The Project Gutenberg EBook of O Annel Mysterioso, by Alberto Pimentel

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Title: O Annel Mysterioso
       Scenas da Guerra Peninsular

Author: Alberto Pimentel

Release Date: September 17, 2010 [EBook #33749]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

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Produced by Pedro Saborano





    Notas de transcrio:

    O texto aqui transcrito,  uma cpia integral do livro impresso
    em 1904.

    Foi mantida a grafia usada na edio original de 1904, tendo
    sido corrigidos apenas pequenos erros tipogrficos que no
    alteram a leitura do texto, e que por isso no foram assinalados.




                         O ANNEL MYSTERIOSO




                     NOVA COLLECO PORTUGUEZA

                                 II

                         O ANEL MYSTERIOSO

                    SCENAS DA GUERRA PENINSULAR

                        ROMANCE ORIGINAL DE

                         ALBERTO PIMENTEL

           3. EDIO, ILLUSTRADA, REVISTA PELO AUCTOR




                              LISBOA
                  EMPREZA DA HISTORIA DE PORTUGAL
                       _Sociedade Editora_

                        LIVRARIA MODERNA
                        Rua Augusta, 95

                          TYPOGRAPHIA
                       45, Rua Ivens, 47

                             1904




PROLOGO DA 3. EDIO


Este  um dos romances da minha mocidade. Foi publicado pelos editores
da _Bibliotheca Universal_, de Lisboa, em 1873. Precederam-n'o os
_Idyllios  beira d'agua_, (1870), a minha primeira tentativa no
romance, e _O testamento de sangue_, escripto aos vinte e trez annos.

Estas datas desculpam hoje, aos meus proprios olhos, tudo quanto ha de
hesitante e incorrecto em todas as trez novellas, que foram as primicias
litterarias de um rapaz educado n'uma terra essencialmente commercial,
avessa a idealidades romanescas e ao convivio e apreo de escriptores,
bons ou simplesmente toleraveis.

Pelo que especialmente respeita ao _Annel mysterioso_, se quando agora o
reli me no descontentou a aco dramatica, achei-lhe comtudo algum
excesso de florao declamatoria, que  um defeito peculiar a todos os
estreantes.

A grande arte de escrever est na ponderada sobriedade da expresso, no
equilibrio estavel entre a phrase e o pensamento.

Fra d'isto ha rhetoricos, mas no ha escriptores.

Se eu, no decorrer dos annos, consegui aproximar-me d'este requisito
essencial, no perdi de todo o meu tempo. Mas, ainda n'esse caso, 
defensavel a reimpresso de uma novella, que pde fornecer elementos de
confronto entre duas pocas da vida de um escriptor.

Como quer que seja, o _Anel mysterioso_ agradou quando foi publicado em
1873. A breve trecho sahiu a segunda edico. E os mesmos editores me
convidaram a escrever logo em seguida outro romance, que foi _A Porta do
Paraizo_.[1]

Ambos estes livros me abriram caminho entre o publico de Lisboa.

O exito da _Porta do Paraizo_ explica-se facilmente pelo interesse que
inspirava ainda ento o reinado de D. Pedro V.

Quanto ao _Annel mysterioso_, que no  seno a biographia de uma
celebridade das ruas do Porto, parece que foi o entrecho commovente que
no espirito dos leitores lisbonenses suppriu a falta de conhecimento
directo do protagonista.

Quando eu escrevia este romance, muitas pessoas d'aquella cidade se
lembravam ainda de ter visto frequentes vezes o _Desgraa_.

Uma d'essas pessoas era Camillo Castello Branco, que, seis annos depois
da publicao do _Anel mysterioso_, dizia a pag. 296 do livro
_Sentimentalismo e historia_: A um canto (do botequim da _Aguia
d'ouro_) estava um velho de semblante livido, muito desgraado, com um
chapeu enorme de sda d'um azulado decrepito, com um grande cigarro no
canto da bocca. Ao lado, sobre um mocho, via-se uma guitarra com manchas
gordurosas de suor que punham brilhos, e aos ps um co d'agua com o
felpo encarvoado, cheio de toridas, encaroado, dormia, e acordava de
salto, apanhando com muita furia, no ar, as moscas que lhe picavam as
orelhas. Era o Jos das Desgraas, o legendario mendigo, que morreu de
saudades do seu co, aggravadas pela fome.

Esta referencia authentca hoje o retrato de uma individualidade
popular, cujos contemporaneos dormem, como ella, o somno eterno da morte.

Lisboa, 10 de abril de 1903.

                                                _Alberto Pimentel._


    [1] A quarta edico, luxuosa, d'este romance, foi por ns
    publicada em 1900.

                                          (Nota dos editores.)




O ANNEL MYSTERIOSO


I

O Desgra

Entre os typos populares, que pouco a pouco vo rolando a sepulturas
ignoradas, deixando aps si o rasto de uma vida sobremodo accidentada de
peripecias quasi sempre sombrias--rasto que s um ou outro escriptor se
compraz em prucurar desde a cadeia ao degredo, do albergue ao
cemiterio--avulta na tradio portuense um homem que por longo tempo ahi
foi o alvo das assuadas do rapazio e dos chascos dos frequentadores de
botequim. Uns chamavam-lhe o _Jos das Desgraas_, outros simplesmente o
_Desgraa_.

Parece dever inferir-se de to lutuosa alcunha que a populao da cidade
lhe conhecia a biographia exuberante de lastimosos lances. Tal no ha.
Quando elle passava coxeando arrimado ao seu bordo, sobraada a
guitarra inseparavel, de velho chapo alto amassado, sobrecasaca
abotoada, pendente a medalha de prata da guerra peninsular, annel d'ouro
na mo esquerda, na bocca o enorme cigarro que elle proprio manipulava
com pontas de charuto, seguido do co fiel, que se chamava _Junot_, por
motivos que mais tarde desvelaremos, o gentio das ruas ou sorria
alvarmente da pittoresca pobresa do excentrico mendigo, ou rompia em
apostrophes de _ Desgraa!  Desgraa!_ que elle parecia no ouvir ou
despresar em sua imperturbavel serenidade.

E a populaa, sem sequer suspeitar da tenebrosa origem do cognomento,
quedava-se a ouvil-o, calmadas as arruaas com que era saudado, quando
elle, sentado  porta de um caf, especialmente o do Jardim de S.
Lazaro, comeava a tanger melancolicamente a sua guitarra, na qual
executava operas completas, queimando o seu enorme rolo de tabaco e
contemplando, de cabea inclinada, o co que parecia escutal-o
attentamente...

Depois, quando a mo caa extenuada sobre as cordas silenciosas,
affigurava-se, to alheado ficava, que estava rememorando maguas
intimas, segredos da sua vida obscura, sem que parecesse dar tento das
esmolas que lhe atiravam ao regao os que entravam ou saam a porta do
botequim.

s vezes, como se no houvesse conseguido linimentar com a musica as
recordaes dolorosas acordadas no imo peito, voltava a tanger na
guitarra uns dulcissimos arpejos que finalmente lhe serenavam a alma
tempestuosamente alanceada, chorando por elle, que no tinha lagrimas.

Restituido  realidade da sua resignada nobresa, erguia-se firmado no
bordo, sobraava a guitarra, e continuava a peregrinao, vagueando
pelas ruas da cidade, sem todavia dirigir-se aos transeuntes e recebendo
impassivel os bolos que jmais solicitava. E o co, o leal companheiro
de infortunio, seguia egualmente resignado seu dono, e quasi sempre
indifferente s provocaes do rapazio que se divertia em apedrejal-o e
aulal-o.

Frequentemente intervinha o _Desgraa_ ameaando com o bordo os
perseguidores do seu dedicado companheiro; mas como o inquieto rapazio
conhecesse que a velhice lhe desnervava o brao, entrava de levantar
celeuma atroadora, em que, ainda assim, quasi sempre se distinguiam
vozes de Morra o _Desgraa_ e o _Junot_! Vende o annel e no andes a
pedir!

Estranho homem devia de ser esse, que parecia guardar grande mysterio, e
tinha por unico amigo, entre uma populao inteira, que o apupava, o co
fiel, e por consolao unica a sua guitarra, e por unica proteco a
piedade dos seus conterraneos, que elle no implorava.

O povo no suspeitava sequer que a biographia d'aquelle homem
justificasse o appellido. Quando o _Desgraa_ fazia chorar a guitarra
entre os dedos, e o co denunciava comprehender a guitarra, como que
ligeiramente se commovia a turba acatasolada, mas d'ahi a pouco, quando
estrondeavam os apupos, era o co o unico espectador que mostrava lr na
physionomia do velho o mysterio de uma vida tormentosa.

Ria a gentalha torpe d'aquella intima convivencia de homem e co. E
todavia no saa d'entre a arraia miuda o mais desgraado dos populares
a dizer ao pensativo guitarrista: O teu co sente e no fala; eu
falarei por elle. Soffres decerto muito e precisas consolao. Eu sou
tambem muito infeliz, muito mais do que tu, porque no tenho guitarra
nem co. Deixa-me pois compartir do teu co e da tua guitarra, que eu te
darei o que tu no tens, dois ouvidos que te escutem, uma voz que te
responda.

No. A desgraa  to infeliz, que se ri da desgraa;  ella que se
desauctorisa a si mesma. S lhe falavam para chasqueal-o, para lhe
cuspir na face a zombaria que elle, absorto no seu continuo cogitar,
deixava resvalar aos ps.

E todavia aquelle homem era um grande desgraado, que s tinha no mundo
a sua guitarra, o seu co, e as suas recordaes. O annel, que trazia na
mo esquerda, podia matar-lhe talvez um dia de fome, mas no haveria
miseria que lh'o arrancasse do dedo, porque as suas recordaes estavam
n'aquelle annel.

      *      *      *      *      *


II

Na quinta das Chs

Na noite de 17 de fevereiro de 1809, a morgada viuva da quinta das Chs
conferenciava gravemente com o seu capello n'uma das salas terreas do
solar, a duas leguas de Braga, sobranceiro  aldeia de Carvalho d'ste.
A morgada, senhora de uns sessenta annos, deixava entrever nas sombras
da physionomia a tempestade que lhe agitava a alma; o capello,
passeando de um para outro lado, enviesava  morgada olhares
investigadores, que para logo revelariam perfidia e cupidez.

-- preciso partir, padre capello, dizia afflictivamente a morgada. Se
os francezes logram atravessar o rio Minho, estaro brevemente em Braga.
A mim pouco me importaria a vida se no fosse Augusta, que a esta hora
est dormindo na serenidade da sua innocencia. Tomra que chegasse o
Teixeira para contar o que se passou. Diga o que disser, padre capello,
 preciso pensar maduramente. Meu genro fez-me depositria de um
thesouro, que eu hoje quero salvar de todos os perigos, custe o que
custar, porque se me affigura que j estimo mais Augusta do que aos seus
proprios paes, e a seu irmo. Recebi minha neta aos 5 annos, porque 
luz da consciencia conheci que melhor poderia eu sustentar uma criana,
apesar das hypothecas da minha casa, do que um pobre capito do exercito
poderia sustentar dois filhos. O padre capello administrava as
propriedades. Que me restava a mim para no morrer de aborrecimento
durante o dia? Augusta, a criana que me tinha sido confiada. Era ella a
minha unica distraco, o meu unico amor; ha dez annos que este tecto
lhe abriga a innocencia, e ha dez annos que eu abeno a resoluo de a
chamar para amparo da minha velhice. Olhe que os annos tornam a gente
egoista, padre capello; a abnegao  s apanagio da mocidade.
No pense que me bastava a unica distraco do voltarete;  sempre a
mesma cousa! Quando eu _peo licena_ o padre capello _prefere_, e o
Teixeira d-lhe _codilho_. Tambem  boa embirrao a sua de _preferir_
sem jogo. Nem que tivesse vontade de fazer mal... E o dia, estes longos
dias da provincia, que no teem fim! Era morrer de fastio. Augusta
trouxe-me cuidados e variedade. A principio com as suas exigencias de
criana; agora com as suas ingenuidades de donzella. Vi, anno a anno,
desabotoar a flr. A flr, disse bem, porque Augusta  realmente uma
rosa... de quinze annos. E  que eu a estimo como seu jardineiro que
sou. Instantemente lhe pedi que se deitasse para que no ouvisse dizer
ao Teixeira as proezas que os senhores francezes teem feito l para esse
rio Minho. Mas, padre capello, o que  certo  que eu j haveria
partido para o Porto, se n'esta occasio estivesse prevenida com
recursos. O padre capello bem sabe...

--Sei, sei, senhora morgada, que a occasio  m para todos.

--Se os caseiros pudessem pagar o resto das rendas...

--A senhora morgada devia conhecer o que  guerra sobre guerra. Tivemos
esse excommungado Junot, mais as suas aves de rapina, a comer-nos os
olhos da cara. Nem as egrejas respeitou, o maldito! A senhora morgada
ainda fala em pedir o resto das rendas aos caseiros! E para qu? Para
fugir para o Porto, para casa de seu genro, para abandonar as suas
propriedades!

--O padre capello velar por ellas.  que eu bem sei os sustos que
curti aqui durante a primeira invaso. Se no Porto no estivesse a
soldadesca do Taranco, teria fugido para l.

--E que teima essa de me querer confiar as suas propriedades, capacitado
como estou de que a senhora morgada suppe que lh'as administro mal!
Administro mal, administro, porque no foro os caseiros a pagarem o
resto das rendas para vossa senhoria o ir gastar no Porto com a familia
de seu genro. Depois de uma guerra e em vesperas de outra  que a
senhora morgada fala em pagar!

--Pagar  um dever, padre capello, e quanto mais nos apressamos a
fazer o que devemos tanto maior  o repouso do espirito. Bem sei que so
ms as circumstancias, mas  que tambem esta pobre gente se importa
pouco com o calendario, e acha que todo o tempo  tempo.  que tambem
no imaginam que se esconda a pobresa detraz de pergaminhos e
genealogias. Pois esconde, se esconde! Sabe o padre capello que eu
falei no resto das rendas porque n'esta occasio no ha dinheiro em
casa. Ninguem melhor o sabe, porque lhe passam os negocios pela mo. O
que  certo  que eu sinto ameaos de pobresa...

--Nem tanto ao mar, senhora morgada...

--Se presinto! Vivo modestamente n'estas solitarias Chs, encantada nas
graas d'Augusta, cerrando ouvidos ao bulicio da cidade que est
proxima. No posso fazer despezas extraordinarias,  preciso no largar
a brida da mo para costear as indispensaveis.

--Os chs no so indispensaveis, senhora morgada...

--Maga-me a sua ironia, padre capello! Tanto mais que sabe como 
limitado o servio da nossa mesa de jogo. E depois queria que eu
fechasse as minhas portas na face do velho Teixeira, amigo leal da nossa
casa desde a mocidade de meu marido? Sabe o padre capello como o
morgado deixou as propriedades sobrecarregadas de hypothecas. Mal tenho
podido rehabilitar o casal, apesar de todas as economias e da maxima
absteno d'obras de beneficencia...

--Maxima absteno!...

-- injusto, padre capello! Refere-se talvez  Augusta... No sabe que
 filha de minha filha, casada por inclinao com um honrado militar do
exercito portuguez, a quem no basta unicamente a sua immaculada
honradez para ser feliz! Era-me impossivel soccorrer a me; soccorri a
filha. Eu no podia ir mais longe, seno teria ido. Sempre
contrariedades! Sempre o padre capello a annunciar-me algum novo
desastre! Ah! mas d'esta vez creia que no haver desastre nem
contrariedade que me vde o tirar dos hombros uma enorme
responsabilidade, levando Augusta para a companhia dos seus, e minha
tambem, porque ella  minha, e muito minha, pelo sangue e pelo
corao... Em ultimo caso, recorrerei ao emprestimo...

--Outro?

-- minha filha e meus netos que eu prejudico; o padre capello, no.
Todavia, como  para bem d'elles, elles m'o perdoaro. O padre capello
por sua propria mo recebe os juros das quantias que tem desembolado, e
creio que as propriedades que conservo fartamente abastaro ao pagamento
do capital, no momento em que queira usar dos seus direitos de crdor.

--Eu no quero...

--Deixe-me figurar a peior hypothese, e evidenciar-lhe que lhe no
causam detrimento os seus desembolos.

--Falando francamente, senhora morgada, sou a dizer-lhe que o juro 
pequeno...

--Augmente-o como lhe apraza. No  meu costume questionar cinco ris ao
padre capello.

--Eu sou to pobre como a senhora morgada, tartamudeou o reverendo com
um frouxo de tosse que denunciava estar providencialmente entalado com o
osso da mentira.

A morgada gesticulou de incredulidade e enfado.

--Eu sou to pobre como a senhora morgada, reatou o capello ajudando-se
a engulir a falsidade com um sorvo de rap--e   custa de trabalho que
tenho recolhido escassas mealhas ao canto da gaveta. De inverno arrosto
as neves da madrugada para sar aos campos a espionar os trabalhadores
no interesse de vossa senhoria. No vero aguento as calmas do meio dia
para os estimular ao trabalho. As horas feriadas de canceiras externas
passo-as  banca a fazer a escripturao ou no quarto a rezar as minhas
oraes. Tenho envelhecido ao servio de vossa senhoria, e o magro
peculio do pobre padre ao trabalho o devo. E o mais  que j vou achando
ser horas de descanar... Vejo porm que no seria facil encontrar quem
com zelosa dedicao governasse a casa alheia, e, se me  canceira o
dirigil-a a despeito da velhice, tambem me  consolao o ouvir dizer-me
a consciencia que devo trabalhar por no ver quem facilmente me
substitua. Digam embora o senhor seu genro e a senhora sua filha o que
quizerem, e me consta que dizem: a verdade  esta...

--Convenho, padre capello, e  por conhecer a sua desinteressada--a
morgada deu a esta palavra uma inflexo sensivelmente
ironica--desinteressada dedicao, que tenho batido  sua porta sempre
que a necessidade me obriga a incommodar alguem. Se lhe pedia agora para
passar aviso aos caseiros, era porque no queria importunal-o com
repetidas mercs...

--Nunca me incommodaram as ordens de vossa senhoria, atalhou o padre,
curvando-se respeitosamente a meio da sala.

--Eu  que a mim mesma me incommodo com a ideia de incommodal-o, posto
que eu no seja dos devedores que mais devem aborrecer por egoistas...

--Creio que j tive a honra de dizer  senhora morgada que a occasio 
m para todos.--E proseguiu mirando ao alvo que elle queria attingir:
Era porm grande a quantia que vossa senhoria desejava?

--A sufficiente para me transportar ao Porto com a menina, e para no
tornar pesada a hospedagem que minha filha haja de dar-me.  preciso
partir, padre capello, se os francezes no forem repellidos na
fronteira. Entraro por esse Minho dentro furiosos, e eu no respondo s
pela minha vida, que j pouco vale, mas tambem pela de Augusta, que me
foi confiada em deposito. Que valeria a minha presena aqui? Os criados
fugiriam decerto, e a edade do padre capello no lhe permittiria
defender duas mulheres, ambas timidas, uma porque  velha, e outra
porque  nova. Alm de maior segurana que offerece o Porto, como grande
cidade que , Augusta poder d'ali seguir melhor a sorte de seu pae e
seu irmo nos combates. No estar para aqui anciosa sem receber
noticias que a tranquillisem. Aqui, quando ha guerra, apenas se sabe que
ha guerra, e mais nada. O padre capello offereceu-se para ficar;
desappareceram todas as difficuldades. Sem o seu offerecimento eu no
poderia deixar desamparado o solar de meus avs. Teria de luctar
angustiosamente entre o amor d'Augusta e o respeito  memoria de meus
paes e meu marido. Se os invasores entrarem, respeitaro porventura a
sua velhice e as suas vestes, padre capello, se  que elles respeitam
alguma cousa...

O padre capello, julgando haver j simulado a precisa resistencia 
partida da morgada, apostrophou de golpe:

--Mas, voltando ao caso, senhora morgada, ponhamos os pontos nos i i.
Quanto desejava vossa senhoria?

--Eu... cem moedas talvez.

--Cem moedas  muito, senhora morgada, e eu no estou prevenido.

--Pois veja o padre capello se pde obter essa quantia, que eu cederei
a qualquer exigencia de juro.

--Menos de 15 por cento no ser possivel, senhora morgada...

--Pagarei os 15 por cento; trate o padre capello de negociar sem demora
as cem moedas.

--Hum! rouquejou o padre. Veremos. Pde ser que se abra alguma porta ao
homem honrado que s em grande estreiteza deixa d'abrir a sua. manh
falaremos, senhora morgada. Vou fazer as minhas rezas emquanto no chega
o palrador do Teixeira com noticias dos francezes...

E sau da sala em direco ao seu quarto.

A morgada, vendo-se s, pareceu respirar com sofreguido, como o
encarcerado que conquista a liberdade e, como elle, pareceu conversar
comsigo mesma:

--Que alma de marmore a d'este homem!  um inimigo que tenho de portas a
dentro e que conservo porque me no permitte o animo nem a edade travar
lucta com to arteiro contendor, que apara todos os golpes na batina com
beatitude irritante.

Depois levantou-se, agitou a campainha, e esperou com os olhos fitos na
porta que apparecesse a criada.

--A menina dorme? perguntou.

--Dorme, senhora morgada.

--Accende o candieiro e abre a mesa. Quando bater o sr. Teixeira, manda
entrar.

Palavras no eram ditas, resoou a aldrava do porto.

Momentos depois entrava  sala o velho Teixeira, fidalgo retirado das
pompas da crte por conselho da consciencia que o advertia de que estava
a empobrecer d'um dia a outro. N'aquelles tempos que precederam a
retirada da familia real para o Brazil, as tentaes de Lisboa eram
tantas, e to dispendiosas, que no admirava que um cortezo immolasse a
celebradas damarias o seu opulento morgado do Minho. Alguma coisa
salvra porm o velho aulico do muito que na crte consumira. Trouxera
de l a palaciana compostura que reala at mesmo na decadencia.
Maneiras e palavras, pesadas com fina discreo, estavam desculpando a
cada passo as sombras que por mais d'uma vez denunciavam no ser
impeccavelmente crystalina a reputao das aafatas da rainha D. Maria I.

Entrou o fidalgo e logo correu a morgada a perguntar-lhe anciosamente:

--Que noticias nos traz vossa senhoria?

--Boas, senhora morgada, se pde haver boas noticias quando a
tempestade, que se descondensa n'um ponto, ameaa n'outro.

--Inda bem! inda bem! apostrophou a morgada relanceando um olhar
d'alegria  porta do quarto onde estava descanando a neta.

O padre capello, sem se dar o incommodo de desculpar a ligeireza com
que alinhavara as suas oraes, appareceu mordido de curiosidade.

--E o caso  que pensei que das indagaes j no sobrava tempo para o
nosso voltarete!--disse o Teixeira sentando-se a um gesto da
morgada.--Venho tarde, e porei por desculpa da demora o bom empenho que
tinha em poder satisfazer a justa anciedade de vossa senhoria.

--No obstante serem boas as informaes, supplico-lhe que no aggrave
as cres do quadro, dado que entre por ahi de improviso a minha neta,
que se recolheu aos seus quartos, por ordem minha, para no ser
testemunha auricular da narrativa no caso de que fosse lugubre.

--Os francezes foram repellidos heroicamente, disse o fidalgo baixando a
voz.

--Vamos a isso! atalhou o padre capello fungando uma pitada.

O fidalgo proseguiu:

--Os francezes no ousaram metter-se ao Minho, que vae de monte a monte,
com a agua que tem cado, por se arreceiarem da cheia. Trouxeram por
terra os barcos que puderam obter na Guardia, e puzeram-n'os a nado no
Tamuge.

--Que artes teem os malditosl exclamou o capello lembrando-se de
que no haveria thesouro que resistisse  astucia franceza.

--Deixe ouvir... observou a morgada.

--Eram vinte e tantos os barcos, que pretendiam abicar  praia do
Camarido. Trez separaram-se, ao descer o rio, e chegando primeiro 
praia, os soldados desembarcaram. Os outros barcos tiveram que luctar, e
muito, contra a mar que lhes era adversa. Isto durou toda a noite. S
hontem de madrugada foi que o Champalimaud percebeu claramente a
tentativa do inimigo, e que mandou fazer fogo de fuzilaria. Um dos
barcos foi a pique; outro despedaou-o o mar. Os francezes dos trez
primeiros barcos refugiaram-se no Camarido. Estes desastres deram alento
aos paisanos, que se embarcaram para atacar o inimigo no rio, protegidos
pela artilharia da Areia Grossa e da Insua, e pelos soldados do 21. Os
francezes, contrariados pela correnteza das aguas e pela resistencia dos
nossos, retrocederam para a margem direita do Minho, desesperando
d'atravessal-o. Ento bateram os nossos a matta do Camarido, encontrando
dentro mais de trinta francezes, um dos quaes consta ser capito e haver
declarado o nome do general em chefe de todo o exercito. Chama-se Soult
o general...

--Elles tambem escolhem-n'os pelos nomes! interrompeu o padre para quem
toda a prosodia era difficil, incluindo a latina e a... portugueza.

--Os paisanos, segundo se dizia em Braga, fizeram proezas, continuou
placidamente o fidalgo. At as mulheres acudiram com fouces roadouras e
forcados.

--Nunca as mos lhes dam... observou impudentemente o capello

--Pelo meio dia atacaram os francezes Villa Nova da Cerveira, sendo
ainda repellidos brilhantemente pelos nossos, tropa e povo. Mas, senhora
morgada, o que mais dava que falar era a coragem de trez rapazes de
Valena, que se arrojaram a ir encravar um morteiro, que os francezes
tratavam de assestar contra a praa. Isto  o que se sabe desde manh; o
que j se ter passado pertence a Deus e aos que esto em armas.

--Mas que lhe parece a vossa senhoria: entraro ou no entraro?
perguntou a morgada.

--Para que nos havemos de illudir com mentirosas esperanas? Os
invasores so poderosos e por mais d'uma parte podero entrar, ao passo
que os nossos, divididos para guarnecerem as fronteiras, perdem muito de
sua fora n'essa mesma diviso.

--Com que ento no se fala por ora em guerra! disse de improviso a
morgada ouvindo abrir a porta do quarto d'Augusta.

O fidalgo j no teve tempo de responder porque sentiu na sala os passos
da menina.

--Ento no ha guerra? exclamou Augusta com graciosa innocencia.

--No ha, no ha, respondeu amavelmente o fidalgo; a no ser a do nosso
voltarete.

E continuou, convidando a morgada a sentar-se:

--Permitta-me vossa senhoria, senhora morgada que eu continue a assestar
a bateria dos codilhos contra a muralha de _preferencias_ do nosso
reverendo. Ento, padre capello, quer sentar-se?... Em que estava
pensando to absorto?

--Estava pensando que se no puderem entrar pelo litoral, podero entrar
por Chaves, porque o castello est desmantelado, disse o capello com a
maxima impudencia ou com a maxima velhacaria.

--O qu?! perguntaram todos a um tempo, incluindo Augusta, que pareceu
fulminada de raio.

--Ah! sim... isto  quando elles entrarem. Vamos l fazer a partida.

      *      *      *      *      *


III

Pomba que presente sangue

A morgada das Chs passou agitadamente essa noite, e do inquieto cogitar
na solido do seu quarto resultou levantar-se decidida a partir n'esse
dia com a neta.

O padre capello negociou as cem moedas... comsigo mesmo, dizendo que as
obtivera d'um proprietario mediante o desconto dos juros d'um semestre
adiantado.

Partiu a morgada, de manh, para o Porto, acompanhada por Augusta,
depois de haver entregado as chaves da sua casa ao capello, que tinha
nos labios um sorriso de alvar alegria. Tambem a morgada estava radiosa
do duplo jubilo de poder respirar desopprimida da sombra d'aquelle
homem, e de ir collocar sob o amparo paternal a neta querida do seu
corao. Nas faces d'Augusta havia egualmente um reflexo d'intimo
contentamento, no s porque a aproximavam dos paes, mas porque a
levavam para os braos do irmo, a quem ternamente estremecia, e com o
qual permutava cartas diarias perfumadas das mais suaves fragrancias do
amor de familia.

A menina contava quinze annos, como j sabemos; o irmo, que se chamava
Jos Maria, tinha dezeseis. Estas duas creanas eram filhas do capito
do exercito Graa Strech, que em 1809 morava  rua nova do Almada[2].
O appellido Strech inculca  primeira vista procedencia
estrangeira, e realmente  d'origem germanica. O pae do capito Graa,
allemo de nascimento, fra capito de navios, e tivera por ultimo um
modesto estabelecimento commercial em Cima do Muro. Os dois filhos de
Graa Strech nasceram porem  rua Direita, na casa que divide a rua de
Santo Ildefonso da rua de Santo Andr, e onde elle morra durante os
annos de 1793 e 1794.

Augusta era tudo o que se pde imaginar de graciosamente feminil na
poca em que nos  dado conhecel-a. O pintor que quizesse retratal-a
facilmente lanaria  tela os cabellos loiros, naturalmente annelados;
os olhos d'um azul suavissimo como os mais formosos horizontes; as faces
d'uma brancura levemente rosada; a estatura _mignonne_,--tudo quanto
pde haver de mais correcto e dce em figura de mulher. Mas a
difficuldade estaria seguramente em reproduzir no retrato a meiga
morbidez dos lirios que se abrem ao desabrochar da manh. E n'ella
brotava a mulher das graas da creana, como um lirio  luz da aurora.

Jos Maria era uma organisao inteiramente opposta  de sua irm.
Dir-se-ia que ella havia nascido para rosa, e elle para roble; ella para
succumbir, e elle para luctar. Desenhavam-se no seu corpo de dezeseis
annos os contornos athleticos d'um spartano. Olhos vivos, e pretos como
os cabellos; talhe esbelto, maneiras sacudidas e ageis. Pois que elle
era a fora e Augusta a brandura, affigurava-se providencial essa
disparidade de constituies, e at de genios, para que a flr pudesse
ser protegida pela sombra do roble.

Quando a morgada das Chs chegou ao Porto, entrou-se de profundo
arrependimento por ter feito vingar a sua resoluo. Em casa da familia
Strech era grande a tristeza. O pae e o irmo[3] estavam no
exercito, e portanto a tristeza provinha da anciedade com que o azar dos
combates alvoroa sempre as familias dos militares.

--Eu trouxe Augusta, dizia a morgada, chorando,  filha, para que, se
houvesse de correr perigos, no ficasse o meu corao atormentado de
medonha responsabilidade; porque mais facilmente saberia aqui noticias
do pae e do irmo do que nas Chs; e porque finalmente o Porto
offerecia maiores garantias e segurana do que qualquer outra terra.

De feito, a cidade do Porto era julgada inexpugnavel, e a ella se
acolhera grande parte da populao do Minho,  medida que os
acontecimentos da guerra se iam desdobrando.

Tratemos de saber quaes foram.

Os francezes, impossibilitados de seguir o caminho do litoral, que lhes
tinha sido ordenado, marcharam para Traz-os-Montes no proposito de
entrar em Portugal pelo valle do Tamega. No dia 8 de maro estavam as
avanadas francezas  vista de Chaves, que no dia 10 foi sitiada,
rendendo-se no dia 12. O marechal Soult, vendo-se impossibilitado de
guardar os prisioneiros, despediu as milicias e as ordenanas, que
estavam dentro da praa, depois de lhes exigir juramento de que nunca
mais pegariam em armas. As praas da tropa de linha convidou-as a
bandearem-se no seu exercito; ellas unanimemente aceitaram com o
proposito de desertar, como aconteceu.

O sonho de Soult era tomar o Porto, e para o realisar tinha nada menos
que dois caminhos: o que vae a Villa Real e o que vae a Braga. O
marechal preferiu o segundo, por ser o menos accidentado. Chegado que
fosse a Braga, s encontraria no caminho do Porto a difficuldade da
passagem do Ave em Santo Thyrso. Seguiu, pois, o exercito francez para
as alturas de Barroso no dia 14. O general Bernardim Freire d'Andrade,
tendo noticia de que os piquetes francezes escaramuavam na Portella de
Avado e em Villarelho da Raia com as avanadas do general Silveira,
commandadas pelo coronel Magalhes Pizarro, tomou desde logo todas as
medidas possiveis para salvar o Porto, repartindo as suas pequenas
foras por Salamonde, Ruives, Salto e Ponte do Cavez, guarnecendo a
raia, e mandando occupar Amarante o brigadeiro Victoria, a cujas ordens
militavam o capito Graa Strech e seu filho.

No dia 15 foi Freire de Andrade insultado pela populao de S. Gens,
quando voltava de visitar os postos entre Braga e Ruives. O fim a que
avisava o general portuguez era retardar a marcha do inimigo sobre
Braga, quanto lhe fosse possivel, para dar tempo a que d'aquella cidade
sassem para a defeza do Porto as munies e o laboratorio. Depois de
haver expedido ordem ao brigadeiro Victoria para se internar no
Porto, recolheu-se Freire d'Andrade no dia 17 a Braga, encontrando por
todo o caminho vestigios da grandissima exaltao popular, que se
levantra mal que soou a noticia da aproximao dos francezes. Dado o
signal de rebate, o povo do Minho sau em turbamulta a esperar o inimigo
em Carvalho d'ste, e outros logares convisinhos, armado de chuos,
fouces roadouras, e mais instrumentos proprios do seu uso.

Em Carvalho d'ste houve brodio geral, constante de po e vinho, a
expensas d'alguns particulares patriotas, o que no obstou a que um dos
membros da sordida junta de segurana apresentasse o rol das despezas.
Procedendo-se a uma collecta geral, que foi voluntariamente paga, ficou
o povo duplamente esfomeado, porque a contribuio parece que s
aproveitou  junta de segurana.

Avisinharam-se, finalmente, os francezes da cidade de Braga, e
conhecendo Freire d'Andrade, no dia 17 em que ali entrou, que era
impossivel qualquer defeza, mandou retirar pela estrada do Porto,
resolvido a embargar denodadamente o passo ao inimigo n'essa marcha.

Todavia o povo, suppondo-o traidor por no se haver empenhado em aco
geral com os invasores, sau-lhe ao encontro em Carapoa, e j ahi seria
morto se lhe no valesse Antonio Berardo da Silva, commandante de uma
brigada de ordenanas.

Removido o inesperado perigo, seguiu o general seu caminho, mas
encontrando-o as ordenanas de Tabosa, prenderam-n'o e conduziram-n'o a
Braga, onde, chegado que foi  priso do Aljube, a populaa desenfreada
o arremessou pelas escadas abaixo, acabando de matal-o s chuadas.

Subsequentemente foram tambem immolados  sanha popular, em Braga, o
quartel-mestre general de Bernardim Freire, Custodio Gomes Villas Boas,
o corregedor da cidade, Bernardo Jos de Passos, e outros; e em Santo
Thyrso, D. Joo Correa de S e Manoel Ferreira Sarmento.

No mesmo dia da morte do general Bernardim Freire de Andrade tomavam os
francezes posio em frente de Carvalho d'ste, sendo repellidos no
primeiro ataque.

O baro d'Eben commandava as nossas tropas, com as quaes se havia
bandeado a gente das aldeias convisinhas. Entre a populaa contavam-se
os criados da quinta das Chs que desampararam o padre capello, sempre
prompto a castigal-os, e odiado por elles.

Pelas onze horas da noite chegaram, para reforar o posto, a legio de
Salamonde e duas companhias do regimento de Vianna. Soldados e povo
estavam famelicos. Durante a noite um magote de populares, engrossado
pelos criados da morgada, bateu ao porto da quinta. Ao primeiro
chamamento no respondeu ninguem; ao segundo assomou a uma das janellas
a cabea silicosa do padre capello.

--Po e vinho! gritou a turba.

--No est c a senhora morgada, tartamudeou o reverendo.

-- o mesmo; abra a porta, contestou o gentio.

Como porm a impaciencia da turba fosse muita, a populaa metteu a porta
dentro a tempo que o padre atravessava o pateo de lampeo em punho.

Um dos populares vibrou-lhe uma chuada que o prostrou, e logo outro,
que era criado da casa, acrescentou:--Vamos  _burra_ do padreca; no que
fr da senhora morgada no se toca.

No dia seguinte atacou o inimigo novamente Carvalho d'ste, e no dia 20
voltou ao ataque, apparecendo em grande fora.

Parece que a Providencia havia aconselhado a morgada das Chs a fugir de
um ponto onde a lucta foi mais renhida, porque, posto que os populares a
respeitassem, o inimigo caiu no dia 20 em forte columna sobre Carvalho
d'ste, empenhando-se ataque geral, e sendo desesperada a posio dos
nossos, que fugiram em grande confuso, acossados muito de perto pela
cavallaria franceza.

No pateo da quinta das Chs tinham os nossos quinze barris de polvora
que, no podendo ser salvos, por estar muito proximo o inimigo, foram
incendiados por ordem do baro d'Eben, perecendo oito homens na execuo
d'esse servio.[4] As chammas, enleiando-se pelos alpendres
encostados ao edificio, acabaram por envolvel-o, e, horas depois dos
francezes entrarem em Braga, e a tempo que o povo enfuriado matava
os presos encarcerados no Aljube, ardia, chammejando como fornalha
enorme, o solar das Chs, a duas leguas de distancia da cidade invadida.

A noticia da tomada de Braga s se soube no Porto no dia 22, quer dizer,
quarenta e oito horas depois.

Havia dias que o brigadeiro Victoria se tinha internado n'esta ultima
cidade com as suas foras, por ordem do agora fallecido Bernardim Freire
de Andrade. Como j sabemos, o capito Graa Strech e seu filho
militavam s ordens deste brigadeiro. Portanto, teve Augusta occasio de
abraar o irmo e o pae, que procuraram serenar com palavras de carinho
e conforto os receios do angustiado corao da menina.

A morgada, quando soube que os francezes tinham rompido por Carvalho
d'ste sobre Braga, apesar de ignorar os pormenores da lucta, a morte do
capello e o incendio do solar, agradeceu ao anjo da guarda a inspirao
da resoluo tomada.

N'esse mesmo dia foi o Porto theatro de lastimosas scenas.

Conhecida a derrota de Braga, dirigiu-se a populaa  cadeia da Relao,
reclamando a entrega dos presos da Inconfidencia, e arrancando para fra
dos muros do carcere o brigadeiro Luiz d'Oliveira e mais quatorze
infelizes, que foram arrastados pelas ruas at Villa Nova de Gaya,
d'onde a gentalha ensanguentada os precipitou, do Caes da Bica, 
corrente do Douro, por haverem sido condemnados  morte pelo tribunal
popular constituido na _Porta do Olival_.

S o bispo, D. Antonio Jos de Castro, poderia, por muito respeitado que
era, conter a furia dos cannibaes das ruas, mas, provavelmente para no
incorrer no desagrado da canalha contrariando-lhe os brutaes instinctos,
deixou-a espostejar  vontade os presos da Inconfiencia.

Sua excellencia reverendissima  que se no arriscou a ser conceituado
de jacobino.

Quando a turba descia com os presos a calada dos Clerigos, ouvia-se na
rua Nova do Almada a celeuma das victimas e dos algozes.

Augusta, tremula de horror, acolheu-se nos bracos do irmo, que obtivera
licena para sair por alguns momentos do seu posto na linha de
defesa, e poz as mos supplicando a Deus que a tirasse do mundo onde os
homens se estavam despedaando como feras no serto.

S as caricias de Jos Maria lograram aquietal-a, quando a vozeria soava
mais longe, porque j a multido havia enveredado pela rua das Flores,
caminho da Ribeira.

A me e a av pareciam agonisar abraadas em estreito amplexo.

O marechal Soult, senhor de Braga, podia recuperar as suas communicaes
com Tuy ou marchar sobre o Porto, mas, como era natural, attenta a
importancia d'esta cidade e a fama das suas riquezas, optou pelo segundo
dos caminhos a tomar, porque melhor realisaria assim o seu sonho de
conquistador.

Ouamos o sr. Soriano historiando o roteiro que o marechal Soult seguiu
de Braga ao Porto: Deixando portanto em Braga a diviso do general
Heudelet, para lhe defender a rectaguarda contra as incurses do general
portuguez, Jos Antonio Botelho de Sousa e Vasconcellos, que commandava
as foras da diviso da raia, entre os rios Lima e Minho, dividiu o seu
exercito em trez columnas, a primeira marchou pela estrada de Guimares
a S. Justo, com ordem de forar a passagem do Ave de Cima e occupar o
campo do lado de Pombeiro; a segunda, commandada pelo proprio Soult em
pessoa, marchou logo direita  Barca da Trofa; e a terceira, deixando
Barcellos, para onde de Braga tinha sido mandada, tomou a estrada da
ponte do Ave. A passagem d'este rio foi fortemente disputada pelos
portuguezes, sendo a columna da esquerda obrigada a bater-se
renhidamente em Guimares, Pombeiro, Negrellos, e sobretudo n'este
ultimo ponto, onde morreu o bravo general Jardon, cuja falta muito
sentida foi pela totalidade do exercito inimigo. A marcha da columna do
centro foi interrompida na Barca da Trofa, por se ter n'ella cortado a
ponte do Ave; mas Soult, vendo o grande cumulo das nossas foras ali,
forou a passagem em S. Justo, ganhando a margem opposta. Desde ento
facil lhe foi a columna da direita fazer o mesmo, ficando assim vencida
a passagem do Ave em todos os pontos, e portanto aberto inteiramente o
caminho em direitura para a cidade do Porto, a cujos entrincheiramentos
o exercito francez chegou no dia 27 de maro.

Na tarde d'esse mesmo dia a guarda avanada do inimigo, acampado em S.
Mamede de Infesta, adeantou-se at um quarto de legua das baterias do
Porto.

Ouviu-se na cidade o fogo indicativo da aproximao dos francezes. Para
logo se espalhou o terror, no obstante terem sido organisados alguns
elementos de resistencia.

As familias que tinham os seus empenhados nas linhas de defeza,
afflictivamente receiavam os perigos de uma grande catastrophe, pois que
ainda quando a lucta fosse coroada pela victoria, havia de interpr-se
aos primeiros combates e aos louros do triumpho um mar de sangue portuguez.

Que dolorosa commoo no seria a de Augusta, que torturado soffrer nas
vascas da anciedade no seria o seu, ao ouvir estrondear  distancia o
fogo que os invasores assestavam contra as linhas de defeza, onde
combatiam o pae e o irmo! Aquellas trez mulheres, a av, a me e a
filha, ajoelhadas deante de uma imagem de Nossa Senhora, cerrando
convulsamente os olhos a cada detonao longinqua, dir-se-iam outros
tantos authmatos, empedrados pelo terror, se no fra o ciciar dos
labios e o abrir e fechar nervoso das palpebras.

Sabem como baloia a haste do lirio, quando o sopro calido da tempestade
proxima passa esfuziando por entre a folhagem das plantas que lhe
offereciam resguardo?

Tal era Augusta, lirio vasado em moldes de mulher, entre os dois
coraes amigos, o da av e o da me, que j no podiam garantir-lhe
proteco.

Conhecera o marechal Soult que era m a fortificao da cidade e m a
guarnio, e expediu no dia 28 um emissario propondo capitulao. O
emissario, para se no arriscar  morte, serviu-se de um ardil de guerra
e disse-se incumbido de negociar a entrega do exercito francez mediante
condies favoraveis.

Entrou o bispo em negociao, cuja m f, por parte dos invasores,
estava manifesta na circumstancia de continuar a ser intenso o ataque
durante todo o dia.

N'essa tarde ouviu-se subitamente grande celeuma nas ruas.
Recresceu a anciedade no presupposto de serem as avanadas francezas.

A morgada das Chs teve a coragem precisa para se aproximar da vidraa,
e viu um militar francez rodeado de grande turba de populares que
gritavam enfuriadamente: _Morra o Maneta! Morra!_

Adivinhou-lhe o corao que era um emissario, que provavelmente ia 
bateria de S. Francisco a parlamentar com o bispo. Quasi defronte das
janellas, como augmentassem as vozes de: _Morra Loison, morra o Maneta_,
o militar francez levantou ambos os braos para desfazer o equivoco. No
obstante, a populaa arremettia contra o cavallo em que elle vinha
montado, e a celeuma rugia temerosamente.

A morgada correu a abraar a filha e a neta, ajoelharam orando
fervorosamente, e longo tempo supplicaram que um raio da Providencia
illuminasse o corao do povo, para que  desgraa da invaso no
sobreviesse a furia da represalia.

O emissario francez no era effectivamente o general Loison, mas o
general Foy; com blandicias e ameaas, escriptas por Soult, vinha propr
a rendio, que foi recusada.

Com este acontecimento fechou a tarde do dia 28 tempestuosa e triste,
como se o co compartisse do luto da terra. s detonaes do trovo
respondiam as detonaes da artilharia.

    [2] Chamava-se ento rua _Nova_, porque o celebre governador
    da cidade. Francisco d'Almada e Mendona, fallecido em 1804, tinha
    transformado a antiga rua das Hortas n'esta nova rua, que tomou
    o seu nome.

    [3] Por decreto de 11 de dezembro de 1808 toda a nao foi
    obrigada a pegar em armas.

    [4] Este facto consta do relatorio do proprio baro.

      *      *      *      *      *


IV

Horrores da invaso

Durante a noite de 28 para 29 continuou to rijo o fogo, que o inimigo
logrou forar a bateria da Prelada.

