The Project Gutenberg eBook of Vinte Annos de Vida Litteraria

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Title: Vinte Annos de Vida Litteraria

Author: Alberto Pimentel

Release date: August 30, 2010 [eBook #33581]

Language: Portuguese

Credits: Produced by Pedro Saborano

*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK VINTE ANNOS DE VIDA LITTERARIA ***


 

Notas de transcrição:

O texto aqui transcrito, é uma cópia integral do livro impresso em 1908.

Foi mantida a grafia usada na edição original de 1908, tendo sido corrigidos apenas pequenos erros tipográficos que não alteram a leitura do texto, e que por isso não foram assinalados.

No original havia uma errata. Nesta edição corrigimos os erros ali apresentados, e marcámos as alterações, colocando o texto originalmente impresso em comentário como aqui.

 

COLLECÇÃO ANTONIO MARIA PEREIRA

ALBERTO PIMENTEL

Vinte Annos de Vida Litteraria

(2.ª edição, revista pelo auctor)

 

 

 

 

1908
Parceria ANTONIO MARIA PEREIRA
LIVRARIA EDITORA
Rua Augusta, 44 a 54
LISBOA

 

 

 

 

COLLECÇÃO ANTONIO MARIA PEREIRA—10.º VOLUME


VINTE ANNOS DE VIDA LITTERARIA

 

 

 

 

COLLECÇÃO ANTONIO MARIA PEREIRA

ALBERTO PIMENTEL

Vinte Annos de Vida Litteraria

(2.ª edição, revista pelo auctor)

 

 

 

 

1908
Parceria ANTONIO MARIA PEREIRA
LIVRARIA EDITORA
Rua Augusta, 44 a 54
LISBOA

 

 

 

 


Composto e impresso na typographia
DA
Parceria ANTONIO MARIA PEREIRA
Rua Augusta, 44 a 54.
LISBOA

 

 

 

 

{5}

A QUEM LER

Prologo da 1.ª edição

Publiquei o livro Atravez do passado, receoso de que não agradasse por ser excessivamente pessoal. Mas Pinheiro Chagas, escrevendo na Illustracão Portugueza um artigo muito amavel para mim, a respeito d'aquelle livro, preconisava a vantagem de todos os escriptores reunirem as memorias jornalisticas e litterarias do seu tempo, como subsidio indirecto para a historia completa da sociedade a que pertencem. Este ponto de vista e a auctoridade de tão abalisado homem de lettras deram-me estimulo, confesso-o francamente, para colleccionar um segundo livro de memorias.

De mais a mais, trabalhando n'este genero de escriptos, eu obedeço gostosamente a uma natural inclinação do meu espirito para a reconstrucção do passado, que a saudade illumina. Sinto-me bem remexendo as cinzas e contemplando as ruinas que o tempo deixou. Não sei se até certo ponto entrará n'isto o egoismo de, pelo que me respeita, reviver pela memoria os dias que já vão longe.

Fui escrevendo estas recordações de vinte annos de vida litteraria sem preoccupações de nenhuma especie, nem mesmo chronologicas. Quanto ás pessoas de que falo, não tratei de classifical-as pela ordem da sua hierarchia{6} politica ou litteraria. Aproveitei os nomes que me iam lembrando, e as recordações que me acudiam ao bico da penna.

Ha n'este livro, é certo, alguns perfis politicos, algumas paginas que não versam assumptos exclusivamente litterarios. Mas foi pelo braço da litteratura que eu entrei na politica, e foi pela politica que eu pude conhecer mais de perto certos homens.

 

Lisboa, 42 de novembro de 1889.

 

ALBERTO PIMENTEL.

{7}

Prologo da 2.ª edição

Este livro deve certamente a boa fortuna de uma segunda edição ao facto de contêr aspectos biographicos de alguns homens notaveis, com os quaes eu convivi na minha mocidade. Esses homens marcaram uma época da vida historica do paiz e, como sempre acontece, a morte deu-lhes maior prestigio. De modo que o livro não envelheceu por causa d'elles, e só d'elles recebeu a vida que o faz resurgir em segunda edição.

Creio, hoje como hontem, que a biographia é o processo mais agradavel de escrever a historia, ainda quando esse processo caia em mãos tão incompetentes como as minhas, comtanto que seja honesto e sincero, que não engrandeça nem amesquinhe apaixonadamente os biographados.

Por mim julgo os outros: releio com prazer algum trecho de Plutarcho, e custa-me a digerir meio capitulo de Tito Livio.

Eu tive sempre o culto do passado, e por isso me não aborreci de mim mesmo revendo agora este livro, que ia ser reimpresso. Não é que o repute perfeito, porque nem depois de retocado o fica sendo. Mas porque a sua revisão me reconduziu a uma época em que os homens e os factos constituiram um vasto edificio de que só restam cinzas e ruinas.

N'aquelle tempo a vida portugueza era mais calma, communicativa e cordeal. Não se tinham ainda desencadeado{8} grandes borrascas de odios pessoaes, que nos agitassem como n'esta hora. As amizades eram perduraveis, e os amigos certos. Os que chegavam eram recebidos de braços abertos, acarinhados, protegidos. E cada qual plantava os seus ideaes sem incommodar o vizinho, nem o malsinar só porque elle possuia aquillo que nós desejariamos ter.

A impressão que eu recebi da leitura d'este livro foi a de uma sociedade remota, que me não propuz descrever, mas que resulta de um conjunto de biographias n'elle agrupadas.

E á medida que eu voltava cada pagina sentia-me expulso do passado pela distancia e do presente pela estranheza.

Quanto ao futuro... Os velhos já não têem futuro. E se elle fôr o crescendo logico do dia de hoje, eu não sinto pena de o não viver—e descançarei serenamente da fadiga do caminho. Fatigatus ex itinere sedebat.

Lisboa, 27 de abril de 1908.

 

O auctor

{9}

I

El-rei D. Luiz

Escrever dos reis, quando elles vivem ainda, é pelo menos um pouco arriscado: póde parecer adulação. Mas escrever de um rei que já não existe, e contar lealmente os altos favores pessoaes que d'elle se receberam, é mais do que gratidão—é justiça.

Eu estou n'este caso para com el-rei D. Luiz. Nunca o disse em publico durante a sua vida, para afastar de mim a suspeita de lisonjeiro, mas não perdia occasião de dizel-o em particular. Muita gente o ouviu da minha bocca, muitos o sabem; porém outros o ignoram. Para estes escrevo.

O que eu vi sempre menos na pessoa do senhor D. Luiz I foi o rei, o principe, o astro da côrte. O que n'elle sempre me captivou, desde o primeiro dia em que tive a honra de lhe falar, foi o homem illustrado e complacente, o amigo dos que trabalhavam, o protector dos que rudemente luctavam pela existencia.

O rei podia desagradar alguma vez ao capricho das{10} paixões politicas, que em torno d'elle se debatiam. O homem era sempre o mesmo para todos: bom, compassivo, affectuoso.

Chegava a causar assombro que um principe, tão preoccupado de negocios e até de distracções, pudesse seguir tão attentamente o fio de tantissimas pretensões particulares, de que elle, e ás vezes só elle, possuia o segredo.

No conjunto das massas populares havia centenas de biographias que el-rei D. Luiz conhecia pagina a pagina, e que acompanhava dia a dia.

A sua consciencia devia sentir-se satisfeita com o galardão de si mesma quando, na turbamulta de uma festa ou de um espectaculo publico, o rei divisasse, perdidas humildemente na multidão, as phisionomias de muitas pessoas que occultamente havia protegido e felicitado.

Estou certo de que um sorriso ou um olhar quasi furtivo d'essas pessoas agradaria mais ao seu espirito do que os discursos officiaes e as lisonjas cortezãs que por toda a parte o perseguiam.

De mais a mais o rei tinha essa memoria inexcedivel de todos os principes da sua familia: fixava facilmente as phisionomias e as datas, de modo que não perdia nunca mais de vista a pessoa a quem alguma vez houvesse falado.

Muitas vezes, nos actos solemnes e ostentosos da côrte, el-rei D. Luiz me avistou na posição pouco evidente em que sempre procurei collocar-me, e o seu olhar perspicaz, quando não era o seu sorriso amavel, correspondia de longe ao meu cumprimento respeitoso, mas quasi subtil.

Posto isto, que me nasce da abundancia do coração, eu direi em singelas palavras como foi que desde 1873 tive a honra de me aproximar de el-rei D. Luiz I.

Quando cheguei a Lisboa, na menos prospera situação burocratica que ainda assim vi com alegria cair do{11} céu, tinha eu publicado recentemente um livro, A Porta do Paraiso, chronica do reinado de el-rei D. Pedro V.

Os regeneradores estavam no poder, e o governador civil do Porto, Bento de Freitas Soares, que se me affeiçoára, dera-me uma carta de apresentação para o ministro do reino, Antonio Rodrigues Sampaio.

Fui ao seu gabinete entregar a carta, e Sampaio recebeu-me immediatamente com a bonomia familiar que elle tinha para com toda a gente.

Sampaio, apesar da ante-sala estar repleta de homens politicos e de pretendentes, demorou-se bons tres quartos de hora conversando comigo. Falou-me da sua origem obscura, da sua lucta pela existencia, da perseguição aos Cabraes, do Espectro, e na sua palavra, ás vezes demorada, havia um doce tom de familiaridade verdadeiramente captivante.

Terminou perguntando-me o que eu queria.

Respondi a Sampaio que desejava apenas ser apresentado a el-rei para lhe offerecer um exemplar do livro que acabava de dar a lume. Acrescentei que era eu a primeira pessoa a reconhecer o nenhum valor litterario do meu livro, e que de modo algum ousaria offerecel-o a el-rei, se não se tratasse casualmente de uma novella baseada em factos do reinado do senhor D. Pedro V; que, portanto, o meu livro, se não podia prender, como obra de arte, a attenção de el-rei D. Luiz, teria comtudo para sua magestade o interesse que resultaria naturalmente de todo e qualquer escripto que dissesse respeito a uma pessoa da familia real.

Sampaio disse-me logo que o meu pedido seria satisfeito; que no dia seguinte, uma quinta feira, havia despacho no Paço; que estivesse eu, á uma hora da tarde, na secretaria do reino, por que me levaria na sua carruagem, e me apresentaria a el-rei antes do despacho.

No dia seguinte, á hora indicada, partimos do Terreiro do Paço para a Ajuda, na mesma carruagem, e dez{12} minutos depois de chegarmos ao Paço, el-rei, que logo tinha recebido Sampaio, mandava-me entrar para uma das salas interiores.

Quando ali entrei, com a timidez de um homem que arrisca os primeiros passos nos tapetes da côrte, el-rei, encostado ao vão de uma janella, e fumando charuto, com as mãos mettidas nos bolsos de um veston, conversava com o ministro do reino.

Sampaio apresentou-me em termos excessivamente amaveis, e el-rei disse-me palavras tão obsequiosas, que augmentaram ainda mais a minha confusão.

Depois de trocadas estas formulas de cortezia, el-rei falou-me logo no livro que eu lhe ia offerecer. Disse-me que já o tinha lido. Referiu-se a muitos factos a que eu alludia, principalmente as viagens que elle proprio fizera com el-rei D. Pedro V. Depois, como aproveitando um relampago da sua felicissima memoria, recordou que eu tinha biographado Julio Diniz. Falou muito d'este mallogrado homem de lettras, perguntou-me se eu o havia tratado intimamente, e apreciou, com grande segurança de critica, os seus romances, acceitando a minha opinião de que Julio Diniz seguia principalmente no romance a escola ingleza.

E como eu, segundo a etiqueta, tivesse despido a luva da mão direita—o que Sampaio me advertira—el-rei, certamente por ter reconhecido que eu fumava, abriu a charuteira, e offereceu-me um charuto.

Inclinei-me agradecendo, mas recusando. E el-rei, sorrindo, observou-me:

—Não póde negar que fuma; nem eu. E fumo muito.

Conservando a charuteira aberta, insistiu no offerecimento.

Lembrei-me de repente d'aquella anecdota de lord Stairs, que acceitou uma vez ser o primeiro a entrar na carruagem de Luiz XIV, allegando que resistir ao offerecimento de um rei era descortezia imperdoavel.

Sorrindo, acceitei o charuto, mas como estivessemos{13} falando de escriptores portuenses, fingi-me distraído, não o accendi. Nem me era facil saber como havia de accendel-o. Eu não tinha phosphoros comigo, Sampaio não fumava; só o rei estava fumando.

Mas sua magestade, vendo que eu não accendia o charuto, offereceu-me lume.

Aqui, n'este lance, começou a minha tortura. Eu fumo desde os quinze annos desesperadamente—mas cigarro. O charuto estontea-me. Basta ás vezes o seu fumo para incommodar-me.

O leitor calcula pois a repugnancia molesta com que eu, acceitando o lume que el-rei me offerecia, accendi o charuto, que de mais a mais era fortissimo.

A fim de evitar que o charuto me estonteasse, deixei-o apagar a breve trecho, propositadamente. Mas el-rei, reparando que o meu charuto se havia apagado, tornou a offerecer-me lume. Felizmente, quando eu estava no apogeu da tortura, fôra el-rei avisado de que chegára o presidente do conselho de ministros, Fontes Pereira de Mello, e a audiencia terminou um pouco abruptamente com estas palavras de el-rei:

—Procure-me sempre que precisar de mim. Mas faça-o sem acanhamento.

Isto fez-me suppôr que el-rei havia attribuido a acanhamento o facto de eu ter deixado apagar o charuto.

Tive que esperar que o despacho terminasse. Á saida, Sampaio apresentou-me a Fontes Pereira de Mello, e aos seus collegas no ministerio. Uma vez entrados na carruagem, contei a Sampaio a historia do charuto, que elle ouviu rindo ás gargalhadas, e pedi-lhe licença para fumar um cigarro, a fim de restabelecer-me pelo systema homoepathico:—similia similibus curantur.

As minhas relações com el-rei D. Luiz dataram d'esse dia.

Depois d'isso voltei algumas vezes ao Paço para offerecer a el-rei um exemplar dos livros que ia publicando.

El-rei dizia-me invariavelmente:{14}

—Procure-me sempre que precisar de mim.

De uma das vezes contei-lhe a historia do charuto, el-rei riu expansivamente, e mandou-me fumar cigarro. Mas, porque estivesse fumando charuto, soprava ao fumo para o afastar.

Um dia... um dia tratava-se do pão quotidiano, do bem-estar da minha familia. Eu vegetava, havia dez annos, amarrado a um obscuro logar de amanuense. Muitas vezes, mas sempre baldadamente, havia procurado melhorar de situação. Iam reformar-se os serviços da camara dos pares; creavam-se logares de redactores. Mas as pretensões, e algumas d'ellas fortemente apadrinhadas, fervilhavam em torno de Fontes. Desejando um d'esses logares, mas não dispondo de influencia que pudesse dar-me probabilidades de ser attendido, lembrei-me do repetido offerecimento de el-rei.

Metti-me n'um trem, fui ao Paço. Cinco minutos depois era recebido por sua magestade, que me ouviu com a amavel benevolencia que sempre me dispensou. E, tendo-me ouvido, disse:

—Esteja certo de que eu vou pedir com o maximo empenho. Havemos de ir até onde pudermos. É muito justo que lhe dêem alguma folga aos seus incessantes trabalhos litterarios. Não se póde aguentar por muitos annos um trabalho d'esses.

No dia seguinte, ás duas horas da tarde, falei a Fontes Pertira de Mello, que, logo que me viu, me fez esta pergunta:

—Diga-me uma coisa: que empenho teve para el-rei?

Reconheci que sua magestade havia tratado immediatamente do meu pedido com a maior pressa e solicitude. Desde essa hora julguei-me despachado.

—O meu empenho, respondi eu a Fontes, vai decerto surprehender v. ex.ª

—Diga lá.

—O meu empenho... fui eu só.

Contei então a Fontes tudo quanto se passára.{15}

E Fontes limitou-se a dizer-me:

—El-rei tem o maior empenho no seu despacho.

Corri logo ao Paço da Ajuda a agradecer a el-rei. Sua magestade, apenas me viu, perguntou-me:

—Ha alguma novidade a respeito da sua pretensão?

—Não ha, meu senhor. É que eu venho agradecer a inexcedivel diligencia de vossa magestade. Acabo de falar com o presidente do conselho.

—Eu falei-lhe hontem mesmo.

Isto disse o rei, e mudou logo de assumpto.

Os jornaes propalavam boatos a respeito de nomeações para a camara dos pares. O meu nome nunca foi lembrado pelos jornaes. A politica interveio n'este negocio, como em todos: disse coisas falsissimas. Mas a minha pretensão triumphou, graças á protecção do rei.

Quando o despacho appareceu, e lh'o fui agradecer, el-rei dignou-se abraçar-me dizendo:

—Tenho hoje um dia de satisfação. Agora descance um pouco. Era justo. Era justo.

Eu senti lagrimas nos olhos; mas el-rei tambem não tinha os seus enxutos.

Desde então mantive com el-rei as mais gratas relações, não direi de amizade, mas de franqueza.

Entre os seus papeis ha de haver uma longa carta minha sobre assumptos que não eram pessoaes.

Ainda é cedo, porém, para fazer a historia d'essa carta. Ha quem conheça a carta, e possa contar a historia um dia, querendo.

A ultima vez que me demorei conversando com el-rei foi para lhe fazer o pedido de alguns brindes da familia real para um bazar de Setubal. El rei disse-me logo que pela sua parte podia considerar como satisfeito o meu pedido, mas que a rainha estava ainda invisivel, e que o principe real estava estudando as suas lições, motivo por que transmittiria á rainha e ao principe aquella solicitação.

N'essa mesma tarde parti para Setubal, e ao caír{16} da noite recebia eu n'aquella cidade um telegramma do sr. D. Pedro Arcos participando-me que tanto a rainha como o principe mandariam brindes para o bazar.


El-rei D. Luiz morreu, e a sua morte deixou no meu coração uma saudade indelevel pelo homem bom, pelo desvelado protector, que tanto me ajudou a desbravar o aspero caminho da vida. Se os bons são premiados além da campa, o rei de Portugal deve repousar no seio de Deus n'uma eternidade bem aventurada. Quanto á minha gratidão, será eterna, porque eu ensinarei a meu filho, para que elle o ensine á sua familia, que a tranquillidade do meu lar resultou de um acto magnanimo de el-rei D. Luiz I.


 {17}

II

Meu pae

Toda a dôr moral é tanto mais absorvente e exclusivista quanto é sincera e aguda. Não sei, não quero saber o que se tem passado fóra de mim proprio: tenho vivido apenas das minhas recordações dolorosas, concentrado n'ellas, estranho a tudo o que não seja o drama intimo do meu luto e da minha tristeza.

E depois os leitores têem de certo para mim esse doce sentimento de condolencia que resulta de uma convivencia longa e leal. Somos bons amigos ha vinte annos, conversamos quasi todos os dias, tenho decerto adivinhado algumas vezes os seus pensamentos, commungado as suas opiniões: desculpar-me-hão, portanto, este desafogo de uma saudade irremediavel, tão sagrada e tão justa—a saudade de um filho que deplora a morte de seu pae.

Se alguma vez tenho conseguido chamar aos labios do leitor um ligeiro sorriso, fique esse sorriso á conta de compensação da magua que lhe posso causar hoje{18} obrigando-o a lêr as palavras que certamente me acudirão orvalhadas de lagrimas.

Mas é que, naturalmente, estou vendo passar deante dos olhos todos os lances da minha vida desde a primeira infancia tão descuidosa e alegre, e no meio d'esse enxame de recordações entrevejo, a contrastar com ellas, o semblante demudado e quasi cadaverico do meu querido octogenario, que ainda ha oito dias contemplei semi-morto no seu leito de agonia.

Se eu tivesse morrido primeiro, elle, posto se não houvesse entregado ao cultivo das bellas-lettras, mas unicamente aos aridos cuidados da sua profissão de medico; elle, que devia ter com a morte essa fria familiaridade que a faz encarar tranquillamente como o desfecho forçado de todos os actos phisiologicos, acharia comtudo no fundo do seu coração de pae um terno perfume de poesia, uma triste idealidade dolente, que o levaria a encher de flores a sepultura do filho.

Sobrevivendo-lhe, eu quero ter para com a sua memoria a mesma delicadeza de sentimento, a mesma suavidade de lagrimas, e continuar a ver n'elle não aquillo a que a morte o reduziu, mas a alma affectuosa e honesta, a bella alma antiga, capaz de entender todos os carinhos e de comprehender todas as dedicações.

Elle foi um dos ultimos homens d'essa geração quasi extincta, que trouxeram do lar paterno a noção austera do dever e a impressão profunda dos bons exemplos caseiros. Tudo era antigo na educação d'esses homens, hoje já tão raros, que viveram os primeiros annos da sua vida em plena atmosphera de tradições sagradas e inviolaveis, e que professavam pelo passado um culto quotidiano, no meio de criados velhos, de costumes velhos, de velhas loiças da India, e de velhos retratos de avós fallecidos. Todas as grandes solemnidades religiosas não passavam sem commemoração domestica: eram outras tantas festas de familia, muito intimas e muito expansivas. O Natal, a Paschoa, os dias solemnes{19} da Egreja eram esperados com jubilo, e celebrados com devoção tradicional. E sentar-se á mesa, d'esses dias memorandos, rodeados de todos os filhos e de todos os parentes, era para os homens de uma geração quasi extincta um doce prazer patriarchal, puro e simples, o goso perenne da felicidade pela familia.

Vieram com os novos tempos novos costumes, e outros homens, dilatando a sua esphera de acção, tornaram-se cosmopolitas, entraram n'uma vida mundana, que os leva para longe do berço das suas tradições de familia, lançando-os n'um turbilhão de negocios e de ambições, de preoccupações e trabalhos. Esta corrente moderna, esta evolução do espirito humano, assombra os velhos de hoje em dia, e deve entristecel-os tanto quanto os assombra. Para elles a terra em que nasceram, com as suas arvores e os seus casaes, era o eixo obrigado de todos os movimentos psichologicos, o centro em torno do qual girava e se consumia toda a sua actividade. Ver aquillo que seus paes haviam visto, e só isso, era como viver ainda em espirito para elles e no meio d'elles, prolongar pela propria existencia a d'aquelles entes queridos que tinham constituido a familia, e haviam desapparecido já. Todas as folgas de meu pae passavam-se no Douro, n'uma quinta dos seus maiores, contemplando as arvores que elles tinham mandado plantar, colhendo os fructos dos pomares que elles haviam disposto. Concluidas as colheitas, voltava alegre e tranquillo á sua clinica portuense, tratando dedicadamente os seus doentes que conhecia ha longos annos, e que iam envelhecendo tanto como elle: os seus doentes de partido. Tinha extremos de paciencia para os escutar, para os attender, e muitas vezes o ouvi descrer da efficacia da sciencia que exercia, quando os não podia salvar. Havia no Passeio da Cordoaria um major reformado que era um verdadeiro doente de scisma, o protagonista bondoso de uma comedia molieresca, que se repetia todos os dias.{20}

—Estou a morrer. Vão-me chamar o dr. Pimentel.

O medico, estivesse ou não entretido com o seu tão querido voltarete, dava-se pressa em acudir á chamada.

—Não, meu caro major, o senhor não vae d'esta. Palavra de honra que não vae. Somos amigos antigos: póde acreditar-me. Coma a sua asinha de frango, tome a sua chavena de chá preto, deite-se descansado e durma.

No dia seguinte a mesma scena.

Ahi por 1880 fui ao Porto visitar meu pae. Saimos juntos uma tarde, e elle pediu-me que o ficasse esperando no Jardim da Cordoaria.

—Vae ver o major? perguntei-lhe.

—Vou.

—Mas elle mandou-o chamar?

—Não, respondeu meu pae com tristeza. Agora sou eu que vou de motu proprio: o pobre major não dura oito dias, mas, felizmente para elle, já não scisma na sua doença.

Quando eu estive no Porto a semana passada, todas as velhas e lazaras dos recolhimentos das Fontainhas, de que meu pae fôra por largos annos clinico, mandavam saber d'elle.

Achei commovente este testemunho de gratidão, mas não era difficil encontrar-lhe a causa: meu pae tratava-as carinhosamente.

Assisti algumas vezes ás suas visitas aos asilos.

—De que se queixa? perguntava o medico a uma nonagenaria.

—Dôres... Afflicções... Eu sei lá!...

—Sei eu, respondia sorrindo o facultativo. Eu tenho isso mesmo.

—Tem?!

—Sim... tenho quasi a sua edade: é a nossa doença. Pois, minha boa doentinha, tome um chásinho de erva cidreira, que lhe ha de fazer bem ao estomago.{21} Verá que passa a noite bem. Para as nossas edades não ha outro remedio: a velhice não se cura. Deitar grandes remendos n'um predio velho é perder tempo e trabalho. Vamos assim amparando as nossas ruinas com paciencia e tranquillidade. Ámanhã venho vel-a, e hei de achal-a mais socegada.

É incalculavel o numero de autopsias que meu pae fez como medico forense. Quando eu e meus irmãos eramos pequenos, embirravamos muito de que meu pae viesse para casa cheirando a vinagre aromatico: já sabiamos que tinha estado retalhando um cadaver.

Elle ria-se dos nossos engulhos, mettia-nos jovialmente á galhofa, e dizia-nos que puzessemos os olhos no seu bom appetite.

Só uma vez, á volta de uma autopsia, o vi chegar menos alegre. Mandou inutilisar parte do fato com que tinha saido, para obstar ao contagio do dipheterismo.

Apenas dou conta de o ver doente uma vez, era eu creança; cuido que havia sido atacado de ictericia negra, com graves complicações. Os collegas fizeram-lhe conferencia: acharam-n'o perigoso. Meu pae, que teve sempre uma grande agudeza de ouvido, escutou o prognostico que elles fizeram, e logo que sairam, disse a minha mãe:

—Está-me appetecendo uma chavena de chá e uma torrada.

—Pelo amor de Deus! Isso não!

—Morra Martha, morra farta. Venha o chá e a torrada.

Como a sentença era de morte, não o quizeram excitar, contrariando-o. D'ahi a oito dias levantava-se do leito.

—Nós sabemos sempre muito, dizia elle, mas o doente sabe sempre mais.

Esta descrença ironica pela sciencia que exercia era quasi sempre manifesto nas suas apreciações medicas; uma pontinha de scepticismo fazia-o desdenhar do seu{22} diploma, que principiára a conquistar aos 17 annos, em 1825, quando entrou na Escola Medica.

Este homem de animo forte e tranquillo via aproximar-se a morte com heroica serenidade. Era o declinar de um bom. Como eu, sem grande esforço, o pudesse voltar no leito, elle disse-me placidamente do fundo da sua lethargia:

—Isto é quasi um cadaver.

Mas, para desviar este pensamento triste, disse-me logo em seguida palavras de carinhosa ternura, que eu não pude agradecer suffocado pelas lagrimas.

Do medico, do homem alegre e sereno, restava nos ultimos dias um corpo devorado por dôres lancinantes, que elle indicava levando a mão ao peito. E, na sua dolorosa agonia, dissera para minhas irmãs com voz entrecortada e difficil:

—Rezem.

Era a sua boa alma triumphando, ainda serenamente, do corpo que se esphacelava.

Eu poderia escrever uma larga biographia d'esse querido octogenario que, sem ambições nem invejas, parecia não ter biographia. Mas o leitor comprehende que estou fazendo sangrar o coração a cada golpe de penna. O sacrificio tem sido superior ás minhas forças. Mas o coração, posto que dilacerado, não me permittia que, escrevendo de tantos homens a cuja memoria devo a homenagem da minha saudade, deixasse de falar d'aquelle cujo sangue corre nas minhas veias, o mais dedicado, e tambem o mais amado, de todos elles.

 

Junho de 1889.


 {23}

III

Alexandre Herculano

Ainda vim a tempo de conhecer pessoalmente o mais notavel historiador portuguez do nosso seculo. Avistei-me com Alexandre Herculano em 1874, e d'essa entrevista deixei memoria no livro que se intitula O capote do sr. Braz. Quando o eminente escriptor morreu, tentei traçar o seu perfil litterario n'outro livro, que então publiquei, O Porto por fóra e por dentro.

Hoje, porém, desejo apenas procurar na colossal individualidade de Herculano um outro aspecto, que aliás tem sido pouco explorado: a sua ephemera vida politica. Mas quer-me parecer que esta pagina, que acrescento agora á biographia do grande historiador, poderá conter elementos não de todo inuteis para quem houver de escrever um dia, definitivamente, a monographia completa da sua brilhante existencia.

Alexandre Herculano padecera as contrariedades da guerra civil, emigrára na onda dos liberaes que fugiram ao triangulo do patibulo, e voltára com D. Pedro a Portugal.{24}

Os seus talentos poderiam ter-lhe dado direito a ser um dos primeiros homens politicos do constitucionalismo, se não fossem naturalmente subjugados por uma organisação de poeta, com todas as qualidades e os defeitos que os homens assim talhados moralmente costumam exhibir no forum, no parlamento ou nos conselhos da corôa, quando não têem, como Herculano teve, a coragem de abandonar a carreira publica, que a cada passo os contraria e azéda.

Em verdade, elle nunca deixou, nem mesmo durante a sua ephemera vida politica, de ser um poeta, no sentido elevado d'esta palavra, um poeta cujos naturaes caprichos tornavam o seu espirito pouco malleavel ás conveniencias partidarias, ás manobras do parlamento e ás intrigas de gabinete.

Elle proprio o confessa quando diz: «Entre os soldados de D. Pedro havia poetas: militava comnosco o auctor de D. Branca, do Camões, de João Minino; o sr. Lopes de Lima, e outros: mas a politica engodou todos os ingenhos e levou-os comsigo. Os homens de bronze, os sete mil do Mindello, não tiveram um cantor: e apenas eu, o mais obscuro de todos, salvei em minha humilde prosa, uma diminuta porção de tanta riqueza poetica

A Voz do propheta, um dos seus mais notaveis escriptos politicos, não é senão um grito lancinante de poeta contra a revolução de 1836; a colera sublime de um poeta da Carta, deixem-me dizer assim; de um coração delicado que via ligada á memoria da Carta a recordação dos seus melhores dias de soffrimento, de lucta e de esperança.

«A carta, escrevia elle em 1867, fôra como a estrella polar da esperança nos dias, tão longos, da fome, da nudez, das tempestades, do desalento. Vivia depois como envolta na saudade d'esses dias, acre e quasi dolorosa saudade, que nós os velhos ainda sentimos, mas que será provavelmente uma cousa inintelligivel para as gerações novas.{25}

Alexandre Herculano, em vez de se collocar no ponto de vista exclusivamente politico dos homens que procuravam assaltar o poder, fazendo a revolução ou defendendo a Carta, d'esses homens que accentuavam agora em Portugal as rivalidades pessoaes que tinham principiado a separal-os na emigração, collocava-se no ponto de vista desambicioso e romantico do homem que sustenta uma causa pelo estimulo sincero da sua propria convicção e da sua propria fé n'essa causa.

Os politicos que o rodeavam conheceram facilmente, façamos-lhe essa justiça, que estava ali um litterato eminente, um espirito superior, mas que aquelle homem não fazia sombra a ninguem como politico.

Não tinha coração, nem consciencia, nem caracter para isso. Era um teimoso honrado, um pensador insubmisso. E se Alexandre Herculano entrou em 1840 no parlamento foi o homem de lettras que levou pela mão o deputado.

Ao passo que Garrett, um artista mundano, um politico amavel de salão, escrevia cartas sobre cartas para o Porto, a José Gomes Monteiro, que nada valia como politico, pedindo-lhe que promovesse a sua eleição por aquella cidade, berço de ambos, Alexandre Herculano lisonjeava-se em pleno parlamento, logo que ali entrou, de que não fizera um pedido, de que não escrevera uma carta para obter o diploma de deputado.

Se elle tivesse o instincto politico dos outros seus companheiros de emigração, poria o fito em escalar o parlamento, fosse como fosse. O caso era entrar, para chegar. Mas ao passo que Garrett comprehendia isso, Herculano não o comprehendia assim. Por isso Garrett chegou a ministro, e Herculano abandonou a vida politica.

Eleito deputado pelo Porto, para a legislatura que principiou a 26 de maio de 1840, Alexandre Herculano usou pela primeira vez da palavra, na discussão da resposta ao discurso da corôa, em sessão de 6 de julho.{26}

O sr. Alexandre Herculano—Sr. presidente, erguendo-me para dar a minha opinião sobre as graves questões que se têem ventilado n'esta camara, eu, deputado até aqui silencioso, vejo-me finalmente no estreito passo que sempre temi antes de me assentar n'uma d'estas cadeiras, para obter a qual ninguem ousará dizer que eu gastasse uma rogativa, uma carta, ou uma palavra; n'uma d'estas cadeiras, que tantos ambicionam, sem se lembrarem de que ellas se convertem muitas vezes em instrumento de martyrio, se não as queremos tornar recordação de remorsos, que nos acompanhe por todo o resto da vida.

«É esta terrivel escolha, a escolha entre os affectos do coração, e as convicções do entendimento, que me cumpria fazer hoje, tendo de censurar o ministerio, no qual ha um homem a quem devo grandes obrigações, e mais que obrigações; antiga amisade. Se alguns serviços eu fizer n'esta camara á minha patria, que ella não m'o agradeça; mas agradeça-me o sacrificio que hoje lhe faço do mais santo dos affectos humanos, a boa e leal amisade. (Grande attenção).

«Da exposição do illustre deputado o sr. J. A. de Magalhães, vi eu (e ainda vejo, porque as razões dos srs. ministros que já fallaram, me não satisfizeram) que o governo tem deixado peiorar a situação das nossas relações estrangeiras. Procederia isto de inhabilidade do ministro ultimamente encarregado d'este ramo de administração? Esqueceria elle o bem do paiz para só curar que das mãos lhe não cahisse esse pomo do bem e do mal, tão tentador, e formoso, chamado a pasta de um ministerio? Será culpa d'um ou de todos? Não o sei; o que m'importa é o facto para o haver de censurar como devo: visto que os meus constituintes me mandaram para este logar.

«Mas esta censura não cahe só sobre o ministerio actual: cahe tambem sobre o que o precedeu; porque se no tempo d'aquelle houve descuido (ao que parece){27} sobre muitos e importantes negocios, antes o tinha havido tambem sobre um, egualmente qualificado e gravissimo.

«E recordo-me hoje do que ha muito é passado, porque sobre os homens da minha crença politica se lançaram crueis accusações de falta de patriotismo; porque eu vi publicadas as candidaturas cartistas nos jornaes que advogam a causa da revolução permanente, asselladas com o ferrete de lista ingleza.»

 

Muitas passagens d'este discurso foram vivamente applaudidas.

Citaremos as seguintes:

 

«Nem os homens da revolução quizeram vender Portugal á França; nem o partido cartista o quiz vender á Inglaterra; nem nenhum ministerio passado, presente, ou futuro, o vendeu ou o venderá a ninguem. (Vivissimos apoiados).

«E se ahi houvesse quem o ousasse, a Nação se ergueria como um só homem, e esmagaria os infames que atraiçoassem a terra da sua infancia; que chamassem os estrangeiros a calcarem como senhores as glebas que cobrem as cinzas dos nossos paes! (Muitos apoiados).

«Depois nós iriamos afiar as armas nas campas dos valentes d'Aljubarrota; e pelejariamos até o ultimo de nós cahir moribundo pela independencia nacional!

«Sr. presidente, n'estas cadeiras; n'aquellas; e em ess'outras sentam-se homens, que juntos combateram nas linhas do Porto; juntos velaram noites longas e dolorosas; juntos viveram dias de fome e de sangue, juntos olharam para um futuro tenebroso, e muitas vezes desacompanhado de esperança, sem que nunca se vissem uns aos outros enfiar ou tremer; sem que nunca imaginassem, que houvesse entre elles quem vendesse os seus companheiros d'armas. Como é possivel que{28} hoje irmãos reneguem da confiança em seus irmãos? Penhor do procedimento presente seja o procedimento passado. Qual de nós pertenceria a um partido que não tivesse por bandeira—independencia e liberdade?» (Vozes: Muito bem, muito bem).

 

Este discurso de estreia revela o homem de lettras depaysé no parlamento. É um academico que fala, encadernando em bons periodos litterarios uma alma delicada de poeta, que sinceramente presta culto á terra em que nasceu e á amizade que o liga a um dos ministros. Nada faz suppôr n'este discurso que esteja ali o argumentador capcioso e sophista que haja de entrar em todos os debates da politica apaixonada, em todos os incidentes facciosos e obstruccionistas, o rabula, o furão da politica.

Rodrigo da Fonseca Magalhães, a raposa astuta, conhecia bem Herculano, sabia por onde havia de dirigir-se para lisonjear o homem de lettras. Por isso comparou-o a Lamartine, um grande escriptor, tambem poeta da politica, e falou ao coração de Herculano a linguagem affectuosa da amizade. Procurou rendel-o tocando todas as fibras mais sensiveis e impressionaveis da organisação de um homem de lettras que tinha, sob um feitio ás vezes aspero, um coração de ouro.

Foi pois o ministro do reino que se levantou para responder por parte do governo.

Começou por prestar calorosa homenagem ao talento e ao caracter de Herculano.

«Sr. presidente, disse elle, principiarei por dar os parabens ao nobre deputado, que acaba de falar, pelo seu primeiro discurso n'esta camara, que nos promette a honra que tem a camara franceza de possuir monsieur de Lamartine; sem embargo de que lançou censuras sobre o ministerio a que eu pertenço. Eu sou o amigo a quem o nobre deputado se dirigiu, e tenho de o contradizer, porque elle quiz persuadir a assembléa{29} de que me devia alguns obsequios: o nobre deputado nenhuns me deve, e pelo contrario se em algum de nós ha divida, pesa sobre mim. Estou certo de que as suas palavras sairam do coração, as ideias da sua intelligencia na questão de que se trata, questão solemne e solemnissima para mim, a maior em que me tenho visto até agora.»

