Dois
Volumes.
Contendo 15 mappas e facsimiles, e 133 gravuras feitas dos desenhos do
autor.
VOLUME SEGUNDO.
Segunda Parte--A FAMILIA COILLARD.
LONDRES:
SAMPSON LOW, MARSTON, SEARLE, e RIVINGTON,
EDITORES,
CROWN BUILDINGS, 188 FLEET STREET.
1881.
[Tôdos os direitos
sam reservados.]
No
alto Zambeze--O rei
Lobossi--O reino do Barôze, Lui ou Ungenge--Os
conselheiros do
rei--Grande audiencia--Audiencias particulares--Parece que
tudo
me corre bem--Eu explicando geographia a Gambela--Volta-se
a face aos negocios--Intrigas--Os Bihenos querem voltar--Uma
embaixada a Benguella--Quimbundos e Quimbares--A
prêta
Mariana--Tentativa de assassinato--6 de Setembro--Incendio e
combate--Retiro para as montanhas
Prêso
em
Embarira--O
Doutor Benjamin Frederick Bradshaw--O campo do Doutor--O
Pão--Graves questões--Os chronòmetros
não param--Francisco
Coillard--Lexuma--As damas Coillard--Doença grave--Receios e
irresoluções--Chegada do missionario--Tomo
uma decisão--Partida de
Lexuma (em Inglez, Leshuma)
Viagem
ás
cataractas--Tempestades--A grande cataracta do Zambeze--Abusos dos
Macalacas--Regresso--Patamatenga--M^{r.} Gabriel
Mayer--Tùmulos de Europêos--Chêgo a
Deica--A familia Coillard
O
Deserto--Florestas--Planicies--Os Macaricaris--Os Massaruas--O grande
Macaricari--Os rios no deserto--Morte da Córa--Falta de
àgua--O
ùltimo chá de Madame Coillard--Xoxom (Shoshong)
Doença
grave--Um Stanley que não é o Stanley--O Rei
Cama—Os Inglezes em Àfrica--A libra
esterlina--M^{r.} Taylor—Os Bamanguatos a cavallo--Cavallos e
cavalleiros—Despedidas--Parto para Pretoria--Acontecimentos
nocturnos--Volto a Xoxom--¿Pararám os
chronòmetros?
Catraio--Apparece
o
vagom--Despedida de M^{r.} Coillard--Tempestades--O
vagom tombado--Trabalhos de nôvo
gènero--Chuvas--O
Limpôpo--Fly--Caçadas--No Ntuani--Um Stanley que
não presta--Augusto furioso--Adicul--Os
leões--Stanley desanima—Os Böers
nomadas--Nôvo
vagom--Peripècias--Doenças graves—Um
Christophe de mil diabos--Madame Gonin--O ùltimo
tùmulo--Magalies-berg--Pretoria
NO
TRANSVAAL.
Ràpido esbôço da historia dos
Böers--O que sam os Böers—Suas
emigrações e trabalhos--Adriano
Pretorius--Pretorius--As minas de diamantes--Brand--Burgers--Juizo
errado á cerca dos Böers--O que eu vi e
que eu penso
NO TRANSVAAL (continuação).
M^{r.} Swart--Difficuldades--D^{or.} Risseck--Eu
gastrònomo!—Sir Bartle Frere e o Consul Portuguez
M^{r.} Carvalho--O Secretario Colonial M^{r.} Osborn--Jantares e
saraus--O missionario Rev. Gruneberger--M^{r.} Fred. Jeppe--O jantar do
80 de infanteria--Major Tyler e Capitão
Saunders—Insubordinação--M^{r.}
Selous--Monseigneur Jolivet--O que era Pretoria--Uma photographia de
pretas--Episodio burlêsco da guerra tràgica dos
Zulos
A chegada do Coronel Lanyon--Parto de Pretoria--Heidelberg--Um
dog-cart--O
Tenente
Barker--Dupuis--Peripecias de uma viagem
no Transvaal--Newcastle--A diligencia--Episodios
burlescos--Pietermaritzburg--Durban--Volto a
Maritzburg--Didi Saunders--Episodios em Durban--O Consul
Portuguez M^{r.} Snell--O Danubio--O Commandante
Draper--Regresso á Europa
LISTA DAS
ILLUSTRAÇÕES.
FIG.
94.--O
Rei Lobossi
95.--Gambela
96.--Matagja
97.--Cachimbos
de fumar o
Bangue
98.--Vasilha
para leite feita
de madeira
99.--Objecto
de Ferro forjado
que serve de Lenço de assoar
aos Luinas. Especie de Espàtula
100.--Pratos
e Escudellas
para a comida
101.--Colhér
102.--Machado
de cortar
madeira
103.--Artigos
de Barro
104.--Homem
Luina
105.--Mulhér
Luina
106.--Azagaias
Luinas
107.--Machadinhas
de guerra
108.--Porrinho
109.--Ataque
contra o
acampamento no Lui
110.--Casa na Itufa
111.--O meu Barco
112.--Acampamento na Sioma
113.--Cataracta de Gonha
114.--Passagem
dos Barcos em
Gonha
115.--Cataracta
de Cale
116.--Ràpidos de
Bombue
117.--Nos ràpidos
118.--Três
Europêos atravessáram o rio
119.--O Campo do Doutor Bradshaw
120.--Monsieur e Madame Coillard
121.--Acampamento da Familia
Coillard em Lexuma
122.--Interior do Campo de
Monsieur Coillard em Lexuma
123.--Mozioatunia. A Queda de
Oeste.
124.--Mozioatunia. Maneira pouco
còmmoda de medir
àngulos.
125.--O Rio depois da Cataracta
126.--Os Tumulos em Patamatenga
127.--Os Desfiladeiros de
Letlotze
128.--Ruinas da Casa do Rev.
Price (Xoxom)
129.--No Deserto
130.--Fly, o meu Cavallo do
Deserto
131.--Fly perseguindo os Ongiris
132.--Uma Vista do Alto
Limpôpo
133.--Montes
termìticos junto ao Limpôpo
134.--Os meus Bôis
foram salvos
135.--O ùltimo enterro
136.--Magalies-berg
137.--O que restava da
Expedição
138.--Eu em Pretoria (
De
uma photo. de Mr. Gross)
139.--Betjuanas (
De
uma
photo. de Mr. Gross)
Mappa de Mozioatunia
Três Facsìmiles, de pàginas do Diario,
dos Livros de Càlculos, e do Albo de Cartas
COMO EU ATRAVESSEI
ÀFRICA
Primeira Parte.--A CARABINA D'EL-REI.
CAPÌTULO
IX.
NO
BARÔZE.
No
alto Zambeze--O rei
Lobossi--O reino do Barôze, Lui ou
Ungenge--Os conselheiros do
rei--Grande audiencia--Audiencias
particulares--Parece que tudo
me corre bem--Eu explicando geographia a Gambela--Volta-se
a face aos negocios--Intrigas--Os Bihenos querem voltar--Uma
embaixada a Benguella--Quimbundos e Quimbares--A
prêta
Mariana--Tentativa de assassinato--6 de Setembro--Incendio e
combate--Retiro para as montanhas.
A 25 de Agôsto levantei-me muito incommodado e ardendo em
febre. Estava no alto Zambeze, junto do 15^{to} parallelo austral, na
cidade de Lialui, nova capital estabelecida pelo rei Lobossi, do reino
do
Barôze, Lui ou Ungenge, que tôdos estes nomes pode
ter o vasto
imperio da Àfrica tropical do sul. Como se sabe
pêlas
descripções de David Livingstone, um homem vindo
do Sul á frente de um exèrcito
poderôso, o guerreiro Chibitano, Basuto de origem, atravessou
o Zambeze junto da sua confluencia com o Cuando, e invadio os
territorios do alto Zambeze, sujeitando ao seu dominio tôdas
as tribus que habitavam o
vasto paiz conquistado.
Chibitano, o mais notavel capitão que tem existido na
Àfrica Austral, partira das margens do Gariep com um pequeno
exèrcito
formado de Basutos e Betjuanas, ao qual foi aggregando os
mancêbos dos povos que
vencia, e ao passo que caminhava ao norte, ia organizando essas
phalanges, que depois se tornáram tão terriveis,
ja na conquista
do alto Zambeze, ja na defensa do paiz conquistado.
A êsse exèrcito, formado de elementos differentes,
de povos de muitas raças e origens, deu o seu chefe o nome
de Cololos, e d'ahi
lhe veio o nome de Macololos que tão conhecido se tornou em
Àfrica.
No alto Zambeze encontrou Chibitano muitos povos distinctos, governados
por chefes independentes, que não podéram,
separados como estavam, oppor séria resistencia ao terrivel
guerreiro Basuto.
Tão sabio legislador, como prudente administrador, e audaz
guerreiro, Chibitano soube dar união aos povos conquistados,
e fazer
com que elles se considerassem irmãos no interesse commum.
Estes podiam agrupar-se em três divisões, marcando
três raças distinctas.
Ao sul, abaixo da região das cataractas, os Macalacas; no
centro, os Cangenjes ou Barôzes; e ao norte, os Luinas,
raça
mais vigorosa e intelligente, que devia substituir um dia os Macololos
na
governação do paiz.
É propriamente no paiz do Barôze ou Ungenge, que
se tem conservado as sedes do govêrno desde o tempo de
Chicreto, o filho e
successor de Chibitano; e tôdos os povos de Oeste chamam ao
vasto imperio
Lui ou Ungenge, ao passo que os povos do sul lhe dam o nome de
Barôze. Mais tarde, n'este capìtulo, terei
occasião de falar
na historia d'este pôvo desde a ùltima visita de
Livingstone até
á minha passagem ali; proseguindo agora a narrativa das
minhas aventuras sôb o
reinado de Lobossi, e do seu conselheiro ìntimo Gambela.
A organização polìtica do reino do Lui
é muito differente da dos outros povos que eu tinha visitado
em Àfrica. Ali ha dois
ministerios perfeitamente definidos, o da guerra, e dos negocios
estrangeiros; sendo este ùltimo dividido em duas
secções,
cada uma com o seu ministro. Uma d'ellas trata dos negocios de Oeste,
outra dos do Sul. Isto
é, uma trata com Portuguezes de Benguella, outra com os
Inglezes do Cabo.
Na occasião da minha chegada, os conselheiros do rei eram
quatro, dois dos quaes não tinham pasta; sendo ministro dos
negocios
estrangeiros de Oeste um tal Matagja, e accumulando duas pastas, a da
guerra e a dos negocios estrangeiros do sul, Gambela, o presidente do
consêlho do rei. Aprendi bem estes detalhes, para regular a
minha conducta nas graves questões que tinha a tratar.
Logo de manhã, fui avisado, de que o rei Lobossi me esperava.
Larguei os meus andrajos, e vesti o ùnico vestuario que ja
possuia, dirigindo-me em seguida á grande praça
onde devia
ter logar a audiencia.
Elle estava sentado em uma cadeira de espaldar, no meio da grande
praça, e por de tras d'elle um nêgro fazia-lhe
sombra com um
guarda-sol.
Era um rapaz de 20 annos, de estatura elevada, e proporcionalmente
grôsso.
Vestia um casaco de cazimira prêta sobre uma camisa de
côr, e em logar de gravata, trazia ao
pescôço um
sem-nùmero de amulêtos.
As calças eram de cazimira de côr, e deixavam ver
as meias de fio de escocia, muito alvas, e o sapato baixo bem lustrado.
Um grande cobertôr de listas multicolôres em guisa
de capote, e na cabêça um chapéo
cinzento, ornado de
duas grandes e bellas pennas de avestrús, completavam o
traje do grande potentado.
Na mão um pedaço de madeira lavrada, ao qual
estavam prêsas muitas clinas de cavallo, servia-lhe para
enxotar as môscas,
acção que elle fazia com tôda a
gravidade.
Á sua direita, em cadeira mais baixa, estava sentado o
Gambela, e na frente os três conselheiros. Umas mil
pessôas,
sentadas no chão em semi-cìrculo, deixavam
perceber a sua jerarchia pelas
distancias a que
estavam do soberano.
Figura
94.--O Rei Lobossi.
Á minha chegada o rei Lobossi levantou-se, e logo em seguida
os conselheiros e tôdo o pôvo. Troquei um
apertar-de-mão com elle e com Gambela, abaixei a
cabêça a Matagja e aos outros
dous conselheiros, e sentei-me junto a Lobossi e a Gambela.
Depois de uma troca de comprimentos e de finezas, que mais pareciam de
uma côrte Europea do que de um pôvo
bàrbaro, eu disse ao rei, que não era negociante,
que vinha visital-o por ordem do Rei de Portugal, e que tinha a
falar-lhe em assumptos que não podiam ser tratados
ali diante de tão numerosa assemblea.
Figura
95.--Gambela.
Elle respondeu-me, que sabia e comprehendia isso, e que a
recepção que me mandara fazer na
vèspera e a que elle mesmo me fazia ali,
me mostravam que eu não era confundido com um negociante
qualquér; que eu era seu hòspede, e teriamos
tempo de falar em negocios,
porque elle esperava ter a felicidade de me possuir algum tempo na sua
côrte. Depois de me dizer esta amabilidade, despedio-se de
mim, que voltei a casa abrasado em febre.
No meu pàteo encontrei trinta bôis, que o rei me
mandava de presente.
Disse-me o escravo favorito de Lobossi, que seria delicado da minha
parte, mandar matar os bôis, e offerecer a melhor perna de
bôi ao rei, e dar carne á gente da côrte.
Dei ordem a Augusto para fazer isso, e houve logo uma carnificina
enorme, sendo tôdos os bôis mortos, e a sua carne
distribuida entre os meus carregadores e a gente da côrte;
tendo o cuidado de
mandar ao rei e aos quatro conselheiros a melhor parte, cabendo ainda
assim o melhor quinhão a Gambela, a quem fiz notar a
distinc&ccedyl;ão que fazia.
Figura
96.--Matagja.
As pelles, que ali sam muito estimadas, offereci eu a Matagja e Gambela.
Pêla 1 hora, fui recebido pêlo rei em audiencia
particular, em uma casa tambem semi-cilìndrica, mas de
grandes dimensões,
que não contava menos de 20 metros de comprido por 8 de
largo.
Lobossi estava sentado em uma esteira, e em frente d'elle os quatro
conselheiros occupavam outra, de companhia com alguns fidalgos, entre
os quaes estava um velho vigoroso, cuja physionomia
sympàthica
e expressiva me impressionou. Era Machauana, o antigo companheiro de
Livingstone, na viagem que o cèlebre explorador fez do
Zambeze a Loanda, e
de quem elle fala, no seu roteiro com tanto elogio.
Uma enorme panella de quimbombo foi collocada no meio da casa, e depois
de o rei ter bebido, bebêram tôdos com
profusão, e nem me offerecêram, sabendo que eu
só àgua bebia.
Conversámos sôbre cousas indifferentes, e eu
entendi não dever falar-lhe ainda dos meus negocios. Entre
outras cousas, falámos a
respeito de lìnguas differentes, e Lobossi pedio-me que
falasse um
bocado em Portuguez, para elle ouvir. Recitei-lhe as Flôres
d'Alma do
poema "D. Jayme," e os prêtos ficáram encantados
ao escutar
a harmonia da nossa lìngua, que o mimôso e grande
poeta, Thomas
Ribeiro, soube imprimir e fazer resaltar n'aquellas estrophes singelas.
Quando eu ia retirar-me, o rei disse-me baixo, de modo que ninguem
percebeu, que lhe fôsse falar depois de ser noute fechada.
Pouco depois de eu chegar a casa, apparecêu-me ali Machauana,
com quem conversei sôbre Livingstone, e que me fez os maiores
protestos de amizade.
