The Project Gutenberg EBook of O Christo novo, by Diogo de Macedo

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Title: O Christo novo
       Romance Historico do Seculo XVI

Author: Diogo de Macedo

Release Date: June 30, 2009 [EBook #29275]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

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                             _DIOGO DE MACEDO_


                              O CHRISTO NOVO

                      ROMANCE HISTORICO DO SECULO XVI



                                   PORTO
                            IMPRENSA PORTUGUESA
                           Rua do Bomjardim, 181
                                   1876




                              O CHRISTO NOVO



                             _DIOGO DE MACEDO_


                              O CHRISTO NOVO

                      ROMANCE HISTORICO DO SECULO XVI



                                   PORTO
                            IMPRENSA PORTUGUESA
                           Rua do Bomjardim, 181
                                   1876




ALGUMAS PALAVRAS


_Historia, segundo Cesar Cantu,  a narrao dos factos considerados
verdadeiros. Tem por fim a verdade, porque, no conceito de Alexandre
Herculano, encarrega-se de averiguar qual foi a existencia das geraes
que passaram._

_No deve porm considerar-se tam seria e limitada a periferia do
romance. O romance pde ser tambem a reproduco e apreciao dos
eventos e phenomenos sociaes subordinados a uma certa ordem chronologica
e a uma classificao methodica; mas, porque tem menos responsabilidade,
concedem-se-lhe mais fros de liberdade e licena do que a esse grande e
solemne registo publico chamado historia._

_Pennejar-se conseguintemente um romance com todas as prescripes
historicas,  obrigao que a critica nem o bom senso exigem. O romance,
no querendo asphixiar os seus leitores em um ambiente de opio e
monotonia, apenas aproveita da historia o fundo e a base: as datas e os
factos cardinaes. Em quanto aos contornos e s linhas e s cres, aos
personagens ainda e ainda ao dialogo e  urdidura, usou sempre, seja
elle engenhado por Walter Scott ou seja devido  imaginativa de
Alexandre Dumas, de facil e plena liberdade. Mais ainda do que louanias
e filigranas de estilo se reclamam, para repasto da curiosidade, os
meandros e caprichos da phantasia. S por imposio de estranho
despotismo se deve sugeitar a contextura do romance historico a toda a
fidelidade ethnologica e a todo o rigor dos acontecimentos. A narrativa
e apreciao dos factos considerados verdadeiros--a historia--no podem
associar-se de nenhum modo aos partos da imaginao e aos caprichos da
phantasia--o romance._

_Comprehendendo-se portanto a differena que faz a historia,
propriamente sciencia natural, do romance, simplesmente exercicio
litterario, no se deve estranhar a maneira como pensei e escrevi. Sem o
auxilio da imaginao como se conseguiria entreter a curiosidade e
passar o tempo no decurso de algumas dusias de paginas com as
descripes dos obscuros successos dos dous seccos e aridos annos de
1553 e 1554?_

_ coisa natural que eu bastantemente abusasse das liberdades de
romancista. Por exemplo, do meu livro translusem o caracter e a
phisionomia de Simo Rodrigues com menos vantagens e virtudes do que as
que lhes foram munificamente abonadas pela tradio e pela escriptura.
Disse-se do celebre discipulo de Ignacio de Loyola que morreu (15 de
julho de 1579) com acrisolados sentimentos de religio. Nada o
assombrava nem esmorecia quando se tratava do servio de Deus, sabendo
sempre em sua vida manifestar os mais austeros principios de abnegao e
dando em todos os seus actos os mais louvaveis exemplos de sabedoria._

_Egualmente a indole e os costumes de Dom Joo III no se descortinam em
painel que satisfaa as exigencias da critica e o rigor da verdade. Ser
Dom Joo III o monarcha fanatico e frouxo retratado com as tintas
sombrias da palheta de Alexandre Herculano, ou antes o principe virtuoso
e prudentissimo que, segundo os annaes louvaminheiros de Frei Luiz de
Sousa, foi,_ sem a nenhum fasermos aggravo, um dos primeiros entre os
que louvamos de grandes e excellentes virtudes?

_Emfim referem os chronistas que o joven esposo da infanta de Castella,
essa princesa no pouco memorada pela energica proteco com que mais
tarde ensoberbecera o animo pusillanime de Christovam de Moura, falleceu
de enfraquecimento phisico dous meses depois do seu faustoso matrimonio.
Eu fao-o padecer no leito frio da morte os effeitos inclementes do
veneno!_

_Em quanto a ideias religiosas e a ideias politicas principalmente,
reconheo, como com magica eloquencia observa Emilio Castelar na vida de
Lord Byron, que tem este seculo incerto desde o seu comeo vacillado
entre a raso e a f, entre o direito e a tradio, entre a liberdade e
o cesarismo; porm julgo-me no direito de no simpathisar com esse
esqueleto de cora de ferro na cabea e de guela a trovejar vinganas,
com esse systema obsoleto e feudal que felizmente passou ao mundo das
tradies depois de por tantos seculos haver sido o protogonista do
grandioso drama ou da grande tragedia da historia. Esse infeliz regimen,
o das praticas e theorias theocraticas do absolutismo, j no preoccupa
hoje em dia, apesar de ainda conservar alguns alentos de cadaver, o
espirito dos economistas e o genio dos philosophos. Hoje a escolha
decide-se pela monarchia constitucional ou pelo governo democratico.
Simplesmente o que resta averiguar em amigavel concordancia  qual dos
dous systemas offerece maior numero de vantagens sociaes e melhormente
contribue para a emancipao geral dos povos. Eu presumo que todas as
tendencias da mocidade preferem as doutrinas republicanas por serem as
mais desinteressadas e que todos os calculos da idade viril abraam os
ouropeis da monarchia por serem de todos os systemas politicos o que
mais satisfaz a vaidade e as ambies dos homens. Haver por isso quem
recrimine os meus devaneios democraticos e deteste as minhas expanses
liberaes? Deve comprehender-se que  consciencia repugnam todas as peias
e que as conquistas do progresso no obrigam o espirito do homem 
filiao ou observancia de uma unica frma ou theoria de governo._

_Ainda tambem relativamente a formulas e sentimentos religiosos duas
ideias se devem estremar: a ideia de Deus e a dos seus representantes na
terra. As obras e immunidades do gremio catholico no saberei
respeital-as com aquelle mistico fervor e aquellas espirituaes
dedicaes que me possam grangear nome e gloria nas lendas hagiolicas;
mas a ideia de Deus, sinthese de todo o bem e espelho de todas as
perfeies, venero-a sem vislumbres de duvida e com o vigor mais intimo
das minhas crenas._

_No crer na bondade dos padres no  descrer das bondades divinas. Nos
tempos em que mais se invocava o simbolo da cruz e mais se pelejou pela
f catholica, a christandade que de exemplos nos ministrou de aces e
virtudes menos orthodoxas! Conta H. Taine que Ricardo, o corao de
leo, quiz um dia sob os muros de San Joo de Acre comer a toda a fora
carne de porco. No havia carne de porco por mais que se procurasse.
Lembra-se o cosinheiro de matar um sarraceno gordo e tenro; salga-o e
cose-o seguidamente. O rei come-o e encontra-o delicioso. Quiz depois
ver a cabea do seu porco e o cosinheiro lh'a conduz possuido de grandes
tremuras. O rei pe-se a rir e diz que o seu exercito no pde recear a
fome porque tem  mo fartura de provises._

_Ento, quando os devotos e defensores da cruz fasiam a guerra aos
sarracenos, ouvia-se sempre a voz dos anjos dos ceus que dizia:_ Matae,
matae! No poupeis ninguem; cortae a todos a cabea! _Esta voz dos anjos
era ouvida pelos christos e por isso tomando-se qualquer villa ou
cidade tudo se passava a fio de espada, crianas ou mulheres. Na tomada
de Jerusalem setenta mil pessoas, o que prefasia toda a populao, foram
exterminadas cruelmente[1]!_

_Bem mais delongadas observaes em abono de creditos litterarios e
sobretudo por descargo de consciencia se tornavam talvez indispensaveis;
mas eu encorporo-me no avultado numero dos que reconhecem a inutilidade
e o desprestigio dos prologos. No ha juisos nem avisos que salvem das
voragens do esquecimento um ruim livro. Se o livro  mal escrito e
delineado, todos os cordiaes e remedios so falliveis e impotentes da
mesma sorte que, se o livro  de materia agradavel e perfeita, dispensa
facilmente a importancia ou a formalidade dos prologos._

    [1] _H. Taine. Hist. de la litt. anglaise, t. I._




O CHRISTO NOVO




I

CIUMES DE UM REI


Por uma das mais somnolentas e placidas noites dos fins de outubro de
1553, no desvo de esguia janella do palacio dos nossos reis estava
casual ou intencionalmente encoberto pelas dobras de soberba cortina de
rendas de Flandres um personagem vestido com gibo de veludo preto.

Usava elle de curta cabelladura cr de castanha e no inculcava mais de
cincoenta annos de idade[2]. Em volta do pescoo alvejava-lhe uma das
amplas gorgueiras encanudadas que, na frase picaresca de um novellista
espanhol, davam  cabea o irrisorio aspecto de um melo collocado em
cima de um prato de porcelana branca. Pronunciava-se-lhe bem um nariz em
demasia grosso, era baixo da corporatura como qualquer burguez e parecia
reforado dos musculos como um legitimo descendente de Hercules.

Para melhormente sobresairem as tintas: em mean estatura grande
proporo de membros; olhos entre verdes e asues; boca vermelha; rosto
alvo e de boa cr. Notava-se-lhe o pescoo um pouco curto e a cintura
grossa, mas no que chegasse a desar[3].

Dominava-o finalmente a prurigem da impaciencia ou da curiosidade.
Translusiam-lhe no rosto arredondado a feio sombria do seu caracter e
no sorriso confrangido a indecisa severidade do seu genio. Algum
acontecimento inesperado lhe impressionara sobremaneira o espirito e
certamente era essa uma das mais criticas situaes a que submettera
a sua delicada sensibilidade.

Nada com effeito de mais critica e extraordinaria situao.

Aquella esguia janella gothica pertencia ao quarto de dormir de uma
poderosa mulher e no centro do quarto via-se um dos mais nobres e
esbeltos personagens do segundo quartel do seculo XVI dado a indiscreta
conversao com essa mulher em quem todos descobriam raras e heroicas
virtudes, grande zelo e piedade christan, grande brandura e affabilidade
em obras e palavras para com grandes e pequenos.[4]

--Que nunca eu merea o vosso desdem, exprimia-se elle com accento de
ternura e de respeito. Confio nos sentimentos do vosso corao e da
vossa nobresa, senhora. A no depositar nas vossas mos a redoma das
minhas esperanas, teria levado o meu corpo  defenso da praa de
Arzilla ou das heroicas muralhas de Dio...

--Socegae, Dom Prior. Nada de perder o animo. Bem sabeis que de pouco
serve o meu valimento; mas ainda assim me decidirei quanto possa em
vosso auxilio.

-- tudo o que vos supplico, porque sei que nada vos recusa el-rei...

--Em pouco mais pensa el-rei do que no zelo da religio e no culto de
Deus. As nossas praas de Africa vo sendo abandonadas pelas lanas dos
portugueses e fracos so os reforos de soldados e munies com que se
acode aos ricos dominios das Indias. Escuta l el-rei os meus conselhos!

--A quem ha de ouvir seno a vs, senhora?

--Attende em mais e em tudo o reverendo Simo Rodrigues e esse terrivel
prelado Joo Soares. Elle no conhece outro amor que no seja a puresa
da f e no respeita outros homens que no sejam os jesuitas... Amor do
povo e da patria como o nutriam em seus heroicos seios seu pai e av Dom
Manoel e Dom Joo! Jmais esses bons monarchas offenderam a religio de
Christo e sempre todavia se cumularam de gloria sem tribuanes de
inquisio e sem ordens de jesuitas...

--No vos tacharei de injusta por no faltar-vos ao respeito, senhora
minha. Certo  que Dom Joo presta ouvidos a Simo Rodrigues, criou o
venerando collegio de Coimbra, estabeleceu em nossos reinos a mesa do
Santo Officio e toda a sua alma se affervora no zelo da religio
catholica; mas todas essas virtudes so effeito de piedade e no de
falta de civica devoo. Ama tanto a fortuna dos filhos de Loyola e dos
discipulos de Torquemada como o bem dos seus vassallos...

--No que o no fadaram os cus com a vossa indole, Dom Luiz. Por estas
lagrimas o digo, accrescentou levando o leno aos olhos. Que differena
tam grande entre irmo e irmo! A vs no vos fallece galantaria nem
juiso. Sois valente e generoso a um tempo. Todos vos apontam como enlevo
das damas, captivaes as affeies do povo e mereceis a estimao dos
mais esforados cavalleiros da crte...

--No me lisongeeis assim, que podem escutar-vos e de mim curtirem
ciumes.

--Ninguem me culpar perante Deus nem perante os homens. Sabe de sobejo
meu esposo quaes so os meus sentimentos a seu respeito. Amor com amor
se paga e por isso no deve tomar a mal que lhe eu pague com
indifferena as suas frias indifferenas.

--Julgo que nada padecereis, senhora. Mas fallo por mim...

Ainda no eram concluidas taes palavras quando de repente a cortina se
desvenda e o personagem que se conservara achegado ao peitoril da
janella se adianta com passo grave.

Parecia, embora a frase tenha laivos de sedia, a estatua severa do
Commendador. Era agora, ao contrario das cres naturaes, pallido e
altivo do rosto. Dos grossos labios desferia um sorriso de neve. Dos
seus olhos entre verdes e asues dardejava um lampejo de indignao que
devera ferir como o raio.

Talvez se esperasse a tremenda exploso de colera por muitos dias
sopitada. Entretanto o grave personagem declarou com serenidade:

--Nada receeis, meu nobre irmo...

Dom Luiz quedou em silencio. Ou a voz se lhe prendeu nas fauces ou o
respeito o fez calar. Com porte severo e imponente apresentava-se-lhe de
subito o muito alto e poderoso rei de Portugal e dos Algarves, sua
altesa serenissima o senhor Dom Joo III.

Era para Dom Luiz das mais solemnes e apertadas semelhante situao.
Antes mil veses se quisera em luta encarniada com os mouros de Asamor
ou com as hordas do samorim de Calicut. Dom Luiz de Beja, Prior do
Crato, digno infante de Portugal e esforado filho de Dom Manuel foi
havido sempre no consenso publico por cavalleiro valeroso e destemido.
Em provas de coragem no no excederam os Pachecos nem os Albuquerques e
ninguem com mais galhardia soube ainda no officio das armas brandir uma
lana ou empunhar uma espada. D'elle recontam chronistas e historiadores
que principe nenhum soube dar-se ao respeito melhormente ou faser em sua
vida com que o amassem tanto. O amor que os portugueses lhe tinham
passava a idolatria. Adornavam-no todas as partes que podem fazer-se
credoras da estima dos homens. Era nobre e generoso, compassivo e
valente, affavel e tam ousado que passava a destemido.

A estas gentis condies andavam annexas muita mansido na sociedade e
rara prudencia nos negocios. Era guapo e bem feito; sensivel, terno e
deveras affeioado ao trato das senhoras.

A fama das suas boas partes moraes e phisionomicas vora at os paizes
estrangeiros. No serralho do xerife de Marrocos grangeara grande estima
e uma das suas filhas morria de amores por elle. Todas as veses que a
nobre donzella encontrava Dom Diogo das Torres, captivo a quem se
facultava entrada livre no palacio por ser protegido de Muley Abel
Mumen, irmo do xerife, nunca se fartava de fallar-lhe no infante. Um
dia que passeava nos jardins do palacio viu Dom Diogo e chamou-o para
lhe diser: Colhei de aqui algumas flores e tecei com ellas uma cora
semelhante s que trasem os principes christos. Obedeceu Dom Diogo das
Torres e cuidou de offerecer-lh'a. Tomando-a ento e pondo a cora na
cabea encantadora, ella lhe disse: Permittam os ceus que eu algum dia
viva unida com o infante Dom Luiz como suaesposa e que, sendo elle o
rei, eu seja a rainha de Portugal![5]

Mas agora a conjunctura no demandava feitos de valor nem proesas de
galanteria. Atrevera-se Dom Luiz entrar a ss em aposentos que apenas
no eram vedados  pessoa do monarcha portuguez: a alcova nupcial de
Catharina de Austria, essa virtuosa irman do Cesar das Espanhas, o
victorioso imperador Carlos V!

Mal decorreram alguns instantes quando se voltou el-rei para sua esposa
a diser-lhe pausadamente e com um sorriso glacial:

--Deveis desculpar-me, senhora, o vir interromper-vos nos vossos
galanteios. Por Deus que vos dou uma lio que vos deve servir para de
outra vez terdes em mais recato o pudor e a honra de uma rainha; mas
sempre se desculpam os maus humores de um esposo e por isso espero de
vs que no tomeis a mal a minha presena.

s veias da orgulhosa princesa de Castella refluiu todo o sangue celta
da raa de seu pae Filippe I, aprumou o seu bello pescoo de gara
como se nada houvesse que temer, fitou firmemente com um olhar de aguia
o semblante pallido de Dom Joo III e de prompto impugnou com a austera
dignidade de uma rainha:

--Jamais tive galanteios que no fossem para vs, senhor meu esposo!

Sorriu o monarcha d'esta vez com aquelle sorriso contrafeito que lhe era
peculiar e por ventura se dispunha a retorquir em termos de menos
restricta etiqueta quando o infante se lhe dirige assim:

--Assaz vos hei provado, meu irmo e senhor, a fora da minha lealdade e
o quilate da minha honradez. Sabei que junto da camara de vossa altesa
no me trouxeram galanteios. Antes retalhara o corao com o gume da
minha espada do que faltar algum dia  fidelidade e s homenagens que a
vs e a ella vos devo. Misso de outra naturesa me guiou  presena da
esposa de vossa altesa serenissima. Vim pedir-lhe, senhor, que vos
amolgue o genio  compaixo e vos decida a resgatar a honra de Dona
Violante Gomes...

A este suave nome de Violante Gomes pareceu sobresaltar-se o animo de
el-rei. Os olhos, que at ahi os conservara como pregados na alcatifa
multicor do aposento, erguera-os ao nivel do olhar do irmo e pareciam
em semelhante conjunco animados de uma estranha vivacidade.
Mostrava-se agora mais varonil a phisionomia e mais aprumada a estatura
do fanatico Dom Joo III.

--Insensato que sois, meu irmo! Violante Gomes talvez algum dia venha a
ser vossa esposa; mas juro-vos... juro-vos que, em quanto eu viva, nunca
Dom Joo consentir que uma barregan se associe  familia dos monarchas
de Portugal!

Inesperadamente assomou um vislumbre de colera s faces amarellecidas do
infante. Pouco lhe quedaria para se esquecer da obediencia que jurara a
el-rei, quando Catharina de Austria adianta dous passos e se colloca de
permeio como decidida a conjurar a tempestade.

-- de justia, aventurou-se a interceder, o que vos implora o infante
Dom Luiz. Far o vosso rigor com que mais se deva tomar-vos por
tiranno que por monarcha. Elle falla em nome da humanidade e da honra,
duas virtudes que o vosso espirito no poder desconhecer nem pde
repulsar. Por isso no vos merece a resposta do orgulho e do fanatismo...

--Diseis bem, applaudiu Dom Joo com modos brandos e com uma indefinivel
expresso que s elle e Machiavelo sabiam fingir. Diseis bem; mas esses
negocios ficam para mais tarde. Veremos se elles interessam ao esplendor
da religio e ao bem do estado.

Estendendo depois o brao para a porta do aposento, pareceu indicar a
Dom Luiz que era chegado o desfecho da entrevista.

Dom Luiz de Beja, baixando a cabea e no arredando os olhos do cho,
dirigiu-se machinalmente para a porta e se retirou em completo silencio.

    [2] Nasceu a 2 de janeiro de 1502.

    [3] Frei Luiz de Sousa. _Annaes_, liv. I, cap. IV.

    [4] Frei Luiz de Sousa. _Annaes_, liv. III, cap. 11.

    [5] La Clede. _Hist. ger. de Portug._




II

OS REIS NO COSTUMAM PERDOAR AS OFFENSAS RECEBIDAS


Atravessara Dom Luiz a comprida sala chamada ordinariamente dos
_tudescos_ e se dispunha a descer a marmorea escadaria dos reaes paos
da Ribeira quando se lhe aproxima um dos pagens de Catharina de Austria
e, em tom de quem d conselhos, ousa segredar-lhe assim:

--Tomae cuidado. Os reis no costumam perdoar as offensas que recebem.

