The Project Gutenberg EBook of O Descobrimento do Brazil, by Garcia Redondo

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Title: O Descobrimento do Brazil
       Prioridade dos Portugueses no Descobrimento da America

Author: Garcia Redondo

Release Date: January 17, 2008 [EBook #24344]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O DESCOBRIMENTO DO BRAZIL ***




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Notas de transcrio:

Pg 26: aspas abertas antes de "a terra achada"; original no tinha
aspas.

Pg 28: em "carta regia de D. Joo I" trata-se, na verdade, do rei D.
Joo II (no corrigido).

Pg 37: substituido "em 1742, vinte annos antes de Colombo" por "em 1472,
..."; havia sido corrigido  mo na cpia digitalizada que serviu de
base a esta transcrio.




        GARCIA REDONDO

    (DA ACADEMIA BRASILEIRA)

        O DESCOBRIMENTO
              DO
            BRAZIL

PRIORIDADE DOS PORTUGUEZES NO DESCOBRIMENTO DA AMERICA


Primeira conferencia da serie organisada pelo Centro Republicano
Portuguez de So Paulo, realizada no Instituto Historico e Geographico
de S. Paulo, na noite de 3 de Junho de 1911


  SO PAULO
CASA VANORDEN
    1911




    GARCIA REDONDO

(DA ACADEMIA BRASILEIRA)

    O DESCOBRIMENTO
          DO
        BRAZIL

PRIORIDADE DOS PORTUGUEZES NO DESCOBRIMENTO DA AMERICA


Primeira conferencia da serie organisada pelo Centro Republicano
Portuguez de So Paulo, realizada no Instituto Historico e Geographico
de S. Paulo, na noite de 3 de Junho de 1911


  SO PAULO
CASA VANORDEN
    1911




Assistiram a esta conferencia, alm do ministro de Portugal, Snr. Dr.
Antonio Luiz Gomes, e do seu secretario, Dr. Bartholomeu Ferreira, que
do Rio de Janeiro vieram especialmente para esse fim, o consul da
Frana, Snr. Jacques Dupas e sua familia, os consules de Portugal em S.
Paulo e Santos, os consules do Paraguay e da Guatemala, os
representantes do Governo do Estado e do Governo Federal, a directoria e
membros do Centro Republicano Portuguez de S. Paulo, o director e muitos
lentes da Escola Polytechnica, uma parte da directoria e muitos socios
do Instituto Historico e a fina flor da sociedade culta e da colonia
portugueza de S. Paulo.


     Esta conferencia  impressa no formato do livro _Conferencias_ do
     auctor para que possa ser annexada a esse livro.




O DESCOBRIMENTO DO BRAZIL

Prioridade dos portugueses no descobrimento da America


     _O orador, depois de agradecer a presena do numeroso e luzido
     auditorio, que affluiu ao salo do Instituto Historico para ouvir a
     sua palavra rude e, depois de varias explicaes que deu sobre o
     grande mappa que organisou para illustrar e esclarecer a sua
     conferencia, diz:_

_Minhas senhoras, meus senhores:_

Na minha ultima viagem ao Velho Mundo, em 1906, achando-me na Suissa e
querendo visitar a exposio internacional de Milo, em vez de fazer a
viagem directa e curta, indo de Genebra, onde estava, a Montreux e de
Montreux a Milo, preferi fazer uma grande volta, indo de Genebra a Lyon
e a Marselha e percorrendo depois toda essa extensa e deliciosa costa do
Mediterraneo que se chama Cte d'Azur.

Para que? Para entrar na Italia por Genova e prestar, antes de tudo, a
minha homenagem de americano  memoria de Christovam Colombo, visitando
a casa onde elle nasceu.

Alli fui, pois, e alli estive no vetusto predio, onde, em 1450, viu a
luz do dia o audacioso genovez, conforme reza a placa commemorativa
collocada entre duas janellas antigas desastradamente vestidas  moderna
com venezianas verdes.

At ento, eu suppunha, pelo que sabia, pelo que havia lido, que
Christovam Colombo era o descobridor da America, assim como suppunha
tambem que Pedro Alvares Cabral era o descobridor do Brazil.

Mas, veio-me depois s mos um livro--_A descoberta do Brazil_--do sr.
Faustino da Fonseca, e esse livro precioso, feito com o nobilissimo
intuito de reivindicar para Portugal a gloria completa do descobrimento
do Novo Mundo, livro que, em abono da civilizao portugueza, que, em
abono dos nossos maiores, deveria ser traduzido em todas as linguas
vivas para ser distribuido em todas as escolas do universo, veio
mostrar-me,  luz de documentos authenticos e irrefutaveis, que nem o
navegante genovez foi o primeiro a chegar ao Novo Mundo, nem Cabral o
primeiro a achar essa parte do Novo Mundo que se chama o Brazil.

Colombo e Cabral--o primeiro ao aportar, em 1492, s Antilhas, e o
segundo, em 1500,  costa brazileira, no fizeram mais do que
_reconhecer e tomar posse_ officialmente de terras que muitos annos
antes j haviam sido descobertas por navegantes portuguezes.

Baseia-se o precioso livro do sr. Faustino da Fonseca em doaes feitas
pelos reis portuguezes aos primeiros navegantes que sulcaram o
Atlantico, em tratados de limites, em correspondencias officiaes,
roteiros, mappas, relaes, cartas de testemunhas dos acontecimentos e
outros documentos que o autor, no seu louvavel ardor patriotico, foi
descobrir e copiar com uma paciencia de benedictino nos archivos
hespanhes e aorianos e na Torre do Tombo.

 com esse fanal em punho, que d por terra com todas as lendas, todos
os erros e embustes dos historiadores que precederam o sr. Fonseca, que
eu venho, hoje, na medida das minhas fracas foras, ajudal-o a
reivindicar para Portugal, no a gloria de haver descoberto o Brazil
smente, mas tambem a gloria de haver descoberto a America.

Oxal seja esse meu auxilio efficaz, oxal possa elle levar a convico
ao animo dos que me ouvem e dos que me lerem, para que possamos dizer
todos, _una voce_, e fazendo a justia tardia a que tem direito a velha
civilizao portugueza: Gloria a Portugal, descobridor do Novo Mundo!

       *       *       *       *       *

Os conhecimentos geographicos dos antigos eram limitadissimos, no
conhecendo os europeus mais do que duas teras partes do seu continente,
o norte da Africa e o sudoeste da Asia, acreditando Ptolomeu que a
Africa se estendia at ao polo antarctico, reduzindo assim o Oceano
Indico a um simples lago ou pequeno mar interior. Nessa poca, o que se
chama India comprehendia a Indo-China, o Indosto, as ilhas e regies do
extremo Oriente. Era a India considerada como um paiz de fabulosas
riquezas e nella dizia-se que habitava o Prestes Joo, soberano
Christo, que reunia o poder temporal ao espiritual e era o summo
pontifice do Oriente.

O Oceano Atlantico era tratado por mar tenebroso e considerado
innavegavel, povoado por monstros, coalhado de escolhos, coberto de
nevoa densa. Era um mar onde, para uns, reinava a eterna calmaria podre,
para outros, era constantemente aoutado por violentos tufes, de sorte
que era uma barreira  communicao entre os dois hemispherios.

No contentes de limitar a to pouco os seus conhecimentos geographicos,
os antigos inventavam lendas, semeavam o oceano de ilhas imaginarias, de
estatuas e de columnas, que impediam os navegantes de marchar.

As columnas de Hercules fechavam o caminho do Atlantico, outras duas
columnas erguiam-se num estreito, impedindo a entrada do mar da India. A
phantasia no tinha diques e os mappas, principalmente o de Marco Polo,
marcavam milhares de ilhas em algumas das quaes se localizava o paraiso,
o purgatorio e o inferno! Na ilha de Salomo, onde se dizia estar o
cadaver desse rei mulherengo, num maravilhoso palacio, tres estatuas
faziam retroceder o navegante sob pena de morte. O cabo Bojador era um
ninho de serpentes e na ilha de Ceylo estava o tumulo de Ado!

Ainda em 1375 a costa africana s era conhecida de Ceuta at ao Cabo
Bojador, e ainda em 1436, j em pleno seculo XV, o mappa de Andr
Bianco, um mixto de christianismo e de paganismo, reproduz as lendas e
figuras da edade mdia, collocando Jerusalm no centro do mundo e
determinando o local do paraiso terrestre!... Toda a terra conhecida
resumia-se num unico continente. Tudo mais eram ilhas entre as quaes
estava a de Cypango, onde Colombo julgou ter chegado em 1492, quando
aportou s Antilhas.

Lendas de origem portugueza s havia duas--a do gigante Adamastor, no
Cabo das Tormentas, que o grande pico dos Lusiadas to lindamente
narrou em verso sonoroso, e a do cavalleiro de pedra, na ilha do
Corvo--mas este, ao contrario dos outros que intimavam o navegante a
retroceder, mandava-o avanar, apontava-lhe o caminho a seguir,
demandando novas regies.

Taes eram os conhecimentos geographicos at ao primeiro tero do seculo
XV.

Foi ento que appareceu o famoso projecto do infante d. Henrique,
projecto que revolucionou o systema do mundo.

At ahi s se conheciam dois caminhos para chegar ao Oriente, ambos por
terra, ambos partindo do Mediterraneo. Conhecida a India como um paiz de
riquezas fabulosas e tendo cessado para os portuguezes, com a tomada de
Ceuta, o trafico dos generos do serto pelo Mediterraneo, cogitou o
infante d. Henrique em chegar  India por um outro caminho--a via
maritima, pelo occidente. Mas, para isso, tinha de affrontar o Mar
Tenebroso, esse oceano inado de escolhos e de monstros, impenetravel e
mysterioso. Como o seu intuito era explorar as riquezas indianas e levar
a f aos musulmanos, com os quaes esperava combater, elle sentiu a
necessidade de um alliado e o alliado natural era o Prestes Joo, o
summo pontifice da christianidade indiana.

Era preciso, pois, procural-o, mas seguindo pela via maritima.

Provm desta origem, diz o sr. Faustino da Fonseca na sua obra
admiravel, as exploraes para o sul e para o occidente; as grandes
viagens do occidente e do oriente; o encontro de duas passagens a leste
e a oste,--o Cabo da Boa Esperana e o estreito de Magalhes; as
descobertas da costa da Africa e das ilhas do Atlantico, da America do
Norte e do Brazil.

Obedece tudo a este proposito, subordina-se tudo a este projecto, so
tudo solues ao problema: os conselhos de Toscanelli e de Monetario, o
erro de Colombo, a audacia de Magalhes.

       *       *       *       *       *

No  difficil provar que Colombo no descobriu a America e que quando
chegou s Antilhas, em 1492, j a America havia sido descoberta pelos
portuguezes, muitos annos antes. O difficil seria provar hoje, em face
dos documentos encontrados pelo sr. Faustino da Fonseca e dos quaes me
vou soccorrer nesta conferencia, que o ousado genovez fez tal
descoberta.

Esmiucemos o interessante assumpto.

Quando o infante d. Henrique fundou a escola de Sagres com observatorio
astronomico, para o qual fez vir cosmographos e mathematicos
estrangeiros, e mandou construir nos seus estaleiros as primeiras
caravelas e ordenou que ellas sahissem, para o mar tenebroso e pelo
occidente, dizendo aos capites que avanassem sem receio, fazendo-se ao
largo, j Gonalves Zarco havia descoberto a ilha da Madeira e j o
infante conhecia o livro de Marco Polo, que existia em Portugal desde
1418, trazido pelo infante d. Pedro, que o recebera como dadiva do
senado de Veneza, assim como conhecia tambem o mappa do mesmo Marco Polo
onde se veem as regies do oriente muito proximas das do occidente. No
seu livro, Marco Polo assegurava que Catay estava no Atlantico (que elle
chama o mar de Cyn) a pequena distancia da Europa e que, no Atlantico,
estavam tambem Cypango e outras ilhas de especiarias.

As primeiras caravelas, construidas e equipadas pelo infante em 1431,
comeam a perscrutar o mar vasto e, um dia, de uma dellas, Gonalo Velho
Cabral descobre as _Formigas_. Um anno depois, em 1432, descobre ainda
_Santa Maria_. As expedies maritimas portuguezas, desde ento,
succedem-se ininterruptamente e, annos depois,  descoberta grande parte
das ilhas do archipelago dos Aores pelo mesmo Gonalo Velho e depois as
do Cabo Verde (1460) por Antonio Gomes e Diogo de Nola.

Em 1435, j o mappa-mundi de Bechario representa a Antilia e outras
ilhas, a oste dos Aores, acompanhadas da seguinte legenda:--_Insule de
novo reperte_ (ilhas recentemente descobertas.)

Em 1436, um anno aps, apparecem o mappa-mundi de Andr Bianco e o seu
portulano cujas cartas j representam o mar de Baga, o mar dos Sargaos,
as Antilhas e o Brazil, figurando este como se fosse uma grande ilha. Em
1447, uma nau parte do Porto e descobre a Groelandia aonde os
marinheiros desembarcaram.

No entretanto, do celebre promontorio de Sagres, o infante d. Henrique
v sumirem-se no mar intermino as caravelas, que successivamente iam
partindo  descoberta, e j em 1448, numa carta do portulano de Andr
Bianco, tratando dos descobrimentos dos portuguezes, se regista o Brazil
de uma forma precisa, na parte oste e sul do Cabo de S. Roque, ao sul
das ilhas do Fogo e Brava de Cabo Verde, na sua verdadeira posio, em
frente  costa africana, sendo designado por _ilha authentica_ e
assignalada a sua distancia exacta de 1500 milhas do archipelago de Cabo
Verde.

Esta carta do portulano de Bianco, bem como os anteriores de 1436
mostram, pois, meus senhores, que o Brazil foi descoberto em 1435, ou
antes, por navegantes portuguezes e que at das Antilhas j havia
noticia nessa poca.

Mas, no fica nisto. As caravelas portuguezas continuam a singrar o mar
tenebroso e, em 1452, Diogo de Teive e seu filho Joo de Teive descobrem
as ilhas Corvo e das Flores e chegam  latitude da terra que se chamou
mais tarde do Lavrador (porque a descobriu um portuguez deste nome)
no desembarcando nella com receio do inverno.

