The Project Gutenberg eBook of Mulheres e creanças: notas sobre educação This ebook is for the use of anyone anywhere in the United States and most other parts of the world at no cost and with almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included with this ebook or online at www.gutenberg.org. If you are not located in the United States, you will have to check the laws of the country where you are located before using this eBook. Title: Mulheres e creanças: notas sobre educação Author: Maria Amalia Vaz de Carvalho Release date: July 30, 2009 [eBook #29550] Most recently updated: January 5, 2021 Language: Portuguese Original publication: Porto: Editores ― Joaquim Antunes Leitão e Irmão Rua do Almada 209 ― 1.º andar, 1880 Credits: Produced by Rita Farinha and the Online Distributed Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was produced from images generously made available by National Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) *** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK MULHERES E CREANÇAS: NOTAS SOBRE EDUCAÇÃO *** Produced by Rita Farinha and the Online Distributed Proofreading Team at https://www.pgdp.net (This file was produced from images generously made available by National Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) *Nota de editor:* Devido à existência de erros tipográficos neste texto, foram tomadas várias decisões quanto à versão final. Em caso de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No final deste livro encontrará a lista de erros corrigidos. Rita Farinha (Jul. 2009) BIBLIOTHECA DO CURA DE ALDEIA D. MARIA AMALIA VAZ DE CARVALHO MULHERES E CREANÇAS (NOTAS SOBRE EDUCAÇÃO) Editores--JOAQUIM ANTUNES LEITÃO & IRMÃO Rua do Almada 209--1.^o andar PORTO MULHERES E CREANÇAS A propriedade d'esta obra pertence: Em Portugal á _Bibliotheca do Cura de Aldeia_. No Brazil ao snr. Adriano de Castro, residente no Rio de Janeiro. BIBLIOTHECA DO CURA DE ALDEIA MARIA AMALIA VAZ DE CARVALHO MULHERES E CREANÇAS (NOTAS SOBRE EDUCAÇÃO) PORTO Editores--JOAQUIM ANTUNES LEITÃO & IRMÃO Rua do Almada 209--1.^o andar 1880 TYP. DE ALEXANDRE DA FONSECA VASCONCELLOS 29, Rua do Moinho de Vento, 29 Á Minha querida mãe _Companheira constante e fiel de toda a minha vida, offereço-lhe este livro humilde, que escrevi inspirada pelos seus conselhos e pelo seu santo e nunca desmentido exemplo._ CAPITULO I Falla-se hoje muito a respeito da dissolução domestica, manifestada e provada constantemente por casos de divorcio, suicidios, questões miseraveis entre parentes proximos, rebelliões filiaes, etc., etc. Surprehende a todos aquelles, que sem aprofundarem radicalmente as questões sociaes, se preoccupam todavia com ellas um pouco mais do que o vulgo, que este mal que todos sentem e que poucos definem, que este estado inquieto e doloroso que depois de agitar a familia assusta e perturba a sociedade, se haja aggravado justamente na época em que o homem auxiliado por grandes e immortaes pensadores, tem adquirido a mais elevada e justa noção do Bem que ainda lhe foi dado alcançar no seu caminho de seculos. A manifesta e clara contradicção que hoje mais do que nunca existe entre as idéas e os factos desnorteia e desanima ainda os espiritos mais penetrantes. Como é que o homem que tem domado a materia a ponto de fazer d'ella a escrava submissa da intelligencia; que forçou a grande e muda Natureza a tornal-o seu confidente e seu senhor; que arrancou ao astro e á planta o segredo immortal da vida que os anima; que penetrou--investigador implacavel--nas catacumbas das mortas religiões, e que ouviu de cada uma a palavra suprema que as explica e desvenda; porque é que o homem que tem hoje a percepção lucida e completa do seu destino, não soube ainda prostrar, vencer, amordaçar o animal indomito que vive dentro d'elle, que o martyrisa, que o rebaixa, que o leva muitas vezes ao abysmo, quando o não leva ao lodaçal? Se o bom e o bello lhe revelaram a sua larga claridade benefica, porque se não revigora elle, e se não robustece n'esse grande banho de luz? porque não estabelece uma harmonia perfeita e intima entre a idéa que fórma dos deveres e a sua manifestação pratica e vizivel? Depois de havermos concedido ás paixões humanas o imperio relativo que ellas não podem perder, somos ainda forçados a confessar que na culpa d'esta desgraça que todos lamentam, compete ás mulheres um grandissimo quinhão. Concorrem ellas em grande parte para dar força ao impulso que contraria a marcha triumphante e apesar de tudo invencivel, que leva a civilisação no caminho da verdadeira luz. E concorrem por varias e complexas razões que devem analysar-se e depois combater-se. Ignorantes impoem resistencia inconsciente ás transformações continuas do progresso. Retrogradas por educação e por natureza, cada innovação se lhes affigura ou uma cousa inutil, ou uma cousa perigosa. Amesquinhadas pela profunda escuridão intellectual em que jazem immersas, em vez de auxiliarem o homem no cumprimento difficil do dever afastam-no pelo desdem, desanimam-no pela frivolidade, cançam-no com as exigencias loucas, gastam-lhe a força, o alento, as aspirações arrojadas e grandes na satisfação de desejos pueris, ou lhe destroem a dignidade e lhe annullam a energia obrigando-o a transigir com os desvairamentos d'uma imaginação doentia. Mas se as mulheres produzem este effeito funesto confesse-se para bem da justiça que aos homens se deve o atrazo intellectual em que todas nós estamos. Sentem elles, e a meu ver sentem muito bem, que para conservar este equilibrio necessario á manutenção da ordem na familia e na sociedade, cumpre que a mulher se não revolte contra a inferioridade a que fatalmente a condemnam as leis, e contra a dependencia a que a condemnam os costumes. Para alcançarem porém esta submissão voluntaria entenderam desde muito, que o melhor meio consistia em condensar as trevas da ignorancia e da superstição em torno d'aquella de quem são forçados a fazer a sua companheira na vida, o seu consolo nas horas da provação, a mãe de seus filhos, a carne da sua carne. Terrivel contradicção, systema absurdo que tem como resultado a lenta desorganisação da familia e que corrompendo a mulher atravez do homem, não póde deixar d'ir com o andar dos tempos corrompendo o homem atravez da mulher. D'um lado querem conservar-nos n'uma plana muito inferior á sua, como illustração, conhecimentos, intelligencia, isto para que nunca nos venha á idéa aspirar á perfeita igualdade dos direitos e dos privilegios; d'outro lado exigem de nós prodigios de virtude, de abnegação, de paciencia, de que só são capazes as almas bafejadas pelo sopro ideal da eterna Perfeição. A mulher precisa de ser moralmente mais forte do que o homem, para conseguir levar a cabo a tarefa relativamente superior que a natureza e a sociedade lhe impoem. No dia em que se assentar este ponto como verdade incontestavel, o mundo terá dado um dos seus passos mais gigantescos no caminho da felicidade. Educar a mulher eis o grande problema que resta ainda a resolver. Educar a mulher é arrancal-a na infancia ao seu berço fôfo e tepido de beijos, e leval-a por caminhos d'uma magestade austera que ella nunca trilhou. É preparal-a para a grande lucta moral que é a Vida, com os cuidados com que Sparta, a guerreira cidade antiga, preparava os seus filhos para as luctas do corpo, para as victorias da destreza physica. É associal-a pela comprehensão e pela sympathia a todos os trabalhos e investigações do homem moderno; é dar-lhe ao lado d'este um lugar honroso e definido, não egual pois que são diversas as attribuições de ambos, mas equivalente em direitos e em deveres. É fazer-lhe comprehender bem claro que as seducções do corpo--seu orgulho supremo e seu constante desvanecimento--quando não são reflexo da formosura e da robustez da alma, não passam d'um laço ignobil armado ao animal malefico e bravio que todo o homem encerra em si. Educar a mulher é leval-a a compenetrar-se do seu papel providencial na familia, e achal-o grande, util, elevado, digno de saciar as mais levantadas ambições, e tambem--o que é d'uma importancia capital--de pezar como uma responsabilidade tremenda no animo mais altivo. É dar-lhe uma idéa perfeita do dever e da justiça, um Ideal a que tendam incessantemente as aspirações do seu espirito, uma religião que a hypocrisia e os calculos interesseiros não maculem nem amesquinhem, que se resuma para ella no sacrificio e no amor, mas sacrificio sem voluptuosidades dissolventes e amor sem extasis hystericos e sem raptos de paixão sensual. Não basta porém exprimir tudo que se ousa esperar da mulher de ámanhã, é preciso tambem lançar um olhar demorado e justo ao que é a mulher d'hoje. Só assim poderão comprehender-se os erros que é preciso desarreigar, os preconceitos que é indispensavel destruir, a distancia enorme que temos de transpôr para chegar ao momento da sua completa e salutar transformação. II As divisões sociaes que hoje em face dos homens educados nos mesmos collegios, nas mesmas academias, nas mesmas escolas superiores, quasi que se não distinguem, ou se distinguem apenas por ligeiros cambiantes imperceptiveis ás vistas superficiaes, imperam ainda na mulher com extraordinaria força. Vamos pois procurar ás diversas classes as suas femeninas representantes, e pincipiemos pela mulher da classe media, classe que considerada no seu elemento masculino representa a intelligencia, a riqueza, o commercio, a industria, o progresso d'um paiz. A mulher d'essa classe especial divide-se em dous generos accentuadamente distinctos: aquella que as vaidades sociaes ainda não corromperam, e aquella que pretende offuscar com os deslumbramentos da sua opulencia, as finas graças, as exterioridades elegantes, os requintes herdados e tradicionaes que pompeiam nas regiões mais elevadas da sociedade. A primeira é evidentemente mais sympathica; é laboriosa e tem a rude sensatez plebeia da sua raça. Tem o amor dos filhos, um amor animal, um amor physico, mais instincto do que religião. Não raciocina mas sente com uma energia poderosa e creadora. É d'uma ignorancia absoluta, ingenua, profunda, quasi sublime na sua cegueira. Imagina-se porém investida d'um dever supremo a que todos se subordinam:--o de proporcionar por todos os meios ao seu alcance o bem estar material do marido, e da familia. Não tem conversação, não tem espirito, não tem aquella doçura benevola e intelligente que é para o coração dos homens o que o algodão em rama é para o ninho das aves. Quando aconselha irrita; quando quer guiar contraria, quanto tenta convencer, despersuade. É porém activa, aceada, robusta, fiel, e nas horas de adversidade, de doença, de desfallecimento ou de miseria, tem os carinhos rudes, tem a dedicação humilde, tem a vigilancia perseverante, tem o exemplo energico e fecundo por isso mesmo. O homem anda lá fóra, na lucta, no trabalho, na investigação, na sciencia; vae vivendo e vendo como n'uma ascensão rude, desvendarem-se todos os dias horisontes novos, vae estudando e sentindo como n'uma iniciação progressiva dilatar-se-lhe o espirito, clarear-se-lhe o entendimento. Ella a esposa, a sua companheira, a sua melhor amiga, ignora os seus combates, as suas glorias, as acres delicias do seu sacrificio, os desanimos, as horas de impotencia, as aspirações, os arrebatamentos triumphantes da victoria. Percebe simplesmente se o marido está doente, se anda magro, se tem fastio, se tem roupa branca. Inventa-lhe pequenos pratos, manipula-lhe remedios caseiros, vigia para que lhe não faltem aquelles commodos que elle aprecia, tem prodigios de invenção espontanea para o envolver no bem estar tão necessario aos que se consomem n'uma actividade sem treguas. De que ha de elle queixar-se? De nada. É amado, é estremecido, obedecem-lhe cegamente, tem a certeza de encontrar ao seu lado sempre que o precise um sincero e leal affecto. Mas quando um sentimento superior o transporta, quando uma grande idéa o levanta e ennobrece, quando um nobre desejo do bello e do bom lhe faz palpitar de enthusiasmo o coração, é debalde que elle busca junto de si o espirito que comprehenda o seu espirito, que partilhe as suas impressões, que lhe revele emfim intima, absoluta, indestructivel, essa união ideal sem a qual o casamento é espiritualmente infecundo e incompleto. Isto tem de esmorecer fatalmente o impulso que levava esse trabalhador, esse homem de pensamento ou de sciencia á conquista e á posse da sua felicidade. Sem que elle talvez mesmo dê por isso, uma tristeza indefinivel, vaga, sem traducção, lança como que um sopro esterilisador sobre as suas mais queridas concepções. Falta-lhe alguma cousa que elle precisava e que no entretanto não conhece nem sabe definir. Falta-lhe o complemento do seu sêr! Subamos agora na escala social mais um degrau. O trabalhador incansavel venceu. O dono da fabrica fez-se capitalista; o chimico enriqueceu com a sua descoberta; o medico alcançou uma popularidade subita; o industrial ganhou um milhão. Elle é simples e modesto, lembra-se dos dias em que trabalhava e combatia, como dos seus dias melhores; não quer offuscar ninguem, basta-lhe hoje como hontem lhe bastava a consciencia do seu valor individual. Ella porém a mulher--e eis a segunda variedade que acima citamos--ella que deixou penetrar na sua alma ignorante o veneno da vaidade, ella a quem o trabalho forçado já não absorve, e a quem as distracções elevadas e nobres d'um espirito culto são vedadas, ella que não pensa, que não medita, que não entendeu bem na sua acepção levantada e digna a missão exercida pelo marido pois que se envergonhava da pobreza honesta em que vivera largo tempo, eil-a que deseja esmagar as que a esmagaram n'outra época com o pezo da sua superioridade social, eil-a que opera a pouco e pouco, quasi imperceptivelmente, uma influencia funesta no homem, que o corrompe, e que o arrasta. Emquanto elle tivera as serenas e robustas consolações do trabalho que a intelligencia illumina, e a que a intelligencia preside, tinha ella apenas na sua profunda escuridão mental, as pequenas humilhações, as raivas mal dissimuladas, os despeitos mal contidos. Não podendo ter a consciencia do seu dever o que a faria sublime, só tivera a consciencia da sua inferioridade, que a tornara mesquinha e redicula. Chegando o momento da desforra exigi-a completa. Leitora, quando tu vires passar triumphante, grosseiramente desdenhosa, mal sentada nos flaccidos coxins d'um _coupé_ de oito molas, coberta de velludos e de rendas a altiva burgueza dos nossos dias, lembra-te que é o fructo pernicioso da ignorancia combinada com a mais feroz vaidade. Ninguem a excede no absurdo desprezo por tudo que está abaixo d'ella, que é mais pobre, mais humilde, menos cheio de lantejoilas e de falsos brilhantes. Tem as refinadas atrocidades do paria que se vinga. Como para ella ser pobre foi o maximo dos martyrios e a maxima das humilhações envolve todos os pobres no mesmo olhar de cruel desdem. As filhas d'esta mãe são as desgraçadas creanças que por ahi vendem a sua mocidade e os seus carinhos por um titulo avariado ou pelos milhões d'um negreiro enriquecido. Não as accusemos, accusemos antes a perniciosa, a funesta educação que receberam, germens que teem no passado as suas raizes damninhas e que vão estender sobre o futuro a sua sombra deleteria e esterelisadora. Combater estes erros, lançar por terra estes preconceitos deve ser a mira de todo o ser que pensa e crê! III Deixemos agora os _menages_ modestos onde reina o trabalho ou os salões vulgarmente luxuosos onde a riqueza ostenta os seus vãos orgulhos, e penetremos no _boudoir_ elegante, onde a mulher do alto mundo proclama o que se lhe afigura a sua incontestavel superioridade. Ha um preconceito falsamente democrata, e digo _falsamente_ porque a democracia tem obrigação de ser justa, imparcial e intelligente, que attribue aos restos desmantelados da nossa aristocracia, todas as culpas e todas as inferioridades. Engano! É verdade que a aristocracia portugueza avaliada no seu conjuncto, se annullou pela ignorancia, como a aristocracia franceza se annullou pelo desdem, e a prova temol-a nós em Inglaterra onde esta classe que não foi nunca ignorante nem desdenhosa, predomina com todo o pezo d'uma robusta instituição de seculos nos destinos politicos, economicos e sociaes da nação. Hoje porém, o que em Portugal resta de uma raça que teve todos os privilegios e todas as prepotencias, tenta instruir-se de boa vontade, aspira a levantar-se pelo valor individual, e se raras vezes o consegue, é que o passado exerce ainda a sua influencia nefasta, é que a decadencia e o abastardamento das raças são uma verdade scientifica contra a qual nada póde a vontade humana. A fidalga tradicional e lendaria, soberba, sem conseguir ser magestosa, ignorante, cheia de preconceitos, de rediculos e de toda a especie de idéas estapafurdias, olhando de muito alto com um pasmo idiota que aspira a ser desdenhoso, para as maravilhas d'uma civilisação que não comprehende, vae desapparecendo completamente até dos velhos solares da provincia acastellados e altivos. Morre sem deixar saudades e sem ter quem a substitua. Hoje as representantes femeninas das altas classes se não seguem um caminho mais verdadeiro, mais util, mais fecundo em resultados praticos, revestem ao menos a sua falsa percepção da idéa moderna, d'um prestigio que á primeira vista agrada e seduz. A educação d'ellas, uma educação toda exterioridades brilhantes, se não é aquella de que carecem as mães, as perceptoras de futuro, estabelece comtudo e accentua incontestavelmente a sua superioridade social sobre as gerações que as precederam. A influencia estrangeira e sobretudo a franceza, penetrou nas salas desbotadas dos nossos palacios e nas luxuosas residencias da nossa aristocracia moderna. Se não temos a mulher de familia, a creadora de uma geração robusta, conscienciosa, crente e leal, temos a _mulher de sala_, que é uma nova face da transformação lenta por que vão passando as idéas e os acontecimentos. A mulher de sala é um producto exotico entre nós. A França recebeu-a da Italia, cultivou-a, transformou-a, deu-lhe todos os requintes falsos, todos os donaires artificiaes, ergueu-lhe um throno no seio das suas côrtes galantes, e deixou que nós, vendo-a de longe a cubiçassemos e tentassemos transplantal-a para os nossos costumes chãos, para a nossa pobreza envergonhada e modesta. Sahiu-nos uma cousa hybrida e estranha, que não está em relação com o seu meio, deslocada, inutil, mas em todo o caso attrahente para os olhos superficiaes. A mulher de sala falla umas poucas de linguas, com facilidade e fluencia; escreve bem, com uma certa graça adquirida que não occulta a frivolidade, mas que a envolve em véu rendilhado; conversa com vivesa e com chiste, sabe dar aos pequenos _nadas_ da sua vida uma elegancia que illude os incautos. Quem a vê de longe, no scenario pomposo da sua opulencia, sente-se deslumbrado; quem a observar de perto conhece que ella tem de facto caminhado para se afastar das suas predecessoras, mas que o caminho que vae trilhando é como o que ellas trilharam, um caminho falso, um caminho sem sahida. O primeiro obstaculo que a separa da verdadeira luz, é uma devoção inteiramente errada, em que a idéa luminosa e fecunda prégada pelo Christo se subverte e se afoga n'uma onda de preconceitos e de mentiras anti-christãs. Se a mulher das classes inferiores estabelece entre si e o marido uma barreira enorme--a sua ignorancia--a mulher mais culta e mais educada das classes elevadas separa-se do marido, como se separa mais tarde dos filhos isolando-se na esphera inaccessivel do seu intransigente fanatismo. Quando digo fanatismo, não quero referir-me a uma crença exaggerada e absoluta, que impere em todos os actos da vida, e que os subordine ás suas austeras exigencias. É um fanatismo elegante, um fanatismo de _alta vida_, bastante indulgente para se permittir todos os gozos sociaes, bastante severo para não admittir que haja virtudes, merito, nobreza, sublimidade possivel fóra do seu estreito gremio. Aqui como alli é sempre o divorcio na familia debaixo de qualquer dos aspectos. Aqui porém mais completo ainda, visto que a vida da sociedade exige mais da mulher, visto que n'esta existencia de representação exterior e pueril, nem ao menos subsiste entre a mulher e o marido aquella intimidade material, aquella protecção mutua que faz com que o homem seja o braço, o amparo, o sustentaculo, e a mulher o desvelo, a economia, a vigilancia continua, a dispensadora e reguladora de todos os confortos materiaes da familia. A mulher de sala vive para todos, menos para os seus. Veste-se, despe-se, reza, confessa-se, recebe visitas, tagarella, agrada, encanta, mas no meio d'este labyrintho de pequenas occupações, de pequenos deveres, de pequenas caridades officiaes, de pequenas praticas devotas, ignora completamente e absolutamente tudo que póde constituir a verdadeira missão da mulher no mundo e na familia. Se alguem tivesse a ousadia de dizer-lhe: --Julgas-te superior e moralmente fallando a mulher do povo que ganha com o suor do rosto ao lado do homem, o pão que os filhos hão de comer á noite, tem sobre ti superioridade moral incontestavel. Julgas-te instruida e não tens no teu pequeno cerebro recheiado de insignificancias bonitinhas, a noção mais elementar dos milhões de cousas que precisas de saber para estares em harmonia com o teu tempo, para educares dignamente aquelles em cujas mãos estão os destinos de ámanhã. Julgas-te virtuosa e não pratícas nem concebes sequer nenhuma d'aquellas virtudes sãs que são a dignidade, o imperio e a força da mulher. Julgas-te religiosa e cada uma das tuas praticas acanhadas, cada um dos teus preconceitos mesquinhos te aparta da verdadeira religião que allumia e esclarece os fortes. Julgas-te boa esposa e boa mãe e vives sósinha n'um mundo teu, povoado de phantasias morbidas, onde teu marido e teus filhos não penetram; não tentas acompanhal-os, consolal-os, comprehendel-os; nunca te veio á idéa que a mãe de familia precisa de viver no coração dos seus, identificada completamente com elles, para ser digna d'este sagrado nome! Se alguem lhe dissesse isto ella julgaria ouvir fallar uma lingua estranha, ou rir-se-ia com desdenhosa incredulidade. Pois é necessario que ella entenda esta lição, que ella ouça estas palavras, e que pelo seu esforço permanente e consciencioso, ella tente sahir das trevas intellectuaes e moraes em que a sua funesta e falsa educação a teem submergido. IV No meio do desalento profundo, da inconsolavel tristeza, que n'esta época parece obumbrar de espessas nuvens a alma do homem, e como que vencer-lhe as aspirações e as energias, erguemos a voz desauctorisada e humilde para apontar algumas das causas que produzem effeitos tão deploraveis. Temos visto a desharmonia que existe no lar domestico, e encontramos como unico motor de tamanho desastre a desigualdade intellectual que a educação estabelece e nutre entre os dous sexos. Mas não se trata sómente de observar as causas e os effeitos, trata-se de pensar n'um remedio que seja efficaz para este estado de cousas, que a prolongar-se indefinidamente produz a dissolução social nos seus aspectos mais dolorosos e mais repellentes. Se a sociedade e a civilisação requintada e corrupta dos nossos tempos ainda não ensinaram á mulher o caminho verdadeiro e util que tem a seguir, antes d'elle a teem afastado mais e mais, ella póde ainda erguer-se do marasmo intellectual em que se compraz, e mostrar ao homem que é digna de coadjuval-o na sua obra de reedificação, digna de acompanhal-o na realisação pratica do que para elle, desajudado e só, não tem passado d'uma bella concepção theorica onde ás vezes transluzem não sei que visos de chimera. Todos os seculos teem mais ou menos acceitado a herança dos seculos precedentes. Ao nosso cabe porém a gloria de ter renegado muitos erros do passado, de ter proclamado a sua independencia, de ter produzido um reviramento absoluto n'esse conjuncto de idéas, de conhecimentos, de aspirações e de theorias que constituem o _ideal_ humano. O que hoje se exige da mulher é positivamente o contrario do que a sociedade antiga affeiçoada por moldes diversissimos exigia até agora. Este ponto d'uma importancia capital precisa de ser esclarecido a fundo. Á escravidão absoluta a que o nosso sexo se curvou sob o imperio de religiões extinctas, á bruteza dilacerante em que elle viveu submerso entre as sombras das idades barbaras, succedeu--e succedeu providencialmente--a apotheose da mulher divinisada pelo christianismo, aureolada por aquella poesia artificial, exageradamente requintada e platonica dos trovadores da Edade media, e aquella abnegação amorosa e idealista dos paladinos da cruz! Essa transformação radical no destino da mulher fez sentir a sua influencia até hoje, em phases e gradações successivas e diversas. Á castellã de repente acordada do seu lethargo mental, pela tiorba namorada do pagem, ou pela supplica ardente do cavalleiro, succedeu a rainha das _côrtes de amor_, a que erigia em dogma ideal o adulterio, a que proclamava em sentenças _preciosas_ a quebra de todos os laços da familia, a que via no amor requintado, falsamente seraphico, um direito superior a todos os direitos e deveres domesticos. Veio depois a gentil pagã da Renascença, a inspiradora dos artistas, a amante dos papas, a musa dos loucos poetas, a princeza dos festins, erudita, apaixonada, intelligente, cheia de phantasias superiores, que se era virtuosa se chamava Victoria Colonna, e se era dissoluta se chamava Lucrecia Borgia. A esta que correspondia ao seu meio social, que cumpria uma missão civilisadora, que tinha o seu destino marcado, e a sua orbita descripta succedeu a mulher de sala do seculo XVII e do seculo XVIII, de que hoje só temos a descendencia amesquinhada, decadente, anachronica, e, o que é peor de tudo, inutil quando não é funesta, ridicula quando não é tambem perniciosa, o que lhe succede quasi sempre. O homem que muitos seculos considerou a mulher um animal inferior e mal domesticado, fez d'ella movido por influencias que não podemos historiar aqui, o seu luxo, a sua poezia, o enlêvo das suas horas de ocio, depois novamente a escrava dos seus vicios ou o instrumento dos seus prazeres, e por fim um mero ornamento social, um brinquedo sem importancia, uma creança indocil, ante a qual se curvava, não porque a respeitasse mas porque n'esta falsa e mentida submissão encontrava novos requintes de prazer. Não comprehendeu porém que era victima da sua propria injustiça, que a corrupção da mulher se convertia para elle em gangrena, que o seu amesquinhamento se lhe communicava em villeza, que a sua ignorancia o fazia tambem retrogradar, que ha relações reciprocas que não podem quebrar-se, e influencias mutuas a que os dous sexos ao mesmo tempo divorciados e unidos, não podem por mais que queiram furtar-se. * * * * * Hoje uma corrente de ar puro, a corrente das idéas democraticas, purificou a atmosphera viciada onde uns poucos de seculos haviam deixado os vestigios das suas paixões insalubres. Tudo se transfigurou sob esta influencia benefica. Fez-se uma grande claridade na alma dos povos e na dos individuos, o pensamento reconquistou a sua independencia perdida, e uma voz firme e poderosa bradou bem alto: t --Não se tracta de continuar no caminho que iamos trilhando, tracta-se de procurar uma nova direcção que nos conduza á verdade. Ouvir esta voz é renunciar aos erros do passado, e cumpre que nós mulheres renunciemos a elles, para não caminharmos por uma estrada opposta áquella por onde vão subindo fortes, illuminados, convencidos, os nossos paes, os nossos esposos, os nossos irmãos. Não é a uma penna tão obscura como é a minha que pertence dar leis absolutas sobre um systema de educação diverso do que hoje está geralmente adoptado. Limitar-me-hei rapidamente e apenas animada com a força da consciencia, consultando o bom senso que é apanagio dos mais humildes, e a observação que póde ser partilha dos mais pobres, a indicar alguns dos obstaculos que nos separam moralmente d'aquelles de quem sômos companheiras e de quem devemos ser auxilio e complemento. A vida da sociedade é uma vida toda de egoismo e de vaidade, a vida de familia uma vida de renunciamento e de abnegação. Para viver na sociedade a mulher só precisa de ser exteriormente agradavel, para viver na familia a mulher precisa de ser forte. O mundo exige as graças, as garridices, as subtilezas do espirito, as louçanias do tracto; a familia sem prescrever inteiramente aquellas, exige acima de tudo a consciencia firme, a idéa clara e definida dos deveres, o espirito do sacrificio, e aquella energia branda que resiste ás tentações dissolventes do peccado. Entendemos pois que os esforços de todos os educadores, de todos os que se preoccupam com o futuro da sociedade devem convergir para annullar a mulher dos salões, e para crear e fortalecer a mulher da familia. Não nos revoltamos contra as graciosas futilidades que hoje constituem a educação feminina, não as condemnamos a um completo ostracismo, desejamos simplesmente vel-as collocadas no lugar que por sua natureza lhes compete. São simples ornatos decorativos, como taes os applaudimos e os queremos, não como fundo solido e base de todo o cultivo intellectual da mulher. Tambem não pedimos para o nosso sexo a emancipação, essa utopia de que hoje se falla tanto e com tantas banalidades impensadas. O que nós desejariamos era vêr na mulher uma personalidade robusta e consciente, inaccessivel ás chimeras da sentimentalidade, solidamente e despretenciosamente instruida, tendo todas as noções praticas necessarias para subordinarem o seu destino ás leis do bom senso, ao alcance de todos os descobrimentos e de todas as conquistas do seu tempo, comprehendendo o bello debaixo de todos os seus aspectos; prompta para perdoar o mal mas não para transigir com elle; sabendo resistir-lhe mas sabendo explicar as circumstancias que o attenuam ás vezes. Tendo acima de todas as religiões a religião do Bem, sacrificando-se aos seus affectos, mas sacrificando-se principalmente aos seus deveres. Laboriosa como condição indispensavel da propria dignidade. O trabalho é a redempção. Não ha mulher que não tenha conhecido mais ou menos fugitivas, mais ou menos traiçoeiras, mais ou menos perigosas, essas horas más chamadas tentações. O trabalho é a salvaguarda para essas horas. Os espiritos ociosos são os espiritos accessiveis. * * * * * No dia em que este novo ideal tiver tomado uma fórma tangivel até para os mais humildes e para os mais ignorantes a familia estará salva, porque terá por esteio a moralidade. Até então ha de haver as incertezas, as duvidas, as vacillações, os desalentos que tornam esta hora da vida das nações, uma hora contradictoria, estranha, profundamente dolorosa, que já não tem raizes no passado sem ter ainda um ficto no futuro. Trabalhem todas as mães n'esta obra sublime, e como a mythica Minerva sahiu armada do cerebro olympico de seu pae, assim a mulher sahirá do ninho em que se educou, já prompta para receber a pé firme o embate tempestuoso das paixões, que se a vencem a inutilisam e a degradam. * * * * * CAPITULO II O falso luxo I Na nossa pequena sociedade de Lisboa, em que os meios estão em completo desequilibrio com os desejos, chega todos os annos um periodo, o periodo que antecede o carnaval, em que nos julgamos mais ou menos obrigados a sacrificar ao amor da sociabilidade. Entendemos que uma sociedade civilisada não póde viver sem festas e sem saraus, portanto é necessario que sem hesitação façamos tudo que nos seja possivel, e mesmo impossivel, para darmos e recebermos saraus e festas. Ouço eu por ahi dizer e affirmar que os talentos e os genios enxameiam como papoulas nas seáras de abril. Não duvido, não senhor; temos talento, temos genio, temos superioridade, temos phantasia, temos tudo quando quizerem. O que nós não temos é uma cousa pequena, humilde, despertenciosa, desdenhada. Não temos _bom-senso_. Não quero aqui entrar na questão muito complexa e muito complicada de saber se as festas, se os bailes, se os jantares de gala, se todas as ceremonias pomposas da vida mundana podem ter no desenvolvimento da industria, no progresso da civilisação moderna alguma influencia benefica. Em outros paizes mais ricos, em outras nações mais industriaes, em outro regimen mais favoravel ao luxo creio que sim. Entendo eu, porém, que as leis geraes não se podem applicar a casos especiaes, e que nós não podemos conservar a vida falsamente luxuosa que é e continuará a ser por muito tempo o nosso ideal supremo! Em Lisboa haverá cem familias que estejam no caso de gastar em superfluidades um rendimento avantajado. Mas, como o amor da representação é o nosso cunho nacional, como o desprezo pelos pobres é o timbre e o brazão da nossa sociedade, como o luxo é o sonho e a aspiração constante de todos os cerebros juvenis, provém d'aqui que dia a dia, se sente na familia uma perturbação e uma desharmonia mais graves que o contentamento intimo e desinvejoso vae-se tornando uma flôr rara, que só aqui ou alli enfeita suavemente a fronte ignorante de uma collegial de quinze annos! Depois, como se não póde vencer o impossivel, mesmo as que empregam os maximos sacrificios para apparecerem e brilharem, depois de alcançado o fim a que aspiravam, ficam mais tristes e mais despeitadas do que antes de o ter realisado. No baile, á luz opalina dos lustres, no aroma capitoso das violetas, entre as magnificencias avelludadas das camelias, percebem--e com que amargo desespero!--que o seu vestido não está fresco, que estão machucadas as suas flores, que a ninguem illude o amarellado artificial das suas rendas falsas, e que o _strass_ não póde substituir com muita vantagem os diamantes verdadeiros. Oh! quantas privações, quantos sacrificios, quantas luctas conjugaes, que scenas intimas, para alcançarem aquella _toillete_ mesquinha, desbotada, humilhante, que parece ter malicias diabolicas em cada uma das suas pregas, a rir-se ferozmente no seu _fru-fru_ escarnecedor. E a dona d'esse vestuario hybrido pensa de si para si com uma furia concentrada, que põe manchas biliosas nas suas faces, e chispas sombrias nos seus olhos pisados. --«Não consigo humilhar nenhuma das minhas inimigas, não venço nenhuma das minhas rivaes! As pobres adivinharão todas as penas que esta hora de ostentação me tem custado! as ricas terão dó, um dó profundo da minha miseria mal disfarçada e mal occulta! Que ganhei eu com isto?» Ganhou, minha senhora, ganhou alguma cousa, póde crer. Ganhou a certeza de que seu marido ou não a estima já, se é honesto e digno e tem a alta comprehensão dos deveres da familia, ou continua a sentir o mesmo que até alli tinha sentido, uma paixão insalubre ou uma indifferença bestial, e n'esse caso não passa de um homem tolo, ou de um homem máu! Ganhou o haver definido, de si para comsigo a sua propria situação; ganhou o reconhecer bem a que especie de marido entregou o destino de seus filhos e o seu. E não se diga que ha n'estas minhas palavras demasiada acrimonia, ou injustiça flagrante. O nosso defeito consiste positivamente n'isso: em dar pouca attenção a todas as cousas; em ver os resultados sem observar e sem julgar as causas; em perdermos completamente de vista, que não ha effeito por mais mesquinho que não seja o corollario de uma lei importante. Não quero, já se vê, condemnar sem appello as senhoras que frequentam a sociedade e se habituam á atmosphera artificial dos salões. Quero provar simplesmente que entre cem senhoras que o fazem, só dez é que o podiam fazer, e que o nosso modo de ser social se não coaduna com esses costumes pomposos, restos e herança de um extincto regimen. * * * * * Para se saber quanto o luxo corrompe e adoece um paiz bastar-nos-hia apontar para a França de Luiz XV e para a França do segundo imperio. A historia e as chronicas d'esses dias de ominosa memoria revelar-nos-hiam de um modo bem claro e bem frisante quanto é escorregadio o declive que do luxo exagerado conduz á immoralidade, ao impudor da mulher e ás deshonestas transigencias do homem. Não queremos, porém, n'este estudo despretencioso evocar a historia, nem revolver o lodo das passadas corrupções. Queremos simplesmente fallar ao bom senso das leitoras, e queremos fallar chãmente, simplesmente, sem declamações, nem idéas preconcebidas. Todos sabem que o nivelamento das classes, a livre divisão dos bens, a democratisação das fortunas, se teem conseguido debellar muitas e crueis injustiças sociaes do passado, teem sido tambem a destruição das colossaes fortunas de outro tempo. Hoje, quando essas fortunas por acaso existem, são creadas pelo trabalho em grande escala, pelas importantes emprezas commerciaes, pela actividade devoradora de homens privilegiados. Já se não fundam como antigamente em direitos estaveis e indestructiveis. São ephemeras, contingentes, dependem de muitas causas com que se não póde absolutamente contar. Uma crise financeira, uma guerra européa, uma quebra importante, um abalo qualquer de credito, e eis por terra um edificio assombroso e complicado que parecia dever resistir ao embate de todas as tempestades, e que um sôpro logra alluir! Ora, se isto tem relação com as grandes fortunas, se nem ellas podem contar com o dia de ámanhã, que farão os que não possuem mais que o necessario, os que ás vezes nem isso possuem? Antigamente, no modo por que estava constituida a hierarchia social, uns tinham todos os bens, e outros soffriam todos os males; hoje como todos teem eguaes direitos, todos querem ter eguaes regalias. Seria isso muito bom, se a egualdade que existe entre as prerogativas podesse existir tambem entre as riquezas, se em vez de haver pobres e ricos, houvesse sómente ricos, cousa a que nem os mais exaltados socialistas se lembraram ainda de aspirar. Ora, se está sobejamente provado que, principalmente no nosso pequeno paiz, ha uma minoria pequenissima que é rica, ha uma maioria enorme que é miseravel, e ha, entre os dous extremos, uma classe, a mais importante--no fim de contas, visto que tem a superioridade da educação e da intelligencia, que é simplesmente remediada, porque é que não havemos de sujeitar o nosso regimen social ás exigencias e necessidades d'essa classe, que é a predominante, senão pelo numero, ao menos pela influencia que exerce? Essa classe póde conhecer as distracções de uma agradavel intimidade, mas não as pompas decorativas, as ceremoniosas galas de uma vida de salão apparatosa e futil. Se os filhos d'essa classe olhassem para baixo e vissem as privações, as luctas, as miserias dos que só conseguem com o suor do rosto ganhar um pedaço de pão duro e cobrir pobremente o corpo emmagrecido, de certo que se sentiriam felizes, triumphantes, dignos de inveja, na sua mediocridade aurea, na modesta fartura da sua vida domestica, nas distracções intimas de um circulo affectuoso e limitado. Mas não! Olham para cima, vêem os ricos, os potentados, os dominadores do seculo, ouvem nas tentações febris das suas noites o tilintar magnetico do ouro, vêem passar no fundo dos seus ligeiros coupés, pallidas e desdenhosas mulheres, que medram como flôres exoticas de fulva folhagem metallica na estufa das suas salas opulentas, sentem em si o desejo insaciado de todos os prazeres que não teem, e sem prudencia, sem pudor, sem dignidade, atiram-se ás especulações vergonhosas, transigem com a sua propria probidade, vendem, desde os bens que herdaram de seus paes, até á consciencia que lhes veio de Deus, e quando conhecem que n'esta lucta ingloria, n'esta lucta impossivel só podem ser vencidos, já não é tempo para retrocederem no funesto caminho encetado! E que não ha parar n'esta ingreme descida. Teem-me dito por varias vezes que eu sou feroz para com o sexo a que pertenço; que accuso com muita injustiça as mulheres de todos os males que teem succedido, que succedem ou que estão para succeder no nosso mesquinho planeta. Ora eu, pelo contrario, estou convencida de que o meu orgulho, de que a minha vaidade feminil me levam a dar ás mulheres uma importancia que mais ninguem lhes quer reconhecer. Eu digo que d'ellas provéem todos os males, porque estou convencida--talvez sem razão--que d'ellas podiam provir todos os bens. Ainda no ponto de que se tracta é d'ellas toda a culpa, no meu humilde entender. Sim, porque no fim de contas, não são os pobres maridos que mais desejam figurar nos bailes e nos saraus, e que de boa vontade sacrificam a commoda poltrona em que podiam dormir a sesta, o bom e saboroso jantarinho que podiam comer, o livro util e proveitoso que comprariam, para gastarem esse dinheiro n'uma _toilette_ falsamente luxuosa, n'uma _soirée_ ridiculamente burgueza, n'um jantar de ceremonia cujos acepipes, na opinião do conviva mais guloso, seriam só dignos de figurarem n'um banquete de theatro com pratos de... papelão. São as mulheres que teem sempre a louca ambição de figurarem ao par de outras mais ricas, embora n'essa lucta