Não se enganou Rodrigo da Fonseca Magalhães se, como suppomos, viu em Alexandre Herculano o homem que, longe de manejar as armas politicas nos combates de todos os dias, só uma vez por outra havia de tomar a palavra em assumptos que mais ou menos pudessem lisonjear as tendencias do seu espirito.

Assim aconteceu; a raposa vira bem.

Na sessão de 1 de agosto, Alexandre Herculano, como membro da commissão de instrucção publica, pronunciou algumas palavras sobre o projecto da jubilação dos professores.

Transcrevemos uma passagem d'esse pequeno discurso:

«O homem que ou aquecia as tenazes na inquisição de Evora, ou fazia cousa similhante está aposentado; e creio que não ha muita justiça em um tal accumular. (Uma voz—E o que tocava os folles do orgam na Patriarchal!) É por isto, sr. presidente, que eu requeiro que se approve o parecer da commissão de instrucção publica, sobre o direito d'accumulações dos professores, e que as commissões respectivas dêem o seu parecer sobre as outras classes, para que a essas a quem a mesma accumulação competir, se torne extensiva a disposição d'esta lei.»

Na sessão de 11 de agosto, Alexandre Herculano tornava a falar sobre o mesmo assumpto, e dizia:

«Eu entendo que a rasão da lei dar o direito de accumulação aos professores, é porque estes professores durante 20, 25, 30 annos de serviço accumularam na mão do Estado um capital productivo. Por exemplo, o{30} professor de instrucção primaria, converteu um bocado de pedra ou um bocado de pau n'um homem; um serrenho que desce das montanhas, e vem para a escola primaria, não dista da animalidade cousa alguma; eu tenho conhecido alguns, que realmente distam mais de uma creatura humana do que de uma alimaria: isto é verdade, e o professor de instrucção primaria converte este ente n'um homem, e em um cidadão productivo para a sua patria, o que por certo não seria, se não fosse o cuidado do professor de instrucção primaria. Estes homens passam ás escolas superiores, e vão ser magistrados, e vão ser militares, vão ser fabricantes e artistas, e emfim occupar todas as posições sociaes, tornando-se assim productivos, e augmentando a riqueza nacional, que como todos sabem (porque todos aqui sabem o que é economia politica) consiste em capitaes accumulados pela intelligencia, e pelo trabalho. Esses capitaes são os que os professores accumulam nas mãos do Estado, porque elles são a origem primordial d'elles.»

Na sessão de 27 de agosto, Alexandre Herculano mandou para a mesa, por parte da commissão de instrucção publica, uma substituição ou antes nova redacção do projecto de lei, que restituia os professores da academia do Porto aos seus respectivos logares, de que haviam sido demittidos em consequencia dos acontecimentos politicos posteriores ao dia 9 de setembro de 1836.

Na sessão de 21 de setembro discutiu-se o projecto de lei relativo aos abusos de liberdade de imprensa.

Alexandre Herculano tomou a mão para falar.

É muito saliente esta passagem d'esse seu discurso:

«Os abusos d'esta liberdade podem reduzir-se a tres classes—abusos contra a religião, e a moralidade publica—abusos contra a honra dos cidadãos—e abusos contra a segurança do Estado.—Entendo que qualquer d'estes crimes é gravissimo, e que as penas contra{31} elles devem ser tambem gravissimas: eu não tinha duvida nenhuma em votar, que o homem que calumnia um empregado, ou um particular por via da imprensa, soffresse até um degredo perpetuo para a Africa; e porque? Porque é um assassino do espirito, da alma, assim como o homem que ataca com um punhal na estrada, é o assassino do corpo; e eu não distingo entre estes dois assassinos; não sei se diga, que detesto mais o assassino da alma, aquelle que me rouba todas as minhas esperanças sociaes. Era aqui, sr. presidente, que eu desejava todo o rigor da lei; mas não queria nenhuns embaraços para o exercicio d'uma garantia, que pela constituição têem todos os cidadãos; porque, torno a repetir, não tenho a honra de ser legista, mas entendo, que uma lei que regula não destroe, e eu vejo destruido este direito para todos os que não tiverem os meios de fazer este deposito, ou dar esta fiança».

Na sessão de 3 de outubro, discutindo-se o orçamento do estado, Herculano occupou-se da verba destinada á conservação dos monumentos nacionaes.

«Desejava agora saber, disse elle, o que se ha de fazer só com oito contos, quando para o convento de Mafra vejo que são precisos treze; isto é, só para este edificio; propondo-se agora oito contos para os reparos de todos os monumentos, pretendia eu saber como ha de o sr. ministro repartir esse dinheiro? Por tal motivo parece-me mais conveniente que se espere pela presença do sr. ministro para vermos o que elle diz a este respeito.»

Tornando ainda a usar da palavra na mesma sessão, conformou-se com as explicações dadas pela commissão.

«Não queria eu decerto que estes monumentos se concluissem com o que nós lhe vamos dar; queria que se reparassem, que se evitasse a sua ruina, mesmo porque hoje não ha em todo o reino artifices que sejam{32} capazes de os acabar. Contento-me pois com isto, e muito mais com esta ultima declaração da commissão; porque ha muitos monumentos que não estão incluidos no numero d'estes que se chamam monumentos historicos, e posso citar o castello da Feira que se está arruinando e deitando abaixo, e pouco a pouco se vae apossando d'elle um sujeito que é dono das terras visinhas ficando d'aqui a poucos dias perdido para a nação esse primor d'arte. Muitos outros ha que têem a mesma sorte.»

Até aqui temos visto apenas o orador desambicioso, que não mira a fins politicos, que expõe parcimoniosamente a sua opinião, até com certa hesitação algumas vezes, mas sempre impellido por generosos sentimentos; e através do orador parlamentar, que o é sobreposse, descobrimos perfeitamente o gosto, a predilecção, a tendencia do homem de lettras, que faz a apologia do professor de instrucção primaria, o primeiro cabouqueiro do espirito humano, e dos monumentos historicos, que são a genuina expressão da arte nacional na serie dos tempos.

Em fevereiro de 1841 discutiu a camara dos deputados a celebre questão da propriedade litteraria, em que Almeida Garrett tão activa parte tomou, sendo sua a iniciativa do projecto.

Alexandre Herculano limitou-se a fazer ligeiras observações.

Esta famosa questão, que tão discutida tem sido sob o regimen liberal, veio surprehender Herculano, queremos crêl-o, no parlamento. Ella não tinha passado ainda, suppomos, pelo espirito do homem de lettras, impondo-se profundamente á sua attenção. Só onze annos depois foi que Alexandre Herculano escreveu a celebre carta a Almeida Garrett, e ha n'essa carta alguns periodos significativos, referentes á discussão de 1841. Diz Herculano a Garrett:

«Se, porém, v. ex.ª quer que por esse facto eu mostrasse{33} seguir as ideias de v. ex.ª declaro que sou agora contrario a ellas, e demitto de mim qualquer responsabilidade que de tal facto, se o foi, possa provir-me. Dez annos não passam debalde para a intelligencia humana, e eu não me envergonho de corrigir e mudar as minhas opiniões, porque não me envergonho de raciocinar e aprender.»

Estamos persuadidos de que o debate parlamentar ácerca da propriedade litteraria encontrára Alexandre Herculano sem opinião definida sobre esse assumpto. Em onze annos de ostracismo voluntario, um paradoxo faiscou no seu espirito; acceitou-o por um d'esses caprichos de que o sistema nervoso de um homem de lettras é ás vezes susceptivel, e que os proprios factos da sua vida real se encarregam de contrariar na pratica. Herculano, o irritado contradictor da propriedade litteraria, reconheceu-a nas transacções honestas que fizera com o seu editor, reconheceu-a no seu proprio testamento, transmittindo-a aos seus herdeiros.

Os grandes talentos têem d'estas aberrações nervosas. São o claro-escuro das suas concepções geniaes.

Espirito que a meditação de uma vida repousada tornára cada vez mais avesso ás promptas soluções dos negocios publicos, poeta da solidão, mas sempre poeta, Herculano, desfolhadas as ultimas illusões, aborrecêra a vida publica, e creára pelo parlamento a repugnancia que se deve sentir por um paiz onde a nostalgia nos acommetteu e pungiu.

Em 1858 foi novamente eleito deputado, agora pelo circulo de Cintra. Este circulo, segundo o decreto eleitoral de 1852, dava dois deputados. Alexandre Herculano saiu eleito conjuntamente com o dr. Francisco de Senna Fernandes, magistrado recto, mas que unicamente se notabilisára no parlamento como apagador encartado. A lenda ridicularisava-o. Disse-se que Herculano não quizera ir á camara de braço dado com um apagador satirisado. Não acceitamos esta versão. É{34} certo que elle renunciou o logar de deputado, e que a razão adduzida na sua Carta aos eleitores de Cintra, agora reimpressa no II volume dos Opusculos, é pouco menos de futil.

Essa razão era—que nenhum circulo eleitoral deve escolher para seu representante individuo que lhe não pertença.

Politicamente o argumento é frivolo. Mas foi decerto o primeiro que Alexandre Herculano pôde encontrar para desculpar o seu aborrecimento por a vida politica, onde sempre estivera, postoque pouco tempo, contrariado e constrangido.

O poeta sentia-se melhor entre poetas ou entre arvores, do que entre politicos interesseiros que punham a sua candidatura a ministros.

Na sessão de 13 de agosto d'aquelle anno foi discutido o parecer da primeira commissão de verificação de poderes acceitando a renuncia do logar de deputado, para o qual Alexandre Herculano havia sido eleito pelo circulo 26, sem que chegasse a tomar assento na camara.

O sr. Pegádo propoz a seguinte substituição ao parecer da commissão:

«A camara, considerando que a renuncia pedida pelo sr. deputado Alexandre Herculano não está exacta e rigorosamente no caso da lei, convida-o a acceitar o logar de deputado.»

Entendia o sr. Pegádo que Alexandre Herculano, tendo expendido pela imprensa as razões da sua renuncia, não julgaria logico mudar da opinião, mas que a camara podia tiral-o da posição melindrosa em que se achava, convidando-o a ir occupar o seu logar no parlamento.

Por parte da commissão, o sr. Mello Soares disse que se o sr. Pegádo tinha em mente fazer o elogio de Alexandre Herculano, a camara estava de accordo com as suas palavras, porque o sr. Alexandre Herculano faz{35} uma época ao paiz, pelo menos uma época litteraria; mas a questão era outra, havia uma lei a cumprir e uma vontade a respeitar.

A requerimento do sr. Coelho do Amaral, julgou-se a materia discutida, e o parecer foi approvado.

Os animos generosos e fidalgos saboreiam ás vezes com agreste voluptuosidade o sentimento da resistencia obstinada ás correntes sociaes que em sentido contrario ás suas tendencias os solicitam.

Foi o que aconteceu a Alexandre Herculano. Elle cristallisára no seu aborrecimento pelo mundo politico, pelo scenario avariado do parlamento, onde se reconhecêra inferior aos outros, talvez mesmo a si proprio.

El-rei D. Pedro V, amigo particular do grande historiador, quiz fazer-lhe mais uma distincção nobiliaria do que dar-lhe um premio politico: nomeou-o par do reino. Transcrevemos o diploma official da nomeação, que foi publicado no Diario do Governo:

 

Ministerio dos negocios do reino

 

«Alexandre Herculano de Carvalho, socio effectivo da Academia Real das Sciencias, antigo deputado da nação portugueza. Eu El-rei vos envio muito saudar. Tomando em consideração os vossos merecimentos e qualidades, hei por bem, tendo ouvido o conselho d'Estado, nomear-vos par do reino, o que me pareceu participar-vos para vossa intelligencia e effeitos devidos. Escripta no Paço das Necessidades em 17 de maio de 1861.—Rei.—Marquez de Loulé.—Para Alexandre Herculano de Carvalho, socio effectivo da Academia Real das Sciencias, antigo deputado da nação portugueza.»

 

Alexandre Herculano recusou, talvez ainda porque essa mercê tinha resaibos de iguaria politica, para apreciar{36} a qual o seu paladar estava desde muito tempo embotado.

Habituara-se a depreciar as galas que podem ensanefar, como elle dizia, o pedestal dos homens politicos. Fizera-se lavrador, quasi misanthropo. A sua prosa tinha por vezes, quando de longe a longe escrevia, tons duros de mau humor para com a sociedade.

Recusou a mercê regia.

Temos fortes razões para crêr que o requerimento em que renunciou o pariato fomos nós arrancal-o pela primeira vez ao archivo do ministerio do reino.

Diz assim:

«Ill.mo e Ex.mo Sr.

 

«Sua Magestade El-Rei, usando das attribuições do poder moderador, Houve por bem honrar-me com a nomeação de membro da Camara dos Dignos Pares do Reino. Será ocioso significar a v. ex.ª quanto aprecio esta demonstração de confianca d'um Soberano, que a historia póde qualificar como a mais nobre e pura intelligencia que tem resplandecido no throno portuguez, e que sabe ainda mais obrigar á affeição como homem do que ao respeito como magistrado supremo.

Mas as condições da humanidade alcançam reis e subditos: reis e subditos estão sujeitos a fazer apreciações inexactas ou incompletas. Podem illudir-se ás vezes tomando os impulsos da benevolencia pelas inspirações da justiça e é possivel que em relação a mim se désse uma circumstancia d'essas.

Désse ou não désse, o que sei, o que me diz a consciencia com voz sobradamente intelligivel é que o meu concurso nas deliberações da camara dos Dignos Pares do Reino seria inutil, quando não inconveniente. Dispense-me v. ex.ª de expôr as razões d'esta intima e invencivel persuasão, razões tristes para mim, e porventura demasiado longas e tediosas para v. ex.ª

Não creio que faltem em Portugal homens de saber{37} e virtude que tenham esperança e fé. São esses que pódem, sem a temeridade de Ora, erguer a mão para amparar a arca santa das instituições. É provavel que saibam fazel-o aquelles que n'esta conjunctura foram tambem honrados com a confiança da corôa.

Queira v. ex.ª levar a minha escusa de membro da camara dos Dignos Pares do Reino á presença de Sua Magestade El-Rei, que, acceitando-a benignamente, ajuntará uma prova mais ás muitas que já tenho da sua inexgotavel indulgencia para comigo.

Deus Guarde a v. ex.ª—Lisboa, 18 de maio de 1861.—Ill.mo e ex.mo sr. Marquez de Loulé, ministro e secretario d'estado dos negocios do reino.

 

A. Herculano.»

 

O decreto acceitando a renuncia pedida, tambem, que nos conste, não fôra integralmente publicado no Diario do Governo, posto que a elle se alluda em outro diploma official.

«Attendendo ao que me representou Alexandre Herculano de Carvalho, socio effectivo da Academia Real das Sciencias, Hei por bem acceitar a renuncia por elle feita nas Minhas Reaes Mãos da Dignidade de Par do Reino, a que fôra elevado por Carta Regia de 17 de maio proximo findo. O Ministro e Secretario de Estado dos Negocios do Reino assim o tenha entendido e faça executar. Paço das Necessidades em 4 de junho de 1861.—Rei.—Marquez de Loulé

Do mesmo modo não foi publicada a portaria que acompanhou a remessa do decreto real.

«Para Alexandre Herculano de Carvalho:

«Manda Sua Magestade El-Rei pela Secretaria d'Estado dos Negocios do Reino, remetter a Alexandre Herculano de Carvalho, socio effectivo da Academia Real das Sciencias, para seu conhecimento, a inclusa copia authentica do decreto de 4 de junho corrente, pelo{38} qual Houve por bem acceitar a renuncia por elle feita nas Reaes Mãos do Mesmo Augusto Senhor, da Dignidade de Par do Reino, a que fôra elevado por Carta Regia de 17 de maio proximo findo, o que na data de hoje se participa á Camara dos Dignos Pares do Reino. Paço das Necessidades, em 8 de junho de 1861.—Marquez de Loulé

O unico documento que encontramos estampado no Diario do Governo é o seguinte aviso da presidencia do conselho de ministros á camara dos pares:

 

Ministerio do Reino

 

«Direcção geral da administração politica—1.ª repartição—Livro 15 n.º 143==Ill.mo e Ex.mo Sr.—Tenho a honra de participar a V. Ex.ª para conhecimento da Camara dos Dignos Pares do Reino, que Sua Magestade El-Rei, attendendo ao que lhe foi representado pelo conselheiro d'estado effectivo João de Souza Pinto Magalhães, e pelo socio effectivo da Academia Real das Sciencias Alexandre Herculano de Carvalho, Houve por bem, por decreto de 4 de junho corrente, acceitar a renuncia, por elles feita nas Reaes Mãos do Mesmo Augusto Senhor, da dignidade de pares do Reino a que haviam sido elevados por cartas regias de 17 de maio proximo findo.

«Deus Guarde a V. Ex.ª. Secretaria d'estado dos negocios do Reino, em 8 de junho de 1861.—Ill.mo e Ex.mo Sr. Presidente da camara dos Dignos Pares do Reino.—Marquez de Loulé.»

As dimensões de uma pequena brochura obrigam-nos a circumscrever este capitulo, a que poderiamos dar comtudo bem mais amplas proporções.


 {39}

IV

José Gomes Monteiro

Sparta, que no render culto á mocidade sobrelevava toda a mais Grecia, foi guiada pela legislação de Licurgo ao respeito da velhice. Facto verdadeiramente extraordinario! N'uma cidade onde as creanças rachiticas eram afogadas logo que nasciam, como cidadãos inuteis, os velhos, tão inuteis para o serviço da republica como as creanças votadas á morte, eram considerados em face da lei dignos do respeito e da estima dos seus concidadãos.

Desde o momento em que um paiz entra no caminho do progresso social e na conquista de um ideal de perfectibilidade, começa a ter pela velhice uma veneração tão carinhosa como delicada. Realmente, offender um velho é apedrejar uma arvore carregada de fructos. As republicas, como todas as sociedades, precisam alimentar-se da experiencia dos velhos e do ardor dos mancebos. Entre estas duas luzes, a do sol que declina, e a do sol que se levanta, deslisa toda a existencia da{40} familia e da nação. Estas duas correntes, em vez de se contrariarem, auxiliam-se, e ás vezes identificam-se de tal modo na harmonia de um grande progresso intellectual, que dirieis que a velhice e a mocidade se conglobaram n'uma só alma aspirando ao mesmo ideal. Ditosos os paizes onde este facto se dá! Em França, por exemplo, Michelet, o velho que morreu moço, absorvera em si a alma da mocidade, que transparecia nos seus livros cheia do perfume da primavera, e do colorido chatoyant de tudo quanto é novo e vigoroso; Victor Hugo, a alma que não envelheceu, conservou na voz da sua lira a frescura matutina do canto da cotovia, que seduz as imaginações juvenis, arrastando-as para o mundo das auroras, para as conquistas da luz. Sempre que a velhice puder e a mocidade souber, não será possivel marcar limites aos progressos de um paiz, mas será facil aventar que elle tomará a deanteira a todos os outros para guial-os na marcha das suas aspirações sociaes.

Em Portugal—digamos cruamente a verdade—a mocidade habituou-se a caminhar atirando por cima dos hombros, como Deucalião, pedras contra o passado. A velhice não tem para as gerações modernas o esplendor magestoso de um occaso. Os velhos foram uns nescios, dizem os novos. Garrett, Herculano, Castilho, José Gomes Monteiro não desceram ao tumulo sem ter provado o fel da ingratidão. Esta é a verdade. Por muitas vezes, a mocidade, enfurecida como um iconoclasta, arremetteu contra elles, procurando abalar ás mãos ambas o pedestal d'onde já o olhar melancolico descia a procurar o descanso da sepultura. É triste ter que recordar estes factos, tanto mais que parece ter havido n'essa enorme irreverencia o só proposito de derrubar por derrubar. Pois o que nos tem dado em troca a geração moderna? Um espirito manifestamente demolidor e dissolvente domina a sociedade em que vivemos. Tentativas de reconstrucção sérias e proveitosas, poucas.{41} Por cada mil alavancas que revolvem os alicerces do passado, uma só procura alinhar o blocus faceado na esquadria do novo edificio.

Por minha parte, trabalhador obscuro, não me farei jámais cumplice da irreverencia dos meus contemporaneos. Tirarei respeitosamente o meu chapeu para saudar a velhice, sempre que se não degrade a si mesma. E quando ella assignala a sua passagem com um rastro de luz, eu não tenho duvida em confessar publicamente, agora e sempre, que dirijo a minha rota pelo esteiro do seu leme.

Acatando a velhice, julgo estar na consciencia do dever; escrevendo de José Gomes Monteiro, colloco-me justamente dentro das circumstancias especiaes em que me encontro perante a memoria d'esse que me foi mestre, amigo, conselheiro, durante um periodo de tempo de mais de dez annos, talvez.

*
*     *

José Gomes Monteiro nasceu na cidade do Porto a 2 de março de 1807.

Aos dezeseis annos de edade matriculou-se em Coimbra nas faculdades de leis e canones, mas, chegando ao quarto anno do curso, saiu de Portugal para Inglaterra, talvez por uma poderosa necessidade do seu espirito, que se sentia asphixiado na atmosphera classica da Universidade, onde tudo se prendia ainda ao passado pelos élos oxidados da tradição scientifica, e onde começava a fermentar a discordia politica, que veio a motivar a emigração de 1828.

Demorou dois annos em Inglaterra, e foi depois estabelecer residencia em Hamburgo, onde fez parte da firma commercial Santos & Monteiro, cujos revezes absorveram ao cabo de algum tempo todas as esperanças{42} de vida prospera. Este desastre amargurára o coração do homem; mas o litterato tirára enorme proveito da residencia em paizes onde a cultura litteraria captivava os espiritos lucidos, ainda quando as mais graves complicações da vida positiva os enleavam. No estrangeiro travára relações de estreita amizade com Almeida Garrett e com todos os emigrados que, depois da victoria do partido avançado, foram os primeiros homens de Portugal; do estrangeiro adquirira um vasto conhecimento dos principaes idiomas da Europa, que elle manejava com notavel facilidade, penetrando com o seu espirito profundamente analitico na estructura intima do vocabulo, d'onde extraia ás vezes uma imprevista luz para a verdadeira interpretação dos textos; no estrangeiro, onde o suave doer da nostalgia divinisa as memorias da patria, devotou-se Gomes Monteiro ao estudo dos classicos portuguezes e foi então que, encontrando na livraria da Universidade de Gottingen um exemplar da primeira edição dos Autos de Gil Vicente, pôde preparar, auxiliado por José Victorino Barreto Feio, a edição critica das obras do fundador do theatro portuguez.

Este trabalho, considerado em si mesmo, tem subido valor, não obstante quaesquer ligeiros senões que possam apontar-se-lhe, e haver sido realisado em edade incompativel com a madureza de espirito que requerem os fastidiosos trabalhos de bibliographia. O sr. Theophilo Braga, escrevendo de José Gomes Monteiro no 5.º volume da Revista Comtemporanea,[1] dizia a este respeito: «O trabalho d'este livro pertence-lhe todo; a profundidade da sua critica avalia-se pela introducção com que precedeu a obra. Quando a escreveu era bastante creança e é talvez por esta circumstancia, que o auctor hoje não lhe quer dar o alcance, que esse estudo na realidade tem.» Como quer que fosse, era incontestavel{43} o valor das investigações biographicas a respeito de Gil Vicente, e da taboa glossaria dos termos antiquados, o que tudo com menos fundamento ha sido por alguns attribuido a Barreto Feio, escreveu Innocencio Francisco da Silva.[2] Os irmãos Castilhos reproduziram na Bibliotheca portugueza o ensaio biographico da edição de Hamburgo por convencidos de que a respeito da vida e obras do nosso poeta não poderiamos dizer mais nem melhor. Gomes Monteiro acceitava a responsabilidade d'aquelle trabalho, e era o primeiro a reconhecer-lhe as imperfeições, postoque ligeiras, algumas das quaes estavam corrigidas á penna no exemplar da sua livraria. Mas lancem-se essas pequenas incorrecções á conta da mocidade do auctor, como o sr. Theophilo Braga indica, e á falta de meios de rigorosa verificação, com que José Gomes Monteiro luctava fóra de Portugal.

Se considerarmos, porém, a edição critica das obras de Gil Vicente, e das obras de Camões, na sua influencia sobre a renascença litteraria de Portugal, qualquer d'esses trabalhos tem um grandissimo valor, porque em verdade ambos exerceram poderosa acção não só sobre o proprio espirito de Gomes Monteiro, mas tambem sobre a collectividade illustrada do nosso paiz. E, a este respeito, não me dispenso de citar mais um vez o sr. Theophilo Braga, no seu artigo da Revista Contemporanea: «Desde que proferiu este surge et ambula, a Allemanha, a Inglaterra, a França, estudaram para de logo o poeta. Tempo depois Garrett escrevia a Gomes Monteiro dando-lhe parte de um drama Um auto de Gil Vicente, com o qual havia, por uma notavel coincidencia, dar vida ao theatro portuguez, apresentando-lhe o vulto do seu creador; n'essa carta dizia-lhe que não sabia a parte que tinha no que acabava de escrever, nem a quem pertencia a paternidade. A renascença{44} em Portugal deve-se a tres homens: Garrett, Alexandre Herculano e José Gomes Monteiro.»

Pela observação profunda dos textos durante a elaboração das edições criticas de Gil Vicente e Camões, pelas simultaneas investigações biographicas que era obrigado a fazer, habituando-se a um uso diuturno dos processos analiticos, que estavam aliás nas condições phisiologicas do seu temperamento e no caracter germanico que pela sua longa residencia em Hamburgo assimilára, chegou Gomes Monteiro á resolução de reunir subsidios para organisar mais tarde a historia litteraria de Portugal, que, se tivesse sido levada a cabo, realisaria, pela consubstanciação com o trabalho de Herculano, depois de concluido, a historia completa da nossa nacionalidade.

Recolhendo a Portugal, e á terra da sua naturalidade—o Porto—Gomes Monteiro dedicou a maior parte do tempo á investigação e preparação dos materiaes necessarios para a historia litteraria. A morosidade com que na Allemanha se educára a trabalhar pela applicação do criterio historico, a natural indolencia do seu temperamento, e largas interrupções devidas a melindres de saude fizeram, porém, que a obra proseguisse lentamente, e os seus manuscriptos ficassem por sua morte desatados apenas em memorias preciosas, sem a unidade logica e chronologica de um corpo de historia.

Portanto, d'essa importantissima tarefa sómente ha pequenas amostras publicadas, e a origem da publicação deve procurar-se sempre nas instancias de amigos e na amavel insistencia de alguns admiradores. Foi assim que em 1849 appareceu em opusculo a Carta ao ill.mo sr. Thomaz Norton sobre a situação da ilha de Venus, e em defeza de Camões contra uma arguição, que na sua obra intitulada «Cosmos», lhe faz o sr. Alexandre de Humbold.

N'este trabalho, em que os elementos da these são{45} procurados com notavel paciencia e lucidissima intuição, José Gomes Monteiro sustentou que a ilha dos Amores não era a de Santa Helena, como alguns opinavam, nem a de Anchediva, como escrevera Faria e Sousa, nem fingimento que o poeta fez, como dissera Manuel Corrêa, mas a de Zanzibar, ao norte de Moçambique. José Gomes Monteiro baseou em grande parte a sua argumentação na concordancia das descripções do episodio com as particularidades do clima, da fauna, da flora, da situação geographica da ilha de Zanzibar. Não será decerto um trabalho incontestavel,[3] mas é seguramente notabilissimo, e como prova de um espirito sério, predisposto para tarefas d'esta natureza, foi respeitosamente recebido por todo o paiz.

A esse tempo ainda José Gomes Monteiro estava na firme resolução de trabalhar na realisação da historia litteraria de Portugal. Com effeito, como a carta a Thomaz Norton revelava, elle poderia ter sido para a litteratura portugueza o que Ticknor foi para a hespanhola, Hipp. Taine para a ingleza, Emilio Burnouf para a grega, etc. Mas, depois, o gravame dos annos foi crescendo, e com elle o desanimo, que os aggravos litterarios fizeram descair em aborrecimento. Era preciso, como já dissemos, que a amizade o reptasse com dedicado empenho, para que emittisse a sua opinião sobre importantes assumptos de historia litteraria. De uma d'essas pressões amigaveis resultou a publicação do artigo que a Revista Peninsular[4] inseriu ácerca da antiga trova do Figueiral Figueiredo, que José Gomes Monteiro suppunha filiada na lenda gallega de Val-Doncel.{46}

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*     *

Na carta a Thomaz Norton escrevêra José Gomes Monteiro em nota á pag. 17:

«Aproveitarei esta occasião para dizer... que um dos mais famosos monumentos d'esta litteratura cavalheiresca, e que tão distincto logar deverá ter na historia litteraria do nosso paiz,—o Amadis de Gaula—é de todos os romances de cavallaria o mais notavel pelos elementos historicos de que se compõe. Impenetravel até hoje á investigação de grandes criticos, tem sido considerado como uma singular excepção ao systema de decomposição historica. Eu mostrarei comtudo, em um trabalho que tenciono publicar brevemente, que o seu maravilhoso, os seus personagens, os seus episodios, tudo ali é urdido no grande tear da historia—da historia do seculo XII, o mais rico em aventuras e feitos d'armas da cavallaria real, de quantos contém os annaes da edade-media. Ali, dissolvendo as tabulas do Amadis em factos historicos, darei a mais completa theoria, que ainda appareceu, do modo de inventar dos trovadores da meia-edade. O maravilhoso episodio de Endriago, a mais bella concepção de todos os romances de cavallaria, ficará sendo um exemplo inapreciavel de como o espirito humano fórma o mytho, nas edades primitivas da litteratura.»

Gomes Monteiro foi levado á realisação d'este trabalho, que deixou inedito, pela applicação do mesmo processo que tinha seguido a respeito da ilha de Venus—o confronto do romance com a historia. Só por um pacientissimo labor poderia encontrar no grande oceano da historia universal justamente a época cujos factos capitaes correspondessem aos episodios do romance. Procurou e achou. Dissolvendo as fabulas do «AMADIS» em factos historicos, como elle proprio escreveu, pôde localisar a acção do romance no tempo de{47} Ricardo Coração de Leão, enxergando no disfarce da allusão, motivado pelas exigencias da época, uma perfeita concordancia historica, e logrou chegar á conclusão de que Vasco de Lobeira não foi o auctor d'essa famosa novella do ciclo cavalheiresco.

Outro dos seus importantes trabalhos ineditos era uma edição critica da Menina e moça de Bernardim Ribeiro, da qual seriam expungidas as intercalações apocriphas que andam no livro. Calcule-se o dispendio de paciencia e perseverança que essa reconstrucção custaria ao douto bibliophilo. Como na edição de Gil Vicente, um estudo biographico sobre Bernardim Ribeiro e um glossario dos vocabulos antigos completariam a edição critica da Menina e moça.

A vida de Sá de Miranda fôra por José Gomes Monteiro laboriosamente investigada, alcançando extrair das proprias composições do poeta illações luminosas e não esperadas. A este respeito, permitta-se-me dizer que por indicação sua introduzi Sá de Miranda no romance Um conflicto na côrte, baseando-me nos documentos que espontaneamente me facultou, e que claramente revelavam a intervenção do poeta na dramatica paixão do marquez de Torres Novas por D. Guiomar Coutinho. Foi nas eclogas Aleixo e Andrés que José Gomes Monteiro encontrou a prova d'essa intervenção, de que resultou ser preso Sá de Miranda como punição ás ousadas allusões que, para desaffrontar o marquez, fizera á perfida dama. Apraz-me renovar esta declaração que já fiz no segundo volume do romance. A minha divida para com a memoria de Gomes Monteiro é tamanha, que não posso desaproveitar qualquer ensejo de relembral-a.

Além d'estes manuscriptos, outros muitos, e variadissimos, enchiam as suas pastas. Lembro-me agora de um extenso artigo a respeito da Arte de monteria, de D. João I, e de uma infinidade de apontamentos sobre varias especies, entre os quaes folheei em 1877 todos{48} os que podiam servir á elaboração de uma interessante monographia da cidade do Porto.

Mas, já transviados da rigorosa ordem chronologica, temos que retroceder na biographia de Gomes Monteiro, para completarmos a pequena lista das suas obras impressas.

Um anno antes da publicação da carta sobre a ilha de Venus, isto é, em 1848, deu José Gomes Monteiro em volume a traducção de algumas baladas dos poetas mais populares da Allemanha, sob o titulo de Eccos da lyra teutonica.

Este livro está completamente fóra do grande programma dos seus estudos predilectos, e dos seus trabalhos habituaes. São recordações da sua vida na Allemanha, enfeixadas por um viajante erudito, que perfeitamente conhecia as duas linguas, e que, sem ser propriamente um poeta, mostrava que os processos de metrificação lhe eram conhecidos, se bem que em muitos relanços sacrificasse a correcção metrica, a elegancia da fórma, á fidelidade da traducção. Procedendo assim, obedecia simplesmente aos seus escrupulos de investigador litterario. Queria dar a conhecer ao nosso paiz a poesia moderna da Allemanha, respeitando comtudo a exactidão dos textos, como quem perfeitamente conhecia o justo valor das palavras, e por elle fazia obra. A sua lealdade de traductor póde ser confirmada por todos quantos saibam allemão, porque em muitas das poesias a traducção vem a par do original.

Em 1873, José Gomes Monteiro saiu a vingar a velhice de Castilho—desaffrontando-a de accusações que lhe foram feitas—com a publicação do livro Os criticos do Fausto do sr. visconde de Castilho. Estava já a esse tempo no plano inclinado por onde a velhice enferma resvala á sepultura. Não obstante, cobrou forças para escrever rapidamente um livro de 190 paginas, que Camillo Castello Branco e eu vimos nascer quasi dia a dia. Não me admirei do esforço, e a mim proprio o explicava,{49} sempre que na redacção do Primeiro de Janeiro recebia um bilhetinho de Gomes Monteiro concebido n'estes termos: «Ámanhã, a tal hora, em casa do Camillo». José Gomes Monteiro, replicando com auctoridade ao azedume com que os criticos de Castilho cairam sobre a traducção do Fausto, lavrava um protesto energico em nome da velhice desconsiderada, e desabafava, n'uma dolorosa fadiga para a sua penna, as maguas intimas que as ingratidões de que a vida das lettras está eriçada tinham posto no seu coração. Esse livro era o seu testamento litterario, resalta d'elle a indignação da senectude desgostosa, que sente fugir-lhe de um lado, roubado pela morte, o apoio dos seus pares, e do outro o respeito da gente moça. N'este caso a velhice morre como os dois Carvajal, que emprazaram Fernando IV a comparecer no tribunal de Deus; a velhice empraza a mocidade irreflectida a comparecer no tribunal da Historia. «Não ha espectaculo mais repugnante do que o d'um mancebo insultando um ancião benemerito, dizia elle na penultima pagina. É um parricidio moral de que todo o homem honesto affasta a vista com horror.» A sua alma precisava d'este desafogo—a tão pequena distancia da sepultura. Alexandre Herculano, movido por igual impulso, escrevia, do fundo da solidão de Val-de-Lobos, uma carta de congratulação a José Gomes Monteiro a proposito da publicação dos Criticos do Fausto. Essa carta, era breve, mas profundamente energica. Nunca as mãos lhe doiam, dizia o auctor da Historia de Portugal áquelle que muitas pessoas denominavam o Alexandre Herculano do Porto.

Depois de um tão aguerrido desabafo, a sua alma ficou tranquilla mas fatigada. Nunca mais, dizia-me elle, nunca mais escreverei. Vivendo unicamente de recordações, parecia esperar serenamente a noite misteriosa da morte...

Mas, um dia, foram evocar-lhe uma das mais doces,{50} das mais gratas recordações da sua vida. O sr. Emilio Biel, do Porto, appellando para os seus antigos estudos sobre Camões, convidára-o a rever a edição dos Lusiadas, que foi publicada n'aquella cidade por occasião do terceiro centenario da morte do grande epico. A este nome prestigioso, a alma de José Gomes Monteiro teve ainda um relampago de vida. Rodeando-se pela sua preciosa camoneana, pondo diante de si as suas excellentes notas sobre a vida e a obra de Camões, José Gomes Monteiro pretendeu encerrar a sua carreira d'escriptor honrando a memoria do maior poeta que tem tido Portugal. Esse trabalho é perfeito. É o ultimo raio de luz do seu espirito, estrella cadente que sulcando a noite da velhice foi abismar-se na sepultura já aberta para receber o douto bibliophilo.

A 12 de junho de 1879, José Gomes Monteiro adormecia na traquillidade dos mortos.

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*     *

Ligado por antigos laços d'amizade, atados no exilio, a todos os homens importantes de Portugal, elle poderia ter-se saciado de honras, se fôra um espirito vulgar. Mas até n'isso pensava com o seu Camões. Distincções litterarias tinha apenas aquellas que o procuraram: era socio correspondente da Academia Real das Sciencias de Lisboa e membro de varias academias estrangeiras. O seu nome apparecia pouco, occultava-se como elle proprio, e todavia, outros muitos que ajudára a crear com o seu conselho, com os seus livros, com a sua protecção passavam por diante d'elle, na pompa do triumpho, sem que o menor assomo de inveja viesse perturbar-lhe a habitual serenidade de animo.

Onde estava bem, onde se sentia viver, era no meio da sua vasta livraria. Tinha razão. As livrarias são cidades de mortos, onde os livros falam como os tumulos. A paz creadora, a meditação tranquilla, o descanso{51} productivo, estão ali. Os outros amigos vão rareando dizimados pela morte os contaminados pela ingratidão; mas os livros, amigos inalteraveis, não faltam nem atraiçoam. Na saude ou na doença, no trabalho ou no ocio, fortes na sua immobilidade, grandes no seu silencio, são sempre uma companhia, uma guarda, uma força. O velho Castilho tinha o seu leito entre elles. Não os via, mas sentia-os. Não tinha olhos para os procurar, mas conhecia-os pelo tacto. Muitas vezes me pareceu que elles lhe diziam quando os buscava: «Procuras-me? Aqui estou. Como não vês; ajudo-te.» Entre elles morreu. O seu cadaver depositado na livraria parecia escutar, na concentração placida dos cegos, o que Virgilio estava dizendo e Anacreonte cantando no silencio eterno dos livros.