Ao misterioso aviso quasi que Dom Luiz no prestara ouvidos.
Embuando-se cautelosamente na sua fina capa de panno verde e carregando
sobre os olhos o seu amplo chapeu de feltro enfeitado com bella
pluma branca, atravessou a larga escadaria e em dous momentos se
apresenta no meio do espaoso terreiro.

O Tejo, esse rio de aras de ouro tam decantado pelos poetas, dormia
placidamente. Soaram onze horas e o ceu mostrava-se empanado de sombrias
nuvens. Raras pessoas transitavam pelas ruas da opulenta capital. Apenas
de longe a longe o bronze dos campanarios vinha alterar a prolongada
monotonia da noite.

O infante, olhando a custo para as aguas ensombradas do Tejo, parecia
meditar. Depois abandonou o terreiro e a passo lento seguiu pela rua da
Palha a direco da praa do Rocio.

Absorvido em estranhos pensamentos ia elle no seu caminho quando lhe
surdem inesperadamente de cara tres vultos agigantados.

Em seguida sentiu no peito a lamina de dous punhaes e certamente o seu
corpo ficaria sem foras e sem vida se os punhaes no resvalassem no ao
finissimo de uma cota de malhas.

--Covardes! gritou Dom Luiz ao mesmo tempo que desembainhava a
espada e que se poz em guarda.

Immediatamente se crusaram tres espadas contra uma.

Era em extremo fino e destro no jogo das armas brancas Dom Luiz de Beja.
Mas os seus adversarios mostravam-se lestos e ageis tambem. Alm d'isso
ajuntavam-se tres contra um. No podia ser mais melindrosa a posio do
infante.

Por fortuna, quando j o suor lhe escorria pelas barbas e principiava de
debilitar-se-lhe o pulso, eis que um novo personagem se intromette na
peleja.

Depressa ce por terra o mais alentado dos aggressores e os dous
restantes, naturalmente com receio da morte, poseram-se em immediata e
vergonhosa retirada.

--Obrigado, meu amigo, agradece o infante no momento em que aperta com
fraternal reconhecimento a destra do seu salvador.

Era elle o mesmo pagem que nos paos da Ribeira lhe segredara
misteriosamente: _Cautela, que os reis no perdoam as offensas que
recebem!_

Por causa das sombras da noite no se lhe distinguiam as feies:
poder-se-hia divisar apenas que era fransino do corpo e que lhe relusiam
os olhos como a chamma de um lampadario.

Sorriu-se ouvindo os agradecimentos e, talvez com traa de se esquivar a
novos protestos de gratido, pretendeu retirar-se. O infante porm
agarrou-lhe meigamente o brao e pediu-lhe que o acompanhasse.

Pouco adiante, a confinar com o adro de San Domingos, elevava-se em um
angulo meridional do Rocio uma elegante e vistosa casaria.

O infante bateu de rijo com os copos da espada tres pancadas no portal e
a porta franqueou-se-lhe minutos depois.

Ambos subiram os degraus de uma escadaria resguardada de tapetes e
depressa alcanaram assim o primeiro andar da casa.

Introduziu-os um domestico em uma sala de paredes vistosamente forradas
de ricos pannos de Arras e toda mobilada com largas cadeiras cobertas de
seda escarlate.

D'esta sala passaram a um gabinete de exiguas dimenses onde a seda,
o brocado, as rendas e os cristaes de Venesa offereciam s vistas um
aspecto encantador.

Mais adiante abriu-se-lhes um salo da mais requintada opulencia. Tudo
ahi reumava riquesa e bom gosto. Julgar-se-hia logo a perfumada
recamara de uma princesa.

Os reposteiros foram talhados de uma preciosa fasenda da Persia que Dom
Affonso de Noronha mandara recentemente nos galees das Indias. No eram
as tapearias que cobriam o soalho de menos valor e variedade. Por toda
a parte macios coxins estofados de seda asul e franjados de ouro. Alguns
quadros que representavam as viagens de Dom Henrique e as descobertas de
Vasco da Gama, pendiam das largas paredes. Varias figuras da melhor
porcelana da China se viam aos recantos do salo sobre dous elegantes
bufetes com esmero trabalhados de madeira de ebano. Mil outros objectos
de porcelana, prata e marfim decoravam finalmente com luxo oriental
aquella manso de fadas.

Mal o pagem se dispunha a observar os ricos estofos e as admiraveis
pinturas, eis que apparece no salo uma das mais prendadas e gentis
damas do reinado de Dom Joo III.

Trajava um vestido de lhama asul guarnecido com alamares de passamanes
de prata e ouro, decotado a modo de revelar todo o seu alvo pescoo e
tam curto das mangas que se lhe viam quasi todas as rosadas carnes do
seu brao.

Poucos pintores estudaram ainda tam bello perfil e mais alegre figura.

Eram, como dous astros de amor, cheios de ternura e limpidez os seus
olhos castanhos. No havia mos de mais fina epiderme nem dedos de mais
esmerada estructura. O contorno do nariz no cedia em perfeies aos das
estatuas gregas que representam a deusa das graas e dos amores. Os
labios, feitos das petalas de uma rosa, possuia-os tam frescos e
delicados que pareciam de uma criana.

Quanto no valiam os seus sorrisos e que thesouros de ternura no
encerravam as suas fallas!

Era alta do corpo e franzina da cintura, como devem ser,  semelhana
das primorosas estatuas de Praxitelles e de Phidias, esse ideal das
artes plasticas, os contornos e propores das rainhas da bellesa. Mais
nutrida que magra assim nos braos como no rosto e, para mais se
accenderem cubias, da arca do peito avolumava-se-lhe o contorno dos
lacteos pomos de que Tasso e Cames nos fizeram a descripo.

Passava j dos trinta e seis annos de edade e comtudo ninguem lhe
calcularia acima de vinte e cinco primaveras: primaveras superabundantes
de rosas e frescura, porque uma eterna juventude  algumas veses
privilegio das mulheres formosas!

Imprimiu-lhe o infante um doce beijo na mo esquerda e, apontando para o
pagem, lhe disse risonhamente:

--Apresento-vos, minha querida Violante, um bom amigo que ainda ha pouco
me salvou os dias da vida.

O pagem conservou-se em mudez. Possuido de uma agradavel commoo,
ajoelhou aos ps da formosa dama e no pde elle evitar que dos seus
olhos negros se escoasse uma lagrima de praser.

Violante Gomes estreitara-o nos braos de fada e com palavras
divinamente repassadas de doura lhe rumorejou:

--Deus vos recompense o bem que fiseste.

Dispz-se ento a contar-lhe o infante o que se passara.

A narrao foi simples e curta. Poupou todas as cres da fantasia e do
romantismo. No se lhe ouviu sequer uma accusao contra os sicarios nem
contra a pessoa que lhes commettera a empresa.

O pagem depois tomou a palavra n'estes rapidos termos:

--Dom Luiz  denodado em demasia. Se lhe presaes a vida, minha senhora,
deveis aconselhar-lhe que no a exponha tanto. Inimigos poderosos lhe
sobejam...

--Talvez que s Deus o possa defender! exclamou Dona Violante.

--Deus, acrescenta o Prior do Crato, Deus e a minha espada e os meus
amigos tambem. Que ha traidores no mundo sei-o eu; mas que se guardem,
que se guardem bem os traidores!

--Guardam, guardam... No vdes como apenas mostram elles o brao e o
punhal?

A esta alluso da formosa dama logo vaticinou o pagem:

--Decerto no falta um vilo que a troco de alguns ducados assassine o
principe Dom Luiz!

--Mas que empenho haver n'isso? Dizei-o, que vl-o supplica Dom Luiz de
Beja!

--Quereis que vl-o diga em voz clara? Alguma coisa devera aprender no
meu officio de corteso e eu vos direi agora o que sei: vosso irmo o
senhor Dom Joo III no vos estima... antes vos odeia!

--Ousaes assim calumniar el-rei! com animo exaltado replicou o infante.
Bof que, se vos no devesse a minha vida, diria agora que... ensandeceste.

--Rogo-vos moderao, acudiu a dama. Falla o que sente e o que sabe este
generoso mancebo. Oxal sejam imaginarios os seus receios; mas no sei
que triste presentimento me leva a crr que algum infortunio nos ameaa...

Sorriu-se o pagem com essa expresso de interna melancolia que no
se descreve nunca. Em seguida volveu-se para o infante.

--Perdo... mil veses perdo se vos offendi! lhe disse.

Abraou-o o infante com o espirito sinceramente commovido. Descobrira no
pagem um tal caracter de franquesa e um certo cunho de verdade que desde
logo se lhe afigurou ninguem ser digno de maior estima.

 primeira vista mostrava-se repugnante a phisionomia do pagem.
Predominava n'elle o sangue das raas selvagens do Oriente. Era negra
como aseviche a pupilla dos seus grandes olhos e essa pupilla parecia
tarjada de um leve circulo de sangue. O nariz era chato alguma coisa e
alguma coisa largo das asas; a cr da pelle bastante acobreada e os
beios grossos sem desar. De idade no contava mais de vinte e dous
annos, mas na agilidade dos musculos e na vivesa do espirito poucos ou
nenhuns cavalleiros o excediam.

Nascera no paiz dos badages e ali fra, em companhia de seus velhos
paes, convertido ao christianismo pela palavra e pelo exemplo de
Antonio Criminal. Quando os badages degolaram este malaventurado jesuita
foi tamanho o horror que a pobre criana concebeu pelo seu idolo
Trichandur que nunca mais quiz lembrar-se do seu paiz natalicio. O
vice-rei Jorge Cabral conhecera-o em Ga, criara-lhe amisade pelas boas
prendas que em todo elle descobrira e embarcou-o para Lisboa no seu
regresso em 1550.

O pagem, embebido nos perfumes de um ambiente de delicias, agora no se
fartava de contemplar a peregrina formosura de Dona Violante. Nunca nos
sales da crte lhe fascinaram os olhos princesa de frmas tam
correctas, de maneiras tam delicadas e conversao mais suave. O terno e
melodioso accento com que fallava insinuava-se meigamente nos coraes
como se fossem harmonias do ceu. Superabundavam-lhe bellesas assim no
corpo como na alma. Talvez porque o acaso lhe denegara a nobresa do
nascimento, concedera-lhe Deus todas as mil prendas que no mundo servem
de apanagio e de cortejo  graa e  formosura.

Dona Violante fez-lhes servir aos seus dous hospedes, em ricas
bandejas de prata, alguns doces e licores. Depois, a rogo do infante,
passou com agilidade os seus pequeninos dedos pelas cordas de uma harpa
e com ternissimas inflexes comeou de cantar o bello soneto em que Luiz
de Cames define o amor:

    Amor  um fogo que arde sem se vr;
     ferida que doe e no se sente;
     um contentamento descontente;
     dr que desatina sem doer.

Logo que terminou levanta-se o gentil prior com todo o carinho a
apertar-lhe os braos em volta da cintura e com labios de fogo
imprimiu-lhe nas rosas do collo um osculo fremente.

--So estas as unicas venturas da minha alma! revelou elle ao pagem. No
vs como ella  formosa? Algum dia te contarei como nasceram estes
amores...




III

RECOMPENSA DO CRIME


Acabara de badalejar a meia noite no campanario da cathedral quando
na portaria arqueada do memorando collegio de Santo Anto parou um homem
de gigantea corporatura.

Vinha embuado em um capote de fartos cabees e equilibrava na cabea
um desses negros chapeus com amplas abas e copa sumida em frma de funil.

Depois de relancear prescrutadoras e desconfiadas vistas, entrou
sorrateiramente no alpendre do edificio e dirigiu-se por uma das
portas lateraes para um modesto gabinete situado ao rez do cho.

Aguardava-o ali com impaciencia um magro personagem de vestes
sacerdotaes e de phisionomia carcomida pela sarna dos annos.

--Ento que boas novas me trazes tu? perguntou elle sentado em pobre
tamborete de carvalho e desviando os olhos de um livro escrito na lingua
latina.

--No me parecem to alegres como desejava, regougou o recemchegado.

--Bem mau  isso. Mas conta depressa o que aconteceu, meu Jacobo.

--Pois saiba... saiba vossa senhoria illustrissima que tudo se frustrou
por artes do diabo.

--Jacobo, fallas a serio porventura? com preoccupao interrogou o padre.

--Com verdadeira magoa o digo; mas  verdade.

--O que tambem  verdade  que sois todos uns covardes...

--Tudo menos isso, meu senhor. Era elle que vestia a pelle do diabo! A
no ser assim, eu por Deus que soubera responder pelo ferro do meu
punhal!

--Sempre usaes do mesmo ripanso. Todos vos credes uns fanfarres e uns
Hercules; mas porfim de contas, se  mister que se mostre valentia ou
governe com prudencia, sois deveras mais pecos e villos do que um asno.

--Deve saber vossa senhoria illustrissima que a culpa no foi nossa.
Juro que no foi. Esperamol-o a sangue frio e logo, peito a peito como
vares honrados, procuramos mandal-o de presente s megeras do Averno
quando os punhaes, em vez de toparem carne de christo, encontram o ao
de uma saia de malha... Mas, ainda assim, tudo se remediava  maravilha:
como os punhaes eram curtos, puchamos das durindanas em guisa de
valentes campees e em poucos minutos dariamos com meia duzia de
cutiladas remate  nossa obra se de improviso se no intromette o
demonio em favor d'elle. Um dos nossos cae por terra e os outros... os
outros...

--Escusas de confessar que fugiram... provavelmente com temor de lhes
acaecer a mesma sorte.

--No foi o temor, meu padre. Tem vossa senhoria em mim um rude servo
que nunca do sitio do perigo arredou p com medo nem covardia!

--Conheo-te bem, meu Jacobo. Fao justia  tua valentia e espero que
me toleres algum arrebatamento. O pobre velho no sabe o que diz, no
sabe o que diz muitas veses... Mas dize-me ainda: que fiseste do
companheiro que morreu?

-- falta de outras virtudes, nunca me arrependi de ser prudente. A
estas horas, meu padre, est elle a servir de repasto aos peixes do Tejo.

--s assisado, s assisado na verdade. Toma em paga dos teus servios e
retira-te por hoje.

Atirou-lhe o padre com um punhado de moedas de ouro e o gigante,
mirando-as com olhos de cubia, lanou com prestesa mo d'esse precioso
metal que na frase de Tolentino  o _tiranno do mundo_.

--Sempre a vossa senhoria conheci generosidade, retorquiu elle correndo
a mo esquerda pela desgrenhada cabelladura. Mas d'esta vez, meu
padre, bem sabe que tenho de repartir... Cincoenta escudos[6]
 pouco.

--Nem um morabitino merecias ganhar, meu velhaco.

Jacobo afastou-se sem novas replicas e a meia voz foi tratando de
combinar a melhor maneira de embair a boa f do seu companheiro.

--Sempre lhe direi que no recebi mais de trinta escudos, rosnou elle
pelo caminho.

Em seguida poz-se a cantarolar aquella sabida cano[7]:

    Como no se desespera
    quien se v como me veo
    tan lexos de d desseo,
    tan cerca d no quisiera?

Entretanto o ecclesiastico de Santo Anto esfregava as engelhadas mos
como prova de quem se no julga de todo descontente.

--Do mal o menos, murmurou levantando-se do tamborete. Escapou-nos
por hoje, mas nada se descobriu... E que tudo se divulgasse e
descobrisse? s muito ano, Dom Luiz de Beja, para ergueres o brao
contra a pessoa que te mandou assassinar!

O ecclesiastico fechou o livro e deixou-se cair novamente no meio da
sola do tamborete.

--Meu Deus, meu Deus! exclama ento com gesto de arrependimento. As tuas
doutrinas s respiram humildade e amor; queres que amemos o nosso
proximo como nos amamos a ns mesmos; aconselhas o perdo das offensas e
o abandono das riquesas do mundo... Mas como renegamos a tua lei e os
teus conselhos, Deus meu! Entra uma vez nos seios do homem o veneno das
ambies terrestres e esquecem-se bem depressa os deveres da virtude e a
salvao das nossas almas. Tudo se esquece e... l vamos ns, vermes
orgulhosos, pelo menos subvertendo nas voragens do crime a
tranquillidade do espirito e a saude do corpo!

Abrio mansamente o livro, entregou-se por alguns momentos  leitura
d'aquelle salutar capitulo que traz por epigraphe _De consideratione
human miseri_ e que principia por estas palavras de humildade:
_Miser es, ubicunque fueris et quocumque te verteris, nisi ad Deum te
convertas._

Seguidamente prostou-se o padre de joelhos e com modos de extrema
beatitude fixou os olhos nas taboas do pavimento.

--Eu sei, declamou ainda, que s trabalho para o progresso da religio
catholica e em beneficio da santa madre igreja. Mas o meu corao est
cheio de magoa, meu Deus. So grandes os meus erros, so enormes os meus
peccados!

Decorreram dous minutos de tranquilla meditao e tudo ali, como se
fosse o recinto de um cemiterio, permanecia completamente calado. Nem o
cicio dos insectos nem as oscillaes da pendula dos relogios
interrompiam o silencio sepulchral do gabinete.

--Deus de misericordia! por fim proferio o padre batendo por duas veses
com os punhos na arca do peito. Meu Jesus de misericordia, guiae-me como
bom christo pelo caminho da virtude e fasei com que me no desampare
nunca a vossa infinita graa. Eis aqui um grande peccador que,
fingindo observar todas as virtudes da religio, encoberta as chagas dos
maiores vicios! Eil-o aqui, humildemente offerecendo a cabea ao gladio
da vossa punio!... Mas tende vs piedade de mim; tende piedade de mim,
senhor!

Seguidamente lanou mo de um latego de rijos loros e dispz-se, a
exemplo dos mirificos vares de que nos fallam os livros de theologia, a
flagellar rudemente as espaduas, os peitos e os rins.

No desprendia da garganta um unico murmurio de dr e todavia cada vez
com mais fora se redobravam os aoutes.

Sempre sereno do rosto e humilde da postura como as figuras de alguns
macillentos retabulos da escola flamenga, disciplinava-se cruelmente 
maneira do mais exemplar e do mais devoto dos filhos do christianismo.
Se deixava de orar  porque as correas lhe aoutavam as carnes do corpo
e, se parava com o castigo do latego,  porque em misticas leituras
pregava os olhos nas paginas do livro.

Esse livro abrangia mediana frma e fra publicado em 1492. Todo cheio
de doutrinas religiosas, rescendia das suas bellas paginas os santos
olores das folhas do evangelho. Era verdadeiro balsamo para o espirito
de um christo e ainda hoje tanto consola o christo como o philosopho.
Admiravel apesar da negligencia do estilo, commove muito mais do que as
argutas reflexes de Seneca e as frias consolaes de Boeccio. Foi
traduzido em todas as linguas e l-se em toda a parte com infinito
gosto. Conta-se at que um poderoso bey de Marrocos o guardava na sua
bibliotheca e de quando em quando o lia com inexcedivel prazer[8].
Leitura sempre cheia de unco e piedade, mereceo do sabio
Fontenelle o conceito de o mais bello livro sahido das mos dos
homens. Modestamente se intitula _De imitatione Christi_.

O padre todos os dias e todas as noites o folheava com beatifica e
inalteravel devoo. Todos os dias passava algumas horas lendo-o umas
veses silenciosamente e outras em voz alta.

Que mistico e santo apostolo no devia de ser este padre! Quem posesse o
ouvido ao ralo da porta da sua pobre cella, ouvil-o-hia pedir com
profundo arrependimento aos ceus misericordia para os seus peccados e
salvao para a sua alma. Para castigo dos affectos humanos, no se
poupava jejuns nem penitencias. Na boca dos irmos da sua ordem jmais
no orbe catholico brilhara jesuita de maiores virtudes. Quando em
reverente postura de resa e devoo se collocava defronte do seu
crucifixo, logo se poderia tomar por qualquer anachoreta da Nitria.
Ninguem  primeira vista o julgara desmerecedor de participar dos mais
subidos panegyricos das lendas hagiolicas.

