Eça de Queiroz
A Illustre
Casa de Ramires
PORTO
LIVRARIA CHARDRON
De Lello & Irmão, editores
1900
Pertence no Brazil o direito de propriedade d'esta obra ao
cidadão Francisco Alves, livreiro editor no Rio de Janeiro,
que, para a garantia que lhe offerece a lei n.º 496 de 1
d'Agosto de
1898, fez o competente deposito na Bibliotheca nacional, segundo a
determinação do art. 13.º da mesma Lei.
Porto―Imprensa
Moderna
A ILLUSTRE
CASA DE RAMIRES
Obras do mesmo auctor:
| Revista de Portugal. 4 grossos
volumes |
12$000 |
| As Minas de Salomão, 1
volume |
600 |
| Os Maias. 2 grossos
volumes |
2$000 |
| O Crime do Padre Amaro. Terceira
edição
inteiramente refundida, recomposta, e differente na fórma e
na
acção da edição primitiva,
1 grosso
volume |
600 |
| O Primo Bazilio. Terceira
edição, 1 grosso
volume. |
1$000 |
| A Reliquia, 1 grosso
volume |
1$000 |
| O Mandarim. Quarta
edição, 1
volume |
500 |
| Correspondencia de Fradique Mendes,
1
volume |
600 |
No prelo:
A ILLUSTRE
CASA DE RAMIRES
I
Desde as quatro horas da tarde, no calor e silencio do domingo de
Junho, o Fidalgo da Torre, em chinellos, com uma quinzena de linho
envergada sobre a camisa de chita côr de rosa, trabalhava.
Gonçalo Mendes Ramires (que n'aquella sua velha
aldêa de Santa Ireneia, e na villa
visinha, a aceada e vistosa Villa-Clara, e mesmo na cidade, em
Oliveira, todos conheciam pelo «Fidalgo da Torre»)
trabalhava n'uma
Novella Historica,
A Torre de D. Ramires,
destinada ao primeiro
numero dos
Annaes de Litteratura e de Historia,
Revista nova, fundada por
José
Lucio Castanheiro, seu antigo camarada de Coimbra, nos tempos do
Cenaculo Patriotico, em casa das Severinas.
[2] A livraria, clara e
larga, escaiolada d'azul, com pesadas estantes de
pau preto onde repousavam, no pó e na gravidade das lombadas
de carneira, grossos folios de convento e de fôro, respirava
para o pomar por duas janellas, uma de peitoril e poiaes de pedra
almofadados de velludo, outra mais rasgada, de varanda, frescamente
perfumada pela madresilva que se enroscava nas grades. Deante d'essa
varanda, na claridade forte, pousava a mesa―mesa immensa de
pés
torneados, coberta com uma colcha desbotada de damasco vermelho, e
atravancada n'essa tarde pelos rijos volumes da
Historia
Genealogica, todo
o
Vocabulario de Bluteau, tomos soltos do
Panorama,
e ao canto, em
pilha, as obras de Walter Scott sustentando um copo cheio de cravos
amarellos. E d'ahi, da sua cadeira de couro, Gonçalo Mendes
Ramires, pensativo
deante das tiras de papel almaço, roçando pela
testa a rama da
penna de pato, avistava sempre a inspiradora da sua Novella,―a Torre,
a antiquissima Torre, quadrada e negra sobre os limoeiros do pomar que
em redor crescera, com uma pouca d'hera no cunhal rachado, as fundas
frestas gradeadas de ferro, as ameias e a miradoira bem cortadas no
azul
de Junho, robusta sobrevivencia do Paço acastellado, da
fallada Honra de Santa
Ireneia, solar dos Mendes Ramires desde os meiados do seculo X.
Gonçalo Mendes Ramires (como confessava esse
[3] severo
genealogista, o morgado de Cidadelhe) era certamente o mais genuino e
antigo fidalgo de Portugal. Raras familias, mesmo coevas, poderiam
traçar a sua ascendencia, por linha varonil e sempre pura,
até aos vagos
Senhores que entre Douro e Minho mantinham castello e terra murada
quando os
barões francos desceram, com pendão e caldeira,
na hoste do
Borguinhão. E os Ramires entroncavam limpidamente a sua
casa, por linha pura e sempre varonil, no filho do Conde Nuno Mendes,
aquelle agigantado Ordonho Mendes, senhor de Treixedo e de Santa
Ireneia, que casou em 967 com Dona Elduara, Condessa de Carrion, filha
de Bermudo o
Gottoso,
Rei de
Leão.
Mais antigo na Hespanha que o Condado Portucalense, rijamente, como
elle, crescera e se afamára o Solar de Santa
Ireneia―resistente como elle ás fortunas e aos tempos. E
depois, em cada lance forte
da Historia de Portugal, sempre um Mendes Ramires avultou
grandiosamente pelo heroismo, pela lealdade, pelos nobres espiritos. Um
dos mais
esforçados da linhagem, Lourenço, por alcunha o
Cortador,
collaço de Affonso Henriques (com quem na mesma noite, para
receber a pranchada de cavalleiro, vellára as armas na
Sé de Zamora),
apparece logo na batalha d'Ourique, onde tambem avista Jesus-Christo
sobre finas nuvens d'ouro, pregado n'uma cruz de dez covados.
[4] No cerco
de Tavira, Martim Ramires, freire de San-Thiago, arromba a golpes de
acha um postigo da
Couraça, rompe por entre as cimitarras que lhe decepam as
duas mãos,
e surde na quadrella da torre albarran, com os dous pulsos a esguichar
sangue, bradando alegremente ao Mestre:―«D. Payo Peres,
Tavira
é nossa! Real, Real por Portugal!» O velho Egas
Ramires, fechado na sua
Torre, com a levadiça erguida, as barbacans
erriçadas de
frecheiros, nega acolhida a El-Rei D. Fernando e Leonor Telles que
corriam o Norte em folgares e caçadas―para que a
presença da
adultera
não macule a pureza extreme do seu solar! Em Aljubarrota,
Diogo Ramires o
Trovador
desbarata um troço de bésteiros, mata o
Adiantado-mór de Galliza, e por elle, não por
outro, cahe derribado o pendão real de Castella, em que ao
fim da lide seu irmão d'armas, D. Antão d'Almada,
se
embrulhou para o levar, dançando e cantando, ao Mestre
d'Aviz. Sob os muros
d'Arzilla combatem magnificamente dois Ramires, o edoso Sueiro e seu
neto
Fernão, e deante do cadaver do velho, trespassado por quatro
virotes, estirado no pateo da Alcaçova ao lado do corpo do
Conde de Marialva―Affonso V
arma juntamente cavalleiros o Principe seu filho e Fernão
Ramires, murmurando entre lagrimas: «Deus vos queira
tão bons como
esses que ahi jazem!...» Mas eis que Portugal se faz aos
mares! E
[5] raras
são
então as armadas e os combates de Oriente em que se
não esforce um
Ramires―ficando na lenda tragico-maritima aquelle nobre
capitão do Golpho Persico,
Balthazar Ramires, que, no naufragio da
Santa Barbara,
reveste a sua pesada armadura, e no castello de prôa, hirto,
se afunda em silencio
com a náu que se afunda, encostado á sua grande
espada. Em
Alcacer-Kebir, onde dous Ramires sempre ao lado d'El-Rei encontram
morte soberba, o mais novo, Paulo Ramires, pagem do Guião,
nem lezo nem ferido,
mas não querendo mais vida pois que El-Rei não
vivia, colhe um
ginete solto, apanha uma acha d'armas, e gritando:―«Vai-te,
alma, que
já tardas, servir a de teu senhor!»―entra na
chusma mourisca e para
sempre desapparece. Sob os Philippes, os Ramires, amuados, bebem e
caçam nas suas terras. Reapparecendo com os
Braganças, um Ramires,
Vicente, Governador das Armas d'Entre-Douro e Minho por D.
João IV,
mette a Castella, destroça os Hespanhoes do Conde, de
Venavente, e
toma Fuente-Guiñal, a cujo furioso saque preside da varanda
d'um
Convento de Franciscanos, em mangas de camisa, comendo talhadas de
melancia.
Já, porém, como a nação,
degenera a nobre
raça... Alvaro Ramires, valido de D. Pedro II,
brigão façanhudo, atordôa
Lisboa com arruaças, furta a mulher d'um Védor da
Fazenda que mandára matar a
pauladas
[6] por
pretos, incendeia em Sevilha depois de perder cem dobrões
uma casa
de tavolagem, e termina por commandar uma urca de piratas na frota de
Murad o
Maltrapilho. No reinado do Sr. D.
João
V Nuno Ramires
brilha na Côrte, ferra as suas mulas de prata, e arruina a
casa celebrando sumptuosas festes de Egreja, em que canta no
côro vestido com o habito
de Irmão Terceiro de S. Francisco. Outro Ramires,
Christovam, Presidente da Mesa de Consciencia e Ordem, alcovita os
amores d'el-rei D. José
I com a filha do prior de Sacavem. Pedro Ramires, Provedor e
Feitor-mór das Alfandegas, ganha fama em todo o Reino pela
sua obesidade, a sua chalaça, as suas proezas de
glutão no
Paço da Bemposta com o arcebispo de Thessalonica. Ignacio
Ramires acompanha D. João VI ao
Brazil como Reposteiro-Mór, negoceia em negros, volta com um
bahú carregado de peças d'ouro que lhe rouba um
administrador, antigo frade capuchinho, e morre no seu solar da cornada
de um boi. O avô de
Gonçalo, Damião, doutor liberal dado
ás Musas, desembarca com D. Pedro no Mindello,
compõe as empoladas proclamações do
Partido, funda um
jornal, o
Anti-Frade, e depois das Guerras Civis
arrasta uma existencia rheumatica em Santa Ireneia, embrulhado no seu
capotão de briche, traduzindo
para vernaculo, com um lexicon e um pacote de simonte, as obras de
Valerius
[7] Flaccus. O pae de
Gonçalo, ora Regenerador, ora Historico,
vivia em
Lisboa no Hotel Universal, gastando as solas pelas escadarias do Banco
Hypothecario e pelo lagedo da Arcada, até que um Ministro do
Reino, cuja
concubina, corista de S. Carlos, elle fascinára, o nomeou,
(para o
afastar da Capital) Governador Civil de Oliveira. Gonçalo,
esse, era
bacharel formado com um R no terceiro anno.
E n'esse anno justamente se estreou nas Lettras Gonçalo
Mendes Ramires. Um seu companheiro de casa, José Lucio
Castanheiro, algarvio
muito magro, muito macilento, de enormes oculos azues, a quem
Simão Craveiro chamava o «Castanheiro
Patriotinheiro»,
fundára um Semanario, a
Patria―«com
o alevantado intento
(affirmava sonoramente o
Prospecto) de despertar, não só na mocidade
Academica, mas
em todo o paiz, do cabo Silleiro ao cabo de Santa Maria, o amor
tão arrefecido das
bellezas, das grandezas e das glorias de Portugal!» Devorado
por essa
idéa, «a sua Idéa», sentindo
n'ella uma carreira, quasi uma
missão, Castanheiro incessantemente, com ardor teimoso de
Apostolo, clamava pelos botequins da Sophia, pelos claustros da
Universidade, pelos quartos dos amigos entre a fumaça dos
cigarros,―«a necessidade,
caramba, de reatar a tradição! de desatulhar,
caramba, Portugal da
alluvião do estrangeirismo!»―Como o Semanario
appareceu
[8]
regularmente
durante tres Domingos, e publicou realmente estudos recheiados de
griphos e
citações sobre as
Capellas da Batalha,
a
Tomada
d'Ormuz, a
Embaixada de Tristão da
Cunha, começou logo a ser
considerado
uma aurora, ainda pallida mas segura, de Renascimento Nacional. E
alguns bons espiritos da Academia, sobretudo os companheiros de casa do
Castanheiro, os tres que se occupavam das cousas do saber e da
intelligencia (porque dos tres restantes um era homem de cacete e
forças, o outro
guitarrista, e o outro «premiado»), passaram,
aquecidos por aquella
chamma patriotica, a esquadrinhar na Bibliotheca, nos grossos tomos
nunca d'antes visitados de Fernam Lopes, de Ruy de Pina, d'Azurara,
proezas e
lendas―«só portuguezas, só nossas
(como supplicava o Castanheiro), que
refizessem á nação abatida uma
consciencia da sua
heroicidade!» Assim crescia o Cenaculo Patriotico da casa das
Severinas. E foi então que
Gonçalo Mendes Ramires, moço muito affavel,
esvelto e loiro, d'uma
brancura sã de porcelana, com uns finos e risonhos olhos que
facilmente se
enterneciam, sempre elegante e apurado na batina e no verniz dos
sapatos―apresentou ao Castanheiro, n'um domingo depois do
almoço, onze
tiras de papel intituladas
D. Guiomar. N'ellas se
contava a velhissima
historia da castellã, que, emquanto longe nas guerras do
Ultra-mar o castellão barbudo
[9]
e
cingido de ferro atira a acha-d'armas
ás portas de Jerusalem, recebe ella na sua camara, com os
braços
nús, por noite de Maio e de lua, o pagem de annellados
cabellos... Depois ruge o inverno, o castellão volta, mais
barbudo, com um bordão de
romeiro. Pelo villico do Castello, homem espreitador e de amargos
sorrisos, conhece a
traição, a macula no seu nome tão
puro, honrado em todas as
Hespanhas! E ai do pagem! ai da dama! Logo os sinos tangem a finados.
Já no
patim da Alcaçova o verdugo, de capuz escarlate, espera,
encostado ao
machado, entre dous cepos cobertos de pannos de dó... E no
final
choroso da
D. Guiomar, como em todas essas
historias do Romanceiro d'Amor,
tambem brotavam rente ás duas sepulturas, escavadas no
êrmo, duas roseiras brancas a que o vento enlaçava
os aromas e as rosas. De
sorte que (como notou José Lucio Castanheiro,
coçando
pensativamente o queixo) não resaltava n'esta
D.
Guiomar nada que fosse
«só
portuguez, só nosso, abrolhando do sólo e da
raça!» Mas
esses amores lamentosos passavam n'um solar de Riba-Côa: os
nomes dos cavalleiros, Remarigues,
Ordonho, Froylas, Gutierres, tinham um delicioso sabor godo: em cada
tira resoavam bravamente os genuinos: «
Bofé!...
Mentes
pela gorja!... Pagem, o meu murzello!...»: e
através de toda
esta vernaculidade circulava uma sufficiente turba de
cavallariços com saios
alvadios, beguinos
[10]
sumidos
na sombra das cugulas, ovençaes
sopezando
fartas bolsas de couro, uchões espostejando nedios lombos de
cêrdo... A Novella portanto marcava um salutar retrocesso ao
sentimento nacional.
―E depois (accrescentava o Castanheiro) este velhaco do
Gonçalinho surde com um estylo terso, masculo, de boa
côr archaica...
D'optima côr archaica! Lembra até o
Bobo,
o
Monge
de Cister!... A
Guiomar, realmente, é uma castellã vaga, da
Bretanha ou da
Aquitania. Mas no villico, mesmo no castellão, já
transparecem
portuguezes, bons portuguezes de fibra e d'alma, d'entre Douro e
Cavado... Sim senhor! Quando o Gonçalinho se enfronhar
dentro do nosso passado,
das nossas chronicas, temos emfim nas Lettras um homem que sente bem o
torrão, sente bem a raça!
D. Guiomar encheu tres paginas da
Patria.
N'esse Domingo, para celebrar a sua entrada na Litteratura,
Gonçalo Mendes
Ramires pagou aos camaradas do Cenaculo e a outros amigos uma
ceia―onde foi acclamado, logo depois do frango com ervilhas, quando os
moços do
Camolino, esbaforidos, renovavam as garrafas de Collares, como
«o nosso
Walter Scott!» Elle, de resto, annunciára
já
com simplicidade um Romance em dois volumes, fundado nos annaes da sua
Casa, n'um rude feito de sublime orgulho de Tructesindo Mendes Ramires,
o amigo e
[11]
Alferes-mór
de D. Sancho I. Por temperamento, por aquelle saber especial de trajes
e alfaias que revelára na
D. Guiomar,
até pela
antiguidade da sua linhagem, Gonçalinho parecia
gloriosamente votado a
restaurar em Portugal o Romance Historico. Possuia uma
missão―e
começou logo a passear pela Calçada, pensativo,
com o gorro sobre os olhos,
como quem anda reconstruindo um mundo. No acto d'esse anno levou o R.
Quando regressou das ferias para o Quarto-Anno já
não refervia na rua da Mathematica o Cenaculo ardente dos
Patriotas. O Castanheiro, formado, vegetava em Villa Real de Santo
Antonio: com elle desapparecera a
Patria:
e os
moços zelosos que na
Bibliotheca
esquadrinhavam as Chronicas de Fernam Lopes e de Azurara, desamparados
por aquelle Apostolo que os levantava, recahiram nos romances de
Georges Ohnet e retomaram á noite o taco nos bilhares da
Sophia.
Gonçalo voltava tambem mudado, de luto pelo pae que morrera
em Agosto, com a barba crescida, sempre affavel e suave,
porém mais grave, averso a ceias e a
noites errantes. Tomou um quarto no Hotel Mondego, onde o servia, de
gravata branca, um velho creado de Santa Ireneia, o Bento:―e os seus
companheiros preferidos foram tres ou quatro rapazes que se preparavam
para a Politica, folheavam attentamente o
Diario das Camaras,
conheciam
[12] alguns
enredos da Côrte, proclamavam a necessidade
d'uma «Orientação positiva» e
d'um
«largo fomento rural», consideravam como leviandade
reles e jacobina a irreverencia da Academia pelos Dogmas, e, mesmo
passeando ao luar no Choupal ou no Penedo da Saudade, discorriam com
ardor sobre os dous Chefes de Partido―o Braz Victorino, o homem novo
dos Regeneradores, e o velho Barão de S. Fulgencio,
chefe classico dos Historicos. Inclinado para os Regeneradores, por que
a
Regeneração lhe representava tradicionalmente
idéas de conservantismo,
de elegancia culta e de generosidade, Gonçalo frequentou
então
o Centro Regenerador da Couraça, onde aconselhava
á noite, tomando
chá preto, «o fortalecimento da auctoridade da
Corôa», e
«uma forte expansão colonial!» Depois,
logo na Primavera, desmanchou alegremente
esta gravidade politica: e ainda tresnoitou, na taberna do Camolino, em
bacalhoadas festivas, entre o estridor das guitarras. Mas
não alludio mais ao seu grande Romance em dous volumes: e ou
recuára ou
se esquecera da sua missão d'Arte Historica. Realmente
só na
Paschoa do Quinto-Anno retomou a penna―para lançar, na
Gazeta
do Porto,
contra
um seu patricio, o Dr. André Cavalleiro, que o Ministerio do
S.
Fulgencio nomeára Governador civil de Oliveira, duas
correspondencias
muito acerbas, d'um rancor intenso e pessoal, (a ponto de chasquear
«a feroz
[13]
bigodeira
negra de S. Ex.
a»). Assignara
Juvenal, como
outr'ora o pae, quando publicava communicados politicos d'Oliveira
n'essa mesma
Gazeta do Porto,
jornal amigo, onde um
Villar Mendes, seu remoto
parente, redigia a
Revista Estrangeira. Mas
lêra
aos amigos no
Centro―«os dous botes decisivos que atirariam o Sr.
Cavalleiro abaixo do seu
Cavallo!» E um d'esses moços serios, sobrinho do
Bispo de Oliveira,
não disfarçou o seu assombro:
―Oh Gonçalo, eu sempre pensei que você e o
Cavalleiro eram intimos! Se bem me lembro quando você chegou
a Coimbra, para os
Preparatorios, viveu na casa do Cavalleiro, na rua de S.
João... Pois
não ha uma amizade tradicional, quasi historica, entre
Ramires e Cavalleiros?... Eu pouco conheço Oliveira, nunca
andei para os vossos sitios; mas
até creio que Corinde, a quinta do Cavalleiro, pega com
Santa Ireneia!
E Gonçalo enrugou a face, a sua risonha e lisa face, para
declarar seccamente que Corinde não pegava com Santa
Ireneia: que
entre as duas terras corria muito justificadamente a ribeira do
Coice:
e que o Sr. André Cavalleiro, e sobre tudo
Cavallo, era um animal
detestavel que pastava na outra margem!―O sobrinho do Bispo saudou e
exclamou:
―Sim senhor, boa piada!
Um anno depois da Formatura, Gonçalo foi a
[14] Lisboa por causa
da hypotheca da sua quinta de Praga, junto a Lamego, que certo
fôro annual
de dez réis e meia gallinha, devido ao Abbade de Praga,
andava
empecendo terrivelmente nos Conselhos do Banco Hypothecario;―e tambem
para conhecer mais estreitamente o seu Chefe, o Braz Victorino, mostrar
lealdade e submissão partidaria, colher algum fino conselho
de conducta Politica. Ora uma noite, voltando de jantar em casa da
velha Marqueza de Louredo, a «tia Louredo», que
morava a Santa Clara,
esbarrou no Rocio com José Lucio Castanheiro;
então empregado no
Ministerio da Fazenda, na repartição dos Proprios
Nacionaes. Mais defecado,
mais macilento, com
uns oculos mais largos e mais tenebrosos, o Castanheiro ardia todo,
como em Coimbra, na chamma da sua Idéa―«a
resurreição do sentimento portuguez!» E
agora, alargando a
proporções condignas da Capital o plano
da
Patria, labutava
devoradoramente na
creação
d'uma Revista quinzenal de setenta paginas, com capa azul, os
Annaes
de Litteratura e
de Historia. Era uma noite de Maio, macia e
quente. E, passeando
ambos em torno das fontes seccas do Rocio, Castanheiro, que
sobraçava
um rolo de papel e um gordo folio encadernado em bezerro, depois de
recordar as cavaqueiras geniaes da rua da Misericordia, de maldizer a
falta de intellectualidade de Villa Real de Santo Antonio―voltou
[15] soffregamente
á sua Idéa, e supplicou a Gonçalo
Mendes Ramires
que lhe cedesse para os
Annaes
esse Romance que
elle annunciára
em Coimbra, sobre
o seu avoengo Tructesindo Ramires, Alferes-mór de Sancho I.
Gonçalo, rindo, confessou que ainda não
começára essa grande obra!
―Ah! murmurou o Castanheiro, estacando, com os negros oculos sobre
elle, duros e desconsolados. Então você
não persistio?... Não permaneceu fiel
á Idéa?...
Encolheu os hombros, resignadamente, já acostumado, atravez
da sua missão, a estes desfallecimentos do Patriotismo. Nem
consentio que Gonçalo, humilhado perante aquella
Fé que se
mantivera tão pura e servidôra―alludisse, como
desculpa, ao inventario laborioso
da Casa, depois da morte do papá...
―Bem, bem! Acabou!
Proscratinare luzitanum est.
Trabalha agora no verão... Para Portuguezes, menino, o
verão
é o tempo das bellas fortunas e dos rijos feitos. No
verão nasce Nun'Alvares no Bomjardim!
No verão se vence em Aljubarrota! No verão chega
o Gama á
India!... E no verão vae o nosso Gonçalo escrever
uma novellasinha sublime!... De resto
os
Annaes só
apparecem em Dezembro, caracteristicamente no Primeiro de
Dezembro. E você em tres mezes resuscita um mundo. Serio,
Gonçalo Mendes!...
[16]
É
um dever, um santo dever, sobretudo para os novos, collaborar nos
Annaes.
Portugal, menino, morre por falta de sentimento nacional!
Nós estamos immundamente morrendo do mal de não
ser Portuguezes!
Parou―ondeou o braço magro, como a correia d'um latego,
n'um gesto que açoutava o Rocio, a Cidade, toda a
Nação. Sabia o amigo Gonçalinho o
segredo d'esta borracheira sinistra? É que, dos Portuguezes,
os peores despresavam a Patria―e os melhores ignoravam a Patria. O
remedio?... Revelar Portugal, vulgarisar Portugal. Sim, amiguinho!
Organizar, com estrondo, o reclamo de Portugal, de modo que todos o
conheçam―ao menos como se conhece o Xarope Peitoral de
James, hein? E que todos o adoptem―ao menos como se adoptou o
sabão do Congo, hein? E
conhecido, adoptado, que todos o amem emfim, nos seus
heróes, nos seus
feitos, mesmo nos seus defeitos, em todos os seus padrões, e
até nas veras pedrinhas das suas calçadas! Para
esse fim, o maior a
emprehender n'este apagado seculo da nossa Historia, fundava elle os
Annaes.
Para berrar! Para atroar Portugal, aos bramidos sobre os telhados, com
a noticia inesperada da sua grandeza! E aos descendentes dos que
outr'ora fizeram o Reino incumbia, mais que aos outros, o cuidado
piedoso de o refazer... Como? Reatando a
tradição, caramba!
[17]―Assim,
vocês! Por essa historia de Portugal
fóra, vocês são uma enfiada de Ramires
de toda a belleza. Mesmo o desembargador, o que comeu n'uma ceia de
Natal dois leitões!... É apenas uma
barriga. Mas que barriga! Ha n'ella uma pujança heroica que
prova
raça, a raça mais forte
do que
promette a força humana, como
diz
Camões. Dois leitões, caramba! Até
enternece!... E os outros Ramires, o de Silves,
o de Aljubarrota, os de Arzilla, os da India! E os cinco valentes, de
quem você talvez nem saiba, que morreram no Salado! Pois bem,
resuscitar estes varões, e mostrar n'elles a alma
façanhuda,
o querer sublime que nada verga, é uma soberba
lição aos
novos... Tonifica, caramba! Pela consciencia que renova de termos sido
tão grandes sacode
este chocho consentimento nosso em permanecermos pequenos! É
o que eu
chamo reatar a tradição... E depois feito por
você
proprio, Ramires, que
chic! Caramba, que
chic!
É um fidalgo, o
maior fidalgo de
Portugal, que, para mostrar a heroicidade da Patria, abre simplesmente,
sem sahir do seu solar, os archivos da sua Casa, velha de mais de mil
annos.
É de rachar!... E você não precisa
fazer um grosso
romance... Nem um romance muito desenvolvido está na indole
militante da Revista.
Basta um conto, de vinte ou trinta paginas... Está claro, os
Annaes
por
ora não podem pagar. Tambem, você não
precisa!
[18] E que
diabo!
não se trata de pecunia, mas d'uma grande
renovação social... E depois,
menino, a litteratura leva a tudo em Portugal. Eu sei que o
Gonçalo em Coimbra,
ultimamente, frequentava o Centro Regenerador. Pois, amigo, de folhetim
em folhetim, se chega a S. Bento! A penna agora, como a espada
outr'ora, edifica reinos... Pense você n'isto! E adeus! que
ainda hoje tenho de
copiar, para lettra christã, este estudo do Henriques sobre
Ceylão... Você não conhece o
Henriques?... Não conhece. Ninguem conhece. Pois
quando na Europa, n'essas grandes Academias da Europa, ha uma duvida
sobre a Historia ou a Litteratura cingaleza, gritam para cá,
para o
Henriques!
Abalou, agarrado ao seu rolo e ao seu tomo―e Gonçalo ainda
o avistou, na porta e claridade da tabacaria Nunes, agitando o
braço
esguio d'Apostolo deante d'um sujeito obeso, de vasto collete branco,
que recuava, com espanto, assim perturbado no quieto gozo do seu grosso
charuto e da doce noite de Maio.
O Fidalgo da Torre recolheu para o Bragança, impressionado,
ruminando a
idéa do Patriota. Tudo n'ella o seduzia―e lhe convinha: a
sua collaboração n'uma Revista consideravel, de
setenta paginas,
em companhia de Escriptores doutos, lentes das Escolas, antigos
Ministros, até Conselheiros d'Estado:
[19] a antiguidade da sua
raça, mais antiga que o Reino, popularisada por uma historia
d'heroica belleza, em que com tanto fulgor resaltavam a bravura e a
soberba d'alma dos Ramires; e emfim a seriedade academica do seu
espirito, o seu nobre gosto pelas investigações
eruditas, apparecendo no momento em
que tentava a carreira do Parlamento e da Politica!... E o trabalho, a
composição moral dos vetustos Ramires, a
resurreição archeologica do
viver Affonsino, as cem tiras de almaço a atulhar de prosa
forte―não o
assustavam... Não! porque felizmente já possuia a
«sua
obra»―e cortada em bom panno, alinhavada com linha habil.
Seu tio Duarte, irmão de sua
mãe (uma senhora de Guimarães, da casa das
Balsas), nos seus annos de
ociosidade e imaginação, de 1845 a 1850, entre a
sua carta
de Bacharel e o seu Alvará de Delegado, fôra
poeta―e
publicára no
Bardo,
semanario de Guimarães, um Poemeto em verso solto, o
Castello
de Santa
Ireneia, que assignára com duas iniciaes D.B.
esse castello era o seu, o
Paço antiquissimo de que restava a negra torre entre os
limoeiros da horta. E o Poemeto cantava, com romantico garbo, um lance
de altivez feudal em que se sublimára Tructesindo Ramires,
Alferes-mór
de Sancho I, durante as contendas de Affonso II e das senhoras
Infantas. Esse volume do
Bardo,
encadernado em marroquim, com o
brazão dos Ramires,
o açor negro
[20]
em
campo escarlate, ficára no Archivo da Casa como um
trecho da Chronica heroica dos Ramires. E muitas vezes em pequeno
Goncalo recitára, ensinados pela mamã, os
primeiros
versos do Poema, de tão harmoniosa melancolia:
Na pallidez da tarde, entre a folhagem
Que o outomno amarellece...
Era com esse sombrio feito do seu vago avoengo que Gonçalo
Mendes Ramires decidira em Coimbra, quando os camaradas da
Patria
e das ceias o acclamavam «o nosso Walter Scott»,
compôr um Romance moderno, d'um realismo épico, em
dous robustos volumes, formando um estudo
ricamente colorido da Meia-Edade Portugueza... E agora lhe servia, e
com deliciosa facilidade, para essa Novella curta e sobria, de trinta
paginas, que
convinha aos
Annaes.
No seu quarto do Bragança abrio a varanda. E
debruçado, acabando o charuto, na dormente suavidade da
noite de Maio, ante a magestade silenciosa do rio e da lua, pensava
regaladamente que nem teria a canceira d'esmiuçar as
chronicas e os folios massudos... Com
effeito! toda a reconstruccão Historica a
realisára, e
solidamente, com um saber destro, o tio Duarte. O Paço
acastellado de Santa Ireneia,
com as fundas carcovas, a torre albarran,
[21]
a alcaçova, a masmorra, o pharol
e o balsão: o velho Tructesindo, enorme, e os seus flocos de
cabellos e barbas ancestraes derramados sobre a loriga de malha; os
servos mouriscos, de surrões de couro, cavando os regueiros
da horta; os oblatos
resmungando á lareira as
Vidas dos Santos;
os
pagens jogando no campo
do tavolado―tudo resurgia, com veridico realce, no Poemeto do tio
Duarte! Ainda recordava mesmo certos lances: o truão
açoutado; o festim e os uchões que arrombavam as
cubas de cerveja; a jornada de
Violante Ramires para o Mosteiro de Lorvão...
Junto à fonte mourisca,
entre
os ulmeiros,
A cavalgada pára...
O enrêdo todo com a sua paixão de grandeza
barbara, os recontros bravios
em que se saciam a punhal os rancores de raça, o heroico
fallar despedido de labios de ferro―lá estavam nos versos
do titi,
sonoros e bem balançados...
Monge, escuta! O solar de D. Ramires
Por si, e pedra a pedra se aluira,
Se jámais um bastardo lhe
pisasse,
Com sapato aviltado, as lages puras!
[22] Na realidade
só lhe restava transpôr as formas
fluidas do Romantismo de1846 para a sua prosa tersa e mascula (como
confessava o Castanheiro),
de optima côr archaica, lembrando o
Bobo.
E era um plagio?
Não! A quem, com mais seguro direito do que a elle, Ramires,
pertencia a memoria dos Ramires historicos? A
resurreição do
velho Portugal, tão bella no
Castello de Santa
Ireneia,
não era obra
individual do tio Duarte―mas dos Herculanos, dos Rebellos, das
Academias, da
erudição esparsa. E, de resto, quem conhecia hoje
esse Poemeto, e mesmo o
Bardo,
delgado semanario que perpassára,
durante cinco
mezes, ha cincoenta annos, n'uma villa de Provincia?...! Não
hesitou
mais, seduzido. E em quanto se despia, depois de beber aos goles um
copo d'agua com bicarbonato de soda, já martellava a
primeira
linha do conto, á maneira lapidaria da
Salammbô:―«Era
nos Paços de Santa Ireneia, por uma noite d'inverno, na sala
alta da Alcaçova...»
Ao outro dia, procurou José Lucio Castanheiro na
repartição dos Proprios Nacionaes, á
pressa,―por que, depois d'uma conferencia no
Banco Hypothecario, ainda promettera acompanhar as primas Chellas a uma
Exposição de Bordados na livraria Gomes. E
annunciou ao Patriota que, positivamente, lhe assegurava para o
primeiro numero dos
Annaes
a Novella,
[23] a que
já decidira o titulo―a
Torre de
D. Ramires:
―Que lhe parece?
Deslumbrado, José Castanheiro atirou os magrissimos
braços, resguardados pelas mangas d'alpaca, até
á abobada do esguio
corredor em que o recebera:
―Sublime!...
A Torre de D. Ramires!... O grande
feito de Tructesindo Mendes Ramires contado por Gonçalo
Mendes Ramires!... E tudo
na mesma
Torre! Na Torre o velho Tructesindo pratica o feito; e setecentos annos
depois, na mesma Torre, o nosso Gonçalo conta o feito!
Caramba, menino, carambissima! isso é que é
reatar a
tradição!
Duas semanas depois, de volta a Santa Ireneia, Gonçalo
mandou um creado
da quinta, com uma carroça, a Oliveira, a casa de seu
cunhado José Barrôlo, casado com Gracinha Ramires,
para lhe trazer da rica
livraria classica que o Barrôlo herdára do tio
Deão da Sé todos os volumes da
Historia
Genealogica―«e (accrescentava
n'uma carta) todos
os cartapacios que por lá encontrares com o titulo de
«Chronicas do Rei Fulano...» Depois, do
pó das suas estantes,
desenterrou as obras de Walter Scott, volumes desirmanados do
Panorama,
a
Historia de Herculano, o
Bobo,
o
Monge de
Cistér. E assim
[24] abastecido, com
uma farta rêsma de tiras d'almaço sobre a banca,
começou a repassar o Poemeto do tio Duarte, inclinado ainda
a transpôr para a
aspereza d'uma manhã de Dezembro, como mais congenere com a
rudeza feudal
dos seus avós, aquella lusida cavalgada de donas, monges e
homens
d'armas que o tio Duarte estendera, atravez d'uma suave melancolia
outomnal, pelas veigas do Mondêgo...
Na pallidez da tarde, entre a folhagem
Que o outomno amarellece...
Mas, como era então Junho e a lua crescia,
Gonçalo determinou por fim aproveitar as
sensações de calor, luar e
arvoredos, que lhe fornecia a aldeia―para levantar, logo á
entrada da sua Novella, o
negro e immenso Paço de Santa Ireneia, no silencio d'uma
noite d'Agosto, sob
o resplendor da lua cheia.
E já enchera desembaraçadamente, ajudado pelo
Bardo, duas tiras, quando uma
desavença com o seu caseiro, o Manoel Relho, que
amanhava a quinta por oitocentos mil reis de renda, veio perturbar, na
fresca e noviça inspiração do seu
trabalho, o
Fidalgo da Torre. Desde o Natal o Relho, que durante annos de
compostura e ordem se emborrachava sempre aos domingos com alegria e
com pachorra, começára
a tomar, tres e quatro vezes por semana, bebedeiras
[25]
desabridas, escandalosas, em que espancava a mulher, atroava a quinta
de berros, e saltava para a estrada, esguedelhado, de
varapáu, desafiando a quieta aldeia. Por
fim, uma noite em que Gonçalo, á banca, depois do
chá, laboriosamente escavava os fossos do Paço de
Santa Ireneia―de repente a Rosa
cozinheira rompeu a gritar «Aqui d'El-rei contra o
Relho!» E, atravez
dos seus brados e dos latidos dos cães, uma pedra, depois
outra, bateram na
varanda veneravel da livraria! Enfiado, Gonçalo Mendes
Ramires pensou no
revólver... Mas justamente n'essa tarde o creado, o Bento,
descêra aquella
sua velha e unica arma á cozinha para a desenferrujar e
arear!
Então, atarantado, correu ao quarto, que fechou á
chave, empurrando contra a
porta a commoda com tão desesperada anciedade que frascos de
crystal, um cofre de tartaruga, até um crucifixo, tombaram e
se partiram.
Depois gritos e latidos findaram no pateo―mas Gonçalo
não se
arredou n'essa noite d'aquelle refugio bem defendido, fumando cigarros,
ruminando um furor sentimental contra o Relho, a quem tanto
perdoára, sempre
tão affavelmente tratára, e que apedrejava as
vidraças da Torre! Cêdo, de manhã
convocou o Regedor; a Rosa, ainda tremula, mostrou no
braço as marcas roxas dos dedos do Relho; e o homem, cujo
arrendamento findava em Outubro, foi despedido da quinta com a mulher,
[26] a arca e o catre.
Immediatamente appareceu um lavrador dos Bravaes, o José
Casco, respeitado em toda a freguezia pela sua seriedade e
força
espantosa, propondo ao fidalgo arrendar a Torre. Gonçalo
Mendes Ramires
porém, já desde a morte do pae, decidira elevar a
renda a novecentos e cincoenta mil réis:―e o Casco desceu
as escadas, de cabeça
descahida. Voltou logo ao outro dia, repercorreu miudamente toda a
quinta, esfarellou a terra entre os dedos, esquadrinhou o curral e a
adega, contou as oliveiras e as cêpas: e n'um
esforço, em que lhe arfaram todas
as costellas, offereceu novecentos e dez mil réis!
Gonçalo
não cedia, certo da sua equidade. O José Casco
voltou ainda com a mulher; depois,
n'um domingo, com a mulher e um compadre,―e era um coçar
lento do queixo
rapado, umas voltas desconfiadas em torno da eira e da horta, umas
demoras sumidas dentro da tulha, que tornavam aquella manhã
de Junho
intoleravelmente longa ao Fidalgo, sentado n'um banco de pedra do
jardim, debaixo d'uma mimosa, com a
Gazeta do Porto.
Quando o Casco,
pallido, lhe veio offerecer novecentos e trinta mil
réis―Gonçalo
Mendes Ramires arremessou o jornal, declarou que ia elle, por sua
conta, amanhar a propriedade, mostrar o que era um torrão
rico, tratado pelo
saber moderno, com phosphatos, com machinas! O homem de Bravaes,
[27] então,
arrancou um fundo suspiro, acceitou os novecentos e cincoenta mil reis.
Á maneira antiga o Fidalgo apertou a mão ao
lavrador―que entrou na cozinha a enxugar um largo copo de vinho,
esponjando na testa, nas cordoveias rijas do pescoço, o suor
anciado que o alagava.
Mas, como entulhada por estes cuidados, a veia abundante de
Gonçalo estancou―não foi mais que um fio
arrastado e turvo. Quando
n'essa tarde se accomodou á banca, para contar a sala
d'armas do
Paço de Santa Ireneia por uma noite de lua―só
conseguiu converter
servilmente n'uma prosa aguada os versos lisos do tio Duarte, sem
relêvo que os modernisasse, désse magestade
senhorial ou bellesa saudosa
áquelles macissos muros onde o luar, deslisando atravez das
rexas, salpicava scentelhas pelas pontas das lanças altas, e
pela cimeira dos
morriões... E desde as quatro horas, no calor e silencio do
domingo de Junho, labutava, empurrando a penna como lento arado em
chão
pedregoso, riscando logo rancorosamente a linha que sentia deselegante
e molle, ora n'um reboliço, a sacudir e reenfiar sob a mesa
os chinellos
de marroquim, ora immovel e abandonado á esterilidade que o
travava, com os olhos esquecidos na Torre, na sua difficillima Torre,
negra entre os limoeiros e o azul, toda envolta no piar e
esvoaçar das
andorinhas.
[28] Por fim,
descorçoado, arrojou a penna que tão
desastrosamente emperrára. E fechando na gavêta,
com uma pancada, o volume precioso do
Bardo:
―Irra! Estou perfeitamente entupido! É este calor! E depois
aquelle animal do Casco, toda a manhã!...
Ainda releu, coçando sombriamente a nuca, a derradeira linha
rabiscada e suja:
―«...Na sala altaneira e larga, onde os largos e pallidos
raios da lua...» Larga, largos!... E os pallidos raios, os
eternos
pallidos raios!... Tambem este maldito castello,
tão
complicado!...
E este D. Tructesindo, que eu não apanho, tão
antigo!...
Emfim, um horror!
Atirou, n'um repellão, a cadeira de couro; cravou, com
furor, um charuto nos dentes;―e abalou da livraria, batendo
desesperadamente a porta, n'um tedio immenso da sua obra, d'aquelles
confusos e enredados
Paços de Santa Ireneia, e dos seus avós, enormes,
resoantes,
chapeados de ferro, e mais vagos que fumos.
II
Bocejando, apertando os cordões das largas pantalonas de
seda que lhe escorregavam da cinta, Gonçalo, que durante
todo o dia
preguiçára, estirado no divan de damasco azul,
com uma vaga dôr nos rins,
atravessou languidamente o quarto para espreitar, no corredor, o antigo
relogio de charão. Cinco horas e meia!... Para desannuviar,
pensou
n'uma caminhada pela fresca estrada dos Bravaes. Depois n'uma visita
(devida
já desde a Paschoa!) ao velho Sanches Lucena, eleito
novamente deputado, nas Eleições Geraes de Abril,
pelo circulo de Villa
Clara. Mas a jornada á
Feitosa,
á quinta do Sanches Lucena,
demandava uma hora a
cavallo, desagradavel com aquella teimosa dôr nos rins que o
filára na vespera á noite, depois do
chá, na Assembleia da Villa. E, indeciso,
arrastava os passos no corredor,
[30]
para
gritar ao Bento ou á Rosa que lhe
subissem uma limonada, quando, atravez das varandas abertas, resoou um
vozeirão de grosso metal, que gracejando mais se engrossava,
rolava pelo pateo, n'uma cadencia cava de malho malhando:
―Oh sô Gonçalo! Oh sô
Gonçalão! Oh sô Gonçalissimo
Mendes Ramires!...
Reconheceu logo o
Titó, o Antonio
Villalobos, seu vago
parente, e seu companheiro de Villa Clara, onde aquelle
homenzarrão
excellente, de velha raça Alemtejana, se estabelecera sem
motivo,
só por affeição bucolica á
villa. E havia onze annos que a atulhava com os
seus possantes membros, o lento rebombo do seu vozeirão, e a
sua
ociosidade espalhada pelos bancos, pelas esquinas, pelas ombreiras das
lojas, pelos balcões das tabernas, pelas sachristias a
caturrar com os
padres, até pelo cemiterio a philosophar com o coveiro. Era
um irmão do
velho morgado de Cidadelhe (o genealogista), que lhe
estabelecêra
uma mesada de oito moedas para o conservar longe de Cidadelhe―e do seu
sujo serralho de moças do campo, e da obra tenebrosa a que
agora
se atrellára, a
Veridica
Inquirição,
uma Inquirição sobre as bastardias, crimes e
titulos illegitimos das familias fidalgas de Portugal. E
Gonçalo, desde estudante, amára sempre aquelle
Hercules bonacheirão, que o seduzia pela prodigiosa
força, a incomparavel
[31]
potencia
em beber todo um pipo e em comer todo um anho, e sobretudo pela
independencia, uma suprema independencia, que, apoiada ao
bengalão terrifico e
com as suas oito moedas dentro da algibeira, nada temia e nada desejava
nem da Terra nem do Céo.―Logo debruçado na
varanda, gritou:
―Oh Titó, sóbe!... Sóbe emquanto eu
me visto. Tomas um calice de genebra... Vamos depois passear
até aos Bravaes...
Sentado no rebordo do tanque redondo e sem agua que ornava o pateo,
erguendo para o casarão a sua franca e larga face
requeimada, cheia de barba ruiva, o Titó movia lentamente
como um leque um velho
chapéo de palha:
―Não posso... Ouve lá! Tu queres hoje
á noite cear no Gago, commigo e com o João
Gouveia? Vae tambem o Videirinha e o
violão. Temos uma tainha assada, uma famosa. E enorme, que
eu comprei esta manhã a
uma mulher da Costa por cinco tostões. Assada pelo Gago!...
Entendido,
hein? O Gago abre pipa nova de vinho, do Abbade de Chandim. Eu
conheço o
vinho. É d'aqui, da ponta fina.
E Titó, com dous dedos, delicadamente, sacudio a ponta molle
da orelha. Mas Gonçalo, repuxando as pantalonas, hesitava:
―Homem, eu ando com o estomago arrazado... E desde hontem á
noite uma
dôr nos rins, ou no
[32]
figado,
ou no baço, não sei bem, n'uma d'essas
entranhas!... Até hoje, para o jantar, só caldo
de gallinha e gallinha cosida... Emfim! vá! Mas,
á cautela, recommenda
ao Gago que me prepare para mim um franguinho assado... Onde nos
encontramos? Na
Assembléa? O Titó despegára logo do
tanque, pousando na nuca
o chapéo de palha:
―Hoje não me gasto pela Assembléa. Tenho
senhora. Das dez para as dez e meia, no Chafariz... Vae tambem o
Videirinha com a viola. Viva!... Das dez para as dez e meia!
Entendido... E franguinho assado para S. Ex.
a,
que se queixa do rim!
E atravessou o pateo, com lentidão bovina, parando a colher
n'uma roseira, junto ao portão, uma rosa com que florio a
quinzena
de velludilho côr d'azeitona.
Immediatamente Gonçalo decidira não jantar, certo
dos beneficios d'aquelle jejum até ás dez horas,
depois de um
passeio pelos Bravaes e pelo valle da Riosa. E, antes de entrar no
quarto para se vestir, empurrou a porta envidraçada sobre a
escura escada da
cozinha, gritou pela Rosa cozinheira. Mas nem a boa velha, nem o Bento
por quem tambem berrou furiosamente, responderam, no pesado silencio em
que jaziam, como abandonados, esses sombrios fundos de grande lage e de
grande abobada
[33]
que
restavam do antigo Palacio, restaurado por Vicente Ramires depois da
sua campanha em Castella, incendiado no tempo de El-Rei D.
José I. Então Gonçalo desceu dous
degráos da gasta escadaria de
pedra e atirou outro dos longos brados com que atroava a Torre―desde
que as campainhas andavam desmanchadas. E descia ainda para invadir a
cozinha quando a Rosa acudio. Sahira para o pateo da horta com a filha
da Crispola!
não sentira o Snr. Doutor!...
―Pois estou a berrar ha uma hora! E nem você nem Bento!...
É por que não janto. Vou cear a Villa Clara com
os amigos.
A Rosa, do sonoro fundo do corredor, protestou, desolada. Pois o Sr.
Doutor ficava assim em jejum até horas da noite?―Filha d'um
antigo hortelão da Torre, crescida na Torre, já
cozinheira da Torre quando Gonçalo nascêra, sempre
o tratára por
«menino», e mesmo por «seu
riquinho» até que elle partio para Coimbra e
começou a ser, para ella e para o Bento, o «Sr.
Doutor».―E o Sr. Doutor, ao
menos, devia tomar o caldinho de gallinha, que apurára desde
o meio dia, cheirava
que nem feito no céo!
Gonçalo, que nunca discordava da Rosa ou do Bento,
consentio―e já subia, quando reclamou ainda a Rosa para se
informar da Crispola, uma desgraçada
[34] viuva
que, com um rancho
faminto de
crianças, adoecera pela Paschoa de febres perniciosas.
―A Crispola vae melhor, Sr. Doutor. Já se levanta. Diz a
pequena que já se levanta... Mas muito derreadinha...
Gonçalo desceu logo outro degráo,
debruçado na escada, para mergulhar mais confidencialmente
n'aquellas tristezas:
―Olhe, oh Rosa, então se a pequena ahi está,
coitada, que leve para casa á mãe a gallinha que
eu tinha para jantar. E
o caldo... Que leve a panella! Eu tomo uma chavena de chá
com biscoitos. E olhe!
Mande tambem dez tostões á Crispola... Mande dois
mil
réis. Escute! Mas não lhe mande a gallinha e o
dinheiro assim seccamente... Diga que estimo as melhoras, e que
lá passarei por casa para saber. E esse animal do
Bento que me suba agua quente!
No quarto, em mangas de camisa, deante do espelho, um immenso espelho
rolando entre columnas douradas, estudou a lingua que lhe parecia
saburrosa, depois o branco dos olhos, receiando a
amarellidão de bilis solta. E terminou por se contemplar na
sua feição
nova, agora que rapára a barba em Lisboa, conservando o
bigodinho castanho, frisado e leve, e uma môsca um pouco
longa, que lhe alongava mais a face
aquilina e fina, sempre d'uma brancura de nata. O seu desconsolo era o
cabello,
[35] bem
ondeado, mas tenue e fraco, e, apezar de todas as aguas e pomadas,
necessitando já risca mais elevada, quasi ao meio da testa
clara.
―É infernal! Aos trinta annos estou calvo...
E todavia não se despegava do espelho, n'uma
contemplação agradada, recordando mesmo a
recommendação da tia Louredo,
em Lisboa:―«Oh sobrinho! o menino, assim galante e esperto,
não se enterre
na provincia! Lisboa está sem rapazes. Precisamos
cá
um bom Ramires!»―Não! não se
enterraria na provincia, immovel sob a hera e a poeira melancolica das
cousas immoveis, como a sua Torre!... Mas vida elegante em Lisboa,
entre a sua parentella historica, como a aguentaria com o conto e
oitocentos mil reis de renda que lhe restava, pagas as dividas do
papá? E depois realmente vida em Lisboa só a
desejava com uma posição politica,―cadeira em S.
Bento, influencia intellectual no seu Partido, lentas e seguras
avançadas para o Poder. E essa,
tão docemente sonhada em Coimbra, nas faceis cavaqueiras do
Hotel Mondego,―muito remota a entrevia! Quasi inconquistavel, para
além de um muro alto e
aspero, sem porta e sem fenda!... Deputado―como? Agora, com o horrendo
S. Fulgencio e os Historicos no Ministerio durante tres gordos annos,
não
voltariam Eleições Geraes. E mesmo n'alguma
Eleição Supplementar que possibilidade lograria
[36]elle,
que, desde Coimbra, bem levianamente, arrastado por uma elegancia de
tradições, se manifestára
sempre Regenerador, no «Centro» da
Couraça, nas correspondencias para a
Gazeta
do
Porto,
nas verrinas ardentes contra o chefe do Districto, o Cavalleiro
detestavel?... Agora só lhe restava esperar. Esperar,
trabalhando; ganhando em
consistencia social; edificando com sagacidade, sobre a base do seu
immenso nome historico, uma pequenina nomeada politica; tecendo e
estendendo a malha preciosa das amizades partidarias desde Santa
Ireneia até ao
Terreiro do Paço... Sim! eis a theoria explendida:―mas
consistencia,
nomeada, affeições politicas, como se conquistam?
«Advogue, escreva nos jornaes!» fôra o
conselho distrahido e risonho do seu chefe, o Braz
Victorino. Advogar em Oliveira, mesmo em Lisboa? Não podia,
com aquelle
seu horror ingenito, quasi physiologico, a autos e papelada forense.
Fundar um jornal em Lisboa como o Ernesto Rangel, seu companheiro de
Coimbra no Hotel Mondego? Era façanha facil para o neto
adorado da
Snr.
a D. Joaquina Rangel que armazenava dez mil
pipas de vinho nos
barracões de Gaia. Batalhar n'um jornal de Lisboa? N'essas
semanas de Capital, sempre pelo Banco Hypothecario, sempre com as
«primas»,
nem formára relações duraveis e uteis
nos dous grandes Diarios Regeneradores, a
Manhã e a
Verdade...
De sorte que, realmente,
[37]
n'esse
muro
que o separava da fortuna só descobria um buraquinho, bem
apertado mas
serviçal―os
Annaes de Litteratura e
d'Historia,
com a sua
collaboração de Professores, de Politicos,
até d'um Ministro, até
de um Almirante, o Guerreiro Araujo, esse tocante massador. Appareceria
pois nos
Annaes com a sua
Torre,
revelando
imaginação e um
saber rico. Depois, trepando da Invenção para o
terreno mais
respeitavel da Erudição, daria um estudo (que
até lhe lembrára no comboio, ao
voltar de Lisboa!) sobre as «Origens Visigothicas do Direito
Publico em
Portugal...» Oh, nada conhecia, é certo, d'essas
Origens, d'esses Visigodos. Mas,
com a bella historia da
Administração
Publica em
Portugal
que lhe emprestára o Castanheiro, comporia corrediamente um
resumo elegante... Depois, saltando da Erudição
ás Sciencias
Sociaes e Pedagogicas―por que não amassaria uma boa
«Reforma do Ensino Juridico em
Portugal» em dous artigos massudos, de Homem d'Estado?...
Assim avançava, bem
chegado aos Regeneradores, construindo e cinzelando o seu pedestal
litterario,
até que os Regeneradores voltassem ao Ministerio, e no muro
se escancarasse a desejada porta triumphal.―E no meio do quarto, em
ceroulas, com as mãos nas ilhargas, Gonçalo
Mendes Ramires
concluio pela necessidade de apressar a sua Novella.
―Mas, quando acabarei eu essa
Torre? assim
emperrado, sem veia, com o figado combalido?...
[38] O Bento, velho de
face rapada e morena, com um lindo cabello branco todo encarapinhado,
muito limpo, muito fresco na sua jaqueta de ganga, entrára
vagarosamente, segurando a infusa d'agua quente.
―Oh Bento, ouve lá! Tu não encontraste na mala
que eu trouxe de Lisboa, ou no caixote, um frasco de vidro com um
pó branco?
É um remedio inglez que me deu o Sr. Dr. Mattos... Tem um
rotulo em inglez, com um nome inglez, não sei quê,
fruit salt...
Quer dizer
sal de fructas...
O Bento cravou no soalho os olhos, que depois cerrou, meditando. Sim,
no quarto de lavar, em cima do bahú vermelho,
ficára
um frasco com pó, embrulhado num pergaminho antigo como os
do Archivo.
―É esse! declarou Gonçalo. Eu precisava em
Lisboa uns documentos por causa d'aquelle malvado fôro de
Praga. E por engano, na
balburdia, levo do Archivo um pergaminho perfeitamente inutil! Vae
buscar o rolo... Mas tem cuidado com o frasco!
O Bento, cuidadoso, sempre lento, ainda enfiou os botões
d'agatha nos punhos da camisa do Sr. Doutor, e desdobrou sobre a cama,
para elle vestir, a quinzena, as calças bem vincadas, de
cheviote
leve. E Gonçalo, retomado pela idéa de artigos
para os
Annaes,
folheava,
rente á janella, a
Historia da
Administração
Publica em
Portugal, quando Bento
[39]
voltou com um rolo
de pergaminho, d'onde pendia, por fitas roidas, um sello de chumbo.
―Esse mesmo! exclamou o Fidalgo atirando o volume para o poial da
janella. É esse mesmo que eu enrolei no pergaminho para se
não quebrar. Desembrulha, deixa em cima da commoda... O Sr.
Dr. Mattos aconselhou que o tomasse com agua tepida, em jejum. Parece
que ferve. E limpa o sangue, desannuvia a cabeça... Pois eu
muito necessitado ando de
desannuviar a cabeça!... Toma tu tambem, Bento. E dize
á Rosa
que tome. Todos tomam agora, até o Papa!
Com cuidado, o Bento desenrolára o frasco, estendendo sobre
o marmore da commoda o pergaminho duro, onde a lettra do seculo XVI se
encarquilhava amarella e morta. E Gonçalo, abotoando o
colarinho:
―Ora ahi está o que eu levo preciosamente para deslindar o
fôro de Praga! Um pergaminho do tempo de D.
Sebastião... E
só percebo mesmo a data, mil quatrocentos... Não,
mil quinhentos e setenta e
sete. Nas vesperas da jornada d'Africa... Emfim! serviu para embrulhar
o frasco.
O Bento, que escolhera no gavetão um collete branco,
relanceou de lado o pergaminho veneravel:
―Naturalmente foi carta que El-rei D. Sebastião escreveu a
algum avosinho do Sr. Doutor...
―Naturalmente, murmurava o Fidalgo, deante
[40]do
espelho. E para lhe dar alguma cousa boa, alguma cousa gorda...
Antigamente ter rei era ter renda. Agora... Não apertes
tanto essa fivella, homem! Trago
ha dias o estomago inchado... Agora, com effeito, esta
instituição de Rei anda muito safada, Bento!
―Parece que anda, observou gravemente o Bento. Tambem, o
Seculo
affiança que os Reis estão a acabar, e por dias.
Ainda hontem affiançava. E o
Seculo
é
jornal bem
informado... No de hoje, não sei se o Sr. Doutor leu,
lá vem a grande festa dos annos do Sr.
Sanches Lucena, e o fogo de vistas, e o brodio que deram na
Feitosa...