A bibliotheca de Gomes Monteiro era uma necrópole immensa. A antiguidade tinha ali, fechados em pergaminho, os seus thesouros classicos. A renascença enfileirava os seus volumes em linha de batalha. A um lado, a Grecia antiga cantava os seus heroes; a outro lado, Roma, a Grecia italiana, pendurava as suas liras coroadas de mirtho e louro. Os paizes do norte da Europa combatiam com o ardor dos seus poetas os gelos dos seus climas. O occidente punha os seus trovadores a par dos seus cavalleiros. A central Allemanha entoava as suas baladas vaporosas como o véu azul do seu Rheno. Finalmente, a Asia depositava n'um berço de luz os seus velhos poemas guerreiros e divinos, os seus codigos religiosos e austeros.

—Aqui ha tudo! dizia muitas vezes José Gomes Monteiro com certa alegria lisonjeada, a todos quantos lhe perguntavam se possuia este ou aquelle livro.

Bibliophilo por vocação, ele tinha o grande defeito dos bibliophilos: a avareza. Os seus livros pareciam-se n'isto com as flores, que pertencem principalmente a quem as possue, sem que por isso o seu perfume deixe de ser aspirado pelos estranhos.

[1] Pag. 236.

[2] Diccionario bibliographico portuguez, vol. 4.º, pag. 363.

[3] O sr. conde de Ficalho contradictou na Flora dos Lusiadas, em 1880, sob o ponto de vista botanico, a asserção de Gomes Monteiro, mas honra-o dizendo que a sua carta contém, na parte exclusivamente litteraria, apreciações justas e novas.

[4] Vol. 2.º, pag. 401.


 {52}

V

No parlamento

Em Janeiro de 1882 entrei na camara dos deputados, eleito por um circulo do districto de Vizeu.

A minha eleição não pesou na balança dos destinos politicos de Portugal, e muito menos da Europa. Os fundos não subiram nem desceram. Mas, em compensação, a minha eleição apresentára tres aspectos completamente novos:

1.º—O circulo conhecia-me.

2.º—Eu conhecia o circulo.

3.º—Não foi preciso, para que eu viesse a S. Bento, derramar-se o sangue de ninguem—nem mesmo de um carneiro.

A minha eleição foi feita o menos carneirocombatatasmente possivel. Nada d'isso. E o mesmo circulo, que me elegeu facilmente, porque me conhecia desde pequeno, deixou de me eleger dois annos depois com igual facilidade.

A gratidão dos circulos é uma coisa bicuda.

O sr. Barjona de Freitas fizera um filasterio politico{53} dando de mão beijada o circulo de Sinfães a um candidato progressista. E os fundos, por este facto, tambem não subiram nem desceram. A substituição de deputado por deputado operou-se, com grande proveito do partido regenerador, sem agitar a politica da Europa.

N'um livro de memorias, que abrange vinte annos da minha vida, julgo-me obrigado a falar dos dois em que passei pelo parlamento. D'outro modo a coisa não valeria chronica.

Trepado ao poleiro de S. Bento, todo o meu ideal era auxiliar lealmente a politica do meu partido, sem deixar comtudo de prestar algum serviço ás lettras portuguezas, que indirectamente me tinham levado lá.

Tive mais trabalho em fazer vingar um projecto de minha iniciativa, estabelecendo a leitura nocturna nas bibliotheca publicas, do que aquelle que seria preciso para me fazer visconde. O projecto passou, graças á minha teimosia, e hoje, 12 de novembro de 1889, posso avaliar por dados estatisticos, hoje mesmo publicados n'um jornal, que não perdi o meu tempo.

No mez de outubro proximo findo, concorreram á bibliotheca nacional de Lisboa 2:586 leitores, assim divididos:

Leitura diurna: leitores, 1:092; volumes impressos, 2:061; manuscriptos, 49; visitantes, nacionaes e estrangeiros, 6.

Leitura nocturna: leitores, 1:494; volumes impressos, 2:482; manuscriptos, 31.

O numero dos leitores nocturnos é já excedente ao dos leitores diurnos, o que prova que a lei não foi inteiramente inutil aos que n'este paiz gostam ou precisam de ler.

Para os torneios da eloquencia havia, n'aquella legislatura, campeões experimentados e insignes. A minha humilde e desauctorisada palavra não se tornava precisa. Limitei-me portanto a fazer uso d'ella apenas quando careci de justificar o meu voto.{54}

Da pequena bagagem que deixei depositada no Diario dos sessões escolherei um unico discurso, não só para comprovar o que deixo dito, mas tambem porque o assumpto era de geito a tentar as predilecções de um homem que, até dentro da politica, estima os assumptos historicos.

Tratava-se do projecto de lei relativo ao monumento do marquez de Pombal.

Eu tive então occasião de dizer as seguintes palavras:

«O sr. Alberto Pimentel:—Cumprindo as disposições do regimento, começo por ler a minha proposta.

(Leu).

A camara tem ouvido benevolamente considerações, se não diametralmente oppostas, pelo menos um tanto contradictorias, e espero que ella me dispensará igual benevolencia, por mais excepcionaes que lhe pareçam, sobre este assumpto, as minhas opiniões.

Devo começar por dizer a v. ex.ª que não tenho um grande enthusiasmo pelo centenario do marquez de Pombal; em minha consciencia, e só em nome d'ella falo aqui, porque tenho direito de falar, acho ainda muitissimo cedo para qualquer solemnidade publica, para qualquer demonstração de applauso nacional em honra de Sebastião José de Carvalho e Mello.

A iniciativa partiu da mocidade academica, e ainda que tenho uma profunda estima por todas as iniciativas que partem do coração ardente da gente moça, ainda que me sinto impellido para acceitar todos os pensamentos em que palpita exuberantemente a seiva da idade juvenil, não devo esquecer que os academicos são moços e que as idéas da mocidade são quasi sempre flores e não fructos.

Uma primavera carregada de fructos seria um phenomeno tão extraordioario na natureza como na sociedade. Nós, os legisladores, temos obrigação de ser menos apaixonados, e menos enthusiastas do que a mocidade.{55} A reflexão é uma velhice precoce, e nós devemos tel-a.

Eu entendo, sr. presidente, que se os mortos passam depressa, muitas vezes, para a nossa saudade, se desapparecem rapidamente na sua balada phantastica, caminho da eternidade, os legisladores vão de vagar, vergados ao peso das suas proprias responsabilidades, como se lhes pesasse sobre os hombros o enorme lenho da Historia, que é, ao mesmo tempo, uma cruz e uma glorificação.

E tanto isto é verdade, que eu entendo que as responsabilidades politicas do marquez de Pombal não estão ainda perfeitamente liquidadas.

Nós ouvimos, na sessão anterior, a palavra enthusiastica, sempre inspirada e eloquente do sr. Pinheiro Chagas, defendendo brilhantemente a causa do centenario.

Pois bem, soccorrer-me-hei a uma citação do sr. Pinheiro Chagas a respeito de um dos actos mais importantes da vida do marquez de Pombal.

Refiro-me ao processo dos conspiradores ou suppostos conspiradores contra D. José I.

A este respeito citarei a v. ex.ª e á camara duas auctoridades, ambas contemporaneas, para provar a minha asserção de que as responsabilidades politicas do marquez de Pombal não me parecem inteiramente liquidadas ainda.

Diz algures o sr. Teixeira de Vasconcellos:

«Nos dominios severos da historia ainda não passou em julgado nem a sentença que condemnou a perpetua infamia o nome dos Tavoras, nem a que depois pretendeu lavar de qualquer mancha a memoria de tão numerosa e esclarecida familia. Não nos cabe apreciar a sanguinolenta catastrophe de Janeiro de 1759. Basta-nos recordar que as duas filhas do marquez de Alorna, uma de oito e outra de sete annos, padeceram innocentes longo e triste captiveiro, attenuado unicamente{56} pela consolação de viverem com a mãe, mitigando-lhe as amarguras da sorte, e recebendo com os carinhos e desvelos a educação maternal.»

Não citarei só a opinião do sr. Teixeira de Vasconcellos, cuja perda todos lastimamos, e eu mais que ninguem; citarei tambem a propria opinião do sr. Pinheiro Chagas, que sinto não ver presente, e que tão enthusiasta se tem mostrado por esta festa, que qualifica de nacional.

«Temos agora a notar que morreram innocentes, ou, pelo menos, que não deviam ser condemnados, pois que havia falta absoluta de provas, alguns dos desgraçados de Belem. Parece-nos isso incontestavel, mas não sabemos se devemos attribuir todas as culpas a Carvalho. Pesa ainda um grande mysterio n'esse periodo da nossa historia, e nenhum dos escriptores que d'elle se occuparam, trouxe a lume todos os documentos que podessem lançar luz n'este drama tenebroso.»

Depois da citação d'estes periodos, arrancados á Historia de Portugal, do sr. Pinheiro Chagas, e que por isso mesmo devem ser insuspeitos á camara, peço licença para referir um facto, que é um traço anecdotico da vida de Bocage, mas que me parece vir a proposito.

Bocage tinha sido recebido em casa de Thomé Barbosa de Figueiredo, que lhe dava a mais cordeal e franca hospitalidade, que lhe fazia offerecimentos de dinheiro, que lhe proporcionava, finalmente, todas as condições de bem-estar.

Thomé Barbosa de Figueiredo sentia-se muito honrado com a co-habitação de Bocage, e Bocage parecia ter chegado ao ideal da sua felicidade. Comtudo, uma bella manhã, Bocage bateu á porta do quarto do seu amigo, e disse-lhe que agradecia todos os obsequios que lhe havia proporcionado, mas que era obrigado a retirar-se.

—Por que? perguntou-lhe Figueiredo.{57}

—Por que conheço os seus defeitos e sinto uma invencivel necessidade de dizer mal d'elles, e de si.

A respeito de Sebastião José de Carvalho e Mello póde dizer-se a mesma cousa, porque todos aquelles que mais enthusiastas se revelam por elle, esses mesmos são obrigados a notar-lhe graves defeitos, e eu vou citar á camara ainda algumas palavras do meu illustre amigo, o sr. Pinheiro Chagas, nos seus Portuguezes illustres. Cito a obra, para tornar mais veridica a citação:

«Mas o patibulo de Belem, a alçada do Porto, a fogueira de Malagrida, o supplicio atroz de João Baptista Pelle, clamam alto contra o marquez de Pombal

Eis aqui a applicação da anecdota de Bocage. Ella explica, a meu ver, eloquentemente, o que se está passando n'este momento com relação ao marquez de Pombal.

Como a iniciativa do centenario partisse da mocidade academica, o governo viu por ventura, e principalmente, no marquez de Pombal, o reformador dos estudos, e propoz uma estatua em sua honra.

É certo, sr. presidente, que eu entendo que as estatuas devem ser para os legisladores, por isso que são frias, austeras como elles.

Para os grandes artistas, para os grandes pintores, para os grandes poetas, para os grandes oradores e para os generaes victoriosos cuido eu que devem ser as ruidosas ovações populares, as solemnes deificações publicas e augustas, os imponentes cortejos civicos, os arcos de triumpho, ondeantes de galhardetes inquietos, n'uma palavra, a monumental apotheose das ruas e das praças, como ha pouco teve Camões.

José Estevão, sr. presidente, está ainda muito mais vivo e completo nos seus discursos parlamentares, que remurmuram nos eccos saudosos d'esta casa, do que na estatua fria e severa que se levanta ali fóra, em frente d'este edificio, que elle glorificou com a sua palavra.{58}

Camões é muito maior nos Lusiadas do que na estatua do Loreto.

Mas, emfim, o governo não se furtou á corrente pombalina que partia da iniciativa particular, academica ou não academica, para se erguer uma estatua ao marquez de Pombal, e é d'isso que se trata n'este projecto.

O governo foi accusado aqui pelo sr. Pinheiro Chagas de concorrer apenas com uma simples esmola para a celebração do centenario. O governo, sr. presidente, não dá tão pouco como ao sr. Pinheiro Chagas se afigura, e eu n'este ponto fui prevenido em grande parte pelo discurso do illustre deputado sr. Emygdio Navarro, visto que a palavra, por infelicidade minha, me chegou tão tarde.

Já aqui se disse que nos nossos arsenaes não havia bronze inutilsado em quantidade sufficiente para a estatua, porque d'esse metal existiam umas antigas peças de alma lisa que têem sido ultimamente transformadas em peças raiadas.

Póde dizer-se que não ha bronze nenhum inutilisado nos arsenaes, e por isso o governo, por muito pouco que se proponha gastar, não gastará menos de 6:000$000 réis, justamente n'uma época em que se está pedindo ao povo o sacrificio de novos impostos sobre generos alimenticios de primeira necessidade.

Alem de que, tendo a praça destinada para a collocação da estatua, na Avenida da Liberdade, um raio de 100 metros, é forçoso que a estatua do marquez de Pombal tenha dimensões iguaes á de José I, ou quasi as mesmas, circumstancia a que não devemos deixar de attender, visto que somos chegados á parte menos attraente d'esta discussão, o capitulo das despesas a fazer.

Levantem-se, porém, estatuas, sr. presidente; seja-me comtudo licito exprimir o desejo de que quem quizer levantar estatuas, as pague.{59}

Sabe v. ex.ª o que aconteceu ha annos no Porto? Isto a proposito de estatuas, de monumentos.

Os proprietarios da fabrica de estamparia do Bolhão, n'aquella cidade, tinham um grande culto pelo sr. D. Pedro V, de saudosa memoria. Pois quando morreu D. Pedro V, a fabrica de estamparia do Bolhão, no Porto, mandou erigir-lhe á sua custa um monumento.

Uma familia de Braga, a familia Cunha Rebello, que tinha igualmente uma grande veneração por aquelle monarca, mandou levantar-lhe um novo monumento, sem que se lembrasse de recorrer ao estado, para que a auxiliasse na realisação do seu emprehendimento.

E ainda ultimamente, no Algarve, se levantou um monumento, creio que a um medico illustre, por iniciativa particular.

Eu entendo, sr. presidente, que precisamos pôr cobro a esta paixão pelos centenarios e pelos monumentos, que já se vae tornando demasiadamente extensa.

Quer v. ex.ª saber o que acontece?

Nós vamos ter centenarios por muitos annos. Até será facil organisar um kalendario sob esse ponto de vista. Quer v. ex.ª ver? Eu peço a attenção da camara...

Vozes:—Ouçam, ouçam.

O Orador:—Em 1885 teremos o setimo centenario de Affonso Henriques.

Este vale bem uma festa nacional, creio eu.

Em 1887 teremos o centenario de José Anastacio da Cunha, uma das victimas mais illustres da inquisição em Portugal.

Em 1892 temos o centenario de Luiz Antonio Verney, e é justo celebrar-se o centenario d'este reformador litterario, tendo-se celebrado o do marquez de Pombal, que o encarregou de negociações em Roma para a abolição da companhia de Jesus.

Em 1895 teremos o centenario de Martinho de Mello e Castro, que coadjuvou as reformas de Pombal, a quem aliás não era affeiçoado.{60}

Em 1897 teremos o bicentenario do padre Antonio Vieira.

Em 1915 teremos o quarto centenario de Affonso de Albuquerque.

Em 1924 teremos o quarto centenario de Vasco da Gama.

Em 1928 teremos o centenario de Brotero.

Em 1931 o quinto centenario de D. Nuno Alvares Pereira.

Em 1949 o terceiro centenario de João Pinto Ribeiro.

Em 1954 teremos o centenario de Garrett.

Em 1960 teremos o quinto centenario do infante D. Henrique.

Em 1977 teremos o quarto centenario de Pedro Nunes, o celebre inventor do Nonio.

Em 1993 teremos o quinto centenario do infante D. Fernando. (Vozes:—Muito bem).

E assim por diante.

Páro por aqui para não abusar da paciencia da camara, e mesmo porque da continuação d'esta lista espero que algum dia se encarregarão os meus netos ou os seus filhos...

Sr. presidente, o sr. Pinheiro Chagas falou aqui do 24 de julho e disse que, se ha familias ainda maguadas pela memoria da administração do marquez de Pombal, tambem o 24 de julho é uma festa que entristece profundamente muitas familias portuguezas.

Mas isto, a meu ver, prova simplesmente que D. Pedro IV, por uma excepção historica, andou mais depressa do que o marquez de Pombal, cumprindo tambem notar que a idéa que o 24 de julho significa recebeu já a sancção official, porque está traduzida n'uma fórma de governo, e eu não creio que um paiz conserve uma fórma de governo que inteiramente lhe repugna.

Não posso affirmar á camara se o dia 8 de maio irá ou não cobrir de luto muitas familias; mas a prova de que as paixões estão ainda muito vivas e accesas é que{61} alguns dos conferentes, que se têem occupado do assumpto do centenario do marquez de Pombal, têem ouvido, por entre o ruido das ovações, corajosas demonstrações de desagrado.

Faça-se a festa, em todo o caso, visto que o governo entende não se dever oppor a ella nem deseja conservar-se indifferente, mas faça-se a festa com ordem e com moderação.

Estes creio eu que são os votos de toda a camara.

Finalmente, sr. presidente, a estatua erigir-se-ha. Mas a estatua, se não diminue, tambem não augmenta, a meu ver, a gloria do marquez de Pombal, reformador dos estudos, protector das industrias e restaurador de Lisboa. Quanto a mim, entendo que significa apenas um acto de deferencia do governo para com as letras, as industrias e a capital.

O marquez de Pombal vive ainda na universidade de Coimbra, nas fabricas da Covilhã, de Portalegre e em muitas outras; vive nos bellos arruamentos uniformes da cidade baixa. Quanto ao mais, esperemos que a justiça se vá fazendo lentamente.

Quando Sebastião José de Carvalho e Mello morreu, D. Francisco de Lemos, que lhe compoz o epitaphio em latim, disse n'elle que a propria academia lhe não quiz resar um requiem; hoje é a academia que lhe quer fazer um triumpho, embora contestado ainda...

Deixemos passar os seculos, e elles talvez façam o mais.

Disse.»

A minha passagem por S. Bento não vale chronica de maior folego.

Rememorei o facto; e mais nada. Cerro por aqui o capitulo. Não tenho pelo parlamento saudades nem desdens. Mas dos homens com quem lá convivi e tratei mais intimamente conservo gratas recordações, e essas quero-as deixar archivadas n'este livro.

P. S. Voltei ao parlamento em abril de 1890, eleito{62} por um circulo do districto do Porto. Tambem d'esta vez não tive que sacrificar carneiros para voltar. Mas que differença! Os homens são quasi todos os mesmos de 1882, poucos a morte dizimou; mas os costumes politicos têem peorado consideravelmente. Ouvi discursos que expludiam como bombas de dinamite, e na tempestuosa sessão de 15 de setembro vi as opposições, pondo de parte a eloquencia, levantarem conflictos de mãos e pés. É a melhor maneira que eu encontro para dizer que houve vias de facto, e pateada. Que differença! que differença!

Decididamente, o maior inimigo do parlamentarismo é... o parlamento.


 {63}

VI

Antonio Rodrigues Sampaio

O maior elogio de Sampaio está precisamente n'esta phrase que todos têem repetido: «É um homem que faz falta.» Fazer falta, n'uma época em que todos julgam servir para tudo, é uma glorificação.

São a rodo os jornalistas e os politicos; em nenhum tempo houve tantos como agora. Desde o artigo de fundo até á pasta vae augmentando todos os dias o formigueiro dos homens celebres, que pretendem caminhar para o poder carregados, como as formigas, com o peculio do seu trabalho ou das suas honras vans. Pois no meio d'esta enorme concorrencia, n'esta conflagração geral de pretensões e vaidades, os mais egoistas e os mais vaidosos são os primeiros a confessar que Antonio Rodrigues Sampaio faz falta.

E assim é.

Faz falta, porque era um homem superior, tinha o seu logar na imprensa e na politica, chegou a elle sem pressa e sem impaciencia, não pisou ninguem, não{64} acotovelou os invejosos, foi andando e parando, e quando chegou ao apogeu das honras sociaes já toda a gente o esperava lá, todos reconheciam que devia ahi chegar, e alguns, os mais justos, estranhavam que não tivesse chegado mais cedo.

Tendo um passado politico, foi ministro depois de o ter. No nosso paiz isto é raro. Muitos escalam o poder pela trapeira; elle entrou pela porta da rua, e da primeira vez que foi ministro (1870) não passou do patamar da escada. Outro qualquer, n'essas circumstancias, em lhe dizendo que lá em cima, no primeiro andar, estava a dictadura, haveria galgado os degraus quatro a quatro, para que se lhe não escapasse a occasião de ser dictador como Cesar. De mais a mais, tendo por guarda-costas a espada prestigiosa do marechal Saldanha, poucos fariam o que elle fez: pôr o chapeu na cabeça e sair.

Tinha luctado pela liberdade; repugnava-lhe firmar-se no poder pela dictadura. Mas de que modo elle havia luctado! Como um forte, um valente, um athleta; os nossos revolucionarios de hoje são ridiculos se os medimos com Sampaio. Quanto a nós, essa é a phase mais gloriosa de toda a sua vida. Com a sua penna e a sua coragem, elle só, deu que fazer ao governo dos Cabraes. O ministerio empregava todos os meios ao seu alcance para supprimir o jornal e inutilisar o jornalista. Andavam açulados os Argus da espionagem ministerial no empenho de farejar o esconderijo de Sampaio, e, durante quasi um anno, esse jornal, tão perseguido officialmente, apparecia em toda a parte, até dentro das pastas dos ministros!

Os revolucionarios de hoje seguem um caminho muito mais commodo: mediante uma estampilha de dois réis e meio fazem-se lêr pelas suas victimas.

Depois da perseguição, da caça ao jornalista por parte do governo, vieram as tentativas de suborno. Sampaio repelliu-as nobremente. Appellou-se para a{65} provocação. Sampaio foi reptado: bateu-se em duello. Era um homem, um verdadeiro homem de lucta. E, quando o conde de Thomar caiu, quando para Sampaio chegára a hora de receber a féria, recusou ao ministerio Palmella todas as vantagens que este lhe propunha. D'isto não ha hoje; o ultimo exemplar d'esta raça de homens foi ha annos sepultado no cemiterio dos Prazeres. Eis o seu epitaphio, a sua glorificação:

Faz falta.

Tendo conhecido os homens e os tempos, tratando de perto todas as vaidades irritantes e todas as ambições irritadas, conhecendo bem o mundo, atravessava-o com a serena philosophia do seu bom humor habitual, por que o bom humor era n'elle uma philosophia.

O marquez de Caraccioli chamava a isto gaieté philosophique, alegria philosophica; pois seja. «Feliz o homem, diz elle, que contente com a sua sorte e com o seu paiz, procura tornar-se a vida agradavel por uma maneira de pensar que, permanecendo inalteravel, repelle os pesares como tentações, e só procura os objectos consoladores. É por um tal sistema de felicidade que se consegue resistir ás impertinencias e aos soffrimentos, e eis aqui por que eu chamo alegria philosophica a esse contentamento da alma, que se não altera nem pelos remorsos, nem pelas inquietações.» Os espinhos do poder! repetia muitas vezes Sampaio, isso é apenas uma metaphora. E tinha razão, porque elle exercia o cargo de ministro de estado com a mesma alegria philosophica, a mesma honestidade tranquilla com que exercia todos os outros cargos. Sentindo-se velho e pesado, apreciava sobremodo o poder andar de trem. Era, depois de cair, que elle começava a achar os espinhos da lenda, por se ver obrigado a passar do trem para o americano. Dizia-o muitas vezes, rindo.

Rindo, desarmava a colera dos adversarios, que acabavam rindo tambem. J'ai ri, me voilà désarmé. Rindo, sabia perdoar. Ninguem o podia tratar de perto sem{66} ficar sendo seu amigo. Na vida intima, poucos homens haverá tão bondosos, tão infantilmente bons. Custava a comprehender como esse velho placido e alegre, cheio de bonomia e de serenidade, se transmudava de um momento para o outro no ardente articulista da Revolução de Setembro, semeando ás vezes resentimentos pessoaes que poderia ter evitado.

De uma vez certo titular vieille roche foi pedir-lhe um favor politico.

—Custa muito, dissera elle a Sampaio, andar por aqui a pedir favores de chapeu na mão.

—Pois ponha-o na cabeça e fale, respondeu Sampaio.

Um politico muito conhecido em Lisboa e na provincia procurou Sampaio para se oppôr ao despacho de um governador civil.

Sampaio respondeu-lhe:

—Meu caro amigo, você já governa em vinte districtos; consinta ao menos que o ministro do reino governe n'um.

Eu, que acabava de passar tormentosamente pela vida administrativa, combati algumas disposições do codigo de 1878 n'um capitulo do livro intitulado Viagens á roda do codigo admistrativo.

Quando em 1881 alguns amigos de Sampaio e meus apoiavam a minha candidatura pelo circulo de Sinfães, Sampaio, consultado a esse respeito, foi á sua bibliotheca buscar o livro e disse com bondosa tranquillidade:

—Elle zangou-se muito comigo por causa do codigo, mas eu não me zangarei com elle por causa do circulo. Que venha á camara, e ficaremos amigos como d'antes.

A minha eleição foi causa indirecta da transferencia de um empregado. Passados dias, estava eu já eleito, Sampaio mandou-me chamar pelo seu correio.

Fui immediatamente saber o que elle queria.{67}

—Dei corda para me enforcar, disse-me abruptamente Sampaio.

—Por que? perguntei eu muito intrigado.

—Por que, meu caro amigo, as influencias locaes, que o elegeram, mandaram de casa mudada um afilhado meu.

—Mas, conselheiro, eu fui estranho a tudo isso.

—Tambem eu. Agora, mandei-o chamar para que trate de remediar o mal que está feito. Vá ter com o ministro F. e combine com elle o remedio.

Assim fiz; assim se fez.

Deve notar-se que Sampaio era então presidente do conselho de ministros.

Na imprensa, Sampaio respondia a todas as accusações, e a todas as injurias.

Pouco antes de morrer andava em discussão accesa com Eduardo Tavares, que redigia então as Instituições.

Certo dia as Instituições chamaram a Sampaio pedaço d'asno, com todas as lettras.

No centro regenerador discutiu-se á noite se Sampaio tambem responderia a isto ou se deixaria de responder. Eu apostei que responderia. No dia seguinte corri a ler a Revolução de Setembro. O artigo de Sampaio principiava assim: «O homem das Instituições chamava-nos hontem pedaço do seu todo

Soberbo!

Talvez por ser alegre foi que logrou conservar-se forte na velhice. L'homme gai ne vieillit point, et paroit toujours se bien porter, observa o marquez de Caraccioli. Os artigos da Revolução punham bem em evidencia esta verdade. Sampaio até no ataque era jovial; ria combatendo. E os seus profundos conhecimentos de latinidade traziam-lhe á memoria e á mão, a maior parte das vezes, citações que elle aproveitava habilmente para acerar a mordacidade com que sabia rir da má situação em que deixava os adversarios politicos, ou em que elles proprios se collocavam.{68}

Em 1881 foi feito dictador como Sganarello foi feito medico, malgré lui. Mas nas suas mãos a dictadura foi uma arma completamente inoffensiva; depois de cobrar os impostos partiu-a, atirou com ella para o mesmo armario em que a havia fechado em 1870. Estava-se em dictadura, e ninguem dava por isso. O dictador Sampaio distraia-se ás noites no Passeio Publico, e dizia como o feroz Sylla ao povo: «Lisbonenses, aqui estou para vos dar conta do sangue derramado.» E o povo deixava-o estar. Sabia que era um homem bom, e ninguem receia a dictadura de um homem bom.

*
*     *

No delirio, que precedeu a morte, Sampaio disse: «É preciso defender a monarchia.»

Esta phrase, na bocca do velho liberal moribundo, deve ser recebida como um evangelho.

Quando uma idéa nos tem preoccupado vivamente o cerebro, até no sonho nos avassala. O delirio da febre deve ser alguma coisa de nebuloso e de vago como o sonho, e o pensamento constante de toda a nossa vida deve enlear-se-nos no espirito, em spiraes dominadoras, tanto mais apertadas quanto mais o espirito lucta para desembaraçar-se e partir.

Sampaio foi toda a sua vida um ardente partidario da realeza. A monarchia havia saido ungida, sagrada do baptismo da liberdade. Sampaio guerreava à outrance o ministerio de 1846, porque entendia que esse ministerio, apoiando-se na força e na oppressão, desvirtuava a idéa de liberdade que na Europa progressiva servira de base á reconstrucção monarchica.

Se depois do estabelecimento do regimen constitutional a monarchia se desprestigiasse prematuramente, seria um sistema perdido, uma fórma de governo apodrecida antes de amadurecer. Como adversario valoroso{69} do antigo regimen, Sampaio combatia as ultimas raizes do absolutismo que tinham ficado ainda arraigadas em derredor do throno constitucional.

Depois da organisação regular dos partidos politicos, Sampaio foi sempre um monarchico, e muitas vezes atiçava a lucta jornalistica entre esses partidos, porque perfeitamente comprehendia que sem lucta partidaria as fórmas de governo degeneram na tirannia ou na anarchia: ou uma só facção dispõe de todos e de tudo, ou todos governam em tudo. Elle claramente percebia que a divisão dos partidos é um elemento de fiscalisação e de estimulo na gerencia dos negocios publicos, e de correcção e aperfeicoamento para o regimen estabelecido.

Grande parte da sua vida passou-a n'essas luctas, em interesse da monarchia. Frequentando o paço, foi sempre um monarchico, nunca foi um aulico. Para os monarchicos sinceros é esse um justo-meio difficil de conservar. Elle nunca o ultrapassou.

Mas para a sua velhice estava guardado o espectaculo do conflicto pela inversão violenta dos principios estabelecidos, pela postergação desordeira dos direitos sociaes, pelo desacato ás leis vigentes do reino, e pela irreverencia ás garantias que o codigo fundamental do estado concede a todos e a cada um.

Sampaio viveu muito; viu muito.

Ainda teve tempo para vêr isto. E como n'esta hora morria, era com essa idéa que sonhava no delirio da febre: «É preciso defender a monarchia.»

E é.

Os campos politicos estão claramente definidos, nitidamente demarcados: monarchicos a um lado, inimigos da monarchia a outro lado.

Os meios, que os nossos adversarios escolheram, são de sua inteira responsabilidade: nada temos com isso. Empreguemos nós os nossos, purifiquemos os nossos costumes politicos, procuremos fazer uma administração{70} rigorosa, firmar o credito nacional, velemos á porfia pelo exacto cumprimento da lei, melhoremos as nossas escolas e as nossas industrias, aproveitemos os serviços dos homens de boa vontade que nos offerecem a sua cooperação, e veremos depois quem triumpha.

Mas para que o consigamos é preciso não adormecer: é preciso defender a monarchia.


 {71}

VII

A livraria de Sampaio

Não ha nada que me entristeça tanto como assistir ao leilão de uma livraria, e comtudo attraem-me sempre esses espectaculos que me são dolorosos, e que se repetem em Lisboa quasi todos os dias.

São ordinariamente duas as causas que determinam este genero de leilões: a pobreza ou a morte. Qualquer d'ellas faz uma profunda impressão a todos quantos estimam os livros, não para os revender com lucro, mas para os ler com interesse. Os livreiros de profissão assistem a um leilão de livros com a indifferença profissional com que um medico assiste a uma operação cirurgica, e um enfermeiro á agonia de um moribundo. Estão á vontade, de chapeu na cabeça, fumando, commentando na giria do negocio o que se vae passando em torno d'elles, mas acompanhando sempre, com um fino olhar de raposa, a apparição dos livros e os movimentos do leiloeiro. E para um lado: Comprou bem; para outro lado: Comprou mal; ou, para um espectador{72} que lhe diz:—Quem comprou bem foi o senhor,—como se um livreiro pudesse comprar mal algum dia: Acredite que não ganho senão a encadernação.

Trata-se ás vezes de um livro, de uma obra que foi por muitos annos talvez o ideal d'esse pobre bibliophilo fallido ou fallecido. Não a podia comprar por ser pouco vulgar no mercado ou muito elevado o seu preço; mas pensava n'ella muitas vezes, tinha ciumes dos que a possuiam, corría todos os alfarrabistas a procural-a, havia muitos annos; fez porventura um grande, um enorme sacrificio para a comprar, mas finalmente achou-a, adquiriu-a, teve n'isso uma extraordinaria alegria, mostrava o seu thesouro com orgulho: Veja lá isto! Que me diz a isto?—uma edição muito bem conservada, uma verdadeira preciosidade!

Ha bibliophilos, honrados para todas as coisas d'este mundo, excepto para os livros. A Victor Cousin emprestaram de uma vez um manuscripto de Mallebranche. Reclamaram-lh'o; deu desculpas. Apesar de Cousin ser n'essa occasião ministro da instrucção publica em França, o dono do manuscripto mandou-lh'o pedir categoricamente. Cousin recusou-se a restituil-o. «Mas o manuscripto foi apenas emprestado, disse o intermediario; o dono exige-o, tem o seu direito.» «Sim, respondeu Cousin, elle tem o seu direito, mas eu tenho a minha paixão.» Nós cá, em Portugal, tambem temos bibliophilos d'este feitio, que se desculpam com a sua paixão, e vão ficando com os livros dos outros.

Livre preté, livre perdu, diz um proverbio francez. Os proverbios são filhos da experiencia, e convém por isso respeital-os. Gifanius respondeu uma vez a Gaspar Schopp, que lhe pedia emprestado um manuscripto de Simmaco: «Pedir-me emprestado o meu Simmaco! É como se me pedisse emprestada minha mulher!»

Uma livraria é um edificio que se constroe lentamente, dia a dia, e a que o proprio constructor não chega nunca a pôr a cupula. Por muito longa que seja{73} uma vida, toda ella se gasta a fazer uma bibliotheca, que se deixa sempre incompleta no momento em que a vida foge. Se essa bibliotheca é de livros antigos, se é classica, por muito que o bibliophilo investigue o passado, não consegue, á força de canceiras e dispendios, reconstruir toda a litteratura dos seculos que o antecederam. Ha sempre um thesouro encanado que elle não póde descobrir, que não póde achar. Se é moderna, é tão precipitado, tão febril o movimento litterario de nossos dias, que não seria possivel acompanhal-o ainda quando elle se não perdesse de vista um momento.

Pois bem. Esse edificio architectado dia a dia, hora a hora, com uma perseverança apaixonada, com um enthusiasmo sempre vivo, com uma fé sempre nova, e muitas vezes, por uma cruel sentença da sorte, desmoronado pela propria mão d'aquelle que o erigiu, e que primeiro despedaça o coração antes de derrubar a sua obra querida. Um dia vê-se obrigado a vender os seus livros, a atirar—elle mesmo!—esses volumes, tão amoravelmente guardados e lidos, para as mãos mercenarias dos livreiros—os gatos pingados da bibliographia—que fazem todos os funeraes das livrarias com a mesma indifferenca com que os outros arrancam os cadaveres do interior de cada casa para os irem despejar na voragem do cemiterio.

«Amigos, dizia Scaligero, quereis conhecer uma das grandes desgraças da vida? Vendei os vossos livros.»

Quasi todos os bibliophilos são ciosos dos seus livros; não consentem que ninguem lhes toque, muitos não querem que ninguem os veja. O cardeal Passionei tomou para o seu serviço um bibliothecario ignorante, e dava a razão d'isso: «A minha bibliotheca é o meu serralho: portanto, faço-a guardar por um eunuco.»

Mas se o bibliophilo se vê obrigado a vender os seus livros, a noticia de todos esses thesouros misteriosos, a revelação de todo o segredo da sua riqueza litteraria vae ser assoalhada em longos catalogos impressos, que{74} se espalham de graça, com uma publicidade profana, e esses proprios thesouros vão ser expostos a um publico de amadores e de vendilhões, de interessados e de interesseiros, que caem famintamente sobre elles, que os devoram com o olhar, que os disputam na praça, como se se tratasse apenas de uma barregã que se offerece ao publico, e se vende a quem mais der.

Até ahi, esses livros eram outras tantas vestaes, que alimentavam o fogo sagrado do espirito. Com ellas ninguem communicava profanamente. Só o sacerdote d'aquelle templo exercia o culto, n'um misterio impenetravel, como o da festa da Bona Dea na Roma antiga. Mas uma chusma de Clodios ousados e sacrilegos invade o santuario, desacata-o, profana-o, commette um sacrilegio atroz, e as vestaes de outr'ora volvem-se Messalinas, offerecem-se do alto das estantes, com uma crua impudicicia mercantil, á cupidez daquelles que não duvidam abrir a bolsa para satisfazer um capricho da sua phantasia.

Mas n'um leilão de livros, que se faz pela morte do seu dono, a profanação é ainda maior—talvez!

Pensei n'isto durante o leilão da bibliotheca de Antonio Rodrigues de Sampaio.

Este homem que a posteridade não poderá esquecer, comquanto houvesse nascido obscuro, chegára no seu paiz ás mais altas honras politicas, fôra ministro varias vezes, e, pouco tempo antes de morrer, presidente do conselho de ministros.

Á porta da sua casa—aquella mesma casa—ordinariamente fechada, batêra muita gente, timidamente, respeitosamente, para solicitar de Sampaio um favor. Todo o pretendente era introduzido por um criado na saleta, e ahi esperava, com o coração ancioso, que apparecesse, com o seu grande ar de bonomia, o velho Sampaio. Elle sabia bem o que era ter começado de baixo, ter entrado pela porta, ter subido degrau a degrau, e, ordinariamente, não se fazia esperar muito.{75}

Apparecia, pois, levantando o reposteiro de uma pequena porta á esquerda: era a sua livraria. Estava ali sempre, quasi sempre, de dia. Á noite, recebia os seus intimos, e tomava regaladamente o seu chá, com o guardanapo ao pescoço, como um bibe, mostrando-se guloso por bolos finos.