Á noute, pelas 9 horas, fui á morada do rei. Elle
estava n'um dos pàteos interiores, sentado em uma esteira,
junto a um grande fôgo,
que ardia n'uma bacia de barro de dois metros de diàmetro.
Na sua
frente, em semi-cìrculo, uns 20 homens, armados de azagaias
e escudos,
conservavam a maior immobilidade e silencio.
Pouco depois de eu chegar, chegou o Gambela, e começou a
nossa conferencia.
Eu principiei por lhe dizer, que tinha sido obrigado a deixar no
caminho os ricos presentes que lhe trazia, mas que, ainda assim, tinha
podido salvar algumas pequenas cousas que lhe daria, e entre ellas uma
farda e um chapéo, que lhe apresentei logo.
Era uma d'essas fardas ricamente agaloadas, que tôda Lisboa
vio aos lacaios postados nas antecàmaras do Marquez de
Penafiel, e
que fôram vendidas quando o opulento fidalgo trocou a sua
residencia luxuosa de Lisboa, pelo viver mais
buliçôso da capital da
França.
Lobossi ficou encantado com a farda e com o chapéo armado, e
fêz-me mil agradecimentos. Depois de uma pequena conversa sem
importancia,
entrámos em assumpto.
No Barôze falam-se três lìnguas. O
Ganguela, a lìngua Luina, e o Sezuto, idioma deixado ali
pêlos Macololos, que
modificáram os costumes d'aquelles povos a ponto tal, que
até lhes
implantáram a sua lìngua, que é a
lìngua official e elegante da côrte.
Era n'este idioma que falavam Lobossi e Gambela, servindo-me de
intèrpretes Verissimo e Caiumbuca. Eu disse ao
règulo, que vinha da parte do rei de Portugal (o Mueneputo),
nome pêlo qual sua
Magestade
Fidelissima é conhecido entre tôdos os povos da
Àfrica Austral, e que é formado por duas
palavras--
Muene,
que quer dizer Rei, e
Puto,
nome dado em
Àfrica a Portugal. Disse-lhe, que o meu fim
principal era abrir caminhos ao commercio, e que estando o Lui no
centro de
Àfrica, e ja em communicação com
Benguella, desejava abrir o
caminho do Zumbo, e assim um mercado muito mais perto, onde elles
poderiam ir abastecer-se dos gèneros Europêos de
que precisassem.
Elle queixou-se muito da falta que nos ùltimos tempos lhe
havia feito o não virem ali negociantes de Benguella,
não me
occultando que, entre outras cousas, estava sem pòlvora. Eu
respondi-lhe, que
elles viriam, se com elles fizessem bons negocios, e que eu lhe podia
affirmar, que o Mueneputo estava dispôsto a proteger o
commercio com elle, se
elle se compromettesse a não consentir nos seus estados a
compra e a
venda de escravos.
Não lhe occultei a falta de meios com que eu lutava, e
mostrando-lhe o desejo e empenho que tinha em abrir o caminho do Zumbo,
prometti-lhe, se elle me coadjuvasse na emprêsa, fazer-lhe
chegar de Tete, no
menor tempo possivel, a pòlvora e mais artigos de que elle
carecia.
O Gambela, homem intelligente e fino diplomata (tambem os ha
prêtos), quiz por vêzes enredar-me, mas eu
não sahia da
verdade e da lògica, e elle foi vencido.
No fim de muito discutir, ficou decidido, que o rei Lobossi mandaria
uma comitiva a Benguella, para guiar a qual eu lhe daria um homem de
confiança, com cartas para o governador e para Silva Porto,
e que elle me daria a gente de que eu precisasse para ir comigo ao
Zumbo.
Era uma hora da noute quando eu me retirei, e ainda que sempre
desconfiado de prêtos, não posso deixar de
confessar que me retirei satisfeito.
O dia foi tôdo muito occupado, e depois de á uma
hora me recolher, sobreveio-me um enorme accesso de febre.
Levantei-me muito doente no dia seguinte, e mandei logo Quimbundos e
Quimbares construirem um acampamento meio kilòmetro ao sul
de Lialui, para o quê obtive
autorização do rei.
Pêlas 10 horas, fui visitar Lobossi, que encontrei n'uma
grande casa circular, cercado de gente, e tendo diante de si seis
enormes panellas de capata. O meu Augusto, Verissimo, Caiumbuca e a
gente do
règulo, dentro em pouco estavam bêbados a cahir, e
ninguem se
entendia ali. Eu voltei a casa, e tive de deitar-me, de tal modo me
recresceu a febre.
Foi immensa gente visitar-me, e como eu não tinha remedio
senão ouvir uns e outros, porque aquelles nêgros
não t[~e]m a
menor consideração por um doente, peiorei muito.
Lobossi mandou-me seis bôis, cuja carne foi tôda
furtada pêla gente d'elle, porque a minha estava longe
construindo o acampamento, e Augusto, Verissimo e Camutombo
completamente bêbados,
não quizéram saber d'isso.
No dia immediato, Lobossi veio visitar-me logo de manhã; eu
estava um pouco melhor, mas a febre era constante e não
queria ceder
aos medicamentos.
Ás 10 horas, Lobossi mandou-me pedir para comparecer diante
do seu grande consêlho, que fizera convocar expressamente
para eu
expor os meus projectos.
Outra vez Gambela, que presidia á assemblea, me quiz
embaraçar, e outra vez se saío mal. Tive de
explicar Geographia a Gambela e aos conselheiros da corôa.
Tracei-lhes no chão o curso do Zambeze, e a leste parallelo
a elle o curso do Loengue, que, com o nome de
Cafúcué, vai
entrar no Zambeze a jusante dos ràpidos de Cariba.
Mostrei-lhes que em 15 dias alcançaria a
povoação de Cainco, situada em uma ilha do
Loengue, e que descerìamos o rio embarcados
até ao Zambeze, e por este ao Zumbo.
Afirmei-lhes, que o Loengue não tinha cataractas, e que o
Zambeze de Cariba ao Zumbo era perfeitamente navegavel.
Insisti pois n'este ponto, demonstrando-lhes, que apenas com uma
travessia por terra de 15 dias, que se podia reduzir mesmo a 10
(citando-lhes para isso um facto de uma expedição
Luina que, partindo de Narieze, tinha alcançado Cainco em 8
dias), com uma pequena
travessia por terra, elles estariam em ràpida,
communicação com os estabelecimentos Portuguezes
de Leste, por vias fluviaes completamente navegaveis.
O pùblico estava admirado da minha
erudição, e Gambela, que sabia mais geographia
Africana do que muitos ministros d'estado
Europêos, e que conhecia ser verdade o que eu expunha, cedeu
ás
razões.
Depois de longa e acalorada discussão, foi resolvido, que se
enviasse a comitiva a Benguella, e que me fôsse dada a gente
sufficiente
para atravessar o Chuculumbe até Cainco, deixando
três
ou quatro fortes postos no caminho, para segurar a passagem
áquelles que,
indo comigo até ao Zumbo, tivessem de regressar. No fim da
sessão, houve
grande enthusiasmo, e fôram logo nomeados os chefes que
deviam ir a
Benguella, e os que me deviam acompanhar.
Voltei a casa com um tal accesso de febre que perdi a razão,
melhorando ás 6 horas da tarde.
Á noute, annunciáram-me a visita de Munutumueno,
filho do rei Chipopa, o primeiro rei da dinastia Luina.
Mandei-o entrar, e vi um rapaz de 16 a 17 annos, muito elegante e
sympàthico.
Trazia uma calça prêta e uma farda de alferes de
cavallaria ligeira, em muito bom estado. Fez-me profunda
impressão ver aquella
farda! ¿A quem teria pertencido? ¿Como teria ido
parar ao centro
d'Àfrica?
Talvez alguma viuva necessitada encontrasse na venda d'aquelle objecto,
que pertencêra a um espôso estremecido, algumas
migalhas de pão para matar a fome.
Perguntei a Munutumueno ¿como tinha obtido aquella farda? e
elle respondeu-me, que tinha sido presente de um sertanejo Biheno,
havia ja muito tempo.
Indaguei, se não lhe havia encontrado nada nos bolsos, e
elle respondeu-me, que não tinha bolsos. Uma farda de
official
sem bolsos, era impossivel.
Pedi-lhe para m'-a deixar examinar, e tendo elle desabotoado o peito,
effectivamente vi que não tinha bôlso ali.
Roguei-lhe, que se voltasse, e comecei a explorar-lhe os bolsos das
abas. Elle estava admirado, porque não sabia que tinha
bolsos ali. Em um d'elles os meus dêdos
encontráram um pequenino
bilhête.
¿Iria saber a quem tinha pertencido aquella farda?
¿O que conteria aquelle papelinho dobrado que eu tinha
diante dos olhos e não me atrevia a abrir?
Cheio de commoção, desdobrei o papél,
e vi n'elle algumas linhas escritas a lapis, que li
àvidamente.
Não pude conter uma gargalhada.
O papél dizia assim:--
"Se lhe não sou indifferente, rogo-lhe o obsequio de me
indicar o modo de nos correspondermos."
Por baixo um nome e uma morada.
Sabia de quem fôra a farda.
O nome era o de um dos meus amigos e antigo condiscìpulo,
que hôje occupa uma distintissima
posição n'uma das armas
scientìficas do exêrcito Portuguez.
Um dia em pùblico commetti a
indiscrição de pronunciar o nome do signatario do
bilhête, que eu possuo, e ainda que indiscreto
fui, não creio ter de modo algum offendido aquelle nobre
official e distincto cavalheiro.
Uma farda que o talento e a applicação ao estudo
fizéram trocar por outra, mais distincta; que, abandonada ou
dada a algum criado,
pêla instabilidade das cousas, foi parar ao centro de
Àfrica,
creio é cousa que não desdoura ninguem. Em quanto
ao bilhête de
amôres, creio bem que ainda menos o deve vexar.
Infelizes d'aquelles que, aos desoito annos, não
escrevêram bilhêtes assim, e mais infelizes os que
depois dos trinta ja os não
podem escrever.
"Aquillo, meu amigo, foi cousa que um
papá,
ou uma
_máma, sempre impertinentes em taes casos, te não
deixou entregar, ao
sahir do theatro ou de um baile, á tua Dulcinea d'aquella
noute, ou que a tua
timidez dos desoito annos fêz recolher ao bôlso.
Imagino, meu
amigo, que te deves ter rido, sabendo que aquelle bilhête
esquècido,
depois de atravessar os mares, atravessou aquelles
inhòspitos paizes, e andou em
companhia de um prêto no alto Zambeze. É verdade,
que, para te
consolares, sabes que esse prêto era filho de rei."
N'esta aventura, eu fui o ùnico tôlo, em ter tido
pensamentos tristes, á vista do bilhête encontrado
no bôlso da farda de um
alferes de cavallaria, porque logo devia suppor, que tal
bilhête
só podia ser um bilhête d'amôres.
Um alferes de cavallaria, em Portugal, como em tôdos os
paizes, é sempre um fogacho onde as maripôsas
v[~e]m queimar as azas douradas.
Pensando na proposição que acabo de formular,
deitei-me cheio de tristeza, lembrando-me que ja era major.
No dia immediato, recresceu a febre a ponto de eu não poder
andar. Lobossi foi visitar-me, e levou com-sigo o seu mèdico
de
confiança.
Era um velho, pequeno e magro, de barba e cabello branco.
Principiou elle por tirar do pescôço um
cordão onde tinha enfiado oito metades de caroços
de uma fruta qualquér que eu
não conhecia. Começou, com grande recolhimento, a
pronunciar umas palavras màgicas,
e atirou com os caroços ao chão. D'estes, uns
ficáram com a parte interna voltada para a terra, outros com
a externa. Elle leu n'aquella
disposição, concluindo da leitura, que os meus
parentes mortos se tinham apossado de mim, e que era preciso dar-lhes
alguma cousa para elles me deixarem. Eu aturei tudo com a maior
paciencia, fingindo acreditar o que elle me dizia, e dei-lhe um pequeno
presente de pòlvora.
N'aquelle dia o Gambela deu-me um presente de dez cargas de milho e
massambala.
Estando concluido o meu acampamento, mudei para elle.
No dia 29 de Agosto, a febre cedeu um pouco ás fortes doses
de quinino que tomei, e senti bastantes melhoras. O meu estado moral
é
que peiorava de instante a instante.
Tinha alguns momentos de desalento inexplicaveis. A minha energia cedia
ante a fraqueza moral que se apossava de mim.
Estava sôb o pêso esmagador de um terrivel ataque
de nostalgia.
O rei mostrava muitos cuidados pêlo meu estado, mas cada
portador que vinha encarregado de saber da minha saude, era emissario
de um pedido cada vez mais impertinente.
N'aquelle dia mandou elle os seus mùsicos tocarem e cantarem
para me enterter, mas mandou em seguida pedir-me dois cartuxos de
pòlvora por cada mùsico.
N'essa tarde ouvi grandes toques de tambores na cidade, e o rei
mandou-me pedir, que mandasse dar alguns tiros na grande
praça, desejo que eu satisfiz mandando doze homens dar
fôgo.
Sube depois que aquillo era uma convocação
á guerra, e antes de falar nos motivos d'ella, direi em
poucas palavras a historia do Lui, desde o ponto em que ficou narrada
pêlo D^{or.} Livingstone, isto
é, desde a morte de Chicrêto.
O imperio, poderosamente sustentado pêla mão de
ferro, sabia prudencia e fina polìtica de Chibitano,
marcou-se com uma profunda
pègada de decadencia no reinado de seu filho
Chicrêto. David
Livingstone, muito grato aos favôres de Chicrêto,
que lhe deu os meios
de ir a Loanda e a Moçambique, é talves bastante
suspeito nos
elogios que dispensa a este rei; e mesmo na narrativa da viagem que ali
fez depois com seu
irmão Carlos e o Doutor Kirk, não pôde
deixar de narrar
a desordem e profunda decadencia em que encontrou o imperio Macololo.
Das gentes vindas do sul com Chibitano, isto é Macololos,
poucos existiam ja, tendo sido decimados pêlas febres do
paiz, que
nem os naturaes poupam. A embriaguez e o uso do bangue, de mistura com
os
desregramentos dos chefes, tinham feito perder tôda a
autoridade aos invasores. Môrto Chicrêto,
succedeu-lhe seu
sobrinho Omborolo, que devia reinar durante a minoridade de Pepe,
irmão muito mais
nôvo de Chicrêto, e filho ainda do Grande Chibitano.
Os Luinas conspiravam, e um dia Pepe foi assassinado. Omborolo
não tardou a ter a mesma sorte, e tendo sido ordenada uma
Saint
Barthélemi por os
Luinas, os restos d'esse forte
exèrcito invasor foi
assassinado, escapando apenas poucos, sôb o commando de
Siroque,
irmão da mãe de Chicrêto, que fugio
para Oeste, passando o Zambeze em Nariere.
Os Luinas, depois d'essa carnificina traiçoeira,
acclamáram seu chefe Chipópa, homem de tino, que
não deixou desmembrar
o paiz, e procurou conservar o imperio, poderoso como em tempo de
Chibitano.
Chipópa reinou muitos annos, mas as
ambições apparecêram e, em 1876, um tal
Gambela fel-o assassinar, e acclamar seu sobrinho Manuanino,
criança de 17 annos.