Enterrado no divan de damasco, Gonçalo estendera os
pés ao Bento que lhe
laçava as botas brancas:
―Esse Sanches Lucena é um idiota! Ora que arranjo
fará a esse homem, aos sessenta annos, ser deputado, passar
mezes em Lisboa no Francfort, abandonar as propriedades, deixar aquella
linda quinta... E para
quê? Para rosnar de vez em quando
«apoiado!» Antes elle
me cedesse a cadeira, a mim, que sou mais esperto, não
possuo grandes terras, e
gosto do Hotel Bragança. E por Sanches Lucena... O Joaquim
amanhã que me tenha a egoa prompta, a esta hora, para eu ir
á
Feitosa
visitar esse
animal... E ponho então o fato novo de montar que trouxe de
Lisboa, com
as polainas altas... Ha mais de
[41]
dois annos que não vejo a D. Anna
Lucena. É uma linda mulher!
―Pois quando o Sr. Doutor estava em Lisboa elles passaram ahi, na
caleche. Até pararam, e o Sr. Sanches Lucena apontou para a
Torre, a mostrar á senhora... Mulher muito perfeita! E traz
uma
grande luneta, com um grande cabo, e um grande grilhão, tudo
d'oiro...
―Bravo!... Encharca bem esse lenço com agoa de Colonia, que
tenho a cabeça tão pesada!... Essa D. Anna era
uma
jornaleira, uma moça do campo, de Corinde?
Bento protestou, com o frasco suspenso, espantado para o Fidalgo:
―Não senhor! A Snr.
a D. Anna Lucena
é de gente
muito baixa! Filha d'um carniceiro d'Ovar... E o irmão andou
a monte por ter morto o
ferrador d'Ilhavo.
―Emfim, resumiu Gonçalo, filha de carniceiro,
irmão a monte, bella mulher, luneta d'oiro... Merece fato
novo!
Em Villa-Clara, ás dez horas, sentado n'um dos bancos de
pedra do Chafariz, sob as olaias, o Titó esperava com o
amigo
João Gouveia―que era o Administrador do Concelho da Villa.
Ambos se abanavam
[42]
com os chapeus, em silencio, gozando a frescura e o sussurro da agua
lenta na sombra. E a «meia» batia no relogio da
Camara,
quando Gonçalo, que se retardára na
Assembléa n'um voltarete
enremissado, appareceu annunciando uma fome terrivel, «a fome
historica dos Ramires»,
e apressando a marcha para o Gago―sem mesmo consentir que o
Titó descesse
á tabacaria do Brito, a buscar uma garrafa de aguardente de
canna da Madeira, velha e «da ponta fina...»
―Não ha tempo! Ao Gago! Ao Gago!... Senão devoro
um de Vocês, com esta
furiosa fome Ramirica!
Mas, logo ao subirem a Calçadinha, parou elle cruzando os
braços, interpellando divertidamente o Sr. Aministrador do
Concelho pelo estupendo feito do
seu Governo...
Então o
seu Governo,
os
seus amigos Historicos, o
seu
honradissimo S.
Fulgencio―nomeavam, para Governador Civil de Monforte, o Antonio
Moreno! O Antonio Moreno,
tão justamente chamado em Coimbra Antoninha Morena!
Não,
realmente, era a derradeira degradação a que
podia rolar um paiz!
Depois d'esta, para harmonia perfeita dos serviços,
só outra
nomeação, e urgente―a da Joanna Salgadeira,
Procuradora Geral da Corôa!
E o João Gouveia, um homem pequeno, muito escuro, muito
secco, de bigode mais duro que piassaba,
[43]esticado
n'uma sobrecasaca curta, com o chapeu de coco atirado para a orelha,
não discordava. Empregado
imparcial, servindo os Historicos como servira os Regeneradores, sempre
acolhia com imparcial ironia as nomeações de
bachareis novos,
Historicos ou Regeneradores, para os gordos logares Administrativos.
Mas, n'este caso, sinceramente, quasi vomitára, rapazes!
Governador Civil, e
de Monforte, o Antonio Moreno, que elle tantas vezes
encontrára no
quarto, em Coimbra, vestido de mulher, de roupão aberto, e a
carinha
bonita coberta de pó de arroz!...―E, travando do
braço do
Fidalgo, recordava a noite em que o José Gorjão,
muito bebedo, de cartola e
com um revólver, exigia furiosamente que o padre Justino,
tambem bebedo, o casasse com o Antoninho deante d'um nicho da Senhora
da Boa Morte! Mas o
Titó, que esperava, floreando o bengalão,
declarou áquelles
senhores que se o tempo sobejava para arrastarem assim na rua, a
conversar de Politica e d'indecencias―então voltava elle ao
Brito, buscar a
aguardentesinha... Immediatamente o Fidalgo da Torre, sempre
brincalhão,
sacudiu o braço do Administrador, e galgou pela
Calçadinha, aos corcovos, com
as mãos fortemente juntas, como colhendo uma redea, contendo
um cavallo que se desboca.
E na sala alta do Gago, ao cimo da escada esguia e ingreme que subia da
taberna, a um canto
[44]da
comprida mesa allumiada por dois candieiros de petroleo, a ceia foi
muito alegre, muito saboreada. Gonçalo,
que se declarava miraculosamente curado pelo passeio até aos
Bravaes e pelas emoções do voltarete em que
ganhára
desenove tostões ao Manoel Duarte―começou por
uma pratada d'ovos com
chouriço, devorou metade da tainha, devastou o seu
«frango de doente», clareou
o prato da salada de pepino, findou por um montão de
ladrilhos de marmellada: e
atravez d'este nobre trabalho, sem que a fina brancura da sua pelle se
afogueasse, esvasiou uma caneca vidrada de Alvaralhão,
porque logo ao primeiro trago, e com desgosto do Titó,
amaldiçoára o vinho novo do Abbade. Á
sobremesa appareceu o Videirinha, «o
Videirinha do violão», tocador afamado de Villa
Clara, ajudante da Pharmacia, e poeta com versos de amor e de
patriotismo já impressos no
Independente
d'Oliveira. Jantára n'essa tarde, com o
violão,
em casa do commendador Barros, que celebrava o anniversario da sua
commenda: e só
acceitou um copo d'Alvaralhão, em que esmagou um ladrilho de
marmellada
«para adocicar a goella». Depois, á meia
noite,
Gonçalo obrigou o Gago a espertar o lume, ferver um
café «muito forte, um
café terrivel, Gago amigo! um café capaz de abrir
talento no Sr. Commendador
Barros!» Era essa a hora divina do violão e do
«fadinho». E já o Videirinha
[45]recuára
para a sombra da sala, pigarreando, affinando os bordões,
pousado com melancolia á borda d'um banco alto.
―A
Soledad, Videirinha! pediu o bom
Titó, pensativo,
enrolando um grosso cigarro.
Videirinha gemeu deliciosamente a
Soledad:
Quando fôres ao cemiterio
Ai Soledad, Soledad!...
Depois, apenas elle findou, acclamado, e emquanto acertava as
cravelhas, o Fidalgo da Torre e João Gouveia, com os
cotovellos na
mesa, os charutos fumegando, conversaram sobre essa venda de
Lourenço
Marques aos Inglezes, preparada surrateiramente (conforme clamavam,
arripiados de horror, os jornaes da Opposição)
pelo Governo do
S. Fulgencio. E Gonçalo tambem se arripiava! Não
com a
alienação da Colonia―mas com a impudencia do S.
Fulgencio! Que aquelle careca obeso, filho sacrilego d'um frade que
depois se fizera mercieiro em Cabecelhos, trocasse a libras, para se
manter mais dois annos no Poder, um pedaço
de Portugal, torrão augusto, trilhado heroicamente pelos
Gamas, os
Athaydes, os Castros, os seus proprios avós―era para elle
uma
abominação que justificava todas as violencias,
mesmo uma revolta, e a casa de
Bragança enterrada
[46]no
lodo
do Tejo! Trincando, sem parar, amendoas torradas,
João Gouveia observou:
―Sejamos justos, Gonçalo Mendes! Olhe que os
Regeneradores...
O Fidalgo sorrio superiormente. Ah! se os Regeneradores realisassem
essa grandiosa operação―bem! Esses,
primeiramente,
nunca commetteriam a indecencia de vender a Inglezes terra de
Portuguezes! Negociariam com Francezes, com Italianos, povos latinos,
raças fraternas...
E depois os bons milhões soantes seriam applicados ao
fomento do Paiz,
com saber, com probidade, com experiencia. Mas esse horrendo careca do
S. Fulgencio!...―E no seu furor, engasgado, gritou por genebra, por
que realmente aquelle cognac do Gago era uma peçonha torpe!
O Titó encolheu os hombros, resignado:
―Não me deixaste ir buscar a aguardentesinha, agora
aguenta... E a genebra é ainda mais peçonhenta.
Nem para os
negros d'esse Lourenço Marques que tu queres vender...
Portuguezes indecentes, a vender Portugal! Até o Sr.
Administrador do Concelho devia prohibir
estas conversas...
Mas o Sr. Administrador do Concelho affirmou que as consentia, e
rasgadamente... Por que tambem elle, como Governo, venderia
Lourenço Marques, e Moçambique, e toda a Costa
Oriental! E
ás
[47]talhadas!
Em leilão! Alli, toda a Africa, posta em praça,
apregoada no Terreiro do Paço! E sabiam os amigos
porquê? Pelo
são principio de forte
administração―(estendia o braço, meio
alçado do banco, como n'um Parlamento)... Pelo
são principio de que todo o proprietario
de terras distantes, que não póde valorisar por
falta de
dinheiro ou gente, as deve vender para concertar o seu telhado,
estrumar a sua horta, povoar o seu curral, fomentar todo o bom
torrão que pisa com os
pés... Ora a Portugal restava toda uma riquissima provincia
a amanhar, a regar, a lavrar, a semear―o Alemtejo!
O Titó lançou o vozeirão, desdenhando
o Alemtéjo como uma pellicula de terra de má
qualidade, que, fóra umas legoas de
campos em torno de Beja e de Serpa, por um grão
só dava dois, e, apenas
esgaravetada, logo mostrava o granito...
―O mano João tem lá uma herdade immensa,
immensissima, que rende trezentos mil réis!
O Administrador, que advogára em Mertola, protestou,
encristado. O Alemtejo! Provincia abandonada, sim! Abandonada
miseravelmente, desde seculos, pela imbecilidade dos governos... Mas
riquissima, fertilissima!
―Pois então os Arabes... E qual Arabes! Ainda ha dias o
Freitas Galvão me contava...
Mas Gonçalo Mendes, que cuspira tambem a
[48]genebra com uma
carantonha, acudiu, n'um resumo varredor, condemnando todo o Alemtejo
como uma desgraçada illusão!
Estirado por sobre a mesa, o Administrador gritava:
―Você já esteve no Alemtejo?
―Tambem nunca estive na China, e...
―Então não falle! Só a vinha
espantosa que plantou o João Maria...
―Quê! Umas cem pipas de zurrapa! Mas, n'outros sitios,
legoas e legoas sem...
―Um celleiro!
―Uma charneca!
E atravez do tumulto o Videirinha, repenicando com solitario ardor,
levado na torrente d'ais do «fado» da Ariosa,
soluçava contra uns olhos negros, donos do seu
coração:
Ai! que dos teus negros olhos
Me vem hoje a
perdição...
O petroleo dos candieiros findava: e o Gago, reclamado para trazer
castiçaes, surdio em mangas de camisa, detraz d'uma cortina
de chita, com a sua esperta humildade banhada em riso, lembrando a suas
Excellencias que passava da uma horasinha da noite... O Administrador,
que detestava noitadas,
[49]nocivas
á sua garganta (de amygdalas
loucamente inflammaveis), puxou o relogio com terror. E rapidamente
reabotoado na sobrecasa, de chapéo côco mais
tombado
á banda, apressou o lento Titó, por que ambos
moravam no alto da Villa―elle defronte do Correio, o outro na viella
das Therezas, n'uma casa onde outr'ora
habitára e apparecera apunhalado o antigo carrasco do Porto.
O Titó porém não se aviava. Com o
bengalão debaixo do braço, ainda chamou o Gago ao
fundo sombrio da sala estreita, para cochichar sobre o embrulhado
negocio d'uma compra de espingarda, soberba espingarda Winchester,
empenhada ao Gago pelo filho do tabellião Guedes
d'Oliveira. E, quando desceu a escadaria, encontrou á porta
da taberna,
no estendido luar que orlava a rua adormecida, o Fidalgo da Torre e o
João Gouveia bruscamente engalfinhados na costumada contenda
sobre o Governador Civil de Oliveira―o André Cavalleiro!
Era sempre a mesma briga, pessoal, furiosa e vaga. Gonçalo
clamando que não alludissem deante d'elle, pelas cinco
chagas de Christo,
a esse bandido, esse Snr. Cavalleiro e sobretudo Cavallo,
mandão
burlesco que desorganizava o Districto! E João Gouveia muito
teso, muito
secco, com o côco mais cahido na orelha, assegurando a
inteligencia
superior do amigo Cavalleiro, que estabelecera limpeza e
[50] ordem, como Hercules, nas
cavallariças d'Oliveira! O Fidalgo rugia. E Videirinha, com
o violão resguardado atraz das costas, supplicava aos amigos
que recolhessem
á taberna, para não alvorotar a rua...
―Tanto mais que defronte, coitada, a sogra do Dr. Venancio
está desde hontem com a pontada!
―Pois então, berrou Gonçalo, não
venham com disparates que revoltam! Dizer você, Gouveia, que
Oliveira nunca teve Governador Civil
como o Cavalleiro!... Não é por meu pae! O
papá já lá vae ha trez annos,
infelizmente. E concordo que não fosse boa auctoridade. Era
frouxo, andava doente... Mas depois tivemos o Visconde de Freixomil.
Tivemos o Bernardino. Você serviu com elles. Eram dois
homens!... Mas
este cavallo d'este Cavalleiro! A primeira
condição para a
auctoridade superior d'um Districto é não ser
burlesca. E o Cavalleiro
é d'entremez! Aquella guedelha de trovador, e a horrenda
bigodeira negra, e o olho languinhento a pingar namoro, e o papo
empinado, e o
pó-pó-poh! É
d'entremez! E estupido, d'uma estupidez fundamental, que lhe
começa nas patas, vem subindo, vem crescendo. Oh senhores,
que animal!... Sem contar que é malandro.
Teso na sombra do immenso Titó, como uma estaca junto d'uma
torre, o Administrador mordia o charuto. Depois, de dedo espetado, com
uma serenidade cortante:
[51]―Você
acabou?... Pois, Gonçalinho, agora escute!
Em todo o districto d'Oliveira, note bem, em todo elle! não
ha ninguem,
absolutamente ninguem, que de longe, muito de longe, se compare ao
Cavalleiro em intelligencia, caracter, maneiras, saber, e finura
politica!
O Fidalgo da Torre emmudeceu, varado. Por fim sacudindo o
braço, n'um desabrido, arrogante desprezo:
―Isso são as opiniões d'um subalterno!
―E isso são as expressões d'um malcreado! uivou
o outro, crescendo todo, com os olhinhos esbugalhados a fuzilar.
Immediatamente entre os dois, mais grosso que um barrote,
avançou o braço do Titó, estendendo
uma sombra na
calçada:
―Olá! Oh rapazes! Que desconchavo é este?
Vocês estão borrachos?... Pois tu,
Gonçalo...
Mas já Gonçalo, n'um d'esses seus impulsos
generosos e amoraveis que tão finamente seduziam, se
humilhava, confessava a sua brutalidade, sensibilisado:
―Perdoe você, João Gouveia! Sei perfeitamente que
você defende o Cavalleiro por amizade, não por
dependencia... Mas que quer,
homem? Quando me fallam n'esse Cavallo... Não sei,
é por
contagio da besta, orneio, atiro coice!
[52]
O Gouveia, sem rancor, logo reconciliado (porque admirava
carinhosamente o Fidalgo da Torre), deu um puxão forte
á
sobrecasaca e apenas observou «que o Gonçalinho
era uma flôr, mas
picava...» Depois, aproveitando a
emoção submissa de Gonçalo,
recomeçou a glorificação do
Cavalleiro, mais sobria. Reconhecia certas fraquezas. Sim, com effeito,
aquelle modo impertigado... Mas que coração!―E o
Gonçalinho devia considerar...
O Fidalgo, de novo revoltado, recuou, espalmando as mãos:
―Escute você, oh João Gouveia! Por que
é que você lá em cima, á
ceia, não comeu a salada de pepino? Estava divina,
até
o Videirinha a appeteceu! Eu repeti, acabei a travessa... Por que foi?
Por que
você tem horror physiologico, horror visceral ao pepino. A
sua natureza e o pepino são incompativeis. Não ha
raciocinios,
não ha subtilezas, que o persuadam a admittir lá
dentro o pepino. Você
não duvida que elle seja excellente, desde que tanta gente
de bem o adora: mas você
não póde... Pois eu estou para o Cavalleiro como
você para o pepino.
Não posso! Não ha molhos, nem razões,
que m'o disfarcem. Para mim
é ascoroso. Não vae! Vomito!... E agora
ouça...
Então Titó, que bocejava, interveio,
já farto:
―Bem! Parece-me que apanhamos a nossa dóse
[53]de Cavalleiro, e
valente! Somos todos muito boas pessoas e só nos resta
debandar. Eu
tive senhora, tive tainha... Estou derreado. E não tarda a
madrugada, que
vergonha!
O Administrador pulou. Oh Diabo! E elle, ás nove horas da
manhã, com commissão de recenseamento!... Para
esmagar bem o
amúo, cingiu Gonçalo n'um rijo abraço.
E, quando o Fidalgo descia para o Chafariz
com o Videirinha (que n'estas noites festivas de Villa Clara o
acompanhava sempre pela estrada até ao portão da
Torre),
João Gouveia ainda se voltou, pendurado do braço
do Titó no meio da
Calçadinha, para lhe lembrar um preceito moral «de
não sei que
philosopho»:
―«Não vale a pena estragar boa ceia por causa de
má politica...» Creio que é
d'Aristoteles!
E até Videirinha, que de novo afinava a viola, se preparava
para um solto descante ao luar, murmurou respeitosamente por entre
abafados harpejos:
―Não vale a pena, Sr. Doutor... Realmente não
vale a pena, por que em Politica hoje é branco,
ámanhã
é negro, e depois, zás, tudo é nada!
O fidalgo encolhera os hombros. A Politica! Como se elle pensasse na
Auctoridade, no Sr. Governador civil d'Oliveira―quando injuriava o Sr.
André Cavalleiro, de Corinde! Não! o que
detestava era o
[54]homem―o
falso homem d'olho langoroso! Por que entre elles existia um d'esses
fundos aggravos que outr'ora, no tempo dos Tructesindos, armavam um
contra o outro, em dura arrancada de lanças, dois bandos
senhoriaes...―E pela estrada, com a lua no alto dos oiteiros de
Valverde, em quanto no
violão do Videirinha tremia o choro lento do fado do
Vimioso,
Gonçalo Mendes recordava, aos pedaços, aquella
historia que tanto enchera a
sua alma desoccupada. Ramires e Cavalleiros eram familias vizinhas, uma
com a velha torre em Santa Ireneia, mais velha que o Reino―a outra com
quinta bem tratada e rendosa em Corinde. E quando elle, rapaz de
dezoito annos, enfiava enfastiadamente os preparatorios do Lyceu,
André
Cavalleiro, então estudante do Terceiro-Anno, já
o tratava
como um amigo serio. Durante as férias, como a
mãe lhe dera um
cavallo, apparecia todas as tardes na Torre; e muitas vezes, sob os
arvoredos da quinta ou passeando pelos arredores de Bravaes e Valverde,
lhe confiava, como a um espirito maduro, as suas
ambições politicas, as suas
idéas de vida que desejava grave e toda votada ao Estado.
Gracinha Ramires desabrochava na
flôr dos
seus dezeseis annos; e mesmo em Oliveira lhe chamavam a
«flôr da Torre».
Ainda então vivia a governante ingleza de Gracinha, a boa
Miss Rhodes―que, como todos na Torre, admirava com enthusiasmo
André
[55]
Cavalleiro pela sua amabilidade, a sua ondeada cabelleira romantica, a
doçura quebrada dos seus olhos largos, a maneira ardente de
recitar Victor Hugo e João de Deus. E, com essa fraqueza que
lhe
amollecia a alma e os principios perante a soberania do Amor,
favorecera demoradas conversas de André com Maria da
Graça sob as
olaias do Mirante e mesmo cartinhas trocadas ao escurecer por sobre o
muro baixo da
Mãe d'Agua. Todos os domingos o Cavalleiro jantava na
Torre:―e o velho procurador Rebello já
preparára, com esforço e
resmungando, um conto de reis para o enxoval da
«menina». O pae de Gonçalo,
Governador Civil de Oliveira, sempre atarefado, enredado em Politica e
em dividas, amanhecendo
só na Torre aos Domingos, approvava esta
collocação de
Gracinha, que, meiga e romanesca, sem mãe que a velasse,
creava na sua vida,
já difficil, um tropeço e um cuidado. Sem
representar como elle uma familia
de immensa Chronica, anterior ao Reino, do mais rico sangue de Reis
godos,
André Cavalleiro era um moço bem nascido, filho
de general, neto de desembargador, com brasão legitimo na
sua casa
apalaçada de Corinde, e terras fartas em redor, de boa
semeadura, limpas de hypothecas... Depois, sobrinho de Reis Gomes, um
dos Chefes Historicos, já
filiado no Partido Historico (desde o Segundo Anno da Universidade), a
sua carreira
[56]
andava marcada com segurança e brilho na Politica e na
Administração. E emfim Maria da Graça
amava enlevadamente aquelles reluzentes
bigodes, os hombros fortes de Hercules bem educado, o porte ufano que
lhe encouraçava o peitilho e que impressionava. Ella, em
contraste, era pequenina e fragil, com uns olhos timidos e esverdeados
que o sorriso humedecia e enlanguescia, uma transparente pelle de
porcellana fina, e cabellos magnificos, mais lustrosos e negros que a
cauda d'um corcel de guerra, que lhe rolavam até aos
pés, em que se
podia embrulhar toda, assim macia e pequenina. Quando desciam ambos as
alamedas da quinta, miss Rhodes (que o pae, professor de Litteratura
Grega em Manchester, recheára de Mithologia) pensava sempre
em «Marte
cheio de força amando Psyché cheia de
graça.» E mesmo os
criados da Torre se maravilhavam do «lindo par!»
Só a Snr.
a D. Joaquina
Cavalleiro, a mãe de André, senhora obesa e
rabugenta, detestava aquella terna assiduidade do filho na Torre, sem
motivo pesado, só por «desconfiar da
pinta da menina e desejar nóra mais comesinha...»
Felizmente, quando
André Cavalleiro se matriculava no Quinto Anno, a
desagradavel matrona morreu d'uma anasarca. O pae de Gonçalo
recebeu a chave do
caixão: Gracinha tomou luto: e Gonçalo,
companheiro de casa do Cavalleiro na rua de
S. João, em Coimbra, enrolou um fumo na manga
[57]da batina. Logo em Santa
Ireneia se pensou que o explendido André, libertado da
pêca
opposição da mamã, pediria a
«Flôr da Torre» depois do Acto
de Formatura. Mas, findo esse desejado Acto, Cavalleiro abalou para
Lisboa―por que se preparavam Eleições em
Outubro, e elle recebera do tio Reis
Gomes, então Ministro da Justiça, a promessa de
«ser deputado»
por Bragança.
E todo esse verão o passou na Capital; depois em Cintra,
onde o negro langor dos seus olhos humidos amollecia
corações;
depois n'uma jornada quasi triumphal a Bragança com foguetes
e «vivas
ao sobrinho do Sr. conselheiro Reis Gomes!» Em Outubro
Bragança
«confiou ao dr. André Cavalleiro (como escreveu o
Echo
de Traz-os-Montes)
o direito de a representar em Côrtes com os seus brilhantes
conhecimentos
litterarios e a sua formosissima presença de
orador...» Recolheu
então a Corinde; mas nas suas visitas á Torre,
onde o pae de Gonçalo
convalescia d'uma febre gastrica que exacerbára a sua antiga
diabetes,
André já não arrastava sofregamente
Gracinha, como outr'ora, para as silenciosas sombras da quinta,
permanecendo de preferencia na sala azul, a conversar sobre Politica
com Vicente Ramires, que se não movia da poltrona,
embrulhado n'uma manta. E Gracinha, nas suas cartas para Coimbra a
Gonçalo, já se carpia de não correrem
tão doces nem
tão intimas
[58]as
visitas do André á Torre, «occupado,
como andava sempre agora, a estudar para
deputado...»
Depois do Natal o Cavalleiro voltou para Lisboa, para a abertura das
Côrtes, muito apetrechado, com o seu creado Matheus, uma
linda egua que comprára em Villa Clara ao Manoel Duarte, e
dous caixotes de
livros. E a boa Miss Rhodes sustentava que Marte, como convinha a um
heróe, só reclamaria Psyché depois
d'um nobre feito, uma estreia nas
Camaras, «n'um discurso lindo, todo
flôres...»
Quando Gonçalo, nas férias de Paschoa,
appareçeu na Torre, encontrou Gracinha inquieta e
descorada. As
cartas do seu André, que se estreára «e
n'um discurso lindo, todo flôres...», eram cada
semana mais curtas, mais
calmas. E a ultima (que ella lhe mostrou em segredo), datada da Camara,
contava em tres linhas mal rabiscadas «que tivera muito que
trabalhar em
commissões, que o tempo se pozera lindo, que n'essa noite
era o baile dos condes de Villaverde, e que elle continuava com muitas
saudades o seu fiel André...» Gonçalo
Mendes Ramires, logo
n'essa tarde, desabafou com o pae, que definhava na sua poltrona:
―Eu acho que o André se está portando muito mal
com a Gracinha... O papá não lhe parece?
Vicente Ramires apenas moveu, n'um gesto de vencida tristeza, a
mão descarnada d'onde a cada momento lhe escorregava o annel
d'armas.
[59]
Por fim em Maio a sessão das Camaras terminou―essa
sessão que tanto interessára Gracinha, anciosa
«que elles
accabassem de discutir e tivessem férias.» E quasi
immediatamente ella em
Santa Ireneia, Gonçalo em Coimbra, souberam pelos jornaes
que «o talentoso deputado
André Cavalleiro partira para Italia e França
n'uma longa viagem
de recreio e d'estudo.» E nem uma carta á sua
escolhida, quasi
sua noiva!... Era um ultraje, um bruto ultraje, que outr'ora, no seculo
XII,
lançaria todos os Ramires, com homens de cavallo e peonagem,
sobre o solar dos Cavalleiros, para deixar cada trave denegrida pela
chamma, cada servo pendurado d'uma corda de canave. Agora Vicente
Ramires, apagado e mortal, murmurou simplesmente: «Que
traste!» Elle
em Coimbra, rugindo, jurou esbofetear um dia o infame! A boa Miss
Rhodes, para se consolar, desembrulhou a sua velha harpa, encheu Santa
Ireneia de magoados harpejos. E tudo findou nas lagrimas que Gracinha,
durante semanas,
tão desconsolada da vida que nem se penteava, escondeu sob
as olaias do Mirante.
E, ainda depois d'esses annos, a esta lembrança das lagrimas
da irmã, um rancor invadiu Gonçalo,
tão redivivo que atirou
para o lado, para sobre as sebes da valla, uma bengallada, como se
fossem ás costas
do Cavalleiro!―Caminhavam então junto á
[60]ponte da
Portella, onde os campos se alargam, e da estrada se avista
Villa-Clara, que a lua branqueava toda, desde o convento de Santa
Thereza, rente ao Chafariz,
até ao muro novo do cemiterio, no alto, com os seus finos
cyprestes. Para o fundo do valle, clara tambem no luar, era a egrejinha
de Craquêde,
Santa Maria de Craquêde, resto do antigo Mosteiro em que
ainda jaziam, nos
seus rudes tumulos de granito, as grandes ossadas dos Ramires
Affonsinos. Sob o arco, docemente, o riacho lento, arrastando entre os
seixos, sussurrava na sombra. E Videirinha, enlevado n'aquelle silencio
e suavidade saudosa, cantava, n'um gemer surdo de bordões:
Baldadas são tuas queixas,
Escusados são teus ais,
Que é como se eu morto
fôra.
E não me verás
nunca mais!...
E Gonçalo retomára as suas
recordações, repassava tristezas que depois
cahiram sobre a Torre. Vicente Ramires morrera n'uma tarde d'Agosto,
sem soffrimento, estendido na sua poltrona á varanda, com os
olhos cravados na velha Torre, murmurando para o padre
Soeiro:―«Quantos
Ramires verá ella ainda, n'esta casa, e á sua
sombra?...» Todas
essas ferias as consumiu Gonçalo no escuro cartorio,
desajudado
[61](por
que o
procurador, o bom Rebello, tambem Deus o chamára),
revolvendo papeis,
apurando o estado da casa―reduzida aos dois contos e trezentos mil
reis que rendiam os foros de Craquêde, a herdade de Praga, e
as duas
quintas historicas, Treixedo e Santa Ireneia. Quando regressou a
Coimbra deixou Gracinha em Oliveira, em casa de uma prima, D. Arminda
Nunes Viegas, senhora muito abastada, muito bondosa, que habitava no
Terreiro da
Louça um immenso casarão cheio de retratos
d'avoengos e de arvores
de costado, onde ella, vestida de velludo preto, pousada n'um
camapé de
damasco, entre aias que fiavam, perpetuamente relia os seus Livros de
Cavallaria, o
Amadis,
Leandro o Bello,
Tristão
e
Brancaflôr, as
Chronicas do Imperador
Clarimundo... Foi ahi que José
Barrôlo
(senhor d'uma das mais ricas casas d'Amarante) encontrou Gracinha
Ramires, e a amou com uma paixão profunda, quasi
religiosa―estranha n'aquelle
moço indolente, gorducho, de bochechas coradas como uma
maçã, e
tão escasso d'espirito que os amigos lhe chamavam
«o José
Bacôco». O bom Barrolo residira sempre em Amarante
com a mãe, não conhecia o
trahido romance da «Flôr da Torre»―que
nunca se espalhára para
além dos cerrados arvoredos da quinta. E, sob o enternecido
e romanesco patrocinio de D. Arminda, noivado e casamento docemente se
apressaram, em tres mezes,
[62]depois
d'uma carta de Barrôlo a Gonçalo Mendes Ramires
jurando―«que a affeição pura que
sentia pela prima Graça, pelas suas virtudes e outras
qualidades respeitaveis, era tão grande que nem achava no
Diccionario
termos para a explicar...» Houve uma bôda luxuosa:
e os noivos
(por desejo de Gracinha, para se não affastar da querida
Torre), depois
d'uma jornada filial a Amarante, «armaram o seu
ninho» em
Oliveira, á esquina do largo d'El-Rei e da rua das
Tecedeiras, n'um palacete que o Bacôco
herdára, com largas terras, do seu tio Melchior,
Deão da
Sé. Dois annos correram, mansos e sem historia. E
Gonçalo Mendes Ramires passava
justamente em Oliveira as suas ultimas férias de Paschoa
quando
André Cavalleiro, nomeado Governador Civil do Districto,
tomou posse, estrondosamente, com foguetes, philarmonicas, o Governo
civil e o Paço do Bispo
illuminados, as armas dos Cavalleiros em transparentes no
café da Arcada
e na Recebedoria!... Barrôlo conhecia o Cavalleiro quasi
intimamente, admirava o seu talento, a sua elegancia, o seu brilho
Politico. Mas Gonçalo Mendes Ramires, que dominava
soberanamente o bom
Bacôco, logo o intimou a não visitar o Sr.
Governador Civil, a
não o saudar sequer na rua, e a partilhar, por dever
d'alliança, os rancores que
existiam entre Cavalleiros e Ramires! José Barrôlo
cedeu,
submisso, espantado, sem comprehender.
[63]Depois
uma noite, no quarto, enfiando as chinellas, contou a Gracinha
«a exquisitice de Gonçalo»:
―E sem motivo, sem offensa, só por causa da Politica!...
Ora, vê tu! Um bello rapaz como o Cavalleiro! Podiamos fazer
um ranchinho
tão agradavel!...
Outro sereno anno passou... E n'essa primavera, em Oliveira, onde se
demorára para a festa dos annos de Barrôlo, eis
que Gonçalo suspeita, fareja, descobre uma incomparavel
infamia! O impertigado homem da bigodeira negra, o Sr. André
Cavalleiro,
recomeçára com soberba impudencia a cortejar
Gracinha Ramires, de longe, mudamente, em olhadellas fundas, carregadas
de saudade e langor, procurando agora apanhar como amante aquella
grande fidalga, aquella Ramires, que desdenhára como esposa!
Tão levado ia Gonçalo pela branca estrada, no
rolo amargo d'estes pensamentos, que não reparou no
portão da Torre,
nem na portinha verde, á esquina da casa, sobre tres
degráos. E seguia,
rente do muro da horta, quando Videirinha, que estacára com
os dedos mudos nos
bordões do violão, o avisou, rindo:
―Oh, Sr. Doutor, então larga assim, a estas horas de
corrida para os Bravaes?
[64]
Gonçalo virou, bruscamente despertado, procurando na
algibeira, entre o dinheiro solto, a chavinha do trinco:
―Nem reparava... Que lindamente você tem tocado, Videirinha!
Com lua, depois de ceia, não ha companheiro mais poetico...
Realmente
você é o derradeiro trovador portuguez!
Para o ajudante de Pharmacia, filho d'um padeiro d'Oliveira, a
familiaridade d'aquelle tamanho Fidalgo, que lhe apertava a
mão na botica deante do Pires boticario e em Oliveira deante
das Auctoridades, constituia uma gloria, quasi uma
coroação, e
sempre nova, sempre deliciosa. Logo sensibilisado, feriu os
bordões rijamente:
―Então, para acabar, lá vae a grande trova, Sr.
Doutor!
Era a sua famosa cantiga, o
Fado dos Ramires,
rosario de heroicas Quadras celebrando as Lendas da Casa illustre―que
elle desde mezes apurava e completava, ajudado na terna tarefa pelo
saber do velho Padre Soeiro, capellão e archivista da Torre.
Gonçalo empurrou a portinha verde. No corredor espirrava uma
lamparina mortiça, já sem azeite, junto ao
castiçal de prata. E Videirinha, recuando ao meio da
estrada, com um «dlindlon»
ardente, fitára a Torre, que, por cima dos telhados da vasta
casa, mergulhava as ameias, o negro miradoiro,
[65]no
luminoso silencio do ceu de verão. Depois para
ella e para a lua atirou as endeixas glorificadoras, na dolente melodia
d'um fado de Coimbra, rico em
ais:
Quem te v'rá sem que
estremeça,
Torre de Santa Ireneia,
Assim tão negra e callada,
Por noites de lua cheia...
Ai! Assim callada,
tão negra,
Torre de Santa
Ireneia!
Ainda suspendeu para agradecer ao Fidalgo, que o convidava a subir e
enxugar um calice de genebra salvadora. Mas retomou logo o descante,
ditoso em descantar, como sempre arrebatado pelo sabor dos seus versos,
pelo prestigio das Lendas, emquanto Gonçalo
desapparecia―com folgazãs desculpas ao Trovador
«por cerrar a portinha do
Castello...»
Ai! ahi estás, forte e
soberba,
Com uma historia em cada ameia,
Torre mais velha que o reino,
Torre de Santa Ireneia!...
E começára a quadra a Muncio Ramires,
Dente
de
Lobo, quando em cima uma sala, aberta á frescura
da noite, se allumiou―e o
Fidalgo da Torre,
[66]
com o charuto acceso, se debruçou da varanda para receber a
serenada. Mais ardente, quasi soluçante, vibrou o cantar do
Videirinha. Agora era a quadra de Gutierres Ramires, na Palestina,
sobre o monte das Oliveiras, á porta da sua tenda, deante
dos
Barões que o acclamavam com as espadas nuas, recusando o
Ducado de Galiléa e o senhorio
das Terras d'Além-Jordão.―Que não
podia, em
verdade, acceitar terra, mesmo Santa, mesmo de Galiléa...
Quem já tinha em Portugal
Terras de Santa Ireneia!
―Boa piada! murmurou Gonçalo.
Videirinha, enthusiasmado, entoou logo outra nova, trabalhada n'essa
semana―a do sahimento de Aldonça Ramires, Santa
Aldonça, trazida do mosteiro d'Arouca ao solar de Treixedo,
sobre o almadraque em que morrera, aos hombros de quatro Reis!
―Bravo! gritou o Fidalgo pendurado da varanda. Essa é
famosa, oh Videirinha! Mas ahi ha Reis de mais... Quatro Reis!
Enlevado, empinando o braço do violão, o ajudante
da Pharmacia lançou outra, já antiga―a d'aquelle
terrivel Lopo Ramires que,
morto, se erguera da sua campa no Mosteiro de Craquêde,
montára um
[67]ginete
morto, e toda a noite galopára atravez da Hespanha para se
bater nas
Navas de Tolosa! Pigarreou―e, mais chorosamente, atacou a do
Descabeçado:
Lá passa a negra figura...
Mas Gonçalo, que abominava aquella lenda, a silenciosa
figura degolada, errando por noites de inverno entre as ameias da Torre
com a
cabeça nas mãos―despegou da varanda, deteve a
Chronica immensa:
―Toca a deitar, oh Videirinha, hein? Passa das tres horas,
é um horror. Olhe! O Titó e o Gouveia jantam
cá na Torre, no
Domingo. Appareça tambem, com o violão e cantiga
nova: mas menos sinistra...
Bona sera! Que linda noite!
Atirou o charuto, fechou a vidraça da sala―a
«sala velha,» toda revestida d'esses denegridos e
tristonhos retratos de Ramires que elle desde pequeno chamava as
carantonhas
dos vovós.
E,
atravessando o corredor, ainda sentia rolarem ao longe, no silencio dos
campos cobertos de luar, façanhas rimadas dos seus:
Ai! lá na grande batalha...
El-Rei Dom Sebastião...
O mais moço dos Ramires
Que era pagem do guião...
[68]
Despido, soprada a vella, depois de um rapido signal da cruz, o Fidalgo
da Torre adormeceu. Mas no quarto, que se povoou de Sombras,
começou para elle uma noite revôlta e pavorosa.
André
Cavalleiro e João Gouveia romperam pela parede, revestidos
de cótas de malha, montados
em horrendas tainhas assadas! E lentamente, piscando o olho
máo, arremessavam contra o seu pobre estomago pontoadas de
lança,
que o faziam gemer e estorcer sobre o leito de pau preto. Depois era,
na Calçadinha de Villa-Clara, o medonho Ramires morto, com a
ossada a ranger dentro da armadura, e El-rei Dom Affonso II,
arreganhando afiados dentes de lobo, que o arrastavam furiosamente para
a batalha das Navas. Elle resistia, fincado nas lages, gritando pela
Rosa, por Gracinha, pelo Titó! Mas D. Affonso tão
rijo murro lhe despedia
aos rins, com o guante de ferro, que o arremessava desde a Hospedaria
do Gago até
á Serra Morena, ao campo da lide, luzente e fremente de
pendões e
d'armas. E immediatamente seu primo d'Hespanha, Gomes Ramires, Mestre
de Calatrava, debruçado do negro ginete, lhe arrancava os
derradeiros
cabellos, entre a retumbante galhofa de toda a hoste sarracena e os
prantos da tia Louredo trazida como um andor aos hombros de quatro
Reis!...―Por fim, moido, sem socêgo, já com a
madrugada clareando
nas fendas das janellas
e as
[69]andorinhas
piando no beiral dos telhados, o Fidalgo da Torre atirou um derradeiro
repellão aos lençoes, saltou ao
soalho, abrio a vidraça―e respirou deliciosamente o
silencio, a frescura, a verdura, o repouso da quinta. Mas que
sêde! uma sêde desesperada que lhe
encortiçava os labios! Recordou então o famoso
fruit
salt
que lhe
recommendára o Dr. Mattos,―arrebatou o frasco, correu
á sala de jantar, em
camisa. E, a arquejar, deitou duas fartas colheradas n'um copo d'agua
da Bica-Velha, que esvasiou d'um trago, na fervura picante.
―Ah! que consolo, que rico consolo!...
Voltou derreadamente á cama: e readormeceu logo, muito
longe, sobre as relvas profundas d'um prado d'Africa, debaixo de
coqueiros susurrantes, entre o apimentado aroma de radiosas flores que
brotavam atravez de pedregulhos d'oiro. D'essa perfeita beatitude o
arrancou o Bento, ao meio dia, inquieto com «aquelle tardar
do Sr.
Doutor.»
―É que passei uma noite horrenda, Bento! Pesadelos,
pavores, bulhas, esqueletos... Foram os malditos ovos com
chouriço; e o
pepino... Sobretudo o pepino! Uma idéa d'aquelle animal do
Titó... Depois, de madrugada, tomei o tal
fruit
salt, e estou
optimo, homem!... Estou optimissimo! Até me sinto capaz de
trabalhar. Leva para a
livraria uma chavena de chá verde, muito forte... Leva
tambem torradas.
[70]
E momentos depois, na livraria, com um roupão de flanella
sobre a camisa de dormir, sorvendo lentos goles de chá,
Gonçalo
relia junto da varanda essa derradeira linha da Novella, tão
rabiscada e molle, em
que «os largos raios da lua se estiravam pela larga sala
d'armas...»
De repente, n'uma rasgada impressão de claridade, entreviu
detalhes
expressivos para aquella noite de Castello e de verão―as
pontas das
lanças dos esculcas faiscando silenciosamente pelos adarves
da muralha, e o coaxar triste das rans nas bordas lodosas dos fossos...
―Bons traços!
Achegou de vagar a cadeira, consultou ainda no volume do
Bardo
o Poemeto do tio Duarte. E, desannuviado, sentindo as Imagens e os
Dizeres surgirem como bolhas d'uma agua represa que rebenta, atacou
esse lance do Capitulo I em que o velho Tructesindo Ramires, na sala
d'armas de Santa Ireneia, conversava com seu filho Lourenço
e seu primo
D. Garcia Viegas, o
Sabedor, de aprestos de
guerra...
Guerra! Porque? Acaso pelos cerros arraianos corriam, ligeiros entre o
arvoredo, almogavares mouros? Não! Mas
desgraçadamente,
«n'aquella terra já remida e christã,
em breve se crusariam, umas contra outras, nobre lanças
portuguezas!...»
Louvado Deus! a penna desemperrára! E, attento
[71]ás
paginas marcadas n'um tomo da
Historia
d'Herculano, esboçou
com
segurança a Epocha da sua Novella―que abria entre as
discordias de Affonso II e de seus
irmãos por causa do testamento d'El-Rei seu pae, D. Sancho
I. N'esse
começo do Capitulo já os Infantes D. Pedro e D.
Fernando, esbulhados,
andavam por França e Leão. Já com
elles
abandonára o Reino o forte primo dos Ramires,
Gonçalo Mendes de Souza, chefe magnifico da casa
dos Souzas. E agora, encerradas nos castellos de Monte-Mór e
de Esgueira,
as senhoras Infantas, D. Thereza e D. Sancha, negavam a D. Affonso o
senhorio real sobre as villas, fortalezas, herdades e mosteiros, que
tão
copiosamente lhes doára El-Rei seu pae. Ora, antes de morrer
no
Alcaçar de Coimbra, o senhor D. Sancho supplicára
a Tructesindo Mendes Ramires,
seu collaço e Alferes-Mór, por elle armado
cavalleiro em
Lorvão, que sempre lhe servisse e defendesse a filha amada
entre todas, a infanta D. Sancha, senhora de Aveyras. Assim o
jurára o leal Rico-Homem junto
do leito onde, nos braços do Bispo de Coimbra e do Prior do
Hospital
sustentando a candeia, agonisava, vestido de burel como um penitente, o
vencedor de Silves... Mas eis que rompe a féra contenda
entre Affonso II, asperamente cioso da sua auctoridade de Rei―e as
Infantas, orgulhosas, impellidas á resistencia pelos freires
do Templo e pelos
Prelados a quem
[72]D. Sancho
legára tão vastos pedaços do
Reino! Immediatamente Alemquer e os arredores d'outros castellos
são devastados pela hoste
real que recolhia das Navas de Tolosa. Então D. Sancha e D.
Thereza
appellam para El-rei de Leão, que entra com seu filho D.
Fernando por
terras de Portugal a soccorrer as «Donas
opprimidas.»―E
n'este lance o tio Duarte, no seu
Castello de Santa Ireneia,
interpellava com soberbo garbo o Alferes-Mór de Sancho I:
Que farás tu, mais velho
dos
Ramires?
Se ao pendão leonez juntas o
teu
Trahes o preito que deves ao rei vivo!
Mas se as Infantas deixas indefezas
Trahes a jura que déstes ao
rei morto!...
Esta duvida, porém, não angustiára a
alma d'esse Tructesindo rude e leal que o Fidalgo da Torre rijamente
modelava. N'essa noite, apenas recebera pelo irmão do
Alcaide d'Aveyras, disfarçado em
beguino, um afflicto recado da senhora D. Sancha―ordenava a seu filho
Lourenço
que, ao primeiro arreból, com quinze lanças,
cincoenta
homens de pé da sua mercê e quarenta besteiros,
corresse sobre Monte-mór. Elle no
emtanto daria alarido―e em dous dias entraria a campo com os parentes
de solar, um troço mais rijo de cavalleiros acontiados e de
[73]frecheiros,
para se juntar a seu primo, o
Souzão,
que na
vanguarda dos
leonezes descia d'Alva-do-Douro.
Depois logo de madrugada o pendão dos Ramires, o
Açor negro em campo escarlate, se plantára deante
das barreiras gateadas: e ao
lado, no chão, amarrado á haste por uma tira de
couro,
reluzia o velho emblema senhorial, o sonoro e fundo
caldeirão polido. Por todo o
Castello se apressavam os serviçaes, despendurando as
cervilheiras,
arrastando com fragor pelas lages os pesados saios de malhas de ferro.
Nos pateos os armeiros aguçavam ascumas, amaciavam a dureza
das grevas e
coxotes com camadas d'estopa. Já o adail, na ucharia,
arrolára as rações de vianda para os
dous quentes dias da arrancada. E por todas as cercanias de Santa
Ireneia, na doçura da tarde, os atambores mouriscos,
abafados no arvoredo, tararam! tararam! ou mais vivos nos
cabeços,
ratatam! ratatam! convocavam os cavalleiros de soldo e a peonagem da
mesnada dos Ramires.
No emtanto o irmão do Alcaide, sempre disfarçado
em beguino, de volta ao castello d'Aveyras com a boa nova de prestes
soccorros, transpunha ligeiramente a levadiça da carcova...
E aqui, para alegrar
tão sombrias vesperas de guerra, o tio Duarte, no seu
Poemeto, engastára
uma sorte galante:
[74]
Á moça, que na
fonte enchia a bilha,
O frade rouba um beijo e diz Amen!
Mas Gonçalo hesitava em desmanchar com um beijo de clerigo a
pompa d'aquella formosa sortida d'armas... E mordia pensativamente a
rama da penna―quando a porta da livraria rangeu.
―O correio...
Era o Bento com os Jornaes e duas cartas. O Fidalgo apenas abriu uma,
lacrada com o enorme sinete d'armas do Barrôlo―repellindo a
outra em que reconhecera a lettra detestada do seu alfaiate de Lisboa.
E immediatamente, com uma palmada na mesa:
―Oh diabo! quantos do mez, hoje? quatorze, hein?
O Bento esperava com a mão no fecho da porta.
―É que não tardam os annos da mana
Graça! De todo esqueci, esqueço sempre. E sem ter
um presentinho engraçado... Que secca,
hein?
Mas na véspera o Manoel Duarte, na Assembléa,
á mesa do voltarete, annunciára uma fuga a Lisboa
por tres dias, para tratar do
emprego do sobrinho nas Obras Publicas. Pois corria a Villa-Clara pedir
ao snr. Manoel Duarte que lhe comprasse em Lisboa um bonito
guarda-solinho de sêda branca com rendas...
―O snr. Manoel Duarte tem gosto; tem muito
[75]gosto!
E então o
Joaquim que não selle a egoa; já não
vou ao
Sanches Lucena. Oh, senhores, quando pagarei eu esta infame visita? Ha
tres mezes!... Emfim, por dous dias mais a bella D. Anna não
envelhece; e o velho Lucena tambem
não morre.
E o Fidalgo da Torre, que decidira arriscar o beijo
folgazão, retomou a penna, arredondou o seu final com
elegante harmonia:
«A moça, furiosa, gritou:
Fu!
Fu!
villão! E o beguino, assobiando,
aligeirou as sandalias pelo corrego, na sombra das altas faias,
emquanto que por todo o fresco valle, até Santa Maria de
Craquêde, os atambores mouriscos, tararam! ratamtam!
convocavam á mesnada dos
Ramires, na doçura da tarde...»
III
Durante a longa semana, nas horas da calma, o Fidalgo da Torre
trabalhou com afferro e proveito. E n'essa manhã, depois de
repicar a
sineta no corredor, duas vezes o Bento empurrára a porta da
livraria,
avisando o snr. Doutor «que o almocinho, assim á
espera,
certamente se estragava.» Mas de sobre a tira
d'almaço Gonçalo rosnava
«já vou!»―sem despegar a penna, que
corria como quilha leve em agua mansa, na pressa amorosa de terminar,
antes do almoço, o seu Capitulo I.
Ah! e que canceira lhe custára, durante esses dias, esse
copioso Capitulo, tão difficil, com o immenso Castello de
Santa
Ireneia a erguer; e toda uma edade esfumada da Historia de Portugal a
condensar em contornos robustos; e a mesnada dos Ramires a apetrechar,
sem que faltasse uma ração nos
[78]alforges,
ou uma garruncha
nos caixotes, sobre o dorso das mulas! Mas felizmente, na vespera,
já movera para
fóra do Castello o troço de Lourenço
Ramires, em soccorro
de Monte-mór, com um vistoso coriscar de capellos e
lanças em torno ao
pendão tendido.
E agora, n'esse remate do Capitulo, era noite, e o sino de recolher
tangera, e a almenára luzira na Torre albarran, e
Tructesindo Ramires descera á sala terrea da
Alcaçova para
ceiar―quando fóra, deante da carcova, com tres toques
fortes annunciando filho-d'algo, uma bozina apressada soou. E, sem que
o villico tomasse permissão do
Senhor, o alçapão da levadiça rangeu
nas
correntes de ferro, rebombou cavamente nos apoios de pedra. Quem assim
chegava em dura pressa era Mendo Paes, amigo de Affonso II e mordomo da
sua Curia, casado com a filha mais velha de Tructesindo, D.
Theresa―aquella que, pelo ondeante e alvo pescoço, pelo
pisar mais leve que um vôo, os
Ramires chamavam a
Garça Real. O
Senhor de Santa Ireneia correra ao patim para
acolher, n'um abraço, o genro amado―«membrudo
cavalleiro, com
os cabellos ruivos, a alvissima pelle da raça germanica dos
visigodos...» E, de mãos enlaçadas,
ambos penetraram n'essa sala de abobada,
allumiada por tochas que toscos anneis de ferro seguravam, chumbados
aos muros.
Ao meio pousava a massiça meza de carvalho,
[79]rodeada de
escanhos até ao topo, onde se erguia, deante d'um aspero
mantel de linho coberto de pratos de estanho e de picheis luzidios, a
cadeira senhorial com o
Açor grossamente lavrado nas altas espaldas, e d'ellas
suspensa, pelo cinturão tauxeado de prata, a espada de
Tructesindo. Por
traz negrejava a funda lareira apagada, toda entulhada de ramos de
pinheiro, com a prateleira guarnecida de conchas, entre bocaes de
sanguesugas, sob dois molhos de palmas trazidas da Palestina por
Gutierres Ramires, o
d'Ultramar. Rente a um
esteio da
chaminé, um
falcão, ainda emplumado, dormitava na sua alcondora: e ao
lado, sobre as lages, n'uma camada de juncos, dois alões
enormes dormiam tambem, com o focinho nas
patas, as orelhas rojando. Toros de castanheiro sustentavam a um canto
um pipo de vinho. Entre duas frestas engradadas de ferro, um monge, com
a face sumida no capuz, sentado na borda de uma arca, lia, á
claridade do candil que por cima fumegava, um pergaminho desenrolado...
Assim
Gonçalo adornára a soturna sala Affonsina com
alfaias tiradas do Tio
Duarte, de Walter Scott, de narrativas do
Panorama.
Mas que
esforço!... E mesmo, depois de collocar sobre os joelhos do
monge um folio impresso em Moguncia por Ulrick Zell,
desmanchára toda essa linha
tão erudita, ao recordar, com um murro na mesa, que ainda a
Imprensa
[80]se
não
inventára em tempos de seu avô Tructesindo, e que
ao monge lettrado apenas
competia «um pergaminho de amarellada escripta...»
E caminhando nos ladrilhos sonoros, desde a lareira até ao
arco da porta cerrado por uma cortina de couro, Tructesindo, com a
branca barba espalhada sobre os braços cruzados, escutava
Mendo Paes,
que, na confiança de parente e amigo, jornadeára
sem
homens da sua mercê, cingindo apenas por cima do brial de
lã cinzenta uma espada
curta e um punhal sarraceno. Açodado e coberto de
pó correra
Mendo Paes desde Coimbra para supplicar ao sogro, em nome do Rei e dos
preitos jurados, que se não bandeasse com os de
Leão e com as
senhoras Infantas. E já desenrolára ante o velho
todos os fundamentos invocados
contra ellas pelos doutos Notarios da Curia―as
resoluções do
Concilio de Toledo! a bulla do Apostolo de Roma, Alexandre! o velho
fóro dos
Visigodos!... De resto, que injuria fizera ás senhoras
Infantas seu real
irmão para assim chamarem hostes Leonezas a terras de
Portugal? Nenhuma! Nem regedoria nem renda dos castellos e villas da
doação de D.
Sancho lhes negava o senhor D. Affonso. O Rei de Portugal só
queria que nenhum
palmo de chão portuguez, baldio ou murado, jazesse
fóra de seu senhorio
real. Escasso e avido El-Rei D. Affonso?... Mas não
entregára
elle á senhora D. Sancha
[81]oito
mil
morabitinos d'oiro? E a gratidão da irmã
fôra o Leonez passando a raia e logo cahidos os castellos
formosos d'Ulgoso, de Contrasta, d'Urros e de Lanhosello! O mais velho
da casa dos Souzas,
Gonçalo Mendes, não se encontrára ao
lado dos cavalleiros
da Cruz na jornada das Navas, mas lá andava em recado das
Infantas, como moiro,
talando terra portugueza desde Aguiar até Miranda! E
já pelos
cerros d'Além-Douro apparecera o pendão renegado
das treze arruellas―e por
traz, farejando, a alcateia dos Castros! Carregada ameaça, e
de armas
christãs, opprimindo o Reino―quando ainda Moabitas e
Agarenos corriam
á redea solta pelos campos do Sul!... E o honrado Senhor de
Santa Ireneia, que tão rijamente ajudára a fazer
o Reino,
não o deveria decerto desfazer arrancando d'elle os
pedaços melhores para monges e para
donas rebeldes!―Assim, com arremessados passos, exclamára
Mendo
Paes, tão acalorado do esforço e da
emoção, que
duas vezes encheu de vinho uma conca de pau e d'um trago a despejou.
Depois, limpando a bocca
ás costas da mão tremula:
―Ide por certo a Monte-mór, senhor Tructesindo Ramires! Mas
em recado de paz e boa avença, persuadir vossa senhora D.
Sancha e as
senhoras Infantas que voltem honradamente a quem hoje contam por seu
pae e seu Rei!
[82]
O enorme senhor de Santa Ireneia parára, pousando no genro
os olhos duros, sob a ruga das sobrancelhas, hirsutas e brancas como
sarças em manhã de geada:
―Irei a Monte-mór, Mendo Paes, mas levar o meu sangue e o
dos meus para que justiça logre quem justiça tem.
Então Mendo Paes, amargurado, ante a heroica teima:
―Maior dó, maior dó! Será bom sangue
de Ricos-homens vertido por más desfórras...
Senhor Tructesindo Ramires, sabei que em
Canta-Pedra vos espera Lopo de Baião, o Bastardo, para vos
tolher a passagem
com cem lanças!
Tructesindo ergueu a vasta face―com um riso tão soberbo e
claro que os alões rosnaram torvamente, e, acordando, o
falcão
esticou a aza lenta:
―Boa nova e de boa esperança! E, dizei, senhor
Mordomo-mór da Curia, tão de
feição e certa assim m'a
trazeis para me intimidar?
―Para vos intimidar?... Nem o Senhor Archanjo S. Miguel vos
intimidaria descendo do céo com toda a sua hoste e a sua
espada de lume!
De sobra o sei, senhor Tructesindo Ramires. Mas casei na vossa casa. E
já que n'esta lide não sereis por mim bem
ajudado, quero, ao menos,
que sejaes bem avisado.
[83]
O velho Tructesindo bateu as palmas para chamar os sergentes:
―Bem, bem, a cear, pois! Á ceia, Frei Munio!... E
vós, Mendo Paes, deixai receios.
―Se deixo! Não vos póde vir damno que me anceie
de cem lanças, de duzentas, que vos surjam a caminho.
E, emquanto o monge enrolava o seu pergaminho, se acercava da
mesa―Mendo Paes ajuntou com tristeza, desafivelando vagarosamente o
cinturão da espada:
―Só um cuidado me pesa. E é que, n'esta jornada,
senhor meu sogro, ides ficar de mal com o Reino e com o Rei.
―Filho e amigo! De mal ficarei com o Reino e com o Rei, mas de bem com
a honra e commigo!
Este grito de fidelidade, tão altivo, não resoava
no poemeto do tio Duarte. E quando o achou, com inesperada
inspiração, o Fidalgo da Torre, atirando a penna,
esfregou as mãos, exclamou, enlevado:
―Caramba! Aqui ha talento!
