The Project Gutenberg EBook of Como atravessei Àfrica (Volume II), by 
Alexandre Alberto da Rocha de Serpa Pinto

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Title: Como atravessei Àfrica (Volume II)

Author: Alexandre Alberto da Rocha de Serpa Pinto

Release Date: March 8, 2007 [EBook #20783]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK COMO ATRAVESSEI ÀFRICA (VOLUME II) ***




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COMO EU ATRAVESSEI ÀFRICA DO ATLANTICO AO MAR INDICO, VIAGEM DE
BENGUELLA Á CONTRA-COSTA.


A-TRAVÈS REGIÕES DESCONHECIDAS;


DETERMINAÇÕES GEOGRAPHICAS E ESTUDOS ETHNOGRAPHICOS.


Por SERPA PINTO.


Dois Volumes.


Contendo 15 mappas e facsimiles, e 133 gravuras feitas dos desenhos do
autor.


VOLUME SEGUNDO.

Segunda Parte--A FAMILIA COILLARD.


LONDRES:
SAMPSON LOW, MARSTON, SEARLE, e RIVINGTON,
EDITORES,
CROWN BUILDINGS, 188 FLEET STREET.
1881.

[Tôdos os direitos sam reservados.]



LONDRES:
NA TYPOGRAPHIA DE GUILHERME CLOWES E FILHOS (COMPANHIA LIMITADA),
STAMFORD STREET E CHARING CROSS.




CONTEÜDO.

CAPÌTULO IX.

NO BARÔZE.

No alto Zambeze--O rei Lobossi--O reino do Barôze, Lui ou Ungenge--Os conselheiros do rei--Grande audiencia--Audiencias particulares--Parece que tudo me corre bem--Eu explicando geographia a Gambela--Volta-se a face aos negocios--Intrigas--Os Bihenos querem voltar--Uma embaixada a Benguella--Quimbundos e Quimbares--A prêta Mariana--Tentativa de assassinato--6 de Setembro--Incendio e combate--Retiro para as montanhas


CAPÌTULO X.

A CARABINA D'EL-REI.

A traição--Perdido--A Carabina d'El-Rei--Miseria--Novas scenas com o rei Lobossi--Partida--No Zambeze--Caça--Moangana--O Itufa--As pirogas--Sioma--Cataracta de Gonha--Bellezas naturaes--O basalto--A região das cataractas superiores--Balle--Bombué--Na foz do rio Gôco--Cataracta de Nambue--Os ràpidos--Viagem vertiginosa--Catima Moriro--Quisseque--Eliazar--Carimuque--O rio Machila--Muita caça--Tragedia--Embarira

Capìtulo Supplementar




Segunda Parte.--A FAMILIA COILLARD.


CAPÌTULO I.

EM LEXUMA.

Prêso em Embarira--O Doutor Benjamin Frederick Bradshaw--O campo do Doutor--O Pão--Graves questões--Os chronòmetros não param--Francisco Coillard--Lexuma--As damas Coillard--Doença grave--Receios e irresoluções--Chegada do missionario--Tomo uma decisão--Partida de Lexuma (em Inglez, Leshuma)


CAPÌTULO II.

MOZIOATUNIA.

Viagem ás cataractas--Tempestades--A grande cataracta do Zambeze--Abusos dos Macalacas--Regresso--Patamatenga--M^{r.} Gabriel Mayer--Tùmulos de Europêos--Chêgo a Deica--A familia Coillard


CAPÌTULO III.

TRINTA DIAS NO DESERTO.

O Deserto--Florestas--Planicies--Os Macaricaris--Os Massaruas--O grande Macaricari--Os rios no deserto--Morte da Córa--Falta de àgua--O ùltimo chá de Madame Coillard--Xoxom (Shoshong)


CAPÌTULO IV.

NO MANGUATO.

Doença grave--Um Stanley que não é o Stanley--O Rei Cama—Os  Inglezes em Àfrica--A libra esterlina--M^{r.} Taylor—Os Bamanguatos a cavallo--Cavallos e cavalleiros—Despedidas--Parto para Pretoria--Acontecimentos nocturnos--Volto a Xoxom--¿Pararám os chronòmetros?


CAPÌTULO V.

DE SHOSHONG A PRETORIA.

Catraio--Apparece o vagom--Despedida de M^{r.} Coillard--Tempestades--O vagom tombado--Trabalhos de nôvo gènero--Chuvas--O Limpôpo--Fly--Caçadas--No Ntuani--Um Stanley que não presta--Augusto furioso--Adicul--Os leões--Stanley desanima—Os Böers nomadas--Nôvo vagom--Peripècias--Doenças graves—Um Christophe de mil diabos--Madame Gonin--O ùltimo  tùmulo--Magalies-berg--Pretoria


CAPÌTULO VI.

NO TRANSVAAL.

Ràpido esbôço da historia dos Böers--O que sam os Böers—Suas emigrações e trabalhos--Adriano Pretorius--Pretorius--As minas de diamantes--Brand--Burgers--Juizo errado á cerca dos Böers--O que eu vi e que eu penso


CAPÌTULO VII.

NO TRANSVAAL (continuação).


M^{r.} Swart--Difficuldades--D^{or.} Risseck--Eu gastrònomo!—Sir Bartle Frere e o Consul Portuguez M^{r.} Carvalho--O Secretario Colonial M^{r.} Osborn--Jantares e saraus--O missionario Rev. Gruneberger--M^{r.} Fred. Jeppe--O jantar do 80 de infanteria--Major Tyler e Capitão Saunders—Insubordinação--M^{r.}      Selous--Monseigneur Jolivet--O que era Pretoria--Uma photographia de pretas--Episodio burlêsco da guerra tràgica dos Zulos


CAPÌTULO VIII.

O FIM DA VIAGEM.

A chegada do Coronel Lanyon--Parto de Pretoria--Heidelberg--Um dog-cart--O Tenente Barker--Dupuis--Peripecias de uma viagem no Transvaal--Newcastle--A diligencia--Episodios burlescos--Pietermaritzburg--Durban--Volto a Maritzburg--Didi Saunders--Episodios em Durban--O Consul Portuguez M^{r.} Snell--O Danubio--O Commandante Draper--Regresso á Europa


Conclusão


Breve Vocabulario


Indice






LISTA DAS ILLUSTRAÇÕES.



FIG.

94.--O Rei Lobossi
95.--Gambela
96.--Matagja
97.--Cachimbos de fumar o Bangue
98.--Vasilha para leite feita de madeira
99.--Objecto de Ferro forjado que serve de Lenço de assoar aos Luinas. Especie de Espàtula
100.--Pratos e Escudellas para a comida
101.--Colhér
102.--Machado de cortar madeira
103.--Artigos de Barro
104.--Homem Luina
105.--Mulhér Luina
106.--Azagaias Luinas
107.--Machadinhas de guerra
108.--Porrinho
109.--Ataque contra o acampamento no Lui
110.--Casa na Itufa
111.--O meu Barco
112.--Acampamento na Sioma
113.--Cataracta de Gonha
114.--Passagem dos Barcos em Gonha
115.--Cataracta de Cale
116.--Ràpidos de Bombue
117.--Nos ràpidos
118.--Três Europêos atravessáram o rio
119.--O Campo do Doutor Bradshaw
120.--Monsieur e Madame Coillard
121.--Acampamento da Familia Coillard em Lexuma
122.--Interior do Campo de Monsieur Coillard em Lexuma
123.--Mozioatunia. A Queda de Oeste.
124.--Mozioatunia. Maneira pouco còmmoda de medir àngulos.
125.--O Rio depois da Cataracta
126.--Os Tumulos em Patamatenga
127.--Os Desfiladeiros de Letlotze
128.--Ruinas da Casa do Rev. Price (Xoxom)
129.--No Deserto
130.--Fly, o meu Cavallo do Deserto
131.--Fly perseguindo os Ongiris
132.--Uma Vista do Alto Limpôpo
133.--Montes termìticos junto ao Limpôpo
134.--Os meus Bôis foram salvos
135.--O ùltimo enterro
136.--Magalies-berg
137.--O que restava da Expedição
138.--Eu em Pretoria (De uma photo. de Mr. Gross)
139.--Betjuanas (De uma photo. de Mr. Gross)

Mappa de Mozioatunia

Três Facsìmiles, de pàginas do Diario, dos Livros de Càlculos, e do Albo de Cartas





COMO EU ATRAVESSEI ÀFRICA


Primeira Parte.--A CARABINA D'EL-REI.





CAPÌTULO IX.

NO BARÔZE.


No alto Zambeze--O rei Lobossi--O reino do Barôze, Lui ou Ungenge--Os conselheiros do rei--Grande audiencia--Audiencias particulares--Parece que tudo me corre bem--Eu explicando geographia a Gambela--Volta-se a face aos negocios--Intrigas--Os Bihenos querem voltar--Uma embaixada a Benguella--Quimbundos e Quimbares--A prêta Mariana--Tentativa de assassinato--6 de Setembro--Incendio e combate--Retiro para as montanhas.


A 25 de Agôsto levantei-me muito incommodado e ardendo em febre. Estava no alto Zambeze, junto do 15^{to} parallelo austral, na cidade de Lialui, nova capital estabelecida pelo rei Lobossi, do reino do Barôze, Lui ou Ungenge, que tôdos estes nomes pode ter o vasto imperio da Àfrica tropical do sul. Como se sabe pêlas descripções de David Livingstone, um homem vindo do Sul á frente de um exèrcito poderôso, o guerreiro Chibitano, Basuto de origem, atravessou o Zambeze junto da sua confluencia com o Cuando, e invadio os territorios do alto Zambeze, sujeitando ao seu dominio tôdas as tribus que habitavam o vasto paiz conquistado.

Chibitano, o mais notavel capitão que tem existido na Àfrica Austral, partira das margens do Gariep com um pequeno exèrcito formado de Basutos e Betjuanas, ao qual foi aggregando os mancêbos dos povos que vencia, e ao passo que caminhava ao norte, ia organizando essas phalanges, que depois se tornáram tão terriveis, ja na conquista do alto Zambeze, ja na defensa do paiz conquistado.

A êsse exèrcito, formado de elementos differentes, de povos de muitas raças e origens, deu o seu chefe o nome de Cololos, e d'ahi lhe veio o nome de Macololos que tão conhecido se tornou em Àfrica.

No alto Zambeze encontrou Chibitano muitos povos distinctos, governados por chefes independentes, que não podéram, separados como estavam, oppor séria resistencia ao terrivel guerreiro Basuto.

Tão sabio legislador, como prudente administrador, e audaz guerreiro, Chibitano soube dar união aos povos conquistados, e fazer com que elles se considerassem irmãos no interesse commum.

Estes podiam agrupar-se em três divisões, marcando três raças distinctas.

Ao sul, abaixo da região das cataractas, os Macalacas; no centro, os Cangenjes ou Barôzes; e ao norte, os Luinas, raça mais vigorosa e intelligente, que devia substituir um dia os Macololos na governação do paiz.

É propriamente no paiz do Barôze ou Ungenge, que se tem conservado as sedes do govêrno desde o tempo de Chicreto, o filho e successor de Chibitano; e tôdos os povos de Oeste chamam ao vasto imperio Lui ou Ungenge, ao passo que os povos do sul lhe dam o nome de Barôze. Mais tarde, n'este capìtulo, terei occasião de falar na historia d'este pôvo desde a ùltima visita de Livingstone até á minha passagem ali; proseguindo agora a narrativa das minhas aventuras sôb o reinado de Lobossi, e do seu conselheiro ìntimo Gambela.

A organização polìtica do reino do Lui é muito differente da dos outros povos que eu tinha visitado em Àfrica. Ali ha dois ministerios perfeitamente definidos, o da guerra, e dos negocios estrangeiros; sendo este ùltimo dividido em duas secções, cada uma com o seu ministro. Uma d'ellas trata dos negocios de Oeste, outra dos do Sul. Isto é, uma trata com Portuguezes de Benguella, outra com os Inglezes do Cabo.

Na occasião da minha chegada, os conselheiros do rei eram quatro, dois dos quaes não tinham pasta; sendo ministro dos negocios estrangeiros de Oeste um tal Matagja, e accumulando duas pastas, a da guerra e a dos negocios estrangeiros do sul, Gambela, o presidente do consêlho do rei. Aprendi bem estes detalhes, para regular a minha conducta nas graves questões que tinha a tratar.

Logo de manhã, fui avisado, de que o rei Lobossi me esperava.

Larguei os meus andrajos, e vesti o ùnico vestuario que ja possuia, dirigindo-me em seguida á grande praça onde devia ter logar a audiencia.

Elle estava sentado em uma cadeira de espaldar, no meio da grande praça, e por de tras d'elle um nêgro fazia-lhe sombra com um guarda-sol.

Era um rapaz de 20 annos, de estatura elevada, e proporcionalmente grôsso.

Vestia um casaco de cazimira prêta sobre uma camisa de côr, e em logar de gravata, trazia ao pescôço um sem-nùmero de amulêtos.

As calças eram de cazimira de côr, e deixavam ver as meias de fio de escocia, muito alvas, e o sapato baixo bem lustrado.

Um grande cobertôr de listas multicolôres em guisa de capote, e na cabêça um chapéo cinzento, ornado de duas grandes e bellas pennas de avestrús, completavam o traje do grande potentado.

Na mão um pedaço de madeira lavrada, ao qual estavam prêsas muitas clinas de cavallo, servia-lhe para enxotar as môscas, acção que elle fazia com tôda a gravidade.

Á sua direita, em cadeira mais baixa, estava sentado o Gambela, e na frente os três conselheiros. Umas mil pessôas, sentadas no chão em semi-cìrculo, deixavam perceber a sua jerarchia pelas distancias a que
estavam do soberano.


Figura 94.--O Rei Lobossi.

Á minha chegada o rei Lobossi levantou-se, e logo em seguida os conselheiros e tôdo o pôvo. Troquei um apertar-de-mão com elle e com Gambela, abaixei a cabêça a Matagja e aos outros dous conselheiros, e sentei-me junto a Lobossi e a Gambela.

Depois de uma troca de comprimentos e de finezas, que mais pareciam de uma côrte Europea do que de um pôvo bàrbaro, eu disse ao rei, que não era negociante, que vinha visital-o por ordem do Rei de Portugal, e que tinha a falar-lhe em assumptos que não podiam ser tratados ali diante de tão numerosa assemblea.


Figura 95.--Gambela.

Elle respondeu-me, que sabia e comprehendia isso, e que a recepção que me mandara fazer na vèspera e a que elle mesmo me fazia ali, me mostravam que eu não era confundido com um negociante qualquér; que eu era seu hòspede, e teriamos tempo de falar em negocios, porque elle esperava ter a felicidade de me possuir algum tempo na sua côrte. Depois de me dizer esta amabilidade, despedio-se de mim, que voltei a casa abrasado em febre.

No meu pàteo encontrei trinta bôis, que o rei me mandava de presente.

Disse-me o escravo favorito de Lobossi, que seria delicado da minha parte, mandar matar os bôis, e offerecer a melhor perna de bôi ao rei, e dar carne á gente da côrte.

Dei ordem a Augusto para fazer isso, e houve logo uma carnificina enorme, sendo tôdos os bôis mortos, e a sua carne distribuida entre os meus carregadores e a gente da côrte; tendo o cuidado de mandar ao rei e aos quatro conselheiros a melhor parte, cabendo ainda assim o melhor quinhão a Gambela, a quem fiz notar a distinc&ccedyl;ão que fazia.


Figura 96.--Matagja.

As pelles, que ali sam muito estimadas, offereci eu a Matagja e Gambela.

Pêla 1 hora, fui recebido pêlo rei em audiencia particular, em uma casa tambem semi-cilìndrica, mas de grandes dimensões, que não contava menos de 20 metros de comprido por 8 de largo.

Lobossi estava sentado em uma esteira, e em frente d'elle os quatro conselheiros occupavam outra, de companhia com alguns fidalgos, entre os quaes estava um velho vigoroso, cuja physionomia sympàthica e expressiva me impressionou. Era Machauana, o antigo companheiro de Livingstone, na viagem que o cèlebre explorador fez do Zambeze a Loanda, e de quem elle fala, no seu roteiro com tanto elogio.

Uma enorme panella de quimbombo foi collocada no meio da casa, e depois de o rei ter bebido, bebêram tôdos com profusão, e nem me offerecêram, sabendo que eu só àgua bebia.

Conversámos sôbre cousas indifferentes, e eu entendi não dever falar-lhe ainda dos meus negocios. Entre outras cousas, falámos a respeito de lìnguas differentes, e Lobossi pedio-me que falasse um bocado em Portuguez, para elle ouvir. Recitei-lhe as Flôres d'Alma do poema "D. Jayme," e os prêtos ficáram encantados ao escutar a harmonia da nossa lìngua, que o mimôso e grande poeta, Thomas Ribeiro, soube imprimir e fazer resaltar n'aquellas estrophes singelas.

Quando eu ia retirar-me, o rei disse-me baixo, de modo que ninguem percebeu, que lhe fôsse falar depois de ser noute fechada.

Pouco depois de eu chegar a casa, apparecêu-me ali Machauana, com quem conversei sôbre Livingstone, e que me fez os maiores protestos de amizade.

Á noute, pelas 9 horas, fui á morada do rei. Elle estava n'um dos pàteos interiores, sentado em uma esteira, junto a um grande fôgo, que ardia n'uma bacia de barro de dois metros de diàmetro. Na sua frente, em semi-cìrculo, uns 20 homens, armados de azagaias e escudos, conservavam a maior immobilidade e silencio.

Pouco depois de eu chegar, chegou o Gambela, e começou a nossa conferencia.

Eu principiei por lhe dizer, que tinha sido obrigado a deixar no caminho os ricos presentes que lhe trazia, mas que, ainda assim, tinha podido salvar algumas pequenas cousas que lhe daria, e entre ellas uma farda e um chapéo, que lhe apresentei logo.

Era uma d'essas fardas ricamente agaloadas, que tôda Lisboa vio aos lacaios postados nas antecàmaras do Marquez de Penafiel, e que fôram vendidas quando o opulento fidalgo trocou a sua residencia luxuosa de Lisboa, pelo viver mais buliçôso da capital da França.

Lobossi ficou encantado com a farda e com o chapéo armado, e fêz-me mil agradecimentos. Depois de uma pequena conversa sem importancia, entrámos em assumpto.

No Barôze falam-se três lìnguas. O Ganguela, a lìngua Luina, e o Sezuto, idioma deixado ali pêlos Macololos, que modificáram os costumes d'aquelles povos a ponto tal, que até lhes implantáram a sua lìngua, que é a lìngua official e elegante da côrte.

Era n'este idioma que falavam Lobossi e Gambela, servindo-me de intèrpretes Verissimo e Caiumbuca. Eu disse ao règulo, que vinha da parte do rei de Portugal (o Mueneputo), nome pêlo qual sua Magestade
Fidelissima é conhecido entre tôdos os povos da Àfrica Austral, e que é formado por duas palavras--Muene, que quer dizer Rei, e Puto, nome dado em Àfrica a Portugal. Disse-lhe, que o meu fim principal era abrir caminhos ao commercio, e que estando o Lui no centro de Àfrica, e ja em communicação com Benguella, desejava abrir o caminho do Zumbo, e assim um mercado muito mais perto, onde elles poderiam ir abastecer-se dos gèneros Europêos de que precisassem.

Elle queixou-se muito da falta que nos ùltimos tempos lhe havia feito o não virem ali negociantes de Benguella, não me occultando que, entre outras cousas, estava sem pòlvora. Eu respondi-lhe, que elles viriam, se com elles fizessem bons negocios, e que eu lhe podia affirmar, que o Mueneputo estava dispôsto a proteger o commercio com elle, se elle se compromettesse a não consentir nos seus estados a compra e a venda de escravos.

Não lhe occultei a falta de meios com que eu lutava, e mostrando-lhe o desejo e empenho que tinha em abrir o caminho do Zumbo, prometti-lhe, se elle me coadjuvasse na emprêsa, fazer-lhe chegar de Tete, no menor tempo possivel, a pòlvora e mais artigos de que elle carecia.

O Gambela, homem intelligente e fino diplomata (tambem os ha prêtos), quiz por vêzes enredar-me, mas eu não sahia da verdade e da lògica, e elle foi vencido.

No fim de muito discutir, ficou decidido, que o rei Lobossi mandaria uma comitiva a Benguella, para guiar a qual eu lhe daria um homem de confiança, com cartas para o governador e para Silva Porto, e que elle me daria a gente de que eu precisasse para ir comigo ao Zumbo.

Era uma hora da noute quando eu me retirei, e ainda que sempre desconfiado de prêtos, não posso deixar de confessar que me retirei satisfeito.

O dia foi tôdo muito occupado, e depois de á uma hora me recolher, sobreveio-me um enorme accesso de febre.

Levantei-me muito doente no dia seguinte, e mandei logo Quimbundos e Quimbares construirem um acampamento meio kilòmetro ao sul de Lialui, para o quê obtive autorização do rei.

Pêlas 10 horas, fui visitar Lobossi, que encontrei n'uma grande casa circular, cercado de gente, e tendo diante de si seis enormes panellas de capata. O meu Augusto, Verissimo, Caiumbuca e a gente do règulo, dentro em pouco estavam bêbados a cahir, e ninguem se entendia ali. Eu voltei a casa, e tive de deitar-me, de tal modo me recresceu a febre.

Foi immensa gente visitar-me, e como eu não tinha remedio senão ouvir uns e outros, porque aquelles nêgros não t[~e]m a menor consideração por um doente, peiorei muito.

Lobossi mandou-me seis bôis, cuja carne foi tôda furtada pêla gente d'elle, porque a minha estava longe construindo o acampamento, e Augusto, Verissimo e Camutombo completamente bêbados, não quizéram saber d'isso.

No dia immediato, Lobossi veio visitar-me logo de manhã; eu estava um pouco melhor, mas a febre era constante e não queria ceder aos medicamentos.

Ás 10 horas, Lobossi mandou-me pedir para comparecer diante do seu grande consêlho, que fizera convocar expressamente para eu expor os meus projectos.

Outra vez Gambela, que presidia á assemblea, me quiz embaraçar, e outra vez se saío mal. Tive de explicar Geographia a Gambela e aos conselheiros da corôa.

Tracei-lhes no chão o curso do Zambeze, e a leste parallelo a elle o curso do Loengue, que, com o nome de Cafúcué, vai entrar no Zambeze a jusante dos ràpidos de Cariba.

Mostrei-lhes que em 15 dias alcançaria a povoação de Cainco, situada em uma ilha do Loengue, e que descerìamos o rio embarcados até ao Zambeze, e por este ao Zumbo.

Afirmei-lhes, que o Loengue não tinha cataractas, e que o Zambeze de Cariba ao Zumbo era perfeitamente navegavel.
 
Insisti pois n'este ponto, demonstrando-lhes, que apenas com uma travessia por terra de 15 dias, que se podia reduzir mesmo a 10 (citando-lhes para isso um facto de uma expedição Luina que, partindo de Narieze, tinha alcançado Cainco em 8 dias), com uma pequena travessia por terra, elles estariam em ràpida, communicação com os estabelecimentos Portuguezes de Leste, por vias fluviaes completamente navegaveis.

O pùblico estava admirado da minha erudição, e Gambela, que sabia mais geographia Africana do que muitos ministros d'estado Europêos, e que conhecia ser verdade o que eu expunha, cedeu ás razões.

Depois de longa e acalorada discussão, foi resolvido, que se enviasse a comitiva a Benguella, e que me fôsse dada a gente sufficiente para atravessar o Chuculumbe até Cainco, deixando três ou quatro fortes postos no caminho, para segurar a passagem áquelles que, indo comigo até ao Zumbo, tivessem de regressar. No fim da sessão, houve grande enthusiasmo, e fôram logo nomeados os chefes que deviam ir a Benguella, e os que me deviam acompanhar.

Voltei a casa com um tal accesso de febre que perdi a razão, melhorando ás 6 horas da tarde.

Á noute, annunciáram-me a visita de Munutumueno, filho do rei Chipopa, o primeiro rei da dinastia Luina.

Mandei-o entrar, e vi um rapaz de 16 a 17 annos, muito elegante e sympàthico.

Trazia uma calça prêta e uma farda de alferes de cavallaria ligeira, em muito bom estado. Fez-me profunda impressão ver aquella farda! ¿A quem teria pertencido? ¿Como teria ido parar ao centro d'Àfrica?

Talvez alguma viuva necessitada encontrasse na venda d'aquelle objecto, que pertencêra a um espôso estremecido, algumas migalhas de pão para matar a fome.

Perguntei a Munutumueno ¿como tinha obtido aquella farda? e elle respondeu-me, que tinha sido presente de um sertanejo Biheno, havia ja muito tempo.

Indaguei, se não lhe havia encontrado nada nos bolsos, e elle respondeu-me, que não tinha bolsos. Uma farda de official sem bolsos, era impossivel.

Pedi-lhe para m'-a deixar examinar, e tendo elle desabotoado o peito, effectivamente vi que não tinha bôlso ali.

Roguei-lhe, que se voltasse, e comecei a explorar-lhe os bolsos das abas. Elle estava admirado, porque não sabia que tinha bolsos ali. Em um d'elles os meus dêdos encontráram um pequenino bilhête.

¿Iria saber a quem tinha pertencido aquella farda?

¿O que conteria aquelle papelinho dobrado que eu tinha diante dos olhos e não me atrevia a abrir?

Cheio de commoção, desdobrei o papél, e vi n'elle algumas linhas escritas a lapis, que li àvidamente.

Não pude conter uma gargalhada.

O papél dizia assim:--

"Se lhe não sou indifferente, rogo-lhe o obsequio de me indicar o modo de nos correspondermos."

Por baixo um nome e uma morada.

Sabia de quem fôra a farda.

O nome era o de um dos meus amigos e antigo condiscìpulo, que hôje occupa uma distintissima posição n'uma das armas scientìficas do exêrcito Portuguez.

Um dia em pùblico commetti a indiscrição de pronunciar o nome do signatario do bilhête, que eu possuo, e ainda que indiscreto fui, não creio ter de modo algum offendido aquelle nobre official e distincto cavalheiro.

Uma farda que o talento e a applicação ao estudo fizéram trocar por outra, mais distincta; que, abandonada ou dada a algum criado, pêla instabilidade das cousas, foi parar ao centro de Àfrica, creio é cousa que não desdoura ninguem. Em quanto ao bilhête de amôres, creio bem que ainda menos o deve vexar.

Infelizes d'aquelles que, aos desoito annos, não escrevêram bilhêtes assim, e mais infelizes os que depois dos trinta ja os não podem escrever.

"Aquillo, meu amigo, foi cousa que um papá, ou uma _máma, sempre impertinentes em taes casos, te não deixou entregar, ao sahir do theatro ou de um baile, á tua Dulcinea d'aquella noute, ou que a tua timidez dos desoito annos fêz recolher ao bôlso. Imagino, meu amigo, que te deves ter rido, sabendo que aquelle bilhête esquècido, depois de atravessar os mares, atravessou aquelles inhòspitos paizes, e andou em companhia de um prêto no alto Zambeze. É verdade, que, para te consolares, sabes que esse prêto era filho de rei."

N'esta aventura, eu fui o ùnico tôlo, em ter tido pensamentos tristes, á vista do bilhête encontrado no bôlso da farda de um alferes de cavallaria, porque logo devia suppor, que tal bilhête só podia ser um bilhête d'amôres.

Um alferes de cavallaria, em Portugal, como em tôdos os paizes, é sempre um fogacho onde as maripôsas v[~e]m queimar as azas douradas.

Pensando na proposição que acabo de formular, deitei-me cheio de tristeza, lembrando-me que ja era major.

No dia immediato, recresceu a febre a ponto de eu não poder andar. Lobossi foi visitar-me, e levou com-sigo o seu mèdico de confiança.

Era um velho, pequeno e magro, de barba e cabello branco.

Principiou elle por tirar do pescôço um cordão onde tinha enfiado oito metades de caroços de uma fruta qualquér que eu não conhecia. Começou, com grande recolhimento, a pronunciar umas palavras màgicas, e atirou com os caroços ao chão. D'estes, uns ficáram com a parte interna voltada para a terra, outros com a externa. Elle leu n'aquella disposição, concluindo da leitura, que os meus parentes mortos se tinham apossado de mim, e que era preciso dar-lhes alguma cousa para elles me deixarem. Eu aturei tudo com a maior paciencia, fingindo acreditar o que elle me dizia, e dei-lhe um pequeno presente de pòlvora.

N'aquelle dia o Gambela deu-me um presente de dez cargas de milho e massambala.

Estando concluido o meu acampamento, mudei para elle.

No dia 29 de Agosto, a febre cedeu um pouco ás fortes doses de quinino que tomei, e senti bastantes melhoras. O meu estado moral é que peiorava de instante a instante.

Tinha alguns momentos de desalento inexplicaveis. A minha energia cedia ante a fraqueza moral que se apossava de mim.

Estava sôb o pêso esmagador de um terrivel ataque de nostalgia.

O rei mostrava muitos cuidados pêlo meu estado, mas cada portador que vinha encarregado de saber da minha saude, era emissario de um pedido cada vez mais impertinente.

N'aquelle dia mandou elle os seus mùsicos tocarem e cantarem para me enterter, mas mandou em seguida pedir-me dois cartuxos de pòlvora por cada mùsico.

N'essa tarde ouvi grandes toques de tambores na cidade, e o rei mandou-me pedir, que mandasse dar alguns tiros na grande praça, desejo que eu satisfiz mandando doze homens dar fôgo.

Sube depois que aquillo era uma convocação á guerra, e antes de falar nos motivos d'ella, direi em poucas palavras a historia do Lui, desde o ponto em que ficou narrada pêlo D^{or.} Livingstone, isto é, desde a morte de Chicrêto.

O imperio, poderosamente sustentado pêla mão de ferro, sabia prudencia e fina polìtica de Chibitano, marcou-se com uma profunda pègada de decadencia no reinado de seu filho Chicrêto. David Livingstone, muito grato aos favôres de Chicrêto, que lhe deu os meios de ir a Loanda e a Moçambique, é talves bastante suspeito nos elogios que dispensa a este rei; e mesmo na narrativa da viagem que ali fez depois com seu irmão Carlos e o Doutor Kirk, não pôde deixar de narrar a desordem e profunda decadencia em que encontrou o imperio Macololo.

Das gentes vindas do sul com Chibitano, isto é Macololos, poucos existiam ja, tendo sido decimados pêlas febres do paiz, que nem os naturaes poupam. A embriaguez e o uso do bangue, de mistura com os
desregramentos dos chefes, tinham feito perder tôda a autoridade aos invasores. Môrto Chicrêto, succedeu-lhe seu sobrinho Omborolo, que devia reinar durante a minoridade de Pepe, irmão muito mais nôvo de Chicrêto, e filho ainda do Grande Chibitano.

Os Luinas conspiravam, e um dia Pepe foi assassinado. Omborolo não tardou a ter a mesma sorte, e tendo sido ordenada uma Saint Barthélemi por os Luinas, os restos d'esse forte exèrcito invasor foi assassinado, escapando apenas poucos, sôb o commando de Siroque, irmão da mãe de Chicrêto, que fugio para Oeste, passando o Zambeze em Nariere.

Os Luinas, depois d'essa carnificina traiçoeira, acclamáram seu chefe Chipópa, homem de tino, que não deixou desmembrar o paiz, e procurou conservar o imperio, poderoso como em tempo de Chibitano.

Chipópa reinou muitos annos, mas as ambições apparecêram e, em 1876, um tal Gambela fel-o assassinar, e acclamar seu sobrinho Manuanino, criança de 17 annos.

O primeiro acto do poder de Manuanino foi mandar cortar a cabêça a Gambela, que o tinha feito rei, e desprezando tôdos os parentes e amigos do pai que o eleváram ao poder, chamou para junto de si só os parentes maternos. Aquelles conspiráram, fizéram uma revolução, e tentáram assassinal-o, em Março de 1878; mas Manuanino, tendo alguns fiéis, pôde escapar-se, e fugio para o Cuando, onde assaltou e devastou a povoação de Mutambanja.