Chegou de Roma em Companhia de Francisco Xavier no anno de 1540. Elle e
Francisco Xavier foram do numero dos jesuitas que o embaixador Pedro
Mascarenhas solicitara de Paulo III para se dedicarem no imperio das
Indias  converso dos idolatras e ao esplendor da f catholica. O
piedoso navarro decidio-se com Misser Paulo e Francisco de Mansilhas a
ir, por suas doutrinas e virtudes, ganhar entre o gentio o glorioso
titulo de _Apostolo das Indias_; mas o seu companheiro preferio que
el-rei Dom Joo o galardoasse com a menos obscura e penosa commisso de
director do collegio de Coimbra.

Era Simo Rodrigues,--o ladino padre mestre provincial que na sua
qualidade de poderoso valido de el-rei julgava prestar mais acrisolados
servios  causa de Deus e s venturas da patria.  certo que ao
benemerito Francisco Xavier deveram as Indias uma das mais heroicas e
soberbas paginas da sua epopa. Eis o que a tal respeito apregoam as
trombetas da fama[9]:

Uma noite, referem as chronicas, os soldados do rei de Achem entraram
na praa de Malaca, deram sobre as embarcaes ancoradas no porto,
queimaram parte d'ellas e ao romper da madrugada retiraram-se em triunfo
como se tivessem alcanado uma grande victoria. Encontrando um barco de
sete pescadores malaquinos, cortaram-lhes as orelhas e o nariz e com o
seu sangue escreveram uma carta prenhe de injurias ao governador
Simo de Mello. Accendeu em colera tam cruel insulto os habitantes de
Malaca e Francisco Xavier, movido de compaixo  vista dos pescadores
mutilados de modo tam barbaro, foi o primeiro a diser que logo convinha
vingar a injuria feita  nao portuguesa.

--No se deve, accrescentava elle, supportar semelhante violencia.
Cumpre embarcar, acodir em seu alcance e tirar todo o desejo de vos
insultarem segunda vez. Ainda digo mais: que sois obrigados a isso se
no quereis perder o nome e a reputao.

--Ns assim o entendemos, respondeu o governador, mas faltam-nos as
foras. As vossas embarcaes esto podres e incapases de servir. Para
espalmar as que temos seria necessario mais tempo do que para fabricar
outras de novo. De mais d'isso os inimigos so muitos e os nossos
alliados no podem soccorrer-nos com tanta promptido.

--E no ha outras seno essas difficuldades para superar, senhor
governador? lhe replicou Francisco Xavier. Pois bem est: eu tomo a
cargo o diligenciar que se concertem as embarcaes.

Voltando-se depois para os officiaes e soldados, lhes disse em voz grave:

--Deus est pela vossa parte, amigos e irmos, cavalleiros e soldados
de Jesus Christo. Em seu nome vos advirto que arredeis do espirito
qualquer temor e medo. Elle vos chama a uma guerra santa. Ou fiqueis
vencedores ou vencidos, a palma sempre ser vossa!

Marcha seguidamente para o porto, onde apenas achou sete fustas e um
catur  mingoa de tudo o que era necessario para se meterem ao mar. Alm
disso os armazens reaes estavam completamente vasios. No havia breu nem
resina nem estopa para calafetar as embarcaes. Faltavam armas, polvora
e outras munies para poderem combater. Recorreu ento a sete pessoas
abastadas e moveo-as a faser as despesas demandadas pela expedio.
Dentro em cinco dias poseram-se as fustas em estado de ir a corso.

Eram os portugueses ao todo 140 homens e embarcar tambem com elles
desejava Francisco Xavier; mas no o consentiram o governador e os
habitantes de Malaca.

O almirante portuguez encontrou no rio Parls a frota achenina e ento,
saltando a um esquife, com a espada em punho visita as suas embarcaes
e proclama aos seus soldados:

--Filhos de Jesus Christo, lembrai-vos das promessas de Francisco
Xavier. Das vossas mos depende a victoria. Os acheninos no nos podem
fugir e agora colhero o castigo devido  sua barbaridade.

--Todos pelejaremos, responderam os soldados, em defensa da lei de
Jesus Christo para se desaggravar a nossa patria e manter-se a nossa
gloria. Havemos de vencer. Descanae vs na nossa valentia e no despreso
que temos pela morte.

O almirante voltou para a sua embarcao e logo se avistou o inimigo
que, soltando estridentes gritos, fasia retinir todo o rio. Achava-se
disposto em dez linhas e cada linha constava de seis embarcaes com
excepo da primeira, que era de quatro.

Deram os inimigos uma descarga com toda a artilharia, mas sem
causarem damno algum aos portugueses. Seguidamente os almirantes
arremearam-se um sobre o outro e ambos disputaram largo tempo a
victoria at que a do almirante inimigo foi metida a pique. As outras
mais proximas, atravessando para salvarem a gente que nadava, voltaram
os flancos para as foras portuguesas. De maneira que essas mesmas
embarcaes serviam de estorvar as que vinham atraz, porque as da
seguinte linha vinham de encontro s da primeira, as da terceira contra
as da segunda e assim de tal modo que se dizia combatiam umas contra as
outras. Ento os portugueses despediram tres descargas successivas que
meteram a pique nove embarcaes grandes. Abordando depois s
embarcaes acheninas, saltaram dentro e degollaram dous mil soldados.
Vendo o resto dos acheninos a sorte dos companheiros, precipitaram-se no
rio em procura de salvamento; mas afogaram-se todos.

Nunca se proclamou victoria mais completa nem que menos custasse!

Lavrava todavia a consternao em Malaca. No chegara ainda noticia
da frota desde que sahira do porto. Debalde Francisco Xavier se esmerava
em socegar os habitantes e podia tanto com elles o medo, que em pouco
tempo se persuadiram de ser perdida. At alguns sarracenos tiveram a
ousadia de divulgar como noticia certa que os acheninos a desbarataram
completamente. A desconsolao por isso era geral na cidade e todos
tornavam a Francisco Xavier a culpa de se perder a frota. O piedoso
varo assegurava o contrario; mas ninguem se reconhecia no estado de
crer o que elle assegurava. Accusaram-no geralmente de ser a causa de se
perderem tantos homens valentes, zombando das preces que por elles fasia
a Deus e disendo irrisoriamente que s lhes serviam de suffragio para
suas almas.

Por fim o virtuoso varo declarou ao povo com um profundo convencimento:

--Deus  victorioso. Nossos soldados triunfam. Estou vendo os de Achem
banhados no proprio sangue. O nosso exercito em marcha triunfante deve
entrar sexta feira pelo porto de Malaca.

Chega entretanto Manoel Godinho e confirma tudo quanto fra annunciado.
Torna-se em viva alegria a entranhavel tristesa em que todos estavam. Os
ares retiniram com voses festivaes. Divisa-se o praser em todos os
rostos. Emfim entra o almirante na sexta feira pelo porto, bem cheio de
gloria e carregado com os despojos opimos da batalha!

    [6] Moeda de ouro mandada cunhar por Dom Duarte e depois refundida
    por Dom Manoel. Valia 1$600 reis.

    [7] Obr. de S de Miranda.

    [8] _Nov. diction. hist._ par une socit de gens-de-lettres, art.
    Kempis.

    [9] La Clede. _Hist. ger. de Port._




IV

O FESTIM DE BALTHASAR


Era Francisco Xavier um dos raros exemplos com que os jesuitas
poderiam alardear a santidade da sua universal associao; mas quem 
que em Lisboa se importava das virtudes do apostolo das Indias?

Por outras differentes rases se recreava Lisboa com folganas e festejos.

Desde o alvorecer da madrugada salvava com festival estrondo a
artilharia do velho castello.

Por todos os angulos do Rocio e do Terreiro do Pao resoavam alegres
musicas de atabales e clarins.

Grande parte das ruas e casarias se decoraram vistosamente com
galhardetes multicores, bambolins de murta e festes de louro e rosas.

Estavam preparados com sedas e damascos os toldos e os enfeites dos
escaleres reaes.

No tope dos mastareus das galeras e bergantins do Tejo viam-se tremular
flammulas e estandartes de todas as naes.

 que a crte portuguesa regalava-se com um dos mais esplendidos dias de
gala.

Ao bispo de Coimbra, Dom Joo Soares, bem como ao duque de Aveiro, Dom
Joo de Lencastre, fra commettido o honroso cargo de irem buscar a
Castella a princesa Dona Joanna e n'esse dia chegava esta guapa noiva 
cidade de Lisboa com o mais soberbo acompanhamento de gentis-homens e
equipagens que raras veses se vira em terras de Portugal.

Nada pouparam o faustoso Dom Joo de Lencastre nem o opulento Dom Joo
Soares para se mostrarem com a magnificencia que competia ao seu estado
e  sua posio.

Luxo e estrondo por toda a parte. Os mais ricos veludos serviam de
fasenda aos elegantes capirotes dos pagens. Eram sedas recamadas de
bordaduras de ouro os vestuarios dos condes e dos gentis-homens.
Custosos brocados de prata reluziam nos xaireis de centenares de ginetes
e no ao polido das armaduras dos arautos e reis de armas reflectia-se o
sol com raios coruscantes.

Nunca o povo de Lisboa se recordava de presencear festejos de tanta
vista e de tamanho esplendor. Era grande a alegria d'elle por isso. Ao
som de confusas charamelas soltava enthusiasticos vivas, e assim em
infernal confuso de vivas e descantes cada vez mais accendia os seus
enthusiasmos!

Ia-se acoutando o astro do dia nos abysmos do oceano,  mesma hora em
que nos reaes paos da Ribeira comeou a solemne recepo da princesa
castelhana e do seu apparatoso cortejo.

Todos na sala do throno vestiam com o mais apurado gosto e com uma
especie de luxo oriental. Eram principalmente as roupagens da rainha
adereadas da mais rica pedraria e do mais esquisito artificio.
Cingia-lhe a fronte um bello diadema cravejado de perolas e diamantes.
Cravejada tambem de preciosa joalharia decorava-lhe o peito a cruz
da ordem de Isabel a Catholica. O manto, finalmente, era guarnecido de
renda de ouro e pespontado dos castellos e quinas de que desde o
fundador da monarchia fasem uso os mantos regios[10].

El-rei envergava uma custosa vestidura de terciopello e cobria-lhe os
hombros alentados uma opa roagante de lhama de ouro e prata. Por cima
da curta cabelleira pousava-lhe na cabea um chapeu enfeitado com plumas
brancas, de aba erguida de um lado e presilha recamada de vistosa
pedraria. Emfim as bellas insignias do Toso de Ouro assoberbavam-lhe o
peito e da cinta pendia-lhe um dourado espadim em que relusiam meia
duzia das mais preciosas gemmas da colonia do Brasil.

Satisfeitas as varias ceremonias e etiquetas exigidas em semelhantes
conjuncturas, procedeo-se depois a um desses opiparos banquetes que
entravam na lista dos praseres dos monarchas de Babylonia.

De direito fez as honras da mesa el-rei Dom Joo III, ficando-lhe 
dextra a princesa de Castella Dona Joanna e ao lado esquerdo o poderoso
valido Antonio de Athayde. Em frente do velho monarcha sentara-se a
rainha Dona Catharina de Austria, cedendo a cadeira de honra a seu filho
o principe Dom Joo e a esquerda ao infante Dom Luiz de Beja.

Por sua grandesa e gerarchia ali estava resplandecendo tudo o que se
poder notar de melhoria nas ordens clericaes e nas raas aristocraticas
de Portugal.

No faltavam ao banquete, alm dos principes e mais pessoas da familia
real, o bispo de Coimbra, os arcebispos de Braga e Lisboa, o beato
jesuita Simo Rodrigues, o illustre Dom Joo de Lencastre, o chanceler
doutor Joo Monteiro, o desembargador Dom Gonalo Pinheiro, o nobre
Marquez de Villareal, o prudente Duque de Bragana e ainda tres dusias
de lusidos personagens que na maior parte representavam a curia de Roma
e as crtes estrangeiras.

Bellos vinhos de Caparica e Seixal, bons licores e as mais
esquisitas iguarias serviam-se com profuso. Os vinhos eram de
excellente paladar e por isso motivaram algumas alegres modificaes no
rigoroso codigo das etiquetas.

Foi Dom Joo III o primeiro personagem que se ergueu com a copa na
dextra. J no era o monarcha de severo e sisudo caracter. Mostrava-se
de faces rubicundas, olhos risonhos e maneiras joviaes. Nunca o seu
espirito se abrira com tanta expanso e tanta liberdade. Sorrindo com
alegria, olhou por um momento em derredor da mesa e proferiu
pausadamente as palavras seguintes:

--Sem lisonja o digo, senhores. Sobreluzem no semblante e no espirito da
mui alta e excellente esposa de meu presado filho Dom Joo todas as
graas e mais prendas que podem exornar a pessoa de uma princesa. Para
goso e ventura de todos os meus vassallos imploro de Deus lhe dilate a
preciosa vida por muitos annos. Sempre lhe tributarei n'esta crte as
mais ternas affeies como filha a quem muito amo e todas as homenagens
como princesa das mais excelsas virtudes. Por isso , fidalgos e
prelados da minha crte, que eu com summa alegria do meu corao
brindo agora  saude da nobre princesa Dona Joanna!

Todos os prelados e fidalgos levaram aos labios as preciosas amphoras
espumantes do saboroso Caparica, ao mesmo tempo que, de p e em
reverente postura, baixaram respeitosamente para Dona Joanna as radiosas
cabeas.

De branco vinho do Seixal tornou logo o monarcha a encher a Copa e
novamente se dispoz a abrir os diques  sua expansiva loquela.

--Grandes e senhores da minha crte, principiou elle, no deixarei
tambem de faser votos pela existencia e ventura do herdeiro do meu
throno. Piamente confio em que Deus lhe inspirar amor pela justia,
respeito s leis do reino e obediencia s doutrinas da nossa santa
religio. Firmam-se n'elle as esperanas dos leaes portugueses e
certamente meu filho se tornar digno por seus talentos e virtudes do
amor dos meus vassallos. Escuso de lhe declarar as affeies do meu
seio; mas saiba que eu o amo e preso como pai e como amigo. Rogarei
sempre aos cus nas minhas oraes lhe prospere Deus a preciosa
existencia... Que Deus lh'a prospere e viva por muitos annos o glorioso
principe Dom Joo! Meus senhores, perorou erguendo mais a copa e a voz,
viva meu filho o principe Dom Joo!

Um coro dissono e rapido de vivas eccoou pelos recantos do vasto salo
do festim. Principes e embaixadores, fidalgos e prelados ouviram com
enthusiasmo as ultimas voses de el-rei e todos a um tempo, levando 
altura dos beios as copas cheias d'esse valente liquido que _o peito
accende e a cor ao gesto muda_, soltaram o grito fremente de _viva o
principe Dom Joo! Viva o principe Dom Joo!_

Sentaram-se depois e por um pouco arrefeceram os gastronomicos delirios.
Apenas se escutavam o rangido frouxo dos talheres e as brandas passadas
dos criados. Foi porm de breve durao esta calmaria. Levantou-se o
Conde da Castanheira e, com fallas adamadas e gestos em demasia
palacianos, dispoz-se a discursar.

--Pedindo venia a vossas altesas serenissimas--comeou o poderoso
valido, cortejando com a cabea o monarcha e Dona Catharina--ouso
tambem manifestar a grande satisfao que me desperta o glorioso dia que
em tam esplendido banquete se commemora. O feliz consorcio do nosso
principe real  para todos os leaes portugueses motivo de felicitaes e
regosijos. Quem no ha de exultar com as virtudes varonis e prendas
naturaes dos augustos noivos? Permitti que vos saude, excelsa princesa!
Dae-me a liberdade de brindar  vossa ventura, augusto principe!

Dom Antonio de Athayde bebeo de um trago o vinho do seu calix e a tam
palaciano brinde logo corresponderam em coro todos os convivas.

Por seu turno ergueram-se ainda com os calices na mo o inquisidor geral
D. Henrique, o velho arcebispo de Braga e tambem Dom Joo de Lencastre.
Entresachados de latim e de textos theologicos se desenvolveram os dous
primeiros discursos, mostrando-se assim a erudio e sabedoria dos
respeitabilissimos vares que os proferiram. O de Dom Joo de Lencastre,
esse foi declamado na lingua espanhola em frase singela e correntia como
sendo de pessoa mais adestrada no jogo das armas que em torneios de
palavras.

Como nas mars dos oceanos, d-se tambem o fluxo e o refluxo nas mars
do enthusiasmo. Nem tudo, por esta raso, era delirio e voseria. O
silencio reinava tambem de longe a longe.

Silencio profundo reinava no salo do banquete quando, emfim, de um dos
recantos da mesa se levanta um mancebo de tez morena e bronzeada como a
dos povos da India.

Era o joven amigo do infante Dom Luiz de Beja.

--Monarcha Dom Joo, prologou elle com voz clara e rosto sereno, eu
venho como o profeta Daniel vaticinar-vos a sorte de Balthasar!

Mal fra proferida esta ameaa terrivel e j duas duzias dos mais
esforados fidalgos se adiantaram com o punho nos copos dos dourados
chifarotes.

O pagem no se intimidou, porm. Deu maior volume  voz e com o seu
placido gesto exprimiu-se ainda:

--No encareo as vossas virtudes nem culpo os vossos vicios, monarcha
Dom Joo; mas sempre vos imputarei a responsabilidade dos tremendos
crimes que se commettem na vossa crte...

--Crimes na minha crte! bradou o monarcha portuguez ao erguer-se da
cadeira como impellido por uma secreta mola.

--Admiro, replicou immediatamente a rainha Dona Catharina, que ainda no
vos dissessem que tentaram hontem assassinar vosso irmo o infante D. Luiz.

 inesperada revelao succedeo um momento de espanto e alvoroo. Quem
no presaria em Portugal a vida do infante? Presavam-na deveras assim
fidalgos como pees e por isso ninguem havia entre os nobres commensaes
que se no sobresaltasse com a nova de que a vida de Dom Luiz de Beja
correra imminente risco.

--Fallae agora vs, meu irmo. Por acaso premeditaram alguns sicarios
contra a vossa vida?

--Tentaram na verdade, placidamente respondeo a el-rei o infante Dom
Luiz. Hontem por alta noite fui eu acommettido por tres bandidos e
de certo dos seus punhaes seria victima innocente se me no acode
aquelle generoso pagem.

--Graas dou a Deus, volveu el-rei, por haverdes escapado do perigo. Mas
que foi feito dos assassinos? Justia rigorosa se far, meu presado irmo.

--Justia rigorosa vol-a reclamo eu! solemnemente bradou a rainha.

--Justia! justia! conclamaram todos os convivas.

Gradualmente foram esmorecendo as vingadoras exploses de enthusiasmo e
ento o monarcha portuguez, retirando-se bruscamente da mesa, fez
terminar esse festival e ruidoso banquete que, para dar em tudo
semelhanas do festim de Balthasar, s faltou que mo invisivel
escrevesse na parede as mysteriosas palavras _man_--_thcel_--_phars_!

    [10] Vid. _Hist. polit. e militar de Port._ por L. Coelho, t. I,
    pag. 249.




V

ORAES E JEJUNS REDIMEM TODAS AS CULPAS


Da casa do jantar passou a maioria dos convivas para um faustoso
salo em cujos moveis sobresaiam riquissimos estofos de cores amarella e
carmesim.

Aqui principiaram damas e fidalgos de se entreter com jogos de cartas,
girando a rodo sobre as mesas moedas de prata e ouro como se fossem
alcacer de Astrea os paos de el-rei Dom Joo III.

Dom Joo III, esse vamos vel-o no seu gabinete preoccupadamente sentado
em larga poltrona franjada de ouro e prestando a maior atteno s
fallas veneradoras de dous illustres personagens.

Estes personagens vestem com excessiva desigualdade no feitio e na
fasenda: traja o mais novo rico veludo roxo e o mais velho humilde
roupeta de estamenha.

Ser empresa difficil todavia distinguil-os no valimento e no poderio.
Ambos representam duas hierarchias eminentes: a nobresa e o clero.

So o padre mestre provincial Simo Rodrigues e o celebre Conde da
Castanheira, esse poderoso valido que grangeara famas de que n'aquelle
tempo ninguem se lhe avantajava nas partes de conselho e maduro
juiso[11].

--Juro-vos, estava asseverando o jesuita, que nada se descobrio. As
palavras d'esse estonteado badage motivaram-nas os vapores do vinho.

--O mesmo acredito eu, accrescenta o conde. A noite corria escura e a
empresa foi commettida a gente de confiana...

--Mas, interrompe el-rei, no me disseram j que o attentado se
baldou por artes do diabo ou por manhas de quem quer que fosse?