O primeiro acto do poder de Manuanino foi mandar cortar a
cabêça a Gambela, que o tinha feito rei, e
desprezando tôdos os
parentes e amigos do pai que o eleváram ao poder, chamou
para junto de si
só os parentes maternos. Aquelles conspiráram,
fizéram uma
revolução, e tentáram assassinal-o, em
Março de 1878; mas Manuanino, tendo alguns
fiéis, pôde escapar-se, e fugio para o Cuando,
onde assaltou e devastou a
povoação de Mutambanja.
Lobossi, acclamado rei, enviou contra elle um exèrcito, e
Manuanino têve de retirar d'ali, e repassando o Zambeze em
Quisséque,
internou-se no paiz do Choculumbe, atravessou este paiz, e foi
juntar-se a uns brancos, caçadores de elephantes, que
estavam na margem do
Cafuqúe. Lobossi entendeu, que a sua segurança
dependia da morte de
Manuanino, e mandou contra elle um nôvo exèrcito.
Foi do resultado
d'aquella expedição que n'esse dia
chegáram noticias.
Chegados perto do logar onde estava o ex-soberano com os brancos, que
elles chamam
Mozungos,
intimáram estes
a que lhes
entregassem Manuanino para o matarem, e como houvesse recusa, elles os
atacáram, mas, com tanta infelicidade, que fôram
completamente batidos
pêlos brancos; escapando muito poucos, que n'essa tarde
chegáram a
Lialui a narrar o seu desastre.
Eis aqui o motivo porque os tambores tocavam convocando á
guerra; e porque o rei Lobossi me pedio que mandasse dar tiros na
grande
praça da cidade.
Ja que falei na historia do Lui, não dêvo
proseguir sem narrar um dos seus episodios mais interessantes, porque
se refere a um typo verdadeiramente sympàthico.
É Siroque, aquelle Macololo, que, na occasião da
Saint Barthélemi dos Macololos, conseguio escapar com um
grupo de gente, passando o Zambeze.
Siroque, intrèpido e audaz, caminhou a oeste até
encontrar o Cubango, onde se estabeleceu, vivendo da caça
dos elephantes.
Depois subio o rio até ao Bihé, e fixou-se ali
por muito tempo, chegando por vêzes a ir a Benguella em
comitivas sertanejas. Um dia
porem, tendo umas questões em que bateu os que o
atacáram,
retirou por prudencia para o interior; indo acampar no rio Cuando
abaixo do Cuchibi, onde continuou a vida de caçador.
Siroque era intelligente e bravo, e de uma familia que tinha reinado,
não podia deixar de ser ambiciôso.
Sonhou com o restabelecimento da monarchia Macolola no Lui, e foi-se
approximando d'ali pêlo Cuando.
Um pombeiro do Bihé, seu amigo e que lhe tinha fornecido
pòlvora, denunciou-o, e Manuanino, então
acclamado de pouco, fel-o
assassinar junto da povoação de Mutambanja,
pêla
mais cobarde traição.
Tôdos os seus fôram vìctimas, e a
azagaia do assassino de Siroque abrio o tùmulo ao
ùltimo dos Macololos.
Aquelle dia amanhecido tão bonançoso para o
adolescente monarcha, que só via sorrir-lhe a vida,
tornara-se de repente sombrio e carregado, envolvido em nuvens de
tempestade.
As noticias más succedem-se, e corria o boato, de que Lo
Bengula, o poderoso rei do Matebeli, projectava um ataque contra o Lui.
Andavam tôdos desorientados, tôdos emittiam
alvitres, todos pensavam loucuras; só dois homens se
conservavam serenos no meio
d'aquelle pôvo semi-louco. Eram Machauana e Gambela--Gambela
o ministro da Guerra, Machauana o General em chefe.[
1]
Ordens acertadas e ràpidas eram dadas por elles a emissarios
fiéis, que partiam para povoações
distantes.
¿O que seria de mim no meio dos novos acontecimentos que
agitavam o paiz?
Diziam e repetiam, que fôram os
Muzungos
que
matáram os sicarios de Lobossi, enviados contra Manuanino, e
se ali se soubesse que eu era
Muzungo,
estava
irremediavelmente perdido. Estes povos
felizmente ignoram isso, e pensam que os Portuguezes de leste sam de
outra
raça differente dos Portuguezes de oeste.
No Lui, os Portuguezes das colonias de oeste sam chamados
Chiudéres,
nome que lhes dam os Bihenos; os das colonias de leste,
Muzungos;
e os Inglezes do sul,
Macúas.
A
tôdo e
qualquér prêto que vem das colonias Portuguezas
chamam
Mambares,
de certo
corrupção
da palavra
Quimbares,
com que sam designados os prêtos
semi-civilizados de Benguella. D'ahi proveio o erro do Doutor
Livingstone, arranjando a oeste das serras de Tala Mugongo uma
raça de
Mambares.
Os
Quimbares
sam prêtos de
qualquér procedencia,
geralmente escravos ou libertos, que ja sam meio-civilizados. Sam,
finalmente, a gente das senzalas de Benguella e as escravaturas dos
brancos da costa.
Em Benguella chamam
Quimbundos
ao gentio selvagem
do interior, designando com esse nome mais particularmente os Bihenos.
No dia 30, logo de manhã, Lobossi mandou dar-me parte de que
se ia fazer a guerra, e dos motivos que a isso o obrigavam.
O emissario foi o proprio Gambela, que me disse logo, que, sendo o
Chuculumbe o theatro da guerra, era impossivel a minha viagem por ali;
e por isso, que tudo o que havìamos combinado estava
prejudicado.
Aquelles acontecimentos tornavam muito crìtica a minha
posição.
N'essa tarde, estando eu com um nôvo e violento accesso de
febre, viéram prevenir-me, de que os pombeiros Bihenos me
queriam falar.
Levantei-me a custo e fui ouvil-os.
Depois de variados preàmbulos, disséram-me, que
me iam deixar, porque viam o mao caminho que as cousas tomavam no Lui,
e só
desejavam voltar ao Bihé.
Cobardes! Abandonavam-me no momento em que eu mais precisava d'elles!
Miguel, o caçador de elephantes, o pombeiro
Chaquiçongo, e dois carregadores, Catiba e um carregador, e
o Doutor Chacaiombe,
viéram protestar-me a sua amizade, e declarar-me que ficavam
comigo.
Tôdos os
Quimbares
me viéram fazer igual
declaração.
Aquella resolução inesperada dos Bihenos
fêz-me recobrar o sangue frio que ja não tinha ha
dias. Augmentavam as difficuldades, era
preciso lutar, e eu sacudi o entorpecimento moral que se ia apossando
de mim.
Immediatamente despedi os Bihenos, que puz fora do acampamento,
entregando-os ao prêto Antonio, o velho Antonio que eu tinha
designado a Lobossi para ser chefe e guia da comitiva que elle ia
mandar a Benguella.
Fiz em seguida a conta á minha gente, e achei-me com 58
homens.
No dia immediato, Lobossi veio a minha casa, e fêz-me
repetidas exigencias de cousas que eu não possuia, e elle
queria por
fôrça que eu tivesse e lhe desse. Estava cada vez
mais importuno. Era uma
criança, mas criança impertinentissima. Precisava
de uma paciencia
sem limites para o aturar.
Lobossi mandou-me chamar n'essa noute. Fui la, e elle disse-me, que a
minha viagem pêlo Chuculumbe era impossivel, mas que me daria
guias e alguma gente para eu tornear pêlo sul e ir ao Zumbo.
Disse-me, que o boato a respeito dos Matebeles não tinha
fundamento, que d'aquelle lado havia paz e elle terminaria facilmente
com Manuanino. Queixou-se muito amargamente de eu lhe dar poucas
cousas, dizendo, que se eu nada mais tinha, lhe desse tôdas
as armas e a
pòlvora que possuia, porque, seguindo para o Zumbo com gente
d'elle, seria defendido por ella, e não precisava levar
tanta gente armada.
Offereci-lhe as armas dos Bihenos que me tinham deixado n'esse dia, e
que tive o cuidado de lhes tirar, e sete barris de pòlvora,
mas neguei-me formalmente a dar-lhe uma só que
fôsse
das outras, dos homens que me ficáram, ou das minhas
particulares.
Retirei-me pouco satisfeito d'aquella entrevista.
No primeiro de Setembro, levantei-me muito doente, e depois de ter
feito as observações da manhã, tornei
a
deitar-me; quando o Verissimo entrou espavorido na barraca, e me diz,
que Lobossi mandara chamar
tôda a minha gente, e lhe exposera, que eu tinha vindo ali de
propòsito
para me ir juntar aos
Muzungos
que estavam no
Cafuque com o
Manuanino, e fazer-lhe guerra a elle. Isso estava demonstrado
pêla minha
insistencia em querer ir ao Chuculumbe. N'essa noute fôra
elle prevenido
dos projectos que eu meditava, e por tanto, me ia obrigar a sahir dos
seus estados, e só me deixaria livre o caminho do
Bihé.
Encarregara elle o Verissimo de me vir fazer a
intimação; cousa que em nada me desconcertou o
espìrito, porque, desde a
vèspera á noute, eu esperava novidade grande.
Mandei chamar o Gambela, mas elle têve o cuidado de fazer com
que o não encontrassem em tôdo o dia.
Um recado que fiz chegar a Lobossi, mostrando-lhe a inconveniencia do
passo que dava, porque eu lhe podia fazer muito mal impedindo os
sertanejos do Bihé de virem ali, têve por
ùnica resposta nôvo mandado de despejo, e
só livre o caminho do Bihé.
Á tarde, nova prevenção, de que as
forças que estavam reunidas para a guerra, não
sahiriam sem eu ter deixado o paiz do Lui em
caminho de Benguella.
Respondi ao enviado, que dissesse ao rei Lobossi, que dormisse
sôbre o caso, porque a noute era bôa conselheira, e
que esperava
ainda a sua ùltima decisão no dia immediato.
A 2 de Setembro, logo de manhã, recebi a visita de Gambela,
que vinha da parte do rei, ordenar-me que sahisse do seu reino
immediatamente, e que o ùnico caminho livre era o do
Bihé.
Não pode passar nem por ali, nem por ali, nem por ali, me
disse elle, apontando para o N., E. e S.
Contra tôdos os usos do paiz, o Gambela, em quanto
estêve em minha casa, conservou as armas na mão, e
eu entretive-me brincando com
um magnìfico revólver Adams-Colt.
Fingi que meditei a minha resposta, e disse-lhe, "Amigo Gambela,
vá dizer a Lobossi, ou tome o recado para si, que eu
não arredo
um passo d'aqui para seguir o caminho de Benguella. Tem ahi um numeroso
exèrcito, que me venha atacar; eu saberei defender-me, e se
morrer, o Mueneputo lhe tomará contas d'isso.
Vocês estam indispostos
com os Matebeles, ameaçados pêla guerra civil
levantada por
Manuanino, indisponham-se tambem com o Mueneputo, e estam perdidos.
Outra vez lhe repito, que
não
sahirei d'aqui senão para seguir o meu caminho."
Gambela sahio da minha barraca furioso.
N'essa noute Machauana veio furtivamente visitar-me. Previnio-me elle
de que Gambela aconselhara ao rei para me mandar matar, e que Lobossi
se negara a isso terminantemente. O caso foi passado em conselho, a que
assistia Machauana, que me fez mil prevenções
para estar de sôbre-aviso.
A larga conversação que tive com o antigo
companheiro de Livingstone, mostrou-me que entre elle e Gambela havia
reixa velha. O antigo guerreiro de Chibitano, depois muito
afeiçoado ao rei
Chipopa, só pensava em ver occupar o trôno do Lui
ao filho d'este, seu
pupillo e seu protegido, o joven Munutumueno, o meu alferes de
cavallaria ligeira.
Tendo podido ler no coração do velho aquelle odio
e aquella affeição, considerei-me salvo. O seu
poder era grande, porque elle tinha influencia n'uma enorme parte das
tribus do Lui; e por isso as azagaias, que tanto ferem ali nas
revoluções, o tinham
poupado. Fiz-lhe muitos protestos de gratidão, e pedi-lhe,
que me prevenisse logo
que o rei Lobossi determinasse matar-me. Elle prometeu, e retirou-se.
Eu fui deitar-me, levando a referver na mente, um plano singelo, que me
abstive de communicar a Machauana, para lhe evitar idéas
cubiçosas, que elle não tinha n'aquelle momento.
Resolvi, se acaso Lobossi decretasse a minha morte, chamar cinco dos
meus homens mais decididos, uma especie de cães que eu tinha
comigo, como eram Augusto, Camutombo e outros, e ir com elles logo
á
audiencia do rei, onde tôdos estam desarmados, fazel-os, a um
signal
meu, saltarem sôbre Lobossi, Gambela, Matagja e os outros
dois conselheiros
ìntimos, e eu de um pulo acercar-me de Machauana o general
em chefe, o homem que tinha ali acampados dez mil guerreiros, e
gritar-lhe bem alto
"¡Viva Munutumueno, rei do Lui, viva o filho de Chipopa!"
Uma revolução feita n'estes termos não
podia deixar de dar bom resultado n'um paiz que ama as
revoluções, e onde se faria
a primeira em que não houvesse uma gôta de sangue
derramado.
Acalentando este pensamento salvador, adormeci profundamente, para
acordar, no dia 3, ao chamamento do meu muleque Catraio, que me vinha
prevenir, de que Lobossi estava ali, e me queria falar.
Levantei-me e fui receber o rei. Elle vinha participar-me, que tinha
mudado de parecer, e que tôdos os caminhos estavam livres
para mim.
Que me daria guias até ao Quisséque, mas que, em
vista das cousas que se estavam passando nos seus estados,
não podia dar-me
fôrça para me seguir, nem se responsabilizava por
qualquér desastre que me
podesse acontecer, indo eu com 58 homens apenas.
Agradeci-lhe aquella decisão, e declarei-lhe, que tinha por
costume, só eu mesmo me responsabilizar pêla minha
vida, e não
tornar ninguem responsavel d'ella.
Antes de se retirar, fêz-me muitos pedidos, que
ficáram sem satisfação, por
não ter nada do que elle queria. Um dos pedidos que me
fazia tôdos os dias, era o de seis cavallos. Tendo-me visto
chegar a pe, e sabendo que eu não tinha cavallos, era
impertinencia tal desejo.
Sube depois, que a nova decisão tomada por Lobossi
fôra filha de reïteradas instancias do Machauana,
que lhe mostrou a
inconveniencia do passo que dava, fazendo-me sahir dos seus estados a
pesar meu.
No dia 4, de manhã, estando um pouco melhor da febre, fui
assistir a uma audiencia do rei, que se mostrou em extremo amavel para
comigo. Logo ao nascer do sol, Lobossi sahi dos seus aposentos, e ao
som de marimbas e tambores, dirige-se á grande
praça, onde vai
sentar-se junto a uma alta sebe semi-circular, cujo centro é
occupado pêla
cadeira real.
Por de traz d'elle senta-se a gente que compõe a
côrte, e á sua direita Gambela e os outros
conselheiros, se estam presentes.
Na frente do règulo, a 20 passos, a mùsica em
linha, e aos lados, em muitas fileiras, o pôvo.
Ali tratam-se um certo nùmero de negocios, que
não precisam ser tratados em conselho privado. Aquella
audiencia é tambem judicial.
N'aquelle dia tratava-se de um crime de furto. O queixoso chamou o
accusado, que veio sentar-se em frente d'elle, e fez a
accusação. O
acusado negou o crime, e logo de entre o pôvo sahio um homem
que veio advogar em
favor do réo. Ali qualquér amigo ou parente pode
defender o amigo ou
parente.
Gambela tomou a palavra, e o accusado veio ajoelhar em frente d'elle;
fêz-lhe varias perguntasse mandou-o embora.