Grande era o pavor da cidade, e maior foi quando se soube que sua
excellencia o bispo generalissimo se havia retirado para a Serra do Pilar.

Este facto demonstrava no s a descrena do prelado na defeza do Porto,
seno que tambem punha a descoberto a inteno de fuga, no caso de
perigo, o que realmente aconteceu.

No lastimemos a impiedade deshumana do pastor, que abandonava em to
dolorosa conjunctura o rebanho indefeso, porque basta a historia a
stygmatisal-a, mas calculemos a funesta impresso que semelhante noticia
causaria nos animos desalentados dos portuenses.

A familia do capito Graa Strech foi seguramente uma das que mais
succumbiram n'aquella tormentosa noite.

As trez mulheres estavam entregues s suas oraes e angustias,
inabalaveis no proposito de esperar a p quedo a desgraa,
verdadeiramente ss, porque os criados, que foram os primeiros a dar
rebate, fugiram, durante a noite, bandeados com outros habitantes, para
Gaya.

O capito e o filho combatiam s ordens do brigadeiro Victoria, na linha
do Bomfim, posto defensivo que,  hora da invaso, veiu a nobilitar-se
com esforados prodigios de coragem por parte do intrepido brigadeiro e
dos seus.

Umas visinhas da familia Strech, j preparadas para a fuga, instaram com
as pobres senhoras para que as acompanhassem. Segundo o seu plano,
acoitar-se-iam em Gondomar, onde diziam ter parentes lavradores.

Augusta, lavada em lagrimas, e offegante de commoo, reagiu energicamente.

--Se meu pae e meu irmo morrerem--dizia ella--deixemo-nos morrer
tambem, porque o viver sem elles seria peior que a morte. Se vencermos,
seremos as primeiras a abraal-os, a agradecer-lhes por ns e pela
patria. Elles cumprem o seu dever; e ns tambem. Elles esto no seu
posto; ns estamos no nosso. O meu corao revolta-se contra a ideia de
levarmos o egoismo da nossa vida at ao esquecimento de que temos dois
soldados nas linhas de defeza. Muito obrigada, minhas amigas, mas minha
me e minha av so da mesma opinio, e ficaremos todas. O perigo, se o
houver, repartido por trez ser menor. Vo, no percam tempo; oxal que
nos tornemos a vr...

E despediram-se, chorando e soluando, como se se despedissem para a
eternidade.

Ao alvorejar da manh foraram os francezes as baterias de Santo
Antonio, Pedral e Aguardente.

A cavallaria inimiga, entrando a dois de fundo pelas ruas da cidade,
correu a atacar pela rectaguarda as baterias que resistiam ainda.

Uma das que por mais tempo, e mais heroicamente resistiram, foi a do
Bomfim.

J quando era grande a confuso em todo o circuito, destacou o
brigadeiro Victoria para o exterior da linha a gente que lhe restava da
legio lusitana, e mais duas partidas na fora total de cem homens.

O brigadeiro, o tenente coronel Champalimaud, o ajudante da praa de
Valency, Antonio de Azevedo, e o capito Graa Strech corriam
denodadamente de um lado a outro animando o povo, que ali confluira, e
que esperava poder fugir protegido por duas baterias, as quaes no s
defendiam a rua do Bomfim mas at as baterias de Campanh.

Outro tanto no aconteceu no lado esquerdo da linha, commandado pelo
brigadeiro Antonio de Lima Barreto.

Logo pela manh o immigo comeou a atacal-o com energia; Barreto,
perdendo algumas baterias, voltou-se para os artilheiros dizendo-lhes:

--Encravem as peas. Retirem-se. Estamos perdidos.

Os soldados, ouvida a ignara apostrophe, metteram-lhe duas balas
no corpo, e despejaram a ultima polvora contra o inimigo.

Quando a cavallaria franceza, forando a bateria d'Aguardente, entrou na
cidade, as ordenanas, desamparados os postos, fugiram tumultuariamente
para a ponte pelas ruas da Sovella e nova do Almada.

A morgada, ouvindo o estridor dos fugitivos, ainda longinquo, correu 
janella, e reconheceu  distancia as ordenanas.

--Que ? perguntaram-lhe anciosamente a filha e a neta.

--No  nada;  o povo que se affez a correr e a gritar, respondeu a
morgada, tranquillisando ambas.

Como porm a massa enorme rolasse j mais perto, ouviram-se
distinctamente vozes de:

--So os francezes!

--Vem ahi!

--Fujam! fujam!

-- ponte!  ponte!

--No ha outro caminho!

--Depressa!

Augusta, que tinha chegado a meio da sala, recuou espavorida, e
deixou-se cair nos braos da me, gritando dolorosamente:

--Ah! meu pae!... meu irmo!

Os francezes, entrando na cidade, levaram de roldo adeante de si a onda
allucinada dos fugitivos que procuravam salvar-se. D'elles, uns tomavam
a direco da Foz, outros, em maior numero, corriam para a Ribeira, na
ancia de atravessar para Villa Nova. Alguns passaram o rio a nado ou em
barcos. Mas o grosso da multido, enovelando-se n'uma vertiginosa
confuso de pavor, rolou sobre a ponte, cujo taboleiro assentava, de
espao a espao, sobre um renque de lanches. E as primeiras pessoas que
conseguiram transpol-a abriram, logo que se julgaram a salvo, os
alapes da ponte--systema de defesa empregado em casos
extremos--pensando preparar assim um desastre aos francezes que as
perseguiam.

Novos fugitivos, onda sobre onda, empurrando-se uns aos outros, cegos de
desespero, loucos de medo, iam caindo pelos alapes ao rio, e a
dizimada cavallaria portugueza, fugindo tambem, e procurando a ponte,
maior presso fazia ainda sobre a grande massa de povo, pisando-a,
atropellando-a, empurrando-a com os cavallos para o sorvedouro
hiante onde centenas de pessoas desappareciam, ao mesmo tempo que as
baterias de Villa Nova, vendo os francezes descer a rua de S. Joo, iam
metralhando a Ribeira, e augmentando involuntariamente o terror e o
morticinio.

Diz-se que eram tantos os mortos, que, empilhados no vacuo dos alapes,
nivelaram o pavimento da ponte, facilitando passagem aos ultimos
fugitivos por cima de rumas de cadaveres sobrepostos uns aos outros.

Os proprios invasores se commoveram com esta horrorosa tragedia, e ainda
puderam salvar da morte algumas pessoas.

Depois, lanando pranchas sobre os alapes, passaram para Villa Nova,
d'onde facilmente desalojaram as nossas baterias.

Saibamos agora qual seria a sorte do capito Graa Strech e da sua
familia n'essas crudelissimas horas da invaso.

Esteve o capito ao lado do brigadeiro Victoria, na bateria do Bomfim,
at aos ultimos momentos em que a ambos, e a poucos mais, foi dado
combater pela patria.

O que  certo, e a historia o refere,  que puderam proteger a retirada
de mais de seis mil pessoas, que se evadiram por aquelle lado da cidade.

Abrigados os restantes valentes por um muro, que se levantava no outeiro
do Bomfim, lograram continuar o fogo com desesperado denodo.

Foi realmente heroico esse render-se de heroes, quando, desamparados de
todo o soccorro, enviaram ao inimigo a ultima metralha que lhes restava.

O brigadeiro Victoria, conhecendo insustentavel a posio, apertou a mo
do tenente coronel Champalimaud, do ajudante Antonio de Azevedo e do
capito Graa Strech, dizendo-lhes com voz tremula de commoo:

--Meus amigos, meus bravos amigos, o sacrificio da nossa vida nada
aproveitaria  patria, que est invadida. Fizemos o nosso dever;
pelejmos emquanto pudemos. Agora que cada um procure salvar a sua vida
para quando mais util possa ser  terra em que nascemos.

Mal acabava de dizer estas palavras cahiam feridas duas pessoas
das que rodeavam o brigadeiro: o commandante dos artilheiros e o capito
Graa Strech.

--Que foi? perguntou Victoria.

--Foi a ultima arcanhadura dos francezes, responderam a um tempo os dois
bravos militares.

Era necessario retirar; por Campanh j no podia ser. Optaram por
atravessar o Douro, que o brigadeiro e alguns officiaes conseguiram
passar defronte d'Avintes. N'esse numero porm no podemos incluir o
capito Graa Strech.

Ferido no peito, se bem que houvesse dissimulado a gravidade do
ferimento, conheceu que era perigoso o seu estado. Foi ento que se
lembrou da filha, da esposa, da sogra, e do filho, que havia duas horas
tinha perdido de vista.

Que seria d'ellas, pobres mulheres, entregues sem proteco aos horrores
d'aquelle dia? E o filho, que se batera como valente na bateria do
Bomfim, haveria ficado entre os muitos que l succumbiram, e adormeceram
sobre a terra embebida no sangue de seus irmos?

No sabia.

Oh! mas era preciso que o soubesse antes que se lhe fechasse em torno a
noite escura da eternidade. Pouco lhe importava morrer; o que elle
queria era obter a certeza de que a embriaguez da victoria no tinha
desvairado os invasores ao extremo de no respeitarem fracas mulheres
indefesas.

Ainda se restasse vigoroso o brao do filho para amparar o golpe que
fosse vibrado contra ellas!

No o pde suppr; julgou-o morto nos derradeiros momentos da refrega,
por que o no tornou a vr.

Atravessar o Douro era arriscado; tentar internar-se na cidade, tambem.
Todavia o primeiro meio era a morte no desespero; o segundo podia ser a
morte com a esperana.

Abraou-se pois a esse unico esteio que lhe restava--a esperana, de
poder abraar os seus.

Arrancou os vivos da farda, e, esquecido de si, e do sangue que cada vez
lhe repuxava do peito com maior intensidade, tentou descer a rua do
bomfim e bandear-se em logar azado com a turba dos que percorriam as
ruas desvairadamente.

Do militar que fra, arrancados os vivos e emblemas, s lhe restava a alma.

Poucos passos andados, sentiu porm que lhe a fugindo a vista,  medida
que empenhava as ultimas foras para adiantar caminho.

Ainda mais uma vez enganra a coragem do soldado o corao do pae.

Quiz andar. Fraquejaram-lhe as pernas, e Graa Strech procurou com a mo
um amparo que no encontrou.

Aps um momento de oscillao, ruiu em terra. Estava morto.

Entretanto havia occorrido a enorme desgraa da ponte, e os invasores,
enfurecidos pela resistencia que encontraram, iam encetar as tremendas
represalias que esto na memoria de todos os portuenses.

Infelizes os que tiveram de assistir hora a hora a esse drama de sangue
e terror que teve por bastidores os muros d'uma cidade inteira.
Infelizes os que viram despedaar-se momento a momento nas garras dos
cannibaes os at ento immaculados thesouros do seu corao. Infelizes,
finalmente, os que viram cavar-se a seus ps a sepultura ingente de
milhares de familias e no puderam enchel-a com o sangue dos que
assassinavam em nome da victoria.

Jos Maria da Graa Strech pertence ao numero d'estes grandes
desgraados, que foram muitos.

Quando a bateria do Bomfim protegeu a fuga de seis mil pessoas, j
quando, depois das oito horas da manh, era desesperada a situao dos
portuenses, duas senhoras, que se destacaram da multido desorientada,
acenaram ao denodado moo que por acaso olhra na direco que ellas
seguiam.

Elle reconheceu-as. Eram as duas visinhas que horas antes tinham
convidado Augusta a acompanhal-as na fuga e que, arrastadas pela onda
impetuosa dos que procuravam salvao, chegaram at ao Bomfim.

Abeirou-se o moo a falar-lhes, por um momento radioso de felicidade,
porque lhe acudira a lembrana de que as pessoas da sua familia as
haveriam acompanhado. Oh! se sua irm, se a estremecida menina estivesse
ali, poderia fugir incolume aos horrores que elle presagiava imminentes,
attenta a vantagem do inimigo em toda a linha.

--Ellas vieram? perguntou aodadamente Jos Maria.

--No, teimaram em ficar, respondeu confrangida uma das senhoras.

--Oh! meu Deus! exclamou o filho do capito Strech levando a mo ao
corao.

--Veja se pde salval-as, salve-as por Deus, que esto ssinhas,
desampadas de criados...

--Mas como? Como?! articulou o moo estendendo o brao para a posio do
inimigo, como se quizesse indicar que era preciso combater a todo o transe.

--Augusta, a pobresinha, fazia d! Oh! salve-a, salve-a, que ella
morrer de pavor! acrescentou a outra visinha.

--Augusta! Augusta! repetiu Jos Maria, perplexo, olhando para as duas
lacrimosas mulheres e para os seus companheiros d'armas que defendiam 
distancia a unica bateria que no se tinha rendido.

E, sem se mover do sitio em que empedrra, dizia com desalento:

--Pobresinhas! E meu pae ali, exposto  morte a todo o instante, e ellas
sem defeza, sem ninguem!...

Ento, aproveitando a opportunidade d'um momento, ordenra o coronel
Champalimaud que se dsse passagem ao magote dos fugitivos que mais se
tinha adiantado.

--Vo, vo, gritou o moo affastando com o brao as duas
mulheres--Salvem-se ao menos, e obrigado, muito obrigado. Eu verei se as
posso salvar... a ellas, a Augusta.

O troar proximo do canho pareceu chamal-o  realidade do perigo.

--So elles, disse de si para comsigo, correndo na direco da bateria,
os poucos que n'esta hora se sacrificam pela patria. E tambem ho de ter
me, e irm... e esto ali, firmes, corajosos, heroicos. Oh! cobardia do
meu corao, no, no te posso, no te devo ouvir...

E no tardou que se collocasse ao lado dos seus esforados companheiros.

Todavia cada vez se aproximava mais o lastimoso desfecho d'aquella
desesperada resistencia. Comeava a lavrar a confuso na bateria,
fustigada por violento fogo dos francezes--indomito ataque, de que
em breve foi victima, como j dissemos, o proprio capito Graa Strech.
Tamanha era a fumarada, que j se tornava impossivel verem-se uns aos
outros. Foi ento que Jos Maria, involto na cerrao da metralha,
conhecendo que era impossivel prolongar por mais tempo aquella proeza de
bravos patriotas, se lembrou de que nada aproveitaria  causa da patria
o sacrificio da sua vida. E soaram-lhe aos ouvidos as palavras
afflictivas das duas mulheres, e sonhou ver estenderem-se para elle os
braos tremulos d'Augusta, que pedia soccorro.

Ento, como se o corao houvesse decretado uma sentena irrevogavel,
cortou resolutamente o fumo da polvora, e affastou-se da bateria,
murmurando os nomes de sua me, de sua irm, de sua av.

Momentos depois foi que o brigadeiro Victoria fugiu tambem, e que o
capito Graa Strech caiu morto na rua do Bomfim.

Trabalhoso e arriscado foi o abrir caminho por entre a multido que,
semelhante a um grande mar, ondulava no vertiginoso fluxo e refluxo do
desespero. Algumas vezes teve de se esconder, outras de retroceder, e s
pela tarde chegou  rua nova do Almada.

Abroquelado pela energia da coragem, e mais feliz ou mais infeliz que
seu pae, venceu todas as contrariedades, at que finalmente, escoando-se
por entre os grupos desvatrados, entrou em casa no momento em que ao
fundo da rua assomavam tropas francezas que, senhoras de toda a cidade,
continuavam o saque, as violaes e a carnificina que tristemente
assignalaram esse dia memoravel nos fastos da nossa historia.

      *      *      *      *      *


V

O juramento de vingana

As casas da rua nova do Almada estavam pela maior parte desertas.

Foi esta uma das ruas que mais lutuoso espectaculo offereceram. Os
habitantes fugiram deixando abertas as portas, de modo que,  hora em
que comeou o saque, os francezes se locupletaram tranquilamente. Poucos
foram os predios que lhes deram o breve incommodo de forar a entrada. A
este numero pertenceu, porm, a casa onde se conservou, entregue aos
seus pavores, a familia Strech. Jos Maria, ao entrar aodado pela
aproximao dos invasores, appellou para o ultimo recurso de defeza que
lhe restava: fechou a porta. Lembrou-se de que os francezes se
domiciliariam nos predios devolutos e de que no porfiariam em forar
uma entrada encontrando abertas tantas portas. No pde imaginar n'esse
momento de suprema preoccupao que meditassem a pilhagem e a
carnificina que, passadas horas, consummaram.

Correu, pois, a procurar a irm, a me e a av, que, ouvindo passos
apressados, e no presupposto de serem os de algum soldado francez,
romperam em gritos angustiosos, traindo d'este modo o segredo dos seus
esconderijos.

--Augusta! Augusta! Minha me! Avsinha! apostrophou precipitadamente
Jos Maria para serenal-as e correndo pelo corredor.

--Jos! Jos! exclamou uma voz que parecia soar das profundezas de um
tumulo.

E logo dois braos tremulos de commoo enleiaram o moo, e uns labios
gelados de mortal frialdade lhe procuraram as faces, e um novo grito de
dolorida alegria lhe estrugiu aos ouvidos.

E immediatamente soaram passos, que elle conheceu: a me e a av,
seguindo a pobre menina que as precedera, correram ao encontro de Jos
Maria.

Augusta, apertando-o contra o peito, alternando beijos e olhares por
egual frementes, porque o sangue congelado no corao parecia, acordado
de subito, correr em turbilhes ao cerebro, no lograva articular
palavra, to violenta era a sensao que estava experimentando.

No assim, porm, sua me, que, parando como que fulminada  porta,
tivera comtudo voz para perguntar ao filho enleiado pela irm:

--E... teu pae?

--L ficou ainda a combater com os ultimos valentes. Bem pde ser que a
Providencia o tenha salvado como a mim me salvou. O cobarde fui eu, sim,
fui eu, porque me lembrei de ti, minha irm, e de si, minha me, e...

No pde completar a phrase, porque de repente foi chamado  realidade
pelo estrepito que a soldadesca franceza fazia na rua.

--Retirem-se! escondam-se! gritou elle. So os francezes, bem os vi, so
elles! Esconde-te, Augusta, minha me, minha av...

N'este momento estremeceu o predio nos alicerces como se a porta tivesse
soffrido o embate de um ariete.

--Que ? Onde ? perguntou offegante a menina, que de novo descorra at
 lividez do cadaver.

--So elles que foram a porta, naturalmente... Eu fechei-a quando
entrei, sim, eu fechei-a.

--E estava aberta! Foram os criados quando fugiram! acrescentou a av.

--Escondam-se, escondamo-nos todos. Viram-me decerto entrar.
Perseguem-me! tornou afflicto Jos Maria.

E, aps segundo estrondo, soaram no portal e na escada os passos da
soldadesca que entrava.

Das quatro pessoas que estavam na sala, nenhuma pde fugir; todas como
que ficaram chumbadas ao pavimento.

E os francezes entraram vozeando, praguejando, e logo assomaram  porta
muitas cabeas cujos olhos chammejavam de cubia e sensualidade.

Ento Jos Maria, como galvanisado de subito, adeantou-se para a porta,
estendendo o brao para defender as trez mulheres e, quando ia
talvez a balbuciar uma supplica, caiu desamparado, vibrando um grito e
recebendo no peito a ponta de uma bayoneta, cujo golpe fra mais
doloroso que profundo.

As vozes das trez mulheres, conglobadas n'uma s, soltaram uma d'essas
exclamaes impossiveis de descrever, apenas comparavel ao grito
lamentoso da araponga no deserto, quando encontra vazio o ninho, porque
uma ave de rapina lhe arrebatou a prole.

E a soldadesca entrou de roldo na sala, affastando com o p o corpo de
Jos Maria, sedenta de prazer e rapina.

Para os que suppozerem que exageramos com toques demasiado sombrios os
horrores que se succederam  invaso do Porto, vamos copiar apenas
algumas linhas da _Historia da guerra civil_, de Soriano:

Para cumulo de todas estas desgraas a cidade foi posta a saque, por
castigo da sua resistencia, como em casos taes se costuma praticar,
saque que comeou pelas onze horas do dia, levando os vencedores a todas
as casas de habitao, a par do terror que infundiam, o roubo, a
violao e a morte, excitados de mais a mais para isto por encontrarem,
segundo alguns dizem, varios prisioneiros francezes sem olhos, com
linguas cortadas, e os membros truncados ou rasgados.

Alguns escriptores o dizem, em verdade; um d'elles  o sr. Claudio de
Chaby que, nos seus _Excerptos historicos_, refere:

No transito das ruas e praas encontraram os soldados de Soult alguns
dos seus camaradas, que nas differentes refregas tinham os nossos
aprisionado, exercendo n'elles as sevicias da mais repugnante crueza: a
uns tinham cortado a lingua, arrancado a outros os olhos ou decepado os
membros!--O effeito natural da observao de taes crueldades, junto 
tambem natural disposio de espirito dos invasores em taes
circumstancias, levou estes  pratica de vingativos e deploraveis
excessos, de _assassinato, roubo, violencia e profanao_!

O mais que se passou na casa da rua nova do Almada, depois que a
soldadesca entrra, no o soube exactamente Jos Maria que, ao cerrar da
noite, tornra a si, depois de haver perdido muito sangue pelo
golpe que recebera no peito. Foi de tempestade na terra e no co essa
noite, como podem confirmar os poucos que se lembrarem d'ella.

Tamanho era o temporal havia dias imminente ao Porto, que trinta navios
inglezes, carregados de vinho e outros productos, impedidos de sair das
aguas do Douro pelo mau estado da barra, caram em poder do marechal
Soult, bem como a polvora guardada n'um vasto armazem, e 196 peas de
artilharia, recolhidas nas differentes baterias da cidade.

Algum tempo esteve Jos Maria firmado sobre o brao direito, que
d'instante a instante fraquejava, procurando orientar-se e recordar-se.

Era profundo o silencio na casa toda.

Dir-se-ia que despertava n'um tumulo.

Assim que pde rememorar o que se passra at ao momento de ser ferido,
entrou de chamar em altas vozes a irm, a me e a av.

Apenas porm respondia s suas afflictivas exclamaes o chofrar dos
aguaceiros nas vidraas.

Ergueu-se com muito custo, atabafando o sangue com a roupa, e comeou a
sondar a escurido, procurando alguem.

No tardou que tropeasse n'um obstaculo que os ps encontraram.
Curvou-se e tacteou. Encontrou vestidos de mulher. Estendeu a mo e
apalpou um rosto. At pelo tacto conhecemos os nossos. Jos Maria
estremeceu como se tivesse recebido em pleno peito um novo golpe de
ferro, e rugiu d'afflico e desespero. No podia duvidar. Era o rosto
de sua irm. Parecia morta! Entrou de agital-a, de chamal-a. O mesmo
silencio, a mesma immobilidade!

--Mortal morta! rouquejava elle convulso.--Minha me! minha av!

E unicamente lhe respondia a chuva a fustigar a vidraa.

Occorreu-lhe porm que, como se deu com elle, podia ser que sua irm
estivesse apenas adormecida em deliquio.

--Ella  to delicada! apostrophou-se elle. Desmaiou talvez.
Julgaram-n'a morta. Deixaram-n'a. Mas minha me? E minha av?

Era preciso tirar-se d'aquella duvida horrivel.

Sondando as trevas, sau tremendo, a procurar luz.

Momentos depois voltava cambaleante  sala e, levantando una candieiro
de lato  altura da cara, reconhecia trez cadaveres.

..........................................................................

N'essa mesma noite, e a essa mesma hora, ruidosamente se banqueteavam
n'uma taberna do largo da Lapa, ebrios de vinho e victoria, alguns
soldados da diviso Delaborde.

Comia-se, bebia-se, fumava-se, cantava-se. Era a celebrao solemne d'um
dia de saque, que requeria uma noite d'orgia. Algumas vivandeiras
francezas cantavam em cro, no idioma patrio, e reclinadas aos hombros
dos soldados, uma cano marcial, cujo estribilho podia ser traduzido
d'este modo:

    Viva a Frana! viva a Frana!
    Que triumpha na matana!
              Rataplan!

Um dos soldados; de olhar scintillante e fartos bigodes retorcidos,
chasqueava na sua lingua natal com uma das vivandeiras que se lhe queria
escapar dos braos:

--Oh! Por Deus, que era bem mais bonita do que tu!

--Quem? perguntou d'esguelha a vivandeira.

--A portugueza que me resistiu.

--E que tu mataste?

--E que eu matei para que no deixasse de resistir a outro.

--A pobre rapariga!

--Pobre rapariga! d'aquella edade deve ter morrido pura! Tu no morres
assim, _ma petite chienne! Par Dieu!_

--Cruel!

--E o caso  que quasi do mesmo golpe derrubei as duas mulheres que a
defendiam e abraavam. Um soldado do imperador livra-se depressa ainda
que seja d'um cento de mulheres.

--Cheiras a sangue! exclamou a vivandeira forcejando por desprender-se
dos braos do soldado.

--Acodes pelo teu sexo! O que me no perguntas  quantos homens matei!
Por Deus! que era precisa a vingana. Estes perros d'hespanhoes, que se
chamam portuguezes, no nos queimaram a alma porque no puderam.
Atiravam-nos desesperados! E matavam os nossos emissarios! e mutilavam
os nossos irmos! Quantos centos de francezes imaginas tu que morreram
hoje? No se mata impunemente um francez como se mata um co. E desde
que entrmos em Portugal quantos no teem ficado para nunca mais voltar
a Frana! Vingmol-os; esto vingados! _Vive l'empereur! Vive le
marechal! Vive la France!_

E voltando-se para outra das vivandeiras, que estava proxima, jogou-lhe
esta phrase intimativa:

--Esta  minha; canta tu.

E logo, por entre a vozeria, se ouviu cantar;

    Viva a Frana! viva a Frana!
    Que triumpha na matana!
              Rataplan!

..........................................................................

Aquelles cadaveres eram os das trez senhoras da familia Strech.

Jos Maria esteve contemplando-os mudo, absorto, authomatico. Dir-se-ia
que a intelligencia se lhe havia paralysado, e o corao havia
adormecido. Era um deliquio, como o que fra consequencia do ferimento,
mas muito mais horroroso de certo, porque os olhos tinham vista para a
realidade, embora o cerebro no tivesse actividade para comprehender.

Parecia que as trez pobres senhoras dormiam tranquillamente, se bem que
o desalinho dos vestidos e dos cabellos fosse claro indicio de lucta.

Jos Maria ajoelhou-se, poisando a luz, a contemplal-as e, porque o
corao humano  to valente s vezes que se excede a si mesmo, resistiu
quella dr incomparavel e quiz ainda procurar nas ruinas do seu
pensamento o auxilio de uma ideia.

N'aquella immensa e tenebrosa cerrao era preciso um raio de luz, ainda
que fosse sinistro como os clares sulphureos dos mysticos paineis que
representam o inferno.

E verdadeiramente infernaes foram os horrores d'esse dia.

Se o leitor, apesar das indicaes historicas de que me tenho
soccorrido, imagina que estou phantasiando negruras para architectar um
romance tenebroso, achar no seu proprio espirito a convico da
verdade, se se concentrar por um momento deante do tosco e funebre
quadro, allusivo  invaso dos francezes, que pende da muralha da
Ribeira, a dois passos da ponte pensil.

Ahi,  luz das lanternas que descrevem na escurido da noite duas zonas
luminosas, ouvindo o ruido triste do Douro que lhe rola aos ps, vendo a
pequena distancia erguerem-se ao ar, como outros tantos espectros
sombrios, as armaes dos navios fundeados, ahi, dizia eu, comprehender
todas as angustias, hoje esquecidas, d'essa epoca de horror, traduzidas
na concisa simplicidade d'esse piedoso monumento.

A inscripo do quadro nem por singela deixa de convidar  meditao:


    Pelas almas dos que falleceram na ponte do rio Douro na
    entrada dos francezes no anno de 1809, um Padre Nosso e
    uma Ave-Maria.


Ali fui eu muita vez, pela calada da noite, como a procurar a triste
inspirao para escrever as primeiras paginas da historia da familia
Strech. Estes horrores podero hoje parecer sinistramente romanticos,
mas uma hora s de recolhimento em face do quadro da Ribeira basta a
acordar em ns a consciencia historica d'essa epoca calamitosa.

Para os que morreram na catastrophe da ponte pede o rotulo uma orao,
mas quantos no morreram ento sem orao e sem mortalha, quantos no
agonisaram em ancias que no foram mortaes, sem a mortalha que
desejariam, e sem uma orao de que blasphemariam!

 Providencia! s tu sabes o segredo de todas as maguas, s tu podes
contar as bagas de suor que ressumbram na fronte dos infelizes que tu
no matas logo, para que no morram em desespero sacrilego!

E Jos Maria no morreu.

Por um esforo intellectual, que s a Providencia podia permittir a um
soldado ferido, quando j as trevas da loucura procuravam
cingir-lhe o cerebro escandecido, conseguiu encontrar uma recordao, se
bem que a principio tibia e vaga como o diluculo que se vae alargando e
colorindo pouco a pouco at chammejar no co.

E tambem essa luz que se fez no espirito do pobre moo lhe queimra a
intelligencia, como se fosse labareda, mostrando-lhe as ruinas do
passado ainda fumegantes de um incendio recente.

Eram aquellas as cinzas da sua felicidade...

Estavam ali espalhadas pelo turbilho da guerra, retintas de sangue, a
clamar vingana.

E os seus beijos cariciosos e ardentes, e as suas palavras ao mesmo
passo desalentadas e calorosas no puderam, depois que inteiramente se
recordou da realidade, galvanisar os trez cadaveres, animar os trez
coraes paralysados, descerrar os labios da me, da irm e da av, para
sempre mudos, para sempre adormecidos.

--Pobresinhas!--pensava elle--deixaram-se talvez morrer por me supporem
morto! E antes eu o estivesse, que j teria soado a ultima hora da minha
triste mocidade. E mata-se assim a me, a dois passos do filho! E no se
respeitam os cabellos brancos da velhice! nem a belleza e a virtude que
teem duplo direito  vida! Mas, agora reparo eu, aqui esto patentes e
irrecusaveis os signaes da lucta...  que se disputavam o sacrificio da
morte... ou... suspeita horrivel! morreram talvez para defender a
virgindade de uma s! Dize-me,  minha boa irm,  minha doce amiga, se
isto no  um sonho atroz da minha desvairada cabea! Responde, Augusta,
sou eu que te peo, eu, o teu irmo, o teu Jos... E no fala, e no
responde! Est morta! Mataram-n'a elles, os malditos soldados d'esse
leo indomavel da Corsega para quem todo o mundo  pequeno, todo o
sangue pouco! Acaso no se saciava a tua sanha, leo, sem a vida d'estas
trez pobres mulheres, que nunca te amaldioaram, que nunca levantaram um
brado de justa indignao contra a tua ambio desmedida! Eu  que devia
morrer, sabes tu? Eu sim, porque fiz guerra de morte aos teus soldados,
porque as minhas mos cheiram ainda a polvora com que os fuzilei. Eu
sim, porque a minha morte seria uma represalia; mas a morte d'estas trez
mulheres, timidas e indefesas, no foi uma represalia, foi uma
infamia...

E, extenuado d'esta subitanea exaltao, pendeu a fronte, como se lhe
faltasse a vida para tamanha angustia, porque o sangue perdido era
copioso. Entretanto continuava a tempestade e, confundido com o
estrepito da chuva, comeou-se a ouvir o toque dos clarins nos postos
dos invasores.

Jos Maria pareceu despertar de subito, acordado por essa sinistra
linguagem dos acampamentos:

--Sois vs! Podeis estar tranquillos, que a esta hora no haver um s
brao que tenha a energia de vos acommetter no vosso glorioso descano.
Tudo so orphos e viuvas, que pranteiam cadaveres. Descanae,
descanae, que muita coragem vos deve ter custado o assassinio de
mulheres inoffensivas como estas! como todas! Oh! mas manh a vingana
acordar terrivel, e ento vos pedir contas das vossas atrocidades e
das vossas infamias. Sim, manh, ns todos, unidos por commum desgraa,
seremos um s inimigo, porque a nossa vingana  uma, mas no imagineis
que tendes a derrubar um s inimigo, porque sero muitas as cabeas a
decepar, muitos os portuguezes a vencer... Onde houver um portuguez,
haver um soldado, porque elle pelejar por desaffrontar a memoria dos
seus parentes, dos seus amigos, d'um filho, d'uma irm...

E curvando-se carinhoso para o cadaver d'Augusta, e tirando-lhe
delicadamente do dedo o annel com que ella havia morrido:

--E eu vingarei a vossa memoria, minhas santas amigas, e vingarei a tua
innocencia, minha querida irm... Por este annel o juro, que ser o meu
fiel companheiro, talvez o unico que me seja dado conservar at a hora
da morte... Beijal-o-hei antes d'entrar em combate, e elle me dar a
coragem dos valentes; elle ser a minha gide protectora se a morte me
quizer arrebatar a minha vingana..... Que Deus me oia, Augusta. Sobre
o teu annel, que nunca te desacompanhou, fao este juramento solemne,
que jmais quebrarei...

      *      *      *      *      *


VI

A mariposa do acampamento

Fra demasiado esforo para to melindroso estado.

O corpo, alquebrado pela dr physica, parecia vergar ao peso d'aquella
grande alma.

Graa Strech caminhou em direitura  porta, vacillando a cada passo, e
deixando aps si um rasto de sangue. Antes de sair, volveu ainda um
ultimo olhar aos trez cadaveres, e levantou por um instante a mo de
sobre o ferimento, apalpando o peito n'outro sitio, como para se
certificar da existencia d'alguma coisa que l trazia occulta, e que
pareceu encontrar.

Era o mao das cartas d'Augusta, escriptas da quinta das Chs, e que
elle conservra no seio durante as mais perigosas refregas na bateria do
Bomfim.

Desceu vagarosamente as escadas, amparado ao corrimo, e conseguiu a
muito custo chegar  rua.

Uma lufada de vento, humida e fria, momentaneamente refrigerou o cerebro
d'aquelle moo, em quem as mais violentas congestes parecia
succederem-se rapidamente.

Onde ia elle, ferido, cerrada a noite?

A esta pergunta, que muitas vezes se fez no decurso de sua vida, nunca
pde achar resposta satisfatoria.

O que parece mais proximo da verdade  que, no sentindo j foras e
coragem para demorar-se ali, luctasse por arrancar-se de ao p dos trez
cadaveres.

Chegado ao limiar da porta, e recebendo de subito uma lufada de ar,
impregnado d'humidade, reconheceu-se, no meio da cerrada escurido
d'aquella noite tenebrosa, inteiramente carecido d'alento para dar um
passo.

N'essa conjunctura ouviu estrepito de cavallos. Sentiu de novo
affluir-lhe o sangue ao cerebro. Eram de certo elles, os assassinos da
sua familia, que patrulhavam a cidade invadida. No se enganou. Os
cavallos que se aproximavam eram os d'uma ronda franceza. Graa Strech
estava porm desarmado, ferido, impossibilitado do menor esforo. A
ronda acercou-se, e um dos cavalleiros, que era um official portuguez
obrigado pelo direito de conquista ao triste mister d'interprete,
perguntou com voz tremula:

--Quem est ahi?

Graa Strech ficou surprehendido d'ouvir falar-lhe na lingua nacional, e
respondeu:

--Um soldado portuguez, ferido.

Demorou-se o official a falar  patrulha franceza, e apeando-se dois dos
cavalleiros ergueram o corpo de Graa Strech at a altura precisa para
poisal-o entre o aro da sella e o corpo do official portuguez.

E monotamente continuou a eccoar na rua o estrepito da ronda.

No parea extraordinaria esta piedade dos invasores para com os
invadidos no mesmo dia de to sanguinosa victoria.

O marechal Soult, que entrra no Porto na tarde d'esse dia, puzera desde
logo todos os seus cuidados em serenar os animos da populao por actos
ostensivamente meritorios.

Era este um procedimento por ventura aprendido na lio da historia
romana--o da benevola proteco aos vencidos.

Manda porm a verdade que se diga que, mal que entrou na cidade, expediu
ordens terminantes s tropas para que, sob pena de austera correco
militar, respeitassem a populao, e at a protegessem em caso de
conflicto.

Assim foi que, reprimindo os abusos da soldadesca, logrou restabelecer o
socego em toda a cidade trez dias depois da invaso, procurando
insinuar-se na opinio publica, abstendo-se de impr contribuioes de
guerra, nomeando pessoas idoneas para os logares vagos, e soccorrendo os
habitantes completamente privados de recursos.

O partido anti-patriotico, subitamente creado em redor do marechal
Soult, para logo fundou um orgo jornalistico, denominado _Diario do
Porto_, porque a imprensa tem sido desde tempos immemoriaes o
respiradouro aberto a todas as paixes, justas e injustas, nobres e
mesquinhas.

O leitor deve ficar conhecendo uma pequena amostra, sequer, da linguagem
empregada no supracitado diario. Oiamos o falsario redactor no
supplemento ao n. 2.:

Este paiz to bello, e to favorecido pela natureza, parecia no passado
governo tocado de paralysia; mas, graas aos cos, que se lhe prepara um
novo futuro, que os bons conhecedores j tinham d'antemo entrevisto!
Nada ter o Principe que dizer sobre a nossa fidelidade; nos lh'a
guardamos emquanto existiu entre ns; mas uma vez que nos deixou, uma
vez que desdenhou lanar mo das redeas do governo, que largra quando
as circumstancias lh'o permittiam, renunciou todos os seus direitos, e
nada  j para os portuguezes, que deixou ao desamparo. Em uma palavra,
a casa de Bragana j no existe; aprouve aos cos que os nossos
destinos passassem a outras mos, e foi particular predileco da Divina
Providencia, que impera sobre o universo, o ter-nos enviado um homem
isento de paixes, e que s tem a da verdadeira gloria; que se no quer
servir da fora, que o grande Napoleo lhe confiou, seno para nos
proteger e livrar-nos do monstro da anarchia, que ameaava devorar-nos.
As palavras que elle nos dirigiu, e as promessas que nos fez[5],
desde que entrou n'esta cidade, tudo se tem cumprido  risca,
muito mais do que o poderiamos esperar, e do que as circumstancias
pareciam promettel-o: porque tardamos, pois, em congregar-nos ao redor
d'elle, a proclamal-o nosso pae e nosso libertador? Porque tardamos a
exprimir o nosso desejo de o vermos  testa d'uma nao, cujo affecto
soube to rapidamence conquistar? O soberano de Frana prestar ouvidos
aos nossos clamores, e se lisonjear de ver que desejamos para nosso rei
um logar-tenente seu, e ao mesmo tempo um grande general, que a seu
exemplo soube vencer e perdoar. Seja, pois, esta grande e interessante
comarca, j que tem experimentado os effeitos da sua clemencia, e a quem
elle tem prodigalisado os seus beneficios, seja uma das primeiras, que
se glorifique de o reconhecer e de lhe offerecer os seus braos, os seus
bens e o seu patrimonio todo.

No ficaram simplesmente em louvaminhas de gazeta os salamaleques
feitos ao duque de Dalmacia. De Braga veiu ao Porto no dia 25 d'abril
uma deputao composta de trinta e seis membros do clero, nobreza e
povo, a pedir ao marechal que se dignasse fazer ver ao imperador a
necessidade de collocar um principe de sua eleio no throno que a
dynastia de Bragana deixra devoluto.

No dia immediato entrou egualmente ao palacio do duque de Dalmacia outra
grande deputao, constituida por todas as autoridades civis, clero,
deputados, nobreza, cidados, corporaes judiciaes e militares da
cidade do Porto, a repetir o pedido com viva instancia.

A deputao, acompanhada desde a casa do conselho pelos officiaes do
estado-maior general, era esperada no atrio do palacio dos Carrancas
pelos ajudantes de ordens do marechal Soult. Foi o general de diviso
Quesnel, investido nas funces de governador militar do Porto e da
provincia do Minho, quem a introduziu na sala de recepo, onde o
corregedor da comarca botou fala consoante ao estylo dos supplementos do
_Diario do Porto_.

O marechal devia estar sorrindo interiormente da versatilidade dos
portuguezes, que lhe atiravam aos ps nuvens d'incenso, recebendo-o dias
antes nas trincheiras com nuvens de polvora. Fora  assoalharmos as
nossas glorias, para sermos portuguezes, e as nossas manchas, para
sermos justos. E esta  realmente uma lamentavel nodoa que macula as
paginas da historia portugueza. Se nos no respeitmos, durante a
invaso, a boa policia de guerra, tambem a soldadesca franceza no
respeitou, na victoria, os direitos individuaes. Saldada a divida,
estavamos quites. Para a atrocidade, filha da revoluo, a represalia,
irm do triumpho. A attitude do Porto, depois de vencido, e em presena
do cavalheiroso procedimento de Soult, devia ser a da resignao
reconhecida, nunca a do servilismo infamante. Agradecer  das boas
almas; ajoelhar aos ps do usurpador  dos maus cidados. E ns fomos
ento maus cidados. Ainda bem que redimimos as nossas culpas d'um dia
com a heroicidade de cinco annos, que tantos so os que vo desde a
invaso do Porto at ao regresso das nossas tropas, coroadas de loiros.

Se o throno portuguez tinha sido abandonado pelo rei, estava porm
encimado ainda pelas armas da nao! Se no se podia amar o rei, que
fugira, devia-se defender a patria, que ficra.

Mas, disse-o Cames, e  uma profunda verdade, que

    O fraco rei faz fraca a forte gente

Perdoemo-nos a ns, porque nos rehabilitamos depois, e perdoemos ao rei,
que j hoje  do tumulo, e que no triste curso de sua attribulada
existencia mais inspira por vezes compaixo do que odio.

Mas tornemo-nos a Graa Strech, que deixmos ferido em companhia da
ronda franceza.

Fra elle transportado a um dos muitos hospitaes de sangue que se
estabeleceram nos conventos do Porto:--o convento de S. Francisco. O
servio cirurgico, na maior parte d'estes hospitaes improvisados, era
feito, por ordem do marechal Soult, pelas mulheres que acompanhavam o
exercito invasor. Uma d'ellas, conhecida entre os seus pela alcunha de
_l gentille vivandire_, recebeu o ferido e, ajudada por outras,
deitou-o no catre e comeou o curativo do ferimento com certo carinho,
que s a ordem do marechal Soult no explicaria cabalmente.

 que fez impresso a Rosina a physionomia, posto que dolorosa, serena,
do soldado portuguez. Pareceu-lhe um roble que baquera magestosamente.
No havia a menor contrao n'aquelle corpo athletico; por entre os
labios, descrados e immoveis, no se coava um gemido. Verdade era que
no era desesperado o ferimento, e que mais para recear parecia a
gravidade da prostrao que a do golpe. No obstante, o soldado, que a
espaos abria os olhos, nem uma gota d'agua pedia.

Durante a noite a vivandeira acercou-se do catre, por muitas vezes, a
escutar. Pela madrugada sobreveiu o delirio ao abatimento, e o ferido
dizia com manifesta difficuldade algumas palavras que ella no entendia.
Como, porm, de uma das vezes o visse febrilmente apalpar o peito,
comprehendeu-o, e, tirando do forro da fardeta, que lhe tinha despido, o
mao de papeis, insinuou-lh'o entre as mos. O ferido, conhecendo-o
provavelmente pelo tacto, abriu por algum tempo os olhos, e demorou em
Rosina o doce e apagado olhar. Talvez fosse este um acto puramente
mechanico e talvez no; a verdade, melhor que os medicos, a sabe Deus.

A vivandeira ficou sobremodo commovida do que a ella lhe pareceu
intencional. Apiedou-se do soldado, que tinha porventura a sua mesma
idade, e parecia guardar n'aquelles papeis uma querida memoria, como
ella, como ella n'aquella madeixa de cabellos que possuia...

Aqui entra o leitor a sentir desejos de saber a historia da madeixa.

Rosina era a filha adoptiva d'um dos regimentos da brigada Arnaud. Por
seu pai, moribundo, um dos bravos militares do exercito francez, natural
das Ardennas, aquella vasta floresta, _Arduenna sylva_, golpeada por
quatro rios, o Semoy, o Lesse, o Ourthe e o Sure, fora confiada como
precioso deposito, no campo de batalha,  velhice d'um camarada fiel,
soldado do mesmo regimento.

O bom velho, que penhorado acceitra to grave legado, era s, e n'uma
poca em que o exercito francez estava em continua mobilisao, achou
que o melhor meio de velar pelo destino da creana era trazel-a sempre
ao p de si.

Assim foi que Rosina, ento de quatorze annos, estivera em pessoa, se
bem que entre a bagagem e mantimentos, na batalha de Austerlitz, em
1805. Vira por seus proprios olhos, a distancia, o imperador Alexandre e
o imperador Francisco. Nos breves instantes de repouso que n'essa
arriscada campanha tinha o exercito francez, era sempre Rosina o
assumpto das conversaes do acampamento, a mariposa inquieta que
passava sorrindo de umas correias a outras, de um soldado a outro
soldado. D'essa campanha ficou at na memoria do regimento uma agudeza
da pequena vivandeira. Estavam os soldados chasqueando uma vez da
fealdade de certo camarada.

--Que tal te parece, Rosina? perguntou um  pequena.

--Parece-me mal, respondeu ella, porque j vi _os trez imperadores_.

Como se sabe,  esta uma designao vulgar da batalha de Austerlitz,
onde estiveram os dois imperadores j nomeados, completando Napoleo a
trindade coroada.

