The Project Gutenberg EBook of Como atravessei Àfrica (Volume I), by 
Alexandre Alberto da Rocha de Serpa Pinto

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Title: Como atravessei Àfrica (Volume I)

Author: Alexandre Alberto da Rocha de Serpa Pinto

Release Date: February 2, 2007 [EBook #20508]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK COMO ATRAVESSEI ÀFRICA (VOLUME I) ***




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Mappa 2.--De Benguella ao Bihé




COMO EU ATRAVESSEI ÀFRICA DO ATLANTICO AO MAR INDICO, VIAGEM DE

BENGUELLA Á CONTRA-COSTA.


A-TRAVÈS REGIÕES DESCONHECIDAS;


DETERMINAÇÕES GEOGRAPHICAS E ESTUDOS ETHNOGRAPHICOS.


Por SERPA PINTO.


Dois Volumes.


Contendo 15 mappas e facsimiles, e 133 gravuras feitas dos desenhos do
autor.


VOLUME PRIMEIRO.

Primeira Parte--A CARABINA D'EL-REI.


LONDRES:
SAMPSON LOW, MARSTON, SEARLE, e RIVINGTON,
EDITORES,
CROWN BUILDINGS, 188 FLEET STREET.
1881.

[Tôdos os direitos sam reservados.]



LONDRES:
NA TYPOGRAPHIA DE GUILHERME CLOWES E FILHOS (COMPANHIA LIMITADA),
STAMFORD STREET E CHARING CROSS.



A SUA MAGESTADE EL-REI D. LUIZ 1^o,

COM PRÈVIA LICENÇA

OFFERECE ESTE LIVRO

O AUTÔR.




SENHOR,

Não foi um sentimento de adulação servil que me levou a pedir licença a Vossa Magestade para lhe dedicar este livro, foi o reconhecimento de uma dupla dìvida de justiça e de gratidão: de justiça ao Monarcha intelligente e illustrado que firmou o decreto creando recursos para a primeira expedição scientìfica Portugueza d'este sèculo á Àfrica Central; de gratidão, ao prìncipe cujos dotes de coração e de espìrito disputam primazias ás suas elevadas qualidades de um dos primeiros reis constitucionaes da Europa contemporànea.

Deu-me Vossa Magestade ensejo de prender indissoluvelmente o meu obscuro nome de soldado Portuguez, a uma das mais felizes e auspiciosas tentativas modernamente feitas por Portugal; por isso esse livro pertence a Vossa Magestade como legìtimo tìtulo da minha immensa gratidão. Ouso rogar respeitosamente a Vossa Magestade queira aceitar a minha humilde offerta com a mesma benevolencia com que se dignou dar-me incitamentos para uma empresa, da qual, depois de realisada, fôram ainda os favôres de Vossa Magestade a mais sincera e não regateada recompensa.


O Vosso ajudante de campo
E o mais dedicado dos
Vossos sùbditos,

Alexandre de Serpa Pinto.


Londres, 61 Gower Street,
5 de Dezembro de 1880.





A SUA EXCELLENCIA, O CONSELHEIRO JOÃO D'ANDRADE CORVO.



Ill^{mo.} e Ex^{mo.} S^{nr.},

Com propor o meu nome, em 1877, na Commissão Central Permanente de Geographia, para fazer parte da expedição Portugueza ao interior d'Àfrica, assumio Vossa Excellencia a responsabilidade da minha nomeação.

Foi para mim pensamento constante, dar a Vossa Excellencia satisfação plena do encargo que tomou indigitando-me para tão àrdua tarefa.

Este livro contem, de envolta com a narrativa das minhas aventuras, os resultados dos meus trabalhos e estudos.

Não sei se corresponderá ao que Vossa Excellencia esperava de mim; como não sei se cumpri os deveres que Vossa Excellencia, em nome do paiz, me impoz.

Tenho a consciencia de que trabalhei quanto pude, e que segui, tanto quanto em fôrças humanas cabia, o pensamento e as instrucções de Vossa Excellencia.

A leitura da minha narrativa mostrará a Vossa Excellencia, com quantas difficuldades lutei, e de quão minguados recursos dispuz.

Se, porem, os meus trabalhos corresponderem á confiança com que Vossa Excellencia me quiz honrar, será isso o maior prèmio a que pode aspirar, o mais respeitoso admirador do talento, vasto saber e elevadas qualidades de Vossa Excellencia,

Alexandre de Serpa Pinto.

Londres, 61 Gower Street,
28 de Novembro de 1880.




TRIBUTO DE GRATIDÃO.



Vou citar nomes. É difficil e perigosa tarefa. Ha sempre o receio de ferir modestias, ou levantar susceptibilidades. Não importa; sigo avante.

Será grande a lista, por serem multiplicados os favôres; e posso bem peccar por omissão, filha de memoria preguiçosa.

Que me perdôem os que desejariam esconder êsses favôres na mais velada modestia, como aquelles a quem um lapso de reminiscencia deixasse no olvido.

Seguindo a ordem chronològica dos factos, procurarei no profundo sentimento de gratidão a lembrança dos serviços e favôres recebidos.

Cabe á Commissão Central de Geographia o primeiro logar no meu reconhecimento; por me ter distinguido com a sua escôlha para instrumento da exploração que decidio fazer em Àfrica.

Proposto pelo S^{nr.} Conselheiro Andrade Corvo, fui unànimemente aceito, e attendido nas propostas que apresentei para a organização da emprêsa. Falando da Commissão Central de Geographia, não posso omittir de citar nomes; porque, recebendo obsèquios de tôdos, fui particularmente auxiliado por muitos.

O D^{or.} Bernardino Antonio Gomes, Marquez de Souza-Hollstein, Antonio Augusto Teixeira de Vasconcellos, sam nomes que as lousas tumulares dos seus jazigos, não podem occultar á minha gratidão.

O D^{or.} Julio Rodriguez, Luciano Cordeiro, o D^{or.} Bocage, Conde de Ficalho, Carlos Testa, Pereira da Silva, Jorge Figaniere, e Francisco da Costa e Silva, fôram os cavalheiros que, no seio da Commissão, mais se esforçáram por me encher de favôres.

Outro, que só annos depois conheci pessoalmente (ausente em quanto se organizou a expedição), não deixou de concorrer com o sem consêlho abalizado para a parte scientìfica d'ella. Refiro-me ao S^{nr.} Brito Limpo.

Fora da Commissão, prestáram-me valiôso auxilio, os meus particulares amigos Marrecas Ferreira e João Botto.

Vem depois da Commissão Central, a Sociedade de Geographia de Lisboa; e com ella mais em evidencia, os seus Presidentes, D^{or.} Bocage e Vizconde de S. Januario, e os seus Secretarios Luciano Cordeiro e Rodrigo Pequito.

Segue-se o jornalismo Portuguez, a quem cordialmente agradêço tôdos os favôres que me dispensou, e a maneira por que acolheu a minha nomeação.

Fora do paiz prestáram-me valiôso auxilio, o S^{nr.} Mendes Leal, Antonio d'Abbadie, e Ferdinand de Lesseps, em Paris; o Vizconde de Duprat e o Tenente Pinto da Fonseca Vaz, em Londres; sendo que á
cooperação d'estes cavalheiros, e só a ella, podémos eu e Capello ter dado conta do encargo que tomámos de organizar em um mez o material da expedição.

Antes de ter deixado Portugal, ha que citar ainda dois cavalheiros, que concorrêram poderosamente para a realização da nossa emprêsa.

Sam o Conselheiro José de Mello e Gouvea, que então governava nos negocios do Ultramar, e Francisco Costa, o Director Geral do Ministerio das Colonias.

Pedro d'Almeida Tito, e Avelino Fernandes, dispensáram-me taes favôres em viagem, que não posso deixar de escrever aqui os seus nomes.

Vem, em seguida, o do Governador de Cabo Vêrde, Vasco Guedes, e o do Governador d'Angola, Caetano d'Albuquerque; que ambos me dispensáram innùmeras finezas.

Em Loanda, José Maria do Prado, Urbano de Castro, o Consul Newton, a Associação Commercial, e sôbre tudo os officiaes e Commandante da Canhoneira Tâmega, sam crèdores do meu mais profundo reconhecimento.

Apparece agora um nome que n'esse tempo echoava por todas as partes do mundo, e assombrava com as suas façanhas o orbe inteiro:

Henrique Moreland Stanley.

O grande explorador, o ousado viajante, que acabava de fazer a mais prodigiosa viagem dos tempos modernos, foi meu amigo, e meu conselheiro, e d'elle recebi proveitosas lições. Melhor mestre não poderia ter. Que elle recêba n'estas curtas linhas o mais sincero tributo da grande admiração que nutro por elle, e a mais franca expressão da minha estima, e da gratidão que lhe consagro.

Em Benguella, Pereira de Mello e Silva Porto occupam o primeiro logar; e nem me detenho a falar d'elles, que mais alto falam por mim os seus actos narrados n'este livro. Antonio Ferreira Marquez, o Tenente Seraphim, o pharmacèutico Monteiro, e Vieira da Silva, sam outros tantos cavalheiros que não posso esquècer.

Santos Reis, o meu hospedeiro do Dombe Grande, e o Tenente Roza de Quillengues, sam mais dois crèdores á minha gratidão.

Vou dar um salto enorme, e sem me deter a falar do D^{or.} Bradshaw e da familia Coillard, transpòrto-me ao Bamanguato, a Shoshong (Xoxon), onde os favôres do rei Kama, e sobre tudo os de M^{r.} e Madame Taylor, me obrigam a não olvidar os seus nomes.

Vai começar para mim um embaraço enorme. Estou em Pretoria; estou na primeira terra do mundo civilisado que encontro depois de Benguella; e ali sam tantos os favôres que se me prodigalizam, que não sei como sahir do embaraço que elles me causam para os agradecer.

M^{r.} Swart, o thesoureiro do Govêrno, foi o primeiro a obsequiar-me, e será o primeiro citado.

Vem em seguida os nomes de Fred. Jeppe, Secretario Osborne, D^{or.} Bissik, M^{r.} Kisch, Major Tylor e Capitão Saunders, e tôdos os officiaes do Regimento 80.

A Baronêza Van-Levetzow, Madame Imink e Madame Kisch, e emfim o Coronel Lanyan.

Sir Bartle-Frere veio logo em meu auxilio, e não se demorou o nosso Consul Portuguez no Cabo, o S^{nr.} Carvalho.

Se dêvo muita gratidão ao Governador Inglez, não dêvo menos ao Consul Portuguez, que, por telegrammas immediatos, veio prestar-me a maior assistencia.

Monseigneur Jolivet, o sabio Bispo de Natal, então residindo em Pretoria, não foi dos ùltimos a encher-me de favôres.

Em caminho para Durban, recebi um obsequio grande de M^{r.} Goodliffe, e em Maritzburgo multiplicáram-se os obsequios do Coronel Baker, Capitão Whalley e Madame Saunders, e M^{r.} Furs.

Em Durban, M^{r.} Snell, o Consul Portuguez, e M^{r.} e Madame B. H. de Waal, chefe da Handels Company em Àfrica Oriental, muito se distinguíram em favôres prestados.

Agora é que se torna verdadeiramente embaraçosa a minha missão. Vou regressar á Europa, tendo terminado a minha viagem, e accumùlam-se os obsèquios que recêbo a cada momento.

Em Lourenço Marquez, sam Castilho, Machado, Maia e Fonseca. Em Moçambique, o Governador Cunha, Torrezão e tôdos.

Em Zanzibar, o D^{or.} e Madame Kirk, Widmar, e sôbre tôdos o Capitão Draper do 'Danubio' da Union Steamship Company, que de Durban me transportou ali.

No Cairo, ainda Widmar me presta grandes favôres. Em Alexandria, sobressáe a tôdos o Conde e a Condêssa de Caprara.

Ainda antes de chegar a Lisbôa, recêbo um serviço importante do Barão de Mendonça, em Bordeos.

Em Lisbôa, o Govêrno, primeiro, e amigos velhos e conhecidos novos, porfiam em obsequiar-me.

Estou ali apenas dez dias, em que mal tive tempo para receber favôres, e em que me não sobejou um minuto para os agradecer.

Quizéram que eu fizesse uma conferencia, mal repousado ainda das fadigas da viagem; e sem o poderôso concurso que me prestáram Pequito, Sarrea Prado, Batalha Reis e D^{or.} Bocage, impossivel me seria fazel-a.

Não querendo, não podendo mesmo, citar nomes, tantos seriam elles, não deixo de agradecer, com o mais sincero reconhecimento, á Sociedade de Geographia de Lisboa tudo o que por mim fez.

Á Associação Commercial e ao seu digno Presidente, o S^{nr.} Chamisso, que sempre tomou o maior interesse pela exploração de que eu fiz parte.

Sube em Lisbôa um facto que não posso deixar de consignar aqui com um nome.

Agradêço ao S^{nr.} Thomas Ribeiro as ordens que deu como Ministro da Marinha, para que me fôssem enviados soccorros de Moçambique para o interior d'Àfrica.

Ao Côrpo Diplomàtico residente em Lisbôa expresso os meus sentimentos de gratidão, e sobre todos aos S^{nrs.} Morier, Barão de P. Hegeurt, Laboulay, Marquez d'Oldoini, e Ruata.

Á Associação Commercial do Porto, aos bombeiros voluntarios d'aquella cidade, á Sociedade Euterpe e á Sociedade de Instrucção, aos municipios e mais instituições do paiz que me obsequiáram, consigno aqui um testemunho de agradecimento.

Ás Associações Portuguezas no Brazil, aos meus conterraneos que longe da patria me saudáram, a elles que nada poupáram para mim em honras e distincções, envio um fraternal protesto de immensa gratidão.

Sobre todos áquelles que formáram uma sociedade com o meu nome, e que de Pernambuco me offerecêram um mimoso presente, de tal distincção, que nunca os poderei esquècer.

Cabe agora, pela ordem dos factos, agradecer aos Soberanos estrangeiros as altas honras com que me distinguíram, sôbre tôdos ao Monarcha Belga, ao Illustrado e sabio Rei Leopoldo, ao grande impulsor do movimento geogràphico Africano moderno, que, a par da mais alta honra com que me podia enobrecer, me dispensou a mais cordial estima, e me mostrou o mais affectuoso interesse.

Ás Sociedades de Geographia da França, principalmente ás de Paris, onde o Almirante La Roncière le Noury, Ferdinand de Lesseps, MM. Daubré, Maunoir, d'Abbadie, de Quatrefages e Duveyrier, me enchêram de favôres; de Marselha, que me conferio uma subida distincção, e cujo Presidente,M^{r.} Babaut, muito me obsequiou; e á Commercial de Paris, onde distingo o seu digno Secretario Geral, M^{r.} Gauthiot.

Ainda em Paris, tenho a nomear a Colonia Portugueza, e nella os S^{nrs.} Mendes Leal, Conde de S. Miguel, Camillo de Moraes, Pereira Leite, Garrido, e D^{or.} Aguiar, de quem nunca poderei olvidar os favôres recebidos.

Ás Sociedades de Geographia Belga, e á de Anvers, nomeadamente aos seus Presidentes, o General Liagne e Coronel Wauvermans; e àlém d'estes cavalheiros, não posso deixar de falar, em um paiz onde tôdos me obsequiáram, nos nomes dos S^{nrs.} du Fief, Bamps, e Coronel Strauch, e ainda mais alto no Conde de Thomar, cujos favôres repetidos e cordialidade de trato convertêram em verdadeira amizade a sincera estima das primeiras relações.

Cabe, pela ordem dos factos, o ùltimo lugar á Inglaterra, que seria talvez a primeira pêlo nùmero de favôres dispensados.

Principiou nas colonias Inglezas da Àfrica do Sul a ter juz á minha gratidão este paiz, onde depois se me tinham de multiplicar os obsequios.

Á Sociedade de Geographia de Londres, ao seu Presidente o Conde de Northbrook, aos seus Secretarios Clements Markham e Bates, aos seus Membros Sir Rutherford Alcock, Lord Arthur Russell, Visconde de Duprat, e muitos outros que impossivel seria nomear, deixo aqui escritos os meus
sentimentos de reconhecimento.

Ao S^{nr.} Frederico Youle, ao D^{or.} Peacock, aos S^{nrs.} M. d'Antas, Sampaio, Fonseca Vaz, Quillinan, Duprat, e Ribeiro Saraiva, a estes que alem de subidos favôres me dispensáram grandes serviços durante a minha grave doença, não posso deixar de lavrar um bem pùblico testimunho de gratidão.

Ainda me falta citar o nome de M^{r.} David Ward, o Mayor de Sheffield, e do meu particular amigo, o grande e eminente explorador Verney Lovett Cameron, para fechar a lista, que seria interminavel a não tomar a resolução de a fechar aqui.

Ás Sociedades Scientìficas dos outros paizes, e a tôdos aquelles que não posso citar, e que me cobríram de favôres, agradêço tudo quanto por mim fizéram, e agradêço tanto mais sinceramente, quanto me custa não os poder personalizar.

Major Alexandre de Serpa Pinto.

Londres, 5 de Dezembro de 1880.




O LIVRO.



Não tem pretenções a obra de literatura este livro.

Escrito sem preoccupação da forma, é a fiel reproducção do meu diario de viagem.

Cortei n'elle muitos episòdios de caçadas, e outros, que um dia no descanso, produzirám um volume de caracter especial. Busquei sôbre tudo fazer realçar o que mais interessante se tornava para os estudos geogràphicos e ethnogràphicos, e se não me pude eximir a narrar um ou outro dos muitos episòdios dramàticos que abundáram na minha fadigosa empresa, foi quando a êsses episòdios se ligavam factos consequentes, de importancia, ja para alterar o itinerario projectado, já determinando demoras, ou marchas precipitadas, que seriam incomprehensiveis sem a exposição das causas determinantes.

Á Europa, e em geral ao homem que nunca viajou nos sertões do interior d'Àfrica, não é dado comprehender o que se soffre ali, quaes as difficuldades a vencer a cada instante, qual o trabalho de ferro não interrompido para o explorador.

As narrações de Livingstone, Cameron, Stanley, Burton, Grant, Savorgnan de Brazza, d'Abbadie, Ed. Mohr e muitos outros, estam longe de pintar os soffrimentos do viajante Africano. Difficil é comprehendel-o a quem o não o experimentou; áquelle que o experimentou difficil é descrevel-o.

Não tento mesmo pintar o que soffri, não procuro mostrar o quanto trabalhei, que me façam ou não a justiça de que me julgo merecedor aquelles que examinarem os meus trabalhos, hôje é isso para mim indifferente; porque me convenci, de que só posso ser bem comprehendido pêlos que como eu pisáram os longìnquos sertões do continente nêgro, e passáram os maos tratos que eu por lá passei.

Assim como só o homem que, sendo pai, pode comprehender a dôr pungente da pêrda de um filho, assim tambem só o homem que foi explorador pode comprehender as atribulações de um explorador. Ha sentimentos que se não podem avaliar sem se haverem experimentado.

Os factos narrados n'este livro sam a expressão da verdade.

Verdade triste muitas vêzes, mas que seria um crime occultar.

Procurei apresentar nêlle os resultados de um trabalho aturado de muitos mêzes, e garanto o que digo sôbre geographia Africana, porque só eu sou autoridade para falar n'ella na parte respectiva á minha viagem, em quanto outro não houvér seguido os meus passos atravéz d'Àfrica, e não me convencer do contrario.

As minhas opiniões genèricas sôbre um ou outro problema podem ser erròneas, sam sujeitas á crìtica, podem cahir por terra com uma demonstração pràtica das futuras viagens, como tem acontecido a asserções de muitos dos meus antecessores os mais illustres; mas o que não tem nem pode ter contestação, sam os factos que eu vi, sam aquelles que se referem aos paizes que percorri, e que descrêvo n'este livro com a consciencia que deve sempre dictar as acções do explorador.

Não fui á Àfrica ganhar dinheiro. Tive a mesquinha paga de official do exèrcito e não quiz outra.

Abandonei uma familia extremosamente querida; deixei a pàtria e tudo para trabalhar, e só para trabalhar, em cooperação com os outros paizes, na grande obra do estudo do continente desconhecido, e tenho a consciencia de que fiz tanto quanto podia fazer.

Deixo aos homens de sciencia e áquelles que sam autoridades em tal materia o avalial-o.

Ponho ponto n'este assumpto que parecerá filho de um orgulho que não tenho, mas factos insòlitos apparecidos no decurso dos primeiros mêzes da minha residencia na Europa, depois de ter completado a fadigosa jornada d'Àfrica, dictáram as palavras que escrevi.

Ha um anno que principiei a coordenar em livro os resultados dos meus trabalhos Africanos, mas uma pertinaz doença por vêzes interrompeu a vontade que nutria de dar á estampa esses trabalhos.

Principiado em Londres em Setembro de 1879, o meu livro foi quasi tôdo escrito nos mêzes de Setembro e Outubro, de 1880, na Figueira da Foz, em Portugal.

A pressa com que foi terminado contribuirá de certo muito para a incorrecção da forma.

A publicação d'elle é feita em Londres, onde encontrei na grande casa editora Sampson Low, Marston, Searle and Rivington, todas as facilidades que não pude obter fora d'ella.

Estes cavalheiros não recuáram ante a enorme despesa a fazer com uma tão difficil e custosa publicação, e leváram a sua condescendencia a fazer imprimir em Inglaterra a edição Portugueza; trabalho difficilimo, porque a differença das lìnguas dos dois paizes obrigou até á fundição de typo, por causa dos signaes e accentos privativos do nossa idioma.

Devo-lhes a maior gratidão pêlo interesse que t[~e]m dedicado a esta publicação, para o mèrito da qual, se é que ella tivér algum mèrito, elles de certo concorrêram muito.

O S^{nr.} Antonio Ribeiro Saraiva, que, a pesar dos seus trabalhos e da sua avançada idade, me quiz fazer o favor especial de rever as provas do livro; o S^{nr.} E. Weller, o cartògrapho, que se encarregou da gravura das minhas cartas geogràphicas; o S^{nr.} Cooper, que interpretou magnìficamente os meus esbocêtos de viagem nas gravuras que illustram a obra, concorrêram tambem de certo muito para o valor d'ella.

Ahi vai, pois, o livro, e só desejo que elle corresponda e sirva á curiosidade de uns e ao estudo de outros; e venha dar novos incitamentos á grande e sublime cruzada do sèculo XIX., a cruzada da civilisação do Continente Nêgro.

Londres, 61 Gower Street,
5 de Dezembro de 1880.




O TÌTULO DO LIVRO.



Hôje, depois de jantar, sahi a dar um passeio, e de volta a casa, encontrei sôbre a minha mêsa de trabalho, pregado com um alfinete, um pedacinho de papel, recortado não sei de que jornal, que dizia assim:

"O Athenaeum diz, que o Major Serpa Pinto, restabelecido da sua prolongada doença, chegou a Londres, para terminar a publicação do livro descriptivo da sua jornada atravez d'Àfrica. Dá-nos grande satisfação o saber, que o tìtulo d'elle foi alterado, de 'Carabina d'El-Rei,' para o de 'Como eu Atravessei Àfrica.' 'A Carabina d'El-Rei' pode ser um magnìfico tìtulo para um livro de aventuras de rapazes, por Mayne Reid ou Gustave Aimard; mas parece um pouco deslocado na pàgina tìtulo de um livro sèrio de explorador Africano."

É meia noute, e eu sinto necessidade de me deitar; mas antes d'isso não posso deixar de escrever duas palavras sôbre o assumpto.

A consideração tinha e não tinha razão de ser.

As viagens n'Àfrica produzem sempre um romance, e algumas vêzes tambem um livro de sciencia.

A minha, se, como todas, é um verdadeiro romance, não deixa por isso de conter trabalhos geogràphicos de alguma importancia.

Formei logo o projecto, que hôje executo, de misturar em a narrativa esses trabalhos com as minhas aventuras, como elles tinham sido misturados nos sertões Africanos.

A respeito do tìtulo para o livro, nada me preoccupei d'isso.

Sendo salva a expedição, e por isso tôdos os trabalhos que a ella se ligavam, pêla Carabina d'El-Rei, pensei em dar aquelle tìtulo á obra tôda. Não me davam cuidado juizos dos crìticos severos. A minha justificação estaria no correr da narrativa.

Veio porem uma consideração modificar o meu projecto.

Um homem, um ùnico homem no mundo, incapaz de me increpar em pùblico pêlo exclusivismo do tìtulo, de certo pensaria um momento em que eu tinha sido injusto para com elle em fazer sobressahir no meu livro o facto de ter sido salva a expedição pêla Carabina d'El-Rei, quando elle teria igual juz á minha gratidão, tendo-me salvo por seu turno.

Pesou-me aquelle primeiro tìtulo escolhido, como uma injustiça que fazia a Francisco Coillard, quando esse tìtulo me tinha sido dictado sòmente por um sentimento de justiça, porque sou pouco propenso a expressões de adulação.

Resolvi immediatamente conservar o tìtulo de Carabina d'El-Rei á primeira parte da minha narrativa, e dar á segunda o nome de Francisco Coillard, o homem que, salvando-me, salvou os trabalhos da expedição que eu dirigia. Cumpria um devêr.

Mas desde esse momento, era preciso dar um tìtulo geral á obra, e esse não é nunca difficil de se encontrar quando se tem atravessado um continente de mar a mar.

Eis porque o meu livro se chama hoje:--"Como eu atravessei Àfrica."

Sei que pouco deve importar ao pùblico o tìtulo, qualquér, de uma obra d'estas. É preciso chamar-se-lhe alguma cousa, e eu chamei-lhe assim.

Pesar-me-ha se elle desagradar a alguns, mas ainda assim não me preoccupo com isso a ponto de não me ir deitar já, esperando ter um sono profundo durante a noite.

Londres, 61 Gower Street,
12 de Dezembro de 1880, á meia noite.




CONTEÜDO.



PRÒLOGO.


I.--Como eu Fui Exploradôr
II.--Como foi Preparada a Expedição


CAPÌTULO I.

EM BUSCA DE CARREGADÔRES.


Chegada a Loanda--O Governador Albuquerque--Não ha carregadôres--Vou ao Zaire--O Ambriz--Chêgo ao Porto da Lenha--Os resgatados--Sei da chegada de Stanley--Vou a Cabinda--Tomo Stanley a bôrdo da Tâmega--Os officiaes da canhoneira--Stanley meu hòspede--O nosso itinerario--Chegada do Ivens


CAPÌTULO II.

AINDA EM BUSCA DE CARREGADÔRES.


O Governadôr, Alfredo Pereira de Mello--A casa do Governadôr--Cousas de que não tem culpa o Governo da Metròpoli--O que é Benguella--O commercio--Sou roubado--Outro roubo--A Catumbela--Obtenho carregadôres--Chegada de Capello e Ivens--Nova alteração de itinerario--Outra difficuldade--Silva Porto, o velho sertanejo--Apparecem novos obstàculos--O Capello vai ao Dombe--Partida--O que é o Dombe--Novas difficuldades--Partimos emfim


CAPÌTULO III.

HISTORIA DE UM CARNEIRO.


Nove dias no deserto--Falta de àgua--O ex-chefe de Quillengues--Eu perco-me nas brenhas--Dois tiros a tempo--Perde-se um muleque eu e uma prêta--Perde-se um burro--Quillengues emfim--Morte do carneiro


CAPÌTULO IV.

POR TERRAS AVASSALLADAS.


Jornada a Ngola--O sova Chimbarandongo--Belleza do caminho--Chegada a Caconda--José d'Anchieta--Nada de correspondencia--Chegada do Chefe--Vamos aos carregadôres--Ivens vai ao Cunene e eu vou ao Cunene--Volta de casa do Bandeira--Falham os carregadôres--O meu  juizo


CAPÌTULO V.

VINTE DIAS DE AGONIA.


Parto de Caconda--O sova Quissembe--Quingola e o sova Cáimbo--40 carregadôres--Febre--O Huambo, o sova Bilombo e seu filho Capôco--80 carregadôres--Cartas e noticias--Quasi perdido!--Sigo avante--Grave questão no Chaca Quimbamba--Os rios Caláe, Cahungamua e Cunene--Nova e séria questão no Sambo--O Cubango--Chuvas e temporaes--Grave doença--Uma aventura horrivel--O Bihé finalmente!


CAPÌTULO VI.

PEREIRA DE MELLO, E SILVA PORTO.


No Bihé--Doença--Melhoras--A casa de Belmonte--Decido ir ao alto Zambeze--Cartas ao Governo--Como se organiza uma expedição no Bihé--Difficuldades, e como se vencem--Noticia sôbre o Bihé--Os meus trabalhos--Novas difficuldades--Deixo Belmonte--Até ao Cuanza--Escravatura

Rapido Golpe-de-Vista Retrospectivo


CAPÌTULO VII.

ENTRE OS GANGUELAS.


Passagem do Cuanza--Os Quimbandes--O sova Mavanda--Os rios Varea e Onda--Fetus arbòreos--Atribulações--Escravos--O rio Cuito--Os Luchazes--Emigração de Quibocos--Cambuta--O Cuando--Leopardos--Os Ambuelas--O sova Moem-Cahenda--Descida do rio Cubangui--Os Quichobos--Peripecias--Parto para o Cuchibi


CAPÌTULO VIII.

AS FILHAS DO REI DOS AMBUELAS.


O Cuchibi--O sova Caú-eu-hue--Os Mucassequeres--Opudo e Capeu--Abundancia--Bondade dos indìgenas--Povoações e costumes--Um vao no Cuchibi--O rio Chicului--Caçada--Feras--O Rio Chalongo--Uma jornada atroz--As Nascentes do Ninda--O tùmulo de Luiz Albino--A planicie do Nhengo--Trabalhos e fome--O Zambeze a final




LISTA DAS ILLUSTRAÇÕES.



FIG.

1.--Mulheres Mundombes, vendedeiras de carvão
2.--Mulheres e Donzellas, Mundombes
3.--Homens Mundombes (De uma photo. de Monteiro)
4.--Homem e Mulhér do Huambo
5.--Mulhér do Sambo
6.--O meu Acampamento entre o Sambo e o Bihé
7.--Ponte de Cassanha sôbre o rio Cubango
8.--O Secúlo que me deu um Pôrco
9.--Mulheres Ganguelas das margens do Cubango
10.--Termites na margem do rio Cutato dos Ganguelas
11.--Monte termìtico, de 4 metros de altura, nas margens do Rio Cutato dos Ganguelas, coberto de vegetação
12.--Sepultura de Secúlo
13.--Ferreiros Caquingues
14.--1. Folles; 2. Bocal de Barro; 3. Bigorna; 4. Martello
15.--Objectos fabricados pelo gentio entre a Costa e o Bihé
16.--Casa de Belmonte
17.--Vista exterior da povoação de Belmonte, no Bihé
18.--Planta da povoação de Belmonte, no Bihé
19.--Mulhér do Bihé cavando
20.--Carregador Biheno em marcha
21.--Palissada sôlta; Palissada amarrada com Casca de àrvore; Palissada travada com Forquilhas
22.--Planta de uma Libata de gentio no Bihé
23.--Fora da Porta das Libatas ha isto
24.--Objectos fabricados por Bihenos
25.--Quinda, cêsta de palha que não deixa passar a àgua; Peneiro para secar a farinha (fuba); Peneiro de peneirar; Cabaça para tirar àgua á capata
26.--Uma Casquilha do Bihé
27.--Mulheres do Bihé pisando Milho
28.--Mulheres Ganguelas Luimbas e Loenas. Modo por que cortam os Dentes incisivos
29.--Montes termìticos, dos terrenos entre a Costa e o Bihé
29A.--Viagem ao Cunene
30.--Passagem do Cuanza
31.--Homem e Mulhér Quimbandes
32.--Raparigas Quimbandes
33.--Os Bihenos construindo as Barracas nos Acampamentos
34.--Esqueleto da Barraca
35.--Barraca concluida em uma hora
35A.--Ganguelas e Quimbandes
36.--O Sova Mavanda vem dançar mascarado ao meu Campo
37.--Mulhér Quimbande carregada
38.--1. Cachimbo; 2. Facas; 3. Cacêtes de guerra
39.--Ditassoa, peixe do rio Onda
40.--Fetus arbòreos das margens do rio Onda
41.--Mulhér de Cabango com o ferro de coçar a cabeça
42.--Homem de Cabango
43.--Homem de Cabango
44.--O Lago Liguri
45.--Luchaze das margens do rio Cuito
46.--Mulhér Luchaze carregada
47.--Isqueiro dos Luchazes, Caixa da isca e Fuzil
48.--Atundo, Planta e Fruto
49.--Povoação de Cambuta, Luchaze
50.--Mulhér Luchaze de Cambuta
51.--Homem Luchaze de Cambuta
52.--Objectos fabricados pelos Luchazes
53.--Mulhér Luchaze do Cutangjo
54.--Cachimbo Luchaze
55.--Capoeira dos Luchazes
56.--Urivi, Armadilha para caça
57.--Luchaze do Cutangjo
58.--Objectos Luchazes
59.--O Cuchibi
60.--Fôlha e Fruto do Cuchibi
61.--O Mapole, Àrvore e Fôlha
62.--Mapole, Fruto e disposição dos Ramos
63.--Moene-Cahenda, Sova de Cangamba
64.--Chimbenzengue. Machado dos Ambuelas do Cangamba
65.--Cachimbo Ambuela
66.--O Quichôbo
67.--Oúco
68.--Opumbulume
69.--O Rato mencionado
70.--Songue;
70A.--Rasto do Songue
71.--Muene-Caú-eu-hue, Chefe dos Ambuelas
72.--Mulhér Ambuela
73.--Opudo
74.--Capêu
75.--Barco e Remo do Cuchibi
76.--Tambor das festas Ambuelas
77.--Caú-eu-hue
78.--O Irmão do Sova
79.--Caçador Ambuela
80.--Chinguene
81.--Lincumba
82.--Chipulo ou Nhele
83.--O Vao do Cuchibi
84.--Azagaias dos Ambuelas
85.--Ferros de frechas dos Ambuelas
86.--Malanca
87.--1. Cornos vistos de frente; 2. Rasto da Malanca
88.--O Bùfalo Africano
89.--Escudo dos Luinas
90.--O Chefe Cicota
91.--Termites do Nhengo
92.--1 e 2. Casas Luinas de 1^{m.} 5 de altura; 3. Celeiro; 4. Enxada do Lui
93.--Corte vertical de uma Casa Luina da aldea da Tapa



MAPPAS NO VOLUME PRIMEIRO.



Mappa No. 1.--Africa Tropical e Austral
   "   "  2.--De Benguella ao Bihé
   "   "  3.--Entre Cubango e Cuanza
   "   "  4.--O Paiz dos Quimbandes
   "   "  5.--Disposição da àgua em Cangala
   "   "  6.--De Cambuta ao Cubangué
   "   "  7.--Paúl da nascente do Cuando
   "   "  8.--De Cangamba ao Cuchibi




COMO EU ATRAVESSEI A ÀFRICA.


Primeira Parte.--A CARABINA D'EL-REI.





PRÒLOGO.


I.--Como eu fui Explorador.



No correr do anno de 1869, fiz parte da columna de operações que no baixo Zambeze sustentou cruenta guerra contra os indìgenas de Massangano. O S^{nr.} José Maria Latino Coelho, então Ministro da Marinha e Ultramar, dera ordem ao Governador de Moçambique, para que, finda a guerra, me proporcionasse os meios de subir o Zambeze, a fazer um detalhado reconhecimento do paiz, tão longe quanto me fôsse possivel.

A ordem foi dada, mas não foi cumprida; e depois de vãs instancias, e de um ligeiro passeio pelas terras Portuguezas d'Àfrica Oriental, voltei á Europa, com mais desejo que antes, de estudar o interior d'aquelle continente, que mal tinha entrevisto.

Razões particulares de familia fizéram adiar, se não aniquiláram, os meus projectos.

Official do exèrcito, sempre de guarnição em pequenas terras de provincia, fazia das minhas horas de òcio horas de trabalho; e ainda que mal antevia a possibilidade de ir á Àfrica, era o estudo das questões
Africanas o meu ùnico e exclusivo passatempo.

As sublimes questões de astronomia não eram por mim desprezadas, e o muito tempo que me deixava a vida da caserna era repartido entre o estudo da Àfrica e do ceo.

Servia em Caçadores 12 no correr de 1875, e ali tive por camarada um dos mais intelligentes homens que tenho conhecido, o Capitão Daniel Simões Soares.

Pouco depois de havermos feito conhecimento, èramos ligados por estreita amizade.

O quarto mesquinho do illustrado official, na caserna da Ilha da Madeira, reunia-nos durante as horas em que o regulamento nos obrigava a viver ali; e quantas vezes, estando um de nós de serviço, têve a companhia do outro! Àfrica, e sempre Àfrica, era o nosso assumpto de conversação. Apraz-me recordar esse tempo, essas horas que fazìamos correr velozes, debatendo questões, que eu mal pensava seria chamado a resolver um dia.

Em fins de 1875, redigi uma memoria, que submetti á crìtica de Simões Soares, e de outro meu camarada, o Capitão Camacho; memoria filha das nossas interminaveis palestras Africanas.

Propunha eu um meio de estudar parcialmente o interior das nossas colonias de Àfrica Oriental, e isso com a maior economía para o Estado.

Depois de muito debatida a questão por nós tres, foi a memoria enviada ao Governo de Sua Magestade; mas sube depois que nunca chegara ás mãos do Ministro da Marinha.

A esse tempo, eu pensava outra vez em voltar á Àfrica, apesar de ser chefe de familia, e de me prenderem a Portugal interesses de subida importancia.

Por fins de 1876 voltei a Lisboa, e conheci que as questões Africanas tinham ali tomado grande interesse com a creação da Commissão Central Permanente de Geographia, e com a fundação da Sociedade de Geographia de Lisboa.

Falava-se muito n'uma grande expedição geogràphica ao interior d'Àfrica Austral.

Fui procurar immediatamente o Ministro das Colonias. Era o S^{nr.} João d'Andrade Corvo. Se não é facil explorar a Àfrica, não é menos difficil falar ao Ministro, e sôbre tudo se esse Ministro é o S^{nr.} João d'Andrade Corvo. Sua Excellencia tinha a seu cargo duas pastas, Marinha e Estrangeiros, e o tempo não lhe sobejava para falar aos importunos.

Persegui-o uns oito dias, e na vèspera da minha partida de Lisboa, obtive uma audiencia do Ministro dos Negocios Estrangeiros.

Sua Excellencia recebeu-me com secura, dizendo-me, que podia dispôr de pouco tempo, e perguntando-me, ¿o que eu queria?

Travou-se entre nós o seguinte diàlogo:--

"Ouvi dizer, que V. Ex^{a.} pensa em enviar á Àfrica uma expedição geogràphica; e sôbre isto venho falar."

O Ministro mudou logo de tom para comigo, e mandou-me sentar com toda afabilidade.

"¿Já estêve em Àfrica?" me perguntou elle.

"Já estive em Àfrica, conheço um pouco o modo de viajar ali, e tenho-me occupado muito em estudar questões Africanas."

"¿Quer ir fazer uma longa viagem na Àfrica Austral?"

Declaro que hesitei um momento em responder. "Estou prompto a ir," disse por fim.

"Bem;" me disse elle, "penso em enviar uma grande expedição á Àfrica, bem provida de recursos; e quando tratar de organizar o pessoal, não esquècerei o seu nome."

"É verdade"; me disse, quando eu já ia a sahir, "¿que condições e que vantagens pede por esse serviço?"--"Nenhumas," lhe respondi eu, e sahi.

Fui do Ministerio dos Negocios Estrangeiros á Calçada da Gloria, N^{o.} 3, e procurei o D^{or.} Bernardino Antonio Gomes, Vice-presidente da Commissão Central Permanente de Geographia. Tivémos larga conferencia, e o distincto sabio, então todo entregue a questões geogràphicas, disse-me, que já tinha pensado em um distincto Official da nossa Marinha de Guerra, Hermenigildo Capello, para fazer parte da expedição.

No dia seguinte parti para o Norte. A viagem e os ares do campo fizéram arrefècer um pouco o febril enthusiasmo que se apossara de mim em Lisboa, e pensando maduramente, resolvi não ir explorar em Àfrica.

Minha mulhér e minha filha eram laços difficeis de romper, e cada vez que a idéa de me privar das caricias da meiga criança me passava pela mente, arrefècia completamente em mim o ardor das explorações.

De um lado, a familia, e do outro a Àfrica, eram dois poderosos atractivos que me tinham perplexo. Encontrei um meio de resolver a questão. Se eu fosse nomeado Governador de um districto, podia ir estudar uma parte d'Àfrica, sem me separar da familia. Fui collocado no 4 de Caçadores, e na minha viagem para o Algarve, passei alguns dias em Lisboa. Não se falava mais em expedição exploratoria, e apenas um enthusiasta, Luciano Cordeiro, não tinha descrido de que ella se faria; e na sociedade de geographia, de que era Secretario, tinha levantado um alto brado a favor d'ella. O D^{or.} Bernardino Antonio Gomes, já de idade provecta, tinha cedido ao peso do seu incessante labutar, e sentia já os primeiros symptomas do mal que, pouco depois, arrancando-lhe a vida, devia arrancar a Portugal e ao mundo uma das maiores illustrações Portuguezas do sèculo 19.

Eu não conhecia a esse tempo o homem ardente e illustrado a quem hoje me prende verdadeira amizade--Luciano Cordeiro.

Todos aquelles a quem falava de exploração, me diziam ser cousa adiada. Ao passo que o estado em que encontrei as cousas em Lisboa me compungia, pois que via perder-se a luz que um momento brilhara, para dar um impulso harmònico ás explorações Portuguezas em Àfrica; por outro lado, sentia um certo prazer em ver-me, por esse meio, libertado do meu compromisso; compromisso que me separaria dos entes que me sam caros.

Nutri então a idéa de ir governar, e de me estabelecer em Àfrica, n'essa Àfrica em que eu queria trabalhar, sem por isso me separar dos meus.

Fui falar ao Ministro.

D'essa vez fui logo cordialmente recebido. Estranhei o caso, não se falando já de explorações.

"¿O que o traz por aqui?"--"Venho pedir a V. Ex^{a.} o governo de Quillimane, que está vago." O S^{nr.} Corvo rio-se. "Tenho missão de maior monta a confiar-lhe;" me disse; "preciso de si para cousa
differente de governar um districto em Àfrica; e por isso não lhe dou o governo de Quillimane."--

"¿Então V. Ex^{a.} ainda pensa em fazer explorar a Àfrica? Eu com franqueza digo, que hoje não creio que a idéa se realize."--

"Dou-lhe a minha palavra de honra," me disse o Ministro, "que ou hei de deixar de ser João de Andrade Corvo, ou na pròxima primavera, uma expedição organizada como ainda se não organizou expedição alguma na Europa, ha de partir de Lisboa para a Àfrica Austral."--

"¿E conta comigo?"--

"Conto comsigo," me disse, "e em breve terá noticias minhas."

Sahi aterrado do Gabinete do Ministro.

Cheguei ao Hotel Central, e escrevi o seguinte: "Não tenho a honra de o conhecer, mas preciso falar-lhe, e peço-lhe uma entrevista." Sôbreescritei, a "Hermenigildo Carlos de Brito Capello--Official de
guarnição a bordo do couraçado Vasco de Gama."

No dia immediato, recebi a seguinte resposta:--"Estou hoje no Café Martinho, ás 3 horas.--Capello."

Ás tres horas entrava no Café Martinho, e vi que as mesas estavam completamente desertas. Só a uma dellas estava sentado um primeiro tenente de marinha, que eu não conhecia mesmo de vista. Devia ser o meu homem. Bebia pausadamente um grog, e tinha a cabeça descoberta.

Era de mediana estatura, tanto quanto eu pude avaliar estando elle sentado. Moreno, de olhar plàcido; o cabello raro, e grisalho, o pequeno bigode já esbranquiçado, davam-lhe um ar de velhice, que era desmentido pela tez desenrugada, e apresentando o lustre da juventude.

"¿É o S^{nr.} Capello?"--

"Sou; ¿é o S^{nr.} Serpa Pinto? já o esperava, e sei que, provavelmente, vem falar-me d'Àfrica."--

"É verdade. ¿Então está decidido a fazer parte da expedição?"--

"Estou; e já n'isso falei ao D^{or.} Bernardino Antonio Gomes."--

"Foi elle que me falou no S^{nr.}; ¿que compromissos tem?"--

"Nenhuns. Não sei bem o que o Governo quer; falei duas vezes com o D^{or.} Gomes; ainda não vi o Ministro, e apenas lhe posso dizer, que, se for á Àfrica, escolherei para companheiro um meu amigo, e camarada na armada, Roberto Ivens. ¿Conhece-o?"--

"Não o conheço. Falei ao Ministro e elle disse-me, que contava comigo para a expedição."--

"N'esse caso, uma vez que já tem compromissos com o Ministro, eu desisto de ir."--

"¡Ora essa!... então desisto eu."--

"Mesmo, eu não creio que a cousa vá a effeito."--

"Nem eu creio muito; mas emfim, se for a effeito, ¿porque não havemos de ir ambos? Não nos conhecemos, é verdade; mas em breve travaremos ìntimas relações, e creio bem chegaremos a ser amigos."--

"¿E porque não? Então, se a expedição for ávante, iremos juntos, e escolheremos para nosso companheiro ao meu amigo Roberto Ivens."--

"Esta dito. ¿Pensa sèriamente que o Governo votará uma tão grande verba como a que é precisa para uma empresa d'estas?"--

"Não sei, duvido; e agora ùltimamente fala-se menos na expedição."

Conversámos largamente, e separámo-nos; tendo a ìntima convicção de que a expedição nunca se realizaría.

Ainda me encontrei com Capello nos dias seguintes, e depois separámo-nos. Elle seguio viagem no couraçado Vasco da Gama para Inglaterra; e eu fui tomar o commando da minha companhia em Caçadores 4, no Algarve.

Com o descanço da vida de guarnição, voltei ao estudo, e tive a felicidade de encontrar um amigo no Algarve, Marrecas Ferreira, distincto official de Engenheiros, que, meu companheiro nas mesas do trabalho, tinha sempre um bom conselho a dar-me, nas questões mathemàticas, que elle maneja com intelligencia superior. Foi por seu intermedio que travei relações epistolares com Luciano Cordeiro, a quem depois me devia ligar estreita amizade.

