The Project Gutenberg EBook of Como atravessei Àfrica (Volume II), by 
Alexandre Alberto da Rocha de Serpa Pinto

This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
almost no restrictions whatsoever.  You may copy it, give it away or
re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
with this eBook or online at www.gutenberg.org


Title: Como atravessei Àfrica (Volume II)

Author: Alexandre Alberto da Rocha de Serpa Pinto

Release Date: March 8, 2007 [EBook #20783]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK COMO ATRAVESSEI ÀFRICA (VOLUME II) ***




Produced by Rita Farinha, João Miguel Neves, Carlo Traverso
and the Online Distributed Proofreading Team at
http://www.pgdp.net. This file is gratefully uploaded to
the PG collection in honor of Distributed Proofreaders
having posted over 10,000 ebooks. (This file was produced
from images generously made available by the Bibliothèque
nationale de France (BnF/Gallica) at http://gallica.bnf.fr)










COMO EU ATRAVESSEI ÀFRICA DO ATLANTICO AO MAR INDICO, VIAGEM DE
BENGUELLA Á CONTRA-COSTA.


A-TRAVÈS REGIÕES DESCONHECIDAS;


DETERMINAÇÕES GEOGRAPHICAS E ESTUDOS ETHNOGRAPHICOS.


Por SERPA PINTO.


Dois Volumes.


Contendo 15 mappas e facsimiles, e 133 gravuras feitas dos desenhos do
autor.


VOLUME SEGUNDO.

Segunda Parte--A FAMILIA COILLARD.


LONDRES:
SAMPSON LOW, MARSTON, SEARLE, e RIVINGTON,
EDITORES,
CROWN BUILDINGS, 188 FLEET STREET.
1881.

[Tôdos os direitos sam reservados.]



LONDRES:
NA TYPOGRAPHIA DE GUILHERME CLOWES E FILHOS (COMPANHIA LIMITADA),
STAMFORD STREET E CHARING CROSS.




CONTEÜDO.

CAPÌTULO IX.

NO BARÔZE.

No alto Zambeze--O rei Lobossi--O reino do Barôze, Lui ou Ungenge--Os conselheiros do rei--Grande audiencia--Audiencias particulares--Parece que tudo me corre bem--Eu explicando geographia a Gambela--Volta-se a face aos negocios--Intrigas--Os Bihenos querem voltar--Uma embaixada a Benguella--Quimbundos e Quimbares--A prêta Mariana--Tentativa de assassinato--6 de Setembro--Incendio e combate--Retiro para as montanhas


CAPÌTULO X.

A CARABINA D'EL-REI.

A traição--Perdido--A Carabina d'El-Rei--Miseria--Novas scenas com o rei Lobossi--Partida--No Zambeze--Caça--Moangana--O Itufa--As pirogas--Sioma--Cataracta de Gonha--Bellezas naturaes--O basalto--A região das cataractas superiores--Balle--Bombué--Na foz do rio Gôco--Cataracta de Nambue--Os ràpidos--Viagem vertiginosa--Catima Moriro--Quisseque--Eliazar--Carimuque--O rio Machila--Muita caça--Tragedia--Embarira

Capìtulo Supplementar




Segunda Parte.--A FAMILIA COILLARD.


CAPÌTULO I.

EM LEXUMA.

Prêso em Embarira--O Doutor Benjamin Frederick Bradshaw--O campo do Doutor--O Pão--Graves questões--Os chronòmetros não param--Francisco Coillard--Lexuma--As damas Coillard--Doença grave--Receios e irresoluções--Chegada do missionario--Tomo uma decisão--Partida de Lexuma (em Inglez, Leshuma)


CAPÌTULO II.

MOZIOATUNIA.

Viagem ás cataractas--Tempestades--A grande cataracta do Zambeze--Abusos dos Macalacas--Regresso--Patamatenga--M^{r.} Gabriel Mayer--Tùmulos de Europêos--Chêgo a Deica--A familia Coillard


CAPÌTULO III.

TRINTA DIAS NO DESERTO.

O Deserto--Florestas--Planicies--Os Macaricaris--Os Massaruas--O grande Macaricari--Os rios no deserto--Morte da Córa--Falta de àgua--O ùltimo chá de Madame Coillard--Xoxom (Shoshong)


CAPÌTULO IV.

NO MANGUATO.

Doença grave--Um Stanley que não é o Stanley--O Rei Cama—Os  Inglezes em Àfrica--A libra esterlina--M^{r.} Taylor—Os Bamanguatos a cavallo--Cavallos e cavalleiros—Despedidas--Parto para Pretoria--Acontecimentos nocturnos--Volto a Xoxom--¿Pararám os chronòmetros?


CAPÌTULO V.

DE SHOSHONG A PRETORIA.

Catraio--Apparece o vagom--Despedida de M^{r.} Coillard--Tempestades--O vagom tombado--Trabalhos de nôvo gènero--Chuvas--O Limpôpo--Fly--Caçadas--No Ntuani--Um Stanley que não presta--Augusto furioso--Adicul--Os leões--Stanley desanima—Os Böers nomadas--Nôvo vagom--Peripècias--Doenças graves—Um Christophe de mil diabos--Madame Gonin--O ùltimo  tùmulo--Magalies-berg--Pretoria


CAPÌTULO VI.

NO TRANSVAAL.

Ràpido esbôço da historia dos Böers--O que sam os Böers—Suas emigrações e trabalhos--Adriano Pretorius--Pretorius--As minas de diamantes--Brand--Burgers--Juizo errado á cerca dos Böers--O que eu vi e que eu penso


CAPÌTULO VII.

NO TRANSVAAL (continuação).


M^{r.} Swart--Difficuldades--D^{or.} Risseck--Eu gastrònomo!—Sir Bartle Frere e o Consul Portuguez M^{r.} Carvalho--O Secretario Colonial M^{r.} Osborn--Jantares e saraus--O missionario Rev. Gruneberger--M^{r.} Fred. Jeppe--O jantar do 80 de infanteria--Major Tyler e Capitão Saunders—Insubordinação--M^{r.}      Selous--Monseigneur Jolivet--O que era Pretoria--Uma photographia de pretas--Episodio burlêsco da guerra tràgica dos Zulos


CAPÌTULO VIII.

O FIM DA VIAGEM.

A chegada do Coronel Lanyon--Parto de Pretoria--Heidelberg--Um dog-cart--O Tenente Barker--Dupuis--Peripecias de uma viagem no Transvaal--Newcastle--A diligencia--Episodios burlescos--Pietermaritzburg--Durban--Volto a Maritzburg--Didi Saunders--Episodios em Durban--O Consul Portuguez M^{r.} Snell--O Danubio--O Commandante Draper--Regresso á Europa


Conclusão


Breve Vocabulario


Indice






LISTA DAS ILLUSTRAÇÕES.



FIG.

94.--O Rei Lobossi
95.--Gambela
96.--Matagja
97.--Cachimbos de fumar o Bangue
98.--Vasilha para leite feita de madeira
99.--Objecto de Ferro forjado que serve de Lenço de assoar aos Luinas. Especie de Espàtula
100.--Pratos e Escudellas para a comida
101.--Colhér
102.--Machado de cortar madeira
103.--Artigos de Barro
104.--Homem Luina
105.--Mulhér Luina
106.--Azagaias Luinas
107.--Machadinhas de guerra
108.--Porrinho
109.--Ataque contra o acampamento no Lui
110.--Casa na Itufa
111.--O meu Barco
112.--Acampamento na Sioma
113.--Cataracta de Gonha
114.--Passagem dos Barcos em Gonha
115.--Cataracta de Cale
116.--Ràpidos de Bombue
117.--Nos ràpidos
118.--Três Europêos atravessáram o rio
119.--O Campo do Doutor Bradshaw
120.--Monsieur e Madame Coillard
121.--Acampamento da Familia Coillard em Lexuma
122.--Interior do Campo de Monsieur Coillard em Lexuma
123.--Mozioatunia. A Queda de Oeste.
124.--Mozioatunia. Maneira pouco còmmoda de medir àngulos.
125.--O Rio depois da Cataracta
126.--Os Tumulos em Patamatenga
127.--Os Desfiladeiros de Letlotze
128.--Ruinas da Casa do Rev. Price (Xoxom)
129.--No Deserto
130.--Fly, o meu Cavallo do Deserto
131.--Fly perseguindo os Ongiris
132.--Uma Vista do Alto Limpôpo
133.--Montes termìticos junto ao Limpôpo
134.--Os meus Bôis foram salvos
135.--O ùltimo enterro
136.--Magalies-berg
137.--O que restava da Expedição
138.--Eu em Pretoria (De uma photo. de Mr. Gross)
139.--Betjuanas (De uma photo. de Mr. Gross)

Mappa de Mozioatunia

Três Facsìmiles, de pàginas do Diario, dos Livros de Càlculos, e do Albo de Cartas





COMO EU ATRAVESSEI ÀFRICA


Primeira Parte.--A CARABINA D'EL-REI.





CAPÌTULO IX.

NO BARÔZE.


No alto Zambeze--O rei Lobossi--O reino do Barôze, Lui ou Ungenge--Os conselheiros do rei--Grande audiencia--Audiencias particulares--Parece que tudo me corre bem--Eu explicando geographia a Gambela--Volta-se a face aos negocios--Intrigas--Os Bihenos querem voltar--Uma embaixada a Benguella--Quimbundos e Quimbares--A prêta Mariana--Tentativa de assassinato--6 de Setembro--Incendio e combate--Retiro para as montanhas.


A 25 de Agôsto levantei-me muito incommodado e ardendo em febre. Estava no alto Zambeze, junto do 15^{to} parallelo austral, na cidade de Lialui, nova capital estabelecida pelo rei Lobossi, do reino do Barôze, Lui ou Ungenge, que tôdos estes nomes pode ter o vasto imperio da Àfrica tropical do sul. Como se sabe pêlas descripções de David Livingstone, um homem vindo do Sul á frente de um exèrcito poderôso, o guerreiro Chibitano, Basuto de origem, atravessou o Zambeze junto da sua confluencia com o Cuando, e invadio os territorios do alto Zambeze, sujeitando ao seu dominio tôdas as tribus que habitavam o vasto paiz conquistado.

Chibitano, o mais notavel capitão que tem existido na Àfrica Austral, partira das margens do Gariep com um pequeno exèrcito formado de Basutos e Betjuanas, ao qual foi aggregando os mancêbos dos povos que vencia, e ao passo que caminhava ao norte, ia organizando essas phalanges, que depois se tornáram tão terriveis, ja na conquista do alto Zambeze, ja na defensa do paiz conquistado.

A êsse exèrcito, formado de elementos differentes, de povos de muitas raças e origens, deu o seu chefe o nome de Cololos, e d'ahi lhe veio o nome de Macololos que tão conhecido se tornou em Àfrica.

No alto Zambeze encontrou Chibitano muitos povos distinctos, governados por chefes independentes, que não podéram, separados como estavam, oppor séria resistencia ao terrivel guerreiro Basuto.

Tão sabio legislador, como prudente administrador, e audaz guerreiro, Chibitano soube dar união aos povos conquistados, e fazer com que elles se considerassem irmãos no interesse commum.

Estes podiam agrupar-se em três divisões, marcando três raças distinctas.

Ao sul, abaixo da região das cataractas, os Macalacas; no centro, os Cangenjes ou Barôzes; e ao norte, os Luinas, raça mais vigorosa e intelligente, que devia substituir um dia os Macololos na governação do paiz.

É propriamente no paiz do Barôze ou Ungenge, que se tem conservado as sedes do govêrno desde o tempo de Chicreto, o filho e successor de Chibitano; e tôdos os povos de Oeste chamam ao vasto imperio Lui ou Ungenge, ao passo que os povos do sul lhe dam o nome de Barôze. Mais tarde, n'este capìtulo, terei occasião de falar na historia d'este pôvo desde a ùltima visita de Livingstone até á minha passagem ali; proseguindo agora a narrativa das minhas aventuras sôb o reinado de Lobossi, e do seu conselheiro ìntimo Gambela.

A organização polìtica do reino do Lui é muito differente da dos outros povos que eu tinha visitado em Àfrica. Ali ha dois ministerios perfeitamente definidos, o da guerra, e dos negocios estrangeiros; sendo este ùltimo dividido em duas secções, cada uma com o seu ministro. Uma d'ellas trata dos negocios de Oeste, outra dos do Sul. Isto é, uma trata com Portuguezes de Benguella, outra com os Inglezes do Cabo.

Na occasião da minha chegada, os conselheiros do rei eram quatro, dois dos quaes não tinham pasta; sendo ministro dos negocios estrangeiros de Oeste um tal Matagja, e accumulando duas pastas, a da guerra e a dos negocios estrangeiros do sul, Gambela, o presidente do consêlho do rei. Aprendi bem estes detalhes, para regular a minha conducta nas graves questões que tinha a tratar.

Logo de manhã, fui avisado, de que o rei Lobossi me esperava.

Larguei os meus andrajos, e vesti o ùnico vestuario que ja possuia, dirigindo-me em seguida á grande praça onde devia ter logar a audiencia.

Elle estava sentado em uma cadeira de espaldar, no meio da grande praça, e por de tras d'elle um nêgro fazia-lhe sombra com um guarda-sol.

Era um rapaz de 20 annos, de estatura elevada, e proporcionalmente grôsso.

Vestia um casaco de cazimira prêta sobre uma camisa de côr, e em logar de gravata, trazia ao pescôço um sem-nùmero de amulêtos.

As calças eram de cazimira de côr, e deixavam ver as meias de fio de escocia, muito alvas, e o sapato baixo bem lustrado.

Um grande cobertôr de listas multicolôres em guisa de capote, e na cabêça um chapéo cinzento, ornado de duas grandes e bellas pennas de avestrús, completavam o traje do grande potentado.

