The Project Gutenberg eBook of Carta de Elmano da Cunha em resposta a outra Bom-senso e Bom-gosto, dirigida por Anthero do Quental ao excellentissimo senhor Antonio Feliciano de Castilho, o incomparavel traductor dos fastos de Ovidio, obra em que se faz o confronto de Romulo e Jesus-Christo, offericida ao incomparavel duque de Saldanha

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Title: Carta de Elmano da Cunha em resposta a outra Bom-senso e Bom-gosto, dirigida por Anthero do Quental ao excellentissimo senhor Antonio Feliciano de Castilho, o incomparavel traductor dos fastos de Ovidio, obra em que se faz o confronto de Romulo e Jesus-Christo, offericida ao incomparavel duque de Saldanha

Author: Elmano da Cunha

Release date: June 13, 2010 [eBook #32790]
Most recently updated: January 6, 2021

Language: Portuguese

Credits: Produced by Pedro Saborano (produced from scanned images
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*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK CARTA DE ELMANO DA CUNHA EM RESPOSTA A OUTRA BOM-SENSO E BOM-GOSTO, DIRIGIDA POR ANTHERO DO QUENTAL AO EXCELLENTISSIMO SENHOR ANTONIO FELICIANO DE CASTILHO, O INCOMPARAVEL TRADUCTOR DOS FASTOS DE OVIDIO, OBRA EM QUE SE FAZ O CONFRONTO DE ROMULO E JESUS-CHRISTO, OFFERICIDA AO INCOMPARAVEL DUQUE DE SALDANHA ***


 

CARTA

DE

ELMANO DA CUNHA

EM RESPOSTA A OUTRA

BOM-SENSO E BOM-GOSTO

DIRIGIDA POR

ANTHERO DO QUENTAL

AO EXCELLENTISSIMO SENHOR

ANTONIO FELICIANO DE CASTILHO

O INCOMPARAVEL TRADUCTOR DOS FASTOS DE OVIDIO
OBRA EM QUE SE FAZ O CONFRONTO DE ROMULO E JESUS-CHRISTO
OFFERECIDA AO INCOMPARAVEL
DUQUE DE SALDANHA

 

 

 

 

COIMBRA
IMPRENSA DA UNIVERSIDADE
1865

 

CARTA

DE

ELMANO DA CUNHA

EM RESPOSTA A OUTRA

BOM-SENSO E BOM-GOSTO

DIRIGIDA POR

ANTHERO DO QUENTAL

AO EXCELLENTISSIMO SENHOR

ANTONIO FELICIANO DE CASTILHO

O INCOMPARAVEL TRADUCTOR DOS FASTOS DE OVIDIO
OBRA EM QUE SE FAZ O CONFRONTO DE ROMULO E JESUS-CHRISTO
OFFERECIDA AO INCOMPARAVEL
DUQUE DE SALDANHA

 

 

 

 

COIMBRA
IMPRENSA DA UNIVERSIDADE
1865

 

{3}

 

Em Coimbra: ás 5 horas da madrugada do dia 20 de novembro de 1865; ao concluir um innocente e util trabalho em que se pretende demonstrar, que ao cantar da segunda cigarra de Anacreonte, sob a copa da frondosa olaia do Saturno portuguez, se está forjando o dogma da infallibilidade litteraria do sobredito senhor; proclamando o dom da inerrancia do mesmo; resuscitando um odio velho contra a universidade de coimbra; condemnando o producto espontaneo do trabalho intellectual, livre e independente; fazendo sordida mercancia do futuro—a quem mais der—; permutando a lisonja vilan pelos 30 dinheiros pharisaicos; transigindo ignominiosamente com as paixões egoistas da actualidade a troco das ovações da burguezia, senhora das situações prosperas e beneficentes.

 

Amigo—Em que cyclo social andaram os talentos d'esta, ou de outra qualquer terra, pela arreata das auctoridades?!...

Em que geração andaram aguadeiros litterarios, com os canecos do genio ás costas, dessedentando os sequiosos de verdade e inspiração, aspergindo a agua lustral no seio das multidões, fornecendo as fontes do espirito publico, pregoando a superior qualidade do producto litterario ou scientifico nacional, porque traz a marca d'alfandega—A. F. C.?!...{4}


Pobres dos pilotos da humanidade se, tendo, através da esteira dos tempos, que vão cahindo nos abysmos do passado, conduzido as civilisações com a unica bussola do seu livre alvedrio, têm no seculo XIX de fazer a figura de amphoras humanas nas mãos do primeiro aguadeiro ambicioso!?...

