The Project Gutenberg EBook of Como atravessei Àfrica (Volume I), by
Alexandre Alberto da Rocha de Serpa Pinto
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Title: Como atravessei Àfrica (Volume I)
Author: Alexandre Alberto da Rocha de Serpa Pinto
Release Date: February 2, 2007 [EBook #20508]
Language: Portuguese
Character set encoding: ISO-8859-1
*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK COMO ATRAVESSEI ÀFRICA (VOLUME I) ***
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Mappa
2.--De Benguella ao Bihé
COMO EU
ATRAVESSEI ÀFRICA DO ATLANTICO AO MAR INDICO, VIAGEM DE
BENGUELLA
Á CONTRA-COSTA.
A-TRAVÈS
REGIÕES DESCONHECIDAS;
DETERMINAÇÕES
GEOGRAPHICAS E ESTUDOS ETHNOGRAPHICOS.
Por SERPA PINTO.
Dois Volumes.
Contendo 15 mappas e facsimiles, e 133 gravuras feitas dos desenhos do
autor.
VOLUME PRIMEIRO.
Primeira Parte--A CARABINA D'EL-REI.
LONDRES:
SAMPSON LOW, MARSTON, SEARLE, e RIVINGTON,
EDITORES,
CROWN BUILDINGS, 188 FLEET STREET.
1881.
[Tôdos os
direitos sam reservados.]
LONDRES:
NA TYPOGRAPHIA DE GUILHERME CLOWES E FILHOS (COMPANHIA LIMITADA),
STAMFORD STREET E CHARING CROSS.
A SUA MAGESTADE EL-REI D.
LUIZ 1^o,
COM PRÈVIA LICENÇA
OFFERECE ESTE LIVRO
O AUTÔR.
SENHOR,
Não foi um
sentimento de
adulação servil que me levou a pedir
licença a
Vossa Magestade para lhe dedicar este livro, foi o reconhecimento de
uma dupla dìvida de justiça e de
gratidão: de
justiça ao Monarcha intelligente e illustrado que firmou o
decreto creando recursos para a primeira
expedição
scientìfica Portugueza d'este sèculo á
Àfrica Central; de gratidão, ao
prìncipe cujos
dotes de coração e de espìrito
disputam primazias
ás suas elevadas qualidades de um dos primeiros reis
constitucionaes da Europa contemporànea.
Deu-me Vossa Magestade ensejo de prender indissoluvelmente o meu
obscuro nome de soldado Portuguez, a uma das mais felizes e auspiciosas
tentativas modernamente feitas por Portugal; por isso esse livro
pertence a Vossa Magestade como legìtimo tìtulo
da minha
immensa gratidão. Ouso rogar respeitosamente a Vossa
Magestade
queira aceitar a minha humilde offerta com a mesma benevolencia com que
se dignou dar-me incitamentos para uma empresa, da qual, depois de
realisada, fôram ainda os favôres de Vossa
Magestade a mais
sincera e não regateada recompensa.
O Vosso ajudante de campo
E o mais dedicado dos
Vossos sùbditos,
Alexandre de Serpa Pinto.
Londres, 61 Gower Street,
5 de Dezembro de 1880.
A SUA
EXCELLENCIA, O CONSELHEIRO JOÃO D'ANDRADE CORVO.
Ill^{mo.} e Ex^{mo.} S^{nr.},
Com propor o meu nome,
em 1877, na
Commissão Central Permanente de Geographia, para fazer parte
da
expedição Portugueza ao interior
d'Àfrica, assumio
Vossa Excellencia a responsabilidade da minha
nomeação.
Foi para mim pensamento constante, dar a Vossa Excellencia
satisfação plena do encargo que tomou
indigitando-me para
tão àrdua tarefa.
Este livro contem, de envolta com a narrativa das minhas aventuras, os
resultados dos meus trabalhos e estudos.
Não sei se corresponderá ao que Vossa Excellencia
esperava de mim; como não sei se cumpri os deveres que Vossa
Excellencia, em nome do paiz, me impoz.
Tenho a consciencia de que trabalhei quanto pude, e que segui, tanto
quanto em fôrças humanas cabia, o pensamento e as
instrucções de Vossa Excellencia.
A leitura da minha narrativa mostrará a Vossa Excellencia,
com
quantas difficuldades lutei, e de quão minguados recursos
dispuz.
Se, porem, os meus trabalhos corresponderem á
confiança
com que Vossa Excellencia me quiz honrar, será isso o maior
prèmio a que pode aspirar, o mais respeitoso admirador do
talento, vasto saber e elevadas qualidades de Vossa Excellencia,
Alexandre de Serpa Pinto.
Londres, 61 Gower Street,
28 de Novembro de 1880.
TRIBUTO DE
GRATIDÃO.
Vou citar nomes.
É difficil e
perigosa tarefa. Ha sempre o receio de ferir modestias, ou levantar
susceptibilidades. Não importa; sigo avante.
Será grande a lista, por serem multiplicados os
favôres; e
posso bem peccar por omissão, filha de memoria
preguiçosa.
Que me perdôem os que desejariam esconder êsses
favôres na mais velada modestia, como aquelles a quem um
lapso de
reminiscencia deixasse no olvido.
Seguindo a ordem chronològica dos factos, procurarei no
profundo
sentimento de gratidão a lembrança dos
serviços e
favôres recebidos.
Cabe á Commissão Central de Geographia o primeiro
logar
no meu reconhecimento; por me ter distinguido com a sua
escôlha
para instrumento da exploração que decidio fazer
em
Àfrica.
Proposto pelo S^{nr.} Conselheiro Andrade Corvo, fui
unànimemente aceito, e attendido nas propostas que
apresentei
para a organização da emprêsa. Falando
da
Commissão Central de Geographia, não posso
omittir de
citar nomes; porque, recebendo obsèquios de tôdos,
fui
particularmente auxiliado por muitos.
O D^{or.} Bernardino Antonio Gomes, Marquez de Souza-Hollstein, Antonio
Augusto Teixeira de Vasconcellos, sam nomes que as lousas tumulares dos
seus jazigos, não podem occultar á minha
gratidão.
O D^{or.} Julio Rodriguez, Luciano Cordeiro, o D^{or.} Bocage, Conde de
Ficalho, Carlos Testa, Pereira da Silva, Jorge Figaniere, e Francisco
da Costa e Silva, fôram os cavalheiros que, no seio da
Commissão, mais se esforçáram por me
encher de
favôres.
Outro, que só annos depois conheci pessoalmente (ausente em
quanto se organizou a expedição), não
deixou de
concorrer com o sem consêlho abalizado para a parte
scientìfica d'ella. Refiro-me ao S^{nr.} Brito Limpo.
Fora da Commissão, prestáram-me valiôso
auxilio, os
meus particulares amigos Marrecas Ferreira e João Botto.
Vem depois da Commissão Central, a Sociedade de Geographia
de
Lisboa; e com ella mais em evidencia, os seus Presidentes, D^{or.}
Bocage e Vizconde de S. Januario, e os seus Secretarios Luciano
Cordeiro e Rodrigo Pequito.
Segue-se o jornalismo Portuguez, a quem cordialmente
agradêço tôdos os favôres que
me dispensou, e
a maneira por que acolheu a minha nomeação.
Fora do paiz prestáram-me valiôso auxilio, o
S^{nr.}
Mendes Leal, Antonio d'Abbadie, e Ferdinand de Lesseps, em Paris; o
Vizconde de Duprat e o Tenente Pinto da Fonseca Vaz, em Londres; sendo
que á
cooperação d'estes cavalheiros, e só a
ella,
podémos eu e Capello ter dado conta do encargo que
tomámos de organizar em um mez o material da
expedição.
Antes de ter deixado Portugal, ha que citar ainda dois cavalheiros, que
concorrêram poderosamente para a
realização da
nossa emprêsa.
Sam o Conselheiro José de Mello e Gouvea, que
então
governava nos negocios do Ultramar, e Francisco Costa, o Director Geral
do Ministerio das Colonias.
Pedro d'Almeida Tito, e Avelino Fernandes, dispensáram-me
taes
favôres em viagem, que não posso deixar de
escrever aqui
os seus nomes.
Vem, em seguida, o do Governador de Cabo Vêrde, Vasco Guedes,
e o
do Governador d'Angola, Caetano d'Albuquerque; que ambos me
dispensáram innùmeras finezas.
Em Loanda, José Maria do Prado, Urbano de Castro, o Consul
Newton, a Associação Commercial, e
sôbre tudo os
officiaes e Commandante da Canhoneira Tâmega,
sam crèdores do meu mais profundo reconhecimento.
Apparece agora um nome que n'esse tempo echoava por todas as partes do
mundo, e assombrava com as suas façanhas o orbe inteiro:
Henrique Moreland Stanley.
O grande explorador, o ousado viajante, que acabava de fazer a mais
prodigiosa viagem dos tempos modernos, foi meu amigo, e meu
conselheiro, e d'elle recebi proveitosas lições.
Melhor
mestre não poderia ter. Que elle recêba n'estas
curtas
linhas o mais sincero tributo da grande admiração
que
nutro por elle, e a mais franca expressão da minha estima, e
da
gratidão que lhe consagro.
Em Benguella, Pereira de Mello e Silva Porto occupam o primeiro logar;
e nem me detenho a falar d'elles, que mais alto falam por mim os seus
actos narrados n'este livro. Antonio Ferreira Marquez, o Tenente
Seraphim, o pharmacèutico Monteiro, e Vieira da Silva, sam
outros tantos cavalheiros que não posso esquècer.
Santos Reis, o meu hospedeiro do Dombe Grande, e o Tenente Roza de
Quillengues, sam mais dois crèdores á minha
gratidão.
Vou dar um salto enorme, e sem me deter a falar do D^{or.} Bradshaw e
da familia Coillard, transpòrto-me ao Bamanguato, a Shoshong
(Xoxon), onde os favôres do rei Kama, e sobre tudo os de
M^{r.} e
Madame Taylor, me obrigam a não olvidar os seus nomes.
Vai começar para mim um embaraço enorme. Estou em
Pretoria; estou na primeira terra do mundo civilisado que encontro
depois de Benguella; e ali sam tantos os favôres que se me
prodigalizam, que não sei como sahir do embaraço
que
elles me causam para os agradecer.
M^{r.} Swart, o thesoureiro do Govêrno, foi o primeiro a
obsequiar-me, e será o primeiro citado.
Vem em seguida os nomes de Fred. Jeppe, Secretario Osborne, D^{or.}
Bissik, M^{r.} Kisch, Major Tylor e Capitão Saunders, e
tôdos os officiaes do Regimento 80.
A Baronêza Van-Levetzow, Madame Imink e Madame Kisch, e emfim
o Coronel Lanyan.
Sir Bartle-Frere veio logo em meu auxilio, e não se demorou
o nosso Consul Portuguez no Cabo, o S^{nr.} Carvalho.
Se dêvo muita gratidão ao Governador Inglez,
não
dêvo menos ao Consul Portuguez, que, por telegrammas
immediatos,
veio prestar-me a maior assistencia.
Monseigneur Jolivet, o sabio Bispo de Natal, então residindo
em
Pretoria, não foi dos ùltimos a encher-me de
favôres.
Em caminho para Durban, recebi um obsequio grande de M^{r.} Goodliffe,
e em Maritzburgo multiplicáram-se os obsequios do Coronel
Baker,
Capitão Whalley e Madame Saunders, e M^{r.} Furs.
Em Durban, M^{r.} Snell, o Consul Portuguez, e M^{r.} e Madame B. H. de
Waal, chefe da Handels Company em Àfrica Oriental, muito se
distinguíram em favôres prestados.
Agora é que se torna verdadeiramente embaraçosa a
minha
missão. Vou regressar á Europa, tendo terminado a
minha
viagem, e accumùlam-se os obsèquios que
recêbo a
cada momento.
Em Lourenço Marquez, sam Castilho, Machado, Maia e Fonseca.
Em
Moçambique, o Governador Cunha, Torrezão e
tôdos.
Em Zanzibar, o D^{or.} e Madame Kirk, Widmar, e sôbre
tôdos o Capitão Draper do 'Danubio' da Union Steamship Company,
que de Durban me transportou ali.
No Cairo, ainda Widmar me presta grandes favôres. Em
Alexandria,
sobressáe a tôdos o Conde e a Condêssa
de Caprara.
Ainda antes de chegar a Lisbôa, recêbo um
serviço importante do Barão de
Mendonça, em Bordeos.
Em Lisbôa, o Govêrno, primeiro, e amigos velhos e
conhecidos novos, porfiam em obsequiar-me.
Estou ali apenas dez dias, em que mal tive tempo para receber
favôres, e em que me não sobejou um minuto para os
agradecer.
Quizéram que eu fizesse uma conferencia, mal repousado ainda
das
fadigas da viagem; e sem o poderôso concurso que me
prestáram Pequito, Sarrea Prado, Batalha Reis e D^{or.}
Bocage,
impossivel me seria fazel-a.
Não querendo, não podendo mesmo, citar nomes,
tantos
seriam elles, não deixo de agradecer, com o mais sincero
reconhecimento, á Sociedade de Geographia de Lisboa tudo o
que
por mim fez.
Á Associação Commercial e ao seu digno
Presidente,
o S^{nr.} Chamisso, que sempre tomou o maior interesse pela
exploração de que eu fiz parte.
Sube em Lisbôa um facto que não posso deixar de
consignar aqui com um nome.
Agradêço ao S^{nr.} Thomas Ribeiro as ordens que
deu como
Ministro da Marinha, para que me fôssem enviados soccorros de
Moçambique para o interior d'Àfrica.
Ao Côrpo Diplomàtico residente em Lisbôa
expresso os
meus sentimentos de gratidão, e sobre todos aos S^{nrs.}
Morier,
Barão de P. Hegeurt, Laboulay, Marquez d'Oldoini, e Ruata.
Á Associação Commercial do Porto, aos
bombeiros
voluntarios d'aquella cidade, á Sociedade Euterpe e
á
Sociedade de Instrucção, aos municipios e mais
instituições do paiz que me
obsequiáram, consigno
aqui um testemunho de agradecimento.
Ás Associações Portuguezas no Brazil,
aos meus
conterraneos que longe da patria me saudáram, a elles que
nada
poupáram para mim em honras e
distincções, envio
um fraternal protesto de immensa gratidão.
Sobre todos áquelles que formáram uma sociedade
com o meu
nome, e que de Pernambuco me offerecêram um mimoso presente,
de
tal distincção, que nunca os poderei
esquècer.
Cabe agora, pela ordem dos factos, agradecer aos Soberanos estrangeiros
as altas honras com que me distinguíram, sôbre
tôdos
ao Monarcha Belga, ao Illustrado e sabio Rei Leopoldo, ao grande
impulsor do movimento geogràphico Africano moderno, que, a
par
da mais alta honra com que me podia enobrecer, me dispensou a mais
cordial estima, e me mostrou o mais affectuoso interesse.
Ás Sociedades
de Geographia da
França, principalmente ás de Paris, onde o
Almirante La
Roncière le Noury, Ferdinand de Lesseps, MM.
Daubré,
Maunoir, d'Abbadie, de Quatrefages e Duveyrier,
me enchêram
de favôres; de Marselha, que me conferio uma subida
distincção, e cujo Presidente,M^{r.} Babaut,
muito me
obsequiou; e á Commercial de Paris, onde distingo o seu
digno
Secretario Geral, M^{r.} Gauthiot.
Ainda em Paris, tenho a
nomear a
Colonia Portugueza, e nella os S^{nrs.} Mendes Leal, Conde de S.
Miguel, Camillo de Moraes, Pereira Leite, Garrido, e D^{or.} Aguiar, de
quem nunca poderei olvidar os favôres recebidos.
Ás Sociedades de Geographia Belga, e á de Anvers,
nomeadamente aos seus Presidentes, o General Liagne e Coronel
Wauvermans; e àlém d'estes cavalheiros,
não posso
deixar de falar, em um paiz onde tôdos me
obsequiáram, nos
nomes dos S^{nrs.} du Fief, Bamps, e Coronel Strauch, e ainda mais alto
no Conde de Thomar, cujos favôres repetidos e cordialidade de
trato convertêram em verdadeira amizade a sincera estima das
primeiras relações.
Cabe, pela ordem dos factos, o ùltimo lugar á
Inglaterra,
que seria talvez a primeira pêlo nùmero de
favôres
dispensados.
Principiou nas colonias Inglezas da Àfrica do Sul a ter juz
á minha gratidão este paiz, onde depois se me
tinham de
multiplicar os obsequios.
Á Sociedade
de Geographia de
Londres, ao seu Presidente o Conde de Northbrook, aos
seus Secretarios Clements Markham e Bates, aos seus Membros
Sir
Rutherford Alcock, Lord Arthur Russell, Visconde de Duprat, e muitos
outros que impossivel seria nomear, deixo aqui escritos os meus
sentimentos de reconhecimento.
Ao S^{nr.} Frederico
Youle, ao
D^{or.} Peacock, aos S^{nrs.} M. d'Antas, Sampaio, Fonseca Vaz,
Quillinan, Duprat, e Ribeiro Saraiva, a estes que alem de subidos
favôres me dispensáram grandes serviços
durante a
minha grave doença, não posso deixar de lavrar um
bem
pùblico testimunho de gratidão.
Ainda me falta citar o
nome de M^{r.}
David Ward, o Mayor de Sheffield, e do meu particular amigo, o grande e
eminente explorador Verney Lovett Cameron, para fechar a lista, que
seria interminavel a não tomar a
resolução de a
fechar aqui.
Ás Sociedades
Scientìficas dos outros paizes, e a tôdos aquelles
que
não posso citar, e que me cobríram de
favôres,
agradêço tudo quanto por mim fizéram, e
agradêço tanto mais sinceramente, quanto me custa
não os poder personalizar.
Major Alexandre de Serpa Pinto.
Londres,
5 de
Dezembro de 1880.
O LIVRO.
Não tem pretenções a obra de
literatura este livro.
Escrito sem preoccupação da forma, é a
fiel reproducção do meu diario de viagem.
Cortei n'elle muitos episòdios de caçadas, e
outros, que
um dia no descanso, produzirám um volume de caracter
especial.
Busquei sôbre tudo fazer realçar o que mais
interessante
se tornava para os estudos geogràphicos e
ethnogràphicos,
e se não me pude eximir a narrar um ou outro dos muitos
episòdios dramàticos que abundáram na
minha
fadigosa empresa, foi quando a êsses episòdios se
ligavam
factos consequentes, de importancia, ja para alterar o itinerario
projectado, já determinando demoras, ou marchas
precipitadas,
que seriam incomprehensiveis sem a exposição das
causas
determinantes.
Á Europa, e em geral ao homem que nunca viajou nos
sertões do interior d'Àfrica, não
é dado
comprehender o que se soffre ali, quaes as difficuldades a vencer a
cada instante, qual o trabalho de ferro não interrompido
para o
explorador.
As narrações de Livingstone, Cameron, Stanley,
Burton,
Grant, Savorgnan de Brazza, d'Abbadie, Ed. Mohr e muitos outros, estam
longe de pintar os soffrimentos do viajante Africano. Difficil
é
comprehendel-o a quem o não o experimentou;
áquelle que o
experimentou difficil é descrevel-o.
Não tento mesmo pintar o que soffri, não procuro
mostrar
o quanto trabalhei, que me façam ou não a
justiça
de que me julgo merecedor aquelles que examinarem os meus trabalhos,
hôje é isso para mim indifferente; porque me
convenci, de
que só posso ser bem comprehendido pêlos que como
eu
pisáram os longìnquos sertões do
continente
nêgro, e passáram os maos tratos que eu por
lá
passei.
Assim como só o homem que, sendo pai, pode comprehender a
dôr pungente da pêrda de um filho, assim tambem
só o
homem que foi explorador pode comprehender as
atribulações de um explorador. Ha sentimentos que
se
não podem avaliar sem se haverem experimentado.
Os factos narrados n'este livro sam a expressão da verdade.
Verdade triste muitas vêzes, mas que seria um crime occultar.
Procurei apresentar nêlle os resultados de um trabalho
aturado de
muitos mêzes, e garanto o que digo sôbre geographia
Africana, porque só eu sou autoridade para falar n'ella na
parte
respectiva á minha viagem, em quanto outro não
houvér seguido os meus passos atravéz
d'Àfrica, e
não me convencer do contrario.
As minhas opiniões genèricas sôbre um
ou outro
problema podem ser erròneas, sam sujeitas á
crìtica, podem cahir por terra com uma
demonstração pràtica das futuras
viagens, como tem
acontecido a asserções de muitos dos meus
antecessores os
mais illustres; mas o que não tem nem pode ter
contestação, sam os factos que eu vi, sam
aquelles que se
referem aos paizes que percorri, e que descrêvo n'este livro
com
a consciencia que deve sempre dictar as acções do
explorador.
Não fui á Àfrica ganhar dinheiro. Tive
a mesquinha
paga de official do exèrcito e não quiz outra.
Abandonei uma familia extremosamente querida; deixei a
pàtria e
tudo para trabalhar, e só para trabalhar, em
cooperação com os outros paizes, na grande obra
do estudo
do continente desconhecido, e tenho a consciencia de que fiz tanto
quanto podia fazer.
Deixo aos homens de sciencia e áquelles que sam autoridades
em tal materia o avalial-o.
Ponho ponto n'este assumpto que parecerá filho de um orgulho
que
não tenho, mas factos insòlitos apparecidos no
decurso
dos primeiros mêzes da minha residencia na Europa, depois de
ter
completado a fadigosa jornada d'Àfrica, dictáram
as
palavras que escrevi.
Ha um anno que principiei a coordenar em livro os resultados dos meus
trabalhos Africanos, mas uma pertinaz doença por
vêzes
interrompeu a vontade que nutria de dar á estampa esses
trabalhos.
Principiado em Londres em Setembro de 1879, o meu livro foi quasi
tôdo escrito nos mêzes de Setembro e Outubro, de
1880, na
Figueira da Foz, em Portugal.
A pressa com que foi terminado contribuirá de certo muito
para a incorrecção da forma.
A publicação d'elle é feita em
Londres, onde
encontrei na grande casa editora Sampson Low, Marston, Searle and
Rivington, todas as facilidades que não pude obter fora
d'ella.
Estes cavalheiros não recuáram ante a enorme
despesa a
fazer com uma tão difficil e custosa
publicação, e
leváram a sua condescendencia a fazer imprimir em Inglaterra
a
edição Portugueza; trabalho difficilimo, porque a
differença das lìnguas dos dois paizes obrigou
até
á fundição de typo, por causa dos
signaes e
accentos privativos do nossa idioma.
Devo-lhes a maior gratidão pêlo interesse que
t[~e]m
dedicado a esta publicação, para o
mèrito da qual,
se é que ella tivér algum mèrito,
elles de certo
concorrêram muito.
O S^{nr.} Antonio Ribeiro Saraiva, que, a pesar dos seus trabalhos e da
sua avançada idade, me quiz fazer o favor especial de rever
as
provas do livro; o S^{nr.} E. Weller, o cartògrapho, que se
encarregou da gravura das minhas cartas geogràphicas; o
S^{nr.}
Cooper, que interpretou magnìficamente os meus
esbocêtos
de viagem nas gravuras que illustram a obra, concorrêram
tambem
de certo muito para o valor d'ella.
Ahi vai, pois, o livro, e só desejo que elle corresponda e
sirva
á curiosidade de uns e ao estudo de outros; e venha dar
novos
incitamentos á grande e sublime cruzada do sèculo
XIX., a
cruzada da civilisação do Continente
Nêgro.
Londres, 61 Gower Street,
5 de Dezembro de 1880.
O
TÌTULO DO LIVRO.
Hôje, depois de jantar, sahi a dar um passeio, e de volta a
casa,
encontrei sôbre a minha mêsa de trabalho, pregado
com um
alfinete, um pedacinho de papel, recortado não sei de que
jornal, que dizia assim:
"O
Athenaeum diz,
que o
Major Serpa Pinto, restabelecido da sua prolongada doença,
chegou a Londres, para terminar a publicação do
livro
descriptivo da sua jornada atravez d'Àfrica.
Dá-nos
grande satisfação o saber, que o
tìtulo d'elle foi
alterado, de 'Carabina d'El-Rei,' para o de 'Como eu Atravessei
Àfrica.' 'A Carabina d'El-Rei' pode ser um
magnìfico
tìtulo para um livro de aventuras de rapazes, por Mayne Reid
ou
Gustave Aimard; mas parece um pouco deslocado na pàgina
tìtulo de um livro sèrio de explorador Africano."
É meia noute, e eu sinto necessidade de me deitar; mas antes
d'isso não posso deixar de escrever duas palavras
sôbre o
assumpto.
A consideração tinha e não tinha
razão de ser.
As viagens n'Àfrica produzem sempre um romance, e algumas
vêzes tambem um livro de sciencia.
A minha, se, como todas, é um verdadeiro romance,
não
deixa por isso de conter trabalhos geogràphicos de alguma
importancia.
Formei logo o projecto, que hôje executo, de misturar em a
narrativa esses trabalhos com as minhas aventuras, como elles tinham
sido misturados nos sertões Africanos.
A respeito do tìtulo para o livro, nada me preoccupei d'isso.
Sendo salva a expedição, e por isso
tôdos os
trabalhos que a ella se ligavam, pêla Carabina d'El-Rei,
pensei
em dar aquelle tìtulo á obra tôda.
Não me
davam cuidado juizos dos crìticos severos. A minha
justificação estaria no correr da narrativa.
Veio porem uma consideração modificar o meu
projecto.
Um homem, um ùnico homem no mundo, incapaz de me increpar em
pùblico pêlo exclusivismo do tìtulo, de
certo
pensaria um momento em que eu tinha sido injusto para com elle em fazer
sobressahir no meu livro o facto de ter sido salva a
expedição pêla Carabina d'El-Rei,
quando elle teria
igual juz á minha gratidão, tendo-me salvo por
seu turno.
Pesou-me aquelle primeiro tìtulo escolhido, como uma
injustiça que fazia a Francisco Coillard, quando esse
tìtulo me tinha sido dictado sòmente por um
sentimento de
justiça, porque sou pouco propenso a expressões
de
adulação.
Resolvi immediatamente conservar o tìtulo de Carabina
d'El-Rei
á primeira parte da minha narrativa, e dar á
segunda o
nome de Francisco Coillard, o homem que, salvando-me, salvou os
trabalhos da expedição que eu dirigia. Cumpria um
devêr.
Mas desde esse momento, era preciso dar um tìtulo geral
á
obra, e esse não é nunca difficil de se encontrar
quando
se tem atravessado um continente de mar a mar.
Eis porque o meu livro se chama hoje:--"Como eu atravessei
Àfrica."
Sei que pouco deve importar ao pùblico o tìtulo,
qualquér, de uma obra d'estas. É preciso
chamar-se-lhe
alguma cousa, e eu chamei-lhe assim.
Pesar-me-ha se elle desagradar a alguns, mas ainda assim não
me
preoccupo com isso a ponto de não me ir deitar
já,
esperando ter um sono profundo durante a noite.
Londres, 61 Gower Street,
12 de Dezembro de 1880,
á meia noite.
CONTEÜDO.
PRÒLOGO.
I.--
Como eu Fui Exploradôr
II.--
Como foi Preparada a
Expedição
EM BUSCA DE CARREGADÔRES.
Chegada a Loanda--O Governador Albuquerque--Não
ha carregadôres--Vou ao Zaire--O
Ambriz--Chêgo ao
Porto da Lenha--Os resgatados--Sei da chegada de Stanley--Vou
a
Cabinda--Tomo Stanley a bôrdo da
Tâmega--Os
officiaes da canhoneira--Stanley meu hòspede--O
nosso itinerario--Chegada do Ivens
AINDA EM BUSCA DE CARREGADÔRES.
O Governadôr, Alfredo Pereira de Mello--A casa
do Governadôr--Cousas de que não tem
culpa o Governo
da Metròpoli--O que é Benguella--O
commercio--Sou
roubado--Outro roubo--A Catumbela--Obtenho
carregadôres--Chegada
de Capello e Ivens--Nova alteração de
itinerario--Outra difficuldade--Silva Porto, o
velho sertanejo--Apparecem novos obstàculos--O
Capello vai
ao Dombe--Partida--O que é o Dombe--Novas
difficuldades--Partimos emfim
Nove dias no deserto--Falta de àgua--O ex-chefe de
Quillengues--Eu perco-me nas brenhas--Dois tiros a
tempo--Perde-se
um muleque eu e uma prêta--Perde-se um
burro--Quillengues
emfim--Morte do carneiro
Jornada a Ngola--O sova Chimbarandongo--Belleza do
caminho--Chegada a Caconda--José d'Anchieta--Nada
de
correspondencia--Chegada do Chefe--Vamos aos
carregadôres--Ivens vai ao Cunene e eu vou
ao Cunene--Volta
de casa do Bandeira--Falham os carregadôres--O meu
juizo
Parto de Caconda--O sova Quissembe--Quingola e o sova
Cáimbo--40 carregadôres--Febre--O Huambo,
o sova
Bilombo e seu filho Capôco--80
carregadôres--Cartas e
noticias--Quasi perdido!--Sigo avante--Grave
questão no
Chaca Quimbamba--Os rios Caláe, Cahungamua e
Cunene--Nova e
séria questão no Sambo--O Cubango--Chuvas
e temporaes--Grave doença--Uma aventura horrivel--O
Bihé finalmente!
PEREIRA DE MELLO, E SILVA PORTO.
No Bihé--Doença--Melhoras--A casa de
Belmonte--Decido ir
ao alto Zambeze--Cartas ao Governo--Como se organiza uma
expedição
no Bihé--Difficuldades, e como se
vencem--Noticia sôbre o Bihé--Os meus
trabalhos--Novas difficuldades--Deixo Belmonte--Até
ao Cuanza--Escravatura
Rapido Golpe-de-Vista Retrospectivo
Passagem do Cuanza--Os Quimbandes--O sova Mavanda--Os rios Varea
e Onda--Fetus
arbòreos--Atribulações--Escravos--O
rio
Cuito--Os Luchazes--Emigração de
Quibocos--Cambuta--O Cuando--Leopardos--Os Ambuelas--O sova
Moem-Cahenda--Descida do rio Cubangui--Os Quichobos--Peripecias--Parto
para o Cuchibi
AS FILHAS DO REI DOS AMBUELAS.
O Cuchibi--O sova Caú-eu-hue--Os Mucassequeres--Opudo
e Capeu--Abundancia--Bondade dos
indìgenas--Povoações e
costumes--Um vao no
Cuchibi--O rio Chicului--Caçada--Feras--O Rio
Chalongo--Uma jornada atroz--As Nascentes do Ninda--O
tùmulo de Luiz Albino--A planicie do
Nhengo--Trabalhos e
fome--O Zambeze a final
LISTA DAS
ILLUSTRAÇÕES.
FIG.
1.--Mulheres Mundombes,
vendedeiras de carvão
2.--Mulheres e Donzellas,
Mundombes
3.--Homens Mundombes (
De uma photo. de Monteiro)
4.--Homem e Mulhér
do Huambo
5.--Mulhér do Sambo
6.--O meu Acampamento entre o
Sambo e o Bihé
7.--Ponte de Cassanha
sôbre o rio Cubango
8.--O Secúlo que me
deu um Pôrco
9.--Mulheres Ganguelas das
margens do Cubango
10.--Termites na margem do rio
Cutato dos Ganguelas
11.--Monte
termìtico, de 4 metros de altura, nas margens do Rio Cutato
dos Ganguelas, coberto de vegetação
12.--Sepultura de
Secúlo
13.--Ferreiros Caquingues
14.--1. Folles; 2. Bocal de
Barro; 3. Bigorna; 4. Martello
15.--Objectos fabricados pelo
gentio entre a Costa e o Bihé
16.--Casa de Belmonte
17.--Vista exterior da
povoação de Belmonte, no Bihé
18.--Planta da
povoação de Belmonte, no Bihé
19.--Mulhér do
Bihé cavando
20.--Carregador Biheno em
marcha
21.--Palissada
sôlta; Palissada amarrada com Casca de àrvore;
Palissada travada com Forquilhas
22.--Planta de uma Libata de
gentio no Bihé
23.--Fora da Porta das Libatas
ha isto
24.--Objectos fabricados por
Bihenos
25.--Quinda, cêsta
de palha que não deixa passar a àgua; Peneiro
para secar a farinha (fuba); Peneiro de peneirar; Cabaça
para tirar àgua á capata
26.--Uma Casquilha do
Bihé
27.--Mulheres do
Bihé pisando Milho
28.--Mulheres Ganguelas
Luimbas e Loenas. Modo por que cortam os Dentes incisivos
29.--Montes
termìticos, dos terrenos entre a Costa e o Bihé
29A.--Viagem ao Cunene
30.--Passagem do Cuanza
31.--Homem e Mulhér
Quimbandes
32.--Raparigas Quimbandes
33.--Os Bihenos construindo as
Barracas nos Acampamentos
34.--Esqueleto da Barraca
35.--Barraca concluida em uma
hora
35A.--Ganguelas e Quimbandes
36.--O Sova Mavanda vem
dançar mascarado ao meu Campo
37.--Mulhér
Quimbande carregada
38.--1. Cachimbo; 2. Facas; 3.
Cacêtes de guerra
39.--Ditassoa, peixe do rio
Onda
40.--Fetus arbòreos
das margens do rio Onda
41.--Mulhér de
Cabango com o ferro de coçar a cabeça
42.--Homem de Cabango
43.--Homem de Cabango
44.--O Lago Liguri
45.--Luchaze das margens do
rio Cuito
46.--Mulhér Luchaze
carregada
47.--Isqueiro dos Luchazes,
Caixa da isca e Fuzil
48.--Atundo, Planta e Fruto
49.--Povoação
de Cambuta, Luchaze
50.--Mulhér Luchaze
de Cambuta
51.--Homem Luchaze de Cambuta
52.--Objectos fabricados pelos
Luchazes
53.--Mulhér Luchaze
do Cutangjo
54.--Cachimbo Luchaze
55.--Capoeira dos Luchazes
56.--Urivi, Armadilha para
caça
57.--Luchaze do Cutangjo
58.--Objectos Luchazes
59.--O Cuchibi
60.--Fôlha e Fruto
do Cuchibi
61.--O Mapole,
Àrvore e Fôlha
62.--Mapole, Fruto e
disposição dos Ramos
63.--Moene-Cahenda, Sova de
Cangamba
64.--Chimbenzengue. Machado
dos Ambuelas do Cangamba
65.--Cachimbo Ambuela
66.--O Quichôbo
67.--Oúco
68.--Opumbulume
69.--O Rato mencionado
70.--Songue;
70A.--Rasto do Songue
71.--Muene-Caú-eu-hue,
Chefe dos Ambuelas
72.--Mulhér Ambuela
73.--Opudo
74.--Capêu
75.--Barco e Remo do Cuchibi
76.--Tambor das festas Ambuelas
77.--Caú-eu-hue
78.--O Irmão do Sova
79.--Caçador Ambuela
80.--Chinguene
81.--Lincumba
82.--Chipulo ou Nhele
83.--O Vao do Cuchibi
84.--Azagaias dos Ambuelas
85.--Ferros de frechas dos
Ambuelas
86.--Malanca
87.--1. Cornos vistos de
frente; 2. Rasto da Malanca
88.--O Bùfalo
Africano
89.--Escudo dos Luinas
90.--O Chefe Cicota
91.--Termites do Nhengo
92.--1 e 2. Casas Luinas de
1^{m.} 5 de altura; 3. Celeiro; 4. Enxada do Lui
93.--Corte vertical de uma
Casa Luina da aldea da Tapa
MAPPAS NO
VOLUME PRIMEIRO.
Mappa No. 1.--Africa Tropical e Austral
" "
2.--De Benguella ao Bihé
" "
3.--Entre Cubango e Cuanza
" "
4.--O Paiz dos Quimbandes
" "
5.--Disposição
da àgua em Cangala
" "
6.--De Cambuta ao Cubangué
" "
7.--Paúl da nascente do
Cuando
" "
8.--De Cangamba ao Cuchibi
COMO EU ATRAVESSEI A ÀFRICA.
Primeira Parte.--A CARABINA D'EL-REI.
PRÒLOGO.
I.--Como eu fui
Explorador.
No correr do anno de 1869, fiz parte da columna de
operações que no baixo Zambeze sustentou cruenta
guerra
contra os indìgenas de Massangano. O S^{nr.} José
Maria
Latino Coelho, então Ministro da Marinha e Ultramar, dera
ordem
ao Governador de Moçambique, para que, finda a guerra, me
proporcionasse os meios de subir o Zambeze, a fazer um detalhado
reconhecimento do paiz, tão longe quanto me fôsse
possivel.
A ordem foi dada, mas não foi cumprida; e depois de
vãs
instancias, e de um ligeiro passeio pelas terras Portuguezas
d'Àfrica Oriental, voltei á Europa, com mais
desejo que
antes, de estudar o interior d'aquelle continente, que mal tinha
entrevisto.
Razões particulares de familia fizéram adiar, se
não aniquiláram, os meus projectos.
Official do exèrcito, sempre de
guarnição em
pequenas terras de provincia, fazia das minhas horas de òcio
horas de trabalho; e ainda que mal antevia a possibilidade de ir
á Àfrica, era o estudo das questões
Africanas o meu ùnico e exclusivo passatempo.
As sublimes questões de astronomia não eram por
mim
desprezadas, e o muito tempo que me deixava a vida da caserna era
repartido entre o estudo da Àfrica e do ceo.
Servia em Caçadores 12 no correr de 1875, e ali tive por
camarada um dos mais intelligentes homens que tenho conhecido, o
Capitão Daniel Simões Soares.
Pouco depois de havermos feito conhecimento, èramos ligados
por estreita amizade.
O quarto mesquinho do illustrado official, na caserna da Ilha da
Madeira, reunia-nos durante as horas em que o regulamento nos obrigava
a viver ali; e quantas vezes, estando um de nós de
serviço, têve a companhia do outro!
Àfrica, e
sempre Àfrica, era o nosso assumpto de
conversação. Apraz-me recordar esse tempo, essas
horas
que fazìamos correr velozes, debatendo questões,
que eu
mal pensava seria chamado a resolver um dia.
Em fins de 1875, redigi uma memoria, que submetti á
crìtica de Simões Soares, e de outro meu
camarada, o
Capitão Camacho; memoria filha das nossas interminaveis
palestras Africanas.
Propunha eu um meio de estudar parcialmente o interior das nossas
colonias de Àfrica Oriental, e isso com a maior
economía
para o Estado.
Depois de muito debatida a questão por nós tres,
foi a
memoria enviada ao Governo de Sua Magestade; mas sube depois que nunca
chegara ás mãos do Ministro da Marinha.
A esse tempo, eu pensava outra vez em voltar á
Àfrica,
apesar de ser chefe de familia, e de me prenderem a Portugal interesses
de subida importancia.
Por fins de 1876 voltei a Lisboa, e conheci que as questões
Africanas tinham ali tomado grande interesse com a
creação da Commissão Central
Permanente de
Geographia, e com a fundação da Sociedade de
Geographia
de Lisboa.
Falava-se muito n'uma grande expedição
geogràphica ao interior d'Àfrica Austral.
Fui procurar immediatamente o Ministro das Colonias. Era o S^{nr.}
João d'Andrade Corvo. Se não é facil
explorar a
Àfrica, não é menos difficil falar ao
Ministro, e
sôbre tudo se esse Ministro é o S^{nr.}
João
d'Andrade Corvo. Sua Excellencia tinha a seu cargo duas pastas, Marinha
e Estrangeiros, e o tempo não lhe sobejava para falar aos
importunos.
Persegui-o uns oito dias, e na vèspera da minha partida de
Lisboa, obtive uma audiencia do Ministro dos Negocios Estrangeiros.
Sua Excellencia recebeu-me com secura, dizendo-me, que podia
dispôr de pouco tempo, e perguntando-me, ¿o que eu
queria?
Travou-se entre nós o seguinte diàlogo:--
"Ouvi dizer, que V. Ex^{a.} pensa em enviar á
Àfrica uma
expedição geogràphica; e
sôbre isto venho
falar."
O Ministro mudou logo de tom para comigo, e mandou-me sentar com toda
afabilidade.
"¿Já estêve em Àfrica?" me
perguntou elle.
"Já estive em Àfrica, conheço um pouco
o modo de
viajar ali, e tenho-me occupado muito em estudar questões
Africanas."
"¿Quer ir fazer uma longa viagem na Àfrica
Austral?"
Declaro que hesitei um momento em responder. "Estou prompto a ir,"
disse por fim.
"Bem;" me disse elle, "penso em enviar uma grande
expedição á Àfrica, bem
provida de
recursos; e quando tratar de organizar o pessoal, não
esquècerei o seu nome."
"É verdade"; me disse, quando eu já ia a sahir,
"¿que condições e que vantagens pede
por esse
serviço?"--"Nenhumas," lhe respondi eu, e sahi.
Fui do Ministerio dos Negocios Estrangeiros á
Calçada da
Gloria, N^{o.} 3, e procurei o D^{or.} Bernardino Antonio Gomes,
Vice-presidente da Commissão Central Permanente de
Geographia.
Tivémos larga conferencia, e o distincto sabio,
então
todo entregue a questões geogràphicas, disse-me,
que
já tinha pensado em um distincto Official da nossa Marinha
de
Guerra, Hermenigildo Capello, para fazer parte da
expedição.
No dia seguinte parti para o Norte. A viagem e os ares do campo
fizéram arrefècer um pouco o febril enthusiasmo
que se
apossara de mim em Lisboa, e pensando maduramente, resolvi
não
ir explorar em Àfrica.
Minha mulhér e minha filha eram laços difficeis
de
romper, e cada vez que a idéa de me privar das caricias da
meiga
criança me passava pela mente, arrefècia
completamente em
mim o ardor das explorações.
De um lado, a familia, e do outro a Àfrica, eram dois
poderosos
atractivos que me tinham perplexo. Encontrei um meio de resolver a
questão. Se eu fosse nomeado Governador de um districto,
podia
ir estudar uma parte d'Àfrica, sem me separar da familia.
Fui
collocado no 4 de Caçadores, e na minha viagem para o
Algarve,
passei alguns dias em Lisboa. Não se falava mais em
expedição exploratoria, e apenas um enthusiasta,
Luciano
Cordeiro, não tinha descrido de que ella se faria; e na
sociedade de geographia, de que era Secretario, tinha levantado um alto
brado a favor d'ella. O D^{or.} Bernardino Antonio Gomes, já
de
idade provecta, tinha cedido ao peso do seu incessante labutar, e
sentia já os primeiros symptomas do mal que, pouco depois,
arrancando-lhe a vida, devia arrancar a Portugal e ao mundo uma das
maiores illustrações Portuguezas do
sèculo 19.
Eu não conhecia a esse tempo o homem ardente e illustrado a
quem hoje me prende verdadeira amizade--Luciano Cordeiro.
Todos aquelles a quem falava de exploração, me
diziam ser
cousa adiada. Ao passo que o estado em que encontrei as cousas em
Lisboa me compungia, pois que via perder-se a luz que um momento
brilhara, para dar um impulso harmònico ás
explorações Portuguezas em Àfrica; por
outro lado,
sentia um certo prazer em ver-me, por esse meio, libertado do meu
compromisso; compromisso que me separaria dos entes que me sam caros.
Nutri então a idéa de ir governar, e de me
estabelecer em
Àfrica, n'essa Àfrica em que eu queria trabalhar,
sem por
isso me separar dos meus.
Fui falar ao Ministro.
D'essa vez fui logo cordialmente recebido. Estranhei o caso,
não se falando já de
explorações.
"¿O que o traz por aqui?"--"Venho pedir a V. Ex^{a.} o
governo
de Quillimane, que está vago." O S^{nr.} Corvo rio-se.
"Tenho
missão de maior monta a confiar-lhe;" me disse; "preciso de
si
para cousa
differente de governar um districto em Àfrica; e por isso
não lhe dou o governo de Quillimane."--
"¿Então V. Ex^{a.} ainda pensa em fazer explorar
a
Àfrica? Eu com franqueza digo, que hoje não creio
que a
idéa se realize."--
"Dou-lhe a minha palavra de honra," me disse o Ministro, "que ou hei de
deixar de ser João de Andrade Corvo, ou na
pròxima
primavera, uma expedição organizada como ainda se
não organizou expedição alguma na
Europa, ha de
partir de Lisboa para a Àfrica Austral."--
"¿E conta comigo?"--
"Conto comsigo," me disse, "e em breve terá noticias minhas."
Sahi aterrado do Gabinete do Ministro.
Cheguei ao Hotel Central, e escrevi o seguinte: "Não tenho a
honra de o conhecer, mas preciso falar-lhe, e peço-lhe uma
entrevista." Sôbreescritei, a "Hermenigildo Carlos de Brito
Capello--Official de
guarnição a bordo do
couraçado
Vasco
de Gama."
No dia immediato, recebi a seguinte resposta:--"Estou hoje no
Café Martinho, ás 3 horas.--Capello."
Ás tres horas entrava no Café Martinho, e vi que
as mesas
estavam completamente desertas. Só a uma dellas estava
sentado
um primeiro tenente de marinha, que eu não conhecia mesmo de
vista. Devia ser o meu homem. Bebia pausadamente um grog, e tinha a
cabeça descoberta.
Era de mediana estatura, tanto quanto eu pude avaliar estando elle
sentado. Moreno, de olhar plàcido; o cabello raro, e
grisalho, o
pequeno bigode já esbranquiçado, davam-lhe um ar
de
velhice, que era desmentido pela tez desenrugada, e apresentando o
lustre da juventude.
"¿É o S^{nr.} Capello?"--
"Sou; ¿é o S^{nr.} Serpa Pinto? já o
esperava, e sei que, provavelmente, vem falar-me d'Àfrica."--
"É verdade. ¿Então está
decidido a fazer parte da expedição?"--
"Estou; e já n'isso falei ao D^{or.} Bernardino Antonio
Gomes."--
"Foi elle que me falou no S^{nr.}; ¿que compromissos tem?"--
"Nenhuns. Não sei bem o que o Governo quer; falei duas vezes
com
o D^{or.} Gomes; ainda não vi o Ministro, e apenas lhe posso
dizer, que, se for á Àfrica, escolherei para
companheiro
um meu amigo, e camarada na armada, Roberto Ivens.
¿Conhece-o?"--
"Não o conheço. Falei ao Ministro e elle
disse-me, que contava comigo para a expedição."--
"N'esse caso, uma vez que já tem compromissos com o
Ministro, eu desisto de ir."--
"¡Ora essa!... então desisto eu."--
"Mesmo, eu não creio que a cousa vá a effeito."--
"Nem eu creio muito; mas emfim, se for a effeito, ¿porque
não havemos de ir ambos? Não nos conhecemos,
é
verdade; mas em breve travaremos ìntimas
relações,
e creio bem chegaremos a ser amigos."--
"¿E porque não? Então, se a
expedição for ávante, iremos juntos, e
escolheremos para nosso companheiro ao meu amigo Roberto Ivens."--
"Esta dito. ¿Pensa sèriamente que o Governo
votará
uma tão grande verba como a que é precisa para
uma
empresa d'estas?"--
"Não sei, duvido; e agora ùltimamente fala-se
menos na expedição."
Conversámos largamente, e separámo-nos; tendo a
ìntima convicção de que a
expedição
nunca se realizaría.
Ainda me encontrei com Capello nos dias seguintes, e depois
separámo-nos. Elle seguio viagem no couraçado
Vasco da Gama para
Inglaterra; e eu fui tomar o commando da minha companhia em
Caçadores 4, no Algarve.
Com o descanço da vida de guarnição,
voltei ao
estudo, e tive a felicidade de encontrar um amigo no Algarve, Marrecas
Ferreira, distincto official de Engenheiros, que, meu companheiro nas
mesas do trabalho, tinha sempre um bom conselho a dar-me, nas
questões mathemàticas, que elle maneja com
intelligencia
superior. Foi por seu intermedio que travei
relações
epistolares com Luciano Cordeiro, a quem depois me devia ligar estreita
amizade.
Por esse tempo, redigi duas pequenas memorias, que por intermedio de
Luciano Cordeiro chegáram ás mãos do
Ministro da
Marinha, em que tratava do modo de organizar uma
expedição de exploração na
Àfrica
Austral.
Passáram-se mezes, e não mais me
faláram de expedição.
Recebi duas cartas do Capello, em que me mostrava a sua completa
descrença em que a cousa fosse a effeito. Eu mesmo nutria
igual
descrença. Na Commissão Permanente de Geographia
discutiam-se varios projectos de expedições; mas
tudo
ficava em discussões.
Um dia, vi nos jornaes, que o Ministro, o S^{nr.} João
d'Andrade
Corvo, apresentara no parlamento um projecto, pedindo um
crèdito
de 30 contos para uma expedição em
Àfrica; mas,
pouco depois, cahio o Ministerio, e foi o S^{nr.} José de
Mello
Gouvea encarregado da Pasta das Colonias; quando o projecto ainda
não tinha sido votado no parlamento.
Tornava-se a falar da projectada exploração; mas
os
jornaes davam por escolhidos exploradores que eu não
conhecia, e
ás vezes apenas falavam em Capello.