Na mão um pedaço de madeira lavrada, ao qual estavam prêsas muitas clinas de cavallo, servia-lhe para enxotar as môscas, acção que elle fazia com tôda a gravidade.

Á sua direita, em cadeira mais baixa, estava sentado o Gambela, e na frente os três conselheiros. Umas mil pessôas, sentadas no chão em semi-cìrculo, deixavam perceber a sua jerarchia pelas distancias a que
estavam do soberano.


Figura 94.--O Rei Lobossi.

Á minha chegada o rei Lobossi levantou-se, e logo em seguida os conselheiros e tôdo o pôvo. Troquei um apertar-de-mão com elle e com Gambela, abaixei a cabêça a Matagja e aos outros dous conselheiros, e sentei-me junto a Lobossi e a Gambela.

Depois de uma troca de comprimentos e de finezas, que mais pareciam de uma côrte Europea do que de um pôvo bàrbaro, eu disse ao rei, que não era negociante, que vinha visital-o por ordem do Rei de Portugal, e que tinha a falar-lhe em assumptos que não podiam ser tratados ali diante de tão numerosa assemblea.


Figura 95.--Gambela.

Elle respondeu-me, que sabia e comprehendia isso, e que a recepção que me mandara fazer na vèspera e a que elle mesmo me fazia ali, me mostravam que eu não era confundido com um negociante qualquér; que eu era seu hòspede, e teriamos tempo de falar em negocios, porque elle esperava ter a felicidade de me possuir algum tempo na sua côrte. Depois de me dizer esta amabilidade, despedio-se de mim, que voltei a casa abrasado em febre.

No meu pàteo encontrei trinta bôis, que o rei me mandava de presente.

Disse-me o escravo favorito de Lobossi, que seria delicado da minha parte, mandar matar os bôis, e offerecer a melhor perna de bôi ao rei, e dar carne á gente da côrte.

Dei ordem a Augusto para fazer isso, e houve logo uma carnificina enorme, sendo tôdos os bôis mortos, e a sua carne distribuida entre os meus carregadores e a gente da côrte; tendo o cuidado de mandar ao rei e aos quatro conselheiros a melhor parte, cabendo ainda assim o melhor quinhão a Gambela, a quem fiz notar a distinc&ccedyl;ão que fazia.


Figura 96.--Matagja.

As pelles, que ali sam muito estimadas, offereci eu a Matagja e Gambela.

Pêla 1 hora, fui recebido pêlo rei em audiencia particular, em uma casa tambem semi-cilìndrica, mas de grandes dimensões, que não contava menos de 20 metros de comprido por 8 de largo.

Lobossi estava sentado em uma esteira, e em frente d'elle os quatro conselheiros occupavam outra, de companhia com alguns fidalgos, entre os quaes estava um velho vigoroso, cuja physionomia sympàthica e expressiva me impressionou. Era Machauana, o antigo companheiro de Livingstone, na viagem que o cèlebre explorador fez do Zambeze a Loanda, e de quem elle fala, no seu roteiro com tanto elogio.

Uma enorme panella de quimbombo foi collocada no meio da casa, e depois de o rei ter bebido, bebêram tôdos com profusão, e nem me offerecêram, sabendo que eu só àgua bebia.

Conversámos sôbre cousas indifferentes, e eu entendi não dever falar-lhe ainda dos meus negocios. Entre outras cousas, falámos a respeito de lìnguas differentes, e Lobossi pedio-me que falasse um bocado em Portuguez, para elle ouvir. Recitei-lhe as Flôres d'Alma do poema "D. Jayme," e os prêtos ficáram encantados ao escutar a harmonia da nossa lìngua, que o mimôso e grande poeta, Thomas Ribeiro, soube imprimir e fazer resaltar n'aquellas estrophes singelas.

Quando eu ia retirar-me, o rei disse-me baixo, de modo que ninguem percebeu, que lhe fôsse falar depois de ser noute fechada.

Pouco depois de eu chegar a casa, apparecêu-me ali Machauana, com quem conversei sôbre Livingstone, e que me fez os maiores protestos de amizade.

Á noute, pelas 9 horas, fui á morada do rei. Elle estava n'um dos pàteos interiores, sentado em uma esteira, junto a um grande fôgo, que ardia n'uma bacia de barro de dois metros de diàmetro. Na sua frente, em semi-cìrculo, uns 20 homens, armados de azagaias e escudos, conservavam a maior immobilidade e silencio.

Pouco depois de eu chegar, chegou o Gambela, e começou a nossa conferencia.

Eu principiei por lhe dizer, que tinha sido obrigado a deixar no caminho os ricos presentes que lhe trazia, mas que, ainda assim, tinha podido salvar algumas pequenas cousas que lhe daria, e entre ellas uma farda e um chapéo, que lhe apresentei logo.

Era uma d'essas fardas ricamente agaloadas, que tôda Lisboa vio aos lacaios postados nas antecàmaras do Marquez de Penafiel, e que fôram vendidas quando o opulento fidalgo trocou a sua residencia luxuosa de Lisboa, pelo viver mais buliçôso da capital da França.

Lobossi ficou encantado com a farda e com o chapéo armado, e fêz-me mil agradecimentos. Depois de uma pequena conversa sem importancia, entrámos em assumpto.

No Barôze falam-se três lìnguas. O Ganguela, a lìngua Luina, e o Sezuto, idioma deixado ali pêlos Macololos, que modificáram os costumes d'aquelles povos a ponto tal, que até lhes implantáram a sua lìngua, que é a lìngua official e elegante da côrte.

Era n'este idioma que falavam Lobossi e Gambela, servindo-me de intèrpretes Verissimo e Caiumbuca. Eu disse ao règulo, que vinha da parte do rei de Portugal (o Mueneputo), nome pêlo qual sua Magestade
Fidelissima é conhecido entre tôdos os povos da Àfrica Austral, e que é formado por duas palavras--Muene, que quer dizer Rei, e Puto, nome dado em Àfrica a Portugal. Disse-lhe, que o meu fim principal era abrir caminhos ao commercio, e que estando o Lui no centro de Àfrica, e ja em communicação com Benguella, desejava abrir o caminho do Zumbo, e assim um mercado muito mais perto, onde elles poderiam ir abastecer-se dos gèneros Europêos de que precisassem.

Elle queixou-se muito da falta que nos ùltimos tempos lhe havia feito o não virem ali negociantes de Benguella, não me occultando que, entre outras cousas, estava sem pòlvora. Eu respondi-lhe, que elles viriam, se com elles fizessem bons negocios, e que eu lhe podia affirmar, que o Mueneputo estava dispôsto a proteger o commercio com elle, se elle se compromettesse a não consentir nos seus estados a compra e a venda de escravos.

Não lhe occultei a falta de meios com que eu lutava, e mostrando-lhe o desejo e empenho que tinha em abrir o caminho do Zumbo, prometti-lhe, se elle me coadjuvasse na emprêsa, fazer-lhe chegar de Tete, no menor tempo possivel, a pòlvora e mais artigos de que elle carecia.

O Gambela, homem intelligente e fino diplomata (tambem os ha prêtos), quiz por vêzes enredar-me, mas eu não sahia da verdade e da lògica, e elle foi vencido.

No fim de muito discutir, ficou decidido, que o rei Lobossi mandaria uma comitiva a Benguella, para guiar a qual eu lhe daria um homem de confiança, com cartas para o governador e para Silva Porto, e que elle me daria a gente de que eu precisasse para ir comigo ao Zumbo.

Era uma hora da noute quando eu me retirei, e ainda que sempre desconfiado de prêtos, não posso deixar de confessar que me retirei satisfeito.

O dia foi tôdo muito occupado, e depois de á uma hora me recolher, sobreveio-me um enorme accesso de febre.

Levantei-me muito doente no dia seguinte, e mandei logo Quimbundos e Quimbares construirem um acampamento meio kilòmetro ao sul de Lialui, para o quê obtive autorização do rei.

Pêlas 10 horas, fui visitar Lobossi, que encontrei n'uma grande casa circular, cercado de gente, e tendo diante de si seis enormes panellas de capata. O meu Augusto, Verissimo, Caiumbuca e a gente do règulo, dentro em pouco estavam bêbados a cahir, e ninguem se entendia ali. Eu voltei a casa, e tive de deitar-me, de tal modo me recresceu a febre.

Foi immensa gente visitar-me, e como eu não tinha remedio senão ouvir uns e outros, porque aquelles nêgros não t[~e]m a menor consideração por um doente, peiorei muito.

Lobossi mandou-me seis bôis, cuja carne foi tôda furtada pêla gente d'elle, porque a minha estava longe construindo o acampamento, e Augusto, Verissimo e Camutombo completamente bêbados, não quizéram saber d'isso.

No dia immediato, Lobossi veio visitar-me logo de manhã; eu estava um pouco melhor, mas a febre era constante e não queria ceder aos medicamentos.

Ás 10 horas, Lobossi mandou-me pedir para comparecer diante do seu grande consêlho, que fizera convocar expressamente para eu expor os meus projectos.

Outra vez Gambela, que presidia á assemblea, me quiz embaraçar, e outra vez se saío mal. Tive de explicar Geographia a Gambela e aos conselheiros da corôa.

Tracei-lhes no chão o curso do Zambeze, e a leste parallelo a elle o curso do Loengue, que, com o nome de Cafúcué, vai entrar no Zambeze a jusante dos ràpidos de Cariba.

Mostrei-lhes que em 15 dias alcançaria a povoação de Cainco, situada em uma ilha do Loengue, e que descerìamos o rio embarcados até ao Zambeze, e por este ao Zumbo.

Afirmei-lhes, que o Loengue não tinha cataractas, e que o Zambeze de Cariba ao Zumbo era perfeitamente navegavel.
 
Insisti pois n'este ponto, demonstrando-lhes, que apenas com uma travessia por terra de 15 dias, que se podia reduzir mesmo a 10 (citando-lhes para isso um facto de uma expedição Luina que, partindo de Narieze, tinha alcançado Cainco em 8 dias), com uma pequena travessia por terra, elles estariam em ràpida, communicação com os estabelecimentos Portuguezes de Leste, por vias fluviaes completamente navegaveis.

O pùblico estava admirado da minha erudição, e Gambela, que sabia mais geographia Africana do que muitos ministros d'estado Europêos, e que conhecia ser verdade o que eu expunha, cedeu ás razões.

Depois de longa e acalorada discussão, foi resolvido, que se enviasse a comitiva a Benguella, e que me fôsse dada a gente sufficiente para atravessar o Chuculumbe até Cainco, deixando três ou quatro fortes postos no caminho, para segurar a passagem áquelles que, indo comigo até ao Zumbo, tivessem de regressar. No fim da sessão, houve grande enthusiasmo, e fôram logo nomeados os chefes que deviam ir a Benguella, e os que me deviam acompanhar.

Voltei a casa com um tal accesso de febre que perdi a razão, melhorando ás 6 horas da tarde.

Á noute, annunciáram-me a visita de Munutumueno, filho do rei Chipopa, o primeiro rei da dinastia Luina.

Mandei-o entrar, e vi um rapaz de 16 a 17 annos, muito elegante e sympàthico.

Trazia uma calça prêta e uma farda de alferes de cavallaria ligeira, em muito bom estado. Fez-me profunda impressão ver aquella farda! ¿A quem teria pertencido? ¿Como teria ido parar ao centro d'Àfrica?

Talvez alguma viuva necessitada encontrasse na venda d'aquelle objecto, que pertencêra a um espôso estremecido, algumas migalhas de pão para matar a fome.

Perguntei a Munutumueno ¿como tinha obtido aquella farda? e elle respondeu-me, que tinha sido presente de um sertanejo Biheno, havia ja muito tempo.

Indaguei, se não lhe havia encontrado nada nos bolsos, e elle respondeu-me, que não tinha bolsos. Uma farda de official sem bolsos, era impossivel.

Pedi-lhe para m'-a deixar examinar, e tendo elle desabotoado o peito, effectivamente vi que não tinha bôlso ali.

Roguei-lhe, que se voltasse, e comecei a explorar-lhe os bolsos das abas. Elle estava admirado, porque não sabia que tinha bolsos ali. Em um d'elles os meus dêdos encontráram um pequenino bilhête.

¿Iria saber a quem tinha pertencido aquella farda?

¿O que conteria aquelle papelinho dobrado que eu tinha diante dos olhos e não me atrevia a abrir?

Cheio de commoção, desdobrei o papél, e vi n'elle algumas linhas escritas a lapis, que li àvidamente.

Não pude conter uma gargalhada.

O papél dizia assim:--

"Se lhe não sou indifferente, rogo-lhe o obsequio de me indicar o modo de nos correspondermos."

Por baixo um nome e uma morada.

Sabia de quem fôra a farda.

O nome era o de um dos meus amigos e antigo condiscìpulo, que hôje occupa uma distintissima posição n'uma das armas scientìficas do exêrcito Portuguez.

Um dia em pùblico commetti a indiscrição de pronunciar o nome do signatario do bilhête, que eu possuo, e ainda que indiscreto fui, não creio ter de modo algum offendido aquelle nobre official e distincto cavalheiro.

Uma farda que o talento e a applicação ao estudo fizéram trocar por outra, mais distincta; que, abandonada ou dada a algum criado, pêla instabilidade das cousas, foi parar ao centro de Àfrica, creio é cousa que não desdoura ninguem. Em quanto ao bilhête de amôres, creio bem que ainda menos o deve vexar.

Infelizes d'aquelles que, aos desoito annos, não escrevêram bilhêtes assim, e mais infelizes os que depois dos trinta ja os não podem escrever.

