The Project Gutenberg eBook of Arte da grammatica da lingua do Brasil

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Title: Arte da grammatica da lingua do Brasil

Author: Luis Figueira

Editor: José Mariano da Conceição Velloso


Release date: September 30, 2026 [eBook #79695]

Language: Portuguese

Original publication: Lisboa: Officina Patriarcal, 1795

Other information and formats: www.gutenberg.org/ebooks/79695

Credits: Rita Farinha, Laura Natal and the Online Distributed Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was produced from images generously made available by National Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)

*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK ARTE DA GRAMMATICA DA LINGUA DO BRASIL ***
Este livro constitui numa gramática fundamental dedicada à descrição do Tupi Antigo falada na costa do Brasil, estruturada para auxiliar na catequese e na comunicação colonial.

ARTE
DA
GRAMMATICA
DA
LINGUA DO BRASIL,

COMPOSTA
PELO
P. LUIZ FIGUEIRA,

NATURAL DE ALMODOVAR.

QUARTA IMPRESSAÕ.

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LISBOA:

NA OFFICINA PATRIARCAL.

ANNO M. DCC. XCV.

Com licença de Sua Magestade.

INDICE

PROLOGO AO LEITOR.

NAÕ he facil, pio Leitor, aos que aprendem alguma lingua estrangeira, de idade já crescida, alcançar todos os segredos, e delicadeza dellas, principalmente naõ havendo Arte, nem Mestres, que por arte a ensinem. E por estas razões se podem desculpar as faltas, que nesta obrazinha se acharem.

O gosto, e desejo, que sempre tive de saber esta lingua, para ajudar a estes pobres Brasîs; e a falta, que havia de Arte, para ella se aprender, me obrigaraõ a querella saber, e aprender de raiz por fundamentos, e regras, que busquei, consultando-as, e dando-as a examinar a Indios naturaes, e a Padres grandes linguas nascidos, e criados entre os mesmos Indios do Brasil. E as mesmas razões acima ditas me obrigaraõ, e alguns Padres, e Irmãos curiosos de nossa Companhia, que tiveraõ noticia deste meu trabalho, me estimuláraõ, e animáraõ a tomar atrevimento para sahir á luz com elle. E ainda que a obra seja imperfeita, a muitos será proveitosa; e tambem a quem quizer fazer outra perfeitissima, porque Facile est inventis addere.

Vale.

1

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ARTE DA LINGUA GERAL BRASILIANA.
Das letras que se usaõ nesta Lingua.

AS letras, de que se usa nesta Lingua, saõ as seguintes. A, B, C, D, E, H, I, Y, K, M, N, O, P, Q, R, T, V, X, til. Ficaõ excluidas, F, L, S, Z. Tambem se naõ usa do rr dobrado, ou aspero.

O i, jota serve como no Latim, ora de vogal, ora de consoante. Costumaraõ os antigos linguas usar deste mesmo i, jota com dois pontos, hum na cabeça, e outro no pé, e lhe chamavaõ i grosso, porque a pronunciaçaõ he como entre u, e i. Donde nasce que alguns o fazem u, e outros o fazem i, e forma-se na garganta, como ig; mas porque na impressaõ naõ se póde metter este i com os dois pontos, em lugar delle se poz y; o qual todas as vezes que se achar no meio, ou no fim de alguma dicçaõ, se pronunciará como grosso no modo sobredito.

A letra u, nesta lingua sempre he vogal, e nunca consoante.

Assim que nesta lingua saõ seis as letras vogaes a, e, i, y, o, u.

Destas seis letras se formaõ onze diphtongos, 2nos quaes de duas letras vogaes se faz huma só syllaba, e saõ os seguintes: aî, éi, yj, ôi, ûi, áo, áu, éu, iû, ôu, ûu. Cujos exemplos se pódem ver nos verbos seguintes. A-caì, queimo-me; a-jucei, desejo comer alguma coiza; acepyj, borrifo, a-yopòi, convido; ai-mongûi, desfaço; ai-mongararaò desconjunto; Y jucaù, terceira pessoa relativa do verbo a iucá, elle o mata; y-éu, elle chora; ynhemombeuú, elle se confessa.

Ácerca da letra K, se advirta, que os antigos linguas naõ fizeraõ caso della, com tudo ha muitas dicçoens nesta lingua, que naõ se pódem bem escrever sem ella: seja exemplo o conjunctivo do verbo, ayo-çoc, que he çoc-eme. No qual conjunctivo naõ seria natural a mudança da letra derradeira C, em Q, dizendo, çoqueme, porque naõ ha razaõ boa para se fazer a tal mudança. Nem tambem se póde conservar a tal letra C, ajuntando-lhe a diçaõ Eme, que he necessario ajuntar-se-lhe; porque entaõ soaria a letra C, como S, por respeito da letra E, que se segue, çoceme; e he necessario soar como Q. E se escrevermos o conjunctivo com a letra K, soará bem, e fica a mudança natural do C, em K, porque a letra K, he dobrada, e composta do c h, e o som fica tambem proprio çokeme. Porém quem o escrever com a letra Q, çoqueme, tambem se entenderá, e quem quizer o póde fazer.

Tambem nesta lingua naõ ha conjunção de duas letras, muta, e liquida, bla, cla, tra, etc.

Na composiçaõ de syllabas ha muitas mudanças, que aqui naõ pomos, por evitar confusaõ, o yzob, ara.

3

Declinação dos Nomes por numeros, e casos.

Os Nomes nesta lingua, commumente naõ tem distinçaõ de numeros, singular, e plural, nem tambem de casos; mas a mesma voz serve em ambos os numeros, e em todos os casos. v. g. oca, casa, ou casas: apyaba, homem, ou homens.

Os numeros porém se distinguem com alguns nomes adjectivos, que servem sómente de singular, ou de plural; ou naõ havendo estes, se entende do modo de fallar. E os casos se conhecem por algumas preposiçoens, ou modos de collocar os nomes entre si; ou tambem com os verbos.

Nomes Adjectivos do singular, e plural.

Os nomes adjectivos, que significaõ coisas singulares, ou do plural sómente, saõ numerais: e os que naõ saõ numerais, naõ tem distinçaõ de plural, e singular.

Os numerais do singular saõ os seguintes. Oyepe, hum; ymocṏya, o segundo; ymoçapyra, o terceiro. Oyepe-umbe, hum e hum. Oyepé-yepé, cada hum per si.

Os numerais do plural saõ os seguintes. Mocõi, dous. Moçapyr, tres. Monherũdic, quatro. Ambò, cinco: ou huma maõ, que tem cinco dedos. Opa-combò, dez, ou ambas as maõs.

Xe-po xe-pyg, meus pés, e maõs, que saõ vinte. Amo amò, alguns. Ceta, ceta ete, muitos. Ceyj, muitos. Mobyr, alguns, ou quantos? Moby-riõ, muitos. Opa opa-benhe, opa-catù, todos. Oyepe-guaçu, todos juntos em hum corpo.

Oyepe, junto com verbo no plural. Todos juntos. Na, mostrando os dedos. Tantos. Cic, Pabẽ, todos. Yabiõ, cada hum, 1. singuli.

4

Com os ditos nomes adjectivos juntos aos substantivos, significamos a multidaõ.

Ahẽ, he o mesmo que hic, este, he singular. Aõa, he o mesmo que hi, estes, he plural. Teya, significa multidaõ de gente, he collectivo.

Naõ ha mais distinçaõ de numeros.

Da diffiniçaõ dos casos.

Assim como na lingua Portugueza em lugar de caso ajuntamos algumas preposiçoens aos nomes. v. g. Pedro, de Pedro, a Pedro, para Pedro, com Pedro, etc. Assim tambem nesta lingua qualquer nome substantivos he governado, e varia com preposiçoens.

Do Nominativo.

Qualquer nome substantivo posto só, ou com o adjectivo, serve de nominativo ao verbo. v. g. Boya o-poro-çuù, a cobra morde a gente.

Do Genitivo.

Qualquer nome substantivo posto com outro tambem substantivo, se estiver no primeiro lugar, fica sendo genitivo. v. g. ità coára, buraco da pedra; o nome ità, he o genitivo.

Do Dativo.

Para pormos o nome em dativo ajuntamos-lhe a preposiçaõ pe, ou çupé. v. g. Enheeng de-r-uba-pe, ou Enheeng çupe. Falla a teu pai.

Os pronomes seguintes tem dativos proprios, e particulares.

Yxe, Ego, no dativo tem yxe-be, ou yxe-bo, mihi.

Nde, Tu, no dativo faz nd-ebe, ou nde-bo, tibi.

5

Ore, Nos outros; oro-be, ou ore-bo, Nobis.

Pande, nós todos; no dativo, yande-be, ou yande-bo; nobis omnibus.

Peẽ, vos outros; no dativo. Peẽ-me, ou pee-mo, ou vobis omnibus.

A estes se ajunta este ace, que significa homem, neste sentido, diz homem, faz homem, e no dativo tem ace-be, ou ace-bo.

Do Accusativo.

O Accusativo se significa de varios modos seguintes. 1. Por accusativo do verbo activo se poem o nome simplezmente junto do mesmo verbo, ut A-juca boya, matei huma cobra; ai-moete Tupã, honro a Deos. O 2. accusativo com verbos de movimentos para ir ter com alguma pessoa, a algum lugar, a tal pessoa se denota com a preposiçaõ, pyri. isto he, Ad. E o lugar se denota com a preposiçaõ pe. isto he Ad, ou com a preposiçaõ rupì. isto he per, ou com a preposiçaõ bo. isto he per, ut a-co xe-r-uba pyri, co-pe-nhum rupi. isto he Vou ter com meu pai á roça, e vou pelo campo.

A preposiçaõ bo, significa extençaõ de lugares. v. g. a-ço caa-bo, vou pelos matos, como os que vaõ á cassa. a-ço ôca-bo, vou pelas casas. Aico xe-r-a mữya recò-bo, vivo pelos costumes de meus avós.

Outras preposiçoens tambem pedem accusativo, como diremos tratando dellas.

Quando o verbo activo está entre dois nomes terceiras pessoas, fica duvidoso qual dos nomes he accusativo, e qual nominativo, como se vê nesta oraçaõ: Boya o-jucà cunhã. Naõ se entende bem se a cobra matou a mulher, ou a mulher a cobra; he necessario declarar com outro nome qual foi a morta, ou boya y-jucapyra, isto he, a cobra foi a morta.

6

Mas com tudo nos modos, em que os verbos perdem os artigos, que saõ o conjunctivo, infinitivo, e dahi por diante, como veremos, devem sempre os dois nomes terceiras pessoas estar antes do verbo, e o nome que lhe ficar immediatamente, elle será o accusativo; boya cunhã juca-reme, se a cobra matar a mulher; cunhã he o accusativo.

Estas duas palavras oró, opô, saõ dois accusativos do singular, e plural da segunda pessoa. orô, he o mesmo que Te: opò, he o mesmo que vos, no accusativo. Mas sómente se usa quando a primeira pessoa do singular Ego; ou no plural Nos, se poem por nominativo do verbo activo; e sómente nos modos, que tem artigos, que saõ o indicativo, e optativo (naõ entra nesta conta o imperativo, porque ainda que tenha artigos, com tudo tem outro modo de fallar) v. g. Yxe oro-jucâ, eu te mato. Opo-jucà, vos mato. Ore oro-jucâ, nos outros te matamos. Ore opo-jucà, nos outros vos matamos.

Do Vocativo.

O Vocativo só tem distinçaõ do nominativo, nos nomes acabados em letra vogal com acento na penultima: e a distinçaõ he perderem a ultima vogal no vocativo. v. g. Este nome Morubixàba, o governador, ou superior; no vocativo Morubixab.

Todos os mais vocativos, e estes tambem se denotaõ com esta particula gui, ou gue, que he o mesmo, que Oh, no Portuguez; e assim como dizemos, xe-rub-guè, as mulheres devem em lugar de guì, ou guè, dizer iu, ou iò. Xe-cyg-ju, oh minha mãi.

Do Ablativo.

O Ablativo se distingue com a preposiçaõ çuì, que significa como De, ou ex. A-jur xe co çui, venho da minha roça.

7

Das Conjugaçoens dos Verbos.

Duas saõ sómente as conjugaçoens affirmativas de todos os verbos; salvo algumas irregulares, que poremos em particular. A estas conjugaçoens affirmativas, respondem outras duas negativas.

E havemos logo de advertir, que os verbos huns se começaõ por artigos, outros se começaõ por pronomes; e pelos artigos, e pronomes se conhecem, e distinguem as pessoas, e numeros dos verbos; porque a vôz núa dos taes verbos he sempre a mesma sem distinçaõ alguma.

Mas os artigos, e os pronomes respondem igualmente aos pronomes latinos, Ego, Tu, Illi, Plur. Nós, Vós, Illi.

1. Art. A, Ere, O. Plur. Ya, Oro, Pe, O.
2. Art. Ai, Erei, Oî. Plur. Yâi, Oròi, Pêi, Oî.
Pronome. Xe, Nde, Y. Plur. Yande, Ore, Pe, Y.

O primeiro artigo de A, singello serve a quasi todos os verbos neutros, e a alguns activos. O 2. artigo aî, sómente serve a muitos activos, e a estes dois neutros, ai-cò, ai-que. Assim os artigos, como o pronome, tem duas terminaçoens, ou fórmulas na primeira pessoa do plural, como vemos. A primeira fórmula inclue em si a pessoa, ou pessoas, com que fallamos; ut ya-jucà, nós matamos, ou nós, e vós tambem comnosco. A 2. fórmula exclue a pessoa, ou pessoas, com que fallamos: ut oro-jucà, nos outros matamos, naõ entrando vós nisto. E isto se deve notar, e ter diante dos olhos.

8

PRIMEIRA CONJUGAÇAÕ
GERAL DOS VERBOS
do Artigo A.

Modo Indicativo.
Tempos. Presente. Imperfeito. Preterito. Plusquamperf.

Plural.

Advertencia 1.

Para denotarmos mais claramente, que fallamos por imperfeito, ajuntamos muitas vezes esta particula, Aèreme, que significa, entaõ: ut A-juca-aereme, entaõ matava eu.

Imperfeito.

Plur.

9

Advertencia 2.

Ao preterito perfeito tambem se ajunta muitas vezes esta particula uman, ou umoan, que significa o mesmo que Ià: ut a-juca-uman, jà matei, ainda que esta mesma particula uman, tambem póde servir noutros modos de fallar; como no imperativo; ut t-ia-jucà-uman, matemos jà, ou no presente, a-jur-uman, jà venho, ou jà vou.

Numero singular.

Advertencia 3.

E para denotarmos mais claramente o Plusquam perf. podemos ajuntar ambas as sobreditas particulas, uman-aereme: ut a-juca-uman-aereme. Ja eu entaõ tinha morto.

Exepçaõ 1.

Os verbos, que depois do Artigo A, immediatamente tiverem algumas destas quatro syllabas ra, re, ro, ru, entremeteraõ esta syllaba gué, entre o artigo, e a tal syllaba, mas isto na terceira pessoa sómente: ut araço, eu levo, ere-raço, tu levas: o-gue-raço, elle leva, a-reco, eu tenho: ere-reco, o-gue-reco. A-ro-quer, ere-ro-quer, o-gue-ro-quer. A-rur, e-re-rur, o-gue-rur etc.

Exepçaõ 2.

Os verbos, que depois do artigo immediatamente tem algumas destas syllabas, yo, nho; na terceira pessoa perdem a tal syllaba: ut a-yo-çoc, ere yo-çoc, o-çoc, dar de ponta com algum páo. A-nho-tim, ere-nho-tim tim; enterrar, ou plantar.

10

Futuro.

Plural.

Modo Imperativo.
Tempo presente.

E-jucâ. Mata tu. T-o-jucâ. Mata elle.

Plural.

Futuro, modo mandativo.

T-ere-juca-ne. Mataras tu.

Plural.

T-e-pe-juca-ne. Matareis vos outros.

Modo Optativo.
Tempo presente, e imperfeito.

Plural.

Preterito perfeito, e plusq. perf.

Plural.

Futuro.

Plural.

Modo Permissivo. Presente.

Plural.

Imperfeito.

Plural.

Preterito perf.; e plusq. perf.

Plural.

Futuro.

Plural.

Chama-se este modo permissivo; porque o seu significar he como permittindo, que se façaõ as coizas, ou como pedindo licença para as fazer. E ainda que no artigo tenha similhança com o imperativo; com tudo naõ significa mandando fazer.

Nos modos, e tempos seguintes, se perdem os artigos, o que se deve muito notar.