--Verdade , responderam ambos ao mesmo tempo.

--Em tal caso facilmente se poderia descobrir tudo...

--Os aggressores, acode o jesuita, acautelaram-se bem. Os chapeus e os
capotes deram-lhes panno de sobra para cobrirem as barbas e, quando
chegou o diabo, todos debandaram com prudencia.

--Tal accommettimento ha de ser sempre o dessocego do meu espirito!
desabafa el-rei.

--O bem do estado assim o reclama, volve por sua vez o conde.

--Dizes, conde, que o bem do estado nos moveu... O bem do estado seria,
mas porventura no peccamos ns contra os mandamentos da santa religio?
Receio, meu padre, o castigo da Providencia!

--Que pde recear vossa altesa real, o mais fervoroso filho de Deus?
replica o poderoso jesuita com extrema brandura.

--O castigo dos meus peccados, o castigo dos meus peccados...
Conheo que ordenei um assassinio. No terei eu, como Caim, manchado as
minhas mos em sangue fratricida? Meu padre, a colera do Senhor cair
sobre a minha cabea!

--A orao e os jejuns redimem todas as culpas...

Proferia Simo Rodrigues esta mistica sentena quando estalou na sala do
jogo um grande alvoroto de voses e passos.

Sobresaltou-se o monarcha Dom Joo como se novamente lhe retumbasse nos
ouvidos o tremendo vaticinio do pagem: _Eu venho, como Daniel,
profetisar-vos a sorte de Balthasar._

O Conde da Castanheira dirigio-se com prestesa para a soleira da porta a
colher noticia do alvoroto e, dando volta  chave, eis que frente a
frente se lhe depara a figura travessa do indio.

O badage, sem comprimentos nem venia, collocou-se em poucos passos
defronte do monarcha.

--No se enfade vossa altesa serenissima, lhe disse respeitosamente. 
natural o ruge-ruge que vos chega aos ouvidos, senhor. No provm de
rebellia nem de incendio. Toda a crte se alvorota e desconsola porque o
principe Dom Joo adoeceu repentinamente ao levantar-se da mesa.

--Asseveras que est doente meu filho, o meu querido filho Dom Joo?
inquire el-rei ao mesmo tempo que se levanta da poltrona com visivel
preoccupao.

--E doena de morte o accommetteu, prosegue o badage. Mas nada receie
vossa altesa serenissima, que _a orao e os jejuns redimem todas as
culpas_.

--Pards, assim ousaes chalrar com tal desassombro! prorompe o valeroso
conde carregando o sobrolho.

--Fallo a verdade sem rebuo e mais direi ainda se el-rei me permitte a
ousia de fallar.

--Sei que s ave de mau agouro; mas conta-nos tudo, conta-nos tudo!
volve o monarcha em profundo estado de abatimento moral.

--Pois sempre vos direi, meu rei e senhor, que propinaram veneno a vosso
filho o principe Dom Joo!

Cahio o monarcha na poltrona como se padecera os effeitos fulminadores
de um raio.

Assim alguns momentos se demorou em uma especie de glacial
insensibilidade sem que o jesuita e o conde se atrevessem a interromper
o silencio. Por fim ergueu-se tremulamente o monarcha e, no descobrindo
j o destemido badage, perguntou com voz desfallecida:

--Que  feito do pagem?

Olharam os dous validos para todos os recantos do gabinete, mas j no
avistaram ninguem.

No quiz el-rei que d'elle fossem em procura e, dirigindo-se para os
seus validos, lhes exprobra com friesa:

--Ahi tendes a vossa obra... Ahi tendes o castigo da Providencia! Quiz
Deus punir-me com a morte de meu filho, esse innocente filho que sobre
todas as coisas eu queria e presava. Mas ai de vs, senhores, ai de vs
e de mim se elle morre!

Os dous validos no aventuraram palavras de defesa ou de conforto com
que salvassem semelhante conjunctura e el-rei, deixando-os impassiveis
no meio do gabinete, sao pela porta a informar-se das clamorosas scenas
que occorriam.

--Trocaram-se os papeis provavelmente, resmoneou o Conde da Castanheira
logo que se viu a ss com o jesuita.

--Por certo, concluiu o antigo companheiro de Francisco Xavier em voz
mais baixa ainda. Vou crendo que o veneno, em vez de o tragar o infante
Dom Luiz, tocou desastradamente ao principe real. Feliz noivado, feliz
noivado!

Por fortuna a causa efficiente do bulicio parecia limitar-se a um leve
achaque estomacal de que o principe se queixara. Explicara o joven
principe que uma vertigem lhe estonteara a cabea e algumas nauseas lhe
trouxeram incommodos ao estomago, mas que j se sentia completamente
alliviado e fra de perigo.

De feito o sabio medico Francisco Lopes, tateando-lhe o pulso com o
maior cuidado, depressa declarou que a doena apresentava apenas o
caracter de uns passageiros effeitos gastricos motivados naturalmente
pelos molhos indigestos das iguarias.

Foi o principe recolhido  cama com todos os conchegos e, como
asseverava o discipulo de Hypocrates que os symptomas do accidente
no offereciam gravidade, os bellos e illuminados sales do pao
continuaram at deshoras a servir de entretenimento aos nobres fidalgos
e aos venerandos prelados.

No gabinete reentrou el-rei de espirito mais socegado e rosto mais ledo.
Uma certa dose de satisfao parecia resumbrar dos seus olhos asues e a
pallidez que pouco antes lhe amarellecera as faces fra substituida por
tintas rubicundas.

--Receei peor coisa, rumorejou elle esfregando as mos.

Atraz de el-rei saira logo o Conde da Castanheira e foi por isso o
jesuita a unica pessoa que se deixou ficar no gabinete.

Abrira sobre a mesa regia o seu predilecto livro _De imitatione Christi_
e, pelos signaes de concentrao que lhe transpareciam no gesto,
inculcava aproveitar-se do momento para erguer a Deus alguma fervorosa
prece.

No obstante disse pausadamente ao levantar-se da poltrona:

--Estava rogando aos cus que afugentasse desditas dos paos de vossa
altesa...

--Obrigado, meu padre. Jamais olvidarei o interesse que tomaes por minha
pessoa. Mas d'esta vez no succedeo perigo. Do sobresalto que soffremos
foi culpado smente aquelle estonteado badage.

--A no fallecerem justias n'este reino, cumpre que seja punido para
lio de rebeldes e escarmento de atrevidos. De que pensar  vossa altesa?

--Elle no tardar no tronco, meu padre. Mas agora outra coisa pretendo
saber em puridade: poderei eu remir ainda com obras e oraes as minhas
culpas?

--Est isento de culpas o corao de vossa altesa...

--Sei que sou um grande peccador!

--A alma de vossa altesa est limpa de mancha.  grande o amor que
professaes pela f catholica. No esquece Deus os beneficios que tendes
prestado pela igreja de Jesus Christo...

--Consolam-me essas palavras, meu padre. Em recompensa de tantas
consolaes haveis de lembrar-me o que vou prometter-vos: se no fr de
morte o mal de meu filho, contai para as festas do milagroso Santo
Anto com uma custodia de ouro massio e pedras preciosas...

--A graa de Deus seja comvosco...

--Prometto mais quinhentos crusados para compra de alfaias e paramentos
do culto...

--No deixarei jamais de rogar aos cus pelo bem do estado e pelas
prosperidades de vossa altesa serenissima...

--Lanai-me agora a vossa beno, meu padre.

--Real senhor, eu vos abeno em nome do Padre e do Filho e do Espirito
Santo!

Ajoelhou el-rei para receber a beno do jesuita e em tam humilde
postura de santidade poder-se-hia conhecer que nunca um piedoso monarcha
illustrara mais com suas devoes os fastos da monarchia portuguesa.

    [11] Frei Luiz de Sousa. _Annaes._ Parte II, livro II, cap. II.




VI

A CAADA


Alguns dias depois do casamento convidou el-rei toda a crte para
assistir a uma caada.

Ajaesaram-se logo os mais vistosos palafrens e os mais rapidos ginetes.
Desenas de creados afadigavam-se nos preparos dos nobres paos de
Almeirim e tudo ali se dispoz com o luxo de uma casa de fadas.

Chegou a crte aos paos de Almeirim por uma tarde enxuta e serena,
posto que bastante fria e nublosa a modo das tardes inglesas.

Era a vespera da campanha venatoria.

Na immediata madrugada foi servido um almoo leve e em seguida ao
almoo montaram a cavallo damas e fidalgos.

O monteiro-mr, a toque de uma ostentosa busina, repenicou o signal da
partida e ento el-rei, cavalgando ao lado da princesa Dona Joanna e
precedido por uma centena de ricos fidalgos, adiantou-se com a rapidez
de uma frecha em direco dos matagaes.

Abundavam as opulentas coutadas de Almeirim em caa grossa e miuda de
toda a especie. Veados e coras, lebres e coelhos e cabras monteses
costumavam fugir e saltar aqui e alm por entre as urzes e os giestaes,
por debaixo dos ramos dos sobros e das pernadas dos choupos. Porem a
raa canina via-se decerto em penosa mar de infelicidade. Latiam,
uivavam e remordiam-se os lebreus e os podengos sem conseguirem alcanar
uma lebre ou abocar um coelho.

Debalde se esperava nas clareiras a passagem de alguma pea grauda
quando alguns dos mais affoutos caadores resolveram entrenhar-se no
cerrado da floresta. Ahi, sim, deixavam de ficar ociosas as balas e a
polvora das clavinas. Os tiros rapidamente se succederam aos tiros.

Entretanto a maioria dos caadores ainda esperava nas clareiras. Em
posio de pontaria por veses ergueram elles ao hombro o cano polido e
relusente das espingardas, os latidos dos ces ouviram-se por veses a
curta distancia e os cavallos, ao cheiro aspero da polvora, escarvavam
impacientemente com as unhas ferreas na grama do solo; mas ainda no
passara ao alcance das balas uma s lebre ou um s veado.

Resolveram-se por isso desmontar e, aproveitando o exemplo dos primeiros
caadores, l se entrenharam egualmente por entre os verdes arbustos e
os robles gigantescos.

A rainha, a princesa Joanna, o cardeal Henrique e o badage foram as
unicas pessoas que permaneceram no mesmo sitio. Mas tambem depressa lhes
falleceu a paciencia de esperarem assim na sella dos cavallos.
Apearam-se pouco a pouco e a passos vagarosos foram passeando ao longo
de um renque de choupos.

--O tempo corre bem, disse a rainha dando principio  conversao. Temos
um ceu claro e magnifico; mas parece-me que no produz resultado a
caada.

--Tambm me parece, accrescenta a princesa Dona Joanna.

--Juro pelos Vedas que ainda hoje teremos fartura de caa, replicou o
pagem.

--Fallaste nos Vedas; mas que entendes tu por isso? inquiriu o sabio
cardeal cioso de desenvolver a sua vasta erudio.

--Eu vol-o digo se vos apraz, senhor.

--De bom grado escutarei. Dize l: que so os Vedas?

--Os Vedas formam uma grossa colleco de slokes ou estrofes escrita em
sanscrito sob a designao de Rig-Veda, Yadjur-Veda, Sama-Veda e
Atharvana. A todos os indios e povos do mundo, menos aos brahmanes, foi
por Vichnu, o verbo de Brahma, prohibida a leitura d'elles. Mais ninguem
sabe o que dizem e contm esses livros santos. Os brahmanes guardam-nos
to cuidadosamente nos seus pagodes como os usurarios podem guardar um
cofre de ouro. Conta-se que o poderoso Akbar, imperador mahometano, quiz
um dia conhecer as differentes religies dos paizes que lhe eram
tributarios e, como os brahmanes tenazmente se recusavam a
revelar-lhe os mysterios da sua crena, usou ento de um subtil
estratagema. Lembrou-se o imperador mahometano de enviar  santa cidade
de Benares um indiosito chamado Fietzi e, fasendo-o passar por filho de
um brahmane, foi o indio adoptado e instruido na linguagem e nos ritos
sagrados. De tal modo seria satisfeita a curiosidade de Akbar, mas
aconteceu que Fietzi se apaixonou por uma formosa filha do seu preceptor
e, arrependido da fraude, foi lanar-se em lagrimas aos ps d'elle e
tudo ingenuamente lhe confessou. Imagina vossa altesa qual seria o
procedimento do brahmane? Arrancou immediatamente do punhal para matar o
sacrilego! Por fortuna o brahmane cedeu aos rogos da filha, dando-a por
fim em casamento ao indio com a solemne condio de nunca em sua vida
trahir os Vedas[12].

Ainda o pagem se dispunha a proseguir na anecdota de Fietzi quando o
toque arrebatado e successivo das businas lhe fez dirigir a atteno
para outro ponto.

--Caa, temos caa? exclama com alegria Catharina de Austria.

Inesperadamente por baixo das ramagens do arvoredo mais proximo
appareceu e adiantou-se o corpo ameaador de um lobo.

Mostrava-se nas propores de um molosso reforado das patas, com os
olhos horrorosamente injectados de sangue, com a cabea de uma grossura
enorme e infundindo pela arrogancia do olhar todo o pavor que podem
incutir no espirito de um homem os animaes carnivoros.

Era bem curta a distancia entre elle e os desapercebidos personagens.
Alguns passos mais e logo as garras da fera encontrariam para repasto o
corpo delicado e fragil da rainha. Mas o molosso, por uma impresso de
medo ou qualquer motivo de surpresa, sosteve-se ali.

Com as patas vigorosas escarvando o tojo e os urzes, por momentos
estacou como se o prendesse pela cerviz um cadeado de ferro.

Esta demora de segundos foi, todavia, bastante longa para acodir o
badage. O corajoso rapaz depressa se postou fronteiro ao lobo.

Ia agora travar-se uma luta hortenda. Iam certamente repetir-se as
barbaras scenas do circo romano: o combate do homem contra a fera.

De feito o molosso arremessou-se ao badage. Erguer as patas e aventurar
um salto enorme, tudo foi obra executada com a rapidez de uma frecha.
Mas o badage, que se affisera s caadas dos tigres e dos javalis nas
florestas gentilicas da India, esperou-o com a firmesa de um athleta.
Quando o lobo se arremessou ao pescoo do indio na inteno de lhe
verter o sangue e lhe despedaar as carnes com o vigor das garras, o
indio de repente cravou-lhe na garganta a lamina de uma comprida faca de
mato.

A jorros espirrou o sangue da garganta da fera. Mas a fera no se
estorceu nem baqueou. Abrindo com maior furia as patas dianteiras,
apertou os hombros do indio e pretendeu esmagal-o com um amplexo terrivel.

O indio no conseguio resistir quelles musculos de bronze. Foi grande a
convulso que padeceu. Perdendo as foras e o equilibrio, cambaleou,
estoreu-se e cahio.

Na queda acompanharam-no as garras do lobo. Estava decidido que, em
holocausto da sua dedicao, o pobre mancebo perderia as foras e a
existencia. Quem lhe podera acudir nos apertos e nos trances de tam
medonha conjunctura?

Talvez os companheiros. Porm o susto levara o augusto cardeal a
esconder-se na toca de um carvalho e as duas delicadas senhoras seriam
demasiadamente franzinas de pulso para tam heroica defesa.

O badage, comtudo, no havia abandonado a coragem. Conservava na dextra
a comprida faca e lembrou-se de ainda faser uso d'ella. Por um momento
affrouxou o lobo a compresso das unhas e esse momento foi o melhor
auxilio que o badage podia receber.

No  mais rapido um relampago: erguer o brao e ferir novamente a fera,
eis os prodigiosos movimentos que elle fez.

O ao da faca despedaou agora as guelas do lobo e logo em maior
abundancia se inundaram as algas e folhas do cho com um lago de sangue.

A fora da fera cedeu por fim ao esforo do homem. O lobo cahiu,
estrabuxou e contorceu-se. Depois atroou as selvas com dous uivos
medonhos e perdeu os ltimos alentos de vida.

Quasi ao mesmo tempo resoa nos espaos a buzina do monteiro-mr e 
ento que no estadio da contenda se apresentam de facas e carabinas os
arredios caadores.

--Que novidades houve? inquire o monarcha ao passo que descana o cano
da espingarda ao tronco de um carvalho.

--Pards que no nos faltou susto! apostrofou o timido cardeal ao mesmo
tempo que se aventurava a sair da toca d'essa mesma arvore.

El-rei no pde conter a exploso de uma risada e todos, sem distinco
de gerarchias, expansivamente lhe seguiram o exemplo.

-- bom signal, affoutou-se a diser o pagem, que sua altesa esteja de
agradavel humor.

--Signal  de boa caada. No achas, pagem?

--Assim me parece, meu senhor.

--Mas que tens ahi? Que animal  esse?

--Meu senhor, so os despojos da caada.

Em seguida contou a princesa Dona Joanna as peripecias do fatal
acontecimento e logo de todos fra o pagem felicitado por sua valentia e
dedicao.

    [12] Cesar Cantu. _Hist. universal._ Edio francesa, tomo 1, pag.
    305.




VII

A LUTA


A rainha, forcejando por esquecer as extraordinarias impresses da
caada, recreava-se momentos depois na sua recamara dos paos de
Almeirim com a leitura das trovas populares do celebre Juan de Encina.

A tristesa empanava-lhe levemente o brilho dos olhos feiticeiros e a
cada minuto lhe assaltava o espirito de ideias desconsoladoras. Parecia
inquieta do animo como se adivinhasse alguma funesta novidade.

Entrou o pagem n'esta occasio e p ante p dirigindo-se para o lado
esquerdo da rainha, fitou-a com olhares de poetica melancolia.

--Estimo ver-te, pagem. Tenho passado aborrecida e ser muito do meu
gosto ouvir contar alguma faanha alegre. Sempre me dirs o que tens
feito...

--Nem tudo se diz, senhora.

--Sempre te conheci mysterioso. Mas agora, meu pagem, lembra-te de que
ests ao p de quem deveras te estima...

--Sei reconhecer a vossa amisade, senhora. O pobre pagem deixar-se-hia
estrangular pelas garras de um tigre s para vos compraser. No faseis
ideia da minha dedicao, no podeis medir a grandesa do meu amor!

A rainha estremeceu levemente como se a ferisse a ponta de um alfinete.

--Por ventura me tens amor? assim o interrogou com um sorriso jovial.

--Juro-o pelos Vedas.

--Mas no reparas nos meus annos? No vs claramente que j sou velha!

--Uma rainha nunca envelhece.  uma eterna primavera de florescencia e
de perfumes.

--Sendo verdade o que dises, reconheo que sou uma excepo.

--Senhora, esplendem em vs todas as graas e possuis todos os encantos!

--Ousado mancebo, no saberei regeitar as tuas galanterias; mas emfim
no sabes que uma rainha no deve amar ninguem? Contenta-te com a minha
estima. Dou-te a minha amisade e isso  bastante.

--Sabei que para vos amar, confidenciou o badage com a selvagem entoao
do seu paiz natal, pouco me foi preciso. Senhora, bastou o vosso
olhar... Mas para odiar-vos ainda ser preciso menos. Escolhei...

--Escolhe tu, pagem.

--Escolho o vosso amor!

--Comprehendo; mas que provas queres tu que eu te d, que exigencias por
acaso imaginas impor-me?

--Concedei-me tudo quanto vos pea.

--Com algumas condies...

--Sou orgulhoso. No admitto condies. Disei se sim ou no.

--Pois bem, prometto.

O pagem, com o enternecimento de Othello ouvindo a Desdemona a primeira
revelao de affecto, estremeceu fibra a fibra de alegria.

--Obrigado, lhe agradece com enthusiasmo. Ides faser a felicidade do
pobre pagem. Mil veses obrigado, senhora!

--Mas ento que pretendes de mim? volveu-lhe a rainha com uma espontanea
expresso de carinho.

--Quasi nada e todavia pretendo tudo.

--Dize...

--Quem sabe se vos offendo! Talvez me no atreva...

--Fases mal. Eu gosto das pessoas temerarias...

--Deixai-me, senhora, dar-vos na face... na, face de rosa... um beijo...
um beijo unico!

--Mancebo, retorquiu Dona Catharina com accento grave e de rosto em
plena calma, sabers que a palavra de uma rainha no falta ao que
promette. Aqui tens a minha face! O pagem com a rapidez de uma frecha
aproximou-lhe do rosto os labios cubiosos e ali imprimiu com
soffreguido um beijo escandecente como as lavas do Etna.

Immediatamente, como possuindo-se de vergonha e respeito, fugiu com
prestesa da recamara.

