Nota de editor:
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foram tomadas várias decisões quanto à
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mantida de acordo com o original. No final deste livro
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Rita
Farinha (Fev. 2008)
SÁ D'ALBERGARIA
OS FILHOS DO PADRE ANSELMO
ROMANCE
PORTO
LIVRARIA CHARDRON
DE
Lello & Irmão,
Editores
1904
Typ. a vapor da Empreza
Litteraria e Typographica
178, rua de D. Pedro, 184
OS FILHOS DO PADRE ANSELMO
I
Os irmãos da mão negra
O relogio dos Clerigos tinha acabado de fazer soar
pausadamente as doze badaladas da meia noite.
O tempo estava brusco e o vento, soprando da
barra em frias e cortantes rajadas, punha arrepios
nos transeuntes que, levantadas as golas dos casacos
e as mãos mettidas nos bolsos, seguiam a passo apressado,
recolhendo a casa, sob a ameaça de um temporal
desfeito.
Era em fins do outono.
As arvores do jardim da Cordoaria, varejadas
pela ventania asperrima, despiam-se das suas ultimas
folhas amarellecidas, n'um agitado e sussurrante protesto
de espoliadas.
Quem a essa hora passasse pelo Campo dos Martyres
da Patria, veria, encostado a uma das arvores
que orlam o jardim, defrontando com a praça do Peixe,
um vulto immovel e indifferente ao tempestuoso
rugir d'aquella noite agreste e frigidissima.
Parecia esperar alguem, porque, ao ouvir bater a
meia noite no relogio da torre, levou a mão ao bolso
[2]
e, aproximando-se de um dos candieiros da
illuminação
publica, consultou o seu relogio.
―Aquelle anda adiantado cinco minutos―murmurou.
E deu alguns passos distrahidamente como para
illudir a sua impaciencia.
Agora, que o podemos vêr ao reverbero do lampeão,
notaremos que é um rapaz de 18 annos, decentemente
vestido e de gentil presença, não obstante as
feições finas e delicadas quasi lhe
desapparecerem encobertas
pela aba larga do seu chapéo á Mazzantini.
Tinha apenas dado um curto passeio no prolongamento
do jardim, quando do lado da rua do Calvario
avançou a trote rasgado um trem, que parou em
frente d'elle.
―És tu, Paulo?―disse de dentro uma voz.
―Sou.
―Entra depressa, que a noite está agreste!
E a pessoa que fallava de dentro abriu a portinhola,
facilitando-lhe a entrada.
O mancebo saltou de um pulo para dentro do carro,
a portinhola fechou-se, e os cavallos seguiram no
seu trote largo, dobrando a rua da Restauração e
subindo
a da Liberdade até ganharem a rua do Rosario.
Sigamos aquelle trem e ouçamos o dialogo que se
trava dentro d'elle.
Apenas o mancebo entrou, a pessoa que o chamara
e que era um homem de 28 a 30 annos, desceu rapidamente
as cortinas do carro e disse para o seu joven
companheiro:
―Meu amigo, como já te expliquei, isto são
negocios
em que se requer a maior circumspecção e
escrupulo
na observancia das praxes. Has-de consentir
que te vende os olhos.
―Acaso desconfias da minha lealdade, Jorge?
[3] ―De modo algum. Mas é uma obrigação
que o
regulamento me impõe, e eu não posso faltar a
ella
sem trahir o meu dever.
―Pois bem, seja!
O sujeito que ouvimos chamar Jorge tirou então
do bolso um lenço e vendou com elle os olhos do companheiro.
―Has-de dar-me a tua palavra de honra que não
tentarás arrancar a venda sem que para isso recebas
ordem...
―Dou. Mas se o fizesse?
―Poderia isso custar-te a vida, meu caro.
―Apre!―fez o outro, sorrindo―vocês são
intransigentes!
―Está n'isso a nossa força. Não
violentamos ninguem
a seguir-nos, damos ampla liberdade a cada um
de rejeitar a nossa associação, mas defendemos a
nossa
existencia e mantemos o nosso segredo.
―É justo.
―Assim, tu podes, até á hora de prestares o teu
juramento, reconsiderar e exigir que te restituam a
liberdade. Nenhum mal te acontecerá por isso, a tua
vontade será respeitada, a tua independencia mantida.
Mas não saberás dizer onde estiveste nem as
pessoas
com quem fallaste.
―Poderei dizer que fallei comtigo...―gracejou
o outro.
―Que importa? Eu não sou uma
associação.
Comigo póde fallar toda a gente...
―Fallemos sério!―tornou o moço que dava pelo
nome de Paulo.―Asseveras-me que os intuitos d'essa
associação em que vou entrar são em
tudo dignos das
justas aspirações de um homem de bem?
―Assevero-te que os irmãos da
Mão-negra comprehendem
e cumprem á risca o nobre dever de se
auxiliarem e defenderem mutuamente contra as prepotencias
[4]
sociaes da nossa epoca. No nosso gremio
desapparecem as differenças de gerarchia e de dinheiro.
Não ha pobres, porque todos somos ricos da
riqueza e da importancia dos nossos irmãos.
―Poderei então contar com o auxilio da
Associação
na conquista da mulher que amo?
―Decerto―volveu o outro.―Tanto como amanhã
qualquer de nossos irmãos poderá contar com o
teu auxilio para a realisação dos seus desejos.
Isto é
apenas uma associação de soccorros mutuos, meu
caro
Paulo. A mulher que amas será tua desde que te filies
no nosso gremio. Comprehendes que toda a acção
da
Mão-negra se resume em
tornar felizes e ricos os
seus irmãos, porque d'essa riqueza e d'essa felicidade
lhe advem a ella a força, o poderio, a importancia.
O trem ia correndo veloz pela estrada do Carvalhido,
sem que Paulo, entretido na conversa, parecesse
ter notado o tempo gasto na corrida.
―No emtanto―accrescentou ainda Jorge―os
fins e intuitos da Associação vão
sêr-te ainda expostos
e confirmados por pessoa idonea e mais competente
de que eu. Se te restar alguma duvida, o minimo
escrupulo, poderás renunciar ao teu intento, com
a unica condição de não tirares a
venda nem tentares
deslealmente devassar os segredos do nosso gremio...
―Conheces-me, e sabes que isso são processos indignos
do meu caracter!―protestou o mancebo.
O trem parou em frente de um portão largo, que
dava accesso a uma vasta quinta murada.
Jorge apeou-se e deu a mão ao seu companheiro.
―Chegámos!―disse elle.
Paulo apeou-se e, guiado sempre pelo seu amigo,
transpoz o portão, que se abriu mysteriosamente, tornando
a fechar-se sem ruido.
―E o cocheiro?―perguntou o mancebo.―Não
receias a sua indiscreção?
[5] ―É um dos nossos irmãos―respondeu simplesmente
o outro.
―Apre!―tornou o mancebo alegremente.―Eis
aqui o que se chama um serviço bem montado!
Jorge não lhe respondeu. Conduziu-o por uma extensa
e sombria vereda de ramadas até o fazer entrar
n'um corredor ao rez do chão, pelo qual foram seguindo
em silencio.
―Já estamos em casa!―disse Paulo.
―Porque?―perguntou o outro.
―Sinto-o pela differença de temperatura.
―Ainda não... Vamos entrar agora...
E levando aos labios um pequeno apito, tirou d'elle
um silvo agudo e prolongado.
Ouviu-se uma porta girando sobre os gonzos, e os
dois entraram n'um pequeno recinto em que os passos
se amorteciam, abafados no tapete.
―Pódes tirar a venda―disse Jorge.
O mancebo levou a mão aos olhos, e com grande
assombro seu, achou-se sósinho n'uma sala forrada de
crepes, tendo ao centro uma mesa coberta de velludo
preto e em que pousava uma caveira, allumiada por
duas velas.
Um momento impressionado pelo sinistro aspecto
da sala e pelo funebre quadro que se lhe offerecia á
vista, o mancebo empallideceu e recuou um passo,
aterrado. Porém, reflectindo e com uma coragem superior
á que seria de esperar na sua edade, breve retomou
o sangue frio e lançou um olhar de glacial
indifferença
para a caveira.
―É singular!―pensou comsigo.―Entro na vida
pela visão da morte!
Como respondendo a este pensamento, ouviu-se uma
voz soturna e cavernosa resoar na sala:
―Medita!―disse aquella voz.
[6]
O mancebo estremeceu e voltou-se rapidamente, a
vêr quem lhe fallava.
Não viu pessoa alguma.
Passeou então os olhos curiosos pelas paredes
forradas de crepes e não descobriu a porta por onde
tinha entrado.
Se quizesse abandonar aquelle mysterioso e lugubre
recinto, não o poderia fazer, por não encontrar
sahida.
Embora surprehendido, nem por isso se apavorou.
―Medita!―tornou a voz a repetir.
Como resposta muda áquella intimativa, o mancebo
cruzou os braços sobre o peito e ficou encarando
fito a caveira.
N'aquella attitude altiva e firme, esteve assim
por muito tempo.
Dissera-lhe o seu amigo que, para ser admittido
na associação secreta da
Mão negra, era preciso
dar
provas de energia, coragem e inquebrantavel força de
vontade. Accrescentara que as provas a que os neophytos
tinham de sujeitar-se eram rudes e de molde
a fazerem tremer o mais ousado. Elle, não obstante,
insistira. Sentia-se capaz de affrontar os maiores perigos
com animo sereno e tranquillo.
―Principiou a prova!―pensou―julgam-me uma
creança assustadiça, capaz de me apavorar com
este
apparato funebre. Mostrar-lhes-hei que a creança
é
um homem, que póde disputar primasias de coragem
aos mais fortes.
E n'esta resolução avançou para mesa,
estendeu
o braço e ia a tocar no funebre despojo, quando a voz
mysteriosa recuou de novo, gritando:
―Detem-te! O que ias fazer?
―Tocar n'esta caveira―respondeu o mancebo
com voz tranquilla.
―Com que fim?
[7] ―Com o fim de provar que a ideia da morte me
não apavora.
―Que pensamento te suggere a vista d'esse triste
despojo humano?
―Primeiramente, a ideia de que todos caminhamos
para a mesma miseria...
―E depois?
―Depois, que a Morte é a niveladora implacavel
do genero humano.
―Assim, crês que na Morte se confundem bons e
maus, virtuosos e impuros?
―Creio que, materialmente, tudo se confunde na
mesma podridão.
―Materialmente, disseste?
―Disse.
―Crês então que vicio e virtude são
coisas indifferentes,
visto que tudo se apaga ao mesmo gelido
sopro e tudo resvala com o homem ao abysmo do
Nada?
―Não.
―Explica-te.
―Do homem subsistem as ideias, os pensamentos,
os actos bons ou maus de toda a sua vida. Esses
não tem a Morte o poder de os anniquillar.
―Pois bem; visto que assim é, dize-me: De quem
é esse craneo?
―De um meu irmão.
―É vaga a resposta. Dize-me: Será d'um sabio?
Será de um ignorante? Será de um homem honesto?
Será d'um criminoso? Será d'um nobre?
Será d'um
plebeu?
―Ignoro.
―Confessas, pois, que na Morte tudo se confunde?
―Não! Confesso apenas que na Morte todos teem
egual direito ao respeito dos vivos.
[8] ―Porém, essa theoria é contradictoria. Se todos
devem confundir-se no mesmo respeito, como queres
que se distingam os bons dos maus?
―Pelo que d'elles fica no mundo e não morre.
Dize-me o nome d'aquelle a quem pertenceu este craneo,
e se elle foi um sabio, um artista, um litterato,
um poeta, um d'esses homens que deixam a sua passagem
assignalada no mundo por obras de grandeza e
de virtude, eu te recordarei as suas conquistas scientificas,
os seus quadros, os seus livros, os seus versos,
as nobres acções e exemplos com que se perpetuou
na
humanidade emfim.
―Tens religião?
―Tenho.
―Qual?
―A do Bem.
―A que vieste?
―Dar e receber auxilio na lucta do Bem contra
o Mal.
―Sabes o sacrificio a que isso obriga?
―A todos os sacrificios me sujeito.
―Repara bem. A abnegação, o desinteresse, a
obediencia cega e passiva ás ordens dos que dirigem
o nosso gremio constituem a principal condição
para
seres admittido entre nós.
―Acceito-a.
―Terás que resistir ás tuas proprias
paixões, terás
que dominar os mais irresistiveis impulsos do teu
coração, para só obedeceres
á lei da nossa Sociedade;
terás, emfim, que sacrificar vida, fortuna, mulher, filhos,
familia―tudo, ao bem de teus irmãos, quando
isso
te fôr reclamado.
―Obedecerei.
―É preciso que o braço execute o que a
cabeça
ordena. Tu serás o braço. O chefe invisivel da
nossa
Associação é a cabeça. Se
fôr preciso derramar sangue,
[9]
ainda o d'aquelle que no mundo te fôr mais caro,
uma vez que a cabeça t'o ordena, obedecerás?
―Sem a menor hesitação.
―Attende que vaes ligar-te a nós por um juramento
que não póde ser quebrado nem illudido. Em
toda a parte onde te encontres, seja qual fôr a
posição
social a que ascendas, na rua, em casa, no povoado
ou n'um logar deserto, o olhar invisivel da nossa
Associação
seguir-te-ha por toda a parte. A
Mão-negra,
cujo auxilio buscas, mysterisa e potente,
vingadora e
terrivel, como a propria mão da Providencia,
impedirá
teus passos e guiará o teu destino. Não mais te
pertencerás
a ti; pertencerás aos teus irmãos. Senhor
liberrimo
das tuas acções até agora, vaes
reduzir-te por
um juramento ás condições d'um
escravo, mais que
d'um escravo―d'um simples automato. O teu cerebro
não mais pensará para ti; o teu
coração não mais sentirá
por ti. Cerebro e coração teem de emmudecer
perante
as exigencias fataes, crueis e terriveis muitas
vezes, da nossa Associação. Terás
força para tanto?
―Terei―respondeu firmemente o mancebo.
―Pareces corajoso―observou a voz mysteriosa―pareces
ter em pequena conta a propria vida.
―Estou prompto a sacrificál-a para um fim justo.
―A ideia da justiça é relativa. O que para uns
é justiça para outros é iniquidade. Os
irmãos da
Mão-negra
não teem o direito de discutir e apreciar as ordens
que dimanam do seu chefe invisivel: teem só o
dever de as cumprir. Assim, se te exigirem que craves
um punhal no teu coração, não
terás o direito de
discutir a justiça do sacrificio; apenas terás
que obedecer.
―Experimentem.
―Lembra-te, porém, que, se o ―Lembra-te, porém, que, se o sacrificio da propria
vida te é fácil, outros sacrificios te
pódem ser
mais penosos. Estás em tempo: se não te sentes
com
[10]
animo e coragem para te prenderes a nós por toda a
vida,―vae, estás livre, mandar-te-hemos conduzir ao
sitio d'onde vieste.
―Não!―respondeu o mancebo com energia―Eu
não sou dos que recuam. Quero ser dos vossos.
―Estende a mão sobre essa caveira e jura que
queres ser submettido á
prova!―ordenou a voz.
Paulo estendeu a mão sobre a caveira:
―Juro―disse elle―que desejo ser um dos irmãos
da
Mão-negra e estou
prompto a submetter-me á prova
que me for imposta!
Quando acabou de proferir este juramento, sentiu
que lhe tocavam no hombro. Voltou-se e viu diante de
si um vulto athletico, sinistramente vestido de preto
e com o rosto coberto por um capuz como o dos antigos
aguazis do Santo Officio.
Sem dar palavra, o mysterioso vulto vendou-lhe de
novo os olhos. Em seguida disse:
―
Á prova!
Pegou-lhe na mão e conduziu-o por um extenso
corredor até parar em frente de uma porta, a que
bateu de maneira mysteriosa e symbolica.
―Quem sois?―perguntou de dentro uma voz,
sem abrir.
―Irmão―respondeu o mysterioso guia de Paulo.
―D'onde vindes?
―Da Ala negra.
―Que trazeis?
―Um novo braço.
―Que busca elle?
―A mão.
―Quem vos guia?
―S. Miguel.
A porta abriu-se.
―Passae!―disse um homem, igualmente envolto
n'um habito preto e o rosto coberto pelo capuz.
[11]
Os dois seguiram ávante e entraram n'uma sala
ampla, abobadada, de paredes escuras e illuminada
apenas por um globo enorme de vidro, seguro por uma
phantastica
mão negra,
que pendia do tecto.
Á roda d'esta sala, viam-se de pé, hirtos e
impassiveis,
n'uma immobilidade de estatuas, muitos vultos
negros, com o rosto inteiramente occulto sob o capuz
do habito.
Em cada uma das paredes avultava uma grande
mão negra, sustentando punhaes e espadas, em panoplia.
Ao centro, justamente debaixo do globo, erguia-se
uma especie de throno, assente sobre quatro formidaveis
dragões e todo coberto de crepes. Occupando esse
logar, sem duvida destinado ao chefe da seita, estava
uma figura mysteriosa como as suas companheiras e
como ellas silenciosa e immovel.
O
irmão introductor de
Paulo avançou, silenciosamente,
com o mancebo pela mão, até curta distancia
do throno, parou, levou a dextra ao peito, movendo
o pollegar rapidamente, de modo a descrever
com elle uma cruz, e ficou de cabeça curvada, em
attitude respeitosa.
―Que quereis, irmão?―interrogou o vulto que
se sentava no throno e que era sem duvida o chefe da
seita.
―Que escuteis e recebaes sob vossa protecção
este
meu companheiro, que pretende entrar na
ala como
combatente.
―Fiaes d'elle?
―D'elle fio, senhor!
―S. Miguel vos proteja!
―O apresentante de Paulo afastou-se e foi tomar
o seu logar junto á parede, em fila com os seus
companheiros.
[12]
Paulo ficou só, junto ao throno, com os olhos vendados.
―Que pretendeis, mancebo?―interrogou o chefe.
―Combater.
―Que armas trazeis?
―A submissão, a energia e a lealdade―disse
Paulo.
―Boas armas são essas quando temperadas ao
fogo vivo do sentimento do Bem e da Justiça. Que
vos falta?
―A força da
Mão-negra.
―A
Mão-negra
só dispensa a sua força e o seu
amparo aos que tudo lhe sacrificam com coragem,
valor, e brio. N'este gremio não se admittem nem os
timidos nem os cobardes.
―Não o sou.
―Dizer é facil; provar é difficil. Quereis
sujeitar-vos
á prova?
―Estou prompto!
―Reparae que podeis perder a vida na jornada
aspera que ides emprehender.
―A vida de nada me serve, se não posso dar-lhe
applicação util.
―É facto. No emtanto, é meu dever prevenir-vos
de que, sem perderdes a vida, podeis perder a esperança
da felicidade, que é a vida do
coração, o objectivo
da existencia.
―Tudo sacrificarei aos meus irmãos.
―É melhor recuar, mancebo. Na longa estrada
que tendes a percorrer antes de chegardes á
Mão-negra,
encontrareis mil perigos e mil precipicios terriveis,
que sereis obrigado a transpôr ou a morrer.
Avançado
o primeiro passo n'esse caminho mysterioso e fatal,
recuar é impossivel; a menor hesitação
é a morte. Só
uma coragem admiravel e uma força de vontade rara
pódem conduzir-vos a salvo ao ponto desejado.
[13] ―Irei e hei-de chegar.
―Pois bem, vinde!
Levantou-se, desceu do throno, deu-lhe a mão,
abriu uma porta ao lado da parede e, empurrando-o
para dentro d'ella, disse:
―Podeis tirar a venda. Segui esse longo e escuro
subterraneo até ao fim. Tereis que luctar com o fogo,
com a agua, com os homens e com as feras, antes que
chegueis á porta santa do asylo que buscaes. Ide e
que S. Miguel―que venceu o dragão―vos dê
força
e coragem.
O mancebo levou as mãos aos olhos, arrancou a
venda e embrenhou-se n'uma escura e estreita galeria
subterranea, que foi seguindo com estranha ousadia.
A treva cercava-o sem lhe deixar perceber onde
punha os pés.
Algumas duzias de passos andados, um subito
clarão illuminou o subterraneo. Paulo, deslumbrado,
levou as mãos aos olhos. Na sua frente, erguiam-se as
chammas pavorosas de um incendio, que avançava
para elle em linguas de fogo, ameaçando devoral-o.
Dir-se-hia que uma enorme represa de alcool ou de
petroleo se havia aberto e que, incendiado, ia inundar
o subterraneo, transformando-o n'um immenso
forno crematorio.
O mancebo, n'um momento surpreso, sentindo na
face o calôr das chammas, nem por isso se deteve.
Caminhou audaz e resoluto para o perigo, disposto a
deixar-se queimar vivo antes que retroceder.
Ao aproximar-se das chammas, porém, estas apagaram-se
subitamente, tornando mais densa a treva do
corredor.
Seguiu ávante, e pouco depois sentiu o ruido clamoroso
e sinistro de uma enorme queda d'agua, que
se despe
Seguiu ávante, e pouco depois sentiu o ruido clamoroso
e sinistro de uma enorme queda d'agua, que
se despenhava em catadupas de uma rocha que obstruia
a passagem e que parecia o remate d'aquelle
[14]
medonho e tenebroso subterraneo transformado n'um
lago.
A agua despenhava-se de tal altura e com tal
fragor que, batendo nas pedras, resaltava, esparrinhando
com tanta violencia, que algumas gottas vinham
açoitar o rosto de Paulo.
Á primeira vista, parecia impossivel transpôr
aquelle enorme pégo sem perecer afogado. Uma dubia
luz, coada por uma pequena abertura na abobada do
subterraneo, esclarecia o medonho passo.
Paulo, tomado da raiva febril de transpôr todas as
barreiras ou morrer, avançou corajoso, fechou os olhos
e atirou-se á agua. Com grande assombro seu, achou-se
em terreno enxuto. A agua tinha desapparecido e
com ella o ruido pavoroso da corrente.
A treva tornara-se mais densa. Não obstante, elle
caminhava afoito, quando, de repente, se sentiu agarrado
e preso por duas fortes e vigorosas mãos que o
levantaram ao ar deixando-o cahir.
Procurava firmar-se nas pernas, quando notou que
o terreno lhe faltava debaixo dos pés e se precipitava
n'um abysmo.
Não soltou um grito. Esperava morrer como um
homem, e assim chegou a um segundo subterraneo,
onde se encontrou de pé, illeso e sem que soffresse a
menor contusão.
Continuou o seu caminho corajosamente, embora
sob o peso das commoções soffridas. Foi andando
na
treva por alguns minutos, quando um rugido terrivel
lhe despertou a attenção.
Olhou e viu na sua frente uma porta de ferro,
defendida, por dois enormes leões, que punham n'elle
os olhos de fogo, escancarando n'uma ameaça a guella
hiante.
Fixou a vista aterrado nos monstros, que soltaram
novo rugido atroador.
[15]
Pallido, os cabellos eriçados, as faces contrahidas
de susto, o mancebo pensou em retroceder, mas envergonhado
d'esta cobardia, exclamou, avançando para
as féras:
―Antes morrer que recuar!
Rapidamente, os leões sumiram-se na parede e
Paulo pôde bater á porta, levantando e deixando
cair
o pesado batente em forma de mão negra.
A porta abriu-se.
―Entrae!―disse o mesmo chefe que o havia introduzido
no subterraneo, recebendo-o de novo na sala
d'onde havia partido.
Paulo entrou.
―Ides dar-nos a ultima prova―propoz o chefe.―Aqui
tendes este punhal. N'aquelle gabinete está, sob
a acção de um narcotico, uma mulher, que
é preciso
eliminar... Ide! Cravae-lhe este
punhal no coração.
Paulo pegou no punhal, abriu a porta e ia avançar,
quando recuou espantado, soltando um grito terrivel:
―Ella!―bradou o pobre rapaz afflictivamente.
É que diante dos seus olhos admirados apparecera
uma bella e gentil figura de mulher, estendida sobre
um pôtro de torturas, os pés e as mãos
amarradas, a
face pallida, os olhos cerrados, como que esvaecida ou
morta, e essa mulher, essa visão inesperada, era nem
mais nem menos do que a sua amada, a aspiração
querida
da sua alma, a mulher por quem o pobre moço ia
filiar-se na mysteriosa e terrivel seita da
Mão negra!
―Hesitas?―perguntou o chefe com um accento
de desprezo e sarcasmo na voz.―Não prestaste ainda
juramento, mancebo; não estás preso a
nós por nenhuns
laços. Se o teu coração se entibia, se
o teu braço
treme e se recusa a obedecer, vae, deixa-nos! Profere
apenas uma palavra e serás restituido á
liberdade.
[16]
No rosto do mancebo desenhava-se uma angustia
profunda. Os cabellos em desalinho, a face pallida, a
fronte banhada de um suor frio, não desfitava os olhos
d'aquelle meigo e adorado vulto de mulher, a que tinha
presa toda a sua existencia, todas as esperanças
da sua juventude, todas as nobres aspirações da
sua
alma e que alli via, sem saber como nem porque, semi-morta,
amarrada áquelle pôtro fatal, e prestes a
cahir aos golpes de uma justiça occulta, que a mandava
apunhalar!
E havia de ser elle o algoz, havia de ser elle o
executor da fatal sentença, elle, que por ella sacrificaria
a vida, a honra, a familia, tudo o que um homem
póde sacrificar á mulher amada!
Era horrivel!
―Decide-te, mancebo!―tornou o chefe―Ou
cumpres corajosamente os mysteriosos designios da
Mão-negra, ou recusas e
vaes em paz com a tua cobardia!
Como se lhe tivessem vergastado o rosto, á palavra
cobardia, o mancebo apertou na
mão o punhal e,
voltando-se para o seu mysterioso interlocutor, disse,
rangendo os dentes:
―Cobarde não o sou, não o serei
jámais! Que
posso eu fazer para resgatar a vida d'aquella mulher?
―Nada!
―Offereço-vos a minha vida, senhores! Pegae em
mim, amarrae-me áquelle pôtro onde a tendes
manietada,
sujeitae-me á tortura mais cruel, mais
horrenda,―não
soltarei uma queixa, não me ouvireis um
gemido! Mas libertae-a a ella, restitui-lhe a liberdade,
concedei-lhe a vida, e eu bem direi a vossa generosidade,
a vossa grandeza d'alma, e o meu ultimo alento
será ainda um protesto, de gratidão para
comvosco!
―Nada podemos fazer-te. Essa mulher está condemnada,
[17]
e nada poderá libertal-a da nossa
justiça.
Queres executar a sentença ou preferes retirar-te em
paz com a tua fraqueza... com a tua cobardia, repito?
―Cobarde nunca!―bradou o moço, luzindo-lhe
nos olhos uma colera terrivel―Bem vêdes que não
é
o meu braço que treme―é o meu
coração que lucta!
―Vence-o!
―Vencel o-hei. Mas antes, dizei-me:
não tem preço
aquella vida? Quantas vidas quereis que vos entregue
em resgate d'aquella? Apontae-m'as, e eu vos
juro que vol-as entregarei todas, sem faltar uma, ainda
que para isso eu tenha de descer tão baixo, que
me confunda com os mais infimos sicarios, ou haja de
subir tão alto, que chegue a transpôr os degraus
de
um throno! Reparae que esta é a mulher que amo!
É o mundo que vós me mandaes anniquilar com
aquella existencia!
―Está condemnada. Decide-te!―tornou a voz―Partes
ou ficas?
―Pois bem, fico!... para partir com ella!
Avançou desvairadamente para a sua amada, que,
immovel, amarrada ao pôtro, parecia cahida em profundo
lethargo.
―Beatriz, perdoa-me!―murmurou elle.―Não
é a ti que eu apunhál-o, é a mim
proprio... Seguir-te-hei
no teu resgaste!
Dizendo isto, cravou-lhe fundo o punhal no
coração.
O sangue espadanou do peito da victima, que
não soltou um gemido.
O mancebo, com as mãos tintas de sangue, veio á
sala e disse serenamente, encarando os seus lugubres
e mysteriosos companheiros que se conservavam mudos
e immoveis:
―Pedistes-me uma vida. Dar-vos-hei duas, ensinando-vos
[18]
ao mesmo tempo como se mata e como se
morre!
E n'um movimento rapido, sem dar tempo a que
o detivessem, alçou o braço e cravou o punhal no
coração.
A lamina, porém, não penetrou a carne e o
mancebo,
admirado de que o ferro lhe não tivesse produzido
a menor dôr, examinou espantado a arma homicida.
Era um d'estes punhaes simulados, cuja lamina de
latão, se embebe e desapparece no cabo quando se descarrega
a punhalada, voltando a apparecer impellida
por occulta mola desde que deixa de ser premida de
encontro ao corpo.
―Mas o que é isto?―disse elle indignado, quasi
sem comprehender.―Estamos nós representando uma
farça?
―Não, meu amigo!―respondeu amavelmente o
chefe―estiveste
dando-nos a
prova da tua rara
coragem,
do valor e lealdade do teu caracter, e nós todos,
bemdizendo a hora que traz ao nosso gremio um
irmão
de tanto valor!
Depois, voltando-se para o gabinete onde ainda jazia
inanime a
amada de Paulo, continuou:
―Como já deves ter comprehendido, alli não
está
a tua amada, porém a sua imagem tão perfeita e
semelhante,
que a tomaste por ella propria.
O mancebo, aturdido, punha no manequim os
olhos, recusando-se a acreditar o que ouvia.
―Foi, pois, uma simulação de morte―proseguiu
o chefe―O valor moral da acção fica em
pé, visto
que a tua intenção era obedecer aos preceitos da
Mão-negra...
―E matar-me em seguida!―accrescentou o mancebo.
―É a unica porta que resta aberta aos nossos
[19]
irmãos para se separarem
de nós. A sahida por esse
lado, posto seja uma fraqueza, não é nunca um
crime.
De resto, é tambem por ella que fazemos sahir os
que se tornam indignos de pertencerem á nossa
Associação.
―Espero que não tereis o incommodo de me ensinar
o caminho, se algum dia me arrepender de haver
buscado a vossa camaradagem―disse Paulo.
―Felicito-te, mancebo, pela tua rara energia,
lealdade e valor do teu caracter, de que déste prova.
Serás um bom
irmão da
Mão-negra e auguro-te uma
brilhante carreira dentro do nosso gremio, se perseverares
em conservar puras e immaculadas as apreciaveis
qualidades a que deves a tua admissão. Queres
prestar juramento?
―Sim!
―Irmão Golias!―ordenou o chefe―vendae os
olhos ao neophyto!
Destacou-se da parede o
irmão que já
havia sido
o apresentante do mancebo, e cumpriu as ordens do
chefe.
―Vendam-se-vos ainda os olhos―disse este―não
porque esteja no nosso animo guardar para comvosco
novos mysterios ou admittir-vos com fins reservados,
mas tão sómente porque a venda que se vos
põe agora
representa a confiança cega, illimitada, que deveis
ter nos vossos irmãos e nos nobres e justos fins para
que todos trabalhamos, unidos como um só homem,
guiados pela mesma potente e mysteriosa
Mão-negra.
Findo este pequeno discurso, o chefe fez um signal.
Os vultos que, de pé e immoveis rodeavam a sala, encostados
á parede, avançaram silenciosamente e formaram
um circulo á roda de Paulo.
―Irmão Golias!―disse o chefe.
―Eis-me, senhor!
―Fiastes o neophyto. Persistes fiando-o?
[20] ―Do fundo da minha alma.
―Sois o seu padrinho. Tomae o vosso logar.
O vulto que dava pelo nome de Golias postou-se
ao lado do mancebo, tendo na mão uma salva de prata
coberta por um crepe.
O chefe subiu então ao throno e passou-se n'aquelle
recinto uma scena deveras surprehendente.
De pé sobre o throno, o chefe pegou em um escrinio
de pau santo com embutidos de prata e marfim representando
uma caveira com dois fémures em cruz,
carregou em um pequeno botão, e o escrinio abriu-se,
transformado-se rapidamente em uma almofada de veludo
carmezim em que assentava um craneo alvissimo,
seguro por dois punhaes em tropheu.
Estendeu para a assembleia o braço sustentando
esta estranha
reliquia, e
immediatamente os vultos,
levando as mãos á cinta, desembainharam luzentes
floretes
que traziam occultos debaixo dos habitos e que
apontaram ao neophito, formando-lhe com elles um
circulo de ferro.
Ao mesmo tempo uma voz resoou:
―Está aberto o templo!
Tres portas abriram-se e por ellas começou
entrando
uma verdadeira multidão de capuzes negros, trazendo
na mão esquerda uma tocha accesa e na dextra
um punhal.
Os das tochas formaram em cruz, ao comprido e
ao través do
templo,
abrindo em alas, voltados todos
para o centro, onde se agrupavam, como já dissemos,
os primeiros vultos, rodeando Paulo, com os floretes
desembainhados.
Tudo isto se fez no meio do maior silencio e quasi
sem deixar perceber o ruido dos passos.
Então o chefe, erguendo a voz, disse:
―Mancebo, juras obediencia, lealdade e amor a
todos os irmãos da
Mão
negra? Juras não revelar a
[21]
alguem os segredos da nossa agremiação? Juras
sacrificar
por ella todos os dias da tua vida, todas as
horas da tua existencia, o vigor do teu braço, os
pensamentos
do teu cerebro, os sentimentos do teu coração?
Paulo estendeu a mão e disse solemnemente:
―Juro!
Immediatamente, o irmão Golias, entregando a
outro a salva que tinha na mão, voltou-se para o neophyto,
dizendo:
―Irmão
David, pois que
sou teu padrinho, vou
impor-te o habito de
Mão-negra!
Enfiou-lhe então pelos hombros um habito igual
ao que os outros vestiam, deixando-lhe apenas a cabeça
a descoberto, sem lhe deitar o capuz.
―Tirae a venda, irmão―ordenou o chefe―para
que toda a luz se faça aos vossos olhos!
O mancebo arrancou a venda e ficou maravilhado
e surprehendido ante o estranho quadro que se apresentava
á sua vista.
Os irmãos haviam atirado os capuzes para as costas
e descoberto os rostos, conservando-se, porém, na
mesma attitude severa e hostil, com os florêtes apontados
ao novo irmão.
Passando uma vista curiosa por todos elles, o mancebo
ficou surprehendido de vêr muitos rôstos conhecidos
á volta de si.
O irmão Golias, pegou-lhe na mão e
fêl-o subir os
degraus do throno.
O chefe veio recebel-o a meio, apertou-o nos braços
e osculou-o na testa.
―Bem vindo sejas, irmão, a augmentar a nossa
ala!―disse elle.
A estas palavras, todos os florêtes se abaixaram,
entrando na bainha.
Em seguida tomou-lhe a mão e acompanhou-o até
ao degrau inferior do throno, dizendo:
[22] ―Recebe o abraço de teus irmãos e faze por te
conservares sempre digno d'elles.
Os irmãos que o haviam rodeado com os florêtes
vieram todos um a um abraçál-o e
beijál-o na testa.
―Irmãos!―disse o chefe do alto do throno―vae
reunir o sublime capitulo. Está encerrado o
templo.
As luzes apagaram-se, e os vultos começaram a
sahir pelas differentes portas do recinto, sumindo-se
mysteriosamente sem que alguem pudesse dizer que
caminho levavam.
[23]
II
Amôr e esperança
Deixemos os mysteriosos irmãos da
Mão-negra seguir
o caminho que os havia de reconduzir ao mundo
do qual por algum tempo semelhavam ter-se apartado,
e sigamos o arrojado e corajoso adolescente que
acaba de iniciar-se nos mysterios da terrivel seita.
Paulo, tendo sahido da quinta do Carvalhido em
companhia do seu amigo Jorge, agora convertido em
seu
irmão, regressou
á cidade no mesmo trem que o
conduzira, apeando-se e despedindo-se do companheiro
em uma rua proxima da de Cedofeita.
Eram tres horas da manhã e o vento continuava
soprando rijo da barra, pondo negrumes de tempestade
n'aquella noite desabrida.
O mancebo seguiu pela rua deserta até parar
junto de uma casa de luxuosa apparencia, e que denunciava
pelo exterior severo e pelo amplo jardim
gradeado que lhe ficava contiguo, a opulencia dos
seus habitantes.
Inflou as bochechas e, batendo-lhe com as mãos,
imitou o canto da perdiz.
Era evidentemente um signal, porque
algum
tempo
[24]
depois, uma das janellas do rez do chão, vedada
por grades de ferro, abriu-se manso, e uma voz feminina
disse, tremula e quasi sumida:
―Como vens tarde, meu amigo!
―Beatriz, perdôa, mas um assumpto do mais alto
interesse e de que depende a nossa felicidade futura
impediu-me de vir á hora costumada. Hesitei em vir
despertar-te a esta hora; mas a ideia de que havia
de estar sem te fallar e talvez sem te ver até
amanhã
á noute, obrigou-me a procurar-te, Beatriz.
―Eu esperava-te... Esperava-te, porque tinha
tambem que te dizer... Oh! se soubesses como estou
afflicta!
―Tu! Mas o que te succedeu, anjo da minh'alma?...
―Paulo...―gemeu a meiga voz que fallava do
lado de dentro da grade―não sei como t'o hei de
dizer... meu Deus!
―Falla, Beatriz, falla, pelo nosso amor t'o
peço!―supplicou
o moço―Não me tenhas por mais tempo
n'esta cruel espectativa... Tu choras, tu pareces afflicta...
Meu Deus! o que é que motiva a tua dôr?
Beatriz, cujo vulto mal podemos distinguir na penumbra
do aposento, occultava o rosto entre as mãos
buscando afogar os soluços.
―Paulo,―disse ella―meu pae... quer casar-me!
O mancebo recuou um passo como se lhe tivessem
descarregado uma violenta
pancada
no peito.
―Quer casar-te!―exclamou.―E com quem?
―Com um rapaz que eu mal conheço... um rapaz
que tem vindo duas ou tres vezes de visita a
nossa casa, onde foi apresentado por um dos mais intimos
amigos de meu pae...
―Dize-me o nome d'esse rapaz!―intimou desvairadamente
o moço.
[25] ―Eugenio de Mello―soluçou Beatriz.
―Eugenio de Mello!―repetiu o mancebo.―Esse
nome é completamente estranho para mim. Nunca t'o
ouvi pronunciar.
―Se te digo que apenas veio duas ou tres vezes
de visita a nossa casa, apresentado por um amigo de
meu pae...
―Mas, emfim, como é que surge agora essa ideia
de te casarem com elle? Acaso esse rapaz alguma
vez te manifestou sentimentos de sympathia ou de
amor? Falla-me com franqueza, Beatriz. Comprehendo
que por uma bem entendida delicadeza da tua parte
para comigo, julgasses dever occultar-me os galanteios
d'esse rapaz, se porventura elles te eram indifferentes...
Mas não comprehendo
como
teu pae pudesse
ter a ideia subita de te casar com elle, sem mesmo
tentar indagar se o teu coração não
repelliria um semelhante
enlace.
―Não! juro-te que nunca dos labios d'esse rapaz
ouvi uma palavra que pudesse dar-me a perceber o
mais tenue sentimento de amor por mim. Fóra dos
cumprimentos e ceremoniosas attenções que as
pessoas
de boa sociedade usam ter para com uma senhora, não
se trocaram entre nós quaesquer amabilidades que
justificassem o pensamento d'este enlace que me surprehende!
―É extraordinario! E como é que teu pae pretende
impor-te um casamento em que tu nem sequer
tinhas pensado?
―Sabes que meu pae―volveu Beatriz―habituou-se
a contar com a minha obediencia cega e passiva
em todos os seus desejos, que para mim são
ordens. Muito austero, educou-me sob um regimen
de ferro em que a sua vontade é a unica que predomina...
―Isso, porém, não é rasão
para que elle se julgue
[26]
no direito de sacrificar o teu futuro de mulher
aos seus caprichos de... pae.
―Meu pae ignora que eu te amo, Paulo! Julga
o meu coração desprendido de qualquer affecto e
crê
que não me repugna a ideia de unir o meu destino ao
de um homem que elle julga digno de mim.
―E se de facto te não repugna... obedece-lhe!―bradou
o mancebo n'uma voz estridente em que ia
todo o fel do seu desespero.
―Paulo! És injusto para comigo! Sabes que te
amo, que não posso amar outro homem que não sejas
tu; e quando me vês afflicta, atormentada ao peso da
cruel exigencia de meu pae, em vez de suavisares a
minha dôr, de me animares com o teu conselho a
resistir á fatal imposição que me
é feita, ainda me
torturas mais com esse tom acrimonioso e hostil das
tuas palavras! Não te mereço isso...
As lagrimas da joven interlocutora de Paulo que,
se realmente possue um rosto tão meigo como as suas
palavras, de linhas tão suaves e puras como é
doce o
accento da sua voz, deve de ser uma creatura encantadora,
pareceu abrandar um pouco o irritado animo
do mancebo.
―Mas o que queres tu que te diga, minha querida,
se eu noto que era vez de pensares em repellir
a despotica imposição de teu pae, ainda tentas
desculpal-o?
―Não o desculpo... digo apenas o que elle
pensa.
―Mas que tenho eu que saber o que pensa teu
pae? O que desejo saber é o que pensas tu, minha
querida! O que é que tencionas fazer? Que respondeste
a teu pae? Qual é a tua intenção?
Beatriz pareceu hesitar na resposta.
―Desejava ouvir-te, primeiro, Paulo... desejava
que me dissesses o que devo fazer...
[27] ―Eu?! Pois é a mim que compete dirigir os teus
actos? É a mim que compete dictar a tua resposta?
Consulta o teu coração, Beatriz... Elle que te
responda
e te diga a resolução que deves tomar...
―Paulo! O meu coração diz-me que só a
ti pertenço,
que só a ti eu desejo ter por marido... Mas,
bem vês, quando eu disser a meu pae que te amo, e
que por ti estou decidida a recusar outro qualquer enlace,
por mais vantajoso que se apresente, meu pae
ha de perguntar-me quem és...
―E tu dize-lhe que sou aquelle que julgas que
eu seja. Ou vae tão longe a tua piedade por mim e o
teu despreso por ti que, tendo-me na conta de indigno
do teu amor, assim mesmo m'o concedes?
―Oh! não, não, Paulo!
―N'esse caso, o que receias?
―É que eu julgo-te com o coração; meu
pae,
porém, ha-de julgar-te com a cabeça; e entre o
coração
da filha e o cerebro do pae existe uma distancia
tão grande, que eu receio bem que não possamos
transpôl-a...
―Se essa é a tua convicção e te
faltam forças
para resistir e luctar, submette-te e... adeus! Adeus
para sempre, Beatriz!...
Paulo ia a retirar-se. O animo orgulhoso e altivo
d'este adolescente de 18 annos, que tinha já a energia
e a vontade de ferro de um homem feito, não podia
supportar sem protesto os timidos receios e as
hesitações
offensivas da mulher que adorava.
―Paulo!―tornou a chamar a joven.―Escuta-me!
Que singular prazer tens em me atormentar,
quando eu tanto preciso da tua compaixão e da tua
piedade!
―Fallas-me em tormentos, Beatriz, quando desde
que aqui cheguei outra coisa não tens feito senão
revolver-me
n'um perfeito inferno de torturas! Acabemos
[28]
com isto, e vamos direitos ao fim sem
tergiversações
nem rodeios. Teu pae impôz-te o casamento com
esse... rapaz, que deve ser por força rico, distincto...
amavel, emfim. E tu acceitaste?
―Eu...
―Hesitas na resposta e a tua propria hesitação
me responde: acceitaste e vens dizer-me que está
tudo terminado entre nós...
―Oh, não!―accudiu a joven, com impeto.―Eu
não acceitei nem respondi como desejava. Pedi que
me deixassem reflectir, porque o meu primeiro pensamento
foi ganhar tempo, para poder combinar comtigo
o que devo fazer...
―O que deves fazer não seja eu quem t'o diga.
Teu pae é rico, Beatriz; tu mesma és
já herdeira de
uma avultada fortuna, e eu sou pobre. Separa-nos,
portanto, actualmente um abysmo... Cuidei que poderia
contar comtigo solteira e livre até ao dia, que
não viria longe, em que eu pudesse apresentar-me a
teu pae, a solicitar a tua mão, sem que o pedido revestisse
o caracter humilhante para mim de uma tentativa
de penetrar no sanctuario da riqueza pela
porta do coração de uma mulher. Vejo,
porém, que o
destino quer o contrário; que outro pretendente se
apresenta com menos escrupulos ou mais dinheiro do
que eu, e que da firmeza e constancia do teu amor
nada tenho a esperar, se eu não me resolver a prestar-te
o amparo incompativel com a minha dignidade
de homem e com o programma que me tracei de só a
mim dever o meu triumpho. Paciencia!
―Paulo, tu não me conheces! ou, ―Paulo, tu não me conheces! ou, se me conheces,
estás sendo para mim de uma injustiça que mais
tarde
te ha-de fazer remorsos... Escuta-me, meu amigo,
escuta-me com serenidade e repara bem nas minhas
palavras.
[29]
E Beatriz, com voz tremula de commoção,
principiou
dizendo:
―Não conheces o caracter de meu pae e não admira
por isso que julgues sêr-me coisa facil o contrariar-lhe
os propositos... Eu, porém, que o conheço, que
por elle fui educada e com elle tenho vivido sob o jugo
do seu genio rispido e severo, avalio bem que crueis
amarguras e horriveis tormentos a sua colera me prepara
na lucta que vou ser obrigada a sustentar, recusando-me
a acceitar por esposo o homem que elle me
escolheu. Não me intimida, porém, a perspectiva
do
soffrimento. Morrerei de bom grado na defesa dos sagrados
affectos do meu coração e conservar-me-hei fiel
ao juramento tantas vezes repetido do meu amôr. O
que quero é ter a certeza de que a tua confiança
me
não abandona, Paulo; que quaesquer que sejam as
mudanças que se operem no nosso modo de viver e de
nos relacionarmos―mudanças que eu não posso
prevêr
por emquanto quaes sejam, mas que certamente hão
de sêr as mais dolorosas para o nosso
coração―eu
terei no teu espirito e na tua lembrança o logar a que
o meu amôr me dá direito...
―Beatriz!―exclamou o mancebo―quando se
ama como eu te amo; quando se sente no peito a
chamma ardentissima de um vivo e intenso amor que
de todo nos senhoreia o espirito e nos absorve a existencia,
lucta-se, soffre-se, morre-se, mas não se esquece
jámais o nome d'aquella que nos inspirou tão
fervoroso
culto!
―Pois bem, meu Paulo! É possivel que o destino
nos reserve dias bem sombrios de uma ausencia
crudelissima, que ha-de retalhar-nos o coração e
quasi
volver-nos loucos de desespero. Sejam quaes forem as
circumstancias em que nos encontremos, sejam quaes
forem as apparencias que me condemnem, não
duvidarás
nunca da lealdade do meu affecto como eu não
[30]
duvidarei, jámais da sinceridade da tua alma, não
é
verdade?
―Fazes-me estremecer de receio, Beatriz! Decerto
exaggeras o pavoroso quadro dos nossos infortunios...―disse
o mancebo, pallido de commoção.
―É que tu não conheces meu pae!
―Que poderá elle fazer, se tu recusares tenazmente
esse enlace como uma violencia imposta ao teu
coração? Antes de tudo, tu és sua
filha; e um pae,
por muito severo e rispido que pareça, não se
transforma
por simples capricho no algoz d'aquella a quem
deu o sêr.
―Não sei... não posso dizer-te nada por
emquanto,
senão que tudo espero d'este funesto designio manifestado
por meu pae... Mas seja como fôr, jura-me
que não duvidarás nunca da mim, que has-de sempre
confiar na tua Beatriz como n'aquella que mais te
ama no mundo.
―Juro-te, meu amor, que serás minha e que não
te has-de encontrar só na lucta e no soffrimento. Tenho
amigos―continuou Paulo―amigos poderosos, contra
os quaes não é facil nem prudente luctar... Com
elles
conto como
irmãos e
n'elles espero encontrar o auxilio
de que ambos carecemos. Não te assustes nem te deixes
dominar pelo terror. Hontem, ainda desprotegido,
poderia talvez apavorar-me a ideia da minha fraqueza
contra inimigos tão poderosos como é teu pae;
hoje,
conscio de que os brados intimos do meu coração
ameaçado de morte encontrarão ecco n'outros
corações
que me são dedicados, levanto-me orgulhoso e altivo
do teu amor, e digo-te: «Não succumbas, anjo da
minha alma! Tem confiança em mim, que havemos
de vencer».
O tom de absoluta segurança com que Paulo proferiu
estas palavras pareceu transmittir novo alento
á joven.
[31] ―Luctarei―disse ella―e agora com mais energia,
desde que nas tuas palavras tenho o penhor de
que não será perdido o meu sacrificio. Nada mais
te
pedia e nada mais te peço do que essa confiança
inabalavel
na constancia do meu amor. Ama-me como eu
te amo, Paulo! e d'este sentimento, que é a vida,
hauriremos forças para resistir aos embates de uma sorte
cruel e adversa!
Trocaram-se ainda novas juras e protestos de constancia
e amor sem fim, despedindo-se, e promettendo
tornar a ver-se na noite seguinte.
O leitor, eivado do realismo da epoca, certamente
está sorrindo do córte romanticamente amoroso e
piegas
d'este dialogo dos dois namorados.
Effectivamente, a menina tem a phrase um tanto
brunida e lustrosa das heroinas dos romances d'outras
eras, o que dá um tom de inverosimilhança ao
lance
ingenuamente sentimental.
Mas o romancista, se copía do natural como nós
o estamos fazendo, não tem remedio senão
acingir-se á
verdade e reproduzir os seus personagens com os
aleijões que a natureza, as condições
do meio ou os
acasos do nascimento e da educação lhes
imprimiram
no corpo ou no caracter.
Esta menina, assim romanticamente apaixonada,
exprimindo-se em termos de um antiquado sabor
litterario, não nos está revelando uma assidua e
ingenua
leitora das novellas de Camillo?
Claro está que ella reproduz incorrectamente o
que de peor podia haurir na leitura do genial escriptor―a
emphase, o arredondado do periodo, a declamação
cantante, sem os esmêros da dicção, sem
a impeccavel
belleza e elegancia de fórma do grande Mestre. Mas
o facto é que ella, em assumptos de
coração, não podia
exprimir-se de outra maneira, visto que, como mais
tarde teremos occasião de averiguar, foi nas paginas
[32]
soluçantes do «Amor de
Perdição» que aprendeu a
traduzir as primeiras balbuciações do seu amoroso
coração de creança.
Paulo tambem, pela sua parte, influenciado pelas
mesmas leituras, correspondia-lhe no tom e no gosto
do seu arrasoado. Se, porém, esta linguagem póde
ser
capitulada de falsa, o mais espantoso é que ella exprimia
um sentimento profundamente verdadeiro.
Os dois amavam-se com entranhado ardôr, e isso
é o que mais importa saber ao leitor inimigo de
divagações.
Ponhamos, pois, de parte a preoccupação de
responder
a reparos que a grande maioria certamente
não fará e digamos em poucas palavras o que foi
feito
de Paulo, desde que, cerrada a janella da sua amada,
teve que retirar-se a passos apressados para que a
chuva, que começava a cair em grossas gôtas, o
não
surprehendesse na rua tristemente deserta.
O mancebo era estudante. Tinha completado o
curso do Lyceu e matriculara-se no primeiro anno da
Academia.
O padre Filippe, seu protector e amigo, era quem
se dizia encarregado de lhe fornecer os meios de
subsistencia e de estudo.
Não o tinha, porém, na sua companhia. Incumbira-o
aos cuidados de uma familia honesta, onde era
tratado como filho, e limitara-se apenas a exigir que
o
seu estudante o fosse visitar duas
vezes por semana,
nas quintas e nos domingos, á casa que elle habitava,
na rua Chã.
Paulo não conhecera outra familia, além d'aquella
em casa de quem o hospedaram aos doze annos. Até
ahi, que se lembrasse, fôra alumno interno d'um instituto
religioso, onde umas irmãs piedosas o trataram
com o carinho de mães, ficando-lhe d'esse internato
uma recordação tão saudosa que, ainda
agora, ia a
[33]
meudo visitar a abbadessa, madre Paula, que tinha
no seu coração o primeiro logar.
Recolhendo a casa na manhã d'aquella noite accidentadissima,
o mancebo não pôde dormir.
Agitadissimo, recordando o seu passado, em que
parecia haver um ponto escuro que o mortificava,
Paulo resolveu erguer uma ponta do veu mysterioso
que encobria o seu nascimento.
No dia seguinte, pelas 10 horas, dirigiu-se a casa
do seu protector, e sem mais preambulos, disparou-lhe
esta pergunta á queima roupa:
―Diga-me, padre: quem é meu pae?