"Aquillo, meu amigo, foi cousa que um papá, ou uma _máma, sempre impertinentes em taes casos, te não deixou entregar, ao sahir do theatro ou de um baile, á tua Dulcinea d'aquella noute, ou que a tua timidez dos desoito annos fêz recolher ao bôlso. Imagino, meu amigo, que te deves ter rido, sabendo que aquelle bilhête esquècido, depois de atravessar os mares, atravessou aquelles inhòspitos paizes, e andou em companhia de um prêto no alto Zambeze. É verdade, que, para te consolares, sabes que esse prêto era filho de rei."

N'esta aventura, eu fui o ùnico tôlo, em ter tido pensamentos tristes, á vista do bilhête encontrado no bôlso da farda de um alferes de cavallaria, porque logo devia suppor, que tal bilhête só podia ser um bilhête d'amôres.

Um alferes de cavallaria, em Portugal, como em tôdos os paizes, é sempre um fogacho onde as maripôsas v[~e]m queimar as azas douradas.

Pensando na proposição que acabo de formular, deitei-me cheio de tristeza, lembrando-me que ja era major.

No dia immediato, recresceu a febre a ponto de eu não poder andar. Lobossi foi visitar-me, e levou com-sigo o seu mèdico de confiança.

Era um velho, pequeno e magro, de barba e cabello branco.

Principiou elle por tirar do pescôço um cordão onde tinha enfiado oito metades de caroços de uma fruta qualquér que eu não conhecia. Começou, com grande recolhimento, a pronunciar umas palavras màgicas, e atirou com os caroços ao chão. D'estes, uns ficáram com a parte interna voltada para a terra, outros com a externa. Elle leu n'aquella disposição, concluindo da leitura, que os meus parentes mortos se tinham apossado de mim, e que era preciso dar-lhes alguma cousa para elles me deixarem. Eu aturei tudo com a maior paciencia, fingindo acreditar o que elle me dizia, e dei-lhe um pequeno presente de pòlvora.

N'aquelle dia o Gambela deu-me um presente de dez cargas de milho e massambala.

Estando concluido o meu acampamento, mudei para elle.

No dia 29 de Agosto, a febre cedeu um pouco ás fortes doses de quinino que tomei, e senti bastantes melhoras. O meu estado moral é que peiorava de instante a instante.

Tinha alguns momentos de desalento inexplicaveis. A minha energia cedia ante a fraqueza moral que se apossava de mim.

Estava sôb o pêso esmagador de um terrivel ataque de nostalgia.

O rei mostrava muitos cuidados pêlo meu estado, mas cada portador que vinha encarregado de saber da minha saude, era emissario de um pedido cada vez mais impertinente.

N'aquelle dia mandou elle os seus mùsicos tocarem e cantarem para me enterter, mas mandou em seguida pedir-me dois cartuxos de pòlvora por cada mùsico.

N'essa tarde ouvi grandes toques de tambores na cidade, e o rei mandou-me pedir, que mandasse dar alguns tiros na grande praça, desejo que eu satisfiz mandando doze homens dar fôgo.

Sube depois que aquillo era uma convocação á guerra, e antes de falar nos motivos d'ella, direi em poucas palavras a historia do Lui, desde o ponto em que ficou narrada pêlo D^{or.} Livingstone, isto é, desde a morte de Chicrêto.

O imperio, poderosamente sustentado pêla mão de ferro, sabia prudencia e fina polìtica de Chibitano, marcou-se com uma profunda pègada de decadencia no reinado de seu filho Chicrêto. David Livingstone, muito grato aos favôres de Chicrêto, que lhe deu os meios de ir a Loanda e a Moçambique, é talves bastante suspeito nos elogios que dispensa a este rei; e mesmo na narrativa da viagem que ali fez depois com seu irmão Carlos e o Doutor Kirk, não pôde deixar de narrar a desordem e profunda decadencia em que encontrou o imperio Macololo.

Das gentes vindas do sul com Chibitano, isto é Macololos, poucos existiam ja, tendo sido decimados pêlas febres do paiz, que nem os naturaes poupam. A embriaguez e o uso do bangue, de mistura com os
desregramentos dos chefes, tinham feito perder tôda a autoridade aos invasores. Môrto Chicrêto, succedeu-lhe seu sobrinho Omborolo, que devia reinar durante a minoridade de Pepe, irmão muito mais nôvo de Chicrêto, e filho ainda do Grande Chibitano.

Os Luinas conspiravam, e um dia Pepe foi assassinado. Omborolo não tardou a ter a mesma sorte, e tendo sido ordenada uma Saint Barthélemi por os Luinas, os restos d'esse forte exèrcito invasor foi assassinado, escapando apenas poucos, sôb o commando de Siroque, irmão da mãe de Chicrêto, que fugio para Oeste, passando o Zambeze em Nariere.

Os Luinas, depois d'essa carnificina traiçoeira, acclamáram seu chefe Chipópa, homem de tino, que não deixou desmembrar o paiz, e procurou conservar o imperio, poderoso como em tempo de Chibitano.

Chipópa reinou muitos annos, mas as ambições apparecêram e, em 1876, um tal Gambela fel-o assassinar, e acclamar seu sobrinho Manuanino, criança de 17 annos.

O primeiro acto do poder de Manuanino foi mandar cortar a cabêça a Gambela, que o tinha feito rei, e desprezando tôdos os parentes e amigos do pai que o eleváram ao poder, chamou para junto de si só os parentes maternos. Aquelles conspiráram, fizéram uma revolução, e tentáram assassinal-o, em Março de 1878; mas Manuanino, tendo alguns fiéis, pôde escapar-se, e fugio para o Cuando, onde assaltou e devastou a povoação de Mutambanja.

Lobossi, acclamado rei, enviou contra elle um exèrcito, e Manuanino têve de retirar d'ali, e repassando o Zambeze em Quisséque, internou-se no paiz do Choculumbe, atravessou este paiz, e foi juntar-se a uns brancos, caçadores de elephantes, que estavam na margem do Cafuqúe. Lobossi entendeu, que a sua segurança dependia da morte de Manuanino, e mandou contra elle um nôvo exèrcito. Foi do resultado d'aquella expedição que n'esse dia chegáram noticias.

Chegados perto do logar onde estava o ex-soberano com os brancos, que elles chamam Mozungos, intimáram estes a que lhes entregassem Manuanino para o matarem, e como houvesse recusa, elles os atacáram, mas, com tanta infelicidade, que fôram completamente batidos pêlos brancos; escapando muito poucos, que n'essa tarde chegáram a Lialui a narrar o seu desastre.

Eis aqui o motivo porque os tambores tocavam convocando á guerra; e porque o rei Lobossi me pedio que mandasse dar tiros na grande praça da cidade.

Ja que falei na historia do Lui, não dêvo proseguir sem narrar um dos seus episodios mais interessantes, porque se refere a um typo verdadeiramente sympàthico.

É Siroque, aquelle Macololo, que, na occasião da Saint Barthélemi dos Macololos, conseguio escapar com um grupo de gente, passando o Zambeze.

Siroque, intrèpido e audaz, caminhou a oeste até encontrar o Cubango, onde se estabeleceu, vivendo da caça dos elephantes.

Depois subio o rio até ao Bihé, e fixou-se ali por muito tempo, chegando por vêzes a ir a Benguella em comitivas sertanejas. Um dia porem, tendo umas questões em que bateu os que o atacáram, retirou por prudencia para o interior; indo acampar no rio Cuando abaixo do Cuchibi, onde continuou a vida de caçador.

Siroque era intelligente e bravo, e de uma familia que tinha reinado, não podia deixar de ser ambiciôso.

Sonhou com o restabelecimento da monarchia Macolola no Lui, e foi-se approximando d'ali pêlo Cuando.

Um pombeiro do Bihé, seu amigo e que lhe tinha fornecido pòlvora, denunciou-o, e Manuanino, então acclamado de pouco, fel-o assassinar junto da povoação de Mutambanja, pêla mais cobarde traição.

Tôdos os seus fôram vìctimas, e a azagaia do assassino de Siroque abrio o tùmulo ao ùltimo dos Macololos.

Aquelle dia amanhecido tão bonançoso para o adolescente monarcha, que só via sorrir-lhe a vida, tornara-se de repente sombrio e carregado, envolvido em nuvens de tempestade.

As noticias más succedem-se, e corria o boato, de que Lo Bengula, o poderoso rei do Matebeli, projectava um ataque contra o Lui.

Andavam tôdos desorientados, tôdos emittiam alvitres, todos pensavam loucuras; só dois homens se conservavam serenos no meio d'aquelle pôvo semi-louco. Eram Machauana e Gambela--Gambela o ministro da Guerra, Machauana o General em chefe.[1]

Ordens acertadas e ràpidas eram dadas por elles a emissarios fiéis, que partiam para povoações distantes.

¿O que seria de mim no meio dos novos acontecimentos que agitavam o paiz?

Diziam e repetiam, que fôram os Muzungos que matáram os sicarios de Lobossi, enviados contra Manuanino, e se ali se soubesse que eu era Muzungo, estava irremediavelmente perdido. Estes povos felizmente ignoram isso, e pensam que os Portuguezes de leste sam de outra raça differente dos Portuguezes de oeste.

No Lui, os Portuguezes das colonias de oeste sam chamados Chiudéres, nome que lhes dam os Bihenos; os das colonias de leste, Muzungos; e os Inglezes do sul, Macúas. A tôdo e qualquér prêto que vem das colonias Portuguezas chamam Mambares, de certo corrupção da palavra Quimbares, com que sam designados os prêtos semi-civilizados de Benguella. D'ahi proveio o erro do Doutor Livingstone, arranjando a oeste das serras de Tala Mugongo uma raça de Mambares.

Os Quimbares sam prêtos de qualquér procedencia, geralmente escravos ou libertos, que ja sam meio-civilizados. Sam, finalmente, a gente das senzalas de Benguella e as escravaturas dos brancos da costa.

Em Benguella chamam Quimbundos ao gentio selvagem do interior, designando com esse nome mais particularmente os Bihenos.

No dia 30, logo de manhã, Lobossi mandou dar-me parte de que se ia fazer a guerra, e dos motivos que a isso o obrigavam.

O emissario foi o proprio Gambela, que me disse logo, que, sendo o Chuculumbe o theatro da guerra, era impossivel a minha viagem por ali; e por isso, que tudo o que havìamos combinado estava prejudicado.

Aquelles acontecimentos tornavam muito crìtica a minha posição.

N'essa tarde, estando eu com um nôvo e violento accesso de febre, viéram prevenir-me, de que os pombeiros Bihenos me queriam falar.

Levantei-me a custo e fui ouvil-os.

Depois de variados preàmbulos, disséram-me, que me iam deixar, porque viam o mao caminho que as cousas tomavam no Lui, e só desejavam voltar ao Bihé.

Cobardes! Abandonavam-me no momento em que eu mais precisava d'elles!

Miguel, o caçador de elephantes, o pombeiro Chaquiçongo, e dois carregadores, Catiba e um carregador, e o Doutor Chacaiombe, viéram protestar-me a sua amizade, e declarar-me que ficavam comigo. Tôdos os Quimbares me viéram fazer igual declaração.

Aquella resolução inesperada dos Bihenos fêz-me recobrar o sangue frio que ja não tinha ha dias. Augmentavam as difficuldades, era preciso lutar, e eu sacudi o entorpecimento moral que se ia apossando de mim.

Immediatamente despedi os Bihenos, que puz fora do acampamento, entregando-os ao prêto Antonio, o velho Antonio que eu tinha designado a Lobossi para ser chefe e guia da comitiva que elle ia mandar a Benguella.

Fiz em seguida a conta á minha gente, e achei-me com 58 homens.

No dia immediato, Lobossi veio a minha casa, e fêz-me repetidas exigencias de cousas que eu não possuia, e elle queria por fôrça que eu tivesse e lhe desse. Estava cada vez mais importuno. Era uma criança, mas criança impertinentissima. Precisava de uma paciencia sem limites para o aturar.

Lobossi mandou-me chamar n'essa noute. Fui la, e elle disse-me, que a minha viagem pêlo Chuculumbe era impossivel, mas que me daria guias e alguma gente para eu tornear pêlo sul e ir ao Zumbo.

Disse-me, que o boato a respeito dos Matebeles não tinha fundamento, que d'aquelle lado havia paz e elle terminaria facilmente com Manuanino. Queixou-se muito amargamente de eu lhe dar poucas cousas, dizendo, que se eu nada mais tinha, lhe desse tôdas as armas e a pòlvora que possuia, porque, seguindo para o Zumbo com gente d'elle, seria defendido por ella, e não precisava levar tanta gente armada.

Offereci-lhe as armas dos Bihenos que me tinham deixado n'esse dia, e que tive o cuidado de lhes tirar, e sete barris de pòlvora, mas neguei-me formalmente a dar-lhe uma só que fôsse das outras, dos homens que me ficáram, ou das minhas particulares.

Retirei-me pouco satisfeito d'aquella entrevista.

No primeiro de Setembro, levantei-me muito doente, e depois de ter feito as observações da manhã, tornei a deitar-me; quando o Verissimo entrou espavorido na barraca, e me diz, que Lobossi mandara chamar tôda a minha gente, e lhe exposera, que eu tinha vindo ali de propòsito para me ir juntar aos Muzungos que estavam no Cafuque com o Manuanino, e fazer-lhe guerra a elle. Isso estava demonstrado pêla minha insistencia em querer ir ao Chuculumbe. N'essa noute fôra elle prevenido dos projectos que eu meditava, e por tanto, me ia obrigar a sahir dos seus estados, e só me deixaria livre o caminho do Bihé.

Encarregara elle o Verissimo de me vir fazer a intimação; cousa que em nada me desconcertou o espìrito, porque, desde a vèspera á noute, eu esperava novidade grande.