A mim, que fui embalado com os primeiros vagidos da eschola liberal, a unica que tem as regalias, os privilegios, os foros da independencia, a unica, que tem um axioma por principio, tinham-me dito, que a liberdade de toda a industria humana é a primeira condição do seu desinvolvimento e progressos; que o principio da responsabilidade individual é o primeiro motor do bello, do grande, do util, do ideal; que o prysma social tem apenas algumas faces, que reflectem já a septiforme côr da aurora boreal do futuro, e infinitas que, os que nos precederam, deixaram na obscuridade, e que é forçoso clarear de viva luz; que ao livre trabalho do pensamento incumbe esta tarefa civilisadora; que a da «mercancia por avareza, das lettras por vaidade, dos litigios prolongados por caprichoso empenho», tem sido a thenia enorme que, inoculando-se no coração das sociedades, vai seccando as fontes da moralidade, viciando e prevertendo os abundantes succos nutritivos da arvore do bem, torcendo vigorosos musculos sociaes, prostituindo a mulher, desatando os vinculos da familia,—o fogo sagrado do Estado,—dividindo os interesses da communa, semeando a descrença e o desconforto nos orgãos da nacionalidade.

A mim tinham-me dito principalmente, que a suprema fórmula de todo o homem, é a sua moralidade e independencia; que esta consistia em ser cada um responsavel pelo que pensa perante Deus, pelo que sente perante a sua consciencia, pelo que escreve, pelo que diz perante a sociedade.

Seria eu victima de um embuste grosseiro? Enganar-me-iam os apostolos do Evangelho da liberdade a mim, que, sincero, puro e innocente, os escutava em religioso silencio, numa quasi que idolatria?!...

Tu, meu amigo, dizes-me que não; que o facto póde traduzir uma abjecção moral, uma torpeza de todo o ponto condemnavel, mas que isto não é mais que um accidente, susceptivel de correcção e exemplo: que a these é a que bebemos com o leite da nova mãe social, aquella que me convida{5} a junctar hoje ao teu nome «quasi desconhecido» o meu que apenas consta de um assento de baptismo que nunca ninguem leu.

Deixo-o ahi escripto por duas considerações sómente; a primeira como protesto, a segunda como cautela; a primeira, porque juro viver e morrer á sombra da bandeira de Jules Simon, por nenhum preço a sombra da copa da olaia de Antonio Feliciano de Castilho, que respeito como talento, como homem que «por entre os edificadores do futuro anda estudando o passado», que detesto como caracter, e como traficante convicto de cambio litterario: a segunda porque sei que verdades amargas magoam o alifafe moral de consciencias vulneraveis; porque sei que o principio da auctoridade, a immodestia immoderada, a vaidade impertinente, a consciencia da suprema gloria e do ultimo laudo em bom-senso e em bom-gosto são entidades congenitas do principio da irritabilidade, e porque finalmente os desvios da má indole e as paixões violentas da soberba indomavel e indelicada poderiam tosquiar algum camêlo ou fraco ou innocente.

Postas as cousas a esta luz, benefica para quem se allumiar d'ella no interesse do futuro e dos tibios do proprio campo, conversemos um pouco.

Eu não quiz ler o escripto de Antonio Feliciano de Castilho no livro do sr. Pinheiro ChagasPoema da mocidade—onde a proposito de faltas de bom-senso e de bom-gosto se citam os nomes illustres—Theophilo Braga—Vieira de Castro, e o teu «quasi desconhecido», e se tosquia sem clemencia nem piedade, com odio, com azedume, a chamada eschola litteraria de Coimbra, eschola que não existe, camêlo imaginario, camêlo creado pelo sr. Castilho nas suas segunda e terceira intenção. Façamos justiça á pontaria do genio. Encadernado na mais esplendida capa litteraria, que jámais vimos, está o homem, que, fazendo fogo de caçador esperto, atira a dois alvos ao mesmo tempo. É esta a verdade, isto o que é preciso ver e definir detalhadamente.

Eu não quiz ler, por ter lido a—conversação preambular—do D. Jayme, do sr. Thomaz Ribeiro.

Era razão de sobejo.