O padre Filippe, surprehendido pelo imprevisto
da pergunta, pôz no mancebo os olhos espantados e
ficou-se a consideral-o em silencio por alguns momentos.
―Porque me fazes essa pergunta, Paulo?―disse
por fim.
―Porque sou um homem, porque tenho já dezoito
annos, e desejo saber d'onde venho, para poder destinar
para onde vou, ou para onde devo ir... respondeu
o mancebo com firmeza.
O padre Filippe sorriu bondoso a esta replica do
moço e continuou a olhal-o fixamente.
―Paulo―disse elle afinal―se dizes que és um
homem, como póde influir no teu destino o saberes ou
deixares de saber o nome d'aquelles a quem deves a
existencia? És um homem; e todos os homens devem
ser guiados pelo mesmo sentimento do bem, todos
devem caminhar para o mesmo fim: serem uteis a si
e á humanidade. Creio que o facto de cada um saber
ou ignorar o nome de seus paes nada influe ou nada
deve influir no destino que lhe está traçado.
―Perdão, meu bom amigo!―objectou Paulo―Todo
o homem tem o direito, creio eu, de conhecer a
sua origem, de saber o nome dos seus progenitores,
[34]
não só para os respeitar e bemdizer pelo
beneficio da
vida que lhe concederam, mas ainda para nortear os
seus actos pelas tradições da sua familia. Por
isso insisto
na pergunta: quem é ou quem foi meu pae?
―Teu pae―tornou o padre placidamente e agora
de todo reposto do sobresalto que lhe causára a
pergunta―teu
pae é ou foi um homem. D'isso não te
deve restar duvida, pois que homem te dizes já e
como homem te apresentas.
―Mas não tinha nome esse homem?
―Se o tinha, não chegou nunca ao meu conhecimento.
―Nem o nome de minha mãe?
―Nem o nome de tua mãe.
―Como é, pois, que eu me chamo Paulo de
Noronha?
―Naturalmente porque aquelles que te deram o
sêr assim quizeram que te chamasses.
―Assim quizeram! A quem manifestaram elles
essa vontade? São ainda vivos? Se o são, porque
se
occultam e me não apparecem? Se morreram, porque
motivo deixaram envolto no mysterio o meu nascimento?
―A nenhum filho é licito discutir e muito menos
censurar os actos de seus paes.
―Mas eu não censuro, nem sequer discuto!―obtemperou
Paulo―eu apenas pergunto.
―Ha perguntas que envolvem censura, se não
para aquelles a quem se fazem, pelo menos para
aquelles de quem se fazem... Mas dize-me, Paulo,
que estranha curiosidade é essa que assim te move a
querer saber o que por emquanto deves ignorar?
O mancebo hesitou por alguns instantes e por fim
disse:
―Padre Filippe, permitta-me que lhe falle com
franqueza e lhe exponha as duvidas que ha tempo a
[35]
esta parte me obcecam o espirito e me fazem reflectir
na minha estranha situação...
―Falla, meu amigo, falla!―animou o padre
bondosamente―e crê que, a não sêr madre
Paula,
ninguem no mundo merece tanto como eu a tua
confiança.
―Pois bem!―tornou Paulo―ha muito tempo
que eu dirijo a mim mesmo estas perguntas: Quem
sou eu? De que familia descendo? Como se chamam
ou se chamavam meus paes? Todos os meus condiscipulos
dizem de quem são filhos, todos repetem com
orgulho o nome dos paes ou relembram com saudosa
ternura o nome das mães. Todos dizem: «a minha
casa, a minha familia», só eu não posso
dizer―
meu
pae,
minha
mãe, porque são entes que
não conheço,
de que nunca ouvi fallar, de quem não tenho a menor
noticia. Dar-se-ha caso que eu não tivesse pae, que
não tivesse mãe? Mas então a quem devo
eu a minha
existencia, o amparo e protecção que
até agora tenho
recebido? Sou um orphão? Sou um engeitado? Vivo
e alimento-me do que por direito de nascimento me
pertence, ou recebo a esmola de nobres almas compassivas?
No primeiro caso, se tenho
direitos, reclamo-os,
porque esses direitos impõem-me deveres que
eu quero respeitar e cumprir. No segundo, como sou
já um homem e tenho o braço bastante robusto para
ganhar o pão da existencia, não devo por mais
tempo
acceitar criminosamente a caridade que me trouxe
até aqui e que póde fazer falta a outro
desgraçado
como eu!
―Paulo!―disse o padre Filippe, fundamente
commovido―és ainda muito novo para te preoccupares
com assumptos que, por emquanto, devem permanecer
envoltos no véo do mysterio que os encobre aos teus e
aos meus olhos. Eu nada te posso dizer, filho.
―É então á caridade de vossa
reverendissima e
[36]
de madre Paula que eu devo o pão que até agora me
tem alimentado, não é assim?―perguntou o
mancebo,
extraordinariamente commovido e pallido.
―Não! Não!―atalhou padre Filippe.―Eu recebi
de um meu superior, a quem assisti nos ultimos
instantes, o encargo de velar por ti e de applicar ás
despezas da tua sustentação e
educação a quantia que
mensalmente me é enviada por pessoa que
desconheço
e que já antes a enviava ao santo sacerdote que me
legou este encargo. A mim nada me deves, meu filho,
senão a grande estima que tenho por ti e o grande desejo
que sinto de te vêr conquistar uma
posição digna
e honrosa na sociedade.
Paulo calou-se. As palavras do padre Filippe, repassadas
de suavidade e doçura, impressionaram-n'o
profundamente.
―Estou então condemnado―disse elle, passados
instantes―a ignorar toda a vida o nome de meus
paes?
―E de que te valeria o sabel-o?
―De que me valeria! Valer-me-hia de não ter que
córar diante de quem me interrogar a esse respeito!
Valer-me-hia de não ter que recuar envergonhado e
confundido diante de uma familia honesta que, antes
de me admittir como filho em seu seio, terá que perguntar-me
o nome de meus paes! Valer-me-hia, emfim,
de não me encontrar n'esta horrorosa
situação de não
saber quem sou, se o portador legal de um nome honrado,
se o vil e abjecto fructo de uma acção indigna,
de um amor bestial e criminoso!
Ouvindo esta retumbante tirada do moço, o padre
Filippe sorriu ainda amoravel e observou-lhe:
―Os tempos mudaram e com elles a orientação da
sociedade moderna, meu Paulo. Já nenhum homem se
impõe hoje pela familia, pelas
tradições dos seus antepassados,
pelas chimericas e phantasticas illusões de
[37]
uma arvore geneologica, bracejando vergonteas e rebentões
inuteis pelos seculos fóra. Nenhum homem vale
hoje pelo que valeram seus paes e seus avós... Hoje,
cada um vale por si, pelos seus merecimentos proprios,
pelas nobres qualidades do seu caracter, pelas brilhantes
manifestações da sua intelligencia. A tendencia
democratica
dos nossos tempos de ha muito que pôz de
parte as falsas convenções de uma sociedade que
se
desmoronou...
―Mas não pôz de parte, creio eu, os dictames da
honra!―retorquiu o mancebo.
―Decerto. E alguem te impede de te affirmares
sempre um homem honrado, Paulo? A honra está
nos nossos actos, está no uso que fazemos das faculdades
com que a natureza nos dotou, está na firmeza
e altivez com que, através de todas as vicissitudes,
cumprimos intemeratamente o nosso dever; não está
nos acasos do nascimento, nos brios de passados avoengos,
nos appellidos pomposos dos que nos deram o sêr.
Faze, pois, por merecer a estima e o respeito dos teus
concidadãos, Paulo, e não te preoccupe a ideia de
não
saberes de quem vens. Basta que apenas conheças
para onde vaes e sigas sem tergiversar a linha do
dever.
O mancebo guardou silencio por alguns instantes.
―É, pois, um mysterio impenetravel o meu
nascimento? Mas com que direito se me occulta o nome
de meus paes? Com que direito me condemnam a esta
lucta permanente comigo mesmo, sem saber se o que
me dão o devo receber como meu, se o devo considerar
como uma esmola?
―Paulo! Por duas vezes já, desde que aqui entraste,
proferiste a palavra
esmola. As
esmolas dão-se
aos desgraçados, aos invalidos, aos que se encontram
impossibilitados de, por esforço proprio, provêrem
aos
meios de subsistencia. Tu não estás n'esse caso.
Quando
[38]
muito, o que recebes de mão ignota que não
precisas
conhecer, é um adiantamento, uma divida que
contrahes e que te será facil solvêr,
correspondendo
dignamente ás esperanças que em ti depositaram os
que quizeram fazer-te um bom cidadão, um homem
util a ti e aos teus semelhantes. E sobre isto, meu
amigo, creio que temos fallado bastante. Dize-me―continuou
o padre Filippe―tens ido visitar madre
Paula?
―Ha mais de quinze dias que a não vejo.
―És ingrato, Paulo! A pobre senhora deve ter
estranhado a falta da tua visita... Como é que
pódes
esquecer assim por tanto tempo quem tantas provas
de carinhoso affecto te tem dado?
―Padre―disse Paulo, ruborisado―eu não esqueço,
nem poderei esquecer nunca quanto devo a essa
bondosa e santa senhora, que tem tido para mim desvelos
e ternuras de... de mãe. Na minha vida, porém,
começam a surgir tão imprevistas luctas,
incidentes
de tal modo inquietadores, que não sei se deva
perturbar com a minha presença o suave remanso
d'aquella existencia para mim tão cara!
―Luctas imprevistas, incidentes inquietadores...―O
que é isso, Paulo? Falla-me com franqueza, dize-me
tudo, rapaz! O que é que te acontece de estranho
e de ameaçador? Não te esqueças de que
deves
considerar-me o teu primeiro e mais sincero amigo,
meu filho! Creio que tenho direito á tua
confiança...
Ou não?
―Respeito-o muito, meu padre, para vir importunal-o
com assumptos que lhe parecerão talvez pueris...
―Bem sei!... Negocios do coração... Temos
amores no caso... São os primeiros rebates da virilidade
no coração de um adolescente. Vamos! quem
é
a tua Virginia, meu Paulo?―perguntou jovialmente
o sacerdote.
[39] ―A minha Virginia―disse o mancebo, com enthusiasmo―chama-se
Beatriz, e não é menos formosa
nem menos adoravel do que a immortal inspiradora
do Dante.
―Bravo!―exclamou rindo o padre Filippe.―Temos,
pois, em perspectiva uma
comedia
divina, para
fazer confronto com a
Divina
Comedia...
―Se não tivermos antes um drama extraordinario,
até agora inédito na historia dos soffrimentos
humanos...
O padre encarou-o gravemente.
―Fallas serio, Paulo?
―Tão serio que me atrevi a vir interrogal-o, padre
Filippe, sobre a historia do meu nascimento.
―Ah! era por isso que vinhas assim n'essa ancia,
pedir-me a chave do enygma da tua existencia? Eu
devia tel-o adivinhado... Só as mulheres são
curiosas
por indole...
―Não, não!―atalhou Paulo.―A mulher que
eu amo ainda não me fez a menor pergunta que me
difficultasse a resposta. Eu, porém, é que desejo
saber
quem sou para saber o que posso offerecer-lhe.
―Pois não é sufficiente o
coração do homem que
ama para a mulher amada?
―Padre, a mulher que eu amo não é livre; tem
pae, que se julga com direito a intervir no seu destino
e a impedir que sua filha busque a alliança de
um homem de origem... desconhecida.
―Foi essa menina quem t'o disse?
―Disse-m'o a minha propria razão.
―Queres um conselho, Paulo?―perguntou inopinadamente
o padre Filippe.
―Os conselhos de vossa reverendissima são para
mim leis sabias e justas, que eu não posso deixar de
acatar com o respeito e gratidão que lhe devo.
―Pois bem; refreia os impetos da tua paixão por
[40]
essa menina e busca antes de tudo fazer-te digno do
seu amor.
―Já o sou.
―Pelos dotes do coração, concordo, mas
não pela
posição social alcançada. O primeiro
que o pae d'essa
menina ha-de perguntar-te, quando souber que lhe
pretendes a mão da filha, é com que recursos
contas
para proporcionares a tua mulher a felicidade e o
bem estar a que ella tem direito. Quererá saber que
posição é a tua, que
profissão exerces ou de que meios
de fortuna dispões para poderes dignamente apresental-a
na sociedade ao respeito e á
consideração das
pessoas de bem. E comprehendes, meu Paulo, que a
taes perguntas não se responde com uma certidão
de
baptismo que nos dá avós illustres de quem
não herdámos
um palmo de terra onde cahir mortos, nem
com a reedição apaixonada dos mil juramentos de
amor
constante que enviamos á filha em perfumadas cartinhas
que lá estão, em maço, amarradas com
fita de
seda...
O mancebo não pôde deixar de sorrir a estas
palavras
do padre Filippe, que denunciavam um profundo
conhecedor da arte do galanteio.
―Os paes não se contentam com tão pouco, exigem
mais alguma coisa―continuou o sacerdote―Ora
esse
mais alguma coisa é
que está na tua mão
offerecer-lh'o, Paulo. Conquista pelo estudo e pelo trabalho
honesto uma posição que te nobilite aos olhos do
mundo; engrandece-te a ti proprio, torna-te homem;
e quando a tua consciencia te disser que não és
inferior
á mulher que amas, vae pedil-a e não receies que
o pae te não encontre bastante nobilitado para entrares
na sua familia.
―Mas o pae de Beatriz quer casal-a com outro!―exclamou
o mancebo, dando largas ao desespero
que lhe ia na alma.
[41] ―O pae d'essa menina sabe que ella te ama?
―Não sabe.
―É, pois, natural que, julgando o
coração da
filha desligado de qualquer affeição, pense em
lhe
proporcionar um enlace que lhe parece vantajoso. Todos
os paes pensam no futuro de suas filhas e esse não
o seria, se desdissesse da regra geral. Mas d'ahi a violentar-lhe
o coração e a impor-lhe á
força um casamento
que ella rejeita, vae uma distancia enorme. Se
essa menina te ama sinceramente, como dizes, recusará
o consorcio que o pae lhe proporciona, allegando motivo
que para todos os paes deve ser sagrado―a ausencia
absoluta de sympathia pelo noivo proposto. Se,
pelo contrario, o sentimento que diz nutrir por ti
não é tão vivo e intenso que lhe
permitta a recusa,
casar-se-ha, e com o facto só tu tens a lucrar, pois
que assim te livras do escolho de vires a possuir por
companheira uma creatura incapaz de corresponder ás
nobres aspirações da tua alma. Não
creio, pois, que
isso seja contrariedade de maior, que te dê motivos
para os sobresaltos e inquietações que revelas.
Vae
visitar madre Paula, meu rapaz... Conta-lhe os
segredos da tua alma, nada lhe occultes, e verás como
nas suas palavras e conselhos has-de encontrar o socego
e quietação que precisas... Isto não
é desviar
de mim o encargo de te guiar e dirigir no accidentado
caminho a que o coração te propelle―accrescentou
o
padre―Mas é que as mulheres, em questões do
coração,
teem mais auctoridade, são mais profundamente
conhecedoras da mysteriosa sciencia do sentimento
alheio, e teem sobretudo um poder de persuasão que a
nós outros os homens nos fallece. Procura madre Paula,
conta-lhe tudo, escuta as suas palavras e verás
que has-de sentir-te bem, meu filho.
―Procural-a-hei―disse Paulo―mas creio bem
que não poderá aconselhar-me melhor do que vossa
[42]
reverendissima acaba de o fazer; nem as palavras da
santa e virtuosa senhora poderão trazer mais funda
ao meu espirito a convicção que vossa
reverendissima
me deu de que preciso engrandecer-me, fazer-me
homem
para conquistar a posse da mulher que amo!
―Folgo de ver que comprehendeste bem o intuito
das minhas palavras, Paulo. Crê que ninguem mais
do que eu deseja a tua felicidade e o teu bem estar.
Se fosses meu filho, não te aconselharia de modo differente
nem desejaria com mais ardor ver-te ascender
a uma posição culminante. D'isso pódes
estar certo.
―Trabalharei e empregarei todos os esforços para
realisar os desejos de vossa reverendissima―que são
tambem os meus.
―E conseguil-o-has, porque és intelligente, és
energico, e revelas nobreza de caracter. Com taes
predicados, só não alcança uma
posição distincta na
sociedade quem não quer.
Agora, reanimado pela esperança que as palavras
do padre Filippe lhe incutiram, o mancebo despediu-se
do seu protector, mais que nunca resolvido a encetar
a lucta pela vida e pelo triumpho completo das nobres
aspirações do seu amoroso
coração de rapaz.
III
Pae e filha
Emquanto o
pupillo do padre
Filippe e de madre
Paula busca a maneira de realisar os dourados sonhos
da sua imaginação juvenil, queira o leitor
acompanhar-nos
a casa do pae de Beatriz e travar conhecimento
com o sombrio progenitor da encantadora
menina.
Não tendo nós os mesmos motivos de Paulo para
occultar do pae as relações com a filha, justo
é que
busquemos o conhecimento de ambos e entremos na
intimidade dos dois para melhor podermos avaliar o
caracter de cada um e apreciar os acontecimentos que
vão desenrolar-se aos nossos olhos.
Á hora a que entramos, está o sr. Custodio de
Jesus
sentado á secretária do seu gabinete, fazendo
contas e archivando documentos que parece lhe são
muito uteis, pela attenção e minuciosidade com
que os
examina e pelo cuidado com que em seguida os guarda
emmaçados e rodeados de uma larga cinta de papel
branco, em que se lê n'uma excellente letra garrafal,
a palavra―
Hypothecas.
―Estas bem estão―murmura elle coçando
distrahidamente
[44]
com a mão direita a vasta suissa grisalha,
talhada em fórma de foucinha e franzindo o labio superior
completamente rapado á navalha, talvez para
facilitar a passagem do meio grosso destillado e liquifeito
em repetidas pitadas nas profundezas insondaveis
de um nariz que exteriormente apresenta a
configuração
e o aspecto de um capacete de alambique―Estas
bem estão... O peor são as outras...
Passou a examinar segundo maço, mostrando no
rosto evidentes signaes de mau humor.
―Aqui está!―disse elle, batendo com a mão
espalmada
sobre os papeis―Mais de cincoenta contos
em hypothecas que não pagam ha um anno um real
de juro! Ladrões! E agora são capazes de ainda
vir
fazer questão para juizo e arranjar-me a tramoia de
modo que eu não fique com as propriedades pelo
preço
da louvação...
Como correspondendo a estas reflexões, que accusavam
no sr. Custodio de Jesus um agiota costumado
a perseguir as suas victimas até as espoliar em
leilão,
nos tribunaes, abriu-se a porta do escriptorio e
entrou por ella um homem alto, espadaudo, porém
excessivamente magro, usando uma comprida barba
que quasi lhe chegava á cintura e que lhe dava á
physionomia um aspecto carregado, ameaçador, capaz
de apavorar o mais remisso devedor, o mais teimoso dos
litigantes.
Este homem entrou como pessoa intima na casa,
cerrou a porta sobre si, dirigiu-se a uma cadeira que
estava devoluta junto da secretária, e sentou-se sem
mesmo se dar ao incommodo de tirar o chapéo que
lhe ensombrava o barbudo rosto.
Ao vêl-o, o sr. Custodio de Jesus teve um sorriso
de intimo contentamento e exclamou:
―Estava agora mesmo a pensar em você, amigo
Belchior!
[45] ―Aqui me tem. Os amigos lembram sempre na
occasião... Não vim mais cedo porque tive de ir
ao
tribunal requerer um arresto... E amanhã tenho outro...
Isto é um nunca acabar de caloteiros, que só
gostam de comer e não pagar! Mas aquelle que me
cahe nas unhas e tem por onde pagar, amola-se! Deixo-o
expremido que nem um limão.
―É o que eu preciso que se faça a estes
tratantes
que aqui estão com o juro por pagar!―exclamou
o sr. Custodio de Jesus, apontando para as escripturas
que tinha diante de si.
―Não se afflija, que isso é negocio de pouca
demora...
Qualquer dia tratamos d'isso. Sabe ao que eu
cá venho?
―Você o dirá, amigo Belchior.
―O rapaz, pelas informações que tenho d'elle, e
um partidão!
―Sim?
―Não imagina! É mesmo mais rico do que eu
supunha... O melhor que temos a fazer é não
perder
tempo e tratarmos de aferventar isto quanto antes.
―Você bem sabe que o caso não é para
pressas,
amigo Belchior... Eu mesmo tenho receio do rapaz...
Diz você que elle tem uma grande fortuna, e eu mesmo
não duvido que assim seja, mas quem é que me
assegura que elle não tem a maior parte dos haveres
compromettidos, ou que não possa vir a compromettel-os?
―Quanto á primeira hypothese, posso affirmar-lhe
que o rapaz tem sido estroina, tem gasto em passeios,
em ceias com as actrizes, tem finalmente pago
o seu tributo á mo ―Quanto á primeira hypothese, posso affirmar-lhe
que o rapaz tem sido estroina, tem gasto em passeios,
em ceias com as actrizes, tem finalmente pago
o seu tributo á mocidade... Mas todas essas rapaziadas
não teem desfalcado o rendimento, que é grande...
Quanto á segunda hypothese, é provavel que elle,
depois de casar com sua filha, mude de feitio e comece
[46]
a portar-se como homem sério... Mas se o não
fôr,
tanto melhor...
―Tanto melhor, como?―interrogou o sr. Custodio
de Jesus, indignado.―Então é melhor que minha
filha case com um valdevinos, um dissipador, um extravagante?
Bonita moral a sua, seu Belchior! Pois eu,
meu amigo, desde já lhe declaro que o que tenho me
custou muito a ganhar, e não é para o
vêr dissipado
em patuscadas e ceias ás actrizes!
―O meu amigo Custodio de Jesus saberá muito bem
como é que se ganha dinheiro, como se descontam
letras e se empresta a juro sobre hypotheca; mas o
que não sabe é nada de jurisprudencia―disse o
Belchior com emphase.―É preciso que o meu amigo
se lembre de que sou solicitador ha mais de vinte e
cinco annos, e que, durante todo este tempo, tenho
adquirido conhecimentos que me habilitam a segurar
o que é meu e o que é dos meus constituintes...
―Não digo que não, mas essa theoria, com
franqueza,
não me agrada... Lá que o rapaz tenha tido
estroinices, emfim, não é bom precedente, mas
desde
que elle ainda possue uma casa grande, de vasto rendimento,
tudo se lhe póde perdoar e esquecer com a
condição de mudar de vida e de costumes
dissipadores,
logo que ligue o seu destino ao de minha filha.
Mas agora achar melhor que elle continue nas suas
dissipações e loucuras, do que se emende e seja
um
bom marido, isso é que me não entra
cá!
―É o que eu digo!―volveu o procurador com
desdem―não sabem nada da lei e mettem-se a discutir
com quem conhece a letra dos codigos!
―Os codigos, amigo Belchior, pódem dizer o que
quizerem, mas o que elles não pódem é
metter-me em
cabeça que um marido estroina é muito melhor do
que
um marido economico, morigerado e amante de sua
mulher.
[47] ―É porque o amigo e sr. Custodio de Jesus―respondeu
o procurador, formalisado―não sabe que
a lei faculta uma acção de
interdicção contra o marido
prodigo, e confere a administração do casal a uma
ou mais pessoas de familia.
O Custodio de Jesus arregalou os olhos, espantado.
―O quê? O que é isso? Explique lá,
homem, que
eu não percebi bem.
―Não tem que explicar. Não se fazem escripturas,
de modo que a noiva tem a meação nos haveres
de seu marido, como o marido a tem nos haveres da
mulher. Ora a administração do casal pertence de
facto e por lei ao marido; mas se este, em vez de
administrar parcimoniosamente, se entrega a
dissipações
e patuscadas escandalosas, á mulher assiste o direito
de requerer a interdicção do marido e
pôr-lhe
uma tutela que, n'este caso, poderia muito bem ser
exercida pelo meu amigo o sr. Custodio de Jesus...
Ora percebe agora a razão por que eu digo que mais
valerá que elle continue a affirmar-se um estroina, um
dissipador de marca?
―Realmente você, amigo Belchior, é uma cabecinha
privilegiada! exclamou enthusiasmado o pae de
Beatriz.―Porque não estudou você para doutor?
O procurador sorriu com bonhomia e encolheu os
hombros com despreso:
―Não me faz falta―disse.―Conheço
tão bem
a lei como aquelles que fôram a Coimbra. Por isso lhe
digo, não deixe perder esta bella occasião de
apanhar
uma fortuna, que decerto lhe não voltará
tão cedo a
bater á porta outra igual... Case a pequena quanto
antes com o doidivanas que se lhe offerece, e deixe o
caso por minha conta.
―Eu já disse á minha Beatriz que fazia muito
gosto em que ella acceitasse por marido este rapaz...
[48] ―E ella, o que respondeu?
―Como o meu amigo póde bem avaliar, minha
filha, que até agora não tem pensado em
casamento,
caiu das nuvens quando lhe fallei em casar.
―Mas manifestou repugnancia em acceitar o marido
que se lhe propõe?
―Ella pediu-me que a deixasse pensar na resposta...
Emfim... deseja consultar o seu coração, e isso
não se lhe póde levar a mal...
―Bem! Mas supponha que ella recusa...?
―Que motivo terá para recusar quando sabe que
a minha vontade é que este casamento se faça e
quando
o noivo é realmente uma bella figura, capaz de
captar as sympathias da menina mais exigente?
―Mas supponhamos que recusa!―Insistiu ainda o
procurador.
―Não posso suppôr tal cousa, porque
não estou
habituado a que, em minha casa, alguem tenha vontade
differente da minha.
―Nas pequenas questões da vida domestica, d'accordo...
eu creio que o meu amigo tenha sido e continuará
a ser completamente obedecido... Mas n'este
caso talvez não encontre a mesma cega obediencia que
suppõe...
―Por que?
―Porque as mulheres, quando encarreiram as suas
affeições para um lado, não ha diabo
que as faça voltar
para outro, amigo e sr. Custodio...
―O que quer dizer com isso, amigo Belchior?
―Quero dizer que se a Beatrizita já tem por ahi
namoro que lhe faça andar a cabeça á
roda, ao meu
amigo não lhe será tão facil como
julga o fazer que
ella obedeça á sua vontade...
―Namoro! A minha Beatriz é uma creança de
dezeseis annos e não pensa n'essas tolices!―protestou
o sr. Custodio de Jesus encrespando o sobr'olho.―Isso
[49]
é bom para aquellas raparigas que são
educadas
á redea solta e que não teem paes que lhes saibam
dar
educação... Namoro! Eu admittia lá que
uma filha
minha tivesse namoro!
―As filhas nunca pedem licença aos paes para
essas coisas...―commentou o outro.
―As filhas que não respeitam os paes ou que não
teem paes que se façam respeitar, d'accordo. Mas em
minha casa não se dá isso...
―E se se desse?
―Se se desse! Você sabe alguma coisa, Belchior?
―Se se desse, é o que eu pergunto?―retorquiu
o procurador com um sorriso mysterioso.
―Se se desse, ia ahi tudo com seiscentos diabos!
Fechava a rapariga n'um quarto, que não tornava a
vêr sol nem lua, emquanto não fosse á
egreja casar
com quem eu dissesse!―bramiu o sr. Custodio de
Jesus, assentando furioso murro sobre as escripturas
das hypothecas em divida.―Mas você sabe alguma
coisa? Homem, seja franco!
―Pois então fique o amigo Custodio sabendo que
temos moiro na costa e que a pequena... mas você
não vá agora fazer asneira... estas coisas
levam-se
com prudencia...
―Diga, diga, homem!―insistiu o capitalista
afflicto.―Sabe que a minha filha...
―Tem um namoro. E então? É a coisa mais natural
d'este mundo.
―Você falla serio?
―Não costumo brincar com coisas d'estas. Quando
eu lhe digo que sua filha se corresponde com um
rapaz a quem vae fallar da janella para a rua todas
as noites, é porque tenho d'isso a certeza.
Custodio de Jesus levantou-se de um salto como
mordido da tarantula.
―Você não me repita isso nem a brincar!―bramiu
[50]
elle―porque eu vou-me áquella desavergonhada
e racho-a!
―Mau! assim não fazemos nada!―reprehendeu
o procurador―Aqui o que convem é saber o que se
passa e tratar de encaminhar as coisas de modo que
o projectado casamento com o nosso rapaz se realise
o mais breve possivel...
―Mas quem é, quem é esse outro que ella namora?
―É um estudantito... um rapaselho.
―Rico?―interrogou o Custodio arregalando os
olhos.
O procurador soltou uma gargalhada.
―Você, amigo Custodio, cuida que os rapazes
ricos andam por ahi aos pontapés! Isto hoje é
tudo
uma pelintrice, você bem o sabe... Quando apparece
um como o Eugenio, é um milagre! Porisso é que eu
digo: vamos a deitar a unha a este, porque se o deixamos
escapar não apparece outro tão cedo...
O Custodio de Jesus passeava agitado pelo aposento,
quasi sem prestar attenção ás palavras
do procurador.
―Mulheres! Raça maldita! Nasceram só para
enganar!―blasphemava elle―Até esta, de 16 annos,
creada com todo o recato, longe das sociedades,
retirada das más companhias, até esta, que
parecia
uma innocente, me sae á ultima hora a corresponder-se
com um namoro, sem que eu, que sou pae e
ando sempre com mil cuidados e cautelas a vigiar-lhe
os menores movimentos, tenha dado por isso!
―Amigo Custodio―obtemperou o procurador―não
vale a pena affligir... Não é caso de morte de
homem ou casa queimada... Que diabo! eu disse
isto porque entendo que a você, como pae, convem
saber o que se passa para saber como ha de proceder...
[51] ―Como hei de proceder sei eu!―rugiu colerico
o pae de Beatriz―Ponho-a de pé descalço a fazer
o
serviço da casa, a varrer, a lavar a louça, a
cosinhar,
para lhe tirar o vicio! Se tem sentimentos de criada
de servir, que seja criada de servir em tudo!
―Homem, eu desconheço-o!―reprehendeu severo
o Belchior―Tinha-o na conta de um homem de
juizo, um homem prudente que sabe o que lhe convem
e que respeita os seus interesses, e você sae-me a
querer fazer tolices e disparates que não lembram a
ninguem!
―É que você não sabe o odio que eu
tenho ás
mulheres!―explicou o Custodio―Esta filha veio
para meu castigo!
―Não veio para seu castigo nada! Apparece-lhe
um casamento bom para ella, um casamento de primeira
ordem? Aproveite-o, trate de a casar por bem
ou por mal... isso sim, senhor! Mas agora romper
no excesso de a pôr a fazer de servilheta, isso é
dar
murros em si proprio, amigo Custodio. Ora imagine
que você faz isso, e a pequena desesperada lhe foge...
E depois? Você desherdal-a não póde,
porque ella é
sua filha. Além d'isso; já não tem
mãe e mais tarde ou
mais cedo tem que entrar na posse da herança materna...
Homem, prudencia!... levemos as coisas
por bem, que é melhor...
―Tem razão!―concordou por fim o Custodio―Mas
olhe que é para um homem arreliar! Não ha
ninguem mais infeliz com as mulheres do que eu!―desabafou
com o desespero de quem tocou a méta do
soffrimento―Eu fui casado duas vezes... A primeira
mulher, a Carlota, sahiu-me uma bebeda, uma
desavergonhada que toda a vida me atraiçoou com um
padre em quem eu tinha toda a confiança e que até
por ultimo me roubou, levando-me tudo, deixando-me
a pedir uma esmola!... Veja lá você! Eu era um
[52]
bolas que não sabia nada do mundo, via Deus no
céo
e a mulher na terra, tudo o que ella dizia era o que se
fazia, e afinal o pago que me deu foi aquelle! Tambem
a levou o diabo, que lá se envenenou em Lisboa, e
tão
infame que até á hora da morte deixou um bilhete
a dizer
que se matava por minha causa! Isso foi uma coisa
muito fallada, até andou nas gazetas...
―Espere lá!... D. Carlota? Tenho ideia de lêr
isso...
―Foi ha dezoito annos...
―Sim... ha de haver esse tempo, ha de...
―Pois, meu amigo, o ladrão do padre arranjou-me
uma tramoia de umas letras que eu acceitei a
um outro maroto como elle, um tal João Ignacio...
―Bem sei! Conheço perfeitamente. Esse homem
tambem parece que deu com tudo á costa. Até
esteve
doido, e a sua mania é que tinha sido roubado por um
padre...
―Era o mesmo... o padre Anselmo! Um ladrão,
um malandro com capa de santo, que foi a minha
desgraça! Se não fosse elle metter-se-me com a
mulher
e roubar-me tudo, eu tinha a estas horas mais de
quatrocentos contos!
―Vamos lá!―observou sorrindo o procurador―Parece
que ainda lhe não levou tudo, porque você,
amigo Custodio, está possuidor de capitaes muito avultados.
―Á custa de muito trabalho e depois do segundo
casamento para cá―explicou o Custodio.
―Não sei como você, depois de ser tão
infeliz
com a primeira mulher, ainda caiu em casar segunda
vez.
―Que remedio tive eu! Não foi por minha vontade,
não... Mas eu fiquei, como o outro que diz, sem ―Que remedio tive eu! Não foi por minha vontade,
não... Mas eu fiquei, como o outro que diz, sem
eira nem beira nem ramo do figueira. Appareceu-me
uma mulher que tinha ido em nova para o Brazil e
[53]
que por lá arranjou uns contos de reis e esta filha
com que voltou a Braga...
―Ah! então Beatriz...
―Não é minha filha, mas eu perfilhei-a no acto
de casar com a mãe, e ahi é que eu quero
chegar...
A bebeda, a grande desavergonhada enganou-me!
―Enganou-o... quem?
―A minha segunda mulher. Disse-me que trazia
para cima de cincoenta contos, e afinal vae-se a vêr,
entre joias, dinheiro e papeis, pouco passava de vinte!
―Está feito!
―Está feito, diz você! Mas eu perfilhei-lhe a
filha,
tenho trabalhado como um burro, aturei-a a ella
até á hora da morte―que ella vinha arruinada da
saude, escangalhada, um caco velho em summa―tive
de sahir de Braga, porque lá toda a gente lhe sabia
a vida e era uma vergonha, e agora, depois de
tudo isto, ainda não sou senhor de deixar o que é
meu
a quem eu quizer, porque para todos os effeitos esta
rapariga é que é a minha herdeira.
―Por esse lado, tem o meu amigo razão―concordou
o procurador―mas tambem, se não tem parentes
ou outra pessoa que melhor lh'o mereça, pouco
desarranjo lhe póde fazer... O amigo para a cova
não o póde levar...
―Mas podia deixal-o ás Ordens ou a quem eu
muito bem quizesse!―recalcitrou o Custodio, indignado.
―As Ordens não lh'o agradeciam melhor do que
esta pequena...―philosophou scepticamente o Belchior,
com um sorriso desdenhoso.―Não havia Ordem
nenhuma que fosse capaz de lhe metter em casa uma
fortuna como a que ella lhe traz pela porta dentro, se
casar com o Eugenio de Mello...
―Fortuna... para ella!
―E você não é pae? E sendo pae,
não fica sendo
[54]
sogro do rapaz? E sendo sogro do rapaz, desde o momento
em que elle não dê carreira direita não
lhe vem
a administração do casal parar ás
unhas?
―Isso ainda está em
vêl-o-hemos... Se o rapaz
ganhar
juizo...
―Se ganhar juizo, faz-se-lhe perder... A questão
é que você queira...
―Mas faz-se-lhe perder como? Como é que eu
hei-de querer?―perguntou o Custodio de Jesus, arregalando
os olhos, sem comprehender.
―Homem! o rapaz é estroina, a doidice está-lhe
na massa do sangue... E os estroinas são como os
alcoolicos, a quem os medicos dizem que morrem se
continuarem a beber... Emendam-se, fazem um grande
esforço para se habituarem á agua, mas se um dia
entram n'uma patuscada e vêem uma garrafa que
lhes desperta o appetite, perdem o mêdo atiram-se a
ella, bebem e morrem victimas do vicio que o instincto
da conservação não foi sufficiente
para debelar.
Ora o rapaz está n'este caso. Ha-de querer portar-se
bem, emendar-se, ser um homem exemplar,
mas, se lhe apparecer um amigo que o leve a uma
ceia e lhe mostre uma actrizita com um palmo de cara
regular, não tenha você mêdo que elle
ahi
irá de
vento em pôpa pelo caminho da
dissipação e da prodigalidade,
e então é que é dar-lhe o golpe de
misericordia... Percebe-me agora?
O Custodio, maravilhado, contemplava aquelle patife
que tinha sobre elle a enorme vantagem de conhecer
os
escaninhos da lei, segundo a
phrase pittorêsca
do procurador.
―Você―disse elle por fim, encarando sorridente
o Belchior―é dos de estrella e bêta e
pé calçado!
―Meu amigo, um homem tem obrigação de
não
ser tôlo, de não andar no mundo por vêr
andar os
[55]
mais... As patifarias da vida é que põem um homem
fino...
―Você havia de me ter apparecido em Braga,
aqui ha vinte annos antes... Não era comsigo que o
ladrão do padre Anselmo mettia dente... E você
não
me tinha deixado roubar!
―Estava bem arranjado o padreca! Que viesse
para cá... Comigo nem elle nem o mais pintado fazia
farinha!―blasonou basofiento o procurador.―Tenho
dado com elles d'aqui... detrás da orelha; mas eu
atiro-lhes para a caveira com as baldas certas e elles
veem buscar lã mas vão tosquiados!
O Custodio suspirou:
―Aquelle ladrão!―exclamou n'um surdo
rancôr―roubou-me
por eu o não conhecer a você!
―Meu amigo, com aguas passadas não móem
moinhos... O que não tem remedio remediado
está...
Agora vamos a vêr mas é se se trata de arranjar
outro...
Disponha as coisas de modo que o casamento
se faça quanto antes, porque a fatia é boa e
não se
póde perder...
―A rapariga casa. Por bem ou por mal, que remedio
tem ella senão obedecer-me e fazer o que eu
disser!
―Se ella estiver deveras encarriçada com o tal
franganote, ha de custar-lhe a resolvêl-a...
―Por isso não seja a duvida... A questão
é saber
se o negocio convem...
O procurador assobiou, acompanhando o assobio
com repetidos estalos produzidos pelos dedos maioral
e pollegar.
―Se convem!―disse elle―É uma pechincha!
É um negocio de costa acima! Queira elle noventa
contos pela casa, que eu pago-lhe as dividas todas e
ainda metto para cima de cincoenta no bolso. É um
casão!
[56] ―Bom! pois então fique descançado, que a
rapariga
eu cá me encarrego de a domesticar...
―Mas veja lá; você não lhe falle no
namoro, que
é peor...―aconselhou o procurador.
―Nem palavra! Para lhe fallar n'elle, tinha de
lhe partir os ossos... Nada! eu resolvi ir cá por outro
caminho...
―E se fôr preciso que o rapaz appareça para lhe
fazer o seu pé de alferes...
―Por ora não... Deixe estar, deixe vêr como as
coisas se preparam...
―Arranje lá... E adeus, que devo ter lá em casa
os constituintes á espera.
Despediu-se, estendendo dois dêdos protectores ao
Custodio.
―Mas você apparece por cá?―disse o pae de
Beatriz, apertando e retendo na mão os dedos do Belchior.
―Sim, amanhã...
E dirigiu-se para a porta.
―Olhe lá: você vá dando
esperanças ao rapaz, hein?
―Não tem duvida... Disponha você a pequena.
Mal que o procurador sahiu, o Custodio subiu ao
andar superior e chamou a filha.
Beatriz era uma d'estas creaturas franzinas, delicadas,
doceis e submissas por indole e por temperamento,
na apparencia faceis de dominar, mas que, depois
de terem tomado uma resolução, primeiro se
deixarão matar do que render-se. Alta, elegante, cabellos
e olhos castanhos, tez clara, faces rosadas, o seu
gracioso vulto, de uma distincção rara, captivava
pela
belleza e impunha respeito pelo suave perfume de innocencia
e bondade que respirava.
Quando o pae a chamou, a pobre menina appareceu
tremula, como se o coração lhe presagiasse a
tortura
que a esperava.
[57] ―Aqui estou, meu pae―disse ella.
O sr. Custodio ameigou a voz, contra o seu costume,
e, contrafazendo o semblante n'um risinho agradavel,
chamou a filha para o pe de si, fel-a sentar ao seu
lado, e perguntou-lhe:
―Então, já pensaste no casamento em que te
fallei,
minha filha?
―Já, meu pae... já pensei...―tartamudeou a
pobre pequena, commovida.
―E decidiste acceitar o partido que se te offerece,
não é assim?
―Não, meu pae...
―Não?!―exclamou o sr. Custodio, fingindo-se
surprehendido e mudando rapidamente d'aspecto.―E
porque?
―Porque não me sinto ainda com
disposição para
casar...
―Não te sentes com disposição! Essa
é bôa! Mas
para casar ninguem está á espera de
disposição...
Aproveita-se o noivo quando apparece, e a
disposição
vem depois...
―Eu não poderia unir-me a um homem por quem
o meu coração não sentisse a menor
sympathia...
―Sympathia!―bramiu o sr. Custodio furioso,
dando largas ao seu desespero.―Que vem a ser cá
isso? Temos frioleiras de romance? Com as sympathias
não é que os casados fazem sopa e compram os
chapéos e os vestidos ás modistas. O noivo
é rico? É
o essencial. Ora este tem uma grande fortuna, é novo,
é uma bôa figura, não é
cego, não é aleijado―e ainda
que o fosse, não se perdia nada―porque é que
elle
não te hade ser sympathico?
―Será para outras, mulheres, não para
mim...―atreveu-se
a dizer Beatriz.
Isto foi o mesmo que fazer explodir o immenso paiol
em que o sr. Custodio tinha accumulado toda a polvora
[58]
dos seus rancores de ha muitos annos contra as
mulheres.
―Que pouca vergonha é essa?!―berrou elle, levantando-se
e encarando a filha, rubro de colera―Quem
é aqui o pae: sou eu ou é vocemecê?
A ira dementava-o a ponto de não o deixar reparar
no burlesco e incongruente disparate da pergunta,
que faria rir a pobre menina, se o horror da
situação
em que se encontrava não a tivesse afogado em pranto.
―Meu pae! Meu pae!―bradou ella supplicante,
caindo de joelhos com as mãos postas―pelo amor de
Deus, perdoe-me! mas eu não posso... não posso!
―Deixemo-nos de comedias!―rugiu o Custodio
n'um recrudescimento de ira―Ou casa ou metto-a nas
irmãs da caridade!
Beatriz, de joelhos, continuava a implorar:
―Meu pae, por alma de minha mãe lhe peço
que não me force a este casamento que o meu
coração
não póde acceitar!
―Sua mãe! Não me falle em quem já
morreu!
Quem lá vae, lá vae, não é
aqui chamado!
A esta brutal e grosseira reprehensão, Beatriz ergueu-se.
No rosto pallido as lagrimas seccaram-se-lhe
como por encanto, e nos olhos, fulgurantes de
indignação,
lia-se-lhe agora uma resolução inabalavel.
―Minha mãe―disse ella em voz calma e firme―não
me responderia assim, se eu, de joelhos, lhe invocasse
a memoria de meu pae morto.
Esta resposta acabou de exasperar o sr. Custodio.
―Cale-se!―não me falte ao respeito!
―Não sabia que a lembrança de minha
mãe era
para meu pae uma offensa.
Beatriz, perfilhada pelo sr. Custodio aos dois annos
d'edade, fôra educada na crença de que este
homem era seu pae e ignorava por completo a historia
do seu nascimento.
[59]
Notava que o homem a quem chamava pae a tratára
sempre com grande severidade e rispidez, e lamentava-se
intimamente de não achar no coração do
auctor de seus dias a ternura e carinho a que tem
direito uma filha obediente e submissa, como ella era.
Esta severidade recrudescera, quasi degenerando
em tyrannia, depois que a mãe se lhe finara.
A pobre pequena habituara-se áquelle tratamento,
e, crescendo na edade, sentira mudar-se-lhe o terror
infantil n'uma repugnancia instinctiva, porém soffredora
e paciente, que mais e mais a afastava do pae.
Evitava a sua presença o mais que podia; e nos
curtos instantes em que era obrigada a aproximar-se
d'elle e a ouvir-lhe as reprehensões grosseiras e injustas,
era sempre com os olhos no chão que o escutava.
Havia, pois, uma antipathia profunda entre estes
dois sêres, que o destino cruel pussera em face um do
outro, ligados pelos laços de um parentesco ficticio,
mas nem por isso menos respeitavel aos olhos do
mundo e da propria victima.
A attitude do senhor Custodio, que sempre fôra mau
para com a filha, tornara-se desde este momento odiosa.
Ferira a pobre creança no que ella tinha de mais
santo e mais sagrado no fundo do coração e que
fazia
objecto do seu culto:―o respeito pela memoria
de sua mãe e o seu amor por Paulo.
O despreso amargo com que seu pae acolhera a
supplica que ella lhe dirigira humildemente, de joelhos,
em nome da mãe, revoltou-a, e onde a revolta
começa
o respeito acaba.
Aquella phrase altiva, serena e sêcca com que
respondeu ao pae, que a mandava calar, era o prenuncio
da lucta que ia travar-se, era como que o
grito de revolta chamando em seu auxilio todas as
energias da sua alma de mulher para resistir á violencia
com que queriam esmagar-lhe o coração.
[60] ―Já disse!―volveu o descaroado pae.―Quem
manda aqui sou eu. Este casamento ha de fazer-se
por vontade ou por força.
―Viva não me levarão á
egreja!―respondeu
firmemente a pequena.
―Atreve-se a fallar-me assim, a faltar-me ao respeito?
Esquece que sou seu pae?
―Não esqueço. Mas lembro-me tambem de que
não devo ser tratada como escrava.
―Quem é que a quer escravisar? Chama escravisarem-n'a
ao quererem fazer-lhe um casamento
rico, com um rapaz de bôa familia, educado e que
póde dar-lhe respeito na sociedade?
―O meu coração não se vende a pezo de
dinheiro,
meu pae! Se esse homem quer comprar affectos,
que os busque onde elles se vendem.
―Está muito adeantada! Quem é que lhe ensinou
tanto?
―A minha razão e a consciencia dos meus deveres
de mulher digna.
O senhor Custodio enviesou-lhe um olhar furibundo.
A sua vontade seria estrangulal-a. Mas conteve-se.
―Isso são frioleiras de romances!―gritou elle―. A
menina não sabe o que diz. A culpa tenho-a tido eu
em consentir que certas leituras lhe ponham a cabeça
á razão de juros. Mas não tem
duvida... Eu a
mandarei para onde lhe ensinem os seus deveres de
filha.
―Mande-me o pae para onde quizer. Obedecer-lhe-hei
como filha que não necessita que lhe ensinem
os seus deveres. Mas não exija que acceite por marido
um homem que o meu coração não estime,
porque
a isso recusar-me-hei.
―Veremos!
O sr. Custodio sahiu bufando como um touro e foi
direito ao escriptorio.
[61] ― Que tal está a
bisca?!―rosnova elle, no auge
da furia.―Bem se vê que não é minha
filha!
Passeou com as mãos ora mettidas nos bolsos, ora
coçando nervoso a suissa, o que n'elle denunciava
sempre ou uma profunda meditação ou um violento
desespero.
―E ainda o Belchior a dizer-me que leve as coisas
com prudencia!―regougou por fim.―A prudencia
era dar-lhe com um cacête até o diabo dizer
basta! Amanhã estava ahi
macia como um velludo e
ia casar com quem eu quizesse...
De repente parou como ferido por ideia subita.
―E talvez... quem sabe? Esta ideia não é
má
e póde dar resultado... Vamos lá a experimentar
se,
levando as coisas por bem, conseguimos o nosso fim.
Tornou a subir ao andar superior e chamou a filha.
A pequena, muito pallida, veio ter com o pae e
perguntou:
―O pae deseja alguma coisa?
―Desejo, minha filha. Anda cá... senta-te aqui.
Quero que me escutes com attenção e que vejas que
não sou tão mau como pareço...
O sr. Custodio, vendo que Beatriz, sempre com os
olhos baixos, não respondia, pegou-lhe na mão e
puxou-a
docemente para junto de si, fazendo-a sentar ao
seu lado, e principiou dizendo:
―Ora anda cá, minha filha! É preciso que saibas
que ninguem é mais teu amigo n'este mundo do
que teu pae... Eu estou velho... estou com os pés
na cova, e, com estes desgostos que me estás dando,
não posso ir muito longe.
―Mas em que é que eu o desgostei, meu pae?
―Desgostaste-me com o teu procedimento de ha
pouco...
―Perdão! eu fui humilde e submissa, eu implorei
[62]
de joelhos e mãos postas que não me
forçasse ao casamento
com um homem que o meu coração não
póde
acceitar... É isto desobediencia?
―Filha! mas tu matas-me com essa recusa!―exclamou
o sr. Custodio, afflicto, simulando uma enorme
contrariedade.
―Mato-o porque não me quero casar, porque prefiro
viver ao lado de meu pae?!
―Matas-me porque o teu futuro e o meu está
dependente d'esse casamento, filha! Matas-me porque
recusando a mão d'este rapaz lavras uma sentença
de morte contra mim!
Beatriz empallideceu.
―Não o comprehendo, meu pae―balbuciou ella.
―Eu te explico, minha filha...
E aqui o sr. Custodio interrompeu-se, como para
tomar alento, passou o lenço pelos olhos para enxugar
uma lagrima ausente, suspirou fundo e proseguiu:
―Eu ha pouco fallei-te desabridamente, fui severo,
fui rispido, fui mesmo, injusto para comtigo;
mas tudo isto era não só o resultado do muito
amor
que sinto por ti, porque todo o meu desejo é
vêr-te feliz,
mas tambem e principalmente era motivado pelo desespero
da minha horrorosa situação...
Suspendeu-se a olhar para a filha, a vêr o effeito
que n'ella produziam estas palavras. A pequena permanecia
com os olhos baixos, immovel, na attitude de
quem escuta pacientemente uma historia que não lhe
interessa.
―Ouves, Beatriz?
―Ouço, meu pae.
―Da minha horrorosa situação!―tornou o sr.
Custodio a dizer, com um suspiro ainda mais fundo.
E abraçando-se na pequena, a soluçar, exclamou: ―Ah! filha! filha! teu pae está perdido! Se
[63]
tu o não salvas, ficas orphã... orphã
e pobre, porque
eu a esta dôr não resisto!
Beatriz, surprehendida, porém de modo algum
commovida com esta dôr ficticia, perguntou, como se
apenas cumprisse um dever:
―Mas o que foi que lhe succedeu, meu pae?
Porque é que assim se afflige?
―Filha!―tornou o senhor Custodio, com a voz
entrecortada pelos soluços e sem desprender dos
braços
o corpo franzino de Beatriz―estou pobre... estou
arruinado e só tu me pódes salvar!
―Eu, meu pae! O que posso eu fazer em seu
auxilio?
―Tudo, minha filha! Mas deixa-me explicar-te
primeiro... Os meus negocios teem corrido mal...
Nos ultimos tempos tenho soffrido prejuizos importantes
que me teem reduzido á miseria... Este procurador,
este Belchior que aqui vem e que, coitado, é meu
amigo...―não o posso negar, é meu
amigo!...―tem-me
valido com a sua amizade, abonando-me importantes
quantias que me teem sido precisas para
solvêr compromissos creados... Mas agora nem já
elle tem, nem eu... Este rapaz é rico, possue uma
importante fortuna e ama-te apaixonadamente, minha
filha... Elle promette pagar todas as minhas dividas
no momento em que tu consintas em ser sua esposa...
Portanto, vê lá: ou ficamos reduzidos á
miseria, sem
um bocado de pão, e sem abrigo, porque tudo quanto
está n'esta casa é dos credores, ou tu acceitas
este casamento
e voltam para o nosso lar os dias felizes, a paz
e a abundancia, como até aqui.
E como Beatriz permanecesse calada, com os olhos
no chão, sem responder, o sr. Custodio fitou-a anciosamente
e perguntou n'um tom supplicante:
―Então, Beatriz, o que dizes?
[64]
A joven guardou ainda silencio por alguns instantes
e depois murmurou:
―Digo que é uma grande desgraça, meu pae...
―Sim, é uma grande desgraça, não ha
duvida...
Mas, graças a Deus, temos o remedio para ella, se tu
quizeres, minha filha.
―Todas as desgraças teem remedio, meu pae, e
esta tambem o terá, sem nos ser preciso buscar uma
desgraça ainda maior...
―Não te comprehendo, Beatriz!―exclamou o
sr. Custodio―O que queres dizer?