Rosina seria pois a andorinha da caserna se no fosse antes a
mariposa do acampamento. Tinha um pouco da floresta, seu bero, e um
pouco do quartel, seu ninho. Estes poucos fizeram o todo. Tinha a pureza
da vegetao virgem, a suavidade inculta da floresta, e ao mesmo passo o
destemor da vivandeira, a facilidade de morder um cartucho de polvora e
de cantar uma cano marcial. Na alma tinha os murmurios das correntes
patrias; nos olhos o brilho da polvora.

Era, n'uma palavra, a pastora tornada vivandeira. Respeitava-a todo o
regimento e conhecia-a todo o exercito.

Quando o seu velho protector morreu, um anno depois de Austerlitz, ella
acompanhou-o com os camaradas  sepultura, e, como limpasse furtivamente
duas lagrimas, disse-lhe um dos soldados:

--Pois tu choras, Rosina, tu, a que viste os trez imperadores?!

E ella, voltando-se de subito, respondeu:

--No choro eu, chora a Frana.

Porfiaram os soldados em escolher-lhe novo protector; todos a estimavam
a ponto de querer adoptal-a. Por fim decidiu-se que Rosina cortasse o n
gordio. Ella observou:

--Os meus paes eram os que morreram; j no posso ter outros. Serei
portanto de hoje em deante filha do regimento. Para onde elle fr, irei
eu; onde estiver, estarei tambem.

E assim foi.

Era quasi um soldado; muitas vezes dizia que a sua morte havia de
occasional-a uma bala perdida.

Viera com o exercito a Hespanha e Portugal, com a mesma facilidade com
que iria, licenciada pelo commandante do regimento, visitar as Ardennas,
sua patria.

Contava agora dezoito annos, e estava em todo o vigor da sua gentil
formosura.

Gentil  a palavra; por isso lhe chamavam _l gentille vivandire_.

E o caso  que  sua origem e  sua formosura devia por certo as
immunidades que lhe outhorgavam os superiores. Era ella o melhor
intercessor do regimento; requerimento que ella levasse  chancellaria
militar, trazia sempre bom despacho.  que as flres...

Ora a historia da madeixa  muito mais breve que a historia de Rosina, e
por isso ficou para o fim.

Seu pae, o bravo official das Ardennas, sentindo-se morrer dos graves
ferimentos que recebera, pediu ao velho camarada, no momento de
confiar-lhe a filha, que lhe entregasse aquella madeixa que elle cortra
do seu proprio cabello, para que ella possuisse sequer alguma coisa que
o tornasse lembrado.

E como entre os cabellos alguns apparecessem j grisalhos, acrescentou o
militar moribundo:

--Dize-lhe que alguns d'elles embranqueceram a pensar no destino d'ella...

O soldado, com os olhos marejados de lagrimas, respondeu commovido:

--V descanado, meu capito. Emquanto Jacques Regnau tiver vida, o
paiol no ha de arder. Depois que vier a metralha da morte, o Deus dos
exercitos velar por ella...

O soldado Jacques estava na confidencia do nascimento de Rosina. Fra
elle que, annos antes, saltra ao jardim de uma casa da rua das
Tournelles, para receber dos braos de uma criada uma creana, cuja me
procurava assim occultar o segredo da sua deshonra.

Jacques Regnau atravessou com ella nos braos o _boulevard_ da Bastilha,
e ia dizendo comsigo:

--O caso  que ainda tenho geito para estas aventuras mysteriosas.
Suppunha-me velho e levo aqui esta creana mais como pae do que como
av. E todavia o que decerto vem a acontecer  que eu seja o av, e o
meu capito o pae...

E assim, em verdade, aconteceu, com uma unica differena. Se Rosina, no
decurso de sua vida, precisasse de nobilitar-se com um appellido, o pae,
ao invs do que acontece em todas as familias, no lhe daria o seu
appellido, mas sim o do leal camarada. Diria provavelmente:

--Pe l: Rosina Regnau.

Ella porm no precisava de appellido paterno. Era a filha do regimento.
Chamava-se simplesmente Rosina, _l gentille vivandire_.

Esta era a enfermeira do nosso ferido.

    [5] Referencia  proclamao de Soult.

      *      *      *      *      *


VII

No hospital de sangue

Oito dias transcorridos, vamos encontrar Graa Strech, sentado no catre,
convalescente, se bem que muito debilitado ainda, a relr algumas das
cartas que, por piedoso interesse de Rosina, pudera guardar debaixo do
travesseiro.

Os successos de to breve curso de tempo pequena chronica requerem.
Rosina tem sido para o soldado portuguez carinhosa enfermeira.
Chasqueam-n'a as outras mulheres, encarregadas do servio do hospital,
de extremamente compassiva para o prisioneiro, e zombeteiramente aventam
que, a julgar pelos prolegomenos, lhes no parece impossivel que o
exercito portuguez inteiramente se deixe desarmar pelas vivandeiras
francezas.

As almas das restantes mulheres no se levantam do nivel commum ao
femeao que segue tropa. So grosseiras, sensuaes e malevolas. Rosina
respira melhor entre os soldados do que entre ellas. D'aqui uma certa
rivalidade apenas contida pelo respeito com que todo o exercito acata 
filha do bravo militar das Ardennas. Todavia a gentil vivandeira, como
mariposa que , no se demora no ambiente infeccionado em que ellas
respiram; evita-as como a pantanos miasmaticos, sem lhes dar a conhecer
que o muladar unicamente  povoado por vermes. Passa inquieta e ao mesmo
tempo cautelosa, agitando as suas azas iriadas. Atravessa o lodaal sem
tocar-lhe. Guarda para si o nectar que vae libando nas flres perfumadas
da sua phantasia.  mariposa! dizem. Concentra-se nos circulos
caprichosos em que doideja. Quer adejar e sorrir. Mas para esta, como
para todas as mariposas, depois do jardim, cujas flres beijou, ha de
crepitar a chamma, que ser o seu ultimo beijo. Beijo de fogo, que mata.
E chamaes felicidade a isto! Olhaes smente  superficie; a
mariposa no  feliz porque passe adejando...

Graa Strech fez reparo no carinho da enfermeira, mrmente comparando-o
ao desamor com que eram tratados os demais feridos. No poria duvida em
beijar a unica mo caridosa que se estendia para elle na solido do
mundo, se no receiasse que o odio que lhe refervia no corao contra a
Frana lhe envenenasse os labios. E aquella mulher era franceza.
Parecia-lhe que dos seus vestidos se exhalava ainda o cheiro da
carnagem. Por ventura o soldado que assassinra sua irm, sua me e sua
av viera adormecer tranquillo nos braos d'aquella mulher, se  que no
fra mais d'um soldado, com as mos ainda tintas das nodoas do crime.
Via n'ella a creana corrompida pela lascivia da soldadesca, e, ao mesmo
passo que lhe era reconhecido, tinha por ella o desprezo que se tem pelo
vicio precoce. Considerava-a uma das victimas arrastadas pelo carro
triumphal do Cesar francez. Bem podia ser que n'aquelle corpo vendido ao
prazer germinasse uma alma boa logo corrompida pela putrefao
contagiosa da caserna. Se no tivesse por me uma mulher devassa, uma
vivandeira, uma meretriz de soldados, que no faria mais que atirar sua
filha ao berco em que ella propria nascera, poderia encontrar um marido
honesto, ser o anjo do lar, divinisar-se no altar da familia, porque as
mes podem considerar-se as santas da religio domestica. Mas no. Graa
Strech suppunha-a a flr do paul. Tinha para elle a belleza maculada da
vegetao dos charcos. No sabia o que era o azul do firmamento, porque
s os lagos, de superficie crystallina, so espelho do co. As flres do
paul querem viver no lodo; ella queria viver no prazer. Os beijos que
recebia tresandavam ao acre do tabaco e da aguardente. No dulcificavam;
queimavam. E assim como a gente se admira de ver uma flr, por mais
desbotada e menos formosa que seja,  beira d'um monturo, assim elle se
admirava de que aquella mulher tivesse nos olhos um relampago de
compaixo estando habituada a viver entre soldados e concubinas. Era, a
seu juizo, o ultimo lampejo da alma que bruxoleava apagada pelo vicio.
Extincto o derradeiro claro, ficaria apenas a lampada--o corpo. E elle
no queria gosar; queria vingar-se. O prazer da vingana, se o ha,
esse anhelava-o. Mas uma mulher corrupta no podia ser-lhe instrumento
sufficiente a sacial-o. Nenhum dos generaes que capitaneavam o exercito
invasor teria uma filha innocente, candida, formosa? decerto no; se a
tivesse, no consentiria que a soldadesca violasse as alheias. Mas se a
tinha, trouxessem-lh'a, pura como estava, bella como era, que a queria
polluir, e dizer depois ao pae exasperado: Os teus soldados mataram
minha irm, que tambem era virgem; eu matei tua filha, porque a
encontrei no estado de minha irm. Ambas so mortas: isso que ahi est
j no vive.

A toda a hora, tudo ali lhe recordava esse horrivel drama de sangue, que
reputaria ainda sonho infernal, se a memoria de trez cadaveres o no
chamasse  realidade. Tudo eram mulheres mancommunadas com os invasores,
tudo feridos e prisioneiros, que de continuo amaldioavam, esporoados
pela dr physica, a Frana e o Corso. A lingua que se falava era a
d'ellas, mesclada de raras palavras hespanholas para melhor se fazerem
entender dos que no tinham a illustrao bastante para comprehendel-as.
No ser preciso observar que Graa Strech no desconhecia o idioma
francez.

A principio confundiam-se-lhe no cerebro enfraquecido todas as sinistras
visualidades d'aquella tormentosa phase de sua vida. Depois,  medida
que ia cobrando foras, no s entrou de raciocinar cerca de Rosina,
como lhe acudiu a lembrana de seu pae, cuja morte s o tempo
comprovra, e a consciencia da sua propria situao. Estava prisioneiro,
guardado  vista por sentinellas francezas, e todavia havia jurado
vingar a morte da sua familia. Esta ida infernou-lhe as primeiras horas
de lucidez. Era impossivel despedaar as cadeias, romper por entre as
sentinellas; no queria de modo algum expr-se  morte que o roubaria 
vingana. E o sentir no dedo o contacto do annel, em que se coagulra
uma gota de sangue seu, ou de sua irm, exasperava-o ao extremo de cair
prostado no leito.

N'estes lances acudia meigamente Rosina Regnau, chamemos-lhe assim, a
soccorrel-o com notavel dedicao. Umas vezes a repellia elle com
ingratido brutal, quando a accentuao franceza lhe coava s entranhas
estremecimentos de raiva, outras fitava na vivandeira o olhar
amortecido como a dizer-lhe que a prostrao seria passageira. Na
vespera do dia em que estamos, teve Graa Strech uma ida que para logo
reputou auxilio providencial. Lembrou-se de que s por interveno de
Rosina poderia evadir-se do hospital de sangue. Tratou pois de
corresponder  solicitude com que ella o distinguia, de se mostrar
reconhecido, de occultar o seu pensamento de vingana sob a mascara de
ternura. Immediatamente o dominou este proposito, e a si mesmo prometteu
nunca mais receber Rosina com intermittencias de rancor ou azedume.
Difficil era o cumprimento d'esta promessa. No se mascra facilmente o
corao.

Relia elle, como dissmos, as cartas de sua irm. Umas eram queixumes de
rla solitaria confrangida da tristeza alpestre das Chs; outras eram
hymnos de esperana, votos de felicidade commum, vagas alegrias dos
sonhos dos quinze annos... N'umas denunciava-se a mulher; n'outras a
creana. Umas eram a lagrima; outras o sorriso. Aquellas tinham a
tristeza d'uma nuvem em co d'abril; estas eram um raio de sol doirado
pela primavera... Ou antes, como o leitor poder classifical-as, as
primeiras eram o presentimento da desgraa imminente, as ultimas eram o
cantico do anjo que punha os olhos no co, sua patria.

Vejamos:

_30 de novembro de 1807._--Meu irmo.--No sabes como soffro
horrivelmente, receiosa dos perigos que viro. A avosinha tambem est
muito afflicta depois que os francezes entraram em Abrantes. J c
sabemos da partida da familia real, apezar de tu, grande dissimulado,
m'o no haveres dito! O padre capello anda sempre a contar dinheiro e a
ralhar com os abeges. Isto  uma tristeza! Quem nos vale a ambas, a mim
e a avsinha, para nos tranquilisar,  o Teixeira. Eu, por mim, peo
todos os dias a Deus que no acontea mal algum aos portuguezes...

_18 de setembro de 1808._--Meu Jos--Graas a Deus, que se dignou ouvir
as minhas continuas oraes! O Teixeira esteve hontem  noite a
contar-me tudo. At que emfim est a patria livre outra vez, sem haver
acontecido desgraa de maior  nossa familia. Queira Deus que continue a
paz para que tu possas vir vr-me brevemente. A noticia do
Teixeira deu-me grande alegria, meu Jos. Reconquisto de novo a
felicidade! Eu creio que no tenho coragem para soffrer... D um beijo
muito demorado  mam e um abrao muito apertado ao pap. A avsinha diz
que venhas logo que possas. Vem, sim? Olha l... logo que possas. O
beijo  mam que seja muito longo, muito longo... No te esqueas.
Tua--_Augusta_.

Graa Strech sentiu os olhos marejados de lagrimas ao lr estas cartas,
especialmente a ultima. Estava alli todo o corao de sua irm, a
alegria da avesinha, ainda tremula, que se sente desopprimida dos seus
negros receios, phantasticos uns, justificados outros.

Abeirou-se brandamente do catre, como quem teme ser importuno, Rosina
Regnau, e com encantadora timidez perguntou:

--Chorava?

--Um soldado portuguez no chora nunca, respondeu Graa Strech com
doura meiada de altivez e fingimento.

--So menos felizes as vivandeiras francezas, contestou ella com sincera
simplicidade.

--Por qu?

--Porque choram s vezes.

--Ainda a no vi chorar!--E, como se instantaneamente deixasse
resfolegar o rancor latente no corao, acrescentou:--A polvora queima
os olhos e o corao, e Rosina  quasi um soldado... francez.

--Olhe que se contradiz! observou ella maviosamente.--Esquece-se de que
tambem  soldado e chora...

Graa Strech caiu em si e deu-se pressa em attenuar o mau effeito das
suas palavras:

--Tem razo. A desgraa d esta incoherencia aos pensamentos...

--Julga-se ento muito desgraado?

--Pungente ironia que s pode vir... d'ahi! retrucou sobremodo exaltado
o convalescente. Pois pergunta-se a um prisioneiro, a um ferido, a um
homem mil vezes deshonrado, se  infeliz? Onde aprendeu esse cynismo de
vivandeira? Onde havia de ser! Na taberna e no quartel. S l  que se
fala assim...

E, como ella chorasse  beira do catre:

--Sabe que eu ainda no estou inteiramente curado, Rosina?
Parece-me que deliro s vezes! Agora delirei eu. No... no delirei.
Conheci que era mais piedosa do que as outras mulheres... Quiz ver at
onde chegava a sua sensibilidade... Perde-me a experiencia... Vejo que
ainda tem lagrimas... sim... tem lagrimas... no posso duvidar... est
chorando!

--No seja mau para mim, soluou Rosina Regnau. Eu tive pena de vr o
senhor a lr e a chorar... De mais a mais fui eu que lhe dei as cartas
para a mo no dia em que o senhor veiu e parecia pedir-m'as... Pois no
se lembra?

--No. E viu-as alguem? leu-as alguem?

--Ninguem as leu, senhor. Eu pensei que se lembrava, porque o senhor,
quando lh'as dei adivinhando de certo o seu pensamento, olhou para mim...

--Sim, talvez olhasse... eu queria as cartas...

--Isso comprehendi eu. A gente s vezes estima qualquer cousa que no
tem valor... Eu tambem tenho um d'esses thesouros que nada valem...
...--E calou-se, receiosa de proseguir.

--?

--A madeixasinha de meu pae, que era capito do exercito.

--Capito? perguntou Graa Strech.

--Era capito, senhor. Para me no deixar desamparada, entregou-me ao
velho Regnau com esta madeixa que era o seu unico legado... Nada mais
tinha que me deixar...--E tirou do seio a sua reliquia, sobre a qual
foram cair duas lagrimas ardentes.

Graa Strech, subitamente commovido, attentou na vivandeira que tinha
baixado os olhos, como se quizesse esconder o pranto.

--s vezes, proseguiu ella, fico-me a contemplar este thesouro,
sobretudo se estou triste. Que mais tenho eu no mundo? Nada. Esta
madeixasinha da minha riqueza, o meu talisman, creio eu. Beijo-a e
choro. Fico melhor.  tambem a minha companhia. Estas mulheres--e
indicou as demais vivandeiras--nem sequer se lembram de que tiveram pae!
At lhes convm pensar que o no tiveram para no sentir atormentada de
remorsos a consciencia.--Ellas querem-me mal, bem o sei. Que me importa?
Eu tenho o meu corao tranquillo. Devo a Deus o haver-me protegido com
a sua misericordia. Sou a filha do regimento, e ninguem offende uma
filha. Estima-me; estimo-os. Da guerra que ellas me fazem nem me
lembro. Pobresinhas, que no so capazes d'uma ao boa! Vivo s,
completamente s, senhor. Sou digna da compaixo de todos, acredite,
porque sou infeliz; criminosa no. Meu pae, que decerto me est ouvindo
n'esta hora, bem o sabe.  porque sou infeliz, que comprehendo as
desventuras alheias. Pareceu-me que o senhor tinha maguas secretas.
Inspirou-me sympathia. Bem sei que a minha presena lhe no deve ser
agradavel, porque emfim eu sou franceza e o senhor  portuguez. Mas que
culpa tenho eu de haver nascido longe? Foi nas Ardennas... bonita terra
d'uma vez! Ainda no vi arvores como l! O imperador  quem manda; ns
no temos culpa nenhuma: obedecemos. Elle quer o mundo; conquiste-se o
mundo. E depois eu no tenho odio nenhum aos portuguezes. At se o
senhor algum dia precisar do meu prestimo... Eu no valho nada... mas
ver que ha de encontrar sempre a mesma Rosina Regnau... O que eu queria
 que me tratasse bem. No fao mal a ninguem, porque no se tira
proveito nenhum de fazer mal... O senhor foi ferido,  verdade; mas fui
eu quem o feriu?...

--No, Rosina, no! atalhou Graa Strech enternecido a lagrimas. Mas
feriram-me na alma, bem fundo, muito fundo... Sou um grande desgraado.
Se lesse estes papeis, que so tambem a minha unica riqueza, veria que o
sou. Eu tenho apenas de meu estas cartas; Rosina tem apenas a sua
madeixasinha. Somos irmos na desgraa. Eu sou filho d'um capito
portuguez, talvez morto a esta hora; Rosina  filha de um capito
francez, que tambem no existe. Ainda n'isto irmos! Bem sei que no tem
culpa de haver nascido franceza. Perdoe-me, se a offendi... Offendi, que
o sei eu. Deite tudo  conta da minha arrebatada mocidade e dos meus
soffrimentos. Mas  que este abysmo cavado por Napoleo entre as duas
naes  incommensuravel, acredite. O abysmo chama o abysmo... Jmais
correu sangue impunemente... A guerra faz dos homens lees... E que
guerra esta, santo Deus!... Zomba-se de tudo--da virgindade, da honra,
da innocencia! Oh! que os seus irmos tremam das represalias... Medonhas
devem ser... No se opprime assim um paiz inteiro... A estrada por onde
fugiu Junot est atravancada de cadaveres, mas ainda cabe por ella
o exercito de Soult. A hora do resgate ser tremenda, Rosina. Fuja, fuja
emquanto  tempo, pomba que vive entre milhafres. Fuja com a sua
innocencia. Eu comprehendo, eu acredito que  boa, e casta. Mas no
encontrar em Portugal corao que possa acceitar o seu amor, alma que
prese os thesouros da sua. E sabe por que? Porque entre um portuguez e
uma franceza medeia n'esta hora uma barreira invencivel... E essa
barreira est em pouco, mas no haver ahi exercitos que a transponham.
 um mao de cartas, um annel, uma madeixasinha talvez. Supponha que um
homem havia ferido mortalmente seu pae... Que esse homem viesse agora
dizer-lhe, Rosina, que lanasse ao fogo essa reliquia sagrada; que
matra em nome da patria; que seu pae era primeiro que tudo um soldado,
e que um soldado era para elle o inimigo... Chora, Rosina! As suas
lagrimas so ainda mais eloquentes que o seu silencio... Pois supponha
que mataram meu pae, supponha que me retalharam a alma, que eu tenho
noite e dia nos ouvidos o clamor da vingana, que eu sou um homem que j
no vivo para mim, mas para os que morreram...

E, exhausto de foras, caira sobre o travesseiro, pedindo soccorro com o
olhar, em que subitamente se apagaram os fogos da exaltao.

Fez-se em torno do catre o lugubre silencio dos hospitaes, apenas
interrompido de espao a espao pelos gemidos de alguns portuguezes que
anhelavam a morte, porque s n'ella encontrariam o supremo resgate.

Rosina, curvada para o doente, julgava amparar nos seus braos um homem
que desejava viver para vingar a morte da mulher amada. A excitao
febril do prisioneiro fazia-lh'o crer. Estava longe de suppr que essa
mulher fosse apenas irm, ou antes que a desgraa d'esse homem fosse
tamanha que tivesse de vingar a morte de uma familia inteira.

Como, porm, Graa Strech lentamente parecesse recobrar alento,
inclinou-se-lhe ao ouvido e maviosamente repetiu:

--Se algum dia precisar do auxilio da pobre vivandeira, acredite que
Rosina Regnau ser sempre a mesma...

      *      *      *      *      *


VIII

O anjo da liberdade

Foi-se restabelecendo o doente.

Meiado abril, Craa Strech julgava-se robustecido sufficientemente para
encetar a sua obra de vingana. Toda a sua atteno se concentrava na
ida fixa da fuga. Rosina continuava a ser para elle a dedicada, a
solicita, a meiga enfermeira dos primeiros dias. Se em to carinhosa
dedicao estava occulto o germen do amor, se era aquella a mascara da
alma apaixonada que tinha de respeitar conveniencias e circumstancias,
no tardar que o saibamos. Todavia os seus sorrisos, posto que doces,
revelavam tristeza. O corao a attral-a para aquelle homem, e o
destino a distancial-a! Que elle soffria, era evidente. Mas por que
soffria? Porque esse homem--suppunha-o ella--amra doidamente, com o
fogo dos primeiros amores, com a loucura dos primeiros annos, e vira
talvez correr, na hora da invaso, o sangue innocente da mulher amada.
Porque esse sangue clamava vingana, e elle esperava apenas pela hora
tremenda da represalia. Porque essas cartas que relia a toda a hora eram
outros tantos protestos contra a tyrannia dos que venceram. Fossem dizer
ao corao d'esse homem pungido pelo que ha ahi de mais excruciante na
terra: Despe o teu luto; enflora-te. Os que te mataram eram meus
irmos, mas quem te resuscitar serei eu. Com o sangue do cadaver, que
desceu  tumba commum, regaremos as flres da tua felicidade futura.
No podia ser. Elle tivera razo quando disse: Supponha que um homem
havia ferido mortalmente seu pae. Que esse homem viesse agora dizer-lhe,
Rosina, que lanasse ao fogo essa reliquia sagrada; que matra em nome
da patria... Referia-se a uma barreira insupperavel, e falava do mao
de cartas, de um annel, de uma madeixasinha talvez. E as cartas
relia-as elle, e annel tinha um na mo esquerda, tinto de sangue, que
era talvez da pessoa cuja morte anhelava vingar. Que esperana podia,
pois, ter Rosina no seu louco amor? Mas, por outro lado, quem ha de
dizer ao corao que  loucura amar? Como havia ella, allucinada pela
paixo, de raciocinar comsigo mesma: Tu s a pobre Regnau, a vivandeira
franceza, que acompanhas o exercito vencedor; elle  o soldado do
exercito vencido, e vencido elle mesmo. No se pde transpr um abysmo,
muito menos dois. Tantos so os que nos separam n'esta hora: o da
vingana e o da nacionalidade! Isto ninguem o diz; ella no o podia
dizer. Amava, sim, mas amava sem esperana, e, o que  mais, amava com
medo. Agrestemente a tratava elle a principio. Desde o dia em que ella
lhe perguntou se chorava, e em que timidamente se abeirra do catre
antes como enfermeira do que como amante, pareceu todavia abrandar um
pouco mais o seu odio inspirado pelo nome francez. Conheceu decerto que
ella no estava ainda pervertida, e condoeu-se. Mas condoer-se no 
amar. E depois que desgraado aquelle! Que pensaria elle fazer? Talvez
matar-se. Prefiriria morrer a combater contra a sua patria, contra o seu
nome de portuguez, contra as suas recordaes. Como ella quizera
sondar-lhe a alma e arrancar-lhe o seu segredo! O que importava,
primeiro que tudo, era affastal-o da morte. Por isso o espionava Rosina,
e cada vez era maior a sua solicitude. No tardou porm a hora em que
Graa Strech ia levantar uma ponta do vo mysterioso que occultava os
seus designios.

Era ao entardecer. Havia na sala a penumbra crepuscular. Elle escolhera
decerto essa hora para que a physionomia lhe no traisse os sentimentos
reconditos.

--Lembra-se, Rosina, do offerecimento que me fez?

--Lembro, e repito-o, respondeu ella estremecendo de golpe.

--Pois bem;  chegada a occasio de aproveital-o. Cumpre porm que
primeiro lhe diga que a minha vida fica pendente d'esta revelao. Se
manh quizer denunciar-me aos meus algozes, pde fazel-o, e ento
completar a vingana dos meus desabrimentos. Completar, disse
eu, porque compassivamente me tem tratado, e a compaixo  a vingana
das almas nobres. Quer-me parecer, no obstante a posse do meu segredo,
que continuar a vingar-se nobremente... O seu corao  bom, Rosina; o
meu  que no  assim. Eu sou vil, rancoroso, sanguinario. Mas, ainda
assim, em alguma hora da minha vida me  dado ouvir a voz do meu anjo da
guarda. Depois a celeuma dos maus instinctos suffoca-a.  porm esta uma
das horas em que o meu corao no  inteiramente perverso. Portanto lhe
falarei com a maxima franqueza. Eu quero sair d'aqui, Rosina, livre,
completamente livre, entenda-me bem. S por sua interveno o poderei
conseguir. Mas, se me presta esse servio, quem lhe no dir, Rosina,
que soprou no meu peito as labaredas que eu sinto escaldarem-me o sangue
quando volvo os olhos a um passado proximo, muito proximo?... Sabe que 
quasi um fratricidio que vae praticar? A voz da consciencia ser a
primeira a dizer-lh'o. No ir combater contra os seus pessoalmente, mas
ir dar mais um soldado ao exercito portuguez cerceado pela derrota...
Pense em tudo isto. Vae trair a confiana dos seus irmos para
conquistar apenas a gratido d'um s homem...

A esta palavra, os olhos de Rosina, at ahi brilhantes de copiosas
lagrimas, illuminaram-se d'um claro d'alegria.

--Gratido! disse?--soluou ella.  a primeira vez que eu oio dos seus
labios to doce palavra... Acredite-me, sim? Eu j pensava em
auxiliar-lhe a fuga, mesmo quando ainda no era meu amigo. Tinha pena,
muita pena do senhor, e receiava que se quizesse matar para no ficar
prisioneiro. Faria por lhe dar a liberdade, ainda que m'o no
agradecesse, porque algum dia, ahi por esses acampamentos fra, bem
podia ser que o senhor encontrasse, prostrada por uma bala perdida, a
vivandeira Rosina, e dissesse, lanando-lhe um olhar de piedade: Bem te
reconheo! Eras a pobre Regnau. Deste-me a liberdade. Ests morta. Que
te hei de dar agora? Dar-te hei uma orao. Isto me bastaria, senhor,
que eu bem sei que no mereo mais. Mas agora o caso muda muito do que
eu havia pensado na minha tristeza. O senhor promette-me gratido. Que
mais posso eu invejar? A memoria de meu pae me perdoar, porque
elle--disse ella com irreflectida candura--tambem amou muito, segundo
contava o velho Regnau. Gratido  o que o ceguinho das Ardennas tem ao
seu fiel molosso. O pobresinho do Hubert anda sempre a dizer,
referindo-se ao seu co: No ha pessoa a quem eu seja mais grato! Veja
o senhor como elle lhe quer, que at chama pessoa ao co! Pois eu serei
para o senhor como o molosso para o Hubert. Ter-me-ha gratido; viverei
feliz... E sabe o senhor que o co do ceguinho das Ardennas o segue
sempre? Sabe o que isto quer dizer?...

E calou-se de subito, ruborisada de pudor.

--No sei! observou Graa Strech sobremodo admirado da sinceridade
d'aquella confidencia.

--No sabe?  que eu tambem queria seguil-o ao senhor...

--Como?! perguntou o moo aprumando-se como galvanisado por um choque
electrico. Seguir-me! Sabe bem o que diz, Rosina? Sabe que atraz de mim
caminhar sempre a morte, e atraz de si o odio francez? Sabe que isso 
renegar a sua patria, o nome de seu pae?

--Esquece-se de que meu pae no me deixou nome? Se no co se sabe tudo,
elle saber que o meu corao  puro. O mais que me importa a mim? Nem
por seguir o senhor deixarei de querer cada vez mais  minha
madeixasinha. Crime era o esquecer-me d'ella, o desprezal-a, o no a
trazer commigo. Mas  que eu seguirei o senhor, e ella seguir-me-ha a
mim. E depois o senhor no me comprehendeu bem... Eu no queria deixar
de ser vivandeira... No se quesile, no? O senhor vae combater. Eu
seguirei o exercito como at aqui, mas estarei sempre em sitio onde lhe
possa acudir, e em vez de soccorrer um soldado francez soccorrerei o
senhor se as balas o no respeitarem. O crime est s n'isso, e Deus m'o
perdoar... Eu, depois que morreu o velho Regnau, o meu segundo pae,
tenho vivido to ssinha, to ssinha!... O exercito  muito grande e
por isso mesmo no faz companhia. No lhe perderei o rasto, senhor,
esteja certo. As vivandeiras esto costumadas  guerra de emboscada.
Surprehendel-o-hei quando menos o esperar. Que seja preciso affrontar
perigos, pouco importa. Rosina, a gentil vivandeira, como por
favor me chamam,  destemida. Toda a brigada Arnaud lh'o podia
dizer...

A admirao, o pasmo, o alheamento de Graa Strech eram cada vez
maiores. Espantava-o aquelle conjuncto de candura e coragem, aquelle
receiar e querer da vivandeira. Achava extraordinaria a creana, que
tinha innocencias d'anjo e impetos de mulher. No sabia se mais havia de
admirar a originalidade do temperamento se a originalidade da revelao.
Comeava a lr na alma da vivandeira que o amava. Comprehendeu que ella
sabia respeitar-lhe a dr, impondo-lhe suavemente o dever de
respeitar-lhe a sua. E tudo o que ella soffria era por ser franceza...
Tambem elle se no lembrava n'esse lance de que a mariposa procura a
chamma!

E Rosina era a mariposa do acampamento.

No obstante, desconfiando ainda da clareza da sua percepo, quiz oppr
obstaculos  resoluo da vivandeira:

--Mas no sabe que isso  impossivel, Rosina? No sabe que se no pde
seguir ninguem atravs dos azares da guerra? Quem pde luctar com as
ondas sem naufragar? No lucte, Rosina, no lucte com o que 
invencivel. Guarde essa coragem do seu bello corao para as batalhas do
mundo, que toda lhe ser precisa. Deixe-me ir at onde chegam todos os
infelizes. No sabe que manh posso encontrar a bala que me mate?...
No ser manh, no, porque eu manh no haveria completado a minha
obra. Preciso de viver, mas a guerra  to caprichosa! Completa a minha
obra, desejo morrer livre, quite com o mundo. No quero que ninguem me
chore--morrerei feliz.

--Outro tanto poderei eu dizer, atalhou com doura a vivandeira. Mas
deixe-me ir... tambem at onde vo os infelizes. J agora, eu, que lhe
vou abrir o seu futuro, quero saber ao menos o sitio em que o senhor
estiver. Bem pouco lhe peo, como v. Caprichos de mulher! especialmente
caprichos de franceza...

E, como que arrependida de haver soltado esta palavra:

--Fui indiscreta, bem sei; perde-me. O seu corao precisa de esquecer
a minha nacionalidade para me no odiar...

Era impossivel luctar por mais tempo com to energica e ao mesmo passo
to meiga natureza.

Como se aproximasse gente, Graa Strech apertou-lhe silenciosamente a
mo e escondeu no lenol a face involuntariamente orvalhada de lagrimas.

Chegra a noite triste que ao nascer das estrellas invade os hospitaes e
as prises com o seu silencio e a sua tremula claridade.

Graa Strech no pde conciliar o somno. Tantos e to extraordinarios
eram os pensamentos que se lhe baralhavam no espirito, que ora sentia
subir-lhe ao cerebro a frialdade glacial dos tumulos, ora a chamma
abrazadora da congesto. Assim esteve, sem dar tino do tempo que
passava, com os olhos fitos na sombra oscillante que uma lanterna
projectava na parede fronteira ao seu catre.

Os gemidos d'alguns feridos compassavam-se a intervallos mais ou menos
longos, segundo a gravidade do ferimento. Duas vivandeiras, encarregadas
de ficar de vla n'aquella noite, deixaram-se adormecer com a
tranquillidade de quem est bem e no se importa de que os outros
estejam mal.

Na rua tropeavam com interrupes os cavallos das rondas. Uma ou outra
vez ouvia-se trocar palavras entre as patrulhas que passavam e a
sentinella do hospital. No se percebia, porm, o que diziam...

E assim decorria a longa noite das enfermarias e dos carceres com o
lutuoso aspecto que faz d'umas e outros--cemiterios de vivos.

A mais de meio iria a noite, quando a Graa Strech pareceu vr entrar
cautelosamente na sala um soldado francez, que foi caminhando, cada vez
mais receioso, at se avisinhar do seu catre.

Se obedecesse ao primeiro impeto, haveria falado, porque lhe passou no
espirito a suspeita de que Rosina o denuncira, e de que esse soldado,
que tanto se arreceiava de ser surprehendido, era um assassino
galardoado talvez pela devassido da vivandeira.

E bastou esse momento para a suppr mobil d'uma infamia inaudita, a
ella, que momentos antes lhe pedia unicamente, a troco da liberdade
promettida, que a deixasse seguil-o como o fiel molosso seguia o cego
das Ardennas.

Era, porm, corajoso de mais para succumbir aos perigos d'uma traio.

Para logo se lhe accendeu o corao em labaredas do inferno, e se lhe
requeimou a garganta como a do tigre dos palmares quando tem sde de
sangue.

Era, porventura, um soldado francez que o vinha apunhalar, de noite,
suppondo-o a dormir, talvez por ciume da barreg com quem passra a
noite, ou para vingar o odio que aquelle prisioneiro nutria contra os
francezes.

No tinha armas, nem carecia d'ellas. Infamia por infamia. Luctaria
brao a brao, encarniadamente, silenciosamente, at que um d'elles
ficasse prostrado.

Sentou-se no catre, com o joelho direito levantado, em posio de melhor
se poder erguer para responder  aggresso.

E com to sinistro brilho lhe coriscavam os olhos, que o supposto
soldado francez, conhecendo de certo o que lhe ia na alma, impuzera
silencio com um gesto e dissera a alguns passos de distancia:

--Sou eu.

Graa Strech reconhecera Rosina.

O vulto que elle suppuzera um assassino transformra-se no anjo da
liberdade. No lhe vinha trazer a morte; vinha restituir-lhe a vida.
Como poderia elle receiar a aggresso d'aquelle soldado franzino,
gentil, cujos olhos, por meigos e luminosos, trahiriam o segredo do seu
disfarce, cujos cabellos, ennovelados a um e outro lado, denunciavam as
tranas da mulher enroladas em cachos?

Visualidades d'imaginao doente, chimeras que o habito do soffrimento
cria, e a noite avulta.

--Sou eu, repetiu ella cada vez mais baixinho, e aproximando-se.

E, como se por encantamento um genio bom lhe deizasse cair s mos o
fardamento d'um soldado, igual ao que vestia, acrescentou:

--No ha tempo a perder. Vista-se e venha.

E retrocedeu a esconder-se  porta, onde as sombras mais se condensavam,
e a levantar do cho o saco d'oleado da ambulancia, que continha o seu
trage de vivandeira.

No se fez esperar o prisioneiro, que logrou atravessar a sala sem ser
percebido. Nos olhos dos que dormiam havia as nuvens precursoras da
noite eterna, que nada deixam vr para fra do corpo.  o
recolher-se da alma que vae partir.

As duas enfermeiras continuavam a dormir tranquillamente.

--Venha, disse-lhe Rosina travando-lhe da mo.

Graa Strech desceu conduzido pela vivandeira.

Quando a sentinella deu tino de que se aproximava alguem, cumpriu a
praxe militar do--_Qui vive?_

Um dos soldados, que levava ao hombro a bola da ambulancia, respondeu:
_L'empereur_;--e quando j a sentinella podia distinguir os uniformes,
acrescentou com voz firme e s em francez.

--Soldados da ambulancia com ordens urgentes para o quartel general.

O soldado que respondera era, como calculam, a vivandeira das Ardennas.

Chegados  rua, Rosina Regnau apertou convulsamente o brao de Graa
Strech e segredou-lhe:

--Nunca se esquea de que n'este dia, e a esta hora, lhe dei a
liberdade, roubando-a a mim mesma.

--Nunca! respondeu elle commovido.

E, como sentissem aproximar-se uma ronda, estugaram o passo, caminhando
sem norte.

Por duas vezes, no aventuroso transito, os surprehenderam patrulhas
francezas.

Era sempre Rosina quem respondia no idioma patrio, no sem que sentisse
palpitar vertiginosamente o corao receioso de ver desabar n'um momento
a felicidade sonhada.

Insensivelmente se foram aproximando do rio Douro, a cuja margem pararam
algum tempo vacillantes no que fariam e, no obstante serem ambos
corajosos, quasi amedrontados. S ento, chamados  realidade, olharam
para dentro de si mesmos, conscientes da arriscada situao em que se
encontravam.

Pareceu-lhes, porm, ouvir o compasso de remos na agua, e tanto bastou
para se illuminar d'um raio d'esperana a alma da vivandeira.

Foi Graa Strech quem se aventurou a chamar o barqueiro.

Nenhuma voz respondeu ao chamamento mas, decorrido algum tempo, viram
avisinhar-se do caes o vulto negro do barco.

N'aquelle tempo eram to frequentes as fugas nocturnas, dos que
presumiam mais demorada, do que foi, a occupao franceza da
cidade, que alguns barqueiros dos logares convisinhos, inteiramente
privados de recursos, se affoutavam a bordejar no Douro por horas mortas
para receber a esportula dos fugitivos.

Graa Strech e Rosina Regnau saltaram ao barco.

Estremeceu o barqueiro conhecendo o uniforme francez, mas Graa Strech
acudiu a serenal-o com estas palavras:

--Somos portuguezes, amigo. O habito no faz o monge. Salva-nos, e no
te importe o mais. Afasta-nos, o mais depressa possivel, da cidade.

      *      *      *      *      *


IX

Entre a vingana e o amor

Foi o barco singrando Douro acima lentamente.

Graa Strech lanou mo d'um remo e auxiliou o barqueiro, no sem haver
arrancado de si mesmo, com fogosa violencia, a jaqueta do uniforme francez.

--Que peso que me fazia isto! disse elle sorrindo a Rosina.

E voltando-se para o barqueiro:

--Onde estar agora o resto do nosso pobre exercito, sabes? perguntou
vivamente.

--Anda para Riba-Tamega, senhor. Desde hontem que vae para l o inferno,
to certo como ser hoje 19 de abril, e chamar-me eu o Tunante de
P-de-Moira.

--No sabes mais nada?

--Eu, senhor?... tartamudeou o barqueiro relanceando um olhar de medo ao
soldado francez que ia sentado  ppa.

Graa Strech comprehendeu-o, e acrescentou:

--Pdes falar. No te disse eu que o habito no faz o monge? Aquelle
soldado francez, que tu vs ali,  uma mulher.

--Uma mulher! repetiu o barqueiro.

--E de mais a mais faze de conta que ... muda, disse sorrindo
maliciosamente Graa Strech.

A esta palavra, se elle houvesse reparado, veria brilhar
extraordinariamente os olhos de Rosina Regnau, que encontrra n'esse
momento, melhor ainda, n'esse vocabulo, a chave d'um enigma que a
preocupava dolorosamente.

--Pois ento, l vae tudo, p-a-p-Santa Justa, tornou facetamente o
barqueiro. Os francezes pegaram hontem fogo  villa d'Amarante. Hoje de
manh havia uma procisso de gente que vinha fugida da villa. Em
P-de-Moira ficaram dez pessoas. Foram ellas que contaram o que se havia
passado.

--Quem commanda os Portugueses, sabes?

-- o general... Ora que me no lembra agora! Elle tem assim um nome a
modo d'arvore...

--Silveira? perguntou com anciedade Graa Strech.

--Tal qual: Sirveira, deturpou o barqueiro.

Aclarava-se o co com os primeiros alvores do dia 20 d'abril.

Rosina levava os olhos postos no arvoredo das margens, alanceada,
porventura, de vagas saudades das florestas das Ardennas.

--Agora,  luz d'esta candeia, apostrophou o barqueiro apontando para o
sol nascente--j eu no me enganava com o sordadito...

Rosina sorriu melancolicamente, como se entendesse o barqueiro por uma
fina intuio de mulher apaixonada, e Graa Strech perguntou em francez
pousando o remo:

--Vae triste!  o arrependimento que chega?...

A vivandeira respondeu energicamente com um gesto negativo, como se em
verdade fra muda.

--O peior--disse o barqueiro improvisamente-- que se virem de terra que
vae aqui um soldado francez, so capazes de fazer fogo contra todos ns.
Os diabos o jurem! Mas se ella no  franceza p'ra que diabo lhe fala o
senhor n'esses latins?

--So coisas... respondeu austeramente Graa Strech.--Tens razo,
tens... no que lembraste.

E, voltando-se para Rosina, traduziu o pensamento do barqueiro.

--Vae ali uma manta, e a cachopa que se embrulhe n'ella, se quizer,
observou o Tunante de P-de-Moira, com certo orgulho alegre de tomar
parte n'uma aventura que desde logo presumiu amorosa.

Rosina, aconselhada por Graa Strech, acceitou o offerecimento, e despiu
a fardeta.

O Tunante, orgulhoso de poder fazer concesses, acrescentou:

--Minha mulher tem l por casa uns trapos, que no valem nada. Assim que
chegarmos, eu irei buscal-os.

Inteirada do offerecimento, Rosina abriu a bola da ambulancia e tirou
com presteza o seu corpete, saial e _bonnet_ de vivandeira,
arremessando-os ao rio.

--Que faz? perguntou Graa Strech.

A vivandeira encolheu os hombros, como se aquelle movimento quizesse dizer:

--Atiro  agua o passado.

--Porque no fala, Rosina! Ainda no ouvi a sua voz desde que entrmos
n'este barco! Querer tomar a serio o gracejo da sua mudez, com que eu
procurei ludibriar a curiosidade do barqueiro?

-- que, respondeu ella affectuosamente, me sinto preoccupada ao estudar
o papel que devo representar manh...

--Mas... no percebo!

O barqueiro tinha largado os remos e deixado pender o labio inferior ao
ouvir a pronuncia de Rosina. Para elle, que tinha suas fumaas de rato
da agua, como quem diz _lobo do mar_, era aquelle um mysterio
impenetravel. Podia acaso acreditar que fosse realmente ali, em
companhia d'um portuguez, uma mulher franceza, que lanra ao rio um
fato em que brilhavam as cres sinistras da Frana, quella hora em que
o sangue, o incendio, o saque, a tyrannia se erguiam como barreira entre
o povo d'um e outro paiz?

O Tunante de P-de-Moira no sabia historia, e ignorava o prodigio
d'estas affinidades individuaes que se escondem entre as correntes
oppostas dos sentimentos nacionaes. So gros d'areia perdidos no
oceano;  preciso descer ao fundo do mar para encontral-os. Outra
pessoa, que no fosse rude, no se admiraria. A historia diz que, pouco
depois da invaso, o marechal Soult se vira fechado n'um circulo de
cariciosas sympathias, e que eram rasgados os salamaleques dos que j se
presumiam aulicos de D. Nicolau I. A historia refere que semelhantemente
alguns foram os coraes que se renderam  prepotencia de Junot, e que
era contra esses que se erguia tremenda a grande voz popular: Morra
Junot, e mais quem d'elle tiver d.[6] Finalmente, ainda
conta a historia que Piton, um sargento do corpo de policia de Lisboa,
fora promovido a alferes, pelos grandes servios que prestou aos
francezes, com os quaes se retirou para Frana ao depois.[7]

O Tunante, se soubesse historia, no se admiraria portanto de que o
corao ainda tivesse um lo para ligar portuguezes a francezes, e, se
houvera adquirido maior conhecimento dos homens e das coisas, saberia
que primeiro se verga ao tufo das paixes a palmeira flexivel e
solitaria do deserto, que o roble secular da floresta, duas vezes
forte--porque  robusto e porque no esta s.