Eu então estava em Faro, e se me não descurava
dos meus
estudos astronòmicos e Africanos, ouvindo os conselhos de
João Botto, distincto professor da escola de Pilotos de
Faro,
não nutria já idéas de viajar. O meu
tempo era
passado entre as caricias da familia e os meus livros de estudo, e
sentia-me muito feliz, nos conchêgos do lar
domèstico,
para pensar em trocar a minha vida plàcida pelo bulicio e
azares
das viagens.
Seguia com interesse nos jornaes as noticias de Lisboa, e vi que o
nôvo ministro, José de Mello Gouvea, havia no
parlamento
apoiado a proposta de João d'Andrade Corvo, e que
fôra
votada a somma de 30 contos para uma exploração.
A morte
de Bernardino Antonio Gomes, vìctima, talves, do muito
interesse
que dedicou ao estudo das questões Africanas, n'uma idade em
que
as fadigas passadas lhe aconselhavam completo repouso de
espìrito, a morte d'esse eminente sabio, veio produzir um
grande
vàcuo na Commissão Central de Geographia. Outros,
é verdade, tomando grande interesse nas questões
palpitantes, levantavam a voz no seio da commissão; mas
discussões repetidas iam adiando a pràctica
urgente.
Eu, apesar de se ter votado a verba no parlamento, já
não
via possibilidade de se levar a effeito a
expedição em
1877; e em vista do que sabia pela imprensa, não pensava que
se
lembrassem de mim, se
aquella fosse a affeito; e devo dizel-o, dava-me isso um certo prazer.
O Algarve é um paiz delicioso; reina ali uma atmosphera
oriental, e as copas elegantes das palmeiras que se inclinam
sôbre as casas em terraços, faz-nos, ás
vezes,
esquècer de que vivemos no prosaïsmo da Europa. Eu
era ali
o commandante militar, quer dizer, que afazeres poucos tinha.
O convivio de uma sociedade escolhida; os carinhos da familia; os meus
livros de estudo, e os meus instrumentos de
observações,
faziam-me passar horas bem felizes, d'essa plàcida
felicidade
que a muitos não é dado conhecer. O lar caseiro,
o xambre
e os pantufos chegáram a ser para mim o ideal do bem-estar.
Findara o mez d'Abril, e com o de Maio viera o calor, que se faz
fortemente sentir em Faro; e eu fazia projectos para o
verão;
quando, um dia, recebo um telegrama em que me ordenavam de me
apresentar immediatamente ao General commandante da Divisão;
e
ali achei uma ordem para me apresentar sem perda de tempo ao Ministro
das Colonias.
Adeos casa, adeos xambre, adeos pantufos, adeos vida tranquilla e
plàcida junto dos meus; ahi vôlvo a correr mundo.
Quatro dias depois, em torno de uma grande mesa, n'uma grande sala do
Ministerio da Marinha, uma duzia de graves personagens, uns
d'òculos, outros sem òculos, uns velhos outros
nôvos, todos conhecidos, ou pelas sciencias, ou pelas letras,
ou
pelos seus serviços pùblicos, tratavam de
questões
Africanas. Presidía a esta solemne sessão o
Ministro
José de Mello Gouvêa.
Eram Secretarios D^{or.} José Julio Rodrigues e Luciano
Cordeiro. Conde de Ficalho, Marquez de Souza, D^{or.} Bocage, Carlos
Testa, Jorge Figaniere, Francisco Costa, o Conselheiro Silva, e Antonio
Teixeira de Vasconcellos, lembra-me que estavam ali.
Lá no fundo da mesa a um canto, encaixado na poltrona,
estava um
homem de basto cabello e basto bigode grisalho, a olhar para mim por
entre os vidros da luneta de tartaruga. Era João de Andrade
Corvo, que me dizia com o olhar: "Eu bem lhe afiancei que a cousa se
havia de fazer."
Junto de mim estava Capello, e ao cabo de duas horas
sahìamos
d'ali, com as instrucções precisas para a nossa
viagem.
Tìnhamos escolhido um terceiro socio, e esse era o tenente
Roberto Ivens, o amigo de Capello, que eu não conhecia, e
que a
esse tempo estava em Loanda a bordo do seu navio de guerra.
Estàvamos a 25 de Maio, e tomámos o compromisso
de partir
a 5 de Julho. Era muito, porque tìnhamos que vir preparar a
expedição a França e Inglaterra, e
só
dispùnhamos de um mez para isso.
Então Francisco Costa, Director Geral do Ministerio, tomou a
peito desfazer todos os obstàculos que os indispensaveis
caminhos burocràticos nos podiam trazer; e andou de modo,
que a
28 de Maio eu e Capello partìamos para Paris e Londres, a
comprar o que se nos tornava necessario. Levàvamos um
crèdito de oito contos de réis.
II.--Como foi Preparada
a Expedição.
Em Paris fomos logo procurar a M. d'Abbadie, o grande explorador da
Abissinia, e M. Ferdinand de Lesseps.
D'elles ouvímos conselhos e recebémos os maiores
obsequios.
Infelizmente, não encontrámos no mercado, nem
instrumentos, nem armas, nem artigos de viagem, taes como os
desejávamos.
Foi preciso encommendar tudo.
Com uma recommendação especial de M. d'Abbadie,
fomos
procurar os constructores de instrumentos, e durante 10 ou 12 dias,
Lorieux, Baudin e Radiguet trabalhàram para nós.
Walker tinha-se encarregado dos artigos de viagem, Lepage
(Fauré) das armas, Tissier do calçado, e Ducet
jeune da
roupa.
Feitas as encommendas em Paris, seguimos para Londres, e ali
comprámos os chronòmetros, em casa de Dent, e
alguns
instrumentos em casa de Casella; uma boa provisão de sulfato
de
quinino, e muitos objectos de cautchouc na casa Macintosh, entre elles
dous barcos e algumas banheiras.
Procurámos de balde em Londres, como tìnhamos de
balde
procurado em Paris, um theodolito que tivesse as
condições necessarias para uma viagem de tal
ordem qual
ìamos emprehender. Uns, òptimos para
observações terrestres, não tinham as
condições precisas para as
observações
astronòmicas; outros, que reuniam as
condições
requeridas, eram intransportàveis, já pelo peso,
já pelo volume.
Não havia tempo para fazer construir um de
propòsito, e
de volta a Paris, tivémos de aceitar aquelle que
já antes
nos tinha sido offerecido por M. d'Abbadie.
Recolhémos, em Paris, tudo o que tìnhamos
encommendado, e
que tinha sido fabricado em nossa curta ausencia; e no dia 1 de Julho,
desembarcàvamos eu e Capello em Lisboa, completamente
preparados
para a nossa viagem; podendo assim cumprir o nosso compromisso, de
partir para Loanda no paquete de 5. Tìnhamos feito os
preparativos em 19 dias.
Quando eu estudava o modo de me preparar para uma longa viagem em
Àfrica, tinha procurado sem resultado em livros de viagens,
o
modo porque se haviam preparado outros viajantes.
Em todas as narrativas havia escassez de
informações a esse respeito, e lembra-me ainda o
quanto isso me enfadou.
Resolvi logo, se um dia chegasse a fazer uma viagem em
Àfrica, e
se d'ella escrevesse a narrativa, não ser omisso n'essa
parte, e
dizendo quaes os objectos de que me provi, dizer quaes os que me
prestáram
serviços reaes, e quaes os que me fôram carga
inutil.
A historia das explorações d'Àfrica
está no seu comêço.
Muitos exploradores me succederám em Àfrica, como
eu
succedi a muitos, e creio fazer um bom serviço
áquelles
que depois de mim se aventurarem no inhòspito continente,
apresentando-lhes agora uma relação dos objectos
de que
me provi; e logo, no correr da minha narrativa, as vantagens ou os
inconvenientes que n'elles encontrei.
Segundo as instrucções que do Governo tinha
recebido,
podia demorar-me tres annos em viagem, e para isso me preparei.
A experiencia tinha-me mostrado, o grave inconveniente de me
sôbrecarregar de bagagens; e francamente declaro, que fiquei
aterrado quando, em Lisboa, vi o enorme trem comprado em Paris e
Londres.
Só malas tìnhamos 17! todas das mesmas
dimensões, 0^m,3 x 0^m,3 x 0^m,6.
Uma era toucador perfeito, contendo um grande espelho, uma bacia,
caixas para escovas e mais objectos competentes; outra continha um
serviço de meza e chá para tres
pessôas; e uma
terceira o trem de cozinha.
Tres outras malas de forte sola deviam conter cada uma o seguinte:--4
frascos de quinino, uma pequena pharmacia, um sextante, um horizonte
artificial, um chronòmetro, umas tàbuas
logarìthmicas, umas ephemèrides, um aneroide, um
hypsòmetro, um thermòmetro, uma
bùssola
prismàtica, uma bùssola simples, um livro em
branco,
lapis, papél e tinta; 50 cartuxos para cada arma; um
vestuario
completo, e tres mudas de roupa branca; isca, fusil, pederneiras, e
alguns pequenos objectos de uso pessôal.
Cada uma d'estas malas tinha na parte superior um estojo de costura,
escrivaninha e logar para papél. Eram pessôaes, e
pertencia cada uma a um de nós.
As outras 10 malas continham indistinctamente roupas,
calçado,
instrumentos, e outros objectos de reserva. Todas tinham fechaduras
iguaes e abriam com a mesma chave.
A nossa barraca era uma
tente
marquise
de 3 metros de lado por 2^m, 3 de alto. As camas eram de ferro, fortes
e còmmodas. As mesas de tezoura, os bancos e cadeiras de
lona.
Todos estes artigos fôram da fàbrica de Walker.
Cada um de nós tinha uma carabina magnìfica de
calibre
16, cujos canos, forjados por Leopoldo Bernard, tinham sido
cuidadosamente montados por Fauré Lepage.
Uma espingarda do mesmo calibre da fàbrica de Devisme, uma
Winchester de 8 tiros, um revólver e uma faca de mato
completavam o nosso armamento.
Em Lisboa tinha eu encommendado na Confeitaria Ultramarina 24 caixas,
das mesmas dimensões das malas, contendo, em latas
cuidadosamente soldadas, chá, café, assucar,
hortaliças secas, e farinhas substanciaes. Hoje devo aqui
lavrar
um alto agradecimento ao S^{nr.} Oliveira, proprietario da mesma
fàbrica, pelo escrùpulo que têve na
escôlha
dos gèneros que nos forneceu, e que muito nos
servìram no
comêço da viagem.
Os instrumentos que levámos fôram os seguintes: 3
sextantes, sendo um de Casella, de Londres; um de Secretan, e um de
Lorieux, verdadeiro primor. Dois cìrculos de Pistor,
fabricados
por Lorieux, com dois horizontes de espelho, e os competentes
nivéis. Um horizonte de mercurio de Secretan. Tres lunetas
astronòmicas de grande fôrça, duas de
Bardou e uma
de Casella. Tres pequenos aneroides, dois de Secretan e um de Casella;
4 pedòmetros, dois de Secretan e dois de Casella. 6
bùssolas de algibeira; 1 bùssola Bournier de
Secretan; 3
outras azimutaes, duas de Berlin e uma de Casella; 2 agulhas circulares
Duchemin; 6 hypsòmetros Baudin, 1 de Casella, 3 de Celsius
de
Berlin, dois mais muito sensiveis de Baudin; 12 thermòmetros
de
Baudin, Celsius e Casella; 1 baròmetro Marioti-Casella; 1
anemòmetro Casella; 2 binòculos Bardou; 1
bùssola
de inclinação, e um apparelho de
fôrça
magnètica, que nos fôram obsequiosamente
emprestados pelo
Capitão Evans, por entremedio de M^{r.} d'Abbadie. E
finalmente,
o theodolito universal d'Abbadie, que tem o nome de
Aba, e que
tão cavalheirosamente nos foi cedido pelo seu inventor.
Armas, instrumentos, bagagens, todos os artigos, enfim, tinham gravado
o seguinte letreiro--
Expedição
Portugueza ao interior d'Àfrica Austral, em 1877.
Duas caixas, contendo o necessario para conservar exemplares
zoològicos e botànicos nos fôram
enviadas pelos
S^{nrs.} D^{or.} Bocage e Conde de Ficalho.
Ferramentas dos diversos officios augmentavam este enorme trem, com que
ìamos deixar Lisboa, para nos internarmos nos
sertões
desconhecidos da Àfrica Austral.
CAPÌTULO I.
EM BUSCA DE CARREGADORES.
Chegada a Loanda--O
Governador Albuquerque--Não
ha carregadores--Vou ao Zaire--O Ambriz--Chego ao Porto da
Lenha--Os resgatados--Sei da chegada de Stanley--Vou a
Cabinda--Tomo Stanley a bordo da Tâmega--Os officiaes da
canhoneira--Stanley meu hòspede--O nosso
itinerario--Chegada do Ivens.
No dia 6 de Agosto de 1877, chegàvamos a Loanda, no
vapor
Zaire,
do commando de Pedro d'Almeida Tito, a quem aqui lavro um testemunho
affectuoso de muita gratidão, pelos favores que me dispensou
durante a viagem.
Desde a minha saïda de Lisboa, uma
preoccupação
constante me perseguia. A nossa bagagem era enorme, e tinha de ser
ainda muito aumentada, com fazendas, missangas e outros
gèneros,
que seriam a nossa moeda no sertão.
Em todos os livros de viagens, n'esta parte do continente Africano, li
eu as difficuldades em que se encontráram muitos
exploradores,
por não poderem obter o nùmero sufficiente de
carregadores para as cargas indispensaveis. ¿Como os obteria
eu?
Em Cabo-Verde sube, que uma carta que eu e Capello tìnhamos
dirigido ao Ivens não fôra por elle recebida; pois
que
sube ali, por um telegrama, que Ivens estava em Lisboa, e por isso
não podia ter satisfeito ao pedido que n'aquella carta lhe
fazìamos, de estudar a questão, e ver se nos
obtinha em
Loanda os auxiliares precisos. Uma tentativa feita em Cabo-de-Palmas
ficou sem resultado, e apesar do apoio que nos prestou o
Capitão
Tito, nem um só
keruboy
podémos ajustar ali.
Chegámos finalmente a Loanda, e fomos hospedar-nos em casa
do
S^{nr.} José Maria do Prado, um dos primeiros
proprietàrios e capitalistas da Provincia de Angola, que
immediatamente poz á nossa disposição,
uma das
muitas casas que possue na cidade; casa com
accommodações
bastantes para receber o enorme trem da expedição.
Do S^{nr.} Prado recebemos innùmeros favores. Na noite do
dia 6,
fomos procurados por um dos ajudantes-de-campo de Sua
Excellència o Governador-Geral, que vinha, em nome do
S^{nr.}
Albuquerque, fazer-nos os mais cordiaes offerecimentos.
No dia 7, procurámos o Ex^{mo.} Governador, que nos recebeu
affectuosamente, mostrando a maior benevolencia em desculpar os meus
trajos, que, òptimos para a vida do mato, eram, a
não
poder ser mais, ridìculos para uma visita ceremoniosa.
O S^{nr.} Albuquerque, depois de nos assegurar, que nos daria a maior
assistencia nas terras do seu governo, concluio por nos mostrar a
impossibilidade de obtermos carregadores.
Creio que nada mais desagradavel pode haver para quem quer viajar em
Àfrica, e tem 400 cargas, do-que dizer-se-lhe:
Não ha carregadores.
Decidí immediatamente ir ao Norte da provincia ver se por
ali os
poderia contratar; e n'esse sentido pedi ao S^{nr.} Albuquerque, me
mandasse transportar ao Zaire.
O só navio de guerra que podia ser posto á minha
disposição andava cruzando na foz do Zaire;
resolvi d'ir
procural-o, e no dia 8, parti n'um escalér, tripulado por 8
prêtos cabindas, que me foi fornecido pela
capitanía do Porto. Levava ordens do Governo para o
commandante
da canhoneira. Não ha nada mais desagradavel do-que fazer
uma
viagem de 120 milhas em um escalér. De Loanda ao Ambriz comi
apenas umas sardinhas e bolachas. Tendo resolvido fazer a viagem no
escalér no mesmo dia da partida, não tive tempo
de fazer
preparativos.
No dia 9, ao anoitecer, chegava ao Ambriz, bonita villa assente no
planalto de um còmoro, cujas escarpas, de 25 metros, sam
cortadas a prumo sôbre o mar.
Fazia as vêzes de chefe, um empregado de fazenda, o S^{nr.}
Tavares, que caprichou em obsequiar-me, assim como tôdos os
habitantes da villa, mormente o S^{nr.} Cordeiro, em casa de quem
estive hospedado.
Esperava-me no Ambriz Avelino Fernandes. Tive a felicidade de
conhêcer Avelino Fernandes a bordo do vapor
Zaire, e
relações ìntimas se
estabelecêram entre nós.
É filho das margens do Zaire, e tem grande paixão
por
esse rico solo, onde as àrvores gigantescas da floresta
virgem
lhe assombráram o berço. Tem 24 annos. A
côr morena
e o cabello crespo indicam que nas suas veias, de envolta com o sangue
Europêu, gira o sangue Africano. Rico, dotado de uma esmerada
educação, adquirida nos principaes centros da
Europa, e
que uma intelligencia superior soube desenvolver, é o
verdadeiro
typo do cavalheiro palaciano, que não se pôde
conhêcer sem que a elle nos prenda logo verdadeira
sympathìa. As muitas relações que elle
tinha no
Zaire podiam facilitar-me os meios de arranjar ali carregadores.
Sube no Ambriz que a canhoneira
Tâmega devia
chegar áquelle ponto dentro de dois dias; e por isso resolvi
esperal-a.
A viagem de Loanda no escalér não me tinha
deixado
recordações tão fàgueiras,
para que eu
persistisse em continuar para o norte da mesma forma.
No dia 10, fui visitar a villa e seus suburbios, e em dois
traços vou narrar o que vi.
Do planalto em que assenta a povoação
Europêa,
desce-se para a praia por um caminho em zigzag, que estava sendo
reconstruido por alguns grilhetas. Na praia, entre dois soberbos
edificios, que sam armazens das casas commerciaes Franceza e
Hollandeza, ostenta-se um albergue, meio-derrocado pêla
velhice,
meio-em-construcção recente
não-continuada, que
é a Alfàndega; Alfàndega sem
depòsitos,
onde as fazendas, arrumadas á porta sôbre o areal,
pagam
um irrisòrio tributo de armazenagem. A N.N.E. da villa,
muitos
hectares de terreno sam occupados por um pàntano, inferior
de 3
metros e 12 centìmetros ao maior preamár; e na
encosta da
escarpa que do planalto da villa desce ao pàntano, assentam
as
cubatas da povoação indìgena, nas
peiores
condições de salubridade. Ao sul da villa, entre
umas
moitas de mato virgem, é o cemiterio--onde os
cadàveres
enterrados de dia, sam pasto das hyenas á noite.
A ponte de desembarque, construida de ferro e madeira, está
prestes a ser inutilizada; porque a oxidação do
ferro em
contacto com o ar e a àgua, produz-se cêdo; e a
ponte
não foi pintada, não ha verba para sua
conservação, nem alguem que por ella vigie.
A casa do chefe é um pardieiro derrocado, onde ha verdadeiro
perigo em habitar.
O paio ameaçava ruina; e isso fêz-me
impressão,
porque elle contém a pòlvora do commercio, que
não
rende menos de duzentos mil réis mensaes para o Estado.
É bem de esperar, que nos dois annos decorridos depois da
minha
visita ao Ambriz, se tenham dado mais cuidados áquella
bonita
villa, cuja importancia é patente, sendo um grande centro de
commercio.
Um kilòmetro ao N. da ponte de desembarque, lança
no
Atlàntico as suas àguas o rio Loge, cuja foz
é
obstruida por um banco de areia, que lhe dá difficil
accesso,
mas que depois é navegavel por uns trinta
kilòmetros.
No dia 11, fui visitar a importante propriedade agrìcula,
fundada pêlo cèlebre Jacintho do Ambriz, e
hôje
pertença de seu filho Nicolao. Esta propriedade representa
um
dos maiores esfôrços feitos na provincia de
Angola, para o
desenvolvimento da agricultura.
Jacintho do Ambriz foi levado á Àfrica por uma
desgraça ìntima. Filho do povo, sem a menor
instrucção, não sabendo mesmo ler ou
escrever (mas
dotado de uma razão clara, de um espìrito fino, e
de
muita felicidade), chêgou a fazer uma grande fortuna.
Jacintho
casou no Ambriz com uma mulhér da sua igualha. Era a tia
Leonarda, mais conhêcida por
tia Lina,
natural da Beira-Alta; e em 1877, a conhêci eu vestida sempre
á moda das camponezas da Beira, falando a linguagem vulgar
que
fala o pôvo
d'aquella provincia, como se de lá tivêsse
chêgado.
Na sua casa comi um jantar beirense, e por um momento julguei-me
transportado a uma das hospitaleiras casas dos nossos lavradores do
Norte. A tia Lina entrou muito na felicidade que levou Jacintho
á riqueza.
Jacintho fazia o commercio, e esse commercio, na Àfrica,
obriga a dois distinctos ramos:
Adquirir dos brancos fazendas, e vender-lhes os productos do paiz; e
adquirir dos prêtos esses productos, vendendo-lhes as
fazendas.
Era Jacintho que fazia o commercio com os brancos, e a tia Lina com os
prêtos.
Jacintho, dotado de uma alma generosa, era muitas vêzes
vìctima da sua boa fé, e das
extorções de
alguns chefes; o que provocava uma phrase á tia Lina, que eu
muitas vêzes ouvi repetir: "Ah! Jacintho, os brancos
esmagam-te;
mas eu esmago os prêtos!"
O verbo empregado pêla tia Lina não era
precisamente o verbo
esmagar,
mas, por muito enèrgico, substituo-lhe outro algo semelhante.
Um dia, Jacintho deu em
ser lavrador.
Era a costumeira de criança que puxava por elle. Comprou
terreno, e lançou os fundamentos d'essa vastissima
propriedade
que é digna de ser visitada; e á qual dedicou o
seu
trabalho e a sua bôlça, até ao
ùltimo
momento de vida que têve.
Era Jacintho conhecido por estropiar as palavras, e citam-se d'elle
tolices engraçadissimas, pêlo mao emprego de um ou
de
outro vocàbulo que decorara, mas cuja
significação
não conhecia bem; com tudo, tinha muito espìrito,
e ha
d'elle anecdotas engraçadas. Esta por exemplo:
Já elle se achava estabelecido na sua propriedade do Loge;
mas,
logo que ao porto chêgava navio de guerra Portuguez, ia a
bordo
fazer offerecimentos aos officiaes; que de genio era franco.
Um dia que elle fôra a bordo, o commandante pediu-lhe um
macaco.
"¿Quantos quizér?" lhe respondeu Jacintho; "mande
ámanhã um escalér, pelo Loge
até minha
casa, buscal-os."
No dia seguinte, um escalér, tripulado por seis homens,
encostava ao muro do jardim de Jacintho. Fêz elle subir o
escalér até dois kilòmetros mais, e
chêgando
á vertente de um monte coberto de gigantes baobabs, em cujos
ramos horizontaes pulavam centos de macacos, disse aos marinheiros:
"Tôdos estes macacos sam meus, vivem cá dentro da
minha
propriedade; tendes licença de apanhar quantos quizerdes e
leval-os ao commandante."
Os marinheiros encaráram com os cimos elevadissimos das
enormes
àrvores, cujos troncos, de espantoso diàmetro,
não
lhes permitiam a subida; e depois de alguns vãos
esfôrços, retiráram desanimados,
perseguidos
pêla grita e pêlas caretas da macacaria.
"Eu dei-lhos; se os não levam, não é
culpa minha," dizia o Jacintho, rindo ás gargalhadas.
Visitei a propriedade, e uma cousa que me impressionou foi ver, que,
màchinas, apparelhos, instrumentos, etc., tudo era de
fàbrica Portugueza.
Nada Jacintho admitia que não fôsse Portuguez, e,
custassem-lhe o dôbro, fazia elle fabricar em Lisboa
tôdos
os seus artigos, já para a agricultura, já para a
industria.
A memoria d'esse homem obscuro--mais conhêcido
pêlos
disparates que dizia, do-que pêlas muitas cousas acertadas
que
fêz--dêve ser respeitada por tôdos os que
se
interessam pêlo desenvolvimento Africano; porque elle foi o
homem
que, nos modernos tempos, maior serviço fêz, para
desenvolver a agricultura em colonia Portugueza, empregando n'isso a
sua immensa fortuna, e trabalhando até ao seu
ùltimo dia.
Na margem esquêrda do Loge, assenta outra propriedade
agrìcula, tambem importante, pertencente ao S^{nr.} Augusto
Garrido. Não tive tempo de a visitar, porque, no dia que ali
passei, não pude esquivar-me aos muitos favores de Nicolao e
tia
Lina, e tudo o tempo foi pouco para admirar o que ali, no brejo
agreste, a vontade do homem tinha feito.
No dia seguinte, chêgou a canhoneira Tâmega,
e sube, indo a bordo, que se achava sem mantimentos, e com grande
nùmero de praças doentes; motivo por que combinei
com o
commandante, o S^{nr.} Marques da Silva, esperal-o no Ambriz, em quanto
ia a Loanda refrescar.
Três dias depois chêgou a Tâmega de
volta de Loanda; indo eu logo para bordo, com Avelino Fernandes,
seguímos viagem no mesmo dia para o Zaire.
Eu tinha adoecido com uma bronchites aguda, de que felizmente melhorei
logo que comêçou a viagem.
Subímos o Zaire até ao Porto da Lenha, onde
desembarquei
com Avelino Fernandes, que me apresentou aos seus amigos d'ali. Falei
logo em carregadores. Disséram-me, que seria,
talvêz,
possivel obtel-os, se os chefes indìgenas me
quizêssem
auxiliar; mas que, o melhor meio para mim, era resgatar escravos, e em
seguida contratal-os para o serviço que eu exigia.
Repugnou-me a idéa de comprar homens, embora fôsse
para os
libertar em seguida. E depois, ¿quem sabe se elles me
quereriam
acompanhar sendo livres?
Resolvi immediatamente não proceder d'este modo, embora
não obtivêsse um só carregador ali.
Na casa em que estava sube que tinha chêgado a Boma, no dia
9, o
grande explorador Stanley, que descera tudo o curso do Zaire. Stanley
tinha seguido para Cabinda.
Voltei a bordo e combinei com o Commandante irmos a Cabinda offerecer
os nossos serviços ao arrojado viajeiro.
Partímos, e logo
que ancorámos no porto, fui a terra, com Avelino Fernandes e
alguns officiaes da canhoneira.
Foi commovido que apertei a mão de Stanley, homem de pequena
estatura, que a meus olhos assumia proporções de
vulto
colossal.
Offereci-lhe os meus serviços, em nome do Governo Portuguez,
e
disse-lhe, que se quizêsse ir a Loanda, d'onde mais
facilmente
poderia obter transporte para a Europa, o Commandante Marques lhe
offerecia transporte a elle e aos seus a bordo da canhoneira. Em nome
do Governo Portuguez puz á sua
disposição o
dinheiro de que carecêsse.
Stanley respondeu-me com um vigoroso aperto-de-mão.
Os officiaes da Tâmega
confirmáram os meus offerecimentos em nome do seu
Commandante.
Stanley aceitou, e desde esse momento, ficou a canhoneira á
sua disposição.
Como bem se pôde calcular, eu e Avelino Fernandes
não
deixàvamos Stanley, e àvidos de ouvir a
narração da sua viagem, o tempo que elle tinha
preso, era
por nós passado a questionar os seus homens.
No dia 19, os officiaes da Tâmega
déram
um soberbo banquête ao intrèpido explorador, para
o qual
convidáram o Commandante Marques, Fernandes e a mim.
No dia 20, partímos para Loanda, levando a bordo
tôda a
comitiva de Stanley, que se compunha de 114 pessôas, entre
ellas
12 mulhéres e algumas crianças.
Stanley, em Loanda, foi hospedar-se em minha casa;
distincção a que eu fui muito sensivel, porque
recusou,
para isso, os muitos convites que têve, e com elles
commodidades
que eu não podia offerecer-lhe, n'uma casa onde tinha por
mobilia os meus utensilios de viajeiro.
O Governador mandou logo comprimentar o ilustre Americano, e
offereceu-lhe um banquête, a que assisti. De volta a casa,
perguntei a Stanley, ¿qual a impressão que trazia
do
S^{nr.} Albuquerque? E elle disse-me apenas: "He is a very cold gentleman."
("É um cavalheiro mui frio.")
O Consul Americano, o S^{nr.} Newton, deu-nos um
almôço, e muitos favores nos dispensou.
Haviam festas e banquêtes; mas, a 23 de Agôsto,
ainda
não tìnhamos um só carregador; e na
noite do
jantar offerecido a Stanley pêlo Governador, me repetira sua
Excellencia, que não me seria possivel obtel-os,
sôbre
tudo em Loanda; mostrando-me a difficuldade em que se encontrara o
Major Gorjão, que apenas tinha podido obter metade do
nùmero de homens de que precisava, para estudar a
linha
ferrovial do Cuanza.
É tempo de falar dos nossos projectos, segundo a lei, e as
instrucções do Governo.
O Parlamento votara uma somma de 30 contos de réis para se
estudarem as relações hydrogràphicas
entre as
bacias do Congo e Zambeze, e os paizes comprehendidos entre as
Colònias Portuguezas de uma e outra costa
d'Àfrica
Austral.
Umas instrucções subsequentes indicavam mais
particularmente o estudar-se o rio Cuango, nas suas
relações com o Zaire; o estudo dos paizes
comprehendidos
entre as nascentes do Cuanza, Cunene, Cubango, até ao
Zambeze
superior; indicando, que, se possivel fôsse, deveria
estudar-se o
curso do Cunene.
O que fôra
designado na lei do
Parlamento, elaborada pêlo S^{nr.} Corvo, parece ao
principio problema vasto de mais para uma só
expedição, e uma verba de trinta contos de
réis;
mas a lei foi bem redigida. O S^{nr.} Corvo sabía, que o
viajante em Àfrica, não só nem sempre
é
senhor dos seus passos, mas tambem, que no seu caminho pôde
encontrar um não-previsto problema, que julgue de
importancia
superior á do que lhe foi designado; e por isso deixou a
maior
latitude aos exploradores.
Quanto ás instrucções, fôram
ellas mais
restrictas, mas ainda assim, deixavam bastante largos os movimentos da
expedição.
O ponto de entrada, como dependia essencialmente do logar onde
obtivèssemos carregadores, ficou indeterminado.
Tìnhamos eu e Capello pensado em entrar por Loanda, seguir a
leste, até encontrar o Cuango; descer este rio por dois
graos;
passarmos ao Cassibi, que intentàvamos descer até
ao
Zaire; e finalmente, reconhêcer o Zaire até
á sua
foz.
Com a chêgada de Stanley, tendo elle feito uma parte do
trabalho
que nós propunhamos fazer, e sôbre tudo a
impossibilidade
de obter carregadores em Loanda, tivémos de modificar
completamente o nosso plano.
Decidímos, que fôsse eu ao Sul procurar
carregadores em
Benguella; e que, se ali os obtivêsse, entràssemos
pêla foz do rio Cunene, subindo-o até
ás suas
nascentes; e depois seguìssemos com os nossos estudos para
S.E.,
até ao Zambeze.
Como não podìamos ter grande confiança
na gente
que ajustàssemos, lembrámo-nos de pedir ao
Governador um
certo nùmero de soldados, que fôssem, por assim
dizer, a
escolta de vigia. Sua Excellencia accedeu e mandou saber aos
regimentos, se alguns soldados nos quereriam acompanhar; porque,
não sendo aquelle serviço regular, não
podia
compellir os soldados a irem.
Ficou, pois, decidido, que eu partisse para Benguella no vapor que no
principio de Setembro devia chêgar de Lisboa.
N'esse vapor veio o Ivens, que pêla primeira vêz eu
via.
Sympàthico, ardente, dotado de grande verbosidade, e muito
enthusiasmado pêlas viagens difficeis, depressa me ligou a
elle a
amizade. Narrámos-lhe tudo o que resolvêramos
fazer, e as
difficuldades que tìnhamos encontrado até
então.
Ivens concordou com-nosco, e ficou definitivamente resolvida a minha
partida para Benguella, no dia 6.
Preparei-me logo para partir, e fui dar parte d'isso ao Governador.
Durante a minha ausencia os meus companheiros deviam preparar as
bagagens, que estavam em grande desarranjo, com a nossa precipitada
partida da Europa.
Cabe aqui contar um episodio que me aborreceu bastante; porque poderia
ter feito, que Stanley julgasse do caracter meu e dos meus
companheiros, differentemente do que o devia fazer.
No dia 5, ao almôço, conversàvamos eu,
Capello,
Ivens, Stanley e Avelino Fernandes, a respeito da escravatura, e
mostràvamos a Stanley o espìrito das leis
Portuguezas
sôbre o infame tráfico; notando-lhe a falsidade de
asserções de estrangeiros a nosso respeito; e a
impossibilidade de fazer então escravos onde o Governo tinha
força. Discorrìamos ácerca do
assumpto, quando
Capello têve de ir a Palacio falar ao Governador.
Voltou uma hora depois, e logo em seguida recebia Stanley uma carta
official do S^{nr.} Albuquerque, a pedir que lhe certificasse,
¿se nas terras do seu governo se fazia escravatura? Stanley
veio
sorprendido
mostrar-me a carta, e não menos sorprendidos
ficámos eu,
os meus companheiros, e Avelino Fernandes. Effectivamente, a nossa
conversação ao almôço, e
aquella carta
depois de um de nós ir a Palacio, pareceria ao illustre
viajante
uma comedia habilmente preparada.
Stanley podia certificar a sua Excellencia, que a bordo da
Tâmega,
em minha casa, em casa de sua Excellencia, e na do Consul Newton,
não tinha visto fazer escravatura. Fora d'isto, Stanley,
como
sua Excellencia muito bem sabía, só por
informações nossas poderia falar, convivendo
quasi
exclusivamente com-nosco, e não tendo visitado ponto algum
do
paiz governado pêlo S^{nr.} Albuquerque. Era querer o S^{nr.}
Governador viesse Stanley a pagar caro um jantar e os seus favores,
pedir-lhe um certificado que elle Stanley nunca deveria ter passado.
Stanley, creio eu, fêz-nos a justiça de pensar que
èramos estranhos áquella carta.
No dia 6, parti para Benguella, levando cartas do S^{nr.}
José
Maria do Prado para alguns particulares, e nem uma
recommendação para o Governador do Districto, que
eu
não conhecia.
Ia outra vêz á busca de carregadores, que eu,
Portuguez,
não tinha podido obter em Loanda, e que, 4 mezes depois,
tinha
ali obtido um estrangeiro, o explorador Schutt, que não
encontrou as menores difficuldades, para seguir o primeiro caminho que
nós tìnhamos tencionado seguir.
Em viagem conheci um passageiro que me disse ser possivel obter alguns
carregadores em Nôvo Redondo, e que se comprometteu a
contratar
ali uns 20 ou 30.
Foi já um pouco animado com esta promessa, que
chêguei a
Benguella, no dia 7 á noite; e ainda que levava cartas de
recommendação para alguns negociantes, fui
procurar o
Governador, e pedir-lhe hospedagem.
CAPÌTULO II.
AINDA EM BUSCA DE CARREGADORES.
O Governador, Alfredo
Pereira de Mello--A casa
do Governador--Cousas de que não tem culpa o
Governo da
Metròpoli--O que é Benguella--O
commercio--Sou
roubado--Outro roubo--A Catumbela--Obtenho
carregadores--Chêgada
de Capello e
Ivens--Nôva alteração de
itinerario--Outra difficuldade--Silva Porto, o
velho sertanejo--Apparecem nôvos
obstàculos--O
Capello vai ao Dombe--Partida--O que é o
Dombe--Nôvas
difficuldades--Partimos emfim.
Alfredo Pereira de Mello,[
1]
Governador de Benguella, ao ouvir o meu
pedido de hospedagem, mostrou um embaraço que percebi, e
disse-me, que não tinha meio de me receber em sua casa.
Sorprendeu-me o caso, sabendo eu que o Governador era bizarro de genio
e de natureza franco. Tive convites, logo á minha chegada,
já de Antonio Ferreira Marques, já de Cauchoix;
mas
persisti no intento de hospedar-me em casa do Governador.
Elle disse-me, que não tinha cama a offerecer-me, e eu
mostrei-lhe a minha cama de viagem; porque fui logo pondo em casa
d'elle a minha bagagem. Disse-me, que não tinha quarto;
apontei-lhe para um canto da sala em que estàvamos, onde
ficaria
òptimamente.
Não havia mais que dizer, e fiquei. Aguçava-me a
curiosidade a resistencia do Governador em negar-me a hospitalidade que
pedia; mas cêdo desvendei o misterio.
Alfredo Pereira de Mello era homem nôvo, ainda que tinha
já uma patente superior na armada. Sympàthico e
intelligente, é estimado por tôdos aquelles que o
conhêcem de perto; porque a uma finissima
educação,
reune grande rectidão de caracter, e a energía
peculiár a tudo bom marinheiro. Serviu na marinha Ingleza, e
tem
de viagens larga pràtica.
Vio as Amèricas, e antes de ir para Àfrica como
Ajudante-de-Campo do Governador Andrade, tinha visitado a India, a
China e o Japão.
O Governador, que já me conhêcia de nome, ao ouvir
o meu
pedido, esquèceu que tinha diante de si o explorador, para
só se lembrar do homem habituado a viver no meio do luxo e
das
commodidades. Pereira de Mello têve vergonha de hospedar-me.
Um Governador de Benguella, se é recto e probo, vive
mesquinhamente com a paga que recebe.
A casa do governo é arrendada. A mobilia, um pouco menos de
modesta, guarnece a sala e um quarto.
Na sala, destoa da mobilia, ricamente amoldurado, um retrato d'El-Rei,
o melhor que tenho visto.
E com-tudo a este porto, v[~e]m repetidas vêzes navios de
guerra
estrangeiros, cujos officiaes visitam o Governador, regalam-n-o a
bordo; e elle nem um copo d'àgua lhes pôde
offerecer em
sua casa, porque a prêta ou o muleque tem de trazer o
côpo
n'um prato velho. O serviço de mesa era, creio eu, a espada
de
Damocles suspensa sôbre a cabêça de
Pereira de
Mello, ao ouvir a minha teimozía em ficar. Não
tinha
razão. O asseio que presidía a tudo,
suppría o
vidrado da louça gasto com o tempo, e os manjares simples,
mas
bem cozinhados, avivavam o appetite já derrancado
pêlos
ares Africanos; e não se offenda o cozinheiro do Hotel
Central
em Lisboa, se eu lhe dizer, que comi melhór em casa do
Governador de Benguella do que comia dos seus opìparos
manjares,
ainda que a prêta Conceição, cozinheira
do
Governador, nunca ouvio falar do heroe das caçarolas, o
cèlebre Brillat-Savarin.
Pereira de Mello, logo ao primeiro dia de convivencia, abrio-me o seu
coração, mostrando-me a menos que singeleza da
sua vida
interior. Três officios dirigidos ao Governo da Provincia, em
que
pedia autorização para fazer algumas reformas
caseiras,
tinham ficado sem resposta.
Isto não é de estranhar, porque foi sempre assim.
Em um copiador de correspondencia, que existe nos archivos do Governo
de Benguella, li eu uns officios datados de 1790, em que o Governador
de então já se queixava a El-Rei das mesmas
faltas; por a
ellas lhe não dar remedio o Governador Geral da Provincia, e
entre outras cousas que pede com urgencia, figuram os reparos para duas
peças de bronze que designa, e que ainda hôje os
carecem.
Sam as mesmas de que fala Cameron; o que elle vai saber agora
é,
que os reparos já fôram encommendados e
não podem
tardar em chegar; porque, sendo a encommenda d'elles feita em 1790,
dêve estar quasi concluida a sua
construcção.
Benguella é uma bonita cidade, que se estende desde a praia
do
Atlàntico até ao sopé das montanhas
que formam o
primeiro degrao do planalto da Àfrica tropical. É
cercada
de uma espessa floresta, a Mata do Cavaco, ainda hoje povoada de feras;
e isso não admira, que os Portuguezes, em geral, de
caçadores não t[~e]m manhas. As
habitações
dos Europêos occupam uma grande àrea, porque todas
as
casas t[~e]m grandes quintaes e dependencias.
Os quintaes sam cuidados; produzem todas as hortaliças da
Europa, e muitos frutos tropicaes.
Vastos pàteos cercados de alpendres servem para dar guarida
ás grandes caravanas que do sertão descem
á costa
em viagem de tràfico, e que repousam três dias na
casa
onde effeituam as permutações.
Um rio, que na estação estía apenas
é larga
fita de àrea branca, que se desenrola das montanhas ao mar,
a
travez da floresta do Cavaco, é ainda assim a grande fonte
de
Benguella, que os poços ali cavados dam àgua boa
philtrada pêlas àreas calcàreas.
Nas ruas da cidade, largas e direitas, crecem dois renques de
àrvores, pela maior parte figueiras sycòmoros, de
pouco
arraigadas, e por isso ainda pequenas. As praças sam vastas,
e
em uma ajardinada, crescem bonitas plantas de vistoso aspecto.
As casas, todas terreas, sam construidas de adôbes, e os
pavimentos sam, em umas de tijolos, e de madeira em outras.
A alfàndega é bom edificio, recentemente
construido, e
tem vastos armazens para as mercadorias do tràfico. Esta
alfàndega, e o largo ajardinado, como outros melhoramentos
de
Benguella, fôram de um Governador, Leite Mendes, que de si
deixou
rasto.
Uma ponte magnìfica de architraves de ferro, creio que
encommendada pêlo mesmo Leite Mendes, mas muito
posteriormente
montada pêlo Governador Teixeira da Silva, é
guarnecida
por dois guindastes e carrís, por onde, em vagonetes, se
transportam as mercadorias das lanchas á
alfàndega. Eu
aqui commetti um erro de grammàtica, escrevendo o verbo
transportar no presente do indicativo, quando no condicional
é
que era.
Transportariam,
se houvesse pessôal para isso; mas não
transportam, porque
o não ha.
Tem a cidade um templo decente, e um cemiterio bem collocado e murado.
A povoação Europêa é
cercada, por todos os lados, de
senzalas, ou
povoações de prêtos, e mesmo entre a
povoação branca ha pequenas
senzalas, em
quintaes abandonados. O seu aspecto geral é agradavel e
aceiado.
Tem Benguella má fama entre as terras Portuguezas de
Àfrica; e supõem muitos, ser aquillo um paiz
infecto, que
exhala de miasmàticos pàntanos a peste, e com a
peste a
morte.
Não é assim. Eu não conhêci
Benguella como
ella fôra em tempos passados; mas hôje,
não é
nem melhor nem peior do que outros muitos pontos d'Àfrica.
O aceio e as plantações de arvoredo, de certo
t[~e]m.
modificado muito as suas anteriores condições
hygiènicas, e com uma pouca de boa vontade, não
seria
difficil o seu saneamento; o que estou certo se fará, porque
não pôde deixar de merecer verdadeira
attenção um ponto de tão subida
importancia
commercial, e em facil contacto com tão ricas terras nos
sertões.
Os principaes productos que alimentam o commercio de Benguella sam
cêra, marfim, borracha e urzella, que chêgam
á
cidade trazidos pêlas caravanas dos sertões. Estas
caravanas sam de duas espècies. Umas, dirigidas por agentes
das
casas commerciaes, trazem ás mesmas casas que os despacham
os
productos do seu tràfico no interior; outras, exclusivamente
compostas de gentio, descem a negociar por canta propria, onde melhor
ganho encontram.
O tràfico com o gentío faz-se por
permutação directa do gènero por
fazenda de
algodão, branco, riscado ou pintado. Os outros productos
Europêos sam objecto de uma segunda
permutação
pêla fazenda recebida; e assim, depois da primeira troca do
marfim ou cêra pelo algodão, é este
trocado por
armas, pòlvora, àgua-ardente, missanga, etc.,
á
vontade do comprador; porque a fazenda de algodão
é, por
assim dizer, a moeda corrente n'este tràfico.
O commercio está entre mãos de Europêos
e crioulos,
e felizmente já ali encontrámos muitos d'esses
rapazes
que, aventurosos, deixam patria e familia, para ir em terras longinquas
buscar fortuna.
Alguns deportados de menor importancia tambem negociam, já
por conta propria, já como empregados de casa alheia.
Os maiores criminosos do Reino, os condenados por tôda a
vida,
sam deportados para Benguella, do que resulta, encontrar-se ali
quantidade de patifes, de que é bom resguardar-se;
não os
confundindo com a gente digna e capaz, que a ha.
A policia é confiada á fôrça
militar, que um
dos regimentos destaca para Benguella; sendo que de Benguella ainda sam
espalhadas differentes fôrças nos
concêlhos do
interior; desfalcando a guarnição da cidade,
já de
si pequena.
Nós temos dois exèrcitos, um na
Metròpoli, outro
nas colonias, que nenhuma relação t[~e]m entre si.
O nosso exèrcito da Metròpoli é bom,
porque o
Portuguez é bom soldado; o nosso exèrcito das
colonias
é mao, porque o prêto é mao soldado; e
os brancos
que ali servem de mistura com prêtos, sam peiores ainda do
que
estes. Deportados por crimes que os excluíram da sociedade,
fazendo-lhes perder na Europa o fôro de cidadãos,
vam
desempenhar em Àfrica o posto nobre do soldado; sendo a
nossa
autonomía Africana, e a segurança
pùblica e
particular, confiada á defeza de homens, que dam por
garantía um detestavel passado.
Dahi as contìnuas scenas de caracter vergonhoso que se
presenceiam ali. Durante a minha permanencia em Benguella, houve um
grande roubo com arrombamento, no cofre militar. O Governador houve-se
com a maior energía na maneira porque procedeu para
descobrimento dos culpados, sendo muito coadjuvado pêlo seu
Secretario, o Capitão Barata, que conseguio descobrir os
ladrões, e haver o dinheiro roubado. Fôra o roubo
planeado
pêlo proprio sargento do destacamento, e levado a effeito por
elle e alguns soldados!!!
Se o nosso exèrcito Metropolitano não se presta
á
censura do homem mais pichoso, as nossas fôrças
coloniaes
sam vìctimas das merecidas chufas de tôdos os
estrangeiros, que as observam.
Por mais que tenha cogitado, nunca pôde attingir ao
prèstimo de tal exèrcito em nossas colonias, que
para
policia não serve; servindo menos para a guerra, que da
minha
lembrança tenho visto ser feita por côrpos
voluntarios,
levantados no reino, e que àlém vam servir por
certo
praso. Hôje mesmo, em Lisboa, três
batalhões estam
sempre prontos a marchar para as colonias, e já
lá t[~e]m
ido; o que prova sabermos nós, que o ter exèrcito
no
ultramar, tal como elle é, não passa de velha
costumeira.
Na noite da minha chegada a Benguella, fiz o conhêcimento do
Juiz
de Direito Caldeira, que se associou ao Governador para me certificar,
que, como elle, empregaria tôda a sua influencia para que eu
não tivêsse vindo de balde a Benguella, e assim o
fêz.
O Governador convocou os moradores importantes a uma reunião
em
sua casa, e expondo-lhes os motivos da minha viagem, e o meu projectado
itinerario, pediu-lhes que o coadjuvâssem na empresa de
arranjar
carregadores; para que eu podêsse levar a cabo a
expedição. Todos assim o prometêram.
O Governador Pereira de Mello, e o Juiz Caldeira, fôram
incansaveis, e no dia 17, dia em que este ùltimo se retirou
para
Lisboa, tinha eu o nùmero de carregadores que pedira,
cincoenta,
que, com trinta esperados de Nôvo Redondo, prefaziam um total
de
oitenta; tantos quantos eu havia julgado precisos para subir da foz do
Cunene ao Bihé.
O velho sertanejo, Silva Porto, encarregara-se de fazer transportar ao
Bihé o grôsso das bagagens, que nós
encontrarìamos n'aquelle ponto; onde deverìamos
contratar
mais carregadores para seguir ávante.
N'esse dia mudei eu para a casa que antes occupava o juiz, continuando
a ir jantar com o Governador, ou com Antonio Ferreira Marques, da Casa
Ferreira e Gonçalves, que porfiavam em obsequiar-me.
No dia seguinte, um prêto meu serviçal furtou-me
uns 75
mil réis, e desappareceu, sem que d'elle mais se soubesse.
A 19 chegáram os meus companheiros na canhoneira
Tâmega,
e n'esse mesmo dia resolveu-se, que não irìamos
á
foz do Cunene, mas sim entraríamos directamente ao
Bihé.
Esta nôva resolução que
tomámos, alterava o
que havia contratado com os carregadores, e àlém
d'isso,
a gente de Benguella, que, transportada a paiz distante, não
pensaría em desertar, não me inspirava
garantía,
viajando logo no comêço em paiz de que
conhêcia a
língua e os costumes.
Comêçou nôva campanha. Eu tinha
presentes as
narrações de Cameron e Stanley a respeito dos
embaraços causados por deserções, e
até as
do proprio Livingstone, que foi abandonado por trinta homens na viagem
de Tete com o D^{or.} Kirk.