―Quero dizer que se a perda de todos os seus
haveres, meu pae, é uma grande desgraça, o meu
casamento
com esse rapaz ainda a aggravaria mais...
―Porque, minha filha?
―Porque eu não o amo.
―Deixa-te de creancices, Beatriz! O amor
vem com a convivencia.. Tendo tu o que necessitas
para continuar a viver na abundancia, e tendo um
marido que te estime e que satisfaça todos os teus
desejos, ainda os mais insignificantes, verás que breve
te affeiçoas a elle.
―Mas eu não necessito de coisa alguma!―protestou
vivamente Beatriz.
―Não necessitas! Pois estando eu pobre, arruinado...
―Eu trabalharei e viveremos do meu trabalho―acudiu
corajosamente a nobre menina.―Darei lições
pelos collegios e pelas casas particulares, e se não
pudermos
viver com ostentação, o que não
dá a felicidade,
viveremos remediados e livres de maiores
privações...
―Tu estás doida!―berrou o sr. Custodio, desmanchando-se
no seu papel de carpidor de desgraças,
para assumir a attitude grosseiramente petulante da
sua indole má, irritada pola teimosia da filha.―Bem
[65]
se vê que tens instinctos baixos e que não te
repugna
fazer má figura!
―O que me repugna, meu pae, é illudir e enganar
alguem, seja por que preço fôr...
―Mas a quem é que tu enganavas, casando com
o Eugenio? Anda, dize lá!
―Enganava principalmente esse homem, que julgaria
encontrar em mim um affecto que eu não posso
sentir por elle!
―Historias! Affecto não é coisa que se coma!
E recahindo nas lamentações primitivas:
―Que infeliz eu sou! Velho, com os pés na cova,
reduzido á ultima miseria, e não achar na minha
propria
filha amparo nem compaixão para a minha desgraça!
Beatriz ouvia quasi indifferente as lamurias do pae.
Toda aquella dôr, manifestada assim em
lamentações
tão improprias de um homem que sempre se
mostrara altivo, sêcco e intractavel, afigurava-se-lhe
ignobil. Sentia uma revolta interior, um nojo intimo
d'aquella vilissima creatura, de quem se suppunha filha,
e tinha como que um secreto remorso de não poder
amar o auctor de seus dias.
O sr. Custodio percebia esta indifferença da filha,
e emquanto se lamuriava, dizia comsigo:
―Grande desavergonhada! Bem se vê que não
és
minha filha!
Por fim, Beatriz aventurou esta pergunta:
―E se esse rapaz não tivesse apparecido a querer
casar comigo, o pae não teria outro meio de remediar
os desastres soffridos no seu negocio?
―Como havia de eu remediál-os? O remedio era
entregar tudo aos credores e ficarmos sem nada!
―Mas haviamos de viver...
―Viver como?―interrogou o sr. Custodio impaciente.
[66] ―Como vivem tantos pobres, resignados com a
sua miseria...
D'esta vez o sr. Custodio conteve-se e não descambou
no repellão habitual.
―Sabes lá o que dizes, filha! Os que vivem conformados
com a sua pobresa são os que nunca souberam
o que era viver melhor. Nasceram miseraveis, na
miseria se crearam e assim vivem e morrem sem soffrimento
nem pesar. Mas quem está na nossa
situação,
filha, quem experimentou a abundancia e depois se
vê reduzido á penuria póde
lá conformar-se com isso?!
Eu por mim, declaro, dou cabo da vida, e ha-de ficar-te
o remorso de teres causado a morte de teu pae!
Esta ultima phrase fez estremecer a pobre menina.
Tudo quereria menos a pungir-lhe na consciencia o
crime de haver morto seu pae. Embora não sentisse
por elle os extremos de affecto que o genio irascivel,
rispido e severo d'aquelle homem não soubera inspirar-lhe,
a sua razão dizia-lhe que tinha deveres de
filha a cumprir, e a esses não queria ella faltar.
―Mato-me!―continuava o sr. Custodio, abrindo
a valvula ao desespero que lhe ia na alma―mato-me,
porque não tenho animo para soffrer os horrores
da miseria que me estão reservados, e antes quero dar
cabo de mim do que vêr a minha filha exposta a todas
as desgraças que a pobresa traz comsigo!
―Por mim, não se mate, meu pae! Eu tenho força
e coragem para resistir aos golpes da adversidade.
―Tu terás forças, minha filha, mas eu
é que já
não as tenho! Dize-me terminantemente que não
casas
com esse rapaz, que não salvas teu velho pae da miseria,
e tu verás o que eu faço... Não tenho
animo para
vêr os credores entrar por aqui dentro e pôrem-me
lá
fóra a mim e mais a ti! Não! quando elles
entrarem,
hão-de vir já encontrar-me cadaver!
[67]
Disse, e levantando-se como quem tinha tomado
uma resolução inabalavel, perguntou:
―O que resolves, Beatriz? Nas tuas mãos está a
minha vida, a vida de teu pae!...
A joven, assim instada, sentiu-se vacillar. Vencida
pelo tom humilde e supplicante em que o pae se lhe
dirigia, não tinha forças para recusar
abertamente.
―Meu pae―balbuciou por fim―deixe-me ainda
reflectir até amanhã.
O usurario percebeu que levava o inimigo de
vencida e não quiz abandonar a victoria.
―Amanhã será tarde―disse elle―A resposta
tem de ser dada hoje ao Belchior impreterivelmente,
sob pena de amanhã os credores entrarem por
aqui dentro e levarem tudo. Resolve, pois. Eu não te
quero forçar a um casamento que te repugna. Bem
reconheço mesmo que não tenho direito ao teu
sacrificio,
porque eu não sou d'esses paes que andam sempre
a acarinhar as filhas, sem terem por ellas metade
do amor que eu sinto por ti... Tenho este genio assim...
pareço severo, pareço um homem que não
sabe o que
é amor de pae, mas o que o meu coração
sente só eu
é que o sei!...
Interrompeu-se para abafar os soluços e enxugar
as lagrimas, que não chorava, ao lenço tabaqueiro
e
proseguiu:
―Paciencia! Tinha de ser assim... seja!
E como a filha se conservasse silenciosa, pegou-lhe
na mão, exclamando:
―Adeus, Beatriz! Despede-te do teu pae, que o
não tornas a vêr vivo!
―Meu pae!―disse a pobre menina com a voz
embargada na garganta pela commoção―Pelo amor
de Deus, não tome qualquer resolução
desesperada
sem que eu falle primeiro com esse rapaz!
[68] ―Com quem?―interrogou o sr. Custodio, fixando
a filha.
―Com esse... sr. Eugenio.
―Queres fallar com elle para lhe dizeres que
não? Dize-m'o antes a mim, filha!
―Não, meu pae. Desejo fallar com elle para ouvir
de seus labios a declaração de que me quer por
mulher.
―E casarás?
―Casarei, se não houver outro remedio.
O sr. Custodio, radiante, estreitou-a nos braços
com frenesi.
―Deus te abençôe, minha filha! Pódes
dizer que
salvaste teu pobre pae! Vou mandar avisar o Belchior.
E, beijando a filha na testa, sahiu quasi doido de
contentamento.
IV
Dois patifes
O procurador Belchior está no seu escriptorio,
sentado á carteira, conversando animadamente com
um rapaz alto, pallido, elegantemente vestido, de maneiras
distinctas, e bastante desenvoltas, que frequentemente
o interrompe com uma gargalhada de
intima satisfação. No rosto d'este rapaz, que
poderá
contar, quando muito, vinte e quatro ou vinte e cinco
annos, ha os traços indeleveis do bohemio que passa a
mocidade entregue a toda a sorte de vicios e prazeres
e para quem a vida tem apenas uma difficuldade séria:
arranjar dinheiro para gastar.
Os olhos pretos, vivissimos e o sorriso zombeteiro
que lhe baila constantemente nos labios, meio disfarçado
pelo bigode fino, lustroso e petulantemente encaracolado
nas guias, dão-lhe á physionomia uma
expressão
velhaca que poria de sobreaviso um observador
experimentado, mas que ao sr. Belchior não
parece inspirar a minima desconfiança.
Este rapaz é Eugenio de Mello, o pretendente á
mão de Beatriz.
Ouçamos a conversa travada entre os dois, a vêr
se por ella podemos conhecer melhor o personagem
com quem vamos travar conhecimento.
[70] ―O velhote está enthusiasmado―diz o procurador―e
o meu amigo apanha, além de uma linda mulher,
uma bôa maquia―uma maquia de se lhe tirar
o chapéo!
―Pois é o que se quer―responde o outro―o
que se quer é
massa.
Quanto calcula você, amigo
Belchior, que viremos a apanhar?
―Homem, já lhe disse, ao certo não sei, porque
o Custodio é manhoso... Depois que foi roubado
por um padre, não descobre a sua vida a ninguem.
Mas, pelos documentos que me teem passado pela mão,
aquella besta deve ter para mais de setenta contos.
―Menos mau!―considerou o bohemio, piscando
o olho.―Mas isso está ainda tudo nas unhas do velho,
que póde ter a má lembrança de
não morrer estes
dez annnos mais chegados...
―E os vinte contos que couberam á rapariga, no
inventario por morte da mãe?―accudiu o procurador.―Esses
é que lhe passam já para as unhas assim
que o casamento se fizer...
―Vinte contos... que diabo!―tirando-lhe as
commissões, o que é que
me
fica?―considerou o outro,
encolhendo os hombros com desprezo.
―Sim, que você agora tem mais!―contraveio o
procurador sarcasticamente.―Que diabo! vocês são
todos assim! Quanto mais teem mais querem!
―Não é isso, amigo Belchior. É que eu
penso e
vejo as coisas como ellas são... Afinal de contas, este
negocio vem a ser bom mas é para você...
―É bom para ambos! Ou você queria que eu
trabalhasse de graça para lhe encher os bolsos de dinheiro
e ficasse a fazer cruzes na bocca?
―Não, não queria... Mas vamos a saber: a pequena
tem vinte contos?...
―Para já. Mas a bolada maior ha-de-vir por
morte do velho.
[71] ―Não esperemos por sapatos de defuncto, e
façamos
calculos positivos. Por agora e para já, realisado
o casamento, podemos contar com vinte contos,
não é isso?
―Perfeitamente.
―Você quanto leva de commissão?
―Trinta por cento, por sermos amigos.
―Obrigado!―respondeu o bohemio zombeteiramente―trinta
por cento sobre vinte contos, são seis
contos de réis...
―Muito justos.
―E venho eu a ficar só com quatorze!...
―E acha pouco? Para quem não tem presentemente
quatorze vintens, parece-me que quatorze contos de
mão beijada e uma mulher bôa, é
dinheiro...
―Não ha duvida, é dinheiro... Mas tome
você
conta da mulher, dos encargos de a sustentar, de a
vestir, de lhe dar criadas, de a aturar e de pagar aos
meus crédores antigos, tudo por quatorze contos, e
dê-me para mim os seis que você recebe limpinhos e
sêccos... Quer?
O procurador fez uma carêta.
―Você está a fazer-se de manto de
sêda!―disse
elle descontente.―Se acha que é mau o partido,
não o acceite, que não faltará quem
lhe pegue.
―O partido não é mau, mas não
é tão bom como
você me quer fazer acreditar...
―Com os diabos!―gritou o procurador arreliado.―E
os setenta contos do velho não é nada?
Você acho
que cuida que eu nasci hontem! Eu mettia-me lá
n'este negocio por seis contos de réis, se não
fosse a
certeza de vir a apanhar mais, logo que o velho
estique
o pernil? Não que o meu tempo é
dinheiro e eu
não ando a trabalhar para o bispo!
―Bem sei―tornou o Mello―mas eu é que tambem
não estou para perder a minha liberdade e ficar
[72]
toda a vida com o trambolho da mulher preso á perna,
a troco de quatorze contos que os crédores me
hão-de vir buscar, logo que saibam que tenho por onde
pague...
―Mas você póde arranjar uma coisa.
―O que é?
―Faça uma concordata com elles antes de casar...
―Mas eu não sou commerciante, não posso
lançar
mão desses meios que são privilegio do commercio
honrado...―considerou epigrammaticamente o estroina.
―Agora não póde! Cace-lhes você o
recibo em
como estão pagos, e veremos depois se elles lhe pedem
alguma coisa.
O Mello pareceu meditar.
―Effectivamente, você tem razão... Se
áquelles
a quem devo seis pagasse com dois, a coisa ainda não
iria muito longe...
―Menos a mim!―protestou o procurador―a
mim é que você me ha-de pagar tudo por inteiro.
―Isso, comnosco, é outra coisa... Mas vamos a
saber: como é que eu hei-de propôr esse negocio
aos
meus crédores, se não tenho dinheiro para
liquidar de
prompto antes de casar?.
―Não lhe dê cuidado. Traga-me a lista dos
crédores,
que eu cá arranjarei isso da melhor maneira...
―Abona você o dinheiro?
―Certamente. Você acceita-me letras na importancia
do que eu pagar e depois nós cá nos entenderemos.
―Pois bem, arranje lá isso.
―Ora agora―tornou o procurador―temos ainda
uma questão a decidir...
―Diga lá.
―O velho está persuadido de que você é
um homem
riquissimo... Metti-lhe essa
caraminhola em cabeça,
[73]
porque, de outra forma, elle não lhe dava
a filha...
―Bom! Que duvida ha? Dir-lhe-hei que sou rico...
―A questão não é dizer-lh'o, a
questão é provar-lh'o.
Você não me disse que ha um Eugenio de Mello
no Alemtejo, possuidor de uma riqueza immensa?
―Disse e ha.
―Bom. Pois então é pedir ao escrivão
de fazenda
respectivo uma certidão das decimas e
contribuições
pagas por esse sujeito ao estado...
―Para que?
―Para que! É boa! Para podermos provar ao
Custodio que você é um importante proprietario do
Alemtejo e que póde dar-lhe a filha, porque não
hão
de faltar-lhe porcos nem cortiças para os netos.
O bohemio soltou uma gargalhada.
―Você é o diabo, Belchior!―disse elle.
―E se for preciso provar que você tem quarenta
ou cincoenta contos de reis representados em letras,
tambem se arranjam com
acceites
valiosos e de muito
credito...
―Como?
―Tenho constituintes ricos que lhe acceitarão letras
na importancia que se quizer, acceitando-lhes
você outras de igual importancia. Comprehende?
―Não comprehendo muito bem...
―Expliquemos: eu acceito-lhe a você letras no
valor de oitenta contos e você, na mesma data, acceita-me
letras d'igual importância. Você quer
provar
que possue oitenta contos e mostra essas letras acceites
por mim... Mas ellas realmente não valem nada,
porque se você vier recebel-as, eu apresento os seus
acceites, que você tem
igualmente de me pagar, e portanto
estamos quites... Percebe agora?
―Agora, percebo!
[74] ―Bem. Pois este é também um expediente de que
podemos lançar mão quando nos fôr
preciso. Mas obra
mais limpa é certamente essa da confusão dos
nomes,
que nos permitte fazer a prova com um documento
official... Em que terra do Alemtejo existe esse tal
Eugenio de Mello?
―Em Borba.
―Está muito bem! E então eu que
conheço o escrivão
de fazenda que lá está agora. Vou já
escrever-lhe,
e na volta do correio temos cá a certidão.
―Olhe lá, não será conveniente eu
amiudar as
minhas visitas ao Custodio?
―Já lhe fallei n'isso a elle. Mas elle diz que por
ora não... que o deixemos primeiro resolver a filha
a acceitar o casamento, e depois fallaremos...
―E essa delambidita porque é que me hade recusar
Eu não valerei mais do que o franganito
que lhe anda a arrastar a aza?―disse o bohemio.
―Mulheres, meu amigo! As mulheres são caprichosas...
―E escolhem sempre o peor...
―É a unica probabilidade que você tem a seu
favor!―exclamou o procurador rindo―Porque peor
do que você, com franqueza, não
conheço!
―Obrigado, amigo Belchior! Você é muito modesto!
Os dois patifes encararam-se e desataram a rir.
―Ora agora―disse por fim o Mello―não se
esqueça
de que estou a precisar de dinheiro.
―Já?
―Pudera! Este Porto é o diabo! Com os seus
ares pacatos de terriola de provincia, tem sorvedouros
terriveis!
―Mas ainda não ha oito dias que lhe dei duzentos
mil reis.
―E o que vem a ser isso para um homem relacionado
[75]
como eu? Duzentos mil réis gastam-se n'uma
ceia com tres amigos e outras tantas mulheres...
―Mas você, que diabo! está hospedado no
Francfort,
um hotel de primeira, onde o tratamento é magnifico,
não tem necessidade de comer fóra...
―Amigo Belchior, você sabe muito bem como o
dinheiro se arranja, mas não sabe como elle se gasta.
Não falle, portanto, d'aquillo que não sabe, e
chegue-me
cá mais duzentos mil reis, que é o essencial.
―Assim, por esse andar, quando chegar o dia do
casamento, já os haveres da noiva estão
espatifados...
―Não diz você que temos ainda a reserva dos
setenta
contos do velho?
―Sim, mas isso, como você considerou ha pouco,
são sapatos de defuncto...
―Homem, haja os sapatos, que o defuncto arranja-se
quando nos convier...
―Você seria capaz d'isso?―interrogou o procurador
com um sorriso indescriptivel de cynismo.
―Nós somos capazes de muito mais―respondeu o
Mello, frisando intencionalmente a palavra
nós.
―Você é o diabo! Mas olhe lá,
não se alargue
muito, que eu agora estou sem dinheiro...
―Pois sem
massas não se
faz nada! Você bem
sabe, que sendo eu um rico proprietario do Alemtejo,
que faço quinze contos de cortiça de tres em tres
annos,
afóra os porcos, não devo deixar de gastar em
harmonia com os meus rendimentos. As mulheres,
aqui no Porto, não são de grande luxo, mas comem
como freiras e aquelle Palacio de Crystal e aquelle
Suisso teem uma lista reduzida, mas
cortante como
uma navalha de barba! Além d'isso, ha sempre uns
amigos
depennados, que se
encostam e que não ficam
baratos...
―Mande-os trabalhar! Sucia de vadios!―aconselhou
o Belchior, indignado.
[76] ―Bem digo eu! Você não sabe o que diz! Estes
amigos são os comparsas da grande comedia que eu
preciso de representar. São elles os que fingem de
povo e apregoam aos quatro ventos,
pelas tubas da
fama e das notas de cinco mil réis que lhes empresto,
a minha grandeza e opulencia de rico proprietario.
Que eu lhes negue o regabofe de uma ceia e a
pastilha
que me pedem emprestada no fim, porque a carteira
lhes esqueceu em casa, e ámanhã eu serei o
pelintra,
o intrujão que realmente sou, e toda a gente
saberá, até o Custodio, que eu não
tenho nem cortiça,
nem porcos, nem sequer bolota para comer como elles...
―Você tem razão!―disse o procurador―Mas,
com os diabos, gaste menos.
―Que gaste menos! Eu tenho até gasto mais, e
decerto não chegaria o que você me dá,
se não
tivesse tido umas noites de sorte á batota. Meu amigo,
todo o negocio requer capital para poder dar lucros...
Este negocio do casamento é bom, mas é preciso
empatar capital... Eu sou o socio d'industria;
você é o socio capitalista: chegue-me
cá as
massas, porque
eu preciso de mostrar quem sou.
―Deus nos livre! se mostra quem é, está o caldo
entornado!―clamou o procurador, levando as mãos
á cabeça n'um gesto tragico.
O Mello riu com vontade.
―Você nasceu para mim, e eu nasci para
você!―disse
elle.―Difficilmente se encontram e se juntam
dois como nós. Ande, vá buscar o dinheiro.
O procurador levantou-se, foi ao cofre de ferro, ao
canto do escriptorio, contou duzentos mil réis em notas,
e voltou com ellas e com um livro na mão.
―Ande! ponha aqui por sua mão que recebeu este
dinheiro―disse.
―Quanto?
[77] ―Eu dou-lhe duzentos mil réis. Não foi isso o
que
você pediu?
―Mas aqui no livro estão duzentos e cincoenta!
―É isso. Os cincoenta mil réis são de
juros.
―Ladrão! Roubar ao inferno!―clamou o Mello
em tom de amigavel censura.
―E o risco? Você não tem onde cahir morto. Se
este casamento se não fizer, ou se a você o levar
o diabo
d'hoje para ámanhã, quem perde sou eu!
―Não leva, que eu sou cá preciso para animar as
artes e as industrias!―retorquiu risonho e senhor de
si o bohemio.
―O que me anima é que o gado ruim não tem
perigo―disse Belchior gracejando.
O Mello assignou no livro a quantia indicada pelo
procurador, metteu o dinheiro ao bolso e preparou-se
para sahir.
―Você ande-me com o velho!―disse elle.―Não
o deixe resfolegar, e elle que obrigue a filha por geito
ou por força a casar comigo.
―Coitada da creatura! Ha-de ser feliz com um
tal marido!
―Eu lhe digo... póde ser que me apaixone por ella...
Ás vezes o diabo, quando lhe parece, faz das suas...
―Quem! Você apaixonar-se? Se ella fosse uma
dama de copas... talvez!
―Eu supponho-a uma dama d'oiros... Já vê que
a differença do naipe não é tamanha
como parece...
Dizendo isto, o Mello saiu trauteando uma modinha,
emquanto o Belchior, rindo, arrumava o livro das suas
contas com o bohemio.
―Isto é que é um mariola!―murmurava o
procurador
satisfeito.―Não ha dinheiro que lhe chegue...
O jogo e as mulheres levam-lhe tudo... Ha-de acabar
mal este patife!
V
Madre Paula
Na casa conventual das Sereias, vamos encontrar
madre Paula, aquella espirituosa e gentil abbadessa
que os leitores da
Irmã
Dorothêa certamente não
terão
esquecido e com quem aquelles que porventura a
não conheçam d'ahi, acharão prazer em
travar conhecimento.
Formosa ainda, posto que um ou outro fio de prata
ponha um signal de velhice nos seus lindos cabellos
pretos, a amiga de Helena de Noronha não tem já
aquella vivacidade traquina dos tempos em que a conhecemos.
A sua conversa, porém, é ainda adoravel d'encanto
pelas scintillações do seu espirito gracioso e
fino, que ás
vezes se desata em torrentes de bom humor que muito
alegram o padre Filippe, de ha muitos annos seu unico
e constante director espiritual.
Á hora a que vamos encontrál-a, está
ella sentada
em fofa poltrona, escutando o padre Filippe, que acaba
de chegar e que, ao que parece, traz novidades importantes
a communicar-lhe.
A conversação intima entre os dois conserva ainda
[79]
aquelle caracter familiarmente carinhoso de duas almas
que se comprehendem, de dois corações que se amam
e que se acham ligados pelos laços indestructiveis da
mais solida confiança.
―Sabes, minha querida amiga?―disse-lhe o padre
Filippe depois de a beijar carinhosamente nas faces―tive
hoje a visita do nosso Paulo, do filho da irmã
Dorothêa...
―Sim? Esse ingrato ha muito tempo que aqui me
não apparece! Senta-te e conta-me: como está
elle?
―Physicamente, pareceu-me bom. Agora, quanto
á bóla, o
rapaz tem-n'a um pouco transtornada...
―O que! que dizes tu?―perguntou madre Paula
com visivel interesse―Notaste n'elle qualquer
alteração?
―Imagina tu, minha amiga, que me entra em
casa com ares melodramáticos e dispara-me esta pergunta
com que eu não contava: «Diga-me, padre,
quem é meu pae?!»
―Elle fez-te essa pergunta?
―E queria por força que eu lhe dissesse de quem
era filho e por que razão se lhe occultava o segredo do
seu nascimento.
―Mas isso é extraordinario! Como se atreveu
a perguntar-te semelhante coisa?
―Como se atreveu! A mocidade de hoje atreve-se
a tudo. A educação livre que lhe demos havia de
produzir
n'elle os naturaes resultados. Não nos suppõe
seus protectores, nem sequer lhe passa pela
imaginação
que tudo quanto é o deve a nós. Julga-nos
intermediarios,
apenas, entre elle e os paes, para o
acto material de lhe entregarmos as mezadas e mais
ou menos inquirirmos do seu aproveitamento. N'estas
circumstancias, comprehendes que acanhamento
algum podia ter em se me dirigir da maneira por que
o fez.
[80] ―E o que lhe respondeste? Como satisfizeste á
curiosidade d'essa creança?
―Comprehendes, minha amiga, que eu não podia
senão tomar o partido de me fingir tão ignorante
como
elle ácerca dos mysterios do seu nascimento; e foi
isso o que fiz.
―Mas que motivo o levou a querer saber quem
são os paes?
―Achas estranho? Tambem eu estranhei uma
tal pergunta, e por isso não o quiz deixar partir sem
indagar o que se passava de extraordinario n'aquella
alma juvenil...
―E indagaste?
―Indaguei e soube.
―O que é, pois?
―O nosso Paulo ama!
―Ah! mau prenuncio! Cêdo começa esse pobre
pequeno!
―Que queres tu, minha Paula? Hoje as creanças
passam cêdo a considerar-se homens feitos, e a não
guardarem para os trinta annos os prazeres do
coração,
que lh'os reclama aos dezoito...
―Isso é uma doença muito séria, a meu
vêr, e
que póde causar graves prejuizos de futuro ao nosso
protegido...
―Ha doenças que em vez de matarem, salvam.
Talvez esta seja uma d'ellas...
―Sempre optimista, sempre!―disse madre Paula
com um sorriso de leve censura.―Não creio que o
nosso Paulo possa lucrar grande coisa com uma
affeição
que certamente lhe ha-de preoccupar o espirito e
desviar-lhe as attenções do estudo para o objecto
dos seus amores. A prova de que essa paixão nascente,
e de todo o ponto intempestiva, começa a produzir
perniciosos effeitos, é que já despertou n'elle o
desejo
de penetrar o segredo do seu nascimento...
[81] ―Isso tinha de succeder mais hoje ou mais amanhã―replicou
o padre Filippe―Não era natural que
um espirito vivo e irrequieto como o de Paulo se conservasse
por muito tempo indifferente ao desejo de saber
quem são ou quem fôram seus paes...
Madre Paula conservou-se silenciosa e meditativa
por alguns instantes.
―Creio que fizemos mal―disse ella―em dar a
esse rapaz a educação livre que os modernos
philosophos
preconisam... Uma creança entregue aos imprudentes
impulsos do seu coração juvenil, sem uma voz
amiga que a aconselhe, sem a presença de preceptor
austero cuja voz auctorisada lhe indique o caminho do
dever, ha de necessariamente cahir no deploravel desvario
de Paulo.
―Os homens formam-se na adversidade; o coração
retempera-se nas amarguras para as grandes luctas da
vida―retorquiu o padre Filippe.―A educação
moralisadora
de um preceptor austero corta os vôos ao
espirito, e perniciosamente contribue para deformar a
indole e perverter o caracter do um adolescente. A
violencia imposta pelos preconceitos de uma conducta
regrada, sujeita a methodos e convenções oppostas
ao
sentir individual, dá em resultado a
falsificação de um
caracter. O individuo assim creado não é nunca um
producto
apreciavel da natureza, é o producto artificial de
uma odiosa tyrannia exercida sobre o seu espirito. Não
é mais um homem são―bom ou mau―é um
hypocrita;
isto é, um aleijado que se arrasta miseravelmente
deformado pela vida fóra, tanto mais perigoso
aos outros homens quanto aprendeu a occultar e a disfarçar
as suas intenções e os seus instinctos. Deixemos
a este rapaz ampla liberdade de manifestar a sua indole.
Se é bôa, avigorada pela liberdade da
educação,
ella bracejará frondescente como arvore de bons fructos;
se é má, não haveria destra
mão de habil podador
[82]
capaz de extirpar a seiva ruim que a natureza
lhe pôz na raiz.
―Elle é filho do padre Anselmo!―disse madre
Paula―e se herdou a indole cruel, hypocrita e verdadeiramente
sanguinaria do pae, com certeza ha de
ser um monstro temivel, de que a sociedade terá que
arrecear-se.
―É tambem filho da irmã
Dorothêa―atalhou o
padre Filippe―e é possível que haja herdado da
mãe
os sentimentos de singela bondade que a fizeram cahir
nas rêdes infernaes d'esse homem extraordinario que
nunca mais tornámos a vêr!
―É um caso que ainda hoje não sei explicar, o
desapparecimento subito d'essas tres creaturas!―exclamou
madre Paula.―Parece incrivel que até hoje
não tenhamos tido mais noticias do padre Anselmo
nem da irmã Dorothêa, nem ainda do padre Hilario!
―Como sabes, minha amiga―ponderou o padre
Filippe―nas congregações jesuiticas, muda-se
frequentamente
de nome, e é esse até o processo adoptado
por muitos dos nossos irmãos e irmãs, para apagar
os
rastos compremettedores da sua passagem por este ou
por aquelle ponto. É, pois, de presumir que o padre
Anselmo, ascendendo aos logares superiores da Companhia,
julgasse conveniente adoptar outro nome, e,
levando comsigo a irmã Dorothêa e o padre Hilario,
lhes impuzesse a mesma mudança, afim de que ninguem
mais pudesse seguir-lhes o rasto no amplo caminho
das suas grandezas...
―Assim será. No emtanto, Helena é ingrata!
Sabendo
quanto eu a estimava, sabendo que lhe salvei a
vida e lhe dediquei sempre uma amizade sincera de
irmã, é imperdoavel o esquecimento a que me
votou!
―Minha querida amiga, a distancia enfraquece
os affectos. Não ha peor inigma da
amizade do que é
a ausencia. Depois, quem sabe? Talvez que o padre
[83]
Anselmo, hoje Provincial ou Assistente com outro nome,
lhe impozesse silencio como condição
indispensavel
de seus beneficios...
―Oh! não! Custa-me a crêr que a irmã
Dorothêa
tranzigisse com esse homem, que tão profundamente
detestava agora!
―Mas não dizes tu, minha querida, que ella
amava o padre Hilario, o joven filho do padre Anselmo,
que desempenhava o cargo de capellão no convento
da Covilhã, de que ella era abbadessa?
―Ella propria m'o confessou.
―Nesse caso, o amor pelo filho venceu a natural
repugnancia pelo pae, e a esta hora temol-os juntos,
n'algum convento do estrangeiro, felizes e resignados
como nós o estamos, cavando com verdadeiro enthusiasmo
na santa vinha do Senhor.
―Se tudo se passou como suppões―ponderou madre
Paula―se realmente o padre Anselmo ascendeu
aos mais altos cargos da Companhia e levou comsigo
o filho e a amante d'elle e do filho, é impossivel que
a estas horas Helena ignore quanto temos feito por
esta creança que ella cruelmente engeitou...
―Decerto. Ella póde ter noticias nossas. Nós
é
que não as temos nem podemos obtel-as d'ella...
―Mas é ingrata!―repetiu ainda madre Paula.―Por
quanto procederia eu de igual modo para com
ella, eu que tu accusavas de leviana, superficial e inconstante
nos meus affectos?
―Minha querida amiga―volveu risonho o padre
Filippe―eu sempre fiz justiça ao teu
coração; e se
me queixava da tua cabeça, é porque era ella a
que
vinha receber-me na ante-camara dos affectos sem me
deixar penetrar no sanctuario intimo do teu peito. E,
para cumulo de desgraça, succedia que eu nunca me
encontrava alli sosinho; havia sempre na sala commum
das affeições triviaes dois ou tres
frequentadores impertinentes
[84]
com quem me acotovelava e cuja presença
me indispunha e fazia soffrer...
―Sabes que foste sempre o preferido do meu
coração!
―Suspeitava-o. Não tinha, porém, a certeza. E
essa duvida torturava-me.
―E agora?
―Agora, minha bôa e querida Paula, tambem
eu me não queixo. Devo-te os mais bellos momentos
de toda a minha vida; devo-te os mais ardentes prazeres
da minha mocidade e as mais suaves consolações
da minha velhice. Bemdita sejas!
E enlaçou-a nos braços, beijando-a com um ardor
ainda não de todo extincto n'aqueile organismo gasto
pela edade.
Madre Paula deixou-se enlaçar n'um suave e doce
abandono, murmurando com os olhos brilhantes e as
faces purpureadas de prazer:
―Agora, e de ha muito tempo, és tu o unico senhor
absoluto de todo o meu ser. Reinas e governas
nos meus sentidos como no meu coração. Se me
faltasses,
morria!
―Se o amôr é a vida―tornou-lhe o padre
Filippe―se
é a grande lei universal que rege todos os sêres;
se o amôr é a suprema
aspiração dos novos, e
ainda a unica força que ampara os velhos, como poderemos
nós, minha querida, impedir ou sequer estranhar
que Paulo ame com todo o fôgo do seu juvenil
coração a mulher que o destino pôz no
seu caminho?
―Não é precisamente esse o meu desejo, mas
tão
sómente guiar e dirigir esse pobre rapaz para que o
desvairamento da paixão o não precipite nos
abysmos
da desgraça irremediavel.
―O coração apaixonado raro escuta os dictames da
prudencia. Todavia, talvez tu possas, minha amiga,
com essa tua dôce voz persuasiva, influir no espirito
[85]
d'esse rapaz a deixar-se guiar pelos conselhos da experiencia.
Prometteu-me que viria procurar-te, e creio
bem que virá. A ti incumbe, pois, a difficil
missão de
dirigir os seus passos e vigiar pelo seu futuro. Elle
ama-te como filho e se não escutar a tua voz, ninguem
n'este mundo poderá fazer-se obedecer por elle.
―Pois bem; se até amanhã aqui não
apparecer,
mandal-o-hei chamar e ouvirei o que me diz. No emtanto,
convém saber quem é a mulher que elle ama,
a que familia pertence, e no caso que a união dos
dois não seja uma d'estas inconsequencias absurdas
que a razão repelle e as conveniencias sociaes condemnam,
espero que não duvidarás unir os teus
esforços
aos meus para aplanarmos o caminho da felicidade a
esse pobre rapaz.
O padre Filippe sorriu.
―Queres arvorar-me em casamenteiro á ultima
hora!―acquiesceu elle―Seja! Interroga-me esse rapaz,
inquire e desvenda todos os segredos da sua alma; e
se te convenceres de que se trata de uma paixão
séria
e não d'uma d'essas velleidades tão frequentes e
tão perigosas na adolescencia, faremos todo o possivel
por lhe aplanar as difficuldades e conduzil-o triumphante
á realisação dos seus desejos.
―Eu devo-lhe protecção e carinhos de
mãe―disse
ainda madre Paula―Não posso esquecer-me de
que fui cumplice, embora forçada, na grande
desgraça
do seu nascimento. Essa creança é o fructo das
milagrosas apparições do Christo á
desvairada Helena
de Noronha. Se não fosse eu, talvez que o padre Anselmo
não realisasse a infame burla por esse processo
tão suave... A minha consciencia accusa-me, se bem
que a intenção com que procedi fosse mais
humanitaria
que criminosa. Eu quiz poupar a essa desgraçada
os horrores de uma desillusão brutal, de uma violencia
monstruosa como aquella de que foi victima a pequena
[86]
Candida, immolada no Sardão aos instinctos
bestiaes do padre Anselmo.
―Não recordemos, minha querida, esses horrores
que a miseria da nossa situação subalterna nos
tem
obrigado a presenciar e até a proteger com o
coração
confrangido de dôr, com a alma revoltada de nojo.
Vinguemo-nos da crueldade da sorte praticando o bem
espontaneamente, em desconto dos males que temos
sido forçados a fazer. Paulo é para todos os
effeitos
nosso filho. Façamos por elle todos os sacrificios
compativeis
com a nossa consciencia e com a nossa posição,
e que Deus nos leve em conta o bom desejo que
temos de proceder sempre bem e de harmonia com os
dictames do nosso coração, que não
é mau, mas que a
fatalidade acorrentou a uma vida de torpezas e de
immoralidades.
Despediu-se de madre Paula promettendo voltar
no dia seguinte.
A abbadessa, ao vêl-o partir, ficou immersa n'uma
profunda tristeza.
―É o unico que a alma negra da seita
não perverteu
de todo!―murmurou ella.―Que adoravel
esposo e que exemplar cidadão se não perdeu
n'este
homem, que assim vae atravessando a vida amortalhado
na sotaina da hypocrisia que elle proprio odeia!
Pobre amigo! morrerás como eu na dôr e na saudade
cruciante da liberdade que te roubaram!
[87]
VI
Á hora da morte
Tres dias depois d'esta visita do padre Filippe a
madre Paula, bateram violentamente á porta do sacerdote,
era uma hora da noite.
O padre Filippe não se tinha ainda deitado.
Muito dado á leitura de velhos classicos, o amante
de madre Paula passava grande parte da noute a
folhear poeirentas chronicas e a fazer annotações
curiosas,
no intuito de esclarecer varios pontos obscuros
da nossa historia que, como se sabe, ainda hoje offerecem
duvidas aos mais persistentes e lucidos investigadores.
Ouvindo bater á porta com a violencia propria
de quem deseja ser ouvido o mais rapidamente
possivel, o padre Filippe levantou-se, marcou com um
papel em branco a pagina em que interrompia a leitura
e veio á janella indagar quem batia. Á porta
estava uma mulher do povo, com um chaile pela cabeça
para se resguardar do frio cortante da noite.
―É aqui que móra um senhor que é
padre e que
vae dizer todos os dias missa aos Grillos?―perguntou
ella.
―É aqui. O que deseja?
―É que está alli uma velhinha, que é
minha
visinha, a morrer, e a pobre de Christo não faz
senão
[88]
pedir que lhe chamem um padre, porque se quer confessar;
e eu venho cá vêr se v. s.
a
faz a esmola de a
ouvir de confissão...
―Onde móra essa mulher?
―Na rua da Senhora d'Agosto, meu senhor! É
pertinho... é d'aqui a dois passos, e se v. s.
a
fizesse
a esmola de vir comigo, chegava lá n'um instante!...
―Espere ahi, que eu desço já.
Embrulhou-se n'um capote á hespanhola, pôz na
cabeça o seu chapéo alto, pegou da bengala, e
pouco
depois estava na rua.
―Vamos lá!―disse elle.
Encaminharam-se para a rua da Senhora d'Agosto,
que fica a curta distancia, nas proximidades do paço
episcopal. A mulher que viera chamar o padre Filippe
caminhava apressada adiante d'elle, na ancia de chegar
a tempo com o soccorro espiritual que a moribunda
reclamava.
―Seja pelas almas!―lamuriava ella.―Está a
pobresinha a appellidar por um confessor desde o
resto da tarde, que parece que nem póde morrer sem
se confessar, e não havia uma alma de Christo que
se
arresolvesse a vir chamar v. s.
a
ou oitro qualquer
que lhe deitasse a
assolvição!
―Não tem familia essa mulhersinha?―inquiriu
o sacerdote.
―Ella não tem ninguem, meu senhor! É velhinha
como as serpes, e não tem filhos nem parentes. Vive
lá n'um quartinho, que uma visinha lhe alugou por
cinco tostões por mez, e dês que caiu
emprégadinha,
o que vale é a gente ir olhando por ella, por caridade,
senão morria p'rá alli, sem ter quem lhe chegasse
uma
sêde
d'auga!
―Coitada!―lamentou o padre Filippe.
―Mas que!―tornou a mulher―a gente
támem
sêmos probes...
támem temos de olhar pela
nossa vida,
[89]
que, se a gente o não ganhar, ninguem nol-o vem trazer...
De sorte que a
probesinha tem
passado muita
necessidade...
―Logo que ella assim adoeceu, porque a não mandaram
para o hospital?
―No
isprital, meu senhor,
não na acceitaram,
porque lá diz que não curam a velhice... Nem ella
queria... Eu ás vezes inda lhe
dezia: «Ó sr.
a
Maria
do Carmo, e se vocemecê pedisse a alguem p'ra vêr
se a
arrecolhiam no
Azylio das velhas?» Mas
ella:
«que não, e que não», nem
queria que lhe fallassem
n'isso!
Chegaram a um predio velho e sujo, de miseravel
aspecto, com a porta da rua escancarada.
A mulher guiou o padre pelas profundezas escuras
do portal, e chegando ao fundo de uma estreita e perigosa
escada, que dava accesso aos andares superiores,
gritou:
―Ó sr.
a Izabelinha,
alumeie, que vae aqui o sr.
padre!
No alto do terceiro andar, rangeu uma porta, sentiram-se
uns chinellos a arrastar, e na balaustrada do
corrimão luziu a mortiça e fumarenta luz d'uma
candeia
de petroleo.
―É vocemecê, sr.
a
Barbora?―perguntou uma
voz lá do alto.
―Sou eu, sou, alminha do Senhor!
Alumeie, que
não vá este senhor cahir...
A sr.
a Barbara investiu com a escada como quem
de ha muito estava familiarisada com os perigos
d'aquelles desconjuntados degraus.
E voltando-se para o padre Filippe:
―É melhor v. s.
a agarrar-se ao
corrimão, que
não vá por ahi cahir e partir alguma perna...
Isto,
quem não está costumado, nada mais
facel do que
aleijar-se...
[90]
O padre Filippe já havia, por instincto, adoptado o
expediente que a sua cuidadosa guia lhe aconselhava.
Segurando-se com a mão esquerda ao sujo e gordurento
corrimão da escada, e tacteando os degraus
com os pés e com a bengala, revestira-se de coragem
e paciencia evangelica para realisar a difficil e arriscadissima
ascenção.
Quando chegou ao alto do terceiro andar, onde
uma velha esguedelhada, de cabeça estopenta e candeia
na mão o aguardava, o amante de madre Paula
parou offegante e cançado.
―É cá muito em cima!―disse elle.
―E as escadas são ruins
d'assobir, meu senhor!―accrescentou
a velha.―Eu
támem,
quando venho
de lá de baixo e chego cá arriba, fico que, se me
puzessem
uma mão na bocca, arrebentava!
―Onde está a doente?―interrogou por fim o padre
Filippe.
―Está aqui dentro, meu senhor... Ella está mesmo
a
espedir, coitadinha! Já
desde
honte que não lhe
foi nada á bocca, e não faz senão
pedir
auga... Parece
que está mesmo abrasadinha lá por dentro! O
que aquella creatura me tem consummido p'ra lhe eu
mandar chamar o confessor!
―E vocemecê porque não lhe satisfez a vontade?
―Eu já mandei recado ao sr. padre Luiz, que v.
s.
a ha de conhecer, mas como a gente
semos
probes,
fez á de conta que não era pressa e inda
inté agora
cá não appareceu...
―É que vocemecês não lhe mandaram
talvez dizer
que se tratava de uma pessoa em artigos de morte...―desculpou
o padre Filippe.―Ora vamos lá...
vamos lá ouvir essa creatura de Deus...
A velha, com a candeia lançando de si um enorme
pennacho de fumo negro e suffocante, allumiou o padre
Filippe até ao escuro e fétido cubiculo encravado
no
[91]
interior do misero pardieiro, que era um genuino representante
da miseria suja do Porto, a mais repellente
e odiosa de todas as miserias.
Ha n'esta bella cidade trabalhadora virtudes excepcionaes
de honestidade, de honra, de civismo e de
labôr persistente, que fariam o orgulho de todos os
povos do mundo. Os seus habitantes são generosos,
hospitaleiros, leaes, podendo servir de lição e
exemplo
a quantos se presam de possuir em elevado grau
estas raras e nobilissimas qualidades. Mas a par d'isto,
quantos defeitos de educação, deprimentes da
dignidade
de um povo que podia e devia ser o primeiro a
marchar na vanguarda da civilisação do seu paiz!
Nas ruas, as classes trabalhadoras apresentam-se,
na sua grande maioria, sujas, andrajosas, repellentes
de immundicie, mãos e cara accusando uma ignorancia
absoluta do uso da agua, como se o trabalho persistente
e honesto precisasse d'estes ascorosos attestados
da porcaria para se fazer respeitar!
Mulheres novas, bonitas como em nenhuma outra
terra de Portugal, percorrem as ruas, descalças,
esmadrigadas,
as repas soltas, estrelladas de lendeas, e os
pés e pernas nuas, batidas dos trapos sujos das fraldas,
escodeadas de lama! Uma miseria! Um horror!
E todavia era tão facil mudar os gordurosos e sujos
andrajos nas limpas e asseiadas vestes da gente
pobre que se lava! Uma pouca d'agua―e o rio Souza,
e os poços dos quintaes e os ribeiros dos arrabaldes
offerecem tanta!―e dez reis de sabão bastavam!
É talvez esta, a diffusão das ideias de limpeza
nas classes proletarias, uma das mais sympathicas e
civilisadoras missões que estão reservadas
á imprensa
periodica dos nossos dias.
Os jornaes populares, os jornaes baratos, que levam
tantas doutrinas salutares e tantas noticias perniciosas
ás classes humildes, que por elles se guiam
[92]
e norteiam,―quando se não desnorteiam―não
poderiam,
com um bocadinho de boa vontade e persistencia,
encetar efficazmente a propaganda da limpeza publica
e particular dos cidadãos como base primaria de
toda a hygiene social e moral?
Valha-me Deus! Pois não ia eu agora descambando
da facil e comesinha acção do romance para as
considerações
sabias e profundas de um sabio e profundo
auctor de originaes opusculos?
Desculpe-me o leitor a divagação e acompanhemos,
visto que não ha outro remedio, o padre Filippe
através
dos corredores defumados e mal cheirosos, resumando
das paredes e do soalho podridão e esterco, até
ao
humilde grabato em que arqueja agonisante uma octogenaria,
quasi uma mumia, enterrada sob um montão
de farrapos.
É a sr.
a Maria do Carmo.
Ao vêr entrar o padre Filippe, a moribunda voltou
para elle os olhos, em que perpassou um lampejo
de alegria, e disse com voz debil e quasi extincta:
―Graças a Deus! Não morrerei sem que v. s.
a
me ouça de confissão!
O padre Filippe aproximou-se do leito e contemplou,
á luz de uma candeia de azeite, espetada na parede, do
lado da cabeceira, o rosto enrugado e magro da pobre
creatura.
―Então deseja reconciliar-se com Deus, não
é
verdade, minha irmã?
―Sim... sim, meu padre!.. Quero confessar-me...
A morte avisinha-se e eu quero... preciso de
alliviar a minha consciencia do peso de... peccados
que não sei se Deus m'os perdorá!―balbuciou a
enferma,
com voz entrecortada e de cada vez mais debil.
―Deus é infinitamente bom, infinitamente
misericordioso―aquietou
o padre Filippe―e está sempre
prompto a perdoar á creatura que, humilde e contrita,
[93]
sente na alma o arrependimento da culpa e para
ella implora o divino perdão!
Puxou uma cadeira de pau de pinho, sentou-se á
cabeceira do leito e, fazendo signal ás duas mulheres
que o conduziram para que o deixassem a sós com a
enferma, continuou:
―Aqui estou, pois, minha irmã, para ouvir em
nome de Deus, cujo humilde ministro sou, as vozes
do seu arrependimento e absolvel-a... De que se accusa?
A velha relanceou para elle os olhos afflictos, em
que se lia o pavor do inferno, e principiou com voz
lenta e abafada a seguinte narrativa:
―Eu sempre fui muito religiosa e devota... Ia
todos os dias ouvir missa e confessar-me, e Deus ajudava-me
sempre com a sua divina graça, porque desde
que comecei a andar pelas casas do Senhor, nunca
me faltou nada, e havia muitas almas bôas que me
soccorriam, compadecidas da minha pobreza...
―Ahi tem, pois, uma prova de que Deus não recusa
nunca o seu divino amparo áquelles que na sua
infinita misericordia depositam inteira fé e
confiança...
―Os srs. padres dos Grillos e os srs. padres de
S. Bento da Victoria conheciam-me todos... e faziam
o favor e esmola... de serem muito meus amigos...
―É porque reconheciam em vocemecê verdadeira
devoção e temor de Deus...
―Lá isso... eu na egreja... portei-me sempre
com muito respeito... E até quando via certas beatas
fingidas―Deus me perdôe!―a fazerem da casa do
Senhor logar de recreio e de pouca vergonha... sentia
um peso na consciencia e ia-me logo confessar d'isso,
como se fosse eu que tivesse commettido o peccado...
[94]
E aonde não chegava mandava... que era
para ellas terem vergonha!
O padre Filippe sorriu indulgente:
―E é talvez d'esse excesso de zelo, em verdade
pouco edificante aos olhos do Altissimo, que se arrepende
agora e quer pedir perdão a Deus? Tem razão,
minha irmã! A moral do evangelho, a religião
santa
do Crucificado manda que perdoemos as faltas e fraquezas
do proximo e não façamos d'ellas objecto de
escandalo e de aggravo, com perda e offensa da
reputação
d'aquelles que peccaram...
―Não é d'isso que eu me accuso, meu
padre!―accudiu
a velha reanimada um pouco pelo prazer da
confissão―Isso até os meus santos padres
confessores
me diziam que fazia muito bem... e pediam-me que
os avisasse de tudo o que visse e ouvisse, que era
para elles não andarem a ser enganados... e saberem
quem tinha religião e quem não tinha...
O padre Filippe dissimulou um gesto de repulsão
e de enfado, e perguntou:
―De que é então que se accusa, minha
irmã?
―Eu... de mim... não me accuso de nada, meu
santo padre! Eu... o que fiz... foi sempre com os
olhos em Deus... e tudo para bem da santa religião...
―Pois se não tem de se accusar de faltas proprias,
as dos seus semelhantes tambem não são as que
hão-de
fazer-lhe carga aos olhos do Altissimo, se para
ellas não concorreu nem estava na sua mão
impedil-as...
Portanto, como onde não ha culpa não ha
perdão, eu
nada tenho de que absolvêl-a... Feliz de quem
póde
como vocemecê apparecer no tribunal divino com a
alma limpa de macula.
Dizendo isto, o padre Filippe, entediado, ia a levantar-se
para sahir, quando a velha, estendendo para
[95]
elle as mãos convulsas, bradou com indizivel accento
de pavôr:
―Pelo amor de Deus! Pelas cinco chagas de Christo,
meu padre, ouça-me! Ouça-me que eu quero...
confessar-me!...
―Pois o que tem vocemecê estado a fazer, senão
a confessar-se, creatura de Deus?
―Como v. s.
a ainda me não perguntou
nada...
―Nada tenho que perguntar-lhe, minha irmã...
Vocemecê consulta a sua consciencia, e se n'ella encontra
escrupulo ou duvida de falta commettida, confessa-a
sinceramente e d'ella pede perdão a Deus, em
nome de quem eu a estou escutando...
A velha revolveu-se arquejante nos trapos e disse
em voz sumida:
―É que eu... criei como se fosse meu filho uma
creança... que era filha... de um padre e d'uma
mulher casada...
―E vocemecê concorreu d'algum modo para que
esse padre e essa mulher casada incorressem na falta
que originou o nascimento d'essa creança?
―Não, meu senhor! Eu conhecia o sr. padre Anselmo
de me confessar a elle, na egreja de S. Bento,
no tempo do sr. padre Couto, que era um santo...
―Só Deus sabe quem é santo!―murmurou o padre
Filippe, surprehendido ao ouvir fallar no padre
Anselmo.
―E vae depois, um dia, o sr. padre Anselmo chamou-me
a Braga para eu tomar conta d'aquella creança
debaixo de todo o segredo... Eu, como lhe devia
muitas obrigações, trouxe-a e tratei a
creança como
minha... E o sr. padre Anselmo é que pagava as
despezas...
―Que nome tinha essa creança?―perguntou o
padre Filippe, agora interessado na estranha narrativ ―Que nome tinha essa creança?―perguntou o
padre Filippe, agora interessado na estranha narrativa
da velha.
[96] ―Chamava-se Hilario, meu senhor...
―Esse rapaz ordenou-se e é ecclesiastico―disse
o padre Filippe.
―V. s.
a conhece-o? Sabe d'elle? Onde
está?―perguntou
a velha.
―Conheci-o, em tempo, capellão da casa conventual
das irmãs Dorothêas, na Covilhã...
―É esse mesmo! É esse mesmo!―bradou a velha―E
onde está agora?
―Ha muitos annos que o não vejo nem ouço fallar
n'elle... Supponho que talvez haja partido para as
missões ultramarinas ou viva em alguma casa religiosa
do estrangeiro...
―Oh! não... não! Mataram-n'o... mataram-n'o!
―Quem? Quem suppõe vocemecê que pudesse ter
interesse na morte d'esse obscuro sacerdote?...
―O mesmo que lhe matou a mãe... a D. Carlota...
E a velha juntou as mãos n'uma visivel angustia,
murmurando:
―Meu Deus! meu Deus! e eu que o podia ter
salvo... o meu pobre Hilario, coitadinho!
E pelas faces resequidas rolavam-lhe lagrimas em
fio.