Por esse tempo, redigi duas pequenas memorias, que por intermedio de Luciano Cordeiro chegáram ás mãos do Ministro da Marinha, em que tratava do modo de organizar uma expedição de exploração na Àfrica Austral.

Passáram-se mezes, e não mais me faláram de expedição.

Recebi duas cartas do Capello, em que me mostrava a sua completa descrença em que a cousa fosse a effeito. Eu mesmo nutria igual descrença. Na Commissão Permanente de Geographia discutiam-se varios projectos de expedições; mas tudo ficava em discussões.

Um dia, vi nos jornaes, que o Ministro, o S^{nr.} João d'Andrade Corvo, apresentara no parlamento um projecto, pedindo um crèdito de 30 contos para uma expedição em Àfrica; mas, pouco depois, cahio o Ministerio, e foi o S^{nr.} José de Mello Gouvea encarregado da Pasta das Colonias; quando o projecto ainda não tinha sido votado no parlamento.

Tornava-se a falar da projectada exploração; mas os jornaes davam por escolhidos exploradores que eu não conhecia, e ás vezes apenas falavam em Capello.

Eu então estava em Faro, e se me não descurava dos meus estudos astronòmicos e Africanos, ouvindo os conselhos de João Botto, distincto professor da escola de Pilotos de Faro, não nutria já idéas de viajar. O meu tempo era passado entre as caricias da familia e os meus livros de estudo, e sentia-me muito feliz, nos conchêgos do lar domèstico, para pensar em trocar a minha vida plàcida pelo bulicio e azares das viagens.

Seguia com interesse nos jornaes as noticias de Lisboa, e vi que o nôvo ministro, José de Mello Gouvea, havia no parlamento apoiado a proposta de João d'Andrade Corvo, e que fôra votada a somma de 30 contos para uma exploração. A morte de Bernardino Antonio Gomes, vìctima, talves, do muito interesse que dedicou ao estudo das questões Africanas, n'uma idade em que as fadigas passadas lhe aconselhavam completo repouso de espìrito, a morte d'esse eminente sabio, veio produzir um grande vàcuo na Commissão Central de Geographia. Outros, é verdade, tomando grande interesse nas questões palpitantes, levantavam a voz no seio da commissão; mas discussões repetidas iam adiando a pràctica urgente.

Eu, apesar de se ter votado a verba no parlamento, já não via possibilidade de se levar a effeito a expedição em 1877; e em vista do que sabia pela imprensa, não pensava que se lembrassem de mim, se
aquella fosse a affeito; e devo dizel-o, dava-me isso um certo prazer.

O Algarve é um paiz delicioso; reina ali uma atmosphera oriental, e as copas elegantes das palmeiras que se inclinam sôbre as casas em terraços, faz-nos, ás vezes, esquècer de que vivemos no prosaïsmo da Europa. Eu era ali o commandante militar, quer dizer, que afazeres poucos tinha.

O convivio de uma sociedade escolhida; os carinhos da familia; os meus livros de estudo, e os meus instrumentos de observações, faziam-me passar horas bem felizes, d'essa plàcida felicidade que a muitos não é dado conhecer. O lar caseiro, o xambre e os pantufos chegáram a ser para mim o ideal do bem-estar.

Findara o mez d'Abril, e com o de Maio viera o calor, que se faz fortemente sentir em Faro; e eu fazia projectos para o verão; quando, um dia, recebo um telegrama em que me ordenavam de me apresentar immediatamente ao General commandante da Divisão; e ali achei uma ordem para me apresentar sem perda de tempo ao Ministro das Colonias.

Adeos casa, adeos xambre, adeos pantufos, adeos vida tranquilla e plàcida junto dos meus; ahi vôlvo a correr mundo.

Quatro dias depois, em torno de uma grande mesa, n'uma grande sala do Ministerio da Marinha, uma duzia de graves personagens, uns d'òculos, outros sem òculos, uns velhos outros nôvos, todos conhecidos, ou pelas sciencias, ou pelas letras, ou pelos seus serviços pùblicos, tratavam de questões Africanas. Presidía a esta solemne sessão o Ministro José de Mello Gouvêa.

Eram Secretarios D^{or.} José Julio Rodrigues e Luciano Cordeiro. Conde de Ficalho, Marquez de Souza, D^{or.} Bocage, Carlos Testa, Jorge Figaniere, Francisco Costa, o Conselheiro Silva, e Antonio Teixeira de Vasconcellos, lembra-me que estavam ali.

Lá no fundo da mesa a um canto, encaixado na poltrona, estava um homem de basto cabello e basto bigode grisalho, a olhar para mim por entre os vidros da luneta de tartaruga. Era João de Andrade Corvo, que me dizia com o olhar: "Eu bem lhe afiancei que a cousa se havia de fazer."

Junto de mim estava Capello, e ao cabo de duas horas sahìamos d'ali, com as instrucções precisas para a nossa viagem. Tìnhamos escolhido um terceiro socio, e esse era o tenente Roberto Ivens, o amigo de Capello, que eu não conhecia, e que a esse tempo estava em Loanda a bordo do seu navio de guerra. Estàvamos a 25 de Maio, e tomámos o compromisso de partir a 5 de Julho. Era muito, porque tìnhamos que vir preparar a expedição a França e Inglaterra, e só dispùnhamos de um mez para isso.

Então Francisco Costa, Director Geral do Ministerio, tomou a peito desfazer todos os obstàculos que os indispensaveis caminhos burocràticos nos podiam trazer; e andou de modo, que a 28 de Maio eu e Capello partìamos para Paris e Londres, a comprar o que se nos tornava necessario. Levàvamos um crèdito de oito contos de réis.


II.--Como foi Preparada a Expedição.



Em Paris fomos logo procurar a M. d'Abbadie, o grande explorador da Abissinia, e M. Ferdinand de Lesseps.

D'elles ouvímos conselhos e recebémos os maiores obsequios.

Infelizmente, não encontrámos no mercado, nem instrumentos, nem armas, nem artigos de viagem, taes como os desejávamos.

Foi preciso encommendar tudo.

Com uma recommendação especial de M. d'Abbadie, fomos procurar os constructores de instrumentos, e durante 10 ou 12 dias, Lorieux, Baudin e Radiguet trabalhàram para nós.

Walker tinha-se encarregado dos artigos de viagem, Lepage (Fauré) das armas, Tissier do calçado, e Ducet jeune da roupa.

Feitas as encommendas em Paris, seguimos para Londres, e ali comprámos os chronòmetros, em casa de Dent, e alguns instrumentos em casa de Casella; uma boa provisão de sulfato de quinino, e muitos objectos de cautchouc na casa Macintosh, entre elles dous barcos e algumas banheiras.

Procurámos de balde em Londres, como tìnhamos de balde procurado em Paris, um theodolito que tivesse as condições necessarias para uma viagem de tal ordem qual ìamos emprehender. Uns, òptimos para observações terrestres, não tinham as condições precisas para as observações astronòmicas; outros, que reuniam as condições requeridas, eram intransportàveis, já pelo peso, já pelo volume.

Não havia tempo para fazer construir um de propòsito, e de volta a Paris, tivémos de aceitar aquelle que já antes nos tinha sido offerecido por M. d'Abbadie.

Recolhémos, em Paris, tudo o que tìnhamos encommendado, e que tinha sido fabricado em nossa curta ausencia; e no dia 1 de Julho, desembarcàvamos eu e Capello em Lisboa, completamente preparados para a nossa viagem; podendo assim cumprir o nosso compromisso, de partir para Loanda no paquete de 5. Tìnhamos feito os preparativos em 19 dias.

Quando eu estudava o modo de me preparar para uma longa viagem em Àfrica, tinha procurado sem resultado em livros de viagens, o modo porque se haviam preparado outros viajantes.

Em todas as narrativas havia escassez de informações a esse respeito, e lembra-me ainda o quanto isso me enfadou.

Resolvi logo, se um dia chegasse a fazer uma viagem em Àfrica, e se d'ella escrevesse a narrativa, não ser omisso n'essa parte, e dizendo quaes os objectos de que me provi, dizer quaes os que me prestáram
serviços reaes, e quaes os que me fôram carga inutil.

A historia das explorações d'Àfrica está no seu comêço.

Muitos exploradores me succederám em Àfrica, como eu succedi a muitos, e creio fazer um bom serviço áquelles que depois de mim se aventurarem no inhòspito continente, apresentando-lhes agora uma relação dos objectos de que me provi; e logo, no correr da minha narrativa, as vantagens ou os inconvenientes que n'elles encontrei.

Segundo as instrucções que do Governo tinha recebido, podia demorar-me tres annos em viagem, e para isso me preparei.

A experiencia tinha-me mostrado, o grave inconveniente de me sôbrecarregar de bagagens; e francamente declaro, que fiquei aterrado quando, em Lisboa, vi o enorme trem comprado em Paris e Londres.

Só malas tìnhamos 17! todas das mesmas dimensões, 0^m,3 x 0^m,3 x 0^m,6.

Uma era toucador perfeito, contendo um grande espelho, uma bacia, caixas para escovas e mais objectos competentes; outra continha um serviço de meza e chá para tres pessôas; e uma terceira o trem de cozinha.

Tres outras malas de forte sola deviam conter cada uma o seguinte:--4 frascos de quinino, uma pequena pharmacia, um sextante, um horizonte artificial, um chronòmetro, umas tàbuas logarìthmicas, umas ephemèrides, um aneroide, um hypsòmetro, um thermòmetro, uma bùssola prismàtica, uma bùssola simples, um livro em branco, lapis, papél e tinta; 50 cartuxos para cada arma; um vestuario completo, e tres mudas de roupa branca; isca, fusil, pederneiras, e alguns pequenos objectos de uso pessôal.

Cada uma d'estas malas tinha na parte superior um estojo de costura, escrivaninha e logar para papél. Eram pessôaes, e pertencia cada uma a um de nós.

As outras 10 malas continham indistinctamente roupas, calçado, instrumentos, e outros objectos de reserva. Todas tinham fechaduras iguaes e abriam com a mesma chave.

A nossa barraca era uma tente marquise de 3 metros de lado por 2^m, 3 de alto. As camas eram de ferro, fortes e còmmodas. As mesas de tezoura, os bancos e cadeiras de lona.

Todos estes artigos fôram da fàbrica de Walker.
 
Cada um de nós tinha uma carabina magnìfica de calibre 16, cujos canos, forjados por Leopoldo Bernard, tinham sido cuidadosamente montados por Fauré Lepage.

Uma espingarda do mesmo calibre da fàbrica de Devisme, uma Winchester de 8 tiros, um revólver e uma faca de mato completavam o nosso armamento.

Em Lisboa tinha eu encommendado na Confeitaria Ultramarina 24 caixas, das mesmas dimensões das malas, contendo, em latas cuidadosamente soldadas, chá, café, assucar, hortaliças secas, e farinhas substanciaes. Hoje devo aqui lavrar um alto agradecimento ao S^{nr.} Oliveira, proprietario da mesma fàbrica, pelo escrùpulo que têve na escôlha dos gèneros que nos forneceu, e que muito nos servìram no comêço da viagem.

Os instrumentos que levámos fôram os seguintes: 3 sextantes, sendo um de Casella, de Londres; um de Secretan, e um de Lorieux, verdadeiro primor. Dois cìrculos de Pistor, fabricados por Lorieux, com dois horizontes de espelho, e os competentes nivéis. Um horizonte de mercurio de Secretan. Tres lunetas astronòmicas de grande fôrça, duas de Bardou e uma de Casella. Tres pequenos aneroides, dois de Secretan e um de Casella; 4 pedòmetros, dois de Secretan e dois de Casella. 6 bùssolas de algibeira; 1 bùssola Bournier de Secretan; 3 outras azimutaes, duas de Berlin e uma de Casella; 2 agulhas circulares Duchemin; 6 hypsòmetros Baudin, 1 de Casella, 3 de Celsius de Berlin, dois mais muito sensiveis de Baudin; 12 thermòmetros de Baudin, Celsius e Casella; 1 baròmetro Marioti-Casella; 1 anemòmetro Casella; 2 binòculos Bardou; 1 bùssola de inclinação, e um apparelho de fôrça magnètica, que nos fôram obsequiosamente emprestados pelo Capitão Evans, por entremedio de M^{r.} d'Abbadie. E finalmente, o theodolito universal d'Abbadie, que tem o nome de Aba, e que tão cavalheirosamente nos foi cedido pelo seu inventor.

Armas, instrumentos, bagagens, todos os artigos, enfim, tinham gravado o seguinte letreiro--Expedição Portugueza ao interior d'Àfrica Austral, em 1877.

Duas caixas, contendo o necessario para conservar exemplares zoològicos e botànicos nos fôram enviadas pelos S^{nrs.} D^{or.} Bocage e Conde de Ficalho.

Ferramentas dos diversos officios augmentavam este enorme trem, com que ìamos deixar Lisboa, para nos internarmos nos sertões desconhecidos da Àfrica Austral.




CAPÌTULO I.

EM BUSCA DE CARREGADORES.



Chegada a Loanda--O Governador Albuquerque--Não ha carregadores--Vou ao Zaire--O Ambriz--Chego ao Porto da Lenha--Os resgatados--Sei da chegada de Stanley--Vou a Cabinda--Tomo Stanley a bordo da Tâmega--Os officiaes da canhoneira--Stanley meu hòspede--O nosso itinerario--Chegada do Ivens.


No dia 6 de Agosto de 1877, chegàvamos a Loanda, no vapor Zaire, do commando de Pedro d'Almeida Tito, a quem aqui lavro um testemunho affectuoso de muita gratidão, pelos favores que me dispensou durante a viagem.

Desde a minha saïda de Lisboa, uma preoccupação constante me perseguia. A nossa bagagem era enorme, e tinha de ser ainda muito aumentada, com fazendas, missangas e outros gèneros, que seriam a nossa moeda no sertão.

Em todos os livros de viagens, n'esta parte do continente Africano, li eu as difficuldades em que se encontráram muitos exploradores, por não poderem obter o nùmero sufficiente de carregadores para as cargas indispensaveis. ¿Como os obteria eu? Em Cabo-Verde sube, que uma carta que eu e Capello tìnhamos dirigido ao Ivens não fôra por elle recebida; pois que sube ali, por um telegrama, que Ivens estava em Lisboa, e por isso não podia ter satisfeito ao pedido que n'aquella carta lhe fazìamos, de estudar a questão, e ver se nos obtinha em Loanda os auxiliares precisos. Uma tentativa feita em Cabo-de-Palmas ficou sem resultado, e apesar do apoio que nos prestou o Capitão Tito, nem um só keruboy podémos ajustar ali.

Chegámos finalmente a Loanda, e fomos hospedar-nos em casa do S^{nr.} José Maria do Prado, um dos primeiros proprietàrios e capitalistas da Provincia de Angola, que immediatamente poz á nossa disposição, uma das muitas casas que possue na cidade; casa com accommodações bastantes para receber o enorme trem da expedição.

Do S^{nr.} Prado recebemos innùmeros favores. Na noite do dia 6, fomos procurados por um dos ajudantes-de-campo de Sua Excellència o Governador-Geral, que vinha, em nome do S^{nr.} Albuquerque, fazer-nos os mais cordiaes offerecimentos.

No dia 7, procurámos o Ex^{mo.} Governador, que nos recebeu affectuosamente, mostrando a maior benevolencia em desculpar os meus trajos, que, òptimos para a vida do mato, eram, a não poder ser mais, ridìculos para uma visita ceremoniosa.

O S^{nr.} Albuquerque, depois de nos assegurar, que nos daria a maior assistencia nas terras do seu governo, concluio por nos mostrar a impossibilidade de obtermos carregadores.

Creio que nada mais desagradavel pode haver para quem quer viajar em Àfrica, e tem 400 cargas, do-que dizer-se-lhe: Não ha carregadores.

Decidí immediatamente ir ao Norte da provincia ver se por ali os poderia contratar; e n'esse sentido pedi ao S^{nr.} Albuquerque, me mandasse transportar ao Zaire.

O só navio de guerra que podia ser posto á minha disposição andava cruzando na foz do Zaire; resolvi d'ir procural-o, e no dia 8, parti n'um escalér, tripulado por 8 prêtos cabindas, que me foi fornecido pela
capitanía do Porto. Levava ordens do Governo para o commandante da canhoneira. Não ha nada mais desagradavel do-que fazer uma viagem de 120 milhas em um escalér. De Loanda ao Ambriz comi apenas umas sardinhas e bolachas. Tendo resolvido fazer a viagem no escalér no mesmo dia da partida, não tive tempo de fazer preparativos.

No dia 9, ao anoitecer, chegava ao Ambriz, bonita villa assente no planalto de um còmoro, cujas escarpas, de 25 metros, sam cortadas a prumo sôbre o mar.

Fazia as vêzes de chefe, um empregado de fazenda, o S^{nr.} Tavares, que caprichou em obsequiar-me, assim como tôdos os habitantes da villa, mormente o S^{nr.} Cordeiro, em casa de quem estive hospedado.

Esperava-me no Ambriz Avelino Fernandes. Tive a felicidade de conhêcer Avelino Fernandes a bordo do vapor Zaire, e relações ìntimas se estabelecêram entre nós.

É filho das margens do Zaire, e tem grande paixão por esse rico solo, onde as àrvores gigantescas da floresta virgem lhe assombráram o berço. Tem 24 annos. A côr morena e o cabello crespo indicam que nas suas veias, de envolta com o sangue Europêu, gira o sangue Africano. Rico, dotado de uma esmerada educação, adquirida nos principaes centros da Europa, e que uma intelligencia superior soube desenvolver, é o verdadeiro typo do cavalheiro palaciano, que não se pôde conhêcer sem que a elle nos prenda logo verdadeira sympathìa. As muitas relações que elle tinha no Zaire podiam facilitar-me os meios de arranjar ali carregadores.

Sube no Ambriz que a canhoneira Tâmega devia chegar áquelle ponto dentro de dois dias; e por isso resolvi esperal-a.

A viagem de Loanda no escalér não me tinha deixado recordações tão fàgueiras, para que eu persistisse em continuar para o norte da mesma forma.

No dia 10, fui visitar a villa e seus suburbios, e em dois traços vou narrar o que vi.

Do planalto em que assenta a povoação Europêa, desce-se para a praia por um caminho em zigzag, que estava sendo reconstruido por alguns grilhetas. Na praia, entre dois soberbos edificios, que sam armazens das casas commerciaes Franceza e Hollandeza, ostenta-se um albergue, meio-derrocado pêla velhice, meio-em-construcção recente não-continuada, que é a Alfàndega; Alfàndega sem depòsitos, onde as fazendas, arrumadas á porta sôbre o areal, pagam um irrisòrio tributo de armazenagem. A N.N.E. da villa, muitos hectares de terreno sam occupados por um pàntano, inferior de 3 metros e 12 centìmetros ao maior preamár; e na encosta da escarpa que do planalto da villa desce ao pàntano, assentam as cubatas da povoação indìgena, nas peiores condições de salubridade. Ao sul da villa, entre umas moitas de mato virgem, é o cemiterio--onde os cadàveres enterrados de dia, sam pasto das hyenas á noite.

A ponte de desembarque, construida de ferro e madeira, está prestes a ser inutilizada; porque a oxidação do ferro em contacto com o ar e a àgua, produz-se cêdo; e a ponte não foi pintada, não ha verba para sua conservação, nem alguem que por ella vigie.

A casa do chefe é um pardieiro derrocado, onde ha verdadeiro perigo em habitar.

O paio ameaçava ruina; e isso fêz-me impressão, porque elle contém a pòlvora do commercio, que não rende menos de duzentos mil réis mensaes para o Estado.

É bem de esperar, que nos dois annos decorridos depois da minha visita ao Ambriz, se tenham dado mais cuidados áquella bonita villa, cuja importancia é patente, sendo um grande centro de commercio.

Um kilòmetro ao N. da ponte de desembarque, lança no Atlàntico as suas àguas o rio Loge, cuja foz é obstruida por um banco de areia, que lhe dá difficil accesso, mas que depois é navegavel por uns trinta kilòmetros.

No dia 11, fui visitar a importante propriedade agrìcula, fundada pêlo cèlebre Jacintho do Ambriz, e hôje pertença de seu filho Nicolao. Esta propriedade representa um dos maiores esfôrços feitos na provincia de Angola, para o desenvolvimento da agricultura.

Jacintho do Ambriz foi levado á Àfrica por uma desgraça ìntima. Filho do povo, sem a menor instrucção, não sabendo mesmo ler ou escrever (mas dotado de uma razão clara, de um espìrito fino, e de muita felicidade), chêgou a fazer uma grande fortuna. Jacintho casou no Ambriz com uma mulhér da sua igualha. Era a tia Leonarda, mais conhêcida por tia Lina, natural da Beira-Alta; e em 1877, a conhêci eu vestida sempre á moda das camponezas da Beira, falando a linguagem vulgar que fala o pôvo
d'aquella provincia, como se de lá tivêsse chêgado. Na sua casa comi um jantar beirense, e por um momento julguei-me transportado a uma das hospitaleiras casas dos nossos lavradores do Norte. A tia Lina entrou muito na felicidade que levou Jacintho á riqueza.

Jacintho fazia o commercio, e esse commercio, na Àfrica, obriga a dois distinctos ramos:

Adquirir dos brancos fazendas, e vender-lhes os productos do paiz; e adquirir dos prêtos esses productos, vendendo-lhes as fazendas.

Era Jacintho que fazia o commercio com os brancos, e a tia Lina com os prêtos.

Jacintho, dotado de uma alma generosa, era muitas vêzes vìctima da sua boa fé, e das extorções de alguns chefes; o que provocava uma phrase á tia Lina, que eu muitas vêzes ouvi repetir: "Ah! Jacintho, os brancos esmagam-te; mas eu esmago os prêtos!"

O verbo empregado pêla tia Lina não era precisamente o verbo esmagar, mas, por muito enèrgico, substituo-lhe outro algo semelhante.

Um dia, Jacintho deu em ser lavrador. Era a costumeira de criança que puxava por elle. Comprou terreno, e lançou os fundamentos d'essa vastissima propriedade que é digna de ser visitada; e á qual dedicou o seu trabalho e a sua bôlça, até ao ùltimo momento de vida que têve.

Era Jacintho conhecido por estropiar as palavras, e citam-se d'elle tolices engraçadissimas, pêlo mao emprego de um ou de outro vocàbulo que decorara, mas cuja significação não conhecia bem; com tudo, tinha muito espìrito, e ha d'elle anecdotas engraçadas. Esta por exemplo:

Já elle se achava estabelecido na sua propriedade do Loge; mas, logo que ao porto chêgava navio de guerra Portuguez, ia a bordo fazer offerecimentos aos officiaes; que de genio era franco.

Um dia que elle fôra a bordo, o commandante pediu-lhe um macaco. "¿Quantos quizér?" lhe respondeu Jacintho; "mande ámanhã um escalér, pelo Loge até minha casa, buscal-os."

No dia seguinte, um escalér, tripulado por seis homens, encostava ao muro do jardim de Jacintho. Fêz elle subir o escalér até dois kilòmetros mais, e chêgando á vertente de um monte coberto de gigantes baobabs, em cujos ramos horizontaes pulavam centos de macacos, disse aos marinheiros: "Tôdos estes macacos sam meus, vivem cá dentro da minha propriedade; tendes licença de apanhar quantos quizerdes e leval-os ao commandante."

Os marinheiros encaráram com os cimos elevadissimos das enormes àrvores, cujos troncos, de espantoso diàmetro, não lhes permitiam a subida; e depois de alguns vãos esfôrços, retiráram desanimados, perseguidos pêla grita e pêlas caretas da macacaria.

"Eu dei-lhos; se os não levam, não é culpa minha," dizia o Jacintho, rindo ás gargalhadas.

Visitei a propriedade, e uma cousa que me impressionou foi ver, que, màchinas, apparelhos, instrumentos, etc., tudo era de fàbrica Portugueza.

Nada Jacintho admitia que não fôsse Portuguez, e, custassem-lhe o dôbro, fazia elle fabricar em Lisboa tôdos os seus artigos, já para a agricultura, já para a industria.

A memoria d'esse homem obscuro--mais conhêcido pêlos disparates que dizia, do-que pêlas muitas cousas acertadas que fêz--dêve ser respeitada por tôdos os que se interessam pêlo desenvolvimento Africano; porque elle foi o homem que, nos modernos tempos, maior serviço fêz, para desenvolver a agricultura em colonia Portugueza, empregando n'isso a sua immensa fortuna, e trabalhando até ao seu ùltimo dia.

Na margem esquêrda do Loge, assenta outra propriedade agrìcula, tambem importante, pertencente ao S^{nr.} Augusto Garrido. Não tive tempo de a visitar, porque, no dia que ali passei, não pude esquivar-me aos muitos favores de Nicolao e tia Lina, e tudo o tempo foi pouco para admirar o que ali, no brejo agreste, a vontade do homem tinha feito.

No dia seguinte, chêgou a canhoneira Tâmega, e sube, indo a bordo, que se achava sem mantimentos, e com grande nùmero de praças doentes; motivo por que combinei com o commandante, o S^{nr.} Marques da Silva, esperal-o no Ambriz, em quanto ia a Loanda refrescar.

Três dias depois chêgou a Tâmega de volta de Loanda; indo eu logo para bordo, com Avelino Fernandes, seguímos viagem no mesmo dia para o Zaire.

Eu tinha adoecido com uma bronchites aguda, de que felizmente melhorei logo que comêçou a viagem.

Subímos o Zaire até ao Porto da Lenha, onde desembarquei com Avelino Fernandes, que me apresentou aos seus amigos d'ali. Falei logo em carregadores. Disséram-me, que seria, talvêz, possivel obtel-os, se os chefes indìgenas me quizêssem auxiliar; mas que, o melhor meio para mim, era resgatar escravos, e em seguida contratal-os para o serviço que eu exigia.

Repugnou-me a idéa de comprar homens, embora fôsse para os libertar em seguida. E depois, ¿quem sabe se elles me quereriam acompanhar sendo livres?

Resolvi immediatamente não proceder d'este modo, embora não obtivêsse um só carregador ali.

Na casa em que estava sube que tinha chêgado a Boma, no dia 9, o grande explorador Stanley, que descera tudo o curso do Zaire. Stanley tinha seguido para Cabinda.

Voltei a bordo e combinei com o Commandante irmos a Cabinda offerecer os nossos serviços ao arrojado viajeiro. Partímos, e logo que ancorámos no porto, fui a terra, com Avelino Fernandes e alguns officiaes da canhoneira.

Foi commovido que apertei a mão de Stanley, homem de pequena estatura, que a meus olhos assumia proporções de vulto colossal.

Offereci-lhe os meus serviços, em nome do Governo Portuguez, e disse-lhe, que se quizêsse ir a Loanda, d'onde mais facilmente poderia obter transporte para a Europa, o Commandante Marques lhe offerecia transporte a elle e aos seus a bordo da canhoneira. Em nome do Governo Portuguez puz á sua disposição o dinheiro de que carecêsse.

Stanley respondeu-me com um vigoroso aperto-de-mão.

Os officiaes da Tâmega confirmáram os meus offerecimentos em nome do seu Commandante.

Stanley aceitou, e desde esse momento, ficou a canhoneira á sua disposição.

Como bem se pôde calcular, eu e Avelino Fernandes não deixàvamos Stanley, e àvidos de ouvir a narração da sua viagem, o tempo que elle tinha preso, era por nós passado a questionar os seus homens.

No dia 19, os officiaes da Tâmega déram um soberbo banquête ao intrèpido explorador, para o qual convidáram o Commandante Marques, Fernandes e a mim.

No dia 20, partímos para Loanda, levando a bordo tôda a comitiva de Stanley, que se compunha de 114 pessôas, entre ellas 12 mulhéres e algumas crianças.

Stanley, em Loanda, foi hospedar-se em minha casa; distincção a que eu fui muito sensivel, porque recusou, para isso, os muitos convites que têve, e com elles commodidades que eu não podia offerecer-lhe, n'uma casa onde tinha por mobilia os meus utensilios de viajeiro.

O Governador mandou logo comprimentar o ilustre Americano, e offereceu-lhe um banquête, a que assisti. De volta a casa, perguntei a Stanley, ¿qual a impressão que trazia do S^{nr.} Albuquerque? E elle disse-me apenas: "He is a very cold gentleman." ("É um cavalheiro mui frio.")

O Consul Americano, o S^{nr.} Newton, deu-nos um almôço, e muitos favores nos dispensou.

Haviam festas e banquêtes; mas, a 23 de Agôsto, ainda não tìnhamos um só carregador; e na noite do jantar offerecido a Stanley pêlo Governador, me repetira sua Excellencia, que não me seria possivel obtel-os, sôbre tudo em Loanda; mostrando-me a difficuldade em que se encontrara o Major Gorjão, que apenas tinha podido obter metade do nùmero de homens de que precisava, para estudar a linha ferrovial do Cuanza.

É tempo de falar dos nossos projectos, segundo a lei, e as instrucções do Governo.

O Parlamento votara uma somma de 30 contos de réis para se estudarem as relações hydrogràphicas entre as bacias do Congo e Zambeze, e os paizes comprehendidos entre as Colònias Portuguezas de uma e outra costa d'Àfrica Austral.

Umas instrucções subsequentes indicavam mais particularmente o estudar-se o rio Cuango, nas suas relações com o Zaire; o estudo dos paizes comprehendidos entre as nascentes do Cuanza, Cunene, Cubango, até ao Zambeze superior; indicando, que, se possivel fôsse, deveria estudar-se o curso do Cunene.

O que fôra designado na lei do Parlamento, elaborada pêlo S^{nr.} Corvo, parece ao principio problema vasto de mais para uma só expedição, e uma verba de trinta contos de réis; mas a lei foi bem redigida. O S^{nr.} Corvo sabía, que o viajante em Àfrica, não só nem sempre é senhor dos seus passos, mas tambem, que no seu caminho pôde encontrar um não-previsto problema, que julgue de importancia superior á do que lhe foi designado; e por isso deixou a maior latitude aos exploradores.

Quanto ás instrucções, fôram ellas mais restrictas, mas ainda assim, deixavam bastante largos os movimentos da expedição.

O ponto de entrada, como dependia essencialmente do logar onde obtivèssemos carregadores, ficou indeterminado.

Tìnhamos eu e Capello pensado em entrar por Loanda, seguir a leste, até encontrar o Cuango; descer este rio por dois graos; passarmos ao Cassibi, que intentàvamos descer até ao Zaire; e finalmente, reconhêcer o Zaire até á sua foz.

Com a chêgada de Stanley, tendo elle feito uma parte do trabalho que nós propunhamos fazer, e sôbre tudo a impossibilidade de obter carregadores em Loanda, tivémos de modificar completamente o nosso plano.

Decidímos, que fôsse eu ao Sul procurar carregadores em Benguella; e que, se ali os obtivêsse, entràssemos pêla foz do rio Cunene, subindo-o até ás suas nascentes; e depois seguìssemos com os nossos estudos para S.E., até ao Zambeze.

Como não podìamos ter grande confiança na gente que ajustàssemos, lembrámo-nos de pedir ao Governador um certo nùmero de soldados, que fôssem, por assim dizer, a escolta de vigia. Sua Excellencia accedeu e mandou saber aos regimentos, se alguns soldados nos quereriam acompanhar; porque, não sendo aquelle serviço regular, não podia compellir os soldados a irem.

Ficou, pois, decidido, que eu partisse para Benguella no vapor que no principio de Setembro devia chêgar de Lisboa.

N'esse vapor veio o Ivens, que pêla primeira vêz eu via. Sympàthico, ardente, dotado de grande verbosidade, e muito enthusiasmado pêlas viagens difficeis, depressa me ligou a elle a amizade. Narrámos-lhe tudo o que resolvêramos fazer, e as difficuldades que tìnhamos encontrado até então. Ivens concordou com-nosco, e ficou definitivamente resolvida a minha partida para Benguella, no dia 6.

Preparei-me logo para partir, e fui dar parte d'isso ao Governador.

Durante a minha ausencia os meus companheiros deviam preparar as bagagens, que estavam em grande desarranjo, com a nossa precipitada partida da Europa.

Cabe aqui contar um episodio que me aborreceu bastante; porque poderia ter feito, que Stanley julgasse do caracter meu e dos meus companheiros, differentemente do que o devia fazer.

No dia 5, ao almôço, conversàvamos eu, Capello, Ivens, Stanley e Avelino Fernandes, a respeito da escravatura, e mostràvamos a Stanley o espìrito das leis Portuguezas sôbre o infame tráfico; notando-lhe a falsidade de asserções de estrangeiros a nosso respeito; e a impossibilidade de fazer então escravos onde o Governo tinha força. Discorrìamos ácerca do assumpto, quando Capello têve de ir a Palacio falar ao Governador.

Voltou uma hora depois, e logo em seguida recebia Stanley uma carta official do S^{nr.} Albuquerque, a pedir que lhe certificasse, ¿se nas terras do seu governo se fazia escravatura? Stanley veio sorprendido
mostrar-me a carta, e não menos sorprendidos ficámos eu, os meus companheiros, e Avelino Fernandes. Effectivamente, a nossa conversação ao almôço, e aquella carta depois de um de nós ir a Palacio, pareceria ao illustre viajante uma comedia habilmente preparada.

Stanley podia certificar a sua Excellencia, que a bordo da Tâmega, em minha casa, em casa de sua Excellencia, e na do Consul Newton, não tinha visto fazer escravatura. Fora d'isto, Stanley, como sua Excellencia muito bem sabía, só por informações nossas poderia falar, convivendo quasi exclusivamente com-nosco, e não tendo visitado ponto algum do paiz governado pêlo S^{nr.} Albuquerque. Era querer o S^{nr.} Governador viesse Stanley a pagar caro um jantar e os seus favores, pedir-lhe um certificado que elle Stanley nunca deveria ter passado.

Stanley, creio eu, fêz-nos a justiça de pensar que èramos estranhos áquella carta.

No dia 6, parti para Benguella, levando cartas do S^{nr.} José Maria do Prado para alguns particulares, e nem uma recommendação para o Governador do Districto, que eu não conhecia.

Ia outra vêz á busca de carregadores, que eu, Portuguez, não tinha podido obter em Loanda, e que, 4 mezes depois, tinha ali obtido um estrangeiro, o explorador Schutt, que não encontrou as menores difficuldades, para seguir o primeiro caminho que nós tìnhamos tencionado seguir.

Em viagem conheci um passageiro que me disse ser possivel obter alguns carregadores em Nôvo Redondo, e que se comprometteu a contratar ali uns 20 ou 30.

Foi já um pouco animado com esta promessa, que chêguei a Benguella, no dia 7 á noite; e ainda que levava cartas de recommendação para alguns negociantes, fui procurar o Governador, e pedir-lhe hospedagem.




CAPÌTULO II.

AINDA EM BUSCA DE CARREGADORES.



O Governador, Alfredo Pereira de Mello--A casa do Governador--Cousas de que não tem culpa o Governo da Metròpoli--O que é Benguella--O commercio--Sou roubado--Outro roubo--A Catumbela--Obtenho carregadores--Chêgada de Capello e Ivens--Nôva alteração de itinerario--Outra difficuldade--Silva Porto, o velho sertanejo--Apparecem nôvos obstàculos--O Capello vai ao Dombe--Partida--O que é o Dombe--Nôvas difficuldades--Partimos emfim.


Alfredo Pereira de Mello,[1] Governador de Benguella, ao ouvir o meu pedido de hospedagem, mostrou um embaraço que percebi, e disse-me, que não tinha meio de me receber em sua casa. Sorprendeu-me o caso, sabendo eu que o Governador era bizarro de genio e de natureza franco. Tive convites, logo á minha chegada, já de Antonio Ferreira Marques, já de Cauchoix; mas persisti no intento de hospedar-me em casa do Governador.

Elle disse-me, que não tinha cama a offerecer-me, e eu mostrei-lhe a minha cama de viagem; porque fui logo pondo em casa d'elle a minha bagagem. Disse-me, que não tinha quarto; apontei-lhe para um canto da sala em que estàvamos, onde ficaria òptimamente.

Não havia mais que dizer, e fiquei. Aguçava-me a curiosidade a resistencia do Governador em negar-me a hospitalidade que pedia; mas cêdo desvendei o misterio.

Alfredo Pereira de Mello era homem nôvo, ainda que tinha já uma patente superior na armada. Sympàthico e intelligente, é estimado por tôdos aquelles que o conhêcem de perto; porque a uma finissima educação, reune grande rectidão de caracter, e a energía peculiár a tudo bom marinheiro. Serviu na marinha Ingleza, e tem de viagens larga pràtica.

Vio as Amèricas, e antes de ir para Àfrica como Ajudante-de-Campo do Governador Andrade, tinha visitado a India, a China e o Japão.

O Governador, que já me conhêcia de nome, ao ouvir o meu pedido, esquèceu que tinha diante de si o explorador, para só se lembrar do homem habituado a viver no meio do luxo e das commodidades. Pereira de Mello têve vergonha de hospedar-me.

Um Governador de Benguella, se é recto e probo, vive mesquinhamente com a paga que recebe.

A casa do governo é arrendada. A mobilia, um pouco menos de modesta, guarnece a sala e um quarto.

Na sala, destoa da mobilia, ricamente amoldurado, um retrato d'El-Rei, o melhor que tenho visto.

E com-tudo a este porto, v[~e]m repetidas vêzes navios de guerra estrangeiros, cujos officiaes visitam o Governador, regalam-n-o a bordo; e elle nem um copo d'àgua lhes pôde offerecer em sua casa, porque a prêta ou o muleque tem de trazer o côpo n'um prato velho. O serviço de mesa era, creio eu, a espada de Damocles suspensa sôbre a cabêça de Pereira de Mello, ao ouvir a minha teimozía em ficar. Não tinha razão. O asseio que presidía a tudo, suppría o vidrado da louça gasto com o tempo, e os manjares simples, mas bem cozinhados, avivavam o appetite já derrancado pêlos ares Africanos; e não se offenda o cozinheiro do Hotel Central em Lisboa, se eu lhe dizer, que comi melhór em casa do Governador de Benguella do que comia dos seus opìparos manjares, ainda que a prêta Conceição, cozinheira do Governador, nunca ouvio falar do heroe das caçarolas, o cèlebre Brillat-Savarin.

Pereira de Mello, logo ao primeiro dia de convivencia, abrio-me o seu coração, mostrando-me a menos que singeleza da sua vida interior. Três officios dirigidos ao Governo da Provincia, em que pedia autorização para fazer algumas reformas caseiras, tinham ficado sem resposta.

Isto não é de estranhar, porque foi sempre assim.

Em um copiador de correspondencia, que existe nos archivos do Governo de Benguella, li eu uns officios datados de 1790, em que o Governador de então já se queixava a El-Rei das mesmas faltas; por a ellas lhe não dar remedio o Governador Geral da Provincia, e entre outras cousas que pede com urgencia, figuram os reparos para duas peças de bronze que designa, e que ainda hôje os carecem.

Sam as mesmas de que fala Cameron; o que elle vai saber agora é, que os reparos já fôram encommendados e não podem tardar em chegar; porque, sendo a encommenda d'elles feita em 1790, dêve estar quasi concluida a sua construcção.

Benguella é uma bonita cidade, que se estende desde a praia do Atlàntico até ao sopé das montanhas que formam o primeiro degrao do planalto da Àfrica tropical. É cercada de uma espessa floresta, a Mata do Cavaco, ainda hoje povoada de feras; e isso não admira, que os Portuguezes, em geral, de caçadores não t[~e]m manhas. As habitações dos Europêos occupam uma grande àrea, porque todas as casas t[~e]m grandes quintaes e dependencias.

Os quintaes sam cuidados; produzem todas as hortaliças da Europa, e muitos frutos tropicaes.

Vastos pàteos cercados de alpendres servem para dar guarida ás grandes caravanas que do sertão descem á costa em viagem de tràfico, e que repousam três dias na casa onde effeituam as permutações.

Um rio, que na estação estía apenas é larga fita de àrea branca, que se desenrola das montanhas ao mar, a travez da floresta do Cavaco, é ainda assim a grande fonte de Benguella, que os poços ali cavados dam àgua boa philtrada pêlas àreas calcàreas.

Nas ruas da cidade, largas e direitas, crecem dois renques de àrvores, pela maior parte figueiras sycòmoros, de pouco arraigadas, e por isso ainda pequenas. As praças sam vastas, e em uma ajardinada, crescem bonitas plantas de vistoso aspecto.

As casas, todas terreas, sam construidas de adôbes, e os pavimentos sam, em umas de tijolos, e de madeira em outras.

A alfàndega é bom edificio, recentemente construido, e tem vastos armazens para as mercadorias do tràfico. Esta alfàndega, e o largo ajardinado, como outros melhoramentos de Benguella, fôram de um Governador, Leite Mendes, que de si deixou rasto.

Uma ponte magnìfica de architraves de ferro, creio que encommendada pêlo mesmo Leite Mendes, mas muito posteriormente montada pêlo Governador Teixeira da Silva, é guarnecida por dois guindastes e carrís, por onde, em vagonetes, se transportam as mercadorias das lanchas á alfàndega. Eu aqui commetti um erro de grammàtica, escrevendo o verbo transportar no presente do indicativo, quando no condicional é que era.

Transportariam, se houvesse pessôal para isso; mas não transportam, porque o não ha.

Tem a cidade um templo decente, e um cemiterio bem collocado e murado.

A povoação Europêa é cercada, por todos os lados, de senzalas, ou povoações de prêtos, e mesmo entre a povoação branca ha pequenas senzalas, em quintaes abandonados. O seu aspecto geral é agradavel e aceiado.

Tem Benguella má fama entre as terras Portuguezas de Àfrica; e supõem muitos, ser aquillo um paiz infecto, que exhala de miasmàticos pàntanos a peste, e com a peste a morte.

Não é assim. Eu não conhêci Benguella como ella fôra em tempos passados; mas hôje, não é nem melhor nem peior do que outros muitos pontos d'Àfrica.

O aceio e as plantações de arvoredo, de certo t[~e]m. modificado muito as suas anteriores condições hygiènicas, e com uma pouca de boa vontade, não seria difficil o seu saneamento; o que estou certo se fará, porque não pôde deixar de merecer verdadeira attenção um ponto de tão subida importancia commercial, e em facil contacto com tão ricas terras nos sertões.

Os principaes productos que alimentam o commercio de Benguella sam cêra, marfim, borracha e urzella, que chêgam á cidade trazidos pêlas caravanas dos sertões. Estas caravanas sam de duas espècies. Umas, dirigidas por agentes das casas commerciaes, trazem ás mesmas casas que os despacham os productos do seu tràfico no interior; outras, exclusivamente compostas de gentio, descem a negociar por canta propria, onde melhor ganho encontram.

O tràfico com o gentío faz-se por permutação directa do gènero por fazenda de algodão, branco, riscado ou pintado. Os outros productos Europêos sam objecto de uma segunda permutação pêla fazenda recebida; e assim, depois da primeira troca do marfim ou cêra pelo algodão, é este trocado por armas, pòlvora, àgua-ardente, missanga, etc., á vontade do comprador; porque a fazenda de algodão é, por assim dizer, a moeda corrente n'este tràfico.

O commercio está entre mãos de Europêos e crioulos, e felizmente já ali encontrámos muitos d'esses rapazes que, aventurosos, deixam patria e familia, para ir em terras longinquas buscar fortuna.

Alguns deportados de menor importancia tambem negociam, já por conta propria, já como empregados de casa alheia.

Os maiores criminosos do Reino, os condenados por tôda a vida, sam deportados para Benguella, do que resulta, encontrar-se ali quantidade de patifes, de que é bom resguardar-se; não os confundindo com a gente digna e capaz, que a ha.

A policia é confiada á fôrça militar, que um dos regimentos destaca para Benguella; sendo que de Benguella ainda sam espalhadas differentes fôrças nos concêlhos do interior; desfalcando a guarnição da cidade, já de si pequena.

Nós temos dois exèrcitos, um na Metròpoli, outro nas colonias, que nenhuma relação t[~e]m entre si.

O nosso exèrcito da Metròpoli é bom, porque o Portuguez é bom soldado; o nosso exèrcito das colonias é mao, porque o prêto é mao soldado; e os brancos que ali servem de mistura com prêtos, sam peiores ainda do que estes. Deportados por crimes que os excluíram da sociedade, fazendo-lhes perder na Europa o fôro de cidadãos, vam desempenhar em Àfrica o posto nobre do soldado; sendo a nossa autonomía Africana, e a segurança pùblica e particular, confiada á defeza de homens, que dam por garantía um detestavel passado.

Dahi as contìnuas scenas de caracter vergonhoso que se presenceiam ali. Durante a minha permanencia em Benguella, houve um grande roubo com arrombamento, no cofre militar. O Governador houve-se com a maior energía na maneira porque procedeu para descobrimento dos culpados, sendo muito coadjuvado pêlo seu Secretario, o Capitão Barata, que conseguio descobrir os ladrões, e haver o dinheiro roubado. Fôra o roubo planeado pêlo proprio sargento do destacamento, e levado a effeito por
elle e alguns soldados!!!

Se o nosso exèrcito Metropolitano não se presta á censura do homem mais pichoso, as nossas fôrças coloniaes sam vìctimas das merecidas chufas de tôdos os estrangeiros, que as observam.

Por mais que tenha cogitado, nunca pôde attingir ao prèstimo de tal exèrcito em nossas colonias, que para policia não serve; servindo menos para a guerra, que da minha lembrança tenho visto ser feita por côrpos voluntarios, levantados no reino, e que àlém vam servir por certo praso. Hôje mesmo, em Lisboa, três batalhões estam sempre prontos a marchar para as colonias, e já lá t[~e]m ido; o que prova sabermos nós, que o ter exèrcito no ultramar, tal como elle é, não passa de velha costumeira.

Na noite da minha chegada a Benguella, fiz o conhêcimento do Juiz de Direito Caldeira, que se associou ao Governador para me certificar, que, como elle, empregaria tôda a sua influencia para que eu não tivêsse vindo de balde a Benguella, e assim o fêz.