Rematou logo o Capitulo. Estava esfalfado, á banca do
trabalho desde as nove horas, a reviver intensamente, e em jejum, as
energias magnificas dos seus fortes avós! Numerou as
tiras―fechou na gaveta
á chave o volume do
Bardo.
Depois
á janella, com o
collete
desabotoado, ainda lançou o brado genial
[84]n'um grave e rouco tom,
como o
lançaria Tructesindo:―...«de mal com o Reino e
com o Rei, mas de bem
com a honra e commigo!...» E sentia n'elle realmente toda a
alma de um
Ramires, como elles eram no seculo XII, de sublime lealdade, mais
presos á
sua palavra que um santo ao seu voto, e alegremente desbaratando, para
a manter, bens, contentamento e vida!
O Bento, que espalhára outro repique desesperado, escancarou
a porta da livraria:
―É o Pereira... Está lá em baixo no
pateo o Pereira que quer fallar ao Sr. Doutor.
Gonçalo Mendes franziu a testa, com impaciencia, assim
repuxado d'aquellas alturas onde respirava os nobres espiritos da sua
raça:
―Que massada!... O Pereira... Que Pereira?
―O Pereira; o Manoel Pereira, da Riosa; o Pereira Brazileiro.
Era um lavrador, com casal na Riosa, chamado
Brazileiro
por ter herdado vinte contos de um tio, regatão no
Pará.
Comprára então terras, trazia arrendada a
Cortiga,
a fallada propriedade
dos condes de Monte-Agra, envergava aos domingos uma sobrecasaca de
panno fino, e dispunha de sessenta votos na Freguezia.
―Ah! Dize ao Pereira que suba, que conversamos emquanto
almóço... E põe outro talher.
[85]
A sala de jantar da Torre, que abria por trez portas
envidraçadas para uma funda varanda alpendrada, conservava,
do tempo do avô
Damião, (o traductor de Valerius Flaccus) dous formosos
pannos d'Arraz representando a
Expedição
dos
Argonautas.
Louças da India e do Japão, desirmanadas e
preciosas, recheiavam um immenso armario de mogno. E sobre o marmore
dos aparadores rebrilhavam os restos, ainda ricos, das pratas famosas
dos Ramires que o Bento constantemente areava e polia com amor. Mas
Gonçalo, sobretudo de verão, sempre
almoçava e jantava na varanda luminosa e fresca, bem
esteirada, revestida até
meio-muro por finos azulejos do seculo XVIII, e offerecendo a um canto,
para as preguiças do charuto, um profundo canapé
de
palhinha com almofadas de damasco.
Quando lá entrou, com os jornaes da manhã que
não abrira, o Pereira esperava, encostado a um grosso
guarda-sol de panninho escarlate, considerando pensativamente a quinta
que, d'alli, se abrangia
até aos álamos da ribeira do Coice e aos outeiros
suaves de
Valverde. Era um velho esgalgado e rijo, todo ossos, com um
carão moreno, de
olhos miudinhos e azulados, e uma barbicha rala, já branca,
entre
dous enormes collarinhos presos por botões de ouro. Homem de
propriedade,
acostumado á Cidade
[86]e
ao trato das Auctoridades, estendeu largamente a
mão ao Fidalgo da Torre, e acceitou, sem
embaraço, a cadeira que
elle lhe empurrára para a mesa―onde dominavam, com os seus
ricos
lavores duas altas enfusas de crystal antigo, uma cheia
d'açucenas e a
outra de vinho verde.
―Então, que bom vento o traz pela Torre, Pereira amigo?
Não o vejo desde Abril!
―É verdade, meu Fidalgo, desde o sabbado em que cahiu a
grande trovoada, na vespera da eleição! confirmou
o
Pereira affagando o cabo do guarda-sol que conservára entre
os joelhos.
Gonçalo, n'uma esfaimada pressa do almoço,
repicou a campainha de prata. Depois rindo:
―E os seus votos, Pereira amigo, segundo o costume, lá
foram para o eterno Sanches Lucena, direitinhos, como os rios
vão para o
mar!
O Pereira tambem riu, com um riso agradado que lhe descobria os
máos dentes. Pois o circulo era uma propriedade do Sr.
Sanches Lucena! Cavalheiro de fortuna, homem de bem, conhecedor,
serviçal...
E então, quando lhe calhava como em Abril o apoio do
Governo, nem Nosso Senhor Jesus Christo que voltasse á terra
e se propuzesse por
Villa-Clara desalojava o patrão da
Feitosa!
O Bento, vagaroso, de jaqueta de lustrina preta sobre o avental
resplandecente, entrava com um
[87]prato
d'ovos estrellados, quando o Fidalgo, que desdobrára o
guardanapo, o amarrotou,
arremessou com nojo:
―Este guardanapo já serviu! Eu estou farto de gritar.
Não me importa guardanapo rôto, ou com passagens,
ou com remendos... Mas
branquinho, fresquinho cada manhã, a cheirar a alfazema!
E reparando no Pereira, que discretamente arredava a cadeira:
―O quê! Você não almoça,
Pereira?...
Não, agradecia muito ao Fidalgo, mas n'essa tarde comia as
sopas com o genro nos Bravaes, que era festa pelos annos do netinho.
―Bravo! Parabens, Pereira amigo! Dê lá um beijo
meu ao netinho... Mas então ao menos um copo de vinho verde.
―Entre as comidas, meu Fidalgo, nem agua nem vinho.
Gonçalo farejára, arredára os ovos. E
reclamou o «jantar da familia», sempre muito farto
e saboroso na Torre, e começando por
essas pesadas sopas de pão, presunto e legumes, que elle
desde
creança adorava e chamava as
palanganas.
Depois, barrando de
manteiga uma bolacha:
―Pois francamente, Pereira, esse seu Sanches Lucena não faz
honra ao circulo! Homem excellente, decerto, respeitavel,
obsequiador... Mas mudo, Pereira! Inteiramente mudo!
[88] O lavrador
roçou vagarosamente pelas ventas cabelludas o
lenço vermelho,enrolado em bóla:
―Sabe as cousas, pensa com acêrto...
―Sim! mas pensamento e acêrto não lhe sahem de
dentro do craneo! Depois está muito velho, Pereira! Que
edade terá elle?
Sessenta?
―Sessenta e cinco. Mas de gente muito rija, meu Fidalgo. O
avô durou até aos cem annos. E ainda o conheci na
loja...
―Como, na loja?
Então o Pereira, enrolando mais o lenço,
estranhou que o Fidalgo não soubesse a historia do Sanches
Lucena. Pois o avô, o Manoel
Sanches, era um linheiro do Porto, da rua das Hortas. E casado tambem
com uma
moça muito vistosa, muito farfalhuda...
―Bem! atalhou o Fidalgo. Isso é honroso para o Sanches
Lucena. Gente que engordou, que trepou... E eu concordo, Pereira, o
circulo deve mandar a Lisboa um homem como o Sanches Lucena, que tenha
n'elle terra, raizes, interesses, nome... Mas é preciso que
seja tambem
homem com talento, com arrojo. Um deputado, que, nas grandes
questões,
nas crises, se erga, transporte a Camara!... E depois, Pereira amigo,
em Politica quem mais grita mais arranja. Olhe a estrada da Riosa!
Ainda em papel, a lapis vermelho... E, se o Sanches Lucena fosse homem
de
[89]berrar em S.
Bento, já o Pereira trazia por lá os seus carros
a chiar.
O Pereira abanou a cabeça, com tristeza:
―Ahi talvez o Fidalgo acerte... Para essa estradinha da Riosa sempre
faltou quem gritasse. Ahi talvez o Fidalgo acerte!
Mas o Fidalgo emmudecera, embebido na cheirosa sopa, dentro d'uma
caçoila nova, com raminhos de hortelã. E
então o Pereira, acercando mais a cadeira, cruzou no rebordo
da mesa as mãos, que meio
seculo de trabalho na terra tornára negras e duras como
raizes―e
declarou que se atrevera a incommodar o Fidalgo, áquellas
horas do
almocinho, porque n'essa semana começava um córte
de madeiras para
os lados de Sandim, e desejava, antes que surdissem outros arranjos,
conversar com S. Ex.
a sobre o arrendamento da
Torre...
Gonçalo reteve a colhér, num pasmo risonho:
―Você queria arrendar a Torre, Pereira?
―Queria conversar com V. Ex.
a. Como o Relho
está
despedido...
―Mas eu já tratei com o Casco, o José Casco dos
Bravaes! Ficamos meio apalavrados, ha dias... Ha mais de uma semana.
O Pereira coçou arrastadamente a barba rala. Pois era pena,
grande pena... Elle só no sabbado s'inteirára da
desavença com o Relho. E, se o
[90]Fidalgo
não resalvava o segredo, por quanto
ficára o arrendamento?
―Não resalvo, não, homem! Novecentos e cincoenta
mil réis.
O Pereira tirou da algibeira do collete a caixa de tartaruga, e sorveu
detidamente uma pitada, com o carão pendido para a esteira.
Pois maior pena, mesmo para o Fidalgo. Emfim! depois de palavra
trocada... Mas era pena, porque elle gostava da propriedade;
já pelo S.
João pensára em abeirar o Fidalgo; e, apezar dos
tempos correrem escassos,
não andaria longe de offerecer um conto e cincoenta, mesmo
um conto cento e cincoenta!
Gonçalo esqueceu a sopa, n'uma emoção
que lhe afogueou a face fina, ante um tal accrescimo de renda―e a
excellencia de tal rendeiro, homem abastado, com metal no banco, e o
mais fino amanhador de terras de todas as cercanias!
―Isso é sério, oh Pereira?
O velho lavrador pousou a caixa de rapé sobre a toalha, com
decisão:
―Meu Fidalgo, eu não era homem que entrasse na Torre para
caçoar com V. Ex.
a! Proposta a valer,
escriptura a fazer...
Mas se o arrendamento está tratado...
Recolheu a caixa, apoiava a mão larga na meza para se
erguer, quando Gonçalo acudiu, nervoso, empurrando o prato:
[91]―Escute, homem!...
Eu, não contei por miudo o caso do
Casco. Você comprehende, sabe como essas cousas passam... O
Casco veiu, conversamos; eu pedi novecentos e cincoenta mil reis e
porco pelo Natal. Primeiramente concordou, que sim; logo adiante
emendou, que
não... Voltou com o compadre; depois, com a mulher e o
compadre, e o afilhado, e o cão! Depois só. Andou
ahi pela quinta, a
medir, a cheirar a terra; acho até que a provou. Aquellas
rabulices do Casco!... Por
fim, uma tarde, lá gemeu, lá acceitou os
novecentos e
cincoenta mil reis, sem porco. Cedi do porco. Aperto de mão,
copo de vinho. Ficou de
apparecer para combinar, tratar da escriptura. Não o avistei
mais, ha
quasi duas semanas! Naturalmente já virou, já se
arrependeu... Para resumir, não tenho com o Casco contracto
firme. Foi uma conversa em que apenas estabelecemos, como base, a renda
de novecentos e cincoenta. E eu, que detesto cousas vagas,
já andava pensando em encontrar melhor
homem!
Mas o Pereira coçava o queixo, desconfiado. Elle, em
negocios, gostava de lisura. Sempre se entendêra bem com o
Casco. Nem por um
condado se atravessaria nos arranjos do Casco, homem violento,
assomado. De modo que desejava as cousas claras, para não
surdir desgosto
rijo. Não se lavrára escriptura, bem! Mas
ficára, ou
não, palavra dada entre o Fidalgo e o Casco?
[92]
Gonçalo Mendes Ramires, que findára
apressadamente a sopa e enchia um copo de vinho verde para se calmar,
fitou o lavrador, quasi severamente:
―Homem, essa pergunta!... Pois se eu tivesse confirmado ao Casco
decisivamente a palavra de Gonçalo Ramires, estava agora
aqui a tratar, ou sequer a conversar comsigo, Pereira, sobre o
arrendamento da Torre?
O Pereira baixou a cabeça. Tambem era verdade!... Pois,
n'esse caso, elle abria a sua tenção, claramente.
E, como
conhecia a propriedade, e apurára o seu calculo―offerecia
ao Fidalgo um conto cento e
cincoenta mil réis, sem porco. Mas não dava para
a familia
nem leite, nem hortaliça, nem fructa. O Fidalgo, homem
só, pouco
se aproveitava. A Torre, porém, casa antiga, enxameava de
gentes e
d'adherentes. Todos apanhavam, todos abusavam... Emfim, esse era o seu
principio. E de resto, para a meza do Fidalgo e mesmo dos creados,
bastava o pomar e a horta de regalo... Que horta e pomar necessitavam
trato mais geitoso: mas elle, por amor do Fidalgo, e gosto seu, por
lá passaria
e tudo luziria... Emquanto ás outras
condições, acceitava as do antigo arrendamento. E
escriptura assignada para a outra semana, no sabbado... Estava feito?
Gonçalo, depois de um momento em que pestanejou
[93]nervosa e
tremulamente, estendeu a mão aberta ao Pereira:
―Toque! Agora sim! Agora fica palavra dada!
―E nosso Senhor lhe ponha virtude, concluiu o Pereira, firmado no
immenso guarda-sol para se erguer. Então no sabbado, em
Oliveira, para a escriptura... Assigna V. Ex.
a
ou o Sr. padre Soeiro?
Mas o fidalgo calculava:
―Não, homem, não póde ser! No
sabbado, com effeito, estou em Oliveira, mas são os annos da
mana Maria da Graça...
O Pereira destapou de novo os maus dentes, n'um riso de estima:
―Ah! e como vae a snr.
a D. Maria da
Graça? Ha que edades a
não vejo! Desde o anno passado, na procissão de
Passos, em Oliveira...
Muito boa senhora! Muito dada! E o Sr. José
Barrôlo? Pessoa
excellente tambem, a valer, o Sr. José Barrôlo...
E que terra a d'elle,
a
Ribeirinha! A melhor propriedade d'estas vinte
leguas em redor. Linda propriedade! A do André Cavalleiro
que lhe está pegada, a
Biscaia, não se lhe
compára―é como cardo ao pé de couve.
O Fidalgo da Torre descascava um pecego, sorrindo:
―Do André Cavalleiro nada presta, Pereira! Nem terra, nem
alma!
[94]
O lavrador pareceu surprehendido. Elle imaginava que o Fidalgo e o
Cavalleiro continuavam chegados e amigos... Não em Politica!
Mas particularmente, como cavalheiros...
―O que? Eu e o Cavalleiro? Nem como cavalheiro nem como politico. Que
elle nem é cavalheiro nem politico. É apenas
cavallo, e resabiado.
O Pereira ficou silencioso, com os olhos na toalha. Depois, resumindo:
―Então está entendido, no sabbado, na cidade. E,
se não faz transtorno ao Fidalgo, passamos pelo
tabellião Guedes, e fica o feito
arrumado. O Fidalgo, naturalmente, vae para a casa da senhora sua
mana...
―Sempre. Appareça você ás trez horas.
Lá conversamos com o padre Soeiro.
―Tambem ha que edades não encontro o Sr. padre Soeiro!
―Oh! esse ingrato, agora, raramente apparece na Torre. Sempre em
Oliveira, com a mana Graça, que é a menina dos
seus encantos... Então nem um calice de vinho do Porto,
Pereira?... Bem, até
sabbado. Não esqueça o beijinho para o neto.
―Cá me vae no coração, meu Fidalgo...
Ora essa! Pois consentia eu que V. Ex.
a se
levantasse? Sei perfeitamente a escada, e ainda passo pela cozinha para
debicar com a tia Rosa. Já desde o tempo do
paesinho de V. Ex.
a, que Deus haja,
conheço bem a
[95]Torre!...
E sempre
m'esperancei de trazer n'esta quinta uma lavoura a meu gosto, de
consolar!
Durante o café, esquecido dos jornaes, Gonçalo
gozou a excellencia d'aquelle negocio. Duzentos mil réis
mais de renda. E a
Torre tratada pelo Pereira, com aquelle amor da terra e saber de lavra
que transformára o chavascal do Monte-Agra n'uma maravilha
de
seára, vinha e horta!... Além d'isso, homem
abastado, capaz de um
adeantamento. E eis ahi mais uma evidencia do valor da Torre, esse
affinco do Pereira em a arrendar, elle tão apertado,
tão seguro... Quasi
se arrependia de lhe não ter arrancado um conto e duzentos.
Emfim, a
manhã fôra fecunda! E, realmente, nenhum accordo
firmado o collava ao Casco. Entre elles apenas
s'esboçára uma conversa, sobre um arrendamento
possivel da Torre, a debater depois miudamente, n'uma base nova de
novecentos e cincoenta mil reis... E que insensatez se elle, por
escrupuloso respeito d'essa conversa esboçada, recusasse o
Pereira, retivesse o Casco,
lavrador de rotina―dos que raspam a terra para comer, e a deixam cada
anno deperecendo, mais cançada e chupada!...
―Bento, traze charutos! E o Joaquim que tenha a egua sellada das cinco
para as cinco e meia. Sempre vou á
Feitosa...
Hoje
é o dia!
Accendeu um charuto, voltou á livraria. E, immediatamente
[96]releu o final
magnifico: «De mal com o Reino e com o Rei, mas de bem com a
honra e commigo!»―Ah! como alli gritava a alma inteira do
velho
portuguez, no seu amor religioso da palavra e da honra! E, com a tira
d'almasso entre os dedos, junto da varanda, considerou um momento a
Torre, as poeirentas frestas engradadas de ferro, as resistentes
ameias, ainda inteiras, onde agora adejava um bando de pombas...
Quantas manhãs,
ás frescas horas d'alva, o velho Tructesindo se
encostára áquellas
ameias, então novas e brancas! Toda a terra em redor,
semeada ou bravia, decerto pertencia ao poderoso Rico-Homem. E o
Pereira, n'esse tempo colono ou servo,
só abordava o seu Senhor de joelhos e tremendo! Mas
não lhe
pagava um conto cento e cincoenta mil réis de sonora moeda
do Reino. Tambem,
que diabo, o vôvô Tructesindo não
precisava...
Quando os saccos rareavam nas arcas, e os acostados rosnavam por
tardança de soldo, o leal
Rico-Homem, para se prover, tinha as tulhas e as adégas dos
Concelhos mal
defendidos―ou então, n'uma volta de estrada, o
ovençal voltando
de recolher as rendas reaes, o bufarinheiro genovez com os machos
ajoujados de trouxas. Por baixo da Torre (como lhe contára o
papá) ainda
negrejava a masmorra feudal, meio atulhada, mas com restos de correntes
chumbadas aos pilares, e na abobada a argola d'onde
[97]pendia
a polé, e no
lagedo os buracos em que se escorava o potro. E, n'essa surda e humida
cova, ovençal, bufarinheiro, clerigos e mesmo burguezes de
fôro uivavam sob o açoite ou no torniquete,
até largarem agonizando
o derradeiro morabitino. Ah! a ramantica Torre, cantada tão
meigamente ao
luar pelo Videirinha, quantos tormentos abafára!...
E de repente, com um berro, Gonçalo agarrou de sobre a mesa
um volume de Walter Scott, que atirou sem piedade, como uma pedra,
contra o tronco de uma faia. É que descortinára o
gato da Rosa
cozinheira, trepado, d'unhas fincadas n'um ramo, arqueando a espinha,
para assaltar um ninho de melros.
Quando n'essa tarde o Fidalgo da Torre, airoso no seu fato novo de
montar, polainas de couro polido, luvas de camurça branca,
parou a egua ao portão da
Feitosa―um
velho todo
esfarrapado, com
longos cabellos cahidos pelos hombros e immensas barbas espalhadas pelo
peito, immediatamente se ergueu do banco de pedra onde comia rodellas
de chouriço, bebendo d'uma cabaça, para o avisar
que
o Sr. Sanches Lucena e a Sr.
a D. Anna andavam
por fóra, de
carruagem.
Gonçalo pediu ao velho que puchasse o ferro da sineta. E
entregando um cartão
[98]ao
moço, que entreabrira a rica grade dourada, com um
S
e um
L
entrelaçados, sob uma corôa de conde:
―O Sr. Sanches Lucena, bem?
O Sr. Conselheiro, agora, um pouquinho melhor...
―O que? Esteve doente?
―Pois o Sr. Conselheiro, aqui ha tres ou quatro semanas, andou muito
agoniado...
―Oh! Sinto muito... Diga ao Sr. Conselheiro que sinto muitissimo!
Chamou o velho que repicára a sineta para o recompensar com
um tostão. E, interessado por aquellas barbaças e
melenas de mendigo de
Melodrama:
―Vocemecê pede esmola por estes sitios?
O homem ergueu para elle os olhos sujos, avermelhados da poeira e do
sol, mas risonhos, quasi contentes:
―Tambem me chego pela Torre, meu Fidalgo. E, graças a Deus,
lá me fazem muito bem.
―Então quando lá voltar diga ao Bento...
Você conhece o Bento?
Se conhecia! E a Snr.
a Rosa...
―Pois diga ao Bento que lhe dê umas calças,
homem! Você assim, com essas calças,
não anda decente.
O velho riu, n'um riso lento e desdentado, mirando
[99]com gosto os sordidos
farrapos que lhe trapejavam nas canellas, mais denegridas e seccas que
galhos de inverno:
―Rôtinhas, rôtinhas... Mas o Sr. dr. Julio diz que
me ficam assim bem. O Sr. dr. Julio, quando lá passo, sempre
me tira o retrato
na machina. Ainda na semana passada... Até com uns
pedaços de
grilhões dependurados do pulso, e uma espada erguida na
mão... Parece que para
mostrar ao Governo.
Gonçalo, rindo, picou a egua. Pensava agora em alongar por
Valverde: depois recolheria por Villa-Clara, e tentaria o
Gouvêa a
partilhar na Torre um cabrito assado no espeto de cerejeira, para que
elle na vespera, na Assembléa, convidára o Manoel
Duarte
e o Titó. Mas ao atravessar a «Cruz das
Almas», onde a estrada de
Corinde, tão linda, com as suas filas d'alamos, crusa a
ladeira de Valverde, parou―notando ao fundo, para o lado de Corinde,
como o confuso esbarro d'uma carrada de lenha, e uma carriola
d'açougue, e uma mulher de
lenço escarlate bracejando sobre a albarda d'um burro, e
dous lavradores de enxada
ás costas. E, de repente, todo o encalhe se despegou―a
mulher trotando no seu burrinho, logo sumida n'uma volta de arvoredo; a
carriola solavancando n'um rolo leve de poeira; o carro
avançando
para a «Cruz das Almas» a
[100]chiar
tardamente; os cavadores descendo para uma
chã atravez das leiras de feno... Na estrada só
restou, como
desamparado, um homem de jaqueta ao hombro, que se arrastava
penosamente, coxeando. Gonçalo trotou, com curiosidade:
―Que foi?... Vocemecê que tem?
O homem, com a perna encolhida, levantou para Gonçalo uma
face arrepanhada, quasi desmaiada, que reluzia sob as camarinhas de
suor:
―Nosso Senhor lhe dê muito boas tardes, meu Fidalgo! Ora o
que hade ser? Desgraças d'esta vida!
E, gemendo, contou a sua historia.―Desde mezes padecia d'uma chaga
n'um tornozello, que não seccára, nem com
emplastos,
nem com pó de murtinhos, nem com benzeduras... E agora
andava arriba, na fazenda do Sr. dr. Julio, a concertar um socalco,
para ajudar um compadre tambem doente com maleitas―e, zás,
desaba um pedregulho, que tópa
na ferida, leva a carne, lasca o osso, o deixa n'aquella lastima!...
Até
rasgára a fralda para ensopar o sangue e amarrar por cima o
lenço.
―Mas assim não póde andar, homem! D'onde
é vocemecê?
―De Corinde, meu Fidalgo. Manoel Sôlha, do logar da Finta.
Até lá, sempre me hei-de arrastar.
―E então, d'essa gente toda, que ahi estava ha bocado,
ninguem o poude ajudar?... Uma carriola, dous latagões...
[101]
Uma rija guinada, no teimoso esforço de firmar a perna,
arrancou um grito ao Sôlha. Mas sorriu, arquejando... Que
queria o
Fidalgo? Cada um, n'este mundo, tem a sua pressa... Emfim, a rapariga
do burro
promettêra passar pela Finta, para avisar. E talvez um dos
seus rapazes apparecesse na estrada com uma eguasita que elle
comprára pela
Paschoa―e que, por desgraça, tambem mancava!...
Immediatamente, com um salto leve, o Fidalgo da Torre desmontou:
―Bem! Então, egua por egua, já
vocemecê tem aqui esta...
O Sôlha embasbacou para Gonçalo:
―Ora essa! Santo nome de Deus!... Pois eu havia de ir a cavallo, e V.
Ex.
a a pé?
Gonçalo ria:
―Homem, com essas discussões de «eu a
pé» e «você a
cavallo», e «faz favôr» e
«não
senhor», é que perdemos um tempo precioso. Monte,
esteja quieto, e trote para a Finta!
O outro recuava para a valleta da estrada, sacudindo a
cabeça, esgazeado, como no espanto de um sacrilegio:
―Isso é que não, meu senhor, isso é
que não! Antes eu acabasse aqui á mingoa, com a
chaga em bolor!
Gonçalo bateu o pé, com auctoridade:
[102]―Monte, que mando
eu! Vocemecê é um lavrador de
enxada, eu sou um Doutor formado em Coimbra, sou eu que sei, sou eu que
mando!
E o Sôlha, logo submisso ante aquella força
deslumbrante do Saber superior, agarrou em silencio a crina da egua,
enfiou respeitosamente o estribo, ajudado pelo Fidalgo, que, sem tirar
as luvas brancas, lhe amparava o pé entrapado e manchado de
sangue.
Depois, quando elle repousou no sellim com um
ah!
consolado:
―Então que tal?
O homem só murmurava o nome de Nosso Senhor, na
gratidão e no assombro d'aquella caridade:
―Mas isto é a volta do mundo... Eu aqui, na egua do
Fidalgo! E o Fidalgo, o Sr. Gonçalo Ramires, da Torre, a
pé
pela estrada!
Gonçalo gracejou. E, para entreter a caminhada, perguntou
pela quinta do Dr. Julio, que agora se arrojára a obras e
plantações de vinha. Depois, como o Manoel
Sôlha conhecia o Pereira Brasileiro (que
pensára em arrendar as terras do Dr. Julio), conversaram
sobre esse esperto homem, sobre as grandezas da
Cortiga.
Já sem
embaraço,
direito no sellim, no gosto d'aquella intimidade com o Fidalgo da
Torre, o Sôlha
esquecia a chaga, a dôr que adormentára. E
á
estribeira do Sôlha, attento e sorrindo, o Fidalgo estugava o
passo na poeira branca.
[103]
Assim se avizinhavam da
Bica-Santa, um dos sitios
decantados d'aquellas cercanias formosas. Ahi a estrada, cortada na
encosta d'um monte, alarga e fórma um arejado
terraço, d'onde
se abrange todo o valle de Corinde, tão rico em casaes, em
arvoredos, em
seáras, em aguas. No pendor do monte, coberto de carvalhos e
de fragas musgosas,
bróta a fonte nomeada, que já em tempos d'El-Rei
D. João
V curava males d'entranhas―e que uma devota senhora de Corinde, D.
Rosa Miranda Carneiro, mandou encanar desde o alto até a um
tanque de
marmore, onde agora corre beneficamente, por uma bica de bronze, sob a
imagem e patrocinio de Santa Rosa de Lima. De cada lado do tanque se
encurvam dous compridos bancos de pedra, que a espalhada ramaria das
carvalheiras tolda de sombra e frescura. É um suave retiro
onde se
apanham violetas, se comem merendas, e senhoras dos arredores se sentam
em rancho, nas tardinhas de domingo, escutando os melros, gozando a
povoada, luminosa e verdejante largueza do valle.
Antes porém de desembocar na
Bica-Santa,
e perto do logar
do Serdal, a estrada de Corinde quebra n'uma volta:―e, ahi, de
repente, a egua pulou, n'um reparo, que obrigou o Fidalgo da Torre,
desconfiado da pericia do Sôlha, a deitar a mão
á
caimba do freio. Fôra o encontro inesperado d'uma
[104]carruagem―uma caleche
forrada d'azul, com a parelha coberta de rêdes brancas contra
a môsca, e na
almofada, têzo, um cocheiro de bigode, farda de golla
escarlate e chapéo de
tópe amarello. E Gonçalo mantinha ainda a egua
pelo freio, como arrieiro
serviçal em trilho perigoso―quando avistou, sentado n'um
dos bancos de pedra, junto da Bica, com um chale-manta por cima dos
joelhos, o velho Sanches Lucena. Ao lado o trintanario, agachado,
esfregava com um
mólho d'herva a botina que a bella D. Anna lhe estendia,
apanhando o vestido de linho crú, apoiando a outra
mão, sem luva, na cinta
vergada e fina.
A desconcertada apparição do Fidalgo da Torre,
puxando pela rédea a sua egua onde se escarranchava
regaladamente um cavador em mangas de camisa, alvorotou aquelle
repousado e dormente recanto da
Bica.
Sanches Lucena esbugalhava os olhos, esbugalhava os oculos, n'um
arremesso de curiosidade que o levantára, com o
pescoço
esticado, o chale-manta escorregado para a relva. D. Anna recolheu
bruscamente a botina, logo empertigada, na gravidade condigna da
senhora da
Feitosa,
retomando como uma insignia o cabo d'ouro da luneta d'ouro, suspensa
por um
cordão
d'ouro. E até o trintanario ria pasmadamente para o
Sôlha.
Mas já, com o seu desembaraço elegante,
Gonçalo,
[105]n'um
relance, saudára D. Anna, apertava com fervor a
mão espantada do Sanches
Lucena, e, alegremente se congratulava por aquelle encontro ditoso!
Pois vinha justamente da
Feitosa! E ahi soubera
com
desgosto, por um
moço da quinta decerto exagerado, que o Sr. Conselheiro nas
ultimas semanas andára doente... E, então como
estava? como
estava?―Oh! a physionomia era excellente!
―Pois não é verdade, Sr.
a
D. Anna? O aspecto
é excellente!
Com um leve requebro da cabeça, um fofo ondear do
mólho de plumas brancas sobre o chapéo de palha
vermelha, ella volveu n'uma
voz rolada, lenta e gorda, que arripiou Gonçalo:
―O Sanches agora, graças a Deus, desfructa melhor saude...
―Um pouco melhor, sim, com effeito, muito agradecido a V. Ex.
a,
Sr. Gonçalo Ramires! murmurou o descarnado e corcovado
homem,
repuxando para os joelhos o chale-manta.
E, com os oculos a luzir, cravados em Gonçalo, na
curiosidade que o abrazava, quasi lhe rosára a face afilada,
mais amarella que
um cirio:
―Mas, com perdão de V. Ex.
a! como
é que V.
Ex.
a anda por aqui, pela estrada de Corinde,
n'este estado, a pé, trazendo
á rédea um lavrador de enxada?...
[106]
Rindo, sobretudo para D. Anna, cujos olhos formosamente negros, d'uma
funda refulgencia liquida, tambem esperavam, serios e reservados,
Gonçalo contou o desastre do bom homem, que
encontrára no caminho gemendo, arrastando a perna
escalavrada...
―De sorte que lhe offereci a minha egua... E até, se V.
Ex.
a me permitte, minha senhora, é
necessario que eu combine com
elle o resto da jornada...
Rapidamente, voltou ao Sôlha, que, de novo acanhado ante os
senhores da
Feitosa, com o chapeu na
mão, encolhido
sobre o sellim,
como attenuando a sua grandeza, logo se desestribou para desmontar. Mas
já Gonçalo lhe ordenava que trotasse para a
Finta―e lhe
mandasse a egua por um dos seus rapazes, alli á Bica-Santa,
onde elle se
demorava com o Snr. Conselheiro. E quando o Sôlha largou,
saudando
desabaladamente, torcido, como impellido a seu pezar pelos acenos
risonhos com que o Fidalgo o despedia, o assombro do Sanches Lucena
recomeçou:
―Ora uma cousa d'estas! Eu tudo esperaria, tudo, menos o Sr.
Gonçalo Mendes Ramires a trazer á
rédea, pela estrada de
Corinde, um cavador d'enxada! É a
repetição do Bom
Samaritano... Mas para melhor!
Gonçalo gracejou, sentado no banco, junto de Sanches
Lucena.―Oh! o Bom Samaritano não merecera
[107]uma pagina tão
amavel no
Evangelho sómente por offerecer o burro a um Levita doente:
decerto mostrára
virtudes mais bellas...―E sorrindo para D. Anna, que, do outro lado de
Sanches Lucena, espalhava a luneta, com lentidão magestosa,
pelas
arvores e pela Fonte que tão bem conhecia:
―Ha dous annos, minha senhora, que eu não tenho a honra...
Mas Sanches Lucena despediu um grito:
―Oh! Sr. Gonçalo Ramires! V. Ex.
a
traz sangue na
mão!
O Fidalgo reparou, espantado. Sobre a luva de camurça branca
resaltavam duas manchas arroxeadas:
―Não é sangue meu! foi naturalmente quando o
Sôlha montou, e eu lhe segurei o pé escalavrado...
Arrancou a luva, que arremessou para as hervas bravas, por traz do
banco de pedra. E continuando o sorriso:
―Com effeito, não tenho a honra de encontrar a V. Ex.
a,
minha senhora, desde o baile do barão das Marges, em
Oliveira, o famoso
baile de Entrudo... Ha mais de dois annos, era eu estudante. E ainda me
recordo que V. Ex.
a estava vestida
esplendidamente de
Catharina da Russia...
E, emquanto a envolvia no sorrir dos olhos finos e meigos,
pensava:―«Formosa creatura! mas ordinaria!
[108]e que
voz!...» D. Anna tambem se recordava do baile dos Marges:
―O cavalheiro, porém, está equivocado. Eu
não fui de Russa, fui de Imperatriz...
―Sim, d'Imperatriz da Russia, de Grande Catharina... E com um gosto!
com um luxo!
Sanches Lucena voltou vagarosamente para Gonçalo os oculos
d'ouro, apontou um dedo alongado e livido:
―Pois tambem eu me lembro que sua mana, e minha senhora, a Sr.
a
D. Graça, trazia um trage de lavradeira de Vianna... Foi uma
luzidissima festa; nem admira; o nosso Marges é sempre
primoroso... E
desde essa noite não tornei a encontrar a mana de V. Ex.
a
em
intimidade. Apenas de longe, na missa...
De resto pouco residia agora em Oliveira, apesar de conservar a casa
montada, creadagem e cocheira―porque, ou culpa do ar ou culpa da agua,
não se dava bem na Cidade.
Gonçalo acalorou mais o seu interesse:
―Mas então, realmente, V. Ex.
a o que
tem tido?
Sanches Lucena sorriu, com amargura. Os medicos, em Lisboa,
não se entendiam. Uns attribuiam ao estomago―outros
attribuiam ao
coração. Portanto, aqui ou alli, viscera
essencial atacada. E soffria
crises―más crises... Emfim, com a graça de
[109]Deus, e regimen, e leite,
e
descanço, ainda esperava arrastar uns annos.
―Oh! com certeza! exclamou Gonçalo alegremente. E V. Ex.
a
não pensa que a estada em Lisboa, e as Camaras, e a
Politica, a terrivel Politica, o fatiguem, o agitem?...
Não, pelo contrario, Sanches Lucena passava toleravelmente
em Lisboa. Melhor mesmo que na
Feitosa! Depois,
gostava
d'aquella
distracção das Camaras. E como conservava amigos
na Capital, uma roda escolhida, uma roda fina...
―Um d'esses nossos excellentes amigos, V. Ex.
a
decerto conhece. Elle
é parente de V. Ex.
a... O D.
João da
Pedrosa.
Gonçalo, alheio ao homem, mesmo ao nome, murmurou
polidamente:
―Sim, o D. João, decerto...
E Sanches Lucena, passando pelas suissas brancas a mão
magrissima, quasi transparente, onde reluzia um enorme annel d'armas de
saphira:
―E não sómente o D. João... Outro dos
nossos amigos é egualmente parente de V. Ex.
a,
e chegado. Muitas vezes
temos fallado de V. Ex.
a, e da sua casa. Que
elle pertence tambem á primeira
nobreza... É o Arronches Manrique.
―Cavalheiro muito dado, muito divertido! accrescentou D. Anna, com uma
convicção que lhe
[110]alteou
o peito, a que o corpete
justo marcava a força viçosa e a
perfeição.
A Gonçalo tambem nunca chegára esse nome
sonóro. Mas não hesitou:
―Sim, perfeitamente, o Manrique... De resto, eu tenho tantos parentes
em Lisboa, e vou tão pouco a Lisboa!... E V. Ex.
a,
Sr.
a D.
Anna...
Mas o Sanches Lucena insistia, deliciado n'aquella conversa de
parentescos fidalgos:
―V. Ex.
a, naturalmente, tem em Lisboa toda a
sua parentella historica. Assim eu creio que V. Ex.
a
é primo do
Duque de
Lourençal... O Duarte Lourençal! Elle
não usa o titulo, por Miguelismo,
ou antes por habito: mas emfim é o legitimo Duque de
Lourençal.
É quem representa a casa de Lourençal.
Gonçalo, sorrindo attentamente, desabotoára o
fraque, procurava a sua velha charuteira de couro.
―Sim, com effeito, o Duarte... Somos primos. Diz elle que somos
primos. E eu acredito. Entendo tão pouco d'arvores de
costado!... De
facto as casas em Portugal andam muito cruzadas; todos somos parentes,
não só pelo lado d'Adão, mas pelos
Godos... E V. Ex.
a,
Sr.
a D.
Anna, prefere a estada em Lisboa?
Mas, reparando que escolhera um charuto, distrahidamente o
trincára:
―Oh! perdão minha senhora... Ia fumar sem saber se V.
Ex.
a...
[111]
Ella saudou, descendo as longas pestanas:
―O cavalheiro póde fumar; o Sanches não fuma,
mas eu até aprecio o cheiro.
Gonçalo agradeceu, enjoado com aquella voz redonda e gorda,
aquelles horrendos «
cavalheiro, o cavalheiro!...»
Mas
pensava:―«que linda pelle! que bella creatura!...»
E Sanches Lucena, inexoravel,
estendera o dedo agudo:
―Pois eu conheço muito, não o Sr. D. Duarte
Lourençal, não tenho essa subida honra por ora,
mas seu irmão, o Sr. D. Philippe.
Cavalheiro estimabilissimo, como V. Ex.
a decerto
sabe... E
depois, que talento... Que talento, no cornetim!
―Ah!
―O quê! V. Ex.
a não ouviu
seu primo, o Sr. D.
Philippe Lourençal, tocar cornetim?
E até a bella D. Anna se animou, com um sorriso languido dos
beiços cheios, mais vermelhos que cerejas maduras sobre o
fresco rebrilho dos dentes pequeninos:
―Oh! tóca ricamente! O Sanches gosta muito de musica; eu
tambem... Mas, como V. Ex.
a comprehende, qui na
aldéa, com a falta de
recursos...
Gonçalo, arremessando o phosphoro, exclamára
logo, n'um sincero interesse:
―Então, queria que V. Ex.
a ouvisse
um amigo meu, que
é verdadeiramente sublime no violão, o
Videirinha!...
[112]
Sanches Lucena estranhou o nome, a sua vulgaridade. E o Fidalgo,
singelamente:
―É um rapaz muito meu amigo, de Villa-Clara... O
José Videira, ajudante da Pharmacia...
Os oculos de Sanches Lucena cresceram de puro espanto:
―Ajudante da Pharmacia e amigo do Sr. Gonçalo Mendes
Ramires!
Sim, desde estudante, dos exames do Lyceu. Até o Videirinha
passava as ferias na Torre, com a mãe, antiga costureira da
casa.
Tão bom rapaz, tão simples... E na realidade, no
violão, um
genio!
―Agora tem elle uma cantiga admiravel que chamou o
Fado dos
Ramires. A musica é com effeito um fado de
Coimbra, um fado
conhecido. Mas os versos são d'elle, umas quadras
engraçadas sobre
cousas da minha Casa, lendas, patranhas... Pois ficou sublime! Ainda ha
dias na Torre, comigo e com o Titó...
E a este nome, familiar e menineiro, Sanches Lucena mostrou outro
reparo:
―O Titó?
O Fidalgo ria:
―É uma velha alcunha d'amizade que nós damos ao
Antonio Villalobos.
Então Sanches Lucena atirou ambos os braços, como
se alguem muito querido apparecesse na estrada:
[113]―O Antonio
Villalobos! Mas esse é um dos nossos fieis e
bons amigos! Cavalheiro estimabilissimo! Quasi todas as semanas nos faz
o favor de apparecer pela
Feitosa...
E agora era o Fidalgo que pasmava ante essa intimidade a que nunca o
Titó alludira, quando no Gago, na Torre, na
Assembléa, se berrava, politicando, o nome do Sanches Lucena!
―Ah V. Ex.
a conhece...
Mas D. Anna, que se erguera bruscamente do banco, e,
debruçada, recolhia a luva e a sombrinha―lembrou ao marido
o estriar lento da tarde, a neblina subindo sempre áquella
hora do valle aquecido:
―Sabes que nunca te faz bem... E tambem não faz bem
á parelha, assim parada, ha tanto tempo.
Immediatamente Sanches Lucena, receioso, puxára da algibeira
um espesso lenço de sêda branca para abafar o
pescoço. E, receioso tambem pela parelha, logo se arrancou
pesadamente do banco de pedra, com um aceno cançado ao
trintanario para apanhar o chale, avisar o
cocheiro. Mas
ainda atravessou, vergado e arrimado á bengala, para o
parapeito que resguarda a estrada sobre o despenhado pendor do monte,
dominando o valle. E confessava a Gonçalo que aquelle era,
nos arredores
da
Feitosa, o seu passeio preferido.
Não
só pela
belleza do sitio,
[114]já
cantado pelo «nosso mavioso Cunha Torres»;―mas
porque do terraço da Bica, sem esforço, sentado
no banco, avistava n'uma largueza
terras suas:
―Olhe V. Ex.
a... Para além d'aquelle
souto, até
á chã e ao comoro onde está a casota
amarella e por traz o pinhal, tudo
é meu... O pinhal ainda é meu...
Acolá, do renque d'álamos
para deante, depois do lameiro, é tambem meu... Alli, do
lado da ermida, pertence ao Monte-Agra... Mas, mais para lá,
passado o azinhal, pelo monte acima,
é tudo meu!
O livido dedo, o braço escanifrado na manga de casimira
preta, cresciam por sobre o valle.―Além os pastos...
Adeante os centeios...
Depois o bravio...―Tudo d'elle! E, por traz da magra figura
alquebrada, de chapéo enterrado na nuca, o abafo de seda
subido
até ás pallidas orelhas quasi despegadas, D.
Anna, esvelta, clara e sã como um
marmore, com um sorriso esquecido nos labios gulosos, o formoso peito
mais cheio, acompanhava a enumeração copiosa,
affincava a
luneta sobre os pastos, e os pinhaes, e os centeios, sentindo
já―tudo d'ella!
―E agora acolá, detraz do olival, concluiu Sanches Lucena
com respeito, é sitio seu, Sr. Gonçalo Mendes
Ramires...
―Meu?...
―De V. Ex.
a, quero dizer, ligado á
casa de V. Ex.
a. Pois
não reconhece?... Além, por traz do
[115]moinho, passa a estrada de
Santa Maria de Craquêde. São os tumulos dos seus
antepassados... Passeio que eu tambem ás vezes
faço, e com gosto. Ainda ha um
mez visitamos detidamente as ruinas. E acredite que fiquei
impressionado! Aquelle bocado de claustro tão antigo, os
grandes esquifes de pedra, a espada
chumbada á abobada por cima do tumulo do meio...
É de commover! E achei
muito bonito, muito filial, da parte de V. Ex.
a,
o ter
sempre aquela lampada de bronze accêsa de noite e de dia...
Gonçalo engrolou um murmurio risonho―porque não
se recordava da espada, nunca recommendára a lampada. Mas
Sanches Lucena, agora,
supplicava um precioso favor ao snr. Gonçalo Mendes Ramires.
E era que S.
Ex.
a lhe concedesse a honra de o conduzir na
carruagem á Torre...
Alvoroçadamente Gonçalo recusou. Nem podia!
combinára com o homem
da perna dorida esperar alli, na Bica, pela sua egoa.
―Mas fica aqui o meu trintanario, que leva a egoa de V. Ex.
a
á Torre.
―Não, não, se V. Ex.
a me
permitte, eu espero...
Depois metto pelo atalho da Crassa, porque tenho ás oito
horas na Torre,
á minha espera para jantar, o Titó.
D. Anna, do meio da estrada, apressou logo o marido sacudidamente, com
a ameaça renovada da
[116]friagem,
do relento... Mas, junto da
caleche, Sanches Lucena ainda emperrou para affirmar a
Gonçalo, com a
descarnada mão sobre o encovado peito, que aquella tarde lhe
ficava celebre...
―Porque vi uma cousa que poucas vezes se terá visto: o
maior fidalgo de Portugal, a pé pela estrada de Corinde,
levando á
rédea no seu proprio cavallo um cavador de enxada!
Ajudado por Gonçalo, trepou emfim pesadamente ao estribo. D.
Anna já se enterrára nas almofadas,
alçando entre as
mãos, como uma insignia, o cabo rebrilhante da luneta
d'ouro. O trintanario tambem se entezou, cruzou os braços: e
a caleche apparatosa, com as manchas
brancas das rêdes dos cavallos, mergulhou no silencio e na
penumbra da
estrada, sob a espalhada ramaria das faias.
«Que massada!» exclamou Gonçalo. E
não se consolava de tarde tão linda assim
desperdiçada... Intoleravel, esse Sanches Lucena, com
o Snr. D. Fulano e o Snr. D. Sicrano, e a sua gula de
«róda
fina», e «tudo d'elle» por collina e
valle! A mulher, explendida péça de
carne, como filha de carniceiro,―mas sem migalha de graça
ou alma. E que voz,
Jesus, que voz! Gente pedante e sabuja...―E agora só
desejava
recuperar a sua egoa, galopar para a Torre, e desabafar com o
Titó, familiar
da
Feitosa! o seu ásco por toda
aquella
Sancharia.
[117]
A egoa não tardou, a tróte largo, montada pelo
filho do Sôlha, que, ao avistar o Fidalgo, saltou
á estrada, de chapeu na
mão, encouchado e encarnado, balbuciando que o pae
chegára bem, pedia a Nosso
Senhor lhe pagasse a caridade...
―Bem, bem! Recados a teu pae. Que estimo as melhoras. Lá
mandarei saber.
N'um pulo montára―galopava pelo facil atalho da Crassa.
Mas, deante do portão da Torre, encontrou um moço
do Gago, com
um bilhete do Titó, annunciando que não podia
jantar na Torre porque partia
n'essa semana para Oliveira!
―Que disparate! Para Oliveira tambem eu parto; mas janto hoje!
Até combinavamos, o levava na carruagem... Elle que ficou a
fazer, o Snr. D. Antonio?
O rapaz coçou pensativamente a cabeça:
―O Snr. D. Antonio passou lá por casa para eu trazer o
bilhete ao Fidalgo... Depois, creio que tem festa, porque entrou
defronte no tio Cosme fogueteiro, a comprar bichas de rabear...
Aquellas inesperadas bichas de rabear causaram logo ao Fidalgo uma
immensa inveja:
―E onde é a festa, sabes?
―Eu não sei, meu Fidalgo... Mas parece que é
cousa rija, porque o Snr. João Gouvêa encommendou
lá ao
patrão dous grandes pratos de bolos de bacalhau.
[118]
Bolos de bacalhau! Gonçalo sentio como a amargura de uma
traição:
―Oh! que animaes!
E de repente ideou uma vingança alegre:
―Pois se vires hoje o Snr. D. Antonio ou o Snr. João
Gouvêa não te esqueças de lhes dizer
que sinto muito... Que eu tambem
cá tinha á noite na Torre uma festa. E havia
senhoras. Vinha a Snr.
a
D. Anna Lucena... Não te esqueças, hein?
Gonçalo galgou as escadas rindo da sua
invenção. Mas, n'essa noite, ás nove
horas, depois do arrastado e atochado jantar com o Manoel Duarte,
entrou na sala grande dos retratos, apenas allumiada pelo
lampeão dourado do corredor, para buscar uma caixa de
charutos. E casualmente, atravez da janella aberta, reparou n'um homem
que, em baixo, rente da sombra dos alamos, rondava, espreitava... Mais
attento, imaginou reconhecer os poderosos hombros, o andar bovino do
Titó. Mas
não, com certesa! o homem trasia jaqueta e
carapuço de lã.
Curioso, abafando os passos, ainda se abeirou da varanda. O vulto
porém descera
da estrada, logo sumido sob as arvores d'uma quelha que contorna o
Casal do Miranda, e desemboca adiante, na Portella, junto das primeiras
casas de Villa-Clara.
IV
O palacete dos Barrôlos em Oliveira (conhecido desde o
começo do seculo pela Casa dos
Cunhaes)
erguia a sua fidalga
fachada de doze varandas no Largo d'El-Rei, entre uma solitaria viella
que conduz ao Quartel e a rua das Tecedeiras, velha rua mal empedrada,
ladeirenta, opprimida pelo comprido terraço do jardim, e
pelo muro fronteiro da antiga
cerca das Monicas. E n'essa manhã, justamente quando
Gonçalo, na caleche da Torre puxada pela parelha do Torto,
desembocava no Largo d'El-Rei, subia pela Tecedeiras, dobrando a
esquina dos Cunhaes, n'um cavallo negro de fartas clinas, que feria as
lages com soberba e garbo, o Governador Civil, o André
Cavalleiro, de collete branco e chapeu de palha. N'um
relance, do fundo da caleche, o Fidalgo ainda o surprehendeu levantando
os pestanudos olhos
[120]negros
para as varandas de ferro do palacete. E pulou, com um murro no joelho,
rugindo surdamente―«que
biltre!» Ao apear no portão (um portão
baixo, como esmagado pelo
immenso escudo de armas dos Sás) tão suffocada
indignação o impellia que não reparou
nas effusões do porteiro, o velho Joaquim da Porta, e
esqueceu dentro da caleche os presentes para Gracinha, a caixa com o
guardasolinho e um cesto de flores da Torre coberto de papel de
sêda. Depois em cima, na
sala d'espera, onde José Barrôlo correra, ao
sentir nas
lages do Largo silencioso o estrepito do calhambeque, desabafou logo,
arrebatadamente, atirando o guarda pó para uma cadeira de
couro:
―Oh senhores! Que eu não possa vir á cidade sem
encontrar de cara este animal do Cavalleiro! E sempre no Largo,
defronte da casa! É
sorte!... Esse bigodeira não achará outro logar
para onde
vá caracolar com a pileca?
José Barrôlo, um moço gordo, de cabello
ruivo e crespo, com um buço claro n'uma face mais redonda e
córada que uma bella
maçã, accudiu, ingenuamente:
―Pileca?!... Oh, menino, tem agora um cavallo lindo! Um cavallo lindo,
que comprou ao Marges!
―Pois bem! É um burro feio em cima d'um cavallo bonito. Que
fiquem ambos na cavallariça. Ou que vão ambos
pastar
para as Devezas!
[121]
O Barrôlo escancarou a bôca larga e fresca, de
soberbos dentes, n'um lento pasmo. E de repente, com uma patada no
soalho, vergado pela cinta, rompeu n'uma risada que o suffocava, lhe
inchava as veias:
―Essa é d'arromba! Não, essa é para
contar no Club... Um burro feio em cima d'um cavallo bonito! E ambos a
pastarem!... Tu vens hoje rico, menino! Olha que essa! Ambos a
pastarem, com os focinhos na herva, o Governador civil e o cavallo...
É d'arromba!
Rebolava pela sala, com palmadas radiantes sobre a coxa obesa. E
Gonçalo, adoçado por aquella
ovação que celebrava a sua facecia:
―Bem. Dá cá esses ossos, ou antes esses untos. E
como vae a familia? A Gracinha?... Oh! viva a linda flôr!
Era ella, com a sua ligeiresa airosa e menineira, os magnificos
cabellos soltos sobre um penteador de rendas, correndo
alvoroçada
para o irmão, que a envolveu n'um abraço e em
dous beijos sonoros. E
immediatamente, recuando, a declarou mais bonita, mais gorda:
―Positivamente estás mais gorda, até mais
alta... É sobrinho?... Não? nada, por ora?
Gracinha córou, com aquelle seu languido sorriso que mais
lhe humedecia e lhe enternecia a doçura dos olhos
esverdeados.
[122]―Se ella
não quer, ella não quer! gritava o
José Barrôlo, gingando, com as mãos
enterradas nos bolsos do jaquetão que lhe
desenhava as ancas roliças. A culpa não
é cá
do patrão... Mas ella não se decide!
O fidalgo da Torre reprehendeu a irmã:
―Pois é necessário um menino. Eu por mim
não caso, não tenho geito: e lá se
vão d'esta feita Barrôlos e
Ramires! A extincção dos Barrôlos
é uma limpeza. Mas, acabados os Ramires, acaba Portugal.
Portanto, Snr.
a D. Graça Ramires,
depressa, em nome da
nação, um morgado! Um morgado muito gordo, que eu
pretendo que se chame Tructesindo!
Barrôlo protestou, aterrado:
―O que? Turtesinho? Não! para tal sorte não o
fabríco eu!
Mas Gracinha deteve aquelles gracejos picantes, desejosa de saber da
Torre, e do Bento, e da Rosa cosinheira, e da horta, e dos
pavões... Conversando, penetraram na outra sala, guarnecida
de contadores da India, de pesados cadeirões dourados de
damasco azul, com
tres varandas sobre o Largo d'El-Rei. Barrôlo enrolou um
cigarro, reclamou
a historia do Relho, da grande desordem. Tambem elle
arranjára uma
«pega» com o rendeiro da
Ribeirinha,
por causa d'um
córte de pinhal.
Essa do Relho porém fôra tremenda...
[123]
E Gonçalo, enterrado ao canto do fundo camapé
azul, desabotoando preguiçosamente o jaquetão de
chaviote claro:
―Não! foi muito simples. Já ha mezes esse Relho
andava bebedo, sem despegar... Uma noite berrou, ameaçou a
Rosa, agarrou n'uma
espingarda. Eu desci, e n'um instante a Torre ficou
desembaraçada de
Relhos e de barulhos.
―Mas veio o Regedor, com cabos! accudio o Barrôlo.
Gonçalo saccudiu os hombros, impaciente:
―Veio o regedor? Veio depois, para legalisar! Já o homem
abalára, corrido. E como resultado arrendei a Torre ao
Pereira, ao Pereira da Riosa...
Contou esse negocio excellente, tratado na varanda, ao
almoço, entre dous copos de vinho verde. Barrôlo
admirou a renda―gabou o
rendeiro. Assim Gonçalo descortinasse outro Pereira para a
quinta de
Treixedo, terra tão generosa, tão mal amanhada!
Á borda do camapé, coberta pelos bellos cabellos
que lavára n'essa manhã e que cheiravam a
alecrim, Gracinha comtemplava o irmão com
ternura:
―E do estomago, andas melhor? Continuam as ceias com o Titó?
―Oh! esse animal! exclamou Gonçalo. Ha dias prometteu
jantar na Torre, até a Rosa assou um cabrito no espeto,
magnifico... Depois
falhou: creio
[124]
que teve uma orgia infame, com bichas de rabear. Elle vem esta semana a
Oliveira... E é verdade! vocês sabiam da
intimidade do Titó com o Sanches Lucena?
Historiou então, com exagero alegre, o encontro da
Bica-Santa, o horror que lhe causára a bella D. Anna, a
descoberta inesperada
d'essa familiaridade do Titó na
Feitosa.
Barrôlo recordou que uma tarde, antes do S. João,
avistára o Titó, deante do portão da
Feitosa,
a passear
pela trela um
cãosinho branco de regaço...
―Mas o que eu não comprehendo, menino, é esse
teu «horror» pela D. Anna... Caramba! Mulher
soberba! Um quebrado de quadris, uns
olhões, um peitoril...
―Calle essa bôca impura, devasso! gritou Gonçalo.
Pois aqui ao lado da sua mulher, que é a flôr das
Graças,
ousa louvar semelhante peça de carne!
Gracinha rindo, sem ciumes, comprehendia «a
admiração do José.»
Realmente, a Anna Lucena, que vistosa, que bella!...
―Sim, concedeu Gonçalo, bella como uma bella egoa... Mas
aquella voz gorda, papuda... E a luneta, os modos... E «o
cavalheiro
póde fumar, o cavalheiro está
enganado...» Oh! senhores,
pavorosa!
Barrôlo gingava, deante do sophá, com as
mãos nos bolsos da rabona:
[125]―Uvas verdes, Snr.
D. Gonçalo, uvas verdes!
O Fidalgo dardejou sobre o cunhado uns olhos ferozes:
―Nem que ella se me offerecesse, de joelhos, em camisa, com os
duzentos contos do Sanches n'uma salva d'ouro!
Sorrindo, vermelha como uma pionia, com um «oh»
escandalisado, Gracinha bateu no hombro de Gonçalo―que
puxou por ella,
galhofeiramente:
―Venha lá essa bochecha, e outra beijoca, para purificar!
Com effeito, só pensar na D. Anna arrasta a gente
ás imagens
brutaes... Dizias então do estomago... Sim, filha,
combalido. E ha dias mais pesado, desde o tal cabrito no espeto e da
companhia beberrona do Manoel Duarte. Tu tens
cá agua de Vidago?... Então,
Barrôlinho, sê
angelico. Manda trazer já uma garrafinha bem fresca. E olha!
pergunta se subiram um
açafate e uma caixa de papelão que eu deixei na
caleche? Que ponham no meu
quarto. E não desembrulhes, que é surpreza...