Conheci o sr. Thomaz Ribeiro antes do seu poema, e o poema depois, que me deliciei eu com o ouvir recitar ao proprio{6} auctor em 1860 na sociedade do dr. Antonio de Oliveira Silva Gaio; á sombra da copa de nenhuma olaia, não; no seio da estima não mercadejada, da admiração desinteressada, da livre apreciação, sim.

Que o auctor fôra bafejado no berço por espiritos bons, fadado para destinos melhores ainda, para uma independente e mais que muito justa reputação litteraria, soubemo-lo, e dissemol-o nós então.

O sr. Thomaz Antonio Ribeiro nascera tambem no seio da eschola liberal, ou, o que mais val, acceitára por amor e convicção o principio na sua accepção mais larga, na sua concepção mais absoluta, curando menos dos preceitos, e ainda menos dos preconceitos de eschola. Muito intelligente, soube ser livre, tirou de si seus recursos, trabalhou por sua conta e risco. Na pia baptismal do trabalho purificou as suas crenças como homem e como escriptor, fortaleceu a sua religião social e litteraria, não pedindo inspiração mais do que á fonte commum, a propria natureza e a das cousas, alentos senão á vontade, que o trabalhava, confortos senão á propria consciencia, elevação e independencia sómente á sua dignidade, consolações sómente á maxima expressão de todo o homem, a sua moralidade.

Em 1860 pensavamos nós assim... Quem, quem havia de proferir a blasphemia atroz, que o sr. Thomaz Ribeiro teria de sujeitar a sua bella creação poetica ao insulto hypocrita da primeira cigarra de Anacreonte? Quem, conhecendo o caracter do illustre escriptor, havia de suppor que para tanto e tão pouco tivera bondade, modestia, terrores vagos, receios infundados?!...

A nebulosa, a vaga, a astuta, a matreira, a equivoca—conversação preambular—dera-nos a medida de uma prostituição e de uma infamia; aquella de um, justificada, até certo ponto, e fertil de fecundos ensinamentos a futuros escriptores; esta de outro, que, tendo um nome já grande, carece de um outro nome para ser quanto merece.

Saturnus exultavit; flevit honor. Saturnus exultavit cum maerore et luctu, como sempre.

Um obreiro de menos, uma iniciativa de mais: um successo a meio caminho, porque a inveja insidiosa o atraiçoou pelos trinta dinheiros da eschola do interesse proprio!{7}

Saturnus flevit cum planctu magno, e desatou a rir debaixo da copa da sua olaia!

A resignação é uma perpetua lagrima a sorrir-se: resignámo-nos. Estes desvios de prumo não interrompem a construcção das pilastras de cada seculo, em que vai assentando a abobeda da civilisação. Houve apenas um atrazo. Depois os obreiros foram abrindo alicerces, baldeando materiaes, cimentando paredes, cada um na medida das suas forças, livres de preceito extranho e official, da correcção pretenciosa de um mestre de obras do passado, todos amigos, todos innocentes e puros, todos desinteressados, e o que mais é, nefando crime, todos apostolos do ideal!

Eu, pobre de intelligencia, mas amigo do trabalho, do fundo do meu retiro, da minha mansão de paz, minguada de tudo, menos de boa-vontade, estava contemplando com amor, até mesmo com desvanecimento, esta liberdade de pensar, estas auroras novas, este volitar de ideias, este grangeio livre de alimentos futuros, este caminhar de cada um a sabor da propria responsabilidade, sem nem sequer me lembrar da cigarra de Anacreonte e de que houve outr'ora uma Divindade que comia os proprios filhos; de subito vejo um membro da commum abandonar a christandade com a obra debaixo do braço....

Era Pinheiro Chagas, que tambem abrira os olhos da alma á luz do seculo que vai passando; um talento superior, um coração limpo de toda a mancha, modesto tambem, e tambem fraco, tomado de terrores vagos, de infundados receios, que dera os ultimos traços no—Poema da mocidade—e receoso que lhe calumniassem a obra os invejosos confrades da religião nacional, ia ao templo pagão sacrificar o cordeiro da sua independencia!

Um sacerdote de crenças bem diversas das nossas na indole e na influencia social acabava de ministrar o sanctissimo sacramento do baptismo litterario a um nome que não carecia de mendigar calor alheio para crescer em celebridade e honras bem merecidas!