Modo Conjunctivo.
Presente, Imperfeito, Preterito, Plusq. perf. Futuro.

Iuca-reme. (Quando, porque, como, se.) Eu mato, matava, matei, matára, matasse, matar. Tu matas, matavas, mataste, mataras, matares. Elle mata, matava, matou, matára, matar. Nós matamos, matavamos, matamos, mataremos, matarmos. Vós, etc. Elles, etc.

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Modo Infinitivo.
Presente, Imperfeito.

Iucâ. Matar, ou que mato, e matava: matas, e matavas, matamos, e matavamos: matais, e mataveis: mataõ, e matavaõ.

Preterito, e Plusquam perfeito.

Iuca-agoéra. Que matei, e matára, mataste, e matarás, matou, e matára: matamos, e mataramos: matastes, e matareis: mataraõ, e tinhaõ morto.

Futuro perf., e Supino em, Tum.

Iuca-ãoama. Para haver de matar, ou que ei, ás, á; havemos, haveis, hande matar.

Futuro imperfeito.

Iuca-ramboéra. Que ouvera eu de matar, mas naõ matei: que ouvera tu: ouvera; ouveramos; ouvereis; ouveraõ elles de matar; mas naõ aconteceo.

Supino passivo, ou participio passivo.

Y-juca-pyráma. Para se matar: coiza que hade ser morta: digna de ser morta.

Gerundio, e Supino.

Iuca-bo. Amatar; para matar, e matado.

Pela conjugaçaõ acima posta se conjugaõ todos os verbos do artigo A, ou Ai. Ou sejaõ Activos, ou Passivos, ou Neutros, absolutos, simples, ou compostos, que toda esta variedade ha de verbos. Só tem duas differenças os activos, de todos os mais nomeados, a que chamamos naõ activos. 14A primeira differença he, que só dos activos nasce o supino passivo, ou participio em yra, com sua variedade de tempos; como do verbo a-juca, y-juca-pyra, o que he morto. Y-jucà-pyroéra, o que foi morto. Y-juca-pyráma, o que ha de ser morto. Y-juca-pyramboéra, o que ouvera de ser morto, mas naõ foi.

A segunda differença he, que os gerundios dos activos tem huma só terminaçaõ para todas as pessoas, e ambos os numeros sem artigo, e todos os mais gerundios tem varios artigos para as pessoas, e numeros. E os verbos de pronome, xe, tem tambem sua variedade de pronomes no principio. Os artigos do gerundio dos verbos naõ activos, saõ os seguintes. Gui, E, O. Plur. Ya, ou orõ. Pe, O. Sejanos exemplo o gerundio do verbo neutro a-pac, que significa acordar.

Plural.

Da ultima letra, em que se acabaõ os gerundios de todos os verbos, diremos adiante nas advertencias geraes.

CONJUGAÇAÕ DO VERBO NEGATIVO.

PARA negarmos qualquer coiza nesta lingua, se usa de varios modos de negaçoens, todas annexas ao verbo, compondo-se com ellas, e com o verbo affirmativo outro verbo negativo, com sua variedade de modos, e tempos, como iremos vendo. E todos os verbos se negaõ da mesma maneira. E note-se que as negaçoens começaõ pela letra N. E tambem admittem a letra D, depois do 15N, ut n-a-juca-i, ou n-da-juca-i, ou com o D sómente. Da-inca-i.

MODO INDICATIVO DO VERBO NEGATIVO.
Presente. Imperf. Preterito. Plusq. perf.

Plural.

Advertencia.

Quando negamos com esta negaçaõ (ainda naõ) que denota haverse ainda de fazer a coiza, que naõ se fez, usa-se este modo de fallar—(D-aci ranbe), e tem sua variedade de pessoas da maneira seguinte.

Com o qual modo de fallar se poem necessariamente o verbo no gerundio entremettido no meio destas duas particulas. N-d-a-ei-ranhe: ut.

16

Futuro negativo.

Plural.

Modo Imperativo negado. Presente.

E-jucâ-ume. Naõ mates tu. To-jucâ-ume. Naõ mate elle.

Plural.

Futuro, ou modo mandativo.

T-ere-juca-umene. Tu naõ matarás.

Plural.

T-a-pe-juca-umene. Vós naõ matareis.

Modo Optativo negativo.
Presente. Imperfeito.

Plural.

Preterito, e plusq. perf.

Plural.

Fallando pelos tempos, Imperfeito, Perfeito, e Plusquamperfeito, póde-se metter a particula, aẽreme, isto he, entaõ.

Futuro.

Plural.

Modo Permissivo negativo.
Presente.

Plural.

18

Imperfeito, Preterito, e Plusq. perf.

Plural.

Aqui se pódem tambem ajuntar as particulas vman, vmoan, aereme: ut n-a-jucai-xoe-uman-beemo aereme. Naõ tivera eu ainda entaõ morto, etc.

Futuro.

Plural.

Modo Conjuntivo negativo.
Presente, Imperf. Preterito, Plusq. perf.

Iuca-eyme. (Quando, porque, como, se.) Eu naõ mato, matava, matei, matára, matasse, matar. Tu, elle, nós, vós, elles.

Modo Infinitivo negativo.
Preterito. Imperfeito.

Preterito, Plusquam perf.

Iuca-eyma-goera, ou iuca-goer-eyma. Naõ ter morto, ou que naõ matei; naõ matara; naõ mataste, etc.

Futuro perfeito, e Supino.

Iuca-eymaõama; ou iuca-õameyma. Para naõ haver de matar; a naõ matar, para naõ matar. Eu, tu, elle, nós, etc.

Supino passivo, e Participio passivo.

Y-juca-pyra-maõama, ou y-juca-pyrâ-meyma. Coiza que naõ ha de ser morta, digna de se naõ matar.

Gerundio, e Supino activo.

Iuca-eyma. A naõ matar; para naõ matar.

Gerundios dos verbos naõ activos.

Todos os gerundios dos verbos, que naõ saõ activos se negaõ com esta dicçaõ (Eyma) no fim: ut.

Plural.

20

Advertencia sobre estas negaçoens.

Bem se deixa ver a variedade destas negaçoens. O indicativo no Presente, Imperfeito, Preterito, e plusquam perfeito se nega pondo no principio, antes do artigo algumas das letras N, D, ou ambas juntas N-d. E no fim, a letra i, ut a-juca. N-a-juca-i, ou n-d-a-juca-i. N-d-ere-juca-i, etc.

E se ajuntarmos no fim do verbo esta dicçaõ, eymi, seraõ duas negaçoens, que affirmaraõ: ut a-juca, eu mato. N-a-juca-i, naõ mato. N-a-juca-eymi, naõ deixo de matar. Ai-monhang, eu faço. Nai-monhang-i, naõ faço. Nai-monhang-eymi, naõ deixo de fazer.

O futuro deste indicativo se nega, metendo esta syllaba xo, ou xoè, antes da syllaba ne: ut a-juca-ne, matarei: N-a-juca-i-xoe-ne, naõ matarei, ou na-juca-xo-ne; outros dizem, na-juca-xoe-i-rine, metendo tambem a syllaba, ri.

O imperativo nega-se com a dicçaõ, vme: ut e-iuca-umè. naõ mates tu.

O optativo se nega com as letras N, D, no principio do verbo, e depois se ajunta esta dicção xoè, ou xoer, antes da dicção, temomã, ou meimã, ou meimomã: ut n-a-juca-i-xoe-temomã.

O permissivo nega-se com a dicção, vme, e no futuro, vmene.

O conjunctivo se nega com a dicção, eyme, no fim.

O infinitivo, e mais tempos seguintes, se negaõ com a dicçaõ eyma, no fim.

As letras N. D. Nd, quando no principio do verbo achaõ letra consoante, tomaõ comsigo a letra A: ut nape-jucai, etc.

21

SEGUNDA CONJUGAÇAÕ
GERAL DOS VERBOS,
QUE COMEÇAÕ POR PRONOME, Xe.

Modo Indicativo affirmativo.
Tempo presente, Imperfeito, Preterito, Plusquam perfeito.

Plural.

Negativo.

Plural.

Aqui entra tambem, o que dissemos na primeira conjugaçaõ das particulas, vman, vmoan. aereme, e da negaçaõ d-aei-ranhe, derivada pelas pessoas, e com o verbo no gerundio: ut d-aei-xe-maenduar-amo-ranhe; ainda me naõ lembro, ou lembrei. D-erei-de-maenduar-amo-ranhe; ainda tu naõ, etc.

22

Advertencia 1.

Sobre as terceiras pessoas destes verbos de pronomes se ha de notar, que o commum das taes terceiras pessoas, he começarem pela letra Y: ut xe-maenduar-ar, n-de-maenduar: y-maenduar. Xe-amgaturam, de-angaturam, y-angaturam, etc.

Exceptuando-se porém deste regra os verbos, que depois do pronome Xe, tiverem a letra R, immediatamente, a qual letra R, se muda em ç, com zeura na terceira pessoa: ut xe-ropar, n-de-ropar, ç-opar, andar perdido. Xe-roçang, n-de-roçang, ç-o-çang, ser socegado, etc.

Cinco verbos com tudo, que tem R, immediatamente depois do pronome xe. Na terceira pessoa naõ tomaõ ç, mas guardaõ a regra geral, tomando y; e saõ os seguintes. Xe-rob, sou amargoso; xe-rò, sou vesgo; xe-rurû, estou inchado. Xe-ryir, tenho sobrinhos por parte de minhas irmãs; xe-ro-ygçung, estou frio. Cujas tres pessoas saõ as seguintes. Y-rob, y-rò, y-rurù, y-ir, y-royg-çang.

Tambem se exceptuaõ daquella primeira, e da segunda regra, os verbos compostos de nomes, cuja primeira letra T, fica na terceira pessoa, ainda que na primeira, e segunda pessoa se mude em R, immediato ao artigo: ut, deste nome Tuba, se forma, e compõe este verbo, xerub, que quer significar, eu tenho pai. E ainda que nas primeiras pessoas tenha R, immediato ao pronome xe, xerub, n-derub, na terceira pessoa faz, tub, elle tem pai, etc.

Futuro.

Plural.

Negativo.

Plural.

Modo Imperativo.
Presente.

Plural.

Negativo.

Plural.

Futuro.

T-ande-maenduar-i-ne. Lembrarteás.

Plur.

T-a-pe-maenduar-i-ne. Lembraivoseis vós.

Negativo.

T-ande-maenduar-umene. Naõ te lembrarás.

Plural.

T-a-pe-maenduar-umene. Naõ vos lembrareis.

Modo Optativo.
Presente. Imperfeito.

Plural.

Negativo.

Plural.

Preterito, Plusquam perf.

Plural.

Negativo.

25

Plural.

Futuro.

Plural.

Negativo.

Plural.

26

Modo Permissivo.
Presente.

Plural.

Negativo.

Plural.

Imperfeito, Preterito, Plusquam perfeito.

Plural.

27

Negativo.

Plural.

Futuro.

Plural.

Negativo.

28

Plural.

Modo Conjunctivo.
Presente, Imperfeito, Preterito, Plusquam perf. Futuro.

Plural.

Negativo.

Plural.

29

Modo Infinitivo.
Presente, Imperfeito.

Plural.

Negativo.

Plural.

Preterito, Plusquam perf.

30

Plural.

Negativo.

Plural.

Futuro perf.

Plural.

31

Negativo.

Futuro imperf.

Negativo.

Xe-maenduar-amboer-eyma. Que me naõ havera de lembrar, &c.

Gerundio, e Supino.

Plural.

Negativo.

32

Plural.

Note-se que nos gerundios o pronome nas terceiras pessoas sempre he O; assim nestes verbos de pronome, como nos verbos neutros de artigo.

Da Conjugaçaõ de alguns verbos irregulares.

De duas maneiras podemos chamar aos verbos irregulares; ou porque se naõ usaõ mais que em alguns tempos, numeros, ou pessoas; & estes melhor se chamaõ Defectivos, porque tem faltas nas taes cousas; mas nos tempos, que tem, guardaõ a ordem das conjugações geraes. Outros saõ propriamente irregulares, porque tendo tudo o que os outros tem, naõ fazem suas formações da mesma maneira.

E ha de se notar, que as irregularidades destes verbos commumente saõ nas terceiras pessoas do presente do Indicativo; e pelo conseguinte nos modos, e tempos que se formaõ das taes terceiras pessoas: como saõ o Conjunctivo, Infinitivo, Gerundios, Supinos, e verbaes, como veremos, de cuja formaçaõ trataremos adiante em seu lugar. Aqui conjugaremos em particular os verbos irregulares.

Do Verbo A-e. Dizer.
Presente.

33

Plural.

Terceira pessoa relativa. Y-eú.

Desta terceira pessoa relativa se dá razaõ adiante na terceira advertencia geral, das que se daõ sobre alguns tempos, e formações dos verbos.

Imperativo.
Presente.

Plural.

Gerundio, e Supino.

Guy-ja-bo. P-ia-bo. Oya-bo.

Plural.

No mais guarda a conjugaçaõ geral, e seus compostos em tudo o seguem.

Do verbo, A-jur.
Vir. Presente.

Plural.

Terceira pessoa relativa. Tûri.
Imperativo.

Plural.

Conjunctivo.

Plural.

Do verbo A-jub. Estar deitado.

Plural.

Yàjub, ou Oro-jub. Pe-jub. O-u-b.

Terceira pessoa relativa. Tùi.

Do verbo A-in. Estar deitado.

36

Terceira pessoa relativa Ceni, ou Nènimas só no plural.

Do verbo Amano. Morrer.

Indicat. A-mano. Ere-mano. O-mano. Ya-mano, ou Oro-mano. Pe-mano. O-mano.

Terceira pessoa relativa. C-eõ-u.

Fallando-se absolutamente, morrendo-se, T-eõn-eme, morrer, T-eõ.

Do verbo Aico. Estou, ou tenho ser.

Terceira pessoa relativa. C-e-co-u.

Composto deste he A-ico-bè. Estou bem.
Guarda as regras do seu simples.

Do verbo Aique. Entrar.

Indic. A-ique. Eu entro. Ero-ique. O-ique. Ya-ique, ou Oro-ique. Pe-ique. O-ique.

Terceira pessoa relativa. C-e-iquè-u.

Do verbo Aitic. Derribar. Activo.

38

Terceira pessoa relativa. Ceitiki.

Do verbo A-jar. Tomar, Activo.

Indicat. A-jar. Eu tomo. Ere-jar. O-goar. Ya-jar, ou Oro-goar. Pe-jar. O-goar.

Terceira pessoa relativa. Tari.

Outro verbo A-jar. Estou pegado, he neutro, não he irregular.

A-jar. Ere-jar. O-jar. Ya-jar, ou Oro-jar. Pe-jar. O-jar, &c.

Do verbo A pygnó, significa o mesmo que o verbo Latino, Pedro.

Indicat. A-pygnò. Ere-pygnò. O-pygnò. Ya-pygnò, ou Oro-pygnò. Pe-pygnò. O-pygnò, ou O-goe-pygnò.

39

Terceira pessoa relativa. C-e pygno-ù.

Do verbo Apotí.

A-potî. Ere-potì O-gue-potì, ou O-potì, &c.

Terceira pessoa relativa. C-e-potíu.

Do verbo Aço. Eu vou.

A-ço. Ere-ço. O-ço, &c.

Terceira pessoa relativa. Çoù.

40

A razaõ da variedade das letras das terceiras pessoas relativas, que combinaõ com as do Conjunctivo, e Infinitivo, se verá melhor adiante nas advertencias geraes que pomos sobre os verbos.

Da irregularidade de alguns verbos activos, que depois do artigo tem immediatamente alguma destas syllabas Ra, Re, Ro, Ru, ou A-raço, A-reço, A-roquer, A-rur.

Desta sorte de verbos faremos mensaõ adiante; mas porque saõ tambem irregulares, ainda que guardaõ entre si a mesma ordem, poremos aqui huma conjunção delles, fazendo sómente mensaõ de suas irregularidades nos modos, e tempos em que as tem.

Do verbo A-raço. Eu levo.

Do verbo Sum, es, fui.

Naõ ha nesta lingua verbo algum particular, que propriamente responda ao verbo Sum es fui, Latino; mas esta falta se supre bem com o pronome Xe.

41

Tres saõ as significações do verbo Sum, ou Ser, Estar, Ter, ou Sum, eu sou, ou estou, e tambem Est mihi pater, eu tenho pai. Para a significaçaõ de estar, temos nesta lingua o verbo Ai-cò, de que fizemos mençaõ entre os irregulares; o qual tambem significa Ser, e principalmente o seu composto Ai-cobé, que significa Estou vivo, Estou são, Estou presente, Tenho ser, &c.