Escuta! Que
me levem agua bem quente. Preciso mudar toda a roupa... Estava uma
poeirada por esse caminho!
E quando o Barrôlo abalou, a rebolar e a assobiar,
Gonçalo, esfregando as mãos:
―Pois vocês ambos estão explendidos! E na
harmonia que convem. Tu positivamente mais fórte,
[126]mais cheia. Até
pensei
que fosse sobrinho. E o Barrôlo mais delgado, mais leve...
―Oh, agora o José passeia, monta a cavallo, já
não adormece tanto depois de jantar...
―E a outra familia? A tia Arminda, o rancho Mendonça?
Bem?... Padre Sueiro, que é feito d'esse santo?
―Teve um ataquesito de rheumatismo, muito ligeiro. Agora bom, sempre
no Paço do Bispo, na Bibliotheca... Parece que se entretem a
fazer um livro sobre os Bispos.
―Bem sei, a Historia da Sé d'Oliveira... Pois eu tambem
tenho trabalhado muito, Gracinha! Ando a escrever um Romance.
―Ah!
―Um Romance pequeno, uma Novella, para os
Annaes de
Litteratura e de Historia, uma Revista que fundou um rapaz
meu amigo, o
Castanheiro...
É sobre um facto historico da nossa gente... Sobre um
avô
nosso, muito antigo, Tructesindo.
―Tem graça, que fez elle?
―Horrores. Mas é pittoresco... E depois o Paço
de Santa Ireneia, no século XII, em todo o seu explendor!
Emfim uma bella
reconstrucção do velho Portugal e sobre tudo dos
velhos Ramires. Has-de gostar...
Não ha amores, tudo guerras. Apenas, muito remotamente, uma
das nossas antepassadas, uma
[127]D.
Menda, que eu nem sei se realmente existiu. Tem seu chic, hein?... E tu
comprehendes, como eu desejo tentar a Politica, preciso primeiramente
apparecer, espalhar o meu nome...
Gracinha sorria docemente para o irmão, no costumado enlevo:
―E agora tens alguma idéa? A tia Arminda lá
continua sempre com a teima que devias entrar na Diplomacia. Ainda ha
dias... «Ai, o
Gonçalinho, assim galante, e com aquelle nome, só
n'uma grande
embaixada!»
Gonçalo despegára lentamente do vasto
camapé, reabotoando o jaquetão claro:
―Com effeito ando com uma idéa, ha dias... Talvez me viesse
d'um romance inglez, muito interessante, e que te recommendo, sobre as
antigas Minas de Ophir,
King Salomon's Mines...
Ando com
idéas de ir para a Africa.
―Oh Gonçalo, credo! Para a Africa?
O escudeiro entrára com duas garrafas de agua de Vidago,
ambas desarrolhadas, n'uma salva. Precipitadamente, para aproveitar o
«piquesinho», Gonçalo encheu um copo
enorme de crystal lavrado. Ah! que delicia d'agua!―E como o
Barrôlo voltava, annunciando que
cumprira as ordens de S. Ex.
a:
―Bem! então logo conversamos ao almoço,
Gracinha! Agora lavar, mudar de roupa, que não paro com
estas infames comichões...
[128]
Barrôlo acompanhou o cunhado ao quarto, um dos mais
espaçosos e alegres do Palacete, forrado de cretones
côr de canario com uma
varanda para o jardim, e duas janellas de peitoril sobre a rua das
Tecedeiras e os velhos arvoredos do convento das Monicas.
Gonçalo impaciente
despiu logo
o casaco, saccudiu para longe o collete:
―Pois tu estás explendido, Barrôlo! Deves ter
perdido tres ou quatro kilos. São naturalmente os kilos que
Gracinha ganhou...
Vocês, se assim se equilibram, ficam perfeitos.
Deante do espelho Barrôlo acariciava a cinta, com um risinho
deleitado:
―Realmente, parece que adelgacei... Até sinto nas
calças...
Gonçalo abrira o gavetão da rica commoda de
ferragens douradas, onde conservava sempre roupa (até duas
casacas), para evitar o
transporte de malas entre os Cunhaes e a Torre. E ria, aconselhava o
bom
Barrôlo a «adelgaçar» sem
descanço,
para belleza da futura raça Barrolica―quando em baixo, na
silenciosa rua das Tecedeiras as patas de um cavallo de luxo feriram as
lages em cadencia lenta.
Logo desconfiado, Gonçalo correu á janella, ainda
com a camisa que desdobrava. E era
elle! Era o
André
Cavalleiro, que descia
ladeando, sopeando a rédea, para escarvar com garbo e fragor
[129]a rampa
mal empedrada. Gonçalo virou para o Barrôlo a face
chammejante de furôr:
―Isto é uma provocação! Se este
descarado d'este Cavalleiro passa outra vez na maldita pileca, por
debaixo das janellas, apanha com um balde d'agua suja!...
Barrôlo, inquieto, espreitou:
―Naturalmente vae para casa das Louzadas... Anda agora muito intimo
das Louzadas... Sempre por aqui o vejo... E é para as
Louzadas.
―Que seja para o inferno! Pois, em toda a cidade, não ha
outro caminho para casa das Louzadas? Duas vezes em meia hora! Grande
insolente! Tem uma chapada d'agua de sabão, pela grenha e
pela bigodeira,
tão certo como eu ser Ramires, filho de meu pae Ramires!
Barrôlo beliscava a pelle do pescoço, constrangido
ante aquelles rancores ruidosos que desmanchavam o seu socego.
Já, por
imposição de Gonçalo, rompera
desconsoladamente com o Cavalleiro. E agora
antevia sempre uma bulha, um escandalo que o indisporia com os amigos
do Cavalleiro, lhe vedaria o Club e as doçuras da Arcada,
lhe
tornaria Oliveira mais enfadonha que a sua quinta da
Ribeirinha
ou da
Murtosa, solidões detestadas.
Não se conteve,
arriscou o costumado reparo:
[130]―Ó
Gonçalinho, olha que tambem todo esse
espalhafato só por causa da Politica...
Gonçalo quasi quebrou o jarro, na furia com que o pousou
sobre o marmore do lavatorio:
―Politica! Ahi vens tu com a Politica! Por Politica não se
atira agua suja aos Governadores Civis. Que elle não
é
Politico, é só malandro! Além d'isso...
Mas terminou por encolher os hombros, emmudecer, diante do pobre
bacôco de bochechas pasmadas, que, n'aquellas rondas do
Cavalleiro pelos Cunhaes, só notava o «lindo
cavallo» ou
«o caminho mais curto para as Louzadas!...»
―Bem! resumiu. Agora larga, que me quero vestir... Do bigodeira me
encarrego eu.
―Então, até logo... Mas se elle passar nada
d'asneiras, hein?
―Só justiça, aos baldes!
E bateu com a porta nas costas resignadas do bom Barrôlo,
que, pelo corredor, suspirando, lamentava o assomado genio do
Gonçalinho, as coleras desproporcionadas em que o
lançava «a
Politica.»
Em quanto se ensaboava com vehemencia, depois se vestia n'uma pressa
irada, Gonçalo ruminou aquelle intoleravel escandalo.
Fatalmente, apenas se apeava em Oliveira, encontrava o homem da grande
guedelha, caracolando por sob as janellas do palacete,
[131]na pileca de grandes
clinas! E o que o desolava era perceber no
coração de Gracinha, pobre
coração meigo e sem fortaleza, uma teimosa raiz
de ternura pelo Cavalleiro, bem enterrada, ainda vivaz, facil de
reflorir... E nenhum outro sentimento forte que a defendesse, n'aquella
ociosidade d'Oliveira―nem superioridade do marido, nem encanto d'um
filho no seu berço. Só a amparava o orgulho,
certo respeito
religioso pelo nome de Ramires, o medo da pequena terra espreitadeira e
mexeriqueira. A sua salvação seria o abandono da
cidade, o encerrado
retiro n'uma das quintas do Barrôlo, a
Ribeirinha,
sobretudo a
Murtosa,
com a linda matta, os musgosos muros de convento, a aldêa em
redor para
ella se occupar como castellã benefica. Mas quê!
Nunca o
Barrôlo, consentiria em perder o seu voltarete no Club, e a
cavaqueira da tabacaria
«Elegante», e as chalaças do Major Ribas!
Afogueado pelo calor, pela emoção,
Gonçalo abriu a varanda. Em baixo, no curto
terraço ladrilhado, orlado de vasos de
louça, precedendo o jardim, Gracinha, ainda soltos os
cabellos por cima do penteador, conversava com outra senhora, muito
alta, muito magra, de chapeu marujo enfeitado de papoulas, que segurava
entre os braços um repolhudo
mólho de rosas.
[132]
Era a «prima» Maria Mendonça, mulher de
José Mendonça, condiscipulo do Barrôlo
em Amarante, agora capitão do Regimento de
Cavallaria estacionado em Oliveira. Filha d'um certo D. Antonio, senhor
(hoje Visconde) dos Paços de Severim, devorada pela
preoccupação de parentescos fidalgos, de origens
fidalgas, ligava sempre surrateiramente o vago solar de Severim a todas
as casas nobres de Portugal―sobre tudo, mais gulosamente, á
grande casa de Ramires: e, desde que o
regimento se aquartellára em Oliveira, tratára
logo Gracinha
por «tu» e Gonçalo por
«primo», com a intimidade especial, que convem a
sangues superiores. Todavia mantinha amisades muito seguidas e activas
com brazileiras ricas d'Oliveira―até com a viuva Pinho,
dona da loja de pannos,
que (segundo se murmurava) lhe fornecia os dous filhos ainda pequenos
de
calções e de jalecas. Tambem convivia
intimamente, já na cidade,
já na
Feitosa, com D. Anna Lucena.
Gonçalo gostava da sua graça, da
sua agudeza, da vivacidade maliciosa que a agitava n'uma linda
crepitação de galho, ardendo com alegria. E
quando, ao rumor da janella perra, ella levantou os olhos lusidios e
espertos, foi em ambos uma surpresa carinhosa:
―Oh prima Maria! Que felicidade, logo que chego e que abro a janella...
―E para mim, primo Gonçalo, que o não via
[133]desde
a sua volta de Lisboa!... Pois está mais lindo, assim de
bigode...
―Dizem que estou lindissimo, absolutamente irresistivel!
Até aconselho á prima Maria que se não
approxime muito de mim,
para se não incendiar.
Ella deixou pender desoladamente nos braços o seu pesado
molho de rosas:
―Ai Jesus, então estou perdida, que ainda agora prometti
á prima Graça jantar cá esta tarde!...
Oh Gracinha, por quem
és, põe um biombo entre os dois!
Gonçalo gritou, pendurado da varanda, já
deliciado com os chistes da prima Maria:
―Não! enfio eu um
abat-jour pela
cabeça para
attenuar o meu brilho!... E o maridinho, os pequenos? Como vae o nobre
rancho?
―Vivendo, com algum pão e muita graça de Deus...
Então até logo, primo Gonçalo! E seja
misericordioso!
E ainda elle ria, encantado―já a prima Maria depois de
cochichar e d'estalar dois beijos apressados na face de Gracinha,
desapparecêra pela porta envidraçada da sala com a
sua elegancia esgalgada.
Gracinha, lentamente, subiu os tres degraus de marmore do jardim. Da
varanda, Gonçalo ainda avistou atravez da ramaria leve,
entre as
sebes de buxo, o penteador branco, os fartos cabellos cabidos,
[134]relusindo no sol como uma
cascata de azeviche. Depois o negro brilho, as claras rendas,
desappareceram sob os loureiros da rua que conduzia ao Mirante.
Mas Gonçalo não se arredou d'entre as janellas,
limando vagamente as unhas, espreitando pelas cortinas, n'uma
desconfiança, quasi
n'um terror que o Cavalleiro de novo surgisse na pileca―agora que
Gracinha se embrenhára para os lados d'esse commodo Mirante,
construcção do seculo XVIII, imitando um
Templosinho do Amor, que rematava o longo
terraço do jardim e dominava a rua das Tecedeiras. Mas a
calçada
permanecia silenciosa, sob as derramadas sombras de arvoredo do
Palacete e do Convento. E por fim decidiu descer, envergonhado da
espionagem―certo que a irmã não se mostraria ao
Cavalleiro na
varandinha do Mirante, assim com os cabellos em desalinho, por cima
d'um penteador.
E cerrava a porta, quando se encontrou deante dos braços do
Padre Sueiro, que o prenderam pela cinta com affago e respeito.
―Oh! meu ingratissimo Padre Sueiro! exclamava Gonçalo,
batendo ternamente nas gordas costas do Capellão.
Então
que feia acção foi esta? Mais de um mez sem
apparecer na Torre! Agora para o Sr. Padre Sueiro
já não ha Gonçalinho, ha só
Gracinha...
Enternecido, quasi com uma lagrima a bailar
[135]nos
mansos olhos miudos, que mais negrejavam entre a frescura rozea da face
roliça e a
cabecinha branca como algodão―Padre Sueiro sorria, fechando
as
mãos sobre o peito
da batina d'alpaca, d'onde surdia a ponta de um lenço de
quadrados vermelhos. E não lhe escasseára
certamente o
desejo d'ir á Torre. Mas aquelle trabalhinho na Bibliotheca
do Paço do Bispo...
Depois o seu rheumatismosito... Emfim a Sr.
a D.
Graça sempre esperando
S. Ex.
a, um dia, outro dia...
―Bem, bem! acudiu alegremente Gonçalo, comtanto que o
coração não se esquecesse da Torre...
―Ah! esse! murmurou Padre Sueiro com commovida gravidade.
E pelo corredor de paredes azues, adornadas com gravuras coloridas das
batalhas de Napoleão, Gonçalo resumiu as
novidades da Torre:
―Como o Padre Sueiro sabe, rebentou aquelle escandalo do Relho... E
ainda bem, porque conclui um negocio explendido. Imagine! Arrendei ha
dias a quinta ao Pereira Brazileiro, ao Pereira da Riosa, por um conto
cento e cincoenta mil réis...
O capellão suspendeu a pitada, que colhera n'uma caixa de
prata dourada, pasmado para o Fidalgo:
―Ora ahi está como as cousas se inventam! Pois por
cá constou que V. Ex.
a
tratára com o José
Casco, o José
Casco dos Bravaes. Até no Domingo, ao almoço, a
Sr.
a D.
Graça...
[136]―Sim, interrompeu
o Fidalgo com uma fugidia côr na face
fina. Effectivamente o Casco veio á Torre,
conversámos.
Primeiramente quiz, depois não quiz. Aquellas cousas do
Casco! Einfim, uma
massada... Não ficou nada decidido. E quando o Pereira, uma
bella manhã, me
appareceu com a proposta, eu, inteiramente desligado, acceitei, e com
que alvoroço!... Imagine! Um augmento soberbo de renda, o
Pereira como rendeiro... O Padre Sueiro conhece bem o Pereira...
―Homem entendido, concordou o Capellão coçando
embaraçadamente o queixo. Não ha duvida. E homem
de bem... Depois
não havendo palavra dada ao Cas...
-―Pois o Pereira para a semana vem á cidade, atalhou
apressadamente Gonçalo. O Padre Sueiro previne o
tabellião
Guedes, e assignamos essa bella escriptura. São as
condições
costumadas. Creio que ha uma reserva a respeito da hortaliça
e do porco... Emfim o Padre Sueiro
deve receber carta do Pereira.
E immediatamente, descendo a escada, passando o lenço
perfumado pelo bigode, gracejou com o capellão sobre o
famoso
Fado
dos
Ramires em que elle collaborava com o Videirinha. Oh! Padre
Sueiro fornecera lendas sublimes! Mas aquella de Santa
Aldonça, realmente,
fôra ataviada com exageração... Quatro
Reis a levarem a Santa aos
hombros!
[137]―São
Reis de mais, Padre Sueiro!
O bom capellão protestou, logo interessado e serio, no amor
d'aquella obra que glorificava a Casa:
―Ora essa! Com perdão de V. Ex.
a...
Perfeitissimamente
exacto. Lá o conta o Padre Guedes do Amaral, nas suas
Damas
da
Côrte do
Ceu, livro precioso, livro rarissimo, que o Sr.
José Barrôlo
tem na Livraria. Não especifica os Reis, mas diz quatro...
«Aos hombros de quatro
Reis e com acompanhamento de muitos Condes.» Mas o nosso
José
Videira declarou que não podia metter os Condes por causa da
rima.
O Fidalgo ria, dependurando n'um cabide, ao fundo da escada, o chapeu
de palha com que descêra:
―Por causa da rima, pobres Condes... Mas o fado está lindo.
Eu trago uma copia para a Gracinha cantar ao piano... E agora outra
cousa, Padre Sueiro. O que se conta por ahi do Governador Civil, d'esse
Sr.
André Cavalleiro?...
O capellão encolheu os hombros, desdobrando cautelosamente o
seu vasto lenço de quadrados vermelhos:
―Eu, como V. Ex.
a sabe, não entendo
de Politica. Depois
tambem não frequento os cafés, os sitios onde se
questiona Politica...
Mas parece que gostam.
No corredor um escudeiro gordo, de opulentas
[138]suissas
ruivas, que
Gonçalo não conhecia, badalou a sineta do
almoço.
Gonçalo reparou, avisou o homem que a Snr.
a
D. Maria da Graça
andava para o fundo do
jardim...
―Entrou agora, Snr. D. Gonçalo! accudiu o escudeiro. E
até manda perguntar se V. Ex.
a deseja
para o
almoço vinho verde de
Amarante, de
Vidainhos.
Sim, com certeza, vinho de
Vidainhos. Depois
sorrindo:
―Oh Padre Sueiro, previna este escudeiro novo que eu não
tenho
Dom. Sou simplesmente Gonçalo,
graças a Deus!
O capellão murmurou que todavia, em documentos da Primeira
Dynastia, appareciam Ramires com
Dom. E, como
Gonçalo parara deante
do reposteiro corrido da sala, logo o bom velho se curvou, com as suas
escrupulosas, reverentes ceremonias, para o Fidalgo passar.
―Então, Padre Sueiro, por quem é!
Mas elle, com apegado respeito:
―Depois de V. Ex.
a, meu senhor...
Gonçalo afastou o reposteiro, empurrou docemente o
capellão:
―Padre Sueiro, já nos documentos da Primeira Dynastia se
estabeleceu que os Santos nunca andam atraz dos Peccadores!
―V. Ex.
a manda, e sempre com que
graça!
[139]
Depois dos annos de Gracinha, uma tarde, pelas tres horas,
Gonçalo, recolhendo com Padre Sueiro d'uma visita
á Bibliotheca do
Paço do Bispo, sentiu logo da antecamara o
vozeirão do Titó, que
rolava na sala azul em trovão lento. Franziu vivamente o
reposteiro―e sacudiu o
punho para o immenso homem que enchia um dos cadeirões
dourados,
estirando por sobre as flôres do tapete umas botas novas de
grossas tachas
reluzentes:
―Oh infame!... Então n'outro dia assim me larga, sem
escrupulo, depois de eu lhe preparar um cabrito estupendo, assado n'um
espeto de cerejeira? E para quê?... Para uma orgia reles, com
bolinhos
de bacalhau e bichinhas de rabear!
Titó não desmanchou a sua conchegada beatitude:
―Impossibilissimo. De tarde encontrei o João Gouveia no
Chafariz. E só então nos lembrámos de
que eram os annos da D.
Casimira. Dia sagrado!
Aquellas ceias de Villa-Clara, as tresnoutadas
«pandegas» com violão, impressionavam
sempre Barrôlo, que as appetecia. E com o olho
aguçado, do canto da mesa onde esfarelava cuidadosamente
pacotes de tabaco dentro de uma terrina do Japão:
―Quem é a D. Casimira? Vocês em Villa-Clara
descobrem uns typos... Conta lá!
[140]―Um monstro!
declarou Gonçalo. Uma matronaça
bojuda como uma pipa, com um pêllo nojento no
queixo. Vive ao pé do
Cemiterio, n'um cacifro que tresanda a petroleo, onde este senhor e as
auctoridades vão
jogar o quino, e derriçar com umas serigaitas de cazabeque
vermelho
e de farripas... Nem se póde decentemente contar deante do
Snr.
Padre Sueiro!
O capellão, que sem rumor se esbatera n'uma sombra discreta,
entre os franjados setins d'uma cortina e um pesado contador da India,
moveu os hombros n'um consentimento risonho, como acostumado a todas as
fealdades do Peccado. E, com pachorra, o Titó emendava o
esboço burlesco do Fidalgo:
―A D. Casimira é gorda, mas muito aceada. Até me
pediu para eu lhe comprar hoje, na cidade, uma bacia nova d'assento. A
casa
não cheira a petroleo e fica por traz do convento de Santa
Theresa. As serigaitas
são simplesmente as sobrinhas, duas raparigas alegres que
gostam de rir e de troçar... E o Snr. Padre Sueiro podia,
sem medo...
―Bem, bem! atalhou Gonçalo. Gente deliciosa! Deixemos a D.
Casimira, que tem bacia nova para os seus semicupios... Vamos
á outra
infamia do Sr. Antonio Villalobos!
Mas Barrôlo insistia, curioso:
―Não, não, conta lá,
Titó... Noite d'annos, patuscada rija, hein?
[141]―Ceia pacata,
contou o Titó com a seriedade que lhe merecia
a festa das suas amigas. A D. Casimira tinha uma bella frangalhada com
ervilhas. O João Gouveia trouxe do Gago uma travessa de
bôlos
de bacalhau que calharam... Depois, fogo de vistas na horta. O
Videirinha tocou, as pequenas cantaram... Não se passou mal.
Gonçalo esperava―irresistivelmente interessado pela ceia
das Casimiras:
―Acabou, hein?... Agora a outra infamia, mais grave! Então
o Snr. Antonio Villalobos é intimo do Sanches Lucena,
frequenta
todas as semanas a
Feitosa, toma chá e
torradas
com a bella D.
Anna, e esconde tenebrosamente dos seus amigos estes privilegios
gloriosos?...
―Sem contar, gritou o Barrôlo deliciosamente divertido, que
lhe passeia á trela os cãesinhos felpudos!
―Sem contar que lhe passeia á trela os cãesinhos
felpudos! echoou cavamente Gonçalo. Responda, meu illustre
amigo!
O Titó remecheu o vasto corpo dentro do cadeirão,
recolheu as botas de tachas luzentes, afagou lentamente a face barbuda,
que uma
vermelhidão aquecêra. E depois de encarar
Gonçalo,
intensamente, com um esforço de sagacidade que mais o
afogueou:
[142]―Tu já
alguma vez, por curiosidade, me perguntaste se eu
conhecia o Sanches Lucena? Nunca me perguntaste...
O Fidalgo protestou. Não! Mas constantemente na Assembleia,
no Gago, na
Torre, elles berravam, em questões de Politica, o nome do
Sanches Lucena! Nada mais natural, até mais prudente, do que
alludir
o Snr. Titó á sua intimidade illustre! Ao menos
para evitar que elle, ou
os amigos, deante do Snr. Titó que comia as torradas da
Feitosa,
tratassem o Sanches Lucena como um trapo!
O Titó despegou do cadeirão. E afundando as
mãos nos bolsos da quinzena d'alpaca, sacudindo
desinteressadamente os hombros:
―Cada um tem sobre o Sanches a sua opinião... Eu apenas o
conheço ha quatro ou cinco mezes, mas acho que é
serio, que sabe as
cousas... Agora, lá nas Camaras...
Gonçalo, indignado, bradava que se não discutiam
os meritos do Snr. Sanches Lucena―mas os segredos do Snr.
Titó Villalobos! E o
escudeiro novo, avançando as suissas ruivas por uma fenda do
reposteiro, annunciou que o Snr. Administrador de Villa-Clara procurava
Suas Ex.
as...
Barrôlo largou logo a terrina de tabaco:
―O Snr. João Gouveia! Que entre! Bravo! temos cá
toda a rapaziada de Villa-Clara!
[143]
E Titó, da janella onde se refugiara, lançou o
vozeirão, mais troante, abafando a importuna conversa do
Sanches e da
Feitosa:
―Viemos ambos! Por signal n'uma traquitana infame... Até se
nos desferrou uma das pilecas e tivemos de parar na Vendinha.
Não se perdeu tempo, que ha agora lá um vinhinho
branco que é
d'aqui da ponta fina!...
Beliscava a orelha. Aconselhava ruidosamente Barrôlo e
Gonçalo a passarem na Vendinha, para provar a pinga celeste.
―Até aqui o Snr. Padre Sueiro lhe atiçava uma
caneca valente, apesar do Peccado!
Mas João Gouveia entrou, encalmado, empoeirado, com um vinco
vermelho na testa, do chapeu e do calor―e abotoado na sobrecasaca
preta, de
calças pretas, de luvas pretas. Sem folego, apertou
silenciosamente pela sala as mãos amigas que o acolhiam. E
desabou sobre o
camapé, implorando ao amigo Barrôlo a caridade
d'uma bebidinha fresca!
―Estive para entrar no café Monaco. Mas reflecti que n'esta
grandiosa casa dos Barrôlos as bebidas são de mais
confiança.
―Ainda bem! Você que quer? Orchata? Sangria? Limonada?
―Sangria.
E, limpando o pescoço e a testa, amaldiçoou o
indecente calor d'Oliveira:
[144]―Mas ha gente que
gosta! Lá o meu chefe, o Snr. Governador
Civil, escolhe sempre a hora do calor para passear a cavallo. Ainda
hoje... Na repartição até ao meio dia;
depois,
cavallo á porta; e larga até á estrada
de Ramilde, que é uma Africa... Não sei
como lhe não fervem os miolos!
―Oh! acudiu Gonçalo, é muito simples. Se elle os
não tem!
O administrador saudou gravemente:
―Já cá faltava com a sua ferroadasinha o Snr.
Gonçalo Mendes Ramires! Não comecemos,
não comecemos... Este seu cunhado,
Barrôlo, é bicho indomesticavel! Sempre reponta!
O bom Barrôlo gaguejou, constrangido, que
Gonçalinho em Politica não dispensava a piada...
―Pois olhe! declarou o administrador, sacudindo o dedo para
Gonçalo. Esse Snr. André Cavalleiro, que
não tem miolos,
ainda esta manhã na Repartição gabou
com immensa sympathia os miolos
do Snr. Gonçalo Mendes Ramires!...
E Gonçalo, muito serio:
―Tambem não faltava mais nada! Para esse Governador Civil
ser perfeitamente absurdo só lhe restava que me considerasse
um
asno!
―Perdão! gritou o Administrador, que se erguera,
desabotoando logo a sobrecasaca, para commodidade da contenda.
[145]
Barrôlo acudio, afflicto, carregando nos hombros do
Gouveia―para o socegar e o repôr no camapé:
―Não, meninos, não! Politica, não! E
então essa massada do Cavalleiro... Vamos ao que importa.
Você janta comnosco,
João Gouveia?
―Não, obrigado. Já prometti jantar com o
Cavalleiro. Temos lá o Ignacio Vilhena. Vae lêr um
artigo que escreveu para o
Boletim
de
Guimarães sobre umas fôrmas de fabricar
ossos de martyres, descobertas
nas obras do convento de S. Bento. Estou com curiosidade... E a Snr.
a
D.
Graça, bem? Quem eu não avistava havia mezes era
o Snr. Padre
Sueiro. Nunca apparece agora pela Torre!... Mas sempre rijo, sempre
viçoso. Oh, Snr. Padre Sueiro, qual é o seu
segredo para toda essa meninice?
Do seu canto, o capellão sorriu timidamente. O segredo?
Poupar a Vida―não a consumindo nem com
ambições nem com decepções.
Ora para elle, louvado Deus, a vida corria muito simples e muito
pequenina. E fóra o seu rheumatismo...
Depois, córando d'acanhamento, atravez das
sentenças evangelicas que lhe escapavam:
―Mas mesmo o rheumatismo não é mal perdido.
Deus, que o manda, sabe porque o manda... Soffrer edifica. Por que
enfim o que nós
soffremos nos leva a pensar no que os outros soffrem...
[146]―Pois olhe, volveu
com alegre incredulidade o Administrador, eu,
quando tenho os meus ataques de garganta, não penso na
garganta dos
outros! Penso só na minha que me dá bastante
cuidado. E
agora a vou regalar n'aquella bella sangria...
O escudeiro vergava, com a luzente bandeja de prata, carregada de copos
de sangria onde boiavam rodellinhas de limão. E todos se
tentaram, todos beberam, até Padre Sueiro, para mostrar ao
Snr. Antonio
Villalobos que não desdenhava o vinho, dadiva amavel de
Deus―pois como
ensina Tibulo com verdade, apezar de gentilico,
vinus facit
dites animos,
mollia corda dat, enrija a alma e adoça o
coração.
João Gouveia, depois d'um suspiro consolado, pousou na
bandeja o copo que esvasiára d'um trago e interpellou
Gonçalo:
―Vamos a saber! Então n'outro dia que historia phantastica
foi essa d'uma festa na Torre, com senhoras, com a D. Anna Lucena?...
Eu
não acreditei quando o pequeno do Gago me encontrou, me deu
o recado. Depois...
Mas d'entre as cortinas da janella, onde acabava a sangria,
Titó novamente rebombou, interpellando tambem o Fidalgo:
―Oh sô Gonçalo! E o que me contou ha pouco
[147]o
Barrôlo?... Que andavas com idéas de abalar para a
Africa?
Ao espanto de João Gouveia quasi se misturou terror. Para a
Africa?... O quê? Com um emprego para a Africa?...
―Não! plantar côcos! plantar cacau! plantar
café! exclamava o Barrôlo, com divertidas palmadas
na côxa.
Pois Titó approvava a idéa! Tambem elle, se
arranjasse um capital, dez ou quinze contos, tentava a Africa, a
traficar com o preto... E tambem se fôsse mais pequeno, mais
secco. Que homens do seu
corpanzil, necessitando muita comezaina e muita vinhaça,
não
aguentam a Africa, rebentam!
―O Gonçalo sim! É chupado, é rijo;
não carrega na agua-ardente; está na conta para
Africanista... E sempre te digo! Carreira bem mais decente que essa
outra por que tens mania, de deputado! Para que? Para palmilhar na
Arcada, para bajular Conselheiros.
Barrôlo concordou, com alarido. Tambem não
comprehendia a teima de Gonçalo em ser deputado! Que
massada! Eram logo as intrigas,
e as desandas nos jornaes, e os enxovalhos. E sobretudo aturar os
eleitores.
―Eu, nem que me nomeassem depois Governador Civil, com um titulo e uma
gran-cruz a tiracollo, como o Freixomil!
[148]
Gonçalo escutára, n'um silencio risonho e
superior, enrolando laboriosamente um cigarro com o tabaco do
Barrôlo:
―Vocês não comprehendem... Vocês
não conhecem a organisação de
Portugal. Perguntem ahi ao Gouveia... Portugal é uma
fazenda, uma bella fazenda, possuida por uma parceria. Como
vocês sabem ha
parcerias commerciaes e parcerias ruraes. Esta de Lisboa é
uma
parceria politica, que governa a herdade chamada
Portugal...
Nós os
Portuguezes pertencemos todos a duas classes: uns cinco a seis
milhões
que trabalham na fazenda, ou vivem n'ella a olhar, como o
Barrôlo, e que
pagam; e uns trinta sujeitos em cima, em Lisboa, que formam a
parceria,
que recebem e que governam. Ora eu, por gosto, por necessidade, por
habito de familia, desejo mandar na fazenda. Mas, para entrar na
parceria
politica, o cidadão portuguez precisa uma
habilitação―ser deputado. Exactamente como,
quando pretende entrar na Magistratura, necessita uma
habilitação―ser bacharel. Por isso procuro
começar como deputado para acabar como parceiro e
governar... Não é verdade,
João Gouveia?
O Administrador voltára á bandeja das sangrias,
de que saboreava outro copo, agora lentamente, aos goles:
―Sim, com effeito, essa é a carreira... Candidato,
[149]Deputado,
Politico, Conselheiro, Ministro, Mandarim. É a carreira... E
melhor
que a d'Africa. Por fim na Arcada, em Lisboa, tambem cresce cacau e ha
mais sombra!
Barrôlo no emtanto abraçára o hombro
possante do Titó, com quem mergulhou no vão da
janella, n'uma confraternidade d'ideias,
gracejando:
―Pois eu, sem ser dos taes
parceiros, tambem
mando nos bocados de Portugal que mais me interessam por que me
pertencem!... E sempre queria
vêr que esse S. Fulgencio, ou o Braz Victorino, ou
lá os politicos do Terreiro do Paço, se mettessem
a dispôr nas minhas
terras, na
Ribeirinha ou na
Murtosa...
Era a tiro!
Encostado á vidraça, Titó
coçava a barba, impressionado:
―Pois sim, Barrôlo! Mas você na
Ribeirinha
e na
Murtosa tem de pagar as
contribuições que elles mandarem. E
n'esses concelhos tem d'aguentar as auctoridades que elles nomearem. E
goza para
lá d'estradas se elles lh'as fizerem. E vende o carro de
pão e a pipa de
vinho com mais ou menos proveito, segundo as leis que elles votarem...
E assim tudo. O Gonçalo não deixa de acertar.
É o diabo! Quem manda é quem lucra... Olhe! o
maroto do meu senhorio em Villa-Clara, agora para o S. Miguel, augmenta
a renda da casa em que eu moro, um cochicho que
[150]ninguem quer, por que
mataram lá o carrasco, que ainda lá
apparece... E o Cavalleiro, esse, como
parceiro,
vive de
graça n'este
bello palacio de S. Domingos, com cocheira, com jardim, com horta...
Barrôlo atirou um
chut, de
mão espalmada,
abafando o vozeirão do Titó, com medo que as
regalias do Cavalleiro, assim proclamadas, renovassem as furias de
Gonçalo. Mas o Fidalgo não percebera,
attento ao João Gouveia, que, enterrado no camapé
depois da sangria, novamente
contava o seu assombro, ao encontrar no chafariz, em Villa-Clara, o
rapasola do Gago com o recado da grande festa na Torre:
―E cheguei a desconfiar que realmente você désse
festa, quando bateram as nove, depois as nove e meia, e o
Titó sem chegar para a
ceia da D. Casimira!... Bem, pensei, tambem recebeu recado e abalou
para a Torre! Por fim, apenas elle appareceu, de carapuço e
de jaqueta,
percebi que fôra troça do Snr. D.
Gonçalo...
Então o Fidalgo pasmou com uma inesperada, estranha suspeita:
―De carapuço e jaqueta? O Titó andava n'essa
noite de carapuço e de jaqueta?...
Mas bruscamente Barrôlo, da funda janella, lançou
para dentro, para a sala, um brado de pavor:
―Oh! rapazes! Santo Deus! Ahi veem as Louzadas!
[151]
João Gouveia saltou do camapé, como n'um perigo,
reabotoando arrebatadamente a sobrecasaca; Gonçalo,
atarantado, esbarrou
com o Titó e o Barrôlo que recuavam, no terror de
serem apercebidos
atravez dos vidros largos; até Padre Sueiro, prudente,
abandonou o seu
recanto onde corria os oculos pela
Gazeta do Porto.
E todos,
d'entre a fenda das cortinas, como soldados na fresta de uma cidadella,
espreitavam o Largo, que o sol das quatro horas dourava por sobre os
telhados musgosos da Cordoaria. Do lado da rua das Pêgas, as
duas Louzadas, muito
esgalgadas, muito sacudidas, ambas com manteletes curtos de seda preta
e vidrilhos, ambas com guardasoes de xadresinbo desbotado,
avançavam,
estirando pelo largo empedrado duas sombras agudas.
As duas manas Louzadas! Seccas, escuras e garrulas como cigarras, desde
longos annos, em Oliveira, eram ellas as esquadrinhadoras de todas as
vidas, as espalhadoras de todas as maledicencias, as tecedeiras de
todas as intrigas. E na desditosa Cidade não existia nodoa,
pécha, bule rachado, coração dorido,
algibeira arrasada,
janella entreaberta, poeira a um canto, vulto a uma esquina, chapeu
estreado na missa, bolo encommendado nas Mathildes, que os seus quatro
olhinhos furantes d'azeviche sujo não descortinassem―e que
a sua solta
lingoa, entre os dentes ralos, não commentasse com malicia
estridente!
[152]D'ellas surdiam
todas as cartas anonymas que infestavam o Districto: as pessoas devotas
consideravam como penitencias essas visitas em que ellas durante horas
galravam, abanando os braços escanifrados: e sempre por onde
ellas passassem ficava latejando um sulco de desconfiança e
receio. Mas quem ousaria rechaçar as duas manas Louzadas?
Eram filhas do
decrepito e venerando General Louzada; eram parentas do Bispo; eram
poderosas na poderosa confraria do Senhor dos Passos da Penha. E depois
d'uma castidade tão rigida, tão antiga e
tão
resequida, e por ellas tão espaventosamente alardeada―que o
Marcolino do
Independente
as
alcunhára de
Duas Mil Virgens.
―Não veem para cá! trovejou o Titó,
com immenso allivio.
Com effeito no meio do Largo, rente á grade que circumda o
antigo Relogio-de-Sol, as duas manas paradas, erguiam o bico escuro,
farejando e espiando a Egrejinha de S. Matheus onde o sino
lançára um repique de baptisado.
―Oh, c'os diabos, que é para cá!
As Louzadas, decididas, investiam contra o portão dos
Cunhaes! Então foi um panico! As gordas pernas do
Barrôlo, fugindo, abalaram,
quasi derrubaram sobre os contadores, os potes bojudos da India.
Gonçalo bradava que se escondessem no pomar.
[153]Desconcertado, o Gouveia
rebuscava com desespero o seu chapeu côco. Só o
Titó, que as abominava e a quem ellas chamavam o
Polyphemo,
retirou com
serenidade, abrigando o Padre Sueiro sob o seu braço forte.
E já o bando
espavorido se arremessára sobre o reposteiro―quando
Gracinha appareceu, com um fresco vestido de sedinha côr de
morango, sorrindo, pasmada, para o tropel que
rolava:
―Que foi? Que foi?...
Um clamor abafado envolveu a dôce senhora ameaçada:
―As Louzadas!
―Oh!
Fugidiamente o Titó e João Gouveia apertaram a
mão que ella lhes abandonou, esmorecida. A sineta do
portão
tilintára, temerosa! E a fila acavallada, onde Padre Sueiro
rebolava a reboque, enfiou para a livraria que o Barrôlo
aferrolhou, gritando ainda a Gracinha, com uma
inspiração:
―Esconde as sangrias!
Pobre Gracinha! Atarantada, sem tempo de chamar o escudeiro, carregou
ella para uma banqueta do corredor, n'um esforço
desesperado, a pesada salva―com que as Louzadas, se a descortinassem,
edificariam por sobre a cidade, e mais alta que a Torre de S. Matheus,
uma historia pavorosa de «vinhaça e
bebedeira». Depois,
offegando, relanceou no
[154]espelho
o penteado. E direita como n'uma arena, com a temeridade simples e
risonha dos antigos Ramires, esperou a arremettida das manas terriveis.
No outro domingo, depois do almoço, Gonçalo
acompanhou a irmã a casa da tia Arminda Villegas, que na
vespera, ao tomar (como costumava todos os sabbados) o seu banho aos
pés, se escaldára e
recolhera á cama, apavorada, reclamando uma junta dos cinco
cirurgiões
d'Oliveira. Depois acabou o charuto sob as acacias do Terreiro da
Louça,
pensando na sua Novella abandonada na Torre durante essas semanas, e no
lance famoso do Capitulo II que o tentava e que o assustava―o encontro
de
Lourenço Ramires com Lopo de Bayão,
o
Bastardo,
no valle fatal de
Cantapedra. E recolhia aos Cunhaes (porque promettera ao
Barrôlo uma
trotada a cavallo, até ao Pinhal de Estevinha, para
aproveitar a
doçura do domingo ennevoado) quando, na rua das Vellas,
avistou o tabellião
Guedes, que sahia da confeitaria das Mathildes com um grosso embrulho
de pasteis. Ligeiramente, o Fidalgo atravessou logo a rua―emquanto o
Guedes, da borda do passeio, pesado e barrigudo, na ponta dos botins
miudinhos gaspeados de verniz, descobria, n'uma cortezia immensa, a
calva, emplumada
[155]ao
meio pelo famoso tufo de cabello grisalho que lhe
valera a alcunha de «Guedes Pôpa»:
―Por quem é, meu caro Guedes, ponha o chapeu! Como
está? Sempre féro e moço. Ainda
bem!... Fallou com o meu Padre Sueiro? O Pereira
da Riosa, por fim, só vem á cidade na quarta
feira...
Sim! Sim! O Snr. Padre Sueiro passára pelo cartorio, para
avisar―e elle apresentava os parabens a S. Ex.
a
pelo seu novo
rendeiro...
―Homem muito competente, o Pereira! Já ha vinte annos que o
conheço... E olhe V. Ex.
a a
propriedade do Conde de
Monte-Agra! Ainda me lembro d'ella, um chavascal; hoje que primor!
Só a vinha que elle
tem plantado! Homem muito competente... E V. Ex.
a
com demora?
―Dois ou tres dias... Não se atura este calor de Oliveira.
Hoje, felizmente, refrescou. E que ha de novo? Como vae a politica? O
amigo Guedes sempre bom Regenerador, leal e ardente, hein?
Subitamente o Tabellião, com o seu embrulho de doces
conchegado ao collete de seda preta, agitou o braço gordo e
curto, n'uma
indignação que lhe esbraseou de sangue o
pescoço, as orelhas
cabelludas, a face rapada, toda a testa até ás
abas do chapeu branco
orlado de fumo negro:
―E quem o não ha-de ser, Snr. Gonçalo Mendes
Ramires? Quem o não ha-de ser?... Pois este ultimo escandalo!
[156]
Os risonhos olhos de Gonçalo logo se alargaram, serios:
―Que escandalo?
O Tabellião recuou. Pois S. Ex.
a
não sabia da
ultima prepotencia do Governador Civil, do Snr. André
Cavalleiro?
―O quê, caro amigo?...
O Guedes cresceu todo sobre o bico dos botins pequeninos, e bojou, e
inchou, para exclamar:
―A transferencia do Noronha!... A transferencia do
desgraçado Noronha!
Mas uma senhora, tambem obesa, de buço carregado, toda a
estalar em ricas e rugidoras sêdas de missa, arrastando
severamente pela
mão um menino que rabujava, parou, fitou o Guedes―porque o
digno homem com o seu ventre, o seu embrulho, a sua
indignação,
atravancava a entrada das Mathildes. Apressadamente, o Fidalgo
levantou, para ella entrar, o fecho da porta envidraçada.
Depois, n'um alvoroço:
―O amigo Guedes naturalmente vae para casa. É o meu
caminho. Andamos e conversamos... Ora essa! Mas o Noronha... Que
Noronha?
―O Ricardo Noronha... V. Ex.
a conhece. O
pagador das Obras-Publicas!
―Ah! sim, sim... Então transferido? Transferido
arbitrariamente?
[157]
Na rua das Brocas por onde desciam, no silencio, a solidão
das lojas cerradas, a colera do Guedes resoou, mais solta:
―Infamemente, Snr. Gonçalo Mendes Ramires,
infamissimamente! E para Almodovar, para os confins do Alemtejo!...
Para uma terra sem recursos, sem distracções, sem
familias!...
Parára, com os doces contra o coração,
os olhinhos esbugalhados para o Fidalgo, coriscando. O Noronha! Um
empregado trabalhador, honradissimo! E sem Politica, absolutamente sem
Politica. Nem dos Historicos, nem dos Regeneradores. Só da
familia, das tres irmãs que
sustentava, tres flôres... E homem estimadissimo na cidade,
cheio de prendas!
Um talento immenso para a musica!... Ah! o Snr. Gonçalo
Ramires
não sabia? Pois compunha ao piano cousas lindas! Depois
precioso para
reuniões, para annos. Era elle quem organisava sempre em
Oliveira as
representações de curiosos...
―Porque, como ensaiador, creia V. Ex.
a que
não ha outro,
mesmo na capital... Não ha outro! E, zás, de
repente, para
Almodovar, para o Inferno, com as irmãs, com os tarecos!
Só o
piano!... Veja V. Ex.
a só o
transporte do piano!
Gonçalo resplandecia:
―É um bello escandalo. Ora que felicidade esta de o ter
encontrado, meu caro Guedes!... E não se sabe o motivo?
[158]
De novo caminhavam demoradamente pelo passeio estreito. E o
tabellião encolhia os hombros, com amargura. O motivo!
Publicamente, como sempre n'estas prepotencias, o motivo era a
conveniencia do
Serviço...
―Mas todos os amigos do Noronha, por toda a cidade, conhecem o
verdadeiro motivo... O intimo, o secreto, o medonho!
―Então?
Guedes relanceou a rua, com prudencia. Uma velha atravessava, coxeando,
segurando uma bilha. E o tabellião segredou cavamente, junto
á face deslumbrada do fidalgo.―É que o Snr.
André
Cavalleiro, esse infame, se encantára com a mais velha das
irmãs Noronhas, a
D. Adelina, formosissima rapariga, alta e morena, uma estatua!... E
repellido (porque a menina, cheia de juizo, uma perola, percebera a
intenção villissima) em quem se vinga, por
despeito, o Snr. Governador Civil? No pagador! Para Almodovar com as
meninas, com os tarecos!... Era o pagador quem pagava!
―É uma bella maroteira! murmurou Gonçalo,
banhado de gosto e riso.
―E note V. Ex.
a! exclamava o Guedes, com a
mão gorda a
tremer por cima do chapeu. Note V. Ex.
a que o
pobre Noronha, na
sua innocencia,
tão bom homem, gostando sempre d'agradar aos seus chefes,
[159]ainda ha semanas
dedicára ao Cavalleiro uma valsa linda!... A
Mariposa,
uma
valsa linda!
Gonçalo não se conteve, esfregou as
mãos n'um triumpho:
―Mas que preciosa maroteira!... E não se tem fallado? Esse
jornal d'opposição, o
Clarim d'Oliveira,
nem uma
denuncia, nem uma allusão?...
O Guedes pendeu a cabeça, descorçoado. O Snr.
Gonçalo Ramires conhecia bem essa gente do
Clarim...
Estylo―e estylo
brincado, opulento... Mas para assoalhar, assim n'um caso gravissimo
como o do Noronha, a verdade bem nua―pouco nervo, nenhuma valentia. E
depois o Biscainho, o redactor principal, andava a passar
surrateiramente para os Historicos. Ah! O Snr. Gonçalo
Mendes Ramires não se
inteirára? Pois esse torpissimo Biscainho bolinava. De certo
o Cavalleiro lhe acenára com
posta... Além d'isso, como provar a infamia? Cousas intimas,
cousas de familia.
Não se podia apresentar a declaração
da D. Adelina,
menina virtuosissima―e com uns olhos!... Ah! se fosse no tempo do
Manoel Justino e da
Aurora
de Oliveira!... Esse era homem para estampar logo na
primeira
pagina, em letra graúda: «Alerta! que a
Auctoridade superior
do Districto tentou levar a deshonra ao seio da familia
Noronha!...»
―Esse era um homem! Coitado, lá está no
cemiterio de S. Miguel... E agora, Snr. Gonçalo Ramires, o
despotismo campeia,
desenfreado!
[160]
Bufava, arfava, esfalfado d'aquelle fogoso desabafo. Dobraram calados a
esquina das Brocas para a bella rua, novamente calçada, da
Princeza D. Amelia. E logo na segunda porta, parando, tirando da
algibeira o trinco, o Guedes, que ainda resfolgava, offereceu a S. Ex.
a
para
descançar.
―Não, não, obrigado, meu caro amigo. Tive
immenso, immenso prazer, em o encontrar... Essa historia do Noronha
é tremenda!... Mas
nada me espanta do Snr. Governador Civil. Só me espanta que
o não
tenham corrido d'Oliveira, como elle merece, com pancada e assuada...
Emfim, nem toda a gente boa jaz no cemiterio de S. Miguel...
Até
ámanhã, meu Guedes. E obrigado!
Da rua da Princeza D. Amelia até o Largo de El-Rei,
Gonçalo correu com o deslumbramento de quem descobrisse um
thesouro e o levasse debaixo da capa! E ahi levava com effeito o
«escandalo, o rico
escandalo», que tanto farejára, por que tanto
almejára, para
desmantelar o Snr. Governador Civil na sua fiel cidade de Oliveira que
lhe levantava arcos de buxo! E, por uma mercê de Deus, o
«rico
escandalo» demoliria tambem o homem no
coração de Gracinha, onde, apezar do
antigo ultraje, elle permanecia como um bicho n'um fructo, esfuracando
e estragando... E
não duvidava da efficacia do escandalo! Toda a cidade se
revoltaria contra a Authoridade
[161]femieira,
que opprime, desterra um funccionario admiravel―por que a
irmã do pobre senhor se recusou
á baba dos seus beijos. E Gracinha?... Como resistiria
Gracinha áquelle
desengano―o seu antigo André abrazado pela menina Noronha e
por ella
repellido com nôjo e com mófa? Oh! o escandalo era
soberbo! Só
restava que estalasse, bem ruidoso, sobre os telhados d'Oliveira e
sobre o peito de Gracinha como trovão benefico que limpa
ares corrompidos. E d'esse
trovão, rolando por todo o Norte, se encarregava elle com
delicia. Libertava a cidade d'um Governador detestavel, Gracinha d'um
sonho errado. E assim, com uma certeira pennada, trabalhava
pro
patria et pro domo!
Nos Cunhaes correu ao quarto do Barrôlo, que se vestia
trauteando o
Fado dos Ramires, e gritou atravez
da porta com
uma decisão flammejante:
―Não te posso acompanhar á Estevinha. Tenho que
escrever urgentemente. E não subas, não me
perturbes. Necessito socego!
Nem attendeu aos protestos desolados com que o Barrôlo
accudira ao corredor, em ceroulas. Galgou a escada. No seu quarto,
depois de despir rapidamente o casaco, de excitar a testa com um
borrifo d'agua de Colonia, abancou á mesa―onde Gracinha
collocava sempre
entre flores, para elle trabalhar, o monumental tinteiro de prata que
pertencera ao tio Melchior.
[162]E
sem emperrar, sem rascunhar, n'um d'esses soltos fluxos de Prosa que
brotam da paixão, improvisou uma
Correspondencia rancorosa para a
Gazeta do Porto
contra o Snr. Governador
Civil. Logo o titulo fulminava―
Monstruoso attentado!
Sem desvendar o
nome da familia Noronha, contava miudamente, como um acto certo e por
elle testemunhado, «a tentativa villôa e baixa da
primeira Auctoridade
do Districto contra a pudicicia, a paz de
coração, a honra de uma
doce rapariga de dezeseis primaveras!» Depois era a
resistencia
desdenhosa―«que a nobre creança oppuzera ao Don
Juan administrativo, cujos bellos bigodes
são o espanto dos povos!» Por fim
vinha―«a desforra torpe e sem
nome que S. Ex.
a tomára sobre o
zeloso empresado (que é tambem um
talentoso artista), obtendo d'este nefasto Governo que fosse
transferido, ou antes arrojado, cruelmente exilado, com a familia de
tres delicadas senhoras, para os confins do Reino, para a mais arida e
escassa das nossas Provincias, por o não poder empacotar
para a Africa no porão
sordido d'uma fragata!» Lançava ainda alguns
rugidos sobre «a agonia
politica de Portugal». Com pavor triste, recordava os peiores
tempos do Absolutismo, a innocencia soterrada nas masmorras, o prazer
desordenado do Principe sendo a expressão unica da Lei! E
terminava perguntando ao Governo
se cobriria este seu agente―«este grotesco Nero, que
[163]como outr'ora o
outro, o grande, em Roma, tentava levar a
seducção ao seio
das familias melhores, e commettia esses abusos de poder, motivados por
lascivias de temperamento, que foram sempre, em todos os seculos e
todas as civilisações, a
execração
do justo!»―E assignava
Juvenal.
Eram quasi seis horas quando desceu á sala, ligeiro e
resplandecente. Gracinha martellava o piano, estudando o
Fado
dos Ramires.
E
Barrôlo (que não se arriscára a um
passeio solitario)
folheava, estendido no camapé, uma famosa
Historia
dos Crimes da
Inquizição que
começára ainda em solteiro.
―Estou a trabalhar desde as duas horas! exclamou logo
Gonçalo, escancarando a janella. Fiquei derreado. Mas,
louvado seja Deus, fiz obra de Justiça... D'esta vez o Snr.
André
Cavalleiro vae abaixo do seu cavallo!
Barrôlo fechou immediatamente o livro, com o cotovello nas
almofadas, inquieto:
―Houve alguma coisa?
E Gonçalo, plantado deante d'elle, com um risinho suave, um
risinho feroz, remexendo na algibeira o dinheiro e as chaves:
―Oh! quasi nada. Uma bagatella. Apenas uma infamia... Mas para o nosso
Governador Civil infamias são bagatellas.
Sob os dedos de Gracinha o
Fado dos Ramires
esmoreceu, apenas
roçado, n'um murmurio incerto.
[164]
O Barrôlo esperava, esgaseado:
―Desembucha!
E Gonçalo desabafou, com estrondo:
―Pois uma maroteira immensa, homem! O Noronha, o pobre Noronha,
perseguido, espesinhado, expulso! Com a familia... Para o inferno, para
o Algarve!
―O Noronha pagador?
―O Noronha pagador. Foi o infeliz pagador que pagou!
E, regaladamente, desenrolou a historia lamentavel. O Snr.
André Cavalleiro namoradissimo, todo em chammas pela
irmã mais
velha do Noronha. E atacando a rapariga com ramos, cartas, versos,
estropidos cada manhã por deante da janella, a ladear na
pileca!
Até lhe soltára, ao que parece, uma velha
marafona, uma alcoviteira... E a rapariga, um anjo cheio de dignidade,
impassivel. Nem se revoltava, apenas se ria. Era uma troça
em casa das Noronhas, ao chá, com a
leitura da versalhada ardente em que elle a tratava de
«Nympha, d'estrella da
tarde...» Emfim uma sordidez funambulesca!
O pobre
Fado dos Ramires debandou pelo teclado,
n'um tumulto de gemidos desconcertados e asperos.
―E eu não ter ouvido nada! murmurava o Barrôlo,
assombrado. Nem no Club, nem na Arcada...
[165]―Pois, meu
amiguinho, quem ouviu, e um famoso estampido, foi o pobre
Noronha. Arremessado para o fundo do Alemtejo, para um sitio doentio,
coalhado de pantanos. É a morte... É uma
condemnação á morte!
A esta apparicão da Morte, surdindo dos pantanos,
Barrôlo atirou uma palmada ao joelho, desconfiado:
―Mas quem diabo te contou tudo isso?
O Fidalgo da Torre encarou o cunhado com desdem, com piedade:
―Quem me contou!? E quem me contou que D. Sebastião morreu
em Alcacer-Kebir?... São os factos. É a Historia.
Toda Oliveira sabe. Por acaso ainda esta manhã o Guedes e eu
conversamos sobre o
caso. Mas eu já sabia!... E tenho tido pena. Que diabo!
Não ha crime em se
estar apaixonado como o pobre André. Louco, perdido!
Até a chorar na Repartição, deante do
Secretario Geral. E a
rapariga ás gargalhadas!... Agora onde ha crime, e horrendo,
é na
perseguição ao irmão, ao pagador,
empregado excellente, d'um talento raro... E o dever de todo o homem de
bem, que prese a dignidade da Administração e a
dignidade dos costumes, é denunciar a infamia... Eu, pela
minha parte, cumpri esse
bom dever. E com certo brilho, louvado Deus!
―Que fizeste?
[166]―Enterrei na
ilharga do Snr. Governador Civil a minha bôa
penna de Toledo, até á rama!
O Barrôlo, impressionado, beliscava a pelle do
pescoço. O piano emmudecera: mas Gracinha não se
movia do môcho,
com os dedos entorpecidos nas teclas, como esquecida deante da larga
folha onde se enfileiravam, na lettra apurada do Videirinha, as quadras
triumphaes dos Ramires. E subitamente Gonçalo sentiu
n'aquella immobilidade
suffocada o despeito que a trespassava. Sensibilisado, para a libertar,
lhe poupar algum soluço escapando irresistivelmente, correu
ao piano,
bateu com carinho nos pobres hombros vergados que estremeceram:
―Tu não dás conta d'esse lindo fado, rapariga!
Deixa, que eu te cantarolo uma quadra, á bôa moda
do Videirinha...
Mas primeiramente sê um anjo... Grita ahi no corredor que me
tragam um copo d'agua bem fresca do Poço Velho.
Ensaiou as teclas, entoou versos, ao accaso, n'um esforço
esganiçado:
Ora na grande batalha,
Quatro Ramires valentes...
Gracinha desapparecera por uma fenda do reposteiro, sem rumor.
Então o bom Barrôlo, que deante da sua terrina da
India enrolava um
cigarro
[167]com
pensativo cuidado, correu, desafogou, debruçado sobre
Gonçalo, da certeza que lentamente o invadira:
―Pois, menino, sempre te digo... Essa irmã do Noronha
é um mulherão soberbo! Mas o que eu
não acredito é que ella se
fizesse arisca. Com o Cavalleiro, bonito rapaz, Governador civil?...
Não acredito.
O Cavalleiro saboreou!
E com as bochechas lusidias d'admiração:
―Aquelle velhaco! Para cavallos e para mulheres não ha
outro, em Oliveira!