-- certo que tambem lhe consagro eu alguma coisa mais do que amisade,
ficou a rainha pensando agora. Grande corao aquelle!  capaz de todos
os heroismos e todavia diante de mim parece uma criana cheia de
timidez. Parece decerto uma criana. Mas quem o no  em taes
circumstancias de enleio e talvez de demencia? Amor, amor! s o mobil de
todas as aces esquisitas, porque s o germen de todos os pensamentos
humanos. Jamais se realisam os teus desejos e todavia ninguem deixa de
sujeitar-se de boa vontade ao teu jugo. Queres e no queres, acaricias e
odeias, confias e desconfias de tudo ao mesmo tempo. Foi sempre voluvel
o teu caracter como voluveis costumam ser as ondas do mar. s a gota de
agua que fertilisa a aridez da vida, s ainda uma redoma de perfumes e
um sacrario de virtudes; mas tambem s um elemento de odios e um
antro de vicios. Socrates no saberia definir as tuas virtudes; Hercules
no poderia medir-se com a tua fora. Homens e mulheres egualmente
abrigam e sentem nas fibras dos seios as tuas chammas e os teus
effeitos; porm quem logrou ainda sondar os teus arcanos, quem
porventura conseguiu explicar os teus mysterios?

N'este comenos transpunha o pagem uma sala immediata  luxuosa recamara.
Depois, abrindo uma porta gigantesca, predispunha-se a entrar no vasto
corredor do palacio quando quatro alabardeiros do servio particular de
el-rei lhe impedem a passagem.

--Acompanha-nos, meu caro.

A esta desceremoniosa intimao de um dos quatro soldados o badage
retorquiu orgulhosamente:

-- ordem de quem?

--Manda el-rei nosso amo e senhor. Obedece!

--Preciso primeiramente conhecer-vos. Em guarda, belleguins!

O pagem desnudou a fiel espada com a ligeiresa de quem d'ella se
sabia servir a tempo e horas e, recuando tres passos, aguarda com animo
frio a aggresso dos alabardeiros.

--Mos  obra! ordena um d'elles. Faa-se por mal o que se no pde
faser por bem. Pagars cara a temeridade, meu criancelho!

 luz baa do corredor montantes e alabardas em poucos momentos se
disposeram a comear o seu officio.

Era vasto o corredor; mas todos conservavam as mesmas posies. O
badage, mestre consummado no jogo da espada, no deixava adiantar uma
polegada aos quatro contendores. Ninguem, resuscitando o pomposo estylo
do padre Vieira, soube ainda com mais garbo e valentia brandir a lana,
erguer a espada e fulminar o montante. Crusavam-se as armas, acachoavam
diabolicas imprecaes, empregavam-se titanicos esforos para se decidir
da contenda; mas o badage parecia sustentar nas mos de bronze a clava
de Hercules.

--Com mil demos! rugiu um dos alabardeiros ao cambalear no soalho com o
desiquilibrio de um ebrio.

--Sinto-me ferido! regougou o segundo camarada ao largar a alabarda com
desanimo de uma vez para sempre.

Eram agora smente dous os inimigos do badage. Mas um d'elles
principalmente no affrouxava os golpes. Era de todos o mais alentado e
o mais temerario.

--Aposto que me no conheceste ainda, meu crianola!

O badage retorquiu-lhe:

--Parece-me que j nos encontramos, sicario.

--Por signal que te acompanhava um alto personagem. Bella noite aquella!

--Covarde! Eras tu quem de emboscada queria assassinar o infante Dom Luiz?

--Tens memoria, meu fidalgote. Nem mais nem menos... Olha bem para mim:
sou o teu conhecido Jacobo.

O badage retrocedeu meio passo e por dous momentos apresentou a
descoberto a arca do peito. Aproveitou este arriscado estratagema para
triunfar do seu terrivel adversario, porque Jacobo, julgando certeiro e
infallivel o golpe, resolveu apenas valer-se da vantagem de ferir o
pagem. Todavia o denodado mancebo, por meio de uma rapida manobra,
desviou o corpo e arremessa a ponta da espada em direitura do contendor.
Em um abrir e fechar de olhos rasga-lhe a carotida e completamente lhe
atravessa o pescoo de lado a lado!

Ouve-se ento um clamor horrendo.  testa de uma dusia de archeiros e
familiares do Santo Officio com ascumas e espadas acode tumultuariamente
o jesuita Simo Rodrigues, o qual, primeiro que o pagem aproveitasse
ensejo de evaso, com arrogancia o intima a render-se por ordem de
el-rei.




VIII

OS ESTAUS


Ao indio amarraram os pulsos com rijas cordas e violentamente o
conduziram dos paos de Almeirim  residencia inquisitorial do Rocio.

Aqui foi, sempre debaixo de uma orchestra de apupos, introduzido na
abobada subterranea que servia de encerro, onde lhe vestiram uma casula
ou escapulario de panno amarello com cruses de Santo Andr pintadas de
vermelho assim por diante como por detraz.

Era o carcere um espaoso quadrilongo lageado de tijolos, sustentado por
vastas arcadas e com paredes lavradas de cantaria. A humidade, o
frio e todas as inclemencias da invernosa estao ali contrariavam
sobremodo todos os elementos de hygiene. Ausencia radical de mobilia, de
conforto e ambiente puro.  propria luz do dia, que  propriedade que
Deus reparte sem restrico por todos os seres racionaes ou irracionaes,
era quasi totalmente prohibido o accesso. Para bem se descrever
precisava-se do estylo de Victor Hugo: era, em frase do grandioso poeta,
morada onde no havia ar no vero, onde no havia fogo no inverno, onde
no havia po nem de inverno nem de vero. Morada lugubre do mysterio e
do crime, quella especie de catacumbas romanas de proposito se
imprimira o caracter de infecta e lobrega sepultura a que faltava apenas
a terrivel inscripo do inferno do Dante: _lasciate ogni speranza!_

Tres dias successivos viveu o pagem a codeas de po e a goles de agua
sem que lhe indicassem a sorte de supplicios que lhe cumpria padecer.
Unicamente communicava com o alcaide ou carcereiro, cerbro de aspecto
extremamente alvar e discreto de lingua como um rochedo. Todavia o pagem
no se incommodou com o seu estranho encerro. Naturesa moldada a
todos os vaivens da fortuna, a transio da ventura para o infortunio
era quasi para elle um phenomeno insensivel. Sempre se dispunha com
animo inquebrantavel a experimentar quaesquer acontecimentos por mais
extraordinarios que fossem.

--Na verdade, monologava elle em mar de maior expanso, tem suas rases
o procedimento de Simo Rodrigues. Confesso que a sua senhoria no era
affecto nem adstricto de maneira que podesse facilmente dispor dos meus
servios e, juro-o pelos Vedas, no se enganou de todo o ladino jesuita.
Mas eu prometto ainda, meu padre, prometto ainda pagar-te juros e
capital na mesma moeda. Pards que havemos de saldar contas!

S ao entardecer do quarto dia  que foi o pagem visitado. O proprio
Simo Rodrigues lhe appareceu disfarado nos trajos de familiar do santo
officio.

--No ignoras, lhe disse depois de algumas palavras de comprimento, no
ignoras, meu filho, que peccados te condusiram a estes lugares. Escuso
de avisar-te que, por teu mal, s accusado, na qualidade de christo
novo, de rebelde s praticas da religio e de Deus...

--Quando se no pde esmagar a vibora, respondeu-lhe corajosamente o
pagem, foge-se pelo menos da sua presena. Eu devera fugir para longe,
embora procurasse nas brenhas dos sertes do Mandovy a companhia das
onas e dos tigres. Mas sem cautela me deixei quedar n'este paiz de
fanatismo e de crimes. Por isso me no reconheo justia de queixar-me.
Aqui me tens agora, bem disposto de alma e corpo a escutar as tuas
fallas e  espera dos teus castigos. Adivinho o que me espera: antes do
barao da forca o soffrimento da masmorra, ou talvez, para mais demora
das derradeiras agonias, a tortura da fogueira...

--Estranha linguagem  essa, volveu-lhe com brandura o jesuita. De
certo, pobre mancebo, o teu cerebro no regula assisadamente. A falta de
crenas e de f estiolara o vigor do teu espirito. Quem te manda ser tam
orgulhoso? Lembra-te que  virtude evangelica a humildade. Os humildes
sero exaltados e os orgulhosos abatidos conforme a palavra infallivel
do Evangelho.

--Meu padre, embora me chames hereje ou christo novo, aprecio as
bellesas e virtudes da religio catholica. Por ella abandonei as crenas
de meus paes e as tradies seculares da minha raa. Voluntariamente
recebi o baptismo das mos de Antonio Criminal e desde ento para sempre
se inflammou no meu espirito o amor acrisolado do Deus dos christos. De
bom grado lidarei por toda a vida em defenso da cruz e da f. Porm no
quero, meu padre, seguir os teus preceitos e abraar as tuas doutrinas,
No quero que me obrigues a pensar a teu sabor, repugnam-me todas as
peias impostas  liberdade de consciencia, abomino emfim o jugo atroz a
que a vossa oligarchia clerical reduz o espirito humano. De outro modo
bem diverso comprehendo os deveres do homem. No basta a Deus que o
amemos sobre todas as coisas? No basta ao rei que se seja bom cidado?
Obedecer s leis, dar exemplos de bons costumes, estimar a familia e
defender a patria: eis tudo!

--Fallas bem, mas no convences. Amor de Deus e obediencia ao rei no
bastam.

--Dize-me ento quaes so as leis que governam o mundo. Explica-me
todos os mysterios do teu governo e da ordem inquisitorial.

--Em duas palavras se resumem, criana: _mandar e obedecer_.

--Mas a quem se obedece, meu padre? A Deus, ou aos seus missionarios na
terra? ao nosso rei, ou aos aulicos miseraveis que, usurpando-lhe o
sceptro, abusam da indole e fraquesa do rei?

--Vou mostrar-te a quem .

A esta laconica e mysteriosa ameaa chamou o jesuita pelo silencioso
carcereiro, a quem ordenou, ainda com maior laconismo, estatelasse o
pagem no segredo.

O carcereiro puchou por uma das argolas de ferro pregadas na parede e,
mediante um alentado esforo, depressa fez sobresair uma abertura da
capacidade de tres palmos de largo e uns sete palmos de alto.

Guardando sempre o mesmo silencio, pegou do corpo do badage como se
lidasse com uma pluma de ave e, comeando de lhe introduzir os ps e as
pernas, fechou-o com celeridade na mysteriosa crypta.

A nova priso era uma especie de armario de granito cuja parte superior,
 semelhana de um enorme funil, apresentava geometricamente o desenho
de uma figura conica.

Sendo armario como parecia, abundava em estantes ou prateleiras, mas
prateleiras de gosto e feitio a darem ideia aproximada das divises
funerarias de que se formam as capellas dos nossos cemiterios.

--Sepultam-me vivo estes sacerdotes do Senhor, pensou o pagem. Est
decidido que de aqui s se vae para o ceu ou para o inferno.

Mas o pagem, mal se lhe proporcionava ensejo de criar este lugubre
pensamento, viu escancarar-se de novo a tampa do seu sepulchro.

--Podes sair, ordena o jesuita.

--Bem ruim gracejo, meu padre. Julguei asphixiar como se fosse um perro.
Nem luz nem ar e sobretudo um cheiro, a vermes podres que deveras me
incommodava o nariz.

--Pois arrepende-te dos teus erros. Os bens da terra no os merecem os
peccadores que a todos os momentos offendem a vontade de Deus.
Reconhecendo as leis e o dominio da nossa ordem, ters para sempre
o socego do teu corpo e a ventura do teu espirito. Os filhos de Jesus
Christo, a despeito de parecerem os ultimos pela modestia do habito, so
hoje por todas as partes do mundo os primeiros na fora e no poderio. Ai
do insensato que julga encravar com um dedo a roda dos seus triunfos!
Por isso, meu filho, expulsa quanto antes do teu seio as glorias vans do
mundo secular. Em vez do gibo de velludo ou do cossolete de ao polido,
enverga o saio de estamenha e abraa o lenho sagrado de Jesus Christo.

O jesuita, deixando novamente a ss o badage, retirou-se a passo lento.

Vendo-se agora o badage n'quella solido tremenda, por mais uma vez
relanceou as vistas em redor do carcere.

A argola puchada pelo carcereiro inflammou-lhe a imaginao e, querendo
descobrir o segredo de outras argolas identicas, adiantou-se em
direitura da parede.

 imitao do homunculo, puchou com fora. Era uma argola de ferro
carcomida pela ferrugem de alguns annos. Ella parecia ceder ao
primeiro empuxo; mas ficou segura e fixa como se a pretendesse
abalar o pulso de uma criana. Novo empuxo com maior violencia e ainda,
todavia, se no obteve mais feliz resultado.

--A questo  de geito, considerou o pagem.

Com effeito, sem exigir metade do esforo a argola cedeu  sexta ou
setima tentativa.

No bojo da parede, ainda que de frma differente do armario de granito
onde fra introduzido o badage, manifestou-se uma crypta de genero
egualmente lugubre. Formavam-na quatro paredes escuras de dez ou doze
palmos de largo e deseseis ou desoito palmos de altura. Nada inculcaria
de notavel a no ser uma especie de feretro levantado no centro do
pavimento. O feretro, que era fabricado de pedra tosca em harmonia com
todo o escondrijo, servia de asylo a um esqueleto de mulher. Os braos e
tronco, as pernas e a caveira ali se viam com a pelle arroxeada e os
ossos amarellecidos pelos effeitos da podrido.

O badage, pensando na sorte das malaventuradas creaturas, sentiu ainda
mais activa a prurigem da curiosidade. No cuidando de fechar a
porta do escondrijo, lembra-se de percorrer a trechos a parede. Lanou
as mos a segunda argola e eis que lhe apparece novo escondedouro. No
tem sarcophagos, nem feretros, nem prateleiras, nem divises. Menos alto
do que largo,  simplesmente uma grande caixa de pedra. No pavimento
amontoam-se braos encrusados, pernas desconjuntadas e caveiras s
duzias. Era uma pilha putrefacta e immunda de caveiras e esqueletos
humanos: um repulsivo e fetido ossario emfim.

Nuvens de fumo espesso e acre vieram entretanto invadir pouco a pouco o
espao do carcere. Cada vez se pronuncia mais um cheiro violento de
substancias asphixiadoras. Ficam por todo o espao predominando esses
dous inimigos dos pulmes: o acido carbonico e o acido sulphydrico.

Esta horrivel atmosphera devia naturalmente influir nos sentidos e na
organisao do badage. Influiu. A cabea entonteceu-lhe e, cambaleando
como um ebrio, cahiu na distancia de algumas polegadas das caveiras e
esqueletos do ossario!




IX

O CARCEREIRO


O badage irremediavelmente morreria asphixiado pela aco dos
vapores deleterios se o carcereiro, cuidando de abrir uma larga janella
situada ao fundo do calabouo, no permittisse rapido ingresso a uma
camada violenta de ar.

Abertas as portas da janella, os fluidos atmosphericos vieram
naturalmente substituir os vapores do enxofre e assim em poucos momentos
se restabeleceu nas gemonias inquisitoriaes um ambiente mais ou menos
salutar.

O badage acreditou na sua ressurreio.

--Obrigado, obrigado. Antes estourar de uma cutilada de mouro de Asamor
do que morrer abafado como um perro. Com mil brecas!

--Poupe os seus agradecimentos, resmoneou o carcereiro. Fiz apenas a
minha obrigao. Mandaram-me que o no deixasse morrer e eu obstei a que
morresse. Mandassem-me o contrario, eu o contrario teria feito sem tugir
nem mugir e vossa merc, fra de duvida, morreria sem remisso nem aggravo.

--Comprehendo, observa-lhe o badage, que influa mais no teu espirito a
religio do dever do que a da misericordia. Mas tambem  certo que
debaixo d'esse pello de perro austero e selvagem tens ou deves ter uma
alma. Por ventura deixarias morrer,  guisa de fera estorcida na jaula,
um pobre homem nascido e criado  semelhana de Deus?

--Desempenho  risca as ordens que me do. Para isso me sustentam e pagam.

--Ento se te dissessem--_estrangula tua irman e assassina tua me!_ tu,
em obediencia  malvadez do amo, julgarias cumprir com o teu dever?

--Por Deus que ninguem me obrigava a tirar a vida a meus irmos ou a
meus paes!

--Mas supponhamos que assim acontecia...

O carcereiro experimentou uma ligeira contraco de nervos, estendeu com
gestos de ameaa terrivel os braos musculosos e regougou em bruscos
termos como se disposesse da voz do trovo:

--Eu, escravo, em caso tal arrancaria com estas garras de hyena a lingua
do meu amo!

--No te fallece por tanto uma certa intuio do bem e do mal. Por
instincto ou raso natural, sempre dispes de uma certa faculdade
pensante que te diz no ser infinita a orbita dos teus deveres servis.
Reconheces em summa que o universo  maior...

--No comprehendo bem. Um desastrado carcereiro no pde saber de letras
nem sabe o que so ideias.  um co de fila a quem disseram: _guarda
esse rebanho e no fim de cada mez recebers as gorduras de uns tantos
ossos_. O co desempenha cada dia o seu servio de guardar e jmais se
importa que o rebanho seja de ovelhas limpas e alfeiras ou bravias e
tinhosas. Obedece  voz de quem manda.

--Mas porque obedeces tu?

--Porque me pagam.

--Logo, obedeces a quem te paga...

--Est visto.

--Logo, o servio est em relao com a paga: maior paga, melhor servio.

--Naturalmente.

--Logo se eu te pagar maior quantia do que a que tu percebes como
carcereiro, depressa abandonars a profisso de carcereiro...

--Nem mais nem menos, meu fidalgo!

--Dize-me ento: quanto ganhas n'esta enxovia?

--Conta redonda: 150 crusados por anno.

--150 crusados por anno correspondem a pouco mais de 12 crusados por mez
e a menos de 200 reis por dia. Julgas que no  pouco?

--Deveras  muito pouco para quem se v obrigado a sustentar mulher e
filhos...

--Ah, tambem tens familia?

--Quem no tem familia, meu fidalgo?

--De certo no sabes quem eu sou. Eu vivo sem paes, sem irmos e sem
parentes. Disem que sou um christo novo! Sou talvez um apostata,
um reprobo, um paria! Vivi por longo tempo na innocencia e no socego dos
sertes. Meus paes e meus parentes nutriam-se dos cachos das palmeiras,
com todo o fervor das suas almas fasiam as suas oraes no templo de
Trichandur e as tempestades da desgraa jmais varreram tanto o repouso
do seu corpo como as crenas do seu espirito. Mas um dia[13]
nos mastareus de enormes galees appareceu arvorada a bandeira lusitana
n'esse grandioso imperio onde[14] _as plantas so fructos,
as aguas perolas e as pedras preciosas_. Esta bandeira significava o
symbolo da f; era o labaro da paz e da fraternidade. Por isso de todas
as cidades e aldeias se receberam os companheiros de Vasco da Gama como
irmos e amigos. Estabeleceu-se a troca dos generos, entabolaram-se
todas as transaces commerciaes, vendiam-se pelos brocados de seda e
pelos tecidos de lan ou de algodo o coral e o marfim, as perolas e o
ouro, a canella e toda a casta de especiarias. Mas, ah, depressa a
cobia das riquesas transtornou a paz e a ventura das Indias! Em vez da
troca e dos contractos mercantis, os portugueses foram preferindo
as dadivas e a vassalagem por no desmentirem que chegavam _tam mortos
de fome como vivos de cobia_[15]. Accendeu-se ento por
toda a parte o facho da guerra e da discordia. Familias inteiras
perderam a fasenda e a liberdade, povos inteiros perderam a familia e a
existencia. No te farei a resenha dos roubos e das violencias, dos
combates e dos incendios. Basta saberes que foi assim que eu fiquei s
no mundo: sem patria, sem dinheiro e sem amparo...

--Uum, uum! No sei se acredite o que me diz, atalhou o carcereiro. No
acredito de certo. Vossa merc ou vossa senhoria  mais do que inculca
ou inculca mais do que .

--Ento que favoravel ou ruim ideia fases de mim?

--Imagino que seja algum fidalgo poderoso.

--No sou fidalgo.

--Pelo menos algum conde...

--Enganas-te.