Em 1460 morre o infante d. Henrique, deixando reconhecida toda a costa
africana at Serra Lea e legando ainda  sua patria os descobrimentos
dos archipelagos dos Aores, de Cabo Verde e do Brazil.

A morte do infante no faz, porm, arrefecer o enthusiasmo lusitano
pelos descobrimentos e j dois annos depois, em 1462, d. Affonso V, por
carta regia de 29 de outubro, faz doao a seu irmo o infante d.
Fernando, filho adoptivo de d. Henrique e seu herdeiro universal, de uma
terra achada no mar alto, a noroeste das ilhas Canarias e da Madeira,
que Gonalo Fernandes havia descoberto. Essa terra no podia ser outra
seno a America.

Mezes antes, por carta rgia de 19 de fevereiro, esse mesmo Affonso V
havia feito doao a Joo Vogado de duas ilhas por elle descobertas no
_mar oceano_, s quaes dera os nomes de Lono e Capraria. Nos documentos
da poca, a expresso _mar oceano_ era usada para designar o mar que
banhava a America, que ento ainda no tinha esse nome. Esta doao a
Joo Vogado prova que as duas ilhas Lono e Capraria eram ilhas ou pontos
da costa americana.

Onze annos depois, em 1473, d. Affonso V, por carta rgia de 12 de
janeiro, faz doao  sua sobrinha d. Beatriz, filha do infante d.
Fernando, de uma ilha que apparecera, em 1468, atravs da ilha de
Santiago, e que era uma das Antilhas, aonde s 24 annos depois aportou
Colombo. Convm notar que esta descoberta  feita por navegadores
portuguezes 5 annos antes da chegada de Colombo a Lisboa.

Do exposto se conclue que as proprias Antilhas j tinham sido
descobertas pelos portuguezes muitos annos antes de Colombo l ir tomar
dellas posse para a cora da Hespanha.

Todas estas consecutivas viagens para o occidente formam uma srie que
j constitue uma brilhante e indiscutivel documentao da prioridade dos
portuguezes na descoberta da America.

Mas ha ainda outros e valiosos documentos que melhor provam esta
assero quelles a quem ella possa parecer um pouco vaga.

Vejamos quaes so.

Em 1472, tendo vagado a capitania da Ilha Terceira por fallecimento de
Jacome de Bruges, a infanta d. Beatriz fez doao a Joo Vaz Crte Real
da capitania dessa ilha, na parte de Angra, doando a parte da Praia a
Alvaro Martins.

Na carta de doao, encontram-se as seguintes palavras: havendo eu, por
informao, estar ora vaga a capitania da ilha Terceira de Jesus
Christo... por se affirmar ser morto Jacome de Bruges... houve por bem
de a partir entre o dito Joo Vaz e o dito Alvaro Martins, mandei ao
dito Joo Vaz que escolhesse e elle escolheu a parte de Angra... E
considerando eu, de outra parte, _os muitos e grandes servios_ que o
dito Joo Vaz Crte Real, fidalgo da casa do dito senhor meu filho, tem
feito ao infante meu senhor e seu padre que Deus haja ( o infante d.
Fernando), e depois a mim e a elle, _em galardo_ dos ditos servios,
lhe fiz merc da dita capitania da ilha Terceira.

Annos aps, em 1488, confirmando essa doao, o duque de Vizeu, filho de
d. Beatriz, alludiu aos _grandes servios_ de Joo Vaz Crte Real a seus
paes, dizendo: querendo lhe fazer graa e merc pelos _muitos servios_
que tem feito ao infante meu senhor e padre, que Deus haja, e a mim,
espero que ao deante far.

Quem era esse Joo Vaz Crte Real, que assim era galardoado e que
servios relevantes eram esses que havia prestado para receber tal
galardo?

Era um homem que, nesse mesmo anno de 1472, vinha de chegar da _Terra
Nova_ ou _Terra dos Bacalhaus_, trazendo essa nova descoberta americana
para a cora portugueza, vinte annos antes de Colombo aportar s
Antilhas.

As provas desta descoberta de Joo Vaz no escasseiam e encontram-se:

1.--Na carta relativa  America do Norte do Atlas de Ferno Vaz
Dourado, existente na Torre do Tombo, onde se l, na parte referente 
Terra Nova, a seguinte designao: _B. de Joo, Terra de Joo Vaz_.

2.--No mappa-mundi do Atlas de Jomard, feito em pergaminho por ordem de
Henrique II da Frana (1547-1559), onde a mesma designao para a Terra
Nova se encontra.

3.--No mappa-mundi de Mercator, do mesmo Atlas de Jomard, onde vem por
extenso, designando a Terra Nova--_Terra de Joam Vaz_, _Rio de Joam
Vaz_.

4.--Num manuscripto feito entre 1672 e 1711 nos Aores, onde melhor se
conheciam os descobrimentos de Joo Vaz, no qual  encontrada a seguinte
referencia  doao de d. Beatriz a Joo Vaz: Estando as cousas nesta
forma, morreu o capito Bruges, no deixando herdeiros. Chegaram ento 
ilha dois fidalgos que vinham de descobrir a _Terra do Bacalhau_; estes
pediram a ilha a d. Beatriz, mulher do infante d. Fernando, por servios
que lhe tinham feito, lhes fizesse merc da capitania da ilha Terceira,
a qual ella lhe concedeu. A Joo Vaz Crte Real, que era um destes
fidalgos, ficou a de Angra.

5.--Finalmente, nestes trechos das _Saudades da Terra_, de Gaspar
Fructuoso, nascido nos Aores em 1522: Joo Vaz Crte Real, primeiro
capito da ilha Terceira da parte de Angra, por servios que fez a
el-rei de Portugal nas guerras contra Castella, andando por _capito de
grossa armada_; do qual dizem que foi _to grande aventureiro no mar que
neste Reino no tem segundo_; e alguns querem dizer que descobriu a
mesma ilha Terceira e _algumas partes do ponente e do Brazil, Cabo
Verde_, onde foi o primeiro que houve vista da _ilha do Fogo_... e
vindo, como atrs tenho dito, Joo Vaz Crte Real do _descobrimento da
Terra dos Bacalhaus que, por mandado de el-rei foi fazer_, lhe foi dada
a capitania de Angra, da Ilha Terceira e da ilha de S. Jorge... Dizem
alguns que Jacome de Bruges, primeiro capito da ilha Terceira de Jesus
Christo, era flamengo... e, estando-a povoando veio ter ahi Joo Vaz
Crte Real... e vinha do _descobrimento da Terra Nova do Bacalhau_ e o
Jacome de Bruges o recolheu e lhe disse que lhe largaria metade da ilha,
a qual acceitou, e depois Jacome de Bruges se foi para sua terra e
desappareceu, de maneira que no tornou mais, e a infanta d. Beatriz,
por vaga, deu a ilha ao dito Joo Vaz Crte Real.

No ha nada de mais positivo, de mais claro e comprovante, do que estes
cinco documentos, que venho de citar, no ultimo dos quaes se allude,
nada menos de trez vezes, ao descobrimento feito por Joo Vaz Crte Real
da _Terra Nova_ ou _Terra do Bacalhau_, na America do Norte, em 1472,
vinte annos antes de Colombo aportar s Antilhas.

Mas, no foram smente Joo Vaz e outros navegadores portuguezes, j
citados, os precursores de Colombo na descoberta da America.

Joo Vaz Crte Real tinha tres filhos--Vasco Annes, Miguel e Gaspar
Crte Real--os quaes, como o pae, foram ousados navegantes,
principalmente o ultimo, Gaspar, que ficou captivo dos indigenas numa
das suas viagens  America. A carta regia de 12 de maio de 1500, fazendo
doao a Gaspar Crte Real de terras que vae descobrir (carta passada
poucos dias aps a chegada de Cabral ao Brazil, chegada essa de que
ainda no havia noticia em Portugal) regista importantes trabalhos do
mesmo Gaspar, anteriores s duas viagens suas de que ha noticia e
refere-se _s suas exploraes maritimas feitas com muito trabalho,
despeza e perigos, realizadas por Gaspar  sua custa com seus navios e
homens_. Diz ainda essa carta de doao que _elle vae continuar a
descobrir_ ou reconhecer _ilhas e terra firme_ das quaes lhe so
outorgadas as capitanias.

A expresso vae _continuar a descobrir_, empregada na carta regia,
significa que Gaspar j havia anteriormente feito descobertas.

Infelizmente, Gaspar Crte Real, partindo de Lisboa em 1501 para uma
nova explorao na America, por l ficou captivo dos naturaes, voltando
todavia ao reino os dois navios que o haviam acompanhado. Em 1502, seu
irmo Miguel sahiu com outros dois navios no intuito de o procurar e
remir, mas tambem no regressou. Vasco Annes quiz ainda ir em busca dos
dois irmos, mas D. Manoel no lh'o consentiu.

Documentos posteriores ao desapparecimento dos dois irmos, Gaspar e
Miguel Crte Real, registam os seus feitos e os de seu pae Joo Vaz.
Taes so: a carta rgia de 17 de setembro de 1506 e principalmente a 4
de maio de 1567, de doao a Manoel Crte Real, filho de Vasco Annes e
neto de Joo Vaz, na qual se encontra a seguinte phrase: seu pae e tios
mandaram descobrir a Terra Nova.

Mas, anteriormente, a carta rgia de 4 de novembro de 1501, de d.
Manoel--o venturoso--filho do duque de Vizeu e de d. Beatriz, concedendo
a tena de 30.000 cruzados a Miguel Crte Real por servios feitos a d.
Joo II, que falleceu em 1495, fixa s viagens maritimas dos Crtes
Reaes uma data anterior a 1495.

Ora, a sete de junho de 1494, d. Joo II assignou com a Hespanha o
tratado de Tordesillas, abrangendo na demarcao portugueza no s a
costa do Brazil (aonde Pedro Alvares Cabral s aportou _6 annos depois_)
como a terra dos Crtes Reaes, isto , a _Terra Nova_ ou _dos
Bacalhaus_, o que prova que a descoberta dessa terra  anterior ainda a
1494. Por ultimo, Bartholomeu las Casas, amigo de Colombo e companheiro
do genovez numa das suas viagens s Antilhas, na sua _Historia das
Indias_, apontando ingenua e sinceramente as indicaes que Colombo teve
para ir s Antilhas, indicaes, alis, confessadas pelo proprio
Colombo, cita, entre outras, as viagens dos Crtes Reaes, empregando
estas expresses: Os Crte Reaes que foram em diversos tempos buscar
_aquella terra_.

E isto prova ainda que o descobrimento da _Terra Nova_ ou _dos
Bacalhaus_ e, portanto, da America,  anterior  primeira viagem de
Colombo s Antilhas, isto , anterior a 1492 e mesmo anterior a 1484,
porque foi em 1484 que Colombo sahiu de Portugal, onde obteve taes
indicaes e onde viu e conheceu Miguel e Gaspar Crte Real, filhos de
Joo Vaz Crte Real, e Affonso Sanches, que descobriu as Antilhas de
1473 a 1484. As expresses que Las Casas emprega, referindo-se s
confisses feitas pelo seu amigo Colombo so as seguintes, que reproduzo
textualmente: _Disse_, pois, Christovam Colombo entre outras cousas
_que poz em seus livros por escripto_... e accrescentou mais que tinha
visto dois filhos do capito que descobriu a ilha Terceira, que se
chamavam Miguel e Gaspar Crte Real, _ir em diversos tempos a buscar
aquella terra_.

_Aquella terra_ era a _Terra Nova_ ou _Terra dos Bacalhaus_.

Ainda relatando Las Casas as indicaes e informaes que conduziram
Colombo s Antilhas, cita a viagem de Vicente Dias e mais uma outra a
respeito da qual assim se exprime: uma caravela ou navio que tinha
sahido de um porto de Hespanha (no me recordo ter ouvido indicar qual
fosse, ainda que creio que do reino de Portugal, se dizia)... veio...
parar a estas Antilhas e que esta caravela foi a primeira que as
descobriu. Que isto assim acontecesse alguns argumentos ha para
demonstral-o.

E ajunta que o piloto dessa caravela, que alguns escriptores hespanhes
chamam Affonso Sanches e do como natural de Cascaes, recolhido por
Colombo em sua residencia na ilha da Madeira, ao sentir perto a morte
lhe revelara o segredo e lhe dera por escripto os rumos e caminhos que
tinham levado e trazido por carta de marear e pelas alturas e paragem
aonde estava a ilha.

Esta confisso de Las Casas, amigo e companheiro de viagem de Colombo, 
importantissima.

Diz ainda Las Casas que, quando foi com Colombo ao primeiro
descobrimento de Cuba, os indios vizinhos daquella dram noticia de
terem chegado a esta ilha Hespanhola outros homens brancos e barbados,
como ns outros, _antes que ns outros no muitos annos_.

Mas, no fica nisto.

Em 1501, Pietro Pasqualigo, referindo ao senado de Veneza a segunda
viagem de Gaspar Crte Real  America, disse que Gaspar e seus
companheiros acreditavam que a terra achada era firme e estava ligada
com a outra (Terra dos Papagaios ou Brazil) que o anno passado (1500)
foi descoberta por outras caravelas de S. Magestade, acreditando estar
ligada com as Antilhas.

Humboldt confirma este conceito, quando diz que antes mesmo das
viagens de Colombo a Honduras e Veragua, em outubro de 1501, j se sabia
em Portugal que as terras do norte eram cobertas de neve e gelo,
contiguas s Antilhas e  terra dos Papagaios _novamente_ achada.

E admiradissimo, Humboldt accrescenta: esta _adivinhao_ que proclama,
apesar da ausencia de tantos los intermediarios, uma ligao
continental entre o Brazil e as terras geladas do Lavrador _ muito
surprehendente_.