Logo depois da chêgada dos meus companheiros,
combinámos
em ser o Ivens encarregado dos trabalhos geográphicos, o
Capello
de Meteorologia e Sciencias Naturaes, e eu do pessôal
auxiliar da
expedição, coadjuvando-nos mutuamente. Assim,
pois, tive
de me pôr logo em campo, e o primeiro passo que dei, foi ir
tomar
consêlho de Silva Porto.
Narrei-lhe a nôva decisão que havìamos
tomado, de
seguir directamente ao Bihé, e expuz-lhe o meu
embaraço.
Silva Porto veio a Benguella comigo, pois que a sua casa da Bemposta
dista 6 kilòmetros da cidade, e precorrémos as
casas onde
haviam caravanas de Bailundos, sem que elles quizêssem annuir
a
levar as cargas ao Bihé. Á casa Cauchoix tinha
chêgado uma grande caravana, e este cavalheiro
chêgou a
offerecer uma avultada gratificação ao chefe, e
paga
dupla aos carregadores, se quizêssem conduzir as nossas
bagagens,
mas nada conseguío.
Cabe aqui narrar um facto muito curioso. Os Bihenos sam os primeiros
viajantes d'Àfrica, e nenhum outro pôvo estende
mais longe
as suas correrias, nem se lhe iguala em arrojo e robustez de
caminheiros; mas os Bihenos viajam só do Bihé
para o
interior como assalariados; e se de maravilha v[~e]m á
costa,
é por conta propria. Os Bailundos alugam os seus
serviços
entre a costa e o Bihé, e não vam ao interior
para leste;
mas ao norte estendem suas viagens até ao Dondo e Loanda.
Assim, pois, os negociantes sertanejos fazem transportar as mercadorias
de Benguella ao Bihé por Bailundos, e d'ali aos pontos
remotos
do interior por Bihenos, que voltam, com os productos permutados, ao
Bihé. D'este ponto á costa tornam a servir-se dos
Bailundos.
Depois de informado d'isto, só me restava mandar assalariar
Bailundos, para me virem buscar as cargas; e d'isso se encarregou Silva
Porto, despachando logo cinco prêtos ao Bailundo, a ir buscar
a
gente. O velho sertanejo disse-me logo, que elles teriam muita demora,
porque os enviados levavam 15 dias a chêgar ao paiz, e outro
tanto tempo, pêlo menos, gastariam a reunir os carregadores,
e
estes, 15 dias para vir; fazendo uma somma de 45 dias;
afiançando-me elle, que antes não os teria.
Nós
estàvamos em fins de Setembro, e por isso só
poderìamos partir por meado de Novembro.[
2]
Vim participar isto aos meus companheiros, e depois de conferenciar com
elles, resolvémos não perder tanto tempo em
Benguella; e
entregando as cargas a Silva Porto, para que nol-as enviasse pelos
Bailundos, partirmos immediatamente com as cargas indispensaveis, indo
esperar no Bihé; tempo que aproveitarìamos no
arranjar de
carregadores ali para seguir ávante.
Dos carregadores contratados em Benguella apenas uns 30 mereciam alguma
confiança para seguir tal caminho; e estes, com 36 de
Nôvo
Redondo, faziam um total de 66 homens. Tìnhamos,
àlém d'isso, 14 soldados; os meus muleques
pequenos de
serviço; uns Cabindas de serviço de Capello, e
Ivens; e 2
chefes prêtos, um contratado por mim na Catumbella, o
prêto
Barros, e outro por Capello, em Nôvo Redondo, o
Catão.
Em tôda esta gente não tìnhamos um
só homem de confiança.
Tratámos de separar as cargas julgadas indispensaveis, e
conhêcémos que eram 87; isto é,
tìnhamos 21
cargas mais do que carregadores. Foi de balde que trabalhei para os
haver, não me foi possivel obter um só.
Os prêtos, não comprehendendo o que
ìamos fazer, ao
sertão, estavam receiosos, e com a sua
desconfiança
natural, imaginavam loucuras e recusavam-se.
Chêgou o fim de Outubro sem nada termos adiantado.
Resolvi, por consêlho de Silva Porto, ir ao Dombe,
experimentar
se os Mundombes faríam menos difficuldades, do que a gente
de
Benguella; mas, sentindo-me incommodado, pedi ao Capello ali
fôsse por mim.
No dia 29, partio o Capello, e voltou no dia 3 de Novembro. Nada
fêz. Os Mundombes prestam-se com facilidade a ir a Quilengues
por
caminho conhêcido d'elles; mas, fora d'isso, não
fazem
outras viagens; e recusáram as pagas avultadas que lhes
offerecìamos para irem ao Bihé.
Tornava-se necessario tomar uma resolução, e essa
foi
logo tomada; seguirìamos sempre para o Bihé, mas
tomarìamos por Quillenges e Caconda.
O Governador Pereira de Mello deu logo ordem ao chefe do Dombe, que
tivesse prontos 50 carregadores, para seguirem com-nosco para
Quillengues.
Silva Porto encarregou-se das cargas que deviam ser mandadas ao
Bihé, e eram umas 400.
Poz o Governador á nossa disposição
uma lancha,
para transportar por mar ao Cuio (Dombe Grande) as cargas que d'ali
deviam ser carregadas até Quillenges, e alguns carregadores
de
Benguella que estavam doentes.
No dia 11 de Novembro, estàvamos prontos a deixar a costa, e
fixámos a partida para o dia 12. Nesse dia
fugíram 4
carregadores de Nôvo Redondo, e no seguinte 5 de Benguella.
Emfim, no dia 12 deixàvamos a Cidade, depois das mais
cordiaes
despedidas dos amigos, que se reuníram para nos dizer adeos.
Pouco antes tinha eu ido á praia, e por muito tempo tive os
olhos fixos na vastidão do Atlàntico, d'esse mar
enorme
que ia perder de vista; e mal cogitava então, que
só o
volveria a ver dois annos depois, na França, em Bordeos.
Não sei se a outros tem acontecido o mesmo; eu, no momento
da
partida, senti uma pungente mágoa, uma indefinivel saudade,
uma
dôr profunda, que me produzíram como que uma
embriaguez, e
confesso que não tenho muito a consciencia de ter deixado
Benguella.
A bandeira das Quinas estava desenrolada, e afastavase da cidade ao
passo cadenciado da caravana; seguí-a.
No dia 13, chegàvamos ao Dombe, tendo feito uma jornada de
64
kilòmetros. Tìnhamos com-nosco 69
pessôas, e seis
jumentos, que fôram, homens e burros, alojados na fortaleza.
Nós três, com os nossos muleques de
serviço, fomos
obsequiosamente hospedados em casa de Manuel Antonio de Santos Reis,
distincto cavalheiro que porfiou em obsequiar-nos.
Dois dias depois, chegáram as cargas que tinham vindo por
mar, e
inventariando tudo, conhêci, que para seu transporte
precisava de
100 homens, àlém dos effectivos que comigo tinha.
Isto proveio de termos abusado da facilidade que nos offereceu a
lancha, mettendo a bordo mais cargas do que tìnhamos julgado
absolutamente necessarias.
Decidímos partir a 18, depois de recebermos cartas da
Europa,
porque o paquete, de costume, está em Benguella a 14; mas a
18
nem o vapor tinha ainda chegado, nem o chefe tinha tambem assalariado
um só homem.
A 21 chêgou a mala, mas de gente só
tìnhamos a
trazida de Benguella. O chefe declarou-nos, que no dia 26
poderìamos partir; mas, precisando nós de 100
homens,
apenas nos mandou n'esse dia 19. No seguinte dia aparecêram
mais
27; e eu, receioso que elles viessem a debandar se os fizesse esperar,
despachei-os logo para Quillengues, acompanhados por dois soldados dos
que comigo tinha.
O chefe declara-me que lhe é impossivel conseguir mais
gente.
Faço reunir na fortaleza os três Sobas do Dombe,
no dia
28, e fui eu mesmo tratar com elles. Sam três typos
magnìficos.
Um chama-se Brito, nome que tomou de um dos Governadores de Benguella,
que o restaurou no poder; outro, Bahita; o terceiro é
Batara. Os
meus companheiros perdem o assistir a esta scena joco-seria, porque
desde o dia 24 estam com febre.
O Soba Brito apresenta-se com três saias de chita, pintada de
ramageus, muito enxovalhadas; veste uma farda de capitão de
infanteria, desabotoada, deixando ver o peito nú, porque
camisa
não usa; e na cabêça, sôbre
um barrete de
lã vermelha, põe nobremente um chapéo
armado de
estado-maiór.
O Bahita traja saias de lã de vistosas côres, uma
rica
farda de Par do Reino, quasi nôva, e na
cabêça,
sôbre o indispensavel barrete, uma barretina de
caçadores
5.
O Batara está literalmente coberto de andrajos, e traz
á cinta um espadão enorme.
Estes illustres e graves personagens estam rodeados dos
séculos
e altos dignitarios das suas negras côrtes, que tomam assento
no
chão em torno da cadeira do soberano. O Bahita era
acompanhado
de um menestrel, que tirava de uma marimba, monòtona toada.
Esta marimba é formada de dois paos de 1 metro de comprido,
ligeiramente curvos, em que assentam em cordas de tripa taboinhas
pequenas de madeira, cada uma das quaes é uma nota da
escala. O
som é reforçado por uma fila de
cabaças collocadas
inferiormente, sendo a que corresponde á nota mais baixa da
capacidade de 3 a 4 litros, e á mais alta 3 a 4 decilitros.
Os Sobas portáram-se com grande seriedade, e eu fingi tambem
que os tamava a sério.
Depois de me prometterem carregadores, viéram acompanhar-me
a
casa, que distava uns dois kilòmetros da fortaleza; e como
eu
desse uma garrafa de àgua-ardente a cada um,
mandáram
elles dançar a sua fidalgaria, e o Bahita mandou entrar na
dança umas raparigas que haviam ficado de parte.
Eu pedi-lhes que dançassem elles; mas
respondéram-me, que
a sua dignidade lh'o não permittia; sendo isso contra as
pragmàticas estabelecidas. Eu ardia em desejo de ver o
Bahita
dançando, de saias e farda de Par; e conhêcedor do
imperio
da àgua-ardente nos prêtos, mandei dar outra
garrafa aos
sobas.
Foi o bastante. Atropeláram as suas leis, e eil-os saltando
em
brutesça dança no meio do seu pôvo, que
enthusiasmado por tal honra, redobra de contorsões e
momices,
que chegam a atingir o delirio. O Bahita é
magnìfico, e
com certeza o typo do rei Bobeche foi creado sobre este molde. Fala
continuamente em mandar cortar cabêças,
sentenças
estas que os seus escutam com a maior submissão, mas de que
interiormente se riem, porque bem sabem o Governo Portuguez lh'o
não consente.
O Dombe Grande é um fertilissimo valle, que se estende
primeiro
do Sul ao N., e depois a Oeste, quasi em àngulo recto,
até ao mar. É enquadrado por dois systemas de
montanhas,
um por oeste, que borda a costa, e outro por leste, em cujo
sopé
corre o rio
Dombe,
Coporolo,
ou
Quiporolo,
e até rio de
S. Francisco--que todos estes nomes tem.
Figura
1.--Mulhéres Mundombes, vendedeiras de carvão.
(De uma photographia do
pharmaceutico Monteiro.)
É rio que de inverno traz muita àgua, mas de
verão
é sêco; sendo que, mesmo nas maiores estiagens,
àgua se encontra cavando poços; o que acontece em
tudo o
valle do Dombe, onde não é preciso profundar mais
de 3
metros para a obter. Junto das montanhas de Oeste na parte em que o
valle se estende N. S., ha uma lagôa, de 50 metros de largo
por 1
kilòmetro de extenção, e da forma de
S. Esta
lagôa é curiosa, porque não
é formada por
depòsitos pluviaes, mas sim alimentada por uma forte
nascente
subterranea, por nunca alterar o seu nivel, e produzir
infiltrações, que, um kilòmetro
abaixo, vam formar
nascentes, que sam aproveitadas na rega de uma propriedade. Dizem que
tem peixe bagre, tainha e muitos crocodilos.
Tenho-a visitado muitas vêzes, e nunca vi ali crocodilos ou
peixe; mas é certo que os ha, porque m'o afiançou
o meu
hospedeiro, dizendo-me mesmo, que sam muito vorazes; e que, tendo sido,
em 1876, a sua propriedade atacada por um bando de salteadores de
Quilengues, estes, rechaçados pêlos seus
prêtos,
tentáram na fuga atravessar a nado a lagôa,
não
logrando um só atingir á outra margem, porque
tôdos
fôram prêsa dos vorazes amphibios.
Nas montanhas de oeste junto á lagôa, montanhas
formadas
de carbonato calcàreo e algum sulfato de cal, existem
algumas
grutas, uma das quaes nos afiançou o nosso hospedeiro, nunca
ter
sido visitada, ser enorme, e parecer, tanto quanto por fóra
se
podia observar, que contém extensas galerias.
Fomos visital-a, eu, Capello, e o nosso hospedeiro Reis, e
verificámos não ter ella merecimento.
É um salão pròximamente circular, de
14 metros de
diàmetro, architectado pêla natureza na immensa
mole de
calcàreo, que forma a montanha. Parece ser guarida habitual
de
feras, que o dá a entender o ar saturado do fedôr
almiscarado de certos animaes, bem como as traças de
leão
impressas no pó impalpavel que cobre o chão, onde
encontrámos alguns espinhos do Hystrix Africano.
No valle do Dombe ha algumas feitorias agrìcolas
importantes,
sendo as principaes a do Loache, a de Paula Barboza, e a do nosso
hospedeiro Santos Reis. Esta ùltima conta apenas
três
annos de existencia, e produz cana de açucar de que extrahe
para
cima de 40 mil litros de àgua-ardente; e note-se, que o
terreno
era antes mato, e foi desbravado ha só três annos.
É uma feitoria que começa, tudo ali
está ainda em
construcção; mas pêlo resultado
já obtido se
pôde aquilatar a riqueza do solo ali.
Tudo o valle é cultivado de mandioca, pêlos
indìgenas, e tão fertil é, que depois
de
três annos de falta de chuva, não tem deixado de
ter
producção regular, exportando cerca de 70 mil
decalitros
de farinha por anno. É o celeiro de Benguella. Os
indìgenas ali não permutam as fazendas, mas sim
vendem a
dinheiro, cujo valor já conhêcem.
Figura
2.--Mulhéres e Donzellas, Mundombes.
(De uma photo. de
Monteiro.)
A demora que ali tivémos foi prejudicialissima á
ordem, e disciplina da minha gente.
Tôdos os dias apresentavam nôvas exigencias,
tôdos os
dias levantavam querellas entre si; e eu não podia ser
demasiado
severo, de receio que me desertassem tôdos.
Vendéram os pannos para comprar àgua-ardente, e
chegáram a vender as rações de comida
para se
embriagarem.
Os soldados eram os peiores. Os sobas não
mandáram gente,
e eu principiei a ver a repetição das scenas de
Benguella. Não podìamos seguir.
Figura
3.--Homens Mundombes.
(De uma photo. de
Monteiro.)
No dia 1 de Dezembro, chegáram ao Dombe 30 homens mandados
de
Quillengues pêlo chefe militar, a buscar bagagem sua; mas eu
lancei mão d'elles, e decidi com os meus companheiros
partirmos
no dia 4.
Tinha havido mais três deserções, dois
homens de Nôvo Redondo e um de Benguella.
Os nossos burros eram muito manhosos, e não havia
ensinal-os; todavia resolvêmos conserval-os.
CAPÌTULO III.
HISTORIA DE UM CARNEIRO.
Nove dias no deserto--Falta de
àgua--O ex-chefe de Quillengues--Eu perco-me nas
brenhas--Dois tiros a tempo--Perde-se um muleque e
uma prêta--Perde-se um burro--Quillengues em
fim--Morte do
carneiro.
A 4 de Dezembro deixei o Dombe, pêlas 8 horas da
manhã, e
segui para Quillengues. O Capello e o Ivens ficáram ainda,
para
enviar algumas cargas; deviam ir encontrar-me á noite. Foi
consêlho dos guias, que não tomàssemos
o caminho
das caravanas, mas sim um atalho conhêcido d'elles, para
evitarmos as passagens do Rio Coporolo, que já
então
levava muita àgua; dando difficeis vaos, e que aquelle
caminho
corta em diversos pontos.
Depois de duas horas de jornada na planicie, chegámos ao
sopé da serra da Cangemba, que borda por leste o valle do
Dombe.
Descançámos um pouco, e ás 11 horas,
emprehendémos o subir da serra pêlo leito de uma
torrente,
então sêco. Foi difficil trabalho. Os homens iam
muito
carregados; porque, àlém das cargas da
expedição, do peso de 30 kilogrammas, levavam
para si
rações para nove dias, em farinha de mandioca e
peixe
sêco. A differença de nivel era de 500 metros
apenas; mas
o leito da torrente, formado de rochas calcàreas, offerecia
obstàculos enormes ao caminhar por elle. Em muitos pontos,
era
preciso com as mãos ajudar o côrpo na subida, e o
passar
ali os seis jumentos, deu grande canceira. Tìnhamos comprado
no
Dombe dois carneiros, para matar em caminho; um dos quaes facilmente
seguiu a comitiva, mas o outro deu trabalho, porque se recusava a
andar, e a sua teimosía em volver ao Dombe era constante.
Fôram três horas de fadigosa marcha; que tanto
gastámos para transpor um espaço que
não passava
de mil metros, e isto por um sol abrasador, deixou-nos extenuados de
fadiga. Acampámos logo junto a um poço cavado no
leito
arenoso de um ribeiro que ia sêco; ribeiro a que os Mundombes
chamam Cabindondo. O logar era àrido, e apenas vegetavam
aqui e
àlém alguns espinheiros brancos,
rachìticos e
ressequidos pêlo sol, que n'esta època do anno
queima. O
nosso horizonte era formado pêlas cumiadas das montanhas que
correm norte-sul.
Pêla tarde chegáram Capello e Ivens, e fomos logo
comer;
que eu estava ainda em jejum. No dia 5 de manhã,
seguímos
a S.E., e depois de 4 horas de marcha, em que vencémos um
espaço de 20 kilòmetros, assentámos
campo em um
logar que os guias chamáram Taramanjamba; valle extenso,
cercado
de cêrros pouco altos. A altitude é de 600 metros;
mostrando que apenas estàvamos elevados 100 metros acima do
nosso campo de hontem.
A vegetação continúa pobre, e a falta
de àgua é grande.
Para beber e cozinhar, apenas obtivémos pouca, de
depòsitos fluviaes nas cavidades das rochas;
depòsitos
que fôram logo esgotados pêla nossa sedenta
caravana, sendo
que á noite já se fazia sentir a sêde.
Durante a marcha, se os jumentos continuáram a ser
incòmmodos, não o foi menos o carneiro, que era
bravissimo, e mais teimoso que os burros. Decidi matal-o, e tendo
combinado isso com os meus companheiros, dei as ordens n'esse sentido
aos muleques, e fui dar um passeio aos arredores.
De volta ao campo, vi que os muleques não tinham
comprehendido a
minha ordem, e em logar de matarem o carneiro bravo, haviam morto o
manso.
No dia seguinte partímos de madrugada, e depois de cinco
horas
de marcha, acampámos no logar chamado Tine, onde nos
afiançáram os guias haver àgua.
Contra o que eu esperava, o carneiro, não só
deixou de
ser teimoso, mas poz-se a seguir-me, fazendo-me constante companhia,
já em marcha já no campo.
A marcha n'esse dia foi difficil; porque, não só
a
sêde abrasava a gente, mas ainda por uma hora
andámos no
leito sêco do rio Canga, pedregoso e desnivelado, o que nos
fatigou muito.
O terreno é já granìtico, e a
vegetação arborescente luxuriante.
Àgua, como na vèspera, foi da chuva, recolhida
nas
cavidades das rochas; mas era melhor ao paladar e mais
lìmpida
á vista.
Tìnhamos alguns homens com feridas nos pés, que
só
chegavam tarde ao campo, porque se lhes difficultava o andar; e ainda
outros que, por fracos, se atrazavam, e por preguiça muitos.
N'esse dia, entre os retardatarios figuravam os carregadores do rancho;
fazendo isso que só tarde comêssemos. O Capello,
de si
pouco communicativo, não se queixava dos
incòmmodos que
soffria; mas Ivens, loquaz e de gènio alegre, não
se
calava e nos fazia rir a cada passo, com os seus ditos
engraçados. O appetite era já grande, quando
chegáram os carregadores, e elle não desfitava os
olhos
de uma perna de carneiro que um muleque volteava junto da fogueira em
espeto de pao, e de repente disse: "Se meu pai podesse ver como eu olho
para aquella carne até chorava."
Desde o Dombe apenas tìnhamos comido uma vêz no
dia, e
assim, a nossa gente; com a differença, porem, que elles
comiam
sem interrupção desde o acampar até
dormir: o que
me fazia receiar, que as rações distribuidas para
nove
dias, depressa fossem gastas, e em seguida viesse a fome, em paiz onde
era impossivel obter vìveres.
Avançámos 25 kilòmetros no dia
seguinte, a E.S.E.,
e fomos acampar em uma floresta chamada a Chalussinga; sendo o piso
d'esse dia relativamente melhor, sempre por terrenos
granìticos,
e por entre vegetação mais vigorosa que
até ali.
N'essa floresta encontrámos os primeiros baobabs que desde a
costa temos visto. Àgua continuava a ser escassa, e sempre
de
depòsitos pluviaes. Pêlas três horas
d'esse dia,
fomos avisados de que uma caravana se dirigia ao nosso campo, vindo do
interior; e saindo logo ao seu encontro, soubémos ser o
ex-chefe
de Quillengues, Capitão Roza, que ia doente para Benguella.
Convidámol-o á nossa barraca, onde jantou;
partindo em
seguida, depois de se prover de medicamentos, que gostosamente lhe
offerecêmos. Logo que elle partiu, fui avisado
pêlos
muleques, de que em torno do campo se viam traças frescas de
caça; e sahi a ver se a encontrava. Segui um rasto de
grandes
antìlopes, e tão longe me levou elle, que veio a
noite, e
com ella as trevas, sem que podesse atinar com caminho para o campo.
Uma montanha elevada projectava o seu vulto sombrio contra um ceo
nebuloso, onde nem uma estrella brilhava. Tive idéa de subir
a
ella, para do cume, vendo o clarão dos fôgos do
meu campo,
dirigir ali meus passos; idéa que executei com bom
resultado,
porque effectivamente enxerguei ao longe um clarão que
tratei de
alcançar, tendo marcado pêla bùssola a
sua
direcção. Não se imagina o que seja
caminhar em
noite escura por entre as sárças de uma floresta
virgem,
e quanto tempo se leva a transpor um curto espaço; deixando
aqui
e àlém farrapos da roupa, senão tiras
da pelle.
Chêguei por fim, já guiado pelo vozear do gentio;
mas
¡qual não foi a minha
decepção, vendo, que
pêlo meu tinha tomado o campo do Capitão Roza, que
devia
estar a 6 kilòmetros longe d'elle! Porem, como um caminho
ligava
os dois campos, porque uma caravana que passa deixa trilho, endireitei
n'elle, e depois de uma hora de jornada, já ouvia o som das
businas que os meus tocavam, e dos tiros que disparavam, para guiar
meus passos.
Foi extenuado de fadiga e molestado dos espinhos, que chêguei
á minha tenda, onde Capello e Ivens não estavam
livres de
cuidados.
Ali tive uma noticia inquietadora, mas que não foi sorpresa.
Já se sentia falta de vìveres, e sôbre
tudo os
soldados já tinham em 5 dias comido a
ração de 9.
No seguinte dia forçámos a marcha um pouco mais,
e percorrémos em 6 horas 30 kilòmetros a E.S.E.
O caminho era bom, marchando no trilho da caravana do
Capitão
Roza. Nas florestas que atravessámos continuáram
apparecendo baobabs gigantescos. Depois de passarmos o rio
Calucúla, acampámos na sua margem direita.
O rio leva pouca àgua, mas esta é
lìmpida e bôa.
Continuàvamos a comer só uma vêz ao
dia, e a hora
da refeição variava entre a 1 e 3, conforme
ás
marchas. Era preciso poupar os vìveres. Ressentido da fadiga
da
vèspera não sahi a caçar n'esse dia, e
fiquei na
barraca.
O Ivens foi desenhar, como costumava; e o Capello apanhar insectos e
réptiz.
Os soldados termináram as rações, e
começáram a queixar-se de fome, falando em matar
o
carneiro. Eu tinha-me afeiçoado ao animal, que de bravo que
era
se tinha tornado manso e meigo, acompanhando-me nas marchas e
não me abandonando um momento. Opuz-me a que fôsse
morto,
e o
Ivens deu aos soldados um pouco de arroz do nosso.
A 9, levantámos campo, ás 5 horas, e
sustentámos a
marcha até á uma; hora a que acampámos
nas faldas
da serra da Tama. Das 8 ás 9 horas seguímos ao
sul, na
margem esquêrda do rio Chicúli Diengui, que vai ao
N.,
provavelmente ao Coporolo. A vegetação
é cada
vêz mais luxuriante, e n'esse dia o nosso caminhar foi por
entre
floresta espêssa.
Logo que se estabeleceu o campo, renováram-se as
representações dos soldados famintos, e com ellas
a
idéa de matar o carneiro. O Ivens deu nôva
ração de arroz aos soldados, e isto, ainda que
contemporizava, não era uma positiva
salvação para
o pobre animal.
Ainda que extremamente fatigado, resolvi ir caçar, para
salvar a vida do meu carneiro.
Durante uma hora percorri a floresta sem resultado, e já
voltava
ao campo, quando avistei, n'uma pequena clareira, duas gazellas que
pastavam.
Aproximei-me, mas a mais de cem metros fui presentido. O macho saltou
para sôbre uma rocha, e d'ali comêçou a
espiar a
floresta com a sua vista experimentada; em quanto a fêmea, de
orelha á escuta, investigava os arredores.
Era grande a distancia, mas não hesitei, e atirei ao macho,
que
vi cair fulminado para àlém do rochêdo.
A
fêmea, ouvindo o estampido do tiro, saltou ligeira
sôbre o
penhasco e su disparei-lhe o meu segundo tiro, vendo-a em seguida
pular, em salto elegante, e desapparecer no mato.
O meu muleque correu logo a buscar o antìlope
môrto, mas
eu vi que, em logar de parar junto do rochêdo, seguiu sempre;
eu
dirigi-me para ali com o coração palpitante,
porque
suppuz que me tinha enganado julgando ver cair o primeiro
antìlope. Torneei a rocha, e tive um grande
alvorôço. O lindo animal (
Cervicapra bohor)
estava estendido sem vida.
Mal tinha tido tempo de o contemplar, quando do mato sahio o muleque
curvado ao peso de grande carga.
Era o segundo antìlope, que elle tinha levantado
môrto, a
poucos passos na floresta. Ambos tinham sido feridos no peito, mas ao
passo que o macho cahiu sem vida, a fêmea pôde
effeituar
uma pequena carreira.
Estava salvo o carneiro, e como em dois dias devìamos chegar
a
Quillengues, e ali terìamos recursos, estava salvo para
sempre.
No seguinte dia, depois de marcha de 35 kilòmetros, e de
termos
passado a vao os rios Umpuro, Cumbambi e Comooluena, fomos acampar na
margem direita do Vambo--que tôdos correm ao N., a unir as
suas
àguas (quando as t[~e]m), ao Coporolo, que aqui
já se
chama Calunga, nome que conserva
até á sua nascente.
Na jornada d'esse dia começámos a encontrar
gramìneas enormes, nas clareiras do mato. Tão
grandes,
que era impossivel ver nada com ellas, e difficil o caminhar. Durante a
marcha desappareceu um meu muleque pequeno, e uma prêta,
mulhér do muleque Catraio do Capello; e ainda que despachei
gente a buscal-os, não fôram encontrados.
A escaçez dos mantimentos era grande, e não eram
já só os soldados a queixarem-se de fome,
tôdos
faziam representações, e não attendiam
razão. Tivémos de seguir.
No dia 11, depois de passarmos dois riachos que as chuvas tornam
caudalosos, o Quitaqui e o Massonge, fomos acampar na margem direita do
rio Tui, muito pròximo de Quillengues. Dos muleques perdidos
não havia noticia, e faltava desde a vèspera um
jumento,
que não appareceu. Em quanto se estabelecia o campo, eu
segui
para a fortaleza de Quillengues á busca de
vìveres, com
que voltei ás 8 da noite. Estava decididamente salvo o meu
carneiro.
N'essa noite apparecêram o muleque e a prêta
perdidos, e
isso deu-me um verdadeiro prazer; porque, fôrçados
a
marchar, pela fome, não tìnhamos podido
demorar-nos a
procural-os.
O logar onde acampámos era baixo e pantanoso, fôra
de
recursos, é isolado; e por isso resolvémos ir
acampar na
libata do chefe de Quillengues, onde entrámos no dia 12,
pelas
11 horas.
Paguei e despedi os carregadores do Dombe e Quillengues contratados
até ali; e pedi-ao chefe, o Tenente Roza, para me obter
outros
até Caconda; o que elle me certificou ser facil, dizendo-me
logo, que sabia como os rios entre aquelle ponto e Caconda iam cheios,
e por isso não davam passagem; o que nos impedia de partir
immediatamente.
N'esse dia já comémos bem, e tivémos
duas comidas, almôço e jantar.
Alguns dias depois, appareceu o jumento que se tinha perdido no mato,
trazido por um indìgena, que o tinha encontrado. Gratifiquei
bem
o prêto, para o encorajar a ser honesto; pois que nunca
julguei
ver mais o pobre animal, que, se escapasse das feras, não
escaparia á ladroagem dos naturaes, pensava eu.
Quillengues é um valle regado pêlo Calunga (rio
que eu
supponho ser o curso superior do Coporolo), valle fertilissimo, e
coberto de povoações indìgenas.
O estabelecimento Portuguez occupa uma àrea de 45,500 metros
quadrados; por ser um rectàngulo de 250 metros por 182. Este
rectàngulo, cercado de palissada, tem quatro baluartes de
alvenaria, a um meio de cada face; e dentro uns abarracamentos, que sam
morada do chefe militar, e quartéis dos soldados.
Algums baobabs e figueiras sycòmoros crescem ali,
assombrando
com seus ramos gigantescos um terreno coberto de gramìneas
indìgenas, onde pastam os rebanhos do chefe.
Se a importància de Quillengues é grande como
ponto
productivo, e facilmente colonisavel, não o é
menos como
posição estratègica; pois que
pôde ser
considerado uma das chaves do sertão interior, com respeito
a
Benguella.
Os sobetas do paiz reconhêcem a autoridade Portugueza; mas,
de
natureza salteadores, atacam sem cessar outros pôvos
indìgenas, para lhes furtarem o gado.
Sam mais pastores do que lavradores, mas, ainda assim, cultivam a
terra, que de ubèrrima suppre o pouco trato; produzindo
milho,
massambala, e mandioca, em quantidade grande.
As suas habitações sam cubatas circulares, de 3 a
4
metros de diàmetro, construidas de grossos troncos de
madeira,
revestidas de barro. A porta é bastante alta, para dar
entrada a
um homem sem curvar-se.
Os Quillengues sam de estatura elevada, e robustos, atrevidos e
guerreiros. Sam pouco industriosos, e apenas fabricam o ferro, fazendo
azagaias, ferros de frechas, e machados, já de guerra,
já
de cortar madeira.
As enxadas não as forjam, e sam por elles compradas no
Dombe, ou em Benguella.
Os seus curraes sam, como as povoações, cercados
de forte
palissada; sendo esta revestida exteriormente de abatises espinhosos,
para evitar o assalto nocturno de feras.
Os campos de mandioca sam igualmente cercados de espinheiros; porque
ali abundam corças pequenas (
Cephalophus mergens),
que das folhas sam àvidas, e causam damno grande
ás plantações.
A àgua-ardente é gènero muito estimado
pêlos
Quillengues, e sam elles tão dados á embriaguez,
que,
durante três mezes no anno, tanto quanto dura o fruto do
gongo,
fazem d'elle uma bebida fermentada, com que estam continuamente
embriagados; não sendo possivel obter d'elles o menor
serviço.
Quando um homem quer casar-se, envia ao pai da escolhida um presente,
que dêve ser pêlo menos de 4 metros de panno da
costa, e
duas garrafas de àgua-ardente; e logo com o portador vem a
noiva
e seus parentes comer, em grande bròdio, um boi, que
dêve
offerecer-lhes o noivo. O adulterio é coisa de grande
estimação para os maridos; sendo que por lei
fazem pagar
ao amante multa, que se traduz em gado e àgua-ardente.
A mulhér que não tem commettido algum adulterio
é
mal vista do marido, que não augmenta o seu haver por esse
meio.
Logo que alguma commette a falta, vai ao marido queixar-se de que foi
seduzida, e entre elles faz prova a accusação da
mulhér.
Entre o pôvo, os cadàveres sam enterrados em logar
escolhido, e conduzidos á cova n'uma pelle de boi, cobertos
de
panno de algodão branco. Os dias de nôjo, sam dias
de
grande festa em casa do finado. Os sobetas t[~e]m sepultura reservada,
e sam ali conduzidos dentro de uma pelle de boi preparada em
ôdre, depois de lhe vestirem as melhores roupas.
Nas festas d'òbito ha mortandade enorme de gado, porque o
herdeiro tem obrigação de matar todo o rebanho,
para
regalar o seu pôvo, e contentar a alma do finado.
No dia 22, houve um desastroso acontecimento no nosso campo.
Um dos meus muleques furtou-me uma bala explosiva do systema
Pertuisset; e de companhia com dois outros, decidíram
repartil-a
de modo que a cada um tocasse seu pedaço de chumbo.
Armáram-se de uma faca, e pôsta a bala
sôbre uma
pedra, deu-lhe elle um golpe, estando os outros dois acocorados para
melhor ver a partilha; quando sùbito a bala faz
explosão,
ficando os três feridos, e sôbre tudo o muleque de
Silva
Porto Calomo, que recebeu treze estilhaços, produzindo
alguns
feridas profundas.
Mandámos uns prêtos reconhêcer, se
já dariam
vao os rios; e por elles soubémos, que se conservavam altos;
o
que bem soppùnhamos, porque, durante a nossa estada ali,
não cessou de chover. Resolvémos então
seguir
outro caminho, o qual, ainda que mais longo, era mais euxuto de
àguas; e por isso, pedímos ao chefe nos tivesse
prontos
os carregadores; o que elle fez, distribuindo eu as cargas no dia 23;
mas n'esse dia senti-me muito mal, e ainda que fiz seguir as cargas,
fiquei eu, e os meus companheiros por meu respeito. Lutei com violenta
febre por três dias, e não tenho consciencia de
ter
passado o dia 25; dia duplamente festivo para mim, porque, sendo o de
Natal, é o anniversario de minha filha.
Tivéram cuidado de mim Capello e Ivens, o Chefe Roza e sua
esposa; e no dia 28, pude levantar-me e sair, decidindo logo partir no
1^{o.} de Janeiro de 1878, isto é, três dias
depois.
A esposa do Tenente Roza fêz-me dois presentes, que eu mal
sabia
então estavam destinados a representar um papél,
ao
diante, na minha viagem.
Fôram elles um serviço de chá de
porcelana de
Sèvres, e uma cabrinha muito meiga, de raça
pequena, a
que puz o nome de Córa.
A esse tempo succedeu um desastre, que de véras me
contristou. O
meu carneiro, por causa de quem eu tive de sustentar tantas lutas com
os carregadores famintos, foi môrto por uma cadella
perdigueira,
que eu levara de Portugal, e dera ao Capello. Perseguido pêla
cadella, na fuga quebrou uma perna ao passar por entre a
paliçada do campo, e em breve se finou. Foi o meu primeiro
grande desgosto n'esta viagem, tão abundante d'elles.
CAPÌTULO IV.
POR TERRAS AVASSALLADAS.
Jornada a Ngola.--O Sova
Chimbarandongo.--Belleza
do caminho.--Chegada a Caconda--José
d'Anchieta.--Nada
de correspondencia.--Chegada do Chefe.--Vamos aos
carregadores.--Ivens vai ao Cunene e eu vou ao Cunene.--Volta
de
casa do Bandeira.--Falham os carregadores.--O meu juizo.
No dia 1^{o.} de Janeiro de 1878, deixámos Quillengues,
tendo
ali feito provisão de vìveres, e comprado
bastante gado
para matar, bois e carneiros. O chefe, Tenente Roza, acompanhou-nos uns
7 kilòmetros, e voltou á sua residencia, seguindo
nós sempre a S.E., até ás faldas da
serra de
Quillengues, onde acampámos junto á
povoação do Secúlo Unguri.
Tìnhamos um
companheiro de viagem, que em Quillengues nos tinha pedido, o
deixàssemos ir até ao Bihé em nossa
companhia. Era
elle Verìssimo Gonçalves, filho de um
conhêcido
sertanejo do Bihé, môrto havia pouco, que em
Quillengues
era empregado de um ex-criado de seu pai. Este rapaz, mulato e de
mesquinha educação, como era de côrpo
acanhado,
cheio de vicios, dos proprios a tal gente, tinha alguma cousa de bom, e
era intelligente.
Tem de figurar no correr d'esta narrativa, e por isso o menciono mais
particularmente.
Era acanhado e tìmido, mas não covarde, e debaixo
de uma
apparencia fraca, possuia uma forte organização e
mùsculos de ferro. Sabía apenas ler e escrever,
mas era
um soffrivel atirador de segunda ordem, e manhoso caçador.
Durante a demora em Quillengues, consegui domesticar dois dos jumentos,
que n'esta nôva jornada já me servíram
de
cavalgaduras.
No seguinte dia, logo á saída,
começámos a
ascensão da serra de Quillengues, que n'esse ponto se chama
Serra Quissècua.
A subida foi difficìlima, e durante três horas
lutámos com as agruras da montanha, elevando-nos a 1740
metros
do nivel do mar, ou 836 acima do planalto que termina em Quillengues.
Em um desfiladeiro da serra passámos um pequeno ribeiro, que
os indìgenas chamam
Obaba-tenda, o que
quer dizer àgua fria, fomos acampar na margem de outro
chamado
Cuverai,
affluente do Cúe. Estes
dois ribeiros sam permanentes, e sam àguas que correm ao
Cunene.
O terreno continúa granìtico, mas a
vegetação muda completamente de aspecto--de certo
devido
isto á altitude. O baobab desappareceu, e já se
encontram
fetos á sombra das innùmeras e variadas acacias
que
povôam as matas. A flôra apresenta riqueza maior em
plantas
herbàceas, e nas gramìneas sôbre tudo
nota-se uma
fôrça de vegetação
vigorosissima.
Notei que atravessámos regiões onde se
não
encontra uma só ave, e de repente entra-se em zonas onde
milhares de passarinhos fazem uma chiada enorme. Caça vi ali
pouca, mas os rastos anunciam havel-a.
Na noite do seguinte dia aconteceu-nos uma aventura curiosa.
Estàvamos acampados junto do ribeiro Quicúe, que
corre a
S.E., em leito granìtico, e vai, provavelmente, engrossar o
Cúe; quando sentímos a cadella do Capello
ladrando e
arremettendo furiosa, contra alguma cousa que se aproximava da barraca.
Ao mesmo tempo sentìamos um forte ruminar perto de
nós; o
que nos fez suppor, que os jumentos se tinham soltado e pastavam dentro
do campo, que era cercado de abatises espinhosas. Falámos
á cadella e adormecémos. Ao alvorescer
ouvímos
grande rumor no campo, e saindo logo, soubémos, que os
prêtos, que ao principio tinham julgado, como nós,
que os
burros andavam á sôlta, percebêram
depois que se
enganavam, e que um animal estranho se tinha introduzido no campo.
Fôra effectiva menta um bùfalo enorme que nos dera
a honra
da sua companhia durante a noite.
O caso era notavel e de explicação difficil, a
não
serem os repetidos rugidos dos leões que se tinham ouvido;
fazendo com que o bùfalo viesse buscar guarida entre
nós.
No seguinte dia fomos acampar pròximo da
povoação
de Ngóla, e eu fiz logo annunciar a minha visita ao Sova.
Depois do almôço, fui á libata
procural-o.
Fiz-me acompanhar dos meus muleques, levando uma cadeira para mim, e
dois guardasóes.
O Sova appareceu-me logo, armado de dois cacetes e uma azagaia.
Trajava tanga comprida de panno da costa, e sôbre ella uma
pelle
de leopardo. Tinha o peito nú pendendo-lhe do
pescôço um sem-nùmero de amuletos.
Recebeu-me
fôra da sua barraca, por um sol abrasador; e eu offereci-lhe
um
guardasol, que levava para isso, de panninho encarnado; favor a que
elle se mostrou muito grato.
Disse-lhe o que andava por ali a fazer, cousa que elle não
percebeu muito bem; comprehendendo com-tudo perfeitamente, que lhe
offerecia um pequeno barril de pòlvora, 50 pederneiras e uma
duzia de guizos de latão, sem nada lhe pedir em troca--o que
sôbre modo o espantou.
Convidei-o a vir ao nosso campo ver os meus companheiros; e elle
accedeu a isso acompanhando-me; coisa muito de notar, que os chefes
indìgenas sam desconfiados.
Dizendo-lhe, que mandasse uma vasilha em que eu lhe podesse dar
àgua-ardente, foi elle buscar uma botija de litro.
Mostrei-me
admirado de que um chefe quizesse tão pouco, e convidei-o a
procurar vasilha maior. Mandou então buscar uma
cabaça
que levaria o duplo da botija, e eu pedi-lhe que juntasse outra igual.
O Règulo não podia dissimular a sua
admiração pêla minha generosidade.
Partímos a pé, acompanhados por três
das
mulhéres, as filhas, e muito pôvo, tôdos
sem armas,
para me mostrarem a confiança que eu lhes havia inspirado.
Chegámos ao campo quando Capello fazia
observações
meteorològicas, e o Sova ficou admirado diante dos
thermòmetros e dos baròmetros.
O Ivens veio logo para junto de nós, e depois de grandes
comprimentos, mostrámos ao Règulo as armas de
Snider e de
Winchester, que lhe causáram verdadeiro assombro.
Este
Chimbarandongo,
que tal é o nome do sova de Ngóla, é
intelligente, e sabe viver com o seu pôvo.
Offereceu-nos um boi, e tendo eu pedido licença para o
matar,
por haver necessidade de provisões, consentio n'isso,
pedindo-me
para lhe atirar eu.
O boi estava estranho, e fugio para o mato, a uns oitenta metros de
nós. Indiquei ao Sova o sitio em que o ia ferir, e disparei.
O
boi cahio.
Chimbarandongo foi ver o animal, e attentando na ferida, da qual corria
o sangue, aberta entre os olhos, no sitio que eu indicava, ficou
tão maravilhado, que me deu repetidos abraços no
meio do
seu enthusiasmo.
Pêlas 4 horas, formou-se sôbre nós
tempestade
violenta, que se desfez em raios e copiosa chuva, durando
até
ás 6 horas.
O Sova e as mulhéres recolhéram-se á
nossa barraca, assim como alguns dos macotas.
Chimbarandongo fez um discurso aos seus macotas, tendente a
provar-lhes, que nós tìnhamos trazido a chuva, e
com ella
um grande beneficio ao paiz, ressequido pêlos calores do
estío.
Tentámos explicar-lhe, que não
tìnhamos tão
grandes poderes, e que só Deus governava nos grandes
phenòmenos da natureza; levando o Ivens a questão
a ponto
de lhe explicar como e porque chovía. Ouvindo isto, fez o
Sova
sair os seus macotas e mais pôvo que escutava a
lição meteorològica.
Depois d'isso, tendo-se de novo reunido o pôvo, elle disse,
que
se deixasse de chover, indagaria qual dos seus sùbditos
tirara a
chuva, e o castigaria de morte. Nôvo discurso da nossa parte
contra a pena capital; e nôva ordem de despejo da parte
d'elle,
que, a pesar do meio embriagado, tinha tino bastante para
não
comprehender que as nossas theorías não quadravam
ao seu
systema governativo.
Ao anoitecer retirou-se do modo o mais còmico, indo acavallo
em
um dos seus conselheiros, que levava as mãos nos hombros de
outro; e como estivessem tôdos embriagados, a cada passo
perdiam
o equilibrio, ameaçando com a queda partir a
cabêça
ao seu soberano.
Este règulo é sensato e homem de bom juizo.
Não
acredita em feitiços; nem acreditava que nós lhe
tivessemos trazido a chuva; mas convem-lhe apparentar que o
crê,
para não perder o prestigio entre os seus, que só
assim
querem ser governados.
No seguinte dia, vindo elle despedir-se de nós, me disse,
que a
sua polìtica era ser amigo dos brancos; pois que das
bôas
relações com elles provinha a roupa com que se
cobria, e
as armas e a pòlvora com que continha em respeito os seus
inimigos.
"Sem os brancos," me disse elle, "nós somos mais pobres que
os
animaes; porque a elles temos de tirar as pelles para nos cobrirmos; e
sam bem loucos os prêtos que não cultivam a
amizade dos
filhos do Puto."
A libata ou povoação de Ngóla
é fortemente
defendida por uma dupla palissada feita com arte, que tem
até
uma das faces dentada para cruzamento de fogos. É
tão
vasta que pôde conter tôda a
povoação do
paiz, que ali se recolhe, em caso de guerra, com seus rebanhos. O
ribeiro Cutóta corre dentro d'ella, fazendo que possa
resistir a
longo assedio sem receiar a sêde.
Deixando Ngóla, caminhámos por duas horas a N.E.,
e
encontrámos o Cúe, o maior dos rios, que corre
entre
Quillengues e Caconda. No sitio em que tentámos a passagem
tinha
elle 15 metros de largo por 3 a 4 de fundo, não dando por
isso
vao. A chuva torrencial da vèspera, augmentando-lhe o volume
d'àgua, tinha tornado impetuosa a corrente.
Uma ponte de finos troncos de arbustos, offerecia uma perigosa difficil
passagem aos homens carregados; mas os bôis e os jumentos
só a nado podiam passar. Depois de grande trabalho, os
bôis nadáram para a outra margem; os burros porem
recusáram seguil-os.
Só a grande custo conseguio o prêto Barros,
ajudado de
mais dois, fazel-os nadar, nadando ao seu lado, e obrigando-os a tomar
pé na outra margem; o que era perigoso, que ali abundam
crocodilos.
Depois de uma hora de trabalho, avançámos para
E.N.E.,
encontrando o ribeiro Usserem, d'ali marquei, a N.N.O., o monte Uba,
onde assentam as povoações de Caluqueime.
Passámos
depois o rio Cacurocáe, que corre a S.S.E. ao
Cúe; e meia
hora depois o rio Quissengo, que corre a S.E., e vai affluir ao
Cúe; acampando na margem d'este ùltimo,
pêlas 4
horas da tarde, junto da povoação de Catonga,
onde tem a
sua libata um tal Roque Teixeira.
A marcha foi de 30 kilòmetros, o que muito nos fatigou.
O caminho foi sempre por planicie, onde a altitude varía
apenas entre 1450 e 1500 metros.
A vegetação arbòrea apresenta um certo
rachitismo;
mas a herbàcea continúa a ser variada e rica.
No dia 6, seguímos sempre a N.E., passando logo o
Cúe, em
ponte feita pêlo gentío. Este ribeiro tem 5 metros
de
largo, por 1 de fundo, e corre a S.E. ao Catápi.
Alcançámos o Coúngi ou
Catápi, ás 11
e meia, e acampámos na sua margem esquêrda. O
Coúnge, que a montante toma o nome de Catápi,
tinha ali
10 metros de largo por um de fundo, com violenta corrente, e
dirigindo-se a S.E. vai lançar-se no Cunene
pròximo do
Lucéque.
N'esse dia matei uma grande gazella (
Cervicapra bohor),
a maior do gènero que vi em tôda a minha viagem,
tão grande que fôram precisos 4 homens para a
transportar
ao campo.
Ao fechar da noite, a cadella ladrou muito, arremettendo com o mato;
verificando nós ser contra as hyenas que nos rondavam as
barracas, e por noite fôra tivémos
mùsica, em um
duêto de baixo e contra-baixo, pela voz clara de um
leão,
na mata, e pêla ronquenha de um hippopòtamo, no
rio.
O aspecto do paiz continúa o mesmo. Nas lombadas matas
rachìticas, de uma vegetação que mais
se
pôde chamar arborescente do que arbòrea,
pêla maior
parte. Leguminosas, nas depressões; vastas clareiras,
verdadeiros prados de gramìneas diversas, por entre as quaes
serpea um ribeiro ou um rio. O terreno continúa
granìtico, apresentando as rochas aspectos variados; mas
sendo
pouco abundantes em mica.
Continuámos caminho ao N.E., passando junto da libata de
Cuassequera, fortificada entre enormes rochêdos
granìticos, e rodeada de gigantescos sycòmoros,
produzindo um aspecto muito pintoresco. Depois de passar o ribeiro
Lossóla, que corre ao S. para o Catapi, fomos acampar na
margem
do Nondumba, riacho que, como o antecedente, afflue ao
Catápi,
mas correndo ao N.