Lobossi, acclamado rei, enviou contra elle um exèrcito, e Manuanino têve de retirar d'ali, e repassando o Zambeze em Quisséque, internou-se no paiz do Choculumbe, atravessou este paiz, e foi juntar-se a uns brancos, caçadores de elephantes, que estavam na margem do Cafuqúe. Lobossi entendeu, que a sua segurança dependia da morte de Manuanino, e mandou contra elle um nôvo exèrcito. Foi do resultado d'aquella expedição que n'esse dia chegáram noticias.

Chegados perto do logar onde estava o ex-soberano com os brancos, que elles chamam Mozungos, intimáram estes a que lhes entregassem Manuanino para o matarem, e como houvesse recusa, elles os atacáram, mas, com tanta infelicidade, que fôram completamente batidos pêlos brancos; escapando muito poucos, que n'essa tarde chegáram a Lialui a narrar o seu desastre.

Eis aqui o motivo porque os tambores tocavam convocando á guerra; e porque o rei Lobossi me pedio que mandasse dar tiros na grande praça da cidade.

Ja que falei na historia do Lui, não dêvo proseguir sem narrar um dos seus episodios mais interessantes, porque se refere a um typo verdadeiramente sympàthico.

É Siroque, aquelle Macololo, que, na occasião da Saint Barthélemi dos Macololos, conseguio escapar com um grupo de gente, passando o Zambeze.

Siroque, intrèpido e audaz, caminhou a oeste até encontrar o Cubango, onde se estabeleceu, vivendo da caça dos elephantes.

Depois subio o rio até ao Bihé, e fixou-se ali por muito tempo, chegando por vêzes a ir a Benguella em comitivas sertanejas. Um dia porem, tendo umas questões em que bateu os que o atacáram, retirou por prudencia para o interior; indo acampar no rio Cuando abaixo do Cuchibi, onde continuou a vida de caçador.

Siroque era intelligente e bravo, e de uma familia que tinha reinado, não podia deixar de ser ambiciôso.

Sonhou com o restabelecimento da monarchia Macolola no Lui, e foi-se approximando d'ali pêlo Cuando.

Um pombeiro do Bihé, seu amigo e que lhe tinha fornecido pòlvora, denunciou-o, e Manuanino, então acclamado de pouco, fel-o assassinar junto da povoação de Mutambanja, pêla mais cobarde traição.

Tôdos os seus fôram vìctimas, e a azagaia do assassino de Siroque abrio o tùmulo ao ùltimo dos Macololos.

Aquelle dia amanhecido tão bonançoso para o adolescente monarcha, que só via sorrir-lhe a vida, tornara-se de repente sombrio e carregado, envolvido em nuvens de tempestade.

As noticias más succedem-se, e corria o boato, de que Lo Bengula, o poderoso rei do Matebeli, projectava um ataque contra o Lui.

Andavam tôdos desorientados, tôdos emittiam alvitres, todos pensavam loucuras; só dois homens se conservavam serenos no meio d'aquelle pôvo semi-louco. Eram Machauana e Gambela--Gambela o ministro da Guerra, Machauana o General em chefe.[1]

Ordens acertadas e ràpidas eram dadas por elles a emissarios fiéis, que partiam para povoações distantes.

¿O que seria de mim no meio dos novos acontecimentos que agitavam o paiz?

Diziam e repetiam, que fôram os Muzungos que matáram os sicarios de Lobossi, enviados contra Manuanino, e se ali se soubesse que eu era Muzungo, estava irremediavelmente perdido. Estes povos felizmente ignoram isso, e pensam que os Portuguezes de leste sam de outra raça differente dos Portuguezes de oeste.

No Lui, os Portuguezes das colonias de oeste sam chamados Chiudéres, nome que lhes dam os Bihenos; os das colonias de leste, Muzungos; e os Inglezes do sul, Macúas. A tôdo e qualquér prêto que vem das colonias Portuguezas chamam Mambares, de certo corrupção da palavra Quimbares, com que sam designados os prêtos semi-civilizados de Benguella. D'ahi proveio o erro do Doutor Livingstone, arranjando a oeste das serras de Tala Mugongo uma raça de Mambares.

Os Quimbares sam prêtos de qualquér procedencia, geralmente escravos ou libertos, que ja sam meio-civilizados. Sam, finalmente, a gente das senzalas de Benguella e as escravaturas dos brancos da costa.

Em Benguella chamam Quimbundos ao gentio selvagem do interior, designando com esse nome mais particularmente os Bihenos.

No dia 30, logo de manhã, Lobossi mandou dar-me parte de que se ia fazer a guerra, e dos motivos que a isso o obrigavam.

O emissario foi o proprio Gambela, que me disse logo, que, sendo o Chuculumbe o theatro da guerra, era impossivel a minha viagem por ali; e por isso, que tudo o que havìamos combinado estava prejudicado.

Aquelles acontecimentos tornavam muito crìtica a minha posição.

N'essa tarde, estando eu com um nôvo e violento accesso de febre, viéram prevenir-me, de que os pombeiros Bihenos me queriam falar.

Levantei-me a custo e fui ouvil-os.

Depois de variados preàmbulos, disséram-me, que me iam deixar, porque viam o mao caminho que as cousas tomavam no Lui, e só desejavam voltar ao Bihé.

Cobardes! Abandonavam-me no momento em que eu mais precisava d'elles!

Miguel, o caçador de elephantes, o pombeiro Chaquiçongo, e dois carregadores, Catiba e um carregador, e o Doutor Chacaiombe, viéram protestar-me a sua amizade, e declarar-me que ficavam comigo. Tôdos os Quimbares me viéram fazer igual declaração.

Aquella resolução inesperada dos Bihenos fêz-me recobrar o sangue frio que ja não tinha ha dias. Augmentavam as difficuldades, era preciso lutar, e eu sacudi o entorpecimento moral que se ia apossando de mim.

Immediatamente despedi os Bihenos, que puz fora do acampamento, entregando-os ao prêto Antonio, o velho Antonio que eu tinha designado a Lobossi para ser chefe e guia da comitiva que elle ia mandar a Benguella.

Fiz em seguida a conta á minha gente, e achei-me com 58 homens.

No dia immediato, Lobossi veio a minha casa, e fêz-me repetidas exigencias de cousas que eu não possuia, e elle queria por fôrça que eu tivesse e lhe desse. Estava cada vez mais importuno. Era uma criança, mas criança impertinentissima. Precisava de uma paciencia sem limites para o aturar.

Lobossi mandou-me chamar n'essa noute. Fui la, e elle disse-me, que a minha viagem pêlo Chuculumbe era impossivel, mas que me daria guias e alguma gente para eu tornear pêlo sul e ir ao Zumbo.

Disse-me, que o boato a respeito dos Matebeles não tinha fundamento, que d'aquelle lado havia paz e elle terminaria facilmente com Manuanino. Queixou-se muito amargamente de eu lhe dar poucas cousas, dizendo, que se eu nada mais tinha, lhe desse tôdas as armas e a pòlvora que possuia, porque, seguindo para o Zumbo com gente d'elle, seria defendido por ella, e não precisava levar tanta gente armada.

Offereci-lhe as armas dos Bihenos que me tinham deixado n'esse dia, e que tive o cuidado de lhes tirar, e sete barris de pòlvora, mas neguei-me formalmente a dar-lhe uma só que fôsse das outras, dos homens que me ficáram, ou das minhas particulares.

Retirei-me pouco satisfeito d'aquella entrevista.

No primeiro de Setembro, levantei-me muito doente, e depois de ter feito as observações da manhã, tornei a deitar-me; quando o Verissimo entrou espavorido na barraca, e me diz, que Lobossi mandara chamar tôda a minha gente, e lhe exposera, que eu tinha vindo ali de propòsito para me ir juntar aos Muzungos que estavam no Cafuque com o Manuanino, e fazer-lhe guerra a elle. Isso estava demonstrado pêla minha insistencia em querer ir ao Chuculumbe. N'essa noute fôra elle prevenido dos projectos que eu meditava, e por tanto, me ia obrigar a sahir dos seus estados, e só me deixaria livre o caminho do Bihé.

Encarregara elle o Verissimo de me vir fazer a intimação; cousa que em nada me desconcertou o espìrito, porque, desde a vèspera á noute, eu esperava novidade grande.

Mandei chamar o Gambela, mas elle têve o cuidado de fazer com que o não encontrassem em tôdo o dia.

Um recado que fiz chegar a Lobossi, mostrando-lhe a inconveniencia do passo que dava, porque eu lhe podia fazer muito mal impedindo os sertanejos do Bihé de virem ali, têve por ùnica resposta nôvo mandado de despejo, e só livre o caminho do Bihé.

Á tarde, nova prevenção, de que as forças que estavam reunidas para a guerra, não sahiriam sem eu ter deixado o paiz do Lui em caminho de Benguella.

Respondi ao enviado, que dissesse ao rei Lobossi, que dormisse sôbre o caso, porque a noute era bôa conselheira, e que esperava ainda a sua ùltima decisão no dia immediato.

A 2 de Setembro, logo de manhã, recebi a visita de Gambela, que vinha da parte do rei, ordenar-me que sahisse do seu reino immediatamente, e que o ùnico caminho livre era o do Bihé. Não pode passar nem por ali, nem por ali, nem por ali, me disse elle, apontando para o N., E. e S.

Contra tôdos os usos do paiz, o Gambela, em quanto estêve em minha casa, conservou as armas na mão, e eu entretive-me brincando com um magnìfico revólver Adams-Colt.

Fingi que meditei a minha resposta, e disse-lhe, "Amigo Gambela, vá dizer a Lobossi, ou tome o recado para si, que eu não arredo um passo d'aqui para seguir o caminho de Benguella. Tem ahi um numeroso exèrcito, que me venha atacar; eu saberei defender-me, e se morrer, o Mueneputo lhe tomará contas d'isso. Vocês estam indispostos com os Matebeles, ameaçados pêla guerra civil levantada por Manuanino, indisponham-se tambem com o Mueneputo, e estam perdidos. Outra vez lhe repito, que não
sahirei d'aqui senão para seguir o meu caminho."

Gambela sahio da minha barraca furioso.

N'essa noute Machauana veio furtivamente visitar-me. Previnio-me elle de que Gambela aconselhara ao rei para me mandar matar, e que Lobossi se negara a isso terminantemente. O caso foi passado em conselho, a que assistia Machauana, que me fez mil prevenções para estar de sôbre-aviso.

A larga conversação que tive com o antigo companheiro de Livingstone, mostrou-me que entre elle e Gambela havia reixa velha. O antigo guerreiro de Chibitano, depois muito afeiçoado ao rei Chipopa, só pensava em ver occupar o trôno do Lui ao filho d'este, seu pupillo e seu protegido, o joven Munutumueno, o meu alferes de cavallaria ligeira.

Tendo podido ler no coração do velho aquelle odio e aquella affeição, considerei-me salvo. O seu poder era grande, porque elle tinha influencia n'uma enorme parte das tribus do Lui; e por isso as azagaias, que tanto ferem ali nas revoluções, o tinham poupado. Fiz-lhe muitos protestos de gratidão, e pedi-lhe, que me prevenisse logo que o rei Lobossi determinasse matar-me. Elle prometeu, e retirou-se.

Eu fui deitar-me, levando a referver na mente, um plano singelo, que me abstive de communicar a Machauana, para lhe evitar idéas cubiçosas, que elle não tinha n'aquelle momento.

Resolvi, se acaso Lobossi decretasse a minha morte, chamar cinco dos meus homens mais decididos, uma especie de cães que eu tinha comigo, como eram Augusto, Camutombo e outros, e ir com elles logo á audiencia do rei, onde tôdos estam desarmados, fazel-os, a um signal meu, saltarem sôbre Lobossi, Gambela, Matagja e os outros dois conselheiros ìntimos, e eu de um pulo acercar-me de Machauana o general em chefe, o homem que tinha ali acampados dez mil guerreiros, e gritar-lhe bem alto "¡Viva Munutumueno, rei do Lui, viva o filho de Chipopa!"

Uma revolução feita n'estes termos não podia deixar de dar bom resultado n'um paiz que ama as revoluções, e onde se faria a primeira em que não houvesse uma gôta de sangue derramado.

Acalentando este pensamento salvador, adormeci profundamente, para acordar, no dia 3, ao chamamento do meu muleque Catraio, que me vinha prevenir, de que Lobossi estava ali, e me queria falar.

Levantei-me e fui receber o rei. Elle vinha participar-me, que tinha mudado de parecer, e que tôdos os caminhos estavam livres para mim.

Que me daria guias até ao Quisséque, mas que, em vista das cousas que se estavam passando nos seus estados, não podia dar-me fôrça para me seguir, nem se responsabilizava por qualquér desastre que me podesse acontecer, indo eu com 58 homens apenas.

Agradeci-lhe aquella decisão, e declarei-lhe, que tinha por costume, só eu mesmo me responsabilizar pêla minha vida, e não tornar ninguem responsavel d'ella.

Antes de se retirar, fêz-me muitos pedidos, que ficáram sem satisfação, por não ter nada do que elle queria. Um dos pedidos que me fazia tôdos os dias, era o de seis cavallos. Tendo-me visto chegar a pe, e sabendo que eu não tinha cavallos, era impertinencia tal desejo.

Sube depois, que a nova decisão tomada por Lobossi fôra filha de reïteradas instancias do Machauana, que lhe mostrou a inconveniencia do passo que dava, fazendo-me sahir dos seus estados a pesar meu.

No dia 4, de manhã, estando um pouco melhor da febre, fui assistir a uma audiencia do rei, que se mostrou em extremo amavel para comigo. Logo ao nascer do sol, Lobossi sahi dos seus aposentos, e ao som de marimbas e tambores, dirige-se á grande praça, onde vai sentar-se junto a uma alta sebe semi-circular, cujo centro é occupado pêla cadeira real.

Por de traz d'elle senta-se a gente que compõe a côrte, e á sua direita Gambela e os outros conselheiros, se estam presentes.

Na frente do règulo, a 20 passos, a mùsica em linha, e aos lados, em muitas fileiras, o pôvo.

Ali tratam-se um certo nùmero de negocios, que não precisam ser tratados em conselho privado. Aquella audiencia é tambem judicial. N'aquelle dia tratava-se de um crime de furto. O queixoso chamou o accusado, que veio sentar-se em frente d'elle, e fez a accusação. O acusado negou o crime, e logo de entre o pôvo sahio um homem que veio advogar em favor do réo. Ali qualquér amigo ou parente pode defender o amigo ou parente.

Gambela tomou a palavra, e o accusado veio ajoelhar em frente d'elle; fêz-lhe varias perguntasse mandou-o embora.

Continuou o debate, comparecendo testemunhas de accusação e defesa. O crime foi provado, e o accusador pedio, que lhe entregassem a mulhér do ladrão; ficando indemnizado da perda de uns fios de missanga, objecto do roubo, pêla posse da mulhér.

Terminado este debate, apparaceu outro homem accusando a mulhér de lhe não obedecer. Esta accusação foi seguida de muitas outras semelhantes, e mais de vinte sùbditos de Lobossi fizéram amargas queixas contra as espôsas; demonstrando-me, que as mulheres em Lialui estavam em completa
revolta domèstica. Depois de alguma discussão, foi resolvido, que tôda a mulhér que não obedecesse cega e absolutamente ao marido, fôsse amarrada e mettida na lagôa, onde passaria uma noute só com a cabêça de fora.

Aprovada esta nova lei, Gambela ordenou a alguns chefes, que a promulgassem nas povoações.

Uma cousa muito curiosa n'aquellas audiencias é o modo porque Gambela conferenceia com o rei em segrêdo, diante de tôdos. A um signal de Gambela, começa a mùsica a tocar, e os oito batuques fazem uma bulha de tal modo infernal, que é impossivel perceber uma palavra das que trocam o rei e o ministro.

Em seguida á audiencia, o rei vai para um aposento proprio para se embebedarem.

V[~e]m panellas e panellas de capata, e elle e os seus prestam um verdadeiro culto ao deos Baccho. D'ali vai para a cama, e á tarde, depois de novas libações, dá nova audiencia. Logo que, ao anoutecer, termina a audiencia, vai comer, e segue para o serralho, d'onde raramente sahi antes da uma hora, e recolhendo a casa para dormir, vahi deitar-se ao som ruidoso dos tambores.

O cessar dos batuques annuncía que o règulo está recolhido, e então a guarda, composta de uns quarenta homens, começa a tocar uma mùsica, que, apesar de monòtona, é agradavel; e tôda a noute cantam um côro suave e harmonioso a meia voz. Esta mùsica que no Barôze acalenta o sono do soberano, serve para mostrar que a guarda vela em tôrno do seu aposento. N'estes poucos traços dou uma idéa resumida do viver monòtono do autòcrata Africano, viver repartido entre a lascivia tôrpe e a embriaguez brutal.

N'aquelle dia, 4 de Setembro, sube, que devia a vida a Machauana, que, em conselho privado, se opôz formalmente a que me mandassem assassinar; dizendo, que elle tinha estado em Loanda com Livingstone, e ali tinha sido muito bem tratado pêlos brancos, assim como os Luinas que o acompanhavam; e por isso não podia consentir que fizessem mal a um branco da mesma raça.

Chegou mesmo a ameaçar os poderes constituidos, o que era caso grave para elles; porque no Lui os ministros morrem sempre na queda dos ministerios; precaução tomada pêlos novos conselheiros, que com alguns golpes de azagaia cortam pela raiz as opposições.

Cá na Europa, algumas vêzes, procura-se denegrir a reputação dos antecessores, buscando desdoural-os aos olhos do pôvo, para lhes diminuir a fôrça moral como opposição. Eu acho mais nobre, mais digno e mais seguro o systema polìtico dos Luinas, o que não quer dizer que o recommende.

O conselho, em vista da attitude e das razões de Machauana, decidio, queeu não morrêsse; mas, parece que algum dos conselheiros por conta propria decidio o contrario; porque, n'essa noute, estando afastado do acampamento, preparando-me para tomar alturas da lua, uma azagaia de arremesso passou tão perto de mim que a aste vergastou-me o braço esquêrdo. Olhei para o lado d'onde partira a arma, e vi um prêto a vinte passos, empunhando outra. Tirar o revólver e fazer fôgo sôbre elle, foi acto mais instinctivo do que pensado. Ao estampido do tiro, o assassino virou costas e correu em direcção a Lialui. Corri sôbre elle. Sentindo-me no encalço, o prêto deitou-se por terra. Receei uma cilada, e foi a passos medidos que me approximei d'elle, prompto a fazer fôgo.

Vi que o membrudo indìgena estava de bruços com as azagaias cahidas ao lado.

Peguei-lhe n'um braço, e ao tempo que senti as carnes estremecerem ao contacto da minha mão, senti um lìquido quente correr-me por entre os dêdos. O homem estava ferido. Fil-o erguer, e elle disse-me, tranzido de mêdo, umas palavras que eu não entendi. Apontando-lhe o revólver, obriguei-o a acompanhar-me ao acampamento.

Ali não fizera sensação o tiro de revólver, porque tôdas as noutes se ouvem mais ou menos tiros. Chamei dous muleques de confiança, e entreguei-lhe o meu prisioneiro, cuja ferida examinei. A bala entrara junto á cabêça superior do hùmero direito, perto da clavìcula, e não tendo sahido, suppuz estar fixa na omoplata. Não lhe apparecendo sangue nas vias respiratorias, calculei que o pulmão não tinha sido offendido, assim como o fio de sangue que corria da ferida, pêla sua tenuidade me mostrava que nenhum dos vasos importantes da circulação tinha sido cortado. N'estas condições a ferida não apresentava gravidade, pêlo menos de momento.

Depois de lhe fazer um ligeiro curativo, mandei chamar o Caiumbuca, e ordenei-lhe que me acompanhasse a casa do rei, fazendo com que os muleques conduzissem para ali o ferido.

Lobossi tinha voltado de casa das amantes, e conversava com Gambela antes de se deitar. Apresentei-lhe o ferido e perguntei-lhe o que era aquillo. O rei mostrou um grande terror, vendo-me coberto de sangue do assassino, que eu nem tinha lavado; e um olhar trocado entre Gambela e o ferido, mostrou-me quem tinha sido a cabêça que enviara aquelle braço. Lobossi mandou logo retirar d'ali o prêto, e disse-me, que aquillo era um grande agouro, e que ja não durmiria aquella noute socegado.

Narrei o acontecido, e Gambela apoiou muito o que eu tinha feito, lastimando que eu não tivesse morto o prêto, e dizendo-me, que ia matar meio mundo.

O prêto era desconhecido em Lialui, e os da guarda de Lobosi disséram nunca o terem visto. Lobossi pedio-me, que guardasse sôbre o facto o maior segrêdo, assegurando-me, que não me acontecia outra em quanto estivesse nos seus estados.

Eu voltei ao campo mais desconfiado que nunca das amabilidades de Gambela.

Por noute fora, senti que alguem tentava penetrar na minha barraca, e puz-me a pe sem ruido, prompto a sorprender aquelle que julgava fazer-me sorpresa.

A pessôa era de certo conhecida, porque a minha cadella Traviata não ladrava, e fazia festas com a cauda para o ponto por onde alguem se introduzia de rastos.

Esperei um momento, e ao clarão da fogueira conheci a prêta Marianna, que, com meio côrpo dentro da barraca, me fazia signal para que entivesse calado.

Entrou, achegou-se a mim e disse-me: "Toma cautela. O Caiumbuca atraiçôa-te. Depois que voltou com-tigo de casa do rei, tornou a Lialui a falar com Gambela; e logo que chegou aqui, reunio com muito socêgo a gente de Silva Porto, e estêve a falar com elles na barraca d'elle. Eu fui escutar, e ouvi falar em te matarem. O Verissimo tambem la estava. Elles disséram, que como tu não entendias a lìngua do Lui, quando tu lhes dissesses uma cousa para dizer ao rei, elles diriam outra, e te dariam tambem a resposta trocada, que assim haviam de fazer com que o rei te matasse.

"Toma cautela, olha que elles sam muito maos."

Agradeci muito á pequena o aviso e dei-lhe o ùnico collar de missanga que me restava, e que eu reservava para uma das favoritas de Machauana.

A declaração da Marianna, veio ferir-me profundamente. Os homens em que eu confiava eram os primeiros a atraiçoar-me.

Mil pensamentos tristes, que não conseguíram alquebrar-me o espìrito, produzíram uma noite de insomnia. É verdade, que a prevenção de Marianna veio dar-me uma vantagem enorme sobre elles, que ignoravam que eu lhes conhecia a traição nos seus detalhes; e de manhã ao levantar-me, eu repetia a mim mesmo o rifão Portuguez, de que "um homem avisado vale por quatro."

Gambela foi visitar-me, e repetio-me mil protestos de amizade; mas eu presentia que o perigo pairava em tôrno de mim, e que a espada de Damocles estava suspensa sôbre a minha cabêça.

N'esse dia entreguei a Gambela as cartas para o governador de Benguella, e a comitiva do rei do Lui, commandada por três chefes Luinas e guiada pêlo velho Antonio de Pungo Andongo, seguio caminho da costa.

Com ella fôram os Bihenos que me haviam abandonado. Estava satisfeito com aquelle primeiro resultado obtido; e se os meus trabalhos se perdêssem e mais nada fizesse, o ter posto um pôvo tão poderôso em relações com a civilização Europea da costa, era ja um resultado importante da minha viagem.[2]

A revelação feita n'essa noute por Marianna trazia-me preoccupado, e eu só pensava no meio de parar o golpe que me feria, com a traição d'aquelles em que eu mais confiava.

Formei um plano que decidi pôr em pràtica n'esse mesmo dia.

A narrativa dos repetidos e graves acontecimentos que se déram comigo depois da minha chegada ao Lui, não me tem deixado falar dos povos Luinas e seus costumes.

Em logar de encontrar ali essa raça forte e vigorosa, creada por Chibitano, e que existio com o imperio Macololo, fui deparar com uma raça abastardada, misto de Calabares, Luinas, Ganguelas e Macalacas, que t[~e]m unido o seu sangue marcando cada cruzamento uma pègada de decadencia. O uso immoderado do bangue ou cangonha (Cannabis Indica), a embriaguez e a syphilis, t[~e]m lançado aquelle pôvo no mais abjecto embrutecimento moral, e enfraquecimento physico.


Figura 97.--Cachimbos de fumar o Bangue.

O primeiro d'aquelles três grandes inimigos da raça prêta chegou-lhe do sul e leste pêlo Zambeze; os dois outros fôram ali importados pêlos Bihenos, que lhe trouxéram ainda outro inimigo não menos terrivel, o tràfico da escravatura.

Poucos paizes Africanos leváram tão longe como os Luinas a pràtica da polygamia. ¡Gambela, á èpocha da minha estada no Barôze, tinha mais de setenta mulheres!

O Lui, ou Barôze propriamente dito, isto é, o paiz que fica ao norte da primeira região das cataractas, compõe-se, da enorme planicie onde corre o Zambeze, que tem de 180 a 200 milhas do N. a S., e por vêzes, de 30 a 35 O. a E., planicie elevada 1,012 metros ao mar; do paiz mais elevado a leste, onde assentam innùmeras povoações, que v[~e]m estabelecer as suas culturas na grande planicie; e ainda na enorme planura do Nhengo, onde corre o Ninda. A planura do Nhengo é separada do leito do Zambeze por uma nervura de terreno elevado de 20 metros, que corre parallela ao rio, e onde estam muitas povoações, livres das maiores cheias.

Durante o tempo das grandes chuvas, a planicie do Zambeze é inundada, e eu medi em algumas àrvores onde tinham ficado signaes do maior nivel das àguas três metros.

No parallelo 15^o tem ella uma largura de trinta milhas, e por isso, na èpocha das cheias, calculando uma corrente mìnima de 20 metros por minuto, devem passar ali 240 milhões de metros cùbicos d'àgua por hora. Isto dá uma medida do que sam as chuvas na Àfrica tropical, acrescentando-se, que regularmente a inundação atinge o seu màximo em oito dias.

O pôvo Luina, que em grande parte vive na planicie, retira para o paiz montanhoso durante as inundações.

Ao retirar das àguas, volvem a occupar as povoações abandonadas na invernía, e cobrem o campo com os seus rebanhos enormes, que, diga-se a verdade, não encontra ali um pasto viçoso em èpocha alguma do anno; porque os prados sam formados, pêla maior parte, de caniçal, onde abunda uma especie do Calamagrostis arenaria.

As culturas sam feitas mais na margem direita do que na esquerda do Zambeze, e sempre junto das encostas.

A inundação deixa na planicie um sem-nùmero de pequenas lagôas, que se atulham de vegetação aquàtica, e que sam outros tantos focos miasmàticos de infecção palustre. Ha èpochas no anno em que os proprios indìgenas sam fortemente atacados pelas febres endèmicas.

Nas lagôas abunda peixe e ha muitos batràchios.

É d'estas lagôas que se fornecem de àgua potavel os indìgenas, mas é preciso confessar, que elles só a bebem depois de transformada em Capata.

Os Luinas sam pouco agricultôres, e muito pastôres. Os seus rebanhos constituem a sua principal riqueza, e no leite das vacas encontram o seu principal alimento.

O haver do Luina consiste em algumas vaccas e algumas mulheres.

O leite frêsco e o leite azêdo (coalhado) sam, com a batata dôce, a base da sua alimentação. A farinha de milho é empregada para fazer a Capata, de mistura com a de massambala, principal cultura do paiz.

Os Luinas fabricam o ferro, e tôdas as suas armas e tôdos os seus utensilios, sam feitos no paiz. Não usam facas, e não podemos deixar de nos admirar das esculpturas que fazem em madeira, sabendo que não empregam facas, e mais ainda, logo que conheçamos o instrumento com que trabalham. No Lui, onde o machado termina a obra grossa de desbaste, começa a obra da azagaia. O ferro d'esta é instrumento para tudo. Os bancos onde se assentam, as escudellas em que comem as vasilhas do leite, e tôdos os seus utensilios de madeira, sam cortados com ella.


Figura 98.--Vasilha para leite feita de Madeira.

Entre elles ha um primorosamente trabalhado, em geral, e é a colhér. Vivendo de leite, o Luina não pode prescindir da colhér, e dispensa a faca. O seu systema de alimentação explica a falta d'esta e o muito uso d'aquella.


Figura 99.--Objecto de Ferro forjado que serve de Lenço de assoar aos Luinas.
Especie de Espàtula.


Figura 100.--Pratos e Escudellas para a comida.


Figura 101.--Colhér.


Figura 102.--Machado de cortar Madeira.

A industria ceràmica limita-se no Barôze á fabricação de panellas para cozinha, para a capata, e grandes talhas de barro para guardar cereaes. Àlém d'isto, fornalhas para os cachimbos de fumar o bangue.



Figura 103.--Artigos de Barro.
1. Panellas de cozinha.
2. Tálha de guardar cereaes.
3, 3. Fornalhas dos cachimbos.

O Luina só fuma o bangue; o muito tabaco que cultivam é empregado exclusivamente para cheirar, e d'elle fazem grande uso homens e mulheres. É este o pôvo mais coberto que encontrei em Àfrica. É raro ver-se ali um homem ou mulhér despidos da cintura para cima. Os homens, como ja disse no capìtulo anterior, usam umas pelles passadas em um cinto, que pendem adiante e atraz, chegando até aos joêlhos. Um manto de pelle, que posto, assemelha as capas do tempo de Henrique 3^o, cobre-lhes o tronco e cahi-lhes até meia perna.

Um largo cinto de couro, independente do que lhes segura as pelles da cinta, muitas manilhas e muitos amulêtos, completam o seu trajar. As mulheres trajam um saio de pelles, que adiante chêga ao joêlho, e atraz desce até ao grôsso da perna. Sôbre o saio um largo cinto enfeitado de buzio (caurim). Um pequeno manto de pelles, muitas missangas ao pescôço e muitas manilhas nos braços e pernas, sam o vestuario do paiz. Vemos hôje muitas indìgenas substituindo as pelles por estôfos Europêus, os capotes por cobertores de algodão, e mesmo tôdo o trajar gentìlico, por o fato do homem civilizado; mas eu aqui não curo das excepções, falo no traje primitivo do paiz, e não nas innovações que o commercio ali tem levado. É preciso contudo revelar, que este pôvo tem uma tendencia manifesta para se vestir. De certo, antes da invasão dos Macololos, os Luinas deviam andar muito pouco cobertos. Os povos Chuculumbes, seus vizinhos de leste, andam completamente nús, homens e mulheres. A oeste os Ambuelas fôram tambem encontrados nús, pêlos primeiros sertanejos Portuguezes que ali se aventuráram,[3] e ainda hôje não se cobrem muito.


Figura 104.--Homem Luina.

O trajar dos Luinas que eu descrevi, é o mesmo usado outróra pêlos Macololos, e por isso é de crer que fôsse introduzido por elles.

Essa tendencia, que eu faço notar, d'este pôvo para se vestir, deve merecer a attenção do commercio, e é uma tendencia a explorar em beneficio d'elle, dos indìgenas e da civilização.


Figura 105.--Mulhér Luina.

As mulheres nobres, e em geral as ricas, untam o côrpo com manteiga de vacca misturada de talco em pó, que lhes dá á pelle um lustro avermelhado, e ao mesmo tempo um cheiro desagradabilissimo.

Entre os Luinas encontram-se muitas espingardas de fulminante, de fàbrica Ingleza, levadas ali pêlos sertanejos do sul, e outras de silex Belgas, vindas do commercio Portuguez de Benguella; mas os indìgenas, ao contrario do que acontece, com tôdos os povos da costa de Oeste até ao Zambeze, preferem as armas de fulminante, e alguns ha, que só querem ja carabinas raiadas. Não usam cartuxo como os Bihenos e povos circumvizinhos d'estes, e trazem a pòlvora sôlta em cornos, ou em cabaças. As armas do paiz sam azagaias, porrinhos, e machadinhas. Não usam frechas.


