade era grande o susto. Os commerciantes mouros agitavam-se,
escondendo os seus thesouros e preparando-se para a fuga. Os fakirs
immundos, ns, e de rastos, estrebuxavam, e, erguendo-se como doidos,
acutilavam os braos e as pernas, ou batiam com calhaus grossos na
ossatura do peito, como a quererem matar-se n'um delirio de vises
santas. E o brahmine, com os seus longos cabellos enlaados em turbante
no alto da cabea coroada de flres, perfumado de aloes e de agua de
rosas, untado de sandalo branco e aafro, lanava-lhes uma esmola e
palavras de paz, para no juntar  desgraa da guerra novas desgraas de
suicidios! Os senhores de Diu, ricos do Gujert, principes de Kambai,
attonitos, vagueavam nas ruas com as mulheres, a procurar refugio contra
as bombardas que estalavam por toda a parte. Com as caras rapadas 
navalha e os longos bigodes negros cados, arrastavam pressurosos as
compridas camisas de algodo e de seda, calados nos seus sapatos
bicudos de cordovo lavrado: e os longos brincos de ouro cravejados de
pedras balouavam e tilintavam nas orelhas, em quanto corriam
desafivelando, cansados, os cintos de ouro rutilantes de esmeraldas.
Atraz d'elles as mulheres, de uma raa delicada e formosa, com o rosto
de um branco de leite, meio encoberto em mantos de seda com que vestiam
o tronco n, corriam descalas, mostrando nos dedos dos ps os ricos
anneis, nas pernas as manilhas de ouro e prata, os braos ns carregados
de pulseiras, as mos rutilantes de pedras preciosas. Era um terror e
uma agitao por toda a cidade, ao ouvirem o ribombar da artilheria, e
ao verem no ar a trajectoria de fogo das bombardas, que vinham sem
piedade rebentar em estilhas no meio da gente, crivando de lascas o
corpo cr de perola das mulheres, e as carnes cr de barro dos fakires
tisnados pelo sol, cobertos de uma camada de lodo secco e de immundicies
das estrebarias dos elephantes.

As tropas de Kambai, nos seus postos das muralhas, esperavam o assalto,
para ento se medirem com esses homens que, abrigados por detraz das
suas peas, distribuiam assim impunemente a devastao e a morte.
Tremiam comtudo; e os mouros, por entre os batalhes, lamentavam-se da
falta dos artilheiros venezianos e das esquadras dos rumes. Esperavam,
porm, muito da tropa de elephantes, que eram quinhentos com as prezas
limadas e o p triturador, com que haviam de fazer em pastas humidas de
sangue a phalange portugueza.[104] As balas dos mosquetes
nada podiam contra a couraa da sua pelle, e esmagando com o peso,
despedaando com as prezas, acabariam a obra comeada pelos besteiros e
fundibularios de cima das torres. Mudos e immoveis, os quinhentos
elephantes de Kambai estavam na planicie, como ancora da salvao de
Diu; e os soldados olhavam para elles com amor. Alm dos elephantes,
tambem a cavallaria se achava formada, montando  bastarda os leves
cavallos da Persia, embraados os seus escudos pequenos e redondos
forrados de seda, ao cinto duas espadas e uma adaga, ao hombro as settas
e o arco. Uns vinham defendidos com armaduras e cotas de malha de ao,
outros com laudeis, que eram mantos de algodo acolchoado, onde todos os
golpes morriam perdidos. Os cavallos traziam testeiras de ao. Porm,
apesar de toda a fora reunida, a artilheria dos navios aterrorisava-os;
e j por mais de uma vez alguma bomba, cando no meio dos elephantes,
dispersra as montanhas de carne, a correr em rugidos, com a tromba
erguida, como um mastro, entre as prezas de marfim. Na cidade havia
tambem artilheria e mosquetes, mas que nada podiam contra os navios
distantes: os pelouros disparados recochetavam na agua.

Parou afinal o bombardeio, e todos olhavam com ancia, porque esperavam
assistir ao desembarque e contavam com a peleja. Viram, porm, com
surpreza que as nus emmastreavam e as gals mudavam a pra ao mar,
afastando-se ao impulso dos remos. Fra medo? fra fraqueza? Decerto; e
a esquadra, atulhada de escravos e mulheres, no tinha foras para uma
batalha: apenas se arriscava a um canhoneio sem perigos. J era fra de
duvida que os deixava. As velas desfraldadas impelliam os navios na
volta do mar. A alegria e a assuada substituiram ento o pavor e o
silencio. Todos pulavam contentes, desde o fakir immundo, at ao grave e
perfumado brahmine; desde os velhos e as creanas, at s mulheres,
envolvidas nos seus mantos de seda, com os braos e as pernas nas, a
correr, agitando os longos brincos, preciosos, to pesados que lhes
rasgavam as orelhas. Os commerciantes mouros abriam os bazares e
desenterravam os cofres; e todos vinham  praia vr a armada que se
afastava, despedindo-se d'ella com vaias e gritos de zombaria, tangendo
musicas, disparando tiros de espingardas para o ar, e mandando, por
cortezia, pelouros, a arranhar a superficie azul das ondas. Diu estava
salva das ameaas do portuguez.

Porm quatro annos depois, intervindo nas questes internas dos sultes
e rajahs da peninsula, Nuno da Cunha obteve a permisso de construir a
fortaleza de Diu, celebre depois pelo heroismo dos seus cercos. A
politica do governador no desdenhava, comtudo, o assassinato; e o pobre
sulto de Kambai, convidado a uma entrevista, foi trucidado,  maneira
do que j succedera antes em Hormuz. D'ahi proveiu a guerra e o primeiro
cerco de Diu, sobre-humanamente defendido por Antonio da Silveira.

As chronicas chamam a Nuno da Cunha vencedor de Kambai, heroe de
Bassaim, de Kalikodu, e fundador de Diu. Basta esta enumerao dos
lugares para demonstrar que o dominio portuguez na India inclinava j,
com trinta annos de vida apenas,  decadencia. Os erros politicos
originavam guerras permanentes; e o poder dos invasores, que n'um
relampago se alargra por todo o Oriente, no se consolidava: agitava-se
desordenadamente, no meio de questes sempre renascentes, extenuando as
foras defensivas, e corrompendo-se intimamente. Se Nuno da Cunha merece
dos coevos o nome de heroe, no  pelo valor ou alcance dos meritos
proprios,  pela absoluta incapacidade dos seus predecessores e dos que
lhe succederam. D. Garcia de Noronha, que veio apoz elle, era um fidalgo
pobre, sem merecimentos, alm do da pobreza e das sympathias do rei, que
o mandou  India enriquecer. Honra, eu a tenho: no venho mais que a
levar dinheiro, dizia mais de um governador. D. Estevam da Gama foi
ninguem; e Martim Affonso de Souza prgou com o exemplo, francamente
cynico, a abjeco em que a administrao da India se tornra--agora que
terminra o saque de todas as costas, e as nus de Meka, mais raras e j
artilhadas e preparadas para rudos combates, no davam com que
satisfazer a cubia dos occupantes.

A segunda epocha da historia da India, a da podrido, apparecia j
desenvolvida e accentuada por tal frma, que o governo de Lisboa
reconheceu a necessidade de pr cobro a tamanha desordem, e nomeou
viso-rei D. Joo de Castro, leitor assiduo de Plutarcho e decidido, por
opinio, a ser um modelo de virtude, e um typo de nobreza  antiga,--ou
pelo menos  moda do que ento se julgava terem sido certos dos antigos
heroes.

                      *      *      *      *      *

Effectivamente o estado das cousas exigia remedios energicos. Martim
Affonso de Souza deve abrir o rol, porque ninguem melhor e mais
ingenuamente vivia no seio da podrido e o confessava, nas cartas que
enviava para Lisboa, ao rei. A successo do governo de Vijajapur era
debatida entre dois principes indigenas; e o governador tardou em se
determinar, porque estava esperando quem levava a melhor. Afinal
decidiu-se pelo _Hidalco_, que parecia ter mais justia e era _mais
firme_, ainda que vos certifico que da outra (parte) havia tantas
razes e contrarios que foi necessario _soccorrer-me a missas e
devoes_. Alm das devoes, o vencedor deu-lhe 70:000 pardaus para
el-rey, 20:000 para elle proprio governador, e uma joia para sua esposa.
Deus, porm, no se contentando com ajudar o modo por que o governador
vendia o seu apoio, matou o rival vencido. Tudo corria para o melhor,
quando, para coroar o caso, vem um privado de Assud-Khan propr-lhe a
diviso do thesouro do fallecido: 500:000 pardaus: Mando 300 a el-rey,
mas d'estes tomei 30:000 para mi, que  o dizimo que l mando a minha
mulher: que em razo est que tenha alguma parte d'isso, pois o podera
ter todo, que eu podera ter tomado este dinheiro sem o ninguem saber.
Esta pratica de vender o auxilio nas contendas indigenas no era,
todavia, privilegio de Martim Affonso. Em Hormuz, sob a tutela dos
portuguezes, D. Duarte de Menezes substitue a um governo amigo dos
nossos, um outro que preferia o mouro, porque este lhe deu cem mil
pardaus em xerafins novos, e em conta ricas perolas e joias e aljofar.
Gaspar Correia diz do governador, que gostava de boas peas e dadivas e
alvitres de apanhar dinheiro, e banquetes e prazeres, e com mulheres
solteiras com que ia folgar no tanque de Tinoja, e em tudo era mui
devasso.