Ácerca do pronome Xe, se ha de saber que elle primeiramente significa o mesmo que no Latim Ego; e assim he o mesmo dizer, Xe, nde, y. Plur. Yande, ou Ore, Pe, Y. quer dizer, Ego, tu, ille. Plur. Nos, vos, illi.

Segundariamente o mesmo pronome Xe, significa tambem o possessivo Meus, mea, meum. Nde, Tuus, tua, tuum, Y, significa Illius. Yande, ou Ore, Noster, nostra, nostrum. Pe, Vester, vestra, vestrum. Y, Illorum, Illarum, Illorum.

Na primeira significaçaõ em que o pronome Xe, responde a Ego, ajuntando-lhe qualquer nome adjectivo, forma o verbo Sum, ex. Catu, significa cousa boa, Xe-catu, eu sou bom. Pochi, significa cousa má, ou feia, ou fuja. Xe-pochi, eu sou máo, ou feio. Angaturama, virtude, Xe-angaturam, sou virtuoso. N-d-e angaturam, tu es virtuoso. Y-angaturam, elle he virtuoso. Yande angaturam, nos. P-y-angaturam, vós sois virtuosos. Y-angaturam, elles, &c.

Na segunda significaçaõ em que o pronome Xe significa o mesmo que Meus, mea, meum, ajuntando-lhe qualquer nome substantivo de cousa possuida, fórma o mesmo verbo Sum em estoutro sentido de ter, ou possuir alguma cousa, ex. Cig, mãi, Xe-cig, tenho mãi, Co-rossa, Xe-co, tenho rossa. Tuba, pai, Xe-rub, tenho pai, mudado o T, em R, na compoziçaõ; cuja razaõ se entenderá depois, quando tratarmos dos relativos, e 42conjugaremos hum verbo, como os outros desta maneira. Xe-co, eu tenho rossa, Yande-co, ou Ore-co, nós temos rossa, Pe-co, vós tendes rossa, Y-cò, elles a tem, &c.

Note-se com tudo nesta composiçaõ, e formaçaõ deste verbo, que quando o nome que se ajunta com o pronome Xe tem o assento na penultima, entaõ na composiçaõ perderá a ultima em todos os tempos, salvo o infinitivo, ou este nome Angaturáma, tem o assento na penultima, formando o verbo Sum, ha de dizer, Xe-angaturam, e perde a ultima letra A. N-d-e-angaturam, Yande-angaturam, &c. no infinitivo, Angaturam-a.

DAS OITO PARTES DA ORAÇAÕ.
Nome, Pronome, Verbo, Participio, Preposiçaõ, Adverbio, Interjeiçaõ, Conjunçaõ.

HAVENDO de tratar de cada huma das oito partes da oraçaõ tem o primeiro lugar o tratado da

Devisaõ do nome em commum.

Todos os nomes nesta lingua se resumem em Substantivos, Adjectivos, Absolutos, Verbaes, Possessivos, Relativos, Comparativos, e Superlativos.

Substantivos saõ os que podem estar na oraçaõ só por si com o verbo, ex. Abâ omano, hum homem morreo.

Adjectivos saõ os que naõ podem estar na oraçaõ sem substantivos, clara, ou ocultamente, ex. Tinga, cousa branca.

Absolutos saõ os que naõ nascem de algum verbo, ex. Oca, casa, Ybyrá, pao.

43

Verbaes saõ os que nascem de alguns verbos, ex. Iuca-çara, o matador, do verbo Ajucã, matar. Iuca-çaba, o instrumento de matar.

Estes verbaes saõ commummente em tres maneiras; huns acabados em Ara, ou Ana; outros acabados em Aba. Os terceiros em Yra. Assim como do verbo Ajuca. Iucaçara, o matador. Iucaçaba, o instrumento ou lugar, ou tempo, ou modo de matar. Y-juca-pyra, a cousa morta.

E estes verbaes em Yra sempre saõ passivos; e nascem sómente de verbos activos, e naõ d’outros. E tem differentes tempos presente, preterito, e futuro; ex. Y-juca-pyra, o que he, ou era morto. Y-juca-pyroera, o que ha de ser morto, ou digno de o ser. Y-juca-pyramboera, o que havia de ser morto, mas naõ foi. Todos estes verbaes tem suas regras do modo com que se fórmaõ, como diremos adiante.

Possessivos saõ aquelles pronomes Xe, Nde, Y. Plural. Yande, Ore, Pe, Y. Idest, Meus, Tuus, Suus. Noster, Vester, Illorum. O, responde ao reciproco Suus, como veremos.

Tambem saõ possessivos estes, Xe-remi, N-d-e-remi, C-emi, Yande-remi, Ore-remi, Pe-remi, Ce-mi.

Os primeiros possessivos se ajuntaõ com todos os nomes de cousas, que podem vir a possessaõ de alguem, ex. Xe-có, minha rossa, Xe-r-uba, meu pai.

Tambem se ajuntaõ com os infinitivos de todos os verbos, que naõ forem activos, e significaõ possessaõ da acçaõ dos taes verbos, ou por melhor dizer, significaõ que se exercita a significaçaõ dos taes verbos, ex. Xe-quera, o meu dormir, Xe-paca, o meu acordar.

Tambem se ajuntaõ os mesmos possessivos com os infinitivos dos verbos activos, com condiçaõ que levem comsigo o seu accusativo, ex. Xe Tupã 44rauçuba, o meu amor a Deos, N-d-e-xe-amotareima, o vosso odio que me tendes.

Os segundos possessivos só se ajuntaõ com os infinitivos dos verbos activos sem accusativo, e significaõ, naõ a acçaõ, ou significaçaõ dos mesmos verbos activos; mas a cousa sobre que cahe sua acçaõ, ex. Xe-remi-jucá, a cousa que eu matei, Xe-remi-mondo, a cousa que eu mando, ou o presente, ou o pagem, D-e-remi-mondo, o que tu mandaste, C-e-mi-mondo, o que elle mandou, Pedro remi-mondo, o que Pedro mandou; e no reciproco, O-gue-mi-mondo; mas o que pertence a isto, abaixo diremos nos reciprocos.

Do nome Relativo.

Relativos saõ os seguintes: Ae, Aé-ae, Ae-bae, significaõ, esse mesmo, esse, esse de que fallamos.

Servem tambem de relativos em lugar de Qui, quæ, quod, estas tres letras Y, C, T. A letra C, ha de ter zeura, cada huma dellas se ajunta com seu genero de nomes, que iremos vendo por algumas regras.

Primeira regra.

Todos os nomes que começaõ por ç, com zeura, sendo relativos conservaõ o mesmo ç, ex. çaba, a penujem, ou penna miuda do passaro, Xe-çaba, minha pena, N-d-e-çaba, tua penna, çaba, sua penna. Se o nome que havia de ser relatado, está presente immediato antes do ç, muda-se em R, como vemos. Guira-r-aba, a penna do passaro, çaba, a sua penna.

45

Segunda regra.

Todos os verbos activos, e naõ outros que se começaõ por ç, com zeura, conservaõ o tal ç, quando ficaõ relativamente, ou quando o accusativo naõ fica immediatamente antes, ex. Bae-catu ace Tupa-r-auçuba, Baecatu Tupã ace-çauçuba. Sendo accusativo do verbo çauçuba, o nome Tupã, na primeira oraçaõ fica immediato ao verbo, e muda-se o ç, do verbo em R; e na segunda oraçaõ por naõ estar o accusativo, Tupã, immediato ao verbo, falla-se por relativo, e por isso fica o ç, çauçuba por relativo.

Primeira exceiçaõ das duas regras sobreditas.

Exceptuão-se destas regras os nomes seguintes, que commeçando por ç, com zeura, fallando-se dellas relativamente, mudaõ o ç em X, e naõ em R, tomando Y por relativo.

Cebae, mantimento, Y-x-ebae, o seu mantimento.

Çumara, inimigo, Y-x-umàra, o seu inimigo.

Cig, mãi, Y-x-ig, sua mãi.

Cyjra, tia materna, Y-x-yjra, sua tia materna.

Cibà, testa, Y-x-ibà, sua testa.

Cira, enxada, Y-x-ira, sua enxada.

Çama, corda, Y-x-ama, sua corda.

Çuguaragig, o namorado, Y-xu-guaragig.

Segunda exceiçaõ.

Tiraõ-se tambem daquellas duas regras os infinitivos dos seguintes seis verbos activos; os quaes nunca mudaõ o ç em R, ainda que lhe fique o accusativo immediato, e fallando-se relativamente, mudaõ o ç em X, tomando Y por relativo.

46

A-y-o-cib, alimpar, infinitivo, Ciba, Nhaẽ-ciba, alimpar o prato, Y-xiba, alimpallo.

A-y-o-çoc, picar, ou dar de ponta, Çoca, Y-xoc-a, picallo.

A-y-o-çub, visitar, Çuba, Y-xuba, visitallo.

Aixoò, convidar a banquetes, Çoò, Y-xoò, convidallo.

Ai-xuú, morder, Çuú, Y-xuù, mordello.

Ai-xuban, chupar, Çubana, Y-xubana, chupallo.

A estes imitaõ todos os verbos neutros que se começaõ por ç, com zeura, que nunca mudaõ o ç em R; e quando se põe relativamente, tomaõ Y por relativo, e mudaõ o ç em X, ou Aço, vou, ço, ir, Y-xo, a sua ida, o seu ir.

Tambem as preposições seguintes tomaõ Y por relativo dos nomes que regem, e mudaõ o ç em X, çui, de, Y-xui, delle, çoce, em sima, Y-xoce, em sima delle.

Çupe, rege dativo, Y-xupe, a elle.

Advirta-se aqui, que quando Y se antepõe á letra ç com zeura, o tal ç se muda sempre em X na mesma dicçaõ, ou seja simples, ou composta; e ainda que seja Y, relativo, ou Aço, ço, y-xo.

Terceira regra por ordem.

Todos os nomes começados por T, quando se põe relativamente, mudaõ o T em ç com zeura. Teté, corpo, Pedro r-ete, corpo de Pedro, C-ete, seu corpo: o T ou ç se mudaõ em R, ficando-lhe atrás immediato o nome que haviaõ de relatar, ou possessivo, ou Xe-r-ete, meu corpo, Pedro r-ete.

47

Primeira exceiçaõ desta terceira regra.

Tiraõ-se desta regra os seguintes, começados pela letra T, os quaes conservaõ o T por relativo.

Estes três derradeiros naõ mudaõ o T em R, ainda que lhe fique atrás immediato o nome que haviaõ de relatar, ex. Xe-taya, Cunumi turuçu, O-tinga. Os precedentes mudaõ o ç em R, como Pedro r-uba.

Segunda exceiçaõ da terceira regra.

Os seguintes se começaõ todos pela letra T, e relativamente postos, conservaõ o T, e tomaõ Y por relativo, como Tecocuaba, entendimento, Y-tecocuaba, o seu entendimento.

Ajuntaõ-se a estes todos os nomes de animaes, de frutas, de hervas, de materias; os quaes todos, quando começaõ por T, o naõ mudaõ, e tomaõ Y por relativo, ex. Tapijra, a anta, Tagoâ, o barro vermelho, Tayaóba, a couve.

Advirta-se aqui, que naõ se diz Xe tapijra, minha vacca, Pedro Tayaçu, porco de Pedro; mas Xe-reimbaba Tapijra, Tayaçu, minha creaçaõ, vacca, porco, &c.

49

Quarta regra por ordem.

Todos os nomes começados por outras letras, A, B, C, sem zeura, &c. tomaõ Y por relativo, como Angaturama, a bondade, Y-angaturama, sua bondade, Cò, rossa, Y-cô, sua rossa, &c.

Exceiçaõ desta quarta regra.

Desta quarta regra se tiraõ os seguintes nomes, os quaes começaõ por outras letras, e tomaõ ç com zeura por relativo, e se começarem por consoante, tomaõ por relativo as syllabas ça, ou ce inteiras, e o ç se muda em r, ficando-lhe atrás o nome, ou pronome, que haviaõ de relatar, ex.

Ocá, casa, Xe-r-ôca, relativamente, Çòca, sua casa.

Vûba, flécha, Ç-uûba, sua flécha.

Pè, caminho, Xe-r-a-pé, Ç-apê.

Nhaẽ, prato, Xe-r-e-nhaẽ, C-e-nhaẽ, seu prato.

Nhaữùma, barro, Xe-r-e-nhauûma, C-e-nhauúma, seu barro.

Nimbò, fio, Xe-r-e-nimbô, C-e-nimbô, seu fio.

Cúya, cabaço, Xe-r-e-cuya, C-e-cuya.

Cujá, canteiro, Xe-r-e-cujá, C-e-cujá.

Panacữ, cesto comprido, Xe-r-e-panacữ, C-e-panacữ.

Moéma, ou T-e-moéma, Xe-r-e-moéma, C-emo.

Metâra, pedra do beiço, Xe-r-e-metâra, C-e-metàra.

Miapè, paõ, Xe-r-e-miapè, C-e-miapé.

Mimõya, Cousa cosida, Xe-r-e-mimõia, C-e-mimõya.

Biara, a cousa que se mata para comer, cassa, ou pescado, C-e-m-biara.

Mingaú, papas rallas, Xe-r-e-mingaù, C-e-mingaú.

50

Mindypyrõ, papas grossas, Xe-r-e-mindypyrõ, C-e-mindypiron.

Mixira, assadura, Xe-r-e-mixira, C-e-mixìra.

Vrù, vasilha, em respeito de quem a traz, se diz, Xe-r-e-purú, C-e-purú. Em respeito da cousa que está dentro da vasilha, Xe-rurù, Ç-urú.

A vasilha da agua em respeito de quem bebe por ella, Xe-ygua-buru. A vasilha em que se come, ou prato, ou tigella, em respeito de quem come nella, Xe-r-e-miurù, C-è-miurû.

Dos comparativos, e superlativos.

Todos os nomes de sua natureza saõ positivos; mas com algumas particulas juntas se fazem comparativos, ou superlativos, v. g. Turuçú, cousa grande, Xe-r-oca-turuçú, minha casa he grande; para dizermos he maior que a tua, dizemos assim, Xe-r-oca-turuçu etè d-e-roca çoce, ou De-r-oca çui; e para superlativo diremos, Xe-r-oca turuçu ete nhe opacatu oca çoçe, he muito grande sobre todas as casas.

Do Reciproco.

O reciproco acha-se em nomes, e pronomes, e verbos. Reciproco chamamos ao modo de fallar, em que as pessoas tornaõ sobre si mesmas, ou sobre suas cousas de que já falláraõ, como iremos vendo.

E saõ notas de reciproco as seguintes syllabas Nho, Yo, Nhe, Ye, O.

As duas primeiras Nho, Yo, quando compõe, ou se ajuntaõ a algum verbo activo, sempre denotaõ numero plurar, e communicaçaõ de huns para com outros, ex. Aimongueta, fallar, O-nho-mongueta, fallaõ huns cem outros, ou hum com 51outro. Pe-yo-iucà, vós outros vos matais huns aos outros.

E com alguns adverbios juntos significaõ a mesma communicaçaõ, Aõa o-yo-irunamo cec-co-u, aquelles estaõ juntos huns com os outros.

Esta syllaba Yo, se usa quando alguma pessoa ou primeira, ou segunda, ou terceira, torna sobre si mesma: A-tupã mongueta xe-yo-ece, eu rogo por mim a Deos: E-i-mongueta nde de-yo-ece, Pedro t-oimongueta o-yo-ece, eu rogo a Deos por mim, tu roga por ti, e Pedro rogue por si: A frase he, A-tupã mongueta aba rece, rogo a Deos por alguem; e quando se falla reciprocamente, mette-se a syllaba Yo, junto da proposiçaõ Rece, a qual deixa, e perde o R, e fica Yo-ece.

Assim mesmo se ajunta com preposições de Dativo, ou Ablativo, ex. A-reco Tupã xe-yo-pupe, tenho a Deos comigo: A-imocem anhanga xe-yo-çui, lanço fóra o demonio de mim: Ay-monhiro Tupã xe-yo-upe, aplaco a Deos para mim: N-de eimonhirõ Tupã de-yo-upe, aplacai-vos a Deos para vós: Pedro t-oimonhirõ Tupã o-yo-upe, T-oimocẽ iurupari o-yo-çui, Pedro aplaque a Deos para si, lance de si o demonio, &c.