Figura 106.--Azagaias Luinas.


Figura 107.--Machadinhas de guerra.


Figura 108.--Porrinho.

T[~e]m por arma defensiva grandes escudos ogivaes, de couro de bôi armados em madeira. Cada homem traz, em geral, de cinco a seis azagaias de arremêço.

Os ferros d'estas azagaias, sem serem envenenados, não sam por isso menos terriveis; devido ás barbas desencontradas que lhes fazem, de modo que, na maior parte dos ferimentos, é preciso matar o ferido para lh'-as arrancar do côrpo.

O que eu vi usarem os Luinas, e mostrou a preferencia que t[~e]m, fôram as missangas chamadas no commercio de Benguella, missanga leite, azul celeste e Maria 2^a.

Os cassungos finos, branco, azul e encarnado, sam tambem estimados.

Fazendas tôdas sam bôas para o Lui, preferindo elles as melhores. O arame de latão, de três a quatro milìmetros de diàmetro, tem valor, e a roupa feita, cobertôres, armas de percussão, fulminantes, pòlvora, chumbo em barra, e artigos de caça, sam ali cotados em subido prêço.

Em tôdo o paiz o commercio é feito exclusivamente com o règulo, que faz d'elle monopolio; pertencendo-lhe tôdo o marfim que se caça nos seus estados, e tôdos os gados dos seus sùbditos, a quem elle os pede quando precisa. Das fazendas, armas e outros artigos que permuta, faz presentes aos seus caçadores, chefes de povoação, côrte, etc.

As mulheres gozam de bastante consideração, e entre a nobreza não fazem nada, passando a vida sentadas em esteiras, a beber capata e a cheirar tabaco. Possúem muitos escravos, pêla maior parte Macalacas, que as servem.

Os grandes rebanhos dos Luinas, sam de bôis de uma raça magnìfica, e mesmo as suas gallinhas e cães sam de melhores raças do que os que encontrei até ali.

O valle do Barôze está cercado por éste a sul da terrivel mosca zê-zê, o que os obriga a concentrarem os gados na planicie, e torna difficil a sahida d'elles, a não ser para oeste no caminho de Benguella, tôdo limpo do prejudicial diptéro.

Eis em curto resumo o que eu vi d'esse paiz, que primeiro, antes da invasão de Chibitano, foi visitado por um Portuguez (Silva Porto), que foi visto depois por David Livingstone, debaixo do imperio dos Macololos, e que eu encontrei em condições bem differentes, sôb a dinastia Luina, em 1878.

Retomando a narrativa das minhas tristes aventuras, no dia 5 de Setembro, dia seguinte ao da revelação de Marianna, resolvi fazer com que os traidôres fôssem trahidos por um dos seus, e lancei as minhas vistas sôbre Verissimo Gonçalvez.

Chamei-o á minha barraca, e mostrei-lhe antes de lhe falar, a copia de uma carta apòcrypha, escrita para Benguella, em que eu dizia ao governador, que, tendo desconfianças de Verissimo, lhe pedia que mandasse prender a mulhér, o filho, e a mãe d'elle, e se acaso acontecesse eu ser vìctima de alguma traição, as mandasse para Portugal, onde eu disse ao Verissimo que os meus parentes as fariam queimar vivas.

Depois d'este exordio, assegurei-lhe, que aquella carta fôra escrita como simples prevenção, porque eu confiava plenamente na sua dedicação por mim; mas que essa dedicação tinha de estar vigilante, porque eu desconfiava levemente do Caiumbuca, e se me acontecêsse alguma desgraça, eu não poderia evitar os horrores que estavam reservados aos entes que lhe eram caros. Disse-lhe sobre tudo, desconfiava que Caiumbuca não transmittia ao rei o que eu lhe dizia, assim como me dava transtornadas as respostas de Lobossi. Que elle deveria estar sempre presente nas minhas entrevistas com Lobossi, e dizer-me em Portuguez (Caiumbuca não falava Portuguez) o que elle dizia ao rei.

Verissimo, embaraçado, disse-me, que eu não me enganava, e contou-me tudo. Eu preveni-o, que não deixasse perceber nada a Caiumbuca, e que me tivesse ao corrente do que elle tramava.

N'essa tarde, Lobossi mandou-me dizer, que estava prompta a gente que me devia acompanhar, para eu seguir para a costa de Moçambique, e por isso podia partir quando eu quizesse.

Eu estava um pouco melhor, e desde a minha chegada ao Zambeze, ainda não tinha passado tão bem como n'esse dia.

O meu acampamento era muito grande, porque os Quimbares se haviam dividido pêlas barracas dos Quimbundos depois da sahida d'estes. O centro era um largo circular, de não menos de cem metros de diàmetro. A um lado, dentro da fila das barracas, ficava a minha barraca, cercada por uma sebe de canas, que fechava um recinto, onde só entravam os meus muleques de serviço.

Era a 6 de Setembro. O thermòmetro durante o dia tinha marcado com persistencia 33 graos centìgrados, e o calor reflectido pêla areia tinha sido incòmmodo.

A noute apresentou-se serena e frêsca, e eu, sentado á porta da minha tenda, pensava no meu Portugal, nos meus e nos amigos, no futuro da minha emprêsa, tão ameaçada ali, e ora alegre ora triste, não perdia a fé e esperava. O acontecimento da ante-vèspera vinha pairar como nuvem nêgra sôbre o ceo lìmpido da esperança.

Os meus Quimbares, recolhidos nas barracas, conversavam junto das fogueiras, só eu estava fora. De sùbito prendeu-me a attenção um sem-nùmero de pontos luminosos que vi atravessarem o espaço.

Sem saber ao principio explicar o que seria aquillo, tive um presentimento, e sahi do cercado de caniço que rodeava a barraca.

Logo que cheguei fora, tudo me foi revelado, e um grito pungente de angustia suprema escapou-se-me da garganta.

Alguns centos de indìgenas cercavam o acampamento, e lançavam achas ardentes sôbre as barracas cobertas de herva sêca.

Em um minuto o incendio, ateado por um vento forte de este, tomava incremento horrivel. Os Quimbares sahiam espavoridos das barracas incandescentes, e pareciam loucos.

Augusto e a gente de Benguella reuníram-se em tôrno de mim. Em presença de um perigo tão terrivel, aconteceu-me o que por mais de uma vez me tem acontecido em iguaes circunstancias. Fiquei sereno e tranquillo de espìrito, pensando só em lutar e vencer.

Gritei á minha gente, semi-louca de se ver apertada em um cìrculo de fôgo, e consegui reunil-a no meio do espaço interior do campo.

Á frente de Augusto e dos muleques de Benguella, entrei na minha barraca em chamas, e consegui tirar d'ali as malas dos instrumentos, os meus papéis e trabalhos, e a pòlvora. A esse tempo as barracas abrazavam tôdas, mas o fôgo não podia attingir-nos. Verissimo estava a meu lado, inclinei-me para elle e disse-lhe, "Eu defendo-me aqui por muito tempo, passa por onde poderes e como poderes, e vai a Lialui dizer a Lobossi que a sua gente me ataca, diz tambem a Machauana o perigo que côrro."

Verissimo correu ás barracas em chamas, e eu vi-o desapparecer por entre as labaredas. A esse tempo ja as azagaias ferviam em tôrno de nós, e ja haviam alguns ferimentos graves, entre elles um do prêto Jamba de Silva Porto, que tinha uma azagaia cravada no sobrolho direito. Ás azagaias respondiam os meus Quimbares com as balas das carabinas, mas o gentio avançava sempre, e ja entrava no acampamento, onde as barracas consumidas não offereciam barreira insuperavel. Em tôrno de mim, que desarmado segurava a bandeira da minha patria, estavam batendo-se como verdadeiros bravos os meus valentes Quimbares. ¿Estavam tôdos? Não. Faltava ali um homem, um homem que deveria estar ao meu lado e que ninguem tinha visto. Caiumbuca, o meu immediato, desapparecêra!


Figura 109.--Ataque contra o acampamento no Lui.

Ao amortecer do incendio, eu vi que o perigo era real e enorme. Eram cem contra um.

Parecia a imagem do inferno ver aquelles vultos nêgros, que com estridente grita pulavam ao clarão das chamas, avançando para nós cobertos com o alto escudo e brandindo as puidas azagaias. Foi um combater encarniçado em que as carabinas de carregar pêla culatra, pêlo seu fôgo sustentado, continham em respeito aquella horda selvagem.

Contudo eu calculava que o têrmo do combate não estava longe, porque as munições desappareciam ràpidamente; eu só tinha no comêço quatro mil tiros para as carabinas Snider, e vinte mil para as armas de carregar pêla bôca, mas não seriam essas as que me defenderiam; e logo que o fôgo abrandasse, por faltarem as armas de carregamento ràpido, serìamos esmagados pêlo gentio desvairado. O meu Augusto, que parecia um leão raivoso, chegou-se a mim com suprema angustia, mostrando-me a carabina, que acabava de rebentar. Disse ao meu muleque Pépéca, que lhe entregasse a minha carabina de elephante e a cartuxeira. Augusto correu para a frente, e fez fôgo para onde o grupo do gentio era mais compacto. Um momento depois, a grita infernal dos assaltantes tomou um tom differente, e virando costas, tomáram elles precipitada fuga.

Só no dia seguinte, pêlo rei Lobossi, eu devia saber o que produzira um tal reviramento. Fôram os tiros do meu Augusto.

Na cartuxeira de que elle lançou mão havia balas carregadas de nitro-glicerina.

O effeito d'estas, fazendo desapparecer em bocados, pêla explosão, as cabêças e os peitos em que acertavam, produzio o pànico no meio d'aquelle gentio ignaro, que vio n'uma coisa nova para elle, um feitiço irresistivel.

Foi a Providencia que me quiz valer.

Conheci que estava salvo. Meia hora depois, appareceu-me o Verissimo, com uma grande fôrça capitaneada por Machauana, que vinha em meu soccôrro, por ordem do rei Lobossi. Lobossi mandava dizer-me, que era estranho a tudo, e que, provavelmente, o seu pôvo, sabendo que eu fôra ali para os atacar de combinação com os Muzungos de leste, que estavam com Manuanino, fizéram aquillo por sua conta; mas que elle ia tomar as mais vigorosas providencias para eu não soffrer mais aggressões. Tudo aquillo, se não foi ordenado por elle, foi por Gambela.

Verissimo, vendo os desastres do combate, perguntou-me ¿o que haviamos de fazer? e eu respondi-lhe com as palavras de um dos maiores homens Portuguezes dos ùltimos sèculos:--"Enterrar os mortos, e tratar dos vivos."

No incendio soffrémos perdas graves, mas mais graves eram as pêrdas de vidas por tão insòlito ataque. A bandeira Portugueza estava furada das azagaias selvagens, e salpicada do sangue dos bravos; mas as manchas que tinha, só serviam para fazer realçar a sua pureza immaculada; e mais uma vez, longe da patria, e por terras ignotas, tinha-se sabido fazer respeitar, como sempre o soube, e como sempre o saberá.

Depuz as armas de soldado, para me improvisar em cirurgião cuidadoso, e o resto da noute foi passado a curar os feridos e a alentar os sãos, sempre apercebido e vigilante, apesar dos novos protestos do rei Lobossi.

Logo que amanheceu, fui procurar o rei, e falei-lhe àsperamente sôbre o acontecimento da noute. Tornei-o, diante do seu pôvo, responsavel pêlas desgraças d'aquella noute; e disse bem alto, que aquelles que tivessem a chorar a perda de parentes, só a elle deviam lançar culpas.

Disse-lhe, que queria seguir sem perda de tempo, e annunciei-lhe, que ia estabelecer o meu campo nas montanhas, onde podesse com vantagem resistir a um nôvo ataque.

Elle teimou muito comigo, para lhe dar ou ensinar o feitiço que eu tinha empregado na vèspera, fazendo com que os prêtos rebentassem por si. Era assim que elles explicavam o caso funesto das balas explosivas inconscientemente empregadas por o meu Augusto.

Apesar da muita vontade que eu tinha de deixar a planicie e ir para as montanhas, não pude realizar esse desejo senão a 9, por causa do estado dos feridos; e no dia 7 e 8, lutámos com a fome; porque ninguem nos quiz vender de comer, e o rei dizia, que nada tinha para me dar. Fôram as lagôas que fornecéram abundante pesca e alguns patos muito magros. Machauana mandou-me leite, e continuou a mostrar-me a maior dedicação. Foi, como disse, a 9 que deixei a planicie e alcancei as montanhas perto de Catongo, chegando tôdos, feridos e sãos, no maior estado de fraqueza.

O nôvo systema adoptado, de nos matarem pêla fome, preoccupou-me, e dava-me sèrios cuidados n'um paiz sem caça.

Tinha-mos, é verdade, a pesca das lagôas.




CAPÌTULO X.

A CARABINA D'EL-REI.


A traição--Perdido--A Carabina d'El-Rei--Miseria--Novas scenas com o rei Lobossi--Partida--No Zambeze--Caça--Moangana--O Itufa--As pirogas--Sioma--Cataracta de Gonha--Bellezas naturaes--O basalto--A região das cataractas superiores--Balle--Bombué--Na foz do rio Gôco--Cataracta de Nambue--Os ràpidos--Viagem vertiginosa--Catima Moriro--Quisseque--Eliazar--Carimuque--O rio Machila--Muita caça--Tragedia--Embarira.


Depois de marcha de 15 milhas, acampei na floresta que cobre os flancos das montanhas de Catongo. Marcava esta aldea a S.E. uma milha distante do sitio que escolhi para acampar.

Junto do meu campo havia uma pequena aldeola, onde eu mandei pedir de comer. Algumas mulheres viéram vender pouca cousa a trôco dos invòlucros metàlicos dos cartuxos queimados das carabinas Winchester.

Depois de construido o campo, fomos pescar nas lagôas pròximas, e tirámos algum peixe, que se comia cozido em àgua sem sal.

De Caiumbuca não havia noticias, e eu convencia-me que elle tinha partido com a gente que retrocedêra ao Bihé; quando n'essa tarde me viéram dizer, que elle estava no acampamento, e me queria falar.

Apresentou-se, dizendo que fôra acompanhar a comitiva de Lobossi, que seguira com o prêto Antonio, porque tinha de mandar prevenir a gente da sua libata no Bihé, de que tinha muita demora ainda no sertão, pois seguia comigo para a costa de leste.

Eu fiquei perplexo, e sem saber o que deveria fazer com relação a elle; e depois de pensar um momento, resolvi aceitar a desculpa da ausencia d'elle na noute do combate, e não lhe mostrar que tinha perdido a minha confiança, e que sabia da sua projectada traição. Elle pedio-me para regressar n'essa noute a Lialui, dizendo, que voltaria no dia immediato com a gente que Lobossi me deveria mandar, para eu seguir para Quisseque, logo que o estado de alguns feridos m'o permittisse.

Disse-lhe, que pedisse ao rei para mandar-me dar mantimentos, a menos que não quizesse que morrèssemos á fome no seu paiz.

Caiumbuca partio sem falar a ninguem da minha gente.

No dia 10, continuei a mandar pescar nas lagôas para ter que comer e os meus.

Passei o dia trabalhando; e tendo para o lado de oeste um horizonte sem fim, onde, como em pleno mar, o espaço azulado vinha unir-se á terra em cìrculo enorme, lembrei-me de determinar a variação da agulha magnètica pêla amplitude, mèthodo mais simples do que o dos azimuthes, que eu tinha sido forçado a empregar até então.

Preparei a agulha de marcar, e estava dispondo-a para a observação, muito antes de tempo, porque o sol estava ainda elevado do horizonte uns dez graos; quando um phenòmeno curiosissimo se deu na atmosphera. Estava ella lìmpida, de um azul um pouco carregado mas sem uma nuvem, sem um extracto no horizonte. De repente o limbo inferior do sol começou a perder a sua forma circular, e a desapparecer lentamente, como se eu observasse um occaso no oceano; e isto dez graos acima do horizonte, por ceo na apparencia limpo, como ja disse. Só depois do seu completo desapparecimento é que se podia mal perceber, pêlo feixe de luz que em leque se espargia no ceo, uma barra de extractos, tão iguaes em côr ao azul da atmosphera, que a vista mais apurada a confundiria com ella; parecendo que a limpidez do firmamento não era interrompida até ao horizonte. Algumas vêzes mais observei igual phenòmeno, mas não a tanta altura, nem tão perfeitamente definido.

Como eu esperava, n'esse dia, não me appareceu, nem Caiumbuca, nem a gente que Lobossi devia mandar-me.

Na noute de 10 para 11, eu queria observar um reapparecimento do 1^o satèlite de Jùpiter, que deveria ter logar pròximo da meia-noute; e como eu não quizesse perder essa observação, por encontrar grande differença em longitude na posição do Zambeze, recomendei ao Augusto, que me chamasse quando a lua estivesse na altura que lhe indiquei, o que correspondia ás 11 horas; e cheio de fadiga, deitei-me cêdo, e adormeci profundamente; esperando que Augusto velasse, depois da instante recommendação que eu lhe tinha feito. Por noute fora acordei ao chamamento de Augusto, e acordei sem sobresalto, julgando ser a hora indicada por mim; mas, logo que respondi ao meu fiel nêgro, elle disse-me, cheio de commoção: "Senhor, estamos atraiçoados; a gente fugio tôda, e roubáram tudo."

Levantei-me, e sahi da barraca.

O acampamento estava deserto.

La fora, Augusto, Verissimo, Camutombo, Catraio, Moêro e Pépéca, e as mulheres dos muleques, estavam silenciosos e pasmados olhando uns para os outros.

Não pude conter uma gargalhada.

O que me admirava ali, era ver Augusto, o Verissimo e Camutombo ao pe de mim.

Era tão crìtica a minha posição, vivendo no meio de tantas miserias, rodeado de tantos perigos, que não sei mesmo quem n'elles quereria ser meu socio. Ànimos mais fortes e espìritos mais enèrgicos do que os dos prêtos que acabavam de fugir, não teriam querido partilhar da minha sorte.

Sentei-me, rodeado das oito pessôas que haviam ficado e puz-me a indagar o succedido. Queria pormenores que ninguem me dava. A gente tinha fugido tôda, sem que algum dos presentes a presentisse. Os cães, habituados com elles, não ladráram. O Pépéca foi passar revista ás barracas, e nada encontrou.

As poucas cargas que tinham ficado á porta da minha barraca, e que consistiam em pòlvora e cartuxos, haviam desapparecido.

Fugíram roubando a minha propria miseria. Só me restava o que havia dentro da minha barraca. Eram os meus papéis, os meus instrumentos, e as minhas armas; mas armas de nenhum valor, porque uma das cargas roubadas continha os meus cartuxos, e sem elles de nada serviam.

Fui sem detença fazer inventario do meu miseravel haver, e achei-me com trinta tiros de balas d'aço para a carabina Lepage, e com vinte e cinco cartuxos de chumbo grosso da espingarda Devisme, que de pouco ou nada serviam. Era tudo quanto possuia.

Não pude deixar de curvar a cabêça ante este ùltimo golpe que me feria, e um atroz confrangimento de coração trouxe-me, pêla primeira vez em Àfrica, o presentimento de que estava perdido. Estava no centro d'Àfrica, no meio da floresta, sem recursos, dispondo de trinta balas apenas, quando só da caça poderia viver e só a caça me poderia salvar; e tinha em tôrno de mim só três homens, três crianças e duas mulheres!

Augusto exprobrava-se o ter adormecido, quando eu o mandara velar, e entrou n'um furor louco, querendo ir na pista dos fugitivos e matar tôdos. Custou-me a conter a ira feroz do meu prêto fiel; e sem consciencia do que dizia, sem a menor convicção nas palavras que proferia, ordenei-lhes que se fossem deitar, que não receiassem nada, porque eu remediaria tudo. Eu ficaria de véla. Recolhidos ás barracas, eu fiquei junto da fogueira, quasi inconsciente e sem fôrças. O abalo moral tinha despedaçado o côrpo, já fortemente abatido pêlas febres. Sentado, com os braços encostados nos joêlhos e a cabêça encostada ás mãos, eu olhava fito para a crepitação da chama, sem ter um pensamento, sem uma idéa, em perfeito estado de imbecilidade. Contudo, o instincto filho do hàbito, fêz-me sentir, que estava desarmado; chamei o meu muleque, e sem ter consciencia d'isso, pedi-lhe uma arma. Elle entrou na barraca e trouxe-me uma, que eu, sem reparar, colloquei sôbre os joêlhos.

Durou muito tempo aquelle estado de abatimento, até que as idéas principiáram a vir mostrar-me os horrôres da minha posição. Havia muitos mêzes, que eu caminhava ávante, pobre e sem recursos; havia muito tempo que eu contava ùnicamente com a caça para sustentar a minha caravana. Essa idéa perfeitamente arraigada no meu espìrito, tinha-me dado sempre a fôrça de seguir, de ter fé e de esperar. De repente sentia em mim um vazio enorme. A idéa tinha cahido por terra, e desapparecido com a caixa que continha os meus tiros, o meu thesouro, o meu ùnico recurso.

Deve ser ao encarar uma posição como a minha que o homem se suicida.

Com aquella pungente agonia que me dilacerava a alma, deixei pender a cabêça e os meus olhos fixáram-se na carabina que eu tinha pousada nos joêlhos. Olhei, a talvez meio minuto, e uma idéa atravessou-me o espìrito. De um salto entrei na barraca, e corri a levantar as pelles do meu leito, debaixo das quaes, para levantar a malinha que me servia de travesseiro, estava um estôjo de couro, rectangular, baixo e comprido.

Foi com mão febril que abri aquelle estôjo esquècido, e apalpei trèmulo os objectos que elle continha. As idéas occorriam-me de nôvo em tumulto. Deixei o estôjo, e abri a mala dos instrumentos, onde a caixa do meu sextante Casella estava entalada por duas latas, que senti debaixo da mão com que apalpava. Sahi precipitadamente da barraca e do acampamento, e corri ao mato, onde de dia tinha posto a enxugar o meu grande tresmalho, depois da pesca. A rêde estava estendida, e tensa pêlo peso do chumbo que lhe envolvia a tralha.

Apalpei phrenètico aquelle chumbo, e colhendo a rêde voltei ao campo, curvado ao pêso d'ella. Cheguei junto á fogueira, e depuz no chão o meu fardo.

Quem visse o que eu tinha feito havia alguns minutos, julgarme-hia louco, e louco estava eu de contente.

O avaro devorando com os olhos àvidos de cubiça o thesouro que empobrece a sua miseria, não deve ter na vista expressão differente da que eu tinha a olhar para aquella carabina. É que ella para mim era a vida, a salvação, e tudo. É que ella para o meu paiz era uma expedição coroada de èxito; era a realização de um voto formulado por elle no seu parlamento; era o bom èxito obtido, tanto mais meritorio, quanto mais estorvado.

A arma que afagava nas mãos, como afagaria uma filha estremecida, a arma que me ia salvar, e comigo a expedição atravez d'Àfrica, era a Carabina d'El-Rei.

No estôjo d'aquella arma havia apparêlhos para fazer balas, e tudo o necessario para se carregarem os cartuxos, logo que existissem os invòlucros metàlicos, cada um dos quaes, pêlo seu systema de construcção, pode servir muitas vêzes. Uma pequena caixa, que vinha no estôjo ja quando El-Rei me offerecêra o valioso presente, continha quinhentos fulminantes.

As idéas que se succediam em mim quando me lembrei d'aquelle recurso, trouxéram-me a reminiscencia de duas latas de pòlvora que eu desde Benguella empregava, á falta de cousa melhor, para entalar a caixa do sextante dentro da mala. Faltava o chumbo, mas a minha rêde de pesca ia fornecer-m'-o.

Assim, pois, eu podia dispor de alguns centos de tiros; e com alguns centos de tiros sentia-me com fôrça de criar recursos n'esse paiz de caça.

O resto da noute foi para mim como manhã bonançosa depois de noute de temporal.

Ao alvorecer, ainda não tinha formado um plano, mas estava tranquillo e confiante.

Mandei chamar o chefe da aldeola pròxima, e convenci-o a mandar dois homens a Lialui contar o succedido ao rei Lobossi; disse-lhe tambem, que ia mudar o meu campo para mais pròximo da aldea, e logo nós quatro, eu, Verissimo, Augusto e Camutombo, construímos quatro barracas e um forte cercado, onde nos recolhémos com o meu magno espolio.

N'esse dia trabalhei como um rude lenhador, e de machado em punho, cortei a madeira para a minha barraca, e construi-a eu mesmo.

Durou o trabalho até depois do meio dia, hora a que me estendi nas pelles de leopardo do meu leito, dormindo a sono sôlto até ao pôr-do-sol.

O meu Augusto tinha pescado, e tinham armado laços aos patos, conseguindo agarrar um. Entretivémos com aquella alimentação sem condimentos a fome ja impertinente, e eu volvi a deitar-me, mas dormi pouco e pensei muito. Sustentar nove pessôas era mais facil do que sustentar uma grande comitiva, e por isso a questão mais momentosa e que mais urgente era resolver, estava, se não resolvida, pêlo menos muito simplificada por si mesmo.

A idéa de proseguir na minha viagem estava perfeitamente arraigada em mim, e sem ainda saber como, sem ter chegado a formular um projecto, sabia que havia de ir, porque queria ir. A minha confiança era tal, que os meus homens ja estavam descuidosos e indifferentes. Diziam elles, que eu sabia o que havia de fazer, e quando lhes dizia, que não tinha ainda formado um plano, riam-se e diziam:--"o Senhor bem sabe ja."

Passei o dia preparando cartuxos da Carabina d'El-Rei. Tinha 2 kilogrammas de pòlvora finissima, e como a carga de cada cartuxo era de 5 drachmas (8 grammas e meia), podia com aquella pòlvora carregar duzentos e trinta e cinco tiros, que com alguns que eu ainda possuia, e com os trinta de balas d'aço da carabina Lepage, prefaziam um total de trezentos cartuxos.

Chumbo para ballas havia de mais, porque o peso das duzentas e trinta e cinco balas era ao menos de nove kilogrammas, sendo o de cada bala de 35 grammas, e o chumbo da rêde devia pesar um pouco mais de trinta kilos.

Fulminantes tinha duzentos a mais.

Voltáram os portadores que mandei a Lobossi, com recado d'elle, para que eu fôsse viver para Lialui até tomar uma deliberação.

Decidi logo não sahir do mato onde estava, e mandar o Verissimo a Lialui tratar com elle. Dei-lhe as minhas ordens, e mandei que sahisse antes de amanhecer no dia immediato, para ter tempo de voltar no mesmo dia.

Um violento accesso de febre prostrou-me, e tive de me recolher muito doente.

No dia seguinte a febre tinha augmentado, e eu estive impaciente até á volta do Verissimo, que só chegou de tarde.

Vinham com elle uns muleques do règulo, que me traziam alguma comida, e um presente de leite coalhado, enviado por Machauana. Lobossi mandava dizer-me, que era muito meu amigo, e que estava prompto a ajudar-me, mas que fôsse eu viver para casa d'elle; e que com tempo decidiriamos o que havìamos de fazer. Mandei dizer-lhe pêlos muleques, que logo que estivesse melhor iria falar-lhe; mas que não deixaria o mato, e que me era impossivel ir viver com elle, por causa das febres. Estava ancioso por me achar só com Verissimo, para ter noticias de Lialui.

A primeira cousa que elle me contou fêz-me logo profunda impressão. Disse-me, que, quando chegara a casa de Lobossi, estava reunido o grande consêlho em discussão acalorada.

Uns enviados do Chefe de Quissique, Carimuque, tinham chegado ali, pedindo accesso no paiz para um missionario Inglez, que estava em Patamatenga, e queria vir ao Lui.

Á entrada d'esse sujeito no paiz do Barôze opunha-se com tôda a sua eloquencia o ministro dos estrangeiros Matagja, e d'ahi nascêra a acalorada discussão a que assistira o Verissimo; sendo resolvido em consêlho, que não fôsse concedida a licença para o homem penetrar nos estados do rei Lobossi.

O Verissimo, que me contou este incidente, a que não ligou a menor importancia, começou a narrar-me o que tinha podido colher de noticias ácerca das intrigas dos muleques de Silva Porto e Caiumbuca; mas eu é que não o escutava ja, e aquelle missionario Inglez (Macúa, diziam elles) não se me tirava do pensamento. Quando o Verissimo acabou o seu aranzel, que eu não ouvi, tinha resolvido o meu problema, e a resolução consistia, em ir encontrar aquelle missionario.

Como realizal-a não sabia ainda, mas que o encontraria era ja convicção minha.

Fui àvidamente buscar uma pèssima carta d'Àfrica que tinha, e calculando approximadamente onde seria Patamatenga, medi uma distancia de seiscentos kilòmetros.

Seiscentos kilòmetros, a uma media de 10 kilòmetros por dia, eram sessenta dias de jornada, e trezentos tiros que eu possuia, divididos por sessenta dias, dava-me cinco tiros por dia. Ardia ja em desejos de me pôr a caminho, mas ardia em febre tambem, e comecei por deitar-me.

Nos dias 14 e 15 a febre cresceu de intensidade, não me permittindo sahir da barraca; mas tendo algumas melhoras na noute de 15 para 16, resolvi logo ir a Lialui falar ao rei, e tratar de pôr em execução um plano que tinha concebido, para ir encontrar o missionario, idéa que me não sahia da mente.

Ainda muito doente, parti logo de manhã para casa de Lobossi. Fui muito bem recebido por elle, que negou ter sido connivente com Caiumbuca e os prêtos do Silva Porto, na fuga dos meus Quimbares; o que era falso, porque sem o consentimento d'elle, não poderiam elles ter passado o Zambeze.

Pedi-lhe que me ajudasse a ir encontrar um missionario que eu sabia estar em Patamatenga; ao que elle respondeu, perguntando-me, ¿como queria eu ir para ali, não tendo carregadores? Esta pergunta do rei foi muito applaudida pêlos assistentes, que notáram a esperteza d'elle em m'-a fazer.

Disse-lhe, que era verdade não ter carregadores, mas que tinha o rio Liambai, e elle tinha barcos, e se elle me desse barcos, eu dispensava os carregadores, tanto mais que não tinha cargas.

Elle contestou, que havia effectivamente o Liambai, mas que o rio tinha cataractas, e ¿como as poderia eu passar? Novos applausos da parte do auditorio.

Respondi, que sabia isso, mas que ali os barcos e as cargas iam por terra, e a jusante das quedas continuàvamos a navegar.

Elle retorquio, que o seu pôvo tinha muito pouca fôrça, e não podiam arrastrar os barcos por terra. Novamente applaudido; estava fazendo um gôsto immenso em patentear o seu espìrito fino diante dos ouvintes; e de salto, sem esperar resposta, perguntou-me, ¿porque não tinha ido viver com elle para Lialui, como me tinha ordenado?

Respondi serenamente, que não tinha ido, nem iria, por muitas razões; sendo a principal, o ser elle um refinado velhaco, que, desde a minha chegada, só tinha procurado enganar-me, para me roubar. Chamei-lhei ladrão e assassino, levantei-me e puz-me a caminho.

O auditorio, estupefacto do meu atrevimento, nem se lembrou de me embargar o passo.

Dirigi-me a casa de Machauana, onde estive conversando com Monotumueno, o filho do rei Chipopa, e legìtimo herdeiro do poder, a quem fiz a profecia de que ainda seria rei do Lui.[4]

Ia a retirar-me para as minhas montanhas, quando um enviado de Lobossi veio pedir-me em nome d'elle para eu lhe ir falar. Fui logo.

O rei disse-me, que não tinha razão para me zangar com elle, que era muito meu amigo, que ia aprontar barcos, e que o Liambai estava livre para mim.