Os capites seguiam os exemplos dos governadores. De um de Hormuz, Diogo
de Mello, queixa-se o _rei_, porque o alguazil o ferira e quizera matar
por lhe no dar dinheiro e joias que exigia; pedindo soccorro, pois se
lhe no acudissem, despovoava-se a cidade. E nem s as fortalezas, ao
lado dos soberanos indigenas, eram rendosos meios de rapina: o mar
produzia tambem muito. Ruy Vaz vae por sua conta a Bengala _s prezas_; e
dois navios, mandados expressamente de Lisboa  India com instruces e
cartas, para decidir o pleito entre Pero de Mascarenhas e Lopo Vaz,
fogem para Madagascar _s prezas_, e ahi se perdem. A pirataria dos
portuguezes era to productiva que excitava os estranhos; e de parceria,
piratas francezes, guiados pelos nossos, do a volta d'Africa, e vo
explorar a India. No era tampouco raro vr nos mares do Oriente navios
de arabes guarnecidos por portuguezes mercenarios; os _mouros_ pagavam
melhor do que o rei. A guarnio da armada com que Lopo Vaz foi s ilhas
de Sunda incendeia os navios por falta de pagamento do soldo; e os
naturaes assaltam os portuguezes  pedrada, obrigando-os a pedir
capitulao. Effectivamente a sorte dos soldados era to dura, que se
recusavam a embarcar em Goa, sem primeiro terem sido pagos. Os
governadores eram obrigados a mandal-os caar pelas ruas e casas,
levando-os algemados ao tronco, e da priso para a armada.

A vida do soldado da India e a organisao militar eram com effeito
singulares. Desembarcando sem dinheiro em Goa, depois das doenas da
viagem, os que no tinham parentes ou amigos na capital da India,
espalhavam-se pedindo esmola em bandos pelas ruas, dormindo esfarrapados
e semi-ns debaixo dos alpendres das egrejas, ou nas gals e lanchas
varadas na praia. Empenhavam o que traziam: a capa, a espada; ou
preferiam roubar para viver, esperando o arrolamento da armada, que
todos os annos ia varrer as costas do Malabar, inadas de piratas arabes
cujo rei era o Cutiale (Kuuat-Ali).[105] Chegada a epocha,
lanado o bando, nomeiavam-se os capites dos navios--logo veremos
porque artes e maneiras o capito tratava de angariar a sua gente. A
_chusma_ da marinhagem compunha-se de negros captivos, agarrados a lao
pelas ruas. Os soldados recrutavam-se nos bandos j amestrados na rapina
e que, de volta das expedies, se pavoneavam nas ruas de Goa: era uma
tropa de salteadores e adulteros, malsins e alcoviteiros, que enchiam a
cidade de roubos e assassinatos nocturnos, occupando-se a beber nos
lupanares e a matar por officio e dinheiro. Os _reinoes_ bisonhos
entravam s nas faltas, at que tivessem por seu turno aprendido como se
era soldado da India. O capito dava dez xerafins a cada um dos soldados
para se prepararem e armarem. Cada qual escolhia as armas que bem lhe
agradavam, e muitos preferiam gastar o dinheiro em orgias, indo para
bordo esfarrapados e sem mosquete, nem lana, nem rodella, nem espada:
com as mos vazias.

A mesma anarchia se usava no ataque; desembarcavam em chusma, e
_davam-lhes de Santiago_, cada um conforme podia e sabia. Dispersavam-se
todos com a mira no que podiam roubar, porque esse era o verdadeiro
soldo; os dez xerafins um preparo apenas. Geralmente a primeira
investida era irresistivel: e logo ao ataque se seguiam o incendio, o
roubo, a matana--muitas vezes tambem a reaco dos inimigos. Dispersos,
deixando as armas s portas das casas para irem mais leves a roubar, os
soldados eram mortos um a um: como succedera no grande desbarato de
Kalikodu, onde morreu D. Fernando Coutinho; como succedia a cada passo,
por toda a parte. Com tal systema, a guerra protrahia-se
indefinidamente; mas era isso o que convinha a todos, porque d'ella
tiravam o melhor dos seus proventos.

Os soldados roubavam, os capites roubavam com elles, roubavam-nos a
elles, cerceando-lhes as raes de arroz avariado e podre. E depois da
faanha, em que muitos ficavam, depois de forados a fugir em debandada,
os capites-mres das armadas recolhem-se com os focinhos quebrados e
com alguns navios perdidos. E ao entrar a barra de Goa,  tanta a
bombardada que no ha quem se oua, e ao sahir em terra tanta pluma e
bisarrice, como se deixaram destruido o mundo.[106]--E no
 bem, accrescenta outra testemunha, a facilidade com que os capites da
India entram em Ga triumphando, esbombardeando, cheios de plumas e
pontas de ouro, deixando muitos companheiros descabeados nas praias de
Calecut.

No  bem, decerto; mas no podia ser de outra frma; e ainda assim a
basofia, apesar de ser enorme, no era a peior das fraquezas dos
capites da India. Pedro no obedecia a Gonalo por no ser to fidalgo
como elle: eram todos _pontinhos e biquinhos de honra_. Em tendo sido
capites de quatro fustas, no queriam mais sar fra sem bandeira na
quadra; e alguns no teem mais noticia da guerra que passear s damas.
O peior, o peior de tudo era que uma vergonhosa corrupo apagava todos
os brios. Nuno da Cunha dizia que os homens da India eram como os
doentes de colera, tinham os gostos damnados; e outro accrescentava que
os viso-reis, ao passarem o cabo da Boa-Esperana, perdiam de todo o
temor a Deus e ao rei, como perdem a memoria os que passam o Lethes.

Vimos ha pouco o modo por que se guarnecia uma armada; resta dizer que
as capitanias do mar e as das fortalezas eram compradas por dinheiro aos
viso-reis: um rapaz imberbe pagou uma d'essas por um servio de mos e
um saleiro de prata; e duzentos pardaus eram _as ordinarias_, isto , o
preo usual de uma capitania. Providos no seu lugar, os capites, que o
tinham comprado, faziam-se mercadores e contrabandistas, conluiando-se
com os empregados fiscaes, e associando-se com os mouros e judeus. Os
capites de Malaka tinham nus para irem de sua conta,  China, de um
lado; a Diu, Chala, Daman, Bassaim, do outro. Os de Hormuz commerciavam
por mar com Bengala, com os portos da costa occidental da peninsula, e
com o Zamgebar. Como negociantes,  imagem do rei, exigiam tambem em
favor proprio um monopolio; e d'ahi vinham as desordens e violencias
brutaes exercidas sobre os indigenas. A guarda do _cartaz_
(salvo-conducto que os navios _mouros_ pagavam para navegar no mar da
India)  o credito do nosso Estado, diziam os homens-bons do Oriente;
mas por cima de tudo o mais, os capites, para fazerem prezas, buscavam
_bicos_ no exame dos passaportes e roubavam os navios e as cargas. Os
lucros do commercio no lhes bastavam, e o roubo vinha engrossar o
rendimento das capitanias. Hormuz era, sobre todas, celebre n'esta
especie. Arrolamentos de guarnies ficticias, matriculas de praas
mortas, para embolsarem o soldo de suppostos soldados, eram casos
ordinarios e communs a todas: s d'esta verba um capito de Hormuz fazia
30:000 cruzados em tres annos. Com os navios succedia outro tanto:
fundeados, a apodrecer nas aguas, ou varados na praia, custavam ao
thesouro da India o preo de guarnies que s existiam no papel. E
estes roubos eram to vulgares que no havia pejo em os confessar. Um
capito de Hormuz declarava alto e bom som, que no perdoaria um real da
somma que se tinha decidido a ganhar--300:000 cruzados.

Um certo Alvaro de Noronha, na mesma praa, accusado, responde que outro
tanto fizera o seu antecessor, que sendo _apenas um Lima_ levra
140:000 pardaus: elle _como Noronha_, havia de levar mais. O brazo da
sua casa ficaria manchado, seus avs corariam, se gente menos nobre lhe
passasse adiante em qualquer cousa--at no roubo.

E os crimes dos capites no podiam ser punidos, porque os viso-reis
faziam outro tanto e mais: quando o exemplo vinha de cima, como se havia
de condemnar a copia? O governador Lopo Vaz de Sampaio, que era pobre e
tinha muitos parentes a proteger, foi a Hormuz _para fazer proveito_,
com doze navios, cujos capites eram todos seus proximos e afilhados.
Diogo de Mello era seu cunhado, e isso o deixou impune dos roubos e
males extraordinarios que tinha commettido. Nas deploraveis intrigas com
que empolgou o governo a Pero de Mascarenhas, Lopo Vaz, para crear
partidarios, usou de todos os meios. Pagaram-se todos os _alcances_ por
meio de folhas de suppostos soldos vencidos; e n'esta _agoa envlta_
muitos enriqueceram. A um certo Nuno Redondo, eximio em _falsar sinaes_,
deveu o governador o alvar com que espoliou o seu mulo.