O planalto já é mais elevado, e
caminhàvamos então n'uma altitude de 1600 metros.
D'esse ponto seguímos a Caconda, tendo atravessado
três
ribeiros, que correm a N.N.O. ao Catapi, e sam, por sua ordem, o
Chitequi, o Jamba, e o Upanga; encontrando em seguida o Catapi, que
corre a O.S.O., e que já no dia 6 tìnhamos
atravessado
com o nome de Coúnge.
No ponto em que o passámos tem 10 metros de largo por 1 de
fundo, e pequena corrente.
Algumas das clareiras que n'esse dia atravessámos eram
cobertas de junco, pantanosas e de difficil accesso.
A passagem do rio levou tempo, e os meus companheiros
precedêram-me na chegada a Caconda.
Alcancei depois d'elles a fortaleza, e fui recebido á porta
pêlo chefe interino, mulato e rico proprietario do
consêlho, sargento da guerra prêta; o qual me
disse, que o
chefe tinha ido para Benguella, deixando-lhe a
espiga de nos
receber (textuaes palavras).
Depois de me ter dito esta amabilidade, o S^{nr.} Matheus convidou-me a
entrar na fortaleza. Logo que passei o recinto das
fortificações, vi entre os meus companheiros um
homem de
estatura mais que mediana, aspecto macilento, testa ampla e elevada,
olhar pouco fixo, trajando casaca e gravata branca, que o Capello me
apresentou, dizendo-me, "Aqui tem José d'Anchieta." Estava
diante de mim o primeiro explorador zoologista d'Àfrica,
esse
homem que tinha passado 11 annos nos sertões d'Angola,
Benguella, e Mossàmedes, enchendo as vitrinas do museu de
Lisboa
com valiosissimos exemplares. Tive depois occasião de
presenciar
o seu viver, que é digno de ser descrito.
Anchieta estava estabelecido nas ruinas de uma igreja, a 200 metros da
fortaleza.
A casa no interior era em forma de T, e tôda cercada de
estantes,
onde haviam, de mistura, livros, instrumentos mathemàticos,
màchinas photogràphicas, telescopios,
microscopios,
retortas, pàssaros de mil côres, vidros variados,
louça, pão, frascos cheios de lìquidos
multicolores, estojos de cirurgia, montes de plantas, medicamentos,
cartuxeiras, roupa, etc. A um canto, um feixe de espingardas e
carabinas de differentes systemas. Junto á casa, um cercado,
aprisionando umas vacas e uns porcos. Á porta algumas
prêtas e prêtos esfolando pàssaros e
preparando
mamìferos; e d'entro, a uma grande mesa, Anchieta, sentado
em
velha poltrona, que attesta longos serviços.
Sôbre a mesa é impossivel dizer o que ha.
Pinças, escalpellos e microscopios ha muitos.
De um lado, um monte de bocados de pàssaros mostra que elle
acabou de se entregar ao estudo da anatomia comparada. Em frente
d'elle, uma flôr cuidadosamente dissecada, attesta que elle
acaba
de ler na disposição das suas pètalas,
no
nùmero de seus estames, na forma do seu
receptàculo, no
arranjo das sementes, no pistilo, os nomes da familia, do
gènero
e da especie em que a dêve collocar.
De escalpello na mão e microscopio no ôlho, passa
elle as
horas que pôde tirar ao trabalho de colleccionador, e
é
já a planta, já a ave, o ponto de mira do seu
estudo.
A momentos, é interrompido por um doente que chega, a quem
elle
dispensa os cuidados de mèdico, e ao mesmo tempo os remedios
da
cura, quando lhe não dá tambem a gallinha da
dieta.
Anchieta professa um respeito sem limites ao Doutor Bocage, director do
Museu Zoològico de Lisboa, e fala d'elle com essa respeitosa
amizade que é difficil encontrar onde não existem
estreitos laços do mesmo sangue.
Isso comprehende-se. Anchieta, que tem a consciencia dos
serviços que tem prestado ás sciencias
zoològicas,
conhêce que tem no D^{or.} Bocage o homem que lhe faz
justiça, e sabe aquilatar esses serviços; o homem
que
completa na Europa o trabalho que elle começa em
Àfrica;
o homem, emfim, que sabe quantas fadigas, quantas febres, quantos
incòmmodos custáram cada um d'esses exemplares,
que
descreve, descrevendo com elles nôvas especies.
José d'Anchieta é um d'esses nomes que merece o
respeito
dos homens de sciencia, e o respeito dos Portuguezes seus compatriotas;
porque, trabalhador infatigavel, tem sabido honrar o seu paiz,
conservando-se elle mesmo honrado e pobre, no meio do vicio e da
desmoralização que lavra nas terras em que vive,
e de que
poderia tirar proveito se fôsse menos escrupuloso.
Basta de falar d'elle, que não ha elogios que lhe
não
caibam; falando mais alto do que eu as suas obras, e o seu nome, ligado
para sempre aos seus trabalhos, que não morrem.
Soubémos que o Chefe Castro tinha sido exonerado do
commando, e
fôra nomeado outro official do exèrcito de
Àfrica
para o substituir.
Dois dias depois da nossa chegada, chegáram tambem a Caconda
o
nôvo chefe e o Alferes Castro, e por elles a nossa
correspondencia da Europa, que lemos com avidez.
Falei logo em carregadores, e o Alferes Castro promptificou-se a
acompanhar-me a casa de José Duarte Bandeira, o primeiro
potentado de Caconda, onde me disse que se arranjariam, pêla
grande influencia de que dispunha o tal Bandeira.
Partímos para Vicéte no dia 13 de
manhã, e n'esse
mesmo dia o Ivens seguio para casa de Matheus, a fazer um
reconhecimento ao Cunene, no logar da sua confluencia com o Quando. Eu
tambem devia ir fazer uma visita ao mesmo rio para o sul.
O Capello ficou em Caconda atacado por uma ligeira febre, e entregue
aos cuidados de Anchieta. Seguí a S.S.E., passando logo os
rios
Secula-Binza, Catapi, e Ussongue, que afflue a leste, correndo a
O.N.O., com 3 metros de largo por 1 de fundo, dando-lhe por isso grande
contribuição d'àgua.
Depois de caminhar a S.E. umas 26 milhas, chêguei
pêla
noite a Vicéte, libata fortificada entre rochas, no cume de
um
outeiro que domina vasta planicie.
Fui recebido por José Duarte Bandeira, que, depois de
bôa
ceia, me proporcionou òptima cama, de que bem precisava.
Logo na manhã seguinte, o Alferes Castro falou nos
carregadores,
e Bandeira prontamente se offereceu para obter 120, que tantos nos eram
precisos para seguirmos ao Bihé.
Mostrei o desejo de ir ao Cunene, e ficou decidido que
partìssemos no seguinte dia.
Caminhámos nove milhas a Leste, e encontrámos o
rio no Porto do Fende.
Logo á chegada, matei um grande hippopòtamo, que
têve a imprudencia de vir resfolgar a meio rio ao alcance da
minha carabina. Passei ali dois dias. O rio tem ahi 100 metros de largo
por 6 a 7 de fundo, com uma corrente de 1 milha por hora. O seu eixo no
Fende é N.O. a S.E. por espaço de 2 milhas, sendo
a
montante de N.E. a S.O., e ainda acima E.O. a jusante inclina-se para
S.S.O. por 26 milhas, até ao Luceque. Por vêzes
toma uma
largura de 200 metros e mais.
Abundam n'elle hippopòtamos e crocodilos.
1 milha a jusante do Porto do Fende, ha uns ràpidos a que
chamam
Da Libata Grande; meia milha abaixo, outros, as Mupas de Canhacuto; e
10 milhas mais a jusante, as cataractas de Quiverequete,
ùltimas
que tem no seu curso superior; sendo depois navegavel até ao
Humbe.
A margem direita é, nos pontos em que a visitei, montanhosa
e
coberta de mato virgem; á esquêrda, vasta
planicie, de 4 a
5 kilòmetros de largo, que encosta ao sopé dos
montes,
que formam um pouco elevado systema, correndo N.S.; em cujas vertentes
oeste assentam as povoações do Fende.
Pêlas 11 horas da noite do dia 15, formou-se sobre
nós uma
tormenta, que despedio innùmeras faïscas e copiosa
chuva,
deixando-nos completamente molhados.
A 17 voltámos para Caconda, com a promessa de termos os
carregadores dentro de 8 dias; tendo de mandar, logo no dia seguinte,
um barril de àgua-ardente para a
convocação.
Nesta parte de Àfrica, a àgua-ardente desempenha
para com
os homens o mesmo papél, que na Europa o azeite para com as
màchinas. Sem ella não se movem.
O nosso hospedeiro, que bem nos regalou em sua casa,
esquèceu-se
de que tìnhamos a gastar o dia em jornada; e saindo
nós
ao alvorecer, só á noite
alcançarìamos
Caconda. Partímos com o alforje vazio, e pêlo
meio-dia
já o appetite degenerava em fome.
Parámos n'uma clareira, e eu disse ao Alferes Castro, que ia
ver
se matava caça para comer; mas apenas avistei uma codorniz,
que
nos servio a ambos de almôço e jantar, cozinhada
n'uma
marmita de soldado. Confesso que já tenho
almoçado e
jantado melhor do que n'esse dia.
Os meus prêtos, vendo a minha avidez em roer os ossos da
codorniz, que a cadella de balde devorou com os ôlhos,
fazendo-me
mil negaças com a cauda, déram-me uma raiz de
mandioca,
que partilhei com o Alferes.
Chêguei, á noite, a Caconda, e depois de uma
bôa
ceia, dei fé que Ivens ainda não tinha chegado, e
que
Capello já estava bom.
O Ivens chegou a 19, e n'esse dia mandámos o tal barril de
àgua-ardente ao Bandeira, pedindo-lhe a maior urgencia na
convocação dos carregadores.
No dia 23, chegáram de Benguella uns artigos que tinham sido
requisitados; e para mim um presente de 6 latas de biscoito, que me
offerecia Antonio Ferreira Marques.
N'esse dia despachei outro portador a Vicéte, pedindo ao
Bandeira os carregadores, que já se demoravam.
Não appareciam os homens promettidos, e eu pedi ao chefe
para
que fôsse a Vicéte, e usando da sua influencia
como
autoridade, visse se dava pressa ao Bandeira em nos mandar a gente
precisa.
O chefe partio, e escreveu-me logo, dizendo já estarem
promptos
61 homens, e em breve haver os mais. Levara elle logo fazenda para os
pagamentos, que ali só querem algodão branco, mas
disse
serem precisas mais 50 peças, que nós
não
tìnhamos, mas que o Bandeira ficou de emprestar.
No dia seguinte, nôva carta do chefe, dizendo, que os
carregadores iam ser pagos e viriam logo; dois dias depois, terceira
carta, dizendo, já lá ter 94 homens; e
finalmente, no dia
5 de Fevereiro, outra carta,
dizendo, que não havia nem um carregador, e que nenhum se
arranjaria.
Imagine-se o nosso desapontamento.
Eu a esse tempo ainda não tinha formulado e arraigado no meu
espìrito um principio, que mais tarde me sugerio a
experiencia,
e que entrou depois, de parelhas com a carabina d'El-Rei, no feliz
resultado da minha viagem.
O principio formulado e depois profundamente arraigado no meu
espìrito, traduzio-se n'esta sentença:--
"Desconfiar, no sertão d'Àfrica, de tudo e de
tôdos, até que provas repetidas e irrefutaveis nos
permittam confiar um pouco em alguma cousa ou alguem."
Ora, para mim, essas provas sam tão difficeis de se
apreciarem,
como o sam as de um amor eterno, ou as da sòlida fortuna do
commerciante, embrulhado em transacções de vulto.
Creio que, ao tomarmos conhecimento da carta do chefe, cada um de
nós propoz alvitre qual d'elles mais disparatado.
O desapontamento era grande. Socegados os espìritos,
decidímos ir eu procurar os carregadores fôsse
onde
fôsse, e se longe ou perto os não podesse
encontrar,
seguirmos para o Bihé, e mandarmos d'ali buscar as cargas.
Julgàvamos isso possivel.
O chefe voltou de Vicéte, e não me deu
explicação plausivel do facto.
Acordámos em ir eu ao Huambo, a ver se do Soba d'ali obtinha
carregadores; porque, não só o Alferes Castro,
como o
chefe, e Anchieta mesmo, nos mostravam a impossibilidade de os ajustar
mais perto.
Pouco antes, Anchieta tinha encontrado grandes embaraços
para
fazer uma remessa de productos zoològicos para Benguella, o
que
era relativamente mais facil.
O que nos estava acontecendo é digno de notar-se.
Não só Bandeira, mas um tal Mathias, o sargento
Matheus e
outros, enviam grandes caravanas a sertões
longìnquos;
¡e todos elles não podéram obter um
só
carregador para nós!
Eu começava de antever um propòsito firme de nos
embaraçarem o passo, e mal cuidava então que esse
propòsito fôsse tão longe como
infelizmente tive
occasião de experimentar depois.
O correr d'esta narrativa mostrará, quam habilmente me
fôram levantados obstàculos, que só uma
decidida
protecção de Deos me fez vencer.
Deixemos este assumpto por enquanto, e antes que continúe
com a
narração das minhas aventuras, que
começam aqui a
tomar um caracter mais extraordinario, cabe-me dizer duas palavras a
respeito de Caconda.
A fortaleza de Caconda, o ponto mais interior onde hôje no
districto de Benguella tremula a bandeira Portugueza, é um
quadrado de 100 metros, cercado de um profundo fosso e de um parapeito,
onde aqui e àlém se pôdem ver as linhas
distinctas
de uma fortificação passageira, construida
outrora com
arte. Uma palissada forma segunda fortificação no
interior, resguardando umas casas arruinadas, que fôram
habitação do chefe, quartèis e paiol.
Algumas bôas peças de bronze, montadas a barbete,
deixam
ver por sôbre o plano de tiro, deformado pêlo
tempo, as
suas bôcas verde-negras e oxidadas.
A 200 metros ao Sul da fortaleza, as ruinas de uma igreja.
Ao norte, uma reunião de pequenas cubatas, morada dos
soldados.
O paiz é agradavel, e sem ser, como se pertende, isento de
febres, é certo que ellas ali sam mais benignas do que em
outros
pontos. A povoação é pouquissima, e
tem-se
retirado muito da fortaleza.
O solo é ubèrrimo, e muitas plantas
Europêas
facilmente se aclimam ali, produzindo espantosamente. No trigo,
feijão e batata vi eu isso, em pequenissimas
plantações.
O ribeiro Secula-Binza é uma fonte de àgua
cristallina correndo em leito de granito.
Junto da fortaleza ha poucas àrvores; que as necessidades
dos
habitantes t[~e]m despovoado as matas que dêvem ter existido
outrora, como ainda hôje existem mais longe.
O commercio é pouco, e esse mesmo é feito muito
longe no interior.
A mesma pégada de decadencia que se nos revela em
Quillengues, é ainda mais patente aqui.
A importancia de Caconda é igual, senão superior,
á de Quillengues; mas tem menos segurança ainda
para o
commercio; que o caminho de Benguella é infestado de
salteadores.
CAPÌTULO V.
VINTE DIAS DE AGONIA.
Parto de Caconda--O sova
Quipembe--Quingolo e o sova
Cáimbo--40 carregadores--Febre--O Huambo, o sova
Bilombo e
seu filho Capôco--80 carregadores--Cartas e
noticias--Quasi
perdido!--Sigo avante--Grave questão no Chaca
Quimbamba--Os
rios Caláe, Canhungamua e Cunene--Nôva e
séria
questão no Sambo--O Cubango--Chuvas e
temporaes--Grave
doença--Uma aventura horrivel--O Bihé
finalmente!
Parti de Caconda a 8 de Fevereiro de 1878, levando em minha companhia
10 homens de Benguella, o meu muleque Pepeca, Verissimo
Gonçalves, de quem já falei, e o chefe de
Caconda, o
Tenente Aguiar, que quiz por fôrça acompanhar-me
n'esta
expedição, que tinha por ùnico fim o
arranjar
carregadores; querendo mostrar assim a sua bôa vontade em nos
auxiliar, e que era estranho aos acontecimentos de Caconda.
Cumpre-me dizer, que eu nunca duvidei da sinceridade do Tenente Aguiar;
porque a esse tempo não tinha ainda arreigado no meu
espìrito o principio que formulei no capìtulo
anterior, e
hôje mesmo creio que elle foi enganado como eu, apesar da sua
muita experiencia dos sertões avassallados.
Depois de uma jornada de 17 kilòmetros a N.E.,
alcançei a
libata de Quipembe, onde fui recebido pelo sova Quimbundo, que me deu
hospitalidade. Passei um pequeno ribeiro o Carungolo, junto a Caconda;
e depois o Catapi, que ali corre a S.O.
O sova mandou-me logo um porco pequeno, e não tendo eu
podido
comprar gallinhas, mandou-me uma. À tarde veio á
minha
barraca, e depois de larga conversa, disse-me, que, ainda que os seus
antepassados fôram sempre avassallados a El-Rei de Portugal,
elle
não o era; porque as muitas arbitrariedades commettidas
pêlos chefes contra elle e os seus, tinham quebrado os
compromissos antigos; que o
Mueneputo
ja lhe não fazia justiça, e narrou-me muitos dos
acontecimentos em que baseava as suas accusações
aos
chefes, falando com modo muito atilado.
O chefe estava presente á entrevista, e não podia
responder ás accusações dirigidas aos
seus
antecessores, tão claramente eram ellas formuladas.
Este velho era homem de tino, e falou-me na polìtica dos
Portuguezes em Caconda com um juizo difficil de encontrar em
prêto boçal.
Procurei desfazer a má impressão que o soba tinha
dos
chefes de Caconda, mas creio que nada alcancei n'esse sentido. Mais uma
vêz tive occasião de apreciar o mao resultado dos
minguados estipendios que se conferem aos chefes dos
consêlhos do
interior; causa primordial da decadencia do nosso poderio e influencia
ali.
O sova de Quipembe é muito idoso, e soffre de gota, que lhe
embaraça o caminhar.
A sua libata é vasta, bem fortificada e muito bem situada.
Desde
a minha chegada muitas dezenas de prêtos e prêtas
pequenos
olhavam pasmados para mim, fugindo em debandada ao menor movimento que
eu fazia. Tentei fazer-lhes perder o mêdo que manifestavam,
dando-lhes alguns guisos e bagos de coral; mas só mui
receosos
se chegavam a mim, fugindo logo que recebiam o presente.
Fôram objecto de grande admiração, os
meus
òculos e o meu cobertor, em que se desenhava um enorme
leão em fundo vermelho.
No dia 9 deixei a libata, seguindo a N.E.; passei logo o ribeiro
Utapaira, e uma hora depois alcançava o Cuce, affluente do
Quando. Este rio tem ali 3 metros de largo por 2 de fundo, dando
difficil passagem, por serem as suas margens escarpadas e lodoso o
fundo.
A margem direita é montanha suave e pouco elevada, e a
esquêrda campina de 1 kilòmetro de largo. Passei
ao sul da
libata de Banja, magnificamente situada no tôpo de um
outeiro, e
depois de atravessar três ribeiros, o Canata e Chitando, que
vam
ao Cuce, e o Atuco ao Quando, alcancei este ùltimo rio, um
dos
grandes affluentes do Cunene.
O Quando corre ao Sul, com uma largura de 20 metros por dois a
três de fundo.
No sitio de Pessange, em que acampei, desapparece o rio por baixo de
massas enormes de granito, para reapparecer um kilòmetro a
jusante.
Este ponto offerece uma das mais bellas paisagens que tenho visto. As
margens do rio, um poco elevadas, sam cobertas de luxuriante
vegetação, onde as palmeiras elegantes se
destacam do
verde-negro dos gigantescos espinheiros. Os rochêdos
denegridos
sobressaem aqui e àlém por entre os tufos de
mato,
mostrando os cabêços puïdos do bater das
tempestades.
Nuvens de passarinhos chilram nas árvores e
innùmeras
rôlas esvoaçam sôbre os espinheiros. De
quando em
quando ouve-se o resfolgar dos hippopòtamos nos pegos do rio.
É a belleza selvagem em tôda a sua
força, mas a par
d'ella ha ali alguma cousa de horrivel, que sam venenosissimas
serpentes que a cada passo se arrastam junto de nós.
Matei algumas, que me certificáram os prêtos serem
de mortal peçonha.
Apparecéram alguns Hyrax, e eu, internando-me no mato virgem
da
margem esquêrda, em sua busca, deparei com as ruinas de uma
muralha de pedra, que pêla extensão parecem ter
sido muro
de povoação antiga. Foi este o primeiro dia na
minha
viagem em que de noite tive por tecto o ceo estrellado, mas por isso
não foi menos profundo o meu sono. Ao alvorecer
matámos,
entre a minha cama e a do tenente Aguiar, uma cobra venenosa.
Seguímos a N.E., e para àlém da
povoação de Pessange, encontrámos a de
Canjongo,
governada por um secúlo, que nos offereceu capata e vendeu
algumas gallinhas a trôco de panno de algodão
ordinario, e
depois de passarmos o rio Droma, affluente do Calae, que corre a S.E.,
descançámos algumas horas na margem
esquêrda, e
caminhando depois a N.N.E., chegámos, ás 5 horas
da
tarde, á libata grande de Quingolo.
O sova deu-me hospitalidade, e mandou logo comida para a minha gente.
Sabendo o motivo da minha viagem, disse-me, que se a elle tivessemos
recorrido com tempo, nos teria arranjado os carregadores, mas que os
chefes de Caconda não faziam caso d'elle, e faziam mal
n'isso;
que ainda assim, me ia dar 40 carregadores que enviaria a Caconda, e
fôsse eu ver se obtinha os outros ao Huambo.
Fui atacado de uma ligeira febre. No dia 11, logo de manhã,
o
sova veio visitar-me e confirmou o seu offerecimento de 40 homens, que
me disse partiriam no seguinte dia para Caconda.
Quiz fazer algumas compras de vìveres, mas nada me
quiséram vender; sabendo isto o sova Caimbo, enviou-me um
grande
porco. Eu fiz-lhe um presente de 3 peças de riscado e duas
garrafas de àgua-ardente.
O chefe Aguiar decidio voltar a Caconda, no que me deu um verdadeiro
prazer.
Ao meio dia apparecéram os chefes dos carregadores que
partiam, para receberem os pagamentos.
Esta libata grande de Quingolo é situada sôbre um
outeiro granìtico que domina uma enorme planicie.
Por entre as rochas crecéram sycòmoros enormes,
que lhe
dam uma frescura constante. Estas rochas combinadas com as palissadas
formam uma temivel fortificação, rodeada de um
fosso meio
obstruido. No tôpo do outeiro dois rochêdos enormes
de
elevadas proporções formam uma especie de
mirante, d'onde
se goza um dos mais sorprendentes panoramas que tenho visto.
Semelhante ao golpe de vista da cruz alta do Bussaco, se a mata, em vez
de limitada na estreita cinta de muralhas, se estendesse dos cabos
Carvoeiro ao Mondego até á beira-mar, apenas
interrompida
aqui e àlém por verdejantes clareiras, o paiz que
se
avista do alto de Quingolo é talvez, mais vasto e grandioso,
sendo limitado em tôrno por um perfil azulado de
longínquas montanhas que de distantes mal se avistam.
No dia 12, ainda que me recresceu a febre, decidi partir, e tendo feito
as mais cordiaes despedidas ao sova e ao chefe Aguiar, segui
ás
8h. 30m., acompanhado de 3 guias que me deu o sova Caimbo, com quem
fiquei nos melhores termos de amizade. Logo á saida passei o
ribeiro Luvubo, que corre ao Calae, e pêlas 10 horas alcancei
a
libata do secúlo Palanca, onde pedi agasalho, por me ser
impossivel caminhar com febre que recrescia a cada momento.
Apesar do meu estado de saude, fiz observações
astronòmicas, para determinar a minha
posição; e
falo n'isso, por ser este o primeiro d'essa sèrie de pontos
que
eu devia determinar através d'Àfrica.
Foi a povoação de Palanca o primeiro ponto
determinado
por mim, n'essa linha que marca o meu caminho do mar
Atlàntico
ao Indico.
Tres gramas de quinino que tomei durante a apyrexia
produzíram-me ràpidas melhoras que me
permitíram
seguir no dia immediato.
Eu viajava acavallo em um possante bôi, e tinha um outro de
reserva, bôis muito bem domesticados e que offereciam
bôa
commodidade ao andar, podendo obter d'elles um aturado trote e mesmo um
galope curto.
Segui perto das 8 horas e passei logo o rio Dôro, a que
chamam
das mulhéres, onde foi muito difficil a passagem dos
bôis,
por ser de fundo lodoso.
O calor era intenso, e eu comecei a sentir-me mais doente,
pêlo que resolvi deitar-me a descançar um pouco.
Não haviam arvores no sitio, e ao sol ardente
sôbre uma
terra ardente adormeci. Foi curto o meu sono, e ao despertar, senti que
estava fresco e tinha sombra. Eram os meus prêtos que, de
motu
proprio estavam em tôrno de mim segurando um panno para
desviar
do meu côrpo as ardencias de um sol a prumo. Tocou-me tal
prova
de cuidado. Segui ávante e passei um riacho--o
Dôro, a que
chamam dos homens, que se une ao primeiro e corre depois ao Calae,
não sei se com o mesmo nome. Duas horas depois encontrava o
rio
Guandoassiva, que tem 5 metros de largo por 1 metro de fundo, em cuja
margem descancei. É affluente do Calae e abunda em peixe
miudo,
que muito ali pescámos. Eu sentia-me bastante doente.
Á
febre que tinha reapparecido unia-se uma extrema fraqueza, pois que,
havia dois dias, apenas tinha tomado alguns caldos de gallinha.
Aproveitei o descanço para mandar fazer um caldo de frango,
que
não levou sal, por se me ter acabado a pequena
provisão
trazida de Caconda.
Depois de duas horas de repouso, seguímos sempre a N.E., e
meia
hora depois passàvamos o rio Cuena, que tem ali 6 metros de
largo por 1,5 de fundo, e corre ao Calae.
Este rio corre entre as vertentes suaves de montanhas mui pouco
elevadas, mas cavou um leito fundo, cujas escarpas verticaes de 2
metros, tornáram difficil a passagem dos bois.
Trabalhámos ali duas horas. Duas horas depois, já
ao
cahir da noite, alcancei a libata do Capôco, o poderoso filho
do
sova do Huambo.
O Capôco recebeu-me muito bem, deu-me a sua propria casa para
habitar, offereceu-me logo um grande porco, e sabendo-me doente
mandou-me duas gallinhas.
Falei-lhe em carregadores, que elle me prometeu arranjar.
Fiz-lhe um presente de duas peças de riscado e duas garrafas
de
àgua-ardente. Pouco depois, um grande rancho de virgens, que
se
conhêcem pelas muitas manilhas de verga de pao, que lhe sobem
dos
artelhos, trouxeram em cestas abundante comida aos meus
prêtos.
Depois de tomar alturas da lua, deitei-me, feliz, apesar de doente, por
ver coroada de èxito a minha excursão.
No dia seguinte deveriam chegar ali os meus companheiros, e com elles,
não só a amizade e a companhia dos meus
conterraneos, mas
ainda os recursos que já me faltavam completamente.
Adormeci sorrindo. ¡Quam longe estava eu de pensar que
adormecia
na vèspera de uma agonia, immensa agonia que devia durar por
20
dias!
No dia 14 fui a casa do pai do Capôco, o sova das terras do
Huambo. A libata d'este sova, que se chama Bilombo, dista 3
kilòmetros da do filho, e está assente na margem
esquêrda do rio Calae.
Bilombo esperava-me. Rodeado do seu pôvo, trajava
soberbamente
uma casaca escarlate, cobrindo-lhe a cabêça uma
barretina
de caçadores. Entreguei-lhe o meu presente, que consistia em
3
peças de riscado ordinario e duas garrafas de
àgua-ardente, a que se mostrou muito grato. Ficou muito
sorprendido vendo a minha carabina Winchester, e pedio-me para eu
atirar com ella, ficando admiradissimo de me ver metter algumas balas
n'um pequeno alvo a 200 metros, e muito mais quando lhe quebrei um
ôvo a 50 metros.
Este sova governava em tudo o paiz do Huambo: mas está
hôje reduzido a dominar apenas em parte d'elle. A sua
historia
é curta, mas vulgar. Elle era casado com a filha do sova do
Bihé, que entretinha relações amorosas
com um dos
seus secúlos.
Tremiam os criminosos da còlera do rei se viesse a saber a
sua
falta. Houve rompimento entre Bilombo e um règulo vizinho, e
a
guerra foi declarada. Bilombo tomou o commando do seu
exèrcito e
partio, ficando a governar na sua ausencia o amante da sua
mulhér. Conspiráram ambos e
Capussocússo
fêz-se acclamar sova. Retirou-se Bilombo para esta parte do
paiz
banhada pêlo Calae, onde o pôvo se lhe conservou
fiel, e
á epocha da minha passagem, me disse, estar preparando uma
terrivel vingança á adùltera e ao seu
amante o
traidor Capussocússo.
De volta a casa do Capôco, despedi os três guias,
que me
acompanháram desde Quingôlo, e por elles escrevi a
Capello
e Ivens, dizendo-lhes, que os esperava, e que não
abandonassem
as cargas, por ser o paiz pouco seguro.
Fui de tarde dar um passeio ás margens do Calae, e
sorprendeu-me
a quantidade de caça que encontrei, que nunca tanta tinha
visto,
mas nada matei por não ir prevenido para isso.
O sova Bilombo mandou-me um presente de farinha de milho e um grande
bôi, presente mui valioso, por ser escaço o gado
bovino
n'aquelle paiz.
Os carregadores estavam preparando os mantimentos para seguirem no dia
immediato para Caconda, e eu escrevia aos meus companheiros, quando
chegáram três portadores do sova de
Quingôlo, com
cartas d'elles, e uma cesta contendo sal e um pequeno saco de arroz.
Abri pressuroso as cartas; eram ellas duas officiaes e uma particular,
assignadas por Capello e Ivens. Diziam-me, que tinham resolvido seguir
sós, e que pêlos 40 carregadores enviados por mim
de
Quingôlo, me mandavam 40 cargas, acompanhadas pêlo
guia
Barros, para eu as conduzir ao Bihé.
Só o pouco ou nenhum conhecimento do sertão
Africano, que
então tinham os meus companheiros, podia desculpar um tal
proceder. Eu achava-me n'um paiz hostil, e se até ali tinha
sido
respeitado, fôra só porque o gentio me julgava a
vanguarda
de uma grande comitiva capitaneada por elles, e o receio das
represalias tinha até então sostido a rapacidade
dos
indìgenas. Eu estava no paiz onde Silva Porto, o velho
sertanejo, que percorrera impunemente os mais longinquos
sertões
Africanos, tivera de sustentar cruento combate com um gentio
àvido de rapina.
¿Que seria de mim logo que se soubesse que tôda a
minha
força consistia em 10 homens? Encarei a minha
posição e achei-a um pouco séria.
Capello e Ivens
tinham sido enganados por alguem, que a sua lealdade não
lhes
consentiria de certo o deixarem-me em tal
posição, se
elles conhêcessem bem essa posição.
¿Que fazer? Em três dias podia alcançar
Caconda, e
voltar d'ali a Benguella. Tinha, por outro lado, diante de mim uma
jornada de vinte dias ao Bihé, jornada em que teria de
arriscar
cada dia e a cada hora a vida e as bagagens. ¿Que fazer?
A noite de 17 de Fevereiro foi passada em uma
agitação febril indescriptivel.
¿Devia seguir ávante? ¿Tinha o direito
de arriscar
as vidas dos dez homens que me cercavam, e que dormiam tranquillos
junto de mim? ¿Teria o direito de arriscar a minha propria
vida
em imprudente passo? ¿Deveria voltar a Benguella?
¿Quem comprehenderia na Europa o obstàculo quasi
insuperavel que me fazia recuar? Ninguem, a não ser um ou
outro
explorador infeliz como eu.
¡Que noite horrivel! e a febre a desvairar-me a mente, e o
cuidado a augmentar-me a febre. A aurora do dia 18 encontrou-me de
pé, e havia momentos que uma phrase estava gravada no meu
pensamento e eu repetia machinalmente aquella phrase.
Audaces fortuna juvat.
Era a velha sentença dos fortes Romanos, era a lei que dicta
as acções dos aventureiros.
Decidi seguir ávante, eu que não tinha ido a
Àfrica para só visitar o paiz do Nano, que,
digamos a
verdade, não deixa de ser muito interessante,
sôbre tudo
para nós os Portuguezes.
Descrevi aos meus 10 homens a nossa posição
precaria e a
resolução tomada de caminhar para o
Bihé; elles
protestáram-me a sua dedicação e a
intenção de sempre me acompanharem.
D'esses dez homens 3, Verissimo Gonçalves, Augusto e
Camutombo
estivéram em Lisboa depois de terem atravessado comigo a
Àfrica; 4 seguíram do Bihé Capello e
Ivens, por
minha ordem; 1, o prêto Cossusso, enlouqueceu, junto ao
Quanza, e
foi por mim entregue ao aviado de Silva Porto, Domingos Chacahanga,
para d'elle ter cuidado; e os dois restantes, Manuel e Catraio grande,
cahiram aos meus pes varados pêlas azagaias Luinas, e
cumprindo a
sua promessa formulada rudemente n'este dia, morréram
defendendo-me, quando eu mesmo defendia a bandeira das Quinas.
Ao tempo em que vai a minha narrativa, eu mal os conhêcia, e
não tivera até então logar de
experimentar o seu
valor.
Eu estava em casa do Capôco, que até
então me tinha
dispensado os maiores favores; mas Capôco era o
cèlebre
salteador do Nano, que chegara a ir atacar Quillengues, um anno antes.
¿O que faria elle, logo que conhêcesse a minha
fraqueza?
D'elle dependia o èxito da minha empresa. Capôco
é
homem de vinte e quatro annos, sympàthico e de maneiras
agradaveis. Muitas vêzes me dizia Verissimo
Gonçalves, que
lhe parecia impossivel ser elle o homem cujo nome era tão
temido, e que tão longe dirigia as suas correrias de
devastação e morte. Entre as suas escravas
conhêceu
Verissimo algumas raparigas roubadas em Quillengues, no ataque do anno
anterior. Uma mesmo, com quem falei, era filha de um dos sovas de
Quillengues, e Capôco pedia por ella grande resgate.
Capôco é intelligente, parco no comer e beber, e
ainda que
possue grande nùmero de escravas, as que formam o seu harem
sam
mui poucas.
Ha no seu fundo alguma cousa de justo por entre a barbaria do seu viver
e dos seus principios. Por exemplo: eu vi que a escrava, a que acima me
referi, filha do sova de Quillengues, trazia nos artelhos as manilhas
de pao, signal infallivel de virgindade, a pesar de ser muito bonita e
elegante. Admirou-me isso, e perguntei ao Capôco
¿porque
não havia feito d'ella sua amante? "Porque não
dêvo," me respondeu elle, "é minha escrava
pêlo
direito da guerra, mas em quanto seu pai manifestar o intento de a
resgatar, dêvo respeital-a e será respeitada,
porque a
dêvo entregar como a tomei."
Um dia Capôco disse-me, que, estando Benguella d'aquelle lado
(apontava para o oeste), o sol passava primeiro pêlo Huambo
antes
de ir a Benguella. Disse-lhe eu ser isso verdade, e elle quiz saber
quanto tempo depois de nascer ali, nascia elle em Lisboa. Procurei
fazer-lhe comprehender, que hora e meia; dizendo-lhe o tempo que um
homem leva a percorrer tal caminho, elle mostrou-se admirado; porque
julgava, me disse, ser o nosso paiz muito mais longe.
Os costumes entre os pôvos do Nano e do Huambo sam os mesmos
que
entre os Quillengues, assim como falam a mesma lingua. Trabalham o
ferro, de que fazem setas, azagaias e machadinhas; mas não
enxadas, que v[~e]m do norte.
Como já incidentalmente notei, as raparigas, em quanto
virgens,
usam nos artelhos de ambas as pernas ou só na
esquêrda,
umas manilhas de verga de pao, e é grande crime para a
familia,
conservar as manilhas áquellas que já
não t[~e]m
direito de as usar.
Uma cousa curiosa nos costumes d'estes pôvos, é
haver em
tôdas as povoações uma especie de
kiosques para
conversação.
Figura
4.--Homem e Mulhér do Huambo.
Sam como uma cubata, mas os prumos que sustentam o tecto de
côlmo, sam bastante separados. No meio arde a fogueira, socia
constante do gentio Africano, e em tôrno tomam assento os
habitantes da povoação em toros de pao.
É o sitio
da palestra, sôbre tudo quando chove; ali narram-se episodios
de
guerra ou de caça, fala-se tambem de amor, e muito menos de
vidas alheias do que na Europa.
No paiz do Huambo comêça na costa de oeste o
grande luxo
nos penteados, tanto em homens como em mulhéres, e tenho
visto
alguns que difficilmente seriam executados pelos melhores
cabelleireiros da Europa.
Ha penteados que levam dois e três dias a fazer, e que se
conservam por muitos mezes.
Os penteados das mulhéres sam profusamente enfeitados com
umas
contas de vidro que no commercio em Benguella tem o nome de coral
branco ou encarnado, e é este gènero muito
procurado no
paiz. Eu infelizmente não levava nenhum.
A pòlvora, armas e o sal de cozinha sam ali
gèneros de
grande valia. Nada d'isso eu tinha, em quantidade de que podesse
dispensar, o que tornava mais embaraçosa a minha
posição.
Fui falar ao Capôco e expuz-lhe que os meus companheiros
tinham
seguido por Gallangue, e que só viriam 50 cargas,
não
precisando eu por isso mais de 40 homens e esses só para
irem
d'ali ao Bihé.
Despedímos por isso os 80 carregadores que a essa hora
já
estavam reunidos, e que se retiráram muito descontentes.
Capôco prometeu-me que teria os 40 de que precisava
até ao
Bihé. N'esse dia chegou o prêto Barros com as 40
cargas, e
trouxe-me nôva carta dos meus companheiros, confirmando o que
diziam as primeiras.
Por elle sube que elles tinham saïdo de Caconda para o
Bihé; acompanhados pêlo ex-chefe, Alferes Castro,
e
pêlo degradado Domingos, que me tinham mostrado a
impossibilidade
de obter gente em Caconda, e que a obtivéram no dia em que
eu
sahi d'aquelle ponto.
A elles, talvez, devia eu a crìtica
posição em que
me achava, porque os meus companheiros, pouco conhêcedores
d'Àfrica, e nada d'aquelle paiz, não podiam
julgar das
difficuldades que me creavam, ao passo que aquelles dois senhores, de
sobra as conheciam. Não os accuso de um crime, mas culpo-os
de
uma leviandade.
Não lhes quero mal, porque a ningem quero mal, e um mez
depois
de se passarem os successos que estou narrando; espantado ainda dos
perigos a que tinha conseguido escapar; prostrado no leito, onde me
tinha prendido com garras de ferro a doença, proveniente de
20
dias de cruel agonia, a que elles déram causa; vi-os entrar,
famintos e sem recursos, na casa de Silva Porto, que eu occupava no
Bihé; e esquècendo tudo o mal que me haviam
feito; e
não me lembrando de que um estava privado dos direitos
de cidadão por uma sentença infamante; reparti
com elles
o pouco de vìveres que eu tinha, dando-lhes os meios de
voltarem
com relativa commodidade a Caconda. É que eu vi n'elles,
não só dois brancos, dois Portuguezes, perdidos
no
já longinquo sertão do Bihé, mas vi
mais os homens
que me fizéram ter de mim uma opinião de que me
sentia
orgulhoso, os homens que em 20 dias de agonia que me déram,
em
mil perigos a que me lançáram, com que me
fizéram
lutar e que eu venci, me retemperáram a alma para
commettimentos
maiores. A elles devia a confiança que tinha em Deos e em
mim
mesmo; e repartindo com elles o pouco que tinha, julgava pagar uma
dìvida de gratidão, onde outros, succumbindo ao
soffrimento, só veriam, talvez, um motivo de
vingança.
Não antecipemos factos.
Capôco veio dizer-me, que no dia seguinte teria os 40 homens
que
queria, mas só até ao Sambo, porque elles se
recusavam a
ir mais àlém; por estarem despeitados
pêla
despedida dos 80 que se haviam reunido para ir a Caconda e ao
Bihé, e que eu tinha dispensado. Àlém
d'isso,
elles exigiam um pagamento muito superior; porque eu os havia
contratado por 10 pannos de Caconda ao Bihé, e estes exigiam
só do Huambo ao Sambo 8 pannos. Acertei tudo, para poder
partir.
No dia seguinte de manhã, reuníram-se os 40
homens; mas
de repente surgio uma nôva difficuldade. Quando em Caconda
fomos
enganados pêlo Bandeira, o Ivens tinha tirado a
tôdos os
fardos sortidos o algodão branco; porque os prêtos
que
esperàvamos do Bandeira não queriam pagamento em
outro
gènero. Esquèceu esta circunstancia, e eu,
levando dois
fardos sortidos, não levava nem uma só
peça de
algodão branco. A gente do Capôco declarou-me
logo, que
não queriam receber senão algodão
branco, e
não pegariam nas cargas se eu lho não
désse.
Recusáram-se a receber o riscado, e já se iam,
quando
appareceu o Capôco, e não sem custo os decidio a
receberem
metade em riscado, metade em zuarte.
Havia grande descontentamento entre elles quando ás 10 horas
os
fiz seguir acompanhados pêlo guia Barros. Eu devia partir
dentro
de uma hora; mas fui atacado de tão violento accesso de
febre,
que tive de deitar-me.
Desde a vèspera chovia torrencialmente, e sôbre
tudo a noite foi tempestuosa.
A febre comêçou a declinar ás 4 horas
da tarde, e a
chuva cessou. Pêlas 5 horas, precisei sahir da libata e fui a
um
mato pròximo, os meus passos eram vacilantes e apoiava-me
pesadamente no meu bordão.
Precavido sempre, disse ao meu prêto pequeno
Pépéca, que me acompanhasse e trouxesse uma das
minhas
carabinas.
Ia a entrar no mato, quando a vinte passos de mim surge um enorme
bùfalo a olhar desvairado, resfolgando estrondosamente.
Tomei das mãos do pequeno a espingarda, e qual
não
é o meu desespêro, vendo que, em logar de
carabina, elle
tinha trazido uma simples arma de caça, carregada de chumbo!
Senti-me perdido e vi a morte inevitavel, terrivel caminhando para mim
n'aquella fera, que mugia surdamente.
Lembrei-me de Deos, de minha mulhér e de minha filha. A fera
avançava aos saltos, n'esse irregular galope que elles tomam
para o ataque. A 8 passos de mim, disparei-lhe o primeiro tiro de
chumbo, elle parou meio segundo, para seguir logo. Ao dispararar-lhe o
outro tiro não havia mais distancia entre a bôca
da
espingarda e a cabêça do bùfalo do que
alguns
decìmetros. Atirei e fiz um enorme salto para o lado. O
bùfalo seguio sempre, passando a tomar uma carreira
vertiginosa,
e desappareceu no mato. O meu Pépéca ria a
bandeiras
despregadas, e inconsciente do perigo, batia as palmas gritando, "O
bôi fugio, o bôi fugio, têve
mêdo de
nós."
Voltei a casa do Capôco; e passei a noite mais socegado. Quiz
escrever, e para isso improvisei uma luz de manteiga de porco em uma
velha caixa de sardinhas de Nantes.
Era a 21 de Fevereiro de manhã. Despedi-me do
Capôco, e
febril ainda, segui caminho do Sambo. Antes de chegar ao Calae, recebi
un bilhete. Era elle do guia Barros, dizendo-me, que na
vèspera
á noite, os carregadores tinham fugido tôdos,
deixando as
cargas na libata do secúlo Quimbungo, irmão do
sova
Bilombo.
Parei, e mandei chamar o Capôco. Contei-lhe o occorrido, e
elle
disse-me, que seguisse para a libata do tio, que tudo ia remediar.
Segui ávante, e pouco depois passei o Calae, que corre N.S.
para
o Cunene, tendo ali 30 metros de largo por l,5 de fundo, com violenta
corrente.
As margens sam vastas planicies levemente accidentadas e cobertas de
gramìneas, por entre as quaes surge aqui e
àlém um
solitario dragoeiro. O solo é de
formação animal,
que tudo o terreno é coberto por um mundo infinito de
termites,
ou antes o cobre.
Uma ponte, construida toscamente de troncos de àrvore, une
as
duas margens do rio. 100 metros a montante da ponte, recebe o Calae um
affluente importante, o Cuçuce, que traz volume
d'àgua
igual ao seu. Caminhei a E.N.E., e pêlas 10 horas passei
junto
á libata do secúlo Chacaquimbamba, em cuja frente
havia
grande ajuntamento de gentio. Passei sem nada me dizerem; mas tinha
andado uns 50 metros, quando senti um grande barulho do lado da libata.
N'esse momento Verissimo correu a mim e disse-me, que havia
questão com um carregador nosso.
Voltei a traz e vi o prêto Jamba, carregador da minha mala, a
quem tinham tirado a espingarda, o que conseguíram
facilmente,
porque elle a largou com receio de deixar cair a mala, que continha os
chronòmetros e outros instrumentos delicados.
Àlém da arma, elles tinham mettido para a libata
uma
cabra e um carneiro, que me tinham sido dados pêlo
Capôco.
Intimei-os a que me entregassem o roubo; mas apenas me
respondéram com um murmurio ameaçador.
Calculei ràpidamente as circunstancias, e vi-me com 10
homens, cercado por 200 que me ameaçavam furiosos.
Esquèci por um momento tôda a prudencia e bom
senso, e
quiz experimentar o que valiam esses 10 homens, que no futuro teriam de
ser meus socios em perigos maiores, e caminhando para a porta da
libata, armei o revólver e ordenei-lhes que entrassem e me
trouxessem o roubo. O meu prêto de Benguella, Manuel, um
môço de que eu nunca fizera caso, soffreu uma
transformação sùbita, e armando a
carabina, de um
salto entrou na libata. Foi logo seguido por Augusto, Verissimo e
Catraio grande. Os
outros seguíram, e eu, estudando os meus homens,
esquèci-me de mim, e podia ter sido vìctima do
furor da
populaça que me cercava; mas a nossa audacia espantou-os, e
recuáram, vendo sahir da libata Verissimo com a cabra, o
Augusto
com o carneiro, e os outros de carabina prompta cobrindo-lhes a
retirada.
A arma, mais facil de esconder do que os animaes, não foi
encontrada, mesmo em uma segunda busca mais minuciosa do que a
primeira; que o successo desta tinha autorizado.
Os meus prêtos, animados pêla indecisão
dos gentios,
só proferiam palavras de morte, e custou-me a contel-os para
que
não fizessem fogo sôbre os indìgenas.
Consegui acalmal-os, e prometi-lhes que em breve teriamos
satisfação plena.
Eu dizia isto fiado no Capôco, em quem já confiava
um pouco.
Seguímos, uma hora depois, e a 1.30 passava o rio
Põe,
affluente do Caláe, que tem 5 metros de largo por 1 de
fundo,
cujo leito lodoso e molle dá difficil passagem.
Ás 3 horas chegava á libata do secúlo
Quimbungo,
irmão do sova do Huambo, onde estavam as cargas abandonadas
e o
prêto Barros. O Quimbungo recebeu-me muito bem, e disse-me
que me
daria carregadores até ao Sambo, e sabendo do occorrido de
manhã, pedio-me que não fizesse mal ao
secúlo
Chacaquimbamba, que elle me faria entregar a arma roubada, e dar plena
satisfação do insulto. Pêlas 6 horas,
chegou ali o
Capôco, trazendo alguns carregadores dos que tinham fugido, e
as
fazendas apprehendidas aos outros, fazendas dos pagamentos que eu havia
feito adiantados. Disse-me, que no seguinte dia me faria entregar a
arma roubada, e poria á minha
disposição o chefe
da povoação para eu o castigar.
Que não receasse eu mais fuga de carregadores, porque elle
mesmo, ou o tio, me acompanhariam até ao Sambo.
Fui deitar-me ardendo em febre, e passei uma noite horrivel.
No dia seguinte reuníram-se mais carregadores; mas
não ainda os sufficientes.
Capôco tinha partido logo de madrugada para casa do
Chacaquimbamba, e ao meio dia appareceu-me com a arma roubada e aquelle
secúlo, a quem perdoei a offensa da vèspera. O
delinquente deu-me mil satisfações, e melhor do
que as
satisfações, dois magnìficos carneiros.
Capôco, esse homem selvagem e ferôz, que
é o terror
do Nano, esse homem que eu consegui dominar completamente e que tantos
serviços me prestou, despede-se de mim e volta á
sua
libata, recommendando-me instantemente ao tio.
De tarde desencadeou-se sôbre nós uma horrivel
tempestade,
e á chuva torrencial misturava-se o raio e o
trovão da
tormenta perpendicular. Recresceu-me a febre.