Pois desde que o leilão começára, a porta da rua estava aberta de par em par, escancarada, franca para todos os que passavam, e que subiam á vontade, falando uns com os outros, rindo, não encontrando criado algum que lhes tomasse o passo, não vendo em logar nenhum o correio do ministro do reino, que por tantos annos fez estação n'aquelle portal—ninguem, nem uma só das pessoas que tambem por tantos annos habitaram n'aquella casa.

A saleta estava quasi despida. As cortinas apanhadas, arregaçadas; das antigas alfaias apenas restava o candieiro de cristal. No sitio onde estivera o piano, entre a janella e o escriptorio, havia um grupo de bibliophilos que esperavam o principio do leilão. Á porta do escriptorio, estava atravessada uma longa mesa, a que os livreiros abancaram. Enquadrada na porta, a ampla figura do pregoeiro, que mascava um charuto, emquanto, dentro, os seus ajudantes preparavam os livros que primeiro haviam de ser postos em praça.

N'uma palavra, a morte profanára aquelle recinto que estava, para assim dizer, impregnado da individualidade de Sampaio. Havia em tudo aquillo um ar de terrivel devastação; parecia que o vento ardente do deserto passára por ali resequindo o coração de quantos haviam conhecido Sampaio. Sentia-se o simoun da morte que, ao passar, derrubara as alfaias e os livros, muitos dos quaes estavam amontoados no chão...

Não havendo catalogo impresso, o publico não sabia o que ia comprar. Esperava um pouco ao acaso que passasse por diante de si um livro bom; por isso, quando cada volume apparecia, as pessoas que estavam{76} sentadas levantavam-se para vel-o, as que estavam em pé estendiam curiosamente o pescoço para ler-lhe o titulo—ao menos.

Sampaio sublinhava a lapis algumas passagens dos seus livros.

No leilão, vendeu-se um exemplar dos Sophismas parlamentares, de Bentham, edição de 1840, prefaciada por Elias Regnault. Arrematei-o para offerecel-o a Julio de Vilhena, que tinha sido collega de Sampaio no ministerio de 1881. Em muitas paginas d'esse livro ha traços sinuosos, rapidamente lançados, denotando certamente que Sampaio estava lendo com interesse e que, desejando marcar um pensamento original, não queria retardar a leitura. Commentava mais com o espirito do que com o lapis; deixava apenas no papel um rapido signal indicativo para facilitar a busca.

Traduzirei alguns dos pensamentos sublinhados por Sampaio.

No prefacio de Regnault estão marginados todos os que se referem ao poderio politico da imprensa. Por exemplo: «Á imprensa pertence a iniciativa; á camara, a sancção; á imprensa, a invenção; á camara, a realisação.» «Antigamente, as communas tinham um simples direito de petição para obter a reparação dos aggravos, hoje, a imprensa é uma petição perpetua.»

No texto, estão sublinhados, além de outros, estes pensamentos de Bentham:

«Entre individuos que vivem no mesmo tempo, e na mesma situação, o que é velho possue, por esse motivo, mais experiencia do que o novo. Mas entre duas gerações, posto se chame velha á geração que precede outra, não se póde sustentar que tenha mais experiencia do que a que lhe succede.

«Por conseguinte, reconhecer como mais velhas as gerações primeiras, é cair n'um erro tão grosseiro como o de chamar velho a uma creança de berço.

«Qual é, pois, a sabedoria d'esses tempos denominados{77} velhos? É a sabedoria dos cabellos brancos? Não, é a sabedoria dos moços imberbes.»

«Um homem morto não tem rivaes, e não faz sombra a ninguem. Não se encontra no caminho com os ambiciosos; e estes, mudando repentinamente de linguagem, dão-se, louvando-o, uns certos ares de justiça e benevolencia, que não lhes custam nada. O respeito pelos mortos fornece-lhes occasião de satisfazerem o seu odio pelos vivos.»

«Deante d'este talisman (a imprensa) desappareceram de vez os diabos, os espectros e os vampiros. A agua benta fez-lhes muito menos mal que a tinta de imprimir.»

Ainda mais alguns aphorismos:

«Uma opinião insensata leva a um procedimento insensato; um procedimento insensato produz crueis desastres; d'esses desastres vem o mais util ensinamento.

«É pois, á loucura dos nossos antepassados, e não ao seu saber, que se deve pedir conselho; e é por isso que os sophistas invocam sempre a sabedoria dos velhos.»

«Em resumo, toda a formula que coarcta a soberania é absurda; toda a lei que a si mesma se declara irrevogavel, é perigosa.»

«Qualquer lei, feita em dadas circumstancias, não póde durar mais do que essas circumstancias.»

«A resistencia não é um direito; o triumpho, sim. Resisti, e Blackstone vos condemnará; mas triumphae resistindo, e Blackstone vos adorará.»

De quantos livros se venderam no leilão Sampaio, um dos mais annotados era com certeza a Histoire des origines du gouvernement representatif en Europe, de Guizot, edição de 1851. Duas passagens d'esta obra, sempre notavel, estavam marginadas por abreviaturas, que não pude entender. Mas as sublinhas a lapis são tão frequentes, sobretudo em certas passagens, que chegam a tracejar toda a pagina.

Um dos trechos sublinhados é o que respeita á theoria da soberania:{78}

«A idéa mais geral, que se póde procurar n'um governo, é a sua theoria de soberania; isto é, a maneira por que elle concebe, colloca, e attribue o direito de dar e de fazer executar a lei na sociedade.

«Ha duas grandes theorias de soberania.

«Uma procura-a e colloca-a nas forças reaes que existem sobre a terra, qualquer que seja a força: povo, monarcha, ou principaes do povo. Outra sustenta que a soberania de direito não póde existir na terra, e não póde ser attribuida a força alguma, porque não ha força terrestre que conheça e queira inalteravelmente a verdade, a razão e a justiça, unicas fontes da soberania de direito, que devem regular a soberania de facto.

«A primeira theoria de soberania funda o poder absoluto, seja qual fôr a fórma de governo. A segunda combate o poder absoluto sob todas as fórmas, e não reconhece em caso algum a sua legitimidade.

«Não se diga que qualquer d'estas theorias reina exclusivamente nos diversos governos. Ao contrario, misturam-se n'uma certa medida, porque não ha nada que seja completamente destituido de verdade nem inteiramente isento de erro. Todavia é sempre uma ou outra que predomina em cada fórma de governo, e que póde ser considerada como seu principio.

«A verdadeira theoria da soberania, isto é, a illegitimidade radical de todo o poder absoluto, quaesquer que sejam o seu nome e logar, é o principio do governo representativo.»

O estudo feito sobre as passagens sublinhadas ou annotadas por Sampaio é altamente curioso como elemento critico para a caracterisação historica do annotador.

Não foi, porém, isso que desejamos fazer. Propuzemo-nos apenas lançar no papel as impressões que nos deixou o desmoronar da sua livraria. Ellas ahi ficam expostas com a sinceridade que sempre tivemos para com o illustre jornalista, e que elle sempre teve para comnosco.


 {79}

VIII

Saraiva de Carvalho[5]

O scenario era triste.

A atmosphera estava de uma dureza sombria. Uma chuvinha miuda, como se caisse de um crivo, parecia cristalisar em missangas na copa dos chapeus de feltro, nas barretinas dos soldados, e nos tricornes dos cocheiros das berlindas. Das arvores do cemiterio dos Prazeres, e da cimalha do portico, escorriam gottas de agua como lagrimas. O Tejo, visto da explanada, estava crespo e amarello, erriçado de pequenas ondas revôltas e torvas. O povo, n'uma attitude respeitosa e concentrada, esperava. Algumas senhoras erguiam os seus chapeus-de-chuva franjados de rendas de orvalho, que se desfaziam e renovavam a cada momento.

Finalmente, a cruz alçada appareceu, precedendo duas filas de padres, cujas sobrepelizes pendiam, amolecidas{80} pela chuva, sem brilho e sem consistencia. Atrás, a urna de mogno, que continha os restos mortaes de Saraiva de Carvalho, caminhava vagarosamente, n'uma oscillação solemne, através de um silencio lugubre.

Nada mais triste do que o enterro de um homem novo, sobretudo quando esse homem vivera pelo espirito nas luctas do talento.

A velhice é uma justificação da morte. Ella tem, com effeito, o direito cruel de matar. Ninguem lhe pergunta por que o fez. Reconhece-se que a sua missão é extinguir e decompôr. Lamenta-se o facto, mas ninguem se revolta contra elle. De mais a mais, as longas existencias deixam após si uma extensa chronica, cheia de opisodios, de alternativas, de cambiantes e de anecdotas. Recordal-as, é desviar por momentos a attenção para um assumpto menos triste do que a morte; é fugir do facto material do aniquilamento para o mundo pittoresco da imaginação, que se compraz em reconstruir épocas passadas, em resuscitar homens que já não existem, e que foram no seu tempo o mobil ou os actores de acontecimentos importantes na politica, na litteratura, nas sciencias, nas artes, na industria, no commercio ou nos salões elegantes da sociedade.

Deante, porém, do cadaver de um homem novo, o espirito encontra n'esse mesmo espectaculo motivos de sobejo para accusar a morte por ter invadido os direitos da velhice e por haver, como um tigre, surprehendido por assalto uma victima desprevenida e tranquilla. Depois, os que morrem novos deixam uma pequena biographia, por maior que haja sido o seu talento e o seu poder. Á beira do seu tumulo, todas as attenções se fixam n'elle; a imaginação não encontra um passado bastante longo para se demorar reconstruindo-o. De modo que, á força de olharmos para o cadaver, sente-se mais o frio da morte e o effeito terrivel da sua devastação prematura...{81}

Saraiva de Carvalho, tendo morrido com quarenta e tres annos de idade, foi tres vezes ministro. Não basta isto para o julgarmos velho na politica, e para imaginarmos que elle tivesse concluido a sua missão de homem publico. Longe d'isso. Para nós, francamente o dizemos, o seu periodo de verdadeira gloria começava apenas, e as suas qualidades de estadista principiaram a definir-se durante o ultimo dos seus tres ministerios, porque os dois primeiros foram mais uma contingencia da politica do que uma conquista por direito.

Além de que, seriamos injusto se n'um pequeno periodo de nove dias, que tantos foram aquelles em que Saraiva de Carvalho geriu a pasta da fazenda, quizessemos encontrar um profundo vestigio da sua passagem pelo poder em 1869.

Então, era Saraiva, como todos os homens da sua idade, um theorico, um preleccionador, um inexperiente. Vinha do Gremio Litterario, onde mostrára as suas aptidões intellectuaes, que eram já então incontestaveis. Mas a intelligencia, por mais brilhante que seja, precisa amadurecer. Não ha estufas para o espirito. É, pelo contrario, nas intemperies, é nas mil conflagrações da atmosphera social, que elle se robustece e fructifica. Mas, como homem intelligente que era, Saraiva de Carvalho comprehendeu que precisava justificar no futuro a posição honrosa que por nove dias occupára. 1869 era para elle um estimulo, e uma responsabilidade. E como fosse tambem um homem brioso, deixou-se dominar pela idéa fixa de mostrar ao seu paiz que servia para mais alguma coisa do que ser ministro por nove dias, e que o marquez de Sá da Bandeira não fizera emergir nos conselhos da corôa um homem completamente inutil.

Desde o dia em que o ministerio caiu, Saraiva de Carvalho pôz toda a sua energia e toda a sua intelligencia ao serviço d'este nobre pensamento: não recuar. Estudou, trabalhou, perseverou, e os seus partidarios{82} premiaram os seus esforços honrados e justos levando-o de novo ao poder em 1870.

A politica portugueza estava então n'um periodo agitado, que tornava ephemera a vida dos ministerios, e as origens revolucionarias do movimento popular de 1868 deram ás luctas da politica um caracter de ardor e de enthusiasmo que não era decerto o mais conveniente para tornar friamente reflexiva a cabeça de um homem novo.

Saindo pela segunda vez dos conselhos da corôa, Saraiva de Carvalho conservou ainda por algum tempo todo o afôgo que a sua proveniencia politica explicava, e a sua idade mal sabia reprimir.

Nas pugnas da palavra avançava para a brecha, cheio d'essa coragem que chega ás vezes a parecer precipitação, cheio d'esse ardor indomavel que não raro se confunde com a impaciencia. Todavia, ainda quando mais vehemente era nos seus discursos, e houve alguns em que o foi muito, os seus proprios adversarios reconheciam que elle não usurpava o logar de ninguem combatendo na primeira linha de atiradores. Então tinha já conquistado o seu posto de honra, tinha ganho as suas esporas de cavalleiro; não era um intruso, um adventicio; achava-se investido do mais sagrado e do mais glorioso dos direitos—aquelle que o talento confere.

Para ser um completo homem de estado, faltava-lhe todavia alguma coisa, a evolução por que o espirito dos homens passa quando na arvore da sua experiencia o primeiro fructo desponta, e elles levantam a mão para colhel-o.

E na vida de Saraiva de Carvalho esse periodo evolutivo havia chegado agora, definitivamente. Voltando ao poder em 1879, occupára-se dos assumptos da pasta das obras publicas com uma attenção intelligente e com uma grande perseverança trabalhadora. Debaixo do meu ponto de vista politico, não posso concordar{83} com alguns dos seus actos; mas não posso deixar de reconhecer que o seu espirito havia passado por uma transformação fructuosa e largamente promettedora. Como orador, comprehendeu profundamente as exigencias da sua posição official, e modificou-se notavelmente, sobretudo no discurso que como ministro proferira na camara dos pares.

Saindo novamente dos conselhos da corôa, não desmerecera por um só acto ou por uma só phrase, até nas questões mais apaixonadas que se travaram no parlamento, a opinião que em torno do seu nome principiára a formar-se, de que seria um dos homens de estado mais notaveis, mais estudiosos e mais trabalhadores do nosso paiz.

N'estas circumstancias foi que a morte o prostrou. Amigos e adversarios protestaram, n'uma tregua lutuosa, contra a usurpação de uma existencia cuja utilidade todos agora reconheciam. Foi uma dupla perda, em verdade, porque perdemos um homem, e deixamos de ter outro. Sempre que a obra de um homem não está concluida, a sua perda equivale a duas: é um trabalhador que se ausenta, e que não mais voltará. Faz portanto falta ao presente e ao futuro.

*
*     *

Emquanto alguns oradores discursavam junto ao jazigo de Saraiva de Carvalho, dizendo provavelmente coisas bellas, mas por certo muito menos eloquentes do que a imponencia d'aquella grande manifestação funebre feita por todos os partidos politicos militantes, eu pensava, um pouco bercé pela chuva que principiava a cair mais insistentemente sobre a copa do meu chapeu n'um rithmo monotono.

No que pensava eu? Ah! no que pensava eu! N'uma{84} illusão, talvez; e, sob este ponto de vista, não podia achar vocabulo mais expressivo do que o bercer francez, visto que este verbo significa não só o acto material de baloiçar o berço mas tambem o devanear falsas esperanças.

Sobre este tumulo que se fecha agora, pensava eu, bem podiam os partidos politicos monarchico-liberaes sellar com um juramento sagrado um pacto solemne.

Desde muitos annos a esta parte que os homens publicos do paiz andam a insultar-se quotidianamente nas luctas politicas da imprensa e do parlamento.

Primeiro que os indifferentes os amesquinhem, amesquinham-se elles a si proprios. Se se trata de um correligionario, exalçam-n'o ao sete-estrello nas azas d'esse novo Icáro chamado o elogio-mutuo; se, porém, se trata de um adversario, enrolam-n'o dentro d'um novello de adjectivos picarescos, e jogam a pella com elle até o deixar amolgado.

Todos os recem-chegados á imprensa ou ao parlamento conhecem este defeito da politica portugueza, e protestam candidamente contra elle. Dias depois, o mangoal dos adversarios começa a escacar violentamente os ovos de paschoa com que na primeira hora o receberam, e o mais doce rebuçado com que lhe atiram vem sempre embrulhado n'um epitheto tão amavel como cretino ou tão gentil como marinelo.

Algumas semanas depois, o diapasão vae subindo de intensidade, e o sujeito apparece chrismado em tolo com todas as lettras, sendo maiuscula a primeira, para que se veja bem de longe.

Então, a victima começa a sentir picar-lhe nas carnes a urticação da colera, arranca a gravata com que entrára na arena, despe a sobrecasaca, empunha o cacete do seu estilo, e principia a atirar bordoada de cego sobre os contrarios, como um valentão de feira.

E como vá ganhando gosto a este exercicio de jogador de pau, já umas vezes por outras descarrega o{85} fueiro sobre os seus proprios amigos—por engano, é claro.

Segundo os nossos habitos politicos, os jornaes podem fazer-se rapidamente por meio de um cliché inalteravel; estão sempre feitos, e o terem redactores é quasi um luxo.

Referindo-se a um orador governamental, dizem as folhas opposicionistas no dia seguinte:

 

«É incalculavel o numero de babuseiras que o sr. F. teve a ousadia de despejar hontem em pleno parlamento. A verdade andou a pontapés pela sala, e o orador parecia satisfeito de vêr que estava agradando ao governo que lhe encommendou o sermão, talvez para lh'o não pagar.»

 

Mas os papeis invertem-se, se é uma folha do governo que está apreciando um orador da opposição:

 

«A comedia foi bem representada. Como truão, o orador é perfeito. Fingiu-se indignado, bateu murros sobre a carteira, arremessou ao chão varios papeis, e entornou pelas costas de um collega o copo de agua. No fim de contas, para que? Para ver se o governo se intimida, e lhe atira com uma posta gorda.»

 

No meio d'este tiroteio de calumnias e de insidias, uma pneumonia, um tipho, uma apoplexia lembram-se de atirar para o cemiterio um homem da opposição ou um homem do governo.

A mutação de scena é completa, n'este caso.

Toda a gente gasta quinze adjectivos para elogiar o morto, e quinze tostões para o acompanhar ao cemiterio. Cada um empunha reverentemente uma tocha para allumiar o feretro com a mesma mão com que ha dias empunhava a penna para lhe denegrir a reputação. E quando o prior, manejando o hissope, borrifa de agua benta o cadaver, não passa pelo espirito de nenhum{86} dos que ali estão—que lhe fizeram a mesma coisa com tinta de escrever e lama das ruas.

Perante a verdade terrivel dos gatos pingados e da berlinda, diz-se a respeito de um ministerial fallecido:

—Era um homem honrado, e serio. Foi um correligionario dedicado, e o governo não teve coisa nenhuma que lhe désse!

E a respeito de um opposicionista morto:

—Era um homem serio, e honrado. Nunca procurou um ministro para lhe pedir qualquer coisa! Isto é raro hoje em dia...

Dizia com graça um homem politico importante, que se achou de uma vez ás portas da morte:

—Estive tão mal, que já os periodicos começavam a dizer bem de mim!

O que seria se tivesse fallecido! Nem elle podia calcular...

No fim de contas, isto é um paiz de gente honrada. Os ministros saem do poder insultados e empenhados. Toda a gente deve. Todos padecem dôr de colica no dia em que são obrigados a pagar a renda das casas. Os homens mais poderosos na politica ficam arruinados com os direitos de uma gran-cruz, e se teem duas já não podem desentalar-se mais. As repartições de fazenda sabem-n'o bem. Se os delegados do thesouro quizessem, e os seus subordinados obedecessem, a maior parte das familias do paiz ficava arruinada de um dia para o outro.

São rarissimas em Portugal as pessoas que podem adormecer sem que uma espada de Damocles impenda sobre ellas. A penhora é uma ameaça eterna n'este paiz. Mas, em compensação, ninguem se desacredita mais do que os portuguezes, nenhum outro povo parece fazer maior gosto de passar por deshonesto aos olhos de si mesmo.

Ora, a respeito da politica, eu deixava-me embalar por uma doce illusão. Parece-me que ia dizendo isto...{87}

O partido regenerador perdeu, ha dois mezes apenas, um dos seus homens mais importantes e populares. Era o Sampaio da Revolução. Ninguem mais apedrejado do que elle, ninguem mais ferido pelos adversarios. Esse homem morreu, e em volta do seu tumulo fez-se uma enorme manifestação de respeito.

O partido progressista perdeu agora Saraiva de Carvalho, um dos seus mais poderosos esteios. Tambem Saraiva foi muitas vezes aggredido na imprensa, muitas vezes amesquinhado na sua importancia, que era grande.

Sem embargo, ao cemiterio que o recebeu, e que o vae consumir, concorreram, n'uma concentração respeitosa, centenas de pessoas de todas as parcialidades politicas.

Pois bem. Ahi estão dois tumulos que encerram despojos preciosos para qualquer dos dois partidos. Era talvez chegada a occasião de sobre elles fazer um pacto solemne—o de entrar n'uma nova vida politica, de mutuo respeito, e de mutua hostilidade. Para combater os principios, não é preciso combater os homens. Deixemos á rua a lama que lhe pertence, e dêmos a Cesar o que é de Cesar, sem que seja preciso darmos a Deus o que é de Deus, isto é, um cadaver.

Qualquer dos dois grupos politicos acaba de soffrer uma grande perda, qualquer dos dois partidos chora um correligionario; ambos elles estão de luto. Morto por morto, tumulo por tumulo, a dôr nivela as circumstancias em que nos achamos.

Os dois cadaveres jazem no mesmo cemiterio; parece que a Providencia quiz tornar mais eloquente a sua lição fazendo que sobre o campo neutro da morte, sobre o mesmo chão sagrado, regeneradores ajoelhassem deante de um tumulo progressista, progressistas ajoelhassem perante um tumulo regenerador.

Nenhum outro monumento mais bello ou mais grandioso poderia levantar-se em honra dos dois mortos illustres.{88}

—Opporiamos programma a programma, tradição a tradição, doutrina a doutrina, mas quando tentassemos oppôr invectiva a invectiva, injuria a injuria, as flechas disparadas dos arraiaes progressistas encontrariam como barreira o tumulo de Rodrigues Sampaio, os projecteis vibrados do campo regenerador achariam um óbice á sua passagem no tumulo de Saraiva de Carvalho.

Ninguem poderia, em face da calumnia, julgar-se vencedor ou vencido, porque a calumnia não existiria.

N'este pacto, ninguem cederia terreno, ninguem abdicaria direitos: morto por morto, tumulo por tumulo, as condições eram iguaes.


Mas, no fim de contas, gastei um folhetim a prégar no deserto!

Dezembro de 1882.[6]

[5] Foi na camara de 1882 que eu, graças ao feliz acaso de ter ficado vizinho de Saraiva de Carvalho, travei com elle as melhores relações de amizade.

[6] Ha 26 annos que no deserto clamou em vão a minha ingenuidade politica. Successivas lufadas de areia, revolvida por ventos tempestuosos, abafaram a minha voz e cegaram os homens de Portugal. O que desde então até hoje 1908 se tem lido, ouvido e... visto!—NOTA DA 2.ª EDIÇÃO.


 {89}

IX

Fontes Pereira de Mello

A morte vae a pouco e pouco derrubando os homens notaveis de que primeiro ouvimos falar na sociedade do nosso tempo, os homens cujo nome primeiro soou a nossos ouvidos desde a infancia.

Castilho e Herculano, os dois grandes vultos das lettras contemporaneas, vimol-os fulgir e cair; o marechal Saldanha, esse bravo militar cujo nome encheu o paiz, vimol-o entrar morto no pequeno pantheon de S. Vicente; o duque de Avila, um homem que o trabalho nobilitára até á ultima grandeza social, vimol-o desapparecer da scena dos vivos; Anselmo José Braamcamp, o successor do duque de Loulé na chefatura do partido progressista, vimol-o passar para o cemiterio ha pouco mais de um anno, e agora chegou a vez a Fontes Pereira de Mello, o grande, o eminente, o priveligiado estadista, cujo nome, ainda antes da consagração da morte, era já uma gloria nacional.

É por emquanto cedo, e a nossa commoção muito profunda,{90} para fazer historia. Todavia eu não duvido affirmar desde já que, depois do marquez de Pombal, não tinha havido em Portugal estadista que, como Fontes Pereira de Mello, pudesse medir-se com o seu notavel predecessor.

Ditoso se deve julgar o paiz que de seculo a seculo produz um estadista como o marquez de Pombal e como Fontes Pereira de Mello.

Não são certamente dois reformadores da mesma indole, mas são, indiscutivelmente, dois grandes reformadores.

O marquez de Pombal reorganisou o ensino publico, a industria nacional, animou o commercio portuguez, e, depois do terremoto, refundiu Lisboa.

Passára um seculo, e as circumstancias mudaram, como era natural que acontecese.

Portugal não fôra de novo experimentado, felizmente, por uma segunda convulsão subterranea, mas um terremoto não menos perigoso e devastador havia abalado a primeira metade d'este seculo: a guerra civil.

Foi depois d'esta vibração social que Fontes Pereira de Mello appareceu na scena politica com o movimento chamado da regeneração, palavra que é ainda hoje a divisa politica de um partido de que Fontes Pereira de Mello fôra até á morte o chefe sempre respeitado e sempre querido.

A industria e o commercio nacional estavam atrophiados; o credito abalado pelas consequencias da guerra civil; as finanças desorganisadas; os empregados do estado morriam á fome, porque o thesouro publico, que devia remuneral-os, não tinha ceitil. Depois da guerra viera a revolução, que é como o rescaldo de um grande incendio: á menor viração que possa soprar, o incendio atea-se de novo. Era preciso apagar as cinzas que fumegavam ainda e, depois de apagadas, reedificar a administração publica na grande complexidade dos seus elementos componentes.{91}

Pois bem, essa ardua missão coube a um homem novo, a um rapaz de pouco mais de trinta annos, o desempenhal-a.

O marechal Saldanha, costumado a conhecer os homens na guerra e para a guerra, mostrou que tambem sabia conhecel-os na paz e para a paz.

Foi elle, o bravo militar, o venerando vencedor das nossas luctas politicas que descobriu em Fontes Pereira de Mello a individualidade poderosa de um estadista eminente.

O marechal adivinhára que esse moço elegante, de maneiras distinctas, a que a rainha D. Maria II chamava o seu «ministro janota», havia de completar pela paz a obra que elle havia começado pela guerra.

E confiando-lhe as mais importantes pastas no ministerio da regeneração, creando até expressamente para elle uma pasta, a das obras publicas, pareceu dizer-lhe:

—Um velho, que trabalhou para dar á sociedade portugueza a liberdade a que ella tem direito, entrega a sua obra nas mãos de um homem novo para que a consolide e complete.

Fontes Pereira de Mello recebeu das mãos de um vivo esse nobre legado, e desde então, até á ultima hora da sua vida, não fez senão respeital-o e cumpril-o.

Desde então Fontes ficou pertencendo ao paiz, consagrou-lhe a existencia, trabalhou para enriquecer a patria, para desenvolver todas as forças vitaes da nação, para fomentar todos os elementos de riqueza publica, e esse homem, que não fez senão amontoar capital para os outros, esse homem que enriqueceu o commercio e a industria da sua terra, esse homem por cujas mãos passára a gerencia das receitas do Estado cada dia mais avantajadas, acaba de morrer pobre, com o nome que recebêra de seus paes, e foi conduzido ao cemiterio não sob a purpura dos principes, mas apenas{92} com a bandeira portugueza por cobertura do seu feretro.

Os funeraes de Fontes Pereira de Mello não foram a apotheose official dos altos funccionarios publicos; foram mais do que isso, e melhor do que isso, foram a glorificação de um cadaver feita por um povo inteiro do meio da mais profunda commoção que póde ferir o coração de um paiz.

A espontaneidade do sentimento nacional é a mais invejavel deificação dos homens illustres. Fontes Pereira de Mello acaba de ter essa deificação feita de lagrimas, essa grandiosa deificação que não se recommenda, que não se aconselha, que não se ensina, mas que rebenta do coração de todas as classes sociaes, como a lava rebenta da cratera de um vulcão, e que explude n'uma grande e profunda erupção de sentimento ingenuo e sincero.

Lisboa inteira acaba de assistir a esse espectaculo memorando, que ficará para sempre gravado na memoria infantil dos nossos filhos, tão imponente, tão grandioso elle foi.

Fontes Pereira de Mello, vivendo entre a primeira sociedade portugueza pelos elevados cargos que o seu merecimento pessoal lhe conquistára, não vivia todos os dias com as classes inferiores, não era um homem que o povo visse passar atraves da multidão nas ruas da capital.

Mas, o que é melhor, vivia mais no coração do que nos olhos do povo. Provou-se agora que isto era assim. Não obstante as luctas da politica, que por vezes procuravam deslustrar o caracter de Fontes Pereira de Mello, o povo conservava por elle um grande culto de estima e respeito, o povo comprehendia que aquelle homem trabalhava para a nação, não para si, e, quando soube que o illustre estadista morrera, ficou gelado de surpresa, correu a visitar a sua camara funeraria, foi postar-se, respeitoso e triste, nas ruas por{93} onde o feretro havia de passar, affluiu, n'uma agglomeração enorme, ao cemiterio onde o cadaver de Fontes Pereira de Mello repousa para todo o sempre.

E o povo não se enganou pensando que esse preclaro estadista trabalhára para o povo.

Todos os que trabalham para o futuro e pelo futuro é para o povo que trabalham.

Poucos estadistas haverão tido como Fontes Pereira de Mello mais confiança no futuro, e se o povo se não enganava, tambem não se enganava o estadista, porque o futuro ha de lhe dar rasão, como, na vida do campo, os beneficios da colheita justificam os trabalhos da sementeira e da cultura.

Fontes Pereira de Mello passou toda a sua vida publica a semear para colher, a demolir o passado para construir o futuro.

Elle bem sabia que, mortal como todos os outros homens, não teria tempo de ver completamente sazonada a messe que tão desveladamente semeára e cultivára.

Mas que lhe importava isso? Não trabalhava para si, trabalhava para os outros.

E trabalhava sem descansar, sacrificando ao trabalho a sua propria saude.

Parar é morrer. Eis o lemma glorioso da sua vida politica, eis a divisa cavalheirosa de toda a sua carreira de estadista.

Foi elle que imprimiu á moderna sociedade portugueza o movimento que n'este momento historico a vitalisa e anima. Abriu as portas do trabalho ás classes operarias, e impelliu-as para as conquistas pacificas do progresso. Os povos são como as machinas: o que é preciso é imprimir-lhes movimento para que adquiram velocidade. Depois trabalham por si mesmos.

Os canticos funebres que acompanharam ao cemiterio dos Prazeres o cadaver de Fontes Pereira de Mello não irromperam apenas dos labios dos sacerdotes que{94} tinham ali a desempenhar uma funcção liturgica. Irromperam ao mesmo tempo de todas as regiões do paiz, partiram de mil boccas, eram articulados por mil gargantas differentes: saiam de todas as fabricas, de todas as officinas, saiam dos teares e das locomotivas, eram, n'uma palavra, a grande voz do progresso que elle, primeiro do que ninguem e mais do que ninguem, fomentára em Portugal.

Não podia ter mais gloriosos responsos o cadaver de um morto illustre.

*
*     *

Estou agora a lembrar-me da primeira vez que fui recebido em sua casa.

Era na rua de S. Bento, em noite de recepção politica. Fontes, de casaca, viera ao meu encontro, dissera-me palavras amaveis. Perguntou-me se eu gostava de jogar. Respondi-lhe que apenas sabia jogar o voltarete.—Mas gosta certamente de ver jogar bem o bilhar, replicou Fontes; o meu collega Barjona está jogando, e vale a pena ir vel-o.

Fui. Meia hora depois, Fontes dirigira-se a mim pedindo-me que fosse fazer uma partida de voltarete com o visconde de N. e com o capitão de mar e guerra M. Eu quiz desculpar-me; mas Fontes, argumentando com a minha confissão anterior, insistiu. Foi apresentar-me aos dois parceiros, que já estavam abancados, e retirou-se.

Nas combinações preliminares do jogo, tratou-se do preço.

—Não sendo caro não diverte, disse o visconde de N.

—Como quizerem, respondeu o capitão de mar e guerra M.{95}

Eu vi-me obrigado a obtemperar:

—Estou ás ordens de v. ex.as

Então o visconde de N. estipulou que jogariamos a cinco tostões, talha de roda, duas talhas o que désse cartas.

Senti um frio glacial ao longo da espinha. Eu, que sempre fui pobre, vivia então com immensas difficuldades: tinha apenas na algibeira quatro libras incompletas—um acaso que eu reputaria feliz em qualquer outra occasião.

A preoccupação da situação embaraçosa em que me achava collocado desorientou-me e afugentou a sorte. Quando se serviu o chá, havia immensas remissas: as minhas deviam orçar por quarenta mil réis.

Emquanto os meus dois parceiros tomavam chá, corri as salas, n'uma grande excitação nervosa, á procura de um amigo. Encontrei-o, felizmente para mim, e expuz-lhe o embaraço em que me encontrava, e que tivera por origem uma confissão ingenua.

—Não se afflija, disse-me rindo esse bom amigo.[7]

Pegue lá a minha bolsa, que está recheada: recebi hoje umas rendas. Nem eu sei ao certo quanto é.

Acabavam os meus parceiros de tomar chá, quando eu voltei á sala do jogo. Continuamos jogando. A felicidade attrae o dinheiro, como o iman attrae o aço. Mais tranquillo de nervos, comecei ganhando. A bolsa do meu amigo foi para mim um talisman. Ás duas horas da madrugada, quando os meus parceiros quizeram, levantei-me do jogo ganhando 32$500 réis. Nunca esta cifra me esqueceu.

Em plena rua, respirei desafogadamente. E metti ao largo do Rato, tomei pela calçada do Salitre, pensando, como certo philosopho, que se a eloquencia é de prata,{96} o silencio é de oiro. Nunca eu tivesse feito aquella confissão ingenua de que jogava o voltarete...

Á esquina de Val-de-Pereiro encontrei dois homens, dois fadistas parados. A calçada estava deserta. Um d'elles atravessou, de modo que eu havia de passar entre ambos. Quando o da direita tinha avançado para mim, assomou no topo da calçada uma carruagem, que naturalmente vinha de casa de Fontes. O homem ainda chegou a perguntar-me que horas eram, mas, vendo a carruagem, estacou. Gritei ao cocheiro que parasse, e pedi á pessoa que ia dentro do trem que me permittisse tomar logar na almofada.—Aqui dentro, aqui dentro, sr. Alberto Pimentel, respondeu uma voz de homem. Agradeci, e subi para a almofada..

E se eu tivesse sido roubado! Se me tivessem roubado o dinheiro alheio, e o meu! Ah! que noite de torturas que essa foi!

No Rocio gratifiquei o cocheiro, apeei-me, e agradeci á pessoa que ia dentro do trem, a qual ainda hoje não sei quem fosse.

Passados annos contei este caso a Fontes. Elle riu-se muito, e, ás vezes, se estavamos n'um circulo de amigos, pedia-me que reeditasse a historia, a que achava graça.

*
*     *

De uma vez tive de pedir a Fontes um adeantamento para um amigo meu. Fil-o muito contrariado, por dever de amizade.

Fontes, que era então ministro da fazenda, poz a luneta, leu o requerimento, e perguntou-me:

—Tem muito empenho n'isto?

—Tanto, respondi, quanto se póde ter em servir um amigo sincero.{97}

Fontes despachou favoravelmente. E, entregando-me o papel, disse-me:

—V. é um homem novo na politica. Permitta-me um conselho: Estes favores são uma desgraça para a pessoa a quem se fazem. Esse homem vae ficar com a sua vida desequilibrada para sempre. Como é amigo d'elle, avise-o de que se está infelicitando irremediavelmente.

 

Janeiro de 1887.

[7] Era o conselheiro Telles de Vasconcellos, já hoje fallecido.—NOTA DA 2.ª EDIÇÃO.


 {98}

X

Antonio Augusto de Aguiar

Quem ha que não tenha, umas vezes com fundamentada tristeza, outras vezes com vaga tristeza—que é talvez o estado mais doloroso da alma—desejado a morte?

Com razão ou sem ella, porque exageramos as nossas amarguras ou porque sejam realmente grandes, todos nós temos mais ou menos pensado, com uma certa caricia da nossa imaginação, na hora suprema em que o corpo ha de adormecer para sempre e a alma ha de partir para um mundo desconhecido, que, por estar mais proximo de Deus, deve ser decerto bem mais tranquillo do que este...

Não creio que haja uma só pessoa, por mais feliz que pareça, que não tenha desejado a morte uma vez sequer.

A felicidade é um dom celeste que parece ter fugido de nós para os outros, e que os outros dizem sempre que nós possuimos e elles não.

Como dom celeste que é, não póde a felicidade aclimar-se{99} na terra. Ave do azul, é no azul que passa ás vezes, mas tão alto, tão alto, que se por um momento a avistamos, logo os nossos olhos parecem cegar só de a haverem acompanhado cá de baixo n'uma grande avidez deleitosa...

Esse encanto desfaz-se breve, essa visão encantadora é ephemera, e o que fica depois é a realidade triste das coisas terrenas, a lucta, a batalha da vida, sangrenta e contínua, cheia de amarguras e desalentos, para os quaes a idéa da morte é como um doce raio de sol, ambicionado e querido.

Mas, por mais que tenhamos algumas vezes desejado a morte, quando ella passa perto de nós para ir fazer uma victima, quando sentimos o frémito das suas azas negras agitar presagamente o ar e entenebrecel-o, quando o seu gladio invencivel scintilla sinistramente como o relampago n'um céu caliginoso, faz-nos horror a morte, põe-nos medo a sua aproximação e a sua crueza, assombra-nos a sua lutuosa atmosphera de misterio e silencio...