desigual só consigam tornar bem visivel e bem grotesca a sua derrota! São as mulheres que consideram os prazeres mundanos como o indispensavel elemento para a sua completa felicidade. São ellas que arrancam ás primeiras necessidades do _ménage_, á carne que os filhos devem comer, ás roupas brancas da familia, aos abafos do inverno, á lenha do fogão das noutes frias, á mobilia commoda e confortavel das casas, ao peculio das doenças, ao asseio e ao conforto domestico, o dinheiro com que adquirem esse luxo ridiculo, esse luxo de _pacotille_ que não illude, nem excita a commiseração de ninguem. E quando ellas percebem no olhar e na bôcca dos que assistem a essa lucta absurda, um sorriso malicioso, uma faisca de ironico desdem, são ellas que irritadas, desvairadas, fóra de si, arrastam o marido á extravagancia, á dissipação, á prodigalidade, ao crime, e arrastam os filhos á miseria e á desolação! Nada mais funebre, mais triste, mais sombrio do que o interior de uma d'essas casas, em que o necessario é sacrificado ao superfluo, em que o real é sacrificado ás apparencias, em que o conforto intimo é sacrificado ao apparato exterior. As criadas sujas, despenteadas, petulantes; as creanças pallidas, anemicas, sem educação e sem solas; com os dentes podres e nodoas no vestido; os moveis indiscretos na mal disfarçada miseria, uma unica casa elegante--a sala--falsa taboleta de uma vida de imposturas; a roupa branca do marido encardida e grosseira, a _toilette_ da mulher vistosa e _mirabolante_. As côres _tapageuses_, substituindo a qualidade fina e solida; a multiplicidade dos arrebiques, substituindo a simplicidade opulenta do trajo. Quem depois de conhecer dous annos estas galés conjugaes, se resigna a viver n'ellas? Os pequenos preferem o collegio sordido e brutal; o homem foge para o botequim ou para outros sitios peiores; a mulher vive na rua, na modista, no theatro, nas salas do seu conhecimento, no passeio, na ociosidade e depois Deus sabe em que! Eis a vida creada pelo immoderado amor do luxo. * * * * * Afastemos porém os olhos d'estes quadros sombrios e que no entanto, leitora querida, tu bem sabes que não são carregados. Imagine-se que transformada a sua educação, a mulher se formava unicamente para o interior da sua casa. D'essa casa não fugiriam de certo os amigos fieis e dedicados, não se excluiam as pequenas reuniões intimas, a musica, as conversações artisticas, as leituras agradaveis, os alegres e joviaes serões. O que se excluia sem appellação eram os inuteis apparatos. Como a mulher tinha em mira ser só agradavel aos seus, deixava logo de armazenar todas as suas armas--o espirito, a graça, o sorriso, a amabilidade--para distrahir os estranhos, para agradar aos indifferentes. Como desejava fugir ao tedio, á melancolia, ás enervantes tristezas da solidão, aprendia a dispensar as companhias banaes, fazendo seus companheiros, os melhores, os que nunca atraiçoam, os livros, a musica boa, as flôres, o trabalho. Logo que, em vez de se enfastiar em casa, ella se, divertisse e se achasse bem junto dos seus, elles começariam mesmo involuntariamente a sentir-se aquecidos por essa boa e salutar influencia. Ninguem póde estar aborrecido ao pé de uma pessoa que se diverte francamente. O marido por mais que os negocios de fóra o preoccupem e enfadem, por mais que as luctas da arte, do commercio, da politica, da industria, o cansem e mortifiquem, ha de sentir forçosamente um raio de bom e salutar contentamento ao pé da esposa que volitar em torno d'elle viva e chalreadora como um pardal, fresca como uma flôr, animada, activa, cheia de invenções felizes, e de sincera e desaffectada alegria! E depois, eliminado o luxo exagerado da existencia de qualquer familia, eliminam-se ao mesmo tempo os cuidados mais lancinantes, as preoccupações mais absorventes, as luctas mais dolorosas, os despeitos mais corruptores. Temos visto varias vezes o seguinte: O homem trabalha para dar o bem-estar á mulher, e rouba para lhe dar o luxo! É que--note-se isso bem--o luxo quando não é a atmosphera natural em que se nasceu e se tem sempre vivido, uma cousa que á força de estar identificada comnosco, nós já nem se quer percebemos--o luxo quando é o fim a que aspira a nossa desenfreada ambição, torna-se um elemento profundamente desmoralisador. Enerva o corpo, excita fatalmente a imaginação, aggrava a insaciabilidade natural aos desejos da mulher, dá-lhe a idéa de requintes romanescos, de aventuras, de amores vedados, attrahe um cortejo de voluptuosas tentações. A vida das salas é a consequencia inevitavel do amor do luxo que devora a mulher de hoje. Não a mulher de uma certa e determinada classe, a mulher de todas as classes sociaes. A esposa do alto financeiro, do colosso da industria, deseja vestir-se de um modo que logo de uma vez córte pela raiz na alma ainda mais ambiciosa o desejo de a vencer. Ora, como este desejo se nutre de difficuldades, todas as que estão no mesmo caso d'ella travam a lucta e empregam os mais loucos esforços para lograrem a palma. As raras flôres da nossa velha aristocracia, não querendo ser desthronadas pelos potentados modernos, entram, já se vê, no combate com grave transtorno das bolsas de seus respectivos maridos. A nenhuma d'ellas cabe completa victoria; se as rendas de Bruxellas que guarnecem o vestido d'esta são mais preciosas, os diamantes que enfeitam o collo e os braços d'aquella são mais raros; se a _traine_ de velludo d'est'outra é mais distincta, a tunica de setim e ouro da outra é mais singular. E o combate recomeça mais feroz, mais acceso, mais desapiedado. Cá em baixo a lucta toma as mesmas fórmas. É a lucta da falsa riqueza, a lucta das pedras que fingem brilhantes, das _imitações_ que fingem rendas, dos vestidos concertados que fingem vestidos novos. São mais profundos ainda os despeitos, é mais desesperada ainda a energia que se gasta! Quem vive esta vida ardente, inflammada de ambições insalubres, exaltada de mesquinhas invejas, corroida de miseraveis tricas, não póde, não sabe, não tem forças para ser boa esposa, boa mãe, boa dona de casa! Pintámos em traços rapidos a vida das nossas mundanas; procuraremos desenhar, se tanto nos fôr possivel, a vida que ambicionamos e desejamos para a mulher de familia. No dia em que ella a quizer adoptar, reconquistar-se-ha a serena dignidade, a tranquilla doçura do lar domestico, que pouco a pouco se vae tornando desflorido, melancolico e deserto. II Nas paginas antecedentes condemnava eu a vida de apparato, a vida da sociedade, a _vida de sala_, pela influencia corruptora que ella exerce nos costumes e nos sentimentos, e pela absoluta desharmonia em que ella está com a moderna concepção da familia e da sociedade. No entanto não basta só lavrar a condemnação de um modo de ser social, é necessario apontar o remedio, ou pelo menos apresentar um alvitre que á nossa consciencia pareça proficuo e salutar. As mulheres gostam da vida frivola e inutil dos salões, pelos seguintes motivos: --Porque as salas são o theatro dos seus triumphos e conquistas. --Porque é ahi que ellas são lisongeadas, louvadas, incensadas e queridas. --Porque os homens só prestam homenagem ás mais bonitas, ás mais vaidosas, e ás mais ricas, na realidade ou na apparencia. Além d'estas causas que as levam a gostar da representação e da pompa mundana, ha outras dependentes d'estas ou relacionadas com ellas, que as levam a aborrecer-se no interior das suas casas. Primeiramente, e acima de tudo, a falta de uma educação solida e positiva, que as faça encarar a vida debaixo do seu verdadeiro aspecto. Um aspecto de seriedade e de justiça, assentando na comprehensão de todos os deveres. Segundo, a inhabilidade e a ignorancia, que as torna incapazes de qualquer trabalho seguido. A falta de gosto natural ou de gosto adquirido, para se entreterem, para se distrahirem, para revestirem de uma fórma sympathica e attrahente as suas obrigações de donzellas, de esposas, de mães, de donas de casa. Terceiro, a inveterada frivolidade que herdaram, e que os exemplos recebidos, e a falsa educação mais aggravou e desenvolveu, tornando-a um perigo, o maior de todos os perigos que ameaçam a familia. Eu tenho repetido isto tantas e tantas vezes, que receio por fim enfastiar as minhas leitoras. _É necessário antes de tudo transformar radicalmente a educação das mulheres._ Muitas das cousas que hoje se ensinam é mister que deixem de se ensinar. Muitas outras que se encaram debaixo de um certo e determinado ponto de vista, cumpre que se vejam sob outro aspecto inteiramente differente. Outras ha ainda a que ninguem attende e que se não ensinam, e é positivamente a essas que se deve dar a maxima e a mais desvelada attenção. Tratemos de apresentar exemplos das tres asserções que acabamos de apresentar. Das cousas inuteis que hoje se consideram ainda partes integrantes de uma educação perfeita. Ha a _dança_: um talento absolutamente dispensavel, que nas meninas só serve para desenvolver a _coquetterie_, o desejo de brilhar e de agradar. A _tapeçaria_: um pretexto futil para estragar o tempo. Em quanto a mão vae preguiçosamente bordando a talagarça, a phantasia irrequieta da mulher, da creança, corre e vôa por montes e valles, á procura de um vedado ou de um impossivel ideal. Chama-se a este genero especial de trabalho feminino, a _hypocrisia da preguiça_. Como estas duas cousas, ha muitas mais que não temos tempo de enumerar, mas que se não são nocivas como a primeira, são pelo menos inuteis como a segunda. Procuremos agora muitas das materias que se ensinam, e devem continuar a ensinar-se, mas ás quaes a educação tal como está rotineiramente estabelecida, não sabe dar a importancia e o valor devido. São a musica, a historia, as linguas, a geographia, a arithmetica, etc., etc. O primeiro cuidado de toda a mãe vaidosa ou illustrada, intelligente ou mediocre, é que as suas filhas aprendam a tocar piano. Muito bem. É preciso, porém, advertir-se que a _monomania do piano_, tal como ahi anda inoculada e propagada, é um flagello, um temivel flagello e nada mais. A musica é de todas as artes aquella que mais falla aos sentidos e á alma do homem. Modera, dulcifica, adormenta, consola, estimula, apaixona, enternece e muitas vezes, quando profanada e desvirtuada por sacerdotes sacrilegos, enerva, abranda a energia e a vitalidade do espirito, e vence todas as resistencias viris do caracter. É uma amiga, póde ser uma cumplice. Em todos os casos é um grande, um milagroso, um divino, um terrivel poder. Mas mesmo pelo papel importante que occupa, mesmo pela influencia profunda que exerce, não é dado a todos interpretal-a e comprehendel-a. Muitos ha que se submettem ao seu irresistivel dominio, sem saber sequer adivinhal-o ou presentil-o. Quantas vezes não temos visto uma pobre mulher boçal, uma modesta e ignorante creatura, chorar de commoção ouvindo as notas tristes de uma flauta ou de uma guitarra! Não tem a consciencia da commoção que a perturba, mas vibram-lhe os nervos, latejam-lhe as fontes, toda ella palpita e estremece como que agitada por uma potencia ignota. Como todas as artes, a musica só póde ser interpretada por quem a comprehenda com o seu espirito, e por quem a sinta com o seu coração. De outro modo é uma profanação e é um escarneo. Achamos, portanto a musica, um elemento poderosissimo de educação, mas exigimos que haja intelligencia e vocação nas pessoas que a aprendem. Não é fazer do piano um attributo indispensavel de todo o ensinamento elegante, e obrigar sem discernimento e sem escolha todas as meninas a estudal-o e a atormentar com elle o ouvido do proximo. Logo que se comprehenda bem o grande alcance da musica, a sua influencia moralisadora, a sua missão artistica, as mães escolherão de entre as suas filhas, aquella ou aquellas que mostrarem predisposição para este genero de estudo e auxiliarão por todos os modos o desenvolvimento d'essa vocação. O piano deixará de ser o flagello e a peste das _soirées_ sem ceremonia, o tormento dos visinhos proximos, o pezadello dos maridos, o martyrio das proprias executantes. Não reinará exclusivamente como até aqui esse despotico e terrivel instrumento. Não se dirá das meninas _bem educadas_: _toca admiravelmente_, subentendendo já o malfadado _piano_. Dir-se-ha mais acertadamente: _sabe musica_, _toca muito bem violoncello_, ou _harpa_, ou _rebeca_, ou _piano_ mesmo, porque nós não queremos condemnar nenhum instrumento ao ostracismo, pelo contrario queremos livrar os outros do ostracismo a que estão injustamente condemnados. Com esta escolha sensata das pessoas que particularmente devessem cultivar a sua vocação musical, muitos bens proviriam á educação da mulher. A musica executada só por quem a entendesse, ouvida só por quem a apreciasse, tornar-se-hia, em vez de um ornato de vaidade, uma elevada distracção artistica. Educaria e apuraria o gosto, exerceria a sua pura e civilisadora influencia, seria o repouso depois do trabalho ou a consolação no meio d'elle. Os velhos mestres allemães com as suas largas e simples harmonias, ouvidas á noute no serão modesto da familia, ao pé de um ou dous amigos intelligentes e sinceros, penetrariam o coração da mulher de uma serenidade affectuosa e dôce, de um casto enternecimento salutar! * * * * * O que dizemos da musica instrumental tem applicação a todas as outras artes. O canto, o desenho, a pintura, a escultura mesmo. Todas merecem o nosso respeito, não como adornos pueris, mas como elementos de util e fecunda moralisação. Sempre que a mãe ou que a educadora descubra em sua filha, ou na sua discipula, tendencia pronunciada para um ramo qualquer de actividade intellectual, deve por todos os modos facilitar e desenvolver essa vocação espontanea. Mas que a educação de todas não seja pautada por um molde uniforme! Mas, por Deus! que não se faça d'esta grande e sublime missão de cultivar um espirito infantil, uma questão de moda, uma questão de vaidade, uma questão de mutua inveja mesquinha. As linguas são hoje ensinadas com muito esmero. Mas que applicação se dá a essa sciencia adquirida em muitos annos de estudo e de pratica? Uma applicação deveras ridicula! Entre vinte das meninas que sabem hoje francez, inglez, allemão ou italiano, não ha quatro que tenham lido Hugo ou Bossuet, Racine ou Montaigne, Shakspeare ou Milton, Goethe ou o Dante, não ha quatro sobretudo que estejam aptas para comprehenderem estes mestres do pensamento e da palavra. E no entanto para que servem as linguas estrangeiras? Não passam de meros instrumentos com os quaes adquirimos noções, factos, idéas, conhecimentos, que nos seriam estranhos sem ellas. Na lingua de um povo está consubstanciado muito do que elle é moral, physica e intellectualmente. Penetra-se no caracter de uma nação conhecendo a fundo as locuções de que ella se serve. E quem é que hoje encara as linguas d'este modo a não ser algum philosopho retirado na sua torre ideal, ou algum philologo embebecido nos seus estudos? É preciso que este conhecimento se vulgarise e se propague, para que as linguas estrangeiras tomem na educação o lugar que lhes compete. A historia, que é um apontoado de datas e de nomes proprios, de dynastias e de batalhas, logo que passasse a ser na educação das mulheres o que ella é já no espirito dos criticos, seria um estudo attrahente, mais dramatico do que todos os romances, de uma realidade mais poderosa e dominadora. A geographia, que não é mais do que uma arida e enfadonha nomenclatura, animada pelo espirito da mãe intelligente, levaria a imaginação infantil, não já pelos paizes chimericos, do sonho e do impossivel, mas por essas regiões pittorescas, onde tanto ha que vêr e que aprender. Mais tarde as sciencias naturaes, a botanica, a mineralogia, a biologia, abririam ao espirito já preparado, horisontes larguissimos, onde pudesse espraiar-se livremente. * * * * * Assim educada, quer dizer, sabendo tudo que sabe hoje, mas classificado por outra ordem, e encarado debaixo de outro aspecto, e muitissimas cousas que hoje não sabe, mas ás quaes a conduziria naturalmente, o novo methodo dos seus estudos, a mulher transfigurada, levantada, fortalecida, podia aspirar a uma vida inteiramente diversa da que hoje tem. Teria grandes vantagens esta modificação profunda no seu modo de ver, de pensar e de sentir. Vulgarisada para todos a educação cujas bases apontamos, desapparecia da sociedade essa entidade singular chamada _mulher pedante_. É extraordinario mas é verdade, a ignorancia das outras é que constitue o pedantismo d'esta. Sendo uma excepção no seu meio, tem as qualidades e os defeitos das _excepções_. Comprehende que é alvo da curiosidade, do pasmo, da observação dos que a rodeiam, e a pouco e pouco vae cahindo n'uma _pose_ artificial que a torna ridicula. Poucas são as que téem a coragem de--tendo um lado superior--se conservarem simples, desartificiosas, naturaes. Lêram, estudaram, compararam; no meio da estupidez geral, produzem um vago assombro que lentamente vae distinguindo n'ellas! Oh! mas no dia em que a mulher instruida deixasse de ser uma excepção admiravel, como ellas, as pobres _mulheres pedantes_ se sentiriam humilhadas e deslocadas! A vida de sala iria pouco a pouco sendo o apanagio das frivolas e das tôlas, e acabaria por desapparecer completamente. A mulher dentro de sua casa sentir-se-hia bem, porque teria em si recursos sufficientes não só para entreter os seus, como tambem--e é isto o principal--para se _entreter a si_. É essa a grande questão! É preciso que as mães preparem o espirito de suas filhas de modo que ellas não precisem dos outros para viver contentes. E como se ha de conseguir este fim? Educando-as para que ellas bastem a si proprias. Dando-lhes ao espirito todos os recursos, ao corpo todo o vigor, ao caracter toda a austera dignidade; cultivando e desenvolvendo todas as faculdades superiores que ellas revelem, encadeando harmonicamente as suas acquisições intellectuaes, para que d'essa harmonia interior resulte para ellas uma exacta e elevada comprehensão da vida! E não é muito o que nós exigimos. Somos a primeira a confessar que hoje ha muito mais esmero e apuro do que havia antigamente na instrucção que as classes abastadas dão ás suas filhas. Pouco mais precisam de aprender; o que lhes falta é a ligação logica entre as varias cousas que aprendem, é uma concepção mais larga das mesmas sciencias que adquirem, é o conhecimento das proprias armas que possuem, contra esse inimigo poderoso da mulher, chamado Tedio. Em nosso humilde entender classificariamos d'este modo os conhecimentos indispensaveis a toda a mulher, para esta ser julgada apta a exercer o sacerdocio de esposa, de mãe, e de dona de casa. As linguas estrangeiras, consideradas como meios de adquirir noções praticas, idéas justas, factos positivos; como meios de comparar, de julgar, de aquilatar, de exercer emfim o seu senso critico, de modo que o desenvolvesse, elevasse e afinasse; como meios de conhecer as differentes manifestações do bello e de as poder relacionar entre si. A Historia, com o fim de conhecer através d'ella a humanidade de todos os tempos, de seguir a sua lenta e continua evolução, e de penetrar lucidamente no sentido da palavra--progresso. O conhecimento profundo e philosophico da historia moralisa, pacifica, e revigora as crenças. Dá ao espirito, além de notavel perspicacia, grande justeza de pontos de vista. Viriam depois, como já dissemos, a geographia natural, a arithmetica, a geometria, as sciencias da natureza, e isto harmonicamente, progressivamente, de deducção em deducção, sem esforço, ligando um conhecimento a outro conhecimento, n'uma cadeia logica e inquebrantavel. Juntamente com estas acquisições uteis, e como que amenisando os esforços que ellas por ventura custassem, a mãe intelligente levaria sua filha a cultivar especialmente a arte para a qual sentisse mais accentuada vocação. Preparada por esta iniciação em que o espirito fosse exigindo dia a dia alimento mais substancioso e mais forte, á proporção que mais rico de vigor e de vitalidade elle se sentisse, escusado é dizer, que nenhuma mulher deixaria de comprehender e de saborear com intimas delicias o encanto novo e superior com que a arte illuminasse a sua vida. Seria uma ascensão gloriosa e lenta, ás alturas onde se respira um ar mais puro e mais subtil. D'alli, d'aquella montanha ideal, a que ella houvesse subido, levada pela sciencia e pela arte, pelo estudo e pelo sentimento, ser-lhe-hia facil descobrir o caminho que devesse seguir na vida. A idéa do dever, esta idéa que é o remate e a corôa da educação perfeita, apresentar-se-lhe-hia como um resultado natural de todo o trabalho interior que no seu espirito se houvesse feito. Chegariamos emfim ao ponto que queremos attingir. A educação deixaria de ser um fim e tornar-se-hia o meio elevado e transformado de alcançar a perfeição moral. Resta, porém, fazer uma pergunta que está no animo de todos. Sujeitar-se-ha a mulher, assim arrancada de chofre á banalidade da esphera limitada em que tem vivido até agora, a cumprir as mesmas humildes obrigações, que teem sido e continuarão a ser a sua tarefa quotidiana, e o seu quinhão na vida? De certo que sim, e seguindo o mesmo methodo que seguimos para o seu cultivo intellectual não nos será difficil provar que esses mesmos deveres, logo que sejam comprehendidos dignamente, em vez de humilharem, são um triumpho para aquella que os sabe exercer. CAPITULO III A velhice das mulheres Nas nossas continuadas predicas ácerca da transformação que é necessario operar-se em tudo que respeita á educação feminina, levamos em mira principal, duas cousas muito dignas de attender-se. Primeiro: que a mulher torne quanto possa, independente de circumstancias exteriores, a marcha do seu destino, quer dizer, que ella não seja forçada fatalmente a seguir um caminho para o qual haja no seu espirito instinctiva repugnancia, que ella dispense na sua vida influencias estranhas e muitas vezes incompativeis com a sua indole. Segundo: que ella se vá lentamente preparando na infancia e na sua tão curta e ephemera mocidade, para a quadra mais longa, mais difficil e podemos hoje dizer, mais dolorosa da sua existencia: a velhice. Exemplifiquemos, para que melhor seja comprehendido o nosso raciocinio. No que toca ao primeiro ponto, lancemos em roda os olhos e vejamos. Por toda a parte encontraremos argumentos victoriosos. No estado presente da educação a mulher está sujeita a uma funesta dependencia, a qual mesmo sem tendencia para exagerações declamatorias, se póde chamar escravidão. Assim como descuram dar ao seu corpo por meio da gymnastica a força, a elasticidade, a ligeireza, o vigor, assim descuram dar á sua alma a energia, que a torne superior aos preconceitos, e ao seu espirito a forte e larga educação, que a habilite para ganhar honestamente a sua modesta subsistencia. Sente-se fraca, e pusillanime diante do trabalho, diante das luctas, diante da desgraça. Confessa a cada instante o medo pueril que a avassalla; medo de não resistir ás tentações que a covardia dos homens arma á insensatez da mulher; medo do riso alvar com que os tolos lhe castigariam a viril energia; medo de se sujeitar ao trabalho incansavel e tenaz que ha de dar-lhe a independencia, a dignidade, a livre posse do seu destino. Além do medo a impossibilidade absoluta. Se nada sabe, o que ha de ella fazer? Podia dirigir a contabilidade de uma casa de commercio importante. As mulheres com o seu instincto de ordem, mais desenvolvido do que os homens, são proprias para este genero de trabalho. Podia, sendo medianamente illustrada, ser caixeira de um estabelecimento de modas, de uma loja de papel, de um mercador de fazendas, etc., etc. Tudo isto está em harmonia com a delicadeza dos seus orgãos. Podia ensinar linguas, ensinar musica, ensinar e explicar as sciencias que houvesse aprendido, a historia, a arithmetica, a litteratura, a geographia. Podia, tendo alguns fundos que houvesse herdado de seus paes, estabelecer qualquer pequena industria, emfim, ter uma acção propria, independente e não subordinada aos caprichos alheios, ou ás circumstancias eventuaes. Mas como não sabe fazer nada d'isto, como a sua educação a pôz e a conserva n'um estado de absoluta e desoladora humildade, não tem senão tres caminhos a seguir. Ou casar mesmo que não tenha pelo seu noivo nenhum sentimento de respeito; mesmo que o ache ridiculo ou estupido ou máu; mesmo que elle lhe seja imposto unicamente pelas conveniencias egoisticas do seu futuro; mesmo que nenhum laço de sympathia a elle a prenda, e d'esta funesta causa escusado será dizer quantos males terriveis não resultam para a sociedade e para a familia! Ou ficar a cargo dos parentes mais ricos, que por commiseração a acolham, a alimentem, a vistam, a protejam, e n'este caso soffre e decahe a sua dignidade propria, a alma curva-se-lhe n'uma postura humilhante, deixa de ter responsabilidade, de ter opinião, de ter individualidade emfim; constitue-se um ser mutilado cujo aspecto enfermiço faz tristeza e dó, quando se não torna um temperamento azedo, atrabiliario, perverso, folgando no espectaculo de todas as desgraças alheias. A terceira hypothese já todos a adivinharam infelizmente. A mulher repellida da familia, porque a não quizeram inutil e pobre, não achando em si nem a coragem, nem a sciencia do trabalho, lucta contra o mal que lhe revela as suas traidoras miragens, mas se mão estranha a não soccorre e a não prende, succumbe, precipita-se e perde-se. D'estas tres hypotheses exceptuamos, já se entende, todas as mulheres que tiverem a suprema felicidade de encontrar no homem a quem entregaram absolutamente o seu destino, além do noivo escolhido e preferido entre todos, o protector mais util e mais dedicado. Exceptuamos tambem as ricas, porque essas que não tinham em si proprias a independencia, adquiriram-na indirectamente por meio da sua fortuna. Mas a divisão infinita dos bens vae diminuindo mais e mais o numero das ultimas, e a felicidade negativa que ha na maior parte dos _ménages_ tornando as meninas de pouca edade impacientes de sahirem da casa paterna, imprudentes e precipitadas na escolha, vae diminuindo em não menor proporção o numero das primeiras. Como quer que seja, abandonemos essas duas cathegorias de excepções e achamo-nos em frente de uma numerosissima maioria. * * * * * Os resultados que encontramos são, portanto, os seguintes: A incapacidade absoluta da mulher dominar o seu destino, incapacidade cujas causas já apontámos, produz estes tres generos de victimas. A mulher que casou, porque não podia deixar de o fazer, que casou para ter pão, para ter casa, para ter luxo, para ter protector, um editor responsavel da sua vida, e que tendo sómente este objectivo, se não occupou nem um instante em estudar e conhecer o homem a quem ia para sempre entregar-se. A creatura humilhada, dependente, parasita, vivendo das migalhas do luxo que a rodeia. A desgraçada que a sua fraqueza inteiramente desprotegida perdeu e abysmou. Nenhuma d'estas mulheres condemnadas ao descontentamento intimo, á dolorosa inquietação da consciencia, em resultado de uma causa identica, póde estar satisfeita comsigo mesma. O que fazem, pois, para fugirem de si? Procuram quanto sabem e como podem, os outros. As festas de uma folia burlesca, ou as festas de uma pompa deslumbrante, o mundo, emfim, a convivencia, o barulho, tudo que aturde, tudo que faz esquecer. Ainda aqui os nossos calculos nos não illudiram. A mulher procura o mundo, porque as alegrias que póde encontrar em si mesma, não só lhe não bastam para illuminar com ellas o lar onde vive com os seus, como lhe não chegam para si propria se distrahir e se contentar. * * * * * Entremos agora no segundo ponto que ha pouco tocámos. A mocidade da mulher é forçosamente curta. Aquella que se compenetrar sensatamente d'esta idéa, o que deve fazer para attenuar a amargura? Preparar-se com dignidade, com resignação, diremos mesmo com alegria para esse longo supplicio da mundana, que se chama velhice. O homem, desenvolvendo em muito mais larga escala e de um modo muito mais variado a sua actividade complexa, póde gosar até á mais avançada edade dos prazeres que por assim dizer mais apreciou. A ambição, as luctas da politica, as lucubrações da sciencia, as argucias da diplomacia, as investigações da historia e da critica, e mesmo os gosos ardentes da arte. Vejam-se Goethe, Miguel Angelo, Hugo, Beethoven, Talleyrand, Thiers e tantos e tantos mais. A mulher de hoje, a mulher educada por este acanhado ideal que a domina, funda o seu fragil poder nas graças fugitivas da sua formosura, no encanto juvenil da sua vivacidade, na sua elegancia, no seu riso frivolo e pueril, no esplendor radiante do seu luxo, na sua convivencia inutil e perfumada como a das flôres! Um dia alveja-lhe na massa fulva, cendrada, ou negra dos seus cabellos, um fio de prata, o primeiro, invisivel para todos os olhos, mas que o espelho revelou aos seus. Esse fio traz preso a si a desventura! Oh! ella reinou, dominou, teve subjugadas aos seus pés todas as forças e todas as vontades! A casa, mesmo sendo a casa um ninho fôfo e perfumado, parecia-lhe bem pequena e bem mesquinha para theatro dos seus triumphos. Era das salas que ella gostava! Do murmurio surdo, abafado, voluptuoso de admiração, que ella excitava ao entrar nos salões pelo braço do seu pobre marido, muito enfastiado e soberanamente ridiculo! Como todos gabavam o sabio decote do seu corpete, revelando com uma indiscrição que accendia invejas e desejos em torno d'ella--invejas e desejos que a enroscavam como serpentes de fogo--a brancura do seu collo e dos seus hombros, aquella brancura setinosa de camelia, que o orvalho da madrugada humedeceu. Como era magestosa a cauda do seu vestido! como as flôres e as perolas se ennastravam bem nas suas tranças opulentas! como os braceletes de brilhantes mordiam de raios iriados a carnação explendida dos seus braços! Como a adoravam, como a detestavam ferozmente aquelles homens e aquellas mulheres! Cada olhar tinha a agudeza de uma lamina de aço! Traspassavam-n'a, feriam-n'a, beijavam-n'a aquellas mudas caricias insolentes, e aquelles odios violentos e felinos! E a consciencia da sua formosura, da sua soberania omnipotente, do seu prestigio invencivel, fazia-a vibrar toda como ao contacto de uma pilha. Sentia-se rainha. Tinha ditos graciosos, tinha repentes felizes, tinha epigrammas implacaveis, _coquettismos_ crueis; era espirituosa, era bella, era triumphante! A casa, os filhos pequeninos, o marido, os livros, que são tão bons companheiros da honestidade e da modestia, onde ficara tudo isso? Nas brumas indecisas de um passado que ella não queria ver. Oh! que intensidade de vida n'estas horas! Era só pensando n'ellas que vivera. Para que havia de lêr, para que havia de instruir-se, para que havia de ir perguntar á natureza muda, o segredo de todas as suas riquezas, para ella inuteis e desdenhadas? Era feliz porque era admirada. * * * * * Como desce o panno sobre o tablado cheio dos deslumbramentos de uma magica, assim para ella descera agora o panno, sobre os prestigiosos esplendores da sua vida de garridice e de vaidade, de luxo e de loucura. Aquelle cabello branco avisou-a sinistramente de que tudo acabara. Se continúa a luctar com a velhice que nunca se deixa vencer, achará só escarneos onde antigamente achára cultos, só baldões onde a tinham acclamado em triumpho. Se vae procurar as alegrias e as distracções proprias d'essa nova phase da sua vida, o que é que encontra em torno de si? Não ficára ninguem no lar, que primeiro do que os outros, ella havia desertado. O marido andava lá fóra no trabalho absorvente, ou na dissipação criminosa. Como ella nada lhe dera nos dias florentes da mocidade, elle tambem nada lhe queria dar agora nas tardes glaciaes da velhice. Creára outros interesses ou outras affeições, seguira outro rumo, outra ordem de idéas. Já agora não era possivel tornarem-se a encontrar na terra. Os filhos esquecidos, indifferentes, quasi estranhos, estavam no collegio ou nas escolas, se o pae tinha tido piedade; estavam na vergonhosa ociosidade, na vadiagem ignobil, se o pae tinha tido indifferença. Em todos os casos, nada de commum podia haver entre essa mãe frivola e vaidosa, e esses filhos desprezados. Os livros? Sim, os livros... Os que ella conhecera. Eram romances. Fallavam de paixões indomitas, de amores _mais fortes do que a morte_, de aventuras romanescas ao luar, com escadas de seda e capas _couleur de muraille_; de juramentos feitos em voz soluçante na sombra voluptuosa das alamedas; de duettos de ternura cantados pelas Rosinas e pelos Almavivas de torna-viagem. Que lhe importava a ella tudo isso, que era agora o enlevo d'outras, embebecidas na mesma mentira que a transviára, mas que aos seus cabellos brancos parecia uma ironia cruel! Mas a natureza é sempre mãe, a natureza acolhe até os mesmos parias. Ella tem a sombra das suas arvores, a musica dos seus passaros, o aroma das suas charnecas em flôr, as serenas linhas das suas montanhas azues! Ella tem a claridade pallida das suas estrellas, a doce melopéa das suas fontes, o soturno e angustioso bramido dos seus mares, a influencia calmante das suas noites tepidas! Acolherá a natureza aquella que tantos e tantos annos a desconheceu? Não. E não é que ella seja implacavel ou severa, não é que ella saiba sequer das mesquinhas miserias que se agitam no seu seio. É porque não é na velhice que a alma póde iniciar-se n'um culto novo. É que para tudo é indispensavel uma aprendizagem gradual, é que a vasta creação só tem consolos tranquillisadores, caricias adormecedoras, para os velhos, quando teve para os moços sonhos, sorrisos, radiosas esperanças. É que a alma, que ao desabrochar não soube ser sensivel á enternecedora poesia das cousas, nunca saberá entender na hora triste do declinar, a sua ineffavel e divina linguagem! é que os longos horisontes de purpura e de ouro sabem vestir de bemditas claridades a alma dos velhos, quando os velhos se recordam, e vêem docemente descer a noute cheia de estrellas e de harmonias mysteriosas sobre uma vida que teve por companheiros o trabalho, o amor puro, o sacrificio, a abnegação! Resta apenas como pasto e alimento a estas almas que andaram em busca da felicidade por toda a parte, menos no lugar tão proximo e tão accessivel, onde ella estava, resta-lhe apenas a falsa devoção. É lá que ellas vão buscar refugio. Vivem nas egrejas, procuram um confessor que tenha a jesuitica paciencia de revolver com ellas o montão de flôres murchas do passado, a ver se ainda de lá vem o vestigio da extincta fragrancia, praticam fervorosamente toda a casta de superstições rediculas; entram em associações pseudo-caridosas, gastam o resto da vida de outra fórma não menos redicula e não menos balofa do que gastaram os dias da juventude. E de vez em quando, para maior espanto nosso, morre uma em cheiro de santidade entre a piedosa confraria. * * * * * O que é pois necessario e indispensavel para todas nós? É que possamos viver sem o auxilio dos outros, e tirando unicamente dos intimos mananciaes do nosso espirito e da nossa alma, elementos para construir com elles a nossa propria felicidade. Quando a mulher depois de ter recebido uma educação robusta, depois de ter desenvolvido as suas faculdades no sentido mais amplo e mais favoravel, depois de estar apta a viver de pouco, a dispensar tudo que seja luxo ou vaidade, de ter dado uma applicação util ás suas aptidões especiaes, depois de ter adquirido uma larga somma de idéas geraes, de noções e de pensamentos justos, quando a mulher emfim, tendo a consciencia de que mesmo sósinha na vida, saberá grangear dignamente o seu pão, olhar em torno de si,--forte, intelligente e instruida--e entre os homens que a rodearem, e que a preferirem, fixar a sua escolha n'um homem, esse póde sentir-se justamente ufano. Não haverá n'este consorcio nenhuma especulação e nenhum calculo. Ella está apta a julgal-o, a estudal-o, a entendel-o, por isso foi raciocinada a sua escolha. Elle achou uma companheira fiel do seu destino, um guia incorruptivel, um precioso auxiliar. Trabalharão ambos. Commerciante ou sabio, poeta ou diplomata, artista ou especulador, negociante ou politico, sempre a coadjuvação de uma intelligencia cultivada e flexivel, penetrante e fina, será de incalculavel utilidade ao homem. Não viverão de certo nos arrobamentos e transportes dos romanescos e rapidos amores; terão um fim commum, o bem proprio e o bem de seus filhos. Terão meios identicos, o trabalho, a mais escrupulosa dignidade de vida, o estudo perseverante, a economia e a paz. Como o casamento foi um acto em que não entrou a paixão irreflectida, a precipitação estupida, ou o calculo inevitavel, ha muito mais garantia de que essa união seja duradoura e feliz. Como a phantasia da mulher é irrequieta e audaz, logo que ella faça o seu fito de alguma cousa de maior e de mais elevado, deixarão de ser perigosos os seus caprichos. O homem, preparando-se para casar, tambem não dirá comsigo: Vou buscar um encargo. Dirá com muito mais propriedade: Vou buscar um auxilio. Eis inteiramente deslocado o velho ponto de vista. Provirá d'esta nova interpretação do casamento o haver muito menos mulheres solteiras. As que houver, porém, terão o seu lugar, o seu destino, a sua tarefa. Trabalharão. Não ha ninguem que querendo e sabendo, se não possa tornar util, e produzir em bem, tudo que consome em sustento. Descrescerão de certo as industrias que vivem do luxo e da dissipação, mas crear-se-hão outras novas, mais necessarias, e para as quaes a mulher poderá levar as suas faculdades felizes, ás quaes só falta educação condigna. E quando para todas chegar a velhice será como a corôa e o remate de um monumento sublime. * * * * * Ha muito quem alcunhe de pretensão esta minha teima de attribuir todos os males da familia á falsa educação das mulheres. Como se ellas fossem tudo! Como se d'ellas dependesse tudo! É que realmente, directa ou indirectamente, pela sua influencia immediata ou pela sua longinqua influencia, o caso é que muitos males, que muitas desgraças, que muitas immoralidades se lhes devem! _Cherchez la femme_, direi eu sempre, por mais que achem vaidosa pretensão feminina esta minha idéa. CAPITULO IV A dissolução dos costumes e o casamento Os philosophos, os moralistas, os observadores clamam continuamente contra a dissolução dos costumes modernos, ou descrevem-na com o pungente _realismo_ da sua solta e desbragada ironia. Uns accusam, outros fulminam, outros contentam-se com chascos e satyras de Juvenaes _au petit pied_. Poucos são os que ao passo que apontam o mal, indiquem o remedio, ou pelo menos o caminho que deve seguir-se para chegar a alcançal-o. As theorias são optimas, a pratica é deploravel. Ninguem é já tão ignorante e tão desallumiado da scentelha sagrada, que confunda o bem com o mal, mas o criminoso desleixo de todos, é mais funesto á sociedade e á familia, do que a idéa confusa que em épocas menos adiantadas se formava dos deveres de cada um. Sim, a familia parece corroida por um occulto verme, que pouco a pouco vae dando a essa arvore frondosa, cheia de fructos e de flores, um aspecto morbido e doentio que entristece e causa profundo assombro aos que de perto lhe observam o progressivo definhar. Mas não basta mostrar ao mundo este indicio da sua decadencia moral, cumpre investigar as causas para oppôr um dique aos effeitos desastrosos que todos os dias se vão mais claramente revelando. Este dever é de todos; dos grandes e dos humildes. Não ha ninguem que não esteja interessado igualmente na destruição de tão terrivel flagello. Tragam uns os esplendores do talento que vê de cima, e que das alturas onde paira, derrama luz clara sobre os que labutam na sombra; tragam outros o bom senso, a experiencia, a fé e a boa vontade. Parece que metade do caminho está vencido, porque se muitos,--se a maioria--anda transviada, todos pelo menos sabem definir o ideal a que aspiram, o fim que desejam attingir e do qual involuntariamente se afastam. O grande mal da nossa época é--quem tal o diria?