V
A
Gazeta do Porto, com a
Correspondencia vingadora,
devia desabar sobre Oliveira na quarta-feira de manhã, dia
dos annos da
prima Maria Mendonça. Mas Gonçalo, ainda que
não
temesse (resalvado pelo seu pseudonymo de
Juvenal)
uma briga grosseira com o
Cavalleiro nas ruas da Cidade, nem mesmo com algum dos seus partidarios
servis e
façanhudos como o Marcolino do
Independente―recolheu
discretamente a Santa Ireneia na terça-feira, a cavallo,
acompanhado pelo
Barrôlo até á Vendinha, onde ambos
provaram o vinho branco celebrado pelo
Titó. Depois, para recordar os logares memoraveis em que na
sua Novella se encontravam, com desastrado choque d'armas,
Lourenço Ramires
e o Bastardo de Bayão―tomou o caminho que, atravessando os
pomares da espalhada aldêa de Canta-Pedra, entronca na
estrada dos
Bravaes.
[170]
N'um trote folgado passára á Fabrica de Vidros,
depois o Cruzeiro sempre coberto pelas pombas que esvoaçam
do pombal da Fabrica. E
entrava no logar de Nacejas―quando, á janella d'uma casinha
muito
limpa, rodeada de parreiras, appareceu uma linda rapariga, morena e
fina, com
jaqué de panno azul e lenço de cambraieta bordada
sobre fartos
bandós ondeados. Gonçalo, sopeando a egua,
saudou, sorriu suavemente:
―Perdão, minha menina... Vou bem por aqui, para Canta-Pedra?
―Vae, sim senhor. Em baixo, á ponte, mette para a direita,
para os alamos. E é sempre a seguir...
Gonçalo suspirou, gracejando:
―Antes desejava ficar!
A moça corou. E o Fidalgo ainda se torceu no selim para
gosar a fina face morena, entre os dous craveiros da janellinha, na
casa
tão bem caiada.
N'esse momento, ao lado, d'uma quelha enramada, desembocava um
caçador do campo, de jaleca e barrete vermelho, com a
espingarda atravessada nas costas, seguido por dois perdigueiros. Era
um latagão
airoso, que todo elle, no bater dos sapatões brancos, no
menear da cinta
enfaixada em seda, no levantar da face clara de suissas louras,
transbordava de presumpção e pimponice.
[171]N'um relance surprehendeu
o sorriso, a attenção galante do Fidalgo. E
estacou, pregando sobre elle, com lenta arrogancia, os bellos olhos
pestanudos. Depois passou desdenhosamente, sem se arredar da egua na
ladeira estreita, quasi raspando pela perna do Fidalgo o cano da
caçadeira. Mas adiante ainda atirou uma
tossidela secca e de chasco―com um bater mais petulante dos
tacões.
Gonçalo picou a egoa, colhido logo por aquelle
desgraçado temor, aquelle desmaiado arrepio da carne, que
sempre, ante qualquer risco, qualquer ameaça, o
forçava irresistivelmente a encolher, a
recuar, a abalar. Em baixo, na ponte, desesperado contra a sua timidez,
deteve o trote, espreitou para traz, para a branca casa florida. O
mocetão
parára, encostado á espingarda, sob a janella
onde a rapariga morena
se debruçava entre os dous vasos de cravos. E assim
encostado,
depois de rir para a moça, acenou ao Fidalgo, n'um desafio
largo, com
a cabeça alta, a borla do barrete toda espetada como uma
crista flammante.
Gonçalo Mendes Ramires metteu a galope pelo copado caminho
d'alamos que acompanha o riacho das Donas. Em Canta-Pedra nem se
demorou a estudar (como tencionava para proveito da sua Novella) o
valle, a ribeira espraiada, as ruinas do Mosteiro de
Recadães sobre a
collina, e no cabeço fronteiro o
[172]moinho
que assenta sobre as denegridas
pedras da antiga e tão fallada Honra d'Avellans. De resto o
ceu,
cinzento e abafado desde manhã, entenebrecia para os lados
de Craquede
e de Villa-Clara. Um bafo môrno remexeu a folhagem sedenta. E
já gotas pesadas se esmagavam na poeira―quando elle, sempre
galopando, entrou na estrada dos Bravaes.
Na Torre encontrou uma carta do Castanheiro. O patriota andava por
saber «se essa
Torre de D. Ramires se
erguia
emfim para honra das
letras, como a outra, a genuina, se erguera outr'ora, em seculos mais
ditosos, para orgulho das armas...» E accrescentava n'um
Post-Scriptum―«Planeio
immensos
cartazes, pregados a cada
esquina de cada cidade de Portugal, annunciando em letras de covado a
apparição salvadora dos
Annaes!
E, como tenciono prometter
n'elles aos povos a sua preciosa Novellasinha, desejo que o amigo
Gonçalo me
informe se ella tem, á moda de 1830, um saboroso sub-titulo,
como
Episodios
do seculo XII, ou
Chronica do Reinado de Affonso
II,
ou
Scenas da Meia-Idade Portugueza... Eu voto
pelo sub-titulo. Como o sub-solo n'um
edificio, o sub-titulo n'um livro alteia e dá solidez.
Á
obra, pois, meu Ramires, com essa sua imaginação
feracissima!...»
Esta invenção de immensos cartazes, com o seu
nome e o titulo da sua Novella em letras de côres
[173]estridentes, enchendo cada
esquina
de Portugal, deleitou o Fidalgo. E logo n'essa noite, ao rumor da chuva
densa que estalava na folhagem dos limoeiros, retomou o seu
manuscripto, parado nas primeiras linhas, amplas e sonoras, do Cap.
II...
Atravez d'ellas, e na frescura da madrugada, Lourenço Mendes
Ramires, com o troço de cavalleiros e peonagem da sua
mercê, corria sobre Monte-Mór em soccorro das
senhoras Infantas. Mas, ao
penetrar no valle de Canta-Pedra, eis que o esforçado filho
de Tructesindo
avista a mesnada do Bastardo de Bayão, esperando desde alva
(como
annunciára Mendo Paes) para tolher a passagem.―E
então, n'esta sombria
Novella de sangue e homizios, brotava inesperadamente, como uma rosa na
fenda d'um bastião, um lance de amor, que o tio Duarte
cantára no
Bardo
com dolente elegancia.
Lopo de Bayão, cuja belleza loura de fidalgo godo era
tão celebrada por toda a terra d'Entre Minho-e-Douro que lhe
chamavam o
Claro-Sol,
amára arrebatadamente D. Violante, a filha mais nova de
Tructesindo Ramires. Em dia de S. João, no solar de Lanhoso,
onde se celebravam
lides de toiros e jogos de tavolagem, conhecera elle a donzella
explendida, que o tio Duarte no seu Poemeto louvava com deslumbrado
encanto:
Que liquido fulgor dos negros olhos!
Que fartas tranças de
lustroso ebano!
[174]
E ella, certamente, rendera tambem o coração
áquelle moço resplandecente e côr
d'ouro, que, n'essa tarde de festa, arremessando o
rojão contra os toiros, ganhára duas fachas
bordadas pela nobre Dona de
Lanhoso―e á noite, no sarau, se requebrára com
tão repicado
garbo na dança dos Marchatins... Mas Lopo era bastardo,
d'essa raça de
Bayão, inimiga dos Ramires por velhissimas brigas de terras
e precedencias desde o conde D. Henrique―ainda assanhadas depois,
durante as contendas de D. Tareja e de Affonso Henriques, quando na
curia dos Barões, em
Guimarães, Mendo de Bayão, bandeado com o Conde
de Trava, e Ramires o
Cortador, collaço do moço
Infante, se arrojaram ás faces os guantes
ferrados. E, fiel ao odio secular, Tructesindo Ramires
recusára com áspera
arrogancia a mão de Violante ao mais velho dos de
Bayão, um dos valentes de
Silves, que pelo Natal, na Alcaçova de S.
ta
Ireneia, lh'a pedira para
Lopo, seu sobrinho, o
Claro-Sol, offerecendo
avenças quasi submissas
d'alliança e doce paz. Este ultraje revoltára o
solar de
Bayão―que se honrava em Lopo, apezar de bastardo, pelo
lustre da sua bravura e graça
galante. E então Lopo ferido doridamente no seu
coração, mais furiosamente no seu orgulho, para
fartar o esfaimado desejo, para infamar o claro nome dos Ramires―tentou
raptar D. Violante. Era na primavera, com todas as veigas do
[175]Mondego
já verdes. A donosa senhora, entre alguns
escudeiros da Honra e parentes, jornadeava de Treixedo ao mosteiro de
Lorvão, onde sua tia D. Branca era abbadeça...
Languidamente, no
Bardo,
descantára o tio Duarte o romantico lance:
Junto á fonte mourisca,
entre
os ulmeiros,
A cavalgadura pára...
E junto aos ulmeiros da fonte surgira o
Claro-Sol―que,
com os seus, espreitava d'um cabeço! Mas, logo no
começo da
curta briga, um primo de D. Violante, o agigantado Senhor dos
Paços d'Avellim, o
desarmou, o manteve um momento ajoelhado sob o lampejo e gume da sua
adaga. E com vida perdoada, rugindo de surda raiva, o Bastardo abalou
entre os poucos solarengos que o acompanhavam n'esta affouta
arremettida. Desde
então mais fero ardera o rancor entre os de Bayão
e os Ramires. E
eis agora, n'esse começo da Guerra das Infantas, os dois
inimigos rosto
a rosto no valle estreito de Canta-Pedra! Lopo com um bando de trinta
lanças e mais de cem besteiros da Hoste Real.
Lourenço Mendes Ramires com
quinze cavalleiros e noventa homens de pé do seu
pendão.
Agosto findava: e o demorado estio amarellecera toda a relva, as
pastagens famosas do valle, até a folhagem de amieiros e
freixos pela beira do riacho
[176]das
Donas que s'arrastava entre as pedras lustrosas, em fios escassos, com
dormido murmurio. Sobre um outeiro, dos lados de Ramilde, avultava,
entre possantes ruinas erriçadas de
sarças, a denegrida
Torre Redonda,
resto da velha Honra de
Avellans, incendiada durante as cruas rixas dos de Salzedas e dos de
Landim, e agora habitada pela alma gemente de Guiomar de Landim, a
Mal-casada.
No
cabeço fronteiro e mais alto, dominando o valle, o mosteiro
de
Recadães estendia as suas cantarias novas, com o forte
torreão,
asseteado como o d'uma fortaleza―d'onde os monges se
debruçavam,
espreitando, inquietos com aquelle coriscar d'armas que desde alva
enchia o valle. E o mesmo temor acossára as aldeias
chegadas―porque, sobre a crista
das collinas, se apressavam para o santo e murado refugio do convento
gentes com trouxas, carros toldados, magras filas de gados.
Ao avistar tão rijo troço de cavalleiros e
peões, espalhado até á beira do riacho
por entre a sombra dos freixos, Lourenço Ramires
soffreou, susteve a leva, junto d'um montão de pedras onde
apodrecia,
encravada, uma tosca cruz de pau. E o seu esculca que
largára redeas
soltas, estirado sob o escudo de couro, para reconhecer a mesnada―logo
voltou, sem que frecha ou pedra de funda o colhessem, gritando:
―São homens de Bayão e da Hoste Real!
[177]
Tolhida pois a passagem! E em que desigualado recontro! Mas o denodado
Ramires não duvidou avançar, travar peleja.
Sósinho que assomasse ao valle, com uma
quebradiça lança de monte,
arremetteria contra todo o arraial do Bastardo...―No emtanto
já o adail de
Bayão se adeantára, curveteando no rosilho magro,
com a espada atravessada por cima do morrião que pennas de
garça emplumavam. E
pregoava, atroava o valle com o rouco pregão:
―Deter, deter! que não ha passagem! E o nobre senhor de
Bayão, em recado d'El-Rey e por mercê de Sua
Senhoria, vos guarda vidas
salvas se volverdes costas sem rumor e tardança!
Lourenço Ramires gritou:
―A elle, besteiros!
Os virotes assobiaram. Toda a curta ala dos cavalleiros de
Santa-Ireneia tropeou para dentro do valle, de lanças
ristadas. E o filho
de Tructesindo, erguido nos estribões de ferro, debaixo do
panno solto do seu pendão que apressadamente o alferes
saccára
da funda, descerrou a vizeira do casco para que lhe mirassem bem a face
destemida, e
lançou ao Bastardo injurias de furioso orgulho:
―Chama outros tantos dos villões que te seguem que, por
sobre elles e por sobre ti, chegarei esta noite a Monte-Mór!
E o Bastardo, no seu fouveiro, que uma rêde de
[178]malha cobria,
toda acairelada d'ouro, atirava a mão calçada de
ferro, clamava:
―Para traz, d'onde vieste, voltarás, bulrão
traidor, se eu por mercê mandar a teu pae o teu corpo n'umas
andas!
Estes feros desafios rolavam em versos serenamente compassados no
Poemeto do Tio Duarte. E depois de os reforçar,
Gonçalo Mendes Ramires, (sentindo a alma enfunada pelo
heroismo da sua raça como por
um vento que sopra de funda compina) arrojou um contra o outro os dous
bandos valorosos. Grande briga, grande grita...
―Ala! Ala!
―Rompe! Rompe!
―Cerra por Bayão!
―Casca pelos Ramires!
Através da grossa poeirada e do alevanto zunem os
garruchões, as rudes balas de barro despedidas das fundas.
Almogavres de Santa-Ireneia, almogavres da Hoste Real, em turmas
ligeiras, carregam, topam, com baralhado arremesso d'ascumas que se
partem, de dardos que se cravam: e
ambas logo refogem, refluem―em quanto, no chão revolto,
algum mal-ferido estrebucha aos urros, e os atordoados cambaleando
buscam, sob o abrigo do arvoredo, a fresquidão do riacho. Ao
meio, no
embate mais
nobre da peleja, por cima dos corceis que se empinam, arfando
[179]ao peso das coberturas de
malha, as lisas pranchas dos montantes lampejam, retinem, embebidas nas
chapas dos broqueis:―e já, dos altos
arções de couro vermelho, desaba algum hirto e
chapeado senhor, com um baque de ferragens sobre a terra molle.
Cavalleiros e
infanções, porém, como n'um torneio,
apenas terçam lanças para se derribarem,
abolados os arnezes, com clamores de excitada ufania: e sobre a
villanagem contraria, em quem cevam o furor da matança, se
abatem os seus
espadões, se despenham as suas achas, esmigalhando os cascos
de ferro como bilhas de
grêda.
Por entre a pionagem de Bayão e da Hoste Real
Lourenço Ramires avança mais levemente que
ceifeiro apressado entre herva tenra. A cada arranque do seu rijo
murzello, alagado d'espuma, que sacode furiosamente a testeira
rostrada―sempre, entre pragas ou gritos por
Jesus!
um peito verga trespassado, braços se retorcem em agonia.
Todo o seu
afan era chocar armas com Lopo. Mas o Bastardo, tão
arremessado e
affrontador em combate, não se arredára n'essa
manhã
da lomba do outeiro onde uma fila de lanças o guardava, como
uma estacada: e com brados,
não com golpes, aquentava a lide! No ardor desesperado de
romper a viva cerca
Lourenço gastava as forças, berrando roucamente
pelo Bastardo com os
duros ultrajes de
churdo! e
marrano!
Já d'entre
[180]a
trama
falseada do camalho lhe borbulhavam do hombro, pela loriga, fios lentos
de sangue. Um lanço de virotão, que lhe partira
as
charneiras da greva esquerda, fendera a perna d'onde mais sangue
brotava, ensopando o forro d'estopa. Depois, varado por uma frecha na
anca, o seu grande ginete abateu, rolou, estalando no escoucear as
cilhas pregueadas. E, desembrulhado dos loros com um salto,
Lourenço Ramires encontrou em roda uma
sebe erriçada de espadas e chuços, que o
cerraram―em quanto do outeiro,
debruçado na sella, o Bastardo bramava:
―Tende! tende! para que o colhaes ás mãos!
Trepando por cima de corpos, que se estorcem sob os seus sapatos de
ferro, o valente moço arremette, a golpes arquejados, contra
as pontas luzentes que recuam, se furtam... E, triumphantes, redobram
os gritos de Lopo de Bayão:
―Vivo, vivo! tomadel-o vivo!
―Não, se me restar alma, villão! rugia
Lourenço.
E mais raivosamente investia, quando um calhau agudo lhe acertou no
braço―que logo amorteceu, pendeu, com a espada arrastando,
presa ainda ao punho pelo grilhão, mas sem mais servir que
uma roca.
N'um relance ficou agarrado por peões que lhe filavam a
gorja, emquanto
outros com varadas
[181]de
ascuma
lhe vergavam as pernas retesadas. Tombou por fim direito como um
madeiro;―e nas cordas com que logo o amarraram, jazeu hirto, sem elmo,
sem cervilheira, os olhos duramente cerrados, os cabellos presos n'uma
pasta de poeira e de sangue.
Eis pois captivo Lourenço Ramires! E, deante das andas
feitas de ramos e franças de faias em que o estenderam,
depois de o borrifarem
á pressa com a agua fresca do riacho,―o Bastardo, limpando
ás costas
da mão o suor que lhe escorria pela face formosa, pelas
barbas douradas, murmurava, commovido:
―Ah! Lourenço, Lourenço, grande dôr,
que bem poderamos ser irmãos e amigos!
Assim, ajudado pelo tio Duarte, por Walter Scott por noticias do
Panorama,
compozera Gonçalo a
mal-venturada lide de
Canta-Pedra. E com este desabafo de Lopo, onde perpassava a magua do
amor vedado, fechou o Cap. II, sobre que labutára tres
dias―tão
embrenhadamente que em torno o Mundo como que se calára e se
fundira em penumbra.
Uma girandola de foguetes estoirou ao longe, para o lado dos Bravaes,
onde no Domingo se fazia a romaria celebrada da Senhora das Candeias.
Depois
[182]da chuva
d'aquelles tres dias, uma frescura descia do ceu amaciado e lavado
sobre os campos mais verdes. E como ainda restava meia hora farta antes
de jantar, o Fidalgo agarrou o chapeu, e mesmo na sua velha quinzena de
trabalho, com uma bengalinha de canna, desceu
á estrada, tomou pelo caminho que s'estreita entre o muro da
Torre e as terras de centeio onde assentavam no seculo XII as barbacans
da Honra de Santa Ireneia.
Pela silenciosa vereda, ainda humida, Gonçalo pensava nos
seus avós formidaveis. Como elles resurgiam, na sua Novella,
solidos e resoantes! E realmente uma comprehensão
tão segura
d'aquellas almas Affonsinas mostrava que a sua alma conservava o mesmo
quilate e sahira do mesmo rico bloco d'ouro. Porque um
coração molle, ou
degenerado, não saberia narrar
corações tão fortes, d'eras
tão fortes:―e nunca o bom Manoel Duarte ou o
Barrôlo excellente entenderiam, bastante para lhes
reconstruir os altos espiritos, Martim de Freitas ou Affonso de
Albuquerque... N'esta fina verdade desejaria elle que os Criticos
insistissem ao estudar depois a
Torre de D. Ramires―pois
que o Castanheiro lhe assegurára artigos consideraveis nas
Novidades e na
Manhã.
Sim! eis o
que convinha marcar com
relevo (e elle o
lembraria ao Castanheiro!)―que os Ricos Homens de Santa-Ireneia
reviviam
[183]no seu
neto, senão pela continuação heroica
das mesmas façanhas, pela mesma alevantada
comprehensão do heroismo... Que diabo! sob o
reinado do horrendo S. Fulgencio elle não podia desmantelar
o solar de
Bayão, desmantelado ha seiscentos annos por seu
avô Lionel
Ramires―nem retomar aos Mouros essa torreada Monforte onde o Antoninho
Moreno era o languido Governador Civil! Mas sentia a grandeza e o
prestimo historico d'esse arrojo que outr'ora impellia os seus a
arrasar Solares rivaes, a escalar Villas mouriscas: resuscitava pelo
Saber e pela Arte, arrojava para a vida ambiente, esses
varões temerosos, com os seus
corações, os seus trajes, as suas immensas
cutiladas, as suas bravatas sublimes: dentro do espirito e das
expressões do seu Seculo era pois um bom
Ramires―um Ramires de nobres energias, não
façanhudas, mas
intellectuaes, como competia n'uma Edade d'intellectual
descanço. E os jornaes,
que tanto motejam a decadencia dos Fidalgos de Portugal, deveriam em
justiça affirmar (e elle o lembraria ao
Castanheiro!):―«Eis ahi um,
e o maior, que, com as fórmas e os modos do seu tempo,
continua e honra
a sua raça!»
Através d'estes pensamentos, que mais lhe enrijavam as
passadas sobre chão tão calcado pelos seus―o
Fidalgo da Torre
chegára á esquina do muro
[184]da quinta,
onde uma ladeirenta e apertada azinhaga a divide do pinheiral e da
matta. Do portão nobre, que outr'ora se
erguera n'esse recanto com lavores e brazão d'armas, restam
apenas os dois
humbraes de granito, amarellados de musgo, cerrados contra o gado por
uma cancella de taboas mal pregadas, carcomidas da chuva e dos annos. E
n'esse momento, da azinhaga funda, apagada em sombra, subia chiando,
carregado de matto, um carro de bois, que uma linda boeirinha guiava.
―Nosso Senhor lhe dê muito boas tardes!
―Boas tardes, flôrzinha!
O carro lento passou. E logo atraz surdio um homem, esgrouviado e
escuro, trazendo ao hombro o cajado, d'onde pendia um mólho
de cordas.
O Fidalgo da Torre reconheceu o José Casco dos Bravaes. E
seguia, como desattento, pela orla do pinheiral, assobiando, raspando
com a bengalinha as silvas floridas do vallado. O outro
porém
estugou o passo esgalgado, lançou duramente, no silencio do
arvoredo e da
tarde, o nome do Fidalgo. Então, com um pulo do
coração, Gonçalo Mendes Ramires parou,
forçando um sorriso affavel:
―Olá! É vossê, José!
Então que temos?
O Casco engasgára, com as costellas a arfar sob a encardida
camisa de
trabalho. Por fim,
[185]desenfiando
das cordas o marmelleiro que cravou no
chão pela choupa:
―Temos que eu fallei sempre claro com o Fidalgo, e não era
para que
depois me faltasse á palavra!
Gonçalo Ramires levantou a cabeça com uma
dignidade lenta e
custosa―como se levantasse uma massa de ferro:
―Que está vossê a dizer, Casco? Faltar
á palavra! em que lhe faltei eu
á palavra?... Por causa do arrendamento da Torre? Essa
é nova! Então
houve por acaso escriptura assignada entre nós?
Você não voltou, não
appareceu...
O Casco emmudecera, assombrado. Depois, com uma colera em que lhe
tremiam os beiços brancos, lhe tremiam as seccas
mãos cabelludas,
fincadas ao cabo do varapau:
―Se houvesse papel assignado o Fidalgo não podia recuar!...
Mas era
como se houvesse, para gente de bem!... Até V. S.
a
disse,
quando eu
acceitei: «viva! está tratado!...» O
fidalgo deu a sua palavra!
Gonçalo, enfiado, apparentou a paciencia d'um senhor
benevolo:
―Escute, José Casco. Aqui não é
logar, na estrada. Se quer conversar
commigo appareça na Torre. Eu lá estou sempre,
como vossê sabe, de
manhã... Vá ámanhã,
não me encommóda.
[186]
E endireitava para o pinhal, com as pernas molles, um suor arripiado na
espinha―quando o Casco, n'um rodeio, n'um salto leve, atrevidamente se
lhe plantou diante, atravessando o cajado:
―O Fidalgo ha-de dizer aqui mesmo! O Fidalgo deu a sua palavra!... A
mim não se me fazem d'essas desfeitas... O Fidalgo deu a sua
palavra!
Gonçalo relanceou esgaseadamente em redor, na ancia d'um
soccorro. Só o
cercava solidão, arvoredo cerrado. Na estrada, apenas clara
sob um resto
de tarde, o carro de lenha, ao longe, chiava, mais vago. As ramas altas
dos pinheiros gemiam com um gemer dormente e remoto. Entre os troncos
já
se adensava sombra e nevoa. Então, estarrecido,
Gonçalo tentou um
refúgio na ideia de Justiça e de Lei, que aterra
os homens do campo. E
como amigo que aconselha um amigo, com brandura, os beiços
resequidos e
tremulos:
―Escute, Casco, escute, homem! As coisas não se arranjam
assim, a
gritar. Póde haver desgosto, apparecer o regedor. Depois
é o tribunal, é
a cadeia. E você tem mulher, tem filhos pequenos... Escute!
Se descobriu
motivo para se queixar, vá á Torre, conversamos.
Pacatamente tudo se
esclarece, homem... Com berros, não! Vem o cabo, vem a
enxovia...
Então de repente o Casco cresceu todo, no solitario
[187]caminho,
negro e
alto como um pinheiro, n'um furor que lhe esbugalhava os olhos
esbraseados, quasi sangrentos:
―Pois o Fidalgo ainda me ameaça com a
justiça!... Pois ainda por cima
de me fazer a maroteira me ameaça com a cadeia!...
Então, com os diabos!
primeiro que entre na cadeia lhe hei-de eu esmigalhar esses ossos!...
Erguera o cajado...―Mas, n'um lampejo de razão e respeito,
ainda
gritou, com a cabeça a tremer para traz, atravez dos dentes
cerrados:
―Fuja, fidalgo, que me perco!... Fuja que o mato e me perco!
Gonçalo Mendes Ramires correu á cancella entalada
nos velhos humbraes de
granito, pulou por sobre as taboas mal pregadas, enfiou pela latada que
orla o muro, n'uma carreira furiosa de lebre acossada! Ao fim da vinha,
junto aos milheiraes, uma figueira brava, densa em folha,
alastrára
dentro d'um espigueiro de granito destelhado e desusado. N'esse
esconderijo de rama e pedra se alapou o Fidalgo da Torre, arquejando. O
crepusculo descera sobre os campos―e com elle uma serenidade em que
adormeciam frondes e relvas. Affoutado pelo silencio, pelo socego,
Gonçalo abandonou o cerrado abrigo, recomeçou a
correr, n'um correr
manso, na ponta das botas brancas, sobre o chão molle das
[188]chuvadas,
até
ao muro da Mãe d'Agua. De novo estacou, esfalfado. E
julgando entrever,
longe, á orla do arvoredo, uma mancha clara, algum
jornaleiro em mangas
de camisa, atirou um berro ancioso:―«Oh! Ricardo! Oh!
Manoel! Eh lá!
alguem! Vai ahi alguem?...»―A mancha indecisa fundira na
indecisa
folhagem. Uma rã pinchou n'um regueiro. Estremecendo,
Gonçalo retomou a
carreira até ao canto do pomar―onde encontrou fechada uma
porta, velha
porta mal segura, que abanava nos gonzos ferrugentos. Furioso, atirou
contra ella os hombros que o terror enrijára como trancas.
Duas taboas
cederam, elle furou atravez, esgaçando a quinzena n'um
prégo.―E
respirou emfim no agazalho do pomar murado, deante das varandas da casa
abertas á frescura da tarde, junto da Torre, da sua Torre,
negra e de
mil annos, mais negra e como mais carregada d'annos contra a macia
claridade da lua-nova que subia.
Com o chapeu na mão, enxugando o suor, entrou na horta,
costeou o
feijoal. E agora subitamente sentia uma colera amarga pelo desamparo em
que se encontrára, n'uma quinta tão povoada,
exameando de gentes e
dependentes! Nem um caseiro, nem um jornaleiro, quando elle
gritára, tão
afflicto, da borda da Mãe d'Agua! De cinco creados nenhum
acudira,―e
elle perdido, alli, a uma pedrada da eira e da abegoaria! Pois que dois
homens corressem com paus
[189]ou
enxadas―e ainda colhiam o Casco na
estrada, o malhavam como uma espiga.
Ao pé do gallinheiro, sentindo uma risada fina de rapariga,
atravessou o
pateo para a porta alumiada da cosinha. Dois moços da horta,
a filha da
Crispola, a Rosa, tagarellavam, regaladamente sentados n'um banco de
pedra, sob a fresca escuridão da latada. Dentro o lume
estrallejava―e a
panella do caldo, fervendo, rescendia. Toda a colera do Fidalgo rompeu:
―Então, que sarau é este? Vocês
não me ouviram chamar?... Pois
encontrei lá em baixo, ao pé do pinheiral, um
bebedo, que me não
conheceu, veiu para mim
com uma foice!...
Felizmente levava a bengala.
E chamo, grito... Qual! Tudo aqui de palestra, e a ceia a cozer! Que
desaforo! Outra vez que succeda, todos para a rua... E quem resmungar,
a
cacete!
A sua face chammejava, alta e valente. A pequena da Crispola logo se
escapulira, encolhida, para o recanto da cosinha, para traz da maceira.
Os dois moços, erguidos, vergavam como duas espigas sob um
grande vento.
E emquanto a Rosa, aterrada, se benzia, se derretia em
lamentações sobre
«desgraças que assim
s'armam!»―Gonçalo, deleitado pela
submissão dos
dois homens, ambos tão rijos, com tão grossos
varapaus encostados á
parede, amansava:
―Realmente! sois todos surdos, n'esta pobre casa!...
[190]Além
d'isso a
porta do pomar fechada! Tive de lhe atirar um empurrão.
Ficou em
pedaços.
Então um dos moços, o mais alentado, ruivo, com
um queixo de cavallo,
pensando que o Fidalgo censurava a frouxidão da porta pouco
cuidada,
coçou a cabeça, n'uma desculpa:
―Pois, com perdão do fidalgo!... Mas já depois
da saída do Relho se lhe
pôz uma travessa e fechadura nova... E valente!
―Qual fechadura! gritou, o Fidalgo soberbamente. Despedacei a
fechadura, despedacei a travessa... Tudo em estilhas!
O outro moço, mais desembaraçado e esperto, riu,
para agradar:
―Santo nome de Deus!... Então, é que o fidalgo
lhe atirou com força!
E o companheiro, convencido, espetando o queixo enorme:
―Mas que força! a matar! Que a porta era rija... E
fechadura nova, já
depois do Relho!
A certeza da sua força, louvada por aquelles fortes,
reconfortou
inteiramente o fidalgo da Torre, já brando, quasi paternal:
―Graças a Deus, para arrombar uma porta, mesmo nova,
não me falta
força. O que eu não podia, por decencia, era
arrastar ahi por essas
estradas um bebedo com uma foice até casa do Regedor... Foi
para isso
que chamei, que gritei. Para que vossês o agarrassem, o
levassem ao
Regedor!...
[191]Bem,
acabou. Oh! Rosa, dê a estes rapazes, para a
ceia, mais
uma caneca de vinho... A vêr se para outra vez se affoutam,
se
apparecem...
Era agora como um antigo senhor, um Ramires d'outros seculos, justo e
avisado, que reprehende uma fraqueza dos seus solarengos―e logo
perdôa
por conta e amor das façanhas proximas. Depois com a bengala
ao hombro,
como uma lança, subio pela lobrega escada da cozinha. E em
cima no
quarto, apenas o Bento entrára para o vestir,
recomeçou a sua epopeia,
mais carregada, mais terrifica―assombrando o sensivel homem, estacado
rente da commoda, sem mesmo pousar a enfusa d'agoa quente, as botas
envernisadas, a braçada de toalhas que o ajoujavam... O
Casco! O José
Casco dos Bravaes, bebedo, rompendo para elle, sem o conhecer, com uma
foice enorme, a berrar―«Morra, que é
marrão!...» E elle na estrada,
deante do bruto, de bengalinha! Mas atira um salto, a
foiçada resvala
sobre um tronco de pinheiro... Então arremette
desabaladamente,
brandindo a bengala, gritando pelo Ricardo e pelo Manoel como se ambos
o
escoltassem―e ataranta o Casco, que recua, se some pela azinhaga, a
cambalear, a grunhir...
―Hein, que te parece? Se não é a minha audacia,
[192]o homem
positivamente
me ferra um
tiro de espingarda!
O Bento, que quasi se babava, com o jarro esquecido a pingar no tapete,
pestanejou, confuso, mais attonito:
―Mas o Snr. Dr. disse que era uma foice!
Gonçalo bateu o pé, impaciente:
―Correu para mim com uma foice. Mas vinha atraz do carro... E no carro
trazia uma espingarda. O Casco é caçador, anda
sempre d'espingarda...
Emfim estou aqui vivo, na Torre, por mercê de Deus. E tambem
porque
felizmente, n'estes casos, não me falta decisão!
E apressou o Bento―porque com o abalo, o esforço,
positivamente lhe
tremiam as pernas de cançasso e de fome... Além
da sêde!
―Sobretudo sêde! Esse vinho que venha bem fresco... Do Verde
e do
Alvaralhão, para misturar.
O Bento, com um tremulo suspiro da emoção
atravessada, enchera a bacia,
estendia as toalhas. Depois, gravemente:
―Pois, Snr. Dr., temos esse andaço nos sitios! Foi o mesmo
que succedeu
ao Snr. Sanches Lucena, na
Feitosa...
―Como, ao Snr. Sanches Lucena?
O Bento desenrolou então uma tremenda historia trazida
á Torre, durante
a estada do Snr. Doutor em
[193]Oliveira,
pelo cunhado da Crispola, o Ruy
carpinteiro, que trabalhava nas obras da
Feitosa.
O Snr. Sanches
Lucena descêra uma tarde, ao lusco fusco, á porta
do Mirante, quando
passam na estrada dous jornaleiros, bebedos ou facinoras, que implicam
com o excellente senhor. E chufas, risinhos, momices... O Snr. Sanches,
com paciencia, aconselhou os homens que seguissem, não se
desmandassem.
De repente um d'elles, um rapazola, sacode a jaqueta do hombro, ergue o
cajado! Felizmente o companheiro, que se affirmára, ainda
gritou:―«Ai!
rapaz, que elle é o nosso deputado!» O rapazola
abalou, espavorido. O
outro até se atirou de joelhos deante do Snr. Sanches
Lucena... Mas o
pobre senhor, com o abalo, recolheu á cama!
Gonçalo acompanhára a historia, seccando
vagarosamente as mãos á toalha,
impressionado:
―Quando foi isso?
―Pois disse ao Snr. Dr.... Quando o Snr. Dr. estava em Oliveira. Um dia
antes ou um dia depois dos annos da Snr.
a D.
Graça.
O Fidalgo arremessou a toalha, limpou pensativamente as unhas. Depois
com um risinho incerto e leve:
―Emfim, sempre serviu d'alguma coisa ao Sanches Lucena ser deputado por
Villa-Clara...
E já vestido, abastecendo a charuteira (porque
[194]resolvera
passar a noite
na Villa, a desabafar com o Gouveia)―de novo se voltou para Bento, que
arrumava a roupa:
―Então o bebedo, quando o outro lhe gritou «Ai,
que é o nosso
deputado,» cahiu em si, fugiu, hein?... Ora vê tu!
Ainda vale ser
deputado! Ainda inspira respeito, homem! Pelo menos inspira mais
respeito que descender dos reis de Leão!... Paciencia, toca
a jantar.
Durante o jantar, misturando copiosamente o Verde e o
Alvaralhão,
Gonçalo não cessou de ruminar a ousadia do Casco.
Pela vez primeira, na
historia de Santa Ireneia, um lavrador d'aquellas aldêas,
crescidas á
sombra da Casa illustre, por tantos seculos senhora em monte e valle,
ultrajava um Ramires! E brutamente, alçando o cajado, deante
dos muros
da quinta historica!... Contava seu pae que, em vida do
bisavô Ignacio,
ainda desde Ramilde até Corinde os homens dobravam o joelho
nos caminhos
quando passava o Senhor da Torre. E agora levantavam a foice!... E
porque? Por que elle não se desfalcára
submissamente das suas rendas em
proveito d'um façanhudo!―Em tempos do avô
Tructesindo, villão de tal
attentado assaria, como porco
[195]montez,
n'uma ruidosa fogueira, deante das
barbacans da Honra. Ainda em dias do bisavô Ignacio
apodreceria n'uma
masmorra. E o Casco não podia escapar sem castigo. A
impunidade só lhe
incharia a audacia: e assomado, rancoroso, n'outro encontro, sem mais
fallas, desfechava a caçadeira. Oh! não lhe
desejava um mal duravel,
coitado, com dois filhos pequeninos―um que mamava. Mas que o
arrastassem á Administração, algemado,
entre dois cabos de policia―e
que na triste saleta, d'onde se avistam as grades da cadeia, apanhasse
uma reprehensão tremenda do Gouveia, do Gouveia muito secco,
muito
esticado na sobrecasaca negra... Assim se devia resguardar, por meios
tortuosos―pois que não era deputado, e que, com o seu
talento, o seu
nome, essa espantosa linhagem d'avós que
edificára o Reino, carecia o
prestigio d'um Sanches Lucena, o precioso prestigio que suspende no ar
os varapáus atrevidos!
Apenas findou o café, mandou pelo Bento avisar os dous
moços da horta, o
Ricardo e o outro de queixo de cavallo, que o esperassem no pateo,
armados. Porque na Torre ainda sobrevivia uma «Sala
d'armas»―cacifro
tenebroso, junto ao Archivo, onde se amontoavam peças
aboladas
d'armaduras, um lorigão de malha, um broquel mourisco,
alabardas,
espadões, polvarinhos, bacamartes de 1820, e entre esta
poeirenta
ferralhagem negra tres espingardas limpas
[196]com
que os moços
da quinta, na
romaria de S. Gonçalo, atiravam descargas em louvor do Santo.
Depois, elle, encafuou o revólver na algibeira, desenterrou
do armario
do corredor um velho bengalão de cabo de chumbo
entrançado, agarrou um
apito. E assim precavido, aquecido pelo Verde e pelo
Alvaralhão, com os
dous creados de caçadeira ao hombro, importantes e tesos,
partiu para
Villa-Clara, procurar o Snr. Administrador do Concelho. A noite
envolvia
os campos em socego e frescura. A lua nova, que alimpára o
tempo, roçava
a crista dos outeiros de Valverde como a roda lustrosa d'um carro de
ouro. No silencio os rijos sapatões pregueados dos dous
jornaleiros
resoavam em cadencia. E Gonçalo adiante, de charuto
flammante, gosava
aquella marcha, em que de novo um Ramires trilhava os caminhos de Santa
Ireneia com homens da sua mercê e solarengos armados.
Ao começo da villa, porém, recolheu discretamente
a escolta na taverna
da Serena: e elle cortou para o Mercado da Herva, para a Tabacaria do
Simões, onde o Gouveia, áquella hora, antes da
partida da Assembléa,
costumava pousar, comprar uma caixa de phosphoros, considerar
pensativamente na vidraça as cautelas da Loteria. Mas n'essa
noite o
Snr. Administrador faltára ao Simões costumado.
Largou então para a
Assembléa: e logo em baixo,
[197]no
bilhar, um sujeito calvo, que
contemplava
as carambolas solitarias do marcador, espapado na bancada, de collete
desabotoado, mascando um palito―informou o Fidalgo da
doença do amigo
Gouveia:
―Cousa leve, inflammação de garganta... V. Ex.
a
de certo o encontra em
casa. Não arreda do quarto desde Domingo.
Outro cavalheiro porém, que remexia o seu café
á esquina d'uma mesa
atulhada de garrafas de licôr, affiançou que o
Snr. Administrador já
espairecera n'essa tarde. Ainda pelas cinco horas elle o
encontrára na
Amoreira, com o pescoço atabafado n'uma manta de
lã.
Gonçalo, impaciente, abalou para a Calçadinha. E
atravessava o Largo do
Chafariz quando descortinou o desejado Gouveia, á porta
muito alumiada
da loja de pannos do Ramos, conversando com um homemzarrão
de forte
barba retinta e de guarda-pó alvadio.
E foi o Gouveia, que, de dedo espetado, investiu para
Gonçalo:
―Então, já sabe?
―O quê?
―Pois não sabe, homem?... O Sanches Lucena!
―O quê?
―Morreu!
O fidalgo embasbacou para o Administrador, depois
[198]para o outro
cavalheiro, que repuxava na mão enorme, com um
esforço inchado, uma luva
preta apertada e curta.
―Santo Deus!... Quando?
―Esta madrugada. De repente. «Angina pectoris,»
não sei quê no
coração... De repente, na cama.
E ambos se consideraram, em silencio, no espanto renovado d'aquella
morte que impressionava Villa-Clara. Por fim Gonçalo:
―E eu ainda ha bocado, na Torre, a fallar d'elle! E, coitado, como
sempre, com pouca admiração...
―E eu! exclamou o Gouveia. Eu, que ainda hontem lhe escrevi!... E uma
carta comprida, por causa d'um empenho do Manoel Duarte... Foi o
cadaver
que recebeu a carta.
―Boa piada! rosnou o sujeito obeso, que se debatia ferrenhamente contra
a luva. O cadaver recebeu a carta... Boa piada!
O Fidalgo torcia o bigode, pensativo:
―Ora, ora... E que edade tinha elle?
O Gouveia sempre o imaginára um completo velho, de setenta
invernos.
Pois não! apenas sessenta, em Dezembro. Mas consumido,
arrasado. Casára
tarde, com fêmea forte...
―E ahi temos a bella D. Anna, viuva aos vinte
[199]e
oito annos, sem filhos,
naturalmente herdeira, com o seu mealheiro de duzentos contos... Talvez
mais!
―Boa maquia! roncou de novo o oupado homem que enfiára a
luva, e agora
gemia, com as veias tumidas, para lhe apertar o colchete.
Aquelle cavalheiro constrangia o Fidalgo―ancioso por desafogar com o
Gouveia sobre «a vacatura politica,» assim
inesperadamente aberta, no
circulo de Villa-Clara, pela brusca desapparição
do Chefe tradicional. E
não se conteve, puchou o Administrador pelo botão
da sobrecasaca para a
sombra favoravel da parede:
―Oh! Gouveia! então agora, hein?... Temos
eleição supplementar... Quem
virá pelo circulo?
E o Administrador, muito simplesmente, sem se resguardar do
homemzarrão
de guarda-pó, que, emfim enluvado, accendera o charuto, se
acercava com
familiaridade―deduziu os factos:
―Agora, meu amigo, com o tio do Cavalleiro ministro da
Justiça e o José
Ernesto ministro do Reino, vae deputado pelo circulo quem o
André
Cavalleiro mandar. É claro... O Sanches Lucena manteve
sempre o seu
logar em S. Bento por uma indicação natural do
partido. Era aqui o
primeiro homem, o grande homem dos Historicos... Bem! Hoje, para
decidir
o Governo, como falta a indicação natural
[200]do
partido, que resta? O
desejo pessoal do Cavalleiro. Você sabe como o Cavalleiro
é
regionalista. Pelo circulo pois, logicamente, sahe quem se apresente ao
Cavalleiro como um bom continuador do Lucena, pela influencia e pela
estabilidade territorial... N'outro circulo ainda se podia encaixar
á
pressa um deputado fabricado em Lisboa, nas Secretarias. Aqui
não! O
deputado tem de ser local e Cavalleirista. E o proprio Cavalleiro,
acredite você, está a esta hora
embaraçado.
O gordalhufo murmurou com importancia, atravez do immenso charuto que
mamava:
―Amanhã já estou com elle, já sei...
Mas o Administrador emmudecera, coçava o queixo, cravando em
Gonçalo os
olhos espertos, que rebrilhavam, como se uma ditosa idéa,
quasi uma
inspiração, o illuminasse. E de repente, para o
outro, que cofiava a
barba retinta:
―Pois, meu caro senhor, até além
d'ámanha. Ficamos entendidos. Eu
remetto o cestinho dos queijos directamente ao Snr. Conselheiro.
Tomou o braço de Gonçalo, que apertou com
impaciencia. E sem attender
mais ao homemzarrão, que saudava rasgadamente, arrastou o
Fidalgo para a
Calçadinha silenciosa:
―Oh, Gonçalo, ouça lá...
Vossê agora tinha
[201]uma
occasião soberba!
Você,
se quizesse, dentro de poucos dias, estava deputado por Villa-Clara!
O Fidalgo da Torre estacára―como se uma estrella de repente
se
despenhasse na rua mal allumiada.
―Ora escute! exclamou o Administrador, largando o braço de
Gonçalo,
para desenrolar mais livremente a sua idéa. Você
não tem compromissos
serios com os Regeneradores. Você deixou Coimbra ha um anno,
tenta agora
a vida publica, nunca fez acto definitivo de partidario. Lá
uma ou outra
correspondencia para os jornaes, historias!...
―Mas...
―Escute, homem! Você quer entrar na Politica? Quer.
Então, pelos
Historicos ou pelos Regeneradores, pouco importa. Ambos são
constitucionaes, ambos são christãos... A
questão é entrar, é furar. Ora
você, agora, inesperadamente, encontra uma porta aberta. O
que o póde
embaraçar? As suas inimisades particulares com o Cavalleiro?
Tolices!
Atirou um gesto, largo e secco, como se varresse essas puerilidades:
―Tolices! Entre vocês não ha morte d'homem. Nem
vocês, no fundo, são
inimigos. O Cavalleiro é rapaz de talento, rapaz de gosto...
Não vejo
outro, aqui no districto, com quem você tenha mais
conformidade de
espirito, de educação, de maneiras, de
tradições... N'uma terra pequena,
mais dia menos
[202]dia,
fatalmente, se impunha a
reconciliação. Então seja
agora, quando a reconciliação o leva
ás Camaras!... E repito. Pelo
circulo de Villa-Clara sahe deputado quem o Cavalleiro mandar!
O Fidalgo da Torre respirou, com esforço, na
emoção que o suffocava. E
depois d'um silencio em que tirára o chapéo,
abanára com elle,
pensativamente, a face descahida:
―Mas o Cavalleiro, como você disse, é todo local
todo regional... Não
quererá impôr senão um homem como o
Lucena, com fortuna, com
influencia...
O outro parou, alargou os braços:
―E então, você?... Que diabo! Você tem
aqui propriedade. Tem a Torre,
tem Treixedo. Sua irmã hoje é rica, mais rica que
o Lucena. E depois o
nome, a familia... Vocês, os Ramires, estão
estabelecidos, com solar em
Santa Ireneia, ha mais de duzentos annos.
O fidalgo da Torre ergueu com viveza a cabeça:
―Duzentos?... Ha mil, ha quasi mil!
―Ora ahi tem! Ha mil annos. Uma casa anterior á monarchia.
Pelo menos
coeva! Você é portanto mais fidalgo que o Rei! E
então, isso não é uma
situação muito superior á do Lucena?
Sem contar a intelligencia... Oh!
diabo!
―Que foi?
[203] ―A garganta... Uma picadita na garganta. Ainda não estou
consolidado.
E decidiu logo recolher, gargarejar, porque o Dr. Macedo prohibira as
noitadas festivas. Mas Gonçalo acompanhava até
á porta o amigo Gouveia.
E, conchegando o abafo de lã, o Administrador resumiu a sua
idéa:
―Pelo circulo de Villa-Clara, Gonçalinho, sahe quem o
Cavalleiro
mandar. Ora o Cavalleiro, creia você, tem immenso empenho de
o eleger,
de o lançar na Politica. Se você portanto estender
a mão ao Cavaleiro, o
circulo é seu. O Cavalleiro tem o maior, o maiorissimo
empenho,
Gonçalinho!
―Isso é que eu não sei, João
Gouveia...
―Sei eu!
E em confidencia, na solidão da Calçadinha,
João Gouveia revelou ao
Fidalgo que o Cavalleiro anciava pela occasião de reatar a
velha
fraternidade com o seu velho Gonçalo! Ainda na semana
passada o
Cavalleiro lhe affirmára (palavras
textuaes):―«Entre os rapazes d'esta
geração nenhum com mais seguro e mais largo
futuro na Politica que o
Gonçalo. Tem tudo! grande nome, grande talento, a
seducção, a
eloquencia... Tem tudo! E eu, que conservo pelo Gonçalo todo
o carinho
antigo, gostava ardentemente, ardentissimamente, de o levar
ás Camaras.»
[204] ―Palavras textuaes, meu amigo!... Ainda ha seis ou sete dias, em
Oliveira, depois do jantar, a tomarmos ambos café no quintal.
A face de Gonçalo ardia na sombra, devorando as
revelações do
Administrador. Depois, com lentidão, como descobrindo
candidamente todos
os recantos da sua alma:
―Eu, na realidade, tambem conservo a antiga sympathia pelo Cavalleiro.
E certas questões intimas adeus!... Envelheceram, caducaram,
tão
obsoletas hoje como os aggravos dos Horacios e dos Curiacios... Como
você lembrou ha pouco, com razão, nunca se ergueu
entre nós morte de
homem. Que diabo! Eu fui educado com o Cavalleiro, eramos como
irmãos...
E acredite você, Gouveia! Sempre que o vejo, sinto um
appetite doido,
mas doido, de correr para elle, de lhe gritar: «Oh!
André! nuvens
passadas não voltam, atira para cá esses
ossos!» Creia você, não o
faço
por timidez... É timidez... Oh! não,
lá por mim, estou prompto á
reconciliação, todo o
coração m'a pede! Mas elle?... Porque, emfim,
Gouveia, eu, nas minhas Correspondencias para a
Gazeta do
Porto, tenho
sido feroz com o Cavalleiro!
João Gouveia parou, de bengala ao hombro, considerando o
fidalgo com um
sorriso divertido:
―Nas Correspondencias? Que lhe tem você dito nas
Correspondencias? Que
o Snr. Governador
[205]Civil
é um despota, e um D. Juan?... Meu
caro amigo,
todo o homem gosta que, por opposição politica,
lhe chamem despota e D.
Juan. Você imagina que elle se affligiu? Ficou simplesmente
babádo!
O fidalgo murmurou, inquieto:
―Sim! Mas as allusões á bigodeira, á
guedelha...
―Oh! Gonçalinho! Bellos cabellos annellados, bellos bigodes
torcidos,
não são defeitos de que um macho se envergonhe...
Pelo contrario! Todas
as mulheres admiram. Você pensa que ridicularisou o
Cavalleiro? Não!
annunciou simplesmente ás madamas e meninas, que
lêem a
Gazeta do
Porto, a existencia d'um mocetão esplendido que
é Governador Civil
d'Oliveira.
E parando de novo (por que defronte, na esquina, luziam as duas
janellas
abertas da sua casa), o Administrador estendeu o dedo firme para um
conselho supremo:
―Gonçalo Mendes Ramires, você
ámanhã manda buscar a parelha do Torto,
salta para a sua caleche, corre á cidade, entra pelo Governo
Civil de
braços abertos, e grita sem outro
prologo:―«André, o que lá vae,
lá
vae, venham essas costellas! E como o circulo está vago,
venha tambem
esse circulo!»―E você, dentro de cinco ou seis
semanas, é o Snr.
Deputado
[206]por
Villa-Clara, com todos os sinos a repicar... Quer tomar
chá?
―Não, obrigado.
―Bem, então viva! Tipoia ámanhã e
Governo Civil. Está claro, é
necessario arranjar um pretexto...
O fidalgo acudiu, com alvoroço:
―Eu tenho um pretexto! Não!... Quero dizer, tenho
necessidade real,
absoluta, de fallar com o Cavalleiro ou com o Secretario Geral.
É uma
questão de caseiro... Até por causa d'essa
infeliz trapalhada o
procurava eu hoje a você, Gouveia!
E aldravou a aventura do Casco, com traços mais pesados que
a
ennegreciam. Durante semanas, afferradamente, esse fatal Casco o
torturára para lhe arrendar a Torre. Mas elle
tratára com o Pereira, o
Pereira Brazileiro, por uma renda explendidamente superior á
que o Casco
offerecia a gemer. Desde então o Casco rugia,
ameaçava, por todas as
tabernas da Freguezia. E, n'essa tarde, surde d'uma azinhaga, rompe
para
elle, de varapau erguido! Mercê de Deus, lá se
defendera, lá sacudira o
bruto, com a bengala. Mas agora, sobre o seu socego, sobre a sua vida,
pairava a affronta d'aquelle cajado. E, se o assalto se renovasse, elle
varava o Casco com uma bala, como um bicho montez... Urgia pois que o
amigo Gouveia chamasse o homem, o reprehendesse
[207]rijamente, o entaipasse
mesmo por algumas horas na cadeia...
O Administrador, que escutára palpando a garganta, atalhou
logo, com a
mão espalmada:
―Governo Civil, caro amigo, Governo Civil! Esses casos de
prisão
preventiva pertencem ao Governo Civil. Reprehensão
não basta, com tal
féra!... Só cadeia, um dia de cadeia, a meia
ração... O Governo Civil
que me mande um officio ou telegramma. Você realmente corre
perigo. Nem
um instante a perder!... Amanhã tipoia e Governo Civil.
Mesmo por amor
da Ordem Publica!
E Gonçalo, compenetrado, com os hombros vergados, cedeu ante
esta
soberana razão da Ordem Publica:
―Bem, João Gouveia, bem!... Com effeito é uma
questão de Ordem Publica.
Vou ámanhã ao Governo Civil.
―Perfeitamente, concluiu o Administrador puxando o cordão
da campainha.
Dê recados meus ao Cavalleiro. E só lhe digo que
havemos de arranjar uma
votação tremenda, e foguetorio, e vivas, e ceia
magna no Gago... Você
não quer tomar chá, não?
Então, boas noites... E olhe! D'aqui a dous
annos, quando você fôr ministro, Gonçalo
Mendes Ramires, recorde esta
nossa conversa, á noite, na Calçadinha de
Villa-Clara!
[208]
Gonçalo seguiu pensativamente por defronte do Correio;
torneou a branca
escadaria da Egreja de S. Bento; metteu, alheado e sem reparar, pela
estrada plantada de acacias que conduz ao Cemiterio. E, n'aquelle alto
da Villa, d'onde, ao desembocar da Calçadinha, se abrange a
largueza
rica dos campos desde Valverde a Craquêde―sentiu que tambem
na sua
vida, apertada e solitaria como a Calçadinha, se
alargára um arejado
espaço cheio d'interessante bulicio e de abundancia. Era o
muro, em que
sempre se imaginára irreparavelmente cerrado, que de repente
rachava.
Eis a fenda facilitadora! Para além reluziam todas as bellas
realidades
que desde Coimbra appetecera! Mas...―Mas no atravessar da fenda fragosa
de certo se rasgaria a sua dignidade ou se rasgaria o seu orgulho. Que
fazer?...
Sim! seguramente! Estendendo os braços ao animal do
Cavalleiro
conquistava a sua Eleição. O circulo, infeudado
aos Historicos, elegeria
submissamente o Deputado que o chefe Historico ordenasse com indolente
aceno. Mas essa reconciliação importava a entrada
triumphal do
Cavalleiro na quieta casa do Barrôlo... Elle vendia pois o
socego da
irmã por uma cadeira em S. Bento! Não!
não podia por amor de
Gracinha!―E Gonçalo suspirou, com ruidoso suspiro, no
luminoso silencio
da estrada.
Agora porém, durante tres, quatro annos, os Regeneradores
[209]não
trepavam
ao Governo. E elle, alli, atravez d'esses annos, no buraco rural,
jogando voltaretes somnolentos na Assembléa da Villa,
fumando cigarros
calaceiros nas varandas dos Cunhaes, sem carreira, parado e mudo na
vida, a ganhar musgo, como a sua caduca, inutil Torre! Caramba! era
faltar cobardemente a deveres muito santos para comsigo e para com o
seu
nome!... Em breve os seus camaradas de Coimbra penetrariam nos altos
Empregos, nas ricas Companhias; muitos nas Camaras por vacaturas
abençoadas como a do Sanches; um ou outro mesmo, mais audaz
ou servil,
no Ministerio. Só elle, com talentos superiores, um tal
brilho
historico, jazeria esquecido e resmungando como um côxo n'uma
estrada
quando passa a romaria. E por quê? Pelo receio pueril de
pôr a bigodeira
atrevida do Cavalleiro muito perto dos fracos labios de Gracinha... E
por fim esse receio constituia uma injuria, uma nojenta injuria,
á
seriedade da irmã. Porque Portugal não se honrava
com mulher mais
rigidamente seria, de mais grave e puro pensar! Aquelle corpinho
ligeiro, que o vento levava, continha uma alma heroica. O
Cavalleiro?...
Podia sua exc.
a sacudir a guedelha com
graça fatal, jorrar
dos olhos
pestanudos a languidez ás ondas―que Gracinha permaneceria
tão
inaccessivel e solida na sua virtude como se fosse insexual e de
marmore.
[210]Oh,
realmente, por Gracinha, elle abriria ao Cavalleiro todas
as portas dos Cunhaes―mesmo a porta do quarto d'ella, e bem larga, com
uma solidão bem preparada!... E depois não se
cuidava de uma donzella,
nem d'uma viuva. Na casa do Largo d'El-Rei governava, mercê
de Deus,
marido brioso, marido rijo. A esse, só a esse, competia
escolher as
intimidades do seu lar―e n'elle manter quietação
e recato. Não! esse
receio de uma imaginavel fragilidade de Gracinha, da sua honrada,
altiva
Gracinha―esse receio, perverso e louco, certamente o devia varrer, com
o coração desafogado e sorrindo.―E, na clara
solidão da estrada,
Gonçalo Mendes Ramires atirou um gesto decidido e terminante
que varria.
Restava porém a sua propria
humilhação. Desde annos, ruidosamente,
conversando e escrevendo, em Coimbra, em Villa-Clara, em Oliveira, na
Gazeta do Porto―elle demolira o
Cavalleiro! E
subiria agora, de
espinhaço vergado, as escadarias do Governo Civil,
murmurando o
seu―
peccavi, mea culpa, mea maxima culpa?... Que
escandalo na
cidade!―«O Fidalgo da Torre lá precisou e
lá veio...» Era o
transbordante triumpho do Cavalleiro. O unico homem que no Districto se
conservava erguido, pelejando, trovejando as verdades―desarmava,
emmudecia, e encolhidamente se enfileirava no sequito louvaminheiro de
Sua Exc.
a! Bem duro!... Mas,
[211]que diabo, havia
superiormente o interesse
do paiz!―E, tão admiravel lhe appareceu esta
razão, que a bradou com
ardôr na mudez da estrada:―«Ha o
paiz!...»