Durante a noite nôva tormenta; mas com chuva moderada. O
secúlo Quimbungo, logo de manhã cêdo,
me veio dizer
estarem promptos os carregadores; mas exigirem o pagamento adiantado.
Recusei positivamente, porque, àlém da
experiencia
adquirida com o mao resultado dos pagamentos adiantados, foi
consêlho do Capôco, nunca fazer taes pagamentos.
Os homens recusáram-se a seguir e fôram-se.
Quimbungo
reune a gente da sua povoação, e ordena-lhe que
sigam
comigo; elles obedecêram, mas sam mui poucos e reunidos aos
que
me trouxe o Capôco, deixam ainda 27 cargas, que eu entrego ao
Barros, e que o Quimbungo promette mandar-me
ámanhã para
o Sambo, para onde eu decidi seguir immediatamente.
Parti ás 10 horas a Leste, e uma hora depois, passei o rio
Canhungamua, de 30 metros de largo por 4 a 5 de fundo, que correndo ao
Sul vai unir as suas àguas ás do Cunene.
Uma ponte de troncos de àrvore, de
construcção
nôva, deu-me facil passagem e á comitiva, que na
margem
esquêrda do rio se recusou a ir mais longe n'aquelle dia,
sendo-me preciso empregar a maior energia para os fazer seguir
até as 3 horas, hora a que acampei n'uma espêssa
floresta
de acacias.
O mao tempo continuava sempre, e a febre resistia ao muito irregular
tratamento que eu lhe podia fazer.
Durante a noite uma trovoada horrivel, correndo de S.O. a N.E., passou
junto de mim, despedindo raios e chuva torrencial.
Levanto campo no dia seguinte ás 6 horas, e duas horas
depois,
passava o Cunene, em ponte construida, como tôdas n'esta
parte
d'Àfrica, de troncos grosseiros. O rio tem ali 20 metros de
largo por 2 de fundo, e corre ao Sul. As margens sam levemente
accidentadas, cobertas de gramìneas, e pouco arborizadas.
Duas
fileiras de àrvores, mui semelhantes aos salgueiros da
Europa,
desenham duas linhas tortuosas, por entre as quaes o rio se deslisa com
veloz corrente em leito de areia branca e fina.
Descancei um pouco, depois de ter feito as
observações
precisas para determinar a altitude, e segui ao meio dia,
alcançando, pêlas 2 horas, a libata do sova Dumbo,
no paiz
do Sambo.
Este sovêta é vassallo do sova do Sambo,
é homem
rico e tem muita gente nas povoações que governa.
Recebeu-me muito bem, e quiz que me hospedasse na libata, o que aceitei.
Prometteu-me carregadores para o dia seguinte, ainda que me disse ter
eu chegado em má occasião, por ter muita gente
fôra
em guerra. Paguei e despedi os carregadores do Quimbungo, e fiquei
certo de seguir no dia
immediato.
Pouco antes de mim tinha chegado ao Dumbo um secúlo rico,
que
mora na margem do Cubango, chamado Cassoma, e vinha visitar o
sovêta de quem era amigo. Este Cassoma, com quem
não
sympathizei, veio fazer-me mil protestos de amizade, offerecendo-se
para me acompanhar ao Bihé.
De tarde mandei ao sovêta 3 garafas de
àgua-ardente, e fiz
lembrar-lhe que me não faltassem os carregadores na
manhã
seguinte. Ao contrario dos usos da hospitalidade do gentio n'estas
paragens, o sovêta nada me mandou para comer, e eu e os meus
tivémos fome, porque ninguem nos vendeu farinha.
Seriam 8 horas da noite, quando eu, de muito mao humor e
estômago
vazio, me ia deitar, senti bater á porta e logo entrarem o
sovêta Dumbo, o tal Cassoma e um secúlo chamado
Palanca,
amigo e principal conselheiro do sovêta, e cinco das
mulhéres d'este ùltimo.
Conversámos um pouco sôbre a minha viagem; mas de
repente
o Cassoma, interrompendo a conversa, disse ao sovêta,
"Nós
não viémos aqui para conversar, queremos
àgua-ardente, e diga a esse branco que nol-a dê
já."
O sovêta animado pela arrogancia do Cassoma, disse-me, que
lhe
desse àgua-ardente a elles e ás
mulhéres. Eu
respondi-lhe que já lhe tinha dado três garrafas,
que elle
nada me tinha offerecido, que era esta a primeira hospedagem que eu
recebia de um chefe em que me deitava com fome, e por isso
não
lhe daria nem mais uma gota de àgua-ardente. O Cassoma
meteu-se
logo na questão, animando o sovêta contra mim, e
entre
nós comêçou uma controversia que durou
mais de uma
hora, em que eu fiz prova de uma prudencia e paciencia sem limites. Por
fim elles concluiram dizendo-me, que pois eu lh'a não queria
dar
por bem, m'a iam tirar á fôrça.
Eu então, perdendo a paciencia, empurrei com o pé
o
barril, e armando o revólver, perguntei-lhes qual era o
primeiro
que bebia.
Elles vaciláram um momento, mas o Cassoma disse ao
sovêta:
"Tu es rei, vae, bebe primeiro." Dumbo, tirando o cobertor que o
envolvia, entregou-o ao Palanca, dizendo-lhe: "Guarda-o, para que o
branco m'o não furte," e caminhou ao barril.
Eu levantei o revólver á altura da
cabêça do
sovêta e fiz fogo; mas Verissimo Gonçalves, que
estava
junto a mim, empurrou-me o braço e a bala, desviando-se da
pontaria, foi cravar-se na parêde.
Os três nêgros, transidos de mêdo,
recuáram
até á parêde, e as 5
mulhéres fizéram
um berreiro horrivel.
Eu ouvi então junto á porta uma estrepitosa
gargalhada
que me chamou a attenção, e devisei na sombra
dois homens
encostados ás carabinas, que riam como riem
prêtos. Eram
os meus Augusto e Manuel, que se tinham aproximado, ao ouvirem a
discussão, e que, acompanhados dos outros 8 homens,
guardavam a
porta.
O Verissimo disse então ao sovêta e aos seus
companheiros,
que se fôssem deitar, e não me dissessem mais
nada,
porque, se eu me zangasse outra vez, elle não lhes poderia
salvar a vida como ha pouco.
Elles tomáram o prudente consêlho, e
retiráram-se, ficando tudo em silencio.
Sem o
empurrão que me deu o
Verissimo, eu teria môrto um homem, e na
situação
em que nos achàvamos, estarìamos completamente
perdidos.
Foi elle que salvou tudo.
Com a
excitação que me
produziu a còlera, recresceu a febre, e cahi sem
fôrças nas pelles que estendidas no
chão me
serviam de leito.
Os meus prêtos deitáram-se atravez da porta, e
disséram-me, que dormisse descançado, que elles
velariam
por mim.
Havia quatro dias, que por um momento estive quasi perdido em
três occasiões differentes: 1^o com o
bùfalo no
Huambo, 2^o na libata do Chacaquimbamba, e 3^o ali n'aquella noite.
Depois de um sono agitado, acordei ao som da tempestade que bramia
lá fora.
Pensei nos acontecimentos da noite e não fiquei tranquillo.
¿O que succederia de manhã? Eu estava
só com 10
homens, dentro de uma povoação fortificada,
d'onde
não era facil sahir; e ainda que se me abrissem as portas
¿onde iria eu obter carregadores, agora que me tinha
indisposto
com o règulo?
Pôde bem julgar-se da anciedade com que esperei o raiar da
aurora.
Ao alvorecer a febre tinha abrandado um pouco. Apromptei-me para
partir, e mandei chamar o sovêta, que appareceu logo.
Disse-lhe que ia seguir, e ali deixava as cargas sôb sua
responsabilidade, e que depois as mandaria buscar; mas elle pedio-me
que o não fizesse, que me ia dar os carregadores; e dando-me
mil
satisfações
do occorrido na vèspera, disse-me, que o culpado
fôra o
Cassoma, que elle já tinha posto fôra de casa; o
que era
falso, porque eu ali o vi depois.
Figura
5.--Mulhér do Sambo.
Ás 10 horas, apresentou-me os carregadores precisos.
Verdadeiramente não eram só carregadores, que no
grupo
devisei 6 raparigas, ainda de manilhas nos artêlhos; tal
cuidado
poz elle em servir-me, que, para não me demorar, mandando ir
homens das povoações distantes, me deu os que na
sua
tinha disponiveis, e ainda seis das suas escravas, para completar o
nùmero pedido. Agradeci muito e mostrei-me sensivel a tal
prova
de cuidado, declarando-lhe logo, que não tinha comigo
presente
digno, de offerecer-lhe, e que querendo dar-lhe uma espingarda lhe
pedia mandasse um homem da sua confiança recebel-a no
Bihé, mostrando-lhe desejos de que esse homem
fôsse o
secúlo Palanca seu conselheiro ìntimo. Exultei de
alegria
(que me abstive de deixar transparecer) ao ver o meu pedido satisfeito,
e o Palanca nomeado para me acompanhar. O sovêta Dumbo
entregava
nas minhas mãos um preciôso refem, que me
responderia
já pêla minha segurança, já
pêla das
cargas que deixei dois dias antes entregues ao Barros, a quem preveni e
acautelei em carta deixada ao Dumbo.
Deixei a povoação ás 11 horas,
á frente da
estranha comitiva, formada dos meus dez bravos de Benguella, dez
salteadores do Sambo, e seis virgens escravas do sovêta
Dumbo. A
chuva era torrencial; mas eu, apesar d'isso, segui sempre, tanto me
tardava de ver longe a povoação onde passei
tão
horrivel noite.
Quatro horas depois, tendo andado a N.E., fui acampar junto da
povoação de Burundoa, completamente molhado e
tiritando
de frio e febre.
Não aceitei a hospitalidade offerecida pêlo chefe
da
povoação, porque, depois do que se passou na
vèspera, recordei-me de um bom consêlho que me deu
Stanley, e protestei não mais em Àfrica pernoitar
em casa
de gentio.
Figura
6.--O meu Acampamento entre o Sambo e o Bihé.
Viéram ao meu campo muitas raparigas vender capata, milho,
fuba
e batatas magnìficas, em nada inferiores ás da
Europa.
A chuva continuava mais moderada, mas persistente, e eu sentia-me muito
doente.
Junto do meu campo corria um pequeno riacho, cujas àguas iam
a
um ribeiro affluente do Cubango, sam as àguas que este
ùltimo rio recebe mais de Oeste.
Durante a noite houve chuva moderada, mais forte das 4 ás 5
da
manhã, hora em que parou. Ha grande abundancia de
òptimo
tabaco n'este paiz, onde me vendêram muito e baratissimo. Ali
poucos prêtos fumam, mas tôdos cheiram tabaco em
pó,
que preparam torrando a fogo brando o tabaco de fumo, e reduzindo-o a
pó no mesmo tubo que lhe serve de caixa, com um pao, especie
de
mão-de-almofariz, que a elle anda prêso com uma
correa
fina.
Parti as 7^{h.} 40^{m.} a N.E., atravessando uma região
muito cultivada e muito povoada.
Ás 8^{h.} 30^{m.} passei junto da grande
povoação
de Vaneno, e ás 10 parei para descançar junto da
aldea de
Moenacuchimba. Segui ás 10 e meia sempre a N.E.,
ás 11
passei junto da povoação de Chacapombo, muito
populosa, e
meia hora depois parei perto de Quiaia, a mais importante de
tôdas. O chefe d'esta aldea veio ao caminho comprimentar-me e
offerecer-me um grande porco. Dei-lhe em algodão riscado o
valor
do porco, e elle retirou-se satisfeito, mandando em seguida muitas
cabaças de capata para a minha gente. Segui no mesmo rumo, e
duas horas depois fui acampar no mato pròximo da
povoação do Gongo.
Esta ùltima parte da marcha d'aquelle dia foi trabalhosa,
porque choveu muito, e o vento S.O. era rijo e frio.
Pêla tarde chegou um enviado do sova grande do Sambo, cuja
povoação me ficava uns 15 kilòmetros a
N.O.,
mandando-me pedir alguma cousa, e dizendo-me o portador do recado, que
se eu houvera passado á porta do sova, elle me daria um
bôi. Agradeci a bôa intenção,
e resolvi
dar-lhe no dia seguinte alguma cousa, receoso que o enviado, se eu o
despedisse sem dar nada, influisse nos carregadores a abandonarem-me, o
que seria facil porque já o tinham querido fazer, e foi
preciso
tôda eloquencia do Verissimo para os convencer a seguirem
ávante.
O secúlo Capuço, chefe da
povoação
pròxima, mandou-me comprimentar por três das suas
mulhéres (tôdas feias), e por ellas um presente de
uma
gallinha e três cabaças de capata. Mandei-lhe seis
côvados de riscado e dei algumas missangas ás
mulhéres. Junto á noite viéram algumas
mulhéres vender farinha, milho e mandioca.
Usam ellas ali os mais extravagantes penteados, e a carapinha
é
enfeitada com coral branco e reluz da grande profusão de
oleo de
ricino, que ellas prodigalizam na sua
toilette.
Os homens do sovêta Dumbo eram verdadeiramente
insobordinados,
querelavam-se com a gente de Benguella, e durante a noite só
houve tranquillidade na barraca onde dormiam as seis virgens
nêgras, as minhas gentís carregadoras.
A noite foi tormentosa de chuva e vento. Ao alvorecer o
secúlo
Capuço, veio agradecer os 6 côvados de riscado que
lhe
dei, e em logar das três mulhéres feias que me
enviou na
vèspera, trouxe-me um lindo porco e uma gorda gallinha.
O enviado do sova veio receber o presente que lhe tinha promettido; e
que foi muito insignificante, sendo como era em trôco da
intenção de me dar um bôi, se eu
passasse junto da
libata d'elle.
Segui pêlas 8 horas, e ás 9 passei junto das
povoações de Chacáhônha,
primeiras da
raça (Ganguela) na Àfrica de Oeste.
Passei o riacho Bomba, cuja margem esquêrda segui por dois
kilòmetros, quando os carregadores pousáram as
cargas,
recusando seguir ávante, e pedindo os seus pagamentos para
voltarem. Eu estava a dois kilòmetros do Cubango, e querendo
passar o rio, instei com elles a que andassem mais aquelle curto
espaço, e que logo que estivesse na outra margem lhes daria
os
seus pagamentos e os despediria.
Recusáram-se formalmente, dizendo, que eu tinha sido muito
offendido na sua libata, pêlo sovêta Dumbo, e por
isso
não iam para diante, sendo certo que, logo que eu os tivesse
na
outra margem do rio, fôra do seu paiz, me vingaria n'elles
das
offensas recebidas.
Fôram baldados os meus esfôrços e tudo
foi
eloquencia perdida. Recusei-me a pagar-lhes se elles não
passassem o Cubango; responderão-me que se retiravam sem
pagamento, e logo chamáram as seis raparigas e
ordenáram-lhes que os seguissem.
Eu estava no desespero; ali perto era a povoação
do
Cassoma, e eu vi ser aquillo plano combinado de antemão para
me
entregarem a elle, que me havia precedido no caminho.
As cargas abandonadas n'aquelle ponto eram cargas perdidas. Calcule-se
com que ôlhos eu vi partirem os carregadores, abandonando-me.
Olhei para as cargas e estremeci de prazer. Sentado em uma d'ellas
estava um homem alto e magro, de figura impassivel, com a longa
carabina atravessada sôbre os joêlhos.
Era o secúlo Palanca, que eu havia esquècido.
Saltar
sôbre elle e derrubal-o foi obra de um momento. Mandei-o
amarrar
de pés e mãos, e dei ordem a Augusto e Manuel que
o
enforcassem no ramo de uma acacia que se estendia sôbre as
nossas
cabêças. Ao ver que a ordem ia ser cumprida, elle,
transido de mêdo, gritou-me, "Não me mates, os
carregadores vam passar o Cubango," e logo soltou um grito agudo que
fêz reunir os carregadores já dispersos.
Ordenou-lhes que pegassem nas cargas e seguissem, e elles
obedecêram.
Mandei que lhe desamarrassem os pés, e prometti-lhe um tiro
na
cabêça á menor
excitação dos
carregadores. Meia hora depois passava o Cubango n'uma bem construida
ponte, e acampava na margem esquêrda junto das
povoações de Chindonga.
Figura
7.--Ponte de Cassanha sôbre o Rio Cubango.
Entre o rio e o meu campo ficavam umas minas de ferro, d'onde o gentio
extrae abundante minerio.
Estava finalmente em terras de Moma, e livre dos paizes do Nano, Huambo
e Sambo, de que guardarei eterna memoria.
O Cubango corre ali a S.S.E., e tem 35 metros de largo por 2 a 4 de
fundo. Fiz observações para determinar a
posição e altitude, e logo corri á
barraca, que
uma trovoada vinda de N.N.E. descarregou sôbre nós
copiosa
chuva.
Paguei e despedi os carregadores do Sambo, dando-lhes dois
côvados de riscado a cada um, que tal tinha sido o ajuste.
Chamei as 6 raparigas, e disse-lhes, que a ellas nada daria, porque as
mulhéres tinham obrigação de trabalhar
e
não mereciam paga. Ellas retiráram-se tristes;
mas
achando natural o meu modo de proceder, tão aviltada
é a
mulhér n'aquelles paizes.
Quando já se mettiam a caminho para voltarem ao Sambo,
mandei-as
chamar e dei 4 côvados do mais brilhante zuarte pintado que
possuia a cada uma, e algums fios de missangas differentes.
É impossivel descrever o contentamento d'aquellas
desgraçadas ao receberem tão valiosa paga. Os
homens
roiam-se de inveja, e eu convenci-os de que, se não tivessem
querido voltar para casa na outra
margem do Cubango lhes pagaria do mesmo modo.
Foi a minha vingança, e ao mesmo tempo proveitosa
lição.
Figura
8.--O Secúlo que me deu um Porco.
N'essa noite veio procurar-me um secúlo da
povoação de Chindonga, que me trouxe de presente
um porco.
Este secúlo prometeu-me carregadores para o dia seguinte, a
um
côvado de riscado por dia, dizendo-me, que elles
só iriam
até ao paiz de Caquingue, onde eu facilmente obteria gente
para
o Bihé.
A minha febre tinha cedido a fortissimas doses de quinino; mas
completamente molhado havia três dias, eu sentia
já os
primeiros symptomas do terrivel ataque de rhèumatismo que
depois
ia compromettendo a minha viagem.
A noite foi tempestuosa e o dia seguinte continuou chuvoso.
O secúlo veio logo de manhã com os carregadores;
mas eu
tinha resolvido descançar ali um dia, e por isso
convoquei-os
para o dia seguinte. Disse-me elle, que os meus companheiros tinham
passado na vèspera, vindos do Sul.
O secúlo Palanca, do Sambo, continúa bem vigiado,
mas
livre. Eu na vèspera tinha mandado dizer ao sovêta
Dumbo,
que a cabêça do seu amigo me respondia
pêlas cargas
que vinham escoltadas pêlo prêto Barros,
resolução que Palanca achou muito justa e
natural, por
ser lei do paiz. Talvez o meu procedimento, que eu confesso
francamente, me seja censurado, mas eu rogo aos censores, que pensem um
pouco na posição de algum, acompanhado
só de dez
homens, n'um paiz em que tudo lhe é hostil, desde o clima
até ao homem. Se eu não professo o principio de
que os
fins justificam os meios, não sou tambem bastante virtuoso
para
apresentar uma face á mão que me esbofeteou a
outra.
Longe das vistas do mundo civilisado, fôra d'esses dois
cìrculos de ferro que apertam a humanidade culta, a que
chamam o
còdigo penal e as conveniencias sociaes, cìrculos
que,
apesar de estreitos, deixam ainda bastante latitude ao crime e
á
infamia; o explorador d'Àfrica, perdido no meio de
pôvos
ignaros, cujos còdigos differem essencialmente dos nossos;
tendo
por ùnica testemunha dos seus actos a Deos, por
ùnico
censor das suas obras a sua consciencia, precisa ter uma
fôrça sublime para se conservar honrado e digno,
quando
muitas vêzes as paixões travam no seu
ìntimo uma
luta infrene. Por mim o digo, que tôdas as
ovações
que me tem dispensado o mundo civilisado, pêla felicidade que
tive de vencer os obstàculos materiaes no meu caminho,
seriam
talvez mais justamente applicadas, se se soubesse quantas lutas, e que
terriveis lutas sustentei para me vencer a mim mesmo.
Vencer as suas paixões indòmitas, vencer os seus
hàbitos materiaes e moraes da vida civilisada, sam os dois
grandes trabalhos do explorador. Aquelle que o conseguiu,
attingirá o seu fim, cumprirá a sua
missão.
Eu, no principio da minha viagem, receei muito de mim mesmo.
Tive lutas ingentes, lutas terriveis, por serem surdas e ignoradas, de
que sahi sempre vencedor. O meu genio indòmito
têve de
ceder á vontade inquebrantavel, e na falta de tempo para
escrever um còdigo, tomei um que accommodei ao meu uso. Os
meus
principios fôram os do direito natural; a minha lei, curta
mas
òptima, resumiu-se nos dez preceitos do Decàlogo.
Não se julgue que quero fazer jus á
canonização, nem mesmo que pretendo ter seguido
á
risca os preceitos gravados no vigèsimo capìtulo
do livro
sublime do Èxodo, de certo o mais bello do Pentateuco; mas
fiz o
que pude para não me afastar muito d'elles, e fiz bem.
Esta divagação fica aqui, não como
narrativa de
àguas passadas, mas como consêlho a exploradores
futuros,
que não sejam missionarios, que a esses Deos me defenda de
falar
em materia da sua competencia.
É verdade que eu encontrei alguns em Àfrica que
me
fizéram lembrar o velho rifão, "Em casa de
ferreiro,
espeto de pao."
Passemos adiante.
Durante o dia, viéram muitas prêtas vender
alimentos, e
entre outras cousas vulgares, trouxéram uma mui
extraordinaria.
Era uma grande cesta cheia de lagartas, mui semelhantes ás
do
Acherontia Atropos,
e da mesma grandeza. Este gigantesco Lepidòptero no seu
primeiro
estado vive nas gramìneas, e é facil ali colher
grande
provisão. Os Ganguelas sam àvidos de tal manjar,
que os
meus prêtos recusáram.
Figura
9.--Mulhéres Ganguelas das margens do Cubango.
No dia seguinte logo de manhã, viéram
offerecer-se muitos mais carregadores, que recusei, por me serem
inuteis.
Parti depois das 10 horas, hora a que a chuva abrandou. No momento da
sahida quebrei os meus òculos, que usava desde Lisboa. Andei
a
N.E., e cinco horas depois, acampava na margem esquêrda do
rio
Cutato das Ganguelas, rio que passei em umas alpondras sôbre
uma
pequena cataracta.
No caminho passei um pequeno ribeiro, chamado Chimbuicoque, affluente
do Cutato.
O rio corre n'aquelle ponto a Leste, voltando em seguida ao N., e
depois pêlo Leste para o Sul. Este S gigantesco é
uma
serie de ràpidos, em que o rio se precipita com fragor
enorme,
pôr sôbre as rochas de granito que formam o seu
leito.
Figura
10.--Termites na margem do Rio Cutato dos Ganguelas.
No sitio das alpondras naturaes, mede 80 metros de largo, e a montante
e jusante 27 metros com 4 a 5 de fundo. Vai afluir ao Cubango, dizem os
naturaes que 15 dias de caminho ao sul d'este ponto.
Figura
11--Monte termìtico, de
4 metros de altura, nas margens do Rio Cutato dos Ganguelas, coberto de
vegetação.
A margem direita é occupada pêlas
plantações
da povoação de Moma, que occupam um
espaço que
avaleei em mais de mil hectares de terreno. Sam as maiores que tenho
visto em Àfrica. A cultura entre estes pôvos
consiste
principalmente em milho, feijão e batata, mas o que mais se
vê sam campos de milho. Antes de chegar ás
plantações, atravessei uma floresta de acacias
enormes,
de sorprendente belleza. O aspecto das margens do Cutato é
muito
original. Onde termina o granito do leito do rio
comêça um
solo de formação termìtica, e o
terreno coberto de
milhares de montìculos, uns cultivados, outros cobertos de
vegetação silvestre, tôdos ligados,
formando como
que systemas de montanhas, ferem a vista, admirada ao contemplar um
tão estranho systema orogràphico artificial.
Marquei a
grande povoação de Moma, três
kilòmetros a
O.S.O., e depois de ter determinado a altitude do rio ali, retirei-me,
molhado da incessante chuva, e atacado de nôvo accesso de
febre.
Os ameaços de
rheumatismo
continuavam. Durante a noite a chuva foi torrencial, e como sempre,
dormi molhado, porque, n'esta època do anno, as
gramìneas
de que cobria a minha barraca improvisada, não tinham mais
comprimento que 50 centimetros, e com herva tão curta
é
difficil, senão impossivel, vedar a àgua em uma
barraca.
A chuva só abrandou no dia seguinte ao meio dia, e eu,
apesar de
abrazado em febre, segui ás 2 horas, tinha 144
pulsações.
Caminhei a pé, por me ser impossivel segurar-me a cavallo no
bôi; mas, depois de uma hora de marcha, as pernas
recusavam-se a
continuar. Acampei. Os meus prêtos e os proprios carregadores
Ganguelas dispensavam-me os maiores cuidados.
O logar em que acampei foi junto de umas
povoações a que
chamam Lamupas, por estarem perto das cachoeiras do rio, que em lingua
do paiz t[~e]m o nome de
Mupas.
É logar muito povoado e muito cultivado, sendo estes
pôvos grandes cultivadores.
Encontrei no caminho algumas sepulturas de secúlos, que sam
cobertas de barro, com uma forma semelhando algumas da Europa. Estas
sepulturas sam cobertas por um alpendre de côlmo, e sam
sempre
debaixo de uma àrvore grande.
Sôbre ellas vi cacos de pratos e panellas, que ali sam
depostos
pêlos parentes do defunto, como nós depomos nos
tùmulos das pessôas queridas, as saudades e as
perpètuas.
De noite a chuva moderou, e o dia seguinte amanheceu nublado mas estio.
A febre abrandou muito, mas as dôres rheumàticas
comêçavam a fazer-se sentir atrozmente. Segui
ávante, e meia hora depois de ter deixado o meu campo,
passei
junto da grande povoação de Cassequera.
Logo que passei um pequeno riacho que fica para
àlém da
povoação, deparei com umas clareiras enormes
cobertas de
gramìneas, que me prenderam a attenção
pêlo
seu enorme e completo desenvolvimento, em uma èpocha do anno
em
que as plantas d'esta familia estam em principio desse desenvolvimento.
Figura
12.--Sepultura de Secúlo.
O meu muleque Pépéca foi atacado de
tão violento e
repentino accesso de febre, que cahio inerte. Tive de parar e mandar
contratar um homem, na povoação de Cassequera,
para o
levar ás costas. Ao meio dia, passei junto da libata do
Capitão do Quingue, primeira povoação
do paiz de
Caquingue. Fui hospedar-me em casa de João Albino,
mestiço de Benguella, filho do antigo sertanejo Portuguez
Luiz
Albino, môrto por um bùfalo nos sertões
do Zambeze.
João Albino mora na libata de Camenha, filho do
Capitão do Quingue.
Camenha estava ausente, por ter ido tomar o commando das
fôrças do sova de Caquingue, que ia fazer a guerra
a uns
sovêtas do Cubango.
O tempo melhorou, e a minha febre cessou de tudo, mas o rheumatismo
continuava a ameaçar-me.
A noite foi sem chuva, e o dia seguinte amanheceu claro e sem nuvens.
Fui visitar o velho capitão do Quingue, a quem levei de
presente
uma peça de lenços. Elle deu-me um bôi,
que mandei
logo matar, porque há muito que tìnhamos
só carne
de porco para comer. O capitão era muito velho e doente.
Conversou muito comigo a respeito do motivo da minha viagem, e
não comprehendeu o que eu andava fazendo.
Quando eu ia a retirar-me, disse-me elle, "Eu sei o que tu fazes, tu
és secúlo de Moeneputo, e elle mandou-te ver
estas terras
e estudar os caminhos; por aqui fazem-se muitas cousas que
não
sam bôas, e o Moeneputo hade querer pôr termo a
isso;
peço-te, que quando isso aconteça, te lembres de
que eu
te dei um bôi, e te tratei como meu irmão; eu
pouco
viverei, mas então lembra-te de meus filhos, e
não lhes
faças mal." Comovéram-me estas palavras do
ancião.
Os seus secúlos viéram acompanhar-me
respeitosamente
até á libata do filho onde estava hospedado, e
poucos
deixáram, no correr do dia, de me trazer pequenos presentes,
já gallinhas, já ôvos e já
canna de assucar.
Na libata do capitão vi uma pequena
plantação de
cana de assucar, tão viçosa como não
vi no
litoral, e em que esta enorme gramìnea tinha um
desenvolvimento
descommunal.
Notei esta circunstancia, por ter julgado até
então, que
a uma tão grande altitude, cerca de 1700 metros,
não
vegetaria tal planta.
De volta á libata, encontrei ali Francisco
Gonçalves (
o
Carique), irmão do Verissimo, que, sabendo da
minha chegada, vinha visitar-me.
Este
Carique,
filho
do sertanejo Guilherme, como o Verissimo, é comtudo filho de
outra mãe, e a elle pertence por herança materna
o throno
de Caquingue.
Vive junto do sova, seu tio, e é casado com uma filha do
futuro sova do Bihé.
Foi educado em Benguella, e possue alguma
instrucção e
bastante intelligencia. Elle trazia com-sigo alguns prêtos
que
fôram escravos de seu pai, e que logo se
offerecéram para
me acompanharem na viagem do Bihé para Leste.
Assim, pois, já antes de chegar ao Bihé, arranjei
alguns carregadores.
Carique, Albino, o filho do Capitão, e outros que fazem
commercio sertanejo, sahem d'aquelle ponto para o Mucusso e
Sulatebelle, descendo o Cubango até ao Ngami, sempre
pêla
margem direita, e vam tambem negociar ao Cuanhama, paiz a leste do
Humbe, na margem esquêrda do Cunene.
O artigo principal do tràfico é o escravo, que em
caminho
trôcam por bôis, e estes e fazendas, por
cêra e
marfim.
Resolvi demorar-me ali um dia, não só para
descançar e enxugar, mas tambem para me informar
sôbre
este paiz, cujos usos já differem muito dos dos povos que
tinha
encontrado até ali. De tarde, o Carique e João
Albino
déram-me largas informações
sôbre o paiz,
das quaes transcrevo do meu diario as mais curiosas.
O paiz de Caquingue limita ao N. com o Bihé, a oeste com o
paiz
de Moma, a leste e ao sul com pôvos confederados de
raça
Ganguela. A raça Ganguela occupa n'esta parte
d'Àfrica um
vasto territorio, e está dividida em 4 grandes grupos, os
quaes
soffrem ainda subdivisões. A lìngua e usos sam os
mesmos;
mas a sua organização polìtica
differente. No paiz
de Caquingue tomam os Ganguelas o nome de Gonzellos, estam constituidos
em reino, tendo um ùnico chefe.
Nas suas outras divisões formam
confederações,
muito vulgares em Àfrica, sendo cada
povoação
governada por um chefe independente. Os que demoram a S.E. de Caquingue
chamam-se Nhembas, os do sul Massacas, e aquelles que vivem a leste do
Bihé, Bundas. D'estes ùltimos terei de falar
detidamente
no correr d'esta narrativa. Os Gonzellos, Ganguelas de Caquingue, sam
cultivadores e negociantes, e sam, de tôdos os
pôvos da
Àfrica Austral, aquelles que mais se aproximam dos Bihenos,
em
commettimentos de exploração commercial.
No paiz trabalham muito em ferro, e esta industria estabelece entre
elles e outros pôvos activas relações
de commercio.
Não tem a menor idéia de uma religião
qualquer, e
vivem com os seus feitiços, não pensando na
existencia de
um Ente Supremo que tudo dirija.
Figura
13.--Ferreiros Caquingues.
Nos mezes mais frios, Junho e Julho, os ferreiros Gonzellos deixam as
suas libatas, e vam estabelecer grandes acampamentos junto das minas de
ferro, que sam abundantes no paiz.
Para extracção do minerio cavam poços
circulares
de três a quatro metros de diàmetro, que
não
profundam mais de dois metros; de certo por lhe escacearem os meios de
elevarem com facilidade o minerio a maior altura.
 |
1. Folles.
2. Bocal de Barro.
3. Bigorna.
4. Martello. |
Visitei muitos d'esses poços junto ao Cubango. Extraido que
é o minerio que elles julgam sufficiente para o trabalho
d'aquelle anno, comêça a
separação do ferro,
que elles fazem em côvas pouco profundas, misturando o
minerio
com carvão vegetal, e elevando a temperatura por meio dos
seus
instrumentos de insuflação, que consistem em dois
cylindros de pao, cavados de 10 centìmetros, com 30 de
diàmetro, e recobertos por duas pêlles de cabra
curtidas,
ás quaes estam ligados dois paos, de 50
centìmetros de
comprido por 1 de diàmetro. É por meio d'estes
paos que
um ràpido movimento dado ás pêlles
produz a
corrente de ar, que é dirigida sôbre o
carvão por
dois tubos de pao ligados aos cylindros, e terminados por um bocal de
barro.
Depois comêça um incessante trabalhar, noite e
dia,
até que tudo o metal é transformado em enxadas,
machados,
machadinhas de guerra, ferros de frecha, azagaias, pregos, facas e
balas para as armas, e até mesmo fuzis para ellas, de ferro
temperado com unha de bôi e sal. Vi muitos d'esses fuzis
darem
fogo tambem como os do melhor aço fundido.
Durante tudo o tempo que duram os trabalhos é expressamente
prohibido a qualquer mulhér aproximar-se do campo dos
ferreiros,
porque dizem elles que se estraga logo o ferro. Eu creio que isto foi
estabelecido para que os homens se não distraiam do
trabalho, em
que empregam, como já disse, noite e dia.
Figura. 15.--Objectos fabricados pêlo gentio entre a Costa e
o Bihé.
1. Machado de Trabalho.
2. Ferro de Frecha para a
Guerra.
3. Frechas.
4. Ferro de Frecha para
Caçar.
5. Pé das
Frechas.
6. Machado de Guerra.
7. Enxada.
8. Azagaias.
Findo que é o metal e transformado em obra, voltam os
ferreiros
a suas casas carregados com a sua manufactura, que vendem em seguida
depois de terem reservado o necessario para seu uso.
Tôdos estes pôvos não admittem causas
naturaes de
doença ou de morte. Sempre que adoece ou morre alguem, ou
fôram as almas do outro mundo (uma certa é
designada) que
produzio o mal, ou então foi algum vivo que fêz
feitiço ao doente ou ao môrto. Logo que morre
alguem, se
os parentes não estam na localidade, mandam-n-os prevenir, e
no
entanto penduram o cadaver em um grande pao a 200 ou 300 metros da
porta da povoação, e esperam que elles venham
para fazer
o enterro.
Logo que elles chegam ou se estam na localidade, procede-se
immediatamente á devinhação para saber
a causa da
morte.
Para isso amarram o cadaver a uma vara comprida, e pegando dois homens
nas extremidades, levam o côrpo ao logar destinado
ás
adevinhações, onde o espera o adevinho e o
pôvo
formado em duas alas.
O adevinho tomando na mão direita um coral branco,
comêça a adevinhação.
Depois de fazer mil momices e grande grita e de ter feito mexer o
môrto, que o pôvo acredita que mexeu sem
intervenção estranha, o adevinho declara que foi
a alma
de fulano ou de fulana que o matou, ou então que foi
feitiço dado por alguem que elle designa.
No primeiro caso, o enterro faz-se em paz, abrindo uma côva
no
mato, em qualquer logar indistinctamente, e lançando n'ella
o
cadaver que cobrem de pedras, paos e terra; mas no segundo caso, a
pessôa designada pêlo adevinho como feiticeiro
é
agarrada, e, ou paga ao mais pròximo parente a vida do
môrto, ou lhe cortam ali a cabêça, indo
dar parte do
occorrido ao sova, a quem tem de levar de presente uma cabra para elle
escutar o caso.
Comtudo pôde dar-se o caso de um accusado negar firmemente a
sua
culpabilidade na morte, e então tem direito de defesa.
Para isso, vai elle buscar um cirurgião que vem, na
presença do pôvo proceder ás provas da
innocencia
ou culpabilidade do accusado.
O cirurgião chega á presença dos
parentes e do
pôvo, e compõe uma bebida venenosa de que tomam
quantidades iguaes o accusado e o mais pròximo parente do
môrto.
A beberagem produz uma especie de loucura temporaria, e é
n'aquelle dos dois em que ella se manifesta com mais intensidade que
recae a culpa da morte.[
3]
Se é no accusado, ou paga a vida do defunto, ou morre; se
é no parente, tem este de indemnizar o accusado
pêla
accusação feita, dando-lhe logo um porco para lhe
pagar o
trabalho de ir buscar um cirurgião, e depois tem de lhe dar
o
que o accusado exigir, sejam dois bôis, dois escravos, um
fardo
de fazenda, etc. etc.
Antes de continuar, dêvo fazer sentir uma grande
differença que existe de três entidades
importantes, nos
pôvos da Àfrica Austral, e que muitas
vêzes sam
confundidas.
Sam ellas o cirurgião, o adevinho e o feiticeiro.
Effectivamente, estas três entidades que parecem á
primeira vista ter pontos de contacto, nenhum t[~e]m na realidade.
O cirurgião fica definido pêla palavra.
É um
curandeiro, tem conhecimento de um certo nùmero de plantas e
raizes, que empega sempre empìricamente, bem como as
ventosas
sarjadas, de que faz grande uso; sendo bem certo que a sciencia de
curar está muito em atrazo n'aquelles paizes. O
cirurgião, que nunca faz diagnòstico da molestia,
faz
sempre o prognòstico. A dosagem das plantas medicamentosas
é sempre empìrica, e nas suas polypharmacias
entram os
mais absurdos e inuteis componentes. É verdade que entre
nós ainda não vai longe o uso da Triaga. O
cirurgião, que é ao mesmo tempo
pharmacèutico,
emprega durante a preparação das suas drogas, um
certo
nùmero de ceremonias e de palavras sem as quaes ellas
perderiam
a virtude. Fazem grande segrêdo das plantas que empregam, e
dam-se ares de sabios pedantes quando a esse respeito sam interrogados.
O cirurgião é pessôa muito importante,
e muitos
actos solemnes requerem a sua presença. Elle decide altas
questões, porque a sua opinião prevalece
á do
adevinho (Ditangja), sendo que o cirurgião nunca a emitte
sem
fazer antes um certo nùmero de remedios e ceremonias,
já
com plantas, já com sangue do homem ou dos irracionaes, a
que
chamam,
fazer os
curativos.
O adevinho só adevinha, e mais nada. No caso de
doença, o
adevinho é sempre chamado para adevinhar se sam almas do
outro
mundo ou feitiços, e só depois d'elle, vem o
cirurgião.
Estes dois sujeitos entendem-se sempre.
O adevinho não é só consultado em caso
de
doença ou morte, é ouvido em tudo e por tudo, e
nada se
faz sem que elle adevinhe primeiro.
Para a consulta, coloca-se elle no centro de um cìrculo
formado
pêlo pôvo, que dêve estar sentado.
Arma-se de uma
cabaça e um cesto. A cabaça contem missanga
grossa e
milho sêco, o cesto é cheio das cousas mais
disparatadas,
ossos humanos, legumes sêcos, pedras, paos,
caroços de
frutas, ossos de aves, espinhas de peixes, etc.
Comêça por sacudir frenèticamente a
cabaça, e durante a chocalhada que faz invoca os
espìritos malignos,
ao mesmo tempo sacode o cesto, e nos objectos que vam apparecendo na
parte superior, vai lendo o que se quer saber do passado, do presente,
ou do futuro. Este uso encontrei eu desde a costa, mas não
tão seguido como aqui.
Falei em
espìritos
malignos, e é preciso dizer, que ali
os
espìritos
malignos
emparelham em malignidade com as almas do outro mundo (
Cassumbi)
e com os feiticeiros. Ás vezes entram no côrpo de
alguem,
e custa muito fazel-os sahir. Outras vêzes, fazem tropelias
maiores, tomando conta de uma povoação, onde
durante a
noite não deixam socegar ninguem, sendo preciso que o
cirurgião faça grandes
curativos para os
expulsar.
Estava ali um adevinho, e eu calculei o partido que podia tirar d'elle.
Chamei-o em particular, e fiz-lhe alguns presentes, mostrando por elle
grande respeito, e fingindo acreditar na sua sciencia.
Pedi-lhe para adevinhar o meu futuro, e elle logo convocou o
pôvo
da libata, e muito da povoação do
capitão, para
assistirem á adevinhação.
A ceremonia fêz-se com grande apparato, e elle
comêçou a ler nas trapalhadas do cesto as cousas
mais
lisongeiras a meu respeito. Eu era o melhor dos brancos, passados,
presentes e futuros; a minha viagem seria feita com grande felicidade,
e felizes seriam aquelles que fossem comigo.
Este vaticinio produzio o melhor effeito, e têve grande
influencia no resultado da minha partida do Bihé.
Já falei do cirurgião e do adevinho, e vou dizer
o que
é feiticeiro. Esta palavra tem uma
significação
que, tendo alguns pontos de contacto com a que lhe damos na Europa,
não é comtudo a mesma cousa.
Ali qualquer é, ou pôde ser feiticeiro, e
feiticeiro
é mais o envenenador do que homem que governa nos
espìritos.
Effectivamente, o
feitiço
ali é veneno, e dar
feitiço
a alguem, é dar veneno, que determine, ou doença,
ou morte, ou loucura.
Esta é a rigorosa accepção da palavra,
mas ainda
assim o feiticeiro pôde causar grandes prejuizos, e como tudo
se
atribue a
feitiço,
a perda de um combate, a epidemia nos gados, as tempestades, etc., tudo
provem da sua malevolencia.
Não se julgue porem que se pôde designar o
feiticeiro;
não pôde. O feiticeiro apparece como causa do
effeito, e
como essa causa é logo destruida, o feiticeiro é
como um
meteoro que se desvanece logo depois de apparecer. Esta
pràtica
dá logar a terriveis vinganças, como bem se
pôde
suppor.
Àlém d'estas três entidades, duas das
quaes sam
definidas e uma indefinida, ha ainda um sujeito que tem certa
importancia entre estes pôvos bàrbaros.
É elle o homem que dá e tira a chuva. Ha um certo
nùmero de indivìduos que se atribuem o poder de
governar
nos meteoros aquosos. Possuindo um espìrito observador,
attentáram em que com taes ventos em certa èpocha
do anno
chove, e que com outros estia. E servindo-se d'esses signaes, que sam
tão vulgarmente observados na Europa, e mesmo recommendados
por
homens de sciencia, como Fitz-Roy e outros, que se observam na vida dos
animaes, sôbre tudo das aves, elles que podem com certa
probabilidade fazer um prognòstico do tempo, atribuem a si o
poder, de dar e tirar chuva, tendo previamente annunciado que a vam dar
ou tirar.
Estes sujeitos sam vulgares, mas acreditam n'elles muito, porque raras
vêzes se enganam.
Estas pràticas que nos causam estranheza, eram ha dois
sèculos vulgares na Europa, e ainda hôje existem
entre
nós no baixo pôvo dos campos.
Não é preciso ir á idade media para se
encontrarem
os Reis consultando os seus astròlogos, e mesmo em Portugal
existe um livro, impresso,
com
tôdas
as licenças necessarias, em 1712, que o seu
autor
Gaspar
Cardozo de
Sequeira,
mathemàtico da villa de Murça, intitulou Thesouro
de
Prudentes, livro acrescentado pêlo engenheiro
Gonçalo
Gomes Caldeira, que ensina as cousas mais estupendas e maravilhosas,
aos homens cultos d'essas eras, porque o pôvo de
então
não sabia ler. Desculpemos pois os ignaros prêtos
d'Àfrica Austral.
Uma lei engraçada d'aquelle paiz, é a respeito
das mulhéres que morrem de parto.
Logo que uma mulhér morre de parto, o marido tem
obrigação de a enterrar elle só,
levando o cadaver
ás costas até á sepultura, e fazendo
sózinho o trabalho da inhumação. Em
seguida, tem
de pagar a vida d'ella aos parentes, e se não tem com que,
constitue-se escravo d'elles.
As sepulturas dos proletarios não t[~e]m signal algum que as
indique, e sam feitas em qualquer logar indistinctamente entre o mato.
Quando eu falar do Bihé, serei mais minucioso em certos
costumes
que sam communs a estes paizes, e que tive depois occasião
de
estudar detidamente, sôbre tudo aquelles que se referem aos
sovas
e aos grandes.
Um costume que é privativo de Caquingue é o que
elles chamam
tratar
as mulhéres.
Logo que uma mulhér está gràvida, um
sujeito pede
ao marido em casamento a filha que ella vai ter, e desde logo
é
obrigado a
tratal-a,
isto é, dar-lhe vestuario e satisfazer as suas exigencias de
toilette.
Este costume vigora só entre gente rica. Logo que nasce a
criança, o noivo redobra de presentes á
mãe, e tem
o dever de vestir a filha até á pubredade, isto
é,
á èpocha do casamento. Se acontece nascer um
varão, a obrigação de vestir
mãe e filho
subsiste, e este, logo que chega a ser homem, fica para Quissongo do
que o
tratou.
Mais adiante direi o que é um Quissongo.
Este costume não é tão extraordinario
como parece
á primeira vista, e se em Àfrica só o
encontrei no
paiz de Caquingue, cá na Europa é elle vulgar,
não
na forma, mas na essencia, e na phrase polida dos salões
chama-se a isso, creio eu,
casamentos
de conveniencia.
Amanheceu o dia 5 de Março, depois de uma noite tormentosa
em
que a chuva foi diluvial. Eu estava melhor da febre; mas as
dôres
rheumàticas eram mais persistentes e estendiam-se dos
joelhos
aos artelhos. O meu Pépéca estava melhor, e por
isso
resolvi partir. Receiando porem do meu rheumatismo, fui pedindo uma
maca e carregadores para ella, que me fóram obsequiosamente
cedidos por Francisco Gonçalves (
o Carique).
Depois de cordiaes despedidas, parti ás 10 e meia ao N., e
uma
hora depois, passei o ribeiro Cassongue, que corre a S.E. para o Cuchi.
Tem 6 metros de largo por 2 de fundo. Ao passar o rio, o meu boi
cavallo (Bonito) embaraçou-se em umas sarças,
perdeu o
ànimo, e foi ao fundo; custou muito salval-o, e
só pude
seguir ao meio dia. Á 1^{h.} e 15^{m.} passei o riacho
Govêra, de 3 metros de largo por 50 centìmetros de
fundo,
e á 1 e 45 acampava a S.S.O. da
povoação de
Chindúa. Passei no caminho junto de duas grandes
povoações, a de Cacurura, e a de Cachota.
Já
estava em terras que prestam obediencia ao sova do Bihé. O
paiz
continúa ali a ser muito povoado e cultivado.
Durante a noite, chuva torrencial e forte trovoada de leste. A minha
febre tinha desapparecido completamente, mas as dôres
rheumàticas recresciam n'uma progressão
assustadora, e
já ameaçavam estender-se a tudo o
côrpo. Logo de
madrugada, o dono da ponte sôbre o Cuchi mandou-me avisar
para
passar a ponte sem demora, porque estas pontes, dando passagem
só a um homem de cada vez, leva ella muito tempo, e
é
lei, que quando uma comitiva toma conta da ponte, ninguem ali
pôde passar sem terminar a passagem da gente que primeiro
chegou,
e constava que uma grande comitiva de gentio se dirigia para ali em
sentido inverso ao meu.
Agradeci o aviso, e parti immediatamente, tomando conta da ponte meia
hora depois.
O rio Cuchi tem ali 25 metros de largo por 5 de fundo, e corre ao sul
ao Cubango.
Da ponte avista-se, 2 kilòmetros ao N., a grande cataracta
do
Cuchi, de sorprendente belleza, cujo ruido chêga
até
nós.
Demorei-me um pouco para determinar a altitude, e segui depois a
E.N.E., passei o pequeno ribeiro Liapêra, que côrre
ao
Cuchi, e mudando de rumo para N.N.E., passei o ribeiro Caruci, que
côrre a N.E. para o Cuqueima; indo acampar, pêlo
meio dia,
nas matas do Charo, a S.O. da povoação de Ungundo.
Estes dois pequenos riachos, o Liapêra e o Caruci, marcam a
separação das àguas para o Cubango e
Cuanza.
O secúlo Chaquimbaia, chefe da
povoação de
Ungundo, veio comprimentar-me, e trouxe-me um porco e umas gallinhas;
retribui o presente, e elle deu-me guias para me acompanharem no dia
seguinte. Durante o dia, não só em caminho
encontrei
muitos ranchos de gente armada que vam reunir-se ás
forças do sova de Caquingue, mas ainda depois que acampei,
passáram innùmeros prêtos armados que
levavam o
mesmo destino.