Mandei chamar o Gambela, mas elle têve o cuidado de fazer com que o não encontrassem em tôdo o dia.

Um recado que fiz chegar a Lobossi, mostrando-lhe a inconveniencia do passo que dava, porque eu lhe podia fazer muito mal impedindo os sertanejos do Bihé de virem ali, têve por ùnica resposta nôvo mandado de despejo, e só livre o caminho do Bihé.

Á tarde, nova prevenção, de que as forças que estavam reunidas para a guerra, não sahiriam sem eu ter deixado o paiz do Lui em caminho de Benguella.

Respondi ao enviado, que dissesse ao rei Lobossi, que dormisse sôbre o caso, porque a noute era bôa conselheira, e que esperava ainda a sua ùltima decisão no dia immediato.

A 2 de Setembro, logo de manhã, recebi a visita de Gambela, que vinha da parte do rei, ordenar-me que sahisse do seu reino immediatamente, e que o ùnico caminho livre era o do Bihé. Não pode passar nem por ali, nem por ali, nem por ali, me disse elle, apontando para o N., E. e S.

Contra tôdos os usos do paiz, o Gambela, em quanto estêve em minha casa, conservou as armas na mão, e eu entretive-me brincando com um magnìfico revólver Adams-Colt.

Fingi que meditei a minha resposta, e disse-lhe, "Amigo Gambela, vá dizer a Lobossi, ou tome o recado para si, que eu não arredo um passo d'aqui para seguir o caminho de Benguella. Tem ahi um numeroso exèrcito, que me venha atacar; eu saberei defender-me, e se morrer, o Mueneputo lhe tomará contas d'isso. Vocês estam indispostos com os Matebeles, ameaçados pêla guerra civil levantada por Manuanino, indisponham-se tambem com o Mueneputo, e estam perdidos. Outra vez lhe repito, que não
sahirei d'aqui senão para seguir o meu caminho."

Gambela sahio da minha barraca furioso.

N'essa noute Machauana veio furtivamente visitar-me. Previnio-me elle de que Gambela aconselhara ao rei para me mandar matar, e que Lobossi se negara a isso terminantemente. O caso foi passado em conselho, a que assistia Machauana, que me fez mil prevenções para estar de sôbre-aviso.

A larga conversação que tive com o antigo companheiro de Livingstone, mostrou-me que entre elle e Gambela havia reixa velha. O antigo guerreiro de Chibitano, depois muito afeiçoado ao rei Chipopa, só pensava em ver occupar o trôno do Lui ao filho d'este, seu pupillo e seu protegido, o joven Munutumueno, o meu alferes de cavallaria ligeira.

Tendo podido ler no coração do velho aquelle odio e aquella affeição, considerei-me salvo. O seu poder era grande, porque elle tinha influencia n'uma enorme parte das tribus do Lui; e por isso as azagaias, que tanto ferem ali nas revoluções, o tinham poupado. Fiz-lhe muitos protestos de gratidão, e pedi-lhe, que me prevenisse logo que o rei Lobossi determinasse matar-me. Elle prometeu, e retirou-se.

Eu fui deitar-me, levando a referver na mente, um plano singelo, que me abstive de communicar a Machauana, para lhe evitar idéas cubiçosas, que elle não tinha n'aquelle momento.

Resolvi, se acaso Lobossi decretasse a minha morte, chamar cinco dos meus homens mais decididos, uma especie de cães que eu tinha comigo, como eram Augusto, Camutombo e outros, e ir com elles logo á audiencia do rei, onde tôdos estam desarmados, fazel-os, a um signal meu, saltarem sôbre Lobossi, Gambela, Matagja e os outros dois conselheiros ìntimos, e eu de um pulo acercar-me de Machauana o general em chefe, o homem que tinha ali acampados dez mil guerreiros, e gritar-lhe bem alto "¡Viva Munutumueno, rei do Lui, viva o filho de Chipopa!"

Uma revolução feita n'estes termos não podia deixar de dar bom resultado n'um paiz que ama as revoluções, e onde se faria a primeira em que não houvesse uma gôta de sangue derramado.

Acalentando este pensamento salvador, adormeci profundamente, para acordar, no dia 3, ao chamamento do meu muleque Catraio, que me vinha prevenir, de que Lobossi estava ali, e me queria falar.

Levantei-me e fui receber o rei. Elle vinha participar-me, que tinha mudado de parecer, e que tôdos os caminhos estavam livres para mim.

Que me daria guias até ao Quisséque, mas que, em vista das cousas que se estavam passando nos seus estados, não podia dar-me fôrça para me seguir, nem se responsabilizava por qualquér desastre que me podesse acontecer, indo eu com 58 homens apenas.

Agradeci-lhe aquella decisão, e declarei-lhe, que tinha por costume, só eu mesmo me responsabilizar pêla minha vida, e não tornar ninguem responsavel d'ella.

Antes de se retirar, fêz-me muitos pedidos, que ficáram sem satisfação, por não ter nada do que elle queria. Um dos pedidos que me fazia tôdos os dias, era o de seis cavallos. Tendo-me visto chegar a pe, e sabendo que eu não tinha cavallos, era impertinencia tal desejo.

Sube depois, que a nova decisão tomada por Lobossi fôra filha de reïteradas instancias do Machauana, que lhe mostrou a inconveniencia do passo que dava, fazendo-me sahir dos seus estados a pesar meu.

No dia 4, de manhã, estando um pouco melhor da febre, fui assistir a uma audiencia do rei, que se mostrou em extremo amavel para comigo. Logo ao nascer do sol, Lobossi sahi dos seus aposentos, e ao som de marimbas e tambores, dirige-se á grande praça, onde vai sentar-se junto a uma alta sebe semi-circular, cujo centro é occupado pêla cadeira real.

Por de traz d'elle senta-se a gente que compõe a côrte, e á sua direita Gambela e os outros conselheiros, se estam presentes.

Na frente do règulo, a 20 passos, a mùsica em linha, e aos lados, em muitas fileiras, o pôvo.

Ali tratam-se um certo nùmero de negocios, que não precisam ser tratados em conselho privado. Aquella audiencia é tambem judicial. N'aquelle dia tratava-se de um crime de furto. O queixoso chamou o accusado, que veio sentar-se em frente d'elle, e fez a accusação. O acusado negou o crime, e logo de entre o pôvo sahio um homem que veio advogar em favor do réo. Ali qualquér amigo ou parente pode defender o amigo ou parente.

Gambela tomou a palavra, e o accusado veio ajoelhar em frente d'elle; fêz-lhe varias perguntasse mandou-o embora.

Continuou o debate, comparecendo testemunhas de accusação e defesa. O crime foi provado, e o accusador pedio, que lhe entregassem a mulhér do ladrão; ficando indemnizado da perda de uns fios de missanga, objecto do roubo, pêla posse da mulhér.

Terminado este debate, apparaceu outro homem accusando a mulhér de lhe não obedecer. Esta accusação foi seguida de muitas outras semelhantes, e mais de vinte sùbditos de Lobossi fizéram amargas queixas contra as espôsas; demonstrando-me, que as mulheres em Lialui estavam em completa
revolta domèstica. Depois de alguma discussão, foi resolvido, que tôda a mulhér que não obedecesse cega e absolutamente ao marido, fôsse amarrada e mettida na lagôa, onde passaria uma noute só com a cabêça de fora.

Aprovada esta nova lei, Gambela ordenou a alguns chefes, que a promulgassem nas povoações.

Uma cousa muito curiosa n'aquellas audiencias é o modo porque Gambela conferenceia com o rei em segrêdo, diante de tôdos. A um signal de Gambela, começa a mùsica a tocar, e os oito batuques fazem uma bulha de tal modo infernal, que é impossivel perceber uma palavra das que trocam o rei e o ministro.

Em seguida á audiencia, o rei vai para um aposento proprio para se embebedarem.

V[~e]m panellas e panellas de capata, e elle e os seus prestam um verdadeiro culto ao deos Baccho. D'ali vai para a cama, e á tarde, depois de novas libações, dá nova audiencia. Logo que, ao anoutecer, termina a audiencia, vai comer, e segue para o serralho, d'onde raramente sahi antes da uma hora, e recolhendo a casa para dormir, vahi deitar-se ao som ruidoso dos tambores.

O cessar dos batuques annuncía que o règulo está recolhido, e então a guarda, composta de uns quarenta homens, começa a tocar uma mùsica, que, apesar de monòtona, é agradavel; e tôda a noute cantam um côro suave e harmonioso a meia voz. Esta mùsica que no Barôze acalenta o sono do soberano, serve para mostrar que a guarda vela em tôrno do seu aposento. N'estes poucos traços dou uma idéa resumida do viver monòtono do autòcrata Africano, viver repartido entre a lascivia tôrpe e a embriaguez brutal.

N'aquelle dia, 4 de Setembro, sube, que devia a vida a Machauana, que, em conselho privado, se opôz formalmente a que me mandassem assassinar; dizendo, que elle tinha estado em Loanda com Livingstone, e ali tinha sido muito bem tratado pêlos brancos, assim como os Luinas que o acompanhavam; e por isso não podia consentir que fizessem mal a um branco da mesma raça.

Chegou mesmo a ameaçar os poderes constituidos, o que era caso grave para elles; porque no Lui os ministros morrem sempre na queda dos ministerios; precaução tomada pêlos novos conselheiros, que com alguns golpes de azagaia cortam pela raiz as opposições.

Cá na Europa, algumas vêzes, procura-se denegrir a reputação dos antecessores, buscando desdoural-os aos olhos do pôvo, para lhes diminuir a fôrça moral como opposição. Eu acho mais nobre, mais digno e mais seguro o systema polìtico dos Luinas, o que não quer dizer que o recommende.

O conselho, em vista da attitude e das razões de Machauana, decidio, queeu não morrêsse; mas, parece que algum dos conselheiros por conta propria decidio o contrario; porque, n'essa noute, estando afastado do acampamento, preparando-me para tomar alturas da lua, uma azagaia de arremesso passou tão perto de mim que a aste vergastou-me o braço esquêrdo. Olhei para o lado d'onde partira a arma, e vi um prêto a vinte passos, empunhando outra. Tirar o revólver e fazer fôgo sôbre elle, foi acto mais instinctivo do que pensado. Ao estampido do tiro, o assassino virou costas e correu em direcção a Lialui. Corri sôbre elle. Sentindo-me no encalço, o prêto deitou-se por terra. Receei uma cilada, e foi a passos medidos que me approximei d'elle, prompto a fazer fôgo.

Vi que o membrudo indìgena estava de bruços com as azagaias cahidas ao lado.

Peguei-lhe n'um braço, e ao tempo que senti as carnes estremecerem ao contacto da minha mão, senti um lìquido quente correr-me por entre os dêdos. O homem estava ferido. Fil-o erguer, e elle disse-me, tranzido de mêdo, umas palavras que eu não entendi. Apontando-lhe o revólver, obriguei-o a acompanhar-me ao acampamento.

Ali não fizera sensação o tiro de revólver, porque tôdas as noutes se ouvem mais ou menos tiros. Chamei dous muleques de confiança, e entreguei-lhe o meu prisioneiro, cuja ferida examinei. A bala entrara junto á cabêça superior do hùmero direito, perto da clavìcula, e não tendo sahido, suppuz estar fixa na omoplata. Não lhe apparecendo sangue nas vias respiratorias, calculei que o pulmão não tinha sido offendido, assim como o fio de sangue que corria da ferida, pêla sua tenuidade me mostrava que nenhum dos vasos importantes da circulação tinha sido cortado. N'estas condições a ferida não apresentava gravidade, pêlo menos de momento.

Depois de lhe fazer um ligeiro curativo, mandei chamar o Caiumbuca, e ordenei-lhe que me acompanhasse a casa do rei, fazendo com que os muleques conduzissem para ali o ferido.

Lobossi tinha voltado de casa das amantes, e conversava com Gambela antes de se deitar. Apresentei-lhe o ferido e perguntei-lhe o que era aquillo. O rei mostrou um grande terror, vendo-me coberto de sangue do assassino, que eu nem tinha lavado; e um olhar trocado entre Gambela e o ferido, mostrou-me quem tinha sido a cabêça que enviara aquelle braço. Lobossi mandou logo retirar d'ali o prêto, e disse-me, que aquillo era um grande agouro, e que ja não durmiria aquella noute socegado.

Narrei o acontecido, e Gambela apoiou muito o que eu tinha feito, lastimando que eu não tivesse morto o prêto, e dizendo-me, que ia matar meio mundo.

O prêto era desconhecido em Lialui, e os da guarda de Lobosi disséram nunca o terem visto. Lobossi pedio-me, que guardasse sôbre o facto o maior segrêdo, assegurando-me, que não me acontecia outra em quanto estivesse nos seus estados.

Eu voltei ao campo mais desconfiado que nunca das amabilidades de Gambela.

Por noute fora, senti que alguem tentava penetrar na minha barraca, e puz-me a pe sem ruido, prompto a sorprender aquelle que julgava fazer-me sorpresa.

A pessôa era de certo conhecida, porque a minha cadella Traviata não ladrava, e fazia festas com a cauda para o ponto por onde alguem se introduzia de rastos.

Esperei um momento, e ao clarão da fogueira conheci a prêta Marianna, que, com meio côrpo dentro da barraca, me fazia signal para que entivesse calado.

Entrou, achegou-se a mim e disse-me: "Toma cautela. O Caiumbuca atraiçôa-te. Depois que voltou com-tigo de casa do rei, tornou a Lialui a falar com Gambela; e logo que chegou aqui, reunio com muito socêgo a gente de Silva Porto, e estêve a falar com elles na barraca d'elle. Eu fui escutar, e ouvi falar em te matarem. O Verissimo tambem la estava. Elles disséram, que como tu não entendias a lìngua do Lui, quando tu lhes dissesses uma cousa para dizer ao rei, elles diriam outra, e te dariam tambem a resposta trocada, que assim haviam de fazer com que o rei te matasse.