Sim, o paiz! Quantas reformas a proclamar, a realisar! Em Coimbra, no
quinto anno, já se occupára da
Instrucção Publica―d'uma
remodelação do
Ensino, todo industrial, todo colonial, sem latim, sem ociosas
bellas-lettras, creando um povo formigueiro de Productores e
d'Exploradores... E os camaradas, nos sonhos ondeantes de Futuro,
quando
repartiam os Ministerios, concordavam sempre:―«O
Gonçalo para a
Instrucção Publica!» Por essas ideas
poderosas, pelo saber accumulado,
todo elle se devia á Nação―como
outr'ora, pela força, os grandes
Ramires armados. E pela Nação cumpria que o seu
orgulho de homem cedesse
ante a sua tarefa de cidadão...
Depois, quem sabe? Entre o Cavalleiro e elle afogadamente se enroscava
todo um passado de camaradagem, apenas entorpecido―que talvez revivesse
n'esse encontro, os enlaçasse logo n'um abraço
penetrante, onde os
antigos aggravos se sumiriam como um pó sacudido... Mas para
que
imaginar, remoer? Uma necessidade se sobrepunha, inilludivel―a de
comparecer logo de manhã em Oliveira, no Governo Civil,
requerendo a
suppressão do Casco. D'essa pressa dependia o seu socego de
vida
[212]e
d'intelligencia. Nunca elle lograria trabalhar na Novella, trilhar
folgadamente a estrada de Villa-Clara, sabendo que em torno o outro,
pelas quélhas e sombras, rondava com a espingarda. E para
não regressar
aos costumes bravios dos seus avós, circulando atravez do
Concelho entre
as carabinas dos creados, necessitava o Casco domado, immobilisado. Era
pois inadiavel correr ao Governo Civil, para bem da Ordem. E depois,
quando elle se encontrasse no gabinete do Cavalleiro, deante da mesa do
Cavalleiro―a Providencia decidiria...―«A Providencia
decidirá!»
E ancorado n'esta resolução, o Fidalgo da Torre
parou, olhou. Levado
pela quente rajada de pensamentos, chegára á
grade do cemiterio da Villa
que o luar branqueava como um lençol estendido. Ao fundo da
alameda que
o divide, clara na claridade triste, o escarnado Christo chagado e
livido, sobre a sua alta cruz negra, pendia, mais dolorido e livido no
silencio e na solidão, com uma tristissima lampada aos
pés esmorecendo.
Em torno eram cyprestes, sombras de cyprestes, brancuras de lapides, as
cruzes rasteiras das campas pobres, uma paz morta pesando sobre os
mortos: e no alto a lua amarella e parada. Então o Fidalgo
sentiu um
arripiado mêdo do Christo, das lousas, dos defuntos, da lua,
da solidão.
E despedio n'uma carreira até avistar as casas
[213]da
Calçadinha, por onde
descambou como uma pedra solta. Quando se deteve no Largo do Chafariz,
um môcho piava na torre da Camara, melancolisando o repouso
de
Villa-Clara apagada e adormecida. Mais impressionado,
Gonçalo correu á
taberna da Serena, recolheu os creados que esperavam jogando a bisca
lambida. E com elles atravessou de novo a Villa até
á cocheira do
Torto―para recommendar que lhe mandassem á Torre,
ás nove horas da
manhã, a parelha russa.
Atravez do postigo, que se abrira com cautella no portão
chapeado, a
mulher do Torto gemeu, indecisa:
―Ai, meu Deus, não sei se poderá... Elle
ás nove tem um serviço... Pois
não faria mais conta ao Fidalgo ahi pela volta das onze?
―Ás nove! berrou Gonçalo.
Desejava apear cêdo ao portão do Governo Civil
para evitar a curiosidade
d'aquelles cavalheiros de Oliveira―que, depois do meio dia, se juntavam
na Praça, vadiando por debaixo da Arcada.
Mas ás nove e meia Gonçalo, que até ao
luzir da madrugada se agitára
pelo quarto n'um tumulto d'esperanças e receios―ainda se
barbeava, em
camisa, deante do vasto espelho de coluninas douradas. Depois
[214]aproveitou
a caleche para deixar na
Feitosa os seus bilhetes
de pezames
á bella
viuva, á D. Anna. Ao meio dia, esfaimado, almoçou
na Vendinha emquanto a
parelha resfolgava. E batia a meia depois das duas quando emfim se
apeou
em Oliveira deante do portão do antigo convento de S.
Domingos, ao fundo
da Praça, onde seu pae, quando Chefe do Districto,
installára
faustosamente as repartições do Governo Civil.
Áquella hora, já na frescura e sombra da Arcada
que orla um lado da
Praça (outr'ora
Praça da Prataria,
hoje
Praça da Liberdade) os
cavalheiros d'Oliveira mais desoccupados, os
«rapazes», preguiçavam, em
cadeiras de verga, á porta da Tabacaria Elegante e da loja
do Leão.
Gonçalo, cautelosamente, baixára as cortinas
verdes da caleche. Mas no
pateo do Governo Civil, ainda guarnecido de bancos monumentaes do tempo
dos frades, esbarrou com o primo José Mendonça,
que descia a escadaria,
fardado. Foi um assombro para o alegre capitão,
moço esvelto, de bigode
curto, picado levemente de bexigas.
―Tu por aqui, Gonçalinho! E de chapeu alto! Caramba, deve
ser coisa
gorda!
O Fidalgo da Torre confessou, corajosamente. Chegava n'esse instante de
Santa Ireneia para fallar ao André Cavalleiro...
―Está elle cá, esse illustre senhor?
[215]
O outro recuou, quasi aterrado:
―Ao Cavalleiro?! É ao Cavalleiro que vens fallar?!...
Santissima
Virgem! Então desabou Troia!
Gonçalo gracejou, corando. Não! não se
passára desgraça epica como a de
Troia... De resto podia revelar ao amigo Mendonça o caso que
o arrastava
á presença augusta de Sua Exc.
a
o Snr.
Governador Civil. Era um homem
dos Bravaes, um Casco, que, furioso por não conseguir o
arrendamento da
Torre, o ameaçára, rondava agora a estrada de
Villa-Clara de noite, á
espreita, com uma espingarda. E elle, não ousando
«fazer alta e boa
justiça» pelas mãos dos seus creados,
como os Ramires feudaes―reclamava
modestamente da Auctoridade Superior uma ordem para que o Gouveia
mantivesse dentro da legalidade e dos Mandamentos de Deus o
façanhudo
dos Bravaes...
―Só isto, uma pequenina questão de paz
publica... E então o grande
homem está lá em cima? Bem, até logo,
Zézinho... A prima, de saude? Eu
naturalmente janto nos Cunhaes. Apparece!
Mas o capitão não despegava do degrau de pedra,
abrindo pachorrentamente
a cigarreira de couro:
―E que me dizes tu á novidade? O pobre Sanches Lucena?...
Sim, Gonçalo soubera na Assembleia. Um ataque,
hein?―Mendonça accendeu,
chupou o cigarro:
[216] ―De repente, com um aneurisma, a ler o
Noticias!...
Pois ainda ha
tres dias a Maricas e eu jantamos na
Feitosa.
Até eu
toquei a duas
mãos, com a D. Anna, o quarteto do Rigoleto. E elle bem,
conversando,
tomando a sua aguardentesinha de canna...
Gonçalo esboçou um gesto de piedade e tristeza:
―Coitado... Tambem ha semanas o encontrei na Bica-Santa. Bom homem, bem
educado... E ahi temos agora a bella D. Anna vaga.
―E o circulo!
―Oh, o circulo! murmurou o Fidalgo da Torre com risonho desdem. A mim
antes me convinha a viuva. É Venus com duzentos contos!
Infelizmente tem
uma voz medonha...
O primo Mendonça accudiu, com interesse, uma
convicção dedicada:
―Não! não! na intimidade, perde aquelle tom
empapado... Não imaginas!
até um timbre natural, agradavel... E depois, menino, que
corpo! que
pelle!
―Deve ficar explendida agora com o luto! concluiu Gonçalo.
Bem,
adeusinho! Apparece nos Cunhaes... Eu corro ao Cavalleiro para gue Sua
Exc.
a me salve com o seu braço forte!
Sacudiu a mão do Mendonça, galgou a escadaria de
pedra.
Mas o capitão, que mettera para a travessa de S. Domingos,
desconfiou
d'aquella historia d'ameaças,
[217]d'espingardas...
«Qual! Aqui anda
Politica!» E quando, passada uma hora lenta, repenetrou na
Praça e
avistou a caleche da Torre ainda encalhada á porta do
Governo
Civil―correu á Arcada, desabafou logo com os dois
Villa-Velhas, ambos
pensativamente encostados aos dois humbraes da Tabacaria Elegante:
―Vocês sabem quem está no Governo Civil?... O
Gonçalo Ramires!... Com o
Cavalleiro!
Todos em roda se mexeram, como acordando, nas gastas cadeiras de
verga―onde os estendera somnolentamente o silencio e a ociosidade da
arrastada tarde de verão. E o Mendonça, excitado,
contou que desde as
duas horas e meia Gonçalo Mendes Ramires, «em
carne e osso», se
conservava fechado com o Cavalleiro, no Governo Civil, n'uma
conferencia
magna! O espanto e a curiosidade foram tão ardentes que
todos se
ergueram, se arremessaram para fóra dos Arcos, a espiar a
bojuda varanda
do convento, sobre o portão―que era a do gabinete de Sua
Excellencia.
Precisamente, n'esse momento, José Barrôlo, a
cavallo, de calça branca,
de rosa branca na quinzena d'alpaca, dobrava a esquina da rua das
Vendas. E o interesse todo d'aquelles cavalheiros se precipitou para
elle, na esperança d'uma revelação:
―Oh Barrôlo!
[218] ―Oh Barrolinho, chega cá!
―Depressa, homem, que é caso rijo!
Barrôlo, ladeando, abeirou da Arcada: e os amigos
immediatamente lhe
atiraram a nova formidavel, apertados em volta da egoa. O
Gonçalo e o
Cavalleiro cochichando secretamente toda a manhã! A caleche
da Torre á
espera, com a parelha adormecida! E já começavam
a repicar os sinos da
Sé!
Barrôlo, n'um pulo, desmontou. E emquanto um garoto lhe
passeava a
egoa―estacou entre os amigos, com o chicote detraz das costas, pasmando
tambem para a varanda de pedra do Governo Civil.
―Pois eu não sei nada! O Gonçalo a mim
não me disse nada! affirmava
elle, assombrado. Tambem já ha dias não vem
á cidade... Mas não me disse
nada! E da ultima vez que cá esteve, nos annos da
Graça, ainda
destemperou contra o Cavalleiro!
A todos o caso parecia «d'estrondo!» E subitamente
um silencio esmagou a
Arcada, trespassada d'emoção. Na varanda, entre
as vidraças abertas
vagarosamente, apparecera o Cavalleiro com o Fidalgo da Torre,
conversando, risonhos, de charutos accesos. Os largos olhos do
Cavalleiro pousaram logo, com malicia, sobre os
«rapazes» apinhados em
pasmo á borda dos Arcos. Mas foi um lampejar de
visão. S. Ex.
a
remergulhára no gabinete―o Fidalgo tambem, depois de se
debruçar da
varanda, espreitar
[219]a
caleche da Torre. Entre os amigos rompeu um clamor:
―Viva! Reconciliação!
―Acabou a guerra das Rosas!
―E as correspondencias da
Gazeta do Porto?...
―É que houve peripecia tremenda!
―Temos o Gonçalinho administrador d'Oliveira!
―Upa, Ex.
mo Snr., upa!
Mas de novo emmudeceram. O Cavalleiro e o Fidalgo reappareciam, n'uma
enfronhada conversa, que os deteve um momento esquecidos, na evidencia
da varanda escancarada. Depois o Cavalleiro, com uma familiaridade
carinhosa, bateu nas costas do Gonçalo―como se publicasse a
sua
reconciliação diante da Praça
maravilhada. E outra vez se sumiram,
n'esse passear conversado e intimo, que os trazia da sombra do gabinete
para a claridade da janella, roçando as mangas, misturando o
fumo leve
dos charutos. Em baixo o bando crescia, mais excitado.
Passára o Mello
Alboim, o Barão das Marges, o Dr. Delegado: e, chamados com
ancia, cada
um correra, devorára esgazeadamente a novidade,
embasbacára para o velho
balcão de pedra que o sol dourava. Os grossos ponteiros do
relogio do
Governo Civil já se acercavam das quatro horas. Os dous
Villa-Velhas,
outros «rapazes», estafados, retrocederam
ás cadeiras de verga da
Tabacaria. O Dr. Delegado,
[220]que
jantava ás quatro e soffria
do estomago,
despegou desconsoladamente dos Arcos, supplicando ao Pestana seu
visinho
«que apparecesse ao café, para contar o
resto...» Mello Alboim, esse,
enfiára para casa, defronte do Governo Civil, na esquina do
Largo: e da
janella, disfarçado por traz da mulher e da cunhada, ambas
de chambres
brancos e de papelotes, sondava o gabinete de S. Ex.
a
com um binoculo.
Por fim bateram, com estendida pancada, as quatro horas.
Então o Barão
das Marges, na sua impaciencia borbulhante, decidiu subir ao Governo
Civil, «para farejar!...»
Mas n'esse momento André Cavalleiro assomava de novo
á varanda―sózinho,
com as mãos enterradas no jaquetão de flanella
azul. E quasi
immediatamente a caleche da Torre largou da porta do Governo Civil,
atravessou a Praça, com os stores verdes meio corridos,
descobrindo
apenas, áquelles cavalheiros avidos, as calças
claras do Fidalgo.
―Vae para os Cunhaes!
Lá o apanhava pois o Barrôlo! E todos apressaram o
bom Barrôlo a que
montasse, recolhesse, para ouvir do cunhado os motivos e os lances
d'aquella paz historica! O Barão das Marges até
lhe segurou o estribo.
Barrôlo, alvoroçadamente, trotou para o Largo
d'El-Rei.
[221]
Mas Gonçalo Mendes Ramires, sem parar nos Cunhaes, seguia
para a
Vendinha, onde decidira jantar, dando um descanço
á parelha esfalfada. E
logo depois das ultimas casas da cidade subiu as stores, respirou
deliciosamente, com o chapeo sobre os joelhos, a luminosa frescura da
tarde―mais fresca e de uma claridade mais consoladora que todas as
tardes da sua vida... Voltava d'Oliveira vencedor! Furára
emfim atravez
da fenda, atravez do muro! E sem que a sua honra ou o seu orgulho se
esgaçassem nas asperezas estreitas da fenda!...
Abençoado Gouveia,
esperto Gouveia! E abençoada a esperta conversa, na vespera,
pela
calçadinha de Villa-Clara!...
Sim, de certo, fôra custoso aquelle mudo momento em que se
sentára
seccamente, hirtamente, á borda da poltrona, junto da pesada
meza
administrativa de S. Ex.
a. Mas mantivera muita
dignidade e muita
simplicidade...―«Sou forçado (dissera) a
dirigir-me ao Governador
Civil, á Auctoridade, por um motivo de ordem
publica...» E a primeira
avença partira logo do Cavalleiro, que torcia a bigodeira,
pallido:―«
Sinto profundamente que não seja ao homem, ao velho amigo,
que Gonçalo
Mendes Ramires se dirija...» Elle ainda se
conservára retrahido,
resistente, murmurando com uma frieza triste:―«As culpas
não são
decerto minhas...» E então o Cavalleiro, depois de
um silencio em que
[222]
lhe tremera o beiço:―«Ao cabo de tantos annos,
Gonçalo, seria mais
caridoso não alludir a culpas, lembrar somente a antiga
amizade, que,
pelo menos em mim, se conservou a mesma, leal e
séria.» A esta
sensibilisada invocação, elle volvera, com
doçura, com indulgencia:―«Se
o meu antigo amigo André recorda a nossa antiga amizade, eu
não posso
negar que em mim tambem ella nunca inteiramente se apagou...»
Ambos
balbuciaram ainda alguns confusos lamentos sobre os desaccordos da
vida.
E quasi insensivelmente se trataram por
tu! Elle
contou ao Cavalleiro
a torpe ousadia do Casco. E o Cavalleiro, indignado como amigo, mais
como Auctoridade, telegraphára logo ao Gouveia um mandado
forte para
inutilisar o valentão dos Bravaes... Depois conversaram da
morte do
Sanches Lucena, que impressionava o Districto. Ambos louvaram a belleza
da viuva, os seus duzentos contos. O Cavalleiro recordou a
manhã, na
Feitosa, em que entrando pela porta pequena do
jardim, a
surprehendera, dentro d'um caramanchão de rosas, a apertar a
liga. Uma
perna divina! Ambos se recusaram, rindo, a casar com a D. Anna, apezar
dos duzentos contos e da divina perna...―Já entre elles se
restabelecera a antiga familiaridade de Coimbra. Era «tu
Gonçalo, tu
André, oh menino, oh filho!»
E fôra André, naturalmente, que alludira
á desapparição
[223]do Deputado do
Governo, á surpreza do circulo vago... Elle
então, com indifferença,
estirado na poltrona, rufando com os dedos na borda da mesa,
murmurára:
―Sim, com effeito... Vocês agora devem estar
embaraçados, assim de
repente...
Mais nada! apenas estas indolentes palavras, murmuradas
através do rufo.
E o Cavalleiro, logo, sem preparação,
apressadamente, empenhadamente,
lhe offerecera o Circulo!―Pousára os olhos n'elle com
lentidão, como
para o penetrar, o escutar... Depois, insinuante e grave:
―Se tu quizesses, Gonçalo, não estavamos
embaraçados...
Elle ainda exclamára, com surpreza e riso:
―Como, se eu quizesse?
E o André, sempre com os olhos n'elle cravados, os largos
olhos
lustrosos, tão persuasivos:
―Se tu quizesses servir o Paiz, ser deputado por Villa-Clara,
já não
estavamos embaraçados, Gonçalo!
Se tu quisesses... E perante esta insistencia que
rogava,
tão sincera
e commovida, em nome do Paiz, elle consentira, vergára os
hombros:
―Se te posso ser util, e ao Paiz, estou ás vossas ordens.
E eis a fenda transposta, a aspera fenda, sem rasgão
[224]no seu
orgulho ou
na sua dignidade! Depois conversaram desafogadamente, passeando pelo
gabinete, desde a estante carregada de papeis até
á varanda―que André
abrira, por causa d'um cheiro persistente de petroleo entornado na
vespera. André tencionava partir n'essa noite para
Lisboa―para
conferenciar com o Governo, depois d'aquella inesperada
desapparição do
Lucena. E, agora em Lisboa, imporia o querido Gonçalo como o
unico
Deputado, depois do Sanches de Lucena, seguro e substancial―pelo nome,
pelo talento, pela influencia, pela lealdade. E eis a
eleição
consummada! De resto (declarára o Cavalleiro, rindo) aquelle
Circulo de
Villa-Clara constituia uma propriedade sua―tão sua como
Corinde.
Livremente, poderia eleger o servente da
Repartição que era gago e
bebado. Prestava pois um serviço esplendido ao Governo,
á Nação,
apresentando um môço de tão alta origem
e de tão fina intelligencia...
Depois accrescentára:
―Não tens a pensar mais na eleição.
Vaes para a Torre. Não contas a
ninguem, a não ser ao Gouveia. Esperas lá, muito
quietinho, telegramma
meu de Lisboa. E, recebido elle, estás Deputado por
Villa-Clara,
annuncias a teu cunhado, aos amigos... Depois, no domingo, vens
almoçar
comigo a Corinde, ás onze.
Então ambos se apertaram n'um abraço que fundiu
[225]de novo, e para
sempre,
as duas almas apartadas. Depois, ao cimo da escadaria de pedra onde o
acompanhára, André, repenetrando timidamente no
Passado, murmurou com um
riso pensativo:―«Que tens tu feito ultimamente, n'essa
querida Torre?»
E, ao saber da Novella para os
Annaes,
suspirou com
saudade dos tempos
de Imaginação e d'Arte em Coimbra, quando elle
amorosamente lapidava o
primeiro canto d'um poema heroico, o
Fronteiro de Ceuta.
Emfim outro
abraço―e alli voltava deputado por Villa-Clara.
Todos esses campos, esses povoados que avistava da portinhola da
caleche, era elle que os representava em Côrtes, elle,
Gonçalo Mendes
Ramires... E superiormente os representaria, mercê de Deus!
Porque já as
idéas o invadiam, viçosas e ferteis. Na Vendinha,
emquanto esperava que
lhe frigissem um chouriço com ovos e duas postas de savel,
meditou, para
a Resposta ao Discurso da Corôa, um esboço sombrio
e áspero da nossa
Administração na Africa. E lançaria
então um brado á Nação, que
a
despertasse, lhe arrastasse as energias para essa Africa portentosa,
onde cumpria, como gloria suprema e suprema riqueza, edificar de costa
a
costa um Portugal maior!... A noite cerrára, ainda outras
idéas o
revolviam, vastas e vagas―quando o
[226]trote
esfalfado da parelha estacou
no portão da Torre.
Ao outro dia (terça feira) ás dez horas, o Bento
entrou no quarto do
Fidalgo com um telegramma, que chegara á Villa de madrugada.
Gonçalo
pensou com um deslumbrado pulo do
coração:―«É do
Governo!»―Era do
Pinheiro, gritando pela Novella. Gonçalo amarrotou o
telegramma. A
Novella! Como poderia labutar na Novella, agora, todo na impaciencia e
no esforço da sua Eleição?... Nem
almoçou socegadamente―retendo,
atravez dos pratos que arredava, um desejo desesperado de
«contar ao
Bento.» E, sorvido o café n'um sorvo impaciente,
atirou para
Villa-Clara, a desafogar com o Gouveia. O pobre administrador jazia de
novo no camapé de palhinha, com papas na garganta. E toda a
tarde, na
estreita sala forrada de papel verde-gaio, Gonçalo exaltou
os talentos
do André, «homem de governo e de idéas,
Gouveia!»―celebrou o Ministerio
Historico, «o unico capaz de salvar esta choldra,
Gouveia!»-―desenrolou
vistosos Projectos de Lei que meditava sobre a Africa, «a
nossa
esperança magnifica, Gouveia!»―Emquanto o
Gouveia, estirado, só rompia
a mudez e a immobilidade, para murmurar chôchamente,
apalpando o calor
das papas:
[227] ―E a quem deve vossê tudo isso, Gonçalinho?...
Cá ao meco!»
Na quarta-feira, ao accordar, tarde, o seu pensamento saltou logo
soffregamente para o André Cavalleiro, que a essa hora, em
Lisboa,
almoçava no Hotel Central (sempre, desde rapaz,
André se conservára fiel
ao Hotel Central). E todo o dia, fumando cigarros insaciavelmente
atravez do silencio da casa e da quinta, seguiu o Cavalleiro nos seus
giros de Chefe de Districto, pela Baixa, pela Arcada, pelos
Ministerios... Naturalmente jantaria com o tio Reis Gomes, Ministro da
Justiça. Outro convidado certamente seria o José
Ernesto, Ministro do
Reino, condiscipulo do Cavalleiro, seu confidente politico... N'essa
noite, pois, tudo se decidia!
―Ámanhã, pelas dez horas, tenho cá
telegramma do André.
Nenhuma noticia chegou á Torre:―e o Fidalgo passou a lenta
quinta feira
á janella, vigiando a estrada poeirenta por onde surdiria o
moço do
telegrapho, um rapaz gordo que elle conhecia pelo bonné
d'oleado e pela
perna manca. Á noitinha, intoleravelmente inquieto, mandou
um moço a
Villa-Clara. Talvez o telegramma arrastasse, esquecido, pela mesa
d'aquella «besta do Nunes do Telegrapho!»
Não havia telegramma para o
Fidalgo. Então ficou certo de surgirem em Lisboa
difficuldades! E toda a
[228]
noite, sem socego, n'uma indignação que rolava e
crescia, imaginou o
Cavalleiro cedendo mollemente a outras exigencias do
Ministro―acceitando com servilismo para Villa-Clara a candidatura
d'algum imbecil da Arcada, d'algum chulo escrevinhador do Partido!
Pela manhã injuriou o Bento por lhe trazer tão
tarde os jornaes e o chá:
―E não ha telegramma, nem carta?
―Não ha nada.
Bem, fôra trahido! Pois nunca, nunca, aquelle infame
Cavalleiro
transporia a porta dos Cunhaes! De resto, que lhe importava a burlesca
Eleição? Mercê de Deus que lhe sobravam
outros meios de provar
soberbamente o seu valor―e bem superiores a uma ensebada cadeira em S.
Bento! Que miseria, na verdade, curvar o seu espirito e o seu nome ao
rasteiro serviço do S. Fulgencio, o obeso e horrendo careca!
E resolveu
logo regressar aos cimos puros da Arte, occupar altivamente todo o dia
no nobre e elegante trabalho da sua Novella.
Depois de almoço ainda abancou, com esforço,
remexeu nervosamente as
tiras de papel. E de repente agarrou o chapéo, abalou para
Villa-Clara,
para o telegrapho. O Nunes não recebera nada para sua
exc.
a!―Correu,
coberto de suor e pó, á
Administração do Concelho. O snr. Aministrador
partira
[229]para
Oliveira!... Positivamente vencera outra
combinação―eis a
sua confiança burlada! E recolheu á Torre,
decidido a tomar um desforço
tremendo do Cavalleiro por tanta injuria amontoada sobre o seu nome,
sobre a sua dignidade! Toda a abafada e enevoada Sexta-feira a consumio
amargamente meditando esta vingança, que queria bem publica
e bem
sangrenta. A mais saborosa, mais simples, seria rasgar a bigodeira do
infame com chicotadas, na escadaria da Sé, um domingo,
á sahida da
missa! Ao escurecer, depois do jantar que mal debicára,
n'aquelle
despeito e humilhação que o pungiam, envergou o
casaco para voltar a
Villa-Clara. Não entraria no Telegrapho―já com
vergonha do Nunes. Mas
gastaria a noite na Assembléa, jogando o bilhar, tomando um
alegre chá,
lendo risonhamente os Jornaes Regeneradores, para que todos recordassem
a sua indifferença―se por acaso, mais tarde, conhecessem a
trama em que
resvalára.
Desceu ao páteo, onde as arvores adensavam a sombra do
crepusculo
carregado de fuscas nuvens. E abria o portão, quando
esbarrou com um
rapaz que s'esbaforia sobre a perna manca e
gritava:―«É um telegramma!»
Com que voracidade lh'o arrancou das mãos! Correu
á cozinha, ralhou
desabridamente á Rosa pela falta da luz tardia! E, com um
phosphoro a
arder nos dedos, devorou, n'um lampejo,
[230]as
linhas
bemditas:―«
Ministro
acceita, tudo arranjado...» O resto era o
Cavalleiro
lembrando que no
domingo o esperava em Corinde, ás onze, para
almoçarem e conversarem...
Gonçalo Mendes Ramires deu cinco tostões ao
moço do telegrapho―galgou
as escadas. Na livraria, á claridade mais segura do
candieiro, releu o
telegramma delicioso.
Ministro acceita, tudo arranjado!...
Na sua
transbordante gratidão pelo Cavalleiro, ideou logo um jantar
soberbo,
offerecido nos Cunhaes pelo Barrôlo, cimentando para sempre a
reconciliação das duas Casas. E recommendaria a
Gracinha que, para mais
honrar a doce festa, se decotasse, pozesse o seu collar magnifico de
brilhantes, a derradeira joia historica dos Ramires.
―Aquelle André! que flôr, que rapaz!
O relogio de charão, no corredor, rouquejou as nove horas. E
só então
Gonçalo percebeu a densa chuva que alagava a quinta, e a que
elle,
embebido na sua gloria, passeando pela livraria n'um luminoso rolo de
imaginações, não sentira o rumor sobre
a pedra da varanda, nem sobre a
folhagem dos limoeiros.
Para se calmar, occupar a noite encerrada, deliberou trabalhar na
Novella. E realmente agora convinha
[231]que
terminasse essa
Torre
de D.
Ramires antes do afan da Eleição―para
que em
Janeiro, ao abrir das
Côrtes, surgisse na Politica com o seu velho nome aureolado
pela
Erudição e pela Arte. Envergou o
roupão de flanella. E á banca, com o
costumado bule de chá inspirador, repassou lentamente o
começo do
Capitulo II―que o não contentava.
Era no castello de Santa Ireneia, n'aquelle dia de Agosto em que
Lourenço Ramires cahira no valle de Canta-Pedra, mal ferido
e captivo do
Bastardo de Bayão. Pelo Almocadem dos peões, que,
com o braço varado por
uma chuçada, voltára em desesperada carreira ao
Castello, já Tructezindo
Ramires conhecia o desventuroso desfecho da lide.―E n'este lance o tio
Duarte, no seu poemeto do
Bardo,
com um lyrismo molle, mostrava o
enorme
Rico-Homem gemendo derramadamente atravez da sala-d'armas, na saudade
d'esse filho, flôr dos Cavalleiros de Riba-Cavado, derrubado,
amarrado
n'umas andas, á mercê da gente de
Bayão...
Lagrimas irrepresas lhe rebentam,
Arfa o arnez c'o soluçar
ardente!...
Ora, levado no harmonioso sulco do tio Duarte, tambem elle, nas linhas
primeiras do Capitulo, esboçára o velho abatido
sobre um escanho, com
lagrimas
[232]relusentes
sobre as barbas brancas, as duras mãos
descahidas
como as de languida Dona―em quanto que nas lages, batendo a cauda, os
seus dois lebreus o contemplam n'uma sympathia anciada e quasi humana.
Mas, agora, este choroso desalento não lhe parecia coherente
com a alma
tão indomavelmente violenta do avô Tructezindo. O
tio Duarte, da casa
das Balsas, não era um Ramires, não sentia
hereditariamente a fortaleza
da raça:―e, romantico plangente de 1848,
inundára logo de prantos
romanticos a face ferrea de um lidador do seculo XII, d'um companheiro
de Sancho I! Elle porém devia restabelecer os espiritos do
Senhor de
Santa Ireneia dentro da realidade epica. E, riscando logo esse
descorado
e falso começo de Capitulo, retomou o lance mais
vigorosamente, enchendo
todo o castello de Santa-Ireneia d'uma irada e rija alarma. Na sua
lealdade sublime e simples Tructezindo não cuida do
filho―adia a
desforra do amargo ultraje. E o seu esforço todo se commette
a apressar
os aprestos da mesnada, para correr elle sobre Montemor, e levar
ás
Senhoras Infantas os soccorros de que as privára a embuscada
de
Canta-Pedra! Mas quando o impetuoso Rico-Homem com o Adail, na
sala-d'armas, regia a ordem da arrancada―eis que os esculcas, abrigados
do calor d'Agosto nos miradouros, enxergam ao longe, para
além do
arvoredo da Ribeira, coriscos d'armas, uma cavalgada
[233]subindo para
Santa-Ireneia. O Villico, o gordo e azafamado Ordonho, galga arquejando
aos eirados da torre albarrã―e reconhece o
pendão de Lopo de Bayão, o
seu toque de trompas á mourisca, arrastado e triste no
silencio dos
campos. Então arqueia as cabelludas mãos na
bôca, atira o alarido:
―Armas, armas! que é gente de Bayão!...
Besteiros, ás quadrellas!
Homens em chusma ás lavadiças da carcova!
E Gonçalo, coçando a testa com a rama da penna,
rebuscava ainda outros
veridicos brados, de bravo som Affonsino―quando a porta da livraria
abriu cautellosamente, atravez d'aquelle perro rangido que o
desesperava. Era o Bento, em mangas de camisa:
―O Snr. Dr. não poderia descer cá baixo
á cozinha?
Gonçalo embasbacou para o Bento, pestanejando, sem
comprehender:
―Á cozinha?...
―É que está lá a mulher do Casco a
levantar uma celeuma. Parece que lhe
prenderam o homem esta tarde... Appareceu ahi por baixo de agoa, com os
pequenos, até um de mama. Quer por força fallar
com o Snr. Dr. E não se
calla, lavada em lagrimas, de joelhos com os filhos, que é
mesmo uma
Ignez de Castro!
Gonçalo murmurou―«que massada!» E que
[234]contrariedade! A
mulher, n'uma
agonia, entre gritos, arrastando os filhos supplicantes até
ao portão da
Torre! E elle, nas vesperas da sua Eleição,
apparecendo a todas as
freguezias enternecidas como um fidalgo deshumano!...―Atirou a penna
furiosamente:
―Que massada! Dize á creatura que me deixe, que se
não afflija... O
Snr. Aministrador ámanhã manda soltar o Casco. Eu
mesmo vou a
Villa-Clara, antes d'almoço, para pedir. Que se
não afflija, que não
aterre os pequenos... Corre, dize, homem!
Mas o Bento não despegava da porta:
―Pois a Rosa e eu já lhe dissemos... Mas a mulherzinha
não acredita,
quer pedir ao Snr. Dr.! Veio por baixo d'agoa. Até um dos
pequenitos
está bem doentinho, ainda não fez
senão tremer...
Então Gonçalo, sensibilisado, atirou á
meza um murro que tresmalhou as
tiras da Novella:
―Ora se uma cousa d'estas se atura! Um homem que me quiz matar! E
agora, por cima, é sobre mim que desabam as lagrimas, e as
scenas, e a
creança doente! Não se pode viver n'esta terra!
Um dia vendo casa e
quinta, emigro para Moçambique, para o Transvaal, para onde
não haja
massadas... Bem, dize á mulher que já
desço.
O Bento approvou, com effusão:
―Pois se o Snr. Dr. lhe não custa... E como
[235]é
para dar uma boa nova...
Sempre consola a pobre mulherzinha!...
―Lá vou, homem, lá vou! Não me masses
tambem... Impossivel trabalhar
n'esta casa! Outra noite perdida!
Enfiou violentamente para o quarto, atirando as portas―com a ideia de
metter na algibeira do roupão duas notas de dez
tostões que consolariam
os pequenos. Mas, deante da gaveta, recuou, vexado. Que brutalidade,
compensar com dinheiro creancinhas―a quem elle arrancára o
pae,
algemado, para o trancar n'uma enxovia! Agarrou simplesmente n'uma
boceta de alperces seccos―dos famosos alperces do Convento de
Santa-Brigida de Oliveira, que na vespera lhe mandára
Gracinha. E,
cerrando lentamente o quarto, já se arrependia da sua
severidade, tão
estouvada, que assim desmanchava a quietação de
um casal. Depois no
corredor, ante a chuva clamorosa que dos telhados se despenhava nas
lages do pateo, ainda mais doridamente se impressionou, com a imagem da
pobre mulher, tresloucada pela negra estrada, puxando os filhinhos
encharcados, moídos, contra a tormenta solta. E ao penetrar
no corredor
da cozinha―tremia como um culpado.
Atravez da porta envidraçada sentiu logo a Rosa e o Bento
consolando a
mulher, com palradora confiança, quasi risonhos. Mas os
«ais» d'ella, os
ruidosos
[236]lamentos
pelo «seu rico homem», resoavam,
mais agudos, como a
rebater e a abafar toda a consolação. E apenas
Gonçalo empurrou
timidamente a porta―quasi acuou no espanto e medo d'aquella
afflicção
estridente que se arremessava para elle e para a sua misericordia! De
rojos nas lages, torcendo as magras mãos sobre a
cabeça, toda de negro,
parecendo mais negra e dolorosa contra a vermelhidão do
lençol estendido
que seccava ao lume forte da lareira―a creatura estalára
n'um tumulto
de supplicas e gritos:
―Ai, meu rico Senhor, tenha compaixão! Ai, que me prenderam
o meu
homem, que m'o vão mandar para a Africa degredado! Jesus,
meus filhinhos
da minha alma que ficam sem pae! Ai, pelas suas almas, meu senhor, e
por
toda a sua felicidade!... Eu sei que elle teve culpa! Aquillo foi
perdição que lhe deu! Mas tenha piedade d'estas
creancinhas! Ai, o meu
pobre homem que está a ferros! Ai, meu rico Senhor, por quem
é!
Com as palpebras humedecidas, agarrando desesperadamente, a boceta
d'alperces, Gonçalo balbuciava, atravez da
emoção que o estrangulára:
―Oh mulher, socegue, já o vão soltar! Socegue!
Já dei ordem! Já o vão
soltar!
E d'um lado a Rosa, debruçada sobre a escura creatura que
gemia,
recomeçava docemente:―«Pois
[237]foi o que lhe
dissemos, tia Maria! Logo
pela manhã, o vão soltar!»―E do outro
o Bento, batendo na coxa, com
impaciencia:―«Oh mulher, acabe com esse escarceu! Pois se o
Snr. Dr.
prometteu! Logo pela manhã o vão
soltar!»
Mas ella não se calmava, com o lenço da
cabeça desmanchado, uma trança
desprendida, soluçando e clamando atravez dos
soluços:
―Ai que eu morro, se o não vejo solto! Ai
perdão, meu rico Senhor da
minha alma!...
Então Gonçalo, que aquelle infindavel e obtuso
queixume torturava, como
um ferro cravado e recravado, bateu o chinello nas lages, berrou:
―Escute, mulher! E olhe para mim! Mas de pé, de
pé!... E olhe bem, olhe
direita!
Hirtamente erguida, atirando as mãos para as costas como a
escapar
d'algemas que tambem a ameaçassem―ella arregalou para o
Fidalgo os
olhos espavoridos, fundos olhos pretos, de fundas olheiras tristes, que
lhe enchiam a face rechupada e morena.
―Bem, perfeitamente! exclamava Gonçalo. E agora diga! Acha
que tenho
bojo de lhe mentir, quando vocemecê está n'essa
afflicção? Pois então
socegue, acabe com os gritos, que, sob minha palavra,
ámanhã cedo, o seu
homem está solto!
E a Rosa e o Bento, ambos triumphando:
―Pois que lhe dizia a gente, creatura de Deus?
[238]Se
o Snr. Dr. tinha
promettido... Ámanhã lá tem o homem!
Lentamente ella limpava as lagrimas, já silenciosas,
á ponta do avental
negro. Mas, ainda desconfiada, com os tenebrosos olhos mais
arregalados,
devorando Gonçalo. E o Fidalgo mandava com certeza a ordem,
cedinho, de
madrugada?...―Foi o Bento que a convenceu, com violencia:
―Oh mulher, vossê até parece atrevida! Ora essa!
Pois duvida da palavra
do Snr. Dr.?
Ella soltou o avental, baixou a cabeça, suspirou
simplesmente:
―Ai, então muito obrigada, seja pela felicidade de todos...
E agora a curiosidade de Gonçalo procurava os pequenos que
ella
acarretára desde os Bravaes atravez da chuva cerrada. A
pequenina de
mama dormia com beatitude sobre a tampa de uma arca, onde a boa Rosa a
aconchegára entre mantas e fronhas. Mas o pequeno, de sete
annos,
encolhido n'uma cadeira deante do lume, rente ao lençol que
seccava,
seccando tambem, com a carinha afogueada de febre, tossia
despedaçadamente, n'um cabecear de somno e
cançasso, a arquejar, a gemer
contra a tosse que o esfalfava. Gonçalo pousou a boceta de
alperces na
arca, palpou a mão com que elle, sem cessar, raspava pela
[239]abertura da
camisa encardida o peito ainda mais encardido.
―Mas esta creanca tem febre!... E vossê, com uma noite
d'estas, traz o
pequeno assim desde os Bravaes, mulher?
Da cadeirinha baixa, onde se sentára prostrada, ella
murmurou, sem
erguer a magra face, torcendo a ponta do avental:
―Ai! era para que elles tambem pedissem, que estavam sem pae,
coitadinhos!
―Vocemecê é doida, mulher! E pretende talvez
voltar para os Bravaes,
debaixo d'agoa, com as creanças?
Ella suspirou:
―Ai! volto, volto... Não posso deixar sózinha a
mãe do meu homem, que
tem oitenta annos e está entrevada.
Então o Fidalgo cruzou descorçoadamente os
braços―no embaraço d'aquella
aventura, em que, por culpa da sua ferocidade, se arriscavam duas
creanças. Mas a Rosa entendia que a pequenina, a de mama,
não soffreria
com a caminhada, bem achegadinha ao collo da mãe, debaixo de
uma manta
grossa. Agora o outro, com a tosse, com a febre...
―Esse fica cá! exclamou logo Gonçalo, decidido.
Como se chama elle?
Manoel... Bem! O Manoel fica cá. E vá
descançada, que a Sr.
a Rosa toma
cuidado.
[240]Precisa
uma boa gemada, depois um bom suadoiro. Um d'estes
dias
lá lhe apparece nos Bravaes, curado e mais gordo...
Vá socegada!
De novo a mulher suspirou, no cançasso immenso que a
invadira, a
amollecia. E sem resistir, no seu longo e abatido habito de
submissão:
―Pois sim senhor, se o Fidalgo manda, está muito bem...
O Bento, entreabrindo a porta do pateo, annunciava uma
«aberta», o
negrume a levantar. Gonçalo immediatamente apressou a volta
aos Bravaes:
―E não tenha medo, mulher. Vae um moço da quinta
com uma lanterna, e um
guarda chuva para abrigar a pequena... Escute! Vocemecê
até podia levar
uma capa de borracha!... Oh Bento, corre, desce a minha capa de
borracha. A nova, a que comprei em Lisboa...
E quando o Bento trouxe o «impermeavel» de longa
romeira, o lançou por
sobre os hombros da mulher, que o estofo rico intimidava, com o seu
ruge-ruge de seda―foi na cozinha uma divertida risada. O pranto
passára, como a chuva. Agora era uma visita amoravel,
findando n'um
arranjo alegre d'agasalhos. A Rosa apertava as mãos, banhada
de gosto:
―Assim é que vocemecê fica uma bonita Madama,
[241]hein!... Se fosse
de dia,
olhe que se juntava gente!
A mulher sorria emfim, descoradamente, sem interesse:
―Ai! nem sei que pareço... Que avantesma!
Atravez do pateo, onde as acacias gottejavam docemente,
Gonçalo
acompanhou o rancho até á porta do pomar,
gritando ainda―«Agasalhem bem
a pequena!»―quando já a lanterna do
moço se fundia na humida espessura
da noite acalmada. Depois, na cozinha, batendo contra as lages as solas
dos chinellos molhados, apalpou novamente o Manoelsinho, que adormecera
n'um somno rouquejado, torcido sobre as costas da cadeira.
―Tem pouca febre... Mas precisa um suadoiro forte. E, antes de o
cobrirem bem, um leite quente, quasi a ferver, com cognac... O que elle
precisava tambem era esfregado a côco... Que porcaria de
gente! Emfim
fica para mais tarde, quando se curar... E agora, oh Rosa, mande acima
alguma cousa para eu cear, cousa solida, que não jantei, e o
sarau foi
tremendo!
Na livraria, depois de mudar os chinellos, descançar,
Gonçalo escreveu
ao Gouveia uma carta reclamando com commovida urgencia a liberdade do
Casco. E accrescentava:―«É o primeiro pedido que
lhe faz o deputado por
Villa-Clara (comprimente!),
[242]porque
acabo de receber telegramma do nosso
André, annunciando que «
tudo feito,
ministro
concorda, etc.» De sorte
que precisamos communicar! Queira pois vossa mercê vir jantar
ámanhã a
esta sua Torre, á sombra do Titó e com
acompanhamento de Videirinha.
Estes dous benemeritos são indispensaveis para que haja
appetite e
harmonia. E rogo, Gouveia amigo, que os avise do festim, para me evitar
a remessa de circulares eloquentes...»
Lacrada a carta, retomou languidamente o manuscripto da Novella. E,
trincando a rama da penna, ainda procurou vozes, de bom sabor medieval,
para aquelle lance em que o Villico e as roldas enxergavam a cavalgada
do Bastardo, pela encosta da Ribeira, com refulgidos d'armas, sob o
rijo
sol d'Agosto...
Mas a sua imaginação, desde a carta escripta ao
Gouveia pelo «Deputado
de Villa-Clara» escapava desassocegadamente da velha Honra de
Santa
Ireneia―esvoaçava teimosamente para os lados de Lisboa, da
Lisboa do S.
Fulgencio. E o eirado da torre albarran, onde o gordo Ordonho gritava
esbaforido―incessantemente se desfazia como nevoa molle, para sobre
elle surgir, appetitoso e mais interessante, um quarto do Hotel
Bragança
com varanda sobre o Tejo... Foi um allivio quando o Bento o apressou
para a ceia. E á mesa espalhou livremente a
imaginação
[243]por
Lisboa, pelos
corredores de S. Carlos, por sob as arvores da Avenida, atravez dos
antiquados palacios dos seus parentes em S. Vicente e na
Graça, atravez
das salas mais modernas de cultos e alegres amigos―parando
ás vezes
deante de visões que considerava com um riso deleitado e
mudo. Alugaria
aos mezes, certamente, uma carruagem da Companhia. E para as
sessões de
S. Bento sempre luvas côr de perola, uma flor no peito. Por
commodidade
levava o Bento, bem apurado, com casaca nova...
O Bento entrou com a garrafa do cognac n'uma salva. Dera a carta ao
Joaquim da Horta com a recommendação de correr
logo ás seis horas a casa
do Snr. Administrador, de se demorar na Villa por deante da Cadeia
até
soltarem o Casco.
―E já deitamos o pequeno no quarto verde. Fica perto de
mim, que tenho
o somno leve, se elle berrar... Mas já dorme regaladamente.
―Está socegado, hein? acudiu Goncalo, sorvendo á
pressa o calice de
cognac. Vamos vêr esse cavalheiro!
E tomou um castiçal, subiu ao quarto verde com o Bento,
sorrindo,
abafando os passos pela estreita escada. No corredor, junto da poria,
n'um desbotado camapé de damasco verde, a Rosa
dobrára carinhosamente a
roupa trapalhona do pequeno, o collete esgaçado, as
calças enormes, só
com um
[244]botão.
Dentro o leito de pau preto, vasto leito de
ceremonia,
atravancava a parede forrada d'um velho papel avelludado de ramagens
verdes. Ao lado dos dous postes torneados, á cabeceira,
pendiam dous
paineis, retratos de antigos Ramires, um Bispo obeso folheando um
folio,
um formoso Cavalleiro de Malta, de barba ruiva, appoiado á
espada, com
um laçarote de rendas sobre a couraça polida. E
nos altos colchões o
Manoelzinho resonava, sem tosse, quieto, abafado pela grossura dos
cobertores, humedecido por um suor fresco e sereno.
Gonçalo, caminhando sempre de leve, repuxou cuidadosamente a
dobra do
lençol. Desconfiado das janellas decrepitas, experimentou
que não
entrasse traiçoeiro ar pelas gretas. Mandou pelo Bento
buscar uma
lamparina, que arranjou sobre o lavatorio, com a luz esbatida por traz
d'uma vazilha. Ainda attentamente relanceou os olhos lentos pelo
quarto,
para se assegurar do socego, do silencio, da penumbra, do conforto. E
sahiu, sempre na ponta dos pés, sorrindo, deixando o filho
do Casco
velado pelos dous nobres Ramires―o Bispo com o seu Tratado, o
Cavalleiro de Malta com a sua pura espada.
[245]
Recolhendo do Tanque-Velho, do fundo da quinta, onde passára
a calma,
depois do almoço, na frescura do arvoredo, entre susurros de
agoas
correntes, a folhear um volume do
Panorama―Gonçalo
encontrou obre a
mesa da livraria, com o correio de Oliveira, uma carta que o
surprehendeu, enorme, em papel almaço, fechada por uma
obreia. E dentro
a assignatura, desenhada a tinta azul, era um
coração chammejante.
N'um relance devorou as linhas, pautadas a lapis, d'uma lettra gorda,
arredondada com esmero:―«Caro e Ex.
mo
Snr.
Gonçalo Ramires. O
galante Governador civil do Districto, o nosso atiradiço
André
Cavalleiro, passeiava agora coastantemente por deante dos Cunhaes,
olhando com ternura para as janellas e para o honrado brazão
dos
Barrôlos. Como não era natural que andasse a
estudar a architetura do
Palacete (que nada tem de notavel), concluiu a gente seria que o digno
Chefe do Districto esperava que V. Ex.
a
apparecesse a alguma das
janellas do Largo, ou das que deitam para a rua das Tecedeiras, ou
sobretudo
no mirante do Jardim, para reatar com
V. Ex.
a a antiga e
quebrada amizade. Por isso muito acertadamente procedeu V. Ex.
a
em
correr pessoalmente ao Governo Civil, e propor a
reconciliação, e abrir
os braços generosos
[246]ao
velho amigo, evitando assim que a
primeira
Auctoridade do Districto continuasse a esbanjar um tempo precioso
n'aquelles passeios, de olhos pregados no Palacete dos fidalguissimos
Barrôlos. Enviamos portanto a V. Ex.
a
os nossos sinceros
parabens por
esse acertado passo que deve calmar as impaciencias do fogoso
Cavalleiro
e redondar em beneficio dos serviços publicos!»
Revirando o papel nas mãos, Gonçalo pensou:
―É das Louzadas!
Ainda estudou a lettra, as expressões, descortinando que
redundar fora
escripto com um O,
architectura sem C. E rasgou
furiosamente a grossa
folha, rosnando no silencio da livraria:
―Aquellas bebadas!
Sim, era d'ellas, das odiosas Louzadas! E essa origem mais o
aterrava―porque maledicencia, lançada por tão
ardentes espalhadoras de
maledicencias, já certamente penetrára em todas
as casas d'Oliveira,
mesmo na Cadeia, mesmo no'Hospital! E agora a cidade divertida,
lambendo
o escandalo, relacionava perfidamente os rodeios do André
pelos Cunhaes
com essa sua visita ao Governo Civil que assombrára a
Arcada. Na ideia
pois d'Oliveira, e sob a inspiração das
Louzadas―fôra elle, elle,
Gonçalo Mendes Ramires, que arrancára o
Cavalleiro á sua Repartição, o
conduzira serviçalmente ao Largo d'El-Rei, lhe
[247]escancarára
as portas do
Palacete até ahi rondadas e miradas sem proveito, e com
sereno descaro
alcovitára os amores da irmã! Se taes
desavergonhadas não mereciam que
lhes arregaçassem as sujas saias no meio da
Praça, em manhã de Missa, e
lhes fustigassem as nadegas melladas, furiosamente, até que
o sangue
ensopasse as lages!...
E, para maior damno, as apparencias todas se combinavam contra elle,
traidoramente! Essa insistencia de André, cocando Gracinha,
estrondeando
a calçada em torno do Palacete, crescera, impressionava,
justamente
agora, n'este Agosto, nas vesperas d'essa sua
apparição á janella do
Governo Civil, que Oliveira commentava como um misterio historico. Que
inopportunamente morrera o animal do Sanches de Lucena! Mezes antes,
nem
mesmo a malicia das Louzadas ligaria a sua
reconciliação com André a um
cêrco amoroso que não
começára, ou não andava tão
murmurado. Tres ou
quatro mezes depois, André, sem esperança ante o
Palacete inaccessivel,
certamente findaria os seus giros pelo Largo, de rosa ao peito! Mas
não!
infelizmente quando esse André, com maior estrepito, ronda a
porta
almejada―é que elle acode, e abraça o rondador,
e lhe facilita a porta!
E assim a maledicencia das Louzadas encontrava uma base, a que todos na
cidade podiam palpar a substancia, e a solidez, e sobre ella se erigia
como Verdade Publica! Infames Louzadas!
[248]
Mas agora? O que? manter rigidamente as suas
relações com o Cavalleiro
dentro da Politica, evitando escorregadias intimidades que o tornassem
logo nos Cunhaes, como outr'ora na Torre, o conviva desejado? Como
poderia? Desde que elle se reconciliava com André, logo e
tão
naturalmente como a sombra segue a inclinação do
ramo, se reconciliava
tambem o Barrôlo, seu cunhado e sua sombra... Mas como
impôr ao Barrôlo
que a sua renovada familiaridade com o Cavalleiro se realisasse
unicamente dentro da Politica como dentro d'um Lazareto?―«Eu
sou outra
vez o velho amigo do André, tu, Barrôlo,
tambem―mas nunca o convides
para a tua mesa, nem lhe abras a tua
porta!»―Imposição desconcertada,
de dura impertinencia―e que, na pequena Oliveira, logo os faceis
encontros, a simplicidade hospitaleira do Barrôlo, quebrariam
como um
barbante poido... E depois que grotesca attitude a sua, hirto deante do
portão do Palacete, como um Archanjo S. Miguel, de bengala
de fogo na
mão, para sustar a intrusão de Satanaz, Chefe do
Districto! Mas tambem
que toda a cidade largasse a cochichar pelos cantos o nome de Gracinha
embrulhado ao nome de André, com o nome d'elle,
Gonçalo, emmaranhado
atravez como o fio favoravel que os atára―era horrivel.
E na impaciencia d'esta difficuldade, de malhas
[249]tão asperas,
que tanto o
feriam, terminou por esmurrar a meza, revoltado:
―Irra, que massada! São tudo massadas, n'estas terras
pequenas e
coscovilheiras...
Em Lisboa quem se importaria que o Snr. Governador civil passeasse n'um
certo Largo―e que certo Fidalgo da Torre se reconciliasse com o Snr.
Governador Civil?... Pois acabou! Romperia soberbamente para diante,
como se habitasse Lisboa, desafogado de mexericos e de malignos
olhinhos
a cocar. Era Gonçalo Mendes Ramires, da casa de Ramires! Mil
annos de
nome e de solar! Dominava bem acima de Oliveira, de todas as suas
Louzadas. E não só pelo nome, louvado Deus, mas
pelo espirito... O André
era seu amigo, entrava em casa de sua irmã―e Oliveira que
estoirasse!
E nem consentiu que a suja carta das Louzadas desmanchasse a quieta
manhã de trabalho para que se preparára desde o
almoço, relendo trechos
do Poemeto do Tio Duarte, folheando artigos do
Panorama
sobre as
guerras de muralhas no seculo XII. Com um esforço
d'attenção erudita
abancou, mergulhou a penna no tinteiro de latão que servira
a trez
gerações de Ramires. E emquanto repassava as
tiras trabalhadas, nunca o
Castello de Santa Ireneia lhe parecera tão heroico, de
tão soberana
estatura, sobre tamanha collina d'Historia, sobranceando o Reino,
[250]que
em
torno d'elle se alargava, se cobria de villas e messes, pelo
esforço dos
seus castellões!
Temerosa, com effeito, se erguia a antiga Honra de Santa Ireneia,
n'essa
Affonsina manhã d'Agosto e rijo sol, em que o
pendão do Bastardo
surgira, entre fulgidos d'armas, para além dos arvoredos da
Ribeira! Já
por todas as ameias se apinhavam os besteiros, espiando, encurvadas as
béstas. Das torres e adarves subia o fumo grosso do breu,
fervendo nas
cubas, para despejar sobre os homens de Bayão que tentassem
a escalada.
O Adail corria pelas quadrellas, relembrando as traças de
defeza,
revistando os feixes de virotões, os pedregulhos
d'arremesso. E no
immenso terreiro, por entre os alpendres colmados, surdiam velhos
solarengos, servos do forno, servos da abegoaria, que se benziam com
terror, puchavam pelo saião d'algum apressado homem de
rolda, para
saberem da hoste que avançava. No emtanto a cavalgada
passára a Ribeira
sobre a rude ponte de pau―já, por entre os alamos,
serenamente se
acercava do Cruzeiro de granito, outr'ora erguido nos confins da Honra
por Gonçalo Ramires, o
Cortador. E, no
socego da
manhã abrazada, mais
fundamente resoaram as buzinas do Bastardo, e o seu toque lento e
triste
á mourisca...
Mas quando Gonçalo, enlevado no trabalho, tentava
reproduzir, com termos
bem sonoros,
[251]avidamente
rebuscados no
Diccionario de
Synonimos, o toar
arrastado das buzinas de Bayão―sentiu realmente, do lado da
Torre, um
gemer de sons graves que crescia atravez dos limoeiros. Deteve a
penna―e eis que o
Fado dos Ramires s'eleva
offertadamente da horta,
em serenada, para a varanda florida de madresilva:
Ora, quem te vê solitaria,
Torre de Santa Ireneia...
O Videirinha!―Correu alvoroçadamente á janella.
Um chapeu côco tremulou
entre os ramos, um brado estrugio, acclamador:
―Viva o deputado por Villa-Clara! Viva o illustre deputado
Gonçalo
Ramires!
No violão rompera triumphalmente o Hymno da Carta.
Videirinha, alçado na
biqueira das botas gaspeadas de verniz, gritava―«Viva a
illustre casa
de Ramires!» E por baixo do chapeu côco, sacudido
com delirio, João
Gouveia, sem poupar a garganta, urrava―«Viva o illustre
deputado por
Villa-Clara! Viva!»
Magestosamente, Gonçalo, alagado de riso, estendeu da
varanda o braço
eloquente:
―Obrigado, meus queridos concidadãos! Obrigado!... A honra
que me
fazeis, vindo assim, n'esse
[252]formoso
grupo, o chefe glorioso da
Administração, o inspirado Pharmaceutico, o...
Mas reparou... E o Titó?
―O Titó não veio?... Oh João Gouveia,
você não avisou o Titó?