―Socegue, minha irmã, que o padre Hilario não
foi victima de nenhum attentado como suppõe―disse
o padre Filippe―A morte de um sacerdote não é
coisa que passe despercebida na sociedade, mormente
se essa morte é resultante de um crime. Ora eu
não
me recordo de ter lido a noticia do fallecimento do padre
Hilario nos jornaes portuguezes e estrangeiros que leio
todos os dias.
―Deus Nosso Senhor permitia que elle viva ainda!―murmurou
afflictivamente Maria do Carmo.
―Vive decerto―affirmou o padre Filippe, no intuito
de serenar a doente.
[97] ―Mas então porque não me escreve elle ha tantos
annos? Eu que o criei com tanto amor... eu a quem
elle chamava mãe...
―Julgará que vocemecê já
não é viva...
―Não... não!―tornou a velha―Mataram-n'o
para o roubar!...
O padre Filippe, suspeitando um tenebroso mysterio
nas palavras da velha beata, perguntou:
―Como póde vocemecê ter semelhante suspeita?
Pareceu-me ouvir-lhe ha pouco que a mãe d'esse rapaz
foi assassinada...
―Foi... foi...
―Matou-a o marido, sabedor de que ella o atraiçoava?
―Não... o marido não... Foi o outro... o proprio
amante...
―Quem?
―O padre Anselmo!
―O padre Anselmo!―disse o padre Filippe com
espanto.
―Foi em Lisboa...―continuou a velha enferma―D.
Carlota, a mãe do meu Hilario... separada
do marido, um tal Custodio, de Braga, tinha feito testamento,
deixando-me todos os haveres, para eu fazer
entrega d'elles ao filho...
―E entregou-os?
A velha revolveu-se afflicta nos farrapos do leito.
―Não... porque o sr. padre Anselmo fez-me
assignar
um papel de divida a um homem... um tal
João Ignacio, da rua de S. Sebastião, que me
levou
tudo, tudo!
O padre Filippe esforçava-se por comprehender a
confusa narrativa da velha.
―Mas como diz vocemecê que o padre Anselmo
matou a mãe do proprio filho d'elle?
―Foi em Lisboa... Elle levou-a para lá a ella
[98]
e mais a mim, promettendo a ambas que o nosso Hilario
iria lá ter comnosco, para vivermos todos juntos...
Depois, elle... uma noite... foi tomar o chá
no quarto da D. Carlota e... envenenou-a!
Aqui a velha esbracejou mais afflicta, evidentemente
torturada pela recordação d'aquelle crime.
―Como o soube?―interrogou o padre Filippe.
―Eu vi n'essa noite a D. Carlota levar para o
quarto d'ella o bule do chá com duas chávenas...
Desconfiei
e fui espreitar á porta do quarto... Presenceei
tudo... Ella a queixar-se do veneno e elle... a
dizer-lhe que a matava por ella lhe faltar á obediencia...
Depois, no outro dia, veio a justiça e achou um
bilhete que, não sei como foi, o sr. padre Anselmo tinha
arranjado em nome d'ella, a dizer que se matou
por causa do marido...
―E vocemecê calou-se com o conhecimento d'esse
crime?
―Eu.. tive mêdo que elle me fizesse o mesmo
a mim, e calei-me...
―Nem mesmo contou ao padre Hilario o que presenceou?
―Eu nunca mais o tornei a vêr... O sr. padre
Anselmo disse-me que ia ter com elle á Covilhã e
nunca mais vi um nem o outro... Por isso eu digo
que elle o foi matar!...
A velha suspirou afflictivamente. Depois, continuou:
―Quando eu voltei para o Porto, o João Ignacio
veio cá com os da justiça e tomou conta de tudo o
que era da sr.
a D. Carlota... Acho eu que tomou
conta, porque a mim não me chegou nada ás
mãos...
―E quem era esse João Ignacio?
―Era o maior amigo do sr. padre Anselmo...
―Sabe se
elle ainda vive?
―Ouvi dizer que endoideceu e que o metteram
[99]
no hospital dos doidos... Foi bem feito! Foi o castigo
de Deus!...
―Como conheceu vocemecê a D. Carlota? Foi
em Braga, quando tomou conta da creança?
―Nada! Ella nunca viu o filho... e eu só a conheci
quando o sr. padre Anselmo a
trouve
p'rás Sereias
e depois a levou p'ra Lisboa enganada... E como
ella sabia que fui eu a que creou o Hilario... era
muito minha amiga... e fez-me o testamento p'ra eu
deixar tudo ao pequeno... Até me deu uma carta
muito grande p'ra eu lhe entregar só depois d'ella
morrer... Porque ella não queria que o Hilario soubesse
que era filho d'ella...
―E o que fez a essa carta? Entregou-a ao padre
Anselmo?
―Essa carta...―fez a velha―tenho-a aqui...
guardada... como ella m'a deu... Nunca mais
tornei a vêr o meu Hilario... nunca lh'a pude entregar...
Nos olhos do padre Filippe luziu um raio de curiosidade.
―É por isso...―proseguiu a velha―que eu
me queria confessar a quem contasse isto... e confiasse
esta carta... para a entregar ao meu Hilario...
se elle algum dia apparecer vivo...
Dizendo isto, a velha introduziu a mão descarnada
e tremula debaixo do travesseiro e tirou de lá uma
sacca de chita, surrada do attrito das mãos e dos
farrapos, e apresentando-a ao
padre
Filippe, disse com
a voz estrangulada pelo esforço:
―Aqui está a carta e mais um dinheirinho que
eu fui ajuntando das esmolas dos bemfeitores para lhe
dar a elle... se um dia apparecesse... Tome v. s.
a
conta de tudo, e se elle fôr vivo... entregue-lh'o... Se
elle tiver morrido... diga-o de missas por minha
alma...
[100] ―Não tem filhos, vocemecê?―perguntou o padre
Filippe, acceitando com repugnancia o thesouro
da velha e sem mesmo verificar a quanto montava.
―Tenho... Mas esses... estão arrumados...
Nunca quizeram saber de mim... Mil contos que eu
tivesse... haviam de ser todos para o meu Hilario...
coitadinho!
―Não seria melhor distribuir pelos seus filhos
este dinheiro, de que o padre Hilario talvez não precise?
―Não! Não! exclamou a velha anciadamente,
arregalando os olhos, onde a vida começava a extinguir-se.
Se elle não apparecer... missas pela minha
alma!... Esse dinheiro... deu-m'o a religião... para
a religião torna! São tres centos de libras...
Tres
centos!
―Está bem! Socegue. A sua vontade será
cumprida―aquietou
o padre Filippe.
―Graças a Deus! Morro descançada... E agora,
meu padre... deite-me a sua absolvição... para
que Deus me perdôe!
O padre murmurou em latim as palavras da
absolvição.
―E elle... se fôr vivo... que se acautele do
padre Anselmo... que não lhe mostre esse dinheiro...
O padre Anselmo é pae d'elle... mas envenenou-lhe
a mãe... para o roubar!...―murmurou ainda a
velha, deixando descair a cabeça no travesseiro e entrando
logo na agonia ultima.
O padre Filippe, impressionadissimo com as
revelações
que ouvira dos labios da moribunda, guardou
no bolso o legado da velha e sahiu do lobrego cubiculo
em que aquella vida se extinguia.
Chegado ao patamar, respirou com força e disse
para a outra velha que o aguardava com a fumarenta
candeia de petroleo na mão.
―Essa pobre mulhersinha está agonisante. Logo
[101]
que ella expire dê-me parte, porque o enterro fica por
minha conta.
―Sim, meu senhor!―disse a velha―Não seria
bom dar-lhe ao menos a Santa Uncção,
já que não
póde tomar o Senhor?
―É tarde―respondeu o padre Filippe―Quando
cá chegasse esse ultimo soccorro espiritual, encontraria
um cadaver.
―Seja pelas almas!―lamuriou a velha―Não
sêmos nada n'este mundo!
―Somos realmente bem pouco, quando presumimos
ser tanto!―concordou philosophicamente o sacerdote―Vocemecê
faria uma obra de caridade, indo
assistir aos ultimos momentos d'aquella desgraçada...
―Sim, meu senhor... eu vou―concedeu a velha.
Padre Filippe, voltando-se para a mulher que o fôra
chamar e que tambem viera ao patamar n'uma curiosidade
agradecida, pediu:
―E vocemecê, santinha, não poderia fazer-me o
favor de me alumiar até ao fundo da escada, que é
tão cheia de precipicios para a minha idade?
―Eu vou, meu senhor... Então não hei-de ir?
E tirando da mão da outra a candeia:
―Vá vocemecê pró par da creaturinha de
Deus,
emquanto eu
alumeio ó sr.
padre...
A velha cedeu a luz e retirou para o interior, resmungando:
―Estes
carólas do
inferno, em não sentindo dinheiro
a uma creatura, põem-se logo a
avoar e dizem
aos oitros que se
aguantem co'as
massadas... Se lhe
cheirasse a que lhe untavam as unhas no fim, punha-se
ahi a alanzoar os officios da agonia e não arredava
d'aqui pé emquanto ella não fechasse o olho...
Assim,
vae a correr metter-se no
quente e
tanto se lhe
[102]
dá que a
probesinha de
Christo vá p'ró céo como que
vá p'ró inferno!
O padre Filippe, alumiado pela outra visinha, chegara
ao fundo da terrivel escada com as costellas direitas.
―V. s.
a quer que o vá acompanhar
inté casa?―offereceu
a mulher.
―Não, não é preciso... D'aqui
até lá é perto e
não ha escadas a subir nem a descer. Amanhã
procure-me
para se comprar um caixão á pobre creatura.
Boa noute!
―Vá v. s.
a na graça de
Deus, meu senhor!
[103]
VII
Tres miseraveis
Depois da scena que representou com a filha, o
Custodio de Jesus correu a procurar o seu amigo
Belchior.
O agiota ia radiante de satisfação.
―Beatriz―disse elle ao procurador―está no
caminho!
―No caminho de quê?
―No caminho de acceitar o casamento com o
Eugenio de Mello.
―Sério?
―Homem, digo-lh'o eu! A principio recusou, fez
cara feia, e ia-me fazendo sahir fóra dos eixos, porque
eu não sou para graças... Mas depois...
―Conseguiu intimidal-a?
―Isso sim! Aquella sonsinha que você alli vê
tem figados! Ameacei-a com as irmãs da caridade
para toda a vida, e ella teve a pouca vergonha de
me dizer que podia matal-a, mas que não podia fazer
com que ella fosse á egreja dizer o
sim!...
―É o que eu digo! O outro rapaselho deu-lhe
volta ao juizo, e as mulheres são assim... são
peores
[104]
que cabras... Em encarreirando para um lado,
não ha diabo que as faça voltar para
trás!
―Mas consegui eu que ella voltasse...
―Como?
―Com bons modos... Você, afinal, foi quem me
ensinou o segredo... Mas eu tambem discorri alguma
coisa... Comecei a amacial-a, a dizer-lhe que se desejava
que ella acceitasse o casamento era para interesse
d'ella, porque eu estava pobre, estava desgraçado,
tudo quanto tinha já não chegava para pagar
aos credores, e portanto que só havia a escolher: ou
casar ella com Eugenio de Mello ou dar eu um tiro
nos miolos e arrumar com isto por uma vez. Chorei,
que se você visse até se admirava!
―E afinal?
―Afinal, ella, que estava de pedra e cal, a dizer
que não e que não, poz-se a considerar um bocado
e
por fim disse-me que queria fallar com o noivo...
―Com o Eugenio de Mello?
―Pois então com quem? Quem é o noivo?
―O noivo é aquelle com quem ella estiver para
se casar...
―Bem! pois esse é o Eugenio de Mello. Não se
trata de outro.
―Que diabo lhe quererá ella?―commentou o
procurador.
―Ora o que ha de querer? Quer que elle lhe
diga que lhe tem muito amor, que está a morrer de
paixão por ella, que não sonha com outra coisa
senão
com o momento ditoso,
et
coetera... coisas que todas
as raparigas gostam de ouvir aos namorados.
O Belchior pôz-se a rir.
―Vá lá a gente fiar-se em mulheres!―disse
elle.―Muito amor ao outro, capaz de se deixar matar
antes que trahir a fé jurada; mas assim que lhe
cheirou a que o negocio era de
cobres e que sem elles
[105]
não teria mais vestidos, nem mais luxo nem mais
commodidades,―venha
de lá o
homem da massa e
atire-se
com o querido do coração ás ortigas!
Ah! mulheres,
mulheres! quem não as conhecer que se fie
n'ellas!...
―Pois por eu saber isso―retorquiu o Custodio―por
ter a experiencia de que não ha amor que resista
á perspectiva da miseria, é que eu me lembrei
de inventar esta historia, que ha de dar bom resultado...
Agora elle que lhe
cante umas
cantiguinhas
bem cantadas... que lhe falle d'amor, de paixão e de
todas essas frioleiras que as raparigas apreciam, e
d'aqui a dois dias, diabos me levem se ella pensa mais
no outro!
―Quando entende você que deve ir fallar-lhe o
Eugenio?
―O mais depressa possivel. N'estas coisas nunca
ha tempo a perder...
―Está bem. N'esse caso, vou lá hoje á
noite com
elle tomar o chá...
―Sim senhor! E passaremos uma noite bem passada...
A pequena toca piano, você gaba-lhe a habilidade
para a musica, o rapaz rende-lhe finezas, e ás
duas por tres a rapariga está ensarilhada, e não
terá
remedio senão dizer que sim.
―Vou então mandar prevenir o rapaz. Foi o diabo
você não vir mais cêdo, porque elle
ainda ha bocado
sahiu d'aqui... Veio cá para eu lhe adiantar
um dinheiro sobre o arrendamento de uma quinta que
de dois em dois annos rende seis contos de réis,
só em
cortiça! É um doidivanas... Não sabe o
que tem de
seu e anda sempre a
pillar por
dinheiro!
―Afinal―considerou o Custodio de Jesus―este
casamento até é uma providencia para elle...
Porque
se nós não ―Afinal―considerou o Custodio de
Jesus―este
casamento até é uma providencia para elle...
Porque
se nós não lhe puzessemos uma tutella, por esse
andar ainda vinha a dar n'um pobre de pedir...
[106]
O Belchior disfarçou um sorriso velhaco.
―Quem duvida que é uma obra de caridade casal-o
e tomar-lhe conta dos haveres? Mas é preciso
que você saiba, amigo Custodio, que eu é que fico
em
peores lençoes...
―Porque?
―Porque este diabo é maluco, e depois, quando
você e sua filha lhe moverem um processo de
interdicção,
quem paga as favas sou eu... Contra mim é
que elle se ha-de voltar, a dizer que lhe armei esta
ratoeira de proposito para lhe apanharem a fortuna...
―E a você que se lhe dá? A sua consciencia
diz-lhe
que praticou uma acção bôa... que
importa lá
que elle grite?
―Pois sim, mas a minha consciencia tambem me
diz que eu escuso de me metter em
alhadas sem interesse,
e que se elle, por fim, como é maluco, me
quebrar a cabeça, é bem feito... Portanto, logo
que
este casamento esteja combinado, nós temos um pequeno
negociosinho a fazer...
―Que negocio?―interrogou o Custodio franzindo
o sobr'olho.
―Que diabo! É justo que eu leve rasca na
assudura... Eu pratico uma acção bôa...
bôa para
si e bôa para elle... Parece que tambem
não será
fóra de razão que a pratique bôa para
mim...
―Mas o que é então que você quer dizer
com
isso?―tornou o Custodio desconfiado.
―Quero dizer que o negocio é negocio, e que se
eu lhe metto a você para cima de noventa contos de
reis no bolso, é de justiça que leve n'isso uma
pequena
commissão...
―Uma commissão! Mas que commissão quer
você?
O Belchior sorriu:
―Socegue! eu não sou d'aquelles que comem a
sardinha e deixam para os outros só a espinha... Ahi
[107]
uns
dezitos por cento sobre a
fortuna do rapaz, não
é coisa que empobreça ninguem...
―Dez por cento! Você está doido!―exclamou o
Custodio de Jesus, fazendo uma careta terrivel―Dez
por cento sobre noventa contos, atirava lá para nove
contos. Isso era melhor do que fazer meia!
―É... é melhor do que fazer meia... E oitenta
contos por uma filha que está em vesperas de casar
com um rapaz que não tem de seu oitenta reis, o que
é? É barro!
―Não que eu não a deixo casar senão
á minha
vontade!―barafustou o Custodio.
O Belchior teve um sorriso desdenhoso.
―Você não a deixa casar senão com quem
muito
bem entender, e ella não casará senão
com quem
muito bem quizer―replicou por fim.―Mas o nosso
caso é muito outro, amigo Custodio... Se você
arranjar
o casamento da pequena com outro rapaz, sem
ser por minha intervenção, ainda que o noivo
tenha
mil contos de reis, descance, que eu não vou lá
metter-me
no negocio nem reclamar para mim a mais
insignificante parte nos lucros... Ora agora, fazendo-se
o casamento com o Eugenio de Mello, e sendo
eu o principal agente d'este negocio que lhe mette a
você para cima de noventa contos no bolso, tenha paciencia,
mas a minha commissão é justo que se pague...
―Com os diabos! eu ainda lhe não disse a você
que queria o seu trabalho de graça!―prorompeu o
Custodio.―Mas é preciso ter consciencia... é
preciso
que você não queira a melhor parte para si...
―A melhor parte! Então nove contos de reis é a
melhor parte de noventa?
―Limpinhos e sêccos, sem mais incommodos, sem
ter que aturar a noiva a choramigar e sem ter que
andar ás testilhas com o noivo para o fazer entrar na
ordem, acha você que não é nada!
[108] ―E a minha responsabilidade? E ter depois de
me haver com o rapaz, que é um touro de força, e
que, se lhe der na cabeça, é muito capaz de me
lançar
as culpas de tudo e quebrar-me as costellas? Isso
não representa nada, não?!
―Se elle fizer isso, você arma-lhe um processo...
Tem a justiça de casa, fica-lhe barato...
―Mas o corpo é meu, e depois de eu as cá ter,
do lombo é que ninguem m'as tira!―berrou o
procurador.―Homem,
é preciso que você veja que isto
é negocio muito arriscado para mim... E eu metter-me
em folias, sem ao menos ter garantidos os pontos que
depois hei-de levar nas feridas... não me serve!
E n'um repellão:
―Então acabemos com isto, não se falla mais em
tal e você case lá a pequena com quem quizer.
O Custodio amaciou um pouco.
―Ora venha cá...―disse elle.―Você sempre
tem um demonio d'um genio!
―Mas pela razão!... pela razão é que
eu tenho
genio!―contestou o Belchior.―Você, se fosse outro,
dava o valôr ás coisas e não estava a
fazer questão
de uma miseria... Demais a mais, sabendo que eu
entro n'isto por ser seu amigo...
―Bem sei, Belchior, bem sei que você é meu
amigo; e por isso mesmo é que eu esperava que você
fosse mais rasoavel...
O procurador descarregou violento murro sobre a
escrivaninha.
―Mais rasoavel!―exclamou elle.―Póde-se ser
mais rasoavel do que isto? Você, que empresta dinheiro
a vinte e a trinta por cento, acha caro noventa
contos de reis comprados a troco de nove?!
―Pois sim, mas isso não é dá
cá, toma lá...
O dinheiro é do rapaz e elle é que continua sendo
senhor d'elle...
[109] ―Não me venha com cantigas! Eu já lhe disse
a você como é que as coisas se arranjam... Mas se
acha que é prejudicado ou que o negocio não vale
a
pena, eu lavo d'ahi as minhas mãos e arranje você
casamento melhor para a pequena.
Era a segunda vez que o Belchior ameaçava desmanchar
o negocio. O Custodio de Jesus tremeu com
a ideia de que o procurador tivesse já posto a mira
n'outra noiva para o seu cliente.
―Homem!―disse elle―a gente não está aqui
a jogar facadas. Nem você quer o meu prejuizo nem
eu o seu... Você faz um abatimentosinho... fica a
coisa reduzida a seis por cento...
―Sete tenho eu quem me dê!―volveu o procurador.―E
é porque eu não quiz entrar em
transacção,
senão a coisa chegava aos oito. Mas a mim aborrece-me
regatear... Isto não é negocio de cebolas. Disse
que
hão de ser dez, e hão de ser dez, ou o rapaz
não casa
no Porto. Então dou um passeio com elle até
Lisboa,
e você verá como até apanho
lá uma viscondessa para
elle. Aquillo é que é terra! Aquillo sim! Ali
dá-se
valôr ao dinheiro e ao trabalho de cada um...
―Bom! Você é teimoso... tambem não
quero
que diga que, sendo eu seu amigo, estou a fazer questão
por pouca coisa... Está tratado.
―Ora até que, emfim, chegou-se á
razão!―disse
o procurador, como quem se alliviava d'um grande
peso―Eu bem sabia que você não deixava fugir o
bôlo, ainda que tivesse de partir um bocado maior
para mim... Mas eu não gosto d'abusar com os
amigos...
―Vamos lá!―suspirou o Custodio.―Para amigos,
você carregou um bocadito na mão... Mas acabou-se!
Está tratado, está tratado. Não volto
com a
palavra atrás.
―Sim, senhor!―tornou o Belchior.―Ora agora
[110]
temos a regular a forma do contracto... Eu recebo
os nove contos no dia do casamento, antes dos noivos
irem para a egreja...
―O que! Então você põe-me assim as
facas ao
peito?!―exclamou o Custodio de Jesus muito admirado.
―Homem, negocio é negocio. Eu comprometto-me
a levar o noivo até sua casa no dia do casamento, sem
escripturas, para a noiva poder entrar na meação
dos
bens que elle possa possuir. Feito isto, o dinheiro que
eu ganhei é meu, você passa-m'o para a
mão e estamos
quites. Pois como queria você?
―Isso não podia ser depois do casamento realisado?
―Póde, acceitando-me você letras...
―Você sabe-a toda!―fez o Cutodio sorrindo,
como quem acaba de effectuar um bello negocio.―Vá
lá! No dia do casamento entrego-lhe o dinheiro e
está a conta arrumada.
―Antes dos noivos partirem para a egreja...
―Sim, homem, sim! Antes dos noivos partirem
para a egreja.
―Pois então esta noite lá estamos. Vou mandar
prevenir o rapaz para não faltar.
O Custodio despediu-se e o Belchior correu ao
Francfort a prevenir Eugenio.
N'essa mesma noite, a sala de visitas do Custodio
de Jesus era theatro da odiosa farça que os tres miseraveis
se dispunham a representar á roda do
coração
de Beatriz, illudindo-se uns aos outros, como
quasi sempre acontece quando tres patifes de grande
marca se encontram unidos pelo mesmo pensamento
de interesse commum.
O Custodio, sahindo de casa do Belchior, passára
pela casa de D. Barbara, viuva d'um general reformado
e mãe de tres filhas feiissimas que o Monte-pio
militar sustentava, e pediu-lhes para irem á noite tomar
[111]
o chá e fazer um bocado de companhia á
Beatriz,
que já tinha fallado n'ellas e estranhado que estivessem
tanto tempo sem lhe irem fazer uma visita.
O Belchior, pela sua parte, fizera-se acompanhar
da mulher, a D. Rosalia, e da cunhada, a D. Adelia,
ambas vermelhuscas e adiposas,―a D. Rosalia queixando-se
sempre do seu figado e a D. Adelia dos seus
flatos.
Eram estas as relações mais intimas do Custodio
que, usurario e forrêta, detestava reuniões e
convivencias
que o forçassem a incommodos e despesas.
Tolerava a viuva do general, cujo conhecimento
proviera de serem as filhas companheiras de Beatriz
no collegio, porque lhe rebatia as pensões com
extraordinaria
usura; e quanto á
familia
do Belchior,
está
bem patente o interesse que lhe advinha das suas
relações.
Beatriz, prevenida por seu pae de que n'essa noite
viriam visitas, preparou-se para as receber.
A candida menina preferiria antes a solidão do
seu quarto á enfadonha conversação de
tão estolidas
creaturas; mas como era a ella que cumpria desempenhar
os deveres de dona da casa, não teve remedio,
sacrificou-se ás leis da boa educação
e foi com risonho,
embora contrafeito, semblante que veio á sala.
Eugenio de Mello, acompanhando o Belchior, apresentou-se
gentil e muito correcto no seu trajo elegante
de rapaz rico, affectando uns ares superiores, de bom
tom, sem comtudo deixar de se mostrar amavel e attencioso
em extremo para com as damas.
Conversaram estas de modas, do tempo, dos
theatros, dos mil nadas que preoccupam o espirito das
senhoras finas, ou que de taes se presumem; emquanto
Custodio, Belchior e Eugenio commentavam os ultimos
acontecimentos politicos e prophetisavam mil horrores
ao futuro de Portugal.
[112]
Veio o chá. Servido elle, o Belchior perguntou:
―Então não temos um bocadinho de musica?
Vá,
sr.
a D. Rufininha, dê-nos um bocadinho
de piano.
Rufininha era a filha mais velha do general.
―É verdade! apoiou Custodio―e a sr.
a
D. Therezinha
canta aquella canção
Murmura, rio,
murmura!
que é tão bonita.
A Rufina dirigiu-se logo ao piano e a Therezinha,
morta por cantar, começou a fazer caretas e a desculpar-se,
que estava sem voz, que não se sentia bôa da
garganta, que hoje não, para outra vez cantaria.
Mas o Belchior e o Custodio insistiram,―que cantasse,
que eram desculpas de mau pagador, que quem
tinha uma voz tão bonita não devia ser
tão avara do
seu thesouro.
E agarrando-lhe cada um por seu braço, arrastaram-n'a
até junto do piano, onde já a irmã
pingava
notas preparando-se para o acompanhamento.
Assim instada, a Therezinha começou
esganiçando-se
terrivelmente, a pedir ao rio que murmurasse, em
meio do silencio e da forçada attenção
dos circumstantes.
Aproveitando-se d'este momento, Eugenio, aproximou-se
da filha do Custodio e, sentando-se n'uma cadeira
proxima, encetou com ella este dialogo:
―Dá-me licença, sr.
a D.
Beatriz, que lhe
faça
uma pergunta?
―Queira v. ex.
a dizer, sr. Eugenio de
Mello―respondeu
Beatriz, sem poder reprimir um movimento
de terror instinctivo.
―Parece-me vêl-a triste, como que sob o peso de
um desgosto intimo... Acaso
devo eu
attribuir á
minha
presença a melacholica
expressão do seu rosto?
[113] ―Porque me faz essa pergunta, sr. Eugenio de
Mello?
―Perdão, se fui indiscreto!―tornou o mancebo.―Mas,
em primeiro logar, interessam-me as dôres e
as alegrias do seu coração mais do que talvez
póde
imaginar... Depois... creio que lhe não deve ser
estranho o desejo ardente que me anima de lhe dedicar
toda a minha existencia e de viver feliz da sua
felicidade...
Beatriz baixou os olhos.
―Creio que quer referir-se―disse ella―a um
projecto de casamento de que já ouvi fallar meu pae...
―Não me atrevi a patentear a v. ex.
a
o sentir
intimo do meu coração, e dizer-lhe a chamma
abrasadora
que o seu dulcissimo olhar me accendeu no peito...
E como a vi filha meiga e carinhosa, filha submissa
e obediente, não hesitei em pedir a seu pae e
meu bom amigo, que fosse interprete fiel e auctorisado
dos meus sentimentos junto de v. ex.
a. Fiz mal?
―No logar de v. ex.
a, eu não teria
procedido assim...
―Porque? Quem melhor póde ser fiador dos puros
e santos affectos da minha alma, das delicadas
e nobres intenções que me animam, do que o
proprio
pae da mulher que amo? Porventura, se o meu amor
por v. ex.
a não fosse uma d'aquellas
paixões
abrasadoras,
violentas, em que fazemos consistir toda a nossa
felicidade, iria eu pedir para elle o consenso do auctor
dos seus dias?
―V. ex.
a esqueceu ou não contou para
nada com
o meu coração. Era no emtanto a elle que v. ex.
a
devia
dirigir-se primeiro, creio eu...
―Supponho-a tão bôa, tão pura,
tão santa, que
não duvidei um momento da bondade angelica com
que acolheria as supplicas de um infeliz, sabendo que
eu, infeliz, morro por v. ex.
a.
[114] ―Por muito bondosa que eu lhe parecesse, nunca
deveria suppôr-me tanto que me julgasse capaz de
sacrificar o meu coração á sua
felicidade, sr. Eugenio
de Mello.
―Quer dizer com isso que me despreza, que recusa
o meu amor, que devo julgar para sempre perdida
a felicidade, esmagado para sempre o meu coração?
―Quero dizer-lhe, senhor, que preciso fallar-lhe
com a lealdade e franqueza que devo a v. ex.
a e
á
minha dignidade de mulher. Se depois de me escutar,
ainda persistir no seu proposito...
―Consentirá em ser minha esposa?
―É possivel.
―Pois bem; falle! Diga-me v. ex.
a o que tem a
dizer,
porque eu anceio pelo momento de lhe poder dar
uma prova cabal, irrecusavel, sublime, do meu amôr!
―O que tenho a dizer-lhe, sr. Eugenio de Mello,―respondeu
friamente Beatriz―é por tal modo
grave e serio, requer tanto socego e reflexão que, aqui,
n'esta sala, n'um curto momento de conversa, entre
pessoas que fallam, tocam e cantam, mais poderia v.
ex.
a dar-lhe peso e eu exprimir-me como desejo.
Se
lhe não fôr demasiado o sacrificio, rogo-lhe que
venha
ámanhã de dia, e então fallaremos.
Já expressei a meu
pae a necessidade que tinha de me entender com v. ex.
a
sobre o assumpto em questão, e portanto a sua vinda
a esta casa está perfeitamente auctorisada por elle.
―Virei então ámanhã―disse
Eugenio.―Mas,
por Deus, não me roube a esperança de vir a
chamar-lhe
minha esposa, de vir a ser o seu escravo
sendo ao mesmo tempo o mais feliz dos homens.
Beatriz levantou-se, despedindo-o com um gesto.
―Amanhã!―disse ella.
Esta conversa passara-se po
Esta conversa passara-se por entre os olhares obliquos
de Belchior e Custodio, que ambos, fingindo prestar
[115]
grande attenção ás filhas da D.
Thereza, não perdiam
de vista Eugenio e Beatriz.
Por volta das 11 horas, a viuva e as filhas do general
deram o signal da retirada.
A mulher e a cunhada do procurador despediram-se
tambem.
Já na rua, o Belchior, voltando-se para o Eugenio,
perguntou:
―E então?
―Então... nada!
―Pois você não lhe fallou em amor, não
lhe disse
que morria de paixão por ella?
―Disse-lhe tudo isso, porque, verdade, verdade,
eu não vim cá para outra coisa. Mas achei-a muito
fria, muito reservada... Teima que me quer fallar
amanhã, porque tem coisas muito sérias e muito
graves
a dizer-me...
―Já sei. O que ella quer é namoro. Quer que
você lhe cante a sós as lindas cantigas da sua
paixão
por ella e lhe jure mil vezes que a ha de amar até
á
morte...
―Isso não são as coisas sérias e
graves que ella
tem para me dizer... Se me chama, não é para que
eu lhe falle, é para ella me fallar a mim... Que
quererá dizer-me?
―Naturalmente que tem um namoro que a ama
apaixonadamente e que, assim que souber que ella
está para casar com outro, é capaz de se ir
deitar da
ponte abaixo―disse rindo o procurador.
―Emfim, seja o que fôr. Amanhã virei fallar-lhe
e saberemos o que ella quer...
―Que diabo hade querer? Quer casar, quer-lhe
apanhar a cortiça toda da sua quinta―porque julga
que o pae está pobre e que não póde
continuar a dar-lhe
vestidos de seda... As mulheres são todas assim,
meu amigo!
[116] ―Não parece que seja isso―volveu Eugenio―Pelo
contrario, supponho outra coisa...
―O que?
―Que a pequena cahiu em alguma falta grave e
quer francamente confessar-m'a antes de casar...
―Pois você suppõe?...
―Não sei... Mulheres são mulheres...
―Mas você, ainda que isso seja, não faz
caso!...―preveniu
o procurador, receioso d'escrupulos por
parte do seu cumplice.
―Bem me importa cá a mim! Perdôo...
faço
de generoso... O que se quer cá são os vinte
contos...
―E que o Custodio morra breve para vir a
maquia
completa!―accrescentou o Belchior.
―Nem mais nem menos!
Assim entendidos, ao outro dia, Eugenio apresentou-se
em casa do Custodio.
O usurario, informado do que se passava, simulou
uma sahida a tratar de negocios, afim de facilitar a
entrevista dos dois.
Beatriz, pallida de commoção, saiu á
sala de visitas
a receber o mancebo.
―Queira sentar-se, sr. Eugenio de Mello―disse
ella gravemente, indicando-lhe uma cadeira―Pedi-lhe
a fineza de me escutar a sós por alguns instantes,
pois o que tenho a dizer-lhe não deve ser conhecido
de mais pessoa alguma; e confio na sua honra de cavalheiro
que saberá guardar absoluto sigilo sobre o
que me ouvir...
―Oh, minha senhora!―exclamou o mancebo―Amo-a
tanto que, mesmo sem essa prevenção, guardaria
avidamente no fundo da minha alma todas as
suas palavras como um inestimavel thesouro!
―E devem realmente valer para v. ex.
a um
thesouro
pela franqueza e lealdade que revestem. V. ex.
a,
[117]
segundo creio, manifestou a meu pae o desejo de me
tomar para sua esposa...
―De novo peço perdão, se assim procedi, mas
julguei que ninguem melhor do que elle podia ser interprete
dos meus sentimentos junto de v. ex.
a... Nos
tempos que vão correndo é tão
frequente vêr-se um seductor
abusar da hospitalidade de um homem de bem
para lhe ludibriar uma filha, que eu julguei um dever
de honra, antes de tudo, patentear a quem tão
generosamente me acolhia as nobres e puras
intenções
do meu coração apaixonado! Se errei, v. ex.
a
saberá
perdoar-me o inconsiderando passo com que pude contrarial-a,
em attenção aos honestos sentimentos que
me moveram.
―É v. ex.
a um homem de bem e por
isso mesmo
ha-de saber comprehender e avaliar os justos melindres
que me forçaram a uma explicação
clara, franca
e leal da minha situação...
―Dos labios de v. ex.
a está
dependente a minha
sorte, o meu futuro, a minha vida. Peço-lhe que falle
como á pessoa que mais a ama e que mais ardentemente
deseja merecer-lhe inteira confiança!
―Pois bem; em primeiro logar, o meu coração
já não está livre―disse Beatriz―Amo
e sou amada
com o sincero e vehemente amôr de duas almas irmãs
que desejam unir-se no mesmo destino...
Eugenio levantou-se de golpe, simulando uma muito
bem fingida commoção.
―Beatriz!―disse elle arrebatadamente tentando
apoderar-se das mãos da joven―não posso
crêr que
haja no mundo quem a ame, quem a adore com o
santo e fervoroso culto que o meu coração lhe
tributa!
É possivel que haja, e creio bem que haverá, quem
renda o merecido preito á sua belleza, ás suas
virtudes,
á nobre e graciosa distincção de sua
gentil figura.
Mas amor puro, santo, sincero e vehemente como
[118]
este que me agita o peito, que me rouba o socego e a
tranquillidade e me faz sonhar constantemente na ventura
de a possuir, de a ter por esposa, de lhe dedicar
todas as horas da minha vida, todas as alegrias
da minha existencia... oh, não! não é
possivel! Diz-me
que o seu coração não é
livre... Creio bem que o
seu coração a engana e toma como sincera
expressão
de verdadeiro amor um sentimento de mera sympathia,
fugaz, passageiro, como são em geral todas as
affeições que nascem de um olhar, de um sorriso,
de
um entretenimento de cartas amorosas, de uma troca
de simples palavras murmuradas a mêdo no redomoinhar
de uma walsa ou na mysteriosa entrevista de
uma janella para a rua!
―Engana-se, sr. Eugenio de Mello!―retorquiu
Beatriz―Este amor que me prende o coração a
outro
coração, não é um d'esses
caprichosos sentimentos
de futil galanteio, que nascem n'um dia para morrerem
no outro; é, pelo contrario, uma paixão
verdadeira,
profunda, sinceramente sentida e a que está
indissoluvelmente
presa para sempre a nossa existencia,
o nosso destino...
―Todavia―observou Eugenio com um sorriso
levemente desdenhoso―essa declaração de v. ex.
a
harmonisa-se bem pouco com as esperanças que me
pareceu traduzir na resposta dada por v. ex.
a a
seu
pae e que elle me transmittiu ácerca do nosso enlace...
―É justamente por isso que desejei fallar-lhe―volveu
Beatriz, com altiva dignidade.―Quando meu
pae me fez sciente das honrosas pretensões de v. ex.
a
á minha mão, recusei terminantemente,
dispensando-me
de declarar os poderosos motivos que determinavam
a recusa. Meu pae insistiu e eu reagi, pois não
reconheço á auctoridade paterna o direito de
dispôr
do coração dos filhos para os obrigar a um enlace
que
só uma sentida affeição determina.
Ameaçou-me com
[119]
rigores, com violencias, com a sahida immediata de
casa para um convento. Nada d'isso me intimidou nem
me demoveu do meu proposito. A final, meu pae declarou-me
com franqueza que o motivo da sua insistencia
para que esta união se realise é o estado de
ruina financeira em que se encontra e que de um momento
para o outro ameaça deixar-nos sem tecto e sem
pão. Chorou, lamentando a sua e a minha miseria, e
declarou-me que, tendo posto toda a esperança de
salvação
n'este casamento, desde que eu o recusava, faria
saltar os miolos com um tiro na cabeça e que a
mim me ficaria o remorso de lhe ter causado a morte.
Foi então que, para o socegar, prometti annuir aos
seus desejos com a condição de que
préviamente me
seria permittido fallar com v. ex.
a. Eis tudo o
que se
passou e eis o que tenho a dizer-lhe: Quererá v. ex.
a
acceitar por esposa uma mulher cujo coração
pertence
a outro e que unicamente,―unicamente, tome v. ex.
a
nota―por salvar a vida de seu velho pae, faz o sacrificio
da sua vida e do seu amor, acceitando o enlace
que v. ex.
a lhe propõe?
Eugenio ficou um momento indeciso ante a rude
crueza d'esta inesperada pergunta que punha em cheque
os seus brios d'homem, a tão apregoada dignidade
dos seus sentimentos.
―E v. ex.
a no meu logar o que faria?―disse
elle por fim, respondendo com esta pergunta á pergunta
que lhe fôra feita.
―Pois que lhe fallo d'esta maneira, é porque não
julgo acceitavel uma união em taes circumstancias.
―N'esse caso, o que é que v. ex.
a
exige de mim?
―Tudo o que póde exigir-se d'um homem digno.
Que v. ex.
a, guardando absoluto silencio sobre
os motivos
que acabo de expôr-lhe, simule reconsiderar e
dê como irrealisavel a união que projectou.
―Oh! isso nunca!―protestou vivamente o bohemio―Com
[120]
que pretexto diria eu a seu pae que lhe
rejeitava a mão da filha? Isso envolveria não
só uma
violencia cruel ao meu coração, como uma affronta
gravissima á honra de v. ex.
a. E eu
que a amo, eu
que faço consistir toda a minha ventura na dita immensa
de a ter por esposa, havia de ser o primeiro a
lançar na reputação de v. ex.
a
o
stygma affrontoso
de um repudio aviltante?! Repare v. ex.
a que
isso é
exigir-me mais que a propria vida!
―Pois bem; não diga v. ex.
a que
desiste inteiramente
das suas pretensões a esta união impossivel;
mas busque, pelo menos, um pretexto para o addiamento
indefinido... Ser-lhe-ha facil pretextar embaraços
emprevistos, uma viagem longa, demorada...
―Quer v. ex.
a dizer que me afaste, que deixe
de a ver, de lhe fallar, de viver na mesma terra em
que v. ex.
a vive, de frequentar os mesmos
logares
que v. ex.
a frequenta, de respirar o mesmo ar
que
v. ex.
a respira!―exclamou o bohemio n'um
fingido
rapto de desesperada eloquencia―E emquanto eu,
distante, na solidão e no abandono da minha retirada
terra de provincia, curto as dôres e as amarguras de
um amor sem esperança, fica um
outro, um
outro a
quem v. ex.
a ama, na posse feliz do seu
coração,
gosando
tranquillo as suaves delicias do amor correspondido!
É por demais cruel, minha senhora! E eu,
francamente, não lhe mereço o atroz supplicio a
que
quer condemnar-me!
Estas palavras foram proferidas com um mixto
de indignação e amargura tal, que Beatriz
não
pôde deixar de córar, pensando que tinha sido
demasiado
impiedosa no seu egoismo de mulher apaixonada.
―Peço perdão―balbuciou ella―mas propondo
isto, eu parto do principio de que v. ex.
a, como
homem
digno, não póde pensar mais em que eu seja sua
[121]
esposa e de que o meu nome deve, por esse motivo,
ser para sempre banido da sua lembrança...
―Oh, minha senhora! Como conhece mal o coração
do homem que ama com o ardor e enthusiasmo
com que eu amo a v. ex.
a!―exclamou cynicamente
o bohemio.―Se antes de a ouvir eu tinha motivos
para a desejar, para querer ser o possuidor unico de
esse precioso thesouro d'encantos e perfeições
que fazem
de v. ex.
a a creatura mais adoravel do Universo,
agora, depois de a ouvir, esses motivos redobram e
impellem o meu coração a amal-a doidamente! V.
ex.
a
está pobre. Eu sou rico. Do meu casamento com v.
ex.
a depende não só o seu
futuro tranquillo e
feliz,
mas ainda a vida do seu proprio pae, esse amigo
inestimavel a quem me prendem tantos laços de sincera
affeição. Já não fallo de
mim, do meu coração
para sempre morto aos golpes crueis de uma desillusão
sem esperança... Mas poderia eu, sem ser um
miseravel cobarde, abandonar á pobreza e aos horrores
do desespêro a mulher que amo e a vida do amigo
que tanto préso? E tudo isto para quê? Para que
um desconhecido, um homem que eu nunca vi, que
não estimo, que não sei quem é,
não seja perturbado
nos seus caprichosos sonhos de uma felicidade que não
tem nem póde dar!
A estas palavras, Beatriz levantou-se pallida, e
tremula, agitada por uma commoção indescriptivel.
―Sr. Eugenio de Mello―disse ella com os olhos
brilhantes de indignação―o homem de quem falla
não
pediu nada a v. ex.
a, nem eu quiz com as minhas
palavras collocal-o sob a alçada dos seus juizos temerarios.
Não se trata d'elle: trata-se de mim, trata-se de
nós. V. ex.
a persiste na ideia d'este
casamento,
não
obstante saber que amo outro homem e que só por
salvar a vida de meu pae é que eu poderia consentir
em conceder-lhe a mão de esposa?
[122] ―Se eu a amo tanto! Se eu a adoro e espero que
á força de dedicação e de
sacrificios hei-de fazer-me
tambem amar por v. ex.
a!
―Nunca! Nunca!―protestou Beatriz―Mulheres
como eu, amam uma só vez na vida e só podem
pertencer d'alma e coração ao homem a quem se
dedicaram.
Nos labios de Eugenio volitou um sorriso ironico.
―V. ex.
a é livre, minha
senhora―replicou
elle―Póde
impunemente matar seu pobre pae e matar-me
tambem a mim com a sua recusa... O que
não conseguirá é fazer-me cumplice
n'esse parricidio
e tampouco que eu acceite voluntariamente a morte
a que me condemna, em premio de tanto amor que
lhe consagro.
Beatriz encarou-o fixamente. No seu olhar havia
um desprezo mortal, uma d'estas condemnações
terriveis
que cavam um eterno abysmo de odio entre dois
sêres.
―Tenho entendido, senhor―disse ella em tom
breve e secco―Preciso de meditar nas suas palavras
antes de dar uma resposta definitiva. Meu pae o informará
da minha resolução.
Inclinou a cabeça ligeiramente, n'um movimento
de despedida, e sahiu da sala com altiva serenidade.
―Tens cabellinho na venta―disse comsigo o bohemio,
descendo as escadas que conduziam ao escriptorio
do Custodio―mas, se me caes nas mãos, eu te
porei macia que nem velludo!...
No escriptorio estavam já o Custodio e o Belchior,
anciosos por saberem o que se estaria passando entre
Beatriz e Eugenio.
Quando o mancebo appareceu á porta, os olhares
dos dois patifes cravaram-se perscrutadores no rosto
do bohemio.
―Então?―perguntaram ao mesmo tempo.
[123] ―Quartel-general em Abrantes. Tudo como d'antes.
―Mas o que disse ella?―insistiu o Custodio.
―Contou-me toda a scena da pobreza que o meu
amigo lhe metteu em cabeça; disse-me que amava
outro homem, e que só pelo receio de que o meu
amigo se matasse é que condescendeu em dar
esperanças
d'acceitar o casamento. Queria que eu desse o
dito por não dito, que desistisse de a querer para esposa...
―Mas você nem
nentes!―atalhou o Belchior ancioso
por se inteirar de tudo.
―Está visto! Recusei, porque a amo, porque a
adoro sinceramente, e você amigo Belchior bem sabe
se isto é verdade...
―E ella?―interrogou o Custodio.
―Despediu-me dizendo, que, visto isso, ia pensar
e depois daria resposta definitiva...
―Amigo Custodio!―disse o Belchior, batendo
familiarmente no hombro do usurario―o caso agora
é comsigo... Aperte-me a pequena... torne a representar
a scena da pobreza até ella dizer que sim...
Tenha pena d'este pobre diabo, que anda aqui pelo
queixo!...
―Não tem duvida!―aquietou o Custodio―Ella
ha de ir... O que eu quiz foi apanhar-lhe o
fraco...
Se fôr preciso, até dou um tiro para o ar, a
fingir
que me mato... E ella ha de ir!...
[124]
VIII
Entre irmãos
Paulo de Noronha, depois que se filiara na
Mão-Negra,
não obstante saber que um rival lhe disputava
a posse de Beatriz, alimentava a esperança bem fagueira
de conquistar em breve uma posição que lhe
permittisse apresentar-se a Custodio a pedir-lhe a mão
da filha.
Preoccupava-o, porém, a ideia de que sobre o seu
nascimento pesava um mysterio que elle não sabia explicar
e que o havia de collocar em terriveis embaraços,
quando o pae da Beatriz muito naturalmente lhe
perguntasse o nome de seus paes.
O pobre rapaz não conhecia o usurario. Suppunha-o
um homem honesto, buscando para a filha uma
alliança
limpa, e o
sigillo que o padre Filippe e madre
Paula se obstinaram em guardar ácerca d'aquelles
a quem devia a existencia, fazia-o tremer pelos
resultados da pergunta a que não podia responder.
Elle ignorava que Beatriz tambem não tivera nascimento
legitimo e que, se podia apresentar-se como
filha de um homem que a perfilhara, esse homem não
era seu pae.
[125]
O padre Filippe aconselhara-o a que revelasse a
madre Paula os segredos do seu coração e ouvisse
os
conselhos que ella maternalmente entendesse dever
dar-lhe.
Mas se o padre Filippe se retrahia e teimava em
não o elucidar ácerca do seu mysterioso
nascimento, o
mancebo julgou, e com razão, que madre Paula tambem
nada mais adiantaria a esse respeito.
Não procurou, pois, madre Paula e preferiu procurar
o seu amigo Jorge, o mesmo que o iniciára nos
mysterios da
Mão-Negra.
―Posso fallar-te com franqueza, não é verdade,
Jorge?―perguntou-lhe elle.
―Como se fallasses a um irmão―replicou o outro―Desde
hontem que nos achamos ligados indissoluvelmente
pelos laços de uma associação secreta
em
que é condição essencial que os
filiados se considerem
e se amem como verdadeiros irmãos.
―Pois muito bem. Vou fallar-te como a um irmão
e espero que como tal prestarás
attenção ao que vou
dizer-te.
―Falla.
―Como te expliquei, amo uma mulher que é todo
o meu pensamento, todo o meu sonho, toda a grande
aspiração da minha vida!
―Já m'o disseste.
―Essa mulher corresponde com lealdade e com
ardor ao sentimento affectuoso que me inspirou. Mas
tem pae, um homem rico, um argentario que busca
para a filha uma alliança vantajosa, alliança de
dinheiro,
e que ha de necessariamente repellir-me com
desdem, quando souber que eu, simples academico,
apenas rico d'esperanças no futuro, lhe pretendo a
mão da filha...
―Mas―objectou Jorge―que necessidade tens
[126]
de que elle o saiba antes de haveres conquistado a
posição
que te ha de permittir constituir familia?
―A necessidade está bem patente desde que elle
pensa em casar Beatriz com um rapaz rico, que se
apresenta como pretendente á sua mão.
―Ah! ah!―fez Jorge―E a pequena?
―Tenciona oppôr a mais tenaz recusa. Mas o pae
é rispido, severo, chega mesmo a ser
brutal... É
capaz de querer impôr pela violencia este enlace e,
comquanto eu não receie pela firmeza e constancia de
Beatriz, receio comtudo pelos maus tratos e soffrimentos
que o pae é capaz de lhe inffligir...
―Não estamos em terra de selvagens―replicou
Jorge sorrindo.―Como se chama esse
amavel progenitor?
―Custodio de Jesus....
―Mora?
―Na rua do Principe.
―E o outro?
―Qual outro?
―O teu pretendido rival?
―Não o conheço. Sei apenas que se chama Eugenio
de Mello.
―Eugenio de de Mello... É do Porto?
―Não; supponho que é um rico proprietario na
provincia.
―Já
entrado na edade,
não?
―Pelo contrario. É novo ainda. Bem vês que lhe
chamei um rapaz.
―Os homens ricos são sempre
rapazes em questão
de casamento... A mocidade tem para elles a
duração do seu dinheiro...
―Mas este, mesmo pobre que fôsse, seria ainda
rapaz.
Jorge tomou apontamento d'estes nomes n'uma carteira.
[127] ―Muito bem!―disse elle―Urge, antes de tudo,
conhecer os adversarios com quem temos que medir-nos...
Eu vou obter informações e veremos depois o
que convem fazer...
―Mas poderei ao menos alimentar esperanças?...
―Dou-te a certeza de que esse casamento não se
fará e de que Beatriz não será
maltratada pelo pae...
―Obrigado, meu amigo, meu irmão!―exclamou
Paulo, cahindo-lhe nos braços.―Escuta ainda,―continuou. ―Preciso de te dizer tudo. Entre nós não deve
haver segredos...
―Falla, meu irmão!
Paulo hesitou um instante. A face roborisara-se-lhe
de vergonha.
―Chamas-me
irmão―e
comtudo eu creio que não
posso ser irmão de ninguem.
―Porque?
―Porque não tenho pae nem mãe, porque eu
mesmo, sabendo o que sou, ignoro quem sou!
Contou-lhe então o desespero em que se debatia
por não conhecer o segredo do seu nascimento. Conhecia
apenas o padre Filippe e madre Paula como
seus protectores, ignorando comtudo porque serie de
circumstancias se encontrava sob a tutella d'aquelles
dois religiosos, recebendo toda a protecção e
amparo.
―Vê tu, pois, meu amigo, as terriveis circumstancias
em que me encontro!―concluiu elle desalentado.―Ainda
que me encontrasse de um momento
para o outro em
circumstancias
de pedir
Beatriz, como
poderia eu fazel-o não sabendo o nome de meus paes?
―Os irmãos da
Mão-Negra―disse Jorge
gravemente―são
todos filhos do mesmo pae―o Pensamento
Altruista que os reuniu e congregou, e da mesma
mãe―a Associação Invencivel que os
protege e
lhes dá força. Com semelhante parentesco qualquer
de nós póde considerar-se sufficientemente
nobilitado
[128]
para aspirar á mão da mais nobre e rica princeza
do
mundo, quanto mais á de uma simples burguesinha,
filha de um rico burguez chamado Custodio de Jesus!
―Não duvido da grandeza e poder da nossa
Associação,
meu amigo; mas, pelo caracter secreto que
a reveste, o facto de pertencer-lhe não constitue titulo,
que possamos apresentar publicamente, em abono
da origem honesta do nosso nascimento...
―O homem―volveu Jorge―creatura de Deus,
não póde ser jamais responsavel por actos que
não
praticou nem estava na sua mão impedir. Tanta culpa
teve elle em nascer filho do mais infimo ladrão,
como gloria em descender do mais poderoso monarcha
da terra. Filho d'um criminoso ou filho de um rei,
elle é sempre um homem
igual aos
outros e d'elles só
póde distanciar-se pelos seus talentos e virtudes proprias,
ou ser-lhes inferior pelas suas abjecções e pelos
seus crimes.
―Ah! meu amigo! que bella e sã doutrina seria
essa, se todos os homens a comprehendessem assim!