Nem foi _adivinhao_ nem _cousa para surprehender_; os los
intermediarios, estabelecendo a ligao continental entre o Brazil e as
terras geladas do Lavrador, existiam e eram conhecidos dos portuguezes
pelas viagens e descobrimentos que haviam feito na sua pertinancia de
procurar o caminho para a India, navegando constantemente para o
occidente e para o sul, desde 1431. Ora, todos os documentos que citamos
demonstram de um modo cabal e decisivo que os descobridores da Terra
Nova e portanto da America do Norte foram Joo Vaz Crte Real e seus
filhos e que este descobrimento foi feito muitos annos antes que Colombo
aportasse s Antilhas.

Mas o estudo dos documentos portuguezes e castelhanos que o sr. Faustino
da Fonseca exhumou da Torre do Tombo, dos archivos aorianos e
hespanhes e a que deu publicidade no seu luminoso livro, referentes s
viagens maritimas dos seus antepassados, provam de um modo
incontestavel que desde 1435, ou antes havia em Portugal conhecimento
perfeito de terras americanas (o Brazil ou terra dos Papagaios com a sua
posio determinada no mappa de Bianco e a sua distancia de 1500 milhas
entre as ilhas de Cabo Verde e o Cabo de S. Roque precisamente marcada
no mesmo mappa) e tambem que, desde 1475, as viagens dos portuguezes
para o occidente j se realizavam, no tanto no empenho de procurar por
ahi o caminho para chegar  India, como no de colonizar, de aproveitar
as terras americanas e nellas commerciar, como se commerciava na costa
africana e nas ilhas dos seus mares.

Era pelo sul da costa da Africa que os navios da cora portugueza
procuravam o caminho do oriente e as viagens  Guin eram ento
privativas dos navios reaes, no podendo os particulares emprehendel-as.
J para o occidente a navegao era francamente aberta s naus dos
particulares, dando-lhes ensejo s descobertas e exploraes
commerciaes.

A carta de doao a Ferno Dulmo, em 1486 e a confirmao do seu
contracto com Joo Affonso Estreito, feita pela carta regia de D. Joo
I, vem demonstrar de um modo cabal, como muito bem diz o sr. Faustino da
Fonseca, a existencia de trabalhos de mr importancia relativos 
America em que se no trata j da descoberta, mas da posse effectiva,
da conquista, da occupao.

Nessa carta de doao diz o rei que Ferno Dulmo, capito da ilha
Terceira, lhe queria dar achada ao occidente uma grande ilha, ou ilhas,
ou terra firme por costa, ilha essa que se presumia ser a das Sete
Cidades, e isto prova que no se julgava ser a India, como pensava
Colombo, nem Catay, nem Cypango, terras do oriente, que o genovez
procurava e que at morrer julgou ter descoberto.

Era uma outra terra a que se dava o nome de Sete Cidades por causa de
uma velha lenda. Effectivamente, o que Ferno Dulmo queria dar ao rei
_achada_ era, no uma ilha, mas terra firme, isto , um continente.

Dava-lhe a carta regia poder e autoridade para tomar posse real e autual
de todas ilhas e terra firme que descobrisse, podendo enforcar, matar e
applicar toda outra pena criminal e accrescentava que, se as ilhas e
terra firme no quizessem sujeitar-se, elle rei mandaria com Ferno
Dulmo gentes e armadas de navios para as sujeitar.

To amplas eram as autorizaes e poderes conferidos a Ferno Dulmo,
contrastando com as restrices feitas nas doaes anteriores, nas quaes
a cora reservava para si a alada de morte ou talhamento de membro,
que taes concesses levam a crer, com relativa segurana, que na terra,
que Dulmo queria dar _achada_ ao seu rei, j elle havia estado, havendo
encontrado resistencia  occupao por parte da populao indigena.

Nessa terra do occidente, ou America, que Dulmo queria dar _achada_ 
cora portugueza, j elle estivera, portanto, em 1486, ou antes. Que
tinha havido luctas na America entre os donatarios e os indigenas
prova-o ainda a carta de doao a Vasco Annes Crte Real na qual se
refere que Miguel Crte Real (irmo de Vasco Annes), ao partir, em busca
de seu irmo Gaspar, que ficara captivo das tribus americanas na terra
onde aportara, ia buscar, achar e remir o dito seu irmo. Que Ferno
Dulmo estivera na America em 1486, ou antes, prova-o ainda o contracto
por elle feito com Joo Affonso Estreito pelo qual este fazia todas as
despesas da expedio, e ainda o prazo marcado para irem e voltarem,
ficando Dulmo com o commando da frota durante os primeiros 40 dias e
assumindo-o Joo Affonso aps esse tempo, o que significa que Ferno
Dulmo estava seguro de attingir a terra achada em 40 dias e que Joo
Affonso no receiava empregar o seu capital numa empresa temeraria,
seguindo com o seu socio para o desconhecido.

Estabelecia o contracto que as caravelas seriam abastecidas para 6 mezes
ou 180 dias approximadamente. E dahi se deduz que, sendo precisos 80
dias para a viagem de ida e de volta, ficavam 100 dias para a
permanencia na America, para a explorao, marcao e diviso das
capitanias de que eram donatarios os dois associados e, finalmente, para
a sujeio dos indigenas.

A confiana de Joo Affonso Estreito na expedio era tal que, alm de
todas as despesas com o abastecimento das caravelas e sua equipagem,
ainda deu 6.000 reaes brancos a Ferno Dulmo.

Ora, o conhecimento que temos de Colombo ter gasto, posteriormente, 48
dias na sua primeira viagem de regresso das Antilhas, com atrasos
devidos a temporaes e a uma arribada  ilha de Santa Maria, e ainda o
facto de Pedro Alvares Cabral ter gasto 43 dias na sua viagem ao Brazil,
_apesar da calmaria que encontrou_, e ainda a circumstancia de ter gasto
Colombo, exactamente, 40 dias na sua viagem de Cadiz  Dominica, prova
que 40 dias era o tempo, em mdia, preciso para ir da Europa  America e
que, portanto, o facto de tal prazo ter sido fixado no contracto de
Dulmo com Joo Affonso Estreito mostra que Dulmo tinha perfeito
conhecimento do tempo que era preciso para chegar  terra _achada_ por
elle em 1486, ou antes, e que essa terra era positivamente a America.

Desta expedio de Dulmo fazia parte um allemo chamado Martim Behaim,
que o Dr. Monetario, ou Montaro, na sua carta a d. Joo II, chama
Martinho Bohemio. Ora, este allemo, que, de 1484 a 1486, acompanhou
Diogo Co, como cosmographo, rezidindo nos Aores de 1486 at 1490,
seguia a opinio dos antigos de que o caminho para a India era pelo
occidente. Foi, pois, nesta viagem de Dulmo que Behaim obteve o
conhecimento da costa Americana, o qual registou depois no globo que
construiu ao regressar  Europa e que tambem representou no mappa, que
existia no erario do rei de Portugal e ao qual allude Pigaffeta. Nesse
globo terraqueo de Behaim foram representados a peninsula da Florida, o
golfo do Mexico e as Antilhas, embora sem estas denominaes. Estes
trabalhos geographicos de Behaim confirmam que Dulmo estivera na America
do Norte e estabelecem de um modo preciso que as terras achadas por elle
eram a Florida, as Antilhas e o golfo do Mexico.

Em 1499 fez d. Manuel doao a Joo Fernandes Lavrador da capitania da
ilha ou ilhas que elle _descobrir ou achar novamente_. No tendo meios
para custear a expedio, Joo Fernandes Lavrador associou-se a
Francisco Fernandes e Joo Gonalves, escudeiros, naturaes dos Aores, e
com tres negociantes inglezes de Bristol, os quaes, provavelmente,
forneceram o capital preciso, e com elles obteve do rei Henrique VII da
Inglaterra nova carta de doao das terras que descobrisse.

A expedio seguiu a sua rota e conseguiu descobrir a terra avistada em
1452 por Diogo de Teive e seu filho Joo de Teive,  qual foi dada o
nome de Terra do Lavrador, que era o do seu novo descobridor e
donatario.

Ora, Joo Fernandes Lavrador, quando organizou a expedio, j sabia da
existencia da terra que _ia achar_ porque nella estivera com Pedro de
Barcellos de janeiro a abril de 1492, e o fim de sua expedio com os
negociantes de Bristol no era outro seno tomar posse da terra
anteriormente achada.

Portanto, ainda alguns mezes antes de Colombo, que s a 8 de agosto de
1492 partiu para as Antilhas, dois navegantes portuguezes, Joo
Fernandes Lavrador e Pedro de Barcellos haviam estado na America.

Assim, synthetizando esta srie de provas de ida e estada de navegantes
portuguezes na America, anteriormente a Colombo, encontra-se o seguinte
quadro chronologico registador dessas viagens e descobrimentos:

1436--Regista Andr Bianco nas suas cartas e no seu portulano as
descobertas do Brazil ou Antilia, Mar de Baga e Mar de Sargaos.

1447--Um navio parte do Porto e vae  Groelandia onde os marinheiros
desembarcam.

1448--Regista Andr Bianco nas suas cartas a existencia do Brazil 
distancia precisa de 1500 milhas comprehendidas entre as ilhas do Cabo
Verde e o Cabo de S. Roque.

1452--Diogo de Teive e seu filho Joo descobrem a ilha das Flores e
chegam  latitude da terra do Lavrador.

1472--Descobre Joo Vaz Corte Real a Terra de Joo Vaz, ou Terra Nova,
ou Terra dos Bacalhaus, na America do Norte.

1473-1484--Affonso Sanches descobre as Antilhas.

1487--Viagem  America de Ferno Dulmo e Joo Affonso Estreito,
acompanhados de Martim Behaim, que registou, depois, no globo terraqueo
que construiu e no mappa do erario real portuguez, a existencia da
peninsula da Florida, das Antilhas e do golfo do Mexico.

1492--Descoberta, entre 30 de Janeiro e 14 de abril, da terra do
Lavrador, por Joo Fernandes Lavrador e Pedro de Barcellos.

Todas estas viagens, todos estes descobrimentos so anteriores 
primeira viagem de Colombo, realizada a 8 de Agosto de 1492 e
estabelecem a prioridade dos navegantes portuguezes no descobrimento da
America.

A carta do dr. Jeronymo Montaro, ou Monetario, de Nuremberg, a d. Joo
II, em 1493, quando ainda ignorava a primeira viagem de Colombo s
Antilhas, aconselhando o monarcha lusitano a que demandasse a India pelo
caminho do occidente, confirma o conhecimento que tinham os portuguezes
das terras americanas.

Ignorando, como Colombo (que at morrer suppoz sempre que chegando s
Antilhas havia chegado  India) que as terras do occidente constituiam
um novo continente, formando a parte quarta do universo at ento
conhecido, o dr. Montaro elogia na sua carta o saber dos mareantes
portuguezes, usando das seguintes expresses: sabios que navegaram a
_largura do mar_, que tomaram o caminho dos Aores por quadrantes
chilindricos e astrolabio e outros engenhos, onde _nem frio nem calma os
anojara_ e mais navegaram a _praia oriental_ sob uma temperana
(temperatura) muito temperada do ar e do mar.

Nestas expresses--_navegaram a largura do mar, tomando o caminho dos
Aores_--(que era o ponto de partida dos navegantes que iam ao novo
continente) pe Montaro em evidencia as viagens dos portuguezes 
America, muito embora ignorasse que essa terra era o Novo Mundo.
Empregou a expresso _praia oriental_ suppondo sempre que era a India
cujo caminho pelo oriente j havia sido descoberto, cinco annos antes,
por Bartholomeu Dias, quando em 1487 dobrara o cabo da Boa Esperana,
indo em busca do reino do Prestes Joo.

No admira que o dr. Montaro estivesse nessa ignorancia quando Colombo
permanecia nella e insistia em acreditar que a America era a Asia e que,
atravez della, havia um caminho por agua, que abreviava a viagem pelo
occidente para a India.

Esse caminho, que o audaz e astuto genovez embalde procurou at morrer,
existia de facto, mas, em vez de abreviar, alongava a viagem para a
India. Esse caminho, que elle nunca conseguiu achar, descobriu-o ainda
um portuguez, Ferno de Magalhes, quando, a soldo da Hespanha, mas com
marinheiros portuguezes e com o cosmographo portuguez Ruy Faleiro,
transpoz o estreito a que ligou o seu nome, no extremo sul da America, e
fez a primeira viagem de circumnavegao, dando a volta ao mundo e
confirmando a doutrina da espheroicidade da terra.

De tudo o que fica exposto resulta, meus senhores, de um modo
indiscutivel, com uma veracidade esmagadora, que no foi Colombo quem
teve a prioridade na descoberta da America e que essa grande gloria cabe
de direito e de facto aos destemidos e desinteressados navegantes
portuguezes do seculo XV, que  America foram e que na America estiveram
muito antes do genovez.

Qual delles, qual desses ousados lusos, precursores de Colombo, foi o
primeiro a pr o p no solo americano?

Evidentemente, aquelle que, em 1435, ou antes, segundo o registo de
Andr Bianco, descobriu o Brazil. Desse, infelizmente, a historia no
guardou o nome. Mas, daquelles que foram  parte norte da America e que
l estiveram, dando-lhe o seu nome, ha noticia; e o que firmou o direito
 prioridade na descoberta foi evidentemente Joo Vaz Corte Real que, em
1472, vinte annos antes de Colombo, descobriu a _Terra Nova_, que os
mappas, portulanos e manuscriptos da poca designaram por essa
denominao, pela de _Terra dos Bacalhaus_, pela de _Terra de Joo Vaz_
e ainda de _Terra dos Corte Reaes_, em homenagem ao grande navegante
luso e a seus filhos, que  mesma terra foram, no mesmo ardor empenhados
de engrandecerem a sua patria.

       *       *       *       *       *

Mas, vejamos agora quem era Colombo e o que fez elle, no para
_descobrir_, mas para _chegar_  America e de uma parte della tomar
posse official para a cora de Hespanha.

Por uma ironia da sorte, Colombo, nascido em Genova em 1450, veio ao
mundo dois annos depois daquelle (1448) em que Andr Bianco registou no
seu mappa a existencia do Brazil a 1.500 milhas das ilhas de Cabo Verde,
tres annos depois que um navio portuguez foi  Groenlandia, e apenas
dois annos antes daquelle em que o navegante portuguez Diogo de Teive
chegou  latitude da Terra do Lavrador, terra americana que Joo
Fernandes Lavrador e Pedro de Barcellos ainda descobriram e della
tomaram posse em 1492, mezes antes de Colombo chegar pela primeira vez
s Antilhas.