E naõ se diz, Ai-monhirõ Tupã xebe, nem tambem, xe-çupe: Dir-se-ha porém, Eimonhirõ Tupã y-xebe, aplacai a Deos para mim; porque cahe huma pessoa sobre outra, e naõ he reciproco.

As duas particulas Nhe, ye, compondo verbos activos, tanto servem para singular, como plurar; e denotaõ cahir a acçaõ de cada pessoa sobre si mesma, ou xe a-ya-iuca, eu me mato a mim mesmo: Ore oro-ye-iuca, nós outros nos matamos a nós mesmos, isto he, cada hum se mata a si mesmo.

E se o verbo a que qualquer destas syllabas Nho, Yo, Nhe, Ye, se ajuntaõ começar por ç 52com zeura; o tal ç se perde, ex. a-çauçub, A-y-eauçub.

Note-se que alguns verbos tem de sua natureza alguma destas duas syllabas Nho, Yo, ex. Ayo-çoe, dar de ponta: Anhoçữi, queimar: Pois estes verbos fazendo-se reciprocos com as syllabas nhe, ye, mudáraõ sómente nho, ou yo, em nhe, ex. ye, e perdêraõ o ç, ex. Anhoçữi, eu queimo, A-nhe-ữi, eu me queimo: Ayoçoc, eu pico, A-ye-çoc, eu me pico.

E fazendo-se reciprocos do primeiro modo, só se perde o ç, ex. Anhoçữi, eu queimo, Y-a-nhe-ữi, nós nos queimamos huns aos outros.

Naõ perdem com tudo o ç, os seis verbos de que já fizemos mensaõ: Ayoçoc, Ayocib, Ayoçub, Ayxuù, Ayxoo, Ayxuban, ou xeayoçoc, reciprocamente, A-ye-çoc, picou-me, Pe-yo-çoc, vós picaes huns aos outros, O-yo-çoc, picaõ-se huns aos outros, &c.

A letra O tambem dissemos que servia de reciproco, e põe-se em lugar do nome Suus, sua, suum; & de Sui, sibi, se: Pelas regras seguintes se saberá o uso della.

I. Regra. Usamos da letra O por reciproco, quando a terceira pessoa torna sobre cousa sua, como Pedro está na sua rossa, Pedro O-co-pe ceco-u, tem sua mãi comsigo, O-cig o-gue-reco o-irunamo.

II. Regra. Usamos mais do reciproco O, quando a terceira pessoa cahe sobre si mesma, com alguma das preposições seguintes, ou outras semelhantes: Irunamo, Pyri, Aribo, Tenonde, Ybyri, Cupepe, Guyrpe, ex. Pedro te leva comsigo: Pedro de-r-eraço oirunamo, diante de si, O-gue-nonde, &c.

Tambem usamos do reciproco O, nos modos de fallar seguintes, e outros semelhantes: Pedro vai porque o mandaõ, Pedro o-ço, O-mondoreme, morre porque o mataõ, O-mano ò-incareme: vai 53aonde o mandaõ, O-cò, ô-mondoape: Vem aonde o chamaõ, O-ur, o-gue-noindape, &c.

Despois do reciproco O, se mette muitas vezes a dicçaõ Gù, sendo a letra V, liquida commummente, quando os nomes começaõ por R, ou por ç com zeura, ou T, ex. Xerauçupara; reciprocamente, O-gu-auçu-para, Tuba, O-g-uba: Demodo que as letras T, ç, se mudaõ, em G, salvo nos seis verbos assima apontados: A-yo-çoc, A-yo-cib, A-yo-çub, A-y-xoo, A-y-xuù, A-y-xuban; os quaes nunca perdem o ç, nem o mudaõ, salvo em X, precedendo Y. E assim fallando reciprocamente, dizemos, Pedro naõ quer que o piquem, alimpem, visitem, &c. Pedro n-o-ipotar-io-çoc-a, o-çib-a, o-çub-a, o-çuban-a, o-çoo, o-çuù: O mesmo modo tem os verbos neutros que tem ç com zeura depois do artigo, ou Aço, &c. ex. Pedro n-o-ipo-ta-ri o-ço, naõ quer o seu ir, ou naõ quer ir.

Do Pronome.

Pronome he aquelle que se põe em lugar de nome de qualquer cousa: Estes saõ contados Xe, Yxe, em lugar da primeira pessoa, ou Nde, ende, em lugar da segunda pessoa Tu: Ae, Ahẽ em lugar da terceira pessoa Elle: Plur. Yande, Nós com vosco juntamente: Ore, Nós sem vós: Peẽ, Vós outros: Aõa, Elles, ou aquelles.

Ae, Aéaê, Aememe, elle, ou elles: Cô, ou Yco, este, ou estes: Coboe, Ang, Yang, Anga, Uî, Ebuî, Ebuinga, esse, ou esses: Aquei, Aque-ya, Eboquei, Eboqueya, Aipo, Aipobae, esse, ou este, ou estes, &c. Estes, e alguns mais que se acharem, servem a ambos os numeros, e a todos os generos.

54

DO VERBO.
Da variedade, e composiçaõ dos verbos.

TODOS os verbos desta lingua se dividem em dous generos, ou activos, e naõ activos: Os activos saõ os que pedem seu caso direito sem preposiçaõ alguma, ao qual caso chamamos Accusativo.

Os verbos naõ activos comprehendem neutros verdadeiros; e outros a que podemos chamar de alguma maneira passivos; e a outros podemos chamar absolutos.

Os neutros naõ pedem caso algum; salvo por virtude de alguma preposiçaõ, como A-quer, dormir: A-gu-apyc, estar assentado.

Os passivos se fazem dos activos entremettendo-lhe alguma destas syllabas, Nhe, Ye, ex. Aiu-câ, eu mato: A-ye-iuca, eu me mato, ou sou morto: Aimonhang, eu faço: A-nhe-monhang, eu me faço, ou sou feito.

Os Absolutos saõ os que significaõ absolutamente alguma cousa, naõ tendo caso expresso; mas em seu modo de significar o levaõ comsigo; e estes se fazem tambem dos activos, entremettendo esta dicçaõ Porò, v. gr. deste verbo A-iucà, formamos este A-poro-iucà, e significa matar gente: Deste Ai-mondo, mandar, formamos A-poro-mondo, mandar gente: A-û, comer: A-por-ú, comer gente. Em alguns verbos naõ entra toda a dicçaõ Poro, como no verbo A-yo-çub, visitar: A-po-çub, visito gente, e naõ se diz A-poro-çub.

A toda esta variedade de verbos chamamos naõ activos; porque posto que na significaçaõ tenhaõ a variedade sobredita; com tudo no modo de conjugar todos guardaõ as regras dos neutros; e assim por isso, como por naõ terem caso algum expresso, se podem chamar neutros.

55

Afóra esta variedade de neutros, que começaõ por artigo; ha outros verdadeiramente neutros, que saõ todos os que começaõ por pronomes, Xe, Nde, Y, &c.

Todo esta multidaõ de verbos se divide em simples, e compostos; e na composiçaõ ha muita variedade.

De dous verbos ás vezes se compõe hum v. g. Aymonhang, faço: Aycuab, sei: Ay-monhang-uab, sei fazer.

Outras vezes do verbo activo, e do seu accusativo, se compõe hum verbo neutro, ex. Aimon-gueta Tupã: A-tupã-mongueta; e entaõ se conjuga como neutro.

Outras vezes entre o artigo do verbo activo se mette huma das tres letras, que servem de relativos, Y, ç, com zeura, T, e juntamente o nome que havia de ser accusativo do verbo; e de tudo se fórma hum só verbo activo; e fóra isso tem outro accusativo, ex. Ay-co-monhang-xe-r-uba, faço a rossa de meu pai, A he o artigo, Y he relativo, Co, rossa, he accusativo; Monhang, he o verbo activo, em direitura, faço a sua rossa a meu pai.

A-ce-co-monhang Pedro, dou ordem de vida a Pedro; A-tú-jucá Francisco, matei o pai de Francisco.

Semelhantes saõ os verbos seguintes.

A-ço-patí xe-r-uba, armo a rede em que se deita meu pai: A-ço-pe monhang amana, faço caminho para correr a agua da chuva; A-y-tapûi mon-gaturõ xe-cig, concerto a choupana a minha mãi; A-y-acang-oc boia, corto a cabeça á cobra; A-y-iuru mopen nheeng ixoera, quebro a boca a hum bacharel; A-tayg-nupã xe atuaçaba, açouto o filho de meu compadre, &c.

Aqui devemos advertir com attençaõ, que dos 56verbos neutros se podem fazer activos, e dos activos neutros, para o que poremos algumas regras.

I. Regra. Dos verbos activos se fazem absolutos, com entremetter a dicçaõ Poro, como atrás tocamos. Aiuca, matar; A-poro-iuca; e se o verbo activo começar pela letra ç com zeura, perde o ç, Açauçub, A-poro-auçub.

E se o verbo activo tiver a syllaba Nho, ou Yo, tambem se perde a tal syllaba. Anhotim, enterrar, A-poro-tim, enterrar gente; e se tiverem a syllaba Nho, ou Yo, e despois della, ç com zeura, ambas as cousas se perdem, Anhoçữi, queimo, A-poro-ữi, queimo gente.

Os seis verbos activos, Ayoçoc, Ayocib, Ayoçub, Ayxoo, Ayxuban, Ayxuu, naõ perdem o ç com zeura; A-poro-çoc, A-poro-cib, A-po-çub, A-poro-çoo, A-poro-çuú, A-poro-çuban.

A letra natural destes tres ultimos verbos, he ç com zeura; mas por terem por artigo Ai, muda-se o ç em X, o que acontece todas as vezes que se encontra I com ç, com zeura na mesma dicçaõ, como já tocamos; e assim os tres verbos sobreditos nos modos que naõ tem artigos, tem a letra ç com zeura, e naõ tem X, como no conjunctivo, çuba-neme, çuù-reme, çoo-reme.

Os verbos activos que depois do artigo tem alguma destas syllabas, Ra, Re, Ro, Ru, nas terceiras pessoas, mettem a syllaba Gue, ou Araço, O-gue-raço; e se os fizermos absolutos com a dicçaõ Poro, mettem a syllaba Gue em todas as pessoas, ex. A-poro-gue-raço, levo gente; A-poro-gue-reco, tenho gente; algumas vezes se comem por syncopa as duas primeiras letras gu, A-poro-eraço, A-poro-gue-raço.

Os verbos compostos com a dicçaõ Poro, algumas vezes em lugar do artigo A, tomaõ o pronome Xe; e entaõ significaõ o mesmo que dantes; 57mas com mais extensaõ, e continuação; ex. A-poro-iuca, mato gente; Xe-poro-iucâ, tenho em costume matar gente.

Segunda regra por ordem.

Os verbos activos se fazem de algum modo passivos com as syllabas Nhe, ye, ex. A-u, eu como; A-ye-u, eu me como a mim mesmo, ou sou comido doutra cousa. E se o verbo activo for dos que naturalmente tem as syllabas Nho, Yo; essas se mudaõ em Nhe, Ye, para serem passivos, ex. A-nho-tim, enterrar; A-nhe-tim, enterrome, ou sou enterrado. E se tiverem ç com zeura despois das sobreditas syllabas, perdem o tal ç fazendo-se passivos, ex. A-nho-çữi, queimo: A-nhe-çữi, queimo-me, ou sou queimado.

Terceira regra.

Dos verbos já feitos passivos com as syllabas, Nhe, Ye, se fazem ás vezes alguns outros activos, mettendo-lhe a syllaba Mo, antes das syllabas Nhe, Ye, ex. deste verbo A-yo-pin, tosquiar, se faz este passivo, A-ye-apin, tosquiar-se; e deste estoutro activo, Ay-mo-ye-apin, fazer tosquiar outro; ex. Ay-mo-ye-apin Pedro Diogo çupe, faço que Pedro seja tosquiado de Diogo.

Quarta regra.

De todo o verbo neutro que começa por pronome Xe, se póde formar hum activo, mudando o artigo A em Ai, e logo a syllaba Mo, ex. Xe-angaturam, sou bom; Ai-mo-angaturam, faço bom a alguem. E se o verbo tiver a letra R, despois do pronome Xe, perde-se o R, na tal composiçaõ, 58ex. Xe-ropar, eu me perco, Ai-mo-opar, faço perder a outro.

Quinta regra.

De qualquer verbo neutro começado por artigo A, se podem formar dous verbos activos: Hum delles entremettendo a syllaba Mo, despois do artigo, outro entremettendo alguma destas syllabas Ra, Re, Ro, Ru, ex. Deste verbo neutro A-poâm, levanto-me, se fórma este, Ai-mo-poam, faço levantar outro. E se fórma tambem este, A-ro-poam, levanto alguma cousa comigo juntamente. A-in, estou quedo; Ai-mo-in, ponho alguma cousa; A-ro-in, tenho comigo alguma cousa.

Note-se ultimamente que nestas composições algumas vezes ha mudanças de letras por evitar aspereza, ex. A-ço, vou, havendo de dizer, Ai-mo-ço, dizemos; Ai-mondo, mando: Ai-co, estou; e naõ dizemos Ai-moco; mas Ai-mo-ingo, ponho: A-iur, venho; naõ dizemos, Ai-mo-iur, mas Ai-mbo-ur, mando vir.

Alguns, mas poucos, saõ os neutros que naõ tenhaõ estas duas composições: A-mano, morro, naõ admitte Ay-mo-mano; mas sómente A-ro-mano, faço morrer comigo, ex. A-ro-mano xe-angutura-ma, morre comigo minha bondade, ou até a morte persevera comigo.

Isto baste da composiçaõ dos verbos; outras miudezas se deixaõ por evitar confusaõ, que o uso ensinará.

59

ADVERTENCIAS GERAES
Sobre alguns tempos, e formações dos verbos.

Advertencia I.

NOTE-SE que de duas maneiras mandamos á alguem que naõ faça alguma cousa pelo Imperativo, Ei-monhang-ume, naõ faças; ou pela segunda pessoa do presente do Indicativo, N-d-ere-monhang-i: e este segundo modo tem força de ameaça, ou grande cautella, significando haver grande perigo na cousa que se prohibe, ex. guarte naõ faças: N-d-ere-monhang-i, N-d-ere-ar-i, guarte naõ caias.

Advertencia II.

Todas as terceiras pessoas do Indicativo, acrescentando-lhe esta dicçaõ Baé, servem de participios em Ans, e Ens: ou de relativo Qui, quæ, quod, ex. Oiucabae, o que mata, ou o qual mata; e todas se conjugaõ por presente, imperfeito, Preterito, Futuro, &c. ex. Oiucabae, O-iuca-bae-poera, O-iuca-bae-ramboera, O-iuca-bae-rama; e tambem se negaõ com a dicçaõ Eim, antes da dicçaõ Bae, ex. Oço-eim-bae, o que naõ vai, &c.

Advertencia III.

Nas conjugações fizemos muitas vezes mensaõ da terceira pessoa relativa, agora se deve advertir, que cousa seja, e he de muita importancia esta advertencia.

Todas as terceiras pessoas de qualquer verbo, quando antes dellas fica algum adverbio, ou preposiçaõ, ou gerundio; ou se relatamos a cousa de que já fallamos pertencendo ao tal verbo (sendo neutro, como nominativo; e sendo activo, como accusativo) nos taes casos as terceiras pessoas se fórmaõ doutro modo, ex. Eboquei Pero çou, eis la vai Pedro: Coriteim yxou, agora vai, ou foi: N-d-aerojai y-maenduar-i, nem por isso se lembra.

60

E para se saber usar deste modo de fallar, se põe as seguintes regras, ácerca da formação desta terceira pessoa relativa.

Primeira regra.

Se o verbo he de artigo, tira-se-lhe o artigo naquella pessoa; e se he de pronome tendo na terceira pessoa y, fica-lhe esse y, naõ estando o nome presente; e se tem ç com zeura, ou T, tambem lhe ficaõ, e estando o nome presente, se mudaõ em R. Exemplos sejaõ os seguintes.

Quece Pedro ço-u, hontem Pedro foi: a terceira pessoa O-ço, perde o artigo ó: Quece Pedro nde-rece y-maenduar-i, ontem Pedro de ti se lembrou. A terceira pessoa tem y relativo; mas se Pedro estivera immediato antes do verbo escusaria o y relativo; desta maneira: Quece nde-rece Pedro maenduar-i: Quece caâ rupi Pedro oguatabo çopar-i, se Pedro estivera immediato ao verbo, mudaria o ç em R, ex. Quece caâ rupi oguatabo Pedro r-opar-i.