―Para isso trabalhamos e nem outro é o pensamento
que nos une. Temos de luctar, bem sei, contra
o preconceito, contra o prejuizo de muitos seculos,
contra a
rotina―que é a
famosa trincheira erguida
a impedir a marcha do aperfeiçoamento moral da humanidade.
Mas se não houvesse lucta, não seria
tão
glorioso o triumpho nem teria tanto valor a conquista.
Dizendo isto, Jorge apertou a mão a Paulo e despediu-se,
deixando o mancebo mais tranquillo e confiado
no futuro.
Sigamos Jorge e vejamol-o bater á porta de uma
casa de modesta apparencia, na rua de S. Bento da
Victoria...
É um predio de dois andares, que nada tem de
notavel e que quasi se confunde na linha de casas
modestas, senão pobres, que se erguem do lado nascente
[129]
d'aquella rua, em frente á
Relação, desde a esquina
dos Martyres da Patria até á travessa de S.
Bento da Victoria.
Posto fosse de dia, a porta principal d'esse predio
permanecia fechada. Mas logo que Jorge bateu abriu-se,
franqueando-lhe a passagem.
Todavia, no portal não appareceu pessoa alguma,
e assim que o amigo de Paulo transpoz a entrada,
tornou a fechar-se sem que alguem a impellisse.
Jorge, que parecia familiarisado com estes estranhos
habitos da casa, penetrou no corredor escuro do
portal e subiu o primeiro lanço das escadas até
ao
primeiro andar.
Chegando ahi, parou em frente da porta de uma
sala que ficava para o lado das trazeiras do predio e
pronunciou em latim:
―
Licet?
―Entrae!―disse de dentro uma voz.
Jorge empurrou a porta e entrou n'uma sala, ao
centro da qual se via uma ampla mesa de carvalho,
coberta de livros e papeis e a que estava sentado um
homem, de roupas escuras e oculos verdes. A longa
barba grisalha que lhe descia até ao peito dava-lhe
um aspecto de patriarca biblico, que infundia respeito
e terror a quem pela primeira vez se encontrava na
sua presença.
Rodeado de livros que se viam espalhados pelo
chão, em cima das cadeiras e collocados em desordem
nas estantes que cobriam as paredes, desde o soalho até
ao tecto, não era preciso grande esforço de
intelligencia
para desde logo comprehender que se estava em presença
de um homem de estudo, sabedor e profundo.
Jorge foi passando peio estreito carreiro que se
abria entre rumas de livros, da porta até á mesa,
fazendo
prodigios de equilibrio para não pôr os
pés sobre
os volumes que lhe obstruiam a passagem.
[130] ―É preciso estar na graça de Deus e ter azas
como os cherubins―disse elle rindo―para entrar
no vosso sanctuario, sem pisar aos pés a sciencia,
Mestre!
O homem dos oculos verdes ergueu a cabeça, fitou-o
por trás dos oculos e respondeu grave e pausado:
―Só a sciencia vã cahe por terra e desapparece
esmagada pelo pé inclemente do homem, na sua marcha
para o Bem, para a Verdade e para a Justiça.
A verdadeira sciencia, porém, não sente mais o
pezo
de um pé que se lhe põe em cima do que a torre
dos Clerigos o pezo de uma môsca que vá pouzar-lhe
no pára-raios.
Indicou uma cadeira desoccupada que se achava
junto da sua, e disse ao recem-chegado:
―Sentae-vos, meu amigo. Já cá vos esperava e
estava estranhando a vossa demora...
―Mestre―respondeu o outro―teria vindo mais
cêdo, se um caso novo, de que urge tratar, me não
tivesse tomado o tempo.
―Um caso novo! O que temos, pois?
―Uma injustiça grave, uma monstruosidade revoltante
de que se pretende fazer victima um dos irmãos
da
Mão-Negra.
―A
Mão Negra tem
já força e poder bastante
para desviar de sobre a cabeça de seus
irmãos a iniquidade
e a injustiça dos homens, por muito alto que
elles estejam collocados. De que se trata?
―Do ultimo iniciado no nosso gremio, de Paulo
de Noronha...
―Ah! O que lhe succede?
―Este rapaz ama uma mulher, que corresponde
ardentemente ao seu amor. O pae d'ella, porém, rico
capitalista, pretende violental-a a casar com um herdeiro
rico, que ella não deseja nem estima.
[131] ―E sabe elle dos amores da filha com Paulo?
―Não o deve saber, pois que este nosso
irmão,
movido de honestos e nobres intuitos, não se julga
auctorisado
a tornar ostensivos os sentimentos amorosos
do seu coração, emquanto não houver
conquistado uma
posição social que lhe permitta pedir a
mão da mulher
que ama.
―O que deseja elle então? Que lhe conquistemos
a posição de que precisa?
―De modo nenhum. Paulo tudo espera do seu esforço
proprio. Simplesmente o que desejaria era que a
mulher que ama e em que faz consistir toda a sua
ventura não fosse compellida a unir-se a um outro.
―Está na mão d'ella. Que recuse.
―Mas a recusa, Mestre, importa o supplicio da
pobre menina, e é isso o que Paulo pretende evitar.
―Pois bem. A
Mão-Negra
cumprirá o seu dever.
Como se chama o pae d'essa menina?
―Custodio de Jesus?
―E o pretendido noivo?
―Eugenio de Mello.
―Cumpre, antes de tudo, averiguar quem sejam
esses dois homens; conhecer-lhes a biographia, saber
porque serie de circumstancias vieram a encontrar-se e
a alliar-se para uma violencia d'essa ordem.
―Assim entendo que deve ser; e se vós, Mestre,
não ordenaes o contrario, eu mesmo me encarregarei
do todos esses trabalhos.
―Pois que assim o quereis, nada impede que procedaes.
Conheceis todos os
irmãos
que podem prestar-nos
auxilio. Recorrei a elles, e colhidas as
informações,
procederemos como fôr de justiça.
Jorge inclinou-se.
―Temos ainda mais―disse elle.
―O quê?
[132] ―Paulo não conheceu seus paes, e ignora por completo
o segredo do seu nascimento...
―Que póde isso importar-lhe? Se os que lhe deram
o sêr o repudiaram, que tem o filho que vêr com
os paes que o não quizeram ser?
―Perdão, Mestre! É essa a grande duvida e
portanto
o grande tormento do pobre rapaz... Paulo não
pode dizer-se um
abandonado... A sua
infancia correu
sob a protecção carinhosa de dois religiosos, um
padre e uma freira, e ainda agora são elles os que
occorrem, como sempre, a todas as despezas da sua
educação scientifica.
―Conhece elle esses protectores?
―Conhece-os e dedica-lhes verdadeira affeição
filial!
―N'esse caso, porque não pensa esse rapaz que
pódem ser elles os seus proprios paes?
―Não são, porque madre Paula foi sua madrinha
e o padre Filippe não usa o appellido Noronha...
―Madre Paula e padre Filippe, dizeis?―interrogou
o homem dos oculos verdes com um leve tremôr
na voz.
―Sim. São estes religiosos os protectores de Paulo
de Noronha.
O homem a quem Jorge dava o respeitoso tratamento
de
Mestre, cruzou os
braços, inclinou a cabeça
sobre o peito e ficou por algum tempo immerso em
profunda reflexão.
Dir-se-hia que os nomes de madre Paula e padre
Filippe lhe tinham despertado tristes
recordações, porque,
ao levantar a cabeça e reprimindo a custo um
fundo suspiro, disse, mal disfarçado ainda o tremor da
voz:
―Pensaremos n'isso, veremos se será conveniente
indagar a verdadeira origem d'esse rapaz.
Depois accrescentou:
[133] ―Ha mysterios de tal modo tenebrosos na vida
do homem, que ás vezes mais vale não querer
desvendal-os
nunca... Ide, e deixae-me só, meu amigo.
Jorge levantou-se.
―Amanhã―disse elle―deve reunir o capitulo
e lá nos encontraremos á hora do costume.
É possivel
mesmo que d'aqui até lá eu tenha podido obter os
esclarecimentos
que desejamos ácerca de Custodio de
Jesus e de Eugenio de Mello.
―Se assim acontecer―replicou o homem dos
oculos verdes―poderemos deliberar em capitulo o que
convirá fazer.
Jorge inclinou-se e sahiu com as mesmas
precauções
com que havia entrado para não calcar com os
pés os livros dispersos pelo sobrado.
Ao vel-o sahir, o homem dos oculos fincou os cotovellos
sobre a mesa, encostou a fronte ás mãos e ficou
assim por largo tempo, engolfado em profundo scismar.
―Madre Paula e padre Filippe!―disse elle por
fim.―Porque extraordinario acaso se encontram estes
dois nomes ligados á existencia d'esse adolescente
que usa o mesmo appellido da
Irmã
Dorothêa?
Pegou de uma penna e traçou algumas palavras em
um papel que dobrou por fim cuidadosamente, lacrando-o
em seguida.
Depois, abriu a gaveta da mesa e tirou d'ella um
grosso volume encadernado a preto, que abriu e começou
folheando.
As paginas d'este livro estavam todas em branco.
No emtanto, o mysterioso personagem ia volvendo-as
com um sorriso amargo a vincar-lhe os labios, como
se do fundo branco d'aquellas folhas resaltasse um
pensamento negro.
Chegando ao ponto em que uma fita preta, intercalada
nas folhas, punha uma especie de signal, o novo
personagem, fez saltar a mola de um tinteiro em
[134]
fórma de caixa, pegou de uma penna de pato, que molhou
n'esse tinteiro, e começou escrevendo vertiginosamente.
Ao passo, porém, que a penna ia traçando as
palavras, estas iam-se apagando rapidamente; retomando
o papel a sua brancura immaculada.
É que o homem dos oculos verdes escrevia com
tinta sympathica.
Que mysteriosos pensamentos lançaria elle n'aquelle
papel que os guardava discreto, como um vasto
mar guarda no fundo os coraes e as perolas, as algas
e os peixes que o povoam, sem que a esmeraldina superficie
das suas aguas denuncie a existencia dos
thesouros que elle occulta no seio?
[135]
IX
Amores faceis
Eugenio de Mello, deixando o procurador e a familia,
seguiu pela rua de Cedofeita, subiu á rua dos
Bragas, desandou á rua da Sovella e, passando o
Campo da Regeneração, entrou na rua da Rainha.
O relogio da Lapa fazia soar uma hora da madrugada
quando o bohemio parou em frente de uma
casa de um unico andar, construcção moderna, em
que se notava decencia e bom gosto.
Eugenio tirou uma chave do bolso, introduziu-a
na fechadura, abriu a porta e entrou. Subiu os quatro
degraus de pedra que davam accesso ao corredor,
sem que o ruido dos passos abafados no tapete parecesse
dever chamar a attenção do dono ou dona da
casa.
Mas o bohemio era sem duvida esperado, porque
a meio do corredor abriu-se uma porta e appareceu no
limiar uma gentil figura de mulher, trazendo na mão
um castiçal de prata em que ardia uma vela.
―És tu, Eugenio?
―Sou eu, minha querida!
O bohemio aproximou-se da formosa dama que
assim lhe fallava, acariciou-lhe amorosamente os longos
cabellos louros, esparsos sobre o fino roupão de
[136]
velludo granada que lhe cingia o corpo airoso, e beijou-a
longamente nos labios.
―Demorei-me, não é verdade?―perguntou elle,
lançando-lhe um braço á roda da
cintura e conduzindo-a
para o interior da saleta d'onde ella havia surgido.
―Principiava a desesperar-me... Imaginei que
já não virias e pensava na maneira de te castigar
bem castigado pelo teu abandono!
―Louquinha! Pois tu pensavas em fazer mal ao
teu Eugenio, que tanto te quer, que tanto te adora?!
―Que queres! O ciume começava a atormentar-me!
Lembrava-me que estavas talvez nos braços
de outra, esquecido da tua Leonor, que só é feliz
quando te vê, quando te tem a seu lado!
A formosa creatura que Eugenio chamára Leonor,
pousou o castiçal sobre um velador de pau ébano
que ficava ao lado do marmore do fogão, e
lançando
os braços ao redor do pescoço do mancebo,
sorveu-lhe
nos labios, com verdadeiro frenesi, um segundo beijo,
mais lento e voluptuoso que o primeiro.
―Mas tu não estiveste com outra, não?―disse
n'um gemido em que havia receio e esperança, supplica
e perdão.
―Que ideia! Estive com uns amigos, de quem
não pude ver-me livre...
―É que eu amo-te tanto que, quando não te
vejo, penso sempre que te perco, que não voltas mais
ao pé de mim, que me esqueces, que foges com outra
para nunca mais!
Eugenio ria.
―Descança, meu amor... Quem é que me ha de
querer? Não vês que eu sou tão infeliz,
tão desgraçado,
que não tenho ninguem no mundo que devéras
me estime senão tu?
―E tambem de ninguem mais precisas!―disse
com vehemencia a dama loura.―Não estou eu aqui
[137]
para te rodear de carinhos, de ternura, de affectos
que só eu sei tributar-te? Não preencho eu todas
as
necessidades do teu coração, todas as
ambições da tua
existencia? Não faço eu por adivinhar os teus
pensamentos,
por satisfazer os teus desejos, as tuas mais
caprichosas phantasias? De quem mais precisas para
ser feliz, meu amado, meu querido e doce sonho
d'amor?!
―Decerto, decerto, minha querida amiga!―fez
Eugenio, suspirando.―Eu seria feliz, muito feliz
comtigo, seria o mais ditoso dos homens se...
E interrompeu-se suspirando.
―Se quê? Anda, acaba!
―Se fosses minha sómente... se eu fosse rico
bastante para não consentir que outro partilhasse os
teus affectos...
―Mas eu não o amo!―protestou a dama loura.―Bem
sabes que o não amo, Eugenio! Recebo-o com
desdem, supporto-o com sacrificio, porque d'elle me
vem o teu e o meu bem estar... E cada prova que
elle me dá do seu amor, cada
manifestação da sua
ternura, mais accrescenta o meu tedio e o meu despreso
por elle!
―Ah! se eu fôsse rico―tornou a suspirar o bohemio―com
que prazer eu o correria a pontapés
d'esta casa para fóra, e com que deliciosa furia eu
quebraria todos estes crystaes, rasgaria estes tapetes,
reduzindo tudo a cacos, tudo a farrapos, para só salvar
de todo este montão de ruinas, puro e intacto, o
adorado coração da minha pobre Leonor!
Levantou-se agitado, passando frenetico as mãos
pelos cabellos, n'uma attitude de heroe de melodrama.
Leonor correu a elle, apoiou-lhe nos hombros as mãos
alvas e pequeninas, em cujos dedos lusiam brilhantes,
supplicando:
―Então! Vá! Não sejas louco!... Isto
ha de acabar
[138]
um dia... Bem sabes que elle é velho... não
póde
durar muito... E como promette contemplar-me no
testamento, ainda nos esperam dias muitos felizes...
―Dias muito felizes!―repetiu o bohemio com
desanimo, deixando-se cahir de novo sobre o estofo do
sofá.―Antes d'isso hei-de eu morrer de desespero!
―Morrer!―exclamou a loura, cobrindo-o de cariciosos
beijos.―Não me falles em morrer, se és meu
amigo, Eugenio! És novo, forte e vigoroso e receias
que um velho dure mais que tu?!
―Não! eu não temo que a morte me colha antes
do tempo... Mas tenho um vago presentimento de que
serei eu que hei-de ir ao encontro da morte... Ás
vezes, para certos desgraçados como eu, a unica felicidade
possivel n'este mundo só existe na paz da sepultura!
―Jesus! que funebre vens hoje! Não tens dinheiro,
aposto!
―O não ter dinheiro é o menos... Desde que
rompi com a minha familia, que quiz por força tolher
o meu destino, anniquilar o meu futuro, habituei-me
ás privações inevitaveis que resultam
de uma mezada,
que minha mãe me manda ás escondidas de meu
pae...
Mas o peor não é isso... o peor são as
decepções, os
desenganos que todos os dias um homem nas minhas
circumstancias está recebendo de amigos que o conhecem
e que nunca deviam ser os primeiros a humilhál-o.
―Mas o que foi? Conta-m'o, filho!―supplicou
Leonor com interesse.
―Para que hei-de eu affligir-te com coisas que
não pódes remediar? Fallêmos antes de
ti, do nosso
amor, tão puro e tão ardente que, se
não fôra elle,
já ha muito eu teria acabado com este negro fadario!
―Não, não! quero saber... Anda, falla!―insistiu
ella amorosamente.
Eugenio passou a mão pelos cabellos, sacudiu a
[139]
cabeça com um fundo suspiro e principiou contando,
em tom de confidencia:
―Quando eu vivia ainda em casa de meus paes
e dispunha de todo o dinheiro que me era preciso para
satisfazer todos os meus caprichos, todas as minhas
loucas phantasias, tinha amigos que todos os dias e
todas as horas me protestavam uma eterna
dedicação,
uma amizade sem limites... Oh! como eu os tenho
conhecido agora, na adversidade, esses falsos e indignos
amigos, esses canalhas, esses biltres, esses miseraveis!
O bohemio interrompeu-se para verberar indignado
com estas apostrophes violentas uns amigos
que nunca teve.
―Vamos! Não te afflijas!―aquietou em voz dôce
a carinhosa e ingenua Leonor.
―Um d'estes, um dia, a meu pedido, consentiu em
valer a um pobre rapaz, nosso novo companheiro de
rapaziadas, emprestando-lhe trezentos mil reis, que o
infeliz tinha desviado da casa commercial em que servia
como empregado, achando-se na dura contingencia
de entrar para a cadeia, se não apresentasse esta quantia.
O pobre moço apaixonara-se por uma actriz e,
arrastado pelo amor, alcançara-se n'aquella importancia.
Veio ter commigo afflicto, contando-me a sua
desgraça e pedindo-me que lhe valesse. N'essa
occasião,
infelizmente, eu não podia dispôr do dinheiro,
porque tinha perdido em uma só noite perto de um
conto de réis. Mas como a todo o custo queria salvar
a reputação e o futuro do pobre rapaz, lembrei-me
de
escrever ao tal amigo de quem fallo, pedindo-lhe que
abonasse elle aquelle dinheiro sob minha responsabilidade.
―Generoso coração!―exclamou a loura,
envolvendo-o
n'um olhar ternissimo, em que havia um
mixto de sensualidade e de respeitosa veneração.
[140]
O bohemio continuou:
―Valeu-se ao rapaz, que
continuou
desempenhando
o seu logar, sem que nunca ninguem, suspeitasse
a sua falta, até que um dia, poucos mezes depois,
foi colhido pela febre typhoide e morreu...
Tive muita pena d'elle!
―Coitado! Esse rapaz era infeliz,―commentou
ingenuamente a loura, mais por comprazer ao amante
do que por se sentir movida á compaixão.
―Era! Era muito infeliz!―suspirou o bohemio.―Como
elle morreu, é claro que não pode pagar...
―Não deixou nada?
―Deixou dividas o infeliz! Poucos mezes depois,
meu pae queria obrigar-me ao casamento com uma
minha prima de que te fallei e que eu detestava e detesto!
Eu recusei-me, elle irritou-se e mandou-me
sahir de casa. Sahi. E calculas que eu, que até alli
era o
menino bonito da familia,
fiquei de repente reduzido
a uma magra mezada que minha pobre mãe
me manda ás escondidas de meu pae, porque elle, de
cada vez mais enfurecido contra mim, teima em não
me dar um real...
―Cruel pae!
―Retirei então para o Porto, para esta terra onde
ninguem sabe quem sou, para não dar ás pessoas
que me conheciam o desagradavel e triste espectaculo
da minha decadencia, da minha, triste e apertada
situação...
―Era o destino que te chamava e te impellia
para mim, meu amor!
―Pois sim... era! Mas por essa ventura que a
sorte me deparou, quantas amarguras, quantos dissabores,
quantos crueis desenganos! Este amigo de
quem te fallo, este indigno, que é rico, que está
altamente
collocado, e que sabe a difficil situação em que
me encontro, tem-me escripto mais que uma vez a
[141]
pedir-me o reembolso dos trezentos mil reis, que elle
sabe que eu não utilisei, que não foram para mim
e
que não posso pagar n'esta occasião! Escrevi-lhe
a
expôr-lhe a minha má
situação e a pedir-lhe que não
me apertasse por uma divida que, por emquanto, me
é impossivel solver. Pois este miseravel, este infame
ameaça-me com os jornaes, se eu não lhe mandar na
volta do correio os trezentos mil reis! O biltre! o
canalha! E é capaz de o fazer, desacreditando-me,
cobrindo-me de opprobrio e de vergonha aos olhos de
todo o mundo, sem ter em consideração que eu um
dia
hei de ser rico e que basta que de hoje para amanhã
morra minha tia Quiteria, que é doida por mim, e
que me deixa tudo por sua morte, para eu poder atafulhar-lhe
de contos de reis a guela ignobil!
Dito isto com o calor e a convicção que
põem nas
mentirosas phantasias todos os intrujões que fazem
officio de o ser, o bohemio tornou a levantar-se de
repellão, passeando agitadamente pela sala.
―E é que, se elle cumpre a ameaça, eu sou um
homem perdido! Sou um homem perdido, porque vou
ter com elle, metto-lhe uma bala na cabeça e depois
acabo com a vida, dou um tiro n'um ouvido!
―Eugenio! meu Eugenio!―exclamou afflicta a
loura Leonor―não penses em fazer tolices...
―Como queres tu, meu anjo, que eu continue a
viver depois de ter soffrido este horroroso ultraje?
Homem honrado, antes morto do que injuriado! E eu
não posso... não posso com esta ideia de me
vêr
offendido por um homem que se dizia meu amigo!
Ah! eu só queria ter os trezentos mil reis para lhe
atirar com elles á cara e dizer-lhe: «Ahi tens,
miseravel!
Eugenio de Mello é mais nobre na sua pobreza,
do que tu, infame, em todo o teu fastigio de
homem rico!»
―E assim lhe dirás, meu amigo!―exclamou
[142]
fremente de indignação a apaixonada
loura.―Não
será por trezentos mil reis que esse canalha, quem
quer que elle é, ha-de desacreditar o meu Eugenio...
Os trezentos mil reis tel-os-has amanhã.
―Oh! mas eu não posso acceitar...―recusou o
bohemio, em cujos olhos fulgiu um raio de alegria.―Tens
feito tantos sacrificios por mim... Devo-te já
tantas provas de ternura e carinhosa dedicação,
que
não devo consentir em que te sacrifiques mais...
―Cala-te, não sejas creança!―interrompeu
Leonor,
pondo-lhe a pequenina mão na bocca para o impedir
de continuar.―O meu maior prazer, a minha
maior felicidade n'este mundo seria dar a vida para
te ver contente e feliz!
―Como és boa e como eu te adoro!―exclamou
Eugenio, cingindo-a ardentemente nos braços com amoroso
impulso.
Não devemos nem é justo deixar mais tempo o
leitor
sem a explicação que esta scena extraordinaria
requer.
Em poucas linhas se resume a vulgar e triste historia
d'estes abjectos e sujos amores.
Leonor era uma creatura plebeia, divinamente esculptural,
que um velho commendador―o sr. commendador
Garcia―encontrára um bello dia á sahida
da loja da modista onde a pobresinha picava os dedos
afilados e bonitos, a preço de tres tostões por
dia.
O commendador Garcia, picado tambem pela belleza
provocante da rapariga, começou a sentir-se
apaixonado por ella, e a tal ponto, que offereceu envolvel-a
em sêdas e velludos, recamal-a de perolas e
brilhantes, se ella lhe cedesse a elle, commendador, os
graciosos encantos da sua mocidade e da sua gentileza
em vez de os desperdiçar no provavel matrimonio com
algum pobre operario faminto e honrado.
Leonor ouviu os conselhos auctorisados de uma comadre
[143]
experimentada em varios lances d'esta natureza
e ao cabo de poucos dias, sentindo-se abalada nos
seus escrupulos de mulher honesta, acceitou o dinheiro
do generoso commendador.
Deslumbrou então o Porto e a sociedade elegante
do Palacio de Crystal com o rico esplendor dos seus
vestidos caros e com a phenomenal belleza da sua figura
gentilissima.
O commendador deu-lhe mestra de francez e professora
de piano, que passaram um tenue verniz de
educação por sobre aquella rudeza nativa do
berço
humilde da linda Leonor; e então era vêl-a,
esquecida
da sua pobre origem, affectar modos de duqueza,
desdenhosa e altiva, quando passava nas ruas, fazendo
gala do seu impudôr.
Entre o rapaziada fina do Porto foi por muito
tempo Leonor o appetecido pomo, tanto mais cubiçado
quanto era difficil colhel-o, tal era a altura em que o
commendador bizarro e dadivoso a collocára.
Por esse tempo appareceu Eugenio no Porto, bafejado
por uma sorte rara á roleta, que em tres dias
successivos o favorecera com quatro contos de reis
em uma das nossas praias mais concorridas.
O bohemio, de origem pobre e plebeia, porém,
naturalmente fino e intelligente, educara-se na convivencia
dos rapazes estroinas da capital e d'elles copiára
as maneiras elegantes, a linguagem culta e até―oh
supremo instincto de imitação!―o apparente
despreso pelo dinheiro que os outros desperdiçavam
ás
mãos cheias, porque eram ricos e que elle raras vezes
possuia, porque era pobre.
Com taes predicados e n'uma sociedade para a
qual as apparencias são tudo, e que abre sem escrupulos
os braços e as portas ao primeiro adventicio
que lhe mostra uma mão-cheia de libras, sem dizer
de que maneira as adquiriu, Eugenio foi, como não
[144]
podia deixar de ser, logo recebido como uma das
primaciaes figuras da elegancia portuense.
Viu Leonor. Atrevido e audacioso com as mulheres,
habituado, além d'isso, a explorar o vicio dourado
da capital, comprehendeu desde logo que estava
alli uma fonte de receita apreciavel, pois que podia
facultar-lhe vida larga por muito tempo, e tentou a
conquista. Ora como as mulheres do mau sempre escolhem
o peor, Leonor, que rejeitara desdenhosa as
homenagens de tantos que podiam augmentar-lhe os
rendimentos, afinal decidiu-se por aquelle que não
podia senão diminuir-lh'os.
Começou então entre os dois um doce idylio, em
que para Leonor havia apenas o travo do commendador
Garcia a empecer-lhe as noites até ás dez horas
e a impedir-lhe a expansão franca do seu
coração
amoroso.
Eugenio, é claro, apresentou-se como um rico herdeiro
do Alemtejo, futuro senhor de porcos e cortiça
que chegariam para pagar a divida externa, mas, por
desgraça, victima imbelle dos rigores de um pae protervo
e sem coração, que o condemnara á
pobreza por
elle não querer sacrificar o seu
coração de rapaz
brioso á cortiça e aos porcos de uma prima com
quem
pretendiam casal-o.
Assim, Leonor, orgulhosa de ter conquistado o
coração rebelde de um moço que
tão impavidamente
resistia ao despotismo paterno e á cortiça de uma
prima
detestada, puzera á disposição do
amante numero dois,
o seu coração virgem de affectos e todo o
dinheiro
que lhe sobrava das despezas a que occorria o amante
numero um.
Dera-lhe uma gazua da porta e marcara-lhe a
hora da entrada: á noite, depois das dez. De dia, a
toda a hora.
Eugenio, porém, hospedara-se no
Hotel
Francfort
[145]
como convinha e era prudente, para que estas
relações,
que deviam conservar-se clandestinas, não chegassem
a escandalisar o commendador Garcia.
Logo que Leonor lhe deu a certeza de que no dia
seguinte lhe facultaria os tresentos mil reis para atirar
com elles á face estanhada do amigo indigno, o
bohemio mudou de aspecto e entregou-se sem
restricções
e sem sombra de melancholia á mais carinhosa e
enthusiaetica adoração que um
coração de mulher
louca e linda jamais recebeu do seu amante.
―Sabes?―disse-lhe elle.―De ti recebo estas
provas de affecto e orgulho-me dos sacrificios que
fazes por minha causa, porque te amo, porque o meu
coração todo te pertence e, assim, vejo que entre
nós
não ha meu nem teu, tudo é commum, tudo
é igualmente
compartilhado pelos dois. E de minha prima...
vê tu lá!―ainda que viesse de rastos
lançar-se a
meus pés, pedir-me que recebesse d'ella a
salvação
da minha vida, a salvação da minha alma, eu
repellil-a-hia,
morreria, iria para o inferno, mas não acceitava
d'ella um real que fosse!
―É porque não a amas...
―É porque te amo, Leonor! É porque só
tu
n'este mundo tiveste poder para quebrantar o meu
orgulho de homem e fazer que eu recebesse de ti um
dinheiro que, vindo d'outra parte, me escaldaria as
mãos!
―Como és bom! e como eu gosto de ti, meu amigo!
Só queria ser bem rica para te fazer o mais rico dos
homens! Nenhum havia de fazer melhor figura que
tu, nenhum havia de poder collocar-se ao pé de ti!
―Quando eu fôr senhor d'aquillo que é meu,
então,
Leonor, o que tu hoje desejas fazer-me, é justamente
o que eu te hei de fazer a ti! Hei de pegar
n'essas joias todas e atiral-as pela janella fóra! Hei
de trazer-te como uma princeza, viveremos em Lisboa,
[146]
que é outra terra, e então verás
o que é vida,
o que é gosar! Havemos de ir a Paris, á Italia, a
Londres, ver esse mundo todo, unidinhos como dois
noivos que se amam, que se adoram e que fazem a
inveja do mundo inteiro! Queres?
―Se quero! Como eu seria feliz, se pudesse viver
contigo sósinha, sem estorvos, sem impecilhos,
ainda que fosse num canto bem retirado do mundo,
numa casinha bem pobre, onde só eu e tu coubessemos!
―Amor e uma cabana!―disse rindo maliciosamente
o velhaco, beijando-a com enthusiasmo.―Graças a Deus,
havemos de ter melhor do que isso...
E suspirando com tristeza:
―Para isso bastava só que morresse meu pae!
―Deixa-o lá, coitado! - intercedeu piedosa a ingenua
loura.
―Deixo, deixo... Eu não lhe desejo a morte...
Mas acredita que, ás vezes, Leonor, até chego a
pensar
que não tenho pae!
O velhaco tinha razão.
Ele não só já o não tinha,
como nunca fizera
caso d'elle, desde que pôde abandonar o pequeno cubiculo
em que o desgraçado vendia, como adelo, botas
e livros velhos, numa das alfurjas do Bairro Alto,
alli pelas immediações da travessa dos Fieis de
Deus.
Mãe, uma esfregadeira que a miseria tinha levado
na sua onda negra para o hospital de S. José, onde
falleceu, nunca elle a conhecera.
Portanto, esta exclamação:
«ás vezes até chego a
pensar que não tenho pae», ficaria verdadeira,
horrivelmente
verdadeira, se dissesse que desde criança
se habituára a pensar que o não tivera.
No dia seguinte, Leonor mandou pedir ao commendador
Garcia os tresentos mil reis que o bohemio
devia levar, não para o phantasiado amigo, mas para
[147]
o jogo do monte, que era o sorvedouro horrivel onde
o miseravel não só afundava o dinheiro que podia
obter á custa de tranquibernias e
abjecções, mas ainda
a sua propria saude e robustez de homem válido.
O commendador, capitalista opulento, mandou o
dinheiro pedido, não sem notar de si para comsigo a
frequencia com que taes exigencias se repetiam.
No emtanto, como a sua paixão por Leonor era
violenta como um incendio n'uma casa velha, ainda
d'esta vez não se atreveu a fazer a menor
objecção.
Foi com extremo contentamento que Leonor passou
para as mãos do seu
anjo
mau o dinheiro extorquido
á imbecilidade senil do commendador.
―Aqui tens―disse ella―paga a esse canalha,
a esse falso amigo, e lembra-te que no mundo ninguem
te ama tanto como a tua amiguinha!
―Juro-te, meu amor, minha alma, minha vida,
que ninguem no mundo adora tão ardentemente os
teus encantos como eu!―replicou o bohemio, radiante
de contentamento, guardando na algibeira a generosa
dadiva da amante.
Almoçou e sahiu, pretextando que ia enviar
aquella quantia ao seu destino.
Eram onze horas da manhã quando entrou no escriptorio
do Belchior.
―Olhe lá―disse elle―esta noite posso dispôr
de mim, ou teremos nova estopada?
―Não sei... Deixe vêr o que diz o Custodio.
Elle lá ficou encarregado de tecer os pausinhos...
―O diabo da sirigaita é dura da bocca... Mas
não tem duvida que, se me entra para a
loja, eu saberei
applicar-lhe a espora e obrigal-a a tomar andadura
regular.
―Isso, depois, é lá comsigo e com
ella―respondeu
rindo o procurador.―Mas eu sempre lhe darei
[148]
de conselho que a leve por bem, emquanto o Custodio
não esticar o pernil...
―Isso é dos livros! Mas sabe você que
já me
vae enfadando tanta difficuldade?
―Meu amigo, não se agarram trutas a bragas
enxutas... N'estas coisas, é preciso muita paciencia,
porque de outro modo não se faz nada.
―Mas vamos a saber: poderei hoje ao menos
convidar alguns amigos para uma ceia?
―Póde... Se tem dinheiro, póde. Quem
é que o
ha de impedir?
―Quem me impediu hontem. Você é sempre o
meu
desmancha prazeres, amigo
Belchior!
―Para seu bem.
―E para seu...
―Claro! Para o bem de nós ambos. Mas muito
mais para você do que para mim.
O bohemio ia a retrucar, quando a porta se abriu
e appareceu o Custodio de Jesus.
―E então?―interrogaram os dois.
―Então, sabem o que ella me disse?
―O que foi?
―Adivinhem!
―Não somos bruxos!―replicou o procurador―Falle
para ahi, com seiscentos diabos! Sim ou não?
―Pois bem―não!
―Hein?!―fizeram os dois espantados.
―É verdade! Disse-me agora muito terminantemente
que não.
―E você não voltou á historia do tiro
na cabeça?―observou
o procurador.
―Espere ahi, que o mais bonito está por dizer.
A pequena não só me declarou abertamente que
não
queria casar com o sr. Eugenio, mas fez mais. Pediu-me
que visse eu quanto me era preciso para solver
as minhas dividas e que lhe apresentasse uma
[149]
nota dos credores, porque ella se encarregaria de resolver
a questão de modo satisfatorio e que nos puzesse
a coberto da miseria que eu tanto temia...
―E você o que respondeu a isso?―perguntou o
Belchior.
―O que havia de eu responder? Fiquei entalado
com esta sahida... Sim, porque você bem vê que,
depois d'uma resposta d'estas, eu já não podia
dizer
que ia dar um tiro na cabeça...
―Mas o que pensa então fazer?―interrogou
Eugenio.
―Esperar, a ver o que sae d'aqui...
―D'ahi o que sae é ella perceber que você
não
está arruinado como diz, e não só
recusar-se a casar
aqui com o meu amigo e sr. Eugenio, mas ainda pôr-se
a
chuchar comsigo!―exclamou o
Belchior furioso.―Segue-se
que você representou mal a scena e não
é por esse modo que nós conseguiremos nada.
―Espere, homem, espere!―interrompeu o Custodio.―Eu
tenho uma ideia.
―Que ideia é?
―Ella hontem, depois que vocês sahiram, foi ainda
á janella fallar ao tal rapaselho que a namora...
―Você viu?
―Vi, porque eu, como já estou prevenido, ando
desconfiado, e quando eu desconfio ninguem me faz o
ninho atrás da orelha... Não ouvi o que disseram,
mas calculo... A rapariga disse ao rapaz o que se
passava, e elle, naturalmente, prometteu-lhe salvar-me
das difficuldades financeiras em que me encontro,
para evitar que o casamento se faça...
―Isso é lá possivel! O rapaz é pobre,
e se prometteu
isso, com certesa temos intrujice no caso, porque
elle não póde arranjar cem mil reis, quanto mais
uns poucos de contos.
―Bem! Mas a mim lembra-me uma coisa: é
[150]
apresentar-lhe a nota dos meus crédores e deixar que
elle confesse que não póde fazer nada.
Então eu torno
a ameaçar que me mato e ella não terá
remedio senão
ceder.
―Mas isso então quer-se para breve!―objectou
o procurador―Aqui o sr. Eugenio de Mello tambem
não póde estar na contingencia da pequena querer
ou
não querer... Porque é pessoa respeitavel e
tomaram-n'o
muitas meninas em tão boas ou melhores
condições
de fortuna do que sua filha...
―Eu é porque devéras a amo!―explicou o
bohemio―Sinto-me
loucamente apaixonado pela senhora
D. Beatriz e estou disposto a todos os sacrificios para
conquistar a ventura immensa de a possuir como esposa.
Mas permitta-me que eu lhe pergunte: se esse
rapaz conseguir offertar generosamente a quantia que
o meu amigo disser carecer para reconstituir a sua
fortuna... o que fará o sr. Custodio de Jesus?
―O que farei? Essa é boa! Faço o que deve fazer
todo o homem de juizo: pego no dinheiro com as
mãos ambas, e depois não dou o consentimento para
a
pequena casar.
―Ande-me assim, seu Custodio!―bradou o procurador.―Essa
é de mestre... Mas n'esse bolo havemos
de ir feitos...
―Está dito! Reparte-se pelos tres... Mas acho
que não havemos de ter questões por causa da
partilha...
Os tres desataram a rir.
―Vamos a ver o que sae d'aqui!―disse por
fim o Belchior.―Tinha graça se o rapazote nos sahia
á ultima hora a fazer chover dinheiro ao toque d'uma
varinha magica, tal qual como nas peças de theatro!
―Amigo Belchior―expôz o Custodio―parece-me
que andei bem em não apertar o fiado... O
[151]
melhor que temos a fazer agora é preparar uma
relação
dos crédores e apresental-a á rapariga...
―Qual relação de crédores!―protestou
o procurador.―Você
não tem senão um credor... Esse credor
sou eu. Você deve-me cincoenta contos, e elle que
venha entender-se comigo...
―Justamente!―apoiou Eugenio.―E assim ficaremos
sabendo os recursos de que o tal menino dispõe...
―Está dito!―decidiu o Custodio.―É claro
que cincoenta contos não se arranjam como se fossem
cincoenta reis; e logo que o tal badaméco ouça
fallar
em tanto dinheiro, põe-se a andar e não torna a
apparecer. Então ficaremos com o campo livre para
continuar a representar a scena do tiro na cabeça, se
a pequena teimar em não querer este casamento.
―Se se dér o caso do rapaz, assustado com tamanha
quantia, passar o pé, a propria pequena, por
despeito e por vingança, será a primeira a dizer
que
pensou melhor e que acceita o noivo que se lhe
propõe―opinou
o procurador.
―Fiquemos então n'isto. Você é meu
credor,
com letras acceites por mim, e impõe que ou este casamento
se faça, ou eu pague no dia do vencimento,
que está para breve―concluiu o Custodio, voltando-se
para o Belchior.
―Exactamente―respondeu este.―E mandemos
para cá, que eu me encarregarei de resolver a
questão.
O procurador piscou o olho a Eugenio e fez-lhe
um signal para que sahisse.
O bohemio comprehendeu-o e despediu-se, affirmando
que estava irresistivelmente apaixonado por
Beatriz e appellando para a amizade dos dois, afim
do que envidassem os seus esforços em defesa da sua
causa.
[152]
Logo que o Belchior se viu a sós com o Custodio,
abriu a gavêta da escrivaninha e, tirando de dentro
uma certidão do escrivão de fazenda de Borba;
apresentou-lh'a,
dizendo:
―Veja você, amigo Custodio, a pechincha a que
a sua filha torce o nariz!
O Custodio pegou na certidão das
contribuições
pagas por Eugenio de Mello á Fazenda Nacional.
―Com os diabos!―disse elle―para pagar tudo
isto, perto de dois contos de reis, é preciso que tenha
uma fortuna enorme!
―Este diabo nem sabe o que tem de seu! E ainda
você está com pannos quentes com a rapariga!
Onde vae ella encontrar um partido como este?
―Pois, amigo Belchior―affirmou o Custodio
com resolução―ainda que saiba de a levar pelos
cabellos
á egreja, esta fortuna é que eu não
deixo perder.
―Mas é preciso que isto não demore muito tempo
a decidir.
―Isto por esta semana rebenta! Deixe-me cá
manobrar á vontade e você verá como a
coisa se arranja...
Tendo affirmado isto, o Custodio deixou o procurador
e partiu a arranjar a conta do seu debito para
apresentar á filha.
[153]
X
Para os grandes males...
Custodio de Jesus não se enganara quando dissera
aos seus dois cumplices em patifaria que suppunha ter
sido Paulo quem inspirara a Beatriz o pedido da
relação
das dividas do pae, para pensar na melhor maneira
de as solver.
Effectivamente, Paulo de Noronha, animado pelos
conselhos de madre Paula, a quem fizera a confidencia
dos seus amores, e pelas palavras de esperança que
ouvira da bôcca do seu amigo Jorge, fôra n'essa
mesma noite fallar com Beatriz.
A pobre menina, aterrada, contara-lhe tudo, a sua
recusa formal, as instancias do pae, o arrebatamento
de colera com que elle, a principio, pretendera impôr-se-lhe,
e afinal a dolorida confissão em que cahira
das suas desgraças financeiras e do funesto designio
em que estava de recorrer ao suicidio, se o casamento
que propunha como unico recurso salvador fosse de
todo em todo repudiado pela filha.
Mais contou a apaixonada creança o expediente de
que lançara mão para retardar o desenlace da
tragedia
com que o pae a ameaçava, pedindo uma entrevista
[154]
com Eugenio de Mello, afim de expôr a este,
com lealdade e franqueza, as circumstancias difficeis
da casa de seu pae e os laços de inquebrantavel
affeição
que já tinha contrahido com Paulo de Noronha.
―E o que respondeu esse homem?―interrogou
Paulo.
―Ao contrario de que eu suppunha, mostrou-se
de cada vez mais apaixonado e declarou não desistir
da sua pretensão, com o fundamento de que, em face
da minha lealdade, agora mais que nunca, o seu
coração
lhe impunha o dever de salvar meu pae da
ruina e a mim da pobreza.
―E tu?...
―Despedi-o sem responder, disposta a recusar,
mas tambem a pensar no meio de evitar que meu pae
pratique o acto de verdadeiro desespero com que me
ameaçou.
―E se não encontrares esse meio?
―Succederá o que Deus quizer, mas eu não serei
jamais mulher de outro homem que não sejas tu, meu
Paulo!―exclamou Beatriz com firmeza.
O mancebo sentiu na alma um transporte de sincera
alegria ao ouvir estas palavras.
―Ouve, Beatriz―disse elle.―É possivel que sejamos
victimas de uma d'essas astuciosas ciladas que
os paes ambiciosos ás vezes preparam á ingenua
affeição
de suas filhas para as compellirem a acceitar
um enlace de que se lhes affigura depender a felicidade
d'ellas e d'elles... Mas o nosso dever é tomar
como verdadeiras as palavras de teu pae e tratarmos
de remediar do melhor modo os males de que se diz
victima. Eu sou pobre, não tenho fortuna, porque, se
a tivera, desde este momento ella pertenceria inteira
a teu pae, sem um documento, sem uma promessa sequer
de que mais tarde me solveria essa divida. Por
mim nada posso. Mas tenho amigos valiosos com quem
[155]
conto e em quem espero encontrar auxilio para remover
as difficuldades que affligem teu pae, sem ser preciso
sacrificar o meu e o teu coração, prendendo-te a
um homem que não estimas e que não duvido
affirmar
indigno de ti. Pede, pois, a teu pae uma nota das
suas dividas, e eu verei se me é possivel libertal-o da
responsabilidade d'ellas.
―Mas, meu Paulo, o que pensas fazer?―interrogou
Beatriz commovida, quasi adivinhando a nobre
intenção de mancebo.
―Penso pedir aos meus amigos que me constituam
seu devedor por essa quantia, que pagarei quando
haja concluido a minha carreira e conquistado a
posição
a que tenho direito na sociedade. Tu és filha unica.
e, portanto, a universal herdeira de teu pae. É o teu
dote que asseguro por esta forma. Se eu morrer antes
de solver toda a divida, tu, um dia, quando te encontrares
senhora da herança paterna, restituirás aos
meus crédores o que faltar para seu integral reembolso.
Assim, não prejudicaremos ninguem e teremos salvado
a vida de teu pae.
―Ah! meu Paulo, como tu és um grande e nobre
coração! Como tu és digno do santo
amor que te
dedico!―exclamou a donzella.
Foi assim que no dia seguinte Beatriz fez a seu
pae o estranho pedido de uma nota dos credôres, declarando
ao mesmo tempo que recusava terminantemente
o enlace com Eugenio de Mello.
O antigo marido de D. Carlota podia perguntar,
com a sua auctoridade de pae tyranno, como é que
uma menina de dezenove annos ousava pensar em remediar
desastres financeiros que elle, velho agiota,
encanecido na usura, não podia sanar; e dando-se
por offendido e desrespeitado nos seus brios de progenitor,
por um momento esteve para exigir que a filha,
[156]
em vez de pedir contas, lh'as desse alli, claras e cathegoricas
de todos os seus actos.
Mas o mariola, que na convivencia do padre Anselmo
ganhára em manha o que perdera em dinheiro
e não em honra―porque essa nunca elle a tivera―achou
prudente e de bom aviso levar a farça até ao
fim, apparentando uma inteira e absoluta submissão
á vontade da filha.
O secreto plano que formára, já nós
lh'o ouvimos
no escriptorio do procurador em conversa com este e
com Eugenio de Mello: apanhar o dinheiro, se Paulo
o arranjasse, e negar o consentimento para o casamento
dos dois jovens; ou esperar que o mancebo, assustado
com a grandeza do sacrificio que era preciso
para obter a mão de Beatriz, desapparecesse sem dar
novas suas, o que resolveria a teimosa menina a acceitar
a mão de Eugenio sem repugnancia.
Firme n'este proposito, entrou no escriptorio e
phantasiou uma conta corrente com o procurador Belchior,
em que este apparecia com um saldo a favor
de cincoenta contos, representado por letras acceites
em poder do crédor e com vencimento em curto praso.
Eram estas letras que o Custodio declarava não
poder pagar, se o casamento com Eugenio não se realisasse,
devendo seguir-se o protesto e a execução em
poucos dias, pois que o procurador, amigo de Eugenio
e deveras interessado no seu enlace com Beatriz, recusaria
a reforma, exigindo immediato embolso.
Organisada a conta corrente, o Custodio subiu ao
quarto de Beatriz e, apresentando-lhe o papel, disse:
―Aqui tens, minha filha... aqui tens o documento
da nossa desgraça! Por elle verás que estamos
perdidos sem remedio, visto que tu recusas o meio unico
da nossa salvação!
―Não fallemos n'isso, meu pae!―retorquiu mansamente
Beatriz―Vamos a vêr se por outro meio mais
[157]
em harmonia com a dignidade de ambos, conseguimos
fazer face á adversidade que nos persegue.
―Mais em harmonia com a nossa dignidade, dizes―observou
o snr. Custodio―Supponho que não
póde haver nada mais digno do que o casamento com
esse rapaz, que é rico, que é de bôa
familia e que te
ama loucamente...
―Mas não o amo eu, e é n'isso que estaria a
indignidade,
se eu consentisse em me vender a elle por
dinheiro...
―Vender! Tu não ias como escrava, ias como mulher
recebida á face da egreja e ficarias senhora de
metade do que é d'elle.
―Ainda que ficasse senhora de tudo quanto lhe
pertence, reputaria uma venda ignobil o acto de me
unir a elle, desde que o meu coração o repudia...
―O coração!―fez o sr. Custodio com um
desdenhoso
encolher de hombros―O coração, minha filha,
está sempre bem, desde que o estomago não
está mal...
―Essas theorias não se comprehendem na minha
idade, meu pae...
―Comprehende-as toda a gente, em todas as idades,
Beatriz... Só não as comprehendes tu, porque
até agora, graças a Deus, não tens
sentido falta de
nada e foste sempre considerada como pessoa rica. Mas
quando a miseria chegar e tu vires fugir de ti todos
quantos agora te fazem muita festa, então
comprehenderás
que teu pae tem rasão no que diz.
O usurario, com refalsada velhacaria e crente em
que Paulo sentiria gelarem-se-lhe os ardentes impulsos
do seu coração amoroso ante a horrivel
perspectiva
d'aquella medonha conta-corrente, ia predispondo o
espirito da filha para acceitar no fim o casamento com
Eugenio, como unico recurso que se lhe offerecia.
Beatriz não respondeu. Pegou no papel e dobrou-o,
depois de lhe relancear a vista.
[158] ―Eu verei isto―disse ella―e póde ser que Deus
me inspire alguma ideia salvadora que nos livre de
apuros, sem ser necessario recorrer ao sr. Eugenio de
Mello.
―Deus te ouça, minha filha, mas duvido bem...
E depois de um curto instante de silencio:
―Emfim, pensa e repara que não é brincadeira...
São cincoenta contos. Ha muito que isto teria dado um
estoiro, se não fosse o Belchior, coitado, que, ainda assim,
tem sido meu amigo... Agora é que está
lá embirrado
com a historia do casamento e já me disse
que, se tu não acceitares, escuso eu de contar com elle
para mais nada... Aquellas malditas letras de ouro
do Banco de Credito Real do Brazil arrazaram-me!―suspirou
por fim.
―E foi só o pae que teve prejuizos com
ellas?―perguntou
Beatriz.
―Não. Ficaram muitas familias redusidas á
miseria...
Mas cada qual sente o seu mal...
―E Deus o de todos.
―Pois é verdade, Deus sente o de todos... Mas
quando Elle offerece o remedio á creatura e ella o
não acceita, tambem se offende e não sente
nada...
―Será o que Deus quizer.
O Custodio notou que a filha começava a impacientar-se
e fazia visiveis esforços para respeitosamente
disfarçar o seu enfado.
Resolvido a representar o seu papel de pobre humilde
e dependente da vontade de Beatriz, retirou-se,
dizendo:
―Só te peço, minha filha, que não me
sujeites á
vergonha de me pôrem fóra d'esta casa por
justiça.
Eu, já agora, estou velho, pouco se me dá da
vida...
O que quero é ter tempo de dar cabo de mim, antes
de soffrer um tal desgosto...
[159] ―Não se affija, meu pae, que Deus tudo ha-de
fazer pelo melhor...
N'essa noite, o usurario, fingindo recolher-se cêdo
aos seus aposentos, conservou-se á espreita, para
vêr
se a filha fallava da janella com Paulo.
Teve um sorriso de velhaco satisfeito quando, ahi
pela meia noite, deu conta de que Beatriz descia ao
rez-do-chão para ir fallar através da janella
gradeada
com o mancebo.
―Vaes entregar-lhe o passaporte que o ha-de levar
para longe de ti!...―resmoneou escarninho o
velho, esfregando as mãos de contente.―Cincoenta
contos era o bastante para fazer fugir o homem mais
rico do Porto, quanto mais um pobre diabo que não
tem cincoenta vintens.
E certo do seu triumpho sobre a reluctancia da
filha, enfiou-se na cama.
D'ahi a pouco, ressonava.
Dias depois, Jorge entrava em casa de Paulo e
dizia-lhe:
―Ora, meu amigo, dou-te os sentimentos pela má
escolha que fizeste do homem que ha-de ser teu sogro.
―Então?―interrogou o mancebo.
―Segundo as informações que acabo de obter, o
pae da tua Beatriz é um usurario, um agiota insaciavel,
com instinctos de chacal, incapaz de deixar sahir
com pelle o desgraçado que lhe cáiha nas garras
implacaveis.
Paulo encarou o amigo:
―Tens bem a certeza d'isso?―perguntou.
―Se tenho a certeza! Não me resta a menor
duvida. Esse homem empresta a vinte e a trinta por
cento sobre hypothecas bem garantidas. Não larga das
unhas um real sem lh'o caucionarem pelo menos com
[160]
dois, e é assim que tem conseguido amontoar uma
fortuna que se calcula superior a cem contos de reis.
―Como é então que elle diz dever cincoenta
contos ao procurador Belchior e que está perdido porque
não lh'os póde pagar?
―Esse procurador Belchior―disse Jorge―é
tambem um refinado patife. Não trata senão de
causas
escuras e ha em toda a sua vida uma longa série
de revoltantes ladroeiras. Não seria para admirar que
o Custodio de Jesus lhe devesse cincoenta contos, se
esse Custodio fosse homem para se deixar roubar por
alguem. Mas não. O Belchior e o Custodio entendem-se.
Pactuaram sobre a melhor maneira de esfolar a pobre
humanidade, e não se mordem um ao outro. Vê-se,
pois, que os dois estão combinados para roubarem
um terceiro, que é esse tal Eugenio de Mello, a quem
pretendem casar com a tua namorada.