Cantava a segunda cigarra de Anacreonte na copa da frondosa olaia!

Saturnus exultavit cum planctu magno.{8}


Eu que estava neste momento, quando tudo isto se passava, distinguindo á luz do bom-senso e do bom-gosto o paganismo e a ideia christã, abria pela primeira vez a traducção dos Fastos de Ovidio, e pasmava, pasmava sinceramente, de ver o hyerophante do seculo estabelecer o confronto do seductor das sabinas e do casto Filho de Maria!

Eu acabava de concluir na intimidade do meu pensamento, que os grandes homens tinham jogado as nozes com os rapazes, e que dispensarem-se de dizer tolices como elles seria falta de logica....

Não obstante eu pedia ainda sobras á vontade para crer, que os talentos saudosos do passado não negociavam com as suas crenças, quando o vento do levante, entrando no meu gabinete de trabalho, me desdobrou a primeira pagina do livro. Estava ahi escripta em lettras negras, grandes, famosas, uma dedicatoria:

Ao incomparavel Duque de Saldanha!

O sol nascia d'esta vez no meu pacifico retiro: um facho de luz inundava-me a fronte carregada de pensamentos tenebrosos, e o jubilo entrava em minha alma!

Mentira!

A opinião publica era a Messalina devassa que se prostituira ainda uma vez ao erro voluntario de uma calumnia vilã, vendendo uns restos de honestidade, que nunca ninguem perdeu, ao odio eterno e inclemente das paixões partidarias.

A opinião publica indignada, cujos murmurios escutava com vago terror, que eu julgava apenas suffocada pela força das conveniencias, mas distinguindo já através das sombras da posteridade um annel de fogo envolvendo dois astros, que até mesmo no abysmo das miseraveis vergonhas, a que sub-serviram, tiveram luz para se esconderem as pustulas dos olhos investigadores da geração, que, cometas funestos, esterilisaram por um lado, desmoralisaram por outro, instruiram pelo ultimo; a opinião-publica, que via, que proclamava tudo isto, não era dominada senão pela odio dos Titães, o odio que tentava escalar os astros, que na obra do paganismo enlaçaram suas orbitas para maior gloria do Christianismo!{9}

E todavia era uma infamia!

Eu via, não podia duvidar: um genio coroava outro!

Os pobres de espirito como eu poderiam errar, depositando uma oblata christã sobre as aras ensanguentadas de Mavorte: os sanctos innocentes da eschola de Coimbra poderiam ignorar as noções mais vulgares do bem e do mal, a mais simples regra de honestidade, o mais ostensivo principio de moral practica e de moral christã; mas a intelligencia, o genio, o talento, a philosophia, a historia, a luz, a vista de aguia, não, não, e não podiam ver a infamia, onde só mora a virtude, o ultramontanismo, onde só mora a liberdade, a reacção, onde repousa a inercia, o templario politico, onde se aninha a pomba innocente e immaculada, de olhar azul e candido, magico, sereno, celestial, divino.

E eu, que ás cinco horas da madrugada ia ser um ecco da opinião publica, e de uma infame calumnia, ás oito sou apenas um bemaventurado!