Das 7 ás 9 da noite houve moderada chuva, e ouvia-se a N.E.
uma
trovada longinqua; mas, ás 9 horas, formáram-se
trovoadas
em muitos pontos do horizonte, e pareciam tôdas convergir
sobre o
meu campo, que era situado em um alto. Ás 10 horas, 5
trovoadas
encontravam-se em choque immenso sôbre o campo, e a mais
horrivel
tormenta que até então tinha presenceado se
desencadeou
sôbre mim. Os raios succediam-se com intervallos de
três a
cinco segundos, e o estalar sêco dos trovões era
incessante.
Havia perfeita calma e apenas algumas grossas gôtas de chuva
cahiam aqui e àlém.
O baròmetro apenas desceu dois milimetros, e o
thermòmetro conservava uma temperatura de 16 graos Cent. As
agulhas magnèticas desnorteavam, e conservavam um oscillar
constante.
Uma bùssola circular Duchemim, chegou a voltear
ràpidamente.
Durou este estado de cousas até ás 11 horas, hora
a que
soffreu modificação mais terrivel ainda. Um vento
fortissimo, um verdadeiro tufão, começou a soprar
de
leste, e n'um momento correu os quadrantes
pêlo norte até S.O., onde se fixou com a mesma
intensidade. Copiosa chuva começou a cahir então.
O
vento, no seu passar furioso, soprou aos ares as barracas do meu campo,
e nós ficámos expostos á chuva
torrencial que
cahio até ás 4 horas, em que a tempestade
começou
a abrandar.
Quem o não presenceou não avalia o que seja uma
tempestade, de noite, no meio das florestas d'Àfrica
Austral,
quando ao rebombar dos trovões se une o grito
multìsono
das feras, que nos vem ferir os ouvidos com acordes terriveis.
A chuva apagou os fôgos do campo, o vento soprou longe os
frageis
abrigos, e o raio descendo em luminoso zig-zag, torna mais escuras as
trevas, depois do seu ràpido fulgor.
Muitas vêzes, ao estalido do raio succede outro estalar
medonho.
Foi a àrvore, que levou sèculos a crescer, e que
n'um
momento, ferida por elle, voou em rachas e baqueou no solo.
¡O espectàculo é horrivel, mas
grandioso e sublime!
Amanheceu finalmente, e de tudo aquelle pelejar dos elementos,
só restavam para o lembrar, innùmeras
àrvores
derrubadas e um terreno encharcadissimo.
¡A mim restava mais alguma cousa!
O ataque de rheumatismo tinha-se declarado com grande intensidade, e
estendendo-se a tôdas as articulações,
tolhia-me os
movimentos. Soffria muito. Parti ao meio-dia na maca, e fazia
esforços enormes para calar na garganta os gritos arrancados
pêlo soffrimento que infligia o movimento da maca.
Uma hora depois, envolvi-me em um pàntano extenso, onde a
àgua dava pêla cintura aos homens que me
carregavam.
O terreno, encharcado pêla chuva da noite, estava
transformado em
pàntano enorme. Alcançámos um outeiro,
quando,
ás 2 horas, nôva tempestade, vinda de leste, cahio
sobre
nós. Da maca, onde gemia dôres atrozes, animei a
minha
gente a seguir sempre, com intenção de
alcançar as
povoações de Bilanga, onde queria pernoitar.
Sei que, no dia seguinte, me achei, n'uma cubata, e me disse o
Verissimo, estar eu n'aquellas povoações, na
libata do
Vicente; mas não tenho a menor idéia, nem do
caminho
andado, nem da noite velada, que me disséram os
prêtos ter
sido horrivel. Ao rheumatismo viera juntar-se a febre e o delirio.
A cabêça estava livre, mas o ataque e as
dôres recrescéram, se era possivel isso.
Não podia fazer o menor movimento nem mesmo com as phalanges
das mãos.
Verissimo e os meus prêtos dispensavam-me os maiores cuidados.
Sube que o rio Cuqueima levava uma cheia enorme, e não dava
passagem no vao; mas, sabendo que existia uma pequena canôa a
jusante da cataracta, resolvi seguir e passar o rio ali. Chegados ao
rio, tratou-se de calafetar com musgo a canôa já
muito
velha, e que apenas podia soportar o peso de dois homens. O rio, que
trazia uma enorme cheia, ia caudalosissimo. Resaltando por
sôbre
as rochas da cataracta, divide-se, formando uma pequena ilha, e logo
depois, une as suas àguas em um só canal, largo
de 100
metros.
Era ali que ìamos passar. Eu fui collocado dentro da
canôa
com mil cuidados, porque o menor movimento que me davam, me arrancava
um grito doloroso.
Um habil barqueiro tomou o remo e a canôa deixou a margem.
Tìnhamos de atravessar 100 metros de àgua, mas de
àgua animada de violenta corrente, e encrespada por ondas
furiosas produzidas pêlos baldões da cataracta. O
barqueiro dirigio a canôa para a ilha, e até
chegar
á juncção das àguas tudo
foi bem; mas ali o
fragil barco preso nos enormes rodomoinhos não quiz seguir
ávante, apesar da pericia do habil nêgro. Eu via a
àgua, em ondas espumantes ainda do salto de ha pouco,
referver
em volta de mim, e comecei a comprehender o grande perigo em que estava.
Tentei mover um braço e apenas consegui soltar um grito de
dôr! Julguei-me perdido, porque, se a canôa
afundasse, eu
não poderia nadar. Sempre presa no rodopiar das
àguas,
não seguia ávante, e de repente
começou a rodopiar
ella mesma. O prêto receiou que nos afundasse-mos, e decidio
saltar ao rio para alijar o barco. Prevenio-me, e saltou.
Alliviada d'aquelle peso, a canôa fluctuou melhor, mas
não
deixou o sitio em que estava presa pêlas
fôrças
desencontradas da àgua.
De repente um baldão entrou na barca e molhou-me. Tive um
momento de verdadeira imbecilidade, e não sei o que se
passou;
só me lembra, que de repente me achei nadando com tudo o
vigor,
só com um braço, sustentando fôra
d'àgua com
o outro um dos chronòmetros que trazia comigo, para que
não lhe chegasse a àgua.
Sentia um verdadeiro prazer em nadar, e cortava ràpido os
remoinhos das caudalosas àguas, o que me era facil a mim,
que
desde criança aprendi a lutar com os ràpidos do
meu
patrio Douro.
Os prêtos, sempre tendentes a admirar a destreza physica,
prodigalizavam-me da margem fervorosos applausos.
Tinham desapparecido as dôres, a febre cessou de repente, e
eu
sentia-me bem disposto e forte. Ao submergir-se a canôa, do
meio
de 100 homens que assistiam á scena, e que
ficáram
boquiabertos e indecisos, um arrojou-se valorosamente á
àgua para me salvar.
Menos perito nadador do que eu, não alcançou a
margem
senão depois de mim, e de nenhum auxilio me foi, mas a sua
dedicação ficou gravada no meu
coração para
sempre. Era o meu prêto Garanganja, que enlouqueceu depois,
não tendo uma alma assás forte para sopportar as
miserias
que experimentámos.
Quando me firmei em terra andei, sem dôres, sem febre.
Despi-me
immediatamente; mas não tinha roupa para mudar, porque as
bagagens estavam ainda na outra margem; e tive de estar exposto a um
sol abrasador em quanto a elle enxuguei a roupa que trazia.
Voltáram as dôres e a febre, e só sei
que no outro
dia, estava estendido em um leito na libata da Annunciada, morada que
tinha sido do sertanejo Guilherme Gonçalves, pai do
Verissimo.
Cheio de dôres e ardendo em febre, mas um pouco melhor,
decidi partir e ir encontrar os meus companheiros.
Parti ás 11 horas, e durante uma grande parte do caminho,
atravessei uma planicie coberta de fetos herbaceos enormes, e vi muitas
àrvores feridas do raio. Vi tambem uma planta que ali
abunda, e
que é, ou a nossa urze das altas montanhas do norte de
Portugal,
ou a ella mui semelhante.
Os meus ôlhos, pouco afeitos ás subtilezas das
observações que demanda o estudo do reino
vegetal,
não sam bastante penetrantes para differençar
especies,
gèneros e familias, quando ellas não se
differençam por si mesmo.
Chêguei ao sitio do Silva Porto (Belmonte) pêla uma
hora, e
fazendo um supremo esfôrço, fui a casa dos meus
companheiros.
Elles, confirmando o que me tinham escrito, disséram-me que
iam
continuar sós, e que me deixariam uma terça parte
de
fazendas e material, salvo as cousas indivisiveis que guardariam. O
Ivens offereceu-se para me acompanhar a Benguella, visto o meu precario
estado de saude, se eu quizesse voltar á Europa.
Manifesto-lhe aqui a minha gratidão, por tão
generosa offerta.
CAPÌTULO VI.
PEREIRA DE MELLO E SILVA PORTO.
No
Bihé--Doença--Melhoras--A casa de
Belmonte--Decido ir
ao alto Zambeze--Cartas ao Governo--Como se organiza uma
expedição
no Bihé--Difficuldades, e como se
vencem--Noticia sôbre o Bihé--Os meus
trabalhos--Nôvas difficuldades--Deixo
Belmonte--Até
ao Cuanza--Escravatura.
Depois de 20 dias de cruél agonia e grandes soffrimentos,
estava
emfim no Bihé, muito doente é verdade, mas cheio
de
fé e contente de mim mesmo. Logo que falei aos meus
companheiros, deixei a casa de Belmonte, e fui em maca para a libata
pròxima do Magalhães, onde cahi sem
fôrças
sôbre as pelles do meu leito. Os primeiros symptomas de uma
meningite declaráram-se, ao passo que redrobravam as
dôres
rheumàticas.
No dia seguinte, fóram ver-me o Capello e Ivens, que me
leváram medicamentos. Peiorei, e veio o delirio.
Quando despertei, julguei sonhar. Achava-me deitado em
magnìfico
leito, despido e entre lençoes de fina bertanha. O leito era
coberto de elegante cortinado de reps côr-de-rosa e franjado
de
branco.
Disséram-me, que Capello viera durante o meu delirio, e me
mandara aquella cama; que as havia assim no Bihé, em
Belmonte,
em casa de Silva Porto.
Tinham-me coberto de sanguesugas, e o muito sangue que me
tiráram os prêtos, deixara-me em um estado de
fraqueza
indescriptivel. As dôres tinham cedido um pouco, mas
continuava a
febre. De tarde, viéram os prêtos de
Nôvo Redondo
procurar-me, e eu recebi-os diante de Magalhães, Verissimo e
Joaquim Guilherme José Gonçalves,
irmão mais velho
do Verissimo. Vinham elles dizer-me, que não queriam seguir
com
os meus companheiros, e que ou iam comigo, ou voltavam.
Depois de um grande trabalho, convenci-os a voltarem para elles, e a
acompanhal-os. Sube então, que Capello e Ivens estavam
construindo um abarracamento a 5 kilòmetros d'ali, e
já
lá tinham as bagagens, devendo em breve mudarem-se de
Belmonte.
Dois dias depois, veio procurar-me o Ivens, com quem tive larga
conversa.
Dei-lhe tôdas as cartas de recomendação
que Silva
Porto me havia dado em Benguella para obter carregadores, e
comprometi-me a não pedir gente ao sova Quilemo, ficando-lhe
o
campo completamente livre a elles. Ivens disse-me, que iam mudar para o
abarracamento que tinham, e que em casa de Silva Porto me deixavam o
que me pertencia na partilha. Eu mandara-lhes entregar tôdas
as
cargas que trouxera comigo, e as que acompanhou o prêto
Barros,
que já tinham chegado. O prêto Barros declarou-me,
que
não queria continuar a viagem, e por isso despedi-o, bem
como a
alguns prêtos de Benguella, que manifestáram igual
intenção. Escrevi poucas linhas a Pereira de
Mello, que o
meu estado de saude não me permitia ser extenso. Quando,
fatigado de determinar tanta cousa, eu ia embrulhar-me nos
lençoes e procurar no sono um pouco de descanço,
surgio
diante de mim, como um espectro, um homem alto e magro, de physionomia
enèrgica e distincta. Era o meu prisioneiro que eu havia
olvidado, era o secúlo Palanca, o conselheiro
ìntimo do
sova Dumbo do Sambo.
"Já despachaste tôda a tua gente, me disse elle,
uns
despediste-os, outros ficaste com elles, ¿o que determinas
de
mim, e qual é a minha sorte?" "Tu vais voltar a tua casa,
lhe
respondi, levarás ao Dumbo a
espingarda que lhe prometti, e alguma pòlvora, e para ti
terei
alguma cousa tambem. Dêvo-te uma
indemnização por
aquella corda que tiveste ao pescôço
pròximo do
Cubango, e pêlos sulcos que te fizéram nos pulsos
as
cordas com que te amarrei." Chamei o Verissimo, e dei-lhe as minhas
órdens n'esse sentido.
Palanca, sempre impassivel diante da liberdade e dos presentes, como o
tinha sido diante da prisão e da morte, retirou-se, e deixou
logo o Bihé.
Dois homens seguíram-se no meu quarto á sahida do
secúlo do Sambo. Estava escrito que eu não
descançasse no primeiro dia das minhas melhoras. Estes dois
prêtos eram Cahinga e Jamba, os dois homens de
confiança
de Silva Porto, que elle me mandava de Benguella.
Depois de lhes ouvir mil protestos de dedicação,
muitas
vêzes repetidos, consegui ficar só. Só,
não!
Junto de mim estava a ùnica, a grande
dedicação
que tive na minha viagem a travez d'Àfrica. Córa,
a minha
cabrinha, em pé, com as patas pousadas sôbre o
leito,
berrando e lambendo-me as mãos, pedia-me uma caricia, que eu
não lhe fazia ha muito.
No dia seguinte, os meus companheiros avisáram-me de que
deixavam a casa de Silva Porto, e eu em uma maca mudei para ali.
Encontrei 7 cargas de fazenda, 6 caixas de rancho, uma mala com
instrumentos, e três carabinas Snider, que elles me haviam
deixado.
A libata de Silva Porto, ou povoação de Belmonte,
está situada sôbre a parte mais elevada de um
outeiro,
cuja vertente norte desce suavemente até ao leito do rio
Cuito,
que corre a leste para o Cuqueima.
A posição da libata é muito bonita, e
forte como ponto estratègico.
Figura
16.--Casa de Belmonte (Bihé).
Tem dentro um laranjal, onde as larangeiras estam sempre em fruto e
flôr, o que não acontece a outras algumas no
Bihé.
O laranjal é cercado de uma sebe de roseiras, que attingem
uma
altura de tres metros, e estam sempre floridas.
Figura
17.--Vista exterior da povoação de Belmonte, no
Bihé.
Sycòmoros enormes assombram as ruas e rodeam a
povoação, defendida por uma forte palissada de
madeira.
Debaixo d'essas larangeiras, cuja sombra perfumada me abrigava do sol
ardente, quantos dias e quantas horas passei scismando na minha
posição, e elaborando projectos mais ou menos
sensatos!
Foi ali, que, arrastando ainda os membros tolhidos de dôres,
que,
queimado da febre, concebí, e organizei na minha mente o
plano
que havia realizar depois.
Se de alguma cousa me orgulheço na minha viagem,
é d'esse tempo.
Mais tarde joguei muitas vêzes a vida, fui de certo mais de
uma vez temerario, mas era obrigado a isso para me salvar.
Ali não! Estava doente, quasi anèmico, e sem
recursos.
Uma facilidade relativa me abria o caminho de Benguella e da Europa.
Mil difficuldades, que provinham da minha
separação dos
meus companheiros, apresentavam-me uma barreira quasi impossivel de
transpor, para emprehender uma exploração
qualquer. O
desànimo reinava na minha pouca gente.
 |
*
Sycomoros.
* Forte palissada
de pao.
* Palissada da
horta coberta de roseiras sempre floridas.
* Romeiras.
* Larangeiras.
* Hortas.
* Cemiterio.
* Casas dos
prêtos.
1.
Entrada da povoação.
2. Entrada da casa
de Silva Porto
3. Casa.
4. Pateo interior.
5. Cusinha e
dispensa.
6. Casas de criados.
7. Armazem. |
Figura.
18.--Planta da povoação de Belmonte, no
Bihé.
Entrèvado e sem fôrças, não
pensar um
só momento em voltar face ao desconhecido que se erguia ante
mim
como um abysmo attrahente; desfazer uma a uma as difficuldades que
surgiriam; reconstruir muitas vêzes o trabalho feito, que se
esvaïa como cahe um castello de cartas; criar recursos onde os
não havia; conseguir organizar uma
expedição
sôbre as ruinas de outras que se haviam desmembrado;
é,
aos meus ôlhos, a parte mais difficil da minha viagem, e de
que
mais me orgulheço, se é que me
orgulheço de alguma
cousa.
Comecei por contratar Verissimo Gonçalves para me
acompanhar, e consegui fazer-me obedecer por elle cégamente.
Depois de muito estudar o caminho a seguir, resolvi ir direito ao alto
Zambeze, seguindo a cumiada do paiz onde nascem os rios d'aquella parte
d'Àfrica.
Chegado ao Zambeze, queria seguir a leste, estudar os affluentes da
margem esquerda, e descendo ao Zumbo, ir d'ali a Quilimane por Tete e
Senna.
Os mais
pràticos sertanejos,
sabedores do meu projecto, diziam-me, que eu não chegava a
meio caminho do Zambeze, e creio que me tinham por
tôlo.
Eu deixava-os falar e prossegui sempre na
organização do
pessoal e confecção do material necessario aos
meus
planos.
No dia 27 de Março, primeiro em que pude escrever
livremente,
escrevi ao Governo da Metròpoli, e ao Pereira de Mello, e
Silva
Porto. Dava-lhes parte do occorrido até então, e
pedia-lhes auxilio e consêlho, submettendo á sua
crìtica os meus projectos. Despachei portadores para
Benguella
com as cartas, e fui trabalhando, mais confiado em mim do que em outrem.
A esse tempo, uma grande parte das cargas deixadas em Benguella, em
Novembro ¡havia 5 mezes! ainda não tinham chegado.
Apparecéram-me na libata o ex-chefe de Caconda, Alferes
Castro,
e o degradado Domingos, que iam para Caconda. Contáram-me
que,
chegados ao Bihé, tinham sido encarregados por Capello e
Ivens
de ir construir o abarracamento, e de fazer transportar para ali as
cargas que estavam em Belmonte.
O Alferes Castro voltava sem nenhum confôrto, e eu, das 6
caixas
de rancho que me tinha deixado o Ivens, dei-lhe o assucar,
chá,
café, etc., necessario para a viagem.
Creio que aquelle senhor, depois de ter sido a causa de tanto
soffrimento que tive, de tantos riscos que corri, não
terá motivo de queixar-se do modo por que o recebi no
Bihé; se quizér ser justo e verdadeiro.
Quanto ao degradado Domingos, se bem me recordo, dei-lhe uma carta de
recommendação para o Governador de Benguella, de
quem ia
solicitar um favor.
Foi assim que tratei os dois homens que mais me fizéram
soffrer
em Àfrica, porque quando déram causa a isso, eu
ainda
não estava habituado ao soffrimento.
No principio de Abril, eu já bastante melhor, tinha promptos
60
carregadores, e esperava apenas a chegada das cargas de Benguella, para
receber mais alguma fazenda e partir.
A minha vida era um trabalhar incessante, e ao mesmo tempo compilava um
livro de lembranças, para ter á mão as
fòrmulas que me eram necessarias para os meus
càlculos;
fazia umas tàbuas de raizes quadradas e raizes
cùbicas,
que calculei para os nùmeros de 1 a 1000. Deduzia com
trabalho
immenso algumas fòrmulas trigonomètricas, porque
na
Europa, para tornar mais portateis as minhas tàbuas
logarìthmicas, as tinha feito encadernar, supprimindo a
parte
explicativa; e por um engano deploravel, n'uma remessa de objectos que
de Loanda fiz para Portugal, fôram incluidos os meus livros
mathemàticos. Não se riam os sabios, da singeleza
com que
lhes narro as difficuldades com que lutei no Bihé para poder
ter
escritas n'um livrête algumas fòrmulas vulgares.
Quem
não é explicador de mathemàtica,
vê-se
muitas vêzes embaraçado para resolver uma
questão
mui simples, quando lhe falte um livro que lhe avive a memoria
priguiçosa. No Bihé faltavam-me tôdos
os livros, e
por isso eu fazia um, para meu uso, e ou se riam ou não,
declaro-lhes que não me foi facil. Tôda a minha
bibliotheca consistia em três almanacs para 1878, 1879, e
1880,
as tàbuas de logarithmos, como já disse, sem
texto,
tàbuas somente, o Eurico de Herculano, as poesias de
Casimiro
d'Abreu, e um livrinho de Flamarion,
As Maravilhas Celestes.
Em tudo isto não tinha muito onde refazer a memoria para as
questões de
x
e
y.
Depois havia ainda outra difficuldade. Eu tinha de fazer e de pensar em
muitas cousas ao mesmo tempo, e cousas um pouco incompativeis entre si.
Ás vêzes tinha conseguido quasi reconstruir uma
das
fòrmulas de Neper para resolver triàngulos
esphèricos, quando entrava o muleque, e me exigia que
dizesse,
se a gallinha para o jantar devia ser cozida ou assada (durante a minha
estada no Bihé, comi cento e sessenta e nove gallinhas).
Logo,
entrava outro pedindo sabão para lavar a roupa; depois, eram
carregadores que me vinham falar; em seguida, enviados do sova, que me
queriam extorquir mais algumas jardas de fazenda. Um inferno, um
verdadeiro inferno.
Eu tinha feito e fazia um grande nùmero de
observações meteorològicas.
Os meus chronòmetros estavam perfeitamente regulados, e a
minha
posição determinada. Algumas excursões
que fiz no
paiz com a bùssola na mão,
permitíram-me fazer uma
carta, de certo grosseira, mas tão aproximada quanto se
pôde exigir de um trabalho d'estes em viagem de
exploração. Apesar dos meus trabalhos, ou talvez
por
causa d'elles, eu estava satisfeito, e mal pensava nas
tribulações porque tinha de passar ainda nas
terras do
Bihé.
Antes porem de continuar a narrativa das minhas aventuras, abro um
parenthesis para falar um pouco d'este paiz, tão importante
e
rico quanto pouco conhecido entre nós, a quem interessa mais
o
seu conhecimento do que a ninguem.
O Bihé limita ao Norte com o sertão do Andulo, a
N.O. com
o Bailundo, a Oeste com o paiz de Moma, a S.O. com os Gonzellos de
Caquingue, ao S. e L. com os pôvos Ganguelas livres. O rio
Cuqueima é quasi um limite natural do Bihé por
Oeste, Sul
e Leste, mas, na realidade, a autoridade do sova do Bihé
ainda
se exerce para àlém d'aquelle rio em alguns
pontos. O
paiz é pequeno, mas muito povoado.
Eu avalio grosseiramente a sua àrea em 2500 milhas
quadradas, e
um càlculo ainda mais grosseiro fêz-me estimar a
sua
população em 95 mil habitantes; o que nos
dá
apenas 38 habitantes por milha quadrada; e ainda que este
nùmero
nos pareça mui pequeno, por ser menos de um terço
do que
se dá entre nós, é consideravel para a
Àfrica Austral, onde a população
está muito
pouco accumulada.
Em tempo, como se verá, pouco distante, estas terras do
Bihé eram povoadas de matas densas, onde abundavam
elefantes, e
onde assentavam raras povoações de
raça Ganguela.
O rio Cuanza, depois da sua confluencia com o Cuqueima, divide o paiz
do Andulo do paiz de Gamba, que lhe fica a leste. Era sova de Gamba um
tal Bomba, que possuia uma filha de grande formosura, chamada Cahanda.
Este sova Bomba vivia na margem esquêrda do rio Loando,
affluente do Cuanza.
A formosa e nêgra princesa Cahanda, pediu ao pai para ir
visitar
umas parentas que eram senhoras da povoação de
Ungundo,
ùnica de alguma importancia no Bihé de outrora.
Estando a filha do sova Bomba n'esta povoação de
Ungundo
a visitar as parentas, aconteceu chegar ao paiz um ouzado
caçador de elefantes chamado Bihé, filho do sova
do
Humbe, que com grande comitiva tinha passado o Cunene e estendido as
suas excursões venatorias até áquellas
remotas
terras. Um dia o selvagem discìpulo de Santo Huberto
têve
fome, e estando perto da povoação de Ungundo,
dirigio-se
ali a pedir de comer. Foi então que vio a formosa Cahanda, e
é preciso dizel-o, que vel-a e amal-a foi obra de um
momento.
Estas questões de amor em Àfrica sam muito
semelhantes
ás questões de amor na Europa, e pouco depois do
encontro
dos dois jovens, Cahanda era raptada, e Bihé plantava a
estacada
da grande povoação que ainda hôje
é a
capital do paiz, paiz a que deu o seu nome, fazendo-se acclamar sova.
As dispersas tribus Ganguelas fôram por elle submettidas, e o
pai
da primeira soberana do Bihé reconciliando-se com a filha,
permittio uma grande immigração do seu
pôvo para
ali. Ao casamento do sova succedéram-se muitos outros entre
as
mulhéres do norte e os caçadores do seu
sèguito, e
esta é a origem do pôvo Biheno.
Assim os Bihenos sam Mohumbes, nome que na Àfrica Austral de
oeste dam aos descendentes da raça do Humbe, os quaes
não
se encontram só no Bihé, mas estam tambem
espalhados em
outros pontos, sôbre tudo frente da costa entre
Mossàmedes
e Benguella, misturados com os Mundombes, que sam a verdadeira
raça d'aquelle paiz. Hôje a verdadeira
raça Mohumbe
no Bihé é representada pêla nobreza e
gente rica do
paiz, os descendentes dos caçadores do primeiro sova, e
ainda
assim, fôra da familia reinante, está ella
misturada com
sangue de raças muito differentes; porque, sendo o
Bihé
desde o seu comêço um grande emporio de
escravatura, e
tendo sido colonizado em grande parte por escravos de raças
diversas, o baixo pôvo provem de uma mistura inexplicavel, e
a
nobreza mesmo, nas suas bastardias numerosas, tem trazido ás
suas descendencias sangue dos paizes mais remotos da Àfrica
Austral.
Da união de Bihé e da formosa Cahanda nasceu um
ùnico filho varão, que têve o nome de
Jambi, e
succedeu no governo a seu pai. Este Jambi têve dois filhos,
dos
quaes o primogènito se chamou Giraúl, e o segundo
Cangombi. Giraúl herdou o poder por morte de seu pai, e
receiando de seu irmão, que tinha grande influencia no
pôvo, o fez prender secretamente de noite, e o vendeu como
escravo, a um prêto que ia levar uma leva de escravos a
Loanda.
Cangombi, por acaso, em Loanda foi comprado pêlo Governador
Geral, de quem foi escravo. Tempos depois, os despotismos e as
arbitrariedades de Giraúl fizéram-n-o detestado
do seu
pôvo; houve conspiração, e alguns
nobres
partíram secretamente para Loanda, com muito marfim, para
resgatar seu irmão, e acclamal-o, depois de deporem aquelle.
O
governador de Angola de então, vendo o partido que podia
tirar
d'esta questão, para a corôa Portugueza,
não
só entregou Cangombi sem resgate, mas ainda o encheu de
presentes, e lhe deu auxilio contra seu irmão; e por isso
Cangombi se apresentou no Bihé com grande comitiva, que veio
por
Pungo-andongo e subio o Cuanza, entre a qual se contavam muitos
Portuguezes. Declarada a guerra, Giraúl foi vencido, sendo
traido pêlos seus, e entregou as redeas do governo a seu
irmão mais nôvo, que lhe deu uma
povoação e
um pequeno dominio para viver.
Quatro annos depois, Giraúl revoltava-se e vinha
pôr
cêrco á capital. Novamente vencido e prisioneiro,
foi
entregue por seu irmão aos Ganguelas de
àlém
Cuanza para o comerem; não que estes Ganguelas sejam
positivamente canibaes, mas, de vez em quando, não desgostam
de
comer um bocado de homem assado.
Eu não pude saber o nome do governador que prestou
mão-forte ao filho segundo do Jambi para lhe dar o poder,
mas
estou certo que a esse respeito alguma cousa dêve existir no
Ministerio da Marinha e Ultramar, porque um passo d'aquelles
não
podia deixar de ser communicado ao governo da Metròpoli.
Cangombi foi grande sova, e têve oito filhos, dos quaes seis
fôram sovas do Bihé; o que não
é para
admirar, porque ali herda o poder o mais pròximo da
ascendencia.
Assim, em quanto existem filhos de um sova, os netos não vam
ao
poder, e o neto primogènito do filho primogènito
só toma as rèdeas do governo quando
não existe
nenhum dos seus tios, irmãos mais nôvos de seu pai.
Por esta lei herdou o poder Cahueue, filho mais velho de Cangombi, e
por mortes successivas, seus irmãos Moma, Bandúa,
Ungulo,
Leamúla e Caiangúla. Os dois filhos de Cangombi
que
não fôram sovas, fôram Calali e
Óchi, por
terem morrido cêdo. Este Óchi era immediato ao
mais velho
Cahueue, e deixou um filho que foi sova por morte de seu tio
Caiangúla, por não ter deixado filhos o
irmão mais
velho de seu pai.
Este sova chamava-se Muquinda, e por sua morte foi o governo a seu
primo Gubengui, filho mais velho do sova Moma immediato a seu pai. A
este Muquinda seguia-se outro irmão chamado Quitungo, que
morreu
quando ia ser acclamado, já dentro da capital.
De tôdos os oito filhos de Cangombi, só existia um
descendente legìtimo, filho do sova Bandúa, que
foi
acclamado. É elle Quillemo, o actual sova do Bihé.
Ha contudo um filho bastardo de Moma, chamado Canhamangole, que
está indigitado para succeder a Quillemo; em seguida
passarám ao poder, os filhos d'este ùltimo, que
sam
muitos.
Por este breve resumo da historia do Bihé se vê,
que
aquelle paiz é de fundação recente, e
que desde o
seu comêço quasi, existíram
relações
ìntimas entre os Portuguezes e Bihenos, pêla
intervenção tomada pêlo Governador
Geral de Angola,
na acclamação do sova Cangombi, avô do
actual sova
Quillemo, e neto do fundador da monarchia Bihena.
Assim, pois, o Bihé, desde a sua
fundação tem sido
governado por treze sovas em cinco
gèrações, que
vam representadas no seguinte quadro:--
Na carta de Angola, de Pinheiro Furtado, já vem, indicado o
Bihé, mas a sua origem não dêve ir
muito
àlém da coordenação
d'aquella carta.
Figura
19.--Mulhér do Bihé cavando.
Os Bihenos sam pouco agricultores e pouco industriosos, e ali tudo o
trabalho é feito pêlas mulhéres, que
só
ellas cultivam a terra.
Os homens sam dados a viajar, talvez de origem, que o seu primeiro
règulo de longe veio, e atrevem-se a ir commerciar nos
remotos
sertões onde vam traficar em marfim e escravos. Aproveitando
estas disposições, alguns homens ousados, taes
como Silva
Porto, Guilherme (o Candimba), Pernambucano, Ladislao Magiar, e outros
negociantes sertanejos, começáram a dirigir os
Bihenos
nas suas excursões, e fizéram n'isso um grande
serviço ao mundo; porque, abrindo nôvos mercados
ao
commercio, abríram nôvos horizontes á
civilisação. Não foi só o
seu
tràfico que veio augmentar o movimento commercial da
praça de Benguella, mas, ainda animado por elles, e perdido
o
receio dos brancos, o gentio dos mais remotos paizes, desceu a vir
permutar directamente os seus gèneros nas casas commerciaes
de
Benguella.
Figura
20.--Carregador Biheno em marcha.
Nas viagens sertanejas, aos brancos seguíram-se os
prêtos,
e obtendo, primeiro alguns, depois muitos, um certo crèdito
na
praça de Benguella, fôram ao Bihé
organizar
expedições, d'onde partem a procurar a
cêra e o
marfim nos sertões mais distantes.
Muitos prêtos conhêço eu que negoceiam
com um
crèdito de 4 e 5 contos de réis, e alguns com
mais, como
o prêto Chaquingunde, que foi escravo de Silva Porto, que,
durante a minha permanencia no Bihé, chegou do
sertão,
onde tinha negociado por sua conta uma factura de 14 contos de
réis!
Não é difficil no Bihé encontrar um
branco
Portuguez, escapado dos presidios da costa, secretario de um
prêto commerciante rico.
Para o Biheno, em questões de viagens de tràfico,
nada
é impossivel, e tudo lhe parece natural. Se elles soubessem
dizer onde t[~e]m estado e descrever o que t[~e]m visto, os
geògraphos da Europa não teriam em branco grande
parte da
carta de Àfrica Austral.
O Biheno deixa com o maior desapêgo o lar, e carregado com
trinta
kilogrammas de fazendas, vai para o sertão, onde se demora
2, 3,
e 4 annos, voltando em seguida a casa, onde é recebido com a
naturalidade de quem volta de uma viagem de três dias.
Silva Porto, ao passo que se dirigia ao Zambeze, enviava
prêtos
seus em outras direcções, e negociava ao mesmo
tempo no
Mucusso, na Lunda e no Luapula.
A fama dos Bihenos tinha chegado longe, e Graça quando
intentou a viagem ao Matianvo, foi ali procurar carregadores.
É mui raro que um Biheno deserte da comitiva, e roube algum
fardo; o que acontece frequentemente com os Zanzibares.
Àlém d'isso, os Bihenos t[~e]m outra grande
vantagem
sôbre os Zanzibares. Ainda que muito dados ao commercio de
escravos, não promovem elles mesmos no interior guerras para
os
haverem; comprando-os a quem os vende, mas nunca tratando de os obter
por fôrça. Isto quando em viagem de
tràfico
sertanejo, que, nas guerras com paizes circunvizinhos, fazem o que
podem, e sam dotados de inaudita crueldade.
Os Bihenos, apesar das suas grandes qualidades, coragem e
hàbito
de viajar, possuem grandes defeitos, e não
conhêço
em Àfrica pôvo mais profundamente viciado, mais
abertamente depravado, mais duramente cruel, e mais sagazmente
hypòcrita.
Tem esta gente uma certa emulação entre si como
viajantes, e muitos conhêço eu que se ufanam de
ter ido
onde outros não fôram, a que elles chamam
descobrir terras nôvas.
Elles sam educados na vida de caminheiros, e tôdas as
comitivas
levam innùmeras crianças, que, com cargas
proporcionaes
ás suas forças, acompanham os pais ou parentes
nas mais
longìnquas correrias; e é por isso que
não causa
estranheza encontrarmos ali um homem de 25 annos que tenha estado no
Matianvo, no Niangué, no Luapula, no Zambeze, e no Mucusso,
se
elle viajou desde os 9 annos.
Ao homem que chega ao Bihé para seguir em viagem sertaneja,
offerecem-se dois meios de obter carregadores. Um é por meio
de
presentes ao sova e aos potentados, obtel-os, pedindo-os; o outro
é annunciar a viagem, e esperar que elles se venham
offerecer.
O primero é mao, porque, àlém do
grande dispendio
feito com os presentes que é preciso dar ás
pessôas
a quem se pedem os carregadores, estes sam obrigados a ir, e o que os
pedio é responsavel pela vida d'elles para com as familias
ou
senhores. Àlém d'isso, as pessôas a
quem se pedem,
com o intùito de extorquir mais presentes, vam demorando
quanto
podem a partida, e quando se está na sua dependencia as
exigencias crescem.
O segundo meio é bom, porque os que se v[~e]m offerecer sam
prêtos livres, v[~e]m por sua vontade, e se algum morre,
segundo
a lei do paiz, como foi elle que se offereceu, não tem o que
o
aceitou a menor responsabilidade do facto.
É occasião de falar em Quissongos e Pombeiros. Os
carregadores, não só os Bihenos mas sim
tôdos em
geral, formam grupos pequenos debaixo do commando de um d'elles que
é chefe do grupo. Este chefe, desde a costa até a
Caquingue chama-se
Quissongo,
e no Bihé e Bailundo
Pombeiro.
Sam estes Pombeiros que se v[~e]m offerecer, trazendo uns 10, outros
mais, outros menos carregadores. Estes grupos sam de differentes
naturezas. Uns sam constituidos por parentes que escolhéram
um
para Pombeiro, e n'estes sam tôdos livres. Outros sam
formados
por gente livre, que combinam ir debaixo das ordens de um certo
Pombeiro em quem t[~e]m confiança. Outros ainda, sam grupos
de
escravos dos Pombeiros que os commandam.
A obrigação do Pombeiro é vigiar
pêla sua
gente, e responder por ella ante o chefe da comitiva. Come e dorme com
elles, é emfim o cabo de esquadra da caravana.
O Pombeiro não leva carga, mas, em caso de doença
ou
morte de algum dos seus, substitue-o como carregador temporariamente.
Durante a marcha o seu logar é no couce da comitiva, e logo
que
um seu carregador se atraza, elle fica para o acompanhar.
O pagamento dos carregadores nunca é feito adiantado, e nas
viagens de tràfico regulares é diminutissimo.
Assim, um carregador, para ir do Bihé á
Garanganja
(Luapula), recebe 12 pannos ou valor de 2400 réis, e na
volta
uma ponta de marfim escravelho, talvez de 4000 réis, ao tudo
6400 reis, comida á parte, porque o chefe da comitiva tem
obrigação de sustentar tôda a sua gente
durante a
viagem, excepto nos primeiros três dias de sahida do
Bihé,
para os quaes cada um leva de comer.
Esta regra tem ainda uma excepção. Muitos
sertanejos, ao
sahirem do Bihé, destinam um certo nùmero de
pombeiros
para destacarem em caminho, ou no termo da sua viagem, para differentes
pontos.
A estes Pombeiros dam um certo nùmero de fazendas,
pêlas
quaes elles lhes devem trazer um certo producto. Estas fazendas dos
Pombeiros que vam traficar livremente, chamam-se
banzos,
e d'ellas comem o Pombeiro e carregadores desde o
comêço
da jornada. Afora este caso, em tôdos os mais o chefe
sustenta
Pombeiros e carregadores.
Os Pombeiros não sahem nunca por tempo determinado, e tanto
ganham demorando-se pouco como muito. É sabido que os
nêgros em Àfrica não dam valor ao tempo.
Os costumes Bihenos sam aproximadamente os mesmos de Caquingue, e o
contacto com brancos não tem trazido o menor adiantamento a
essa
gente.
Não t[~e]m a menor idéa de uma
religião qualquer,
não adoram nem sol, nem lua, nem ìdolo, e vivem
com os
seus feitiços e advinhações.
Todavia, parecem acreditar na immortalidade da alma, ou antes no
desassocego d'ella em quanto não cumprem certos preceitos ou
vinganças em favor do morto.
A forma do governo é monàrchica absoluta, e tem
muito do feudalismo.
Cada um é, muitas vêzes, juiz em causa propria, e
quando eu falar dos
mucanos
direi como ali se faz justiça.
Os maiores acontecimentos entre os Bihenos sam aquelles que se ligam
aos sovas, e sôbre tudo á sua morte e á
acclamação do nôvo règulo.
Antes porem de
descrever estes dois grandes acontecimentos, preciso é falar
da
sua côrte.
O sova é rodeado de um certo nùmero de sujeitos,
a que chamam
Macotas,
que muitos julgam corresponderem aos ministros entre nós,
mas
que assim não é. Os Macotas formam apenas uma
especie de
consêlho a que o sova submette sempre as suas
deliberações, mas de cuja opinião
poucas
vêzes faz caso. Sam secúlos e favoritos do sova, e
nada
mais. Secúlo é o fidalgo, filho de nobre, ou
enobrecido
pêlo sova.
Muitos secúlos que possuem libatas, dentro d'ellas t[~e]m o
tratamento de sovas, e os seus pôvos, quando lhe dirigem a
palavra, dizem
Ná
côco,
o que quer dizer Vossa Magestade.
Àlém dos Macotas, ha três
prêtos que rodeiam
o sova, e que, quando elle dá audiencia, se sentam no
chão junto d'elle, e apanham da terra os escarros do
regùlo para os irem deitar fora. Ha ainda o que leva a
cadeira,
e o Bôbo, figura indispensavel em tôdas as
côrtes de
sova, e mesmo dos secúlos ricos e poderosos. O
bôbo tem
obrigação de limpar a porta da casa do sova e a
rua em
tôrno d'ella.
As libatas sam defendidas por uma forte palissada de madeira, quasi
sempre coberta de sycòmoros enormes, e dentro d'ellas uma
segunda palissada defende e fecha a morada do sova. Este segundo
recinto chama-se o
lombe.
Dados estes esclarecimentos, vamos ver o que se passa pêla
morte ou acclamação dos règulos.
Logo que morre o sova, o acontecimento é sabido dos Macotas,
que
guardam o maior segrêdo. Dam parte ao pôvo de que o
sova
está doente e por isso não apparece. O cadaver
é
deitado na cama, na cubata, e coberto com um panno; isto em Caquingue,
porque no Bihé, é dependurado pêlo
pescôço ao tecto da cubata.
O côrpo ali jaz até que a
putrefacção e os
insectos deixam a ossada nua, no paiz de Caquingue; no Bihé,
até que a cabêça se separa do corpo.
É então que anunciam a morte do
règulo, e que se
procede ao enterro. Os ossos sam metidos em uma pelle de boi e
enterrados em uma cubata que existe no Lombe, sarcòphago de
tôdos os sovas. A cubata em que apodreceu o cadaver
é
demolida, e tudo o material é transportado fôra da
libata,
e abandonado no mato. Será desnecessario dizer, que a morte
de
um sova é sempre produzida por feitiço, e que um
desgraçado paga com a vida, não o
feitiço, que
não fez, mas a vingança particular de um dos
Macotas.
Logo que se anuncía a morte do sova, o pôvo sahe
furioso,
e durante alguns dias, sam roubados tôdos os que passam
pròximo da capital, sendo que se apossam das
pessôas
mesmas, que escravizam para venderem depois.
Os Macotas vam buscar o herdeiro, e acompanham-n-o até
á
Libata Grande (capital); mas ali elle não entra no Lombe, e
fica
vivendo na povoação como qualquer do seu
pôvo. Em
seguida á entrada do herdeiro na Libata, sahem dois bandos
de
caçadores, um em busca de uma malanca (
Catoblepas taurina), e outro
em procura de uma creatura humana.
Do grupo que vê o antìlope, se adianta um
caçador
que lhe atira, fugindo logo, e sam os outros que lhe vam cortar a
cabêça, porque, se fôr o que lhe atirou,
é
logo assassinado, e nunca pôde dizer que foi elle que o matou.
O bando que procura a creatura humana, apossa-se da primeira que
encontra (homem ou mulhér), e arrastando-a para o mato,
cortam-lhe a cabeça, que trazem com tudo o cuidado,
abandonando
o côrpo. Chegados á libata, esperam pêlo
bando que
foi caçar o antìlope; porque mais facil sempre
é
encontrar e matar um homem do-que encontrar e matar uma malanca.
Reunidas em uma cesta as duas cabeças, a do homem e do
antìlope, vem o cirurgião, e
comêça a
fazer
os
curativos
precisos para que o nôvo sova possa tomar as redeas do
governo, e
quando acaba a sua magía, declara que elle pôde
entrar no
Lombe. Acompanhado dos Macotas, o sova entra no Lombe, no meio de
grande grita e muita fuzilaria.
O primeiro passo que dá o sova no seu governo, é
escolher
entre as suas amantes uma que apresenta como sua mulhér, a
qual
fica morando com elle, e toma o nome de Inácúlo,
e o
governo caseiro; as outras ficam vivendo no Lombe, mas fôra
do
recinto do règulo.
No Bihé, como em tôda a Àfrica Austral,
está estabelecida a polygamia.
Os crimes no Bihé sam sempre julgados em primeira instancia
pêlo lesado, e só se o culpado se não
sujeita ao
pagamento da multa, é que, algumas vêzes, sobe a
causa ao
conhecimento do sova, porque em outras a justiça
é feita
pêlo lesado. A palavra terrivel no Bihé, o
vocàbulo
Mucano,
não exprime simplesmente o crime, mas designa uma
idéa
que involve ao mesmo tempo o crime e o pagamento da multa.
Ali tôdos os crimes sam remiveis a dinheiro, isto
é, ao
pagamento de multas; e não ha penalidades intermediarias
entre a
multa e a pena de morte. Se alguem rico sôbre quem pesa um
mucano, se recusa a pagar, e o lesado é poderoso, faz presa
ao
culpado em valor muito superior á multa, ficando a presa em
depòsito, para ser vendida, ou ficar pertencendo ao que a
fez.
Aquelle que faz uma presa injusta é obrigado pêlo
sova
á restituição, e a dar um porco ao
prejudicado.
Este systema é ázado a roubos, e tôdos
os dias apparecem mucanos os mais estupendos.
Um dos mais vulgares é o do adulterio das
mulhéres, a
quem os maridos mandam que se façam seduzir por este ou
aquelle
homem que possue alguma cousa, para lhe fazerem depois pagar o mucano.
O chefe de uma comitiva é obrigado a pagar os mucanos dos
seus
prêtos, e responsavel pêlo comportamento d'elles.
Quando um branco responsavel pêlos mucanos dos seus
prêtos,
tem por seu lado força bastante e se recusa a pagar, elles
esperam, ás vêzes, annos até poderem
atacar outro
branco mais fraco, e fazerem-lhe presas, dizendo-lhe, que é
por
causa do outro, e que se entenda com elle.
Se o que têve um mucano é fallecido, o
desgraçado
que vem habitar a sua povoação paga por elle.
O modo por que se
faz
justiça no Bihé, é a
causa do grande transtorno que soffre o commercio, e das grandes perdas
das casas de Benguella.
Durante a minha estada em casa do Silva Porto, viéram ali
uns prêtos que traziam uma gallinha para fazer uns
curativos, e o
hortelão vendo-a disse, que tinha uma muito parecida com
ella. Fôram estas palavras
objecto de um mucano, em que o hortelão têve de
pagar 16 côvados de algodão ao dono da gallinha.
Logo que chega alguem ao Bihé e traz fazendas, procuram
arranjar-lhe innùmeros mucanos, e roubam-lhe assim uma
grande
parte d'ellas.
Os sertanejos, quando chegam ao Bihé, sam tão
defraudados
pelos mucanos, que muitas vezes não lhes fica para ir
negociar
no interior mais do que a terça-parte das facturas trazidas.
Guilherme (o Candimba), pai do Verissimo, a ùltima vez que
ali
foi em viagem de tràfico, foi obrigado a dar fazendas no
valor
de 600 mil réis, por um mucano que lhe
arranjáram, de um
seu prêto ter comprado um bocado de carne de carneiro por
três cartuxos de pòlvora, e não os ter
dado no dia
aprasado, mas sim no seguinte, em que já não
fôram
aceites. Durante a minha estada no Bihé, Silva Porto
têve
de pagar um mucano de 700 mil réis por uma bagatela ainda
maior.
É o mucano, esse roubo infame, porque é legal e
autorizado, a causa principal do estôrvo ao commercio, e da
decadencia do Bihé.
Foi o mucano que expulsou do Bihé a Silva Porto e aos
sertanejos honrados.
Supprima-se o mucano, segure-se o caminho de Benguella, organize-se e
legisle-se para as comitivas sertanejas, e dentro em pouco
triplicará o commercio de Benguella, e novas fontes de
riqueza,
atrofiadas hôje pela pouca segurança,
virám
alimentar as industrias Europeas.
O pôvo do Bihé é ázado a
grandes
commettimentos. Esmague-se no seu seio a vìbora da
ignorancia
que o corróe; levantem-se esses brutos ignaros á
altura
de homens, dê-se-lhes uma direcção, e
elles
caminharám na via do progresso e chegarám onde
difficilmente chegará outro pôvo Africano.
Os prêtos d'Àfrica sam como os cavallos de fina
raça, quanto mais fogosos e bravos, mais promptamente se
tornam
doceis e obedientes.
Aquelles em que predomina a inercia e a cobardia, difficilmente se
poderám civilizar; aos outros não será
difficil
tarefa trazel-os ao caminho do bem.
Os Bihenos, como tôdos os povos d'esta parte de
Àfrica, sam muito dados á embriaguez.
Ali ainda chega a àgua-ardente, e na falta d'ella fabrica-se
muita capata.
A Capata, Quimbombo ou Chimbombo, que lhe chamam de qualquer destes
modos, é uma especie de cerveja feita de milho.
Nas terras onde cultivam o lùpulo (
Humulus lupulus),
servem-se das cònicas sementes d'esta trepadeira para
confeccionarem a bebida.
Para isso, reduzem as sementes a pó, e misturado este
pó
com fuba de milho, em uma enorme panella, ferve por espaço
de
oito ou dez horas em muita àgua, e logo, retirada do
fôgo
e fria, é a capata, que se bebe immediatamente.
N'este preparado a fermentação acètica
predomina,
e é tão pequena a
fermentação
alcohòlica, que não embriaga senão em
grande
quantidade. Como a bebida não é filtrada, fica
cheia de
farinha em suspensão, e é mais massa muito
flùida,
do que puramente um lìquido. É muito substancial,
e ha
prêtos que passam um e mais dias sem comer, bebendo
só
capata.
