Nota de editor:
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quantidade de erros tipográficos existentes neste texto,
foram tomadas várias decisões quanto à
versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi
mantida de acordo com o original. No final deste livro
encontrará a lista de erros corrigidos.
Rita
Farinha (Maio 2008)
Theóphilo Braga
E
A LENDA DO CRISFAL
Obras de Delfim Guimarães
| PROSA: |
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| Alma dorida, com prefácio
de Teixeira Bastos, 1 vol
broch. |
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500 |
réis |
| A Viagem
por terra do snr. João
Penha, (crítica literária) 1
folh. |
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100 |
» |
| O Rosquedo (Scenas da vida de
província) |
|
Esgot.o |
| Ares do Minho (Contos) 1 vol.
broch. |
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200 |
» |
| Bernardim
Ribeiro: O poeta Crisfal
(Subsídios para a Historia da literatura
portuguêsa) 1 vol.
broch. |
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800 |
» |
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| EM PREPARAÇÃO: |
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| Luis de Camões.―Diogo
Bernardes. |
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| VERSO: |
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| Lisboa Negra, 1
fol. |
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200 |
» |
| Confidencias, 1 vol.
broch. |
|
400 |
» |
| Evangelho, 1
vol. |
|
400 |
» |
| Não! Mil vezes
não! 1
fol. |
|
200 |
» |
| Sim! Mil vezes sim! 1
fol. |
|
100 |
» |
| Sonho
Garretteano |
|
Esgot.o |
| A Virgem do Castelo, (2.ª
edição) 1
fol. |
|
100 |
reis |
| Outonaes, 1 vol.
broch. |
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500 |
» |
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| NO PRELO: |
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| Flores
do mal
(interpretação em versos portuguêses de
poesias de Carlos Baudelaire) |
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| TEATRO: |
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| Aldeia na
Côrte, drama em
3 actos, de colaboração com D. João da
Camara, representado no D. Amelia, 1 vol.
broch. |
|
500 |
réis |
| Juramento
Sagrado, comedia n'um acto
em verso, representada no D. Maria II, 1
fol. |
|
200 |
» |
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| A PUBLICAR: |
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| Domingo de Páscoa,
peça de costumes minhotos |
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| OUTROS TRABALHOS: |
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|
| A Dama das
Camelias, de Dumas, filho
(tradução), 1 vol.
broch. |
|
200 |
réis |
| Saudades,
(História de
Menina e moça), de Bernardim Ribeiro,
edição revista (vol. 29 da
Colecção Horas de
Leitura) |
|
200 |
» |
| Trovas de Crisfal, de Bernardim
Ribeiro,
edição
revista |
|
300 |
» |
| Versos portuguêses, de Sá
de Miranda,
edição
revista |
|
500 |
» |
DELFIM GUIMARÃES
Theóphilo Braga
E
A Lenda do Crisfal
 |
1909
Livraria Editora
GUIMARÃES & C.a
68, Rua de S. Roque, 70
Lisboa |
THEÓPHILO BRAGA
E A LENDA DO CRISFAL
I
Razão de ser d'este livro
Quando em maio de 1908 tornamos pública a
conclusão a que haviamos chegado de ser
Crisfal
um pseudónimo do
autor da
Menina e moça, como
procurámos
demonstrar no volume recentemente dado á estampa:
Bernardim
Ribeiro (
O Poeta Crisfal), tinhamos o
convencimento pleno de que uma tal nova, divulgada pela imprensa, seria
bem acolhida por quantos se interessam pelo estudo da nossa
História
literária, com excepção apenas do snr.
dr.
Theóphilo Braga. O laureado professor do Curso Superior de
Letras não perdoa a quem quer que seja que ouse discordar de
suas sentenças, nem vê com bons olhos que outros,
que não s. ex.
a, encarem problemas
que se prendam com a História da literatura
portuguêsa.
E n'este caso do
Poeta Crisfal, mais
do que em nenhum outro, o snr. dr. Theóphilo Braga
não desejava que ninguem bulisse, pelo motivo que teremos
ocasião de apontar no decurso d'este livro.
Não contavamos com o acolhimento benévolo
[6]
do infatigavel escritor. Para
fundamentar o nosso juizo, bastava-nos invocar os precedentes sabidos,
tristemente lembrados, e, muito em especial, o desforço
pouco generoso do snr. dr. Theóphilo Braga para com a
memória d'esse desventurado que se chamou Antero,―porque o
poeta incomparavel dos
Sonetos
ousara flagelar o dogmatismo scientífico do antigo camarada
universitário; o fel que o plumitivo da
Historia da Litteratura deixa transparecer nas
apreciações com que, baldadamente, procura
amesquinhar a figura gigantesca de Herculano,―porque o insigne
historiador nacional jàmais se associou aos
turibulários do filósofo comtista (sem
calemburgo);―o desdem com que o professor de literatura apoda,
soberanamente, de
gramático, o distinto romanista, snr.
Epiphánio Dias,―por este haver despedaçado, com
a autoridade do seu nome, aquela invenção alegre
dos
cantos de ledino, em
que o snr. dr. Theóphilo continua a persistir, apesar de
tudo, com manifesta falta de sinceridade.
Mas não ignorando taes precedentes, e conhecendo que o
estudo que iamos apresentar ao público não
deixaria de nos acarretar a
má vontade do autor da
História da
Litteratura
Portugueza, nem por um momento hesitamos em levar a bom
termo o nosso trabalho, tendo em atenção tam
sòmente que se tratava de
desfazer uma lenda, estúpida como tantas outras lendas, que
privava de parte da glória a que tinha jus o nome aureolado
de um dos maiores poetas portuguêses, o delicado e inditoso
Bernardim Ribeiro, o nosso querido Bernardim.
Derruíamos a coluna em que se firmava um espantalho, mas
erguiamos a um pedestal mais
[7]
grandioso
e altívolo a figura amoravel do grande bucolista.
A literatura portuguêsa só ganhava com a
descoberta. Que, se alguma cousa perdesse, era sobeja
compensação o que se conquistava para a verdade
histórica...
Mas a proclamação de uma tal verdade ia
prejudicar um livro, ou livros, do snr. dr. Theóphilo
Braga... Não havia dúvida. Que importava isso?
Para reivindicar para Bernardim Ribeiro a autoria da Carta e da
Écloga de
Crisfal, não valeria a pena sacrificar
uma das muitas produções do operoso escritor?
Bernardim Ribeiro é um dos astros fulgurantes da
rútila constelação que brilha,
intensa e perduravelmente, no ceu de Portugal. Já conta
alguns séculos, e ainda hoje nos deslumbra o seu fulgor...
Após a local produzida pelo snr. dr. Alfredo da Cunha no seu
Diario de Noticias,
dando conta dos nossos trabalhos de investigação,
que punham termo á lenda de
Crisfal, tivemos a ventura de ver que o snr.
José Pereira Sampaio (
Bruno) havia
chegado a
conclusão idêntica á nossa, como foi
registado n'um brilhante artigo de João Grave no
Diario
da
Tarde, do Porto, confirmado inteiramente por uma carta de
Bruno,
reproduzida no jornal
citado, em que o prestigioso publicista, com a reconhecida autoridade
do seu nome, que nada deve ao reclamo, afirmava de maneira absoluta que
estavamos com a verdade; que o
trovador
Cristovam Falcão era simples produto de uma lenda, que o
criptónimo
Crisfal
pertencia a Bernardim Ribeiro.
Do artigo do nosso camarada João Grave, e
[8]
da carta do ilustre escritor snr.
José Sampaio, não faremos
citações n'esta altura.
Ambos os preciosos documentos se encontram integralmente exarados no
nosso livro
Bernardim
Ribeiro. Não os desconhecem, por certo, aqueles
que nos dão a honra da leitura d'este trabalho.
Como recebeu o snr. dr. Theóphilo Braga essas
comunicações do
Diario de
Noticias, de Lisboa, e do
Diario da Tarde,
do
Porto?
―Passando a José Pereira Sampaio
(
Bruno), e a nós outros, um diploma de
ignorantes!
Em 29 de maio, um amigo salientou-nos no jornal
A Epoca
a
secção que o escritor snr. Silva Pinto tinha a
seu cargo, e que n'essa data estampava, reproduzida do
Diario
da
Tarde do Porto, a seguinte carta do snr. dr.
Theóphilo Braga:
«
Meu caro
João
Grave:―Encantou-me o favor da sua carta, communicando-me o
problema litterario que preoccupa o nosso velho amigo e luminoso
critico José Sampaio sobre a apochryficidade do auctor do
«Crisfal», e que annuncia o primoroso litterato
Delfim Guimarães. É sempre boa a
vindicação d'uma
verdade em qualquer campo: no campo litterario e artistico, isso tem o
relevo d'uma conquista, d'um triumpho.
Ninguem mais desejaria que fossem possiveis, isto é
realidade demonstrada, as descobertas de Sampaio (Bruno) ou de Delfim
Guimarães, sobre a identidade de Christovam
Falcão em Bernardim Ribeiro.
Isso,
porém, não passa d'uma miragem, por falta de
conhecimento dos existentes recursos historicos[1].
Diogo do Couto falla em
Christovam Falcão como celebrado
auctor do «Crisfal», quando narra factos
praticados por seu irmão Damião de Sousa. Ora,
Diogo do Couto, contemporaneo d'este na India, inventava-lhe um
irmão? E tendo sido impresso o
«Crisfal» sem nome
d'auctor, (no
pliego-suelto
da
Bibliotheca Nacional de Lisboa) dava-o como auctor d'essa celebrada
écloga a capricho seu? O Padre Antonio Cordeiro, na
«Historia Insulana», (resumo das
«Saudades da
terra», do dr. Gaspar Fructuoso, amigo de Camões)
tambem faz as mesmas referencias ao
poeta
Christovam
Falcão. E a edição de Ferrara, de
1554, e a de Colonia, de 1559, inscrevendo o seu nome? E Frei Bernardo
de Brito, fazendo a «Silva de Lisardo», ou segunda
parte do
«Crisfal», falla nas serras de Lor-vam, onde esteve
D. Maria Brandão, a namorada d'este poeta do
«Crisfal».
[9]
Nada d'isto leva a admittir a
hypothese. No emtanto, que tragam a lume
os seus resultados. A vantagem é de nós todos.
Com um abraço do seu, etc.
Theophilo
Braga.»
Para o professor do Curso Superior de Letras, a conclusão a
que, tanto
Bruno como nós, haviamos chegado,
não passava
d'uma
miragem, por falta de conhecimento dos existentes recursos historicos,
e esta sentença
autoritária vinha a público quando o snr. dr.
Theóphilo Braga ignorava em absoluto quaes os argumentos com
que nós e o insigne publicista nosso conterráneo
procurariamos fazer vingar nossas teses.
Magoou-nos a impertinência, confessamos, e não
resistimos a manifestar publicamente a
impressão em nós produzida pela prosa do snr. dr.
Theóphilo Braga, dirigindo n'esse mesmo dia a seguinte carta
a João Grave, que este distinto jornalista fez inserir no
numero de 1 de junho do
Diario da Tarde:
«Meu prezado
camarada João
Grave:―Acabo de ler, reproduzida por Silva Pinto na
«Epoca», a carta que
o snr. dr. Theóphilo Braga dirigiu ao meu caro
João
Grave a propósito do trabalho que preparo, em que me
proponho demonstrar que «Crisfal» foi simplesmente
um anagrama cabalístico de Bernardim Ribeiro, pertencendo
por conseguinte a este
lírico as poesias que uma lenda fez atribuir a Cristovam
Falcão.
[10]
O nosso bom amigo e erudito escritor
José Pereira Sampaio―
Bruno―,
como se viu da
interessante carta que estampou no «Diario da
Tarde», como complemento
ao artigo que o meu caro João Grave publicou sobre o
assunto, chegara a conclusões eguaes, e para mim foi
extremamente grato que o nome prestigioso de Bruno viesse valorizar a
minha descoberta com a grande autoridade do seu concurso.
Ao ilustre professor, snr. dr. Theóphilo Braga, afigura-se
isto uma «
miragem, por falta de conhecimento
dos existentes recursos historicos», que cita,
desde Diogo do Couto a frei Bernardo de Brito.
Peço-lhe, pois, meu caro João Grave, a fineza de
dizer no seu jornal que conheço perfeitamente os
recursos históricos a que alude o
incansavel
historiador da
Litteratura Portugueza, como
não podia deixar de conhecer pela leitura das
edições do «Bernardim
Ribeiro e o Bucolismo» do snr. dr. T. Braga.