Eu fiz-lhe um grande sermão, em que lhe disse, que elle era mal aconselhado; que o que tinha dado o poder e grande nome aos reis Macololos, foi a grande protecção que dispensáram a Livingstone. Que os Luinas queriam perder o commercio; e que elle completaria a ruina do Lui começada por Manuanino. Que o seu pôvo, não a camarilha que o rodeava, mas o seu pôvo sensato, ainda o expulsaria do poder, por incapaz de governar, e não fazer mais do que disparates.

Fêz-me novos protestos de amizade, affirmando-me, que me daria os barcos, e que não seria por culpa d'elle se eu não chegasse a alcançar o missionario, mesmo porque queria que eu mudasse de opinião a seu respeito.

Assegurou-me, que voltasse descançado para Catongo, onde me mandaria dizer que os barcos estavam promptos, logo que tivesse arranjado as tripulações. Chamou diante de mim o Chefe de Libouta, e deu-lhe ordens a esse respeito.

Eu não acreditava em nada d'aquella comedia, e disse-lh'-o. Elle pedio-me que não formasse maos juizos, e esperasse os factos.

Voltei a casa de Machauana, que conversou largamente comigo a respeito de Caiumbuca e da fuga dos meus Quimbares. Por elle sube tôda a verdade, nos seus detalhes, e só fiquei ignorando quem fôra ao longe o motor dos acontecimentos.

Chegado ao Lui, fui sinceramente bem recebido por aquella gente, e o nome do Mueneputo, com que eu me abrigava, foi escutado com respeito. Declarei os meus projectos, e elles fôram calorosamente approvados, porque muito convinha aos Luinas estar em communicação com a costa de Leste. Dias depois da minha chegada, rebentou no Chuculumbe a revolução, á testa da qual se achava Manuanino, o rei destronado. Caiumbuca foi então dizer a Lobossi, que eu não era estranho áquella revolta, e que queria ir para Leste juntar-me aos brancos que apoiavam Manuanino. N'essa occasião Caiumbuca levara os Bihenos a abandonar-me, dizendo-lhes, que o rei o prevenira de que me ia mandar matar, e não poderia impedir que fôsse morta a gente que estivesse comigo.

Os Bihenos, levados por elle, declaráram-me, que não queriam estar comigo, e Caiumbuca fingio-se indignado.

A primeira e ùnica vez que em Àfrica faltei ao meu principio de sertanejo, de desconfiar ali de tôdos e de tudo, fui enganado. É verdade que Silva Porto, o homem em quem eu tinha a màxima confiança, disse-me e escreveu-me, que podia fiar-me em Caiumbuca, e eu fiei-me n'elle.

Facilmente podia desfazer aquella intriga entre homens instruidos; mas deve comprehender-se, que para prêtos, foi bem tramada, e não seria facil convencel-os da verdade.

Apesar d'isso, a minha attitude chegou a convencer Lobossi, e foi então que os muleques de Silva Porto fôram dizer ao rei, que tinham ordem de seu senhor para me abandonarem ali, mandando-lhe elle dizer, que me fizesse matar, se queria que os sertanejos do Bihé voltassem ali, sem o quê não teria mais relações com Benguella.

Foi então que tentáram matar-me, affirmando Machauana, que Lobossi sempre se opoz a isso, assim como a maioria do seu consêlho, mas que Gambela era de opinião contraria.

Caiumbuca e os muleques de Porto fôram dizer a Lobossi, que tôdo o que eu tinha nas minhas malas eram roupas e fazendas muito ricas, despertando-lhe assim a cubiça, que a tantos exploradores tem perdido no Continente Africano.

Apesar de tôdas as intrigas e dos factos que ellas produzíram, eu ia continuar a minha viagem com a gente de Benguella, quando o ataque da noute de 6 de Setembro m'a dizimou, e uma nova intriga dos prêtos de Silva Porto levou á fuga os restantes. ¿Por ordem de quem trabalhou Caiumbuca? Eis o que não pude saber.

Por sua conta creio que não; que pouco tinha a lucrar n'isso. A encommenda vinha feita do Bihé, e eram emissarios d'ella os muleques de Silva Porto. Caiumbuca tomou o papél principal, depois das instrucções recebidas dos prêtos de Belmonte. O mandatario estava ao longe, muito ao longe.

A causa estava na minha missão, e na guerra que, em nome do meu Portugal, eu fazia, sem trèguas, ao commercio da escravatura.

Alguns exploradores Africanos, e sôbre tôdos o Commander Cameron e David Livingstone, t[~e]m apontado muitos factos horriveis e verdadeiros, do commercio da escravatura, feito no interior d'Àfrica por sertanejos Portuguezes.

Por muitas vêzes, a opinião pùblica em Portugal tem levantado a sua voz potente, contra as asserções vilipendiosas dos accusadores estrangeiros, querendo negar factos que elles asseveram; e em que ella não acredita, porque, na sua ìndole bondosa, é incapaz de os comprehender e de os admittir.

Infelizmente elles sam verdadeiros; e mais ou menos romantizados, não deixam de conter um germen de realidade.

¿Mas serám esses factos uma nòdoa para Portugal? Não sam. Affirmo-o, e sustento-o.

Os sertanejos Portuguezes, que mais se aventuram no interior do continente Africano, quando o fazem, deixáram de ser Portuguezes.

Sam condenados, fugidos dos presidios da costa, sam homens a quem a sociedade supprimio as garantias do cidadão, sam rèprobos a quem a sentença infamante da justiça imprimio um indelebil ferrête de ignominia; sam os salteadores e assassinos, a quem a patria banio do seu seio com horror, que podéram quebrar o grilhão de ferro com que estavam acorrentados ao patìbulo aviltante; e fugindo a um mundo onde só os espera o desprezo da gente civilizada, vam ao longe buscar entre os selvagens a guarida que perdêram, e continuar ali a sua vida de crimes.

Taes homens não deshonram a sua patria, porque não t[~e]m patria.

Querer tornar Portugal solidario dos crimes dos sertanejos Africanos, é querer tornar a França responsavel dos actos da Communa, a Amèrica do assassinio de Lincoln, a Italia dos salteadores dos Abruzos.

Ha rèprobos em tôda a parte, e não podem ser nòdoas nos povos que os esmagam na sua justa indignação.

Dos sertanejos Europeus que t[~e]m estado estabelecidos no Bihé, de dois apenas tenho noticia, que não pertencessem a tal ordem de gente. Sam elles Silva Porto, e Guilherme José Gonçalves; mas estes fôram sempre queridos e estimados do indìgena e do Europêu, gozáram sempre da consideração que a sua honradez e probidade lhes grangeáram, fôram cidadãos prestantes, que, com um tràfico legal e digno, nem chegáram a fazer fortuna, e fôram muitas vêzes vìctimas dos outros.

O nome de Silva Porto é respeitado pêlo gentio, e conhecido n'uma grande parte da Àfrica central pêla corrupção da palavra Prôto, e mais de uma vez me servi d'elle para desfazer obstàculos.

Em Cassange, como em Tete, outras duas portas da Àfrica central, ha Portuguezes dignos e nobres, que t[~e]m feito um grande serviço á humanidade no commercio lìcito com o interior; esse commercio, que é o mais seguro mensageiro da civilização na terra dos nêgros.

Não confundamos pois; não confundamos, e será pouco nobre ir buscar a autoridade do explorador, para lançar, apontando factos verdadeiros, mas nada producentes, um labéo sôbre um pôvo nobre, o primeiro que deu mão forte á Inglaterra contra o tràfico infame; sôbre um pôvo que sacrificou os seus interesses Africanos legislando a abolição da escravatura; contra um pôvo, o mais livre do mundo, que estendeu a sua liberdade até á Àfrica, mandando para lá as leis que o regem na Metròpoli; chegando ao
excesso de abolir ali a pena de morte, e de lhes mandar um còdigo que por libèrrimo é impossivel entre gente mais que semibàrbara.

Não precisa Portugal justificação; que o defendem os factos, as leis e a energia que emprega na grande obra da civilização Africana; mas, falando do tràfico da escravatura de que por vêzes ia sendo vìctima, não me pude eximir a pôr a questão nos seus verdadeiros têrmos.

José Alves, Coimbras e outros, esses nem ao menos sam Portuguezes de nascença; não se parecem com Portuguezes na côr, sam indìgenas, sem instrucção, verdadeiros selvagens de calças e chapéos.

Affirmo tambem, que é mais difficil viajar em Àfrica por terras onde elles t[~e]m andado, do que nas regiões bàrbaras dos canibaes, que nunca víram um estranho. Aqui fazem a guerra ao explorador, quando a fazem, de armas na mão frente a frente; ali é a traição e a covardia que o esperam. Aqui é explorar na brenha espinhosa onde o leão occulta o seu antro; ali é caminhar n'um prado relvoso, entre venenosas serpentes.

Outra cousa inconveniente ao explorador é ir ás sedes dos grandes potentados. Veja-se o que tem acontecido no Muatayanvo; veja-se o que aconteceu a Monteiro e Gamito no Muata-Casembe; veja-se o que me tem acontecido a mim com Lobossi, no Lui.

O sertanejo Biheno, na cubiça de obter o marfim, dá tudo ao règulo; chêga a dar-lhe a roupa que leva vestida, e volta ao Bihé de tanga de pelles, como os seus carregadores.

No Lui, quando era muito frequentado por sertanejos Bihenos, havia o costume, de elles entregarem tudo ao règulo, e esperarem que elle lhes desse pêla factura que levavam, o que entendesse sufficiente.

O explorador que hôje chêgue ali e não faça o mesmo, está perdido.

Àlém d'esta, outra razão deve aconselhar o explorador a evitar os grandes potentados; é ella o caso de uma aggressão, sempre de recear.

Com os pequenos senhores que povôam a maior parte da Àfrica austral, poderá, em tal caso, levar a melhor; em quanto nos grandes imperios será forçosamente esmagado.

Isto pensava eu voltando ao meu campo nas montanhas de Catongo, a 17 de Setembro, depois de ter comido leite coalhado e batatas em casa de Machauana.

Cheguei a Catongo ja noute, e sube que o meu Augusto tinha morto uma gazella, o que nos fazia òptimo arranjo.

As armadilhas improvisadas continuavam a dar patos e francolins.

Nos dias seguintes, os trabalhos tomáram-me tôdo o tempo; podendo obter uma longitude muito approximada, e fazendo uma rigorosa determinação da declinação da agulha, estudos meteorològicos, etc.

No dia 19, ainda não tinha recebido mais novas do rei Lobossi, e decidí mandar lá o Verissimo, a saber se a offerta das canôas era ou não comedia. N'esse dia apparecêram ali uns prêtos, que pêlo typo conheci logo não serem do paiz. Diziam elles serem da Luêna, e querendo indagar onde ficava essa terra, elles mostravam-me o N.E., e por meio de nòs dados em uma correia fina, faziam-me comprehender que tinham andado vinte e seis dias para chegar ali. Vinham em nome do seu chefe comprimentar o rei Lobossi, e sabendo que estava um branco no paiz, viéram ver-me, por ser animal nôvo para elles.

Para falarmos, servia-me de intèrprete o velho chefe da aldeola, que falava a lìngua dos Machachas, lìngua em que elles se exprimiam bem, dizendo, ainda assim, ser muito differente da sua. Disséram-me, haver no seu paiz muitos elephantes, e serem caçadores; empregando para isso a azagaia, ùnica arma de que usam. Sam franzinos de côrpo e de pequena estatura, com feições bastante regulares. Uns vinte que eu vi, traziam, quasi tôdos, na cabêça uns penachos feitos de sêdas de elephante, demonstrando cada penacho um elephante môrto pêlo que o traz. Vestem pelles como os do Cuchibi, e trazem pannos de liconde para se cobrirem.

Traziam manilhas de ferro e de cobre fabricadas por elles. A difficuldade que havia de nos entendermos não me permitio levar muito longe as averiguações ácerca do paiz d'elles e dos terrenos que atravessáram para chegar ali.

No dia 21, Verissimo voltou de Lialui, dizendo, que as canôas estavam promptas, e que Lobossi me mandava pedir para ir ficar na cidade no dia immediato. Enviei logo um homem ao rei, dizendo-lhe que só iria em dois dias, por estar doente; sendo o verdadeiro motivo d'essa demora, o ter de fazer observações e completar estudos meteorològicos no dia 22. Por esse mesmo enviado mandei dizer a Gambela, que me apromptasse aposento em sua casa, porque iria ser seu hòspede. Eu queria fazer do ladrão fiél.

A 23 de Setembro, deixei Catongo, e caminhei para Lialui, onde cheguei ás duas horas e meia da tarde. Gambela esperava-me com pompa, e foi conduzir-me ao alojamento que me tinha preparado. A marcha por um sol abrasador prostrou-me de fadiga, e só á noute pude ir visitar Lobossi. Elle recebeu-me muito bem, dizendo-me, que estava convencido de que fôra illudido por Caiumbuca e pêlos muleques do Silva Porto; que acreditava ser eu um enviado do governo do Mueneputo, e que me queria dar todas as satisfacções pêlos transtornos que eu tinha soffrido nos seus estados, de que elle dizia não ter tido a menor culpa.

Aproveitei tão bôas disposições, para renovar o meu pedido de gente e auxilio, para seguir pêlo paiz do Chuculumbe até Caiuco, e descer depois o Loengue embarcado, e ir ao Zumbo pêlo Zambeze. Respondeu-me, que isso não podia ser, porque esse projecto encontrava uma grande opposição nos velhos do seu conselho. Que o Munari (Livingstone), no tempo de Chicreto, ja tinha feito aquella viagem com gente do Lui, e que nenhum dos que com elle fôram para leste voltara mais ao paiz.

Os velhos falando elle n'isso, disséram-lhe, que me perguntasse o que era feito dos seus irmãos Mbia, Caniata e Scuêbu, e muitos outros que fôram e não voltáram. Diziam elles, que, ao partir, Livingstone prometteu, que os tornaria a trazer ali; e ainda hôje as mulheres e os filhos esperam por maridos e pêlos pais.

Affirmou-me, que se podesse, me daria gente, mas a resistencia do pôvo era grande, e não lhe convinha ir contra ella. Os três barcos estavam ás minhas ordens para descer o Zambeze, e nada mais podia fazer por mim.

A 24 de Setembro, logo de manhã recebi a visita de Lobossi, que se vinha despedir de mim, e apresentar-me os seus escravos que deviam tripular as canôas até umas povoações do Zambeze, onde o chefe me deveria dar novos barcos e novas tripulações. Deu-me uma pequena ponta de marfim, para eu offerecer ao chefe das povoações onde arranjaria os barcos, e trazia tambem um bôi para a matalotagem. Agradeci-lhe muito, e separámo-nos nos melhores termos de amizade. Segui a S.O., e depois de uma hora de caminho, encontrava o braço do rio a que chamam pequeno Liambai, e pouco depois, três pequenas canôas largavam a margem, levando a minha bagagem, a mim, a Verissimo, Camutombo e Pépéca.

O Augusto, Moero e Catraio, com as duas mulheres, seguíram por terra, acompanhados do caçador Jasse e do chefe Mutiquetéra, mandados por Lobossi, para seguirem comigo, e irem dando as suas ordens aos chefes, a fim de ter o caminho livre.

Mais dois entes, de que me tenho descurado de falar, dois entes que representavam duas dedicações inquebraveis, aquelles que desde a minha sahida não me haviam dado um ùnico dissabor, estavam ali comigo, sempre promptos a seguir quando eu marchava, a pararem quando acampava, a dispensarem-me mil caricias quando me viam triste, a divertirem-me quando alegre estava. Eram Córa e Calungo, a minha cabrinha e o meu papagaio.

A viagem do rio ia separar-me tôdos os dias de Córa, que não podia ir sempre embarcada pêla exiguidade de espaço nas canôas, mas Calungo voando sem mêdo para o meu hombro, seguio embarcado.

Depois de termos navegado ao sul por um quarto de milha, deixámos o pequeno Liambai, e mettemos a S.O. por um canalête, por onde o braço oeste do rio deita um pequeno veio de àgua, de lagôa em lagôa para o braço leste.

No intervallo entre as lagôas, ás vêzes de mais de cem metros, o navegar é difficil, porque é difficil navegar onde não ha àgua. Foi preciso muitas vêzes descarregar os barcos e arrastal-os sôbre um fundo de lôdo. Nas lagôas o caniçal espêsso embaraçava tambem a navegação.

Depois de um trabalho violento e aturado, parámos ás seis horas na margem de uma lagôa, em planicie recentemente queimada, onde não havia com que construir o mais pequeno abrigo.

Tinha havido o cuidado de levar lenha, e com ella podémos assar carne, que eu comi com appetite voraz, por não ter ainda n'esse dia tomado alimento. Estendi depois a minha cama de pelles sôbre a terra hùmida e deitei-me ao relento.

Os remadores estivéram tôda a noute assando carne e comendo; fazendo assim desapparecer a maior parte do bôi dado por Lobossi, e mostrando que a capacidade estomàchica dos sùbditos do rei do Lui é verdadeiramente incommensuravel.

Depois de uma pèssima noute, parti ao alvorecer do dia 25, e naveguei em uma lagôa por meia hora, entrando em seguida no braço principal do Liambai. Apparecia nas margens uma tal quantidade de caça, que fiz parar a flotilha, e entrar em serviço a Carabina d'El-Rei; que, na sua estrea, me forneceu logo vìveres que calculei chegariam para dois dias, apesar da voracidade dos Luinas.

O Liambai tinha ali uns 200 metros, e muito fundo. A corrente era pequena, e essa mesma não aproveitada pêlos remadores, que receando os hippopòtamos, que sem cessar vinham resfolgar no pego, iam sempre encostados ás margens, onde a àgua pouco funda não permitia o accesso aos enormes pachidermes. Tìnhamos de parar de instante a instante, para tirarmos àgua das canôas velhas e fendidas.

Parei junto a Nariere, para calafetar o meu barco, e em quanto os prêtos faziam trabalho com hervas e barro, medi a velocidade da corrente, que achei ser de 24 metros por minuto. O meu rumo medio era S.E., mas o rio dá ali voltas curtas em grande zig-zag; tendo eu em uma d'ellas navegado por 20 minutos a N.O. Acampei na margem esquêrda, pêlas cinco da tarde, nas mesmas condições da vèspera, sem abrigo e ao relento.

Muitas vêzes, n'aquelle dia, quando fugiamos aos hippopòtamos de um lado, appareciam elles no outro, e corrémos perigo grave.

Eu não lhes quiz atirar, para não gastar as munições. Só quem se vê no centro d'Àfrica com pouca pòlvora sabe o valor de um tiro.

Os barqueiros, que eram escravos do rei Lobossi, quizéram ser insolentes comigo; mas eu metti-os na ordem a pao, segundo instrucções recebidas do proprio Lobossi, que prevenira o caso.

O Verissimo, que desde Quillengues resistira á febre, cahio com um violento accesso, e eu mesmo não estava sem ella.

No dia immediato naveguei apenas por espaço de uma hora, parando junto á povoação de Nalólo, governada por uma mulhér, irmã de Lobossi. Mandei pedir-lhe desculpa de a não ir visitar, allegando a minha doença e a febre do meu intèrprete Verissimo. Ella aceitou a desculpa, e enviou-me um pequeno presente de massamballa. Apesar de doente, fui caçar, para fazer nova provisão de vìveres, e consegui matar dois antìlopes (Pallahs). As pelles, como as da ante-vèspera, fôram sêcas com cuidado e guardadas.

Pude trocar uma perna de carne de Pallah por um pequeno cesto de feijão fradinho.

Verissimo peiorou muito n'esse dia, e eu á noute ardia em febre tambem, tendo, apesar d'isso, de dormir ao relento n'um terreno hùmido. Acordei completamente encharcado do orvalho, e muito doente. Segui viagem, e depois de seis horas uteis de navegação, com o rumo medio de S.S.E., acampei, sempre na margem esquêrda.

Apesar de outra noute pèssima, a febre ia cedendo a fortes doses de quinino, e no dia 28, naveguei por hora e meia para alcançar a povoação de Moangana, cujo chefe me devia fornecer um barco por ordem de Lobossi.

O velho Moangana era um Luina de cabellos grisalhos, muito respeitoso, que me recebeu muito bem, dizendo-me, que no dia immediato me levaria elle mesmo á povoação da Itufa, onde eu devia pernoitar, um barco e algum presente que me podesse arranjar.

O vento era fortissimo de leste, e encrespava as àguas do rio, que não tinha menos de uma milha de largo. Havia perigo para canôas tão pequenas como as nossas, mas, apesar d'isso, seguímos, e em hora e meia chegámos a Itufa, grande aldea, na margem esquêrda.

Mais de uma vez estivémos em grande risco de soçobrar, e declaro que é triste perspectiva a de cahir a um rio coalhado de crocodilos.

O Verissimo ia um pouco melhor e eu mesmo, apesar da febre quasi constante que me minava, sentia-me com mais fôrças.

Ja me esperavam na aldea, prevenidos pêlos meus muleques que jornadeáram por terra, e que, com o caçador Jasse, e com o chefe, haviam chegado n'essa manhã.

O chefe recebeu-me bem, dando-me logo uma casa, e offerecendo-me uma panella de leite coalhado e uma cêsta de farinha de milho; mas começou por dizer-me, que tinham enganado Lobossi, e que elle não tinha barco.

Comi um pouco de leite e farinha, e os meus muleques n'um momento fizéram desapparecer o resto do presente do chefe, declarando-me que tinham fome, depois de terem comido tudo. Instei com o chefe para me obter alguns vìveres mais; mas elle respondeu-me, que só a trôco de fazendas m'os dariam, e como eu não as tinha, nada se poderia fazer.

Dei aos muleques as pelles dos antìlopes que tinha môrto, e a trôco d'ellas sempre arranjáram farinha, ginguba e tabaco.

Á noute, quando me fui deitar, vi que estava rodeado de aranhas enormes, muito chatas e nêgras, que desciam das parêdes em vagaroso caminhar; e fugi da casa, indo deitar-me no pàteo ao relento. Estava escrito, que durante a minha viagem no Zambeze, nem uma só noute um tecto abrigaria o meu sono.

No dia 29, logo de manhã, chegou o velho Moangana com o promettido barco.

Veio renovar os seus protestos de amizade, e retirou-se; dizendo-me, que tinha cumprido as ordens do seu rei Lobossi, e esperava que eu estivesse satisfeito, porque elle queria a amizade dos brancos.

Na Itufa continuavam as difficuldades para a outra canôa; o chefe só fazia repetir-me, que a não tinha, e lastimar que houvessem enganado Lobossi e a mim.

Os Luinas e Macalacas t[~e]m por hàbito esconder as canôas em lagôas interiores cobertas de caniçal, que communicam com o rio por pequenos canalêtes disfarçados pêla vegetação e só d'elles conhecidos. Quando não querem que as vejam, difficil é encontral-as.

O caçador Jasse e o chefe Mutequetera, conhecedores das manhas dos Luinas, tanto buscáram entre os caniçaes das lagôas, que encontráram uma canôa; fazendo o chefe da Itufa mil protestos, de que ignorava que ella estivesse ali.

As casas da Itufa sam, como tôdas as dos Luinas, de três formas differentes, e taes como ja descrevi falando das povoações de Canhete e da Tapa; mas aquellas que t[~e]m a forma tronco-cònica sam de muito grandes dimensões. A que me foi offerecida pêlo chefe, a casa das aranhas, media, no quarto interior, 6 metros de diàmetro, e no exterior 10.


Figura 110.--Casa na Itufa.

N'estas dimensões, não podem como as outras ser construidas só de caniços, e umas fortes estacas verticaes sustentam o tecto, cuja armação é de longas varas de madeira.

Ha ainda na Itufa outro typo de casas, que é original d'ali.

Sam compostas estas de uma casa ogival, a que addicionam uma semi-cilìndrica deitada no sentido do eixo, formando assim dois compartimentos distinctos. Estas casas sam grosseiramente construidas,
ao passo que a casa tronco-cònica, verdadeiro typo da casa Luina, é edificada com cuidado, e muito resguardada.

Pêla primeira vez, depois de ter deixado o Bihé, vi gatos em Àfrica, que os ha em abundancia na povoação da Itufa. Ha tambem ali muitos cães de bôa raça, que empregam com vantagem na caça dos antìlopes.

Continuava a difficuldade de obter vìveres, mas a carabina suppria a falta de fazendas para permutações, e sempre ìamos obtendo alguma farinha de massambala a trôco de carne e pelles.

As tripulações estavam promptas, e os dois barcos em acção de seguir, quando uma nova difficultade veio retardar a viagem.

Os remadores declaráram, que não embarcavam, em quanto eu não deposesse nas sepulturas das mulheres dos antigos chefes da Itufa, alguns massos de missanga branca.

Sem ser cumprido esse preceito, afirmavam elles estarmos sujeitos a innùmeros perigos durante a viagem; porque as almas das mulheres dos chefes, desassocegadas e irritadas, nos perseguiriam sem trègua. Eu, que não tinha missanga, nem branca nem prêta, chamei o chefe e mostrei-lhe a absoluta impossibilidade de socegar as almas das fidalgas da Itufa. Elle a muito custo pôde resolver as tripulações a seguir, mas foi só no primeiro de Outubro que largámos d'ali.

O meu nôvo barco era uma piroga, cavada em um comprido tronco de Mucusse, e media 10 metros de longo, por 44 centìmetros de bôca, e 40 centìmetros de pontal.

As duas àrvores empregadas no alto Zambeze para a fabricação das almadias, sam o Cuchibi e o M'ucussi, enormes leguminosas das florestas, da região das cataractas. A madeira d'estas àrvores gigantes, é de extrema dureza, e de maior densidade do que a àgua.

A minha piroga era tripulada por quatro homens, um á proa e três a ré.

Eu ia sentado na frente, a um têrço do comprimento do barco, sôbre a minha mala pequena, que continha os meus trabalhos. O duplicado do meu diario, observações iniciaes, etc., levava eu amarrados ao côrpo com uma cinta de lã. As minhas armas iam ao meu lado, e as pelles do meu leito completavam a carga.

Na outra canôa, Verissimo, Camutombo e Pépéca, as malas da roupa e instrumentos, e a caça que ia matando. Os remadores remam sempre de pe, para equilibrarem as canôas, que se voltariam sem isso. O remar em taes barcos é verdadeiro exercicio acrobàtico.


Figura 111.--O meu Barco.


Remos.

Uma piroga do alto Zambeze é como um patim gigantesco, em que o remador tem de fazer tôdos os prodigios de equilibrio do patinador sôbre o gêlo, para sustentar a posição estavel. Foi em taes condições que eu, no dia 1 de Outubro, deixei a Itufa, e me aventurei sôbre o rio gigante, cujas ondas levantadas por um forte vendaval de leste, ameaçavam a cada momento submergir as estreitas almadias.

Depois de quatro horas de viagem, parei na margem esquêrda, em uma pequena enseada, onde a gente que vinha por terra tinha dado ponto de reunião aos barqueiros. As minhas novas tripulações eram mais comedidas do que os muleques do rei que me trouxéram a Itufa, mas começavam ja com pedidos e exigencias.

Não encontrei caça no mato, mas, tendo chegado alguns bandos de patos a uma lagôa pròxima, fui ao barco buscar a espingarda de caça miüda, de que só tinha 25 cartuxos, e consegui matar 17 patos, de 6 tiros.

O ponto onde eu estava, era o extremo sul da grande planicie do Lui. As duas nervuras de montanhas, que no parallelo 15 estam distanciadas de 30 milhas, convergem ali; só parando para dar um leito de dois kilòmetros ao Zambeze. Á planicie monòtona e nua succede o paiz accidentado e coberto de luxuosa vegetação. Ás margens de arêa branca e finissima, uma arêa que, comprimida sôb os passos do homem, solta vagidos como os de uma criança, produzindo uma impressão inexplicavel, porque, estando muito sêca, imita um fraco grito humano. A essas margens de arêa tão extraordinaria, succede, em transição ràpida, o terreno vulcànico; e sam blocos de basalto que marginam o rio.

Foi com o maior sentimento de prazer que os meus olhos se fixáram sôbre esses penêdos denegridos, vomitados em ondas de fôgo nas èpochas primitivas do mundo. Desde o Bihé, que não via uma pedra, e com satisfação olhava para aquellas que via ali.

Quando o meu cozinheiro Camutombo tratava de acender fôgo para cozinhar os patos, o lume communicou-se á herva alta e sêca que cobria o solo, e logo, assoprado por um vento forte, voou por sôbre a terra em ondas de chamas.

O atear do incendio foi tão ràpido, que por um momento estivémos envolvidos n'elle; tendo de nos precipitar nas canôas para lhe escapar.

No dia immediato parti, sempre a S.S.E., e depois de quatro horas de navegação, comecei a encontrar grandes filões basàlticos, atravessando o rio no sentido E.O. Alguns v[~e]m tanto á flôr d'àgua, que tornam difficil a navegação, e ainda que a corrente é inapreciavel, foi preciso diminuir a velocidade dos barcos para evitar choques perigosos, n'aquelles paredões naturaes.

O rio começa, na região basàltica, a ser povoado de ilhas cobertas de vegetação pomposa. Pêla tarde, avistámos um bando de ongiris (Strepsiceros kudu) que pastavam na margem direita.

Desembarquei um pouco a montante, e consegui matar um dos soberbos antìlopes.

Mandei seguir o barco, e eu caminhei por terra por espaço de uma hora.

Levantei bandos de francolins, codornizes, e pintadas (Numida meleagris), que nunca tantos vi em Àfrica. A terrivel môsca zê-zê tambem é abundantissima ali, incommodou-me muito na floresta com as suas picadas dolorosas, mas inoffensivas para o homem; e tantas havia e tanto me perseguíram, que até depois de estar no barco ainda por muito tempo estive coberto d'ellas.

Fui acampar n'uma ilha muito extensa de um aspecto lindissimo, depois de seis horas uteis de navegação a rumo de S.S.E.

O Verissimo estava completamente restabelecido, mas eu era devorado por uma febre lenta e contìnua, que me minava a existencia.

No dia 3 de Outubro, segui viagem, sempre por entre ilhas formosissimas, cobertas de vegetação luxuriante. Navegámos, havia duas horas, quando vimos dois leões que na margem direita bebiam àgua do rio. Apesar de eu ter estabelecido como regra não me entremetter com feras, sem a isso ser forçado, e apesar ainda do valor que então tinham para mim os cartuxos, os instinctos do caçador vencêram a razão, e mandei abicar a canôa á margem, direita aos bichos.

Os leões, percebendo-nos, deixáram o rio, e fôram postar-se em uma eminencia a duzentos metros. Saltei em terra e caminhei para elles.

Deixáram-me approximar a uns cem metros, e depois poséram-se lentamente a caminho para montante do rio, parando de nôvo depois de curto espaço. D'essa vez acerquei-me a cincoenta metros, mas elles caminháram de nôvo e embrenháram-se em um pequeno massiço de arbustos. Eram dois leões machos de grandeza desigual, tendo um quasi o dôbro da corpolencia do outro.

Cheguei junto do matagal, e perscrutando a brenha, vi a cabêça de um dos magestosos animaes, por entre os arbustos, a vinte metros de mim. Preparei a carabina, e ao apontar, senti um tremor convulso percorrendo tôdos os membros. Lembrei-me de que estava fraco e debilitado pêla febre, e receei que o pulso tremêsse ao dar ao gatilho. Tive uma sensação singular que até então não havia experimentado, e que provavelmente era a do susto. Por um esfôrço de vontade o tremor parou, a carabina tomou firme a direcção que eu lentamente lhe dava, e como ao atirar a um alvo, quasi fui sorprendido pêlo meu proprio tiro. Passou ràpida a nuvem de fumo, e nada vi no sitio onde segundos antes se mostrava a cabêça da soberba fera. Carreguei novamente o cano vazio, e com dois tiros promptos, dei volta ao massiço. Para o lado do Norte seguiam as pégadas de um leão, mas de um só. O outro estava ainda ali. Aventurei-me no cerrado de arbustos, e entre um tufo d'hervas vi o corpo inerte do rei das florestas Africanas. A bala express esmigalhando-lhe o cràneo, cortara-lhe de golpe a vida. Chamei gente, e n'um momento a pelle e garras fôram-lhe arrancadas.