--é a preguiça intellectual. Todos trabalham mais ou menos, porém ha poucos que meditem e que pensem. O seculo desoito foi o seculo do pensamento; o seculo desenove é o seculo da industria. Predomina a materia, aspira-se ao bem-estar do corpo, aos gozos da riqueza, ao sybaritismo refinado e artistico e pouco se attende á voz prophetica d'essa Cassandra, chamada philosophia, que debalde clama aos homens que elles vão por um caminho errado, que trilham uma estrada que não é a verdadeira, visto que a não illumina e lhe não mostra os precipicios, a verdadeira e eterna luz. Os males que affligem a sociedade, que affrouxam os laços da familia, que contaminam e dissolvem lentamente os costumes, provém de uma causa, composta de muitas causas complexas, e para combater a qual devem juntar-se os esforços de todos os que amam o bem. Ninguem considera o casamento como elle precisa de ser considerado, não já sob um ponto de vista mystico e sentimental, porém no seu verdadeiro aspecto, nas suas relações inilludiveis com a sociedade e com a verdadeira moral. Como sempre, é á mulher que aqui me dirijo, é com a mulher que eu fallo. O homem tem-se em muita conta para dar attenção á minha debil e desautorisada voz. A mulher attender-me-ha porque é em vista da sua felicidade, da felicidade de seus filhos, da solidez e do aconchego de seu ninho, que eu lhe estou aqui fallando. O casamento não é um contracto puramente social, não é uma união só filha da religião e do sentimento, não é uma sancção legal de affectos egoistas e de paixões indomadas, de tudo isso tem alguma cousa, mas é muito mais sério, mais sagrado e mais santo do que isso tudo. Se esta quadra transitoria e convulsa que atravessa a geração de que fazemos parte, é triste como nenhuma outra, essa tristeza provém principalmente das imperfeições que maculam o casamento, das duvidas que assaltam todos os espiritos ao vêr tão longe da sua resolução definitiva o problema importante da familia. Por toda a parte o desconsolo, o desalento, a duvida, a melancolia insanavel dos que, depois de haverem sonhado um esplendido e estrellado sonho, despertam para as agras tristezas da realidade e nada encontram que corresponda ás radiosas esperanças com que se haviam embalado. É que realmente depois da escuridão caliginosa, da noute lugubre e sinistra que durante seculos envolveu a humanidade, fizeram-lhe esperar tanto, evocaram diante do seu deslumbrado olhar tantas apparições luminosas, apontaram-lhe para um ideal tão levantado, fizeram-lhe crêr em tão divinas utopias, que todos os desalentos se desculpam ao vêr quão pouco a realidade dos factos correspondeu a todos esses sonhos por ora infecundos. Mas não percamos a fé; sem ella o mundo caminhará sem ter outro norte que não seja o perigoso conselho das suas paixões desordenadas. Se ainda pouco está feito, appellemos para o futuro e vamos preparando essa evolução pacifica e luminosa de que já talvez nenhum de nós aproveite os resultados beneficos. Esqueçamos este egoismo feroz e improductivo que nos faz desanimar em todas as emprezas de que não possamos com mão soffrega e impaciente colher os fructos embora prematuros e mal sasonados. * * * * * Não ha nada mais triste do que ouvir o modo desdenhoso, quasi sacrilego, com que os moços de hoje, os moços de ambos os sexos, fallam do casamento e da familia. Elles duvidam, rindo com ironia ignobil de tudo que n'outro tempo amavam devotamente. Foram-se os bardos sentimentaes e um tanto rediculos, diga-se a verdade! que amavam sem esperança, mas com ternura apaixonada, as queridas perfidas, que desprezavam o seu desinteressado affecto. A litteratura, que é o espelho das sociedades, tem por feição a ironia mordente, a analyse fria, a dissecação anatomica mais positiva e mais crua. O desdem pela mulher manifesta-se sob todas as fórmas, e debaixo de todos os aspectos. Se acabaram as declamaçães de _Benedicto_ e de _Antony_ contra a tyrannia esmagadora da instituição conjugal, apparecem em logar d'estas os quadros mais abjectos da dissolução e da decadencia a que chegou o casamento e com elle a mulher. No limiar da adolescencia os que não alardeiam um cynismo falso e tão ridiculo como os transportes romanticos do passado, calculam arithmeticamente o que póde provir-lhes em beneficios liquidos d'aquillo a que chamam um _bom casamento_. Não attendem ás qualidades moraes, que não podem apreciar nem conhecer; quando muito, lançam no orçamento como uma verba de certa importancia as vantagens physicas da noiva escolhida. Nenhum grande pensamento os exalta, nenhuma idéa definida e clara da missão que aceitam os eleva a seus proprios olhos. Pelo seu lado a _noiva_, a creança radiosa que enfeitam todas as galas e todas as flôres dos vinte annos, gaba-se em confidencia ás amigas intimas, de que _já não tem illusões_ e que _conhece a vida_, a vida de que ella não leu ainda sequer a primeira pagina! Casa porque a familia quer, casa porque encontrou aquelle rapaz em dous bailes, porque o achou _interessante_, _sympathico_, _muito amavel_, porque emfim é um _bom partido_, segundo diz o papá! Outras vezes casa porque gosta d'elle, mas gosta d'elle instinctivamente, animalmente, sem o conhecer, sem saber se essa mão que aperta nas suas mãos virginaes, será sempre em todas as crises, em todas as occasiões da vida, a mão de um homem honrado. No dia em que se acham ligados indissoluvelmente o seu primeiro sentimento é um sentimento de surpreza, quasi de susto. Dizem então os frivolos e os superficiaes: o _melhor tempo é o da lua de mel_. Engano! Esses dias são os dias da vertigem, mas não são os dias da felicidade. Cada defeito que os dous mutuamente se descobrem, é como uma semente envenenada que ha de germinar mais tarde. Não se lembram do futuro, saboreiam com a volupia da paixão sensual os prazeres ephemeros d'essa hora que passa. No fundo, bem no fundo do pensamento, n'um escaninho escuro em que ambos fogem de entrar, porque sabem que lá os espera a desillusão, teem guardadas muitas das tristes descobertas que fizeram n'aquellas horas de abandono, de loucura, de extasi, em que as suas almas se embeberam voluptuosamente. _Elle_ sabe já que a mulher é frivola, é ignorante, é vaidosa, que vê no casamento as alegrias da vaidade, antes de ver os deveres e os sacrificios; _ella_ tem a certeza de que todas aquellas promessas radiosas não passam de uma chimera que o tempo desfará, que o marido não tem as delicadezas que satisfariam a alma da mulher ainda a menos exigente, e a menos ambiciosa. Na ebriedade d'aquelles primeiros tempos perdoam-se mutuamente os defeitos, que parecem até graciosos, lindos e feiticeiros. O que os entristecerá mais tarde, o que avincará de rugas de mau prenuncio o rosto do marido, e fará encher de insondavel tristeza o coração da mulher, não é mais que a resultante das pequenas e todavia fataes concessões e desculpas que reciprocamente fizeram os noivos aos defeitos que viram apparecer nas primeiras horas da convivencia, nos risonhos dias do noivado. _Ella_ sahiu do aconchego tepido da familia, das doçuras do lar paterno, dos braços amoraveis da mãe; vem acostumada a quererem-lhe muito, a ser muito estimada e amada. Em casa conheciam-lhe os gostos, as inclinações, os habitos e os defeitos, porque a par das boas qualidades ha sempre no coração humano um recanto onde se abrigam as deficiencias de caracter e de genio. Aquillo que os paes, as mães e as pessoas que de mais perto conviviam com _ella_ lhe perdoavam, é desculpado tacitamente por _elle_ no extasi e na delicia ineffavel do noivado; porém, mais tarde tudo isso servirá de base a accusações asperas, e a censuras amargas. _Ella_, pelo seu lado, retrahir-se-ha, offendida e triste ante as imperfeições que outr'ora desculpava, e para as quaes hoje é intolerante e severa. Por isso, a mãe, quando dá o ultimo abraço á filha que parte para os braços do noivo expede dilacerantes soluços de afflicção, e lamenta-se desesperadamente. --É um estranho, pensa a mãe, pouco viveu com ella; mal a conhece, viu-a apenas nos saráus, á luz viva do gaz, cercada de adorações, risonha, feliz, espirituosa e delicada. Eu tambem fui assim... Mas como me custou a aprendizagem da vida! E como esta é devéras tão outra e differente do que suppunha! Pobre creança! Isto pensam as mães, com aquelle sagrado affecto que nunca se desmente, e que não trepida ante nenhum sacrificio, por mais arduo e assombroso que seja. Mas, de quem é a culpa, bom Deus? Sobre quem deve recahir a culpa das nuvens que se acastellaram no futuro da vida dos noivos, a culpa das horas longas e plumbeas que os esperam, das recriminações azedas, que farão explosão mais tarde, e que levarão áquelle dôce lar tranquillo o desassocego, a duvida, a desillusão, e a algida tristeza desconsoladora de vermos as ridentes chimeras que se desfazem lugubremente, e que nunca mais resurgirão? A culpa deve caber tanto a um como a outro, tanto á mulher como ao marido. O noivado é uma iniciação augusta, uma escóla onde devemos aprender a ser justos e tolerantes. O que hoje transparece vagamente, o defeito que aponta subtil e timido em meio das alegrias do noivado, será pouco tempo depois injustamente considerado uma cousa horrivel e monstruosa. E mister que o marido e a mulher se não julguem a suprema e alta perfeição, e que sejam complacentes para as maculas e defeitos a que ninguem escapa. O homem, com a sua vida ruidosa e trabalhadora de militar, de negociante, de artista e de proprietario terá impaciencias, phrenesis e agastamentos. Quando a sua natureza se expandir livremente e sem peias, não será o mesmo que estava mezes ou annos atraz aos pés da noiva, submisso, trémulo e feliz, não medindo o mundo senão pelo ambito aquecido pelo bafo da sua gentil amada; perderá todo esse ar de humildade e de escravidão, e, sem o querer, ha de ferir a pobre creatura, machucar-lhe os mimosos caprichos e offender-lhe a ingenua e nativa delicadeza. A mulher com o seu pouco ou nenhum conhecimento das difficuldades da administração de uma casa, ante o enorme peso das responsabilidades que prevê, terá hesitações, duvidas e receios, que lhe farão rebentar muitas e repetidas vezes as lagrimas, no principio da sua difficil e tão ambicionada posição de senhora e dona de casa. Quando o marido recolher da rua, da praça, das officinas, das academias, desgostoso, com o coração mordido pelo infortunio, magoado pela ingratidão de um amigo, pela falsidade de um outro em que cégamente confiara, pelas mil contrariedades emfim da vida, e precisar de uma boa e querida palavra de affecto, de um conselho leal e sincero, de uma consolação benigna, a mulher deve esquecer-se de si, velar resolutamente as feridas que sangram, para só pensar no marido de que é solidaria companheira, e de cuja consciencia viril deve ser amoravel directora. Nas mãos da mulher está a tranquillidade, o socego, a ventura e a honestidade do lar, porque ella deve ser a perseverança inalteravel, a bondade suprema e inexgotavel, a intelligencia allumiada pela doce luz que dimana do coração. Que a mulher saiba perdoar, que a mulher desculpe o egoismo, a dureza, as coleras bruscas do marido, e verá como este saberá fingir que ignora que tambem n'ella existem maculas, que tambem n'ella avultam defeitos. Se deseja ser perdoada, que perdôe ella primeiro, que dê o exemplo, e os resultados d'essa condescendencia serão de maravilhoso alcance. Ah! é preciso repetil-o mil vezes, dêmos um caracter de austera seriedade ao casamento, respeitemol-o, cerquemol-o de garantias duradouras, se não quizermos que a familia se desmanche, e que a immoralidade triumphe. Que as noivas antes de pensarem na inveja que o seu vestido branco e a grinalda de flôr de laranjeira causarão ás suas mais intimas amigas, entrem no seu novo lar, resolvidas a crearem a felicidade do ente, que apesar de viril e forte ha de ter durante a vida muitas horas de abatimento e tristeza, que só os beijos de uma esposa honesta espancam. Que se compenetrem as noivas, que dos primeiros dias do noivado depende a paz dos dias futuros, a saude, a educação e o porvir dos filhos. Passados os primeiros dias, volvidos os primeiros mezes, sendo o marido intelligente e a mulher bondosa, tendo ambos uma completa noção do justo e da verdade, poderão facilmente escolher o caminho que os leve mais direitos á felicidade, de que tantos casados andam distantes porque se não souberam corrigir a tempo, e porque deixaram que se expandissem em espraiada e opulenta rama os defeitos que ambos conheceram e viram com olhos benevolamente complacentes, e só então complacentes! de noivos. No campo não é raro ouvir-se ás aldeãs a quem se pergunta se se dão bem com a vida de casadas, o seguinte dizer quasi invariavel na bocca d'essas mulheres: --Ao principio tivemos as nossas _turras_, mas a gente, como o outro que diz, foi-se habituando um ao outro, e agora não ha que se lhe diga; o que elle quer, quero eu tambem. _Ao principio tinhamos as nossas turras_... ouviram? É que no campo ao primeiro beijo segue-se bem cedo a primeira recriminação; é que no campo o noivado dura menos, mas em compensação descobrem-se brutalmente as differenças de genio e as desigualdades que a pouco e pouco vão desapparecendo. A mulher, porém, que é sempre mulher, quer ande vestida de sedas, quer ande envolvida em saragoça, póde com a sua benefica e pacificadora influencia, tanto no campo como na cidade, desculpando o marido, conseguir que este lhe desculpe e lhe attenue as imperfeições e defeitos que estão fatalmente inherentes, ai de nós! á mesquinha natureza humana. CAPITULO V As mães e as filhas Venho ainda hoje fallar ás mães a respeito das suas filhas. Creio que é um meio de ser ouvida com attenção. Se as mães são pela maior parte das vezes a causa inconsciente dos males que affligem a educação de seus filhos, não é d'ellas a culpa, que só levam em mira o bem e a felicidade dos queridos fructos das suas entranhas. Mas o amor das mães é cego como um instincto, e como tal precisa de ser guiado e dirigido. Entregues a si, transviadas pelas noções incompletas que já lhes eivaram de erros funestos a educação que receberam na infancia, ouvindo mais a voz da propria vaidade, que a voz austera da razão, as mães continuam a suppôr que na educação de uma menina se deve attender antes de tudo ás _exterioridades brilhantes_, que farão d'ella a favorita dos salões mundanos, a elegante e afamada cultora de todas as delicadas frivolidades sociaes. Desde a burgueza, que, apenas sahe dos desfiladeiros sombrios da miseria, já cuida tão sómente em hombrear com as duquezas que inveja de longe, até á mais aristocratica descendente das antigas paladinas, todas teem as mesmas noções falsissimas ácerca da educação que suas filhas devem receber. Não estudam os diversos espiritos que se propoem a adornar com as mesmas galas sediças; para ellas uma _educação de senhora_ não varia. Segue sempre a mesma norma absurdamente anachronica. Os filhos são reclamados pela escola, pelo lyceu, pelo instituto, e teem de sujeitar-se ás regras acanhadas e incompletas da educação official; as filhas, debaixo da direcção mediata ou immediata das mães, começam no lar domestico a sua aprendizagem, que é como que a opposição systematica a todos os instinctos poderosos de que a natureza as dotou. Turbulentas, como é natural que sejam as creanças, aprendem a suffocar a espontanea e salutar actividade dos seus pequenos membros. A primeira obrigação que reconhecem é a _de não fazerem bulha_. Tornam-se taciturnas e sonsas. O habito de contrariarem incessantemente os impulsos tão naturaes da sua idade, como que lhes abre o caminho para a hypocrisia, o peior e o mais vulgar dos vicios femininos. Sentindo continuamente pesar-lhe sobre a cabeça uma pressão despotica, de que não podem reconhecer a justiça, aspiram instinctivamente ao livramento, teem surdas revoltas intimas, de que nenhum olhar sonda os segredos. Não se desenvolvem na plena liberdade da natureza, ha nos seus corpos miudinhos um aspecto de enfezamento e de fraqueza que faz pena. A vaidade maternal cuida então de as enfeitar; o vestuario das suas pequenas joias torna-se para as mães--para as mulheres--um negocio de alta e gravissima importancia. Não ha nada que as satisfaça; os bordados finos, as rendas, as sedas, as plumas, os velludos, tudo se combina para adornar o gracioso e querido anjo. Dous resultados inevitaveis: A immobilidade a que este luxo condemna as suas victimas pequeninas, e a feroz vaidade de que elle lhes lança n'alma a primeira semente, que mais tarde ha de desatar-se em venenosos fructos. A pequena assim vestida julga-se forçosamente de uma essencia superior ás que não podem competir com ella em opulencia; de um lado levanta-se o orgulho, de outro lado rasteja a inveja. O gosto de ser contemplada, admirada, de excitar emulações raivosas, de ser apontada como um modelo de elegancia infantil, accende no espirito da creança a funesta luz que mais tarde ha de allumiar os erros da mulher. Quando sôa emfim a hora em que o espirito exige a sua indispensavel cultura, o mesmo systema que até alli dominou na educação da pequenina continúa a fazer sentir a sua corruptora influencia. «--Quero que a minha filha se não possa envergonhar de apparecer ao pé das mais ricas!--diz a mãe enfatuada na sua funesta vaidade. * * * * * Chamam-se os professores de dança, de musica, de linguas, de desenho, ou conduz-se a menina ao collegio mais afamado em prendas d'este genero. Algumas mães exigem tambem que as filhas aprendam a _bordar_ a lã, a _bordar_ a ouro, a _bordar_ sobre escomilha, a fazer _crochet_, flôres, pequenos trabalhos de agulha, proprios para ornamentação de um quarto de pensionista ingenua. Outras, mais dadas á sciencia, querem uns elementos de geographia, alguma historia sagrada e profana, uma leve tintura de arithmetica. Por cima de tudo isto um pó dourado de devoção elegante, ministrada pelo director das consciencias do _high-life_. Não se admitte de modo nenhum que um velho sacerdote obscuro e despretencioso, cujos sermões não tenham fama, cujas predicas não sejam ouvidas, entre suspiros e lagrimas, pelas devotas da aristocracia, inicie a pequena neophyta nos mysterios subtis da doutrina catholica. É indispensavel um padre galante, perfumado, estrangeiro, que torne o ensino da religião alguma cousa de artistico e de adocicado como elle. _Saber bem doutrina_ constitue um dos deveres de uma educação primorosa, e no entanto a filha que aprendeu, a mãe que a mandou ensinar, ignoram todos os deveres a que esta sciencia, a ser bem comprehendida, as obrigaria. Sabem doutrina como sabem grammatica; quer dizer repetem de cór umas certas e determinadas regras de que não percebem a applicação pratica. Aos quinze annos a menina preparada por estes elementos tem a sua educação completa. Quer seja filha de um duque, quer seja filha de um fabricante, quer o seu destino a reserve para receber n'uma sala faustuosa os altos personagens da politica e da diplomacia, para fazer parte da côrte, para conviver n'um pé de intimidade com todos os grandes, e com todos os opulentos; quer ella tenha de partilhar as luctas obscuras de um modesto empregado, de um industrial de poucos haveres, de um artista desprotegido, é a mesma a sua educação moral, physica e intellectual. Está do mesmo modo preparada para as luctas e para os combates da vida; tem a mesma força nos musculos, tem as mesmas faculdades no espirito, tem as mesmas noções na consciencia. A burgueza ou a fidalga, com tanto que tenham dinheiro, teem os mesmos direitos, as mesmas aspirações, ambicionam para suas filhas o mesmo lugar na sociedade. Mas o que deve confessar-se uma vez por todas é que esta educação, toda vaidade, toda orgulho frivolo, toda inutil ostentação, convem tão pouco á filha da aristocracia e da opulencia, como á filha da burguezia e da mediocridade. Uma, collocada nos altos pincaros sociaes, precisa de ter o juizo recto e seguro para conhecer os homens, a graça ondeante e fina para os attrahir, o conhecimento profundo dos seus interesses e paixões, para os conciliar entre si; precisa de fallar a cada um a linguagem mais propria para o convencer e dominar; precisa de ser, junto de seu marido um auxiliar proficuo com que elle conte, uma intima e fiel alliada, que o ajude a conservar dignamente a posição que herdou dos seus avós ou que conquistou com o braço e com o pensamento. A outra, n'uma esphera que é inferior á da primeira, segundo o ponto de vista social, mas que de feito lhe é superior, porque inclue mais altos e mais complexos deveres--a outra precisa de descer com seu marido á arena onde combatem os modernos trabalhadores, precisa de lhe ser em tudo e por tudo ajuda, guia e conselho, precisa de acceitar para si terriveis responsabilidades, para as quaes nenhuma lição a preparou! Dir-me-hão que o nivelamento democratico das modernas sociedades dá a todos os mesmos direitos, porque dá a todos os mesmos deveres; que a mãe opulenta e nobre que cria suas filhas nos fôfos ocios da riqueza não sabe se em breve terá de vel-as curvadas ao peso da maxima miseria, assim como a mulher de um humilde empregado não sabe se verá sua filha ascender a uma prospera e brilhante posição, elevada por um d'esses casamentos que são vulgares, como d'antes eram raros. D'accordo, meus senhores; mas essa hypothese em cousa alguma destróe a minha asserção, pois o que eu disse e repito é que a educação feminina, tal como hoje a entendem, para nenhuma classe da sociedade, para nenhuma posição brilhante ou precaria é util ou conveniente. * * * * * Que desenvolvimento moral, physico ou intellectual, póde adquirir-se partindo de tão errados principios? A que fim se aspira, que fim se attinge, alcançando uma educação que tem por unica base a vaidade? Pois a mulher, que levou annos e annos da sua vida a adquirir conhecimentos inuteis, está porventura armada para resistir ás tentações, ás adversidades, ás miserias, aos combates da vida? Imagine-se, em contraposição a esta falsa cultura, que constitue o que os burguezes embebecidos em comico enthusiasmo chamam uma _educação muito fina_, imagine-se que as mães, juntando-se n'uma piedosa cruzada, conseguiam crear uma instituição moderna, onde suas filhas recebessem a educação que hoje lhes poderia servir, para se tornarem uteis na sociedade e na familia. Quantas vezes não tenho eu acariciado em sonhos a idéa d'essa escola-modelo, onde a creança aprendesse a ser mulher, onde a mulher aprendesse a ser mãe! onde uma direcção harmonica e intelligente presidisse ao desenvolvimento do espirito e ao desenvolvimento não menos sagrado do corpo; onde a moral caminhasse a par da sciencia, onde a primeira noção que o entendimento feminino recebesse fosse esta: «Todo o trabalho nobilita e exalta a quem o executa com a consciencia de cumprir um dever!» Eu não quizera por certo proscrever da educação da mulher as graças, que são para ella o que o perfume é para a flôr. Não queria vêr o mundo convertido n'um viveiro de _pedantes_, enfronhadas em sciencia e tornando antipathica a virtude, á força de lhe darem ares dogmaticos. Se a leitora suppõe de mim tal abominação, é que eu bem pouco tenho conseguido revelar-me aos seus olhos. O meu intento é outro; permitta-me que lhe torne aqui bem palpavel. V. exc.^a, minha senhora, tem uma filha, um pequenino anjo, louro e risonho, que é n'este mundo o seu enlevo, como que um bocadinho do céu azul, que lhe cahiu no seio n'um dia abençoado. Tome o meu conselho: não siga na educação do seu pequeno amor o systema que sua mãe seguiu comsigo, que as suas amigas seguem com as filhas que teem. Córte de uma vez este fatal nó gordio da tradicção, do costume, da rotina, que faz morrer em flôr tantas innovações beneficas. Tenha a coragem das suas opiniões; inutilise esse formoso e rico enxoval que umas modistas banaes inventaram por ordem sua; deite fóra essas sedas, essas rendas, esses instrumentos de perdição para a alma pequenina que Deus lhe confiou. Vista sua filha simplesmente, com um aceio gracioso e poetico, que revele os seus desvelos de mãe, mas que não denuncie as suas vaidades de rica. Bem vê que, livre de todo aquelle fausto que a incommodava, como um laço de fita incommoda uma ave, a sua doce pequenina se sente mais livre e mais contente. Eu bem sei que ainda ha pouco uma amiga sua, passando por ella, a mediu dos pés á cabeça, muito espantada e um pouco desdenhosa, perguntando a si mesma se v. exc.^a já não era tão rica como ella julgou; mas em compensação d'esta pequena ferida de seu amor proprio, houve uma creança pobre, que ao parar junto da sua filhinha, ousou estender a bocca de rosas, e beijal-a com um dôce e fraterno beijo, como os anjos se dão entre si, e para os quaes Deus do alto da sua gloria teve sempre um sorriso bom! Que importam os desdens dos parvos e dos mediocres aos que não teem as invejas dos miseraveis a pezarem-lhe na cabeça como uma eterna maldição! Quando a sua filha passa com o seu vestidinho branco, muito simples e muito aceiado, as mães pobres sorriem-se com amor por dous motivos, ambos santos: porque ella não humilha ninguem, e deixa uma esmola de pão e um rasto de luz no seu caminho de anjo inconsciente. Oh! como são doces ao coração das mães as bençãos que se desfiam como um rosario de perolas sobre a cabeça loura de seus filhos. * * * * * Quando a intelligencia já viva e luminosa da sua filha lhe pedir cultivo, como as flores pedem agua, não a force a um trabalho pesado e tenaz, nem tão pouco lhe dê da vida uma idéa tão frivola, que ella só aprenda o que é superfluo para não dizer inutil. Abra-lhe com a sua mão maternal tão delicada e tão subtil o vasto livro da natureza, e deixe que ella, enlevada e curiosa, o folheie cheia de amor e de fé. Toda a sciencia se encerra n'isto, minha senhora. Faça-a penetrar na alma de todas as cousas para que a vida se não conserve aos seus olhos inanimada e esteril. Em vez de lhe ensinar a doutrina morta que vem nos livros, leve-a brandamente por um declive suave a comprehender o espirito d'essa lei, que é feita de tanto amor! Conte-lhe as miserias occultas que ha n'este mundo, ensine-a, ou antes, deixe que ella adivinhe como essas miserias se consolam pela esmola do pão e pela esmola do carinho, e, quando ella voltar do albergue da desgraça, ao seu lado, calada, pensativa, com os olhos cravados nas nuvens alaranjadas do poente, pergunte-lhe então baixinho, com a sua voz de mãe, a unica que nunca perturba nem afugenta os sonhos de uma virgem:--Comprehendes agora as palavras do Christo: _Ama a Deus sobre todas as cousas e ao proximo como a ti mesmo_? Só este commentario das lições do Justo póde fazer com que ellas dêem abençoados fructos! Em vez de lhe occultar os mil subterfugios com que a maldade humana tenta avassallar e corromper a innocencia, innocule-lhe lentamente com a sua palavra serena e firme a força necessaria para vencer e dominar as astucias criminosas e traiçoeiras. Faça-lhe sentir com a lição e com o exemplo que a mulher tem quasi sempre em si o seu peior inimigo, e que este inimigo, que toma todas as fórmas imaginaveis, é sempre no fundo o mesmo! o orgulho. Que ella comprehenda bem que o dominio que a mulher exerce pela sua bondade nobilita aquelle que se lhe submette, emquanto que o despotismo, que tem como origem a belleza e a graça artificial das seducções, rebaixa o homem que o acceita, e a mulher que o põe em acção. Nas cousas triviaes da vida pratica prepare-a para todas as eventualidades. Que se não ache deslocada n'um throno, nem atraz d'um balcão. Eis o ideal. Ha uma dignidade que está comnosco, que participa da nossa propria assencia, que provém da noção elevada que nós temos dos nossos direitos e dos nossos deveres, e que é portanto independente de qualquer circumstancia exterior. É d'esta dignidade que uma educação justa e forte deve dar á mulher, e que em todas as peripecias da vida, por mais desusadas e estranhas, a deve acompanhar. Ter bastante humildade para exercer sem repugnancia os trabalhos menos delicados, e bastante superioridade para comprehender a idéa do dever que os exalta e sobredoira; ver na vida, primeiramente as obrigações, depois as distracções, eis aquillo que todas as mães devem ensinar ás suas filhas. No dia em que todas o souberem, teremos então, em vez das creanças fracas e inuteis, que o homem ora protege, ora escravisa, segundo o impulso das suas ephemeras paixões, uns seres pensantes, conscios da sua força, sem ambições desregradas de um poder que lhes não deve pertencer, sem a hypocrita humildade, que faz de cada mulher uma victima pouco sympathica. As salas terão menos estatuetas de _biscuit_ amaneiradas e ridiculas, mas a familia terá mais elementos na vida e duração; os pianos deixarão de suspirar em noutes de luar as suas sentimentaes confidencias; mas a verdadeira comprehensão da arte, da religião, e da poesia penetrará como por encanto nos entendimentos feminis. Teremos emfim ao lado do batalhador das modernas lides uma companheira, não só digna d'elle, porém capaz de o levantar a um nivel que elle ainda, desacompanhado e desprotegido, não pôde desgraçadamente attingir. CAPITULO VI Leitura para nossas filhas «Minha querida amiga: Disse-me hontem que sua filha tinha esgotado a pequena bibliotheca infantil, que a muito custo colligio para ella, e que esse candido e luminoso espirito, de quinze annos exige energicamente mais alimento que a nutra e que a deleite. Pergunta-me a respeito da leitura que ha de permittir a sua filha, a minha opinião, o meu conselho. É um caso difficil este que me propõe. Lili é uma graciosa e excepcional creatura; tem a logica inflexivel das creanças intelligentes, tira rapidamente a conclusão das premissas que submettam ao seu criterio. A leitura póde fazer-lhe muito mal ou muito bem; não póde de modo algum ser-lhe indifferente. A minha amiga seguindo as tradicções que já encontrou assentes, pergunta-me se póde deixar ler a sua filha _Paulo e Virginia_, esse idyllio que tem cem annos e que ameaça ser eterno, ou _Jocelyn_, o poema mais perigosamente mystico que eu conheço. Falla-me no _Genio do Christianismo_, de Chateaubriand, e nas tragedias sacras de Racine. Não se lembra para sua filha de nenhum outro escripto e lembrou-se justamente d'aquelles que só lhe podiam fazer mal. Antes de mais nada, responda-me francamente: quer fazer de sua filha uma mulher solidamente instruida ou então uma mulher ignorante? Quer que ella saiba resistir ás tentações que forçosamente ha de encontrar na vida, ou quer que ella se conserve na mais completa e absoluta inexperiencia até á edade em que ha de entregal-a ao homem que tem de ser seu marido? Da resposta a estas duas perguntas é que tudo depende, porque segundo a idéa que a minha amiga fórma da educação de uma mulher, segundo o systema que tenciona pôr em pratica com relação á educação de sua filha, o futuro d'esta ha de levar um outro caminho. Eu não posso dizer-lhe positivamente: faça isto, faça aquillo. Posso apenas contar-lhe o que fiz. Minha filha tem hoje vinte seis annos, é casada, é mãe, e tem sabido cumprir a dupla e difficil missão que a sorte lhe confiou. Não sei se deva attribuir os meritos que todos lhe reconhecem á educação que procurei dar-lhe; parece-me, porém, que sem falsa modestia poderei confessar, que os meus cuidados não foram de todo inefficazes, e que o muito que pensei e meditei sobre o caracter da minha querida filha, me ajudou a guial-o no caminho do seu aperfeiçoamento. Ha gente que diz que as mulheres não devem ler. Não sei se alguma vez tem ouvido essas opiniões estupidas ou perfidas; não lhes dê credito minha boa amiga. Eu não acho merito algum á mulher ignorante, que se resigna ao cumprimento dos seus obscuros deveres de todos os dias. Segue rotineiramente um caminho de que não conhece as difficuldades, e se não se afasta d'elle é porque não sabe de nenhum outro. A mulher deve ler, mas se mais tarde no pleno uso das suas faculdades mentaes, e da sua força moral, ella póde ler tudo sem perigo, é indispensavel que uma educação anterior a tenha preparado e fortalecido, é indispensavel que haja o maior cuidado na cultura intellectual que ella deve receber na infancia e na adolescencia. Diz-me a minha amiga, que a maior parte dos romances são immoraes, que os que não são immoraes nos intuitos são perigosamente exaltados ou revellam ao espirito da mocidade quadros que ella não deve conhecer: diz-me que a historia de todos os povos não é mais que um amontoado confuso de crimes e de vicios, que a sciencia está em contradicção absoluta com as verdades de religião, e no meio das duvidas que se desnorteiam e assaltam quasi que prefere condemnar sua filha a uma ignorancia que ao menos a conserve simples de coração e tranquilla de espirito. Tenho duas objecções a fazer-lhe minha amiga, e parece-me que ambas hão de impressionar o seu esclarecido entendimento. Em primeiro logar, se consultar bem a sua consciencia, verá que transige por fraqueza e por preguiça com a ignorancia de sua filha. Prefere que ella não tenha quasi nada, a ter de se entregar a trabalho difficilimo de escolher com o mais delicado dos escrupulos o que ella deve saber. Em segundo logar, essa ignorancia, que para a mulher lhe parece o porto socegado e tranquillo onde ella repousará affoutamente, parece-me a mim um banco de perfidas areias onde facilmente ella póde naufragar. Já estou d'aqui prevendo a sua objecção. Mas eu não quero tal que minha filha seja ignorante. Pelo contrario, dei-lhe uma excellente educação. Aqui não se tracta senão das leituras que depois de educada eu lhe devo permittir ou recusar. Minha amiga, creia isto que lhe vou dizer. Se sua filha não souber senão o que tem aprendido até agora, de poucos recursos fica munida para combater na grande batalha em que vae entrar. Ensinou-lhe o cathecismo, bem sei; Lili fez já a sua primeira communhão, e respondeu ao exame de doutrina com admiravel facilidade, e com uma memoria impecavel. E depois? Em que é que essas noções a auxiliam para que ella chegue a conceber o bem absoluto, a eterna justiça, o Espirito Supremo que anima a grande natureza? É preciso que ella forme de Deus uma larga e fecunda idéa, e as manifestações da sua grandeza não estão no cathecismo, estão espalhadas n'essa creação universal que ella não sabe ver e que ella não conhece. Conhece a historia pelos pequenos opusculos cheios de todas as maculas e impurezas, que deixaram chegar ás suas mãos infantís. Não será uma irrisão dizer que ella conhece a historia? Sabe os nomes dos reis, as datas dos seus nascimentos e mortes, coroações e consorcios, e os filhos que tiveram e as cidades e villas que conquistaram; mas que idéa tem ella d'essa historia sublime, que participa do drama e da epopêa, que tem paginas doloridas e paginas brilhantes, que tem cantos triumphaes, e gemidos de lutuosa angustia, d'essa historia em que estão registradas tantas luctas heroicas, tantas conquistas immortaes, e que se chama a historia da humanidade? Não lhe parece que deve ser um estudo elevado, fortificante, robustecedor, que faz conhecer melhor, os esforços titanicos que o homem tem empregado para alcançar a quasi omnipotencia que hoje possue? Do homem rude, primitivo, inhabil, rodeiado de perigos para o corpo e de chimeras para o espirito, esmagado pela força brutal da natureza, sem comprehensão do destino que o esperava e da missão a que vinha, até ao homem dos nossos dias, ao rei, ao victorioso, ao vencedor, ao que tem dominado todas as tyrannias que o dominavam, que differença enorme vae, minha querida amiga! Entre o pária errante das selvas pre-historicas e esse triumphador que se chama Newton ou Goethe, Claude Bernard ou Victor Hugo, ha a distancia de uns poucos de milhares de seculos, que é preciso conhecer ao menos pelos marcos milliarios que teem assignalado a passagem dos mais illustres caminhantes n'essa estrada luminosa que se chama civilisação. É isso que eu chamo conhecer a historia. D'essa sciencia o espirito de sua filha, curioso, ávido, aberto para todas as grandes cousas, só póde colher proveito, um enorme proveito cujo alcance mal lhe posso explicar! Dir-me-ha que n'essa historia ha crimes ignobeis, ha quadros revoltantes, ha homens condemnados cujo contacto póde ferir o delicado e original espirito de uma creança. Oh! mas tambem ha martyrios, sacrificios, abnegações, arrojos sublimes! Se ha criminosos, tambem ha heroes; se ha algozes, tambem ha martyres; se ha monstros, tambem ha santos. Deixe que no cerebro da creança se faça a mysteriosa elaboração de que ha de sahir o culto pelo que fôr bello e bom, o odio raciocinado e violento a tudo que fôr abjecto e vil, a compaixão virtuosa e divina para tudo que fôr fragil e ignorante! Ponha nas mãos de sua filha todos os cantos d'essa epopêa enorme. Faça-lhe lêr com attenção essa historia, e quando ella tiver chegado á ultima pagina, será mulher. Uma mulher instruida, uma mulher forte, capaz de ser esposa digna, e mãe desvellada, tendo aprendido a conhecer, comparar, julgar e a pensar. Não sei se comprehendeu bem a idéa que procurei expôr-lhe. Apontei a traços largos a direcção _una_ que deve dar ás leituras de sua filha. Isto a que chamei conhecer a historia, não é, como viu, ler simplesmente os historiadores. É lêr, dominada por uma idéa de elevada critica, que as conversações d'uma mãe intelligente podem dar, todas as que tenham trazido a este thesouro formado pelos seculos, algum conhecimento precioso e util. Os bons historiadores como Macaulay e como Herculano, os poetas que vivificam e animam o passado, que entram no espirito de todos os seculos, como Michelet: os viajantes intrepidos, os exploradores, os navegantes, os homens de sciencia, conquistadores tambem e dos mais gloriosos; os moralistas, os criticos, todos aquelles que buscam lealmente a verdade e que aspiram ao aperfeiçoamento do homem. Fallei-lhe de Michelet e deixe-me dizer-lhe o que penso d'elle. É o coração mais apaixonado de justiça que eu conheço, o que o não priva de ser injusto muitas vezes; mas tem uma alma tão grande, tem uma comprehensão tão viva do bello, tem faculdades artisticas tão poderosas, que para mim não ha companheiro melhor para um espirito moço. Deixe que sua filha leia muito Michelet. É um grande mestre. Atravez d'elle ella saberá sentir melhor, amar com um amor mais intelligente a natureza. Michelet tem a doçura misericordiosa que redime e levanta os humildes e anima os fracos, tem a paciencia que penetra no intimo dos sêres mais inferiores, e que o illumina de uma luz sympathica. Sabe fazer ver tudo, sabe explicar todos os mysterios. É um genio que tem alguma cousa de propheta. Como é bom, divinamente bom, o contacto d'aquelle espirito, dá bondade e força. «Para elle não ha na natureza, nada que tenha vida, e não tenha alma! Da planta ao mollusco, e do mollusco ao homem tudo que vive ama, e tudo que ama tem direito ao nosso amor. Doce philosophia que nos ensina o segredo de todas as misericordias! Minha querida, ainda que para mim Michelet seja o melhor dos poetas, não entendo que das leituras de uma menina se deva proscrever implacavelmente a outra poesia. Quando digo isto refiro-me á poesia rimada, á que canta no ouvido, com uma musica que é muitas vezes traiçoeira. Procure no entanto que seja o mais tarde possivel, que essas vozes de sereia penetrem no ouvido de sua filha. Oh! é que é preciso muita força para resistir á influencia dissolvente que ellas teem em nós. Nunca perca de vista que a vida é um combate, um rude e terrivel combate, e elles os que cantam e os que choram em vez de inocularem no espirito a força de que este precisa, tornam-n'o debil, amollecem-n'o, em voluptuosidades enervantes. Ninguem tem medo de Lamartine. As mães dão-n'o a ler ás suas filhas, os noivos dão-n'o de presente ás suas noivas. Para todos elles é o mais puro dos poetas, um cysne que nunca maculou as suas pennas brancas no lodaçal das paixões insalubres! Não se illuda com este juizo que universalmente se formou a respeito de Lamartine e dos melancolicos da sua escola. Que maior perigo para uma alma juvenil do que a aspiração a um ideal impossivel? do que a sede de venturas irrealisaveis e do que o sonho de amores que não existem? E depois os poetas inconsolados e inconsolaveis não ensinam a luctar contra as magoas da vida. Ensinam a curvar a cabeça aos golpes da fatalidade, ensinam a chorar covardemente, a deliciar-se nas agonias, a saborear a doçura debilisadora das lagrimas! Saudemos os que combatem virilmente, os que vencem a desgraça, os que furtam a sua alma ás languidas tristezas da desesperança, saudemos os que são fortes, alegres e bons. É d'essas intelligencias eleitas, que sua filha deve sómente alimentar-se. Ella ha de querer ler romances. É natural. Os romances são a fantasia, e na vida das mulheres a fantasia tem um grande logar. É na escolha d'esses que precisa ter o maior cuidado. Proscreva sem dó, da bibliotheca de sua filha, as obras primas dos romancistas francezes. Balzac é um anatomista implacavel. Os seus romances matam a flôr da fé na alma dos innocentes. Georg Sand é um bello anjo revoltado. Tem o orgulho de Satanaz na imaginação de uma mulher apaixonada. Octave Feuillet tão fino, tão delicado, só deve ser lido depois dos trinta annos. Daudet um delicioso romancista, começou a escrever n'uma época doentia; ha n'elle um não sei que de morbido que entristece e que faz mal. Escusa de procurar minha amiga. Nós as mulheres para quem a vida já não tem segredos, adoramos esses escriptores, porque elles contam-nos o que já tinhamos adivinhado, relembrando-nos o que tinhamos sentido; descrevem-nos o que tinhamos a curiosidade de conhecer, mas as creanças que os lerem devem experimentar bem dolorosas surprezas. É a litteratura ingleza a mais rica, a mais fecunda no genero que procura. Walter Scott um verdadeiro poeta, reviverá para sua filha as scenas mais pittorescas de um passado aventuroso. Puros amores, enthusiasticos guerreiros, heroismos nacionaes, sentimentos caracteristicos de uma raça energica e arrojada, incidentes romanescos, mas de um romanesco são, tudo que tem o poder de enlevar e attrahir a imaginação colorida e ardente de uma mulher de poucos annos. Não ha creações femininas mais diliciosamente virginaes do que as do romancista escossez. As suas mulheres, como as mulheres de Sakspeare, como as mulheres de Dickens, são feitas de um raio de luar, de uma petala de rosa, de um canto de rouxinol. O crime nem de leve se approximou d'ellas; o vicio, de envergonhado, córa na sua presença; não conhecem as más tentações, as vigilias ardentes, os sonhos que perturbam e agitam a alma das outras mulheres. Que doces e queridos exemplos! que bellas e radiosas companheiras. As escriptoras inglezas seguiram a tendencia moralisadora da sua nação. Os livros de algumas d'ellas teem a graça d'um narrar discreto e _nuancé_. Não se queixe de que não póde dar á sua filha romances que a distraiam, sem a inquietarem. Dickens o mais energico e convencido dos moralistas, Mrs. Graswell, Broute, Georges Elliot e muitos mais que não tenho tempo de enumerar, ahi estão para desmentirem. Que sua filha entremeie a leitura de escriptores mais instructivos com esta outra leitura amena e agradavel, e verá como ella aprende a gozar da companhia dos bons livros, e a dispensar as futeis distracções mundanas que esterelisam o espirito, e o tornam mesquinho e baixo. Assim, absorvida pelo estudo bem dirigido, pelas elevadas distracções intellectuaes, assim educada, fortalecida, illucidada, verá como ella chega á edade propria de escolher o seu destino, possuindo um são criterio, uma penetração delicada, uma firmeza de principios que a ponha ao abrigo de qualquer tentação menos digna. Conhecendo o bem e o mal, e comprehendendo o que um e outro significam e valem, saberá o que não sabem os ignorantes, saberá escolher o caminho que tém de seguir se lhe confiarem a escolha. Parece-me que para chegar a este fim a leitura, o cuidadoso cultivo da intelligencia devem ser auxiliares preciosos, não acha?» Encontramos esta carta nos papeis velhos de uma excellente amiga nossa, e sem a corrigir vimos offerecel-a ás nossas leitoras. CAPITULO VII As dactas d'uma vida A ida para o collegio --Então achaste o que procuravas? --Achei. Eu tinha consultado a este respeito a baroneza de S., que tem, como sabes, immenso juizo. Indicou-me o collegio de M.