As principaes rendas dos governadores provinham de diversas especies de
peculato: as _peitas_, ou luvas que recebiam por todos os empregos; as
heranas jacentes que roubavam; os cabedaes do indio ou judeu queimado
pela Inquisio de Goa; os conluios com os _contadores_, para
extorquirem dinheiro aos funccionarios e litigantes; a falsificao da
moda; o roubo do cofre dos orfos; o fornecimento de material de guerra;
as matriculas de soldados mortos ou nunca arrolados; a amortisao dos
titulos de divida do governo, comprados no mercado por vil preo, e que
nas contas iam mettidos pelo seu valor nominal.

A turbulencia e devassido dos soldados provinham dos crimes dos
commandantes, ficando por isso impunes; os roubos dos governadores
authorisavam os dos capites: mas se o governador fosse punido, no
poderia acaso varrer-se o lodo e moralisar-se o dominio? Poderia; mas os
governadores tinham a favor da sua corrupo argumentos muito valiosos,
e podiam contar com a impunidade. Em Lisboa, salvas momentaneas
excepes, considerava-se a India como uma vasta seara a colher. Cartas
se liam pelas portas, em ajuntamentos de cadeiras, que era uma vergonha
os descreditos que n'ellas vinham. Desde o rei at ao mais infimo dos
moos da chusma, todos eram commerciantes; e o commercio, cuja mira  o
lucro apenas, tolera tudo, pactua com todas as devassides. Contam que
D. Manuel em pessoa achava graa s manhas e expedientes vis, com que se
explorava a India, quando os que de l vinham justificavam as artes com
a riqueza, augmentando a opulencia faustuosa da crte. Bastante dinheiro
e um pedao de lisonja venciam tudo. Diogo de Mello, de quem j falamos
como heroe, foi condemnado  morte pela Relao de Lisboa; mas _fiqou_
em morte civil para S. Thom; depois para Africa; e, por fim, com dar
500 cruzados para a Arca-da-Piedade, casando suas filhas com as muitas
riquezas dos roubos que n'este mundo no pagou.

Pagal-os-hia no outro? No era de crer; porque o jesuitismo tinha
descoberto que a simonia no era peccado, sempre que se seguissem umas
certas regras. O furto deixava de provocar escrupulos de consciencia,
desde que os casuistas tinham averiguado ser licito cobrar por qualquer
modo, o que se no pde haver por demanda, de pessoa poderosa. Ora quem
mais poderoso do que o rei, dono do thesouro da India? Por isso, uma vez
os conegos de Goa fecharam a sua egreja e suspenderam o culto, quando o
viso-rei, distante em Katchi, deixou atrazar-se-lhes as pagas. E alm
d'esta justificao de todos os expedientes, os padres confessores da
_Companhia_, defendendo os que recebiam _luvas_, diziam que o nome de
_peita_ se entende s do que se toma da parte antes de a despachar, ou
de concerto que se faa para o negocio[107]. Mas se a parte
fr despachada, pde muito bem gratificar depois:  um agradecimento, e
no uma peita.

No deixaria, por certo, de valer para muitos esta boa paz em que se
achavam com o cu; mas  fra de duvida que os escrupulos religiosos no
incommodavam a maxima parte, seno quando, na volta para o reino, os
assaltavam os temporaes da costa d'Africa. A cumplicidade de Deus era
muito; mas era melhor ainda a cumplicidade das justias, que na terra
podiam confiscar, prender e matar. Um chronista erudito escrevia: O
imperio romano no se comeou a perder, seno depois que se comearam a
vender os magistrados; e assim eu dou a India por acabada. No eram s
venaes, eram tambem analphabetos, os juizes: fazia-se um desembargador
com _dois debrums de latim_. As testemunhas custavam em Goa a pardau por
cabea e se a um ladro ou salteador, por conhecido que seja, no
faltam 4 ou 6 testemunhas que o abonem, como faltaro a um viso-rei?
Alm d'isso, de que valeriam rigores contra os roubos, injurias,
mortes, foras, adulterios com as casadas, viuvas, virgens, orfans... se
dizem que elrey N. S.  to cheio de misericordia, que por males que lhe
faam, tudo perdoa e quita? Gaspar Correia achava, entretanto,
indispensavel que se mandasse cortar a cabea de um viso-rei no caes de
Goa.

A misericordia de S. A. no consentia isso, mas o povo esteve por um
nada a fazel-o. Quando o conde da Vidigueira, ex-governador, partia para
o reino, as turbas derribaram da porta da cidade de Goa a estatua do bis
av (Vasco da Gama), enforcaram-no em effigie na verga de uma no, e
envenenaram ao neto o pasto dos animaes que levava de vitualha para a
viagem[108].

Mais graves e decisivos symptomas de desaggregao do ephemero imperio
da India rebentavam constantemente, e por toda a parte. Ferviam as
deseres; e grupos de soldados iam arrolar-se nas tropas indigenas, ou
nos navios arabes, por miseria, por cubia, por homizio, arrastados pela
fome ou pelas _moraxas_ infieis, espalhando-se em Kambai, no
Balutchistn, no Afghanistn e na Persia, de um lado; em Bengala, do
opposto; alastrando-se pelo Arakan, por Peg, por Malaka, e Kamboja, at
 China. Os que militavam debaixo das insignias dos reis e principes
infieis eram tantos, que sem muitas lagrimas no se poder considerar,
quanto mais escrever... e muitos se pem por soldados em navios de
chatins, onde, posto que o soldo no seja to honrado como o d'elrey, 
mais proveitoso, por ser melhor pago. Em tempo d'elrey D. Sebastio
havia na India 16:000 portuguezes, e no se poderam mandar 800 homens a
soccorrer Malaka.

J em Chala, no tempo de D. Francisco de Almeida, logo no comeo da
occupao da India, 50 marinheiros da armada do viso-rei, perante o
inimigo, conspiravam para se passar aos _mouros_, que pagavam melhor.
Estes phenomenos, pois, no provinham directamente da decadencia,
manifesta agora; mas tinham causas intimas, e logo evidentes no comeo
da empreza.

Alm dos que desertavam, outros iam por conta propria estabelecer
feitorias, ninhos de piratas buscando po para comer, por no haver
armadas ou fortalezas em que lh'o deem. Assim em Tchitgan, assim em
Ugoli de Bengala, em Nagapatan na costa oriental da India, em Macau e em
infinitos lugares.[109]

                      *      *      *      *      *

Para engrenar esta roda de miserias, foi do reino enviado D. Joo de
Castro. O quarto viso-rei da India[110] era, havia muito,
conhecido pela candida nobreza do seu caracter, pela sua experiencia de
navegador e guerreiro, e pela vastido do seu saber, pelo seu amor s
boas lettras. Esse amor punha na sombra os dotes ingenuos do seu
espirito; e esse asceta e amante mystico da natureza, qual o descobrimos
nos seus escriptos, vestia a toga dos heroes antigos, para apparecer em
publico na attitude classica do estylo dos seus papeis de Estado e do
cortejo do seu triumpho em Goa. A preoccupao romana do XVI seculo em
Portugal tinha em D. Joo de Castro um fervoroso sectario; e como o
genio do viso-rei era de uma sinceridade candida, a affectao antiga
tomava para elle as propores de um culto. As suas phrases e gestos,
copiados dos antigos heroes, no eram decerto uma mascara postia,
embora a ns se affigurem taes. Affonso de Albuquerque, porm, tinha no
sangue a fora de Alexandre; e a D. Joo de Castro s a imaginao fazia
um Numa, e um Cincinnato. Mas a imaginao governava-o tanto, que lhe
moldou o genio, tornando-o um exemplo vivo do poder que a educao moral
 capaz de exercer sobre o temperamento. Esta construco artificial do
caracter produzia, comtudo, contradices necessarias. O amor litterario
da phrase, e o enthusiasmo da copia, arrastavam-no a cousas, seno
ridiculas, extravagantes. No ter em casa uma gallinha para comer,
enfermo, e confessal-o com orgulho, era de certo misturar  honradez
natural uma ponta de affectao. Quando pediu a Goa trinta mil pardaus
para levantar a fortaleza de Diu, mandou os cabellos das barbas por
penhor; mas, com o symbolo, era forado a dar tambem uma proviso para o
thesoureiro de Goa, adjudicando ao pagamento do emprestimo o rendimento
dos cavallos. Todos os casos da sua vida sympathica demonstram a nobreza
ingenita de um caracter, cunhado artificialmente pela educao litteraria.