Por que não hei de eu dizer francamente que no combate da existencia, n'esta lucta de todos os dias, cada manhã renovada, algumas vezes a idéa da morte me tem acariciado o espirito com uma certa voluptuosidade dolorida? A verdade é essa, e todos me hão de comprehender, porque todos somos iguaes. Mas a verdade é tambem que ainda esta semana, segunda feira, eu estremeci de horror deante d'esse indomito colosso que se chama a Morte, e cuja obra de devastação parece assombrar tanto mais quanto mais rapida é.

Estavamos, não sei quantos—poucos eram—no club da Ericeira. Jogava-se o voltarete n'uma tranquillidade paradisiaca, como poderia ser a do pae Adão, antes do peccado, se o voltarete já então houvesse sido inventado, e elle o estivesse jogando de quatro, com os seus tres filhos. Uma senhora ou uma creança tocava piano na sala proxima, esboçando apenas a musica,{100} com uma grande timidez de execução. O sol, alegre e bom, entrava docemente pelas janellas, como poeira de oiro finamente coada atraves de um crivo azul. De vez em quando vinha da sala do bilhar o som aspero do choque das bolas, ou de uma contada do taco sobre o pavimento. De resto, o mar parecia ter-nos aqui prisioneiros n'uma região remota, longe, muito longe de Lisboa—essa grande cidade ruidosa, que dizem ser feita de marmore e de granito, e banhada por um bello rio portentoso, mas de que nós, aqui na Ericeira, apenas conservavamos uma vaga recordação...

Pouco depois do meio dia entrou na sala de jogo, que tambem acumula a funcção de sala de leitura, o carteiro da villa, com o boné em uma das mãos, a mala de couro na outra.

O jogo interrompeu-se logo, todos os olhares se voltaram para o carteiro.

É preciso saír de Lisboa para comprehender bem o interesse que se póde ter em receber uma carta ou um jornal ainda que só esperemos banalidades.

Era o correio que chegava. Iamos receber noticias de Lisboa, essa longinqua cidade, de que apenas conservamos a vaga recordação de ser construida de marmore e de granito e banhada por um bello rio magestoso.

O carteiro começou a despejar a mala sobre a mesa de leitura: mólhadas de jornaes—progressistas, regeneradores, republicanos—e algumas cartas, poucas, sobretudo em relação aos jornaes, que constituem uma verdadeira alluvião.

E o carteiro apartava a correspondencia, dizendo para um lado e para o outro:

—V. ex.ª hoje não tem nada.

—Aqui estão os seus jornaes.

—V. ex.ª tem só uma carta.

—Está no correio uma encommenda postal para v. ex.ª{101}

Distribuidos os primeiros jornaes, eccoou na sala uma noticia profundamente dolorosa e inesperada:

—Morreu o Aguiar!

—Quem? O que?!

—Morreu o Aguiar!

—O Antonio Augusto?!

—Sim. O Antonio Augusto de Aguiar, elle mesmo...

E a pessoa que falava ia correndo com os olhos avidamente o jornal, procurando os pormenores, lendo e dizendo:

—De repente... de uma angina pectoris... ainda ante-hontem saiu... bem disposto... tinha jantado no restaurant Rosa Araujo com o Luciano Cordeiro e com outro.

Dizer-lhes quão pungente foi a impressão d'esse momento de tanta surpresa, é-me hoje impossivel. Ficámos fulminados, assombrados, como se Aguiar acabasse de morrer á nossa vista, tão rapidamente como os jornaes o referiam.

Então cada um de nós começou a lembrar-se da ultima vez que lhe falára, da boa disposição em que elle estava, do que dissera, do que contára. Havia apenas quinze dias que o ultimo banhista chegado á praia o tinha visto, e parecia-nos fabuloso que fosse possivel aniquilar um homem de valor em quinze dias. Todavia os jornaes que estavamos lendo eram d'aquelle mesmo dia, segunda feira, e accentuavam que a doença de Aguiar fôra rapidissima, apenas de duas ou tres horas, na madrugada de sabbado para domingo.

Dentro de um momento espalhou-se nas tres salas do Club a noticia da morte de Aguiar. Os jornaes passavam de mão em mão, qualquer novo pormenor era lido em voz alta, e breves commentarios, phrases soltas, resumiam, no primeiro momento, a impressão geral:

—Um homem serio...{102}

—Um homem de talento...

—Um homem de saber...

—Um bom caracter...

—Um homem digno...

Sim, é verdade, tudo isso elle era, tudo isso elle fôra, e todavia quantas vezes o ridiculo, a calumnia, e tambem a troça, não saiu ao encontro d'esse homem serio, d'esse homem de talento, d'esse homem de saber, d'esse bom caracter, d'esse homem digno?!

Tudo isso elle fôra, e sem embargo algumas vezes lh'o contestaram, porque ha pessoas que parece quererem aggredir os vivos para terem que humilhar-se deante dos mortos.

Não, nunca fui d'esses. Tenho sempre procurado dar o seu a seu dono, a Deus o que é de Deus, a César o que e de César. Qualquer que fosse a sua posição politica, eu conservei sempre por Aguiar a mesma consideração e o mesmo respeito. E de todas as suas qualidades a que eu achava que tornava maior as outras era a serenidade com que elle recebia todos os golpes, por mais envenenados e injustos que fossem. Ainda poucos dias antes de se fechar o parlamento, no momento de se commentar no corredor da camara dos pares a má intenção com que ás vezes, na politica, se deturpavam as palavras e os factos, elle dizia accendendo tranquillamente o seu charuto:

—Se isso me incommodasse, eu abandonaria a politica.

Estas palavras revelam bem a serenidade do seu espirito e da sua consciencia, o bem-estar interior, a paz inalteravel de um caracter sem manchas e sem remorsos.

Aguiar sabia o que valia, e por isso diziam ás vezes que era vaidoso. Não era, não. Era menos hipocrita do que os outros. Cada homem representa uma somma de trabalho, maior ou menor. E ninguem se esquece do tempo que gastou trabalhando. Por isso todos{103} sabem mais ou menos quanto valem, mas ha homens que recuam para avançar e homens que preferem ir caminhando serenamente, sem correr, mas tambem sem recuar.

Eu gosto mais d'estes ultimos.

 

1887.


 {104}

XI

Mendes Leal

Dois escriptores da geração que nos precedeu não estão tendo desde já a celebridade posthuma, que ás vezes começa para outros escriptores no proprio dia dos funeraes. Refiro-me a Rebello da Silva, e Mendes Leal.

Não se fala muito d'elles, não se cita a sua auctoridade litteraria, não se dá o seu nome a qualquer instituição, a qualquer philarmonica ou club de operarios em folga. Pois admira, que não morre homem conhecido que não appareça logo um gremio de classe, musical ou dançante, a adoptar-lhe o nome.

E todavia, Rebello da Silva, que eu aliás já não conheci pessoalmente, foi o mais brilhante estilista que até então floresceu em Portugal. Nunca ninguem antes d'elle, e não sei se depois, possuira uma paleta tão rica de tintas, uma palavra tão pomposamente e tão elegantemente colorida.

Assombra vêr como saíam perfeitas e primorosas as suas primicias litterarias aos vinte annos. Uma d'ellas{105} foi o romance historico Ráusso por homizio, publicado em 1842 na Revista universal Lisbonense. Com razão dizia a Revista referindo-se a este romance: «Damol-o sem alteração de uma virgula, qual saiu da penna de seu auctor:—que seria sacrilegio tocar, nem de leve, nas primicias que á sua patria offerece um tal espirito—¡quem no acreditaria!—¡de vinte annos!»

Assombroso, em verdade.

Mendes Leal, que foi meu amigo, em algumas coisas meu patrono, tratei-o particularmente, tive sobeja occasião de avaliar a vasta erudicção do seu espirito e a fidalga grandeza do seu coração.

Mas quem o conhecer apenas pela sua obra litteraria, e n'ella bem attentar, reconhecerá que poucas vezes póde um escriptor reunir em si tantas e tão variadas aptidões como Mendes Leal.

Como poeta tinha vôos de inspiração que roçavam pelas cumiadas da epopea: hajam vista o Pavilhão negro, Ave Cesar, Napoleão no Kremlin.

Como dramaturgo, foi o mais fecundo e o mais notavel continuador da obra de Garrett. Tudo quanto escreveu para o theatro—e foi muito—póde ter defeitos, mas affirma riqueza de imaginação, talento de savoir faire, opulencia de linguagem. Percorram toda essa vasta galeria de producções dramaticas, que vae desde os Dois renegados até aos Primeiros amores de Bocage, e digam depois se já conheceram, fóra do theatro hespanhol, engenho mais fertil, espirito mais maleavel ás exigencias de cada genero e de cada época.

Como romancista, se não attingiu nunca uma individualidade tão accentuada como dramaturgo, não deslisou comtudo um ápice dos seus bons creditos de homem de lettras.

Como academico, trabalhou por vezes, e sempre com notavel seriedade de espirito.

Como orador politico, deixou discursos parlamentares que podem servir de modelo aos que, dentro e{106} fóra da camara, presam a lingua portugueza através dos arrebatamentos da paixão partidaria.

Trabalhou muito, não obstante o tempo que foi obrigado a consagrar aos negocios administrativos, aos negocios politicos, aos negocios diplomaticos, e á vida de salão. Com uma organisação tão debil, com uma tão embaraçosa miopia, e com uma vida tão agitada de occupações e distracções, ninguem seria capaz de trabalhar mais do que elle.

Estive durante alguns annos em relação epistolar com Mendes Leal. Creio que foi Castilho que recommendou á sua benevolencia de mestre as minhas palidas estreias litterarias. Castilho tinha uma grande consideração por Mendes Leal—a quem, na dedicatoria do primeiro livro das Georgicas, divinamente traduzidas, chamou—caro Leal, gloria da terra lusa.

Quando vim para Lisboa, estava Mendes Leal no estrangeiro, em missão diplomatica. Só em 1882, vindo elle a Lisboa, o pude conhecer pessoalmente. Visitei-o frequentes vezes na sua casa da rua da Emenda, conversamos largamente, e era encantadora a simplicidade bondosa do seu trato. Mendes Leal dera-me provas de muita estima, tornando-se meu dedicado amigo.

Iam por esse tempo a sua casa todas as summidades do mundo politico e do mundo litterario, quasi todos os ministros estrangeiros acreditados em Portugal, e grande numero de pessoas que mais lustravam em pompas de high life.

A ultima vez que me demorei conversando largo tempo com Mendes Leal foi em dezembro d'esse mesmo anno, no dia do enterro de Saraiva de Carvalho.

O prestito funebre seguira a pé desde a igreja de Santa Isabel até ao cemiterio dos Prazeres. Mendes Leal encontrou-me n'aquelle ondular de pessoas de todas as classes sociaes, que foram prestar a derradeira homenagem ao mallogrado Saraiva. Chamou-me, e abordoou-se ao meu braço. Assim fomos conversando até{107} ao cemiterio occidental no meio da multidão immensa.

Um anno antes, em 1881, tinha Mendes Leal dado ao prelo, n'uma brochura intitulada Hommage aux lettres latines, as suas ultimas composições poeticas. Ahi se póde ver com que primor elle manejava a lingua franceza, e com que duradoira mocidade de espirito ia envelhecendo e pendendo á terra.

A posteridade está sendo, porém, um pouco ingrata com este homem superior, que tão poderosamente contribuiu para impulsionar os progressos litterarios do seu paiz. O mesmo acontece com Rebello da Silva, e é caso para estranheza. Succede comtudo ás vezes que a opinião publica passa por uma evolução demorada tanto para apreciar como para depreciar um escriptor fallecido—especialmente para aprecial-o. Quanto tempo não foi preciso decorrer para rehabilitar a memoria de Fernão Mendes Pinto? E o proprio Camões teve que esperar trezentos annos por uma apotheóse nacional.

No que respeita a Mendes Leal devo lembrar uma honrosa, postoque modesta, homenagem que lhe prestou a villa da Ericeira. Ha ali uma rua com o seu nome. Devia-lhe este preito aquella pittoresca praia, que elle cantou em 1857 na poesia Mare magnum. A descripção das furnas, tão bellas e tão agrestes, é de mão de mestre:

Não vos lembraes?—Além do manso pego,
O mar, que vem do largo, e que não cessa,
Da vaga arquea a cuspide irritada,
        E, com impeto cego,
        Á insensata escalada
Dos immoveis penhascos se arremessa.

Quem ha de commetter a louca empresa
De tentar a passagem tortuosa
Que alguma convulsão da natureza
Abriu sobre a voragem tenebrosa?{108}
Do rolo immenso a curva ameaçadora
Investe, galga, apruma-se, desaba;
E quando o turbilhão que o ar devora,
        Trovejando rebenta,
        Parece que á tormenta
A terra não resiste e o mundo acaba.

Pelas rugas da penha sacudida,—
De niveos flocos inda guarnecida,—
Depois que o mar bramindo atraz volvêra,
Um veio d'agua, rapido e sombrio,
Deslisa; qual em rude face austera
De um triste ancião, que a idade encanecêra,
        O pranto corre em fio.

Pelo menos o mar, nas suas incansaveis arremettidas contra as furnas da Ericeira, recordará eternamente a verdade sublime, a hipotiposis felicissima d'este notavel trecho de poesia descriptiva, e simultaneamente o nome de Mendes Leal.

O oceano vingará a ingratidão dos homens.


 {109}

XII

Gonçalves Crespo

Tendo de escrever a respeito de Gonçalves Crespo, deixei-me ir ao sabor da saudade, pelo mar das recordações em fóra, até o encontrar nos primeiros annos da sua vida, e da minha.

Foi uma viagem suavemente dolorosa, durante a qual eu comprehendi melhor que nunca toda a verdade e toda a philosophia que se encerram n'este pensamento de Garrett:

Saudade, gosto amargo de infelizes,
Delicioso pungir de acerbo espinho.

Comprehendi bem, melhor do que nunca, é certo, toda a observação psichologica que essa bella antithese contém; comprehendi Garrett n'esses dois admiraveis decassiliabos que já não esquecerão mais em lingua portugueza; comprehendi D. Francisco Manuel quando chama á saudade um mal de que se gosta, e um bem que se padece; comprehendi o rei D. Duarte quando{110} no Leal conselheiro escreveu da saudade com uns finos toques de sensibilidade e uma nitida comprehensão d'esse agridoce sentimento, que ao mesmo passo despedaça e mitiga o coração...

Medi com o olhar nublado de lagrimas todo o caminho percorrido em poucos annos. A saudade fizera reverdecer todas as recordações, aquecêra todas as cinzas, despertára todos os mortos. Vivi por momentos a vida já extincta, enflorei-me das minhas antigas esperanças, remocei com as minhas illusões de outro tempo. Pareceu-me que essa reversão ao passado era completa e real, que tudo voltára effectivamente a ser o que tinha sido. Mas, de repente, o encanto dissipou-se, o sonho acabou, retrocedi pelo caminho que imaginariamente percorrera, e pareceu-me atravessar um deserto immenso, triste e arido, um cemiterio vasto e silencioso, onde tudo jazia sepultado na mudez da morte—esperanças deliciosas e amigos queridos, illusões que me fascinaram e pessoas que eu amei.

Entretanto, para suavisar a amargura d'essa perda enorme, eu só encontro a triste consolação de a recordar.

Tal é a saudade na sua essencia divina, e no seu influxo providencial.

Assim é que os poetas a definem; assim é que eu a sinto agora—melhor por certo do que nunca.

Em verdade, as circumstancias em que me encontro, para escrever de Gonçalves Crespo, são muito especiaes. Elle teve muitos amigos, e merecia-os, mas as nossas relações vinham de longe, eram antigas na proporção da nossa idade, ataram-se no Porto quando eramos apenas duas creanças.

Estou a vel-o então, no meu quarto de estudante, rodeado de antigos amigos, quasi todos mortos já, apesar de moços.

Crespo tomava parte activa em todas as nossas façanhas mais ou menos habituaes, que eu já historiei{111} largamente no livro Atravez do passado—o meu primeiro livro de saudades.

Brigavamos patrioticamente quasi todas as noites com o criado da casa: o Angelo, um gallego.

Crespo era então o mais janota de nós todos, tinha a linha elegante e aristocratica. Mas desconcertava-se n'aquellas brigas nocturnas, gostava d'ellas tanto como nós, e não duvidava arriscar n'essa folia asselvajada o primor da sua toilette, quasi sempre irreprehensivel.

Coisa notavel! Crespo não era então para nós um poeta: um elegante, sim. Eu fazia versos de pé quebrado; Alfredo Leão lia chronicas e romances[8]; mas Gonçalves Crespo flanava a pretexto de estudar. E todavia, annos depois, affirmava notavelmente o seu talento poetico com a publicação das Miniaturas.

Houve um periodo em que me separei de Gonçalves Crespo;—quando foi para Coimbra. Mas em quasi todas as ferias elle passava no Porto em direcção a Braga, onde seu pae residia. Viamo-nos então e falavamos. Crespo frequentava o Café Portuense, na Praça Nova, e continuava a ser um elegante. Mas quando eu o via, sempre me perguntava pelo Angelo—recordando as nossas façanhas anti-ibericas.

Resolvi vir em 1873 para Lisboa, e a primeira felicitação que recebi, ainda antes de partir, foi de Gonçalves Crespo. Enviava-m'a de Coimbra. O que elle me dizia não posso, não devo eu repetil-o aqui, tão agradavel era para mim. A amizade cegava-o.

Quando na viagem passei por Coimbra, a primeira pessoa que procurei ali foi Gonçalves Crespo. Conheci então o seu celebre quarto da Couraça de Lisboa, tão fielmente descripto por Candido de Figueiredo nos Homens e letras, e tão falado ainda na tradição academica. Crespo estava adoentado, e não me pôde mostrar{112} a cidade, mas encarregou d'essa missão, a que elle chamou diplomatica, outro estudante, que actualmente está em Lisboa.

Crespo dera-me rendez-vous para a noite, na livraria do Melchiades. Ahi conheci eu Julio de Vilhena, que era já muito respeitado pela academia. Laranjo tambem ahi estava. Demorámo-nos conversando de litteratura, porque não se falava então de outra coisa, e Gonçalves Crespo viera passar o serão comigo no Hotel dos caminhos de ferro, onde eu estava hospedado.

Foi lá que recitou muitas das suas novas poesias, com o primor que elle sabia dar á recitação. Burilador da phrase, um esmaltador do verso como Gautier o fôra da prosa, Crespo fazia sentir, quando recitava, todas as bellezas, por mais subtis que fossem, do seu buril de artista. Tinha uma inflexão especial para cada meandro das phantasiosas filigranas que a sua musa tecia; de modo que dava relevo a todas as bellezas, a sua voz contornava todos os rendilhados da estrophe, avivava todas as côres harmoniosas do verso. Miniaturisava com a voz como com o espirito. Via-se o que elle dizia; pintava falando. Eis o seu grande segredo como poeta.

Muitas vezes lhe pedi que escrevesse um poema, de costumes brazileiros sobretudo. Era tão primoroso, tão notavel nos quadros da vida americana, tinha uma visão tão delicada da natureza dos tropicos, que se me afigurava que devia produzir uma obra prima n'esse genero. Desculpava-se allegando que o intimidavam as largas dimensões de um poema, e que se sentia á vontade nas pequenas estrophes, cujas difficuldades elle effectivamente sabia domar como poucos. O metro vergava como o aço ao capricho da sua inspiração, e no soneto Animal bravio, offerecido a mademoiselle Eugenia Vizeu, elle reconhece, brincando, esta aptidão artistica do seu espirito:{113}

Preferiras um ramo caprichoso
De escolha rara e de um concerto fino,
Onde visses o cacto purpurino
E os nevados jasmins do Tormentoso.

Em vez do ramo exotico e oloroso,
Casto recreio d'esse olhar divino,
Acceita, Eugenia, este animal felino,
Que o meu braço subjuga vigoroso.

Tive artes de o amansar: eil-o sereno!
Acode a minha voz, e ao meu aceno
Como um jaguar a voz de um saltimbanco...

Vamos, soneto! a prumo! ajoelhe, presto!
E á doce Eugenia, do sorriso honesto,
A fimbria oscule do vestido branco!

Em 1875 voltei a Coimbra n'uma commissão de instrucção publica. Crespo estava então em Lisboa. Certo dia recebi pelo correio um cartão de visita seu, que conservo, e em cujo reverso estava escripto este bello soneto, que me offerecia, e que publicou depois nos Nocturnos:

ODOR DI FEMINA

Era austero e sisudo; não havia
Frade mais exemplar n'esse convento;
No seu cavado rosto macilento
Um poema de lagrimas se lia.

Uma vez que na extensa livraria
Folheava o triste um livro pardacento,
Viram-n'o desmaiar, cair do assento,
Convulso e torvo sobre a lagea fria.

De que morrera o venerando frade?
Em vão busco as origens da verdade,
Ninguem m'a disse, explique-a quem puder.

Consta que um bibliophilo comprára
O livro estranho e que, ao abril-o, achára
Uns dourados cabellos de mulher.{114}

Em 1881, Gonçalves Crespo honrara-me sobremodo escrevendo a minha biographia para o Diario de Portugal[9]. A sua antiga amizade foi tão prodiga de amabilidades para comigo, que eu cheguei a desconhecer-me, por muito favorecido do biographo. Mas o que principalmente me encantou n'esse escripto foi a minuciosidade com que elle acompanhara todos os pormenores da minha existencia obscura. O seu espirito dedicado tinha-me seguido de longe como ao perto, com o interesse de um amigo leal. Esta convicção foi-me extremamente agradavel e consoladora. Crespo era um homem de talento superior e de caracter honestissimo; a sua dedicação compensava-me sobejamente da ingratidão de alguns e das injurias de poucos.

Este homem, este amigo querido com o qual eu me encontrára na adolescencia e na litteratura, encontrara-o ainda a meu lado na politica e na camara electiva. O destino parecia n'este ponto fazer-me a vontade, porque eu teria um profundo desgosto em separar-me de Gonçalves Crespo por qualquer divergencia de opinião, grave ou insignificante.

O destino, porém, esse mesmo destino que parecia querer estreitar cada vez mais os nossos velhos laços de amizade, acabara por ser enganador e perfido.

Juntara-nos até na mesma repartição publica, onde deviamos trabalhar em commum, promettia associar-nos na velhice como na mocidade, e tão depressa promettera como traíra a sua promessa, arrebatando Gonçalves Crespo d'entre o numero dos vivos, elle, um moço! elle, que tinha finalmente chegado a uma situação, que lhe permittia viver inteiramente tranquillo na decencia modesta que soube conservar em todos os actos da sua vida.{115}

A morte fôra d'esta vez horrivelmente cruel. Pareceu apostada em enfeixar esperanças para as despedaçar depois. A sorte havia dado a Gonçalves Crespo uma familia que elle tanto amava, uma esposa digna d'elle pelo espirito e pelo coração, dois filhos adorados, meios de fortuna, considerações politica e honras litterarias, gloria, amigos e admiradores, e de emboscada, a morte, depois de lhe ter consentido que entrasse na Terra da Promissão, cuja porta perfidamente lhe dera tempo de transpôr para que o supplicio fosse ainda maior, assassinou-o cobardemente aos trinta e sete annos de edade, enlutando para todo o sempre o coração da mais illustrada senhora que Portugal possue, e de todos quantos amavam e estimavam o notavel poeta das Miniaturas e dos Nocturnos.

Traçando estas linhas, deixei que a penna escrevesse da abundancia do coração. Outra coisa não fiz, nem de outra coisa curei. Emquanto Gonçalves Crespo esteve baloiçado entre a vida e a morte, na mais cruel das agonias, recommendei expressamente a tres jovens leitores dos Contos para os nossos filhos, colleccionados e traduzidos por Gonçalves Crespo e sua esposa, que pedissem a Deus pela saude de um dos traductores d'esse livro, que elles sabiam de cór. As orações de meus filhos não puderam disputar á morte a existencia preciosa do velho amigo de seu pae. Não me restava portanto senão o triste desafogo de escrever com lagrimas estas linhas que vão, adejando para o seu tumulo, levar-lhe o ultimo preito da minha amizade, o écco sincero do luto da minha alma.

1883.

[8] ATRAVEZ DO PASSADO: Na morte de um condiscipulo.

[9] Não vem incluida na edição posthuma das suas obras, o que aliás duplica o valor d'esta especie bibliographica.—NOTA DA 2.ª EDIÇÃO.


 {116}

XIII

Antonio Maria Pereira

Quando eu fazia parte da redacção do Jornal do Porto, onde recebia apenas 500 réis diarios por o encargo de traduzir o noticiario estrangeiro acumulado muitas vezes com o trabalho de rever as provas das edições que o proprietario do jornal, Cruz Coutinho, vendia no seu estabelecimento de livreiro, escrevi um dia, no apuro de augmentar a escassa receita do meu orçamento, ao editor lisbonense Antonio Maria Pereira, propondo-lhe a acquisição de um romance original.

Dois dias depois recebia a resposta, que me surprehendeu vivamente.

Estava tão habituado ao embate das mais rudes contrariedades, que qualquer sorriso da boa-fortuna me parecia, por excepcional, irrealisavel.

Annos duros da vida, quem lograria vencel-os, se não viessem ordinariamente na idade em que o coração é forte e a imaginação exaltada?!

O sr. Pereira não só respondia acceitando a minha{117} proposta, mas dirigia-me palavras de amabilissima cortezia. Offerecia-me o seu prestimo como auxilio á minha vida litteraria, que sabia ser trabalhosa. Declarava concordar com todas as condições que eu lhe propuzesse.

Esta fidalga resposta destoava do juizo que então se fazia dos editores em geral.

Balzac, nas Illusões perdidas, tinha deixado a ethopea do editor. Era uma anatomia. Contavam-se dezenas de anecdotas que depunham em favor do escalpelo de Balzac. Um editor lisbonense rejeitára um livro de poesias por lhe achar pouco peso. O poeta respondêra que voltaria com os seus versos copiados em papelão. O tempo dos Mecenas tinha passado, e os editores não pareciam resolvidos a substituil-os.

Nunca a celebre phrase de Villemain fôra tão verdadeira como applicada áquella época: «Les lettres ménent à tout, à condition de les quitter.»

Camillo trabalhava como um moiro para sustentar-se. Arnaldo Gama vivia com difficuldades. Evaristo Basto, o brilhante folhetinista portuense, mendigára um logar publico.

Os jornaes principiavam a dar vasão, com o estipendio de 500 réis por dia, ás ambições litterarias dos novos.

O que os estreantes queriam era sequer ao menos encontrar guarida na imprensa periodica, esquecidos, ai d'elles! de que, como disse Roqueplan, o jornal é uma galé de que de dez em dez annos se evadem dois forçados, que aliás ficam sempre com o ferrete de o terem sido.

Eu havia ido refugiar-me no Jornal do Porto, onde a vinda de Ramalho Ortigão para Lisboa deixára aberta uma vaga. Confiei a essa vaga o meu fragil batel, mas a carga, por demasiado pesada, ameaçava naufragio. Tornava-se necessario recorrer de quando em quando, financeiramente, a uma boia de salvação, que só poderia ser o livro. Mas os editores eram difficeis, e hoje,{118} ainda o são mais, porque a febre das gazetas, e a variedade de materias a que a concorrencia as obriga, têem posto o livro pelas ruas da amargura. Os jornaes enxameam, pululam, atropelam-se, esmagam-se. E no meio d'este conflicto de interesses similares, o livro, como a cidade sitiada, espera, privado da sua liberdade de circulação, que a revolução dos jornaes acabe, tendo morrido os fracos, e subsistindo apenas os fortes. Gutenberg experimenta a lei de Darwin. Dos trezentos novos jornaes que se publicam cada anno, apenas 50 chegam ao dia de S. Silvestre. Mas esses cincoenta bastam para prolongar a crise que o livro vem atravessando ha dez annos a esta parte.

O que não deixa de ser curioso é que, justamente no momento em que o mercado mais falta ao livro, o publico exige, como está acontecendo, que o trabalho tipographico do livro seja não só perfeito, mas brilhante.

De resto, o facto percebe-se. O consumidor, assaltado pela lettra redonda dos jornaes, só se deixa tentar pela belleza dos chromos. Tudo o que não seja isto, cheira-lhe a jornal, e de jornaes está farto o consumidor. Mas o editor é que tem de aguentar-se nas aventuras, sempre dispendiosas, das impressões de luxo.

Tempo das edições em papel pardo, tempo dos habitos simples e honestos, em que tambem era singela a toilette dos livros, passaste á historia, és uma recordadação apenas, nada mais!

A resposta do sr. Pereira não só teve para mim o encanto de uma surpresa pelo que respeitava á difficuldade de encontrar um editor accessivel, mas tambem a refulgencia de uma aurora polar que deixava cair, sobre a minha longa noite de incertezas, um clarão doirado irradiando de estipendio certo.

Puz mãos á obra. Escolhi o assumpto e o titulo do romance. Chamar-se-ia O testamento de sangue. O Jornal do Porto e o ensino livre absorviam-me o dia; foi pois á noite, depois de um dia inteiro de labutação litteraria,{119} que eu tracei os primeiros capitulos d'aquelle romance.

O enthusiasmo que me despertava esse trabalho, com que eu entraria no mercado lisbonense pela mão de um editor acreditado, fez que por mais de uma vez, conversando com Cruz Coutinho e com os meus collegas de redacção, alludisse ao Testamento de sangue.

Tinha escripto quatro capitulos do romance, quando no Jornal do Porto se deu o que eu chamarei uma crise de folhetim. Estavam ali sendo publicados Os dramas de Paris, de Ponson du Terrail, arranjados sobre uma edição lisbonense. A publicação da obra atrazára-se em Lisboa, de modo que era preciso acudir á secção do folhetim com um romance que não fosse tão longo que prejudicasse a sequencia dos Dramas de Paris, nem tão breve que deixasse de preencher um compasso de espera.

—Se o teu romance não estivesse destinado para Lisboa, poderia servir para o jornal, dissera alguem.

Cruz Coutinho apoiou desde logo esse alvitre com uma insistencia, que me deixou embaraçado. Allegavam que eu não tinha marcado prazo ao sr. Pereira, nem estava obrigado a determinado assumpto. Poderia pois publicar O testamento de sangue no Jornal do Porto, e escrever outro romance para Lisboa. Observei em primeiro logar que não tomaria resolução alguma sem ter previamente consultado o sr. Antonio Maria Pereira; em segundo logar, que estando apenas traçados os primeiros capitulos, eu teria, para a publicação em folhetim, de escrever os outros dia a dia, o que certamente obstava a um tal ou qual acuro que eu queria dar á novella.

Cruz Coutinho conveio em que eu consultasse o sr. Pereira, e, para que o romance pudesse ser retocado, comprometteu-se a publical-o em volume depois de ter sido publicado em folhetim.

Nenhum obstaculo oppoz o sr. Pereira, dizendo-me,{120} na volta do correio, que me editaria um livro, qualquer que fosse, e quando me aprouvesse. A sua carta era gentilissima de amabilidade.

Comecei então a escrever precipitadamente o romance, a fim de satisfazer ao pesado encargo de um folhetim diario—encargo que eu acumulava com a minha collaboração no noticiario estrangeiro, e outras occupações quotidianas.

Uma vez, lembra-me bem, cheguei a desfallecer, exhausto de forças. Morava eu então no predio n.º 456 da rua do Almada. Da minha janella avistava-se a quinta do Pinheiro, e havia ahi um moinho-de-vento que, se eu olhava para elle, parecia dar-me estimulo á faina de todos os dias. Nem elle, nem eu paravamos nunca.

No livro Nervosos, lymphaticos e sanguineos deixei consignada, a pag. 86, uma recordação d'esse moinho com que eu tão irmanado estava—pelo destino. Arranco-a, para transcrevel-a, a uma carta dirigida a Alexandre da Conceição, com quem eu sustentava polemica epistolar no Jornal do Porto.

«A esse, não a si, digo eu que, não tendo merecimentos litterarios para reivindicar, não estou disposto a desapossar-me da unica qualidade boa que, como homem, me pertence,—o amor ao trabalho. Os meus amigos conhecem-n'a e respeitam-n'a. Sinto-me então contente, e mais ainda quando, ao romper da manhã, vejo do meu gabinete, ao tempo que nem fumegam as casas vizinhas para a refeição matinal, a canceira com que um moinho-de-vento proximo vae rasgando o nevoeiro com os seus quatro braços alvejantes. A essa hora, quando ainda não martelam as officinas nem estrondea na rua o pregão dos bufarinheiros, os unicos trabalhadores que estão despertos, é o moinho e sou eu.»

Pude vencer a canceira que uma tal acumulação de trabalho importava. Escrevi o romance dia a dia, e no mez de setembro, finda a publicação em folhetim, revi-o, para sair em volume. O pequeno prologo que o{121} precede é de todo o ponto exacto quando explica a pressa com que o Testamento de sangue fôra escripto.

No anno seguinte, 1873, vim para Lisboa, com dois livros novos, A Porta do Paraiso e Entre o caffe e o Cognac. Tive então occasião de conhecer pessoalmente o sr. Antonio Maria Pereira.

Entrei um dia na sua pequena loja da rua Augusta n.° 50, 52. Seriam duas horas da tarde. Um calor abafadiço pesava sobre a cidade baixa. A loja, que o filho e successor de Antonio Maria Pereira acaba de transformar alargando-a, tinha uma só porta e a montre. Sobre o balcão havia uma grande agglomeração de livros e folhas impressas. Ao fundo da loja, de pé a uma escrivaninha, estava um homem que, ouvindo perguntar pelo sr. Antonio Maria Pereira, levantou a cabeça. Era elle. Á ilharga d'esta escrivaninha havia outra em que trabalhava um homem de barba e cabello preto: era o antigo caixeiro do estabelecimento, Pedro de Sousa. Em frente d'esta escrivaninha havia ainda outra, em que um rapaz, de bigode, parecia tomar notas. Era o Francisco, o segundo caixeiro da casa. Todos tres estavam trabalhando, ao som impertinente dos martelos do caldeireiro Lourenço, proximo vizinho.

Eu disse quem era, e o sr. Pereira veio ao balcão cumprimentar-me. A phisionomia um pouco arabe d'este editor era insinuante; e as suas maneiras distinctas. Bigode e cabello grisalhos, com uns tons luminosamente argenteos. Os olhos grandes e vivacissimos. A face morena e alegre. Um ar de riso, que lhe desfranzia os labios, inspirava confiança. Estava todo vestido de preto, e, na occasião em que entrei, fumava charuto.

Fóra do balcão havia dois bancos de palhinha. Fez-me sentar n'um d'elles, e debruçou-se no balcão conversando comigo. Poucas palavras haviamos ainda trocado, quando entrou um mocinho imberbe, cujas feições tinham uma notavel similhança com as do sr. Pereira.{122} Era seu filho, o actual editor[10]. Tempo antes, seguindo o exemplo paterno, havia começado a trabalhar, emprehendendo a publicação de uma Encyclopedia litteraria, para a qual tivera a amabilidade de solicitar a minha collaboração.

Escrevi ahi uns versos, Virgens loiras, cuja inspiração me parece hoje bastante macrobia: vinte e tres annos pesam sobre elles, e as Virgens, que devem estar decrepitas—como os versos.

Desde a hora da minha apresentação, ataram-se entre mim e o sr. Antonio Maria Pereira relações de agradavel convivencia.

Eu arrendei casa na rua Nova de S. Mamede, aos Caldas, perto do palacio do marquez de Penafiel, onde por signal entrei no dia do leilão e assisti ao desalfaiar d'aquellas opulentas salas, que deram brado em Lisboa.

Poucas pessoas terão como eu um tão affectuoso apêgo bairrista. Custa-me realmente sair do meu bairro, tanto me affeiçôo ás arvores e ás pedras que estou costumado a ver. De modo que o giro dos meus passos habituaes era limitado pelo Rocio, oude morava o meu editor Mattos Moreira, e a loja do sr. Pereira, na rua Augusta.

Muitas noites ia eu conversar á loja do sr. Pereira, onde havia, quando menos, dois cavaqueadores: o dono da casa e o bibliographo Innocencio.

Digo-o francamente: aprendia sempre alguma coisa n'esses serões litterarios, que se prolongavam ordinariamente até ás dez horas, e ás vezes até ás onze.

O sr. Pereira, que jantava muito tarde, voltava depois de jantar ao seu estabelecimento, disposto a distrair o espirito na conversação de um pequeno grupo de amigos. Havia quasi a certeza de o encontrar a essa{123} hora, e disse quasi, porque ás vezes, durante o estio, elle fugia alguns dias para o Alfeite ou para Cintra, e apreciava muito essas fugidas á sua labutação quotidiana.

Taes são as recordações, agradaveis e saudosas, que eu conservo d'esse illustrado editor, que prestou relevantes serviços ás lettras portuguezas pondo em evidencia o talento de muitos homens já hoje fallecidos[11]—graças talvez, e não pareça isto desacerto, á felicidade de haverem encontrado quem lhes abrisse a porta da gloria—editando-lhes os primeiros livros.

[10] Falleceu prematuramente, minado pela doença nas asperezas do exhaustivo trabalho quotidiano—a que elle chamava a vinagreira.—NOTA DA 2.ª EDIÇÃO.

[11] Refiro-me a Julio Cesar Machado, Camillo Castello Branco, Pinheiro Chagas, etc.—NOTA DA 2.ª EDIÇÃO.


 {124}

XIV

Innocencio Francisco da Silva

Devi sempre a este homem benemerito as mais subidas provas de estima pessoal e de consideração litteraria.

Foi elle que me propoz socio correspondente da Academia Real das Sciencias. E fel-o espontaneamente, penhorando-me sobremodo.

Mantive com Innocencio as melhores relações de amizade, inalteravel entre nós dois até os ultimos dias da sua attribulada existencia.