^{me} Maubry. Uma franceza elegantissima. Parece-me que fiquei muito bem servida. --Tu é que foste ao collegio fallar com a directora? --Pois a quem havia eu de confiar similhante encargo? Fui, vi, julguei por meus proprios olhos, e fiquei satisfeita. --O collegio está bem situado? --Sim. Está n'um sitio muito central, muito concorrido, tudo muito á mão. Um constante vai-vem de carruagens, que nas horas de recreação ha de distrahir immenso as creanças. --E a respeito de jardim para ellas correrem? --Tem um jardim pequeno, mas muito bonito, muito bem tratado, á ingleza. Conhece-se á primeira vista a obediencia e a docilidade das discipulas, olhando para o jardim. Nem um vestigio de travessuras infantís. Uma limpeza ideal nas pequenas ruas arêadas. Fui lá na hora do recreio da tarde; andavam as meninas passeiando e conversando com uma gravidade! uma compostura!.. pareciam senhoras em miniatura!.. Achei engraçadissima aquella parodia de uma das nossas salas. --Ainda bem que me contas isso tudo, Mathilde. Ando com vontade de metter as minhas pequenas em um collegio, porque estão de uma maldade!.. Não pára nada com ellas! Importunam-me extraordinariamente. Tu sabes. Nem eu nem o pae gostamos de barulho, e dous diabretes em uma casa pequena, é de se morrer. Decido-me pelo teu collegio. Perguntaste o que lá ensinam. --Oh! a esse respeito podes estar descansadissima. Uma perfeita educação de senhora. M.^{me} Maubry é o typo da parisiense delicada e graciosa. Tem um cuidado inexcedivel com as maneiras das discipulas, com o seu modo de se apresentarem, com a sua _toilette_. Disse-me ella que tinha por systema, dar-lhes desde muito cedo o gosto de agradarem na sociedade, de excitarem em torno de si uma sensação agradavel... impregnal-as d'aquella graça especial que constitue a mulher do mundo!.. Approvo immenso aquella maneira superior de entender a vida social. --Mas não me fallaste ainda da instrucção que recebem as discipulas... --Oh! já se vê, correspondente ao resto. Linguas... nas linguas M.^{me} Maury tem um apuro especial. Piano, canto, um pouco de historia, de geographia, dança, desenho, varios bordados, etc., etc. Creio que é o sufficiente para brilhar entre as primeiras. M.^{me} Maubry segue o systema moderno no que elle tem de muito aproveitavel. Ministra a instrucção brincando por assim dizer. Ha concertos semanaes em que figuram as melhores discipulas; ha cursos de conversação; ha noutes em que se lê alto, se recita ou se representa. N'uma palavra, o fim d'ella é tornar deleitoso o estudo, e desenvolver a emulação entre as discipulas. Como verdadeira franceza, percebeu que a vaidade é o motor principal da mulher e... --Minha querida, interrompeu n'este momento o marido da oradora; faze o que quizeres, visto que tive a imprudencia de te jurar que educarias tua filha conforme te aprouvesse e sem que eu nunca entrasse n'isso; mas o que desde já te affirmo é que a tua M.^{me} Maubry é uma corruptora inconsciente da mocidade, e que a tua filha nunca passará de uma boneca! * * * * * _Durante as ferias_ --Mamã, eu antes quero o laço côr de rosa... --Pois faz a Lili muito mal. O azul fica-lhe muito melhor. Olha que no _baile infantil_ hão de estar muitas companheiras tuas do collegio. Que alegria para ellas se te virem feia! --Alegria, mamã? Alegria porque? As meninas do meu collegio são todas minhas amigas, hão de gostar muito de me ver bonita e bem vestida. --Assim será, minha filha, mas as _mamãs_ d'ellas é que com certeza hão de ter inveja de mim se tu fores a mais linda, a mais bem vestida, a que dançar melhor! Chega-te aqui Lili! Deixa-me annellar os teus cabellos. Assim é que ficas bonita, ouviste? Levanta os teus olhos para mim, são tão bonitos os teus olhos!.. --A mamã quer que eu levante os olhos? M.^{me} Maubry ralha commigo por eu os levantar de mais. Diz ella que uma menina deve andar sempre de olhos baixos, deve córar de vez em quando... nunca se deve rir com vontade. --M.^{me} Maubry diz-te isso?.. --Diz, mamã, e que assim é que as senhoras agradam e se tornam amaveis. * * * * * --Então, minha Lili, tu e a mamã divertiram-se muito no tal _baile infantil_? --Ah! papá, não imagina! Dancei muito, e todos me disseram que eu era a menina mais bonita que lá estava. --É verdade! a Lili estava encantadora. Não imaginas como a elogiaram! Todas me perguntaram onde ella aprendeu a dançar. --E a mim tambem, mamã. As outras meninas perguntaram-me onde era o meu collegio. --Vês! dizias tu, meu maridinho ralhador, que M.^{me} Maubry era uma professora má. Vê o triumpho que teve a nossa filha no primeiro dia em que appareceu em publico! Lili, corada de alegria, foi dar uma pirueta defronte do espelho. _A primeira communhão_ Acabou agora mesmo de vestir-se. Branca, branca que parece uma pomba. O véu de gaze cahe em prégas soltas e ondeantes por sobre aquelle corpo esbelto e franzino, de 14 annos; a corôa de rozas emmoldura-lhe deliciosamente a fronte eburnea e levemente sombreada por uns toques de infantil melancolia. Acha-se linda, e sente que todos que a virem hão de achal-a assim! Dentro da sua alma resôa como que um cantico de orgulho! Vae ser noiva do Senhor, vae receber pela primeira vez no puro tabernaculo do seu coração a visita mysteriosa do Esposo! O seu director espiritual, um moço sacerdote francez, fino, louro, delicado, com uma voz branda e persuasiva, com umas mãos brancas, de cardeal, com uns gestos lentos e graves de irreprehensivel bom gosto, acabou hontem de a conduzir até aos umbraes d'essa nova vida, em que ella vae penetrar já consciente do que é e do que vale. Que doçura mystica tinham as palavras d'aquelle padre! Eram ternas, unctuosas, de uma graça desconhecida! Até alli para ella a religião fôra um não sei quê de vago, triste e indefinivel, mais para assombro e terror do que para delicioso extasi... O Christo macilento e ensanguentado, com a fronte coroada de espinhos, e o corpo cravejado de prégos, dera-lhe a idéa de uma angustia desoladora e desesperada, que ás vezes enchera de lagrimas a sua pequenina alma de dez annos. Porque seria que, á voz do moço confessor, o Martyr do Calvario como que se tinha transfigurado aos olhos d'ella? O padre pintara-o bello, radiante de mocidade, prodigo de ineffaveis esperanças, chamando a si as almas virginaes, e promettendo-lhe a eternidade no amor, a radiosa alegria das nupcias celestiaes. Era uma nova musica, a que elle fizera vibrar aos ouvidos da gentil neophyta, que sentia, sem saber como, inundal-a uma alegria anciosa, um pungitivo arrebatamento, inteiramente desconhecido ao seu passado! E olhava para o espelho, e sentia-se bella, moça, radiosa de vida e de esperanças, com um profano desejo de alegrias novas, de triumphos ignorados a alvoroçar-lhe o seio juvenil. E agitando em torno de si as prégas fluctuantes do véo de noiva do Christo, baixou os olhos languidos sobre o livro das orações e leu em voz baixa e palpitante as palavras sagradas, na lingua melodiosa em que se habituara, por um requinte de aristocracia, a fallar com Deus: «_Oh! venez le bien-aimé de mon coeur! venez, Agneau de Dieu, chair adorable, venez servir de nourriture á mon âme! Que je te voie, ô le Dieu de mon coeur, ma joie, mes délices, mon amour, mon tout!_ «_Qui me donnera des ailes pour voler vers toi! Mon âme éloigneé de toi, impatiente d'être remplie de toi, languit, te souhaite avec ardeur et soupire après toi, ô mon Dieu, ô mon unique bien, ma consolation! Embrase moi, mon Dieu, brule, consume mon coeur de ton amour... Mon bien-aimé est à moi_» O que, traduzido na nossa lingua, decididamente reputada impropria para fallar com a Divindade, significa pouco mais ou menos a seguinte edificante declaração de amor: «Vem, amado da minh'alma! cordeiro de Deus! carne que eu adoro! vem servir-me de alimento ao coração! Quero ver-te, oh Deus amado, minha alegria, minha delicia, meu amor, meu tudo! «Quem me dera azas com que voasse para ti! «Minh'alma afastada da tua presença almeja por se impregnar de ti, enlanguece, deseja-te com ardor, e suspira por ti, oh meu Deus, oh meu unico bem, minha consolação! «Abraza-me oh Deus! queima, consome o meu coração com as chammas do teu amor!.. «És meu, oh bem amado, pertences-me!» _Na volta do baile_ Lili vem extraordinariamente pallida e pensativa! As brancuras opalisadas do alvorecer penetram atravez dos vidros da carruagem, e como que cingem de uma graça ideal os contornos delicados do seu rosto, que o capuz de baile emmoldura em alvas rendas. Dançou até ás seis da manhã; vem cansada, abatida, toda ennovellada nos fôfos coxins do seu _coupé_, mas vem pensando muito. É que o viu no baile, e lhe disseram que _elle_ seria o seu marido. O pae antes d'ella partir de casa--vestida de tulle e rendas, coroada de myosotis, e com um collar de perolas lacteas e iriadas, a affagar voluptuosamente a transparencia rosea do seu collo--o pae, antes d'ella partir, dissera-lhe gravemente, mas com uma gravidade em que havia muito affecto: --_Elle_ é moço, é nobre, é herdeiro de uma casa riquissima. A familia deseja este enlace. Não te quero forçar, Lili; mas, se gostares d'elle, approvarei com enthusiasmo essa affeição! --É moço e nobre, pensára Lili comsigo. Hei de amal-o por força. Terá maneiras distinctas, um porte correcto, um sorriso levemente desdenhoso. E dirá _amo-te_, com uma graça fina e superior! Depois, á proporção que o baile se ia approximando, com o esplendor prestigioso dos seus lustres, com o capitoso aroma das suas montanhas de flores, com as prismaticas scintillações dos seus diamantes, com o ruge-ruge que fazem ouvir as serpentes e as sedas, Lili pensava que era positivamente uma cousa agradabilissima ser rica! --Irei muitas vezes ao baile, ouvirei em torno de mim o murmurio discreto de admiração que enlouquece as mulheres, terei vestidos de velludo negro, com diademas de brilhantes a morderem o ouro fulvo dos meus cabellos! Invejar-me-hão, e quando eu sahir acclamada e triumphante das salas em que fôr rainha, deixarei no meu caminho um rasto de admirações apaixonadas! Vira-o no baile, fallara com elle, tinham dançado juntos. Percebera que o noivo que lhe destinavam era um pobre rapaz, ignorante e enfatuado, muito feliz de ser nobre, de ser rico, e de haver mulheres que em torno d'elle cubiçassem o seu titulo futuro e a sua riqueza presente. Apesar d'isso, Lili estava contente. Era ella que _elle_ preferira, e visto que _elle_ era rico, teria carruagens, daria bailes e festas, teria um modo original, severo e elegante de vestir-se, as suas amigas imitariam a mobilia das suas salas, e o feitio dos seus chapéus, seria uma das raras mulheres que sabem gozar, em toda a sua plenitude, a vida social no que ella tem de fastoso e brilhante. Que importa que _elle_ não saiba dizer _amo-te_ com a voz que Lili tinha sonhado! A troco do seu ouro, ouviria dos labios d'ella sem hesitação e sem lagrimas as palavras mysteriosas que a mulher pura só deve dizer ao eleito do seu coração, as palavras magicas: _Sou para sempre tua!_ _Dez annos depois_ Já lhe não chamam Lili. É condessa. Tem um palacio magestoso e severo, povoado com obras primas de todas as artes e de todas as civilisações. As festas que ella dá são citadas pela sua pompa severa e artistica, pela sua graça principesca, pelos requintes de bom gosto que as singularisam entre todas. Tem um povo de criados correctamente respeitosos, que obedecem a cada um dos seus accenos. As suas carruagens quando passam ao trote largo dos finos cavallos inglezes excitam a admiração dos entendidos e a inveja dos profanos. A condessa nunca está só. Hoje uma recepção a que não póde faltar, ámanhã um baile, no outro dia um jantar diplomatico, e as mil praticas da sua devoção aristocratica, e as pequenas _soirées_ intimas que dá, e as festas a que preside em sua casa, e que o seu gosto escrupuloso e cultivado dirige desde os minimos accessorios. Tudo isto lhe prende o tempo, a absorve e a distrae. Tem duas filhas... que uma governante ingleza educa e acompanha. Tem um filho... que está no collegio. Tem marido... que anda sempre por fóra! Será feliz? Quem ha que o possa dizer? Na sua pallida fronte marmorea não se reflecte senão uma sombra. É a mulher do mundo na sua accepção mais genuina. Viveu e vive da monstruosa vaidade que desde a infancia lhe deram por exclusivo alimento. Sabe que é bella, invejada, cubiçada, admirada, odiada até! Isto basta-lhe, isso a sacia e satisfaz! _Na velhice_ Está sentada ao fogão na vasta sala opulenta povoada como outr'ora por tudo que ha mais bello e mais luxuoso. Um grande candieiro espalha, atravez do seu globo fosco, uma luz discreta e tranquilla sobre a mesa oval cheia de bagatellas preciosas. A condessa está só, e os seus olhos baços e amortecidos seguem as chammazinhas iriadas do fogão com uma insistencia pensativa. Com a formosura perdeu a força dominadora que a tornava poderosa e querida. Os amigos da hora dos triumphos povoam agora as salas illuminadas e festivas onde suas filhas já casadas segundo as conveniencias da alta posição que occupavam, continuam a vida de que sua mãe lhes déra o exemplo tentador. O seu confessor começa a sentir-se cansado do escrupulo esmiuçador com que a condessa aproveita os longos ocios da solidão para esgravatar piedosamente nos mais escuros escaninhos da consciencia. --Minha senhora, diz-lhe o bom do abbade, que já não era o moço almiscarado dos dias da mocidade, e que ganhára em abdomen o que perdera em mystica elegancia; minha senhora, não nos percamos em funestos exageros. Deus não quer a morte do peccador, snr.^a condessa. Nem essa distracção ultima lhe ficára. As praticas adocicadas do confessionario, aquelles extasis a um tempo deliciosos e pungitivos, as confidencias segredadas a meia voz, a analyse fina e delicada dos peccados mais subtis, tudo isso lhe falta para suprema distracção. No fim de contas a sua vida não fôra mais do que um sonho frustrado, a carreira impetuosa e desvairada atrás de uma sombra que fugia sempre! Não tivera as livres e salutares expansões da alegria infantil, não tivera os sonhos cariciosos e ideaes da adolescencia, não fôra filha, nem amante, nem esposa, nem mãe! Agora já não saberia ao menos ser avó! E pelos recantos sombrios do aposento enorme, a condessa julgou ver deslisar uma pequenina figura de cabeça annellada e loura, uma figurinha que dava pelo nome de Lili! Era o phantasma saudoso de sua infancia que passara! --Minhas filhas--murmurou baixinho a altiva senhora,--perdoae-me pelo amor de Deus, assim como n'este momento eu perdôo á minha mãe! CAPITULO VIII Casamentos pobres e casamentos ricos Uma das accusações mais frequentes que hoje se dirigem aos homens é que elles são egoistas, interesseiros, que introduzem o calculo e as finanças no que devia ser um impulso espontaneo do coração, que confundem um pouco nos seus sonhos do futuro o mercantilismo e o amor. Eu, que não gosto de julgar sem ter conhecido ao menos as causas que produzem um certo e determinado effeito, lembrei-me de observar de perto, nos costumes e praticas de todos os dias, se eram realmente bem cabidas as censuras frisantes que por ahi ouço continuamente á porção mais _feia_ da humanidade. _Uma cabana e o teu coração!_ eis o que antigamente soluçavam aos pés das suas deusas de _biscuit_ os trovadores de algodão em rama. Um _rez de chaussée muito commodo e quatro contos de réis de rendimento!_ eis o minimo a que hoje aspiram nas suas suspirosas alegrias os pretendentes mais positivistas da nossa quadra utilitaria e mercantil. Mudou a tal ponto o coração humano, que já os sinceros e impetuosos sentimentos não possam acclimatar-se n'elle? Isto caminha n'uma tal e tão rapida decadencia, que tudo que era bom, honesto, sincero no amor, tenha fugido assustado para outras regiões ainda inexploradas? Sinceramente não o acreditamos. Em primeiro logar, em todas as épocas e em todos os paizes, o desinteresse absoluto, o completo desprendimento dos bens da terra, foi cousa muito rara, e muito para notar-se com espanto. Que o digam os claustros sem conto, povoados de pallidas monjas juvenis, que o mundo expulsava do seu seio, por não têr que lhes dar nenhuma das alegrias naturaes que são o apanagio mais caro da mulher! Se alguma differença temos que apontar são as conquistas alcançadas pela familia, nos terrenos que até aqui usurpara o egoismo e a ambição do homem. Mas, admittindo mesmo que se accentue na nossa época, com uma certa força o interesse pessoal, que é um dos elementos mais esterilisadores que póde existir na sociedade, não demos só ao homem a culpa de essa tendencia nefasta. É incontestavel que á proporção que as civilisações se desenvolvem, crescem as necessidades, cresce o amor do luxo, sem que para todos cresçam proporcionalmente os meios de satisfazer essas aspirações fataes. Não é portanto espantoso, que o homem, ainda o mais dedicado e crente, antes de tomar aos hombros o pesadissimo encargo da familia, meça as suas forças, calcule com precisão mathematica os meios de que dispõe para cumprir as obrigações que acceita, e muitas vezes diante da grande desproporção que encontra entre aquelles e estas, suffoque a voz do sentimento e siga os austeros e aridos conselhos da razão! É que a familia, tal como está constituida na sua generalidade, estabelece um grandissimo desequilibrio entre os deveres do homem e os deveres da mulher. Se a esta, em face da consciencia e da razão, cabe a tarefa mais espinhosa, a missão mais elevada e mais complexa, nem por isso, logo que ella fecha os ouvidos a esta voz superior que tão poucas escutam e que tão poucas entendem, se acha realmente forçada a outra cousa que não seja consumir sem produzir, receber sem dar, acceitar protecção, amparo, ajuda, sem pagar estes beneficios com beneficios equivalentes. Queixam-se do homem porque elle conta com o dote da noiva, e este entra com bastante peso na balança dos seus affectos. Que dizem então da mulher que casa para ser livre, para ser independente, para ter diamantes e rendas preciosas, para frequentar os bailes, os theatros, os passeios, para ser uma taboleta ambulante do luxo real ou do luxo hypothetico do _ménage_? Imagine-se, por instantes um rapaz moço, intelligente, cheio de aspirações sãs, de boa vontade e de energia, dotado de ricas faculdades intellectuaes, capaz de conquistar á força de perseverança, de trabalho e de privações, um lugar distincto na sciencia ou na industria, na politica ou no magisterio. Não tem dinheiro, ou tem apenas uma pequena fortuna que o pae lhe legou, juntamente com um nome honrado. Sente a natural aspiração de completar a sua existencia, unindo-se á mulher que mais ou menos lhe povoou os sonhos de adolescente. Não tem tempo para escolher; absorve-o o trabalho a que forçosamente tem de consagrar quasi todas as suas horas. Não tem um conhecimento profundo da natureza feminina. Os nossos costumes com as suas reservas hypocritas, com as suas precauções restrictas, que dão idéa pouco lisongeira do pudor e da castidade das mulheres portuguezas, oppoem-se a que o homem tenha d'ellas um conhecimento que não seja frivolo, ridiculo, superficial--o conhecimento que se adquire em uma sala entre duas quadrilhas sensaboronas, ou n'um camarote durantre um entre-acto cheio de tedio. Não póde pôr-se pelo mundo á busca de uma excepção: o molde das nossas meninas da sociedade varia muito pouco. Todas sabem bordar a matiz, tocar a _Somnambula_ e o _Trovador_ ao piano, fazer _housses_ de crochet, papaguear em duas ou tres linguas puerilidades comicas, dançar os _Lanceiros_ e criticar as _amigas intimas_. N'estas circumstancias o que póde fazer o pobre moço? Ou resistir ás solicitações impetuosas da mocidade, á necessidade instinctiva que sente do conchêgo de familia, d'aquelle _sweet home_ que tanto imperio tem no coração de todo o homem de pensamento e de trabalho; ou tem de contentar-se com a escolha feita á pressa de uma d'essas rachiticas flôres de salão. É desinteressado no sentido mais amplo da palavra, tem aquellas santas utopias que são a suprema riqueza dos vinte annos; na sua escolha impera tudo menos o calculo e a arithmetica. Prefere, pois, uma noiva pobre. Applaudem-lhe a generosa imprevidencia; gabam-lhe os sentimentos honestos e cavalleirosos; envolve-o um certo prestigio durante uns poucos de mezes. Os mezes da _lua de mel_. --Portou-se admiravelmente!--exclamam as _mamãs_, contemplando com ar piedoso as filhas sem dote, e envolvendo na sua furia rancorosa os _dandys_ que andam á pesca de noivas ricas, pelas aguas turvas da nossa sociedade. Resultado pratico de tudo isto: seis mezes depois de casado, o nosso pobre heroe vê-se a braços com todos os encargos de um _ménage_ a que falta o conchêgo e a alegria. Como não teve tempo de fazer-se amado, como o amor é no fim de contas um genero carissimo que o coração das meninas de hoje prodigalisa muito pouco, encontra em casa ao voltar das luctas quotidianas, a que se arrojou com novos alentos e nova fé, um acolhimento frio, um rosto desconsolado, uma mulher que finge resignação e que só tem despeito, porque o casamento lhe não deu nenhumas das frivolas vantagens que lhe promettera. Tinha sonhado com _toilettes_ elegantes, uma _robe de chambre_ bordada, uma touca de manhã como as que desenha a phantasia pittoresca dos caixeiros da _Mode Illustrée_, queria uma casa de jantar elegante com mobilia _en vieux chêne_, aparadores carregados de finas porcellanas, um criado de casaca preta e modos de embaixador, passando discretamente, sem fazer barulho, por cima do _parquet_ suisso, cuidadosamente encerrado. Gostava de ter um _boudoir_ todo de seda côr de perola onde ella podesse ler, preguiçosamente deitada no no seu pequeno _fauteuil_ muito flascido, diante de um _guéridon_ cheio de violetas e de _gardenias_, os ultimos romances, as revistas estrangeiras, as criticas musicaes dos mestres mais famosos. Sempre tivera a esperança de fugir pelo casamento á pressão sordida da miseria paterna. Detestava a vida que tinha levado em solteira, fazendo ella propria os vestidos para ir ao baile, cerzindo redes nas botinas de setim branco, com os dedos picados, um roupão de chita amarrotado, e o coração cheio de rancor e inveja ás que tinham o luxo e o conforto que ella não tinha. Aquelle homem apparecera-lhe. Era pobre, é verdade, mas disseram-lhe que _tinha talento_, que tinha _ou que ia ter uma posição_; acceitara-o por cansaço, por desalento, porque se impacientava já de esperar mais tempo. Levara comsigo os mesmos sonhos que a tinham perseguido, imaginava casas imprevistas, edificava hypotheses extravagantes; á força de ambicionar a riqueza, acabava por se convencer que havia de ser rica. E agora! Tudo que a cercava era tão mediocre! Se tivesse pachorra, se tivesse boa vontade, podia enfeitar com plantas o seu pequenino quarto de trabalho, pôr ao menos umas cortinas de cassa branca na janella. Não tendo a riqueza, podia ter o aceio; não tendo o luxo, podia ter a graça. Os livros bem dispostos sobre a mesa, cujo tapete ella propria houvesse feito ao serão, uma jarra de louça com um ramo de madresilva ou de rosas de maio, as cadeiras agrupadas com um certo ar de intimidade e de alegria, um aspecto de pobreza satisfeita que faz tão bem á alma! Vestiria um simples roupão de fazenda clara, sem enfeites, mas de um feitio elegante e gracioso, os cabellos bem penteados, uma flôr presa nas tranças. Iria ella mesma á cosinha arranjar uns pratinhos de que elle gostasse, o pobre trabalhador que á noute voltaria cansado, mas cheio de fé robusta e de profundas crenças, porque o amor o amparava e lhe sorria! Dentro de uma gaiola, na janella da casa de jantar, haveria um canario muito alegre, não tanto ainda assim como ella, a pequenina _ménagere_ muito atarefada, muito contente, espalhando na sua casa modesta e pobre um perfume de virtude, de castidade, de ternura animadora e sã! Mas quem é que a tinha educado para cumprir este programma tão simples e tão difficil? Quem lhe tinha communicado com o leite a noção d'estes graves e honestos deveres? A mãe que a passeara de baile em baile, á cata de um marido? Os livros que ella lêra e que fallavam de duetos apaixonados entre um bardo _pelintra_ e uma menina romantica com olheiras e muito pó de arroz? O marido ao principio quer luctar; procura educal-a elle, já que a familia a não educou; vem de fóra muitas vezes preoccupado com os seus estudos, com um problema scientifico que deseja resolver, com uma especulação industrial que talvez lhe dê a paz e a aurea mediocridade a que tanto aspira, por amor da sua querida mulhersinha... não importa! Sacode como um peso importuno todos os pensamentos que o absorviam, senta-se ao pé d'ella, porque a vê triste, enfastiada, com um certo desleixo no aspecto que lhe aperta o coração, procura não reparar, para a casa sem arranjo a que falta aquella poesia do lar que tanto o captivou nas suas scismas de rapaz; conversa, afaga-a, desenrola diante do olhar d'ella vago e distrahido um horisonte de futuras alegrias. Um dia, porém, descobre com magoa que ninguem jámais poderá sondar nem comprehender, que tudo que elle esperou um dia assenta n'uma base chimerica; que essa mulher, a quem associou a sua vida, em vez de ser-lhe amparo, guia, consolação, conselho, em vez de luctar ao lado d'elle para conquistarem ambos a ventura dos filhos, o dôce e tranquillo socego da velhice, vive toda absorta n'um sonho de imaginarias riquezas; que empallidece de raiva de vêr as outras ricas emquanto ella é pobre; que amaldiçôa todos os dias o alimento que elle lhe ganha laboriosamente, porque lhe não é servido em pratos do Japão; que olha com desdem para os modestos presentes que elle á custa de longas economias consegue comprar-lhe; que detesta emfim tudo que elle ama; que tem o tedio invencivel de tudo que elle julgou, por muito tempo, o resumo de todas as suas alegrias! N'essa hora dolorosa e que tem de soar fatalmente na vida de quasi todos estes obscuros luctadores, alguns, os mais fracos, amaldiçoam tambem a sua austera e honrada pobreza, e tractam de fugir-lhe atirando-se a todos os turvos mares da especulação e do mercantilismo! Outros--os fortes--afastam-se com desdem de aquella que, sem talvez saber o que fazia, tentava arrastal-os por um declive funesto, e isolam-se n'um mundo onde não querem a companhia de ninguem. Ha tambem os que, despertando do sonho em que andaram embebidos, descrêem de tudo em que um dia acreditaram e cedem á convicção fatal de que no mundo não ha cousa alguma que seja digna, desinteressada e sem liga de calculos vis. A verdade é que mais ou menos todos se arrependem e todos o deixam ver! Este exemplo é que vae a pouco e pouco destruindo no coração dos moços a idéa de que a familia, em vez de roubar o alento e a força ao homem, os robustece e lhes dá mais solidos alicerces. No dia em que as mulheres tiverem coragem para supportarem com alegria e com intrepidez a pobreza que tanto as assusta, verão como a base do casamento deixa de ser o calculo que hoje o macula. Se o homem, que é por natureza egoista, comprehender que unindo a sua vida á vida d'uma mulher dedicada, adquire novas forças para a lucta em que anda empenhado, é incontestavel que deixará de considerar como unico elemento de prosperidade futura o dote da noiva que houver escolhido. Não basta ter coragem e ter intrepidez para supportar as privações da pobreza; é preciso antes de tudo compenetrar-se bem da idéa de que a pobreza tem grandes alegrias defezas aos ricos; que a modestia dos meios não obsta a que possamos enflorar a vida dos que amamos, com aquelle dôce e poetico conchego, que é para a alma um ninho mais tepido e mais macio, do que as pompas magestosas que envolvem theatralmente a vida dos millionarios. CAPITULO IX A uma noiva Minha querida Maria: A tua carta conta-me as tuas primeiras e adoraveis alegrias de noiva. Estás radiante! Subiste ao _setimo céo_ da ventura humana e crês que não é possivel cahir de lá. Fallas-me do teu véo branco, da tua corôa, das palavras enternecidas que _elle_ te disse, das opulencias do teu enxoval, do teu quarto de cama á Pompadour, do amor que tens ao teu _maridinho_, do futuro que sonhas radioso, eu sei; fallas-me de tudo, filha, e eu li esse poema gentil da tua mocidade com um verdadeiro enternecimento bem sincero. Fallas-me de tudo, digo eu; engano-me. Não me fallaste de uma cousa importantissima, filha. Não me fallaste da panella. Sou eu, pois, que vou fallar-te, com a mais profana das irreverencias, d'este assumpto que é um dos mais graves n'um _ménage_ que principia. Credo! exclamas tu com aquella _moue_ engraçadissima, que eu te conheço do collegio, e que sempre teve a habilidade de me fazer rir immenso. --«Pois eu sei lá sequer se ha em minha casa uma panella! Pois eu hei de misturar as confidencias extaticas da minha mysteriosa e ideal felicidade com a relação das minhas cassarolas! Que tem este amor que me enleva e me arrebata, com a comida que se manipula na cosinha! Deixa que eu te descreva as rendas e os setins com que me enfeito para lhe agradar a _elle_; mas, por Deus, pelo amor da arte, da poesia, da delicadeza feminil, não queiras que eu ajunte a essas descripções uma nova receita de refugado.» Ouve-me, filha; ninguem attende por ahi estas verdades, que são elementares, tudo quanto ha de mais elementar. Sabes onde se fabríca e se consolída a felicidade de um _ménage_? Na cosinha. Sabes de onde sahe muitas vezes a ruina de uma casa? Da cosinha. Sabes qual é a origem de tantas doenças que por ahi nos desconsolam com os seus aspectos repulsivos? A cosinha. E tu entrando na vida conjugal, acceitando o _encargo_ d'almas, porque a dona da casa acceita-o, recebendo nas tuas pequenas mãos delicadas a responsabilidade complexa de mãe de familia, tu pobre querida ignorante, ousas dizer desdenhosamente que nem sabes sequer se em tua casa ha cosinha. Pois sabe. Estás habituada a evocar com a aerea ligeireza dos teus longos dedos brancos as notas immortaes em que Beethoven, Rossini, Mayerbeer nos legaram as mysteriosas riquezas da sua alma? Gostas dos delicados lavores inventados, pela paciencia feminal, dos bordados custosos, das matizadas sedas, de todo esse conjunto de graciosas futilidades em que nós dispendemos horas e horas da nossa vida? Pois, minha querida, logo que a mulher penetra no limiar da sua casa de esposa tem de antepôr tudo que é util a tudo que é agradavel, tem de adoptar como suprema divisa da sua vida a palavra--sacrificio! E não creias que isto seja uma dolorosa e inutil mutilação do teu ser. Quanto mais te sacrificares, crê que maior e que melhor te has de sentir. Será como um progressivo ascender a uma esphera superior. Cá em baixo ficam as pequenas vaidades, as frioleiras inuteis, as puerilidades infantis, os despeitos raivosos, toda a expressão mesquinha e imperfeita do teu organismo; lá em cima está a larga tranquillidade que ha de envolver-te como um delicioso banho tepido, a consciencia plena de haveres attingido o fim para que foste creada, a certeza divina da felicidade que communicas em torno de ti, a satisfação do dever preenchido, tudo emfim que nos eleva, que nos depura, que nos faz comprehender o motivo para que viemos a este mundo--aqui para nós--eminentemente estupido! Não te deslumbrem, pois, as primeiras alegrias da tua _lua de mel_. Entre parenthesis, é esta uma phrase que eu abomino, pela simples razão de a achar falsa, e causadora de falsas e funestas interpretações da vida conjugal. A _lua de mel_ é uma mentira; não existe, ou, se existe, não deve de modo nenhum existir, o que vem a dar na mesma. Esse periodo officialmente consagrado, que se funda em toda a especie de impostura, deve ser abolido sem appellação por todos os pares honestos que se estimem e prezem. Imagine-se por um instante que os novos conjuges assumiram a liberdade de formularem em palavras tudo que tivessem no pensamento, o que diziam um para o outro: «Já conheço todos os teus defeitos, já sei que hei de vir a dar-me muito mal comtigo: achei-te ainda agora profundamente ridiculo n'aquella phrase que me disseste; mas como estamos na _lua de mel_, deixa-me que te beije com transporte, que te recite ao piano o idyllio apaixonado da minha ventura, que olhe para ti com a sentimentalidade piégas com que os caixeiros romanticos olham para as namoradas, que minta emfim conscienciosamente, como compete a quem se acha de posse de uma posição official e a quem não póde renunciar sem desdouro!» Não seria profundamente ridiculo este dialogo? Pois sabe, minha querida, que em cada cem casaes, oitenta podiam em boa consciencia traval-o entre si. Muitas vezes a _lua de mel_ não passa de uma dolorosa iniciação. Mais tarde as circumstancias modificam-se, o que nos parecia prenuncio de desgraças transforma-se em tranquilla felicidade; os caracteres, que no fundo se repelliam, embora na apparencia se afagassem, adaptam-se e identificam-se em resultado da ultima convivencia; a paz domestica conquista-se, com esforços meritorios de parte a parte; o que ha pouco era mentira, torna-se uma verdade luminosa e pura. E o que prova tudo isto, minha amiga? É que o tempo mais difficil da nossa vida de casadas é aquelle que os tolos e os impostores chamam, seguindo a estupida rotina de seculos, o mais delicioso! Sou adoravelmente feliz, porque ainda não conheço bem meu marido, nem meu marido me conhece a mim... Palavra, que acho isto uma esplendida interpretação da vida domestica!.. Commentem bem esta phrase implicitamente incluida em todos os louvores que se tecem á celebre _lua de mel_, e ahi téem os divorcios, os adulterios, os intimos dramas conjugaes, as luctas atrozes em que dous entes se dilaceram até que n'elles morra a alma e o corpo! Mas, minha Maria, que longe me arrastou esta digressão apaixonada. Perdoa-me. Se bem me lembro, estavamos ambas muito mais _terra a terra_. Eu tinha conseguido fazer-te largar o teu piano de Erard, as tuas aquarellas e os teus bordados, e tinha-te arrastado até á cosinha de tua casa, cuja existencia tu teimavas em ignorar. Talvez tu penses, minha pobre amiga, que esse _senhor_, discreto, ameno, gracioso, condescente, que acha graça a tudo que tu dizes, que concorda com todas as tuas opiniões, que ás vezes se ajoelha submissamente aos teus pés, e te diz baixinho--adoro-te!