Que Bruno não ignora nenhum d'esses
recursos, estou convicto, que, de resto, nem o
distinto escritor snr. dr. Theóphilo Braga póde
ter dúvidas a tal
respeito, porque isso seria fazer ofensa ao justificado nome
literário de José Sampaio.
Para fechar, devo ainda dizer-lhe, meu bom amigo, que de modo nenhum eu
vou sustentar que não existiram vários
cavalheiros
com o
nome de Cristovam Falcão. Se estes não tivessem
existido não tomaria vulto até aos nossos dias a
lenda do
«Crisfal»!
Não o enfado mais.
Creia-me, com verdadeira estima,
seu amigo, adm.dor
e obg.do
S/C. Lisboa, 29-maio/90.
Delfim
Guimarães.»
A
Bruno tambem não passou
despercebido o
amavel diploma do professor do
Curso
Superior de Letras, e que o ilustre escritor se sentiu melindrado
prova-o suficientemente a carta que dirigiu a João Grave, e
que, confiados na benevolência do sr. José Pereira
Sampaio, vamos
[11]
trasladar
das colunas do jornal
A
Epoca, que a reproduziu do
Diario da Tarde:
«
Meu caro
João
Grave:―Novamente o venho importunar, pois entendo que,
perante a carta, aliás tão
bondosa e honrosa para mim, do dr. Theophilo Braga, hontem inserta no
seu jornal, me cumpre consignar em publico, ainda uma vez, que
após o apparecimento do livro de Delfim
Guimarães, defendendo a
propozição de que Christovam Falcão
não é mais do
que Bernardim Ribeiro, eu publicarei o meu, já por V. na sua
folha duas vezes amavelmente annunciado, e onde, entre outros,
sustentarei egualmente o mesmo ponto, pensando que refutarei ahi
cabalmente as asserções, na sua
carta de hontem no «Diario da Tarde», pelo nosso
doutissimo confrade e illustre publicista produzidas, mostrando
então, com todo o respeito devido a tão indefesso
e insigne trabalhador, que a minha hypothese (e de Delfim
Guimarães) não é tal uma miragem e
que, pelo contrario, o ensino corrente no assumpto é que
é
inteiramente phantastico e chimerico.
A V., prezado collega, reitero os protestos do meu agradecimento.
Todo seu
Porto, 27 de Maio de 1908.
José
Pereira Sampaio
(Bruno).»
O snr. dr. Theóphilo Braga achou que era prudente
não voltar á estacada, e assim deixou passar em
julgado a nossa carta e aquela em que o snr. José Sampaio,
por uma fórma
categórica, visando directamente as
lições ministradas pelo professor de literatura,
declarava que o ensino corrente sobre Cristovam Falcão era
inteiramente
phantastico e
chimerico.
Na elaboração do livro:
Bernardim Ribeiro (
O Poeta Crisfal)
obedecemos ao
propósito de não converter o nosso trabalho n'uma
diatribe, e procuramos suavizar quanto possivel a
situação em que eramos forçados a
colocar o snr.
[12]
dr. Theóphilo Braga, em obediência
á verdade, e não porque nos animasse qualquer
desejo de ser desagradaveis ao infatigavel vulgarizador. E, procedendo
assim, entendiamos cumprir um dever, que tinha sobeja
justificação nos cabelos brancos do professor do
Curso Superior de Letras, cuja primeira edição do
seu
Bernardim Ribeiro coincidiu com o ano do nosso
nascimento. Não esquecemos nunca que fomos educados no
respeito devido á velhice.
No trabalho da revisão das provas do nosso estudo, em que
fomos
auxiliados pela prestante
amizade de Henrique
Marques, mais de uma vez modificámos referências
feitas ao professor que contraditavamos, e sempre da melhor vontade
substituiamos um adjectivo, suavizavamos a saliência de um
erro do Mestre, desde que o nosso amigo Henrique Marques, com o seu
apreciavel critério, nos fazia notar que uma palavra, uma
frase nossa, poderia ser tomada como um desprimor para com o snr. dr.
Theóphilo Braga.
Queriamos fazer vingar uma obra de justiça; não
era nosso intento agravar quem quer que fosse.
E que não fomos descortêses, nem violentos, nem
injustos, para com o professor que contraditavamos, prova-o o
testemunho insuspeito do eminente publicista snr. José
Caldas, que nos honrou com uma carta penhorantíssima, de que
reproduziremos neste lugar algumas linhas:
«A delicadeza das
suas referencias, com
relação aos auctôres cujas
conclusões não
acceita ou impugna, é verdadeiramente
modelar.»
Se houvessemos sido menos cortêses para
[13]
com o snr. dr. Theóphilo Braga,
s. ex.
a
não se julgaria, com certeza, no dever de agradecer-nos a
oferta do exemplar do nosso trabalho que entendemos enviar lhe. E o
professor do Curso Superior de Letras
escreveu-nos a agradecer o livro, embora na sua carta
transpareça o despeito que lhe produziu o nosso estudo sobre
Bernardim Ribeiro, em que desvendamos vários erros contidos
em volumes da
Historia da Litteratura Portugueza.
Registâmos aqui essa carta do snr. dr. Theóphilo
Braga, que não deixa de constituir um documento interessante
para aqueles que seguirem com atenção a marcha
dos acontecimentos provocados pela pendência
literária em que estamos envolvidos.
É, textualmente, como segue:
«Lisboa, 25 de Novembro de
1908
...sr. Delfim Guimarães
e meu presadissimo
amigo
[14]
Muito me penhora a honrosa offerta do
seu recente trabalho, em que
apresenta o seu processo para a
identificação do poeta Bernardim Ribeiro com o
Crisfal ou Christovam Falcão. A ninguem interessaria tanto o
conhecimento d'este problema, como a mim, que esbocei uma biographia de
Christovam Falcão com elementos historicos (documentos
authenticos) comprovando dados genealogicos. Tive de ler immediatamente
o seu livro, para vêr que materiaes traria para o
aperfeiçoamento do meu trabalho. Mesmo no prologo fez-me V.
a justiça de que eu aproveitaria tudo quanto se prestasse a
futuras emendas. Desde as noticias genealogicas trazidas por Braancamp
Freire sobre D. Maria Brandão, que Christovam
Falcão amou, sendo ambos muito creanças, via-me
forçado a tomar o
nascimento d'elle no fim do primeiro quartel do seculo XVI. Isto me
impossibilitava de continuar a admittir as
relações pessoaes de Christovam Falcão
com Bernardim Ribeiro
já velho e dementado em confidencias de amor com um rapaz no
viço da mocidade; e por tanto as Eclogas em que elle
figurava interpretativamente tinham de ser lidas a outra luz. V.,
acabando de fazer a destrinça entre o Poeta e seu primo mais
antigo, deu-me elementos para uma melhor
interpretação das Eclogas de Bernardim,
(eliminadas as relações com Christovam
Falcão), e mostrando como realmente as poesias d'aquelle,
como mestre, influiram no mais moço, que como novel chega a
fazer centões e
intercalações de versos de Bernardim Ribeiro. Ha
uma affirmativa historica, de Diogo do Couto, na sua Decada
VIII, que, fallando de Damião de Sousa
Falcão, accrescenta
como reforço historico: «irmão de
Christovam Falcão, aquelle que fez
aquellas cantigas nomeadas do Crisfal...» E tambem no seculo
XVI Fructuoso (resumido pelo P.e Antonio
Cordeiro na Historia insulana)
diz de Christovam Falcão: «parente do
Barão
velho e do famoso poeta Christovam Falcão, que fez a celebre
Ecloga Crisfal das primeiras syllabas do seu nome...» Tambem
nas edições de Ferrara e Colonia, feitas por
curiosos sem criterio litterario se repete a
attribuição «que dizem ser
de
Christovam Falcam, ho que parece alludir o nome da mesma
Ecloga». Não se podem
refutar por negativa estes testemunhos de homens de letras do seculo
XVI, e que se reflectiram nos genealogistas. A Ecloga do Crisfal
não podia ser publicada pelo seu auctor, nem pelo seu
consentimento porque era uma inconfidencia de
antigas
relações amorosas com uma senhora que estava
casada. A edição sem data, de
Lisboa, só podia ser feita por 1542, quando Christovam
Falcão estava em Roma; e quando Camões foi para
Ceuta em 1547 na carta que d'ali escreveu emprega muitos versos do Crisfal,
que
então, andava no gosto. Na edição de
Lisboa vem duas estrophes supprimidas
no texto de Ferrara e Colonia, por que continham uma
inconfidencia. Isto leva a explicar como
Christovam Falcão tentaria apagar a paternidade da Ecloga
fundamentando-se-lhe a imputação com o anagramma
das primeiras syllabas do nome. Os logares communs a Bernardim Ribeiro
e Christovam Falcão provam mais a favor da
imitação de um discipulo, do que
á fusão dos dois poetas, repetindo-se o mestre na
decadencia. Emfim ha dois schemas de paixão amorosa que se
não
confundem: o de Joanna e Fauno, Aonia e Bimnarder, e o de Maria e
Crisfal. São duas
almas, sentindo em
situações differentes. Através de todo
o hypercriticismo o livro sobre Bernardim Ribeiro revela um trabalhador
fervoroso, que me veio revelar a existencia de um exemplar da
edição de Ferrara, no Porto, e que aqui
descobriu o texto precioso da Ecloga Alexo
assignada por Sá de Miranda. Felicitando-o pelo seu
importante estudo, sou
[15]
admirador obr.mo
e amigo
Theophilo
Braga»
Começa a carta do snr. dr. Theóphilo Braga por um
rebuçado de ovos:
o tratamento de «prezadissimo amigo», que
não tinha qualquer
justificação... Isto é, tinha uma
justificação
única, qual era a de nos adoçar a bôca,
para engulirmos sem relutância aquela amargosa
pílula com que fecha a epístola de s. ex.
a,
quando, com generosa magnanimidade, confessa que o nosso livro
revelou
um trabalhador
fervoroso, que ao professor do Curso Superior de Letras foi
revelar
a existencia de um exemplar da edição de Ferrara,
no Porto, e que em Lisboa
descobriu o texto precioso da ecloga
Alexo assignada por
Sá de Miranda.
E, graças a estas
revelações-revelativas,
a que não ligavamos importância de maior, o
historiador da
Litteratura Portugueza
felicitava-nos pelo nosso
importante estudo, que,
volvidas algumas semanas, havia de classificar de fruto de
processos
á
tôa!
Na devida altura, comentaremos largamente a carta substanciosa do snr.
dr. Theóphilo Braga.
Por agora, continuemos na catalogação das
peças d'este processo, para que os leitores julguem da
justiça que nos cabe, e avaliem da sinceridade, da
correcção, e dos processos do professor
intangivel.
[16]
No jornal
O Mundo, de 3 de dezembro
de 1908, na local consagrada á sessão da Academia
das Sciencias de Portugal realizada no dia 2, vimos que o snr. dr.
Theóphilo Braga fizera uma
comunicação, que outra cousa não
era senão um desmentido formal e gratuito ás
conclusões do nosso livro,―mas sem a mais leve
citação ao nosso obscuro nome, sem a menor
referência ao nosso desluzido trabalho, embora
aproveitando-lhe os subsídios. Comprehende-se: o ilustre
académico não desejava contribuir de modo nenhum
para o reclamo que a imprensa estava dispensando ao volume sobre o
Poeta
Crisfal.
Transcrevemos do
Mundo o periodo
referente a tal comunicação...
scientífica:
«...finalmente, trata de
Bernardim Ribeiro e Christovam
Falcão, mostrando como a vida amorosa d'este oscilla entre
1525 e 1526, sendo n'aquella data moço
fidalgo, tendo pelo menos 12 annos, ao passo que aquelle era
já edoso; evidencia como na Ecloga transparecem diversas
situações da vida de Christovam
Falcão, e termina por invocar as opiniões de
Diogo Couto, Gaspar Fructuoso e outros que comprovam a existencia das
duas individualidades que apesar de similhantes n'algumas
situações da vida, não podem
jàmais confundir-se».
Ante este procedimento do nosso
prezadissimo amigo,
não pudemos ficar silenciosos, e,
como um desforço legítimo, inadiavel, apelamos
para o snr. dr. Brito Camacho, pedindo-lhe se dignasse publicar nas
colunas da
Lucta a
seguinte carta, que o ilustre jornalista fez inserir no numero de 4 de
dezembro do seu diário:
«Ex.mo
Snr. Dr. Brito
Camacho,
meu prezado amigo:
[17]
Pelos extratos, publicados em alguns
jornaes de hoje, do que se passou
na sessão de hontem da Academia de Sciencias de Portugal, vi
que o
snr. dr. Theóphilo Braga disse o que quer que fosse,
procurando refutar o meu recente trabalho sobre Bernardim Ribeiro, e
insistindo na lenda do
poeta
Cristovam Falcão de Sousa.