Continuou o debate, comparecendo testemunhas de
accusação e defesa. O crime foi provado, e o
accusador pedio, que lhe entregassem a
mulhér do ladrão; ficando indemnizado da perda de
uns fios de
missanga, objecto do roubo, pêla posse da mulhér.
Terminado este debate, apparaceu outro homem accusando a
mulhér de lhe não obedecer. Esta
accusação foi
seguida de muitas outras semelhantes, e mais de vinte
sùbditos de Lobossi fizéram amargas
queixas contra as espôsas; demonstrando-me, que as mulheres
em Lialui estavam
em completa
revolta domèstica. Depois de alguma discussão,
foi resolvido, que tôda a mulhér que
não obedecesse cega e absolutamente ao
marido, fôsse amarrada e mettida na lagôa, onde
passaria uma noute só com
a cabêça de fora.
Aprovada esta nova lei, Gambela ordenou a alguns chefes, que a
promulgassem nas povoações.
Uma cousa muito curiosa n'aquellas audiencias é o modo
porque Gambela conferenceia com o rei em segrêdo, diante de
tôdos.
A um signal de Gambela, começa a mùsica a tocar,
e os oito
batuques fazem uma bulha de tal modo infernal, que é
impossivel perceber uma palavra das
que trocam o rei e o ministro.
Em seguida á audiencia, o rei vai para um aposento proprio
para se embebedarem.
V[~e]m panellas e panellas de capata, e elle e os seus prestam um
verdadeiro culto ao deos Baccho. D'ali vai para a cama, e á
tarde, depois de novas libações, dá
nova
audiencia. Logo que, ao anoutecer, termina a audiencia, vai comer, e
segue para o serralho, d'onde raramente sahi antes da uma hora, e
recolhendo a casa para dormir, vahi deitar-se ao som ruidoso dos
tambores.
O cessar dos batuques annuncía que o règulo
está recolhido, e então a guarda, composta de uns
quarenta homens, começa a tocar uma
mùsica, que, apesar de monòtona, é
agradavel; e tôda
a noute cantam um côro suave e harmonioso a meia voz. Esta
mùsica que no Barôze
acalenta o sono do soberano, serve para mostrar que a guarda vela em
tôrno do
seu aposento. N'estes poucos traços dou uma idéa
resumida do
viver monòtono do autòcrata Africano, viver
repartido entre a lascivia
tôrpe e a embriaguez brutal.
N'aquelle dia, 4 de Setembro, sube, que devia a vida a Machauana, que,
em conselho privado, se opôz formalmente a que me mandassem
assassinar; dizendo, que elle tinha estado em Loanda com Livingstone, e
ali tinha sido muito bem tratado pêlos brancos, assim como os
Luinas
que o acompanhavam; e por isso não podia consentir que
fizessem
mal a um branco da mesma raça.
Chegou mesmo a ameaçar os poderes constituidos, o que era
caso grave para elles; porque no Lui os ministros morrem sempre na
queda dos ministerios; precaução tomada
pêlos
novos conselheiros, que com alguns golpes de azagaia cortam pela raiz
as opposições.
Cá na Europa, algumas vêzes, procura-se denegrir a
reputação dos antecessores, buscando desdoural-os
aos olhos do pôvo, para
lhes diminuir a fôrça moral como
opposição. Eu acho mais nobre, mais digno e mais
seguro o systema polìtico dos Luinas, o que
não quer dizer que o recommende.
O conselho, em vista da attitude e das razões de Machauana,
decidio, queeu não morrêsse; mas, parece que algum
dos
conselheiros por conta propria decidio o contrario; porque, n'essa
noute, estando afastado do acampamento, preparando-me para tomar
alturas da lua, uma azagaia de arremesso passou tão perto de
mim que a aste vergastou-me o
braço esquêrdo. Olhei para o lado d'onde partira a
arma, e vi um
prêto a vinte passos, empunhando outra. Tirar o
revólver e fazer
fôgo sôbre elle, foi acto mais instinctivo do que
pensado. Ao estampido do tiro, o assassino virou costas e correu em
direcção a Lialui. Corri
sôbre elle. Sentindo-me no encalço, o
prêto deitou-se por
terra. Receei uma cilada, e foi a passos medidos que me approximei
d'elle, prompto a fazer
fôgo.
Vi que o membrudo indìgena estava de bruços com
as azagaias cahidas ao lado.
Peguei-lhe n'um braço, e ao tempo que senti as carnes
estremecerem ao contacto da minha mão, senti um
lìquido quente
correr-me por entre os dêdos. O homem estava ferido. Fil-o
erguer, e elle disse-me,
tranzido de mêdo, umas palavras que eu não
entendi.
Apontando-lhe o revólver, obriguei-o a acompanhar-me ao
acampamento.
Ali não fizera sensação o tiro de
revólver, porque tôdas as noutes se ouvem mais ou
menos tiros. Chamei dous muleques de
confiança, e entreguei-lhe o meu prisioneiro, cuja ferida
examinei. A bala entrara junto á cabêça
superior do
hùmero direito, perto da clavìcula, e
não tendo sahido, suppuz estar fixa na omoplata.
Não lhe
apparecendo sangue nas vias respiratorias, calculei que o
pulmão não
tinha sido offendido, assim como o fio de sangue que corria da ferida,
pêla sua
tenuidade me mostrava que nenhum dos vasos importantes da
circulação tinha sido cortado. N'estas
condições a ferida
não apresentava gravidade, pêlo menos de momento.
Depois de lhe fazer um ligeiro curativo, mandei chamar o Caiumbuca, e
ordenei-lhe que me acompanhasse a casa do rei, fazendo com que os
muleques conduzissem para ali o ferido.
Lobossi tinha voltado de casa das amantes, e conversava com Gambela
antes de se deitar. Apresentei-lhe o ferido e perguntei-lhe o que era
aquillo. O rei mostrou um grande terror, vendo-me coberto de sangue do
assassino, que eu nem tinha lavado; e um olhar trocado entre Gambela e
o ferido, mostrou-me quem tinha sido a cabêça que
enviara aquelle braço. Lobossi mandou logo retirar d'ali o
prêto, e disse-me, que
aquillo era um grande agouro, e que ja não durmiria aquella
noute
socegado.
Narrei o acontecido, e Gambela apoiou muito o que eu tinha feito,
lastimando que eu não tivesse morto o prêto, e
dizendo-me, que ia matar meio mundo.
O prêto era desconhecido em Lialui, e os da guarda de Lobosi
disséram nunca o terem visto. Lobossi pedio-me, que
guardasse sôbre o
facto o maior segrêdo, assegurando-me, que não me
acontecia outra em quanto estivesse nos seus estados.
Eu voltei ao campo mais desconfiado que nunca das amabilidades de
Gambela.
Por noute fora, senti que alguem tentava penetrar na minha barraca, e
puz-me a pe sem ruido, prompto a sorprender aquelle que julgava
fazer-me sorpresa.
A pessôa era de certo conhecida, porque a minha cadella
Traviata não ladrava, e fazia festas com a cauda para o
ponto por onde alguem se introduzia de rastos.
Esperei um momento, e ao clarão da fogueira conheci a
prêta Marianna, que, com meio côrpo dentro da
barraca, me fazia signal para
que entivesse calado.
Entrou, achegou-se a mim e disse-me: "Toma cautela. O Caiumbuca
atraiçôa-te. Depois que voltou com-tigo de casa do
rei, tornou a Lialui a falar com Gambela; e logo que chegou aqui,
reunio com muito
socêgo a gente de Silva Porto, e estêve a falar com
elles na barraca
d'elle. Eu fui escutar, e ouvi falar em te matarem. O Verissimo tambem
la estava. Elles disséram, que como tu não
entendias a
lìngua do Lui, quando tu lhes dissesses uma cousa para dizer
ao rei, elles diriam outra, e te dariam tambem a resposta trocada, que
assim haviam de fazer com que o rei te matasse.
"Toma cautela, olha que elles sam muito maos."
Agradeci muito á pequena o aviso e dei-lhe o
ùnico collar de missanga que me restava, e que eu reservava
para uma das favoritas de Machauana.
A declaração da Marianna, veio ferir-me
profundamente. Os homens em que eu confiava eram os primeiros a
atraiçoar-me.
Mil pensamentos tristes, que não conseguíram
alquebrar-me o espìrito, produzíram uma noite de
insomnia. É verdade, que
a prevenção de Marianna veio dar-me uma vantagem
enorme sobre elles, que ignoravam que eu lhes conhecia a
traição nos seus detalhes; e de
manhã ao levantar-me, eu repetia a mim mesmo o
rifão Portuguez, de que "um homem
avisado vale por quatro."
Gambela foi visitar-me, e repetio-me mil protestos de amizade; mas eu
presentia que o perigo pairava em tôrno de mim, e que a
espada de Damocles estava suspensa sôbre a minha
cabêça.
N'esse dia entreguei a Gambela as cartas para o governador de
Benguella, e a comitiva do rei do Lui, commandada por três
chefes Luinas
e guiada pêlo velho Antonio de Pungo Andongo, seguio caminho
da costa.
Com ella fôram os Bihenos que me haviam abandonado. Estava
satisfeito com aquelle primeiro resultado obtido; e se os meus
trabalhos se perdêssem e mais nada fizesse, o ter posto um
pôvo
tão poderôso em relações com
a civilização
Europea da costa, era ja um resultado importante da minha viagem.[
2]
A revelação feita n'essa noute por Marianna
trazia-me preoccupado, e eu só pensava no meio de parar o
golpe que me feria, com a
traição d'aquelles em que eu mais confiava.
Formei um plano que decidi pôr em pràtica n'esse
mesmo dia.
A narrativa dos repetidos e graves acontecimentos que se
déram comigo depois da minha chegada ao Lui, não
me tem deixado falar dos
povos Luinas e seus costumes.
Em logar de encontrar ali essa raça forte e vigorosa, creada
por Chibitano, e que existio com o imperio Macololo, fui deparar com
uma raça abastardada, misto de Calabares, Luinas, Ganguelas
e
Macalacas, que t[~e]m unido o seu sangue marcando cada cruzamento uma
pègada de decadencia. O uso immoderado do bangue ou cangonha
(
Cannabis
Indica), a embriaguez e a
syphilis, t[~e]m
lançado aquelle
pôvo no mais abjecto embrutecimento moral, e enfraquecimento
physico.
Figura
97.--Cachimbos de
fumar o Bangue.
O primeiro d'aquelles três grandes inimigos da
raça prêta chegou-lhe do sul e leste
pêlo Zambeze; os dois outros fôram ali
importados pêlos Bihenos, que lhe trouxéram ainda
outro inimigo
não menos terrivel, o tràfico da escravatura.
Poucos paizes Africanos leváram tão longe como os
Luinas a pràtica da polygamia. ¡Gambela,
á èpocha da minha
estada no Barôze, tinha mais de setenta mulheres!
O Lui, ou Barôze propriamente dito, isto é, o paiz
que fica ao norte da primeira região das cataractas,
compõe-se, da
enorme planicie onde corre o Zambeze, que tem de 180 a 200 milhas do N.
a S., e por
vêzes, de 30 a 35 O. a E., planicie elevada 1,012 metros ao
mar; do paiz mais elevado a leste, onde assentam innùmeras
povoações, que v[~e]m estabelecer as suas
culturas na grande planicie; e ainda na enorme planura do Nhengo, onde
corre o Ninda. A planura do Nhengo é separada do leito do
Zambeze por uma nervura de terreno elevado de 20 metros, que corre
parallela ao rio, e onde estam muitas povoações,
livres das maiores
cheias.
Durante o tempo das grandes chuvas, a planicie do Zambeze é
inundada, e eu medi em algumas àrvores onde tinham ficado
signaes do
maior nivel das àguas três metros.
No parallelo 15^o tem ella uma largura de trinta milhas, e por isso, na
èpocha das cheias, calculando uma corrente mìnima
de 20 metros por minuto, devem passar ali 240 milhões de
metros
cùbicos d'àgua por hora. Isto dá uma
medida do que sam as chuvas na Àfrica
tropical, acrescentando-se, que regularmente a
inundação
atinge o seu màximo em oito dias.
O pôvo Luina, que em grande parte vive na planicie, retira
para o paiz montanhoso durante as inundações.
Ao retirar das àguas, volvem a occupar as
povoações abandonadas na invernía, e
cobrem o campo com os seus rebanhos enormes,
que, diga-se a verdade, não encontra ali um pasto
viçoso em
èpocha alguma do anno; porque os prados sam formados,
pêla maior parte, de
caniçal, onde abunda uma especie do
Calamagrostis
arenaria.
As culturas sam feitas mais na margem direita do que na esquerda do
Zambeze, e sempre junto das encostas.
A inundação deixa na planicie um
sem-nùmero de pequenas lagôas, que se atulham de
vegetação aquàtica, e que
sam outros tantos focos miasmàticos de
infecção palustre. Ha èpochas no
anno em que os proprios indìgenas sam fortemente atacados
pelas febres endèmicas.
Nas lagôas abunda peixe e ha muitos batràchios.
É d'estas lagôas que se fornecem de
àgua potavel os indìgenas, mas é
preciso confessar, que elles só a bebem depois de
transformada em Capata.
Os Luinas sam pouco agricultôres, e muito pastôres.
Os seus rebanhos constituem a sua principal riqueza, e no leite das
vacas encontram o seu principal alimento.
O haver do Luina consiste em algumas vaccas e algumas mulheres.
O leite frêsco e o leite azêdo (coalhado) sam, com
a batata dôce, a base da sua
alimentação. A farinha de milho
é empregada para fazer a Capata, de mistura com a de
massambala, principal cultura do paiz.
Os Luinas fabricam o ferro, e tôdas as suas armas e
tôdos os seus utensilios, sam feitos no paiz. Não
usam facas, e
não podemos deixar de nos admirar das esculpturas que fazem
em madeira, sabendo que
não empregam facas, e mais ainda, logo que
conheçamos o
instrumento com que trabalham. No Lui, onde o machado termina a obra
grossa de desbaste, começa a obra da azagaia. O ferro d'esta
é
instrumento para tudo. Os bancos onde se assentam, as escudellas em que
comem as vasilhas do leite, e tôdos os seus utensilios de
madeira, sam cortados
com ella.
Figura
98.--Vasilha para
leite feita de Madeira.
Entre elles ha um primorosamente trabalhado, em geral, e é a
colhér. Vivendo de leite, o Luina não pode
prescindir da
colhér, e dispensa a faca. O seu systema de
alimentação explica a
falta d'esta e o muito uso d'aquella.
Figura
99.--Objecto de
Ferro forjado que serve de Lenço de
assoar aos Luinas.
Especie
de
Espàtula.
Figura
100.--Pratos e
Escudellas para a comida.
Figura
101.--Colhér.
Figura
102.--Machado de
cortar Madeira.
A industria ceràmica limita-se no Barôze
á fabricação de panellas para cozinha,
para a capata, e grandes talhas de barro para guardar cereaes.
Àlém d'isto, fornalhas para os cachimbos de fumar
o
bangue.
Figura
103.--Artigos de
Barro.
1.
Panellas de cozinha.
2.
Tálha de
guardar cereaes.
3,
3. Fornalhas dos
cachimbos.
O Luina só fuma o
bangue;
o muito
tabaco que
cultivam
é empregado exclusivamente para cheirar, e d'elle fazem
grande uso homens e mulheres. É este o pôvo mais
coberto que encontrei
em Àfrica. É raro ver-se ali um homem ou
mulhér despidos da cintura para cima.
Os homens, como ja disse no capìtulo anterior, usam umas
pelles
passadas em um cinto, que pendem adiante e atraz, chegando
até aos
joêlhos. Um manto de pelle, que posto, assemelha as capas do
tempo de Henrique 3^o, cobre-lhes o tronco e cahi-lhes até
meia perna.