--com uma expressão de _tenor_ em disponibilidade, que se delicia com as tuas _toilettes_, que dá muita attenção á variedade artistica do teu penteado, que é, emfim, _todo teu_ no sentido falso d'esta palavra, pensa tudo quanto diz, e se conservará por muito tempo n'esse adoravel e massador diapasão?.. Enganas-te. Elle enfastia-se soberanamente do seu papel, estuda-te com ar sorrateiro, e pede a Deus que acabe o periodo em que tem de renunciar á sua individualidade, para se conformar com os usos e costumes da sociedade elegante, de que faz ou quer fazer parte. Acabado que seja esse periodo que tem limites determinados, dize-me tu qual o meio de que tencionas usar para o prenderes junto de ti, para que elle comece então a ser sincera e dignamente _o teu marido_, isto é, o teu melhor e mais fiel amigo, para que a vossa vida commum assente em bases solidas e perduraveis. Julgas que basta para isso vestires o teu mais bonito vestido, penteares o teu bello cabello louro do modo mais excentrico e original, dizeres com a tua voz sonora e grave os paradoxos mais scintillantes, mostrares-lhe as riquezas com que uma esmerada educação povoou o teu espirito? Innocente creatura! não conheces o que é o _homem_, o animal mais prosaico e positivo da creação! O que elle quer depois das suas luctas com os outros homens, das farças que é obrigado a representar para o publico, dos combates em que é alternativamente vencido e vencedor, o que elle quer é descanso, conchego, esquecimento de todos os artificios que vão lá por fóra, e sobretudo (não te horrorises, minha sonhadora!) e sobretudo commodidades physicas. Dá-lhe a melhor das poltronas, o mais confortavel dos gabinetes, o mais suave e caricioso dos sorrisos, e, principalmente, dá-lhe _um bom jantar_. Cheguei emfim, ao ponto a que tendia desde o principio d'esta carta. Confesso que me custou! Isto de mulheres!.. Tu provavelmente imaginas que um bom jantar é cousa que pertence exclusivamente aos dominios do bom cosinheiro. Como te enganas! Em primeiro logar, não ha nada peior que um _bom_ cosinheiro. Um _bom_ cosinheiro é a ruina de uma casa, é um envenenador de barrete branco, é um assassino de abdomen tranquillisador e hypocrita. Um _bom_ cosinheiro começa por nos dar cabo da bolsa, o que é terrivel; acaba por nos dar cabo do estomago, o que é simplesmente irremediavel. Todos os _restaurants_ luxuosos possuem a prenda de um _bom_ cosinheiro. Põe um pobre homem a jantar durante dous annos a fio n'um d'esses _restaurants_ elegantes, e depois conta-me por miudos em que estado miseravel vaes dar com elle. Destruida esta primeira idéa, deixa-me ainda dizer-te uma cousa que tu não sabes. A mesa não tem tal a importancia insignificante que tu embirras em querer dar-lhe. Sendo o estomago um dos orgãos principaes da humanidade, é absurdo desdenhar d'esse modo o que tem com tão elle estreitas relações. Se eu fosse pedante era capaz até de te provar que o livro que descrevesse o que o homem tem comido nas épocas primitivas e nas quadras de civilisação refinada e perfeita, nos periodos de barbaria e nos tempos de desenvolvimento e de progresso, seria o livro mais completo da historia universal da humanidade. O alimento faz o homem. Os antigos scandinavos, _os reis do mar_, os impetuosos e bravios caçadores de _uroch_, brancos, athleticos, sanguinarios, de olhos azues metallicos e faiscantes; alimentavam-se nos seus festins cyclopicos da carne quasi crua dos animaes que matavam. Nero gostava de saborear as contorsões de agonia das _murêas_ que creava nos seus viveiros, e que alimentava muitas vezes com o corpo palpitante dos escravos, e nas festas voluptuosas e crueis que dava na sua _Casa de ouro_, emquanto dançavam as bailarinas gaditanas e egypcias, os convivas, coroados de rosas, esperavam que o peixe tivesse soltado o ultimo arranco de vida para se servirem do saboroso acepipe. Não vês atravez d'estes dous exemplos uma raça de instinctos barbaros, e uma civilisação pavorosa e apodrecida? O homem moderno enfraquecido pela degeneração progressiva de umas poucas de gerações, tendo de dispender uma enorme porção de energia e de força nas luctas incessantes a que o obrigam as infernaes exigencias da nossa época, precisa, por assim dizer, de ser reconstituido dia a dia. É n'isto que as mulheres não pensam bastante. Depois em um _ménage_, sobretudo de medianos haveres, a mesa relaciona-se com tres questões de uma alta importancia. Primeiro, a questão da saude, que sobreleva a todas. Segundo, a questão da economia de que depende a paz, a alegria, o socego, a elegancia modesta da vida intima; o bom humor do marido, a _toilette_ fresca e garrida da esposa, a alvura da toalha pezada de linho adamascado, tudo que emfim constitue o conforto e a alegria domestica. Terceiro, a fidelidade do marido ás modestas mas saborosas iguarias da sua mesa de familia. O jantar tem de ser bem feito, economico e salubre. Eis o grande problema. Para o resolveres não te fies n'uma cosinheira muito estupida, muito suja e muito rotineira, nem n'um altivo sujeito cheio de theorias estapafurdias e de nomes francezes estropiados. Fia-te em ti. É o mais seguro, o mais razoavel, aquillo que teu marido te ha de agradecer mais. Não estragues as tuas finas mãos de duqueza, não desças á humilhante posição de _cordon bleu_ da tua propria casa, mas dirige tu esse ramo tão importante de administração domestica. Estuda essa sciencia tão util e tão descurada que se chama _chimica culinaria_, e verás como a saude dos que tens debaixo da tua guarda ha de progredir com isso. Não te injuries, nem te afflijas então quando conheceres que o sorriso que teu marido negou ás sabias architecturas do teu penteado, lhe desabrocha nos labios franco e alegre em frente de um caldo feito sob a tua direcção, de um _roastbeef_ temperado pelas tuas mãosinhas de fada, de um novo acepipe que inventastes e que lhe despertou o esmorecido appetite. A arte de ser esposa e de ser mãe funda-se n'um segredo muito simples. Não se trata de sermos felizes á custa dos que são nossos; trata-se de fazermos felizes os nossos, á nossa propria custa. Começamos pelo sacrificio, e acabamos pela apotheose! Mas que de cousas eu fui buscar para te dar uma lição de _azeites e vinagres_. Ai! filha, é que tenho aprendido á minha custa que na terra não ha nada pequeno, e que todas as cousas que de perto se nos afiguram mesquinhas, estão de tal maneira ligadas e relacionadas entre si, que formam unidas este grande conjuncto que se chama a vida. CAPITULO X O dever de ser bonita Dizia uma das mais espirituosas escriptoras da França, aquella para quem Theophile Gauthier inventou o gracioso epitheto de _bas lilas_, livrando-a d'este modo da terrivel, grotesca e immerecida alcunha de _bas bleu_, que _o primeiro e mais sagrado dever da mulher é ser bonita_. Abaixo o paradoxo! bradou logo em torno a turba-multa das feias, furiosas contra a sentença que as punha por assim dizer fóra da lei. Foi necessario entrar em explicações, e todas nós vemos então a comprehender o que Madame de Girardin entendia pela belleza feminina. Ser bonita no fim de contas não é ter fórmas esculpturaes--isso já passou de moda, não é ter feições perfeitas--não ha nada mais profundamente monotono e massador; não é ter collo de _alabastro_, cabellos de _ebano_, labios de _rubis_, dentes de _perolas_, olhos de _diamante preto_, testa de _marfim_, etc., etc., etc. --Deixemos isso aos artifices mais ou menos engenhosos, que trabalham com as sobreditas materias, e aos _trovadores_ mais ou menos choramigas, que manejam as sobreditas rimas; não é saber olhar com expressão ardente ou languida consoante o genero da phisionomia; saber sorrir com malicia ou com ternura, saber inclinar-se meiga e scismadora ao influxo do um sentimento occulto, ou erguer a cabeça altiva e triumphante com a plena consciencia da propria formosura! Ser bonita, ser bella, na accepção elevada e completa d'esta palavra, é possuir a graça mysteriosa que prende os que param junto de nós, que attrahe os que vão passando ao nosso lado. Resta agora analysar os fios tenuissimos de que se tece este divino encanto da mulher! A graça de que eu fallo é feita principalmente de intelligencia e de bondade. O primeiro dom concede-o Deus, e aperfeiçoa-o e depura-o a vontade humana; o segundo adquire-se á custa de sacrificios cccultos, de abnegações intimas, de aspirações continuas e incessantes para a suprema perfeição! Todos podem ser bons! É preciso que os espiritos se compenetrem profundamente d'esta verdade, que é o primeiro passo para a conquista do bem, que todos ambicionam e que tantos julgam vedado. Não ha terreno, por mais duro, inhospito e ingrato, a que um cultivo cuidadoso e vigilante não possa arrancar flôres. No homem--e quando digo _homem_, refiro-me geralmente á humanidade--, no homem ha preso, algemado, vencido, um robusto animal de tendencias bravias, que lucta continuamente para reconquistar a perdida liberdade. Foi a acção civilisadora de seculos sem conta que domou essa féra de funestos instinctos; é a pressão continuada e constante de uma vontade energica, de uma razão esclarecida, de uma percepção profunda de todos os deveres, que conserva e sustem intimidado e submisso o terrivel selvagem. Uns precisam de desenvolver n'esta porfia assidua, mais tenacidade e mais força, outros de indole nativamente branda e pacifica, podem deixar adormecer de vez em quando a accesa vigilancia. São no fim de contas os primeiros que teem maior merecimento. Ser bom é quasi sempre um esforço, mas para ser meritorio cumpre que este esforço seja tão invisivel para todos os olhos, que a analyse ainda a mais perspicaz não chegue a dar por elle. A bondade é o supremo attractivo da mulher, aquelle que mais acção exerce em torno de si. A bondade é pois a verdadeira belleza feminina. Imaginae que a ella se reune a intelligencia, e tendes o ideal da perfeita formosura, da unica que só se apaga e extingue com a vida, da que excita os grandes, os eternos, os sãos e robustos amores. O culto pagão da belleza plastica é um dos erros que mais ha de custar a destruir, e que no entanto se acha tão deslocado no ideal moderno, como se achava no seu verdadeiro lugar, no velho mundo que a revolução deitou por terra alluido e decomposto! A mulher transviada por esta falsa comprehensão do seu destino, só aspira a ser bonita no sentido futil e exterior da palavra, só inveja as que possuem os ephemeros encantos de que foi desherdada, e não percebe que a belleza interior é aquella cuja gloriosa conquista, accessivel para todos, lhe podia dar a realeza e o predominio. A quantas meninas sentimentaes de olheiras roxas e phrases sonoras não temos nós ouvido lamentar a pouca duração dos affectos terrestres, a _inconstancia_ do homem, a ingratidão cruel que faz definhar as suas victimas em desolador abandono! Apesar do aspecto ridiculo de que estas romanticas e elegiacas creaturas se revestem, que ninguem se ria d'elles! Victimas se chamam, e victimas são de certo, mas não de imaginarias perfidias ou de tragicas aventuras. São victimas da sua educação falsa, da sua sentimentalidade piégas, da idéa inteiramente errada que formam da vida pratica. Imaginaram que haviam de ser eternamente amadas, amadas com extasis poeticos, com grandes discursos inflammados, com acompanhamento de viola franceza e de epistolas em verso, que tivessem de mais em amor, o que tivessem de menos em grammatica; sonharam ser as pallidas Julietas apaixonadas, recebendo á luz branca da lua, as confidencias convulsas dos seus Romeos de obra grossa; e para attingirem este ideal dos seus desejos suppozeram que lhes bastavam a alvura da tez, o brilho do olhar, a frescura dos labios, a abundancia dos cabellos, e por cima de tudo isto a garridice, a pretensão, a ignorancia e a _toilette_! Em muito menos tempo do que é preciso para murchar uma rosa, os proprios homens se enfastiaram. E eil-as inconsolaveis e inconsoladas, maldizendo a traição masculina, que lhes não deu mais que o castigo merecido! Houve tempo em que a mulher feia tinha como unico refugio o convento. Felizmente, porém, esse tempo vae longe. O homem já não exige da companheira do seu destino, como condição unica de felicidade, encantos que murcham com os annos. Assenta em mais solidas bases a ventura conjugal. Mulheres, sêde boas, cultivae o espirito, e allumiae a consciencia; na vida do homem ha horas escuras; que a luz que sabeis diffundir as illumine. A sociedade tem desfiladeiros sombrios, tem _selvas ignotas_, como o _inferno_ do Florentino, aprendei a guiar com a vossa pequena mão branca e macia os robustos luctadores, que ás vezes param no limiar d'esses caminhos, com a vista incerta e o passo hesitante. E isso que hoje se exige de vós. Eu vou mais longe que _madame_ de Girardin, na sua arrojada proposição que tão poucos comprehenderam. Quando vejo um homem sou capaz de adivinhar a que genero pertence a mulher que elle tem por esposa; quando entro n'uma casa basta-me vêr a disposição dos moveis, a escolha dos livros, o aspecto das creanças, a expressão das _cousas mudas_, para poder afiançar se a dona d'essa casa, a divindade modesta e tutelar d'esse pequeno templo, é digna do seu titulo sagrado de esposa e mãe. É que tudo falla, para quem sabe ouvir, e a mulher sobretudo--natureza expansiva e vibratil--põe uma indiscrição involuntaria em cada objecto de que se rodeia. Mais de uma vez tenho ouvido vozes femininas levantarem-se em favor da emancipação politica e social do seu sexo. Pobres sêres hybridos e incompletos são de certo os que teem tão acanhada idéa do destino da mulher. No dia em que esta fôr emancipada, cahirá para sempre do throno que tem seculos por degraus. É que a emancipação politica seria a abdicação domestica, quer dizer, a mais dolorosa catastrophe que tem affligido as sociedades. Imagino que nenhuma verdadeira mulher a acceitaria! A familia tal como a entendem todos que sabem sentir e pensar, é o refugio onde se vae buscar paz e esquecimento; é o templo onde encontram _direito de asylo os parias_ que andam cá fóra aos baldões da ira popular; é o lugar querido, inaccessivel onde os athletas do pensamento acham momentos de alegria descuidada, onde os mineiros cansados da sciencia, os que andam pelos antros obscuros arrancando segredos aos seios da natureza, procuram a clara e festiva luz dos affectos simples, onde os politicos esquecem a maldade e a mesquinhez humana, onde os diplomatas fallam verdade, onde os argentarios fecham os ouvidos ao tinir metallico do ouro, onde os que caminham levando no coração as terriveis hydras do odio e da inveja se assentam por instantes embevecidos na musica matinal de umas vozes infantis que chilrêam, de uma voz crystallina que adverte, aconselha e consola. Os que roubarem a familia ao incansavel trabalhador d'estas eras de febre e de combate, roubam-lhe a força, a energia, a consciencia, a dignidade, o amor, roubam-lhe tudo emfim! Emancipar a mulher é atacar na sua base a familia, é trazer para dentro do lar as paixões tumultuosas da praça publica, é destruir o mais doce dos poderes a que o homem se curva, o temivel poder da fraqueza feminina! E não se diga que eu combato a mulher quando combato a sua libertação absoluta perante a sociedade e perante a lei. Os que pretendem furtal-a á tutella salutar, que a contém na esphera que lhe é propria, é que são os seus peiores inimigos. Dentro, porém, d'essa esphera quantos serviços ella deve fazer e não faz! Exemplifiquemos: A mulher é na generalidade ambiciosa. Qualidade que não está de todo em todo desligada de peccado, mas qualidade util na maior parte dos seus resultados. Esta ambição pela influencia latente que exerce no animo masculino leva-o, não poucas vezes a arrojados commettimentos e a grandes e nobres cousas. Até um certo e determinado limite, é portanto benefica a ambição da mulher. Transviada, porém, do seu verdadeiro fito, quantas vezes esta ambição mal dirigida por uma educação eivada de mesquinhos preconceitos não arrasta o homem até á infamia, á deshonra, á quebra de todos os pudores, ao suicidio! A garridice, o amor da _toilette_, das pequenas futilidades elegantes, o gosto do luxo, das graciosas invenções da moda, ahi está uma das graças, um dos elementos do dominio da mulher. Mas ainda n'este ponto cumpre que uma razão clara, que uma percepção definida do dever, a guie, a dirija, a constranja nas suas tendencias muitas vezes exageradas. Não ha nada mais agradavel n'um _ménage_ do que uma mulher moça, fresca, elegante, da graciosa e simples elegancia que provém do gosto apurado e distincto; os requintes de luxo exterior são, por assim dizer, na vida do homem, uma superfluidade necessaria, são um conchego para o corpo, uma caricia para a alma, mas que nunca o luxo conduza a familia á mais leve transigencia indelicada, que nunca a mulher lhe sacrifique um só dos seus deveres! Todos são igualmente respeitaveis; todos estão unidos entre si por uma cadeia de élos inquebrantaveis. Na mulher ainda mais do que no homem, o abuso das qualidades uteis leva ás mais funestas consequencias. Para a mulher ainda é mais delgada a linha do dever. O caminho é estreito, difficil, sinuoso: para áquem d'elle ou para além d'elle está o erro. Por isso quantas senhoras ás vezes dizem: «Queixam-se de nós porque somos garridas, e se nos vêem modestas, sem prendermos a minima attenção ás futilidades perigosas do luxo, condemnam-nos ou fogem do nosso lado. «Queixam-se de nós porque somos ignorantes, mas se o nosso espirito se accende em curiosidades scientificas, se lêmos, se estudamos, se tentamos ir um pouco além dos limites impostos ao nosso sexo, somos alcunhadas de pedantes, e de _preciosas_ ridiculas! «Queixam-se de nós porque somos devotas, supersticiosas, porque levamos ao exagero as praticas do catholicismo, porque nos deixamos guiar mysteriosamente pela mão occulta do padre, mas se procuramos livrar-nos d'este jugo, se queremos a independencia absoluta do espirito e da consciencia, chamam-nos _livres pensadoras_, e os homens sentem medo instinctivo de entregar a sua honra nas nossas mãos.» E por aqui adiante uma longa jeremiada n'este teor. Eu, porém, mesmo concedendo que ha um fundo de incontestavel verdade no que dizeis, respondo-vos, minhas senhoras, que é positivamente porque a vossa missão é difficil que ella tem tamanha importancia e póde adquirir de dia para dia uma importancia ainda maior. No dia em que comprehenderdes claramente o vosso destino, sabereis então o que é ter a graça, a elegancia, o encanto exterior, sem que vos contaminem as criminosas vaidades; o que é ser intelligente, instruida, reflexiva sem conhecer o pedantismo, e a ridicula pretensão; o que é ter o ideal religioso, sem o manchar com superstições, preconceitos, intolerancias funestas; o que é aproveitar cada uma das vossas riquissimas faculdades equivalentes, mas não iguaes, das do homem, sem que a vossa inercia as esterilise, sem que a vivacidade nervosa do vosso temperamento as leve a extremos e demazias altamente funestas á familia e á sociedade da qual é aquella o mais perfeito reflexo. CAPITULO XI O trabalho das mulheres O preconceito mais funesto, que ainda nasceu e medrou n'este mundo, é o que considera o trabalho uma escravidão deshonrosa. Começa hoje a irradiar os seus primeiros clarões rubros a aurora do dia que ha de vêr o trabalho santificado, que ha de assistir á divina apotheose d'esse bemfeitor supremo da humanidade, d'esse amigo de todas as horas, que conforta os animos desconsolados, que levanta os animos abatidos, que distráe de todos os tédios, que lucta contra todas as inercias. Por emquanto, sobretudo entre nós, é rara a mulher bastante superior para confessar que trabalha, e o que é peior de tudo, é rara a mulher que trabalha sem absoluta e incontestavel precisão. Mais d'uma vez temos visto senhoras, que pela sua educação mais apurada e mais completa deviam estar a cima de tão profunda ignorancia dos seus deveres, confessarem que não gostam de fazer nada, que são preguiçosas, que não téem com que se distrahir, que os dias lhes parecem seculos, etc., etc. E no entanto qual será a creatura bastante desfavorecida de Deus, para não poder aproveitar proficuamente as horas do dia, sempre curtas para quem as sabe empregar bem? Fallemos primeiramente das meninas solteiras de pouca edade; para essas, logo que queiram tornar-se dignas do alto destino que as espera, pouco será sempre o tempo para se instruirem, para adquirirem os varios e complexos conhecimentos de que carecem antes de exercerem a sua missão complexa. Não são sómente os futeis ornamentos superficiaes em que ellas devem pôr a mira; a par d'esses, que tambem são indispensaveis, ha todo um mundo, que a mulher ignora, e cuja exploração lhe enriqueceria o espirito de thesouros incomparaveis. E depois, mesmo os frivolos adornos, que constituem uma alta educação mundana, podem ter uma significação elevada, um sentido occulto, uma _alma_ emfim, logo que se não considerem um _todo_, mas uma parte insignificante do mais alto e perfeito conjuncto; logo que occupem o lugar que lhes compete, na classificação harmoniosa e bem graduada das varias riquezas que formam um espirito. Saber cantar, saber tocar piano, saber fallar as linguas, saber desenho e pintura, que vale tudo isso quando se não tenha uma idéa elevada e synthetica, que ligue entre si estas diversas acquisições intellectuaes, e que por assim dizer as vivifique? O que é preciso antes de tudo, é comprehender a musica e a sua influencia poderosa nas almas e nos organismos; é saber usar com aproveitamento esses instrumentos que se chamam linguas, as quaes por si, só, tomadas abstractamente, nada significam e para nada servem; é estudar a natureza sob os seus multiplos aspectos e transplantal-a para a tela ou para o papel; é ter emfim um ideal, que sobredoire todas estas prendas, que superficialmente entendidas e superficialmente executadas, não teem valor nem tem utilidade alguma na vida pratica. Basta a qualquer espirito feminino entrar n'este caminho, que imperfeitamente acabamos de apontar, e, sem que elle mesmo tenha a consciencia d'isso, as suas idéas hão de dilatar-se e encadeiar-se por uma successão logica, e dar á vida um novo e imprevisto aspecto. As meninas bem educadas das nossas altas classes sociaes, teem todas uma grande facilidade em fallar varias linguas; aproveitam porém essa facilidade... conversando com os diplomatas. Não lêem Schiller, nem Goethe, nem Shakespeare, nem Macaulay, nem Pascal, nem Montaigne; não entram no genio das differentes nacionalidades e das differentes litteraturas; não comparam entre si as civilisações, chegando por esta comparação a conhecerem de um modo mais ou menos perfeito a humanidade, não senhor! Conversam com os _gommeux_ da diplomacia estrangeira e contentam-se com isso! Na musica que, mais do que nenhuma arte, lhes revelaria o coração do homem no coração de tantos homens de genio, o que ellas vêem sómente é o modo de executarem mais difficuldades e de desesperarem de inveja mais rivaes!.. Na pintura, copia da natureza que as podia fazer penetrar no seio carinhoso e fecundo da grande mãe, são tão frivolas, tão superficiaes, como em todas as outras cousas. As mais das vezes não teem animo de colherem uma flôr do jardim e de a copiarem com o pincel ou com o lapis! Copiam copias, amesquinhando a natureza, e atrophiando a propria imaginação! São estes defeitos, que todas nós as que pensamos um pouco, devemos combater com todas as nossas forças! Longe de mim o aconselhar á mulher que se emancipe dos seus graves e obscuros deveres, que tente luctar com o homem, e arrancar-lhe a palma das grandes descobertas e das grandes conquistas! O que eu pretendo é provar-lhe que é divina entre todas, a missão a que o futuro a convida. A mulher de sala tem por força de morrer; surja pois a mulher da familia, ser complexo, grande e nobre sêr, que as geraçães vindouras hão de admirar fervorosamente. A mulher da familia não é de certo a matrona desgeitosa, deselegante, só occupada em dar a vida, o leite e o alimento aos filhos de um affecto, despido de todas as flores e de todas as poesias. Não, ella deve ser instruida, profundamente instruida, tendo ao mesmo tempo a consciencia de que essa instrucção a não aparta do cumprimento religioso dos mais humildes deveres do amanho da casa e da maternidade. O homem deve achar n'ella não só a enfermeira desvelada das suas doenças; não só a distribuidora sensata e economica do seu alimento; não só a dona de casa aceiada, vigilante, infatigavel; não só a mãe carinhosa, dedicada, capaz dos maximos e dos mais perseverantes sacrificios, senão tambem a companheira do seu espirito; a socia das suas aspirações; a intelligencia que comprehenda e partilhe as suas legitimas ambições e as suas chimericas phantasias; o animo viril que saiba amparal-o nas horas de desalento; a mão firme e branda, que saiba guial-o nos momentos escuros de lucta e de tentação: o seio terno que lhe acolha a cabeça cansada na hora sinistra das derrotas; o bello e enthusiastico espirito que applauda a suprema embriaguez das suas victorias; n'uma palavra, a mulher digna de ser mãe e de educar uma geração de fortes. É preciso, que se compenetrem bem d'esta idéa fundamental: o trabalho, seja de que especie fôr não desdoira uma mulher nem deixa de ser compativel com as mais delicadas distracções de um espirito culto. Trabalhar não é fazer _crochet_, não é cozer durante seis mezes na mesma camisa, que ha de ser offerecida a um pobre romantico, a um pobre de _opera-comica_; não é bordar umas eternas _babouches_, que se começam no dia seguinte ao do casamento, e que se acabam dez annos depois. Trabalhar é ser util, é occupar o espirito, é adquirir conhecimentos ou espalhal-os em torno de si, é concorrer para o bem-estar dos outros e para o seu aperfeiçoamento proprio. A mulher que trabalha levanta-se cedo, não conhece as scismas voluptuosas, os languores morbidos, as _flâneries_ sem motivo e sem fim. É activa, por isso não tem aquellas horas de tédio profundo, que descobrem diante de um olhar os horisontes sinistros e esbraseados do suicidio; tem saude porque o tempo bem applicado e bem dividido não lhe deixa intervallos para se _escutar_, se sondar, para analysar as suas pequenas dôres, os seus pequenos incommodos, e os aggravar tomando remedios nocivos, e entregando-se á molleza que a pouco e pouco destroe a robustez do corpo; gosa de tudo com alegria, com vitalidade, com expansão, não desdenha nenhum dever, nenhuma occupação, nenhum trabalho porque o amor e a intelligencia prendem-se a tudo que ella faz. Porque sabe conversar na sala com facilidade e chiste, nem por isso deixa de saber estar na cosinha, observar um por um todos os utensilios, vêr se estão limpos, inventar um _menu_ que reuna as condições da economia e da variedade, ensinar a sua cosinheira, fazer mesmo por suas mãos um prato predilecto, que á mesa o marido e os filhos hão de saudar com alegria e saborear com appetite. Desejo que ella saiba bordar, mas exijo que saiba serzir panno, dar rêdes com perfeição, cozer a roupa da casa e a roupa dos filhos, cortar e fazer os seus vestidos, dando assim mais que um exemplo de economia, um exemplo de moralidade! protestando até onde chegam os seus limites, contra a torrente impetuosa e funesta, que arrasta as familias desde o luxo até á infamia, desde a impostura até á quebra de todas as dignidades e de todos os pudores. Quero mais, que ella se não envergonhe de confessar que trabalha, e que não diga que o seu fato é feito por uma qualquer modista estrangeira, quando é ao seu laborioso serão que ella deve a elegancia que d'este modo é duplamente preciosa e sympathica. Não imagine a mulher, que entre os deveres que acceitou ha uns que a deslustram, e outros que lhe ficam bem. Debaixo do ponto de vista da razão todos os deveres são eguaes e estão prezos entre si por uma cadeia invisivel. Da alegria da mesa depende a alegria do lar; da economia de todos os instantes, depende o bom humor das festas de familia; da elegancia e primoroso aceio da mulher depende a ternura inexgotavel do marido; do modo porque ella rege e domina o seu pequeno imperio domestico, depende a educação dos filhos, a moralidade do interior, a harmonia intima da vida, e até a graça, o espirito, a liberdade com que ella conversa e ri na sala. Todas as mulheres se queixam dos maridos, e nenhuma ainda percebeu o seguinte: são ellas que preparam e determinam o seu destino; é a ellas que a familia em geral deve a sua desordem, a sua dissolução, ou a sua felicidade. Não basta ter todas as graças, é preciso ser util, e no fardo que se acceita em commum tomar a parte que mais custa a supportar. Não basta ser util, prestadia, arranjada, economica; é preciso ter a intelligencia que idealisa um pouco os tristes e aridos encargos da vida. Toda ou quasi toda a mulher se sente amesquinhada pelo seu destino, e protesta contra as leis, contra os usos, contra as instituições, que a exilaram dos altos cargos da republica, que lhe tolheram o passo para todas as eminencias sociaes, e que a condemnam á obscuridade e á lhaneza do viver domestico. Oh! abençoados sejam os costumes, as leis, as instituições, que deram ao homem tudo que é ruido, pompa, ostentação, orgulho e vaidade, e que nos deram a nós a dôce missão de encaminharmos o futuro, de guiarmos a humanidade no caminho do bello e do bom! Se até agora temos trahido essa missão a que fomos destinadas, a culpa é nossa e não de quem constituio sob uma fórma tão racional e tão justa a sociedade. O tempo que passamos no barulho vazio das festas mundanas, colhendo decepções e rancores, excitando invejas, provocando sensuaes applausos, porque o não gastamos a lêr, a estudar, a penetrar no mundo da natureza e no mundo da sciencia em todos os seus aspectos tão varios, em todas as suas manifestações tão sympathicas; porque não dirigimos a poder de trabalho e de esforço a primeira educação de nossos filhos, e deixamos que mãos mercenarias lhe arranquem aquella dôce penugem da alma que é a ignorancia dos pequeninos? Porque não fazemos da nossa casa, um ninho alegre e fôfo, que o nosso marido prefira ao botequim, ao Gremio, ao Club, ao restaurante, á casa dos seus amigos, e onde elle esteja certo de encontrar o alimento mais saboroso e mais hygienico, o ar mais puro e lavado, a poltrona mais commoda, a conversação mais animada, mais substancial, mais chistosa e menos pedante? Pouco a pouco á regeneração da mulher, seguir-se-hia a regeneração do homem, deixariamos de ser a ruina, para nos tornarmos o conforto; deixariamos de ser o tédio para nos tornarmos a alegria. Talvez não houvesse tantos bailes e saraus, talvez Offenbach, Dumas filho, Sardou tivessem menos espectadores, talvez as salas de bilhar perdessem um pouco da sua popularidade; talvez os ourives e as modistas fechassem algumas das suas lojas, mas em compensação quebravam menos negociantes, perdiam-se menos mulheres, a calumnia renunciava a uma grande porção do seu alimento diario, o falso luxo que mata de fome os filhos e que arrasta sedas pelas ruas enlameiadas da cidade, ou se reclina voluptuosamente nos coxins flascidos d'um coupé de oito mollas, o falso luxo deixaria de ostentar com tão descarada altivez as suas lentejoulas compradas com moeda vil, e esta nossa sociedade, que parodía tão ridicula e tão desgraçadamente a sociedade cosmopolita, opulenta e artificial da França, tomava diverso rumo, assumia a dignidade que lhe falta, e descobriria no futuro o ideal, que não tem e que procura nas trevas. O primeiro passo para que este deploravel estado de cousas melhore um pouco, é que as mulheres comecem a trabalhar. As ricas instruam-se; as pobres ajudem seu marido sem se envergonharem da sua honesta pobreza, e todas sem exceptuar qualquer posição social, occupem o tempo para não darem logar ás tentações da vaidade, aos sonhos morbidos que enfraquecem o corpo e o espirito, ás negras horas dissolventes do tédio, em que tudo se concebe e se admitte como possivel, até o esquecimento de todos os deveres, até o proprio crime com o seu romantico cortejo de sensações e de terrores. CAPITULO XII A toilette As mulheres teem, na generalidade, um costume deploravel! Só se vestem e se enfeitam e querem ser amaveis para o publico. O marido, ainda o mais feliz e mais extremoso, tem sempre um rival terrivel, um rival exigente, um rival que lhe rouba parte das prerogativas e lhe cerceia parte dos direitos. Esse rival é o publico, é esse detestavel tyranno chamado _tout le monde_, a quem tudo se sacrifica, e do qual em recompensa só se recebem criticas e desdens! Para elle nos vestimos, para elle levamos horas e horas a combinar o effeito da nossa _toilette_, para elle estamos defronte do espelho prendendo flores no cabello, inventando as difficeis architecturas do penteado, para elle sabemos tocar piano e sabemos cantar, para elle desejamos ser formosas! para que elle nos applauda--mentiroso e humilhante applauso!--exhaurimos todos os recursos da nossa imaginação. Para agradarmos a elle, que é o _extranho_, nos esquecemos dos que são nossos! Em casa as mulheres, pelo menos as mulheres portuguezas, as que eu de mais perto conheço, preferem a tudo, aquillo a que tão impropriamente chamam _estar á vontade_. Usam uma _robe-de-chambre_ desbotada, quando não trazem um vestido velho que já não serve para a rua; trazem o cabello em _papelotes_ ou frisado em ganchos, e como querem descansar um pouco das talas que impuzeram aos pés, consolam-nos, mettendo-os em umas largas _babouches_ desgeitosas. Pela manhã, á hora do almoço dão vontade de chorar! O marido olha para ellas e... de duas uma:--ou sente fastio ou come como um lobo. De qualquer dos modos manifesta a sua melancolia. Questão de temperamento que não vem ao caso analysar aqui. Ao meio dia, eis porém, que se lembram das visitas que não tardam, das _inimigas intimas_ que veem colhêr invejas e semear despeitos, de todas as ferozes exigencias sociaes, de que são submissas escravas! Desfranzem a testa, ageitam um sorriso malicioso ou sentimental, consoante o genero da physionomia, mergulham o corpo nas tepidas e perfumadas caricias do banho, vestem-se, burnem-se, penteiam-se, pintam-se... e apparecem transformadas. Durante umas poucas de horas estão no palco. O auditorio é escrupulosissimo. Ao menor indicio que lhe destôe, manifesta sem piedade o seu desagrado. Ellas, no entanto, suam _sous le harnais_, mas são intrepidas até á heroicidade. Teem caricias felinas, sorrisos que adormecem a tristeza nos corações mais desconsolados, sabem ser engenhosas, cheias de invenções felizes, conseguem plenamente o seu fim, e ao deixarem a scena fica no ar uma impressão boa, quasi enternecida. Chegou a occasião de voltar aos _bastidores_. N'este caso os bastidores são a companhia do marido. Oh! Como ellas veem cansadas, aborrecidas, cheias de tedio, e de desalento! Despem, com a voluptuosidade com que se despe um cilicio, todas essas elegancias que as torturavam; o sorriso ficticio apaga-se-lhes dos labios, a luz ficticia esmorece-lhes no olhar. A pelle precisa de _cold-cream_, de _veloutine_, de todos os ingredientes nauseabundos: o cabello cahe-lhes aos pés, solto dos ganchos que o prendiam, e em quanto a aia, com um sorriso ladino, os recolhe cuidadosamente na caixa de cartão, o marido contempla assarapantado, cheio de ingenuo e comico assombro, aquella cabeça que ainda ha pouco, no orgulho com que se erguia, na magestade altiva com que ostentava o delicado edificio das tranças e dos _riçados_, lembrava uma das cabeças gentis que o seculo XVIII beijou com enlevos e que a guilhotina beijou com volupia selvagem. O pé estreito e _cambré_, que ainda ha pouco nos circulos vertiginosos da valsa, fazia pensar n'aquellas andorinhas forasteiras, que roçam a terra com o vôo inquieto e leve, sacode as prisões que o ligavam dolorosamente, e dilata-se á vontade, com uma furia de independencia verdadeiramente demagogica e revolucionaria, na primeira chinela que apparece. Todo o aspecto physico se transfigura e--consequencia fatal d'esta mesma causa--o aspecto moral transfigura-se tambem. Como a dissimulação eterna é impossivel ainda aos mais hypocritas, os defeitos que tão cuidadosamente se esconderam ao publico, revelam-se ao marido. Riamos sem vontade ainda agora! Com a fortuna! Desabafemos o nosso mau humor, visto que estamos em casa! Tinhamos paciencia para aturar com expressão interessada e benevola as sensaborias muito estafadas de um senhor engravatado, de luvas côr de canario e bigode retorcido e insolente?... Sejamos agora desapiedadas para as historias já um pouco velhas, mas em summa bastante apresentaveis que o nosso marido nos quer contar! Fingir! sempre fingir!... Impossivel! Sejamos verdadeiras, ao menos n'esta occasião, já que só desagradamos áquelle que tem obrigação restricta de nos aturar, quer queira, quer não! Isto, que á primeira vista parece insignificante, quasi frivolo, tem um alcance enorme no destino de vv. ex.^{as}, minhas senhoras! O marido, ao perceber que de todas as mulheres a mais desagradavel é a sua, tem um momento de profunda tristeza, ao qual succedem uns poucos de annos de revolta! É assim que se destroe a familia, é assim que se torna desflorido e deserto o lar. Em compensação enchem-se os salões, os _clubs_, os theatros, os botequins. Resta saber se uma das cousas póde n'uma sociedade honesta e bem constituida supprir a outra. Sejam mais garridas em casa, e sejam-no menos fóra; aspirem á elegancia desprezando os mentirosos artificios; procurem, antes de tudo, agradar á familia e conseguirão a pouco e pouco, sem esforço premeditado, agradar aos estranhos. Uma familia boa, unida e feliz é como um fóco de calor que attrahe e que irradia luz benefica. Ha casas onde se entra e onde nos sentimos como n'um meio sympathico e captivante. São sempre as casas em que a mulher possue a intelligencia do coração, essa cousa rara e preciosa, que suppre a formosura, o talento e todos os attractivos do espirito. Vestir-se com uma graça despretenciosa e simples, rodear-se de cousas bellas, sentir e communicar em torno de si o prazer das distracções delicadas, ser em casa um perfume vivo, uma harmonia suave que não cansa, uma luz serena que allumia e que não deslumbra, eis o que é ser mulher na accepção completa da palavra. Toda a mulher tem de ser _coquette_ para o marido emquanto para o marido a eterna tentação for o pômo vedado. Em geral só se conhecem os dous extremos. Ou a matrona envolvida na sua virtude como n'uma couraça, temivel, assanhadiça, formidavel, imaginando merecer todas as homenagens do esposo, porque afugenta com medonho aspecto as homenagens de todos os outros; ou então a mulher dos salões, a flôr exotica das nossas estufas mundanas, Salamandra que vive no fogo, Ninon de _biscuit_ que se compraz nas adorações que provoca e que inspira, infativel actriz que só á luz da _ribalta_ sabe desenvolver e manifestar todos os seus recursos. Entre os dous contrastes é que fica a verdade. Mulheres, desenvolvei no seio da familia as graças que desperdiçaes pelas voragens d'este mundo. Tende todas as flexibilidades e todas as resistentencias, todas as graças e todas as energias; sêde o encanto, sem deixardes de ser a virtude; e sobretudo perdei de vista o publico, esse brutal amante que vos absorve, que vos perde e que nunca vos corresponde. CAPITULO XIII Victoria Woodhall Uma oradora americana Os Estados-Unidos, que são decididamente a patria das excentricidades colossaes, o paiz em que o excesso do positivismo, como que para justificar o axioma de que _os extremos se tocam_, tem conduzido a intelligencia a uma especie de permanente hallucinação, os Estados-Unidos estiveram para dar segundo affirmou a imprensa ingleza, mais uma prova evidente do seu amor pelas originalidades ruidosas. Dizia-se que a presidencia d'esta republica tão poderosa e florescente ia ser offerecida a uma mulher, e citava-se o nome d'essa mulher, que é uma das mais fervorosas e apaixonadas propagandistas da reforma politica e social, uma das advogadas mais eloquentes da emancipação completa do seu sexo. Já muitas vezes o temos dito, antipathisamos formalmente com esta doutrina revolucionaria, da qual não esperamos senão funestos resultados, por isso nenhum laço de sympathia póde prender-nos á famosa Victoria Woodhall, de que se occupam com verdadeiro enthusiasmo alguns dos jornaes importantes da Inglaterra e da America do Norte. Não deixaremos, porém, de estudar com attenção os poucos dados que conhecemos do seu caracter e da sua intelligencia, porque, embora como mulher--não concordemos com as suas theorias,--como artista--não podemos deixar de reconhecer que ella é um producto perfeito do seu meio. Victoria Woodhall é moça, tem uma formosa presença, _sabe vestir-se_, o que já é deveras para notar-se n'uma advogada convicta dos _direitos politicos da mulher_, e se aprecia os triumphos que a sua palavra um pouco emphatica costuma arrancar aos numerosos ouvintes que a escutam, nem por isso desdenha os cuidados minuciosos da elegancia mundana. Teem-na visto prégar sobre um texto biblico, que ella modernisa segundo as conveniencias da sua these, trajando elegantemente um vestido de velludo preto, e com uma rosa purpurea aninhada nas lustrosas tranças escuras do seu cabello garridamente penteado. É casada, visto que lhe chamam Mistres Woodhall, mas nos salões onde tem preleccionado apparece sempre só sobre uma elevada platafórma, de onde préga ás turbas. O marido, se existe, é um simples comparsa, ninguem o nota e ninguem se occupa em fallar d'elle. Entre parenthesis: não ha posição mais deploravel que a do marido de uma mulher _celebre_, quer dizer de uma mulher que falla em publico, que apparece, que declama, que tem os ruidosos triumphos da actriz, da cantora, da agitadora politica, e agora os mais modernos da preleccionista social. Nunca pudemos deixar de sentir muito dó do Barão Stael, de _monsieur_ Rolland, do marido de Henriqueta Beecher Stowe, e de tantos outros forçados e obscuros satelites d'esse astro brilhante e phenomenal que é a mulher acclamada pelo indiscreto applauso das multidões. Agora o marido de Mr. Victoria Woodhall, se acaso vive, o que não podemos de modo algum affirmar, não tendo nunca ouvido citar o seu nome, parece-nos uma victima igualmente lamentavel do mesmo negro fado. Victoria tem dado conferencias, extraordinariamente concorridas, em Nova-York, em Londres, em Liverpool e em outros centros industriaes da Inglaterra e da America. Tem a voz insinuante e harmoniosa, a gesticulação arrebatada e artistica, a palavra facil, fluente, emphatica, mas tão quente e apaixonada que exerce sempre uma impressão profunda nos que a escutam. Como já dissemos não tem os terriveis oculos azues, nem o rosto anguloso e severo de Mrs. Beecher Stowe, uma mulher que fez no seu paiz uma revolução humanitaria, e que destruiu aos nossos olhos todo o effeito sympathico da sua cruzada contra a escravatura com aquellas conferencias pedantes pelas quaes concluiu a sua carreira litteraria. A mulher oradora precisa de ser formosa, sob pena de ser ultra-ridicula. Parece-nos, porém, que do ridiculo simples, sem circumstancias aggravantes, não a salva nem mesmo a formosura. Victoria Woodhall no seu paiz préga em favor da santidade do matrimonio, da reforma da educação, de todos os graves e momentosos assumptos de que hoje depende a regeneração politica e moral das sociedades. Fóra do seu paiz, porém, não vão tão longe ainda as suas aspirações. O que ella por emquanto reclama é a igualdade e nivelamento absoluto de deveres e direitos entre a mulher e o homem. Adoptamos com todo o coração não os meios, mas o fim d'essa propaganda tão necessaria; mas não podemos concordar de modo algum com o complemento que a feminil oradora proclama indispensavel. Achamol-o contraproducente, illogico, funesto ás instituições abaladas, que se pretendem salvaguardar. Queremos o casamento grave, austero e santo, querermos a creança educada com solicitude extremosa, queremos a mulher respeitada e querida, consciencia de bronze e coração de cêra, queremos na arte um ideal severo e levantado, queremos na sociedade a incorruptivel e serena justiça, queremos o homem regenerado e forte, e é porque desejamos tudo isso, que pedimos a Deus afaste para bem longe de nós o terrivel flagello da mulher dominando o seu proprio destino e o destino da sociedade. N'um discurso de Victoria Woodhall, pronunciado em Nova-York e applaudido enthusiasticamente por um auditorio de 40:000 pessoas leem-se os trechos seguintes: «Fallando do casamento, é escusado dizer que falamos n'esse casamento ideal que toda a maldade dos homens não póde destruir; n'esse casamento, de cujos membros poderá dizer-se com verdade: _Foram unidos por Deus, e o poder do homem, não logrará desunil-os_; n'esse casamento, de cujas alegrias jámais quererão apartar-se os que um dia as conhecerem; n'esse casamento que é tão sagrado, tão puro, tão santo, que nem a sombra de uma discussão póde existir entre, os dous factores que o determinam; fallamos n'esse casamento em que os dous representantes oppostos da humanidade--o