―E elle quem é?
―Quem? O Eugenio do Mello? Faltam-me ainda
esclarecimentos exactos sobre esse figurão, mas hei-de
obtel-os breve. Por emquanto, o que se sabe é que
é
um rapaz estroina que tem dado que fallar no Porto
pelas suas liberalidades e extravagancias. Suppõem-n'o
rico e é de crêr que o seja pelo interesse que o
Custodio tem em querer casar com elle a filha.
―De maneira que―observou Paulo―essa divida
dos cincoenta contos...
―Não é mais que uma phantasia para justificar
a insistencia em que o casamento se faça e compellir
Beatriz a acceitar o noivo que se lhe offerece.
―Eu já tinha suspeitado isso mesmo!―redarguiu
Paulo indignado―Mas o que precisamos agora
é provas d'essa infamia.
―Descança que hão-de apparecer. Por agora, o
que quiz foi dar-te a certeza de que o pae da tua
amada não se matará por falta do dinheiro
d'elle―que
[161]
esse está bem garantido. O que póde
é matar-se
por não poder apanhar todo o dinheiro dos outros.
Previne, pois, a pequena de que póde recusar a
mão
do tal sr. Eugenio e dormir tranquilla, que o pae não
pensa em deixar este mundo, que é muito do seu gosto
emquanto n'elle houver quem tome dinheiro a trinta
por cento, com hypotheca...
―Mas, se Beatriz recusa, certamente o pae não
transige com a decisão da filha. Tendo-lhe falhado
o plano que imaginou, ha-de buscar outro...
―E nós cá estamos!
―Pois sim, estamos... Mas não impediremos que
elle empregue a violencia, visto que os meios suasorios
lhe não deram resultado...
Jorge poz-se a rir.
―Desde que a
Mão-Negra
protege Beatriz, o pae,
o pretendido noivo e o procurador não teem senão
que
tremer pelas consequencias do seu procedimento, se
não fôr correcto.
Paulo, n'essa mesma noite, transmittiu a Beatriz
todas as informações obtidas por Jorge
ácerca das
verdadeiras condições de fortuna em que se
encontrava
o sr. Custodio de Jesus.
―Teu pae não deve coisa algum ao procurador
Belchior―disse-lhe o mancebo―Essa divida, com
que elle finge affligir-se tanto, não passa de um pretexto
para te mover a acceitar a mão d'esse rapaz...
―Tens tu a certeza d'isso, meu Paulo?―perguntou
Beatriz admirada.
―Affirmo-te que teu pae possue uma fortuna superior
a cem contos de reis, solidamente garantidos
por boas hypothecas. Não tenhas, pois, receio de que
se mate apavorado com a ideia da miseria.
―Mas se isso é assim, como é então
que o procurador
Belchior exerce sobre meu pae um tal ascendente?
[162] ―São alliados. Quem
apresentou
em vossa casa
Eugenio de Mello?
―Foi o Belchior.
―Pois bem; logo, o Belchior é que planeou este
casamento. Conhecia Eugenio de Mello, viu n'elle um
bom partido para ti, apresentou-o a teu pae e os dois,
d'accôrdo, procederam de modo que levaram esse rapaz
a pedir a tua mão. Como o negocio se lhe afigura
vantajoso, teu pae emprega todos os meios para
te resolver a casar. A violencia n'estes casos é quasi
sempre inutil, quando não é contraproducente...
Portanto,
qual o melhor meio de vencer a tua resistencia?
Era levar-te pelo lado da compaixão e da ternura filial,
pois que, pelo sentimento do interesse material e grosseiro,
teu pae deve conhecer-te bem para te julgar invulneravel.
D'ahi, as suas queixas, as suas lagrimas e
as suas ameaças de pôr termo á
existencia. Mas com o
que elle não contava era comigo. Teu pae que queira
fazer uma cedencia de todos os seus haveres actuaes
por cem contos de reis, e avisa-me, porque eu promptamente
lhe apresentarei quem realise a transacção.
Propõe-lhe isto, minha amiga, e ouve o que elle te
diz.
―É extraordinario!―disse Beatriz―Suppunha
meu pae um homem de genio rispido, despotico, intractavel
mesmo, mas nunca o julguei capaz de descer
a representar comigo uma comedia tão aviltante
da dignidade paternal!
―Minha querida amiga, bem sabes que te amo
por ti, sómente por ti, e não por tua familia, e
ainda
menos pelos teus haveres, que nunca tratei de indagar
quaes fossem; e se agora sei isto, foi porque as
circumstancias me obrigaram a fixar a minha
attenção
sobre tal assumpto, e Deus sabe com que boas e generosas
intenções. Mas, visto que tanto te admiras,
[163]
permitte-me que te pergunte: sabes que genero de negocio
é o de teu pae?...
―Não sei. Meu pae nunca fallou diante de mim
sobre assumptos commerciaes. Elle foi sempre homem
de poucas palavras e de nenhuns carinhos para mim.
Eu, desde que vim do collegio, tenho vivido n'esta
casa quasi como uma estranha... A primeira vez
que lhe ouvi fallar de negocios foi agora, depois que
este rapaz se apresentou a pedir a minha mão e eu
recusei...
―Então saberás, minha bôa amiga, que
teu pae
empresta dinheiro ao juro de vinte por cento, o minimo,
sobre hypothecas que ordinariamente representam
o dôbro do valôr emprestado. Vê tu se, em
taes
condições, teu pae, que tem dinheiro para
emprestar,
póde dever cincoenta contos ao procurador Belchior
e encontrar-se na situação desesperada que diz.
―O que entendes que devo então fazer? Que
resposta deverei dar-lhe? Eu não queria vexal-o e
desafiar talvez a sua colera dizendo-lhe abertamente
que estou conhecedora da sua odiosa mentira...
Paulo reflectiu por alguns instantes.
―Tu, por emquanto, nada dizes a teu pae, senão
que estás pensando no que melhor convirá fazer em
face da grave situação em que ambos vos achaes...
―No emtanto, elle não deixará de insistir por
uma
decisão rapida...
―Muito bem; e tu dizes-lhe que não tens duvida
em acceitar o marido que se te propõe, desde que
esse casamento seja a unica solução que se te
apresente
para salvar teu pae. Antes d'isso; porém, não te
dispensas de estudar o assumpto com o cuidado e a reflexão
que elle requer.
―Mas esta situação é insustentavel
por muito
tempo, meu Paulo...
―Não te dê cuidado o resto. Antes de seres
obrigada
[164]
a dar uma resposta definitiva, tenho esperança
que os acontecimentos hao-de obrigar teu pae a mudar
de resolução.
―Oxalá que assim seja!
O sr. Custodio de Jesus, que não perdia o menor
movimento da filha, ancioso como estava de saber que
solução daria ella ao intrincado problema dos
cincoenta
contos que se lhe propunha, sentiu que Beatriz viera
mais uma vez á janella do escriptorio conferenciar com
Paulo; e no dia seguinte, depois de almoço, pondo os
olhos enternecidos na pobre menina, perguntou-lhe com
fingido carinho:
―Então, minha querida filha, já pensaste na
nossa
terrivel situação?
―Já, meu pae―respondeu Beatriz baixando os
olhos.
―E o que resolves?
―Por emquanto, nada.
―Nada!―exclamou o snr. Custodio affectando
grande espanto.―Pois é possivel que, tendo-me tu promettido
uma resposta decisiva sobre esta questão de
vida ou de morte para mim, te mostres assim indifferente
ao que póde succeder? Para que me pediste
então essa conta que te apresentei?
Beatriz fitou um olhar persistente no pae e respondeu
placidamente:
―Pedi-lh'a, meu pae, para ter bem a certeza do
que cumpre fazer.
―O que! Pois não sabes o que cumpre fazer?
Quando se devem cincoenta contos de reis e o crédor
os exige, o que cumpre é pagar.
―Pagar ou casar...―replicou Beatriz com amarga
ironia.
―Ninguem te obriga a isso. Eu mesmo, que sou
teu pae e que podia impôr a minha
auctoridade
paterna,
prefiro deixar-te ampla liberdade na escolha
[165]
do homem que ha-de ser teu esposo, embora eu tenha
de sacrificar a vida...
―Não lhe será preciso sacrifical-a, meu pae.
―Isso tudo são palavras, Beatriz... Mas as dividas
não se pagam com palavras... Prometteste-me
resolver a questão, e afinal já lá
vão uns poucos de
dias e tão adiantados estamos hoje como hontem.
―Alguma coisa temos já adiantado...
―O que?
―A resolução em que estou de salvar meu pae...
―Sério, Beatriz!? Tu acceitas o casamento que
se te propõe, minha filha?
―Se outro recurso não houver, acceital-o-hei.
―Pois olha que não tens outro recurso, crê!
―Veremos.
―Pensas ainda em conjurar o mal que nos ameaça
por outra forma?
―Talvez.
―Ah! minha filha, minha filha! se confias no
auxilio de qualquer das pessoas nossas amigas, desde
já te digo que nada conseguirás... Os amigos
fogem
da desgraça como as andorinhas fogem do inverno.
Se lhes fallamos em dinheiro,―emigram!
Beatriz meneou a cabeça e respondeu com voz submissa,
porém firme e serena:
―Quando se é leal e sincero para com todos;
quando se não abrigam no peito sentimentos de egoismo
e de torpe má fé, a Providencia, que vela pelos
bons, envia-nos sempre alguem que nos comprehende
e nos vale nos lances mais desesperados da nossa vida...
―Pois sim!―tornou o sr. Custodio n'um tom de
mal disfarçado motejo―é bom a gente confiar na
Providencia, mas é muito melhor conhecer o mundo e
tratar cada qual de se livrar de apuros pelos meios
[166]
que puder... A Providencia já não faz pouco em
nos
enviar esse rapaz que te quer para esposa...
―Pois se ella se não manifestar por outra forma,
acceitarei o casamento que se me offerece... Mas,
antes d'isso, meu pae, rogo-lhe que me deixe pensar
reflectidamente sobre o caso...
―Pensa o que quizeres, minha filha, e resolve o
que te parecer melhor, comtanto que não pareça,
pela
demora em dar uma resposta decisiva, que estamos a
caçoar com esse rapaz e com o Belchior que o apresentou
e que é, como sabes, nosso crêdor...
―Ninguem póde tomar como caçoada o facto de
eu querer reflectir maduramente antes de dar um
passo de que vae depender o meu destino...
―Sim, isso é justo...―tornou o Custodio com
brandura―Mas quantas no teu logar, minha filha,
se o Eugenio lhes pedisse a mão, lhe estenderiam logo
as duas sem mais ceremonias, antes que elle se arrependesse!
―Não vejo vantagem nenhuma n'isso. Se tiver de
se arrepender, mais vale que seja antes do que seja
depois. Justamente para que o arrependimento me não
sobrevenha, é que eu desejo pensar bem no que vou
fazer, antes de me decidir...
―Faze lá como entenderes. Para mim, como já
pouco posso durar, a questão está resolvida:
é mais
mez, menos mez, mais dia, menos dia... Quando se
chega á minha idade, a vida já pouco prende...
Preferiria
morrer socegado na minha cama, da morte que
Deus me desse, e não ter eu que pôr termo
á vida para
me livrar de vergonhas... Mas se Deus tiver determinado
o contrario, cumprirei resignado a sua divina
vontade... Acredita que, se me afflijo, não é
tanto
por mim como por ti, a quem eu não queria deixar
no mundo sosinha, pobre e desamparada!
―Sim, meu pae...―respondeu Beatriz levemente
[167]
ironica―Eu conheço quanto lhe devo pelas provas de
carinho que sempre me tem dado... Mas não se afflija
por mim como eu não me afflijo por meu pae,
pois que Deus ha de valer-nos...
―Tens essa fé, Beatriz?
―Tenho a certeza, meu pae. Pois não lhe disse
já que, se outro remedio não houver, casarei com
o sr.
Eugenio de Mello?
―Deus te abençôe, minha filha, pela grande
consolação
que me dás! E has-de ser feliz, crê, porque o
Eugenio é bom rapaz e está perdidamente
apaixonado
por ti.
―É pena que eu não possa apaixonar-me por
elle...
―Minha filha, depois, a convivencia faz tudo...
Pensa, pensa e has-de vêr que não encontras outra
solução melhor do que esta para nos tirar de
difficuldades:
casar e deixar de tolices...
Disse, e retirou intimamente satisfeito, por lhe parecer
que tinha com o seu discurso adiantado um
grande passo no caminho do ambicionado casamento
que sonhava para a filha.
―Naturalmente―ia dizendo comsigo―lá o tal
franganito mostrou-se desanimado e ella vae perdendo
a esperança que tinha n'elle... É
questão de mais
dois dias ou tres, e ella ahi está a dizer que sim, que
se resolve a querer o Eugenio... Se todos os paes
fizessem como eu... se quando as filhas se inclinam
para um bigorrilha sem cinco reis, lhes dessem logo
com as precisas, fazendo-as pensar na pobresa e na
miseria que as espera, não se via tanto casamento
desgraçado como se vê!
E esfregava as mãos, satisfeito de haver conseguido
illudir a filha.
Mal sabia o velhaco que n
Mal sabia o velhaco que n'este caso, o verdadeiro
illudido era elle!
[168]
XI
João Lazaro
Jorge tinha o habito de ir todos os dias ao
Suisso
tomar café, depois de jantar.
Alli passava uma hora em palestra amena com os
amigos, se os encontrava, ou a lêr os jornaes estrangeiros
que o criado lhe punha diante―para matar
tempo.
N'estas rapidas leituras encontrava coisas que
pareciam interessantes, porque ás vezes puxava do
seu livro de lembranças e tomava notas a lapis nas
folhas em branco.
Foi n'uma occasião d'estas que sentiu bateram-lhe
amigavelmente no hombro e ao mesmo tempo uma voz
dizer-lhe:
―Estás a copiar alguma receita para te lembrares
dos amigos?
Jorge levantou a cabeça e encarou o recem-chegado.
―És tu, João!―exclamou levantando-se com
impeto e estendendo os braços para elle.―Como estava
longe de te ver agora aqui!
[169]
Os dois abraçaram-se effusivamente e sentaram-se
em seguida.
―Ora o meu João Lazaro!―tornou Jorge com
alegria―Com que, voltaste ao Porto!
―É verdade!―disse o outro recostando-se na
cadeira com importancia e tomando uma attitude de
principe que regressa do exilio―O bom filho á casa
torna...
―E o bonito é que encontras a casa como a deixaste...
―Infelizmente. Isso, porém, não me admira nem
espanta. Não era de esperar outra cousa desde que
eu faltava cá para a reformar.
―Quando chegaste?
―Hoje de manhã.
―Que tempo te demoras?
―Não sei. Venho conferenciar com uns amigos sobre
assumpto importante, e não posso calcular o tempo
que isso me levará...
―Não tencionas fixar residencia no Porto?
―Não. Isto é pequeno demais para mim...
―Bravo, seu João! Você está
crescido!―disse
Jorge galhofeiramente.
―Pois tu comprehendes um vulto politico de certa
importancia a viver no Porto?
Já
Lisboa é uma deprimente
miseria, meu caro! Mas, emfim, como não ha
outra terra maior, não ha remedio senão
resignarmo-nos
com ella...
Lançou em volta de si um olhar superior, de desdem,
mordeu a ponta do charuto caro, com affectação,
e exclamou:
―Que mal servido está este café! Não
ha aqui
um criado que venha receber as ordens?...
Jorge bateu as palmas, chamando o criado.
―O que tomas?―perguntou ao amigo.
―Vou tomar cerveja.
[170] ―Cerveja a este senhor―disse Jorge ao criado
que se aproximara.
Este relanceou um olhar curioso para o freguez
que dava pelo nome de João Lazaro, e perguntou:
―Ingleza?
―Ingleza, sim!―respondeu o João Lazaro.
E voltando-se para Jorge, emquanto o criado se
afastava a cumprir a ordem:
―Unica coisa em que transijo com esses bebedos
inglezes!
―Pagas-lhes assim a affeição que manifestam pelo
nosso vinho...
―Pelo nosso vinho e pela nossa Africa!―disse
o João Lazaro com olhar torvo.
―Pela
nossa! Pois o Brazil tambem
tem Africa?―interrogou
motejador o amigo de Paulo―Porque
tu, meu caro Lazaro, se bem me recordo, és brazileiro...
―Mas portuguez pelo coração!―respondeu o outro
com emphase.
E accrescentou:
―Ah! se não fosse o coração, cuidas
tu que eu
teria posto a minha mocidade, a minha energia, o meu
talento, ao serviço de um paiz tão pequeno como
este?...
―Effectivamente, meu rapaz, tu és grande de
mais para uma terra tão pequena como esta... E ella
assim o comprehendeu expulsando-te do seu seio por
duas vezes... Porque não vaes tu servir o Brazil, que
é a tua patria, com a grande vantagem de encontrares
lá já realisado o teu ideal politico?
―Já te disse: sou portuguez pelo
coração...
―E ninguem é propheta na sua terra. Ah! velhaco!
sabe-te melhor o pão
negro das terras brancas,
do que a farinha branca das terras negras...
A conversação foi interrompida n'este ponto pela
[171]
aproximação de Eugenio de Mello que, tendo
avistado
João Lazaro, dirigiu-se a elle familiarmente:
―Ó João―preveniu o bohemio―não te
compromettas
para amanhã á noite, porque temos ceia de
rapazes em tua honra...
―Oh, diabo!―replicou o Lazaro, sempre com
ares de grande senhor―Para amanhã não
será possivel,
porque tenho negocios importantes a resolver e
não sei se de dia ficarão concluidos...
―Não sei; arranja-te como puderes, porque a rapaziada
resolveu isto e é uma semsaboria se tu não
appareces... Demais a mais, o elemento feminino, o
elemento galante, faz-se representar, e tu não
pódes
deixar de ser gentil para com as damas.
―Está bem: irei.
E voltando-so para Jorge:
―Não se conhecem?
―Não tenho essa honra―disse Jorge.
João Lazaro então apresentou:
―O meu amigo Eugenio do Mello...
E para este:
―O meu amigo Jorge de Gusmão.
Os dois cortejaram-se.
―Estimo conhecer v. ex.
a―disse um.
―Igualmente―disse o outro.
E apertaram-se as mãos.
―Como se trata de uma festa intima, de amigos
pessoaes do João―disse Eugenio de Mello, dirigindo-se
a Jorge―V. ex.
a, que é tambem amigo
d'elle,
dar-nos-ha muito prazer, comparecendo. É no Palacio,
ás 10 da noite.
―Agradeço, mas é-me absolutamente impossivel,
o que muito sinto, associar-me a essa homenagem de
estima ao nosso amigo, porque amanhã de tarde devo
partir para Braga, aonde me chamam negocios urgentes
e inaddiaveis―respondeu Jorge.
[172] ―Creia v. ex.
a―tornou Eugenio amavelmente―que
teria immenso prazer em o vêr lá...
Jorge agradeceu com uma inclinação de
cabeça.
O bohemio, que não se sentara á mesa,
despediu-se,
dizendo ao Lazaro:
―Vê lá! Se não nos virmos antes,
ás 10, lá te
esperamos. Fui encarregado de te dirigir o convite e
agora não queiras collocar-me mal perante a rapaziada.
Quando Eugenio se afastou, Jorge que, pelo nome,
reconhecera n'elle o rival de Paulo, perguntou:
―Quem é este rapaz?
O outro sorriu desdenhosamente.
―Um aventureiro!―respondeu.
―A classificação é pouco lisonjeira
para ti e menos
ainda para elle...
―De accordo. Mas é verdadeira. De resto, sabes
que um homem politico tem por vezes a dolorosa e imprescindivel
necessidade de se relacionar com a gente
da mais baixa especie.
―Mas este rapaz é...?
―É um typo como ha muitos. Apresenta-se bem
encadernado, insinua-se na confiança da gente fina e
é
util para muita coisa que nós outros não podemos
fazer.
―E vive d'isso?
―Vive de tudo. A sua existencia é uma
série de
expedientes engenhosos.
―Suppunha-o rico. Tenho-o visto frequentando a
melhor roda de rapazes e passa entre elles por ser possuidor
de grande fortuna...
―Essa é a sua grande habilidade. Explora o jogo
e o amor com tanta arte que, em vez de explorador,
parece elle o explorado. Agora, por exemplo, gasta
sommas enormes que lhe dão uma apparencia de rapaz
rico, á custa de uma loura, que é a
sanguesuga
deliciosa do commendador Garcia... Conheces?
[173] ―Conheço o commendador Garcia perfeitamente.
―E a loura?
―Poderei tel-a visto, mas não estou certo.
―Não sabes nada!―volveu o João Lazaro
desdenhoso.
―Mas como é que tu, chegando hontem ao Porto,
já pudeste saber tudo isso?
―Disse-m'o elle, porque o conheço de Lisboa, e
comigo não tem reservas. Conta-me tudo.
―Então, devia contar-te tambem que tem o casamento
ajustado com uma rica herdeira...
―Elle!?
―Elle, sim!
―Oh, diabo! Não me disse nada a esse respeito.
Fallas sério?
―Absolutamente sério. E o mais interessante é
que o pae da noiva suppõe-n'o um rapaz riquissimo...
―É boa! E não me disse nada! Que grande patife!
―Pois é verdade.
―Tens bem a certeza?
―Conheço a noiva...
―Ella quem é?
―É filha de um capitalista, chamado Custodio de
Jesus...
―Não conheço.
―Anda n'isso mettido um procurador chamado
Belchior... Esse deves conhecer...
―De nome apenas... Tenho d'esse homem as peores
referencias, já do tempo em que vivi no Porto.
―Pois mantem ainda hoje a boa reputação que
já
gosava no tempo em que ouviste fallar d'elle. O que
ou não sabia era que especie de
relações podiam ligar
o procurador Belchior a este rapaz. Mas, visto dizeres-me
que elle é um cavalheiro d'industria, está
explicado
[174]
o caso. Os dois combinaram-se para roubar o
capitalista, apanhando-lhe a filha...
―É bonita essa pequena?
―Creio que sim.
―Crês?
―Nunca a vi, e por isso não a conheço
pessoalmente.
Mas tenho d'ella informações que a dão
como
uma belleza indiscutivel.
―É pena, porque, se é formosa, merece outro
marido
que não um
escroc... Mas
que imbecil progenitor
é esse, e demais a mais capitalista, que entrega
assim a filha a um typo como é o Eugenio de Mello?
―Não sei. Naturalmente suppõe-n'o rico, como
toda
a gente.
―Pois, meu amigo, se te interessas por essa pequena,
avisa o pae da cilada em que o querem fazer
cahir.
―Eu!―replicou Jorge―Não tenho nada com
isso... Deixemos lá o rapaz. Póde ser que a
fortuna
o regenere.
―A quem? Àquelle? É impossivel! Jogador, bebedo,
extravagante, só está bem quando gasta ouro
ás mãos cheias. Em Lisboa explorava o
amôr de varias
Messallinas da alta roda... Aqui, no Porto, segue
o mesmo caminho, e com bastante felicidade pelo que
vejo, pois que o encontro levando vida do principe e
bellamente relacionado...
―E melhor estará d'aqui por alguns dias, porque
o casamento, segundo se diz, está para breve...
―Os jornaes já deram noticia?
―Não. Este negocio trata-se no maior segredo.
E é natural, porque elle não deve desejar que a
formosa
lourinha o saiba e lhe transtorne os planos...
―É curioso!―tornou o João Lazaro―Como as
mulheres são estupidas nos seus amôres! Essa loura
a que te referes teve a audacia de me resistir. Assediei-a
[175]
durante muitos mezes, nos primeiros tempos
da sua ligação com o commendador Garcia. Eu era
incapaz de a explorar pecuniariamente... Contentava-me
em que não me fizesse exigencias de dinheiro,
porque para isso lá estava
o
outro. Escrevi-lhe
cartas apaixonadas no meu estylo... tu sabes! todo
litterario, que até era mal empregado n'aquella
couçoeira
de fórmas divinas, incapaz de me comprehender...
Pois, meu caro, entrincheirou-se na sua fidelidade
ao commendador e não houve de quê! Por fim,
apparece este idiota, sem instrucção, sem
elegancia,
sem espirito, sem nada que o recommende, e conquista-a!
―É sempre assim, meu amigo. As mulheres teem
uma tendencia especial para escolherem o peor.
―Não são só as mulheres. Toda a
humanidade é
assim. Segues uma estrada que se bifurca em dois caminhos,
um dos quaes te conduz e outro te afasta do
sitio a que te diriges. Escolhes ao acaso. Pois tem a
certeza de que o que escolheste é sempre o peor. Mas
o que me irrita é a fortuna estupida d'esse imbecil.
Não vale a pena um homem ter talento, ser distincto,
ser finamente superior a essas vulgaridades ignobeis
que para ahi enxameiam, porque as mulheres, meu
caro, hão-do ser sempre pela materia contra o espirito!
O João Lazaro atirou fóra o charuto com affectado
desdem e levou o copo da cerveja aos labios com a solemnidade
de quem estivesse dando exemplos de suprema
elegancia n'um salão aristocratico.
Jorge Gusmão disfarçou um sorriso de motejo e
disse:
―Quem te ouvir ha de julgar que tens sido infeliz
com as damas...
―Não; não tenho sido. Muito pelo contrario,
tenho
sido alvo do carinhoso interesse de mulheres finas,
[176]
elegantes, da primeira roda. Mas essas, impede-me a
minha posição politica de lhes corresponder,
porque se
tal fizesse, as mediocridades do meu partido tratariam
logo de lançar sobre mim a suspeição,
accusando-me
de me deixar subornar pela aristocracia.
―Sacrificas o amor á politica...
―Ao meu ideal sacrifico tudo!... E só assim,
crê, é que um homem póde affirmar-se
capaz de salvar
um paiz á beira do abysmo...
―Mas, ó João, tu seriamente pensas em salvar os
outros ou em te salvar a ti? Porque afinal, sejamos
francos, tu que diabo tens sacrificado ou o que é que
pódes sacrificar ainda? Tu és pobre, tu nunca
possuiste
dez reis, tu não passavas de um anonymo perdido
na massa dos anonymos, dos obscuros, dos humildes.
Chegou uma occasião em que julgaste poder
especular com o sentimento patriotico do paiz e especulaste,
sem criterio, sem fé, sem consciencia, armando
á popularidade, muito disposto a sacrificar os que te
escutavam ao teu interesse pessoal... Erraste no calculo,
porque, na hora em que julgavas ter triumphado,
cahiste. Depois, por coherencia com os teus planos de
ambição, e tambem porque te era impossivel
retrogradar,
visto que não tinhas adquirido valôr que te desse
direito a uma cotação rasoavel no campo adverso,
seguiste
ávante, simulando convicção onde
só havia
má fé.
―Não é tanto assim, meu caro―protestou o
João
Lazaro frouxamente.
―Que diabo! sabes que te conheço e porisso de
nada te vale o fingimento para comigo... Tu és um
especulador politico, como o teu amigo Eugenio de Mello
é um especulador amorôso... Vives dos
kalenderes do
ideal como elle vive das infelizes sonhado como elle vive
das infelizes sonhadoras do
amôr.
As tuas fontes de receita são tão occultas e
tão inconfessaveis
como as d'elle.
[177] ―Jorge, tu has-de ser sempre brutal com os amigos!
―Sincero, sincero e leal é que eu sou. Não
admitto que os amigos, porque o são, vão julgando
que me illudem e que não os conheço cabalmente.
―Eu não quiz nem quero illudir-te... Confio demasiado
na tua amizade para não ser sincero comtigo.
Mas que demonio queres tu que eu faça n'estas
circumstancias?
Eu bem sei que foi um mau passo o que
dei misturando-me com esta canalha... Mas agora que
remedio tenho senão proseguir no caminho mau em que
me lancei?
―Tambem não é tão mau como
dizes. Que poderias
tu esperar dentro das velhas normas? A manga
d'alpaca e desoito a vinte mil reis por mez com papel
dos officios para as intermittencias jornalisticas. Mais
nada, porque as repartições estão
atulhadas de ociosos
e mais um importa já um verdadeiro attentado
orçamental.
Assim, dás-te ares de martyr, de principe desthronado,
diante dos papalvos que vêem uma aureola
de gloria a circumdar-te a fronte, e pedes-lhes dinheiro
emprestado para poderes sustentar o prestigio da causa...
―Oh! mas estão já desmoralisados...
São uns
verdadeiros biltres! Imagina tu que, para vir ao Porto
onde preciso de me mostrar, porque quem não apparece
esquece, foram-me precisos seis idiotas dos mais fanaticos
para, espremidos e quotisados, poderem dar-me
duzentos mil reis!
―Pois sim, meu bom Lazaro... Concordo que
nem tudo sejam rosas no teu caminho. Mas tu em certo
modo tens tido a culpa.
―Eu?
―De certo. Tens habitos de grandeza, jantas como
um principe, o que não custa a fazer quando se tem
ás ordens a bolsa dos parvos. Mas os parvos tambem
ás vezes ganham juizo...
[178] ―Que queres tu que eu faça? Nas circumstancias
em que me encontro, se deixo de honrar a minha
posição,
apresentando-me em harmonia com o meu nome,
sou um homem perdido, sou um homem morto pelo ridiculo!...
―E o que vens tu fazer ao Porto?
―Venho arranjar dinheiro...
―Para quem?
―Para mim.
―E suppões que t'o dêem?
―Ainda aqui ha gente de muito bôa fé...
―Mas da outra vez não deixaste a vinha vindimada?
―Isso já esqueceu. Agora o processo é outro...
―Bem; anda lá!
João Lazaro levantou-se.
―E tu, sempre o mesmo?
―O mesmo sempre.
―És um homem singular!
―Divirto-me com isto... Gosto de observar a humanidade,
que é realmente o livro mais curioso e mais
difficil de lêr.
―Um homem com o teu espirito, com a tua intelligencia
e com a tua fortuna podia ir longe, se quizesse,
n'este paiz onde só os audaciosos vencem.
―Não sou ambicioso e confio muito pouco nos homens.
Conheço-os tão bem!
João Lazaro consultou o relogio.
―Ainda posso tornar a vêr-te antes de partir?
―Pódes. Sabes a minha casa. Encontras-me lá
todos
os dias até á uma hora da tarde.
―Irei dizer-te adeus.
―Pois sim.
Apertaram-se as mãos e despediram-se.
João Lazaro sahiu com ar altivo e magestoso, relanceando
[179]
um olhar de despreso pelos frequentadores
abancados ás mesas.
Já na rua, ia murmurando:
―Ora o patife do Eugenio de Mello, que vae abotoar-se
com a filha de um capitalista!
Os labios grossos, de mulato, vincaram-se-lhe n'um
sorriso mau. É que ao cerebro accudira-lhe um pensamento
terrivel.
―Bôa occasiao de lhe empalmar a loura e de me
vingar d'elle pelo cuidado com que occultou de mim o
seu projecto de casamento!―rosnou por entre dentes―Decididamente,
eu sou um homem de genio e não
devo consentir que este idiota me passe adiante e se
me avantage em amôr, em fortuna e em
posição social.
João Lazaro, vaidoso, vingativo e perverso, raça
de preto e branco, minado de inveja, roido
d'ambições,
irritava-se e agitava-o um rancor profundo quando
algum dos seus amigos ou companheiros de mocidade,
por esforço proprio, por acaso, ou por capricho da
fortuna, melhorava de posição e subia mais um
furo
na escala das considerações sociaes.
A perspectiva de vêr Eugenio de Mello casado com
a filha de um capitalista, pompeando grandezas e vivendo
a vida feliz que o dinheiro dá, acendera-lhe um
inferno de invejas na alma parda como um ceu de
maio, prenhe de trovões, e como a propria
parda brazileira
de quem era filho e cujas feições retratava na
côr bronzeada, nos labios grossos, nos dentes brancos,
no nariz de ventas largas e acachapadas e no cabello,
onde havia ainda uns longes de carapinha.
De resto, alto, entroncado, de andar desenvolto e
um tanto gingado, de preto
capoeira,
tinha o quer
que era de elegante e distincto, e chegaria mesmo a
ser attrahente e sympathico, se não fôra a
pretensão
ridicula que se lhe trahia nos gestos e attitudes de
grande senhor.
[180]
Tal era physica e moralmente João Lazaro, que o
leitor terá occasião de apreciar melhor em
capitulos
subsequentes.
Por agora, deixemol-o ruminar o seu infame plano
de anniquilar o amigo que o convidava para uma ceia
em sua honra, e vamos nós travar
relações com outros
personagens importantes d'esta complicada mas veridica
historia.
[181]
XII
Velhos conhecimentos
Em S. Martinho de Campo, concelho da Povoa de
Lanhoso e não longe da casa de Norberto de Noronha,
que os leitores da
Irmã
Dorothea já conhecem, havia
uma outra casa de bôa apparencia,―
casa
nobre, como
lá se diz,―mas de severo e melancholico aspecto.
Permanecia a maior parte do anno fechada, e apenas
na quadra estival as suas janellas se abriam e as
salas se illuminavam n'um rumor de alegria e de festa.
É que a proprietaria d'essa casa, D. Aurelia de
Magalhães, tendo casado e perdido marido e filho no
curto espaço de quinze dias, ao cabo de cinco annos
do seu consorcio, envolvera-se nos crepes da viuvez e
encerrara-se n'uma tristeza calma e resignada que a
solidão do seu viver tornava ainda mais profunda.
Occupando um aposento interior do edificio, servida
apenas por uma velha criada que fôra sua ama de
leite, raras vezes sahia do seu quarto; mas quando
sahia, n'um curto passeio, nunca transpunha os limites
da vasta propriedade murada e inaccessivel ás vistas
exteriores.
Os caseiros encarregados do amanho e semeadura
[182]
das terras passavam mezes que a não viam, nem mesmo
ao domingo á hora da missa, na capella da casa;
porque a pobre viuva, occulta nas sombras do côro que
communicava com o interior da vivenda, podia assistir
sem ser vista á celebração do santo
sacrificio.
O irmão d'esta senhora, Gustavo de Magalhães, o
sensato academico que na
Irmã
Dorothea vimos desempenhar
um curto mas sympathico papel como amigo
de Julio de Montarroyo e do infeliz Norberto de Noronha,
doutorara-se em direito e, impulsionado pelo talento,
fôra abrir banca de advogado em Lisboa, onde
conquistou rapidamente uma reputação
brilhantissima
de orador e jurisconsulto notavel.
Quando soube que a irmã enviuvára, quiz leval-a
a viver comsigo na capital; mas a magoada viuva recusou,
preferindo gemer as saudades do esposo e do
filho mortos na solidão de S. Martinho do Campo, a
abafal-as no ruidoso e atordoante bulicio da grande cidade.
Gustavo de Magalhães, respeitando a dôr da
irmã,
não insistiu, e como tambem na vida agitada da capital
as saudades da sua aldeia o pungiam, reservava
os mezes do estio para ir em piedosa romagem ao berço
natal, e alli se demorava de junho a setembro.
Era então, quando elle chegava com a mulher e
os filhos―e já contava nada menos de tres―que a
vida entrava na casa, e ao silencio e á tristeza succediam
o ruido e a alegria.
Os amigos vinham de Braga e Guimarães visital-o,
demoravam-se dias, havia passeios, jantares na Senhora
do Porto, os pequenos chilreavam na casa logo de madrugada
e arrastavam a titi a longas caminhadas pelo
campo.
E D. Aurelia, sempre triste e resignada na sua dôr
e no seu luto, acariciava os pequenos e mostrava-se
contente com a alegria dos outros.
[183] ―Aurelia―dizia-lhe o irmão―se vivesses um
anno em Lisboa, verias como isso te fazia bem.
―Não, Gustavo, não―replicava a dolorida
viuva.―Aqui
nasci, aqui vivi feliz na companhia de meu
marido e de meu filho, e aqui desejo morrer na saudade
dos que me fôram queridos.
―Mas este ruido, esta alegria de que nós te cercamos
contraria-te, não é verdade?
―Não, meu irmão! De modo nenhum. A vossa
alegria é a minha alegria, a unica que póde
ser-me
suave alem da que sinto na recordação dos entes
que
perdi.
No emtanto, D. Aurelia, quando o irmão se retirava
para a capital, sentia como que uma especie de allivio
intimo, por poder regressar ao silencio e á
solidão dos
seus habitos, silencio e solidão que eram um linitivo
ás amarguras do seu espirito.
Ora é justamente n'uma d'estas visitas de Gustavo
á sua aldeia que nós vamos encontrar a casa de D.
Aurelia de Magalhães em festa.
Gustavo chegara havia oito dias e os velhos amigos
e condiscipulos, ao saberem da sua chegada, apressaram-se
a visital-o.
Vamos encontral-os reunidos no vasto salão, á
noite,
com as janellas e sacadas abertas, rindo e conversando,
emquanto que D. Albertina, a gentil esposa de Gustavo,
sentada ao piano, executa algumas das modernas
composições mais em voga.
A noite estava bella, de luar―d'esse luar sereno
e calmo das noites claras do estio.
Em volta do velho palacete, reinava a dôce paz
silenciosa das aldeias, apenas quebrada pelo rumôr
dos mil insectos que, n'um admiravel concerto, faziam
ouvir essa magica symphonia dos campos adormecidos,
symphonia cujo maravilhoso segredo de
orchestração
nenhum grande maestro pôde ainda devassar.
[184]
Na sala, o piano calara-se e os hospedes de Gustavo
de Magalhães, attrahidos pela belleza da noite,
vieram debruçar-se nas sacadas continuando as
conversações
em que estavam entretidos.
―É verdade, sabes, Gustavo?―disse D. Aurelia―vende-se
outra vez o palacete que foi de Norberto
de Noronha.
―Vende?―respondeu o advogado―Então o Pinho,
o brazileiro para onde vae?
―Volta para o Brazil, segundo contou hoje a mulher
do caseiro á Mathilde, á minha criada de quarto.
―É singular! Mas o Pinho, segundo se dizia,
veio senhor de uma grande fortuna e não tencionava
tornar para o Brazil.
―O Pinho―esclareceu o medico de partido, o
dr. Gomes, que fôra substituir o Negrão, fallecido
ha
annos―tem soffrido, ao que me consta, prejuizos importantes
no Brazil... Depois, elle não é um homem
economico... tem dispendido.
―Pois parece que não deveria ser assim―objectou
Gustavo―Um homem, com uma fortuna superior e
que vem enterrar-se n'uma aldeia, não tem rasões
para
dissipar as fabulosas sommas que o doutor diz... Em
que? Se vivesse no Porto ou em Lisboa, comprehendo.
Mas aqui, em S. Martinho de Campo!
―Pois é verdade!―tornou o doutor―Aqui
mesmo, em S. Martinho de Campo, o Pinho tem tido
a habilidade de dar cabo de mais de cincoenta contos
em dez annos.
Houve um murmurio de incredulidade no pequeno
auditorio.
―Não póde ser!―insistiu Gustavo―Elle comprou
a casa que foi de Norberto de Noronha, por um
preço inferior; gastou alguma coisa em a reformar,
mas não foi muito, porque não lhe alterou a
planta e
apenas se limitou a uma simples questão de limpesa...
[185]
Não me consta que tenha dado bailes, que reuna em
sua casa grandes companhias ou que se haja cercado
de uma opulencia tal que justifique as loucas despezas
que o doutor lhe attribue.
―Pois ahi é que está a
desgraça!―retorquiu o
medico―Soube ganhal-o e não o soube gastar... O
Pinho desfez-se em dadivas a todo o mundo desde que
chegou...
―A todo o mundo!?
―É um modo de dizer. Deu um manto bordado
a ouro a Nossa Senhora do Porto; offertou um pallio
novo á junta de parochia; mandou fazer um painel
á
irmandade das almas; mandou construir á sua custa
a torre que faltava na egreja, pôz-lhe dois sinos, um
relogio, e tem sido elle o que tem feito á sua custa a
festa a Santo Emilião... Tudo isto parece que não
é
nada, mas bocado hoje, bocado amanhã, no fim vae-se
a vêr e somma contos de reis...
―Isso é verdade!―concordaram alguns do grupo.
―Mas cincoenta contos, doutor, olhe que é muito
dinheiro!―contestou ainda Gustavo.
―Mas não se teem limitado só a isso as despezas
do Pinho... Tem protegido muita gente... tem dotado
muita rapariga pobre cá dos sitios, tem sido padrinho
de todos os afilhados, tem emprestado dinheiro
a toda a gente e d'onde se tira e não se põe...
―Bem sei! Em todo o caso...
―Em todo o caso―concluiu o doutor―se não
fossem os ultimos revezes soffridos lá no Brazil, o Pinho,
com um bocado de juizo, podia ainda aguentar-se.
Mas, ao que me consta, as perdas foram importantes
e elle não tem remedio senão ir acudir ao resto,
para não ficar litteralmente sem nada.
―Pobre homem! Tenho pena.
―O Pinho é um bello coração. Um
bocadinho
vaidoso, gostando de se impôr pelo seu dinheiro, mas,
[186]
no fundo, um pobre diabo. Os de cá conheceram-lhe o
fraco; começaram a lisonjeal-o, tudo era o sr. Pinho
isto, o sr. Pinho aquillo... Se até o metteram em folias
de eleições! A ultima não lhe ficou
por menos de
dez contos...
―E nem sequer o fizeram visconde? Pois admira!
―A esse respeito, houve umas historias muito
compridas... O titulo estava-lhe arranjado, mas quem
lh'o arranjava, á ultima hora, precisou de uma somma
importante... O Pinho soube-o e não se lembrou
de a offerecer. N'isto, o Pires de Briteiros, que andava
com o cheiro em ser titular, apresentou-se a fazer o
offerecimento, e apanhou o titulo para elle...
―Que miseria!―disse Gustavo enojado.
―E até foi bom para o Pinho―tornou o doutor.―Porque,
se lhe tivessem dado o titulo, agora a sua
situação era muito mais difficil. Imaginem: um
homem
sem dinheiro e com um titulo ás costas...
―Deve ser horrivel!
―Pois foi do que elle se livrou! Ha males que
veem por bem...
―E quanto quer elle agora pela casa?
―Não sei... Deve vendel-a barata. Como sabe,
elle não ficou com todas as propriedades do velho
Noberto.
Apenas comprou os campos que circumdam o
predio e que pódem valer, com os melhoramentos que
elle lhes tem feito, os seus nove a dez contos de reis.
Mas estou persuadido que se apparecer quem lhe dê
oito, o homem não diz que não...
N'este momento ouviu-se o rodar de uma carruagem
que parou ao portão da casa de Gustavo.
―Quem nos honra?―disse o doutor, ao ver
apear um sujeito de sobretudo claro e franquear o
portão de entrada, depois de fallar ao criado.
―Querem vocês vêr que é o Sampaio que
se
[187]
aborreceu nas Taypas e veio até cá para se
distrahir
um pouco?
Disse e ia a encaminhar-se para a porta, afim de
o receber, quando Sebastião, o criado da casa, appareceu
no limiar, dizendo:
―Senhor doutor, saberá v. ex.
a que
está
lá em
baixo um senhor que diz que deseja fallar ao sr. doutor....
―A qual de nós?―disse rindo Gustavo.―Aqui
ha uns poucos de doutores... Solicita o soccorro da
medicina ou as luzes da jurisprudencia, esse estranho
recemchegado?
―Elle diz que é ao sr. doutor Gustavo.
―Ah! então é comigo... Não disse o
seu nome?
―Não quiz
dezer...
É um senhor de barbas...
―Bem! Vamos lá ver as barbas d'esse senhor.
E voltando-se para os hospedes:
―Meus amigos, deem-me licença... Isto é por
força gracejo de algum amigo de nós todos... A
esta
hora, não é natural que um desconhecido me
procure...
Eu volto já.
Gustavo de Magalhães passou á sala onde o
aguardava
o desconhecido visitante.
Era este um homem que figurava ter quarenta a
quarenta e cinco annos, estatura regular, barba loura
em que se entremeavam já muitos fios brancos, accusando,
com as rugas profundas que lhe cavavam as
faces, uma vida de longo soffrimento moral. Vestia correctamente
um sobretudo escuro apesar da estação calmosa
ser mais propria ao uso das côres claras.
Ao vêr entrar Gustavo, caminhou para elle de
braços abertos, n'uma expansão de velha amizade,
dizendo:
―Já me não conheces, não é
assim, Gustavo?
―Julio! Pois és tu?
―Sou eu, meu amigo!
[188]
E Julio de Montarroyo, pois que era elle, estreitou
effusivamente nos braços o seu amigo e companheiro
de infancia.
―Mas o que é feito de ti?―perguntou Gustavo―Ha
quantos annos não tenho tido noticias tuas!
―Tenho viajado. Ha perto de dezoito annos que
deixei o paiz...
―Singularissima ausencia!
―Que queres? Precisava de movimento, precisava
das estranhas commoções do imprevisto, porque
precisava de esquecer...
―E esqueceste, afinal? Ainda bem!
―Não, não esqueci nem esquecerei jamais... E
a prova é que, ainda agora, velho, doente, alquebrado,
eu venho ao sitio onde ella viveu e d'onde
partiu para não mais voltar, dar á minha alma o
supremo
lenitivo de contemplar os logares que a viram
creança, pura, innocente, feliz, e onde tudo me hade
ainda fallar d'ella!
Gustavo encarou surprehendido o seu amigo.
Atravessára-lhe o cerebro a suspeita de que as faculdades
mentaes d'aquelle homem estavam desgraçadamente
transtornadas.
Julio percebeu esta suspeita no olhar do amigo
e disse, sorrindo:
―Julgas-me doido, não é verdade?
―Não, não julgo...―replicou o irmão
de Aurelia
de Magalhães―Surprehende-me apenas que, volvidos
tantos annos, as viagens e o tempo não pudessem ainda
desvanecer-te do peito essa fatal paixão.
―Nada a desvaneceu nem desvanecerá, meu amigo.
Ama-se uma vez na vida, uma unica; e aquelle
que póde esquecer a mulher que uma vez disse amar,
é porque sinceramente não a amou.
―Mas não tiveste mais noticias de Helena de
Noronha?
[189] ―Nunca mais. Recebi d'ella uma carta, participando-me
que ia para Pariz, transferida para uma
casa de
irmãs Dorotheias
e pedindo-me que a fosse
esperar n'aquella grande cidade, onde me daria noticias
suas. Fui. Esperei muitos mezes inutilmente uma
carta, um recado, uma palavra que me tirasse da
infernal situação em que me encontrava e me
désse
uma esperança, ainda que longinqua, de a tornar a
vêr...
―E como pudeste esperar tanto tempo?
―Esperaria até ao fim do mundo se, pelas
indagações
a que procedi, pudesse capacitar-me de que
ella estava em Paris. Relacionei-me com os jesuitas,
apparentei uma crença profunda, fiz-me beato, frequentei
as egrejas, as casas religiosas, percorri todos
os institutos, todos os collegios jesuiticos e não a
encontrei. Então tive a suspeita de que talvez houvessem
descoberto a intenção em que aquella infeliz
estava de se unir a mim e a tivessem enviado a outra
parte. Passei á Hespanha, percorri todas as cidades
e usei de todos os meios que podiam permittir-me o
encontral-a. Tudo inutil. Tomado da febre da
investigação,
segui para a Belgica, passei á Italia, familiarisei-me
com toda a ala negra, occultando sempre o meu
pensamento secreto. D'alli fui á Africa Oriental, percorri
as missões onde me seria facil encontral-a, e sempre
baldadamente. Nem pelo nome, nem pela figura,
nem ainda pela familia, me foi possivel obter noticias
d'ella. Afinal, desalentado, velho, gasto, alquebrado
e doente, resolvi regressar a Portugal, convencido de
que Helena de Noronha, na ala negra conhecida pela
irmã Dorotheia,
já não existe!
―Meu pobre amigo!―disse Gustavo envolvendo-o
n'um olhar de funda compaixão―que grande fatalidade
foi para ti essa mulher na tua existencia!
―Bem pensado, não foi―volveu Julio―Devo-lhe
[190]
soffrimentos acerbos, mas tambem lhe devo alegrias
intensas, esperanças dulcissimas que outra mulher
jámais poderia alentar-me! Quando em meio dos
meus desalentos me sorria uma probabilidade de a encontrar,
que felicidade meu amigo! que doida alegria
a minha! Agora, regressando a Braga, leio n'um jornal
que se vende o palacete de Norberto de Noronha,
e venho compral-o.
―Comprar a casa de Norberto de Noronha!
―Sim.
―Com que fim? O que pretendes fazer?
―Viver n'ella os ultimos dias da minha vida,
que não será longa...
―Mas vens só, não tens familia?
―Minha mãe morreu ha mais de dez annos. Minhas
irmãs casaram, constituiram familia, e eu encontro-me
só... só com
as
minhas recordações!
―Muito bem, meu Julio. Aqui me tens como
amigo e como irmão, hoje como sempre. És meu
hospede, e espero que me darás o prazer da tua companhia
emquanto me demorar por estes sitios.
―Já sabia que estavas aqui, e por isso te procurei.
Desejo a tua interferencia n'este negocio.
―Estou ao teu dispôr, meu caro. Mas deixa-me
apresentar-te aos meus amigos que tiveram a santa
caridade de vir alegrar-me as horas d'esta triste solidão.
Tambem quero apresentar-te minha mulher e
meus filhos, que já te conhecem de me ouvirem fallar
muitas vezes de ti... Minha irmã, essa já t'a
apresentei
n'outros tempos, e has-de gostar de a vêr, porque,
como amiga de infancia de Helena de Noronha,
fallar-te-ha d'ella com aquelle entranhado affecto que
sempre lhe tributou, apesar da sua ingratidão...
Vem!
Deu-lhe o braço e conduziu-o até á
sala onde já
todos os esperavam com grande curiosidade.
[191]
A entrada de Julio de Montarroyo produziu geral
impressão nos circumstantes.
Alguns d'elles, antigos companheiros, mal reconheciam
n'aquelle velho o elegante moço bracarense de
ha 18 annos, notavel nas duas cidades―Braga e
Guimarães―pelo
apurado esmêro no trajar e pelos distinctos
primôres da educação.
Feitas as apresentações, todos quizeram ouvir da
bôca do recemchegado a relação das suas
viagens,
que elle narrou n'uma linguagem viva, scintillante,
pittoresca, cheia de encantos, occultando, no emtanto,
o secreto motivo de tão longa e demorada permanencia
em paizes estranhos.
―De modo que―disse por fim o commendador
Seabra, um dos mais velhos condiscipulos de Julio―eis-te
de novo entre nós, qual filho prodigo que regressa
á casa de seus paes!
―É verdade, meu amigo! Verdadeiramente um
filho prodigo, que desperdiçou vida, mocidade e dinheiro
entre os estranhos e que regressa velho, cançado
e cheio de achaques, a pedir á terra em que
nasceu um canto onde possa morrer descançado.
―Morrer! Quem falla aqui em morrer?―atalhou
Gustavo alegremente―Tens ainda vida para muito
tempo, meu amigo! Vens robusto, vigoroso, cheio de
saude, e fallas em morrer! O que direi eu, gasto e cançado
por uma vida inteira de trabalho, pae de tres
filhos, tres enormes traquinas, que reclamam constantemente
os meus cuidados e que todos os dias me recordam
a necessidade impreterivel que tenho de viver
para elles, até os fazer homens e acompanhar a sua
entrada no mundo com os conselhos da minha experiencia
e do meu amôr de pae? E, no emtanto, não
penso em morrer sem ter cumprido a minha missão...
―É justo―respondeu Julio―Ha um objectivo
na tua existencia, que te faz amar a vida e te dá
força
[192]
e coragem para a não perderes: são os filhos,
é a esposa,
é a familia, é toda essa inquebrantavel cadeia de
affectos que prende o homem ao mundo e o faz triumphar
dos desalentos, das dôres physicas e moraes, conduzindo-o,
confiado e alegre, através a velhice como o
viajeiro através os areaes do deserto, com os olhos fitos
no oasis que, de longe, lhe promette repouso e
frescura. Mas eu, abandonado e só, sem familia, sem
o estimulo dos grandes affectos que tornam o homem
superior a si mesmo, que outra coisa posso desejar senão
a morte redemptora dos grandes desgraçados?
―Casa-te, meu amigo, casa-te!―aconselhou o commendador
Seabra n'um tom de convicta auctoridade.―Olha
que não ha como o casamento para fazer um
homem perder certas ideias... Eu tambem fui rapaz,
tambem tive as minhas estroinices, as minhas excentricidades...
Não andei lá por fóra,
porém, cá dentro mesmo,
no meu paiz, e até sem sahir de Guimarães, fiz
o que pude... Mas quando cheguei a certa altura e
senti que começava a aborrecer-me da vida, disse commigo:
«Nada! isto não está bem... Preciso ter
alguem
a quem me dedique de alma e coração... alguem a
quem eu estime e que me estime tambem, porque um
barco só não faz carreira...» Tive a
fortuna de encontrar
o que desejava, uma esposa que é um anjo,
um genio em tudo igual ao meu, e foi dito e feito!