Eu ia talvez dizer, se o vento do levante me não traz aos olhos a—dedicatoria—que quaesquer que fossem os nomes, que os nomes dos grandes pretendessem illuminar e impôr aos livres pensadores da eschola liberal, desciam, baixavam á condição servil dos que procuram diluir o successo no expediente, justificar a immoralidade e a baixeza da alienação do seu primeiro direito absoluto com o bom successo do jogo de fundos litterarios; insinuar talvez, que existia ainda uma litteratura unica, embora absurda, embora metaphysica, embora inintelligivel e portanto ideal, ou ideal e portanto inintelligivel, embora asnatica, embora desgraciosa na essencia e na fórma—innocente, casta, pura, independente, espiritualista, moralisadora antes de tudo e sobre tudo; que essa litteratura era a que se condemnava pelo talento serio de Antonio Feliciano de Castilho no—Poema da mocidade—litteratura que se não prostituira nos mercados publicos ao osculo do primeiro Judas litterario do seculo. Se não existira uma atmosphera, pura e buliçosa, onde podessemos ainda respirar, ia proclamar bem alto, que a litteratura de Antheros, de Vieira de Castro, de Theophylo Braga, de todos os Bragas, de todos os escriptores nobilitados pelo cunho da sua independencia, de Coimbra, do Porto, de Lisboa, não é o producto liquido e homogeneo de nenhuma eschola, porque{10} tal não existe em parte alguma, e menos em Coimbra; que o primeiro estylista do paiz a classificara assim para practicar uma dupla baixeza, impropria de um talento raro e serio, de um homem honesto, desambicioso, desinteressado; diria comtigo, Anthero—«Combatem-se os herejes da eschola de Coimbra por causa do negro crime de sua dignidade, e do atrevimento de sua reputação moral, do attentado de sua probidade litteraria, da impudencia e miseria de serem independentes e pensarem por suas cabeças. E combatem-se por faltarem ás virtudes de respeito humilde ás vaidades omnipotentes, de submissão estupida, de baixeza e pequenez moral e intellectual... Mas é que a eschola de Coimbra commetteu effectivamente alguma cousa peor de que um crime—commetteu uma grande falta: quiz innovar. Ora, para as litteraturas officiaes, para as reputações estabelecidas, mais criminoso do que manchar a verdade com a baba dos sophismas, do que envenenar com o erro as fontes do espirito publico, do que pensar mal, do que escrever pessimamente, peior do que isto é essa falta de querer caminhar por si, de dizer, e não repetir; de inventar, e não de copiar. Porque? Porque todos os outros crimes eram contra as ideias: haveria sempre um perdão para elles. Mas esta falta era contra as pessoas; e essas taes são imperdoaveis.» Commettendo sem duvida a esquerda indiscrição de asseverar que aquella dupla baixeza consistia em envolver ao mesmo tempo tres nomes distinctos, que nunca lhe pediram ao mestre nem protecção nem arrimo, na mesma damnação do seu orgulho omnipotente, e presuppôr, armar, construir do alicerce até á telha uma eschola litteraria em Coimbra, para a atirar á cara da universidade, que o fez poeta e grande, cerrando-lhe as portas do magisterio, porque a vida de lente é a cousa mais sinceramente prosaica, que ainda houve—Affirmaria sem duvida que este odio é negro, é velho, e ha de ser eterno! Diria que em principios do anno de 1835 a universidade foi vivamente atacada pelos então chamados—Institutarios—que, contando com as luctas e dissenções dos correligionarios dos dois partidos extremos, que então se dilaceravam no proprio seio da universidade, a desprestigiavam e calumniavam a academia d'esses tempos, servindo-se de uma imprensa corrupta e vendida a um certo frade, que não achava desgostosa{11} a tisana de lodo que do Tibre lhe mandaram para beber. Tractava-se nem mais nem menos do que da mudança da universidade para Lisboa, onde os obreiros, negros na alma e no habito, tinham o seu principal centro de operações, onde seria arma terrivel contra as instituições liberaes: que a bella e intelligente fronte da estudiosa adolescente do paiz, vendo que lhe roubavam a liberdade e a honra, despertara da somnolencia dos que soffrem, porque têm vida, que lhes não deixam viver, e, acalentada pelos generosissimos e liberalissimos sentimentos de alguns academicos distinctos, acceitára a luva que se jogava á universidade: que o jornal, o Academico, fôra publicado em principios do anno de 1835, e dahi até 28 de junho do mesmo anno, em 49 numeros, evidenciára que á litteratura de Coimbra não presta para baixezas, mas póde e sabe saldar as suas dividas de honra: que todos os artigos do Academico, jornal ao mesmo tempo litterario, scientifico e politico, d'aquella politica que convém a academicos—a da imparcialidade—respiravam tanto bom-senso, tanto bom-gosto, e tanta moderação, que foram elles que semearam no meio do paiz opiniões mais justas e sensatas sobre a questão universitaria, que a final foi julgada pelo parlamento do modo mais lisongeiro para a universidade. Perguntaria depois d'isto ao sabio distincto, ao engenho raro:—Ereis estranho á seita dos—Institutarios—conhecieis-l'os, vistel-os, sabieis-lhes os nomes, apertastes-lhes as mãos, assentastes-vos com elles á sombra da copa da vossa olaia a conversar, com razão ou sem ella, «em practica chã, desenfadada e satisfeita, como é de uso entre lavradores chãos e abonados depois de uma colheita abençoada»?!—Com a mão sobre a cabeça respondei, senhor! Eu creio-vos, eu proclamei o dogma da vossa infallibilidade: vós não podeis errar, enganar, e menos ser enganado!