Na massa encephàlica foi encontrada a bala que produzio a morte.[5]

Ao largar a margem, principiámos a sentir, mal distincto, um ruido longinquo, semelhante ao do mar revolto quebrando nas rochas das praias. Devia ser uma cataracta, e essa idéa, que logo me occorreu, foi confirmada pêlos remadores. Pouco depois, os filões basàlticos multiplicavam-se, formando paredões naturaes, sempre no sentido E.O.; mas, ao contrario do que tinha acontecido até ali, o rio ja levava uma corrente ràpida que tornava perigosissimo o navegar.

Um bando de Malancas que vimos na margem direita, obrigou-me de nôvo a parar, e conseguindo eu matar uma, proseguindo na viagem depois de nova interrupção de uma hora.


Figura 112.--Acampamento na Sioma.

Pêla tarde, fomos acampar junto das aldeas da Sioma, estabelecendo o meu campo sôb uma gigante Figueira-Sycòmoro, perto do rio.

A viagem d'esse dia foi de cinco horas e meia, sempre a rumo S.S.E.

N'essa noute o meu sono foi acalentado pêlo ruido da cataracta de Gonha, que, a jusante dos ràpidos da Situmba, interrompe a navegação do Zambeze.

No dia 4, logo de manhã, depois de ter comido um prato enorme de ginguba, presente do chefe das povoações, tomei um guia e dirigi-me para as cataractas. O braço do Liambai cuja margem esquerda eu descia, correndo a principio a S.E., vai vergando para O., até que chega a correr perfeitamente E.O.; e n'essa posição recebe dois outros braços do rio, que formam três ilhas cobertas de vegetação esplèndida. No sitio onde o rio começa a curvar para O., ha um desnivelamento de três metros em 120, formando os ràpidos da Situmba. Depois da juncção dos três braços do Zambeze, toma elle uma largura de seiscentos metros apenas, e logo ali deita um pequeno braço a S.O., pouco fundo e obstruido. O resto das àguas encontram um corte transversal de basalto, com um desnivelamento ràpido de 13 metros, e n'elle se precipitam com fragôr immenso.

O corte é N.N.O., e forma três grandes quedas, duas aos lados, e uma no meio. Por entre as rochas que separam as três grandes massas de àgua, cahem um sem-nùmero de cascatas de maravilhoso effeito. Ao Norte, um terceiro braço do rio continúa a correr no mesmo nivel superior da cataracta, e despenha-se no ramo principal em cinco cascatas lindissimas, a ùltima das quaes fica quatrocentos metros a jusante da grande queda. Ahi o rio encurva de nôvo a S.S.E., estreia a 45 metros, e conserva uma corrente de 150 metros por minuto.

Os diversos pontos-de-vista que se gozam da borda sôbre tôdo o espaço das quedas, sam sorprendentes, e nunca vi em paiz algum dos que tenho visitado, paizagem mais bella.

Gonha não tem a imponencia das grandes cataractas. Ali a paizagem é suave, variada e atrahente. A mistura da floresta pomposa, com a rocha e com a àgua, estam harmonizadas, como por mão de artista habil em tela primorosa.


Figura 113.--Cataracta de Gonha.

Mêsmo o despenhar da àgua no abismo, não causa ruido pavoroso, e é de certo amortecido pêla vegetação enorme que a rodea.


Mappa: Alto Zambeze -- Cataractas de Gonha

Ali não se elevam vapôres, que convertidos em chuva alaguem as visinhanças; ali o accesso é livre a tôda a parte, parecendo que a natureza se comprazeu a tornar facil a visita á sua bella obra. Gonha é como a casquilha que se mostra, que se deixa contemplar, para que a admirem.

Depois de levantar a planta da grandiosa cataracta, demorei-me ali até á noute, não cançando os olhos de ver tão esplèndido quadro, em que a cada momento descobria uma nova belleza.

Voltei ao meu campo, saudoso pêla lembrança de que não veria mais em minha vida, o espectàculo sublime que deixava para sempre.

No dia 5, fui ver o caminho por onde deveriam passar os barcos para jusante da cataracta, e era elle por floresta espêssa, e não inferior em extensão a cinco kilòmetros, porque em tôda essa extensão o Zambeze, apertado em margens de rocha apenas distanciadas de 40 a 50 metros, conserva uma velocidade de 150 metros por minuto, e é tal o referver das àguas, que impossivel é navegar nelle.

Este espaço estreito a jusante da cataracta de Gonha, chama-se o Nanguari, e termina por uma pequena queda do mesmo nome.

O ponto onde recomeça a ser navegavel chama-se o Mamungo.

A passagem dos barcos por terra foi feita por gente das povoações da Sioma, povoações de Calacas ou escravos, governados por un chefe Luina, mandados, estabelecer ali pêlo governo do Lui expressamente para o serviço de carregarem os barcos por terra; serviço a que sam obrigados sem terem direito a retribuição alguma.

Foi fatigante aquelle trabalho, e eu fiquei verdadeiramente penalizado de não ter nada que desse áquelles desgraçados, que tão humildemente se prestam a trabalho tão rude.

O Zambeze em Mamungo alarga a duzentos metros, mas continúa apertado em cinta de rocha, onde estam marcadas as cheias por traços horizontaes provenientes dos depòsitos das àguas lodosas. Por esses traços vi que as àguas se elevam ali a 10 metros, nas màximas cheias, acima do nivel de então, que deveria ser o mìnimo proximamente.

Logo que sôbre as rochas basàlticas começa a haver terra vegetal, principia uma vegetação frondosa. O aspecto do Zambeze n'aquelle ponto assemêlha o do Douro no seu têrço medio, com a differença apenas, de que n'aquelle o granito é substituido por basalto.

Depois de ter navegado por espaço de hora e meia, encontrei a foz do rio Lumbé, onde parei. Este rio vem do N., e tem, pròximo da embocadura, 20 metros de largo, por um e meio de fundo. Cem metros antes de entrar no Liambai, é-lhe superior de trinta metros, e por isso despenha-se em cascatas, que seriam talvez lindissimas se ali perto não ficasse Gonha.

Segui, depois de ter visitado a foz do Lumbé, mas n'esse dia apenas naveguei por mais duas horas; porque, tendo visto uns ongris, acampei, e fui caçar. Consegui matar dois antìlopes, que nos demorámos a preparar; decidindo não navegar mais n'aquelle dia.

No dia 7, deixei o acampamento, e tendo navegado uma hora, encontrei a cataracta Cale.


Figura 114.--Passagem dos barcos em Gonha.

Ali o rio corre a S.E., e toma uma largura de novecentos metros. Três ilhas o dividem em quatro ramos. O segundo, de oeste, é o que contém maior volume d'àguas, mas é tambem aquelle em que o desnivelamento é mais ràpido.

Nos outros braços o desnivelamento, que é de três metros, produz-se em cem de extensão, enquanto n'este não se estende a mais de quarenta. Tôdos os canaes sam obstruidos com rochêdos desencontrados, onde as àguas resaltam com fragor immenso.

Descarregámos os barcos, que fôram arrastados por um canalête junto á margem direita, e logo a jusante da queda reembarcámos e seguímos viagem. Meia hora depois, passàvamos uns ràpidos, onde só pequenos canaes sam praticaveis, e por onde os remadores governáram as pirogas com prodigiosa destreza.


Figura 115.--Cataracta de Cale.

Pouco depois, outros ràpidos fôram passados com igual felicidade; sendo o resto da navegação d'esse dia por entre pontas de rochas açoutadas por violenta corrente d'àgua, sem que outros desnivelamentos ràpidos apparecêssem.

Ao acampar, eu sentia-me gravemente doente. A febre havia recrescido, e a falta de alimentação vegetal era sensivel. O dormir sempre ao relento, e o nenhum resguardo que era forçado a ter, tendo de sustentar a minha gente pela carabina, faziam peiorar o meu padecer constante. N'essa noute, rebentou sôbre nós uma violenta trovoada, e com ella cahíram as primeiras gôtas d'àgua d'aquella nova èpocha das chuvas.

O dia 8 de Outubro veio encontrar-me mais doente, mais abatido de côrpo, mas não mais fraco de espìrito. Segui viagem, e meia hora depois, encontrava os grandes ràpidos de Bombue.

O rio forma um grande ràpido central, onde o desnivelamento é de 2 metros. Do lado de Este três canalêtes obstruidos por innùmeras rochas, e de Oeste um canal mais largo, onde o desnivelamento é mais ràpido.

A montante dos primeiros desnivelamentos, uma ilha coberta de vegetação divide o rio em dois braços iguaes. Bombue tem mais dois desnivelamentos, sendo o segundo trezentos metros a jusante do primeiro, e o terceiro duzentos metros a jusante d'este. Tôdos estes ràpidos sam cheios de pontas de rochas desencontradas, tornando impossivel a navegação.

Os barcos descarregados fôram lascados junto a terra, operação fadigosa, que levou muito tempo.


Figura 116.--Rapidos de Bombue.

Pozémos os barcos a caminho, encontrando um ràpido que sem querer passámos embarcados com inaudita felicidade; e depois de 4 horas de viagem, parámos junto á confluencia do rio Jôco. Viajei n'esse dia por entre ilhas de uma belleza admiravel, que apresentavam os panoramas mais pintorescos á minha vista, fatigada da monotonia do planalto Africano.
 
N'essa tarde, estando a repousar, fui acordado em sobresalto por os nêgros, que tinham visto perto alguns elephantes. Apesar do meu mao estado de saude, tomei a carabina e segui-os.

Na margem do Jôco avistei eu os enormes pachidermes, que se enlodavam n'um paúl.

Tomei-lhe o vento e approximei-me cauteloso. Eram sete soberbos animaes.

A floresta espêssa que descia até junto ao paúl, permittio-me approximar-me sem ser visto.

Por um momento contemplei aquelles gigantes da fauna Africana, e não posso occultar que tinha remorsos prematuros de lhes fazer mal. A necessidade venceu o escrúpulo, e atirei ao mais pròximo, dirigindo-lhe a bala ao frontal. O colosso oscillou um momento, sem mover as patas, e dobrando os joêlhos, foi cahindo de vagar sôbre elles--posição que conservou um momento, tombando depois para o lado, e fazendo tremer a terra com o baque enorme.

Os outros seis atravessáram o rio Jôco em apressado trotar, e desapparecêram na floresta.

Acerquei-me do inoffensivo quadrùpede, e ao contemplar a minha obra de destruição, não pude deixar de olhar para mim, depois de olhar para elle, e de me achar bem pequeno. O meu estado era tão melindroso, que ja não pude voltar por meu pé, e tive de ser amparado pêlos nêgros para chegar ao acampamento.

No dia immediato estava peior, e sobreveio-me uma grande inflammação do fìgado. Deitei causticos, que pulverizei de quinino depois de cortados.

A doença não me permittia partir n'aquelle dia, e resolvi ficar ali até experimentar melhoras. N'esse dia aconteceu ao meu Augusto a mais extraordinaria aventura de que tenho tido conhecimento. Atirou a um
bùfalo que ferio, e que correu ràpido sobre elle. Augusto tirou o machado, e no momento em que a fera baixava a cabêça para lhe marrar, atirou-lhe um golpe á fronte, com a sua força hercùlea.

Homem e bùfalo roláram por terra. A gente que estava perto do meu valente nêgro, julgára este morto, quando víra o feróz ruminante levantar-se e fugir. Augusto levantou-se, e àlém do abalo do choque, não
tinha soffrido nada.

Os nêgros acercáram-se d'elle, quando o meu muleque se abaixou, e depois de apanhar o machado, apanhou, tão admirado como os que o viam, um côrno do animal, cortado cerce pêlo golpe vigoroso.

Nas matas da região das cataractas, ha o Cuchibi, o Mapole, o Opumbulume e a Lorcha, frutos que mais ou menos se encontram no planalto, e àlém d'esses, dois frutos privativos d'ali, a Mocha-mocha, e o Muchenche. Este ùltimo é muito sacharino, e d'elle fiz eu um refresco muito agradavel.

Os causticos pulverizados de quinino, e três grammas d'elle que introduzi no organismo, em três injecções hypodèrmicas a curtos intervallos, acalmáram o meu estado febril, e no dia 10 levantei-me com sensiveis melhoras. A primeira noticia que me déram foi que o meu Augusto desapparecera desde a vèspera, e não tinha sido encontrado por alguns homens que o fôram procurar ao mato.

Esta noticia deu-me grande cuidado, porque o Augusto é de um atrevimento louco, e fêz-me recear uma desgraça. Mandei gente em tôdas as direcções a buscal-o, e eu mesmo fui com alguns homens, apesar do meu estado, e do muito que me faziam soffrer os causticos. Fôram infructuosas as nossas pesquizas, e da excursão apenas trouxémos dois seb-seb (Rubalis lunatus) que eu matei, e muitas varas de madeira, que os Luinas colhêram proprias para astes de azagaias, e que sam do mesmo pao de que fazem os remos. Chamam-lhe Minana.

De volta ao campo, secámos ao fôgo muita carne dos antìlopes.

Esta região, a que chamam o paiz de Mutema, é abundantissima de caça da floresta, e desde o elephante até á codorniz, ha milhares de animaes de tôdas as familias, gèneros e especies do planalto Africano. No Zambeze, ao contrario, escaceia a caça d'àgua, abundantissima na região das planicies.

Pêla tarde appareceu o meu Augusto, dizendo que se tinha perdido na floresta, e que encontrara uma povoação de Calacas, onde lhe tinham furtado tudo o que elle trazia, excepto a espingarda.

Os Luinas, ouvindo isto, declaráram que iam desforçar o Augusto, e por mais esforços que empreguei não consegui contel-os.

Alta noute voltáram os marinheiros, carregados com os despojos do saque, e entre elles vinha o casaco do meu muleque.

É costume d'elles, logo que encontram povoações de Calacas na região das cataractas, saqueal-as e destruil-as. N'essa noute o meu estado de saude aggravou-se bastante, mas apesar de me sentir gravemente doente, dei ordem de partir no dia immediato.

Uma hora depois de ter deixado a foz do rio Jôco, encontrei os grandes ràpidos de Lusso.

Desembarquei e segui por terra, fazendo três kilòmetros em três horas.

O rio em Lusso toma uma grande largura e divide-se em muitos ramos, formando ilhas cobertas de vegetação esplèndida.

Depois do bello panorama de Gonha, nada vi mais bello do que os ràpidos de Lusso.

Embarquei de nôvo por baixo dos ràpidos, e tendo navegado por duas horas, parei a montante da cataracta de Nambue.

As ilhas, com a sua vegetação pomposa, continuavam a apresentar os mais atrahentes aspectos.

Decidi passar a cataracta n'esse dia, e houve grande trabalho, com a pouca gente de que dispunha, para arrastar os barcos por terra. Levou quatro horas aquelle fadigoso lidar, mas consegui dormir a jusante da queda.

A cataracta de Nambue tem quatro desnivelamentos: o primeiro é de meio metro, o segundo, 150 metros a jusante, é de dois metros, e perfeitamente vertical, o terceiro, 60 metros abaixo, é de um metro, e o ùltimo, tambem de 1 metro, fica a 100 metros d'este.

Occupam por isso as quedas uma extensão de 310 metros. O Zambeze corre ali N.S., mas logo abaixo verga a S.O. para tornar a tomar o seu curso regular a S.S.E.

Durante a noute estive á morte. A febre intensa devorava-me, e nunca pensei chegar a ver nascer o dia 12 de Outubro, dia sempre festivo para mim, por ser o anniversario de minha mulhér. As repetidas injecções hypodèrmicas de sulphato de quinino em alta dose, conseguíram dominar a febre. Eu chamei o Verissimo e Augusto, e entreguei-lhes os meus trabalhos, recommendando-lhes, que, se eu morrêsse, proseguissem na viagem até encontrar o missionario, e lh'os entregassem.

Fiz-lhes ver, que o Mueneputo os recompensaria bem se elles salvassem aquelles papéis, e os entregassem em mão segura, que os fizesse chegar a Portugal.

Ás 6 horas da manhã do dia 12, senti um grande allivio e decidi seguir viagem.

Parti ás 6 e meia, e ás 7 e 15 minutos, passei uns pequenos ràpidos, e logo abaixo outros, mais desnivelados, extensos e perigosos. Entestámos ao ùnico canal praticavel, e logo que o barco se achou envolvido na corrente, um hippopòtamo veio resfolgar a jusante. Estàvamos entre Scylla e Charybdis, ou a fera ou o abismo. Tornámos a entestar com a corrente e subindo o rio, por uma habil manobra, pozémo-nos a coberto do perigo junto a um rochêdo quasi em sêco.


Figura 117.--Nos ràpidos.

O barco da carga, receando o cavallo-marinho, desviou-se do canal, e foi impellido com velocidade enorme de encontro ás rochas de um canalête obstruido. Nunca pensámos que se salvasse, mas elle derivou por entre as fragas e passou o perigo, tendo recebido apenas um golpe de àgua que quasi o encheu.

Ás 7.50, outros ràpidos, e ás 8, uns muito desnivelados e extensos. Quizémos sahir em terra, porque sentiamos a jusante um ruido enorme, semelhante ao rebombar dos trovões pêlos alcantiz das serras, que nos fez recear grandes ràpidos, ou uma cataracta impossivel de transpor. Foi baldado esfôrço. A margem mais pròxima, a esquêrda, ficava-nos a 600 metros, e a corrente ràpida, quebrando-se entre os cabêços basàlticos, e resaltando em ondas de espuma, tornava impossivel o abeirar á margem. Sam momentos indescriptiveis estes.

Levado por uma corrente vertiginosa, tendo diante de si o desconhecido, presentindo o perigo imminente a cada desnivelamento do rio que se lhe mostra, arrastado de voragem em voragem pêlos turbilhões da àgua revôlta, o homem experimenta a cada momento sensações novas, e cem vêzes soffre a agonia da morte, para sentir outras tantas o prazer da vida. Das 8 horas e 5 minutos ás 8 e 40, passámos seis ràpidos de pequeno desnivelamento; mas a essa hora, uma queda desnivelada de um metro se nos apresentou na frente. Semelhante ao homem que, em corrida, estaca por um movimento instinctivo, ao ver o abismo aberto sôb o seu caminho, o meu barco, como se fôsse animado, parou, por um impulso dos remos; machinal e inconsciente nos tripulantes. Esse momento de hesitação produzio o desgovêrno, e a comprida piroga atravessou na corrente, e saltou ao abismo, na corôa de espuma de uma onda enorme. Foi um segundo, mas foi o peior momento da minha vida. Era a Providencia que nos salvava. Se o barco tivesse atestado de prôa com a voragem, seria submergido, e estariamos perdidos. O desgoverno d'elle foi-nos a salvação. Logo abaixo d'estes, outros ràpidos menores; e então fizémos fôrça de remos para uns rochêdos, que a meio rio estavam collocados em ponto onde a corrente era mais fraca. Abeirámos a elles, e estivémos a tirar àgua e a arrumar as cargas, desarranjadas pêlo abalo dos ràpidos. Segui ás 8 e 55 minutos, e logo, ás 9 e 15, encontrámos novas cachoeiras. Ás 9 e 25, os grandes ràpidos da Manhicanga. Ás 9 e 30, outros; e d'ahi aos grandes ràpidos da Lucanda, que passámos ás 11 e 8 minutos, saltámos em sete cachoeiras mais. Depois de passarmos um pequeno ràpido, encontrámos a cataracta de Catima-moriro (apaga o fôgo) ao meio-dia.

É Catima-moriro o ùltimo desnivelamento da região superior das cataractas do alto Zambeze. D'ali até á nova região de ràpidos, que precede a grande cataracta de Mozi-oa-tunia, o rio é perfeitamente navegavel.

O espìrito tambem se fatiga como o côrpo, e foi verdadeiramente fatigado de espìrito, que eu cheguei ao têrmo d'essa perigosa jornada do dia 12, jornada que não posso relembrar sem terror. As commoções d'aquelle dia tinham sárado o côrpo, e achava-me sem febre, mas muito fraco. Appareceu muita caça, mas a minha fraqueza e as dôres que me produziam os causticos ainda abertos, não me permittíram caçar.

O curso do rio foi sempre a S.S.E.

D'ahi em diante, o rio torna a ter o mesmo aspecto do Barôze, planicies enormes, fundo de areia, e nem mais um rochêdo. As margens sam formadas por camadas sobrepostas de argila esverdeada. O vento leste era de nôvo fortissimo, e encrespava a superficie das àguas, levantando ondas bastante grandes. Apesar d'isso, segui a 13, e fui acampar junto da povoação de Catongo. De nôvo tinha peorado, e era prostrado pêla febre que me mettia no barco para seguir.

Ali em Catongo encontrei a minha gente, que tinha deixado na foz do Jôco, e que chegou n'essa noute.

Sube, que na vèspera tinham corrido um eminente perigo, sendo atacados por um bando de leões. Subindo para cima de àrvores podéram escapar-lhe, mas estivéram muito tempo cercados por elles. A minha cabrinha Córa foi içada por um pano que lhe atáram aos cornos, e estêve amarrada a um tronco junto de Augusto. O Augusto matou um dos leões, atirando-lhe de cima da àrvore, e trocou em Catongo a pelle d'elle por uma grande porção de tabaco.

No dia 14, naveguei a leste, direcção que toma o Zambeze, e fui acampar, pêla tarde, ja perto da povoação do Quisseque.

O rio continúa a dividir-se, formando grandes ilhas, mas não como as da região das cataractas. Sam canaviaes monòtonos, que cançam a vista.

Tivémos n'esse dia pescadores, que nos fornêceram abundante peixe. Fôram os Uanhis, como lhes chamam os Luinas, e que não sam mais do que pygargos gigantêscos que povoam as margens do rio. Fôram perseguidos alguns, que abandonáram o peixe que levavam.

Uma d'essas Àguias aquàticas, tinha nas garras poderosas um peixe mais corpulento do que uma pescada, e levou-o fugindo dos meus remadores, sem que mostrasse esfôrço ao voar.

Todavía, a maior parte abandonavam a prêsa, para fugir mais ràpidamente.

Estes pygargos do Zambeze, que não vi acima da região das cataractas, t[~e]m a cabêça, o peito e a cauda completamente brancos, e as azas e costas de um nêgro de èbano.

Sam exactamente como a especie Americana descripta com o nome de pygargo de cabeça branca, mas menos corpulenta do que a ave que serve de emblema ao pavilhão dos Estados-Unidos.

No dia 15 de Outubro, cheguei de manhã ao Quisseque, tendo navegado por uma hora a leste.

Não quiz ir para a povoação, ja desconfiado do gentio, e fui acampar no meio do caniçal de uma ilha fronteira. Mandei prevenir o chefe de que estava ali, e deitei-me abrasado em febre, que de nôvo reapparecera intensa.

Pouco depois da minha chegada, appareceu na ilha um homem trajando á Européa, que, pêla côr de café com leite da pelle, eu reconheci ser um filho das margens do Orange.

Disse-me, por intermedio do Verissimo, usando da lìngua Sesuto, que era criado do missionario, e estava ali esperando a resposta do rei Lobossi a respeito de seu amo. Por elle sube, que o missionario era Francez, o que sôbre modo me fez admirar. Este homem, que se chamava Eliazar, vendo-me muito doente, mostrou por mim carinhos que nunca vi em nêgro.

Dizendo-lhe eu, que vinha de propòsito procurar seu amo, elle manifestou-me o seu contentamento, e assegurou-me, que o missionario era o melhor homem do mundo.

Eu não sei explicar porque tive um prazer enorme sabendo que o meu homem era Francez, mas é facto que o tive.

Estava eu conversando com Eliazar, quando chegou o chefe, cujo nome é Carimuque, mas que tambem é conhecido pêlo de Moranziani, nome de guerra dos chefes do Quisseque.

Disse-lhe, que queria seguir viagem no dia immediato, porque estava muito doente, e precisava encontrar o missionario, para elle me dar remedios.

Preveni-o de que não tinha vìveres, nem com que os comprar, e elle prometteu-me mandar n'esse dia mesmo comida para mim e para os meus.

N'essa tarde os meus remadores começáram a gritar que não deixariam o Quisseque sem serem pagos. Eu chamei-os e fiz-lhe ver, que não tinha nada que lhes dar. Que o marfim só poderia ser convertido em fazendas logo que eu chegasse ao missionario que as deveria ter, e por isso para serem pagos era preciso seguir ávante.

Elles parecêram convencer-se com o meu argumento. Passei uma noute horrivel no caniçal da ilha. Eram cobras que perseguiam ratos, e ratos a fugir de cobras, os companheiros que tive em tôrno de mim. A febre augmentou. Carimuque veio ver-me na manhã de 16, e trouxe-me um presente de massamballa e uma pequena porção de farinha de mandioca.

Declarou-me elle, que os marinheiros se recusavam a seguir sem serem pagos, e que por isso mandasse eu recado ao missionario para elle me mandar as fazendas, e esperasse ali os enviados.

Recusei terminantemente fazel-o, e declarei-lhe, que lhes não pagava se elles não seguissem no dia immediato. Depois de grandes debates, em que fiz prova de enorme paciencia, e em que Eliazar pleiteava por mim, repetindo cem vêzes, que seu amo, logo que me visse, pagaria tudo o que elles quizessem, ficou resolvido que no dia 17 nos porìamos de nôvo em viagem.

N'esse dia chegáram ali os enviados que Carimuque mandara ao Lui com a mensagem do missionario.

Como se sabe, e eu ja narrei no comêço d'este capìtulo, Matagja opposera-se formalmente ao ingresso do missionario no paiz do Lui. A resposta do rei Lobossi, dada por Gambela, vinha cheia de hypocrisia, e não era uma negativa formal.

Mandavam dizer-lhe, que muito estimariam que elle fôsse para ali; mas que, n'aquelle momento, as guerras e a falta de commodidade que poderiam offerecer-lhe em Lialui, cidade novamente construida, fazia com que elles lhe pedissem, que se fôsse embora, e voltasse no anno seguinte. Para Carimuque vinha uma ordem positiva para não lhe dar meios de elle seguir para o Norte. Eliazar, que ficou muito triste com a mensagem do rei Lobossi, continuou fazendo-me companhia, e falando-me sempre de seu amo a quem tecia verdadeiros panegyricos.

Nesse dia, ás 4 horas da tarde, desencadeou sôbre nós uma horrivel trovoada, que despejou copiosa chuva até ás 6 horas. Carimuque veio ver-me de nôvo, e trouxe-me duas gallinhas.

Parti ás 9 horas do dia 17, e depois de navegar por duas horas e meia, encontrei a foz do rio Machila. Naveguei a E.S.E.

O rio Machila tem ali quarenta metros de largo por seis de fundo, mas de certo influe n'esta altura a àgua do Zambeze que o represa.

Corre em uma planicie enorme, onde pastam milhares de bùfalos, zêbras e grande variedade de antìlopes. Vi ali muitos coroanes, e presenciei um effeito de miragem sorprendente, apresentando-me tôda aquella manada heterogènea, de patas para o ar.

Nunca vi tanta caça junta como ali, é ella muito esquiva, e não deixa approximar a menos de duzentos metros.

Pude matar uma zêbra, que nos forneceu òptima carne, muito melhor do que a de qualquér antìlope. Depois de duas horas de demora ali, segui viagem, e naveguei por duas horas e meia mais, parando, ás 5 da tarde, por vermos na margem uma àrvore velha trazida pêla corrente, onde fomos fazer provisão de lenha para a noute. Foi um verdadeiro beneficio aquella àrvore, sem a qual não teriamos lenha para cozinhar em campinas despidas de arvorêdo.

Quando ìamos a seguir, appareceu um prêto, gritando que os outros barcos tinham amarrado muito acima e acampado ali a gente. Tivémos que voltar a traz, por não termos provisões no meu barco, e ir a carne na barco da carga.

Só ás 6 e 30 minutos, ja noute, juntei a minha gente, e acampei com elles.

N'essa occasião ja iam tôdos embarcados, porque Carimuque tinha pôsto dois barcos grandes á minha disposição, e n'elles eu havia accommodado Augusto, as mulheres, os pequenos e a minha cabrinha.

Calungo, o papagaio, esse viajou sempre comigo.

Carimuque tinha-me feito um presente valioso, n'uma porção de farinha de mandioca, o melhor alimento que ali podia ter, para mim tão doente e tão debilitado.

N'essa noute quiz comer uma pouca de farinha, e fui encontrar o saquinho que a continha completamente vazio.

Entrando em averiguações do caso, sube que fôra o meu muleque Catraio que a furtara e comêra.

N'essa noute, um drama terrivel passou-se junto do meu campo, no meio das trevas.

Foi o combate cruento entre um bùfalo e um leão, que terminou pêla morte d'aquelle em arrancos de agonia, ao passo que o seu vencedor dava prolongados rugidos, acompanhados por um côro de hyenas. De manhã, a 100 metros do acampamento, fomos encontrar os despojos do bùfalo, cuja cabêça estava intacta, e do qual existiam apenas ossos e farrapos de carne deixados pêlas hyenas.

Segui viagem, e depois de cinco horas de navegação, entre ilhas divididas por canalêtes, formando um systema complicado, aportei sôbre um ràpido desnivelado de um metro, primeiro elo da cadea de cachoeiras que vai terminar pêla grande cataracta de Mozi-oa-tunia.

Com o basalto reapparece a floresta lindissima, onde, entre outras àrvores, sôbressahem já os baobabs, esses gigantes da flora Africana, que eu não via desde Quillengues.

Desembarquei, e fui deitar-me á sombra de um d'esses colossos vegetaes.

Tinha terminado a minha navegação no alto Zambeze, e d'ali até encontrar o missionario o meu caminhar era de nôvo a pé.

A povoação de Embarira distava seis milhas do ponto onde eu estava, e para lá partíram os marinheiros com as cargas.

Eu adormeci, e só acordei por noute escura. Só o Verissimo, Camutombo e Pépéca estavam junto de mim. Perguntei-lhes ¿porque estàvamos ainda ali? respondendo-me o Verissimo, que não tinha querido interromper o meu sono. Apesar do escuro da noute, ia pôr-me a caminho, quando reparei que não tìnhamos uma só arma. O Verissimo, que de vez em quando fazia asneira, deixara levar as minhas armas para Embarira. Não fiquei socegado, vendo-me sem armas no meio de uma floresta infestada de feras. Mandei-os logo juntar lenha para fazer uma fogueira, mas ás escuras elles nenhuma encontravam que servisse.

Pépéca lembrou-se então de ter visto perto de nós um barco velho, que effectivamente encontrámos, mas a dura madeira do Mucusse resistia ao corte da minha faca de mato.

Lembrei-me de o jogar como arìete contra o tronco do baobab, e logo nós três dando-lhe o movimento de vai-vem, o lançámos com a màxima fôrça. A canôa fez-se em rachas na parte que soffreu o choque. Esta operação, repetida algumas vêzes, forneceu lenha e com ella uma bôa fogueira.

Estàvamos dispondo-nos a dormir ali, quando sentímos gente, e logo appareceu o Augusto com alguns homens, que vinham procurar-me.

Parti com elles, e cheguei a Embarira pêla meia noute. O chefe da povoação tinha-me preparado uma casa, onde me recolhi cheio de febre e fadiga.

Estava em Embarira, na margem esquêrda do rio Cuando, cujas nascentes havia descoberto e determinado três mezes antes.

Estava pròximo a alcançar o missionario, de quem esperava auxilio para poder continuar a minha viagem, e estava em vèspera de novas aventuras, que não calculava ainda.

O estado da minha saude muito melindroso, a dùvida no futuro, as apprehensões do presente, e milhares de persovejos, que tinha a casa onde me recolhi, fizéram-me passar uma noute atribulada.

Depois, uma outra idéa, não me sahia da mente. Ao chegar ali, sube, que um branco (Macua), que não era nem missionario nem commerciante, estava acampado de fronte de mim, na outra margem do Cuando.