Nas terras onde não ha lùpulo é este
substituido
por uma farinha feita de milho em estado de
germinação,
que elles fazem produzir, já enterrando o milho,
já
deitando-o em àgua por alguns dias.
No tempo do mel, fazem produzir na capata uma grande
fermentação alcohòlica,
addicionando-lhe mel, que
no fim de alguns dias está em parte transformado em alcohol.
Esta bebida assim preparada embriaga muito, e tem o nome de Quiassa.
Preparam ali ainda outra bebida que apenas pode considerar-se refresco,
mas que é agradavel e muito nutriente.
É ella feita com a raiz de uma planta herbàcea,
que os
meus poucos conhecimentos botànicos não me
permitíram classificar, a que os prêtos
chamam
imbundi.
Uma forte decocção da raiz do imbundi, depois de
fria e
de uma ligeira fermentação em uma grande
cabaça, e
addicionada, a frio, á fuba fervida como para a capata.
A raiz do imbundi contem grande quantidade de materia sacharina.
Esta bebida chama-se Quissangua.
A alimentação do pôvo do
Bihé é quasi
toda vegetal, e tendo elles poucos gados, que nunca matam para comer,
apenas uma ou outra vez comem carne de pôrco, animaes estes
que
abundam ali no estado domèstico. Creio que fôram
introduzidos por Silva Porto. No paiz, muito povoado, escaceia a
caça, e a pouca que há sam pequenos
antìlopes (
Cephalophus
mergens), difficeis de matar por muito esquivos.
Os Bihenos comem toda carne que encontram, e a preferem no estado de
putrefacção.
O leão, o chacal, a hyena, o crocodilo, e tôdos os
carnìvoros, sam para elles finos manjares, mas
sôbre tudo
o que mais amam sam os cães, que engordam para comerem. Isto
talvez provenha da falta de alimentação animal
que t[~e]m
no seu paiz. Elles não sam positivamente canibaes, mas comem
de
tempos a tempos um bocado de homem cozido. Preferem os velhos, e um
ancião de cabelleira branca é òptimo
presente que
recebe o sova, ou algum rico secúlo, para um banquete.
Os sovas do Bihé fazem repetidas vezes uma festa, na sua
libata,
a que chamam a festa do Quissunge, em que sam immoladas e devoradas 5
pessôas, sendo 1 homem e 4 mulheres, desta sorte:--1
mulhér que faça panellas, 1 do primeiro parto, 1
que
tenha papeira (é vulgar ali), 1 cesteira, e 1
caçador de
côrças.
Presas as vìctimas, sam degolladas, e as cabeças
lançadas no mato. Os corpos entram de noite para o Lombe da
libata grande, onde sam esquartejados, e morto um boi, a sua carne
é cozida com a carne humana, parte da qual é
tambem
fervida na capata; sendo que tudo o que apparecer no banquete deve
levar sangue humano. Logo que está prompta a sinistra e
repugnante ceia, o sova manda participar que vai começar o
Quissunge, e todos os habitantes da povoação
correm
pressurosos ao festim.
Os Bihenos gostam muito das termites, e destroem as suas
habitações para as comerem cruas.
O Biheno é altamente ladrão, e furta sempre que
pode
algum objecto, logo que está no seu paiz; fóra
d'elle,
não só se abstem de roubar, mas, como carregador,
respeita a carga que lhe confiáram.
Quando uma comitiva acampa no mato, no Bihé, é
preciso
logo dar parte d'isso ao secùlo dono da terra, mandando-lhe
um
pequeno presente; sem o que, ficam autorizados os prêtos da
povoação vizinha a roubarem quanto possam. Logo
que se
dá o presente ao dono da terra, é elle o
responsavel por
qualquer roubo que haja.
É tambem necessario mandar um presente, ou antes um tributo,
ao sova; ao que se chama dar a
Quibanda. Elles
nunca ficam satisfeitos, e exigem sempre mais do que se lhes manda.
As libatas ou povoações fortificadas (que todas o
sam,
desde a costa ao Bihé) t[~e]m as mesmas
condições,
salvo pequenas modificações, devidas á
disposição do terreno. Sam grupos de cubatas
feitas de
madeiras e cobertas de côlmo, cercadas por uma palissada, que
varía entre 2 a 3,5 metros de altura. Esta palissada
é
formada por estacas de pao-ferro de vinte centìmetros de
diàmetro, umas apenas cravadas no terreno, outras amarradas
com
travessas e cascas de leguminosas, e outras amparadas por travessas
encaixadas em forquilhas enormes.

|
 |
 |
Figura
21A.
Palissada Solta. |
Figura 21B.
Palissada amarrada com
Casca de arvore. |
Figura 21C.
Palissada travada
com Forquilhas. |
Outra palissada igual á exterior, senão mais
forte, rodea
o Lombe, ou morada do chefe da povoação. Em
muitas vi
grupos de casas rodeadas de palissada.
As libatas, e sôbre tudo as antigas, sam cobertas de
frondosas
àrvores, e estam junto de rio ou ribeiro, sendo que em
algumas
lhes fazem passar a àgua por dentro.
Sam quasi todas rectangulares, mas muitas ha ellìpticas ou
circulares, e outras formando polygonos irregularissimos.
Não ha
a menor ordem nas construcções, e em geral
é a
disposição do terreno que as determina.
Figura
22.--Planta de uma Libata de gentio no Bihé.
A. Entrada.
B. Cubata onde se enterram os sovas.
C. Trophéu de cornos.
c c c. Casas das amantes do sova. O O.
Casa do sova. a a a. Lombe ou
morada do sova. d d d. Casas dos prêtos.
Figura
22C.--Trophéu de Cornos de caça, em quasi todas
as libatas.
Figura
23.--Fora da porta das libatas ha isto.
As
povoações sam
fortificadas com o receio dos ataques do homem, que feras
não
abundam muito no paiz, e não é mesmo isso
necessario para
feras, porque no interior, onde as ha em bandos, as
povoações sam abertas.
As guerras dos prêtos ali sam, a maior parte das vezes, sem
causa, e basta a riqueza de um pôvo para que elle seja
atacado.
Sam verdadeiros ataques de salteadores.
Logo que um
règulo decide ir
fazer a guerra a outro, ou a um pôvo qualquer, manda
emissarios
seus aos sovas e secúlos circumvizinhos, convidando-os a
tomar
parte na campanha, e estes, como na Europa no
tempo do Feudalismo, sahem com os seus guerreiros a reunirem-se ao que
os convoca.
Alguns povos fazem periòdica e systemàticamente a
guerra,
e no Nano, por exemplo, vam, de tres em tres annos, roubar os gados ao
Mulondo, Camba e Quillengues, e dizem, que estes povos criam gados para
elles, e sam os seus pastores.
Uma circunstancia muito notavel das guerras n'esta parte de
Àfrica, é a de ser sempre vencedor o que ataca.
Ha excepções, mas muito raras.
Uma das
excepções foi o
ataque dirigido por Quillemo, o actual sova do Bihé, contra
o
paiz de Caquingue, em que os Bihenos fôram
derrotados pelos
Gonzellos, e em que o proprio sova Quillemo foi prisioneiro do sova de
Caquingue, onde seria degollado, se por elle não pagassem um
grande resgate Silva Porto e Guilherme José
Gonçalves (o
Candimba).
Nas guerras entre os povos d'estes paizes, pode contar-se, que apenas
um quinto dos combatentes sam armados de espingardas, e os outros
4-quintos de arcos e frechas, machadinhas e azagaias. Dizem, que uma
guerra vai muito poderosa e forte, quando leva trinta tiros por
espingarda. As armas de que usam sam as chamadas no commercio
Lazarinas, sam muito compridas, de pequeno adarme, e de silex. Estas
armas sam fabricadas na Bèlgica, e tiram o seu nome de um
cèlebre armeiro Portuguez que viveu na cidade de Braga, no
principio d'este sèculo, cujos trabalhos chegáram
a
adquirir grande fama, em Portugal e Colonias. Nas armas fabricadas na
Bèlgica para os prêtos, que sam uma
imitação
grosseira dos perfeitos trabalhos do armeiro Portuguez, lê-se
nos
canos o nome d'elle--Lazaro--Lazarino, natural de Braga.
Os Bihenos não usam balas de chumbo, que sam, dizem elles,
muito
pesadas, e fabricam-n-as de ferro forjado. Os cartuxos, que elles
fabricam tambem, levam 15 grammas de pòlvora, e t[~e]m 22
centìmetros de comprido.
As balas de ferro sam de diàmetro muito inferior ao adarme,
pesando apenas 6 a 7 grammas. Como sam forjadas, sam mais polyedros
irregulares do que espheras.
As armas assim carregadas, de nenhuma precisão, como se pode
bem julgar, t[~e]m um alcance de cem metros apenas.
O alcance da frecha é de 50 a 60 metros, mas a grosseira
precisão do tiro de frecha, entre os prêtos,
não
vai àlém de 25 a 30 metros. As azagaias sam todas
de
ferro, curtas e ornadas de pello de carneiro ou de cabra,
não
sam de arremêsso, e o Biheno em combate nunca as deixa da
mão.
Talvez haja reparo em eu escrever
pello
de carneiro, mas cabe dizer, já que falei n'isso, que os
carneiros ali não t[~e]m lã. Existem no paiz duas
differentes especies, que os prêtos em Hambundo designam pelos
nomes de Ongue e Omême. O ongue tem um pello grosso e curto;
e o
omême, que tem o pello mais longo, differe muito da
lã.
Estes carneiros, de raças exòticas,
degeneráram de
certo por effeito do clima e das pastagens. T[~e]m os Bihenos cabras de
uma raça muito inferior, e o seu gado bovino é
pouco, e
de raça muito pequena e fraca.
As gallinhas abundam, mas, sam, como todos os animaes
domèsticos no Bihé, de pequeno corpo.
Deixo aqui o que nos meus apontamentos encontrei de mais curioso a
respeito d'este paiz, cujas posições e
condições climatèricas se
encontrarám em um
capìtulo especial; e retomo o meu diario no dia 14 de Abril
de
1878.
As ùltimas chuvas tinham cahido das 6 ás 9 da
noite do
dia primeiro de Abril, produzindo apenas 17 milimetros
d'àgua, o
que mostra terem sido já muito fracas. O tempo estava
esplèndido, e alguns cirrus alvissimos que em seguida
ás
chuvas tinham pairado nos ares a enorme altura,
desapparecêram,
para deixar logar a um firmamento lìmpido, esclarecido de
dia
por um sol brilhante, e á noite constellado d'estrellas, que
dardejavam sôbre a terra escura d'Àfrica essa luz
melancòlica e scintillante, que ellas só t[~e]m
nas
regiões tropicaes.
Era o bom tempo de viajar, era já o dia 14 de Abril, e eu
estava ainda no Bihé!
Eram 14 de Abril, e eu não partia, porque ainda
não
tinham chegado as fazendas e as cargas que deixámos em
Benguella, em Novembro de 1877, isto é, uma grande parte
d'ellas, que outras tinham chegado em principio de Março.
Esta
demora estava sendo de grande prejuizo para mim. Dos sete fardos de
fazendas que me deixáram Capello e Ivens, quatro tinham sido
gastos, com a sustentação da minha gente de
Benguella e
com a minha.
Ainda não tinha dado presente ao sova, que teimava em m'o
pedir, e comecei a ver um sombrio futuro na minha empresa.
Reduzi as minhas despesas pessoaes, e por isso tive de dispor de duas
horas por dia para caçar. Na falta de caça
grossa, tinha,
na margem esquerda do rio Cuito, nas terras cultivadas de Silva Porto,
muitas
perdizes.
Chamei-lhe a minha capoeira, e todos os dias ia ali matar uma ou duas,
não excedendo nunca esse nùmero para
não destruir
a provisão. Semelhante ao jogador que faz da banca meio de
vida,
e que sopeando os impulsos do vicio, se levanta com um pequeno ganho
que lhe assegura a sustentação diaria; assim eu,
contendo
os instinctos de caçador, deixei muitas vezes a
caça que
podia matar; fazendo sôbre mim supremo
esfôrço, para
não proseguir n'um prazer, que destruiria ao mesmo tempo as
munições pouco abundantes, e a caça
necessaria ao
meu sustento futuro.
Não eram só as bandas de perdizes dos campos de
Silva
Porto que forneciam um prato á minha modesta mesa.
Centenares de
rolas Africanas, esvoaçavam continuamente sôbre as
àrvores das margens do Cuito, e vinham beber ao rio de
manhã e de tarde. Os meus muleques pequenos, por meio de
armadilhas caçavam algumas, que vinham figurar na minha mesa
a
par das perdizes e de um prato de massa, feita com farinha de milho
cozida em àgua, que me servia de pão.
Assim pude reduzir a minha despesa, que era pêlo menos de
quatro
jardas de algodão branco por dia, custo de duas gallinhas.
A demora e com ella o decrescimento ràpido dos meus
recursos, fez modificar o meu plano de viajar. O
mucano
aterrava-me, e se eu tivesse de pagar algum, ficava impossibilitado de
sahir do Bihé. A demora da minha gente, tinha, com a
ociosidade,
feito despertar n'elles os vicios adormecidos pelas fadigas e pelos
trabalhos da jornada.
O perigo pairava sôbre mim, e estava suspenso por um fio,
como a
espada sôbre a cabeça de Damocles. Resolvi, depois
de
muito cogitar, colocar-me em circunstancias de ter a força
de
meu lado, e de defender a tôdo o trance a minha propriedade.
Para isso precisava armar-me, e depois de ter armas precisava ainda de
munições de guerra. Eu tinha 10 carabinas Snider,
que me
tinham dado Capello e Ivens; pude obter mais 11 das deixadas por
Cameron no fim da sua viagem, e para estas armas tinha quatro mil
cartuxos. Àlém d'estas, possuia umas 20
espingardas de
silex, das ùltimas d'esse systema usadas pelos
exèrcitos
na Europa. Para estas não tinha
munições. Fiz
correr a noticia de que comprava tôdas as armas inutilizadas
que
me trouxessem. Principiáram a affluir ellas, e eu ia
comprando
as que poderia concertar, o que me não era difficil, por ter
aprendido o officio de serralheiro e espingardeiro, com meu pai, que
é habil artìfice, e que ainda hôje
emprega as horas
de òcio trabalhando na sua officina, mais bem montada que as
d'aquelles que as t[~e]m por profissão. Lembra-me aqui uma
anecdota engraçada. Um dia, entra na nossa quinta do Douro
um
cavalheiro que ia procurar meu pai, e ouvindo um martellar estridente
n'uma casa pròxima á de
habitação,
dirigio-se para ali. Era uma vasta forja, onde dois homens, de tamancos
nos pés, carapuças vermelhas na
cabeça, largos
aventaes de couro pendentes do pescôço e justos
á
cintura, a cara e mãos negras do carvão e do
ferro,
estendiam em enorme bigorna uma grossa barra, que projectava em todas
as direcções chispas ardentes, ao bater
cadenciado de
dois pesados martellos, puxados por braços nus
até ao
cotovelo.
O cavalheiro parou á porta e perguntou: "¿O
Senhor Doutor
está em casa?" Meu pai, que era elle um dos ferreiros,
respondeu-lhe com uma pergunta: "¿Que lhe quer o Senhor?"
O cavalheiro, que não era de genio brando, não
gostou da
pergunta do ferreiro, que tomou por insolencia, e respondeu pouco
convenientemente, dizendo, que vinha procurar sua Excellencia, e que
não admittia que um ferreiro que trabalhava em sua casa
respondesse com perguntas a elle.
Meu pai quiz explicar o caso, dizendo, que o ferreiro e o Doutor eram a
mesma pessôa, o que mais fez exasperar o seu interlocutor,
que
julgou lhe juntavam a zombaria á insolencia. Ambos de genio
irritavel, iam ter uma desagradavel contenda, quando o outro ferreiro,
que era eu, entreveio e fez cessar a guerilha; dando o visitante as
suas desculpas logo que se convenceu da nossa identidade.
Esta pequena circunstancia de ter aprendido um officio, servio-me de
grande auxilio, e foi um dos pequenos ribeiros que veio engrossar o rio
dos felizes resultados da minha tentativa.
Assim, pois, mais um trabalho se veio juntar ao meu incessante labutar
de tôdos os dias, e dentro em pouco pude aproveitar umas
vinte-e-cinco espingardas que o gentio julgava inutilizadas.
Faltavam as munições, e era preciso fazel-as. Em
casa de
Silva Porto encontrei uma colecção completa
da
Gazeta de
Portugal, e n'ella o papel necessario aos cartuxos. Nas
cargas que esperava de Benguella
devia vir muita pòlvora, e por isso apenas me faltavam as
balas.
Obter chumbo era impossivel, e decidi logo fazer balas de ferro
forjado. Faltava o ferro é verdade, mas esse era possivel
obter-se.
Annunciei que comprava tôdo o ferro velho que me trouxessem,
e
não tardou a apparecer grande quantidade de enxadas
inutilizadas, e sôbre tudo de arcos de barris de
àgua-ardente. Só suspendi a compra de ferro
quando tinha
uns duzentos kilogrammas.
Mandei chamar 4 ferreiros do paiz, estabeleci duas forjas
indìgenas no pateo interior, com grande escàndalo
da
prêta Rosa, administradora da povoação
de Belmonte,
e em quanto, fora da libata, os meus prêtos faziam
carvão
queimando os restos de uma paliçada de pao ferro, de uma
libata
abandonada, começou no pateo um forjar contìnuo.
O primeiro trabalho a fazer era reduzir tôdo aquelle ferro a
varão cylìndrico do diàmetro das
balas. Os
ferreiros haviam-se com grande destreza. Dobravam os arcos em molhos de
20 centìmetros de comprido por 4 de espessura, e levando-os
ao
rubro, mergulhavam-n-os em uma massa de caliça e
àgua.
Depois de frios voltavam á forja, e chegados á
tempera da
fusão eram facilmente caldeados, tornando-se em massa
ùnica e homogènea. Depois d'isso o trabalho era
facil.
A compra das armas e do ferro tinha deminuido consideravelmente o meu
haver.
Eu não possuia missangas, porque um sacco que me
mandáram
os meus companheiros não tinha curso nos sertões
para
onde me dirigia. Tratei de procurar alguma no Bihé, e pude
comprar aos prêtos aqui e àlém uma
pequena
porção, que me fez a carga de um homem.
Esta compra veio dar um nôvo golpe na minha fazenda de
algodão, e por 17 de Abril, possuia apenas um fardo.
 |
1. Folle.
2. Folle preparado para servir.
3. Bocal de barro em contacto com a chama.
4. Tenaz.
5. Martello grante.
6. Um bocado de cano de espingarda encabado em
páo que serve ao ferreiro para levar áo lume pequenas peças.
7. Martello pequeno.
8. Panellas de cozinha.
9. Panella para
capata.
10. Tambores dos batúques. |
Figura
24.--Objectos fabricados por Bihenos.
Sentia desde a minha chegada ao Bihé uma grande falta, e era
ella a de um despertador. Foi olvido que me custou no correr da viagem
muitos incòmmodos e algumas febres. Sempre que tinha de
fazer
observações depois da meia noite, tinha de estar
acordado
até á hora precisa; e asseguro que é
triste passar
uma noite a lutar com o sono, sem luz, e por isso sem nada poder fazer
para matar o tempo.
No dia 19, o Ivens veio ver-me, e causou-me funda impressão
o seu estado.
Estava muito magro, de uma palidez cadavèrica, e accusava
nas
feições um soffrimento constante. Eu pedi-lhe
para vir
jantar comigo no dia immediato, que era o dia dos meus annos. Elle
disse-me, que talvez não podesse vir pêlo seu
estado de
saude.
Dois dias depois, fui ao acampamento dos meus companheiros pagar a
visita ao Ivens. Capello estava ausente, pois tinha ido determinar a
posição da nascente do Cuanza.
No dia 25, tinha eu dez mil balas, ou antes dez mil bocados de ferro,
toscamente forjados, com pertenções a terem uma
forma
esphèrica. Era o que me bastava, e despedi os ferreiros.
N'esse
dia chegáram os primeiros Bailundos com as cargas de
Benguella,
e nos seguintes dias fôram apparecendo novas levas com
cargas.
Estes Bailundos eram insolentes, e iam fazendo uma grande desordem em
Belmonte, que teria tomado sèrias
proporções se eu
não interviesse. Tirei das cargas 10 fardos de fazenda,
três barris de àgua-ardente, e dois saccos de
caurim.
Faltava-me a pòlvora e o sal, que tinham ficado atraz.
Tratei logo de mandar o presente ao sova, e de me preparar para partir,
porque, tendo os cartuxos promptos e embalados, em dois ou
três
dias os carregaria de pòlvora. Mandei emissarios a reunir os
carregadores, que tôdos estavam justos e promptos.
No dia 29 de Abril, os prêtos de Silva Porto
fizéram-me um
pequeno furto, e eu zanguei-me muito com elles, e ameacei-os de os
mandar para Benguella. Elles, para entrarem nas minhas bôas
graças, viéram denunciar-me, que sabiam onde
estavam 4
espingardas que tinham sido roubadas á
expedição
no caminho de Benguella. Uma d'ellas fôra furtada pelo
S^{nr.}
Magalhães, dono da povoação onde
primeiro estive
no Bihé.
Pude havel-as todas.
 |
 |
Figura 25A.
Quinda, cesta de palha que
não deixa passar a àgua. |
Figura 25B.
Peneiro para seccar a Farinha (fuba). |
 |
 |
Figura 25C.
Peneiro de peneirar. |
Figura 25D.
Cabaça para tirar Àgua a capata. |
A esse tempo eu mal tinha occasião de comer. Arranjava as
cargas, e era preciso estar presente a tudo, para não ser
roubado, porque tôdos os prêtos, os de Silva Porto
e os
meus, eram uma quadrilha de ladrões.
Havia uma excepção, uma ùnica. Era o
meu prêto Augusto, que me deu sempre prova da maior
fidelidade.
Quando contratei os carregadores em Benguella, contratei entre elles o
Augusto, de quem nunca fiz caso, porque elle se não
distinguia
dos outros, a não ser talvez por ser um pouco mais dado a
embriaguez.
Na distribuição das armas, os prêtos
fizéram
repugnancia em receber as de Snider, e só o Augusto me pedio
logo uma. Foi a primeira vez que attentei n'elle. Um dia, no Dombe, fiz
um exercicio ao alvo, e vi que elle era um soffrivel atirador. Depois,
em Quillengues, sube, que elle dissera entre os prêtos, que
me
não deixaria nunca, e como, pêla sua
força
herculea, e pêla sua coragem, elle tinha tomado um grande
ascendente sôbre os outros prêtos, chamei-o a mim.
Ao tempo em que vai a minha narrativa elle tinha subido de
posição, e de simples carregador, estava chefe da
comitiva.
Alguns eram seus amigos, outros respeitavam-n-o, e muitos temiam-n-o.
Augusto é o melhor prêto que eu tenho encontrado
em
Àfrica; mas ninguem é perfeito n'este mundo, e
Augusto
não quer ser excepção á
regra. Entre os
seus defeitos avulta um, que eu sou propenso a desculpar, e que sendo
um grande defeito em viageiro Africano, fora d'ali poderia passar por
virtude.
Augusto é louco pêlo bello sexo.
Forte como um bùfalo, corajoso como um leão,
entende que
deve protecção e apoio ás creaturas
frageis que
encontra no seu caminho.
Já não tinham conta as suas aventuras galantes
desde
Benguella ao Bihé. Casado em Benguella, casou de
nôvo no
Dombe, em Quillengues, Caconda, no Huambo, e desde a sua chegada ao
Bihé, já tinha feito ali três ou quatro
casamentos.
É um verdadeiro D. Juan de côr prêta.
Obediente em tudo o mais, desprezava completamente as minhas
admoestações n'esta parte.
Um dia, como as queixas das mulhéres fossem muitas, chamei-o
e
reprehendi-o severamente, ameaçando de o abandonar se elle
continuasse. Chorou muito, lançou-se de joêlhos
aos meus
pés, fez mil protestos de emenda, e pedio-me para lhe dar
uma
peça de fazenda, que com isso iria contentar as
mulhéres,
e só ficaria com Marcolina, a sua mulhér de
Benguella.
Dei-lhe a peça de pano, e fiquei satisfeito de
tão sincero arrependimento.
Figura
26.--Uma Casquilha do Bihé.
Na tarde d'esse dia, ouvi grande batuque para um canto da
povoação, e cantos e festas que anunciavam um
acontecimento desusado.
Tive curiosidade de saber o que era, e mandei alguem a ver.
¡Qual
não é o meu espanto, sabendo que o Augusto
festejava o
seu nôvo casamento com uma rapariga da libata de Jamba!
Vi que o furor de casar-se era superior ás suas
forças, e
decidi não mais me importar com os seus negocios galantes,
mesmo
porque elle não compromettia ninguem, e casava sempre
legalmente.
Estàvamos a dois de Maio, e ainda não tinha
podido reunir
os carregadores, e ainda não tinham chegado do Bailundo, nem
a
pòlvora nem o sal vindos de Benguella.
O Verissimo andava por lá reunindo a gente; mas ainda nem um
só se tinha apresentado.
Na manhã do dia três, estando eu em casa, ouvi
fora da
porta os acordes de uma rabeca, onde se tocavam arias muito melodiosas,
coisa mui differente da mùsica monòtona dos
prêtos.
Mandei chamar o menestrel, e appareceu-me um prêto alto e
magro, quasi nu, de physionomia triste e expressiva.
Tocava em uma rabeca fabricada por elle, que dava sons tam melodiosos e
fortes como o melhor Stradivarius. Este instrumento, mui semelhante em
forma ás nossas rabecas, era cavado em uma só
peça
de pao, que formava a caixa e o braço, sendo o tampo de uma
tabua fina da mesma madeira.
Tinha tres cordas de tripa, fabricadas pêlo
mùsico, e o
arco era guarnecido de duas cordas iguaes, em logar de clina.
Era de certo uma imitação das rabecas da Europa,
e não um instrumento primitivo.
A madeira de que era feita chama-se no paiz
Bóle,
e abunda nas matas da Àfrica de Oeste. Não seria
talvez
para desprezar o ensaio d'esta madeira na
fabricação de
instrumentos de corda.
O bàrbaro mùsico cantou uma aria em meu louvor,
a
mezzo petto,
com voz muito agradavel, acompanhando-se na tôsca mas
harmoniosa
rabeca. Foi muito applaudido pelos prêtos que tinha attraido
em
volta de si, e eu mesmo gostei d'aquella mùsica original.
Chegáram á libata uns prêtos do
sertão do
Andulo, que vinham vender tabaco muito bom, que n'aquelle paiz cultivam
em quantidade. É este tabaco do Andulo que os Bihenos
compram e
mandam para Benguella, vendendo-o ali com o nome de tabaco do
Bihé.
Eu comprei grande provisão, e calculei que me ficou por 500
réis o kilogramma.
Os preços dos differentes gèneros no
Bihé
não sam aquelles que me t[~e]m forçado a pagar, e
sam os
seguintes:
Uma gallinha, uma jarda de fazenda de algodão; seis ovos,
uma
jarda; um cabrito de dois annos, oito jardas; um porco de 5 a 6 arrobas
(75 a 90 kilogrammas), uma peça de algodão branco
e outra
de zuarte; o alqueire de farinha de milho, duas jardas; o de farinha de
mandioca ou de feijão, três jardas. Isto sam
jardas de
fazendas das mais ordinarias, cujo prêço no
Bihé
não se dêve calcular superior a 200
réis.
Uma jarda de fazenda chama-se no Bihé um
Pano, 2 jardas
uma
Béca,
4 jardas um
Lençol,
8 jardas uma
Quirana.
As fazendas de negocio proprias para o Bihé e
sertões
explorados pelos Bihenos, sam, algodão branco, zuarte,
zuarte
pintado, lenços de zuarte pintado, lenços finos,
lenços cangengos, fazendas de lei e riscados, tudo da mais
inferior qualidade.
As peças de algodão branco tem 28 jardas umas, e
outras
de melhor qualidade 30. Os zuartes e riscados 18 jardas, os
lenços pintados 8 jardas, os lenços cangengos 6,
e a
fazenda de lei 12 jardas.
As fazendas boas sam muito inconvenientes ao viajante que percorre esta
parte de Àfrica, porque, não tendo muito mais
importancia
para o gentio, sam consideravelmente mais pesadas.
Eu tinha dois fardos de fazenda que tinha preparado ali, cada um dos
quaes continha 624 jardas, e os outros, de algodão fino,
t[~e]m
apenas 180 jardas, e sam mais pesados.[
4]
Já se deduz d'aqui a inconveniencia das fazendas de
bôa
qualidade, que àlém de ser grande o seu custo,
é
grande tambem a difficuldade do seu transporte, pois que três
homens carregam d'ellas tanto quanto um carrega de fazenda ordinaria.
E sôbre tudo
para o viajante
explorador, como o seu dispender de fazenda é em
trôco de
alimento, tantas jardas de fazenda bôa tem de dar por um
objecto,
como de jardas de má fazenda dará pelo mesmo
objecto.
O algodão branco de inferior qualidade e o zuarte sam o
melhor dinheiro que pode levar o viajante n'aquellas paragens.
Nas missangas já se não dá o mesmo
caso, e a que
é moda aqui, não é recebida
àlém,
ás vezes em pontos pouco distantes, por ex.: no Bailundo
querem
muito a missanga preta, que já no Bihé
não tem
curso.
Ha contudo uma missanga que é quasi geralmente bem recebida
em
toda a Àfrica Austral. É ella uma missanga miuda
encarnada, de ôlho branco, a que no commercio em Benguella
dam o
nome de Maria 2^a.
O buzio miudo (caurim) serve àlém Cuanza
até ao Zambeze, mas o graüdo não
é recebido.
O arame de latão ou de cobre vermelho é estimado
para
manilhas; mas, n'estas paragens, não dêve ter mais
de 3 a
5 milimetros de espessura.
Os barretes vermelhos, sapatos de liga, fardas de soldados, etc., sam
frandulagens, que, sendo muito estimados presentes para sovas e
secúlos, sam pèssima moeda.
Os cobertores, e sôbre tudo aquelles vistosos que na Europa
usamos para embrulhar as pernas em viagem, sam muito
cubiçados
do gentio; estando porem no caso das fardas e barretes, que, sendo
òptimo presente, não sam bôa moeda.
Os realejos, caixas de mùsica, e outros objectos d'este
gènero, estam no mesmo caso.
Prestigiações, sortes de physica e
chìmica,
produzem certa impressão no gentio, mas não tanta
como se
julga na Europa. Não comprehendendo as causas que determinam
certos phenòmenos, lançam a cousa á
conta de
feitiçaria, com que explicam tudo que não sabem
explicar
de outro modo.
Ás vezes até podem ser contraproducentes, e
prejudicarem aquelle que as fizér.
De tudo o que eu vi fazer impressão em pretos, aquillo que
mais os admira é verem um bom atirador.
Mêtta qualquer, diante de um ajuntamento de pretos, 6 balas
em
alvo pequeno e distante, corte o pequeno fruto de uma
àrvore,
mate um passarinho, e fique certo de que ganha logo a maior
consideração, e será objecto das
conversações por muito tempo.
A este respeito vou narrar um facto que se deu na libata, comigo. Um
dia, um cirurgião Biheno appareceu ali trazendo um remedio
que
era preservativo contra as balas, áquelle que o tomasse.
Isto é crença geral entre Bihenos, e muitos ha
que gastam
tudo o que t[~e]m para adquirirem aquelle abençoado remedio,
que
os torna mais invulneraveis do que Achilles, porque nem mesmo lhes
deixa a possibilidade de receberem a morte por um calcanhar.
Um mestiço civilizado, e educado em Benguella, encontrei eu,
que
se ria de mim quando eu lhe dizia que se lhe desse um tiro furava-o de
lado a lado, apesar do remedio contra as balas de que elle fazia uso.
Mas vamos ao conto. O cirurgião Biheno trazia uma panellinha
de
meio litro cheia do precioso preservativo, e apregoava que aquelle que
o tomasse seria depois tão invulneravel como o era a panella
que
continha o lìquido, panella a que tôdo o mundo, no
seu
dizer, tinha atirado sem que as balas lhe fizessem o menor damno. Quiz
elle dar ao pùblico uma prova irrefutavel, e desafiou-me de
atirar á panella; tendo previamente o cuidado de me marcar a
distancia (uns 80 passos) a que elle julgava ser impossivel acertar em
tão pequeno alvo.
Tomei a carabina, atirei, e fiz a panella em cacos, derramando-se o
precioso licor.
Nunca vi applaudir mais phrenèticamente alguem, do que eu
fui applaudido então pêlo gentio entusiasmado.
O pobre cirurgião foi completamente corrido no meio de geral
assuada.
Este pobre homem foi ali buscar o seu descrèdito.
Os melhores atiradores do sertão sam grandes mediocridades,
e
sam bem mais para temer pretos de frecha e azagaia, do que de arma
carregada.
O Verissimo partio a reunir os carregadores, voltando a 5 de Maio com
alguns, e dizendo que outros chegariam no dia seguinte.
N'esse dia recebi cartas e cargas de Benguella, enviadas para mim por
Pereira de Mello e Silva Porto.
Fizéram-me uma tal impressão aquellas cartas, que
no meu
diario escrevi então, na cabeça do
capìtulo em que
falo do Bihé, aquelles dous nomes, e hôje ainda os
conservo, como preito e homenagem áquelles dous cavalheiros.
Enviava-me Pereira de Mello 16 espingardas, 30 kilogramas de
sabão, um relogio e uma carga de sal, tudo objectos de
subido
valor para mim.
Não é todavia esta valiosa remessa que me dictou
a
immensa gratidão para com o governador de Benguella; foi a
sua
carta e fôram as expressões dos seus sentimentos a
meu
respeito.
Dizia-me o Governador, que não hesitasse em seguir a minha
viagem, que contasse com todo o apoio que elle me podia dar como
autoridade, e se acaso ordens superiores coarctassem o Governador, que
podia contar com o homem, com Pereira de Mello.
Dizia-me elle, que não tinha recebido de superior autoridade
ordem alguma para não me fornecer os meios de que eu
carecesse;
mas que, se tal ordem viesse a receber, elle e os negociantes de
Benguella estavam promptos a enviar-me tudo o que eu pedisse.
Vinha depois a carta de Silva Porto, que não menos valiosa
era.
Dizia-me o velho sertanejo, que não partisse sem recursos.
Que
requisitasse para Benguella o que eu julgasse necessario, e que elle se
encarregaria de me fazer chegar ao Bihé aquillo que eu
pedisse.
Terminava o honrado ancião por estas palavras: "Estou velho,
mas
rijo e forte; se o meu amigo se vir n'um d'esses trances, vulgares no
sertão, em que a esperança se perde, sustente-se
no ponto
em que estivér, e dê tudo ao gentio para me fazer
chegar
ás mãos uma carta sua. Não hesite em o
fazer, e
tenha esperança; porque no mais curto espaço
possivel eu
serei com-sigo, e comigo irám todos os recursos, todos os
socorros. Sabe que eu não uso fazer offerecimentos
vãos,
quando precisar escreva, e eu irei logo."
A estas palavras não preciso eu de fazer commentarios, e nem
mesmo aqui lhe juntarei uma palavra de agradecimento, que seria
ridìcula.
Aquella remessa que recebi de Benguella foi-me trazida por um
irmão do Verissimo, Joaquim Guilherme, que me disse deverem
chegar no dia seguinte o resto das cargas da
expedição, e
com ellas a pòlvora por que eu almejava.
Como sempre que chegava um portador de Benguella, Joaquim
Gonçalves trazia-me uma lembrança de Antonio
Ferreira
Marques.
Eram sempre alguns regalos para a pobre mesa do sertanejo.
Chegou finalmente o 6 de Maio, e começou logo grande tarefa
de
encher cartuxos, porque de manhã recebi a pòlvora.
Durante 4 dias empreguei entre 36 e 40 homens no encher dos cartuxos,
que estavam promptos, e só era deitar-lhes
pòlvora e
dobral-os.
Ficou tudo prompto a 10 de Maio, e no dia 11 tinha eu reunidos todos os
carregadores prompto a seguir no dia immediato. Fiz a
distribuição das cargas, e dei as ordens para a
partida.
Na manhã de 12, quando esperava pôr-me a caminho,
vejo que
só tinha uns trinta homens, tendo fugido todos os outros.
Sube então, que na tarde da vèspera, tinha andado
o
prêto Muene-hombo de Silva Porto, com uns pretos
desconhecidos,
dizendo aos Bihenos, que eu os queria levar para o mar, e que aquelles
que fossem comigo não voltariam mais, porque eu os venderia.
O prêto Muene-hombo fugira com os Bihenos, e d'elle
não havia mais noticia.
Esta nova deu-me um profundo golpe de desànimo.
Os carregadores, que eu a tanto custo tinha reunido, que eu com
trabalho imenso tinha contratado, a quem fôra preciso
desfazer
uma a uma todas as aprehensões que tinham contra a minha
empresa, fugiam-me, convictos de que eu os ia encaminhar á
perdição.
Era um golpe terrivel.
Breve se espalharia no Bihé a noticia do facto; breve se
arreigaria entre os pretos aquella convicção, mal
destruida pelos meus reïterados argumentos, e então
seria
impossivel obter um só carregador mais.
Quasi desanimei.
Pela primeira vez, depois que em Lisboa tinha pensado em ser
explorador, entrou no meu ànimo o desalento.
Eu sabia que lutar com uma convicção de pretos
era baldado esfôrço.
¿Quem seria aquelle que levou o prêto Muene-hombo
a trair-me?
¿Quem seriam os pretos que com elle estivéram na
libata no dia anterior?
¿Qual seria a mão occulta que moveu aquella
intriga?
Fazia a mim mesmo estas perguntas, ás quaes, nem
então
nem depois, encontrei resposta que fosse àlém de
suspeita
muito vaga.
Perdi a esperança, e fiquei possuido de um verdadeiro
desalento.
Meditei todo o dia, e veio o pensamento de voltar a Benguella, mas de
repente lembrou-me a carta de Silva Porto recebida dias antes, e
lembrou-me a carta de Pereira de Mello em que me dizia "Avante!"
¿Porque não aceitaria eu o offerecimento de Silva
Porto?
Se elle viesse ao Bihé elle me obteria carregadores.
Decidi escrever-lhe no dia seguinte, e esta idéa
tranquilizou um pouco o meu ànimo alquebrado.
Com a noute veio a reflexão, e eu escudado no
ùltimo
recurso, o pedir o auxilio do velho sertanejo, resolvi já
forte
com aquelle apoio, trabalhar, lutar ainda, antes de recorrer a elle.
Na madrugada de 13, fiz marchar o Verissimo e alguns pretos de
confiança do Silva Porto a procurarem contratar nova gente.
Voltáram elles dando-me algumas esperanças, e
então começou de nôvo o trabalho de
organizar nova
comitiva, trabalho mais difficil então do que antes.
Aconselháram-me sahir de Belmonte e ir acampar no mato a
alguma
distancia; porque me diziam, que uma comitiva em marcha, despertava nos
Bihenos vontade de se alistar n'ella.
A 22 de Maio já eu tinha podido obter alguns carregadores,
ainda
que poucos, e resolvi com os meus Quimbares, aquelles carregadores e
gente de ganho, seguir no dia 23 para um acampamento, idéa
que
levei a effeito indo estabelecer o campo nas matas do Cabir.
N'esse dia ao escurecer, apparecéram uns 11 carregadores
trazidos por um prêto Antonio, homem já velho,
natural de
Pungo Andongo, que estivera ao serviço de dois sertanejos de
nomeada, Luiz Albino, e Guilherme Gonçalves.
Durante a noute houve muito frio, forçando-nos a passar a
maior parte d'ella despertos junto ás fogueiras.
O soveta de Cabir veio visitar-me no dia immediato, trazendo-me um
pôrco de presente, que eu retribui, ficando nós
nos
melhores termos.
Emprestou-me elle alguns pilões, e mandou
mulhéres para fazerem farinha de milho.
Figura
27.--Mulhéres do Bihé pisando Milho.
Indo agradecer-lhe á sua povoação,
passei pelas
plantações, onde andavam algumas
mulhéres cavando,
completamente curvadas, empunhando as enxadas pelos seus dous cabos.
De volta ao acampamento, encontrei um prêto dos de
Nôvo
Redondo, que não tinha podido seguir com Capello e Ivens,
pêlo seu estado de saude. Não se sustinha em
pé, e
uma ardente febre o devorava.
Vi que o seu estado era melindroso e que pouco poderia viver; mas elle
pedio-me que o não abandonasse, e eu agasalhei-o no campo,
entregando-o aos cuidados do doutor Chacaiombe.
Veio visitar-me Tiberio José Coimbra, filho do Coimbra,
Major do
Bihé, o qual me obtêve alguns carregadores de
gente da sua
povoação.
N'esse dia aparecêram mais uns 12 carregadores com que eu
já não contava, e eram capitaneados
pêlo
prêto Chaquiçonde, irmão da
mãe de Verissimo.
Ia renascendo a esperança, e de nôvo se ia
organizando a nova comitiva.
Resolvi partir no dia 27, e ir acampar junto da casa de José
Alves, com esperança de completar ali o nùmero de
gente
que carecia. Obtive do soveta de Cabir alguns homens para me
transportarem as cargas que não tinham carregador, e tambem
4
homens e uma maca para o doente de Nôvo Redondo.
Pude seguir no dia marcado, parando, meia hora depois de ter sahido, na
povoação de Cuionja, de Tiberio José
Coimbra, onde
me esperava um òptimo almôço, com
òptimo
chá. Até havia guardanapos!
Depois de duas horas que ali me demorei, segui avante, chegando
á povoação de Caquenha, com 4 horas de
caminho.
Ali parei para ver o velho Domingos Chacahanga, dono da
povoação.
Este Chacahanga, antigo escravo de Silva Porto, fôra o chefe
da
cèlebre expedição que Silva Porto
mandou do
Bihé a Moçambique, e que conseguio
alcançar Cabo
Delgado, na costa do mar Indico.
É elle o ùnico dos homens d'aquella
expedição que hôje vive.
O velho recebeu-me muito bem, e deu-me um alentado cabrito.
Conversei muito com elle; mas a pesar de todos os meus
esforços
foi-me impossivel colher d'elle dados com que podesse marcar com alguma
segurança o seu trajecto.
De que foi muito mais ao norte do que vem indicado nas cartas
não me restou a menor dùvida, porque ha
três pontos
que elle precisa perfeitamente.
Um é ter, no Zambeze, deixado ao sul o paiz dos Machachas;
outro
ter atravessado o Luapula; e terceiro ter contornado pelo norte o Lago
Nyassa.
Duas horas depois de ter deixado o velho Chacahanga, acampava nas matas
do commandante, dois kilòmetros a S.E. da libata de
José
Alves.
Era já noute, e por isso guardei-me para ir no dia seguinte
ver
este personagem, que Cameron tornou conhecido de todo o mundo.
Effectivamente, a 28 de Maio estava eu em presença do
tão falado sertanejo.
José Antonio Alves é um prêto (
pur sang) de Pungo
Andongo, que, como muitos d'ali e de Ambaca, sabe ler e escrever.
No Bihé chamam-lhe branco, porque ali todo o prêto
que usa
calças e sapatos de liga e guardasol, é tratado
assim.[
5]
Em Benguella levam a condescendencia a chamarem-n-o mulato, um pouco
escuro; mas a verdade é, que nas suas veias não
ha uma
gôta de sangue Europeu, e que elle é
prêto
não só na côr como na ascendencia, e
quiçá na alma.
Veio para o Bihé em 1845, onde foi empregado de um
sertanejo, e
depois começou a negociar por conta propria, abonado pela
casa
Ferramenta de Benguella, que hôje faz avultado commercio sob
a
firma J. Ferreira Gonçalves.
José Alves é homem de 58 annos, já um
pouco
grisalho, de corpo franzino, e soffrendo de uma
affecção
pulmonar.
Vive como prêto, tendo todos os costumes e crendices do
gentio ignaro.
Quando cheguei a casa de José Alves, estava elle decidindo
um
mucano.
Informado da questão, sube que um empregado mulato do
José Alves seduzira uma das amantes d'este, e como o rapaz
nada
tinha de seu, elle fez-lhe um mucano á familia da
mãe,
que possuia alguma cousa, exigindo, em paga do delicto, um boi, ou
uma
cabecinha,
para ficar limpo o seu coração. Isto me disse
elle,
passando a palma abranqueada da mão nêgra por
sobre a
parte da caixa thoràcica onde se alberga aquella
vìcera,
nos que a tem para cousa differente de alimentar a vida physica com os
seus movimentos de sìstole e diàstole.
Que a elle servia para ser limpa de vez em quando com um
mucano, percebi eu.
Depois de decidido o
mucano,
falei-lhe da minha viagem, que elle duvidou podesse levar a effeito com
os pequenos recursos de que dispunha.
Combinou ceder-me uma pouca de missanga, e falando-lhe em carregadores,
evadio-se a responder-me, dizendo-me, sabia que Capello e Ivens estavam
junto ao Cuanza lutando com falta de gente; mas que, se elles lhe
quizessem pagar bem, não teria difficuldade em os arranjar.
Era
o mesmo que dizer-me, que lhe pagasse bem para os ter.
Retirei-me lastimando pela primeira vez a Cameron, por ter sido
forçado a tal companhia, por tanto tempo.
Nesta parte do Bihé a vegetação
arbòrea
começa a ser mais vigorosa, e junto ao rio Cuito, apresenta
o
terreno a mesma disposição termìtica
que descrevi
na margem do Cutato dos Ganguellas.
Com uns carregadores que me chegáram no dia 29, enviados
pelo
irmão de Verissimo, Joaquim Guilherme, tinha eu a gente
sufficiente para seguir viagem, e dei as ordens n'esse sentido para o
dia 30.
Quem rege as cousas d'este mundo tinha decidido porem de outro modo.
Na tarde d'esse dia, alguem espalhou entre os meus carregadores as
mesmas atoardas de Belmonte, e viéram muitos d'elles
declarar-me, que voltavam a suas casas, e não me seguiriam.
Fiz esforços de eloquencia para os convencer a seguirem-me,
mas poucos me escutáram.
Era a segunda vez que, em vèspera de partida, no
Bihé, ficava eu sem gente.
Ali ficáram contudo alguns Bihenos, e decidido a prescindir
de
todas as commodidades, e a abandonar toda a
alimentação
que levava, com poucos mais poderia seguir.
Era preciso arranjar esses poucos mais, e eu não desanimei
na
empresa. Um estranho episodio, acontecido no dia 30, veio coroar de
resultado feliz a minha esperança.
No Bihé andam a monte muitos degradados e desertores,
escapados dos presidios da Costa.
Um d'estes honrados cidadãos veio procurar-me, e pronunciou
uma
estudada arenga, que, pela profusa troca da primeira consoante pela
dècima-sètima, e repetido emprêgo de
termos
só usados na minha provincia, me denunciou n'elle um
conterraneo.
Se a forma do discurso era picaresca, a sua essencia mostrava, que a
alma do orador era sentina de todas as podridões, em
decomposição n'um clima tropical, trascalando
fedores em
cada phrase evaporada d'aquelle espìrito immundo.
Depois de me aconselhar a dispor das armas e
munições que
tinha, n'uma empresa abjecta, a que elle me fazia a honra de se ligar,
terminou por me dizer positivamente, que, ou eu o associava a mim,
fôsse para o que fôsse, ou elle, empregando manhas
que
tinha de geito para o gentio, faria que todos me abandonassem, e me
poria na impossibelidade de dar um passo.
Terminada esta peroração, que o homem julgou ser
argumento triumphante nas minhas decisões, exigio immediata
resposta.
Eu dei-lh'-a logo. Chamei os meus Quimbares, e mandei amarrar o
sujeito, a quem mandei applicar logo cincoenta açoutes, para
fazermos maior conhecimento; porque, se eu o conheci ás
primeiras palavras, elle não me conhecia ainda.
Depois de castigado, fiz-lhe um pequeno discurso, em que lhe disse, que
o constituia meu prisioneiro, durante o tempo que estivesse em terras
do Bihé, com ração de comida e de
chicote todos os
dias.
Reuni toda a minha gente, e mostrei-lhe, que a alma d'aquelle branco
era mais nêgra do que a pelle d'elles ouvintes.
A nova da minha justiça espalhou-se nas
povoações
circumvizinhas, e deu-me crèdito entre os pretos, que tinham
em
má conta o meu prisioneiro.
No dia seguinte, alguns pombeiros do sitio viéram
offerecer-me carregadores, e que m'-os traziam dentro de dois dias.
Todos os dias tinha promessas, mas os carregadores não
chegavam,
e a 5 de Junho, já no maior desespêro, decidi
abandonar
muitas cargas e seguir ávante.
Reuni os meus pombeiros, e communiquei-lhes a minha decisão.
Tivémos um longo conselho, em que eu sustentei a minha
resolução, dando ordem para que os carregadores
me
acompanhassem ao rio Cuito com as cargas que eu tinha decidido
abandonar, para as lançar ao rio.