--Meu senhor, ninguem, sem que seja de altas hierarchias e de
singular poderio, gosa da honra de entrar aqui. Para simples pees no
foram feitas as seguras grades e as grossas paredes que sustentam estas
abobadas.

--Tens raso. Nada sou do que dises e sou todavia muito mais que tudo isso.

--Algum marquez?

--Mais!

--Algum duque?... O snr. duque de Lencastre, o snr. duque de Bragana, o
snr. duque de Viseu?...

--Mais, muito mais!

--Acima de um duque nada conheo. So os maiores fidalgos do reino.
Ninguem acima d'elles a no ser sua altesa serenissima o senhor Dom Joo
III.

--Pois recorda-te bem. Ha ainda quem valha mais de que el-rei!

--Mais do que el-rei?

--Muito mais, muito mais!

--Aposto, aposto! Em nossos reinos juro e aposto que no ha quem valha
mais do que el-rei nosso amo e senhor!

--Vaes sabel-o j...

--Pois quem , quem ?

--Alguem .

--Mas quem?

--Simo Rodrigues!

O carcereiro poz-se a matutar por alguns momentos. Depois aventurou dous
passos ao longo do calabouo, estalejou emfim com a mo direita uma
palmada na testa e disse pausadamente:

--Na verdade o jesuita  poderoso. Vale mais em foras e poderio do que
um duque...

--Mais que o monarcha. O monarcha tem a cora na cabea e o sceptro na
dextra; mas isso tudo no passa das vans insignias da realesa. Vale
menos o manto de terciopello do que o saio de estamenha. Perante a
vontade inquebrantavel de Simo Rodrigues tudo averga e affrouxa como o
vime, se quebra e desfaz como o vidro. Elle governa o estado em nome da
igreja; em nome da religio escravisa a nobresa e o povo, essa cohorte
de hebreus sempre amaldioada pela igreja. Tudo lhe obedece piamente e 
el-rei o primeiro escravo que lhe obedece...

--Assim , assim .

--Todavia Simo Rodrigues teme e reconhece a fora e as traas de alguem...

--O papa?

--No.

--O snr. Conde da Castanheira, que vale tanto como o papa?

--Tambem no.

--Pois quem ?

--Eu!

--Vossa senhoria, meu fidalgo, sempre me parecera muito rico e muito
poderoso...

--Em verdade sou e no sou. Mas nada mais te digo. Se queres saber quem
sou, experimenta, experimenta...

--Que devo faser ento?

--Deves desaferrolhar-me a porta do carcere...

--Perco o meu emprego.

--Quanto vale o teu emprego?

--Vale mais de 100 escudos.

--Ters 500 escudos, ters 1:000 escudos. Queres vender a minha
liberdade por 1:000 escudos em boas moedas de ouro?

O carcereiro esgaseou attonitamente os olhos e respondeu com firmesa:

--Por 1:000 escudos vende-se a alma ao diabo. Quero, meu fidalgo!

--Fases bem, fases bem. Estas abobadas cheiram a vermes podres e a
cadaveres queimados!

    [13] Vasco da Gama aportou ao reino de Calicut em 20 de maio de
    1499.

    [14] Conde da Ericeira. _Portug. restaurado._

    [15] D. Joo de Castro. Carta da India a D. Joo III.




X

VANTAGEM DE DOUS CONTRA UM


Preparava-se o badage para se escapulir do carcere quando o
homunculo, em attitude de lhe embargar a passagem, desfechou das suas
guelas herculeas uma estridente cascalhada de riso.

--Meu fidalgo, regougou elle, julga que eu seja de animo tam simplorio
que lhe favorea a escapula sem primeiro arrecadar no bolso os mil
ducados promettidos por vossa senhoria? Pards que me rio com vontade,
meu fidalgo!

--Fallas com prudencia e siso. Quem deve, paga. Eu, em troca da minha
liberdade, devo dar-te 1:000 escudos. Devo-te portanto 1:000
escudos em ouro ou prata. Mas esse dinheiro, embora seja em perolas de
Ceylo ou em ouro de Ophir, difficilmente se arrecada no bolso do gibo.

--Pois, meu fidalgo, teremos o contracto desmanchado... Demais, quasi
estou repeso do que fiz. As ms aces produsem o effeito da ferrugem
nos metaes: fasem mossa na consciencia. Porventura merecem os meus amos
que os atraioe? Pagam pouco,  verdade. De que valem 150 crusados? De
que valem elles? Uma ninharia que no chega para a cova de um dente e
no  preciso que o dente seja de elefante. Mas emfim sempre me pagam...

--Percebo, percebo. Sabes que mais val um passaro na mo do que dous a
voar. D c, toma l. No  isso? Pois eu vou satisfaser os teus desejos.

O badage pediu um tinteiro e sobre meia folha de papel escreveu com
letra maiscula o seguinte bilhete:

Dona Catharina de Austria, rainha de Portugal, entregar ao portador a
quantia de mil ducados em ouro ou prata. Do crcere da inquisio
do Rocio, aos 29 de desembro de 1553. Pedro, o pagem.

--Toma, disse depois ao homunculo. Este bilhete vale bem o teu dinheiro.
Ficas satisfeito?

O carcereiro empolgou a meia folha de papel e com soffreguido o
perpassa duas veses em frente dos olhos. Quando lhe cresceu tempo de o
ler, curvou a cabea em testemunho de respeito e contrictamente resmoneou:

--Meu fidalgo, bem adivinhava eu a estirpe de vossa senhoria! Tem
relaes com sua altesa serenissima Dona Catharina de Austria, um
corao de bondade como no ha outro mais protector dos pobres e dos
infelises. Que immensa gloria, que felicidade a minha em topar com tam
boa e poderosa gente! Beijo-lhe as mos, meu rico infanto. Agora sim.
Para tudo quanto precise tem s suas disposies o servo mais humilde e
mais dedicado. Prompto, meu amo! Logo ou manhan, agora e j, sempre e
sempre me disponho a servil-o. Palavra de homem honrado: quer partir j?
quer que se bote o fogo a esta casa maldita? quer que se espatife
com um cutelo a cabea do snr. Simo Rodrigues? Eu obedeo como deve
sempre obedecer o servo, o escravo. Ordene, meu fidalgo!

--Muitas veses nos arrependemos da maxima confiana. Sou de aviso que
primeiramente recebas o premio dos teus servios. Vai e volta depois.
Porventura no receias que te engane?

--Meu amo, replicou o alcaide ao mesmo tempo que rasgava com nobre
desinteresse o seu papel de 1:000 escudos, de hoje por diante ficarei
sempre s ordens de vossa senhoria illustrissima. Ja pouco me importam
os meus ducados. Podemos partir quando queira, meu nobre senhor...

Ouviu-se ento uma voz dissonora como a furia do vendaval.

--No partireis! trovejou Simo Rodrigues ao assomar com passo grave no
portal do sombrio ergastulo.

Infelizmente para elle, o jesuita commettera um acto de rara
imprudencia. Vinha s. Affeito  cega obediencia de um numeroso exercito
de clerigos e alabardeiros, confiadamente se apresentou  porta do
carcere sem soldados nem sequito.

O badage e o carcereiro ficaram com o espirito indeciso. Ambos conheciam
at que ponto alcanavam a sagacidade e jurisdico do jesuita.
Bastar-lhe-hia um gesto ou uma palavra para todos  porfia executarem
immediatamente as suas ordens. Por isso no deixava de ser melindrosa a
situao. Mas depressa o badage e o carcereiro comprehenderam a vantagem
que levavam ao jesuita: dois contra um  sempre uma vantagem.

Simo Rodrigues entrou no carcere e o homunculo adiantou-se para a
umbreira da porta. A porta era solida e perra; mas o pulso vigoroso do
homunculo fel-a girar nos gonzos sem difficuldade e logo em um abrir e
fechar de olhos lhe correu com a chave a lingueta da fechadura. Depois,
tomando a preveno de esconder a chave no bolso das calas, foi
augmentar o grupo do jesuita e do badage.

O jesuita fallava assim:

--Pagem, quiz ganhar de el-rei o vosso perdo. Mas el-rei nosso amo no
quiz perdoar os vossos crimes e vs, convicto do crime de heresia,
no primeiro domingo do Advento padecereis como christo novo o supplicio
da fogueira. Encommendai a vossa alma a Deus...

O badage, desfechando uma risada, em bom genio redarguiu:

--No careo do teu perdo, meu padre. Agora na minha presena deixars
de ser o provincial Simo Rodrigues: s simplesmente um reptil, um
covarde, um malvado... Queres ainda lutar comigo? Brao a brao, esmago-te!

--Assim, assim, meu valente! Esmague-me essa vibora! jarrete-me esse
verdugo!

Apenas o carcereiro desprendera das fauces tam rudes imprecaes, o
jesuita impallideceu como um cadaver. Comprehendeu o conluio; adivinhou
que se trocaram os papeis. Em vez de mandar e ser obedecido, restava a
Simo Rodrigues o papel de obedecer como escravo. Lance desesperado para
o seu orgulho!

--Estranho o vosso procedimento, desabafou emfim. Insensatos que sois!
Por ventura me faltareis  obediencia? Por acaso attentareis contra a
minha vida? A minha vida pertence  igreja e a Deus. Cautela com a
maldio de Deus!

De nada, porm, valeram os argumentos. Carcereiro e encarcerado abafaram
com um leno a boca de Simo Rodrigues, por detraz das costas
amarraram-lhe os braos com um pedao do sambenito despido pelo badage
e, como se faz a uma rez no matadouro, jungiram-no pela gorja a uma das
argolas do carcere.

--Vamos deixar-te agora, proferiu o badage. Ficars ahi, filho de
Torquemada, entregue ao arrependimento e ao remorso dos teus crimes. No
teve fora nem coragem el-rei Dom Joo III para reprimir as tuas
ambies e castigar os teus delictos. Pois desempenho eu os deveres do
rei! Para bem do povo e desaggravo da humanidade faz-se mister que
desappareas da face do mundo e que tambem desapparea comtigo essa
ordem de viboras e de tigres que para desdita nossa introdusiste de Roma
nos reinos de Portugal. Adivinhas o que te vai succeder? Adivinhas por
acaso? Desapparecers para sempre, Simo Rodrigues. Antes de meia
hora ser o teu corpo um esqueleto e esse esqueleto se redusir a um
punhado de cinzas!

Em seguida desprendeu dos pilares da abobada uma lanterna e com a chamma
do pavio incendiou as roupas talares do jesuita.

Comeando ento de atear-se uma labareda fumegante, logo os dous
companheiros a passo lesto se dirigiram para o umbral da porta e assim
sem saudades abandonaram aquella horrenda masmorra.




XI

A TAVERNA


O carcereiro e o pagem toparam-se defronte do sombrio edificio de
San Domingos por altas horas de uma noite escura como breu e sem ideias
determinadas sobre a melhor direco que lhes convinha aproveitar.

Era certo que por longos momentos no podiam ali permanecer sem o risco
de serem percebidos e presos. Mas, em conjuncturas de indeciso, quem se
lembra de acodir convenientemente pela propria segurana? Viam-se em
liberdade e esse unico bem lhes parecia a suprema fortuna. A largos
sorvos aspiravam as emanaes puras da noite e com as vistas
abrangiam o espao immenso onde volitam os astros. Pisavam aquelle cho
por cem veses trilhado pelas doloridas plantas das victimas
inquisitoriaes. Por ali passaram em companhia do carrasco e dos
defensores da cruz algumas dusias de martyres envolvidos na samarra e
cobertos das terriveis carochas sarapintadas de chammas e demonios. Mas,
ainda assim, que feliz differena se se comparava a sombria praa de San
Domingos com as estreitas e miasmaticas gemonias onde o corpo se
esquartejava no excesso das torturas e a consciencia desfallecia 
mingoa do ambiente da liberdade? Entretanto os dous foragidos, como
julgando-se proximos de um foco de miasmas e de peste, reconheciam a
necessidade instinctiva de se desviarem para longe. No tinham pensado
ainda na escolha do refugio. Lisboa, essa decantada sultana de marmore e
granito a no invejar bellesas a Stambul, era cidade grandiosa e
opulenta, era ento, como a soube descrever um dos mais sympathicos
engenhos da moderna gerao, a perola das cidades do mundo, a Phryn
das capitaes da Europa, a terra do luxo, dos praseres, das
ostentaes e das grandesas.[16] No lhe faltavam palacios
nem choupanas, igrejas nem tavernas. Mas o olho dos activos
inquisidores, Argos da peor especie conhecida, com tanta facilidade se
estendia aos santuarios de Christo como sobre os santuarios das
familias. Nada aos filhos de Loyola e aos discipulos de Torquemada lhes
era vedado nem recondito: o seu fim predilecto e a sua ambio natural
eram avassallar o mundo, eram enroscar-se como serpente gigantesca,
desde as raises ao vertice da ramada, na arvore do universo!

Por fim os miseros foragidos tomaram uma subita deliberao.
Dirigiram-se para o palacio hospitaleiro de Violante Gomes.

Apesar do prolongado e tardio da noite, ainda a formosa dama no se
entregara aos dominios do somno. Entretinha-se a desferir da sua harpa
de ebano e marfim alguns ligeiros acordes repassados de ternura e
melancolia.

A principio sobresaltou-se e estremeceu com a presena dos
estranhos hospedes; mas logo com um sorriso feiticeiro de meiguice e
suavidade se dirigiu ao indio:

--Por acaso, meu esforado amigo, tendes algumas aventuras mais?

--Aventuras srias, respondeu o badage com signaes de desanimo e tristesa.

--No percebeis quanto sinto os vossos desgostos. Mas a culpa no ser
vossa? Porque no gosaes a vida em socego, sem vos importarem os
negocios do estado e os interesses alheios? Vs, os homens, tendes todos
o espirito mordido pelo sarcopto das ambies. Nada vos contenta.

--O destino assim . Arrasta o nosso espirito para o bem ou para o mal
do mesmo modo que succede a uma lasca de taboa ou a um pedao de cortia
dominado pelas ondas do mar. Fica-me porm a consolao de que nunca a
minha consciencia se encaminhou para o mal.

Inesperadamente sentiu-se um alteroso arruido. Algum serio acontecimento
se passava no largo do Rocio. Nem mais nem menos: o palacio de Violante
Gomes fora assediado por uma turba sediciosa e infrene de
alabardeiros e familiares do Santo Officio.

No era agradavel nem segura a posio dos foragidos das gemonias
inquisitoriaes. Escapar, seria negocio difficil. Combater, seria
temeridade com todos os visos de loucura. Sem embargo o indio no
desanimou nem tremeu.

--Senhora, disse para Violante Gomes, os vossos hospedes so incommodos
e perigosos. Por isso vos disemos adeus at melhor occasio. Vamos ao
encontro dos inimigos...

--Loucos! acodiu a esbelta dama. Deixai as escadas e vinde por este
sitio. Segui-me depressa!

Violante Gomes, allumiada por um castial de prata, adiantou-se por um
corredor estreito, subiu os degraus de umas escadas mais estreitas ainda
e chegou ao recanto de uma saleta desguarnecida.

--J, j! Apressai-vos a abrir essa janella. Deita para os telhados
visinhos e, tres ou quatro varas alm, podeis escapulir-vos com
segurana. No afiano que no haja perigo...

--Podemos cair dos telhados  rua como dous gatos ou dous perros, ento
regougou pela primeira vez o ex-carcereiro. Mas nada de sustos.
D'entre dous perigos escolhe-se o menor.

Alguns momentos depois a janella tornara-se a fechar e Violante Gomes
desceu com animo desassocegado aos primeiros aposentos.

O borborinho e a algasarra no affrouxavam. Pareciam o preludio de uma
d'essas tremendas tempestades que se chamam revolues populares.

--Abram a porta, abram a porta!

A estes rugidos de panthera ninguem respondia do palacio. As voses
proseguiam entretanto:

--Abram, seno arromba-se!

--Arrombe-se a porta!

-- ordem de el-rei! Manda el-rei!

--Abram! abram, ss fidalgos!

Como a porta no cedesse  intimao, as coronhadas principiaram de
desempenhar o seu papel destruidor. Grito infernal, desacato immenso!

De longe a longe uma voz robusta e vibrante forcejava por dominar a
gritaria.

--Basta, basta! bociferava..

Esforos baldados, porm. O barulho, em vez de esmorecer, augmentava
pouco a pouco. Scenas de sangue e horror iam comear ainda.

Entretanto os evasores dos ergastulos inquisitoriaes conseguiram chegar
ao meio da rua da Bitesga e ali resolveram parar  porta da taverna de
um parente do carcereiro.

Em derredor de comprida e nodoenta banca de pinho bebiam, gesticulavam e
rosnavam em selvatica liberdade uns quinze homens de esqualida catadura
e trajos andrajosos que logo  primeira vista se consideravam rel de
virtudes duvidosas.

Ainda mais seis ou oito colossos de eguaes trajos e costumes resonavam a
fartos folegos aos recantos da baiuca, uns acocorados indolentemente no
cho e outros encostados sem a minima ceremonia a escabellos e tamboretes.

Se aquella turba esqualida no denunciava um covil de feras, certamente
no parecia um grupo de seres humanos. Eram homens todavia; mas
homenzarres de cr macilenta, voz cavernosa e cabea guedelhuda e
cerdosa como de juba de leo.

--Leve o diacho, rugia um d'elles, que leve o diacho tanto a zurrapa
como quem nol-a vende. Esse filho da breca jamais nos deu cousa com
geito. O vinho... que peste! O vinho  sempre do peor e do mais caro
como se o vendesse a mastins da igualha d'esse bisneto de Judas.

--Pois andas mal, pedao de asno, acodiu segundo bebedor dirigindo-se do
mesmo modo ao taverneiro. Se te no emendas e no cobras tento, ns
ensinamos-te deveras. A freguesia, meu lorpa, deixa-te s moscas o
presepio...

--Por isso, redarguiu de mau humor o dono da taverna, no me ha de
ferver o miolo. Fregueses como tu, Chico, ou tambem como tu, Miguel
Farante, juro que os tomara ver a cem leguas do bairro. Sempre traseis
os bolsos mais cheios de sarna e coto que de chelpa. De calotes estou
eu farto ds que vos aturo.

--Cala-te ahi, volveu-lhe o bebedor Miguel Farante. Bem sabes que no
sou de genio talhado para lerias...

--Puf, meu valento das dusias! Lerias tuas  que pouco me importam. O
que mais quero  que me paguem e tu, se herdasses a vergonha dos
homens honrados, no me punhas mais as patas de portas a dentro.

--Uum, uum! Pois isso vai assim, grande lorpa! Toma l pela injuria...

Logo na face cadaverica do vendeiro estalou uma punhada gigantesca. O
vendeiro quedara a principio silencioso e soffredor como uma estatua;
mas depois com a ligeiresa de um tigre pegou pelo bojo de um cangiro
quasi cheio de vinho e, ministrando-lhe a fora de um punho de Sanso,
em um apice o arremessou  cabea do aggressor. O barro quebrou-se em
pedaos e dous jorros de sangue borbulharam da testa em que elle bateu.

Immediatamente, em guisa de campo de batalha, se estremaram dous
partidos. Em todas as mos luziam aos reflexos das candeias facas e
punhaes. Metade dos fregueses predispunha-se para a defesa e outra
metade para a investida.

--Vaes levar a tua conta, meliante!

--O vendeiro teve raso...

--Raso vamos ver quem a teve! Trocaram-se estas rudes ameaas em
um abrir e fechar de olhos. Eram o preludio de uma contenda furiosa
entre dusia e meia de ebrios e malvados, homunculos sem consciencia do
bem e do mal, tam lestos em derramarem o sangue das veias de seus irmos
como em beberem at aos bordos um cangiro dos saborosos liquidos
extrahidos das parras do Seixal.

Foi ento que o ex-carcereiro e o badage reconheceram a necessidade de
entrar na taverna.

--Meus rapases, fallou-lhes o badage, no estamos em mar de bulhas e
rixas com amigos. O valor e a coragem podem experimentar-se em outra
lia. Quereis mostrar-me agora que sois valentes, meus rapases?

--Topa-nos s ordens, fidalgo! Mas primeiro deixe-nos dar uma tosquia a
taverneiros desaforados.

O vendeiro estava j bem seguro pela gola da jaqueta. Miguel, querendo
vingar-se da ferida, ergueu o brao musculoso e ia sem clemencia
descarregar-lhe sobre o peito a lamina do seu punhal. Mas o golpe
falhou. O badage segurou com fora extraordinaria o brao que
sustentava o punhal.