¿Quem seria o meu companheiro n'aquellas remotas paragens?

Ardia em curiosidade, e contava os instantes para o alvorecer do dia seguinte.




CAPÌTULO SUPPLEMENTAR.


A pàginas 184, em capìtulo anàlogo a este, tratei por modo succinto, dos paizes comprehendidos no meu caminho entre a costa de Oeste e o Bihé.

N'este capìtulo buscarei epitomar o que nos meus trabalhos escolhi de mais interessante, relativo ao vasto territorio que medea do Bihé ao curso superior do rio Zambeze, até onde termina a narrativa da minha viagem na pàgina antecedente.

Apresentando um resumo das minhas determinações astronòmicas, dos meus estudos meteorològicos, etc., sem pedantismo o faço, e creio apenas, n'isso cumprir um dever, tornando pùblicos um certo nùmero de estudos e trabalhos de que fui encarregado, e que, se não interessam a alguns leitores, podem merecer attenção de outros.

Sem querer alcunhar-me de sabio, declarar-me ignaro seria affectação.

Àlém da carta geral d'Àfrica tropical do sul, quiz eu apresentar algumas cartas parciaes dos paizes que mais merecéram a minha attenção no caminho que segui, por poder dar a estas um desenvolvimento de detalhes que a pequena escala d'aquella não comportaria.

Vou tratar d'esse enorme tracto de territorio, debaixo do ponto de vista geogràphico, com tanto mais interesse, quanto elle é desconhecido aos geògraphos; que nas suas cartas o t[~e]m preenchido até hoje com linhas mal seguras, traçadas pela mão trèmula da dùvida, colhida nas informações pouco idòneas e contradictorias de gente ignara.

Um Europeo, Silva Porto, atravessou aquella parte da planura Africana, antes de mim, e em grande parte muito mais ao sul do caminho que segui; mas Silva Porto nunca publicou as suas interessantissimas notas, que agora anda pondo em ordem; e é preciso dizer, que, se essas notas dam um valioso subsidio ao estudo da ethnographia Africana, pelo muito que a sua vista observadora perscrutou dos costumes e do viver dos nêgros, dam ellas um fraco auxilio ás sciencias geogràphicas, em que elle, por falta de elementos, não pôde fazer um trabalho sério.

Sam paizes completamente novos á geographia aquelles que apresentei nos antecedentes capìtulos, e de que vou tratar n'este.

As coordenadas geogràphicas dos principaes pontos do meu itinerario fôram calculadas dos elementos que adiante publíco.

Começarei por descrever o systema fluvial d'esta parte da planura Africana.

As ùltimas àguas que correm á costa de Oeste nascem em tôrno do Bihé, dentro de um V enorme formado por dois rios, o Cubango e o Cúito, que, depois de se unirem em Darico, vam correr a S.E. no Deserto do Calaari.

O systema fluvial da Costa Oeste, entre a foz do Cuanza e a do Cunene, termina quasi ali; recebendo ainda o Cuanza alguns affluentes de Leste, que vam buscar as suas àguas ao meridiano 18 E. Greenw.; taes sam: o rio Onda, que ainda nasce dentro do àngulo formado pelo Cubango e Cúito, e o Cuiba e o Cuime, que entrelaçam as suas nascentes com as do Cúito e as de outro rio, o Lungo-é-ungo, que pelo Zambeze vai lançar no mar Indico àguas bebidas nos charcos de Cangala, por 18 de longitude; e que percorrem a enorme distancia de mil quatrocentas e quarenta milhas, para atingirem a meta que a natureza lhes marcou. A latitude destas nascentes, que, em amigavel convivio, partilham as suas àguas para pontos da terra tão distantes, é pròximamente de 12° e 30', isto é, está n'essa faxa, comprehendida entre os parallelos 11 e 13, onde nascem os dois rios gigantes da Àfrica Austral, o Zaire e o Zambeze, e seus principaes affluentes.

Entre o Equador e o parallelo 20 austral, esses dois rios formam dois systemas d'àguas perfeitamente definidos, mas que t[~e]m um traço commum de união no parallelo 12 e na faxa que borda esse parallelo 60 milhas ao Sul e ao Norte, entrelaçando ali as suas origens muitos dos grandes affluentes dos dois colossos, e formando de per-si cada um d'elles um systema d'àguas que vai engrossar as duas artérias principaes.

Assim pois, entre os meridianos 18 e 35 a leste de Greenwich, e os parallelos 8 e 15 austraes, tôda a àgua que corre ao Norte vai entrar no Atlàntico por 6°, 8', com o nome de Zaire; tôda a que corre ao sul entra no Oceano Indico por 18°, 50', com o nome de Zambeze.

Caminhando a E.S.E. afastava-me da bem pronunciada linha divisoria das àguas dos dois grandes rios, e ao passo que os meus ex-companheiros se entregavam ao estudo de um d'esses systemas d'àguas filial do Zaire, eu seguia passo a passo outro filial do Zambeze; e á medida que avançava no interior do continente, esse systema ia-se apresentando firmemente definido e claro.

Os paizes de que falei nos anteriores capìtulos, os mesmos de que estou tratando aqui, sam a sede de um systema fluvial, que forma um dos principaes, se não o principal, affluentes do Zambeze.

O rio Cuando, artèria principal d'este systema, nasce, por 18°, 57' de longitude, 12°, 59' latitude, n'um pequeno charco apaülado, superior ao nivel do mar em 1362 metros.

A sua foz, na confluencia com o Zambeze, está collocada em 17°, 49' de latitude, 25°, 23' de longitude, na altura de 940 metros do nivel do mar. A extensão do seu curso é de 540 milhas geogràphicas, ou pròximamente mil kilòmetros. O seu desnivelamento da nascente á foz é de 422 metros, ou de um metro em cada 2369 metros de curso.

Os affluentes do rio Cuando, pela maior parte navegaveis, representam uma extensão de vias fluviaes não inferior a mil milhas geogràphicas, ou pròximamente mil e oitocentos kilòmetros, que com o curso d'aquelle rio perfaz um total superior a 1600 milhas, ou perto de tres mil kilòmetros. Estes algarismos enormes representam a importancia d'aquella parte do planalto Africano.

Forçando a minha marcha, entre mil difficuldades, pude seguir a linha das nascentes do grande rio e seus principaes affluentes, que ficáram perfeitamente determinados nos seus cursos superiores.

Aos traçados hypothèticos, a que a maior parte dos geògraphos preferiam deixar na carta d'aquella parte d'Africa um branco enorme, pude substituir um traçado firme e seguro do paiz ignoto.

O rio Queimbo, o Cubanguí, o Cuchibi e o Chicului, sam todos rios navegaveis, banhando fèrteis paizes e promettendo um futuro áquella parte do continente nêgro, livre do zê-zê, a môsca terrivel, que corta cerce o porvir de muitos outros terrenos Africanos.

Agora, que em breves traços apresentei o grande e principal systema d'aguas das terras comprehendidas entre o Bihé e o Zambeze, vou succintamente falar da sua orographia.

Para isso preciso antes dizer duas palavras da constituição geològica do solo, que facilmente explica os pequenos accidentes d'elle.

O solo Africano Austral é rocha das èpochas primitivas. Se junto ás costas, nos terrenos baixos observamos os depòsitos sedimentares, e o trabalho da àgua, elles acabam ali, para não deixar perceber mais do que a acção do fôgo.

Os calcàreos terminam nas escarpas oeste das montanhas que formam os primeiros degraos do planalto. Succede-lhes immediatamente o terreno plutònico, e encontramos até ao Bihé o granito primitivo, profusamente distribuido. Do Bihé para leste o granito vai desapparecendo, e àlém Cuanza é substituido pelos xistos argilosos, e micaxistos.

É sempre o terreno eruptivo, mas debaixo da acção do metamorphismo. Effectivamente, do Cuanza ao Zambeze o solo é metamòrphico.

Sam xistos e micaxistos, tornados de tal modo plàsticos, pela acção das grandes àguas, que do Bihé ao Zambeze, se algum viajante tencionar um dia ali atirar alguma pedrada, eu recommendo-lhe, que leve pedras do Bihé e d'onde termina a região granìtica, porque em todo o caminho que segui não encontra uma só.

A natureza do terreno explica por si mesma o seu pouco accidentado, e a falta de cataractas e ràpidos nos rios d'esta região Africana. Em tôdo o caminho que segui ha uma depressão constante no terreno até ao leito do Zambeze, formando uma inclinação suave. Esta depressão é de 292 metros, em 720 kilòmetros, que medeiam da margem do rio Cuanza á planicie do Nhengo.

A orographia d'aquella região é produzida pela acção da àgua, e perfeitamente marcada pelas depressões dos leitos dos rios.

30 a 40 metros acima do nivel das àguas correntes, se elevam systemas de montes de cumiadas arredondadas e uniformes, acompanhando sempre sem excepção o curso das àguas.

A flora que se nos apresenta no Bihé, e onde a planura attinge a sua maior elevação, mais pobre em àrvores, mas riquissima em arbustos e plantas herbàceas; na parte leste do paiz do Bihé, e sobre tudo àlém-Cuanza, já recupera, com a menor elevação do solo, tôda a sua riqueza tropical.

A caça, que escaceia desde o paiz do Huambo até pròximo da nascente do Cuando, reapparece abundante d'ali até ao Alto Zambeze. Seis raças perfeitamente distinctas, e que os sertanejos da costa confundem debaixo do nome genèrico de Ganguelas, assentam as suas povoações do Cuanza ao Nhengo.

O paiz a leste do Cuanza, na parte que é cortado pelos rios, Cuime, Onda e Varea, e seus pequenos affluentes, é habitado pelos Quimbandes.

Do Cuito á nascente do Cuando, assentam as suas povoações os Luchazes. Os affluentes de E. do Cuando, este mesmo rio, sam povoados de gentes de raça Ambuela.

Como disse na minha narrativa, o paiz dos Luchazes está sendo invadido por uma emigração enorme de Quiôcos ou Quibôcos, que tendem a estabelecer-se nas margens do rio Cuito. Entre este rio e o Cuando e muito para o sul, o paiz, sem povoações fixas, é com tudo occupado por uma grande população nòmada, os Mucassequeres.

A margem sul do rio Lungo-é-ungo e seus pequenos affluentes, sam habitados por os Lobares. Tres d'estas raças, os Quimbandes, Luchazes e Ambuelas, falam a mesma lìngua, o Ganguela, com pequenas modificações.

Os Quiôcos e Lobares falam dialectos differentes, e os Mucassequeres uma lìngua original, tão diversa das outras, que é impossivel serem comprehendidos de povos estranhos.

Os Quimbandes sam indolentes e pouco guerreiros, pouco agricultores e pobres em gados, occupando um paiz fertilissimo, em todas as condições de dar a riqueza aos seus possuidores.

Formando federação, não deixam de andar em questões continuadas com os vizinhos da mesma raça.

Não sam bravos, mas sam ladrões, e atacam sempre as comitivas do Bihé que vam negociar cêra mais ao interior, logo que essas comitivas sam fracas e elles conhecem que podem vencer.

É certo, logo que desfila uma comitiva no paiz, estarem elles embuscados a contar as espingardas que traz, e o nùmero de caixas de pòlvora, que se distinguem pelo seu invòlucro de pelle de leopardo, costume adoptado pelos sertanejos Bihenos.

Se alguem entrar no paiz dos Quimbandes com 50 espingardas e seis ou oito caixas de cartuxos, pode dormir descançado, que só terá d'elles amizade e respeito.

Os Luchazes, um pouco mais agricultores do que os Quimbandes, não possuem já rebanhos bovinos, e apenas ha aqui e àlém algum gado caprino de inferior especie.

Já cuidam de colher cêra, e sam um pouco mais industriosos do que os seus vizinhos de oeste.

Em quanto a valor e honestidade, orçam pelo mesmo. Constituidos em federação como aquelles, cada povoação tem um chefe independente, um pequeno senhor, que não se dá ares de tyranno com o seu pôvo.

Os Ambuelas, de muito melhor ìndole, não sam nada guerreiros. Sam talvez a melhor gente indìgena d'Àfrica Austral.

Grandes cultivadores, não trabalham menos na colheita da cêra. Sam pobres, podendo ser riquissimos se tivessem gados.

Formam federação como os outros, mas os chefes conservam um pouco mais de independencia.

Em geral, vi n'Àfrica, que mais felizes e livres sam os povos governados por pequenos senhores. Não se praticam ali as scenas de horror tão vulgares nos grandes imperios regidos por autòcratas.

Se o roubo é vulgar, é desconhecido ali o assassinio, ao passo que entre os grandes potentados o roubo vem depois do homicidio.

Sem pertenções a propheta, quero crer, que, um dia, será entre aquelles povos que se estabelecerám os mais seguros elementos de civilisação Europea n'Àfrica.

É minha opinião, que nos paizes occupados pelas confederações Africanas, regidos por pequenos règulos, de ìndole menos guerreira, por se reconhecerem mais fracos, é que deve entrar a civilisação com mão forte, debaixo da forma do commercio, do missionario e do explorador.

Divirjo, por tanto, da opinião do mais ousado dos exploradores, do mais enèrgico trabalhador Africano, do mais dedicado apòstolo da civilisação do continente nêgro, do meu amigo H. M. Stanley.

Diz elle, que devem os missionarios atacar a Àfrica pelos grandes potentados.

Não penso assim, e o estudo dos factos demonstra-me o contrario.

O Matebelle desde 25 annos que possue missionarios Inglezes, e não ha ali um só Christão! Se o chefe é catechizado, o seu pôvo obedece e finge seguir a lei de Christo.

É como a estàtua de Nabuchodonosor, tem pes de barro aquella civilisação.

Môrra o chefe, venha outro que não queira trocar o harém onde ceva a brutal lascivia, pelo thàlamo nupcial onde uma só espôsa lhe acompanhe os passos na carreira da vida, e cahio o monumento, a civilisação desfez-se, e não ha àmanhã um só christão na igreja que hoje regorgitava de pôvo.

O commercio é bem recebido pelo grande potentado, porque representa interesses immediatos materiaes de que elle colhe o fruto.

No Matebelle, onde os missionarios Inglezes não t[~e]m podido fazer escutar a doutrina de Christo, os negociantes Inglezes t[~e]m introduzido com o vestuario e com outras necessidades que t[~e]m sabido crear, uma civilisação relativa.

Podem apontar-me o exemplo do Bamanguato, mas eu respondo com o que já disse. Môrra o rei Khama, e vá ao poder um sova que não queira ser Christão, e tôdos os cathequizados se esvaïrám como fumo. Os negociantes continuarám o seu tràfico, mas o missionario terá de repetir com elle as orações do Domingo, ás pessôas de familia que o rodeam.

Digo-o sem receio de errar.

No Transvaal, entre pequenos règulos, vemos muitos indìgenas que seguem a lei do Evangelho. No Basuto ha Christãos convictos, independente da influencia d'alguns chefes que o não sam.

Se os exemplos sam estes, aquelles que vêem no missionario o primeiro mensageiro da civilisação Africana, que ataquem os pontos fracos do reducto, e não vam perecer ingloriamente onde o cruzamento dos fogos é mais activo.

Eu sou apologista do missionario, merecem-me a maior consideração não só as missões, em si mesmo, mas os seus membros espalhados no meio dos povos bàrbaros do continente nêgro. Tenho visto em quasi todos os que conhêço a tendencia para seguirem um caminho differente d'aquelle que aponto.

Tôdos querem um grande nùmero de adeptos para a catechese, sem olharem ao terreno em que semeam.

Uma vez que incidentalmente falei dos missionarios Africanos, vou ràpidamente dizer duas palavras mais sôbre o assumpto, que me proponho a ratar um dia largamente em obra adequada.

Eu francamente não creio o cèrebro do prêto á altura de comprehender um certo nùmero de questões, comezinhas entre povos de raças evidentemente superiores.

As questões abstractas sam sublimes e incomprehensiveis a tão inferiores organizações.

Explicar theologia a um prêto equivale a expor as sublimidades do càlculo differencial a uma assemblea de camponios.

Mas, se o prêto não está á altura de poder jàmais comprehender as verdades da religião de Christo, têm sem dùvida o sentimento do bem e do mal, e está nas condições de comprehender os principios de moral commum.

Marchem para entre os povos ignaros d'Àfrica Central os missionarios, sigam sem trepidar o caminho que lhes impõe a sua missão evangèlica, mas desvendem os olhos.

Tomem para si o que ha de abstracto na sciencia de Deus, e não queiram ensinar aos nêgros o que ha de sublime n'ella para cèrebros mais bem organizados. Ensinem moral e só moral, com o exemplo e com a palavra; criem necessidades aos que a ignorancia faz prescindir de tudo; criem-lhes necessidades, que ellas farám nascer o trabalho, e só por elle se regenera um pôvo.

Quero missionarios, mas quero missionarios do christianismo e da civilisação, homens que compenetrados dos seus devêres para com Deos e para com a sociedade, saibam firmar o edificio social em sòlidas bases; ensinando o bem e o trabalho, e tudo o que o prêto possa comprehender; esperando a occasião que o tempo, a civilisação, não deixará de trazer, se elle bem trabalhar, para ir pouco a pouco incutindo nos ànimos as verdades da theologia e da moral.

Busque primeiro fazer do prêto um homem, que tempo terá de fazer do homem um Christão. Seguir o caminho contrario é edificar na areia.

No correr d'esta obra terei ainda de falar nas missões Africanas, e falarei desassombradamente com a consciencia de que presto um verdadeiro serviço á causa das missões e á causa da humanidade, apontando erros de que ellas estam eivadas.

O homem que mais poderia coadjuvar o missionario em Àfrica seria o negociante.

Infelizmente o commercio sertanejo está em mãos de bem tristes apòstolos da civilisação.

Já falei dos Portuguezes, e com bem pesar meu tenho de metter estrangeiros em linha igual. Por um lado, a invasão do commercio pelos Àrabes de Zanzibar não dá em civilisação e cultura o que devia dar, porque a dissolução de costumes de taes gentes destroe tudo quanto o commercio adianta.

Por outro lado, os traders (traficantes) Inglezes, creio que deixam muito a desejar em moralidade, segundo ouvi dizer a missionarios seus conterraneos. Esta questão, do commercio sertanejo como meio
civilisador, é questão que me proponho a tratar um dia, e que não é cabida aqui, onde só por incidente falei de missões e commercio.

Volvendo a entrar em assumpto, dizia eu, que os paizes comprehendidos entre o Cuanza e o Zambeze estam em condições de receberem com mais facilidade do que os outros povos que conhêço em Àfrica, o impulso civilisador que a Europa hoje se empenha em imprimir aos esquècidos povos do grande continente.

Deixando estes paizes, dos quaes já falei detidamente nos anteriores capìtulos, vou entrar no Alto Zambeze.

Até ali era eu o primeiro explorador a pisar aquellas paragens, o primeiro a descrevel-as, o primeiro a apresentar uma carta geogràphica que as representasse; ali havia sido já precedido por outro, e por outro que se tornou tão distincto na obra da civilisação Africana, que ganhou um tùmulo em Westminster Abbey, e repousa hoje junto dos reis, dos grandes homens de Inglaterra. Vinte annos antes de mim, David Livingstone percorreu aquelle paiz.

N'esse tempo era elle governado por outra raça, e eu fui encontral-o em condições bem differentes.

As condições de geographia physica eram as mesmas; mas os geògraphos que seguirem outros, terám sempre rectificações a fazer, terám sempre alguma cousa a acrescentar.

Entre a carta de Livingstone e a minha ha differenças que já déram nas vistas a alguns geògraphos Europeos.

Que o vulto respeitavel do cèlebre explorador me perdôe se eu o contradizer em alguns pontos da sua geographia do Alto Zambeze. Era a sua primeira viagem, e o Missionario ousado estava longe ainda de ser o explorador geògrapho do futuro. Elle mesmo não se vexa de confessar que, n'esse tempo, de balde tentou medir a largura do rio por um processo trigonomètrico comezinho.

Da confluencia do Liba á do Cuando, o Zambeze apenas recebe na margem direita dois affluentes, o Lungo-é-ungo e o Nhengo.

Quem viaja da Costa de Oeste vê logo, que entre o Nhengo e o Cuando nenhum rio pode existir. Assim pois o rio Longo, o Banienko, etc., sam traços filhos de informações erròneas.

Na longitude do Zambeze, no parallelo 15, encontrei tambem differença grande para oeste; notando-se que essa differença envolve um êrro manifesto; porque eu observava os reapparecimentos do primeiro satèlite de Jùpiter, e havendo erro da minha parte era esse erro prejudicial a mim, porque envolvia approximação da determinação de Livingstone.

Cada quatro segundos que eu visse mais tarde o reapparecimento, era uma milha mais a favor d'elle.

O que poderia produzir um erro que me afastasse da posição determinada, era eu ver o satèlite antes do reapparecimento, o que é materialmente impossivel.

O curso do Alto Zambeze, na parte em que o visitei, isto é, do parallelo 15 á cataracta de Mozi-oa-tunia, é dividido em quatro trôços perfeitamente distinctos. Do parallelo 15 (e mesmo muito mais do Norte) até pròximo do parallelo 17, é perfeitamente navegavel em tôdas as èpochas do anno.

Ahi começa a apparecer o terreno vulcànico, e com elle o basalto. É a primeira região dos ràpidos e cataractas, onde fôra um serio obstàculo, a grande cataracta de Gonha; tudo mais com pequeno trabalho se tornava facilmente navegavel, abrindo um canal junto de uma das margens. Mesmo em Gonha, era de pequena difficuldade profundar um canalête que existe na margem esquêrda junto do caminho que segui por terra, e que vem designado na carta, por onde se escôam àguas na èpocha das cheias.

Da ùltima cataracta, Catima-Moriro, até á confluencia do Cuando, torna o rio a ter uma navigabilidade facil.

D'ahi para jusante novos ràpidos vam terminar na enorme cataracta de Mozi-oa-tunia, e essa região não poderá nunca ser aproveitada como via importante, porque uma sèrie de abismos lhe corta um futuro melhoramento qualquér quanto a navegação.

No valle do Alto Zambeze ha terrenos productivos e ferteis. Vastas pastagens alimentam milhares de rêzes nos valles, acima e abaixo da região das cataractas. Na região montanhosa ha a môsca Zê-zê, e torna-se difficil passar os gados de Lialui ao Quisseque.

Contudo, a môsca está concentrada nas florestas da região das cataractas, e para leste do Barôze não existe, porque os povos Chuculumbes sam grandes pastôres.

O valle do Alto Zambeze, cheio de belleza, fertil e rico, exhala do seu seio envôlto nos aromas das suas flôres o miasma pestilente. Os Macololos fôram dizimados pelas febres, e quando as azagaias do rei Chipopa libertáram o paiz dos ùltimos conquistadores, já o clima tinha feito a sua obra de destruição.

Os Bihenos, que resistem ás febres de quasi tôdos os paizes Africanos que visitam, sam fulminados pelos miasmas do Zambeze.

No paiz entre o Bihé e o Zambeze, onde as caravanas se demoram muito tempo a permutar cêra, é rarissimo haver um caso de febre no gentio Biheno; àlém da planicie do Nhengo, multiplicam-se as sepulturas d'elles.

Verissimo, indìgena e possuindo uma organização refractaria ao miasma, Verissimo, que nunca em sua vida estivera doente, não pôde escapar ao clima do Barôze, e vímos no capìtulo antecedente ser elle prostrado pêla febre. Eu mesmo, que resisto bastante ás endemias Africanas, sentia respirar a morte com o ar que respirava ali.

Esta verdade, se tivera sido apregoada ha mais tempo, teria poupado a vida á familia Elmore, que só d'abeirar-se ao paiz succumbio; porque o clima na região do Quisseque, e da confluencia do Cuando até Linianti, não tem melhores condições de salubridade do que o Barôze.

Cumpro um dever falando bem alto a linguagem da verdade a respeito de um paiz que está merecendo a attenção da Europa.

Ahi fica ella, e salva está a minha responsabilidade de informador consciencioso, para todas as desgraças, que aquella voragem ainda ha de causar aos que não crerem.

¿Será por isso o Lui um paiz de que se dêva fugir e ao qual ninguem se deverá abeirar? Não é, e eu vou procurar demonstrar, que elle deve merecer uma séria attenção, não só á Europa em geral, como muito particularmente a Portugal.

A Àfrica Austral, entre os parallelos 12 e 18, tem uma largura media de dois mil e seiscentos kilòmetros, e a partilha das àguas para as duas costas faz-se a um quinto d'esta extensão, junto á Costa de Oeste; porque se faz pròximo do meridiano 18 E. Greenw., isto é, a 600 kilòmetros apenas, da Costa Oeste.

D'ahi já se lançam dois rios, cujas àguas se juntam ao Zambeze, o Lungo-é-ungo e o Cuando.

Antes de vermos a importancia d'estes dois cursos d'àgua, estudemos o proprio rio gigante, aquelle que bebe as àguas de tôdo o planalto Africano ao sul do parallelo 12 até ao parallelo 20, e a leste do meridiano 18.

O Zambeze divide-se naturalmente em tres grandes trôços perfeitamente distinctos:

O alto curso, o curso medio, e o curso inferior.

O Alto Zambeze comprehende o rio desde as suas nascentes, ainda ignotas, até á sua grande Cataracta Mozi-oa-tunia.

O curso medio estende-se desde Mozi-oa-tunia aos ràpidos de Cabrabassa; e o Baixo Zambeze d'ahi ao Mar Indico.

Vejamos agora quaes sam as condições de navigabilidade de cada uma d'estas partes do rio, e qual a sua importancia relativa, e a dos seus affluentes.

Já n'este mêsmo capìtulo descrevi as condições do Alto Zambeze e por isso começarei por tratar do seu curso medio.

Conta elle de Mozi-oa-tunia a Cabrabassa uma extensão de 460 milhas geogràphicas, ou de 828 kilòmetros, e divide-se em duas regiões perfeitamente distinctas, a superior e a inferior, cada uma das quaes é extensa de 230 milhas, ou 414 kilòmetros.

A região superior, que principia na grande cataracta e termina nos ràpidos de Cariba, não tem importancia como via navegavel, nem pelos affluentes que recebe, todos pequenos e inaproveitaveis á navegação.

Tem esta região alguns trôços navegaveis, mas em pequenas extensões, e logo interrompidos com ràpidos. A segunda parte do curso medio, de Cariba a Cabrabassa, está em condições bem differentes, tanto por offerecer uma facil navigabilidade como por os importantes affluentes que recebe do Norte. De um d'estes affluentes me occuparei em breve.

O Baixo Zambeze, de Cabrabassa ao mar, conta uma extensão de 310 milhas geogràphicas, ou 560 kilòmetros, onde apenas poucas milhas sam occupadas pelas cachoeiras de Cabrabassa; sendo o resto do curso navegavel, ainda que em más condições, por falta de àgua na estação estia.

Esta parte do rio, mesmo nas más condições em que está da confluencia do Chire a Tete, é ainda uma grande via por onde se faz todo o commercio do interior com Quelimane. Recebe elle um affluente importante, o Chire, magnìfico rio, que da sua foz a Chibisa, não tem cataractas, sendo perfeitamente navegavel. O Chire que vem do Norte, no seu têrço medio corre a S.E. quasi parallelamente ao Zambeze; e por isso de Chibisa a Tete apenas medea uma distancia de 65 milhas geogràphicas, ou 117
kilòmetros, em terreno pouco accidentado, e que hoje, sem caminhos, se vence facilmente a pé em cinco dias.

Esta circunstancia é muito para merecer a attenção; porque, sendo o rio Zambeze pobre em profundidade da foz do Chire a Tete, não o é do Mazaro ao mar; e assim, navegando-se por elle e pelo Chire até Chibisa, chegamos a 5 dias de jornada a pé, de Tete, com toda a rapidez que nos podem proporcionar aquellas magnìficas vias. Os 117 kilòmetros que separam Chibisa de Tete, podem ser vencidos em um dia com uma simples estrada de rodagem, e em tres horas com uma ferrovial.

Estam pouco ou nada estudados os ràpidos de Cabrabassa, e não faço idéa até que ponto elles constituem um sério obstàculo á navegação, e se com pequeno ou grande trabalho se poderia remover esse obstàculo.

Sei porem, que a região que elles occupam é pouco extensa, o que já constitue uma vantagem indiscutivel.

Voltemos ao curso medio do Zambeze.

Recebe elle pelo norte dois importantes rios, o Aruangua do norte, e o Cafucué.

O primeiro, em cuja foz assentou outrora a importante e commercial villa do Zumbo, cujas ruinas attestão até que ponto a ouzadia Portugueza, ia fundar os seus mercados, introduzindo a civilisação e o commercio nas mais remotas terras Africanas, é um rio volumoso em àguas, mas, (dizem os sertanejos Portuguezes) muito cortado de cataractas.

Seria contudo importantissimo o seu estudo, ainda que não lhe vejo a mesma importancia que tem o outro rio, o Cafucué, de que vou falar.

Os pombeiros Bihenos passam ao norte do Lui, atravessam o paiz dos Machachas, e encontram um rio enorme a que elles chamam o Loengue. Esse rio é percorrido por elles nas suas viagens de tràfico, que o sobem até ás origens, e descem até á foz, onde toma o nome de Cafucué.

Alguns dos que estavam comigo fizéram muitas vezes essa viagem, e raro é o Biheno que não tenha estado em Caiuco.

Miguel, o meu caçador de elefantes, de quem mais de uma vez falei no correr da minha narrativa, passou dois annos n'aquelle paiz caçando elefantes, e muitas vezes percorreu o rio embarcado de Caiuco a Semalembue; isto é uma distancia que eu calculo grosseiramente em 220 milhas geogràphicas, ou 400 kilòmetros.

De Lialui a Caiuco deve a distancia ser de 220 kilòmetros, porque é facilmente vencida pelos Luinas em dez dias, havendo exemplos de ter muitas vezes sido ganha em 8 e 7. Em virtude d'estes dados, lancemos um ràpido golpe de vista ao estudo que temos feito do Zambeze, e reconheceremos que, n'uma extensão de 900 milhas geogràphicas, ou 1620 kilòmetros, seguindo pelo Zambeze, Chiri-Tete, Cafucué ou Loengoe, a Caiuco e Lialui, temos apenas 18 dias de caminho por terra, 5 de Chibisa a Tete, 3 de Cabrabassa, e 10 de Caiuco a Lialui; representando uma extensão de 400 kilòmetros, e por isso sendo aproveitados 1220 kilòmetros de vias fluviaes perfeitamente navegaveis.

Voltemos agora ao Alto Zambeze, e vejamos quaes as suas circunstancias com relação aos seus affluentes. De um sabemos nos já que é navegavel, o Cuando, mas sabemos tambem, que elle desàgua entre duas regiões de cataractas; o que o isola das partes importantes do curso do Zambeze.

Mas da região que está entre a sua foz e o Lui, já disse que não vejo impossibilidade de ser facilmente tornada em via aproveitavel; e logo que assim seja, e mesmo agora, poderìamos descer do Lui, e subir pelo Cuando até perto do meridiano 18.

Contudo, outro rio poderia fornecer-nos o meio de attingir aquelle ponto mais directa e facilmente, se fôsse navegavel.

Era elle o Lungo-é-ungo.

O Lungo-é-ungo é a grande estrada dos Bihenos para o Alto Zambeze, e por isso muito conhecido d'elles. Affirmam-me, que não tem cataractas, e não deve tel-as, correndo em terreno igual ao do Cuando e do Ninda.

O seu desnivelamento é de 400 metros em 540 kilòmetros de curso.

Dizem os Bihenos, e affirmáram-me os naturaes, sempre que andei pròximo d'esse rio, que elle não tem cataractas, como já disse, mas que por vezes a sua corrente é muito violenta, sendo preciso puxar as canôas á cirga. Sendo isto verdade, como supponho, chegarìamos do Mar Indico, quasi á Costa de Oeste d'Àfrica, apenas com 18 dias de caminho por terra, a pé! Isto é, em uma extensão superior a dois mil kilòmetros, apenas terìamos de caminhar em terra 400!