Um largo cinto de couro, independente do que lhes segura as pelles da
cinta, muitas manilhas e muitos amulêtos, completam o seu
trajar. As mulheres trajam um saio de pelles, que adiante
chêga ao
joêlho, e atraz desce até ao grôsso da
perna. Sôbre o
saio um largo cinto enfeitado de buzio (
caurim).
Um pequeno manto de pelles, muitas
missangas ao pescôço e muitas manilhas nos
braços e
pernas, sam o vestuario do paiz. Vemos hôje muitas
indìgenas substituindo as pelles
por estôfos Europêus, os capotes por cobertores de
algodão, e mesmo tôdo
o trajar gentìlico, por o fato do homem civilizado; mas eu
aqui não curo das
excepções, falo no traje primitivo do paiz, e
não nas
innovações que o commercio ali tem levado.
É preciso contudo revelar, que este pôvo
tem uma tendencia manifesta para se vestir. De certo, antes da
invasão dos
Macololos, os Luinas deviam andar muito pouco cobertos. Os povos
Chuculumbes, seus vizinhos de leste, andam completamente
nús, homens e
mulheres. A oeste os Ambuelas fôram tambem encontrados
nús,
pêlos primeiros sertanejos Portuguezes que ali se
aventuráram,[
3]
e ainda
hôje não se cobrem muito.
Figura
104.--Homem Luina.
O trajar dos Luinas que eu descrevi, é o mesmo usado
outróra pêlos Macololos, e por isso é
de crer que fôsse
introduzido por elles.
Essa tendencia, que eu faço notar, d'este pôvo
para se vestir, deve merecer a attenção do
commercio, e é
uma tendencia a explorar em beneficio d'elle, dos indìgenas
e da
civilização.
Figura
105.--Mulhér Luina.
As mulheres nobres, e em geral as ricas, untam o côrpo com
manteiga de vacca misturada de talco em pó, que lhes
dá
á pelle um lustro avermelhado, e ao mesmo tempo um cheiro
desagradabilissimo.
Entre os Luinas encontram-se muitas espingardas de fulminante, de
fàbrica Ingleza, levadas ali pêlos sertanejos do
sul, e outras de silex Belgas, vindas do commercio Portuguez de
Benguella; mas os
indìgenas, ao contrario do que acontece, com tôdos
os povos da costa de
Oeste até ao Zambeze, preferem as armas de fulminante, e
alguns ha, que
só querem ja carabinas raiadas. Não usam cartuxo
como os Bihenos e povos circumvizinhos d'estes, e trazem a
pòlvora sôlta
em cornos, ou em cabaças. As armas do paiz sam azagaias,
porrinhos, e
machadinhas. Não usam frechas.
Figura
106.--Azagaias Luinas.
Figura
107.--Machadinhas de guerra.
Figura
108.--Porrinho.
T[~e]m por arma defensiva grandes escudos ogivaes, de couro de
bôi armados em madeira. Cada homem traz, em geral, de cinco a
seis azagaias de arremêço.
Os ferros d'estas azagaias, sem serem envenenados, não sam
por isso menos terriveis; devido ás barbas desencontradas
que lhes
fazem, de modo que, na maior parte dos ferimentos, é preciso
matar o ferido
para lh'-as arrancar do côrpo.
O que eu vi usarem os Luinas, e mostrou a preferencia que t[~e]m,
fôram as missangas chamadas no commercio de Benguella,
missanga leite, azul celeste e Maria 2^a.
Os cassungos finos, branco, azul e encarnado, sam tambem estimados.
Fazendas tôdas sam bôas para o Lui, preferindo
elles as melhores. O arame de latão, de três a
quatro
milìmetros de diàmetro, tem valor, e a roupa
feita, cobertôres, armas de percussão,
fulminantes, pòlvora, chumbo em barra, e artigos de
caça, sam ali cotados em
subido prêço.
Em tôdo o paiz o commercio é feito exclusivamente
com o règulo, que faz d'elle monopolio; pertencendo-lhe
tôdo o marfim que se
caça nos seus estados, e tôdos os gados dos seus
sùbditos, a
quem elle os pede quando precisa. Das fazendas, armas e outros artigos
que permuta, faz presentes aos seus caçadores, chefes de
povoação, côrte, etc.
As mulheres gozam de bastante consideração, e
entre a nobreza não fazem nada, passando a vida sentadas em
esteiras, a beber capata e a cheirar tabaco. Possúem muitos
escravos, pêla maior parte
Macalacas, que as servem.
Os grandes rebanhos dos Luinas, sam de bôis de uma
raça magnìfica, e mesmo as suas gallinhas e
cães sam de melhores
raças do que os que encontrei até ali.
O valle do Barôze está cercado por éste
a sul da terrivel mosca zê-zê, o que os obriga a
concentrarem os gados na planicie, e torna difficil a sahida d'elles, a
não ser para oeste no caminho de
Benguella, tôdo limpo do prejudicial diptéro.
Eis em curto resumo o que eu vi d'esse paiz, que primeiro, antes da
invasão de Chibitano, foi visitado por um Portuguez (Silva
Porto), que foi visto depois por David Livingstone, debaixo do imperio
dos Macololos, e que eu encontrei em condições
bem
differentes, sôb a dinastia Luina, em 1878.
Retomando a narrativa das minhas tristes aventuras, no dia 5 de
Setembro, dia seguinte ao da revelação de
Marianna, resolvi fazer com que os traidôres fôssem
trahidos por um dos seus, e
lancei as minhas vistas sôbre Verissimo Gonçalvez.
Chamei-o á minha barraca, e mostrei-lhe antes de lhe falar,
a copia de uma carta apòcrypha, escrita para Benguella, em
que eu dizia
ao governador, que, tendo desconfianças de Verissimo, lhe
pedia
que mandasse prender a mulhér, o filho, e a mãe
d'elle, e se acaso acontecesse eu ser vìctima de alguma
traição, as mandasse para Portugal, onde eu disse
ao Verissimo que os meus parentes as fariam queimar vivas.
Depois d'este exordio, assegurei-lhe, que aquella carta fôra
escrita como simples prevenção, porque eu
confiava
plenamente na sua dedicação por mim; mas que essa
dedicação tinha de estar
vigilante, porque eu desconfiava levemente do Caiumbuca, e se me
acontecêsse
alguma desgraça, eu não poderia evitar os
horrores que estavam reservados aos
entes que lhe eram caros. Disse-lhe sobre tudo, desconfiava que
Caiumbuca
não transmittia ao rei o que eu lhe dizia, assim como me
dava transtornadas as respostas de Lobossi. Que elle deveria estar
sempre presente nas minhas entrevistas com Lobossi, e dizer-me em
Portuguez (Caiumbuca
não falava Portuguez) o que elle dizia ao rei.
Verissimo, embaraçado, disse-me, que eu não me
enganava, e contou-me tudo. Eu preveni-o, que não deixasse
perceber nada a
Caiumbuca, e que me tivesse ao corrente do que elle tramava.
N'essa tarde, Lobossi mandou-me dizer, que estava prompta a gente que
me devia acompanhar, para eu seguir para a costa de
Moçambique,
e por isso podia partir quando eu quizesse.
Eu estava um pouco melhor, e desde a minha chegada ao Zambeze, ainda
não tinha passado tão bem como n'esse dia.
O meu acampamento era muito grande, porque os Quimbares se haviam
dividido pêlas barracas dos Quimbundos depois da sahida
d'estes. O centro era um largo circular, de não menos de cem
metros de
diàmetro. A um lado, dentro da fila das barracas, ficava a
minha barraca, cercada por uma sebe de canas, que fechava um recinto,
onde só
entravam os meus muleques de serviço.
Era a 6 de Setembro. O thermòmetro durante o dia tinha
marcado com persistencia 33 graos centìgrados, e o calor
reflectido
pêla areia tinha sido incòmmodo.
A noute apresentou-se serena e frêsca, e eu, sentado
á porta da minha tenda, pensava no meu Portugal, nos meus e
nos amigos, no futuro da minha emprêsa, tão
ameaçada ali, e ora
alegre ora triste, não perdia a fé e esperava. O
acontecimento da ante-vèspera
vinha pairar como nuvem nêgra sôbre o ceo
lìmpido da
esperança.
Os meus Quimbares, recolhidos nas barracas, conversavam junto das
fogueiras, só eu estava fora. De sùbito
prendeu-me a attenção um sem-nùmero de
pontos luminosos que vi atravessarem o
espaço.
Sem saber ao principio explicar o que seria aquillo, tive um
presentimento, e sahi do cercado de caniço que rodeava a
barraca.
Logo que cheguei fora, tudo me foi revelado, e um grito pungente de
angustia suprema escapou-se-me da garganta.
Alguns centos de indìgenas cercavam o acampamento, e
lançavam achas ardentes sôbre as barracas cobertas
de herva sêca.
Em um minuto o incendio, ateado por um vento forte de este, tomava
incremento horrivel. Os Quimbares sahiam espavoridos das barracas
incandescentes, e pareciam loucos.
Augusto e a gente de Benguella reuníram-se em
tôrno de mim. Em presença de um perigo
tão terrivel, aconteceu-me o que por mais de
uma vez me tem acontecido em iguaes circunstancias. Fiquei sereno e
tranquillo de espìrito, pensando só em lutar e
vencer.
Gritei á minha gente, semi-louca de se ver apertada em um
cìrculo de fôgo, e consegui reunil-a no meio do
espaço
interior do campo.
Á frente de Augusto e dos muleques de Benguella, entrei na
minha barraca em chamas, e consegui tirar d'ali as malas dos
instrumentos, os meus papéis e trabalhos, e a
pòlvora. A esse tempo as
barracas abrazavam tôdas, mas o fôgo não
podia
attingir-nos. Verissimo estava a meu lado, inclinei-me para elle e
disse-lhe, "Eu defendo-me aqui por muito tempo, passa por onde poderes
e como poderes, e vai a Lialui dizer a Lobossi que a sua gente me
ataca, diz tambem a Machauana o perigo que
côrro."
Verissimo correu ás barracas em chamas, e eu vi-o
desapparecer por entre as labaredas. A esse tempo ja as azagaias
ferviam em tôrno de
nós, e ja haviam alguns ferimentos graves, entre elles um do
prêto
Jamba de Silva Porto, que tinha uma azagaia cravada no sobrolho
direito. Ás
azagaias respondiam os meus Quimbares com as balas das carabinas, mas o
gentio avançava sempre, e ja entrava no acampamento, onde as
barracas consumidas não offereciam barreira insuperavel. Em
tôrno de mim, que desarmado segurava a bandeira da minha
patria, estavam batendo-se como verdadeiros bravos os meus valentes
Quimbares. ¿Estavam
tôdos? Não. Faltava ali um homem, um homem que
deveria estar ao meu lado e que ninguem tinha visto. Caiumbuca, o meu
immediato,
desapparecêra!
Figura
109.--Ataque contra o acampamento no Lui.
Ao amortecer do incendio, eu vi que o perigo era real e enorme. Eram
cem contra um.
Parecia a imagem do inferno ver aquelles vultos nêgros, que
com estridente grita pulavam ao clarão das chamas,
avançando para nós cobertos com o alto escudo e
brandindo as puidas azagaias. Foi um combater encarniçado em
que as carabinas de carregar
pêla culatra, pêlo seu fôgo sustentado,
continham em respeito aquella horda
selvagem.
Contudo eu calculava que o têrmo do combate não
estava longe, porque as munições desappareciam
ràpidamente; eu
só tinha no comêço quatro mil tiros
para as carabinas Snider, e vinte mil para as armas de carregar
pêla bôca, mas não seriam essas as que
me defenderiam; e logo que o fôgo abrandasse, por faltarem as
armas de carregamento ràpido,
serìamos esmagados pêlo gentio desvairado. O meu
Augusto, que parecia
um leão raivoso, chegou-se a mim com suprema angustia,
mostrando-me a carabina, que acabava de rebentar. Disse ao meu muleque
Pépéca, que lhe entregasse a minha carabina de
elephante e a cartuxeira. Augusto correu para a frente, e fez
fôgo para onde o grupo do gentio era mais
compacto. Um momento depois, a grita infernal dos assaltantes tomou um
tom differente, e virando costas, tomáram elles precipitada
fuga.
Só no dia seguinte, pêlo rei Lobossi, eu devia
saber o que produzira um tal reviramento. Fôram os tiros do
meu Augusto.
Na cartuxeira de que elle lançou mão havia balas
carregadas de nitro-glicerina.
O effeito d'estas, fazendo desapparecer em bocados, pêla
explosão, as cabêças e os peitos em que
acertavam, produzio o
pànico no meio d'aquelle gentio ignaro, que vio n'uma coisa
nova para elle, um
feitiço irresistivel.
Foi a Providencia que me quiz valer.
Conheci que estava salvo. Meia hora depois, appareceu-me o Verissimo,
com uma grande fôrça capitaneada por Machauana,
que vinha em meu soccôrro, por ordem do rei Lobossi. Lobossi
mandava dizer-me,
que era estranho a tudo, e que, provavelmente, o seu pôvo,
sabendo
que eu fôra ali para os atacar de
combinação com os Muzungos
de leste, que estavam com Manuanino, fizéram aquillo por sua
conta; mas que elle
ia tomar as mais vigorosas providencias para eu não soffrer
mais
aggressões. Tudo aquillo, se não foi ordenado por
elle, foi por Gambela.
Verissimo, vendo os desastres do combate, perguntou-me ¿o
que haviamos de fazer? e eu respondi-lhe com as palavras de um dos
maiores homens Portuguezes dos ùltimos
sèculos:--"Enterrar os
mortos, e tratar dos vivos."
No incendio soffrémos perdas graves, mas mais graves eram as
pêrdas de vidas por tão insòlito
ataque. A bandeira
Portugueza estava furada das azagaias selvagens, e salpicada do sangue
dos bravos; mas as manchas que tinha, só serviam para fazer
realçar a sua pureza
immaculada; e mais uma vez, longe da patria, e por terras ignotas,
tinha-se sabido fazer respeitar, como sempre o soube, e como sempre o
saberá.
Depuz as armas de soldado, para me improvisar em cirurgião
cuidadoso, e o resto da noute foi passado a curar os feridos e a
alentar os
sãos, sempre apercebido e vigilante, apesar dos novos
protestos do rei Lobossi.
Logo que amanheceu, fui procurar o rei, e falei-lhe
àsperamente sôbre o acontecimento da noute.
Tornei-o, diante do seu pôvo,
responsavel pêlas desgraças d'aquella noute; e
disse bem alto, que aquelles
que tivessem a chorar a perda de parentes, só a elle deviam
lançar culpas.
Disse-lhe, que queria seguir sem perda de tempo, e annunciei-lhe, que
ia estabelecer o meu campo nas montanhas, onde podesse com vantagem
resistir a um nôvo ataque.
Elle teimou muito comigo, para lhe dar ou ensinar o feitiço
que eu tinha empregado na vèspera, fazendo com que os
prêtos
rebentassem por si. Era assim que elles explicavam o caso funesto das
balas explosivas inconscientemente empregadas por o meu Augusto.
Apesar da muita vontade que eu tinha de deixar a planicie e ir para as
montanhas, não pude realizar esse desejo senão a
9, por causa do estado dos feridos; e no dia 7 e 8, lutámos
com a fome; porque
ninguem nos quiz vender de comer, e o rei dizia, que nada tinha para me
dar.