Ento o barulho arrefeceu e aquella corja de ebrios, baixando as facas e
os punhaes, pediu e celebrou tregoas.

--Disei-me pois, dirigiu-se-lhes novamente o badage, se quereis ou no
quereis provar o vosso valor e a vossa fora. Preciso do servio dos
vossos braos, meus rapases.

--Fidalgo, responderam logo, diga l o que nos quer.

--Toca a beber primeiro, volveu o badage. Quem paga  a minha bolsa.
Venha l do melhor e do mais caro: Seixal ou Caparica do mais velho.

O vendeiro apresentou seguidamente seis garrafas cobertas de p e foi
despejando as primeiras duas no bojudo cangiro.

O badage pegou da vasilha e dispz-se a offerecel-a a cada um dos
homunculos. Cada cangiro mal chegava para quatro bebedores, mas 
medida que se esvasiava no se esquecia o taverneiro de o reencher at
aos bordos.

Todos beberam  vontade em menos de meio quarto de hora e como o
badage tivesse pressa de lhes aproveitar os servios tratou de
conduzil-os em direitura do Rocio.

--Adeus e obrigado, disse para o taverneiro. Ahi tens um ducado de ouro
de lei. Guarda-o em paga do teu vinho.

--Obrigado lhe digo eu, fidalgo. A despesa est paga. No aceito o
dinheiro de vossa senhoria e ainda lhe fico devedor de muito mais.

--O taverneiro  generoso,  generoso! conclamou a maioria dos fregueses.

Preparavam-se todos para sair quando se lhes dirige ainda o taverneiro:

--Mas para onde vades assim, papalvos?

--Ns te diremos depois para onde vamos, retrucou o ex-carcereiro. Quem
fr peco e desanimoso que fique para ahi como um perro. Pela nossa banda
queremos s gente de animo decidido e brao alentado.

--Bof que ninguem dir que o taverneiro da Bitesga foi algum dia peco!
Mas ouvi rosnar por ahi que era preciso combater e brigar. Se a coisa 
sria, unicamente facas e punhaes so armas de pouca monta.

--Fallas com a prudencia de Dom Vasco da Gama, apoiou o indio. Mas no
temos horas a perder e, na falta de outras armaduras, todas as que se
encontram  mo nos parecem de boa tempera.

--Sero. Mas devem concordar que as ha bem melhores de tempera e de
alcance. Uma espada alcana mais longe do que um punhal e os pelouros de
um bacamarte vo mais longe ainda...

-- certo. Mas onde ha por ahi perto algum arsenal?

--Um fiel vassallo de sua altesa serenissima deve estar sempre bem
apercebido e armado. Esperem um bocado, esperem que eu venho j.

Subiu o taverneiro ao primeiro andar da escura baiuca e momentos depois
se apresentou no meio dos seus fregueses com um braado respeitavel de
bacamartes e de pistolas e machados, ascunhas e espadas. Para
complemento da colleco de armaduras de que falla o cantor dos
_Lusiadas_ faltavam ainda

    _Os_ arneses e peitos relusentes,
    Malhas finas e laminas seguras,
    Escudos de pinturas differentes,

mas certamente sobejavam

    Pelouros, espingardas de ao puras,
    Arcos e sagittiferas aljavas,
    Partasanas agudas, chuas bravas.

--Para meia dusia de amigos, regougou o taverneiro, aqui temos po e
queijo. Escolham  vontade...

Ficaram logo apercebidos e apetrechados seis ou oito dos mais robustos e
decididos. O numero restante julgou-se egualmente bem armado com os seus
punhaes de fina lamina e as suas facas de ponta cuidadosamente afiada.

--Agora, ordena o badage, cuidemos da partida. Alma alegre e caras 
frente. Vamos combater nada mais e nada menos que os serventes e
soldados do Santo Officio...

--Do Santo Officio! exclamaram com espanto.

Houve um momento de indeciso. Aquella palavra terrivel incutiu deveras
o terror nos espiritos mais varonis e affrouxava de medo o brao
mais possante. O tribunal do Santo Officio ou da _Santa Casa_, segundo o
conceito de um escriptor, comparava-se ento pouco mais ou menos com a
arca de No, observando-se unicamente a differena de que os animaes que
entraram na arca sairam como tinham entrado e de todos os que eram
encerrados nos carceres da inquisio se viam sair mansos como cordeiros
aquelles que  entrada tinham a crueldade dos lobos e a feresa dos lees!

--Vejo, rosnou o ex-carcereiro, que no sois homens para empresas
serias. Tanto medo para nada! Eu, que servi por alguns annos essa corja
de inquisidores, confesso-vos que no recuo nem me arreceio.

--Aqui ninguem confessa medo! interferiu o vendeiro com heroica
resoluo. A vida  uma ninharia e a mim tanto se me d morrer hoje na
praa como manhan na cama. Vamos ou no vamos, rapases?

Momentos mais tarde a baiuca ficou permanecendo silenciosa e vasia.

    [16] Arnaldo Gama. _O segredo do abbade._




XII

REFERTA DE TIGRES E LEES


Este arrojado troo de feras humanas premunidas com lanas e
espades, ascunhas e alabardas, facas e mosquetes investiu no Rocio com
rude e selvagem ousia contra a infrene multido. Ia travar-se agora uma
luta de tigres e lees.

Nem a surpresa nem o medo conseguiram afugentar as mulheres ou as
crianas. As mulheres gritavam e rugiam como pantheras, as crianas, em
corridas vertiginosas arremessavam pedras e calhaus, os velhos sentiam
refluir-lhes o sangue da juventude e serviam para animar os brios
dos mais novos. Uma destemida populaa e uma horda fanatica de soldados
lidavam e combatiam, como em lia de musulmanos contra christos, com
egual coragem e com o mesmo furor.

Decorreram breves minutos e j se via, como na manh seguinte de uma
noite de batalha, o cho alastrado de corpos ensanguentados e
moribundos. Mais de quinze cadaveres, no memorando a desastrada
hecatombe dos feridos e contusos, eram j os tristes despojos e as
victimas infelises da contenda.

O ruge-ruge, a voseria, a confuso e as cutiladas pareciam todavia cada
vez mais longe do seu fecho. Mas, predispondo-se a restabelecer o
socego, um personagem de altivo porte e animo resoluto  semelhana dos
paladinos da idade media, rompeu com bravura por entre o populacho e a
soldadesca proferindo em voz sonora: _basta, basta!_

Depressa foi reconhecido o campeo e, sendo-lhe franqueada a passagem
com todas as demonstraes de respeito, ergueu-se o grito geral
de--_viva sua altesa! viva o senhor infante!_

O infante Dom Luiz desembuou a capa de veludo, mostrou ao povo o seu
rosto sympathico e com serenidade lhe fallou assim:

--Ordem, ordem! El-rei deseja e estima a vida dos seus vassallos. No
quer que elles vertam o seu sangue de tal sorte. Cobrai tento e socego,
meus amigos!

Entretanto um dos mais inquietos e terriveis contendores foi pouco a
pouco recuando com a espada em punho at se aproximar do infante. No
recuava de susto ou por impulsos de fraquesa, que nunca o seu espirito
fra abalado pelo medo nem os nervos do seu brao jmais affrouxaram nas
conjuncturas do perigo.

--Debalde gastaes a paciencia e o tempo, lhe segreda. Esta corja infrene
e rebelde que nem de filhos de Satanaz, decerto vos no obedece nem
respeita.

No lhe sobejou ensejo de alongar o discurso. Um troo de aggressores
armados de alabardas e espadas, de picos e ascunhas investiu contra elle
ao grito diabolico de--_morram os hereges, morram os traidores!_

--Morram, morram os judeus e os hereges! conclamaram logo de todas as
partes.

O infante, desnudando a espada, enrostou com a massa dos aggressores.
Elles porm, demovidos pelo respeito e pela estima que todos professavam
pelo irmo de el-rei, suspenderam o passo.

--Ousareis porventura, lhes disse, erguer armas contra o irmo de el-rei?

--No queremos offender vossa altesa, responderam do meio dos
aggressores. Queremos s esse herege e esse criminoso que ahi est. Esse
buscamos, buscamos esse s.

--Que me quereis ento? proferiu com sobrecenho e desassombro aquelle
que indigitavam.

--A vossa cabea. A vossa cabea de traidor para a ponta das nossas
lanas e o vosso corpo de herege para a fogueira do Santo Officio.

--Rapases, retorquiu o infante com asedume, a el-rei smente incumbe o
castigo. No vos  dado justiar por vossas mos. Se ha ahi algum
criminoso, os juises de el-rei o tem de punir segundo as leis e usos do
reino.

--Diz bem o senhor infante, concordaram alguns dos representantes da
populaa.

--Ide-vos em boa paz ento. Restabelea-se a ordem e haja por toda a
parte socego.

--Mas quem nos responde pelo herege? Quem nos responde por elle?

A estas interrogaes dos mais exigentes, accrescentaram ainda algumas
voses:

--Sem castigo no deve ficar.  de justia,  de justia que seja punido...

--Ser feita justia, retorquiu o infante. Prometto-vos debaixo de minha
palavra de Prior do Crato e, o que no vale menos, de leal cavalleiro,
que o levarei  presena de el-rei para que se faa justia rigorosa.

Seguidamente pela Bitesga e outras ruas dispersou-se pouco a pouco a
sediciosa turba. O infante Dom Luiz acompanhado pelo badage, esses
meteram pela rua da Palha em direco aos paos da Ribeira.

--Decerto cumprir vossa altesa a sua palavra? inquire o badage a meio
do caminho.

--Sinto, meu amigo, que me reservasses o officio de carcereiro. Mas
confio que meu irmo e senhor no deixar de vos tratar bem.

--Alimenta vossa altesa mais esperanas do que as que eu nutro. Do animo
generoso de el-rei pouco espero. Desconfio que precisa a guela d'aquelle
serenissimo sapo de mais uma doninha...




XIII

O LEITO DA DOR


As festas e os folgares no se interrompiam nos alegres paos da
Ribeira. Comtudo no havia remedios nem divertimentos que
restabelecessem a saude do joven herdeiro da coroa.

A maior parte dos dias passava-os elle de cama. Acommettera-o grave
enfermidade. Queixava-se continuamente de dores de entranhas e
revolues de estomago. Emmagrecia a olhos vistos e a cada hora mais se
lhe pronunciava a debilidade do corpo.

 sciencia medica os symptomas e o caracter do mal no despertavam
todavia os minimos cuidados. Effeitos do fastio e consequencias de
debilidade, eis a opinio uniforme de todos os Esculapios e Galenos da
crte. Mas  certo que sua altesa peorava de dia para dia. Pouco a pouco
encovavam-se-lhe os olhos, entesavam-se-lhe os dedos, empallideciam-lhe
as faces, afilava-se-lhe o nariz, destingiam-se-lhe os beios e
enfraqueciam emfim todas as carnes e todos os musculos.

Nada o entretinha nem consolava. At os seus dilectos livros e os seus
estimados trovadores lhe enfastiavam agora. J no dava apreo s
quintilhas de Francisco de S,  _Diana_ de Souto Mayor nem aos autos de
Gil Vicente. Consumia todo o seu tempo em suspiros e lamentaes. 
proporo que lhe desfalleciam as foras do corpo, iam-lhe fugindo do
espirito a coragem, a resignao e a paciencia.

Scena enternecedora em verdade era vel-o carpir as desditas da sua
mocidade quando a esposa delicada e nervosa o procurava alentar com o
balsamo das esperanas e dos carinhos! Era o seu anjo tutelar a fiel e
amoravel esposa. Jamais lhe abandonou o leito da dor e todos seus
thesouros de ternura com elle os gastava generosamente. Nunca seios de
mulher compartilharam assim das amarguras alheias.

A alcova e os aposentos do principe ficavam no segundo andar dos paos
regios. Ali de canto a canto reinava um luxo oriental nas rendas e nas
tapearias, em todos os ornamentos e em toda a mobilia. Mas de que
valiam esses brocados e essas riquesas? Faltava ali uma coisa vulgar: a
alegria. A saude no se pde comprar com ouro e sem o dom precioso da
saude no existem as alegrias domesticas, os risos da existencia.

El-rei seu pai, talvez porque o excesso da sua augusta sensibilidade lhe
no permittia espectaculos de tristesa, raras visitas se dignava
faser-lhe. Em compensao a rainha sua me todas as manhans se lhe
dirigia  cabeceira do leito e a todas as horas mandava perguntar por
suas damas se o principe melhorava.

Pela saude do joven principe todas as damas, fidalgos e poetas da corte
simultaneamente se interessavam. Muitas noites estava a sua alcova
liberalmente cheia de amigos e aduladores. Como se no julgava de
gravidade a molestia, facilitava-se a honra da entrada a todas as
pessoas do tracto e das relaes do pao.

Vai correndo o dia dous de janeiro de 1554 e so quasi dez horas da
manhan. Sua altesa parece dormir a somno solto e na sala contigua esto
esperando que estremunhe e acorde duas dusias de poetas e fidalgos, de
damas e criados. As damas chamam-se Dona Francisca de Arago, Dona
Catharina de Athayde e Dona Leonor Mascarenhas. Os poetas, contando os
de maior nota, so Dom Manoel de Portugal, Joo Rodrigues de S, Frei
Paulo da Cruz, Dom Simo da Silveira, Joo Lopes Leito, Jorge Souto
Mayor e Antonio Ribeiro Chiado.

Conversam uns com os outros em voz desanimada e confrangida. A todos
parece faltar assumpto e liberdade. Est reinando certamente um quarto
de hora de monotonia. Mas eis que entra ainda um homemzinho magro e
pletorico, de barbas louras e cabellos compridos. Tem o nariz afilado,
os olhos vivos e as faces pallidas. A boca mostra-a de exiguas
dimenses, mas, segundo a fama que em Lisboa corria, no comprimento
da lingua ninguem se lhe avantajava.

Vem todo aparaltado e nedio com sua gargantilha encanudada e seus punhos
de alvas rendas. Traz na mo esquerda um chapeu de feltro enfeitado com
sua pluma branca. Dos hombros pende-lhe um farto capirote de panno
preto. Calo e gibo foram talhados de veludo verde. As meias eram de
fina seda cor de carne.

--Seja bem vindo vossa merc, meu illustre coripheu da _Castalidum turba_!

A esta jovial saudao de Souto Mayor o recem-chegado estendeu a dextra
e apertou com extremos de delicadesa a robusta mo do cantor da _Diana_.

Todos os outros cavalheiros procedem por sua vez a eguaes manifestaes
de amisade e seguidamente se dirige o recem-chegado para a alcova do
principe. Depressa porm reapparece na ante-camara.

--Est descanando no regao de Morpheu, murmurou elle com um sorriso
prasenteiro.

-- certo que sua altesa est a dormir, confirma prosaicamente a
celebrada e formosa Natercia. Mas por isso no nos ha de deixar o
nosso amigo Pedro Caminha. Estou anciosa por ouvir as suas poesias, meu
caro Apollo.

--A musa tem andado constipada, minha gentil Galatea.

--Os numes no se constipam, acode o faceto Chiado.

--No o deixamos partir sem nos recitar algum poema, accrescenta Dona
Francisca de Arago.

--Assim rogam tanto! Estou plebeamente envergonhado por no traser pea
de valor; mas no sei se lhes mostre...

--Mostre, mostre, senhor Caminha! rogaram com alegria tres voses de
guelas feminis.

--Mas que lhes hei de eu mostrar, pobre versificador de eglogas e elegias!

--Quer mote?

--Metem-me em trabalhos, metem-me em trabalhos de Hercules; mas venha de
l...

--Deixemo-nos de mote, replica Souto Mayor. Ouvi diser que  maravilhoso
o ultimo parto do engenho de vossa merc. Recite-o antes vossa merc.

--Votos, pedimos votos! regougam a um tempo dous divergentes cavalheiros.

Entretanto uma das travessas damas atreve-se a introdusir os ageis dedos
no bolso do collete de Pedro Caminha e logo com expansivo contentamento
desembrulha uma pequenina folha de papel amarrotado.

--Eureka! exclamou ella com enthusiasmo.

--Leia l, senhora Dona Francisca.

--Eu leio, eu leio!

Pegou Pedro Caminha no precioso autographo[17] e com entono
magestatico se dispoz a recitar:

    Muitas veses meus versos me pediste
    Que t'os mostrasse e nunca te mostrei;
    Em no pedir-te os teus, se bem sentiste,
    Entenderias porque t'os neguei:
    Da paga me temi; se a no tivera
    Muitas veses meus versos j te lera.

Subito rubor purpurea as faces de Souto Mayor. Julga que elle mesmo fra
o alvo do epigramma e vai certamente dar o troco em egual moeda
quando o auctor do _Olyssipo_ requer explicaes.

--Diga-nos vossa merc, acodiu Jorge Ferreira, que alluses cavillosas
so essas as do seu epigramma, senhor Caminha?

Caminha virou nas mos a folha de papel e em voz mais elevada continua
de ler:

    Um tem dois olhos e com vista clara,
    Outro um s tem e esse co'a vista estreita.
    Diz este quelle: Amigo, eu apostara
    A qual de ns tem vista mais perfeita?
    Quem houvera que a si no se enganara
    Como o outro que enganado a aposta aceita?
    Diz-lhe este: V que vejo mais que ti,
    Pois dois olhos te vejo, um s tu a mi!

--Bravo, excellente! exclamara Joo Rodrigues de S quando comprehendeu
que os epigrammas se dirigiam a esse misero poeta que valia mais que
todos elles porque se chamava Luiz de Cames e porque era talvez o
primeiro, o ultimo, o maior portuguez do seculo deseseis.

--Deveras excellente! Excedeis Horacio e Marcial, meu illustre e
grandioso vate! com estudado sorriso e com excesso de lisonjaria
acrescentou ainda Jorge de Souto Mayor.

A este pomposo elogio immediatamente replica o padre-mestre dos epigrammas:

--Agradeo as vossas finesas, meu Petrarcha. Um frouxo de tosse fez por
esta occasio acorrer as damas ao quarto do principe.

Acordara sua altesa com a indiscreta algasarra e a meio corpo se erguera
sobre os macios travesseiros do leito. Parecia mais alliviado da
enfermidade, mais jovial do olhar e menos cadaverico do gesto.

--Vossa altesa dormiu bem? pergunta-lhe Dom Jorge de Moura
aconchegando-se do leito.

--Sinto-me com mais animo e parece-me que vou melhorando...

--No tardar que vossa altesa esteja restabelecido. Isso no ha de ser
nada, querendo Deus.

--Assim espero que acontea; mas no sei, meu amigo, no sei o que sinto
nem o que padeo. Ha tantos dias na cama sem foras nem saude!

--Disem os medicos que no passam de debilidade os achaques de vossa
altesa...

--Os medicos sabem tudo, sabem tudo... S no sabem dar-me cura!

Abriu-se o reposteiro da alcova e a comprimentar o principe entrou agora
a colmea dos admiradores do poeta Caminha.

    [17] Veja-se a _Vida de Cames_, por Theoph. Braga.




XIV

EFFEITOS DO VENENO


Respeitosamente foi comprimentado o herdeiro da coroa por todos os
poetas e cortesos que de improviso assaltaram a alcova. Mas o joven Dom
Joo no se encontrava em mar de paciencia para aturar importunidades e
por isso a numerosa colmea dos nobres aduladores cuidou logo de se
despedir.

A alcova permaneceu deserta; mas soou depressa o estalido de uma secreta
mola e a um dos cantos sahiu vagarosamente por uma porta escondida na
parede o aventuroso pagem.

--Bom pagem, fallou-lhe o principe decorridos alguns momentos,
sinto que me vo affrouxando o animo e a paciencia. O badage
aproximou-se do leito.

--So effeitos da doena, respondeu pausadamente.

--Disem-me todos que isto nada . Todos me enganam... S tu me dises que
estou doente... Sabes que doena padeo?

--Sei, meu principe.

--Que doena ?

--Francisco Lopes que vos responda, senhor.

--No s sincero. Tambem tu me enganas, pagem.

--Receio declarar-vos a verdade.

--Tenho coragem para a ouvir. Falla, falla...

--Vs todos, principes e monarchas, s tendes abertos os ouvidos 
adulao e  mentira. A verdade  amarga e severa. Seria para as vossas
organisaoes anemicas e sedentarias um eleboro violento em demasia. Mas
podesseis comprehender as bellesas e vantagens da verdade que seria mais
tranquilla a vossa consciencia e mais duradoura a vossa saude. Ento
saberieis ler no livro mysterioso do destino os deveres que vos
determina a Providencia. Serieis ento os amigos e os protectores do
povo...