O Governador convocou os moradores importantes a uma reunião em sua casa, e expondo-lhes os motivos da minha viagem, e o meu projectado itinerario, pediu-lhes que o coadjuvâssem na empresa de arranjar carregadores; para que eu podêsse levar a cabo a expedição. Todos assim o prometêram.

O Governador Pereira de Mello, e o Juiz Caldeira, fôram incansaveis, e no dia 17, dia em que este ùltimo se retirou para Lisboa, tinha eu o nùmero de carregadores que pedira, cincoenta, que, com trinta esperados de Nôvo Redondo, prefaziam um total de oitenta; tantos quantos eu havia julgado precisos para subir da foz do Cunene ao Bihé.

O velho sertanejo, Silva Porto, encarregara-se de fazer transportar ao Bihé o grôsso das bagagens, que nós encontrarìamos n'aquelle ponto; onde deverìamos contratar mais carregadores para seguir ávante.

N'esse dia mudei eu para a casa que antes occupava o juiz, continuando a ir jantar com o Governador, ou com Antonio Ferreira Marques, da Casa Ferreira e Gonçalves, que porfiavam em obsequiar-me.

No dia seguinte, um prêto meu serviçal furtou-me uns 75 mil réis, e desappareceu, sem que d'elle mais se soubesse.

A 19 chegáram os meus companheiros na canhoneira Tâmega, e n'esse mesmo dia resolveu-se, que não irìamos á foz do Cunene, mas sim entraríamos directamente ao Bihé.

Esta nôva resolução que tomámos, alterava o que havia contratado com os carregadores, e àlém d'isso, a gente de Benguella, que, transportada a paiz distante, não pensaría em desertar, não me inspirava garantía, viajando logo no comêço em paiz de que conhêcia a língua e os costumes.

Comêçou nôva campanha. Eu tinha presentes as narrações de Cameron e Stanley a respeito dos embaraços causados por deserções, e até as do proprio Livingstone, que foi abandonado por trinta homens na viagem de Tete com o D^{or.} Kirk.

Logo depois da chêgada dos meus companheiros, combinámos em ser o Ivens encarregado dos trabalhos geográphicos, o Capello de Meteorologia e Sciencias Naturaes, e eu do pessôal auxiliar da expedição, coadjuvando-nos mutuamente. Assim, pois, tive de me pôr logo em campo, e o primeiro passo que dei, foi ir tomar consêlho de Silva Porto.

Narrei-lhe a nôva decisão que havìamos tomado, de seguir directamente ao Bihé, e expuz-lhe o meu embaraço. Silva Porto veio a Benguella comigo, pois que a sua casa da Bemposta dista 6 kilòmetros da cidade, e precorrémos as casas onde haviam caravanas de Bailundos, sem que elles quizêssem annuir a levar as cargas ao Bihé. Á casa Cauchoix tinha chêgado uma grande caravana, e este cavalheiro chêgou a offerecer uma avultada gratificação ao chefe, e paga dupla aos carregadores, se quizêssem conduzir as nossas bagagens, mas nada conseguío.

Cabe aqui narrar um facto muito curioso. Os Bihenos sam os primeiros viajantes d'Àfrica, e nenhum outro pôvo estende mais longe as suas correrias, nem se lhe iguala em arrojo e robustez de caminheiros; mas os Bihenos viajam só do Bihé para o interior como assalariados; e se de maravilha v[~e]m á costa, é por conta propria. Os Bailundos alugam os seus serviços entre a costa e o Bihé, e não vam ao interior para leste; mas ao norte estendem suas viagens até ao Dondo e Loanda.

Assim, pois, os negociantes sertanejos fazem transportar as mercadorias de Benguella ao Bihé por Bailundos, e d'ali aos pontos remotos do interior por Bihenos, que voltam, com os productos permutados, ao Bihé. D'este ponto á costa tornam a servir-se dos Bailundos.

Depois de informado d'isto, só me restava mandar assalariar Bailundos, para me virem buscar as cargas; e d'isso se encarregou Silva Porto, despachando logo cinco prêtos ao Bailundo, a ir buscar a gente. O velho sertanejo disse-me logo, que elles teriam muita demora, porque os enviados levavam 15 dias a chêgar ao paiz, e outro tanto tempo, pêlo menos, gastariam a reunir os carregadores, e estes, 15 dias para vir; fazendo uma somma de 45 dias; afiançando-me elle, que antes não os teria. Nós estàvamos em fins de Setembro, e por isso só poderìamos partir por meado de Novembro.[2]

Vim participar isto aos meus companheiros, e depois de conferenciar com elles, resolvémos não perder tanto tempo em Benguella; e entregando as cargas a Silva Porto, para que nol-as enviasse pelos Bailundos, partirmos immediatamente com as cargas indispensaveis, indo esperar no Bihé; tempo que aproveitarìamos no arranjar de carregadores ali para seguir ávante.

Dos carregadores contratados em Benguella apenas uns 30 mereciam alguma confiança para seguir tal caminho; e estes, com 36 de Nôvo Redondo, faziam um total de 66 homens. Tìnhamos, àlém d'isso, 14 soldados; os meus muleques pequenos de serviço; uns Cabindas de serviço de Capello, e Ivens; e 2 chefes prêtos, um contratado por mim na Catumbella, o prêto Barros, e outro por Capello, em Nôvo Redondo, o Catão.

Em tôda esta gente não tìnhamos um só homem de confiança.

Tratámos de separar as cargas julgadas indispensaveis, e conhêcémos que eram 87; isto é, tìnhamos 21 cargas mais do que carregadores. Foi de balde que trabalhei para os haver, não me foi possivel obter um só.

Os prêtos, não comprehendendo o que ìamos fazer, ao sertão, estavam receiosos, e com a sua desconfiança natural, imaginavam loucuras e recusavam-se.

Chêgou o fim de Outubro sem nada termos adiantado.

Resolvi, por consêlho de Silva Porto, ir ao Dombe, experimentar se os Mundombes faríam menos difficuldades, do que a gente de Benguella; mas, sentindo-me incommodado, pedi ao Capello ali fôsse por mim.

No dia 29, partio o Capello, e voltou no dia 3 de Novembro. Nada fêz. Os Mundombes prestam-se com facilidade a ir a Quilengues por caminho conhêcido d'elles; mas, fora d'isso, não fazem outras viagens; e recusáram as pagas avultadas que lhes offerecìamos para irem ao Bihé.

Tornava-se necessario tomar uma resolução, e essa foi logo tomada; seguirìamos sempre para o Bihé, mas tomarìamos por Quillenges e Caconda.

O Governador Pereira de Mello deu logo ordem ao chefe do Dombe, que tivesse prontos 50 carregadores, para seguirem com-nosco para Quillengues.

Silva Porto encarregou-se das cargas que deviam ser mandadas ao Bihé, e eram umas 400.

Poz o Governador á nossa disposição uma lancha, para transportar por mar ao Cuio (Dombe Grande) as cargas que d'ali deviam ser carregadas até Quillenges, e alguns carregadores de Benguella que estavam doentes.

No dia 11 de Novembro, estàvamos prontos a deixar a costa, e fixámos a partida para o dia 12. Nesse dia fugíram 4 carregadores de Nôvo Redondo, e no seguinte 5 de Benguella.

Emfim, no dia 12 deixàvamos a Cidade, depois das mais cordiaes despedidas dos amigos, que se reuníram para nos dizer adeos.

Pouco antes tinha eu ido á praia, e por muito tempo tive os olhos fixos na vastidão do Atlàntico, d'esse mar enorme que ia perder de vista; e mal cogitava então, que só o volveria a ver dois annos depois, na França, em Bordeos.

Não sei se a outros tem acontecido o mesmo; eu, no momento da partida, senti uma pungente mágoa, uma indefinivel saudade, uma dôr profunda, que me produzíram como que uma embriaguez, e confesso que não tenho muito a consciencia de ter deixado Benguella.

A bandeira das Quinas estava desenrolada, e afastavase da cidade ao passo cadenciado da caravana; seguí-a.

No dia 13, chegàvamos ao Dombe, tendo feito uma jornada de 64 kilòmetros. Tìnhamos com-nosco 69 pessôas, e seis jumentos, que fôram, homens e burros, alojados na fortaleza. Nós três, com os nossos muleques de serviço, fomos obsequiosamente hospedados em casa de Manuel Antonio de Santos Reis, distincto cavalheiro que porfiou em obsequiar-nos.

Dois dias depois, chegáram as cargas que tinham vindo por mar, e inventariando tudo, conhêci, que para seu transporte precisava de 100 homens, àlém dos effectivos que comigo tinha.

Isto proveio de termos abusado da facilidade que nos offereceu a lancha, mettendo a bordo mais cargas do que tìnhamos julgado absolutamente necessarias.

Decidímos partir a 18, depois de recebermos cartas da Europa, porque o paquete, de costume, está em Benguella a 14; mas a 18 nem o vapor tinha ainda chegado, nem o chefe tinha tambem assalariado um só homem.

A 21 chêgou a mala, mas de gente só tìnhamos a trazida de Benguella. O chefe declarou-nos, que no dia 26 poderìamos partir; mas, precisando nós de 100 homens, apenas nos mandou n'esse dia 19. No seguinte dia aparecêram mais 27; e eu, receioso que elles viessem a debandar se os fizesse esperar, despachei-os logo para Quillengues, acompanhados por dois soldados dos que comigo tinha.

O chefe declara-me que lhe é impossivel conseguir mais gente. Faço reunir na fortaleza os três Sobas do Dombe, no dia 28, e fui eu mesmo tratar com elles. Sam três typos magnìficos.

Um chama-se Brito, nome que tomou de um dos Governadores de Benguella, que o restaurou no poder; outro, Bahita; o terceiro é Batara. Os meus companheiros perdem o assistir a esta scena joco-seria, porque desde o dia 24 estam com febre.

O Soba Brito apresenta-se com três saias de chita, pintada de ramageus, muito enxovalhadas; veste uma farda de capitão de infanteria, desabotoada, deixando ver o peito nú, porque camisa não usa; e na cabêça, sôbre um barrete de lã vermelha, põe nobremente um chapéo armado de estado-maiór.

O Bahita traja saias de lã de vistosas côres, uma rica farda de Par do Reino, quasi nôva, e na cabêça, sôbre o indispensavel barrete, uma barretina de caçadores 5.

O Batara está literalmente coberto de andrajos, e traz á cinta um espadão enorme.

Estes illustres e graves personagens estam rodeados dos séculos e altos dignitarios das suas negras côrtes, que tomam assento no chão em torno da cadeira do soberano. O Bahita era acompanhado de um menestrel, que tirava de uma marimba, monòtona toada.

Esta marimba é formada de dois paos de 1 metro de comprido, ligeiramente curvos, em que assentam em cordas de tripa taboinhas pequenas de madeira, cada uma das quaes é uma nota da escala. O som é reforçado por uma fila de cabaças collocadas inferiormente, sendo a que corresponde á nota mais baixa da capacidade de 3 a 4 litros, e á mais alta 3 a 4 decilitros.

Os Sobas portáram-se com grande seriedade, e eu fingi tambem que os tamava a sério.

Depois de me prometterem carregadores, viéram acompanhar-me a casa, que distava uns dois kilòmetros da fortaleza; e como eu desse uma garrafa de àgua-ardente a cada um, mandáram elles dançar a sua fidalgaria, e o Bahita mandou entrar na dança umas raparigas que haviam ficado de parte.

Eu pedi-lhes que dançassem elles; mas respondéram-me, que a sua dignidade lh'o não permittia; sendo isso contra as pragmàticas estabelecidas. Eu ardia em desejo de ver o Bahita dançando, de saias e farda de Par; e conhêcedor do imperio da àgua-ardente nos prêtos, mandei dar outra garrafa aos sobas.

Foi o bastante. Atropeláram as suas leis, e eil-os saltando em brutesça dança no meio do seu pôvo, que enthusiasmado por tal honra, redobra de contorsões e momices, que chegam a atingir o delirio. O Bahita é magnìfico, e com certeza o typo do rei Bobeche foi creado sobre este molde. Fala continuamente em mandar cortar cabêças, sentenças estas que os seus escutam com a maior submissão, mas de que interiormente se riem, porque bem sabem o Governo Portuguez lh'o não consente.

O Dombe Grande é um fertilissimo valle, que se estende primeiro do Sul ao N., e depois a Oeste, quasi em àngulo recto, até ao mar. É enquadrado por dois systemas de montanhas, um por oeste, que borda a costa, e outro por leste, em cujo sopé corre o rio DombeCoporolo, ou Quiporolo, e até rio de S. Francisco--que todos estes nomes tem.


Figura 1.--Mulhéres Mundombes, vendedeiras de carvão.
(De uma photographia do pharmaceutico Monteiro.)

É rio que de inverno traz muita àgua, mas de verão é sêco; sendo que, mesmo nas maiores estiagens, àgua se encontra cavando poços; o que acontece em tudo o valle do Dombe, onde não é preciso profundar mais de 3 metros para a obter. Junto das montanhas de Oeste na parte em que o valle se estende N. S., ha uma lagôa, de 50 metros de largo por 1 kilòmetro de extenção, e da forma de S. Esta lagôa é curiosa, porque não é formada por depòsitos pluviaes, mas sim alimentada por uma forte nascente subterranea, por nunca alterar o seu nivel, e produzir infiltrações, que, um kilòmetro abaixo, vam formar nascentes, que sam aproveitadas na rega de uma propriedade. Dizem que tem peixe bagre, tainha e muitos crocodilos.

Tenho-a visitado muitas vêzes, e nunca vi ali crocodilos ou peixe; mas é certo que os ha, porque m'o afiançou o meu hospedeiro, dizendo-me mesmo, que sam muito vorazes; e que, tendo sido, em 1876, a sua propriedade atacada por um bando de salteadores de Quilengues, estes, rechaçados pêlos seus prêtos, tentáram na fuga atravessar a nado a lagôa, não logrando um só atingir á outra margem, porque tôdos fôram prêsa dos vorazes amphibios.

Nas montanhas de oeste junto á lagôa, montanhas formadas de carbonato calcàreo e algum sulfato de cal, existem algumas grutas, uma das quaes nos afiançou o nosso hospedeiro, nunca ter sido visitada, ser enorme, e parecer, tanto quanto por fóra se podia observar, que contém extensas galerias.

Fomos visital-a, eu, Capello, e o nosso hospedeiro Reis, e verificámos não ter ella merecimento.

É um salão pròximamente circular, de 14 metros de diàmetro, architectado pêla natureza na immensa mole de calcàreo, que forma a montanha. Parece ser guarida habitual de feras, que o dá a entender o ar saturado do fedôr almiscarado de certos animaes, bem como as traças de leão impressas no pó impalpavel que cobre o chão, onde encontrámos alguns espinhos do Hystrix Africano.

No valle do Dombe ha algumas feitorias agrìcolas importantes, sendo as principaes a do Loache, a de Paula Barboza, e a do nosso hospedeiro Santos Reis. Esta ùltima conta apenas três annos de existencia, e produz cana de açucar de que extrahe para cima de 40 mil litros de àgua-ardente; e note-se, que o terreno era antes mato, e foi desbravado ha só três annos. É uma feitoria que começa, tudo ali está ainda em construcção; mas pêlo resultado já obtido se pôde aquilatar a riqueza do solo ali.

Tudo o valle é cultivado de mandioca, pêlos indìgenas, e tão fertil é, que depois de três annos de falta de chuva, não tem deixado de ter producção regular, exportando cerca de 70 mil decalitros de farinha por anno. É o celeiro de Benguella. Os indìgenas ali não permutam as fazendas, mas sim vendem a dinheiro, cujo valor já conhêcem.


Figura 2.--Mulhéres e Donzellas, Mundombes.
(De uma photo. de Monteiro.)

A demora que ali tivémos foi prejudicialissima á ordem, e disciplina da minha gente.

Tôdos os dias apresentavam nôvas exigencias, tôdos os dias levantavam querellas entre si; e eu não podia ser demasiado severo, de receio que me desertassem tôdos.

Vendéram os pannos para comprar àgua-ardente, e chegáram a vender as rações de comida para se embriagarem.

Os soldados eram os peiores. Os sobas não mandáram gente, e eu principiei a ver a repetição das scenas de Benguella. Não podìamos seguir.


Figura 3.--Homens Mundombes.
(De uma photo. de Monteiro.)

No dia 1 de Dezembro, chegáram ao Dombe 30 homens mandados de Quillengues pêlo chefe militar, a buscar bagagem sua; mas eu lancei mão d'elles, e decidi com os meus companheiros partirmos no dia 4.

Tinha havido mais três deserções, dois homens de Nôvo Redondo e um de Benguella.

Os nossos burros eram muito manhosos, e não havia ensinal-os; todavia resolvêmos conserval-os.




CAPÌTULO III.

HISTORIA DE UM CARNEIRO.



Nove dias no deserto--Falta de àgua--O ex-chefe de Quillengues--Eu perco-me nas brenhas--Dois tiros a tempo--Perde-se um muleque e uma prêta--Perde-se um burro--Quillengues em fim--Morte do carneiro.


A 4 de Dezembro deixei o Dombe, pêlas 8 horas da manhã, e segui para Quillengues. O Capello e o Ivens ficáram ainda, para enviar algumas cargas; deviam ir encontrar-me á noite. Foi consêlho dos guias, que não tomàssemos o caminho das caravanas, mas sim um atalho conhêcido d'elles, para evitarmos as passagens do Rio Coporolo, que já então levava muita àgua; dando difficeis vaos, e que aquelle caminho corta em diversos pontos.

Depois de duas horas de jornada na planicie, chegámos ao sopé da serra da Cangemba, que borda por leste o valle do Dombe. Descançámos um pouco, e ás 11 horas, emprehendémos o subir da serra pêlo leito de uma torrente, então sêco. Foi difficil trabalho. Os homens iam muito carregados; porque, àlém das cargas da expedição, do peso de 30 kilogrammas, levavam para si rações para nove dias, em farinha de mandioca e peixe sêco. A differença de nivel era de 500 metros apenas; mas o leito da torrente, formado de rochas calcàreas, offerecia obstàculos enormes ao caminhar por elle. Em muitos pontos, era preciso com as mãos ajudar o côrpo na subida, e o passar ali os seis jumentos, deu grande canceira. Tìnhamos comprado no Dombe dois carneiros, para matar em caminho; um dos quaes facilmente seguiu a comitiva, mas o outro deu trabalho, porque se recusava a andar, e a sua teimosía em volver ao Dombe era constante. Fôram três horas de fadigosa marcha; que tanto gastámos para transpor um espaço que não passava de mil metros, e isto por um sol abrasador, deixou-nos extenuados de fadiga. Acampámos logo junto a um poço cavado no leito arenoso de um ribeiro que ia sêco; ribeiro a que os Mundombes chamam Cabindondo. O logar era àrido, e apenas vegetavam aqui e àlém alguns espinheiros brancos, rachìticos e ressequidos pêlo sol, que n'esta època do anno queima. O nosso horizonte era formado pêlas cumiadas das montanhas que correm norte-sul.

Pêla tarde chegáram Capello e Ivens, e fomos logo comer; que eu estava ainda em jejum. No dia 5 de manhã, seguímos a S.E., e depois de 4 horas de marcha, em que vencémos um espaço de 20 kilòmetros, assentámos campo em um logar que os guias chamáram Taramanjamba; valle extenso, cercado de cêrros pouco altos. A altitude é de 600 metros; mostrando que apenas estàvamos elevados 100 metros acima do nosso campo de hontem.

A vegetação continúa pobre, e a falta de àgua é grande.

Para beber e cozinhar, apenas obtivémos pouca, de depòsitos fluviaes nas cavidades das rochas; depòsitos que fôram logo esgotados pêla nossa sedenta caravana, sendo que á noite já se fazia sentir a sêde.

Durante a marcha, se os jumentos continuáram a ser incòmmodos, não o foi menos o carneiro, que era bravissimo, e mais teimoso que os burros. Decidi matal-o, e tendo combinado isso com os meus companheiros, dei as ordens n'esse sentido aos muleques, e fui dar um passeio aos arredores.

De volta ao campo, vi que os muleques não tinham comprehendido a minha ordem, e em logar de matarem o carneiro bravo, haviam morto o manso.

No dia seguinte partímos de madrugada, e depois de cinco horas de marcha, acampámos no logar chamado Tine, onde nos afiançáram os guias haver àgua.

Contra o que eu esperava, o carneiro, não só deixou de ser teimoso, mas poz-se a seguir-me, fazendo-me constante companhia, já em marcha já no campo.

A marcha n'esse dia foi difficil; porque, não só a sêde abrasava a gente, mas ainda por uma hora andámos no leito sêco do rio Canga, pedregoso e desnivelado, o que nos fatigou muito.

O terreno é já granìtico, e a vegetação arborescente luxuriante.

Àgua, como na vèspera, foi da chuva, recolhida nas cavidades das rochas; mas era melhor ao paladar e mais lìmpida á vista.

Tìnhamos alguns homens com feridas nos pés, que só chegavam tarde ao campo, porque se lhes difficultava o andar; e ainda outros que, por fracos, se atrazavam, e por preguiça muitos.

N'esse dia, entre os retardatarios figuravam os carregadores do rancho; fazendo isso que só tarde comêssemos. O Capello, de si pouco communicativo, não se queixava dos incòmmodos que soffria; mas Ivens, loquaz e de gènio alegre, não se calava e nos fazia rir a cada passo, com os seus ditos engraçados. O appetite era já grande, quando chegáram os carregadores, e elle não desfitava os olhos de uma perna de carneiro que um muleque volteava junto da fogueira em espeto de pao, e de repente disse: "Se meu pai podesse ver como eu olho para aquella carne até chorava."

Desde o Dombe apenas tìnhamos comido uma vêz no dia, e assim, a nossa gente; com a differença, porem, que elles comiam sem interrupção desde o acampar até dormir: o que me fazia receiar, que as rações distribuidas para nove dias, depressa fossem gastas, e em seguida viesse a fome, em paiz onde era impossivel obter vìveres.

Avançámos 25 kilòmetros no dia seguinte, a E.S.E., e fomos acampar em uma floresta chamada a Chalussinga; sendo o piso d'esse dia relativamente melhor, sempre por terrenos granìticos, e por entre vegetação mais vigorosa que até ali.

N'essa floresta encontrámos os primeiros baobabs que desde a costa temos visto. Àgua continuava a ser escassa, e sempre de depòsitos pluviaes. Pêlas três horas d'esse dia, fomos avisados de que uma caravana se dirigia ao nosso campo, vindo do interior; e saindo logo ao seu encontro, soubémos ser o ex-chefe de Quillengues, Capitão Roza, que ia doente para Benguella.

Convidámol-o á nossa barraca, onde jantou; partindo em seguida, depois de se prover de medicamentos, que gostosamente lhe offerecêmos. Logo que elle partiu, fui avisado pêlos muleques, de que em torno do campo se viam traças frescas de caça; e sahi a ver se a encontrava. Segui um rasto de grandes antìlopes, e tão longe me levou elle, que veio a noite, e com ella as trevas, sem que podesse atinar com caminho para o campo. Uma montanha elevada projectava o seu vulto sombrio contra um ceo nebuloso, onde nem uma estrella brilhava. Tive idéa de subir a ella, para do cume, vendo o clarão dos fôgos do meu campo, dirigir ali meus passos; idéa que executei com bom resultado, porque effectivamente enxerguei ao longe um clarão que tratei de alcançar, tendo marcado pêla bùssola a sua direcção. Não se imagina o que seja caminhar em noite escura por entre as sárças de uma floresta virgem, e quanto tempo se leva a transpor um curto espaço; deixando aqui e àlém farrapos da roupa, senão tiras da pelle.

Chêguei por fim, já guiado pelo vozear do gentio; mas ¡qual não foi a minha decepção, vendo, que pêlo meu tinha tomado o campo do Capitão Roza, que devia estar a 6 kilòmetros longe d'elle! Porem, como um caminho ligava os dois campos, porque uma caravana que passa deixa trilho, endireitei n'elle, e depois de uma hora de jornada, já ouvia o som das businas que os meus tocavam, e dos tiros que disparavam, para guiar meus passos.

Foi extenuado de fadiga e molestado dos espinhos, que chêguei á minha tenda, onde Capello e Ivens não estavam livres de cuidados.

Ali tive uma noticia inquietadora, mas que não foi sorpresa.

Já se sentia falta de vìveres, e sôbre tudo os soldados já tinham em 5 dias comido a ração de 9.

No seguinte dia forçámos a marcha um pouco mais, e percorrémos em 6 horas 30 kilòmetros a E.S.E.

O caminho era bom, marchando no trilho da caravana do Capitão Roza. Nas florestas que atravessámos continuáram apparecendo baobabs gigantescos. Depois de passarmos o rio Calucúla, acampámos na sua margem direita.

O rio leva pouca àgua, mas esta é lìmpida e bôa.

Continuàvamos a comer só uma vêz ao dia, e a hora da refeição variava entre a 1 e 3, conforme ás marchas. Era preciso poupar os vìveres. Ressentido da fadiga da vèspera não sahi a caçar n'esse dia, e fiquei na barraca.

O Ivens foi desenhar, como costumava; e o Capello apanhar insectos e réptiz.

Os soldados termináram as rações, e começáram a queixar-se de fome, falando em matar o carneiro. Eu tinha-me afeiçoado ao animal, que de bravo que era se tinha tornado manso e meigo, acompanhando-me nas marchas e não me abandonando um momento. Opuz-me a que fôsse morto, e o
Ivens deu aos soldados um pouco de arroz do nosso.

A 9, levantámos campo, ás 5 horas, e sustentámos a marcha até á uma; hora a que acampámos nas faldas da serra da Tama. Das 8 ás 9 horas seguímos ao sul, na margem esquêrda do rio Chicúli Diengui, que vai ao N., provavelmente ao Coporolo. A vegetação é cada vêz mais luxuriante, e n'esse dia o nosso caminhar foi por entre floresta espêssa.

Logo que se estabeleceu o campo, renováram-se as representações dos soldados famintos, e com ellas a idéa de matar o carneiro. O Ivens deu nôva ração de arroz aos soldados, e isto, ainda que contemporizava, não era uma positiva salvação para o pobre animal.

Ainda que extremamente fatigado, resolvi ir caçar, para salvar a vida do meu carneiro.

Durante uma hora percorri a floresta sem resultado, e já voltava ao campo, quando avistei, n'uma pequena clareira, duas gazellas que pastavam.

Aproximei-me, mas a mais de cem metros fui presentido. O macho saltou para sôbre uma rocha, e d'ali comêçou a espiar a floresta com a sua vista experimentada; em quanto a fêmea, de orelha á escuta, investigava os arredores.

Era grande a distancia, mas não hesitei, e atirei ao macho, que vi cair fulminado para àlém do rochêdo. A fêmea, ouvindo o estampido do tiro, saltou ligeira sôbre o penhasco e su disparei-lhe o meu segundo tiro, vendo-a em seguida pular, em salto elegante, e desapparecer no mato.

O meu muleque correu logo a buscar o antìlope môrto, mas eu vi que, em logar de parar junto do rochêdo, seguiu sempre; eu dirigi-me para ali com o coração palpitante, porque suppuz que me tinha enganado julgando ver cair o primeiro antìlope. Torneei a rocha, e tive um grande alvorôço. O lindo animal (Cervicapra bohor) estava estendido sem vida.

Mal tinha tido tempo de o contemplar, quando do mato sahio o muleque curvado ao peso de grande carga.

Era o segundo antìlope, que elle tinha levantado môrto, a poucos passos na floresta. Ambos tinham sido feridos no peito, mas ao passo que o macho cahiu sem vida, a fêmea pôde effeituar uma pequena carreira.

Estava salvo o carneiro, e como em dois dias devìamos chegar a Quillengues, e ali terìamos recursos, estava salvo para sempre.

No seguinte dia, depois de marcha de 35 kilòmetros, e de termos passado a vao os rios Umpuro, Cumbambi e Comooluena, fomos acampar na margem direita do Vambo--que tôdos correm ao N., a unir as suas àguas (quando as t[~e]m), ao Coporolo, que aqui já se chama Calunga, nome que conserva
até á sua nascente.

Na jornada d'esse dia começámos a encontrar gramìneas enormes, nas clareiras do mato. Tão grandes, que era impossivel ver nada com ellas, e difficil o caminhar. Durante a marcha desappareceu um meu muleque pequeno, e uma prêta, mulhér do muleque Catraio do Capello; e ainda que despachei gente a buscal-os, não fôram encontrados.

A escaçez dos mantimentos era grande, e não eram já só os soldados a queixarem-se de fome, tôdos faziam representações, e não attendiam razão. Tivémos de seguir.

No dia 11, depois de passarmos dois riachos que as chuvas tornam caudalosos, o Quitaqui e o Massonge, fomos acampar na margem direita do rio Tui, muito pròximo de Quillengues. Dos muleques perdidos não havia noticia, e faltava desde a vèspera um jumento, que não appareceu. Em quanto se estabelecia o campo, eu segui para a fortaleza de Quillengues á busca de vìveres, com que voltei ás 8 da noite. Estava decididamente salvo o meu carneiro.

N'essa noite apparecêram o muleque e a prêta perdidos, e isso deu-me um verdadeiro prazer; porque, fôrçados a marchar, pela fome, não tìnhamos podido demorar-nos a procural-os.

O logar onde acampámos era baixo e pantanoso, fôra de recursos, é isolado; e por isso resolvémos ir acampar na libata do chefe de Quillengues, onde entrámos no dia 12, pelas 11 horas.

Paguei e despedi os carregadores do Dombe e Quillengues contratados até ali; e pedi-ao chefe, o Tenente Roza, para me obter outros até Caconda; o que elle me certificou ser facil, dizendo-me logo, que sabia como os rios entre aquelle ponto e Caconda iam cheios, e por isso não davam passagem; o que nos impedia de partir immediatamente.

N'esse dia já comémos bem, e tivémos duas comidas, almôço e jantar.

Alguns dias depois, appareceu o jumento que se tinha perdido no mato, trazido por um indìgena, que o tinha encontrado. Gratifiquei bem o prêto, para o encorajar a ser honesto; pois que nunca julguei ver mais o pobre animal, que, se escapasse das feras, não escaparia á ladroagem dos naturaes, pensava eu.

Quillengues é um valle regado pêlo Calunga (rio que eu supponho ser o curso superior do Coporolo), valle fertilissimo, e coberto de povoações indìgenas.

O estabelecimento Portuguez occupa uma àrea de 45,500 metros quadrados; por ser um rectàngulo de 250 metros por 182. Este rectàngulo, cercado de palissada, tem quatro baluartes de alvenaria, a um meio de cada face; e dentro uns abarracamentos, que sam morada do chefe militar, e quartéis dos soldados.

Algums baobabs e figueiras sycòmoros crescem ali, assombrando com seus ramos gigantescos um terreno coberto de gramìneas indìgenas, onde pastam os rebanhos do chefe.

Se a importància de Quillengues é grande como ponto productivo, e facilmente colonisavel, não o é menos como posição estratègica; pois que pôde ser considerado uma das chaves do sertão interior, com respeito a Benguella.

Os sobetas do paiz reconhêcem a autoridade Portugueza; mas, de natureza salteadores, atacam sem cessar outros pôvos indìgenas, para lhes furtarem o gado.

Sam mais pastores do que lavradores, mas, ainda assim, cultivam a terra, que de ubèrrima suppre o pouco trato; produzindo milho, massambala, e mandioca, em quantidade grande.

As suas habitações sam cubatas circulares, de 3 a 4 metros de diàmetro, construidas de grossos troncos de madeira, revestidas de barro. A porta é bastante alta, para dar entrada a um homem sem curvar-se.

Os Quillengues sam de estatura elevada, e robustos, atrevidos e guerreiros. Sam pouco industriosos, e apenas fabricam o ferro, fazendo azagaias, ferros de frechas, e machados, já de guerra, já de cortar madeira.

As enxadas não as forjam, e sam por elles compradas no Dombe, ou em Benguella.

Os seus curraes sam, como as povoações, cercados de forte palissada; sendo esta revestida exteriormente de abatises espinhosos, para evitar o assalto nocturno de feras.

Os campos de mandioca sam igualmente cercados de espinheiros; porque ali abundam corças pequenas (Cephalophus mergens), que das folhas sam àvidas, e causam damno grande ás plantações.

A àgua-ardente é gènero muito estimado pêlos Quillengues, e sam elles tão dados á embriaguez, que, durante três mezes no anno, tanto quanto dura o fruto do gongo, fazem d'elle uma bebida fermentada, com que estam continuamente embriagados; não sendo possivel obter d'elles o menor serviço.

Quando um homem quer casar-se, envia ao pai da escolhida um presente, que dêve ser pêlo menos de 4 metros de panno da costa, e duas garrafas de àgua-ardente; e logo com o portador vem a noiva e seus parentes comer, em grande bròdio, um boi, que dêve offerecer-lhes o noivo. O adulterio é coisa de grande estimação para os maridos; sendo que por lei fazem pagar ao amante multa, que se traduz em gado e àgua-ardente.

A mulhér que não tem commettido algum adulterio é mal vista do marido, que não augmenta o seu haver por esse meio.

Logo que alguma commette a falta, vai ao marido queixar-se de que foi seduzida, e entre elles faz prova a accusação da mulhér.

Entre o pôvo, os cadàveres sam enterrados em logar escolhido, e conduzidos á cova n'uma pelle de boi, cobertos de panno de algodão branco. Os dias de nôjo, sam dias de grande festa em casa do finado. Os sobetas t[~e]m sepultura reservada, e sam ali conduzidos dentro de uma pelle de boi preparada em ôdre, depois de lhe vestirem as melhores roupas.

Nas festas d'òbito ha mortandade enorme de gado, porque o herdeiro tem obrigação de matar todo o rebanho, para regalar o seu pôvo, e contentar a alma do finado.

No dia 22, houve um desastroso acontecimento no nosso campo.

Um dos meus muleques furtou-me uma bala explosiva do systema Pertuisset; e de companhia com dois outros, decidíram repartil-a de modo que a cada um tocasse seu pedaço de chumbo. Armáram-se de uma faca, e pôsta a bala sôbre uma pedra, deu-lhe elle um golpe, estando os outros dois acocorados para melhor ver a partilha; quando sùbito a bala faz explosão, ficando os três feridos, e sôbre tudo o muleque de Silva Porto Calomo, que recebeu treze estilhaços, produzindo alguns feridas profundas.

Mandámos uns prêtos reconhêcer, se já dariam vao os rios; e por elles soubémos, que se conservavam altos; o que bem soppùnhamos, porque, durante a nossa estada ali, não cessou de chover. Resolvémos então seguir outro caminho, o qual, ainda que mais longo, era mais euxuto de àguas; e por isso, pedímos ao chefe nos tivesse prontos os carregadores; o que elle fez, distribuindo eu as cargas no dia 23; mas n'esse dia senti-me muito mal, e ainda que fiz seguir as cargas, fiquei eu, e os meus companheiros por meu respeito. Lutei com violenta febre por três dias, e não tenho consciencia de ter passado o dia 25; dia duplamente festivo para mim, porque, sendo o de Natal, é o anniversario de minha filha.

Tivéram cuidado de mim Capello e Ivens, o Chefe Roza e sua esposa; e no dia 28, pude levantar-me e sair, decidindo logo partir no 1^{o.} de Janeiro de 1878, isto é, três dias depois.

A esposa do Tenente Roza fêz-me dois presentes, que eu mal sabia então estavam destinados a representar um papél, ao diante, na minha viagem.

Fôram elles um serviço de chá de porcelana de Sèvres, e uma cabrinha muito meiga, de raça pequena, a que puz o nome de Córa.

A esse tempo succedeu um desastre, que de véras me contristou. O meu carneiro, por causa de quem eu tive de sustentar tantas lutas com os carregadores famintos, foi môrto por uma cadella perdigueira, que eu levara de Portugal, e dera ao Capello. Perseguido pêla cadella, na fuga quebrou uma perna ao passar por entre a paliçada do campo, e em breve se finou. Foi o meu primeiro grande desgosto n'esta viagem, tão abundante d'elles.




CAPÌTULO IV.

POR TERRAS AVASSALLADAS.



Jornada a Ngola.--O Sova Chimbarandongo.--Belleza do caminho.--Chegada a Caconda--José d'Anchieta.--Nada de correspondencia.--Chegada do Chefe.--Vamos aos carregadores.--Ivens vai ao Cunene e eu vou ao Cunene.--Volta de casa do Bandeira.--Falham os carregadores.--O meu juizo.


No dia 1^{o.} de Janeiro de 1878, deixámos Quillengues, tendo ali feito provisão de vìveres, e comprado bastante gado para matar, bois e carneiros. O chefe, Tenente Roza, acompanhou-nos uns 7 kilòmetros, e voltou á sua residencia, seguindo nós sempre a S.E., até ás faldas da serra de Quillengues, onde acampámos junto á povoação do Secúlo Unguri. Tìnhamos um companheiro de viagem, que em Quillengues nos tinha pedido, o deixàssemos ir até ao Bihé em nossa companhia. Era elle Verìssimo Gonçalves, filho de um conhêcido sertanejo do Bihé, môrto havia pouco, que em Quillengues era empregado de um ex-criado de seu pai. Este rapaz, mulato e de mesquinha educação, como era de côrpo acanhado, cheio de vicios, dos proprios a tal gente, tinha alguma cousa de bom, e era intelligente.

Tem de figurar no correr d'esta narrativa, e por isso o menciono mais particularmente.

Era acanhado e tìmido, mas não covarde, e debaixo de uma apparencia fraca, possuia uma forte organização e mùsculos de ferro. Sabía apenas ler e escrever, mas era um soffrivel atirador de segunda ordem, e manhoso caçador.

Durante a demora em Quillengues, consegui domesticar dois dos jumentos, que n'esta nôva jornada já me servíram de cavalgaduras.

No seguinte dia, logo á saída, começámos a ascensão da serra de Quillengues, que n'esse ponto se chama Serra Quissècua.

A subida foi difficìlima, e durante três horas lutámos com as agruras da montanha, elevando-nos a 1740 metros do nivel do mar, ou 836 acima do planalto que termina em Quillengues.

Em um desfiladeiro da serra passámos um pequeno ribeiro, que os indìgenas chamam Obaba-tenda, o que quer dizer àgua fria, fomos acampar na margem de outro chamado Cuverai, affluente do Cúe. Estes
dois ribeiros sam permanentes, e sam àguas que correm ao Cunene.

O terreno continúa granìtico, mas a vegetação muda completamente de aspecto--de certo devido isto á altitude. O baobab desappareceu, e já se encontram fetos á sombra das innùmeras e variadas acacias que povôam as matas. A flôra apresenta riqueza maior em plantas herbàceas, e nas gramìneas sôbre tudo nota-se uma fôrça de vegetação vigorosissima.

Notei que atravessámos regiões onde se não encontra uma só ave, e de repente entra-se em zonas onde milhares de passarinhos fazem uma chiada enorme. Caça vi ali pouca, mas os rastos anunciam havel-a.

Na noite do seguinte dia aconteceu-nos uma aventura curiosa. Estàvamos acampados junto do ribeiro Quicúe, que corre a S.E., em leito granìtico, e vai, provavelmente, engrossar o Cúe; quando sentímos a cadella do Capello ladrando e arremettendo furiosa, contra alguma cousa que se aproximava da barraca. Ao mesmo tempo sentìamos um forte ruminar perto de nós; o que nos fez suppor, que os jumentos se tinham soltado e pastavam dentro do campo, que era cercado de abatises espinhosas. Falámos á cadella e adormecémos. Ao alvorescer ouvímos grande rumor no campo, e saindo logo, soubémos, que os prêtos, que ao principio tinham julgado, como nós, que os burros andavam á sôlta, percebêram depois que se enganavam, e que um animal estranho se tinha introduzido no campo. Fôra effectiva menta um bùfalo enorme que nos dera a honra da sua companhia durante a noite.

O caso era notavel e de explicação difficil, a não serem os repetidos rugidos dos leões que se tinham ouvido; fazendo com que o bùfalo viesse buscar guarida entre nós.

No seguinte dia fomos acampar pròximo da povoação de Ngóla, e eu fiz logo annunciar a minha visita ao Sova.

Depois do almôço, fui á libata procural-o.

Fiz-me acompanhar dos meus muleques, levando uma cadeira para mim, e dois guardasóes.

O Sova appareceu-me logo, armado de dois cacetes e uma azagaia.

Trajava tanga comprida de panno da costa, e sôbre ella uma pelle de leopardo. Tinha o peito nú pendendo-lhe do pescôço um sem-nùmero de amuletos. Recebeu-me fôra da sua barraca, por um sol abrasador; e eu offereci-lhe um guardasol, que levava para isso, de panninho encarnado; favor a que elle se mostrou muito grato.

Disse-lhe o que andava por ali a fazer, cousa que elle não percebeu muito bem; comprehendendo com-tudo perfeitamente, que lhe offerecia um pequeno barril de pòlvora, 50 pederneiras e uma duzia de guizos de latão, sem nada lhe pedir em troca--o que sôbre modo o espantou.

Convidei-o a vir ao nosso campo ver os meus companheiros; e elle accedeu a isso acompanhando-me; coisa muito de notar, que os chefes indìgenas sam desconfiados.

Dizendo-lhe, que mandasse uma vasilha em que eu lhe podesse dar àgua-ardente, foi elle buscar uma botija de litro. Mostrei-me admirado de que um chefe quizesse tão pouco, e convidei-o a procurar vasilha maior. Mandou então buscar uma cabaça que levaria o duplo da botija, e eu pedi-lhe que juntasse outra igual.

O Règulo não podia dissimular a sua admiração pêla minha generosidade.

Partímos a pé, acompanhados por três das mulhéres, as filhas, e muito pôvo, tôdos sem armas, para me mostrarem a confiança que eu lhes havia inspirado.

Chegámos ao campo quando Capello fazia observações meteorològicas, e o Sova ficou admirado diante dos thermòmetros e dos baròmetros.

O Ivens veio logo para junto de nós, e depois de grandes comprimentos, mostrámos ao Règulo as armas de Snider e de Winchester, que lhe causáram verdadeiro assombro.

Este Chimbarandongo, que tal é o nome do sova de Ngóla, é intelligente, e sabe viver com o seu pôvo.

Offereceu-nos um boi, e tendo eu pedido licença para o matar, por haver necessidade de provisões, consentio n'isso, pedindo-me para lhe atirar eu.

O boi estava estranho, e fugio para o mato, a uns oitenta metros de nós. Indiquei ao Sova o sitio em que o ia ferir, e disparei. O boi cahio.

Chimbarandongo foi ver o animal, e attentando na ferida, da qual corria o sangue, aberta entre os olhos, no sitio que eu indicava, ficou tão maravilhado, que me deu repetidos abraços no meio do seu enthusiasmo.

Pêlas 4 horas, formou-se sôbre nós tempestade violenta, que se desfez em raios e copiosa chuva, durando até ás 6 horas.

O Sova e as mulhéres recolhéram-se á nossa barraca, assim como alguns dos macotas.

Chimbarandongo fez um discurso aos seus macotas, tendente a provar-lhes, que nós tìnhamos trazido a chuva, e com ella um grande beneficio ao paiz, ressequido pêlos calores do estío.

Tentámos explicar-lhe, que não tìnhamos tão grandes poderes, e que só Deus governava nos grandes phenòmenos da natureza; levando o Ivens a questão a ponto de lhe explicar como e porque chovía. Ouvindo isto, fez o Sova sair os seus macotas e mais pôvo que escutava a lição meteorològica.

Depois d'isso, tendo-se de novo reunido o pôvo, elle disse, que se deixasse de chover, indagaria qual dos seus sùbditos tirara a chuva, e o castigaria de morte. Nôvo discurso da nossa parte contra a pena capital; e nôva ordem de despejo da parte d'elle, que, a pesar do meio embriagado, tinha tino bastante para não comprehender que as nossas theorías não quadravam ao seu systema governativo.

Ao anoitecer retirou-se do modo o mais còmico, indo acavallo em um dos seus conselheiros, que levava as mãos nos hombros de outro; e como estivessem tôdos embriagados, a cada passo perdiam o equilibrio, ameaçando com a queda partir a cabêça ao seu soberano.

Este règulo é sensato e homem de bom juizo. Não acredita em feitiços; nem acreditava que nós lhe tivessemos trazido a chuva; mas convem-lhe apparentar que o crê, para não perder o prestigio entre os seus, que só assim querem ser governados.

No seguinte dia, vindo elle despedir-se de nós, me disse, que a sua polìtica era ser amigo dos brancos; pois que das bôas relações com elles provinha a roupa com que se cobria, e as armas e a pòlvora com que continha em respeito os seus inimigos.

"Sem os brancos," me disse elle, "nós somos mais pobres que os animaes; porque a elles temos de tirar as pelles para nos cobrirmos; e sam bem loucos os prêtos que não cultivam a amizade dos filhos do Puto."

A libata ou povoação de Ngóla é fortemente defendida por uma dupla palissada feita com arte, que tem até uma das faces dentada para cruzamento de fogos. É tão vasta que pôde conter tôda a povoação do paiz, que ali se recolhe, em caso de guerra, com seus rebanhos. O ribeiro Cutóta corre dentro d'ella, fazendo que possa resistir a longo assedio sem receiar a sêde.

Deixando Ngóla, caminhámos por duas horas a N.E., e encontrámos o Cúe, o maior dos rios, que corre entre Quillengues e Caconda. No sitio em que tentámos a passagem tinha elle 15 metros de largo por 3 a 4 de fundo, não dando por isso vao. A chuva torrencial da vèspera, augmentando-lhe o volume d'àgua, tinha tornado impetuosa a corrente.

Uma ponte de finos troncos de arbustos, offerecia uma perigosa difficil passagem aos homens carregados; mas os bôis e os jumentos só a nado podiam passar. Depois de grande trabalho, os bôis nadáram para a outra margem; os burros porem recusáram seguil-os.

Só a grande custo conseguio o prêto Barros, ajudado de mais dois, fazel-os nadar, nadando ao seu lado, e obrigando-os a tomar pé na outra margem; o que era perigoso, que ali abundam crocodilos.