"Toma cautela, olha que elles sam muito maos."

Agradeci muito á pequena o aviso e dei-lhe o ùnico collar de missanga que me restava, e que eu reservava para uma das favoritas de Machauana.

A declaração da Marianna, veio ferir-me profundamente. Os homens em que eu confiava eram os primeiros a atraiçoar-me.

Mil pensamentos tristes, que não conseguíram alquebrar-me o espìrito, produzíram uma noite de insomnia. É verdade, que a prevenção de Marianna veio dar-me uma vantagem enorme sobre elles, que ignoravam que eu lhes conhecia a traição nos seus detalhes; e de manhã ao levantar-me, eu repetia a mim mesmo o rifão Portuguez, de que "um homem avisado vale por quatro."

Gambela foi visitar-me, e repetio-me mil protestos de amizade; mas eu presentia que o perigo pairava em tôrno de mim, e que a espada de Damocles estava suspensa sôbre a minha cabêça.

N'esse dia entreguei a Gambela as cartas para o governador de Benguella, e a comitiva do rei do Lui, commandada por três chefes Luinas e guiada pêlo velho Antonio de Pungo Andongo, seguio caminho da costa.

Com ella fôram os Bihenos que me haviam abandonado. Estava satisfeito com aquelle primeiro resultado obtido; e se os meus trabalhos se perdêssem e mais nada fizesse, o ter posto um pôvo tão poderôso em relações com a civilização Europea da costa, era ja um resultado importante da minha viagem.[2]

A revelação feita n'essa noute por Marianna trazia-me preoccupado, e eu só pensava no meio de parar o golpe que me feria, com a traição d'aquelles em que eu mais confiava.

Formei um plano que decidi pôr em pràtica n'esse mesmo dia.

A narrativa dos repetidos e graves acontecimentos que se déram comigo depois da minha chegada ao Lui, não me tem deixado falar dos povos Luinas e seus costumes.

Em logar de encontrar ali essa raça forte e vigorosa, creada por Chibitano, e que existio com o imperio Macololo, fui deparar com uma raça abastardada, misto de Calabares, Luinas, Ganguelas e Macalacas, que t[~e]m unido o seu sangue marcando cada cruzamento uma pègada de decadencia. O uso immoderado do bangue ou cangonha (Cannabis Indica), a embriaguez e a syphilis, t[~e]m lançado aquelle pôvo no mais abjecto embrutecimento moral, e enfraquecimento physico.


Figura 97.--Cachimbos de fumar o Bangue.

O primeiro d'aquelles três grandes inimigos da raça prêta chegou-lhe do sul e leste pêlo Zambeze; os dois outros fôram ali importados pêlos Bihenos, que lhe trouxéram ainda outro inimigo não menos terrivel, o tràfico da escravatura.

Poucos paizes Africanos leváram tão longe como os Luinas a pràtica da polygamia. ¡Gambela, á èpocha da minha estada no Barôze, tinha mais de setenta mulheres!

O Lui, ou Barôze propriamente dito, isto é, o paiz que fica ao norte da primeira região das cataractas, compõe-se, da enorme planicie onde corre o Zambeze, que tem de 180 a 200 milhas do N. a S., e por vêzes, de 30 a 35 O. a E., planicie elevada 1,012 metros ao mar; do paiz mais elevado a leste, onde assentam innùmeras povoações, que v[~e]m estabelecer as suas culturas na grande planicie; e ainda na enorme planura do Nhengo, onde corre o Ninda. A planura do Nhengo é separada do leito do Zambeze por uma nervura de terreno elevado de 20 metros, que corre parallela ao rio, e onde estam muitas povoações, livres das maiores cheias.

Durante o tempo das grandes chuvas, a planicie do Zambeze é inundada, e eu medi em algumas àrvores onde tinham ficado signaes do maior nivel das àguas três metros.

No parallelo 15^o tem ella uma largura de trinta milhas, e por isso, na èpocha das cheias, calculando uma corrente mìnima de 20 metros por minuto, devem passar ali 240 milhões de metros cùbicos d'àgua por hora. Isto dá uma medida do que sam as chuvas na Àfrica tropical, acrescentando-se, que regularmente a inundação atinge o seu màximo em oito dias.

O pôvo Luina, que em grande parte vive na planicie, retira para o paiz montanhoso durante as inundações.

Ao retirar das àguas, volvem a occupar as povoações abandonadas na invernía, e cobrem o campo com os seus rebanhos enormes, que, diga-se a verdade, não encontra ali um pasto viçoso em èpocha alguma do anno; porque os prados sam formados, pêla maior parte, de caniçal, onde abunda uma especie do Calamagrostis arenaria.

As culturas sam feitas mais na margem direita do que na esquerda do Zambeze, e sempre junto das encostas.

A inundação deixa na planicie um sem-nùmero de pequenas lagôas, que se atulham de vegetação aquàtica, e que sam outros tantos focos miasmàticos de infecção palustre. Ha èpochas no anno em que os proprios indìgenas sam fortemente atacados pelas febres endèmicas.

Nas lagôas abunda peixe e ha muitos batràchios.

É d'estas lagôas que se fornecem de àgua potavel os indìgenas, mas é preciso confessar, que elles só a bebem depois de transformada em Capata.

Os Luinas sam pouco agricultôres, e muito pastôres. Os seus rebanhos constituem a sua principal riqueza, e no leite das vacas encontram o seu principal alimento.

O haver do Luina consiste em algumas vaccas e algumas mulheres.

O leite frêsco e o leite azêdo (coalhado) sam, com a batata dôce, a base da sua alimentação. A farinha de milho é empregada para fazer a Capata, de mistura com a de massambala, principal cultura do paiz.

Os Luinas fabricam o ferro, e tôdas as suas armas e tôdos os seus utensilios, sam feitos no paiz. Não usam facas, e não podemos deixar de nos admirar das esculpturas que fazem em madeira, sabendo que não empregam facas, e mais ainda, logo que conheçamos o instrumento com que trabalham. No Lui, onde o machado termina a obra grossa de desbaste, começa a obra da azagaia. O ferro d'esta é instrumento para tudo. Os bancos onde se assentam, as escudellas em que comem as vasilhas do leite, e tôdos os seus utensilios de madeira, sam cortados com ella.


Figura 98.--Vasilha para leite feita de Madeira.

Entre elles ha um primorosamente trabalhado, em geral, e é a colhér. Vivendo de leite, o Luina não pode prescindir da colhér, e dispensa a faca. O seu systema de alimentação explica a falta d'esta e o muito uso d'aquella.


Figura 99.--Objecto de Ferro forjado que serve de Lenço de assoar aos Luinas.
Especie de Espàtula.


Figura 100.--Pratos e Escudellas para a comida.


Figura 101.--Colhér.


Figura 102.--Machado de cortar Madeira.

A industria ceràmica limita-se no Barôze á fabricação de panellas para cozinha, para a capata, e grandes talhas de barro para guardar cereaes. Àlém d'isto, fornalhas para os cachimbos de fumar o bangue.



Figura 103.--Artigos de Barro.
1. Panellas de cozinha.
2. Tálha de guardar cereaes.
3, 3. Fornalhas dos cachimbos.

O Luina só fuma o bangue; o muito tabaco que cultivam é empregado exclusivamente para cheirar, e d'elle fazem grande uso homens e mulheres. É este o pôvo mais coberto que encontrei em Àfrica. É raro ver-se ali um homem ou mulhér despidos da cintura para cima. Os homens, como ja disse no capìtulo anterior, usam umas pelles passadas em um cinto, que pendem adiante e atraz, chegando até aos joêlhos. Um manto de pelle, que posto, assemelha as capas do tempo de Henrique 3^o, cobre-lhes o tronco e cahi-lhes até meia perna.

Um largo cinto de couro, independente do que lhes segura as pelles da cinta, muitas manilhas e muitos amulêtos, completam o seu trajar. As mulheres trajam um saio de pelles, que adiante chêga ao joêlho, e atraz desce até ao grôsso da perna. Sôbre o saio um largo cinto enfeitado de buzio (caurim). Um pequeno manto de pelles, muitas missangas ao pescôço e muitas manilhas nos braços e pernas, sam o vestuario do paiz. Vemos hôje muitas indìgenas substituindo as pelles por estôfos Europêus, os capotes por cobertores de algodão, e mesmo tôdo o trajar gentìlico, por o fato do homem civilizado; mas eu aqui não curo das excepções, falo no traje primitivo do paiz, e não nas innovações que o commercio ali tem levado. É preciso contudo revelar, que este pôvo tem uma tendencia manifesta para se vestir. De certo, antes da invasão dos Macololos, os Luinas deviam andar muito pouco cobertos. Os povos Chuculumbes, seus vizinhos de leste, andam completamente nús, homens e mulheres. A oeste os Ambuelas fôram tambem encontrados nús, pêlos primeiros sertanejos Portuguezes que ali se aventuráram,[3] e ainda hôje não se cobrem muito.


Figura 104.--Homem Luina.

O trajar dos Luinas que eu descrevi, é o mesmo usado outróra pêlos Macololos, e por isso é de crer que fôsse introduzido por elles.

Essa tendencia, que eu faço notar, d'este pôvo para se vestir, deve merecer a attenção do commercio, e é uma tendencia a explorar em beneficio d'elle, dos indìgenas e da civilização.


Figura 105.--Mulhér Luina.

As mulheres nobres, e em geral as ricas, untam o côrpo com manteiga de vacca misturada de talco em pó, que lhes dá á pelle um lustro avermelhado, e ao mesmo tempo um cheiro desagradabilissimo.

Entre os Luinas encontram-se muitas espingardas de fulminante, de fàbrica Ingleza, levadas ali pêlos sertanejos do sul, e outras de silex Belgas, vindas do commercio Portuguez de Benguella; mas os indìgenas, ao contrario do que acontece, com tôdos os povos da costa de Oeste até ao Zambeze, preferem as armas de fulminante, e alguns ha, que só querem ja carabinas raiadas. Não usam cartuxo como os Bihenos e povos circumvizinhos d'estes, e trazem a pòlvora sôlta em cornos, ou em cabaças. As armas do paiz sam azagaias, porrinhos, e machadinhas. Não usam frechas.


Figura 106.--Azagaias Luinas.


Figura 107.--Machadinhas de guerra.


Figura 108.--Porrinho.

T[~e]m por arma defensiva grandes escudos ogivaes, de couro de bôi armados em madeira. Cada homem traz, em geral, de cinco a seis azagaias de arremêço.

Os ferros d'estas azagaias, sem serem envenenados, não sam por isso menos terriveis; devido ás barbas desencontradas que lhes fazem, de modo que, na maior parte dos ferimentos, é preciso matar o ferido para lh'-as arrancar do côrpo.

O que eu vi usarem os Luinas, e mostrou a preferencia que t[~e]m, fôram as missangas chamadas no commercio de Benguella, missanga leite, azul celeste e Maria 2^a.

Os cassungos finos, branco, azul e encarnado, sam tambem estimados.

Fazendas tôdas sam bôas para o Lui, preferindo elles as melhores. O arame de latão, de três a quatro milìmetros de diàmetro, tem valor, e a roupa feita, cobertôres, armas de percussão, fulminantes, pòlvora, chumbo em barra, e artigos de caça, sam ali cotados em subido prêço.

Em tôdo o paiz o commercio é feito exclusivamente com o règulo, que faz d'elle monopolio; pertencendo-lhe tôdo o marfim que se caça nos seus estados, e tôdos os gados dos seus sùbditos, a quem elle os pede quando precisa. Das fazendas, armas e outros artigos que permuta, faz presentes aos seus caçadores, chefes de povoação, côrte, etc.

As mulheres gozam de bastante consideração, e entre a nobreza não fazem nada, passando a vida sentadas em esteiras, a beber capata e a cheirar tabaco. Possúem muitos escravos, pêla maior parte Macalacas, que as servem.

Os grandes rebanhos dos Luinas, sam de bôis de uma raça magnìfica, e mesmo as suas gallinhas e cães sam de melhores raças do que os que encontrei até ali.

O valle do Barôze está cercado por éste a sul da terrivel mosca zê-zê, o que os obriga a concentrarem os gados na planicie, e torna difficil a sahida d'elles, a não ser para oeste no caminho de Benguella, tôdo limpo do prejudicial diptéro.

Eis em curto resumo o que eu vi d'esse paiz, que primeiro, antes da invasão de Chibitano, foi visitado por um Portuguez (Silva Porto), que foi visto depois por David Livingstone, debaixo do imperio dos Macololos, e que eu encontrei em condições bem differentes, sôb a dinastia Luina, em 1878.

Retomando a narrativa das minhas tristes aventuras, no dia 5 de Setembro, dia seguinte ao da revelação de Marianna, resolvi fazer com que os traidôres fôssem trahidos por um dos seus, e lancei as minhas vistas sôbre Verissimo Gonçalvez.

Chamei-o á minha barraca, e mostrei-lhe antes de lhe falar, a copia de uma carta apòcrypha, escrita para Benguella, em que eu dizia ao governador, que, tendo desconfianças de Verissimo, lhe pedia que mandasse prender a mulhér, o filho, e a mãe d'elle, e se acaso acontecesse eu ser vìctima de alguma traição, as mandasse para Portugal, onde eu disse ao Verissimo que os meus parentes as fariam queimar vivas.