Não me admira que o original autor da «Historia da
Litteratura Portugueza» persista n'um erro crasso,
só para não se confessar vencido, porque
já o caso
engraçadíssimo dos
cantos de ledino
era precedente
bastante para se ajuizar que o afamado professor do Curso Superior de
Letras prefere manter um absurdo a ter de reconhecer publicamente que
errou. Está no seu direito, e ninguem lh'o contesta.
Parecia-me, porem, que, publicado o meu estudo sobre Bernardim Ribeiro,
em que não torci a meu bel-*prazer a verdade, nem
falsifiquei documentos, o snr. dr. Theóphilo Braga tinha o
dever moral de, pela imprensa ou em livro, dizer da sua
justiça, antes de ir para o seio de uma
agremiação, a que eu
não pertenço, impor um desmentido formal e
dogmatico, ao mesmo tempo que gratuito, ao meu trabalho.
E tanto mais estranhavel se me afigura o procedimento do snr. dr.
Braga, contestando á porta fechada a minha tese, quanto
é certo que s. ex.
a
não
desconhece que o insigne publicista snr. José Pereira
Sampaio (Bruno) prepara um livro sobre o mesmo assunto do meu.
Se o afamado professor do Curso Superior de Letras está de
boa fé, quem lhe assegura que os
argumentos de Bruno não conseguirão
convencê-lo,
já que os meus, conforme de resto eu esperava, tal
não conseguiram?
É tempo de pôr de parte o
magister dixit, porque, felizmente, os processos
crìticos dos Farias e Bernardos de Brito são
coisas que passaram á
historia, e que não se ressuscitam
já facilmente.
Muito especialmente me obsequeia o meu bom amigo dando publicidade na
nossa
Lucta a
esta minha carta, que representa o legítimo desabafo de um
trabalhador que se preza de ser honesto, e que como tal tem jus a ser
considerado.
Mais uma vez agradecido o que se confessa, por estima e dever,
De V. Ex.a
amigo, admirador e
obrigado
S/C, Lisboa, 3-12-908.
Delfim
Guimarães.»
[18]
Com o espírito de rectidão que todos, amigos e
adversários, são concordes em reconhecer ao snr.
dr. Brito Camacho, o brilhante jornalista deu acolhimento
benévolo á nossa carta, acrescentando-lhe as
seguintes linhas de saudação
ao professor do Curso Superior de Letras:
«O nosso ilustre
correligionario dr. Theóphilo
Braga tem as columnas d'este jornal ás suas ordens para
dizer da sua justiça, como quizer. Trata-se d'uma
questão de facto em historia literária, e
não d'uma birra
entre dois homens. Muito prazer teremos em que seja o nosso jornal o
campo em que se dirima o pleito.»
Não correspondeu o snr. dr. Theophilo Braga á
gentileza do director da
Lucta; e até para comnosco estamos
persuadidos de que, desde o momento em que s. ex.
a
viu a nossa carta irreverente no jornal de que Brito Camacho
é a alma, o pontífice da
Litteratura
Portugueza excomungou o intemerato jornalista. Que o dr.
Camacho nos perdôe a excomunhão que,
involuntariamente, lhe acarretamos!
Guardou silêncio o snr. dr. Theóphilo Braga
durante semanas, mas não esteve inactivo, ao
contrário do que muitos poderiam supor. Com todo o engenho e
arte, s. ex.
a consagrou-se ao fabrico de uma
peça, que não podemos classificar de
literária, porque é a
negação de todos os processos
literários dignos de este nome, mas a que poderá
caber a designação de
produto de arte... culinária. Como
pastelão, faria honra a um cozinheiro,
mas cremos bem que o snr. dr. Theóphilo Braga deseja passar
á
posteridade como um discípulo fervoroso de Augusto Comte, e
não como aprendiz ilustre da
sciência
de Vatel.
[19]
A redacção do jornal
O
Dia, seguindo a praxe dos anos anteriores, honrou o snr. dr.
Theóphilo Braga pedindo lhe um
artigo sobre o movimento literário português em
1908, para o numero de 31 de dezembro d'esse ano. Como nunca, recebeu o
snr. dr. Theóphilo Braga jubilosamente o amavel convite.
Tinha ensejo para impingir... o
pastelão. Era o momento oportuno para
respostar á nossa carta publicada na
Lucta,
sem nos dar a honra de
deixar sair dos bicos da pena aprimorada a confissão de que
havia lido o nosso protesto. Podiamos, porventura, esperar outro
procedimento por parte do snr. dr. Theóphilo Braga?
Não,
evidentemente. Pois não haviamos
nós,―cúmulo das audácias!―ousado
protestar contra a
comunicação do presidente da Academia de
Sciencias de Portugal?!
Reproduzimos do
Dia de 31 de
dezembro do ano findo a parte do artigo do snr. Theóphilo
Braga que diz respeito á questão
literária suscitada pelo nosso livro:
«...No recente fasciculo (do
Archivo
historico
português) ficou publicada uma interessantissima monographia
sobre a antiga Feitoria de Flandres, um dos mais necessarios capitulos
da nossa historia financeira e administrativa; o sr. Braancamp Freire
intitula-o Maria Brandoa a do Crisfal, por que
o pae d'esta dama, que inspirou o amor e a Ecloga de
Christovão
Falcão, foi o pae d'ella, João Brandão
Sanches, segundo
encontrara no nobiliario de Diogo Gomes de Figueiredo.
[20]
Em dois nobiliarios da bibliotheca da
Ajuda tambem se acha esta mesma
inscrição:
Maria Brandoa a do Crisfal; e nos
livros dos linhagistas
Manso de Lima e Rangel de Macedo, da Bibliotheca Nacional, vem o mesmo
schema genealogico, vendo-se toda a parentella da inspiradora de
Crisfal no titulo dos Brandões Sanches, confundidos por
vezes com os Brandões do Porto, com os de Coimbra e com os
de Elvas. O sr. Anselmo Braancamp Freire, escreve em uma nota:
«Sei que se trata de
provar, que a Ecloga de Crisfal não foi escripta por
Christovam Falcão, mas por Bernardim Ribeiro, e que por
tanto a heroina não é Maria
Brandão, mas sim a mesma do romance
Menina e
Moça d'aquelle auctor.» E accrescenta
que o sr. Delfim Guimarães empenhado na interessante
averiguação o consultara,
communicando-lhe as bases em que fundava a sua
argumentação, as quaes não conseguiram
demovel-o da rotina.
Quasi ao mesmo tempo, o sr. Delfim Guimarães publicava o seu
livro
Bernardim Ribeiro―
o Poeta
Crisfal, em que resume o já sabido da biographia
do auctor da
Menina e Moça,
forçando interpretações de versos a
significarem os factos que imagina. Como lhe nasceu no espirito a ideia
de fazer esta descoberta? Pela impressão que lhe
causára a leitura dos versos de Bernardim Ribeiro e os de
Christovam Falcão,―«dois poetas
de temperamento semelhante, com eguaes influencias e
educações litterarias, com eguaes episodios nos
seus infortunados amores, e havendo entre ambos versos absolutamente
eguaes.» D'aqui o identificar os dois poetas em um unico;
como conseguil-o? Considerou a individualidade poetica de
Christovão Falcão como
uma lenda estupida formada pelos genealogistas, e formou o nome de
Crisfal
indo buscar
á tôa as palavras
Crisma falsa,
tirando-lhes as
syllabas iniciaes para designarem a seu talante Bernardim Ribeiro.
«Fez-se então uma grande luz no nosso espirito.
Não se tratava de dois poetas muito parecidos, de um creador
e de um imitador. Bernardim Ribeiro e Crisfal eram um e mesmo poeta. O
trovador Christovam Falcão era o producto de uma lenda
nascida da interpretação dada pelo vulgo (!
[2])
ao anagrama
Crisfal.» (Op. cit., p.
10). «Alcançada a convicção
de que
Crisfal era um anagramma de Bernardim Ribeiro, e
norteados pelo conhecimento de que nas suas
producções o poeta mudava
constantemente os seus nomes pastoris, com pequeno trabalho de
raciocinio não nos foi difficil deduzir a
constituição do cryptogramma, que era formado
pelas primeiras syllabas das palavras
Crisma e
Falso.»
[21]
E depois d'este processo que, na
opinião do sr.
Gonçalves Vianna―honra a
erudição
portugueza,―ataca as fontes genealogicas d'onde Diogo do Couto e
Gaspar Fructuoso acceitaram «como ouro de lei o peschesbeque
de uma lenda estupida tecida pelo vulgo ignorante, e posta a correr
mundo graças á inepcia dos
editores dos escriptos legados por esse grande e infortunado poeta que
foi Bernardim Ribeiro!» (Ib. p. 11.) E mais adiante, volta a
repetir: «A uma lenda estupida deveu esse rebento inglorio de
John Falconet a celebridade que durante seculos usufruiu, em prejuizo
do renome litterario do verdadeiro Crisfal, o
doce, o inimitavel e inegualado Bernardim Ribeiro, etc.» (p.
185.) Mas, como se póde chamar estupida a lenda genealogica
se os nomes contidos na Ecloga de Crisfal
condizem com os seus parentes taes como o de
Pantaleão Dias de Landim seu
avô, e a Joanna, que lhe denuncia o casamento clandestino,
uma prima, como o notou o sr. Jordão de Freitas?
Os manuscriptos conhecidos de Bernardim Ribeiro andavam ligados com os
de Christovam Falcão, como se vê pela
descripção do n.º
180 da
Livraria do Conde de Vimieiro: Obras em prosa e verso de Sá
de Miranda, Bernardim Ribeiro e Christovam Falcão; tambem o
Arcediago do Barreiro, dr. Jeronymo José Rodrigues, examinou
no Porto um manuscripto analogo ao das edições de
1559, em que vinham a
Menina e Moça, duas eclogas de
Bernardim Ribeiro―«e até se acham no fim algumas
poesias de Christovão Falcão, do que
se faz menção no mesmo logar de
Nicoláo
Antonio.» (Innocencio, Dic. Bibliog.)
Para que chamar ineptos aos editores de Ferrara de 1554 e de Colonia de
1559, por terem reproduzido esses textos manuscriptos como os
encontraram? Quando o sr. Delfim Guimarães trabalhava para
destruir uma miragem de seculos, foi communicar ao sr. dr. Alfredo da
Cunha «a descoberta que tinha feito e que, sem falsa
modestia, reputava de alta importancia para a historia das lettras
portuguezas.» Era uma Noticia litteraria
de sensação, o dr. Alfredo da Cunha deu alentos
á grande descoberta de que a figura do poeta Christovam
Falcão «pertence exclusivamente ao dominio da
lenda, por isso que tal poeta só existiu na
imaginação d'aquelles que viram n'um anagrama
cabalistico de Bernardim Ribeiro a encarnação de
outra
individualidade.»
[22]
No noticiario de outro jornal sairam
affirmações
absolutas, proclamando a
sensacional descoberta, com uma sinceridade inconsciente que affasta de
todo a ideia de ironia. A verdadeira descoberta pertence ao sr.
Braancamp Freire determinando a epoca em que esteve em Flandres
João Brandão Sanches, e quando elle morreu, dando
nos assim a data em que existiram os amores de sua filha unica D. Maria
Brandão, a do Crisfal, que plausivelmente se fixam em 1530.
O documento de 1527 referindo-se a Christovam Falcão, com a
tença de môço fidalgo, leva a deduzir
que nascera em
1512. Ha portanto a eliminar todas as relações
pessoaes
entre Christovam Falcão e Bernardim Ribeiro, como julgamos
nos nossos estudos, corrigindo a interpretação da
Ecloga I e III de Bernardim. Os logares communs a Christovam
Falcão e Bernardim Ribeiro provam a distancia da edade que
levou o mais novo a imitar aquelle que já era admirado,
cujos versos, Camões, na sua
Carta de Africa, intercalava na sua prosa.»
Esta produção peregrina do snr. Dr.
Theóphilo Braga veio publicada no jornal
O Dia
com a assinatura do professor do Curso Superior de Letras em
fac-simile,
e ainda
bem, para que não se pudesse ajuizar tratar-se de uma
brincadeira de mau gosto de quem quer que fosse.
Quando lemos um tal documento, a primeira impressão que se
apoderou de nós foi a de
revolta; mas logo um outro sentimento veio substituir esta―um
sentimento muito fundo de tristeza, de sincera mágoa...
E, sem prazer, pudemos constatar que a impressão que o snr.