Filho de uma familia de operarios, era Colombo um tecelo, que apenas
apprendera a ler e a escrever e que, at aos 23 annos de edade, se
conservara sem fazer estudos universitarios, sem seguir a carreira
maritima, sem nada saber de cosmographia nem de pilotagem. Indo para
Savone, em 1470, ahi estabeleceu uma taverna e ahi se conservou durante
dois annos. No lhe sorrindo a fortuna como taverneiro, foi, em 1473,
para Portugal, e fixou-se na ilha da Madeira, onde abriu uma casa de
pasto, e onde casou com uma rapariga portugueza, filha de um tal
Bartholomeu Perestrello, mareante, j ento fallecido. Na Madeira
nasceu-lhe o primeiro filho e na Madeira comeou elle a apprender
nautica nos documentos, instrumentos e mappas de Perestrello, que a
sogra lhe forneceu. Mais tarde, ficou sabedor da exacta situao das
Antilhas pelos papeis de Affonso Sanches[1], que as descobriu, que em
sua casa de pasto se hospedou e que ahi falleceu. Creio que ainda existe
na Madeira essa casa que Colombo habitou.  Bartholomeu de las Casas, o
amigo e companheiro de Colombo numa das suas viagens, quem, na sua
_Historia das Indias_, nos d conta desse episodio da vida do genovez em
Portugal. Referindo-se aos objectos de Perestrello, que a sogra dera a
Colombo, diz: eram instrumentos e escriptos e pinturas (cartas e
mappas), convenientes  navegao, os quaes deu a sogra ao dito Colombo,
que com a vista delles muito se alegrou. E accrescenta: _com estes se
cr haver sido instigada a sua natural inclinao_.

[Nota de rodap 1: Affonso Sanches descobriu as Antilhas de 1473 a
1484.]

Quando Colombo chegou a Portugal j ahi eram conhecidas as cartas
hydrographicas planas inventadas pelo infante d. Henrique, e foi durante
a sua permanencia no reino que o portuguez Fernando construiu a primeira
bussola completa com a rosa dos ventos e que a junta dos cosmographos do
rei aperfeiou o astrolabio, assim como as taboas astronomicas
applicadas  navegao.

Vivendo no meio de uma grande familia de navegadores, sabios, como o
testemunhou mais tarde o sabio dr. Montaro, de Nuremberg, conhecedor das
viagens e descobertas dos portuguezes,  natural que Colombo, instigado
pela mulher e pela sogra, fascinado pelos instrumentos e documentos que
recebeu e por outros que manuseou e consultou depois, estimulado pelas
audacias felizes dos mareantes lusos, quizesse tentar fortuna pelo mar e
procurasse obter a pratica da navegao que de todo lhe faltava. Para
isso conseguir, embarcou em navios portuguezes e com pilotos
portuguezes apprendeu a navegar.

 ainda Las Casas quem nol-o affirma, quando diz, na sua j citada
_Historia das Indias_: resolveu ter por experiencia o que ento do
mundo pela de Ethiopia se andava e praticava pelo mar e assim navegou
algumas vezes aquelle caminho em companhia de portuguezes, como pessoa
j residente e quasi natural de Portugal.

Foi, portanto, em Portugal que Colombo apprendeu a navegar e foi ainda
em Portugal que teve conhecimento exacto de terras ao occidente, terras
que, obcecado pelas theorias de Toscanelli, Marco Polo e outros
geographos e cosmographos antigos, elle suppoz sempre que fossem
asiaticas.

Foi ento, depois de adquirida esta instruco theorica e pratica,
ministrada pelos portuguezes, que o genovez affagou a ida de descobrir
o caminho da India pelo occidente, indo  terra onde j havia chegado
Affonso Sanches.

Para conseguir os seus fins, procurou desde logo fazer relaes com d.
Joo II, rei de Portugal, o qual, longe de esconder delle as provas que
possuia da existencia de terras ao occidente e ao sul, lh'as mostrou,
como o proprio Colombo confessa, indicando-lhe nos mappas a situao da
Terra Nova ou de Joo Vaz e a do Brazil ou Terra dos Papagaios.

Ora, aconteceu, segundo informa Las Casas, que um dia, soprando fortes
ventos do poente, o mar trouxe s costas das ilhas do Fayal e da
Graciosa alguns troncos de pinheiros e s da ilha das Flores dois
cadaveres de caras mui largas e de feies differentes das dos
christos.

Guiado por estes indicios, e tendo conhecimento, como ainda informa Las
Casas, da viagem do navio portuense que em 1447 tinha ido  Groelandia,
da ida de Diogo de Teive em 1452  latitude da Terra do Lavrador, das
viagens de Vicente Dias, de Antonio Teive e de Affonso Sanches, de 1473
a 1484, da concesso a Ferno Domingues do Arco, em 1484, e das viagens
de Joo Vaz Crte Real e seus filhos, comeadas em 1472, resolveu
Colombo, certo da existencia de terras ao occidente, procurar um
principe christo que o ajudasse e protegesse na empresa do
descobrimento da India pelo poente.

Foi ento a Castella offerecer os seus servios  cora hespanhola.

Diz Las Casas que, guiado pelas informaes que possuia, _Colombo tinha
a certeza que havia de descobrir terras e gentes nellas, como si nellas
pessoalmente tivesse estado_.

E foi isso, provavelmente, o que Colombo, munido de copias dos mappas
que viu em Portugal, e conhecedor das viagens e das doaes alli feitas,
affirmou aos reis de Castella, assegurando-lhes, no que ia achar ou
descobrir, mas tomar posse para a Hespanha de terras anteriormente
descobertas pelos portuguezes, dessas Antilhas que Affonso Sanches
descobrira, cuja situao os seus mappas e papeis lhe revelaram.

Tal offerta elle no podia fazel-a ao rei de Portugal, porque tinha a
certeza de que seria recusada. Que poderia elle offerecer  cora
portugueza, que esta j no conhecesse?

Accresce que, achando-se individado e sendo perseguido pelos credores,
elle sentia necessidade urgente de sahir de Portugal e procurar no
estrangeiro os meios de solver os seus compromissos.

Eis ahi as razes pelas quaes deixou Portugal e foi  Hespanha, no no
nobre intuito de descobrir terras e de praticar feitos que lhe dessem
renome, mas no de ganhar dinheiro.

Os que, como Humbolt, affirmam que Colombo foi, _por inveja_, maltratado
em Portugal e, por isso, de l sahiu, fugindo, faltam  verdade.

Inveja de que? Que feitos, que emprehendimentos, que descobertas havia
elle feito, quando deixou o reino portuguez, onde tudo foi apprender,
para que delle alli tivessem inveja? Inveja poderia elle ter, e
certamente tinha, daquelles que, arriscando a vida e a fortuna, j
haviam dilatado o mundo, quando elle nada tinha feito at ento.

Mas,  elle proprio quem desmente os que affirmam que foi a inveja que o
fez sahir de Portugal, quando, em uma carta ao rei de Castella, diz:
fui aportar a Portugal cujo rei entendia de descobrimentos mais do que
nenhum outro. E, em outra carta, accrescenta: o grande corao dos
principes de Portugal que ha tanto tempo proseguem na empresa de Guin e
tambem na de Africa onde gastaram metade da gente do reino...

No teria elle feito taes elogios aos reis portuguezes se, _por inveja_,
tivesse sido maltratado em Portugal. Que a causa principal da sua
precipitada sahida de Portugal foram as dividas, deprehende-se
claramente dos seguintes trechos da amistosa e protectora carta que d.
Joo II, em 1488, lhe dirigiu: E porque por ventura tereis algum receio
das nossas justias _por razo de algumas cousas a que sejaes obrigado_,
ns por esta carta vos asseguramos pela vinda, estada e tornada, que no
sejaes preso, retido, accusado, citado nem demandado por nenhuma cousa
ou seja civil ou criminal de qualquer penalidade. E por ella mesmo
mandamos as nossas justias que a cumpram assim.

Eis ahi como ce por terra a invencionice da inveja e como fica patente
que as dividas foram a causa principal da fuga do genovez.

Munido dessa generosa carta de D. Joo II, que  um salvo conducto,
Colombo volta a Portugal e vae ento offerecer ao rei os seus servios
na empresa dos descobrimentos e o rei os acceita, no para aproveitar-se
delles, mas para reter Colombo junto a si, evitando que, por meio delle,
Castella se apropriasse de terras que a Portugal j pertenciam.

Mas, o astuto genovez, nem pelo facto de ficar ao servio do rei de
Portugal, deixa de conservar-se ao servio da Hespanha de cujo thesouro
havia recebido 14.000 maravedis[2] em 1487, mais 3.000 pouco depois e
ainda 3.000 em junho de 1488, isto , mezes depois de receber a carta de
d. Joo II que lhe dava o salvo conducto para voltar ao reino!!...

[Nota de rodap 2: O maravedi valia cerca de 25 ris fortes.]

Eis ahi patente a dualidade ambiciosa de Colombo, que fica ao servio de
Portugal e ao da Hespanha, simultaneamente, explorando a ambos sem
escrupulos!...

Essa dualidade elle a revelou ainda no proprio nome, pois assignava-se
_Colon_ na Hespanha e _Colombo_ na Italia e em Portugal!!!...

Ao fim de quatro annos dessa dupla explorao, consegue Colombo assignar
um tratado com a cora de Hespanha, obtendo della as tres caravelas de
que carecia para ir  India pelo occidente e _achar_ terras que j
tinham sido achadas pelos navegantes portuguezes. Por esse tratado, elle
obteve as seguintes vantagens: o grau de cavalleiro da espada dourada,
os cargos de almirante mr do mar oceano, de vice-rei e governador
perpetuo das terras que descobrisse, a decima de todas as rendas, e o
direito de poder concorrer com o oitavo das despesas de todas as
frotas, recebendo o oitavo dos lucros.

Que contraste resalta do procedimento deste aventureiro com o dos
navegantes portuguezes que, antes delle, haviam ido  America,--como os
Corte Reaes, Ferno Dulmo e Lavrador--que armavam as caravelas  sua
custa, que, nisso consumiam as suas fortunas e se individavam, vindo, ao
depois, offerecer ao seu rei e ao seu paiz as terras achadas, sem pedir
favor nem retribuio alguma!

Havia no tratado entre Colombo e os reis de Castella uma clausula pela
qual fora estipulado que 10.000 maravedis seriam dados pela cora e de
alviaras ao marinheiro da frota columbina que primeiro avistasse e
annunciasse terra ao commandante. Esse marinheiro foi Rodrigo de Triana.
Mas quando elle, do cesto da gavea, enthusiasmado apontou para o
horizonte onde apparecia o relevo da terra desejada e, alegremente, a
annunciou a Colombo, este declarou logo que, na noite anterior, j havia
visto uma _luz_ e, estabelecendo com essa _luz_ a prioridade, apossou-se
da gratificao que ao seu subordinado competia!

Os que pela rama estudaram a vida deste aventureiro audaz exaltam a sua
caridade christ, esquecendo: que, na sua primeira viagem s Antilhas,
nem padre elle levou na frota para chamar o gentio ao gremio da egreja;
que, ao chegar ao golfo de Saman, fez logo correr sangue, atacando os
indigenas ns e quasi desarmados; que, no podendo enviar aos reis de
Castella as promettidas e almejadas riquezas em especiarias, pedras e
metaes preciosos, mandou navios carregados de escravos para serem
vendidos e com o preo obtido pagar-se a despesa da viagem; que, de 1493
a 1496, governando a Hespaniola, que  o Haiti de hoje, exterminou
barbaramente a tera parte da populao; que, quando mandou Pedro
Margarite reconhecer a ilha de Cuba, deu-lhe ordem para mutilar os
indigenas que l encontrasse; que, finalmente, quando ordenou a Hojeda
(um dos pretensos descobridores do Brazil) que fosse prender o cacique
Cahonaboa, deu-lhe instruces para que o fizesse  traio,
attrahindo-o com presentes, illudindo-o com fingida amizade e
apoderando-se delle em seguida!!...

Eis ahi o quilate da caridade christ de Colombo.

Parece que a cavalheiresca Hespanha, a despeito de Colombo a ter
enriquecido, sempre suspeitou desse _descobridor_, que a seu soldo
trazia, pois, logo aps a sua segunda viagem  America, perseguiu-o
tenazmente, submettendo-o a um tribunal e, quando elle regressou da
terceira, aps dois mezes de priso em calabouo, mandou que viesse a
bordo preso a uma grilheta, como se fosse um bandido!

Morto em 1506, ignorando sempre que a terra que alcanara para a
Hespanha era a America, pois viveu sempre convicto de que era a Asia,
nem depois de morto conseguiu descansar, pois os seus ossos andaram em
viagens continuas de Valladolid, onde primeiro foi sepultado, para
Sevilha, depois para o Haiti, depois para Cuba e, finalmente, de Cuba,
de novo, para a Hespanha, onde actualmente param.

E sendo genovez, a Italia, que alis lhe ergueu uma estatua, no
reclamou jamais as suas atormentadas cinzas, talvez por desconfiar da
authenticidade desse pretenso filho cuja nacionalidade  ainda hoje
discutida.[3]

[Nota de rodap 3: Vide _Nota A_ no fim da conferencia.]

Eis ahi senhores, quem foi Colombo, e como foi que elle deu  Hespanha
terras dessa America que os portuguezes haviam descoberto.

Conhecidos os factos que venho de narrar, posso dizer agora, sem receio
de contestao sria, que Colombo no descobriu a America, porque, 15
annos, pelo menos, antes delle nascer, j a America havia sido
descoberta pelos navegantes lusos do primeiro tero do seculo XV.

Como nota elucidativa e de importancia historica, cumpre-me accrescentar
que, quando Colombo regressou da sua primeira viagem s Antilhas e
communicou a sua descoberta ao rei de Portugal, d. Joo II, logo este
monarcha protestou energicamente, dizendo-lhe: Que aquella conquista
lhe pertencia e que suas eram as terras aonde elle chegra.