Depois d'este exordio, assegurei-lhe, que aquella carta fôra escrita como simples prevenção, porque eu confiava plenamente na sua dedicação por mim; mas que essa dedicação tinha de estar vigilante, porque eu desconfiava levemente do Caiumbuca, e se me acontecêsse alguma desgraça, eu não poderia evitar os horrores que estavam reservados aos entes que lhe eram caros. Disse-lhe sobre tudo, desconfiava que Caiumbuca não transmittia ao rei o que eu lhe dizia, assim como me dava transtornadas as respostas de Lobossi. Que elle deveria estar sempre presente nas minhas entrevistas com Lobossi, e dizer-me em Portuguez (Caiumbuca não falava Portuguez) o que elle dizia ao rei.

Verissimo, embaraçado, disse-me, que eu não me enganava, e contou-me tudo. Eu preveni-o, que não deixasse perceber nada a Caiumbuca, e que me tivesse ao corrente do que elle tramava.

N'essa tarde, Lobossi mandou-me dizer, que estava prompta a gente que me devia acompanhar, para eu seguir para a costa de Moçambique, e por isso podia partir quando eu quizesse.

Eu estava um pouco melhor, e desde a minha chegada ao Zambeze, ainda não tinha passado tão bem como n'esse dia.

O meu acampamento era muito grande, porque os Quimbares se haviam dividido pêlas barracas dos Quimbundos depois da sahida d'estes. O centro era um largo circular, de não menos de cem metros de diàmetro. A um lado, dentro da fila das barracas, ficava a minha barraca, cercada por uma sebe de canas, que fechava um recinto, onde só entravam os meus muleques de serviço.

Era a 6 de Setembro. O thermòmetro durante o dia tinha marcado com persistencia 33 graos centìgrados, e o calor reflectido pêla areia tinha sido incòmmodo.

A noute apresentou-se serena e frêsca, e eu, sentado á porta da minha tenda, pensava no meu Portugal, nos meus e nos amigos, no futuro da minha emprêsa, tão ameaçada ali, e ora alegre ora triste, não perdia a fé e esperava. O acontecimento da ante-vèspera vinha pairar como nuvem nêgra sôbre o ceo lìmpido da esperança.

Os meus Quimbares, recolhidos nas barracas, conversavam junto das fogueiras, só eu estava fora. De sùbito prendeu-me a attenção um sem-nùmero de pontos luminosos que vi atravessarem o espaço.

Sem saber ao principio explicar o que seria aquillo, tive um presentimento, e sahi do cercado de caniço que rodeava a barraca.

Logo que cheguei fora, tudo me foi revelado, e um grito pungente de angustia suprema escapou-se-me da garganta.

Alguns centos de indìgenas cercavam o acampamento, e lançavam achas ardentes sôbre as barracas cobertas de herva sêca.

Em um minuto o incendio, ateado por um vento forte de este, tomava incremento horrivel. Os Quimbares sahiam espavoridos das barracas incandescentes, e pareciam loucos.

Augusto e a gente de Benguella reuníram-se em tôrno de mim. Em presença de um perigo tão terrivel, aconteceu-me o que por mais de uma vez me tem acontecido em iguaes circunstancias. Fiquei sereno e tranquillo de espìrito, pensando só em lutar e vencer.

Gritei á minha gente, semi-louca de se ver apertada em um cìrculo de fôgo, e consegui reunil-a no meio do espaço interior do campo.

Á frente de Augusto e dos muleques de Benguella, entrei na minha barraca em chamas, e consegui tirar d'ali as malas dos instrumentos, os meus papéis e trabalhos, e a pòlvora. A esse tempo as barracas abrazavam tôdas, mas o fôgo não podia attingir-nos. Verissimo estava a meu lado, inclinei-me para elle e disse-lhe, "Eu defendo-me aqui por muito tempo, passa por onde poderes e como poderes, e vai a Lialui dizer a Lobossi que a sua gente me ataca, diz tambem a Machauana o perigo que côrro."

Verissimo correu ás barracas em chamas, e eu vi-o desapparecer por entre as labaredas. A esse tempo ja as azagaias ferviam em tôrno de nós, e ja haviam alguns ferimentos graves, entre elles um do prêto Jamba de Silva Porto, que tinha uma azagaia cravada no sobrolho direito. Ás azagaias respondiam os meus Quimbares com as balas das carabinas, mas o gentio avançava sempre, e ja entrava no acampamento, onde as barracas consumidas não offereciam barreira insuperavel. Em tôrno de mim, que desarmado segurava a bandeira da minha patria, estavam batendo-se como verdadeiros bravos os meus valentes Quimbares. ¿Estavam tôdos? Não. Faltava ali um homem, um homem que deveria estar ao meu lado e que ninguem tinha visto. Caiumbuca, o meu immediato, desapparecêra!


Figura 109.--Ataque contra o acampamento no Lui.

Ao amortecer do incendio, eu vi que o perigo era real e enorme. Eram cem contra um.

Parecia a imagem do inferno ver aquelles vultos nêgros, que com estridente grita pulavam ao clarão das chamas, avançando para nós cobertos com o alto escudo e brandindo as puidas azagaias. Foi um combater encarniçado em que as carabinas de carregar pêla culatra, pêlo seu fôgo sustentado, continham em respeito aquella horda selvagem.

Contudo eu calculava que o têrmo do combate não estava longe, porque as munições desappareciam ràpidamente; eu só tinha no comêço quatro mil tiros para as carabinas Snider, e vinte mil para as armas de carregar pêla bôca, mas não seriam essas as que me defenderiam; e logo que o fôgo abrandasse, por faltarem as armas de carregamento ràpido, serìamos esmagados pêlo gentio desvairado. O meu Augusto, que parecia um leão raivoso, chegou-se a mim com suprema angustia, mostrando-me a carabina, que acabava de rebentar. Disse ao meu muleque Pépéca, que lhe entregasse a minha carabina de elephante e a cartuxeira. Augusto correu para a frente, e fez fôgo para onde o grupo do gentio era mais compacto. Um momento depois, a grita infernal dos assaltantes tomou um tom differente, e virando costas, tomáram elles precipitada fuga.

Só no dia seguinte, pêlo rei Lobossi, eu devia saber o que produzira um tal reviramento. Fôram os tiros do meu Augusto.

Na cartuxeira de que elle lançou mão havia balas carregadas de nitro-glicerina.

O effeito d'estas, fazendo desapparecer em bocados, pêla explosão, as cabêças e os peitos em que acertavam, produzio o pànico no meio d'aquelle gentio ignaro, que vio n'uma coisa nova para elle, um feitiço irresistivel.

Foi a Providencia que me quiz valer.

Conheci que estava salvo. Meia hora depois, appareceu-me o Verissimo, com uma grande fôrça capitaneada por Machauana, que vinha em meu soccôrro, por ordem do rei Lobossi. Lobossi mandava dizer-me, que era estranho a tudo, e que, provavelmente, o seu pôvo, sabendo que eu fôra ali para os atacar de combinação com os Muzungos de leste, que estavam com Manuanino, fizéram aquillo por sua conta; mas que elle ia tomar as mais vigorosas providencias para eu não soffrer mais aggressões. Tudo aquillo, se não foi ordenado por elle, foi por Gambela.

Verissimo, vendo os desastres do combate, perguntou-me ¿o que haviamos de fazer? e eu respondi-lhe com as palavras de um dos maiores homens Portuguezes dos ùltimos sèculos:--"Enterrar os mortos, e tratar dos vivos."

No incendio soffrémos perdas graves, mas mais graves eram as pêrdas de vidas por tão insòlito ataque. A bandeira Portugueza estava furada das azagaias selvagens, e salpicada do sangue dos bravos; mas as manchas que tinha, só serviam para fazer realçar a sua pureza immaculada; e mais uma vez, longe da patria, e por terras ignotas, tinha-se sabido fazer respeitar, como sempre o soube, e como sempre o saberá.

Depuz as armas de soldado, para me improvisar em cirurgião cuidadoso, e o resto da noute foi passado a curar os feridos e a alentar os sãos, sempre apercebido e vigilante, apesar dos novos protestos do rei Lobossi.

Logo que amanheceu, fui procurar o rei, e falei-lhe àsperamente sôbre o acontecimento da noute. Tornei-o, diante do seu pôvo, responsavel pêlas desgraças d'aquella noute; e disse bem alto, que aquelles que tivessem a chorar a perda de parentes, só a elle deviam lançar culpas.

Disse-lhe, que queria seguir sem perda de tempo, e annunciei-lhe, que ia estabelecer o meu campo nas montanhas, onde podesse com vantagem resistir a um nôvo ataque.

Elle teimou muito comigo, para lhe dar ou ensinar o feitiço que eu tinha empregado na vèspera, fazendo com que os prêtos rebentassem por si. Era assim que elles explicavam o caso funesto das balas explosivas inconscientemente empregadas por o meu Augusto.

Apesar da muita vontade que eu tinha de deixar a planicie e ir para as montanhas, não pude realizar esse desejo senão a 9, por causa do estado dos feridos; e no dia 7 e 8, lutámos com a fome; porque ninguem nos quiz vender de comer, e o rei dizia, que nada tinha para me dar. Fôram as lagôas que fornecéram abundante pesca e alguns patos muito magros. Machauana mandou-me leite, e continuou a mostrar-me a maior dedicação. Foi, como disse, a 9 que deixei a planicie e alcancei as montanhas perto de Catongo, chegando tôdos, feridos e sãos, no maior estado de fraqueza.

O nôvo systema adoptado, de nos matarem pêla fome, preoccupou-me, e dava-me sèrios cuidados n'um paiz sem caça.

Tinha-mos, é verdade, a pesca das lagôas.




CAPÌTULO X.

A CARABINA D'EL-REI.


A traição--Perdido--A Carabina d'El-Rei--Miseria--Novas scenas com o rei Lobossi--Partida--No Zambeze--Caça--Moangana--O Itufa--As pirogas--Sioma--Cataracta de Gonha--Bellezas naturaes--O basalto--A região das cataractas superiores--Balle--Bombué--Na foz do rio Gôco--Cataracta de Nambue--Os ràpidos--Viagem vertiginosa--Catima Moriro--Quisseque--Eliazar--Carimuque--O rio Machila--Muita caça--Tragedia--Embarira.


Depois de marcha de 15 milhas, acampei na floresta que cobre os flancos das montanhas de Catongo. Marcava esta aldea a S.E. uma milha distante do sitio que escolhi para acampar.

Junto do meu campo havia uma pequena aldeola, onde eu mandei pedir de comer. Algumas mulheres viéram vender pouca cousa a trôco dos invòlucros metàlicos dos cartuxos queimados das carabinas Winchester.

Depois de construido o campo, fomos pescar nas lagôas pròximas, e tirámos algum peixe, que se comia cozido em àgua sem sal.

De Caiumbuca não havia noticias, e eu convencia-me que elle tinha partido com a gente que retrocedêra ao Bihé; quando n'essa tarde me viéram dizer, que elle estava no acampamento, e me queria falar.

Apresentou-se, dizendo que fôra acompanhar a comitiva de Lobossi, que seguira com o prêto Antonio, porque tinha de mandar prevenir a gente da sua libata no Bihé, de que tinha muita demora ainda no sertão, pois seguia comigo para a costa de leste.

Eu fiquei perplexo, e sem saber o que deveria fazer com relação a elle; e depois de pensar um momento, resolvi aceitar a desculpa da ausencia d'elle na noute do combate, e não lhe mostrar que tinha perdido a minha confiança, e que sabia da sua projectada traição. Elle pedio-me para regressar n'essa noute a Lialui, dizendo, que voltaria no dia immediato com a gente que Lobossi me deveria mandar, para eu seguir para Quisseque, logo que o estado de alguns feridos m'o permittisse.

Disse-lhe, que pedisse ao rei para mandar-me dar mantimentos, a menos que não quizesse que morrèssemos á fome no seu paiz.

Caiumbuca partio sem falar a ninguem da minha gente.

No dia 10, continuei a mandar pescar nas lagôas para ter que comer e os meus.

Passei o dia trabalhando; e tendo para o lado de oeste um horizonte sem fim, onde, como em pleno mar, o espaço azulado vinha unir-se á terra em cìrculo enorme, lembrei-me de determinar a variação da agulha magnètica pêla amplitude, mèthodo mais simples do que o dos azimuthes, que eu tinha sido forçado a empregar até então.

Preparei a agulha de marcar, e estava dispondo-a para a observação, muito antes de tempo, porque o sol estava ainda elevado do horizonte uns dez graos; quando um phenòmeno curiosissimo se deu na atmosphera. Estava ella lìmpida, de um azul um pouco carregado mas sem uma nuvem, sem um extracto no horizonte. De repente o limbo inferior do sol começou a perder a sua forma circular, e a desapparecer lentamente, como se eu observasse um occaso no oceano; e isto dez graos acima do horizonte, por ceo na apparencia limpo, como ja disse. Só depois do seu completo desapparecimento é que se podia mal perceber, pêlo feixe de luz que em leque se espargia no ceo, uma barra de extractos, tão iguaes em côr ao azul da atmosphera, que a vista mais apurada a confundiria com ella; parecendo que a limpidez do firmamento não era interrompida até ao horizonte. Algumas vêzes mais observei igual phenòmeno, mas não a tanta altura, nem tão perfeitamente definido.

Como eu esperava, n'esse dia, não me appareceu, nem Caiumbuca, nem a gente que Lobossi devia mandar-me.

Na noute de 10 para 11, eu queria observar um reapparecimento do 1^o satèlite de Jùpiter, que deveria ter logar pròximo da meia-noute; e como eu não quizesse perder essa observação, por encontrar grande differença em longitude na posição do Zambeze, recomendei ao Augusto, que me chamasse quando a lua estivesse na altura que lhe indiquei, o que correspondia ás 11 horas; e cheio de fadiga, deitei-me cêdo, e adormeci profundamente; esperando que Augusto velasse, depois da instante recommendação que eu lhe tinha feito. Por noute fora acordei ao chamamento de Augusto, e acordei sem sobresalto, julgando ser a hora indicada por mim; mas, logo que respondi ao meu fiel nêgro, elle disse-me, cheio de commoção: "Senhor, estamos atraiçoados; a gente fugio tôda, e roubáram tudo."