Depois de uma hora de trabalho, avançámos para E.N.E., encontrando o ribeiro Usserem, d'ali marquei, a N.N.O., o monte Uba, onde assentam as povoações de Caluqueime. Passámos depois o rio Cacurocáe, que corre a S.S.E. ao Cúe; e meia hora depois o rio Quissengo, que corre a S.E., e vai affluir ao Cúe; acampando na margem d'este ùltimo, pêlas 4 horas da tarde, junto da povoação de Catonga, onde tem a sua libata um tal Roque Teixeira.

A marcha foi de 30 kilòmetros, o que muito nos fatigou.

O caminho foi sempre por planicie, onde a altitude varía apenas entre 1450 e 1500 metros.

A vegetação arbòrea apresenta um certo rachitismo; mas a herbàcea continúa a ser variada e rica.

No dia 6, seguímos sempre a N.E., passando logo o Cúe, em ponte feita pêlo gentío. Este ribeiro tem 5 metros de largo, por 1 de fundo, e corre a S.E. ao Catápi. Alcançámos o Coúngi ou Catápi, ás 11 e meia, e acampámos na sua margem esquêrda. O Coúnge, que a montante toma o nome de Catápi, tinha ali 10 metros de largo por um de fundo, com violenta corrente, e dirigindo-se a S.E. vai lançar-se no Cunene pròximo do Lucéque.

N'esse dia matei uma grande gazella (Cervicapra bohor), a maior do gènero que vi em tôda a minha viagem, tão grande que fôram precisos 4 homens para a transportar ao campo.

Ao fechar da noite, a cadella ladrou muito, arremettendo com o mato; verificando nós ser contra as hyenas que nos rondavam as barracas, e por noite fôra tivémos mùsica, em um duêto de baixo e contra-baixo, pela voz clara de um leão, na mata, e pêla ronquenha de um hippopòtamo, no rio.

O aspecto do paiz continúa o mesmo. Nas lombadas matas rachìticas, de uma vegetação que mais se pôde chamar arborescente do que arbòrea, pêla maior parte. Leguminosas, nas depressões; vastas clareiras, verdadeiros prados de gramìneas diversas, por entre as quaes serpea um ribeiro ou um rio. O terreno continúa granìtico, apresentando as rochas aspectos variados; mas sendo pouco abundantes em mica.

Continuámos caminho ao N.E., passando junto da libata de Cuassequera, fortificada entre enormes rochêdos granìticos, e rodeada de gigantescos sycòmoros, produzindo um aspecto muito pintoresco. Depois de passar o ribeiro Lossóla, que corre ao S. para o Catapi, fomos acampar na margem do Nondumba, riacho que, como o antecedente, afflue ao Catápi, mas correndo ao N.

O planalto já é mais elevado, e caminhàvamos então n'uma altitude de 1600 metros.

D'esse ponto seguímos a Caconda, tendo atravessado três ribeiros, que correm a N.N.O. ao Catapi, e sam, por sua ordem, o Chitequi, o Jamba, e o Upanga; encontrando em seguida o Catapi, que corre a O.S.O., e que já no dia 6 tìnhamos atravessado com o nome de Coúnge.

No ponto em que o passámos tem 10 metros de largo por 1 de fundo, e pequena corrente.

Algumas das clareiras que n'esse dia atravessámos eram cobertas de junco, pantanosas e de difficil accesso.

A passagem do rio levou tempo, e os meus companheiros precedêram-me na chegada a Caconda.

Alcancei depois d'elles a fortaleza, e fui recebido á porta pêlo chefe interino, mulato e rico proprietario do consêlho, sargento da guerra prêta; o qual me disse, que o chefe tinha ido para Benguella, deixando-lhe a espiga de nos receber (textuaes palavras).

Depois de me ter dito esta amabilidade, o S^{nr.} Matheus convidou-me a entrar na fortaleza. Logo que passei o recinto das fortificações, vi entre os meus companheiros um homem de estatura mais que mediana, aspecto macilento, testa ampla e elevada, olhar pouco fixo, trajando casaca e gravata branca, que o Capello me apresentou, dizendo-me, "Aqui tem José d'Anchieta." Estava diante de mim o primeiro explorador zoologista d'Àfrica, esse homem que tinha passado 11 annos nos sertões d'Angola, Benguella, e Mossàmedes, enchendo as vitrinas do museu de Lisboa com valiosissimos exemplares. Tive depois occasião de presenciar o seu viver, que é digno de ser descrito.

Anchieta estava estabelecido nas ruinas de uma igreja, a 200 metros da fortaleza.

A casa no interior era em forma de T, e tôda cercada de estantes, onde haviam, de mistura, livros, instrumentos mathemàticos, màchinas photogràphicas, telescopios, microscopios, retortas, pàssaros de mil côres, vidros variados, louça, pão, frascos cheios de lìquidos multicolores, estojos de cirurgia, montes de plantas, medicamentos, cartuxeiras, roupa, etc. A um canto, um feixe de espingardas e carabinas de differentes systemas. Junto á casa, um cercado, aprisionando umas vacas e uns porcos. Á porta algumas prêtas e prêtos esfolando pàssaros e preparando mamìferos; e d'entro, a uma grande mesa, Anchieta, sentado em velha poltrona, que attesta longos serviços.

Sôbre a mesa é impossivel dizer o que ha.

Pinças, escalpellos e microscopios ha muitos.

De um lado, um monte de bocados de pàssaros mostra que elle acabou de se entregar ao estudo da anatomia comparada. Em frente d'elle, uma flôr cuidadosamente dissecada, attesta que elle acaba de ler na disposição das suas pètalas, no nùmero de seus estames, na forma do seu receptàculo, no arranjo das sementes, no pistilo, os nomes da familia, do gènero e da especie em que a dêve collocar.

De escalpello na mão e microscopio no ôlho, passa elle as horas que pôde tirar ao trabalho de colleccionador, e é já a planta, já a ave, o ponto de mira do seu estudo.

A momentos, é interrompido por um doente que chega, a quem elle dispensa os cuidados de mèdico, e ao mesmo tempo os remedios da cura, quando lhe não dá tambem a gallinha da dieta.

Anchieta professa um respeito sem limites ao Doutor Bocage, director do Museu Zoològico de Lisboa, e fala d'elle com essa respeitosa amizade que é difficil encontrar onde não existem estreitos laços do mesmo sangue.

Isso comprehende-se. Anchieta, que tem a consciencia dos serviços que tem prestado ás sciencias zoològicas, conhêce que tem no D^{or.} Bocage o homem que lhe faz justiça, e sabe aquilatar esses serviços; o homem que completa na Europa o trabalho que elle começa em Àfrica; o homem, emfim, que sabe quantas fadigas, quantas febres, quantos incòmmodos custáram cada um d'esses exemplares, que descreve, descrevendo com elles nôvas especies.

José d'Anchieta é um d'esses nomes que merece o respeito dos homens de sciencia, e o respeito dos Portuguezes seus compatriotas; porque, trabalhador infatigavel, tem sabido honrar o seu paiz, conservando-se elle mesmo honrado e pobre, no meio do vicio e da desmoralização que lavra nas terras em que vive, e de que poderia tirar proveito se fôsse menos escrupuloso.

Basta de falar d'elle, que não ha elogios que lhe não caibam; falando mais alto do que eu as suas obras, e o seu nome, ligado para sempre aos seus trabalhos, que não morrem.

Soubémos que o Chefe Castro tinha sido exonerado do commando, e fôra nomeado outro official do exèrcito de Àfrica para o substituir.

Dois dias depois da nossa chegada, chegáram tambem a Caconda o nôvo chefe e o Alferes Castro, e por elles a nossa correspondencia da Europa, que lemos com avidez.

Falei logo em carregadores, e o Alferes Castro promptificou-se a acompanhar-me a casa de José Duarte Bandeira, o primeiro potentado de Caconda, onde me disse que se arranjariam, pêla grande influencia de que dispunha o tal Bandeira.

Partímos para Vicéte no dia 13 de manhã, e n'esse mesmo dia o Ivens seguio para casa de Matheus, a fazer um reconhecimento ao Cunene, no logar da sua confluencia com o Quando. Eu tambem devia ir fazer uma visita ao mesmo rio para o sul.

O Capello ficou em Caconda atacado por uma ligeira febre, e entregue aos cuidados de Anchieta. Seguí a S.S.E., passando logo os rios Secula-Binza, Catapi, e Ussongue, que afflue a leste, correndo a O.N.O., com 3 metros de largo por 1 de fundo, dando-lhe por isso grande contribuição d'àgua.

Depois de caminhar a S.E. umas 26 milhas, chêguei pêla noite a Vicéte, libata fortificada entre rochas, no cume de um outeiro que domina vasta planicie.

Fui recebido por José Duarte Bandeira, que, depois de bôa ceia, me proporcionou òptima cama, de que bem precisava.

Logo na manhã seguinte, o Alferes Castro falou nos carregadores, e Bandeira prontamente se offereceu para obter 120, que tantos nos eram precisos para seguirmos ao Bihé.

Mostrei o desejo de ir ao Cunene, e ficou decidido que partìssemos no seguinte dia.

Caminhámos nove milhas a Leste, e encontrámos o rio no Porto do Fende.

Logo á chegada, matei um grande hippopòtamo, que têve a imprudencia de vir resfolgar a meio rio ao alcance da minha carabina. Passei ali dois dias. O rio tem ahi 100 metros de largo por 6 a 7 de fundo, com uma corrente de 1 milha por hora. O seu eixo no Fende é N.O. a S.E. por espaço de 2 milhas, sendo a montante de N.E. a S.O., e ainda acima E.O. a jusante inclina-se para S.S.O. por 26 milhas, até ao Luceque. Por vêzes toma uma largura de 200 metros e mais.

Abundam n'elle hippopòtamos e crocodilos.

1 milha a jusante do Porto do Fende, ha uns ràpidos a que chamam Da Libata Grande; meia milha abaixo, outros, as Mupas de Canhacuto; e 10 milhas mais a jusante, as cataractas de Quiverequete, ùltimas que tem no seu curso superior; sendo depois navegavel até ao Humbe.

A margem direita é, nos pontos em que a visitei, montanhosa e coberta de mato virgem; á esquêrda, vasta planicie, de 4 a 5 kilòmetros de largo, que encosta ao sopé dos montes, que formam um pouco elevado systema, correndo N.S.; em cujas vertentes oeste assentam as povoações do Fende.

Pêlas 11 horas da noite do dia 15, formou-se sobre nós uma tormenta, que despedio innùmeras faïscas e copiosa chuva, deixando-nos completamente molhados.

A 17 voltámos para Caconda, com a promessa de termos os carregadores dentro de 8 dias; tendo de mandar, logo no dia seguinte, um barril de àgua-ardente para a convocação. Nesta parte de Àfrica, a àgua-ardente desempenha para com os homens o mesmo papél, que na Europa o azeite para com as màchinas. Sem ella não se movem.

O nosso hospedeiro, que bem nos regalou em sua casa, esquèceu-se de que tìnhamos a gastar o dia em jornada; e saindo nós ao alvorecer, só á noite alcançarìamos Caconda. Partímos com o alforje vazio, e pêlo meio-dia já o appetite degenerava em fome.

Parámos n'uma clareira, e eu disse ao Alferes Castro, que ia ver se matava caça para comer; mas apenas avistei uma codorniz, que nos servio a ambos de almôço e jantar, cozinhada n'uma marmita de soldado. Confesso que já tenho almoçado e jantado melhor do que n'esse dia.

Os meus prêtos, vendo a minha avidez em roer os ossos da codorniz, que a cadella de balde devorou com os ôlhos, fazendo-me mil negaças com a cauda, déram-me uma raiz de mandioca, que partilhei com o Alferes.

Chêguei, á noite, a Caconda, e depois de uma bôa ceia, dei fé que Ivens ainda não tinha chegado, e que Capello já estava bom.

O Ivens chegou a 19, e n'esse dia mandámos o tal barril de àgua-ardente ao Bandeira, pedindo-lhe a maior urgencia na convocação dos carregadores.

No dia 23, chegáram de Benguella uns artigos que tinham sido requisitados; e para mim um presente de 6 latas de biscoito, que me offerecia Antonio Ferreira Marques.

N'esse dia despachei outro portador a Vicéte, pedindo ao Bandeira os carregadores, que já se demoravam.

Não appareciam os homens promettidos, e eu pedi ao chefe para que fôsse a Vicéte, e usando da sua influencia como autoridade, visse se dava pressa ao Bandeira em nos mandar a gente precisa.

O chefe partio, e escreveu-me logo, dizendo já estarem promptos 61 homens, e em breve haver os mais. Levara elle logo fazenda para os pagamentos, que ali só querem algodão branco, mas disse serem precisas mais 50 peças, que nós não tìnhamos, mas que o Bandeira ficou de emprestar.

No dia seguinte, nôva carta do chefe, dizendo, que os carregadores iam ser pagos e viriam logo; dois dias depois, terceira carta, dizendo, já lá ter 94 homens; e finalmente, no dia 5 de Fevereiro, outra carta,
dizendo, que não havia nem um carregador, e que nenhum se arranjaria.

Imagine-se o nosso desapontamento.

Eu a esse tempo ainda não tinha formulado e arraigado no meu espìrito um principio, que mais tarde me sugerio a experiencia, e que entrou depois, de parelhas com a carabina d'El-Rei, no feliz resultado da minha viagem.

O principio formulado e depois profundamente arraigado no meu espìrito, traduzio-se n'esta sentença:--

"Desconfiar, no sertão d'Àfrica, de tudo e de tôdos, até que provas repetidas e irrefutaveis nos permittam confiar um pouco em alguma cousa ou alguem."

Ora, para mim, essas provas sam tão difficeis de se apreciarem, como o sam as de um amor eterno, ou as da sòlida fortuna do commerciante, embrulhado em transacções de vulto.

Creio que, ao tomarmos conhecimento da carta do chefe, cada um de nós propoz alvitre qual d'elles mais disparatado.

O desapontamento era grande. Socegados os espìritos, decidímos ir eu procurar os carregadores fôsse onde fôsse, e se longe ou perto os não podesse encontrar, seguirmos para o Bihé, e mandarmos d'ali buscar as cargas. Julgàvamos isso possivel.

O chefe voltou de Vicéte, e não me deu explicação plausivel do facto.

Acordámos em ir eu ao Huambo, a ver se do Soba d'ali obtinha carregadores; porque, não só o Alferes Castro, como o chefe, e Anchieta mesmo, nos mostravam a impossibilidade de os ajustar mais perto.

Pouco antes, Anchieta tinha encontrado grandes embaraços para fazer uma remessa de productos zoològicos para Benguella, o que era relativamente mais facil.

O que nos estava acontecendo é digno de notar-se.

Não só Bandeira, mas um tal Mathias, o sargento Matheus e outros, enviam grandes caravanas a sertões longìnquos; ¡e todos elles não podéram obter um só carregador para nós!

Eu começava de antever um propòsito firme de nos embaraçarem o passo, e mal cuidava então que esse propòsito fôsse tão longe como infelizmente tive occasião de experimentar depois.

O correr d'esta narrativa mostrará, quam habilmente me fôram levantados obstàculos, que só uma decidida protecção de Deos me fez vencer.

Deixemos este assumpto por enquanto, e antes que continúe com a narração das minhas aventuras, que começam aqui a tomar um caracter mais extraordinario, cabe-me dizer duas palavras a respeito de Caconda.

A fortaleza de Caconda, o ponto mais interior onde hôje no districto de Benguella tremula a bandeira Portugueza, é um quadrado de 100 metros, cercado de um profundo fosso e de um parapeito, onde aqui e àlém se pôdem ver as linhas distinctas de uma fortificação passageira, construida outrora com arte. Uma palissada forma segunda fortificação no interior, resguardando umas casas arruinadas, que fôram habitação do chefe, quartèis e paiol.

Algumas bôas peças de bronze, montadas a barbete, deixam ver por sôbre o plano de tiro, deformado pêlo tempo, as suas bôcas verde-negras e oxidadas.

A 200 metros ao Sul da fortaleza, as ruinas de uma igreja.

Ao norte, uma reunião de pequenas cubatas, morada dos soldados.

O paiz é agradavel, e sem ser, como se pertende, isento de febres, é certo que ellas ali sam mais benignas do que em outros pontos. A povoação é pouquissima, e tem-se retirado muito da fortaleza.

O solo é ubèrrimo, e muitas plantas Europêas facilmente se aclimam ali, produzindo espantosamente. No trigo, feijão e batata vi eu isso, em pequenissimas plantações.

O ribeiro Secula-Binza é uma fonte de àgua cristallina correndo em leito de granito.

Junto da fortaleza ha poucas àrvores; que as necessidades dos habitantes t[~e]m despovoado as matas que dêvem ter existido outrora, como ainda hôje existem mais longe.

O commercio é pouco, e esse mesmo é feito muito longe no interior.

A mesma pégada de decadencia que se nos revela em Quillengues, é ainda mais patente aqui.

A importancia de Caconda é igual, senão superior, á de Quillengues; mas tem menos segurança ainda para o commercio; que o caminho de Benguella é infestado de salteadores.




CAPÌTULO V.

VINTE DIAS DE AGONIA.



Parto de Caconda--O sova Quipembe--Quingolo e o sova Cáimbo--40 carregadores--Febre--O Huambo, o sova Bilombo e seu filho Capôco--80 carregadores--Cartas e noticias--Quasi perdido!--Sigo avante--Grave questão no Chaca Quimbamba--Os rios Caláe, Canhungamua e Cunene--Nôva e séria questão no Sambo--O Cubango--Chuvas e temporaes--Grave doença--Uma aventura horrivel--O Bihé finalmente!


Parti de Caconda a 8 de Fevereiro de 1878, levando em minha companhia 10 homens de Benguella, o meu muleque Pepeca, Verissimo Gonçalves, de quem já falei, e o chefe de Caconda, o Tenente Aguiar, que quiz por fôrça acompanhar-me n'esta expedição, que tinha por ùnico fim o arranjar carregadores; querendo mostrar assim a sua bôa vontade em nos auxiliar, e que era estranho aos acontecimentos de Caconda.

Cumpre-me dizer, que eu nunca duvidei da sinceridade do Tenente Aguiar; porque a esse tempo não tinha ainda arreigado no meu espìrito o principio que formulei no capìtulo anterior, e hôje mesmo creio que elle foi enganado como eu, apesar da sua muita experiencia dos sertões avassallados.

Depois de uma jornada de 17 kilòmetros a N.E., alcançei a libata de Quipembe, onde fui recebido pelo sova Quimbundo, que me deu hospitalidade. Passei um pequeno ribeiro o Carungolo, junto a Caconda; e depois o Catapi, que ali corre a S.O.

O sova mandou-me logo um porco pequeno, e não tendo eu podido comprar gallinhas, mandou-me uma. À tarde veio á minha barraca, e depois de larga conversa, disse-me, que, ainda que os seus antepassados fôram sempre avassallados a El-Rei de Portugal, elle não o era; porque as muitas arbitrariedades commettidas pêlos chefes contra elle e os seus, tinham quebrado os compromissos antigos; que o Mueneputo ja lhe não fazia justiça, e narrou-me muitos dos acontecimentos em que baseava as suas accusações aos chefes, falando com modo muito atilado.

O chefe estava presente á entrevista, e não podia responder ás accusações dirigidas aos seus antecessores, tão claramente eram ellas formuladas.

Este velho era homem de tino, e falou-me na polìtica dos Portuguezes em Caconda com um juizo difficil de encontrar em prêto boçal.

Procurei desfazer a má impressão que o soba tinha dos chefes de Caconda, mas creio que nada alcancei n'esse sentido. Mais uma vêz tive occasião de apreciar o mao resultado dos minguados estipendios que se conferem aos chefes dos consêlhos do interior; causa primordial da decadencia do nosso poderio e influencia ali.

O sova de Quipembe é muito idoso, e soffre de gota, que lhe embaraça o caminhar.

A sua libata é vasta, bem fortificada e muito bem situada. Desde a minha chegada muitas dezenas de prêtos e prêtas pequenos olhavam pasmados para mim, fugindo em debandada ao menor movimento que eu fazia. Tentei fazer-lhes perder o mêdo que manifestavam, dando-lhes alguns guisos e bagos de coral; mas só mui receosos se chegavam a mim, fugindo logo que recebiam o presente.

Fôram objecto de grande admiração, os meus òculos e o meu cobertor, em que se desenhava um enorme leão em fundo vermelho.

No dia 9 deixei a libata, seguindo a N.E.; passei logo o ribeiro Utapaira, e uma hora depois alcançava o Cuce, affluente do Quando. Este rio tem ali 3 metros de largo por 2 de fundo, dando difficil passagem, por serem as suas margens escarpadas e lodoso o fundo.

A margem direita é montanha suave e pouco elevada, e a esquêrda campina de 1 kilòmetro de largo. Passei ao sul da libata de Banja, magnificamente situada no tôpo de um outeiro, e depois de atravessar três ribeiros, o Canata e Chitando, que vam ao Cuce, e o Atuco ao Quando, alcancei este ùltimo rio, um dos grandes affluentes do Cunene.

O Quando corre ao Sul, com uma largura de 20 metros por dois a três de fundo.

No sitio de Pessange, em que acampei, desapparece o rio por baixo de massas enormes de granito, para reapparecer um kilòmetro a jusante.

Este ponto offerece uma das mais bellas paisagens que tenho visto. As margens do rio, um poco elevadas, sam cobertas de luxuriante vegetação, onde as palmeiras elegantes se destacam do verde-negro dos gigantescos espinheiros. Os rochêdos denegridos sobressaem aqui e àlém por entre os tufos de mato, mostrando os cabêços puïdos do bater das tempestades.

Nuvens de passarinhos chilram nas árvores e innùmeras rôlas esvoaçam sôbre os espinheiros. De quando em quando ouve-se o resfolgar dos hippopòtamos nos pegos do rio.

É a belleza selvagem em tôda a sua força, mas a par d'ella ha ali alguma cousa de horrivel, que sam venenosissimas serpentes que a cada passo se arrastam junto de nós.

Matei algumas, que me certificáram os prêtos serem de mortal peçonha.

Apparecéram alguns Hyrax, e eu, internando-me no mato virgem da margem esquêrda, em sua busca, deparei com as ruinas de uma muralha de pedra, que pêla extensão parecem ter sido muro de povoação antiga. Foi este o primeiro dia na minha viagem em que de noite tive por tecto o ceo estrellado, mas por isso não foi menos profundo o meu sono. Ao alvorecer matámos, entre a minha cama e a do tenente Aguiar, uma cobra venenosa.

Seguímos a N.E., e para àlém da povoação de Pessange, encontrámos a de Canjongo, governada por um secúlo, que nos offereceu capata e vendeu algumas gallinhas a trôco de panno de algodão ordinario, e depois de passarmos o rio Droma, affluente do Calae, que corre a S.E., descançámos algumas horas na margem esquêrda, e caminhando depois a N.N.E., chegámos, ás 5 horas da tarde, á libata grande de Quingolo.

O sova deu-me hospitalidade, e mandou logo comida para a minha gente.

Sabendo o motivo da minha viagem, disse-me, que se a elle tivessemos recorrido com tempo, nos teria arranjado os carregadores, mas que os chefes de Caconda não faziam caso d'elle, e faziam mal n'isso; que ainda assim, me ia dar 40 carregadores que enviaria a Caconda, e fôsse eu ver se obtinha os outros ao Huambo.

Fui atacado de uma ligeira febre. No dia 11, logo de manhã, o sova veio visitar-me e confirmou o seu offerecimento de 40 homens, que me disse partiriam no seguinte dia para Caconda.

Quiz fazer algumas compras de vìveres, mas nada me quiséram vender; sabendo isto o sova Caimbo, enviou-me um grande porco. Eu fiz-lhe um presente de 3 peças de riscado e duas garrafas de àgua-ardente.

O chefe Aguiar decidio voltar a Caconda, no que me deu um verdadeiro prazer.

Ao meio dia apparecéram os chefes dos carregadores que partiam, para receberem os pagamentos.

Esta libata grande de Quingolo é situada sôbre um outeiro granìtico que domina uma enorme planicie.

Por entre as rochas crecéram sycòmoros enormes, que lhe dam uma frescura constante. Estas rochas combinadas com as palissadas formam uma temivel fortificação, rodeada de um fosso meio obstruido. No tôpo do outeiro dois rochêdos enormes de elevadas proporções formam uma especie de mirante, d'onde se goza um dos mais sorprendentes panoramas que tenho visto.

Semelhante ao golpe de vista da cruz alta do Bussaco, se a mata, em vez de limitada na estreita cinta de muralhas, se estendesse dos cabos Carvoeiro ao Mondego até á beira-mar, apenas interrompida aqui e àlém por verdejantes clareiras, o paiz que se avista do alto de Quingolo é talvez, mais vasto e grandioso, sendo limitado em tôrno por um perfil azulado de longínquas montanhas que de distantes mal se avistam.

No dia 12, ainda que me recresceu a febre, decidi partir, e tendo feito as mais cordiaes despedidas ao sova e ao chefe Aguiar, segui ás 8h. 30m., acompanhado de 3 guias que me deu o sova Caimbo, com quem fiquei nos melhores termos de amizade. Logo á saida passei o ribeiro Luvubo, que corre ao Calae, e pêlas 10 horas alcancei a libata do secúlo Palanca, onde pedi agasalho, por me ser impossivel caminhar com febre que recrescia a cada momento.

Apesar do meu estado de saude, fiz observações astronòmicas, para determinar a minha posição; e falo n'isso, por ser este o primeiro d'essa sèrie de pontos que eu devia determinar através d'Àfrica.

Foi a povoação de Palanca o primeiro ponto determinado por mim, n'essa linha que marca o meu caminho do mar Atlàntico ao Indico.

Tres gramas de quinino que tomei durante a apyrexia produzíram-me ràpidas melhoras que me permitíram seguir no dia immediato.

Eu viajava acavallo em um possante bôi, e tinha um outro de reserva, bôis muito bem domesticados e que offereciam bôa commodidade ao andar, podendo obter d'elles um aturado trote e mesmo um galope curto.

Segui perto das 8 horas e passei logo o rio Dôro, a que chamam das mulhéres, onde foi muito difficil a passagem dos bôis, por ser de fundo lodoso.

O calor era intenso, e eu comecei a sentir-me mais doente, pêlo que resolvi deitar-me a descançar um pouco.

Não haviam arvores no sitio, e ao sol ardente sôbre uma terra ardente adormeci. Foi curto o meu sono, e ao despertar, senti que estava fresco e tinha sombra. Eram os meus prêtos que, de motu proprio estavam em tôrno de mim segurando um panno para desviar do meu côrpo as ardencias de um sol a prumo. Tocou-me tal prova de cuidado. Segui ávante e passei um riacho--o Dôro, a que chamam dos homens, que se une ao primeiro e corre depois ao Calae, não sei se com o mesmo nome. Duas horas depois encontrava o rio Guandoassiva, que tem 5 metros de largo por 1 metro de fundo, em cuja margem descancei. É affluente do Calae e abunda em peixe miudo, que muito ali pescámos. Eu sentia-me bastante doente. Á febre que tinha reapparecido unia-se uma extrema fraqueza, pois que, havia dois dias, apenas tinha tomado alguns caldos de gallinha.

Aproveitei o descanço para mandar fazer um caldo de frango, que não levou sal, por se me ter acabado a pequena provisão trazida de Caconda.

Depois de duas horas de repouso, seguímos sempre a N.E., e meia hora depois passàvamos o rio Cuena, que tem ali 6 metros de largo por 1,5 de fundo, e corre ao Calae.

Este rio corre entre as vertentes suaves de montanhas mui pouco elevadas, mas cavou um leito fundo, cujas escarpas verticaes de 2 metros, tornáram difficil a passagem dos bois.

Trabalhámos ali duas horas. Duas horas depois, já ao cahir da noite, alcancei a libata do Capôco, o poderoso filho do sova do Huambo.

O Capôco recebeu-me muito bem, deu-me a sua propria casa para habitar, offereceu-me logo um grande porco, e sabendo-me doente mandou-me duas gallinhas.

Falei-lhe em carregadores, que elle me prometeu arranjar.

Fiz-lhe um presente de duas peças de riscado e duas garrafas de àgua-ardente. Pouco depois, um grande rancho de virgens, que se conhêcem pelas muitas manilhas de verga de pao, que lhe sobem dos artelhos, trouxeram em cestas abundante comida aos meus prêtos. Depois de tomar alturas da lua, deitei-me, feliz, apesar de doente, por ver coroada de èxito a minha excursão.

No dia seguinte deveriam chegar ali os meus companheiros, e com elles, não só a amizade e a companhia dos meus conterraneos, mas ainda os recursos que já me faltavam completamente.

Adormeci sorrindo. ¡Quam longe estava eu de pensar que adormecia na vèspera de uma agonia, immensa agonia que devia durar por 20 dias!

No dia 14 fui a casa do pai do Capôco, o sova das terras do Huambo. A libata d'este sova, que se chama Bilombo, dista 3 kilòmetros da do filho, e está assente na margem esquêrda do rio Calae.

Bilombo esperava-me. Rodeado do seu pôvo, trajava soberbamente uma casaca escarlate, cobrindo-lhe a cabêça uma barretina de caçadores. Entreguei-lhe o meu presente, que consistia em 3 peças de riscado ordinario e duas garrafas de àgua-ardente, a que se mostrou muito grato. Ficou muito sorprendido vendo a minha carabina Winchester, e pedio-me para eu atirar com ella, ficando admiradissimo de me ver metter algumas balas n'um pequeno alvo a 200 metros, e muito mais quando lhe quebrei um ôvo a 50 metros.

Este sova governava em tudo o paiz do Huambo: mas está hôje reduzido a dominar apenas em parte d'elle. A sua historia é curta, mas vulgar. Elle era casado com a filha do sova do Bihé, que entretinha relações amorosas com um dos seus secúlos.

Tremiam os criminosos da còlera do rei se viesse a saber a sua falta. Houve rompimento entre Bilombo e um règulo vizinho, e a guerra foi declarada. Bilombo tomou o commando do seu exèrcito e partio, ficando a governar na sua ausencia o amante da sua mulhér. Conspiráram ambos e Capussocússo fêz-se acclamar sova. Retirou-se Bilombo para esta parte do paiz banhada pêlo Calae, onde o pôvo se lhe conservou fiel, e á epocha da minha passagem, me disse, estar preparando uma terrivel vingança á adùltera e ao seu amante o traidor Capussocússo.

De volta a casa do Capôco, despedi os três guias, que me acompanháram desde Quingôlo, e por elles escrevi a Capello e Ivens, dizendo-lhes, que os esperava, e que não abandonassem as cargas, por ser o paiz pouco seguro.

Fui de tarde dar um passeio ás margens do Calae, e sorprendeu-me a quantidade de caça que encontrei, que nunca tanta tinha visto, mas nada matei por não ir prevenido para isso.

O sova Bilombo mandou-me um presente de farinha de milho e um grande bôi, presente mui valioso, por ser escaço o gado bovino n'aquelle paiz.

Os carregadores estavam preparando os mantimentos para seguirem no dia immediato para Caconda, e eu escrevia aos meus companheiros, quando chegáram três portadores do sova de Quingôlo, com cartas d'elles, e uma cesta contendo sal e um pequeno saco de arroz.

Abri pressuroso as cartas; eram ellas duas officiaes e uma particular, assignadas por Capello e Ivens. Diziam-me, que tinham resolvido seguir sós, e que pêlos 40 carregadores enviados por mim de Quingôlo, me mandavam 40 cargas, acompanhadas pêlo guia Barros, para eu as conduzir ao Bihé.

Só o pouco ou nenhum conhecimento do sertão Africano, que então tinham os meus companheiros, podia desculpar um tal proceder. Eu achava-me n'um paiz hostil, e se até ali tinha sido respeitado, fôra só porque o gentio me julgava a vanguarda de uma grande comitiva capitaneada por elles, e o receio das represalias tinha até então sostido a rapacidade dos indìgenas. Eu estava no paiz onde Silva Porto, o velho sertanejo, que percorrera impunemente os mais longinquos sertões Africanos, tivera de sustentar cruento combate com um gentio àvido de rapina.

¿Que seria de mim logo que se soubesse que tôda a minha força consistia em 10 homens? Encarei a minha posição e achei-a um pouco séria. Capello e Ivens tinham sido enganados por alguem, que a sua lealdade não lhes consentiria de certo o deixarem-me em tal posição, se elles conhêcessem bem essa posição.

¿Que fazer? Em três dias podia alcançar Caconda, e voltar d'ali a Benguella. Tinha, por outro lado, diante de mim uma jornada de vinte dias ao Bihé, jornada em que teria de arriscar cada dia e a cada hora a vida e as bagagens. ¿Que fazer?

A noite de 17 de Fevereiro foi passada em uma agitação febril indescriptivel.

¿Devia seguir ávante? ¿Tinha o direito de arriscar as vidas dos dez homens que me cercavam, e que dormiam tranquillos junto de mim? ¿Teria o direito de arriscar a minha propria vida em imprudente passo? ¿Deveria voltar a Benguella?

¿Quem comprehenderia na Europa o obstàculo quasi insuperavel que me fazia recuar? Ninguem, a não ser um ou outro explorador infeliz como eu.

¡Que noite horrivel! e a febre a desvairar-me a mente, e o cuidado a augmentar-me a febre. A aurora do dia 18 encontrou-me de pé, e havia momentos que uma phrase estava gravada no meu pensamento e eu repetia machinalmente aquella phrase.

Audaces fortuna juvat. Era a velha sentença dos fortes Romanos, era a lei que dicta as acções dos aventureiros.

Decidi seguir ávante, eu que não tinha ido a Àfrica para só visitar o paiz do Nano, que, digamos a verdade, não deixa de ser muito interessante, sôbre tudo para nós os Portuguezes.

Descrevi aos meus 10 homens a nossa posição precaria e a resolução tomada de caminhar para o Bihé; elles protestáram-me a sua dedicação e a intenção de sempre me acompanharem.

D'esses dez homens 3, Verissimo Gonçalves, Augusto e Camutombo estivéram em Lisboa depois de terem atravessado comigo a Àfrica; 4 seguíram do Bihé Capello e Ivens, por minha ordem; 1, o prêto Cossusso, enlouqueceu, junto ao Quanza, e foi por mim entregue ao aviado de Silva Porto, Domingos Chacahanga, para d'elle ter cuidado; e os dois restantes, Manuel e Catraio grande, cahiram aos meus pes varados pêlas azagaias Luinas, e cumprindo a sua promessa formulada rudemente n'este dia, morréram defendendo-me, quando eu mesmo defendia a bandeira das Quinas.

Ao tempo em que vai a minha narrativa, eu mal os conhêcia, e não tivera até então logar de experimentar o seu valor.

Eu estava em casa do Capôco, que até então me tinha dispensado os maiores favores; mas Capôco era o cèlebre salteador do Nano, que chegara a ir atacar Quillengues, um anno antes. ¿O que faria elle, logo que conhêcesse a minha fraqueza?

D'elle dependia o èxito da minha empresa. Capôco é homem de vinte e quatro annos, sympàthico e de maneiras agradaveis. Muitas vêzes me dizia Verissimo Gonçalves, que lhe parecia impossivel ser elle o homem cujo nome era tão temido, e que tão longe dirigia as suas correrias de devastação e morte. Entre as suas escravas conhêceu Verissimo algumas raparigas roubadas em Quillengues, no ataque do anno anterior. Uma mesmo, com quem falei, era filha de um dos sovas de Quillengues, e Capôco pedia por ella grande resgate.

Capôco é intelligente, parco no comer e beber, e ainda que possue grande nùmero de escravas, as que formam o seu harem sam mui poucas.

Ha no seu fundo alguma cousa de justo por entre a barbaria do seu viver e dos seus principios. Por exemplo: eu vi que a escrava, a que acima me referi, filha do sova de Quillengues, trazia nos artelhos as manilhas de pao, signal infallivel de virgindade, a pesar de ser muito bonita e elegante. Admirou-me isso, e perguntei ao Capôco ¿porque não havia feito d'ella sua amante? "Porque não dêvo," me respondeu elle, "é minha escrava pêlo direito da guerra, mas em quanto seu pai manifestar o intento de a resgatar, dêvo respeital-a e será respeitada, porque a dêvo entregar como a tomei."

Um dia Capôco disse-me, que, estando Benguella d'aquelle lado (apontava para o oeste), o sol passava primeiro pêlo Huambo antes de ir a Benguella. Disse-lhe eu ser isso verdade, e elle quiz saber quanto tempo depois de nascer ali, nascia elle em Lisboa. Procurei fazer-lhe comprehender, que hora e meia; dizendo-lhe o tempo que um homem leva a percorrer tal caminho, elle mostrou-se admirado; porque julgava, me disse, ser o nosso paiz muito mais longe.

Os costumes entre os pôvos do Nano e do Huambo sam os mesmos que entre os Quillengues, assim como falam a mesma lingua. Trabalham o ferro, de que fazem setas, azagaias e machadinhas; mas não enxadas, que v[~e]m do norte.

Como já incidentalmente notei, as raparigas, em quanto virgens, usam nos artelhos de ambas as pernas ou só na esquêrda, umas manilhas de verga de pao, e é grande crime para a familia, conservar as manilhas áquellas que já não t[~e]m direito de as usar.

Uma cousa curiosa nos costumes d'estes pôvos, é haver em tôdas as povoações uma especie de kiosques para conversação.


Figura 4.--Homem e Mulhér do Huambo.

Sam como uma cubata, mas os prumos que sustentam o tecto de côlmo, sam bastante separados. No meio arde a fogueira, socia constante do gentio Africano, e em tôrno tomam assento os habitantes da povoação em toros de pao. É o sitio da palestra, sôbre tudo quando chove; ali narram-se episodios de guerra ou de caça, fala-se tambem de amor, e muito menos de vidas alheias do que na Europa.

No paiz do Huambo comêça na costa de oeste o grande luxo nos penteados, tanto em homens como em mulhéres, e tenho visto alguns que difficilmente seriam executados pelos melhores cabelleireiros da Europa.

Ha penteados que levam dois e três dias a fazer, e que se conservam por muitos mezes.

Os penteados das mulhéres sam profusamente enfeitados com umas contas de vidro que no commercio em Benguella tem o nome de coral branco ou encarnado, e é este gènero muito procurado no paiz. Eu infelizmente não levava nenhum.

A pòlvora, armas e o sal de cozinha sam ali gèneros de grande valia. Nada d'isso eu tinha, em quantidade de que podesse dispensar, o que tornava mais embaraçosa a minha posição.

Fui falar ao Capôco e expuz-lhe que os meus companheiros tinham seguido por Gallangue, e que só viriam 50 cargas, não precisando eu por isso mais de 40 homens e esses só para irem d'ali ao Bihé.

Despedímos por isso os 80 carregadores que a essa hora já estavam reunidos, e que se retiráram muito descontentes. Capôco prometeu-me que teria os 40 de que precisava até ao Bihé. N'esse dia chegou o prêto Barros com as 40 cargas, e trouxe-me nôva carta dos meus companheiros, confirmando o que diziam as primeiras.

Por elle sube que elles tinham saïdo de Caconda para o Bihé; acompanhados pêlo ex-chefe, Alferes Castro, e pêlo degradado Domingos, que me tinham mostrado a impossibilidade de obter gente em Caconda, e que a obtivéram no dia em que eu sahi d'aquelle ponto.

A elles, talvez, devia eu a crìtica posição em que me achava, porque os meus companheiros, pouco conhêcedores d'Àfrica, e nada d'aquelle paiz, não podiam julgar das difficuldades que me creavam, ao passo que aquelles dois senhores, de sobra as conheciam. Não os accuso de um crime, mas culpo-os de uma leviandade.

Não lhes quero mal, porque a ningem quero mal, e um mez depois de se passarem os successos que estou narrando; espantado ainda dos perigos a que tinha conseguido escapar; prostrado no leito, onde me tinha prendido com garras de ferro a doença, proveniente de 20 dias de cruel agonia, a que elles déram causa; vi-os entrar, famintos e sem recursos, na casa de Silva Porto, que eu occupava no Bihé; e esquècendo tudo o mal que me haviam feito; e não me lembrando de que um estava privado dos direitos
de cidadão por uma sentença infamante; reparti com elles o pouco de vìveres que eu tinha, dando-lhes os meios de voltarem com relativa commodidade a Caconda. É que eu vi n'elles, não só dois brancos, dois Portuguezes, perdidos no já longinquo sertão do Bihé, mas vi mais os homens que me fizéram ter de mim uma opinião de que me sentia orgulhoso, os homens que em 20 dias de agonia que me déram, em mil perigos a que me lançáram, com que me fizéram lutar e que eu venci, me retemperáram a alma para commettimentos maiores. A elles devia a confiança que tinha em Deos e em mim mesmo; e repartindo com elles o pouco que tinha, julgava pagar uma dìvida de gratidão, onde outros, succumbindo ao soffrimento, só veriam, talvez, um motivo de vingança.

Não antecipemos factos.

Capôco veio dizer-me, que no dia seguinte teria os 40 homens que queria, mas só até ao Sambo, porque elles se recusavam a ir mais àlém; por estarem despeitados pêla despedida dos 80 que se haviam reunido para ir a Caconda e ao Bihé, e que eu tinha dispensado. Àlém d'isso, elles exigiam um pagamento muito superior; porque eu os havia contratado por 10 pannos de Caconda ao Bihé, e estes exigiam só do Huambo ao Sambo 8 pannos. Acertei tudo, para poder partir.

No dia seguinte de manhã, reuníram-se os 40 homens; mas de repente surgio uma nôva difficuldade. Quando em Caconda fomos enganados pêlo Bandeira, o Ivens tinha tirado a tôdos os fardos sortidos o algodão branco; porque os prêtos que esperàvamos do Bandeira não queriam pagamento em outro gènero. Esquèceu esta circunstancia, e eu, levando dois fardos sortidos, não levava nem uma só peça de algodão branco. A gente do Capôco declarou-me logo, que não queriam receber senão algodão branco, e não pegariam nas cargas se eu lho não désse.

Recusáram-se a receber o riscado, e já se iam, quando appareceu o Capôco, e não sem custo os decidio a receberem metade em riscado, metade em zuarte.

Havia grande descontentamento entre elles quando ás 10 horas os fiz seguir acompanhados pêlo guia Barros. Eu devia partir dentro de uma hora; mas fui atacado de tão violento accesso de febre, que tive de deitar-me.

Desde a vèspera chovia torrencialmente, e sôbre tudo a noite foi tempestuosa.

A febre comêçou a declinar ás 4 horas da tarde, e a chuva cessou. Pêlas 5 horas, precisei sahir da libata e fui a um mato pròximo, os meus passos eram vacilantes e apoiava-me pesadamente no meu bordão.

Precavido sempre, disse ao meu prêto pequeno Pépéca, que me acompanhasse e trouxesse uma das minhas carabinas.

Ia a entrar no mato, quando a vinte passos de mim surge um enorme bùfalo a olhar desvairado, resfolgando estrondosamente.

Tomei das mãos do pequeno a espingarda, e qual não é o meu desespêro, vendo que, em logar de carabina, elle tinha trazido uma simples arma de caça, carregada de chumbo! Senti-me perdido e vi a morte inevitavel, terrivel caminhando para mim n'aquella fera, que mugia surdamente.

Lembrei-me de Deos, de minha mulhér e de minha filha. A fera avançava aos saltos, n'esse irregular galope que elles tomam para o ataque. A 8 passos de mim, disparei-lhe o primeiro tiro de chumbo, elle parou meio segundo, para seguir logo. Ao dispararar-lhe o outro tiro não havia mais distancia entre a bôca da espingarda e a cabêça do bùfalo do que alguns decìmetros. Atirei e fiz um enorme salto para o lado. O bùfalo seguio sempre, passando a tomar uma carreira vertiginosa, e desappareceu no mato. O meu Pépéca ria a bandeiras despregadas, e inconsciente do perigo, batia as palmas gritando, "O bôi fugio, o bôi fugio, têve mêdo de nós."

Voltei a casa do Capôco; e passei a noite mais socegado. Quiz escrever, e para isso improvisei uma luz de manteiga de porco em uma velha caixa de sardinhas de Nantes.

Era a 21 de Fevereiro de manhã. Despedi-me do Capôco, e febril ainda, segui caminho do Sambo. Antes de chegar ao Calae, recebi un bilhete. Era elle do guia Barros, dizendo-me, que na vèspera á noite, os carregadores tinham fugido tôdos, deixando as cargas na libata do secúlo Quimbungo, irmão do sova Bilombo.

Parei, e mandei chamar o Capôco. Contei-lhe o occorrido, e elle disse-me, que seguisse para a libata do tio, que tudo ia remediar. Segui ávante, e pouco depois passei o Calae, que corre N.S. para o Cunene, tendo ali 30 metros de largo por l,5 de fundo, com violenta corrente.

As margens sam vastas planicies levemente accidentadas e cobertas de gramìneas, por entre as quaes surge aqui e àlém um solitario dragoeiro. O solo é de formação animal, que tudo o terreno é coberto por um mundo infinito de termites, ou antes o cobre.

Uma ponte, construida toscamente de troncos de àrvore, une as duas margens do rio. 100 metros a montante da ponte, recebe o Calae um affluente importante, o Cuçuce, que traz volume d'àgua igual ao seu. Caminhei a E.N.E., e pêlas 10 horas passei junto á libata do secúlo Chacaquimbamba, em cuja frente havia grande ajuntamento de gentio. Passei sem nada me dizerem; mas tinha andado uns 50 metros, quando senti um grande barulho do lado da libata. N'esse momento Verissimo correu a mim e disse-me, que havia questão com um carregador nosso.

Voltei a traz e vi o prêto Jamba, carregador da minha mala, a quem tinham tirado a espingarda, o que conseguíram facilmente, porque elle a largou com receio de deixar cair a mala, que continha os chronòmetros e outros instrumentos delicados.

Àlém da arma, elles tinham mettido para a libata uma cabra e um carneiro, que me tinham sido dados pêlo Capôco. Intimei-os a que me entregassem o roubo; mas apenas me respondéram com um murmurio ameaçador.