Casei e temo-nos dado muito bem... Não é assim,
Gracianinha?―rematou,
pondo os olhos na esposa, a D.
Graciana, uma senhora adiposa, de enorme carão vermelhusco,
toda cheia de requebros e denguices, mais
do que é permittido a uma mulher que passa dos quarenta.
―É assim, meu amigo!―suspirou a D. Graciana,
revirando para o marido os olhos ternos e abanando-se
com o leque, na pudibunda attitude de uma paixão confessada.
[193] ―Não temos tido filhos―tornou o commendador,
muito roliço, muito gordo, envolvendo a mulher n'um
olhar carinhoso―mas não é por falta de
amôr... É
que ella não é de qualidade de os ter... Mas
vê tu
que eu era um espeto... lembras-te que eu era um
espeto? Pois estou isto que vês! Gordo e forte, que nem
pareço o mesmo!... E tudo isto foi depois que casei...
Não ha nada como o casamento para dar saude a um
homem!
E empertigava-se vaidoso, com os pollegares mettidos
na cava do collete, e tamborilando com os dedos
restantes no peito, n'uma exhibição
grotêsca das fartas
enxundias que lhe repuxavam a pelle e lhe avolumavam
o rotundo abdomen.
Os circumstantes riam d'esta apologia do matrimonio
feita pelo commendador que, segundo resavam
as más linguas, soffria uma cruz em casa com os destemperos
da D. Graciana, ciumenta e desconfiada.
―Ora agora o que é preciso―propôz o juiz de
direito, um velhote de oculos, bigodes brancos, com
uma voz aflautada e cheia de impetuosidades nervosas―é
não deixar passar despercebido este feliz acontecimento
do regresso de um querido e distincto filho do
Minho aos encantos da sua provincia e aos braços dos
velhos amigos, que todos gemiam saudades pela sua
prolongada ausencia!
E, n'uma voz de cada vez mais aflautada e repassada
de sentimento:
―Isto é mais do que um regresso, isto é uma
resurreição!
Propunho, pois, uma Paschoa
inter
amicus,
uma festa alleluitica, em que se celebre condignamente
o
resurrexit d'este illustre
cavalheiro, que eu não tinha
a honra de conhecer pessoalmente, mas a quem
já estimava e de quem era sinceramente amigo, pelo
conhecimento de seus primores e gentilezas, que a
tradição
oral tinha trazido até mim!
[194]
Este alvitre do festeiro magistrado obteve calorosa
approvação e logo alli se decidiu promover uma
festa
ruidosa em honra de intrepido viajante, que dezoito
annos gastara em percorrer as
sete
partidas do mundo,
como o
infante D.
Pedro.
O juiz foi o encarregado de elaborar o programma
e nomear a commissão que havia de proceder aos festejos.
Era uma alegria louca entre os hospedes de Gustavo
pela perspectiva de mais um dia de grossa pandega.
―Livra-me d'esta gente, meu amigo!―segredou
Julio a Gustavo.―Tu, que conheces o estado do meu
espirito, bem deves avaliar quanto esta alegria me
mortifica!
―Nem eu, nem poder algum da terra poderá livrar-te
d'estas honras, que só aos
eleitos da amizade
se concedem, meu caro; salvo se tiveres a má
lembrança
de emigrar outra vez; e, ainda assim, ha-de
ser clandestinamente, porque, se constar que andas a
tirar passaporte, agarram-te e não te deixam partir
sem gramares a festa!
―Meu Deus! Em que má hora eu vim a tua casa!―murmurou
Julio.―Venho a fugir do bulicio, do
ruido, da curiosidade dos amigos e conhecidos, e eis-me
o alvo de alegrias, quando mais devêra ser um objecto
de tristezas!
―Tem paciencia, meu amigo! A tua larga ausencia
do paiz fez-te esquecer, pelo que vejo, os habitos
festivos da nossa provincia, que ainda não
mudaram.
O portuguez, especialmente o minhoto, não
perde occasião, e tudo lhe serve de pretexto, para se
evadir ás melancholias do temperamento. Um casamento,
um baptisado, um dia d'annos, um amigo que chega,
um amigo que parte, tudo isso constitue motivo
de festa. Fóra d'ahi, é sisudo, sorumbatico,
macambuzio,
[195]
incapaz de, por coisa alguma d'este mundo, se
arredar da linha inquebrantavel de uma inquebrantavel
bisonhice. Deixa-os, pois, deixa-os divertir-se,
que a alegria d'elles não é d'aquellas que magoam
o
coração dos que soffrem...
No dia seguinte, Julio levantou-se cêdo e, n'um
curto passeio, dirigiu-se sósinho para os lados da velha
casa de Norberto de Noronha.
O brazileiro Pinho, que conservava os habitos
madrugadores, adquiridos no Brazil, todo vestido de
linho crú e na cabeça um bonnet de
gorgorão preto,
debruçava-se no caramanchão erguido em um dos
angulos do jardim.
Respirava a longos haustos o ar fresco da manhã,
tendo cravado no horisonte um vago olhar de tristeza.
Pensava talvez nas fundas saudades que já curtira
longe da patria, e n'aquellas que ainda o haviam
de consummir, agora que, depois de velho e quando esperava
morrer tranquillo n'aquelle adorado canto da
sua aldeia, era outra vez obrigado a expatriar-se.
Julio, ao vêl-o, parou na estrada e cortejou:
―Bons dias!
O Pinho levou a mão ao bonnet e correspondeu,
saudando:
―Muito bons dias!
―É o proprietario d'esta casa?
―Um seu criado!
―Li que ella se vende. Posso vêl-a?.
―Pois não! Eu lhe vou mandar abrir a porta...
E chamando pelo criado:
―Ó Manéca, vae na porta abrir ao cavalheiro,
hein!―ordenou.
O
Manéca, um labrego de
jaqueta, chapéo braguez
e suissa talhada em fórma de foicinha, foi abrir,
com grandes zumbaias, levando no labio escanhoado
[196]
o sorriso humilde e servil de quem nasceu para sêr
mandado e obedecer.
Julio entrou e d'ahi a pouco travava com o brazileiro
Pinho este dialogo:
―V. s.
a vende esta propriedade, não
é assim?
―Me résólvi á vender ella, porque
estou preparando
minhas coisas p'ra tornar no Brazil...
―Esta casa―disse Julio―era de um antigo
fidalgo que aqui morou e aqui morreu, o sr. Norberto
de Noronha...
―Não conheci elle, mas tenho ouvido
fállár...
Bôa péssôa, pelas
informações que dão-me d'elle,
hein!
―Não foi, portanto, ao velho fidalgo que v.
a
s.
a
comprou a casa?
―Nada. Quando vim do Brazil e cheguei em
Portugal, a primeira coisa que lembrou-me foi comprar
casa bôa, que tivesse commodos ella... Mas eu
a queria já feita, hein! Me aborrecia estar esperando
que fizesse-se ella, já viu? Depois meu compadre
Damião me escreveu um dia para o Porto, dizendo
que tinham botado annuncio n'uma gazeta de Braga
p'ra vender este palacete... Vim vêr ella, me agradou
por ficar nos meus sitios e a comprei... É uma
rica peça, que tenho muita pena de deixar ella!...
Mas como vou no Brazil outra vez e não sei o tempo
que demorarei-me por lá...
―Norberto de Noronha―tornou Julio―tinha
uma filha... Foi a essa senhora que comprou esta
casa?
―O négocio foi tratado com um procurador
d'essa minina, qui estava ella, dizem, nas irmãs da
caridade e tinha passado procuração a esse tal
João
Ignacio para vender elle todos os bens, já viu? Mas
eu lhe fiquei só com a casa e com estes campos de
ao pé da porta... As outras propriedades si venderam
[197]
a differentes... Vossa excélléncia conheceu
a
familia de Norberto, já vejo...
―Conheci. A casa soffreu modificações?
―Não altérei-lhe a planta, a ella,
não... Lhe
mandei botar papel e pinturas novas, hein! mas lhe
deixei ficar as divisões todas... O mesmo jardim
ainda é do risco que estava elle no tempo do fidalgo...
O Pinho, muito amável, convidou Julio a vêr a
casa para certificar-se de que era uma vivenda
muito
bôa ella e que se conservava quasi no mesmo
estado
em que o fidalgo a deixára.
Julio, ao entrar na sala onde fallára pela primeira
e ultima vez a Norberto de Noronha, já paralytico,
cerrou um momento os olhos, commovido, e a sua
memoria evocou a figura d'aquelle pobre morto-vivo,
que alli jazêra por tanto tempo ainda, na
esperança
de tornar a vêr a filha, criminosamente ingrata ou
assombrosamente desgraçada, por quem morria.
Esse compartimento da casa, por uma d'estas casualidades
difficeis de explicar, não merecêra as
attenções
do brazileiro para o mandar reparar. Conservava-se
no mesmo estado e na mesma disposição em
que Julio o vira a primeira vez quando alli entrou.
Apenas alguns dos velhos moveis de Norberto, inclusivè
a cadeira de rodas em que tão longamente agonisara,
achavam-se alli accumulados, em monte, a um
canto.
―Isto áqui me tem sérvido para
arrumações―explicou
o brazileiro.―Aqui encontrei esta cangalhada
quando vim na casa e, de dia em dia, p'ra
pôr ella fóra, nunca résolvi-me, hein!
e ahi ficou,
já viu?
―Quanto pretende v. s.
a pela casa?―perguntou
Julio.
―Com mobilia ou sem ella?
[198] ―Tal como está, excepto os objectos de seu uso
pessoal...
―Me custou a mim dez contos... Com mais de
dois que gastei em mobilia e concertos, anda isso por
doze, hein! Más se v. ex.
a me quizer
comprar ella
por dez, eu lhe deixo ficar tudo, já viu?
―Não, senhor!―acudiu Julio.―Se por doze
contos lhe ficou, doze contos lhe darei por ella.
O Pinho teve um olhar de espanto para o comprador.
Julgára que elle iria regatear o preço, achar
caro, desfazer no valor da propriedade e reservava-se
para, em ultimo caso, fazer uma reducção de um ou
dois contos de reis. E via com surpresa que este generoso
desconhecido queria embolsal-o integralmente
de tudo quanto havia dispendido, elevando a somma,
de dez, a doze contos, que era o que calculava ter
gasto.
―Quer assim?―interrogou Julio.
―Mas...―objectou honradamente o brazileiro
consciencioso―eu tenho vivido na casa, os moveis me
custaram dinheiro que já não valem elle
ágora...
―Pequenas coisas! Não compro isto para negocio,
e por isso não penso em o adquirir por menos do
seu justo valor.
―Mas então a casa é de v. ex.
a!―decidiu
o
brazileiro
com uma profunda cortezia.
―V. s.
a não me conhece―disse
Julio―mas eu
dou como fiador á validade d'este contrato o meu
amigo dr. Gustavo de Magalhães, aqui seu vizinho.
Quando quizer, faremos a escriptura!
―O sr. doutor Gustavo! Pois não! Conheço elle
muito bem. V. ex.
a é hospede d'elle,
já vejo...
―Sou. V. s.
a dirá agora quando quer
legalisar o
contrato e quanto devo dar-lhe de signal.
―Signal!―protestou o brazileiro―não é priciso
[199]
elle... Os homens se conhecem pelas palavras, já viu?
―Como queira.
―Me dê v. ex.
a oito dias para tratar
de minha
mudança, e iremos no tabellião fazer a
escriptura,
hein!
―Não lhe dou oito, dou-lhe vinte, dou-lhe um
mez. Não tenho pressa de vir para esta casa, mas tenho-a
de lhe chamar minha.
―Lhe póde chamar desde já. Minha palavra vale
uma escriptura! Mas não ha pricisão de mais
demora,
não... Homens de bem se entendem sempre elles...
Quando v. ex.
a quizer, vamos no
tabellião...
Julio offereceu-lhe a mão e despediu-se, voltando
a casa de Gustavo.
―Já comprei a casa de Noberto de Noronha―disse
elle ao amigo, logo que chegou.
―O que!―exclamou Gustavo.―Pois logo de
manhã, tão cedo, foste tratar um negocio d'essa
ordem?
―Se eu tinha resolvido compral-a, não vejo motivo
para protelar a compra. Agora conto comtigo,
como advogado, para que o contrato tenha uma
realisação
legal.
―Por quanto a compraste?
―Por doze contos, tal como está.
―Podias tel-a adquirido por oito ou nove!
Alguns dias depois, legalisava-se o contrato e
Julio era o proprietario da casa que pertencera a Noberto
de Noronha.
O brazileiro Pinho, tendo recebido o preço da
venda, apressava agora a sua partida, no intuito sómente
de não occupar por muito tempo a casa alheia.
Os convidados de Gustavo, em assembleia magna,
tendo sabido que Julio comprára a casa de Noberto e
se constituira, por este facto, um dos proprietarios da
localidade, resolveram addiar a celebração dos
festejos
[200]
para o dia em que elle tomasse posse e fixasse residencia
na sua nova propriedade.
Esta deliberação fôra tomada em segredo
e mantinha-se
discretamente guardada entre todos, sem chegar
ao conhecimento do melancholico amigo de Gustavo
de Magalhães.
―Havemos de fazer d'elle um companheiro alegre,
sociavel, sem os absurdos preconceitos de um homem
que, tendo percorrido o mundo e visto tudo, chega a
capacitar-se de que nada mais ha no mundo capaz de
o emocionar e lhe causar alegria―dizia o magistrado
de voz aflautada, presumindo de habil conhecedor das
diversas fraquezas e aberrações do espirito
humano.
―Fatalmente―commentava o medico―alli ha
desiquilibrio de faculdades... Aquella melancolia
profunda, aquelle afastamento systematico de todo
o ruido e de toda a convivencia, accusa uma grave
enfermidade mental,
propria d'um homem que passou
a vida em viagens, sob a impressão dos variados aspectos
da natureza e sob a influencia de diversos e oppostos
costumes...
―Quem sabe? Talvez alli haja mysterio do
coração...
amôres mal succedidos...―aventou um
dos menos theoricos e mais praticos.
―Não, alli o que ha é tedio, cansaço,
o
spleen
dos inglezes―opinou o juiz.―O homem correu tudo,
viu tudo, gozou tudo―menos a amizade dos amigos
e o amôr inconsutil da mulher que toda se dedica ao
homem amado. Nas viagens―accrescentou com grande
auctoridade e emphase de sabedor―perde-se a sensibilidade
pela frequente e repetida excitação dos sentidos.
O espirito habitua-se á contemplação
dos espectaculos
grandiosos e desdenha, como insignificantes e
mesquinhos, os suaves e dulcissimos prazeres da convivencia
remansosa e placida de almas irmãs, prazeres
que são a vida do coração...
Amôres mal succedidos,
[201]
como diz aqui o nosso amigo Gilberto, não
creio... Mais me inclino a crêr que seja o desdem
pelos demasiados amôres bem succedidos, pelos
amôres
faceis que não faltam nunca aos viajantes ricos e
que são, por via de regra, os unicos que elles conhecem...
E quem me diz a mim que o que este homem
sente é justamente a falta de um amôr
sério, verdadeiro,
como é o de uma esposa por seu marido?...
―Pelo menos, quando não seja isso―disse o commendador―o
casar devia fazer-lhe bem... Se a mulher
fosse d'estas que ás vezes apparecem na vida de
um homem como um flagello, que com tudo embirram
e com coisa alguma se satisfazem quando estão a
sós
com os maridos, elle buscaria a convivencia da sociedade
como um refugio contra as impertinencias da
esposa!
Todos se riram a esta indiscreta confirmação dos
rumôres que corriam acerca da vida torturada que o
commendador passava, de portas a dentro, com a D.
Graciana.
―Que eu por mim―emendou logo com solicita
dissimulação―com bem o diga, não sei
praticamente
o que isso é... Mas tenho ouvido varios maridos
queixarem-se do inferno que passam em casa com as
mulheres, e faço ideia do petisco que ha-de ser...
―Nós
tambem fazemos
ideia...―atalhou o juiz
sarcasticamente, na sua voz de assobio.
―Meus amigos―interrompeu Gustavo, que ouvira
esta conversação sem tomar parte
n'ella―não
se cancem em conjecturas sobre os motivos que pódem
ter feito do Julio de Montarroyo o mysanthropo
que hoje é. A vida d'este homem é um mysterio que
não seria facil decifrar nem mesmo aos que na mocidade
o conheceram intimamente, quanto mais áquelles
que só agora o encontram, depois de velho. De
resto, pouco deve preoccupar-nos a sua tristeza, se
[202]
não está na nossa mão o dissipar-lh'a.
Querer á
força fazer de um homem triste um homem alegre,
parece-me coisa tão insensata e absurda como querer
mudar as tardes melancholicas do outono nas
risonhas
manhãs da primavera. Cada qual é como
é; e
nem me parece que a nós nos seja licito avaliar da
tristeza ou da alegria intima de um homem, pelo simples
aspecto da sua physionomia ou pela estranha soturnidade
dos seus habitos. O que para nós é tedio
póde ser para elle distracção; o que
para nós é dôr
póde muito bem ser para elle um grande prazer.
Quantas pessoas ha que, por temperamento, por indole,
ou por caracter, se comprazem, desde a infancia,
na solidão mais absoluta, achando insupportavel
a convivencia em que outras pessoas encontram uma
verdadeira felicidade, um incomparavel prazer?
―Isso é verdade!―accudiu o commendador―eu
já tive uma epocha na minha vida em que todo o
meu prazer era agarrar môscas para as dar a comêr
a um pisco que tinha mettido n'uma gaiola... Passava
n'isso horas e horas, sem dar palavra, e se alguem
me interrompia n'aquella tarefa em que sentia
um prazer enorme, ia tudo com seiscentos diabos! E
em todo o caso, aposto que nenhum dos senhores acharia
distracção n'uma coisa tão simples...
―Não tanto!―replicou o juiz―Quem não tem
que fazer caça môscas, diz o vulgo. Ora se o meu
amigo não tinha mais que fazer, acho acertado que se
distrahisse por esse modo... e não estranho que ainda
agora se entregue ao divertimento...
―Agora não!―tornou o commendador.
―Por falta de pisco?―perguntou o medico.
―Por falta de pisco e por falta de paciencia...
Mudei completamente... Agora não me entretem
nada d'essas coisas. Minha mulher embirra com passaros
em casa.
[203]
A conversação proseguiu animada de ditos
picarescos
a proposito d'esta ingenua confissão do commendador
que, sem o querer, veio desviar as attenções do
grupo disposto a escalpellar a vida de Julio de Montarroyo.
A esta mesma hora, Julio encontrava no jardim
a D. Aurelia de Magalhães e travava-se entre os
dois este dialogo:
―Então, já sei que vou tel-o por vizinho,
não
é verdade, sr. Julio de Montarroyo? Disse-me o Gustavo
que v. ex.
a já comprou a casa de
Norberto de
Noronha.
―A casa de Helena, minha senhora... É verdade,
comprei-a.
―Na intenção de a habitar?
―Sim, minha senhora. Faço tenção de
passar
n'ella os ultimos dias da minha vida.
―É muito triste este sitio a que n'este momento
empresta uma apparencia de alegria a permanencia
dos nossos hospedes... Mas, quando meu irmão retirar
para Lisboa e todos regressarem a suas casas,
tudo isto recahe n'um silencio e n'uma tristeza que
só póde agradar ás almas tristes...
―É justamente esse silencio e essa tristeza que
a minha alma anceia...
―A solidão e a tristeza são um lenitivo para a
alma quando nos prendem recordações saudosas aos
sitios
em que habitamos e em que outr'ora fomos felizes.
Estou eu n'esse caso, porque aqui nasci, aqui me
criei, aqui passei dias felizes na companhia dos que
me eram caros, e aqui os vi desapparecer para sempre
e para nunca mais. Mas v. ex.
a, snr. Julio de
Montarroyo, que aqui veio apenas uma vez, que me
lembre, e em dias bem luctuosos e bem tristes para o
pobre Norberto de Noronha...
―E para o meu coração, minha senhora! Quando
[204]
se é verdadeiramente desgraçado, quando nunca
se teve uma hora de felicidade, sente-se um prazer
amargo, um prazer cruel, em permanecer nos sitios
em que mais soffremos, em que o nosso coração
sentiu
mais profundos e mais lancinantes os golpes da desventura.
Foi justamente n'esse predio que hoje comprei
que eu presenciei um dos mais dolorosos e lancinantes
espectaculos de toda a minha vida. Ao entrar n'aquella
casa, dezoito annos volvidos, pareceu-me vêr ainda,
ao canto da mesma sala, sentado na mesma poltrona
de rodas, aquelle pobre velho semi-morto, com
os olhos fitos em mim, ouvindo com a alma anciada
a espelhar-se-lhe na pupilla dilatada e immovel, as
palavras de animadora esperança que então
proferi,
e que deviam ser-lhe um balsamo consolador no meio
d'aquelle infernal martyrio! E esta evocação
terrivel,
bem longe de augmentar o meu soffrimento, suavisa-o.
Comparando o que soffro e o que tenho soffrido
com o que soffreu aquelle pobre pae, encontro motivo
para me julgar feliz. Depois, foi alli que ella viveu,
que ella passou os unicos dias venturosos da sua
infancia cheia de sonhos vãos e de anhelos de felicidade,
até que a negra mão da desventura a veio
empolgar...
―Pobre Helena!―murmurou D. Aurelia―se
v. ex.
a a conhecesse n'esse tempo, se pudesse
avaliar
os finos quilates d'aquelle espirito, a suave candura
d'aquelle nobre coração! Eu, que fui sua amiga,
sua
companheira de infancia, eu que tão de perto privei
com ella e conheci todos os primôres d'aquella alma
nobilissina, ainda hoje me espanto, e não sei como explicar
aquelle rapido e insolito reviramento, senão pela
loucura. Para mim, Helena de Noronha soffreu grande
abalo nas faculdades mentaes, antes de abandonar o
pae, por quem era extremosa, e esquecer os sagrados
[205]
deveres de filha, que ella se esmerava em cumprir sempre
com uma religiosa pontualidade!
―V. ex.
a nunca mais teve noticias d'ella?
―Nunca mais. E isso mesmo me faz pensar que
a minha pobre amiga perdeu a rasão antes do fatal
passo que havia de custar-lhe não só a propria
ventura,
mas tambem a vida do pae e do primo.
―Alvaro, segundo me disseram, morreu assassinado
em casa de um taberneiro da Serra do Carvalho...
―É certo. Foi um tal Perneta quem, attrahindo-o
alli sob pretexto de que encontraria Helena, lá
conseguiu matal-o e roubal-o. A principio, suppôz-se
que a morte fôra obra de malfeitores que o tivessem
assaltado em viagem, porque o cadaver appareceu na
estrada. Mas uma denuncia anonyma, enviada ás auctoridades
e confirmada mais tarde por um sapateiro
de Braga, por alcunha o
Tomba, que
foi testemunha
no processo, pôz a justiça na pista do criminoso,
e o
Perneta foi julgado e condemnado a galés por toda a
vida.
―O
Tomba!―disse Julio―Conheci
muito bem
esse sapateiro e procurei-o agora no meu regresso a
Braga, esperançado em obter d'elle esclarecimentos
que talvez me explicassem o destino de Helena. Mas
ha muitos annos que desappareceu, e ignora-se o
rumo que levou, podendo ser até que já tenha
morrido...
―Não sei, não conheci o
Tomba. Ouvi fallar
muito n'esse homem por aquella occasião e sei que
veio depôr como testemunha no tribunal de Lanhoso,
mas ignoro completamente o que fosse feito d'elle.
―Se o
Tomba esclareceu a
justiça e depôz como
testemunha, então o assassinato do pobre Alvaro obedeceu
a um plano de vingança a que não foi estranho
o raptor de Helena...
[206] ―O padre Anselmo?
―Justamente. Como conhece v. ex.
a esse nome?
―Pois não sabe v. ex.
a que elle
andou por aqui
missionando e que foi com as suas perniciosas praticas
ao canto do confissionario que conseguiu desvairar a
minha pobre amiga ao ponto de a fazer abandonar a
casa paterna?
―E v. ex.
a era sabedora das
intenções de
Helena?
―Eu! Se ella me tivesse dito alguma coisa, eu
trataria de impedil-a d'um semelhante passo. Guardou-se
de mim como de toda a gente. O que eu lhe
notava era uma tristeza profunda, um recolhimento
mystico de que cheguei por vezes a reprehendel-a.
Mas, como ella insistia, não me preoccupei muito com
isso, por suppôr que, retirando os missionarios, breve
retomaria a sua habitual despreoccupação de
espirito.
Enganei-me! O mal tinha lavrado fundo, e o que eu
suppunha não passar de um momentaneo devaneio
mystico, era afinal a monomania religiosa, com todos
os symptomas da loucura incuravel! Pobre Helena!
nem chego sequer a accusal-a de ingratidão pelo seu
procedimento para comigo, porque, apesar de quanto
se possa dizer e de quanto tenho ouvido a meu irmão
Gustavo, julgo-a irresponsavel.
―É esse o juizo que v. ex.
a forma de
Helena de
Noronha?
―É. E formo-o assim, porque a conheci desde a
infancia, e posso assegurar a v. ex.
a que
não havia
mais nobre alma, coração mais terno e cheio de
affectos.
Extremamente sensivel e impressionavel, de uma
boa fé e candura de anjo, foi talvez tudo isso que a
perdeu.
―O pae, segundo creio, projectava casal-a com o
primo, com o Alvaro...
―Sim, essas eram as supremas aspirações de
Norberto.
[207] ―E Helena amava o primo?
―Não o amava. Mas tambem não tinha preferencia
por outro homem. Muitas vezes fallámos n'isso e
lhe ouvi dizer que, posto o primo lhe fosse indifferente,
casaria com elle por obediencia ao pae. Recordo-me
até que, de uma das ultimas vezes em que nós
fallámos a tal respeito, ella me affirmou: «Meu
primo é
para mim um homem como os outros. Caso com elle
como casaria com outro que meu pae indicasse. O
mesmo não succederia, se eu tivesse, como muitas meninas
da minha edade, algum rapaz a quem quizesse
mais...»
―Não foi, portanto, a repugnancia invencivel
pelo primo que a levou a abraçar a vida religiosa....
―Decerto não foi. Mesmo porque Norberto de
Noronha amava muito a filha para a constranger a
casar com um homem que ella abertamente recusasse.
Em Helena, o que houve foi a imaginação excitada
pelas perigosas e seductoras pinturas que o padre Anselmo
lhe fez da vida religiosa, fanatisando-a e enlouquecendo-a
com infernal habilidade.
Os dois calaram-se por instantes.
―Sabe v. ex.
a―disse Julio de Montarroyo por
fim―que me tem sido immensamente grata ao espirito
esta conversação a respeito de Helena?
―É natural. Dei-lhe talvez esclarecimentos que
v. ex.
a ignorava...
―Por isso, e porque não ha para mim felicidade
igual áquella que experimento em poder fallar de
Helena com pessoa que a tivesse conhecido. Com
effeito, v. ex.
a acaba de me contar pormenores
que
me eram de todo o ponto desconhecidos... Mas ainda
isso não é tudo: é que sinto
verdadeiramente
um grande lenitivo em ouvir fallar de Helena de
Noronha e de coisas que de longe ou de perto se
relacionem com ella. Foi esse, e não outro, o motivo
[208]
porque vim comprar a casa onde ella nasceu, onde se
creou, onde se passou a sua infancia. Parece-me que
alli tudo me hade fallar d'ella. Cada um d'aquelles
logares me dará como que uma
recordação d'aquella
creatura, que o destino pôz no meu caminho para logo
a fazer desapparecer com a rapidez com que foge e
desapparece um meteoro no espaço, em noite calmosa
de estio!
―V. ex.
a, sr. Julio de Montarroyo, amou Helena
de Noronha com uma paixão que tornaria feliz a minha
pobre amiga, se ella tivesse podido apreciar como
eu toda a vehemencia do seu affecto!
―Helena, minha senhora, sabia bem quanto eu a
amava...
―Sabia e não lhe correspondeu a esse amôr que
preencheria as mais ardentes aspirações de um
coração
sedento de affectos?
―Correspondeu! Helena correspondeu tanto quanto
a sua nobre alma lh'o permittia, a esta paixão que
me inspirou. E se não abandonou o convento para
vir salvar o pae moribundo e tornar feliz o homem
que ella amava, é porque foi victima de alguma infame
cilada que para sempre a perdeu.
Então Julio de Montarroyo contou a D. Aurelia que
tivera repetidas entrevistas com Helena no convento
do Sardão; que ahi combinára com ella a fuga,
quando
uma inesperada e repentina enfermidade veio transtornar
todo o plano concertado entre os dois; e que,
sendo compellida a seguir para Paris, lhe escrevera
uma carta convidando-o a ir esperar noticias d'ella na
grande capital do mundo civilisado. E tendo ahi passado
muitos mezes, aguardando as promettidas noticias,
nunca mais lhe fôra possivel ouvir sequer fallar d'ella.
―Conclue portanto que Helena...
―Foi infamemente illudida mais uma vez pelos
seus crueis algozes!...
[209] ―Se Helena tinha alguma vez pensado sériamente
em abandonar a vida religiosa, creio bem que não
seria facil impedil-a de realisar o seu pensamento.
Helena de Noronha era por demais altiva e dotada
de energia de caracter sufficiente para não se deixar
prender e illaquear por outra vontade que não fosse
a sua.
―Eu creio que Helena de Noronha já não vive...
Procurei-a por toda a parte, percorri o mundo em sua
procura, e em parte alguma pude jamais achar quem
de longe sequer houvesse tido conhecimento d'ella.
Isto me leva a crêr que a supprimiram antes que ella
pudesse effectuar a sua evasão.
―Seria possivel?
―Nos antros jesuiticos tudo é possivel, minha
senhora.
―Mas não sabe v. ex.
a que o padre
Anselmo foi
quem resolveu Helena a professar?
―Sei muito bem.
―Pois esse padre não poderia dar noticias de Helena,
se lh'as exigissem?
―O padre Anselmo! Esse decerto poderia informar-me
com verdade do destino de Helena, se me fosse
facil encontral-o. Mas é homem de quem tambem
ninguem me deu noticias... A unica pessoa que poderia
talvez dizer-me o que foi feito d'elle morreu ha
muitos annos em Lisboa... Era uma tal D. Carlota que,
tendo auxiliado Alvaro e a mim proprio em todos os
esforços que empregámos para libertar Helena do
convento,
á ultima hora nos trahiu, reatando as suas
relações
com o padre Anselmo... Regressando a Braga,
alimentava ainda esperanças de a encontrar; mas a
morte incumbiu-se de tornar ainda mais negro o mysterio
que envolve tanto a existencia de Helena como
a do jesuita que a arrebatou para sempre á familia e
á sociedade.
[210] ―Pobre Helena!―suspirou D. Aurelia―que negro
destino foi o seu!
―Infelicitou-se e infelicitou quantas pessoas se lhe
aproximaram. Ha creaturas assim dotadas d'este fatal
condão de trazerem o soffrimento e a desgraça
comsigo.
―E no emtanto as suas intenções eram sempre
nobres
e puras. Ninguem conviveu mais de perto com ella
e tambem por isso ninguem melhor do que eu póde avaliar
o thesouro de bondade que se abrigava n'aquelle
coração!
―V. ex.
a que vae ter-me por vizinho, hade ter
paciencia, sr.
a D. Aurelia, e permittir-me que
alguma
vez peça ás suas
recordações o dôce lenitivo de me
fallar de Helena...
―A minha vida é tambem uma interminavel
cadeia de amargas tristezas n'este solitario canto do
mundo, onde nasci e me criei, onde gosei e soffri todas
as alegrias e todas as dôres da existencia... Posso
dizer que hoje vivo, como v. ex.
a, só
de tristes
recordações...―replicou
D. Aurelia com um fundo suspiro.
A conversação foi interrompida n'este ponto pela
chegada do juiz e do commendador que desciam ao
jardim discutindo entre si o programma das festas em
honra de Julio.
Ao vêrem-n'o a distancia, em conversa animada
com a D. Aurelia, os dois entreolharam-se e, com um
sorriso significativo, disse o magistrado:
―Quer vêr que andamos, sem o pensar, preparando
uma festa de nupcias?
―Póde ser...―replicou o commendador―A D.
Aurelia está ainda muito fresca e, se o Julio tiver juizo,
o que deve fazer é casar com ella para se distrahir.
Assim dizendo, fôram aproximando-se sem darem
a perceber nos gestos ou nas palavras a impressão.
que aquelle encontro lhes causára.
Mais tarde veremos se o juiz tinha razão.
[211]
XIII
Denuncia
João Lazaro fôra pontual em comparecer
á hora
marcada para a ceia que os amigos offereciam em sua
honra, no Palacio de Crystal.
O aventuareiro sentia-se intimamente lisonjeado e
envaidecido por esta demonstração de affecto e
estima
que Eugenio de Mello e os seus amigos lhe davam.
Mas apparentava grande desdem e indifferença por
tudo quanto o cercava, assumindo a attitude altiva e
soberana de quem dispensa uma honra quando recebe
um favôr. Chegou mesmo a dizer a um de seus intimos,
no tom cançado e aborrecido de quem se vê
obrigado a aturar importunos:
―Estes idiotas massam-me, não me largam e
offerecem-me banquetes para terem a honra de se sentarem
ao meu lado!
―Não será bem isso―replicou o outro
delicadamente,
para não o ferir―Devemos conceder que a amizade,
a justa admiração pelos teus talentos e, acima
de tudo uma certa communhão de ideias, mais que a
vaidade pessoal, são as determinantes d'estas
manifestações
de que és alvo...
―Communhão de ideias!―tornou o João Lazaro
[212]
desdenhoso―Que communhão de ideias pódem elles
ter comigo, se são uns idiotas, uns cretinos incapazes
de terem no cerebro impenetravel outra coisa que não
seja arroz cosido em vez de miolos?
―Talvez tenhas razão, talvez...
―Com toda a certeza que a tenho! Se eu não
fosse um homem notavel, se não tivesse conquistado
uma popularidade que me torna a primeira figura do
meu paiz, cuidas tu que estes imbecis, estes biltres,
teriam a generosidade de me pagar um café, quanto
mais uma ceia? Eu conheço-os. Querem explorar-me,
querem illuminar-se da radiosa aureola de immortalidade
que me circumda a fronte. Com os olhos postos
no futuro, querem, a troco de uma ceia, que os seus
nomes brilhem a par do meu, quando se fizer a minha
historia e quando os seculos repetirem com
admiração
o meu nome e o de todos aquelies a quem dei a honra
de se aproximarem de mim.
O intimo, que era um homem sensato, porem delicado,
não pôde conter-se que não dissesse:
―Agora, depois de te ouvir, convenço-me de que
realmente os idiotas são elles, se pensam como tu
dizes... Pois queres que te falle com franqueza?
―Dize lá.
―Creio que outro qualquer que te ouvisse, sem
ser eu, juraria que o idiota és tu!
João Lazaro mordeu os grossos labios e, percebendo
que irritara o amigo com a sua estupida filaucia,
mudou de tom e disse brandamente:
―Confesso que fui talvez demasiado violento e
um poucochinho injusto na apreciação d'esses
sujeitos,
que pódem ser muito bôas pessoas, e animados das
melhores intenções, mas que me irritam
profundamente,
vindo, com esta futilidade d'uma ceia, roubar-me
o tempo que necessito para tratar assumptos
mais serios e de que depende a salvação de todos.
[213]
Porque é preciso que tu o saibas, eu não vim ao
Porto
unicamente para os amigos me darem de cear...
―Para que então?
―Para ver se querem collaborar comigo na grande
obra da salvação publica...
―Já lhes expuzeste o teu plano?
―O meu plano é tão vasto que não
póde ser resumido
n'um discurso para se repetir a cada um em
particular; e é de tal modo melindroso, que tambem
não póde ser publicamente revelado a uma
assembleia.
Aqui, de duas uma: ou ha confiança em mim, ou não
ha. Se ha, faça-se o que eu digo, facultem-se-me os
meios de que careço e mais tarde se verá a obra
grandiosa que projecto e para cuja realisação
todos
devem concorrer. A gloria, porisso, será de todos. Eu
não a quero só para mim... Se não ha,
é inutil perguntar-me
o que penso e o que desejo fazer. Se eu
submetto o plano á discussão, admittindo emendas
e
correcções, então o plano deixa de ser
meu para ser
de todos, e eu deixo de ser a cabeça pensante para
me converter n'um simples instrumento como os outros.
Ora a isso não me sujeito. Sinto aqui dentro―e
batia na testa com impeto―alguma coisa de grande
e de superior, para que consinta em me nivelar com
essas vulgaridades que nada teem feito e nada podem
fazer, pela simples razão de que não nasceram
para
dirigir, nasceram só para serem dirigidas. Ora ahi
tens a razão porque eu sou ás vezes injusto com
aquelles
mesmos para quem o não devo ser... É que queria
vêr mais ardor, mais enthusiasmo e, sobretudo, mais
desprendimento e menos egoismo n'aquelles que me
rodeiam!...
―Bom! Mas, a final, o que queres tu?
―Dinheiro!
―Oh, diabo! isso é o mais difficil de obter, porque
é isso precisamente o que todos querem...
[214] ―Pois se o querem, que m'o ponham ás ordens,
que o semeiem, que eu lhes volverei cem por um!―exclamou
o João Lazaro, convicto.―Não me falta
mais nada. O meu plano está completo. Para o realisar,
apenas careço de dinheiro. Dêem-me dinheiro e,
dentro em tres mezes, eu terei mudado a face do paiz.
―Mas bem vês, meu caro, que isso depende de
circumstancias...
―Quaes circumstancias?
―Se o dinheiro que tu pedes para a realisação
do teu plano fôr uma somma tão importante que
não
esteja nas forças dos nossos amigos...
―Nas forças dos nossos amigos deve estar sempre
tudo aquillo de que depende a salvação da patria.
Quando se trata de um caso d'estes, ninguem está a
medir e a calcular o que póde fazer. As forças
medem-se
pela grandeza da obra e da vontade de cada
um para a realisar.
―Não é tanto assim. Convencido estás
tu da excellencia
e efficacia do teu plano, e tambem mais que
ninguem deves sentir o desejo ardente de o realisar.
E, no emtanto, tropeças na difficuldade suprema de o
pôr em acção e pedes o concurso dos
correligionarios
para que o teu pensamento não fique na cathegoria
das coisas irrealisaveis...
―Certamente. E creio que todos teem obrigação
de me ajudar. O bem não é só para mim,
o bem é
para todos.
―Perfeitamente d'accordo. Isso não se discute. O
que se discute é se as sommas que a
realisação do teu
plano exige estão nas forças dos nossos amigos.
Bem
sabes aquelle aphorismo: Onde não ha...
―Pois sim, mas aqui não é o rei que perde,
é o
povo.
―E o rei ganha, bem sei. Mas se a fatalidade das
[215]
circumstancias assim o impõe, o que havemos de fazer?
―Assim o impõe, dizes tu! N'esse caso, já sabes
que não ha dinheiro!―exclamou João Lazaro n'um
tom de amargo despeito.
―Eu não sei nada!―volveu-lhe o interlocutor.―Isto
são apenas considerações que eu
faço sobre o
que póde succeder. Ainda não me revelaste o teu
plano,
ainda não me disseste de quanto carecias... Como
queres tu que eu saiba se é realisavel ou não a
somma
que desejas? Simplesmente, o que me parece é que,
se essa somma fôr avultada, haverá difficuldade em
a conseguir.
―Onde está então o amôr d'esses
patriotas á ideia?
―Está no coração. Mas tu bem sabes
que o coração
sem dinheiro é uma força tão fraca
que, hoje, nem
sequer remove as difficuldades de um casamento, quanto
mais as difficuldades da salvação de um povo.
João Lazaro fez um gesto de supremo desprezo.
―E é por um partido d'estes que eu penso, trabalho
e me sacrifico! Vale bem a pena, realmente, expôr-se
um homem a todas as violencias, a todos os
odios e todas as perseguições, para melhorar a
sorte
de um povo que não está ainda educado para as
grandes
reformas sociaes! Cuida a gente que encontra ao
seu lado crenças profundas, dedicações
sinceras, homens
capazes de sacrificarem tudo ao seu ideal, e dá
mas é com um bando de egoistas, agarrados ao dinheiro
como a ostra á casca, incapazes de soltarem um
vintem sem se consummirem em calculos sobre o livro
do
Deve e
Haver! Raça ignobil de
bacalhoeiros
ignaros, que estão a pedir João Branco e Pita
Beserra!
Depois d'esta violenta explosão de colera, por
não
achar abertos os cofres dos homens a quem d'antes
chamava filhos e netos de heroes e aos quaes agora
[216]
malsinava de
bacalhoeiros ignaros,
visto que não lhe
davam o dinheiro que elle queria para sustentar a
ociosidade infame, o João Lazaro despediu o amigo com
um gesto altivo.
―Bem!―disse elle―tenho entendido. Não se
arranja nada. O peor mal é d'elles. Hão-de
arrepender-se,
mas ha de ser tarde...
E consultando o relogio:
―São horas. Vou ao Palacio, á tal ceia, mas
recolherei
cedo, porque não estou para os aturar. Amanhã,
se quizeres, apparece. Mas vem de dia, porque á noite
talvez retire para Lisboa.
―O que! Retiras sem conferenciar com os nossos
amigos?
―Se me dizes que elles não estão dispostos a
sacrificar-se...
―Entendamo-nos! Eu digo apenas o que penso...
Mas isto não é nem póde ser tomado
como uma resposta
decisiva ao teu pedido...
―Não, que eu não peço!―exclamou
Lazaro
com enfatuada altivez―Eu proponho. Era o que me
faltava! Servil-os com as minhas ideias, com o meu
talento, com o meu nome e vir ainda implorar-lhes
que mo acceitem o favor de os salvar! Se querem ser
homens, se querem ser livres, aqui estou eu, prompto
a resgatal-os com o meu plano: dêem o dinheiro preciso
para o pôr em execução. Se, pelo
contrario, preferem
ser escravos abjectos, vis instrumentos de especuladores
sem dignidade nem consciencia, fiquem-se
com o seu dinheiro e a sua escravidão, que eu por mim
não darei mais um passo em beneficio de semelhante
canalha!
Disse e caminhou para a porta, magestoso e solemne
como um deus sagrado.
―Vaes para a ceia dos teus amigos, não é
isso?―perguntou
o outro despedindo-se.
[217] ―Vou fazer ainda esse ultimo sacrificio á popularidade
de um partido que me não merece.
―Pois bem; vae, que eu vou tocar a capitulo, a
vêr o que se póde arranjar... Tu,
porém, tens de
ser ouvido...
―Não terei duvida em fallar e expôr as coisas
com as reservas precisas, se porventura elles estiverem
dispostos a entrar n'isto a sério. Se, porém,
vires
que se retrahem e que apenas desejam ouvir-me por
simples devaneio, peço-te que não me incommodes,
obrigando-me a descer até esses bilhostres.
Estendeu-lhe com superioridade dois dedos que o
outro apertou, e desceu a metter-se na carruagem de
praça, que o esperava á porta do hotel.
―Para o Palacio!―ordenou ao cocheiro.
Pelo caminho, ia monologando:
―Este idiota ficou aterrado com a minha attitude,
e estou certo de que vae mover os outros estupidos a
largarem o dinheiro... Se não fôr assim,
á valentona,
por boas palavras não se se faz nada... Preciso de
lhes apanhar dinheiro para ir até Hespanha.
E com um sorriso lubrico a bailar-lhe nos labios
sensuaes, n'uma atavica reminiscencia da tanga:
―Oh! as hespanholas... as hespanholas são um
encanto!
Quando entrou no Palacio, passava já da hora
marcada. Os amigos, com Eugenio á frente, vieram
recebel-o n'uma doida expansão de alegria.
―Cuidei que não vinhas!―disse-lhe Eugenio.―Seria
um grande desgosto para nós todos, que te estimamos,
mas muito principalments para estas damas,
que nos honraram com a sua presença e que estavam
anciosas por te conhecer.
O aventureiro saudou gravemente, com um forçado
sorriso de polidez e, respondeu n'um tom de pedantesca
superioridade:
[218] ―Foi em verdade um sacrificio grande para mim
o ter de comparecer a esta hora, e tanto que me vi
forçado a transferir para amanhã uma
reunião importantissima
que devia effectuar-se hoje. Amigos politicos,
que desejam ouvir-me sobre negocios da mais alta
transcendencia, insistiam comigo para que vos enviasse
um bilhete de desculpa e não protelasse a reunião
que se havia marcado; mas eu recusei-me a
acceder aos seus desejos, pois não quero que se diga
que sou menos amavel com os velhos amigos da mocidade
e com as bellas e gentis damas que os acompanham.
Seguiram-se as apresentações:
―Senhorita Lola...
―Senhorita Dolores...
―Senhorita Consuelo...
O João Lazaro, com os ademanes de um principe,
sorria benevolamente a cada um d'estes nomes, inclinando-se
amavel, com modos de grande senhor.
Abancaram á mesa e principiou o festim.
A esta mesma hora, a loura Leonor, despedido o
commendador Garcia, que havia entrado ás sete, vinha
debruçar-se á janella, na anciosa espectativa de
sentir ao longe os passos de Eugenio, quando um moço
de recados parou á porta da rua, espreitando para o
numero, e bateu, depois de se certificar de que era
realmente aquella a casa que procurava.
A criada desceu a vêr quem batia o pouco depois
voltou com uma carta.
―Um moço de fretes com esta carta para a menina...
A criada, velha onzeneira e confidente das perfidias
ao commendador, usava d'este tratamento meio
familiar, meio respeitoso, sempre que se achava a sós
com Leonor.
―Dê cá!―disse a loura, pegando na carta e
examinando
[219]
o sobrescripto.―Queres vêr que é algum
massador a seringar-me com uma declaração?
―O portador não esperou
reposta.
―Bem sei que não esperou. Eu estava á janella
e vi-o partir logo que entregou a carta.
E rasgou com um sorriso de curiosidade o sobrescripto.
―É singular! O papel não vem perfumado―disse
ella, mostrando o papel vulgar em que a missiva
vinha escripta.
―É de homem de dinheiro!―commentou a velha,
muito pratica em negocios d'amôr.―Os
cheiros são
para os pelintras que só querem agradar com bugigangas
e a respeito de
louça...
nem um pires!... Homem
sério, homem de
massas,
não está lá com essas coisas...
Confia no seu dinheiro e é bastante...
Leonor, sem prestar attenção ao palanfrorio da
criada, ia lendo n'uma agitação crescente. Quando
chegou ao fim, exclamou horrivelmente pallida, amarfanhando
o papel entre as mãos:
―Oh! mas isto é impossivel! Isto é
uma infamia!
―O que é, menina?―perguntou a velha serviçal,
n'um movimento de curiosidade.
―Dizem-me aqui―tornou Leonor com voz rouca
de commoção―que Eugenio vae casar.
―Casar-se o sr. Eugenio! Credo, menina! Olhe
que isso hão-de ser ditos de gente que lhe quer mal...
Que isto é, eu direi... nos homens não ha que
fiar...
Elles prégam-n'a na menina do olho e, quando uma
pessoa mal cuida, parece que estão muito seguros e
põem-se a
avoar!
Leonor, agitadissima, relia o papel para se certificar
de que não tinha comprehendido mal o que n'elle
se lhe dizia e que era o seguinte:
«Uma pessoa amiga, que muito a estima e que daria
a vida para lhe ser agradavel, julga dever avisal-a
[220]
de que Eugenio de Mello acaba de pedir em casamento
uma menina de rara belleza, filha unica de um capitalista
muito conhecido n'esta cidade, e que o enlace se
prepara para muito breve.
«Na roda dos rapazes finos, onde este acontecimento
é muito commentado, discute-se de maneira bastante
humilhante para a gentilissima Leonor o procedimento
de Eugenio.
«Uns affirmam que elle, cançado da amante,
aborrecido
de uns amôres que já não lhe offerecem
encanto
nem prazer, busca pelo casamento com uma menina
rica, prendada, e muito formosa, a quem ama apaixonadamente,
libertar-se de umas relações que considera
despreziveis e improprias da sua dignidade. Outros
sustentam que, pelo contrario, Leonor e Eugenio, receiando
que o commendador Garcia, de um momento
para outro, escandalisado com o mau uso que ambos
fazem do seu dinheiro,
suspenda
pagamentos, combinaram
que o melhor era garantirem-se contra a miseria
provavel, casando Eugenio com uma mulher de dinheiro
e ficando Leonor a receber d'elle o preço dos seus amores
como agora o recebe do commendador Garcia.
«Quem estas linhas escreve tem a certeza de que
Leonor é vilmente atraiçoada por Eugenio, e por
isso
caridosamente a previne d'este facto, afim de evitar
que a sua reputação, continue a ser infamemente
enxovalhada
pelos mais intimos amigos do perfido e ingrato
amante.
«Se fôr discreta e prudente e quizer informar-se
em segredo da veracidade d'este aviso, a pessoa que
lhe escreve esta carta estará amanhã
ás 11 horas em
sitio d'onde aviste a sua casa. Se a janella do meio estiver
aberta, a sála illuminada e no piano se ouvir a
valsa
Leonor, é signal de
que deseja recebel-a e então
essa pessoa apresentar-se-ha para lhe dar todos os esclarecimentos
que desejar.
[221]
«Até lá, silencio e
discreção é a unica coisa que
se recommenda.»
Relida esta carta em voz alta, Leonor encarou desvairada
a velha confidente, exclamando:
―Se é verdade isto que aqui se diz, mato-o!
―Crédo, menina!―bradou a velha benzendo-se―Isso
são tentações do demonio! Deixe
lá, não faça isso,
que não vale a pena uma pessoa ir pagar c'os ossos
na cadeia um burro ruim por um
bô! Homens ha muitos,
tão
bôs e
melhores do que aquelle... Olha agora,
se a menina, com uma carinha d'essas, que parece mesmo
uma
image, não achava
homem que lhe désse o
merecimento senão aquelle! Crédo! andam ahi
rapazes
como uns soes, babadinhos pela menina que tomaram
elles quem lhes désse attenção... Era
só a menina
abrir a bôcca e veria!... Eu é que não
quero
dizer nada, mas tenho
osservado
muita coisa... Só eu
é que sei!
―Que e o que você tem observado, Joanna?―interrogou
Leonor roida da curiosidade de saber alguma
coisa que lhe esclarecesse a perfidia de Eugenio.
―Tenho-os visto por ahi a offerecer-me prendas
se eu fizer com que a menina lhes dê
attenção...
Mas eu cá... como a via virada p'ró sr.
Eugenio...
mal haja elle, se é certo o que diz a carta!
―E você nunca ouviu dizer nada, Joanna? Nunca
ouviu que Eugenio tivesse outro namoro?
―Não, lá isso, na minha
salvação se eu ouvi boquejar
nem tanto como isto!
E mostrava a ponta da unha suja, para indicar o
têrmo da comparação.
―Mas será verdade?―tornava a loura passeando
agitadamente na sala―Elle terá animo para me
fazer uma affronta d'estas, sabendo quanto o amo,
quanto me tenho sacrificado por elle?
[222] ―O amor dos homens é como a fôlha
do olmo...
ora vira para um lado, ora p'ró oitro, menina...
―Oh! mas isto é impossivel! Eu não lhe
mereço
um tamanho despreso, uma tamanha perfidia! É
preciso que um homem seja muito infame para abusar
assim do amôr d'uma pobre mulher, para andar
assim nas trevas preparando um golpe de morte ao
meu coração!
E irritada, anhelante de desespêro torcia as mãos,
com frenesi.
A velha apaziguava:
―Ás vezes
támem se diz mais do que
é,..
―Mas diz-se, e nada se diz sem motivo... Alem
d'isso, esta carta não póde ser uma impostura,
porque
a pessoa que a escreve presta-se a dar-me esclarecimentos...
E ninguem ousaria vir comprometter-se
affirmando uma coisa que mais tarde se saberia ser
mentira... Oh, meu Deus! meu Deus! que mal te
fiz eu para me fazeres tão desgraçada?!―exclamou
por fim, rompendo em soluços.
―Desgraçado é o diabo!―consolou a velha
Joanna―Quem conta um conto sempre lhe accrescenta
um ponto... Isso ás vezes póde ser que
não
seja tanto assim... Mas se fôr, o que a menina deve
fazer é botar o coração ao largo...
Mal por mal,
antes isso do que o sr. commandador
Gracía dar por
ella e não tornar cá...