A palmeira cede ao primeiro impulso, e deixa-se ir, em doce
voluptuosidade, embalada nos braos vaporosos do vendaval, que so os
primeiros, e por ventura os unicos, que se estendem para ella.

O roble cede apenas quando o tronco est corroido pelos vermes ou
abalado pelas luctas da tempestade.

Os aulicos de Soult e os thuriferarios de Junot tinham as entranhas
comidas pelas serpes da perfidia, e a alma vergastada pelo aoite da
cupidez.

Rosina era a palmeira do deserto, que verga sem saber que vae ser
arrastada para longe do seu torro natal, e que o simoun a despenhar
n'um abysmo inevitavel.

Era o amor que a dementava a extremos de renunciar a sua patria, se bem
que a cada instante lhe pungisse no corao uma vaga saudade das
Ardennas; era finalmente um sentimento nobre que a impellia a essa
loucura, serena postoque ardente, resignada postoque dolorosa.

A que mobil obedeceriam, porm, as damas portuguezas, que, um anno
antes, se banquetearam e valsaram, no theatro de S. Carlos, em ruidoso
sarau e na presena de Junot, com a officialidade franceza?

Suas excellencias, as beldades da capital, eram recebidas no vestibulo
do theatro por quatro pagens, loiros e provavelmente rosados. Sahia a
esperal-as ao limiar da plata, d'onde corria um tablado a nivelar-se
com o palco, o general Margaron, que fazia as honras da casa. Ao fundo
da scena havia trez cadeiras de braos, que se conservaram devolutas at
 chegada de Junot, e em frente o busto de Napoleo a resaltar sob
um docel armado com quatro bandeiras em que se liam os nomes de outras
tantas batalhas assignaladas: Marengo, Austerlitz, Iena e Friedland.

J as damas ouviam requebradas os galanteios dos officiaes de Napoleo,
quando entrou Junot  maneira d'imagem em andor, isto  ladeado por duas
das mais formosas portuguezas. Ento comeou o delirio da valsa, que
rodou em circulos vertiginosos pela sala, at que a meio do tablado se
abriu uma tenda de campanha, onde se serviu a ceia unicamente s
senhoras.  de suppor que suas excellencias se volvessem galliciparlas
para melhor poderem acompanhar a eloquencia dos officiaes francezes nos
brindes.

Os convivas do sexo masculino estavam vexados--segundo diz candidamente
o j citado Jos Accursio das Neves--e espreitavam dos camarotes as
viandas e as esposas, resignando-se ao exiguo prazer de respirar os
perfumes d'umas e outras.

Em redor do edificio do theatro estavam postados quatro mil aguadeiros,
de barril ao hombro, medida preventiva ordenada por Junot, para
acudirem, em caso de maior sinistro, ao duplo incendio da lascivia e da
gula.

Parece porm averiguado que no funccionaram por serem permittidos
dentro os escandalos.

D'esta combusto, que afogueou o interior do theatro de S. Carlos, na
noite de 8 de junho de 1808, tambem no sabia o Tunante de P-de-Moira.

Que ignorante aquelle!

Entenda-se todavia que no veiu  tela o facto para avultar a necedade
do barqueiro, seno que para desculpar o corao e a mocidade da pobre
Rosina Regnau. E agora  tempo de reatarmos o interrompido dialogo.

--Reparou, replicou a vivandeira a Graa Strech, que ia calada. Ia a
pensar. Bem v que  desculpavel a concentrao em quem agora renasce
para a existencia. No creia porm que o no ouvia. Ouvia sim... Quer
uma prova? Acaba de serenar a minha alma com uma unica palavra, de
resolver um problema, como se diz em Pariz, no bairro Latino. O senhor
no precisa de pensar no futuro. J o escolheu. Vae combater, vae
realisar o seu desejo, to facil de realisar que lhe basta apenas
encontrar o exercito portuguez. Eu comecei a realisar o meu: era
acompanhal-o. Bem; aqui vou ao p de si. Mas depois? mas manh? mas
sempre? Procurar o exercito francez era entregar-me  morte. Seguir o
exercito portuguez era denunciar-me no primeiro momento em que me
ouvissem falar. E os resultados d'essa imprudencia facilmente se
imaginam... Seriam tambem a morte... No, no, eu quero viver, preciso
de viver, com o senhor e como o senhor. Viver para a sua vingana; eu
viverei para o meu... amor. Sim, pode acreditar na verdade d'esta
palavra, aqui, a esta hora, depois, de eu haver atirado ao rio o meu
fato de vivandeira... O senhor disse ao barqueiro: Faze de conta que 
muda. Pois bem, sel-o-hei d'hoje em diante sempre que tenha  volta de
mim ouvidos estranhos. Reservarei para o senhor as minhas palavras e o
meu corao; para todos os outros serei muda, idiota, louca, se tanto
for preciso. Mas deixe-me vel-o, seguil-o, falar-lhe s a si, percebe,
s a si! No estranhe a minha fraqueza. A alma da vivandeira  como um
cartuxo de polvora: cheguem-lhe lume, e ella arder. O senhor bem sabe
que eu sou vivandeira...

Graa Strech queria falar.

Ella atalhou-o:

--Quando se enfastiar de mim, tenha a coragem de m'o dizer. Um soldado
deve ser corajoso. O ceguinho das Ardennas, quando vae a qualquer casa
onde as crianas teem medo do seu co, manda-o embora, e elle
obedece-lhe. O senhor diga-me tambem: Rosina Regnau, no te esqueas de
que eu sou para ti o cego das Ardennas, o pobre Hubert. Bem sabe que
quando ha guerra no  difficil a gente encontrar repouso. s vezes, no
caminho, sae-nos ao emcontro uma bala perdida. Quando a gente  feliz, a
bala cae-nos aos ps, mas quando s falta calar-se o corao para
morrer, a bala cae no corao.

--Rosina! Rosina! murmurou Graa Strech, profundamente commovido.

Ella atalhou-o de novo:

--Sim, agora ainda sou Rosina, ainda posso sel-o. manh serei--a muda.
Serei uma sua parenta, uma louca com quem o senhor reparta piedosamente
da sua marmita. Diro: Ali vae a louca! E eu no poderei voltar-me
sequer, porque a louca ser ao mesmo passo surda e muda. Se porm o
calor da lucta no s fizer que se enfastie de mim, mas tambem que me
odeie, como a principio me odiava, ento no me mande embora,
denuncie-me, entregue-me. Bastar uma palavra sua para fazer-me
emmudecer para sempre. Bem v que se o encargo  pesado, o resgate 
facil...

--Offende-me, Rosina, veja bem que me offende! disse elle ardentemente.
Amo-a... sim, tambem eu posso dizer-lhe que a... amo. E quem diria,
Rosina, quem o diria ha to pouco tempo ainda! Como  feito o corao do
homem! Odeio os seus irmos e amo-a a si... Pela primeira vez na minha
vida sinto amor por outra mulher que no fosse...

--Cale-se, cale-se! apostrophou ella delirantemente. No quero saber
quem amou; seja esse o segredo do seu annel.

--Acredite, Rosina, que o amor de que este annel  recordao era o mais
puro amor que ha na terra... A pessoa a quem elle pertencia era minha
irm, acredite, era minha irm.

--Sua irm! repetiu ella incredula e ironica. Bem v que o sentimento
que esse annel lhe inspira no  a saudade,  o enthusiasmo...

--Oh! que no sabe como eu a amava! So d'ella tambem estas cartas..
Pde vel-as, desenganar-se...

--No as entenderia.

-- verdade. No as entenderia.

--E que certeza me dariam as cartas de que eram da mesma pessoa que
possuia o annel? Que sua irm lhe escrevesse era natural... No preciso
de provas para acredital-o...

--Rosina! Rosina! Este annel tambem era de minha irm, que eu vi morta,
fria, hirta, livida... Mataram-n'a, Rosina, mataram-n'a... E ella era
to formosa, to innocente, to timida! Mataram-n'a os francezes, a
ella, que lhes no fazia mal nenhum, a ella, que era meiga como uma
pomba!... E no contentes com um assassinio, commetteram mais dois na
minha familia. Ao p do cadaver d'Augusta havia outros cadaveres: o de
minha me e o de minha av. Mataram-n'as os francezes, Rosina. Por isso
eu odiava este nome. O annel, cujo segredo no acredita,  um
legado de sangue... Sim, eu amo-a, mas nunca me pea mais do que eu lhe
posso dar. Nunca me pea compaixo, clemencia... Era impossivel! Sobre
este annel jurei vingar-me. Bem v que  delgado, fino, como o dedo que
cingia. Pois elle  a unica barreira que pde haver entre mim e Rosina,
quero dizer, o unico obstaculo que lhe prohibe a plena posse do meu
corao... Viverei, sim, entre este annel e Rosina; entre a minha
vingana e o meu amor... Eu patenteei-lhe a minha alma antes de acceitar
a liberdade que me deu. No tem de que me accusar... Comprehendo-a,
Rosina, acredite que a comprehendo. A sua alma  to extraordinariamente
grande, to poderosamente forte, que chega a assombrar-me a coragem do
seu amor... Eu conheo que vae raiar para mim uma nova aurora. Quizera
poder-me dar completamente ao seu amor, viver d'elle e s para elle, mas
infelizmente a aurora que vae raiar nasce tinta de sangue, e sangue...
de seus irmos.

Rosina tinha lagrimas nos olhos e fogo no corao. Parecia-lhe
impossivel que a saudade d'uma irm despertasse em Graa Strech to
dolorido enthusiasmo. Se era essa a unica recordao ligada quelle
annel, que phenomenal, que afflictiva e ao mesmo tempo que energica no
era a alma d'esse homem! Cada vez o amava mais por que cada vez lhe
parecia maior. E todavia, entre elles, to germanados pela impetuosidade
dos sentimentos e pela virilidade do animo, medeava uma barreira, posto
que delgada, insupperavel--o annel mysterioso. Ella quereria tirar-se
d'aquella duvida cruciante, adquirir, ainda que  custa de sacrificios,
uma convico, embora funesta; mas que direito tinha ella a interrogal-o
mais, a duvidar, a ter ciumes?

Cerca do meio dia abicou o barco a um reconcavo sombrio, perto de
P-de-Moura, onde o barqueiro saltou em terra para ir buscar o fato
promettido. Antes d'elle desembarcar, Graa Strech lanou-lhe a mo ao
brao, e disse austeramente:

--Tens filhos?

--Saiba v. s. que tenho quatro. Por elles me exponho  morte todas as
noites no rio...

--Pois bem. Por elles me jurars que no dirs a ninguem palavra do que
viste e ouviste aqui.

--Juro, senhor...

--Agora recebe todo o dinheiro que resta a um soldado.

Uma hora depois, Graa Strech, saltando  margem, dizia a uma camponeza
que o seguia:

--Para Amarante.

E a camponeza, como se s tivesse sorrisos e no palavras, sorria.

J dissemos que era aquelle o dia 20 d'abril.

Quizeram os francezes, depois da invaso do Porto, estender a sua
victoria pelo paiz inteiro. Immediatamente se assenhorearam de Valena e
Vianna, tentando simultaneamente passar a Traz-os-Montes, mas foram duas
vezes repellidos n'essa tentativa.

Beliscados na sua vaidade de conquistadores, tinham mandado sobre
Amarante no dia 9 uma fora, que recuou perseguida pelo general
Silveira. Appareceu porm, reforada, no dia 15, travando combate em
Manhufe e Villa Me durante trez dias para dar tempo a soccorrel-a os
quatro mil homens de Loison e De Laborde, que, partindo de Guimares,
lograriam colher os portuguezes pela rectaguarda.

A pericia do general Silveira frustrou-lhes o intento com um rapido e
habil movimento sobre Amarante. Os portuguezes occupavam a margem
esquerda do Tamega; os francezes a direita.

O empenho do inimigo era atravessar a ponte. Desesperados pela valorosa
resistencia dos portuguezes, pegaram fogo, na noite de 18, a toda a
villa. A crueza do inimigo mais pareceu atiar a coragem dos nossos,
cuja resistencia recrudesceu no dia immediato, apesar de reforados os
francezes pelas brigadas de Sarrut e Marisy.

Estas eram as evolues das tropas inimigas, em Amarante,  hora em que
deixamos Graa Strech e Rosina Regnau em caminho do acampamento portuguez.

Tempo depois, um poeta conterraneo, mais familiar s armas d'Apollo que
de Marte, encarecia no seguinte soneto a gloria do general Silveira,
cuja tactica elle provavelmente estivera contemplando de sitio aonde j
no podiam chegar pelouros:

    Uma nuvem de fumo o ar pova,
    E do Tamega enluta as margens frias,
    O portuguez canho quatorze dias,
    Sem descano algum ter, fuzila e tra.

    De um lado a outro lado a morte va
    Por entre essas crueis artilharias,
    E perdendo as antigas ousadias,
    Curva ao duro francez a altiva pra.

    Amigos hespanhoes, nao brilhante!
    Eis como c seguimos vossa esteira,
    Eis nossa Saragoa, eis Amarante.

    Os olhos ponha em ns a Europa inteira,
    E veja, em amplo quadro flammejante,
    O Tamega, Ebro, Palafox, Silveira.

Pena foi que Graa Strech precedesse alguns dias a gestao do soneto
escripto em honra de Silveira, porque, de contrario, se topasse o poeta
a versejar em ociosa inactividade, havel-o ia empurrado, no seu
vivissimo odio contra os francezes, para o meio da infatigavel fuzilaria
que durante quatorze dias sinistramente illuminou as aguas do Tamega.

O que valeu foi que, se houve poetas para incensar metricamente
Silveira[8], houve tambem soldados que denodadamente pelejaram pela
patria.

E o numero dos valentes da ponte d'Amarante ia agora ser augmentado com
um soldado que seria o primeiro a romper fogo contra o inimigo.

Deixar l o poeta dizer que as margens do Tamega eram _frias_ n'aquelle
tempo. Os poetas dizem tudo, e tudo podem dizer...

    [6] Historia antiga e moderna da sempre leal e antiquissima
    villa de Amarante. etc., por P. F. de A. C. de A.--1814, pag. 54.

    [7] Historia geral da invaso dos francezes em Portugal,
    por Jos Accurcio das Neves. Tomo I, pag. 282.

    [8] Veja-se _Elogio de Silveira_, pelo padre mestre dr. fr.
    F. de S. T., e _Silveira_, poema por J. S.

      *      *      *      *      *


X

A hora do resgate

Quatorze dias durou, como dissmos, a heroica defeza da ponte d'Amarante.

Foi aquella uma proeza que requeria desfecho condigno, o que
infelizmente no aconteceu. Reforado o inimigo ao decimo terceiro dia
de combate, e animado pela presena do marechal Soult, preparou-se para
uma lucta decisiva, que o nevoeiro com que amanheceu o dia seguinte
viera inesperadamente coroar.

Perdidos os nossos na cerrao da metralha e da neblina, e atacadas pela
rectaguarda algumas baterias, tiveram de abrir passagem por entre uma
densa floresta d'armas, marchando em retirada para Mezo Frio e Campe,
a tempo que o general Silveira recuava para Entre-os-Rios.

 realmente assombrosa a historia portugueza nas paginas que dizem
respeito s guerras peninsulares.

So to descommunalmente grandes os factos, que, em sua mesma simpleza,
ora se nos affiguram episodios d'Homero, exuberantes d'esforos
titanicos, ora se retingem dos toques sombrios de Dante.

As faanhas da invaso franceza claramente revelam que ha pouco mais de
sessenta annos corria ainda nas veias dos portuguezes o sangue dos
valentes d'Ourique, Aljubarrota e Montijo. Renasciam os heroes das
cinzas dos heroes, como se a gloria fosse herana de paes a filhos.
Podia o animo portuguez desvariar se por momentos, como j anteriormente
fizemos notar, que logo despertava melhor retemperado para a
rehabilitao. Assim  que 1640 faz esquecer 1580, e que o vulto
homerico de Joo Pinto Ribeiro resgata a perfidia de Miguel de
Vasconcellos.

Hoje, as batalhas que outr'ora eram campaes, volveram-se parlamentares,
isto , falamos muito e praticamos pouco. A apostrophe S. Jorge e
vante! foi substituida por est'outra: Senhor presidente, peo a
palavra! Ha menos soldados e mais deputados, menos regimentos e mais
commisses. No obstante, alguma faulha resaltaria ainda das cinzas
quentes das nossas conquistas para atiar o incendio das paixes, na
hora em que perigasse a independencia da patria.

Aconteceria, porm, que muitos deputados, que nas crtes de S. Bento
discursam calorosamente sobre a nossa autonomia, requereriam, dada a voz
de alarma, inspeco da junta de saude para serem considerados invalidos...

Mas iamos ns falando dos feitos portuguezes durante as guerras
peninsulares. Estupendos foram,  certo.

No combate da ponte d'Amarante, por exemplo, perecera gloriosamente um
official d'artilharia, muito lastimado por seus companheiros d'armas,
incluido o general Silveira, que lhe abraou o cadaver.

O tio do official, e a me, que era viuva, vestiram-se de gala, dizendo
esta nobre mulher aos dois filhos que lhe restavam, e estavam pranteando
o irmo:

--No choreis, filhos. Vosso irmo no morreu. Vs  que morrereis da
morte da vergonha se vos no mostrardes dignos da sua memoria.

Este exemplo d'animo varonil em peito feminino prova que no anda
phantasia popular na lenda d'aquella Deosadeu, de Monso, de Celinda, a
heroina de Cert, de Filippa de Vilhena, e doutras celebradas matronas
portuguezas, que deram  patria uma gerao de meninas que fazem _crochet_.

 egualmente abundante de heroismos a chronica da primeira invaso, 
parte pequenas manchas, como aquellas que dos copos dos officiaes
francezes cairam sobre o tablado do theatro de S. Carlos.

Deixem-me citar um facto na mesma linguagem em que o historiador o
descreveu.

O juiz de fra de Algozo, Jacintho d'Oliveira Castello Branco, fez-se
digno de honrosa memoria, pela sua repugnancia s ordens do governador
intruso; por continuar debaixo d'elle a uzar do nome de S. A. R.[9] em
alguns processos; por conservar as armas reaes no pelourinho e na casa
da camara d'aquella villa; e por outras aces, egualmente sublimes e
arriscadas. Jantando em sua casa varias auctoridades portuguezas, que o
increpram de no cumprir as ordens reiativas  contribuio de guerra,
respondeu-lhes, lanando mo a um copo, e fazendo uma saude a S. A. R. o
principe regente.

No  menos avantajado em heroicidade o procedimento do juiz de fra de
Marvo, Joaquim Jos de Magalhes Mexia, que, intimado para se render ao
jugo estrangeiro, fez desistencia publica perante os seus escrives, e
foi prostrar-se diante da imagem do Senhor dos Passos da sua villa,
encostando a vara  imagem por frma que parecia haver-lh'a depositado
nas mos, e recolhendo-se depois a casa para vestir-se de luto.

 pois digna de que a reproduzam na tela os melhores pintores, os
melhores poetas e os melhores historiographos--esta ingente lucta d'um
pequeno paiz, apenas soccorrido por outro, contra o gigante tresvariado
pela gloria, que firmava os ps nas planicies da Italia, e alguns annos
depois fra visto  luz, para elle sinistra, dos incendios de Moscow,
enchendo, de sul a norte, a Europa inteira.

Alguns talentos verdadeiramente robustos teem lanado o colorido do seu
pincel sobre esta enorme tela, nunca esgotada. Que me lembre n'este
momento, Rebello da Silva, Camillo Castello Branco, Pinheiro Chagas e
Arnaldo Gama trataram brilhantemente to fecundo assumpto. Eu chego com
pequeno viatico, embora no venha tarde, unicamente para mostrar que
tenho seguido reverentemente o sulco que todos quatro abriram no vasto
campo da guerra peninsular.

Reatando a narrativa.

Graa Strech foi um dos soldados portuguezes que mais se distinguiram
nos ultimos dias da defeza da ponte d'Amarante.

O general Silveira estimou-o desde que elle, apresentando-se, lhe disse:
Venho bater-me como leo porque venho vingar-me; e comeou a admiral-o
horas depois da apresentao.

Ao anoitecer do mesmo dia, fizeram reparo alguns soldados n'uma
camponeza, que parecia muda, e se bandeava com o sequito do exercito.

--D'onde viria? perguntavam elles.

-- minha... irm, atalhou commovido Graa Strech. No podia
convencel-a a que me no seguisse, porque a infeliz nem ouve nem fala.
Veiu vindo atraz de mim, receiosa de que eu morresse sem ver-me.
Pobresinha!--acrescentou com os olhos marejados de lagrimas--no faz mal
a ninguem, e  muito minha amiga.

--Que pena a sua desgraa, que to formosa ! observou piedosamente um
portuguez.

--Nem se diria portugueza! exclamou outro com a affouteza que lhe dava o
no estar na presena de portuguezas.

Graa Strech replicou:

--Ha com effeito ali alguma coisa allem no rosto como no nome. Os
nossos antepassados tinham sangue teutonico. Ainda nos corre nas veias o
sangue d'elles. A pobresinha estremece-me. Como no tem ouvidos nem voz,
quer estar ao p de mim sempre que pde, como para falar pela minha
bocca e ouvir pelas minhas orelhas. Eu sou quasi a sua moleta... Tambem
a infeliz no tem ninguem mais n'este mundo, e ella de si pouco tem...

--Infeliz! ponderaram os soldados enternecidos.

Rosina Regnau interpretou magistralmente o seu papel. Passavam por ella
e diziam: _A muda allem!_ e ella, apesar de entender a phrase  fora
de repetida, nem sequer voltava o rosto para agradecer aquella esmola de
compaixo.

Se no ouvia! se no falava!

Sentava-se entre as bagagens a entranar folhas verdes ou a desfolhar
flres.

Algumas vezes mettia-se por entre as arvores para se inteirar da posio
das tropas.

Depois d'um combate, aproximava-se dos soldados, quando Graa Strech se
demorava ainda, e pousando a face na mo e fechando os olhos, perguntava
por gestos se o irmo estava ferido ou morrera. Os soldados, que j a
comprehendiam, acenavam-lhe negativamente.

Assim decorriam os dias, sem que a alma da vivandeira saisse para fra
de si mesma.

Quem adivinhava ali que de receios, de maguas, de pensamentos, de
esperanas muito vagas... agitavam aquelle formoso cadaver que s tinha
vida nos olhos?

Ninguem.

E todavia ella estava pensando sempre...

A sua ambio, o seu sonho, o seu ideial era possuir inteiramente a alma
de Graa Strech, porque ella desde o momento da fuga para ninguem mais
vivia.

--Achou decerto--suspeitava ella--que eu no era digna de receber a
confisso do seu segredo. Quem s tu, disse elle l comsigo, pobre
vivandeira, para comprehenderes a enormidade d'um amor que vive na
morte? Se aquelle annel fosse realmente de sua irm, curvar-me-ia a seus
ps e beijar-lh'o-ia. Mas se elle cingiu o dedo d'outra mulher, que o
amava muito menos do que eu, arrancar-lh'o-ia da mo ainda mesmo com a
certeza de morrer esmagada pela sua colera. Cumpre pois que, por
sacrificio sobre sacrificio, eu chegue a nobilitar-me a seus olhos o
bastante para elle me convencer. N'esse dia serei sua amante; por
emquanto sou apenas o seu co. Vamos, solitario molosso, affaga o teu
dono...

Graa Strech passava, atirava-lhe uma flr, e sorria...

Ella sorria tambem.

Guarnecidos todos os pontos do Douro, desde a retirada d'Amarante at a
aco d'Ovelha, tiveram as tropas algum descano apenas interrompido por
escaramuas e reconhecimentos.

Foi n'esse intervallo que Graa Strech comeou a aprender a tocar
guitarra com um soldado, filho da Regua, e muito conhecido ali por
excellente musico.

A natural aptido de Graa Strech fez que dentro em pouco se avantajasse
ao mestre. Assim era que no desaproveitava occasio de estar
guitarreando ao lado de Rosina, que conservava na physionomia a habitual
immobilidade de linhas, como se a musica, que se lhe coava  alma, no
lhe desse nenhuma sensao, por no poder ouvil-a.

s vezes, de noite, Rosina podia murmurar muito a medo, aos ouvidos de
Strech, atravs dos sons da guitarra:

--Jos!

Ella sabia pronunciar este nome como se de pequenina o aprendera.

Depois olhava em redor, como para adquirir a certeza de no ser
escutada, e repetia maviosamente:

--Jos!

Elle apertava-lhe convulsamente a mo e respondia:

--Rosina!

E aquelle immenso amor da vivandeira, que renuncira  patria, 
liberdade e  voz, contentava-se com exhalar-se n'uma palavra, e ser
correspondido por outra.

Ella tambem no pedia mais. Era o co do soldado: seguia-o.

Quando a tristeza lhe descia ao corao, a indefinida tristeza de quem
ama, consolava-se a si propria imaginando-se ainda vivandeira, porque
ouvia troar o canho e sentia no ar o cheiro da polvora.

Era apenas a memoria o que lhe restava do que fra; o fato da sua
infancia sepultra-o ella no fundo das aguas...

Entretanto proseguiam com actividade as operaes d'um e outro exercito.

A 22 d'abril entrava em Lisboa Wellesley, commandante em chefe das
foras britannicas, que desembarcaram no Porto, na Figueira, etc. As
tropas inglezas, de combinao com as portuguezas, comearam a tomar
differentes posies. Em Coimbra passaram algumas divises nos dias 1 e
2 de maio, sendo recebidas com festas que chegaram a tocar o maximo
enthusiasmo.

Era aquelle o hymno de esperana da patria, anciosa de liberdade.

Avanaram as tropas alliadas at Agueda, e lograram repellir os
francezes desde as Albergarias at Oliveira d'Azemeis, onde Wellesley,
depois lord Wellington, estabelecera o quartel general.

No dia 11, a guarda avanada do exercito anglo-luzo destroou em Grij
os postos avanados francezes que recuaram at Gaya e passaram o Douro,
cortando immediatamente a ponte de barcas.

Na vespera d'esse dia atravessra Beresford o Douro na Regua com as suas
tropas, repellindo Loison para Amarante, e de Amarante para o Porto;
Loison perdera na retirada muitas peas, alguns obuzes, e cento e
dezenove carros com bagagens.

Estava pois o flanco esquerdo do exercito francez torneado por
Beresford, o direito por Hill em Ovar, e o centro alcanado pelas
divises Trant e Paget.

Durante toda a noite de 11 para 12 marchou o exercito alliado sobre
Villa Nova de Gaya.

De manh, e impossibilitado de passar o rio, soube o coronel Watters que
um barbeiro portuense, salvo da vigilancia das patrulhas francezas,
havia atravessado n'um barco; aproveitando a conjunctura providencial, e
o barco no menos providencial que a conjunctura, passou  margem
direita, voltando  esquerda com trez grandes barcos, que pudera obter.

Avisado Wellesley do achado miraculoso, voltou-se jubiloso para o
coronel e disse:

--Passem as tropas que couberem nos barcos.

No faltaram valentes que se expuzessem aos azares da faanha,
surprehendendo os francezes que contavam repellir vantajosamente o
inimigo quando tentasse a travessia a descoberto.

Foi, pois, o coronel Watters o Martim Moniz da reconquista do Porto.

Percebidos os francezes da audacia heroica do exercito alliado, para
logo se desviaram em movimentos confusos, como o redemoinhar das areias
no deserto revolvidas pelo simoun. E assim como as areias tomam,
erguidas no ar,  luz do sol, irradiaes prismaticas que deslumbram,
assim resplandeciam,  luz do meio dia, as armas dos francezes
baralhando-se tumultuariamente nas ondulaes do terreno que medeia
entre o caes da Ribeira e o Prado do Bispo.

E ento marinhavam as tropas luzo-britannicas pelos alcantis do
Seminario, como outr'ora os cruzados pelos despenhadeiros da torre do
norte, na tomada de Lisboa, e, para que se complete o parallelo, o que
l era Guilherme, duque de Normandia, era c Wellesley, lord Wellington.

E j para anciedade dos portuenses se abria manh d'esperana,  medida
que os nossos ganhavam terreno, e mais revoluteavam as hostes francezas
nas eminencias sobranceiras ao Douro.

Por um momento se julgou perdido o triumpho, quando a artilharia
franceza comeou a varejar o Seminario.

Mas no tardou que ao canho da margem direita respondesse o canho da
margem esquerda, que das alturas do Pilar vomitava torrentes de fumo
negro sobre o valle cavado pelo Douro.

Reanimados os portuenses, entraram de preparar barcaas, que conseguiram
pr a salvo do outro lado do rio, e que transportaram as tropas do
general Sherbrooke.

Simultaneamente estrondeava no Porto, rolando at ao caes como o rumor
longinquo d'uma cathedral em festa, o concerto das vozes, que pregoavam
victoria,  mistura com os sons festivos dos campanarios.

Nas janellas da cidade baixa agitavam-se lenos brancos em vertiginoso
tumultuar.

Tambem assim accordou Lisboa, cento e sessenta e nove annos antes, na
manh de 1 de dezembro de 1640, quando um punhado de fidalgos
portuguezes subjugava nas praas publicas, sem correr uma gotta de
sangue, o famelico leo das Hespanhas.

Era o grito de liberdade longos dias reprimido na garganta d'um povo
inteiro.

Era o jubilo d'uma nao, que parece apenas occupar alguns palmos de
terra no mappa da Europa,  hora em que despedaava as gramalheiras que
por sobre os Pyreneus lhe lanra o Csar da Frana, e dizia ao vencedor
de Austerlitz: Tu prostraste a Prussia em Iena, a Russia em Friedland;
tu levantaste sobre as baionetas dos teus exercitos os thronos de
Napoles, da Hollanda, da Westphalia, e da Hespanha, mas ns fizemos
estremecer na tua mo,  demolidor victorioso, a alavanca com que
procuravas revolver nos alicerces o solio portuguez. Que o amigo
leopardo da Inglaterra te contrariasse, v, porque a Inglaterra  muito
poderosa. Mas ns, pequenos como somos, fazemos suster o vo da tua
aguia e, audazes como ella, gritamos-lhe para a amplido que avassalla:
Basta! Pra!

    [9] Sua Alteza Real.

      *      *      *      *      *


XI

O que a vivandeira pensava

Retiraram os francezes pelo norte de Portugal, acossados pelo exercito
anglo luso.

No dia 17 ganharam Montalegre, no dia 18 passaram a Alhariz, e no dia 19
entraram em Orense, depois de marchas to violentas como trabalhosas, de
perdas consideraveis, e de perseguida vivamente a sua rectaguarda pelas
tropas alliadas.

Na passagem pelas povoaes que medeiam entre o Porto e a fronteira,
deixaram os invasores um rasto de sangue e fogo de que falam com
assombro os documentos officiaes.

 medida que fugiam foram espalhando a morte nas ultimas terras de
Portugal, como se quizessem atulhar de cadaveres o abysmo cavado na
gloria de Napoleo.

N'uma carta dirigida por lord Wellington ao secretario de guerra,
escripta no quartel general de Montalegre, no dia 18, l-se que: O
inimigo comeou a retirada, como j informei a v. s., destruindo uma
grande poro dos seus canhes, e munies. Ao depois destruiu o resto
d'ambos, e grande parte da sua bagagem, sem conservar mais do que quanto
pudessem levar os soldados, e poucas mulas. Deixou ficar os doentes e
feridos; e o caminho at Montalegre est juncado de cadaveres de
cavallos, e mulas, e soldados francezes, que foram mortos pelos
camponezes, antes que a nossa guarda avanada os pudesse salvar. Esta
circumstancia  o effeito natural da maneira por que o inimigo faz a
guerra n'este paiz. Os soldados teem saqueado e morto a paizanagem, a
seu arbitrio; e eu tenho visto muitas pessoas pendentes enforcadas nas
arvores ao longo das estradas, executadas por nenhuma outra razo, que
eu possa saber, seno porque no eram amigas da invaso franceza,
nem da usurpao do seu paiz; e podia traar-se a rota da sua retirada,
pelo fumo das aldeias a que elles lanavam fogo. Temos tomado cousa de
quinhentos prisioneiros. Em tudo, o inimigo no tem perdido menos de um
quarto do seu exercito, e toda a sua artilharia e equipagem, desde que
ns o atacmos junto ao Vouga.

O marechal Beresford afina pelo mesmo tom:

No  possivel pintar a cruel e infame conducta do inimigo; ella pde
ser facilmente traada pelos lamentos dos infelizes paizanos, das
mulheres e das crianas, e pelo fumo das villas, aldeias e casas
incendiadas: elle a nada perda: esta villa (Amarante) est inteiramente
destruida: a de Mezo Frio o est em proporo do tempo que tiveram...

Passavam, pois, os francezes, devastando, incendiando, matando.

Quiz o duque de Dalmacia que o occaso da sua invaso fosse allumiado
pelas labaredas do incendio.

Eram os ultimos lampejos d'uma victoria ephemera. Mas a voz da patria, 
hora do resgate, erguia-se mais alto que o crepitar das chammas no
pendor das serras, que os lamentos dos velhos e das crianas que
succumbiam  ultima carnificina da segunda invaso franceza.

No Porto, governado militarmente pelo coronel Trant, grande era o
jubilo, se bem que no to cego que sir Arthur Wellesley no houvesse
proclamado aos habitantes que os feridos e prisioneiros estavam debaixo
da sua proteco, e que seria considerado criminoso quem os offendesse.

Em Lisboa, mal que no dia 17 se teve noticia official da restaurao do
Porto, salvou o castello de S. Jorge, sendo correspondido pelos navios
de guerra inglezes surtos no Tejo; saiu bando para que a cidade se
illuminasse por trez dias, no ultimo dos quaes mandou o governo cantar
um _Te-Deum_ na Basilica de Santa Maria Maior.

Internado o inimigo no territorio da Galliza, as operaes do marechal
Victor na Extremadura hespanhola, ameaando nova invaso de Portugal
pelo Alemtejo, obrigaram sir Wellesley e o marechal Beresford,
solicitado tambem o primeiro pela junta central de Hespanha residente em
Sevilha, a marchar com seus respectivos exercitos para o sul do reino.

Retirou, pois, sir Wellesley, posto que a despeito do governo portuguez,
para a cidade do Porto, d'onde passou a Coimbra, Thomar, Constancia, e
Abrantes, acampando na margem direita do Tejo. O exercito portuguez
acompanhou o movimento retrogrado do exercito inglez, marchando para
Abrantes, no intuito de atacarem em commum o marechal Victor, que
estanceava nas visinhanas do Guadiana. No se demorou, porm, o
marechal Victor n'esta posio. Avanou, com os seus 90:000 homens, para
a margem esquerda do Tejo, no intuito de o passar na ponte d'Alcantara.

Reportemo-nos ao dia 14, dia assignalado pela brilhante defeza d'esta
ponte durante mais de seis horas.

Eram oito da manh quando o inimigo, em trez columnas, rompeu o ataque
por differentes pontos.

D'uma e outra parte foi terrivel o fogo da artilharia at que, cerca do
meio dia, vendo o regimento de milicias de Idanha-a-Nova
consideravelmente dizimadas as suas fileiras, retirou em debandada,
deixando ficar no campo apenas a legio lusitana.

Em to desesperada conjunctiva, o coronel Mayne mandou incendiar as
minas da ponte, rompendo a exploso apenas por um lado, e ao major Grant
confiou o commando das baterias para proteger a retirada dos nossos, que
se realisou pelas trez horas da tarde.

A cavallaria franceza vivamente perseguira ento a nossa pequena
diviso, sem que todavia pudesse impedir que se acautelassem os feridos
e juntassem os dispersos.

Ora um dos feridos na defeza da ponte d'Alcantara chamava-se Jos Maria
da Graa Strech.

Quando, em logar seguro, o tiraram d'um carro, onde lhe eram
companheiros outros valentes portuguezes, a _muda alem_, como
geralmente chamavam a Rosina Regnau, esteve a ponto de trair o segredo
do seu disfarce, vibrando um doloroso grito, o qual se apagou n'um rouco
murmurio, que , em lances afflictivos, o supremo esforo dos que no
teem voz.

E logo correu a encostar ao peito a cabea do ferido, a examinar a
ferida, e a perguntar por gestos se poderia resultar perigo.

Os soldados, condodos de to carinhosa dedicao, responderam logo,
desde muito costumados a prognosticar sobre ferimentos, gesticulando
negativamente.

E a muda poz as mos, levantando os olhos ao co e entrou de affastar os
cabellos de Graa Strech, banhados de suor frio, para contemplar-lhe a
physionomia levemente alterada.

Elle sorria-lhe com os olhos marejados de lagrimas e serenava-a
acenando-lhe meigamente com a mo.

Um dos soldados, abeirando-se de Graa Strech, disse curvando-se para elle:

--O que tu tens de valente tem ella de boa! Sois dois irmos dignos um
do outro.

Graa Strech encarou n'elle e meneou a cabea; a muda ficou indifferente
a curar as feridas do irmo.

E s depois que no podia ser vista nem ouvida de estranhos, comeou,
alternando palavras com beijos, a falar-lhe to baixinho, to baixinho,
como se at dos ouvidos d'elle guardasse o seu segredo, e s quizesse
que a escutasse a alma...

--No  nada, Jos, meu Jos. Elles disseram e eu agora bem vi. Sabes
que fui vivandeira e que tambem entendo o meu pouco de feridas. No! A
morte no te rouba d'esta vez  tua vingana e ao meu amor.

--Rosina, minha adorada Rosina! Alma pura! Corao nobilissimo!
Obrigado. Curva-te sobre a minha bocca; queiro beijar a tua face...

-- o primeiro beijo! murmurou ella circumvagando um olhar cauteloso.--
o primeiro beijo que de ti recebo... Obrigada, meu Deus!

--Sim, tu s muito melhor do que eu... Tens-me dado tantos, tantos..
Mas--e perdoa-me, Rosina, perdoa-me--a minha alma s agora te pde
beijar livremente...

-- felicidade!... Praza a Deus que se este beijo me abre a tua alma eu
a chegue a possuir inteiramente, porque o amor, meu Jos,  to egoista,
to egoista...

--E no crs possuil-a ainda?

--No. Todavia tenho esperana... Vir um dia. Cala-te, que te faz
mal falar... J no foram pequena felicidade estas palavras, por que, tu
bem sabes, eu s tenho palavras para ti e para... Deus.

Foi longo e reparador o primeiro somno do ferido.

Rosina Regnau velou  cabeceira da tarimba, absorta nos seus pensamentos
pela primeira vez illuminados por um raio de sol. Estava folheando o
roseo poema do primeiro beijo, decompondo em estrophes maviosas a
harmonia que da alma subira aos labios. Era a primeira gotta de orvalho
na aridez do seu destino, uma parcella de ternura em recompensa dos
thesouros que ella por tanta vez prodigalisra sobre as faces de Graa
Strech.

O primeiro beijo! A santa loucura das almas que se amam, como diz a trova:

    Foi aqui mesmo,  tremula
        Sombra do olmeiro,
    --Dizia o pastor Lcidas--
        Aqui, aqui,
    Que eu hontem n'estes labios
        Tive o primeiro
    Beijo da minha Flrida,
        E endoideci![10]

E baralhavam-se-lhe os pensamentos com a precipitao da ephemera
demencia que a felicidade d.

--Sim... eu comeo a ser feliz. Diz-me o corao que o serei... Mais
provas! mais provas, senhor meu corao! Mostre-se digno d'aquella
enorme alma, inspire-lhe confiana para lhe recolher os segredos, e
possua-a, e juntem-se, e prendam-se, e identifiquem-se, to unidos, to
unidos, que nem a morte os possa separar... Sem isso no ha felicidade
completa... Sim, bem vs, pobre corao, meu pobre corao que tanto
tens soffrido, que se aquelle annel fecha ainda a saudade de um amor
redivivo, no pdes por emquanto conquistar a fortaleza que se no
render. Tu sabes l como a saudade se bate entrincheirada detraz de um
tumulo! Ento ters ainda muito que soffrer e que luctar, pobre doente
para quem hoje raiou o primeiro symptoma da cura, meu triste
corao to soffredor! Mas forceja, v, porfia, esfora-te por
arrancar-lhe o segredo... Se aquella  a ultima memoria de uma irm
querida, alegra-te, pobre louco, porque nem a amante desluzir a irm,
nem a irm desluzir a amante. A alma d'elle  tamanha que chega para
mim e para ella. Para o que no chega  para duas amantes, que se
disputam palmo a palmo o terreno, que luctam, que combatem, que oppem
ciume a ciume, despeito a despeito, embora uma esteja morta e outra
viva... No, a gentil vivandeira no soffre competencias. J se fez
amar d'um exercito;  preciso que se faa amar d'um homem. Pois ento
perde-se tudo, a patria, a liberdade, o socego, as florestas das
Ardennas, as minhas queridas florestas das Ardennas, que talvez no mais
torne a ver, e as montanhas do Hainaut e do Luxembourg, que eu conheo
desde pequenina, e o Semoy e o Lesse e o Ourthe e o Eure, tudo, n'uma
palavra, perde-se uma vida inteira de dezoito annos, para amar um homem,
para ser a sua sombra, o seu co, e no se ha de possuir ao menos todo o
seu corao, todos os seus pensamentos, os seus segredos todos? Quem me
diz porm que no hei de vencer? No vi eu porventura tantas batalhas,
no as vejo ainda, e no posso tirar da incerteza da victoria um bom
agouro para o meu futuro? Dize-te, pobre Rosina, diz a ti mesma o que
so os combates que tantas vezes tens visto. Pinta um quadro para ti.
Anima-te! Olha... So duas as montanhas alcantiladas, sombrias,
enormes... Uma defronte da outra... No meio um rio sereno, e crystalino
a principio... depois vermelho de sangue. Sobre o rio uma ponte, e sobre
a ponte, como a desabarem para ella, as montanhas. E n'uma e outra os
exercitos, os uniformes variados, os kepis multicres, as espadas
reluzentes, os cavallos pendurados das fragas, os cavalleiros pendurados
dos cavallos, as carretas suspensas na ladeira, as peas que abrem a sua
bocca de fogo para vomitar o fumo e a morte, a voz dos clarins e a voz
dos commandantes, pragas, juras, maldies, gemidos, blasphemias,
sacrilegios, e a turba ora a estreitecer, a apertar-se, a juntar-se em
pinha, ora a crescer, a alargar-se, a fazer-se onda, a trasbordar, ora a
rolar como avalanche pelo monte abaixo, ora a marinhar por elle, a
trepar, a agarrar-se, to espessa, to escura, to confusa como se
fosse uma nuvem que sasse do rio, e o sol a doiral-a agora e logo
o fumo a envolvel-a, e j se desencadeiam d'um e d'outro lado ameaando
chocar-se sobre a ponte, que corta o valle, e que afundar com elles, e
baralham-se, enovelam-se, redemoinham, e apparecem uns, e desapparecem
outros, e tombam cadaveres ao rio, e estruge no ar a grita, e corre
ensanguentada a agua, e so aquelles os que vencem, os que esto em
maior numero, e vo esmagar os outros, e arvorar a bandeira... mas rolam
de novo, precipitam-se, confundem-se, e so estes agora os que
triumpham, l se embrenham por entre o inimigo, passam como corisco, e
assombram-n'o, fulminam-n'o, e a victoria  sua! Bem, Rosina Regnau,
assim foi em Amarante e ainda agora em Alcantara; assim pde ser para
ti. Quem te diria no hospital de sangue, quando o estavas contemplando
adormecido, to pallido, to mergulhado no somno, e tu te lembravas de
que eras franceza e elle portuguez, quando tu j o amavas e elle dormia,
quem te diria,  vivandeira ignorada, que dias depois havias de seguil-o
por toda a parte, e perder a tua voz para que te no conhecessem, e
encostar ao teu peito a cabea d'elle, que caira ferido, e recber-lhe o
primeiro beijo? Ninguem! Nem aquelle endemoninhado do Beauvier, que era
o bruxo do exercito, e andava sempre a olhar para os astros, e
adivinhava quando chovia, e a lua havia de ser cheia, aquella bonita lua
cheia da Frana!... Ninguem, Rosina, ninguem! Pois tambem no ha magico
na terra que saiba dizer se tu chegars a vencer o seu corao de modo
que te julgues to poderosa, to senhora do mundo como o imperador, e
por feitio que sejas to ambiciosa como elle, que no deixa palmo de
terra a ninguem!...

Interrompeu-lhe este intimo monologo uma contrao do ferido, que
balbuciou monosyllabos.

--Sonha!--pensou ella--e quem sabe o que sonha? Estou aqui to perto
d'elle, a vel-o, feio por feio, linha por linha, a examinal-o tanto,
que dir-se-ia querer contar-lhe um por um os seus cabellos, e sinto-lhe
o halito na minha face, e fala, e s eu o oio, e todavia no sei de
quem so os seus pensamentos, nem o que querem dizer, o que est
recordando, o que est sonhando, finalmente! Tenho diante de mim, como
livro aberto, a sua physionomia e no posso lr na sua alma! Sei que ha
ali um mar mysterioso, e no posso sondal-o. D'uma vez--recordou
ella--lia o meu pae Regnau os jornaes, e disse: Fulano e sicrano foram
 pesca das ostras. E acrescentou: E o imperador que as tem bem boas
na Corsega! E eu perguntei ao pae Regnau para que iam elles pescar as
ostras, to longe, se podiam pescar outros peixes no Sena.
Tontinha!--respondeu elle--porque das ostras  que se tiram as perolas,
e  preciso metter-se uma pessoa ao mar para pescal-as! Bem me
ensinaste tu, pae Regnau! O mar esconde tanta coisa... que at esconde
as perolas. Aqui estou eu  beira do oceano e no as vejo... As que eu
procuro, vivem escondidas ali...