Era este o homem capaz de engrenar a roda da decomposio do imperio
oriental? No, decerto. A sua propria grandeza na honra valia pouco, por
ser affectada, embora no fosse fingida. Os homens positivos e
corrompidos da India sorriam d'esse espectaculoso heroe; e, vendo ao
mesmo tempo a ingenuidade candida e pura do seu espirito, confiavam
descansados em que no lhes viria d'ahi mal algum para os seus
interesses. A propria affectao _antiga_ do viso-rei demonstrava a
fraqueza do estadista; porque s uma alma ingenua podia ligar tamanho
amor s frmas, e a ingenuidade jmais venceu nos governos. Integro,
forte, e piedoso no seu fro intimo, D. Joo de Castro era um heroe e um
santo; mas nem essa frma subjectiva do heroismo, nem a santidade, foram
nunca os meios de travar o movimento de decomposio de uma sociedade,
ou de a impellir no caminho do progresso. Para tanto, exigem-se as almas
duras, os espiritos frios, sem escrupulos, de um Joo II, ou de um Pombal.

D. Joo de Castro no tinha em si os dotes de nenhum d'esses; e o seu
governo ficou inutil como uma bella pagina de moral:  maneira do livro
em que lhe escreveram a vida, e que  uma boa pagina de rhetorica.[111]
Ficou, porm, como um sincero protesto: esse  o seu valor
social-historico. Ficou como um exemplo de bravura temeraria, attestada
nos cercos de Diu--quando o sulto da Turquia (Soliman II) mandou de
reforo quatro mil janisaros, ou _rumes_ sob o commando do pacha do
Cairo, em auxilio de Khuajeh Safar (Cogeofar), o ministro do rei do
Gujert--mas d'esses exemplos abundavam; ficou, por fim, como um typo,
ao mesmo tempo nobre e interessante, do caracter de um santo e da
influencia da litteratura no genio dos individuos, ou antes nas suas
aces.

Se  que alguem havia em Portugal capaz de governar a India, o governo
de D. Joo III demonstrou cegueira, escolhendo-o; ainda que, por
distinctos que fossem os dotes de qualquer outro,  tambem facto que a
empreza de levantar da anarchia o imperio do Oriente excedia as foras
humanas, porque os vicios d'elle eram congenitos da sua existencia.

Ao terminar este rapido esboo da vida politica de Portugal no Oriente,
convm mencionar a opinio do quarto viso-rei e as suas observaes,
transmittidas para Lisboa, em cartas ao monarcha. C est tudo,
escrevia, em estado que no ha mouro que cuyde haveis de ser de ferro
para o seu ouro, nem christo que o creio. E passava a enumerar o
estendal das miserias. As armadas ficavam podres, que se desfaziam com
as mos; e no escapariam ao inverno, sem irem ao fundo. Nenhum dos
soberanos do Oriente confiaria nem uma palha a um portuguez: a tanto
chegra o descredito. Fra um milagre trazer do reino  India, a
salvamento, a esquadra em que viera. Todos os dias havia em Goa
lanadas, revoltas e desafios, capazes de maravilhar at a propria
Italia. No havia soldado que no tivesse uma ou mais mancebas. Todos
desobedeciam aos capites, e cada qual se arvorava em chefe. Por causa
das mancebas dos soldados havia revoltas e desastres em todas as nus.
Nas Molucas, os nossos, depois de saquearem e roubarem as casas de um
certo rei, pozeram-no a ferros e foraram suas mulheres com tamanhas
desonestidades, que se no pde dizer a V. A.--Todos so ladres, todos,
sem excepo, chatins. As cobias e vicios teem cobrado tamanha posse e
authoridade, que nenhuma cousa j se pde fazer por feia e torpe, que
dos homens seja estranha. E so mais as almas perdidas dos portuguezes
que veem  India, do que se salvam as dos gentios que os prgadores
religiosos convertem  nossa santa f.

    [104] V. _Hist. da republica romana_, I, pp. 161-2 e 275-6.

    [105] V. na _Hist. da repub. romana_, I, pp. 188-95, a descripo
          da pirataria mediterranea: causas identicas produzem
          resultados eguaes.

    [106] V. _Hist. da republica romana_, I, p. 274.

    [107] _Hist. da rep. romana_, II, p. 187.

    [108] V. _Hist. da rep. romana_, I, p. 356

    [109] V. nas _Raas humanas_, a p. LX-I do vol. I, o estado actual
          dos restos da colonia portugueza de Malaka; tambem I,
          pp. 75 e segg.

    [110] 1 D. Francisco d'Almeida 1505 1. viso-rei

          2 Affonso de Albuquerque 1509

          3 Lopo Soares de Albergaria 1515

          4 Diogo Lopes de Sequeira 1518

          5 D. Duarte de Menezes 1521

          6 Vasco da Gama 1524 2. viso-rei

          7 D. Henrique de Menezes 1524

          8 Lopo Vaz de Sampaio 1526

          9 Nuno da Cunha 1529

         10 D. Garcia de Noronha 1539 3. viso-rei

         11 D. Estevam da Gama 1540

         12 Martim Affonso de Sousa 1542

         13 D. Joo de Castro 1545 4. viso-rei

         14 Garcia de S 1548

         15 Jorge Cabral 1549

         16 D. Affonso de Noronha 1550 5. viso-rei

         17 D. Pedro Mascarenhas 1554 6. viso-rei

         18 Francisco Barreto 1555

         19 D. Constantino de Bragana 1558 7. viso-rei

         20 D. Francisco Coutinho 1561 8. viso-rei

         21 Joo de Mendona 1564

         22 D. Anto de Noronha 1564 9. viso-rei

         23 D. Luiz de Athayde 1569 10. viso-rei

         24 D. Antonio de Noronha 1571 11. viso-rei

         25 Antonio Moniz Barreto 1573

         26 D. Diogo de Menezes 1576

         27 D. Luiz de Athayde 1578 12. viso-rei

         28 Ferno Telles de Menezes 1581

         29 D. Francisco Mascarenhas 1581 13. viso-rei

         30 D. Duarte de Menezes 1584 14. viso-rei

         31 Manuel de Sousa Coutinho 1588

         32 Mathias de Albuquerque 1591 15. viso-rei

         33 D. Francisco da Gama 1597 16. viso-rei

         Pela constituio do vice reino da India o mandato dos
         governadores durava tres annos, findos os quaes podiam ser
         reconduzidos por novo triennio, conforme succedeu a muitos,
         e se v do rol supra. Com a nomeao do vice-rei iam, em
         cartas fechadas e numeradas, as dos substitutos; e quando
         occorria a morte do governador abria-se a primeira _successo_,
         na falta do individuo ahi indicado, a segunda, etc. As datas
         acima inscriptas e a ausencia do titulo do viso-rei mostram
         quem governou por _successo_. O titulo de vice-rei, excepcional
         a principio, tornou-se inherente ao cargo de governador
         desde 1550.

    [111] J. Freire de Andrade, _Vida de Joo de Castro_.

                      *      *      *      *      *




IV

Summario da derrota. Volta ao reino


Anarchicamente iniciada, a occupao da India foi, de principio a fim,
uma explorao anarchica. A politica maritima e commercial de D.
Francisco de Almeida, o imperio de Affonso de Albuquerque, o virtuoso
reinado de D. Joo de Castro, provaram egualmente impotentes para
organisar o dominio portuguez no Oriente, de um modo regular e
duradouro. Nem a arte, nem a fora, nem o santo exemplo, poderam
disciplinar a turba dos invasores da India.

Causas intimas, a que de passagem temos alludido, o impediam. A
Renascena, apresentando aos homens um sem numero de idas e impresses
novas, desorganisando os systemas, as crenas, as instituies e todo o
organismo das sociedades medievaes, abandonou o individuo aos impulsos
desordenados da natureza, pondo ao mesmo tempo nos seus actos uma
energia affirmativa at alli desconhecida. Heroismo pessoal e
naturalista, uma grande exploso de fora, a devassido nos costumes e a
anarchia nas idas, eis ahi em que se resume, por este lado, a
Renascena. A Frana, a Italia, a Hespanha, a Inglaterra e a Allemanha,
isto , a Europa inteira, offerecem ao observador caracteres de
phisionomia bastantes para suppr que, se a qualquer d'ellas tivesse
cabido o destino de occupar as Indias, o seu imperio no teria sido
melhor nem peior do que foi o nosso.

Porventura, porm, s naes protestantes que nos succederam com
superior fortuna no Oriente poderia a rigidez fanatica ter cohibido um
tanto, e o genio mercantil ter mostrado mais depressa os meios efficazes
de explorar a India, sem a saquear. A ns faltavam-nos os dois
requisitos. O catholicismo no era ento--como o era a religio
protestante--uma f intima e absorvente: era uma convico para uns, uma
conveno para outros, uma conveniencia para muitos, e um desvairamento
para os defensores intolerantes da f. Havia decerto uma affirmao
religiosa unanime e violenta; mas desapparecera a unanimidade ingenua e
espontanea da crena, que radica as religies. O catholicismo
atravessra uma crise, de que sara malferido; e a violencia com que se
impunha, estava denunciando que ficra sendo, antes uma expresso de
authoridade, do que uma expanso de sentimento popular. Isto fazia com
que o povo, sem renegar o catholicismo, fosse cando n'um relaxamento; e
que, ficando com a religio, deixasse de lhe dar significao ou
importancia moral. Muita devoo e muita devassido; eis ahi a
concomitancia resultante, e universalmente provada pelos costumes das
naes catholicas depois da Renascena.