Calculei ràpidamente as circunstancias, e vi-me com 10 homens, cercado por 200 que me ameaçavam furiosos.

Esquèci por um momento tôda a prudencia e bom senso, e quiz experimentar o que valiam esses 10 homens, que no futuro teriam de ser meus socios em perigos maiores, e caminhando para a porta da libata, armei o revólver e ordenei-lhes que entrassem e me trouxessem o roubo. O meu prêto de Benguella, Manuel, um môço de que eu nunca fizera caso, soffreu uma transformação sùbita, e armando a carabina, de um salto entrou na libata. Foi logo seguido por Augusto, Verissimo e Catraio grande. Os
outros seguíram, e eu, estudando os meus homens, esquèci-me de mim, e podia ter sido vìctima do furor da populaça que me cercava; mas a nossa audacia espantou-os, e recuáram, vendo sahir da libata Verissimo com a cabra, o Augusto com o carneiro, e os outros de carabina prompta cobrindo-lhes a retirada.

A arma, mais facil de esconder do que os animaes, não foi encontrada, mesmo em uma segunda busca mais minuciosa do que a primeira; que o successo desta tinha autorizado.

Os meus prêtos, animados pêla indecisão dos gentios, só proferiam palavras de morte, e custou-me a contel-os para que não fizessem fogo sôbre os indìgenas.

Consegui acalmal-os, e prometi-lhes que em breve teriamos satisfação plena.

Eu dizia isto fiado no Capôco, em quem já confiava um pouco.

Seguímos, uma hora depois, e a 1.30 passava o rio Põe, affluente do Caláe, que tem 5 metros de largo por 1 de fundo, cujo leito lodoso e molle dá difficil passagem.

Ás 3 horas chegava á libata do secúlo Quimbungo, irmão do sova do Huambo, onde estavam as cargas abandonadas e o prêto Barros. O Quimbungo recebeu-me muito bem, e disse-me que me daria carregadores até ao Sambo, e sabendo do occorrido de manhã, pedio-me que não fizesse mal ao secúlo
Chacaquimbamba, que elle me faria entregar a arma roubada, e dar plena satisfação do insulto. Pêlas 6 horas, chegou ali o Capôco, trazendo alguns carregadores dos que tinham fugido, e as fazendas apprehendidas aos outros, fazendas dos pagamentos que eu havia feito adiantados. Disse-me, que no seguinte dia me faria entregar a arma roubada, e poria á minha disposição o chefe da povoação para eu o castigar.

Que não receasse eu mais fuga de carregadores, porque elle mesmo, ou o tio, me acompanhariam até ao Sambo.

Fui deitar-me ardendo em febre, e passei uma noite horrivel.

No dia seguinte reuníram-se mais carregadores; mas não ainda os sufficientes.

Capôco tinha partido logo de madrugada para casa do Chacaquimbamba, e ao meio dia appareceu-me com a arma roubada e aquelle secúlo, a quem perdoei a offensa da vèspera. O delinquente deu-me mil satisfações, e melhor do que as satisfações, dois magnìficos carneiros.

Capôco, esse homem selvagem e ferôz, que é o terror do Nano, esse homem que eu consegui dominar completamente e que tantos serviços me prestou, despede-se de mim e volta á sua libata, recommendando-me instantemente ao tio.

De tarde desencadeou-se sôbre nós uma horrivel tempestade, e á chuva torrencial misturava-se o raio e o trovão da tormenta perpendicular. Recresceu-me a febre.

Durante a noite nôva tormenta; mas com chuva moderada. O secúlo Quimbungo, logo de manhã cêdo, me veio dizer estarem promptos os carregadores; mas exigirem o pagamento adiantado.

Recusei positivamente, porque, àlém da experiencia adquirida com o mao resultado dos pagamentos adiantados, foi consêlho do Capôco, nunca fazer taes pagamentos.

Os homens recusáram-se a seguir e fôram-se. Quimbungo reune a gente da sua povoação, e ordena-lhe que sigam comigo; elles obedecêram, mas sam mui poucos e reunidos aos que me trouxe o Capôco, deixam ainda 27 cargas, que eu entrego ao Barros, e que o Quimbungo promette mandar-me ámanhã para o Sambo, para onde eu decidi seguir immediatamente.

Parti ás 10 horas a Leste, e uma hora depois, passei o rio Canhungamua, de 30 metros de largo por 4 a 5 de fundo, que correndo ao Sul vai unir as suas àguas ás do Cunene.

Uma ponte de troncos de àrvore, de construcção nôva, deu-me facil passagem e á comitiva, que na margem esquêrda do rio se recusou a ir mais longe n'aquelle dia, sendo-me preciso empregar a maior energia para os fazer seguir até as 3 horas, hora a que acampei n'uma espêssa floresta de acacias.

O mao tempo continuava sempre, e a febre resistia ao muito irregular tratamento que eu lhe podia fazer.

Durante a noite uma trovoada horrivel, correndo de S.O. a N.E., passou junto de mim, despedindo raios e chuva torrencial.

Levanto campo no dia seguinte ás 6 horas, e duas horas depois, passava o Cunene, em ponte construida, como tôdas n'esta parte d'Àfrica, de troncos grosseiros. O rio tem ali 20 metros de largo por 2 de fundo, e corre ao Sul. As margens sam levemente accidentadas, cobertas de gramìneas, e pouco arborizadas. Duas fileiras de àrvores, mui semelhantes aos salgueiros da Europa, desenham duas linhas tortuosas, por entre as quaes o rio se deslisa com veloz corrente em leito de areia branca e fina.

Descancei um pouco, depois de ter feito as observações precisas para determinar a altitude, e segui ao meio dia, alcançando, pêlas 2 horas, a libata do sova Dumbo, no paiz do Sambo.

Este sovêta é vassallo do sova do Sambo, é homem rico e tem muita gente nas povoações que governa. Recebeu-me muito bem, e quiz que me hospedasse na libata, o que aceitei.

Prometteu-me carregadores para o dia seguinte, ainda que me disse ter eu chegado em má occasião, por ter muita gente fôra em guerra. Paguei e despedi os carregadores do Quimbungo, e fiquei certo de seguir no dia
immediato.

Pouco antes de mim tinha chegado ao Dumbo um secúlo rico, que mora na margem do Cubango, chamado Cassoma, e vinha visitar o sovêta de quem era amigo. Este Cassoma, com quem não sympathizei, veio fazer-me mil protestos de amizade, offerecendo-se para me acompanhar ao Bihé.

De tarde mandei ao sovêta 3 garafas de àgua-ardente, e fiz lembrar-lhe que me não faltassem os carregadores na manhã seguinte. Ao contrario dos usos da hospitalidade do gentio n'estas paragens, o sovêta nada me mandou para comer, e eu e os meus tivémos fome, porque ninguem nos vendeu farinha.

Seriam 8 horas da noite, quando eu, de muito mao humor e estômago vazio, me ia deitar, senti bater á porta e logo entrarem o sovêta Dumbo, o tal Cassoma e um secúlo chamado Palanca, amigo e principal conselheiro do sovêta, e cinco das mulhéres d'este ùltimo.

Conversámos um pouco sôbre a minha viagem; mas de repente o Cassoma, interrompendo a conversa, disse ao sovêta, "Nós não viémos aqui para conversar, queremos àgua-ardente, e diga a esse branco que nol-a dê já."

O sovêta animado pela arrogancia do Cassoma, disse-me, que lhe desse àgua-ardente a elles e ás mulhéres. Eu respondi-lhe que já lhe tinha dado três garrafas, que elle nada me tinha offerecido, que era esta a primeira hospedagem que eu recebia de um chefe em que me deitava com fome, e por isso não lhe daria nem mais uma gota de àgua-ardente. O Cassoma meteu-se logo na questão, animando o sovêta contra mim, e entre nós comêçou uma controversia que durou mais de uma hora, em que eu fiz prova de uma prudencia e paciencia sem limites. Por fim elles concluiram dizendo-me, que pois eu lh'a não queria dar por bem, m'a iam tirar á fôrça.

Eu então, perdendo a paciencia, empurrei com o pé o barril, e armando o revólver, perguntei-lhes qual era o primeiro que bebia.

Elles vaciláram um momento, mas o Cassoma disse ao sovêta: "Tu es rei, vae, bebe primeiro." Dumbo, tirando o cobertor que o envolvia, entregou-o ao Palanca, dizendo-lhe: "Guarda-o, para que o branco m'o não furte," e caminhou ao barril.

Eu levantei o revólver á altura da cabêça do sovêta e fiz fogo; mas Verissimo Gonçalves, que estava junto a mim, empurrou-me o braço e a bala, desviando-se da pontaria, foi cravar-se na parêde.

Os três nêgros, transidos de mêdo, recuáram até á parêde, e as 5 mulhéres fizéram um berreiro horrivel.

Eu ouvi então junto á porta uma estrepitosa gargalhada que me chamou a attenção, e devisei na sombra dois homens encostados ás carabinas, que riam como riem prêtos. Eram os meus Augusto e Manuel, que se tinham aproximado, ao ouvirem a discussão, e que, acompanhados dos outros 8 homens, guardavam a porta.

O Verissimo disse então ao sovêta e aos seus companheiros, que se fôssem deitar, e não me dissessem mais nada, porque, se eu me zangasse outra vez, elle não lhes poderia salvar a vida como ha pouco.

Elles tomáram o prudente consêlho, e retiráram-se, ficando tudo em silencio.

Sem o empurrão que me deu o Verissimo, eu teria môrto um homem, e na situação em que nos achàvamos, estarìamos completamente perdidos. Foi elle que salvou tudo.

Com a excitação que me produziu a còlera, recresceu a febre, e cahi sem fôrças nas pelles que estendidas no chão me serviam de leito.

Os meus prêtos deitáram-se atravez da porta, e disséram-me, que dormisse descançado, que elles velariam por mim.

Havia quatro dias, que por um momento estive quasi perdido em três occasiões differentes: 1^o com o bùfalo no Huambo, 2^o na libata do Chacaquimbamba, e 3^o ali n'aquella noite.

Depois de um sono agitado, acordei ao som da tempestade que bramia lá fora.

Pensei nos acontecimentos da noite e não fiquei tranquillo. ¿O que succederia de manhã? Eu estava só com 10 homens, dentro de uma povoação fortificada, d'onde não era facil sahir; e ainda que se me abrissem as portas ¿onde iria eu obter carregadores, agora que me tinha indisposto com o règulo?

Pôde bem julgar-se da anciedade com que esperei o raiar da aurora.

Ao alvorecer a febre tinha abrandado um pouco. Apromptei-me para partir, e mandei chamar o sovêta, que appareceu logo.

Disse-lhe que ia seguir, e ali deixava as cargas sôb sua responsabilidade, e que depois as mandaria buscar; mas elle pedio-me que o não fizesse, que me ia dar os carregadores; e dando-me mil satisfações
do occorrido na vèspera, disse-me, que o culpado fôra o Cassoma, que elle já tinha posto fôra de casa; o que era falso, porque eu ali o vi depois.


Figura 5.--Mulhér do Sambo.

Ás 10 horas, apresentou-me os carregadores precisos. Verdadeiramente não eram só carregadores, que no grupo devisei 6 raparigas, ainda de manilhas nos artêlhos; tal cuidado poz elle em servir-me, que, para não me demorar, mandando ir homens das povoações distantes, me deu os que na sua tinha disponiveis, e ainda seis das suas escravas, para completar o nùmero pedido. Agradeci muito e mostrei-me sensivel a tal prova de cuidado, declarando-lhe logo, que não tinha comigo presente digno, de offerecer-lhe, e que querendo dar-lhe uma espingarda lhe pedia mandasse um homem da sua confiança recebel-a no Bihé, mostrando-lhe desejos de que esse homem fôsse o secúlo Palanca seu conselheiro ìntimo. Exultei de alegria (que me abstive de deixar transparecer) ao ver o meu pedido satisfeito, e o Palanca nomeado para me acompanhar. O sovêta Dumbo entregava nas minhas mãos um preciôso refem, que me responderia já pêla minha segurança, já pêla das cargas que deixei dois dias antes entregues ao Barros, a quem preveni e acautelei em carta deixada ao Dumbo.

Deixei a povoação ás 11 horas, á frente da estranha comitiva, formada dos meus dez bravos de Benguella, dez salteadores do Sambo, e seis virgens escravas do sovêta Dumbo. A chuva era torrencial; mas eu, apesar d'isso, segui sempre, tanto me tardava de ver longe a povoação onde passei tão horrivel noite.

Quatro horas depois, tendo andado a N.E., fui acampar junto da povoação de Burundoa, completamente molhado e tiritando de frio e febre.

Não aceitei a hospitalidade offerecida pêlo chefe da povoação, porque, depois do que se passou na vèspera, recordei-me de um bom consêlho que me deu Stanley, e protestei não mais em Àfrica pernoitar em casa de gentio.


Figura 6.--O meu Acampamento entre o Sambo e o Bihé.

Viéram ao meu campo muitas raparigas vender capata, milho, fuba e batatas magnìficas, em nada inferiores ás da Europa.

A chuva continuava mais moderada, mas persistente, e eu sentia-me muito doente.

Junto do meu campo corria um pequeno riacho, cujas àguas iam a um ribeiro affluente do Cubango, sam as àguas que este ùltimo rio recebe mais de Oeste.

Durante a noite houve chuva moderada, mais forte das 4 ás 5 da manhã, hora em que parou. Ha grande abundancia de òptimo tabaco n'este paiz, onde me vendêram muito e baratissimo. Ali poucos prêtos fumam, mas tôdos cheiram tabaco em pó, que preparam torrando a fogo brando o tabaco de fumo, e reduzindo-o a pó no mesmo tubo que lhe serve de caixa, com um pao, especie de mão-de-almofariz, que a elle anda prêso com uma correa fina.

Parti as 7^{h.} 40^{m.} a N.E., atravessando uma região muito cultivada e muito povoada.

Ás 8^{h.} 30^{m.} passei junto da grande povoação de Vaneno, e ás 10 parei para descançar junto da aldea de Moenacuchimba. Segui ás 10 e meia sempre a N.E., ás 11 passei junto da povoação de Chacapombo, muito populosa, e meia hora depois parei perto de Quiaia, a mais importante de tôdas. O chefe d'esta aldea veio ao caminho comprimentar-me e offerecer-me um grande porco. Dei-lhe em algodão riscado o valor do porco, e elle retirou-se satisfeito, mandando em seguida muitas cabaças de capata para a minha gente. Segui no mesmo rumo, e duas horas depois fui acampar no mato pròximo da povoação do Gongo.

Esta ùltima parte da marcha d'aquelle dia foi trabalhosa, porque choveu muito, e o vento S.O. era rijo e frio.

Pêla tarde chegou um enviado do sova grande do Sambo, cuja povoação me ficava uns 15 kilòmetros a N.O., mandando-me pedir alguma cousa, e dizendo-me o portador do recado, que se eu houvera passado á porta do sova, elle me daria um bôi. Agradeci a bôa intenção, e resolvi dar-lhe no dia seguinte alguma cousa, receoso que o enviado, se eu o despedisse sem dar nada, influisse nos carregadores a abandonarem-me, o que seria facil porque já o tinham querido fazer, e foi preciso tôda eloquencia do Verissimo para os convencer a seguirem ávante.

O secúlo Capuço, chefe da povoação pròxima, mandou-me comprimentar por três das suas mulhéres (tôdas feias), e por ellas um presente de uma gallinha e três cabaças de capata. Mandei-lhe seis côvados de riscado e dei algumas missangas ás mulhéres. Junto á noite viéram algumas mulhéres vender farinha, milho e mandioca.

Usam ellas ali os mais extravagantes penteados, e a carapinha é enfeitada com coral branco e reluz da grande profusão de oleo de ricino, que ellas prodigalizam na sua toilette. Os homens do sovêta Dumbo eram verdadeiramente insobordinados, querelavam-se com a gente de Benguella, e durante a noite só houve tranquillidade na barraca onde dormiam as seis virgens nêgras, as minhas gentís carregadoras.

A noite foi tormentosa de chuva e vento. Ao alvorecer o secúlo Capuço, veio agradecer os 6 côvados de riscado que lhe dei, e em logar das três mulhéres feias que me enviou na vèspera, trouxe-me um lindo porco e uma gorda gallinha.

O enviado do sova veio receber o presente que lhe tinha promettido; e que foi muito insignificante, sendo como era em trôco da intenção de me dar um bôi, se eu passasse junto da libata d'elle.

Segui pêlas 8 horas, e ás 9 passei junto das povoações de Chacáhônha, primeiras da raça (Ganguela) na Àfrica de Oeste.

Passei o riacho Bomba, cuja margem esquêrda segui por dois kilòmetros, quando os carregadores pousáram as cargas, recusando seguir ávante, e pedindo os seus pagamentos para voltarem. Eu estava a dois kilòmetros do Cubango, e querendo passar o rio, instei com elles a que andassem mais aquelle curto espaço, e que logo que estivesse na outra margem lhes daria os seus pagamentos e os despediria.

Recusáram-se formalmente, dizendo, que eu tinha sido muito offendido na sua libata, pêlo sovêta Dumbo, e por isso não iam para diante, sendo certo que, logo que eu os tivesse na outra margem do rio, fôra do seu paiz, me vingaria n'elles das offensas recebidas.

Fôram baldados os meus esfôrços e tudo foi eloquencia perdida. Recusei-me a pagar-lhes se elles não passassem o Cubango; responderão-me que se retiravam sem pagamento, e logo chamáram as seis raparigas e ordenáram-lhes que os seguissem.

Eu estava no desespero; ali perto era a povoação do Cassoma, e eu vi ser aquillo plano combinado de antemão para me entregarem a elle, que me havia precedido no caminho.

As cargas abandonadas n'aquelle ponto eram cargas perdidas. Calcule-se com que ôlhos eu vi partirem os carregadores, abandonando-me.

Olhei para as cargas e estremeci de prazer. Sentado em uma d'ellas estava um homem alto e magro, de figura impassivel, com a longa carabina atravessada sôbre os joêlhos.

Era o secúlo Palanca, que eu havia esquècido. Saltar sôbre elle e derrubal-o foi obra de um momento. Mandei-o amarrar de pés e mãos, e dei ordem a Augusto e Manuel que o enforcassem no ramo de uma acacia que se estendia sôbre as nossas cabêças. Ao ver que a ordem ia ser cumprida, elle, transido de mêdo, gritou-me, "Não me mates, os carregadores vam passar o Cubango," e logo soltou um grito agudo que fêz reunir os carregadores já dispersos.

Ordenou-lhes que pegassem nas cargas e seguissem, e elles obedecêram.

Mandei que lhe desamarrassem os pés, e prometti-lhe um tiro na cabêça á menor excitação dos carregadores. Meia hora depois passava o Cubango n'uma bem construida ponte, e acampava na margem esquêrda junto das povoações de Chindonga.


Figura 7.--Ponte de Cassanha sôbre o Rio Cubango.

Entre o rio e o meu campo ficavam umas minas de ferro, d'onde o gentio extrae abundante minerio.

Estava finalmente em terras de Moma, e livre dos paizes do Nano, Huambo e Sambo, de que guardarei eterna memoria.

O Cubango corre ali a S.S.E., e tem 35 metros de largo por 2 a 4 de fundo. Fiz observações para determinar a posição e altitude, e logo corri á barraca, que uma trovoada vinda de N.N.E. descarregou sôbre nós copiosa chuva.

Paguei e despedi os carregadores do Sambo, dando-lhes dois côvados de riscado a cada um, que tal tinha sido o ajuste.

Chamei as 6 raparigas, e disse-lhes, que a ellas nada daria, porque as mulhéres tinham obrigação de trabalhar e não mereciam paga. Ellas retiráram-se tristes; mas achando natural o meu modo de proceder, tão aviltada é a mulhér n'aquelles paizes.

Quando já se mettiam a caminho para voltarem ao Sambo, mandei-as chamar e dei 4 côvados do mais brilhante zuarte pintado que possuia a cada uma, e algums fios de missangas differentes.

É impossivel descrever o contentamento d'aquellas desgraçadas ao receberem tão valiosa paga. Os homens roiam-se de inveja, e eu convenci-os de que, se não tivessem querido voltar para casa na outra
margem do Cubango lhes pagaria do mesmo modo.

Foi a minha vingança, e ao mesmo tempo proveitosa lição.


Figura 8.--O Secúlo que me deu um Porco.

N'essa noite veio procurar-me um secúlo da povoação de Chindonga, que me trouxe de presente um porco.

Este secúlo prometeu-me carregadores para o dia seguinte, a um côvado de riscado por dia, dizendo-me, que elles só iriam até ao paiz de Caquingue, onde eu facilmente obteria gente para o Bihé.

A minha febre tinha cedido a fortissimas doses de quinino; mas completamente molhado havia três dias, eu sentia já os primeiros symptomas do terrivel ataque de rhèumatismo que depois ia compromettendo a minha viagem.

A noite foi tempestuosa e o dia seguinte continuou chuvoso.

O secúlo veio logo de manhã com os carregadores; mas eu tinha resolvido descançar ali um dia, e por isso convoquei-os para o dia seguinte. Disse-me elle, que os meus companheiros tinham passado na vèspera, vindos do Sul.

O secúlo Palanca, do Sambo, continúa bem vigiado, mas livre. Eu na vèspera tinha mandado dizer ao sovêta Dumbo, que a cabêça do seu amigo me respondia pêlas cargas que vinham escoltadas pêlo prêto Barros, resolução que Palanca achou muito justa e natural, por ser lei do paiz. Talvez o meu procedimento, que eu confesso francamente, me seja censurado, mas eu rogo aos censores, que pensem um pouco na posição de algum, acompanhado só de dez homens, n'um paiz em que tudo lhe é hostil, desde o clima até ao homem. Se eu não professo o principio de que os fins justificam os meios, não sou tambem bastante virtuoso para apresentar uma face á mão que me esbofeteou a outra. Longe das vistas do mundo civilisado, fôra d'esses dois cìrculos de ferro que apertam a humanidade culta, a que chamam o còdigo penal e as conveniencias sociaes, cìrculos que, apesar de estreitos, deixam ainda bastante latitude ao crime e á infamia; o explorador d'Àfrica, perdido no meio de pôvos ignaros, cujos còdigos differem essencialmente dos nossos; tendo por ùnica testemunha dos seus actos a Deos, por ùnico censor das suas obras a sua consciencia, precisa ter uma fôrça sublime para se conservar honrado e digno, quando muitas vêzes as paixões travam no seu ìntimo uma luta infrene. Por mim o digo, que tôdas as ovações que me tem dispensado o mundo civilisado, pêla felicidade que tive de vencer os obstàculos materiaes no meu caminho, seriam talvez mais justamente applicadas, se se soubesse quantas lutas, e que terriveis lutas sustentei para me vencer a mim mesmo.

Vencer as suas paixões indòmitas, vencer os seus hàbitos materiaes e moraes da vida civilisada, sam os dois grandes trabalhos do explorador. Aquelle que o conseguiu, attingirá o seu fim, cumprirá a sua missão.

Eu, no principio da minha viagem, receei muito de mim mesmo.

Tive lutas ingentes, lutas terriveis, por serem surdas e ignoradas, de que sahi sempre vencedor. O meu genio indòmito têve de ceder á vontade inquebrantavel, e na falta de tempo para escrever um còdigo, tomei um que accommodei ao meu uso. Os meus principios fôram os do direito natural; a minha lei, curta mas òptima, resumiu-se nos dez preceitos do Decàlogo.

Não se julgue que quero fazer jus á canonização, nem mesmo que pretendo ter seguido á risca os preceitos gravados no vigèsimo capìtulo do livro sublime do Èxodo, de certo o mais bello do Pentateuco; mas fiz o que pude para não me afastar muito d'elles, e fiz bem.

Esta divagação fica aqui, não como narrativa de àguas passadas, mas como consêlho a exploradores futuros, que não sejam missionarios, que a esses Deos me defenda de falar em materia da sua competencia.

É verdade que eu encontrei alguns em Àfrica que me fizéram lembrar o velho rifão, "Em casa de ferreiro, espeto de pao."

Passemos adiante.

Durante o dia, viéram muitas prêtas vender alimentos, e entre outras cousas vulgares, trouxéram uma mui extraordinaria.

Era uma grande cesta cheia de lagartas, mui semelhantes ás do Acherontia Atropos, e da mesma grandeza. Este gigantesco Lepidòptero no seu primeiro estado vive nas gramìneas, e é facil ali colher grande provisão. Os Ganguelas sam àvidos de tal manjar, que os meus prêtos recusáram.


Figura 9.--Mulhéres Ganguelas das margens do Cubango.

No dia seguinte logo de manhã, viéram offerecer-se muitos mais carregadores, que recusei, por me serem inuteis.

Parti depois das 10 horas, hora a que a chuva abrandou. No momento da sahida quebrei os meus òculos, que usava desde Lisboa. Andei a N.E., e cinco horas depois, acampava na margem esquêrda do rio Cutato das Ganguelas, rio que passei em umas alpondras sôbre uma pequena cataracta.

No caminho passei um pequeno ribeiro, chamado Chimbuicoque, affluente do Cutato.

O rio corre n'aquelle ponto a Leste, voltando em seguida ao N., e depois pêlo Leste para o Sul. Este S gigantesco é uma serie de ràpidos, em que o rio se precipita com fragor enorme, pôr sôbre as rochas de granito que formam o seu leito.


Figura 10.--Termites na margem do Rio Cutato dos Ganguelas.

No sitio das alpondras naturaes, mede 80 metros de largo, e a montante e jusante 27 metros com 4 a 5 de fundo. Vai afluir ao Cubango, dizem os naturaes que 15 dias de caminho ao sul d'este ponto.


Figura 11--Monte termìtico, de 4 metros de altura, nas margens do Rio Cutato dos Ganguelas, coberto de vegetação.

A margem direita é occupada pêlas plantações da povoação de Moma, que occupam um espaço que avaleei em mais de mil hectares de terreno. Sam as maiores que tenho visto em Àfrica. A cultura entre estes pôvos consiste principalmente em milho, feijão e batata, mas o que mais se vê sam campos de milho. Antes de chegar ás plantações, atravessei uma floresta de acacias enormes, de sorprendente belleza. O aspecto das margens do Cutato é muito original. Onde termina o granito do leito do rio comêça um solo de formação termìtica, e o terreno coberto de milhares de montìculos, uns cultivados, outros cobertos de vegetação silvestre, tôdos ligados, formando como que systemas de montanhas, ferem a vista, admirada ao contemplar um tão estranho systema orogràphico artificial. Marquei a grande povoação de Moma, três kilòmetros a O.S.O., e depois de ter determinado a altitude do rio ali, retirei-me, molhado da incessante chuva, e atacado de nôvo accesso de febre.

Os ameaços de rheumatismo continuavam. Durante a noite a chuva foi torrencial, e como sempre, dormi molhado, porque, n'esta època do anno, as gramìneas de que cobria a minha barraca improvisada, não tinham mais comprimento que 50 centimetros, e com herva tão curta é difficil, senão impossivel, vedar a àgua em uma barraca.

A chuva só abrandou no dia seguinte ao meio dia, e eu, apesar de abrazado em febre, segui ás 2 horas, tinha 144 pulsações.

Caminhei a pé, por me ser impossivel segurar-me a cavallo no bôi; mas, depois de uma hora de marcha, as pernas recusavam-se a continuar. Acampei. Os meus prêtos e os proprios carregadores Ganguelas dispensavam-me os maiores cuidados.

O logar em que acampei foi junto de umas povoações a que chamam Lamupas, por estarem perto das cachoeiras do rio, que em lingua do paiz t[~e]m o nome de Mupas.

É logar muito povoado e muito cultivado, sendo estes pôvos grandes cultivadores.

Encontrei no caminho algumas sepulturas de secúlos, que sam cobertas de barro, com uma forma semelhando algumas da Europa. Estas sepulturas sam cobertas por um alpendre de côlmo, e sam sempre debaixo de uma àrvore grande.

Sôbre ellas vi cacos de pratos e panellas, que ali sam depostos pêlos parentes do defunto, como nós depomos nos tùmulos das pessôas queridas, as saudades e as perpètuas.

De noite a chuva moderou, e o dia seguinte amanheceu nublado mas estio. A febre abrandou muito, mas as dôres rheumàticas comêçavam a fazer-se sentir atrozmente. Segui ávante, e meia hora depois de ter deixado o meu campo, passei junto da grande povoação de Cassequera.

Logo que passei um pequeno riacho que fica para àlém da povoação, deparei com umas clareiras enormes cobertas de gramìneas, que me prenderam a attenção pêlo seu enorme e completo desenvolvimento, em uma èpocha do anno em que as plantas d'esta familia estam em principio desse desenvolvimento.


Figura 12.--Sepultura de Secúlo.

O meu muleque Pépéca foi atacado de tão violento e repentino accesso de febre, que cahio inerte. Tive de parar e mandar contratar um homem, na povoação de Cassequera, para o levar ás costas. Ao meio dia, passei junto da libata do Capitão do Quingue, primeira povoação do paiz de Caquingue. Fui hospedar-me em casa de João Albino, mestiço de Benguella, filho do antigo sertanejo Portuguez Luiz Albino, môrto por um bùfalo nos sertões do Zambeze.

João Albino mora na libata de Camenha, filho do Capitão do Quingue.

Camenha estava ausente, por ter ido tomar o commando das fôrças do sova de Caquingue, que ia fazer a guerra a uns sovêtas do Cubango.

O tempo melhorou, e a minha febre cessou de tudo, mas o rheumatismo continuava a ameaçar-me.

A noite foi sem chuva, e o dia seguinte amanheceu claro e sem nuvens.

Fui visitar o velho capitão do Quingue, a quem levei de presente uma peça de lenços. Elle deu-me um bôi, que mandei logo matar, porque há muito que tìnhamos só carne de porco para comer. O capitão era muito velho e doente. Conversou muito comigo a respeito do motivo da minha viagem, e não comprehendeu o que eu andava fazendo.

Quando eu ia a retirar-me, disse-me elle, "Eu sei o que tu fazes, tu és secúlo de Moeneputo, e elle mandou-te ver estas terras e estudar os caminhos; por aqui fazem-se muitas cousas que não sam bôas, e o Moeneputo hade querer pôr termo a isso; peço-te, que quando isso aconteça, te lembres de que eu te dei um bôi, e te tratei como meu irmão; eu pouco viverei, mas então lembra-te de meus filhos, e não lhes
faças mal." Comovéram-me estas palavras do ancião. Os seus secúlos viéram acompanhar-me respeitosamente até á libata do filho onde estava hospedado, e poucos deixáram, no correr do dia, de me trazer pequenos presentes, já gallinhas, já ôvos e já canna de assucar. Na libata do capitão vi uma pequena plantação de cana de assucar, tão viçosa como não vi no litoral, e em que esta enorme gramìnea tinha um desenvolvimento descommunal.

Notei esta circunstancia, por ter julgado até então, que a uma tão grande altitude, cerca de 1700 metros, não vegetaria tal planta.

De volta á libata, encontrei ali Francisco Gonçalves (o Carique), irmão do Verissimo, que, sabendo da minha chegada, vinha visitar-me.

Este Carique, filho do sertanejo Guilherme, como o Verissimo, é comtudo filho de outra mãe, e a elle pertence por herança materna o throno de Caquingue.

Vive junto do sova, seu tio, e é casado com uma filha do futuro sova do Bihé.

Foi educado em Benguella, e possue alguma instrucção e bastante intelligencia. Elle trazia com-sigo alguns prêtos que fôram escravos de seu pai, e que logo se offerecéram para me acompanharem na viagem do Bihé para Leste.

Assim, pois, já antes de chegar ao Bihé, arranjei alguns carregadores.

Carique, Albino, o filho do Capitão, e outros que fazem commercio sertanejo, sahem d'aquelle ponto para o Mucusso e Sulatebelle, descendo o Cubango até ao Ngami, sempre pêla margem direita, e vam tambem negociar ao Cuanhama, paiz a leste do Humbe, na margem esquêrda do Cunene.

O artigo principal do tràfico é o escravo, que em caminho trôcam por bôis, e estes e fazendas, por cêra e marfim.

Resolvi demorar-me ali um dia, não só para descançar e enxugar, mas tambem para me informar sôbre este paiz, cujos usos já differem muito dos dos povos que tinha encontrado até ali. De tarde, o Carique e João Albino déram-me largas informações sôbre o paiz, das quaes transcrevo do meu diario as mais curiosas.

O paiz de Caquingue limita ao N. com o Bihé, a oeste com o paiz de Moma, a leste e ao sul com pôvos confederados de raça Ganguela. A raça Ganguela occupa n'esta parte d'Àfrica um vasto territorio, e está dividida em 4 grandes grupos, os quaes soffrem ainda subdivisões. A lìngua e usos sam os mesmos; mas a sua organização polìtica differente. No paiz de Caquingue tomam os Ganguelas o nome de Gonzellos, estam constituidos em reino, tendo um ùnico chefe.

Nas suas outras divisões formam confederações, muito vulgares em Àfrica, sendo cada povoação governada por um chefe independente. Os que demoram a S.E. de Caquingue chamam-se Nhembas, os do sul Massacas, e aquelles que vivem a leste do Bihé, Bundas. D'estes ùltimos terei de falar detidamente no correr d'esta narrativa. Os Gonzellos, Ganguelas de Caquingue, sam cultivadores e negociantes, e sam, de tôdos os pôvos da Àfrica Austral, aquelles que mais se aproximam dos Bihenos, em commettimentos de exploração commercial.

No paiz trabalham muito em ferro, e esta industria estabelece entre elles e outros pôvos activas relações de commercio.

Não tem a menor idéia de uma religião qualquer, e vivem com os seus feitiços, não pensando na existencia de um Ente Supremo que tudo dirija.


Figura 13.--Ferreiros Caquingues.

Nos mezes mais frios, Junho e Julho, os ferreiros Gonzellos deixam as suas libatas, e vam estabelecer grandes acampamentos junto das minas de ferro, que sam abundantes no paiz.

Para extracção do minerio cavam poços circulares de três a quatro metros de diàmetro, que não profundam mais de dois metros; de certo por lhe escacearem os meios de elevarem com facilidade o minerio a maior altura.

1. Folles.
2. Bocal de Barro.
3. Bigorna.
4. Martello.

Figura. 14.


Visitei muitos d'esses poços junto ao Cubango. Extraido que é o minerio que elles julgam sufficiente para o trabalho d'aquelle anno, comêça a separação do ferro, que elles fazem em côvas pouco profundas, misturando o minerio com carvão vegetal, e elevando a temperatura por meio dos seus instrumentos de insuflação, que consistem em dois cylindros de pao, cavados de 10 centìmetros, com 30 de diàmetro, e recobertos por duas pêlles de cabra curtidas, ás quaes estam ligados dois paos, de 50 centìmetros de comprido por 1 de diàmetro. É por meio d'estes paos que um ràpido movimento dado ás pêlles produz a corrente de ar, que é dirigida sôbre o carvão por dois tubos de pao ligados aos cylindros, e terminados por um bocal de barro.

Depois comêça um incessante trabalhar, noite e dia, até que tudo o metal é transformado em enxadas, machados, machadinhas de guerra, ferros de frecha, azagaias, pregos, facas e balas para as armas, e até mesmo fuzis para ellas, de ferro temperado com unha de bôi e sal. Vi muitos d'esses fuzis darem fogo tambem como os do melhor aço fundido.

Durante tudo o tempo que duram os trabalhos é expressamente prohibido a qualquer mulhér aproximar-se do campo dos ferreiros, porque dizem elles que se estraga logo o ferro. Eu creio que isto foi estabelecido para que os homens se não distraiam do trabalho, em que empregam, como já disse, noite e dia.


Figura. 15.--Objectos fabricados pêlo gentio entre a Costa e o Bihé.
1. Machado de Trabalho.
2. Ferro de Frecha para a Guerra.
3. Frechas.
4. Ferro de Frecha para Caçar.
5. Pé das Frechas.
6. Machado de Guerra.
7. Enxada.
8. Azagaias.

Findo que é o metal e transformado em obra, voltam os ferreiros a suas casas carregados com a sua manufactura, que vendem em seguida depois de terem reservado o necessario para seu uso.

Tôdos estes pôvos não admittem causas naturaes de doença ou de morte. Sempre que adoece ou morre alguem, ou fôram as almas do outro mundo (uma certa é designada) que produzio o mal, ou então foi algum vivo que fêz feitiço ao doente ou ao môrto. Logo que morre alguem, se os parentes não estam na localidade, mandam-n-os prevenir, e no entanto penduram o cadaver em um grande pao a 200 ou 300 metros da porta da povoação, e esperam que elles venham para fazer o enterro.

Logo que elles chegam ou se estam na localidade, procede-se immediatamente á devinhação para saber a causa da morte.

Para isso amarram o cadaver a uma vara comprida, e pegando dois homens nas extremidades, levam o côrpo ao logar destinado ás adevinhações, onde o espera o adevinho e o pôvo formado em duas alas.

O adevinho tomando na mão direita um coral branco, comêça a adevinhação.

Depois de fazer mil momices e grande grita e de ter feito mexer o môrto, que o pôvo acredita que mexeu sem intervenção estranha, o adevinho declara que foi a alma de fulano ou de fulana que o matou, ou então que foi feitiço dado por alguem que elle designa.

No primeiro caso, o enterro faz-se em paz, abrindo uma côva no mato, em qualquer logar indistinctamente, e lançando n'ella o cadaver que cobrem de pedras, paos e terra; mas no segundo caso, a pessôa designada pêlo adevinho como feiticeiro é agarrada, e, ou paga ao mais pròximo parente a vida do môrto, ou lhe cortam ali a cabêça, indo dar parte do occorrido ao sova, a quem tem de levar de presente uma cabra para elle escutar o caso.

Comtudo pôde dar-se o caso de um accusado negar firmemente a sua culpabilidade na morte, e então tem direito de defesa.

Para isso, vai elle buscar um cirurgião que vem, na presença do pôvo proceder ás provas da innocencia ou culpabilidade do accusado.

O cirurgião chega á presença dos parentes e do pôvo, e compõe uma bebida venenosa de que tomam quantidades iguaes o accusado e o mais pròximo parente do môrto.

A beberagem produz uma especie de loucura temporaria, e é n'aquelle dos dois em que ella se manifesta com mais intensidade que recae a culpa da morte.[3]

Se é no accusado, ou paga a vida do defunto, ou morre; se é no parente, tem este de indemnizar o accusado pêla accusação feita, dando-lhe logo um porco para lhe pagar o trabalho de ir buscar um cirurgião, e depois tem de lhe dar o que o accusado exigir, sejam dois bôis, dois escravos, um fardo de fazenda, etc. etc.

Antes de continuar, dêvo fazer sentir uma grande differença que existe de três entidades importantes, nos pôvos da Àfrica Austral, e que muitas vêzes sam confundidas.

Sam ellas o cirurgião, o adevinho e o feiticeiro. Effectivamente, estas três entidades que parecem á primeira vista ter pontos de contacto, nenhum t[~e]m na realidade.

O cirurgião fica definido pêla palavra. É um curandeiro, tem conhecimento de um certo nùmero de plantas e raizes, que empega sempre empìricamente, bem como as ventosas sarjadas, de que faz grande uso; sendo bem certo que a sciencia de curar está muito em atrazo n'aquelles paizes. O cirurgião, que nunca faz diagnòstico da molestia, faz sempre o prognòstico. A dosagem das plantas medicamentosas é sempre empìrica, e nas suas polypharmacias entram os mais absurdos e inuteis componentes. É verdade que entre nós ainda não vai longe o uso da Triaga. O cirurgião, que é ao mesmo tempo pharmacèutico, emprega durante a preparação das suas drogas, um certo nùmero de ceremonias e de palavras sem as quaes ellas perderiam a virtude. Fazem grande segrêdo das plantas que empregam, e dam-se ares de sabios pedantes quando a esse respeito sam interrogados. O cirurgião é pessôa muito importante, e muitos actos solemnes requerem a sua presença. Elle decide altas questões, porque a sua opinião prevalece á do adevinho (Ditangja), sendo que o cirurgião nunca a emitte sem fazer antes um certo nùmero de remedios e ceremonias, já com plantas, já com sangue do homem ou dos irracionaes, a que chamam, fazer os curativos.

O adevinho só adevinha, e mais nada. No caso de doença, o adevinho é sempre chamado para adevinhar se sam almas do outro mundo ou feitiços, e só depois d'elle, vem o cirurgião.

Estes dois sujeitos entendem-se sempre.

O adevinho não é só consultado em caso de doença ou morte, é ouvido em tudo e por tudo, e nada se faz sem que elle adevinhe primeiro.

Para a consulta, coloca-se elle no centro de um cìrculo formado pêlo pôvo, que dêve estar sentado. Arma-se de uma cabaça e um cesto. A cabaça contem missanga grossa e milho sêco, o cesto é cheio das cousas mais disparatadas, ossos humanos, legumes sêcos, pedras, paos, caroços de frutas, ossos de aves, espinhas de peixes, etc.

Comêça por sacudir frenèticamente a cabaça, e durante a chocalhada que faz invoca os espìritos malignos, ao mesmo tempo sacode o cesto, e nos objectos que vam apparecendo na parte superior, vai lendo o que se quer saber do passado, do presente, ou do futuro. Este uso encontrei eu desde a costa, mas não tão seguido como aqui.

Falei em espìritos malignos, e é preciso dizer, que ali os espìritos malignos emparelham em malignidade com as almas do outro mundo (Cassumbi) e com os feiticeiros. Ás vezes entram no côrpo de alguem, e custa muito fazel-os sahir. Outras vêzes, fazem tropelias maiores, tomando conta de uma povoação, onde durante a noite não deixam socegar ninguem, sendo preciso que o cirurgião faça grandes curativos para os expulsar.

Estava ali um adevinho, e eu calculei o partido que podia tirar d'elle.

Chamei-o em particular, e fiz-lhe alguns presentes, mostrando por elle grande respeito, e fingindo acreditar na sua sciencia.

Pedi-lhe para adevinhar o meu futuro, e elle logo convocou o pôvo da libata, e muito da povoação do capitão, para assistirem á adevinhação.

A ceremonia fêz-se com grande apparato, e elle comêçou a ler nas trapalhadas do cesto as cousas mais lisongeiras a meu respeito. Eu era o melhor dos brancos, passados, presentes e futuros; a minha viagem seria feita com grande felicidade, e felizes seriam aquelles que fossem comigo.

Este vaticinio produzio o melhor effeito, e têve grande influencia no resultado da minha partida do Bihé.

Já falei do cirurgião e do adevinho, e vou dizer o que é feiticeiro. Esta palavra tem uma significação que, tendo alguns pontos de contacto com a que lhe damos na Europa, não é comtudo a mesma cousa.

Ali qualquer é, ou pôde ser feiticeiro, e feiticeiro é mais o envenenador do que homem que governa nos espìritos.

Effectivamente, o feitiço ali é veneno, e dar feitiço a alguem, é dar veneno, que determine, ou doença, ou morte, ou loucura.

Esta é a rigorosa accepção da palavra, mas ainda assim o feiticeiro pôde causar grandes prejuizos, e como tudo se atribue a feitiço, a perda de um combate, a epidemia nos gados, as tempestades, etc., tudo provem da sua malevolencia.

Não se julgue porem que se pôde designar o feiticeiro; não pôde. O feiticeiro apparece como causa do effeito, e como essa causa é logo destruida, o feiticeiro é como um meteoro que se desvanece logo depois de apparecer. Esta pràtica dá logar a terriveis vinganças, como bem se pôde suppor.

Àlém d'estas três entidades, duas das quaes sam definidas e uma indefinida, ha ainda um sujeito que tem certa importancia entre estes pôvos bàrbaros.

É elle o homem que dá e tira a chuva. Ha um certo nùmero de indivìduos que se atribuem o poder de governar nos meteoros aquosos. Possuindo um espìrito observador, attentáram em que com taes ventos em certa èpocha do anno chove, e que com outros estia. E servindo-se d'esses signaes, que sam tão vulgarmente observados na Europa, e mesmo recommendados por homens de sciencia, como Fitz-Roy e outros, que se observam na vida dos animaes, sôbre tudo das aves, elles que podem com certa probabilidade fazer um prognòstico do tempo, atribuem a si o poder, de dar e tirar chuva, tendo previamente annunciado que a vam dar ou tirar.

Estes sujeitos sam vulgares, mas acreditam n'elles muito, porque raras vêzes se enganam.

Estas pràticas que nos causam estranheza, eram ha dois sèculos vulgares na Europa, e ainda hôje existem entre nós no baixo pôvo dos campos.

Não é preciso ir á idade media para se encontrarem os Reis consultando os seus astròlogos, e mesmo em Portugal existe um livro, impresso, com tôdas as licenças necessarias, em 1712, que o seu autor Gaspar Cardozo de Sequeira, mathemàtico da villa de Murça, intitulou Thesouro de Prudentes, livro acrescentado pêlo engenheiro Gonçalo Gomes Caldeira, que ensina as cousas mais estupendas e maravilhosas, aos homens cultos d'essas eras, porque o pôvo de então não sabia ler. Desculpemos pois os ignaros prêtos d'Àfrica Austral.

Uma lei engraçada d'aquelle paiz, é a respeito das mulhéres que morrem de parto.

Logo que uma mulhér morre de parto, o marido tem obrigação de a enterrar elle só, levando o cadaver ás costas até á sepultura, e fazendo sózinho o trabalho da inhumação. Em seguida, tem de pagar a vida d'ella aos parentes, e se não tem com que, constitue-se escravo d'elles.

As sepulturas dos proletarios não t[~e]m signal algum que as indique, e sam feitas em qualquer logar indistinctamente entre o mato.

Quando eu falar do Bihé, serei mais minucioso em certos costumes que sam communs a estes paizes, e que tive depois occasião de estudar detidamente, sôbre tudo aquelles que se referem aos sovas e aos grandes.

Um costume que é privativo de Caquingue é o que elles chamam tratar as mulhéres. Logo que uma mulhér está gràvida, um sujeito pede ao marido em casamento a filha que ella vai ter, e desde logo é obrigado a tratal-a, isto é, dar-lhe vestuario e satisfazer as suas exigencias de toilette.