Fôram as lagôas que fornecéram abundante
pesca e alguns
patos muito magros. Machauana mandou-me leite, e continuou a mostrar-me
a maior
dedicação. Foi, como disse, a 9 que deixei a
planicie e alcancei as montanhas perto de Catongo, chegando
tôdos, feridos e sãos, no
maior estado de fraqueza.
O nôvo systema adoptado, de nos matarem pêla fome,
preoccupou-me, e dava-me sèrios cuidados n'um paiz sem
caça.
Tinha-mos, é verdade, a pesca das lagôas.
CAPÌTULO
X.
A
CARABINA D'EL-REI.
A
traição--Perdido--A Carabina
d'El-Rei--Miseria--Novas scenas com o rei Lobossi--Partida--No
Zambeze--Caça--Moangana--O Itufa--As
pirogas--Sioma--Cataracta de
Gonha--Bellezas naturaes--O basalto--A região das
cataractas superiores--Balle--Bombué--Na foz do rio
Gôco--Cataracta de
Nambue--Os ràpidos--Viagem vertiginosa--Catima
Moriro--Quisseque--Eliazar--Carimuque--O rio
Machila--Muita caça--Tragedia--Embarira.
Depois de marcha de 15 milhas, acampei na floresta que cobre os flancos
das montanhas de Catongo. Marcava esta aldea a S.E. uma milha distante
do sitio que escolhi para acampar.
Junto do meu campo havia uma pequena aldeola, onde eu mandei pedir de
comer. Algumas mulheres viéram vender pouca cousa a
trôco dos invòlucros metàlicos dos
cartuxos queimados das carabinas Winchester.
Depois de construido o campo, fomos pescar nas lagôas
pròximas, e tirámos algum peixe, que se comia
cozido em àgua
sem sal.
De Caiumbuca não havia noticias, e eu convencia-me que elle
tinha partido com a gente que retrocedêra ao Bihé;
quando n'essa tarde me viéram dizer, que elle estava no
acampamento, e me queria
falar.
Apresentou-se, dizendo que fôra acompanhar a comitiva de
Lobossi, que seguira com o prêto Antonio, porque tinha de
mandar prevenir
a gente da sua libata no Bihé, de que tinha muita demora
ainda no
sertão, pois seguia comigo para a costa de leste.
Eu fiquei perplexo, e sem saber o que deveria fazer com
relação a elle; e depois de pensar um momento,
resolvi aceitar a desculpa da ausencia d'elle na noute do combate, e
não lhe mostrar que tinha
perdido a minha confiança, e que sabia da sua projectada
traição. Elle pedio-me para regressar n'essa
noute a Lialui, dizendo, que voltaria no dia immediato com a gente que
Lobossi me deveria mandar, para eu seguir para Quisseque, logo que o
estado de alguns feridos m'o permittisse.
Disse-lhe, que pedisse ao rei para mandar-me dar mantimentos, a menos
que não quizesse que morrèssemos á
fome no seu paiz.
Caiumbuca partio sem falar a ninguem da minha gente.
No dia 10, continuei a mandar pescar nas lagôas para ter que
comer e os meus.
Passei o dia trabalhando; e tendo para o lado de oeste um horizonte sem
fim, onde, como em pleno mar, o espaço azulado vinha unir-se
á terra em cìrculo enorme, lembrei-me de
determinar a
variação da agulha magnètica
pêla amplitude, mèthodo mais simples do que o dos
azimuthes, que eu tinha sido forçado a empregar
até
então.
Preparei a agulha de marcar, e estava dispondo-a para a
observação, muito antes de tempo, porque o sol
estava ainda elevado do horizonte uns dez graos; quando um
phenòmeno curiosissimo se deu na
atmosphera. Estava ella lìmpida, de um azul um pouco
carregado mas sem uma
nuvem, sem um extracto no horizonte. De repente o limbo inferior do sol
começou a perder a sua forma circular, e a desapparecer
lentamente, como se eu observasse um occaso no oceano; e isto dez graos
acima do horizonte, por ceo na apparencia limpo, como ja disse.
Só depois do seu
completo desapparecimento é que se podia mal perceber,
pêlo
feixe de luz que em leque se espargia no ceo, uma barra de extractos,
tão iguaes
em côr ao azul da atmosphera, que a vista mais apurada a
confundiria com ella; parecendo que a limpidez do firmamento
não era interrompida
até ao horizonte. Algumas vêzes mais observei
igual
phenòmeno, mas não a tanta altura, nem
tão perfeitamente definido.
Como eu esperava, n'esse dia, não me appareceu, nem
Caiumbuca, nem a gente que Lobossi devia mandar-me.
Na noute de 10 para 11, eu queria observar um reapparecimento do 1^o
satèlite de Jùpiter, que deveria ter logar
pròximo da meia-noute; e como eu não quizesse
perder essa
observação, por encontrar grande
differença em longitude na posição do
Zambeze, recomendei ao
Augusto, que me chamasse quando a lua estivesse na altura que lhe
indiquei, o que correspondia ás 11 horas; e cheio de fadiga,
deitei-me
cêdo, e adormeci profundamente; esperando que Augusto
velasse, depois da instante recommendação que eu
lhe tinha feito. Por noute
fora acordei ao chamamento de Augusto, e acordei sem sobresalto,
julgando ser a hora indicada por mim; mas, logo que respondi ao meu
fiel nêgro,
elle disse-me, cheio de commoção: "Senhor,
estamos
atraiçoados; a gente fugio tôda, e
roubáram tudo."
Levantei-me, e sahi da barraca.
O acampamento estava deserto.
La fora, Augusto, Verissimo, Camutombo, Catraio, Moêro e
Pépéca, e as mulheres dos muleques, estavam
silenciosos e pasmados olhando uns para os outros.
Não pude conter uma gargalhada.
O que me admirava ali, era ver Augusto, o Verissimo e Camutombo ao pe
de mim.
Era tão crìtica a minha
posição, vivendo no meio de tantas miserias,
rodeado de tantos perigos, que não sei mesmo quem n'elles
quereria ser meu socio. Ànimos mais fortes e
espìritos mais
enèrgicos do que os dos prêtos que acabavam de
fugir, não teriam querido
partilhar da minha sorte.
Sentei-me, rodeado das oito pessôas que haviam ficado e
puz-me a indagar o succedido. Queria pormenores que ninguem me dava. A
gente tinha fugido tôda, sem que algum dos presentes a
presentisse. Os
cães, habituados com elles, não
ladráram. O
Pépéca foi passar revista ás barracas,
e nada encontrou.
As poucas cargas que tinham ficado á porta da minha barraca,
e que consistiam em pòlvora e cartuxos, haviam desapparecido.
Fugíram roubando a minha propria miseria. Só me
restava o que havia dentro da minha barraca. Eram os meus
papéis, os meus
instrumentos, e as minhas armas; mas armas de nenhum valor, porque uma
das cargas roubadas continha os meus cartuxos, e sem elles de nada
serviam.
Fui sem detença fazer inventario do meu miseravel haver, e
achei-me com trinta tiros de balas d'aço para a carabina
Lepage, e com
vinte e cinco cartuxos de chumbo grosso da espingarda Devisme, que de
pouco ou nada serviam. Era tudo quanto possuia.
Não pude deixar de curvar a cabêça ante
este ùltimo golpe que me feria, e um atroz confrangimento de
coração trouxe-me,
pêla primeira vez em Àfrica, o presentimento de
que estava perdido. Estava no
centro d'Àfrica, no meio da floresta, sem recursos, dispondo
de
trinta balas apenas, quando só da caça poderia
viver e
só a caça me poderia salvar; e tinha em
tôrno de mim só três homens,
três crianças e duas mulheres!
Augusto exprobrava-se o ter adormecido, quando eu o mandara velar, e
entrou n'um furor louco, querendo ir na pista dos fugitivos e matar
tôdos. Custou-me a conter a ira feroz do meu prêto
fiel; e sem consciencia do que dizia, sem a menor
convicção
nas palavras que proferia, ordenei-lhes que se fossem deitar, que
não
receiassem nada, porque eu remediaria tudo. Eu ficaria de
véla. Recolhidos
ás barracas, eu fiquei junto da fogueira, quasi inconsciente
e sem
fôrças. O abalo moral tinha despedaçado
o côrpo, já
fortemente abatido pêlas febres. Sentado, com os
braços encostados nos joêlhos e a
cabêça encostada ás mãos, eu
olhava fito para a crepitação
da chama, sem ter um pensamento, sem uma idéa, em perfeito
estado de imbecilidade. Contudo, o
instincto filho do hàbito, fêz-me sentir, que
estava
desarmado; chamei o meu muleque, e sem ter consciencia d'isso, pedi-lhe
uma arma. Elle entrou na barraca e trouxe-me uma, que eu, sem reparar,
colloquei sôbre
os joêlhos.
Durou muito tempo aquelle estado de abatimento, até que as
idéas principiáram a vir mostrar-me os
horrôres da minha
posição. Havia muitos mêzes, que eu
caminhava ávante, pobre e sem
recursos; havia muito tempo que eu contava ùnicamente com a
caça para
sustentar a minha caravana. Essa idéa perfeitamente
arraigada no meu
espìrito, tinha-me dado sempre a fôrça
de seguir, de ter fé e de
esperar. De repente sentia em mim um vazio enorme. A idéa
tinha cahido por terra, e desapparecido
com a caixa que continha os meus tiros, o meu thesouro, o meu
ùnico
recurso.
Deve ser ao encarar uma posição como a minha que
o homem se suicida.
Com aquella pungente agonia que me dilacerava a alma, deixei pender a
cabêça e os meus olhos fixáram-se na
carabina que eu tinha pousada nos joêlhos. Olhei, a talvez
meio minuto, e uma idéa
atravessou-me o espìrito. De um salto entrei na barraca, e
corri a levantar
as pelles do meu leito, debaixo das quaes, para levantar a malinha que
me servia de travesseiro, estava um estôjo de couro,
rectangular, baixo e
comprido.
Foi com mão febril que abri aquelle estôjo
esquècido, e apalpei trèmulo os objectos que elle
continha. As idéas occorriam-me de
nôvo em tumulto. Deixei o estôjo, e abri a mala dos
instrumentos, onde a caixa
do meu sextante Casella estava entalada por duas latas, que senti
debaixo da mão com que apalpava. Sahi precipitadamente da
barraca e do
acampamento, e corri ao mato, onde de dia tinha posto a enxugar o meu
grande tresmalho, depois da pesca. A rêde estava estendida, e
tensa
pêlo peso do chumbo que lhe envolvia a tralha.
Apalpei phrenètico aquelle chumbo, e colhendo a
rêde voltei ao campo, curvado ao pêso d'ella.
Cheguei junto á fogueira,
e depuz no chão o meu fardo.
Quem visse o que eu tinha feito havia alguns minutos, julgarme-hia
louco, e louco estava eu de contente.
O avaro devorando com os olhos àvidos de cubiça o
thesouro que empobrece a sua miseria, não deve ter na vista
expressão
differente da que eu tinha a olhar para aquella carabina. É
que ella para mim era
a vida, a salvação, e tudo. É que ella
para o
meu paiz era uma expedição coroada de
èxito; era a realização de um voto
formulado por elle no seu parlamento; era o bom èxito
obtido, tanto mais meritorio,
quanto mais estorvado.
A arma que afagava nas mãos, como afagaria uma filha
estremecida, a arma que me ia salvar, e comigo a
expedição atravez
d'Àfrica, era a Carabina d'El-Rei.
No estôjo d'aquella arma havia apparêlhos para
fazer balas, e tudo o necessario para se carregarem os cartuxos, logo
que existissem os invòlucros metàlicos, cada um
dos quaes,
pêlo seu systema de construcção, pode
servir muitas vêzes.
Uma pequena caixa, que vinha no estôjo ja quando El-Rei me
offerecêra o valioso
presente, continha quinhentos fulminantes.
As idéas que se succediam em mim quando me lembrei d'aquelle
recurso, trouxéram-me a reminiscencia de duas latas de
pòlvora que eu desde Benguella empregava, á falta
de cousa melhor, para entalar a
caixa do sextante dentro da mala. Faltava o chumbo, mas a minha
rêde
de pesca ia fornecer-m'-o.
Assim, pois, eu podia dispor de alguns centos de tiros; e com alguns
centos de tiros sentia-me com fôrça de criar
recursos n'esse paiz de caça.
O resto da noute foi para mim como manhã
bonançosa depois de noute de temporal.
Ao alvorecer, ainda não tinha formado um plano, mas estava
tranquillo e confiante.
Mandei chamar o chefe da aldeola pròxima, e convenci-o a
mandar dois homens a Lialui contar o succedido ao rei Lobossi;
disse-lhe tambem, que ia mudar o meu campo para mais pròximo
da aldea, e logo
nós quatro, eu, Verissimo, Augusto e Camutombo,
construímos quatro barracas
e um forte cercado, onde nos recolhémos com o meu magno
espolio.
N'esse dia trabalhei como um rude lenhador, e de machado em punho,
cortei a madeira para a minha barraca, e construi-a eu mesmo.
Durou o trabalho até depois do meio dia, hora a que me
estendi nas pelles de leopardo do meu leito, dormindo a sono
sôlto
até ao pôr-do-sol.
O meu Augusto tinha pescado, e tinham armado laços aos
patos, conseguindo agarrar um. Entretivémos com aquella
alimentação sem condimentos a fome ja
impertinente, e eu volvi a deitar-me, mas dormi pouco e pensei muito.
Sustentar nove pessôas era mais facil
do que sustentar uma grande comitiva, e por isso a questão
mais
momentosa e que mais urgente era resolver, estava, se não
resolvida,
pêlo menos muito simplificada por si mesmo.
A idéa de proseguir na minha viagem estava perfeitamente
arraigada em mim, e sem ainda saber como, sem ter chegado a formular um
projecto, sabia que havia de ir, porque queria ir. A minha
confiança
era tal, que os meus homens ja estavam descuidosos e indifferentes.
Diziam elles, que eu sabia o que havia de fazer, e quando lhes dizia,
que não
tinha ainda formado um plano, riam-se e diziam:--"o Senhor bem sabe ja."
Passei o dia preparando cartuxos da Carabina d'El-Rei. Tinha 2
kilogrammas de pòlvora finissima, e como a carga de cada
cartuxo era de 5 drachmas (8 grammas e meia), podia com aquella
pòlvora
carregar duzentos e trinta e cinco tiros, que com alguns que eu ainda
possuia, e com os trinta de balas d'aço da carabina Lepage,
prefaziam
um total de trezentos cartuxos.
Chumbo para ballas havia de mais, porque o peso das duzentas e trinta e
cinco balas era ao menos de nove kilogrammas, sendo o de cada bala de
35 grammas, e o chumbo da rêde devia pesar um pouco mais de
trinta kilos.
Fulminantes tinha duzentos a mais.
Voltáram os portadores que mandei a Lobossi, com recado
d'elle, para que eu fôsse viver para Lialui até
tomar uma
deliberação.
Decidi logo não sahir do mato onde estava, e mandar o
Verissimo a Lialui tratar com elle. Dei-lhe as minhas ordens, e mandei
que sahisse antes de amanhecer no dia immediato, para ter tempo de
voltar no mesmo dia.
Um violento accesso de febre prostrou-me, e tive de me recolher muito
doente.
No dia seguinte a febre tinha augmentado, e eu estive impaciente
até á volta do Verissimo, que só
chegou de tarde.
Vinham com elle uns muleques do règulo, que me traziam
alguma comida, e um presente de leite coalhado, enviado por Machauana.