Apesar do catholicismo, podemos, pois, dizer que no havia no dominio da
India uma religio capaz de moralisar o imperio, embora houvesse
exemplos de uma santidade heroica como a de Antonio Galvo, o apostolo
das Molucas. Mas taes exemplos eram excepes, e faltando o primeiro
elemento de ordem, quando os motivos sociaes no se tinham definido
ainda de um modo sufficiente, o individualismo naturalista do tempo
arrastava os homens a todas as desordens, precipitava-os em todos os
crimes; e umas e outros cresciam tanto mais, quanto maior era a fora
intima, o arrojo, a temeridade dos guerreiros. Sobre isto, a influencia
dissolvente do clima, do luxo, da sensualidade oriental, veiu lanar a
sua semente de corrupo; e o individuo, desarmado, sem crenas nem
leis, vivendo ao bel-prazer dos seus instinctos e paixes, cau n'um
poo de ignominias, perdendo inteiramente a noo do proprio brio, da
fora, e tornando-se, de um pirata, em um chatim.

A estas causas geraes  necessario addicionar as causas particulares,
provenientes da incapacidade fortuita dos governos em Lisboa; e
porventura, se a India se tivesse descoberto meio seculo mais cedo, o
genio politico de D. Joo II teria desde o comeo evitado graves
transtornos. D. Manoel e os seus conselheiros tinham para a India um
plano s: exploral-a, e arrastar a Lisboa, por quaesquer meios, as
riquezas do Oriente. Systema e programma de governo foram cousas
desconhecidas; e assim vemos que a occupao muda de caracter com os
successivos governadores, e ao sabor das idas ou das inclinaes de
cada um d'elles. A India soffre de todos os inconvenientes dos governos
electivos e temporarios, sem gozar das vantagens dos governos
hereditarios; e  n'isso que se fundar sempre a accusao de
incapacidade que a historia formula contra o nosso dominio.

Porm essa incapacidade trazia raizes de mais fundo. Explorar o Oriente
commercialmente  hollandeza, era cousa para que o nosso genio nos no
chamava. Nos estadistas no houve a perspicacia bastante para medirem as
differenas que distinguiam Portugal de Veneza, e as condies do
commercio anterior do Oriente das condies em que elle ia achar-se,
desde que ns chegmos por mar, armados,  India. A geographia dera aos
arabes o dominio indisputado dos mares das Indias; e era ella tambem que
fazia dos venezianos os alliados do Turco, e de Veneza o emporio do
commercio oriental. Para nos substituirmos na India aos arabes, na
Europa a Veneza, tinhamos contra ns, no s a geographia, mas ainda e
principalmente outra circumstancia. Indo despojar os arabes da sua
preza, deviamos commerciar de armas na mo, manter poderosas esquadras
n'esses mares longinquos outr'ora avassallados pacificamente por visinhos.

Estas causas naturaes, alliadas s causas egualmente naturaes da falta
de tirocinio commercial, produziram um genero de explorao, at certo
ponto novo na historia; porque no  propriamente uma _razzia_, como as
conquistas dos antigos persas ou assyrios, pois pretende ser um
commercio; mas, como o commercio s pde fazer-se  sombra da fortaleza
ou  vista da esquadra, as transaces andam sempre misturadas com
pilhagens e mortes, com roubos e violencias. Isto d aos nossos capites
da India uma phisionomia original na sua dualidade. V-se de um lado um
mercador, como foram outr'ora os carthaginezes ou phenicios; mas v-se
no mesmo homem um soldado, como os de Cyro, ou Assurbanipal.[112]

Uma tal confuso de cousas, um to grande cahos de elementos oppostos e
idas contradictorias, bastavam para arruinar breve e necessariamente o
imperio; ainda quando, por sobre tudo isto, o caracter do portuguez,
pouco vivo na sua audacia, bronco, cheio de orgulho ingenuo, mais
temerario ainda que valente, presumposo e fanfarro, no viesse
accrescentar difficuldades; ainda quando o ar inebriante, os venenos
adormentadores, as seduces perigosas, os vicios extenuantes do
encantado Oriente, no viessem entorpecer os braos e perverter o
espirito dos occupadores.

                      *      *      *      *      *

O padre Manuel Godinho, que estava na India pelo meiado do XVII seculo,
dividia em quatro epochas a historia do nosso dominio oriental. A
primeira eram os 24 annos do reinado de D. Manuel; a segunda os 35 do de
D. Joo III; a terceira vinha do 1557 a 1600; e a quarta, finalmente,
at  epocha em que elle viajava no Oriente.

Logo na primeira, o dominio portuguez conseguira alargar-se por todas as
costas e ilhas, desde Sofala at Malaka; isto , pela Africa Oriental,
pela Persia, por todo o Hindustan, do Indo ao Ganges, e pela Indo-China.
Algumas, poucas, cidades propriamente portuguezas, feitorias e
fortalezas espalhadas por toda a parte, e a vassallagem dos soberanos em
cujos Estados assentavam: eis ahi a frma do nosso dominio. Goa e Malaka
eram nossas; e tributarios da cora portugueza os soberanos
(independentes ou subalternos, porque o regime politico indigena era
feodal)--o de Hormuz, na Persia; o de Tidore, nas Molucas;[113]
o de Simhala; o das ilhas Malajas; o de Batukala (Batecal),
no Kanar; o de Kollan, em Karnataka, na extremidade austral da
peninsula da India; e na costa de Africa, os de Malinda e de Quilua.
Alm d'estas suzeranias, algumas dellas consignadas apenas nos tratados,
varias fortalezas garantiam a vassallagem de outros territorios. A de
Sofala era a primeira, para quem vinha do reino pelo Cabo; depois a de
Sokotra na ilha d'esse nome, junto ao Jar-Hafun, dominando a embocadura
do mar Vermelho; d'ahi Hormuz, na garganta do golpho persico; depois, na
costa occidental da India, descendo para o sul, Chala, Anjediva,
fronteira a Goa; Kananor, Kalikodu, onde Vasco da Gama primeiro aportou;
Kadunguluru (Cranganor); Katchi, theatro das faanhas de Duarte Pacheco;
e Kollam (Coulo), proximo do cabo Kumri. Sobre as ilhas do oceano
indico havia a fortaleza de Malaia (Maldiva), e a de Kola-ambu (Colombo)
em Ceylo; e finalmente, l para os confins orientaes, Persaim (Pacem)
no Pgu,[114] e Ternate nas Molucas.

Os annos do segundo periodo viram consolidar-se estes dilatados dominios
por meio de numerosas fortalezas que, completando o systema esboado
pelas antigas, bordavam de feitorias todas as costas. Na oriental da
peninsula hindustanica, ou de Cholamandalam (Coromandel), levantaram-se
os presidios de Nagapatan e de Mahabalipurum (Meliapor, S. Thom).
Completou-se a occupao da ilha de Ceylo por meio de fortalezas e
colonias-feitorias[115] de Jafanapatan, de Negombo, de Kalitura
(Calatur) e de Galla, na costa occidental; e de Pattikalo (Baticaloa) e
Trinkonomali (Triquimal), na oriental. Bassaim, Daman e Diu, alm de
outros pontos fortificados, asseguraram a costa de Kambai. Incessantes
guerras, bem succedidas, abateram as revoltas, consolidaram dominios
antigos, ou alargaram o imperio portuguez. Assim, a derrota final do
Samudri de Kalikodu, do sulto de Kambai, do Shah de Vijajapur
(Hidalco), do Nizam de Ahmednagar (Melique, Isamaluco, Nisamaluco, ou
Nisamox), garantiram a posse pacifica de toda a costa occidental da
India, no Gujert, em Kontana, no Kanar. As guerras da Indo-China
firmaram o poder portuguez em Jadithani (Ujantama), no reino de Annam, e
em Johor: em Bintang (Binto), na ponta extrema da peninsula de Malaka;
em Atchim (Achem), na ilha de Sumatra; e a submisso de todo o
archipelago de Sunda at s Molucas completou, por oriente, o
imperio colonial portuguez, reproduco do velho typo grego e
liby-phenicio.[116] Por occidente, os resultados eram menos decisivos; e
se as duas costas que levam ao estreito de Bab-el-Mandeb se confessavam
tributarias de Portugal, nem em Aden ao norte, nem ao sul, na costa de
Adal, o nosso dominio era positivo. O musulmano guardava com ciume a
porta do mar santo de Meka; e os mercadores arabes sabiam que, mais ou
menos embaraados, jmais seriam de todo expulsos do commercio da India,
emquanto possuissem o mar Vermelho, onde os inimigos iam, sim, mas no
conseguiam fixar-se. De arma ao hombro, na sua ilha de Sokotra, e a
bordo das armadas que cruzavam no golpho do mar da Arabia, o portuguez
espiava o armamento das esquadras de rumes e os comboyos das nus de
Meka; mas no faltavam opportunidades para que umas e outras, astuta ou
violentamente, conseguissem atravessar o estreito, entrando ou sando
para mercadejar ou combater.