Este costume vigora só entre gente rica. Logo que nasce a criança, o noivo redobra de presentes á mãe, e tem o dever de vestir a filha até á pubredade, isto é, á èpocha do casamento. Se acontece nascer um varão, a obrigação de vestir mãe e filho subsiste, e este, logo que chega a ser homem, fica para Quissongo do que o tratou.

Mais adiante direi o que é um Quissongo.

Este costume não é tão extraordinario como parece á primeira vista, e se em Àfrica só o encontrei no paiz de Caquingue, cá na Europa é elle vulgar, não na forma, mas na essencia, e na phrase polida dos salões chama-se a isso, creio eu, casamentos de conveniencia.

Amanheceu o dia 5 de Março, depois de uma noite tormentosa em que a chuva foi diluvial. Eu estava melhor da febre; mas as dôres rheumàticas eram mais persistentes e estendiam-se dos joelhos aos artelhos. O meu Pépéca estava melhor, e por isso resolvi partir. Receiando porem do meu rheumatismo, fui pedindo uma maca e carregadores para ella, que me fóram obsequiosamente cedidos por Francisco Gonçalves (o Carique). Depois de cordiaes despedidas, parti ás 10 e meia ao N., e uma hora depois, passei o ribeiro Cassongue, que corre a S.E. para o Cuchi. Tem 6 metros de largo por 2 de fundo. Ao passar o rio, o meu boi cavallo (Bonito) embaraçou-se em umas sarças, perdeu o ànimo, e foi ao fundo; custou muito salval-o, e só pude seguir ao meio dia. Á 1^{h.} e 15^{m.} passei o riacho Govêra, de 3 metros de largo por 50 centìmetros de fundo, e á 1 e 45 acampava a S.S.O. da povoação de Chindúa. Passei no caminho junto de duas grandes povoações, a de Cacurura, e a de Cachota. Já estava em terras que prestam obediencia ao sova do Bihé. O paiz continúa ali a ser muito povoado e cultivado.

Durante a noite, chuva torrencial e forte trovoada de leste. A minha febre tinha desapparecido completamente, mas as dôres rheumàticas recresciam n'uma progressão assustadora, e já ameaçavam estender-se a tudo o côrpo. Logo de madrugada, o dono da ponte sôbre o Cuchi mandou-me avisar para passar a ponte sem demora, porque estas pontes, dando passagem só a um homem de cada vez, leva ella muito tempo, e é lei, que quando uma comitiva toma conta da ponte, ninguem ali pôde passar sem terminar a passagem da gente que primeiro chegou, e constava que uma grande comitiva de gentio se dirigia para ali em sentido inverso ao meu.

Agradeci o aviso, e parti immediatamente, tomando conta da ponte meia hora depois.

O rio Cuchi tem ali 25 metros de largo por 5 de fundo, e corre ao sul ao Cubango.

Da ponte avista-se, 2 kilòmetros ao N., a grande cataracta do Cuchi, de sorprendente belleza, cujo ruido chêga até nós.

Demorei-me um pouco para determinar a altitude, e segui depois a E.N.E., passei o pequeno ribeiro Liapêra, que côrre ao Cuchi, e mudando de rumo para N.N.E., passei o ribeiro Caruci, que côrre a N.E. para o Cuqueima; indo acampar, pêlo meio dia, nas matas do Charo, a S.O. da povoação de Ungundo.

Estes dois pequenos riachos, o Liapêra e o Caruci, marcam a separação das àguas para o Cubango e Cuanza.

O secúlo Chaquimbaia, chefe da povoação de Ungundo, veio comprimentar-me, e trouxe-me um porco e umas gallinhas; retribui o presente, e elle deu-me guias para me acompanharem no dia seguinte. Durante o dia, não só em caminho encontrei muitos ranchos de gente armada que vam reunir-se ás forças do sova de Caquingue, mas ainda depois que acampei, passáram innùmeros prêtos armados que levavam o mesmo destino.

Das 7 ás 9 da noite houve moderada chuva, e ouvia-se a N.E. uma trovada longinqua; mas, ás 9 horas, formáram-se trovoadas em muitos pontos do horizonte, e pareciam tôdas convergir sobre o meu campo, que era situado em um alto. Ás 10 horas, 5 trovoadas encontravam-se em choque immenso sôbre o campo, e a mais horrivel tormenta que até então tinha presenceado se desencadeou sôbre mim. Os raios succediam-se com intervallos de três a cinco segundos, e o estalar sêco dos trovões era incessante.

Havia perfeita calma e apenas algumas grossas gôtas de chuva cahiam aqui e àlém.

O baròmetro apenas desceu dois milimetros, e o thermòmetro conservava uma temperatura de 16 graos Cent. As agulhas magnèticas desnorteavam, e conservavam um oscillar constante.

Uma bùssola circular Duchemim, chegou a voltear ràpidamente.

Durou este estado de cousas até ás 11 horas, hora a que soffreu modificação mais terrivel ainda. Um vento fortissimo, um verdadeiro tufão, começou a soprar de leste, e n'um momento correu os quadrantes
pêlo norte até S.O., onde se fixou com a mesma intensidade. Copiosa chuva começou a cahir então. O vento, no seu passar furioso, soprou aos ares as barracas do meu campo, e nós ficámos expostos á chuva torrencial que cahio até ás 4 horas, em que a tempestade começou a abrandar.

Quem o não presenceou não avalia o que seja uma tempestade, de noite, no meio das florestas d'Àfrica Austral, quando ao rebombar dos trovões se une o grito multìsono das feras, que nos vem ferir os ouvidos com acordes terriveis.

A chuva apagou os fôgos do campo, o vento soprou longe os frageis abrigos, e o raio descendo em luminoso zig-zag, torna mais escuras as trevas, depois do seu ràpido fulgor.

Muitas vêzes, ao estalido do raio succede outro estalar medonho. Foi a àrvore, que levou sèculos a crescer, e que n'um momento, ferida por elle, voou em rachas e baqueou no solo.

¡O espectàculo é horrivel, mas grandioso e sublime!

Amanheceu finalmente, e de tudo aquelle pelejar dos elementos, só restavam para o lembrar, innùmeras àrvores derrubadas e um terreno encharcadissimo.

¡A mim restava mais alguma cousa!

O ataque de rheumatismo tinha-se declarado com grande intensidade, e estendendo-se a tôdas as articulações, tolhia-me os movimentos. Soffria muito. Parti ao meio-dia na maca, e fazia esforços enormes para calar na garganta os gritos arrancados pêlo soffrimento que infligia o movimento da maca.

Uma hora depois, envolvi-me em um pàntano extenso, onde a àgua dava pêla cintura aos homens que me carregavam.

O terreno, encharcado pêla chuva da noite, estava transformado em pàntano enorme. Alcançámos um outeiro, quando, ás 2 horas, nôva tempestade, vinda de leste, cahio sobre nós. Da maca, onde gemia dôres atrozes, animei a minha gente a seguir sempre, com intenção de alcançar as povoações de Bilanga, onde queria pernoitar.

Sei que, no dia seguinte, me achei, n'uma cubata, e me disse o Verissimo, estar eu n'aquellas povoações, na libata do Vicente; mas não tenho a menor idéia, nem do caminho andado, nem da noite velada, que me disséram os prêtos ter sido horrivel. Ao rheumatismo viera juntar-se a febre e o delirio.

A cabêça estava livre, mas o ataque e as dôres recrescéram, se era possivel isso.

Não podia fazer o menor movimento nem mesmo com as phalanges das mãos.

Verissimo e os meus prêtos dispensavam-me os maiores cuidados.

Sube que o rio Cuqueima levava uma cheia enorme, e não dava passagem no vao; mas, sabendo que existia uma pequena canôa a jusante da cataracta, resolvi seguir e passar o rio ali. Chegados ao rio, tratou-se de calafetar com musgo a canôa já muito velha, e que apenas podia soportar o peso de dois homens. O rio, que trazia uma enorme cheia, ia caudalosissimo. Resaltando por sôbre as rochas da cataracta, divide-se, formando uma pequena ilha, e logo depois, une as suas àguas em um só canal, largo de 100 metros.

Era ali que ìamos passar. Eu fui collocado dentro da canôa com mil cuidados, porque o menor movimento que me davam, me arrancava um grito doloroso.

Um habil barqueiro tomou o remo e a canôa deixou a margem. Tìnhamos de atravessar 100 metros de àgua, mas de àgua animada de violenta corrente, e encrespada por ondas furiosas produzidas pêlos baldões da cataracta. O barqueiro dirigio a canôa para a ilha, e até chegar á juncção das àguas tudo foi bem; mas ali o fragil barco preso nos enormes rodomoinhos não quiz seguir ávante, apesar da pericia do habil nêgro. Eu via a àgua, em ondas espumantes ainda do salto de ha pouco, referver em volta de mim, e comecei a comprehender o grande perigo em que estava.

Tentei mover um braço e apenas consegui soltar um grito de dôr! Julguei-me perdido, porque, se a canôa afundasse, eu não poderia nadar. Sempre presa no rodopiar das àguas, não seguia ávante, e de repente começou a rodopiar ella mesma. O prêto receiou que nos afundasse-mos, e decidio saltar ao rio para alijar o barco. Prevenio-me, e saltou.

Alliviada d'aquelle peso, a canôa fluctuou melhor, mas não deixou o sitio em que estava presa pêlas fôrças desencontradas da àgua.

De repente um baldão entrou na barca e molhou-me. Tive um momento de verdadeira imbecilidade, e não sei o que se passou; só me lembra, que de repente me achei nadando com tudo o vigor, só com um braço, sustentando fôra d'àgua com o outro um dos chronòmetros que trazia comigo, para que não lhe chegasse a àgua.

Sentia um verdadeiro prazer em nadar, e cortava ràpido os remoinhos das caudalosas àguas, o que me era facil a mim, que desde criança aprendi a lutar com os ràpidos do meu patrio Douro.

Os prêtos, sempre tendentes a admirar a destreza physica, prodigalizavam-me da margem fervorosos applausos.

Tinham desapparecido as dôres, a febre cessou de repente, e eu sentia-me bem disposto e forte. Ao submergir-se a canôa, do meio de 100 homens que assistiam á scena, e que ficáram boquiabertos e indecisos, um arrojou-se valorosamente á àgua para me salvar.

Menos perito nadador do que eu, não alcançou a margem senão depois de mim, e de nenhum auxilio me foi, mas a sua dedicação ficou gravada no meu coração para sempre. Era o meu prêto Garanganja, que enlouqueceu depois, não tendo uma alma assás forte para sopportar as miserias que experimentámos.

Quando me firmei em terra andei, sem dôres, sem febre. Despi-me immediatamente; mas não tinha roupa para mudar, porque as bagagens estavam ainda na outra margem; e tive de estar exposto a um sol abrasador em quanto a elle enxuguei a roupa que trazia. Voltáram as dôres e a febre, e só sei que no outro dia, estava estendido em um leito na libata da Annunciada, morada que tinha sido do sertanejo Guilherme Gonçalves, pai do Verissimo.

Cheio de dôres e ardendo em febre, mas um pouco melhor, decidi partir e ir encontrar os meus companheiros.

Parti ás 11 horas, e durante uma grande parte do caminho, atravessei uma planicie coberta de fetos herbaceos enormes, e vi muitas àrvores feridas do raio. Vi tambem uma planta que ali abunda, e que é, ou a nossa urze das altas montanhas do norte de Portugal, ou a ella mui semelhante.

Os meus ôlhos, pouco afeitos ás subtilezas das observações que demanda o estudo do reino vegetal, não sam bastante penetrantes para differençar especies, gèneros e familias, quando ellas não se differençam por si mesmo.

Chêguei ao sitio do Silva Porto (Belmonte) pêla uma hora, e fazendo um supremo esfôrço, fui a casa dos meus companheiros.

Elles, confirmando o que me tinham escrito, disséram-me que iam continuar sós, e que me deixariam uma terça parte de fazendas e material, salvo as cousas indivisiveis que guardariam. O Ivens offereceu-se para me acompanhar a Benguella, visto o meu precario estado de saude, se eu quizesse voltar á Europa.

Manifesto-lhe aqui a minha gratidão, por tão generosa offerta.




CAPÌTULO VI.

PEREIRA DE MELLO E SILVA PORTO.



No Bihé--Doença--Melhoras--A casa de Belmonte--Decido ir ao alto Zambeze--Cartas ao Governo--Como se organiza uma expedição no Bihé--Difficuldades, e como se vencem--Noticia sôbre o Bihé--Os meus trabalhos--Nôvas difficuldades--Deixo Belmonte--Até ao Cuanza--Escravatura.


Depois de 20 dias de cruél agonia e grandes soffrimentos, estava emfim no Bihé, muito doente é verdade, mas cheio de fé e contente de mim mesmo. Logo que falei aos meus companheiros, deixei a casa de Belmonte, e fui em maca para a libata pròxima do Magalhães, onde cahi sem fôrças sôbre as pelles do meu leito. Os primeiros symptomas de uma meningite declaráram-se, ao passo que redrobravam as dôres rheumàticas.

No dia seguinte, fóram ver-me o Capello e Ivens, que me leváram medicamentos. Peiorei, e veio o delirio.

Quando despertei, julguei sonhar. Achava-me deitado em magnìfico leito, despido e entre lençoes de fina bertanha. O leito era coberto de elegante cortinado de reps côr-de-rosa e franjado de branco.

Disséram-me, que Capello viera durante o meu delirio, e me mandara aquella cama; que as havia assim no Bihé, em Belmonte, em casa de Silva Porto.

Tinham-me coberto de sanguesugas, e o muito sangue que me tiráram os prêtos, deixara-me em um estado de fraqueza indescriptivel. As dôres tinham cedido um pouco, mas continuava a febre. De tarde, viéram os prêtos de Nôvo Redondo procurar-me, e eu recebi-os diante de Magalhães, Verissimo e Joaquim Guilherme José Gonçalves, irmão mais velho do Verissimo. Vinham elles dizer-me, que não queriam seguir com os meus companheiros, e que ou iam comigo, ou voltavam.

Depois de um grande trabalho, convenci-os a voltarem para elles, e a acompanhal-os. Sube então, que Capello e Ivens estavam construindo um abarracamento a 5 kilòmetros d'ali, e já lá tinham as bagagens, devendo em breve mudarem-se de Belmonte.

Dois dias depois, veio procurar-me o Ivens, com quem tive larga conversa.

Dei-lhe tôdas as cartas de recomendação que Silva Porto me havia dado em Benguella para obter carregadores, e comprometi-me a não pedir gente ao sova Quilemo, ficando-lhe o campo completamente livre a elles. Ivens disse-me, que iam mudar para o abarracamento que tinham, e que em casa de Silva Porto me deixavam o que me pertencia na partilha. Eu mandara-lhes entregar tôdas as cargas que trouxera comigo, e as que acompanhou o prêto Barros, que já tinham chegado. O prêto Barros declarou-me, que não queria continuar a viagem, e por isso despedi-o, bem como a alguns prêtos de Benguella, que manifestáram igual intenção. Escrevi poucas linhas a Pereira de Mello, que o meu estado de saude não me permitia ser extenso. Quando, fatigado de determinar tanta cousa, eu ia embrulhar-me nos lençoes e procurar no sono um pouco de descanço, surgio diante de mim, como um espectro, um homem alto e magro, de physionomia enèrgica e distincta. Era o meu prisioneiro que eu havia olvidado, era o secúlo Palanca, o conselheiro ìntimo do sova Dumbo do Sambo.

"Já despachaste tôda a tua gente, me disse elle, uns despediste-os, outros ficaste com elles, ¿o que determinas de mim, e qual é a minha sorte?" "Tu vais voltar a tua casa, lhe respondi, levarás ao Dumbo a
espingarda que lhe prometti, e alguma pòlvora, e para ti terei alguma cousa tambem. Dêvo-te uma indemnização por aquella corda que tiveste ao pescôço pròximo do Cubango, e pêlos sulcos que te fizéram nos pulsos as cordas com que te amarrei." Chamei o Verissimo, e dei-lhe as minhas órdens n'esse sentido.

Palanca, sempre impassivel diante da liberdade e dos presentes, como o tinha sido diante da prisão e da morte, retirou-se, e deixou logo o Bihé.

Dois homens seguíram-se no meu quarto á sahida do secúlo do Sambo. Estava escrito que eu não descançasse no primeiro dia das minhas melhoras. Estes dois prêtos eram Cahinga e Jamba, os dois homens de confiança de Silva Porto, que elle me mandava de Benguella.

Depois de lhes ouvir mil protestos de dedicação, muitas vêzes repetidos, consegui ficar só. Só, não! Junto de mim estava a ùnica, a grande dedicação que tive na minha viagem a travez d'Àfrica. Córa, a minha cabrinha, em pé, com as patas pousadas sôbre o leito, berrando e lambendo-me as mãos, pedia-me uma caricia, que eu não lhe fazia ha muito.

No dia seguinte, os meus companheiros avisáram-me de que deixavam a casa de Silva Porto, e eu em uma maca mudei para ali. Encontrei 7 cargas de fazenda, 6 caixas de rancho, uma mala com instrumentos, e três carabinas Snider, que elles me haviam deixado.

A libata de Silva Porto, ou povoação de Belmonte, está situada sôbre a parte mais elevada de um outeiro, cuja vertente norte desce suavemente até ao leito do rio Cuito, que corre a leste para o Cuqueima.

A posição da libata é muito bonita, e forte como ponto estratègico.


Figura 16.--Casa de Belmonte (Bihé).

Tem dentro um laranjal, onde as larangeiras estam sempre em fruto e flôr, o que não acontece a outras algumas no Bihé. O laranjal é cercado de uma sebe de roseiras, que attingem uma altura de tres metros, e estam sempre floridas.


Figura 17.--Vista exterior da povoação de Belmonte, no Bihé.

Sycòmoros enormes assombram as ruas e rodeam a povoação, defendida por uma forte palissada de madeira.

Debaixo d'essas larangeiras, cuja sombra perfumada me abrigava do sol ardente, quantos dias e quantas horas passei scismando na minha posição, e elaborando projectos mais ou menos sensatos!

Foi ali, que, arrastando ainda os membros tolhidos de dôres, que, queimado da febre, concebí, e organizei na minha mente o plano que havia realizar depois.

Se de alguma cousa me orgulheço na minha viagem, é d'esse tempo.

Mais tarde joguei muitas vêzes a vida, fui de certo mais de uma vez temerario, mas era obrigado a isso para me salvar.

Ali não! Estava doente, quasi anèmico, e sem recursos. Uma facilidade relativa me abria o caminho de Benguella e da Europa. Mil difficuldades, que provinham da minha separação dos meus companheiros, apresentavam-me uma barreira quasi impossivel de transpor, para emprehender uma exploração qualquer. O desànimo reinava na minha pouca gente.

* Sycomoros.
* Forte palissada de pao.
* Palissada da horta coberta de roseiras sempre floridas.
* Romeiras.
* Larangeiras.
* Hortas.
* Cemiterio.
* Casas dos prêtos.

1. Entrada da povoação.
2. Entrada da casa de Silva Porto
3. Casa.
4. Pateo interior.
5. Cusinha e dispensa.
6. Casas de criados.
7. Armazem.
Figura. 18.--Planta da povoação de Belmonte, no Bihé.

Entrèvado e sem fôrças, não pensar um só momento em voltar face ao desconhecido que se erguia ante mim como um abysmo attrahente; desfazer uma a uma as difficuldades que surgiriam; reconstruir muitas vêzes o trabalho feito, que se esvaïa como cahe um castello de cartas; criar recursos onde os não havia; conseguir organizar uma expedição sôbre as ruinas de outras que se haviam desmembrado; é, aos meus ôlhos, a parte mais difficil da minha viagem, e de que mais me orgulheço, se é que me orgulheço de alguma cousa.

Comecei por contratar Verissimo Gonçalves para me acompanhar, e consegui fazer-me obedecer por elle cégamente.

Depois de muito estudar o caminho a seguir, resolvi ir direito ao alto Zambeze, seguindo a cumiada do paiz onde nascem os rios d'aquella parte d'Àfrica.

Chegado ao Zambeze, queria seguir a leste, estudar os affluentes da margem esquerda, e descendo ao Zumbo, ir d'ali a Quilimane por Tete e Senna.

Os mais pràticos sertanejos, sabedores do meu projecto, diziam-me, que eu não chegava a meio caminho do Zambeze, e creio que me tinham por tôlo.

Eu deixava-os falar e prossegui sempre na organização do pessoal e confecção do material necessario aos meus planos.

No dia 27 de Março, primeiro em que pude escrever livremente, escrevi ao Governo da Metròpoli, e ao Pereira de Mello, e Silva Porto. Dava-lhes parte do occorrido até então, e pedia-lhes auxilio e consêlho, submettendo á sua crìtica os meus projectos. Despachei portadores para Benguella com as cartas, e fui trabalhando, mais confiado em mim do que em outrem.

A esse tempo, uma grande parte das cargas deixadas em Benguella, em Novembro ¡havia 5 mezes! ainda não tinham chegado.

Apparecéram-me na libata o ex-chefe de Caconda, Alferes Castro, e o degradado Domingos, que iam para Caconda. Contáram-me que, chegados ao Bihé, tinham sido encarregados por Capello e Ivens de ir construir o abarracamento, e de fazer transportar para ali as cargas que estavam em Belmonte.

O Alferes Castro voltava sem nenhum confôrto, e eu, das 6 caixas de rancho que me tinha deixado o Ivens, dei-lhe o assucar, chá, café, etc., necessario para a viagem.

Creio que aquelle senhor, depois de ter sido a causa de tanto soffrimento que tive, de tantos riscos que corri, não terá motivo de queixar-se do modo por que o recebi no Bihé; se quizér ser justo e verdadeiro.

Quanto ao degradado Domingos, se bem me recordo, dei-lhe uma carta de recommendação para o Governador de Benguella, de quem ia solicitar um favor.

Foi assim que tratei os dois homens que mais me fizéram soffrer em Àfrica, porque quando déram causa a isso, eu ainda não estava habituado ao soffrimento.

No principio de Abril, eu já bastante melhor, tinha promptos 60 carregadores, e esperava apenas a chegada das cargas de Benguella, para receber mais alguma fazenda e partir.

A minha vida era um trabalhar incessante, e ao mesmo tempo compilava um livro de lembranças, para ter á mão as fòrmulas que me eram necessarias para os meus càlculos; fazia umas tàbuas de raizes quadradas e raizes cùbicas, que calculei para os nùmeros de 1 a 1000. Deduzia com trabalho immenso algumas fòrmulas trigonomètricas, porque na Europa, para tornar mais portateis as minhas tàbuas logarìthmicas, as tinha feito encadernar, supprimindo a parte explicativa; e por um engano deploravel, n'uma remessa de objectos que de Loanda fiz para Portugal, fôram incluidos os meus livros mathemàticos. Não se riam os sabios, da singeleza com que lhes narro as difficuldades com que lutei no Bihé para poder ter escritas n'um livrête algumas fòrmulas vulgares. Quem não é explicador de mathemàtica, vê-se muitas vêzes embaraçado para resolver uma questão mui simples, quando lhe falte um livro que lhe avive a memoria priguiçosa. No Bihé faltavam-me tôdos os livros, e por isso eu fazia um, para meu uso, e ou se riam ou não, declaro-lhes que não me foi facil. Tôda a minha bibliotheca consistia em três almanacs para 1878, 1879, e 1880, as tàbuas de logarithmos, como já disse, sem texto, tàbuas somente, o Eurico de Herculano, as poesias de Casimiro d'Abreu, e um livrinho de Flamarion, As Maravilhas Celestes.

Em tudo isto não tinha muito onde refazer a memoria para as questões de x y.

Depois havia ainda outra difficuldade. Eu tinha de fazer e de pensar em muitas cousas ao mesmo tempo, e cousas um pouco incompativeis entre si. Ás vêzes tinha conseguido quasi reconstruir uma das fòrmulas de Neper para resolver triàngulos esphèricos, quando entrava o muleque, e me exigia que dizesse, se a gallinha para o jantar devia ser cozida ou assada (durante a minha estada no Bihé, comi cento e sessenta e nove gallinhas). Logo, entrava outro pedindo sabão para lavar a roupa; depois, eram carregadores que me vinham falar; em seguida, enviados do sova, que me queriam extorquir mais algumas jardas de fazenda. Um inferno, um verdadeiro inferno.

Eu tinha feito e fazia um grande nùmero de observações meteorològicas.

Os meus chronòmetros estavam perfeitamente regulados, e a minha posição determinada. Algumas excursões que fiz no paiz com a bùssola na mão, permitíram-me fazer uma carta, de certo grosseira, mas tão aproximada quanto se pôde exigir de um trabalho d'estes em viagem de exploração. Apesar dos meus trabalhos, ou talvez por causa d'elles, eu estava satisfeito, e mal pensava nas tribulações porque tinha de passar ainda nas terras do Bihé.

Antes porem de continuar a narrativa das minhas aventuras, abro um parenthesis para falar um pouco d'este paiz, tão importante e rico quanto pouco conhecido entre nós, a quem interessa mais o seu conhecimento do que a ninguem.

O Bihé limita ao Norte com o sertão do Andulo, a N.O. com o Bailundo, a Oeste com o paiz de Moma, a S.O. com os Gonzellos de Caquingue, ao S. e L. com os pôvos Ganguelas livres. O rio Cuqueima é quasi um limite natural do Bihé por Oeste, Sul e Leste, mas, na realidade, a autoridade do sova do Bihé ainda se exerce para àlém d'aquelle rio em alguns pontos. O paiz é pequeno, mas muito povoado.

Eu avalio grosseiramente a sua àrea em 2500 milhas quadradas, e um càlculo ainda mais grosseiro fêz-me estimar a sua população em 95 mil habitantes; o que nos dá apenas 38 habitantes por milha quadrada; e ainda que este nùmero nos pareça mui pequeno, por ser menos de um terço do que se dá entre nós, é consideravel para a Àfrica Austral, onde a população está muito pouco accumulada.

Em tempo, como se verá, pouco distante, estas terras do Bihé eram povoadas de matas densas, onde abundavam elefantes, e onde assentavam raras povoações de raça Ganguela.

O rio Cuanza, depois da sua confluencia com o Cuqueima, divide o paiz do Andulo do paiz de Gamba, que lhe fica a leste. Era sova de Gamba um tal Bomba, que possuia uma filha de grande formosura, chamada Cahanda.

Este sova Bomba vivia na margem esquêrda do rio Loando, affluente do Cuanza.

A formosa e nêgra princesa Cahanda, pediu ao pai para ir visitar umas parentas que eram senhoras da povoação de Ungundo, ùnica de alguma importancia no Bihé de outrora.

Estando a filha do sova Bomba n'esta povoação de Ungundo a visitar as parentas, aconteceu chegar ao paiz um ouzado caçador de elefantes chamado Bihé, filho do sova do Humbe, que com grande comitiva tinha passado o Cunene e estendido as suas excursões venatorias até áquellas remotas terras. Um dia o selvagem discìpulo de Santo Huberto têve fome, e estando perto da povoação de Ungundo, dirigio-se ali a pedir de comer. Foi então que vio a formosa Cahanda, e é preciso dizel-o, que vel-a e amal-a foi obra de um momento. Estas questões de amor em Àfrica sam muito semelhantes ás questões de amor na Europa, e pouco depois do encontro dos dois jovens, Cahanda era raptada, e Bihé plantava a estacada da grande povoação que ainda hôje é a capital do paiz, paiz a que deu o seu nome, fazendo-se acclamar sova. As dispersas tribus Ganguelas fôram por elle submettidas, e o pai da primeira soberana do Bihé reconciliando-se com a filha, permittio uma grande immigração do seu pôvo para ali. Ao casamento do sova succedéram-se muitos outros entre as mulhéres do norte e os caçadores do seu sèguito, e esta é a origem do pôvo Biheno.

Assim os Bihenos sam Mohumbes, nome que na Àfrica Austral de oeste dam aos descendentes da raça do Humbe, os quaes não se encontram só no Bihé, mas estam tambem espalhados em outros pontos, sôbre tudo frente da costa entre Mossàmedes e Benguella, misturados com os Mundombes, que sam a verdadeira raça d'aquelle paiz. Hôje a verdadeira raça Mohumbe no Bihé é representada pêla nobreza e gente rica do paiz, os descendentes dos caçadores do primeiro sova, e ainda assim, fôra da familia reinante, está ella misturada com sangue de raças muito differentes; porque, sendo o Bihé desde o seu comêço um grande emporio de escravatura, e tendo sido colonizado em grande parte por escravos de raças diversas, o baixo pôvo provem de uma mistura inexplicavel, e a nobreza mesmo, nas suas bastardias numerosas, tem trazido ás suas descendencias sangue dos paizes mais remotos da Àfrica Austral.

Da união de Bihé e da formosa Cahanda nasceu um ùnico filho varão, que têve o nome de Jambi, e succedeu no governo a seu pai. Este Jambi têve dois filhos, dos quaes o primogènito se chamou Giraúl, e o segundo Cangombi. Giraúl herdou o poder por morte de seu pai, e receiando de seu irmão, que tinha grande influencia no pôvo, o fez prender secretamente de noite, e o vendeu como escravo, a um prêto que ia levar uma leva de escravos a Loanda.

Cangombi, por acaso, em Loanda foi comprado pêlo Governador Geral, de quem foi escravo. Tempos depois, os despotismos e as arbitrariedades de Giraúl fizéram-n-o detestado do seu pôvo; houve conspiração, e alguns nobres partíram secretamente para Loanda, com muito marfim, para resgatar seu irmão, e acclamal-o, depois de deporem aquelle. O governador de Angola de então, vendo o partido que podia tirar d'esta questão, para a corôa Portugueza, não só entregou Cangombi sem resgate, mas ainda o encheu de presentes, e lhe deu auxilio contra seu irmão; e por isso Cangombi se apresentou no Bihé com grande comitiva, que veio por Pungo-andongo e subio o Cuanza, entre a qual se contavam muitos Portuguezes. Declarada a guerra, Giraúl foi vencido, sendo traido pêlos seus, e entregou as redeas do governo a seu irmão mais nôvo, que lhe deu uma povoação e um pequeno dominio para viver.

Quatro annos depois, Giraúl revoltava-se e vinha pôr cêrco á capital. Novamente vencido e prisioneiro, foi entregue por seu irmão aos Ganguelas de àlém Cuanza para o comerem; não que estes Ganguelas sejam positivamente canibaes, mas, de vez em quando, não desgostam de comer um bocado de homem assado.

Eu não pude saber o nome do governador que prestou mão-forte ao filho segundo do Jambi para lhe dar o poder, mas estou certo que a esse respeito alguma cousa dêve existir no Ministerio da Marinha e Ultramar, porque um passo d'aquelles não podia deixar de ser communicado ao governo da Metròpoli.

Cangombi foi grande sova, e têve oito filhos, dos quaes seis fôram sovas do Bihé; o que não é para admirar, porque ali herda o poder o mais pròximo da ascendencia. Assim, em quanto existem filhos de um sova, os netos não vam ao poder, e o neto primogènito do filho primogènito só toma as rèdeas do governo quando não existe nenhum dos seus tios, irmãos mais nôvos de seu pai.

Por esta lei herdou o poder Cahueue, filho mais velho de Cangombi, e por mortes successivas, seus irmãos Moma, Bandúa, Ungulo, Leamúla e Caiangúla. Os dois filhos de Cangombi que não fôram sovas, fôram Calali e Óchi, por terem morrido cêdo. Este Óchi era immediato ao mais velho Cahueue, e deixou um filho que foi sova por morte de seu tio Caiangúla, por não ter deixado filhos o irmão mais velho de seu pai.

Este sova chamava-se Muquinda, e por sua morte foi o governo a seu primo Gubengui, filho mais velho do sova Moma immediato a seu pai. A este Muquinda seguia-se outro irmão chamado Quitungo, que morreu quando ia ser acclamado, já dentro da capital.

De tôdos os oito filhos de Cangombi, só existia um descendente legìtimo, filho do sova Bandúa, que foi acclamado. É elle Quillemo, o actual sova do Bihé.

Ha contudo um filho bastardo de Moma, chamado Canhamangole, que está indigitado para succeder a Quillemo; em seguida passarám ao poder, os filhos d'este ùltimo, que sam muitos.

Por este breve resumo da historia do Bihé se vê, que aquelle paiz é de fundação recente, e que desde o seu comêço quasi, existíram relações ìntimas entre os Portuguezes e Bihenos, pêla intervenção tomada pêlo Governador Geral de Angola, na acclamação do sova Cangombi, avô do actual sova Quillemo, e neto do fundador da monarchia Bihena.

Assim, pois, o Bihé, desde a sua fundação tem sido governado por treze sovas em cinco gèrações, que vam representadas no seguinte quadro:--


                       
Na carta de Angola, de Pinheiro Furtado, já vem, indicado o Bihé, mas a sua origem não dêve ir muito àlém da coordenação d'aquella carta.


Figura 19.--Mulhér do Bihé cavando.

Os Bihenos sam pouco agricultores e pouco industriosos, e ali tudo o trabalho é feito pêlas mulhéres, que só ellas cultivam a terra.

Os homens sam dados a viajar, talvez de origem, que o seu primeiro règulo de longe veio, e atrevem-se a ir commerciar nos remotos sertões onde vam traficar em marfim e escravos. Aproveitando estas disposições, alguns homens ousados, taes como Silva Porto, Guilherme (o Candimba), Pernambucano, Ladislao Magiar, e outros negociantes sertanejos, começáram a dirigir os Bihenos nas suas excursões, e fizéram n'isso um grande serviço ao mundo; porque, abrindo nôvos mercados ao commercio, abríram nôvos horizontes á civilisação. Não foi só o seu tràfico que veio augmentar o movimento commercial da praça de Benguella, mas, ainda animado por elles, e perdido o receio dos brancos, o gentio dos mais remotos paizes, desceu a vir permutar directamente os seus gèneros nas casas commerciaes de Benguella.


Figura 20.--Carregador Biheno em marcha.

Nas viagens sertanejas, aos brancos seguíram-se os prêtos, e obtendo, primeiro alguns, depois muitos, um certo crèdito na praça de Benguella, fôram ao Bihé organizar expedições, d'onde partem a procurar a cêra e o marfim nos sertões mais distantes.

Muitos prêtos conhêço eu que negoceiam com um crèdito de 4 e 5 contos de réis, e alguns com mais, como o prêto Chaquingunde, que foi escravo de Silva Porto, que, durante a minha permanencia no Bihé, chegou do sertão, onde tinha negociado por sua conta uma factura de 14 contos de réis!

Não é difficil no Bihé encontrar um branco Portuguez, escapado dos presidios da costa, secretario de um prêto commerciante rico.

Para o Biheno, em questões de viagens de tràfico, nada é impossivel, e tudo lhe parece natural. Se elles soubessem dizer onde t[~e]m estado e descrever o que t[~e]m visto, os geògraphos da Europa não teriam em branco grande parte da carta de Àfrica Austral.

O Biheno deixa com o maior desapêgo o lar, e carregado com trinta kilogrammas de fazendas, vai para o sertão, onde se demora 2, 3, e 4 annos, voltando em seguida a casa, onde é recebido com a naturalidade de quem volta de uma viagem de três dias.

Silva Porto, ao passo que se dirigia ao Zambeze, enviava prêtos seus em outras direcções, e negociava ao mesmo tempo no Mucusso, na Lunda e no Luapula.

A fama dos Bihenos tinha chegado longe, e Graça quando intentou a viagem ao Matianvo, foi ali procurar carregadores.

É mui raro que um Biheno deserte da comitiva, e roube algum fardo; o que acontece frequentemente com os Zanzibares.

Àlém d'isso, os Bihenos t[~e]m outra grande vantagem sôbre os Zanzibares. Ainda que muito dados ao commercio de escravos, não promovem elles mesmos no interior guerras para os haverem; comprando-os a quem os vende, mas nunca tratando de os obter por fôrça. Isto quando em viagem de tràfico sertanejo, que, nas guerras com paizes circunvizinhos, fazem o que podem, e sam dotados de inaudita crueldade.

Os Bihenos, apesar das suas grandes qualidades, coragem e hàbito de viajar, possuem grandes defeitos, e não conhêço em Àfrica pôvo mais profundamente viciado, mais abertamente depravado, mais duramente cruel, e mais sagazmente hypòcrita.

Tem esta gente uma certa emulação entre si como viajantes, e muitos conhêço eu que se ufanam de ter ido onde outros não fôram, a que elles chamam descobrir terras nôvas. Elles sam educados na vida de caminheiros, e tôdas as comitivas levam innùmeras crianças, que, com cargas proporcionaes ás suas forças, acompanham os pais ou parentes nas mais longìnquas correrias; e é por isso que não causa estranheza encontrarmos ali um homem de 25 annos que tenha estado no Matianvo, no Niangué, no Luapula, no Zambeze, e no Mucusso, se elle viajou desde os 9 annos.

Ao homem que chega ao Bihé para seguir em viagem sertaneja, offerecem-se dois meios de obter carregadores. Um é por meio de presentes ao sova e aos potentados, obtel-os, pedindo-os; o outro é annunciar a viagem, e esperar que elles se venham offerecer.

O primero é mao, porque, àlém do grande dispendio feito com os presentes que é preciso dar ás pessôas a quem se pedem os carregadores, estes sam obrigados a ir, e o que os pedio é responsavel pela vida d'elles para com as familias ou senhores. Àlém d'isso, as pessôas a quem se pedem, com o intùito de extorquir mais presentes, vam demorando quanto podem a partida, e quando se está na sua dependencia as exigencias crescem.

O segundo meio é bom, porque os que se v[~e]m offerecer sam prêtos livres, v[~e]m por sua vontade, e se algum morre, segundo a lei do paiz, como foi elle que se offereceu, não tem o que o aceitou a menor responsabilidade do facto.

É occasião de falar em Quissongos e Pombeiros. Os carregadores, não só os Bihenos mas sim tôdos em geral, formam grupos pequenos debaixo do commando de um d'elles que é chefe do grupo. Este chefe, desde a costa até a Caquingue chama-se Quissongo, e no Bihé e Bailundo Pombeiro.

Sam estes Pombeiros que se v[~e]m offerecer, trazendo uns 10, outros mais, outros menos carregadores. Estes grupos sam de differentes naturezas. Uns sam constituidos por parentes que escolhéram um para Pombeiro, e n'estes sam tôdos livres. Outros sam formados por gente livre, que combinam ir debaixo das ordens de um certo Pombeiro em quem t[~e]m confiança. Outros ainda, sam grupos de escravos dos Pombeiros que os commandam.

A obrigação do Pombeiro é vigiar pêla sua gente, e responder por ella ante o chefe da comitiva. Come e dorme com elles, é emfim o cabo de esquadra da caravana.

O Pombeiro não leva carga, mas, em caso de doença ou morte de algum dos seus, substitue-o como carregador temporariamente. Durante a marcha o seu logar é no couce da comitiva, e logo que um seu carregador se atraza, elle fica para o acompanhar.

O pagamento dos carregadores nunca é feito adiantado, e nas viagens de tràfico regulares é diminutissimo.

Assim, um carregador, para ir do Bihé á Garanganja (Luapula), recebe 12 pannos ou valor de 2400 réis, e na volta uma ponta de marfim escravelho, talvez de 4000 réis, ao tudo 6400 reis, comida á parte, porque o chefe da comitiva tem obrigação de sustentar tôda a sua gente durante a viagem, excepto nos primeiros três dias de sahida do Bihé, para os quaes cada um leva de comer.

Esta regra tem ainda uma excepção. Muitos sertanejos, ao sahirem do Bihé, destinam um certo nùmero de pombeiros para destacarem em caminho, ou no termo da sua viagem, para differentes pontos.

A estes Pombeiros dam um certo nùmero de fazendas, pêlas quaes elles lhes devem trazer um certo producto. Estas fazendas dos Pombeiros que vam traficar livremente, chamam-se banzos, e d'ellas comem o Pombeiro e carregadores desde o comêço da jornada. Afora este caso, em tôdos os mais o chefe sustenta Pombeiros e carregadores.

Os Pombeiros não sahem nunca por tempo determinado, e tanto ganham demorando-se pouco como muito. É sabido que os nêgros em Àfrica não dam valor ao tempo.

Os costumes Bihenos sam aproximadamente os mesmos de Caquingue, e o contacto com brancos não tem trazido o menor adiantamento a essa gente.

Não t[~e]m a menor idéa de uma religião qualquer, não adoram nem sol, nem lua, nem ìdolo, e vivem com os seus feitiços e advinhações.

Todavia, parecem acreditar na immortalidade da alma, ou antes no desassocego d'ella em quanto não cumprem certos preceitos ou vinganças em favor do morto.

A forma do governo é monàrchica absoluta, e tem muito do feudalismo.

Cada um é, muitas vêzes, juiz em causa propria, e quando eu falar dos mucanos direi como ali se faz justiça.

Os maiores acontecimentos entre os Bihenos sam aquelles que se ligam aos sovas, e sôbre tudo á sua morte e á acclamação do nôvo règulo. Antes porem de descrever estes dois grandes acontecimentos, preciso é falar da sua côrte.

O sova é rodeado de um certo nùmero de sujeitos, a que chamam Macotas, que muitos julgam corresponderem aos ministros entre nós, mas que assim não é. Os Macotas formam apenas uma especie de consêlho a que o sova submette sempre as suas deliberações, mas de cuja opinião poucas vêzes faz caso. Sam secúlos e favoritos do sova, e nada mais. Secúlo é o fidalgo, filho de nobre, ou enobrecido pêlo sova.

Muitos secúlos que possuem libatas, dentro d'ellas t[~e]m o tratamento de sovas, e os seus pôvos, quando lhe dirigem a palavra, dizem côco, o que quer dizer Vossa Magestade.

Àlém dos Macotas, ha três prêtos que rodeiam o sova, e que, quando elle dá audiencia, se sentam no chão junto d'elle, e apanham da terra os escarros do regùlo para os irem deitar fora. Ha ainda o que leva a cadeira, e o Bôbo, figura indispensavel em tôdas as côrtes de sova, e mesmo dos secúlos ricos e poderosos. O bôbo tem obrigação de limpar a porta da casa do sova e a rua em tôrno d'ella.

As libatas sam defendidas por uma forte palissada de madeira, quasi sempre coberta de sycòmoros enormes, e dentro d'ellas uma segunda palissada defende e fecha a morada do sova. Este segundo recinto chama-se o lombe. Dados estes esclarecimentos, vamos ver o que se passa pêla morte ou acclamação dos règulos.

Logo que morre o sova, o acontecimento é sabido dos Macotas, que guardam o maior segrêdo. Dam parte ao pôvo de que o sova está doente e por isso não apparece. O cadaver é deitado na cama, na cubata, e coberto com um panno; isto em Caquingue, porque no Bihé, é dependurado pêlo pescôço ao tecto da cubata.

O côrpo ali jaz até que a putrefacção e os insectos deixam a ossada nua, no paiz de Caquingue; no Bihé, até que a cabêça se separa do corpo.

É então que anunciam a morte do règulo, e que se procede ao enterro. Os ossos sam metidos em uma pelle de boi e enterrados em uma cubata que existe no Lombe, sarcòphago de tôdos os sovas. A cubata em que apodreceu o cadaver é demolida, e tudo o material é transportado fôra da libata, e abandonado no mato. Será desnecessario dizer, que a morte de um sova é sempre produzida por feitiço, e que um desgraçado paga com a vida, não o feitiço, que não fez, mas a vingança particular de um dos Macotas. Logo que se anuncía a morte do sova, o pôvo sahe furioso, e durante alguns dias, sam roubados tôdos os que passam pròximo da capital, sendo que se apossam das pessôas mesmas, que escravizam para venderem depois.

Os Macotas vam buscar o herdeiro, e acompanham-n-o até á Libata Grande (capital); mas ali elle não entra no Lombe, e fica vivendo na povoação como qualquer do seu pôvo. Em seguida á entrada do herdeiro na Libata, sahem dois bandos de caçadores, um em busca de uma malanca (Catoblepas taurina), e outro em procura de uma creatura humana.

Do grupo que vê o antìlope, se adianta um caçador que lhe atira, fugindo logo, e sam os outros que lhe vam cortar a cabêça, porque, se fôr o que lhe atirou, é logo assassinado, e nunca pôde dizer que foi elle que o matou.

O bando que procura a creatura humana, apossa-se da primeira que encontra (homem ou mulhér), e arrastando-a para o mato, cortam-lhe a cabeça, que trazem com tudo o cuidado, abandonando o côrpo. Chegados á libata, esperam pêlo bando que foi caçar o antìlope; porque mais facil sempre é encontrar e matar um homem do-que encontrar e matar uma malanca.

Reunidas em uma cesta as duas cabeças, a do homem e do antìlope, vem o cirurgião, e comêça a fazer os curativos precisos para que o nôvo sova possa tomar as redeas do governo, e quando acaba a sua magía, declara que elle pôde entrar no Lombe. Acompanhado dos Macotas, o sova entra no Lombe, no meio de grande grita e muita fuzilaria.

O primeiro passo que dá o sova no seu governo, é escolher entre as suas amantes uma que apresenta como sua mulhér, a qual fica morando com elle, e toma o nome de Inácúlo, e o governo caseiro; as outras ficam vivendo no Lombe, mas fôra do recinto do règulo.

No Bihé, como em tôda a Àfrica Austral, está estabelecida a polygamia.

Os crimes no Bihé sam sempre julgados em primeira instancia pêlo lesado, e só se o culpado se não sujeita ao pagamento da multa, é que, algumas vêzes, sobe a causa ao conhecimento do sova, porque em outras a justiça é feita pêlo lesado. A palavra terrivel no Bihé, o vocàbulo Mucano, não exprime simplesmente o crime, mas designa uma idéa que involve ao mesmo tempo o crime e o pagamento da multa.

Ali tôdos os crimes sam remiveis a dinheiro, isto é, ao pagamento de multas; e não ha penalidades intermediarias entre a multa e a pena de morte. Se alguem rico sôbre quem pesa um mucano, se recusa a pagar, e o lesado é poderoso, faz presa ao culpado em valor muito superior á multa, ficando a presa em depòsito, para ser vendida, ou ficar pertencendo ao que a fez.