Com os verbos activos tirando-lhe o artigo O, necessariamente se lhe ha de pôr antes delle o accusativo nome, ou seu relativo, ex. Coriteì Pedro xe-r-uba mongueta-u, agora Pedro com meu pai fallou. (Xe-r-uba) he accusativo immediato ao verbo, Mongueta-u. E naõ estando immediato, havia de estar o relativo y, ex. Xe-r-uba coriteim Pedro y-mongueta-u. Sempre o relativo refere o nome que fica mais longe: Baetetiruã ace çaucub-a coce, ace Tupã r-auçub, ama homem a Deos mais do que ama a todas as cousas: Baetetiruã, he accusativo do verbo çauçub-a, que por ficar longe tem o verbo seu relativo ç; e no segundo lugar por ficar o accusativo Tupã, immediato ao verbo, muda-se o ç em R, Tupã r-auçub-i.

61

Os seis verbos, A-yo-çoc, A-yo-cib, A-yo-çub, Ai-xuban, Ay-xoo, Ay-xuû; naõ perdem o ç, nem o mudaõ em R, como tambem os verbos neutros, começados por ç com zeura; mas se lhe ficar y relativo immediato, mudaráõ o ç em X, como já temos dito. ex. Quece paié baeacibora çuban-i, ontem o feiticeiro chupou o enfermo. Baeacibora, he accusativo do verbo activo çuban-i; e se o accusativo ficára longe diriamos, y-xuban-i, ex. Quece baeacibora paie y-xuban-i.

Até agora temos dito nesta primeira regra, e seus appendices, do principio, ou primeira letra da terceira pessoa a que chamamos relativa. Agora tratamos das letras em que ella se acaba, seja pois por ordem segunda.

Segunda regra.

Todo o verbo acabado em consoante, acrescenta no fim a letra j jota, ex. A-por, faltar; y-por-i: A-cyc, chegar; y-xík-i.

Terceira regra.

Todo o verbo acabado em vogal singella, com til, ou sem til, acrescenta a letra v: Ay-mondó, mondo-u.

Quarta regra.

Todos os acabados em algum ditongo com til, ou sem til, naõ tira, nem acrescenta nada no fim. A-cái, Cai, Ai-moçãi, moçai.

Para se negar esta terceira pessoa, os verbos, que tomaõ v, ou j jota, mudaõ essas letras em esta dicçaõ, Eimi, ex. mondo-u, mondo-eymi: Os acabados em ditongo, naõ mudaõ nada, mas 62acrescentaõ a mesma dicçaõ, Eymi: Cái, Cái-eymi.

He muito para advertir, que á estas terceiras pessoas relativas, naõ só lhe servem de nominativos as terceiras pessoas; mas tambem a primeira serve: ex. Eboquei Pedro ço-u, eis que vai Pedro: Eboquei-xe-ço-u, eis que eu vou: Marápe xe-ço-u-eymi, naõ sei porque naõ fui.

Todos os verbos activos, que despois do artigo tem algumas das syllabas Ra, Re, Ro, Ru, dos quaes dissemos, metterem nas terceiras pessoas a syllaba Gue, nas terceiras pessoas relativas mudaõ a tal syllaba Gue, em Ce, ex. A-raço, O-gue-raço, e na relativa, C-eraço-u.

Advertencia IV.

Ainda que o commum das linguas seja concordar o nome singular com o verbo no singular: e o de multidão com o verbo no plural, com tudo nesta lingua todas as vezes que se ajuntaõ dois nomes terceiras pessoas, hum dos quaes haja de ser nominativo, e outro accusativo, o que he nominativo do singular póde ter o verbo na primeira pessoa inclusiva do plurar; mas isto sómente nos modos que tem artigo, ou Indicativo, e Operativo, ou para dizermos, Pedro matou huma cobra, podemos dizer de duas maneiras. Pedro Boya o-jucá; ou Pedro boia, Ya-jucá. Oxalá levasse Deos cedo a meu pai para o Ceo: podemos dizer, O-gu-eraço-temo çapyà ibacupe Tupana xe-ruba mã, ou melhor, Yaraçotemo çapya, &c. Parecerá barbaridade, concordar terceira pessoa no singular, com a primeira do plural; mas naõ he de estranhar, pois tambem na lingua Grega elegantissima temos exemplo semelhante, porque commumente os nomes neutros no plural, pedem o verbo no singular: ex. Zóa treki, Animalia currit; saõ modos de fallar de varias linguas.

63

Advertencia V.

Ácerca do imperativo, e permissivo dos verbos, se ha de advertir, que nestes dois modos se ajunta ordinariamente a letra T ao artigo do Indicativo; e o modo de se ajuntar he o seguinte.

Todas as vezes que o tal T, acha diante de si letra vogal, faz com ella syllaba, ou essa letra vogal seja do artigo, ou seja do pronome, nos verbos de pronome, ou seja do accusativo dos verbos activos, quando o tiverem immediato a si. E todas as vezes que o sobredito T, acha letra consoante, toma a letra A, para fazer syllaba antes da tal consoante. Exemplos. A-iucà, T-a-iucà, T-ere-iucâ, &c. T-y-maenduar, T-ore-maenduar. Com accusativo do verbo activo, ex. T-yande-iucâ, T-ore-iuca, mate-nos. Nestes exemplos vemos como o T, faz syllaba com as letras vogaes que acha. Nos seguintes toma A. T-a-pe-jucà, T-a-xe-maenduar, T-a-xe-jucá, &c.

O mesmo que dissemos do T, se ha de entender das letras seguintes, N, D, Nd, nas negações dos verbos, ex. N-a-iucai, N-d-ere-iucai, D-o-iucai. N-a-xe-maenduar-i, &c.

Advertencia VI.

Ácerca do Conjunctivo se ha de notar primeiramente que nelle, e nos mais modos que se seguem, se perde o artigo dos verbos que o tem (ainda que os gerundios dos verbos neutros tem seus artigos.)

Segundariamente se ha de notar, que todos estes mesmos modos se fórmaõ da terceira pessoa do Indicativo. E advirta-se que na formaçaõ destes modos da terceira pessoa consistem as principaes difficuldades da gramatica desta lingua, e para as vencer facilmente, poremos aqui regras certas, e claras.

Da formaçaõ dos verbos.

O principio do Conjunctivo, Infinitivo, Gerundio, ou Supino, se fórma da terceira pessoa do 64Indicativo, tirando-se-lhe o artigo. Donde vem que os verbos que despois do artigo tem alguma destas syllabas Nho, Yo, a perdem no Conjunctivo, e dahi por diante; pela perderem na terceira pessoa. A-nho-tim, Ere-nho-tim, O-tim. Conjunctivo, Tim-e. Infinitivo, Tim-a, &c.

Aqui se advirta a differença que ha entre os verbos que começaõ por A-yo, e os que começaõ por A-y-a, ex. A-yo-poi, Aya-çuc, que nos primeiros só a letra A, he artigo, e a syllaba Yo, he de persi. E nos segundos a syllaba Ay, he o artigo; e a letra segunda, he a primeira letra do verbo que nunca se muda; a qual podemos chamar letra caracteristica, como os Gregos, chamaõ a huma primeira letra dos seus verbos, que naõ se muda, mudando-se outras antecedentes. E assim vemos no verbo Ay-apin, tosquiar, Ere-iapin. Conjunctivo. Apin-eme. Infinitivo. Apin-a. Donde se vê ser o artigo Ai, o qual se perde nos modos sobreditos.

Com tudo alguns neutros (ainda que raro) se acharáõ, que começando por Ajà, só a letra A, lhe serve de artigo, e a letra I, he a caracteristica, ou a primeira que naõ se muda: ex. A-jaçuc, levar-se: Jaçuc-a, &c. A-jaceò, chorar; A-jar, estar pegado; A-jaoc, apartar-se: a letra I he consoante nestes quatro neutros.

Os verbos activos, que despois do artigo no presente do Indicativo tem alguma das syllabas Ra, Re, Ro, Ru. Na terceira pessoa ajuntaõ a syllaba Gue; e no Conjunctivo, mudaõ a syllaba Gue em Ce, e nos mais modos. E isto he o que toca aos principios dos taes modos, que se fórmaõ da terceira pessoa. Para sabermos os fins, e letras em que se acabaõ, poremos algumas regras.

Mas he necessario sabermos em que letras se podem acabar os verbos desta lingua, que se verá nas seguintes series.

65

Naõ ha verbo algum, que no presente do Indicativo acabe em outra letra, ou letras em sua direita pronunciaçaõ, ainda que na terceira pessoa relativa tenhaõ outras, que naõ servem a este proposito. Alguns linguas, e os Indios trocaõ ás vezes algumas letras por mais delicadeza, como para dizer A-iur, dizem A-iut; em lugar de Coyr, dizem Coyg; mas isto naõ he natural.

Primeira regra.

Todo o verbo acabado no Indicativo em qualquer vogal singella da primeira serie assima, acrescenta ao Indicativo esta dicçaõ Reme, para formar o conjunctivo, ex. A-iuca, Iuca-reme.

II. Regra. Todo o verbo acabado no Indicativo em alguma das vogaes com til da segunda serie, acrescenta esta dicçaõ Neme, para formar o Conjunctivo, ex. Ai-nupã, Nupa-neme.

III. Regra. Todo o verbo acabado em algum ditongo sem til, ou com til, da terceira, e quarta serie acrescenta a syllaba Me para formar o conjunctivo, ex. A-cai, Cai-me, A-cenõi, Cenõi-me. A estes se ajuntaõ os acabados na letra consoante B, ex. Ai-mondeb, Mondeb-me.

IV. Regra. Todos os verbos acabados na letra M acrescentaõ hum E, A-nho-tim, Tim-e.

V. Regra. Todos os verbos acabados em alguma das duas letras consoantes C, Ng, N, R, acrescenta esta dicçaõ Emé, para formar o Conjunctivo, ex. Apac, Pak-eme. Ai-monhang, Monhang-eme. Aya-iuban, Iuban-eme. Ai-potar, Potar-eme.

66

Da negaçaõ do Conjunctivo.

VI. Regra. Todos estes verbos no Conjuntivo se negaõ com se mudar o que acrescentaõ nesta dicçaõ Eyme, ex. Iuca-reme, Iuca-eyme, Cai-me, Cai-eyme, &c.

Da formaçaõ do Infinitivo.

Todos os Infinitivos se formaõ da terceira pessoa do presente do Indicativo, como dissemos assima. Os verbos absolutos, (que saõ os que tem depois do artigo a dicçaõ Poro) no infinitivo mudando o P em M fazem Moro. A-poro-jucâ, eu mato gente. Infinitivo. M-oro-iuca, matar gente, ou matança. Assim tambem no Conjunctivo, quando se falla absolutamente. Para os fins do infinitivo se notem as regras seguintes.

Primeira regra.

Todo o verbo acabado em letra vogal singella, ou tenha til, ou o naõ tenha; assim mesmo acaba, e se fica no infinitivo, ex. Aiuca, Iuca. Ainupã, Nupã, &c.

Segunda regra.

Todo o verbo acabado em algum ditongo, ou tenha til, ou naõ; e todos os acabados em alguma consoante, huns e outros acrescentaõ a letra A no infinitivo, ex. A-cài, Cài-a. A-cenõi, Cenõi-a. A-quer, Quer-a.

Da negaçaõ do Infinitivo.

Para se negarem estes infinitivos, os verbos 67da primeira regra tomaõ esta dicçaõ Eyma; e os da segunda regra mudaõ a letra A na mesma dicçaõ Eyma. Iuca, Iuca-eyma. Quer-a, Quer-eyma.

Da formaçaõ dos mais tempos.

Os seguintes tempos se formaõ do infinitivo o preterito acrescenta Agoera. O futuro perfeito, acrescenta Aõama. O imperfeito acrescenta Ramboera. E os verbos acabados em consoantes, Amboera. O supino passivo, ou participio passivo acrescenta no principio a letra Y, e no fim a dicçaõ, Yràma. Mas antes da tal dicçaõ entremettem alguma letra, ou letras consoantes. Os acabados em vogal, ou ditongo sem til, entremettem P. Y-iuca-pyrama. Os que tiverem til entremettem B. Y-nupã-b-yrama. Os acabados em Ng, M, N, entremettem estas letras, Imb. Y-monhang imb-irarama. Os acabados em B, C, R, acrescentaõ estas duas letras, Ip. Y-mombeb-ip-yra. E todos estes se negaõ trocando a letra A ultima em Eyma, Y-iuca-pyr-eyma, &c.

Da formaçaõ dos Gerundios.

Huma das cousas mais importantes para saber fallar, he entender a ordem, e formaçaõ dos Gerundios dos verbos, e assim se deve muito advertir.

Os principios dos Gerundios se tomaõ da terceira pessoa do Indicativo, tirando o artigo, nos de artigo; e as syllabas Nho, Yo, nos que as tiverem.

Os activos que no presente tem depois do artigo alguma das syllabas Ra, Re, Ro, Ru, tomaõ no Gerundio a syllaba Ce.

Os neutros de artigo, tomaõ no Gerundio outros artigos, ou Gui, E, O. Plur. Yai, Oro, Pe, O.

68

Os neutros que começaõ pelos pronomes Xe, Nde, &c. no gerundio conservaõ os taes pronomes; mas na terceira pessoa sempre tem a letra O; e os que tem a letra R no presente depois do artigo, tomaõ em lugar do R, na terceira pessoa do gerundio a letra G ex. Xe-r-o-çang, Xe-r-o-çang-amo, N-d-e-r-o-çang-amo, O-g-o-çang-amo.

Dos fins dos Gerundios.

Note-se que chamamos aqui humas vogaes puras, e outras naõ puras. Vogal pura he aquella que naõ he ferida com alguma consoante, como nesta palavra, A-jace-ô, aquelle O do cabo he puro; e nesta Ai-mond-o, aquelle O do fim he naõ puro por ser ferido com a letra D. Seja pois a primeira regra ácerca dos fins dos gerundios.

Todos os verbos de artigo acabados nas letras vogaes A, E, O, naõ puro, acrescentaõ Bo, para formarem o gerundio. ex. A-iuca, Iuca-bo. A-cee, Cee-bo. Ai-mondo, Mondo-bo.

Exceiçaõ.

Tiraõ-se desta regra os verbos acabados nas syllabas Mo, No, os quaes acrescentaõ outra syllaba Mo, ex. Ai-amò, molhar, Amo-mo. A-manô, morrer, Gui-mano-mo. Tiraõ-se tambem A-ique com seus compostos A-ro-ique, Ai-moingue, que acrescentaõ Abo. ex. Gui-que-abo, Moingue-abo, C-ero-ique-abo.

Tiraõ-se tambem Acequije, com seus compostos, que mudaõ a letra E ultima em Abo. Gui-cequijabo. A-jepeè, tem de duas maneiras o gerundio Gui-jepee-bo, e Gui-jepe-goabo.

69

Segunda regra.

Todo o verbo de artigo acabado em O puro, muda essa letra O em Guabo. Ai-xoò, ço-guabo. Ayoô, fez obo, como os de O naõ puro.

Terceira regra.

Todo o verbo de Artigo acabado nas letras I, V, naõ puro, acrescenta no gerundio Abo, Ai-quitî, quiti-ábo. Ai-porû, Poru-abo.

Quarta regra.

Todo o verbo de artigo acabado em V puro, muda esse V em Guabo. ex. A-mbae-û, mbae-guabo. A-û, Guabo. Ai-xuú, çu-guabo.

Quinta regra.

Todos os verbos acabados nestas letras com til, ĩ, ũ, acrescentaõ no gerundio Amo. ex. Ai-quitî, Quiti-ámo. Ai-monhemũ, Monhemu-amo.

Sexta regra.

Todos os verbos acabados nestas letras com til ã, ẽ, õ, acrescentaõ no gerundio Mo. ex. Ai-nupã, Nupã-mo. Ai-moeẽ, Moeẽ-mo. A-çapirõ, çapirõ-mo.

Setima regra.

Todos os verbos acabados em ditongos com til, ou sem til; e todos os acabados em qualquer consoante, acrescentaõ no gerundio a letra A. ex. A-cài, Cai-a. Ai-mongarào, mongarào-a. Se for B, mudar-se ha em P. ex. Ai-momdeb, momdep-a.

70

Exceiçaõ unica.

Todos os verbos acabados na letra R, no gerundio o perdem. ex. A-quer, Gui-quê. A-çacaar, çacaà. Ai-mopor, Mopo.

Da negaçaõ dos Gerundios.