Lobossi mandava dizer-me, que era muito meu amigo, e que estava prompto
a ajudar-me, mas que fôsse eu viver para casa d'elle; e que
com tempo
decidiriamos o que havìamos de fazer. Mandei dizer-lhe
pêlos
muleques, que logo que estivesse melhor iria falar-lhe; mas que
não deixaria o
mato, e que me era impossivel ir viver com elle, por causa das febres.
Estava ancioso por me achar só com Verissimo, para ter
noticias de Lialui.
A primeira cousa que elle me contou fêz-me logo profunda
impressão. Disse-me, que, quando chegara a casa de Lobossi,
estava reunido o grande consêlho em discussão
acalorada.
Uns enviados do Chefe de Quissique, Carimuque, tinham chegado ali,
pedindo accesso no paiz para um missionario Inglez, que estava em
Patamatenga, e queria vir ao Lui.
Á entrada d'esse sujeito no paiz do Barôze
opunha-se com tôda a sua eloquencia o ministro dos
estrangeiros Matagja, e d'ahi
nascêra a acalorada discussão a que assistira o
Verissimo; sendo
resolvido em consêlho, que não fôsse
concedida a
licença para o homem penetrar nos estados do rei Lobossi.
O Verissimo, que me contou este incidente, a que não ligou a
menor importancia, começou a narrar-me o que tinha podido
colher
de noticias ácerca das intrigas dos muleques de Silva Porto
e Caiumbuca;
mas eu é que não o escutava ja, e aquelle
missionario Inglez
(
Macúa,
diziam elles) não se
me tirava do pensamento. Quando o Verissimo
acabou o seu aranzel, que eu não ouvi, tinha resolvido o meu
problema, e
a resolução consistia, em ir encontrar aquelle
missionario.
Como realizal-a não sabia ainda, mas que o encontraria era
ja convicção minha.
Fui àvidamente buscar uma pèssima carta
d'Àfrica que tinha, e calculando approximadamente onde seria
Patamatenga, medi uma distancia de seiscentos kilòmetros.
Seiscentos kilòmetros, a uma media de 10
kilòmetros por dia, eram sessenta dias de jornada, e
trezentos tiros que eu possuia, divididos por sessenta dias, dava-me
cinco tiros por dia. Ardia ja em desejos de me pôr a caminho,
mas ardia em febre tambem, e comecei por
deitar-me.
Nos dias 14 e 15 a febre cresceu de intensidade, não me
permittindo sahir da barraca; mas tendo algumas melhoras na noute de 15
para 16, resolvi logo ir a Lialui falar ao rei, e tratar de
pôr em
execução um plano que tinha concebido, para ir
encontrar o missionario,
idéa que me não sahia da mente.
Ainda muito doente, parti logo de manhã para casa de
Lobossi. Fui muito bem recebido por elle, que negou ter sido connivente
com Caiumbuca e os prêtos do Silva Porto, na fuga dos meus
Quimbares;
o que
era falso, porque sem o consentimento d'elle, não poderiam
elles ter
passado o
Zambeze.
Pedi-lhe que me ajudasse a ir encontrar um missionario que eu sabia
estar em Patamatenga; ao que elle respondeu, perguntando-me,
¿como queria eu ir para ali, não tendo
carregadores? Esta pergunta
do rei foi muito applaudida pêlos assistentes, que
notáram a
esperteza d'elle em m'-a fazer.
Disse-lhe, que era verdade não ter carregadores, mas que
tinha o rio Liambai, e elle tinha barcos, e se elle me desse barcos, eu
dispensava os carregadores, tanto mais que não tinha cargas.
Elle contestou, que havia effectivamente o Liambai, mas que o rio tinha
cataractas, e ¿como as poderia eu passar? Novos applausos da
parte do auditorio.
Respondi, que sabia isso, mas que ali os barcos e as cargas iam por
terra, e a jusante das quedas continuàvamos a navegar.
Elle retorquio, que o seu pôvo tinha muito pouca
fôrça, e não podiam arrastrar os barcos
por terra.
Novamente applaudido; estava fazendo um gôsto immenso em
patentear o seu espìrito fino
diante dos ouvintes; e de salto, sem esperar resposta, perguntou-me,
¿porque
não tinha ido viver com elle para Lialui, como me tinha
ordenado?
Respondi serenamente, que não tinha ido, nem iria, por
muitas razões; sendo a principal, o ser elle um refinado
velhaco, que, desde a minha chegada, só tinha procurado
enganar-me, para me roubar. Chamei-lhei ladrão e assassino,
levantei-me e puz-me a caminho.
O auditorio, estupefacto do meu atrevimento, nem se lembrou de me
embargar o passo.
Dirigi-me a casa de Machauana, onde estive conversando com Monotumueno,
o filho do rei Chipopa, e legìtimo herdeiro do poder, a quem
fiz a profecia de que ainda seria rei do Lui.[
4]
Ia a retirar-me para as minhas montanhas, quando um enviado de Lobossi
veio pedir-me em nome d'elle para eu lhe ir falar. Fui logo.
O rei disse-me, que não tinha razão para me
zangar com elle, que era muito meu amigo, que ia aprontar barcos, e que
o Liambai estava livre para mim.
Eu fiz-lhe um grande sermão, em que lhe disse, que elle era
mal aconselhado; que o que tinha dado o poder e grande nome aos reis
Macololos, foi a grande protecção que
dispensáram a Livingstone. Que os Luinas queriam perder o
commercio; e que elle completaria a ruina do Lui começada
por
Manuanino. Que o seu pôvo,
não a camarilha que o rodeava, mas o seu pôvo
sensato,
ainda o expulsaria do poder, por
incapaz de governar, e não fazer mais do que disparates.
Fêz-me novos protestos de amizade, affirmando-me, que me
daria os barcos, e que não seria por culpa d'elle se eu
não chegasse a alcançar o missionario, mesmo
porque queria que eu mudasse de opinião a
seu respeito.
Assegurou-me, que voltasse descançado para Catongo, onde me
mandaria dizer que os barcos estavam promptos, logo que tivesse
arranjado as tripulações. Chamou diante de mim o
Chefe de
Libouta, e deu-lhe ordens a esse respeito.
Eu não acreditava em nada d'aquella comedia, e disse-lh'-o.
Elle pedio-me que não formasse maos juizos, e esperasse os
factos.
Voltei a casa de Machauana, que conversou largamente comigo a respeito
de Caiumbuca e da fuga dos meus Quimbares. Por elle sube tôda
a verdade, nos seus detalhes, e só fiquei ignorando quem
fôra
ao longe o motor dos acontecimentos.
Chegado ao Lui, fui sinceramente bem recebido por aquella gente, e o
nome do Mueneputo, com que eu me abrigava, foi escutado com respeito.
Declarei os meus projectos, e elles fôram calorosamente
approvados, porque muito convinha aos Luinas estar em
communicação com a costa de Leste. Dias depois da
minha
chegada, rebentou no Chuculumbe a
revolução, á testa da qual se achava
Manuanino, o
rei destronado.
Caiumbuca foi então dizer a Lobossi, que eu não
era
estranho
áquella revolta, e que queria ir para Leste juntar-me aos
brancos que apoiavam Manuanino. N'essa occasião Caiumbuca
levara
os Bihenos a abandonar-me, dizendo-lhes, que o rei o prevenira de que
me ia mandar matar, e
não poderia impedir que fôsse morta a gente que
estivesse
comigo.
Os Bihenos, levados por elle, declaráram-me, que
não queriam estar comigo, e Caiumbuca fingio-se indignado.
A primeira e ùnica vez que em Àfrica faltei ao
meu principio de sertanejo, de desconfiar ali de tôdos e de
tudo, fui
enganado. É verdade que Silva Porto, o homem em quem eu
tinha a màxima
confiança, disse-me e escreveu-me, que podia fiar-me em
Caiumbuca, e eu fiei-me n'elle.
Facilmente podia desfazer aquella intriga entre homens instruidos; mas
deve comprehender-se, que para prêtos, foi bem tramada, e
não seria facil convencel-os da verdade.
Apesar d'isso, a minha attitude chegou a convencer Lobossi, e foi
então que os muleques de Silva Porto fôram dizer
ao rei,
que tinham
ordem de seu senhor para me abandonarem ali, mandando-lhe elle dizer,
que me fizesse matar, se queria que os sertanejos do Bihé
voltassem
ali, sem o quê não teria mais
relações
com Benguella.
Foi então que tentáram matar-me, affirmando
Machauana, que Lobossi sempre se opoz a isso, assim como a maioria do
seu consêlho,
mas que Gambela era de opinião contraria.
Caiumbuca e os muleques de Porto fôram dizer a Lobossi, que
tôdo o que eu tinha nas minhas malas eram roupas e fazendas
muito
ricas, despertando-lhe assim a cubiça, que a tantos
exploradores
tem perdido no Continente Africano.
Apesar de tôdas as intrigas e dos factos que ellas
produzíram, eu ia continuar a minha viagem com a gente de
Benguella, quando o ataque da noute de 6 de Setembro m'a dizimou, e uma
nova intriga dos
prêtos de Silva Porto levou á fuga os restantes.
¿Por ordem
de quem trabalhou Caiumbuca? Eis o que não pude saber.
Por sua conta creio que não; que pouco tinha a lucrar
n'isso. A encommenda vinha feita do Bihé, e eram emissarios
d'ella os
muleques de Silva Porto. Caiumbuca tomou o papél principal,
depois das
instrucções recebidas dos prêtos de
Belmonte. O mandatario estava ao
longe, muito ao longe.
A causa estava na minha missão, e na guerra que, em nome do
meu Portugal, eu fazia, sem trèguas, ao commercio da
escravatura.
Alguns exploradores Africanos, e sôbre tôdos
o
Commander
Cameron e David Livingstone, t[~e]m apontado muitos factos horriveis e
verdadeiros, do commercio da escravatura, feito no interior
d'Àfrica por sertanejos Portuguezes.
Por muitas vêzes, a opinião pùblica em
Portugal tem levantado a sua voz potente, contra as
asserções vilipendiosas dos
accusadores estrangeiros, querendo negar factos que elles asseveram; e
em que ella não
acredita, porque, na sua ìndole bondosa, é
incapaz de os
comprehender e de os admittir.
Infelizmente elles sam verdadeiros; e mais ou menos romantizados,
não deixam de conter um germen de realidade.
¿Mas serám esses factos uma nòdoa para
Portugal? Não sam. Affirmo-o, e sustento-o.
Os sertanejos Portuguezes, que mais se aventuram no interior do
continente Africano, quando o fazem, deixáram de ser
Portuguezes.
Sam condenados, fugidos dos presidios da costa, sam homens a quem a
sociedade supprimio as garantias do cidadão, sam
rèprobos a quem a sentença infamante da
justiça
imprimio um
indelebil ferrête de ignominia; sam os salteadores e
assassinos,
a quem a patria banio do seu seio com horror, que podéram
quebrar o grilhão de
ferro com que estavam acorrentados ao patìbulo aviltante; e
fugindo a um mundo
onde só os espera o desprezo da gente civilizada, vam ao
longe
buscar entre os selvagens a guarida que perdêram, e continuar
ali
a sua vida
de crimes.
Taes homens não deshonram a sua patria, porque
não t[~e]m patria.
Querer tornar Portugal solidario dos crimes dos sertanejos Africanos,
é querer tornar a França responsavel dos actos da
Communa, a
Amèrica do assassinio de Lincoln, a Italia dos salteadores
dos Abruzos.
Ha rèprobos em tôda a parte, e não
podem ser nòdoas nos povos que os esmagam na sua justa
indignação.
Dos sertanejos Europeus que t[~e]m estado estabelecidos no
Bihé, de dois apenas tenho noticia, que não
pertencessem a tal ordem de
gente. Sam elles Silva Porto, e Guilherme José
Gonçalves;
mas estes fôram sempre queridos e estimados do
indìgena e do Europêu,
gozáram sempre da consideração que a
sua honradez e probidade lhes
grangeáram, fôram cidadãos prestantes,
que, com um tràfico legal e
digno, nem chegáram a fazer fortuna, e fôram
muitas vêzes
vìctimas dos outros.
O nome de Silva Porto é respeitado pêlo gentio, e
conhecido n'uma grande parte da Àfrica central
pêla
corrupção da palavra
Prôto,
e mais de
uma vez me servi d'elle para desfazer obstàculos.
Em Cassange, como em Tete, outras duas portas da Àfrica
central, ha Portuguezes dignos e nobres, que t[~e]m feito um grande
serviço á humanidade no commercio
lìcito com o interior; esse
commercio, que é o mais seguro mensageiro da
civilização na terra
dos nêgros.
Não confundamos pois; não confundamos, e
será pouco nobre ir buscar a autoridade do explorador, para
lançar, apontando factos
verdadeiros, mas nada producentes, um labéo sôbre
um pôvo
nobre, o primeiro que deu mão forte á Inglaterra
contra o tràfico infame;
sôbre um pôvo que sacrificou os seus interesses
Africanos legislando a
abolição da escravatura; contra um
pôvo, o mais livre do mundo, que estendeu a sua
liberdade até á Àfrica, mandando para
lá as leis que
o regem na Metròpoli; chegando ao
excesso de abolir ali a pena de morte, e de lhes mandar um
còdigo que por libèrrimo é impossivel
entre gente mais que
semibàrbara.
Não precisa Portugal justificação; que
o defendem os factos, as leis e a energia que emprega na grande obra da
civilização
Africana; mas, falando do tràfico da escravatura de que por
vêzes ia
sendo vìctima, não me pude eximir a pôr
a questão nos seus verdadeiros
têrmos.
José Alves, Coimbras e outros, esses nem ao menos sam
Portuguezes de nascença; não se parecem com
Portuguezes na
côr, sam indìgenas, sem
instrucção, verdadeiros selvagens de
calças e chapéos.
Affirmo tambem, que é mais difficil viajar em
Àfrica por terras onde elles t[~e]m andado, do que nas
regiões bàrbaras
dos canibaes, que nunca víram um estranho. Aqui fazem a
guerra ao explorador, quando
a fazem, de armas na mão frente a frente; ali é a
traição e a covardia que o esperam. Aqui
é explorar na brenha espinhosa onde o
leão occulta o seu antro; ali é caminhar n'um
prado relvoso, entre venenosas
serpentes.
Outra cousa inconveniente ao explorador é ir ás
sedes dos grandes potentados. Veja-se o que tem acontecido no
Muatayanvo; veja-se o que aconteceu a Monteiro e Gamito no
Muata-Casembe; veja-se o que me tem acontecido a mim com Lobossi, no
Lui.
O sertanejo Biheno, na cubiça de obter o marfim,
dá tudo ao règulo; chêga a dar-lhe a
roupa que leva vestida, e volta ao
Bihé de tanga de pelles, como os seus carregadores.
No Lui, quando era muito frequentado por sertanejos Bihenos, havia o
costume, de elles entregarem tudo ao règulo, e esperarem que
elle lhes desse pêla factura que levavam, o que entendesse
sufficiente.
O explorador que hôje chêgue ali e não
faça o mesmo, está perdido.
Àlém d'esta, outra razão deve
aconselhar o explorador a evitar os grandes potentados; é
ella o caso de uma
aggressão, sempre de recear.
Com os pequenos senhores que povôam a maior parte da
Àfrica austral, poderá, em tal caso, levar a
melhor; em quanto nos grandes
imperios será forçosamente esmagado.
Isto pensava eu voltando ao meu campo nas montanhas de Catongo, a 17 de
Setembro, depois de ter comido leite coalhado e batatas em casa de
Machauana.
Cheguei a Catongo ja noute, e sube que o meu Augusto tinha morto uma
gazella, o que nos fazia òptimo arranjo.
As armadilhas improvisadas continuavam a dar patos e francolins.