Digo attribulada, porque em verdade o foi: Innocencio não recebeu nunca do estado os beneficios a que, pela improba canceira a que se dedicou, tinha inquestionavel direito. Foi obrigado a dividir o seu tempo entre a funcção burocratica, que desempenhava no governo civil de Lisboa, e os seus valiosissimos trabalhos bibliographicos. Nem todos os homens de lettras lhe faziam inteira justiça; muitos d'elles investiram cruelmente com o pobre Innocencio, chegando a negar-lhe foros de escriptor, simplesmente pelo facto de não ser{125} um estilista. Alguns amesquinhavam o seu trabalho, que capitulavam desdenhosamente de rol de roupa suja de livros velhos. Que revoltante injustiça! De mais a mais, Innocencio, na absorvente paixão que tinha pelos livros, não dispunha de meios bastantes para poder satisfazer todos os seus caprichos de bibliophilo.

Estas circumstancias explicavam inteiramente o tom por vezes azedo e irritado das suas apreciações litterarias, falando ou escrevendo. Innocencio devia pouco ao mundo para o qual sempre havia trabalhado dedicadamente. Tinha a consciencia de merecer mais do que lhe davam, e o seu espirito justiceiro revoltava-se contra essa flagrante ingratidão. D'elle é que com propriedade se poderia dizer que fôra um vencido da vida. Viveu atormentadamente; e assim morreu.

Mas, serenadas essas legitimas explosões de colera, que bello coração o seu e, a sobredoirar a bondade do coração, que excellente caracter de portuguez antigo!

Tinha coisas de creança, mutabilidades de genio verdadeiramente infantis. Passava rapidamente da indignação á bonomia, e então era adoravel a sua conversação familiar, sempre erudita, e muitas vezes liberrima em facilidades de linguagem.

Não era, nunca foi, um palaciano, um homem de sala. Não sabia enganar nem fingir. O que era, era. Mas havia na sua alma, repito, um grande e doce fundo de bondade antiga.

A sua individualidade ajustava-se de molde á conhecida quintilha de Sá de Miranda:

Homem d'um só parecer,
D'um só rosto, uma só fé,
D'antes quebrar que torcer,
Elle tudo póde ser,
Mas de côrte homem não é.

Quem o visse a primeira vez, e o ouvisse ralhar sanhudo, receberia a impressão de ter deante de si um{126} velho militar rabujento,—um major revoltado contra a sua reforma e a decadencia do exercito.

Mas, ouvindo-o falar em certas horas de mansidão patriarchal, de—digamol-o assim—bom humor tarimbeiro, ficava-se encantado de ouvil-o e de tratal-o, porque a sua erudição fazia desculpar as demazias de linguagem em que ás vezes caía.

Como bibliographo, elle edificou a mais notavel obra que, depois da Bibliotheca Lusitana do abbade Barbosa, saiu dos prelos portuguezes. Não só melhorou o trabalho de Barbosa, corrigindo-o e ampliando-o, mas escripturou com larga noticia, quasi sempre impeccavelmente conscienciosa, todo o inventario dos livros estampados posteriormente á publicação da Bibliotheca Lusitana.

Que somma de paciencia, de fadiga, de diuturna applicação, de buscas mallogradas ou felizes, de sacrificios pecuniarios, de caminhadas improductivas ou bem succedidas, de contrariedades vencidas ou vencedoras representa o Diccionario Bibliographico Portuguez até o ponto em que o deixou publicado, e apparelhado para a continuação dos restantes volumes do Supplemento!

De mais a mais, a natureza da especialidade em que labutava não lhe consentia uma hora de descanso. Tarefa interminavel, porque um diccionario bibliographico não se completa nunca, arrastava-o a uma aspera applicação ininterrupta.

Elle jámais poderia dizer como os marinheiros que, ao cabo de uma longa viagem, avistam a terra desejada: Emfim!

O seu emfim! devia ser a morte.

Todos os dias, de toda a parte—graças á actividade febril dos prelos nos ultimos vinte annos—recebia novos livros, que se iam empilhando em camadas alterosas á espera que a alphabetação por auctores lhes fizesse lugar nos tomos seguintes, ou no retrocesso a{127} um novo supplemento, que decerto já não esperaria concluir.

Todos nós podemos hoje testemunhar a grande importancia do Diccionario Bibliographico Portuguez, como subsidio para os nossos trabalhos litterarios. Tem defeitos e lacunas, mas seria absurdo exigir que os não tivesse. O que elle dá, é bom; o que deixa de dar, em relação ao seu tempo, é pouco.

Como bibliophilo, Innocencio Francisco da Silva não era um avarento, um Harpagão egoista, que fechasse a sete chaves os seus livros e os seus manuscriptos. Facultava uns e outros aos seus amigos. Eu mesmo fui obsequiado por elle com a copia de algumas poesias ineditas de Gabriel Pereira de Castro, que me serviram para architectar sobre ellas o conto—Como as borboletas se queimam—inserto no livro PORTUGAL DE CABELLEIRA (1875).

Egoismo de bibliophilo só o tinha para os seus collegas em bibliomania. Era natural que, entre elles, disputasse encarniçadamente a presa. Julio Cesar Machado conta nas Mil e uma historias o caso interessante de Pereira Merello e Innocencio procurarem enganar-se um ao outro, com o fim de apanharem um livro raro, que ambos haviam lobrigado no Manuel Rodrigues, do Pote das Almas.

D'esta vez Innocencio ficou codilhado.

A este ou outros desastres alludia elle certamente quando, escrevendo o artigo Bibliophilos e biblomaniacos, na Encyclopedia litteraria, publicada pelo sr. Antonio Maria Pereira (filho), dizia com visivel azedume:

«Na classe dos bibliomaniacos improductivos, que capricham em accumular livros sobre livros, um conhecemos sobre todos digno de menção especial. Fareja este homem diariamente ha bons vinte e cinco annos, as lojas dos livreiros e alfarrabistas de Lisboa, sem que lhe escapem os leilões e a classica feira da ladra, na diligencia de prover-se de tudo o que nas diversas provincias{128} da republica litteraria gosa de algum apreço por merito ou raridade. As linguas, o assumpto, a edade dos livros são para elle coisas indifferentes; sciencias, arte, litteratura, prosa e verso, impressos ou manuscriptos em qualquer lingua, e de qualquer tempo, tudo lhe serve e tudo abarca. D'este modo tem conseguido reunir copiosissima somma de volumes, e não sem grande dispendio, com quanto seja de genio naturalmente acanhado, e de uma mesquinhez que toca as raias da miseria, chegando por vezes a tornar-se insupportavel aos vendedores que o têem por um caustico volante. Pois esta originalissima creatura, cujo saber parece ser encyclopedico, apenas nos deu até hoje por suado fructo de tantas lucubrações um magrissimo artigo de vinte e tantas linhas, servindo de explicação a uma reles lithographia, que appareceu ha muitos annos em certo jornal artistico de Lisboa, de ephemera duração!...»

Aqui está o Innocencio azedo, despeitado, tal como elle era nas suas horas de indignação. Mas, bibliophilo productivo, auctor de um vasto repositorio bibliographico que a todos aproveitaria, comprehende-se e desculpa-se o desespero com que elle veria fugir-lhe um raro exemplar precioso, destinado a tornar-se improductivo para toda a gente, com excepção, talvez, do seu feliz possuidor.

Elle tinha a religião, o fetichismo do livro. Era um idolatra, um fanatico. Mas n'aquelle templo litterario da rua de S. Filippe Nery abriam-se de par em par as portas para os amigos que queriam estudar. E os que não eram seus amigos pessoaes, aproveitavam, mediante a publicação do Diccionario, com a riqueza dos thesouros acumulados por Innocencio.

O predio em que habitava—e que tem hoje uma lapide commemorativa—estava completamente cheio de livros, de alto a baixo. Innocencio e a sua pequena familia habitavam, os peores compartimentos do predio, unicos disponiveis.{129}

Foi na loja do Pereira pae, na rua Augusta, que eu conheci Innocencio. Elle ia ali todas as noites. Ali estreitamos relações de amizade cordealissima. Innocencio falava sempre, fumando muito, e habitualmente maus charutos. Tinha o costume de deixal-os apagar para que se tornassem mais fortes quando os reaccendesse. Em sua casa havia differentes caixas atulhadas de pontas de charuto, que elle fumava emquanto estava trabalhando.

Disse-se que esse abuso de mau tabaco contribuira para matal-o. Innocencio morreu de um scirro na lingua, que o fez soffrer terrivelmente. Não podia falar, não podia comer, não podia descansar com dores atrocissimas.

Que attribulada existencia, e que tormentosa morte!

Eu fui visital-o algumas vezes durante a sua longa e dolorosa agonia. Despedaçava o coração vel-o soffrer. E—circumstancia que n'este momento me está lembrando com viva saudade—foi com o seu collar de academico que eu concorri ao baile dado no Paço d'Ajuda em honra do principe de Galles.

Quando lh'o devolvi, Innocencio escreveu n'um bocado de papel: «Recebi. Innocencio.» Mas a sua lettra estava já inteiramente desfigurada. A morte ia apagando lentamente todos os vestigios da sua viril individualidade. Foram as ultimas palavras que recebi de Innocencio.

Dias depois morria, e só n'essa hora a sua alma, sempre trabalhada de canceiras e desgostos, poderia dizer, pela primeira vez, «Emfim!»


 {130}

XV

Tres actrizes

Vi no theatro de S. João do Porto representar a Manuela Rey, e parece-me, se penso n'isso, que estou sonhando ainda uma doce illusão meio sagrada, meio profana—a de ter visto passar no palco de um theatro um cherubim de azas brancas e cabello loiro.

Essa mulher idealmente bella tinha a sua chronica de actriz, a sua historia vulgar no amor—como as outras. Mas vel-a era o mesmo que divinisal-a, ouvil-a era esquecer a sua origem terrena, a sua vida mundana.

Dava vontade de roubal-a n'uma noite azul, envolvendo-a n'um veo de gaze branco e de conduzil-a á beira de um lago para que as estrellas e os lirios fossem testemunhas de um primeiro beijo de amor, muito casto e muito leve...

Era mulher para um idillio, para um sonho de poeta. E todavia, acabado o espectaculo, ella tinha um amante que a esperava e um coupé que a conduzia para um leito onde nem os lirios nem as estrellas se prestariam a engrinaldar idealmente as almofadas de sumaúma.

Vi-a representar no Porto a Cora e recitar a Stella matutina, de Theophilo Braga, o qual tinha feito recentemente a sua estreia ruidosa com a Visão dos tempos.{131}

Nos labios de Manuela Rey passavam, como celeste harmonia, os versos do poeta:

Eu sou a filha d'Eva
Gerada em outro amor!
Caíndo a dôr me eleva...
Senhor, Senhor, Senhor!

Vendo-a e ouvindo-a comprehendia-se que se uma lagrima tivesse voz, vibraria exactamente na tremula modulação musical d'aquella garganta divina, e que se n'uma lagrima se houvesse gerado uma mulher, essa mulher, destinada a

... servir de falla
Á dôr que emmudeceu

seria personificada na formosura etherea e biblica de Manuela Rey.

A Emilia das Neves, a grande tragica portugueza, vi representar no Porto todo o seu velho repertorio, a Joanna a doida, a Mulher que deita cartas, a Medea.

Era uma mulher da Grecia antiga, apta para interpretar Sophocles e Euripedes. A sua belleza decaía no esplendor de um occaso magestoso—como o sol. Via-se, atraves da neve com que a velhice lhe pulverisava os cabellos e as feições, a estatua que um Phidias cinzelára no seu corpo de marmore. A expressão tragica dos olhos, a riqueza dramatica da voz, a amplidão esculptural do peito tinham-n'a fadado para a scena antiga, onde as grandes paixões humanas, para expludirem theatralmente, exigiam um corpo que não ficasse vexado dentro de um manto real, uma plastica talhada a cinzel n'um bloco de Paros.

Entre as minhas recordações mais nitidas avulta a da apotheose que os estudantes do Porto realisaram no theatro Baquet, na noite de 26 de fevereiro de 1863, em honra de Emilia das Neves e Sousa.

Eu tinha então quatorze annos, e não tomei parte{132} na festa senão como espectador. Mas raro foi o estudante favorecido das musas que não afinasse a lira para aquella famosa noite. Lembro-me perfeitamente da difficuldade que a minha familia teve em obter um camarote de segunda ordem. Na platéa, os estudantes, empilhados como sardinha em tigela, vozeavam applausos atroadores sempre que o himno da linda Emilia, como ainda então se dizia, era executado pela orchestra.

A lettra d'esse himno fôra escripta por Custodio José Duarte, um poeta que estudava medicina; compuzera a musica outro academico, João Baptista Pires.

Ahi vae a lettra do himno:

O robusto leão da victoria
De teus pés lambe a terra em redor;
Tua vida é um archivo de gloria,
O teu nome um augusto esplendor.

Para ti nunca findam as palmas,
Nem os bravos que fazem tremer;
E do ouro de lei d'estas almas
Só tu podes um throno fazer.

Nós que vemos os lumes ardentes
Onde Deus escondel-os nos quiz,
Vimos hoje dizer-te frementes:
«És sublime, és sublime, ó actriz!»

Arde o peito em delirio o mais puro,
Cada olhar ao teu nome reluz;
Has de ser immortal no futuro,
Que este fogo é baptismo de luz.

Côro

Para a fronte onde o genio rebenta
É pequena a corda dos reis;
Ha no mundo uma só que lhe assenta:
A corôa dos nobres laureis.

Por mais de uma vez foi o côro repetido pelos espectadores, postos em pé sobre as cadeiras ou pendurados{133} dos camarotes de terceira ordem, por onde ainda outro dia as chammas alastraram as suas linguas de fogo.

Se houve ovação espontanea e enthusiastica foi aquella, tão differente, bem o póde dizer quem a viu, das ovações convencionaes que hoje se fazem aos nossos artistas com applausos de amigos e bouquets que se vão buscar ao palco para tornar a atiral-os.

N'aquella noite havia uma tal abundancia de poetas e flôres, abundancia caudalosa, que a propria Emilia das Neves, habituada ás glorias da scena, estava profundamente commovida.

Qualquer poeta de hoje em dia a custo escreverá meia duzia de versos para um album ou para uma festa theatral.

Pois, n'aquella noite de ha vinte e cinco annos, os melhores poetas da Academia do Porto compuzeram em honra da linda Emilia dois e tres epinicios cada um e, não contentes com imprimil-os ou recital-os, reproduziram-n'os no album da grande actriz.

Assim, Custodio Duarte, além de ter composto o himno, escreveu uns alexandrinos que foram distribuidos, e outros alexandrinos que foram recitados por Luiz de Azevedo Mello e Castro, estudante de medicina.

Este estudante de 1863 é hoje cirurgião do exercito. Recitava primorosamente. Vi-o ha poucos annos em Setubal, tomando cerveja á porta do botequim do Lapido, melancolico e concentrado como sempre. Tive vontade de chegar-me ao pé d'elle e perguntar-lhe: «Lembra-se da noite de 26 de fevereiro de 1863?» Se eu tivesse feito a pergunta, elle haver-me-hia respondido decerto: «Se lembro!» Aquella festa de estudantes ficou indelevel na memoria de quantos então o eram.

Os versos que o sr. Luiz de Castro recitou fôram trabalhados por Custodio Duarte sobre o modelo de Victor Hugo, que era então o mestre favorito dos poetas novos.{134}

Darei uma pequena amostra:

Na fronte mais humilde ha uma coisa infinita!
Póde um peito conter oceanos de luz!
Ha um quê no coração, que, se um dia palpita,
Como o braço de Deus, cria mundos a flux...

Feliz o que no berço abraça em sonhos vagos
Um phantasma de fogo e acorda pensativo!
Ao tecto do casal vem-lhe a estrella dos Magos,
E sempre estrada immensa aponta-o lume vivo...

E então é tanto o ardor a incendiar a mente,
Que se crê que lá dentro estalam mil vulcões;
Um descobre um Principio, um outro um Continente,
O Talma encontra um palco, uma lyra Camões!...

Custodio Duarte fez-se medico, e foi para a India. Era ha poucos annos professor de não sei quantas cadeiras na escola de Gôa. Depois esteve na Africa occidental. Ultimamente regressou á metropole.[12]

Mas não poucos dos moços poetas d'essa noite devem estar já pulverisados no seio da terra.

Um d'elles era Guilherme Braga. Posso reproduzir a quadra final que elle compôz:

Curvamo-nos tambem... É Deus que passa
Occulto nos monarchas do proscenio!
É o seu braço de luz que, em fogo, traça
N'aquellas sombras o caminho ao genio.

Outro era Ernesto Pinto de Almeida, um lamartiniano de valor, que disse:

Eu, pobre espectador, do ignaro vulgo,
Que, d'alta sciencia deslumbrando ideas,
      Sente, mas não traduz;
Mulher ou anjo, realidade ou sonho,
Teu genio admiro, como admiro o Etna!
      O mar... a noite... a luz!...{135}

Emilia das Neves já estava então longe da sua florida mocidade, que devia ter sido gloriosa de esculptural belleza.

Mas, ainda assim, os poetas portuenses de melhor quilate não duvidavam chamar-lhe em 1863 mulher ou anjo.

Annos depois vi-a representar em D. Maria a sua ultima peça, O meia azul, n'uma decadencia pungitiva. A mulher luctava com a doença e com a velhice: duas enfermidades.

O anjo havia rasgado as azas nos espinhos de um esforço supremo de declamação e caracterisação.

E então passava nos meus ouvidos este verso de Ernesto Pinto de Almeida:

Mulher ou anjo, realidade ou sonho...

O que restava do sonho era apenas a realidade...

Outro dos poetas mortos chamava-se Nogueira Lima, ourives da rua das Flores. Um hipocondriaco fatalista e supersticioso.

Este dissera a Emilia das Neves:

Agora que aos teus pés, mais uma vez,
As rosas vem cobrir a tua estrada,
Acceita esta homenagem não comprada,
Mas filha do caracter portuguez!

Então ainda se não escrevia ideia com lettra grande, mas o genio dramatico de Emilia das Neves impunha-se de tal modo a admiração dos poetas, que não vacillavam em tratal-a com maiusculas, como se se estivessem dirigindo a uma verdadeira realeza.

Emilia das Neves representára n'aquella noite a tragedia Judith. Soberba, n'esse papel, em que nunca mais tornei a vel-a. Recordo-me nitidamente dos lances capitaes da peça, sobretudo d'aquelle em que ella degolava Holophernes, o qual Holophernes era o actor Maggioli com barbas de guerreiro.{136}

Se o fogo do enthusiasmo pudesse incendiar theatros, o do Baquet teria ardido n'aquella noite.

Quando o espectaculo acabou, a grande Emilia foi acompanhada a casa pela estudantada n'uma especie de «marche aux flambeaus», que se improvisou com mais enthusiasmo do que archotes.

Ella havia-se hospedado, se não estou em erro, n'um dos hoteis da Praça da Batalha. Ahi recomeçou trovejante a ovação, ao ar livre, e frio como costuma ser o das noites do Porto em fevereiro. Mas os corações estavam quentes, e as saudações ininterruptas ribombavam estentorosas pela rua de Cima de Villa dentro e pela Calçada da Madeira abaixo.

Emilia das Neves, abafada n'uma capeline branca, recebia da janella do hotel as saudações, alvejando como uma visão de Ossian ou de Macpherson; para o caso pouco importa.

Ranchos e ranchos, que tinham saido do Baquet no couce da archotada, assistiam gratuitamente a esse ultimo acto d'um espectaculo pago por bom dinheiro.

Os estudantes, voz em grita, entoavam o côro do himno:

Para a fronte onde o genio rebenta
É pequena a corôa dos reis;
Ha no mundo uma só que lhe assenta:
A corôa dos nobres laureis.

E, á socapa, a alegre malicia dos estudantes commentava muito o terceiro verso d'esta quadra, segundo certa hermeneutica que passára despercebida ao proprio auctor e aos ouvintes de boa fé.

E eu era então um d'elles.

Isto foi em 1863.

Hoje... tudo são ruinas e cinzas: da bella Emilia, o alvo d'aquella ovação; de alguns poetas que endeusaram a grande tragica portugueza em versos de toda a especie; e até do theatro onde ella representou e elles a cantaram.{137}

O tempo é um demolidor terrivel?

Gertrudes... Gertrudes não sei de que—toda a gente dizia apenas a Gertrudes—pertencia a essa raça privilegiada de mulheres fortes e bellas, em que Emilia das Neves brilhou como o sol no meio do sistema planetario.

Fôra no theatro portuguez, como actriz, uma das primeiras entre as segundas; como mulher, o seu corpo branco e opulento, a sua carnação sadia e válida, fazia pensar mais n'ella como mulher do que como actriz.

E era ainda o seu vulto distincto, o seu ar de grande dame, o seu bello collo de alabastro que, na velhice e na doença, triumphavam na scena de D. Maria, poucos mezes antes da pobre Gertrudes cair tocada pela morte.

Na intimidade do camarim, ella tinha a mais infatigavel mordacidade de que dou noticia em mulher. Mas sabia ser mordaz, porque entretinha, e dizia quasi sempre a verdade. Conhecendo muito bem a vida dos bastidores, os seus ridiculos e os seus pôdres, dava quasi todas as noites um curso de psichologia theatral. Punha a nú os segredos mais ou menos escandalosos, que as lonas encobriam; e a golpes de epigramma tesourava os anteparos de papelão, que armavam á credulidade ingenua do publico.

Estou-me lembrando de um quarto de hora de Rabelais, que ella me fez passar no theatro de D. Maria.

Acabára de realisar-se em Paris a première de Mr. Alphonse de Dumas Filho, e Santos, então á frente da empresa de D. Maria, encarregára-me de traduzir a peça em tres dias.

Tres dias, é um modo de dizer. Eu só tinha livres as noites, e foi justamente á noite que, passeando e fumando, ia ditando a traducção a um amigo meu, que se prestára a esse serviço, e que já hoje não existe.

D. Maria pôde finalmente dar a peça—por tal signal que em beneficio de Brazão.{138}

Na segunda noite cheguei ao theatro, entrei na platea, encostei-me a uma porta. Eu recebia, como todos os traductores, uma percentagem sobre os bilhetes vendidos. Vi que a casa estava completamente cheia, alegrou-me esse facto, que redundava em proveito meu, e ia a sair da platea quando inesperadamente ouvi a Gertrudes dizer em scena:

—Vai-te d'aqui, meu estupor.

Rebentou em todo o theatro uma hilaridade retumbante, o publico riu longamente, mas eu, fulminado, desesperado, corri á caixa, procurei por todos os cantos a Gertrudes.

Ella tinha sido chamada uma vez, muitas vezes: estava ainda em scena.

Mal que a vi dirigir-se para o camarim, corri ao seu encontro.

Gertrudes, rindo muito, como todos os outros artistas que com ella tinham estado em scena, disse-me:

—Já sei, já sei. Então que quer? Escapou-me! Mas o caso é que agradou.

Observei-lhe que esse lapso me prejudicava litterariamente; que eu podia ser accusado, com apparente razão, de ter deturpado a meu bel-prazer, e com mau gosto, o original de Dumas.

E ella, sentando-se no sophá do camarim, ainda arquejante, tomando um tom sentencioso, disse:

—Olhe, meu amigo, não viu como o publico gostou? D'isto é que toda a gente entende, e gosta. Perdoe o mal que lhe fiz, pelo bem que soube ao publico.

E eu, que entrára zangado, acabei rindo... tambem.

Nos ultimos tempos, a doença cavára sulcos profundos no seu rosto. E aquella forte e bella mulher, que parecia talhada, como Emilia das Neves, pelo cinzel de um estatuario, expirou decerto poucos momentos depois do espelho lhe ter dito: «Estás irremediavelmente morta.»

[12] Já falleceu. Era irmão de outro poeta illustre, que felizmente ainda vive, Manuel Duarte d'Almeida.—NOTA DA 2.ª EDIÇÃO.


 {139}

XVI

Actores celebres

Conheci muito bem no Porto o actor Marcolino, já alcachinado pela terrivel doença que o matou. Soffria da spinal-medulla; estava perdido. Vivia n'um pequeno chalet alcandorado pittorescamente sobre a praia dos Inglezes, na Foz. Os medicos haviam-lhe receitado, por piedosa convenção, o ar do mar.

Marcolino era um actor comico de subido merecimento, muito estimado em Lisboa. A doença afastou-o do palco, e da capital. Foi, pois, no Porto que o conheci, e eu podia então dizer com Thomaz Ribeiro:

Eu nunca vi Lisboa, e tenho pena;
mãe de sabios, de heroes, crime e virtude;
golfão de riso e dôr, que ora serena,
ora referve e escuma em sanha rude.

Mal pensava eu então que, annos volvidos, viria fixar residencia em Lisboa, mais attraido pelo seu movimento litterario e artistico do que pelas magras sopas que o orçamento me offerecia n'um prato de estanho.{140}

Concorri com Marcolino, durante tres noites, a um oiteiro no convento de S. Bento da Ave-Maria. Os rapazes de hoje não sabem o que era um oiteiro. Pois deixaram de conhecer o melhor de todos os saraus litterarios, que a tradição da extincta Arcadia conservou ainda por muito tempo. O oiteiro era o festival com que se celebrava a eleição da abbadessa em cada convento. Durava tres dias e tres noites. N'outro tempo, as freiras diziam das janellas para o pateo os motes que os poetas glosavam. Bocage foi um fogoso frequentador de oiteiros. No meu tempo, as coisas tinham mudado já. Havia recepção na grade da abbadessa. O feminino superior do convento sentava-se, dentro da grade, em semicirculo, dando a presidencia á prelada recentemente eleita. Fóra da grade havia um piano, um bufete permanente, e o masculino preciso para mundanisar a festa. Fazia-se musica, recitava-se, conversava-se. O mote era ainda obrigado, mas não constituia o unico elemento essencial da festa, como n'outros tempos.

Foi n'esse oiteiro que eu ouvi Marcolino recitar, não uma poesia comica, como se poderia esperar do genero que elle tão distinctamente cultivava no theatro, mas uma poesia lirica, A borboleta, de Thomaz Ribeiro, que elle disse com um notavel primor de interpretação.

Estou a vêl-o, e a ouvil-o ainda:

Eu conheço-a! oh, se a conheço!
sempre volitando anciosa,
esbelta, fugaz, airosa,
esquiva, amante, esquecida,
eterno enygma na vida!...
Eu conheço-a! ah, se a conheço!
Estimo-a; estimal-a é grato;
quero entendel-a... endoideço!

As freiras (comquanto n'esta designação generica fossem incluidas muitas coristas, algumas d'ellas gentilissimas) ficaram encantadas de ouvil-o, e nós, os homens,{141} tambem. Marcolino teve uma ovação estrondosa: creio que foi a ultima da sua vida.

Eram duas horas da noite quando saimos da grade, e eu lembro-me ainda de que me despedi em verso n'um improviso de que apenas sei hoje as ultimas rimas:

Tenho esta noite glosado
Versos a esmo, a granel.
Consenti, minhas senhoras,
Que eu d'esta feita termine
E que a vossos pés se incline
Vosso servo: Pimentel.

Eu era então uma creança. Mal me penujava o buço. Mas que alegria, que felicidade a minha n'aquella noite! Á saida, as gentilisimas pensionistas vieram ainda despedir-se de nós á portaria. Uma d'ellas era filha natural de um antigo conde do Minho; morreu pouco depois. Outra era minha prima: quarenta annos e uns olhos, que não tinham mais de vinte. Tambem já morreu. Em Lisboa ha uma unica pessoa que póde lembrar-se do oiteiro de S. Bento, porque tambem lá esteve: o escriptor Souza Viterbo, que, n'essa noite, com grande applauso da assistencia, glosou um mote n'um soneto, façanha comparavel á de ter mettido uma lança em Africa.

Foi tambem no Porto que eu conheci o Santos Pitorra, como dizia toda a gente, sem embargo de elle ser, pelo seu altissimo valor artistico, o grande Santos.

A companhia do theatro de D. Maria II, de que Santos era então um dos empresarios, dera alguns espectaculos no Porto, eu frequentava os espectaculos e os ensaios, o palco e o foyer, e escrevi por essa occasião, julho de 1873, uns versos, que se intitulavam Lirios, e que Emilia Adelaide recitára.

Por tal signal que Emilia Adelaide saltou, por deficiencia de memoria, dezenas de versos, o que eu julguei, n'aquella occasião, um desastre irremediavel.{142}

Fiquei surprehendido de ver que o publico applaudia; mas, a breve trecho, encontrei a explicação do facto. A memoria da actriz prejudicára os versos; comtudo a belleza da mulher era ainda bastante a perdoar todas as faltas da actriz.

Santos atára com Guilherme Braga e comigo estreitas relações de amizade. Lembro-me ainda com saudade de um jantar que tivemos os tres no Hotel Francfort, onde elle estava hospedado. A esse jantar, tão alegremente conversado, assistiu tambem a actriz Amelia Vieira. Quando cheguei a Lisboa, Santos deu-me um banquete romano na sua casa da rua do Amparo. Estavam á mesa, entre muitos, Julio Cesar Machado e Miguel Queriol. Foi outra a actriz que assistiu a este festim: Emilia Letroublon, já então louca, mordia por vezes as mãos dos convivas.

Hoje, tres annos passados sobre a morte do actor Santos, abro o pequeno livro das suas memorias, que elle publicou já acorrentado ao leito da morte como o Prometheu ao rochedo, cerrados os olhos na escuridão com que a cegueira o quiz habituar á noite eterna do sepulcro, dilacerado o peito amante pelo abutre implacavel da saudade...

N'esse pequeno livro, que tem o que quer que seja de sagrado como os epitaphios, encontro uns versos meus escriptos para a noite do seu beneficio no theatro de D. Maria em 16 de maio de 1874.

Paro um momento a lel-os:

Foi aqui—a historia o conta...
Que entre flôres, palmas, himnos,
Dos talentos peregrinos
Brilhou a constellação.
Era um loureiral a scena,
O theatro escola e templo,
Cada talento um exemplo,
Cada palavra—lição.{143}

Formoso e esplendido quadro!
As bellas frontes rasgadas
Resplandeciam banhadas
Em misterioso fulgor...
Grupo onde tudo era grande
Merecia moldura d'ouro,
Se tantas cordas de louro
Não o cingissem melhor.

Foi o tempo devastando
As maravilhas da tela.
Onde a loira Manuela?
Onde Epiphanio, o pharol?
Onde Sargedas, a graça?
Onde Tasso e a sua gloria?
Mais quatro nomes na historia,
Mas não é posto inda o sol.

Não é. O quadro tem vida.
Move-se, agita-se, fala
Remurmuram n'esta sala
Os eccos da sua voz...
Supponde muitas palmeiras
Rasgando do céu as brumas...
Quando o vento prostra algumas,
As outras não ficam sós.

Dos velhos heroes da scena
Descem hoje sobre o espolio,
No theatro-Capitolio,
Flôres d'antiga ovação.
É que um talento robusto,
Honrando um nobre legado,
Resuscita hoje o passado,
Renova as flôres d'então.

E a sua voz, que domina
Da ovação a anciedade,
É a voz da posteridade,
Que da scena aos velhos reis
Diz como um brado da historia:
«La vos honrei o legado;
«Se vos prostrou o passado,
«Não sois mortos. Reviveis...»{144}

E de todos estes versos, a que unicamente a saudade de José Carlos dos Santos poderia dar segunda edição, ha um em que a minha attenção particularmente se detém:

Mas não é posto inda o sol.

Então, em 1874, este verso era profundamente verdadeiro. O theatro de D. Maria fazia lembrar n'esse tempo um vasto pantheon onde alvejavam as urnas funerarias dos grandes vultos da scena portugueza. Emilia das Neves não tinha ainda morrido, mas a velhice aniquilava-a. Já se não contava com ella senão para relembrar-lhe a gloria. E n'esse venerando cemiterio, onde o cipreste e o loureiro coufundiam as suas ramagens, Santos sacrificava em honra de tantos mortos illustres, sacerdote solitario que devotadamente ia enflorando as lousas com as corôas e as palmas que elle proprio ganhava para perpetuar a tradição gloriosa do velho theatro normal.

Elle era, para que assim o digamos, o crepusculo interposto a um dia de victoria e a uma noite de decadencia.

Não era posto ainda o sol, porque elle era a luz crepuscular; não estava inteiramente deserto o templo, porque Santos o povoava ainda.

Mas não havia outro laço vivo a prender o passado ao presente senão elle.

Como Emilia das Neves, o Rosa e o Theodorico estavam velhos e doentes; Taborda principiava a retirar-se.

Santos, de pé, combatia intrepidamente sobre a barricada que ia render-se.

Uma fatalidade enorme viera fulminal-o de subito. Cegára tão rapidamente como se fechasse os olhos para dormir. E ao cair no seu posto de honra, similhante ao soldado abatido por uma bala, a medicina prophetisára que elle não tornaria a vêr a luz senão passada a barreira da eternidade...{145}

Santos quiz luctar ainda com a fatalidade que o ferira: appareceu cego no palco tres vezes, uma no theatro de S. Carlos, outra no theatro do Principe Real, a terceira no theatro da Trindade.

Já não era elle... O seu corpo estava ali, mas a alma confrangia-se sob as azas negras da cegueira. Era uma sombra que falava, uma realeza condemnada como a de Luiz XVI—que tantas vezes reproduzira—passando através dos bastidores, venerada ainda pelos velhos cortezãos, mas insultada já pelos estragos da doença.

Era aquelle um transito doloroso para a guilhotina, porque os actores morrem no dia em que são obrigados a abandonar o theatro.

A elle condemnara-o a desgraça, não a velhice. Cedia a uma revolução, ainda como Luiz Capeto, a revolução das trevas contra a luz. A cegueira, como um sans-culotte implacavel, arrastava-o para o Temple, as quatro paredes do seu quarto, onde o carrasco, a doença, viria todos os dias annunciar-lhe a morte. N'esse angustioso despedaçar do corpo, ouvindo a voz do algoz que lhe disputava a vida, Santos mais de uma vez repetiria por certo a phrase notavel que Paulo Giacometti puzera na bocca de Luiz XVI: Ah! a natureza humana não tem força para mais!

O sacrificio havia de consumar-se, porque a sentença era irrevogavel. O condemnado sentira levantar os ferrolhos do Temple: era a sua familia que entrava para trocar com elle as effusões da ultima despedida. Despedida incomportavel! que devia durar cinco mezes, sem que os braços do amor pudessem afrouxar de tensão n'aquelle longo abraço, que era o derradeiro.

A morte parou respeitosa e timida ao limiar. O algoz commoveu-se. Tamanha era a magestade d'aquella realeza de infortunio!

Ghegou porém a hora fatal em que a terrivel sentença havia de cumprir-se. O condemnado offereceu a sua cabeça ao sacrificio, e uma familia coberta de luto{146} fôra regando de lagrimas, religiosamente, a via dolorosa por onde esse rei da scena era arrastado á tortura.

Mas, com a fronte mésta sobreposta ao grupo venerando de uma familia orphanada, o theatro portuguez soluçava n'um luto irremediavel, n'uma viuvez amarissima.

Era o Delphim que pranteava a morte do rei...


Do theatro antigo conheci muito bem tres actores: o Izidoro, o Theodorico, e o Rosa pae.

Izidoro era um excentrico alegre, amigo de fazer partidas: algumas conta elle proprio nas suas Memorias. Como actor comico, mereceu a celebridade que teve. Quando cantava com Taborda o duetto de Moysés, ou representava os Dois candidatos e Para as eleições, era da gente rebentar a rir.

Theodorico, ao tempo em que o tratei mais de perto, estava doente, triste, muito velho. A troça indigena mettia a ridiculo a sua declamação emphatica, um pouco afinada pelo tom castelhano. Era certamente um defeito de escola, mas, em compensação, todos os artistas do seu tempo, incluindo elle proprio, sabiam representar. Muito escrupuloso, muito correcto, só tinha, para a nossa época, o defeito de haver envelhecido.

No trato particular, um perfeito cavalheiro.

Nos ultimos tempos, muito esverdeado das faces, dava todas as manhãs o seu passeio no Rocio, sentava-se a descansar n'um ou n'outro banco e, se a gente o conversava, todo o seu gosto era falar do filho, que pretendia então um logar na alfandega.

Ainda cheguei a ver em scena, tanto no Porto como em Lisboa, o Rosa pae. No Porto, ouvi-o recitar o episodio do Adamastor, de Camões, e o Firmamento, de Soares de Passos. Em Lisboa vi-o n'uma reprise do Marquez de lá Seiglière, que foi o seu cavallo de batalha.{147}

Pertencia, como Theodorico, a essa illustre phalange de actores antigos capazes de investirem com a tragedia e com a epopea. Mas possuia, como Theodorico, os defeitos das suas qualidades. Sem embargo, era dos tres, de que tenho falado, o mais poseur: toda a gente se lembra ainda de o ver passear nas ruas de Lisboa com um grande chapeu desabado e o sobretudo alvadio ao hombro. Gostando da celebridade, procurava-a até fora do theatro, colleccionando quadros e vendendo botas.

Quero falar agora, posto que rapidamente, de outros actores notaveis

*

Tasso era, em scena, um homem distinctissimo. O celebre alfaiate Humann dizia a respeito de Gavarni: «Não ha senão um homem que saiba desenhar uma casaca: é Gavarni.» O Catarro ou o Keil poderiam dizer, com igual justiça, a respeito do Tasso: «Não ha senão um homem que saiba vestir uma casaca: é o Tasso.»

A sua dicção, um pouco saccadée, era cristallina, sonora. Ainda não ouvi no theatro quem dissesse melhor do que elle. E decerto não tornarei a ver quem soubesse estar melhor em scena.

Vi o Sargedas no Gaiato de Lisboa, no theatro de S. João, do Porto. Era dos bons, antigos. Apesar de velho, fazia o Gaiato como se estivesse ainda em idade de jogar o pião. Estes milagres, que triumpham da velhice, só os consegue o talento.

Antonio Pedro é um morto de outro dia.