Todos os gerundios dos verbos de artigo de que até agora fallamos, ou sejão neutros, ou activos, se negaõ mudando-lhe todas as letras, ou letra que se lhe acrescentou nesta dicçaõ Eyma; e os que mudáraõ alguma letra sua, a tornaõ a tomar; e os que perdem a letra R, a tornaõ a cobrar: De modo que estando com a letra final da terceira pessoa do presente do Indicativo, e acrescentando Eyma, ficaõ gerundios negados, ex. Iuca-eyma, Mondo-eyma, Guyquer-eima, Mondeb-eyma.

Advirta-se que os gerundios assim affirmativos, como negativos dos verbos de artigo, muitas vezes recorrem com os infinitivos, affirmativos, ou negativos, outras vezes differem, principalmente no affirmativo; o que se entenderá das regras assima postas.

Dos fins dos Gerundios dos verbos de pronome Xe.
Regra unica.

Todos os verbos do pronome Xe, acabaõ o Gerundio em Amo. ex. Xe-angaturam, Xe-angaturam-amo. Os que acabaõ em vogal com assento na ultima, acabaõ em Ramo, ex. Xe-pochi, Xe-pochi-ramo.

71

Como se negaõ estes.

Todos estes se negaõ interpondo-lhe a dicçaõ Eym, antes da outra Amo, ex. Xe-angaturam-eym-amo; e os que tem Ramo, perdem a letra R, ex. Xe-pochi-eim-amo.

DO PARTICIPIO.
Terceira parte da oraçaõ.

DEPOIS de tratar do verbo, segue-se tratar por ordem do participio que se diriva do verbo.

Os participios huns saõ naõ passivos, como dizemos dos verbos, outros saõ passivos.

Os naõ passivos saõ de varios modos.

I. Modo. Todas as terceiras pessoas de quaesquer verbos do presente do Indicativo, ajuntando-lhe esta dicçaõ Bae, ficaõ participios em Ans, ou Ens, ou tambem servem de relativo Qui, quæ, quod: ex. O-iuca-bae, o que mata, o qual mata. O-ço-bae, o que vai, ou o qual vai. C-opar-bae, o que se perde. Todos estes tem preteritos, e futuros, &c. Ex. O-iuca-bae-poera, O-iuca-bae-râma, O-iuca-bae-ramboera.

Outros modos de participios naõ passivos comprehenderemos debaixo do nome de verbais, de que abaixo fallaremos.

Os participios passivos formaõ-se dos verbos activos, e naõ de outros, e formaõ-se de dous modos. I. Antepondo ao infinitivo do verbo activo esta syllaba Mi, e significaõ a cousa sobre que cahe a acçaõ do verbo, ex. Mi-ù, a cousa que se come.

Mas este genero de participios commummente póde ter o possessivo Xere, Ndere, Ce, &c. Ex. Xere-mi-û, a cousa que eu como; Ndere-mi-û, o que tu comes; Ce-mi-ú, o que elle come; e no reciproco, Ogue-mi-ú.

72

O segundo modo de participios passivos se faz antepondo ao infinitivo o relativo Y, e no fim esta dicçaõ Ira, assim, e da maneira que puzemos assima a formação do supino passivo em Iráma, variando-lhe alguma letra, ou letras entre o verbo, e a tal dicçaõ Ira.

Dos nomes verbaes.

Verbaes chamamos aos nomes que nascem dos verbos, que tambem se podem chamar participios, e saõ em varias maneiras.

Primeiramente todo o verbo no infinitivo tomado nú, ou sem caso, significa a acçaõ do verbo em geral, ex. Iucâ, matar; e tambem significa matança, occisionem, Ço, ir, ou ida; Xe-çô, minha ida, ou meu ir.

Outros verbais ha em tres maneiras; ou acabados em Ara, Bòra, Aba; e estes todos commummente se fazem de todo o genero de verbos; posto que em alguns verbos naõ activos naõ se usa tambem destes verbaes, como da terceira pessoa do verbo com a syllaba Bae, v. gr. naõ se diz tambem Çoâra, como, O-ço-bae, o que vai.

Os verbaes em Bâra significaõ a pessoa que faz, ex. Iuca-çara, o matador: alguns acabaõ em Ana.

Os verbaes em Bora, significaõ a mesma pessoa em muita continuaçaõ, e costumes, v. gr. Canhem-bára, o que anda fogido, ou perdido; Canhem-bora, o fujaõ que costuma a fogir: Muitos verbos naõ admittem estes verbaes em Bora.

Os verbaes em Aba, nascem de activos, e neutros, e significaõ o lugar, tempo, modo, instrumento, ou acçaõ com que se faz a cousa; ex. Iuca-çaba, o lugar aonde se matou, o instrumento, &c. E todos estes verbaes se fazem presentes, preteritos, e futuros.

73

Da formaçaõ destes verbaes.

A formaçaõ destes verbaes ensinará melhor o uso; mas com algumas regras se dará noticia della. Fórmaõ-se todos da terceira pessoa do presente do Indicativo.

Primeira regra.

Todos os verbos acabados nas letras seguintes: A, e, i, o, u; ã, ẽ, ĩ, õ, ữ, âo ditongo, fórmaõ seus verbaes, acrescentando â terceira pessoa no presente ás dicções Çara, çaba, ex. Iucà, Iuca-çàra, Iuca-çaba.

Exceiçaõ.

Tiraõ-se alguns acabados nas letras E, i, o, u: ex. Aimoing-e, moing-eara, moing-eaba. Aimong-y, mong-yara, mong-yaba. Ai-mondo, mondo-ara, mondo-aba. Ai-momburú, momburu-ara, momburu-aba; e commummente os acabados em Or puro; e em V puro. Ex. Ai-àngáo, angago-ara, angago-aba. A-û, G-u-ara, g-u-aba. Alguns fórmaõ os verbaes em duas maneiras. Ai-pycirõ, Pyciron-çara, ou Pycirõ-ana. Pycirõ-çaba, Pycyrõ-aba, &c.

Segunda regra.

Todos os verbos acabados na letra N; e nos ditongos com til ãi, ĩj, õi, ữi, fórmaõ os verbaes em Dara, Daba. Ai-poban, Poban-dara, Poban-daba. Ai-moçãi, moçãi-dara, moçãi-daba.

Terceira regra.

Todos os verbos acabados nos ditongos seguintes 74sem til, ài, éi, ij, òi, ùi; fórmaõ os verbaes em Tara, Taba, ex. A-yo-poi, poi-tara, poì-taba.

Quarta regra.

Todos os verbos acabados em B, mudaõ o B em Pára, Pába, ex. A-cendub, cendup-âra, cendup-àba.

Quinta regra.

Todos os verbos acabados em C, fórmaõ os verbaes em Cara, Caba, sem zeura, ex. Ai-mondoc, Mondoc-ara, Mondoc-aba.

Sexta regra.

Todos os verbos acabados em Ng acrescentaõ Ara, Aba. ex. Ai-monhang, monhang-ara, monhang-aba.

Setima Regra.

Todos os verbos acabados em M accrescentaõ Bara, Baba, ex. A-nhotim, Tim-bãra, Timb-bàba.

Oitava Regra.

Todos os verbos acabados em R, mudaõ o tal R em çara, çaba, ex. Ai-mboú, bou-çara, bou-çába, o ç com zeura.

Todos estes verbaes se fazem preteritos, ou futuros com alguma variedade de letras, ou perdimento dellas, ex. Iuca-çára, Iuca-çar-oera, Iuca-çar-áma, &c.

75

DA PROPOSIÇAÕ
Quinta parte da oraçaõ.

TODAS as proposições desta Lingua, se podem melhor chamar posposições, porque sempre se poem depois do nome que regem. F saõ pela maior parte as seguintes:

Mo) significa o mesmo que In, no Latim, com accusativo: neste sentido, Ego ero illi in patrem: Y-xe tuba-mo ai-co-ne.

Pe) significa o mesmo In, com accusativo do lugár, com verbos de movimento, ex. Vado in civitatem; A-ço ta-pe, ou ôc-u-pe, para casa. E tambem com ablativo com verbos de quietaçaõ; In domo, Ocu-pe. E com Dativo de pessoa. Leva isto a teu pai; E-raço cobae de-r-ùba-pe. Tambem serve de nota de interrogaçaõ, ou pergunta, ex. E-re-ço-pe? vaste? Aba-pe nde? quem es tu.

Çupe) Rege dativo de pessoa, ou cousa a que vem damno, ou proveito. ex. Eraço nde-r-uba çupé; leva a teu pai.

E tambem se usa neste sentido; vai buscar, e trazer teu pai: Coãi nde-r-uba çupe. Tambem 76se diz muito commummente, Anheeng nde r-uba çupê, peleijei com teu pai, ou fallei já com teu pai.

Bo) significa o mesmo que Per, ex. Oca-bo, pelas casas, Caa-bo, pelos matos. Tambem se diz: O-pocù-bo, ao comprido: O-atu-cupò-bo, de costas. Oé-pemo, de ilharga; O-ygba-bo, ás avessas. Xe cupé-bo ere-nheeng, andais fallando por detraz de mim, murmurando, xe-po-guyr-bo ere-ico, estais-me debaixo da maõ. Bae aribo, encima de alguma cousa. O-po-bo agoatâ, ando de gatinhas, &c.

Cace) significa o mesmo que Super, ou Supra, ou Plusquam. Cabarú çoce, Sobre o cavallo, ita çoce, sobre huma pedra. Sei mais, ou melhor que vos, Aicuab bae ndeçoce.

Tobaque) He o mesmo que coram, em presença: Xe-robaque, em presença minha.

Tenonde) O mesmo que Ante, Xerenonde, diante de mim.

Çui) he o mesmo que Ex, ou De, proposiçaõ de ablativo; O-çò xe-tuba xe-çui, apartou-se meu pai de mim.

Tambem se diz, Xe-acanga çacyg xe çui.

Tambem significa vantagem, ex. Xe-angaturam-ete de-çui, sou melhor homem que vos.

Çupì) o mesmo que a proposiçaõ Secundum, conforme a verdade dizeis isso; Çupi-catu, ou çupí aipo eré. Tupã reco-rupi aico, vivo segundo Deos manda. Nhum rupí aguatá, ando pelo campo.

Porupì) ao longo de alguem, ex. Xe-porupi xe-r-ayg-r-a quer-i, ao longo de mim dorme meu filho.

Poce) isto he, comigo no mesmo lugar, ou cama. Xe-poce oquer, dorme na mesma cama comigo.

Aribo) he o mesmo que Supra; Ocáribo, em cima da casa.

77

Apyri) junto de mim, isto he, a minha ilharga. Xe-apyri yrunamo, ou yrùmo, isto he, mecum. Xe-yrunamo ceco-u, está comigo.

Pabè) he o mesmo que a de cima, mas commummente quer o verbo no plurar. T-i-aço xe-pabẽ, vamos ambos, tu comigo.

Rece) ou no relativo Cecé, significa o mesmo que propter. Tupã rece, por amor de Deos, ou por Deos, e assim se jura por Deos. Tambem he o mesmo que Cum. Aba o-mendar cunhã rece, hum homem casa com huma mulher. Tambem se diz mui elegantemente, N-a-xerub potar-i de rece, naõ vos quero ter por pai. N-a-xe-r-ayg potar-i de-rece, naõ te quero ter por filho. A-tupã mong-eta de rece, roguei a Deos por ti, ou encomendeite a Deos. Xe anghecoaib de-rece, por ti ando affligido. N-d-e-maenduar xe-rece, lembrai-vos de mim. N-a-xe-reçarai nde rece, eu naõ me esqueço de vos. A-poar de rece-ne, heivos de dar muita pancada. O-ico cunhã rece, habet rem cum fæmina. N-a-icoi de rece, naõ entendo comvosco. Enhemoçaraiumé rece, naõ zombeis de mim, ou naõ brinqueis comigo. A-pococ bae rece, ás vezes significa furtar, e outras vezes applicar-se ao trabalho.

Rí) He o mesmo que a de cima Rece, algumas vezes sôa melhor que a outra.

Coty) he o mesmo que Versus. Tapijra oço oca coty, As vaccas foraõ para a banda das casas.

Pupé) he o mesmo que In, com ablativo. Xe-r-oca pupé, em minha casa.

Tambem significa Com, como com algum instrumento fazer, ou obrar alguma cousa. Ai-nupã xe-r-ayra ybyrà pupe, açoutei meu filho cum huma vara, ou pào.

Çagéi) de través, Ex adverso, Our xe-r-agei, sahiome de través. Çageí Relativo.

78

Reire, Riré, Re) saõ o mesmo que Post, ou Postquam, ex. Xe-ço roire, t-ere-ço, ireis depois de eu ir, ou depois de minha ida.

Eymebe) he o mesmo que Ante, ou Priusquam, ex. Xe-ço-eimbé, t-ere-ço, ireis antes de eu ir.

Yanonde) he o mesmo que a de cima; mas sempre se suppõe haver de ter feito o precedente, ex. Xe-ço yanonde, antes de eu ir, e revera heide ir.

I.) A letra I jota, tambem he proposiçaõ algumas vezes, junta com nomes de parte, ou lugar, e significa o mesmo que Circa, ou Ad. ex. Enhonong de itaingapema nde-cua-ì, ponde a vossa á ilharga, isto he, nde cua rece, Atoa-i, isto he, Atoá rece, ás costas sobre os hombros. Pyta-i, seu pyta rece, no calcanhar. Aiùr-i, ao pescoço. Ybyr-i, ao longo. Guir-i, isto he, Guira rece, debaixo. Taquipoer-i, pelo rasto. Çobai, isto he, çoba-i rece, da banda dalém. Xe-ço-pocu-ì, em quanto eu vou.

Pyri) significa o mesmo que a preposição Ad, com accusativo de pessoa. A-ço xe-r-uba pyri, vou ter com meu pai. Tapijra o-ço o-goa-pixara pyri, o boi foi para os outros seus companheiros. Mas nunca tem accusativo de lugar.

Note-se que todas estas se pospoem aos nomes.

DO ADVERBIO.
Sexta parte da oração.

ADVERBIO he huma parte da oração, que não rege caso, mas serve de dar força, e efficacia com seu significado aos verbos, e nomes, para significarem com mais energia, ex. a-ço-i-pó, isto he, vou resolutamente. E porque ordinariamente per elles perguntamos, e respondemos: ou entendendo-se a pergunta tacita, pomos a reposta claramente, 79a qual dariamos á pergunta, se claramente estivera, poremos aqui as perguntas que se podem fazer para sabermos buscar as respostas que se lhe devem applicar.

Os adverbios porque perguntamos saõ os seguintes.

Adverbios do tempo.

De lugar.

Aos adverbios de tempo Erimbaepe, Baeremepe; respondem os seguintes.

Aos adverbios de lugar Vmàpe, Mamòpe, respondem os seguintes.

Ao adverbio do lugar Mamòpe, para onde, respondem os seguintes.

Se os nomes forem de lugar, a todos elles se ajuntará a preposiçaõ Pe, ex. Mamo-pe ereço, para onde vas: Co-pe, Ta-pe, &c. para a rossa, para a villa; e se antes da proposiçaõ Pe, ficar immediatamente alguma letra vogal com til, ou M, ou N; a letra P da preposiçaõ se mudará em M, ex. Aço parana-m-e, Nhu-m-e. Vou para o mar, para o campo, &c. E naõ se dirá, Paranã-p-e, nhum-p-e. Com alguns nomes que o uso ensinará, em lugar da preposiçaõ Pe se põe a letra I. ex. Aço ço-ba-i, e naõ se diz çoba-i-a-pe, vou á banda d’alem.

E se os nomes com que se responde á pergunta Mamope, forem de pessoa, ajunta-se-lhe a preposiçaõ Pyri, vou ter com meu pai, ou irmaõ, &c. A-ço xe-ruba, ou xe-requyira pyri.

Aos adverbios Vmaçuipe, Mamoçuipe, se responde com os seguintes.

Com os mais nomes de lugares, e pessoas, e ainda com adverbios, se usa da preposiçaõ çui commummente: Nhum çui, Do campo: Ibate çui, De riba: Oça çui, De casa, &c.

82

Aos adverbios Vmarupí, Mamorupi, se responde do modo seguinte.

A qualquer nome proprio, ou appellativo; e ainda a muitos adverbios, se ajunta a preposiçaõ Rupì. ex. Taba rupí, Oca rupì, Yguira rupì. ex. Yara rupì, &c. Pela cidade, pelas casas, por baixo, e por sima, &c. Coî rupì, por aqui pertinho, &c.

Ao adverbio Marangotipe, se responde com os seguintes.