A este protesto do rei portuguez, respondeu Colombo hypocritamente, que
o no sabia e que os reis de Castella apenas lhe haviam ordenado que no
fosse  Guin nem  Mina.

Ao que retrucou d. Joo II: Que tinha a certeza que nisso no haveria
mistr de terceiros.

Este dialogo, extrahido do diario da primeira viagem de Colombo, por
elle proprio escripto, mostra que o usurpador da gloria alheia
esquivava-se  responsabilidade directa do delicto por elle commettido,
sciente e conscientemente, e que atirava essa responsabilidade para os
hombros dos reis de Castella, como se fossem estes que tivessem ido s
Antilhas ou que o tivessem induzido a ir at l!...

Mas, deixemos Colombo e vejamos agora como foi descoberta esta parte do
continente americano que se chama o Brazil.

Desde o comeo desta conferencia, vos disse que no foi Pedro Alvares
Cabral quem descobriu o Brazil, pois o Brazil j estava designado e
marcado nos mappas que a cora portugueza possuia desde 1436, fixando
Andr Bianco, desde 1448, a sua distancia das ilhas de Cabo Verde em
1500 milhas.

Nesse mappa de 1448, que Andr Bianco traou em Londres, _depois de
haver passado por Portugal_, estava o Brazil representado ao sul das
ilhas dos Hermanos do archipelago de Cabo Verde, ilhas que tm hoje a
denominao de Brava e do Fogo. Na parte referente ao Brazil e
correspondente ao Cabo de S. Roque, havia no mappa esta legenda: _Ixola
otincticha xe longa a ponente 1500 mia_, cuja traduco  esta: Ilha
authentica (ou Antilia) 1500 milhas ao poente.

Ora, o cabo de S. Roque, como todos sabem, dista exactamente 1520 milhas
das ilhas de Cabo Verde.

Estes dois documentos bastam para deixar patente que, quando, em 1500,
Pedro Alvares Cabral aportou a Porto Seguro da costa brazileira, fazia,
no minimo, 65 annos que essa parte da America tinha sido descoberta.

Foram ainda navegantes portuguezes que a descobriram e at o testamento
de Joo Ramalho, escripto nas notas do tabellio Loureno Vaz, na villa
de S. Paulo, em 3 de maio de 1580, segundo o testemunho do frei Gaspar
da Madre de Deus, que delle teve uma copia, o prova, pois, ahi, Ramalho,
na presena do dito tabellio, do juiz ordinario Pedro Dias e de quatro
testemunhas, declarou que estava no Brazil ha 90 annos, isto , desde
1490, dois annos antes da ida de Colombo s Antilhas e dez annos antes
da chegada de Cabral a Porto Seguro.

Prova-o ainda o tratado de Tordesillas, assignado em 1494 entre Portugal
e a Hespanha, o qual, marcando para limites entre os dois reinos uma
linha divisoria, do polo artico ao antarctico, distante 370 leguas das
ilhas de Cabo Verde, abrangia na parte portugueza o Brazil, cujos
limites foram traados por esse meridiano.

O mappa de Cantino, de 1502, regista essa linha divisoria e inclue, de
accordo com o tratado, na parte portugueza, no s o Brazil como a Terra
Nova ou de Joo Vaz e a Groelandia, assignalando tudo o que ficava 
direita da linha divisoria com a bandeira portugueza e a parte 
esquerda com a de Castella, com a seguinte legenda:--Este  o marco
dantre Castella e Portugal.

O aoriano Fructuoso, tratando de Joo Vaz Crte Real, diz que elle
descobriu algumas partes do Poente e do Brazil, devendo, portanto,
esta ultima descoberta ser anterior a 1500, pois Joo Vaz falleceu em
1496.

Por um manuscripto de frei Diogo das Chagas, citado por Drumond nos seus
_Annaes da Ilha Terceira_, sabe-se que, antes de 1496, tambem o
navegante Joo Coelho veio ao Brazil.

Em 1514, Estevam Fres confirma este asserto, numa carta ao rei de
Portugal, na qual lhe diz: alegravamos que vossa alteza possuia esta
terra ha vinte annos e mais (portanto, desde antes de 1494), e que j
Joo Coelho... viera ter por onde ns outros vinhamos a descobrir e que
vossa alteza estava em posse destas terras por muitos tempos.

O proprio Vasco da Gama, na sua primeira viagem  India, em 1497, passou
proximo do Brazil, tendo signaes de terra em 22 de agosto, isto , 19
dias depois que sahiu de Cabo Verde, como se verifica no Roteiro dessa
sua viagem.

No seu _Esmeraldo de situ orbis_ refere Duarte Pacheco, o celebre
cosmographo, _que em 1498 estivera no Brazil_, provavelmente, como
suppe plausivelmente o sr. Faustino da Fonseca, no intuito de
verificar, por ordem da cora portugueza, os limites determinados pela
linha divisoria do tratado de Tordesillas.

Mestre Joo, physico mr de d. Manoel, e cosmographo da frota de Cabral,
que na sua interessante carta ao rei, escripta de Porto Seguro, regista
o Cruzeiro do Sul e marca para o Brazil a latitude de 17 graus, diz,
entre outras cousas interessantes, referindo-se  terra brazileira, que
a terra onde chegara, _j se achava traada no mappa-mundi de Pedro Vaz
da Cunha Bisagudo_, affirmando-o categoricamente na seguinte passagem da
carta: quanto, senhor, ao sitio desta terra, mande vossa alteza trazer
um mappa-mundi, que tem Pedro Vaz Bisagudo, e por ahi poder ver vossa
alteza o sitio desta terra, ainda que aquelle mappa-mundi no certifica
si esta terra  habitada ou no:  mappa-mundi antigo e ahi achar vossa
alteza escripta tambem a Mina...

Portanto, o proprio cosmographo da frota de Cabral sabia, desde antes
da viagem de 1500, que havia terra nesse rumo de sudoeste que a frota
cabralina seguiu, como o sabia tambem Duarte Pacheco, o qual j nessa
terra tinha estado em 1498.

Tudo isto vem provar que, se Cabral no descobriu o Brazil, tambem o no
descobriram os pretensos descobridores Vicente Yanez Pinzon, Diogo de
Lepe e Alonso Hojeda, aventureiros, que s chegaram  costa americana em
1499, no podendo tomar posse da terra brazileira porque o tratado de
Tordesillas de 1494 no consentia em tal. As proprias instruces que o
rei de Castella lhes deu em 1499, determinavam que no tocassem nas
terras de Portugal.

Elles estiveram, de facto, em terras do Brazil, antes de Cabral, mas a
descoberta dessas terras no lhes pertence.

No foram, pois, Cabral, nem Pinzon, nem Lepe, nem Hojeda, os
descobridores do Brazil, podendo-se, porm, assegurar que essa gloria
cabe incontestavelmente a navegantes portuguezes do seculo XV, embora
seja difficil determinar qual foi desses intrepidos argonautas o
primeiro que pisou o solo brazileiro.

 vista das cartas e portulanos de Andr Bianco, de 1436 e de 1448,
pode-se affirmar que essa descoberta foi feita, como j disse, em 1435,
ou antes.

Vejamos, agora, como Cabral aportou a esta terra e della tomou posse
official para a cora de Portugal.

O fim ostensivo, o fim apparente da expedio de Cabral era ir  India.
O fim real, o fim verdadeiro era ir, primeiro, ao Brazil, delle tomar
posse official, e, em seguida, fazer rumo para o Cabo da Boa Esperana,
em demanda da India.

Como j referi, a cora portugueza, anteriormente  viagem de Cabral,
havia enviado ao Brazil Duarte Pacheco, eminente cosmographo, que tambem
veio na frota cabralina. O autor do _Esmeraldo de situ orbis_ aqui
estivera, pois, em 1498, para verificar os limites da linha divisoria do
tratado de Tordesillas, que, na parte portugueza, abrangia as terras dos
Corte Reaes, a Groelandia e o Brazil, mas deste no havia tomado posse
official.

Tornava-se, pois, indispensavel a Portugal reconhecer e tomar posse, sem
demora, dessa terra e, assim, guiando-se pelas informaes de Duarte
Pacheco e do proprio Vasco da Gama, bem como pelas de outros seus
navegantes, que haviam aportado  Terra dos Papagaios, aproveitava a
expedio  India para, de passagem, tomar posse official do Brazil. O
Brasil era, portanto, um ponto de escala da viagem de Cabral  India,
mas um ponto de escala forado e j conhecido, pois sabia tambem a
cora portugueza, pelos mappas e portulanos de Bianco, que essa Ilha
authentica ou Antilia ficava a 1500 milhas de distancia das ilhas Brava
e do Fogo, do archipelago de Cabo Verde.

Era a frota de Cabral composta de 13 naus, uma das quaes com
mantimentos, e nellas embarcaram 1.200 homens, entre os quaes o
capito-mr Pedro Alvares Cabral, que commandava a nau capitanea, os
capites das outras naus Sancho de Toar, Simo de Miranda de Azevedo,
Ayres Gomes da Silva, Nicolau Coelho, Bartholomeu Dias (o descobridor do
Cabo da Boa Esperana), Diogo Dias, Gaspar de Lemos, Luiz Pires, Simo
de Pina, Pedro de Atayde Inferno, Vasco de Atayde e Nuno Leito da
Cunha.

Iam tambem na frota: Duarte Pacheco, autor do _Esmeraldo de situ orbis_,
Mestre Joo, physico mr do rei, que ia como cosmographo, o escrivo
Pero Vaz Caminha, diversos frades, entre os quaes frei Henrique de
Coimbra, os pilotos Affonso Lopes, Pedro Escolar e outros que Vasco da
Gama trouxera da India, diversos indios, um grumete negro da Guin,
alguns interpretes e varios degredados.

Iam os navios de Cabral apparelhados e munidos do necessario para anno e
meio de viagem, bem providos de artilheria, de munies de bocca, de
armas brancas, como espadas e lanas, e, em cada nau, havia uma botica.
Para o commercio, levavam as caravelas, velludos, setins, damascos,
pannos de l, coral, cobre, vermelho, mercurio e ambar. Alm disso,
levavam os padres comsigo um orgo e alfaias de prata.

Era, evidentemente, a maior, a melhor apparelhada e a mais garrida frota
que partia da Europa.

Em 15 de fevereiro de 1500 recebeu Cabral a carta de capito mr e dos
poderes de que ia revestido. Com essa carta foi-lhe dado o regimento
pelo qual se devia guiar na viagem e, nesse regimento, que, na parte
relativa ao rumo, fra organizado por Vasco da Gama, estava traada a
rota que devia seguir.

Nesse documento minucioso, recommendava-se ao capito mr que se
afastasse da costa da Africa para encurtar a via e que, ao partir da
ilha de Santiago em Cabo Verde, deviam os navios fazer o seu caminho
pelo sul, _bordejando pelas bandas do sudoeste_... e, depois, na volta
do mar, at metterem o Cabo da Boa Esperana, em leste franco.

O regimento no fala claramente em aportar  Terra dos Papagaios, mas
estipula que, ao deixar Cabo Verde, fa a frota caminho pelo sul,
bordejando pelas bandas de sudoeste e sendo a misso secreta de Cabral
tomar posse official dessa terra e devendo elle de ter necessidade de
arribar a uma terra qualquer, antes da chegada ao Cabo ou  India, para
abastecer a frota de agua e lenha e dar descanso  marinhagem, a terra
do Brazil estava naturalmente indicada para tal fim. Accresce que, na
frota, ia Duarte Pacheco que, tendo j estado no Brazil, saberia guiar
Cabral com segurana a esse ponto de escala forada da gran viagem, de
antemo indicada pelo Gama.

A rota traada nas linhas e entrelinhas do regimento era, pois: seguir a
frota de Lisboa  ilha de Santiago, de Cabo Verde, dahi seguir pelo sul,
bordejando pelo sudoeste, at alcanar a costa da Terra dos Papagaios,
dahi zarpar para o Cabo, dobral-o e seguir para a India.

Esse rumo inda  o mesmo que hoje seguem os navios que vm de Lisboa ao
Brazil. Prompta a frota de Cabral, partiu ella do Tejo aos 9 de maro de
1500, acompanhando-a o rei d. Manuel at fora da barra. Cinco dias
depois, a 14 de maro, passa a frota pelas Canarias onde encontra
calmaria e onde permanece um dia; a 22, chega a Cabo Verde e,
exactamente um mez depois, a 22 de abril, avista a terra brazileira,
gastando, de Lisboa a Porto Seguro, 43 dias.[4]

[Nota de rodap 4: Vide _Nota C_ no fim da Conferencia]

Dos historiadores que consultei, e no poucos foram, sobre a viagem de
Cabral ao Brazil, attribuem uns ao _acaso_ esse feito, dizem outros que
a frota fra impellida para a nossa costa por um _forte temporal_, que a
apanhou.

Nenhum delles porm, explica em que altura a frota foi apanhada pelo
temporal nem quanto tempo este durou.

Ora, contra esse _forte temporal_ protestam energicamente os dois
melhores documentos que possuimos da viagem de Cabral: as cartas que
Mestre Joo, o cosmographo da frota, e Vaz Caminha, o escrivo, enviaram
ao rei d. Manuel, de Porto Seguro, pela nau que dahi partiu a 1. de
maio, de regresso a Lisboa, para dar conta do feito ao monarcha.

Nem o cosmographo nem Caminha falam de tal temporal, pelo contrario, o
que dizem  que, durante a viagem, houve calmaria e que por causa della
perdeu a frota um dia em frente s Canarias. Temporal soffreu a frota,
mas depois que deixou o Brazil e se fez vella para o Cabo, onde falleceu
o seu descobridor Bartholomeu Dias.

No houve, pois, temporal na travessia at ao Brazil, nem o acaso
interveio na chegada da frota cabralina a esta terra. O rumo a seguir
tinha-lhe sido traado; alm disso, j nessa poca tinham os portuguezes
perfeito conhecimento das correntes maritimas e dos ventos geraes e
sabiam aproveital-os de accrdo com as rotas a seguir. O duplo fim de
Cabral, tomando o rumo seguido e aportando ao Brazil, ra, como j o
disse, abastecer-se de lenha e agua, dando descanso  marinhagem e tomar
posse official da Terra dos Papagaios para a cora portugueza.