Antão sim,
antão é que a
menina se devia affligir, porque o amôr é muito
bonito,
mas sem dinheiro não se arranja nada...
―Cale-se, Joanna, cale-se!―bradou Leonor n'um
impeto de desespero―Você pensa como elle, que
tambem vae atrás do dinheiro, sem se lembrar que
eu, para o amar, não estive a fazer calculos nem a
perguntar-lhe quanto possuia! Oh! mas eu lhe juro
que não chegara a gosar esse maldito ouro pelo qual
me troca! Miseravel! neguei-lhe eu alguma vez todo
[223]
o dinheiro que me pedia? Sendo uma pobre mulher,
vivendo unicamente da protecção de um homem, eu
nunca hesitei em sacrificar todos os meus recursos, o
meu dinheiro, as minhas joias, a minha posição―o
proprio amor do homem que me sustenta―ás suas
necessidades, aos seus caprichos, aos seus prazeres!
E anda em segredo tratando casamento com outra,
vendendo ao dinheiro d'ella o meu coração, o meu
socego,
a minha tranquillidade! E expõe-me aos ditos e
ás chufas dos seus amigos, arrasta o meu nome pelas
mesas dos botequins onde me julgam capaz de me associar
a elle na infame exploração de uma mulher!
Oh! a ser verdade, mil vidas que elle tivesse não chegariam
para pagar esta affronta!
No intimo de Leonor tumultuavam todas as paixões
que pódem agitar um peito de mulher: o amôr
despresado,
o amôr proprio offendido, a vaidade irritada,
o odio, o ciume, emfim.
A velha encarava-a receosa, sem já se atrever a
proferir palavras de prudencia ou de banal
consolação.
De pé, a um canto, com as mãos cruzadas sobre a
barriga, limitava-se a suspirar, murmurando em voz
lamurienta:
―Seja pelas almas! Ninguem diga que está bem...
Nossa Senhora do Allivio nos accuda pela sua infinita
misericordia!
Decorreram assim algumas horas. Por fim, Leonor,
mais tranquilla, pareceu tomar uma resolução.
―Joanna―disse ella―de tudo isto que aqui se
passou, você não dá uma palavra ao sr.
Eugenio.
―Ó menina! Crédo!―protestou a velha―a minha
bôcca não se abre para nada! Não diga a
menina
coisa nenhuma, que eu
tàmem faço de
conta que nada
assucedeu... Mas a menina
é capaz de não ter mão
em si e começar-lhe por ahi com
climas,
que elle logo
desconfia...
[224] ―Eu nada digo. Preciso inteirar-me da verdade,
e para isso não convem que Eugenio suspeite que alguem
me disse qualquer coisa...
―Por mim, não é que elle ha de desconfiar nada!
E olhe que se a menina fizer isso, anda ás horas!...
Ao menos, assim, não dá logar a que elle se
encubra.
E depois de se
infirmar da verdade,
já fica sabendo
quem tem...
―É justamente isso o que eu quero.
―Porque ás vezes―commentou a
velha―
támem
são
malquerencias...
Pobre do rapaz! póde ser que
ás vezes nem lhe passe pela cabeça nenhuma coisa
d'essas e lhe estejam a alevantar esse falso testemunho,
só p'ra amôr da menina se dar mal co'elle...
Olhe que no mundo
támem
hão muitas
invejidades!...
―Pois é por isso...―tornou Leonor dominando-se―Eu
vou-me deitar... Não desejo que elle me
encontre a pé quando vier... E como isto é contra
o
meu costume, vocemecê, amanhã, quando eu a chamar
ao meu quarto, a primeira coisa que tem a fazer é
perguntar-me se estou melhor...
―Bem sei; a menina quer-se
infingir
doente esta
noite p'ra elle não desconfiar...
―É isso mesmo. Vocemecê não esquece
isto que
lhe digo?
―Ora essa! A'gora esqueço!...
―Bem! Bôa noite! Pode-se ir deitar...
―Então, com bem passe a noite, menina!... Se
fôr preciso alguma coisa, não tem senão
chamar...
Quando Eugenio recolheu a casa, era madrugada.
A ceia prolongara-se e a alegre companhia das hespanholas
tivera o singular condão de fazer voar as
horas com a rapidez de minutos.
Não foi sem um intimo constrangimento que o bohemio
penetrou, ás quatro horas da manhã, no quarto
da amante.
[225]
Comquanto a tivesse prevenido de que recolheria
tarde, por motivo da ceia offerecida a João Lazaro,
esperava uma scena de ciumes, recriminações e
queixas,
como succedia sempre que a fazia esperar.
Foi, pois, com grande surpreza que a encontrou
deitada e, ao parecer, tranquilla.
―Deitaste-te?―disse elle―Fizeste bem, minha
querida. A ceia prolongou-se mais do que eu esperava,
e depois, conversa d'aqui, anecdota d'acolá, quando demos
conta de nós eram estas horas que vês!
Leonor affectava uma grande serenidade e respondeu
com ternura:
―Estava anciosa que viesses, porque me senti
muito incommodada... Deitei-me por não poder estar
de pé, mas não tenho dormido...
―Estás doente, meu amor! O que foi isso? O que
sentes?
―Nem eu sei o que isto foi! Comecei a sentir
muito frio e grandes dôres de cabeça... E creio
que
tive uma ponta de febre...
―Foi constipação, com toda a certeza!
És uma
descuidada, não te agasalhas... Quando Deus quer,
puzeste-te por ahi á janella, a vêr quando eu
chegava,
e deu-te esse resultado!
―Não! Como sabia para onde tinhas ido, não te
esperava senão mais tarde... Não sei,
não posso calcular
do que isto fôsse...
―Mas estás melhor, não é verdade?
―Sim... agora sinto-me um pouco melhor...
Depois que tomei uma chavena de chá bem quente, as
dôres abrandaram-me um pouco...
―Para que deixaste deitar a Joanna? Ella podia
ter ido chamar-me... Tu sabias onde eu estava, e se
mandasses dizer-me o teu estado, viria immediatamente.
―Não valia a penna ir incommodar-te por uma
coisa tão ligeira... Isto passa.
[226]
A conversação proseguiu assim serena, e amigavel,
podendo Leonor occultar aos olhos do amante o terrivel
inferno que lhe ia n'alma.
O bohemio, confiado e desprevenido, acreditou na
simulada doença da formosa loura e attribuiu a isso a
pallidez mortal que no dia seguinte lhe notou nas
feições.
Ella, pela sua parte, ameigava a voz, mostrava-se
dôce e carinhosa, mais ainda do que de costume, e
quando chegou ao fim da tarde e o bohemio teve de
sahir para dar logar ao commendador Garcia, foi com
um
transporte de
ternura infinita que lhe disse:
―Peço-te que não venhas tarde, mas tambem
não
desejo que sacrifiques a companhia dos teus amigos á
ideia de que estou mal, porque, felizmente, sinto-me
melhor...
―Não, eu venho cêdo...
―A que hora?
―Depois da meia noite. Mas tu deita-te, não me
esperes a pé, filhinha...
―Sim... se me sentir doente, deito-me, e a Joanna,
quando tu vieres, servir-te-ha a ceia, se ainda não tiveres
ceiado...
―N'esse caso, combinemos assim: eu ceio hoje
fóra para não dar trabalho á criada
quando recolher.
E tu não me esperas a pé... Valeu?
―Pois sim.
Beijaram-se e o bohemio partiu a encontrar-se com
os amigos no botequim.
Pelas onze horas da noite, e tendo já sahido o
commendador Garcia, Leonor, com a janella do centro
aberta e a sala illuminada, sentou-se ao piano e
começou executando a walsa
Leonor, conforme o seu
anonymo correspondente lhe havia indicado.
Quando mais não fosse senão a natural curiosidade
de conhecer quem lhe escrevia denunciando-lhe a atroz
[227]
perfidia de Eugenio, já era motivo mais que bastante
para que Leonor acceitasse o offerecimento que se
lhe fazia e désse o signal convencionado. Mas, muito
mais que isso, imperava no espirito da ardente rapariga
o sentimento do ciume e o irresistivel desejo de
conhecer toda a verdade.
Ainda a walsa não tinha chegado aos ultimos compassos
e já á porta da rua carregava no botão
da
campainha electrica um homem, embuçado n'uma ampla
capa á hespanhola e tendo occulto o rosto pelas
abas largas de um chapéo de feltro.
A velha Joanna desceu a escada e, abrindo a
porta, franqueou a entrada ao desconhecido, indo em
seguida postar-se de vigia n'outra janella, para avisar
da chegada de Eugenio, se acaso o presentisse na rua.
Leonor, tendo descido a vidraça e corrido o store,
esperava o denunciante, de pé, na sala, com o
coração
palpitante de anciosa curiosidade.
O desconhecido entrou desembaraçadamente, fechou
a porta sobre si e, parando em frente de Leonor
estupefacta, desembuçou-se, tirou o chapéo e
disse,
inclinando-se em garboso cumprimento:
―Não esperava que fosse eu, não é
verdade?
―O senhor!―disse Leonor com pasmo, reconhecendo
no embuçado as feições de
João Lazaro.
―Eu mesmo, é verdade!―replicou João Lazaro
n'um tom meio grave, meio galanteador;―julgava-me
bem longe do Porto e completamente esquecido
d'esse rosto lindo... Bem vê que se enganou e que o
interesse que uma vez despertou na minha alma não
desappareceu, antes mais se fortaleceu e acrisolou com
a ausencia.
―Mas, perdão!―tornou Leonor, franzindo o sobr'olho
n'um gesto de impaciencia―creio que não foi
para insistir nos seus protestos de estima que aqui
veio...
[228] ―Bem sei! Está impaciente por conhecer toda a
negra perfidia de Eugenio... Vamos de vagar, minha
querida, e deixe-me primeiro expôr-lhe quaes os motivos
que me impelliram a dirigir-lhe a carta que
hontem recebeu...
―Mas não estão elles expostos n'essa mesma
carta?
Se, como creio, os factos n'ella relatados são verdadeiros,
basta a existencia d'esses factos para explicar
o seu procedimento...
―Perdão, minha adoravel e gentil senhora! Tenho
visto commetter muitas perfidias, tenho sido testemunha
de villanias e infamias bem censuraveis, e
nem por isso me tenho julgado no dever de intervir
em favor das victimas. E isto por duas razoes bem
simples: a primeira, porque, hoje em dia, no mundo a
velhacaria, a traição, é moeda
corrente; e a segunda,
porque as pessoas a quem tenho visto ludibriar e escarnecer
são em geral creaturas pelas quaes o meu
coração
não se interessa. Ora com a gentil Leonor não
estamos no mesmo caso. Creio que já em tempo lhe
declarei, e bem sinceramente, quanta sympathia,
quanto interesse e quanta dedicação a sua
estonteante
formosura despertava na minha alma... Não me quiz
attender, ou melhor, não tive a fortuna de lhe merecer
a mais ligeira estima. Outro mais feliz, porém
immensamente menos digno e mais ingrato do que eu,
teve a dôce ventura de tocar o seu
coração. Fui preterido.
Paciencia! O que n'essa preterição houve de
injusto e cruel para mim o de immerecido para elle
vae agora a adoravel e encantadora Leonor sabêl-o...
―Por Deus, sr. Lazaro! conte-me tudo, não me
occulte nada!
―É então certo que o ama muito?―perguntou
o aventureiro com um sorriso ironico.
Leonor franziu ainda o sobr'olho e respondeu n'um
impeto de irreprimivel desespêro:
[229] ―Não sei se o amo, se o aborreço; sei que desejo
saber quem é, como se chama e onde mora a mulher
com quem vae casar. Sei que o sr. accusa Eugenio de
me haver illudido, de me haver trocado por outra, e
de me haver ultrajado, fazendo suppôr que eu e elle
entramos de sociedade e de intimo accordo n'um casamento
de exploração infame. Estas
accusações são
gravissimas, quer para o caracter de Eugenio, quer
ainda para o meu coração de mulher. É
preciso que
o senhor justifique perante mim, sem subterfugios e
sem rodeios, tudo quanto hontem me escreveu, aliás...
―Aliás?―interrogou João Lazaro, sorrindo.
―Aliás terei o desgosto de lhe metter uma bala
na cabeça.
E, n'um arrebatamento de justa indignação, os
olhos faiscantes, os labios descorados e tremulos, Leonor
tirou do bolso do vestido um pequeno revolver,
com coronha de marfim, e apontou-o a João Lazaro.
―É justo!―disse elle tranquillamente, sem perder
a linha do amavel galanteador.―O castigo deve
sempre igualar o delicto, e eu não mereceria outra
punição se calumniasse de maneira tão
infame o homem
que a senhora ama e que, além d'isso, é meu
amigo... Mas, vejamos: se a mentira merece ser punida,
a verdade não tem direito a ser premiada?
―O que quer dizer?
―Uma coisa muito simples e ao mesmo tempo
muito justa. Se eu minto, mata-me... Se eu fallo
verdade, não é justo que me dê vida?
Porque é preciso
que o saiba, Leonor: a morrer de amôr por esse
esquivo e ingrato coração, que a outro se
abandonou,
ando eu ha muito tempo!
Leonor encarou-o com altiva dignidade:
―É o meu coração o que me pede ou...
a minha
belleza?
―Tudo, Leonor! Desejo tudo quanto póde dar-me
[230]
a vida, a felicidade, que sem o seu amor não
existe para mim, e que outro ingrato indignamente
me tem usurpado! Prometta-me que não me recusará
a esmola que lhe imploro do seu affecto, e terá de mim
a prova evidente, clara, irrecusavel, da negra perfidia
de Eugenio!
Leonor ficou um momento perplexa, fitando o João
Lazaro attentamente, como se quizesse lêr-lhe no
rosto os pensamentos mais intimos. Por fim, respondeu:
―O meu coração, por emquanto, não
está livre.
―Mas se aquelle que n'este momento o occupa
fôr d'elle expulso, como merece, poderei ao menos
contar com um infimo logar no mais afastado recanto
do seu peito, Leonor?
―Não costumo ser ingrata para os que uma vez
me provaram dedicação e estima sincera.
―Não o será então para mim, porque,
desilludindo-a,
dou-lhe a prova mais completa de quanto lhe
quero, de quanto a amo!
A loura indicou uma poltrona a João Lazaro e
recostou-se no sofá que lhe ficava proximo.
―Assim entendidos―disse ella―queira dar-me
as explicações que me prometteu.
―Perdão, minha querida!―tornou o aventureiro,
sorrindo amavelmente―Por emquanto ainda não
passamos de promessas vagas, que a nada obrigam...
―O que deseja então?
―Que me prometta, que me jure duas coisas...
―Dirá.
―A primeira que será discreta, que obedecerá
em tudo e por tudo ás minhas
indicações, para chegar
a obter a certesa absoluta da infidelidade de Eugenio.
―Prometto.
―A segunda é que, confirmada a minha
accusação
[231]
e adquirida a certeza completa dos factos
que lhe
aponto, conceder-me-ha uma hora de felicidade, ao
menos, consentindo que eu occupe durante ella, o logar
que, n'esta casa, occupava Eugenio...
A loura hesitou, tomada de invencivel repugnancia
por este homem que mercadejava infamemente
com a paixão terrivel que abrasava o seu
coração de
mulher ciumenta.
―E se eu recusar essa ultima
condição?―perguntou.
―Calar-me-hei, deixando-lhe o direito salvo de
indagar por si o que póde ficar sabendo desde já.
―Pois bem, prometto. Falle e diga tudo o que
sabe!
―Vê que confio na sua promessa e que não lhe
peço como penhor a mais leve liberdade, nem sequer
o adiantamento de um beijo...
―É de mais!―bradou Leonor, colerica e impaciente.―Se
veio aqui, para se divertir á minha
custa, fez muito mal, porque póde sahir-lhe cara a
brincadeira!
―Ora vamos, minha querida... socegue!―volveu
o Lazaro com um sorriso cynico.―Bem vê que
eu sou incapaz de abusar da sua credulidade, submettendo
o seu coração a um rude soffrimento por mero
gracejo. Mas estes casos, porisso mesmo que são
graves e sérios, querem-se meditados e reflectidos.
Temos obrigação de os encarar com serenidade e
sangue
frio, para procedermos com acerto e prudencia.
―Pois bem; eu estou tranquilla e, se alguma impaciencia
me nota, é apenas a de ouvir as
revelações
que me interessam e que certamente me vae fazer.
―Ora muito bem!―principiou o João Lazaro.―Disse-lhe
na minha carta que Eugenio pediu em casamento
uma menina formosa e rica. E disse a verdade.
―Como se chama essa menina?
[232] ―Beatriz.
―Onde mora?
―Na rua do Breyner e é filha do capitalista Custodio
de Jesus.
―Diz então que o casamento está projectado para
breve?
―Digo.
―N'esse caso, essa menina ama-o?
―Tanto não sei, mas é de suppôr que
sim, visto
que está disposta a recebel-o por marido. O que,
porém,
não offerece duvida é que Eugenio a ama, pois que
pediu a sua mão.
―Foi Eugenio quem lhe disse que ia casar?
―Eugenio nada me disse. Não atraiçôo,
portanto,
o amigo, descobrindo o seu segredo...
―Como o soube então?
―Se é publico e notorio! Se nos cafés
não se falla
de outra coisa!
―Não será isso uma
invenção de rapazes levianos,
que gostam de se divertir á custa alheia?
―Citam-se nomes e fazem-se commentarios. Além
d'isso, a pessoa que mais particularmente me elucidou
d'este caso não conhecia Eugenio e veio pedir-me
informações
a seu respeito.
―O que lhe disse?
―O que não podia deixar de dizer de um homem
de quem sou amigo: que Eugenio é muito bom rapaz,
um cavalheiro a toda a prova.
―Mas é forçoso impedir esse casamento!
―Talvez não seja impossivel.
―Conhece o pae d'essa menina, esse tal Custodio
de Jesus?
―De vista apenas. Não tenho com elle
relações
pessoaes; mas conheço amigos intimos seus. O que deseja
d'elle?
―Informal-o de que Eugenio mantém
relações comigo
[233]
e fazer comprehender que não deve dar a filha
a um homem que tem uma amante...
―Está doida! E o commendador Garcia?
―Que me importa a mim o commendador Garcia,
comtanto que Eugenio não case!―bradou Leonor, erguendo-se
arrebatadamente do sofá em que se achava
sentada e dando alguns passos pela sala, n'uma
agitação
indescriptivel.
―Venha cá, socegue!―disse João Lazaro,
tomando-lhe
a mão.―Prometteu-me obedecer a todas as minhas
indicações, e é forçoso que
cumpra o que prometteu.
―Pois sim... Diga então o que devo fazer...
―Em primeiro logar, certificar-se de que é verdade
o Eugenio trahil-a.
―Como?
―Pela sua criada, que deve merecer-lhe toda a
confiança...
―Merece...
―Pois a sua criada procurará travar
relações com
alguma das criadas de Custodio de Jesus, e por esse
modo saberá o que ha de verdade ácerca do que se
diz. Os criados sabem tudo e são os melhores informadores
d'este mundo.
―E obtida a certeza?
―Obtida a certeza, nada diz a Eugenio até ao
momento que eu lhe marcar. Faz isto?
―Faço.
―Que Eugenio não suspeite que lhe está no rasto
da perfidia.
―Não suspeitará.
―E eu voltarei a informál-a.
―Quando?
―Quando tiver obtido todos os informes que precisamos.
―E até lá nada devo dizer nem fazer?
[234] ―Nada, senão isto: pôr a sua criada em
relações
com as criadas do Custodio de Jesus.
―Mas sabe que me condemna a uma tortura horrivel?
Como quer que eu, com o inferno no coração,
guarde silencio e me sujeite ás
dilações de uma informação
tão morosa? Eu preciso de resolver e actuar
immediatamente! Não está no meu genio occultar
por
muito tempo o que me vae n'alma...
―As circumstancias impõem-lhe
dissimulação e
prudencia.
―As circumstancias! Qual é a mulher que no
meu caso attende ás circumstancias?
―Todas. No seu caso, todas―replicou João Lazaro
com reflexiva gravidade.
E amaciando a voz, n'um tom de convicção
profunda:
―Ora venha cá!―disse elle―Deixe-me pensar
pela senhora e defender os seus interesses, o seu futuro,
a sua posição, uma vez que essa cabecinha
transtornada
não se mostra em estado de pensar coisa alguma
com acerto. E, creia, foi principalmente por isso
que não quiz logo dizer-lhe tudo na minha carta...
Calculei que faria escandalo se não tivesse ao seu lado
alguem que a dirigisse, e procedi de fórma a
obrigal-a
a ouvir-me e a attender-me...
―Pois sim... já o ouvi e já o attendi... Mas o
que não posso, o que os meus nervos não consentem
é,
obtida a prova da perfidia de Eugenio, remetter-me a
uma passividade absoluta, deixando que o infame realise
os seus torpes intentos!
―Não seja creança e vamos a vêr se
consigo convencel-a
de que um escandalo ruidoso nada impede e
a mais ninguem prejudica senão á senhora...
―Só a mim, diz?
―Sim, só á senhora. Ora ouça, Leonor:
Imagina
que se se apresentar em casa de Custodio de Jesus e
[235]
disser: «eu sou amante ostensiva do commendador Garcia,
e o Eugenio de Mello é o meu amante clandestino»,
essa declaração pesará no espirito do
abastado capitalista
o bastante para impedir o casamento?
Leonor baixou os olhos e não
respondeu.
João Lazaro
continuou:
―O mais que com isso poderá fazer, é provocar
explicações da parte de Eugenio que, bem longe de
negar, confessará essas relações, que
nada affectam a
reputação de um rapaz livre e em pleno goso da
sua
mocidade; pois, infelizmente, toda a gente considera
perdoaveis uns amôres que sempre se calculam do
duração ephemera e que, por isso mesmo, ninguem
toma a sério.
A loura ergue-se como impellida por occulta mola.
Os olhos faiscaram-lhe de colera, n'uma
indignação
suprema.
―Ninguem toma a sério o amor de uma mulher
como eu!―exclamou ella―E porque? Acaso o
meu coração vale menos do que o d'outra mulher?
Acaso sou eu uma creatura differente de todas as outras,
e porisso condemnada a não sentir no meu
coração
os dôces affectos que são a vida e a felicidade
ainda
dos seres mais despresiveis e obscuros? Não terei
eu o direito de amar e de exigir que o homem que
despertou na minha alma o terno sentimento a que
jurou corresponder cumpra lealmente os seus juramentos?
João Lazaro ouviu impassivel esta rajada de
indignação,
sem perder um só instante o sorriso meio
amavel, meio ironico, que desde o principio lhe brincava
nos labios.
―Tem razão―disse elle por fim―Mas que quer,
minha querida? A sociedade é quasi sempre cruel e
iniquia nas suas decisões; e ahi está
precisamente um
caso em que ninguem, da boa fé, poderá
attribuir-lhe
[236]
rectidão e justiça. No emtanto, como a sociedade
é que
dicta a lei pela qual cada um se rege, segue-se que
Eugenio, na sua perfidia, tem a seu favor a lei, que todos
acatam, ao passo que a senhora tem apenas a razão,
que ninguem attende.
―Ha de pelo menos attendel-a elle!
João Lazaro teve uma gargalhada de zombaria.
―Não o creia, minha querida! Se Eugenio prestasse
ouvidos á razão, se ao menos tivesse uma sombra
de respeito por esse coração que elle esmaga, por
esse amor que calca aos pés, não teria pensado em
casar-se.
Mas, digo-lh'o eu, e a senhora vae em breve
ter a confirmação do que lhe assevero, o Eugenio
pensa, em se
fazer homem
sério por meio de uma alliança
vantajosa e respeitavel, e está disposto a romper
os laços de uma affeição que nunca
reputou duradoura
nem digna d'elle.
―Esbofeteal-o-hei publicamente como a um verdadeiro
canalha que é!―bradou Leonor completamente
dementada.
―Eis o perigo! Eis o gravissimo desatino que eu
me julgo no dever de impedir, porque a amo, porque
a estremeço, Leonor, e porque nunca poderia absolver-me
de ter sido eu a causa indirecta d'essa grande
loucura! O que lucraria com isso? Fazer um escandalo
cujo ridiculo cahiria inteiro sobre a senhora?
Obrigar a que a discutissem nos cafés e a ultrajassem
nas conversações particulares, como a uma mulher
despresada,
uma mulher publicamente repellida? A sociedade
é assim, minha querida amiga! Não
perdôa
aos vencidos. E depois, o ruido d'este escandalo chegaria
aos ouvidos do commendador Garcia, seu protector.
Por muito que elle lhe queira, por muito que transija
com os despoticos impetos do seu temperamento
e do seu coração de mulher galante, bem
vê, Leonor,
que seria crear-lhe uma situação que nenhum
[237]
homem, nem mesmo o commendador Garcia, poderia
acceitar... O rompimento, portanto, com este seria
inevitavel, e d'ahi um accrescimo de desgraça e mais
um motivo de prazer para todos aquelles a quem o seu
desdem tem magoado. Repare bem n'isto, Leonor, olhe
que é um amigo sincero e verdadeiro que lhe está
fallando.
―Mas o que devo então fazer, santo Deus!―clamou
a formosa Laura, estorcendo as mãos em desespero.
―Ter prudencia e esperar.
―Ter prudencia! Esperar... o que e como?
―Nunca ouviu dizer, Leonor, que a vingança é
o prazer dos deuses? Pois tenha prudencia e vingue-se,
Leonor...
―Vingar-me? Sim! quero e hei-de vingar-me...
Porém, como? Como é que eu hei-de levar a cabo
essa
vingança tremenda que o meu coração
anhela?
―Primeiro, convença-se serenamente do delicto.
Depois, julgue com provas á vista, e fulmine a
condemnação
que o seu coração lhe ditar. Para a auxiliar
na execução da sentença, cá
estou eu. Façamos
uma alliança, um pacto intimo, para nos auxiliarmos
um ao outro. Eu ajudal-a-hei a vingar-se do homem
que a trahiu; a senhora ajudar-me-ha a...
―A que?
―A realisar grandes emprezas que premedito...
Leonor fitou-o com uma viva curiosidade.
―E que emprezas são essas?
―Mais tarde lh'o direi... Por emquanto, basta
só que saiba que podemos auxiliar-nos reciprocamente
com grande vantagem e interesse para ambos. Posso
contar com a senhora?
A loura hesitou. Por fim respondeu:
―Póde. Mas ha-de de ajudar-me a impedir o casamento
de Eugenio, ou, pelo menos, a vingar-me d'elle.
[238] ―Isso mesmo é o que eu lhe estou propondo.
―Está bem!―disse a loura estendendo-lhe a
mão―póde
contar comigo.
João Lazaro embuçou-se no capote, carregou o
chapéo
sobre os olhos e dispoz-se a sahir.
―Ámanhã voltarei á mesma hora―disse
elle á
sahida.―E o signal convencionado para eu saber que
me recebe, póde ser o mesmo de hoje.
―Espere!―reflectiu a loura―Se ás vezes, por
qualquer motivo, não me fôr possivel recebel-o...
―Claro está que não dá o signal.
―Mas se me fôr preciso prevenil-o de que póde
vir mais tarde...
―Toque então a marcha da
Cadiz.
―Está bem.
―Ainda mais―tornou o Lazaro―se quizer prevenir-me
de que não venha no dia seguinte, substitua.
a marcha da
Cadiz pela
Cavallaria Rusticana. Ouvindo-a,
já fico sabendo que só poderei vir dois dias
depois.
―Não se dará esse caso, mas sempre é
bom prevenir...
―Comprehendeu-me perfeitamente. Até amanhã.
―Até amanhã.
O aventureiro tomou a mão de Leonor, depositou
n'ella galantemente um beijo, e sahiu.
[239]
XIV
Miseravel!
João Lazaro recolheu ao hotel e no dia seguinte
batia á porta de Jorge. Era uma casa modesta, de
homem só, em que se notava o natural desarranjo de
quem não tem os cuidados intelligentes de uma mulher
a dirigir o serviço domestico.
―Venho fazer-te a promettida visita―disse João
Lazaro ao amigo que estava já sentado á banca no
seu gabinete de trabalho.
―Bem vindo sejas, meu caro!―volveu-lhe Jorge,
interrompendo a escripta e indicando-lhe uma cadeira.
―Sempre a trabalhar!―disse João Lazaro com
um sorriso de curiosidade.―Em que diabo te occupas
agora?
―Tomo apontamentos para um bosquejo historico...
Bem vês, a historia é a minha paixão...
―Bonito entretenimento para quem não tem que
fazer...
―Que queres? Em alguma coisa se hade matar
o tempo...
―Olha lá, porque não collaboras tu no jornal que
eu dirijo em Lisboa?
[240] ―Eu!
―Sim, que duvida? O teu auxilio podia ser-me
de immensissima utilidade. Ha tão pouco quem escreva
bem, e tu estás ahi a desperdiçar talento n'um
trabalho
obscuro que ninguem lerá, que a ninguem importa,
quando podias brilhar entre os primeiros, tornares-te
lido, popular... Queres?
―Eu não! Detesto os jornaes politicos, bem o sabes,
e principalmente os da tua côr.
―Mas, homem, eu não te peço a
collaboração politica,
posto que ella me fosse extremamente agradavel
e vantajosa... Mas, ao menos, a collaboração
litteraria.
A litteratura pertence a todos os campos e não
impõe solidariedade de principios, nem sequer afinidade
de ideias politicas. O meu jornal está a precisar
de sangue novo... Eu esforço-me por fazer d'elle um
jornal moderno, mas sou só e todo o meu esforço
se
perde por não ter uma penna vigorosa, uma penna
brilhante que me secunde. Além d'isso, o publico
não
está educado, o publico não comprehende o que
é bom
nem o que é mau, e d'ahi resulta preferir o mau a
que está habituado, deixando no olvido e na
indifferença
o que é bom!
―Por esse lado, tenho eu a certesa de que não me
havia de escassear publico...―disse Jorge rindo.―Mas
não, meu caro, eu não estou resolvido a
collaborar
em jornaes...
―Fazes mal! O jornal é ainda hoje uma arma
formidavel, a unica que a sociedade respeita, porque
é a unica que a faz tremer.
―Mas eu não pretendo amedrontar ninguem―tornou
Jorge impassivel.―Não tenho ambições,
não alimento
a vaidade de querer tornar-me celebre por nenhum
titulo, e portanto prefiro o socego, a tranquillidade
do meu gabinete e a suave alegria de um estudo
que me não cança á lucta violenta do
jornalismo
[241]
diario, famulento Minotauro, que consome vida, actividade,
talento que a todos aproveita, menos a quem lh'o
sacrifica. Deixemos isso, meu João, e dize-me: sempre
partes hoje para Lisboa?
―Não. Demoro-me ainda por cá uns dias,
não sei
quantos...
―Bem! Folgo com a tua permanencia entre
nós... É signal de que tiveste bom acolhimento
por
parte dos teus amigos...
João Lazaro fez uma carêta de despeito.
―Uns pulhas, os taes meus amigos!
―O que! Acaso não estás contente com elles?
―Queres que te falle com franqueza? A ti posso
dizer tudo, porque és meu amigo...
―Bem sabes que não tenho o menor interesse em
revelar as confidencias que me fazes.
―Pois bem; declaro-te que estou arrependido de
me haver sacrificado por um partido de verdadeiros
bilhostres!
―Ai, já?!
―Já! E, com franqueza, agora não me fica bem
recuar... seria um escandalo compromettedor da minha
popularidade, do meu nome... Mas, acredita,
que se fosse coisa que eu pudesse fazer sem dar nas
vistas, fazia-o sem a mais leve hesitação.
―Não pódes... isso com certeza não
pódes―tornou
Jorge.
―Pois esse é todo o meu desespero! Tenho de
permanecer atrelado a estes imbecis que n'uma hora
de irreflexão surprehenderam a minha camaradagem,
e não posso tirar d'elles a vingança que merecem!
―Mas de que te queixas? Qual é o motivo do
teu desgosto?
―São uns miseraveis! Não ha quem lhes
apanhe
dinheiro para nada... Estou compromettido, cheio de
dividas, porque tenho gasto sommas enormes, tudo
[242]
para honrar o partido e sustentar o brilho do meu
nome, unica coisa que ainda dá importancia a esse
agrupamento de idiotas...
―És modesto, João!―interrompeu Jorge rindo.
―Que diabo! entre amigos não ha necessidade
de estarmos com cerimonias. A verdade é esta...
―Tens razão.
Inter amicus non est
gerigonça,
dizia-se no meu tempo. Continua.
―Pois imagina que eu tinha phantasiado um projecto
que não passava de um plano bem combinado
para arranjar uma somma de que preciso para me livrar
de apuros. Bato á porta dos correligionarios
mais endinheirados de Lisboa e digo-lhes que preciso
de vir ao norte combinar com os nossos amigos um
golpe decisivo, mas que não posso vir sem dinheiro,
porque elle é, ainda hoje como sempre, a grande arma,
a suprema força. Claro está, eu não
pedia para mim,
pedia para o serviço do partido, para o triumpho da
causa... Calcula lá as difficuldades que tive de vencer
para lhes arrancar os magros cobres com que fiz
a viagem?
―Calculo, calculo... o dinheiro é sangue!...―disse
Jorge com sarcasmo.
―É sangue... mas não teem elles
obrigação de
dar o
sangue pela patria?
―É que elles não estão talvez bem
convencidos
de que a patria és tu...
―Eu synthetiso a patria! sou a sua verdadeira
imagem, pelintra e cheio de necessidades como ella!
Dar-me dinheiro a mim é dal-o á patria, porque
ella
tem por dever sustentar-me, como eu tenho por nobre
missão o salval-a! Pois os grandes burros não se
capacitam
d'isto!
―Mas, afinal, de que tens tu vivido?
―D'elles. Hoje um, amanhã outro, todos teem
ido largando os cobres, persuadidos uns de que a coisa
[243]
estava para já, outros pela simples vaidade de se
aproximarem de mim e de partilharem da minha gloria...
Mas agora começam a retrahir-se, e sei que
alguns até já teem dito que lhes sou pesado em
demasia!
Vê tu lá, acham pesado o mais brilhante ornamento
do seu partido!
―O mundo está cheio de ingratos, meu caro!
―Agora chego ao Porto, appello para o seu esforço,
reclamo dinheiro á ordem para a
realisação
do meu plano, e contra a minha espectativa, em vez
de pôrem á minha disposição
os seus cofres, torcem
o nariz e perguntam-me quanto é preciso, como
se isto fosse uma sacca de arroz ou um costado de
bacalhau que convém regatear! É inaudito,
não
achas?
―Acho... acho que vieste sem dinheiro e que
voltas sem elle... Meu caro João, sejamos francos,
tens levado uma vida de expedientes, uma vida de
exploração politica que não podia
durar sempre...
Tu devias pensar que não ha minas inexgotaveis e
que o mais vigoroso organismo não resiste a sangrias
repetidas...
―É certo, mas eu não vim ao mundo para viver
de ar e de esperanças... Tenho trabalhado, tenho
sacrificado a minha mocidade, a minha vida, é
justo que me auxiliem aquelles que eu auxilio...
―Mas, que diabo! o teu auxilio é perfeitamente
inutil, improficuo, e os factos demonstram que, em
vez de prestares auxilio, o verdadeiro auxiliado és
tu...
―Estás muito enganado! Eu tenho segredos que
valem dinheiro... Se eu quizesse fallar, se eu quizesse
reduzir a dinheiro tudo o que sei, não teria
difficuldades...
Jorge sorriu.
―Isso tambem eu creio―disse elle.
[244] ―E afinal é o que eu venho a fazer, se vir que
elles não correspondem á sinceridade e
dedicação com
que eu os tenho servido...
―Queres dizer, se não continuarem a corresponder...
―Pois está claro! Eu não tenho
obrigação de
respeitar mais os interesses d'elles do que os meus...
Houve um silencio de alguns minutos.
―É verdade, ainda te dás com o
Avioso?―perguntou
o Lazaro.
―Continuamos a ser amigos como sempre fomos.
―Esse homem é meu adversario politico, dos
mais ferrenhos e intransigentes, mas eu pessoalmente
sympathiso com elle.
―É um bello e generoso caracter. O peor defeito
que lhe conheço é o de ser politico.
―Talvez me convenha aproximar-me d'elle...
―Quando quizeres, estou ao teu dispôr.
―Por emquanto não. Deixa ver no que isto pára...
Mas, se me fôr preciso, conto comtigo, com a tua
discreção,
com a tua amizade...
―Já sabes que estou sempre ao teu dispôr...
―Bem; havemos de fallar.
N'estas meias palavras Jorge traduziu o pensamento
intimo do aventureiro, e disse comsigo:
―Temos o chefe mudado em espião...
João Lazaro accendeu um charuto e passado um
instante, expellindo uma fumaça:
―A vida está para os vadios, para os valdevinos,
para os impostores... Olha aquelle rapaz por quem
na dias me perguntaste no
Suisso, o
Eugenio de Mello,
como vae casar-se com uma herdeira rica, hein!
―É verdade... Elle deu-te parte do seu projecto
de casamento?
―Qual! muito meu amigo, muito intimo, mas a
[245]
respeito d'esse negocio, nem pio! Os amigos, em geral,
são assim... guardam o melhor para elles.
―É que não estará ainda
definitivamente resolvido
o enlace...
―Mas tu disseste-me que sim...
―Foi o que constou. Mas tu sabes o que são os
homens de dinheiro. Primeiro que se resolvam a consentir
no casamento de uma filha, tratam de indagar
se o noivo tem bens que correspondam á fortuna que
vae adquirir... E como tu dizes que elle não tem
nada de seu...
―Não tem onde cáia morto, essa te posso eu
jurar!
―Então ahi está! talvez que não sejas
tu o unico
a saber essa particularidade com respeito ao teu amigo,
e d'ahi sobreviessem difficuldades... Apesar de que o
procurador Belchior affirma, segundo ouvi, que elle
possue importantes propriedades no Alemtejo.
―O procurador Belchior? Que sabe o procurador
Belchior ácerca do Eugenio?
―Não sei... talvez indagasse.
―Pois se indagou e diz que elle é rico, mente!
Ahi ha de haver por força grande embrulhada.
―Talvez. No emtanto, o Belchior é muito amigo
d'esse tal Eugenio, que, não obstante, gasta dinheiro
a rodos e sustenta bisarramente a fama de rapaz
rico...
―Á custa do commendador Garcia...
―Será, não contesto. Mas para ser dinheiro
fornecido
por uma mulher n'essas condições, parece-me
demasiado... Salvo se ella tambem é rica...
―Não é, mas o commendador dispende muito com
ella.
―Ainda assim! Esse rapaz deve ter outra fonte
de receita para tamanha dissipação...
―Elle tambem joga, e ás vezes a sorte favorece-o.
[246] ―O jogo constitue uma ruinosa verba de despeza
e nunca uma fonte de receita, tu bem o sabes...
―Pois é verdade; mas como tem cambiantes,
permitte a illusão...
―Nada! Com tão pobres elementos, ser-lhe-ia impossivel
viver como vive, dispender como dispende, e,
sobretudo, conquistar a amizade do procurador Belchior...
Alli deve haver mais alguma coisa...
―A não ser que o procurador vá feito com elle
para embarrilar o capitalista...―aventurou João
Lazaro.
―Tambem póde ser. Julgo o Belchior muito capaz
d'isso.
―Hei de averiguar!―tornou o João Lazaro.
―Que interesse tens tu em o saber?
―O interesse que tem todo o homem em conhecer
as patifarias do seu semelhante... Imagina tu que
este Eugenio de Mello ámanhã me apparece rico,
senhor
de grandes capitaes, personagem importante na
politica e que, por uma d'estas reviravoltas tão frequentes
no homem que muda de posição para melhor,
acaba por se esquecer de mim, a quem hoje chama
amigo e offerece ceias?...
―E se tal acontecer, que te importas tu com isso?
É mais um biltre que ficas conhecendo...
―Pois sim, mas é um biltre que me offenderá
impunemente,
se eu não tiver o cuidado de ir archivando
as notas das suas patifarias d'hoje, para lhe dar com
ellas na cara ámanhã, quando elle se fizer
fino...
―Eu, no teu logar, e realisada semelhante hypothese,
nem mais me lembrava d'elle... O meu despreso
seria castigo sufficiente á sua canalhice...
―Nada, nada, menino!―protestou João Lazaro―Quem
o inimigo poupa nas mãos lhe morre...
―Elle, porém, não é teu inimigo...
―Mas póde ainda vir a sel-o... E a experiencia
[247]
tem demonstrado que o homem previdente está
sempre a coberto dos maiores perigos...
―Tu és extraordinario, João! Se procedes assim
com os amigos, como procederás com aquelles a quem
odeias?...
―Queres ver? Olha!
João Lazaro metteu a mão no bolso e tirou d'elle
uma carteira que abriu.
―Tenho aqui―disse elle―uma relação dos
meus inimigos―a quem hei-de um dia dar lembranças
minhas... É uma espécie de lista da loteria em
que só estão os nomes dos individuos
premiados...
Vê!
Apresentou a Jorge uma longa relação de nomes
conhecidos.
―Para que é isto?―perguntou Jorge.
―Para que? São
crédores meus a quem
tenciono
pagar um dia... Ha-de ser uma
liquidação
completa!
E fez um gesto de quem aperta um laço.
―Serias capaz d'isso, João?―disse Jorge n'um
tom sombrio.
―Oh! os candieiros não se fizeram para outra
coisa! Has-de vêr... Hei-de dar-te o espectaculo
duma
illuminação
como nunca viste.
―Não darás...
―Porque?
―Porque se a
festa se preparar, eu
já sei que,
para evitar o espectaculo de uma semelhante
illuminação,
tenho de te procurar e metter-te uma bala na
cabeça antes de mais nada.
―Tu!
―Eu.
―Mas o caso não é comtigo. Tu não
és meu inimigo.
―Mas posso vir a parecêl-o, e com um homem
como tu, é preciso estar sempre prevenido...
[248]
João Lazaro estremeceu. Cobarde até ao extremo,
teve mêdo de Jorge.
―Tu bem sabes que sou muito teu amigo e que
não posso nunca duvidar da tua amizade. Alem d'isso,
eu estava gracejando...
―E a gracejar confeccionaste esta lista...
―Para apavorar simplesmente. É uma fórma
inoffensiva de vingança―aterrar os que são meus
inimigos, os que me fizeram mal!...
Jorge sorriu com despreso:
―Mau processo é esse de apavorar os inimigos
com ameaças que não tencionas realisar...―disse
elle.
―Ao menos sobresalto-lhes as noites...―replicou
o João Lazaro.
―Sobresaltas-lhes as noites sem reparares que
compromettes os teus dias... Queres um conselho,
João?
―Dize lá?...
―Rasga essa relação de nomes, que é o
mais infame
documento que pódes dar do teu caracter... e
se a mais alguem, sem ser eu, tiveste a leviandade de
a mostrar, pede-lhe que esqueça tamanha indignidade.
―Jorge, vejo que levas muito mais longe do que
eu suppunha um caso de mera brincadeira da minha
parte!―disse João Lazaro, verdadeiramente compromettido.
―É que a mim revoltam-me os actos de cobardia,
mesmo quando não passam d'uma invenção
absurda
e idiota.
Fez-se um silencio constrangido entre os dois.
―A prova de que nem sequer houve ou ha da
minha parte a intenção de realisar a
vingança quo te
disse contra os individuos cujos nomes figuram n'esta
relação, está em que t' ―A prova de que nem sequer houve ou ha da
minha parte a intenção de realisar a
vingança quo te
disse contra os individuos cujos nomes figuram n'esta
relação, está em que t'a mostro
justamente no momento
[249]
em que mais afastado vou ficar do campo que
lhes é hostil..
Jorge encarou-o.
―Vaes então mudar de campo de acção
politica?―perguntou.
―Não vou mudar, mas vou conservar-me inactivo,
indifferente. Não me entendo com semelhante canalha!
―Entendamo-nos. Se conseguires que elles te deem
dinheiro para a realisação do teu decantado
plano, o
que farás?
―Ao dinheiro? Gasto-o.
―E ao plano?
―O plano vou realisal-o para Hespanha; e é
possivel que eu por lá fique e mais elle...
Jorge riu-se.
―É então ainda uma
mystificação que projectas?
―Mystificação, propriamente dita, não
é... Estreitarei
relações com os principaes vultos da peninsula,
darei importancia ao meu partido, farei que se falle
n'elle e se julgue uma força muito mais consideravel
do que é... Isto creio que é serviço
de algum valor
e que bem vale o dinheiro que me derem...
―E se não conseguires que te dêem coisa alguma?
―Terei que pedir emprestado aos adversarios―que,
mais avisados, não me recusarão o que os meus
correligionarios me negam...
―Sejamos francos: foi para isso que me perguntaste
se eu estou ainda em boas relações com o Avioso?
―Foi.
―Mas tu sabes que o Avioso não confiará em ti,
se eu não te apresentar.
―E tu apresentar-me-has. Tens duvida n'isso?
―Conforme. Se te comprometteres comigo a não
abusar da boa fé do Avioso, estou ao teu dispôr.
Do
contrario, não.
[250] ―Até faço mais... Isto para tu veres a minha
lealdade...
―Dize lá!
―Eu não me aproximo do Avioso, para não dar
nas vistas nem despertar suspeitas... Faço-te as
communicações a ti para tu lh'as transmittires.
Já
vês que assim assumo a responsabilidade inteira para
comtigo. Acceitas?
―Está combinado. Acceito.
―Mas... tu comprehendes... a minha situação
financeira é difficil...
―Já sei. Quanto?
―Por uma vez só?
―Não. Por mez.
―Diabo! Eu não sou um espião vulgar...
―O que é bom paga-se bem. Quanto?
―Duzentos mil reis será muito?
―Não sou eu que hei-de dizel-o...
―Pois quem?
―Tu e mais ninguem. Não se compra o homem,
compra-se o serviço...
―Pois bem; que me assegurem duzentos mil reis
por mez e eu prestarei serviço que valerá muito
mais.
―Têl-os-has.
―Mas―observou João Lazaro com uma certa
hesitação―ha ainda uma coisa...
―Dize.
―Eu estou crivado de dividas... tenho compromissos
serios que não posso protelar por mais tempo.
―Bem sei, precisas de um adiantamento...
―É isso.
―Quanto calculas que te seja preciso?
―N'esta data, seiscentos mil reis não era tudo,
mas era um grande auxilio.
―Não ha duvida. Eu creio que o Avioso fará o
[251]
adiantamento. Mas, tu bem sabes, elle é curioso,
excessivamente
curioso mesmo...
―Comprehendo.
―Então, se comprehendes, não perderei tempo a
explicar-te qual a maneira de obteres do Avioso a
somma que desejas.
―Olha lá: uma relação completa dos
que mais
se salientaram nas ultimas reuniões secretas e das
resoluções n'ellas tomadas bastará por
emquanto?
―Basta.
―Nesse caso, ámanhã, se, como eu supponho, as
minhas difficuldades não forem removidas por outra
fórma, trarei tudo isso.
―Está bem.
―Visto isso, falas ainda esta noite com o Avioso?
―Fallo.
―Mas recommenda-lhe o maior segredo e
discrecção.
Que isto não transpire por modo algum.
―A quem mais interessa guardar segredo é a
elle. Bem vês que, inutilisado o agente, de nada serviria
gastar dinheiro com elle.
―É precisamente isso.
―Não ha, pois, que recommendar-lhe um segredo
que a elle proprio convem guardar.
João Lazaro accendeu outro charuto.
―Só a tua grande amizade e dedicação
me poderia
levar a isto!
Jorge sorriu.
―A minha amizade e a sovinice sordida dos teus
amigos...
―É claro. Mas se não confiasse tanto como confio
em ti, eu não acceitaria uma
aproximação de
semelhante natureza com o Avioso.
―E eu, se não fosse tão teu amigo co ―E eu, se não fosse tão teu amigo como sou e
não
sentisse um grande desejo de te auxiliar na
situação
difficil em que te encontras, tambem não tomaria sobre
[252]
mim o encargo de resolver o Avioso a dar-te
dinheiro. A proposito: sempre partes breve para
Lisboa?
―Já, já, não. Demoro-me aqui ainda
alguns dias.
Mas quando partir para Lisboa, de lá mesmo nos entenderemos.
―Perfeitamente. Outra coisa: sempre tencionas
indagar a especie de relações que existem entre
Eugenio
de Mello e o procurador Belchior?
―Estou resolvido a tratar d'isso.
―Não me disseste que esse Eugenio tem uns
amores inconfessaveis, occulta fonte de receita que
equilibra o largo orçamento em que estão
representados
todos os vicios com as respectivas verbas de
despeza?
―Digo e sustento. E a ti, como amigo, direi mais:
essa loura, ciumenta como um demonio e apaixonada
como uma gata, já sabe que Eugenio projecta casar-se.
―Sabe? Quem lh'o disse?
―Eu. Tu não me pediste segredo.
―Nem me interessa que ella o não saiba.
―Pois bem; essa loura repudiou-me quando eu
me propuz, e tomou amores com Eugenio de Mello. A
hora da minha vingança havia de chegar, e chegou.
Accendi-lhe um inferno de ciumes no coração, e a
esta
hora está ella esperando impaciente que eu lhe leve
as minhas informações e as minhas ordens.
―Eu já sabia isso.
João Lazaro encarou o amigo com espanto.
―Já?!―perguntou.
―Já.
―Como o soubeste?
―Eu sei tudo.
―Não suppuz que te interessassem os meus actos
a ponto de me mandares espionar.
[253] ―Não fui eu. Bem sabes que alguem mais do
que eu se interessa em saber a tua conducta.
―Ah! sim...―fez João Lazaro reflectindo.―Mas
esta visita que eu fiz não tinha caracter politico―e
não acho correcto que me espionem e me sigam
n'uma aventura galante com o mesmo encarniçamento
com que me perseguem quando eu conspiro...
―Vamos a saber―disse Jorge.―Tens interesse
em que Eugenio de Mello não realise o casamento
com a filha do capitalista?
João Lazaro fez uma carêta.
―Não me importo absolutamente nada com isso.
O meu empenho é só castigál-o pela sua
falta de franqueza
e lealdade para comigo. Devia ter-me dito que
ia casar, visto que se affirma meu amigo... Isto
pelo que lhe diz respeito a elle. Agora pelo que respeita
a Leonor, vingo-me e preparo o terreno para
occupar a praça, que vae ficar abandonada.
―Se Eugenio casar...
―Quer case, quer não, Leonor não lhe
perdoará.
Convencida do que o amante quiz trahil-a casando
com outra, cortará immediatamente as suas
relações
com elle, e, para se vingar, tratará de o substituir
pelo maior amigo do perfido. Ora ella sabe que o
maior amigo de Eugenio sou eu...
―E portanto, és tu o que reune as maiores probabilidades
de vir a ser admittido ao logar vago...
―Justo!
―É curiosa essa aventura!
―É curiosa, mas muito vulgar entre amigos.
―Será, mas entendo que deves proceder com cautela...
―Porque?
―Porque não te fica bem que se torne publico o
teu papel nada invejavel n'essa intriga. Queres fazer
uma coisa?
[254] ―Dize.
―Não envolvas essa endiabrada lourinha em qualquer
aventura sem me consultares primeiro. Valeu?
―Está dito. Mas não te esqueças de
fallar ao
Avioso. Estou immensamente precisado de dinheiro...
―Não me esqueço.
O aventureiro estendeu a mão a Jorge, despedindo-se.
―Adeus―disse elle―Amanhã procuro-te.
―Pois sim. Adeus.
Quando João Lazaro sahiu, Jorge, que o acompanhou
com a vista até elle transpôr a porta da sala,
murmurou:
―Sempre o mesmo biltre! Sempre o mesmo miseravel!
[255]
XV
Conluio infame
No escriptorio de Custodio de Jesus, discutiam animadamente
o dono da casa e o seu amigo e confidente,
o procurador Belchior.
―A coisa é esta:―dizia o procurador―com
pannos quentes não se faz nada.
―Ai, já? Você já é da minha
opinião?―replicou
o Custodio, triumphante.―Pois, meu amigo, se
eu, contra o meu genio, tenho usado de pannos quentes,
a culpa foi toda sua... Quando eu queria usar
da minha auctoridade de pae e levar a rapariga á
força á igreja, você não
deixou... Segui o seu parecer,
tentei levar as coisas pela brandura, e agora é
tarde para tomar outro caminho...
―Qual outro caminho?
―O caminho d'onde eu nunca devêra ter sahido...
o caminho da auctoridade e do rigor paterno... Mas
agora, depois de eu ter descido até ao ponto de chorar
diante da rapariga e de a deixar levantar a crista,
a julgar que estou dependente da sua protecção,
como é que eu hei-de chegar ao pé d'ella e
dar-lhe
dois safanões e quatro berros que a façam entrar
na ordem?