Já se ia executar esta deliberação,
quando o
doutor Chacaiombe tomou a palavra, e me pedio para adiar de alguns dias
a execução d'ella, dizendo-me, que obtivesse nas
povoações vizinhas gente de ganho que
transportasse tudo até ao Cuanza; que elle ia tentar um
esfôrço junto de um sova seu amigo, e me iria
encontrar no
Cuanza.
Discutido este alvitre, decidi, partir no dia 6, e demorar-me no Cuanza
até 14; por isso, concedi 8 dias a Chacaiombe,
declarando-lhe
positivamente, que não esperaria um só dia mais.
Os meus pombeiros mostravam-me a maior dedicação,
e
depois de uma proposta de Miguel (o caçador de elefantes),
decidíram pegar tambem elles em cargas, ainda que isso seja
não só contra os usos, mas tambem inconveniente
em
marcha, onde elles t[~e]m o seu serviço especial a
desempenhar.
Obtida a gente de ganho, preparei tudo para seguir no dia immediato.
N'esse dia morreu o homem de Nôvo Redondo que eu tinha
recolhido no Cabir.
Levantei campo ás 9 horas do dia 6, tendo muita gente de
ganho á razão de 1 panno por dia.
Segui a Leste, e duas horas depois acampei junto da
povoação de Cassamba.
Fica esta povoação no meio de grande e espessa
floresta, onde fui caçar, encontrando apenas
algumas
pintadas
que matei.
Quando, a 7 de Junho, levantei campo, saío-me ao encontro o
soveta de Cassamba, que me vinha comprimentar, e trazer um boi de
presente.
Desculpei-me de não lhe dar immediatamente um presente, por
estarem os carregadores em marcha, e pedi-lhe, que mandasse gente sua
ao meu nôvo acampamento, d'onde lhe enviaria uma
lembrança.
Depois de três horas de marcha, e de ter nas duas
ùltimas
atravessado grandes planicies pantanosas, alcancei a margem esquerda do
rio Cuqueima, que ali corre ao norte, tendo 80 metros de largo por
três de fundo, com uma velocidade de 12 metros por minuto.
Armei o meu bote Macintosh, e n'elle se effeituou a passagem da gente e
cargas com grande morosidade, porque a pequena
embarcação
não tinha capacidade para mais de cinco pessôas,
ainda que
o poder de fluctuação da sua caixa de ar era
muito
superior.
Terminada a passagem, e achando-me na margem direita em terreno
apaülado, e nu de arvorêdo, mandei pedir ao sova do
Gando,
para me dar algumas cubatas onde eu podesse pernoitar com a minha gente.
Elle veio ao meu encontro, dizendo-me que punha á minha
disposição o lombe da sua
povoação, que
aceitei e onde me fui estabelecer.
Chegáram uns prêtos de mando do soveta de
Cassamba, a
reclamar o presente que eu lhe havia promettido, e para se fazerem
reconhecer como vindo da sua parte, traziam a azagaia do
sovêta,
que de manhã eu lhe vira na mão.
É costume entre estes povos, onde a ignorancia da leitura e
escrita existe, o mandarem um objecto conhecido pelo portador de uma
mensagem, para que não se duvide que elles vam da parte de
quem
os envia.
Mandei o promettido presente.
O sova Iumbi, do Gando, conversou muito comigo, e era para elle motivo
de espanto tudo quanto eu trazia. Deu-me um magnìfico boi,
ficando muito satisfeito com uma peça de algodão
riscado
e algumas cargas de pòlvora que lhe dei.
No dia immediato levantei campo logo de manhã, e duas horas
depois, fui acampar 1 kil. a Oeste da povoação de
Muzinda.
Antes de partir, mandei soltar, e pôr na outra margem, o meu
prisioneiro branco, já impossibilitado de me fazer mal,
porque,
passando o Cuqueima, eu estava fora das terras do Bihé.
Figura
28.--Mulhéres Ganguellas Luimbas e Loenas.
Modo por que cortam os Dentes incisivos.
Viéram ao meu acampamento muitas mulhéres da
povoação de Muzinda, algumas das quaes traziam a
cara
pintada de verde, sendo dois riscos transversaes sôbre a
testa,
de orelha a orelha, e outros dois, descendo d'esses, cruzando-se entre
os olhos, passando aos lados do nariz, ligados por um sôbre o
labio superior.
Os penteados d'essas Ganguelas sam originalissimos, e alguns, a certa
distancia, arremedam um chapéo de dama Europea.
Tôdos os homens cortam em triàngulo os dois
incisivos da
frente na maxila superior, formando uma abertura triangular com o
vèrtice apoiado na gengive. Esta
operação é
feita com uma faca em que vam batendo pequenas pancadas.
Deu-me um indìgena uma cana sacharina de 2 metros e 30 cent.
de
comprido por 50 milimetros de diàmetro, affirmando-me que a
producção d'aquella rica gramìnea
é
abundante ali.
Sahio de Muzinda uma pequena comitiva que ia para
àlém do
Cuanza comprar cêra a trôco de peixe sêco
do Cuqueima.
Estes indìgenas andam quasi nus, tendo por ùnico
vestuario duas pequenas pelles, que pendem de um estreito cinto de
couro.
As mulhéres, essas andam ainda um pouco menos cobertas!
O sovêta de Muzinda veio visitar-me, e trouxe-me um boi, que
eu
retribui com presente igual ao que dei ao sova Iumbi do Gando.
A 9 de Junho, fui acampar na margem esquerda do rio Cuanza, a E.N.E. da
povoação de Liuíca. N'aquelle ponto o
Cuanza
é mais modesto do que o Cuqueima, porque tem 50 metros de
largo
por 2 de fundo, com uma corrente de 15 metros por minuto.
O seu leito é de area branca e fina, e notavel a
transparencia das suas àguas.
O rio serpea n'uma vasta planicie de dois a três
kilòmetros de largo, que encosta de um e outro lado a
pequena
elevação de vertentes dôces, cobertas
do
arvorêdo.
Na planicie vegetam gramìneas altissimas, tão
bastas que difficil é romper por entre ellas.
O terreno da planicie é mais ou menos pantanoso.
Como eu devia esperar ali 5 dias pelo cirurgião Chacaiombe,
tinha, logo que cheguei, mandado construir um acampamento mais vasto do
que aquelles que construia só para uma noute.
Veio ali visitar-me o sova de Quipembe, a quem obedecem os sovetas de
entre Cuqueima e Cuanza, e que é elle mesmo tributario do
sova
do Bihé, a quem só obedece quando lhe faz conta;
porque
não teme os seus ataques, sendo-lhe facil defender a linha
do
Cuqueima, e sendo a maior parte, senão tôdos, os
barcos
que navegam ali, das povoações Ganguelas.
Trouxe-me um carneiro de presente, desculpando-se de me não
dar
um boi, por ser a sua povoação muito distante.
Recebi tambem a visita do sovêta de Liuíca, que me
offereceu um boi.
Este sovêta, homem de boa feição,
frequentou muito
o meu campo durante a minha permanencia na sua vizinhança.
Um dia que elle me tinha visto atirar ao alvo, e que admirava a justeza
dos tiros, passou o seu grande rebanho bovino por ali.
Eu propuz-lhe dar-me elle um boi, se o meu muleque
Pépéca o matasse com um tiro.
Elle olhou para a criança e aceitou.
O Pépéca, sofrivel atirador ensinado por mim,
tomou a
carabina, e fez fôgo a um boi que ia mais separado dos
outros, e
que cahio fulminado. Ouve espanto geral da parte dos Ganguelas, e o
sovêta disse-me que mandasse tomar conta do boi, e lhe desse
a
pelle, e um bocado de carne para elle comer, o que eu fiz logo.
Entre Cuqueima e Cuanza os Ganguelas, que sam de differente
raça
dos outros povos designados pelo mesmo nome, chamam-se Luimbas junto ao
Cuqueima, e Loenas junto ao Cuanza.
No dia 12, aconteceu-me uma aventura extraordinaria, que não
posso deixar de narrar aqui.
Andava eu fora, quando alguns dos meus prêtos
viéram
encontrar-me com um mulato, desconhecido para mim, que me
disséram ser chefe de uma comitiva, que me vinha procurar,
para
me pedir licença de ir comigo até ás
margens do
rio Cuito, e deixal-o acampar nos meus acampamentos, para
segurança sua.
Consenti no pedido, ainda que não de bom grado.
N'essa noute, demorei-me a conversar com os meus pombeiros
até
tarde, e sentados á porta da minha barraca,
discursàvamos
sôbre as probabilidades que haveria de ser bem succedido o
meu
cirurgião Chacaiombe na sua empresa, quando eu senti para
uma
parte do campo um tinido singular.
Era como o bater de martello em safra. Tive curiosidade de saber o que
era aquillo, e mandei lá o meu Augusto.
Voltou elle a dizer-me, que na parte do campo occupada pelas barracas
do pombeiro Biheno que me pedira agasalho, se acorrentava uma leva de
escravos chegados n'essa noute do Bihé.
Nas barracas dos meus tudo dormia, excepto três ou quatro
pombeiros que estavam junto de mim.
Contive a còlera que me dominou por um momento, e mandei
chamar o meu hòspede.
Elle compareceu logo, e veio sentar-se junto da fogueira defronte de
mim.
Perguntei-lhe ¿o que era aquelle bater de ferro?
Respondendo-me elle, que era a acorrentar umas
cabecinhas que
levava para vender no sertão.
¡No meu acampamento! onde tremulava a bandeira Portugueza,
acorrentava-se uma leva de escravos!
Continuei a fazer um grande esforço para me conter, e disse
ao
pombeiro, que fosse soltar tôdos aquelles
desgraçados e
m'os trouxesse livres.
Elle negou-se a fazel-o, e respondeu-me com uma gargalhada de riso
alvar.
Perdi então a paciencia, e a raiva contida a custo
transbordou violenta.
Cego de furor, lancei-me por sôbre a fogueira
áquelle
boçal mulato, e já a minha faca o ia ferir de
morte,
quando vi, que algumas espingardas dos meus Quimbares lhe
ameaçavam a cabeça, e por um d'esses reviramentos
tão vulgares como ràpidos no meu
espìrito,
só pensei em salvar-lhe a vida.
Ao meu grito de raiva, e ao barulho da luta, tinha-se levantado
tôda a minha gente, e ameaçavam exterminar
tôda a
comitiva Bihena.
Eu, que conhêço a ferocidade dos negros logo que
se sentem
fortes, tremi pela vida dos inocentes que podiam ser immolados.
Era uma balburdia em que ninguem se entendia, e á
excepção de 5 dos meus pombeiros que
assistíram ao
comêço da scena, tôdos ignoravam o que
era aquillo,
e só proferiam palavras de morte.
Consegui dominar o tumulto e fazer me ouvir.
Mandei o meu Augusto soltar os escravos, e trazel-os á minha
presença, assim como tôdas as correntes e
prisões
que encontrassem nas barracas onde elles estavam.
Mandei lançar ao rio Cuanza as prisões de ferro,
reservando só aquellas com que prendi os prêtos,
guardas
da leva.
Declarei aos escravos, que podiam ir-se, se quizessem, porque teria os
seus guardas presos o tempo sufficiente para os não poderem
alcançar. Desapparecêram tôdos, excepto
uma pequena,
que quiz ficar comigo, por não saber onde ir; e
só na
occasião de deixar o meu acampamento soltei e dei liberdade
aos
chefes e guardas d'aquelle rebanho de escravos.
Passou-se o dia 13 sem haver noticias do meu cirurgião, e na
noute d'esse dia distribui eu as cargas que pude distribuir, umas 87,
separando ainda umas 12 que me custava a abandonar, e pondo em pilha
aquellas que estavam irremediavelmente condenadas.
Declaro que é difficil tal escolha.
Creio que um dos peores problemas a resolver por um explorador,
é escolher entre as cargas, indispensaveis tôdas,
aquella
que hade dispensar.
Se não é mais difficil, é pelo menos
tanto como achar o modo de determinar uma boa longitude.
Ali abandonei tudo o que de commodidades eu tinha, tôda a
alimentação que para mim levava, e parte da que
levava
para a minha gente, e algumas cargas de missanga que os meus
companheiros me haviam cedido, e que, comprada em Loanda, era de valor
problemàtico nos sertões em que me ia internar.
Se no dia 14 de manhã não tivesse novas do
Chacaiombe, as
cargas condenadas seriam destruidas, queimando umas e
lançando
outras ao Cuanza.
¿Para quê? me perguntarám os meus
leitores.
Eu lhes respondo. O chefe de uma comitiva em marcha nos
sertões
da Àfrica, onde tivér de empregar carregadores,
tem de
inutilizar e tornar inaproveitaveis tôdos os objectos que
fôr forçado a abandonar, e isto por duas
razões,
uma que diz respeito á sua propria gente, e outra ao gentio
dos
paizes que atravessa.
Se consentio que os seus proprios carregadores aproveitem alguma cousa
da carga abandonada, tôdos os dias terá
carregadores
doentes, que o obrigarám a abandonar cargas, para d'ali
retirarem objectos em proveito proprio; organizando assim um
industrioso roubo permanente.
Por outro lado, sabendo o gentio da terra, que lhe deixam cargas por
falta de carregadores, não deixará de ministrar
ás
comitivas futuras, na muita capata que lhe offerecem, um
tòxico
qualquer, que, se não matar, os torne doentes; obrigando
assim o
chefe a abandonar cargas em seu favor; o que não fazem,
sabendo
que nada aproveitam, porque tudo o que houvér de ser
abandonado
é inutilizado.
Foi isto lição de Silva Porto, de que sempre fiz
uso.
No dia 14 de manhã, não tendo noticia do
Chacaiombe inutilizei 61 cargas!
RAPIDO GOLPE DE VISTA RETROSPECTIVO.
O Mappa junto mostra o meu caminho de Benguella ao Bihé.
Procurei designar n'elle tudo o que em viagem de
exploração se pode colher de dados
geogràphicos e
topogràphicos.
Muitos dos pontos marcados sam determinados
astronòmicamente,
sendo os intermediarios, achados grosseiramente pelos rumos da agulha e
projecção das distancias percorridas, distancias
avaliadas pelos pedòmetros e pelo tempo gasto a percorrel-as.
As posições do Benguella, Dombe, Quilengues,
Ngola e
Caconda, que empreguei na carta, sam determinadas por Capello e Ivens,
e como eu apenas tinha os resultados dos càlculos, ahi os
designo taes como m'os deu o Ivens, sem as
observações
iniciaes. De Caconda ao rio Cuanza as posições
astronòmicamente determinadas por mim vam precedidas das
observações iniciaes.
| Resultado das
observações de Capello e Ivens, da Costa a
Caconda. |
| Nome dos Logares. |
Longitude E. de Greenwich |
Latitude Sul. |
Declinação
da Agulha |
Inclinação da Agulha. |
Altitude em metros. |
|
° |
' |
" |
° |
' |
" |
° |
' |
|
° |
' |
|
| Benguella |
13 |
25 |
20 |
12 |
34 |
17 |
23 |
30 |
O. |
39 |
37 |
7 |
| Dombe Grande |
13 |
7 |
45 |
12 |
55 |
12 |
23 |
26 |
|
39 |
44 |
98 |
| Quilengues |
14 |
5 |
3 |
14 |
3 |
10 |
23 |
3 |
|
40 |
40 |
900 |
| Ngola |
14 |
39 |
1 |
14 |
16 |
46 |
--- |
|
--- |
1,410 |
| Caconda |
15 |
1 |
51 |
13 |
44 |
0 |
22 |
30 |
|
--- |
1,676 |
Tendo-me separado dos meus companheiros em Caconda, prossegui nos
trabalhos que tìnhamos começado, não
podendo fazer
observações de inclinòmetro e
fôrça
magnètica, porque os ùnicos instrumentos que para
isso
levàvamos ficáram em poder de Capello.
Começarei a expor os meus trabalhos pela
determinação das coordenadas
geogràphicas de
Caconda á margem esquerda do Cuanza, onde pára a
minha
narrativa no precedente capìtulo.
No seguinte quadro procurei compendiar os necessarios dados para se
poderem verificar os resultados que designo.
Todas estas observações calculadas em
Àfrica
fôram recalculadas em Londres pelo 1^o tenente calculador da
marinha ingleza, Selwyn Sugden.
Quadro das
Observações Astronòmicas feitas pelo
Major Serpa Pinto
entre Caconda
e o rio Cuanza.
|
Anno de 1878. |
Logares onde
observei. |
Hora dos
Chronòmetros. |
Estado para
Greenwich. |
|
|
|
|
H. |
M. |
S. |
|
|
H. |
M. |
S. |
| a |
Janeiro 14 |
Vicete (junto ao Cunene) |
|
8 |
10 |
24 |
|
+ |
1 |
0 |
15 |
| b |
"
" |
" |
|
10 |
27 |
44 |
|
+ |
3 |
23 |
2 |
| c |
"
16 |
Fende
(Cunene) |
|
5 |
10 |
2 |
|
+ |
3 |
23 |
6 |
| d |
Fevereiro 12 |
Libata do
Palanca |
|
7 |
55 |
0 |
|
- |
1 |
0 |
0 |
| e |
"
" |
" |
|
10 |
30 |
56 |
|
+ |
3 |
27 |
18 |
| f |
"
13 |
Libata do
Capôco |
|
9 |
3 |
0 |
|
- |
1 |
0 |
0 |
| g |
"
" |
" |
|
9 |
57 |
15 |
|
+ |
3 |
27 |
27 |
| h |
"
18 |
" |
|
10 |
18 |
14 |
|
+ |
3 |
28 |
8 |
| i |
Março 16 |
Belmonte
(Bihé) |
|
10 |
25 |
0 |
|
- |
1 |
4 |
0 |
| j |
"
18 |
" |
|
5 |
6 |
10 |
|
+ |
3 |
31 |
43 |
| l |
" 22 |
" |
{ |
5 |
3 |
1 |
} |
|
--- |
| m |
{ |
|
|
|
} |
| n |
{ |
9 |
51 |
41 |
} |
| o |
Abril 2 |
" |
|
--- |
|
|
--- |
| p |
" 3 |
" |
|
--- |
|
|
--- |
| q |
" 4 |
" |
|
--- |
|
|
--- |
| r |
" 5 |
" |
|
--- |
|
|
--- |
| s |
" " |
" |
|
4 |
53 |
40 |
|
+ |
3 |
24 |
29 |
| t |
" 6 |
" |
|
--- |
|
|
--- |
| u |
" 7 |
" |
|
--- |
|
|
--- |
| v |
" " |
" |
|
0 |
8 |
32 |
|
- |
0 |
57 |
43 |
| x |
" " |
" |
|
10 |
50 |
54 |
|
|
--- |
| z |
" " |
" |
|
10 |
55 |
6 |
|
+ |
3 |
34 |
54 |
| 0 |
" 23 |
" |
|
9 |
4 |
25 |
|
|
--- |
| 1 |
" " |
" |
|
9 |
38 |
16 |
|
+ |
3 |
37 |
26 |
| 2 |
Maio 24 |
Matas do Cabir
(Bihé) |
|
--- |
|
|
--- |
| 3 |
" " |
" |
|
9 |
38 |
55 |
|
+ |
3 |
42 |
47 |
| 4 |
| " 31 |
|
|
9 |
12 |
5 |
|
+ |
3 |
43 |
56 |
| 5 |
Junho 1 |
" |
|
--- |
|
|
--- |
| 6 |
| " 9 |
|
|
6 |
22 |
33 |
|
+ |
3 |
45 |
52 |
| 7 |
" " |
" |
|
6 |
6 |
53 |
|
|
--- |
| 8 |
| " 10 |
" |
|
--- |
|
|
--- |
| 9 |
" " |
" |
|
9 |
17 |
21 |
|
+ |
3 |
45 |
57 |
|
Natureza da
Observação |
Dupla altura do astro. |
[A] |
[B] |
[C] |
[D] |
Resultados |
|
|
|
º |
' |
" |
º |
' |
H. |
M. |
' |
" |
|
|
º |
' |
|
| a |
Alt. Mer. [-)] |
101 |
3 |
0 |
--- |
--- |
-3 |
30 |
1 |
Lat. |
14 |
2 |
S. |
| b |
Chron. [*-] |
101 |
2 |
0 |
14 |
2 |
--- |
" |
1 |
Long. |
15 |
14 |
E. |
| c |
" |
104 |
31 |
0 |
" |
--- |
" |
1 |
" |
15 |
25 |
E. |
| d |
Alt. Mer. [-)] |
97 |
3 |
10 |
--- |
--- |
-0 |
50 |
1 |
Lat. |
13 |
20 |
S. |
| e |
Chron. [*-] |
99 |
6 |
30 |
13 |
20 |
--- |
" |
1 |
Long. |
15 |
27 |
E. |
| f |
Alt. Mer. [-)] |
98 |
30 |
30 |
--- |
--- |
" |
1 |
Lat. |
13 |
9 |
S. |
| g |
Chron. [*-] |
115 |
5 |
30 |
13 |
9 |
--- |
" |
1 |
Long. |
15 |
30 |
E. |
| h |
" |
104 |
15 |
30 |
--- |
--- |
" |
1 |
" |
15 |
28 |
E. |
| i |
Alt. Mer. [-)] |
131 |
38 |
30 |
--- |
--- |
" |
1 |
Lat. |
12 |
22 |
S. |
| j |
Chron. [*-] |
104 |
58 |
40 |
12 |
22 |
--- |
" |
1 |
Long. |
16 |
51 |
E. |
| l |
Alt. iguaes |
103 |
21 |
10 |
" |
--- |
" |
2 |
Estado |
3^h.31^m.54^s. |
| m |
| n |
| o |
Alt. Mer. [*-] |
144 |
49 |
0 |
--- |
1 |
8 |
-3 |
30 |
1 |
Lat. |
12º |
23' |
S. |
| p |
" |
144 |
4 |
0 |
--- |
" |
" |
1 |
" |
12 |
23 |
S. |
| q |
" |
143 |
20 |
0 |
--- |
" |
" |
1 |
" |
12 |
22 |
S. |
| r |
" |
142 |
32 |
0 |
--- |
" |
" |
1 |
" |
12 |
23 |
S. |
| s |
Azimuth
266-30 [*-] |
93 |
34 |
20 |
12 |
22 |
--- |
-1 |
0 |
1 |
Variação |
21 |
11 |
Oes. |
| t |
Alt. Mer. [*-] |
141 |
47 |
0 |
--- |
1 |
8 |
-3 |
30 |
1 |
Lat. |
12 |
22 |
S. |
| u |
" |
141 |
3 |
0 |
--- |
" |
" |
1 |
" |
12 |
22 |
S. |
| v |
Alt. prox.
do Mer. [*-] |
140 |
3 |
0 |
--- |
--- |
" |
--- |
" |
12 |
22 |
S. |
| x |
Eclipse do 1^o
sat. de Jùp. |
--- |
--- |
--- |
--- |
1 |
Long. |
16 |
46 |
E. |
| z |
Chron. [*-] |
65 |
48 |
0 |
12 |
22 |
--- |
-1 |
0 |
1 |
Diff p^a
o logar |
4^h.42^m.23^s. |
| 0 |
Eclipse do 1^o
sat. de Jùp. |
--- |
" |
--- |
--- |
1 |
Long. |
16º |
49' |
E. |
| 1 |
Chron. [-)] |
71 |
31 |
40 |
" |
--- |
-0 |
30 |
1 |
Atrazado |
4^h.44^m.56^s. |
| 2 |
Alt. Mer. [*-] |
113 |
10 |
40 |
--- |
1 |
7 |
-1 |
25 |
1 |
Lat. |
21º |
22' |
S. |
| 3 |
Chron. [*-] |
79 |
22 |
50 |
12 |
22 |
--- |
" |
1 |
Long. |
16 |
53 |
E. |
| 4 |
" |
86 |
38 |
10 |
12 |
28 |
--- |
" |
3 |
" |
17 |
9 |
E. |
| 5 |
Alt. Mer. [*-] |
110 |
26 |
40 |
--- |
--- |
" |
1 |
Lat. |
12 |
28 |
S. |
| 6 |
Chron. [)-] |
63 |
59 |
30 |
12 |
35 |
1 |
9 |
|
35 |
1 |
Diff p^a
o logar |
4^h.54^m.34^s. |
| 7 |
Eclipse do 2^o
sat. de Jùp. |
--- |
--- |
--- |
--- |
1 |
Long. |
17º |
25' |
E. |
| 8 |
Alt. Mer. [*-] |
108 |
15 |
20 |
--- |
1 |
9 |
-0 |
40 |
1 |
Lat. |
12 |
35 |
S. |
| 9 |
Chron. [*-] |
82 |
43 |
23 |
12 |
35 |
--- |
" |
3 |
Long. |
17 |
25 |
E. |
Legenda:
[A] Latitude Sul.
[B] Longitude em tempo.
[C] Erro do instrumento.
[D] N^o. de Obs.
[-)] símbolo da lua debaixo da barra
[*-] símbolo do sol por cima da barra
[)-] símbolo da lua por cima da barra
Trànsito de Mercurio a
través do Sol em 6 de Maio de 1878.
| Data |
Logar da
Observação |
Latitude |
Longitude |
Hora do Chron.
para a hora local |
Altura do Sol.
Erro do sext.
- 1' 25". |
|
|
|
|
|
|
|
|
Media de 4 |
Media de 4 |
|
|
º |
' |
" |
º |
' |
" |
H. |
M. |
S. |
º |
' |
" |
| 6 Maio 1878 |
Belmonte |
12 |
22 |
40 |
16 |
49 |
24 |
10 |
6 |
50 |
74 |
36 |
55 |
| Data |
Estado
atrazado de Greenw. |
Hora do 1^o contacto interno. |
Longitude |
|
|
No chronòmetro |
|
|
|
|
H. |
M. |
S. |
H. |
M. |
S. |
º |
' |
" |
| 6 Maio 1878 |
3 |
39 |
39 |
11 |
35 |
29 |
16 |
50 |
15 |
É muito notavel que a primeira longitude que determinei em
Belmonte pelo chronòmetro é muito
pròximo da
verdadeira obtida pelo trànsito de Mercurio. Esta longitude
muito pouco differe tambem da obtida pelo eclipse do 1^o
Satèlite de Jùpiter a 23 de Abril.
Não inclui n'este quadro as innùmeras
observações feitas para estudar as marchas dos
chronòmetros, que publicarei em separado um dia.
Nos estados dos chronòmetros a grande differença
que se
nota entre alguns provém do pertencerem a differentes
chronòmetros.
Como se vê, o instrumento empregado por mim foi o sextante
com o
horizonte artificial de mercurio, que outro não tinha, tendo
ficado em poder dos meus companheiros o Abba, ùnico
theodolito
universal que possuìamos.
Os meus sextantes eram: um de Casela, de Londres, contando 5"; e outro
de Lorieux, de Paris, contando 30". As minhas bùssolas
azimutaes
eram fabricadas em Berlim, e tinham pertencido ao infeliz
Barão
de Barth.
Os meus chronòmetros eram de Dent, de Londres, sendo dois de
algibeira, e um, que, depois, de Benguella me enviáram ao
Bihé, de marinha, tambem de Dent.
Este ùltimo era mao; mas os primeiros excellentes, sobre
tudo o que eu designo com a letra S, nos càlculos.
Das altitudes muitas sam determinadas pelo hypsòmetro, e
outras pelo aneroide, cotisado com o hypsòmetro.
Essas altitudes vam marcadas na carta em metros.
A carta do paiz do Bihé, muito grosseira e incompleta de
certo,
foi levantada á bùssola, nas minhas
excursões
venatorias; mas, ainda assim, possue a sufficiente exactidão
para se julgar do paiz, e prouvera a Deus que as cartas de pontos muito
mais pròximos da costa em que dominamos, estivessem
tão
pròximas da verdade como ella.
Ponho ponto aqui nos detalhes das minhas cartas, para falar
ràpidamente do paiz que ellas representam.
De Benguella ao Dombe, como se vê, costeei o mar, em terreno
calcàreo, abundante de minèrios diversos.
As àguas faltam ali na estação
sêca, e
apenas o valle do Dombe Grande tem a sufficiente para ser enormemente
productivo. A vegetação, sem ser pobre,
não tem,
todavia, a opulencia peculiar aos paizes intertropicaes. Entre
Benguella e o Dombe apenas se encontra àgua potavel n'um
pequeno
charco na Quipupa.
Mappa
3.--Entre Cubango e Cuanza
O paiz é abundante de caça, e encontra-se n'elle
grande
variedade de antìlopes, sendo os mais vulgares o
Strepsiceros kudu,
o
Cephalophus mergens, o
Cervicapra bohor, e
o
Oreas canna.
Nas rochas de
carbonato de cal que formam o systema orogràphico do Dombe
Grande, abundam os
hyrax,
e na planicie, entre as grandes e pomposas
plantações de mandioca, vivem muitos
hystrix,
maiores um pouco do que os da Europa, e que causam ali grande estrago
nas terras cultivadas. O valle do Dombe Grande é de certo a
melhor porção de terreno da provincia de Angola.
As suas
condições de salubridade não sam
más, e o
solo é de grande fertilidade. Um porto de mar, o
Cúio,
dista apenas alguns kilòmetros do maior centro de
producção.
As montanhas que enquadram o valle, sam cheias de minerio, e
já
tem estado em exploração, sempre em pequena
escala, por
falta de capitaes. Ha ali enxôfre e cobre.
A população indìgena é de
bôa
ìndole e trabalhadora, tanto quanto o pode ser um
prêto
abandonado a si mesmo.
Entre o Dombe e Quilengues o paiz é deserto. Pelo caminho
que
segui há falta de àgua, e a
vegetação,
pobre ao principio, toma luxuriante esplendor ao passo que nos
approximamos de Quilengues.
Seguindo o curso do rio Coporolo não ha falta de
àgua, e
ouvi dizer, que se encontra sempre uma vegetação
rica.
Contudo, o paiz mesmo por ali não é habitado.
Ao sahir do Dombe o terreno eleva-se bruscamente a 550 metros, e um
systema de montanhas que corre N.S. forma pequenos valles que se vam
elevando gradualmente até atingir 900 metros em Quilengues.
No
rio Canga começa o terreno granìtico, e com elle
uma
vegetação mais pomposa. Todos os rios designados
no Mappa
até Quilengues sam apenas torrentes na
estação
chuvosa, mas em muitos é possivel encontrar àgua
na
estia, cavando poços nos seus leitos arenosos. O proprio
Coporolo está sujeito a esta condição
de pobreza.
Quilengues é um extenso e fertil valle, em
condições iguaes ao do Dombe; tendo por em quanto
muito
menos valor, por falta de communicações com a
costa.
A sua população é densa, e nas suas
campinas
pastam milhares de cabeças de gado vaccum de excellente
raça.
Os Quilengues sam fortes e aguerridos, e nos ataques que dirigem contra
os Mundombes sam sempre vencedores; o que os não impede de
serem
vencidos pelos povos do Nano, que descem ali a roubar gados e gente.
Estes povos de Quilengues, como os do Dombe, sam avassalados a El-Rei
de Portugal, mas não sam tão submissos como os
Mundombes.
Tem de certo um futuro o paiz de Quilengues, quando faceis
communicações o ligarem á costa,
á Huila e
a Caconda, e quando fôr administrado como o deve ser.
De Quilengues a Caconda o caminho é por Caluqueime, paiz
muito
povoado; mas eu segui outro, por motivos que cito na minha narrativa.
Ao sahir de Quilengues para o S.E. encontra-se a alta serra de
Quilengues, que se eleva ràpidamente a 1750 metros, e que eu
passei na parte chamada Monte Quissécua.
Ali começa o grande planalto da Àfrica Austral, e
d'ali
ao Bihé a planicie enorme conserva aquella altitude, tendo
apenas ligeiras depressões nos leitos dos rios, e um ou
outro
pequeno systema de montanhas isoladas.
D'este planalto já correm rios permanentes, sendo o primeiro
que
encontrei n'estas condições affluente do Cunene.
A vegetação arbòrea no planalto
não
é já tão forte como em Quilengues, mas
a
herbàcea é mais rica, se é possivel
sel-o.
O terreno continúa granìtico, e começa
a apparecer
n'elle maior abundancia de termites. As ùnicas
povoações que se encontram no caminho que segui
sam Ngola
e Catonga, de que ja falei detidamente.
Em Caconda o paiz é um pouco mais accidentado, devendo ser
não menos rico e productivo do que o de Quilengues.
É cortado de rios permanentes, que o regam em todas as
direcções, affluindo ao Catapi, affluente do
Cunene.
A febre miasmàtica é endèmica em
Caconda, como em
Quilengues e como na costa; mas apresenta ali um caracter mais benigno,
e raras vezes faz vìctimas.
Eu julgo Quilengues nas mesmas condições de
salubridade de Caconda.
As condições climatològicas do paiz de
Caconda
é que já differem essencialmente das da costa, e
mesmo
das de Quilengues.
Apenas 13° e 44' distante do Equador, o clima, que deveria ser
ardente, é temperado pela altitude enorme a que se encontra;
mas
está por isso mesmo sujeito ás bruscas
mudanças
que se dam entre o dia e a noite em todo o planalto. Ha ali uma luta
constante entre a altitude e a latitude, sendo que esta impera de dia
quando um sol a prumo dardeja raios de fogo, e aquella de noute quando
uma altura de 1700 metros nos faz viver n'uma atmosphera tão
rarefeita.
Lembra-me aqui que o Anchieta me dizia, que se viveria
òptimamente em Caconda, se uma màchina em
contacto com um
thermòmetro, nos fosse deitando cobertores na cama
á
medida que o thermòmetro descesse, durante o somno.
Esta grande desigualdade de temperatura entre o dia o a noute
dá-se quando o sol tem declinação
Norte, porque
durante o tempo em que elle anda ao sul do Equador é ella
muito
menor.
Sempre ouvi dizer, que em Caconda produzem as frutas da Europa, mas
infelizmente não o sei de sciencia propria, que nenhumas ali
encontrei; todavia, creio que se poderám ali aclimatar. A
batata
é muito boa e produz muito, não só ali
como em
todo o planalto; mas é tão difficil o seu
transporte para
Benguella, que a batata que se consome ali vai de Lisboa.
Ha muito boa hortaliça e legumes da Europa, que se dam bem
em todo o planalto.
Perto da fortaleza, a população é
rara, mas a uma
certa distancia está condensada; sendo governada por chefes
independentes.
De Caconda ao Bihé o paiz é muito populoso, e, se
menos
pastores do que os povos até Caconda, sam um pouco mais
agricultores.
Nos paizes do Nano, Huambo, Sambo e Moma, os povos sam mais bruscos,
mais aguerridos e independentes.
Os terrenos, como se vê no mappa, sam cortados de rios que
dividem as suas àguas para tres grandes arterias, o Cunene,
o
Cubango e o Cuanza.
Ao N. das terras do Sambo, o planalto forma um enorme descampado, a que
chamam no paiz a
Enhana
de Ambamba, terreno alagadiço onde nascem cinco rios
importantes, dois dos quaes vam ao Norte e tres ao Sul.
Dos que vam ao Norte, um é o Québe, que vai
entrar no mar
por 10° 50' de Latitude S., junto ás Tres Pontas,
entre Novo
Redondo e Benguella Velha.
Este rio na parte inferior do seu curso toma o nome de Cuvo. O outro
é o Cutato das Mongoias, que corre ao N. a afluir ao Cuanza.
Os tres que correm ao S. sam o Cunene, o Cubango e o Cutato dos
Ganguelas, que se une ao Cubango.
O maior systema de montanhas que encontrei é uma serra que
corre
de N.E. a S.O. ao N. do paiz do Huambo, em cujas vertentes nascem o
Caláe e o Cuçúce, que se unem para
affluir ao
Cunene.
Uma grosseira observação do aneroide indicou-me o
seu cume a mais de 2500 metros acima do nivel do mar.
Fazendo excepção á minha regra de
não
baptizar em Àfrica rios ou montes, dei a esta serra o nome
de
Andrade Corvo, por ser designada no paiz apenas por serra do Huambo.
Não encontrei entre os indìgenas vestigios de ter
o paiz
outro minerio àlém do ferro, o que não
quer dizer
que o não haja.
O terreno é ainda granìtico, e o solo pode
dizer-se que
em muitos pontos é de formação animal,
pois que
é construido pelas termites.
Àlém da disposição especial
que encontrei
no terreno termìtico das margens do Cutato dos Ganguellas,
encontram-se 4 differentes construcções
termìticas, que suponho pertencerem a 4 differentes especies.
Figura
29.--Montes termìticos, dos terrenos entre a costa e o
Bihé.
1 e 2 tem altura entre 2
e 3 decimetros, 3 e 4 entre 1 e 2 metros.
Ha abundancia de caça, sobre tudo nas faldas da serra de
Andrade
Corvo, entre o Caláe e o Cuçúce, que
nunca vi
tanta em Àfrica, a não ser no Zambeze.
Alem dos antìlopes que já citei falando do Dombe,
abundam ali o
Hippotragus
equinus, o
Catoblepas
taurina, e o
Bubalus
Caffer.
As florestas sam em grande parte formadas de Leguminosas, sobresahindo
um sem-nùmero de especies da Acacia.
Ha muito poucas plantas trepadeiras.
Passamos a linha divisoria das àguas entre o Cubango e o
Cuanza,
e entramos no paiz do Bihé, de certo o mais importante do
Sudoeste d'Àfrica.
O paiz do Bihé, de cujos povos falo detidamente no capitulo
anterior, é cortado por dois rios importantes, ainda que
innavegaveis, o Cuqueima e o Cuito. Innùmeros riachos sulcam
em
todas as direcções o terreno, e vam affluir
áquellas arterias principaes.
O clima é igual ao de Caconda, e subsistem ali as mesmas
condições atmosphèricas.
O terreno é granìtico e de uma admiravel
fôrça productiva. As pastagens sam
òptimas para
todos os gados. É pobre de caça; mas, em
compensação, é desinfestado de feras.
Não creio muito que seja rico em productos
mineralògicos,
porque a sua densa população não tem
encontrado
vestigios de minerios ricos, e eu tenho visto em Àfrica, que
os
primeiros a encontrarem o ouro, o cobre, o chumbo e o ferro sam os
indìgenas.
No Bihé o que é verdadeiramente rico é
o terreno,
e não sei de paiz Africano que mais podesse prosperar pela
agricultura e commercio.
A raça Europea vive ali muito bem, e o producto do
cruzamento
d'ella com as raças do paiz é physicamente
admiravel.
Durante a minha permanencia em Belmonte, fiz um estudo detido das
condições climatològicas, e sobre tudo
no primeiro
mez, em que o pertinaz rheumatismo, contrahido em viagem, me impedio de
sahir, observei regularmente o baròmetro e o
thermòmetro
de 3 em 3 horas durante o dia.
Adiante apresento um quadro d'essas observações,
durante
trinta dias, fazendo notar, que a igualdade de temperatura que se nota
durante o dia é devida á
estação do anno em
que
fôram feitas as observações,
estação
que corresponde ao nosso outono.
As chuvas t[~e]m duas èpochas, com uma
interrupção
de estiagem que se dá em Dezembro e Janeiro. As primeiras
chuvas
cahem em meado de Outubro, e duram até principio de
Dezembro,
sendo mais moderadas do que as segundas que cahem do fim de Janeiro ao
principio de Março.
Os ventos reinantes sam dos quadrantes de leste, sendo muitas vezes
persistente o vento leste bastante forte; isto na estiagem, porque na
estação chuvosa as maiores tormentas que observei
vinham
do oes-sudoeste, e dos quadrantes do sul. As chuvas v[~e]m sempre,
sobre tudo as de Fevereiro, envoltas com meteoros
elèctricos, e
cahem no meio de terriveis trovoadas.
O seguinte quadro apresenta as minhas observações
desde o dia 25 de Março ao dia 23 de Abril de 1878.
Por esta serie de observações se vê
quão
ameno é o clima do Bihé n'esta èpocha
do anno.
| Anno de 1878 |
6 Horas. |
9 Horas. |
Meio dia |
3 Horas. |
6 Horas. |
| Mez. |
Dia. |
[E] |
[F] |
[E] |
[F] |
[E] |
[F] |
[E] |
[F] |
[E] |
[F] |
| Março |
25 |
629.8 |
19.1 |
630.5 |
20.4 |
629.2 |
22.4 |
628.8 |
23.2 |
630.0 |
21.6 |
| " |
26 |
632.0 |
20.1 |
631.9 |
21.2 |
630.8 |
21.6 |
629.8 |
21.5 |
629.5 |
21.0 |
| " |
27 |
629.5 |
19.4 |
632.0 |
19.9 |
629.6 |
21.0 |
628.5 |
21.3 |
630.0 |
20.6 |
| " |
28 |
630.0 |
19.4 |
631.6 |
19.9 |
629.5 |
20.4 |
629.0 |
22.1 |
629.0 |
21.6 |
| " |
29 |
630.2 |
20.6 |
632.3 |
20.8 |
630.0 |
21.6 |
628.5 |
22.5 |
629.2 |
22.1 |
| " |
30 |
631.0 |
18.3 |
632.0 |
20.6 |
631.0 |
21.9 |
630.0 |
22.2 |
629.9 |
21.3 |
| " |
31 |
631.0 |
19.2 |
632.3 |
20.0 |
631.2 |
20.9 |
629.2 |
21.3 |
631.0 |
20.4 |
| Abril |
1 |
630.5 |
18.6 |
632.0 |
19.5 |
630.6 |
20.4 |
630.0 |
19.9 |
630.0 |
19.8 |
| " |
2 |
631.0 |
17.5 |
632.0 |
18.7 |
630.0 |
21.1 |
629.3 |
20.2 |
630.0 |
20.2 |
| " |
3 |
630.0 |
18.8 |
632.5 |
20.0 |
630.5 |
21.1 |
630.0 |
21.2 |
629.0 |
20.9 |
| " |
4 |
632.0 |
18.6 |
632.0 |
20.2 |
630.0 |
21.2 |
629.5 |
21.6 |
630.0 |
20.7 |
| " |
5 |
630.0 |
18.8 |
632.0 |
20.0 |
630.3 |
21.1 |
630.0 |
22.0 |
629.8 |
20.1 |
| " |
6 |
630.0 |
17.2 |
632.3 |
19.8 |
631.0 |
20.4 |
630.5 |
21.7 |
630.0 |
20.2 |
| " |
7 |
630.0 |
17.8 |
632.0 |
19.7 |
630.5 |
21.0 |
629.0 |
22.7 |
630.0 |
21.5 |
| " |
8 |
629.0 |
17.6 |
632.0 |
19.9 |
630.0 |
21.5 |
629.5 |
22.8 |
630.0 |
21.3 |
| " |
9 |
629.5 |
18.4 |
631.5 |
20.4 |
631.0 |
21.8 |
629.3 |
22.6 |
629.8 |
21.1 |
| " |
10 |
631.2 |
18.1 |
632.8 |
20.5 |
631.5 |
21.7 |
629.4 |
22.4 |
630.0 |
21.5 |
| " |
11 |
630.5 |
16.6 |
631.9 |
20.2 |
631.0 |
21.4 |
629.5 |
23.0 |
629.8 |
21.7 |
| " |
12 |
629.0 |
16.4 |
629.9 |
20.1 |
629.0 |
21.1 |
627.0 |
22.6 |
629.0 |
21.8 |
| " |
13 |
628.3 |
18.2 |
630.0 |
20.2 |
629.6 |
21.6 |
629.4 |
22.3 |
629.5 |
21.1 |
| " |
14 |
629.0 |
18.6 |
631.5 |
20.4 |
630.6 |
22.0 |
629.5 |
23.1 |
630.0 |
21.7 |
| " |
15 |
631.4 |
17.2 |
632.6 |
19.7 |
631.0 |
21.3 |
630.5 |
22.4 |
630.5 |
20.7 |
| " |
16 |
630.6 |
16.1 |
632.0 |
19.0 |
630.3 |
21.3 |
629.0 |
22.8 |
630.0 |
20.2 |
| " |
17 |
632.6 |
19.4 |
633.0 |
20.7 |
631.0 |
22.0 |
630.0 |
22.2 |
630.0 |
20.0 |
| " |
18 |
631.6 |
18.0 |
632.0 |
20.1 |
630.0 |
20.4 |
629.7 |
22.7 |
629.9 |
19.8 |
| " |
19 |
631.2 |
17.8 |
632.2 |
20.3 |
630.6 |
21.0 |
630.1 |
23.0 |
630.5 |
19.7 |
| " |
20 |
630.7 |
16.5 |
631.9 |
20.1 |
630.4 |
21.2 |
630.0 |
22.7 |
630.0 |
20.1 |
| " |
21 |
631.0 |
15.6 |
632.1 |
17.8 |
630.3 |
19.8 |
629.3 |
20.6 |
629.8 |
19.5 |
| " |
22 |
630.0 |
14.6 |
632.0 |
17.1 |
630.0 |
19.2 |
628.7 |
20.4 |
629.0 |
19.4 |
| " |
23 |
630.3 |
14.9 |
632.0 |
17.9 |
630.5 |
20.0 |
629.2 |
21.3 |
630.0 |
20.0 |
Legenda:
[E] Baròmetro
[F] Thermòmetro
É muito notavel a marcha diurna do baròmetro, que
ali
é inalteravel em presença das mudanças
bruscas da
atmosphera.
Um boletim meteorològico feito a 0^h. 43^m. de Greenwich, ou
1^h. 50^m. do logar, completa o estudo atmosphèrico d'este
paiz
n'aquella èpocha.
Este boletim de que agora dou conta em trinta dias, foi continuado
durante toda a viagem, tendo apenas as
interrupções
provenientes de doenças ou de estorvos occasionaes.
O terreno de Belmonte para Leste desce um pouco até ao
Cuqueima,
na parte em que este rio corre de S. ao N. Na margem direita do
Cuqueima eleva-se um pouco para descer ao valle do Cuanza.
Na parte leste do paiz reapparece a vegetação
arbòrea mais rica, e ha pequenas mas densas florestas.
Em todo o vasto territorio comprehendido entre o Bihé e
Benguella, não existe o zé-zê, esse
flagello de
muitos pontos da Àfrica Austral, que, matando o cavallo e o
boi,
priva o homem de dois dos seus maiores auxiliares na vida
pràtica.
Uma especie de epizotia, que no paiz chamam
cahônha,
ataca o gado bovino e lanìgero; não fazendo ainda
assim
os estragos que na Europa e outras partes d'Àfrica produz a
epizotia.
Boletim meteorològico
feito a 0h. 43m. de Greenwich ou 1h. 51m. do Bihé.
| Mez. |
Dia |
[E] |
[F1] |
[F2] |
[G] |
Direcção
do Vento. |
Estado da Atmosfera. |
| Março |
25 |
628.7 |
22.9 |
20.2 |
40 |
S.S.O. fraco |
{Durante a noute
{trovoada, hôje ceo
{limpo |
| " |
26 |
629.6 |
22.1 |
20.0 |
2 |
O.S.O. fraco |
{Nublado de noute,
{de dia cirrus. |
| " |
27 |
629.1 |
21.0 |
20.1 |
31 |
E. forte |
Chuva durante a
noute. |
| " |
28 |
628.8 |
21.5 |
21.2 |
0 |
Calma |
Algumas nuvens,
cirrus. |
| " |
29 |
629.0 |
22.3 |
21.6 |
0 |
" |
"
" " |
| " |
30 |
630.0 |
22.0 |
21.0 |
0 |
" |
"
" " |
| " |
31 |
629.5 |
21.5 |
20.8 |
0 |
E. forte |
Nublado. |
| Abril |
1 |
630.5 |
20.2 |
19.4 |
17 |
Calma |
{Nublado.
{De noute trovoada a N.O. |
| " |
2 |
629.3 |
19.8 |
19.1 |
0 |
E. forte |
Algumas nuvens, cirrus. |
| " |
3 |
630.0 |
20.9 |
19.1 |
0 |
E. moderado |
"
" " |
| " |
4 |
630.3 |
21.5 |
20.2 |
0 |
" |
"
" " |
| " |
5 |
630.5 |
21.8 |
20.6 |
0 |
" |
"
" " |
| " |
6 |
630.0 |
21.1 |
19.2 |
0 |
" |
"
" " |
| " |
7 |
629.3 |
21.8 |
19.7 |
0 |
" |
"
" " |
| " |
8 |
628.1 |
22.5 |
19.8 |
0 |
" |
"
" " |
| " |
9 |
629.6 |
22.2 |
20.6 |
0 |
Calma |
"
" " |
| " |
10 |
629.0 |
21.8 |
19.9 |
0 |
" |
Ceo limpo. |
| " |
11 |
629.8 |
21.9 |
19.8 |
0 |
" |
" " |
| " |
12 |
627.8 |
21.8 |
19.8 |
0 |
" |
Alguns cirrus. |
| " |
13 |
629.5 |
22.0 |
20.1 |
0 |
" |
Nublado. |
| " |
14 |
630.0 |
22.5 |
20.2 |
0 |
" |
Alguns cirrus. |
| " |
15 |
630.5 |
21.6 |
19.6 |
0 |
E. forte. |
Ceo limpo. |
| " |
16 |
629.8 |
21.6 |
19.7 |
0 |
Calma |
Alguns cirrus. |
| " |
17 |
630.0 |
22.0 |
18.6 |
0 |
E. forte. |
" " |
|