A todos os mais adverbios, ou nomes proprios, ou appellativos se ajunta á preposiçaõ Cot-ig, que quer dizer Versus, &c.

De outros adverbios absolutos.

Ha outros adverbios absolutos, que naõ respondem a perguntas; os quaes saõ:

Algumas conjunções tambem se põe adverbialmente.

Interrogativos.

83

Affirmativos.

Negativos.

Demonstrativos.

Incitativos.

84

Prohibitivos.

Permissivos.

Laudativos.

Adverbios diversos.

De algumas dicções, que só per si naõ significaõ; mas juntas a outras partes da oraçaõ, lhe daõ sentido diferente.

A, com til, ã, da energia a algumas palavras. Ex. A-ço-ã, Eis-me vou. Aãni-ã, Aãti-ã, Isso naõ. Guarda.

Aìb. Esta dicção tem varios sentidos in malam partem. Ai-co-aib, diz a mulher que anda com sua regra; ou tambem vivo mal. Ai-mondo-aib, Mandar alguem affrontado. A-reco-aib, Tratar mal a outro. Xeang e-co-aib, Estou affligido. Ai-co-aib-î, Se diz das almas que apparecem, e dos omisiados que apparecem as furtadellas.

86

Aúb. Significa defeito, ou ma vontade na acçaõ. A-ço-aub, Vou, mas de ma vontade. A-cepiac-aub, Desejo ver, tenho saudades de alguem. Verbo activo. A-cepiac-aub xe-r-uba, Tenho saudades de meu pai. E se o verbo atraz se repete, tem mais força: ex. Aço aço-aub, Folgo que vou. A-raço raço-aub, Folgo que levo comigo. Os negativos destes saõ assim. N-a-ço-eim-aub-i, Peza-me que naõ fui. N-a-i-monhangeim-aub-i, Peza-me que naõ faço, ou fiz. Quando se repete a dicçaõ, significa grande desejo. A-ço-au-aub, Vou com grande desejo, e pressa.

Cà. Dos homens sómente.

Quig. Das mulheres sómente. Estas duas syllabas denotaõ resoluçaõ, ou determinaçaõ de fazer alguma cousa. Acò ca, Quero-me ir. Commummente se lhe ajunta dantes Ne, ou Pe. A-ço-ne-ca, A-ço-pe-cô, Diz o homem. A-ço-ne-quig, Diz a mulher. Pe, Naõ he interrogaçaõ aqui.

Çoára, Ndoára, Xoàra: Saõ a mesma cousa estas tres palavras. A letra C com zeura, he a natural. O X toma, quando atráz lhe fica Y como fica dito atráz. O Nd toma em outras concurrencias de letras. Com esta palavra se denota frequencia, ou continuaçaõ de alguma acçaõ, ex. Bae yby boendoara, Cousa que costuma estar no chaõ. Xe yby-rixoara, O que está junto de mim, á minha ilharga.

Çoer, Ndoer, Xoer: Tambem estas saõ a mesma dicçaõ, pela mesma razaõ ao de sima; e tambem significaõ a mesma frequencia na acçaõ de alguma pessoa, ex. Nheeng-i-xoer-a, O palreiro. Ata-çoer-a, o andejo. A estas se ajunta tambem ás vezes Ya, ou Yabì; e significaõ com muito mais efficacia. Ex. De-nhe-moiron-doer-yabi, Sois mui pichoso, e rabugento. Tambem Amano-çuer, Quasi que havia de morrer. Aára-i-xuer, havia de cahir quasi.

87

E. Esta letra E tem força de fazer com que o verbo signifique fazer-se a cousa independente de outra cousa, ou pessoa. Ex. A-ço-è, Eu mesmo vou, ou sem me levarem nem me mandarem, &c. Anhande, Corro, e naõ somente ando. Corije, Hoje, e naõ noutro dia. Nestes ultimos exemplos vemos que se lhe antepõe alguma letra para fazer boa pronunciaçaõ.

Y. A letra Y posta no principio do verbo, serve de relativo, como fica dito nos relativos; posto no fim do nome, serve de nominativo. Ex. Comandá, Fava. Comanda-í, Fava pequenina, ou feijaõ. I, a mesma letra com til, tem a mesma força. Pitanga, O menino. Pitangu-ĩ, O menino muito pequenino; e juntos aos verbos fazem significar fazer se a cousa a caso, e sem força. Ex. Aimonhã-go-ĩ, Faço a caso por me recrear, ou sem me obrigar alguem. Acepiac-ĩ, Vejo, mas naõ impido, ou vejo por me recrear. Acepiac-i de angai-paba, Vejo vossa roindade, e naõ entendo com vosco, nem vos reprehendo.

Ya, Yamurû. Saõ o mesmo que dizer: Ainda bem, por vingança, folgando com o mal de alguem; mas a primeira Ya, junta aos verbos neutros, significa costume na acçaõ, ex. A-ço-ya, costumo a ir. Tambem se lhe ajunta a syllaba Bi, Xe-poro-nupã ya-bí, Costumo açoutar muito. E tambem a particula Ya, se usa muito com os verbos de comer, e beber. E-rur-i t-a-u-ne-ya, Traze cá comerei disso. E-rur-iia, Traze-me meu quinhão. Algumas vezes se lhe acrescenta a syllaba Ra, ex. Iorî ûi-ya-ra goabo, Vem comer farinha.

Icô. Esta dicçaõ he o mesmo que o nome Hic, hæc, hoc. Ou tambem he demonstraçaõ de alguma cousa que se faz A-iur-ico, Eis que me vou. Ai-monhang-ico, Eis que já faço.

Yepe. Esta dicçaõ se ajunta sempre ao verbo 88activo, quando a primeira pessoa falla com a segunda, sendo a primeira accusativo, e a segunda nominativo; mas isto sómente nos modos que tem artigo, ex. N-d-e xe-iuca-yepe, Tu me matas. Xe-iuca-ume-yepe, Naõ me mates. E sendo a segunda pessoa do plurar, se diz: Pe-yepè, xe-iuca-pe-yepe, Vós outros me matais. Tambem Yepe, Significa difficuldade em escapar de algum perigo. Ex. A-iur-yepe, Escapei vindo me. Oço yepe guirâ, escapou-me o passaro. Tambem significa de balde. Ex. A-cecar-yepe, Busquei de balde. Yepe a-ço, Hora embora vou, va eu embora. Yepé-mo a-ço, ou Yepe-mo xe-ço-u, Que seria se eu hora fosse.

Aujebètemo, Aujeberamo, Aujeèmo, Aujebeèmo, A-ço, ou xe-ço-u. Que seria se eu hora fosse?

Mã. Com esta particula Mã, significamos desejos, ou saudades. A-ço-mo Tupan-a pyri mã, ó quem fora para Deos. E ajunta-se commummente com estas particulas Temo, Mey, Mey-mo. E desta meira se fórma o modo Optativo dos verbos. Ex. A-ço-te-momã, A-ço-mey-mã, A-ço-mey-momã: Oh se hora fosse! Xe-cyg-mã, Oh minha mãi!

Ne, he nota de futuro. Ex. A-iuca-ne, matarei. Tambem se ajunta com estas particulas Te, Mo, Temò. Ex. Te-ne, Mo-ne, Te-mo-ne, e significa, mas antes. Ex. Xe-tene aço, Mas antes eu vou. Nde-mo-ne, Mas vós. Te-mo-ne xe-gui-xo-bo, Se eu agora fôra.

Moànga, Significa cousa ficticia, ou imaginada naõ mais: Vem do verbo Ai-moang, Imaginar, ou fingir. Aço-moang, Finjo que vou, ou vou por de mais, ou baldadamente. A-caa-mondò moang, Fui á cassa de balde sem proveito.

Memè, significa o mesmo, ou da mesma maneira. Ex. A ço-memè, eu sempre vou Tupã Tuba, Tupã Tayg-ra, Tupã, Espirito Santo. Oyepe-memé Tupã, Deos Padre, Deos Filho, Deos Espirito Santo, O mesmo Deos. Memetipo, Quanto mais. 89Memetipoi xe, ai-monhang-mo, Quanto mais eu faria isso.

Nã Ruã. Estas duas sempre andaõ juntas; mas naõ immediatamente; porém mettendo-se entre ambas alguma outra palavra, ou palavras; e significaõ, Mas naõ, ex. Nã xe ruã a-ço, Mas naõ sou eu o que foi. Tambem algumas vezes em lugar do Ruã, se põe Xuemo, Nãemona, ni-xuemo, xe-ço-rememo, Naõ fora assim se eu lá fora.

Niã, he huma confirmaçaõ do que se diz, ex. A ço niã, Vado igitur.

Nhe, A caso. A ço nhe, Fui a caso sem necessidade, ou sem me mandarem.

Nhote, Significa sómente, ou naõ mais, ex. A ço nhote, Fui naõ mais, ou naõ fiz nada mais que ir. E-ico-nhote, Estai quedo. E-cepiac-nhote xer-ayra, Naõ entendais com meu filho, naõ lhe façais mal.

Pe, he nota de interrogaçaõ. Aba pe, quem? Ere-ço-pe, vaste? Outras vezes se ajunta com a syllaba Ca, de que ja fica dito assima.

Ranhe, Significa pressa, ou adiantar-se, ex. Ta-ço-ne ranhe, Quero-me ja ir. Xe-ranhe, eu primeiro farei, ou irei. Maete ranhe, Olhai primeiro o que vos digo. Maẽte pe ranhe, adverti vós outros.

Junto ao verbo Ae negado, significa, Ainda naõ, ex. Da-ei ranhe, Ainda eu naõ. Der-ei-ranhe, Ainda tu naõ. D-ei-ranhe, Ainda elle naõ. E desta maneira demandaõ qualquer outro verbo no Gerundio, ex. Da-ei-gui-mano-mo ranhe, Ainda eu naõ morri. Der-ei-pe-e-ço-bo ranhe, Ainda tu naõ foste.

Rung, Rung-a, Rung eme. Isto he como verbo defectivo, que naõ tem mais que estas terminações; e a sua propria significaçaõ he ordenar, ou principiar. Ex. Ai-co rung xe-r-uba, Faço a rossa a meu pai. Tia ço monde-runga, Vamos fazer armadilhas 90para matar cassa. De modo que com o artigo Ai, e qualquer nome junto, e no cabo a dicçaõ Rung, se faz num verbo activo, que pede accusativo, ex. Ai co-rung xe-r-uba, Faço a rossa a meu pai. Conjuntivo, Co-rung-eme. Infinitivo, Co-rung-a. Ai-epy-rung, Começar. A-ceci-rung, Pôr em fileira.

Ab. Esta dicçaõ tambem per si naõ significa nada; mas com ella se formaõ alguns verbos, ex. A-ybira-ab, Corto madeira. A-yby-ab, Abro a terra. Daqui se fórma este verbo, A-jab, Ere-jab, O-jab, Abrir-se, neutro, e se accommoda ás cousas que naturalmente abrem, como a flor, a manhã, ao ovo, a ostra, &c. Mas para significar o abrir das cousas a que naõ he natural, como fender o pào, abrir-se a terra, ou a vasilha, ou gretar a carne do animal, ou couro com algum inchaço, faz-se outro verbo semelhante: A-ieab, Ere-jeab, O-jeab, &c. Ex. O-jeab-oca, Abre, ou fende a casa. O-jab-botyra, Abre a flor.

Angaî, Negaçaõ, como dizermos, de nenhuma maneira. Ajunta-se sempre com estoutra Aàni, ex. Aàn-angai. De nenhum modo, por nenhuma via. Ajunta-se tambem a qualquer verbo negativo, ex. No-ço-angai, Nunca elle foi, ou naõ foi ninguem. N-ai-potar-angai, De nenhuma maneira quero.

Ucàr. Esta dicçaõ tambem per si não significa; mas ajunta-se primeiramente com verbos activos, e significa constrangimento na execuçaõ de seu significado, ex. Ai-monhang-ucar Pedro çupe, Faço fazer a Pedro. A-juca-ucar iaguara Pedro çupe, Fiz matar huma onça a Pedro, ou fiz com que Pedro a matasse. Tambem se ajunta com os verbos que dos activos se fazem passivos com as particulas Ye, Nhe, ex. A ye iuca-ucar Pedro çupe, Fiz-me matar a Pedro. A-ye apin-ucar, Fiz me tosquiar. Tambem se ajunta com os verbos compostos dos activos com 91a particula Poro, a que chamamos absolutos, ex. A poro-mboe-ucar Pedro çupe, Faço com que Pedro seja mestre, e ensine a gente; mas naõ se ajunte a dicçaõ Ucar, com verbos de pronome Xe, nem com os de mais neutros.

DA INTERJEIÇAÕ.
Setima parte da oraçaõ.

INTERJEIÇAÕ he huma parte da oraçaõ, com que significamos os affectos do animo, como tristeza, alegria, dor, saudades, &c.

Desta setima parte da oraçaõ naõ ha mais que apontar algumas interjeições particulares.

DA CONJUNÇAÕ.
Oitava parte da oraçaõ.

MUITAS conjunções se acharaõ atraz com nome de adverbios, porque muitas vezes se põe adverbialmente; nem vai muito em confundir nomes de pouca entidade, com tanto que conste de sua propria significaçaõ.

92

DA SYNTAXE,
Ou construiçaõ das partes da oraçaõ.

COMO nesta lingua naõ ha variedade de casos, nem de generos, mais que o que se tem visto, fica facil a combinaçaõ dos verbos com os nomes, como se verá.

Dous generos de verbos sómente puzemos assima, ou activos, e naõ activos; e a todos os naõ activos podemos chamar neutros, como lá explicamos.

93

Os verbos activos se ajuntaõ com qualquer nome posto absolutamente, sem proposiçaõ alguma. Ex. A-iuca iaguara, matei huma onça. A-çauçub Tupã, Amo a Deos.

Os negativos destes como naõ mudaõ a natureza de activos, tem o mesmo modo. Ex. N-a-juca-i iaguara, &c. Na-çauçub-i Tupã, &c.

Da mesma maneira os mais tempos, e modos variando-se o modo de fallar conforme a elles.

Na conjunçaõ, e concurso de algumas pessoas com outras, quando huma he nominativo, e outra accusativo de algum verbo activo, se haõ de advertir as seguintes regras.

Primeira regra.

Quando a primeira pessoa, ou a segunda saõ nominativos de algum verbo activo, e a terceira pessoa lhe ficar accusativo, nos tempos de artigo; o tal verbo terá seu artigo expresso. Ex. A-iuca-iaguara, Ere-iuca-iaguára; e assim nos mais modos de artigo.

Segunda regra.

Quando a terceira pessoa he nominativo, e a primeira, ou segunda saõ accusativo; em tal caso a terceira pessoa naõ tem o artigo claro. Ex. Pedro xe-juca, Pedro me mata; e naõ se diz O-iuca, Nde iuca, Te mata. Yande-iucà, Nos mata. Pe-iuca, Vos mata a vós outros. E se o verbo activo for dos que começaõ pelas syllabas Yo, Nhe, perde a tal syllaba. Ex. Pedro de-çoc, Pedro te pica. O verbo çoc, he A-yo-çoc. E os verbos activos que se começaõ por ç com zeura, mudaõ o ç em R. Ex. Pedro de r-auçub, Pedro te ama.

94

Terceira regra.

Quando a tal terceira pessoa em nominativo se ajunta com o verbo no Permissivo modo, ou no Imperativo, os quaes tem por artigo Tò, ex. To-iuca, mata elle; havendo de ter accusativo a primeira, ou segunda pessoa, pôr-se-ha da maneira seguinte: T-a-xe-iuca Pedro, Tande-jucà, Mate-me Pedro, e matarei a ti. T-iande iucà, Mate-nos a nós. T-a-pe-iuca, mate-vos a vós outros. T-ande-r-a uçub, Ame-te. A letra T persevera, e faz syllaba com a primeira vogal do nome seguinte; e se o nome seguinte se começar por consoante, o artigo To, se muda em Ta, ex. T-ande-çoc, Pique-te, &c. De modo que nestes modos Imperativo, e Permissivo, conserva-se a letra T do artigo; e porque se entremettem os accusativos, Xe, Nde, que se começaõ por letras consoantes, ajunta-se a letra A ao T para fazer syllaba com elle.

Quarta regra.

Quando a terceira pessoa he nominativo, e tem outra terceira pessoa por accusativo, em tal caso leva o verbo o seu artigo nos tempos que tem artigo. Pedro o-iuca iaguara, To-iuca iaguara, &c. Pedro o-çauçub Tupana, Pedro ama a Deos. Pedro o-çoc iaguara, &c.