E apontou para o corao do ferido.

Os labios de Graa Strech pareceram descerrar um sorriso. Rosina, que,
apesar dos seus pensamentos, estava attenta ao menor movimento, ao mais
subtil perpassar d'uma sombra, estremeceu ao rebramir da tempestade
interior:

--Sorri! pensou ella.--Havia n'este seu sorriso a melancolia de quem
est recordando a felicidade perdida... Lembra-se talvez d'uma hora em
que, rosto a rosto, juntas as mos, sorrindo, falando, sonhando, lhes
fugia o tempo mais rapido que o pensamento... E ella, a mulher que elle
amava, era decerto formosa, muito formosa, e dizia-lhe que jmais
haveria no mundo quem viesse a amal-o como ella... E elle acreditou-a, e
por isso a ama ainda no tumulo, e jurou que, viva ou morta, lhe seria
eternamente leal, porque o corao lh'o havia dado para todo o sempre...
Ah! mas quem sabe, durante o combate, a quem ha de pertencer a victoria?
O teu quadro, Rosina Regnau,  verdadeiro. Lucta at o fim, vivandeira,
faze como os soldados que foram teus irmos. Combate a saudade com a
esperana. Soffre, porque o soffrer  de quem lucta. Mas porfia,
conquista resignadamente esse corao onde desejas reinar, porque todo
elle  preciso para o throno da tua felicidade.

Abriu Graa Strech os olhos e relanceou a Rosina um olhar suavemente
triste.

--Sempre aqui!--segredou elle.

--Aqui  o meu posto de enfermeira voluntaria.

--Eu dormi, Rosina: dormi e sonhei... com minha irm. Estava-a
vendo aos cinco annos, vestidinha de branco, quando a fomos levar s
Chs, e quando eu tinha seis... Nunca isto me esqueceu! Trepmos a uma
cadeira para descer as mas que o padre capello tinha a amadurecer no
friso da sala. Augusta subiu denodadamente, mas faltou-lhe a coragem
para saltar ao cho... E comeou a gritar, a gritar, de sorte que o
padre capello a veiu surpreender com as mas escondidas na abada do
seu pequenino vestido...

Sentiram-se passos.

--Cala-te! apostrophou Rosina. Cala-te! Rosina Regnau j aqui no est.
Fica apenas a _muda allem_.

    [10] A _inveno dos jardins_ por Gessner; traduo do sr.
    Visconde de Castilho (Antonio Feliciano).

      *      *      *      *      *


XII

Amor e ciume

Foram proseguindo as operaes da trabalhosa campanha de 1809 contra os
francezes.

Depois de segundo combate na ponte d'Alcantara, a 10 de junho,
poderemos, por nos furtar a minudencias fastidiosas em romance, ir
direitos  decisiva batalha pelejada nas proximidades de Talavera de la
Reyna, em Hespanha, dirigida pessoalmente d'um lado pelo rei Jos, e por
lord Wellington do outro.

Pela retirada dos imperiaes  vista do inimigo terminou esta importante
batalha, sendo todavia numerosas as perdas dos alliados, mrmente dos
inglezes.

Meiado agosto, comeou o exercito portuguez a retirar para Zara,
entrando em Portugal por Salvaterra do Extremo, dirigindo-se a Castello
Branco, d'onde os differentes corpos foram enviados a disciplinar-se,
durante o resto do anno, em determinados acantonamentos.

No podemos, porm, encerrar esta ligeira chronica dos feitos militares
de 1809 sem retroceder ao segundo combate da ponte d'Alcantara, a que
Jos Maria da Graa Strech no assistiu por estar ainda mal convalescido
do ferimento que no primeiro ataque recebera.

Entre os feridos francezes, que ficaram prisioneiros, requeria prompto
curativo um que denunciava claros indicios de perigo.

Rosina, mal que o viu, reconheceu-o.

Era Bnard, por alcunha _La goutte_.

Ento lhe acudiram de tropel pungentes recordaes da sua vida de
vivandeira, quando, sentada no acampamento, via _La goutte_ puxar da sua
garrafinha de vidro branco e offerecer aguardente por esta formula
inalteravel:

--_Voulez-vous l goutte?_

Esta phrase motivou aquelle cognomento, que valia tanto como dizer em
portuguez: _O pinga._

Bnard era um excentrico, que tinha intermittencias soturnas e
luminosas. Umas vezes lhe dava a embriaguez para se deixar cair n'uma
tristeza insociavel, outras era causa d'uma garrulice chistosa e alegre.

Mal que se levantava, enchia a sua garrafinha de aguardente. Bebia at
ao meio, erguendo o frasco para venficar  luz se a medida era exacta,
e, certificado, acabava d'enchel-o com agua fria.

Convm, porm, saber que Bnard classificava os seus companheiros
d'armas do seguinte modo:


1.--Amigos capazes de emprestar.

2.--Amigos capazes de no pedir.

3.--Amigos capazes de no emprestar.

4.--Amigos capazes de pedir.

5.--Conhecidos.


Mettida a garrafinha entre a fardeta, comeava o processo
inalteravelmente observado todos os dias.

Encontrando um amigo da primeira classificao, abeirava-se d'elle e,
pondo a mo no peito, perguntava:

--_Voulez-vous la goutte?_

O amigo bebia at ao meio, porque elle no consentia que fosse mais
longe. Depois, segunda dynamisao, outra vez a garrafa cheia; e,
succedendo-se as dynamisaes aos amigos, pela ordem por que os tinha
classificado, acontecia que os simplesmente conhecidos bebiam agua
commum passada por uma vasilha que tivera aguardente.

--No merecem mais! dizia Bnard. Estes s teem pela gente um cheiro de
interesse.

Era pois _La goutte_ uma personagem lendaria no exercito francez, e j
passava em proverbio dizer-se, quando se era mal servido:

--Eu _sou conhecido_ do Bnard.

Rosina Regnau, ao vel-o ferido, sentiu-se propellida a dolorosa piedade.
Estava alli _La goutte_, que ella tantas vezes vira desde a sua
infancia, e de quem tantas vezes se rira na edade em que toda a
excentricidade nos parece ridicula.

E todavia o Bnard era um philosopho profundamente conhecedor da alma
humana. D'uma vez perguntaram-lhe:

--Se encontrasses o imperador, como o consideravas?

--Dava-lhe da ultima lagarada, como elle dizia. Bem se importa o
imperador commigo! No me empresta dinheiro, porque o ganho eu; no m'o
pede, porque bem sabe como  mesquinho o _pret_ das tropas.

Bnard trazia pendurada do pescoo a sua garrafinha. N'esse dia, como a
refrega lhe no dsse tempo para offerecer _a gotta_, bebera-a elle
toda, por excepo. O resultado foi expr-se  morte com um denodo que,
sommado, daria a embriaguez de quatro amigos. Avanou imprudentemente e
ficou prisioneiro com uma bala no peito.

Rosina, que sempre evitava ser vista dos prisioneiros francezes, no
pde todavia resistir a soccorrel-o, quando o seu corao por um momento
retrocedeu ao passado. Quasi involuntariamente o fez.

O ferido, sentindo que alguem o estava curando, abriu os olhos e demorou
em Rosina um longo olhar. Foi ento que ella mediu o alcance da sua
imprudencia.

--Oh! rouquejou o ferido, sim, s tu! Eu tenho a vista embaciada, mas
ainda te conheo! Rosina Reg...

Ella tregeitou afflictivamente implorando silencio.

O ferido, desvairado pela embriaguez ou pela febre, no a comprehendeu.

Graa Strech havia-se aproximado e assistia entre respeitoso e ciumento
quelle lance.

O ferido continuou com difficuldade.

--Fugiste, Rosina... Pobre rapariga!.. Como l todos te querem mal!...
Se te vissem... matavam-te... Sim, eu sou Bnard... Tinha hoje a minha
garrafinha cheia... Bebi-a toda... Tomei calor... Boa gotta!...
Aguardente de Hespanha! Vo estes perros, que no teem um palmo de
terra, e mettem-me uma bala no costellame... Irra! Boa aguardente... E
tu aqui! Entre elles!... Maldita sejas... O pobre Regnau ha de dar pulo
de cobra no outro mundo...

Graa Strech, se bem que exhaurido de foras, estremecia em convulses
repetidas, e tinha as faces esbraseadas por um colorido doentio. Todavia
parecia detel-o um brao invisivel; pesado como se fosse de ferro, que
lhe offegava a respirao.

Rosina chorava abundantes lagrimas, que lhe deslisavam pelas faces
mortalmente pallidas.

Postoque no estivesse presente, por felicidade, ninguem que pudesse
ouvir a revelao do segredo, alm de Graa Strech, ella no ousava
falar. N'aquella hora, em que algumas mulheres e os convalescentes
soccorriam os feridos, a todos parecia natural que os dois irmos,
segundo toda a gente dizia, se dedicassem ao curativo d'um soldado que
se affigurava moribundo.

Graa Strech aproximra-se desde o principio por lhe causar estranheza
que Rosina Regnau se dispuzesse a soccorrer o prisioneiro.

Primeiro se apiedou por conhecer n'esse acto o impulso natural de
corao de Rosina voluntariamente opprimido no captiveiro de um amor
impetuoso. Sobreviera porm o ciume quando se lembrou de que a
vivandeira habitualmente se esquivava a cuidar de feridos francezes, e
de que extremado devia ser o interesse para affoital-a  temeridade de
se deixar reconhecer.

 bem certo que o ciume completa o amor: porque o ciume  a desconfiana
que leva o corao a sondar a profundeza do amor. Ento se investiga, se
espiona, se perscruta. E se o amor  verdadeiro,  puro,  santo, assim
como se lhe mede o alcance, e se reconhece infinito, vem a convico de
que todos os sacrificios so poucos para galardoal-o, chega o
arrependimento de se haver sido injusto, e accorda o estimulo da
consciencia para o no tornar a ser. N'essa hora  que Rosina Regnau
comeou, sem o saber, a ser verdadeiramente amada. Bastou o ciume de um
momento, que as subsequentes palavras do ferido vieram serenar, para
arreigar o amor no corao do soldado portuguez. E foi  luz d'esse
relampago de ciume que elle comprehendeu a enormidade do sacrificio de
Rosina; foram as palavras do prisioneiro francez que lhe mostraram
claramente quo grande abnegao era precisa para cair, amaldioada pela
patria, nos braos d'um homem estranho.

O ferido, apesar de cada vez mais se lhe embargar a voz na garganta,
proseguiu com longas pausas:

--Tu eras muito estimada, Rosina... Todos te queriam... Quem havia de
dizer que tu... renegarias... a tua Frana! Eu no morro pelo
imperador... que no pede nem empresta... que paga mal... eu
morro pela... Frana!... J no posso... beber... A ultima gotta queria
bebel-a pela patria...

E, cada vez mais offegante e desvariado pela febre, acrescentou:

--Vae buscar aguardente... Anda depressa.. que j tenho a morte aqui...

E indicava o corao.

--Sim... amaldioados... os que no morrem francezes... como tu...
Jacques Regnau! l n'esse quartel que ninguem sabe onde fica... eu te
contarei a verdade... Vamos para a reserva... temos tempo de falar...

E, como a cabea do francez parecesse j desequilibrar-se, Rosina Regnau
procurou encostal-a ao peito carinhosamente.

--No!--apostrophou com extrema difficuldade Bnard--no! Um francez...
s morre... encostado... a outro... francez... Eh! eh!--rouquejou.

E, procurando aprumar-se, disse com esforo grande de mais para o lance
do passamento:

--_Vive.. l... Fran..._

No pde concluir. A ultima syllaba embargra-lh'a a morte.

Graa Strech estava como que fulminado pelas palavras do soldado
francez, que morrera amaldioando Rosina. Parecera-lhe que a voz da
providencia falava n'elle. Pela primeira vez um terror supersticioso
subjugou a coragem d'aquelle homem que tinha jurado guerra de morte 
Frana. E todavia expirava ali, ao p d'elle, um francez saudando a
patria nas ultimas palavras que lhe foi dado pronunciar.

Rosina Regnau estava tambem paralysada n'essa especie de imbecilidade
que nas grandes commoes se nos affigura ser idiotismo.

O ao de que em parte era feita a sua alma de vivandeira vergra ao som
d'aquellas palavras horriveis; restava apenas, muito a dentro do peito,
a vibrao dolorida das cordas maviosas.

No semblante, como se a distancia e o cansao fossem amortecendo a
maguada vibrao da alma, apenas se desenhava o espasmo das supremas
afflices que parecem suspender a vida.

Quizera Graa Strech poder cingir nos seus braos Rosina, e despertal-a,
para a realidade do seu amor, d'aquelle excruciante alheamento.

Vedava-lh'o a presena das pessoas que, como j dissemos, estavam
cuidando dos feridos.

Ficaram ambos silenciosos, porventura  espera de opportunidade para
trocarem algumas fugitivas palavras.

Ella, acordando pouco a pouco d'aquelle infernal pesadello, sentia o
doer da realidade muitas vezes peior que os sonhos maus. E a si mesma
perguntava o que ficaria pensando Graa Strech: se julgaria criminosa a
sua compaixo pelo ferido; se a presumiria demudada pela maldio do
moribundo; se acaso o effeito d'aquella imprevista scena lhe haveria
levado ao corao o aborrecimento ou o desprezo?

Tudo suppunha, menos que o verdadeiro amor nascera n'aquella hora com o
ciume.

Como ella desejava poder cingir Graa Strech nos seus braos, cobril-o
com os seus beijos, embora elle a repellisse com enfado ou desabrimento!

No valeriam ameaas.

Ella dir-lhe-ia com a affouteza que a innocencia d:

--Eu bem sei que fiz mal. Mas aquelle era o Bnard, _La goutte_, que eu
conhecia, desde pequena, de o ouvir discorrer sobre o egoismo dos homens
e de o ver puxar pela sua garrafinha d'aguardente. O pae Regnau, apesar
do vicio, estimava-o muito, e at lhe chamava... philosopho.  que o pae
Regnau era dos primeiros amigos. Uma vez vendeu a rao do almoo para
que o Bnard no deixasse d'encher a sua garrafinha. O pae Regnau disse
ento, bem me lembro: Elle sem aquillo no  philosopho; e eu sem
almoo posso ser soldado. O que valeu foi que o meu almoo chegou para
dois. No me julgues arrependida do que fiz pelo que elle disse... Tudo
quanto elle disse bem o sabia eu... Lembrar-me da minha patria no quer
dizer que me esquea de ti... No. Amaldioam-me? Que me importa a mim
que me amaldioem! Abenoa-me tu, e no quero outra felicidade. Abre-me
a tua alma, de modo que eu saiba bem o que ella pensa, o que ella sente,
e no terei pena de que se me fechem as fronteiras da patria. No me
aborreas nem me despreses... O teu primeiro beijo foi uma promessa, uma
esperana; eu acreditei-o, creei vida nova, sinto-me forte para a lucta.
_La goutte_, se me disse aquellas palavras,  porque me estimava;
estima-me, ama-me tu quanto eu desejo, que saberei esquecer as palavras
de _La goutte_.

Graa Strech, sem attingir o que se passava na alma de Rosina, estava
ancioso de dizer-lhe:

--Tudo quanto aquelle homem disse era verdade. Por mim perdeste tudo,
Rosina, por mim preferiste a solido, em que ora vives,  tua immensa
familia--o exercito francez. Eu comecei por odiar-te, porque eras irm
dos assassinos de minha irm. Depois, ao odio, que procurava o caminho
da vingana, succedeu a gratido, porque tu me restituias a liberdade.
Mas a realisao do meu sonho de sangue importava um enorme sacrificio
teu. Fizeste-o sem trepidar. E no contente com isso, que j era muito,
quizeste vincular a tua vida  minha, e tu, que havias renunciado 
patria, renunciaste tambem  voz com que recordavas as canes do teu
paiz natal. Comeou a nascer em mim o amor misturado d'assombro. Nunca
me lanaste em rosto a minha crueza para os teus. Era a minha vingana,
e tu querias o que eu queria. Ao p da imagem de minha irm, que no
somno e na vigilia me apparecia, comeaste tu a tomar vulto, a crescer,
de modo que eu fiquei preso entre vs ambas, porque se o sangue d'uma
clamava vingana, o sacrificio d'outra me proporcionava vingar-me. E uma
noite, no breve repousar do acampamento, sonhei que minha irm me viera
falar e me dissera que tu eras boa, e leal, e pura. Ento beijei-te. Mas
hoje, ao ouvir aquellas palavras, completei os meus pensamentos pela
certeza de que tu eras pura, e leal, e boa. Dize: Que queres de mim?
Sacrificio por sacrificio, amor por amor, dedicao por dedicao. Serei
teu, porque tu s minha. Ouve, Rosina, ouve-me bem. Tu tens sido o meu
anjo da guarda, o meu enfermeiro, e--porque no hei de dizel-o?--tens
sido para mim como o co amigo para o cego das Ardennas. Pois bem.
D'hoje em diante as nossas almas fundir-se-ho n'uma s, vivero dos
mesmos pensamentos, e tu chorars minha irm como eu a choro, porque o
teu corao sentir a saudade que eu sinto.

Ao anoitecer veiu a carroa dos cadaveres, acompanhada pelo capello
militar, buscar o morto.

Rosina Regnau deteve-se a contemplal-o, esquecida de que aquelle homem
morrera amaldioando-a.

Era-lhe defeso o falar. Se no fosse, haveria pedido uma orao pela
alma do soldado Bnard, de alcunha--_La goutte._

Graa Strech assistiu  cerimonia commovido. Um dos soldados
encarregados d'aquella triste commisso, como lhe visse carregadas as
linhas do rosto, apostrophou:

--Pois tu, que te bates como leo contra os francezes, no assistes
impassivel aos funeraes d'um francez!

--A morte quebra todos os odios, respondeu Graa Strech.

Outro soldado, ao dar tino da garrafinha entalada entre a farda e a
camisa, exclamou facetamente:

--Pena tenho eu de o no matar emquanto a garrafa estava cheia!

--Este diabo no fazia seno beber! acrescentou outro.

--Tambem me consta que fazia outra coisa, replicou Graa Strech.

--O que era?

--Enterrava os nossos mortos com mais piedade do que tu.

--Prgas hoje de cadeira!

--Lembro-me de que elle, pelas ultimas palavras que lhe ouvi, era to
francez como eu sou portuguez...

--Era? perguntou ingenuamente um dos soldados.

--E a mim, concluiu Graa Strech, pesa-me sempre a morte d'um bom soldado.

Quando a carroa rodou lugubremente, caminho da valla commum, onde
portuguezes e francezes iam dormir sem odios nem malquerenas o somno
eterno, Graa Strech acercou-se de Rosina, que parecia duvidar ainda do
que tinha ouvido, e segredou:

--Devo  memoria de Bnard uma felicidade que no merecia a Deus. De
hoje em deante no haver entre ns barreira que possa separar-nos. As
nossas almas sero uma; os nossos pensamentos um s...

--Promettes? murmurou ella doida d'alegria.

--Prometto.

--Ento dir-me-has tudo o que pensas, tudo o que sentes?

--Tudo o que penso e sinto te direi.

E o segundo beijo sellou esta promessa.

      *      *      *      *      *


XIII

Como acaba a tragedia de Goethe

No morrem os gigantes ao segundo golpe.

Napoleo ergueu-se no senado francez, a 4 de dezembro de 1809, e
sobrepujando com a sua voz a voz da Historia, como se lhe no andasse j
descontada a gloria com dois consecutivos revezes na peninsula iberica,
disse: Tanto que eu apparea alem dos Pyreneus, o leopardo
recolher-se-ha amedrontado ao oceano para fugir  ignominia,  derrota e
 morte. A victoria das minhas armas ser a do genio do bem sobre o do
mal: a victoria da moderao, da ordem e da moral sobre a guerra civil,
sobre a anarchia e as paixes destruidoras.

E, concluida a campanha de Austria pela paz de Vienna, a aguia franceza
deixou de pairar sobre o norte da Europa, e do alto do palacio imperial
de Schoenbrunn fitou o olhar ardente e profundo na orla do occidente
banhada pelo Atlantico.

E pela terceira vez se equipava o exercito invasor, superior a oitenta
mil homens; e pela terceira vez fra chamado um general distincto a
tomar o commando em chefe das tropas para obter melhor exito que os seus
dois antecessores.

A eleio recaiu no marechal Massena, principe de Essling, duque de
Rivoli, cuja valentia e sciencia Napoleo conhecia desde as campanhas
d'Italia.

No precipitemos, porm, os acontecimentos que o anno de 1810 havia de
desdobrar sobre a Europa. Justo  reverter ao que  assumpto principal
d'este livro, mais biographia do que chronica.

J anteriormente dissmos que o exercito portuguez recolhera ao quartel
general de Castello Branco, e d'ahi fra mandado, nos ultimos dias
d'agosto de 1809, para diversos acantonamentos.

Em Castello Branco, o marechal Beresford permittiu aos soldados,
que mais se haviam distinguido, a escolha de corpo e quartel, no s
para lhes galardoar d'algum modo os servios prestados, como para
incitar os outros a medirem-se na terceira campanha com os premiados na
segunda. Jos Maria da Graa Strech escolheu o regimento d'infantaria
18, que, com o 6 e 9 da mesma arma, foi mandado para Coimbra.

Ento se levantava detraz do tumulo da irm querida, para o desgraado
moo, a aurora do amor, que desabrochra no primeiro beijo, e que o
ciume aclarra definitivamente  beira do catre do moribundo Bnard.

Havia-se batido como leo, aulado pelo cheiro do sangue. Mil vezes se
atirra  morte, e a morte parecia respeitar no sorriso de Rosina Regnau
a heroicidade do soldado. Dir-se-ia que a vivandeira tinha duas azas,
que, desdobradas, o abrigavam. Graa Strech acabou, como era natural,
por amar o seu anjo da guarda, quando inteiramente comprehendeu que ella
lhe dizia na triste eloquencia do silencio a que se condemnra: Eu
tenho de guardar a tua alma; para guardal-a preciso possuil-a.

No seu corao calcinado pela saudade choveu pouco o orvalho
refrigerante companheiro da aurora; o amor cauterisou a ferida que
sangrava odios; ficra apenas a cicatriz, como fica voltada n'um livro a
pagina que se leu, e cuja impresso jmais se desluz na mente do leitor.

Aconteceu a Graa Strech como ao commum da humanidade.

O amor, que  luz, que  fogo, que  sol, vae se decompondo em
irradiaes parciaes na nossa alma,  medida que a vae desenregelando,
como o verdadeiro sol n'um prisma de crystal. Verdade , ser preciso que
tenha a alma a pureza do vidro para que lentamente se vo revezando as
cres, alternando as _nuances_, e embriagando-se ella a pequenos haustos
no banquete da felicidade. O amor que rebenta como erupo, no  amor,
 desatino. Nasceu cego: no v. Irrompe como a lava, passa, queima,
desapparece.

Este  o amor das almas versateis, que no se vergam ao sacrificio, e
que por isso mesmo so incapazes de metter hombros  cruz cujo peso
devera ser repartido pelos dois. Os que amam sem previamente
haver soffrido, amam apenas emquanto o amor no  soffrimento. E quem
pde desfolhar a rosa sem ferir-se no espinho? Esses amam pouco. As
lagrimas so a agua que baptisa na religio dos attribulados. A mocidade
de Graa Strech recebera esse primordial sacramento. Dera a sua vida em
holocausto  saudade. Soffrera muito, e alma que soffre assim tem de
certo a pureza dos grandes sentimentos. Por isso a luz da aurora, que
lhe alvorecia sobre o tumulo da irm, se foi decompondo em gradaes
prismasticas por feitio que elle, muito alma a dentro, pde conhecer a
nitidez das cres, o brilho das tintas casado  transparencia do cristal.

Desde ento comeou a amar como os que teem soffrido. Tudo o que penso
e sinto te direi, segredra elle em Alcantara.

Estas palavras no eram apenas a promessa d'uma revelao;--eram a
promessa da felicidade.

Os acontecimentos no permittiram que, antes de Coimbra, Rosina Regnau
pudesse affastar de si a nuvem do ciume que de ha muito lhe opprimia o
corao.

Muito primeiro o amra ella, porque o ciume nascera parelho do amor.

Parece que o destino porfira em depl-os no eden viridente de Portugal
para mandar depois a serpente a tental-os. N'aquelle jardim de Coimbra
ha sombras fadadas para o amor. J o disse um poeta:

    Quem nunca viu Coimbra
    Pela brisa embalada
       Do Mondego,
    Que de amorosa timbra
    Na margem reclinada
       Com socego,
    No sabe o que  belleza,
    Ai! no conhece a filha
       Dos amores,
    Mais nobre que Veneza,
    Mais linda que Sevilha
       Sobre flres.[11]

Ali rememora ainda a celebrada fonte, que suspira n'uma das extremas do
campo de Santa Clara, o poema das lagrimas da formosa Castro--o
maior poema d'amor que se tem sentido em Portugal. Que phantasias que
no tem o amor em Coimbra!  velha a doidice que se respira n'aquelles
ares, porque j Faria e Sousa conta que Pedro, o principe amoroso,
confiava  agua da fonte, que n'esse tempo ia jorrar nos jardins do pao
real, os bilhetinhos namorados que a loura Ignez muito em segredo
recolhia e, em maior segredo ainda, relia. E perora Faria e Sousa:
Tales son las astucias de los amantes. Com perdo de Faria e Sousa,
astuciosos so os escriptores que nos pintam amores fabulados de to
acertadas contingencias, como era a da agua, sem embargo dos seixos e
hervagens, ser fiel correio do principe e da aia.

Eu contarei singelamente o meu caso, tal como aconteceu na hora em que o
ciume de Rosina Regnau, como se j no fosse preciso para atiar as
labaredas do amor, se acalmava na mutua confiana das almas que se possuem.

Foi ahi por alguma copada sombra das margens do Mondego, onde, como
disse Gabriel Pereira de Castro, o rio

    ... nas voltas se mostra arrependido
    De levar agua doce ao mar salgado,

que Rosina Regnau e Graa Strech descanavam n'uma das ultimas tardes
d'agosto.

Aproveitavam sempre as horas feriadas do servio militar para essas
excurses, reguladas pelo toque das cornetas no quartel, porque s onde
a sombra os escondesse poderiam dialogar, os dois, sem que ouvido
estranho trasse o segredo da mudez de Rosina.

Ahi se indemnisava ella dos longos silencios a que era constrangida, e
assim se foram estreitando os laos, que j to cingida tinham a imagem
da felicidade n'um e n'outro corao.

N'essa tarde Rosina Regnau intencionalmente encaminhou o dialogo para o
episodio da morte de Brnard, e a ponto veiu recordar as palavra de
Graa Strech: Tudo que penso e sinto te direi.

--Ah! no sabes, disse ella subitamente exaltada pelo ardor da
vivandeira, que do cumprimento da tua promessa depende a
realisao da minha felicidade!...

--Pois duvidas?...

--E no duvidaste tu de mim, quando em Alcantara soccorri o pobre _La
goutte_?

--Perda-me...

--Sim, perdo, no a ti, ao ciume, pois que para o ciume tambem peo
perdo n'este momento. Ouve-me, portanto.

--Fala!... exclamou Graa Strech.

--Ha uma duvida horrivel no meu espirito, que  preciso dissipar; um
obstaculo no meu caminho, que  preciso vencer. O meu amor, que comeou
por dar-te a liberdade, no pde viver escravisado. Desde o primeiro
momento te amei perdidamente. Emquanto tu dormias, velva eu, para que
as tuas palavras de soldado no fossem desmentidas pela tua physionomia
de ferido sem eu perceber a verdade. J ento--mal o pensavas!--a minha
vida dependia da tua. E vigiava-te, e estudava as mais ligeiras
alteraes do teu semblante, como a me que observa, de noite, na
solido silenciosa do seu quarto, o filho doente que dorme. Tu no
suspeitavas que pudesse entrar tamanha dedicao na alma d'uma
vivandeira, e razo de sobra tinhas. As mulheres com quem eu vivia eram
to vis, que se riam do meu carinho para comtigo. E eu arrostava-lhes os
chascos, os insultos, porque bem sabia que a culpa no era d'ellas, mas
do destino que as tornou to desgraadas. Aspereza, injustia, s me
doa a tua. No bastava amar sem esperana: o meu amor era recompensado
com despreso. Tu eras nosso prisioneiro; no podias, portanto, soffrer
que a minha pronuncia te estivesse recordando a cada hora a tua
infelicidade. Quiz, porm, Deus que me ouvisses um dia com menos
indifferena, quando conheceste que eu valia um pouco mais do que as
outras. Viste que eu era boa, e quizeste-me para instrumento da tua
vingana. O que tu no suppunhas era que o teu sonho fosse a esse tempo
o meu--dar-te liberdade! que eu contasse os instantes da tua vida pelas
horas da minha! que eu quizesse ser para ti o que era o fiel molosso
para o cego da minha terra... Pois queria, juro-te, queria. Se no
pudesse restituir-te a liberdade, teria a coragem de envenenar um
remedio para que o mesmo veneno nos matasse a ambos. Acredita;
tinha. Mas sempre na tua bocca a palavra vingana! Sempre essa palavra
horrivel! Eu bem sei que todo o homem, que v a sua patria invadida,
precisa vingar-se a si, e a ella. Mas esse annel que no mais te deixou
no era da patria... Falavas de tua irm, tens-me falado sempre d'ella.
Comprehendo como se possa amar uma irm, que era boa, que era pura, e
que foi morta injustamente. Todavia comprehendo tambem que se as cartas
as escreveu tua irm, o annel pde deixar de ser d'esse anjo...

Nos labios de Graa Strech havia o tranquillo sorriso de quem sabe com
que ardor  amado.

Quiz falar; ella interrompeu-o.

--Oh! por piedade, no sorrias, sem que esta duvida atroz se desfaa!
Tenho tido a coragem de saber esperar este momento solemne e para mim
decisivo. Tu sempre a pensar no teu annel, eu sempre a pensar em ti! To
calada, que nem voz posso ter deante d'estranhos. E que tivesse! Havia
de perguntar a alguem pela vida do homem que eu chamava irmo? Tu
sonhavas de noite, como quando ficaste ferido em Alcantara, e sorrias.
Acordavas, vias-me ao p de ti, e acudias logo a falar de tua irm...
Oh! se eu soubesse que tu me enganavas!... Se tu estivesses sonhando com
outra mulher que no fosse tua irm, quando eu estava ali, ssinha,
calada, sem patria, sem amigos, amaldioada, a velar pelo teu somno...
Sabes o que eu faria? Vestiria o teu uniforme, Jos, e iria bater-me,
avanando to imprudentemente como o infeliz Bnard, at que as balas
dos soldados da Frana se me cravassem no peito. Morreria pelo ingrato
como os soldados morrem pela patria, e morreria contente por morrer
amortalhada no teu uniforme... V, pois, bem a minha alma. Unicamente te
peo que sejas sincero, ainda que a tua sinceridade tenha de ser cruel.
Estamos a dois passos do Mondego. -me facil procurar n'elle a maior
altura da agua, se o corao me disser que me ests enganando... Mas no
has de, mas no me deves enganar, porque pela memoria sagrada de tua
irm te peo que sejas verdadeiro...

E ficou anciosa, com os olhos fitos, os labios entreabertos, o seio
offegante...

--Pela memoria de minha irm te juro que mais uma vez te
repetirei a verdade--disse Graa Strech, cuja physionomia parecia
irradiar a luz clara e pura dos que esto fazendo uma confisso
sincera.--Tambem eu te amo doidamente, Deus o sabe! Tambem eu tive
ciumes, Rosina! Tambem eu estou costumado a soffrer. Se aquelle
moribundo d'Alcantara houvesse denunciado, por um gesto sequer, que
tinha outros direitos  tua dedicao, alm dos de estar ferido e ser
francez, eu, impossibilitado de aggredir um homem meio morto,
haver-te-ia fugido para me expr  morte que encontraria em qualquer
parte. Juro-te, pela memoria de minha irm te juro, que isto o senti eu
ao p do pobre Bnard, quando te vi soccorrel-o. N'esse momento forjou o
ciume as cadeias que nos teem agora aqui presos. Comecei por
aborrecer-te,  certo. Sobre este annel, que tirei do dedo de minha
pobre irm morta, jurei vingal-a, Rosina, porque primeiro me derrubaram
a mim para que eu no pudesse defendel-a, e depois a assassinaram a
ella, a minha me, e a minha av. Meu pae, que j sei ter morrido no
mesmo dia, porque houve participao official de ser reconhecido, foi
vencido pelo azar do combate, no foi assassinado. E depois era um
soldado, e um soldado em campanha ou mata ou morre. Mas as pobresinhas
que mal faziam  Frana? Eu accordei do deliquio motivado pelo ferimento
que recebi, sem saber o que se tinha passado. Estendi o brao e senti um
corpo; apalpei e conheci roupas de mulher. Achei uma cabea. Tacteei-lhe
os contornos, e no me enganou a mo quando me pareceu ser aquelle o
perfil de minha irm. Era noite, bem sabes: dentro a escurido; a
tempestade fra. Eu sentia vibrar a espinha dorsal como se fra d'ao,
fria como elle. Procurei luz, quasi louco. Mal me podia suster nas
pernas. No cerebro ardia-me um vulco; em derredor do craneo sentia a
friura do gelo. E a luz mostrou-m'as, a ellas, minha irm, minha me,
minha av, mortas, desgrenhadas, deitadas no soalho, e rodeadas das
sombras que a interposio dos moveis projectava na parede, parecendo
moverem-se, bracejar, escancarar a bocca, casquinar gargalhadas que o
vento, l fra, parecia rir diabolicamente por ellas. Eram horrores da
minha imaginao, eram vises da febre, porque eu n'essas horas
incomparavelmente angustiadas delirei, enlouqueci, morri em mim
mesmo para renascer n'um cadaver. E o sangue, Rosina, o sangue
d'ellas, empoado no soalho, to vermelho que parecia incendiar-se ao
reflexo da luz! Foi ento que a Providencia me soccorreu e me permittiu
um esforo sobrehumano. Beijei minha irm, abracei minha me, acariciei
minha av, falei-lhes, no sei o que lhes disse, no me lembra, e
estremecendo do contacto das mos de minha irm, que pareciam de
marmore, e que do marmore tinham os veios roxos e azues, tirei-lhe
delicadamente do dedo, como se ella pudesse molestar-se,--ella, que era
to franzina!--este annel querido, sobre o qual proferi o meu juramento
de vingana, que at hoje tenho cumprido, e que cumprirei at que
Portugal succumba ou triumphe d'uma vez.

E como se a arrebatada eloquencia o repuzesse ainda em meio das
desgraas que historiava, pendeu ao peito de Rosina, extenuado,
descradas as faces, revoltos os cabellos, flammejante o olhar.

Rosina ameigou-lhe a fronte banhada de suor frio, e docemente lhe pediu
perdo de o ter compellido a avivar to recentes e profundas dres.

Graa Strech estava preoccupado, como se procurasse um pensamento que
lhe entre lembrava; como se quizesse suster uma viso que se mostrava e
fugia.

--Ah! exclamou de repente. No, Rosina, no basta ainda. O teu amor
reanimou o meu cadaver, eu devo-te a vida; quero abrir-te a minha alma
para que a vejas bem, para que a sondes, e leias n'ella. A tua luminosa
intelligencia j te permitte comprehender muitas palavras do idioma
portuguez. Pois bem, aqui tens uma prova irrecusavel que no pde deixar
a minima duvida no teu espirito...

E, desabotoando o uniforme, tirou o mao das cartas d'Augusta.

-- esta--continuou, procurando-- esta, l aqui l bem. Foi ha dois
annos, no seu dia natalicio, que lhe mandei este annel. V o que o anjo
me respondia. L, esta  a prova, l: O teu annel, Jos, o teu annel,
que me pareceu acompanhar a tua alma, porque a tive todo o dia ao p de
mim, no me deixar at  hora em que a amortalhadeira m'o tire do dedo.
Pedes desculpa de que seja liso, de que s tenha uma pedra!... Tontinho!
O teu corao psa mais do que o annel, e a avsinha diz que os
anneis de muito feitio apenas so proprios das camponezas. V, Rosina,
olha para este nome--Augusta--o unico de mulher que pronunciei antes do
teu...

--Jos! exclamra Rosina divinisada por uma aureola de condoda doura,
que parecia esbater-lhe o semblante no azul do co.

A natureza dascaa na deliciosa morbidez do anoitecer. As labaredas que
a ambos afogueavam o corao foram bastantes a seccar as lagrimas d'um e
outro. Se eu quizesse passar por um escriptor to casto como os que uzam
adoar o acre das situaes violentas, diria que se ouvia rumorejar as
folhas, sendo os labios que rumorejavam. Essas ultimas revelaes tanto
contraram os elos da cadeia, que j no era possivel medir a distancia
interposta s duas almas embevecidas.

Se ali, n'aquellas paragens onde o grave Faria e Sousa achou que era
torro azado para localisar astucias de namorados; se quella hora, como
na tragedia de Goethe, estivesse ali Mephistopheles, bradaria com
alegria satanica: _Perdida!_

Bem podia ser porm que alguma voz do alto respondesse: _Salva!_ S se
perde a mulher que no tem corao para comprehender o que  ser me.

    [11] Do sr. Antonio de Serpa.

      *      *      *      *      *


XIV

Quanto custa ser me

Em fevereiro de 1810 estacionava no valle do Mondego o exercito
commandado pelo general Wellington, repousando das passadas lides, se
bem que j apercebido para resistir aos movimentos dos francezes que de
novo ameaavam invadir Portugal.

Beresford activamente se dedicava a exercitar e disciplinar as tropas, e
a providenciar pelo que tocava a provisoes que se tornavam
indispensaveis para a campanha que a todo momento se esperava, e cuja
durao era imprevista.

O rei Jos havia entrado em Sevilha, no primeiro dia d'esse mez, 
frente das suas tropas, e a nuvem que obscurecia o co da Hespanha
alongava-se j para Portugal, deixando ouvir os rumores da tempestade
que lhe refervia no bojo caliginoso.

N'esse tempo vamos ns encontrar Graa Strech na escla militar do valle
do Mondego, se bem que muito demudado o encontremos, e merea especial
atteno a tristeza que parece salteal-o nas horas em que o soldado se
permitte ser homem. Procuramos  roda de si, e no encontramos a muda,
sua irm. Inquieta-nos to inesperada ausencia. Depois que
comprehendemos o corao da Rosina Regnau, depois que passo a passo a
acompanhmos nos lances angustiosos de sua attribulada mocidade,
habituamo-nos a estimal-a, e j agora nos  magua o deixar de vl-a.

Morreria acaso?

Algumas vezes se lembrra ella, quando vivandeira do exercito francez,
de que uma bala perdida a mataria.  uma tradio de Vivandeiras, a do
pelouro esgarrado que as ha de prostrar, porque, companheiras dos
soldados, esperam do soldado a sorte. Todavia nem sempre se realisam as
contas que a phantasia lana, e no  de presumir que dos
soldados que manobram exercitando-se no valle do Mondego partisse a bala
destinada a roubar-lhe a vida. Tambem nas faces de Graa Strech no ha a
tristeza sombria das perdas irreparaveis, mas um novo reflexo de
melancolia que, a despeito de a querer concentrar, d  physionomia um
toque de soffrimento. Procuremos tirar-nos de to saudosa incerteza, e
saber o que se passra nos mezes que decorreram desde agosto de 1809 at
fevereiro de 1810. Pelo que vamos ouvir a Graa Strech, n'um rapido
dialogo com um companheiro d'armas, no poderemos fazer juizo seguro,
mas esse ser o fio de Ariadna que depois nos guiar no labyrintho de
nossas pesquisas.

--Tens tido noticias de tua irm? perguntou o soldado.

--No tenho; nada sei da pobresinha! respondeu dolorosamente Graa Strech.

--Deve-te custar a ausencia! Se a ns, que no eramos irmos, tambem nos
custa! Estavamos habituados aos seus tregeitos, e o caso  que j os
entendiamos como se fossem palavras! Que pena que no falasse! Bonita
era! e to meiga como bonita! Sempre aquelle sorriso doce para todos e
para tudo! Mas,  Strech, se a conversa te maga, no contino...

--Contina, sim. s primeiras palavras rebenta a saudade; depois Deus
manda a resignao, e  o que vale.

--Eu tambem tenho familia, Strech, tambem sei o que isso . E depois tu
sempre deves estar com teu cuidado, porque tua irm ia doente.

--Comeou a soffrer Trabalhos da guerra, commoes fortes, talvez
receios da nova campanha... No sei. O que  certo  que a no julguei
com foras de andar commigo em correrias atraz dos francezes, que 
preciso enxotar pela ultima vez. Temos uma tia nossa na Allemanha. Veiu
a Portugal ha annos, e affeioou-se muito a minha irm. Deu-se a
coincidencia de estar no porto da Figueira um brigue italiano, e ir a
bordo um passageiro allemo, que me pareceu homem compassivo, e que me
prometteu acompanhar a pobre muda at ao seu destino. Que havia eu de
fazer, quando a demora de minha irm em Portugal seria a morte, e todas
as circumstancias pareciam favorecer visivelmente o meu designio
de a mandar para a Allemanha? Deixei-a ir, mais entregue a Deus do que
ao compassivo allemo.

--E que tencionas fazer agora?

--Agora! Quem sabe quando chegar a hora de pertencermos a ns mesmos!
Se eu morrer, ficar minha irm entregue a sua tia; se eu sobreviver a
victoria das nossas armas--porque ns no podemos succumbir depois de
havermos triumphado duas vezes--irei buscal-a  Allemanha, e viveremos
juntos at que um de ns deixe d'existir.

--Desculpa-me, Strech,--tornou o soldado condodo.--Mas eu tambm
estimava tua irm, e por isso te perguntei por ella. Como j partiu em
dezembro, e eu tenho conhecido que andas triste, pensei que tivesses
recebido noticia de que a pobresinha ia a peior. Como felizmente no se
realisou a hypothese, desculpa-me. Olha... Estou em dizer que Deus traga
a guerra depressa para nos distrairmos. A guerra embriaga como o vinho,
e a embriaguez  bom remedio para saudades. Eu e tu, pelo que vejo,
soffremos ambos da mesma doena. Adeus, Strech.

Este dialogo, como anteriormente disse, no  explicao cabal, nem...
verdadeira. Graa Strech via-se obrigado a enganar as pessoas que lhe
perguntavam por sua irm, se bem que o engano apenas se limitasse aos
motivos da partida e ao destino de Rosina. Elucidemos.

Em dezembro de 1809 comearam a manifestar-se os symptomas da
maternidade. Esta desgraa, cujas funestas consequencias no previram na
loucura do seu amor, obrigou-os a pensar reflectidamente no futuro,
subitamente entenebrecido no horizonte que o poetico sol de Coimbra
azulejava nas tardes em que as margens do Mondego lhes enfloravam os
ardentes idyllios. O peor que ha no Paraiso  o ter porta: porque no se
abre, quando a ancia da felicidade a impelle, e porque se fecha sobre as
mais doces illuses, movida por qualquer virao que mais branda e mais
embalsamada parecia. Eu, pouco sabido em philosophias, acho a porta do
Paraiso muito peior que a serpente: uma tenta, a outra fecha. Ora a
gente poderia fugir da tentao, se encontrasse a porta aberta.
Deixamo-nos seduzir pela cascavel. Ouvimol-a. Embriagamo-nos com
as paizagens do den, com as melodias eolias do arvoredo, com o man que
o co deixa cahir sobre o corao. Entretanto a serpente adianta-se.
Cinge-nos, enleia-nos. Olhamos para a porta: -nos defesa a sada.
Estamos encarcerados. A serpente triumpha.

Por duas ponderosas razes no podia ficar Rosina Regnau em Portugal.
Era a primeira que, inculcando-se irm de Graa Strech, a sua deshonra
seria desaire para o irmo. A segunda estava em que o conservar-se
occulta no reino, em estado de no poder acompanhar o exercito, seria
imperdoavel n'uma epoca em que tudo que cheirasse a francez inspirava
odio, e em circumstancias em que o deixar de falar seria quasi impossivel.

Avultou aos olhos d'um e outro, como pesadello horrivel, a necessidade
da separao. O mesmo foi verem-se inesperadamente sepultos nas ruinas
dos castellos encantados que ambos haviam architectado. E a felicidade 
como todos os edificios: leva muito tempo a construir e basta um
instante para desabar.

Estava effectivamente a esse tempo, nas aguas da Figueira, um brigue
italiano. Concordaram ambos em aproveitar a commodidade do transporte.
Rosina energicamente rejeitou a ideia de voltar a Frana, duas vezes
deshonrada. Convieram, pois, em que ella esperaria em Italia, com o
filho nos braos, o termo da guerra peninsular. Depois, para sempre se
reuniriam, e viveriam enlevados na infancia da criana, que ambos
phantasiavam formosa.

Mas, por que espesso vo de lagrimas se no filtrava este raio de
longinqua felicidade, illuminando-o e iriando-o como um reflexo de sol
moribundo atravs de neblina humida em tarde de tempestade!