elemento positivo e o negativo das raças--se tornam pela acção e pelo pensamento n'um unico ser, e tão perfeito, que os mesmos motores o movam e o façam pensar e obrar; em resumo, n'esse casamento do qual nem a sombra d'um elemento estranho possa alterar a pureza, a unidade, a ideal perfeição. «O casamento é geralmente considerado como um assumpto por demais frivolo ou pueril. «Aceitam-no ou quebram-lhe os laços com a mesma pressa e a mesma idéa das responsabilidades que elle impõe, como se o considerassem uma instituição especialmente designada para satisfazer as egoisticas paixões da humanidade.» Sim, concordamos plenamente com este levantado ideal do casamento que a formosa preleccionista apresenta e proclama, mas affirmamos que elle nunca poderá realisar-se se triumpharem universalmente as doutrinas que ella tão ardentemente advoga. A prova evidente d'esta nova asserção é ella quem se encarrega de nol-a fornecer. A mulher, como nós a sonhamos e a queremos, não é a forasteira acclamada e illustre que anda espalhando por sobre a cabeça das turbas indifferentes ou passageiramente commovidas, as suas convicções e as suas theorias sociaes. Recolhida no seu modesto e placido interior, mãe de um bando infantil, mimoso e louro, de que ella fosse a providencia, o amparo, a suprema alegria, esposa de um homem forte e honesto, de um trabalhador, de um membro activo e laborioso da moderna sociedade, a acção d'esta mulher seria muito mais restricta, mas incontestavelmente mais util e mais salutar. Não daria uma hora de commoção dramatica ao auditorio que viesse ouvil-a, curioso de excentricidades novas; não julgariam possivel a sua eleição como presidente de uma republica poderosa; mas as pessoas que vivessem em mais ou menos estreito contacto com ella receberiam a influencia honesta do seu exemplo, e os filhos que ella educasse seriam outros tantos elementos fecundos da futura regeneração social. Não é prégando o respeito ao casamento que se convencem os homens, é provando esse respeito nas minimas acções e nas acções mais decisivas de uma existencia. Mrs. Victoria Woodhall tem arrebatamentos soberbos de eloquencia oratoria, fulminando a decadencia em que o sentimento da familia tem modernamente cahido, mas como quer ella provar-nos que comprehende essa absoluta identificação de duas almas, essa absorpção de um espirito em outro espirito seu irmão, ella que affirma tão rasgadamente a sua individualidade, ella que apparece em plena luz deixando na sombra aquelle de que não póde ser senão a metade incompleta, a porção imperfeita e mutilada. Anda n'uma gloriosa faina a converter as suas irmãs que prevaricam ou descreem, ou ignoram. Mas se o exemplo da gloriosa propagandista as tentar e seduzir? Onde fica o lar modesto, o aceio do ninho, o terno amor dos filhos pequeninos, as obscuras virtudes domesticas, toda a graça, toda a poesia, todo o conchego, todo o encanto mysterioso e indestructivel d'essa ineffavel união chamada o casamento? * * * * * Não nos surprende, porém, este producto extraordinario de uma sociedade agitadissima e ainda para si propria indefinida e indefinivel. A America tem-se feito a si mesmo, não procura para as suas leis e para os seus costumes uma solida base tradicional. N'ella que é tão forte como nação, tão pertinaz nos intentos, tão energica nas acções, n'ella que é uma prova terminante de como em dous seculos se fórma uma raça, unica e cheia de virginal vigor, ha cousas que estão ainda perfeitamente vagas e fluctuantes. O destino das mulheres é uma d'essas cousas. Politicamente possuem os mais amplos direitos, podem ser tudo, aspirar a tudo, todas as carreiras estão abertas diante dos seus passos; socialmente é quasi um dogma o respeito que inspiram. Ninguem ousa insultal-as nem com uma palavra, nem com uma suspeita, gosam de uma liberdade absoluta, andam sós, viajam desprotegidas ou antes protegidas pela sua fraqueza omnipotente, nos caminhos de ferro, nos omnibus, nos paquetes; sentam-se sósinhas á meza redonda de um _hotel_, fazem emfim impunemente, apoiadas pela despotica soberania dos costumes, tudo que a nós, européas de facto ou de tradição, se affigura quasi monstruoso de inconveniencia. E no entanto, apesar d'este reinado apparente, apesar d'este predominio ostensivo, é bem mais profunda a invisivel influencia que as mulheres do velho mundo exercem em torno de si, não sobre as leis, o que seria pouco, mas sobre os costumes, o que é quasi tudo. É que somos as rainhas do lar; de nosso bom ou mau juizo depende a paz ou a guerra, a ventura ou a desgraça, a prosperidade ou a ruina, a dôce mediania tranquilla ou a agitada e tempestuosa existencia mundana. Não parecemos nada e somos tudo! Os que mais nos desdenham não escapam ao nosso poder. Submettem-se-lhe inconscientemente. Os que luctam contra nós teem de confessar-se vencidos. Não somos medicas, não somos advogadas, não somos professoras, não somos preleccionistas officiosas de qualquer theoria, mais ou menos arriscada; mas somos a influencia continua e permanente, a voz surda que sempre se escuta, a tentação funesta ou a guia providencial, o grande poder obscuro, a que se não furta o filho, o irmão, o marido, o proprio pae! Que importa que não possamos exercer a nossa acção dentro da esphera restricta e limitada das leis, se os costumes ahi estão, para que nós os criêmos, os modifiquemos, os transformemos, para que nós lhes dêmos o nosso collectivo impulso enorme! Na America, visto que a mulher tem a faculdade de luctar com o homem no campo da actividade pratica, é-lhe restringido fatalmente o seu poder na esphera em que ella póde e deve ser rainha. O casamento na America protestante, dizem os viajantes que teem observado os costumes d'essa raça estranha e vigorosa, é um contracto temporario que se baseia no calculo, e que o mais leve atricto póde destruir. O divorcio é alli um facto vulgarissimo, ha mulheres divorciadas de tres maridos que contrahem muito serenamente um quarto matrimonio tão sagrado e tão respeitavel como os tres primeiros. Os filhos resentem-se inevitavelmente d'este estado transitorio em que permanece a familia. Não teem respeito nem disciplina, e é mais do que provavel que não tenham amor. Em pequenos teem de sujeitar-se ás regras estabelecidas, logo porém que sahem da infancia representam por si proprios, encetam a grande lucta da vida. A independencia pessoal, o individualismo britannico, accentua-se alli d'uma fórma muito mais saliente. _Cada um por si_, eis a lei que rege o verdadeiro _Yankee_, lei que herdou de seus avós anglo-saxonios e que exagerou, accommodando-a ás despoticas exigencias do seu meio. Assim como a sociedade politica, assenta no principio da mais ampla e rasgada descentralisação, assim a sociedade moral é dominada por um principio exagerado de independencia, que afrouxa necessariamente os laços da familia. Não se faz idéa entre nós do que é um interior nos Estados-Unidos. Nas classes burguezas e medianamente favorecidas dos bens de fortuna, vive-se por assim dizer em commum n'uma especie de hospedaria, em que se reune uma duzia ou mais de familias. Ás horas da refeição agglomera-se em torno da meza aquella multidão de indifferentes que mal se conhecem; comem á pressa absortos em preoccupações de ordens diversas que ainda mais os separam e os distanceiam. A comida feita sem amor, sem solicitude, sem o cuidado que inspiram á boa mãe e á boa esposa as predilecções dos filhos e do marido, a hygiene da familia, a economia do lar, não tem para nenhum dos commensaes nem alegria nem sabor. Comem como quem cumpre uma obrigação indispensavel e enfadonha, e d'alli partem para a faina, para o trabalho sem treguas, para a lucta acerba e pertinaz. Nem um momento de repouso ou de tranquillo devaneio. A vida é o trabalho; o tempo é mais do que dinheiro, é sangue. A existencia dos americanos é uma existencia de operario, tressuada, esmagadora. Todos querem conquistar a sua porção legitima de abundancia ou mais ainda, de riqueza. Para que? Para terem bem firme a consciencia de que a mereceram. Ha uma pressa febril, uma impaciencia vertiginosa, uma ancia de todos os instantes n'esta raça de impetuosos luctadores. As qualidades e os defeitos britannicos attingem além do Atlantico um relevo exagerado. N'esta vida cortada de obstaculos e difficuldades, n'esta vida em que a energia do homem, o seu vigor physico e moral, a dura tenacidade do seu querer, se exercitam e robustecem na mais desenvolvida escala, que lugar póde haver para a poesia, para a arte, para as tranquillas doçuras da vida domestica, para os prazeres de uma culta sociabilidade? Ha tempo apenas para admirar as extravagancias imprevistas, as cousas novas e excentricas que firam a attenção, que se imponham rapida e subitamente ao pasmo das turbas. Deriva do modo inteiramente caracteristico porque os americanos entendem a vida, o lugar que n'ella dão á mulher. Isolada por um esteril respeito, despojada de todo o predominio que entre nós lhe concedem os costumes, e a tradição religiosa e social, a mulher para tentar adquirir a consciencia da sua força, tem fatalmente de ir procural-a na arena em que luctam os homens. Isto em vez de os converter, mais os liberta d'aquelle poder occulto e latente, d'aquella doce e invisivel influencia que partindo d'alto lhes suavisaria a indole, os costumes e os gostos. Victoria Woodhall é o fructo genuino d'esta sociedade incompleta n'uns pontos e n'outros inteiramente transviada do verdadeiro caminho, do caminho que conduz á felicidade e ao equilibrio de todas as faculdades humanas. Só na America do Norte é que esta valente prégadora das reformas sociaes podia ter nascido, só a America é que podia entendel-a e applaudil-a com tão sincero enthusiasmo! Se ámanhã uma das nossas mulheres começasse a percorrer as grandes cidades da Europa meridional, prégando a transformação dos costumes, os direitos politicos do sexo feminino, a reforma das instituições, a sua prédica, por mais eloquente que fosse, seria abafada em uma tempestade homerica de risos! Aqui muito á puridade, eu não sei se somos nós, que temos razão! Criados e Amos CAPITULO XIV I Fallemos dos nossos criados. É um assumpto este de importancia summa. Tem relações estreitas com a administração da casa, com o seu aceio, arranjo, conforto e bom governo; com a moralidade que n'ella existe, com a figura que ella representa em relação ás outras casas. Parece uma questão ridicula e comesinha; tem sido estragada por todas as matronas de mau humor que desafogam n'ella a superabundancia da sua bilis; é o assumpto obrigado das conversações das mães burguezas, em quanto nas pequenas _soirées_ dos quartos andares _as meninas_ estafam um desgraçado piano asthmatico, os _litteratos_ da familia recitam versos a _Ella_, e tres commendadores gordos e vermelhos disputam acalorada e ferozmente a uma banca de voltarete. Ninguem todavia ainda encarou esta questão debaixo do seu verdadeiro aspecto. Declama-se contra a decadencia e desmoralisação dos criados de hoje, mas ninguem pensou que esta decadencia, que esta desmoralisação, provém forçosamente de alguma causa que é necessario conhecer e destruir. Á primeira vista, observando na familia, esse elemento que se tem tornado tão indispensavel quanto perigoso, nota-se o seguinte: --Que os criados de hoje não se podem comparar aos criados antigos, nem na fidelidade, nem na lealdade, nem no desinteresse, nem na moralidade. Já se vê que esta regra tem excepções numerosas, de que não tractaremos, mas que reconhecemos e admittimos. --Que dia a dia se nota n'esta classe um desapego mais profundo pelas familias a quem serve, e em cujo seio penetra. --Que elles são sempre ou quasi sempre os auxiliares da traição, do vicio, da desobediencia, e que portanto é profundamente corruptora a influencia que exercem na familia. --Que o seu interesse consiste em especularem com as fraquezas ou as maldades d'aquelles de quem dependem, e que vivem e medram na immoralidade dos seus superiores. --Que pelo seu comportamento se revelam inimigos natos de todos que estão acima d'elles, e que presentindo a vantagem que lhes póde provir do rebaixamento dos entes de quem receiam a severidade ou que são forçados, muito contra sua vontade, a respeitar, o fim que elles teem, e que procuram por todos os modos attingir, é o seguinte: penetrar vagarosa e cautelosamente na confiança dos amos, extorquir-lhes os seus segredos, e divulgal-os por sêde instinctiva de vingança, ou exploral-os, por desejo immoderado de ganho. Posto isto, provado está que os criados são os nossos _inimigos necessarios_, e que é preciso que para com elles a nossa attitude seja por em quanto inteiramente defensiva. E dizemos _por em quanto_, por uma razão muito simples. Porque entendemos que, quando n'uma classe inteira se manifestam symptomas de corrupção e de gangrena, a culpa vem por força de longe, e _de cima_, e que devemos applicar-nos com todas as nossas forças e todos os nossos desejos, a modificar essa culpa, e a redimil-a por fim. A que póde attribuir-se o contraste notavel que se reconhece entre os criados _antigos_ e os criados de hoje? A muitas causas independentes da nossa vontade, e sobretudo da vontade d'elles; as causas que teem o seu _quê_ de politicas, e seu _quê_ de economicas, o seu _quê_ de sociaes, o seu _quê_ de philosophicas. Vejam em quantas questões nebulosas e importantes entesta esta humilde questão de criados. Transformação completa do viver social e do viver domestico. D'antes a familia era fundada n'um principio de muito menos justiça, mas n'uma base de muita mais solidez. Havia o _chefe_ que acolhia á sua vasta sombra, os irmãos, os parentes pobres, os filhos, os servos que eram tambem uma tradição e tambem uma herança. Quando o chefe morria succedia o filho ou o irmão mais velho, que herdava os irmãos, os tios, os parentes pobres, os servos, todos os haveres, e tambem todas os encargos da numerosa communidade. Os criados entravam ao collo de sua mãe que vinha ser aia, ou varredora, ou engommadeira, ou outra cousa qualquer e sahiam de 60 ou 80 annos no caixão para o cemiterio, deixando na familia nova geração de servos que eram seus filhos. D'este modo havia estabilidade nos seus empregos. Só eram demittidos por _erro de officio_. Não receiavam o dia de ámanhã, não sentiam a esmagadora indifferença dos superiores a revelar-lhes que na familia eram párias, eram estranhos, eram inimigos. Não precisavam de se apossar de um segredo, de ameaçar tacitamente com uma denuncia, de lisongear vilmente um vicio ou mesmo uma mania, para darem solidez e garantia de duração á sua posição dependente e precaria! Em quanto que na vasta sala de jantar, de tectos apainelados, e custosos pannos de Arras, em torno da pesada meza de carvalho, primorosamente entalhada, se reunia alegre a numerosa familia, em que umas poucas de gerações se enlaçavam, na cosinha do palacio, ao lume crepitante das fornalhas enormes, reunia-se tambem a familia ainda mais numerosa dos antigos servos. Eram paes, mães, filhos, ás vezes netos. Não estavam privados de todas as condições humanas, tinham as suas festas intimas, as suas alegrias, os seus affectos. O seu maior empenho consistia em que a familia de que dependiam, florescesse e prosperasse; a sorte d'elles e dos seus, estava por assim dizer, identificada com a sorte dos amos. Affeiçoavam-se áquellas paredes, ou áquelles moveis, á senhora que era branda e protectora para elles, ás creanças que tinham ajudado a crear, e que um dia viriam a conceder-lhes a mesma protecção que hoje recebiam dos paes. Eram maus, interesseiros, crueis ás vezes! Embora! É porque eram homens, e não porque eram servos. Tinham as qualidades boas ou más da humanidade e não as de uma determinada classe. D'aqui a sua superioridade sobre os criados de hoje. * * * * * No regimen moderno, a familia tem outra constituição e outros costumes. As fortunas extremamente divididas já não consentem esse modo de viver opulento e patriarchal. Os mesmos ricos, que são no fim de contas os grandes financeiros modernos, esses que juntaram a fortuna de que gosam á custa de privações e de trabalho, são egoistas para todos, e particularmente duros para os inferiores. Na sua opinião os criados são machinas. Umas machinas que vestem casaca, e usam gravata branca. Exigem d'elles um serviço irreprehensivel, uma obediencia passiva, uma disciplina exemplar. De resto odeiam-nos porque lhes teem um certo mêdo. Comprehendem perfeitamente que são rediculos, elles que andaram tanto tempo de tamancos, a varrer os armazens, a levarem empurrões e maus tractos dos caixeiros grandes da casa, a curvarem-se humildemente diante dos _patrões_, dando-se agora aquelles ares superiores e desdenhosos de potentados. Emquanto comem em pratos de Sevres ou do Japão, uns manjares exquisitos que o cosinheiro, o seu cosinheiro de dez ou doze libras por mez, lhes impinge traiçoeiramente, sentem-se acanhados diante do olhar frio, do olhar metallico dos criados de meza, e imaginam que elles no mudo escarneo d'esse olhar, lhes dizem que estão percebendo o seu desastramento, os seus gestos grosseiros, e até a saudade com que recordam a assorda e o bacalhau salgado dos bons dias da mocidade. D'esta hostilidade mutua nada bom póde resultar. Os amos são orgulhosos, cheios de desdem, de indiferença, de duro egoismo; os criados são hypocritamente humildes, são invejosos, e malevolamente escarnecedores. Só um laço póde ligar estes sêres; a cumplicidade. De cima não haverá brandura em quanto de baixo não houver subserviencia criminosa. Ambos o comprehendem de sobejo; comprehendem-no sobretudo os criados que andam á mira d'um segredo, d'uma indiscrição, d'uma descoberta qualquer que os faça levantar a cabeça. No dia em que a aia recebe a primeira confidencia da senhora, no dia em que entrega o primeiro bilhete, no dia em que lhe é escutado o primeiro recado de que a encarregam, invertem-se os papeis, e só continua apparentemente aquella humildade que a suffocava de colera e de despeito. Era escrava obediente e muda, hoje é cumplice, o que quer dizer tyranna. Ao marido em caso identico succede o mesmo. Moralidade d'esta situação: o criado de hoje triumpha quando seus amos se rebaixam. * * * * * Entremos nas casas burguezas, que constituem hoje a maioria. Vive-se com pouco, ha uma ou duas criadas, a pobreza traz comsigo uma certa promiscuidade que abala o respeito. Já aqui os criados não são automatos que se movem ao impulso d'uma vontade superior. Não são mudos, não teem a fria apparencia aristocratica que revela a opulencia da casa em que servem. Pelo contrario; as criadas estão iniciadas nos pequenos segredos da familia, mas como a vida de hoje, toda de expedientes, toda no ar, desiquilibrada, impostora, não tem aquella dignidade da vida antiga, as criadas com o seu malicioso instincto plebeu penetram esse viver, julgam-no e escarnecem-o. Podia-se viver decentemente com o pouco que ha. Chega mesmo para uma alimentação sadia, para a satisfação das necessidades indispensaveis; se a dona da casa desenvolver os seus recursos de economia, conseguir-se-hia sem muito trabalho, no fim do anno, _joindre les deux bouts_ como expressivamente dizem os francezes. O pae é um funccionario bem collocado, o rendimento se não é grande pelo menos é sufficiente para uma vida mediocre e laboriosa. Diante d'este quadro parece-nos que não ha brecha por onde possa penetrar a malicia interesseira da criadagem. Pois ha, minhas senhoras! O dono da casa tem um emprego bom, é verdade, mas aspira a subir de posto, quer de mais a mais a carta de conselho, leva isto _em capricho_ por causa das _picuinhas_ do seu collega da secretaria, o conselheiro Fulano; logo, para attingir este fim desejado é preciso antes de tudo _figurar_. Tem de ir aos _chás_ do seu amigo deputado, ás _soirées_ do barão de tal _que é muito influente_, tem de dar de jantar de vez em quando ao seu amigo _cicrano_ que é parente do primo da mulher do secretario particular do ministro, tem de gastar muito em apparato ridiculo, em luxo avariado, em pompa feita de remendinhos. A mulher, já se entende, não lhe fica atraz! Podéra! E ella então que tem de se vingar d'uns chascos que as snr.^{as} Silvas fizeram ha tres annos a um vestido de seda um tanto usado que ella trazia; e que tem de fazer rebentar de inveja a _D. Leocadia_ que é mulher d'um commendador seu conhecido; e de _quebrar os olhos_ á prima Ausenda que anda a dizer pelas casas do seu conhecimento «que não sabe onde ella vae buscar para tanto luxo!» Filhas d'estes paes o que serão as meninas? Querem vestidos de seda, embora os comprem em _segunda mão_, querem joias embora sejam falsas, querem botinas de tacão alto, porque as teem visto ás pequenas da viscondessa de M. e da baroneza de S. e da marqueza de V.; querem apparecer no theatro, querem ir ao _Club_, querem tomar banhos quando não seja em praia elegante, ao menos na Ericeira; querem _reunir á noute_ uma vez por semana, umas visitas que nunca vão, querem fazer emfim o que por ahi faz _toda a gente_. Resultado d'isto, resultado inevitavel. Deve-se na tenda, deve-se no carvoeiro, deve-se na modista, deve-se no sapateiro, deve-se na loja de fazendas, deve-se ás criadas. A falta de seriedade na vida, acarreta comsigo um milhar de pequeninas humilhações insupportaveis. As criadas vão á porta receber os credores, e trazem dentro os recados com um sorriso maganão que escapa a todas as reprehensões e a todos os castigos. Se estão de mau humor resmungam, fazem causa commum com o _inimigo_, que é no fim de contas o _confrade_; se estão bem dispostas dão alvitres, inventam e lembram desculpas, lamentam a _senhora_, etc., etc. De qualquer dos modos amesquinham os amos, estabelece-se entre elles e ellas uma intimidade funesta. Destroe-se assim o respeito, disciplina, a obediencia, aquella hierarchia que tem de existir n'uma familia para que essa familia esteja bem organisada. Um dia, as _meninas_, que teem recebido a educação mais perniciosa e mais falsa, fartam-se d'aquella vida de privações intimas, de balofas apparencias e querem fugir d'ella. Teem só uma porta: o casamento. Nas familias pobres da burguezia, o casamento é julgado a porta por onde se sahe da miseria! Quantas vezes não é elle a porta por onde se entra na desgraça! Começam então a namorar. A namorar seja quem fôr. O alferes que passa, o _dandy_ pelintra que encontram nos seus passeios, o _litterato_ pallido e fatal que olhou para ellas da plateia. Quem é a confidente natural d'este _namoro_, a auxiliar forçada d'esta intriga ridicula? A criada! É ella quem espia a mãe, e quem ajuda a enganal-a; é ella quem entrega e recebe as cartas, é ella quem se _farta de rir_ com a menina, ouvindo contar o que ella lhe disse, e o que elle lhe tornou! Quantos perigos, quantas humilhações, quantas vergonhas n'este facto que é hoje trivial e repetidissimo! A criada só tem a ganhar na execução d'estes misteres. Ganha indulgencia para as suas proprias faltas, uma advogada que ou por medo ou por sympathia defende a sua causa, e até se tanto fôr preciso se revolta por amor d'ella contra a authoridade maternal. Ganha quem a ajude no trabalho! Ganha a possibilidade de ser insolente e atrevida, de se vingar da sua posição inferior, de desafogar o mau genio, e isto sem perigo de qualidade alguma. * * * * * Quando se não dão estes casos que ahi deixamos apontados dão-se outros identicos ou outros similhantes. Da parte dos superiores indifferença profunda, desejo de explorar de todos os modos e feitios os dependentes, rudeza, orgulho, egoismo, desapego. Da parte dos inferiores, a mesma indifferença creada a pouco e pouco pela incerteza ácerca do dia de ámanhã; desaffeição pronunciada, despeito, inveja, e desejo de trabalhar o menos possivel, em troca do maior salario que poderem alcançar, separação de vida, de interesses, de alegrias, de affectos. Se entra em casa a doença com todo o seu cortejo de lugubres tristezas, de vigilias e de lagrimas, nunca a criada saberá ser enfermeira. Fará o serviço, resmungando, furiosa, desattenta, fazendo esperar um caldo para ir á janella _ver quem passa_; deixando apagar o lume de noite porque adormecerá inteiramente esquecida dos que soffrem e velam. E que lhe importa a ella no fim de contas que elles morram ou se salvem. Hoje está aqui, ámanhã estará n'outra parte! Se adoecer vem uma maca e leva-a para o hospital abandonada, sósinha como um cão! Não dá porque não recebe. Entre os criados e os amos os interesses são absolutamente oppostos. A unica circumstancia que póde alterar esta situação reciproca: a cumplicidade. Que admira, pois, que todos os dias se observe maior e mais profunda immoralidade nos criados das grandes cidades? que admira que as excepções se vão tornando dia a dia mais raras? A culpa é de uns e d'outros, mas o mal tem ainda remedio. Procuremos apontal-o. No que respeita aos amos cumpre: Que sejamos benevolos para que a humildade dos nossos inferiores nunca seja para elles uma humilhação. Que tenhamos no interior das nossas casas a maxima dignidade e o maximo respeito de nós mesmos e dos outros, para que o nosso exemplo levante ainda os que estão mais baixo. Que vivamos de modo que nunca receiemos o escarneo, ou a censura de alguem, para que sobre nós nunca possam exercer-se influencias funestas. Que não exploremos a actividade dos pobres, para que os pobres não tenham interesse em explorar as nossas fraquezas, e já que é indispensavel crear-se e educar-se a classe dos criados, juntemos todos os recursos da nossa experiencia e do nosso bom senso, para dar prompto e efficaz remedio a todos os males que são por assim dizer o privilegio especial d'essa classe. II No capitulo anterior, tractando d'esta questão, tentámos apresentar as causas que determinam e aggravam a decadencia e desmoralisação dos criados modernos. Essas causas teem um resultado fatal que vem a ser o seguinte: É tão precaria, tão falta de garantias, tão exposta a continuas alterações a sorte dos criados, que para ella só descem os que n'outra esphera não poderiam achar collocação que lhes dê a subsistencia. Os bons, que por acaso ou por circumstancias fortuitas acceitam este modo de vida, são ainda mais desgraçados do que os maus, porque são mais explorados. Portanto ou fogem d'elle, ou se corrompem fatalmente. Estamos, pois, em face d'este dilemma. Ou havemos de não ter criados, ou havemos de os ter maus. É verdade que fomos nós que voluntaria ou involuntariamente os corrompemos e estragámos. Concedo. Agora, porém, não se tracta d'isso. Achamos o resultado das nossas proprias culpas e procuramos os meios de o modificar. Primeira necessidade imprescindivel: é preciso educarmos os nossos futuros criados. Mas como? Creando para isso instituições especiaes, ou modificando a indole das que já existem. Tractemos antes de tudo das mulheres. Estão por todo o reino espalhadas, e ainda bem que assim é, as instituições de caridade, tanto de iniciativa dos particulares, como de iniciativa do Estado. O que é que n'esses asylos se aprende, salvo excepções possiveis, mas que não chegaram ainda ao nosso conhecimento? Aprende-se em primeiro lugar o que hoje é indispensavel para toda e qualquer situação, por mais humilde que seja; aprende-se a ler, escrever, contar, coser e marcar. Aprende-se em segundo lugar a bordar de branco, a bordar de missanga, a bordar com cabello, a fazer crochet, a tocar orgão ou _harmonium_; ha alguns onde se aprende grammatica, historia, geographia, etc., etc. Muito bem. Em cada cem raparigas, admittimos que haja dez, cuja intelligencia superior possa mais tarde aproveitar-se d'este genero de estudos. Serão mestras regias, serão talvez caixeiras de alguma pequena loja, serão mesmo professoras particulares se houverem progredido no estudo e adquirido uma instituição mais solida e mais proficua. Que fazemos das outras noventa? Imaginemos que cincoenta casaram muito moças. Acham um artista, um carpinteiro, um chapeleiro, um entalhador, um pedreiro, um operario de fabrica, que as rouba á desamparada solidão que estava á espera d'ellas e que as leva para o seu pobre albergue desguarnecido e miseravel. Dos conhecimentos que adquiriram na educação dada pelo asylo quaes aproveitarão, quaes applicarão á sua felicidade, ao seu bem estar domestico? Com que trabalho poderão auxiliar o trabalho do marido, insufficiente para acudir a todas as necessidades do _ménage_? Que officio aprenderam a exercer? Dão as voltas de casa, varrem, limpam o pó, cosinham, mas fazem tudo isto mal. Nunca ninguem as compenetrou bem da importancia altissima d'estes misteres tão humildes. Ter a roupa do marido bem desencardida, bem engommada, com os seus remendos bem deitados, ter a casa acciada e fresca, ter uma comida pobre mas saborosa e bem temperada, ter a alegria, a abnegação, a boa vontade, e, em muitas das horas que ficam vagas, exercer qualquer pequena industria que ajude o marido, banir de casa a tagarellice das visinhas, viver só com o seu homem, com os seus filhos, no trabalho continuo, no trabalho fecundo, isso que é de certo o ideal, quem é que lh'o ensinou a praticar? Deixemos, porém, essas cujo destino agora não precisamos de apreciar e voltemos para as que ficam. Sahem do asylo, vão umas servir, outras vão ser costureiras, vendedeiras, etc., etc. Umas são as pobres creaturas roucas e aguardentadas que ahi vemos atravessar as ruas, apregoando hortaliças, ou fructa, outras as pallidas e anemicas creanças, de _cuia_ postiça, chapeu de aba revirada, polonaise phenomenal, bota de tacão alto e cambada, que encontramos á noutinha ou de manhã cedo, indo para casa das modistas, ou voltando de lá. As outras quem as não conhece, ao menos por ter ouvido fallar d'ellas? São as criadas de hoje, ou serão as criadas de ámanhã. A educação que lhes deram está em contraposição perfeita com a tarefa que teem de cumprir. Uma que foi apresentada para cosinheira, não tem as minimas noções culinarias, mas em compensação lê correctamente os jornaes que veem de manhã. Outra, cuja obrigação é engommar, não tem geito senão para bordar de matiz. Algumas, menos favorecidas da intelligencia, não sabem o que aprenderam, nem aprenderam aquillo que fazem. São as mais vulgares! * * * * * Porque é pois que se não dá ás raparigas do povo, ao menos ás que são educadas nos asylos de beneficencia, uma educação em harmonia com o seu futuro papel? Não reprovamos de certo a leitura, a ortographia, uns elementos de arithmetica, mas o que reprovamos é que haja uma uniformidade absoluta na educação que se ministra a tantas e tantas creanças de indoles diversas, de intelligencias diversissimas. Aquellas que tivessem disposições para um genero de trabalhos mais levantados, deviam encontral-o n'uma casa especialmente destinada para as filhas do povo que até aos 12 annos tivessem dado manifestações inequivocas de claro e perspicaz entendimento. Ali formar-se-hiam futuras professoras, ou futuras artistas. Haveria n'esse estabelecimento mestras ou mestres que a cada uma conforme a sua vocação ensinassem as linguas, a musica, a pintura em porcellana, a grammatica, a geographia, a contabilidade, etc., etc. A essa casa, que devia ser subsidiada pelo governo e auxiliada pela bolsa particular, iriam as mães de familia procurar _professoras portuguezas_ para as suas filhas, professoras cuja educação fosse completa, e cuja moralidade podesse ser affiançada. Mais tarde os chefes de casas de commercio, mais capazes de comprehenderem o grande alcance d'esta innovação, iriam tambem buscar a essa casa raparigas honestas, que elles podessem sentar á mesa ao lado de suas filhas, e a quem confiassem a contabilidade e os livros do seu estabelecimento. Os fabricantes de louças e outros industriaes achariam na intelligencia e na prompta comprehensão feminina grande auxilio, e auxilio mais economico. Abaixo logo d'essa cathegoria mais elevada de intelligencia, haveria, n'outra casa, as que tivessem especial tendencia para os trabalhos que requerem não só engenho, mas tambem habilidade manual. Costureiras de vestidos, modistas de chapeus, raparigas que soubessem fazer rendas, fazer franjas, etc., etc., e que o asylo logo que lhes houvesse completado a aprendizagem, podia empregar convenientemente. Seriam estas, preferidas de certo a raparigas avulsas que entram para qualquer officio completamente ignorantes do trabalho que teem a fazer. A disciplina escolar, a instrucção elementar recebida, a aprendizagem methodica, affirmava-lhes a sua superioridade enorme sobre as outras. * * * * * Collocadas assim as mais destras e as mais intelligentes, ficariam aquellas cujo espirito menos desenvolvido se recusava a uma applicação difficil. Estas seriam educadas expressamente para criadas de servir. Mas que educação precisa uma criada? Ora essa! Uma criada precisa uma educação tão cuidadosa como uma duqueza. A differença consiste unicamente n'isto: Uma tem de educar-se para criada, e outra tem de educar-se para duqueza. No asylo destinado a formar criadas, haveria o mesmo escrupulo na escolha das mestras. Antes de tudo uma moralidade austera. Depois no que toca á parte technica da educação, officinas distinctas onde cada uma das discipulas fosse alternativamente aprender os serviços que mais tarde tivesse a cumprir. Officinas onde se aprendesse a cosinhar segundo as regras da hygiene. Officinas onde se aprendesse a engommar segundo os processos mais adiantados. Outras onde se lavasse roupa de lã, e roupa de linho e algodão. Outras onde se talhasse roupa branca, fatos de creança, e fatos de senhora. Não se attenderia aqui como no _atelier_ das modistas do asylo superior, aos caprichos da moda, mas unicamente á commodidade, ao bom gosto e á hygiene. Outras ainda onde se cozesse á machina. Haveria mulheres especialmente encarregadas de ensinarem as discipulas a varrer, a limpar o pó, a esfregar o sobrado, ou a enceral-o á moda franceza, a deitar bem _rêdes_, a fazer meias, a cerzir panno, etc., etc. Haveria n'este estabelecimento um requinte de aceio hollandez. As mestras escolhidas primeiro nos paizes estrangeiros, e depois educadas pelo mesmo asylo, ensinariam com o maior cuidado ás suas discipulas, que as criadas destinadas pelo seu trabalho a penetrarem no seio de familias inteiramente estranhas a viverem em contacto com gente de muita qualidade eram forçadas a ter, além da honestidade commum a todas as mulheres honestas, uma honestidade particular da sua classe, uma honestidade composta de elementos muito variados. Dir-lhes-hiam que uma criada boa tem de ser leal, tem de ser digna, de resistir ás más tentações, de ser fiel, de ser boa companheira, de ser laboriosa e de ter o escrupulo mais exagerado no cumprimento das suas obrigações. N'este asylo ainda haveria subdivisões necessarias. As mais geitosas para um certo e determinado trabalho applicar-se-hiam a elle de preferencia, não desprezando porém os outros. Aquella que fosse destra para tudo, aproveitaria egualmente todos os elementos que houvessem de constituir a sua educação. Ser criada não é--entenda-se bem--nem uma vergonha nem um _pis aller_; ser criada é um officio, ás vezes mais complicado que os outros, porque comprehende muitos. A unica differença é que se póde ser uma boa criada não sendo excessivamente intelligente, e que as qualidades aqui indispensaveis são robustez, destreza de mãos, fidelidade, amor de trabalho. * * * * * Não se diga que isto é uma utopia impossivel. No estado de adiantamento a que chegou entre nós o principio de associação applicado á beneficencia, nada mais facil do que organisar por este modo os asylos do paiz, ou pelo menos de uma cidade do paiz. Não augmentaria de modo algum a despeza, mas progrediria necessariamente a educação popular. Reunidas debaixo de uma direcção geral, todas as casas de Beneficencia de uma cidade, passaria esta não a crear asylos novos, mas a modificar a indole dos que existem. Estabelecer-se-hia uma especie de gradação natural. Em baixo a casa que recebesse sem distincçao todas as creanças de 4 a 10 annos que estivessem no caso de serem admittidas. Alli, sob a direcção de professores intelligentes, e de directoras de espirito cultivado, far-se-hia aos 12 annos de edade a escolha. Umas seriam enviadas para o asylo profissional de 1.^a classe, outras para o asylo profissional de 2.