Se aquella veridica—dedicatoria—me não illuminasse o espirito, diria que em 1854 o conselho de decanos da universidade negára ao illustre escriptor a sala dos capellos, que sollicitára para ensinar á eschola de Coimbra o methodo de leitura repentina, com bem fundados receios de que os nossos monarchas, os representantes de setecentos e cincoenta e quatro annos de cousas serias, ririam até rebentar, o que não era bonito: que por essa occasião, no salão do Instituto,{12} o auctor do methodo se dignára manifestar a consideração em que pôz sempre a universidade: que o ouvi eu, que tenho o orgulho de ser d'aquelles, que nunca deixaram cobrir da poeira do esquecimento insultos ou perolas que de maduras cahissem na sua presença de labios sibylinos, ou viperinos: affirmaria que o sr. Antonio Feliciano de Castilho na sua ultima visita a Coimbra azedou com a suprema injuria da nenhuma practica que teve com academicos á sombra da copa da sua olaia, porque nem um só devoto, ao que me disseram, queimou um só grão de incenso e myrrha ao idolo dos que por modestia, por bondade, por terror, por imitação, vão mendigar á sua porta um obulo da graça das multidões, que com razão o admiram nas suas inimitaveis traducções, nos seus poemas, nas suas imitações, e até mesmo nas inimitaveis contrafações do seu caracter.

Continuaria a dizer, que a cousa assim é mais commoda e mais decente, porque é arteira, porque deixa sempre livre á tangente do seu odio por todos e por tudo o systema matreiro da raposa velha. E diria ainda em termos mais claros: o Ovidio portuguez, temendo «aventurar a vida por desempenhar um pontinho de honra propria», preparou e prepara sempre previdentemente o terreno de vespera, semeia o pomo da discordia em propriedade alheia, e deixa ao proprietario, agradecido da sua abençoada lavoura, o cuidado de defender os renovos. Já cançado de tosquiar camêlos, como tão classicamente escreve, assenta-se com razão a conversar em practica chã, desenfadada e satisfeita, como é de uso de lavradores depois de uma feia acção, á sombra da copa da sua olaia, e, reclamando serviço por serviço, entrega a defeza das suas causas e cousas graves áquelles a quem deu saude e graça para correrem mundo. Habil piloto, deposita nas mãos dos remeiros, a quem alugou a barca de passagem, o fardo da sua dignidade, para lh'o levarem a porto de salvamento. Se o fardo chega avariado, como é mais que provavel, aos consignatarios da opinião publica—aqui d'el-rei—que foram elles que o deixaram ao tempo! e eil-o a chamar gallego a todo o mundo, inclusivamente ao mais honrado e independente caracter, que ainda houve nesta terra—o sr. A. Herculano! No entretanto a cigarra de Anacreonte vae cantando sobre a copa da proverbial olaia: e o Saturno portuguez, tomando{13} á sombra d'ella o café confortador, para mais facil digestão dos tenros cordeirinhos que a cigarra tosquiou, e elle comeu para ficar sosinho no seculo actual como agente, e os bôlos litterarios nacionaes como pacientes.

Isto sim, que é obra prima, accrescentaria eu, da mais fina methaphysica; isto sim, que é a expressão do mais puro ideal de refinada pouca-vergonha! É verdade que não aproveita a ninguem, nem á humanidade actual, nem ás futuras, nem a coevos, nem a vindouros, nem á Allemanha, nem á França, nem a Turim, nem ao Porto, nem a Lisboa, nem á infame eschola litteraria de Coimbra, que fazem escala por caminhos de honra e honestidade, mas aproveita-lhe a elle, ao seu orgulho feroz, mas ás suas entranhas insaciaveis de tudo, como de gloria, mas ao seu velho odio sem treguas, sem clemencia, sem repouso, mas á sua suprema soberba e á sua infinita vaidade.