No terceiro periodo conserva-se, no se alarga o dominio da cora; ainda
que na Africa oriental e na costa do Malabar apparecem novos presidios.
So, no Kanar, Barkuluru (Barcelor), Mangaluru (Mangalor), e Hanavare
(Onor). Na Africa, pela derrota e morte do _rei_ de Laum, a fortaleza de
Patta; mais ao sul a de Mombas, e a da ilha de Pemba; e alm do
Zamgebar, j avassallado, Monomotapa, na costa de Moambique. Afra
isto, funda-se ainda Sirian, no Pgu; e Hugli (Golim), em Bengala, sobre
o delta do Ganges.

Porm o acontecimento mais grave d'este periodo foi a guerra simultanea
do Adil-Shah contra Goa, do de Ahmednagar contra Chala, do Samudri
contra Kalikodu. Os principes indigenas da India Occidental, collocados
contra o portuguez, foram porm batidos; ao mesmo tempo que o era o de
Atchin (Achem) atacando Malaka; e que um pirata incommodo e celebre nos
mares da India, o _Cunhalle_ (Kunji-Ali-Markar), era degollado em Goa
depois de tomado o seu forte de Pudepatan, d'onde saa s prezas.

Apesar dos symptomas de decomposio, o imperio commercial portuguez
attingia, no fim do XVI seculo, o seu apogeu. As frotas singravam,
carregadas de preciosidades, at aos mares do Japo e da China, d'onde
traziam a prata e o ouro, sedas e almiscar. Das Molucas vinha o cravo,
de Sunda a massa e a noz, de Bengala toda a sorte de finissimos tecidos,
do Pgu os rubis, de Ceylo a canella, de Mausalipatam os diamantes. Na
pequena ilha de Manaar, junto a Ceylo, carregavam-se as perolas e
aljofares; em Atchin, na Sumatra, o benjoim; das ilhas Malajas trazia-se
o ambar; e Ceylo exportava elephantes, por Jafanapatan. Katchi
contribuia com os angelins, tekas e couramas; toda a costa com a
pimenta, e com o gengibre o Kanar. Nas ilhas de Sunda, Madur fornecia
o salitre, Solor o pau, e Borno dava a camphora. De Kambai vinham o
anil, o lacar, os tecidos; e Chala era celebre pelas suas baetas. Hormuz
vendia os cavallos da Arabia, e as sedas e alcatifas da Persia: e, do
outro lado do mar da India, a Africa dava em Sokotra o azebre, em Sofala
o ouro, em Moambique o marfim, o ebano e o ambar. Alm dos preciosos
carregamentos, alm dos lastros de arroz do Kanar para mantimentos, e
de pimenta que era um estanco rgio, as nus da cora levavam, de Diu,
de Hormuz e de Malaka, as grossas quantias de dinheiro que n'esses tres
pontos estrategicos se cobravam, pelos _cartazes_ que ahi compravam os
navios mercantes.

As causas de decadencia, to antigas como a descoberta, mas avolumadas
todos os dias, precipitaram porm a queda, logo que, pela unio a
Castella, Portugal se achou envolvido nas guerras com a Inglaterra e a
Hollanda. Mais tarde ou mais cedo, de um ou de outro lado, , porm,
fra de duvida que o dominio portuguez na India, corroido de to grandes
lepras, cairia, desde que os protestantes, maritimos e mercadores,
seguissem caminho do Oriente, pelo cabo da Boa-Esperana, na esteira das
nus portuguezas. J por vezes piratas francezes tinham ido por ahi 
India; e se, com o inglez, nem o hollandez l fra ainda, era porque
lh'o impediam as condies e embaraos que, a religio para um, para o
outro a independencia, levantavam na Europa. Batida a Hespanha pela
Inglaterra protestante e pelas Provincias-unidas independentes, ambas
estas naes, alliadas, iam batel-a na India, com a facilidade com que
se vence um inimigo doente, mal apercebido, cheio de vicios e molestias.

Os que no meiado do XVII seculo observavam o imperio portuguez, diziam
no estylo pretencioso do tempo: Est o estado da India to velho que s
o temos _por estado_. Se foi gigante  pigmeu. Se foi muito, no  j
nada. Era apenas Goa e Macau, Bassaim, Daman, Diu, Moambique e Mombas.
J no havia armadas nos mares; e os hollandezes e inglezes, fomentando
a rebellio dos naturaes, e auxiliando-os, substituiam-nos, como ns
tinhamos substituido os arabes--mas com outra arte e muito juizo.

Uns preferiram a Indo-China, outros as partes occidentaes; e em
cincoenta annos varreram das costas e ilhas os presidios e feitorias
portuguezas. O inglez combateu ao lado do persa em Hormuz para nos
expulsar, e o exito levantou todos os naturaes. O soberano do Arakan
lana-nos fra do Pgu, o de Bengala despede-nos de Hugli, perdemos
assim Mahabalipurum e na contra-costa, Mangaluru, Barkuru, Hanavare,
Chala, Kalikodu. A perda de Hormuz arrastou comsigo Maskat, com a qual
se foram todos os estabelecimentos no litoral da Arabia at ao mar
Vermelho; e desguarnecida a costa do norte, inutil era conservar Sokotra
e os pontos fronteiros no Adal, que foram abandonados com Quilua em
Africa, as ilhas de Malaja e Anjediva, e Passir (Pacem) em Sumatra.

Os hollandezes herdavam, do nosso imperio do extremo Oriente, tudo o que
no voltava a car no poder dos naturaes. Outro tanto succedia na India.
Da Africa, Arabia, e Persia, isto , das fronteiras occidentaes,
ficavam-nos Mombas e Moambique;[117] das fronteiras orientaes, o ponto
isolado de Macau, j na China, e Solor; do centro, restavam apenas uma
cidade e quatro fortes--memoria, mais do que dominio, em frente d'esses
mares, onde j se no via tremular a bandeira portugueza em poderosas
esquadras como as de outro tempo.

Ambon, Tidor, Ternate nas Molucas, Malaka na sua peninsula, Madura e
toda a Sunda, eram hollandezas; os nossos antigos pontos de
Ceylo--Kola-ambu e Kalitura, Negombo e Battikalo, Trinkonomali, Galla e
Jafnapatan, com a ilha de Manaar visinha--pertenciam-lhe tambem; e nas
duas costas da peninsula hindustanica tinham-nos tomado egualmente
Negapatan de um lado, Kollam, Kadunguluru, Kananor, e Katchi, do outro.
Abertamente se proclamava a queda do imperio portuguez, e at os mais
infimos blasonavam. Um regulo do Arrakan escrevia nos seus estandartes:
Fatekan, senhor de Sundiva, derramador do sangue dos christos e
destruidor da nao portugueza!

Tudo estava perdido, e a viagem terminada. No havia outra cousa a
fazer, seno voltar a casa: embarcar para o reino, com o producto das
rapinas, dando a ppa a esse mundo, onde a nossa misso terminra.

Cada capito que, nos bons tempos, regressava da India, fazia outro
tanto: cerrava as arcas atulhadas de ouro e pedrarias, arrumava a
bagagem no poro, e largava as velas  nu, dizendo adeus para sempre ao
Oriente!

                      *      *      *      *      *

Assim aconteceu em 1589 a D. Paulo de Lima, o que assolra Johor, na
Malasia.[118] Foi em janeiro d'esse anno funesto que embarcou em Goa.
Vinha rico; e a nu gemia com o peso do carregamento, abarrotada com um
lastro de pimenta a granel, o convez atulhado de arcas, fardos e
escravos. O capito trazia comsigo a esposa e domesticos; e embarcaram
com elle, de passageiros, numerosas pessoas: soldados de retorno,
frades, clerigos e mulheres.

Como na India no havia estaleiros onde os navios podessem vr o fundo e
passar o calafeto, a nu, j velha e demasiadamente grande, voltava em
mau estado. Ao embarque benziam-se todos e imploravam a proteco dos
frades, lembrando-se dos muitos naufragios que o tamanho e m condio
das nus multipticava todos os dias. Este contava que da esquadra de
Kalikodu, no anno anterior, tinham desapparecido quatro nus com toda a
gente, vindo um mastro com a cordoalha da enxarcia entrar pelo rio de
Daman. Aquelle, que j tres vezes fra  India, narrava o naufragio
celebre da _Flamenga_, e chamava s nus sepultura de homens, e vasos de
desastres: e um, persignando-se, contrito, dizia que as nus iam e
vinham to alastradas de peccados, que nas tormentas se ouviam falar os
demonios claramente. Os religiosos no declaravam que fosse impossivel,
mas recommendavam resignao e esperana no auxilio divino; intercalando
nos seus discursos phrases breves, n'um latim sagrado.[119]

Entretanto a viagem seguia feliz com um mar bonanoso. Todos confiavam
em que Deus no deixaria de proteger um capito piedoso como era D.
Paulo de Lima. Isto, porm, no impedia que fossem commentando as
tristes cousas do mar; e com tanta maior liberdade, que comeavam a
crer-se salvos d'esses perigos,  medida que viam irem-se approximando
do terrivel cabo da Africa. Asseguravam que nem um tero dos que
embarcavam em Lisboa chegavam  India, e isto ninguem impugnava, por ser
verdade reconhecida; e que a volta ao reino acabava os que as doenas da
terra, a miseria e a guerra tinham poupado no Oriente. Era um sorvedouro
de homens, era... De 700 a 800 que cada nu levava, s metade vinha a
servir. Depois, queixavam-se dos calafates que lanavam os navios ao
mar, mal feitos e mal vedados; e referiam os numerosos casos de
agua-aberta, dentro do Tejo, em navios novos. Outros accusavam o modo
deshumano com que se arrumava a bordo muita mais gente do que a lotao
permittia: iam como carneiros, a monte, nas toldas, expostos ao sereno
mortifero das noutes, sem camas nem para os enfermos, respirando o ar
podre das cobertas: por estas causas havia o escrobuto, as febres
podres, as dysenterias... como se no bastassem os perigos do mar e dos
ventos! Na nu em que fra  India D. Antonio de Noronha iam 900
pessoas: metade morreu na viagem. Alm d'isso os capites--era
sabido--roubavam nos mantimentos, e para poupar, escolhiam generos da
peior especie. Tudo ia avariado e podre, a agua corrompida. N'uma viagem
de seis mezes, como a da India, abasteciam-se para cinco apenas: d'ahi
resultavam fomes.