^a classe, a terceira para o asylo das criadas futuras. Aquellas que estivessem mais adiantadas trabalhariam logo, de modo que grangeassem um salario por mesquinho que fosse. Esse salario entraria como elemento de receita na caixa central. Este plano, como se vê, não é mais que um plano embryonario, o germen d'uma idéa que se nos affigura util e praticavel. Outros melhor do que nós o estudem e desenvolvam, se entenderem que o merece. * * * * * Quanto a nós, acreditamos piamente que só então começariamos a ter criadas. As que sahissem do asylo com 20 annos de edade ficariam sujeitas a uma certa e determinada vigilancia, cujo systema e cujas bases nos não compete agora explicar. Com estas garantias de moralidade, e de bom serviço, seriam preferidas a todas que as não tivessem, e pelo menos fariam uma util concorrencia ás criadas indisciplinadas e ignorantes que hoje temos. As casas dignas e honestas teriam criadas cujo comportamento as não deslustrasse. As outras ficariam com as que teem hoje. Não merecem mais. * * * * * Nos asylos dos rapazes, seguir-se-hia uma norma egual ou parecida. Esses como teem campo muito mais vasto para exercerem as suas actividades complexas, dariam de certo, bem educados e bem dirigidos, um pequeno contingente para a classe dos criados. Seria um bem. Uma criada representa sempre uma necessidade, um criado representa sempre um luxo! Para que ha de haver criados de meza ociosos e insolentes, cosinheiros envenadores e infieis? Estes serviços tão faceis não podem ser feitos por mulheres? Logo que este uso se propagasse entre os ricos, deixaria de ser indicio de pobreza, ou de habitos plebeus. No fim de contas tudo isto não passa de convenção! * * * * * Já que o Estado julga descer occupando-se d'estas _pequeninas_ questões de moralidade domestica, que a iniciativa individual o substitua. Ninguem mais do que nós tem applaudido o engrandecimento progressivo, o rapido desenvolvimento das instituições de caridade. Não é o dinheiro que falta, porque entre nós quando se falla na miseria, a caridade nunca faltou; o que falta é uma direcção boa. A rotina n'isto como em tudo é funestissima. A nossa caridade official dá pão e vestuario ás creanças, mas que faz em favor das mulheres? Dando-lhes uma educação que não está em harmonia com os seus meios futuros, condemna-as á miseria, á desgraça, quantas vezes á ociosidade e á ignominia? A educação deve fazer-se pratica e positiva, deve tornar-se um preventivo efficaz contra os maus conselhos da pobreza ou da preguiça! Os que pensarem n'isto farão um bem á familia, e á sociedade. Creanças CAPITULO XV I São ellas a alegria da familia, como a familia é a suprema ventura dos felizes, e o supremo consolo dos desgraçados. Quando apparecem trazem comsigo o sol; tudo se illumina. Sorriem os labios mais ironicos, marejam-se de lagrimas doces os olhos mais aridos, estendem-se prodigas de bençães as mãos mais avaras. Ellas são a graça que se ignora, a fraqueza que nenhum poder assusta, a innocencia que interroga, a aurora intellectual que desponta e que diffunde em torno de si uma luz cariciosa e limpida, uma luz que se reflecte em jubilos no coração das mães. Tudo na vida é para ellas mysterio, mysterio que as chama e as attrahe, cujas trevas as não apavoram, em cujos sinistros meandros nem sequer receiam perder-se. Em cada um d'aquelles pequeninos cerebros encerra-se em germen tudo que é no homem pequenez ou grandeza, genio ou mediocridade, força ou impotencia, virtude, abnegação, esquecimento de si ou egoismo, vicio e crime. Onde ha maior mysterio do que a creança? Debalde a interrogamos; não sabe responder, senão áquelles que pelo poder da sympathia logram identificar-se com ella. Recebel-a das mãos de Deus é para a mulher, para a mãe a mais tremenda das responsabilidades, e desgraçadamente aquella de que tem a consciencia menos definida e menos clara! * * * * * Ser mãe, quem o não é? A difficuldade e o segredo é saber sel-o. Na sociedade, tal como ella está constituida e continuará a estar por largos e dilatados annos, dous entes, um homem e uma mulher, moços ambos, encontram-se, olham-se, sorriem-se e pensam de si para comsigo que estão _apaixonados_. Durante alguns dias, alguns mezes, a que elles em falsa e sentimental linguagem chamam _seculos_, repetem um ao outro, n'um tom mais ou menos desafinado os _duettos_ de ternura doentia que os romancistas, os prosadores e os _maestros_ inventaram para conveniencia sua... dos seus emprezarios e editores, e para envenenamento do resto da humanidade. N'este meio tempo, por detraz dos bastidores, os paes, que fingem _não ver nada_, calculam _in petto_ quaes os prós e os contras pecuniarios do matrimonio hypothetico. Se os primeiros levam certa vantagem aos segundos, celebra-se com a devida pompa o almejado consorcio, e n'essa noite ha mais dois desconhecidos, dois indifferentes, dois estranhos acorrentados um ao outro por um laço que devia ser sagrado, e que muitas vezes consegue sómente ser... dourado! O marido no outro dia vae para as suas labutações do costume, para a vida exterior que o reclama e absorve, a mulher fica em casa provando os vestidos do enxoval, experimentando se lhe fica bem a touca, distinctivo invejavel das noivas, ensaiando os seus primeiros vôos timidos de senhora independente, que póde á sua vontade fechar o piano, atirar fóra o lapis e as tintas, deixar para um canto a costura e o bordado, e subverter-se sem receio das censuras maternas no _dolce far niente_, que tanto a namorava em seus dias de educanda submissa. D'alli a um anno, se é boa, docil, se tem a intuição das cousas delicadas, se um poderoso instincto de creatura amoravel lhe pede que espalhe em volta de si a felicidade, concedamos-lhe que já tem tido tempo de conhecer e apreciar seu marido, que principia a estimal-o, que se lembra um poucochinho envergonhada dos falsos lyrismos de solteira, das cartas que lhe escrevia _fazendo estylo_ e copiando phrases dos grandes apaixonados que a lenda e o romance immortalisam; que tem, emfim, ainda incompleta, mas já accentuada a noção da verdade e da justiça que ha de guiar-lhe a vida. Param, porém, aqui os seus conhecimentos, e um dia, surpreza, encantada, extactica, chorando de alegria, umas lagrimas verdadeiras, d'estas que se escoam entre risos de gratidão, percebe que tem nos braços um pequenino ser, a quem tem direito de chamar filho, porque o gerou no seio em longos mezes de agonia insondavel. Que ha de fazer d'elle? Como ha de desenvolver, robustecer, cultivar a saude d'aquelle entezinho, fragil e indefezo, que lhe solta no regaço os seus primeiros vagidos, buscando com a boquinha faminta e o instincto animal, que Deus concede a todos os seres creados, a primeira gotta do leite materno, que é a sua vida? Entram as amigas e dizem-lhe em côro: --Não o cries que perdes a formosura, o viço, a mocidade, tudo o que prende e captiva teu marido. --Não o cries, que tens de te despedir dos bailes, das noites triumphantes em que a valsa nos arrebata nos circulos vertiginosos, em que as flôres e as finas essencias nos embriagam com o perfume enervante, em que a musica nos côa nos sentidos as suas caricias languidas, em que a luz crúa do gaz nos beija as espaduas opalinas, em que a admiração dos homens nos envolve na audaz provocação dos seus olhares, em que a inveja das mulheres nos enrosca em espiraes de cobra. --Não o cries, que terás de perder as noutes, não entre alegrias e folgares, mas na alcova, onde a medo bruxoleia a luz mortiça da lamparina, junto de um pequeno berço, ouvindo aquelle choro da infancia, tão doloroso para os ouvidos maternaes. Teu marido fugirá de ti; elle, que anda cansado da faina diaria, quer as noutes tranquillas, os somnos fartos, as placidas madrugadas; repugnam-lhe os primeiros trabalhos que a creança tem que dar por força á mãe, que fôr mãe, na accepção plena da palavra. Não creio que a maior parte das mulheres ouça os funestos e corrosivos conselhos das amigas falsas; hoje começa a radicar-se em todos os espiritos a convicção justa e sensata de que só a mãe, quando é robusta, ou quando é simplesmente sã, deve amamentar o filho. Entregal-o aos braços mercenarios de mulher estranha é aceitar a mais tremenda das responsabilidades. A ama póde communicar no leite os seus vicios, os seus instinctos maus, as suas doenças ou defeitos de organisação hereditaria, toda a herança fatal de um passado inteiramente desconhecido para as pessoas que tão levianamente lhe confiam o que devia ser o mais precioso thesouro da sua alma. Abstraiamos, pois, a ama, por não querermos suppôr que se trata aqui de uma mãe frivola até ao crime, despiedosa até á ferocidade, ou fraca a ponto de não poder cumprir os deveres da sua missão maternal. Fica-nos simplesmente a mãe inexperiente e ignorante em face da recem-nascida creatura, flôr que precisa o mais desvelado cultivo, a mais complexa das educações. Não a accusemos ao vel-a aceitar o seu mimoso fardo com tão leviana confiança, com uma tão plena inconsciencia da grande missão que precisa de cumprir. A culpa não é d'ella; n'este ponto ha um criminoso apenas--é o homem. * * * * * Abrem-se universidades, lyceus, escolas, seminarios, institutos scientificos, para educarem no seu seio os jurisconsultos, os medicos, os sacerdotes, os mathematicos, os commerciantes, os sabios, os cidadãos do futuro. Só falta uma escola, a primeira, a mais indispensavel das escolas, a que facilitaria e tornaria fructiferos os trabalhos das outras: falta a _escola das mães_! Ninguem se lembrou ainda de a crear, julgam-na desnecessaria, ou talvez que a julguem frivola. --Como é que se ha de ensinar a ser mãe? é só a natureza que instrue a mulher. Ha mães de quinze annos que sabem mais n'este assumpto do que velhos pensadores de sessenta. Deixae obrar a natureza, é ella a grande mestra, a suprema inspiradora! De accordo, meus senhores; quem é que nunca se lembrou de negar á mãe o seu divino instincto de protecção e de ternura? Quem ao vel-a segurar com tão delicado carinho o tenro corpo do filho, acalental-o nos braços, adivinhar-lhe as necessidades e os desejos até para elle indistinctos, negará que entre esses dous entes ha uma cadeia mysteriosa, que a natureza nunca poderá mais desatar? Mas é necessario que o estudo auxilie o maravilhoso instincto, que elle ensine á mãe a comprehender no seu triplice aspecto, physico, moral e intellectual, a educação do ser complexo, que hoje é uma fraqueza que implora auxilio e ajuda, que ámanhã será uma força util ou funesta, conforme a direcção que haja recebido desde os mais tenros annos. * * * * * _O estudo que comprehende todos os outros estudos, e que deve, portanto, constituir o ponto culminante da instrucção, é a theoria e a pratica da educação da infancia._ Estas palavras de Herbert Spencer, o philosopho mais notavel da moderna Inglaterra, um grande pensador, um chefe de escola, provam de sobejo até que ponto, aos olhos do homem que medita, avulta hoje o grande problema da educação. É um erro imaginar que a creança nasce boa. Ha n'ella instinctos innatos de natureza selvagem, instinctos primitivos, que só uma habil cultura modifica, transforma, encaminha ou desarreiga. Toda a creança é curiosa: mães aproveitae essa grande força, que conduz o homem á conquista de todas as grandes descobertas da sciencia e da arte, e que póde quando entregue a si conduzir a creança ao mais deploravel e mesquinho dos vicios de caracter, á curiosidade esteril do ocioso, da _senhora visinha_. A creança tem o instincto do roubo. Apossa-se do que vê, do que attrahe pelo brilho, do que lhe desafia a cubiça, a gulodice, o amor da posse. Leitora, quando o teu pequenino de tres ou quatro annos tiver artes de te roubar uma joia muito querida, um manjar muito reservado, um _bibelot_ qualquer, que seja para ti de grande estimação, não chores desconsolada, lendo n'esse primeiro symptoma sinistras prophecias. Esse prenuncio de ambição desregrada póde, dirigido com previdente vigilancia, transformar-se na legitima energia que leva o homem a desejar a posse das riquezas honestamente adquiridas, a exercer no seu espirito uma influencia fortificante, a tornal-o pertinaz no caminhar para um ficto que de longe antevio. Dirigir toda e qualquer tendencia para um fim elevado e util, combater a inercia, a preguiça physica e intellectual da creança, empregando activos reagentes, ir ajudando lenta e gradualmente a evolução natural do entendimento infantil, abrir-lhe o espirito a todas as curiosidades sãs, apontar para a natureza inteira como para um livro enorme, mysterioso, cheio de apaixonado interesse, de peripecias dramaticas, de imagens vistosas, que elle ha de ir decorando a pouco e pouco, conduzil-o até ao limiar da adolescencia, puro de coração, immaculado no corpo, prompto e apto para absorver em si os conhecimentos complexos que o esperam, robusto, são, energico, confiante, cheio de crença nos outros, e de crença maior em si, eis a missão das mães. Que de cousas não são indispensaveis para a saber cumprir! * * * * * Uma das cousas que a mulher quasi geralmente ignora é a hygiene pratica, que ella tanto precisava saber, tendo, como tem, a seu cargo a distribuição e direcção do alimento da familia. Do alimento que se ministra á creança depende em grande parte não só a sua futura saude, mas, o que poucas mulheres sabem,--o seu caracter futuro! Dae a uma creança alimentos irritantes, inflammaveis, apimentados; deixae-a usar sem discernimento de bebidas em que o alcool predomine, e tereis o temperamento adulterado, o caracter azedo, os habitos baixos, os gostos perversos, todas as aberrações de um organismo estragado. Dae-lhe só carne, alimentae-a brutalmente de materias fortemente azotadas, e fareis d'ella, da meiga e fragil creatura, do pequeno anjo de cabellos louros e olhos innocentes, um temperamento sanguinario, selvagem, amigo das luctas bravias, das distracções violentas, dos exercicios athleticos, que caracterisam as rigorosas raças do norte. Exemplo: os inglezes, que só domam as revoltas brutaes do temperamento com a forte disciplina de uma educação que é o supremo milagre do espirito sobre a materia. A alimentação fraca produz os organismos inertes, fleugmaticos, sem impulso, sem fibra, sem energia duravel. Saber pois, conhecer os diversos attributos que caracterisam a alimentação do homem, saber combinal-os de modo que todos concorram para o seu bem-estar physico, e que nenhum produza as graves perturbações organicas de que podem ser origem, é a sciencia das mães, sciencia para cujo estudo devem tender todos os seus esforços. * * * * * A actividade quasi incessante da creança é um dos meios que mais efficazmente concorrem para o seu crescimento physico e, por consequencia, para o seu desenvolvimento intellectual. As mães, julgando fazer n'isto um grande serviço a seus filhos, combatem por todos os modos esta actividade, obrigando as creanças a uma quietação que se transforma em supplicio para os pequeninos corpos buliçosos, que um impulso involuntario leva a um quasi continuo movimento. Não é só com as reprehensões, ás vezes asperas e sempre injustas, não é só encerrando os pobres seres pequeninos em espaço muito estreito para os seus desejos, é tambem vestindo-os para obedecer ao despotismo da moda, e ás exigencias da propria vaidade de um modo que está em pleno contraste com a idéa que todo o espirito um pouco sensato deve formar das aspirações e necessidades da infancia! A creança, que quer e que precisa de correr no espaço amplo, pelas ruas pedregosas, pelos campos lavrados, pela matta cheia de raizes, traz quasi sempre uma botina alta, justa, de salto levantado e estreito! Ella, que aspira aos movimentos livres, que se compraz nos grandes gestos, que trepa ás arvores, que se roja pelo chão, que atira ao longe os improvisados projectis que encontra, sente-se cruelmente cingida por um fato rico, elegante, phantasioso, caro por força, e que tem o defeito duplo e contradictorio de a entristecer lentamente, inconscientemente pelas censuras e ralhos de que lhe é motivo incessante--visto que não ha nada mais avarento do que a prodigalidade e nada mais economico do que a ostentação--e de a tornar vaidosa pelo habito e pelo gosto de attrahir as vistas dos frivolos, e a inveja dos pobres, dos pequenos rotos, dos miseraveis de cinco annos, que ignoram as alegrias bemditas da sua liberdade indomada! Mães, arrancae ao vestuario dos vossos filhos tudo que fôr vaidade, falso luxo, ostentação ridicula! A graça das creanças consiste na plena expansão da sua vitalidade; o luxo d'ellas está no doce aroma de infancia que de si exhalam, e que falla de aceio, de pureza, de carinho materno, que revela--aos que sabem ver--as matinaes e frescas alegrias do banho, as risadas crystallinas como perolas que se desfiam, os gritinhos infantis, as fugidas subitas, todo esse poema, que ninguem traduz, de um bando de pequeninos corpos, feitos de leite e rosas, com cabelleiras louras por aureola, que uns braços amorosos amparam, susteem, acariciam, em quanto que um sorriso meigo e pensativo illumina em clarões de limpidez ideal, uma bocca que só sabe abençoar, uns olhos de mãe, que nunca desamparam nem desfitam o tepido ninho das suas doces aves implumes. II Por muito tempo todas as attenções do homem se fixaram n'um ponto que se avistava para além da vida terrestre. Curava-se sómente da alma considerando a terra morada transitoria, cheia de males e de miserias, e o corpo ephemero involucro, especie de lodoso carcere onde o espirito prisioneiro anciava por levantar o vôo para as altas espheras da eterna bemaventurança. Este pensamento, que dominava todos os outros e ao qual todos os outros se subordinavam, é a causa suprema de onde deriva toda a philosophia da edade média, e que determina o ideal a que tenderam os sonhos de milhares de gerações, nossas predecessoras na vida. Foi elle que estabeleceu o medonho antagonismo entre o espirito e a materia, causa de tantos erros e de tão falsas interpretações; foi elle que levou o homem perdido e transviado a considerar a natureza como a sua mais cruel inimiga, como a sua tentação mais perigosa e abominavel. D'esta guerra anti-humana e anti-natural nenhuma conquista verdadeira poderia provir. Era falso o ponto de vista de que o homem partia, falsissimas todas as deducções que d'esse ponto de vista resultavam. O corpo era um farrapo miseravel que só merecia desprezo e humilhação; todo o prazer, ainda o mais natural era um peccado que cumpria expiar cruelmente; a vida era um periodo curto de passagem e penitencia; a creança nascida já vinha contaminada do peccado original; a alma, só a alma precisava dos nossos cuidados, das nossas meditações, do nosso mais especial e esmerado cultivo! Quantos erros de educação, de moralidade e de hygiene! Quantas revoltas medonhas este despotismo espiritual não excitava! Mas foi por acaso esse tempo de pura espiritualidade? Pelo contrario! Nunca os instinctos maus do homem imperaram com mais violencia! Nunca se materialisaram mais todos os cultos e todas as idéas! O Deus que todos adoravam em extasis apaixonados, era o Christo dolorido, cadaverico, crivado de pregos, escorrendo sangue de cada uma das suas chagas abertas. A dôr maternal era symbolisada por sete espadas atravessando um coração dilacerado. Os fanaticos mostravam á admiração das turbas os estygmas sangrentos das suas carnes palpitantes. Os ascetas tinham visões nas quaes o Padre Eterno, o Christo, a Virgem, os Santos, lhes appareciam sob a fórma humana, com feições diversas e caracteristicamente accentuadas, fallando na linguagem mais correntia e mais chã. A _resurreição da carne_ era um dos pontos fundamentaes do dogma catholico. O espiritualismo d'essas éras barbaras era muito mais _material_ do que a sciencia de hoje. --Para que aperfeiçoarmos e amenisarmos a vida,--diziam do alto dos seus pulpitos ou nas paginas dos seus tractados as terriveis authoridades d'essas éras tão hostis para o homem.--Quanto maiores supplicios houvermos padecido n'este momento rapido, maior quinhão de gloria tem para nós a eternidade. Sofframos todas as humilhações mais abjectas, curvemo-nos diante de todas as tyrannias, deixemos que os vermes devorem o nosso corpo ulcerado, sejamos grandes em face do Senhor, como Job na sua gloriosa estrumeira. Os que forem ultimos cá em baixo, serão os primeiros no céu! E a humanidade, ébria de um sonho de beatitude immortal, perdia a força para combater, e esperava passivamente a resurreição esplendida que os illuminados lhe promettiam! Oh! quanto devemos á robustez de espirito, á fé fecunda e creadora que moveu alguns homens privilegiados a fazerem-nos sahir d'esse marasmo estagnador! Foram esses homens os verdadeiros creadores da sciencia, que hoje illumina até os mais ignorantes, dos bens que hoje desfructam até os mais desgraçados. * * * * * Um dos problemas resolvidos pelos modernos, e que se não fossem esses benemeritos de que acima fallamos ficaria para sempre obscuro, é o problema da educação. Segundo o ponto de vista da edade média, a mãe não devia attender senão á alma de seu filho. Era preciso fazer d'elle um santo, e as mais das vezes só se fazia um bandido. E que o alvo a que se tendia era estupido e anti-natural e os meios de que se usava eram inteiramente contraproducentes. Hoje a mãe já não tem desculpa nem da sua ignorancia propria, nem da ignorancia da sua época. Se não sabe é porque não quer saber. O homem moderno tem applicado grande parcella da sua prodigiosa actividade em descobrir os meios mais efficazes de fazer as gerações que vão seguir-se-lhe melhores do que as gerações que o precederam. Está pacificada a guerra que se havia travado entre a alma e o corpo. Mais ainda; hoje comprehende-se perfeitamente que é da saude do corpo que depende a saude da alma, e que os maus são quasi sempre os enfermos ou os defeituosos. O caminho das boas mães está naturalmente traçado. Não poupar esforços para aperfeiçoar e robustecer o corpinho querido, dentro do qual está crescendo e desabrochando a flôr maravilhosa, a flôr delicadissima, que é a alma infantil. Poucas pessoas comprehendem a fundo qual seja a responsabilidade de ser mãe. Não a póde haver mais seria e mais tremenda. Desde que a creança nasce até ao segundo periodo da sua vida, em que ella já começa a ser susceptivel de ensino, quantos cuidados multiplos, engenhosos, delicados e constantes! Um movimento menos suave, um golpe de ar quando a creança está no banho, um abafo excessivo ou uma imprudente e rapida mudança de habitos, qualquer pequena cousa que á primeira vista parece insignificante, póde ter um alcance enorme no futuro do querido entezinho. Sabemos de uma creança que ficou cega, porque estabeleceram uma corrente de ar no quarto em que ella tomava um banho tepido. Conhecemos uma pobre mulher, que tem padecido toda a vida cruelmente, que nunca pôde trabalhar, nem ser util a ninguem, porque a tornou rachitica uma quéda que a fizeram dar brincando com ella em pequena. Ha muita gente que se diverte estupidamente atirando as creanças ao ar, fazendo-as dar voltas, abalando-lhes o pequeno cerebro. Quem póde dizer os resultados fataes para o seu organismo que d'ahi resultam! A creança é tudo que ha de mais fragil e de mais delicado. Pensem bem todas as mães que um erro de hygiene póde ás vezes fazer de uma indole pacifica uma indole perversa. A alma e o corpo, os dous irreconciliaveis, inimigos de outro tempo, estão hoje para todos os olhos tão estreitamente unidos, tão profundamente identificados, que não ha abalo ou sensação que um experimente e de que o outro deixe de resentir-se logo. * * * * * Pensam muitas mães que o melhor meio de emendarem os erros de seus filhos, são os ralhos repetidos e os castigos severos. Engano perfeito! O unico meio de educação verdadeiramente proficuo é o exemplo. Que encargo de almas não assume a mulher que quizer ser boa mãe! A mais doce e a mais tocante relação reciproca que existe entre a mãe e o filho, é aquella em virtude da qual a mãe educando-se educa, e o filho sendo ensinado ensina. Emquanto ensinamos os nossos filhos, a nós proprias nos estamos illustrando. Pensando nas virtudes que elles devem adquirir e no meio de lh'as inocularmos no coração, como que se nos vão lentamente revelando todas as bellezas incomparaveis d'este mundo moral, de cuja contemplação andavamos, senão alheiadas, ao menos distrahidas. Oh! de quantos rasgos bons não é origem para a mãe, o receio de vêr traduzir-se um espanto accusador nos olhos limpidos de seu filho. E depois é necessario que todas as educadoras pensem muito n'esta verdade tão simples e tão lucida. O exemplo, é que ensina, guia e robustece a alma e educa o espirito. Que importa que ella pregue e ensine as boas palavras, e a brandura do caracter, se ella não provar com o seu exemplo de todos os dias a divina graça d'estas qualidades e d'estes usos? A creança obedecerá talvez, mas sem convencimento e sem alma! Para que todas as bençãos de Deus chovam sobre a cabeça das que sabem ser boas mães, nem esta benção suprema lhes faltou. Ao contacto divino da infancia, na doce intimidade da innocencia, perdem defeitos e ganham virtudes. A educação bem comprehendida é tão util á mãe como á creança. * * * * * Imagine-se uma creatura fraca, indolente, tendo sido de pequena criminosamente amimada, mas ao mesmo tempo possuidora de claro e perspicaz entendimento. Tem habitos inveterados de preguiça, tem horas desoladoras de tedio e de morbida melancolia. O tempo para ella é pesado e longo. Vive, não _gosando_ as horas porém _matando-as_ como póde. Não se occupa, não reage contra o seu natural e funesto prostramento, não tem um fim util e querido para o qual viva. Um dia esta creatura infeliz é mãe! Comprehende toda a responsabilidade que lhe cahiu sobre os hombros, e como no fim de contas é intelligente e boa, quer cumprir dignamente a sua sagrada missão. Como é milagrosa e abençoada a influencia que n'este caso a creança innocente exerce no caracter de sua mãe. Acabaram-se as longas scismas dolentes, as doentias tristezas, os inuteis desalentos! É preciso que ella ensine a viver á fragil creaturinha que Deus confiou aos seus braços. Quantas d'estas redempções se não devem á infancia! Quantas vezes a mão inconsciente de um pequeno ser de dous ou tres annos não tem redimido os erros de seus paes! * * * * * Lembra-nos, a proposito d'isto, uma poesia deliciosa que lêmos ha muitos annos, e cuja idéa é esta. Duas desgraçadas creaturas, d'estas que a miseria prende ás vezes mutuamente por ephemeros laços, arrastavam juntas uma vida angustiada e degradante. _Ella _sem coragem, sem aceio, sem actividade, sem aquella força que ao mais negro albergue póde dar a mysteriosa graça dos ninhos; _elle_, ocioso, cruel, covarde diante da desgraça e diante do trabalho, ébrio ás vezes, d'aquella selvagem embriaguez da aguardente e do absintho. Porque se conservaram unidos? Nem elles proprios o sabiam. Poder do habito, abjecto marasmo das supremas degradações. Um dia, n'aquelle antro miseravel, soou o vagido de uma creança. Não se admirem. Tambem ás vezes das podridões de uma sepultura desabrocha uma rosa de maio. Quando á noite o homem voltou de suas divagações sem rumo, a pobre mulher prostrada nas palhas apodrecidas da enxerga, perguntou-lhe espantada: --Porque me não bates? porque me não ralhas? quem é que suspendeu o insulto da tua bocca, e os golpes dos teus braços? E elle, o homem perdido e brutal, respondeu baixinho com um enternecimento desconhecido na voz rouca: --_Tenho medo de acordar o pequenino._ --_J'ai peur de réveiller l'enfant._ Oh! creanças, creanças, como isto revela bem o poder divino que é tão vosso! * * * * * Tenho fallado muito ás mães n'este assumpto. Nunca me cansarei de lhes repetir que se entreguem bem do intimo d'alma á educação dos seus filhos! É que não ha creanças más, como não ha homens perversos. Ha creanças mal educadas e ha homens pervertidos. Na educação que as creanças recebem dominam ainda perigosos preconceitos, e dizemos _perigosos_, por que n'este grave assumpto todo o erro é um perigo. Apontemos alguns. Toda a mãe ambiciona possuir um filho modelo. Quer dizer, um menino muito direito, muito aprumado, que falla como um livro, que sabe grammatica, maximas moraes, que repete versos classicos, que nunca faz bulha, que tem gestos desdenhosos e reprehensivos para a travessura dos outros, que nunca se esquece das lições, que é emfim um _prodigio_ que todas as mães invejam, e apontam como ideal a seus filhos menos privilegiados. Esta classe de creanças póde dizer-se que é a unica verdadeiramente antipathica. Evitemos quanto possivel que os nossos filhos sejam _meninos modelos_. Para evitar este resultado, é preciso não dar excessiva attenção ás graças naturaes da creança, não a louvar de modo que ella ouça, não a forçar a estudos precoces, fazel-a brincar, correr dar-lhe plena liberdade de movimentos e de impulsos. Se a creança tem demasiada propensão para os estudos mais proprios de outra edade, cumpre distrahil-a, pôl-a em contacto com a natureza, ensinal-a a comprehender a alma das cousas. Nada melhor para desenvolver o espirito e o coração das creanças do que a vida no campo. Plantas, arvores, animaes, os alegres trabalhos da lavoura, tudo que desperta sans curiosidades no entendimento infantil. Dae ao vosso filhinho um alegrete do jardim para elle tratar, dae-lhe um animalzinho manso e inoffensivo a que elle se affeiçoe. * * * * * Ás vezes quando o nosso filhinho bate com a cabecinha no chão, ou em qualquer movel da casa, vemos com indifferença a criada que o trata bater tambem, fingindo-se muito zangada, no objecto que sem culpa nem consciencia é a causa da magoa que afflige o nosso pequeno amor. Este velho costume das aias e das mães pouco atiladas, é um erro. Torna a creança absurdamente vingativa. D'ahi a bater ou a ter vontade de bater em quem a contraria, não vae nada. De cada idéa falsa se faz n'estes cerebros delicados e impressionaveis o germen de um vicio ou de um defeito. Quantas mães eu não tenho ouvido dizer: Meu filho é tão teimoso! Meu filho é tão guloso! Ou tão tagarella, ou tão curioso!--ou tão colerico! Mães, procurae bem no passado e achareis a semente d'isso que hoje é planta damninha e venenosa. * * * * * Combater a teima, com a teima, a gulodice natural com a abstinencia forçada, a cólera instinctiva, com os castigos implacaveis, é pessima tactica. O meio de levar uma creança a esquecer-se de que teimava, é distrahir-lhe a attenção para assumpto muito diverso d'aquelle que a absorvia. Quando uma creança é exageradamente gulosa, o meio de a emendar é leval-a a envergonhar-se do seu defeito, a córar d'elle diante de si propria. Nas cóleras a que todas as creanças são mais ou menos sujeitas, o remedio mais efficaz é uma brandura magoada. Que a mãe deixe ver que os erros de seu filho a não enfurecem, mas a fazem soffrer muito. A creança ficará desarmada e moralisada. Para ella a revelação subita de que foi causa de grande amargura para aquella a quem mais estremece, corresponde ao despertar da consciencia e ao pungir do seu primeiro espinho! Usemos na educação dos meios puramente moraes, e não das degradantes correcções physicas. Acordemos por todos os modos imaginaveis o bom senso da creança, e a impressionabilidade do seu ser moral. Que ella conheça sempre o mal e o bem, não pelos inconvenientes ou vantagens que d'estas duas cousas possam provir, mas pelo que ellas valem, pelo que significam, pelo rebaixamento que uma inclue em si, e pela essencia superior de que a outra é feita. III N'este delicioso e querido assumpto da educação infantil tudo está dito, e tudo está ainda por dizer. As regras geraes teem forçosamente de ser modificadas na sua applicação a casos particulares; nenhuma creança existe no mundo que seja absolutamente egual a outra creança; é ao espirito da mãe que pertence o gravissimo e delicado encargo de corrigir, ampliar, alterar, restringir as regras e os preceitos enunciados pelos educadores e pelos moralistas. O que é, pois, necessario antes de tudo, é levar as mães a pensarem profundamente n'estas altas questões, e a estudarem com pertinaz paciencia o caracter das creanças cujos destinos teem de dirigir. Conhecemos uma senhora, aliás muito boa e muito dedicada, que, tendo cinco filhos, os educa a todos pelo mesmo systema. Resultado inevitavel e fatal: As creanças são todas deploravelmente educadas. Ernesto Legouvé, distincto escriptor francez, que tem consagrado grande parte da sua vida a notaveis estudos sobre a sorte da mulher, e sobre a educação da creança, publicou ha mezes um bello livro que d'aqui recommendo a todas as minhas leitoras. Intitula-se--_Nos filles et nos fils_, e contém uma serie de scenas e estudos de familia, muito proprios para ampliar e esclarecer o coração e o entendimento das mães em certos momentos criticos da sua difficil missão. Um d'esses trechos, e talvez um dos mais importantes, trata das creanças e dos criados, da intimidade forçada e muitas vezes perigosa que entre elles se estabelece, e dos resultados nocivos que d'essas relações resultam para a educação. Legouvé leu este trecho na _Academia Franceza_; por aqui se reconhece a sua importancia, a maneira superior por que foi tratado. Muitas mães desattendem na educação dos seus filhos a questão gravissima dos criados. Deixam que as creanças vivam n'um contacto muito intimo com gente de tracto grosseiro, de comportamento equivoco, de linguagem eivada de erros, de conversação baixa e degradante. Quantas mães eu não tenho ouvido dizer ás suas filhinhas de quatro, cinco e oito annos:--_Vae lá para dentro; deixa-me conversar?!_ Imaginam ellas que para a creança nenhuma consequencia má póde provir da sua intimidade com as criadas. Enganam-se. Antigamente, quando os domesticos faziam, por assim dizer, parte integrante da familia, nasciam e morriam na casa, não havia perigo em que as creanças estivessem junto d'elles e com elles tagarellassem e brincassem. O instincto d'essas boas creaturas, afinado na convivencia de pessoas de educação elevada, fazia-lhes comprehender que as creancinhas eram uns seres sagrados e queridos, cuja intelligencia se não devia macular nem de leve, cujos ouvidos tinham de ser escrupulosamente respeitados. Hoje, infelizmente, como já o dissemos, esse modo de comprehender a vida de familia, modificou-se completamente. Os nossos criados entram e sahem com uma rapidez e uma facilidade incrivel; não criam raizes em parte alguma, e este viver de párias no meio dos que teem lar e alegrias intimas e familia e tecto seu, desenvolve-lhes contra os amos uma estranha hostilidade. Dizem mal por gosto, por necessidade, por um costume de classe. Precisam de vingar-se, e vingam-se dos maus e dos bons, sem escrupulo e sem remorso. De cada casa d'onde sahem trazem os segredos, as anecdotas mais intimas, os incidentes comicos, os acontecimentos grotescos; e contam tudo isto, uns aos outros, n'uma grande liberdade de palavras, de apreciações e de commentarios. Surprehenderam aqui um drama, alli um ridiculo, conhecem as miserias de muito interior, os vicios que se fazem pobreza, e a pobreza que se faz vicio. Com o amor do pittoresco e do maravilhoso, que ha sempre na alma do povo, dão um colorido phantastico aos seus contos, que attrahe por força a curiosidade da creança. Imaginem-se uns ouvidos de cinco, de seis, de oito ou nove annos a beberem essa deploravel sciencia! E não se diga que a creança não entende! A creança tem o instincto da curiosidade desenvolvido n'um extraordinario grau! A creança entende quasi tudo, e d'aquillo que não entende guarda a memoria até á edade em que o mysterio lhe seja naturalmente explicado. Não levar nunca para um caminho mau a curiosidade de uma creança, deve ser um dos maiores cuidados da mãe. Mas dir-me-hão: as pessoas crescidas conversam por força em mil assumptos melindrosos; se realmente as creanças percebem, como evitar que ouçam? É n'isso positivamente que está o mal. Na sala de uma senhora que tem filhos e que se compenetra absolutamente dos seus deveres de mãe, deve haver o maximo escrupulo na escolha das diversas conversações. Assim como ha limpeza nas habitações, porque não haverá limpeza nos espiritos? Não ha tantos assumptos attrahentes de conversação? Será absolutamente preciso dizer mal, murmurar, revelar indiscretamente mysterios alheios? Não quer isto dizer que a humanidade se limite a um puritanismo de palavras, que degenerará por força em hypocrisia; mas entre esse excesso ridiculo e a liberdade absoluta que se usa diante das creanças, creio que ha um meio termo que seria facil de adoptar. E depois, seja dito com toda a coragem: ou se é mãe no sentido completo e absoluto d'esta palavra ou se é mulher do mundo. Ou nos havemos de consagrar á companhia dos nossos filhos, á sua educação, ao desenvolvimento gradual das suas delicadas faculdades, á vigilancia solicita das suas almas e dos seus corpos, ou havemos de dar aos tenros espiritos de quem somos guias, o deploravel espectaculo das fraquezas e dos defeitos que tanto lhes desejamos fazer evitar. * * * * * Na creanca do sexo feminino a tendencia que mais cedo se desenvolve é a vaidade. A pequenita de tres annos já começa a ter orgulho e presumpção no seu vestidinho bordado, nas suas saias de folhos, no seu chapéu vistoso e garrido. Todos se riem da _gracinha_. --Meu anjinho! Como é presumida! Diz a mãe toda enlevada. E gaba-a muito.--Estás linda! a minha filha é muito bonita. Fica-lhe tão bem este vestido! Mais tarde, d'ahi a quinze annos, quando a creancinha do outro tempo é um rapariga delambida, arrebicada, cheia de appetites luxuosos, de ambições extravagantes, sonhando com um noivo _muito rico_ que lhe sacie todos os seus desejos de riqueza e de pomposa elegancia, quando os homens serios e honestos olham para ella com desdem, e no seu intimo a desprezam como uma boneca inutil e frivola, de quem é a culpa, digam-no sinceramente? A culpa é de quem favoreceu, em vez de combater, esse pendor funesto, tão natural á mulher, e que só á custa de muita reflexão ella consegue vencer. A culpa é da mãe, que teve orgulho dos defeitos da sua filha, em vez de lidar por transformal-os em virtudes. A mulher é vaidosa? Pois bem! se não podemos destruir esse vicio organico, demos-lhe ao menos um rumo diverso do que elle leva. Que, em vez de ter vaidade dos seus trapos e dos seus miseraveis arrebiques, ella tenha vaidade de ser boa, laboriosa, honesta, instruida e forte. Façamos comprehender bem ao nosso anjinho de tres annos, que é bem mais difficil e glorioso ser docil do que ter um vestido novo; que é muito mais digno de louvor saber ler do que trazer um chapéu de plumas. Isto não é mais do que indicar o caminho. Não ha mãe cujo instincto a não advirta de que estamos fallando verdade. * * * * * Até a escolha da boneca é uma cousa importante! Uma boneca esplendidamente vestida, de chapéu com flores, de luvas e cabellos d'ouro annellados, inspira um certo assombro, e depois uma certa inveja. Uma boneca de trapos, estupida, inerte e molle causa desdem e antipathia. Oh! a primeira boneca! que jubilo supremo que ella não deu a todas nós! Comparavel á alegria da primeira boneca, só a alegria do primeiro filho! É a mesma hesitação em lhe tocarmos com medo que ella se _quebre_! o mesmo susto! a mesma curiosidade! o mesmo enlevo! o mesmo espanto namorado e feliz! A mãe intelligente comprehende e sabe aproveitar isto. A boneca é como a aprendizagem da maternidade! --Está nua, coitadinha, está nua a tua boneca, Lili. Que frio que ella deve ter! Que desconforto! Que pena de olhar para ti e de te vêr tão bem vestida e quente e confortavel. Senta-te aqui ao pé de mim, Lili, vamos nós fazer o fatinho da tua boneca! E como o coração é que sempre domina e guia a mulher, eis o coração fazendo um milagre n'aquella mulhersinha de oito annos, que deixa de ser a traquinas, a turbulenta, a ociosa creaturinha, e que principia a conhecer as delicias do trabalho e os santos prazeres do sacrificio. O sacrificio por uma boneca! Sim, o sacrificio, e porque não? Só quem não é mãe e quem nunca foi creança é que escarnecerá da expressão que empregamos. Pois não sabem que essa primeira boneca, que se recolhe nua nos braços, e que se veste, que se calça, que se conchega, que se adormece entre beijos e affagos, é o primeiro sonho de um coração de mãe? * * * * * As amigas das nossas filhas! Grave e momentoso assumpto, não raro descurado e de cujo esquecimento ou de cujo desleixo resultam ás vezes damnos irremediaveis. No collegio é que se travam quasi sempre as primeiras amizades. Ora, nós para as meninas desadoramos o collegio. Por muito bom que elle seja, achamol-o sempre pessimo. Quem é que nos responde pela boa escolha de relações que alli adquirem nossas filhas? Quem nos diz que essas creanças todas que alli se reunem, e que entre si trocam as mais intimas e minuciosas confidencias, só viram bons exemplos, só conhecem quadros de santa e impeccavel moralidade? Pois nenhuma d'ellas trará comsigo aquella funesta curiosidade, que perdeu a nossa primeira mãe? Todas são innocentes, todas ignoram da vida o que ella tem de baixo ou de corrosivo? Quem nos affirma que ellas saberão ser boas e honestas companheiras, que não lançarão com uma palavra imprudente um germen venenoso, que não corromperão com precoce perversidade o espirito da creança innocente, que n'ellas se confiar? As amigas das nossas filhas são aquellas de quem logo depois de nós depende a pureza, a candura, a innocencia d'ellas! É de uma grave imprudencia acceitar para uma filha nossa, sem escolha e sem criterio, a companhia de outra creança. Cumpre conhecer bem a mãe, a educação que ella dá aos seus filhos, o modo porque vivem, o caracter, a moralidade d'essa familia. E que as mães, n'este ponto, se não prendam com preoccupações de banal delicadeza. Primeiro que tudo está o futuro das suas filhas. Se a educação de um rapaz é já difficilima, que será a educação de uma menina? Quantos perigos a evitar, quantos obstaculos a temer, quantas contrariedades em meio do caminho! Que a mãe procure ser a melhor amiga de sua filha, e que esta não receie confiar-lhe nem os seus pequeninos segredos infantis, nem as mysteriosas comoções da sua alma adolescente. N'esta deploravel educação que hoje se dá e se recebe, a primeira cousa de que os filhos tratam é de enganar os paes. De que provém isto? Da mal entendida severidade d'estes. A indulgencia para as primeiras travessuras prepara naturalmente a creança para se confiar sem medo ao coração que a sabe entender e lhe sabe perdoar. Mas é muito delicado este ponto da missão maternal. Se o excesso da severidade cria a desconfiança e a mentira, o excesso da indulgencia cria o cynismo e a desvergonha. Que difficil não é para um espirito de mãe saber ao mesmo tempo attrahir a confiança e impôr o respeito! Levar o filho que peccou a confessar a culpa, não por ter a certeza de que será facilmente perdoado, mas por lhe exigir a consciencia que não esconda o seu delicto aos olhos d'aquella que sabe com mão delicada e firme repôr no caminho direito o ente fragil que se transviou. No dia em que a mãe tiver alcançado do coração de sua filha ou de seu filho esta singular conquista de veneração e de amor, póde sentir-se tranquilla e satisfeita, póde sem medo responder pelo futuro. * * * * * Para concluirmos este capitulo que, talvez por muito incorrectamente desenvolvido enfastiasse as leitoras, sem lograr a ventura de as convencer, damos em seguida o fragmento de uma carta, que por circumstancias que seria inutil referir, ha pouco tempo chegou ás nossas mãos. Como verão, pertence esse trecho a uma carta que na vespera do seu casamento foi dirigida á sua filha por uma extremosa mãe. Explica muito melhor do que nós o podemos fazer o triumpho de um bom coração maternal. «Não tive animo de te dizer todas estas cousas frente a frente. Tive medo de chorar, e tu sabes, meu anjo, que detésto acima de tudo os enternecimentos intempestivos. Depois, teria pejo, eu, tua mãe, eu que julgo ter concorrido pelos cuidados de toda a vida para o excellente exito da minha obra--quer dizer, da tua educação--teria pejo de te encher de louvores que embora justos, recahiriam um pouco sobre mim. Sabes que eu nunca te deixei, que por amor de ti renunciei, e de muito boa vontade, á companhia dos indifferentes e dos frivolos, que só viriam destruir ou modificar o effeito de todos os meus esforços, tão santamente abençoados por Deus! Com que saudades eu me lembro dos serões de outro tempo, em que tu já serena, grave e modesta como és hoje, lias ao pé de mim, emquanto os nossos bons e velhos amigos conversavam em cousas sãs, em cousas simples, das que não podem ferir os ouvidos de uma menina! Não te aconselho que renuncies ao mundo por amor dos anjinhos que virão de certo abençoar e consagrar o teu casamento; mas peço-te que sejas escrupulosa como eu sempre fui na escolha d'aquelles que admittires na sagrada intimidade do teu lar. Procurei sempre evitar em ti todos os excessos, mesmo os excessos bons. Não te quiz beata, nem _espirito forte_; não desejei que fosses uma metaphysica, nem um entendimento demasiadamente positivo, nem mulher só de sala, nem mulher exclusivamente do _ménage_. O ideal, minha filha, é que de tudo se saiba ser um pouco. Gostarei que recebas com graça senhoril na tua saleta de todos os dias, artistica e confortavel, mas não desejarei menos que saibas ensinar a tua cozinheira, fazer o rol da tua roupa, concertar o fato de teus filhos, e economisar sem mesquinhez e gastar sem avareza. Não quiz nunca que tivesses outra amiga, e creio ter feito bem. Se foi egoismo, Deus não me castigou por elle, porque devi a essa precaução, por ventura excessiva, ter tido a deliciosa confidencia das tuas primeiras alegrias e dos teus primeiros sonhos. Ámanhã já não serás minha, querido encanto; nem já serão os meus beijos os unicos que a tua pura testa de vinte annos receberá! Mas n'esta saudade dilacerante que me punge, quantas compensações supremas eu não encontro! Entrego-te ao teu noivo, tão candida, tão ignorante do mal como deviam ser todas as creanças da tua edade, que tivessem mãe, que só n'ellas pensasse e só por ellas vivesse! Nunca ouviste pronunciar uma palavra grosseira, nunca ouviste applaudir um acto injusto, nunca se abaixaram os teus olhos seraphicos a um espectaculo ignobil. Eu fui sempre a tua fiel companheira; e, como as vestaes velavam o fogo sagrado, velei eu pela tua immaculada innocencia! De que ventura se privam as que preferem o mundo aos seus filhos! Ignoram as alegrias profundas de ser mãe, como eu fui, como tu serás, minha joia! Não ha na tua alma um pensamento, uma idéa, uma saudade, que eu não conheça, e se ámanhã quizer folhear diante de teu marido o livro radioso da tua infancia e da tua adolescencia, não haveria n'elle uma só pagina que eu lhe não podesse repetir de cór. Respondo pelo passado e respondo pelo futuro. Basta-me essa gloria para me consolar de todas as minhas saudades! É bem pezada n'este mundo a cruz das boas mães, mas não te esqueças nunca, minha filha, que mesmo n'esta hora de tantas lagrimas, eu confesso bem alto, não ha rosas mais frescas, mais puras e mais orvalhadas do que as rosas que enfloram e entrelaçam essa cruz! Só d'aqui a muitos annos comprehenderás a angustia com que te digo--_adeus_! Então, sei que has de chorar por mim!» CAPITULO XVI Cartas de um marido Meu caro amigo. Onde é que fui desencantal-a? perguntas tu com justificado espanto. E tens razão. O facto é que nunca a vi, valsando n'um baile á luz quente e abafadiça do gaz, decotada, cheia de pó de arroz e de suor, abandonando-se n'uma postura voluptuosa, nos braços de um sujeito esgrouviado, de casaca, collarinhos de papelão, e olhar que tenta ser magnetisador e irresistivel, e que depois de tamanhos esforços não consegue ser senão comico. Nunca a encontrei cantando n'um concerto duetos apaixonados em beneficio dos meninos pobres, vendendo n'um bazar sorrisos de dançarina e _bibelots_ de fancaria em beneficio dos velhinhos aleijados, representando n'um sarau dramatico, comediazinhas maliciosas em beneficio dos adultos cegos. Frequentando os theatros de segunda ordem, onde os palhaços e as _cocottes_ de Offenbach, e dos modernissimos _maestrinos_ da decadencia se desengonsam em scena, fazendo gestos desmanchados e sublinhando com sorrisos torpes as suas cantilenas de _café-concerto_, debalde a procurei pelas frisas, e pelos camarotes, applaudindo as farçadas impuras, e dando gargalhadas que attrahissem a attenção e os maliciosos commentarios da platéa. Nas noites de verão, no Passeio Publico, quando ha musica, fogo de artificio, muito calor e muito aperto, e as meninas burguezas que ainda não podem gozar da _villeggiatura_ elegante, passeiam com _toilettes_ claras, na plena expansão da _flirtation_ lisbonense, confesso que muitas vezes atravessei a multidão, pisado, empurrado, offegante, sem respeito pelas caudas de seda, de _foulard_, de linho transparente, que para alli vão desfructar o prazer de se encherem de poeira e de rasgões, e que debalde procurava reconhecel-a em cada vulto feminino, esbelto, gracioso, que passava pisando a areia das ruas, com o tacão alto das estreitas botinas de pellica. Até comecei a frequentar S. Luiz, a igreja da devoção fidalga, do arrependimento perfumado de _poudre d'iris_, do mais alto, do mais distincto e do mais desdenhoso beaterio... Vi todas as nossas flores da _alta vida_, trajando com discrição finamente aristocratica, revelando a elegancia que as distingue, no modo de se ajoelharem, de se persignarem devotamente, de erguerem os olhos com extasi piedoso, para a imagem alabastrina da Virgem, que parece erguer-se como um lyrio desabrochado, d'entre as verduras e as brancas florescencias que a cercam de todos os lados. Vi-as descalçarem, das suas estreitas luvas de cinco botões, as mãos esguias, avelludadas, feitas da alvura dos marfins; vi-as curvarem-se até ao chão, humilhadas, contritas, mas sempre correctas; lerem uma oração privilegiada, em cada um dos quatro ou seis grossos volumes devotos que trazem comsigo, beijarem com felina graça as mãos rechonchudas e macias dos louros abbades francezes, disputarem entre si com delicadeza, não inteiramente isenta de colera, a sua vez de confissionario, e de confidencias adocicadas e asceticas; mas nenhuma d'essas encantadoras filhas de Eva, com os seus gestos miudos, os seus movimentos ondeantes de serpente, as multiplas seducções da sua artificial formosura, me deu a idéa boa, sã, carinhosa, como um affago de mãe, que eu tivera vendo-a, a ella. Escuso de accrescentar que _ella_ não se encontrava entre essas todas. Um dia porém,--que bom dia aquelle!