Levantei-me, e sahi da barraca.

O acampamento estava deserto.

La fora, Augusto, Verissimo, Camutombo, Catraio, Moêro e Pépéca, e as mulheres dos muleques, estavam silenciosos e pasmados olhando uns para os outros.

Não pude conter uma gargalhada.

O que me admirava ali, era ver Augusto, o Verissimo e Camutombo ao pe de mim.

Era tão crìtica a minha posição, vivendo no meio de tantas miserias, rodeado de tantos perigos, que não sei mesmo quem n'elles quereria ser meu socio. Ànimos mais fortes e espìritos mais enèrgicos do que os dos prêtos que acabavam de fugir, não teriam querido partilhar da minha sorte.

Sentei-me, rodeado das oito pessôas que haviam ficado e puz-me a indagar o succedido. Queria pormenores que ninguem me dava. A gente tinha fugido tôda, sem que algum dos presentes a presentisse. Os cães, habituados com elles, não ladráram. O Pépéca foi passar revista ás barracas, e nada encontrou.

As poucas cargas que tinham ficado á porta da minha barraca, e que consistiam em pòlvora e cartuxos, haviam desapparecido.

Fugíram roubando a minha propria miseria. Só me restava o que havia dentro da minha barraca. Eram os meus papéis, os meus instrumentos, e as minhas armas; mas armas de nenhum valor, porque uma das cargas roubadas continha os meus cartuxos, e sem elles de nada serviam.

Fui sem detença fazer inventario do meu miseravel haver, e achei-me com trinta tiros de balas d'aço para a carabina Lepage, e com vinte e cinco cartuxos de chumbo grosso da espingarda Devisme, que de pouco ou nada serviam. Era tudo quanto possuia.

Não pude deixar de curvar a cabêça ante este ùltimo golpe que me feria, e um atroz confrangimento de coração trouxe-me, pêla primeira vez em Àfrica, o presentimento de que estava perdido. Estava no centro d'Àfrica, no meio da floresta, sem recursos, dispondo de trinta balas apenas, quando só da caça poderia viver e só a caça me poderia salvar; e tinha em tôrno de mim só três homens, três crianças e duas mulheres!

Augusto exprobrava-se o ter adormecido, quando eu o mandara velar, e entrou n'um furor louco, querendo ir na pista dos fugitivos e matar tôdos. Custou-me a conter a ira feroz do meu prêto fiel; e sem consciencia do que dizia, sem a menor convicção nas palavras que proferia, ordenei-lhes que se fossem deitar, que não receiassem nada, porque eu remediaria tudo. Eu ficaria de véla. Recolhidos ás barracas, eu fiquei junto da fogueira, quasi inconsciente e sem fôrças. O abalo moral tinha despedaçado o côrpo, já fortemente abatido pêlas febres. Sentado, com os braços encostados nos joêlhos e a cabêça encostada ás mãos, eu olhava fito para a crepitação da chama, sem ter um pensamento, sem uma idéa, em perfeito estado de imbecilidade. Contudo, o instincto filho do hàbito, fêz-me sentir, que estava desarmado; chamei o meu muleque, e sem ter consciencia d'isso, pedi-lhe uma arma. Elle entrou na barraca e trouxe-me uma, que eu, sem reparar, colloquei sôbre os joêlhos.

Durou muito tempo aquelle estado de abatimento, até que as idéas principiáram a vir mostrar-me os horrôres da minha posição. Havia muitos mêzes, que eu caminhava ávante, pobre e sem recursos; havia muito tempo que eu contava ùnicamente com a caça para sustentar a minha caravana. Essa idéa perfeitamente arraigada no meu espìrito, tinha-me dado sempre a fôrça de seguir, de ter fé e de esperar. De repente sentia em mim um vazio enorme. A idéa tinha cahido por terra, e desapparecido com a caixa que continha os meus tiros, o meu thesouro, o meu ùnico recurso.

Deve ser ao encarar uma posição como a minha que o homem se suicida.

Com aquella pungente agonia que me dilacerava a alma, deixei pender a cabêça e os meus olhos fixáram-se na carabina que eu tinha pousada nos joêlhos. Olhei, a talvez meio minuto, e uma idéa atravessou-me o espìrito. De um salto entrei na barraca, e corri a levantar as pelles do meu leito, debaixo das quaes, para levantar a malinha que me servia de travesseiro, estava um estôjo de couro, rectangular, baixo e comprido.

Foi com mão febril que abri aquelle estôjo esquècido, e apalpei trèmulo os objectos que elle continha. As idéas occorriam-me de nôvo em tumulto. Deixei o estôjo, e abri a mala dos instrumentos, onde a caixa do meu sextante Casella estava entalada por duas latas, que senti debaixo da mão com que apalpava. Sahi precipitadamente da barraca e do acampamento, e corri ao mato, onde de dia tinha posto a enxugar o meu grande tresmalho, depois da pesca. A rêde estava estendida, e tensa pêlo peso do chumbo que lhe envolvia a tralha.

Apalpei phrenètico aquelle chumbo, e colhendo a rêde voltei ao campo, curvado ao pêso d'ella. Cheguei junto á fogueira, e depuz no chão o meu fardo.

Quem visse o que eu tinha feito havia alguns minutos, julgarme-hia louco, e louco estava eu de contente.

O avaro devorando com os olhos àvidos de cubiça o thesouro que empobrece a sua miseria, não deve ter na vista expressão differente da que eu tinha a olhar para aquella carabina. É que ella para mim era a vida, a salvação, e tudo. É que ella para o meu paiz era uma expedição coroada de èxito; era a realização de um voto formulado por elle no seu parlamento; era o bom èxito obtido, tanto mais meritorio, quanto mais estorvado.

A arma que afagava nas mãos, como afagaria uma filha estremecida, a arma que me ia salvar, e comigo a expedição atravez d'Àfrica, era a Carabina d'El-Rei.

No estôjo d'aquella arma havia apparêlhos para fazer balas, e tudo o necessario para se carregarem os cartuxos, logo que existissem os invòlucros metàlicos, cada um dos quaes, pêlo seu systema de construcção, pode servir muitas vêzes. Uma pequena caixa, que vinha no estôjo ja quando El-Rei me offerecêra o valioso presente, continha quinhentos fulminantes.

As idéas que se succediam em mim quando me lembrei d'aquelle recurso, trouxéram-me a reminiscencia de duas latas de pòlvora que eu desde Benguella empregava, á falta de cousa melhor, para entalar a caixa do sextante dentro da mala. Faltava o chumbo, mas a minha rêde de pesca ia fornecer-m'-o.

Assim, pois, eu podia dispor de alguns centos de tiros; e com alguns centos de tiros sentia-me com fôrça de criar recursos n'esse paiz de caça.

O resto da noute foi para mim como manhã bonançosa depois de noute de temporal.

Ao alvorecer, ainda não tinha formado um plano, mas estava tranquillo e confiante.

Mandei chamar o chefe da aldeola pròxima, e convenci-o a mandar dois homens a Lialui contar o succedido ao rei Lobossi; disse-lhe tambem, que ia mudar o meu campo para mais pròximo da aldea, e logo nós quatro, eu, Verissimo, Augusto e Camutombo, construímos quatro barracas e um forte cercado, onde nos recolhémos com o meu magno espolio.

N'esse dia trabalhei como um rude lenhador, e de machado em punho, cortei a madeira para a minha barraca, e construi-a eu mesmo.

Durou o trabalho até depois do meio dia, hora a que me estendi nas pelles de leopardo do meu leito, dormindo a sono sôlto até ao pôr-do-sol.

O meu Augusto tinha pescado, e tinham armado laços aos patos, conseguindo agarrar um. Entretivémos com aquella alimentação sem condimentos a fome ja impertinente, e eu volvi a deitar-me, mas dormi pouco e pensei muito. Sustentar nove pessôas era mais facil do que sustentar uma grande comitiva, e por isso a questão mais momentosa e que mais urgente era resolver, estava, se não resolvida, pêlo menos muito simplificada por si mesmo.

A idéa de proseguir na minha viagem estava perfeitamente arraigada em mim, e sem ainda saber como, sem ter chegado a formular um projecto, sabia que havia de ir, porque queria ir. A minha confiança era tal, que os meus homens ja estavam descuidosos e indifferentes. Diziam elles, que eu sabia o que havia de fazer, e quando lhes dizia, que não tinha ainda formado um plano, riam-se e diziam:--"o Senhor bem sabe ja."

Passei o dia preparando cartuxos da Carabina d'El-Rei. Tinha 2 kilogrammas de pòlvora finissima, e como a carga de cada cartuxo era de 5 drachmas (8 grammas e meia), podia com aquella pòlvora carregar duzentos e trinta e cinco tiros, que com alguns que eu ainda possuia, e com os trinta de balas d'aço da carabina Lepage, prefaziam um total de trezentos cartuxos.

Chumbo para ballas havia de mais, porque o peso das duzentas e trinta e cinco balas era ao menos de nove kilogrammas, sendo o de cada bala de 35 grammas, e o chumbo da rêde devia pesar um pouco mais de trinta kilos.

Fulminantes tinha duzentos a mais.

Voltáram os portadores que mandei a Lobossi, com recado d'elle, para que eu fôsse viver para Lialui até tomar uma deliberação.

Decidi logo não sahir do mato onde estava, e mandar o Verissimo a Lialui tratar com elle. Dei-lhe as minhas ordens, e mandei que sahisse antes de amanhecer no dia immediato, para ter tempo de voltar no mesmo dia.

Um violento accesso de febre prostrou-me, e tive de me recolher muito doente.

No dia seguinte a febre tinha augmentado, e eu estive impaciente até á volta do Verissimo, que só chegou de tarde.

Vinham com elle uns muleques do règulo, que me traziam alguma comida, e um presente de leite coalhado, enviado por Machauana. Lobossi mandava dizer-me, que era muito meu amigo, e que estava prompto a ajudar-me, mas que fôsse eu viver para casa d'elle; e que com tempo decidiriamos o que havìamos de fazer. Mandei dizer-lhe pêlos muleques, que logo que estivesse melhor iria falar-lhe; mas que não deixaria o mato, e que me era impossivel ir viver com elle, por causa das febres. Estava ancioso por me achar só com Verissimo, para ter noticias de Lialui.

A primeira cousa que elle me contou fêz-me logo profunda impressão. Disse-me, que, quando chegara a casa de Lobossi, estava reunido o grande consêlho em discussão acalorada.

Uns enviados do Chefe de Quissique, Carimuque, tinham chegado ali, pedindo accesso no paiz para um missionario Inglez, que estava em Patamatenga, e queria vir ao Lui.

Á entrada d'esse sujeito no paiz do Barôze opunha-se com tôda a sua eloquencia o ministro dos estrangeiros Matagja, e d'ahi nascêra a acalorada discussão a que assistira o Verissimo; sendo resolvido em consêlho, que não fôsse concedida a licença para o homem penetrar nos estados do rei Lobossi.

O Verissimo, que me contou este incidente, a que não ligou a menor importancia, começou a narrar-me o que tinha podido colher de noticias ácerca das intrigas dos muleques de Silva Porto e Caiumbuca; mas eu é que não o escutava ja, e aquelle missionario Inglez (Macúa, diziam elles) não se me tirava do pensamento. Quando o Verissimo acabou o seu aranzel, que eu não ouvi, tinha resolvido o meu problema, e a resolução consistia, em ir encontrar aquelle missionario.

Como realizal-a não sabia ainda, mas que o encontraria era ja convicção minha.

Fui àvidamente buscar uma pèssima carta d'Àfrica que tinha, e calculando approximadamente onde seria Patamatenga, medi uma distancia de seiscentos kilòmetros.

Seiscentos kilòmetros, a uma media de 10 kilòmetros por dia, eram sessenta dias de jornada, e trezentos tiros que eu possuia, divididos por sessenta dias, dava-me cinco tiros por dia. Ardia ja em desejos de me pôr a caminho, mas ardia em febre tambem, e comecei por deitar-me.

Nos dias 14 e 15 a febre cresceu de intensidade, não me permittindo sahir da barraca; mas tendo algumas melhoras na noute de 15 para 16, resolvi logo ir a Lialui falar ao rei, e tratar de pôr em execução um plano que tinha concebido, para ir encontrar o missionario, idéa que me não sahia da mente.

Ainda muito doente, parti logo de manhã para casa de Lobossi. Fui muito bem recebido por elle, que negou ter sido connivente com Caiumbuca e os prêtos do Silva Porto, na fuga dos meus Quimbares; o que era falso, porque sem o consentimento d'elle, não poderiam elles ter passado o Zambeze.

Pedi-lhe que me ajudasse a ir encontrar um missionario que eu sabia estar em Patamatenga; ao que elle respondeu, perguntando-me, ¿como queria eu ir para ali, não tendo carregadores? Esta pergunta do rei foi muito applaudida pêlos assistentes, que notáram a esperteza d'elle em m'-a fazer.

Disse-lhe, que era verdade não ter carregadores, mas que tinha o rio Liambai, e elle tinha barcos, e se elle me desse barcos, eu dispensava os carregadores, tanto mais que não tinha cargas.

Elle contestou, que havia effectivamente o Liambai, mas que o rio tinha cataractas, e ¿como as poderia eu passar? Novos applausos da parte do auditorio.

Respondi, que sabia isso, mas que ali os barcos e as cargas iam por terra, e a jusante das quedas continuàvamos a navegar.