Dr. Theóphilo Braga deixára nos leitores
inteligentes do seu tendencioso
Movimento Litterario
era egual
á nossa,―uma sincera mágoa.
Mas no artigo do eminente professor eramos tam directamente alvejados,
e o nosso trabalho depreciado com tal rancor e má
fé, que não podiamos ficar silenciosos.
[23]
No jornal a
Lucta, do dia 3 de
Janeiro d'este ano, como protesto, publicamos o artigo que vamos
reproduzir:
Os processos...
scientíficos
do snr. dr.
Theóphilo Braga
Não se dignou o sr. dr. Theóphilo Braga aceitar o
oferecimento que o distinto jornalista que dirige
A
Lucta lhe fez em 4 de dezembro ultimo: pondo á
disposição de s. ex.
a as
colunas deste diário,
para que o professor do Curso Superior de Letras dissesse da sua
justiça em face da carta que tive ensejo de dirigir ao meu
bom amigo snr. dr. Brito Camacho, estampada n'este jornal, motivada
pelo procedimento estranhavel seguido para comigo pelo snr. dr.
Theóphilo Braga.
Passaram-se dias, passaram-se semanas, e, quando todos julgavam que o
professor do Curso Superior de Letras adoptara de Conrado o prudente
silêncio, eis que o sr. dr. Theóphilo Braga, a
pretexto de pôr
os leitores do
Dia ao corrente do
movimento literário no ano findo, com ares
dogmáticos e desdenhosos, enche perto d'uma coluna d'aquele
jornal com um aranzel cheio de lugares comuns, procurando refutar as
conclusões do meu recente estudo sobre Bernardim Ribeiro.
Não me surpreendeu o rancor que transparece no artigo do
snr. dr. Theóphilo Braga. Imagino quanto deve ser doloroso
para o professor do Curso Superior de Letras o ter de refundir mais uma
vez dois dos volumes da sua chamada edição
integral da
Historia da Litteratura Portugueza:
«Sá de
Miranda» e «Bernardim Ribeiro». Isto,
junto ao conhecimento que possuo da maneira de ser do snr. dr.
Theóphilo Braga, é para mim
explicação bastante do seu ressentimento, que a
prosa do infatigavel «carreador de materiaes»
não consegue disfarçar.
[24]
A todos os pontos tocados no aranzel do
snr. dr. Theóphilo Braga, darei resposta
em livro, e d'essa tarefa procurarei desempenhar-me em curto praso, com
a largueza e documentação que o assunto requer, o
que não é compativel com o espaço que
a
trabalhos d'esta espécie pode dispensar um jornal da
índole da
Lucta.
Por hoje, e certo da amabilidade com que me distingue o meu prezado
amigo snr. dr. Brito Camacho, desejo apenas salientar, muito ao de
leve, algumas inexactidões flagrantes do artigo Movimento
litterario, do snr. dr. Theóphilo Braga, que bem
demonstram a
correcção dos processos...
scientíficos do professor do Curso Superior de Letras.
Referindo-se ao ultimo tomo do Archivo
Historico, a revista dirigida pela superior
competência do snr. Braamcamp Freire, em que este escritor
encetou a
publicação da sua monografia sobre Maria
Brandão, diz o snr. dr. Th. Braga que a monografia
«ficou
publicada», procurando assim dar a entender que o estudo do
snr. Braamcamp Freire está ultimado, quando é
facto
que ainda lhe falta o capítulo em especial referente a Maria
Brandão, destinado por certo a ser o mais curioso, pela luz
que ha de fazer jorrar sobre a figura da suposta amada do poeta Crisfal.
Mas ao snr. dr. Theóphilo Braga conveio torcer a verdade,
para que com maior presteza os leitores ingénuos
acreditassem nos seguintes períodos ardilosamente
engendrados:
«O sr. Anselmo Braancamp Freire escreve em nota:
«Sei que se trata de provar que a Ecloga de Crisfal
não foi escripta por Christovam Falcão, mas por
Bernardim Ribeiro, e que por tanto a heroina não
é Maria Brandão, mas sim a
mesma do romance Menina e Moça
d'aquelle auctor». E accrescenta, que o sr. Delfim
Guimarães, empenhado na interessante
averiguação, o consultara, communicando lhe as
bases em que fundava a sua argumentação, as quaes
não
conseguiram demovel-o da rotina.»
[25]
Ao contrário da
afirmação do snr. dr.
Theóphilo, o snr. Braamcamp Freire não declara
tal que eu o consultara sobre a averiguação que
fiz, como não
escreveu na nota citada pelo snr. dr. Theóphilo Braga aquilo
que s. ex.a gratuitamente lhe atribue.
Reproduzo textualmente o período que o snr. dr.
Theóphilo Braga interpretou a seu bel-prazer, para melhor
juizo dos que me lêem:
«O sr. Delfim de Brito Guimarães, que anda
empenhado na interessante averiguação, teve a
bondade de me comunicar as principaes bases que servirão de
alicerce á sua
argumentação: entretanto, emquanto não
apparecerem os considerandos e a sentença sobre a prova
nelles feita não transitar sem
apelação em julgado,
não me compete intervir no pleito e continuarei com a
rotina.»
Como se vê, o snr. Braamcamp Freire não escreveu
que eu lhe comunicara as bases em
que fundava a minha argumentação, mas sim
unicamente
as principaes bases, e o consciencioso
investigador não
declarava que taes bases não conseguiram
demovê-lo da rotina, mas sim que «em
quanto não aparecessem os considerandos e
a sentença sobre a prova nelles feita não
transitasse sem apelação em julgado,
não lhe competia intervir no pleito e continuava
com a rotina».
Para que torceu, a seu talante o snr. dr. Theóphilo Braga a
nota cheia de correcção do ilustre
escritor?―Para se servir, como de um escudo protector e
cómodo, do nome prestigioso de Braamcamp Freire, procurando,
com tal engenho e arte, fazer acreditar aos papalvos desprevenidos que
tinha a apoiar o seu desmentido formal ás
conclusões do meu trabalho a
individualidade, a todos os títulos eminente, do ilustre
director do Archivo Historico.
[26]
Ora a nota invocada pelo snr. dr.
Theóphilo Braga encontra-se logo na
2.ª pagina do estudo do snr. Braamcamp, e foi produzida quando
o erudito escritor traçou os primeiros períodos
do seu trabalho, conhecendo apenas as «bases
principaes» com que elaborei o meu
livro Bernardim Ribeiro (O Poeta
Crisfal).
Depois da leitura do meu modesto estudo, o snr. Braamcamp Freire teve a
gentileza de me comunicar que os meus argumentos haviam logrado
convencê-lo. E por tal fórma o convenceram que o
ilustre escritor logo abandonou a rotina, não carecendo para
isso que a sentença sobre a prova feita transitasse em
julgado―muito
embora isto pese ao snr. dr. Theóphilo Braga, que
até viu com desgosto que o abalisado professor snr.
Gonçalves Viana, achasse que o meu livro
Bernardim Ribeiro fazia honra á
erudição portuguêsa.
Mais, o snr. Braamcamp Freire não só me felicitou
calorosamente pelo éxito do meu trabalho, que representava a
justa reparação devida a um dos maiores poetas da
nossa terra, como teve a bondade de enviar-me a prova
tipográfica de uma passagem do seu estudo, então
no prélo, em que o conceituado escritor
confessava publicamente que Maria Brandoa, a lendária amada
do Crisfal, passara á historia...
Foi fazer companhia aos cantos de
ledino...
Tal passagem se encontra a pag. 402 do ultimo tomo do
«Archivo Historico», mas o snr. dr.
Theóphilo Braga seguindo os processos...
scientíficos que o enaltecem, ocultou-a propositadamente,
intencionalmente, aos leitores do seu artigo estampado no Dia.
É como segue:
«...do catalogo porém limitar-me-ei agora a
extrair os nomes dos oficiaes da feitoria, reservando-me para
aproveitar d'elle, n'outro capitulo, um dado importante para a
biographia de Maria Brandôa, já,
coitadita!
quando este estudo aparecer a publico, apiada de heroina da ecloga
Crisfal.»
[27]
Ás
afirmações, em apoio da minha tese,
feitas em maio de 1908 no Diario da Tarde, do
Porto, pelo insigne publicista snr. José Pereira Sampaio
(Bruno), refere-se tambem o snr. dr.
Theóphilo Braga da seguinte maneira:
«No noticiario de
outro jornal sairam
afirmações absolutas, proclamando a sensacional
descoberta, com uma sinceridade inconsciente que afasta de todo a
idéa de ironia».
O snr dr. Theóphilo Braga,
referindo-se, com desdem,
á sinceridade
inconsciente de Bruno, não nos
magôa sómente a nós, que votamos uma
grande estima ao ilustre escritor portuense: ofende as Letras
Portuguêsas, que teem no snr. José Sampaio uma das
suas mais legítimas glórias.
Tristes processos está seguindo o snr. dr.
Theóphilo Braga!
Delfim
Guimarães
O snr. dr. Brito Camacho, dando hospitalidade nas colunas da
Lucta
ao nosso
artigo, nòvamente pôs o seu jornal á
disposição do snr. dr. Theóphilo
Braga, para que s. ex.
a,
querendo, dissesse de sua justiça. O professor do Curso
Superior de Letras não aceitou o oferecimento que pela
segunda vez lhe era feito.
E, em verdade, que havia o autor do artigo
Movimento
Litterário de
dizer em contestação do libelo documentado que
tinhamos produzido? Nenhuma justiça lhe assistia, e por
consequência não ousou reclamar. Recolheu-se ao
silêncio,―áquele prudentíssimo
silêncio que se seguiu á
publicação do notavel
trabalho do Dr. Sílvio Romero sobre a
Patria
Portuguêsa.
No artigo que publicamos na
Lucta,
de 3 de janeiro do ano em curso, tomámos o compromisso
[28]
de tratar em livro todos
os pontos tocados pelo snr. dr. Theóphilo Braga no seu
aranzel do
Dia, com a largueza e
documentação que o assunto exige, em homenagem
á memória de Bernardim Ribeiro; pelo dever moral
que nos impusemos de contribuir, quanto em nossas mingoadas
forças caiba, para que justiça seja feita, embora
tardia, a um dos mais belos temperamentos poéticos da nossa
terra.
Uma lenda é fácil de forjar, e com facilidade
toma corpo e lança raizes, obcecando muitas vezes os mais
esclarecidos espíritos.
A nossa Historia Literária está cheia de lendas e
embustes, graças aos Farias e Sousa e Bernardos de Brito.
Mas a Verdade, superior a todas as lendas, e a todas as
reputações de historiadores burlões e
de críticos trapaceiros, acaba sempre por triunfar, embora
isso leve anos, embora decorram séculos.
Na defeza da causa que prosseguimos, que é nobre e justa,
não nos animam quaesquer intuitos de
evidenciação, não nos move qualquer
mesquinho sentimento de despeito; lutamos pela verdade, procuramos
contribuir com o nosso esforço de modestos obreiros das
letras para desfazer um erro que a ignorância engendrou, que
a rotina não-te-ralesca impôs como um dogma, e que
a vaidade irritada e irritante do snr. dr. Theóphilo Braga
persiste em sustentar, a torto, que não a direito,
impondo-o
autocraticamente a quantos vêem no professor do Curso
Superior de Letras o pontífice máximo, ditador
inviolavel e sagrado da Republica... das letras portuguêsas.
II
O snr. dr. Theóphilo Braga,
descobrindo a verdade, e
procurando
enterrá-la
Ao preparar os materiaes para a refundição de seu
livro sobre Bernardim Ribeiro, o snr. dr. Theóphilo Braga
teve ensejo de reconhecer que a figura do
trovador
Cristovam
Falcão era mero produto de uma lenda, mas não
teve a coragem precisa para vir a público declarar que tinha
errado ao dar á estampa o seu primeiro volume sobre os
poetas bucolistas, em que, seguindo a rotina, dera existência
real ao suposto poeta, que já havia classificado de
ultimo eco do alaúde provençal,
modificado pelo gosto hespanhol de Padron
e Stuniga.
[3]
E não querendo confessar que errara, como se semelhante
facto constituisse desdoiro ou apoucasse de qualquer fórma
seus méritos, o autor do livro
Bernardim Ribeiro
e o
Bucolismo procurou, por um processo que não nos
atrevemos a chamar genial, enterrar a verdade, sepultando-a sob um
pedregulho enorme, para que ali dormisse um sono de séculos,
tantos séculos pelo menos como a lenda contava, para que,
assim, ninguem pudesse aludir ao erro em
[30]
que se deixara enredar o professor do Curso
Superior de Letras.