--tornei a vel-a em casa de uma amiga de minha mãe. Não me pareceu bella, pareceu-me boa, mas de uma bondade em que a belleza não deixava de entrar, embora como elemento secundario. Estava com as suas amigas em volta de uma grande mesa de serão. Largára um pequeno trabalho da agulha, e começara a lêr alto a pedido de todas as companheiras. Lia um livro de Michelet, _L'insecte_. Tinha a voz grave, sonora, musical, como eu sempre imaginei que havia de ser; a luz coada pelo globo fosco do alto candieiro, banhava de vagos tons dourados o seu cabello simplesmente penteado, torcido n'um grosso rolo luminoso sobre a nuca torneada e forte. Não me lembro bem de como estava vestida, signal de que era tão despretencioso o seu trajo que não prendia nem demorava a attenção. Havia de ser por força bastante distincto para lhe não alterar a graça; bastante singelo para não dar um aspecto de artificio á sua natural e casta formosura. Emquanto a ouvia ler, parecia-me comprehender melhor aquella grande alma luminosa do velho Michelet. E sentia em mim a vivificante sympathia da natureza, o amor dos pequeninos, a ternura comprehensiva para tudo que vive, que sente, que palpita na enorme Creação. Quando acabou de ler, fechou o livro, e naturalmente, sem languidez, sem cansaço, pegou de novo no trabalho, e recomeçou a bordar. Aproveitei o ensejo e sentei-me n'uma cadeira vaga ao seu lado. Conversámos muito. Em muita cousa, em quasi tudo. Era um gosto ver de perto a luz tranquilla e doce d'aquelle olhar azul escuro, reflectido, serio, innocente. Não baixava os olhos deixando transparecer nas faces rubor intempestivo; tinha um modo seu de olhar, franco, sincero, de uma limpidez de lago suisso em que se reflectisse o largo céu da primavera. De vez em quando ria-se. Que musica crystallina a do seu riso! Uma das vezes lembra-me, que seguindo o falso pendor da nossa detestavel educação de sala, fui sentimental, sem dar por isso, de uma _sentimentalidade_ piegas, da que produz sempre um certo effeito no espirito das meninas que _valsam_. Levantou subitamente a cabeça, como se ficasse um tanto surprehendida, como se tivesse agourado melhor de mim, á primeira vista. Depois, não sei o quê, provavelmente a expressão alambicada da minha cara, desafiou-lhe a vontade de rir, uma vontade de rir irresistivel! Coitadinha! Que bem educada que ella é! Suffocou aquella boa hilaridade tão espontanea! Disfarçou perfeitamente o effeito comico que eu lhe produzira, isto com uma graça, tão cheia de infantilidade! Castigou-me melhor assim, do que outra qualquer fingindo um enleio theatral. D'alli a nada, a dona da casa, uma senhora de aspecto muito distincto e muito bondoso, veio pedir-lhe com grande empenho que fosse para o piano. Levantou-se docilmente, e tocou e cantou emquanto quizeram ouvil-a! Era a simplicidade, a graça, a mais delicada intuição artistica, isto acompanhando uma vocação musical deveras notabilissima. Nem uma só d'aquellas languidas arias italianas, de um sentimentalismo tão dissolvente e que parecem banhar a alma que as escuta n'um tepido banho de caricias molles! Musicas graves e de uma austera melancolia como as dos mestres allemães; ou musicas graciosas, ligeiras, scintillantes, inoculando no espirito uma sensação de frescura matutina, de robusta alegria, levando-nos atraz das suas notas de crystal, pelas pradarias illuminadas da luz das alvoradas estivas, onde os melros maliciosos assobiam, saltando de ramo em ramo! Quando sahi d'alli, d'aquella casa hospitaleira, em que o espirito parecia dilatar-se affectuosamente, pensei de mim para mim que ella havia de ser minha mulher! ..................................................................... ...Sabes uma cousa? Temos um filho! Estas palavras a ti não te dizem nada, a mim banham-me o coração n'uma alegria que em lingua humana se não póde exprimir. A deliciosa canção da minha felicidade, canto-a eu em beijos chilreados, no corpinho roliço e avelludado, no corpinho de leite do meu primeiro pequenino! Vivemos em um bairro pouco central, em uma rua muito socegada, onde passam pouquissimos trens, e onde se não ouve o pregoar rouquenho dos vendilhões ambulantes. O nosso orçamento é de uma exiguidade que faz rir, mas não sei porque minha mulher tem a habilidade de fazer render da maneira mais milagrosa os nossos modestissimos haveres. Creio que se ámanhã me visse rico, não podia ser tão feliz. Se eu fosse rico, havia de ter criados, não é verdade? Criados graves, solemnes, de olhar sonso, que vivessem da minha vida, que maculassem com a sua ironia baixa as santas expansões do meu affecto de marido e de pae, que invejassem a minha felicidade, que calumniassem as minhas intenções, os meus actos, a minha vida toda! Ao jantar um ou dous d'aquelles figurões altos, espadaudos, ociosos, vestidos de preto, haviam de espreitar com olhar guloso cada bocado que eu mettesse na bôca; teria um cozinheiro gordo, de barrete branco, que me fizesse molhos indigestos, uma criadinha de quarto buliçosa, e petulante que se risse do _burguezismo_ pacato dos meus habitos. Viveria escravo, preso nas malhas de ouro, d'esta grande rede que se chama a riqueza. Receberia muitas visitas, muita gente indifferente ou hostil, que viesse para me bajular, e que se fosse embora para me morder traiçoeiramente pelas costas. Uma governante ingleza empavezada, grotesca, um pouco pedante, cortaria na sua flôr, na querida alma transparente do meu pequeno anjo, os carinhos, as expansões innocentes, os risos inextinguiveis e sem causa, tudo que é hoje a nossa alegria! E depois, habituado ao luxo não sentiria o conchego! Satisfeitos até á saciedade todos os desejos, não teria nunca a boa, a vivificante sensação do obstaculo vencido! E o socego depois do trabalho! E as alegrias da posse, quando o objecto longo tempo cubiçado, para alcançar o qual se fizeram tantas economias, se supportaram tantas privaçõesinhas, nos apparece emfim em todo o prestigioso brilho do impossivel, que de repente se deixa conquistar! Ai! as minhas alegrias de pobre, que saudades que eu terei d'ellas mais tarde! Mas, meu querido A., não comeces tu agora a lamentar-me imaginando-me novo monge entregue ás austeridades da penitencia voluntariamente acceita! Não te disse eu que uma boa mulher que nos ame, e que nos saiba amar, é um thesouro inestimavel, que o homem desdenha, e que por isso, se tem feito tão raro? A minha casa não tem estofos de seda, não tem custosos moveis de carvalho entalhado, não tem frageis porcellanas de Saxe, de Sevres ou do Japão, não tem tapetes turcos, nem artisticos Gobelinos. Mas olha que nem sempre o luxo é o conforto, nem sempre a opulencia é a graça, nem sempre as cousas caras são as cousas elegantes! A nossa pequenina casa, toda forrada de papel claro, com as suas cadeiras de _cretonne_, as suas cortinas muito brancas, e vasos de plantas em pequenas estantes de madeira, e jarras de flôres na mesa de jantar, com a luz clara e festiva do sol, a illuminal-a toda, com o aceio escrupuloso que é o luxo dos pobres, com a tranquilidade doce e recolhida, que é a poesia dos que se amam e na qual põe a espaços a nota clara e festiva o riso do nosso filhinho, a nossa casa é como que a deliciosa encardenação do poema do nosso amor! Todas as senhoras que eu conheço sahem muito; os maridos voltam á noite exangues das enfadonhas labutações do dia, com o espirito abatido, com o corpo cansado e no entanto teem de seguil-as ao baile, ao theatro, a casa das amigas, de figurarem de comparsas na fastidiosa comedia social, de se mostrarem debaixo de um aspecto desfavoravel, de realizarem emfim á risca o lendario typo que o _romantismo_ amarrou ao pelourinho do ridiculo, o _marido_ macambuzio, o _marido_ desengraçado, o _marido_ sem espirito, em quanto á roda, fresco, malicioso, cheio de ditos e anecdotas, com uma rosa na abotoadura, borboleteia o _galan_ que povôa de perigosas seducções a fantasia de todas as pobres mulheres frageis! Minha mulher á noite sahe raras vezes, de modo que eu durante o dia, na atmosphera pesada e asphyxiante do escriptorio, estou sem querer a scismar no conforto que me espera quando eu voltar. O jantarinho quente, saboroso, cozinhado pela nossa velha Anna, debaixo da direcção da minha querida Maria, a toalha muito branca, um ramo de lilazes no centro, as fructeiras de vidro com as suas pyramides de fructas, sahindo do ninho fresco e avelludado das folhas verdes, os talheres muito bem limpos, um grande conchêgo na atmosphera, e em tudo visiveis o gosto _d'ella_, os cuidados _d'ella_, o affecto _d'ella_ manifestando-se no bem-estar que me envolve e me acaricia! Depois, á noite, o gabinete com a mesa redonda no centro, o candieiro de Carcel de luz clara e discreta, a poltrona de marroquim, com os grandes braços abertos que me convidam, os jornaes do dia, a ultima _Revista_, um romance novo, e a minha querida mulhersinha, com um vestido que lhe fica muito bem e que andou ella propria a fazer ás minhas escondidas--a ladina!--como se eu não tivesse olhos perspicazes que vêem de longe! com os seus longos cabellos louros penteados d'aquelle modo simples e puramente artistico, que faz da cabeça de cada estatua grega uma cabeça encantadora, e sobretudo com o seu sorriso bom, o seu olhar affectuoso e honesto, a sua voz consoladora que é uma musica, a melhor das musicas para o meu coração! Para além do reposteiro entre-aberto, vê-se a alcova, o berço de cortinados brancos, e á luz branda da lamparina, sobre uma cadeira, um vestidinho claro, uns pequenos sapatos, umas meiazinhas de côr, umas cousas para que ninguem repara, e que a mim me fazem ás vezes chorar. Tenho já perguntado a mim mesmo, que differença existe entre mim e os outros homens, porque é que elles andam pelo gremio, pelos cafés, pelos theatros, alguns pelas salas, e porque estou eu tanto em casa, finda que seja a minha tarefa diaria? Serei melhor do que os outros maridos? Não; ella é que é melhor do que as outras mulheres. A felicidade de que eu gozo devo-a á sua comprehensão tão santa dos deveres, e ao meu egoismo todo masculino. Vou para onde me chama maior somma de alegrias e de confortos que posso conhecer n'este mundo. Não ha n'isto merito nem dedicação dignos de louvor. Se á noite a nossa pequena sala se enchesse das amigas de minha mulher, palradeiras, frivolas, pueris, a discutirem banalidades, é provavel que eu fugisse para qualquer outra parte. Se quando chegasse a casa, a visse prompta para sahir, á minha espera para me fazer envergar uma terrivel casaca muito hostil, que me acenasse de longe com as suas azas de gafanhoto, se ella me apparecesse toda occupada de si, da sua _toilette_, dos triumphos que ia ter, e esquecendo completamente as exigencias mais prosaicas, do meu temperamento de homem, da minha vida de trabalhador, com certeza que me chegaria a minha hora de revolta, que o trabalho deixaria de ser o meio de que eu me servisse para alcançar o bem estar dos meus, e que se tornaria simplesmente uma tarefa exercida sem alma, sem alento interior, só para que o mundo me não alcunhasse de ocioso e de zangão da grande colmêa social. Dos defeitos d'ella proviriam todos os meus defeitos, dos seus esquecimentos, todas as minhas faltas. Já vês quanto ganhei casando-me com esta querida e nobre creatura. Se me perguntares o que ella sabe, dir-te-hei que sabe tudo, e que a sciencia toda lhe provém de uma só fonte--o coração. Comprehende Shakespeare e faz deliciosamente uma _omellete_, toca com o sentimento mais fino e mais ideal, uma phantasia de Beethoven, e inventou um systema engenhoso e abreviado de fazer o rol da lavadeira; adora as flores, os versos, as creanças, os livros, tudo que é bello, tudo que é bom na natureza, e de manhã, com a sua touquinha de cambraia branca, o seu avental de merino, um _espanador_ de pennas na mão, pondo os moveis em harmonia, tocando em todas as cousas, imprimindo em tudo o cunho da symetria e da ordem, atarefada, sem distracção, sem enfado, parece uma _spinster_ ingleza atacada da monomania do arranjo. A brincar com o filho, na rua areada do nosso pequeno jardim, dir-se-hia a sua irmã mais velha; na hora da atribulação, na hora difficil em que de um bom conselho depende ás vezes a dignidade de um homem, lembra um espirito austero, cheio de altivas aspirações estoicas. O contacto d'ella faz bons os que são maus, faz robustos os que são fracos! São estas as mulheres que salvam a honra e a felicidade dos maridos. Queres um conselho? Procura no mundo outra Maria como é a minha e casa-te. CAPITULO XVII Confidencias maternaes Minha querida amiga. Ha quasi quatro mezes que te não escrevo, e supponho que não estarás por isso mal comigo. Não sei bem dizer-te como se passam os meus dias, e quando ás onze horas da noite adormeço, um poucochinho fatigada e deixando sempre para o dia seguinte parte da tarefa d'aquelle dia, metto a mão na consciencia e sinto que não commetti o delicto de desperdiçar um só instante. E talvez que no fim de contas assim não seja. Ouve-me tu, e julga. Fez hontem um anno o meu querido _baby_. É louro, é rosado, tem uma cabelleira revolta e crespa que lembra uma aureola de anjo, ou uma juba de leão pequenino, tem um corpo roliço, mimoso, redondinho que parece feito por uma fada muito habilidosa no seu torno de marfim. Começa a andar, e os passos d'elle, desastrados e timidos enchem-me a alma de um susto, de uma inquietação, de uma delicia, de um _não sei quê_ profundamente novo na minha vida e que eu não encontro palavras que exprimam bem! Até aqui parecia-me que _elle_ era _eu_, que fazia parte de mim, que nós ambos formavamos um todo. Agora percebo e com uma surpreza que ás vezes chega a ser dolorosa! que me enganara, e que cada um d'aquelles passinhos hoje tão miudos e tão vacillantes, ámanhã apressados e firmes, o irá afastando de mim na vida, se eu o não souber seguir, fazendo-me como elle pequena, como elle infantil, penetrando intimamente na sua alma e ao mesmo tempo compenetrando-me bem de todas as doces claridades matutinas que ha dentro d'aquelle espirito que vae desabrochar. Não comprehendes bem esta iniciação lenta, que no momento em que o corpo da mãe e o corpo do filho deixam de ser um só, faz uma só das duas almas de ambos? Visto que elle já não póde ser _eu_, é preciso que eu seja _elle_; só assim lhe poderei ir inoculando na alma e no entendimento, tudo que no meu entendimento e na minha alma houver de bom; só assim me poderei ir lentamente transformando sob a influencia regeneradora e purificante d'aquella immaculada innocencia! Oh! divina transmissão mutua de virtudes e de forças, que constitue o laço moral e inquebrantavel que une a mãe ao filho das suas doloridas entranhas! Por ora nada tenho que ensinar ao meu louro _bébé_. Tenho só de escutar o que diz no silencio, aquella pequenina alma em embryão, e de aprender a ler n'aquelle mysterioso livro que é indecifravel para todos e que é tão eloquente para mim. Bébé tem uns grandes olhos; uns dizem que são azues, outros dizem que não. Por ora não tem côr; ou para melhor dizer ha na sua limpidez de crystal todos os cambiantes e todos os reflexos. Os olhos de Bébé são como a alma d'elle, teem a doçura do leite que bebe, teem a suavidade dos beijos com que o visto noite e dia. Scisma ás vezes vagamente... longamente... Em que? Não ha ninguem que o saiba dizer, visto que um coração de mãe o não adivinha. Scisma no céu d'onde veio? Talvez. Ha mysterios de luz na alma profunda das creanças. Gosta da claridade dos dias limpidos, das arvores, das côres vivas, e tambem da opalina tristeza do luar. Gosta dos sons, dos risos, das caricias, é uma alma que vive em pleno azul. Nenhuma sombra n'aquella tela transparente onde a mão de sua mãe vae escrever as primeiras palavras. Muita gente imagina que ser mãe custa apenas as dôres dilacerantes de algumas horas, os incommodos mais ou menos crueis d'um certo periodo, e depois os cuidados de doze ou treze mezes. Quem pensa assim não sabe o que é ser mãe! Pois tu não ouviste que elle espera, e que a primeira palavra definida e clara que ha de vibrar na sua alma, sou eu que hei de dizel-a, é a minha mão tremula, fraca e inexperiente que ha de tornar-se firme para a gravar indelevelmente? E se a voz esmorecer? E se a mão vacillar? Quem me disse a mim que acertarei? quem me deu forças para encaminhar um sêr que só de mim ha de receber na terra o santo e a senha? E depois quando o vejo tão lindo, querendo já esboçar o primeiro capricho, querendo experimentar a primeira vontade, querendo vencer o primeiro obstaculo, pergunto a mim mesma se terei valor sufficiente para lhe fazer perceber que a vida é uma lucta, para se tanto fôr preciso, ser eu propria que lucte com elle, e que o ensine a ser vencido! De quantas coragens mais que viris precisa de compor-se a fraqueza maternal! ..................................................................... Mas nenhum d'estes vagos pensamentos que eu deixo aqui tão mal expressos te diz quaes são as occupações em que levo os meus dias! Meu Deus! e olha que acordo cedo! Ainda bem a cotovia não deixa ouvir a sua alegre voz matinal, ainda bem o gallo não atrôa os campos com o seu grito estridulo de combate, que é um convite impetuoso para o trabalho, já a voz do meu filho me acorda tambem a mim. Que penna póde contar as delicias d'aquelle despertar! Os risos, as negaças, os beijos, e o modo malicioso com que elle deitado nos meus braços e depois de fartar as exigencias do pequenino estomago, larga o seio para me sorrir com os beicinhos tintos de leite, e torna de novo a pegar-lhe para saborear voluptuosamente, lentamente o que já não tem vontade de engulir com a avidez deliciosamente glutona da infancia. Vem depois o banho, o banho que é um poema! Está alli a grande bacia de agua tepida, e emquanto o dispo, elle salta e ri, e deita-se para traz e namora a transparencia da agua, até ao instante em que mergulha emfim entre risadas de crystal que me echoam no coração. Tu sabes lá os cuidados, as manhas, as idéas engenhosas que é necessario pôr em pratica para illudir a impaciencia d'estes seres adoraveis! O banho dura meia hora, e acabo d'alli encharcada, despenteada, cançada, triumphante. É uma victoria de todos os dias. O resto do dia pertence-lhe a elle quasi exclusivamente. É um tyranno o meu _bébé_. Tenho de o passear, de lhe dar de comer, porque é preciso que saibas que o doutor vendo que elle já tem oito dentes--carnivora creatura!--me deu licença emfim para lhe dar tres vezes ao dia a sua competente papinha, tenho sobretudo de o entreter porque a imaginação infantil que desperta tem exigencias de que tu não podes fazer idéa! É _spleenetico_ como um velho _lord_ o meu seraphim de palmo e meio de altura. Dá-se-lhe um brinquedo agora, recebe-o com uma apparencia de enthusiasmo que illude os inexperientes; d'alli a um instante põe-n'o de parte desdenhoso, enfastiado, insaciavel... Quer ver sempre cousas novas, quer que o emballem, e lhe cantem e o levantem ao ar e o façam rir. Por'ora trata-se simplesmente de enganar aquella actividade graciosa e irrequieta, mas quando chegar o momento de a applicar? Sabes uma cousa? sou felicissima e tenho muito mêdo... ..................................................................... ..................................................................... _Quatro annos depois._ ..................................................................... Cinco annos! Sabes lá! Um homem, positivamente um homem! É mau. Deixa lá dizer que são boas as creanças. Olha que é uma perfeita illusão, minha querida. Que bem se conhece n'elle já, o bravio animal que todos nós somos! _Bébé_ é um monstro! No outro dia levei-o commigo a casa d'uma senhora minha amiga. Pois imagina que elle matou com a sua espada de pau, a boneca de pellica e semeas de Julia, uma pequenita de 3 annos, a filha mais nova da dona da casa! E como ella chorasse muito humilde, muito medrosa diante d'aquella sanha terrivel, chegou a ameaçal-a--o desgraçado!--com a mesma espada de pau que já fizera tamanhos maleficios. Chorei de pena de o ver tão mau, tão irascivel, tão colerico, e elle o leão pequenino, ajoelhou-se com as mãosinhas postas aos meus pés, e gago, cheio de lagrimas, com os grandes olhos espavoridos, disse-me--perdão mamã! Ó Magdalena, imagina tu a força de que eu precisei para o não devorar de beijos! Pois não o fiz! Mostrei-lhe uma cara seria, magoada, cheia de consternação e não o abracei em todo o dia. Ha de ser colerico, já vês. Quem me ensinará a mim a corrigil-o? Já sei o que me respondes.--Faze queixa ao pae. O pae que lhe ralhe. Deus me defenda de tal. Em primeiro lugar o medo não corrige, humilha; não modifica, rebaixa. Depois eu não quero recorrer a ninguem para influenciar a alma de meu filho. O pae ha de intervir sim senhor, porém mais tarde. Por'ora é elle meu, só meu. Toda a creança tem defeitos, e ai d'aquella que os não tem! Arrenego das _creanças-modêlos_. Transformar esses defeitos--que são indicios caracteristicos do temperamento da organisação, de qualidades muitas vezes herdadas--em forças activas e fecundas, eis o grande problema da educação. E talvez tu cuides, minha pobre amiga, que as _gracinhas_ de _bébé_ ficam por aqui? Pois ainda ha mais? exclamas tu assustada. Sim, ha muito mais. Ha cousas que eu com a ajuda de Deus tenciono aproveitar e dirigir para o futuro bem d'elle. Bébé roubou!... imagina! No outro dia desappareceram-me de cima de uma _etagére_ da saleta umas bugigangas de marfim que me tinham trazido de Macau; adivinha onde fui dar com ellas? No seu quarto dos _bonitos_. Não estavam escondidas, valha a verdade! estavam impudicamente espalhadas ao sol, com uma ostentação de cynismo deveras aterradora. Não posso explicar bem o trabalho que tive para, sem polluir aquella innocencia sagrada, lhe explicar que n'este mundo ha _meu_ e _teu_, e que a propriedade é um direito inviolavel. Como não ha nada mais difficil--para não dizer impossivel--do que introduzir uma idéa abstracta na cabeça d'uma creança, não imaginas de quantos artificios e quantas manhas me valí. Cheguei a _roubar-lhe_ tambem eu propria, parte dos seus _bonitos_. Então é que era vel-o, sem se atrever a condemnar-me, e no entanto sentindo revoltados, lá dentro da sua alminha de cinco annos, todos os instinctos de justiça que sempre mais tarde ou mais cêdo alli tinham de manifestar-se. --Tiveste muito pena de te tirarem os teus bonitos? --Tive muita sim, mamã, respondeu todo sobresaltado e ainda mal restabelecido do susto. --Ora ainda bem! O _bébé_ agora nunca mais tira nada a ninguem, ouviu? --Ah! sim, e ficou-se instantes como que seguindo um trabalho que sem elle mesmo querer se lhe ia fazendo lá dentro. Ah! sim, é muito feio tirar ás pessoas o que ellas teem. Bébé nunca mais tira... No outro dia a Guilhermina, a minha velha aia que tu conheces perfeitamente, dizia-me consternadissima: --Ninguem faz idéa de como o menino é mentiroso. Inventa cousas que é de fazer tremer uma pessoa. De feito, não ha nada mais prodigioso do que a phantasia de bébé. Conta os factos mais extraordinarios que nunca se deram, como se tivesse assistido a elles. Da mais pequenina cousa deduz uma longa historia falsa. Umas vezes encontrou na rua um homem muito feio que o quiz levar comsigo; outras vezes mordeu-lhe um bicho, que elle parece ter visto e que descreve com as côres mais vivas. Quando está um pedaço longe de mim vem narrar-me assombrosos acontecimentos que se deram com elle, do mesmo modo quando me deixa instantes, conta á Guilhermina uma infinidade de pormenores que só existiram na sua imaginação. Como é que eu hei de conseguir subordinar a um principio de exactidão e de verdade aquelle espirito iriado e phantastico, para o qual todas as cousas tomam uma fórma differente da realidade? Crear uma alma! que missão difficil, que missão esmagadora. No fim de contas as forças da natureza não são boas nem más; da applicação d'ellas é que tudo depende. Do meu anjinho, impetuoso cheio de ambições, de curiosidades, de irrequieta alegria, de cubiças intuitivas, de energia vital, póde uma direcção boa fazer um caracter nobre, viril, pertinaz, capaz de todas as luctas, prompto para todos os combates, investigador, inventivo, cheio das beneficas curiosidades do bem, e das ambições generosas que levantam e enobrecem. E pensar, meu Deus, que mal dirigidas, todas estas qualidades, todas estas forças, todas estas manifestações de vida intensa, podem leval-o á perdição, á infamia, ao crime!.. Oh! meu Deus, dae-me vida e entendimento para que só eu amolde e affeiçôe a querida alma de meu filho! ..................................................................... ..................................................................... O Luiz faz hoje o seu primeiro exame no Lyceu; já se não chama _bébé_, já não tem aquelles annellados cabellos de ouro que eram o meu orgulho e as minhas unicas joias, os seus bellos olhos escuros já não tem a doçura pensativa, o pasmo encantador da alma que se busca e que se ignora; usa jaquetinha e calças, e hontem dei a uma vizinha pobre uma blusa que era d'elle, a sua ultima blusa de ha dous annos. Que tolice! Sabes que lh'a dei a chorar? O meu Luiz é quasi um homem. É bom, é meigo, é d'uma deliciosa innocencia, de uma expansão de vida que assombra! Não é meditativo, nem poeta; nada d'isso. É d'uma alegria impetuosa; d'uma actividade sem limites. Gosta de estudar para me satisfazer a mim, mas tenho a certeza que gosta de brincar para se satisfazer a si. Não sabe muito; ao pé dos nossos _sabichõesinhos_ em miniatura, creio mesmo que passará por um ignorante; mas a verdade é que está apto e preparado para aprender tudo. Suppõe tu um lavrador que fizesse as suas sementeiras antes de preparar a terra com os convenientes adubos, e aqui tens parte dos educadores de hoje. No meu filho--perdôa-me este santo orgulho--nenhuma qualidade foi atrophiada, todas estão no pleno desenvolvimento que lhe é proprio, n'aquella florescencia opulenta no fim da qual já se antevê sazonado e saboroso o promettido fructo. Tem o corpo d'um pequeno atleta. Capaz de resistir ás longas viagens, aos estudos complicados da sciencia moderna, aos trabalhos complexos do luctador d'este seculo estranho e poderoso. Até os seus recreios e distracções foram dirigidos com desvelo. Desenvolvem-lhe o corpo dia a dia, a natação, a gymnastica, a equitação, todos os exercicios physicos que tendem a duplicar e desenvolver o vigor natural do homem, a creal-o mesmo se elle originariamente não existe. Vivemos muito no campo, durante a sua risonha infancia. O amor e o conhecimento intimo da natureza, das plantas e dos bichos, das cousas inanimadas e das cousas mudas, o espectaculo grandioso ou suave dos campos e das montanhas, dos tempestuosos mares, ou das placidas e fartas lezirias, entra como um elemento fortalecedor, vivificante, cheio de ensinamentos praticos na educação das creanças. Nunca uma arvore ensinou uma acção má; nunca uma flôr ou um ninho de aves crearam um pensamento abjecto. Não poz nunca o pé n'um collegio. Não conhece nem as alegrias nem as lastimas d'essa intimidade que tem decididamente mais resultados funestos do que vantagens conhecidas. Aprendi quanto me foi possivel, não para lhe ensinar, mas para estudar com elle, e comprehender antes d'elle o que era preciso que elle comprehendesse. Diante dos seus bellos olhos limpidos e curiosos não consenti nunca que passassem os abjectos quadros que polluem tanta imaginação infantil. Não me cancei inutilmente a prégar-lhe sermões de moralidade abstracta; pratiquei o bem para que elle o praticasse; em minha casa só tem visto exemplos dignos. Mais tarde, quando os maus, rindo lugubremente, lhe disserem que o bem não existe, elle não acreditará n'essa blasphemia porque pensará em mim! Não é ainda um homem, mas promette vir a sel-o! Está quasi cumprida a minha tarefa. Hoje quando elle voltar contente de haver sido premiado--porque estou certa de que o será--acceitarei ainda os seus beijos como uma recompensa. D'aqui ávante é a seu pae que pertence a direcção suprema d'aquelle espirito que desabrocha para todas as altas curiosidades da vida. Choro porque as mães são fracas, Magdalena, mas para que choro eu? Já nada, nada na terra nem mesmo a minha morte nos póde separar. Todas as virtudes que elle tiver, serão simplesmente o fructo das flores que eu tenho cuidado com tanto amor, assim como essas flores veem dos germens que eu semeei cheia de susto, de delicias, de ambições, de louco anceio! Fui eu que o conduzi pela mão, ao mesmo tempo tremula e confiante, até ao limiar da sua pura adolescencia. Sinto orgulho é verdade, mas tambem sinto saudades! Saudades do tempo em que o embalava nos meus braços, em que elle só de mim vivia, como eu vivia só para elle. Foram as minhas alegrias mais superiores e mais completas. D'ora ávante é preciso que elle se emancipe um pouco da minha tutella extremosa, que elle se vá robustecendo ao contacto rude dos homens e das cousas. Fui eu que o formei. Sinto que pertencerá ao numero dos fortes, e que não succumbirá na lucta da vida... ..................................................................... ..................................................................... ..................................................................... Como estou velha, minha querida amiga de outros dias! Lembrei-me tanto de ti, hoje, na igreja onde fui assistir ao casamento do meu Luiz! Tem 24 annos, realisou as doces promessas que eu sonhara e sahiu hoje de casa de seus paes para outra casa que vae ser d'elle. Tu não sabes a nuvem de tristeza que obumbra a minha alma, não sabes como todos os egoismos humanos se revoltam em mim, e ameaçam fazer-me naufragar na sua formidavel tempestade! Oh! deixa-me desabafar comtigo! Quem é que ainda revelou ao mundo o martyrio que crucifica as mães! Foi para outra que eu andei formando aquelle divino thesouro com todas as riquezas que pude juntar dentro da minha alma! Tantas noites que velei a pensar, a estudar, a pedir á voz intima da consciencia que esclarecesse e fortalecesse e guiasse o meu fragil coração de mulher! Tantos annos de abnegação profunda, de abnegação sem nome, de todas as horas, de todos os instantes, esquecida de tudo que não fosse aquella alma pequenina que andava a crear e a robustecer. N'esse empenho me fugiu a mocidade. Por elle, pelo meu adorado ingrato me esqueci de tudo que fôra meu! E hoje elle partiu; partiu risonho, triumphante, orgulhoso como um rei, sem se lembrar que onde vira até alli sua mãe, deixava uma triste condemnada!... E ha quem falle por ahi em ciumes romanescos, em ciumes ephemeros, em ciumes d'um instante! Qual ciume poderá comparar-se a este que me está dilacerando o peito? Oh! Luiz! oh! meu amor! oh! minha solidão!... ..................................................................... ..................................................................... Na ultima vez que te escrevi estava louca, minha velha amiga. Nunca está só quem ama, e espera, e crê em Deus, e semeou o bem no seu caminho. Veio lembrar-me tudo isso n'essa hora de amarga revolta que passou, o querido companheiro de toda a minha vida, o meu honesto guia, aquelle que partilhou commigo todas a sublimes responsabilidades que ha no amor dos paes. Já sou avó minha amiga, o meu Luiz é já pae. Nas alegrias d'elle vejo reflectidas as alegrias extinctas, cujo aroma vago perfuma a minha alma de uma saudade ineffavel. Não se esqueceu de mim, o meu querido filho; tem presentes todas as minhas licções, o laço mysterioso que um dia nos uniu conserva-se inquebrantavel, e hoje não deixa ainda de vir consultar-me a cada instante como nos dias em que a sua alma e a minha trocavam incessantemente confidencias mutuas. Estou consolada! Vejo descer a velhice sobre mim como uma noite calma, tranquilla e cheia de estrellas! Não é nunca infructifera a obra das mães. O meu sacrificio, se o foi, será continuado, e desatar-se-ha em flores bemditas de geração em geração. Felizes todas as que puderem adormecer como eu no seio de um filho a quem deram tudo que tinham de melhor, de quem receberam tudo que n'este momento levanta a minha alma para além da vida terrestre, e me faz antever o somno tranquillo e doce das consciencias justas. ..................................................................... ..................................................................... FIM. * * * * * DA MESMA AUTHORA NO PRÉLO CONTOS E PHANTASIAS, 1 vol. Lista de erros corrigidos Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos: +----------+---------------------+----------------------+ | | Original | Correcção | +----------+---------------------+----------------------+ |#pág. 59| acquisiçõos | acquisições | |#pág. 97| Dir-me-hão quo | Dir-me-hão que | |#pág. 147| _mar dinho_ | _maridinho_ | |#pág. 161| Girardiu | Girardin | |#pág. 189| uma lcance | um alcance | |#pág. 250| grande gestos | grandes gestos | |#pág. 263| desonvolver | desenvolver | |#pág. 263| affiige | afflige | |#pág. 308| exemplo dignos | exemplos dignos | +----------+---------------------+----------------------+ *** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK MULHERES E CREANÇAS: NOTAS SOBRE EDUCAÇÃO *** Updated editions will replace the previous one—the old editions will be renamed. Creating the works from print editions not protected by U.S. copyright law means that no one owns a United States copyright in these works, so the Foundation (and you!) can copy and distribute it in the United States without permission and without paying copyright royalties. Special rules, set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to copying and distributing Project Gutenberg™ electronic works to protect the PROJECT GUTENBERG™ concept and trademark. Project Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you charge for an eBook, except by following the terms of the trademark license, including paying royalties for use of the Project Gutenberg trademark. If you do not charge anything for copies of this eBook, complying with the trademark license is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose such as creation of derivative works, reports, performances and research. 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It exists because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from people in all walks of life. Volunteers and financial support to provide volunteers with the assistance they need are critical to reaching Project Gutenberg™’s goals and ensuring that the Project Gutenberg™ collection will remain freely available for generations to come. In 2001, the Project Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure and permanent future for Project Gutenberg™ and future generations. To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 and the Foundation information page at www.gutenberg.org. Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non-profit 501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal Revenue Service. The Foundation’s EIN or federal tax identification number is 64-6221541. Contributions to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent permitted by U.S. federal laws and your state’s laws. The Foundation’s business office is located at 809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887. Email contact links and up to date contact information can be found at the Foundation’s website and official page at www.gutenberg.org/contact Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation Project Gutenberg™ depends upon and cannot survive without widespread public support and donations to carry out its mission of increasing the number of public domain and licensed works that can be freely distributed in machine-readable form accessible by the widest array of equipment including outdated equipment. 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