Era esse o arco-iris da esperana, gravado em traos multi-cres, d'um
abysmo a outro, sobre um co plumbeo.

--O pae Regnau,--dizia Rosina--costumava dizer que a felicidade era uma
bola de sabo. Agora vejo que . Tudo desfeito, n'um momento! Eu
desterrada para um paiz desconhecido, ssinha com a minha desgraa e o
nosso filho! Tu, a muitas leguas de distancia, exposto  sorte dos que
combatem, mais incerta que qualquer outra! Viverei entre a esperana da
tua chegada e o receio d'uma noticia funesta. Oh! esta ida 
horrivel! Ento Deus ha de permittir que, meu filho entre no mundo
vestidinho de luto! No no pde ser. No te exponhas loucamente 
morte, meu amigo, no? A tua vingana j deve estar satisfeita, e depois
um soldado que  pae deve ter duas cadeias a ligal-o ao mundo: a patria
e a familia. Ora eu bem sei que tua irm  a patria; mas lembra-te, sim,
lembra-te! de que teu filho  a tua familia...

Acudia a serenal-a, com o corao despedaado nas garras de desconhecido
abutre, Graa Strech. Queria ser forte, e as lagrimas a trahirem nos
olhos o esforo! Tentava enganar, e estava desilludido. Ainda no houve
maior desgraa, mais amargo calix de amargura esperado nos labios com um
sorriso...

--No, Rosina, no imagines desgraas que Deus no permittir. Bem sabes
que a Providencia me tem guardado at hoje... Verdade  que tu eras o
meu anjo da guarda, e tu vaes fugir-me. Isto , em verdade, maior que a
coragem humana! No me arriscarei imprudentemente  morte, est certa...
Mas s vezes, na refrega, a gente no tem tempo de evitar uma bala...
No chores, Rosina, no chores. Foi uma loucura que eu disse. Eu no hei
de morrer. Acaso morri eu para a memoria de minha irm? Tambem no hei
de morrer para o futuro de meu filho, para o teu amor.  foroso
separarmo-nos; separemo-nos. Ficaremos, porm, um ao p do outro, sempre
juntos, que j no ha distancias que nos separem, braos que nos
desunam. Tu ver-me-has pelos olhos da saudade; eu, que j estou
costumado a ver assim, ver-te-hei tambem. Conversarei no meu corao
comtigo, acompanharei meu filho desde o primeiro vagido e a primeira
lagrima...  Rosina, triste coisa  a vida! Nascemos soffrendo, como
devemos viver, e morremos como vivemos. E olha que a minha loucura deu
mais uma alma  desgraa... Mas eu amava-te tanto, tanto! Pobresinha de
ti, que dizias parecer-te ouvir a maldio de Bnard... Por amor de mim
te deshonraste uma vez; o meu amor duas vezes te deshonrou... No
chores... J esto desbotadas as rosas das tuas faces, no as desmereas
mais... Lembra-te do co da Italia, que todos dizem ser formoso, e de
que nosso filho nascer sob o co d'esse bello paiz Deus ha de
protegel-o. L viveremos todos n'uma s felicidade... Mas no
chores, Rosina, que eu sinto despedaar-se-me o corao...

Foi chegado o momento da partida.

Rosina subiu a escada de portal amparada nos braos de Graa Strech.
Dir-se-ia um cadaver que se destinava a uma sepultura distante.

Os passageiros que estavam no convs pareceram commovidos de to
doloroso espectaculo. Um d'elles, que era musico napolitano, escondia
contra a harpa o rosto brilhante de lagrimas.

Graa Strech viu-o chorar e disse de si para si:

--O mais desgraado  aquelle, porque j desaprendeu de consolar.

E dirigiu-se a elle:

--D-me licena que o interrogue? perguntou.

--Da melhor vontade, respondeu o menestrel.

--Vae s?

--Infelizmente vou... Deixei um filho morto em Portugal. O rapaz era
fraquito, e no pde aguentar-se. Desde que me elle morreu, fiz voto de
voltar a Italia. Mas quem pde agora ir por Hespanha com estas malditas
guerras, que nem n'este bom paiz de Portugal deixam ganhar a vida?
Juntei tudo o que podia, consegui obter uma reduco na passagem, e aqui
vou eu com a minha harpa, sem o meu filho.

E cada vez luziam mais as lagrimas nos olhos do italiano, que parecia
no ter ainda cincoenta annos, posto lhe alvejassem j os cabellos.

--Sente-se, senhor...

--Pietro, acudiu elle com a celebrada vivacidade napolitana, se bem que
lhe soluasse a voz commovidamente.

--Estimei saber o seu nome, porque preciso archival-o no corao. Vim
aqui para lhe pedir um grande favor. Tem de ser sua companheira de
viagem aquella desgraada rapariga franceza que ali v...

--Franceza! atalhou admirado o italiano.

--Sim, franceza.  um mysterio cuja revelao iria augmentar a sua
maguada compaixo, meu bom Pietro. Olhe por ella, anime-a, que a
pobresinha  muito infeliz, e quem lh'o pede no  menos infeliz do que
ella...

O velho aprumou-se, tirou solemnemente o seu barrete de gomos, e
disse:

--Fique descanado, senhor. Pela memoria de meu filho lhe juro que a
tratarei a ella como se fra elle mesmo. O meu corao at agradece 
Providencia esta inesperada companhia que me d. _Corpo di Baccho!_ que
eu estava aqui triste, triste, que j mal podia commigo...

--Obrigado! muito obrigado! exclamou com extraordinaria commoo Graa
Strech.

--V buscal-a para aqui, tornou o italiano. A minha harpa est habituada
a chorar; eu a farei chorar mais uma vez. Quando eu vir que a minha nova
filha vae triste, eu a despertarei: _Carina!_ E o _canta-storie_ sempre
ha de saber alguma napolitana para cantar-lhe.

Abeirou-se Graa Strech de Rosina. Ella tinha os olhos postos na
superficie do mar, immoveis e desluzidos, e deixava rolar as lagrimas
livremente pelas faces, como se j no tivesse vida para enxugal-as.

--Rosina! apostrophou elle acordando-a, e com voz que mal se percebia.

Ella estremeceu e fitou-lhe um olhar que se diria inconsciente.

--Rosina! tens ali um companheiro de viagem, que me pareceu to
desgraado como qualquer de ns.  musico italiano. Volta a Italia
porque lhe morreu em Portugal o filho que o acompanhava. J vs que deve
ser infeliz. Levanta-te, anda para ao p d'elle. Anda, Rosina, minha boa
amiga, minha desgraada irm. Tem f, tem animo, j que eu sinto
perdel-o... Olha... quero dizer-te uma coisa... Vou confiar-te o meu
thesouro, Rosina, o meu thesouro que to mysterioso te pareceu, e que
tanto te fez soffrer... Guarda este annel de minha irm... Deus sabe se
eu algum dia fiz teno de o tirar do dedo! Que m'o tirassem depois de
morto, pouco me importava. A minha teno era morrer com elle. Mas eu
amo-te tanto, tanto, que quero que tu o guardes. Elle j me no pde
recordar agora a minha vingana... Quando nosso filho crescer mette-lh'o
no dedo, e alguma vez lhe contaremos ambos a historia do annel mysterioso.

Rosina olhava para Graa Strech em dolorosa suspenso. Pareceu accordar,
porm, quando sentiu na mo o contacto do annel.

E entrou de beijal-o anciosamente, delirantemente, como se fosse
para ella uma reliquia mais valiosa do que a madeixasinha de seu pae.

--O que eu soffri por elle, por este annel! disse ella soluante. Agora
o levo commigo, e com elle a tua alma... Senta-te aqui, Jos, ao p de
mim, no me fujas ainda, que o navio no parte por ora... Lembra-te que
esta separao pde ser eterna...

--Eterna! repetiu estremecendo Graa Strech.

--No, no ha de ser, Deus ha de conservar-nos a vida que nos  mais
precisa do que nunca... Mas bem sabes que eu quero gravar bem na memoria
as tuas feies, uma por uma, todas, porque te quero ter presente a toda
a hora, contemplar a cada instante o teu retrato, to fiel, to fiel,
que me parea estar-te vendo... Bem sabes que  uma illuso de que
preciso, de que depende a minha vida. Pois se eu me desalentar, se
succumbir  saudade,--e baixou timidamente a voz--quem ha de velar por
nosso filho, soccorrel-o, beijal-o, amal-o?...

N'este momento deu a sineta de bordo signal para que descessem as
pessoas que no eram passageiros.

Graa Strech, no tendo j foras nem coragem para levantar Rosina, fez
signal ao italiano para que se aproximasse.

Pietro abeirou-se com a sua harpa, sentou-se ao p de Rosina, e
relanceou a Graa Strech um olhar que parecia dizer: Pde ir.

Rosina escondia o rosto entre as mos, e soluava offegante,
estrangulada a voz na garganta.

Um dos marinheiros veiu, por ordem do capito, lembrar a Graa Strech
que j tinha dado o signal de bota-fra.

--Eu vou... respondeu elle machinalmente sem poder desfitar Rosina, e
quasi sem fora para mover-se.

E, lanando a mo  corda, desceu oscillando como estonteado por uma
violenta vertigem.

Na Occasio em que o capito passava por deante de Pietro, o italiano
levantou-se e sorrindo cortezmente lhe disse:

--O capito d-me licena que toque na minha harpa o hymno da partida?

O capito sorriu tambem, e Pietro, inclinando-se para Rosina, exclamou:

--_Carina!_ A minha harpa vae ser de hoje em deante a nossa unica
consolao.  preciso atordoarmo-nos com a musica. Ahi vae a _Capuana_
para no sentir o barulho de levantar ferro. Agora, para Napoles.

E comeou a entoar, acompanhando-se, uma cano napolitana que poderia
traduzir-se assim:

    Esta tarde na ribeira
    Uma hora passeei.
    Meu pensamento, occupaste-o
    E tanto pensei em ti,
    Que o corao l perdi...
    Tu vieste e apanhaste-o.

    Ensina-me pois agora
    A desfazer a meada.
    So parciaes os juizes,
    E a justia demorada.
    Bem sei que perdia a causa...
    Que meio? Lembra-te algum?
    Tu l tens dois coraes,
    E eu c no tenho nenhum.

    Para que nos custe menos
    A resolver a questo,
    Expliquemo-nos. Ha males
    Que s vezes nos trazem bens.
    Vamos fazer um ajuste:
    Tu ds-me o teu corao.
    E guarda o que l me tens.
    ............................

O brigue navegava j. E a musica parecia adormentar aquelles dois
desgraados: um porque levava seu filho; o outro porque o deixava
ficar.

      *      *      *      *      *


XV

A queda do gigante

A historia da terceira invaso franceza, comquanto prenda com a nossa
narrativa, no lhe  essencial.

Muito de leve passaremos pois pelos acontecimentos que medeiam de julho
de 1810 at agosto de 1814 e que, todavia, no podemos supprimir.
Limitar-nos-hemos, em conformidade com o nosso plano, a um simples
bosquejo no descabido em romance.

O marechal Massena, chegado a Valhadolid, assumiu o commando do exercito
francez, que mandou reunir em Salamanca, e marchou sobre Portugal,
tomando de caminho Ciudad Rodrigo, que se rendeu depois de heroica
resistencia. Quasi volvido um mez, capitulou a praa d'Almeria; havendo
soffrido um longo cerco, e tendo sido o paiol incendiado pelo inimigo.

O exercito alliado, em fora de setenta mil homens, esperou os francezes
nas alturas do Bussaco, onde durante os dias 27 e 28 de setembro se
pelejaram duas sangrentas batalhas, sendo grande a victoria para o
exercito anglo-luzo, que galhardamente repelliu o inimigo em grande
parte dizimado.  esta uma das paginas mais brilhantes da historia
portugueza durante o longo periodo das guerras peninsulares.

Os francezes, marchando para oeste, passaram ao Sardo, e d'ahi seguiram
para o sul; os alliados, retirando sobre Lisboa, rebateram-n'os nos
campos de Coimbra, e em Leiria.

Amedrontado Messena  vista das linhas chamadas de Torres Vedras--sobre
as quaes o official inglez John T. Jones deixou uma circumstanciada
_Memoria_, que convm ser consultada pelos que no desdenham saber
historia patria--tomou posies  rectaguarda em Santarem e Leiria,
esperando reforo para atacar as linhas. O exercito francez,
consideravelmente derrotado, estava de mais a mais carecido de viveres.

N'esta conjunctura e j entrado o anno de 1811, passou o marechal
Beresford ao Alemtejo para se oppr ao inimigo, o que no impediu que
Badajoz capitulasse. No obstante esta victoria, e um reforo de trinta
mil homens que o exercito francez recebeu, comeou a retirar nos
primeiros dias de maro d'esse anno, sendo atacado na retirada pelos
alliados, e entrando em territorio hespanhol no mez d'abril. Segunda vez
reforado, atacou o exercito anglo-luzo em Fuentes d'Honor, no sendo
ahi mais feliz do que no Bussaco. No dia 11 d'esse mez retomaram os
nossos a praa d'Almeida, e pela terceira vez se viu Portugal
desopprimido do jugo francez.

Pareciam empenhados os factos em desmentir a prophecia de Napoleo: era
a aguia da Frana que fugia amedrontada para o seu ninho
d'alm-Pyrineus. O leopardo triumphava  sombra da cruz, que sempre foi
timbre dos guerreiros portuguezes.

 batalha de Fuentes d'Honor seguiu-se outra no menos cruenta--a de
Albuera, onde a victoria nos foi descontada pela perda de seis mil homens.

A aguia franceza, a dominadora da Europa, irritada por uma srie de
desastrosas derrotas, procurou ainda desferir no co da peninsula o
arrojado vo das suas passadas glorias. Por um momento lhe sorriu a
victoria. Substituido Messena por Marmont, o exercito francez logrou
tomar-nos a artilharia em Fuente Guinaldo, obrigando os alliados a
retirar sobre a fronteira portugueza, mais assignalados ainda na
retirada que no triumpho, porque, aguentando o peso da cavallaria
inimiga, repelliram todos os ataques, retomando a artilharia. Com a ao
de Arroyo-del-Molinos, pelejada a 18 de outubro, cuja victoria coube aos
alliados, se encerrou o anno de 1811, com muita honra para os
anglo-luzos. No comeou mal auspiciado o anno seguinte, que se
estreiou, para os alliados, com a tomada da praa de Ciudad Rodrigo,
seguindo-se-lhe a rendio de Badajoz, depois de haver soffrido os
apertos de primeiro e segundo sitio. Todavia o maior successo d'esse
anno estava reservado para a batalha de Salamanca, em que os dois
exercitos, commandados de um lado por Wellington e do outro por Marmont,
se equipararam em galhardia e pericia, cabendo a victoria--que se
reputa a mais celebre de toda a guerra peninsular--aos luso-anglos. 
victoria de Salamanca seguiu-se a tomada de Madrid, e  tomada de Madrid
o assedio ao castello de Burgos pelos alliados, que, por desobediencia
de Ballesteros, tiveram de retirar sobre a fronteira de Portugal com
denodo egual ao que em Fuente Guinaldo os assignalou. No remata
deshonrosamente o anno de 1812, para o exercito anglo-luso com este
revez que se pde considerar faanha. Refeitas, porm, as tropas
alliadas das perdas soffridas na retirada de Burgos, e j comeado o
anno de 1813, avanaram at Victoria, onde, na manh de 2 de junho, se
travou batalha geral, retirando o inimigo sobre Pamplona, perdendo
artilharia, caixa, bagagens, e salvando-se o rei Jos, que estivera
presente, em precipitada fuga.

_Alea jacta erat._

A sorte de Napoleo, pelo que respeitava a ambies relativas 
peninsula, havia sido jogada na batalha de Victoria, e a aguia franceza,
em cujos olhos brilhava o olhar coruscante do Corso, pela ultima vez
cruzava, demandando a Frana, as cumiadas dos Pyreneus.

No dia 1 de julho entrava o inimigo em solo francez. De nada valeu
reforar-se, e tomar Soult o commando geral. No ultimo dia d'esse mez
ganharam os alliados a batalha chamada dos Pyreneus, rechaando o
inimigo para dentro das suas fronteiras. Seguem-se, para honra das armas
alliadas, a tomada da praa de S. Sebastio, a batalha de Nivelle, os
combates de Bayonna, as victorias de Nive e Orthez, e, finalmente, a
triumphal entrada do exercito luso anglo em Tolosa, a 12 de abril de 1814.

Comeava, como os acontecimentos o demonstram, a empallidecer no co da
Frana a estrella de Bonaparte. A lucta, desde muito travada entre a
aguia e o leopardo, lucta de morte, encarniada, contnua, estava
chegada a ponto em que j era dado suspeitar que o pedestal de Napoleo
no era to firme como a sua coragem. O contendor, apesar dos revzes,
era o mesmo; a fortuna principiava a falhar. A Inglaterra havia vencido,
a sorte mostrra-se rebelde, mas o conquistador da Europa,--e para o ser
faltava-lhe vencer a Inglaterra--no desesperava de reconquistar
a sua boa fortuna. No tomou por aviso da Providencia o desastre. No
immenso taboleiro da sua ambio, em que as naes eram outras tantas
tavolas que movia a bel-prazer, pareceu-lhe aquelle um cheque sem
consequencias para o resultado da partida em que se jogavam os destinos
de povos e reis.

Bonaparte ufanava-se de empunhar a balana em cujas conchas pesavam d'um
lado a Europa e do outro uma ambio immensa, indomavel, manifestada
desde os primeiros passos da sua carreira militar. Comtudo havia na
Europa uma nao quasi invencivel, porque o mar lhe servia de muralha,
porque os seus recursos economicos prosperavam largamente, e porque as
instituies d'esse povo, traduzindo a altivez do genio nacional, eram
muralha tanto mais para temer como a que o mar, cingindo as ilhas
britannicas, opporia a qualquer invaso. Era tudo isso, e mrmente o
regimen liberal da Inglaterra, que incommodava Bonaparte, cujo poderio
havia ultrapassado a barreira da tyrannia. O guerreiro feliz
imaginava-se senhor absoluto: era a vertigem da victoria. Havia porm um
meio de egualar a Inglaterra, como diz madame Stal: era imital-a.
Bonaparte, porm, no tinha nascido diplomata. A vista do conquistador 
incisiva, rapida, abrange de uma s vez o exercito todo por mais
espraiado que esteja; o diplomata tem de profundar, estudar, decompr,
analysar no s os negocios englobados diante de si, mas as suas intimas
relaes, as suas consequencias proximas e remotas. N'um requer-se o
olhar ardente da aguia; no outro a vista penetrante do lynce. Toda a
diplomacia de Napoleo se cifrava em preparar os acontecimentos de modo
a provocar um conflicto internacional, que tendesse a prejudicar a
Inglaterra. Haja vista o tratado secreto de Fontainebleau, em que
Portugal e a casa de Bragana eram sacrificados  velha rivalidade dos
dois paizes. Bonaparte visava sempre a vencer, no empregando a
influencia politica da sua posio, mas empregando a influencia armada
do seu exercito. Edificava sobre cadaveres, arriscando a vida dos
soldados francezes ao sabor da sua phantasia. Chegado  suprema
embriaguez da preponderancia, tanto valia para elle o sangue dos
soldados como a cora dos reis. A sua vontade era lei. Conta-se
que uma vez um dos seus conselheiros d'estado ousou lembrar-lhe
que o codigo napoleonico era contrario  resoluo que ia tomar.

Bonaparte respondeu:

--O codigo foi feito para salvao do povo, e, se a salvao do povo
exige outras medidas,  preciso adoptal-as.

Estas palavras so transparentes: deixam ver a tyrannia. O povo francez
no podia ter vontade livre: vivia affrontado pela sombra de Napoleo e
encarcerado na inquisio politica de que o ministro Fouch era
claviculario. O czar dominava tudo: a vontade do povo e a opinio da
imprensa. Os jornaes eram thuribulos que vaporavam o incenso da adulao
aos ps do throno. Os poetas estavam habituados desde o tempo do
Directorio a cantar heroides em honra do Primeiro Consul. Os
follicularios poisavam a penna, quando tentavam assumpto que esquecesse
a grandeza napoleonica, amedrontados pelo espectro da proscripo. A
viso do desterro bastava a intimidar a maior parte d'elles, seno
todos. Madame de Stal, que no trepidava deante da estatua gigantea do
imperador, teve de procurar refugio em Inglaterra.

E comtudo, na sua origem, a cora de Napoleo emergira, Venus da
realeza, da onda da liberdade!

 certo, mas a estas palavras respondem cabalmente as seguintes linhas
da auctora das _Considrations sur la revolution franaise_, cujo
espirito era profundo de mais para se deixar cegar por despeitos.

No bastava,--diz a insigne pensadora--que todos os actos de Bonaparte
tivessem o cunho de um despotismo cada vez mais audacioso; devia elle
proprio revelar o segredo do seu governo, pois que despresava a especie
humana o bastante para dizer-lh'o. No _Monitor_ do mez de Julho de 1810
fez publicar as palavras que dirigia ao segundo filho de seu irmo Luiz
Bonaparte criana a quem o gr-ducado de Berg era destinado: _No
esqueas nunca_, lhe diz elle, _em qualquer posio que te colloquem a
minha politica e o interesse do meu imperio, que os teus primeiros
deveres so para mim, os segundos para a Frana: todos os outros,
incluindo os relativos aos povos que eu pudesse confiar-te esto
depois_. No se trata aqui de libellos, de opinies de partido;  elle
proprio, Bonaparte, que se denunciou mais severamente do que a
posteridade ousaria fazel-o. Luiz XIV foi accusado de ter dito
intimamente: _O Estado sou eu_; e os historiadores esclarecidos
apoiaram-se com razo n'esta linguagem egoista para condemnar o caracter
do rei. Mas se este monarcha, quando collocou seu neto no throno de
Hespanha, lhe houvesse ensinado publicamente a mesma doutrina que
Bonaparte ensinava ao sobrinho, talvez que o proprio Bossuet no ousasse
antepr os interesses dos reis aos das naes; e  um homem eleito pelo
povo, que quiz encher com o seu _eu_ gigantesco o logar reservado 
especie humana! foi n'elle que os amigos da liberdade momentaneamente
puderam ver o representante da sua causa! Muitos disseram:  o filho da
Revoluo. Sim, , mas filho parricida: deveriam reconhecel-o?

Tudo isto  profundamente verdadeiro.

A liberdade franceza ficra esmagada sob a purpura do czar. Novo
Archimedes, levantaria com a alavanca do seu poder a Europa inteira, se
a Inglaterra consentisse em ser o ponto d'apoio. Era preciso vencer essa
unica difficuldade. Serviu-se pois de todos os meios. Na _Historia
Secreta do Gabinete de Napoleo Bonaparte_, por Lewis Goldsmith, est
manifesto o espirito faccioso do escriptor inglez, mas ainda assim ha
por vezes a eloquencia terrivel dos factos, e esses no os pde calar a
historia. Bonaparte procurou triumphar por mil maneiras differentes,
seduzindo com largas retribuies a lealdade dos jornalistas inglezes;
mandando a Inglaterra espies, entre os quaes algumas mulheres, como
madame Bonneuil e madame Visconti; procurando sublevar a Irlanda, etc.

Mas estava escripto no livro dos destinos que a Inglaterra fosse o
sepulchro da grandeza de Bonaparte. Lord Wellington, perseguindo a aguia
franceza desde Lisboa at Waterloo, similhante ao adversario de Macbeth,
segundo a expresso de madame de Stal, foi o Josu da historia profana
que ousou suster o curso do sol napoleonico em meio d'um longo dia de
gloria prolongado em dez annos de lucta contra a Inglaterra.

O cartel de desafio, tantas vezes arrojado  face da nao britannica,
volveu-se na hora da decadencia em supplica dirigida ao principe regente
d'aquelle paiz.

Estas palavras de Napoleo, escriptas em Aix, depois de Waterloo, so
claro testemunho da inconstancia das coisas terrenas:

Alteza real, a braos com as faces que dividem o meu paiz, e com a
inimisade das grandes potencias da Europa, puz termo  minha carreira
politica. Venho, como Themistocles, sentar-me junto ao lar do povo
britannico; abrigo-me  proteco de suas leis, a qual solicito de vossa
alteza real como o mais poderoso, o mais constante e o mais generoso dos
meus inimigos.

                                                        NAPOLEO[12]


No era porm sincera a humildade do czar decado. Themistocles pedia a
hospitalidade d'Artaxerxes, mas no pensava em beber a morte no veneno.
Os tropheos da Inglaterra, como os tropheus de Melciades, perturbavam o
somno do hospede desterrado. No momento de embarcar em a nau ingleza,
Napoleo repellia o general Becker que se abeirava d'elle para
despedir-se, e dizia-lhe:

--Retire-se general. No se diga que um francez veiu entregar-se nas
mos do inimigo.

Themistocles no esquecia a gloria de Melciades.

Napoleo preferira morrer na morte lenta de todos os exilados, e
agonisra durante cinco annos n'uma possesso ingleza.

Ahi, na triste solido da ilha de Santa Helena, devia recordar a cada
momento a epopea da sua gloria e da sua desgraa, pensando ou dictando
as suas memorias ao general Las Cazes. Ento, pelo silencio da noite,
apenas interrompido monotonamente pelo ruido do mar, refugiria de si
mesmo ao ver passar deante dos olhos o bando lutuoso das viuvas e dos
orphos dos seus soldados, e ao adivinhar a pallida e lacrimosa figura
da moribunda de Malmaison, a formosa Josephina Beauharnais.

 sempre no mar que se esconde o sol; Santa Helena illuminou-se com os
ultimos clares da gloria de Bonaparte no duplo occaso da grandeza e da
vida. Orgulho de soldado: ordenou que lhe fosse mortalha o capote
que trazia na batalha de Marengo. Na sua vaidade de czar at  morte se
queria impr.

Mais longe do que desejavamos nos levaram as nossas divagaes,
esquecendo-nos de que o protagonista d'esta narrativa no era Bonaparte,
imperador dos francezes, mas um obscuro soldado dos exercitos que o
venceram.

Tempo  de falarmos de Graa Strech, e de dizer que mais duas vezes fra
ferido no decurso da campanha peninsular: uma em Salamanca, e outra em
Victoria com uma bala n'uma perna, do que lhe resultou ficar coxeando.
Fra gravissimo este ultimo ferimento. Por mais d'uma vez os soldados
portuguezes suppozeram moribundo o seu valoroso companheiro. s
exaltaes febris, em que o ferido precipitava palavras que os seus
camaradas no comprehendiam, succediam-se to profundas prostraes, que
era difficil averiguar se vivia ainda.

D'uma das vezes ouviram-lhe dizer:

--No! no! No vdes a morte?... No quero morrer... E Rosina?... Meu
filho!... Estou aqui ssinho... Pietro tocava a sua harpa.. A muda
chorava muito... Em Coimbra, n'aquella tarde... Sim, ella era innocente
e pura... Pietro parecia triste de a vr chorar... Que ?... So os
francezes?... Que venham... Eu vingo a memoria de minha irm, mas no
quero morrer porque tenho um filho...

--Um filho! exclamaram os dois soldados que piedosamente o soccorriam.

O ferido continuou a delirar:

--Tudo perdeu por mim... Como era grande o seu amor!... Pobresinha...
Para traz, francez; quero ir vel-a. Ests ahi? Sempre ao p de mim!
Sim... bem me lembro... o ceguinho das Ardennas e o seu co... No
ouviste chorar uma creana?  meu filho...

--O nosso tenente tresl! exclamou um dos soldados.

Graa Strech havia, pelos seus actos de valor, chegado quelle posto,
sendo condecorado com a Torre-Espada, com a cruz de S. Fernando
d'Hespanha, e ao depois com a medalha da guerra peninsular.

--Pena  se morre, acrescentou outro soldado, que no ha mais
destemido militar que o nosso tenente!

--Isso no! Animava-se com a polvora, que tambem no tem de haver no
mundo militar mais triste...

--E mais desgraado! No te lembras que j a irm era muda?

--Muda, sim.

A este tempo havia cado Graa Strech em lethal modorra, e retiravam-se
os dois soldados receiosos de que o tenente no resistisse ao ferimento.

Todavia, como poderemos ver pelo capitulo seguinte, no tinha de ser
aquella a ultima hora da attribulada existencia de Graa Strech.

    [12] _Historia de Napoleo Bonaparte_, pelo dr. Caetano
    Lopes de Moura, Vol. II.

      *      *      *      *      *


XVI

Uma festa no Porto ha cincoenta e nove annos

Amanheceu festivo para a cidade do Porto o dia 15 d'agosto de 1814.

Ainda de noite comearam a povoar-se as janellas, e a animar-se as ruas
com enorme multido.

s sete horas da manh j no havia casa que no estivesse adornada de
ricas tapearias, pendentes dos balces, que competiam com as galas das
damas da cidade e da provincia debrusadas nos peitoris.

Muitas das janellas estavam emmolduradas em grinaldas e arcos de flres;
outras ladeadas por bandeiras; ao longo das ruas corria um verdejante
tapete de hervas aromaticas.

Em muitos olhos brilhavam lagrimas d'alegre commoo, e em todos os
labios desabrochavam sorrisos que eram espelho do jubilo da alma.

Que motivo havia, pois, para tamanha festa na cidade cujos habitantes,
no lento curso de cinco annos, estavam costumados ao luto e  saudade
dos que pereceram na catastrophe da ponte, nas linhas de defeza, nos
hospitaes de sangue e dos que posteriormente haviam succumbido na
demorada campanha peninsular contra os francezes?

No eram estranhos os jubilos d'esse dia a to funestos acontecimentos.
Esperava-se a brigada de infantaria do Porto, composta dos regimentos 6
e 18, que victoriosa regressava de Frana depois de haver pelejado com
egual denodo pela restaurao d'estes reinos e de toda a peninsula.

Os feitos da brigada de infantaria do Porto haviam soado, com assombro
dos portuguezes, em Portugal inteiro, mrmente os que praticra na
batalha da estrada de Bayona, em Frana, no dia 13 de dezembro do anno
anterior.

O senado da camara tinha-se reunido nos primeiros dias d'agosto para
assentar nos festejos com que se devia celebrar o regresso das tropas.
Resolveu que se levantassem arcos de triumpho, fazendo-se outras mais
demonstraes de alegria, e encarregou da direco dos preparativos o
vereador decano Jos de Sousa e Mello.

Tratou-se, pois, com febril afan, de executar o programma dos festejos.

Construiu-se sobre a ponte do Poo das Patas a _Porta da cidade_[13],
guarnecida com os castellos que lhe so proprios, e com as
insignias concedidas por carta regia de 13 de maio de 1813;
collocando-se na cimalha da porta a imagem de Nossa Senhora, que
entregava a seu Divino Filho uma fita com a legenda _Civitas Virginis_.

O gosto da pintura, imitando velha cantaria, muito deu na vista das
pessoas que percorriam as ruas e estacionavam boqui-abertas em frente do
arco.

Tambem na cimalha foi embutida uma lamina de bronze com este distico:


                        HINC GENTI HOMEN;
                    HINC REGNO PLURIES SALUS;
                       HINC EUROPAE, ORBI
             PRIMA LIBERTATIS LUX NOVISSIME AFFULSIT.


No alto da rua nova de Santo Antonio levantou-se um arco de triumpho, de
ordem composita, firmado em quatro columnas; resaltavam dos
intercolumnios arnzes, grvas, escudos, bandeiras e lanas entrelaadas
com listes de murta, ramos de oliveira, palmas e louros. Nos dois
grandes pedestaes sobre que descanavam as columnas, lia-se:

    Sempre engrandea a patria lusitana
    Vosso nome immortal, claro, e subido;
    E a Casa restaurada de Bragana
    Tenha em thesouro seu vossa lembrana.

                               _Condest._

    Esta Cidade forte, e populosa,
    Colonia antiga do poder Romano,
    Cavou a sepultura temerosa
    D'um gigante nas obras deshumano.

                     _Affons. Afric._

Egualmente estavam enfloradas as cornijas, architraves e os frizos.
Sobre o portico erguia-se o escudo das armas da cidade; por cima da
balaustrada que corria ao longo do arco, havia quatro estatuas que
figuravam:

A SAUDADE

Mostrava um livro aberto em que se lia: _1. e 2. de Setembro de 1809._
(Dias em que saram do Porto as tropas.) No pedestal estava escripto:

    Deixando a Patria amada, e proprios lares
    Se mostraram nas armas singulares.

                                       _Cam._

A ALEGRIA

Indicava em outro livro a data: _15 d'agosto de 1814._ (Dia da entrada
das tropas.) Lia-se no pedestal:

    A Deus, ao Rei de quem a paga esperam
    Fazer maior servio no puderam.

                                 _Malac._

A VICTORIA

Desenrolava os annaes das acoes em que a brigada entrra. Legenda do
pedestal:

    Aonde falta o premio a quem milita
    No habita a razo, nem gente habita.

                           _Dest. d'Esp._

A ETERNIDADE

Tinha, entre o symbolo da serpente enroscada, os nomes dos
regimentos: _Infantaria 6 e 18._ No pedestal:

    Ajudados dos cos em mar e em terra,
    Tem fechadas na mo a paz, e a guerra.

                                  _Malac._

Sobreposta a uma longa inscripo latina, rematava o grupo do arco uma
esphera armilar, sustentada por Genios que entornavam flres.

Nos intercolumnios posteriores correspondiam armas, espadas, tambores e
alabardas unidos com feixes de louro, ramos de carvalho e oliveira.

Nos grandes pedestaes havia gravadas epigraphes em verso, correspondendo
os ornatos aos da frente e as estatuas da balaustrada estas quatro:

O PORTO

Offerecia com a mo direita uma cora de louro e empunhava na esquerda
um ramo de carvalho, tendo no pedestal:

    Orno os heroes que a patria eternizaram
    E por ella seu sangue derramaram.

                                     _Elp._

O AMOR DA PATRIA

Offerecia com a direita um corao e apontava com a esquerda para o
peito. No pedestal:

    Meu valor, minha nobre fortaleza
    Ser gloria da gloria Portugueza.

                     _Affons. Afric._

A PAZ

Offertava com a mo direita o ramo de oliveira, e sustentava na esquerda
um feixe de palmas. No pedestal:

    Que mais ditoso fim se lhe esperava
    Que este agora que merecido estava!

                     _Affons. African._

A DOCILIDADE

Arremessava com a mo esquerda um monto de cadeias, e com a direita
segurava uma estreita fita. No pedestal:

    O Soberano Author da redondeza
    Da minha redempo deu-vos a empreza.

                                 _Bocag._

A tarja que, do outro lado, correspondia  inscripo lapidar, tinha
figurados em relevo todos os petrechos de guerra, e os Genios, que
d'esse lado sustentavam a esphera, desenrolavam uma fita em que estava
escripta uma quadra do _Condestabre._[14]

Ahi se agrupava impaciente a multido, no s attrahida pela
magnificencia do arco, seno tambem pelo variegado espectaculo das
tropas da guarnio, que estavam postadas em alas at ao largo de Santo
Eloy; bem como para ver pegar fogo  bateria collocada no topo da
calada dos Clerigos e destinada a salvar com vinte e um tiros de pea a
passagem da brigada pelo arco.

Na rua nova do Almada baralhavam-se dois formigueiros de povo: um que,
receoso do tumulto na aproximao das tropas, demandava o Campo de Santo
Ovidio; outro que, tendo visto o obelisco levantado no meio d'este
campo, ia procurar logar, na hypothese de encontral-o, junto ao arco da
rua nova de Santo Antonio.

Era tambem sobremodo esplendoroso o obelisco n'aquelle campo. Rodeava o
pedestal uma espaosa varanda, adornada com ricas bandeiras portuguezas.

Sobre o pedestal, e em frente da rua nova do Almada, estava o retrato do
principe real, com a seguinte legenda escripta na almofada correspondente:

    Diga-o a Augusta Effigie contemplando:
        Foi este o forte, o justo,
    Joo, da Patria Pae, que a patria alando
    Deu pasmo a naturaes, e a estranhos susto.

                                        _Elp._

Em frente da rua da Boa Vista, resaltava o retrato da rainha, lendo-se
no pedestal:

    O louvor que se ganha pelos meios
    Da virtuosa vida, este s dura,
    Este de se perder no tem receios.

                               _Bern._

E em frente da linha dos predios foi disposto o retrato da princeza,
tendo no pedestal:

    Que affavel se olharia a tua face,
    Se o co a nossos votos sempre amigo
    Na fria estatua espiritos soprasse!

                               _Filint._

Do lado da Lapa, em frente do quartel, viam-se as armas do reino e da
cidade, unidas por um listo, em que estava escripto o dia da
restaurao do governo nacional

                         18 DE JUNHO DE 1808

lendo-se no pedestal os seguintes versos de Horacio:

                  HIC DIES VERE NOBIS FASTUS ATRAS
                           EXIMIT CURAS.

Todos os retratos foram collocados entre tropheus de bandeiras, e eram
cingidos pelos emblemas da paz e do heroismo...

O bom povo portuense, na cegueira do seu jubilo, no reparava que esses
emblemas,  beira dos augustos retratos, deviam ser uma pungente ironia
se a familia real tivesse olhos para os ver atraves de enorme distancia,
e interposto o mar!

No cimo do obelisco assentava a cora real cingindo um manto de preciosa
bordadura.

Pouco depois das oito horas e meia, um unisono grito de alegria
annunciou a chegada da brigada ao Alto do Senhor do Bomfim.

Ento comeou o estrondear dos morteiros, o repicar dos sinos e o
alarido dos vivas. Quando as tropas chegaram ao topo da rua nova de
Santo Antonio, o enthusiasmo attingiu as raias do delirio,
tamanho era o alvoroo da multido que saudava com brados, com os
lenos e os chapeus os dois regimentos portuenses. Durante todo o
percurso at ao Campo de Santo Ovidio as flres, as grinaldas e os
ramos, que desciam das janellas, figuravam uma chuva iriada e espessa
que ia orvalhar de petalas as fardetas dos soldados.

Se nos fosse dado ouvir os breves dialogos que se perdiam no borborinho
geral, de grupo a grupo iriamos recolhendo vozes, posto que variadas,
todas concernentes  festa d'esse dia.

N'uma das janellas da rua nova do Almada chalravam as visinhas da
familia Strech, as quaes cinco annos antes tivemos occasio de conhecer
em lances que verdadeiramente contrastavam com o espectaculo a que
estamos assistindo.

Passava o regimento de infantaria 18, e diziam ellas.

--Vamos a ver se conhecemos o Jos Maria!

--Vem tenente e condecorado!

--J sei. Mandou dizel-o o homem da Victorinha.

--Deve vir muito mudado!

--Ser aquelle?

--Aquelle, menina! Aquelle militar tem mais de vinte e cinco annos...

--Vamos a ver se elle olha para a casa onde morou...

--Vs? No olha! Vae at a olhar para o cho...

Era elle, effectivamente.

No meio da rua dialogavam dois velhos:

--Que pena no assistir o Trant!

--Est doente.

--Bem sei.

--E elle que tanto trabalhou para esta recepo!

No Campo de Santo Ovidio, antes da chegada das tropas: Um velho
perguntando a um sujeito que estaciona junto d'elle:

--Falta-me a vista! Quem so aquelles que esto nas janelas do quartel?

-- o juiz e a camara. Olhe... No v mexer-se agora uma cabea?

--Vejo, mas no distingo.

--Pois  o Jos de Sousa e Mello.

--Acho que elle tem de falar pelo senado?

--O programma dizia que sim.

--Esperaremos. Sempre no ter vista! Perco metade!

Chegaram as tropas ao Campo de Santo Ovidio e, depois de formar
quadrado, fizeram continencia aos retratos da familia real, que, diga-se
em abono da verdade, no responderam.

Os originaes estavam no Brazil; no viram.

Em seguida o brigadeiro Carlos Ashworth, commandante da brigada,
levantou vivas ao principe regente e  rainha...

Os retratos no se mexeram.

Quando porm se ouviu um enthusiastico viva em honra da cidade do Porto,
a cidade respondeu delirantemente pela bocca das tropas, do povo, e pelo
acenar vertiginoso dos lenos nas janellas.

Dada a voz de descanar armas, desceu o j nomeado vereador decano, Jos
de Sousa e Mello, que pouco antes viramos a uma das janellas do quartel.
O brigadeiro commandante, tendo-se apeiado, dirigiu-se para elle. Ento
o camarista Mello recitou uma allocuo que terminava por estas
palavras: A camara roga a vossa excellencia queira fazer-lhe a honra,
no s de jantar hoje n'este quartel, mas de convidar em seu nome toda a
officialidade d'estes dois regimentos, mandando vossa excellencia que,
alm d'isto, se distribua pelos sargentos, cabos e soldados o dinheiro
que ali se acha para lhes supprir o jantar d'hoje.

O brigadeiro Ashworth agradeceu amavelmente o convite, e asseverou que a
officialidade acceitaria reconhecida.

A immensa multido que enchia o Campo de Santo Ovidio rompeu n'este
lance em freneticos vivas e, ao som das bandas marciaes, recolheram as
tropas a quarteis, sendo seguidas por grande numero de pessoas,
parentes, amigos, e conhecidos, que esperavam lhes fosse permittido
abraar soldados e officiaes.

Concedidas duas horas para desafogo de saudades, cinco annos retradas,
e gastas em ardentes expanses que as volveram momentos, foi o regimento
de infantaria 18 ouvir missa  egreja da lapa e o regimento de
infantaria 6  egreja da Graa. Em ambos os templos houve _lausperenne_
e _Te-Deum_.

Cumpridos os deveres do corao e da alma, comearam os da cortezia.

O brigadeiro Ashworth foi cumprimentar o senado  sala da
secretaria do quartel de Santo Ovidio, convenientemente preparada para a
solemnidade da recepo, recolhendo-se depois ao quartel general da rua
nova do Almada, onde, pelo meio dia, recebeu a visita dos vereadores.

Cerca da uma hora da tarde, quando o brigadeiro j estava desembaraado
de felicitaes officiaes, annunciou-se no quartel general o tenente
Graa Strech.

O brigadeiro acudiu a recebel-o com a maxima familiaridade, que era
testemunho de maxima considerao.

--Vem tambem cumprimentar-me? galhofou o brigadeiro.--Ora sente-se e fale.

--Venho solicitar um grande obsequio, respondeu o tenente.

Razo tinham as meninas da rua nova do Almada para no reconhecer n'elle
o gentil e vigoroso Jos Maria dos dezeseis annos. Estava velho aos
vinte e um, velho das geadas do infortunio que requeimam as flores da
alma, e apagam nos olhos o brilho da mocidade. Tinha a magreza viril do
soldado, mas cruzavam-se na sua physionomia umas sombras espessas que 
primeira vista inculcavam que espirito e corpo haviam soffrido por
egual. Como as palreiras meninas da janella disseram, figurava ter mais
de vinte e cinco annos.

Mas, voltando ao dialogo do tenente com o brigadeiro:

--Que grande obsequio  esse? perguntou com affabilidade Carlos Ashworth.

--Venho pedir dispensa de assistir hoje ao jantar.

--Ah! meu amigo, isso no pde ser! O galardo  para todos; cumpre,
pois, que cada um receba o quinho que lhe cabe.

--Eu creio que j em Frana tive a honra de lhe dizer, meu brigadeiro,
que precisava descano porque soffria...

--E de me pedir a sua baixa, bem sei. D'essa vez no pude annuir ao
pedido do meu bravo tenente, porque havia recebido instruces
particulares do senhor marechal marquez de Campo Maior para no
licenciar soldados nem officiaes. Era justo que o Porto conhecesse todos
os heroes d'esta brilhante campanha. O marechal tinha razo. Agora, meu
bom amigo, tambem no posso ser-lhe agradavel como desejava. O
tenente foi dos militares que mais se distinguiram desde Portugal a
Frana. As ordens do dia falaram muita vez no seu nome. Conhecem-n'o.
Seria uma affronta para o Porto que estivesse entre os seus muros, e
recuzasse o talher que lhe offerece. Isso--disse o brigadeiro
curvando-se amigavelmente para elle--so saudades, no quero saber de
quem. Tambem eu as tenho... Vamos, assista ao jantar, que eu me
empenharei por obter a sua baixa o mais breve possivel.

E estendeu-lhe cordealmente a mo.

O tenente Graa Strech saiu d'ali com os olhos no cho para no vr a
casa onde nascera, e atravessou as ruas da cidade absorto na triste
concentrao de quem est em terra onde no conhece ninguem.

Ia entregue aos seus pensamentos, e assim andou ao acaso at que outro
tenente do mesmo regimento lhe bateu no hombro e disse:

--So quasi cinco horas e meia. Vamos l ao jantar, homem. Est marcado
para as seis.

Effectivamente,  hora designada, reunida a officialidade no quartel de
Santo Ovidio, passou com os vereadores  sala do banquete, cuja
ornamentao era brilhante.

A um e outro lado corriam arbustos, d'entre os quaes appareciam as armas
de Portugal e Inglaterra. A um grupo de trophus de guerra, com
bandeiras d'uma e outra nao, que cobriam a cabeceira da mesa, fazia
_pendant_ um nublado em que se enleiava a serpente, symbolo da
eternidade, tendo escripto no centro--_Ashworth._--Guarneciam o nublado
duas bandeiras com os nomes dos dois regimentos, atadas por uma fita em
que se lia a data de maior gloria para a brigada do Porto--_13 de
dezembro de 1813_.