Como o snr. dr. Theóphilo Braga procedeu, vão os
leitores conhecer, e depois ficarão
habilitados a julgar da sinceridade com que o infatigavel escritor
impugna o nosso livro sobre o poeta
Crisfal.
A pag. 356/7 do seu livro
Bernardim Ribeiro e o Bucolismo,
na parte respeitante a Cristovam Falcão, escreveu o snr. dr.
Theóphilo Braga:
«O primeiro
documento historico que encontramos acerca do
poeta, de um modo irrefragavel, é datado de 1517;
é uma graça
régia motivada talvez pela sympathia que suscitava a sua
desgraçada paixão, ou apparentemente pelos
serviços de seu pae. Em um alvará ao Almoxarife
de Coimbra foi passada ordem para que dê o rendimento d'este
anno de 1517 a Christovam Falcão: 97:000 réis.
Recebeu-os
o seu procurador Mestre Jorge.»
Como se vê da transcrição feita, o
autor declarava que o documento invocado referia-se ao suposto poeta
de
um modo
irrefragavel, isto é: «
irrecusavelmente,
incontestavelmente.» Esse documento dizia respeito,
segundo inculcava o snr. dr. Theóphilo Braga, a
uma
graça régia, mercê de
97$000
réis, concedida ao suposto bardo
talvez
pela sympathia que suscitava a sua desgraçada
paixão, ou apparentemente pelos
serviços de seu pae.
Ora fazendo taes afirmativas, autoritária e
catedraticamente, o snr. dr. Theóphilo Braga abusava da boa
fé dos seus leitores, por isso que s. ex.
a
muito bem conhecia que estava
deturpando a verdade, a seu bel-prazer, que nada d'aquilo que
apregoava como autêntico era verdadeiro.
[31]
Nem o alvará de 1517 dizia respeito ao suposto poeta, nem
semelhante alvará mencionava a verba de 97$000
réis.
Tratava-se de uma tença de 97$734 reis (resultante de dois
padrões) que pertencia a Cristovam Falcão, senhor
da vila de Pereira, e não ao suposto poeta Cristovam
Falcão de Sousa.
Ignorava, porventura, o snr. dr. Theóphilo Braga a
existência dos dois padrões constituitivos
da referida tença?―Não ignorava. E a prova de
que os não desconhecia está nas
citações que s. ex.
a faz a
paginas 331/2 do seu
mencionado livro, atribuindo-os a quem eles diziam respeito, isto
é a Cristovam Falcão, senhor da vila de Pereira,
que nada tinha que ver com o suposto poeta, como o snr. dr.
Theóphilo Braga, de resto, muito bem estabelecia.
Mas a existência de uma tença de 97$000 reis,
pelas alturas de 1517, a favor de Cristovão
Falcão de Sousa, comprovaria de certo modo a data em que o
snr. dr. Theóphilo Braga fixou habilidosamente o nascimento
do
ultimo eco do alaúde, e permitia ao
fantasioso
escritor justificar tam rasgada mercê régia
atribuindo-a á
sympathia que suscitava a sua
desgraçada paixão.
D'esta maneira, servindo-se de um alvará que não
dizia respeito ao suposto poeta, e alterando-lhe caprichosamente a
quantia mencionada, o snr. dr. T. Braga creava um
recurso
histórico graças ao qual os
discípulos do professor do Curso Superior de Letras podiam
aceitar que pelas alturas do ano da graça de 1517
já existia um afamado poeta com o nome de
Cristovão Falcão, tam desventurado em seus amores
que el-rei, compadecido, lhe fizera mercê da
[32]
tença, verdadeiramente principesca, de
97$000 réis! E sucedendo um
caso
d'estes em nossos dias, ainda ha quem ache estranho que Faria e Sousa e
frei Bernardo de Brito improvisassem (é este o termo
próprio?) documentos...
históricos!
Ao publicarmos o nosso trabalho sobre Bernardim Ribeiro, não
salientamos devidamente estes pouco recomendaveis processos do snr. dr.
Theóphilo Braga, poupando, com generosidade, o nome do
encanecido trabalhador, em respeito aos seus cabelos brancos.
E á nossa manifesta generosidade correspondeu o aclamado
professor apodando os nossos processos críticos
de:―processos... á
tôa!
Que nome conceder a esses processos do snr. dr. Theóphilo
Braga?
Mas não ficaram por aqui as habilidades de que se serviu o
autor da
Historia da Litteratura Portugueza. E
chamamos-lhes
habilidades, por não encontrarmos
á mão um termo mais
anodino, mais suave, mais doce, para definir o feito, e não
por qualquer propósito agressivo.
Existem na Torre do Tombo cartas autógrafas do suposto autor
do
Crisfal. A
simples publicação d'essas cartas constituiria um
golpe decisivo na lenda que atribuia produções de
Bernardim Ribeiro a Cristovão Falcão de Sousa,
por isso que taes documentos revelam que este, alem de iletrado,
não escrevia meia dúzia de linhas sem uma enfiada
de
asneiras...―«
uma acumulação
de
tolices», no dizer insuspeito de uma ilustre
escritora.
Que fez o snr. dr. Theóphilo Braga?
Publicou essas cartas, alterando-lhe,
paternalmente,
a ortografia e a
gramática, e deixando
[33]
assim transparecer que o autor de taes escritos poderia muito bem ter
produzido as poesias bucólicas que lhe atribuiam.
Para que se não ajuízasse que faziamos uma
afirmação gratuita ao dizer que o snr. dr. Th.
Braga publicara
emendada a obra...
em prosa de Cristovam Falcão, démos no volume
Bernardim Ribeiro (O Poeta Crisfal) uma
reprodução foto-zincográfica de uma
das cartas do suposto poeta, e, não desejando colocar n'uma
situação pouco invejavel o professor do Curso
Superior de Letras, escrevemos, procurando desculpar o seu
procedimento:
«........o copista, a quem o
distinto professor
encarregou de reproduzir o documento existente na Torre do Tombo,
forneceu-lhe uma reprodução
com summa deligencia emendada, que o snr. dr.
Theóphilo, com a
melhor boa fé, estampou no seu livro, e que muito se afasta
do original.»
[4]
Nem na sua comunicação á Academia das
Sciências de Portugal, nem no seu artigo do jornal
«O Dia», nem na carta que nos dirigiu, se referiu,
embora ao de leve, o snr. dr. T. Braga á carta de Cristovam
Falcão de Sousa... Compreende-se. O documento é
tam esmagador, que o infatigavel polígrafo foge d'ele como
dizem que o diabo foge da cruz.
Mas, embora isso não agrade a s. ex.
a,
vamos dar aqui a reprodução
paleográfica de
outra carta de Cristovam Falcão de Sousa, devendo elucidar
os leitores que o snr. dr. Theóphilo Braga já deu
publicidade a tal documento a pag. 368/70 do seu
Bernardim
Ribeiro
(edição
[34]
refundida). Mas deu-lhe publicidade:
emendando-o...
Como não temos a peito celebrizar o alto engenho e mais
partes que concorriam na pessoa do suposto poeta, reproduzimos a carta
fielmente, e, para desfazer algum erro de leitura ou qualquer
gralha
que passe
á revisão, juntamos em foto-gravura o seu
fac-simile.
Eis a carta:
[Figura:
Reproducção
foto-zincográfica da carta de Cristovam Falcão de
Sousa]
«Sñor. mjnha jrmã dona bracajda
faleceo
da ujda presemte a dez dias deste mes pasado estando eu nesa corte ẽ
serujço de v. a. onde me foy a noua pera [~q] viese prover ẽ
algũas cousas da su alma por me ela dejxar por seu
testamẽtejro cõ seu marido ejtor de figuejredo.
fiquou-lhe hũ só filho e doutro marido [~q] deste
não
ouve nenhũ e tão Riquo [~q] me dizẽ que foy posta a
fazẽda de seu pay quãdo faleceo (que eu não
era no Rejno) ẽ doze contos. fez meu pay antes [~q] eu de la partise
petição a uosa a. [~q] lhe mãdase
ẽtregar seu neto e tirar de poder de seu padrasto. sayo lhe na
petição [~q] Requerese ao Juiz dos
orfãos da uila donde ho moço
está que he borba donde seu padrasto he natural e alquajde
mor pelo duque de bragança e que ele prouerja e que
não no fazẽdo proverja ẽtão vosa a. a qual
deligẽcia eu tenho fejto que Requery ao Juiz [~q] lho tjrase de
poder e que fose loguo por [~q] eu tjnha sabjdo [~q] eitor de
figueiredo detremjnaua quasar ho moço cõ sua f.
a
no fim deste mes ẽ que lhe
diziã que ho
moço
[35]
faz quatorze anos pera ho matrimonjo ser
valioso. mãdou ho Juiz dar ujsta de meu Requerim.
to
a eitor de figueiredo e njsto e ẽ ele Responder pasaram ojto dias e
nestes me fizerão mujtos agrauos alomgãdo me ho
tempo e me fizerão perdediça hũa
petjção dagrauo na qual agrauaua pera v. a.
apresemtandoa eu ẽ audiencja onde foy lida e jsto tudo por ele ser
alquajde mor e ser toda a ujla de seus paremtes e criados e por [~q] da
li não pasão os agrauos se não pera ho
ouujdor do duque onde tão bẽ me deterjão pera
ho moço
chegar ao termo dos quatorze anos detremjney dejxar a cousa neste termo
e fazelo saber a v. a. pera [~q] proueja njsto como lhe parecer
serujço de deos e seu que mjlhor proueja [~q] pois tẽ tal
fazẽda que v. a. ho quase cõ quẽ ouuer por seu
serujço
[~q] não [~q] ho orfão seia asy Roubado. no que
v. a. deue loguo prouer como pay dos orfãos [~q] he quanto
mais [~q] quarega jsto sobre cõcjẽcja de v. a. por hũ
alu.
rá que vosa a. pasou a ejtor de
figueiredo ao tẽpo
[~q] quasou cõ mjnha Jrmã
pelo qual tjrou a titorja a meu pay de seu neto por lha dar a ele. ao
qual agora ajnda se pega, como se não fose cerada a cousa
por morte de mjnha Jrmã. e o [~q] me parece [~q] se deue
fazer he pasar v. a. logo alu.
rá por
esta quarta [~q]
pode serujr de petjção, [~q] polo qual
mãde
a hũ dos quoReiadores destremoz elvas ou por talegre [~q] qualquer
deles va a borba e tjre ho moço de
[36]
poder de seu padrasto e
ẽtregue sua p.
a a meu pay seu auô ou a
meu
jrmão barnabé de
sousa [~q] tẽ fazẽda p.
a ho mjlhor
mãter [~q] biue ẽ
portalegre onde ho moço tẽ parte de sua fazẽda e lhe
he já dado por tutor desta fazemda e despois do
moço tjrado prouer v. a. ẽ quẽ seia seu tutor e seja
ouujdo ejtor de figuejredo das Rezomis [~q] diz ter pera [~q] ho
moço quase cõ
sua f.
a mas jsto deuela ser amte v. a. [~q] qua
não sey quãto se gardara Justiça e ho
aluará pode v. a. mãdar dar a demjão
de sousa meu
irmão [~q] la amda [~q] ele ho fará vir
cõ mujta
deligẽcia [~q] eu fiquo qua esperamdo p.
a ho
Requerer e apresemtar.
e lẽbro mais a uosa a. [~q] mãde ao mesmo coReiador que
ẽtẽda nas partjlhas e jmbẽtajro [~q] doutra manejra
será Roubado ho orfão e asi [~q] o tẽpo aquaba
p.
a fim deste mes e eu s.
or
neste trabalho
nõ pretendo
mais [~q] fazer ho [~q] deuo e tenho dejxado os Requerjm.
tos
que
trago cõ v. a. ẽ mão de fernão
daluarez peço a
v. a. que nõ perqua por ausente de ser despachado. a quẽ
deos a ujda e Real estado acrecẽte. de portalegre sete de novembro.
as Reajs mãos de v. a. bejjo. xpouão
falcão de sousa.»
[5]
| !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! |
Ao leitor deixamos a faculdade de comentar a carta
primorosa
do
sarrafaçal engenho que durante alguns séculos
gosou da fama de poeta insigne, em prejuizo do nome aureolado de
Bernardim Ribeiro.
III
Anotações á carta que nos dirigiu
o
snr. dr. Theóphilo Braga
1
«A ninguem interessaria
tanto
o conhecimento d'este
problema, como a mim, que esbocei uma biographia de Christovam
Falcão com elementos historicos (documentos authenticos)
comprovando dados genealogicos.»