Repondo sobre a orelha o chapeu côco, o Administrador, que
arvorára uma
gravata de setim escarlate, declarou o Titó «um
animal»:
―Estava combinado virmos todos trez. Até elle devia trazer
uma duzia de
foguetes, para estalar aqui com o Hymno... A reunião era ao
pé da
Ponte... Mas o animal não appareceu. Em todo o caso ficou
avisado,
avisadissimo... E se não vier, é traidor.
―Bem, subam vocês! gritou Gonçalo. Eu n'um
instante me visto. E, para
aguçar o appetite, proponho um vermouth, depois uma volta
pela quinta
até ao pinhal!...
Immediatamente Videirinha, têso, empinando o
violão, metteu pela rua
larga da horta, recoberta de parreira; e atraz João Gouveia
atirava os
passos em cadencia nobre, alçando o guarda-sol como um
pendão. Quando
Gonçalo entrou no quarto, berrando pelo Bento e por agoa
quente―o
Fado
dos Ramires soava, em trinados heroicos, atravez do feijoal,
por sob a
janella aberta onde seccava o lençol do banho. E eram as
quadras
preferidas do Fidalgo, as quadras em que o grande avô Ruy
Ramires,
sulcando os mares
[253]de
Mascate n'uma urca, encontra trez fortes naus
inglezas, e, do alto do seu castello de prôa, vestido de
gran-vermelha,
com a mão no cinto d'anta tauxeado d'ouro e pedras,
soberbamente as
intima a que se rendam...
Todo alegre, e a mão no
cinto.
Junto da Signa Real,
Gritando ás
naus―«Amainae
Por El-Rei de Portugal!...»
Gonçalo abotoava á pressa os suspensorios,
retomára o canto
glorificador―
Todo alegre, a mão no cinto...
Junto da
Signa
Real...―E, atravez do esforço
esganiçado,
pensava que com tal linha
d'avós, bem podia desprezar Oliveira e as suas Louzadas
horrendas. Mas o
trovão lento de Titó retumbou no corredor:
―Então esse deputado de Villa-Clara?... Já
está a vestir a farda?
Gonçalo correu á porta do quarto, radiante:
―Entra, Titó! Os deputados já não
usam farda, homem! Mas se a tivesse,
c'os diabos, ia hoje farda, e espadim e chapeu armado, para honrar
hospedes tão illustres!
O outro avançára vagarosamente, com as
mãos nas algibeiras da rabona de
velludo côr d'azeitona, o
[254]vasto
chapeu braguez atirado para a
nuca,
desafogando a honesta face barbuda, vermelha de saude e sol:
―Eu, por farda, queria dizer libré... Libré de
lacaio.
―Ora essa!?
E o outro mais retumbante:
―Pois o que vaes tu ser, homem, senão um sujeito
ás ordens do S.
Fulgencio,
do horrendo careca? Não lhe
serves o
chá, quando elle te
mandar; mas, quando elle te mandar votar, votas! Alli, direitinho,
ás
ordens! «Oh Ramires, vote lá!» E
Ramires, zás, vota... É de escudeiro,
homem, é de escudeiro de libré...
Gonçalo sacudiu os hombros, impaciente:
―Tu és uma creatura das selvas, lacustre, quasi
prehistorica... Não
entendes nada das realidades sociaes!... Na sociedade não ha
principios
absolutos!...
Mas o Titó, imperturbavel:
―E esse Cavalleiro? Tambem já é rapaz de
talento? Tambem já governa bem
o Districto?
Então Gonçalo protestou, picado, com uma roseta
forte na face. E quando
negára elle ao André talento ou geito de
governar? Nunca! Só rira,
gracejando, da sua pompa, da bigodeira lustrosa... E de resto, o
serviço
do Paiz exigia que por vezes se alliassem homens que nem partilhavam os
mesmos gostos, nem procuravam os mesmos interesses!
[255] ―E emfim o Snr. Antonio Villalobos vem hoje um moralista muito
terrivel, um Catão com quem se não pode
jantar!... Ora foi sempre o
costume dos Philosophos muito rispidos fugir da sala do banquete onde
triumpha o devasso, e protestar comendo na cosinha!
Titó, serenamente, virou as costas magestosas.
―Onde vaes, ó Titó?
―Para a cosinha!
E, como Gonçalo ria, Titó, junto da porta,
girando como uma torre que
gira, encarou o seu amigo:
―Sério, sério, Gonçalo!
Eleição, reconciliação,
submissão, e tu em
Lisboa ás cortezias ao S. Fulgencio, e em Oliveira de
braço dado com o
André, tudo isso me parece que destoa... Mas emfim se a Rosa
hoje se
apurou, não alludamos mais a cousas tristes!
E Gonçalo bracejava, de novo protestava―quando o
violão resoou no
corredor, com as patadas bem marchadas do Gouveia, e o
Fado
recomeçou,
mais meigo, mais glorificador:
―Velha casa de Ramires,
Honra e flor de Portugal!
VI
A casa do Cavalleiro em Corinde era uma
edificação dos fins do seculo
XVIII, sem elegancia e sem arte, pintada d'amarello, lisa e vasta, com
quatorze janellas de frente, quasi ao meio d'uma quinta chã,
toda de
terras lavradas. Mas uma avenida de castanheiros conduzia, com alinhada
nobreza, ao pateo da frente, ornado por dois tanques de marmore. Os
jardins conservavam a abundancia esplendida de rosas que os
tornára
famosos―e lhes merecera em tempos do avô de
André, o Desembargador
Martinho, uma visita da Snr.
a D. Maria II. E
dentro todas as salas
reluziam d'asseio e ordem, pelos cuidados da velha governanta, uma
parenta pobre do Cavalleiro, a Snr.
a D. Jesuina
Rollim.
Quando Gonçalo, que viera da Torre na egoa, atravessou a
ante-sala,
ainda reconheceu um dos paineis da parede, fumarento combate de
galiões,
que
[258]elle uma
tarde rasgára jogando o espadão com
André. Sob esse painel,
á borda do canapé de palhinha, esperava
melancolicamente um amanuense do
Governo Civil, com a sua pasta vermelha sobre os joelhos. E d'uma porta
remota, ao fundo do corredor, André, avisado pelo creado, o
fiel
Matheus, gritou alegremente:
―Oh Gonçalo, entra para cá, para o quarto! Sahi
da tina... Ainda estou
em ceroulas!
E em ceroulas o abraçou, n'um generoso abraço de
parabens. Depois, em
quanto se vestia, por entre as cadeiras atravancadas com o recheio das
malas―gravatas, peugas de sêda, garrafas de
perfumes―conversaram do
calor, da jornada enfadonha, de Lisboa despovoada...
―Um horror! exclamava o Cavalleiro aquecendo um ferro de frisar
á
lampada d'alcool. Todas as ruas da Baixa em obras, cobertas de
caliça,
de poeirada. O Central enfestado de mosquitos. Muito mulato. Uma Tunis,
Lisboa!... Mas emfim, lá combatemos bravamente o bom combate!
Gonçalo sorria, do canto do divan onde se
accommodára, entre uma pilha
de camisas de côr e outra de ceroulas com monogramma
flammante:
―E então, Andrésinho, tudo arranjado, hein?
O Cavalleiro, deante do toucador, frisava com enlevado esmero as pontas
grossas do bigode. E só depois
[259]de
o ensopar em brilhantina,
d'acamar as
ondas da cabelleira rebelde, de se mirar, de se requebrar, assegurou a
Gonçalo, já inquieto, que a
eleição ficára solida...
―Mas imagina tu! Quando appareci em Lisboa, no Ministerio do Reino,
encontrei o circulo promettido ao Pitta, ao Theotonio Pitta, o grande
homem da
Verdade...
O Fidalgo pulou, despenhando a ruma de camisas:
―E então?...
E então elle mostrára muito asperamente ao
José Ernesto a inconveniencia
de dispôr do Circulo como d'um charuto, sem o consultar, a
elle,
Governador Civil―e dono do circulo... E como o José Ernesto
se
arrebitava, alludia á conveniencia superior do Governo, elle
logo,
estendendo o dedo firme:―«Pois Zésinho,
flôr, ou trago o Ramires por
Villa-Clara, ou me demitto, e arde Troia!...» Espantos,
escarceus,
berreiros―mas o José Ernesto cedêra, e tudo
findou jantando ambos em
Algés com o tio Reis Gomes, onde á noite, ao
«bluff», as senhoras lhe
arrancaram quatorze mil reis.
―Em resumo, Gonçalinho, precisamos conservar os olhos
attentos. O José
Ernesto é rapaz leal, meu velho amigo. E depois conhece o
meu genio...
Mas ha os compromissos, as pressões... E agora a novidade
[260]pittoresca.
Sabes quem se propõe contra ti, pelos Regeneradores?...
Adivinha... O
Julinho!
―Que Julinho?... O Julio das photographias?
―O Julio das photographias.
―Diabo!
O Cavalleiro encolheu os hombros, com piedade:
―Arranja dez votos á porta da quinta, tira o retrato a
todos os
taverneiros do circulo em mangas de camisa, e continua a ser o
Julinho... Não! só Lisboa me inquieta, a canalha
politica de Lisboa!
Gonçalo torcia o bigode, desconsolado:
―Imaginei tudo mais solido, mais inabalavel... Assim com todas essas
intrigas, ainda surde trapalhada... Ainda lá não
vou!
O Cavalleiro, ao espelho, esticava o fraque―que
experimentára abotoado,
depois repuxadamente aberto sobre o collete de fustão
côr de azeitona
onde, no trespasse largo, tufava a gravata de sedinha clara, prendida
por uma saphira. Por fim, encharcando o lenço com essencia
de fêno:
―Nós estamos bem alliados, bem consagrados, não
é verdade? Então, meu
caro Gonçalo, socega, e almocemos regaladamente!... Creio
que este
fraque do nosso Amieiro assenta com certa graça, hein?
―Magnifico! affirmou Gonçalo.
―Bem. Então agora descemos ao jardim, para tu
[261]reveres os
velhos poisos
e te florires com uma rosa de Corinde.
E logo no corredor, ornado de jarrões da India, de arcas de
charão,
enlaçando o braço de Gonçalo, do seu
recuperado Gonçalo:
―Pois, meu filho, aqui pisamos ambos de novo os nobres soalhos de
Corinde, como ha cinco annos... E nada mudou, nem um creado, nem uma
cortina! Agora, um d'estes dias, preciso visitar a Torre.
Gonçalo accudiu ingenuamente:
―Oh! a Torre está muito mudada... Muito mudada!
E um embaraçado silencio pesou―como se entre elles surgisse
a imagem
entristecida da antiga quinta, no tempo dos amores e das
esperanças,
quando André e Gracinha procuravam as ultimas violetas
d'Abril, sob o
sorriso tutelar de Miss Rhodes, rente aos humidos muros da
Mãe d'Agoa.
Ainda em silencio desceram a escada de caracol―por onde ambos outr'ora
se despenhavam cavalgando o corrimão. E em baixo, n'uma sala
abobadada,
rodeada de bancos de madeira com as armas dos Cavalleiros nas espaldas,
André quedou deante da porta envidraçada do
jardim, ondeou um gesto
desconsolado e languido:
―Eu tambem, agora, pouco appareço em Corinde. E,
comprehendes bem que
não me reteem em Oliveira os cuidados da
Administração... Mas este
[262]casarão
arrefeceu, alargou, desde a morte da
mamã. Ando aqui como
perdido. E acredita, quando cá me demoro, são uns
passeios tristonhos
por esses jardins, pela Rua Grande... Ainda te lembras da Rua
Grande?...
Vou envelhecendo muito solitariamente, meu Gonçalo!
Gonçalo murmurou, por concordancia, sympathia renovada:
―Eu tambem m'aborreço na Torre...
―Mas tens outro genio!... E eu realmente sou um elegiaco.
Correu, com um esforço, o fecho perro da porta
envidraçada. E limpando
os dedos ao lenço perfumado:
―Eu creio que Corinde, agora, só me encantava com grandes
cerros
escalvados, grandes rochedos agrestes... Ás vezes,
cá dentro d'alma,
necessito o ermo de S. Bruno...
Gonçalo sorria d'aquelle appetite ascetico, murmurado com
preciosidade,
atravez da bigodeira torcida a ferro, resplandecente de brilhantina. E
no terraço, junto á balaustrada de pedra enramada
d'hera, galhofou,
louvando o areado alinho, o relusente viço do jardim:
―Com effeito, para um discipulo de S. Bruno, que escandalo, todo este
asseio! Mas para um peccador como eu, que delicia!... O jardim da Torre
anda um chavascal.
[263] ―A prima Jesuina gosta de flôres. Ta não conheces
a prima Jesuina? Uma
velha parenta da mamã, que governa agora a casa. Coitada! e
com um
escrupulo, com um amor... Se não fosse a santa creatura, os
porcos
fossavam nos canteiros... Meu filho, onde não ha saia,
não ha ordem!
Desceram a escadaria redonda, por entre os vasos de louça
azul que
trasbordavam de geranios, de secias, de canas da India.
Gonçalo recordou
a vespera de S. João em que rolára por aquelles
degraus, n'um trambulhão
tremendo, com os braços carregados de foguetes. E
lentamente, atravez do
jardim, evocavam memorias da camaradagem antiga. Lá se
conservava o
trapezio, dos tempos em que ambos cultivavam a religião
heroica da
força, da gymnastica, do banho frio... N'aquelle banco, sob
a magnolia,
lera uma tarde André o primeiro canto do seu Poema, o
Fronteiro
d'Arzilla. E o alvo? O alvo onde se exerciam á
pistola,
para os futuros
duellos, inevitaveis na campanha que ambos meditavam contra o velho
Syndicato Constitucional?...―Oh! toda essa parte do muro, que pegava
com o lavadoiro, fôra derrubada depois da morte da
mamã, para alargar a
estufa...
―De resto o alvo era inutil! accrescentou o Cavalleiro. Eu logo por
esse tempo entrei tambem no
[264]Syndicato...
E agora entras tu, pela porta
que eu te abro!
Então Gonçalo, que colhêra e esmagava
entre os dedos, para lhe sorver o
perfume, folhas de lucia-lima―acudiu com uma franqueza, que aquelle
desenterrar de recordações tornava mais
penetrante e sentida:
―E eu desejo entrar, e ardentemente, bem sabes. Mas tu
afianças a
eleição, com segurança? Não
surgirá difficuldade, Andrésinho?... Esse
Pitta é um habil!
O Cavalleiro murmurou apenas, mergulhando os dedos nas cavas do collete:
―Da habilidade dos Pittas se ri a força dos Cavalleiros...
Por trez degraus de tijolo baixaram ao outro jardim, desafogado de
arvoredo e sombra, onde desabrochava desde Maio, com explendor, o
tão
celebrado bosque de roseiras, orgulho da quinta de Corinde, que
deleitára uma Rainha. Aquelle facil desdem pelo Pitta
confirmava a
segurança da Eleição.
Gonçalo, caminhando respeitosamente como n'um
Museu, regou de louvores deslumbrados as rosas do Cavalleiro:
―Uma belleza, André, uma maravilha! Tens aqui rosas
sublimes...
Aquellas repolhudas, além, que luxo! E estas amarellas?
deliciosas!...
Olha este encanto!
[265]o
ruborsinho a surdir, a raiar, do fundo das petalas
brancas... Oh, que escarlate! Oh, que divino escarlate!
O Cavalleiro cruzára os braços, com gracejadora
melancolia:
―Pois vê tu! Tal é a minha solidão
social e sentimental que, com todas
estas rosas abertas, não tenho a quem mandar um ramo!...
Estou reduzido
a florir as Louzadas!
Um escarlate, mais vivo do que as rosas que gabava, cobriu as faces do
Fidalgo:
―As Louzadas! Oh que desavergonhadas!
André atirou ao seu amigo os lustrosos olhos, n'um inquieto
reparo de
curiosidade:
―Por quê?... Desavergonhadas, por quê?
―Por quê? Por que o são! Pela sua natureza, e
pela vontade de Deus!...
São desavergonhadas como estas rosas são
vermelhas.
E o Cavalleiro, tranquillisado:
―Ah, genericamente... Com effeito têm immensa
peçonha. Por isso eu as
cubro de rosas. E em Oliveira, todas as semanas, meu filho, tomo com
ellas um chá respeitoso!
―Pois não as amansas, rosnou o Fidalgo.
Mas o Matheus apparecêra nos degraus de tijolo com o
guardanapo na mão,
a calva rebrilhando ao sol. Era o almoço. O Cavalleiro
colheu para
Gonçalo
[266]uma
«rosa triumphal»―e para si
um «botão innocente...» E,
enflorados, subiam para o terraço entre o brilho e o perfume
de outras
roseiras―quando o Cavalleiro parou com uma ideia:
―A que horas vaes tu para Oliveira, Gonçalinho?
O Fidalgo hesitou. Para Oliveira?... Não tencionava
apparecer em
Oliveira, toda essa semana...
―Por quê? É urgente que vá a Oliveira?
―Pois certamente, filho! Ámanhã mesmo precisamos
conversar com o
Barrôlo, combinarmos, por causa dos votos da Murtosa!... Meu
querido
Gonçalo, não podemos adormecer. Não
é pelo Julio, é pelo Pitta!
―Bem! bem! acudio logo Gonçalo, assustado. Parto para
Oliveira.
―Por que então, continuava André, vamos ambos
logo, a cavallo. É um
bonito passeio pelos Freixos, sempre com sombra... Tens talvez de
mandar
á Torre, por causa de roupa...
Não! Gonçalo, para evitar a importunidade de
malas, conservava nos
Cunhaes um bragal inteiro, desde a chinella até á
casaca. E entrava em
Oliveira como o Philosopho Bias em Athenas―com uma simples bengala e
paciencia infinita...
―Delicioso! declarou André. Fazemos então logo a
nossa entrada official
em Oliveira. É o começo da campanha.
[267]
O Fidalgo torcia o bigode, consternado, pensando nos risinhos perversos
das Louzadas, de toda a cidade, perante uma entrada tão
apparatosamente
fraternal. E, quando o Cavalleiro recommendou ao Matheus que mandasse
apromptar o
Rossilho e a egoa do Fidalgo para as
quatro horas e meia,
Gonçalo exagerou o seu receio do calor, da poeira. Antes
partissem ás
sete, pela fresca! (Assim esperava penetrar em Oliveira
desapercebidamente, esbatido no crepusculo). Mas André
protestou:
―Não, é uma secca, chegamos á noite.
Precisamos entrar com solemnidade,
á hora da musica no Terreiro... Ás cinco, hein?
E Gonçalo, vergando os hombros sob a Fatalidade:
―Pois sim, ás cinco.
Na sala de jantar, esteirada, com denegridos paineis de
flôres e fructas
sobre um papel vermelho imitando damasco, André occupou a
veneranda
cadeira de braços do avô Martinho. O brilho das
pratas, a frescura das
rosas n'uma floreira de Saxe, revelavam os desvelos da prima
Jesuina―que, com dôr d'entranhas n'essa manhã,
não se vestira, almoçava
no quarto... Gonçalo louvou aquella elegante ordem,
tão rara n'uma casa
de solteirão, lamentando a falta de uma prima Jesuina na
Torre... E
André sorria deliciadamente, desdobrando o guardanapo,
[268]com a
esperança
que Gonçalo contasse aos Barrôlos o confortavel
luxo de Corinde. Depois,
picando com o garfo uma azeitona:
―Pois é verdade, meu querido Gonçalo,
lá estive n'essa grande Capital,
depois um dia em Cintra...
O Matheus entre-abriu a porta para recordar a S. Ex.
a
o amanuense do
Governo Civil, que esperava.
―Pois que espere! gritou S. Ex.
a.
Gonçalo lembrou que talvez o digno homem se impacientasse,
com fome...
―Pois que almoce! gritou S. Ex.
a.
Aquelle secco desprezo de André pelo pobre empregado,
esquecido no banco
d'entrada, com a sua pasta sobre os joelhos―constrangia o Fidalgo. E
espetando tambem uma azeitona:
―Dizias então, Cintra...
―Semsabor, resumiu André. Poeirada horrenda,
femeaço mediocre... E já
me esquecia. Sabes quem lá encontrei, na estrada de
Collares? O
Castanheiro, o nosso Castanheiro, o dos
Annaes,
de chapéo
alto. Ergueu
logo os braços ao céo, desolado:―«E
então esse Gonçalo Mendes Ramires
não me manda o romance?» Parece que o primeiro
numero da Revista sae em
Dezembro, e elle precisa o original em começos d'Outubro...
Lá me
supplicou que te saccudisse, que te recordasse a gloria dos Ramires. E
tu
[269]devias acabar
a Novella... Até convem que, antes
d'entrares na
Camara, appareça um trabalho teu, um trabalho serio,
d'erudição forte,
bem portuguez...
―Pois convem! concordou vivamente Gonçalo. E á
Novella só falta o
Capitulo quarto. Mas esse justamente demanda mais
preparação, mais
pesquizas... Para o acabar precisava o espirito bem socegado, a certeza
d'esta infernal eleição... Não
é o animal do Julio que me inquieta. Mas
a canalha intrigante de Lisboa... Que te parece?
Cavalleiro riu, estendendo de novo o garfo para as azeitonas:
―Que me parece, Gonçalinho? Que estás como uma
creança pequena,
afflicta, com medo que te não chegue o prato de arroz doce.
Socega,
menino, apanhas o teu arroz doce!... Mas com effeito, encontrei o
José
Ernesto muito teimoso. Já existiam compromissos antigos com
o Pitta.
A
Verdade tem sido furiosamente ministerial... E esse Pitta,
agora quando
souber que lhe tapei Villa-Clara, arde em furor contra mim. O que me
é
soberanamente indifferente; colerasinhas ou piadinhas do Pitta
não me
tiram o appetite... Mas o José Ernesto admira o Pitta,
necessita do
Pitta, está empenhado em pagar ao Pitta com um circulo...
Ainda no
ultimo dia me disse na Secretaria, até lhe achei
graça:―«Eu vejo que os
[270]deputados por
Villa-Clara morrem; ora se, por esse bom costume, o teu
Ramires morrer em breve, então entra o Pitta.»
Gonçalo recuou a cadeira:
―Se eu morrer!... Que animal!
―Oh, se morreres para o Circulo! atalhou o Cavalleiro rindo. Por
exemplo, se nos zangassemos, se ámanhã entre
nós surgisse uma
dissidencia... Emfim o impossivel!
O Matheus entrava com a terrina de caldo de gallinha, que rescendia.
―A elle! exclamou André. E não se falle mais de
Circulos, nem de
Pittas, nem de Julios, nem da negregada Politica!... Conta antes o
enredo da tua Novella... Historica, hein?... Meia-idade? D.
João V?...
Eu, se tentasse agora um Romance, escolhia uma epocha deliciosa,
Portugal sob os Philippes...
Os tres quartos, depois das seis, batiam no relogio sempre adeantado da
Egreja de S. Christovão, em Oliveira, quando
André Cavalleiro e Gonçalo,
descendo da rua Velha, penetraram no Terreiro da Louça
(agora
Largo do
Conselheiro Costa Barroso).
Todos os Domingos, tocando n'um coreto que o Conselheiro, quando
Presidente da Camara, mandára construir sobre o velho
Pelourinho
demolido,
[271]a
charanga do Regimento ou a philarmonica
Lealdade
tornavam
aquelle Largo o centro mais sociavel da quieta e caseira cidade. N'essa
tarde, porém, como começára no
Convento de Santa Brigida o bazar
patrocinado pelo Bispo, as senhoras rareavam nos bancos de pedra e nas
cadeiras do Asylo espalhadas por sob as acacias. As Louzadas faltavam
no
seu pouso reservado, superiormente escolhido para espiarem todo o
Terreiro, as casas que o cerram do lado de S. Christovão e
do lado das
Trinas, a rua Velha e a rua das Vellas, a barraca da limonada, e
até
outro retiro pudicamente disfarçado por uma
canniçada de heras. E o
unico rancho conhecido, D. Maria Mendonça, a Baroneza das
Marges, as
duas Alboins, conversavam com as costas para o Terreiro, junto da grade
de ferro que o limita sobre a antiga muralha―d'onde se dominam campos,
a cêrca do Seminario Novo, todo o pinhal da Estevinha e as
voltas
lustrosas da ribeira de Crêde.
Mas entre os cavalheiros que trilhavam vagarosamente a alêa
do Largo
denominada o «Picadeiro», gosando a
Marcha
do
Propheta, o espanto
reviveu (apezar de todos conhecerem a
reconciliação famosa do Governo
Civil) quando os dous amigos appareceram, ambos de chapéos
de palha,
ambos de polainas altas, ao passo solemne das duas egoas―a de
[272]Gonçalo
airosa e baia de cauda curta á ingleza, a do Cavalleiro
pesada e preta,
de pescoço arqueado, a cauda farta rojando as lages. Mello
Alboim, o
Barão das Marges, o Dr. Delegado, pararam n'uma fila
pasmada, a que se
juntou um dos Villa-Velhas, depois o morgado Pestana, depois o gordo
major Ribas com a farda desabotoada, rebolando e galhofando sobre
«aquella amigação...» O
tabellião Guedes, o Guedes
pôpa,
derrubou a
cadeira no alvoroço com que se ergueu, indignado mas
respeitoso,
descobrindo a calva n'uma cortesia immensa em que o chapeu branco lhe
tremia. E o velho Cerqueira, o advogado, que sahia do retiro
encanniçado
d'hera e se abotoava, embasbacou, com os oculos na ponta do nariz
alçado, os dedos esquecidos nos botões das
calças.
No emtanto os dous amigos, gravemente, seguiam pela correnteza de casas
que o palacete de D. Arminda Villegas domina, com o pesado
brazão dos
Villegas na cimalha, as suas dez nobres varandas de ferro opulentadas
por cortinas de damasco amarello. Na varanda d'esquina, o
Barrôlo e José
Mendonça fumavam, sentados em mochos de palhinha. E ao
sentir as patas
lentas das egoas, ao avistar tão inesperadamente o
cunhado―o bom
Barrôlo quasi se despenhou da varanda:
[273] ―Oh Gonçalo! Oh Gonçalo!... Vaes lá
para casa?
E nem esperou uma certeza, berrou de novo, bracejando:
―Nós já vamos! Jantámos cá
esta tarde... A Gracinha está lá em cima,
com a tia Arminda. Vamos já tambem! É um momento!
O Cavalleiro acenou risonhamente ao capitão
Mendonça. Já Barrôlo
mergulhára com enthusiasmo para dentro dos damascos
amarellos. E os dois
amigos, deixando pelo Terreiro aquelle sulco de espanto, penetraram na
rua das Vellas onde um Policia se perfilou com a mão no
bonet―o que foi
agradavel ao Fidalgo da Torre.
O Cavalleiro acompanhou Gonçalo ao Largo d'El-Rei. Deante do
Palacete um
homem de boina vermelha remoía no seu realejo o
côro nupcial da
Lucia,
espiando as janellas desertas. O Joaquim da Porta correu do pateo a
segurar a egoa do Fidalgo. Com um mudo sorriso o tocador estendera a
boina. E depois de lhe atirar um punhado de cobre―Gonçalo
hesitou,
murmurou emfim, com embaraço e corando:
―Não queres entrar e descançar,
André?...
―Não, obrigado... Então
ámanhã ás duas, no Governo Civil, com
o
Barrôlo, para combinarmos sobre os votos da Murtosa... Adeus,
minha
flôr! Démos um bello passeio e espantamos os povos!
[274]
E S. Ex.
a, envolvendo o Palacete n'um demorado
olhar, desceu pela rua
das Tecedeiras.
No seu quarto (sempre preparado, com a cama feita) Gonçalo
acabava de se
lavar, de se escovar, quando Barrôlo se precipitou pelo
corredor,
esbofado, soffrego―e atraz d'elle Gracinha, offegante tambem,
desapertando nervosamente as fitas escarlates do chapeu. Desde a tarde
em que Barrôlo «presenceára com os olhos
bem acordados!» a palestra de
Gonçalo e de André na varanda do Governo
Civil―fervera n'elle e em
Gracinha uma impaciencia desesperada por penetrar os motivos, a
encoberta historia d'aquella reconciliação
surprehendente. Depois a fuga
de Gonçalo na caleche para a Torre, sem parar nos Cunhaes; a
repentina
jornada do Cavalleiro a Lisboa; o silencio que sobre aquelle caso se
abatera mais pesado que uma tampa de ferro―quasi os aterrou. Gracinha
á
noite, no Oratorio, murmurava atravez das resas
distrahidas:―«Oh, minha
rica Nossa Senhora, que será?»―Barrôlo
não ousára correr á Torre; mas
até sonhava com a varanda do Governo Civil, que lhe
apparecia enorme,
crescendo, atravancando Oliveira, roçando já as
janellas dos Cunhaes
d'onde elle a repellia com o cabo d'uma vassoura... E eis agora
Gonçalo
e André que entram na cidade a cavallo, muito serenamente,
[275]ambos de
chapeus de palha, como companheiros constantes recolhendo d'um passeio!
Logo á porta do quarto, Barrôlo atirou os
braços, rompeu aos brados:
―Então gue tem sido tudo isto?... Não se falla
n'outra coisa!... Tu com
o André!
Gracinha, arfando, tão vermelha como as fitas do chapeu,
só balbuciava:
―E nem vens, nem escreves... Nós com tanto cuidado...
E mesmo rente da porta aberta, sem se sentarem, o Fidalgo aclarou o
«Mysterio», com a toalha ainda nas mãos:
―Uma cousa muito inesperada, mas muito natural. O Sanches Lucena
morreu, como vocês sabem. Ficou vago o circulo de
Villa-Clara. É um
circulo por onde só póde sahir um homem da terra,
com propriedade, com
influencia. O governo immediatamente me mandou perguntar, pelo
telegrapho, se eu me desejava propôr... Ora eu, no fundo,
estou de bem
com os Historicos, sou amigo do José Ernesto... Estimava
entrar na
Camara... Acceitei.
O Barrôlo esmagou a coxa com uma palmada triumphal:
―Então era certo, caramba!
O Fidalgo continuava, enxugando interminavelmente as mãos:
[276] ―Acceitei, está claro, com condições;
e muito fortes. Mas acceitei...
N'este caso, como vocês sabem, convem que o candidato se
entenda com o
Governador Civil. Eu, ao principio, não queria renovar
relações. Instado
porém, muito instado de Lisboa, e por
considerações superiores de
Politica, consenti n'esse sacrificio. Nas difficuldades em que se
encontra o paiz todos devem fazer sacrificios. Eu fiz esse... O
André,
de resto, foi muito amavel, muito affectuoso. De sorte que estamos
outra
vez amigos. Amigos politicos: mas muito bem, muito lealmente... Almocei
hoje com elle em Corinde, viemos juntos pelos Freixos. Uma tarde
linda!... Emfim renasceu a antiga harmonia. E a
eleição está segura.
―Venham de lá esses ossos! berrou o Barrôlo,
transportado.
Gracinha terminára por se sentar á borda do
leito, com o chapeu no
regaço, enlevada para o irmão, n'um silencioso
enternecimento em que os
seus doces olhos se humedeciam e riam. O Fidalgo, que se desprendera do
abraço do Barrôlo, dobrava a toalha com um vagar
distrahido:
―A eleição está segura, mas
precisamos trabalhar. Tu, Barrôlo, tens de
conversar tambem com o Cavalleiro. Já combinei.
Ámanhã no Governo Civil,
[277]ás duas
horas. É necessario que vocês
se entendam por causa dos votos da
Murtosa...
―Prompto, menino! o que vocês quizerem! Votos, dinheiro...
E Gonçalo, borrifando vagamente o jaquetão com
agua de Colonia que
pingava no soalho:
―Desde o momento em que eu me reconciliei com o André, tudo
acabou. Tu,
Barrôlo, immediatamente te reconcilias tambem...
Barrôlo quasi pulou, no seu deslumbramento:
―Pois está claro! E ainda bem, que eu gosto immensamente do
Cavalleiro!
Até sempre teimava com Gracinha... «Oh senhores,
esta tolice, por causa
da Politica!...»
―Bem! concluiu o Fidalgo. A Politica nos separou, a Politica nos
reune... É o que se chama a inconstancia dos Tempos e dos
Imperios.
E agarrou Gracinha pelos hombros, com um beijo brincalhão,
estalado em
cada face:
―A tia Arminda? Boa, da escaldadella? Já voltou
ás façanhas de
Leandro
o Bello?
Gracinha resplandecia, com o lento sorriso que se não
desfizera, a
envolvia toda em claridade e doçura:
―A tia Arminda está melhor, já anda. Perguntou
por ti... Mas, oh
Gonçalo, tu de certo queres jantar!
―Não, almocei tremendamente em Corinde...
[278]Vocês,
como jantaram á hora
antiga da tia Arminda, ceiam, hein? Então logo ceio... Agora
apenas uma
chavena de chá, muito forte!
Gracinha correu, no alvoroço de servir o heroe querido. E
pela escada,
descendo com Barrôlo que o contemplava, o Fidalgo da Torre
lamentou os
seus sacrificios:
―É verdade, menino, é uma massada... Mas que
diabo! todos devemos
concorrer para tirar o paiz do atoleiro!
Barrôlo, maravilhado, murmurava:
―E sem dizeres nada... Assim á capucha! Assim á
capucha!...
―E agora outra cousa, Barrôlo. Ámanhã,
no Governo Civil, deves convidar
o André a jantar...
―Com certeza! gritou o Barrôlo. Jantar d'estrondo?
-―Não, homem! Jantar muito quieto, muito intimo. Unicamente
o André e o
João Gouveia. Telegraphas ao João Gouveia. Tambem
pódes convidar os
Mendonças... Mas jantar muito discreto, só para
conversarmos, para
firmar a reconciliação d'um modo mais sociavel,
mais elegante.
Ao outro dia, no Governo Civil, Barrôlo e o Cavalleiro
apertaram as mãos
com tanta singelleza, como se ambos, ainda na vespera, andassem jogando
o bilhar e caturrando no club da rua das Pêgas.
[279]De resto
conversaram
summariamente sobre a Eleição. Apenas o
Cavalleiro alludira com
indolencia aos votos de Murtosa―o bom Barrôlo quasi se
engasgou, na
ancia de os offerecer:
―E o que vocês quizerem... Votos, dinheiro, o que
vocês quizerem!...
Vocês digam! Eu vou para a Murtosa, e é comezaina,
e pipa de vinho
aberta, e a freguezia inteira a votar no meio de foguetorio...
O Cavalleiro, rindo, amansou aquelle fervor faustoso:
―Não, meu caro Barrôlo, não!
Nós preparamos uma eleição muito
sobria,
muito socegada. Villa Clara elege Gonçalo Mendes Ramires
deputado,
naturalmente, como o seu melhor homem. Não ha combate, o
Julinho é uma
sombra. Portanto...
O Barrôlo persistia, radiante, gingando:
―Perdão, André, perdão! Lá
isso vinhaça, e vivorio, e foguetorio, e
festança magna...
Mas Gonçalo, embaraçado, ancioso por suster a
garrulice do Barrôlo, as
palmadas carinhosas com que elle se atufava na intimidade do
Cavalleiro,
apontou para a mesa de S. Ex.
a:
―Tu tens que fazer, André. Vejo ahi uma papelada
pavorosa... Não
roubemos mais tempo ao chefe illustre do Districto! Ao trabalho!
Trabalhar, meu irmão, que o
trabalho
É André,
é virtude, é valor!...
[280]
Agarrára o chapeu, acenando ao cunhado. Então
Barrôlo, com as bochechas
a estalar de gosto, balbuciou o convite que firmaria a
reconciliação
d'um modo sociavel e elegante:
―Cavalleiro, para conversarmos melhor, se você nos quizer
dar o gosto
de vir jantar... Quinta feira, ás seis e meia...
Nós, quando cá está o
Gonçalo, jantámos sempre mais tarde.
O Cavalleiro, que corára, agradeceu com discreta ceremonia:
―É para mim um immenso prazer, uma immensa honra...
E á porta da antesala onde os acompanhára,
segurando o pesado reposteiro
de baeta escarlate com as Armas Reaes bordadas―supplicou ao
Barrôlo que
pozesse os seus respeitos aos pés da snr.
a
D.
Graça...
Barrôlo, descendo a larga escadaria de pedra, limpava a
testa, o
pescoço, humedecidos pela emoção. E no
páteo desabafou:
―Muito sympathico este André! Rapaz franco, de quem sempre
gostei...
Realmente estava morto que acabassem estas historias... E mesmo
lá para
os Cunhaes, para a companhia, para o cavaco, que bella
acquisição!
[281]
Quinta feira de manhã depois do almoço, no
terraço do jardim onde
tomavam café, Gonçalo recommendou ao
Barrôlo que «para accentuar mais
completamente a intimidade simples do jantar não pozesse
casaca...»
―E tu, Gracinha, vestido afogado. Mas vestidinho claro, alegre...
Gracinha sorriu, indecisamente, continuando a folhear um
Almanach
de
Lembranças estendida n'uma cadeira de verga, com
um gatinho
branco no
regaço.
Depois do alvoroço e pasmo de Domingo, ella apparentava
agora um
desinteresse silencioso pela reconciliação que
ainda abalava Oliveira,
pela Eleição, pelo jantar. Mas n'esses dias
não socegára―tão impaciente
e sensivel que o bom Barrôlo incessantemente lhe aconselhava
o grande
remedio da Mamã contra os nervos,
«flôres d'alecrim, cosidas em vinho
branco.»
Gonçalo percebia claramente a
perturbação em que a lançava aquella
entrada triumphal de André, do antigo André, na
sua casa de casada, nos
Cunhaes. E para se tranquillisar evocava (como na estrada do cemiterio
em Villa-Clara) a seriedade de Gracinha, o seu rigido e puro pensar, a
altivez da sua almasinha heroica. N'essa manhã mesmo,
[282]todo
no fresco e
soffrego cuidado da sua Eleição, só
receava que Gracinha, por embaraço
ou cautella, acolhesse seccamente o Cavalleiro, o esfriasse no seu
renovado fervor pela casa de Ramires, no seu patrocinato Politico. E
insistiu, gracejando:
―Ouviste, Gracinha? Um vestido branco. Um vestidinho alegre, que sorria
aos hospedes...
Ella murmurou, mergulhada no seu
Almanach:
―Sim, realmente, com este calor...
Mas Barrôlo bateu uma palmada na côxa. Que pena!
que pena não ter em
Oliveira, «para o brinde de
reconciliação», um famoso vinho do
Porto, da
garrafeira da Mamã, preciosissimo, velhissimo, do tempo de
D. João II...
―D. João II? rosnou Gonçalo. Está
estragado!
Barrôlo hesitou:
―D. João II ou D. João VI... Um d'esses Reis.
Emfim um vinho unico, do
seculo passado! Só restam á mamã oito
ou dez garrafas... E hoje, era dia
para uma, hein?
O Fidalgo deu um sorvo lento ao café:
―O André, antigamente, tambem gostava muito d'ovos
queimados...
Bruscamente Gracinha fechou o
Almanach―e, com
uma fuga e um silencio
que emmudeceram Gonçalo, sacudiu do collo o gato dorminhoco,
atravessou
[283]o
terraço, desappareceu entre os teixos altos do jardim.
Mas á tarde, quando o Fidalgo occupou o seu logar na mesa
oval, junto da
prima Maria Mendonça―logo notou, entre duas compoteiras,
uma travessa
d'ovos queimados. Apesar de jantar tão intimo serviam, com a
louça da
China, os famosos talheres dourados da baixella do tio Melchior. E duas
jarras de Saxe transbordavam de cravos brancos e amarellos,
côres
heraldicas dos Ramires.
D. Maria, que não encontrára o querido primo
desde os annos de Gracinha,
murmurou com um sorriso, uma grave cortezia, n'aquelle cerimonioso
silencio em que se desdobravam os guardanapos:
―Ainda lhe não dei os parabens, primo Gonçalo...
Elle acudiu, mechendo nervosamente nos copos:
―Chut! prima, chut! Hoje aqui, já está decidido,
não se allude sequer a
Politica... Está muito calor para Politica.
Ella suspirou de leve, como desfallecida: Ai, o calor... Que horrivel
calor! Desde que entrára nos Cunhaes com aquelle vestido
preto que «era
o seu pallio rico»―ainda não cessára
de invejar a frescura do vestido
branco de Gracinha...
―Que bem que lhe fica! Está hoje linda!
Era um vestido liso de crepon branco, que
[284]aclarava,
remoçava
a sua graça
quasi virginal. E nunca realmente tanto prendera, assim clara e fina,
com os verdes olhos refulgindo como esmeraldas lavadas, uma
ondulação
mais lustrosa nos pesados cabellos, um macio rubor transparente, todo
um
fresco brilho de flôr regada, de flôr revivida,
apesar do acanhamento
que lhe immobilisava os dedos ao erguer a colhér de prata
dourada. E ao
lado, superiormente robusto e largo, com o peitilho arqueado como uma
couraça e cravejado de duas saphiras, uma rosa branca
desabrochada na
lapella, André Cavalleiro, que recusára a sopa
(oh, no verão nunca comia
sopa!) dominava a mesa, levemente commovido tambem, passando sobre o
reluzente bigode um lenço tão perfumado que
afogava o perfume dos
cravos. Mas foi elle que encadeou a animação com
risonhos queixumes
sobre o calor―o escandaloso calor d'Oliveira... Ah! que Purgatorio
abrasado―depois dos seus dois dias de Paraiso, na frescura deliciosa de
Cintra!
D. Maria Mendonça adoçou os espertos olhos para o
Snr. Governador
Civil.―E então Cintra? Animada? Muitos ranchos á
tarde, em Setiaes?
Encontrára a Condessa de Chellas―a prima Chellas?...
Sim, na Pena, na sua visita á Rainha, Cavalleiro
conversára durante um
momento com a Snr.
a Condessa de Chellas...
[285] ―Ah! e a Rainha?...
―Oh, sempre encantadora...
A Snr.
a Condessa de Chellas, essa, um pouco
magra. Mas tão
amavel, tão
intelligente, tão verdadeiramente
grande
dame―não é verdade? E, como
se inclinára para Gracinha, com uma doçura
infinita no simples mover da
cabeça―ella, perturbada, mais vermelha, balbuciou que
não conhecia a
Condessa de Chellas...―D. Maria Mendonça accusou logo a
inercia dos
primos Barrôlos, sempre encafurnados nos Cunhaes, sem nunca
se
aventurarem a Lisboa no inverno, para conviver, para conhecer os
parentes...
―E a culpa é do primo José, que detesta Lisboa...
Oh não! Barrôlo não detestava Lisboa!
Se podesse acarretar para Lisboa
as suas commodidades, o seu quarto, a sua cocheira, a boa agua do
pomar,
a rica varanda sobre o jardim―até se regalava!
―Mas entalado n'aquelles quartinhos do Bragança... E depois
a má
comida, o barulho... A Gracinha em Lisboa nunca dorme... E a massada
das
manhãs?... Não ha nada que fazer em Lisboa, de
manhã!
O Cavalleiro sorria para o Barrôlo, como enlevado
[286]na sua
graça e razão.
Depois confessou que elle, apesar de habitar tambem (mercê do
Estado!)
um palacete confortavel, e gozar tambem uma agua excellente, a
finissima
agua do Poço de S. Domingos, lamentava que os deveres de
Politica, a
disciplina de Partido o amarrassem a Oliveira. E toda a sua
esperança
era a queda do Ministerio, para se libertar, passar tres mezes divinos
em Italia...
Do outro lado de Gracinha, João Gouveia (sempre acanhado e
mudo deante
de senhoras) exclamou, n'um impulso d'amisade, de
convicção:
―Pois, Andrésinho, vae perdendo a esperança! O
S. Fulgencio não arreia!
Ainda cá te apanhamos uns tres ou quatro annos!
E insistiu, debruçado sobre Gracinha, n'um
esforço d'amabilidade que o
esbraseava:
―O S. Fulgencio não arreia. Ainda cá temos o
nosso André mais tres ou
quatro annos.
André protestava, com um requebro, as espessas pestanas
quasi cerradas:
―Oh meu João! não me queiras mal, não
me queiras mal!...
E teimava. Ah, com certeza! ainda que desertasse o seu partido (e que
importa em hoste poderosa uma lança ferrugenta?) esses mezes
d'Italia no
inverno já os sonhára, já os
preparava...―E a
[287]Snr.
a
D. Graça
não
permittia que elle a servisse d'um pouco de vinho branco?
Barrôlo estendeu o braço, com effusão:
―Oh Cavalleiro! eu tenho empenho em que você prove esse
vinho com
cuidado... É da minha propriedade do Corvello...
Faço muito gosto
n'elle. Mas prove com attenção!
S. Ex.
a provou com
devoção, como se commungasse.
E com uma cortezia
compenetrada para Barrôlo que reluzia de gosto:
―Uma delicia! uma verdadeira delicia!
―Hein? Não é verdade? Eu, para mim, prefiro este
vinho do Corvello a
todos os vinhos francezes, os mais finos... Até alli o nosso
amigo Padre
Sueiro, que é um Santo, o aprecia!
Silencioso, esbatido por traz d'uma das altas jarras de cravos, Padre
Sueiro corou, sorriu:
―Com muita agua, infelizmente, Snr. José
Barrôlo... O gosto pede, mas o
rheumatismo não consente.
Pois José Mendonça, que não temia
rheumatismos, atacava sempre
bravamente aquelle bemdito Corvello...
―Que lhe parece a você, João Gouveia?
Oh! João Gouveia já o conhecia, louvado Deus! E
certamente nunca
encontrára em Portugal, como
[288]vinho
branco, nenhum comparavel
pela
frescura, pelo aroma, pela seiva...
―E cá lhe vou atiçando com fervor,
Barrôlo amigo! Esta bella garrafa de
crystal vae de vencida!
Barrôlo exultava. O seu desgosto era que Gonçalo
nunca honrasse «aquelle
nectar.»―Não! Gonçalo não
tolerava vinhos brancos...
―E então hoje estou com uma d'estas sêdes que
só me satisfaz vinho
verde, assim um pouco espumante, e com gelo... Que este de Vidainhos
tambem é do Barrôlo. Oh, eu não
desprezo os vinhos da familia... Este
Vidainhos sinceramente o considero sublime.
Então Cavalleiro desejou provar esse sublime vinho verde da
quinta de
Vidainhos, em Amarante. O escudeiro, a um aceno enthusiasmado do
Barrôlo, apresentou a Sua Ex.
a um copo
esguio, especial para
aquelle
vinho que espumava. Mas o Cavalleiro, acariciando o fresco copo sem o
erguer, repisou a idéa de ferias, de viagens, como
accentuando o seu
cançasso e fastio d'Oliveira.―E sabia a Snr.
a
D.
Graça para onde elle
seguiria, depois da Italia, n'esse Inverno, se por caridade de Deus o
Ministerio cahisse?... Para a Asia Menor.
―E era uma viagem para que eu, com certesa, tentava o nosso
Gonçalo...
Tão facil, agora, com os
[289]caminhos
de ferro!... De Veneza a
Constantinopla um mero passeio. Depois, de Constantinopla a Smyrna, um
dia, dous dias, n'um vapor excellente. E d'ahi n'uma bôa
caravana, por
Tripoli, pela antiga Sidonia, penetravamos em Galiléa...
Galiléa! Hein
Gonçalo? Que belleza!
Padre Sueiro, suspendendo o garfo, lembrou timidamente―que em
Galiléa o
Snr. Gonçalo Ramires pisaria terra que outr'ora, por pouco,
pertencera á
sua Casa:
―Um dos antepassados de V. Ex.
a, Gutierres
Ramires, companheiro de
Tancredo na primeira Cruzada, recuzou o ducado de Galiléa e
de
Além-Jordão...
―Fez pessimamente! gritou Gonçalo, rindo. Oh, esse
avô Gutierres andou
pessimamente! Por que não existia agora, n'este mundo,
disparate mais
divertido do que eu Duque de Galiléa! O Snr.
Gonçalo Mendes Ramires,
Duque de Galiléa e d'Além-Jordão!...
Era simplesmente de rebentar!
Cavalleiro protestou, com sympathia:
―Ora essa! Por que?
―Não acredite! acudiu, com os olhos coruscantes, D. Maria
Mendonça. O
primo Gonçalo, com todas estas graças, no fundo,
é muitissimo
aristocrata... Mas terrivelmente aristocrata!
O Fidalgo da Torre pousou o copo de Vidainhos, depois d'um trago
saboreado e fundo:
[290] ―Aristocrata... Está claro que sou aristocrata. Sentiria
com effeito
certo desgosto em ter nascido, como uma herva, d'outras hervas vagas.
Gósto de saber que nasci de meu pae Vicente, que nasceu de
seu pae
Damião, que nasceu de seu pae Ignacio, e assim sempre
até não sei que
Rei Suevo...
―Recesvinto! informou respeitosamente Padre Sueiro.
―Pois até esse Recesvinto. O peor é que o sangue
de todos esses paes
não differe realmente do sangue dos paes do Joaquim da
Porta. E que
depois do Recesvinto, para traz, até Adão,
não tenho mais paes!
E, emquanto todos riam, D. Maria Mendonça,
debruçada para elle, por traz
do leque largamente aberto, murmurou:
―O Primo está com esses deprezos... Pois eu sei d'uma
senhora que tem a
maior admiração pela casa de Ramires e pelo seu
representante.
Gonçalo enchia de novo o copo, com amor, attento
á espuma:
―Bravo! Mas «convém distinguir», como
diz o Manoel Duarte. Por quem tem
ella a verdadeira admiração, por mim ou pelo
Suevo, pelo Recesvinto?
―Por ambos.
―Diabo!
[291]
Depois, pousando a garrafa, mais sério:
―Quem é?
Oh! ella não podia confessar. Não era ainda
bastante velha para andar
com recadinhos de sentimento. Mas Gonçalo dispensava o
nome―só desejava
as qualidades... Nova? Bonita?
―Bonita? exclamou D. Maria. É uma das mulheres mais
formosas de
Portugal!
Espantado, Gonçalo lançou o nome:
―A D. Anna Lucena!
―Por quê?
―Por que mulher assim tão formosa, e vivendo n'estes
sitios, e tão
conhecida da prima que lhe faz confidencias, só a D. Anna.
D. Maria, ageitando as duas rosas que lhe alegravam o corpete de
sêda
preta, sorria:
―Talvez seja, talvez seja...
―Pois estou immensamente lisongeado. Mas ainda distingo, como o Manoel
Duarte. Se, da parte d'ella, essa sympathia toda é para o
bom fim, não!
Não, santo Deus, não!... Mas se é para
o mau fim, então, prima,
cumprirei honradamente o meu dever dentro das minhas
forças...
D. Maria escondeu a face no leque, escandalisada. Depois, espreitando,
com os agudos olhos a faiscar:
―Oh primo, mas o bom fim é que convinha,
[292]por que a cousa
é a mesma e
são duzentos contos a mais!
Gonçalo gritou d'admiração:
―Oh! esta prima Maria! Não ha em toda a Europa ninguem mais
esperto!
Todos curiosamente anciaram por saber a nova graça da Snr.
a
D. Maria.
Mas Gonçalo deteve as curiosidades:
―Não se póde contar. É casamento.
Então José Mendonça recordou a
novidade picante que desde a vespera
remexia Oliveira:
―Por casamento!... Que me dizem ao casamento da D. Rosa Alcoforado?
Barrôlo, depois o Gouveia, até Gracinha, todos o
proclamaram «um
horror.» Aquella perfeita rapariga, de pelle tão
côr de rosa, de cabello
tão côr d'ouro, amarrada ao Teixeira de Carredes,
um patriarcha
carregado de netos... Que desastre!
Pois ao Cavalleiro o casamento não parecia assim
«desastrado.» O
Teixeira de Carredes, além de muito fino, de muito
intelligente, era um
velho verdejante, quasi sem rugas―até bonito com aquelle
contraste do
bigode escuro e da grenha riçada e branca. E na Snr.
a
D.
Rosa, com
todas as rosas da sua pelle e todo o ouro dos seus cabellos, dominava
«um não sei quê» de
amollentado e de sorvado... Depois
[293]pouco
esperta. E
pouco cuidadosa―sempre mal penteada, sempre mal pregada...
―Emfim, V. Ex.
as perdoem... Mas quem faz um
casamento muito
desenxabido é o pobre Teixeira de Carredes.
D. Maria Mendonça considerava o Governador Civil com um
espanto amavel:
―Pois se o Snr. Cavalleiro não admira a Rosinha Alcoforado,
não sei
então que rapariga admire dentro do seu Districto...
Elle, logo, com galante rasgo:
―Mas, além de V. Ex.
as,
não admiro ninguem!
Realmente eu governo, em
Portugal, o Districto mais daprovido de belleza...
Todos protestaram. E a Maria Marges? E a pequena Reriz, da Riosa? E a
Mellosinho Alboim, com aquelles olhos?... Mas o Cavalleiro
não
consentia, a todas demolia com um sarcasmo leve, ou pela pelle sem
frescura, ou pelo pisar desairoso, ou pelo provincianismo de gosto e
modos, sempre pela carencia das bellezas e graças que
ornavam
Gracinha―lançando assim disfarçadamente, aos
pés de Gracinha, um rôlo
de senhoras vencidas e amarfanhadas. Ella percebera a subtil
adulação,
os seus olhos allumiaram com um fulgor mais enternecido o rubor que a
afogueava. Desejou repartir incenso
[294]tão
accumulado―lembrou
timidamente
outra belleza de que se orgulhava o Districto:
―A filha do Visconde de Rio-Manso, a Rosinha Rio-Manso... É
linda!
O Cavalleiro triumphou com facilidade:
―Mas tem doze annos, minha senhora! Nem é rosinha,
é botãosinho de
rosa!...
Quasi humildemente, Gracinha recordou a Luiza Moreira, filha d'um
lojista, muito admirada aos domingos na missa da Sé e no
Terreiro da
Louça:
―É uma bella rapariga... Sobretudo a figura...
Cavalleiro triumphou ainda, com requebrada segurança:
―Sim, mas os dentes tortos, Snr.
a D.
Graça! Os dentes
acavallados! V.
Ex.
a nunca reparou... Oh! uma bôca
muito desagradavel! E,
além dos
dentes, o irmão, o Evaristo, com aquella cara mais chata que
a alma, e a
caspa, e a porcaria, e o jacobinismo... Não ha mulher bonita
com irmão
tão feio!
Mendonça estendera o braço, com outra curiosidade
que occupava Oliveira:
―E por Evaristo!... Elle sempre funda o novo jornal republicano, o
Rebate?
O Snr. Governador Civil encolheu os hombros com uma ignorancia superior
e risonha. Mas João Gouveia, vermelho e luzidio depois da
sua garrafa de
Corvello e da sua garrafa de Douro, affiançou
[295]que o
Rebate
apparecia
em Novembro. Até elle conhecia o patriota que esportulava a
«massa.» E a
campanha do
Rebate começava com cinco
artigos esmagadores
sobre a
Tomada da Bastilha.
O espanto de Gonçalo era como o Republicanismo
alastrára em
Portugal―até na velhota, na devota Oliveira...
―Quando eu andava em preparatorios existiam simplesmente dois
republicanos em Oliveira, o velho Salema, lente de Rhetorica, e eu.
Agora ha partido, ha comité, ha dous jornaes... E ha mesmo o
Barão das
Marges com a
Voz Publica na mão,
debaixo da Arcada...
Mendonça não receava a Republica, gracejava:
―Ainda vem longe, muito longe... Ainda nos dá tempo de
comermos estes
bellos ovos queimados.
―Deliciosos, murmurou o Cavalleiro.
―Sim, concordou Gonçalo, ainda temos tempo para os ovos...
Mas que
rebente uma revolução em Hespanha, ou que morra o
Reisinho na sua
menoridade, que naturalmente morre...
―Credo! Coitadinho! Pobre mãe! murmurou Gracinha
sensibilisada.
Immediatamente o Cavalleiro a tranquillisou. Porquê, morrer o
Reisinho
d'Hespanha? Os republicanos espalhavam boatos sombrios sobre os males
da
excellente creança. Mas elle conhecia a
realidade―assegurava
[296]á
Snr.
a
D. Graça que, felizmente para a Hespanha, ainda reinaria um
Affonso XIII
e mesmo um Affonso XIV. Em quanto aos nossos republicanos, esses... Meu
Deus! mera questão de guarda municipal! Portugal, nas suas
massas
profundas, permanecia monarchico, de raiz. Apenas ao de cima, na
burguezia e nas escolas, fluctuava uma escuma ligeira, e bastante suja,
que se limpava facilmente com um sabre...
―V. Ex.
a, Snr.
a D.
Graça, que é uma dona de
casa perfeita, conhece
esta operação que se faz á panella do
caldo... Escumar a panella. É com
uma colher. Aqui é com um sabre. Pois assim, com toda a
simplicidade, se
clarifica Portugal. E foi isto que ainda ultimamente eu declarei a
El-rei.
Alteára a cabeça―o seu peitilho resplandecia,
mais largo, como couraça
bastante rija para defender toda a Monarchia. E, no compenetrado
silencio que se alargou, duas rolhas de Champagne estalaram, por traz
do
biombo, na copa.
Apenas o escudeiro, apressado, enchêra as taças―o
Fidalgo da Torre com
uma gravidade que o sorriso adoçava:
―André, á tua saude. Não é
ao Governador Civil, é ao amigo!
Todos os copos se ergueram n'um susuro acariciador. João
Gouveia agitou
o seu, com especial
[297]effusão,
gritando:―«Andrésinho, meu velho!» S.
Ex.
a apenas tocou de leve no calice de Gracinha.
Padre Sueiro murmurou
as «graças.» E Barrôlo,
atirando o guardanapo:
―Café aqui ou na sala?... Na sala estamos mais frescos.