Elle retorquio, que o seu pôvo tinha muito pouca fôrça, e não podiam arrastrar os barcos por terra. Novamente applaudido; estava fazendo um gôsto immenso em patentear o seu espìrito fino diante dos ouvintes; e de salto, sem esperar resposta, perguntou-me, ¿porque não tinha ido viver com elle para Lialui, como me tinha ordenado?

Respondi serenamente, que não tinha ido, nem iria, por muitas razões; sendo a principal, o ser elle um refinado velhaco, que, desde a minha chegada, só tinha procurado enganar-me, para me roubar. Chamei-lhei ladrão e assassino, levantei-me e puz-me a caminho.

O auditorio, estupefacto do meu atrevimento, nem se lembrou de me embargar o passo.

Dirigi-me a casa de Machauana, onde estive conversando com Monotumueno, o filho do rei Chipopa, e legìtimo herdeiro do poder, a quem fiz a profecia de que ainda seria rei do Lui.[4]

Ia a retirar-me para as minhas montanhas, quando um enviado de Lobossi veio pedir-me em nome d'elle para eu lhe ir falar. Fui logo.

O rei disse-me, que não tinha razão para me zangar com elle, que era muito meu amigo, que ia aprontar barcos, e que o Liambai estava livre para mim.

Eu fiz-lhe um grande sermão, em que lhe disse, que elle era mal aconselhado; que o que tinha dado o poder e grande nome aos reis Macololos, foi a grande protecção que dispensáram a Livingstone. Que os Luinas queriam perder o commercio; e que elle completaria a ruina do Lui começada por Manuanino. Que o seu pôvo, não a camarilha que o rodeava, mas o seu pôvo sensato, ainda o expulsaria do poder, por incapaz de governar, e não fazer mais do que disparates.

Fêz-me novos protestos de amizade, affirmando-me, que me daria os barcos, e que não seria por culpa d'elle se eu não chegasse a alcançar o missionario, mesmo porque queria que eu mudasse de opinião a seu respeito.

Assegurou-me, que voltasse descançado para Catongo, onde me mandaria dizer que os barcos estavam promptos, logo que tivesse arranjado as tripulações. Chamou diante de mim o Chefe de Libouta, e deu-lhe ordens a esse respeito.

Eu não acreditava em nada d'aquella comedia, e disse-lh'-o. Elle pedio-me que não formasse maos juizos, e esperasse os factos.

Voltei a casa de Machauana, que conversou largamente comigo a respeito de Caiumbuca e da fuga dos meus Quimbares. Por elle sube tôda a verdade, nos seus detalhes, e só fiquei ignorando quem fôra ao longe o motor dos acontecimentos.

Chegado ao Lui, fui sinceramente bem recebido por aquella gente, e o nome do Mueneputo, com que eu me abrigava, foi escutado com respeito. Declarei os meus projectos, e elles fôram calorosamente approvados, porque muito convinha aos Luinas estar em communicação com a costa de Leste. Dias depois da minha chegada, rebentou no Chuculumbe a revolução, á testa da qual se achava Manuanino, o rei destronado. Caiumbuca foi então dizer a Lobossi, que eu não era estranho áquella revolta, e que queria ir para Leste juntar-me aos brancos que apoiavam Manuanino. N'essa occasião Caiumbuca levara os Bihenos a abandonar-me, dizendo-lhes, que o rei o prevenira de que me ia mandar matar, e não poderia impedir que fôsse morta a gente que estivesse comigo.

Os Bihenos, levados por elle, declaráram-me, que não queriam estar comigo, e Caiumbuca fingio-se indignado.

A primeira e ùnica vez que em Àfrica faltei ao meu principio de sertanejo, de desconfiar ali de tôdos e de tudo, fui enganado. É verdade que Silva Porto, o homem em quem eu tinha a màxima confiança, disse-me e escreveu-me, que podia fiar-me em Caiumbuca, e eu fiei-me n'elle.

Facilmente podia desfazer aquella intriga entre homens instruidos; mas deve comprehender-se, que para prêtos, foi bem tramada, e não seria facil convencel-os da verdade.

Apesar d'isso, a minha attitude chegou a convencer Lobossi, e foi então que os muleques de Silva Porto fôram dizer ao rei, que tinham ordem de seu senhor para me abandonarem ali, mandando-lhe elle dizer, que me fizesse matar, se queria que os sertanejos do Bihé voltassem ali, sem o quê não teria mais relações com Benguella.

Foi então que tentáram matar-me, affirmando Machauana, que Lobossi sempre se opoz a isso, assim como a maioria do seu consêlho, mas que Gambela era de opinião contraria.

Caiumbuca e os muleques de Porto fôram dizer a Lobossi, que tôdo o que eu tinha nas minhas malas eram roupas e fazendas muito ricas, despertando-lhe assim a cubiça, que a tantos exploradores tem perdido no Continente Africano.

Apesar de tôdas as intrigas e dos factos que ellas produzíram, eu ia continuar a minha viagem com a gente de Benguella, quando o ataque da noute de 6 de Setembro m'a dizimou, e uma nova intriga dos prêtos de Silva Porto levou á fuga os restantes. ¿Por ordem de quem trabalhou Caiumbuca? Eis o que não pude saber.

Por sua conta creio que não; que pouco tinha a lucrar n'isso. A encommenda vinha feita do Bihé, e eram emissarios d'ella os muleques de Silva Porto. Caiumbuca tomou o papél principal, depois das instrucções recebidas dos prêtos de Belmonte. O mandatario estava ao longe, muito ao longe.

A causa estava na minha missão, e na guerra que, em nome do meu Portugal, eu fazia, sem trèguas, ao commercio da escravatura.

Alguns exploradores Africanos, e sôbre tôdos o Commander Cameron e David Livingstone, t[~e]m apontado muitos factos horriveis e verdadeiros, do commercio da escravatura, feito no interior d'Àfrica por sertanejos Portuguezes.

Por muitas vêzes, a opinião pùblica em Portugal tem levantado a sua voz potente, contra as asserções vilipendiosas dos accusadores estrangeiros, querendo negar factos que elles asseveram; e em que ella não acredita, porque, na sua ìndole bondosa, é incapaz de os comprehender e de os admittir.

Infelizmente elles sam verdadeiros; e mais ou menos romantizados, não deixam de conter um germen de realidade.

¿Mas serám esses factos uma nòdoa para Portugal? Não sam. Affirmo-o, e sustento-o.

Os sertanejos Portuguezes, que mais se aventuram no interior do continente Africano, quando o fazem, deixáram de ser Portuguezes.

Sam condenados, fugidos dos presidios da costa, sam homens a quem a sociedade supprimio as garantias do cidadão, sam rèprobos a quem a sentença infamante da justiça imprimio um indelebil ferrête de ignominia; sam os salteadores e assassinos, a quem a patria banio do seu seio com horror, que podéram quebrar o grilhão de ferro com que estavam acorrentados ao patìbulo aviltante; e fugindo a um mundo onde só os espera o desprezo da gente civilizada, vam ao longe buscar entre os selvagens a guarida que perdêram, e continuar ali a sua vida de crimes.

Taes homens não deshonram a sua patria, porque não t[~e]m patria.

Querer tornar Portugal solidario dos crimes dos sertanejos Africanos, é querer tornar a França responsavel dos actos da Communa, a Amèrica do assassinio de Lincoln, a Italia dos salteadores dos Abruzos.

Ha rèprobos em tôda a parte, e não podem ser nòdoas nos povos que os esmagam na sua justa indignação.

Dos sertanejos Europeus que t[~e]m estado estabelecidos no Bihé, de dois apenas tenho noticia, que não pertencessem a tal ordem de gente. Sam elles Silva Porto, e Guilherme José Gonçalves; mas estes fôram sempre queridos e estimados do indìgena e do Europêu, gozáram sempre da consideração que a sua honradez e probidade lhes grangeáram, fôram cidadãos prestantes, que, com um tràfico legal e digno, nem chegáram a fazer fortuna, e fôram muitas vêzes vìctimas dos outros.

O nome de Silva Porto é respeitado pêlo gentio, e conhecido n'uma grande parte da Àfrica central pêla corrupção da palavra Prôto, e mais de uma vez me servi d'elle para desfazer obstàculos.

Em Cassange, como em Tete, outras duas portas da Àfrica central, ha Portuguezes dignos e nobres, que t[~e]m feito um grande serviço á humanidade no commercio lìcito com o interior; esse commercio, que é o mais seguro mensageiro da civilização na terra dos nêgros.

Não confundamos pois; não confundamos, e será pouco nobre ir buscar a autoridade do explorador, para lançar, apontando factos verdadeiros, mas nada producentes, um labéo sôbre um pôvo nobre, o primeiro que deu mão forte á Inglaterra contra o tràfico infame; sôbre um pôvo que sacrificou os seus interesses Africanos legislando a abolição da escravatura; contra um pôvo, o mais livre do mundo, que estendeu a sua liberdade até á Àfrica, mandando para lá as leis que o regem na Metròpoli; chegando ao
excesso de abolir ali a pena de morte, e de lhes mandar um còdigo que por libèrrimo é impossivel entre gente mais que semibàrbara.

Não precisa Portugal justificação; que o defendem os factos, as leis e a energia que emprega na grande obra da civilização Africana; mas, falando do tràfico da escravatura de que por vêzes ia sendo vìctima, não me pude eximir a pôr a questão nos seus verdadeiros têrmos.

José Alves, Coimbras e outros, esses nem ao menos sam Portuguezes de nascença; não se parecem com Portuguezes na côr, sam indìgenas, sem instrucção, verdadeiros selvagens de calças e chapéos.

Affirmo tambem, que é mais difficil viajar em Àfrica por terras onde elles t[~e]m andado, do que nas regiões bàrbaras dos canibaes, que nunca víram um estranho. Aqui fazem a guerra ao explorador, quando a fazem, de armas na mão frente a frente; ali é a traição e a covardia que o esperam. Aqui é explorar na brenha espinhosa onde o leão occulta o seu antro; ali é caminhar n'um prado relvoso, entre venenosas serpentes.

Outra cousa inconveniente ao explorador é ir ás sedes dos grandes potentados. Veja-se o que tem acontecido no Muatayanvo; veja-se o que aconteceu a Monteiro e Gamito no Muata-Casembe; veja-se o que me tem acontecido a mim com Lobossi, no Lui.

O sertanejo Biheno, na cubiça de obter o marfim, dá tudo ao règulo; chêga a dar-lhe a roupa que leva vestida, e volta ao Bihé de tanga de pelles, como os seus carregadores.

No Lui, quando era muito frequentado por sertanejos Bihenos, havia o costume, de elles entregarem tudo ao règulo, e esperarem que elle lhes desse pêla factura que levavam, o que entendesse sufficiente.

O explorador que hôje chêgue ali e não faça o mesmo, está perdido.

Àlém d'esta, outra razão deve aconselhar o explorador a evitar os grandes potentados; é ella o caso de uma aggressão, sempre de recear.

Com os pequenos senhores que povôam a maior parte da Àfrica austral, poderá, em tal caso, levar a melhor; em quanto nos grandes imperios será forçosamente esmagado.

Isto pensava eu voltando ao meu campo nas montanhas de Catongo, a 17 de Setembro, depois de ter comido leite coalhado e batatas em casa de Machauana.

Cheguei a Catongo ja noute, e sube que o meu Augusto tinha morto uma gazella, o que nos fazia òptimo arranjo.

As armadilhas improvisadas continuavam a dar patos e francolins.

Nos dias seguintes, os trabalhos tomáram-me tôdo o tempo; podendo obter uma longitude muito approximada, e fazendo uma rigorosa determinação da declinação da agulha, estudos meteorològicos, etc.

No dia 19, ainda não tinha recebido mais novas do rei Lobossi, e decidí mandar lá o Verissimo, a saber se a offerta das canôas era ou não comedia. N'esse dia apparecêram ali uns prêtos, que pêlo typo conheci logo não serem do paiz. Diziam elles serem da Luêna, e querendo indagar onde ficava essa terra, elles mostravam-me o N.E., e por meio de nòs dados em uma correia fina, faziam-me comprehender que tinham andado vinte e seis dias para chegar ali. Vinham em nome do seu chefe comprimentar o rei Lobossi, e sabendo que estava um branco no paiz, viéram ver-me, por ser animal nôvo para elles.

Para falarmos, servia-me de intèrprete o velho chefe da aldeola, que falava a lìngua dos Machachas, lìngua em que elles se exprimiam bem, dizendo, ainda assim, ser muito differente da sua. Disséram-me, haver no seu paiz muitos elephantes, e serem caçadores; empregando para isso a azagaia, ùnica arma de que usam. Sam franzinos de côrpo e de pequena estatura, com feições bastante regulares. Uns vinte que eu vi, traziam, quasi tôdos, na cabêça uns penachos feitos de sêdas de elephante, demonstrando cada penacho um elephante môrto pêlo que o traz. Vestem pelles como os do Cuchibi, e trazem pannos de liconde para se cobrirem.

Traziam manilhas de ferro e de cobre fabricadas por elles. A difficuldade que havia de nos entendermos não me permitio levar muito longe as averiguações ácerca do paiz d'elles e dos terrenos que atravessáram para chegar ali.

No dia 21, Verissimo voltou de Lialui, dizendo, que as canôas estavam promptas, e que Lobossi me mandava pedir para ir ficar na cidade no dia immediato. Enviei logo um homem ao rei, dizendo-lhe que só iria em dois dias, por estar doente; sendo o verdadeiro motivo d'essa demora, o ter de fazer observações e completar estudos meteorològicos no dia 22. Por esse mesmo enviado mandei dizer a Gambela, que me apromptasse aposento em sua casa, porque iria