Fóra do theatro, a sua gaucherie passava em proverbio. No theatro era um grande actor por intuição, tropeçando por vezes em pequenas difficuldades de prosodia, simplesmente. Mas, no vôo impulsivo da sua assombrosa vocação theatral, esmagava, ao passar pelo palco, os que estudavam mais do que elle e lhe censuravam{148} a ignorancia manifesta em questões de arte dramatica.

Elle ia triumphando sempre e respondendo, com uma modestia phenomenal, aos que o elogiavam: «Isto calhou assim.» Esta phrase, tantas vezes dita por elle proprio, resumia, com effeito, todo o segredo da sua organisação artistica.

*

Com o Tasso convivi durante uma tournée, no Porto; com Sargedas nunca tratei pessoalmente. Rectifico assim uma inexactidão que só agora notei na 1.ª edição d'este livro e que julgo ter sido devida a qualquer diabrura tipographica.

Já isso vai ha tanto tempo!


 {149}

XVII

Pintores

No verão de 1875 estive mais de um mez em Coimbra como vogal da commissão de exames de instrucção secundaria.

Coimbra, a terra de encantos, só então me pareceu tel-os, porque da primeira vez que a visitei, durante um dia triste e chuvoso, cheio de incertezas para mim, a cidade havia-me deixado uma impressão bem pouco agradavel.

Mas em 1875 estava-se em pleno estio, os arrabaldes verdejavam as suas galas roçagantes, o Mondego, manso e humilde, amenisava bucolicamente a paizagem, toda a natureza, n'uma palavra, sorria e cantava por entre os sinceiraes e as suaves quebradas dos montes.

Uma delicia!

De manhã ia-se-me o tempo no trabalho dos exames, arduo sempre, e por vezes doloroso como é. Mas de tarde eu desforrava-me passeando no Choupal, na Estrada da Beira e, não poucos dias, no Mondego.

A convivencia não podia ser melhor. Havia examinadores{150} do Porto, de Lisboa, e de Coimbra. Acompanhavamo-nos uns aos outros nos passeios de todas as tardes. Só um unico dos nossos collegas, aliás homem estimabilissimo, se furtava á nossa companhia para divagar sósinho: era o pintor Christino, que fazia parte do juri de desenho.

Christino embarcava quasi diariamente, Mondego acima, e, recostado na prôa do barco, parecia gosar n'um extasi pantheista o bello espectaculo da natureza que o rodeava.

Os seus olhos absorviam todas as ondulações luminosas d'aquella clara paizagem, lucida e placida como uma vista de stereoscopo.

Pois que o pintor Christino tinha a configuração de um eucalipto, alto e magro, nós, que da Ponte o ficavamos observando, podiamos distinguir, até grande distancia, a sua figura esguia, as linhas do seu busto, que destacavam á prôa do barco.

Subindo o Mondego, era quasi sempre para a margem do poente que a sua cabeça descoberta, e mal guarnecida de cabello, pendia scismadora. Comprehendia-se. Christino reunia mentalmente á belleza do panorama as tradições romanticas, as memorias lendarias d'aquella margem. D'esse lado ficava a Fonte dos amores emboscada saudosamente na sombra de corpulentos cedros, que ali ouvem a agua suspirar a elegia dos mallogrados amores de Ignez. Mais para cima, á distancia de dois kilometros da cidade, a Lapa dos esteios, «retiro selvatico sem aspereza, e como enfeitado sem arte», segundo a phrase de Castilho, recordava os tempos semi-pagãos em que o poeta da Primavera e os seus amigos ali foram, em plena mocidade, celebrar, no seio da natureza, a festa do equinoxio que traz as flores e os canticos, os perfumes e os amores.

Christino havia sido educado n'essas tradições romanticas, tinha uma alma de artista, era uma organisação{151} delicada como a de Raphael, que se devorava nas suas proprias impressões, e ninguem mais profundamente do que elle poderia sentir toda a poesia d'essa região encantada, que o Mondego banha, e que as recordações e as arvores povoam.

Elle ia, rio acima, tão sonhador e abstracto como se uma gondola de Veneza o fosse passeando no canal do Lido ao som da barcarola de uma gondoleira. Ó dolce voluttá! Ó deliciosa voluptuosidade espiritual dos artistas! Que doces horas aquellas que o Christino passou no Mondego sonhando sobre as aguas!

Muitas vezes, vendo-o partir, o meu espirito o ficou abençoando do alto da Ponte como se elle levantasse ferro para uma longa viagem aventurosa e arriscada. É que eu, talvez por experiencia propria, sei quanto a gente envelhece de vagas saudades n'esses passeios ao acaso, que desgastam a alma, e com ella a vida. Volta-se velho, como se realmente se tivesse feito uma longa viagem. O passado é um paiz ideal onde se envelhece ao cabo de algumas horas de concentração.

Depois que regressei a Lisboa poucas mais vezes tornei a avistar-me com o pintor Christino.

Esse excentrico scismador das tardes de Coimbra morrêra, e ouvi dizer que a luz da sua razão tinha empallidecido primeiro que a dos olhos...

Quanto lhe não teriam cavado a sepultura aquelles sonhos do Mondego, tão a miude repetidos, e tão docemente devoradores!...

Tratei de perto com o Annunciação, que foi um animalista notavel. Encontrava-o muitas tardes na alameda de S. Pedro de Alcantara passeando, quasi sempre só. Tinha uma phisionomia um pouco semita: faces morenas, olhos negros e brilhantes. O sorriso, apenas esboçado, era comtudo facil e agradavel.

Amador da natureza, ia procural-a no panorama que d'aquella alameda se descortina, talvez como para saturar a sua alma d'esse pantheismo artistico de que{152} os pintores que copiam do natural precisam impregnar-se.

Falei-lhe uma tarde na minha passagem habitual por S. Pedro de Alcantara. Estava bem disposto, communicativo. Os olhos conservavam o seu brilho agareno. Despedi-me d'elle com a ligeireza de quem o faz por vinte e quatro horas.

No dia seguinte, de manhã, pego n'um jornal: Annunciação havia morrido repentinamente.

E á tarde, quando tornei a passar por S. Pedro de Alcantara, o panorama oriental da cidade parecia provocar, na sua belleza tranquilla, a paleta de um pintor.

Chega ás vezes a causar desespero a ideia de que, sendo eterna a natureza, o homem, o mais perfeito dos seus organismos, seja quasi um ephemero!...

Miguel Angelo Luppi não se parecia phisicamente nem com o Christino nem com o Annunciação. Os cabellos branqueavam-lhe já, mas a sua phisionomia era aberta, alegre, levemente jovial. Nutrido, peito largo, parecia vender saude.

Tinha-me encontrado com elle, ha muitos annos, n'uma soirée litteraria que o visconde de Castilho (Julio) déra na sua casa da rua de S. João da Matta em honra do illustre escriptor hespanhol Menendez Pellaio.

Fizemos então relações, que nunca diminuiram nem augmentaram de intimidade. Mas eu gostava de encontral-o porque elle, que era um trabalhador, tinha alegria, e o seu exemplo dava-me coragem, o seu tom de convicção dava-me estimulo.

Não ha nada que me entristeça tanto como encontrar na rua um homem que se mostra desanimado por ser obrigado a trabalhar...


 {153}

XVIII

Um grupo de academicos

Lendo ha poucos dias o livro de Alphonse Daudet—Trente ans de Paris—lembrei-me muito de Teixeira de Vasconcellos ao percorrer o capitulo que fala de Villemessant.

O livro (collecção Guillaume & C.ie) é illustrado, e até o retrato de Villemessant denuncia um homem robusto, nutrido, como era Teixeira de Vasconcellos.

Eu conheci este escriptor na sociedade e na Academia. Encontrei-me varias vezes com elle nas soirées politicas de Fontes Pereira de Mello. Visitei-o outras vezes em sua casa, graças á benevolencia com que desde o primeiro dia me havia tratado. Era um perfeito homem de mundo, um gentleman, espirituoso, algum tanto mordaz. Contavam-se a seu respeito anecdotas escabrosas, mas, no trato social, não havia homem que mais prendesse pela amabilidade e pela cortezia.

Um dia Teixeira de Vasconcellos convidou-me para fazer parte da redacção do Jornal da Noite. Eu precisava{154} trabalhar: acceitei. A benevolencia, que elle sempre me tinha dispensado, fazia-me acalentar a esperança de que o gentleman das salas havia de continuar a ser affavel para com o ultimo redactor do seu jornal. Mas, dentro da redacção, Teixeira de Vasconcellos era, pelo menos, um pouco Villemessant: auctoritario, por vezes brusco, um homem muito differente, tomando sempre á lettra o seu logar de chefe de redacção e de dono de jornal.

Toda a gente se queixava d'isto, e eu tive tambem razão para queixar-me.

Mas, logo que o redactor saía, o Villemessant, o dono do jornal desapparecia completamente. Teixeira de Vasconcellos voltava a ser, para o desertor do seu jornal, o homem de sala, amavel, serviçal, obsequiador.

As pequenas nuvens, que tinham empanado o céu, rasgavam-se. E Teixeira de Vasconcellos recebia cordealissimamente os homens com quem, no trato familiar de todos os dias, havia tido frequentes pegadilhas.

Foi o que aconteceu comigo.

Depois que sai da redacção do Jornal da Noite vivemos deliciosamente. Se escrevia a meu respeito, fazia-o com extrema amabilidade. Se eu o visitava, acolhia-me gentilissimamente. E algumas vezes, na minha presença, vi soffrer torturas alguns dos seus redactores, como eu havia soffrido. Mas, acabando de ser Villemessant para os outros, voltava-se para mim sorrindo e continuando a conversar placidamente.

Visitei-o muito durante uma pneumonia dupla de que foi atacado, e assombrava-me o bom humor, sempre um pouco mordaz, só intermittente para os de portas a dentro, que elle conservava n'esse lance perigosissimo.

Já de Paris, onde morreu, e pouco antes de morrer, mandou-me um pequeno artigo, que eu lhe havia pedido para uma publicação do editor Chardron e que, não havendo sido publicado, deve ter apparecido no espolio d'aquelle editor.{155}

Foi o seu ultimo escripto, e tem, por isso, maior valia. Pena é conservar-se inedito.

Teixeira de Vasconcellos viveu uma vida accidentada, mas o seu lucido espirito colheu e aproveitou as lições da experiencia.

Sempre me hei de lembrar de um conselho que elle me deu:

—Se receber um livro mau, cale-se; se receber um livro bom, elogie-o.

Tenho-me dado bem com este conselho; e, quando o não sigo, arrependo-me.

Augusto Soromenho teve contendas, inimigos, desgostos. Passou metade da sua vida a estudar e outra metade a brigar. Quando entrei na Academia, estava ainda muito viva a lembrança de azedas discussões que elle lá tivera, com este e aquelle socio, por causa d'isto e d'aquillo. Sem embargo, e talvez por isso mesmo, Soromenho prestou bons serviços á Academia, de que fôra bibliothecario durante muitos annos.

É frequentissimo compulsar um livro qualquer da Bibliotheca de Jesus e encontrar dentro d'elle uma etiqueta que diz: «Adquirido pelo bibliothecario A. Soromenho para preencher a falta do exemplar da livraria.»

Bastaria só este serviço, muitas vezes repetido, para mostrar quanto Soromenho se dedicára pela causa da Academia.

Eu, que desde alguns annos converso mais os livros que os socios da Academia, lucrei sobremodo com a passagem de Soromenho pela bibliotheca d'aquelle estabelecimento, que ás vezes parece mais morto que vivo.

Não conheci nunca, no trato particular que tive com Soromenho, a irritabilidade agreste que muitos lhe attribuiam. Queixava-se, é certo, mas não se queixava mais nem menos do que todos quantos julgavam ter razão para o fazer. Não se vive largo tempo n'uma sociedade de homens do mesmo officio sem razões de{156} queixa. Peor do que uma sociedade de homens do mesmo officio só talvez uma sociedade de mulheres da mesma profissão. Quem melhor poderia dizer se isto é ou não inteiramente verdade, não o dirá por certo. Refiro-me ao sultão da Turquia e ao imperador de Marrocos, que têem serralho.

O que eu sempre reconheci em Augusto Soromenho foi um grande, um ardente desejo de estudar e saber. Elle defrontava-se corajosamente com todos os assumptos, por mais ponderosos que fossem. Tinha vindo socialmente de uma posição obscura, e litterariamente do lirismo romantico. Entrou no mundo das lettras com um livro de versos, o Diwan. Mas á força de trabalho e perseverança nobilitara-se social e litterariamente. Investiu com as mais intrincadas questões de philologia, de historia, de epigraphia e de direito. E conseguindo, por um grande esforço de naufrago, emergir á superficie do mundo litterario, como professor e academico, certamente teria que combater e que soffrer, porque ninguem vence os outros sem ficar vencido de si proprio...

Apesar de robusto—Soromenho era um homem forte, com uma phisionomia algum tanto arabe—morreu relativamente novo.

A ultima vez que lhe falei foi no Jardim da Cordoaria no Porto. Elle tinha ido áquella cidade como examinador de não sei que disciplina de instrucção secundaria; eu fui de Lisboa visitar a minha familia. Conversámos toda uma tarde. Soromenho contára-me casos, coisas da Academia e das litteratices lisbonenses. Animando-se na conversação, levantava-se, e então a sua bella figura de homem forte destacava-se como a de um luctador inquebrantavel. Usava sempre chapeu baixo, e a roseta de não sei que ordem portugueza ou estrangeira. Em rosetas não sou forte; entendo-me melhor com as rosas.

Lembro-me de que á despedida elle me dissera:{157}

—Olhe lá. Voce diz no Guia do viajante no Porto que eu nasci aqui. É engano. Sou de Aveiro—como os mexilhões.

Despedimo-nos rindo. Nunca mais falámos.

Antonio da Silva Tullio era um homem muito original, sempre atarefado, gritador, ás vezes tão precipitado que não se sabia bem o que elle queria dizer ou fazer. Muito activo, muito illustrado, não deixou comtudo uma obra litteraria que pudesse dar na vista á posteridade. Espalhou muito trabalho ás rebatinhas, e em pequenas doses, pelos periodicos litterarios da sua mocidade, A Semana, por exemplo. O que lhe conheço de melhor são as monographias sobre D. Catharina de Bragança e a Casa dos Bicos, bem como os Estudinhos de lingua patria, publicados no Archivo Pittoresco. De resto não consolidou o seu nome litierario n'um trabalho de folego. Faltavam-lhe, para isso, paciencia e methodo. Comtudo, era um homem de vastos conhecimentos litterarios.

Conservador da Bibliotheca Nacional de Lisboa, pôde ter muito emquanto teve boa saude. Era um catalogo vivo, e comtudo havia na Bibliotheca muita cousa que lhe escapára por falta de catalogação.

Quando eu escrevi o Livro das lagrimas para a casa Mattos Moreira, quiz conhecer tudo o que na Bibliotheca havia com relação a Santo Antonio de Lisboa.

Esta investigação era difficil, mas Silva Tullio citou-me logo, de cór, mais de quinze livros que tratavam do assumpto.

E no dia seguinte mandou-me para casa não menos de outros quinze livros.

Era em extremo obsequiador, serviçal, amavel. Ás vezes pedia-lhe a gente qualquer cousa. Elle, parecendo sempre distraido, respondia affirmativamente. Passavam-se dias sem que cumprisse a promessa. «Lá se esqueceu o Tullio do que eu lhe pedi!» Pois não tinha esquecido. Quando já menos se esperava, dava accordo de si, satisfatoriamente.{158}

Viveu muito na intimidade de Alexandre Herculano, e pensava em colleccionar as cartas do grande historiador, mas não o chegou a tazer. O tempo fugia-lhe, não só porque elle o perdia com os outros, mas porque tambem lh'o levavam a Bibliotheca Nacional, a Academia, e o Conselho Superior de Instrucção Publica. E de mais a mais faltava-lhe methodo para trabalhar. Foi sempre o grande defeito das suas qualidades.

Conhecia bem a lingua portugueza e, sem ser um estilista, escrevia com pureza e elegancia. Apreciava muito estas qualidades nos outros, especialmente em Camillo Castello Branco, por quem, desde certo tempo, teve uma grande admiração. A Semana, jornal que Silva Tullio dirigira de 1851 a 1852, atacou violentamente Camillo no seu noviciado litterario. Mas o tempo passára evidenciando a supremacia intellectual de Camillo, o tempo sazonára as suas grandes aptidões litterarias, e Silva Tullio tornára-se um dos mais enthusiastas admiradores do eminente romancista.

Ha annos Camillo viera de fugida a Lisboa, e hospedára-se no Hotel Universal. Jantei ali com elle e, quasi ao terminar o jantar, entrou Silva Tullio. Conversamos no quarto de Camillo até as dez horas da noite. Pois muitas vezes Silva Tullio tratou Camillo por mestre.


 {159}

XIX

Conselheiro Viale

Um dia, sem que eu o pudesse esperar, chegou-me ao Porto uma carta dos srs. Lucas & Filho, proprietarios da Bibliotheca Universal, convidando-me para escrever um romance historico.[13]

Puz as minhas condições, que foram acceitas, e o romance Annel mysterioso começou a ser publicado em fasciculos.

Ia em meio a publicação, quando nova carta dos srs. Lucas & Filho me instigou a escrever outro romance, para seguir-se immediatamente ao Annel mysterioso.

Aquelles editores davam como razão d'esta proposta o facto de ser recebido com agrado o meu romance que estavam publicando.

Confesso francamente que me encontrei n'uma situação embaraçosa lembrando-me de que é sempre difficil agradar na repetição, e de que a empresa editora poderia ser prejudicada pela aventura de querer que eu succedesse a mim proprio. Non bis in idem, diz o proloquio. Escogitei então na escolha de um assumpto que lograsse despertar maior interesse do que o Annel mysterioso,{160} e ao cabo de dois ou tres dias pareceu-me haver encontrado a chave do enigma. Não estando ainda explorada a lenda piedosa que se havia formado em torno do sarcophago de D. Pedro V, afigurou-se-me que esse assumpto valeria por sua mesma popularidade. Como eu era o primeiro a encher a bilha, teria em meu favor a abundancia da fonte. Acabada a publicação do Annel mysterioso, seguiu-se immediatamente a da Porta do Paraiso, chronica do reinado de D. Pedro V. E assumpto foi esse tão simpathico aos leitores, que deixou lucros á empresa editora. Lucas filho morreu pouco tempo depois, mas ainda vive o pae,[14] com tipographia na rua dos Calafates, e esse poderá dar testemunho de que é inteiramente exacta a minha narrativa.

Comecei a escrever a Porta do Paraiso no Porto. A meio do romance, caiu-me em casa um despacho para a secretaria da Procuradoria Regia de Lisboa, e vim tomar posse do logar. Escrevi em Lisboa alguns capitulos da novella. Voltei ao Porto, e continuei lá trabalhando. Vim definitivamente para Lisboa, e escrevi aqui os ultimos capitulos.

Estive dez annos na Procuradoria Regia vivendo como um Creso na rasão de 600 réis por dia...

Perdão! Não era isto o que eu queria dizer.

Foi depois da minha installação definitiva em Lisboa que conheci o conselheiro Antonio José Viale. Fui-lhe apresentado por Silva Tullio na Bibliotheca Nacional. Como eu não vim occupar uma posição brilhante, d'estas que logo põem em evidencia um homem, ainda que elle valha pouco, fui vagarosamente fazendo a minha provisão de relações sociaes, conhecendo hoje um politico notavel, ámanhã um litterato distincto; hoje um actor, ámanhã um jornalista: construindo eu proprio, laboriosamente, o meu edificio, pedra a pedra, dia a dia.{161}

Viale estava trabalhando n'um gabinete da Bibliotheca Nacional, quando eu cheguei com Silva Tullio. Agradou-me, logo ao primeiro relance, a sua cabeça de velho. Como fosse muito miope, Viale poz uma lente para fixar a minha phisionomia. Estive em foco alguns momentos. Falando-me com extrema amabilidade, destacava as suas palavras n'um tom gravemente conceituoso, que o habito do professorado explicava. E na sua maneira de pronunciar havia um tic original, que fazia retinir algumas sillabas.

Mostrou-se admirado de que eu, um recemchegado das lettras, quizesse espontaneamente conhecer um velho academico. Fez sentir que o grito de guerra, dos arraiaes litterarios, era «Place aux jeunes», ainda que para abrir logar aos moços fosse preciso demolir os velhos.

Viale tinha sido varias vezes tratado com injustiça pelos que chegavam. O seu resentimento era fundado. A injustiça desmandára-se até á jogralidade. E elle, que sabia profundamente o muito que sabia, magoava-se com razão de que a multidão dos novos passasse sob a sua janella, em tumulto revolucionario, apupando-o, ridicularisando-o no seu apego a Homero, no seu fanatismo por Pindaro. A maior parte dos novos não sabiam grego. Todo o crime de Viale era sabel-o.

Falou-me da Porta do Paraiso, disse-me que o livro lhe avivára recordações saudosas de el-rei D. Pedro V é da rainha D. Estephania; que de ambos fôra professor; e que tendo ido á Allemanha, para ensinar portuguez á mallograda rainha, havia publicado a seu respeito um opusculo, que eu alias só conhecia por uma transcripção. Offereceu-me esse opusculo e mandou-m'o d'alli a dias: Apontamentos para uma biographia de S. M. a rainha a senhora D. Estephania de saudosissima memoria, Lisboa, 1859, sem nome de auctor.

Os seus profundos e sinceros sentimentos religiosos evidenciaram-se logo ás primeiras palavras, denunciando{162} a firmeza convicta de um crente. Viale viveu sempre em plena religião. Catholico, adorava Deus e acatava profundamente a auctoridade da igreja romana; homem de lettras, adorava o classicismo, dormia, como Alexandre, com Homero á cabeceira, e adormecia talvez depois de ter rezado uma oração a Deus e recitado um trecho da Illiada ou uma ode de Pindaro.

Collaborou no Jornal da Sociedade Catholica, redigiu o Catholico, traduziu o primeiro canto da Odissea, o sexto da Illiada, os cinco primeiros cantos do Inferno de Dante, o episodio do conde Hugolino, e bosquejou em oitava rima a historia de Portugal, propagando pelas escolas de instrucção primaria as tradições gloriosas do passado.

A sua obra reflecte, como um espelho, a imagem da sua alma; traça com uma linha geographica os limites da sua honesta actividade intellectual. Educar pela lição grandiosa do passado e pela disciplina religiosa do catholicismo, foi o seu lemma, o seu fito, a sua tarefa.

Começou desde muito novo a trabalhar. Aos doze annos publicou um poema heroico, David triumphante, entrou no mundo das lettras pela porta da oitava-rima. Era a manifestação precoce de um espirito antigo, que parecia ter regressado n'aquelle momento de Constantinopla, invadida pelos turcos, salvando sobraçado o ultimo thesouro da civilisação greco-romana. Não chegou cantando o amor, como todos, adejando por sobre os rosaes floridos da poesia subjectiva. Não. Foi recolher-se na Italia, abrigar-se no palacio dos Medicis em Florença, conversar em Roma com Leão X e Julio II, preparar em espirito a Renascença. Assistiu mentalmente á dieta de Spira, e assim como apoiou os papas na resurreição artistica do passado, apoiou-os tambem na lucta tenaz do catholicismo contra Luthero. Partindo da Renascença, parou horrorisado deante da Reforma. Áquem da Reforma, eram tudo ruinas, a demolição do passado pela alavanca da impiedade. Mas a sua convicção{163} era de tal modo pura e profunda, entrincheirava-se tão fortemente n'um baluarte de sciencia, que conseguiu atravessar o mundo, até á extrema velhice, sem que os desgostos, as injustiças, os sarcasmos lograssem fazel-o vacillar um momento.

Eu tenho aqui, deante de mim, as Tentativas Dantescas do conselheiro Viale, a sua traducção do Inferno prefaciada por uma notabilissima carta de elrei D. Pedro V.

As palavras que o traductor me dirigiu, traçadas de seu proprio punho, na sua calligraphia senilmente arqueada, constituem a mais amavel das dedicatorias.

Eu era por esse tempo professor de historia de seu filho Luiz Filippe, um moço que ha de honrar largamente, nas lettras patrias, a tradição erudita do pae. O conselheiro Viale deu-me, durante esse anno lectivo, as mais subidas provas de consideração em que eu não deixei nunca de enxergar o coração affectuoso do pae através dos repetidos favores com que o academico, o professor, o hellenista confundiam a minha humildade de homem de lettras. Eu não havia de ser o juiz official dos meritos de seu filho, não dependia de mim a sentença do seu exame, mas comprehendia que Viale me pedia, de um modo captivante, que ensinasse áquelle que devia ser o successor do seu nome tudo quanto na exiguidade do meu peculio historico lhe pudesse ministrar.

Desde essa época, sobre a qual já vão passados alguns annos, nunca mais tornei a avistar-me com o conselheiro Viale.

 

Maio de 1889.

[13] Só muitos annos depois vim a saber em Lisboa que fôra Camillo Castello Branco que me indicára áquelles editores na occasião de ter declinado o convite que elles lhe dirigiram.—Nota da 2.ª edição.

[14] Tambem já falleceu, mas os filhos mais novos continuaram com a tipographia, que ainda subsiste.—Nota da 2.ª edição.


 {164}

XX

Eduardo Coelho

Em 1873, vespera de Natal, lembro-me bem...

A noite estava clara, levemente fria. Principiava a sentir-se um tudo-nada d'essa animação popular que, á meia-noite, havia de repartir-se pelos ranchos joviaes, de homens e mulheres, á saida da missa do gallo. As confeitarias resplendiam num grande espelhamento de guloseimas e cartonagens. Os varinos apregoavam o Jornal da Noite, que, dirigido por Teixeira de Vasconcellos, era a unica folha que saía depois de posto o sol. Patrulhas de cavallaria subiam a passo o Chiado e a rua larga de S. Roque, dispersando-se pela cidade alta. Para os theatros do Gimnasio e da Trindade encaminhava-se um formigueiro de espectadores, dobrando a esquina do largo das Duas Egrejas, onde hoje está a ourivesaria Leitão. Vendedores de cautelas rouquejavam o pregão da taluda, o 4897, perseguindo a gente.

Era o primeiro Natal que eu passava em Lisboa e,{165} diga-se francamente, uma pequenina onda de saudade, mansa mas teimosa, envolvia o meu coração na salsugem de recordações esfumadas, de memorias fugitivas d'aquella noite de festa.

Conhecendo apenas de Lisboa as ruas mais frequentadas, eu ia aventurar-me a uma exploração, não direi tão arriscada como as do sertão africano, mas não inteiramente isenta de difficuldades, por certo.

Como eu houvesse procurado já duas vezes Eduardo Coelho em sua casa, sem o encontrar, elle tivera a amabilidade de escrever-me pedindo que, a fim de encontrarmo-nos definitivamente, fosse eu á redacção do Diario de Noticias, ás nove horas da noite.

Fui. Mas, fiel ao meu programma de aprender as ruas de Lisboa sem o auxilio de ninguem, entrei no Bairro Alto um pouco ao acaso, em demanda da rua dos Calafates, pois que o seu chrisma em rua do Diario de Noticias é de recente data.

Complica-se com o encruzamento de varias travessas a topographia d'aquelle bairro. Ha pessoas que, comquanto nascidas em Lisboa, não se orientam facilmente no Bairro Alto, assim como tambem não são capazes de sair, sem que as dirijam, do labirintho do Bairro d'Alfama.

Tive a audacia de querer aprender, por mim mesmo, o caminho do Diario de Noticias, e não me ficou barata essa audacia. Perdi tempo e passos. Mas sustentei heroicamente o meu capricho: não fiz uma pergunta sequer. Aprendi n'aquella noite a complicada topographia do Bairro Alto, levei a cabo a exploração, sabe Deus com que trabalho!

Finalmente, entrei na redacção do Diario de Noticias quarenta minutos depois da hora aprazada.

Contei a Eduardo Coelho, que eu via pela primeira vez, embora tivesse estado com elle em communicação epistolar, a causa da minha demora.

Elle, de flôr ao peito, muito alegre, muito bem disposto,{166} riu da minha aventura e, ficando silencioso um momento, acabou por dizer-me:

—Sabe uma coisa? Gosto d'isso. Affirma um caracter. Você é um homem capaz de luctar, de soffrer para vencer. Perdeu quarenta minutos á procura do Diario de Noticias, mas ganhou o ficar habilitado a tornar cá com os olhos tapados.

Apresentou-me a todos os seus collegas de redacção, captivou-me com aquella sincera bonomia que era a feição predominate do seu caracter affectuoso: ficamos amigos.

Fomos d'ali para o theatro do Gimnasio ver o terceiro ou quarto acto de uma comedia, que já não sei como se chamava; Mas, pouco antes de acabar o espectaculo, Eduardo Coelho despediu-se. Ia fazer a meia noite, com a sua familia, disse-me. Eu não sabia o que era fazer a meia noite. Coelho riu-se.

—É o que lá, para as nossas provincias, se chama a consoada, a ceia do Natal.

Foi assim que eu conheci pessoalmente Eduardo Coelho, proprietario e redactor principal do Diario de Noticias.

Em maio de 1889 chegava eu á gare de Campanhã, no Porto, em virtude de um acontecimento de familia, que me trazia então dolorosamente preoccupado. Ouvi dizer a um companheiro de viagem, que estava lendo o Jornal da manhã:

—Morreu o Eduardo Coelho.

—De repente?

—Sim, de repente.

—Hontem á noite, quando saímos de Lisboa, nada constava...

Tive sincera pena da morte d'esse homem bom, trabalhador e alegre, que foi, deve dizer-se, uma das forças do seu tempo.

Depois de haver sido um dos vencidos da vida (não no sentido pantagruelico que esta denominação está{167} tendo hoje, mas no sentido economico e abstemio) elle conseguira, graças á sua imaginação, ter uma idéa que o salvasse.

Citam-se os grandes generaes e os grandes inventores porque tiveram uma idéa: seja um plano de batalha ou a invenção de uma machina. Eduardo Coelho teve tambem uma idéa, que, sem embargo de lhe ser pessoalmente proveitosa, tem aproveitado a muita gente: lançar um jornal de dez réis para noticias e annuncios.

Mas não basta ter uma idéa: é preciso sabel-a conduzir. Eduardo Coelho affirmou esse duplo merito, e a sua idéa, feita jornal, conservou sempre a direcção que elle lhe deu, ganhou velocidade, está em movimento, já não poderá desgarrar-se.

Litterato, gostando do theatro, gostando de fazer romances e dramas, folhetins e versos, elle teve comtudo o bom senso de nunca ser tão exclusivamente litterato no seu jornal que pudesse com isso prejudicar a indole noticiosa e popular do Diario de Noticias.

Redigindo-o, acommodava-se, aninhava-se dentro do circulo de Popilius que a si proprio se havia traçado, e se as saudades da litteratura o tentavam a fazer arte por amor da arte, deitava o seu livro, espanejava-se em liberdade n'um volume independente, que era uma especie de gazeta feita... á gazeta.

Mas os moldes do Diario de Noticias nunca foram alterados, o artigo litterario nunca floresceu tanto que ensombrasse a noticia, a blague phantasista nunca se permittiu nutrir á custa do chocolate do annuncio—este Mathias Lopes da imprensa quotidiana.

Dizer o que se passava, com uma grande investigação de pormenores, mas sem refolhos de linguagem que ameaçassem attenuar ou esfriar o interesse do leitor, eis o proposito inicial do Diario de Noticias.

Contar as occorrencias como qualquer pessoa que chegasse á escada as poderia contar, ainda sob a primeira impressão, e sem retoques de litteratice, n'um{168} tom que tanto pudesse servir para o visconde do primeiro andar como para a velhinha do quinto, eis o que o Diario de Noticias se propoz conseguir, e realisou.

Os litteratos, sempre n'um falso ponto de vista, mordiscavam ás vezes a epiderme do Diario de Noticias: queriam-n'o mais enlitteratado, mais pintalegrete em estilo. Eduardo Coelho nunca permittiu á sua vaidade que fosse susceptivel a estas agulhinhas da critica do Martinho. Seguia o seu caminho, tranquillamente, resolutamente, e, graças ao seu trabalho honesto e indefesso, ia construindo predios na rua dos Cardaes ao passo que os seus criticos, trabalhando sempre, mas com peor orientação, viviam em casa de renda, com difficuldade em pagal-a.

Pela firmeza com que soube sustentar o seu proposito, conseguiu que Lisboa inteira se cousubstanciasse com o Diario de Noticias, que, se o lermos com attenção, é a chronica da capital, escripta dia a dia, na flagrante nudez da sua verdade anatomica.

Toda a gente espera mais ou menos (incluindo os litteratos) que chegue á porta esse vigilante mensageiro de todas as manhãs. Os outros jornaes podem interessar-nos mais ou menos sob o ponto de vista exclusivo das nossas predilecções pessoaes ou politicas; mas o Diario de Noticias diz-nos o que ha a dizer com a brevidade de quem dá um recado, informa-nos, faz-nos a sua vénia, e deixa-nos em liberdade para lermos, consoante nosso gosto, os outros jornaes. É e não é um concorrente perigoso para as novas empresas jornalisticas, porque os dez réis que elle custa cristalisaram no orçamento domestico da população lisbonense, converteram-se em despesa ordinaria, não entram em linha de conta para o gasto, maior ou menor, que hajamos de fazer com os outros jornaes que se vendem avulso.

A velhinha da mansarda já tem como certo que, além do indispensavel á sua alimentação, ha de gastar um{169} vintem por dia: dez réis para o seu Diario de Noticias, dez réis para o carapau do seu gato.

Ás cinco horas da manhã, quando a gente parte ou chega de uma viagem, todos os moços de fretes lêem preliminarmente o Diario de Noticias, encostados ás esquinas das ruas.

Ora o moço de fretes é incapaz de perpetrar uma extravagancia dispendiosa. Harpagão das esquinas, trabalha para amealhar, com os olhos postos no seu ideal gallego de repatriar-se remediado. Mas no sindicato das maltas, para alimentação, renda de casa e despesas miudas, entra a verba effectiva do Diario de Noticias, cuja leitura se faz, as mais das vezes, em voz alta, para o grupo todo.

É isto ou não é isto?

Eduardo Coelho teve pois uma idéa que se consolidou n'um facto indestructivel. Deixou alguns livros, mas a sua popularidade, a sua gloria, a sua evidencia não lhe veiu dos livros, veiu-lhe do Diario de Noticias.

No proprio dia em que elle se enterrava, o Diario de Noticias appareceu carregado de annuncios: era a affirmação glorificadora de que elle não trabalhára debalde e de que a sua idéa se havia convertido definitivamente n'uma instituição lisbonense.


 {170}

XXI

Marquez de Thomar

Quando foi isso dos Cabraes acabava eu de entrar n'este mundo, e comprehendem facilmente que me interessasse mais o biberon do que a politica.

Logo que chegou da provincia a minha ama, voltei-me sofregamente para ella e, segundo o testemunho de pessoas insuspeitas, mostrei-me tão indifferente á politica, que nem sequer perguntei pelos Cabraes.

Se eu fosse um vulto politico do meu paiz, dezenas de Plutarchos, ao traçar-me um pomposo elogio biographico, haveriam notado a coincidencia do meu nascimento com um dos periodos mais agitados da politica portugueza.

Teriam gritado: predestinação! E diriam, una voce, que o illustre estadista (o illustre estadista era eu...) nascera sob a influencia da grande lucta travada entre os amigos e os adversarios do conde de Thomar—lucta feroz, em que de parte a parte se jogava a ultima cartada.

Effectivamente, os Cabraes haviam caido com a Maria da Fonte, o conde de Thomar fugira para Hespanha,{171} mas o resultado das eleições de 1848 chamára-o de novo ao poder.

1848! Ainda agora reparo n'esta data! 1848! A segunda republica franceza!... Decididamente, os srs. biographos poderiam, sempre no caso de eu ser um estadista de polpa, tirar bellos effeitos rhetoricos da época do meu nascimento, porque um anno depois da proclamação da republica em França e quando estava germinando a regeneração, foi que me estreei n'este mundo, envolto nas faxas infantis.

Mas como o acaso—essa bussola misteriosa que nortea os destinos humanos—não quiz que eu viesse a ser um politicão de marca, perdeu-se a descoberta de mais uma coincidencia biographica, mais um horoscopo notavel.

No que a meu respeito têem dito em bem e em mal, nem uma só palavra foi ainda escripta relativamente ao facto de eu haver chegado a este mundo depois de ter sido annunciado pelo himno da Maria da Fonte.

Paciencia!... Digo-o eu agora, porque a recente morte do marquez de Thomar chamou a minha attenção para a época da sua decadencia politica. Eu entrei n'este mundo durante os cem dias, posso dizel-o assim, de Costa Cabral, porque elle, como Napoleao I, teve tambem, á volta de Hespanha, alguns dias de ephemera restauração.

O que é certo é que vim encontrar o mundo politico portuguez ainda saturado do nome dos Cabraes. Não sei se a minha ama era cabralista ou patuléa. Naturalmente seria patuléa, porque era do Minho, e eu proprio, se pudesse ser então alguma cousa, seria patuléa tambem... E assim foi que correu a minha primeira infancia derivando por entre dois nomes, de que se falava muito com sentimentos oppostos, o conde de Thomar, que tinha caído definitivamente em 1851, e o marechal Saldanha, que tinha triumphado com a regeneração.{172}

Estavam ainda muito frescas as impressões d'esse movimento politico, recordava-se o Espectro e a Maria da Fonte, acudiam ainda á memoria de toda a gente as cantigas populares do Minho contra a familia dos Cabraes.

Digo familia, porque uma conhecida cantiga da época nem sequer poupava a esposa do ministro caido:

Luizinha, agora, agora...

Quiz porém o acaso que eu chegasse ainda a conhecer pessoalmente muitos dos homens notaveis d'esse tempo, incluindo o proprio Costa Cabral, e pude d'este modo completar as fugitivas e incertas impressões que, para assim dizer, trouxera do berço.