Elle, o mestre; elle, o poeta da arte; elle, o sabio; elle, a intelligencia, que com mais felicidade e facilidade tem sabido assoalhar as abundantes e abençoadas sementes, que por ahi estavam por celleiros classicos a apodrecer na humidade e no abandono; elle, a mais esplendida e luxuriosa fórma que tem vestido lettras portuguezas; elle, o privilegiado do genio; elle, o que devia em fogo inextinguivel de amor e honestidade alimentar os primeiros attributos da divindade, que allumiam o destino de cada homem, e de cada sociedade; elle, que devia, e como poucos podia, bafejar todas as vocações; acompanhar com respeito, com veneração, com dulcidão d'alma, com candor de coração, toda a eschola nascente, toda a ideia nova e original, ao menos nesta terra; toda a utopia, amiga do bom, do util, do social; todo o esforço dos limpos de coração, para tornar a humanidade mais ideia, menos argilla; mais absoluto, menos relativo; mais bem, menos miseria; mais virtude, menos abjecção; mais amor, menos calculo; mais elevação moral, menos torpeza; mais religião, menos descrença; mais perdão, menos vindicta; mais caridade, menos odio; elle, que devia esmagar nos abysmos do coração, com a mão firme da vontade, os seus resentimentos particulares, e as reclamações exaggeradas da aspiração da gloria; domar pela sagacidade o que em todo o homem existe de fera humana, cicatrisar pela braza viva do{14} seu talento de fogo a ferida do seu peccado original, enfrear o sentimento da paixão individual, pela superior consideração dos interesses sociaes de qualquer ordem; este homem, que devia comprehender que todos os da sua esphera já hoje não podem nascer, sem perigo de damnação social, para se consumirem no sentimento mesquinho do egoismo e interesse proprios, senão sim para allumiarem, como o sol, que não cuida de si, do nascimento ao occaso um hemispherio da sociedade, do occaso ao nascimento os antipodas do progresso; elle, Castilho, falsifica ignominiosamente a sua missão no seio da eschola liberal, dá cada dia um abraço angustioso na ambição, que o domina, attrela-se ao carro da inveja insidiosa, julga ainda pequenas as lettras de luz do seu nome, que ninguem já póde apagar-lhe nas memorias do porvir, e chafurda-se como a serpente do Eden na tremedal da hypocrisia astuta, offerecendo com palavras ensopadas em ambrosia e nectar o pomo enganador aos Evangelistas da Divina palavra, que hão-de levar com os seus o nome do Verbo aos quatro cantos do universo e ás christandades por-vir.

A mim rasgava-se-me o coração se tivesse dito tudo isto, convencido de um erro; se a aragem da madrugada do dia 20 de novembro de 1865, impregnada do espirito invisivel da verdade, desdobrando aquella primeira folha da traducção de Ovidio, me não viera evidenciar, que o nome de um christão póde egualar o de um pagão, por consentimento tacito do segundo, e acceitação expressa do primeiro.

Mas então a que vim eu?—perguntarás tu, Theophylo Braga, Vieira de Castro.

A dizer-vos, que Anthero do Quental póde e deve confessar que não teria publicado a pagina decima primeira da sua Carta, se ao concluil-a abrisse, por desenfado, o Camões de Antonio Feliciano de Castilho, e o gostasse com todos os cinco sentidos; se, virgulando o que escrevera, houvesse tempo para ter em mór valia e consideração o seu bom-senso e bom-gosto, que os seus, aliás justos, resentimentos: não a agradecer-vos o delicado favor da vossa amisade, que não vem para aqui, ou a absolver-vos de peccados, que todos commettemos mais ou menos, mas a descarregar a minha consciencia de um pêso que de ha muito a mortificava; a asseverar-vos finalmente que, digam o que disserem os Sanctos{15} Padres, que venero; os canones dos Concilios, que leio; os decretos e bullas dos pontifices, que em conta de boas bullas terei sempre; chovam raios e coriscos sobre a triste humanidade; rasgue-se o véu do templo; sôe embora a trombeta do Juizo Final; resuscitem as provas de agua e fogo; até morrer, e ainda mesmo a morrer hei-de exclamar pelas mil boccas da minha fera vontade:

É o sol que está parado, é a terra que se move.

Dito isto, vou ler pela centesima vez a lei de 18 de agosto de 1769, a lei da Boa-razão. É fastidiosa, detestavel, pessima para uns certos, que se acoitam á sombra da arvore do bem e do mal a ruminarem torpezas é iniquidades; uberrima, recreativa, bonissima para outros que, quando menos, têm o bom-senso e o bom-gosto de a lerem, e comprehenderem.

No sentido que deixo dito

 

Vosso

Elmano da Cunha.