Na sala grande, a sala dos velludos vermelhos, o lustre rebrilhava
solitariamente; pelas tres janellas abertas penetrava a serenidade da
noite quente, o recolhido silencio d'Oliveira; e em baixo, no Largo,
alguns sujeitos, mesmo duas senhoras de manta de lã branca
pela cabeça,
pasmavam para aquella claridade de festa que jorrava dos Cunhaes. O
Cavalleiro e Gonçalo accenderam os charutos na varanda,
respirando a
frescura escassa. E o Cavalleiro, com beatitude:
―Pois sempre te digo, Gonçalinho, que se janta sublimemente
em casa de
teu cunhado!...
Gonçalo desejou que, no domingo, elle jantasse na Torre.
Ainda restavam
umas garrafas de Madeira do tempo do avô Damião―a
que se daria, com
soccorro do Gouveia e do Titó, um assalto heroico.
O Cavalleiro prometteu, já deliciado―tomando da pesada
bandeja de
prata, que derreava o escudeiro, a sua chavena de café, sem
assucar.
―E tu, com effeito, Gonçalo, agora não deves
arredar da Torre. O teu
papel é todo de presença na localidade. O Fidalgo
da Torre está no meio
das
[298]suas terras,
por onde vae ser eleito para as Côrtes.
É o teu
papel...
O Barrôlo com um riso enlevado, surdiu entre os dous amigos
que enlaçou
ternamente pela cinta:
―E nós cá ficamos, ambos a trabalhar, o
Cavalleiro e eu!...
Mas D. Maria, do canapé onde se enterrára,
reclamou o primo Gonçalo
«para negocios.» Junto d'uma console,
João Gouveia e Padre Sueiro,
remexendo o seu café, concordavam na necessidade d'um
Governo forte. E
Gracinha, com o primo Mendonça, revolvia as musicas sobre a
tampa do
piano, procurando o
Fado dos Ramires.
Mendonça tocava com
corredio
brilho, composera valsas, um hymno ao Coronel Trancoso, o heroe de
Machumba―e mesmo o primeiro acto d'uma opera,
A Pegureira.
E como
não
descortinavam o
Fado com as quadras do
Videirinha―foi justamente uma
das suas valsas, a
Perola, d'uma cadencia amorosa
e
cançada lembrando
a valsa do Fausto, que elle atacou, sem largar o charuto.
Então André Cavalleiro, que
repenetrára vagarosamente na sala, repuxou o
collete, afagou o bigode, e avançando para Gracinha, com um
modo meio
grave, meio folgazão:
―Se V. Ex.
a me quer dar a grande honra?...
Offerecia, abria os braços. E Gracinha, toda escarlate,
[299]cedeu, levada
logo nos largos passos deslisados que o Cavalleiro lançou
sobre o
tapete. Barrôlo e João Gouveia correram a afastar
as poltronas,
clareando um espaço, onde a valsa se desenrolou com o suave
sulco branco
do vestido de Gracinha. Pequenina e leve, toda ella se perdia, como se
fundia, na força mascula do Cavalleiro, que a arrebatava em
giros
lentos, com a face pendida, respirando os seus cabellos magnificos.
Da borda do canapé, com os finos olhos a fusilar, D. Maria
Mendonça
pasmava:
―Mas que bem que valsa, que bem que valsa o Snr. Governador Civil!...
Ao lado Gonçalo torcia nervosamente o bigode, na surpreza
d'aquella
familiaridade, assim renovada pelo Cavalleiro com tão serena
confiança,
por Gracinha com tanto abandono... Elles torneavam,
enlaçados. Dos
labios do Cavalleiro escorregava um sorriso, um murmurio. Gracinha
arfava, os seus sapatos de verniz reluziam sob a saia que se enrolava
nas calças do Cavalleiro. E Barrôlo, em extasi,
quando elles o roçavam,
atirava palmas carinhosas, bradava:
―Bravo! Bravo! Lindamente!... Bravissimo!
VII
Gonçalo recolhia para o almoço depois d'um
passeio no pomar percorrendo
a
Gazeta do Porto, quando avistou no banco de
pedra, rente
á porta da
cosinha, onde a Rosa mudava o painço na gaiola do seu
canario, o Casco,
o José Casco dos Bravaes, que esperava, pensativo e abatido,
com o
chapeu sobre os joelhos. Vivamente, para se esquivar, remergulhou no
jornal. Mas percebeu a esgalgada magreza do homem, que surdia da sombra
da latada, avançava na claridade faiscante do pateo,
hesitando, como
assustada... E, animado pela visinhança da Rosa, parou,
forçando um
sorriso―em quanto o Casco enrolava nas mãos tremulas a aba
dura do
chapeu, balbuciava:
―Se o Fidalgo me fizesse a esmola de uma palavra...
[302] ―Ah! é vossê, Casco! Homem, não o
conheci... E então?
Dobrou o jornal, tranquillisado―gozando mesmo a submissão
d'aquelle
valente que tanto o apavorára, erguido e negro como um
pinheiro, na
solidão do pinheiral. E o Casco, engasgado, repuchava,
esticava o
pescoço de dentro dos grossos collarinhos
bordados―até que atirou toda
a alma n'uma supplica soluçada, retendo as lagrimas que
marejavam:
―Ai, meu Fidalgo, perdôe por quem é!
Perdôe, que eu nem lhe sei pedir
perdão!...
Gonçalo atalhou o homem, com generosidade e
doçura. Elle bem o avisára!
Nada se emenda, a gritar, com o pau alçado...
―E olhe, Casco! Quando vossê me sahiu ao pinhal eu levava um
revólver
na algibeira... Trago sempre um revólver. Desde que uma
noite em
Coimbra, no Choupal, dous bebados me assaltaram, ando sempre
á cautella
com o revólver... Pense você agora que
desgraça se tiro o revólver, se
desfecho!... Que desgraça, hein?... Felizmente, n'um
relance, pensei que
me perdia, que o matava, e fugi. Foi por isso que fugi, para
não
desfechar o revólver... Emfim tudo passou. E eu
não sou homem de
rancores, já esqueci. Comtanto que vossê, agora
socegado e no seu juizo,
esqueça tambem.
O Casco amassava as abas do chapeu, com a cabeça
[303]derrubada.
E sem a
erguer, sem ousar, rouco dos soluços que o entalavam:
―Pois agora é que eu me lembro, meu Fidalgo! Agora
é que me ralo por
aquella doidice! Agora! depois do que o Fidalgo fez pela mulher e pelo
pequeno!...
Gonçalo sorriu, encolheu os hombros:
―Que tolice, Casco!... Pois a sua mulher apparece ahi n'uma noite
d'agua... E o pequenito doente, coitadito, com febre... Como vae elle,
o
Manelsinho?
O Casco murmurou do fundo da sua humildade:
―Louvado seja Deus, meu senhor, muito sãosinho, muito
rijinho.
―Ainda bem... Ponha o chapeu. Ponha o chapeu, homem! E adeus!...
Vossê
não tem que agradecer, Casco... E olhe! Traga cá
um dia o pequeno. Eu
gostei do pequeno. É espertinho.
Mas o Casco não se arredava, pregado ás lages.
Por fim, n'um soluço que
rebentou:
―É que eu não sei como hei-de dizer, meu
Fidalgo... Lá o dia de cadeia,
acabou! Tenho genio, fiz a asneira, com o corpo a paguei. E pouco
paguei, graças ao Fidalgo... Mas depois quando sahi, quando
soube que a
mulher viera de noite á Torre, e que o Fidalgo
até a embrulhára n'uma
capa, e que não deixára sahir o pequeno...
Estacou, afogado pela emoção. E como
Gonçalo,
[304]tambem
commovido, lhe
batia risonhamente no hombro, «para acabar, não se
fallar mais n'essas
bagatellas...»―o Casco rompeu, n'uma grande voz dolorosa e
quebrada:
―Mas é que o Fidalgo não sabe o que é
para mim aquelle pequeno!...
Desde que Deus m'o mandou tem sido uma paixão cá
por dentro que até
parece mentira!... Olhe que na noite que passei na cadeia da villa
não
dormi... E Deus me perdôe, não pensei na mulher,
nem na pobre da velha,
nem na pouquita terra que amanho, tudo ao desamparo. Toda a noite se
foi
a gemer:―«ai o meu querido filhinho! ai o meu querido
filhinho!...»
Depois quando a mulher, logo pela estrada, me diz que o Fidalgo
ficára
com elle na Torre, e o deitára na melhor cama, e
mandára recado ao
medico... E depois quando soube pelo snr. Bento que o Fidalgo de noite
subia a vêr se elle estava bem coberto, e lhe entalava a
roupa,
coitadinho...
E arrebatadamente, n'um choro solto, gritando:―«Ai meu
Fidalgo! meu
Fidalgo!...»―o Casco agarrou as mãos de
Gonçalo, que beijava,
rebeijava, alagava de grossas lagrimas.
―Então, Casco! Que tolice!... Deixe homem!
Pallido, Gonçalo saccudia aquella gratidão
furiosa―até que ambos se
encararam, o Fidalgo com as pestanas molhadas e tremulas, o lavrador
dos
Bravaes
[305]soluçando,
n'uma confusão. E foi elle por
fim que, recalcando um
derradeiro soluço, se recobrou, desafogou da idéa
que o trouxera, que de
certo fundamente o trabalhára, e que agora lhe enrijava a
face e o gesto
n'uma determinação que nunca vergaria:
―Meu Fidalgo, eu não sei fallar, não sei
dizer... Mas se d'hoje em
deante, seja para que fôr, o Fidalgo necessitar da vida d'um
homem, tem
aqui a minha!
Gonçalo estendeu a mão ao lavrador, muito
simplesmente―como um Ramires
d'outr'ora recebendo a preitezia d'um vassallo:
―Obrigado, José Casco.
―Entendido, meu Fidalgo, e que Deus nosso Senhor o
abençôe!
Gonçalo, perturbado, galgou pela escadinha da
varanda―emquanto o Casco
atravessava o páteo vagarosamente, com a cabeça
bem erguida, como homem
que devêra e que pagára.
E em cima, na livraria, Gonçalo pensava com
espanto:―«Ahi está como
n'este mundo sentimental se ganham dedicações
gratuitamente!...» Por que
emfim! quem não impediria que uma criancinha com febre
affrontasse de
noite uma estrada negra, sob a chuva e o vendaval? Quem a
não deitaria,
não lhe adoçaria um grog, não lhe
entalaria os cobertores para a
conservar bem abafada? E por esse grog e por essa cama―corre o pae,
tremendo e chorando,
[306]a
offerecer a sua vida! Ah! como era facil ser
Rei―e ser Rei popular!
E esta certeza mais o animava a obedecer ás
recommendacões do
Cavalleiro―a começar immediatamente as suas visitas aos
Influentes
eleitoraes, essas aduladoras visitas que assegurariam á
Eleição uma
unanimidade arrogante. Logo ao fim do almoço, mesmo sobre a
toalha,
arredando os pratos, copiou a lista d'esses Magnates―por um rascunho
annotado que lhe fornecera o João Gouveia. Era o Dr.
Alexandrino; o
velho Gramilde, de Ramilde; o Padre José Vicente, da Finta;
outros
menores:―e o Gouveia marcára com uma cruz, como o mais
poderoso e mais
difficil, o Visconde de Rio-Manso, que dispunha da immensa freguezia de
Canta-Pedra. Gonçalo conhecia esses senhores, homens de
propriedade e de
dinheiro (com todos outr'ora o papá andára
endividado)―mas nunca
encontrára o Visconde de Rio-Manso, um velho brazileiro,
dono da quinta
da
Varandinha, onde vivia solitariamente com uma
neta de onze annos,
essa linda Rosinha que chamavam «o botão de
Rosa», a herdeira mais rica
de toda a Provincia. E logo n'essa tarde, em Villa-Clara, reclamou ao
João Gouveia uma carta d'apresentação
para o Rio-Manso:
O Administrador hesitou:
―Vossê não precisa carta... Que diabo!
Vossê
[307]é
o Fidalgo da Torre!
Chega, entra, conversa... Além d'isso na
Eleição passada o Rio-Manso
ajudou os Regeneradores; de modo que estamos um pouco sêccos.
O
Rio-Manso é um casmurro... Mas com effeito,
Gonçalinho, convem começar
essa caça á popularidade!
N'essa noite, na Assembleia, o Fidalgo, encetando a
«caça á
popularidade», acceitou um convite do Commendador
Romão Barros (do
massador, do burlesco Barros) para o brodio faustoso com que elle
celebrava, na sua quinta da
Roqueira, a festa de
S. Romão.
E essa
semana inteira, depois outra, as gastou assim por Villa-Clara, amimando
eleitores―a ponto de comprar horrendas camisas de chita na loja do
Ramos, de encommendar um sacco de café na mercearia do
Tello, de
offerecer o braço no largo do Chafariz á nojenta
mulher do bebedissimo
Marques Rosendo, e de frequentar, de chapeu para a nuca, o bilhar da
rua
das Pretas. João Gouveia não approvava estes
excessos―aconselhando
antes «boas visitas, com todo o
chic,
aos influentes
sérios.» Mas
Gonçalo bocejava, adiava, na insuperavel preguiça
de affrontar a
maledicencia rabujenta do velho Gramilde ou a solemnidade forense do
Dr.
Alexandrino.
Agosto findava:―e por vezes, na livraria, Gonçalo,
coçando
desconsoladamente a cabeça, considerava as brancas tiras
d'almaço, o
Capitulo III da
[308]Torre
de D. Ramires encalhado...
Mas quê!
não podia,
com aquelle calor, com o afan da Eleição,
remergulhar nas eras
Affonsinas!
Quando refrescavam as tardes lentas montava, alongava o passeio pelas
freguezias, não se descuidando das
recommendações do
Cavalleiro―enchendo sempre o bolso de rebuçados d'avenca
para atirar ás
creanças. Mas, n'uma carta ao querido André,
já confessára que «a sua
popularidade não crescia, não
enfunava...»―«Não! positivamente, velho
amigo, não tenho o dom! Sei apenas palestrar familiarmente
com os
homens, comprimentar pelo seu nome as velhas ás soleiras das
portas,
gracejar com a pequenada, e se encontro uma boeirinha de saiasita rota
dar cinco tostões á boeirinha para uma saiasita
nova... Ora todas estas
cousas tão naturaes sempre as fiz naturalmente, desde rapaz,
sem que me
conquistassem influencia sensivel... Necessito portanto que essa
querida
Authoridade m'empurre com o seu braço possante e
destro...»
Todavia já uma tarde, encontrando junto da Torre o velho
Cosme de
Nacejas, e depois, n'um domingo, crusando ás
Ave-Marias
na
Bica-Santa
o Adrião Pinto do logar da Levada, ambos lavradores
considerados e
remexedores d'eleições―lhes pedira os votos,
desprendidamente e rindo.
E quasi se assombrára da promptidão, do fervor,
com que ambos se
[309]offereceram.―«Para
o Fidalgo? Pois isso está
entendido! Ainda que se
votasse contra o Governo, que é pae!»―E em
Villa-Clara, com o Gouveia,
Gonçalo deduzia d'estas offertas tão acaloradas
«a intelligencia
politica da gente do campo»:
―Está claro que não é pelos meus
lindos olhos! Mas sabem que eu sou
homem para fallar, para luctar pelos interesses da terra... O Sanches
Lucena não passava d'um Conselheiro muito rico e muito mudo!
Esta gente
quer deputado que grite, que lide, que imponha... Votam por mim por que
sou uma intelligencia.
E o Gouveia volvia, contemplando pensativamente o Fidalgo:
―Homem! quem sabe? Vossê nunca experimentou,
Gonçalo Mendes Ramires.
Talvez seja realmente pelos seus lindos olhos!
N'um d'esses passeios, n'uma abrazada sexta-feira, com o sol ainda
alto,
Gonçalo atravessava o logarejo da Velleda, no caminho de
Canta-Pedra. Ao
fim dos casebres que se apertam á orla da estrada alveja,
muito caiada,
n'um terreiro defronte da Egreja, a taverna famosa "do Pintainho", onde
os caramanchões do quintal e a nomeada do coelho guizado
attrahem vasto
povo nos dias da feira da
[310]Velleda.
N'essa manhã o
Titó, depois d'uma
madrugada ás perdizes, em Valverde, apparecera na Torre para
almoçar,
urrando, d'esfomeado. Era sexta-feira―a Rosa preparára uma
pescada com
tomates, depois um bacalhau assado, formidaveis. E Gonçalo,
toda a tarde
torturado com sêde, mais resequido pela poeira da estrada,
parou
avidamente deante do portão da venda, gritou pelo Pintainho.
―Oh meu Fidalgo!...
―Oh Pintainho! depressa! Uma sangria! Uma grande sangria bem fresca,
que morro...
O Pintainho, velhote roliço de cabello amarello,
não tardou com o copo
appetitoso e fundo onde boiava, na espumasinha do assucar, uma rodella
de limão. E Gonçalo saboreava a sangria com
ineffavel delicia―quando da
janella terrea da venda partiu um assobio lento, fino e trinado, como
os
dos arrieiros que animam as bestas a beber nos riachos.
Gonçalo deteve o
copo, varado. Á janella assomára um
latagão airoso, de face clara e
suissas louras, que, com os punhos sobre o peitoril e a
cabeça
levantada, n'um descarado modo de pimponice e desafio, o fitava
atrevidamente. E n'um lampejo o Fidalgo reconheceu aquelle
caçador que
já uma tarde, no logar de Nacejas, ao pé da
Fabrica de vidros, o mirára
com arrogancia, lhe raspára a espingarda pela perna, e ainda
depois,
parado sob a varanda d'uma rapariga
[311]de
jaqué azul, lhe
acenára
chasqueando emquanto elle descia a ladeira... Era esse! Como se
não
percebesse o ultraje―Gonçalo bebeu apressadamente a
sangria, atirou uma
placa ao pobre Pintainho enfiado, e picou a fina egoa. Mas
então da
janella rolou uma risadinha, cacarejada e troçante, que o
colheu pelas
costas como o estalo d'uma vergasta. Gonçalo soltou a
galope. E adiante,
sopeando a egoa no refugio d'uma azinhaga, pensava, ainda
tremulo:―«Quem será o desavergonhado?... E que
lhe fiz eu, Santo Deus?
que lhe fiz eu?...» Ao mesmo tempo todo o seu ser se
desesperava contra
aquelle desgraçado
mêdo,
encolhimento da carne,
arrepio da pelle, que
sempre, ante um perigo, uma ameaça, um vulto surdindo d'uma
sombra, o
estonteava, o impellia furiosamente a abalar, a escapar! Por que
á sua
alma, Deus louvado, não faltava arrojo! Mas era o corpo, o
traiçoeiro
corpo, que n'um arrepio, n'um espanto, fugia, se safava, arrastando a
alma―emquanto dentro a alma bravejava!
Entrou na Torre, mortificado, invejando a afouteza dos seus
moços da
quinta, remoendo um rancor soturno contra aquelle bruto de suissas
louras, que certamente denunciaria ao Cavalleiro e enterraria n'uma
enxovia!―Mas, logo no corredor, o Bento lhe debandou os pensamentos,
apparecendo
[312]com
uma carta «que trouxera um moço da
Feitosa...»
―Da
Feitosa?
―Sim senhor, da quinta do snr. Sanches Lucena, que Deus haja. Diz que
vinha de mandado das senhoras...
―Das senhoras!... Que senhoras?
Sem tarja de luto, a carta não era da bella D. Anna... Mas
era de D.
Maria Mendonça, que assignava―«prima muito amiga,
Maria Severim.» N'um
relance a leu, colhido logo por esta surpreza nova, distrahido da venda
do Pintainho e da affronta:―«Meu querido Primo. Estou ha
tres dias aqui
com a minha amiga Annica, e como passou o mez inteiro do nojo e ella
já
póde sahir (e até precisa porque tem andado
fraca) eu aproveito a
occasião para percorrer estes arredores que dizem
tão bonitos, e pouco
conheço. Tencionamos no Domingo visitar Santa Maria de
Craquêde, onde
estão os tumulos dos antigos tios Ramires. Que
impressão me vae
fazer!... Mas, ao que parece, além dos tumulos do claustro,
ha outros,
ainda mais antigos, que foram arrombados no tempo dos Francezes, e que
ficam n'um subterraneo, onde se não póde entrar
sem licença e sem que
tragam a chave. Peço pois, querido Primo, que dê
as suas ordens para que
no Domingo possamos descer ao subterraneo, que
[313]todos
affiançam muito
interessante, por que ainda lá restam ossos e armas. Se na
Torre
houvesse uma senhora, eu mesma iria, para lhe fazer este pedido... Mas
não se póde visitar um solteirão
tão perigoso. Case depressa!...
D'Oliveira boas noticias. Creia-me sempre, etc.»
Gonçalo encarou o Bento―que esperava, interessado com
aquelle assombro
do Snr. Doutor:
―Tu sabes se em Santa Maria de Craquêde ha outros tumulos,
n'um
subterraneo?
O assombro então saltou para o Bento:
―N'um subterraneo?... Tumulos?
―Sim, homem! Além dos que estão no claustro
parece que ha outros, mais
antigos, debaixo da terra... Eu nunca vi, não me lembro.
Tambem ha que
annos não entro em Santa Maria de Craquêde! Desde
pequeno!... Tu não
sabes?
O Bento encolheu os hombros.
―E a Rosa não saberá?
O Bento abanou a cabeça, duvidando.
―Tambem vossês nunca sabem nada! Bem! Amanhã
cêdo corre a Santa Maria
de Craquêde e pergunta na Egreja, ao sachristão,
se existe esse
subterraneo. Se existir que o mostre no Domingo a umas senhoras,
á
snr.
a D. Anna Lucena, e á snr.
a
D. Maria
Mendonça, minha prima
Maria... E que tenha tudo varrido, tudo decente!
[314]
Mas, repassando a carta, reparou n'um
Post-Scriptum
em lettra mais
miudinha, ao canto da folha:―«No Domingo, não se
esqueça, a visita será
entre as cinco e cinco e meia da tarde!»
Gonçalo pensou:―«Será uma
entrevista?» E na livraria, atirando para uma
cadeira o chapeu e o chicote, assentou que era uma entrevista, bem
clara, bem marcada! E talvez nem existisse esse subterraneo―e Maria
Mendonça, com a sua tortuosa esperteza, o inventasse, como
natural
motivo de lhe escrever, de lhe annunciar que no Domingo, ás
cinco e
meia, a bella D. Anna e os seus duzentos contos o esperavam em Santa
Maria de Craquêde. Mas então a prima Maria
não gracejára, em Oliveira?
Gostava d'elle, realmente, essa D. Anna?... E uma
emoção, uma
curiosidade voluptuosa atravessaram Gonçalo á
idéa de que tão formosa
mulher o desejava.―Ah! mas certamente o desejava para marido, por que
se o appetecesse para amante não se soccorria dos
serviços da D. Maria
Mendonça―nem a prima Maria, apesar de tão sabuja
com as amigas ricas,
os prestaria assim descaradamente como uma alcoviteira de Comedia! E
caramba! casar com a D. Anna―não!
E subitamente anciou por conhecer a vida da D. Anna! Aturára
ella tantos
annos, em severa fidelidade, o velho Sanches? Sim, talvez, na
Feitosa,
na solidão
[315]dos
grandes muros da
Feitosa―por
que nunca
sobre ella
esvoaçára um rumor, em terriolas tão
gulosas de rumores malignos. Mas em
Lisboa?... Esses «amigos estimabilissimos» de que
se ufanava o pobre
Sanches, o D. João não sei quê, o
pomposo Arronches Manrique, o Philippe
Lourençal com o seu cornetim?... Algum de certo a
attacára―talvez o D.
João, por dever tradicional do nome. E ella?... Quem o
informaria sobre
a historia sentimental da D. Anna?
Depois, ao jantar, de repente pensou no Gouveia. Uma irmã do
Gouveia,
casada em Lisboa com certo Cerqueira (arranjador de Magicas e empregado
na Misericordia) costumava mandar ao mano Administrador relatorios
intimos sobre todas as pessoas conhecidas d'Oliveira, de Villa-Clara,
que se demoravam em Lisboa―e que interessavam o mano ou por Politica,
ou por mexeriquice. E de certo, pela irmã Cerqueira, o
querido Gouveia
conhecia miudamente os annaes da D. Anna, durante os seus invernos de
Lisboa, nas delicias da sua «roda fina».
N'essa noite, porém, o Administrador não
apparecera na Assembleia. E
Gonçalo, desconsolado, recolhia á Torre―quando
no Largo do Chafariz o
encontrou com o Videirinha, ambos sentados n'um banco, sob as olaias
escuras.
―Chegou lindamente! exclamou o Gouveia. Estavamos
[316]mesmo a marchar para
minha casa, tomar chá. Quer vossê, tambem?...
Vossê costuma gostar das
minhas torradinhas.
O Fidalgo acceitou―apezar de cançado. E logo pela
Calçadinha, enlaçando
o braço do Administrador, contou que recebera uma carta de
Lisboa, d'um
amigo, com uma nova estupenda... O que?―O casamento da D. Anna Lucena.
O Gouveia parou, assombrado, atirando o côco para a nuca:
―Com quem?!
Gonçalo que inventára a carta―inventou o noivo:
―Com um vago parente meu, ao que parece, um D. João Pedroso
ou da
Pedrosa. Muitas vezes o Sanches Lucena me fallou n'elle... Conviviam
muito em Lisboa...
Gouveia bateu com a ponta da bengala nas pedras:
―Não póde ser!... Que disparate! A D. Anna
não ajustava casamento sete
semanas depois de lhe morrer o marido... Olhe que o Lucena morreu no
meado de Julho, homem! Ainda nem teve tempo de se acostumar
á sepultura!
―Sim, com effeito! murmurou Gonçalo.
E sorria, sob uma doce baforada de vaidade―pensando que, sete semanas
depois de viuva, ella,
[317]sem
resistir, calcando decencia e luto, lhe
offerecia a elle uma entrevista nas ruinas de Craquêde.
A mentira de resto, apesar de disparatada,
aproveitára―porque, depois
de subirem á saleta verde do Administrador, o espanto
recomeçou.
Videirinha esfregava as mãos, divertido:
―Oh snr. Dr., olhe que tinha graça!... Se a snr.
a
D. Anna,
depois
d'apanhar os duzentos contos do velhote, logo passadas semanas,
zás, se
engancha com um rapazote novo...
Não, não!... Gonçalo agora, reparando,
tambem considerava despropositada
a noticia do casamento, assim com o pobre Sanches ainda
môrno...
―Naturalmente entre ella e esse D. João havia namorico,
olhadella...
Por isso imaginaram. Com effeito, alguem me contou, ha tempos, que o
tal
D. João se atirava valentemente, como cumpre a um D.
João, e que ella...
―Mentira! atalhou o Administrador, debruçado sobre a
chaminé do
candieiro para accender o cigarro. Mentira! Sei perfeitamente, e por
excellente canal... Em fim, sei por minha irmã! Nunca, em
Lisboa, a D.
Anna deu azo a que se rosnasse. Muito séria, muitissimo
séria. Está
claro, não faltou por lá maganão que
lhe arrastasse a aza languida...
Talvez esse D. João, ou outro amigo do marido, segundo a boa
lei
natural. Mas ella, nada! Nem ôlho de lado!
[318]Esposa romana, meu
amigo, e
dos bons tempos romanos!
Gonçalo, enterrado no camapé, torcia lentamente o
bigode, regalado,
recolhendo as revelações. E o Gouveia, no meio da
sala, com um gesto
convencido e superior:
―Nem admira! Estas mulheres muito formosas são insensiveis.
Bellos
marmores, mas frios marmores... Não, Gonçalinho,
lá para o sentimento, e
para a alma, e mesmo para o resto, venham as mulheres pequeninas,
magrinhas, escurinhas! Essas sim!... Mas os grandes
mulherões brancos,
do genero Venus, só para vista, só para museo.
Videirinha arriscou uma duvida:
―Uma senhora tão bonita como a snr.
a
D. Anna, e com
aquelle sangue,
assim casada com um velhote...
―Ha mulheres que gostam de velhotes por que ellas mesmas teem
sentimentos velhotes!―declarou o Gouveia, de dedo erguido, com immensa
auctoridade e immensa philosophia.
Mas a curiosidade de Gonçalo não se contentava. E
na
Feitosa? Nunca se
rosnára d'alguma aventura escondida? Parece que com o Dr.
Julio...
De novo o Fidalgo inventava. De novo Gouveia, repelliu a
«mentira»:
―Nem na
Feitosa, nem em Oliveira, nem em
[319]Lisboa... De
resto,
é o que
lhe digo, Gonçalo Mendes. Mulher de marmore!
Depois, saudando, em submissa admiração:
―Mas, como marmore... Vossês, meninos, não
imaginam a belleza d'aquella
mulher decotada!
Gonçalo pasmou:
―E onde a viu vossê decotada?
―Onde a vi decotada? Em Lisboa, n'um baile do Paço...
Até foi
justamente o Lucena que me arranjou o convite para o Paço.
Lá me
espanejei, de calção... Uma semsaboria. E mesmo
uma vergonha, toda
aquella turba acavallada por cima dos buffetes, aos berros, a agarrar
furiosamente pedaços de perú...
―Mas então, a D. Anna?
―Pois a D. Anna uma belleza! Vossês não
imaginam!... Santo nome de
Deus! que hombros! que braços! que peito! E a brancura, a
perfeição...
De endoidecer! Ao principio, como havia muita gente, e ella estava para
um canto, acanhadota, não fez
sensação. Mas depois lá a descobriram.
E
eram correrias, magotes embasbacados... E «quem
será?» E «que encanto!»
Todo o mundo perdidinho, até o Rei!
E um momento os tres homens emmudeceram na impressão do
formoso corpo
evocado, que entre elles surgia, quasi despido, inundando com o
explendor da sua brancura a modesta sala mal alumiada.
[320]Por fim
Videirinha acercou a cadeira, em confidencia, para fornecer tambem a
sua
informação:
―Pois, por mim, o que posso affirmar é que a snr.
a
D. Anna
é uma
mulher muito aceada, muito lavada...
E como os outros s'espantavam, rindo, de uma certeza tão
intima―Videirinha contou que todas as semanas apparecia um
moço da
Feitosa, na botica do Pires, a comprar tres e
quatro garrafas de agua
de Colonia portugueza, da receita do Pires.
―Até o Pires dizia sempre, a esfregar as mãos,
que na Feitosa regavam
as terras com agua de Colonia. Depois é que soubemos pela
creada... A
snr.
a D. Anna toma todos os dias um grande
banho, que não
é só para
lavar, mas para prazer. Fica uma hora dentro da tina. Até
lê o jornal
dentro da tina. E em cada banho, zás, meia garrafa d'agua de
Colonia...
Já é luxo!
Então Gonçalo sentiu como um aborrecimento de
todas aquellas revelações
do Administrador, do ajudante da Pharmacia, sobre os decotes e as
lavagens da linda mulher que o esperava entre os tumulos dos Ramires
seculares. Saccudiu o jornal com que se abanava, exclamou:
―Bem! E passando a cantiga mais séria... Oh
[321]Gouveia,
vossê que tem
sabido do Dr. Julio? O homem trabalha na eleição?
A creada entrára com a bandeja do chá. E em torno
da mesa, trincando as
torradas famosas, conversaram sobre a Eleição,
sobre os informes dos
Regedores, sobre a reserva do Rio-Manso―e sobre o Dr. Julio, que
Videirinha encontrára nos Bravaes pedinchando votos pelas
portas,
acompanhado por um môço com a machina
photographica ás costas.
Depois do chá Gonçalo, cançado e
já provido «de
revelações», accendeu o
charuto para recolher á Torre.
―Vossê não acompanha, Videirinha?
―Hoje, Snr. Dr., não posso. Parto de madrugada para
Oliveira, na
diligencia.
―Que diabo vae vossê fazer a Oliveira?
―Por causa d'uns sapatos de praia e d'um fato de banho lá
da minha
patrôa, da D. Josepha Pires... Tenho de os trocar nos
Emilios, levar as
medidas.
Gonçalo ergueu os braços, desolado:
―Ora vejam este paiz! Um grande artista, como o Videirinha, a carregar
para Oliveira com os sapatos de banho da patrôa Pires!... Oh
Gouveia!
quando eu fôr deputado precisamos arranjar um bom logar para
o
Videirinha, no Governo Civil. Um logar facil e com vagares, para elle
não esquecer o violão!
[322]
Videirinha córou de gôsto e de
esperança―correndo a despendurar do
cabide o chapéo do Fidalgo.
Pela estrada da Torre, os pensamentos de Gonçalo
esvoaçaram logo, com
irresistida tentação, para D. Anna―para os seus
decotes, para os
languidos banhos em que se esquecia lendo o jornal. Por fim, que
diabo!... Essa D. Anna assim tão honesta, tão
perfumada, tão
explendidamente bella, só apresentava, mesmo como esposa, um
feio
senão―o papá carniceiro. E
a voz tambem―a voz
que tanto o arripiára
na Bica-Santa... Mas o Mendonça assegurava que aquelle
timbre rolante e
gordo, na intimidade, se abatia, liso e quasi doce... Depois, mezes de
convivencia habituam ás vozes mais desagradaveis―e elle
mesmo, agora,
nem percebia quanto o Manoel Duarte era fanhoso! Não! mancha
teimosa,
realmente, só o pae carniceiro. Mas n'esta Humanidade
nascida toda d'um
só homem, quem, entre os seus milhares d'avós
até Adão, não tem algum
avô carniceiro? Elle, bom fidalgo, d'uma casa de Reis d'onde
Dynastias
irradiavam, certamente, escarafunchando o Passado, toparia com o
Ramires
carniceiro. E que o carniceiro avultasse logo na primeira
geração, n'um
talho ainda afreguezado, ou que apenas s'esfumasse, atravez d'espessos
seculos, entre os trigesimos avós―lá estava, com
a faca, e o cepo, e as
postas de carne, e as nodoas de sangue no braço suado!...
[323]
E este pensamento não o abandonou até
á Torre―nem ainda depois, á
janella do quarto, acabando o charuto, escutando o cantar dos ralos.
Já
mesmo se deitára, e as pestanas lhe adormeciam, e ainda
sentia que os
seus passos impacientes se embrenhavam para traz, para o escuro passado
da sua Casa, por entre a emmaranhada Historia, procurando o
carniceiro... Era já para além dos confins do
Imperio Visigodo, onde
reinava com um globo d'ouro na mão o seu barbudo
avô Recesvinto.
Esfalfado, arquejando, transpozera as cidades cultas, povoadas de
homens
cultos―penetrára nas florestas que o mastodonte ainda
sulcava. Entre a
humida espessura já crusára vagos Ramires, que
carregavam, grunhindo,
rezes mortas, molhos de lenha. Outros surdiam de tocas fumarentas,
arreganhando agudos dentes esverdeados para sorrir ao neto que passava.
Depois por tristes ermos, sob tristes silencios, chegára a
uma lagôa
ennevoada. E á beira da agoa limosa, entre os canaviaes, um
homem
monstruoso, pelludo como uma féra, agachado no lodo, partia
a rijos
golpes, com um machado de pedra, postas de carne humana. Era um
Ramires.
No ceu cinzento voava o Açor negro. E logo, d'entre a
neblina da lagôa,
elle acenava para Santa Maria de Craquêde, para a formosa e
perfumada D.
Anna, bradando por cima dos Imperios e dos Tempos:―«Achei o
meu avô
carniceiro!»
[324]
No Domingo, Gonçalo acordou com uma «esperta
ideia!» Não correria a
Santa Maria de Craquêde com uma pontualidade sofrega,
ás cinco horas (as
cinco horas marcadas no
Post-Scriptum da prima
Maria)―mostrando o seu
alvoroço em encontrar a tão bella e
tão rica D. Anna Lucena! Mas ás seis
horas, quando findasse a romaria das senhoras aos tumulos, appareceria
elle indolentemente, como se, recolhendo d'um passeio pelas frescas
cercanias, se recordasse, parasse nas ruinas para conversar com a prima
Maria.
Logo ás quatro horas porém se começou
a vestir com tantos esmeros, que o
Bento, cançado das gravatas que o Snr. Dr. experimentava e
arremessava
amarfanhadas para o divan, não se conteve:
―Ponha a de sedinha branca, Snr. Dr.! Ponha a branca, que lhe fica
melhor! E refresca mais, com este calor.
Na escolha d'um ramo para o casaco ainda requintou, juntando as
côres
heraldicas dos Ramires, um cravo amarello com um cravo branco. Ao
portão, apenas montára na egoa, temeu que as
senhoras (não o encontrando
no Claustro) encurtassem a visita, estugou o trote pelo atalho da
Portella. Depois adiante, ao desembocar na antiga estrada real,
[325]soltou
n'um galope impaciente que o branqueou de poeira.
Só retomou um passo indifferente, ao acercar da linha do
Caminho de
Ferro, onde um carro de lenha e dois homens esperavam deante da
cancella, que se fechára para a lenta passagem d'um trem
carregado de
pipas. Um d'esses homens, d'alforge aos hombros, era o Mendigo―o
vistoso Mendigo que passeava por aquellas aldeias a rendosa magestade
das suas barbaças de Deus fluvial. Erguendo gravemente o
chapéo de
vastas abas, desejou ao Fidalgo a companhia de Nosso Senhor.
―Então hoje a ganhar a rica vida por Craquêde?...
―Cá me arrasto ás vezes para a passagem do
comboio d'Oliveira, meu
Fidalgo. Os passageiros gostam de me vêr de pé no
talude, correm sempre
ás janellas...
Gonçalo, rindo, recordou que o encontro d'aquelle
ancião precedia sempre
um encontro seu com a bella D. Anna.―«Quem sabe? pensou.
É talvez o
Destino! Os antigos pintavam assim o Destino, com longas barbas e
longas
guedelhas, e o alforge ás costas contendo as sortes
humanas...»―E com
effeito ao cabo do pinheiral silencioso, que estiradas resteas de sol
docemente douravam―avistou a caleche da
[326]Feitosa,
parada sob uma
carvalha, com o cocheiro fardado de negro dormitando na almofada. A
estrada real de Oliveira costeia ahi o antigo adro do mosteiro de
Craquêde, queimado pelo fogo do céo, n'aquella
irada tempestade que
chamam
de S. Sebastião, e que aterrou
Portugal em 1616.
Uma herva
agora alfombra o chão, crescida e verde, entre os poderosos
troncos dos
castanheiros velhissimos. A Egrejinha nova alveja, bem caiada, ao fundo
da ramaria: e, ligada a ella por um muro esbrechado que densa hera
veste, tomando todo o lado nascente do Terreiro―sobe, enche ainda
magnificamente o céo lustroso, a fachada da Egreja do
vetusto Mosteiro,
suavemente amarellecida e brunida pelos tempos, com o seu immenso
portal
sem portas, a rosacea desmantelada, e esvasiados os nichos
d'enterramento onde outr'ora se estiraçavam as imagens dos
fundadores,
Froylas Ramires e sua mulher Estevaninha, condessa d'Orgaz, por alcunha
a
Queixa-perra. Duas casas terreas povoam o lado
fronteiro do
adro―uma limpa, com as hombreiras das janellas pintadas d'azul
estridente, a outra deserta, quasi sem telhado, afogada na verdura d'um
quinteiro bravo onde gira-soes resplandecem. Um pensativo silencio
envolvia o arvoredo, as altivas ruinas. E nem o quebrava, antes
serenamente o emballava, o susurro d'uma fonte, que a estiagem
adelgaçára
[327]em
fio lento, e mal enchia o seu
tanque de pedra, toldado
pela pallida e rala folhagem d'um chorão muito alto.
O trintanario da
Feitosa, ao enxergar o Fidalgo,
saltou risonhamente
da borda do tanque onde picava tabaco, para segurar a egoa. E
Gonçalo,
que desde pequeno não penetrava nas ruinas de
Craquêde, seguia por um
carreirinho cortado na relva, attentamente, encantado com aquella
romantica solidão de lenda e verso, quando, sob o arco do
portal,
appareceram as duas senhoras voltando do velho Claustro. D. Maria
Mendonça, com a sua sacudida vivacidade, agitou logo o
guarda-sol de
xadrezinho, semelhante ao vestido, cujas mangas, tufando desmedidamente
nos hombros, lhe vincavam mais a elegancia esgalgada. E ao lado, na
claridade, D. Anna era uma silenciosa e esvelta fórma negra,
de lã negra
e d'escumilha negra, onde apenas transparecia, suavisada sob o
véo
negro, a brancura explendida da sua face sensual e séria.
Gonçalo correra, erguendo o chapéo de palha,
balbuciando o seu «prazer
por aquelle encontro...» Mas já D. Maria o
reprehendia, sem lhe
consentir a fabula do «encontro»:
―O primo não é nada amavel, nada amavel...
―Oh prima!...
―Pois sabia que vinhamos, pela minha carta!
[328]E
nem está
á hora aprazada,
para fazer as honras, como devia...
Elle, rindo, com o seu desembaraço airoso, negou esse dever!
Aquella
casa não era sua, mas do Bom Deus! Ao Bom Deus competia
«fazer as
honras»―acolher tão doces romeiras com algum
milagre amavel...
―E então, gostaram? V. Ex.
a, Snr.
a
D. Anna, gostou das
ruinas?...
Muito interessantes, não é verdade?
Através do véo, com uma lentidão que a
espessa renda negra tornava mais
grave, ella murmurou:
―Eu já conhecia... Vim cá uma tarde, com o pobre
Sanches que Deus haja.
―Ah...
Áquella evocação do pobre morto,
Gonçalo sumira todo o sorriso, com
polida tristeza. Mas D. Maria Mendonça acudio, atirando um
dos seus
magros gestos, como para arredar a sombra importuna:
―Ai! não imagina o que gostei, primo! É
d'appetite todo o claustro...
Logo aquella espada enferrujada, chumbada por cima do tumulo...
Não ha
nada que impressione como estas cousas antigas... Oh primo, e pensar
que
estão alli antepassados nossos!
O sorriso de Gonçalo de novo lampejou, alegre e acolhedor,
como sempre
que D. Maria se empurrava com desesperada gula para dentro da Casa de
Ramires.
[329]E
gracejou, affavelmente. Oh, antepassados... Simples punhados
de cinsa vã!―Pois não era verdade, Snr.
a
D.
Anna?... Realmente! quem
conceberia que a prima Maria, tão viva, tão
sociavel, tão engraçada,
descendesse d'uma poeira tristonha guardada dentro d'uma pia de pedra?
Não! não se podia ligar tanto
ser
a tanto
não-ser...―E como D. Anna
sorria, n'uma vaga concordancia, encostando as duas mãos
fortes e muito
apertadas na pellica negra ao alto cabo d'aljofar da sombrinha, elle
atalhou com interesse:
―V. Ex.
a está talvez
cançada, Snr.
a D. Anna?
―Não, não estou cançada... Ainda
vamos mesmo entrar na capella, um
bocadinho... Eu nunca me canço.
E pareceu a Gonçalo que a voz da formosa creatura
não rolava do papo,
tão grossa e gorda―mas que se afinára,
adoçada e velada pelo luto
d'escomilha e lã, como esses grossos e rolantes rumores que
a noite e o
arvoredo adelgaçam. Mas D. Maria confessou o seu immenso
cançasso! Nada
a esfalfava como visitar curiosidades... E além d'isso a
emoção, a ideia
de heroes tão antigos!
―Se nos sentassemos n'aquelle banco, hein? É muito cedo para
recolhermos, não é verdade, Annica? E
está tão agradavel n'este socego,
n'esta frescura...
[330]
Era um banco de pedra, rente ao muro esbrechado que a hera afogava. Em
torno a relva crescia, mais silvestre e florida com os derradeiros
malmequeres e botões d'ouro que o sol d'Agosto
poupára. Um aromasinho
fino, d'algum jasmineiro emmaranhado na hera, errava, adocicava a
serena
tarde. E na rama d'um alamo, defronte do portão da Capella,
duas vezes
um melro cantára. Gonçalo sacudiu todo o banco
cuidadosamente, com o
lenço. E sentado na ponta, junto de D. Maria, louvou tambem
a frescura,
o recolhimento d'aquelle cantinho de Craquêde... E elle que
nunca se
aproveitára de refugio tão santo, e quasi seu,
nem mesmo para um almoço
bucolico! Pois agora certamente voltaria fumar um charuto, revolver
ideias de paz sob a paz das carvalheiras, na visinhança dos
vovós
mortos... Depois, com uma curiosidade:
―É verdade, prima! E o subterraneo?
Oh! não existia subterraneo!... Sim, existia―mas entulhado,
sem
sepulturas, sem antiguidades. E o sachristão logo lhes
affiançára que
«não valia a pena sujarem as saias...»
―É verdade, oh Annica, déste alguma cousa ao
sachristão?
―Oh filha, dei cinco tostões... Não sei se foi
bastante.
Gonçalo assegurou que se pagára sumptuosamente
[331]ao
sachristão. E, se
prevesse tamanha generosidade da Snr.
a D. Anna,
agarrava elle um
mólho
de chaves, até enfiava uma opa preta, para mostrar―e para
embolsar...
―Pois é o que devia ter feito! exclamou D. Maria, com um
corisco nos
espertos olhos. E decerto se lhe davam os cinco tostões!
Porque sempre
sería mais instructivo que o homemsinho, que mascava,
não sabia nada!...
Semelhante morcão! E eu com tanta curiosidade por aquelle
tumulo aberto,
com a tampa rachada... O môno só soube resmungar
que «eram historias
muito antigas lá do Fidalgo da Torre...»
Gonçalo ria:
―Pois essa historia por acaso sei eu, prima Maria! Sei agora pelo
Fado
dos Ramires, o fado do Videirinha...
D. Maria Mendonça levantou as compridas mãos aos
céos, revoltada com
aquella indifferença pelas tradições
heroicas da Casa. Conhecer sómente
os seus Annaes desde que elles andavam repicados n'um fado!... O primo
Gonçalo não se envergonhava?
―Mas por quê, prima, porquê? O fado do Videirinha
está fundado em
documentos authenticos que o Padre Sueiro estudou. Todo o recheio
historico foi fornecido pelo Padre Sueiro. O Videirinha só
poz as rimas.
Além d'isso antigamente, prima, a
[332]Historia
era perpetuada em
verso e
cantada ao som da lyra... Em fim quer saber esse caso do tumulo aberto,
segundo as quadras do Videirinha? Eu sempre conto! Mas só
para a Snr.
a
D. Anna, que não soffre d'esses escrupulos...
―Não! acudiu D. Maria. Se o Videirinha tem essa auctoridade
historica
então conte tambem para mim, que sou da Casa!
Gonçalo, por gracejo, tossio, passou o lenço
pelos beiços:
―Pois eis o caso! N'esse tumulo habitava, naturalmente morto, um dos
meus avós... Não me lembro o nome, Gutierres ou
Lopo. Creio que
Gutierres... Emfim, lá jazia quando foi da batalha das Navas
de
Tolosa... A prima Maria conhece a batalha das Navas, os cinco reis
mouros, etc... Como o tal Gutierres soube da batalha não
contam os
versos do Videirinha. Mas, apenas lá dentro lhe cheirou a
carnificina,
arromba o tumulo, sahe por este pateo como um desesperado, desenterra o
seu cavallo que fôra enterrado no adro onde agora crescem
estes
carvalhos, monta n'elle todo armado, e, Cavalleiro morto sobre cavallo
morto, larga a galope através da Hespanha, chega
ás Navas, arranca a
espada, e destroça os mouros... Que lhe parece, Snr.
a
D.
Anna?
Dedicára a historia a D. Anna, procurando nos
[333]seus bellos
olhos a
attenção e o interesse. E ella, que a furto,
através do decôro
melancolico a que se esforçava,
adoçára o sorriso, attrahida e levada,
murmurou apenas:―«Tem graça!»―D.
Maria, porém, quasi esvoaçou sobre o
banco de pedra, n'um extasis:―«Lindo! Lindo! Que poesia!...
Oh! uma
lenda de todo o appetite!»―E, para que Gonçalo
desenrolasse ainda a
graça do seu dizer, outras maravilhas da sua Chronica:
―Conte, primo, conte... E voltou para Craquêde esse tio
Ramires?
―Quem, prima, o Gutierres?... Ou fosse elle tolo! Apenas se apanhou
livre da massada da sepultura não appareceu mais em Santa
Maria de
Craquêde. O tumulo vasio, como está, e elle por
Hespanha n'uma pandega
heroica!... Imagine! um defunto que por milagre se safa do seu jazigo,
d'aquella postura eterna, tão apertada, tão
esticada!...
Subitamente emmudeceu, lembrando o Sanches Lucena, tambem esticado no
seu caixote de chumbo, sob o seu vistoso jazigo d'Oliveira...―D. Anna
baixára a face, mais sumida no véo, esfuracando a
herva com a ponta da
sombrinha. E a esperta D. Maria, para desfazer a sombra impertinente
que
de novo os roçára, rompeu n'outra curiosidade,
que ainda se encadeava na
nobreza dos Ramires:
―É verdade! Sempre me esquece de lhe perguntar.
[334]O primo
ainda tem
muitos parentes em França... Talvez tambem não
saiba?
Sim! Gonçalo, casualmente, conhecia essa historia dos seus
parentes de
França―apezar de que o Videirinha os não
cantára no Fado!
―Então conte! Mas que seja historia alegre!
Oh, não era prodigiosamente divertida! Um avô
Ramires, Garcia Ramires,
acompanhára nas suas famosas jornadas o Infante D. Pedro, o
filho
d'El-Rei D. João I... A Prima Maria sabia―o Infante D.
Pedro, o que
correu as Sete Partidas do mundo... Pois o Infante D. Pedro e os seus
fidalgos, de volta da Palestina, pousaram um anno inteiro na Flandres,
com o Duque de Borgonha. Até se celebraram então
festas maravilhosas,
com um banquete que durou sete dias, e que anda nos compendios da
Historia de França. Onde ha danças ha amores. A
avô Ramires sobejava
imaginação e arrojo... Fôra elle que
deante de Jerusalem, no Valle de
Josaphat, lembrára que se erguesse um
signal
para que o
Infante e os
seus companheiros de romagem se reconhecessem no grande Dia de Juizo.
Depois, naturalmente, bello mocetão, de barba negra e
cerrada á
Portugueza... Emfim casára com uma irmã do Duque
de Clèves, uma tremenda
Senhora, sobrinha do Duque de Borgonha e Brabante. Mais tarde,
através
d'essas ligações, uma avó Ramires,
já viuva, casou tambem em França
[335]com
o conde de Tancarville. Esses Tancarvilles, Gran-Mestres de
França,
possuiam o mais formidavel castello da Europa, e...
D. Maria bateu as palmas, rindo:
―Bravo! lindamente! Sim, senhor!... Então o primo que se
gaba de não
saber nada de fidalguias... Olhe como conhece pelo miudo a historia
d'esses grandes casamentos! Hein, Annica?... É uma Chronica
viva!
Gonçalo vergou os hombros, confessou que se
occupára de toda essa
heraldica historia por um motivo bem rasteiro―por miseria!...
―Por miseria?
―Sim, prima Maria, por penúria de moeda, de cobres...
―Conte! conte! Olhe, a Annica está anciosa...
―Quer saber, Snr.
a D. Anna?... Pois foi em
Coimbra, no meu segundo
anno de Coimbra. Os companheiros e eu chegamos a não juntar
entre todos
um vintem. Nem para cigarros! Nem para o sagrado decilitro de
carrascão
e as tres azeitonas do dever... Um d'elles então, rapaz
muito engraçado,
de Melgaço, surdiu com a idéa estupenda de que eu
escrevesse aos meus
parentes de França, a esses Clèves, a esses
Tancarvilles, senhores de
certo immensamente ricos, e sollicitasse, com desembaraço,
um
emprestimosinho de trezentos francos.
[336]
D. Anna não conteve um riso, sinceramente divertido:
―Ai! tem muita graça!
―Mas não teve resultado, minha senhora... Já
não existem Clèves, nem
Tancarvilles! Todas essas grandes familias feudaes findaram, se
fundiram
n'outras casas, até na Casa de França. E o meu
padre Sueiro, apezar de
todo o seu saber genealogico, nunca conseguiu descobrir quem as
representava com bastante affinidade para me emprestar, a mim parente
pobre de Portugal, esses trezentos francos.
Aquella penuria de Gonçalo, de tamanho fidalgo, quasi
enternecera D.
Anna:
―Ora estarem assim sem vintem! Quem soubesse... Mas tem
graça! Essas
historias de Coimbra teem sempre muita graça. O D.
João de Pedrosa, em
Lisboa, tambem contava muitas...
D. Maria Mendonça, porém, através
d'essa facecia d'estudantes,
descortinára outra prova inesperada da grandeza dos Ramires.
E
immediatamente a estendeu deante de D. Anna com habilidade:
―Ora vejam!... Todas essas grandes casas de França,
tão ricas, tão
poderosas, acabaram, desappareceram. E cá no nosso
Portugalsinho ainda
dura a casa de Ramires!
Gonçalo acudiu:
[337] ―Acaba agora, prima!... Não olhe para mim assim espantada.
Acaba
agora... Pois se eu não caso!
Então D. Maria recuou o magro peito―como se esse casamento
do primo
dependesse de doces influencias, que convinha se trocassem bem
chegadamente, sem Marias Mendonças de permeio no estreito
banco com
grandes mangas bufantes tolhendo as correntes de effluvio. E sorria,
quasi languidamente:
―Ora não casa... Mas por quê, primo, por
quê?
―Por que não tenho geito, prima. O casamento é
uma arte muito delicada
que necessita vocação, genio especial. As Fadas
não me concederam esse
genio. E se me dedicasse a semelhante obra, ai de mim! com certeza a
estragava.
D. Anna, como se outra idéa a occupasse, puxára
lentamente do cinto o
relogio preso por uma fita de cabello. E D. Maria insistia, recusava os
motivos do Fidalgo:
―São tolices. O primo que gosta tanto de
creanças...
―Gosto, gosto muito de creancas, até de creancinhas de
mama. As
creanças são os unicos seres divinos que a nossa
pobre humanidade
conhece. Os outros anjos, os d'azas, nunca apparecem. Os santos, depois
de santos, ficam na Bemaventurança a
[338]preguiçar,
ninguem mais os enxerga.
E, para concebermos uma ideia das cousas do céo,
só temos realmente as
creancinhas... Sim, com effeito, prima, gosto muito de
creanças. Mas
tambem gosto de flôres, e não sou jardineiro, nem
tenho geito para a
jardinagem.
E D. Maria com uma faisca no olhar promettedor:
―Socegue, que ainda vem a aprender!
Depois, para D. Anna que se esquecera na
contemplação do relogio:
―Achas que vão sendo horas? Então, se queres,
entramos na Capella... Oh
primo, veja se está aberta.
Gonçalo correu, empurrou a porta da Capella. Depois
acompanhou as duas
senhoras pela pequenina nave soalhada, entre delgados pilares
recobertos
de uma cal aspera e crua―que recamava tambem as paredes lisas, apenas
guarnecidas, na sua rigida nudez, por lithographias de Santos dentro de
caixilhos de pinho. Deante do altar as senhoras ajoelharam―a prima
Maria enterrando a face nas mãos juntas como n'um vaso de
Piedade.
Gonçalo dobrou o joelho de leve, engrolou uma Ave-Maria.
Depois voltou para o adro, accendeu um cigarro. E, pisando lentamente a
relva, considerava quanto a viuvez melhorára D. Anna. Sob o
negrume do
luto, como n'uma penumbra que esfuma a grosseira deselegancia
[339]das
cousas, todos os seus defeitos se fundiam―os defeitos que tanto o
horripilavam na tarde da Bica Santa, o rolar gordo da voz, o peito
empinado, a ostentação de burgueza ricassa
pinguemente repimpada na
vida. Até já nem dizia―«o
cavalheiro!» E alli, no adro melancolico de
Craquêde, certamente parecia interessante e desejavel.
As senhoras desciam os dois degraus da Capella. Um melro
esvoaçou na
ramagem dos alamos. E Gonçalo encontrou o lampejo dos olhos
serios de D.
Anna que o procuravam.
―Peço perdão de não lhes ter
offerecido agua benta á sahida, mas a
concha está secca...
―Jesus, primo, que Egreja tão feia!
D. Anna arriscou, com timidez:
―Depois das ruinas e dos tumulos, até parece pouco
religiosa.
A observação impressionou Gonçalo,
como muito fina. E junto d'ella,
demorando os passos com agrado, sentia, esparzido pelos seus
movimentos,
pelo roçar do vestido, um aroma tambem fino, que
não era o da horrenda
agua de Colonia da botica do Pires. Em silencio, sob a ramagem das
carvalhas, caminharam para a caleche, onde o cocheiro se
aprumára, bem
estilado, tirando o chapeu. Gonçalo notou que elle
rapára o bigode. E a
parelha reluzia, atrelada com esmero.
[340]―E
então, prima Maria, ainda se demora pelos nossos sitios?
―Sim, primo, mais uns quinze dias... A Annica é
tão amavel, quiz que eu
trouxesse os pequenos. O que elles se têm divertido na
quinta, não
imagina!
D. Anna murmurou, sempre séria:
―São muito engraçados, fazem muita companhia...
Eu tambem gosto muito
de creanças.
―Ai, a Annica adora creanças! accudiu D. Maria com fervor.
O que ella
atura os pequenos! Até joga com elles o mafarrico.
Perto da caleche, Gonçalo pensou que outra volta pelo adro,
mais lenta,
com a D. Anna e o seu fino aroma, seria doce, n'aquelle socego da tarde
que findava, tingida de tão lindas côres de rosa
sobre os pinheiraes
escurecidos. Mas já o trintanario se acercava segurando a
sua