Estas conversas exaltavam muitas vezes os animos. Como punham nos crimes
o nome dos rus, levantavam-se os partidos; e mais de uma vez houve
rixas to bravas, que o capito se viu forado a leval-os de roldo,
para debaixo do castello de pra; e os frades, atraz, de crucifixos nas
mos, prgavam paz e amor, com oraes pausadas em latim.

Os fidalgos e religiosos, no chapiteu da ppa, commentavam as queixas
dos soldados, reconhecendo que, em verdade, tinham razo; e como eram
mais letrados, ligavam os effeitos s causas.

A abundancia da pimenta e uma economia mal entendida tinham exagerado as
dimenses dos navios, ainda por cima aggravada pelo excesso das cargas.
Era funesta uma cubia, causa de tantas victimas; mas o mal vinha de
longe, desde o reinado de D. Joo III. Os navios, mal desenhados, de
muito poro, e, por cima de tudo, abarrotados, no obedeciam ao leme, e
eram ronceiros... Verdade seja dita, os antigos no tinham podido
admirar as monstruosas carracas de sete e oito cobertas, com alojamento
para dois mil homens e pores para mil tonelladas de carga. Cada um
d'esses navios parecia um reino! Armavam peas de vinte tonelladas de
peso e calavam mais de dez braas. O costado media cincoenta palmos
acima do lume de agua  meia nu, e chegava a oitenta nos castellos 
ppa e  pra. Os baileus, que os ligavam, tinham dois andares: e nos
cestos de gavea cabiam dez ou doze homens, para manobrar os canhes
pequenos: beros e sacres. Mas as carracas, observavam tambem, eram
pessimas no mar: boiavam, no andavam. E um dos fidalgos velhos contava
como era o _S. Joo_, o _Botafogo_ em que fra, em 1535, com a diviso
portugueza, a Tunis, na expedio de Carlos V.

E por fim, esquecidos de males distantes, todos concordavam em admirar a
grandeza de Portugal, onde havia sempre para mais de 400 navios de
alto-bordo, alm de perto de 2:000 caravelas e vasos menores... porque o
tempo ia bonana, e o vento fresco levava-os rapidamente, pelo canal de
Moambique, direito ao Cabo.

Estavam em 26 quando, porm, quasi  vista da ponta austral de S.
Loureno (Madagascar), deram por uma agua que a nu fazia. Tudo correu
aos pores, clamando contra os calafates, por cuja causa as nus se
perdiam, andando pelo mar a Deus misericordia, por pouparem quatro
cruzados. Afastando a carga, viram que a agua era na pra, abaixo das
escas, s primeiras picas: cuspia as estopas e as pastas de chumbo do
frro, jorrando no poro, d'um torno tamanho que por elle cabia um
punho. Mas, como o tempo estava bonana, no se affligiram demasiado,
depois de terem vedado o rombo com saccas de arroz; e foram rumando para
o sul, at 32, a oitenta leguas da terra do Natal. J levavam tres
mezes de viagem.

Foi ento que o vento rondou a sudoeste, o que os forou a fazerem-se na
volta do norte. O mar crescia, e com o quebrar das vagas a nu
desconjuntava-se, e o torno da pra, vedado com arroz, cedeu. Agua
aberta e temporal desfeito: era um dia de juizo! Comearam a ouvir-se os
demonios, e as mulheres a gritar em ais. Cada qual implorava o seu
santo, a sua Nossa-Senhora, com uma f simples e espontanea, beijando os
relicarios e bentinhos, resando em voz alta, confessando em grita os
seus peccados, arrepellando os cabellos, estorcendo-se nas ancias do
medo da morte e do inferno. Decorriam os expedientes devotos e pediam-se
milagres. O capito levava a bordo uma cruz de ouro com uma particula do
Santo-Lenho engastada: reliquia, fetiche, em que todos punham as maiores
esperanas. Amarraram-na com um fio de retroz, ataram-na piedosamente a
uma espia, lanaram-na pela ppa, a vr se moderavam a sanha do mar. A
nu rolava com as ondas, o Santo-Lenho, seguro na ppa, com um prgo
para o afundar, seguia os balanos do navio. Milagre! milagre!
exclamaram quando o cu aclarou, amainando o vento, parecendo socegar as
ondas. Os homens--fidalgos, soldados e escravos, brancos, pretos,
mulatos e amarellos, pozeram mos  obra, confiando ainda na salvao.
Havia seis palmos de agua no poro; mas apesar da ancia, revezando-se
nos aldropes das bombas, no conseguiam vencel-a. Alijaram ao mar toda a
carga do convez, para libertar as escotilhas e alliviar a nu que vinha
abarrotada. Nos pores a carga nadava, e as pranchas de brazil, as pipas
da aguada, e mais volumes, boiando, eram lanados pelos balanos do mar
contra o costado, batido por fra com violencia pelas ondas. O temporal
recrescia; o Santo-Lenho no queria protegel-os! Era um inferno e um
desespero de estrondos, com o assobiar sinistro do sudoeste na cordoalha
das enxarcias. Como as bombas no vasavam os pores, estabeleceram
forcas nas escotilhas, e por ahi tiravam a agua em barris, como de um
poo. D. Paulo de Lima no fugia ao trabalho, puxando  corda como os
escravos. Nem comer podiam; e os frades iam de uns a outros, com agua e
biscoitos, matando-lhes a fome e a sede, combatendo o cansao com
exhortaes, e recommendando contra a desesperana que confiassem na
providencia de Deus...

Tres dias, desde 12 a 14 de maro, conservaram a f e os brios. Ao
quarto viram que trabalhavam debalde. A agua j inundava a coberta, e s
no convez se podia estar. As bombas no trabalhavam, entupidas com a
pimenta a granel do poro; e s  custa do muito que iam alijando--todo
o fructo das rapinas da India!--conseguiam que o navio no sossobrasse.
J tinham resolvido varar na terra; mas o temporal crescia sempre, e no
meio da cerrao plumbea, no podiam governar-se. Para mais, uma vaga
partiu o leme. O vento sudoeste vinha batido em salseiros rijos, que
despedaavam o panno. A pobre nu era um destroo, com que as ondas
brincavam na sua furia. Assim estiveram, perdidos e j sem esperana,
duas noites e um dia. De 14 para 16, os transes foram medonhos. Em
montes, estendidos no convez, os homens, ou blasphemavam, ou se
confessavam em voz alta, accusando todos os seus crimes, os roubos, as
violencias, os estupros, as matanas da India, e pedindo em lagrimas,
aos clerigos, que os salvassem das penas do inferno! As mulheres,
pranteando-se, levantavam um choro de resas, lembravam-se dos seus
santos favoritos, as _nossa-senhoras_ particulares da sua devoo,
fazendo votos e promessas. Os frades ouviam as confisses, absolviam,
deixando semi-mortos, na confiana do perdo, os que antes clamavam em
desespero, movidos pelo terror. E por sobre tudo isto os salseiros rijos
do vento assobiavam nas cordas, bradando: morte! morte! D. Paulo havia
que aquelle castigo era por seus peccados.

No dia 16 o tempo clareou um pouco: e no rumo de nor-nordeste que
levavam, descobriram terra  pra. A noute de 17 passou-se em afflices
e esperanas; mas quando amanheceu, e os olhos vidos no poderam tornar
a vr a costa, decidiram formalmente deitar o batel ao mar. Logo todos
se precipitaram no barco, ainda suspenso nos apparelhos. A ancia de
viver enlouquecia-os; e D. Paulo em p sobre o batel, com a espada e a
adaga em punho, defendia-o, acutilando os invasores, como n'uma
abordagem. O seu abatimento, a sua fraqueza, a sua desesperana,
apagavam-se, varridos pela aurora derradeira. Repellidos os homens, o
batel desceu e poisou no mar. Depois veiu remando, pela ppa da nu,
para receber pela varanda os fidalgos, suas mulheres, e os frades: o
commum dos infelizes tinha a bordo um tumulo feito. Com os balanos da
nu e o impulso da vaga, o batel ameaava despedaar-se a cada momento
contra o costado; e as mulheres desciam, penduradas em cordas de lanoes
e pannos, at ao mar, onde as apanhavam.