O enfermo escutava pela primeira vez tam dura e irreverente linguagem;
mas, como se tivesse o espirito fascinado pelo canto de uma sereia, no
ousava interrompel-a.

Com mais valentia de voz o badage proseguiu:

--Abenoados os monarchas que so os amigos e protectores do povo!
Abenoados sejam! Mas a maioria d'elles entrega-se noite e dia ao
turbilho vertiginoso dos praseres e das orgias em menoscabo dos
interesses publicos e em prejuiso da ventura das naes. No  grande o
numero dos monarchas, por mais ricos e poderosos que sejam, que morrem
com a consciencia de haverem feito a felicidade dos seus vassallos.
Parece que teem os olhos vendados para o bem...

--Cala-te, que s injusto e severo. Que mal te fez meu pai ou tenho
feito eu para seres assim tam rigoroso de palavras?

--Sois christo e mostraes ignorancia da leitura do Evangelho. Pois
sabei que pelas culpas dos paes respondem os filhos at  quinta
gerao...

--Eu sei o que disem as escripturas santas; mas de que mal e de que
peccados accusas meu pai?

--Rio-me da vossa innocencia, meu principe. Por ventura ignoraes os
descreditos e vexames que todos vamos soffrendo cada dia? Quantos
desacertos e que torturas se no commettem ao sabor de Simo Rodrigues e
s por interesse do tribunal da inquisio? Bastar o _Santo Officio_
para causar maiores damnos do que a peste e mais opprobrio do que a
forca. Nas mos dos seus ministros flammeja o cutelo do carrasco, que 
o mesmo que o estilete do assassino. Confisca-se a propriedade,
assassina-se o fidalgo, rouba-se com a riquesa a honra alheia e
queima-se nas labaredas da fogueira o servo da gleba para que se accenda
mais uma lampada no altar da tirannia e se fortifique ainda com mais uma
columna o templo da igreja!

--No blasfemes assim, hereje. Lembra-te que fallas diante de um
principe de sangue.

--Principes e monarchas no os respeito nem acato seno pelo
esplendor das suas virtudes. Onde est o rol das vossas virtudes? Foi
benefica a misso de que vos encarregou o Deus que sempre tendes  flor
dos labios e a que nunca ergueu altares o vosso corao. Deus mandou-vos
amar o proximo. Devieis ser o auxilio e no o latego do povo. Mas vs,
que tendes para tudo ministros e conselheiros, s os no tendes para vos
aconselharem a minorar os infortunios do pobre e obrigarem a repartir
com as crianas que padecem fome as iguarias superfluas dos lautos e
magnificos banquetes...

--No te quero ouvir mais, no te quero ouvir mais. Lembra-te que ainda
te posso punir e esmagar, villo!

--Tendes o poder e a riquesa, herdeiro do throno de Portugal. Sei que
sempre a vossos ps se rojaram desenas e dusias de cortesos ambiciosos,
cortesos que se habituam a procurar o esplendor das gemmas preciosas
das coroas regias para encobrirem a baixesa da sua consciencia e a lepra
do seu espirito. Sei que todos os vossos caprichos e devaneios, embora
custem milhares de crusados, sero satisfeitos mais depressa, do
que se enxuga o pranto do desvalido que, relado pela fome, se v
estrebuchando na enxerga pestilenta da miseria... Mas vejo tambem que se
offusca o nimbo da vossa gloria e declina a estrella da vossa grandesa!
Em vez de ser de perolas e rubis, ser logo de terra e de cinzas a vossa
coroa. Depressa se desfar em p o vosso sceptro e, em vez de recamarem
o vosso corpo o ouropel e os avellorios do throno, ser entregue o vosso
corpo aos vermes e  podrido do sepulchro!

--Basta, basta! So de fogo as tuas palavras. Sinto que me requeimam as
entranhas, pagem!

N'este comenos entrou Francisco Lopes a satisfaser a sua visita ordinaria.

O medico aproximou-se do principe, ausculta-lhe o peito com a maior
observao e em seguida com todo o cuidado lhe tatea o pulso.

No proferiu um monosyllabo e jmais denunciou pelas impresses do rosto
ou por outros quaesquer signaes exteriores a gravidade ou as melhoras do
enfermo.

Sempre com a mesma austeridade aproximou-se de um dos angulos da
alcova, recurvou-se de vagar sobre uma elegante mesa de jacarand,
serviu-se de uma penna de pato collocada ao longo de um precioso
tinteiro de prata e com rapidez formula em meia folha de papel o recipe
do costume.

Em seguida o medico ergueu com dous dedos a receita, baixou com gesto
comprimentador a cabea em direco do leito e logo com inalteravel
silencio transpoz os umbraes da porta.

No centro da sala contigua esperava-o uma pessoa vestida completamente
de roupas negras que ninguem mais era seno o jesuita Simo Rodrigues.

A meia voz segredou-lhe o medico:

--Est moribundo. Est sem vida. Morre antes de meia hora.

O jesuita laconicamente accrescentou:

--_Requiescat in pace!_

Entretanto no abandonara o badage o leito do principe. Ninguem mais se
conservava ali. Talvez porque se quisesse poupar a organisao debil do
principe s fadigas das conversaes e ao constrangimento das visitas,
ou ento por que o quadro pavoroso da morte no  espectaculo que
deleite as vistas e atraia a presena dos cortesos.

O espirito de sua altesa estorcia-se nos derradeiros paroxismos. Poucos
momentos de vida lhe restavam j e que severos momentos de tortura no
deviam de ser aquelles! Affligiam-no contorses horrendas; o fogo
violento de um vulco abrasava-lhe as entranhas; os musculos e tendes
dos braos pareciam fios de arame agitados por uma descarga electrica.

Elle todavia prestava segura e ininterrompida atteno s palavras
mysteriosas do badage. Sobresaltava-se, contorcia-se, desesperava-se
como se lhe ardessem as carnes no brasido infernal de uma fornalha; mas
ainda nutria alentos e voz para de quando em quando diser ao badage:

--Contai-me tudo, contai-me tudo o que sabeis...

O badage continuou a revelar-lhe:

--Vou por fim denunciar-vos tudo o que sei.  caso incrivel, mas 
verdade. Foi crime horrendo, mas aconteceu. Est soffrendo vossa
altesa os effeitos do veneno e  el-rei, acredite-me vossa altesa,
 el-rei Dom Joo III a causa da sua morte!

A tam inesperada e tremenda revelao o corpo do principe contorceu-se
com maior violencia. Quiz erguer-se do leito, gritar logo por soccorro e
despedaar as carnes com as unhas como se o dominassem os instinctos de
um abutre. Porm a alcova nupcial tornara-se depressa a habitao
lugubre da morte. Agora a voz e as foras abandonaram de vez o corpo
franzino do principe. Era elle apenas um cadaver!




XV

O PERDO


Com o espirito entregue aos dominios de uma vaga melancolia desceu
seguidamente o badage ao primeiro andar dos Paos da Ribeira, onde, ao
derredor de uma luxuosa banca pejada de papeis, meia dusia dos mais
altos personagens se debatiam em calorosa conversao nos aposentos
particulares de el-rei.

O badage, predispondo-se a colher o fio da conversao, cautelosamente
applicou o ouvido ao ralo da porta dos regios aposentos.

-- mister, continuava de expor ao monarcha o beato provincial, um
tremendo e exemplar castigo. Aquelle herege no pde ser absolvido
nem perdoado. Sabeis, senhor, at onde alcanam o grau dos seus crimes,
o excesso das suas heresias, o numero dos seus peccados?

--J me contaste, meu padre, o que por desfortuna vos aconteceu.
Confesso que foi horrivel a vossa posio. Atrever-se aquelle herege a
martyrisar-vos com o fogo! Presumo que no foram os vossos tormentos
inferiores aos de San Loureno, o martyr das grelhas.

--Pela minha parte lhe perdo tudo. Encontro-me salvo e livre de perigo.
Agora s me resta esquecer de boamente o mal que me fez. Mas os
desacatos  religio catholica, as offensas dirigidas a Deus...

--Perdoae-lhe vs, observou a rainha, que Deus tudo perdoa como pai de
misericordia.

--Vejo que minha presada esposa, accrescenta o monarcha, se interessa
generosamente pelo seu pagem. C de mim no tenho resentimentos nem
gostei nunca de vindictas. Em boa f, meu padre, vos declaro que tudo
esqueo. Mas que diseis, Simo Rodrigues? De vs depende o perdo ou o
castigo!

Dispunha-se a retorquir o provincial quando o badage se apresenta de
improviso.

--Recuso, disse com firmesa, todo o perdo e todo o favor. Simo
Rodrigues, Simo Rodrigues, sois vs que precisaes da graa de el-rei!

--No comprehendo bem o teu orgulho, meu amigo! acodiu o nobre Duque de
Beja.

-- o orgulho de quem estima e defende uma boa causa: a causa do povo.

--O povo, sempre o povo! exclama com asedume o terrivel jesuita.
Dize-me: que entendes tu por essa massa enorme e infrene, esse corpo sem
entendimento nem consciencia que apedreja hoje o idolo da vespera, essa
cabea desvairada que nunca soube comprehender as douras da paz nem
respeitar as glorias de Deus?

--O povo, proferiu o indio com enthusiastico espirito,  um instrumento
de trabalho que emprega todo o suor do seu corpo e todos os dias da sua
existencia no roar das charnecas, no arroteamento dos latifundios, nos
perigos e labores das officinas, sobrecarregado sempre de gabellas e
desfavores, ganhando apenas os meios pecuniarios de no morrer de fome e
no conseguindo nunca abandonar a sua condio servil.  o contrario de
essa classe que se chama a nobresa e de essa oligarchia que se chama o
clero. O nobre e o padre, favorecidos por uma legislao de isenes e
privilegios, so homens livres que deixam de contribuir para as despesas
do estado, que tudo  larga possuem e que desconhecem os suores do
trabalho. Gosam e mandam a seu alvedrio... O povo, todavia, constitue a
maxima parte, a grande poro do estado. Do seu brao, das suas foras e
da sua actividade provm a riquesa publica, a defesa das monarchias ou
das republicas, a manuteno da ordem e da paz, o desenvolvimento do
commercio e das industrias. O povo  o elemento mais forte das
instituies politicas e da ordem social: o eixo e as rodas da machina
social. Seria preciso conseguintemente no despojal-o da sua
personalidade e da sua liberdade... Mas quando irromper a fulgorosa
alvorada em que esse rebanho de ilotas ou escravos desperte ao grito
heroico e triunfal de um novo Spartaco, o libertador dos povos? Quando,
proclamado o advento da igualdade e da justia, surgir a epocha
redemptora em que a essa _cohorte renegada de hebreus_ se concedam pelas
prescripes de uma legislao benefica e humana os foros de cidados e
os direitos de homens livres, a sua alforria politica e social emfim? Eu
erguerei sempre a minha voz contra os excessos da tyrannia feudal,
inquisitorial ou real que fasem do povo uma besta de carga. O systema
pago ainda prevalece nas hodiernas sociedades, apesar de j decorrerem
mais de quinze seculos de christianismo[18]: isto  do reinado da
igualdade, da liberdade, da fraternidade humana. Porque se no ha de
abolir este nefando systema aperfeioando as coisas existentes, dando s
ideias diversa direco, melhorando as leis e os habitos e os costumes?
Vs, provincial Simo Rodrigues, confiaes que, submettendo o povo ao
jugo da escravido e roubando-lhe a luz do sol nas abobadas dos
carceres, conseguis a regenerao da sociedade civil e a grandesa da
igreja catholica. Mas por acaso ignoraes que a consciencia publica e o
senso universal reprovam com vehemencia as traas e ardis empregados
pelo vosso systema estacionario e fanatico, systema vergonhoso que
directamente conduz  anniquilao e ao opprobrio? As naes no podem
viver sem leis de egualdade na distribuio dos bens e dos males, dos
cargos e beneficios. No podem os homens coexistir e prosperar sem as
vantagens de uma associao commum. Como  pois que a vossa corporao
de jesuitas ambiciona dispor de todas as foras e riquesas, de todos os
elementos de soberania e de todos os graus de despotismo? No
comprehendeis o grande pensamento do dever--que  a lei da vida, a
grandiosa ideia do bem--que  o dever da humanidade! Conheo que debalde
cairei sem nome nem gloria como o soldado ferido no fragor dos combates.
Mas eu vos profetiso, Simo Rodrigues, eu vos profetiso que ainda um
dia, ao grito de triunfo dos meus irmos, ha de sobre as cinzas frias do
jesuitismo e dos Cains do Santo Officio erguer-se em canticos de alegria
o altar da liberdade!

Logo Simo Rodrigues se dispunha a esfriar a impresso do democratico
discurso do badage; mas Catharina de Austria, com a fronte radiosa de
firmesa e coragem, apressou-se a diser para seu esposo:

--No approvaes, senhor, os gentis e nobres sentimentos d'este mancebo?
Por Deus vos declaro que no conheo em nossos reinos mais generoso
fidalgo nem mais leal vassallo!

--Assim o creio, concordou o monarcha impressionado por um estranho
sentimento de generosidade. Tanto que resolvo mostrar-lhe a minha
gratido e a minha graa. Ficas satisfeito, proseguiu ao dirigir-se
affavelmente ao badage, em aceitar a commisso com que me apraz
honrar-vos? Quero provar-vos com animo generoso que sei premiar as
virtudes e servios dos meus vassallos...

--Senhor, atalhou com um olhar de fogo o jesuita Simo Rodrigues, por
Deus que vos no pertence premiar os herejes nem os criminosos!

--Jamais um monarcha de Portugal deixar de cumprir quanto prometteu...
Pagem! mando-vos substituir nos meus dominios da India com os
mesmos foros e jurisdico o viso-rei Dom Affonso de Noronha.

Seguidamente fra o badage abraado com espontaneas manifestaes de
contentamento pelo seu sincero amigo o duque de Beja.

--Fez-se justia, fez-se justia por fim! exclama a rainha com viva
exploso de enthusiasmo.

Experimentaram os nervos do badage uma passageira commoo, humildemente
recurvou elle pela primeira vez a sua cabea altiva e com brandura
ajoelhou aos ps do sombrio monarcha:

--Muito agradeo a vossa altesa, lhe disse, as honrarias e os louvores;
mas consinta-me que no aceite.

--Puf! meu rapaz. Pareces bem orgulhoso e bem louco. Pois j te no
convem o viso-reinado das Indias?

Ao successor de Dom Manoel, o glorioso principe que tam respeitado e
temido fisera no Oriente o nome portuguez, retrucou o indio com
magestosa serenidade:

--Parto para as agras e florestas do meu paiz; mas deixe-me vossa
altesa partir sem honrarias nem proveito. No me sedusem as grandesas da
vida nem os avellorios do mundo. Christo velho ou christo novo,
deveras ficarei contente com dar a Simo Rodrigues um exemplo de
modestia e uma lio de humildade!

    [18] Lamennais. _Du pass et de l'avenir du peuple._




XVI

A VINGANA


Foi annunciado o almoo e ento suas altesas as pessoas reaes,
acompanhadas de suas senhorias os conselheiros e o celebre provincial,
poseram logo termo  audiencia.

Apenas se conservou na sala o badage.

--Talvez me chamem desassisado, scismou elle. Regeitar assim riquesas e
titulos!... Grande virtude e grande proesa, na verdade... Quem no gosta
de elevar-se e engrandecer-se, quem no deseja passar de brao erguido
por cima da cabea dos outros, embora  custa da sua consciencia e da
sua dignidade? Todavia do meu procedimento no me arrependerei
nunca. As Indias so emporio de riquesas e eu depressa possuiria
armasens de fasendas e especiarias, cofres de joias e de barras de
ouro... Mas quem me dava todos esses bens? Porventura sua altesa
serenissima? O rei, no seu officio inalteravel de gastar, dispe dos
haveres e dos suores do povo, a massa que produz e trabalha. De certo
deveria a minha fortuna s generosidades do rei... Mas no s tu--a
maior, a grande poro da humanidade--que trabalhas e que produses e que
tudo vaes pagando?... Povo, das bagas do teu suor  que nascem as
perolas das coroas regias. Eu comprehendo isso, comprehendo! Havia pois
de enriquecer-me  vossa custa, meus irmos?

O badage sentou-se na luxuosa estadella do monarcha, dobrou a cabea
sobre os braos crusados na beira da mesa e assim por alguns momentos
permaneceu como adormecido pelo cansao. Entregava o seu espirito 
meditao, porque logo alteou a sua cabea esbelta e se dispoz
lentamente a escrever.

Todos os mais intimos e sinceros sentimentos do seu corao
transmittia-os agora a meia folha de papel. Estava confiando por meio
das letras alfabeticas de uma carta dirigida a Catharina de Austria os
seus fervorosos affectos e as suas saudosas despedidas.

--Amei-a com dedicao! monologava elle quando acabou de escrever. Mais
pelas prendas do seu espirito que pelas bellesas do seu corpo...
Conheci-a sempre bondosa e casta como os anjos. O orgulho, a soberba e a
impudicicia de uma rainha so vicios que jamais lhe empanaram o brilho
das suas virtudes. No me esquecerei nunca de abenoar o seu nome e de
estremecer a sua imagem. Nobre e gentil senhora! quem soffreria os
impetos e cruesas de vosso esposo, o lobo sombrio e fanatico, se no
fossem as vossas caricias e os vossos conselhos de ovelha paciente e
delicada?

Leu a carta seguidamente, reflectiu ainda por alguns minutos e rasgou-a
em varios pedaos a final.

--No! reconsidera com altivez. No darei eu esta prova de fraquesa.
Coragem, coragem!... Sempre, como perola escondida na clausura da
concha, apertarei nos meus seios de alma o segredo dos meus amores. Quem
sabe se lhe causaria despreso em vez de saudade, riso em vez de compaixo?

O badage levantou-se bruscamente da estadella, correu as vistas pelas
douradas paredes da sala e dirigiu os passos para o lumiar da porta.

Aquelle palacio escaldava-lhe a cabea como se o abrasasse a cratera de
um volco.

Resolvera abandonal-o para sempre e j caminhava ao longo do corredor
quando um magro personagem de semblante pallido como o de um cadaver e
de vestes negras  semelhana de um fantasma o obriga a parar
improvisamente.

Em repasto da sua vingana, no se recusara Simo Rodrigues a
ensanguentar o seu punhal traioeiro. Elle em carne e osso, com o punhal
escondido na manga da roupeta, aguardava o pagem na penumbra solitaria
do corredor.

O pagem cahiu, com effeito, ao borbulhar do seio um jorro de sangue. No
acodiria brao que o protegesse nem medicina que o salvasse.
Crisparam-se-lhe os dedos, arroxearam-se-lhe os beios,
empallideceram-lhe as faces e entregou a Deus o derradeiro alento da sua
juvenil existencia depois de articular esta crudelissima ironia:

-- assim... que se vingam... os filhos de... Ignacio de... Loyola!





FIM.




    INDICE

    Algumas palavras                                               5
       I--Ciumes de um rei                                        11
      II--Os reis no costumam perdoar as offensas recebidas      23
     III--Recompensa do crime                                     35
      IV--O festim de Balthasar                                   53
       V--Oraes e jejuns redimem todas as culpas                65
      VI--A caada                                                75
     VII--A luta                                                  85
    VIII--Os estaus                                               95
      IX--O carcereiro                                           105
       X--Vantagem de dous contra um                             115
      XI--A taverna                                              123
     XII--Referta de tigres e lees                              139
    XIII--O leito da dor                                         145
     XIV--Effeitos do veneno                                     155
      XV--O perdo                                               165
     XVI--A vingana                                             175


PORTO--IMPRENSA PORTUGUEZA





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     the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."

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     you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
     does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
     License.  You must require such a user to return or
     destroy all copies of the works possessed in a physical medium
     and discontinue all use of and all access to other copies of
     Project Gutenberg-tm works.

- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
     money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
     electronic work is discovered and reported to you within 90 days
     of receipt of the work.

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1.E.9.  If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
electronic work or group of works on different terms than are set
forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark.  Contact the
Foundation as set forth in Section 3 below.

1.F.

1.F.1.  Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
collection.  Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
works, and the medium on which they may be stored, may contain
"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
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property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
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1.F.2.  LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
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or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
https://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at https://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit https://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including including checks, online payments and credit card
donations.  To donate, please visit: https://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


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