A exploração do Loengue ou Cafucué e a do rio Lungo-é-ungo sam hoje das mais importantes a emprehender na Àfrica Austral, e sam relativamente faceis e pouco custosas.
 
Não pude deixar de chamar a attenção para este ponto, que resolve o problema da facil communicação entre as duas costas.

Já vam longas estas divagações, em um capìtulo onde eu apenas tencionava apresentar os meus trabalhos geogràphicos e meteorològicos.

Nas seguintes pàginas vai publicado d'esses trabalhos, o que eu julguei mais interessante para alguns leitores.

Ás observações iniciaes de astronomia que me déram a determinação dos pontos do meu caminho, seguem-se aquellas que me premitíram fazer o relêvo do continente.

V[~e]m depois as notas meteorològicas, com interrupções inevitaveis quando se é só a fazer um trabalho tal.

Constam ellas de dois boletins, que registam as observações feitas 0 h. 43 m. de Greenwich, e ás 6 horas da manhã do logar em que me achava, hora a que dava corda aos chronòmetros.

O estudo d'esses boletins mostra sempre a grande uniformidade das oscillações baromètricas, e as enormes desigualdades de temperatura e de humidade do ar nos paizes a que se referem.

Vê-se tambem, que os ventos reinantes sam do quadrante Este em todo o paiz do Bihé ao Zambeze.

Como já tive occasião de dizer, e bem se comprehende ao ler a minha narrativa, não pude fazer collecções naturalistas, e apenas, aproveitando muito pouco papél de que podia dispor, levei das nascentes do rio Ninda algumas plantas, que estam em poder do Snr. Conde de Ficalho, para serem estudadas, e onde parece já terem apparecido algumas especies novas.

É opinião do Snr. Conde de Ficalho, que o cereal muito cultivado entre os Quimbandes e Luchazes, a que eu chamo Massango, e erradamente chamei Alpiste, é uma especie de Penicillaria, a que chamavam outrora os botànicos Penicetum typhoideum.

Aquelle que eu designo com o nome de Massamballa é o Sorghum.




Quadro das Observações Astronòmicas pelo Major Serpa Pinto do rio
Cuanza ao Zambeze.

Anno de 1879. Logares onde observei. Hora dos Chronòmetros. Estado para Greenwich.
H. M. S. H. M. S.
a Junho 17 Mavanda --- ---
b " " " 9 12 39 + 3 47 18
c " " " 5 53 44 + 3
47 4
d " " " 5 37 55 ---
e " 22 " 9 25 38 + 3 47 48
f " 24 Rio Onda --- ---
g " " " 8 57 0 + 3 47 54
h " 25 " --- ---
i " 26 " 9 42 58 + 3 48 10
j " 30 1.5 milha a O. do rio Cuito --- ---
l " " " 9 3 51 + 3 48 46
m Julho 2 Alem do Cuito --- ---
n " 3 " 0 29 32 + 3 49 7
o " " " 3 53 7 ---
p " 4 Cambimbia --- ---
q " " " 8 56 46 + 3 49 15
r " " " --- ---
s " " " 8 55 26 + 3 49 15
t " 6 Cambuta  --- ---
u " " " 9 0 2 + 3 49 31
v " 7 " --- ---
x " " " 9 10 14 + 3 49 39
z " 10 Nascente do Cuando --- ---
0 " 11 " 8 53 23 + 3 50 24
1 " " " --- ---
2 " 14 Nascente do Cubangui --- ---
3 " " " 9 11 11 + 3 50 54
4 " 17 Cangamba 9 2 40 + 3 51 24
5 " 18 " --- ---
6 " 19 " --- ---
7 " " " 9 5 8 + 3 51 44
8 " 23 " 9 9 29 + 3 51 56
9 " " Margem Direita do Cubangui 4 49 47 + 3 52 5
A " " " 4 52 5 + 3 52 5
B " " " --- ---
C " 29 Caú-eu-hue   --- ---
D " " " 8 55 42 + 3 52 48
E " " " 8 58 22 + 3 53 1
F " " " 8 59 5 + 3 53 1
G " " " 8 59 42 + 3 53 1
H " 31 " 8 45 30 + 3 53 19
I " " " 8 46 28 + 3 53 19
J " " " 8 47 27 + 3 53 19
L " " " 8 48 58 + 3 53 19
M " " " 8 50 40 + 3 53 19
N Agosto 3 " 9 9 11 + 3 53 49
O " 4 Margem Esquerda do Cuchibi 3 15 7 + 3 53 51
P " " " 2 40 47 ---
Q " 5 Ponto onde deixei o Rio --- ---
R " " " 8 53 7 + 3 54 0
S " 7 Rio Chicului  --- ---
T " " " 9 0 6 + 3 54 16
U " 10 Nascente do rio Ninda 6 57 20 + 3 54 41
V " " " 6 58 20 + 3 54 41
X " " " 3 3 52 - 2 7 56
Z " 11 " --- ---
= " " " 3 3 9 - 2 7 53
- " 13 Margem do Ninda --- ---
+ " " " 6 33 5 }
/ } 3 55 7
* " 16 " 6 55 53 }
: " " Povoação de Calomba  --- ---
; " " " 6 29 36 }
! } + 3 55 33
? " " " 6 54 8 }
^ " " " 6 31 48 }
' } + 3 55 33
. " " " 6 51 46 }
, " 18 Povoações do Nhengo --- ---
\ " " " 8 58 21 + 3 55 42
" " 21 Canhete  --- ---
$ " 25 Lialui --- ---
% " 29 " --- ---
& Setembro 10 Catongo --- ---
( " 12 " 3 46 19 + 3 57 35
) " " " 1 9 50 ---
[ " 19 " 9 6 53 + 3 58 42
] " " " 3 4 9 ---
« " 20 " 0 20 0 + 3 58 0
» " 21 " 6 2 0 - 1 33 0
< " " " 6 0 0 - 1 33 0
> " 22 " 5 38 0 - 1 33 0
~ Outubro 1 Sinanga  --- ---
{ " 4 Sioma  --- ---
} " " " 10 10 1 + 4 0 40
_ " 9 Confluencia do Jôco 9 8 9 + 4 1 30
£ " " " 10 42 0 - 1 36 0
# " 11 Cataracta de Nambué 12 3 0 - 1 37 0
¨ " " " 3 48 34 + 4 1 50

Natureza
da Observação.
Dupla
altura do astro.
[A] [B] [C] [D] Resultados.
° ' " ° ' H. M. ' " ° '
a Altura Mer. [*-] 107 32 20 --- 1 9 - 0 40 1 12 35 S.
b Chron. [*-] 83 45 10 12 35 --- - 0 35 3 12 26 E.
c     "       [)-]  70 33 10 12 35 --- " 1 Diff. do Chron. 4^h.57^m.6^s.
d Eclipse do 1^o. satèlite de Jup --- --- --- --- --- Long. 17° 30' E.
e Chron. [*-]  79 30 16 12 35 --- - 0 50 3 " 17 30 E.
f Altura Mer. [*-] 107 24 10 --- 1 10 - 0 30 1 Lat. 12 37 S.
g Chron. [*-] 88 24 20 12 37 --- - 0 25 1 Long. 17 45 E.
h Altura Mer. [*-] 107 25 30 --- 1 10 - 0 30 1 Lat. 12 38 S.
i Chron. [*-]   73 18 40 12 37 --- - 0 40 1 Long. 17 46 E.
j Altura Mer. [*-] 107 31 20 --- 1 12 " 1 Lat. 12 48 S.
l Chron. [*-] 86 4 24 12 48 --- " 5 Long. 18 7 E.
m Altura Mer. [*-] 107 35 50 --- 1 12 " 1 Lat. 12 54 S.
n Chron. [)-]  83 23 30 12 57 --- - 0 40 3 Diff. para o logar 5^h.2^m.45^s.
o Eclipse do 1^o. satèlite de Jup --- --- --- --- --- Long. 18° 23' E.
p Altura Mer. [*-] 107 50 0 --- 1 13 - 0 40 1 Lat. 12 56 E.
q Chron. [*-]  86 38 40 12 56 --- " 3 Long. 19 41 E.
r Altura Mer. [*-] 107 50 20 --- 1 14 " 1 Lat. 12 56 S.
s Chron. [*-] 87 3 47 12 56 --- " 4 Long.  19 41 E.
t Altura Mer. [*-] 108 9 0 --- 1 15 " 1 Lat.  12 58 S.
u Chron. [*-]  87 3 50 12 58 --- " 3 Long. 18 43 E.
v Altura Mer. [*-] 108 22 0 --- 1 15 " 1 Lat. 12 58 S.
x Chron. [*-] 83 57 36 12 58 --- " 3 Long. 18 45 E.
z Altura Mer. [*-] 109 2 0 --- 1 16 " 1 Lat. 12 59 S.
0 Chron. [*-]  89 36 30 12 58 --- " 3 Long. 18 57 E.
1 Altura Mer. [*-] 109 16 50 --- 1 16 " 1 Lat. 12 59 S.
2 " 109 43 40 --- 1 18 " 1 " 13 12 S.
3 Chron. [*-] 83 33 16 13 12 --- " 3 Long. 19 27 E.
4 " 86 1 40 13 38 --- - 0 50 3 " 19 41 E.
5 Altura Mer. [*-] 110 9 20 --- 1 19 " 1 Lat. 13 38 S.
6 " 110 30 50 --- " " 1 " 13 38 S.
7 Chron. [*-]  85 41 33 13 38 --- - 1 50 3 Long. 19 41 E.
8 Azimuth 26° 15' 84 42 30 " --- - 0 20 1 Variação 18 22 O.
9 Chron. [*-]  87 48 30 13 48 --- - 0 35 3 Long. 19 42 E.
A " 88 37 27 " --- " 3 " 19 44 E.
B Altura Mer. [*-] 111 42 40 --- 1 19 " 1 Lat. 13 48 S.
C " 112 58 40 --- " - 1 0 1 " 14 30 S.
D Chron. [*-] 89 23 10 14 30 --- " 1 Long. 20 19 E.
E " 88 28 40 " --- " 1 " 20 17 E.
F " 88 15 0 " --- " 1 " 20 16 E.
G " 88 2 20 " --- " 1 " 20 16 E.
H " 93 16 50 " --- " 1 " 20 17 E.
I " 92 59 10 " --- " 1 " 20 16 E.
J " 92 39 40 " --- " 1 " 20 17 E.
L " 92 11 0 " --- " 1 " 20 15 E.
M " 91 36 30 " --- " 1 " 20 17 E.
N " 86 5 50 " --- - 0 55 2 " 20 15 E.
O " 76 56 50 14 34 --- " 2 Diff. para o logar 5^h.14^m.56^s.
P Eclipse do 1^o satèlite de Jup --- --- --- --- --- Long. 20 23 E.
Q Altura Mer. [*-] 116 8 10 --- 1 21 - 0 55 1 Lat. 14 42 S.
R Chron. [*-]  91 47 53 14 42 --- " 3 Long. 20 25 E.
S Altura Mer. [*-] 117 21 40 --- 1 21 " 1 Lat. 14 39 S.
T Chron. [*-] 89 44 50 14 42 --- " 3 Long. 20 38 E.
U Alt. prox. do Mer. [*-] 118 37 50 --- --- " 1 Lat. 14 46 S.
V " 118 35 10 --- --- " 1 " 14 46 S.
X Chron. [*-] 89 35 15 14 46 --- " 3 Long. 20 55 E.
Z Altura Mer. [*-] 119 26 20 --- 1 23 - 0 50 1 Lat. 14 46 S.
= Chron. [*-] 90 8 46 14 46 --- " 3 Long. 20 56 E.
- Altura Mer. [*-] 120 33 30 --- 1 25 - 0 55 1 Lat. 14 48 S.
+
/ Alturas iguaes [*-] 120 17 10 --- --- " 2 Long. 21 16 E.
*
: Altura Mer. [*-] 122 12 0 --- 1 25 - 0 50 1 Lat. 14 54 S.
;
! Alturas iguaes [*-] 121 52 10 --- --- " 2 Long. 21 41 E.
?
^
' " 121 58 50 --- --- " 2 " 21 41 E.
. - 0 55
, Altura Mer.[*-] 123 15 50 --- 1 28 " 1 Lat. 15 1 S.
\ Chron. [*-]  90 53 53 15 1 --- - 0 55 3 Long. 22 2 E.
" Altura Mer. [*-] 124 53 40 --- 1 30 " 1 Lat. 15 11 E.
$ Altura Mer. [*-] 127 34 40 --- 1 30 - 0 55 1 Lat. 15 13 S.
% " 130 22 20 --- " " 1 " 15 13 S.
& " 139 8 0 --- 1 31 - 3 30 1 " 15 17 S.
( Chron. [)-] 71 42 50 15 17 --- - 0 20 3 Diff. para o logar 5^h.30^m.53^s.
) Reapparecimento do 1^o sat. de Jup. --- --- --- --- --- Long. 23° 19' E.
« Amplitude mag.
18° 40' 
--- 15 17 --- --- 1 Variação 18 38 O.
» Amplitude mag.
17° 20'
--- " --- --- 1 " 18 11 O.
< Amplitude mag.
19° 10'  
--- " --- --- 1 " 18 33 O.
> Amplitude mag.
18° 20' 
--- " --- --- 1 " 18 44 O.
~ Alt. Mer.[+]  Dubuhe
([a] de Cygne) 
58 5 0 --- --- - 1 0 1 Lat. 16 8 S.
{ " 57 5 0 --- --- " 1 " 16 37 S.
} Chron. [)-] 86 3 30 16 37 --- - 1 5 1 Long. 23 45 E.
_      "     [*-]  89 19 3 17 7 --- - 0 50 3 " 24 15 E.
£ Altura Mer. [)-] 138 30 0 --- --- - 1 0 1 Lat. 17 7 S.
# " 115 55 0 --- --- " 1 " 17 18 S.
¨ Chron. [)-] 81 46 0 17 18 --- " 1 Long. 24 22 E.


Legenda:
[A] Latitude Sul.
[B] Longitude em tempo.
[C] Erro do instrumento.
[D] N^o. de Obs.

[*-] símbolo do sol por cima da barra
[)-] símbolo da lua por cima da barra
[+] símbolo de estrela
[a] Letra grega "Alpha"




Quadro das Observações Hypsomètricas, feitas de Caconda á foz do rio
Cuando no Zambeze, para determinar o relevo do Continente.

Anno de 1878.

Mez. Dia. Designação das localidades. [A] [B] [C] [D] [E]
Fevereiro 9 Quipembe  636.0 19.6 23 95.09 1,550
" 10 Pessengue  (ao nivel do rio Cuando) 638.5 16.0 " 95.20 1,506
" 11 Quingolo  632.5 21.2 " 94.94 1,604
" 13 Palanca  635.0 20.3 " 95.05 1,566
" 14 Capôco 631.3 25.2 " 94.91 1,627
" 22 Quimbungo 632.0 20.9 " 94.92 1,609
" 24 Cunene (ao nivel do rio) 636.5 19.7 " 95.12 1,538
" 25 Dumbo (paiz do Sambo) 625.0 20.2 " 94.61 1,707
" 26 Burundoa 629.0 18.1 " 94.78 1,646
" 27 Gongo 631.0 18.0 " 94.88 1,613
" " Ao nivel do rio Cubango  635.0 25.0 " 95.05 1,579
" 28 Chindonga 633.0 18.5 " 94.96 1,589
Março 1 Cataracta do rio Cutato dos Ganguelas 636.0 26.5 " 95.09 1,570
" 2 Lamupas 633.0 18.1 " 94.96 1,580
" 4 Capitão do Quingue 631.0 20.0 " 94.88 1,620
" 6 Rio Cuchi (ao nivel d'àgua) 638.0 21.0 " 95.18 1,526
" 8 Bilanga (Vicente) (Bihé)  631.0 18.2 " 94.88 1,623
" 9 Candimba (Bihé) 630.0 17.8 " 94.83 1,629
" 20 Belmonte (Bihé) 627.6 22.6 " 94.72 1,681
Junho 3 Commandante (Bihé) 647.9 20.0 " 95.60 1,379
" 12 Liúica (ao niv. do Cuanza) 654.9 25.9 " 95.89 1,304
" 24 Rio Onda  650.9 22.0 " 95.72 1,347
" 30 Rio Cuito (20 metros sobre o nivel do rio) 647.9 24.0 " 95.60 1,389
Julho 2 Licócótoa  644.9 20.0 " 95.47 1,421
" 4 Cambimbia 645.9 20.0 " 95.51 1,408
" 5 Serra Cassara Cahiéra 635.9 20.0 " 95.09 1,542
" 7 Cambuta  647.9 21.0 " 95.60 1,381
" 9 Cutangjo 650.6 21.0 " 95.51 1,348
" 11 Nascente do rio Cuando 650.3 24.9 " 95.70 1,362
" 14 Nascente do rio Cubangui  652.6 20.0 " 95.79 1,345
" 17 Cangamba 661.0 24.0 " 96.14 1,228
" 23 Ponto onde deixei o Cubangui 664.0 23.0 " 96.27 1,193
" 30 Caú-eu-hue (Cuchubi) 666.0 27.7 " 96.35 1,154
Agosto 5 Ponto onde deixei o rio Cuchibi  669.0 25.0 " 96.47 1,133
" 7 Rio Chicului  669.0 24.9 " 96.47 1,133
" 11 Nascente do rio Ninda  667.0 28.3 " 96.40 1,143
" 18 Planicie do Nhengo  677.3 28.1 " 96.81 1,012
" 25 Lialui  676.5 27.0 " 96.78 1,018
Setembro 15 Catongo 677.4 32.6 " 96.81 1,027
Outubro 5 Sioma --- 20.0 " 96.80 999
" 9 Foz do rio Jôco 679.0 20.0 " 96.88 974
" 16 Quisseque --- 22.0 " 96.96 952
" 18 Confluencia do Quando --- 37.5 " 97.08 940
" 21 Povoação de Embarira 681.0 37.4 " 96.96 979
Novembro 21 Mozi-oa-tunia  694.0 27.0 " 97.48 795


Legenda:
[A] Baròmetro.
[B] Thermòmetro.
[C] Temperatura ao niv. do mar.
[D] Hypsòmetro.
[E] Altitude em metros.




Boletim Meteorològico feito a 0^h. 43^m. de Greenwich.

Anno de 1878.

Mez. Dia. [A] Thermòmetro
centìgrado.
[D] Direcção do vento. Estado da atmosphera.
[B] [C]
Maio 1 629.8 21.5 18.4 --- E. fraco Alguns cirros.
" 2 630.0 22.7 19.8 --- E. forte Nublado.
" 3 630.0 22.1 19.1 --- E. fraco Limpo.
" 4 629.9 22.5 19.4 --- " "
" 5 630.0 22.3 19.1 --- " "
" 6 630.0 22.0 19.3 --- " "
" 7 629.7 22.4 19.3 --- O.S.O. fraco "
" 8 630.0 22.5 19.8 --- Calma "
" 9 629.2 20.5 16.6 --- " "
" 10 629.8 20.2 16.4 --- N.E. fraco Algumas nuvens.
" 11 630.0 20.8 16.9 --- E.N.E. "
" 12 630.5 21.0 17.5 --- E.N.E. forte Nublado.
" 13 630.2 20.6 16.4 --- " Limpo.
" 14 630.5 20.5 16.7 --- E.M^{to}. forte "
" 15 630.5 20.3 16.8 --- " "
" 16 630.2 21.5 17.7 --- Calma "
" 17 630.6 22.0 18.9 --- E. moderado Alguns cirros.
" 19 630.5 21.9 18.7 --- " Limpo.
" 20 630.6 21.8 18.9 --- " "
" 21 630.7 20.9 17.6 --- E. forte "
" 22 630.2 20.8 17.9 --- Calma  "
" 28 645.1 22.5 17.4 --- " "
" 29 644.9 23.1 18.1 --- E. fraco  "
" 30 642.7 23.2 18.1 + 5.3 E.S.E. "
" 31 642.1 23.9 18.0 + 7.0 " "
Junho 1 642.1 23.4 19.0 + 6.0 Calma "
" 2 642.8 23.0 18.8 + 5.0 " "
" 3 643.0 22.9 18.1 + 2.8 E.S.E. "
" 4 643.1 23.7 1992 + 5.0 E. forte "
" 5 643.0 23.3 19.0 + 7.0 Calma "
" 6 643.2 25.2 19.9 + 4.0 E. fraco "
" 7 645.1 24.1 19.7 + 6.0 E.S.E. "
" 8 650.0 22.4 18.3 + 0.2 S. fraco "
" 9 648.4 24.5 21.8 + 0.7 Calma "
" 10 650.6 24.7 21.7 + 3.0 " "
" 11 650.5 24.9 21.5 + 6.0 " "
" 12 650.6 24.5 21.2 + 5.0 E.S.E. "
" 13 650.1 24.9 21.9 + 4.0 " "
" 14 643.1 25.1 18.7 + 7.0 Calma "
" 15 643.1 24.9 19.0 + 10.0 " "
" 16 642.8 25.0 19.1 + 7.0 E.S.E. "
" 17 642.8 24.8 19.7 + 8.0 S. fraco "
" 18 642.6 24.8 19.5 + 9.0 " "
" 19 642.4 25.1 19.4 + 5.0 Calma "
" 20 641.6 24.9 19.8 + 4.0 " "
" 21 641.2 25.2 18.2 + 7.0 " "
" 22 641.0 24.8 17.6 + 6.0 " Ceo limpo.
" 23 646.2 23.9 16.1 + 5.0 E. forte "
" 24 646.0 25.4 15.2 + 3.0 " "
" 25 645.8 25.7 15.6 + 2.7 E. forte "
" 26 645.0 25.3 15.0 - 0.7 " "
" 27 644.9 24.5 15.2 - 1.3 " "
" 28 643.7 26.1 18.7 + 1.1 Calma "
" 29 642.8 26.7 18.6 + 3.7 " "
" 30 640.3 27.2 18.0 + 1.8 E. fraco "
Julho 1 641.5 27.1 18.7 + 2.6 " "
" 2 639.1 26.7 18.9 + 0.7 E. forte "
" 3 640.1 24.1 16.9 + 1.0 " "
" 4 639.5 23.8 12.3 + 2.5 " "
" 5 642.0 23.6 15.6 --- E. fraco "
" 6 643.0 23.0 16.5 + 0.7 E. forte "
" 7 644.0 24.0 17.9 - 0.1 E. fraco "
" 8 642.9 23.7 17.2 + 2.5 " "
" 9 644.8 24.5 17.1 --- E. forte "
" 10 645.0 24.9 17.8 --- E.S.E. "
" 11 644.0 25.7 18.4 --- " "
" 12 650.0 24.3 17.1 - 0.1 E. fraco "
" 13 651.0 26.2 18.5 + 0.1 Calma "
" 14 646.8 23.1 16.9 + 2.1 E. fraco "
" 15 651.9 22.7 16.5 + 2.7 Calma Nuvens (cirros).
" 16 652.0 23.1 16.9 + 3.1 " "
" 17 651.7 27.4 21.9 --- " Ceo coberto.
" 18 651.8 27.6 22.4 + 7.6 " "
" 19 652.0 28.4 19.9 + 9.0 " Algumas nuvens (cirros).
" 20 651.4 29.5 18.0 + 5.0 " Extractos e cirros.
" 21 652.2 28.2 17.5 + 2.0 E. forte Ceo limpo.
" 23 655.9 26.8 15.4 --- E. fraco "
" 24 655.1 27.5 15.9 --- E. forte "
" 26 657.0 28.1 16.1 - 1.5 S.E. forte "
" 27 658.0 30.1 17.6 + 1.8 " "
" 28 658.3 30.6 18.1 + 3.2 " "
" 29 657.7 31.4 16.2 + 4.0 N.N.E. "
" 30 657.5 30.7 16.8 + 3.7 Calma "
" 31 657.4 29.2 18.9 + 8.7 S.E. fraco "
Agosto 1 658.0 29.0 18.1 + 5.1 Calma "
" 2 657.8 30.3 18.1 + 1.2 S.E. fraco "
" 3 658.6 31.5 17.9 + 3.4 " "
" 4 660.0 30.2 18.4 + 4.1 E. forte "
" 5 659.5 30.8 17.7 + 3.0 E.S.E. forte Algumas nuvens (cirros).
" 6 660.1 30.7 17.1 + 1.9 " Limpo.
" 7 660.2 31.0 16.8 + 2.1 " "
" 8 661.6 31.1 17.0 + 1.5 E. forte "
" 9 658.5 30.4 17.3 + 2.0 " Ceo limpo.
" 10 657.0 31.2 14.5 + 1.0 " "
" 11 655.2 28.8 13.6 + 2.9 " "
" 12 660.0 28.2 14.3 + 2.3 " "
" 13 662.6 28.5 14.1 + 2.3 " "
" 14 664.1 28.1 14.2 + 3.0 E. forte "
" 16 667.5 28.7 14.4 + 2.7 " "
" 17 668.3 28.4 14.5 + 3.7 " "
" 18 668.5 28.3 14.9 + 3.1 Calma "
" 19 667.8 30.0 15.1 + 4.4 E.N.E. "
" 20 663.5 33.2 16.8 + 3.9 N.N.E. "
" 21 668.2 27.4 14.8 + 9.6 E.N.E. "
" 22 667.9 29.3 14.5 --- E. forte "
" 23 668.5 30.5 19.2 + 14.0 " "
" 29 668.7 34.9 15.7 --- E.N.E. forte "
" 30 668.2 35.2 15.6 --- " "
" 31 668.9 35.1 16.4 --- " "
Setembro 1 668.1 30.7 15.9 --- " "
" 2 668.5 29.1 15.7 --- " "
" 3 668.0 34.8 17.9 + 7.0 " "
" 4 667.0 34.8 19.2 + 6.0 " "
" 5 667.9 32.1 17.6 + 5.8 " "
" 6 668.0 32.7 16.4 + 9.0 " "
" 7 668.1 33.0 17.5 --- " "
" 8 668.0 33.5 19.3 + 7.0 " "
" 10 668.5 32.3 20.8 + 14.0 " "
" 11 668.3 33.2 19.7 --- " "
" 12 668.1 33.8 20.4 --- " "
" 13 667.7 34.2 18.8 --- " "
" 14 667.4 35.4 18.1 --- " "
" 15 667.3 35.9 17.4 --- " "
" 17 667.8 35.3 16.8 --- E. forte "
" 18 666.5 36.4 18.7 --- "   "  Grande orvalho da noute.
" 19 668.2 34.5 16.8 --- " " "
" 20 668.0 32.8 21.4 --- " Alguns cirros, muito orvalho.
" 21 668.5 32.3 23.7 --- E. fraco Nublado, cumulos.
" 22 669.0 33.0 19.7 --- E. forte " "
" 25 666.8 36.2 22.1 --- E.S.E. Cumulos, muito orvalho.
" 26 667.0 35.4 20.1 --- " " "
" 29 666.0 34.7 21.8 --- " " "
" 30 665.0 30.8 23.0 --- " " "
Outubro 1 668.2 34.2 22.1 --- E. forte Limpo, muito orvalho.
" 2 668.2 34.2 23.3 --- " " "
" 3 667.8 31.9 23.4 --- " " "
" 4 667.6 34.0 24.5 --- " Nublado.
" 5 667.9 33.5 24.6 --- " "
" 6 668.8 34.1 23.4 --- E.S.E. "
" 7 670.0 35.9 28.7 ---  "    "    Grande trovada.
" 8 670.0 34.8 26.5 --- E. fraco Nublado.
" 9 670.8 37.1 23.3 --- " "

Legenda:
[A] Baròmetro.
[B] Seco.
[C] Molhado.
[D] Mìnima aproximada.



Estudo das Oscillações diurnas do Baròmetro, feito de 3 em 3 horas.
Catongo (Alto Zambeze). Altitude 1,027 metros.

Anno de 1878.

Mez. Dia. 6 horas. 9 horas. Meio-dia. 3 horas. 6 horas.
[A] [B] [A] [B] [A] [B] [A] [B] [A] [B]
Setembro 17 670.6 19.2 671.3 30.2 669.3 35.1 667.5 34.4 668.3 27.3
" 18 670.0 19.7 670.6 31.9 668.8 35.7 660.0 36.0 667.3 30.4
" 19 670.7 21.1 671.5 28.0 669.5 34.6 667.5 33.7 668.4 27.8
" 20 670.6 18.0 671.4 26.5 669.0 31.5 667.5 32.7 668.4 29.1
" 21 670.0 19.8 671.3 27.2 669.5 33.8 668.0 33.0 668.5 29.0
" 22 671.5 21.5 672.0 28.5 670.3 32.8 668.5 32.9 669.0 31.2

Legenda:
[A] Baròmetro.
[B] Thermòmetro.




Estudo do Estado Hygromètrico da Atmosfera, feito de 3 em 3 horas.
Catongo (Alto Zambeze).

Anno de 1878.

Mez. Dia. 6 horas. 9 horas. Meio-dia. 3 horas. 6 horas.
Thermòmetro
centìgrado.
Thermòmetro
centìgrado.
Thermòmetro
centìgrado.
Thermòmetro
centìgrado.
Thermòmetro
centìgrado.
[A] [B] [A] [B] [A] [B] [A] [B] [A] [B]
Setembro 18 19.7 15.0 31.9 16.6 35.7 18.1 36.0 15.9 30.4 14.2
" 19 21.1 10.5 28.0 13.4 34.6 15.0 33.7 19.2 27.8 15.0
" 20 18.0 13.9 26.5 18.3 31.5 20.5 32.7 22.3 29.1 18.5

Legenda:
[A] Seco.
[B] Molhado.




Boletim Meteorològico feito ás 6 horas da manhã (hora média do logar).

Anno de 1878.