O _acaso_ e o _temporal_ tm, portanto, de ser banidos dos livros que
se occupam do descobrimento da terra de Vera Cruz.

O primeiro e grande historiador que o Brazil teve, ainda hoje o mais
sincero e veridico,  Pero Vaz Caminha, o modesto escrivo, que narrou
ao rei d. Manoel, numa commovente e encantadora carta, onde a minucia
corre parelhas com a simplicidade, a historia da travessia, da chegada e
da permanencia de Cabral na terra brazileira.

Nessa longa missiva, escripta de Porto Seguro e datada de 1. de maio de
1500, o consciencioso historiador d conta ao seu rei e senhor de todas
as peripecias da viagem, desde a partida de Lisboa at ao Brazil e ainda
de tudo o que se passou durante os 12 dias em que a frota ficou ancorada
em frente  costa brazileira. Persuadido de que o que mais interessaria
a D. Manuel era o conhecimento exacto da terra reconhecida, da gente que
a habitava, dos seus costumes e indole, das riquezas que possuia e da
facilidade que poderia offerecer  colonizao, no poupou minucias para
pr o rei ao corrente do que vira e do que lhe poderia ser proveitoso.

 assim que elle descreveu com enthusiasmo e cores vivas o esplendor da
natureza brazileira, a frescura, abundancia e potabilidade das nossas
aguas, a brandura do clima, a belleza do nosso co, onde rutilava o
cruzeiro, referindo-se com interesse e insistencia  indole pacifica
dos nossos indigenas, aos seus habitos e costumes,  belleza das suas
formas,  sua completa innocencia, deprehendida da sua completa nudez, e
 facilidade com que acceitavam a cathechese, parecendo-lhe empresa de
pequeno esforo fazel-os christos, chamando-os ao gremio da egreja.
Tratando dos productos naturaes, descreveu a fauna e a flora que
encontrou, accentuando que os incolas, haviam dado demonstraes
evidentes aos da frota de que em terra havia ouro, prata e papagaios.

Descrevendo o que fizeram os indigenas, que acudiram  praia, quando das
naus partiram as primeiras almadias para o transporte de agua, diz que
os indios logo trouxeram cabaas e tomavam alguns barris que ns
levavamos, enchiam-os de agua e traziam-os aos bateis.

Este trecho da carta de Caminha prova que a frota cabralina comeou logo
por fazer aguada e prova tambem que os indigenas vinham offerecer agua
aos homens brancos, como se j estivessem habituados a praticar esse
servio, repetindo actos praticados anteriormente; o que demonstra que
no era a primeira vez que viam homens brancos e naus.

A facilidade com que alguns dos naturaes se deixaram capturar e levar a
bordo da nau capitanea, alli permanecendo e dormindo tranquilamente
durante uma noite, como narra Caminha, prova ainda que os nossos
indigenas j estavam familiarizados com os europeus, que j os
conheciam, que conheciam os seus habitos e costumes, que delles no
tinham receio.

E isso  ainda uma prova indirecta de que os portuguezes j haviam
estado no Brazil antes de Cabral aqui chegar. E, de facto, c estiveram,
porque j aqui estava Joo Ramalho, que havia chegado 10 annos antes e
que tanto facilitou a misso de Martim Affonso, quando este aportou 
antiga capitania de S. Vicente.

Ao primeiro monte que avistou deu Cabral o nome de Monte Paschoal, 
terra o nome de Vera Cruz, porque no co rutilava o cruzeiro, e ao
porto, onde definitivamente fundeou, o de Porto Seguro. Chegou o domingo
de paschoela, e, narra Caminha, que o capito mr deliberou ouvir missa
e sermo em um ilho de Porto Seguro. Logo alli se armou o altar e frei
Henrique de Coimbra officiou, cercado de todos os padres da frota. Foi
essa a primeira missa, de que temos noticia exacta e circumstanciada,
dita no Brazil, que forneceu assumpto para um dos mais bellos e
suggestivos quadros de Victor Meirelles. Terminada a missa, frei
Henrique subiu a uma cadeira alta, que lhe serviu de pulpito e dahi
prgou, fazendo a historia do Evangelho, descrevendo a travessia e pondo
a terra reconhecida por Cabral sob a proteco da Cruz.  missa e ao
sermo assistiram os naturaes que ao ilho acudiram e que ao depois,
folgaram, fraternizando com os tripulantes da frota. Na nau capitanea
discutiu-se depois se conviria tomar dois indigenas para envial-os ao
reino, ou se seria preferivel deixar entre elles alguns degredados,
sendo por grande maioria, adoptado de preferencia este ultimo alvitre,
pois os degredados, ficando alli, apprenderiam a lingua dos naturaes e
poderiam servir de interpretes, quando o rei mandasse nova frota ao
Brazil para o colonizar; accresce que era do plano de Cabral, como foi
mais tarde do de Martim Affonso, no hostilizar os indigenas, no lhes
incutir desconfiana alguma, tratando-os com carinho e brandura, sem os
violentar jmais, para assim no sahir dos preceitos da caridade christ
e tel-os sempre como alliados. Para os ir habituando  vida com os
brancos, que deviam ficar definitivamente com elles, foram logo enviados
 praia e ahi deixados dois degredados, que deviam passar a noite com os
naturaes; mas estes, sem os molestar, coagiram-nos a voltar s naus.
Quando os da frota ergueram num ponto elevado da costa, dominando o mar,
a primeira cruz, que ficou em terra brazileira e que confirmou o nome de
Vera Cruz, que Cabral lhe havia dado, os indigenas auxiliaram depois 
abastecer as naus de lenha e de agua. E quando a maruja beijou a cruz
erguida, os indios tambem a beijaram, pondo-se de joelhos, gestos que
levaram Caminha a affirmar que era gente de tal innocencia que, se os
intendessemos e elles a ns, seriam logo christos, porque, segundo
parece, no tm nenhuma crena. E accrescenta, logo depois, na sua
luminosa carta ao rei: se os degredados, que ho de ficar, aprenderem
bem a sua fala, no duvido, _segundo a santa teno de vossa alteza_,
fazerem-se christos e crerem a nossa santa f  qual praza Nosso Senhor
que os traga, porque decerto esta gente  boa e imprimir-se-
ligeiramente nelles qualquer cunho que lhe quizerem dar... e, portanto
v. alteza, pois tanto deseja accrescentar na santa f catholica, deve
entender na sua salvao, e prazer a Deus que com pouco trabalho ser
assim.

Prova este trecho de carta do escrivo da frota que elle conhecia a
teno do rei, que sabia que o seu intento era chamar os naturaes das
terras, por onde passasse a frota, ao gremio da egreja e que, ao
contrario do que fizeram Colombo, Pinzon, Hojeda, Lepe e outros, era do
seu programma assegurar a posse da terra reconhecida, conquistando os
naturaes pela brandura e carinho, incutindo-lhes a f christ.

No dia primeiro de maio de 1500, vespera da partida de Cabral para o
Cabo, nova missa foi dita por frei Henrique de Coimbra, no mais no
ilhu em que dissra a primeira, mas junto  cruz erguida em terra e 
qual foi pregado o escudo das armas de Portugal.

Ainda a essa missa assistiram os indigenas, imitando todos os gestos que
viram fazer aos portuguezes e, depois do sermo, frei Henrique lanou ao
pescoo de todos os que alli estavam, pequenos crucifixos de metal, que
elles beijaram com satisfao e receberam com visivel empenho.

Em seguida, foram-se os mareantes para as naus, deixando em terra dois
degredados e no dia immediato, 2 de maio, a frota fez-se de vla para o
Cabo da Boa Esperana, tendo regressado ao reino uma das caravelas,
capitaneada por Gaspar de Lemos, para levar ao rei a noticia do
reconhecimento officialmente feito da terra do Brazil e da sua posse
para a cora portugueza.

A essa terra, que era conhecida pelo nome de Terra dos Papagaios e que
Cabral denominou Vera Cruz, poz d. Manoel, em 1502, o nome de Santa
Cruz, que foi posteriormente substituido pelo de Brazil, devido ao
grande commercio do pau brazil que ella produzia.

Dando conta, em carta, ao rei da Hespanha do reconhecimento do Brazil
feito por Cabral, disse d. Manoel: o capito deixou alli dois
degredados  merc de Deus. Um dos pilotos da frota explicou depois que
esses degredados puzeram-se a chorar e que logo os naturaes os animaram,
mostrando ter piedade delles.

Vaz Caminha, na sua deliciosa carta, revela, que, alm desses dois
degredados, que foram abandonados em terra, dois grumetes da frota para
ella fugiram e nella ficaram por sua livre vontade, o que significa que
a gente que a habitava era pacifica e hospitaleira.

Vem talvez dahi a herana dessa proverbial hospitalidade brazileira, que
tanto surprehende e encanta os estrangeiros que visitam o nosso paiz.

Eis, senhores, como foi descoberto o Brazil e como Cabral, 65 annos
depois do seu descobrimento, o reconheceu e delle officialmente tomou
posse para a cora de Portugal,  qual alis j pertencia pelo tratado
de Tordesillas.

No coube, pois, a Cabral a grande gloria de descobrir o Brazil, mas
coube-lhe a no pequena gloria de fazer o seu reconhecimento e delle
tomar posse para o paiz que o descobrira, realizando o memoravel feito
sem hostilizar os filhos dessas regies incultas, sem inflingir um
ligeiro castigo, sem despertar nelles o odio que Colombo e os
hespanhoes, que depois vieram  conquista da America, accenderam entre
os indigenas, dizimando-os, submettendo-os a ferro e fogo, caando-os
barbara e deshumanamente _com ces amestrados na caa do homem_, como
quem caa hyenas e lobos!

Essa imperecivel gloria coube a Cabral e basta ella para que se
justifique o preito de admirao que lhe rendemos, sem olvidar os
servios inestimaveis dos seus maiores na busca e descobrimento desta
terra abenoada.

Bastava a sua caridade christ para com os filhos deste paiz para que
lhe devessemos o monumento que no Rio de Janeiro se acha erguido em
frente ao mar glauco e luminoso, perpetuando a sua memoria immaculada e
a do seu feito incruento.

Com o reconhecimento do Brazil em 1500, fechou Portugal com lo de ouro
o ciclo grandioso das suas descobertas no seculo XV com as quaes dilatou
o mundo e fez avanar a civilizao.

Nesse seculo de estupenda actividade maritima, em que os lusos
mareantes, guiados e instigados pela voz prophetica do infante d.
Henrique, avanaram sem pavor pelo mar immenso e tenebroso, que devia
estar cheio de escolhos, de bruma negra e povoado de monstros
assustadores, descobriram elles, caminhando para o desconhecido, a ilha
da Madeira, as Formigas, todas as ilhas do archipelago dos Aores, todas
as de Cabo Verde, o mar de Sargaos, uma grande parte do Brazil, uma
parte da America Central e da America do Norte e, caminhando de ousadia
em ousadia, dobraram o Cabo das Tormentas, descobriram e atravessaram o
estreito de Magalhes, fizeram a primeira viagem em redor do mundo,
apoderaram-se de uma parte da Asia e de uma parte da Africa, enchendo o
mappa com conquistas suas!...

E tudo isto foi feito do decurso de menos de um seculo por um punhado
de homens que partiram, affrontando a morte, de uma insignificante nesga
de terra erguida  beira mar, no occidente da vasta Europa!...

Olhae para o mappa que vos apresento e nelle vereis, em cr vermelha,
traada a epopa desses grandiosos feitos.

Podeis dizer agora commigo, senhores, sem hesitao e com
ufania:--Gloria aos portuguezes, mestres de Colombo, precursores de
Colombo, incontestaveis e unicos descobridores do Novo Mundo![5]

[Nota de rodap 5: Vide _Nota B_ no fim da conferencia.]

       *       *       *       *       *

Portuguezes que me ouvis, meus amigos e meus irmos; a monarchia
tradicional que, por tantos seculos, regeu os vossos destinos, comeou a
dissolver-se na batalha de Alcacer Kibir, e, combalida, ruiu de todo com
a quda e com a fuga do ultimo Bragana, em 5 de outubro de 1910.

Depois de tanta luz offuscante, que o seculo XV projectou da occidental
praia lusitana, veio a sombra e veio o marasmo, que vos no deixou
avanar mais.

Dir-se-ia que, desde 1500 at ha pouco, vivestes acorrentados,
manietados, sem poder dar expanso ao vosso genio irrequieto e
aventuroso, sem poder tirar partido das conquistas feitas com tanto
sacrificio e perigo.

Raiou para vs agora a aurora da liberdade com a proclamao da
Republica em vossa terra.

Uma nova era, promissora e fecunda, apresenta-se, durante a qual podeis
resgatar os erros de quatro seculos e achar as energias precisas para
conquistar o antigo esplendor.

Vejo-vos, com pesar, divididos nos campos maninhos da politica esteril,
da politica dissolvente dos partidos. Que quereis obter com a lucta
perturbadora neste momento em que a vossa patria mais precisa de paz, de
dedicaes e de tino? A reconquista de um regimen que vos amesquinhou,
que vos empobreceu, que vos fez descer do alto da columna onde j
estivestes erguidos, dominando o universe? A reconquista de um regimen
que vos deu o jugo da Hespanha, por 60 annos, a vergonha da fuga da
vossa familia real e da sua crte para o Brazil, e o abandono da vossa
patria  invaso estrangeira? a reconquista de um regimen que vos deu o
vergonhoso ultimatum de 1890? Sois ainda hoje os depositarios de dois
legados sagrados, que vos deixou o creador fecundo da Escola de Sagres e
o grande pico, que, em verso estridente, cantou as vossas glorias e
descortinou ao mundo o vosso saber e as vossas gloriosas jornadas.