No fim do banquete, ao som da banda de musica de milicias que tocava 
porta do quartel, levantaram-se enthusiasticos vivas ao principe
regente,  familia real, aos monarchas alliados, aos governadores do
reino, generaes do exercito combinado, s tropas victoriosas, e a todas
as mais entidades que iam lembrando e mereciam a homenagem d'um calis de
vinho.

Um s conviva correspondeu a esses ruidosos brindes com um movimento de
labios: foi Graa Strech. E  noite, quando toda a cidade se illuminava
festivamente, era profunda a escurido na sua alma.

    [13]  fiel a descripo d'estes festejos; O auctor
    encontrou-a n'um opusculo da epoca.

    [14] Poema heroico de Francisco Rodrigues Lobo.

      *      *      *      *      *


XVII

Como madrugam as aves e os noivos!

Obtida a baixa, Graa Strech poucos dias se demorou no Porto.

Sentia-se asphyxiado na atmosphera em que respirra ao nascer.
Punham-lhe medo as sombras; as ruas affiguravam-se-lhe tristes como
avenidas de cemiterio. Duas vezes, alta noite, depois de dolorosissima
lucta comsigo mesmo, estivera, encostado  parede fronteira  casa em
que viveu os primeiros annos da vida, mergulhado em profunda meditao.

A ultima vez fra a ultima noite que passra no Porto. O co era d'um
azul setinoso. O branco luar de agosto estendia ao longo da rua a sua
claridade immovel, e parecia desenhar nos muros contornos phantasticos.
Reinava na cidade o silencio imperturbavel das noites profundas. Na
janella da sala onde cinco annos antes, por noite tempestuosa, jaziam
tres cadaveres, luzia um reflexo mortio como de lamparina que no
tardou a apagar-se. Lembrou-se Graa Strech de que devera ser egualmente
pallido o reverbero da luz que lhe tremia na mo quando contemplava os
corpos inanimados das trez senhoras. Transportou-se quelle horrivel
espectaculo. Viu tudo. A me, a irm e a av estavam a seus olhos como
n'essa hora tremenda. No obstante o seu grande empenho, de pergunta em
pergunta no logrra saber onde repousavam. Queria ir procurar Rosina,
de quem nada sabia tambem, mas desejava despedir-se da familia que
ficava, antes de partir para o seio da familia que o esperava. No pde
realisar o seu desejo. Registos parochiaes no os havia. N'aquella
immensa hecatombe da invaso, tambem as sepulturas foram invadidas sem
averiguar-se por quem. Tinha desesperado de conhecer a verdade,
e, j que no podia despedir-se do tumulo da sua familia, fra
despedir-se do predio que ella habitra. De repente, n'uma casa proxima,
perpassou uma luz. Fez reparo. Quem velaria ainda quella hora?
Deteve-se a examinar, e certificou se de que ali viviam, no anno de
1809, as duas visinhas que lhe falaram na bateria do Bomfim. Foi isto um
como raio de tardia esperana. Recriminou-se pelo esquecimento de no as
ter procurado logo que chegou. A desgraa havia-o desmemoriado.
Atravessra o Porto como um viajante solitario atravessaria o
Sahar--calado, pensativo, sem ver, por ter medo de olhar. Mas--os
infelizes duvidam sempre--viveriam ainda ali? Tinha razo. Quem poderia
dizer se ellas, na fuga, haveriam chegado ao seu destino, sido
attingidas pelas balas ou cahido em poder dos francezes?

A estas perguntas, que a si proprio fazia, s poderiam responder
indagaes. Pesava-lhe todavia o ter de se aproximar de pessoas cuja
conversao iria aggravar a dr do passado. Se elle soubesse onde
repousavam as cinzas da sua familia, l iria para falar-lhes, para
contar-lhes os extraordinarios lances da sua vida, para dizer aos frios
restos de sua irm por que razo no levava comsigo o annel, sobre o
qual jurra vingal-a.

Augusta, de dentro do sepulchro, responderia com o perdo implorado.

Mas o que elle no queria era deixar entrever a sua dr de modo que lh'a
avivassem piedosamente, porque a sociedade no d o balsamo da compaixo
sem primeiro rasgar as feridas que a inspiram.

O desejo vehemente venceu, porm, a natural repugnancia. A breve trecho
fez teno de no desaproveitar as poucas horas que lhe restavam para
colhr esclarecimentos. Resolveu-se a esperar que amanhecesse e, como a
luz parecesse brilhar com intensidade a travs da janella, no se
afastou. Mal comeava a raiar a claridade da madrugada, apagou-se a luz,
e cerca das cinco horas da manha viu Graa Strech abrir-se a porta.
Sairam duas mulheres de mantilha, seguidas por uma criada que levava um
aafate  cabea. Fosse reminiscencia ou phantasia, Graa Strech cuidou
reconhecer as duas visinhas: tia e sobrinha. Tomou alento e acercou-se.
Uma das mulheres, a mais nova, voltou de repente a cabea como se
esperasse alguem. Havendo-se enganado, achegou-se da outra e soltou
um--ai!--que mais denunciava despeito que medo.

--No se assuste vossa senhoria, sr. D. Izabel! apostrophou Graa
Strech serenando a menina que se denunciava medrosa.

Tia e sobrinha olharam fito no desconhecido, e foi a sobrinha quem
primeiro exclamou:

--Pois no se lembra, minha tia? Olhe bem para elle!

--Quem ?

-- o sr. Jos Maria! Eu bem dizia outro dia que era o tenente das barbas!

--Pde l ser o Jossinho!

--Tem razo, minha senhora, replicou Graa Strech. Eu devo parecer-lhes
uma sombra do que fui. Mas, sombra ou realidade, o certo  que me chamo
Jos Maria da Graa Strech.

--Ora uma coisa assim! Parece um velho!

--E parece! acrescentou a menina.

--Desgostos, minhas senhoras.

--E muitos teve to novo, sim, porque vr...

--Peo a vossa senhoria o obsequio de deixar em silencio essas tristes
recordaes. Uma s quero eu avivar, e por isso lhes causei esta surpresa.

--Mas no nos ter procurado! exclamou a velha senhora.

--No tomem  conta d'ingratido o que  simplesmente embrutecimento.
Bem podia ser tambem que tivessem mudado de casa.

--Ora! Quem tem bocca vae a Roma! exclamou a menina. J nem queria saber
novidades da sua antiga visinha! Pois saiba que me vou casar...

--Felicito vossa senhoria.

--Cala-te ahi, tagarella! acudiu D. Eulalia, affastando com o brao a
sobrinha. Ha de estar admirado de nos vr sahir ambas a esta hora. Pois
no se admire. Combinamos com as Cerqueiras e as Brochados, tudo visitas
da sua casa, sr. Strech,--e com o noivo da Izabelinha--juntarmo-nos na
primeira missa que se diz no altar do Senhor dos Passos em S. Joo Novo
e irmos depois almoar todos  Fonte das Virtudes.

Cumpre dizer que na primeira dcada do seculo XIX era ainda a
Fonte das Virtudes o local destinado s comezainas das familias
burguezas do Porto. Ahi se reuniam em ruidosos convivios, deposta a
mantilha, e irmanados novos e velhos pelo mesmo apetite e pela mesma
alegria.

O camartello das demolies municipaes tem--_avis rara!_--respeitado at
hoje esta legendaria fonte que se compe d'um alto frontispicio, ornado
de pyramides, e firmado em bancos de pedra, que a rodeiam. Rebenta
abundantemente a agua por duas enormes carrancas em conformidade com a
esculptura de todos os chafarizes antigos. Ladeiam a fonte dois grandes
tanques, durante todo o dia, ainda hoje, frequentados por lavadeiras.
N'esses bons tempos, ficava a fonte extra muros; sahia-se para ella pela
porta a que a fonte deu nome. Ao lado da porta, na eminencia da parte
oriental, havia j ento os chamados _Assentos_, actualmente Passeio das
Virtudes.

O padre Agostinho Rebello da Costa, na sua _Descripo topographica e
historica da cidade do Porto_, impressa em 1789, escreve cerca d'este
local: Em toda a cidade, no ha sitio nem mais ameno, nem mais
agradavel; porque alm da sua bella posio adornada de regulares
edificios, gozam os olhos d'um s golpe, vista de cidade, de mar, rio,
navios, montes, campinas, quintas e palacios. O grande paredo, que
presentemente se est fazendo, para com elle se formar uma praa
correspondente  belleza, e magnificencia d'esta agradavel situao,
ser um monumento eterno do patriotico zelo que Rodrigo Antonio de Abreu
e Lima, cavalleiro professo na ordem de S. Thiago, inspector da marinha
do Douro, administrador geral dos portos seccos das trez provincias do
Norte, e actual juiz da alfandega, mostrou em obrigar o senado da camara
a fazer esta obra interessantissima  regia utilidade, e recreio publico.

Dito o que as historias referem cerca da Fonte das Virtudes, reatemos o
dialogo.

--Divirtam-se vossas senhorias, respondeu Graa Strech, que eu
perguntarei sem desvios o que desejo saber. No me foi possivel
averiguar at hoje onde jaz a minha desventurosa familia. Vossas
senhorias sabem?

--Casualmente nos disse o sachristo de S. Martinho de Cedofeita
que tinham ali sido enterradas, se bem que nos no pudesse designar as
sepulturas, pela grande confuso de cadaveres que n'esses tristes dias
houve.

Isto disse D. Eulalia, acrescentando:

--No dia seguinte o quartel general mandou ordem a todos os parochos
para que, logo que anoitecesse, fssem levantar os corpos dentro da
circumscripo das suas freguezias. No sabemos mais nada, sr. Strech.
Ns recolhemos ao Porto depois que os francezes retiraram. Estivemos em
Gondomar, em casa d'uns parentes nossos, porque tivemos a felicidade de
encontrar livre o caminho. O senhor bem se ha de lembrar de que nos
protegeu na bateria do Bomfim. Prouvera a Deus que a sua familia tivesse
tido a mesma sorte! Muitas vezes lhes pedimos que nos acompanhassem. No
quizeram. Ainda tenho nos ouvidos as palavras da Augustinha: Se meu pae
e meu irmo morrerem, deixemo-nos morrer tambem, porque o viver sem
elles seria peior que a morte. Nunca mais me esqueceram! Vel-a assim
fazia d, a pobre menina!

Graa Strech estava livido. J no tinha foras para ouvir mais.

--Muito obrigado, minhas senhoras, disse elle. J sei o bastante.
Felicito-me de as haver encontrado e fao votos pela ventura da sr. D.
Izabel.

--Agradeo do corao, replicou a menina. O sr. Strech ha de dar-me a
honra de assistir ao meu casamento...

--Da melhor vontade assistiria, minha senhora, se no tivesse de partir
hoje mesmo para Italia.

--Partir?!

D. Eulalia repetiu:--Para Italia!

E exclamou virando-se para a sobrinha:

--O casamento anda-te com essa cabea  roda! Se no sou eu lembrar-me
agora por essa palavra, no dirias nada ao sr. Strech d'aquella carta
d'Italia!

--Uma carta, apostrophou elle, sobremodo perturbado.

-- verdade! affirmou a menina com pesar de se haver esquecido.

D. Eulalia contou:

--Ha quatro annos, foi em...

--Junho, acrescentou Izabel.

-- verdade, foi em junho, proseguiu D. Eulalia; andou o carteiro por
esta rua, para cima e para baixo, a perguntar pela familia Strech. Todos
lhe diziam que essa desgraada familia estava no cemiterio. At que a
final o carteiro e alguns visinhos bateram  nossa porta, porque sabiam
das nossas relaes com a sua familia. A carta, que trazia o timbre de
Italia, dizia: _Sr. Jos Maria da Graa Strech, soldado portuguez_ (pela
orthographia conhecia-se que a pessoa que escrevia era estrangeira,
disse em parentesis D. Eulalia) _natural do Porto;--Portugal._

Graa Strech ouvia offegante.

D. Eulalia proseguiu:

--Do senhor ninguem sabia nada, mas como a carta ficaria naturalmente
perdida no correio, encarregamo-nos de mandal-a ao acaso para onde
estivesse o exercito. Era o unico meio de lhe chegar  mo, caso o
senhor estivesse vivo. Ns nada sabiamos. Perguntamos o que haviamos de
fazer. Disseram-nos que a mandassemos para Almeida, que era onde
Wellingto--ella pronunciou assim,--tinha estabelecido o quartel
general. Para l a mandamos, pensando que fariamos bem. Visto isso o
senhor no a recebeu?

--No recebi, minha senhora, respondeu Graa Strech com difficuldade.
Agradeo, porm, a vossas senhorias o cuidado que tiveram e, para no as
demorar por mais tempo, recebo as suas ordens...

--Tambem--atalhou D. Eulalia, vo sendo horas da missa do Senhor dos
Passos. Vamos l. Se o sr. Strech precisar d'alguma coisa, no tem seno
mandar-nos e dizer onde est, para que no se torne a perder qualquer
carta.

Despediram-se. Ellas seguiram pela rua nova do Almada a baixo, e elle
caminhou em direco ao Campo de Santo Ovidio.

A menina ia perguntando ingenuamente  tia:

--No seria mau agouro encontrarmos o Strech na occasio em que eu a a
pensar no meu casamento?

--O que tu quizeres! respondeu D. Eulalia. Reza um _Credo_ ao Senhor dos
Passos e deixa-te l d'agouros. Deus  que sabe o que ha de acontecer.

Graa Strech caminhava machinalmente, engolphado em seus pensamentos. A
carta era de Rosina. Conjecturava elle que j devia ser me quando a
escrevia. Que diria ella? Coisas tristes, de certo. Os infelizes
vivem das desgraas que sonham e que soffrem. Por muitas vezes escrevera
elle para Napoles. Nunca obtivera resposta. Aquelle horrivel silencio
durava j havia quatro annos. Nem ella nem Pietro escreveram mais! O
que haveria acontecido? Que ancia que elle tinha de chegar a Italia, e,
ao mesmo passo, que receios! No o esperariam l novas dres, maiores
soffrimentos? Que envelhecida mocidade aquella!

Foi andando, andando, at que chegou ao cemiterio de Cedofeita.

Quando viu negrejar cruzes e louzas por entre as verduras dos canteiros,
estremeceu de subito. O pensamento da morte vinha interromper os seus
dolorosos pensamentos. A sua familia estava ali, mas onde? Rosina e seu
filho onde estariam tambem, l to longe? O cemiterio era solitario
quella hora, se no falarmos das aves que faziam alegre matinada nas
arvores.

S os noivos e as aves saudam jubilosos a manh.

Por isso madrugra a menina da rua nova do Almada em competencia com os
passarinhos do cemiterio de Cedofeita.

Graa Strech atravessou por entre as campas, confiado em que o corao
adivinharia o sitio em que repousava a sua familia. Andou, percorreu as
ruas todas, e parou  beira d'uns comoros que no tinham cruz nem
lapide. Devia ser ali. As campas dos que no deixam ninguem no mundo
conservam-se abandonadas. Quando muito, porque os despojos mortaes so
da natureza, veste-as a natureza de relva e flres silvestres. Sobre um
dos comoros floresciam hervagens, que pendiam  terra umas singelas
boninas brancas. Seria a homenagem da natureza  innocencia de sua irm?
No sabia. O silencio da morte guarda todos os segredos. Ajoelhou. As
avesinhas das arvores funebres continuavam a cantar, a cantar!...

quella hora, n'aquelle sitio, cria-se em Deus.

A eloquencia das campas!

Como tudo aquillo fala suavemente d'alm-tumulo!

No ruido das festas a ideia da morte  sempre um pungente contraste. Mas
no sei que amena tristeza dulcifica a certeza do repouso eterno, nos
cemiterios, mrmente se  manh, e as aves chilriam, e estremecem
nas hervagens as gotas d'orvalho, e um raio de sol nascente doira uma cruz!

Graa Strech sentiu-se subitamente soccorrido por essa triste suavidade
que a vista dos tumulos infiltra aos desgraados.

Longo tempo esteve ali, ajoelhado, conversando com os trez comoros os
seus segredos de cinco annos. No que estava florescido, curvou-se como
se quizesse falar para dentro. Conjecturava que seria o d'Augusta.
N'essa hypothese lhe contou as suas desventuras, os seus amores, os
sacrificios de Rosina, o destino que dera ao annel, a afflictiva
incerteza em que estava, a ancia que tinha de beijar seu filho, de
encontrar Rosina... Juntou lagrimas de saudade a palavras de perdo,
queixumes de animo attribulado a hymnos de confiana em Deus...

No lhe havia dado tempo a sua trabalhada e desventurosa mocidade para
erguer o espirito acima das coisas terrenas das preoccupaes humanas.

Pela primeira vez subiu at onde os fulgores da divindade enchugam as
lagrimas da orao. Muito acima do mundo deve ser, porque j se no ouve
ento o tumultuar da humanidade, e porque j ahi chovem os balsamos da
resignao sobre a alma angustiada.

Ninguem diria que estava ali o soldado, o leo dos combates. Nada ali
falava de vingana, nem mesmo a supposta sepultura d'Augusta. Nada se
sabia do mundo, d'aquella porta de ferro a dentro. Todavia alguma coisa
julgou ouvir a alma de Graa Strech. Eram palavras intradusiveis que as
hervagens ciciavam, brandamente agitadas pela virao matutina. Sem
comprehender as palavras, entrou-lhe ao espirito o pensamento d'ellas.
Era a divina esperana do _post tenebras spero lucem_, de Job, e ao
mesmo tempo o _Non moriar, sed vivam, et narrabo opera Domini_, do
salterio.

Graa Strech interpretou assim esses fugitivos murmurios que soavam
sobre a campa da sua irm. Trouxe do cemiterio a certeza de que depois
das trevas da vida veria luzir o sol da felicidade perpetua, e de que
no morreria sem ter tempo de narrar as obras do Senhor.

Isto equivalia  resignada esperana de no succumbir  sua desgraa sem
saber o destino de Rosina e seu filho.

Adquirira ali a certeza de que a alma d'Augusta abenoara do ceu a
criana cuja me possuia o seu annel. Levantou-se. Arrancou as
parietarias que marinhavam pelo muro proximo, e esparziu-as sobre os
trez comoros.

--Se ahi estaes, minhas doces amigas--pensou elle--recebei o primeiro e
unico testemunho de saudade que ainda vos manda o mundo esquecido de
vs. Pedi por mim, e pela familia que me resta na terra, se Deus m'a
tiver conservado. So tambem vossos pelo corao. Adeus, abenoadas
sejaes no cu pelo conforto que me destes.

E sau do cemiterio, caminho do rio Douro, onde estava fundeado o navio
que n'essa tarde devia partir para um porto d'Italia.

A essa hora, na Fonte das Virtudes, havia expansiva alegria. Um velho da
familia Cerqueira dizia a um menino da familia Brochado:

--V, seu estudante, traduza-me l a inscripo da fonte: _Fons scalet,
illustri virtutum_, etc. _Rompe aqui esta fonte..._ V, diga...

--Pudera romper acol, estando aqui o chafariz! observou grosseira e
acertadamente o menino.

D. Izabel offerecia ao seu noivo um copinho da agua da fonte, panacea
para muitas molestias, entre as quaes as inflammaes dos olhos.

Tinha bons sentimentos: no queria marido cego.

      *      *      *      *      *


XVIII

A Lenda d'Ashaverus

Comprehende-se com que anciosa impaciencia viajaria Graa Strech. A
Italia era para elle o unico raio de sol que lhe doirava o horisonte
fechado em torno do navio. Ia ver Rosina e seu filho; agradecer a Pietro
a proteco que provavelmente a uma e outro tinha dispensado, porque
Rosina devia ser me havia quatro annos. A carta perdida era decerto a
boa nova da maternidade... Mas, logo o animo, vesado a tristes
phantasias, descontava esta esperana com vagos receios. Todavia a
visita ao cemiterio de Cedofeita insinuava-lhe na alma o doce calor da
f. Queria chegar a Italia, desenganar-se. Levava ao bero do filho a
tranquillidade aprendida  beira do tumulo da irm. A Italia! a Italia!
a terra promettida do Moyses errante! Quando appareceu em frente do
navio uma nuvem pardacenta, e a voz de _Terra_! alvoroou a tripulao,
o corao de Graa Strech doidejou desde a alegria expansiva da criana
at  timidez receiosa da mulher.

A Italia! O formoso sol da Italia a enxugar as lagrimas de to longa
ausencia! A alma de Rosina Regnau a animar no desconforto, a premiar na
alegria! A alma e a voz! A liberdade do corao e da palavra! Um lar
modesto, muito modesto, pobre at, o filho a esvoaar d'um lado para
outro, a chilriar, os cabellos loiros a brincarem-lhe em derredor da
cabea; Rosina a viver arroubada entre os sorrisos do pae e do filho;
n'uma palavra, a felicidade que no escurece quando chega a noite; 
porta, de cabellos alvejantes, tranquillo, sentado ao sol, Pietro, o
_canta-storie_, a concertar as cordas da sua harpa, e a entoar, com a
sua voz j canada, mas ainda sonora, a _Capuana_; fra, o cu d'Italia,
o azul suavissimo, o sorriso da natureza, a eterna primavera
meridional!

De repente mudava-se o quadro.

Via uma cruz tosca, n'um cemiterio de Pescadores pendurado ao mar.
Rosina, demudada e lutuosa, chorando ao p da cruz. Pietro, chorando ao
p de Rosina, com a harpa silenciosa poisada diante de si. E seu filho
morto, sem o haver conhecido, sem o ter beijado sequer!

Outras vezes sonhava com a lividez da fome nas faces de Rosina, da
criana, e de Pietro!

A vivandeira havia levado recursos. Era a sua rao de dois annos, a
migalha do canario. Havia no 18 d'infantaria um quartel-mestre usurario.
Graa Strech fizera com elle uma transaco. O quartel-mestre ficava
recebendo durante dois annos o _prt_ por inteiro, e adiantra-lhe o
_prt_ d'um anno. Essa quantia, administrada com economia, devia durar
os dois annos. Se a campanha acabasse antes d'esse praso, o soldado
devia indemnisar o quartel-mestre, que tinha na sua mo um documento.
Mas haviam-se passado os dois annos, e outros dois. Graa Strech
escrevera muitas vezes para Napoles, como j dissmos, para obter
certeza do paradeiro de Rosina, e poder mandar mais dinheiro. De nenhum
vez obtivera resposta. Haveria acontecido alguma desgraa? Mas tambem
quem conhecia em Napoles Rosina Regnau? Bem se podiam lembrar de ir
saber ao correio. Pietro andava por fra com a sua harpa; Rosina estava
cuidando do filho: no se lembravam. As mealhas que Pietro recolhia, e
generosamente repartia provavelmente, abastavam a alimentao dos trez.

Em Coimbra, dissra Rosina a Graa Strech, quando elle lhe pedia que no
soffresse privaes sem o avisar:

--Se se acabar o dinheiro, eu, que posso ter voz em Italia, irei
cantando de rua em rua. No receies por mim. Atravessei pura o exercito
francez; me, atravessarei destemida o povo italiano. A honra da
vivandeira  um baluarte invencivel; no deixa profanar a bandeira da
sua lealdade.

E logo, antevendo a triste solido da ausencia, rompeu em afflictivo
chro. Este era o natural de Rosina: ora vivandeira, ora mulher. Logo em
principio o dissmos.

Apesar da cega confiana que Graa Strech devia ao amor de Rosina, no
era a sua alma, quanto mais se avisinhava da Italia, estranha ao
ciume. No paiz dos amores, o ciume, _la gelosia_, respira-se com o ar.
Ciumes de que lhe ouvissem a dulcissima voz, se tivesse sido obrigada a
acompanhar com o canto os harpejos de Pietro; ciumes de que a
applaudissem, de que a vissem, de que a conhecessem. E, pensava elle,
quem ficaria olhando pela criana emquanto a me andasse por fra?
Alguma mulher estranha, que no a acariciaria se chorasse, que no a
agasalharia quando tivesse frio, que lhe no responderia meigamente
quando perguntasse pela me...

Chegado que fsse a Italia, procuraria, noite e dia, sem descano, sem
tregua, e encontral-os-ia, e diria a Rosina: Fica tu ao p de nosso
filho, que eu vou trabalhar, e a Pietro: Continua a ser o guarda dos
dois, que eu velarei pela tua velhice.

E alternava risos com lagrimas, e agora falava e logo emmudecia, com as
mos firmadas no bordo da amurada e os olhos cravados na nuvem do
horisonte, que se ia aclarando cada vez mais, conhecendo-se j, sobre o
azul do co, os contornos irregulares da cidade.

O capito esteve-o medindo com o olhar ao lado d'um passageiro que
durante a viagem tinha conversado algumas vezes com Strech.

--Nunca vi tamanha commoo! disse o capito ao passageiro. Receio
d'esta alegria em homem costumado aos alvoroos de guerra.

--Elle vinha ancioso de chegar a Italia, retrucou o passageiro. O mais
que me disse foi que, tendo feito a campanha, vinha, doente e canado,
procurar a Italia uma irm, de quem, pela invaso de Portugal! fra
obrigado a separar-se.

--Muito a deve estimar ento! ponderou o maritimo.

E, aproximando-se de Graa Strech, disse-lhe affavelmente:

--O sr. Strech morria-se por vr Italia. Ahi a tem agora.

-- verdade, respondeu exaltado Graa Strech.  verdade... A ancia de
chegar... a incerteza... tudo isto... Eu no estava costumado a estas
sensaes... Por que emfim tudo hoje depende para mim de Italia... 
senhor capito, quanto tempo gastaremos ainda?...

O capito, sem responder, achegou-se do outro passageiro e segredou-lhe:

--Eu no lhe dizia? Nunca vi tamanha commoco! Queira Deus que no v
louco...

Ah! o capito entendia do mar; do corao, no. Chamava loucura quillo!
A desvairada oscillao da alma que pende entre um longo passado de
trevas e a unica esperana que lhe entreluz no co do porvir!  louco o
naufrago que, baldeado entre os vagalhes do oceano infrene, se abraa
com a prancha que lhe  dado alcanar, e que ou morrer cuspido contra
os fraguedos ou fluctuar por merc da Providencia at que surja a vla
branca, que  a bandeira da paz nas luctas com o mar?  louco o
caminheiro que se transviou ao anoitecer e sorri de alegria  estrella
da manh, ainda que tenha de retrocecer para continuar jornada?  louco
o doente que se felicita de haver acordado d'um pesadello horrivel,
esquecendo-se de que, d'ahi a horas talvez, sobrevir o sombrio
pesadello de que no se acorda mais--a morte?

O corao tem as tempestades e as calmarias do mar,  certo, os
murmurios e os segredos das aguas, mas o fundo do corao no est ainda
to estudado como o fundo do oceano. A sondagem mente muitas vezes. Quem
j logrou medir a profundeza de certas dres?

Tinha soado a hora do desengano ou da felicidade.

Graa Strech estava finalmente em Italia.

Comeou desde logo a procurar, a procurar. Correu todo o reino de
Napoles--Napoleo puzera reis em toda a parte--a pedir informaes d'um
velho tocador de harpa, que se chamava Pietro, d'uma rapariga franceza
chamada Rosina Regnau e d'uma creana, que devia ter quatro annos, e era
filha da rapariga franceza. Ninguem respondia. Quem em Napoles, o paiz
da musica, havia d'estremar um _sonatre di arpa_? Acudia
afflictivamente Graa Strech a fazer o retrato do velho Pietro para
auxiliar a memoria dos interrogados. Harpistas velhos havia tantos, uns
que viviam em Napoles, outros que passavam por l, que por fim de contas
a populao lembrava-se de todos e no se lembrava de nenhum. A
declarao de chamar-se Pietro nada aproveitava. Ninguem se importa com
o nome dos menestreis das ruas, mrmente quando todos os musicos
ambulantes parece chamarem-se Pietros. Rapariga franceza ninguem dizia
tel-a visto, e depois acrescentavam que talvez l houvesse estado, sem
fazerem reparo n'ella, porque os francezes sempre foram to vulgares em
Italia como os italianos em Frana, por isso que a natureza pz entre as
duas naes a ponte granitica dos Alpes.

Graa Strech percorreu vertiginosamente todas as estalagens, todos os
albergues, recolheu informaes particulares e officiaes, e no soube nada.

Disseram-lhe que talvez o harpista houvesse passado, como  costume
d'elles, a outras cidades d'Italia, por isso que a concorrencia os
afugenta de Napoles.

Acceitou o alvitre. Visitou em seguida o reino da Etruria, procurou sem
descanar, como um co que perdeu o faro de seu dono. Uma tarde, em
Piombino um albergueiro pareceu recordar-se d'um harpista velho que ali
pernoitra havia um anno com uma criana que lhe chamava av. Vira s o
velho e a criana. De mulher franceza que os acompanhasse, no tinha
reminiscencia. Fizera reparo nos dois, pelo contraste. O velho passra a
noite  lareira com a criana adormecida nos braos, afagando-lhe os
cabellos loiros, cobertos pelos seus cabellos brancos, sem dizer uma
palavra. Comeu pouco e bebera menos. Pela manh sara com a harpa e a
criana. Aqui est o que o albergueiro de Piombino dissera,
acrescentando unicamente: Quando elle sahia, perguntei-lhe que rumo
levava, porque realmente o harpista me fez pena.

O velho respondeu:

--Vamos correr esse reino d'Italia,  merc de Deus. Bem v que 
preciso trabalhar: somos duas boccas, e s temos dois braos--so os
meus que j pouco podem.

A historia do velho e da criana fez profunda impresso no animo
attribulado de Graa Strech. Perdeu-se em conjecturas. Seria Pietro?
Haveria morrido Rosina? O estalajadeiro no soube dizer-lhe o nome do
harpista. Sobretudo, a ideia da morte de Rosina enlouqueceu-o de dr.
Seria possivel que ella morresse sem o ver, sem o ouvir, sem lhe fallar,
ella, que tinha tanta coragem, que devia resistir energicamente  morte,
porque a morte era a separao eterna? Aquella criana seria
realmente seu filho, e viveria no mundo sem pae nem me, apenas confiado
 proteco do pobre harpista napolitano, cuja velhice e trabalhos em
breve o prostrariam, se era que ainda vivia a essa hora? E se elle j
tivesse morrido, que seria da criana na infantil inconsciencia dos seus
quatro annos, que tantos devia ter a ser seu filho? Morreria enregelada
no caminho, morreria de fome entre duas arvores, no meio da serra, ou
ento haver-lhe-ia estalado o pequeno corao depois de haver estado a
gritar para que acudissem ao av, que cara ao cho e ficra esmagado
pela harpa, sem falar mais, sem responder ao seu afflictivo chamar.

O albergueiro comeou a notar extraordinaria agitao na physionomia do
hospede. Viu encovarem-se-lhes os olhos, e estremecerem-lhe os musculos
das faces cadavericas pela magreza e pela lividez. Em breve as
contraces nervosas se estenderam a todo o corpo. O caminheiro comeou
a tremer, a tremer. Trouxeram roupa, cobriram-n'o. Pediram-lhe que se
deitasse; recusou. Esteve assim longo tempo, tremendo, frio como o gelo.
Depois, como o peso da roupa fosse muito, comeou a crar e a suar.
Dizia palavras que ninguem entendia. Aprumou-se de subito, sacudiu a
roupa. Foi direito  sua maleta, desafivelou-a e tirou de dentro... a
guitarra. Comeou a tangel-a febrilmente. A gente da pousada
entreolhava-se com pasmo. E cada vez as notas se precipitavam com maior
rapidez, at que, inesperadamente, a musica foi afrouxando, parecendo
unicamente suspirar. Viram chorar o desconhecido, circumvagar um olhar
alheiado, e arrancar da sua guitarra apenas gemidos e suspiros dolorosos.

Tornaram a dizer-lhe que era melhor descanar. Recusou com pertinacia.

--Peo que me deixem ficar aqui, disse elle pausadamente para que o
comprehendessem.

No queriam consentir; elle insistiu.

Ouviram ainda por algum tempo suspirar a guitarra, que depois se calou.
Foram espreital-o: viram-n'o com a cabea poisada sobre ella. Estava
assim, mas no dormia; d'instante a instante viam-n'o estremecer. Ao
romper da manh sau. Mal se podia aguentar a p. Pediram-lhe que
ficasse para se restabelecer; agradeceu e partiu. Continuou, posto que
debilitado, a sua peregrinao indefessa.

--Eu j no viveria, dizia elle s vezes, se no tivesse ido ao
cemiterio de Cedofeita buscar esta sombra de f que me ampara ainda!

E l ia, descanando uma hora, caminhando duas.

Esteve em Turim. Perguntou, investigou, no soube nada. Como para crear
alento, que lhe permittisse seguir jornada, sentava-se nas praas
publicas a tocar na sua guitarra. O povo fazia-lhe circulo. Elle no
levantava os olhos emquanto estava tocando, excepto se ouvia falar
alguma criana. Algumas vezes lhe chamavam louco, porque lhe lanavam
dinheiro ao regao, e elle no agradecia. Era o idiotismo da desgraa.
Estava pobre, gastra quanto levra comsigo nos primeiros tempos da
peregrinao. Se no fosse a guitarra, morreria de fome. Pouco lhe
importava a vida sem Rosina e seu filho. Se no se matava, era porque
tinha ainda um resto de f que o amparava.

Foi a Milo. A mesma canceira: perguntar, sempre perguntar. Inquiria
todos os harpistas: nenhum lhe soube dar noticias do velho Pietro.

--Em Italia no esto! dizia elle. Tenho a certeza, no ha recanto que
eu no tenha batido.

Atravessou a Suissa sem melhor resultado.

Uma noite sonhou com as Ardennas: era a patria de Rosina. Lembrou-se de
que viveriam l na supposio de que elle, se fosse vivo, logo atinaria,
por impulso do corao, com o esconderijo que haviam procurado. Passou a
Frana: foi direito s Ardennas. Quasi se sentiu morrer diante d'aquelle
paiz de florestas. Ali havia nascido Rosina. Como ella o devia amar para
se esquecer do seu formoso ninho! Consultou todas as arvores, bateu a
todas as portas. De Rosina Regnau ninguem se lembrava; Pietro, o velho
_sonatre_, ninguem o vira. Graa Strech esteve ali muito tempo: havia
j tanto que sara de Portugal! Teve tentaoes de se deixar morrer nas
Ardennas. Queria respirar ao morrer o ar que Rosina respirra ao nascer.
Chegou a pedir a Deus que lhe dsse por tumulo o bero d'ella. Mas,
emquanto orava parecia fortalecer-se a sua f.

Resignou-se a partir. Recomeou a caminhar. Ia no fim o anno de 1816.
Disseram-lhe no caminho que no inverno se reuniam em Pariz todos os
musicos ambulantes. Para l foi com a sua guitarra. Effectivamente o
enxame dos _virtuosi_ enchia os cafs, as praas e as ruas.  porta dos
theatros havia todas as noites uma nuvem d'elles.

A este tempo reinava em Frana Luiz XVIII. Napoleo, no podendo
resistir  colligao das potencias alliadas, abdicou o imperio em
Fontainebleau, retirando  ilha d'Elba.

O congresso de Vienna havia regulado os negocios da Europa; sem embargo,
Napoleo sonhava ainda com voltar a Frana. Em maro de 1815 desembarcou
em Cannes e entrou em Pariz. Pde ainda vencer em Charleroy e Fleurus,
mas a hora solemne de Waterloo bateu no relogio que marca a existencia
de vencedores e vencidos, e Themistocles teve de pedir hospitalidade a
Artaxerxes.

Graa Strech ia caminhando e ouvindo as vozes do povo. Quando soube do
resultado de Waterloo, disse de si para si:

--A Providencia  justa. A minha familia no precisava da minha
vingana, porque a Providencia se encarregou de punir o assassinio de
todas as mulheres, de todos os velhos e de todas as crianas. Ora a
justia da Providencia no deixar de me aclarar o mysterio que eu
procuro desvendar ha tanto tempo. Deus sabe se tenho foras para mais!

Pouco antes de chegar a Pariz viu passar uma carruagem seguida por uma
ordenana.

Perguntou quem era. Responderam-lhe:

-- o duque de Richelieu, ministro de Luiz XVIII.

Elle contestou serenamente:

--Se fosse no tempo de Napoleo, ia um esquadro de cavallaria atraz da
carruagem. Napoleo mandava exercitos atraz de toda a gente.

Dizia isto como um homem que se entre-lembra vagamente das coisas do
mundo. Passou a carruagem do duque de Richelieu, e elle logo se esqueceu
da Frana para se recordar da misso em que ia consumindo baldadamente a
vida.

--Vamos com Deus, e com a pobre guitarra! E seguiu para Pariz.

      *      *      *      *      *


XIX

A terra da promisso

Graa Strech chegou a Pariz no inverno de 1816.

Estavam n'essa occasio agglomeradas na capital da Frana as andorinhas
errantes da musica das ruas, que todos os annos saem do vasto ninho da
Italia, a percorrer a Europa inteira. De todos os _virtuosi_ que n'essa
occasio poisavam em Pariz, apenas cinco ou seis seriam francezes, e um
s era portuguez, Graa Strech.

A guitarra, melancolicamente tangida por elle, cuja dolorosa physionomia
no era menos melancolica do que a sua guitarra, despertava geral
atteno. Acrescia a circumstancia de que esse instrumento no era dos
mais conhecidos na orchestra dos musicos ambulantes. Tudo isso concorreu
para o xito. Graa Strech tinha sombrios alheamentos emquanto estava
tocando. Caam-lhe em desalinho os cabellos a esconder a fronte pallida
e cadaverica. Era uma bella cabea d'artista em que muitos pintores
fizeram reparo. Um estudante d'esculptura chegou a convidal-o para
modelar-lhe o busto.

Graa Strech respondeu:

--Agradeo a sua amabilidade, senhor. Mas eu sinto-me de tal modo
canado, que no pde ser longa a minha vida. O senhor  muito moo
ainda; pde esperar. Se eu morrer em Pariz, aproveite a minha mascara.

A imprevista sobranceria d'esta resposta causou sensao. Passou de
bocca em bocca, e os homens d'espirito comearam a olhar com certo
interesse respeitoso para o guitarrista estrangeiro. Uma noite, no caf
_Evezard_,  esquina do Palais National, estavam sobremodo animadas as
mesas quando Graa Strech entrou. Encostou-se  ombreira da porta e
comeou tangendo a guitarra. Como no pedia esmola, interrompia-se a
miudo para receber os bolos que lhe davam os _habitus_ que entravam e
saam.

Na primeira mesa  entrada estavam oito francezes, todos rapazes mais ou
menos artistas, que se calaram a ouvir attentamente o guitarrista, tanto
mais que j o conheciam de nome. Como fixassem a vista em Graa Strech,
e falassem visivelmente a seu respeito, procurou elle ouvir, dando-se o
maximo disfarce, tudo quanto diziam.

-- assombroso! exclamava um, cuja pallidez denunciava uma cabea
febrilmente enthusiasta.

--Depois da pequena da harpa que esteve o anno passado em Pariz com o
velho das barbas brancas, ainda no vi maior prodigio! acrescentou um
cuja physionomia denunciava um caracter franco e compassivo.

--Que pequena era essa? perguntou no grupo um _commis-voyageur_.

--Era uma pequenita que parecia um passarinho encostado a uma harpa.
Acompanhava-a um velho de cabellos brancos, a quem chamava av, e que
lhe transportava a harpa. Impressionava o contraste. Seria difficil
dizer qual d'elles poderia melhor com a harpa, se o av ou a neta. Elle
tinha tanto de velho como ella de pequenina. E depois que tristeza dava
o vl-a vestidinha de preto! Perguntava-se-lhe por quem andava de
luto:--Por meu pae e por minha me--respondia ella com certa vivacidade
triste, que enternecia a lagrimas. Tu copiaste o grupo, pois no
copiaste,  Maubert?

--Copiei, respondeu o pallido rapaz que primeiro falava, e que parecia
absorto na contemplao do guitarrista.

--Sabes ento mais alguma coisa a respeito da pequena e do velho?

--Pouco mais sei. O av parecia empenhado em no contar nada. Nem o
encanto do mysterio lhes faltava, a elles, quelle soberbo inverno
coberto de neves e quella infantil primavera que parecia vegetar no
gelo do av! Quando lhes perguntei os nomes para intitular os bustos,
respondeu-me o velho:--Queira pr--_Pietro, sonatre di arpa; Augusta,
sonatrice, l piccola, nipotina mia._--Fiquei triste com a mysteriosa
singelesa da resposta. Previ um romance. Que querem? A doida da minha
phantasia! Apertei com o velho, fiz-lhe promessas para que me
contasse a sua. No consegui nada. L partiram ambos para Inglaterra.

--Olha para o guitarrista! exclamou o de mais compassiva physionomia.

Olharam todos. Graa Strech estava sendo inconscientemente o alvo de
todas as attenes. Havia-lhe descaido o brao; subitamente a guitarra
emmudecera; os cabellos do guitarrista, longos e annelados,
acompanhavam, pendidos a um lado, a inclinao da fronte, e os olhos
brilhavam atravs dos cabellos com anciosa vivacidade. Era inutil
dissimular: Graa Strech estava ouvindo o que diziam na mesa proxima.

--Escuta o que ns dizemos! ponderou o que estivera contando a historia
do velho e da criana.

-- verdade!

--No se pde duvidar!

--L comea a dedilhar de novo... Deu tino de que fisemos reparo. Toca
_pianissimo_ para ouvir o mais que dissermos.

-- certo! _Che dolcemente!_

--Que ter elle comnosco?

--Talvez no seja comnosco; talvez seja com o velho e a creana,
apostrophou o _habitu_-artista.

--Ora, essa cabea! Tu encontras romances em toda a parte.

--Espera! tornou observando o esculptor. Ia jurar que os olhos d'este
homem so os da pequenita! Que semelhana!

--Oh! oh! continua o romance! Esse molde de novellas  velho, Maubert!
D'esta vez o pae, que era julgado morto, no volta da Terra Santa. Corre
atraz da filha, que ao partir para o combate entregra ao av. Tem-n'a
procurado e no sabe onde pra. s tu, Maubert, que vaes desfazer o
mysterio. A Providencia encarregou-te de dizeres: _Pra!_ ao Ashaverus
do nosso seculo! Oh! oh!

E os outros gargalharam em cro:

--Oh! oh!

--s tu que vaes mostrar ao Moyses da guitarra a Terra da Promisso!
disse um.

--Que elle nos est ouvindo  certo, porque todos repararam! exclamou o
de mais dce semblante. E talvez seja algum desgraado. Este mundo dos
_virtuosi_ das ruas tem tantos mysterios! Atravessam Paris no
inverno e a gente ouve-lhes a musica sem lhes vr a alma. Alguns d'elles
parecem conversar com a harpa e com o violino:  porque teem que lhes
dizer. Decerto que no so alegrias. Pde ser alegre quem atravessa os
Alpes a p, e dorme para ahi em qualquer canto, e vae correr a Europa
inteira unicamente fiado na agilidade dos seus dedos e na obediencia das
cordas? Creio que no. Parecem despreoccupados, parecem, porque emfim
elles teem das aves alguma coisa: as azas pelo menos. Rouba o filho a um
passarinho, que elle, com o corao despedaado, tambem esvoaa em redor
do ninho vasio. Pensam vocs que nem ao menos lhes ha de dor a
ausencia? _La rimembrnza_, meus amigos, _la rimembrnza_ chora muita
vez nas harpas d'elles. Oh! eu creio-o! E ns, apesar de nos deliciarem
os ouvidos, olhamol-os indifferentemente. No inverno dizemos: _C
esto!_ Quando chega a primavera exclamamos: _L fram!_

--Tu pendes mais para o sentimentalismo, Guillibaud. Maubert prefere a
phantasia e o maravilhoso.

--Olha! l est ouvindo o guitarrista outra vez!

-- notavel! Que curiosidade!

De repente interromperam-se os commentarios. Graa Strech aproximou-se
de Maubert pedindo-lhe o obsequio de lhe dispensar dois minutos
d'atteno em particular. Havia no seu olhar, nos gestos, na voz, to
claros indicios de grande agitao, que Maubert immediatamente se
levantou. Os outros, enquanto os dois sahiam a porta do botequim,
ficram dizendo:

--Este Maubert  um bibliotheca viva d'aventuras.

--Deixa l, observra condodamente Guillibaud. A julgar pelo aspecto do
guitarrista, o caso afigura-se-me grave d'esta vez. Talvez seja um
romance triste...

--Se tu no havias de vir com o teu sentimentalismo!

--s melancholico como uma lagrima!

--Que no seja de vinho...

--Tens razo: as lagrimas de vinho alegram.

--So ellas de certo que vos do essa continada alegria! disse com
enfado Guillibaud.

O leitor est porm impaciente de seguir Graa Strech e Maubert.
Vamos-lhes pois na piugada.

Mal sahiram a porta, o guitarrista dirigiu-se immediatamente ao
esculptor em correcto francez:

--Peo-lhe vivamente perdo, senhor, de o haver privado da companhia dos
seus amigos, mas o que o senhor estava dizendo era to extraordinario
para mim...

--Ouvia-nos ento? perguntou Maubert.