Mez. Dia. [A] [B] Mez. Dia. [A] [B]
Fevereiro 9 626.0 19.6 Junho 26 658.0 5.4
" 10 628.5 16.0 " 27 658.9 1.7
" 11 622.5 21.2 " 28 659.5 4.6
" 12 623.0 20.4 " 29 660.3 4.6
" 13 625.0 20.3 " 30 660.0 7.2
" 14 622.0 15.8 " 31 659.3 14.9
" 15 621.0 16.0 Agosto 1 661.0 8.8
" 16 622.3 16.5 " 2 660.7 4.8
" 17 622.5 18.8 " 3 661.5 5.7
" 18 622.5 20.0 " 4 662.3 8.8
" 19 620.0 19.5 " 5 661.7 8.7
" 20 622.0 20.0 " 6 662.0 5.6
" 21 622.5 17.2 " 7 662.1 4.9
" 22 622.0 20.9 " 8 663.4 2.6
" 23 621.5 21.2 " 9 663.6 3.5
" 24 618.5 17.3 " 10 660.5 3.8
" 25 615.0 20.2 " 11 658.0 6.4
" 26 619.0 18.1 " 12 657.2 4.9
" 27 621.0 18.0 " 13 662.0 4.5
" 28 623.0 19.5 " 14 664.8 5.8
Março 1 623.0 18.2 " 15 666.5 5.9
" 2 623.0 18.1 " 16 669.2 6.5
" 3 617.0 16.6 " 17 670.0 6.9
" 4 620.0 18.5 " 18 670.2 9.3
" 5 621.5 20.0 " 19 670.0 8.5
" 6 621.5 18.2 " 20 667.0 10.2
" 7 619.0 17.7 " 21 666.0 2.2
" 8 621.0 18.2 " 22 669.4 18.8
" 9 620.0 17.8 " 23 669.0 20.0
Maio 28 645.0 12.6 " 24 670.0 16.0
" 29 644.8 14.2 " 25 670.0 14.5
" 30 642.3 9.4 " 26 671.0 13.7
" 31 642.0 10.0 " 27 671.2 15.0
Junho 1 641.9 12.2 " 28 672.3 14.0
" 2 643.0 9.9 " 29 671.0 15.0
" 3 643.2 8.6 " 30 671.0 14.8
" 4 643.0 10.0 " 31 670.6 12.1
" 7 645.0 11.4 Setembro 1 670.0 16.1
" 8 649.8 5.8 " 2 670.0 13.7
" 9 648.5 5.1 " 3 670.0 11.3
" 10 651.0 6.5 " 4 670.0 10.0
" 11 650.8 9.1 " 5 670.5 13.2
" 13 650.0 7.1 " 6 670.0 16.2
" 14 650.0 8.0 " 7 669.6 13.6
" 15 643.0 11.2 " 8 670.0 12.3
" 16 642.9 9.2 " 9 671.3 4.1
" 17 643.0 11.5 " 10 670.0 19.4
" 18 642.9 11.9 " 11 669.0 20.3
" 19 642.6 7.4 " 12 678.1 19.8
" 20 641.2 6.8 " 13 669.0 20.5
" 21 641.5 9.1 " 14 670.2 14.7
" 22 641.5 9.7 " 15 671.0 19.2
" 23 641.0 7.9 " 16 672.0 18.6
" 24 646.9 4.6 " 17 670.6 19.2
" 25 646.1 3.6 " 18 670.0 19.7
" 26 645.2 1.8 " 19 670.7 21.1
" 27 645.0 1.9 " 20 670.6 18.0
" 28 644.0 2.1 " 21 670.0 19.8
" 29 644.0 3.6 " 22 671.0 21.5
" 30 643.0 4.1 " 23 671.0 22.2
Julho 1 643.0 4.1 " 24 670.0 21.7
" 2 642.5 5.8 " 25 669.0 15.4
" 3 640.1 1.8 " 26 668.8 15.7
" 4 641.1 3.1 " 27 668.8 12.6
" 5 641.0 3.4 " 28 669.0 18.0
" 6 643.8 1.4 " 29 668.6 21.0
" 7 643.2 0.7 " 30 669.9 19.2
" 8 644.0 1.4 Outubro 1 668.5 17.1
" 9 643.5 2.5 " 2 670.0 18.8
" 10 645.2 2.3 " 3 670.6 16.1
" 11 645.2 2.2 " 4 671.0 12.5
" 12 645.0 2.3 " 5 671.5 15.7
" 13 650.0 1.5 " 6 670.0 16.2
" 14 651.5 1.8 " 7 672.0 21.8
" 15 647.3 3.7 " 8 673.5 23.1
" 16 652.3 5.0 " 9 673.0 15.3
" 17 652.6 7.1 " 10 673.0 19.6
" 18 654.0 11.2 " 12 672.0 20.7
" 19 653.4 13.7 " 13 674.0 22.7
" 20 653.3 9.3 " 14 676.0 21.8
" 21 654.9 6.1 " 15 675.0 19.1
" 22 655.2 5.1 " 16 674.3 21.7
" 23 657.8 5.0 " 17 673.0 21.2
" 24 657.0 5.9 " 18 676.0 21.2
" 25 656.0 6.0

Legenda:
[A] Baròmetro.
[B] Thermòmetro.




SEGUNDA PARTE


A FAMILIA COILLARD.



COMO EU ATRAVESSEI ÀFRICA.


Segunda Parte.--A FAMILIA COILLARD.





CAPÌTULO I.

EM LEXUMA.


Prêso em Embarira--O Doutor Benjamin Frederick Bradshaw--O campo do Doutor--O Pão--Graves questões--Os chronòmetros não param--Francisco Coillard--Lexuma--As damas Coillard--Doença grave--Receios e irresoluções--Chegada do missionario--Tomo uma decisão--Partida de Lexuma (em Inglez, Leshuma).


Foi tormentosa a noute que passei em Embarira. Assaltado por milhares de persovejos, e por nuvens de mosquitos, tive de abandonar a casa que me offerecêra o chefe, e ir procurar ao ar livre um refugio a tão cruél tormento. Ao incòmmodo produzido pêlo ataque dos insectos vinha juntar-se a anciedade da idéa de encontrar no dia seguinte um Europeu, um homem desconhecido, mas com o qual eu contava ja para sahir dos embaraços em que estava. Amanheceu finalmente o dia 19 de Outubro depois de uma longa noute não-dormida.

As primeiras noticias que pude colher fôram de que o missionario estava a 12 ou 14 milhas d'ali, mas que do outro lado do rio Cuando vivia um Inglez.

Pedir uma canôa ao chefe para passar o rio foi o meu primeiro impulso, mas obtive a mais formal negativa, a pretexto de que não havia canôa.

Depois de grande controversia, elle declara-me que me não deixa sahir da sua povoação sem eu ter pago aos marinheiros uma certa porção de fazendas.

Chamei o Jasse e mostrei-lhe a impossibilidade de fazer pagamentos sem ter communicado com o Inglez, e ter d'elle obtido fazendas para os fazer, porque eu nenhumas tinha.

Jasse reune os marinheiros e o chefe e fala-lhes n'esse sentido, mas nada obtem, e a recusa de me deixarem ir á outra margem do Cuando é formal.

Vendo que nada fazia, pedi-lhes que fizessem chegar um recado meu ao Inglez, e escrevi algumas palavras n'um bilhête de visita. Foi o Verissimo o mensageiro. A má noute velada, e a febre constante prostráram-me. Deitei-me ao ar livre, esperando a resposta á minha mensagem.

Seria passada uma hora, quando appareceu diante de mim um homem branco. A sensação que experimentei ao ver um Europêu é indefinivel.

O homem que eu tinha diante de mim poderia ter de 28 a 30 annos, e possuia um typo perfeitamente Inglez.

Barba pouca e muito loura, olhos azues, grandes e vivos, cabello cortado rente e tão louro como a barba.

Vestia uma camisa de grossa tela, cujo collarinho desabotoado deixava ver um peito amplo e forte, como as mangas arregaçadas expunham á vista uns braços musculosos, queimados pêlo sol Africano.

As calças de estôfo ordinario estavam seguras por um forte cinto de couro, d'onde pendia uma faca Americana.

Nos pes sôbre umas meias azues de algodão grôsso, uns sapatos que pêlas costuras, tôdas feitas por fora, logo se via serem obra d'elle mêsmo.

Disse-lhe quem era; expuz-lhe as minhas circunstancias, e pedi-lhe para me ceder a fazenda de que eu precisava, a trôco de marfim que eu lhe podia dar. Mostrei-lhe a necessidade que tinha de me libertar d'aquelle encargo para escapar áquella gente e ir encontrar o missionario. Respondeu-me elle, que não tinha fazendas, que estava tambem sem recursos, e que só mandando eu a Lexuma as poderia obter.

O seu modo de falar e a delicadeza das suas phrases mostravam-me logo, que aquelle homem não era um ente vulgar. Elle dirigio-se ao chefe, e convenceu-o a deixar-me ir á outra margem do rio, com a condição de que voltaria á noute para Embarira.

Partimos, e depois de atravessar um grande rio, aquelle Cuando cujas nascentes eu havia descoberto, e determinado mezes antes, chegámos a um pequeno campo onde nos appareceu outro branco.

Era homem de elevada estatura, de longa barba e cabêllos brancos, que mostravam não uma idade provecta, desmentida pêla agilidade do côrpo e expressão da physionomia, mas sim a velhice prematura, producto de longos soffrimentos e trabalhos.

Vestia como o primeiro, e só estava um pouco melhor calçado.

Conversámos sobre a minha posição, e vimos que elles nada podiam fazer por mim, porque estavam tambem sem recursos.

Fui bastante absoluto empregando a palavra nada, porque se não tinham outra cousa a dar-me, tinham um soffrivel jantar, e eu tinha fome.

Depois de saciar o meu voraz appetite, combinei com elles escrever ao missionario, a pedir-lhe fazendas para o pagamento aos remadôres.

Expedi um portadôr para Lexuma e voltei a Embarira, onde me deitei ao ar livre, com a lembrança da noute terrivel da vèspera.

Dormi a noute de um somno ùnico e profundo. Ao amanhecer do dia 20, estavam junto de mim, vindas de Lexuma, as fazendas precisas para os pagamentos das tripulações. Paguei tudo, e obtive do chefe carregadôres sufficientes para levarem as minhas cargas e o marfim a Lexuma; escrevendo por elles ao missionario, a quem pedi hospedagem, e a quem pedia para pagar ali aos carregadôres.

Ao meio-dia, uma ligeira piroga, impellida pêlo remar de dous prêtos, corria por sobre as aguas do Cuando, levando a seu bordo três homens brancos.

A piroga velha e rachada fazia muita àgua, e por isso o homem que ia na frente descalçara os sapatos que levava na mão, em quanto o da ré, acocorado, esgotava incessantemente a muita àgua que colhia o fragil batél.

O do meio, magnificamente calçado á prova d'àgua, contemplava distraido o deslisar dos enormes crocodilos que fluctuavam á mercê da corrente, e pouco caso fazia da humidade da canôa.

Estes três brancos, reunidos ali, no centro d'Àfrica, pêlos azares das explorações, eram eu, o D^{or.} Benjamin Frederick Bradshaw, explorador zoològico, e Alexandre Walsh, zoologista tambem, preparador de exemplares e companheiro do doutôr.

Chegados á margem direita, foi logo posta á minha disposição uma das três cubatas que elles tinham.

O D^{or.} Bradshaw, òptimo cozinheiro, como é habil mèdico, sabio distincto, e caçador famôso, foi logo preparar um almôço de perdizes que elle tinha môrto n'essa manhã. O cozinheiro do doutor, um activo Macalaca, deitado de peito no chão, contemplava a seu amo a trabalhar na cozinha, e contentava-se em o ver trabalhar.

O appetite, guardado desde a vèspera, fazia dilatar as fossas nasaes ao sentirem o cheiro delicioso que sahia em condensado vapôr das caçarolas do D^{or.} Bradshaw.


Figura 118.--Três europêos atravessáram o rio.

Os condimentos de que eu estava privado havia tantos mêzes, exhalavam aromas deliciosos ao olfato de um faminto.

A cozinha estava feita, ìamos para a mêsa, onde havia uma grande panella de milho cozido em grão, e um alentado prato de caril de perdizes. Tìnhamos dado a primeira garfada nos pratos, quando na barraca entrou um prêto com um objecto envolvido em alva toalha de linho.


Figura 119.--O Campo do Doutor Bradshaw.

Vinha da parte do missionario Francez. Desdobrei a toalha, que continha um côrpo bastante pesado, e fiquei commovido diante de um enorme pão de trigo, que tinha nas mãos.

¡Pão! Pão, que eu ja não via ha um anno; pão, que era para mim sempre a cada comida em que o não tinha, uma recordação saudosa; que era um sonho constante das noutes de fome; do qual cheguei muitas vêzes a ter um desejo immoderado, e pêlo qual comprehendi que se possa commetter um crime para o haver, quando privado d'elle por muito tempo.

As làgrimas viéram humedecer as minhas pàlpebras resequidas, e creio que foi aquella uma das mais violentas commoções que senti na minha viagem.

Esquèci um pouco as perdizes do doutor, para comer, com voracidade, d'aquelle pão, que saboreava com delicias nunca experimentadas em gastronomia.

Foi Benjamin Bradshaw quem suspendeu o meu furor voraz, que me poderia ser fatal, e que me fez tomar uma òptima chàvena de cacao, em seguida á qual um sono profundo dormido n'uma barraca, lìvre do sereno da noute, veio restaurar as fôrças.

Tôda a minha gente e as cargas haviam partido para Lexuma, ficando comigo apenas Augusto e Catraio e a mala dos instrumentos.

Amanheceu alegre o dia seguinte, que deveria ser um dos mais atribulados da minha vida.

Depois de um òptimo almôço de perdizes e chocolate, e quando nos deliciàvamos a fumar o aromàtico tabaco do Chuculumbe, chegáram os carregadôres que na vèspera tinham partido para Lexuma, fazendo grande grita e dizendo, que não tinham sido pagos ali.

Admirou-me o facto, sôbre tudo por o Verissimo me não ter escrito, e por ter ido com as cargas o marfim que seria garantia a tôdo o pagamento que ali se fizesse.

Nós não tìnhamos fazendas, e não sabìamos que fazer diante das exigencias dos selvagens, que teimavam em que tinham sido roubados, porque tinham levado as cargas d'ali a Lexuma, e não tinham recebido o menor pagamento. Pouco depois, chegáram o chefe de Embarira Mocumba e Jasse, que começáram uma questão fortissima comigo e com os Inglezes, ameaçàndo-nos e dizendo-nos as maiores insolencias.

Eu estava envergonhado e aflicto por ver os Inglezes, que tanto me tinham obsequiado, mettidos em uma questão que me era particular, e sêrem insultados por minha causa; mas impossivel me tinha sido prever um tal acontecimento.

Depois de mil exigencias a que era impossivel satisfazer, elles com Jasse á frente declaráram que iam a Lexuma rehaver as bagagens e o marfim, e que tomariam conta de tudo até sêrem pagos; partindo em
seguida, mas deixando ali o chefe Mucumba com um grande trôço de gente a vigiar-nos.

Por consêlho do D^{or.} Bradshaw, nós entrámos em uma das barracas e pozémos as armas á mão, promptos a uma enèrgica defêsa, em caso de um ataque provavel.

Ao cahir da tarde Mucumba começou a fazer uma grita enorme, e chamando a sua gente invadio as duas barracas, levando de uma d'ellas a minha mala dos instrumentos, que fez logo transportar ao barco e passar á outra margem.

Voltáram a cercar a terceira barraca, em que nós estàvamos, exigindo que eu fôsse com elles para Embarira. Receioso de que os meus hospedeiros se expozessem por minha causa a um perigo eminente, queria-me entregar ao gentio, e libertal-os de um conflicto inevitavel; quando o D^{or.} Bradshaw me pedio que o não fizesse, e declarou-me que me não deixaria partir, e que deveriamos resistir-lhes a tôdo o trance.

Na barraca estàvamos quatro homens, três brancos e o meu Augusto, dispostos a vender caras as vidas, e era tal a nossa attitude que os gentios recuáram ante a idéa de um ataque que seria fatal a muitos. Depois de um consêlho prolongado entre as cabêças, decidíram elles abandonar o campo e passar á outra margem.

Dàva-me cuidado não ver o meu muleque Catraio, que comecei a supor teria sido feito prisioneiro, quando elle me appareceu na barraca, com o seu riso intelligente e velhaco, trazendo na mão os meus chronòmetros, que tinha ido á outra margem buscar á minha malla, em quanto os Macalacas nos cercavam e ameaçavam. Mais uma vez Catraio impedia que os chronòmetros parassem por falta de corda.

Estàvamos sós, mas muito apprehensivos, porque o doutor, que conhecia bem os indìgenas d'ali, dizia, que elles não passariam sem voltar á carga.

Pêlas 9 horas da noute, chega ao campo o missionario Francez, François Coillard, e sabendo tudo o que se tinha passado, afirmou-nos que os carregadores haviam sido pagos generosamente em Lexuma, e que elle se encarregava de fazer ouvir razão ao chefe Mucumba.

No dia immediato, logo de manhã, o chefe Mucumba, Jasse e innùmeras gentes, passáram o rio e viéram ao nosso campo.

M^{r.} Coillard, que fala a lingua do paiz como fala Francez ou Inglez, fez um discurso ao chefe de Embarira, mostrando-lhe a pouca-vergonha dos carregadores, que tendo sido generosamente pagos em Lexuma, viéram dizer, que nada haviam recebido, e que tinham sido roubados.

Mucumba entregou logo tudo o que tinha roubado na vèspera, e deu muitas satisfações, fazendo recair a culpa sôbre os seus homens que o tinham enganado. Quando parecia que tudo corria bem e se havia harmonizado, appareceu Jasse levantando uma nova questão.

Queria elle, que eu pagasse aos seus muleques particulares que tinham vindo em seu serviço, e com quem eu nada tinha.

Eu argumentei-lhe com o caso da tripulação de um pequeno barco que do Quisseque viéra em serviço dos outros remadores, e a quem eu nada tinha dado. Depois de um curto debate, habilmente dirigido por M^{r.} Coillard, elle recebeu duas jardas de fazenda para cada homem, e ficou terminada a questão.

Fomos almoçar satisfeitos, julgando que estariam terminados os incidentes desagradaveis d'aquelle dia, mas não estava escrito no livro do destino que assim fôsse.


Figura 120.--Monsieur e Madame Coillard.

Jasse voltou de nôvo á carga com nova exigencia. Queria elle, que eu lhe pagasse e ao chefe Mutiquetera, a quem eu ja havia pago com largueza.

Começou nova questão, em que de nôvo me prestou grande auxilio M^{r.} Coillard; sendo preciso para a terminar, o prometter um cobertôr a cada um d'êlles.

Mandou logo M^{r.} Coillard a Lexuma um portador buscar os dois cobertôres, e a fazenda que êlle havia tirado da sua pacotilha, para pagar á gente de Jasse.

Assim terminou finalmente aquella sèrie não interrompida de questões, para o quê concorreu poderosamente a intervenção que n'ellas tomou M^{r.} Coillard.

Disse-me elle, que ia partir para o Quisseque, a receber a resposta do rei Lobossi a seu respeito, mas que em 10 ou 12 dias estaria de volta; e por isso me pedia, que fôsse esperar o seu regresso para Lexuma, onde me esperava sua espôsa Madame Christine Coillard; e só então poderìamos discutir maduramente o que convinha fazer de futuro.

Resolvi seguir para Lexuma no dia immediato; porque queria determinar a posição d'aquelle ponto, e fazer um certo nùmero de observações.

Durante a noute tive um violento accesso de febre, e de manhã sentia-me muito mal.

O D^{or.} Bradshaw não me quiz deixar partir sem tomar algum alimento, e por isso só as 10 horas pude deixar a margem do Cuando. O doutor e seu companheiro deviam abandonar aquelle ponto no mesmo dia, e irem para Lexuma, porque as scenas dos dias antecedentes aconselhavam-n-os de evitar o contacto com aquelle gentio malèvolo.

Eu parti por um calor de 40 graos centìgrados, n'um terreno arenoso, onde o caminhar era difficil. A febre tirava-me as fôrças, e mais me arrastava do que caminhava. O terreno era coberto de arvorêdo, e
elevava-se logo a partir da margem do rio. Depois de cinco horas de marcha lenta e penosa, encontrei um pequeno còrrego, onde pude saciar uma sêde ardente. Só duas horas depois cheguei a Lexuma. Eram 6 da tarde.

N'um estreito valle de oitenta metros de largo, enquadrado em montes pouco elevados e de vertentes suaves, cresce uma herva grosseira e rachìtica. Uma bella vegetação arbòrea guarnece as montanhas que enquadram o pequeno valle, que se estende na direcção N.S. Na encosta de E. algumas barracas agglomeradas formam o estabelecimento de um sertanejo Inglez, M^{r.} Phillips.

Em frente a Oeste, duas aldeias abandonadas sam a feitoria de George Westbeech.

Ao N. das aldeas de M^{r.} Westbeech, uma forte palissada cerca um terreno circular de 30 metros de diàmetro, onde havia uma casinha de côlmo, dois wagons, ou carrêtas de viagem, e uma barraca de campanha. Era o acampamento da familia Coillard, era Lexuma emfim.

Entrei ali no recinto velado pêla alta estacaria de madeira, com o côrpo extenuado pêlo cansaço e o espìrito abalado pêla commoção violenta que sentia.

Diante de mim, á porta da casinha de côlmo, estavam sentadas duas damas, bordando a côres em grossa talagarça.

Ao ver aquellas damas ali, no centro d'Àfrica, a minha commoção foi indescriptivel.


Figura 121.--Acampamento da familia Coillard em Lexuma.

A recepção que me fez Madame Coillard foi aquella que faria a um filho, se esse filho fôra eu. Com uma delicadeza extrema, pôz-me logo perfeitamente á vontade, e disse-me, que ainda não tinham jantado, porque esperavam por mim para pôr-se á mêsa. Convidou-me a entrar na barraca de campanha, onde uma mêsa coberta de fina e alva toalha sustentava um serviço modesto, contendo um jantar succulento. Defronte de mim sentava-se Madame Coillard; ao meu lado Mademoiselle Elise Coillard, sobrinha d'ella, de olhos baixos e physionomia rubra de pudôr, por ver um estrangeiro desconhecido entrar tão de golpe na sua vida ìntima e velada, espalhava em tôrno de si esse perfume de candura que cerca e envolve a mulhér formosa aos desoito annos.


Figura 122.--Interior do campo de Monsieur Coillard em Lexuma.

Madame Coillard multiplicava-se em cuidados extremosos, e pêlo fim do jantar eu comecei a provar uma sensação estranha. Aquellas damas, o jantar, o serviço, o chá, o assucar, o pão, tudo enfim se me baralhava na mente com traços mal definidos. Cheguei a não poder formular uma só idéa, e a recear, que a cabêça enfraquecida não podesse supportar as impressões d'aquelle momento.

Não tenho a consciencia de ter terminado aquelle jantar, sei apenas que me achei só na barraca. Então um abalo violento sacudio tôdo o meu côrpo; um soluço tolheu-me o ar na garganta, e as làgrimas saltáram ardentes dos meus olhos desvairados, banhando-me as faces que queimavam de febre. Chorei e chorei muito, não me envergonho de o dizer, e creio que aquellas làgrimas fôram a minha salvação.

Se eu não tivesse chorado, teria talvez enlouquecido.

Que se riam aquelles que acharem ridìculas as làgrimas n'um homem; pouco me importa o seu motejar estòlido. Infeliz de quem não encontra nos sentimentos do coração o pranto que vem marejar nos olhos, e o soluço que estrangula a fala, mais verdadeiras provas da gratidão sentida, do que as frases mais eloquentes em protestos fervorosos.

Eu, por mim, não me envergonho de ter chorado, e feliz serei se podér ainda chorar em iguaes trances.

Quanto tempo estive n'aquelle estado de excitação não o sei eu; mas, muito tempo depois, entravam as damas na barraca e preparavam-me uma cama com cuidados extremos.

A apparição das duas carinhosas senhoras veio trazer nova perturbação ao meu espìrito. Eu não sabia que dizer-lhes, e creio que só lhes dizia disparates.

Foi mesmo sem consciencia do que fazia que eu lhes narrei um boato ouvido de manhã em Embarira, que apregoava ter havido um grande incendio no Quisseque, nas casas do chefe Carimuque, e terem sido ali prêsa das chamas as bagagens do missionario.

Deitei-me e creio que dormi.

Ao alvorecer da manhã seguinte, as scenas da vèspera desenhavam-se confusamente na minha imaginação enfraquecida.

Parecia-me sonho tudo o que se passava n'aquelle sertão longìnquo.

Levantei-me, e ao ver que era realidade o que me cercava, o meu espìrito volveu de nôvo a um deploravel estado de perturbação.

Machinalmente, sem a menor consciencia dos meus actos, por um poder filho do hàbito, dei corda e comparei os chronòmetros, fiz as observações meteorològicas, e registei tudo no meu diario.

Pouco depois, Mademoiselle Elisa, com a sua touca e avental branco, entrava risonha na barraca, e vinha cuidar dos aprestes da mêsa para o almôço.

Madame Coillard continuou envolvendo-me dos maiores desvelos.

Não posso ainda hôje explicar porque produziam em mim, espìrito forte, uma tal impressão aquellas damas; mas é certo que a sua apparição produzia-me logo uma especie de delirio.

Passáram dois dias que eu não sei como fôram passados; no fim d'elles succumbí. A febre apossou-se de mim com violencia assustadôra, e com ella veio o delirio. O meu estado era grave, mas dois anjos velavam á minha cabeceira.

A 30 de Outubro, o delirio deixou-me um momento de lucidez. Conheci que a vida estava apenas prêsa por um fio a um côrpo despedaçado pêlas fadigas e fomes da jornada, e pensei que não me levantaria mais.

N'esse dia entreguei a Madame Coillard os meus papéis, pedindo-lhe que os fizesse chegar com segurança ás mãos do Governo de Portugal.

O D^{or.} Bradshaw fizera-me repetidas visitas durante os dias antecedentes, e empregara tôda a sua sciencia mèdica para me salvar.

Contudo a febre não cedia, e o estòmago não supportava medicamento algum. Decidi eu mesmo tentar um ùltimo esfôrço, e comecei a dar repetidas injecções hypodèrmicas com fortes doses de quinino.

A 31 fiquei espantado de ainda estar vivo, e redobrei a dose do quinino pêla absorpção hypodèrmica. O D^{or.} Bradshaw aconselhou-me e fêz-me tomar uma forte dose de laudanum. A 1 de Novembro, começáram a manifestar-se as primeiras melhoras.

Nunca estive cercado de tão extremosos cuidados como ali.

As melhoras continuáram ràpidas no dia seguinte, em que ja me pude levantar um pouco. Pareceu-me perceber que não sobejavam muito os vìveres, e isso tirou-me um pouco o sono durante a noute. Na madrugada seguinte, quando ainda tudo dormia no campo, levantei-me cauto e fui chamar os meus prêtos.

Sahi com elles cambaleando ainda nas pernas debilitadas, e internei-me na floresta, sem que alguem desse fé da minha escàpula. Pêla tarde voltei com os meus homens curvados ao pêso da caça que tinha môrto. Madame Coillard estava afflicta, pensando que eu havia abandonado o campo para sempre, e fui recebido com a maternal censura de quem ralha em familia.

Como em todas as minhas doenças graves, não tive convalescença, e a minha forte organização fêz-me passar do estado valetudinario ao perfeito estado de saude, em transição ràpida.

Com a robustez do côrpo veio o socêgo do espìrito, e só então pude encarar reflectidamente a posição em que o destino me collocara. Pêla conversação repetida com Madame Coillard, pude perceber que não sobejavam recursos ao missionario. O meu marfim, bem pago, mas pago em fazendas a que os agentes da casa Westbeech and Phillips déram subido e exageradissimo valor, pouco produzio. Madame Coillard só via um meio de sahirmos do apuro em que estàvamos, e êsse era, o de nos não separarmos, por não ser possivel dividirem comigo os poucos recursos que tinham.

Contudo, esperàvamos a volta do missionario, do Quisseque, para tomar uma resolução definitiva.

A idéa de ficar com elles aterrava-me.

Havia ali uma formosa criança, que impressionava a cada momento a minha imaginação ardente de Portuguez.

¿Ser-me-hia possivel, n'um viver tão ìntimo, n'um isolamento tão grande, impedir que uma fala escapada n'um momento de loucura, um olhar vibrado n'um lampejo de delirio, fôssem offender a casta menina, descuidosa na sua innocencia càndida?

Tremia por mim e por ella.

Decidi, pois, fazer um estudo de mim mesmo até á volta do missionario, e calcular bem até que ponto eu seria capaz de ser honrado.

Passei três dias atribulados no estudo que fazia do meu espìrito. ¿Poderia eu namorar-me d'aquella meiga criança? De certo não; e a lembrança sempre viva de uma espôsa idolatrada, era segura garantia aos meus sentimentos.

Mas, se o coração estava defendido, não o estava a imaginação fèrvida, e podia, n'um momento de desvario, com uma phrase imprudente, cometter uma infamia--porque infamia seria fazer subir o pejo ao rôsto d'aquella em cuja casa eu tinha sido recebido com a intimidade de um filho.

Àlém d'isso, o meu devêr era ainda maior. Era preciso evitar a tôdo o custo, que a fama das proêsas que os meus de mim apregoavam; que a posição, um pouco romàntica, em que eu me achava entre aquella familia; não fôssem impressionar a novél imaginação dos desoito annos de uma mulhér.

¿Poderia eu sustentar durante mezes o papél de uma reserva absoluta, na grande intimidade da vida que ia levar?

Um dia pensei que era capaz de o fazer, e desde êsse dia tracei a minha conduta futura, de que não arredei um só passo.

Muitos mezes depois eu tinha sido comprehendido por uma mulhér, que soube ler no meu ìntimo com essa fina perspicacia que só ellas possuem para ler nos arcanos da alma os mais recònditos sentimentos; e não hesito em dizer, que fui comprehendido por Madame Coillard, porque, na vèspera da nossa separação, ella escreveu no meu diario um versìculo do Psalmo 37, que me revelou o seu pensamento.

Estava resolvido a ficar com elles, quando más novas chegáram do Quisseque.

M^{r.} Coillard confirmava, em uma longa carta escrita a sua espôsa, o boato do incendio a que ja me referi.

Tudo quanto elle tinha em casa do chefe Carimuque fôra prêsa das chamas, e isso vinha ainda complicar a situação, diminuindo o seu haver.

Àlém d'esta, outra noticia veio consternar mais a bondosa espôsa do missionario. Dizia elle que Eliazar, o homem que estava em Quisseque e de quem ja falei, fôra atacado de um accesso de febre de mao caracter, e estava em perigo.

Madame Coillard muito affeiçoada áquelle Catechista, que fôra outrora seu servidor, ficou desde êsse momento em cuidados extremos.

Dois dias depois, a 6 de Novembro, uma nova carta do missionario veio augmentar a tristeza que reinava no acampamento de Leshuma. Eliazar estava peior e receiava-se que não podesse salvar-se.

No dia 7, eu tinha ficado levantado até tarde da noute, por ter a fazer observações astronòmicas; ficando comigo as duas senhoras, em conversa cujo assumpto era o missionario e a doença de Eliazar.

Madame Coillard disse-me, que tinha um forte presentimento de que seu marido chegaria n'aquella noute. Propuz-lhe irmos ao seu encontro, e tendo sido aceite o alvitre pelas duas corajosas damas, pozémos-nos a caminho de Embarira.

A um kilòmetro do acampamento, eu que caminhava adiante d'ellas, preveni-as de que sentia rumor de gente na floresta; mas julgáram ser engano, porque ainda um kilòmetro àlém ninguem encontrámos. Contudo, eu sabia não me enganar, porque mais de uma vez um rumor mal definido e só perceptivel a ouvidos de sertanejo, tinha chegado até mim. Sem isso não teria animado aquellas damas a esperar n'uma floresta povoada de feras, e onde me sentia pouco á vontade pêla responsabilidade que tomava.

Pelas onze e meia, o rumor que por vêzes percebi tornou-se distincto para os meus ouvidos, e não duvidei affirmar que gente calçada caminhava no trilho que seguìamos. Pouco depois alguns vultos aparecêram na sombra, e o missionario, acompanhado de dois ou três prêtos, estava diante de nós.

Madame Coillard procurava em vão alguem junto de seu marido. Esse alguem faltava. Mais uma sepultura tinha sido cavada no alto Zambeze, mais uma lição estava dada aos imprudentes que se arriscam n'aquelle paiz da morte.

Voltámos tristes e silenciosos ao campo de Lexuma.

No dia immediato tive uma larga conversa com M^{r.} Coillard. O que eu previa ja era realidade. O missionario, falto de recursos, não me podia dar o sufficiente para eu fazer a viagem até ao Zumbo.

Discutímos largamente todos os alvitres, e a ùnica possibilidade de èxito era não nos separarmos e seguirmos juntos até ao Bamanguato, onde eu poderia obter meios de seguir avante. Elle tinha pressa de partir, porque àlém de não sêrem fartos os meios para uma espera qualquér, Lexuma era-lhes fatal. Duas sepulturas de dois dos seus mais fiéis servidôres tinham sido abertas ali.

Contudo, eu queria ir visitar a grande cataracta do Zambeze, e ficou combinado que elle me esperaria até ao regresso, o que importava uma demora de 12 a 15 dias.

Ficou decidido que eu partisse para Mozioatunia no dia 11, e Madame Coillard, com maternal sollicitude, começou logo a tratar dos meus aprestes de viagem.

No dia 10, uma forte tempestade cahio sobre nós, e sobreveio-me um accesso de febre. Verissimo tambem adoeceu com febre. Este estado de tempo e de doença continuou no dia 11, impedindo-me de realisar o projecto de seguir n'esse dia para as cataractas.

No dia 12 eu estava melhor, mas o Verissim