Carta do snr. dr. Th.
Braga.
Não ha a menor dúvida quanto á
primeira parte d'esta afirmação.
Com efeito, o snr. dr. Theóphilo Braga esboçou
uma biografia de Cristovam Falcão, e ninguem
ousará contestar-lhe o mérito de haver sido o
Plutarco do suposto trovador.
Esboçando-lhe a biografia, o abalisado professor de
literatura serviu-se de documentos autênticos... mas
utilizando alguns que não diziam respeito ao pseudo-poeta, e
sim a um outro Cristovam; e interpretando, modificando e adulterando
outros documentos ao sabor do seu paladar, ao capricho da sua fantasia.
No capitulo XIX do nosso estudo sobre Bernardim Ribeiro
destrinçamos os documentos históricos que o snr.
dr. Theóphilo Braga propositadamente
[38]
confundiu, e restabelecemos o
texto de uma das cartas de Cristovam Falcão de Sousa que o
habil professor
emendara, com o zelo de Plutarco cioso do bom nome
do seu heroe... lendário.
No
segundo capítulo
d'este livro, ficou tambem fielmente
reproduzida outra carta de Cristovam Falcão, que o
infatigavel historiador havia
corrigido, como se
se tratasse de um
tema de algum discípulo seu. Mesmo quando se entrega a
trabalhos de reconstituição
histórica, o snr. dr. Theóphilo Braga
não se esquece de que é professor de literatura
portuguêsa!
Depois de isto, como ousa o snr. dr. Theóphilo Braga invocar
os documentos autênticos de que tam mau uso fez?
2
«Tive de ler immediatamente o seu livro, para ver que
materiaes traria para o aperfeiçoamento do meu
trabalho.»
Carta do snr.
dr. Th.
Braga.
Tem graça, e não ofende!
Se leu imediatamente o nosso livro, não foi para ver que
novos subsídios forneciamos para o estudo da
história da literatura portuguêsa, mas sim para
conhecer quaes os materiaes que lhe facultariamos para o
aperfeiçoamento do seu trabalho...
Cabe n'esta altura, a talho de foice, deixar consignada certa passagem
de uma palestra que o snr. dr. Theóphilo Braga teve com um
dos seus mais inteligentes discípulos a propósito
da
[39]
publicação do nosso livro sobre Bernardim
Ribeiro:
«V. compreende... Eu sou como um mestre de obras... na
construção de um edificio. Ha vários
pedreiros... Vão-me chegando ás
mãos diversas pedras... Aproveito aquelas que se me afiguram
de feição, geitosas, convenientes para a minha
obra, e as outras ponho as de parte, deito-as
fóra.»
E a um distinto confrade nas letras, ainda por motivo da
publicação do nosso livro, o professor do Curso
Superior de Letras teve ensejo de referir-se á nossa obscura
pessoa, fazendo o favor de nos reconhecer talento, mas...
que
os estudos de investigação
histórica eram umas teclas muito dificeis, muito
complicadas...
O apreciado
mestre de obras (segundo
a frase de s. ex.
a) escusava de ter lido o nosso
trabalho. O sub-título do livro,
O Poeta
Crisfal, demonstrava suficientemente ao snr. dr.
Theóphilo Braga que nenhuma pedra de
feição poderiamos proporcionar-lhe para o
aperfeiçoamento da sua obra, porque o
nosso livro lhe atirava a terra com os alicerces em que se firmava o
edificio... ou monumento erguido ao falso
Crisfal.
Foi um castelo de cartas que um sopro deitou ao chão...
Oh! os estudos de investigação
histórica são realmente... umas teclas muito
complicadas!
3
«Mesmo no prologo fez-me V.
a justiça de que eu
aproveitaria tudo quanto se prestasse a futuras emendas.»
Carta do snr. dr. Th.
Braga.
[40]
Não escrevemos tal no prólogo do nosso livro que
o snr. dr. Theóphilo Braga aproveitaria d'ele
tudo
quanto se prestasse a futuras
emendas.
O que nós escrevemos a pag. 24 do nosso estudo sobre
Bernardim é o período que segue:
«Embora, em resultado da nossa descoberta, o snr. dr.
Theóphilo Braga tenha de refundir mais uma vez os seus
trabalhos sobre Bernardim Ribeiro e Sá de Miranda, estamos
plenamente convencidos de que ninguem estimará mais do que o
incansavel professor do Curso Superior de Letras a luz derramada sobre
a figura do grande poeta bucolista, amigo de Francisco de
Sá.»
Nas linhas transcritas, o que havia da nossa parte era um cumprimento
de cortesia,―uma gentileza, uma amabilidade, própria de
quem, não tendo qualquer agravo do snr. dr.
Theóphilo Braga, procurava colocar s. ex.
a
em bom terreno, oferecendo lhe, por assim
dizer, uma ponte, uma táboa de
salvação, pela
qual, sem quebra de linha, o escritor consagrado pudesse atravessar,
reconhecendo, ou fingindo reconhecer, o mau terreno que estava pisando,
e abraçando honestamente a verdade evidenciada.
Era um cumprimento, repetimos; não um acto de
justiça, que a ele não tinha jus o
infátigo escritor. E da mesma natureza, no decurso do nosso
trabalho, outras demonstrações de cortesia
ficaram assinaladas, prestando homenagem á vida laboriosa do
escritor encanecido cujos erros combatiamos.
Mas como as amabilidades se agradecem, e os actos de justiça
não são credores
de qualquer agradecimento, aprouve ao snr. dr. Th. Braga ver nas nossas
palavras um acto de justiça.
[41]
Não lhe queremos mal por isso, pode crer o venerado
professor.
Cada qual segue os impulsos do seu temperamento.
4
«Desde as noticias
genealogicas trazidas por Braancamp
Freire sobre D. Maria Brandão, que Cristovam
Falcão amou, sendo ambos muito crianças, via-me
forçado a tomar o nascimento d'elle no fim do primeiro
quartel do seculo XVI.»
Carta do snr. dr. Th.
Braga.
Quando chegámos a esta altura da preciosa carta do snr. dr.
Theóphilo Braga ficamos verdadeiramente surpreendidos, para
não dizer boquiabertos!
Lemos e tornamos a ler o período transcrito, pesamos detida
e pacientemente cada uma das palavras que o constituem, e, ao cabo,
alcançamos o convencimento de que uma tal
afirmação constituia uma habilidade, um processo,
uma engenhoca,―deixem chamar-lhe assim, embora o termo
destôe, por menos académico,―a que o professor de
literatura recorria para não confessar ter sido o nosso
trabalho que o obrigava a aceitar o nascimento do suposto poeta no fim
do primeiro quartel do seculo XVI.
Fôra pelas noticias genealogicas trazidas pelo snr. Braamcamp
Freire sobre D. Maria Brandão que o snr. dr.
Theóphilo Braga, conforme nos escrevia, se vira
forçado a não insistir no nascimento do pseudo
Crisfal no ano de 1497, se não antes!
Mas como podia isto ser, se o trabalho do
[42]
ilustre escritor invocado pelo snr. dr.
Theóphilo ainda não fôra dado
á estampa?
Teria o professor do Curso Superior de Letras recebido qualquer
comunicação sobre o assunto por parte do snr.
Anselmo Braamcamp Freire?―Não, não tinha
recebido, como o
demonstram eloquentemente os seguintes períodos de uma carta
que em 5 de dezembro de 1908 nos dirigiu, em resposta a uma nossa, o
primoroso director do
Archivo
Historico:
«Vamos agora á sua
pergunta de hoje originada
pela
carta do dr. Teofilo Braga. Elle não conhece nada do meu
trabalho sobre a Maria Brandoa, e faça-me a
justiça de crer que, não lho tendo mostrado a si,
não o mostraria a mais ninguem. Não lho mostrei a
si, porque nas 150 paginas já impressas, de que em breve lhe
mandarei um exemplar, nada digo a respeito de Maria Brandoa: trato dos
Brandões do
Cancioneiro e da Feitoria de Flandres.»
Depois da transcrição d'estas linhas, eloquentes
e insuspeitas, do snr. Braamcamp Freire, tornam-se
desnecessários de nossa parte quaesquer
comentários á afirmação sem
base do snr. dr. Theóphilo Braga.
Passemos adeante sobre este caso triste!
5
«Isto nos impossibilitava de continuar a admittir as
relações pessoaes de Cristovam
Falcão com Bernardim Ribeiro já velho e dementado
em confidencias de amor com um rapaz no viço da mocidade; e
por tanto as Eclogas em que elle figurava interpretativamente tinham de
ser lidas a outra luz. V.
acabando de fazer a destrinça entre o Poeta e seu primo mais
antigo, deu-me elementos para uma melhor
interpretação das Eclogas de Bernardim,
(eliminadas as relações com Cristovam
Falcão), e mostrando como realmente as poesias d'aquelle,
como mestre, influiram no mais moço, que como novel chega a
fazer centões e intercalações de
versos de Bernardim
Ribeiro.»
[43]
Carta do snr. dr. Th.
Braga.
Pelo exposto, entende o snr. dr. Theóphilo Braga que
nós lhe demos elementos para uma melhor
interpretação das éclogas de
Bernardim, o que importa implicitamente a
afirmação de que não soubemos
interpretá-las, ou que erramos a exegese com que julgavamos
ter corrigido as lições ministradas pelo ilustre
professor.
Aguardemos, pacientemente, que o snr. dr. Theóphilo Braga
refunda mais uma vez o seu livro sobre Bernardim Ribeiro, para
então apreciarmos as novas
interpretações que o imaginoso historiador se
propõe apresentar das éclogas de Bernardim, e
ficarmos tambem conhecendo quaes os
centões e
intercalações de versos de Ribeiro que
o novel Falcão introduziu nas suas
produções... em prosa, únicas que
obrou. Obrou, no sentido de: produziu, claro está.
6
[44]
«Ha uma affirmativa
histórica, de Diogo do
Couto, na sua Decada VIII, que
fallando de Damião de Sousa Falcão, accrescenta
como reforço historico: «irmão de Cristovam
Falcão, aquelle que fez aquellas cantigas nomeadas
de Crisfal...» E
tambem no seculo XVI Fructuoso (resumido pelo P.e
Antonio Cordeiro na Historia insulana) diz de Cristovam
Falcão: «parente do
Barão velho e do famoso poeta Cristovam Falcão,
que fez a celebre Ecloga Crisfal das primeiras syllabas do seu
nome...» Tambem nas edições de
Ferrara e Colonia, feitas por curiosos sem criterio litterario, se
repete a attribuição
«que dizem ser de Cristovam
Falcão, ho que parece alludir o nome da mesma
Ecloga». Não se podem refutar por
negativa estes testemunhos de homens de letras do seculo XVI, e que se
reflectiram nos genealogistas.»
Carta do snr. dr. Th.
Braga.
A habilidade, ou antes o processo habilidoso, ou, melhor, a tendenciosa
redacção d'estes
períodos não consegue iludir ninguem... Julgou
talvez o snr. dr. Theóphilo Braga que nos desnortearia com
esta subtileza de processos... críticos. Tal não
conseguiu, como terá
de reconhecer no foro íntimo da sua consciência.
Vamos por partes:
Foram os editores de Ferrara e Colónia que propagaram pela
imprensa a lenda de que a paternidade da carta e ecloga de Crisfal era
atribuida a Cristovam Falcão, e, fazendo-o, limitaram-se,
com honestidade, a escrever: «que dizem ser... ao que parece
aludir o nome da mesma ecloga». Ao contrário do
que o snr. dr.
Theóphilo Braga procura fazer incutir, tendenciosamente, os
editores citados não repetiram uma
atribuição de homens de letras do seculo XVI...
Os homens de letras do seculo XVI é que repetiram, fazendo-a
certa, a atribuição feita com reservas pelos
editores das obras de Bernardim Ribeiro em 1554 e 1559. Aceitaram
[45]
por boa, sem se darem ao
trabalho de a verificar, uma simples atoarda.
Quem eram os editores de 1554 e 1559 das obras de Bernardim Ribeiro?
Di-lo, judiciosamente, o snr. dr. Theóphilo Braga na carta
que vamos analisando:
Eram «
curiosos sem critério
literário».
Será a estes obscuros obreiros do século XVI que
o laureado professor quer guindar á categoria de homens de
letras com foros de autoridades?