Aquelle que faz uma presa injusta é obrigado pêlo sova á restituição, e a dar um porco ao prejudicado.

Este systema é ázado a roubos, e tôdos os dias apparecem mucanos os mais estupendos.

Um dos mais vulgares é o do adulterio das mulhéres, a quem os maridos mandam que se façam seduzir por este ou aquelle homem que possue alguma cousa, para lhe fazerem depois pagar o mucano. O chefe de uma comitiva é obrigado a pagar os mucanos dos seus prêtos, e responsavel pêlo comportamento d'elles.

Quando um branco responsavel pêlos mucanos dos seus prêtos, tem por seu lado força bastante e se recusa a pagar, elles esperam, ás vêzes, annos até poderem atacar outro branco mais fraco, e fazerem-lhe presas, dizendo-lhe, que é por causa do outro, e que se entenda com elle.

Se o que têve um mucano é fallecido, o desgraçado que vem habitar a sua povoação paga por elle.

O modo por que se faz justiça no Bihé, é a causa do grande transtorno que soffre o commercio, e das grandes perdas das casas de Benguella.

Durante a minha estada em casa do Silva Porto, viéram ali uns prêtos que traziam uma gallinha para fazer uns curativos, e o hortelão vendo-a disse, que tinha uma muito parecida com ella. Fôram estas palavras
objecto de um mucano, em que o hortelão têve de pagar 16 côvados de algodão ao dono da gallinha.

Logo que chega alguem ao Bihé e traz fazendas, procuram arranjar-lhe innùmeros mucanos, e roubam-lhe assim uma grande parte d'ellas.

Os sertanejos, quando chegam ao Bihé, sam tão defraudados pelos mucanos, que muitas vezes não lhes fica para ir negociar no interior mais do que a terça-parte das facturas trazidas. Guilherme (o Candimba), pai do Verissimo, a ùltima vez que ali foi em viagem de tràfico, foi obrigado a dar fazendas no valor de 600 mil réis, por um mucano que lhe arranjáram, de um seu prêto ter comprado um bocado de carne de carneiro por três cartuxos de pòlvora, e não os ter dado no dia aprasado, mas sim no seguinte, em que já não fôram aceites. Durante a minha estada no Bihé, Silva Porto têve de pagar um mucano de 700 mil réis por uma bagatela ainda maior.

É o mucano, esse roubo infame, porque é legal e autorizado, a causa principal do estôrvo ao commercio, e da decadencia do Bihé.

Foi o mucano que expulsou do Bihé a Silva Porto e aos sertanejos honrados.

Supprima-se o mucano, segure-se o caminho de Benguella, organize-se e legisle-se para as comitivas sertanejas, e dentro em pouco triplicará o commercio de Benguella, e novas fontes de riqueza, atrofiadas hôje pela pouca segurança, virám alimentar as industrias Europeas.

O pôvo do Bihé é ázado a grandes commettimentos. Esmague-se no seu seio a vìbora da ignorancia que o corróe; levantem-se esses brutos ignaros á altura de homens, dê-se-lhes uma direcção, e elles caminharám na via do progresso e chegarám onde difficilmente chegará outro pôvo Africano.

Os prêtos d'Àfrica sam como os cavallos de fina raça, quanto mais fogosos e bravos, mais promptamente se tornam doceis e obedientes.

Aquelles em que predomina a inercia e a cobardia, difficilmente se poderám civilizar; aos outros não será difficil tarefa trazel-os ao caminho do bem.

Os Bihenos, como tôdos os povos d'esta parte de Àfrica, sam muito dados á embriaguez.

Ali ainda chega a àgua-ardente, e na falta d'ella fabrica-se muita capata.

A Capata, Quimbombo ou Chimbombo, que lhe chamam de qualquer destes modos, é uma especie de cerveja feita de milho.

Nas terras onde cultivam o lùpulo (Humulus lupulus), servem-se das cònicas sementes d'esta trepadeira para confeccionarem a bebida.

Para isso, reduzem as sementes a pó, e misturado este pó com fuba de milho, em uma enorme panella, ferve por espaço de oito ou dez horas em muita àgua, e logo, retirada do fôgo e fria, é a capata, que se bebe immediatamente.

N'este preparado a fermentação acètica predomina, e é tão pequena a fermentação alcohòlica, que não embriaga senão em grande quantidade. Como a bebida não é filtrada, fica cheia de farinha em suspensão, e é mais massa muito flùida, do que puramente um lìquido. É muito substancial, e ha prêtos que passam um e mais dias sem comer, bebendo só capata.

Nas terras onde não ha lùpulo é este substituido por uma farinha feita de milho em estado de germinação, que elles fazem produzir, já enterrando o milho, já deitando-o em àgua por alguns dias.

No tempo do mel, fazem produzir na capata uma grande fermentação alcohòlica, addicionando-lhe mel, que no fim de alguns dias está em parte transformado em alcohol.

Esta bebida assim preparada embriaga muito, e tem o nome de Quiassa.

Preparam ali ainda outra bebida que apenas pode considerar-se refresco, mas que é agradavel e muito nutriente.

É ella feita com a raiz de uma planta herbàcea, que os meus poucos conhecimentos botànicos não me permitíram classificar, a que os prêtos chamam imbundi. Uma forte decocção da raiz do imbundi, depois de fria e de uma ligeira fermentação em uma grande cabaça, e addicionada, a frio, á fuba fervida como para a capata.

A raiz do imbundi contem grande quantidade de materia sacharina.

Esta bebida chama-se Quissangua.

A alimentação do pôvo do Bihé é quasi toda vegetal, e tendo elles poucos gados, que nunca matam para comer, apenas uma ou outra vez comem carne de pôrco, animaes estes que abundam ali no estado domèstico. Creio que fôram introduzidos por Silva Porto. No paiz, muito povoado, escaceia a caça, e a pouca que há sam pequenos antìlopes (Cephalophus mergens), difficeis de matar por muito esquivos.

Os Bihenos comem toda carne que encontram, e a preferem no estado de putrefacção.

O leão, o chacal, a hyena, o crocodilo, e tôdos os carnìvoros, sam para elles finos manjares, mas sôbre tudo o que mais amam sam os cães, que engordam para comerem. Isto talvez provenha da falta de alimentação animal que t[~e]m no seu paiz. Elles não sam positivamente canibaes, mas comem de tempos a tempos um bocado de homem cozido. Preferem os velhos, e um ancião de cabelleira branca é òptimo presente que recebe o sova, ou algum rico secúlo, para um banquete.

Os sovas do Bihé fazem repetidas vezes uma festa, na sua libata, a que chamam a festa do Quissunge, em que sam immoladas e devoradas 5 pessôas, sendo 1 homem e 4 mulheres, desta sorte:--1 mulhér que faça panellas, 1 do primeiro parto, 1 que tenha papeira (é vulgar ali), 1 cesteira, e 1 caçador de côrças.

Presas as vìctimas, sam degolladas, e as cabeças lançadas no mato. Os corpos entram de noite para o Lombe da libata grande, onde sam esquartejados, e morto um boi, a sua carne é cozida com a carne humana, parte da qual é tambem fervida na capata; sendo que tudo o que apparecer no banquete deve levar sangue humano. Logo que está prompta a sinistra e repugnante ceia, o sova manda participar que vai começar o Quissunge, e todos os habitantes da povoação correm pressurosos ao festim.

Os Bihenos gostam muito das termites, e destroem as suas habitações para as comerem cruas.

O Biheno é altamente ladrão, e furta sempre que pode algum objecto, logo que está no seu paiz; fóra d'elle, não só se abstem de roubar, mas, como carregador, respeita a carga que lhe confiáram.

Quando uma comitiva acampa no mato, no Bihé, é preciso logo dar parte d'isso ao secùlo dono da terra, mandando-lhe um pequeno presente; sem o que, ficam autorizados os prêtos da povoação vizinha a roubarem quanto possam. Logo que se dá o presente ao dono da terra, é elle o responsavel por qualquer roubo que haja.

É tambem necessario mandar um presente, ou antes um tributo, ao sova; ao que se chama dar a Quibanda. Elles nunca ficam satisfeitos, e exigem sempre mais do que se lhes manda.

As libatas ou povoações fortificadas (que todas o sam, desde a costa ao Bihé) t[~e]m as mesmas condições, salvo pequenas modificações, devidas á disposição do terreno. Sam grupos de cubatas feitas de madeiras e cobertas de côlmo, cercadas por uma palissada, que varía entre 2 a 3,5 metros de altura. Esta palissada é formada por estacas de pao-ferro de vinte centìmetros de diàmetro, umas apenas cravadas no terreno, outras amarradas com travessas e cascas de leguminosas, e outras amparadas por travessas encaixadas em forquilhas enormes.


Figura 21A.
Palissada Solta.
Figura 21B.
Palissada amarrada com
Casca de arvore.
Figura 21C.
Palissada travada
com Forquilhas.

Outra palissada igual á exterior, senão mais forte, rodea o Lombe, ou morada do chefe da povoação. Em muitas vi grupos de casas rodeadas de palissada.

As libatas, e sôbre tudo as antigas, sam cobertas de frondosas àrvores, e estam junto de rio ou ribeiro, sendo que em algumas lhes fazem passar a àgua por dentro.

Sam quasi todas rectangulares, mas muitas ha ellìpticas ou circulares, e outras formando polygonos irregularissimos. Não ha a menor ordem nas construcções, e em geral é a disposição do terreno que as determina.



Figura 22.--Planta de uma Libata de gentio no Bihé.

A. Entrada.
B. Cubata onde se enterram os sovas.
C. Trophéu de cornos.

c c c. Casas das amantes do sova. O O. Casa do sova. a a a. Lombe ou
morada do sova. d d d. Casas dos prêtos.


Figura 22C.--Trophéu de Cornos de caça, em quasi todas as libatas.


Figura 23.--Fora da porta das libatas ha isto.

As povoações sam fortificadas com o receio dos ataques do homem, que feras não abundam muito no paiz, e não é mesmo isso necessario para feras, porque no interior, onde as ha em bandos, as povoações sam abertas.

As guerras dos prêtos ali sam, a maior parte das vezes, sem causa, e basta a riqueza de um pôvo para que elle seja atacado.

Sam verdadeiros ataques de salteadores.

Logo que um règulo decide ir fazer a guerra a outro, ou a um pôvo qualquer, manda emissarios seus aos sovas e secúlos circumvizinhos, convidando-os a tomar parte na campanha, e estes, como na Europa no
tempo do Feudalismo, sahem com os seus guerreiros a reunirem-se ao que os convoca.

Alguns povos fazem periòdica e systemàticamente a guerra, e no Nano, por exemplo, vam, de tres em tres annos, roubar os gados ao Mulondo, Camba e Quillengues, e dizem, que estes povos criam gados para elles, e sam os seus pastores.

Uma circunstancia muito notavel das guerras n'esta parte de Àfrica, é a de ser sempre vencedor o que ataca.

Ha excepções, mas muito raras.

Uma das excepções foi o ataque dirigido por Quillemo, o actual sova do Bihé, contra o paiz de Caquingue, em que os Bihenos fôram derrotados pelos Gonzellos, e em que o proprio sova Quillemo foi prisioneiro do sova de Caquingue, onde seria degollado, se por elle não pagassem um grande resgate Silva Porto e Guilherme José Gonçalves (o Candimba).

Nas guerras entre os povos d'estes paizes, pode contar-se, que apenas um quinto dos combatentes sam armados de espingardas, e os outros 4-quintos de arcos e frechas, machadinhas e azagaias. Dizem, que uma guerra vai muito poderosa e forte, quando leva trinta tiros por espingarda. As armas de que usam sam as chamadas no commercio Lazarinas, sam muito compridas, de pequeno adarme, e de silex. Estas armas sam fabricadas na Bèlgica, e tiram o seu nome de um cèlebre armeiro Portuguez que viveu na cidade de Braga, no principio d'este sèculo, cujos trabalhos chegáram a adquirir grande fama, em Portugal e Colonias. Nas armas fabricadas na Bèlgica para os prêtos, que sam uma imitação grosseira dos perfeitos trabalhos do armeiro Portuguez, lê-se nos canos o nome d'elle--Lazaro--Lazarino, natural de Braga.

Os Bihenos não usam balas de chumbo, que sam, dizem elles, muito pesadas, e fabricam-n-as de ferro forjado. Os cartuxos, que elles fabricam tambem, levam 15 grammas de pòlvora, e t[~e]m 22 centìmetros de comprido.

As balas de ferro sam de diàmetro muito inferior ao adarme, pesando apenas 6 a 7 grammas. Como sam forjadas, sam mais polyedros irregulares do que espheras.

As armas assim carregadas, de nenhuma precisão, como se pode bem julgar, t[~e]m um alcance de cem metros apenas.

O alcance da frecha é de 50 a 60 metros, mas a grosseira precisão do tiro de frecha, entre os prêtos, não vai àlém de 25 a 30 metros. As azagaias sam todas de ferro, curtas e ornadas de pello de carneiro ou de cabra, não sam de arremêsso, e o Biheno em combate nunca as deixa da mão.

Talvez haja reparo em eu escrever pello de carneiro, mas cabe dizer, já que falei n'isso, que os carneiros ali não t[~e]m lã. Existem no paiz duas differentes especies, que os prêtos em Hambundo designam pelos
nomes de Ongue e Omême. O ongue tem um pello grosso e curto; e o omême, que tem o pello mais longo, differe muito da lã.

Estes carneiros, de raças exòticas, degeneráram de certo por effeito do clima e das pastagens. T[~e]m os Bihenos cabras de uma raça muito inferior, e o seu gado bovino é pouco, e de raça muito pequena e fraca.
As gallinhas abundam, mas, sam, como todos os animaes domèsticos no Bihé, de pequeno corpo.

Deixo aqui o que nos meus apontamentos encontrei de mais curioso a respeito d'este paiz, cujas posições e condições climatèricas se encontrarám em um capìtulo especial; e retomo o meu diario no dia 14 de Abril de 1878.

As ùltimas chuvas tinham cahido das 6 ás 9 da noite do dia primeiro de Abril, produzindo apenas 17 milimetros d'àgua, o que mostra terem sido já muito fracas. O tempo estava esplèndido, e alguns cirrus alvissimos que em seguida ás chuvas tinham pairado nos ares a enorme altura, desapparecêram, para deixar logar a um firmamento lìmpido, esclarecido de dia por um sol brilhante, e á noite constellado d'estrellas, que dardejavam sôbre a terra escura d'Àfrica essa luz melancòlica e scintillante, que ellas só t[~e]m nas regiões tropicaes.

Era o bom tempo de viajar, era já o dia 14 de Abril, e eu estava ainda no Bihé!

Eram 14 de Abril, e eu não partia, porque ainda não tinham chegado as fazendas e as cargas que deixámos em Benguella, em Novembro de 1877, isto é, uma grande parte d'ellas, que outras tinham chegado em principio de Março. Esta demora estava sendo de grande prejuizo para mim. Dos sete fardos de fazendas que me deixáram Capello e Ivens, quatro tinham sido gastos, com a sustentação da minha gente de Benguella e com a minha.

Ainda não tinha dado presente ao sova, que teimava em m'o pedir, e comecei a ver um sombrio futuro na minha empresa.

Reduzi as minhas despesas pessoaes, e por isso tive de dispor de duas horas por dia para caçar. Na falta de caça grossa, tinha, na margem esquerda do rio Cuito, nas terras cultivadas de Silva Porto, muitas
perdizes.

Chamei-lhe a minha capoeira, e todos os dias ia ali matar uma ou duas, não excedendo nunca esse nùmero para não destruir a provisão. Semelhante ao jogador que faz da banca meio de vida, e que sopeando os impulsos do vicio, se levanta com um pequeno ganho que lhe assegura a sustentação diaria; assim eu, contendo os instinctos de caçador, deixei muitas vezes a caça que podia matar; fazendo sôbre mim supremo esfôrço, para não proseguir n'um prazer, que destruiria ao mesmo tempo as munições pouco abundantes, e a caça necessaria ao meu sustento futuro.

Não eram só as bandas de perdizes dos campos de Silva Porto que forneciam um prato á minha modesta mesa. Centenares de rolas Africanas, esvoaçavam continuamente sôbre as àrvores das margens do Cuito, e vinham beber ao rio de manhã e de tarde. Os meus muleques pequenos, por meio de armadilhas caçavam algumas, que vinham figurar na minha mesa a par das perdizes e de um prato de massa, feita com farinha de milho cozida em àgua, que me servia de pão.

Assim pude reduzir a minha despesa, que era pêlo menos de quatro jardas de algodão branco por dia, custo de duas gallinhas.

A demora e com ella o decrescimento ràpido dos meus recursos, fez modificar o meu plano de viajar. O mucano aterrava-me, e se eu tivesse de pagar algum, ficava impossibilitado de sahir do Bihé. A demora da minha gente, tinha, com a ociosidade, feito despertar n'elles os vicios adormecidos pelas fadigas e pelos trabalhos da jornada.

O perigo pairava sôbre mim, e estava suspenso por um fio, como a espada sôbre a cabeça de Damocles. Resolvi, depois de muito cogitar, colocar-me em circunstancias de ter a força de meu lado, e de defender a tôdo o trance a minha propriedade.

Para isso precisava armar-me, e depois de ter armas precisava ainda de munições de guerra. Eu tinha 10 carabinas Snider, que me tinham dado Capello e Ivens; pude obter mais 11 das deixadas por Cameron no fim da sua viagem, e para estas armas tinha quatro mil cartuxos. Àlém d'estas, possuia umas 20 espingardas de silex, das ùltimas d'esse systema usadas pelos exèrcitos na Europa. Para estas não tinha munições. Fiz correr a noticia de que comprava tôdas as armas inutilizadas que me trouxessem. Principiáram a affluir ellas, e eu ia comprando as que poderia concertar, o que me não era difficil, por ter aprendido o officio de serralheiro e espingardeiro, com meu pai, que é habil artìfice, e que ainda hôje emprega as horas de òcio trabalhando na sua officina, mais bem montada que as d'aquelles que as t[~e]m por profissão. Lembra-me aqui uma anecdota engraçada. Um dia, entra na nossa quinta do Douro um cavalheiro que ia procurar meu pai, e ouvindo um martellar estridente n'uma casa pròxima á de habitação, dirigio-se para ali. Era uma vasta forja, onde dois homens, de tamancos nos pés, carapuças vermelhas na cabeça, largos aventaes de couro pendentes do pescôço e justos á cintura, a cara e mãos negras do carvão e do ferro, estendiam em enorme bigorna uma grossa barra, que projectava em todas as direcções chispas ardentes, ao bater cadenciado de dois pesados martellos, puxados por braços nus até ao cotovelo.

O cavalheiro parou á porta e perguntou: "¿O Senhor Doutor está em casa?" Meu pai, que era elle um dos ferreiros, respondeu-lhe com uma pergunta: "¿Que lhe quer o Senhor?"

O cavalheiro, que não era de genio brando, não gostou da pergunta do ferreiro, que tomou por insolencia, e respondeu pouco convenientemente, dizendo, que vinha procurar sua Excellencia, e que não admittia que um ferreiro que trabalhava em sua casa respondesse com perguntas a elle.

Meu pai quiz explicar o caso, dizendo, que o ferreiro e o Doutor eram a mesma pessôa, o que mais fez exasperar o seu interlocutor, que julgou lhe juntavam a zombaria á insolencia. Ambos de genio irritavel, iam ter uma desagradavel contenda, quando o outro ferreiro, que era eu, entreveio e fez cessar a guerilha; dando o visitante as suas desculpas logo que se convenceu da nossa identidade.

Esta pequena circunstancia de ter aprendido um officio, servio-me de grande auxilio, e foi um dos pequenos ribeiros que veio engrossar o rio dos felizes resultados da minha tentativa.

Assim, pois, mais um trabalho se veio juntar ao meu incessante labutar de tôdos os dias, e dentro em pouco pude aproveitar umas vinte-e-cinco espingardas que o gentio julgava inutilizadas.

Faltavam as munições, e era preciso fazel-as. Em casa de Silva Porto encontrei uma colecção completa da Gazeta de Portugal, e n'ella o papel necessario aos cartuxos. Nas cargas que esperava de Benguella
devia vir muita pòlvora, e por isso apenas me faltavam as balas. Obter chumbo era impossivel, e decidi logo fazer balas de ferro forjado. Faltava o ferro é verdade, mas esse era possivel obter-se.

Annunciei que comprava tôdo o ferro velho que me trouxessem, e não tardou a apparecer grande quantidade de enxadas inutilizadas, e sôbre tudo de arcos de barris de àgua-ardente. Só suspendi a compra de ferro quando tinha uns duzentos kilogrammas.

Mandei chamar 4 ferreiros do paiz, estabeleci duas forjas indìgenas no pateo interior, com grande escàndalo da prêta Rosa, administradora da povoação de Belmonte, e em quanto, fora da libata, os meus prêtos faziam carvão queimando os restos de uma paliçada de pao ferro, de uma libata abandonada, começou no pateo um forjar contìnuo.

O primeiro trabalho a fazer era reduzir tôdo aquelle ferro a varão cylìndrico do diàmetro das balas. Os ferreiros haviam-se com grande destreza. Dobravam os arcos em molhos de 20 centìmetros de comprido por 4 de espessura, e levando-os ao rubro, mergulhavam-n-os em uma massa de caliça e àgua. Depois de frios voltavam á forja, e chegados á tempera da fusão eram facilmente caldeados, tornando-se em massa ùnica e homogènea. Depois d'isso o trabalho era facil.

A compra das armas e do ferro tinha deminuido consideravelmente o meu haver.

Eu não possuia missangas, porque um sacco que me mandáram os meus companheiros não tinha curso nos sertões para onde me dirigia. Tratei de procurar alguma no Bihé, e pude comprar aos prêtos aqui e àlém uma pequena porção, que me fez a carga de um homem.

Esta compra veio dar um nôvo golpe na minha fazenda de algodão, e por 17 de Abril, possuia apenas um fardo.

1. Folle.
2. Folle preparado para servir.
3. Bocal de barro em contacto
com a chama.
4. Tenaz.
5. Martello grante.
6. Um bocado de cano de
espingarda encabado em páo que serve ao ferreiro para levar áo lume pequenas peças.
7. Martello pequeno.
8. Panellas de cozinha.
9. Panella
para capata.
10. Tambores dos batúques.
Figura 24.--Objectos fabricados por Bihenos.

Sentia desde a minha chegada ao Bihé uma grande falta, e era ella a de um despertador. Foi olvido que me custou no correr da viagem muitos incòmmodos e algumas febres. Sempre que tinha de fazer observações depois da meia noite, tinha de estar acordado até á hora precisa; e asseguro que é triste passar uma noite a lutar com o sono, sem luz, e por isso sem nada poder fazer para matar o tempo.

No dia 19, o Ivens veio ver-me, e causou-me funda impressão o seu estado.

Estava muito magro, de uma palidez cadavèrica, e accusava nas feições um soffrimento constante. Eu pedi-lhe para vir jantar comigo no dia immediato, que era o dia dos meus annos. Elle disse-me, que talvez não podesse vir pêlo seu estado de saude.

Dois dias depois, fui ao acampamento dos meus companheiros pagar a visita ao Ivens. Capello estava ausente, pois tinha ido determinar a posição da nascente do Cuanza.

No dia 25, tinha eu dez mil balas, ou antes dez mil bocados de ferro, toscamente forjados, com pertenções a terem uma forma esphèrica. Era o que me bastava, e despedi os ferreiros. N'esse dia chegáram os primeiros Bailundos com as cargas de Benguella, e nos seguintes dias fôram apparecendo novas levas com cargas. Estes Bailundos eram insolentes, e iam fazendo uma grande desordem em Belmonte, que teria tomado sèrias proporções se eu não interviesse. Tirei das cargas 10 fardos de fazenda, três barris de àgua-ardente, e dois saccos de caurim.

Faltava-me a pòlvora e o sal, que tinham ficado atraz.

Tratei logo de mandar o presente ao sova, e de me preparar para partir, porque, tendo os cartuxos promptos e embalados, em dois ou três dias os carregaria de pòlvora. Mandei emissarios a reunir os carregadores, que tôdos estavam justos e promptos.

No dia 29 de Abril, os prêtos de Silva Porto fizéram-me um pequeno furto, e eu zanguei-me muito com elles, e ameacei-os de os mandar para Benguella. Elles, para entrarem nas minhas bôas graças, viéram denunciar-me, que sabiam onde estavam 4 espingardas que tinham sido roubadas á expedição no caminho de Benguella. Uma d'ellas fôra furtada pelo S^{nr.} Magalhães, dono da povoação onde primeiro estive no Bihé.

Pude havel-as todas.

Figura 25A.
Quinda, cesta de palha que
não deixa passar a àgua.
Figura 25B.
Peneiro para seccar a Farinha (fuba).
Figura 25C.
Peneiro de peneirar.
Figura 25D.
Cabaça para tirar Àgua a capata.

A esse tempo eu mal tinha occasião de comer. Arranjava as cargas, e era preciso estar presente a tudo, para não ser roubado, porque tôdos os prêtos, os de Silva Porto e os meus, eram uma quadrilha de ladrões.

Havia uma excepção, uma ùnica. Era o meu prêto Augusto, que me deu sempre prova da maior fidelidade.

Quando contratei os carregadores em Benguella, contratei entre elles o Augusto, de quem nunca fiz caso, porque elle se não distinguia dos outros, a não ser talvez por ser um pouco mais dado a embriaguez.

Na distribuição das armas, os prêtos fizéram repugnancia em receber as de Snider, e só o Augusto me pedio logo uma. Foi a primeira vez que attentei n'elle. Um dia, no Dombe, fiz um exercicio ao alvo, e vi que elle era um soffrivel atirador. Depois, em Quillengues, sube, que elle dissera entre os prêtos, que me não deixaria nunca, e como, pêla sua força herculea, e pêla sua coragem, elle tinha tomado um grande ascendente sôbre os outros prêtos, chamei-o a mim.

Ao tempo em que vai a minha narrativa elle tinha subido de posição, e de simples carregador, estava chefe da comitiva.

Alguns eram seus amigos, outros respeitavam-n-o, e muitos temiam-n-o.

Augusto é o melhor prêto que eu tenho encontrado em Àfrica; mas ninguem é perfeito n'este mundo, e Augusto não quer ser excepção á regra. Entre os seus defeitos avulta um, que eu sou propenso a desculpar, e que sendo um grande defeito em viageiro Africano, fora d'ali poderia passar por virtude.

Augusto é louco pêlo bello sexo.

Forte como um bùfalo, corajoso como um leão, entende que deve protecção e apoio ás creaturas frageis que encontra no seu caminho.

Já não tinham conta as suas aventuras galantes desde Benguella ao Bihé. Casado em Benguella, casou de nôvo no Dombe, em Quillengues, Caconda, no Huambo, e desde a sua chegada ao Bihé, já tinha feito ali três ou quatro casamentos. É um verdadeiro D. Juan de côr prêta.

Obediente em tudo o mais, desprezava completamente as minhas admoestações n'esta parte.

Um dia, como as queixas das mulhéres fossem muitas, chamei-o e reprehendi-o severamente, ameaçando de o abandonar se elle continuasse. Chorou muito, lançou-se de joêlhos aos meus pés, fez mil protestos de emenda, e pedio-me para lhe dar uma peça de fazenda, que com isso iria contentar as mulhéres, e só ficaria com Marcolina, a sua mulhér de Benguella.

Dei-lhe a peça de pano, e fiquei satisfeito de tão sincero arrependimento.


Figura 26.--Uma Casquilha do Bihé.

Na tarde d'esse dia, ouvi grande batuque para um canto da povoação, e cantos e festas que anunciavam um acontecimento desusado.

Tive curiosidade de saber o que era, e mandei alguem a ver. ¡Qual não é o meu espanto, sabendo que o Augusto festejava o seu nôvo casamento com uma rapariga da libata de Jamba!

Vi que o furor de casar-se era superior ás suas forças, e decidi não mais me importar com os seus negocios galantes, mesmo porque elle não compromettia ninguem, e casava sempre legalmente.

Estàvamos a dois de Maio, e ainda não tinha podido reunir os carregadores, e ainda não tinham chegado do Bailundo, nem a pòlvora nem o sal vindos de Benguella.

O Verissimo andava por lá reunindo a gente; mas ainda nem um só se tinha apresentado.

Na manhã do dia três, estando eu em casa, ouvi fora da porta os acordes de uma rabeca, onde se tocavam arias muito melodiosas, coisa mui differente da mùsica monòtona dos prêtos.

Mandei chamar o menestrel, e appareceu-me um prêto alto e magro, quasi nu, de physionomia triste e expressiva.

Tocava em uma rabeca fabricada por elle, que dava sons tam melodiosos e fortes como o melhor Stradivarius. Este instrumento, mui semelhante em forma ás nossas rabecas, era cavado em uma só peça de pao, que formava a caixa e o braço, sendo o tampo de uma tabua fina da mesma madeira.

Tinha tres cordas de tripa, fabricadas pêlo mùsico, e o arco era guarnecido de duas cordas iguaes, em logar de clina.

Era de certo uma imitação das rabecas da Europa, e não um instrumento primitivo.

A madeira de que era feita chama-se no paiz Bóle, e abunda nas matas da Àfrica de Oeste. Não seria talvez para desprezar o ensaio d'esta madeira na fabricação de instrumentos de corda.

O bàrbaro mùsico cantou uma aria em meu louvor, a mezzo petto, com voz muito agradavel, acompanhando-se na tôsca mas harmoniosa rabeca. Foi muito applaudido pelos prêtos que tinha attraido em volta de si, e eu mesmo gostei d'aquella mùsica original.

Chegáram á libata uns prêtos do sertão do Andulo, que vinham vender tabaco muito bom, que n'aquelle paiz cultivam em quantidade. É este tabaco do Andulo que os Bihenos compram e mandam para Benguella, vendendo-o ali com o nome de tabaco do Bihé.

Eu comprei grande provisão, e calculei que me ficou por 500 réis o kilogramma.

Os preços dos differentes gèneros no Bihé não sam aquelles que me t[~e]m forçado a pagar, e sam os seguintes:

Uma gallinha, uma jarda de fazenda de algodão; seis ovos, uma jarda; um cabrito de dois annos, oito jardas; um porco de 5 a 6 arrobas (75 a 90 kilogrammas), uma peça de algodão branco e outra de zuarte; o alqueire de farinha de milho, duas jardas; o de farinha de mandioca ou de feijão, três jardas. Isto sam jardas de fazendas das mais ordinarias, cujo prêço no Bihé não se dêve calcular superior a 200 réis.

Uma jarda de fazenda chama-se no Bihé um Pano, 2 jardas uma Béca, 4 jardas um Lençol, 8 jardas uma Quirana.

As fazendas de negocio proprias para o Bihé e sertões explorados pelos Bihenos, sam, algodão branco, zuarte, zuarte pintado, lenços de zuarte pintado, lenços finos, lenços cangengos, fazendas de lei e riscados, tudo da mais inferior qualidade.

As peças de algodão branco tem 28 jardas umas, e outras de melhor qualidade 30. Os zuartes e riscados 18 jardas, os lenços pintados 8 jardas, os lenços cangengos 6, e a fazenda de lei 12 jardas.

As fazendas boas sam muito inconvenientes ao viajante que percorre esta parte de Àfrica, porque, não tendo muito mais importancia para o gentio, sam consideravelmente mais pesadas.

Eu tinha dois fardos de fazenda que tinha preparado ali, cada um dos quaes continha 624 jardas, e os outros, de algodão fino, t[~e]m apenas 180 jardas, e sam mais pesados.[4]

Já se deduz d'aqui a inconveniencia das fazendas de bôa qualidade, que àlém de ser grande o seu custo, é grande tambem a difficuldade do seu transporte, pois que três homens carregam d'ellas tanto quanto um carrega de fazenda ordinaria.

E sôbre tudo para o viajante explorador, como o seu dispender de fazenda é em trôco de alimento, tantas jardas de fazenda bôa tem de dar por um objecto, como de jardas de má fazenda dará pelo mesmo objecto.

O algodão branco de inferior qualidade e o zuarte sam o melhor dinheiro que pode levar o viajante n'aquellas paragens.

Nas missangas já se não dá o mesmo caso, e a que é moda aqui, não é recebida àlém, ás vezes em pontos pouco distantes, por ex.: no Bailundo querem muito a missanga preta, que já no Bihé não tem curso.

Ha contudo uma missanga que é quasi geralmente bem recebida em toda a Àfrica Austral. É ella uma missanga miuda encarnada, de ôlho branco, a que no commercio em Benguella dam o nome de Maria 2^a.

O buzio miudo (caurim) serve àlém Cuanza até ao Zambeze, mas o graüdo não é recebido.

O arame de latão ou de cobre vermelho é estimado para manilhas; mas, n'estas paragens, não dêve ter mais de 3 a 5 milimetros de espessura.

Os barretes vermelhos, sapatos de liga, fardas de soldados, etc., sam frandulagens, que, sendo muito estimados presentes para sovas e secúlos, sam pèssima moeda.

Os cobertores, e sôbre tudo aquelles vistosos que na Europa usamos para embrulhar as pernas em viagem, sam muito cubiçados do gentio; estando porem no caso das fardas e barretes, que, sendo òptimo presente, não sam bôa moeda.

Os realejos, caixas de mùsica, e outros objectos d'este gènero, estam no mesmo caso.

Prestigiações, sortes de physica e chìmica, produzem certa impressão no gentio, mas não tanta como se julga na Europa. Não comprehendendo as causas que determinam certos phenòmenos, lançam a cousa á conta de feitiçaria, com que explicam tudo que não sabem explicar de outro modo.

Ás vezes até podem ser contraproducentes, e prejudicarem aquelle que as fizér.

De tudo o que eu vi fazer impressão em pretos, aquillo que mais os admira é verem um bom atirador.

Mêtta qualquer, diante de um ajuntamento de pretos, 6 balas em alvo pequeno e distante, corte o pequeno fruto de uma àrvore, mate um passarinho, e fique certo de que ganha logo a maior consideração, e será objecto das conversações por muito tempo.

A este respeito vou narrar um facto que se deu na libata, comigo. Um dia, um cirurgião Biheno appareceu ali trazendo um remedio que era preservativo contra as balas, áquelle que o tomasse.

Isto é crença geral entre Bihenos, e muitos ha que gastam tudo o que t[~e]m para adquirirem aquelle abençoado remedio, que os torna mais invulneraveis do que Achilles, porque nem mesmo lhes deixa a possibilidade de receberem a morte por um calcanhar.

Um mestiço civilizado, e educado em Benguella, encontrei eu, que se ria de mim quando eu lhe dizia que se lhe desse um tiro furava-o de lado a lado, apesar do remedio contra as balas de que elle fazia uso.

Mas vamos ao conto. O cirurgião Biheno trazia uma panellinha de meio litro cheia do precioso preservativo, e apregoava que aquelle que o tomasse seria depois tão invulneravel como o era a panella que continha o lìquido, panella a que tôdo o mundo, no seu dizer, tinha atirado sem que as balas lhe fizessem o menor damno. Quiz elle dar ao pùblico uma prova irrefutavel, e desafiou-me de atirar á panella; tendo previamente o cuidado de me marcar a distancia (uns 80 passos) a que elle julgava ser impossivel acertar em tão pequeno alvo.

Tomei a carabina, atirei, e fiz a panella em cacos, derramando-se o precioso licor.

Nunca vi applaudir mais phrenèticamente alguem, do que eu fui applaudido então pêlo gentio entusiasmado.

O pobre cirurgião foi completamente corrido no meio de geral assuada.

Este pobre homem foi ali buscar o seu descrèdito.

Os melhores atiradores do sertão sam grandes mediocridades, e sam bem mais para temer pretos de frecha e azagaia, do que de arma carregada.

O Verissimo partio a reunir os carregadores, voltando a 5 de Maio com alguns, e dizendo que outros chegariam no dia seguinte.

N'esse dia recebi cartas e cargas de Benguella, enviadas para mim por Pereira de Mello e Silva Porto.

Fizéram-me uma tal impressão aquellas cartas, que no meu diario escrevi então, na cabeça do capìtulo em que falo do Bihé, aquelles dous nomes, e hôje ainda os conservo, como preito e homenagem áquelles dous cavalheiros.

Enviava-me Pereira de Mello 16 espingardas, 30 kilogramas de sabão, um relogio e uma carga de sal, tudo objectos de subido valor para mim.

Não é todavia esta valiosa remessa que me dictou a immensa gratidão para com o governador de Benguella; foi a sua carta e fôram as expressões dos seus sentimentos a meu respeito.

Dizia-me o Governador, que não hesitasse em seguir a minha viagem, que contasse com todo o apoio que elle me podia dar como autoridade, e se acaso ordens superiores coarctassem o Governador, que podia contar com o homem, com Pereira de Mello.

Dizia-me elle, que não tinha recebido de superior autoridade ordem alguma para não me fornecer os meios de que eu carecesse; mas que, se tal ordem viesse a receber, elle e os negociantes de Benguella estavam promptos a enviar-me tudo o que eu pedisse.

Vinha depois a carta de Silva Porto, que não menos valiosa era.

Dizia-me o velho sertanejo, que não partisse sem recursos. Que requisitasse para Benguella o que eu julgasse necessario, e que elle se encarregaria de me fazer chegar ao Bihé aquillo que eu pedisse.

Terminava o honrado ancião por estas palavras: "Estou velho, mas rijo e forte; se o meu amigo se vir n'um d'esses trances, vulgares no sertão, em que a esperança se perde, sustente-se no ponto em que estivér, e dê tudo ao gentio para me fazer chegar ás mãos uma carta sua. Não hesite em o fazer, e tenha esperança; porque no mais curto espaço possivel eu serei com-sigo, e comigo irám todos os recursos, todos os socorros. Sabe que eu não uso fazer offerecimentos vãos, quando precisar escreva, e eu irei logo."

A estas palavras não preciso eu de fazer commentarios, e nem mesmo aqui lhe juntarei uma palavra de agradecimento, que seria ridìcula.

Aquella remessa que recebi de Benguella foi-me trazida por um irmão do Verissimo, Joaquim Guilherme, que me disse deverem chegar no dia seguinte o resto das cargas da expedição, e com ellas a pòlvora por que eu almejava.

Como sempre que chegava um portador de Benguella, Joaquim Gonçalves trazia-me uma lembrança de Antonio Ferreira Marques.

Eram sempre alguns regalos para a pobre mesa do sertanejo.

Chegou finalmente o 6 de Maio, e começou logo grande tarefa de encher cartuxos, porque de manhã recebi a pòlvora.

Durante 4 dias empreguei entre 36 e 40 homens no encher dos cartuxos, que estavam promptos, e só era deitar-lhes pòlvora e dobral-os.

Ficou tudo prompto a 10 de Maio, e no dia 11 tinha eu reunidos todos os carregadores prompto a seguir no dia immediato. Fiz a distribuição das cargas, e dei as ordens para a partida.

Na manhã de 12, quando esperava pôr-me a caminho, vejo que só tinha uns trinta homens, tendo fugido todos os outros.

Sube então, que na tarde da vèspera, tinha andado o prêto Muene-hombo de Silva Porto, com uns pretos desconhecidos, dizendo aos Bihenos, que eu os queria levar para o mar, e que aquelles que fossem comigo não voltariam mais, porque eu os venderia.

O prêto Muene-hombo fugira com os Bihenos, e d'elle não havia mais noticia.

Esta nova deu-me um profundo golpe de desànimo.

Os carregadores, que eu a tanto custo tinha reunido, que eu com trabalho imenso tinha contratado, a quem fôra preciso desfazer uma a uma todas as aprehensões que tinham contra a minha empresa, fugiam-me, convictos de que eu os ia encaminhar á perdição.

Era um golpe terrivel.

Breve se espalharia no Bihé a noticia do facto; breve se arreigaria entre os pretos aquella convicção, mal destruida pelos meus reïterados argumentos, e então seria impossivel obter um só carregador mais.

Quasi desanimei.

Pela primeira vez, depois que em Lisboa tinha pensado em ser explorador, entrou no meu ànimo o desalento.

Eu sabia que lutar com uma convicção de pretos era baldado esfôrço.

¿Quem seria aquelle que levou o prêto Muene-hombo a trair-me?

¿Quem seriam os pretos que com elle estivéram na libata no dia anterior?

¿Qual seria a mão occulta que moveu aquella intriga?

Fazia a mim mesmo estas perguntas, ás quaes, nem então nem depois, encontrei resposta que fosse àlém de suspeita muito vaga.

Perdi a esperança, e fiquei possuido de um verdadeiro desalento.

Meditei todo o dia, e veio o pensamento de voltar a Benguella, mas de repente lembrou-me a carta de Silva Porto recebida dias antes, e lembrou-me a carta de Pereira de Mello em que me dizia "Avante!"

¿Porque não aceitaria eu o offerecimento de Silva Porto? Se elle viesse ao Bihé elle me obteria carregadores.

Decidi escrever-lhe no dia seguinte, e esta idéa tranquilizou um pouco o meu ànimo alquebrado.

Com a noute veio a reflexão, e eu escudado no ùltimo recurso, o pedir o auxilio do velho sertanejo, resolvi já forte com aquelle apoio, trabalhar, lutar ainda, antes de recorrer a elle.

Na madrugada de 13, fiz marchar o Verissimo e alguns pretos de confiança do Silva Porto a procurarem contratar nova gente.

Voltáram elles dando-me algumas esperanças, e então começou de nôvo o trabalho de organizar nova comitiva, trabalho mais difficil então do que antes.

Aconselháram-me sahir de Belmonte e ir acampar no mato a alguma distancia; porque me diziam, que uma comitiva em marcha, despertava nos Bihenos vontade de se alistar n'ella.

A 22 de Maio já eu tinha podido obter alguns carregadores, ainda que poucos, e resolvi com os meus Quimbares, aquelles carregadores e gente de ganho, seguir no dia 23 para um acampamento, idéa que levei a effeito indo estabelecer o campo nas matas do Cabir.

N'esse dia ao escurecer, apparecéram uns 11 carregadores trazidos por um prêto Antonio, homem já velho, natural de Pungo Andongo, que estivera ao serviço de dois sertanejos de nomeada, Luiz Albino, e Guilherme Gonçalves.

Durante a noute houve muito frio, forçando-nos a passar a maior parte d'ella despertos junto ás fogueiras.

O soveta de Cabir veio visitar-me no dia immediato, trazendo-me um pôrco de presente, que eu retribui, ficando nós nos melhores termos.

Emprestou-me elle alguns pilões, e mandou mulhéres para fazerem farinha de milho.


Figura 27.--Mulhéres do Bihé pisando Milho.

Indo agradecer-lhe á sua povoação, passei pelas plantações, onde andavam algumas mulhéres cavando, completamente curvadas, empunhando as enxadas pelos seus dous cabos.

De volta ao acampamento, encontrei um prêto dos de Nôvo Redondo, que não tinha podido seguir com Capello e Ivens, pêlo seu estado de saude. Não se sustinha em pé, e uma ardente febre o devorava.

Vi que o seu estado era melindroso e que pouco poderia viver; mas elle pedio-me que o não abandonasse, e eu agasalhei-o no campo, entregando-o aos cuidados do doutor Chacaiombe.

Veio visitar-me Tiberio José Coimbra, filho do Coimbra, Major do Bihé, o qual me obtêve alguns carregadores de gente da sua povoação.

N'esse dia aparecêram mais uns 12 carregadores com que eu já não contava, e eram capitaneados pêlo prêto Chaquiçonde, irmão da mãe de Verissimo.

Ia renascendo a esperança, e de nôvo se ia organizando a nova comitiva.

Resolvi partir no dia 27, e ir acampar junto da casa de José Alves, com esperança de completar ali o nùmero de gente que carecia. Obtive do soveta de Cabir alguns homens para me transportarem as cargas que não tinham carregador, e tambem 4 homens e uma maca para o doente de Nôvo Redondo.

Pude seguir no dia marcado, parando, meia hora depois de ter sahido, na povoação de Cuionja, de Tiberio José Coimbra, onde me esperava um òptimo almôço, com òptimo chá. Até havia guardanapos!

Depois de duas horas que ali me demorei, segui avante, chegando á povoação de Caquenha, com 4 horas de caminho.

Ali parei para ver o velho Domingos Chacahanga, dono da povoação.

Este Chacahanga, antigo escravo de Silva Porto, fôra o chefe da cèlebre expedição que Silva Porto mandou do Bihé a Moçambique, e que conseguio alcançar Cabo Delgado, na costa do mar Indico.

É elle o ùnico dos homens d'aquella expedição que hôje vive.

O velho recebeu-me muito bem, e deu-me um alentado cabrito.

Conversei muito com elle; mas a pesar de todos os meus esforços foi-me impossivel colher d'elle dados com que podesse marcar com alguma segurança o seu trajecto.

De que foi muito mais ao norte do que vem indicado nas cartas não me restou a menor dùvida, porque ha três pontos que elle precisa perfeitamente.

Um é ter, no Zambeze, deixado ao sul o paiz dos Machachas; outro ter atravessado o Luapula; e terceiro ter contornado pelo norte o Lago Nyassa.

Duas horas depois de ter deixado o velho Chacahanga, acampava nas matas do commandante, dois kilòmetros a S.E. da libata de José Alves.

Era já noute, e por isso guardei-me para ir no dia seguinte ver este personagem, que Cameron tornou conhecido de todo o mundo.

Effectivamente, a 28 de Maio estava eu em presença do tão falado sertanejo.

José Antonio Alves é um prêto (pur sang) de Pungo Andongo, que, como muitos d'ali e de Ambaca, sabe ler e escrever.

No Bihé chamam-lhe branco, porque ali todo o prêto que usa calças e sapatos de liga e guardasol, é tratado assim.[5] Em Benguella levam a condescendencia a chamarem-n-o mulato, um pouco escuro; mas a verdade é, que nas suas veias não ha uma gôta de sangue Europeu, e que elle é prêto não só na côr como na ascendencia, e quiçá na alma.