Quinta regra.

Quando a segunda pessoa he nominativo; e tem por accusativo a primeira, naõ leva o verbo artigo, como dissemos; mas sempre leva comsigo esta dicçaõ Yepê, ex. De xe-iuca-yepe, Tu me matas. Nde xe çoc yepe, Tu me picas. Xe-iucà-yepe, Mata-me tu. Xe-rauçub-yepe, ama-me tu.

95

Sexta regra.

Quando a primeira pessoa he nominativo, e a segunda he accusativo, naõ se põe artigo no verbo, e serve de accusativo da segunda pessoa esta palavra Orò, que he o mesmo que Te no singular; e no plurar estoutra palavra O-po, que he o mesmo que vós. Ex. Xe oro-juca, Eu te mato. O-po-iuca, Eu vos mato a vos outros. Ore oro-iuca, Nós te matamos. Ore-opo-iucà, Nós vos matamos a vós. Os verbos que se começaõ por ç com zeura perdem o ç. Ex. Xe-oro-auçub; e naõ se diz Oro-çauçub. Xe-opo-auçub, e naõ O-po-çauçub. Os verbos que começaõ pelas syllabas Nho, Yo, tambem as perdem, ex. Xe-oro tim, eu te enterro. Oro-çoc, Eu te pico. Os seis verbos activos de que temos feito mensaõ atraz nunca perdem a letra ç com zeura, nem a mudaõ em R em nenhum caso dos sobreditos, como tambem os verbos neutros, que se começaõ pela mesma letra ç com zeura. Huns, e outros porém a mudaõ em X, quando antes de si tiverem concurrencia da letra Y, como fica dito algumas vezes.

Tudo o que se contém nas seis regras precedentes se usa assim nos tempos, e modos que tem artigos, que saõ todos até o conjunctivo exclusivamente. Mas para os modos que naõ recebem artigos, que saõ o conjunctivo, e mais que se seguem, seja por ordem.

Setima Regra.

Pondo-se quaesquer duas pessoas juntas, qualquer verbo activo, a que estiver immediatamente antes do verbo lhe fica sendo accusativo. Ex. Nde xe-iuca-reme, Se vós me matardes a mim. Yxe de juca-reme, Se eu vos matar a vós. Xe Pedro iuca-reme, 96Se eu matar a Pedro. Pedro iaguara iuca-reme, Se Pedro matar a onça. Iaguara Pedro iuca-reme, Se a onça matar a Pedro. De mesma maneira no infinitivo, e gerundios, Nai-potar-inde xe-iuca, Naõ quero que tu me mates. Oço Pedro iaguara iuca-bo, Foi Pedro a matar a onça, &c. Os verbos activos que começaõ por ç com zeura (tirando os seis de que fizemos mençaõ assima na sexta regra) guardaõ o que temos dito assima ácerca da mudança, ou perdimento do tal ç. E quando o accusativo fica atrás longe do verbo, o tal ç com zeura naõ se perde, nem muda; mas serve de relativo, ex. Tupã ace çauçub-mé, Amando homem a Deos. Tupã he accusativo do verbo A-çauçub, mas naõ està immediato ao verbo, porque se entremette o nome Ace.

Todo o verbo activo alem do seu caso direito, a que chamamos accusativo, pode ter outro algum nome com alguma preposiçaõ. Ex. Ai-mon-gueta Tupã nde-rece, Fallo com Deos de vós, ou rogo a Deos por vós.

Os verbos neutros todos tem preposições com seus casos.

Quando dous verbos se ajuntaõ na oraçaõ para se saber em que modos se haõ de pôr; se haõ de advertir as regras seguintes.

Primeira regra.

Ajuntando-se dous verbos com hum Que no meio. O segundo se põe no infinitivo, ex. Quero que vas, Ai-potar de cô. E se o segundo for activo, irà ao infinitivo levando comsigo seu caso expresso. N-ai-potar-i de xe-r-uba iucâ, Naõ quero que tu mates a meu pai. E se for esse segundo neutro, poderà ter seu caso com sua preposiçaõ, ex. Ai-cua-i xe rece de maenduar-a, Bem sei que vos 97lembrais de mim. E se o primeiro for neutro, o activo com seu caso lhe serviráõ de caso com alguma preposiçaõ; ex. Xe-maenduar de xe-r-auçuba-rece, Lembro-me de que me amais.

Segunda regra.

Ajuntando-se dous verbos sem terem Que no meio, ordinariamente se compõe hum verbo com outro, fazendo-se de dous hum só verbo: ex. Quero ir, A-ço-potar. Quero matar, A-iuca-potar. Sei fazer, Ai-monhang-uab. Faço matar, A-iuca-ucar, &c.

Terceira regra.

Todo o verbo posto no infinitivo póde servir de caso ao outro verbo, ou com seu caso, sendo activo, como fica dito; ou naõ sendo activo, sem caso, naõ significando por modo de acçaõ. Ex. Este verbo ço, estando no infinitivo, significa ir por modo de acçaõ; ou significa ida por modo de nome; desta segunda maneira põe-se como nome, e rege-se doutro verbo, ou de proposiçaõ. Ex. N-a-i-potar-i do ço, Naõ quero tua ida. Xe maenduar de rura rece, Bem me lembro de vossa vinda.

Desta regra havemos de inferir, que todas as vezes que virmos algum verbo reger-se doutro, ou de preposiçaõ; que o tal verbo está no infinitivo, ainda que hora naõ tenha a ultima letra em que se deva acabar, conforme as regras dos infinitivos; porque ás vezes as ultimas letras se mudaõ, por respeito de fazer boa consonancia. E assim se ouvirmos dizer Xe-rur-i-rè, saibamos que he o mesmo que dizer Xe-rur-a-re, ou depois de minha vinda. Xe-jebyr-i yanonde, ou xe-jebyr-a yanonde, Antes de minha tornada. E só no infinitivo os verbos tem este uso em todos os tempos, e juntamente no supino Aõama.

98

Quarta regra.

O verbo se põe no supino, quando a linguagem falla do supino, ex. A ver, Pera ver. A-ço xe-ruba r-epiac-aõama, Vou a ver meu pai. Este supino tambem recebe preposiçaõ, porque tambem serve como os infinitivos, ex. A-iur de r-epiac-aõama rece.

Quinta regra.

O verbo se põe no gerundio, quando a linguagem falla delle; o qual tambem serve de supino; mas naõ admitte ser nome, nem se rege de verbos, nem de preposições. Ai-co Tupã mongeta-bo, Estou fallando com Deos.

De algumas partes da oraçaõ, que mandaõ os verbos ao gerundio.

Muitos verbos, e outras partes da oraçaõ ha, que ajuntando-se com alguns verbos, os fazem ir ao gerundio, dos quaes poremos aqui os mais communs, e frequentes; os quaes só por se ajuntarem com o gerundio muitas vezes mudaõ a significaçaõ.

Aé, he verbo, significa dizer: junto com este gerundio Cepiac-a, significa ver querendo, ou querer vendo. Ere cepiac-a-ne, Vereis, e querereis.

Aé catù, composto, e significa o mesmo que o verbo Possum potes. Eu posso; e pede gerundio em qualquer outro verbo com que se ajunta, ex. Ae-catù bae monhang-a, Posso fazer qualquer cousa. E negando-se, Dae-catu-i gui-xo-bo, Naõ posso ir. Pedro ei-catû o-ço-bo, Pedro póde ir.

Aeumanî, Hei-me muito de vagar. Ere-umanã bae-monhang-a, Tu te dás a vagares em fazer isso. Daei-umanî bae gua-bo ranhe, ou Daei-uman-î bae-ữ-eyma, Ainda naõ acabo de comer, em começar, me hei de vagar.

99

Aememenhé, he o mesmo que o de cima. Aememenhe gui-xo-bo, Hei-me de vagar em ir.

Aenhé, he o contrario dos de cima lá me apresso. Aenhe gui-xo-bo, Já vou. Pejenhe pe-ço-bo, Já vos apressais.

Aeuman, he o mesmo que ó de sima, Aeuman guixobo, Já vou.

Taene ranhe, Eu primeiro. Taeneranhe guixobo, Eu irei diante. Naõ se diz na segunda pessoa Terene; mas dir-se-ha Nẽi deranhe e-ço-bo, Vai tu. Na terceira pessoa se diz Téinhe o-ço-bo ranhe, deixa-o ir primeiro, ou Teinhe, To-ço, Deixa-o ir. Teinhe to-ro-çone, Iremos nós primeiro. Pẽi po-ço-bo ranhe, ide vós outros primeiro.

Aeje, Ereje, Eije, ajuntaõ-se com gerundio: Ainda continúo fazendo, ex. Aexegui-xo-bo, Ainda vou. Erejé mbae g-ua-bo, Ainda estàs comendo. No plurar, Yae, ou Oroejé, Peèjé, Eijé.

Aetenhe, Eretenhe, Eitenhé, Plurar. Yaetenhe, ou Oroetenhe, Pejetenhe, Eitenhe, significa de balde, ou fazer, ou dizer alguma cousa baldadamente. Ex. Aetenhe guijabo, Digo de balde, ou vámente. Ere tenhe eyabo, Eitenhe oyabo, &c. Aetenhe de-rauçup-a, De balde vos amo, com gerundio.

Aebiter, Erebiter, Eibiter, &c. Ainda persevero em fazer, ou dizer, com gerundio. Aebiter de-r-auçup-a, Ainda persevero em vos amar.

Ndaeiteé, Dereitee, Deitee, &c. com gerundio. Por essa causa, ou razaõ faço, ou digo, &c. Daeitee gui-xo-bo, Por isso vou. Deitee o-mano-mo, Por essa causa morreo.

Daeique, Dereique, Deique, &c. com gerundio. Naõ fora elle, ou naõ fizera, e naõ lhe acontecera isso. Deique ò angaypaba-mo, Naõ fora elle roim. Deique ò goata-bo, Naõ andarà elle. Deique ogoa-ta-pytuna, Naõ andara elle de noite, &c.

Daeiranhe, Dereiranhe, Deiranhe. Plur. &c. 100com gerundio. Ainda naõ faço, ou digo. D-ae-i gui-xo-bo ranhe, Ainda naõ vou. Entremette-se sempre o verbo. Dereipe bae monhang-a ranhe, Ainda naõ fizestes nada?

Todos estes precedentes saõ compostos do verbo Aé; mas todos saõ verbos defectivos, porque naõ se usaõ commummente mais que no presente, e todos tem outra significaçaõ, como se vê, e todos mandaõ ao gerundio os verbos com que seajuntaõ.

Todos os verbos de movimento levaõ o seguinte verbo ao gerundio, ou ao supino Aõama, ex. A-ço caa mondo-bo, Vou acassar. A-iur de-repiac-a, Venho a ver-vos, ou A-ço-xe-r-uba r-epiac-aõama, vou a ver meu pai, &c.

Outras palavras ha tambem que mandaõ os verbos ao gerundio, como saõ as seguintes.

Teinhé, palavra da terceira pessoa, e essa leva ao gerundio, Teinhé o-ço-bo, Deixallo ir, vá embora.

Tueme, ou Etueme. Plur. Peteume, ou Petepeume, saõ segundas pessoas; e só a segunda pessoa mandaõ ao gerundio. Tueme e-ço-bo, Guarte naõ vás.

Neî, ou Eneî. Plur. Peî, ou Peneî, Ora sus, depressa palavras da segunda pessoa tambem. Neî bae monhang-a, Hora faze já alguma cousa.

Memete, Memetene, Memetipo, Quanto mais? Tupã omanô, memetipo ace o-mano-me, Se Deos morreo, quanto mais nós morreremos.

Auge, Te, Teipo, Erombyg, ou senaõ quando, ou finalmente. Todos levaõ ao gerundio, Auge xe-gui-xo-bo, Finalmente fui, &c.

Ya, Ainda bem, com gerundio, Ya o-mauo-mo, Ainda bem que morresse.

Aeibè, Aeibemo, Logo entaõ, com gerundio. Aeibe o-ço-bo, Logo entaõ foi. Aeibemo o-ço-bo, Logo entaõ havia de ir. A syllaba Mo, faz imperfeito; ou esteja antes do verbo, ou depois do verbo: ex. Aeibe o-ço-bo-mo.

101

Temone, Para bem ser, com gerundio. Tetemo, Teraùmo, Terautè o-ço-bo. Ó se elle hora fosse, ou para bem havia de ir.

Compara-se o Gerundio com o Conjunctivo.

Em alguns modos de fallar he duvidoso se havemos de usar de Gerundio, se de Conjunctivo, por serem semelhantes as linguagens, v. gr. nestes modos. Indo eu encontrei vosso irmaõ: morrendo vosso pai fiquei desamparado. He duvida sobre aquellas palavras, Indo eu, e morrendo vosso pai, se haõ de estar no Gerundio, se no Conjunctivo. Seja pois esta regra.

Quando a mesma pessoa do mesmo numero, he a que faz em ambos os verbos, devemos usar do Gerundio como na primeira oraçaõ, Indo eu, encontrei eu mesmo. Gui-xo-bo a-ço-baitî dere-quijra; mas quando a pessoa se varia, ou pelo menos no numero, usamos de Conjunctivo como se vê na segunda oraçaõ. De-r-uba r-eõ-neme xe-po-r-eauçub: Da mesma maneira sendo a segunda pessoa do singular, e do plurar, ex. De-r-uba reõ-neme, pepo-r-eauçub.

Da collocaçaõ das partes da oraçaõ entre si.

O uso ensinará a boa collocaçaõ das partes da oraçaõ entre si; mas apontaremos aqui algumas que pedem certos lugares, assim como vemos no latim, que esta preposiçaõ Tenus, sempre se põe depois do nome que rege; e seria erro intoleravel mudar-lhe o sitio, pondo-a antes do nome como as outras.

Primeiramente o nome, ou pronome em respeito do verbo podem estar antes ou depois, ex. O-ço Pedro, Pedro o-ço, Yxe ai-co, Ai-co yxe.

Na terceira pessoa relativa commummente o 102nome, ou pronome precede o verbo, ex. Coriteî Pedro ruri, Eboquei xe-ço-u.

Os relativos sempre se collocaõ depois do nome que relataõ, como a ordem pede; mas se o nome, ou pronome que ha de ser referido, estiver junto do relativo, o relativo precederá, ex. Ae abá oçóne. Esse mesmo homem irá.

O adverbio em quanto tal, póde preceder, ou postpor-se commummente. Coriteim a-ço, ou A-ço coriteim.

A preposiçaõ em quanto tal, sempre se postpõe; e por isso se disse, que melhor se chamariaõ postposições, que preposições. Tupana rece ai-ço, A-ço de çui, &c.

Das interjeições algumas sempre se postpõe, ex. Mã, Temomã, Açomo mã, &c. Outras saõ varias na collocaçaõ.

Das conjunções algumas se antepõe, ex. Aeibe, Memete, Memetipo, Temone, Teipo; mas sempre fica já alguma oraçaõ atráz, que se ata com a de diante.

Pe. Esta nota de interrogaçaõ Pe, sempre se postpõe; mas com advertencia, que se na oraçaõ houver adverbio, sempre se põe depois delle immediatamente, ex. Marape ore-ico? Que fazeis? Erimbaepe ere-iur? Quando vieste? E naõ havendo adverbio por-se-ha junto do nome, ou do verbo, sobre cujo significado cahe a dúvida v. gr. nesta pergunta Xe-pe a-çope? A dúvida he, se hei de ser eu o que ha de ir, ou outro. E por isso se põe a dicçaõ Pe junto ao pronome Xe; mas se a dúvida fora sobre haver de ir, ou naõ haver de ir, disseramos: A-ço-pe ixe-ne? hei de eu ir, ou naõ?

103

DA SYLLABA.

TODOS os verbos desta lingua, ou se acabem em vogal, ou consoante, na sua vóz direita do indicativo tem o acento na ultima, ex. A-iuca, A-quer, &c.

Nos mais modos, ou tempos, em que tem incrementos, naõ mudaõ o assento da mesma syllaba; e as mais syllabas que crescem, se sahem corridas, de tal maneira, que naõ se faz assento em nenhuma dellas, ex. Iucà, Iuca-bo, Iucábo, Iucá-reme.

Nos nomes ha muita variedade; mas naõ difficuldade, pelo que escusamos fazer grande volume.

FIM.

NOTAS DE TRANSCRIÇÃO

Os erros tipográficos evidentes foram corrigidos.

A pontuação, a hifenização e a ortografia foram tornadas consistentes quando uma preferencia predominante foi encontrada no texto original; caso contrário, não foram alterados.