Não, os editores de 1554 e 1559 foram realmente creaturas
sem o menor critério literário, e por isso deram
alentos á lenda forjada pelo vulgo; mas não resta
a menor dúvida de que eram pessoas de bem, porque
consignaram uma
tradição vaga,
sem se atreverem a registá-la como um facto positivo,
indiscutivel, incontroverso. A cobrir a sua responsabilidade de
editores conscienciosos, lá estamparam: «que dizem
ser... ao que parece aludir.» Outros fossem eles, que
asseverassem que as duas produções, carta e
écloga, pertenciam a Cristovam Falcão
incontestavelmente, irrefragavelmente!
Ignorava, porventura, o snr. dr. Theóphilo Braga que os
editores da obra de Bernardim Ribeiro, ao produzirem as
rúbricas respeitantes ao suposto autor do Crisfal,
mencionavam apenas uma atoarda, uma vaga
tradição?
Não; o venerado professor não ignorava isso.
Testemunha-o o que s. ex.
a escreveu a paginas 21
da sua chamada edição crítica das
obras de... Cristovam Falcão:
«As rubricas do editor de Colonia, encerram
[46]
as
tradições vagas, que, passados nove annos, ainda
corriam ácerca d'aquelle infeliz namorado.»
Para que veio pois o snr. dr. Theóphilo Braga asseverar que
tambem
nas
edições de Ferrara e de Colonia se repete a
atribuição?
Mais diz o apreciavel escritor que «não se podem
refutar por negativa» as
atribuições que Diogo do Couto e Frutuoso
fizeram, repetindo
como certo o que os editores
das
obras de Bernardim registaram
sob reservas.
Não se podem refutar por negativa, não; mas podem
refutar-se cabalmente, pondo em confronto da obra poética
atribuida a Cristovam Falcão a obra em prosa que ninguem
ousará disputar ao suposto trovador.
E a admitir alguem, de reconhecida inteligência e
critério, que o autor das cartas em prosa podia ser o poeta
da Carta e da Ecloga de
Crisfal, o mesmo
equivaleria a
aceitar como razoavel que Rosalino Candido pudesse firmar as obras do
snr. dr. Theóphilo Braga, e que, consequentemente, o
laureado professor de literatura fosse capaz de produzir a obra
gigantesca de Victor Hugo.
É realmente desolador, para a fabula consagrada, que a Torre
do Tombo conserve os autógrafos de Cristovam
Falcão de Sousa!
7
«A ecloga de Crisfal
não podia ser publicada
pelo seu autor, nem pelo seu consentimento porque era uma inconfidencia
de antigas
relações amorosas com uma senhora que estava
casada.»
Carta do snr. dr. Th.
Braga.
[47]
Esta bizarra revelação do snr. dr.
Theóphilo Braga constitue, naturalmente, uma desenfastiada
brincadeira de s. ex.
a.
Pois qual é a obra
lírica onde se
não encontrem
inconfidências
semelhantes
ás da ecloga de Crisfal?
O snr. dr. Theóphilo Braga, que aos catorze anos
já se entregava a devaneios poéticos,
não deixou certamente de dar publicidade a versos em que foi
decantada alguma dama unida pelos laços matrimoniaes... E
estamos convencidos de que ninguem chamou
inconfidências aos suspiros poeticos do
trovador açoreano. As
inconfidências não servem de tema ás
locubrações dos vates; onde existe arte, no bom
sentido da palavra, não ha inconfidências, embora
n'este ponto estejamos em absoluta discordância com a
doutrina exposta pelo professor do Curso Superior de Letras.
Em toda a obra, prosa ou verso, de Bernardim Ribeiro, vive, palpita, a
história ingénua da sua vida, o trama dos seus
mal-aventurados amores por uma dama que trocou a
afeição do poeta pela de um outro zagal. Foi um
inconfidente o magoado Bernardim?―Não, foi um artista, foi
um poeta apaixonado, alma de eleição que da sua
dor fez um poema, como diria Goethe. E que adoravel e sentido poema nos
legou o grande poeta bucolista!
Mas não vale a pena insistir mais n'este ponto. A afirmativa
do snr. dr. Theóphilo Braga constitue, naturalmente, um
gracejo inofensivo de s. ex.
a.
8
[48]
«A
edição sem data, de Lisboa,
só podia ser feita por 1542, quando Cristovam
Falcão estava em Roma; e
quando Camões foi para Ceuta em 1547 na Carta que d'ali
escreveu emprega muitos versos do Crisfal, que
então andava no gosto.»
Carta do snr. dr. Th.
Braga.
Reproduzamos aqui o que o autor da
Historia da Litteratura
Portugueza escreveu a paginas 394/5 do seu volume
Bernardim
Ribeiro (edição refundida):
«N'esta folha volante
não vem a
Carta, nem as
Cantigas e Esparsas
incluidas na
edição de Colonia. Parece mais uma
vulgarisação popular, talvez uma das
muitas que tornaram a Ecloga muy nomeada, e
de que a reprodução de 1571, feita em Lisboa
(existiu na Livraria de Joaquim Pereira da Costa) seria o typo que
serviu para a reprodução de 1619, em que
apparecem elementos
só conhecidos pela edição de 1559.
«A folha volante sem data
diverge do texto de Colonia profundamente; basta observar as variantes
entre as lições das estrophes 51 e 52.
Attribuimos a
impressão das Trovas de Crisfal, a
1536,
quando appareceram tambem em folha volante as Trovas de Dois
Pastores (Ecloga III) de Bernardim Ribeiro.
«A vinheta do Pastor com capuz e cajado no
Crisfal é a mesma que serve nas Trovas
de dois
Pastores; o typo gothico corpo 12 do titulo do folheto de
1536 é o empregado no texto do Crisfal.
Tambem a
vinheta da Dama, que vem no titulo, appareceu empregada em outra folha
volante de 1536, intitulada Tragedia de los
amores de Eneas y de la reina Dido.»
Procedemos ao mesmo exame a que o snr. dr. Theóphilo Braga
sujeitou o
pliego-suelto, e chegamos a egual
conclusão. Algumas vezes nos haviamos de encontrar em
concordância de vistas com s. ex.
a. E
porque o nosso pensar
sobre o assunto egualava o do ilustre professor, escrevemos a pag. 119
do livro
Bernardim
Ribeiro (O Poeta Crisfal), aludindo ao folheto sem
[49]
indicação de data nem
de lugar de
impressão:
«...mas reconhecendo-se, pelo confronto com outros folhetos,
ser de 1536).
«Como muito bem observou o snr. dr. Theóphilo
Braga, etc.»
Seguiu-se a transcrição do parágrafo
do snr. dr. Th. Braga que atrás reproduzimos.
Mudou o abalisado professor de opinião quanto á
data do
pliego-suelto, querendo agora fixar-lhe o ano de
1542, como poderia fixar-lhe o de 1552 ou 1562, arbitrariamente.
Se ao menos s. ex.
a tivesse a
condescendência de indicar-nos quando seguiu os
processos
inductivos da crítica moderna! Ao fixar a
data de 1536 ou quando arbitrou a de 1542?
Em folha apensa, damos uma reprodução
foto-zincográfica das primeiras páginas dos tres
folhetos que levaram o snr. dr. Theóphilo Braga a fixar a
data da primeira edição conhecida das
Trovas
de Crisfal em 1536.
Se nos perguntarem se estamos dispostos a quebrar lanças
para sustentar a antiga opinião do historiador da
Litteratura
Portugueza, responderemos, com toda a franqueza,
negativamente. O que não podemos admitir é que se
procure agora determinar-lhe
com
precisão a data de 1542, com o simples fundamento
de que n'esse ano estava em Roma o seu suposto autor...
Alude o snr. dr. Theóphilo Braga ao facto de
Camões empregar versos do
Crisfal.
A explicação, a nosso ver, é muito
simples:
Em Faria e Sousa, o insigne fabulista, autor muito da
predilecção do snr. dr.
Theóphilo, encontra-se uma afirmativa, que constitue em
nosso juizo uma das raras que merecem algum crédito,
não obstante a impureza da
fonte.
[50]
Referindo-se a Bernardim Ribeiro, escreveu Faria e Sousa:
«poeta bien conocido y a quien llamava su Enio el divino
Camões.»
Não desconhece isto o professor do Curso Superior de Letras,
porque a pag. 131 da primeira edição do seu
Bernardim
Ribeiro reproduziu da
Fuente de Aganipe
o dizer de
Faria.
Como demonstrámos no volume sobre o
Poeta Crisfal,
Camões glosou o magoado solau da
Menina e
moça, de
Bernardim Ribeiro.
Em uma das cartas atribuidas ao cantor dos
Lusiadas,
encontra-se uma
alusão directa ao autor das
Saudades,
indicando-lhe o
nome:
Bernardim Ribeiro.
Se Bernardim era o seu
Enio,
naturalíssimo é que Camões se deixasse
influenciar pelo Mestre,
imitando alguns dos seus versos.
A não ser que o snr dr. Theóphilo Braga queira
concluir que, sendo Bernardim o
Enio de Camões, Cristovam
Falcão era o
Enio numero 2 do mesmo poeta,―assim a modos de um
Enio barato, para trazer por
casa.
Prossigamos...
9
«Na
edição de Lisboa vem duas
estrophes
supprimidas no texto de Ferrara e Colonia, por que continham uma inconfidencia.
Isto
leva a explicar como Cristovam Falcão tentaria apagar a
paternidade da Ecloga fundamentando-se-lhe a
imputação com o anagramma das primeiras syllabas
do nome.»
Carta do snr. dr. Th.
Braga.
Salvo erro, o snr. dr. Theóphilo Braga quer
[51]
referir-se apenas a uma, e não a
duas estrofes.
E á estrofe que reza:
Muitos pastores buscaram
mas um pastor por ser-te amigo,
e outro por
ser-te enemigo,
um e outro se escusaram.
E dão-lhe logo
comigo
gados que farão mil queijos;
mas como se despediam
é já mostrar que temiam
que o sabor dos teus
beijos
na minha boca achariam!
Falava-se em
beijos... Era uma
inconfidência, e gravíssima,
e por isso a estrofe foi suprimida nas edições de
Ferrara e de Colónia!
Está claro, e tam claro que, no dizer do snr. dr. Th. Braga,
«
isto leva a explicar como Cristovam
Falcão tentaria apagar a paternidade da Ecloga...»
Ora admitindo por um momento que Cristovam Falcão houvesse
sido poeta, e tivesse a lembrança de escrever uma
écloga abundante em
inconfidências,
pespegava-lhe, sem mais nem menos, com um anagrama deduzido das
primeiras sílabas do seu nome, para que toda a gente logo o
apontasse a dedo como
inconfidente?
De mais a mais, como quer o snr. dr. Th. Braga na sua exegese, se o
suposto poeta empregasse os nomes verdadeiros de todas as personagens
que a écloga alvejava, isso constituiria um
apagamento
de paternidade muito
pouco apagado...
Todo o mistério, o discreto veu da fantasia, a cobrir a
realidade dos episódios que a écloga do
Crisfal
menciona, equivaleria
á ingenuidade infantil d'aquela antiga adivinha:
«Branco é, galinha o põe»!
[52]
Ponha se o snr. dr. Th. Braga no lugar do pseudo-trovador,
imagíne que resolvia arquitectar uma écloga cheia
de
inconfidências, e
diga-nos, com franqueza, se, desejando apagar a paternidade de um tal
feito, assinaria a sua produção com o anagrama
Theobra?
Logo os seus discípulos concluiriam, triunfalmente:
«Cá temos mais um poema do Mestre!» E
fosse lá s. ex.
a
convencê-los de que
não era tal o autor da
inconfidência!
10
«Os logares communs a
Bernardim Ribeiro e Cristovam
Falcão provam mais a favor da
imitação de um discipulo, do que á
fusão dos dois poetas, repetindo-se o mestre na
decadencia.»
Carta do snr. dr. Th.
Braga.
Com o respeito devido ao professor de literatura, de modo nenhum
podemos aceitar a sentença de s. ex.
a
A
subtileza do snr. dr.
Theóphilo Braga, proclamando que os lugares comuns a
Bernardim Ribeiro e Cristovam Falcão provam mais a favor da
imitação de um discípulo do que
á fusão dos dois poetas, é da natureza
do conhecido
artifício pelo qual se póde sustentar que cinco
vintens não são um tostão, ou
vice-versa!
Admitindo que Cristovam Falcão tivesse sido um imitador de
Bernardim, como quer o abalisado professor, explica-se porventura que
levasse tam longe a sua improbidade literária, que roubasse
por inteiro versos e cantigas ao seu mestre, com a maior
desfaçatez?
[53]
Pois o autor
da
Carta e da
Eclóga de
Crisfal, a ser um imitador, não teria o bom senso
suficiente para reconhecer que, roubando versos de Bernardim,
não alcançaria renome de poeta, mas o apodo de
salteador literário?