Os do batel gritavam, desesperados por partir, porque a gente era demais
e o barco afogava-se; os da nu gesticulavam, bradando em furia para que
os salvassem. Uma escrava, com o filho da senhora nos braos, mostrava-o
de bordo  me que lh'o pedia, exigindo que a salvassem, se queriam
salvar da morte a creana. E os marinheiros condemnavam, em altos gritos
e phrases insultuosas e obscenas, D. Paulo e os fidalgos, pelos
abandonarem cruamente a uma morte miseravel. Mais difficil fra o
naufragio da nau _Santiago_, no baixo da India, e tinham-se salvado
todos em jangadas. No abandonassem os infelizes, lembrando-se apenas de
si, os fidalgos malditos! Havia tempo para formar uma jangada, onde
todos iriam, guiados pelo batel.

N'este desespero infernal e no meio da exploso de egoismo feroz houve
um unico heroe: um frade que no saiu de bordo, sem ter confessado todos
os condemnados. Absolvidos, lanou-se ao mar, e foi a nado agarrar-se ao
batel que se afastava pesadamente: o habito salvou-o, porque os do barco
no ousavam repellir o sacerdote, como repelliam a golpes os mais que
vinham a nado. Na imminencia da morte, escrupulisavam de matar um padre.

Por toda essa noute de angustias, o batel vogou nas aguas da nu: os
remos no podiam vencer a fora das ondas, e o vento arrojava-o para o
mar. A carga era demasisada, e reconhecendo isto, deitaram fra seis
homens; depois mais seis, ficando de 110, em 98, ao todo. A bordo da nu
havia mais de outro tanto.

Condemnados a uma morte inevitavel, j confessados e absolvidos, estavam
resignados. Ainda tinham formado duas jangadas, que o mar logo devorou:
e depois d'isso unanimemente resolveram morrer, a bem com Deus. Os do
batel viam no escuro da noute as luzes das velas accesas ao retabulo da
_nossa-senhora_ do castello da ppa,[120] diante do qual,
prostradas de rastos, com os cabellos desgrenhados, chorando, as
escravas resavam. Os homens faziam procisses sobre o convez, cantando
ladainhas e hymnos. Pela manh viram o batel to perto que chegaram 
fala; e pediam ainda que os salvassem com vozes to profundas e
piedosas, que mettiam medo e terror.

Finalmente, n'um clamor de gritos e n'uma columna de fumo, espadanando a
agua, a nu sossobrou: no alto do capitel da ppa a escrava, com a
creana nos braos, mostrava-a  me, desolada no batel. A nu
sossobrou, enterrando comsigo os homens, as mulheres e as cousas da
India, adquiridas pelos meios que Deus sabe.

                      *      *      *      *      *

A viagem da India no terminou aqui. O imperio submergiu-se, mas os
salvados foram arrastando ainda, pela arenosa costa, uma vida de miseria
e perdio...

O batel foi dar  terra em 2720' sul, na terra dos _fumos_, a que os
cafres chamam Macomata, a Zuluandia. Desembarcaram, os restos da nu da
India; e achou-se que tinham 5 espingardas, 5 espadas e um barril de
polvora. Eram ao todo 98. Dos remos fizeram contos de lanas, e ferros
das verrumas dos carpinteiros. Formaram em columna, seguindo costa em
fra, em demanda de Loureno Marques.

 frente ia um frade com a cruz alada; depois D. Pedro de Lima com
metade da gente e das armas, na cauda o capito da nu com o resto; e,
entre ambos, as mulheres, umas de p, outras em andores levados por
marinheiros e grumetes, e feitos com os remos e velas do batel. Seguiam
a columna bandos de cafres, com quem por vezes tinham de pelejar, e que
fugiam rebolando-se no cho e em gatinhas, como bogios aos saltos.
Dormiam na areia ao relento; comiam alguma cousa que apanhavam,
principalmente os caranguejos da praia; levavam os ps empolados e em
chagas... Em tamanha miseria se tornra o antigo imperio com que tinham
andado pela India, pela Arabia e por Johor, em Malaka!

Na altura de 2630' depararam com os restos das jangadas da no
_Santiago_; uma sorte commum esperava, no regresso, todos os que vinham
da India; e esses desastres eram os da nao, que em massa embarcra, e
agora em massa tambem naufragava. Estas desventuras e outras, diz o
chronista, que cada dia se vem por esta carreira da India poderam
servir de balizas aos homens, principalmente aos capites de fortalezas,
para n'ellas se moderarem com o que Deus  boa mente lhes d, e deixarem
viver os pobres.

Os naufragos, miseraveis e famintos, internaram-se em Manhica, achando
nos cafres a proteco e carinho que negavam no Oriente aos naturaes.
Dispersaram-se em varias direces, indo uns por mar a Inhambane; e na
ilha de Inhaca, D. Paulo cao em cama, ou para melhor dizer, no cho,
e morreu...

No eram, porm, smente as ondas que, punindo a desordem e a avidez,
tragavam os navios podres e abarrotados; eram tambem os nossos inimigos,
cruzando nos mares da India, que apresavam as nus portuguezas, como
outr'ora ns tinhamos apresado as dos arabes e egypcios.

Cornelio Honteman, perseguido pela Inquisio de Portugal, fra para
Amsterdam, e publicra o que sabia das viagens da India, incitando os
hollandezes com as perspectivas de grossos lucros. Em 1595 partiu de
Texel a primeira frota hollandeza que dobrou o cabo da Boa-Esperana; e
j em 1591 os inglezes tinham feito uma viagem  India. Em 1602
fundou-se a companhia hollandeza das Indias orientaes: foi no primeiro
quartel do XVII seculo que o imperio portuguez cau.

Tudo se desmoronava de um modo simples e rapido. As esquadras perdiam-se
inteiras; e tantas desgraas abatiam os animos antigos, a ponto de
tornarem a covardia to vulgar, como eram de antes a audacia e a
bravura. Entre outros casos, conta-se o de um philippebote hollandez
tomando um galeo que montava dobrada artilheria e guarnio. Em 1591 e
92, de 22 navios de alto bordo sados da India, s duas nus chegaram ao
Tejo, porque vinham vasias por velhas. Quer  ida, quer  volta, os
cruzeiros inimigos caavam as nossas frotas; e a destruio do poder
maritimo portuguez garantiu para todo o sempre a destruio consummada
do imperio do Oriente.

Essa louca viagem, sem pilotos habeis, terminava por um breve naufragio;
e os mares que, no seculo XV ns vencemos com tamanha audacia,
vingavam-se, no XVI, do nosso atrevimento. Rasgramos as nuvens do Mar
Tenebroso; mas, para alm dos seus confins, fomos perder-nos no seio dos
nevoeiros prognosticados pelos geographos arabes, no meio das trevas da
nossa perversidade. A natureza offendida punia-nos com a morte; e o
destino implacavel retribuia-nos todos os males com que tinhamos
flagellado o proximo.

    [112] V. _Raas humanas_, II, pp. 185-91, e _Taboas de Chronol._,
          pp. 45-9.

    [113] V. cerca dos costumes dos indigenas. _Quadro das instit.
          primit._, pp. 14-5, 158, 160-1, 174; e _Regime das riquezas_,
          pp. 56, 65, 85, 109.

    [114] V. _Regime das riquezas_, p. 109.

    [115] V. _O Brazil e as col. port._, L. IV, 3.

    [116] V. _Hist. da rep. romana_, I, pp. 183-91.

    [117] V. _O Brazil e as colon. Port._ (2. ed.), p. 36.

    [118] V. _Hist. da republica romana_, II, p. 185.

    [119] V. a estatistica dos naufragios no _Brazil e as colonias
          port._ (2. ed.), p. 34, _nota_.

    [120] V. _Hist. da republ. romana_, I. pag. 194.


FIM DO TOMO PRIMEIRO

                      *      *      *      *      *




INDICE

DO

TOMO PRIMEIRO


         ADVERTENCIA
         LIVRO PRIMEIRO
         Descripo de Portugal
      I. Os lusitanos
     II. Fundamentos da nacionalidade
    III. Geographia portugueza
     IV. A terra e o homem
      V. A historia nacional
         LIVRO SEGUNDO
         HISTORIA DA INDEPENDENCIA
         (DYNASTIA DE BORGONHA: 1109-1385)
      I. A separao de Portugal
     II. A conquista do Al-Gharb
    III. A monarchia e a justia
     IV. A crise
         LIVRO TERCEIRO
         A conquista do Mar Tenebroso
         (DYNASTIA DE AVIZ: 1385-1500)
      I. O Infante D. Henrique
     II. Portugal em Africa
    III. O principe perfeito
     IV. Em demanda do Preste-Joham das Indias
         LIVRO QUARTO
         A viagem da India
         (1500-1640)
      I. D. Francisco d'Almeida
     II. Affonso de Albuquerque
    III. D. Joo de Castro
     IV. Summario da derrota. Volta ao reino





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Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
https://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at https://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit https://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including including checks, online payments and credit card
donations.  To donate, please visit: https://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


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editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.


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