Veio para o Bihé em 1845, onde foi empregado de um sertanejo, e depois começou a negociar por conta propria, abonado pela casa Ferramenta de Benguella, que hôje faz avultado commercio sob a firma J. Ferreira Gonçalves.

José Alves é homem de 58 annos, já um pouco grisalho, de corpo franzino, e soffrendo de uma affecção pulmonar.

Vive como prêto, tendo todos os costumes e crendices do gentio ignaro.

Quando cheguei a casa de José Alves, estava elle decidindo um mucano.

Informado da questão, sube que um empregado mulato do José Alves seduzira uma das amantes d'este, e como o rapaz nada tinha de seu, elle fez-lhe um mucano á familia da mãe, que possuia alguma cousa, exigindo, em paga do delicto, um boi, ou uma cabecinha, para ficar limpo o seu coração. Isto me disse elle, passando a palma abranqueada da mão nêgra por sobre a parte da caixa thoràcica onde se alberga aquella vìcera, nos que a tem para cousa differente de alimentar a vida physica com os seus movimentos de sìstole e diàstole.

Que a elle servia para ser limpa de vez em quando com um mucano, percebi eu.

Depois de decidido o mucano, falei-lhe da minha viagem, que elle duvidou podesse levar a effeito com os pequenos recursos de que dispunha.

Combinou ceder-me uma pouca de missanga, e falando-lhe em carregadores, evadio-se a responder-me, dizendo-me, sabia que Capello e Ivens estavam junto ao Cuanza lutando com falta de gente; mas que, se elles lhe quizessem pagar bem, não teria difficuldade em os arranjar. Era o mesmo que dizer-me, que lhe pagasse bem para os ter.

Retirei-me lastimando pela primeira vez a Cameron, por ter sido forçado a tal companhia, por tanto tempo.

Nesta parte do Bihé a vegetação arbòrea começa a ser mais vigorosa, e junto ao rio Cuito, apresenta o terreno a mesma disposição termìtica que descrevi na margem do Cutato dos Ganguellas.

Com uns carregadores que me chegáram no dia 29, enviados pelo irmão de Verissimo, Joaquim Guilherme, tinha eu a gente sufficiente para seguir viagem, e dei as ordens n'esse sentido para o dia 30.

Quem rege as cousas d'este mundo tinha decidido porem de outro modo.

Na tarde d'esse dia, alguem espalhou entre os meus carregadores as mesmas atoardas de Belmonte, e viéram muitos d'elles declarar-me, que voltavam a suas casas, e não me seguiriam.

Fiz esforços de eloquencia para os convencer a seguirem-me, mas poucos me escutáram.

Era a segunda vez que, em vèspera de partida, no Bihé, ficava eu sem gente.

Ali ficáram contudo alguns Bihenos, e decidido a prescindir de todas as commodidades, e a abandonar toda a alimentação que levava, com poucos mais poderia seguir.

Era preciso arranjar esses poucos mais, e eu não desanimei na empresa. Um estranho episodio, acontecido no dia 30, veio coroar de resultado feliz a minha esperança.

No Bihé andam a monte muitos degradados e desertores, escapados dos presidios da Costa.

Um d'estes honrados cidadãos veio procurar-me, e pronunciou uma estudada arenga, que, pela profusa troca da primeira consoante pela dècima-sètima, e repetido emprêgo de termos só usados na minha provincia, me denunciou n'elle um conterraneo.

Se a forma do discurso era picaresca, a sua essencia mostrava, que a alma do orador era sentina de todas as podridões, em decomposição n'um clima tropical, trascalando fedores em cada phrase evaporada d'aquelle espìrito immundo.

Depois de me aconselhar a dispor das armas e munições que tinha, n'uma empresa abjecta, a que elle me fazia a honra de se ligar, terminou por me dizer positivamente, que, ou eu o associava a mim, fôsse para o que fôsse, ou elle, empregando manhas que tinha de geito para o gentio, faria que todos me abandonassem, e me poria na impossibelidade de dar um passo.

Terminada esta peroração, que o homem julgou ser argumento triumphante nas minhas decisões, exigio immediata resposta.

Eu dei-lh'-a logo. Chamei os meus Quimbares, e mandei amarrar o sujeito, a quem mandei applicar logo cincoenta açoutes, para fazermos maior conhecimento; porque, se eu o conheci ás primeiras palavras, elle não me conhecia ainda.

Depois de castigado, fiz-lhe um pequeno discurso, em que lhe disse, que o constituia meu prisioneiro, durante o tempo que estivesse em terras do Bihé, com ração de comida e de chicote todos os dias.

Reuni toda a minha gente, e mostrei-lhe, que a alma d'aquelle branco era mais nêgra do que a pelle d'elles ouvintes.

A nova da minha justiça espalhou-se nas povoações circumvizinhas, e deu-me crèdito entre os pretos, que tinham em má conta o meu prisioneiro.

No dia seguinte, alguns pombeiros do sitio viéram offerecer-me carregadores, e que m'-os traziam dentro de dois dias.

Todos os dias tinha promessas, mas os carregadores não chegavam, e a 5 de Junho, já no maior desespêro, decidi abandonar muitas cargas e seguir ávante.

Reuni os meus pombeiros, e communiquei-lhes a minha decisão.

Tivémos um longo conselho, em que eu sustentei a minha resolução, dando ordem para que os carregadores me acompanhassem ao rio Cuito com as cargas que eu tinha decidido abandonar, para as lançar ao rio.

Já se ia executar esta deliberação, quando o doutor Chacaiombe tomou a palavra, e me pedio para adiar de alguns dias a execução d'ella, dizendo-me, que obtivesse nas povoações vizinhas gente de ganho que
transportasse tudo até ao Cuanza; que elle ia tentar um esfôrço junto de um sova seu amigo, e me iria encontrar no Cuanza.

Discutido este alvitre, decidi, partir no dia 6, e demorar-me no Cuanza até 14; por isso, concedi 8 dias a Chacaiombe, declarando-lhe positivamente, que não esperaria um só dia mais.

Os meus pombeiros mostravam-me a maior dedicação, e depois de uma proposta de Miguel (o caçador de elefantes), decidíram pegar tambem elles em cargas, ainda que isso seja não só contra os usos, mas tambem inconveniente em marcha, onde elles t[~e]m o seu serviço especial a desempenhar.

Obtida a gente de ganho, preparei tudo para seguir no dia immediato.

N'esse dia morreu o homem de Nôvo Redondo que eu tinha recolhido no Cabir.

Levantei campo ás 9 horas do dia 6, tendo muita gente de ganho á razão de 1 panno por dia.

Segui a Leste, e duas horas depois acampei junto da povoação de Cassamba.

Fica esta povoação no meio de grande e espessa floresta, onde fui caçar, encontrando apenas algumas pintadas que matei.

Quando, a 7 de Junho, levantei campo, saío-me ao encontro o soveta de Cassamba, que me vinha comprimentar, e trazer um boi de presente.

Desculpei-me de não lhe dar immediatamente um presente, por estarem os carregadores em marcha, e pedi-lhe, que mandasse gente sua ao meu nôvo acampamento, d'onde lhe enviaria uma lembrança.

Depois de três horas de marcha, e de ter nas duas ùltimas atravessado grandes planicies pantanosas, alcancei a margem esquerda do rio Cuqueima, que ali corre ao norte, tendo 80 metros de largo por três de fundo, com uma velocidade de 12 metros por minuto.

Armei o meu bote Macintosh, e n'elle se effeituou a passagem da gente e cargas com grande morosidade, porque a pequena embarcação não tinha capacidade para mais de cinco pessôas, ainda que o poder de fluctuação da sua caixa de ar era muito superior.

Terminada a passagem, e achando-me na margem direita em terreno apaülado, e nu de arvorêdo, mandei pedir ao sova do Gando, para me dar algumas cubatas onde eu podesse pernoitar com a minha gente.

Elle veio ao meu encontro, dizendo-me que punha á minha disposição o lombe da sua povoação, que aceitei e onde me fui estabelecer.

Chegáram uns prêtos de mando do soveta de Cassamba, a reclamar o presente que eu lhe havia promettido, e para se fazerem reconhecer como vindo da sua parte, traziam a azagaia do sovêta, que de manhã eu lhe vira na mão.

É costume entre estes povos, onde a ignorancia da leitura e escrita existe, o mandarem um objecto conhecido pelo portador de uma mensagem, para que não se duvide que elles vam da parte de quem os envia.

Mandei o promettido presente.

O sova Iumbi, do Gando, conversou muito comigo, e era para elle motivo de espanto tudo quanto eu trazia. Deu-me um magnìfico boi, ficando muito satisfeito com uma peça de algodão riscado e algumas cargas de pòlvora que lhe dei.

No dia immediato levantei campo logo de manhã, e duas horas depois, fui acampar 1 kil. a Oeste da povoação de Muzinda.

Antes de partir, mandei soltar, e pôr na outra margem, o meu prisioneiro branco, já impossibilitado de me fazer mal, porque, passando o Cuqueima, eu estava fora das terras do Bihé.


Figura 28.--Mulhéres Ganguellas Luimbas e Loenas.
Modo por que cortam os Dentes incisivos.

Viéram ao meu acampamento muitas mulhéres da povoação de Muzinda, algumas das quaes traziam a cara pintada de verde, sendo dois riscos transversaes sôbre a testa, de orelha a orelha, e outros dois, descendo d'esses, cruzando-se entre os olhos, passando aos lados do nariz, ligados por um sôbre o labio superior.

Os penteados d'essas Ganguelas sam originalissimos, e alguns, a certa distancia, arremedam um chapéo de dama Europea.

Tôdos os homens cortam em triàngulo os dois incisivos da frente na maxila superior, formando uma abertura triangular com o vèrtice apoiado na gengive. Esta operação é feita com uma faca em que vam batendo pequenas pancadas.

Deu-me um indìgena uma cana sacharina de 2 metros e 30 cent. de comprido por 50 milimetros de diàmetro, affirmando-me que a producção d'aquella rica gramìnea é abundante ali.

Sahio de Muzinda uma pequena comitiva que ia para àlém do Cuanza comprar cêra a trôco de peixe sêco do Cuqueima.

Estes indìgenas andam quasi nus, tendo por ùnico vestuario duas pequenas pelles, que pendem de um estreito cinto de couro.

As mulhéres, essas andam ainda um pouco menos cobertas!

O sovêta de Muzinda veio visitar-me, e trouxe-me um boi, que eu retribui com presente igual ao que dei ao sova Iumbi do Gando.

A 9 de Junho, fui acampar na margem esquerda do rio Cuanza, a E.N.E. da povoação de Liuíca. N'aquelle ponto o Cuanza é mais modesto do que o Cuqueima, porque tem 50 metros de largo por 2 de fundo, com uma corrente de 15 metros por minuto.

O seu leito é de area branca e fina, e notavel a transparencia das suas àguas.

O rio serpea n'uma vasta planicie de dois a três kilòmetros de largo, que encosta de um e outro lado a pequena elevação de vertentes dôces, cobertas do arvorêdo.

Na planicie vegetam gramìneas altissimas, tão bastas que difficil é romper por entre ellas.

O terreno da planicie é mais ou menos pantanoso.

Como eu devia esperar ali 5 dias pelo cirurgião Chacaiombe, tinha, logo que cheguei, mandado construir um acampamento mais vasto do que aquelles que construia só para uma noute.

Veio ali visitar-me o sova de Quipembe, a quem obedecem os sovetas de entre Cuqueima e Cuanza, e que é elle mesmo tributario do sova do Bihé, a quem só obedece quando lhe faz conta; porque não teme os seus ataques, sendo-lhe facil defender a linha do Cuqueima, e sendo a maior parte, senão tôdos, os barcos que navegam ali, das povoações Ganguelas.

Trouxe-me um carneiro de presente, desculpando-se de me não dar um boi, por ser a sua povoação muito distante.

Recebi tambem a visita do sovêta de Liuíca, que me offereceu um boi.

Este sovêta, homem de boa feição, frequentou muito o meu campo durante a minha permanencia na sua vizinhança.

Um dia que elle me tinha visto atirar ao alvo, e que admirava a justeza dos tiros, passou o seu grande rebanho bovino por ali.

Eu propuz-lhe dar-me elle um boi, se o meu muleque Pépéca o matasse com um tiro.

Elle olhou para a criança e aceitou.

O Pépéca, sofrivel atirador ensinado por mim, tomou a carabina, e fez fôgo a um boi que ia mais separado dos outros, e que cahio fulminado. Ouve espanto geral da parte dos Ganguelas, e o sovêta disse-me que mandasse tomar conta do boi, e lhe desse a pelle, e um bocado de carne para elle comer, o que eu fiz logo.

Entre Cuqueima e Cuanza os Ganguelas, que sam de differente raça dos outros povos designados pelo mesmo nome, chamam-se Luimbas junto ao Cuqueima, e Loenas junto ao Cuanza.

No dia 12, aconteceu-me uma aventura extraordinaria, que não posso deixar de narrar aqui.

Andava eu fora, quando alguns dos meus prêtos viéram encontrar-me com um mulato, desconhecido para mim, que me disséram ser chefe de uma comitiva, que me vinha procurar, para me pedir licença de ir comigo até ás margens do rio Cuito, e deixal-o acampar nos meus acampamentos, para segurança sua.

Consenti no pedido, ainda que não de bom grado.

N'essa noute, demorei-me a conversar com os meus pombeiros até tarde, e sentados á porta da minha barraca, discursàvamos sôbre as probabilidades que haveria de ser bem succedido o meu cirurgião Chacaiombe na sua empresa, quando eu senti para uma parte do campo um tinido singular.

Era como o bater de martello em safra. Tive curiosidade de saber o que era aquillo, e mandei lá o meu Augusto.

Voltou elle a dizer-me, que na parte do campo occupada pelas barracas do pombeiro Biheno que me pedira agasalho, se acorrentava uma leva de escravos chegados n'essa noute do Bihé.

Nas barracas dos meus tudo dormia, excepto três ou quatro pombeiros que estavam junto de mim.

Contive a còlera que me dominou por um momento, e mandei chamar o meu hòspede.

Elle compareceu logo, e veio sentar-se junto da fogueira defronte de mim.

Perguntei-lhe ¿o que era aquelle bater de ferro? Respondendo-me elle, que era a acorrentar umas cabecinhas que levava para vender no sertão.

¡No meu acampamento! onde tremulava a bandeira Portugueza, acorrentava-se uma leva de escravos!

Continuei a fazer um grande esforço para me conter, e disse ao pombeiro, que fosse soltar tôdos aquelles desgraçados e m'os trouxesse livres.

Elle negou-se a fazel-o, e respondeu-me com uma gargalhada de riso alvar.

Perdi então a paciencia, e a raiva contida a custo transbordou violenta.

Cego de furor, lancei-me por sôbre a fogueira áquelle boçal mulato, e já a minha faca o ia ferir de morte, quando vi, que algumas espingardas dos meus Quimbares lhe ameaçavam a cabeça, e por um d'esses reviramentos tão vulgares como ràpidos no meu espìrito, só pensei em salvar-lhe a vida.

Ao meu grito de raiva, e ao barulho da luta, tinha-se levantado tôda a minha gente, e ameaçavam exterminar tôda a comitiva Bihena.

Eu, que conhêço a ferocidade dos negros logo que se sentem fortes, tremi pela vida dos inocentes que podiam ser immolados.

Era uma balburdia em que ninguem se entendia, e á excepção de 5 dos meus pombeiros que assistíram ao comêço da scena, tôdos ignoravam o que era aquillo, e só proferiam palavras de morte.

Consegui dominar o tumulto e fazer me ouvir.

Mandei o meu Augusto soltar os escravos, e trazel-os á minha presença, assim como tôdas as correntes e prisões que encontrassem nas barracas onde elles estavam.

Mandei lançar ao rio Cuanza as prisões de ferro, reservando só aquellas com que prendi os prêtos, guardas da leva.

Declarei aos escravos, que podiam ir-se, se quizessem, porque teria os seus guardas presos o tempo sufficiente para os não poderem alcançar. Desapparecêram tôdos, excepto uma pequena, que quiz ficar comigo, por não saber onde ir; e só na occasião de deixar o meu acampamento soltei e dei liberdade aos chefes e guardas d'aquelle rebanho de escravos.

Passou-se o dia 13 sem haver noticias do meu cirurgião, e na noute d'esse dia distribui eu as cargas que pude distribuir, umas 87, separando ainda umas 12 que me custava a abandonar, e pondo em pilha aquellas que estavam irremediavelmente condenadas.

Declaro que é difficil tal escolha.

Creio que um dos peores problemas a resolver por um explorador, é escolher entre as cargas, indispensaveis tôdas, aquella que hade dispensar.

Se não é mais difficil, é pelo menos tanto como achar o modo de determinar uma boa longitude.

Ali abandonei tudo o que de commodidades eu tinha, tôda a alimentação que para mim levava, e parte da que levava para a minha gente, e algumas cargas de missanga que os meus companheiros me haviam cedido, e que, comprada em Loanda, era de valor problemàtico nos sertões em que me ia internar.

Se no dia 14 de manhã não tivesse novas do Chacaiombe, as cargas condenadas seriam destruidas, queimando umas e lançando outras ao Cuanza.

¿Para quê? me perguntarám os meus leitores.

Eu lhes respondo. O chefe de uma comitiva em marcha nos sertões da Àfrica, onde tivér de empregar carregadores, tem de inutilizar e tornar inaproveitaveis tôdos os objectos que fôr forçado a abandonar, e isto por duas razões, uma que diz respeito á sua propria gente, e outra ao gentio dos paizes que atravessa.

Se consentio que os seus proprios carregadores aproveitem alguma cousa da carga abandonada, tôdos os dias terá carregadores doentes, que o obrigarám a abandonar cargas, para d'ali retirarem objectos em proveito proprio; organizando assim um industrioso roubo permanente.

Por outro lado, sabendo o gentio da terra, que lhe deixam cargas por falta de carregadores, não deixará de ministrar ás comitivas futuras, na muita capata que lhe offerecem, um tòxico qualquer, que, se não matar, os torne doentes; obrigando assim o chefe a abandonar cargas em seu favor; o que não fazem, sabendo que nada aproveitam, porque tudo o que houvér de ser abandonado é inutilizado.

Foi isto lição de Silva Porto, de que sempre fiz uso.

No dia 14 de manhã, não tendo noticia do Chacaiombe inutilizei 61 cargas!




RAPIDO GOLPE DE VISTA RETROSPECTIVO.


O Mappa junto mostra o meu caminho de Benguella ao Bihé.

Procurei designar n'elle tudo o que em viagem de exploração se pode colher de dados geogràphicos e topogràphicos.

Muitos dos pontos marcados sam determinados astronòmicamente, sendo os intermediarios, achados grosseiramente pelos rumos da agulha e projecção das distancias percorridas, distancias avaliadas pelos pedòmetros e pelo tempo gasto a percorrel-as.

As posições do Benguella, Dombe, Quilengues, Ngola e Caconda, que empreguei na carta, sam determinadas por Capello e Ivens, e como eu apenas tinha os resultados dos càlculos, ahi os designo taes como m'os deu o Ivens, sem as observações iniciaes. De Caconda ao rio Cuanza as posições astronòmicamente determinadas por mim vam precedidas das observações iniciaes.


Resultado das observações de Capello e Ivens, da Costa a Caconda.
Nome dos Logares. Longitude E. de Greenwich Latitude Sul. Declinação da Agulha Inclinação da Agulha. Altitude em metros.
° ' " ° ' " ° ' ° '
Benguella 13 25 20 12 34 17 23 30 O. 39 37 7
Dombe Grande 13 7 45 12 55 12 23 26 39 44 98
Quilengues 14 5 3 14 3 10 23 3 40 40 900
Ngola 14 39 1 14 16 46 --- --- 1,410
Caconda 15 1 51 13 44 0 22 30 --- 1,676

Tendo-me separado dos meus companheiros em Caconda, prossegui nos trabalhos que tìnhamos começado, não podendo fazer observações de inclinòmetro e fôrça magnètica, porque os ùnicos instrumentos que para isso levàvamos ficáram em poder de Capello.

Começarei a expor os meus trabalhos pela determinação das coordenadas geogràphicas de Caconda á margem esquerda do Cuanza, onde pára a minha narrativa no precedente capìtulo.

No seguinte quadro procurei compendiar os necessarios dados para se poderem verificar os resultados que designo.

Todas estas observações calculadas em Àfrica fôram recalculadas em Londres pelo 1^o tenente calculador da marinha ingleza, Selwyn Sugden.


Quadro das Observações Astronòmicas feitas pelo Major Serpa Pinto
entre
Caconda e o rio Cuanza.

Anno de 1878. Logares onde observei. Hora dos Chronòmetros. Estado para Greenwich.
H. M. S. H. M. S.
a Janeiro 14 Vicete (junto ao Cunene) 8 10 24 + 1 0 15
b     "        "                   " 10 27 44 + 3 23 2
c     "       16 Fende (Cunene)  5 10 2 + 3 23 6
d Fevereiro 12 Libata do Palanca  7 55 0 - 1 0 0
e        "         "                   " 10 30 56 + 3 27 18
f        "       13 Libata do Capôco 9 3 0 - 1 0 0
g        "         "                   " 9 57 15 + 3 27 27
h        "       18                  " 10 18 14 + 3 28 8
i Março 16 Belmonte (Bihé)  10 25 0 - 1 4 0
j     "      18                  " 5 6 10 + 3 31 43
l     "      22                  " { 5 3 1 } ---
m { }
n {  9 51 41 }
o Abril 2                  " --- ---
p     "   3                  " --- ---
q     "   4                  " --- ---
r     "   5                  " --- ---
s     "   "                  " 4 53 40 + 3 24 29
t     "   6                  " --- ---
u     "   7                  " --- ---
v     "   "                  " 0 8 32 - 0 57 43
x     "   "                  " 10 50 54 ---
z     "   "                  " 10 55 6 + 3 34 54
0     "   23                  " 9 4 25 ---
1     "   "                  " 9 38 16 + 3 37 26
2 Maio 24 Matas do Cabir (Bihé)  --- ---
3     "     "                  " 9 38 55 + 3 42 47
4 |   "    31 9 12 5 + 3 43 56
5 Junho 1                  " --- ---
6 |   "     9 6 22 33 + 3 45 52
7     "     "                  " 6 6 53 ---
8 |   "    10                  " --- ---
9     "     "                  " 9 17 21 + 3 45 57

Natureza da Observação Dupla altura do astro. [A] [B] [C] [D] Resultados
º ' " º ' H. M. ' " º '
a Alt. Mer. [-)] 101 3 0 --- --- -3 30 1 Lat. 14 S.
b Chron. [*-] 101 2 0 14 2 --- " 1 Long. 15 14 E.
c " 104 31 0 " --- " 1 " 15 25 E.
d Alt. Mer. [-)] 97 3 10 --- --- -0 50 1 Lat. 13 20 S.
e Chron. [*-] 99 6 30 13 20 --- " 1 Long. 15 27 E.
f Alt. Mer. [-)] 98 30 30 --- --- " 1 Lat. 13 9 S.
g Chron. [*-] 115 5 30 13 9 --- " 1 Long. 15 30 E.
h " 104 15 30 --- --- " 1 " 15 28 E.
i Alt. Mer. [-)] 131 38 30 --- --- " 1 Lat. 12 22 S.
j Chron. [*-] 104 58 40 12 22 --- " 1 Long. 16 51 E.
l Alt. iguaes 103 21 10 " --- " 2 Estado 3^h.31^m.54^s.
m
n
o Alt. Mer. [*-] 144 49 0 --- 1 8 -3 30 1 Lat. 12º 23' S.
p " 144 4 0 --- " " 1 " 12 23 S.
q " 143 20 0 --- " " 1 " 12 22 S.
r " 142 32 0 --- " " 1 " 12 23 S.
s Azimuth
266-30    [*-]
93 34 20 12 22 --- -1 0 1 Variação 21 11 Oes.
t Alt. Mer. [*-] 141 47 0 --- 1 8 -3 30 1 Lat. 12 22 S.
u " 141 3 0 --- " " 1 " 12 22 S.
v Alt. prox.
do Mer.   [*-]
140 3 0 --- --- " --- " 12 22 S.
x Eclipse do 1^o
sat. de Jùp.
--- --- --- --- 1 Long. 16 46 E.
z Chron. [*-] 65 48 0 12 22 --- -1 0 1 Diff p^a
o logar
4^h.42^m.23^s.
0 Eclipse do 1^o
sat. de Jùp.
--- " --- --- 1 Long. 16º 49' E.
1 Chron. [-)] 71 31 40 " --- -0 30 1 Atrazado 4^h.44^m.56^s.
2 Alt. Mer. [*-] 113 10 40 --- 1 7 -1 25 1 Lat. 21º 22' S.
3 Chron.    [*-] 79 22 50 12 22 --- " 1 Long. 16 53 E.
4 " 86 38 10 12 28 --- " 3 " 17 9 E.
5 Alt. Mer. [*-] 110 26 40 --- --- " 1 Lat. 12 28 S.
6 Chron.    [)-] 63 59 30 12 35 1 9 35 1 Diff p^a
o logar
4^h.54^m.34^s.
7 Eclipse do 2^o
sat. de Jùp.
--- --- --- --- 1 Long. 17º 25' E.
8 Alt. Mer. [*-] 108 15 20 --- 1 9 -0 40 1 Lat. 12 35 S.
9 Chron.    [*-] 82 43 23 12 35 --- " 3 Long. 17 25 E.

Legenda:
[A] Latitude Sul.
[B] Longitude em tempo.
[C] Erro do instrumento.
[D] N^o. de Obs.

[-)] símbolo da lua debaixo da barra
[*-] símbolo do sol por cima da barra
[)-] símbolo da lua por cima da barra



Trànsito de Mercurio a través do Sol em 6 de Maio de 1878.

Data Logar da Observação Latitude Longitude Hora do Chron.
para a hora local
Altura do Sol.
Erro do sext.
- 1' 25".
Media de 4 Media de 4
º ' " º ' " H. M. S. º ' "
6 Maio 1878 Belmonte 12 22 40 16 49 24 10 6 50 74 36 55

Data Estado atrazado de Greenw.  Hora do 1^o contacto interno. Longitude
No chronòmetro
H. M. S. H. M. S. º ' "
6 Maio 1878 3 39 39 11 35 29 16 50 15

É muito notavel que a primeira longitude que determinei em Belmonte pelo chronòmetro é muito pròximo da verdadeira obtida pelo trànsito de Mercurio. Esta longitude muito pouco differe tambem da obtida pelo eclipse do 1^o Satèlite de Jùpiter a 23 de Abril.

Não inclui n'este quadro as innùmeras observações feitas para estudar as marchas dos chronòmetros, que publicarei em separado um dia.

Nos estados dos chronòmetros a grande differença que se nota entre alguns provém do pertencerem a differentes chronòmetros.

Como se vê, o instrumento empregado por mim foi o sextante com o horizonte artificial de mercurio, que outro não tinha, tendo ficado em poder dos meus companheiros o Abba, ùnico theodolito universal que possuìamos.

Os meus sextantes eram: um de Casela, de Londres, contando 5"; e outro de Lorieux, de Paris, contando 30". As minhas bùssolas azimutaes eram fabricadas em Berlim, e tinham pertencido ao infeliz Barão de Barth.

Os meus chronòmetros eram de Dent, de Londres, sendo dois de algibeira, e um, que, depois, de Benguella me enviáram ao Bihé, de marinha, tambem de Dent.

Este ùltimo era mao; mas os primeiros excellentes, sobre tudo o que eu designo com a letra S, nos càlculos.

Das altitudes muitas sam determinadas pelo hypsòmetro, e outras pelo aneroide, cotisado com o hypsòmetro.

Essas altitudes vam marcadas na carta em metros.

A carta do paiz do Bihé, muito grosseira e incompleta de certo, foi levantada á bùssola, nas minhas excursões venatorias; mas, ainda assim, possue a sufficiente exactidão para se julgar do paiz, e prouvera a Deus que as cartas de pontos muito mais pròximos da costa em que dominamos, estivessem tão pròximas da verdade como ella.

Ponho ponto aqui nos detalhes das minhas cartas, para falar ràpidamente do paiz que ellas representam.

De Benguella ao Dombe, como se vê, costeei o mar, em terreno calcàreo, abundante de minèrios diversos.

As àguas faltam ali na estação sêca, e apenas o valle do Dombe Grande tem a sufficiente para ser enormemente productivo. A vegetação, sem ser pobre, não tem, todavia, a opulencia peculiar aos paizes intertropicaes. Entre Benguella e o Dombe apenas se encontra àgua potavel n'um pequeno charco na Quipupa.


Mappa 3.--Entre Cubango e Cuanza

O paiz é abundante de caça, e encontra-se n'elle grande variedade de antìlopes, sendo os mais vulgares o Strepsiceros kudu, o Cephalophus mergens, o Cervicapra bohor, e o Oreas canna. Nas rochas de
carbonato de cal que formam o systema orogràphico do Dombe Grande, abundam os hyrax, e na planicie, entre as grandes e pomposas plantações de mandioca, vivem muitos hystrix, maiores um pouco do que os da Europa, e que causam ali grande estrago nas terras cultivadas. O valle do Dombe Grande é de certo a melhor porção de terreno da provincia de Angola. As suas condições de salubridade não sam más, e o solo é de grande fertilidade. Um porto de mar, o Cúio, dista apenas alguns kilòmetros do maior centro de producção.

As montanhas que enquadram o valle, sam cheias de minerio, e já tem estado em exploração, sempre em pequena escala, por falta de capitaes. Ha ali enxôfre e cobre.

A população indìgena é de bôa ìndole e trabalhadora, tanto quanto o pode ser um prêto abandonado a si mesmo.

Entre o Dombe e Quilengues o paiz é deserto. Pelo caminho que segui há falta de àgua, e a vegetação, pobre ao principio, toma luxuriante esplendor ao passo que nos approximamos de Quilengues.

Seguindo o curso do rio Coporolo não ha falta de àgua, e ouvi dizer, que se encontra sempre uma vegetação rica. Contudo, o paiz mesmo por ali não é habitado.

Ao sahir do Dombe o terreno eleva-se bruscamente a 550 metros, e um systema de montanhas que corre N.S. forma pequenos valles que se vam elevando gradualmente até atingir 900 metros em Quilengues. No rio Canga começa o terreno granìtico, e com elle uma vegetação mais pomposa. Todos os rios designados no Mappa até Quilengues sam apenas torrentes na estação chuvosa, mas em muitos é possivel encontrar àgua na estia, cavando poços nos seus leitos arenosos. O proprio Coporolo está sujeito a esta condição de pobreza.

Quilengues é um extenso e fertil valle, em condições iguaes ao do Dombe; tendo por em quanto muito menos valor, por falta de communicações com a costa.

A sua população é densa, e nas suas campinas pastam milhares de cabeças de gado vaccum de excellente raça.

Os Quilengues sam fortes e aguerridos, e nos ataques que dirigem contra os Mundombes sam sempre vencedores; o que os não impede de serem vencidos pelos povos do Nano, que descem ali a roubar gados e gente.

Estes povos de Quilengues, como os do Dombe, sam avassalados a El-Rei de Portugal, mas não sam tão submissos como os Mundombes.

Tem de certo um futuro o paiz de Quilengues, quando faceis communicações o ligarem á costa, á Huila e a Caconda, e quando fôr administrado como o deve ser.

De Quilengues a Caconda o caminho é por Caluqueime, paiz muito povoado; mas eu segui outro, por motivos que cito na minha narrativa.

Ao sahir de Quilengues para o S.E. encontra-se a alta serra de Quilengues, que se eleva ràpidamente a 1750 metros, e que eu passei na parte chamada Monte Quissécua.

Ali começa o grande planalto da Àfrica Austral, e d'ali ao Bihé a planicie enorme conserva aquella altitude, tendo apenas ligeiras depressões nos leitos dos rios, e um ou outro pequeno systema de montanhas isoladas.

D'este planalto já correm rios permanentes, sendo o primeiro que encontrei n'estas condições affluente do Cunene.

A vegetação arbòrea no planalto não é já tão forte como em Quilengues, mas a herbàcea é mais rica, se é possivel sel-o.

O terreno continúa granìtico, e começa a apparecer n'elle maior abundancia de termites. As ùnicas povoações que se encontram no caminho que segui sam Ngola e Catonga, de que ja falei detidamente.

Em Caconda o paiz é um pouco mais accidentado, devendo ser não menos rico e productivo do que o de Quilengues.

É cortado de rios permanentes, que o regam em todas as direcções, affluindo ao Catapi, affluente do Cunene.

A febre miasmàtica é endèmica em Caconda, como em Quilengues e como na costa; mas apresenta ali um caracter mais benigno, e raras vezes faz vìctimas.

Eu julgo Quilengues nas mesmas condições de salubridade de Caconda.

As condições climatològicas do paiz de Caconda é que já differem essencialmente das da costa, e mesmo das de Quilengues.

Apenas 13° e 44' distante do Equador, o clima, que deveria ser ardente, é temperado pela altitude enorme a que se encontra; mas está por isso mesmo sujeito ás bruscas mudanças que se dam entre o dia e a noite em todo o planalto. Ha ali uma luta constante entre a altitude e a latitude, sendo que esta impera de dia quando um sol a prumo dardeja raios de fogo, e aquella de noute quando uma altura de 1700 metros nos faz viver n'uma atmosphera tão rarefeita.

Lembra-me aqui que o Anchieta me dizia, que se viveria òptimamente em Caconda, se uma màchina em contacto com um thermòmetro, nos fosse deitando cobertores na cama á medida que o thermòmetro descesse, durante o somno.

Esta grande desigualdade de temperatura entre o dia o a noute dá-se quando o sol tem declinação Norte, porque durante o tempo em que elle anda ao sul do Equador é ella muito menor.

Sempre ouvi dizer, que em Caconda produzem as frutas da Europa, mas infelizmente não o sei de sciencia propria, que nenhumas ali encontrei; todavia, creio que se poderám ali aclimatar. A batata é muito boa e produz muito, não só ali como em todo o planalto; mas é tão difficil o seu transporte para Benguella, que a batata que se consome ali vai de Lisboa.

Ha muito boa hortaliça e legumes da Europa, que se dam bem em todo o planalto.

Perto da fortaleza, a população é rara, mas a uma certa distancia está condensada; sendo governada por chefes independentes.

De Caconda ao Bihé o paiz é muito populoso, e, se menos pastores do que os povos até Caconda, sam um pouco mais agricultores.

Nos paizes do Nano, Huambo, Sambo e Moma, os povos sam mais bruscos, mais aguerridos e independentes.

Os terrenos, como se vê no mappa, sam cortados de rios que dividem as suas àguas para tres grandes arterias, o Cunene, o Cubango e o Cuanza.

Ao N. das terras do Sambo, o planalto forma um enorme descampado, a que chamam no paiz a Enhana de Ambamba, terreno alagadiço onde nascem cinco rios importantes, dois dos quaes vam ao Norte e tres ao Sul.

Dos que vam ao Norte, um é o Québe, que vai entrar no mar por 10° 50' de Latitude S., junto ás Tres Pontas, entre Novo Redondo e Benguella Velha.

Este rio na parte inferior do seu curso toma o nome de Cuvo. O outro é o Cutato das Mongoias, que corre ao N. a afluir ao Cuanza.

Os tres que correm ao S. sam o Cunene, o Cubango e o Cutato dos Ganguelas, que se une ao Cubango.

O maior systema de montanhas que encontrei é uma serra que corre de N.E. a S.O. ao N. do paiz do Huambo, em cujas vertentes nascem o Caláe e o Cuçúce, que se unem para affluir ao Cunene.

Uma grosseira observação do aneroide indicou-me o seu cume a mais de 2500 metros acima do nivel do mar.

Fazendo excepção á minha regra de não baptizar em Àfrica rios ou montes, dei a esta serra o nome de Andrade Corvo, por ser designada no paiz apenas por serra do Huambo.

Não encontrei entre os indìgenas vestigios de ter o paiz outro minerio àlém do ferro, o que não quer dizer que o não haja.

O terreno é ainda granìtico, e o solo pode dizer-se que em muitos pontos é de formação animal, pois que é construido pelas termites.

Àlém da disposição especial que encontrei no terreno termìtico das margens do Cutato dos Ganguellas, encontram-se 4 differentes construcções termìticas, que suponho pertencerem a 4 differentes especies.



Figura 29.--Montes termìticos, dos terrenos entre a costa e o Bihé.
1 e 2 tem altura entre 2 e 3 decimetros, 3 e 4 entre 1 e 2 metros.

Ha abundancia de caça, sobre tudo nas faldas da serra de Andrade Corvo, entre o Caláe e o Cuçúce, que nunca vi tanta em Àfrica, a não ser no Zambeze.

Alem dos antìlopes que já citei falando do Dombe, abundam ali o Hippotragus equinus, o Catoblepas taurina, e o Bubalus Caffer.

As florestas sam em grande parte formadas de Leguminosas, sobresahindo um sem-nùmero de especies da Acacia.

Ha muito poucas plantas trepadeiras.

Passamos a linha divisoria das àguas entre o Cubango e o Cuanza, e entramos no paiz do Bihé, de certo o mais importante do Sudoeste d'Àfrica.

O paiz do Bihé, de cujos povos falo detidamente no capitulo anterior, é cortado por dois rios importantes, ainda que innavegaveis, o Cuqueima e o Cuito. Innùmeros riachos sulcam em todas as direcções o terreno, e vam affluir áquellas arterias principaes.

O clima é igual ao de Caconda, e subsistem ali as mesmas condições atmosphèricas.

O terreno é granìtico e de uma admiravel fôrça productiva. As pastagens sam òptimas para todos os gados. É pobre de caça; mas, em compensação, é desinfestado de feras.

Não creio muito que seja rico em productos mineralògicos, porque a sua densa população não tem encontrado vestigios de minerios ricos, e eu tenho visto em Àfrica, que os primeiros a encontrarem o ouro, o cobre, o chumbo e o ferro sam os indìgenas.

No Bihé o que é verdadeiramente rico é o terreno, e não sei de paiz Africano que mais podesse prosperar pela agricultura e commercio.

A raça Europea vive ali muito bem, e o producto do cruzamento d'ella com as raças do paiz é physicamente admiravel.

Durante a minha permanencia em Belmonte, fiz um estudo detido das condições climatològicas, e sobre tudo no primeiro mez, em que o pertinaz rheumatismo, contrahido em viagem, me impedio de sahir, observei regularmente o baròmetro e o thermòmetro de 3 em 3 horas durante o dia.

Adiante apresento um quadro d'essas observações, durante trinta dias, fazendo notar, que a igualdade de temperatura que se nota durante o dia é devida á estação do anno em que fôram feitas as observações, estação que corresponde ao nosso outono.

As chuvas t[~e]m duas èpochas, com uma interrupção de estiagem que se dá em Dezembro e Janeiro. As primeiras chuvas cahem em meado de Outubro, e duram até principio de Dezembro, sendo mais moderadas do que as segundas que cahem do fim de Janeiro ao principio de Março.

Os ventos reinantes sam dos quadrantes de leste, sendo muitas vezes persistente o vento leste bastante forte; isto na estiagem, porque na estação chuvosa as maiores tormentas que observei vinham do oes-sudoeste, e dos quadrantes do sul. As chuvas v[~e]m sempre, sobre tudo as de Fevereiro, envoltas com meteoros elèctricos, e cahem no meio de terriveis trovoadas.

O seguinte quadro apresenta as minhas observações desde o dia 25 de Março ao dia 23 de Abril de 1878.

Por esta serie de observações se vê quão ameno é o clima do Bihé n'esta èpocha do anno.

Anno de 1878 6 Horas. 9 Horas. Meio dia 3 Horas. 6 Horas.
Mez. Dia. [E] [F] [E] [F] [E] [F] [E] [F] [E] [F]
Março 25 629.8 19.1 630.5 20.4 629.2 22.4 628.8 23.2 630.0 21.6
" 26 632.0 20.1 631.9 21.2 630.8 21.6 629.8 21.5 629.5 21.0
" 27 629.5 19.4 632.0 19.9 629.6 21.0 628.5 21.3 630.0 20.6
" 28 630.0 19.4 631.6 19.9 629.5 20.4 629.0 22.1 629.0 21.6
" 29 630.2 20.6 632.3 20.8 630.0 21.6 628.5 22.5 629.2 22.1
" 30 631.0 18.3 632.0 20.6 631.0 21.9 630.0 22.2 629.9 21.3
" 31 631.0 19.2 632.3 20.0 631.2 20.9 629.2 21.3 631.0 20.4
Abril 1 630.5 18.6 632.0 19.5 630.6 20.4 630.0 19.9 630.0 19.8
" 2 631.0 17.5 632.0 18.7 630.0 21.1 629.3 20.2 630.0 20.2
" 3 630.0 18.8 632.5 20.0 630.5 21.1 630.0 21.2 629.0 20.9
" 4 632.0 18.6 632.0 20.2 630.0 21.2 629.5 21.6 630.0 20.7
" 5 630.0 18.8 632.0 20.0 630.3 21.1 630.0 22.0 629.8 20.1
" 6 630.0 17.2 632.3 19.8 631.0 20.4 630.5 21.7 630.0 20.2
" 7 630.0 17.8 632.0 19.7 630.5 21.0 629.0 22.7 630.0 21.5
" 8 629.0 17.6 632.0 19.9 630.0 21.5 629.5 22.8 630.0 21.3
" 9 629.5 18.4 631.5 20.4 631.0 21.8 629.3 22.6 629.8 21.1
" 10 631.2 18.1 632.8 20.5 631.5 21.7 629.4 22.4 630.0 21.5
" 11 630.5 16.6 631.9 20.2 631.0 21.4 629.5 23.0 629.8 21.7
" 12 629.0 16.4 629.9 20.1 629.0 21.1 627.0 22.6 629.0 21.8
" 13 628.3 18.2 630.0 20.2 629.6 21.6 629.4 22.3 629.5 21.1
" 14 629.0 18.6 631.5 20.4 630.6 22.0 629.5 23.1 630.0 21.7
" 15 631.4 17.2 632.6 19.7 631.0 21.3 630.5 22.4 630.5 20.7
" 16 630.6 16.1 632.0 19.0 630.3 21.3 629.0 22.8 630.0 20.2
" 17 632.6 19.4 633.0 20.7 631.0 22.0 630.0 22.2 630.0 20.0
" 18 631.6 18.0 632.0 20.1 630.0 20.4 629.7 22.7 629.9 19.8
" 19 631.2 17.8 632.2 20.3 630.6 21.0 630.1 23.0 630.5 19.7
" 20 630.7 16.5 631.9 20.1 630.4 21.2 630.0 22.7 630.0 20.1
" 21 631.0 15.6 632.1 17.8 630.3 19.8 629.3 20.6 629.8 19.5
" 22 630.0 14.6 632.0 17.1 630.0 19.2 628.7 20.4 629.0 19.4
" 23 630.3 14.9 632.0 17.9 630.5 20.0 629.2 21.3 630.0 20.0

Legenda:
[E] Baròmetro
[F] Thermòmetro

É muito notavel a marcha diurna do baròmetro, que ali é inalteravel em presença das mudanças bruscas da atmosphera.

Um boletim meteorològico feito a 0^h. 43^m. de Greenwich, ou 1^h. 50^m. do logar, completa o estudo atmosphèrico d'este paiz n'aquella èpocha.

Este boletim de que agora dou conta em trinta dias, foi continuado durante toda a viagem, tendo apenas as interrupções provenientes de doenças ou de estorvos occasionaes.

O terreno de Belmonte para Leste desce um pouco até ao Cuqueima, na parte em que este rio corre de S. ao N. Na margem direita do Cuqueima eleva-se um pouco para descer ao valle do Cuanza.

Na parte leste do paiz reapparece a vegetação arbòrea mais rica, e ha pequenas mas densas florestas.

Em todo o vasto territorio comprehendido entre o Bihé e Benguella, não existe o zé-zê, esse flagello de muitos pontos da Àfrica Austral, que, matando o cavallo e o boi, priva o homem de dois dos seus maiores auxiliares na vida pràtica.

Uma especie de epizotia, que no paiz chamam cahônha, ataca o gado bovino e lanìgero; não fazendo ainda assim os estragos que na Europa e outras partes d'Àfrica produz a epizotia.


Boletim meteorològico feito a 0h. 43m. de Greenwich ou 1h. 51m. do Bihé.

Mez. Dia [E] [F1] [F2] [G] Direcção do Vento. Estado da Atmosfera.
Março 25 628.7 22.9 20.2 40 S.S.O. fraco {Durante a noute
{trovoada, hôje ceo
{limpo
" 26 629.6 22.1 20.0 2 O.S.O. fraco {Nublado de noute,
{de dia cirrus.
" 27 629.1 21.0 20.1 31 E. forte Chuva durante a noute.
" 28 628.8 21.5 21.2 0 Calma Algumas nuvens, cirrus.
" 29 629.0 22.3 21.6 0       " "      "       "
" 30 630.0 22.0 21.0 0       " "      "       "
" 31 629.5 21.5 20.8 0 E. forte Nublado.
Abril 1 630.5 20.2 19.4 17 Calma {Nublado.
{De noute trovoada a N.O.
" 2 629.3 19.8 19.1 0 E. forte Algumas nuvens, cirrus.
" 3 630.0 20.9 19.1 0 E. moderado         "          "         "
" 4 630.3 21.5 20.2 0       "         "          "         "
" 5 630.5 21.8 20.6 0       "         "          "         "
" 6 630.0 21.1 19.2 0       "         "          "         "
" 7 629.3 21.8 19.7 0       "         "          "         "
" 8 628.1 22.5 19.8 0       "         "          "         "
" 9 629.6 22.2 20.6 0 Calma         "          "         "
" 10 629.0 21.8 19.9 0       " Ceo limpo.
" 11 629.8 21.9 19.8 0       "    "      "
" 12 627.8 21.8 19.8 0       " Alguns cirrus.
" 13 629.5 22.0 20.1 0       " Nublado.
" 14 630.0 22.5 20.2 0       " Alguns cirrus.
" 15 630.5 21.6 19.6 0 E. forte. Ceo limpo.
" 16 629.8 21.6 19.7 0 Calma Alguns cirrus.
" 17 630.0 22.0 18.6 0 E. forte.        "      "