Um imitador, por mais inexperiente e tacanho, não se
aproveita dos textos que imita de maneira a que lhe possam apontar os
versos
palmados. Ou não
será isto o que a lógica permite conjecturar?
Como ignoramos
os processos inductivos da critica moderna,
é possivel que estejamos em erro, e que da mesma
ignorância resulte não
alcançarmos o sentido das palavras do snr. dr.
Theóphilo Braga quando afirma que o mestre (Bernardim
Ribeiro) se repetiu na decadência.
Que repetições? e que decadência?
11
«Emfim ha dois schemas
de
paixão amorosa que se
não confundem: o de Joana e Fauno, Aonia e Bimnarder, e o de
Maria e Crisfal. São duas almas, sentindo em
situações
differentes.»
Carta do snr. dr. Th.
Braga.
Ha dois schemas de paixão amorosa que se não
confundem, diz o snr. dr. Theóphilo Braga na carta que,
pacientemente, estamos anotando.
É verdadeira esta afirmativa?
―Não, não é verdadeira, e o professor
do Curso Superior de Letras sabe muito bem que o não
é.
Em 1897, ao publicar a sua edição refundida do
livro
Bernardim Ribeiro,
confrontando versos
[54]
de
Bernardim com os atribuidos a Cristovam Falcão, escreveu o
professor de literatura.
«Vê-se que á medida que
a situação dos amores de Bernardim
Ribeiro seguia o mesmo desfecho dos amores de Cristovam
Falcão, os dois poetas communicavam entre si os
seus versos, sendo por este modo que se salvaram as poesias do auctor
do
Crisfal.»
[6]
Ha dois schemas de paixão amorosa que se não
confundem, diz s. ex.
a,
procurando agarrar-se a uma boia salvadora...
Mas tanto a paixão é uma só que o snr.
dr. Theóphilo Braga, na écloga em que Bernardim
se personifica sob o nome bucólico de
Persio, viu n'essa personagem
Cristovam
Falcão! E estamos em crer que o ilustre professor
não irá agora sentencear que a écloga
primeira de Bernardim tambem foi elaborada pelo suposto trovador...
Pois se o snr. dr. Theóphilo Braga até concluiu
que tanto Bernardim como Cristovão Falcão
sofreram as agruras do
carcere
privado!
Como póde suceder que o distinto escritor já se
não recorde do que escreveu a pag. 76/78 da sua
edição refundida do livro
«Bernardim Ribeiro», arquivemos aqui algumas das
suas passagens:
«...Não
ignorava
Bernardim que o namorado de
Maria tambem estivera em carcere privado:
Vi-me já
preso;
contente
A meu mal
queria bem.
[55]
«Na Carta, que
escreveu estando
preso, e mandou áquella com quem estava casado a
furto, diz Christovam Falcão:
Mal cuja dor se não
crê
de
prisão
e de ausencia!
Bem se enxerga nos meus danos
que estou preso ha cinco annos,
afóra os que heide estar...
«Retratando o cuidado de Persio, diz Bernardim Ribeiro:
Logo então
começou
Seu gado a
emagrecer,
Nunca mais d'elle curou,
Foi-se-lhe todo a perder
Com o cuidado que cobrou.
«Em Christovam
Falcão lê-se:
Crisfal não era entam
dos bens do mundo abastado,
tanto
como de cuidado,
que por curar da paixão
não
curava do seu gado.
«E continuando o
parallelismo, por onde se vê que
os dois poetas eram mutuos confidentes, e se influenciaram, temos mais
estes traços com que Bernardim Ribeiro retrata o
Crisfal:
Sentava-me em um penedo
Que no meio d'agua estava;
Então
alli só e quedo
A minha frauta tocava.
[56]
«E no Crisfal,
quasi pela
mesma maneira:
Alli sobre uma ribeira
de mui alta penedia,
d'onde a agua d'alto caía,
dizendo d'esta maneira
estava a
noite e o dia...
«Bastam estas
comparações para se
reconhecer a communhão artistica entre os dois namorados
poetas.»
Depois de haver escrito o que acaba de ler-se, como se compreende que o
snr. dr. Theóphilo Braga venha proclamar, com a maior
sem-cerimónia, que ha
dois schemas de
paixão amorosa que se não confundem!
Quanto a
Fauno, nome pastoril que,
em uma das éclogas, Bernardim dá ao seu amigo,
confidente e colega Francisco de Sá de Miranda, quer o snr.
dr. Theóphilo Braga que seja a
personificação do próprio B.
Ribeiro,―talvez para não confessar que nós
acertamos na
interpretação apresentada no
Poeta
Crisfal.
Temos certa curiosidade em saber se na futura
refundição do livro sobre os poetas bucolistas o
seu autor transferirá para Sá de Miranda o crisma
de
Persio, na
impossibilidade de continuar a ver na mesma figura os traços
de Cristovam Falcão...
De uns versos de Francisco de Sá, imitando uma
canção de Petrarca, já o ilustre
professor concluiu que o amigo de Bernardim sofrera a
prisão, por motivo de amores... É meio caminho
andado para que, na fantasia de s. ex.
a, o
[57]
douto Sá de Miranda
vá tomar o pouso do derreado Falcão.
A ver vamos... como dizia o cego, e cada vez via menos!
12
«Através de
todo o hypercriticismo, o livro
sobre Bernardim revela um trabalhador fervoroso, etc.»
Carta do snr. dr. Th.
Braga.
Duas palavras apenas:
A nosso juizo, aquele
através está a
substituir, amavelmente, o advérbio
apesar... É o que julgamos depreender
da sequência da frase.
No nosso modesto e desvalioso estudo, o snr. dr. Theóphilo
Braga apenas viu
hipercriticismo, o que de modo nenhum
póde agradar ao historiador da
Litteratura
Portugueza, que
só emprega os modernos processos da crítica
scientífica,―graças aos quaes... se vê
obrigado a refundir amiude os seus trabalhos!
Continuaremos, impenitentes, a cultivar o
hipercriticismo, deixando ao snr. dr.
Theóphilo Braga o uso exclusivo dos seus processos, que
não nos seduzem, com toda a franqueza o dizemos.
IV
A comunicação do presidente
da Academia das
Sciencias
de Portugal
No seio da sociedade scientífica e litéraria, de
que é ilustre presidente,
proclamou o snr. dr. Theóphilo Braga, á porta
fechada, isto
é, em reunião privativa dos sócios
d'aquela
Academia, que a vida amorosa de Cristovam Falcão «
oscila
entre 1525 e 1526, sendo n'aquella
data moço fidalgo, tendo pelo menos 12
annos».
Cristovam Falcão de Sousa era moço fidalgo em
1527, como se demonstra indubitavelmente pelo registo exarado n'um
livro que existe no arquivo da Torre do Tombo, registo que reproduzimos
com fidelidade a paginas 168/9 do nosso estudo sobre Bernardim Ribeiro.
Na sua erudita comunicação á Academia
das Sciencias de Portugal, afirmou o snr. dr. Theóphilo
Braga que o suposto autor do
Crisfal
tinha
pelo menos 12 anos á data de
1525...
Não indicou o douto académico o documento ou
recurso
histórico, em
que se estribava para sentencear, sem admitir réplica, que o
pseudo-trovador tinha
pelo menos 12 anos á data
de
1525, mas é possivel que s. ex.
a
esteja
munido de
[60]
concludentes provas para
demonstrar a justeza da sua afirmativa, se alguem se lembrar de
contestar-lhe tam peremptória opinião.
Se o ilustre professor não possue a tal respeito documentos
bastantes, póde dar-se o caso de alguem vir
àmanhan, quando mais não seja para fazer
pirraça a s. ex.
a,
declarar que Cristovam Falcão de Sousa, á data de
1525, não era ainda nascido, ou, quando muito, teria doze
mêses, e não 12 anos...
Mas é possivel que o snr. dr. Theóphilo Braga
tenha conseguido descobrir qualquer documento em que apoie a sua
sentença. É até muito possivel!
O importante, por agora, é verificar que o laureado
académico fixou o ano do nascimento do pseudo-poeta em 1513,
poucos mêses mais, poucos mêses menos, se a
lógica não
é uma cantata para adormecer meninos.
Ora, sendo assim, vê-se que alguma cousa se ganhou com a
publicação do nosso livro sobre o
Poeta
Crisfal, onde a paginas 176
escrevemos:
«
Quanto a Cristovam Falcão de
Sousa, moço fidalgo em 1527, por muito que se queira afastar
a data do seu nascimento, não poderá esta ser
fixada em ano anterior a 1510. Fixando-se o seu nascimento entre os
anos de 1510 a 1515, é natural que se fique muito
próximo da
verdade.»
O snr. dr. Theóphilo Braga, em face do nosso estudo,
escolheu o ano de 1513, cifra que se encontra compreendida
entre
1510 a
1515, salvo erro.
Nós, porém, com inteira franqueza o dizemos,
temos ainda suas dúvidas, e após recentes
pesquizas, em que vamos prosseguindo, inclinamo-nos
[61]
a ajuizar que o pseudo-
ultimo
eco
do alaúde ainda não era nascido no
ano de 1516...
Mas, para aclarar este ponto de capital importância,
aguardemos a nova versão que o snr. dr. Theóphilo
Braga tem na forja sobre os poetas bucolistas.
Além de ter modificado a sua antiga doutrina sobre a epoca
em que floresceu o falso
Crisfal, na sua
comunicação ao grémio
literário a cujos destinos preside, o snr. dr.
Theóphilo determinou que a vida amorosa do homenzinho
oscilara
entre 1525 e 1526,―isto
é no período ingénuo e
viçoso dos doze para os treze anos, quando a suposta mulher
amada pelo Xpouão contaria, na melhor das
hipóteses, as suas fagueiras e menineiras dez primaveras...
Mas, decorrido menos de um mês sobre a
comunicação... scientífica, o
egrégio conferente emendou este seu parecer, como se
verá quando analisarmos o artigo epigrafado
Movimento
litterario.
Segundo o extrato publicado no jornal «O Mundo»,
que condizia com os de outras gazetas, o snr. dr. Theóphilo
Braga
«
evidenciou que na ecloga
«Crisfal» transpareciam diversas
situações da vida de Cristovam Falcão.»
Infelizmente, os jornaes não nos forneceram qualquer
pormenor elucidativo sobre a referida
evidenciação,
pelo que ficamos, com verdadeiro pesar, privados de reconhecer a
maneira engenhosa pela qual o distincto professor de literatura
conseguiu demonstrar,
urbi et orbi,
que na magoada écloga de Bernardim Ribeiro transpareciam
diversas
situações da vida de
Cristovam Falcão.
É possivel, porém, que na próxima
futura
[62]
refundição do seu livro sobre os bucolistas, o
snr. dr. Theóphilo Braga inclua um largo capítulo
em que trate o assunto com o devido desenvolvimento, completando o
extrato que os jornaes fizeram da sua apreciavel
comunicação, com o que preencherá uma
sensivel lacuna. Oxalá assim suceda.
Terminou o conferente a sua palestra por invocar, mais uma vez, Diogo
do Couto e Gaspar Frutuoso; e mais uma vez afirmou que as duas
individualidades (Bernardim Ribeiro e Cristovam Falcão de
Sousa)
não
podem jàmais confundir-se.
Perfeitamente de acordo, n'esta parte, com o venerado professor!
Cristovam Falcão, o iletrado autor das
Quartas, não póde
jàmais confundir-se com
Bernardim Ribeiro, o mavioso autor da
Carta e
da
Ecloga de Crisfal...
Pelo que, implicitamente, fica demonstrado que nós
não temos dúvida em adoptar
uma ou outra das conclusões do presidente da Academia das
Sciencias de Portugal, apesar de todo o nosso hipercriticismo, como
está vendo o nosso
prezadíssimo amigo!
V
O artigo «Movimento litterário»
Como os leitores viram, pela reprodução que
fizemos no primeiro capítulo d'este trabalho, no artigo que
publicamos nas colunas do diário «A
Lucta», sob a epigrafe:
«
Os processos... scientificos do snr. dr.
Theóphilo
Braga», salientámos várias
inexactidões contidas no capcioso desarrazoado que o
professor do Curso Superior de Letras estampou no jornal «O
Dia», a pretexto de dar notícia do movimento
literário português no ano de 1908.
Não insistiremos sobre os pontos já visados,
embora prestassem o flanco a mais largas
considerações, mas nem o tempo nos é
sobejo nem tam pouco desejamos abusar da benevolência dos que
nos lêem, prolongando demasiadamente este
comentário desenfastiado e despretencioso ás
refutações embrogliadoras e falhas
de sinceridade do snr. dr.