Que quereis fazer dessa herana, levando-a  labareda das vossas
disputas domesticas? Enfraquecer mais a patria, desprestigial-a, deixar
que, considerada ingovernavel, v parar s mos do estrangeiro, vido e
cobioso, que j pensa como repartir entre si o precioso legado do
previdente infante? No, no! Deixae o velho regimen sepultado nas
trvas do passado, cessae as vossas luctas fratricidas, e, unidos todos,
em blco, trabalhae pela rehabilitao do vosso formoso paiz, pela
consolidao das suas actuaes instituies, sendo sempre portuguezes,
mais portuguezes ainda no regimen da democracia e da liberdade, sendo
sempre os briosos descendentes de d. Henrique, que mandou a descobrir
esta formosa terra que, em vinte annos de Republica, tem avanado sempre
e tem sabido sempre impor-se ao respeito e  admirao das potencias.

Tenho dito.




Notas e Noticias




NOTAS


NOTA A

A revista hespanhola _Espaa Moderna_, de Junho de 1910, consagrou um
longo artigo,  nacionalidade de Colombo e chegou  concluso de que
elle era hespanhol, natural de Pontevedra e, portanto, gallego. Entre os
argumentos apresentados para firmar a sua assero, cita o facto da
caravela _Santa Maria_, uma das trez da frota com que Colombo foi s
Antilhas, ser appellidada vulgarmente _La Gallega_.

O historiador hespanhol D. Celso Garcia de la Riega, filho de
Pontevedra, sustentou a affirmao da _Espaa Moderna_ em um longo
artigo que, posteriormente, em Janeiro de 1911, publicou no _Heraldo_,
de Madrid.

A Hespanha reclama, pois, para si, a gloria de ter dado nascimento a
Colombo, que ainda  l conhecido por Colon.

Todavia, Las Casas, amigo intimo de Colombo, affirma que este era
genovez e Toscanelli, em uma das suas cartas ao proprio Colombo,
considera-o portuguez!...

Eis ahi porque dissemos que a nacionalidade de Colombo ainda hoje 
discutida.




NOTA B

No se tractou nesta conferencia de Americo Vespucio porque, a despeito
de affirmarem que elle legou o seu nome  America, della ainda foi menos
descobridor do que Colombo. Quem se lembrou de baptisar com o nome de
America a terra, que Joo Vaz Corte Real e outros navegantes lusos
descobriram, foi o cosmographo francez Mathias Ringmann que, na sua
_Cosmographiae introductio in super quatuor Americi navigationes_,
publicada em 1507, em Saint-Di, na Alsacia franceza, escreveu:[6]

[Nota de rodap 6: A Cosmographia de Ringmann foi publicada em Saint-Di
a 25 de Abril de 1507. Ringmann falleceu em Strasburgo em 1511. A
Frana, querendo perpetuar a leviandade de Ringmann, festejou este anno
o quarto anniversario da sua morte, sob o pretexto de ter sido elle o
baptizador do Novo Mundo! Eis ahi como se escreve e como se faz a
Historia!...]

No mundo existe mais uma quarta parte que Americo Vespucio descobriu e
que, por essa razo, poderiamos chamar America, isto , Terra de
Americo.

O alvitre de Ringmann foi aceito e  nova terra descoberta deu-se o nome
desse usurpador da gloria alheia, que nunca passou de um cosmographo,
que veio s terras americanas com Hojeda, muito depois que os Corte
Reaes, Lavrador, Dulmo, Affonso Sanches e outros navegantes lusos nellas
estiveram e ainda mesmo depois de Colombo, que j foi um retardatario.

Accresce que ha quem affirme ( o erudito Snr. H. Vart) que o nome
America, dado ao Novo Mundo, provm, no do prenome de Vespucio, mas da
denominao que os indios de Nicaragua davam s terras altas dessa
regio americana de onde extrahiam o ouro que empregavam nos seus
utensilios e adornos, terras essas que elles chamavam America, expresso
equivalente a Eldorado ou Terra do Ouro, que, primeiro, os companheiros
de Colombo e, depois, todos os outros navegadores foram acceitando e que
serviu para designar, no s as terras altas de Nicaragua, mas todo o
novo continente.

A ser verdadeira a affirmao de H. Vart, o nome America  de origem
americana.




NOTA C

A 6 de Maio de 1895, quando eu ainda desconhecia o livro do Snr.
Faustino da Fonseca, que s veio a lume muitos annos depois, publiquei
no _O Paiz_ da Capital Federal o seguinte artigo sobre a commemorao
official da data do pretenso descobrimento do Brazil, feito por Pedro
Alvares Cabral, em 1500:

O dia 3 de Maio  officialmente commemorado como data anniversaria do
descobrimento do Brazil. E todavia  um erro,  um anniversario falso,
porque a verdadeira data anniversaria desse descobrimento  22 de Abril,
pois foi a 22 de Abril de 1500, que Pedro Alvares Cabral, em demanda das
terras da India, avistou na frente da sua frota um morro elevado da
terra brazileira para o qual mandou aproar fundeando a seis leguas de
distancia.

Celebrava ento a igreja catholica as festas da Paschoa e d'ahi a razo
porque Cabral deu a esse morro o nome do Monte Paschoal.

Os historiadores dos seculos XVII e XVIII e notadamente a obra de Fr.
Gaspar da Madre de Deus  que, no dizer de Pereira da Silva, induziram
os estadistas fundadores do imperio brazileiro ao erro de estabelecerem
a data de 3 de Maio como a do descobrimento. Todavia a carta de Pero Vaz
Caminha, publicada pela Academia Real de Sciencias de Lisboa e escripta
a el-rei D. Manoel em 1. de maio de 1500, annunciando-lhe a descoberta
e os documentos deixados pelo physico-mr da armada de Cabral e por um
piloto que fazia parte da frota, no deixam duvida sobre o dia exacto em
que o almirante viu e mandou aproar para a terra brazileira.

Basta a circumstancia de ser a carta de Pero Vaz Caminha, que ia n'uma
das treze nos da frota de Cabral como futuro escrivo do almoxarifado
que o almirante devia fundar nas Indias, datada de 1. de maio, para
tornar patente a impossibilidade do descobrimento a 3 desse mez. Nessa
carta, onde Vaz Caminha d conta do descobrimento, l-se que elle foi
effectuado a 22 de abril. Nesse dia, que era uma quarta-feira, Cabral
limitou-se a approximar-se de terra, fundeando s 4 horas da tarde, em
ponto em que havia 19 braas de profundidade. S no dia seguinte, 23 de
abril, aproximou-se mais de terra com as precisas cautelas e, ao chegar
 desembocadura de um rio, mandou que Nicolo Coelho fosse em uma
almadia explorar as plagas que se avistavam da frota. Partiu Coelho e
vendo homens ns na praia, sem comtudo desembarcar, atirou-lhes alguns
objectos que levara comsigo e delles recebeu outros em troca,
entabolando assim relaes amistosas com os naturaes da terra.

Voltou a bordo e deu conta do succedido ao almirante. Nessa noite,
porm, levantou-se forte vento do sueste e Cabral, no se considerando
seguro no ponto em que estava, tratou de procurar um ancoradouro para
abrigo dos navios e, continuando a navegao em rumo de norte, mas
sempre  vista da costa, foi fundear de novo, dez leguas adiante, em
uma bella enseada  qual deu o nome de Porto Seguro. Isto passava-se
n'uma sexta-feira, 24 de abril de 1500. Essa enseada, mais tarde, passou
a denominar-se bahia Cabralia, sendo transferido o seu primitivo nome de
Porto Seguro para a povoao que se fundou nas suas proximidades.

Na enseada de Porto Seguro appareceu logo uma piroga com indigenas e,
aos poucos, a costa foi-se enchendo de gentios, manifestando intenes
pacificas. S no dia 25 o almirante dirigiu-se a terra. No dia 26, que
era domingo de Paschoela, foi erguido um altar em terra e ahi celebrada
a primeira missa no Brazil, acontecimento este que Victor Meirelles
celebrisou e commemorou n'um magnifico quadro, o melhor e o mais
commovente que o seu pincel produziu.

A essa missa assistiu o gentio que dansou e cantou aps a cerimonia,
fraternisando com os portuguezes.

S no dia 1. de maio  que o almirante resolveu dar conta a D. Manoel
do seu feito e nesse dia, depois de mandar dizer segunda missa, tomou
posse official da terra e despachou para Lisboa a nao que devia levar ao
rei a noticia da nova terra descoberta, a que elle deu o nome de Vera
Cruz, mais tarde substituido por Santa Cruz e ainda depois por Brazil.

Foi nessa nao, commandada por Gaspar Lemos, que seguiu para o reino a
carta de Pero Vaz Caminha escripta nesse mesmo dia 1. de maio de 1500.

Tal , em resumo, a narrao contida nos tres documentos da poca, aos
quaes allude com interesse e perfeito conhecimento do assumpto o
conselheiro Pereira da Silva na segunda serie dos interessantes
escriptos que denominou _A Historia e a Legenda_.

Ora, se isto  assim, se hoje no pode restar mais duvida a ninguem, em
presena desses documentos do seculo XVI, que determinam com perfeita
exactido a data da chegada de Cabral ao Brazil, por que havemos de
conservar officialmente um anniversario falso, que, se ao tempo em que
foi decretado pelos estadistas fundadores do imperio, se justificava
pela ignorancia em que viviam desses documentos, no se justifica nem se
explica mais hoje, que esto publicados e ao alcance de toda a gente?

 que os estadistas da Republica, que conservaram o erro, fundam-se na
correco que soffreu o calendario Juliano mandado executar pelo papa
Gregorio XIII, que, em 1582, mandou supprimir 10 dias a esse anno,
ordenando que o dia 5 de outubro fosse designado pelo numero 15, o
immediato 16 e assim por diante, encurtando esse anno de dez dias para
compensar a differena para mais desse mesmo espao de tempo, que o
calendario Juliano j accusava no fim do seculo XVI.

E assim, em virtude dessa corrigenda, o dia 22 de abril de 1500 passou a
ser, em qualquer dos annos posteriores a 1582, correspondente ao dia 3
de maio.

Mas tal razo ser sufficiente para manter na tradio popular uma
crena falsa? Pensamos que no. Officialmente, o dia consagrado como
data anniversaria do descobrimento do Brazil  o dia 3 de maio. E assim
o povo, que no sabe das correces que soffreu o calendario Juliano,
nem dos motivos que as determinaram, fica persuadido que effectivamente
foi no dia 3 de maio de 1500 que se realizou o descobrimento, quando os
documentos do seculo XVI, que as historias populares do Brazil j
registram, no consignam tal data, mas sim a de 22 de abril.

Sou de parecer que, se ao tempo da descoberta ainda no existia no
calendario Juliano a correco ordenada por Gregorio XIII, que s se
realizou 82 annos depois, se para Pedro Alvares Cabral o dia desse feliz
successo foi o de 22 de abril, essa  a data que deve ser officialmente
consagrada para assim manter-se na tradio popular.

De 1500 a 1582 acontecimentos houve que ficaram registrados na historia
da nossa terra e, todavia, ninguem se lembrou de applicar aos seus
respectivos anniversarios a correco ordenada por Gregorio XIII,
limitando-se a corrigenda to smente ao successo, isto ,  data da
chegada de Cabral ao Brazil.

Ora, uma de duas, ou os estadistas da Republica tm de mandar fazer uma
reviso completa de todas as datas mais ou menos celebres da historia, e
principalmente da nossa, no periodo comprehendido entre 1500 e 1582, ou,
para serem coherentes, tm de mantel-as taes como ainda hoje a tradio
as conserva; mas, nesse caso, preciso se torna que a consagrao do
feito de Cabral seja feita no mais a 3 de maio, mas sim a 22 de abril.

Tal  o meu modo de ver, salvo melhor juizo.

GARCIA REDONDO




NOTICIAS


Conferencias portuguezas

No podia ser mais auspiciosa a inaugurao da primeira srie das
conferencias portuguezas, promovidas pelo Centro Republicano Portuguez
desta capital.

A despeito da noite fria e chuvosa, o amplo salo do Instituto Historico
e Geographico encheu-se completamente, de uma assistencia distincta e
brilhante, quer pela quantidade, quer pela qualidade.

Alm de muitas senhoras e senhoritas, compareceram tambem  primeira
conferencia do Centro Republicano Portuguez os srs. Jacques Dupas,
consul da Frana, Daniel Monteiro de Abreu, consul do Paraguay e
encarregado de negocios de Portugal, o representante do sr. general
Ferreira de Abreu, inspector da decima regio militar, o dr. Paula
Souza, director da Escola Polytechnica, commendador Mondim Pestana,
official de gabinete do sr. dr. secretario do interior, dr. Bettencourt
Rodrigues, dr. Rodolpho de Santiago, dr. Ricardo Severo, dr. Eugenio
Egas, e muitas outras pessoas gradas.

O sr. Antonio Luiz Gomes, Ministro de Portugal, chegou ao Instituto
Historico s 8 e meia da noite, em companhia do dr. Bartholomeu
Ferreira, secretario da Legao Portugueza, sendo recebido  porta pela
directoria do Centro.

Em seguida, s. exa. foi introduzido no salo pelos srs. drs. Bettencourt
Rodrigues e Ricardo Severo, tomando assento na mesa, ao lado da
directoria do Centro, e tendo  sua esquerda o dr. Bettencourt
Rodrigues.

Abrindo a sesso, o sr. Joaquim Dias da Cunha Barbosa, presidente do
Centro R. Portuguez, explicou o fim das conferencias portuguezas,
dizendo que, antes de apresentar  assistencia o conferencista sr. dr.
Garcia Redondo, cumpria lhe o dever de agradecer  directoria do
Instituto Historico, que promptamente poz  disposio do Centro o seu
salo, afim de ahi serem realisadas as conferencias. Agradece tambem a
honrosa visita do sr. ministro portuguez, que, com sua presena, veio
dar maior solennidade  primeira conferencia.

Alludindo  pessoa do conferencista, o sr. presidente diz que o dr.
Garcia Redondo  por demais conhecido do auditorio que, sobejamente,
conhece a sua bagagem literaria, pelo que se dispensa de apresental-o.

Em seguida,  dada a palavra ao sr. dr. Garcia Redondo para proceder 
leitura de sua conferencia sobre O descobrimento do Brasil--Prioridade
dos portuguezes no descobrimento da America.