--Ouvi tudo, e incommodei-o unicamente para lhe pedir, no que me mostre
a Terra da Promisso, como jovialmente disseram os seus amigos, mas,
quasi o mesmo para mim, que me mostre os bustos do av e da neta...

--Oh! isso  muito facil. Estamos a dois passos do meu _atelier_. Vamos
l--respondeu o enthusiasta Maubert.

Foram. Graa Strech ia concentrado, e cada vez estugava mais o passo;
Maubert observava-o de esguelha e comeava a achar summamente
extraordinario aquelle homem, de quem se principiava a falar.

Era perto o _atelier_. Entraram. Graa Strech precedia Maubert, tamanha
era a sua impaciencia.

--Aqui esto! disse o esculptor.

Graa Strech, relanceando aos dois bustos um olhar rapido e incisivo,
vibrou um grito, ao mesmo tempo doloroso e alegre, e, apontando para o
do velho, exclamou:

-- elle,  Pietro!

Depois, demorando os olhos no busto da pequenita, deixou escapar outro
grito que parecia o magoado estalar de todas as cordas da alma:

-- minha filha! No pde deixar de ser! Ca est: _Augusta, sonatrice,
la piccola!_ Chama-se Augusta! Comprehendo tudo. Rosina morreu, sim, j
me no pde restar duvida alguma.  horrivel! Morreu! E pde morrer sem
esperar por mim! Pobresinha! Poz  filha o nome de minha irm. Era uma
surpreza que me queria fazer, e fez, realmente, mas que triste surpreza,
sr. Maubert, que desgraa esta! Olhe, aquella pequena  minha filha. O
senhor  artista... Veja que bonito perfil aquelle... Por isso foi que o
senhor a modelou, pois no foi? Sim,  muito bonita! Disse ento que
andava vestidinha de preto?  pela me! Pobre Rosina! Oh! eu no
creio ainda que tu morresses, tu, que tinhas tanta coragem, tanta! Onde
est minha filha, senhor? Aquella no fala! Eu quero ver minha filha,
abraal-a, beijal-a. Deixe-me beijal-a, sim, deixe-me enganar. Bem pde
ser que tambem a morte j m'a tenha levado, e por isso deixe saciar-se
de beijos este pobre corao ha tanto tempo opprimido. Olhe que gentil
cabea! Que semelhana com minha irm!  estar a vel-a, quando
brincavamos ambos e faziamos endoidecer o capelo das Chs. Sim, o
senhor j me restituiu minha filha, mas Rosina, a minha vida, o meu
amor, que  d'ella, por que no a modelou o senhor para que eu a pudesse
beijar agora!

E, com o busto da pequenita apertado contra o corao, pareceu oscillar.

Maubert, que escutava commovido da enormidade d'aquella dr, e perplexo,
porque no possuia todo o segredo d'esse homem, acudiu a amparal-o.

--Ah! no me roube a sua obra! exclamou Graa Strech apertando o busto
cada vez mais contra o corao, que pulsava vertiginosamente. No m'a
roube. Dou-lhe tudo, a minha guitarra, a minha vida, mas no me arranque
a felicidade que me deu. Isto no  um pedao de gesso inanimado, que o
senhor modelou. No, isto  minha filha, a minha querida filha, a Terra
Prometida...

E, fazendo esforo para tirar a voz que lhe faltava, acrescentou:

--Disse o senhor que o av e a neta foram para Inglaterra, pois no
disse? Bem, vou atras d'elles. Por Frana no tornaram a passar, ninguem
mais os viu? De Inglaterra s poderiam sar embarcados. No  provavel.
Estamos no inverno.  a estao dos musicos. Hei de encontrl-os l. Hei
de ver minha filha, beijal-a doidamente, percebe? doidamente, e
perguntar-lhe onde  a sepultura de sua me. Quero ir l com ella, e com
Pietro. Parece-me que ainda posso dar vida a Rosina! Pois ella ha de
deixar-se ficar fria e calada, sabendo que eu estou ali, apenas separado
por uma camada de terra?! Est morta? Que me importa a mim! Isso no
pde ser obstaculo para o meu amor, para este longo amor de sete annos,
que no pde acabar assim, que deve durar mais do que a vida...

Maubert comeava a receiar pelo guitarrista, que ficou sopitado em
demorada prostrao. Piedosamente o soccorreu, e quando Graa Strech
tornou em si viu o esculptor curvado carinhosamente para elle.

--Muito obrigado! disse com voz flebil Strech. Muito obrigado! Ah! aqui
est o busto de minha filha!...

--Que  seu, observou Maubert.

--Sim, o senhor, que  bom, que  nobre, que tem corao e talento, no
podia negar esta felicidade a um pae!

--Agora, tornou Maubert,  partir para Londres. Para isso basta
atravessar o canal. Est prevenido? A minha bolsa d'artista tem ainda
para estas larguezas. Est  sua disposio o preciso para to pequena
viagem.

--Muito obrigado, senhor, e acceito. Aqui est o que eu tenho de meu:
deu-m'o, como o senhor viu, quem entrava e sahia do _Evezard_. Eu no
pedia, porque no era mendigo: era simplesmente um pae que ha dois annos
procurava por toda a parte a sua familia. Conheciam a minha pobreza:
davam-me alguma coisa, eu acceitava, porque em verdade era pobre. Agora
no, agora no sou, porque finalmente achei o rasto de minha filha! No
encontro Rosina, porque a sepultura m'a roubou, mas ainda me parece que
a hei de resuscitar, porque o meu amor, este amor que ainda me conserva
a vida, deve realisar todos os prodigios.

O mais que se passou entre o guitarrista e Maubert no nos importa saber.

Graa Strech embarcou ao outro dia para Londres. O que se passaria na
sua alma  facil de adivinhar: era o que ahi ha de mais pungente doer da
saudade  mistura com o mais avido phrenesi da anciedade; era o
supplicio atroz da alma que lucta com o irreparavel no ante-gosto d'uma
felicidade orvalhada de lagrimas.

 preciso que um corao esteja muito retemperado pelo soffrimento para
luctar, sem succumbir, com to violentos contrastes, to oppostos
extremos, to desencadeadas tormentas. Elle resistiu, porque havia sete
annos que soffria o mais que podem soffrer homens.

Chegou a Londres.

Era, como sabemos, o inverno.

Fluctuava pelas ruas e pelos _cafs_ uma colonia de _virtuosi_. Gastou
um dia, gastou dois, sem encontrar quem procurava. Ao terceiro, viu
muita gente reunida n'uma praa. Estavam ouvindo uma harpa.

Logo um presentimento lhe alvoroou o corao. Parou de subito, antes de
romper o circulo, porque uma dr, cruciante como o queimar de um ferro
em braza, lhe atravessra o peito. Receiou morrer. Fez porm um esforo,
que devia tel-o prostrado a no ser ainda aquella a hora de avistar a
Terra da Promisso. Apartou febrilmente o grupo, relanceou por sobre as
cabeas um olhar d'aguia, e com um s grito fez emmudecer a harpa e
affastar a gente que rodeiava a harpista.

Um homem de meia edade, que no era decerto Pietro segurava a harpa,
tangida por uma pequenita vestidinha de preto.

Era o mesmo perfil do busto;--assim devera ser Augusta aos seis annos.
Faltava, para completar o grupo de Maubert, o original do outro busto:
faltava apenas Pietro.

Graa Strech arrebatou nos braos a criana. Beijou-a, abraou-a,
acariciou-a delirantemente, soffregamente, doidamente.

E por entre beijos e abraos repetia, sorrindo e chorando:

--Sou teu pae! Eu sou teu pae! Acredita-me, Augusta; bem sei que te
chamas Augusta.

A criana tremia-lhe nos braos como um passarinho que se sente
comprimido, e procurava furtar as faces aos beijos ardentes do
desconhecido.

--Pietro, filha, onde est Pietro?

A pequenita, ouvindo pronunciar este nome, olhou attenta no guitarrista,
e respondeu com os olhos subitamente marejados de lagrimas, dando uma
suave expresso de magua ao dialecto napolitano;

--Morreu! Elle morreu. Tu  que talvez sejas meu pae, porque dizia o av...

--Que dizia o av, filha? perguntou anciosamente Graa Strech.

--Que meu pae tinha dado a minha me, _mia madre poverella_, um presente
para mim, e que se elle no tivesse morrido, como ns julgavamos, tu me
conhecerias por esse presente. Se sabes o que , ento s meu
pae; d-me muitos beijos que eu consinto.

 o annel, filha! Ah!  o annel que eu dei a tua me.

Isso mesmo! disse a criana sorrindo d'alegria. Elle aqui est...

E tirou do seio uma saquinha, pendente do pescoo, onde guardava o annel.

Trago-o aqui. Sou ainda muito pequinina, _padre mio_, para o trazer no
dedo.

O povo, que tinha seguido todo este episodio, olhou-se admirado quando
viu a pequenita tirar do seio a saquinha, e mostrar o annel.

Era que para o publico, como para Rosina, aquelle annel tinha mysterio.

Graa Strech de novo colheu a filha nos braos, de novo a beijou com os
olhos razos de lagrimas, mas a pequenita, soltando-se com vivacidade,
disse para o homem que segurava a harpa:

Vamos l, Giovanni, vamos com meu pae, que no morreu!

      *      *      *      *      *


XX

O manuscripto de Pietro

Pietro morrera um anno antes, em Londres, logo depois que de Pariz
passra a Inglaterra. Acamou, no miseravel albergue em que se hospedra
com a pequenita, victima d'uma febre aguda. s primeiras horas de leito
conhecera que era chegado o termo da sua vida. Antes que estivesse
impossibilitado de raciocinar e falar, mandou chamar Giovanni, um antigo
conhecido, em quem depositava confiana e, no sem difficuldade, porque
j a cabea comeava a pesar para a sepultura e o cerebro a
escurentar-se com as trevas da morte, lhe disse:

--Giovanni, tu s um homem de bem e, diga-se a verdade, inimigo de
trabalhar. Tens vivido sempre em companhia de musicos que te do alguma
coisa porque tu lhes carregas com as harpas e os realejos. Ora, meu
amigo,  chegada a occasio de fazermos um negocio e, nota bem, o ultimo.

--Ora deixa-te de tolices!

--No so tolices, Giovanni; bem vs que j me custa falar. No posso
perder tempo. Portanto, ouve-me com atteno. A minha hora chegou e
pouco me importaria morrer se no tivesse uma neta...

--Uma neta! Tu! S te conheci um filho, que morreu pequeno em Portugal.

--Isso  um segredo que te no deve importar. Essa criana que ahi est
fra  mais minha neta do que se fosse filha de meu filho. Comprehendes
que morrendo tu, vae ella, coitadinha! ficar para ahi desamparada. Isso
 justamente o que eu no quero. Sabes que a pequena tem talento...

--Isso tem! respondeu Giovanni.

--Aprendeu tudo quanto eu lhe ensinei--acrescentou pausadamente
Pietro--e j sabe mais do que aprendeu. Deus nunca desampara os
desgraados! O talento foi o patrimonio com que Deus dotou a
minha neta. Mas olha que  um capital cujo rendimento chegava bem para
ns dois! A pequenita bastava-lhe roar com as azas pelas cordas: logo
sahia musica. Ora a nossa sociedade artistica vae dissolver-se. Da morte
no se appella. Um dos socios, o gerente, retira-se para a...
eternidade. Fica o outro, que por ser de menor edade no tem ainda
credito na praa.  preciso que tu, homem de bem, substituas o socio que
se retira, e entres apenas com a tua edade e com a tua experiencia. A
tua misso cifra-se em acompanhar a avesinha, e defendel-a das ciladas
do mundo. Nota, porm, que te corre obrigao de no trares a confiana
que um amigo moribundo deposita em ti. Jura-me pela tua honra que sers
exacto como tens sido at hoje...

--Juro, disse com firmeza e commoo Giovanni.

--Muito bem. Logo que eu morra, olha tu pela pequena, que fica sendo
agora tua neta. Mas ouve ainda, Giovanni, mas ouve-me bem. Eu supponho e
e com boas razes, que o pae d'essa infeliz menina, morreu. Tudo me leva
a crl-o. Se algum dia, porm, e Deus o permitta! o pae d'ella
apparecer, dize-lhe que te nomeie o objecto pelo qual elle ha de
reconhecer a filha:  um annel que ella traz n'uma saquinha ao pescoo.
De mim no quero que lhe digas nada, porque n'este papel, que lhe
entregars, caso o pae da menina no tenha morrido, deixo explicado o
mais que tinha a dizer. Se elle no surgir do tumulo a reclamar a filha,
o que  provavel, entrega esse papel a Augusta, para que ella, em edade
de o entender, saiba com que amor eu a amei. D tempo ao tempo. Espera
que ella cresa e pense. Tens entendido, Giovanni? Agora d-me a tua
mo. Palavra de homem de bem?

--Palavra e juramento, disse Giovanni com profunda commoo, e muitas
lagrimas.

E acrescentou:

--Vae descanado, Pietro. Tua neta, pois que assim lhe chamas, no ha de
soffrer mal algum. Eu tenho sido at hoje escravo da minha fidelidade.
Tenho andado pelo mundo atraz d'esses musicos, que afinal me no pagam.
Nasci preguioso,  verdade, Deus me perde, mas tu bem sabes que me no
pegou ainda ponta de vicio. Nem bebo nem jgo. Fumar, fumo eu,
mas isso  apenas um mau habito. Tendo po e tabaco, estou contente.
Isso,  de sobra, dar-m'o-ha a harpa de tua neta. Agradeo a esmola, e
toda a vida serei agradecido a ti e a ella. O dinheiro que juntar eu
lh'o guardarei. Comprar uns vestidinhos, concertar a harpa, comprar
outra melhor...

--Isso no! isso nunca! interrompeu Pietro com febril exaltao. A minha
harpa nunca ella a deixar; j lh'o disse, e ella prometteu-m'o.

--Desculpa, Pietro, eu no pensei o que disse. Emfim comprar o que
quizer, porque todo o capital ser d'ella; eu serei unicamente depositario.

--Bem! disse Pietro prostrado de commoo. Estamos tratados para a vida
e para a morte. Agora sae por algum tempo, e manda-me c a pequena.

Sau Giovanni e entrou Augusta.

O doente esteve olhando para ella mui attentamente, e exclamou:

--Que linda s!

A pequetita respondeu com beijos.

--Olha l, Augusta,--tornou Pietro--no te esqueas da recommendao do
annel. Oh! que se tu encontrasses ainda teu pae! E d'ahi pde ser. Deus
 misericordioso. Se elle escapou  guerra, bem pde acontecer que ainda
algum dia o encontres. Deus o queira, Augusta, anjo, filha. s to
pequenina, to pequenina, que cada vez me pareces mais um passarinho!
Emfim eu no havia de ser eterno; muito me tem deixado Deus viver para
teu amparo. Que linda, filha, que linda! Olha... chama Giovanni, e vae
ali para fra um momento... Tu s muito minha amiga, pois no s?... Vae
filha, vae, e chama Giovanni.

Saiu a pequenita a cumprir a ordem.

Giovanni abeirou-se do catre e recebeu da mo do doente os papeis em que
lhe falra.

--No posso mais! disse Pietro. Pesa-me tanto a cabea! Sabe Deus
com que difficuldade tenho feito tudo isto! E--acrescentou
placidamente--para o enterro j sabes que basta avisar o consul. Ns em
toda a parte somos italianos.

Giovanni tregeitou, e o doente deixou car contra o travesseiro o craneo
que parecia de chumbo. Nos trez dias que se seguiram no mais tornou a
falar. Entrou em estado comatoso. Teve sempre os olhos fechados at que
a morte lh'os sellou para a eternidade.

O consulado italiano fez o enterro: s os summamente grandes e os
summamente pequenos so enterrados  custa das naes.

Quem soube, na colonia fluctuante dos musicos das ruas, que havia de
menos uma andorinha viajeira?

Os outros no souberam, porque, tendo por misso voar de terra em terra,
no lhes sobra tempo para se demorarem  beira d'um tumulo.

Soube-o o consul, e sentiam-n'o Augusta e Giovanni; ninguem mais.

A pequenita chorou muito, muito. Giovanni confortou-a como pde. O sol,
que  a alegria de todos os passarinhos, fez o mais.

Comearam ambos a sua peregrinao.

A pequenita, pobresinha! s tocava n'esses dias de pungente saudade
musicas to tristes como a alma d'ella. Ainda assim ouviam-n'a,
achavam-lhe graa, e davam-lhe dinheiro.

O publico, em geral, reputa felizes os que convidam  felicidade.

E, em geral, engana-se sempre.

Augusta sonhava quasi todas as noites com o av. Pela manh dizia a
Giovanni:

--Esta noite vi-o. L me tornou a repetir que no perdesse o annel.

Outras vezes:

--O av, Giovanni, disse-me esta noite que te recommendasse que fosses
sempre muito meu amigo.

As recommendaes de Pietro, que a pequenina ouvia em sonhos, no eram
precisas. Nem Augusta perdia o annel mysterioso, nem Giovanni se
esquecia das promessas que tinha feito.

Elle guardava a sua palavra; ella o seu annel.

E com esses dois thesouros se propunham correr mundo.

Giovanni pertencia ao numero dos homens-machinas que s obedecem ao
impulso do corao; ora o corao era bom, e as obras boas sahiam,
portanto.

Nascera, como o co de quinta, para a ociosidade, mas, como o co de
quinta, era fiel.

Durante o anno que acompanhou Augusta nunca deslisou um passo do caminho
do dever.

Ella ia adiante com o seu annel no seio; elle seguia-a com a
harpa s costas, avisando-a sempre da aproximao dos trens e dos
cavalleiros.

Ao cabo d'um anno surgiu do tumulo Graa Strech, para nos servirmos da
phrase de Pietro. Feito o reconhecimento, Giovanni entregou-lhe a filha
e os papeis que recebera, e diziam assim:

MANUSCRIPTO DE PIETRO

Estas so as minhas memorias. Dito-as para serem lidas por Augusta ou
seu pae, se  que no morreu, para esclarecimento d'algum d'elles, ou de
ambos, se Deus o permittir.

Felizmente aprendi a escrever, e fui nos primeiros annos da minha vida
empregado n'um escriptorio. Depois morreu-me meu pae: faltou-me o leme.
Desnorteei. Troquei a penna pela harpa. Ha muitos annos que o meu
abecedario  o _do-r-mi-f-sol-l-si_. Ainda assim, apesar do muito que
se soffre n'esta vida errante, agradeo a Deus o inspirar-me que fosse
musico, porque tive occasio de fazer bem.

Finou-se de saudades em viagem a _signora_ Rosina. Era um soffrer que
fazia horror! No havia palavras que a consolassem, musica que pudesse
distral-a! Viajou chorando e suspirando; os olhos nunca ninguem lh'os
viu. Quasi no comeu. Acceitava, depois de muitas instancias, uma agua
de caldo apenas. Diziamos-lhe que era um crime deixar-se morrer; ento
bebia. Chegmos a Napoles, e logo a _signora_ me pediu que tratasse de
arranjar albergue, porque se sentia muito doente. Em verdade estava
muito falta de foras. Quiz escrever para Portugal, e no pde. Mal
pegava na penna descrava muito, e entrava de sentir-se agoniada. Eu,
vendo que semelhantes esforos a estavam debilitando cada vez mais,
pedia-lhe que deixasse isso para quando estivesse melhor. Comecei a
dizer-lhe que no tinha geito metter-se em casa. Depois de repetidas
instancias, annuiu em ir commigo ao anoitecer at  beira mar. Umas
vezes voltava melhor; outras vinha mais doente. No primeiro caso,
principiava a escrever. Escrevia algumas linhas, e j estava fatigada.
No segundo, passava a noite em convulses, e era preciso no a
desamparar at pela manh, que s ento cahia em somno. Eu ia porm
instando sempre pelos passeios. Ah! mas ver a _signora_ um mez
depois que chegmos a Napoles! Que differena! Emagreceu, descrou,
fez-se velha. No parecia a mesma! A primeira carta que recebemos de
Portugal causou-lhe tamanha impresso, que eu julguei que morresse. Tive
realmente medo. Chorou, riu, delirou. A carta no dizia porm que o
_signor_ Strech tivesse recebido as nossas. A _signora_ inquietou-se
muito com isto.

--Est l sem saber nada de ns! disse-me ella. E a mim que me custa
tanto escrever!

--Escrevo eu.

--Nada, no quero, respondeu a _signora_. Hei de eu escrever sempre; bem
pde ser que alguma carta lhe chegue s mos...

-- que o exercito  muito grande, e depois anda d'um lado para outro...
disse eu prevenindo novas commoes.

Os soffrimentos da _signora_ havel-a-iam prostrado antes de ser me, se
no fosse essa carta que recebeu de Portugal. Beijava-a, relia-a,
apertava-a contra o corao; s n'aquillo achava allivio.

Desde principios de maio de 1810 que a hora da maternidade se annunciava
para breve. Quiz--porque ella tinha o presentimento da morte--escrever
uma longa carta, que devia ter chegado a Portugal em junho, e que com
certeza no foi recebida. Essa carta, cujo conteudo ignoro, era de certo
uma despedida, o ultimo adeus da _signora_. Deixou o papel ainda sobre a
mesa, e cau contra o leito em grandes gritos. Acudi-lhe, e disse-lhe
que no a tornaria a deixar escrever mais.

--No me  precisa a sua licena, meu bom Pietro! respondeu ella.

Eu estremeci.

Logo que serenou, fechei a carta, sem lhe poisar a vista, e fui eu mesmo
deital-a ao correio.

No dia 22 de maio, pela manh, chamei a locandeira, que era piedosa,
porque a _signora_ me disse que n'esse dia seria me.

Soffreu doze horas. A final deu  luz uma menina. Quiz ver a filha;
mostrei-lh'a.

--Que se chame Argusta, Pietro, que se chame Augusta, recommendou a
_signora_.

Certifiquei-a de que esse seria o nome de sua filha.

Cobriu o rosto com o lenol, e comeou a chorar e a gemer. Por mais que
lhe dissessemos, a locandeira e eu, que procurasse socegar, no o
conseguimos. De noite delirou. Falava do _signor_, Strech, d'Augusta, de
Coimbra, do mar, do annel. A febre era muita. Estva crada como se as
faces fossem duas rosas: Eu tinha a menina nos braos; a locandeira
amparava a _signora_.

Pela manh adormeceu. Acordou muito fria. Estava peior. Chamou-se o
doutor, que receitou, e disse que a _signora_ corria grande perigo.
Apesar dos remedios, no aqueceu em todo o dia. Ao fim da tarde, quando
eu estava acalentando a menina para adormecel-a, a _signora_ deu de
repente um grito, sentou-se na cama, disse que no via, tornou a dar
outro grito, e cahiu morta.

N'essa occasio chorava a criana como se adivinhasse que estava orph.

Fiz um enterro decente  _signora_ Rosina, adquiri, com o auxilio do
consul, o direito de a sepultar n'uma campa perpetua e mandei-lhe pr um
singelo epitaphio que diz: Aqui jaz Rosina Regnau.

Escrevi para Portugal a dar parte do triste acontecimento, que me custou
talvez mais--Deus me perde!--do que a morte de meu filho.

No recebi resposta, nem tornei a receber mais cartas. Quiz partir para
Portugal. Informei-me. A guerra continuava cada vez mais renhida. Que
havia eu de ir fazer a Portugal com uma harpa s costas e uma criana ao
collo? Demorei-me ainda um anno em Napoles para dar tempo a crear-se a
menina. Foi uma ama dos arrabaldes quem a amamentou.

Eu ia todos os dias vl-a, e saber da ama se era preciso alguma coisa.
Durante esse tempo no recebi carta do _signor_ Strech. No obstante,
continuei escrevendo sempre. Sabia-se que continuava a guerra. No tinha
certeza de que as minhas cartas fossem entregues, e de que o _signor_
vivesse ainda. Maguava-me to longo silencio, porque emfim eu cada vez
ia envelhecendo mais. Ao cabo d'um anno peguei na menina e na harpa e
comecei a minha peregrinao, porque estava exhausto de recursos. Em
Napoles ha sempre muitos musicos, e a concorrencia prejudicava-me.
Alguns eram velhos, e estavam to pobres como eu. Alm d'isso, fallecera
a dona do albergue, repentinamente, e quando eu sahia entravam os
crdores. Tive pena d'aquella boa mulher que to caridosamente tratra
da _signora_ Rosina. Como ella sabia do nosso segredo, habituei-me a
consideral-a pessoa de familia. Nunca essa honrada creatura revelra a
ninguem as mguas da me d'Augusta. Eu tinha a certeza. O segredo descia
com ella  sepultura. Senti os olhos rasos de lagrimas quando a vi sahir
para o cemiterio e me encontrei com os crdores que entravam. Era
preciso ganhar vida, porque eramos duas pessoas a alimentar, melhor
direi pessoa e meia. Fui andando e tocando harpa. As noites, dormia-as
com a menina ao collo. Se eu era av! s vezes apertava commigo a
tristeza. Lembro-me de que uma noite em Piombino, n'um albergue onde me
recolhi, me deixei entristecer tanto, contemplando a menina adormecida
nos meus braos, lembrando-me ao mesmo tempo da _signora_ e do _signor_,
ambos mortos para ella, que, francamente o confesso, n'essa noite
envelheci dez annos. Todavia, logo que nascia o sol, nascia com elle o
grande lenitivo dos desgraados: o trabalho. Ia tocando na minha harpa,
e vivia. Uns davam-me esmola por me ouvirem; outros por me vr com a
menina: muita vez o conheci.

Corri a Italia toda: vi bem a minha patria. Entretanto a menina ia
crescendo. Que espertesa que revelou desde os primeiros annos! O seu
gosto era estar a bulir nas cordas da harpa. E o caso  que s vezes,
acaso ou no, combinava sons. Lembrei-me de que a menina podia aprender
musica. Seria o seu dote. Bem precisava ella d'algum. Tinha nascido to
pobre, que me considerava seu av, a mim, um musico ambulante! Com oito
mezes d'aprendizagem era um gosto ouvil-a! Parecia impossivel!
Dispensei-me de tocar, porque as mosinhas da menina eram um prodigio!
Bastavam ellas para fazer a colheita que era sempre abundante. Comprei
roupa  menina; trazia-a uma princesasinha. Verdade  que sempre de
luto. Todo o meu fim era obrigal-a a perguntar-me porque vestia de
preto. Queria gravar-lhe bem na memoria os soffrimentos de seus paes,
que extraordinarios foram em verdade. E se fores tu, Augusta, que leias
este papel, e no teu pae, como muitas vezes acredito que sers, mais
uma vez te peo que conserves sempre viva em teu corao a memoria
d'esses dois grandes desgraados, que mais o foram por tua causa.
Mas que talento o d'essa criana! Ainda outro dia, em Pariz, um rapaz
esculptor pediu o meu consentimento para nos modelar a ambos em gesso.
No foi por minha causa, no. Eu no tenho orgulho seno de ser av da
menina... Av! Sim, pelo corao no posso deixar de o ser. O verdadeiro
av no lhe quereria mais. Mas o tal esculptor encantou-se com a menina.
Quem se no ha de encantar? Modelou-a. Foi a primeira estatua levantada
em honra da pequenina harpista. A mim modelou-me de certo pelo
contraste. Deu-lhe graa vr a cabea d'um velho ao p do rosto d'uma
criana. E que formoso rosto, _sangue di Christo_! Como eu gostei de ver
a menina assim retratada! Mal diria eu que um mez depois havia de soar a
hora de me separar d'ella. No me custa deixar o mundo, onde se soffre
tanto; custa-me deixal-a a ella, porque a amo muito. No quero, porm,
ser ingrato para com Deus. Grande merc me fez em me no levar quando a
menina era mais pequenina. Egora sinto-me sem foras. Ha muitos dias que
estou doente. No tenho querido acamar para no entristecer a menina.
Mas hoje, a tal ponto receio por mim, que vou mandar chamar o meu velho
conhecido Giovanni para lhe fazer as minhas ultimas disposies.

Dizem todas respeito  menina.

Giovanni ficar depositario d'ella, que  o meu thesouro. Giovanni 
preguioso, mas um verdadeiro homem de bem. Muitas vezes tive occasio
de o reconhecer. Eu no podia fazer melhor eleio. A minha harpa, que
lego  menina, ganhar para os dois, e Giovanni ser incapaz de guardar
para si o que pertencer  menina.

Morro n'esta certeza. Giovanni  mais fiel do que um co.

Esto, pois, saldadas as minhas contas com o mundo, com a _signora_ e o
_signor_. Fiz quanto pude, e me mandava o corao. Da justica de Deus
no me arreceio. Deus bem v a minha alma.

Torno a repetir que escrevo este documento para que Augusta melhor
comprehenda um dia como eu a amei, ou para que seu pae, se Deus o
resuscitar, porque em verdade o supponho morto, veja que no trahi a
confiana que depositou n'um desconhecido. Se eu morresse em Napoles,
quereria ser enterrado ao p da _signora_. No fui o seu guarda
em vida? Continuaria a sel-o depois de morto. Como de certo morro aqui,
porque a minha doena  grave, apenas tenho a pedir que rezem um _Padre
Nosso_ pela minha alma, quando abrirem este documento, que fica em poder
de Giovanni.

_Fechado em Londres aos 25 de novembro de 1815:_

                                                                PIETRO.

      *      *      *      *      *


XXI

Epilogo

Estava escripto no livro dos destinos que no houvesse felicidade
completa para Graa Strech. Encontrava o corao da filha como
verdejante oasis no immenso deserto que a morte de Rosina lhe estendia
deante dos olhos. Era uma gota d'agua para matar uma sde d'amor que o
requeimou durante sete annos; um s raio de sol que se coava  negrido
em que o destino o havia enclausurado; uma unica flr a alegrar o
caminho interposto  velhice precoce e  valla que o esperava algures.

Entre lagrimas e sorrisos apertou contra o corao esphacelado o
corpinho flexivel da criana; tinha a filha nos braos e sentia nas mos
a friagem da terra que cobria a campa da me; irradiava-lhe uma aurora
contra o rosto, e os clares cambiantes espelhavam-se no pranto que lhe
sulcava as faces.

Devia remoar, e sentia-se velho.

Parecia abrir-se-lhe a porta do paraizo e, em vez de transpl-a, pedia 
criana que o acompanhasse ao cemiterio de Napoles, onde Rosina jazia.

Giovanni julgou importuna a sua presena, e balbuciou soluando umas
palavras de despedida.

Graa Strech travou-lhe da mo e disse:

--Giovanni, tu eras o guarda de minha filha; s agora o companheiro da
filha e do pae.

Giovanni correu a beijar a menina com lagrimas d'alegria nos olhos; era
quasi o co a festejar o dono.

Partiram.

Ao passar em Pariz, Graa Strech foi com a criana procurar o esculptor
Maubert. Entrou no _atelier_ e disse ao artista:

--Aqui tem o original do seu busto, senhor:  minha filha. Falta o nobre
Pietro: roubou-o a morte. Eu no quiz atravessar a Frana sem lhe vir
agradecer o servio que me prestou. No encontraria minha filha,
se o senhor me no ensinasse o caminho. Que Deus lhe torne em alegrias o
que a mim me deu em consolao. O senhor receber o premio da sua
benevolencia para commigo l onde os bons e os desgraados so
remunerados condignamente.

Seguiram para Italia. Graa Strech estava ancioso de chegar a Napoles,
onde se demoraram oito dias, visitando de manh e de tarde o _Campo
Santo_. O que elle confidenciou junto  lousa de Rosina Regnau ninguem o
ouviu, nem  dado avental-o, porque ha dres que s se comprehendem
quando se experimentam. Os labios do pae, ajoelhado  beira da campa,
ciciavam de todas as vezes palavras inintelligiveis; a filha, ajoelhada
ao p do pae, tinha as mos postas, e denotava doloroso recolhimento.
No rezava, porque ninguem a tinha ensinado a rezar. A falta das mes 
tamanha que at Deus a sente! Giovanni completava o grupo, posto o
joelho em terra, e alternando olhares respeitosos entre o pae, a filha e
a campa.

Ao cabo d'oito dias a menina mostrava-se doente. Graa Strech tremeu da
tristeza da criana, e perguntou-lhe o que tinha.

--Faz-me medo estar no cemiterio! respondeu Augusta chorando.

--Tens razo, filha, disse Graa Strech. Mas o que havemos ns de fazer
agora no mundo todos trez?

--Eu toco a minha harpa, tornou com vivacidade a pequenita. O pap toque
a sua guitarra. Giovanni vae comnosco.

Graa Strech no teve animo de recusar.

--Voltemos ento a Frana, alvitrou elle. Eu vi a sepultura de tua me;
quero agora vr o seu bero. Iremos s Ardennas.

--Mas as Ardennas no so to tristes como o cemiterio, pois no?
perguntou ingenuamente Augusta.

--No so, filha, no so. Para tua me eram o paraizo d'onde eu a
expulsei.

Foram musicando. Notavam-se entre todos os _virtuosi_, alm da maguada
sympathia que filha e pae inspiravam, pela melancolia do seu repertorio.
A guitarra d'elle e a harpa d'ella falavam a linguagem da saudade. Se o
publico as ouvisse no _Campo Santo_ de Napoles,  beira d'um cmoro,
devia comprehendel-as. Estiveram nas Ardennas, onde os camponezes
sahiam em ranchos a ouvil-os. Alguns d'elles, vendo o guitarrista
esquecido a olhar para o cimo das montanhas, com o brao paralysado,
diziam entre si:

--Aquelle homem no tem a razo clara!

Passando-se depois a Pariz, encetaram o viver errante dos passaros.
Graa Strech tirava do amor com que idolatrava a filha as foras com que
vivia, e tinha desvairamentos nervosos se se demorava a contemplar-lhe
as faces pallidas, da meiga pallidez da irm, e os olhos fundos e
brilhantes.

Quedava-se a olhar n'ella com a fronte banhada de suor frio.

--O pap gosta tanto de me vr! exclamava a menina ao mesmo passo
carinhosa e amedrontada da sombria physionomia do pae.

--Gosto, filha.  que eu sou pae e desgraado! Se tu morresses,
enlouquecia.

--Eu no morro. O pap no diga isso, que me faz medo. Deixe-se de estar
a pensar, pap! atalhava a menina.  Giovanni, traz a harpa; no estou
contente seno quando a tenho ao p de mim! O pap no ralhe, porque eu
sou muito sua amiga tambem.

Decorreram os annos. O boto de rosa fez-se flr. Flr melancolica como
as que pendem aos sarcophagos.

Graa Strech procurava suavisar quanto lhe era possivel a sua continua
peregrinao. A menina, tomada de febril impaciencia, dizia ao pae que
havia de morrer no caminho tocando harpa. E acrescentava:

--Bem diz o pap: ns somos como os passaros. Elles tambem s parecem
alegres quando voam!

No inverno de 1824--tinha Augusta quatorze annos--comeou a soffrer do
peito.

Estavam de novo em Londres.

Augusta queixava-se de dres vagas; e tossia.

--Fujamos de Londres! disse Graa Strech fitando a filha com atormentado
semblante.

Em Frana os soffrimentos continuaram, se bem que a menina, para no
desalentar o pae, procurasse animar-se d'uma alegria que por bastante
transparente deixava entrever o disfarce.

Seguiram para Italia. Enflorava-se a formosa do Mediterraneo com as
galas da primavera de 1825.

Caminho de Florena nos ultimos dias de maro, colhera-os ao entardecer
a tempestade no caminho. Tiveram de estugar o passo para recolher-se no
albergue de Pistoja. A menina chegou anciada, e afogueada das faces.
Deitou-se logo. O pae, atordoado como ebrio, no a desamparou em toda a
noite. Pela manh, Giovanni foi poisar a harpa ao p do catre. Augusta
reprehendeu-o. Disse que no dia seguinte tocaria. Veiu o outro dia,
vieram muitos, e a menina nem queria erguer-se nem ver a sua harpa.

--Ento j no s como os passaros? perguntou o pae com voz que mal
podia romper atravs das lagrimas.

Augusta viu chorar o pae, e disse para Giovanni:

--Os passaros tambem cantam no ninho: vai buscar a harpa.

Tirou alguns sons, e no pde continuar.

D'ahi a trez dias chamou de novo Giovanni e disse-lhe:

--Hoje estou boa; vae buscar a harpa.

O pae quiz illudir-se ainda: sorriu.

A menina vibrou as primeiras modulaes e deixou pender os braos.

Acudiu o pae a chamal-a. No respondeu. Giovanni agitou-a docemente e
conheceu que estava morta.

A avesinha no pde completar o seu cantico de despedida.

Desde essa hora Graa Strech affigurava-se idiota. Unicamente pareceu
illuminar-se-lhe por instantes a razo quando disse a Giovanni:

--Meu bom amigo, meu fiel amigo, no tenho mais que te dar: pga n'essa
harpa e deixa-me viver em paz. Adeus, at  hora do resgate.

Giovanni quiz falar. Elle no consentiu; afastou-o com um gesto.

E deixou-se ficar dois dias com a cabea apoiada nas mos.

Levavam-lhe de comer: recusava.

O dono do albergue entrou a inquietar-se e acabou por ir a Florena
avisar o consul portuguez. Chamado Graa Strech ao consulado, muito
laconicamente respondeu s perguntas que lhe fizeram. O consul reputou a
sua tristeza nostalgia, aggravada pela impossibilidade de se transportar
 patria. Deu-lhe um passaporte para Portugal. Graa Strech nem
agradeceu nem rejeitou. Ao outro dia foi o consul a bordo para o
recommendar ao capito. Faltava Graa Strech. Mandou procural-o ao
albergue. Encontraram-n'o sentado com a cabea firmada nas mos.
Deixou-se conduzir ao navio. Subiu  coberta, e sentou-se n'um banco, na
mesma posio. O navio largou; elle no ergueu os olhos.

Passados mezes via-se nas ruas do Porto um estranho homem; andava
arrimado a um bordo, porque coxeava. Alguem, por caridade, o vestira:
trazia sobrecasaca abotoada e chapeu alto amolgado. Realava sobre esta
pobreza a medalha de prata da guerra peninsular em competencia com um
annel de ouro que brilhava na mo esquerda. Como o vissem apanhar do
cho pontas de cigarros, e manipular um longo rolo de tabaco,
perguntavam-lhe por que no vendia o annel.

Respondia sempre:

--Porque este annel tem mysterio.

E, surdo a outras perguntas, comeava tangendo maviosamente a guitarra
que trazia sobraada. Se alguem lhe dava esmola, recebia-a; jmais a
implorou. Decorridos mais alguns mezes appareceu acompanhado por um co,
e de tal modo se estimavam, co e homem, que o co parecia escutar
attento o guitarrista, e o guitarrista defendia energicamente o seu
companheiro quando era aulado pelo rapazio.

Onde encontrra o guitarrista o co?

 que o primeiro tivera de pedir hospitalidade ao segundo.

N'um quintal da rua das Fontainhas, logo  entrada, descendo do Jardim
de S. Lazaro, ha ainda hoje um casebre, que n'esse tempo pertencia a
duas pobres mulheres, donas do co. Ali piedosamente receberam o
guitarrista, que na primeira noite de hospedagem fra mordido pelo
animal, que dava pelo nome de _Janota_, e se rebellara contra todos os
affagos do hospede. Indignou-se o guitarrista da feresa do seu
companheiro, e lembrou-se d'um facto semelhante que em Portugal
occorrera durante a primeira invaso franceza. Em Abrantes, em 1807, um
official portuguez poupou a vida de Junot; sem embargo, fra, dias
depois, fuzilado, no sei a que pretexto, por ordem do mesmo Junot.

O guitarrista, applicando ao caso esta recordao da sua
mocidade, comeou a dar ao co o nome do general francez.

Ao cabo d'algum tempo de convivencia, o nome no tinha razo de ser,
porque homem e co viviam em boa camaradagem; todavia subsistiu. As
proprias donas do casebre se habituaram a dizer _Junot_ em vez de
_Janota_. Em tamanha pobresa permaneceu o guitarrista at novembro de
1857, epoca em que o meu amigo, o sr. Antonio Martins Leorne, teve
casualmente occasio de falar-lhe.

Passava na Batalha quando o guitarrista, sentado nas escadas da egreja
de Santo Ildefonso, estava sendo chasqueado por trez estudantes do
seminario episcopal. Movido de indignao, subiu as escadas, e ameaou
os seminaristas com denuncial-os ao prelado. Os rapazes debandaram
amedrontados, e o guitarrista levantou-se para agradecer ao sr. Leorne.
Pelas breves palavras que trocaram, conheceu este cavalheiro que estava
ali um lucido espirito e um nobre corao esmagados pela desgraa. Tanto
bastou para comear a protejel-o, at que no mez de novembro d'esse anno
conseguiu que fosse admittido no hospital dos Entrevados de Cima de
Villa. O guitarrista acceitou reconhecido. Mas, quando lhe foi imposta a
condio de usar o vestuario dos asylados, reagiu tenazmente. S puderam
convencel-o a transigir repetidas instancias do sr. Leorne.

Durante a sua estada no hospital de Cima de Villa, grato  proteco
recebida, abriu-se em frequentes confidencias com o seu protector.
Algumas vezes lhe escreveu, assignando-se Graa Strech, se bem que os
registos de admisso e obito o nomeiem Conceio Graa.

Bem pde ser que o infeliz, talvez por melindre que nos no  dado
perscrutar, negasse ao escripturario o verdadeiro appellido de sua
familia, e facilmente se comprehende que o registo de obito foi modelado
pelo registo de entrada no hospital.

O leitor, antes de eu ter denunciado o nome do estranho guitarrista, j
o havia conhecido de certo, confrontando-o com a personagem que apparece
nas primeiras paginas d'este livro, e achando-os em tudo semelhantes.

Graa Strech falleceu no hospital dos Entrevados de Cima de Villa a 20
de maio de 1850. Antes de expirar, entregou ao seu protector, que
lhe assistiu aos ultimos momentos, a medalha da guerra peninsular, com
que fra condecorado, e que o sr. Leorne ainda hoje possue[15].
O annel mysterioso, por expressa recommendao do moribundo,
desceu com o cadaver  sepultura. Outra piedosa pessoa, a quem o sr.
Leorne revelra as qualidades e soffrimentos de Graa Strech, se
encarregou de fazer-lhe os funeraes na capella do Prado do Repouso,
reservando para si a guitarra que elle por to longos annos dedilhra.

Aqui podia terminar a biographia de Jos Maria da Graa Strech, mas,
para que fique mais completa, concluiremos copiando textualmenle as
unicas palavras que at hoje falavam d'elle:


_Joo Jos Duarte Machado, capello director do cemiterio do Prado do
Repouso, n'esta cidade do Porto:_

Certifico que no livro quarto do registo dos obitos e enterramentos dos
adultos, a folhas trezentas setenta e sete, verso, se acha o assento
seguinte:

Jos Maria da Conceio Graa, filho de Francisco Pinto Graa, e de
Maria da Gloria, natural do Porto, edade sessenta e seis annos, estado
solteiro, profisso mendigo, morador que foi no Hospital de Cima de
Villa, dos Entrevados, falleceu de molestia no denominada pelas nove
horas da noute do dia vinte de maio de mil oitocentos cincoenta e nove;
depois de se lhe rezarem os responsos do costume foi sepultado pelas
oito horas da noute do dia vinte e um do dito mez n'este cemiterio
publico--Prado do Repouso--no canteiro numero tres, sepultura dois mil
trezentos e seis, de que se fez este termo que assigno com o reverendo
capello. Eu Antonio Jos Antunes Barbosa, director, o subscrevi.
_Antonio Jos Antunes Barbosa_, director. _Francisco Alves da Soledade_,
capello.

No contm mais o dito assento, ao qual me reporto. Porto e Cemiterio
do Prado do Repouso, nove de setembro de mil oitocentos setenta e tres.

                                        JOO JOS DUARTE MACHADO.

                                            Capello director.


FIM

    [15] Em 1873.




INDICE


Prologo da 3. edio                                     5
    I--O Desgraa                                         7
   II--Na quinta das Chs                                10
  III--Pomba que presente sangue                         19
   IV--Horrores da invaso                               28
    V--O juramento da vingana                           38
   VI--A mariposa do acampamento                         47
  VII--No hospital de sangue                             55
 VIII--O anjo da liberdade                               63
   IX--Entre a vingana e o amor                         72
    X--A hora do resgate                                 82
   XI--O que a vivandeira pensava                        90
  XII--Amor e ciume                                     101
 XIII--Como acaba a tragedia de Goethe                  109
  XIV--Quanto custa ser me                             118
   XV--A queda do gigante                               127
  XVI--Uma festa no Porto ha cincoenta e nove annos     136
 XVII--Como madrugam as aves e os noivos!               146
XVIII--A lenda d'Ashaverus                              155
  XIX--A terra da promisso                             165
   XX--O manuscripto de Pietro                          174
  XXI--Epilogo                                          184






End of the Project Gutenberg EBook of O Annel Mysterioso, by Alberto Pimentel

*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O ANNEL MYSTERIOSO ***

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electronic work or group of works on different terms than are set
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both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark.  Contact the
Foundation as set forth in Section 3 below.

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works, and the medium on which they may be stored, may contain
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that arise directly or indirectly from any of the following which you do
or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need, are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
http://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at http://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit http://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including checks, online payments and credit card donations.
To donate, please visit: http://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.


Most people start at our Web site which has the main PG search facility:

     http://www.gutenberg.org

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including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
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