Vi Saldanha... depois de morto. E posso dizer, porque é verdade, que o vi por um oculo: o oculo aberto na urna em que elle viera de Inglaterra. Mas em todo caso vi-o, pude apreciar por mim proprio os traços d'essa phisionomia dominadora, ao mesmo passo altiva e insinuante.

Vi o Sampaio da Revolução... de guardanapo ao pescoço, tomando pacatamente o seu chá de familia, e comendo com tranquilla delicia bolos de côco. Elle, o terrivel adversario de Costa Cabral, o valente redactor do Espectro, o ardente pamphletario de 1846, vi-o eu ser o mais pachorrento, o mais soffrido, o mais tolerante dos homens que n'este paiz têem mexido em politica.

Vi Fontes nos seus dias de maior gloria tribunicia, ouvi-o, convivi com elle politicamente nas horas de triumpho e adversidade. Tambem o vi morto, com o seu uniforme de general, deitado no modesto leito que os cirios rodeavam lançando sobre o seu rosto macerado um pallido clarão indeciso.

Vi Costa Cabral velho, arrastando-se ainda com certo vigor de homem forte para a sua cadeira de par do reino, e vi abrirem-se para elle todos os braços, e ouvi{173} as saudações respeitosas que todos os homens lhe dirigiam, sem excepção dos antigos patuléas enragés.

É que o tempo tinha passado, adormecido as paixões, saciado as impaciencias, envelhecido os homens.

Chegára a paz geral, que o meu excellente amigo D. Polycarpo Lobo, hoje coronel de lanceiros,[15] havia prophetisado. Os adversarios de 1848 tinham ensarilhado armas, os regeneradores de 51 haviam-se congraçado com os vencidos d'aquelle anno, e o proprio Sampaio, com uma magnanimidade que faz honra á sua memoria, referendára o decreto que agraciou Antonio Bernardo da Costa Cabral com o titulo de marquez de Thomar.

Em que abismo de recordações não mergulharia o espirito d'aquelles homens, que se estimavam na paz depois de se haverem odiado na lucta! Como elles ririam da fraqueza do barro humano, que julga, nos impetos do combate, que o ardor póde ser eterno, e que as suas proprias paixões hão de queimar durante toda a vida com a mesma violencia! E como elles chorariam intimamente sobre a memoria dos dias de refrega, das noites mal dormidas, dos receios, dos pavores, dos tormentos de outr'ora, que se desfizeram em fumo!

Algumas vezes pensei n'isto, vendo Fontes e Sampaio sentados nas suas cadeiras de ministros, e o marquez de Thomar sentado na sua cadeira de par do reino, meneando a cabeça, approvando tacitamente o que elles diziam...

Ao cabo de quarenta annos estavam de accôrdo, e a onda revolucionaria da Maria da Fonte tinha rolado para o sorvedouro da historia, deixando maiores recordações no papel do que nos homens.

Meio seculo é espaço mais que sufficiente para transfigurar, por dentro e por fóra, a natureza humana.{174}

De resto, o marquez de Thomar, Fontes e Sampaio deviam achar-se da mesma estatura quando se medissem mentalmente. O valor d'estes tres homens divergia em determinadas aptidões; mas a energia de caracter tinha sido igual em todos tres.

Costa Cabral fôra um luctador contumaz, arcára á mão tente com os homens que se lhe oppunham; foram precisas duas revoluções para o derrubar, porque á primeira resistiu elle.

Sampaio luctára com o luctador, perseguira-o com a penna, combatera-o implacavelmente com o Espectro, amargurára-lhe as horas de triumpho, os dias de poderio. Homem para homem; coragem por coragem.

Fontes resistira de pé, como os heroes, a todos os embates, que procuravam lançal-o por terra na sua gloriosa iniciação como ministro da corôa. Pôde dominar todos os estorvos, aplacar todas as difficuldades, chegou com esforço, mas viu e venceu como Cesar.

Todos esses tres homens foram dominadores por sua vez, todos tres brigaram encarniçadamente, e todos tres eram corações generosos, almas de bom timbre, expansivas e affectuosas.

Se no mundo misterioso da eternidade os espiritos podem encontrar-se e communicar, todos tres contemplarão lá do alto a sombra que projectaram na terra, e rir-se-hão da pequenez do seu vulto, que a nós nos parece enorme. Porque, descontadas no homem politico as suas paixões, as suas furias de momento, o que a seus proprios olhos deve restar parecer-lhes-ha cousa pouca e vulgar. Mas nós, os que sobrevivemos, continuamos a vêl-os grandes e colossaes, porque os ficamos vendo através da historia...

Sem embargo, como sempre acontece, ha, a respeito de Costa Cabral, algumas notas discordantes.

Certos jornaes têem feito accusações á sua memoria, mas a primeira condição para apreciar um homem politico deve ser, segundo penso, o exame detido e imparcial{175} das circumstancias em que se encontrou. É preciso reconstruir toda uma época para julgar com segurança um homem politico. E as circumstancias em que Costa Cabral se encontrou foram das mais agitadas por que tem passado o governo constitucional n'este paiz.

Accusam-n'o de volubilidade politica, de ter sido revolucionario e conservador. Esta accusação póde ser fulminada contra a maior parte dos homens politicos de todos os paizes, por isso mesmo que a politica é tudo quanto póde haver de menos certo e previsto. Governar é transigir, dizia amiudadas vezes Fontes Pereira de Mello.

Pois bem, os homens de estado têem que obedecer ás correntes caprichosas da opinião—tão caprichosas como as da atmosphera. E a palavra opportunista, modernamente lançada na circulação, explica bem todas as eventualidades, todos os accidentes evolutivos da politica.

Alguns jornaes republicanos accusam Costa Cabral de renegado.

Ah! santo Deus! a quantos republicanos não póde ser feita igual accusação!

Tudo isto não faz senão confirmar que a politica é, essencialmente, uma força instavel, que se impõe muitas vezes á vontade dos homens, subjugando-a.

Cada vez estou mais inclinado a crêr que não ha principios absolutos, nem na sciencia, nem na politica, nem em cousa nenhuma. Ao sistema astronomico de Ptolomeu succedeu o sistema astronomico de Copernico. Em politica tem-se visto tal paiz, como a França por exemplo, ser alternadamente monarchico e republicano. E cada individuo muda dentro de si mesmo centenas de vezes.

Costa Cabral, como chefe de partido, deu o exemplo da maior solidariedade politica que depois de 1834 se tinha visto n'este paiz. Por isso mesmo chegou a rodear-se{176} dos mais dedicados amigos. Quem não era por elle, era contra elle. Elle realisou na sua vida politica, praticamente, esta maxima da sabedoria das nações: A união faz a força.

O sr. Oliveira Martins accusa-o, no Portugal Contemporaneo, de ter governado sem um principio moral. Ah! Diogenes da politica, accendei as vossas lanternas, e procurae os principios moraes de todos os governos... Haveis de ficar ricos com o achado!...

Se Costa Cabral tivesse querido, ou podido, desenvolver a viação publica, como o fez Fontes Pereira de Mello, se tivesse interessado no seu governo as classes operarias do paiz, ter-se-hia decerto eternisado no poder.

Foi, a meu ver, o seu grande erro politico.

 

Setembro de 1889.

[15] Esbocei saudosamente o seu perfil no livro Figuras humanas.—Nota da 2.ª edição.


 {177}

XXII

Alexandre da Conceição

Alexandre da Conceição estudava engenharia civil na Academia Politechnica do Porto quando eu tentava na imprensa a minha estreia litteraria. Era um dos poetas novos da phalange de Guilherme Braga, José Dias d'Oliveira e Pedro de Lima. Digo dos novos, em contraposição ao Alexandre Braga, ao Arnaldo Gama, e outros, que haviam quasi abandonado as musas a esse tempo.

Principiou militando nas fileiras do romantismo, que era a corrente dominante da época. Em 1865 reuniu em volume as suas poesias sob o titulo de Alvoradas. E dez annos depois fez segunda edição augmentada com novas composições.

Como poeta, se não podia medir-se com a estatura genial de Guilherme Braga, era comtudo muito distincto. Dou como specimen aquella das suas poesias que teve maior voga. O leitor, se nunca viu o livro Alvoradas,{178} póde ajuizar, pelo specimen, do valor de Alexandre da Conceição como poeta:

PERGAMINHOS

Não me esmagam, mulher, os teus sorrisos;
Eu tenho mais orgulho do que pensas
      E rio-me tambem;
É debalde que tentas humilhar-me,
Porque eu ouso pensar—vê tu que insania!
      Que tambem sou alguem.

Alguem que veio ao mundo sem familia,
Um producto do acaso, um paria, um misero,
      Um engeitado emfim,
Um sêr sem protecção das leis canonicas,
Filho sem pae no assento do baptismo,
      Mas um sêr, inda assim.

Levantou-me da estrada do infortunio
Um homem que entendeu que um filho espurio
      Tem jus a protecção,
Um homem que entendeu que é vil e infame
Atirar para o lodo dos hospicios
      Uma alma em embryão.

Este homem deu-me a força do seu braço,
Legou-me em vida o seu honrado nome...
      Vestiu quem era nu,
Depois, quando me viu robusto e forte,
Disse-me um dia: «Vae, sê homem, lucta,
      Trabalha agora tu.»

Luctei, passei curvado sobre os livros
A mais florida quadra dos meus dias
      Sereno a trabalhar;
Estudei, progredi, illuminei-me
E um dia para entrar em novas luctas,
      Pude emfim descançar.

É que eu vi as premissas da victoria,
O applauso espontaneo dos estranhos
      Incitar-me a seguir,
É que eu via deante dos meus passos
Rasgar-se ampla, infinita, luminosa
      A estrada do porvir.{179}

Se alguma cousa sou a mim o devo,
Ao meu trabalho honrado, ao meu estudo,
      Ao amor de meus paes,
Á força de vontade, á intelligencia,
Á sociedade pouco, ás leis bem menos...
      E a ti não devo mais.

E és tu que vens fallar-me em pergaminhos?
E és tu que vens fallar-me nas riquezas
      Que o destino te deu?
Eu não troco os meus louros de poeta,
As conquistas do estudo e o meu futuro
      Por tudo quanto é teu.

És louca!... Sabes lá que orgulho é este
Do homem que a si só deve o que vale
      E que espera valer?
Ha lá brazões illustres que equilibrem
Estes louros viçosos d'um triumpho
      Que soubemos mercer?

És louca! Sabes lá como eu sou rico,
Rico de muita honra e muita esp'rança
      E muito coração?
És louca! Mostra a escravos as riquezas,
Que eu p'ra não adorar bezerros de ouro,
      Sou bastante christão.

E quem te disse a ti que eu te invejava
Esse ouro, que é teu unico prestigio
      E o nome a teus avós?
Orgulhosa!... pois julgas decidido
Qual seja, n'esta lucta de vaidades,
      O mais nobre de nós?

Pois julgas que ser nobre é mero acaso,
Uma questão de berço ou de destino,
      Uma questão de paes?
Não vês que se a nobreza fosse heranca,
Tendo eu e tu por paes Adão e Eva,
      Seriamos eguaes?

E não somos, bem vês, porque a nobreza
Não se lega, conquista-a a intelligencia,
      O talento, as acções;{180}
Ora eu, se me permittes a vaidade,
Colloco um pouco abaixo dos meus louros
      Todos os teus brazões.

Devolvo-te portanto os teus insultos
E a suspeita de te adorar os risos,
      Que nunca mendiguei;
Se és bella e tens orgulhos de rainha,
Mulher, entende bem, eu sou poeta,
      Tenho orgulhos de rei.

Que é esta a nossa força; n'estes tempos
Em que a estupidez má enche as mãos d'ouro
      Para nos insultar,
É modestia a orçar pela baixeza
Não fazermos sentir aos maus e aos futeis
      Quem devem respeitar.

Não me compares, pois, a horda ignara
Que te adora os sorrisos pelo ouro...
      Eu tenho coração,
Tenho por pergaminhos o trabalho,
Por thesouros a minha intelligencia
      E a honra por brazão.

Nós, os homens que andamos procurando
Á luz do coração por este mundo
      Os caminhos do bem,
Como trazemos alto o pensamento
E a fronte erguida ao céo, temos orgulho,
      Bem vês, como ninguem.

Em 1867 publicou o poemeto Abençoada esmola, que considero inferior á maior parte das composições incluidas nas Alvoradas.

A este tempo, já era engenheiro ou estava perto de o ser. O theodolito prejudicára a inspiração. Sem embargo, sente-se ainda na Abençoada esmola a destreza de um poeta, que as asperezas da vida haviam chamado a prosaicas occupações.

E todavia elle tinha a velleidade de querer encontrar poesia na mathematica, que se via obrigado a cultivar. Era talvez um processo para illudir-se. A este respeito{181} discutimos n'uma serie de cartas publicadas no Jornal do Porto desde dezembro de 1871 a março de 1872.

A discussão terminou em boa paz; ficamos mais amigos do que eramos antes. Uma das minhas primicias litterarias fôra justamente beliscada por Alexandre da Conceição n'um folhetim do Nacional. Quando a questão rompeu no Jornal do Porto, tudo fazia suppôr que viesse a azedar-se, mas quiz por excepção a minha boa fortuna que eu ficasse sendo favorecido d'ahi em deante com a estima cordealissima de Alexandre da Conceição, sem embargo das nossas frequentes divergencias de opinião, especialmente em politica.

Elle era republicano, e prestou bons serviços ao partido em que militava, sobretudo como jornalista. Muitas vezes veio á imprensa, com nobre independencia, affirmar e defender as suas convicções. Não havia conveniencia de situação que lhe atasse os braços. O seu caracter era resoluto na expansão das suas convicções.

Em 1881 Alexandre da Conceição travou uma aspera peleja litteraria com Camillo Castello Branco, a proposito do Euzebio Macario, historia natural e social d'uma familia no tempo dos Cabraes.

Na dedicatoria declarava Camillo o intento que o demovera a escrever essa novella humoristica: «Perguntaste-me um dia se um velho escriptor de antigas novellas poderia escrever, segundo os processos novos, um romance com todos os tics do estylo realista. Respondi temerariamente que sim.»

O Euzebio Macario foi a justificação d'esta affirmativa, d'este compromisso espontaneamente tomado.

Camillo, o inexcedivel romantico do Amor de perdição, provou o seu pulso de escriptor realista no Euzebio Macario e, depois, na Corja. Evidenciou, com uma superioridade indiscutivel, que, na esphera da litteratura, não havia para elle barreiras que lhe tolhessem o impeto, processos que lhe desnervassem o braço.{182}

Alexandre da Conceição que principiara, como todos os litteratos do seu tempo, por ser romantico, evolutira em philosophia para o positivismo, e em litteratura para o realismo.[16] Exagerou o seu enthusiasmo, fazendo-se talvez mais papista do que o papa da sua nova escola. Não viu deante de si o homem eminente que se chamava Camillo Castello Branco. Cuidou ver apenas no Euzebio Macario a pretensão de lançar o ridiculo sobre a escola realista.

D'aqui nasceu a polemica, que a breve trecho se transviou em aggressões pessoaes. As demasias de Camillo tinham uma natural explicação no facto de ser reptado violentamente; as de Alexandre da Conceição provinham do afôgo com que elle abraçava os processos litterarios da escola realista.

O choque foi notavelmente aguerrido, medonho. De parte a parte não houve trepidação que esfriasse o ardor do primeiro momento. Camillo era um polemista insigne. Mas Alexandre da Conceição, descontados os excessos que visavam a melindrar pessoalmente Camillo, aguentou-se rijamente no combate.

Todas as polemicas que descambam na offensa pessoal têem o seu lado triste, e esta mais que todas, porque Alexandre da Conceição, no fundo da sua consciencia, reconhecia nitidamente os altos meritos litterarios do seu contendor.

Elle proprio m'o confessou fidalgamente, em 1885, no Café Marrare, n'uma calmosa manhã, em que ali entrámos.

O combate foi tão aspero como longo. A curiosidade publica acompanhou-o, commentou-o e, faz pena dizel-o, divertiu-se. Mas estou plenamente capacitado de que{183} nenhum dos dois guardou duradouro resentimento d'essa cruel peleja.

... E hoje, dissipado o fumo torvo da batalha, o que resta? Camillo, irmanado na grandeza da desgraça a Milton, agonisou privado da luz dos olhos até que, revoltado contra as trevas, arremessou a sua alma para as alturas, que as estrellas e as auroras illuminam. Alexandre da Conceição, adormecido na immobilidade da morte, não é mais do que o envolucro decomposto d'onde se evolou, como um perfume subtil, uma bella alma ardente, mas fidalga.

E, o que é profundamente lacrimavel, tres creanças ficaram ao desamparo, sem pae e creio que... sem pão.

[16] Esta evolução annunciava-a elle em varios artigos, mais tarde (1882) compilados no livro a que deu o titulo de Notas, ensaios de critica e de litteratura.Nota da 2.ª edição.


 {184}

XXIII

Julio Cesar Machado

No dia em que elle se matou, a graça, a flôr dos espiritos alegres, pendeu amortecida como essa outra flôr, que no campo chamam bons dias, quando a tarde principia a engolfar-se na penumbra do crepusculo...

A mocidade, o heliotropo que floresce nas almas primaveris, que desperta voltada para o oriente, e que sempre vae seguindo o sol, aquecendo-se n'elle para melhor sorrir, parou um momento, indecisa no seu passo diario, como uma pessoa que, de caminho, foi surprehendida por uma dolorosa noticia...

A anecdota, que bem póde comparar-se a esses bellos cachos de glicinia que, nas estradas monotonas, espreitam ás vezes sorrindo do alto dos muros das quintas, como para animar o viandante, pareceu chorar por elle, que jámais havia feito uma jornada litteraria sem lhe dar um momento de attenção em passando...

A alegria, esta madresilva das almas que vivem contentes{185} com a sua sorte, esta flôr que, nas mais agrestes paragens, parece cantar na festiva expansão do seu perfume, dizendo a toda gente que ella está ali, bem florida e vivaz, retraiu-se, quando soube da catastrophe, para occultar a sua commoção, como tambem ás vezes a madresilva se encobre com as folhas da hera, que nos braços verdes a vae levantando ao alto das grandes ruinas...

A modestia, a violeta timida que não faz alarde da sua delicadeza, e que é o caracteristico das almas boas e simples, chorou sobre a terra que não tardaria a devorar, no seu seio egoista, o cadaver do homem que melhor a personificou no mundo...


Mas como póde este Julio, tão alegre, tão moço sempre, tão costumado a rir, tão interessado pelo mundo, tão apegado á vida, que até parecia não estar disposto a envelhecer jámais, tão delicado e gentil nos seus pensamentos e nos seus actos, acabar sinistramente, n'um drama de sangue, que só de recordal-o sente a gente o coração confranger-se?!

Que outros, fatalistas, hipocondriacos, supersticiosos e visionarios se suicidem, comprehende-se, explica-se de algum modo. A vida era-lhes pesada, não tanto por si mesma, como por que elles proprios exageravam o peso da vida.

Mas o Julio, tão despreoccupado, tão pouco dado a scismas e presentimentos, tão bem disposto sempre a não extrair de toda a agua de uma nuvem mais que uma lagrima—apenas!

«Não se amargure pelas lagrimas que encontrar n'elle (o livro Scenas da minha terra); tel-as-ha trazido alguma nuvem ligeira, que um raio de luz mais ligeiro ainda haverá logo enxugado; são irmãs dos meus sorrisos, essas lagrimas...»

«De mais a mais não sou de uns certos, que tudo pesam e scismam antes de se proporem a sair da sua{186} terra, e até cuidam que o barco se ha de perder, simplesmente pelo facto de os levar; eu, ao contrario, cuido que por eu ir n'elle é que o barco não se perderá. Muito pouco merecem, pois, a Deus, os medrosos que assim se temem d'elle.»[17]

«Viajo com enthusiasmo, com esperança, com uma ineffavel felicidade; nem entendo que se possa viajar para passar o tempo; passar o tempo, é morrer!»[18]

«Tudo é grande agora, bem se sabe, lettras, artes, politica, e coisas; deixem, todavia, que um fiel, que sempre foi dado á alegria e á sensibilidade, venha recitar, a meia voz, as suas oraçõesinhas, perante o altar da anecdota!»[19]

Estas ultimas palavras foram escriptas em maio de 1888. Dois annos depois, contados quasi dia a dia, Julio Cesar Machado acabava tragicamente, mais tragicamente ainda do que o seu mestre e amigo Lopes de Mendonça, porque a exaltação doentia do seu espirito não nos deu o tempo preciso para que nos habituassemos a esperar a catastrophe final.

O filho que elle adorava até ao fanatismo succumbira a uma allucinação de momento, e desde esse dia toda a felicidade de Julio Cesar principiou a desmoronar-se, como um talude do qual, em se despegando um punhado de terra, nada fica de pé dentro de poucas horas.

Todos nós nos lembramos do Julio passeando com o filho pela mão, muito ufano d'essa creança de calção e blusa, a quem falava curvando-se, a quem sorria escutando-a.

Uma palavra de saudação amavel dita a esse rapazinho, desempenado e de feições miudas, valia mais para Julio Cesar do que o referirmo-nos com louvor ao seu livro mais querido, Os contos ao luar.{187}

—Ó Julio, o teu prologo dos Contos leio-o ás vezes para me sentir tão moço como ha vinte annos. «... E depois, eu não sei bem por que chamei ao meu livro Contos ao luar!» Bonito, como eram então as coisas bonitas!

—Pois sim... Mas olha que este rapaz não é peor do que o livro... respondia-me elle uma vez.

E eu comprehendi-o, porque tambem tenho filhos...

Um dia, n'um jantar em casa de Baptista Podestá, o pequeno Julio levantou-se da mesa, e foi engalfinhar-se nas costas de um amigo do pae, que o recebeu amavelmente. D'ahi a momentos, o pequeno correu a trepar pela cadeira de outro amigo de Julio Cesar, que o reprehendeu. Não tardou que o pae, com as lagrimas nos olhos, saisse com o filho, depois de haver apertado a mão, muito expressivamente, ao amigo que tinha afagado o Julito, e interrompendo desde essa hora as suas relações com o outro amigo que o reprehendera.

Este immenso amor pelo filho estremecido foi que o allucinou, que o perdeu;—basta por si mesmo a explicar a contradicção que em Janeiro de 1890 resaltou entre a morte e a vida de Julio Cesar Machado.

Eu devo á memoria d'este homem a gratidão que nos impelle para todo aquelle que nos sorriu na hora em que tentavamos uma empresa arriscada.

Foi no livro Manhãs e noites que elle saudou com excessivo favor os meus primeiros trabalhos litterarios, as Peregrinações na aldea e o romancesito Idyllios á beira d'agua. Não me conhecia pessoalmente, elle vivia em Lisboa, eu estava no Porto, apenas haviamos trocado algumas cartas.

Só em 1873, annos depois, nos avistamos em Lisboa, onde eu, recemchegado, sondava hesitantemente o meu destino.

Fiz então, sobre o joelho, nos primeiros dias da minha installação, um livro que me haviam comprado no Porto: Photographias de Lisboa.{188}

Reproduzo uma pagina d'esse livro:

«Na casa de Julio, na sua modesta casa da travessa do Moreira, está o escriptor: tudo simples, alegre, baralhado e artistico. Quadros, retratos, livros, jornaes, flores, estatuetas, bengalas, charutos, um labirintho em que todavia ninguem chega a perder-se... sendo homem. Eu explico a phrase, que póde parecer descomposta. É que as mulheres, por naturalmente timidas, facilmente se confundiriam no cahotico atelier do Julio.

«Uma das muitas curiosidades, que denunciam o escriptor no ménage, é um valioso album em que a par dos authographos figuram os retratos das maiores notabilidades europeas. Lá estão, reproduzidos d'um lado pela photographia, do outro pelo proprio estilo, Lamartine, Victor Hugo, Vacquerie, Gautier, Auber, Janin, Herculano, Garrett, Rodrigo da Fonseca Magalhães, Castilho, Camillo, etc., as nossas glorias e as estranhas.

«A proposito dos escriptores francezes do album, falamos, á segunda vez que nos viamos, de litteratura franceza. Não sei qual de nós passou dos talentos masculinos da França para os femininos. Provavelmente foi o Julio. O que é certo é que occorrendo-me o nome de Sophia Gay, mãe de Delphina Gay, depois madame de Girardin, lamentei não haver encontrado o seu nomeado livro Physiologie du ridicule. É effectivamente raro este livro, cuja primeira edição data de 1833.

«—Ás vezes, disse o Julio levantando-se e abrindo a sua livraria, encontra-se a felicidade onde se não espera. Todavia é mais facil encontral-a debaixo d'um telhado do que debaixo d'uma pedra, d'onde a desencantou o nosso Camillo.

«E tirando para fóra um livro:

«—Ora se você póde reputar felicidade instantanea o encontrar a Physiologia do ridiculo, alegre-se que vae vêl-a.{189}

«E, escrevendo alguma coisa na primeira pagina, accrescentou:

«—E lel-a.

«O Julio havia escripto:

«Ao seu amigo Alberto Pimentel—lembrança de Lisboa em outubro de 1873.

Julio Cesar Machado

«E entregando-me o livro:

«—E tel-a.

«Era impossivel recusar; acceitei.»

Depois d'esse dia, as nossas relações de amizade tornaram-se familiares, intimas, o tu veio consolidal-as como entre dois bons amigos de collegio, que se conhecessem desde a infancia.

Em 1888, nas Caldas da Rainha, fizemos a nossa estação de aguas alegremente, e, por acaso, retiramos no mesmo dia. Elle ficava na Durruivos, com a sua familia; eu, com a minha, seguia para a Ericeira. Uma bella tarde de verão declinava, e o que quer que fosse de leve saudade consoladora pairava no ar. Julio Cesar, sua esposa e seu filho apearam-se n'uma estação que não sei dizer ao certo se era o Bombarral ou o Ramalhal. Todos tres muito alegres, muito despreoccupados, saboreando a sua modesta villegiature.

Já elle ia saindo da estação, e eu gritei-lhe:

Scenas da minha terra! Scenas da minha terra!

É o seu livro que mais fala da Durruivos.

Julio Cesar voltou-se rapidamente, abriu os braços como para receber as minhas palavras, e depois, com a mão direita, acenou na direcção dos campos, dos arvoredos da Durruivos.

O Julito agitou no ar o seu chapeu.

E o comboio partiu.

[17] e [18] Do livro Recordações de Paris e Londres.

[19] Do livro, o seu ultimo livro, Mil e uma historias.


 {190}

XXIV

João de Andrade Corvo

Ainda outro dia eu estive reunindo, n'um só lote da minha modesta bibliotheca, todos os livros de Julio Cesar Machado, arrolando o espolio litterario d'esse morto querido, destinando-lhe um logar de honra no futuro pantheon dos meus auctores predilectos.

Ainda foi outro dia!...

De cada lado me surgia um livro seu, e assim, com algum tempo de trabalho, pude reunir n'um só logar todos os seus volumes, incluindo os dois da Vida em Lisboa, que vão sendo muito raros no mercado.

É que eu gosto de trabalhar n'uma certa desordem, em que perfeitamente me oriento. Acho fria, monotona a arrumação sistematica por auctores, dispostos em fila, como se se tratasse de uma batalha. Alegra-me a distribuição caprichosa de escolas e escriptores, essa grande confusion tumultuaria em que Voltaire dá o braço a Chateaubriand, em que Rénan se encontra vizinho do padre Manuel Bernardes, e em que Bossuet vive paredes meias com Augusto Comte.

Apraz-me ter que pensar no meio d'esse permanente{191} cancan dos espiritos, que volteiam em torno da minha banca de trabalho, uns graves como espectros, outros folgazãos como collegiaes; estes sorrindo desdenhosamente scepticos, aquelles crendo fervorosamente como apostolos.

Mas quando Julio Cesar Machado morreu, quiz votar-lhe uma especie de culto privativo—o culto da saudade—e dei-lhe um logar reservado n'um só lote da minha estante. Dispondo ordenadamente os seus livros, folheei-os rapidamente, evoquei gratas recordações de antiga leitura, e muitas vezes encontrei citado entre as paginas, que ligeiramente passavam por deante dos meus olhos, o nome do sr. Andrade Corvo.

Hoje alargo as dimensões do compartimento em que Julio Machado era inquilino unico, e ponho, tambem ordenadamente, ao lado das suas obras, as do sr. Andrade Corvo, porque esses dois espiritos, postoque diversamente orientados, sempre se comprehenderam e estimaram, e estimando-se e comprehendendo-se continuarão conversando um com o outro no mesmo lote da minha estante.

Durante a vida do sr. Andrade Corvo, muitas vezes tive de escrever a seu respeito. No folhetim semanal do Economista apreciei eu dois volumes dos seus Contos em viagem, e não sei se foi n'essa occasião, ou em qualquer outra, que eu, fazendo o elogio do sr. Corvo como romancista historico, declarei francamente antepôr o seu Um anno na côrte á tão preconisada Mocidade de D. João V, de Rebello da Silva.

Não quer isto dizer, por modo algum, que eu não reconheça em Rebello da Silva superiores qualidades de estilista; mas como romancista historico acho que o sr. Corvo o excedeu na urdidura do romance, no estudo da época, e na fidelidade dos caracteres.

A obra do sr. Corvo não se limitou, porém, ao romance. Elle foi dramaturgo, jornalista, poeta, estadista e academico.{192}

Em todas estas espheras de acção firmou creditos inabalaveis de homem eminente. Como escriptor nunca lhe ouvi notar senão um defeito: não ter orthographia. Mas a orthographia é como a belleza: nem toda a gente tem a mesma opinião a respeito de uma e outra. Quanto á orthographia do sr. Corvo, é provavel que o sr. Latino, que prefere a etimologica, a achasse má; mas é tambem provavel que o sr. Barbosa Leão, que apostolava a sonica, a achasse boa.

Corvo viajou por todas as regiões da sciencia, não com bilhete de ida e volta, como quem vae passar dois dias santos fóra da terra, mas como esses pacientes caminheiros que fazem a sua Jornada de Misericordia em Misericordia.

Formou-se não sei quantas vezes, não por necessidade, mas por divertimento. A sua grande distracção era estudar, saber.

E aqui vem a proposito o que a seu respeito escreveu Julio Cesar Machado no Claudio:

 

«Harcourt tinha todo o charlatanismo de talento com que se maravilham os leitores faceis. Citou muitos auctores, referiu-se a muitas obras, metteu trechos de todas as linguas, uns bocados em latim, outros em allemão, dois em grego. O Martinho exultou. O homem novo ia matar tudo.

«Não matou cousa nenhuma. D. José de Almada tinha não só mais talento que elle, mas outra qualidade de merecimento e outra seriedade de estudo. Incommodou-se com isso, como toda a gente se incommoda de ver a ruindade fazer gosto em desacreditar os dotes mais nobres de um homem, a sua intelligencia e o seu trabalho, e respondeu-lhe com a elevação de um poeta e o sentimento de um artista.

«Pouco depois representou-se uma peça de Andrade Corvo, O Astrologo.

«—Ah! O Corvo é um homem superior, um homem{193} justamente respeitado pela valia dos seus meritos... Vou-me a elle.

«E atirou-se-lhe n'uns folhetins, como póde atirar-se um lobo esfomeado a um homem bem nutrido. Corvo foi o ultimo a dar por isso.

«De mais a mais, exactamente por essa occasião, João de Andrade Corvo, tenente do corpo de engenheiros, lente da escola polytechnica, socio da academia real das sciencias, auctor do Anno na côrte, do Alliciador, do Astrologo, de D. Maria Telles, de D. Gil, de Nem tudo que luz é oiro, de grande numero de artigos publicados dos Annaes das sciencias e lettras, na Epocha, etc., estava todo entregue a uma curiosidade.

«Uma tarde, no Rocio, passeando com o dr. Thomas de Carvalho e o dr. Magalhães Coutinho, Andrade Corvo dissera-lhes que para as suas cousas de botanica teria talvez de ir estudar physiologia animal, e ser discipulo d'elles.

«—Não és capaz!

«—Ora! Elle é lá capaz d'isso!

«—Sou capaz até de estudar o curso completo.

«Os dois olharam para elle, sorrindo.

«—Vou matricular-me ámanhã.

«Matriculou-se no dia immediato.

«Abriram as aulas; e, desde o primeiro dia, lá ia elle sempre com a maior regularidade, de lição sabida, sentar-se no seu banco: e quando se diz lá ia, quer dizer que foi lá cinco annos, todos os dias, como um dos melhores discipulos, o mais applicado, o mais exacto no cumprimento dos seus deveres. Ás vezes chovia o grande diabo, e Andrade Corvo, a pé, modestamente, á estudante, trepava aquella calçada do Garcia e mettia-se pela rua que vae ao hospital com o passo accelerado de um filho familias que estivesse exposto mais dia menos dia a que o pae lhe exigisse uma certidão de frequencia colhida com austeridade nos registros sisudos do livro de ponto.{194}

«Homem verdadeiramente original! Homem de constancia do trabalho, do estudo, na sêde de saber, que só n'isso faz do desejo uma força, e que n'elle ainda não parou nem se fartou um instante.

«Elle tem passado a sua vida descansando alternadamente da sciencia na politica, da politica na litteratura.»

 

N'uma época em que o sr. Corvo geria simultaneamente as pastas da marinha e dos negocios estrangeiros, e em que os debates parlamentares eram irritantes e longos, muitas vezes o encontrei, horas antes, entregue a estudos litterarios na Torre do Tombo e na Academia Real das Sciencias.

Na Academia tinha elle até um gabinete especial, que era conhecido pela designação de—Gabinete do sr. Corvo.

O seu espirito possuia a gastronomia das lettras. Não podia entrar na secretaria ou no parlamento sem ter devorado primeiro a iguaria da sciencia e o pitéo litterario. Como todo o bom gastronomo, gostava de variar. Por isso, ao mesmo tempo que redigia os Estudos sobre as provincias ultramarinas, escrevia os Contos em viagem. Só depois de regalado o paladar é que fazia despachos e discursos.

Qualquer assumpto, por mais ingrato que parecesse, lhe tentava o espirito, comtanto que tivesse de o tratar litterariamente. O arroz, que deu a Teixeira de Vasconcellos uma novella, sendo-lhe comtudo preciso, para doirar a pillula, misturar o arroz com assucar, deu a Andrade Corvo um trabalho scientifico de primeira ordem. Refiro-me á parte que lhe coube—estudos economicos e higienicos sobre os arrozaes—no relatorio official apresentado ao ministerio do reino, em 1860, por elle, Manuel José Ribeiro e Bettamio de Almeida. Este trabalho notabilissimo, em que a collaboração do sr. Corvo occupa 200 paginas in-folio, foi desde logo{195} tão apreciado, que se julga muito feliz quem hoje possue um exemplar.

Vivendo intellectualmente n'uma região superior, nos dominios immateriaes da abstracção, o sr. Corvo tinha o mais soberano desdem por todas as ninharias da vida ordinaria, por mil bagatellas que, não obstante, constituem outras tantas engrenagens do mecanismo social. Alguns, por isso, lhe chamavam excentrico. A este respeito posso referir uma anecdota authentica e graciosissima.

Era o sr. Corvo presidente da Camara dos Pares, e sabe Deus com que sacrificio elle se resignava a perder duas horas calado, ouvindo repetir aos outros o que já tinha ouvido dizer centenas de vezes em diversas occasiões.

Havia uma sessão em que se esperava a apresentação de uma proposta de alcance politico. O sr. Corvo sabia isto. Logo que chegou ao gabinete da presidencia, tocou a campainha. Perguntou ao continuo quem era o redactor que estava de serviço n'aquelle dia. O continuo foi saber, e levou a resposta ao sr. Corvo: o redactor de serviço era eu. Fui immediatamente ao seu gabinete. O sr. Corvo, depois de me apertar a mão, disse-me com uma grande seriedade:

—Consta-me que vae ser hoje apresentada uma proposta, e que isso prende com o artigo 37.º do regimento. Ora eu não sei qual é a disposição respectiva. Peço-lhe o favor de me dizer o que o artigo 37.º do regimento dispõe.

Sorri-me. O sr. Corvo sorriu-se tambem.

—É que eu não sei de cór—respondi—o que dispõe o artigo 37.º

—Nem eu, replicou o sr. Corvo.

—N'esse caso vamos vêr.

E abri o Regimento, que estava sobre a banca do presidente.

Li o artigo 37.º{196}

—Muito bem, observou o sr. Andrade Corvo. O que eu não queria era ter o trabalho de ler isso.

E depois, levantando-se da cadeira e puxando-me para o vão da janella:

—Então como vamos de litteratura?

Esta anecdota, inteiramente authentica, e que muitas vezes contei durante a vida do sr. Corvo, define bem a sua maneira de pensar relativamente a tudo o que se não traduzisse para o seu espirito n'um facto scientifico ou n'um facto litterario.

E todavia elle era um homem de tão superior estofa que ainda quando extraviado da sciencia e da litteratura na politica, a que dava menos apreço, assignalou indelevelmente a sua passagem por ella—como n'estes dois assumptos capitaes: a amizade ingleza e o progresso material das colonias.

 

 

FIM

 {197}

ERRATAS

Mencionamos como mais importantes as seguintes:

Pag. 15, lin. 35—transmittiria a e ao rainha principe, leia-se: transmittiria á rainha e ao principe.

Pag. 43, lin. 19—e das de Canities, leia-se: e das obras de Canities.

Pag. 45, lin. 10—da fama, leia-se: da fauna.

Pag. 45, lin. 20—Henri, leia se: Hipp.

Pag. 63. lin. 5—a rodos, leia se: a rodo.

Pag. 100, lin. 25—conservamos, leia-se: conservavamos.

Pag. 102, lin. 10—elle fóra, leia-se: elle fôra.

Pag. 119, lin. 14—ao folhetim, leia-se: do folhetim.

Pag. 121, lin. 26—editr, leia se: editor.

{198}