Por ser muito longo o trabalho do dr. Garcia Redondo, e no dispomos,
hoje, do necessario espao, s amanhan poderemos dar na integra a sua
conferencia.

As ultimas palavras do conferencista foram abafadas com uma grande
salva de palmas, sendo s. s. abraado e cumprimentado pela directoria do
Centro e pelo sr. ministro de Portugal.

Antes de ser encerrada a sesso, o sr. ministro de Portugal solicita a
palavra pronunciando um discurso do qual damos o resumo que se segue:

O sr. Antonio Luiz Gomes comea dizendo que no vinha com a inteno de
tomar a palavra nesta assembla. Vinha apenas, na qualidade de
representante do seu paiz, trazer as saudaes mais affectuosas ao
Gremio Republicano Portuguez de S. Paulo e aos iniciadores destas
magnificas conferencias.

Quando vi o assumpto de que se ia tratar, diz o orador, despertou-se
logo no meu espirito e na minha alma a certeza absoluta de que estas
conferencias deviam ter uma influencia muitissimo grande na pacificao
dos espiritos dos portuguezes, um pouco revoltados, e que ellas teriam,
como concluso final, approximar ainda mais a familia portugueza da
familia brazileira.

E, seno bastara isso, eu tambem no podia conservar-me calado depois de
ouvir a palavra brilhantissima do sr. dr. Garcia Redondo. Seria uma
crueldade, uma injustia que eu, em publico, deixasse de attestar, no
s o meu reconhecimento, mas, o que  mais, o reconhecimento do meu
paiz, por este formosissimo e esplendido trabalho. (Muito bem).

Se por ventura o nome do dr. Garcia Redondo no fosse sufficientemente
conhecido, no s nas boas letras, como na sciencia, bastava esta
conferencia para justificar o elevadissimo conceito em que o seu nome 
tido entre portuguezes e brazileiros.

Trabalho magnifico, soberbo, onde se alliam, indiscutivelmente, altos
pensamentos com uma forma burilada e perfeita, e que vem coroar a sua j
larga obra na sciencia e nas letras.

E depois de prestar um enorme servio, de vir levantar a minha patria 
altura a que indiscutivelmente ella tem direito, porque Portugal, embora
pequeno como disse s. exa., aquella mancha pequena, que se encontra no
ponto occidental da Europa, prestou servios  humanidade, e 
civilisao humana, que, positivamente, no foram excedidos por povo
algum do mundo. (Muito bem.)

A civilisao do mundo, meus senhores, firma-se em tres peninsulas, nos
tres pontos que observaes naquelle mappa.

Se na Grecia nasce a civilisao, nascem as artes, a philosophia, a
sciencia; se naquella peninsula italica nasce o direito, porque o
direito romano, pode-se dizer,  a propria razo humana feita lei; foi
naquella pequenina peninsula iberica, naquelle extremo do occidente,
que, numa poca em que os grandes povos de hoje viviam uma vida
inteiramente apagada, numa poca em que a valorosa Inglaterra ainda no
tinha historia; em que a Allemanha apenas se preparava para esse
movimento augusto e sublime que proclamava perante o mundo inteiro a
liberdade de consciencia; em que a Frana fazia os ultimos retoques na
sua lingua e se preparava para escrever paginas brilhantissimas sobre a
historia da humanidade,  certo, entretanto, que nenhuma dellas, por
assim dizer, tinha ainda firmada a sua civilisao.

Por esse tempo, naquelle pontinho se levantava um povo pequenino de
lavradores e de guerreiros, que deixava a patria, para levar o pendo
das Quinas aos extremos mais remotos, aos confins do mundo.

Essa historia  assombrosa:  inacreditavel.

Custa a acreditar que esse povo, como disse um dos grandes philosophos
contemporaneos, Max Nordau, fosse o precursor em todos os grandes
acontecimentos.

Elle tinha dispersado os arabes sem que a Hespanha o conseguisse em
duzentos annos.

 que durante esse tempo a essa grande raa nada faltava: tinha fora,
tinha talento, tinha sciencia.

Foi precisamente esse povo pequenino que deixou sementes por toda a
parte da grandesa do genio de sua raa.

Por isso, meus senhores, espero que a invocao do dr. Garcia Redondo
produza bem rapidamente seus frutos.

Estas lutas no podem continuar, e no podem continuar, sobretudo, no
campo em que infelizmente foram postas.

Eu, quando vim representar a Republica Portugueza, no vim com o desejo
de que todos os portuguezes se fizessem republicanos: no precisamos de
tanto. A unica coisa que desejamos, que eu desejo, como patriota,  que
todos sejamos bons portuguezes. (Muito bem, muito bem.)

Eu louvo at, com a franqueza que me caracteriza, que hajam convices
monarchicas no meio de portuguezes. O que  necessario  que os
republicanos respeitem os monarchistas e que os monarchistas respeitem
os republicanos (Muito bem).

O que ns pedimos  muito pouco:  que nunca confundam as glorias da
patria, da terra onde nasceram com as pequeninas paixes que possam
viver no nosso espirito. (Muito bem, muito bem).

E, posta a luta nestes termos, como  facil todos nos entendermos! Basta
que cada um de ns se esforce para ser o melhor portuguez que possa ser;
trabalhe pelo engrandecimento do seu paiz; honre o nome portuguez por
toda a parte; defenda as suas convices politicas, mas honradamente,
honestamente. (Muito bem. Palmas).

Depois de varias consideraes termina o sr. Antonio Luiz Gomes.

Para realisar a nossa obra no queremos que todos sejam republicanos; o
que queremos apenas  que ninguem se esquea que a patria est acima das
paixes de cada um. (Muito bem).

E eu estou convencido de que esse tempo vae chegar rapidamente.

A Republica vae, dentro de pouco tempo, ter a sua constituinte, a sua
constituio.

Nas ultimas eleies, que foram feitas em condies excepcionaes, depois
de uma revoluo, depois de boatos aterradores, a Republica j teve a
sua consagrao.

Nunca as urnas portuguezas foram to concorridas como neste momento: 80
por cento do corpo eleitoral de Lisboa foi votar.

O Porto, considerado como reaccionario, no para ns republicanos,
porque foi precisamente l que tiveram inicio todos os grandes
movimentos de Portugal, no proprio Porto, a votao foi maior do que em
qualquer outro ponto.

Portanto, todos vm a situao definida e clara em que se encontra hoje
Portugal.

Vindo a S. Paulo, eu dirijo as minhas saudaes mais affectuosas no s
ao povo de S. Paulo, mas tambem  auctoridades do Estado, que nos deram
a alta honra de se fazer representar nesta conferencia, e remato por
agradecer a todas as senhoras, a todos os cidados que aqui vieram e,
finalmente de novo, dirijo os meus agradecimentos mais sinceros e
profundos ao dr. Garcia Redondo, no s em meu nome, como no de
Portugal, que tenho a honra de representar.

As ultimas palavras do dr. Antonio Luiz Gomes foram abafadas com uma
estrepitosa e prolongada salva de palmas da grande assistencia.

(_Noticia do_ ESTADO DE S. PAULO _de 4 de Junho de 1911_).


Conferencias portuguezas

Em carro reservado ligado ao nocturno de luxo, chegou hontem a esta
capital, conforme era esperado, o dr. Antonio Luiz Gomes, ministro de
Portugal junto ao nosso governo, acompanhado de seu secretario, sr. dr.
Bartholomeu Ferreira.

 noite s. exc. assistiu  conferencia que o sr. dr. Garcia Redondo, com
grande successo e brilhantismo, realizou no salo nobre do Instituto
Historico e Geographico, tendo por thema: O descobrimento do Brazil e a
prioridade dos portuguezes no descobrimento da America.

Publicaremos amanh, na integra, esse importante trabalho do distincto
membro da Academia Brazileira de Letras, que foi, pelo successo que
alcanou, vivamente applaudido e felicitado.

Depois da conferencia do dr. Garcia Redondo, o dr. Antonio Luiz Gomes,
usou da palavra, produzindo bellissima allocuo, durante a qual era
constantemente interrompido por estrepitosa salva de palmas.

(_Noticia do_ SO PAULO _de 4 de Junho de 1911_).


Conferencias portuguezas

No salo nobre do Instituto Historico e Geographico de S. Paulo,
realizou-se hontem  noite, conforme se annuncira, a primeira
conferencia da srie promovida pelo Centro Republicano Portuguez, desta
capital.

Coube o inicio das conferencias ao dr. Garcia Redondo, que tomou por
thema de sua orao--O descobrimento do Brazil Prioridade dos
portuguezes, no descobrimento da America.

Precisamente s 8 horas e meia, constituida a mesa da presidencia pelo
sr. Joaquim Dias da Cunha Barbosa, tendo a seu lado o ministro
plenipotenciario de Portugal no Rio de Janeiro, sr. Dr. Antonio Luiz
Gomes, que para tal fim veio a esta capital; dr. Bitencourt Rodrigues, e
membros da directoria do Centro Republicano Portuguez, era o
conferencista introduzido no salo, que j regorgitava de numerosos
cavalheiros e gentilissimas senhoras e senhoritas.

Pudemos mesmo notar entre os assistentes, os seguintes:

Commendador Tiburtino Mondim Pestana, segundo-tenente Carlos Rocha,
representando o general Ferreira de Abreu, inspector da 10. regio
militar, com sde nesta capital; major Arthur da Graa Martins,
secretario do commando geral, da Fora Publica; Jacques Dupas, consul da
Frana, e sua familia; commendador Daniel Monteiro de Abreu, consul do
Paraguay e encarregado do consulado de Portugal; dr. Eugenio Egas,
Arthur Vautier, Nestor Rangel Pestana, Gelasio Pimenta, Jos Vicente
Sobrinho, dr. Antonio Francisco de Paula Sousa, director da Escola
Polytechnica; dr. Rodolpho S. Thiago, lente da mesma escola; dr. Ricardo
Severo, dr. Leopoldo de Freitas, consul de Guatemala, dr. Alfredo
Redondo, dr. Manoel Redondo, Jayme Redondo e sua familia.

Abriu a sesso o sr. Cunha Barbosa.

Referiu-se s. s. com palavras elogiosas ao dr. Bettencourt Rodrigues, de
quem partira a ida das conferencias, cujo grande valor salientou, pois
ellas viriam cada vez mais estreitar os vinculos que unem os dois povos
portuguez e brazileiro.

Saudava a patria portugueza, alli directamente representada na pessoa do
seu ministro plenipotenciario, cuja presena, agradecia.

 directoria do Instituto Historico e Geographico agradecia tambem,
penhorada, a gentileza de haver cedido o salo da sua sde, para a
realizao da conferencia.

Isto dito, e como no desejava prender por mais tempo a atteno do
auditorio, naturalmente ancioso, dava a palavra ao dr. Garcia Redondo,
cuja apresentao julgava desnecessario fazer, pois tinha absoluta
certeza de que nem uma s pessoa alli presente, desconhecia, quer
atravs da imprensa ou da literatura, os altos meritos do conferencista.

Uma prolongada salva de palmas eca pela sala.

Levanta-se ento o dr. Garcia Redondo que comea agradecendo aos
circumstantes a sua temeridade em affrontar os rigores daquella noite
humida e fria, no para ouvir a sua modesta palavra, pois no tinha
sobre isso illuso alguma, mas para corresponder ao appello que lhes
dirigiram os promotores daquella conferencia.

Sobretudo, era-lhe grato constatar alli a presena das representantes do
sexo gentil, que  festa emprestavam a nota brilhante.

Diz que o thema da sua conferencia havia sido para elle objecto de
longos e profundos estudos. Poderia por isso dissertar sobre elle sem
ter necessidade de ler, nem mesmo simples annotaes.

Mas, importando o que tinha de dizer responsabilidades que queria
assumir e receiando que a memoria o trahisse, considerava mais prudente
ler a sua conferencia.

Em seguida, offerece alguns esclarecimentos sobre um grande mappa que
est ao seu lado, e que elle organizou para illustrar a conferencia, e
entra finalmente no assumpto.

s ultimas palavras da brilhante orao do dr. Garcia Redondo, uma
calorosa e prolongada salva de palmas se fez ouvir no salo.

S. s. foi distinguido com a offerta de um lindo bouquet de flres
naturaes.

Levantou-se ento o ministro plenipotenciario da Republica de Portugal,
sr. Antonio Luiz Gomes.

Rece sobre a sala um profundo silencio.

O illustrado diplomata comea affirmando que no comparecera quella
reunio com o intuito de falar.

Mas, cumpria-lhe o dever de agradecer em nome de Portugal, que tinha a
honra de representar, o bello trabalho do dr. Garcia Redondo.

Tratando da moderna phase da sua patria, fala sobre o Portugal antigo,
cujos feitos enchem as paginas da historia universal.

Refere-se  Monarchia, dizendo que ella teve tempo mais que sufficiente
para demonstrar a capacidade dos seus homens.

Por occasio do assassinato de d. Carlos, levaram os republicanos a sua
generosidade ao ponto de prestigiar--sem o sacrificio, porm, das suas
convices politicas--as instituies ento vigentes, desde que isso
concorresse para o bem do paiz.

Entretanto a Monarchia mostrou-se impotente; nada fez porque nada poude
fazer para manter o prestigio de Portugal.

As crises ministeriaes succediam-se de um modo assustador e a situao
chegou a tal ponto que s a Republica poderia salvar as gloriosas
tradies do paiz.

E a Republica veio, no a Republica do terror, das perseguies, como
apraz aos boateiros vulgares, mas a Republica que tem por lemma o
levantamento moral do tradicional paiz das quinas.





End of Project Gutenberg's O Descobrimento do Brazil, by Garcia Redondo

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     and discontinue all use of and all access to other copies of
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1.E.9.  If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
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forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark.  Contact the
Foundation as set forth in Section 3 below.

1.F.

1.F.1.  Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
collection.  Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
works, and the medium on which they may be stored, may contain
"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
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property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
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1.F.2.  LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
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1.F.4.  Except for the limited right of replacement or refund set forth
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1.F.5.  Some states do not allow disclaimers of certain implied
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If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
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or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
http://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at http://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit http://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including checks, online payments and credit card donations.
To donate, please visit: http://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.


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