Nos dias seguintes, os trabalhos tomáram-me tôdo o
tempo; podendo obter uma longitude muito approximada, e fazendo uma
rigorosa
determinação da declinação
da agulha, estudos
meteorològicos, etc.
No dia 19, ainda não tinha recebido mais novas do rei
Lobossi, e decidí mandar lá o Verissimo, a saber
se a
offerta das
canôas era ou não comedia. N'esse dia
apparecêram
ali uns prêtos, que
pêlo typo conheci logo não serem do paiz. Diziam
elles
serem da
Luêna, e querendo indagar onde ficava essa terra, elles
mostravam-me o N.E., e por meio de
nòs dados em uma correia fina, faziam-me comprehender que
tinham
andado vinte e seis dias para chegar ali. Vinham em nome do seu chefe
comprimentar o rei Lobossi, e sabendo que estava um branco no paiz,
viéram ver-me, por ser animal nôvo para elles.
Para falarmos, servia-me de intèrprete o velho chefe da
aldeola, que falava a lìngua dos Machachas,
lìngua em que
elles se exprimiam bem, dizendo, ainda assim, ser muito differente da
sua.
Disséram-me, haver no seu paiz muitos elephantes, e serem
caçadores; empregando
para isso a azagaia, ùnica arma de que usam. Sam franzinos
de
côrpo e de pequena estatura, com
feições bastante regulares. Uns
vinte que eu vi, traziam, quasi tôdos, na
cabêça uns penachos
feitos de sêdas de elephante, demonstrando cada penacho um
elephante môrto pêlo
que o traz. Vestem pelles como os do Cuchibi, e trazem pannos de
liconde
para se cobrirem.
Traziam manilhas de ferro e de cobre fabricadas por elles. A
difficuldade que havia de nos entendermos não me permitio
levar muito longe as averiguações
ácerca do paiz
d'elles e dos terrenos que atravessáram para chegar ali.
No dia 21, Verissimo voltou de Lialui, dizendo, que as canôas
estavam promptas, e que Lobossi me mandava pedir para ir ficar na
cidade no dia immediato. Enviei logo um homem ao rei, dizendo-lhe que
só
iria em dois dias, por estar doente; sendo o verdadeiro motivo d'essa
demora, o ter de fazer observações e completar
estudos
meteorològicos no dia 22. Por esse mesmo enviado mandei
dizer a
Gambela, que me apromptasse aposento em sua casa, porque iria ser seu
hòspede. Eu queria fazer do
ladrão fiél.
A 23 de Setembro, deixei Catongo, e caminhei para Lialui, onde cheguei
ás duas horas e meia da tarde. Gambela esperava-me com
pompa, e foi conduzir-me ao alojamento que me tinha preparado. A marcha
por um sol abrasador prostrou-me de fadiga, e só
á noute
pude ir visitar Lobossi. Elle recebeu-me muito bem, dizendo-me, que
estava convencido de que
fôra illudido por Caiumbuca e pêlos muleques do
Silva
Porto; que
acreditava ser eu um enviado do governo do Mueneputo, e que me queria
dar todas as satisfacções pêlos
transtornos que eu
tinha soffrido nos seus estados, de que elle dizia não ter
tido
a menor culpa.
Aproveitei tão bôas
disposições, para renovar o meu pedido de gente e
auxilio, para seguir pêlo paiz do Chuculumbe até
Caiuco, e descer depois o Loengue embarcado, e ir ao Zumbo
pêlo
Zambeze.
Respondeu-me, que isso não podia ser, porque esse projecto
encontrava uma grande
opposição nos velhos do seu conselho. Que o
Munari
(Livingstone), no tempo de Chicreto, ja tinha feito aquella viagem com
gente do Lui, e que nenhum dos que com elle fôram para leste
voltara mais ao paiz.
Os velhos falando elle n'isso, disséram-lhe, que me
perguntasse o que era feito dos seus irmãos Mbia, Caniata e
Scuêbu,
e muitos outros que fôram e não
voltáram. Diziam elles,
que, ao partir, Livingstone prometteu, que os tornaria a trazer ali; e
ainda hôje as
mulheres e os filhos esperam por maridos e pêlos pais.
Affirmou-me, que se podesse, me daria gente, mas a resistencia do
pôvo era grande, e não lhe convinha ir contra
ella. Os
três barcos estavam ás minhas ordens para descer o
Zambeze, e nada mais podia fazer por mim.
A 24 de Setembro, logo de manhã recebi a visita de Lobossi,
que se vinha despedir de mim, e apresentar-me os seus escravos que
deviam tripular as canôas até umas
povoações
do
Zambeze, onde o chefe me deveria dar novos barcos e novas
tripulações. Deu-me uma pequena
ponta de marfim, para eu offerecer ao chefe das
povoações
onde arranjaria
os barcos, e trazia tambem um bôi para a matalotagem.
Agradeci-lhe muito, e
separámo-nos nos melhores termos de amizade. Segui a S.O., e
depois de uma hora de caminho, encontrava o braço do rio a
que
chamam pequeno
Liambai, e pouco depois, três pequenas canôas
largavam a
margem,
levando a minha bagagem, a mim, a Verissimo, Camutombo e
Pépéca.
O Augusto, Moero e Catraio, com as duas mulheres, seguíram
por terra, acompanhados do caçador Jasse e do chefe
Mutiquetéra, mandados por Lobossi, para seguirem comigo, e
irem
dando as suas ordens aos chefes, a fim de ter o caminho livre.
Mais dois entes, de que me tenho descurado de falar, dois entes que
representavam duas dedicações inquebraveis,
aquelles que desde a minha sahida não me haviam dado um
ùnico dissabor,
estavam ali comigo, sempre promptos a seguir quando eu marchava, a
pararem quando acampava, a dispensarem-me mil caricias quando me viam
triste, a divertirem-me quando alegre estava. Eram Córa e
Calungo, a minha cabrinha
e o meu papagaio.
A viagem do rio ia separar-me tôdos os dias de
Córa, que não podia ir sempre embarcada
pêla exiguidade de espaço nas
canôas, mas Calungo voando sem mêdo para o meu
hombro, seguio embarcado.
Depois de termos navegado ao sul por um quarto de milha,
deixámos o pequeno Liambai, e mettemos a S.O. por um
canalête, por onde
o braço oeste do rio deita um pequeno veio de
àgua, de
lagôa em lagôa para o braço leste.
No intervallo entre as lagôas, ás vêzes
de mais de cem metros, o navegar é difficil, porque
é difficil navegar onde
não ha àgua. Foi preciso muitas vêzes
descarregar os barcos e arrastal-os
sôbre um fundo de lôdo. Nas lagôas o
caniçal espêsso
embaraçava tambem a navegação.
Depois de um trabalho violento e aturado, parámos
ás seis horas na margem de uma lagôa, em planicie
recentemente queimada, onde
não havia com que construir o mais pequeno abrigo.
Tinha havido o cuidado de levar lenha, e com ella podémos
assar carne, que eu comi com appetite voraz, por não ter
ainda n'esse dia
tomado alimento. Estendi depois a minha cama de pelles sôbre
a terra
hùmida e deitei-me ao relento.
Os remadores estivéram tôda a noute assando carne
e comendo; fazendo assim desapparecer a maior parte do bôi
dado por Lobossi, e
mostrando que a capacidade estomàchica dos
sùbditos do rei
do Lui é verdadeiramente incommensuravel.
Depois de uma pèssima noute, parti ao alvorecer do dia 25, e
naveguei em uma lagôa por meia hora, entrando em seguida no
braço principal do Liambai. Apparecia nas margens uma tal
quantidade de caça,
que fiz parar a flotilha, e entrar em serviço a Carabina
d'El-Rei; que, na
sua estrea, me forneceu logo vìveres que calculei chegariam
para dois
dias, apesar da voracidade dos Luinas.
O Liambai tinha ali uns 200 metros, e muito fundo. A corrente era
pequena, e essa mesma não aproveitada pêlos
remadores, que receando os hippopòtamos, que sem cessar
vinham resfolgar no pego, iam
sempre encostados ás margens, onde a àgua pouco
funda
não permitia o accesso aos enormes pachidermes.
Tìnhamos de parar de instante a
instante, para tirarmos àgua das canôas velhas e
fendidas.
Parei junto a Nariere, para calafetar o meu barco, e em quanto os
prêtos faziam trabalho com hervas e barro, medi a velocidade
da
corrente, que achei ser de 24 metros por minuto. O meu rumo medio era
S.E., mas o rio dá ali voltas curtas em grande zig-zag;
tendo eu
em uma
d'ellas navegado por 20 minutos a N.O. Acampei na margem
esquêrda,
pêlas cinco da tarde, nas mesmas
condições da
vèspera, sem
abrigo e ao relento.
Muitas vêzes, n'aquelle dia, quando fugiamos aos
hippopòtamos de um lado, appareciam elles no outro, e
corrémos perigo grave.
Eu não lhes quiz atirar, para não gastar as
munições. Só quem se vê no
centro d'Àfrica com pouca pòlvora sabe o valor de
um tiro.
Os barqueiros, que eram escravos do rei Lobossi, quizéram
ser insolentes comigo; mas eu metti-os na ordem a pao, segundo
instrucções recebidas do proprio Lobossi, que
prevenira o caso.
O Verissimo, que desde Quillengues resistira á febre, cahio
com um violento accesso, e eu mesmo não estava sem ella.
No dia immediato naveguei apenas por espaço de uma hora,
parando junto á povoação de
Nalólo, governada por uma
mulhér, irmã de Lobossi. Mandei pedir-lhe
desculpa de a não ir visitar, allegando a minha
doença e a febre do meu intèrprete Verissimo.
Ella aceitou a desculpa,
e enviou-me um pequeno presente de massamballa. Apesar de doente, fui
caçar, para fazer nova provisão de
vìveres, e consegui matar
dois antìlopes (Pallahs). As pelles, como as da
ante-vèspera,
fôram sêcas com cuidado e guardadas.
Pude trocar uma perna de carne de Pallah por um pequeno cesto de
feijão fradinho.
Verissimo peiorou muito n'esse dia, e eu á noute ardia em
febre tambem, tendo, apesar d'isso, de dormir ao relento n'um terreno
hùmido. Acordei completamente encharcado do orvalho, e muito
doente. Segui viagem, e depois de seis horas uteis de
navegação, com o
rumo medio de S.S.E., acampei, sempre na margem esquêrda.
Apesar de outra noute pèssima, a febre ia cedendo a fortes
doses de quinino, e no dia 28, naveguei por hora e meia para
alcançar
a povoação de Moangana, cujo chefe me devia
fornecer um barco por ordem de Lobossi.
O velho Moangana era um Luina de cabellos grisalhos, muito respeitoso,
que me recebeu muito bem, dizendo-me, que no dia immediato me levaria
elle mesmo á povoação da Itufa, onde
eu devia pernoitar, um barco e algum presente que me podesse arranjar.
O vento era fortissimo de leste, e encrespava as àguas do
rio, que não tinha menos de uma milha de largo. Havia perigo
para canôas
tão pequenas como as nossas, mas, apesar d'isso,
seguímos, e em hora e
meia chegámos a Itufa, grande aldea, na margem
esquêrda.
Mais de uma vez estivémos em grande risco de
soçobrar, e declaro que é triste perspectiva a de
cahir a um rio coalhado de crocodilos.
O Verissimo ia um pouco melhor e eu mesmo, apesar da febre quasi
constante que me minava, sentia-me com mais
fôrças.
Ja me esperavam na aldea, prevenidos pêlos meus muleques que
jornadeáram por terra, e que, com o caçador
Jasse, e com o chefe, haviam
chegado n'essa manhã.
O chefe recebeu-me bem, dando-me logo uma casa, e offerecendo-me uma
panella de leite coalhado e uma cêsta de farinha de milho;
mas começou por dizer-me, que tinham enganado Lobossi, e que
elle não
tinha barco.
Comi um pouco de leite e farinha, e os meus muleques n'um momento
fizéram desapparecer o resto do presente do chefe,
declarando-me que tinham fome, depois de terem comido tudo. Instei com
o chefe para me obter alguns vìveres mais; mas elle
respondeu-me, que
só a trôco de fazendas m'os dariam, e como eu
não
as tinha, nada se
poderia fazer.
Dei aos muleques as pelles dos antìlopes que tinha
môrto, e a trôco d'ellas sempre
arranjáram farinha, ginguba e tabaco.
Á noute, quando me fui deitar, vi que estava rodeado de
aranhas enormes, muito chatas e nêgras, que desciam das
parêdes em
vagaroso caminhar; e fugi da casa, indo deitar-me no pàteo
ao relento. Estava
escrito, que durante a minha viagem no Zambeze, nem uma só
noute um tecto
abrigaria o meu sono.
No dia 29, logo de manhã, chegou o velho Moangana com o
promettido barco.
Veio renovar os seus protestos de amizade, e retirou-se; dizendo-me,
que tinha cumprido as ordens do seu rei Lobossi, e esperava que eu
estivesse satisfeito, porque elle queria a amizade dos brancos.
Na Itufa continuavam as difficuldades para a outra canôa; o
chefe só fazia repetir-me, que a não tinha, e
lastimar que houvessem
enganado Lobossi e a mim.
Os Luinas e Macalacas t[~e]m por hàbito esconder as
canôas em lagôas interiores cobertas de
caniçal, que communicam com o rio por
pequenos canalêtes disfarçados pêla
vegetação e só d'elles conhecidos.
Quando não querem que as vejam, difficil é
encontral-as.
O caçador Jasse e o chefe Mutequetera, conhecedores das
manhas dos Luinas, tanto buscáram entre os
caniçaes das
lagôas, que encontráram uma canôa;
fazendo o chefe da Itufa mil protestos, de que
ignorava que ella estivesse ali.
As casas da Itufa sam, como tôdas as dos Luinas, de
três formas differentes, e taes como ja descrevi falando das
povoações de Canhete e da Tapa; mas aquellas que
t[~e]m a forma tronco-cònica sam
de muito grandes dimensões. A que me foi offerecida
pêlo
chefe, a casa das aranhas, media, no quarto interior, 6 metros de
diàmetro, e
no exterior 10.
Figura
110.--Casa na Itufa.
N'estas dimensões, não podem como as outras ser
construidas só de caniços, e umas fortes estacas
verticaes sustentam o tecto,
cuja armação é de longas varas de
madeira.
Ha ainda na Itufa outro typo de casas, que é original d'ali.
Sam compostas estas de uma casa ogival, a que addicionam uma
semi-cilìndrica deitada no sentido do eixo, formando assim
dois compartimentos distinctos. Estas casas sam grosseiramente
construidas,
ao passo que a casa tronco-cònica, verdadeiro typo da casa
Luina, é edificada com cuidado, e muito resguardada.
Pêla primeira vez, depois de ter deixado o Bihé,
vi gatos em Àfrica, que os ha em abundancia na
povoação da Itufa. Ha
tambem ali muitos cães de bôa raça, que
empregam com vantagem na
caça dos antìlopes.
Continuava a difficuldade de obter vìveres, mas a carabina
suppria a falta de fazendas para permutações, e
sempre
ìamos obtendo alguma farinha de massambala a trôco
de carne e pelles.
As tripulações estavam promptas, e os dois barcos
em acção de seguir, quando uma nova difficultade
veio retardar a viagem.
Os remadores declaráram, que não embarcavam, em
quanto eu não deposesse nas sepulturas das mulheres dos
antigos chefes da Itufa, alguns massos de missanga branca.
Sem ser cumprido esse preceito, afirmavam elles estarmos sujeitos a
innùmeros perigos durante a viagem; porque as almas das
mulheres dos chefes, desassocegadas e irritadas, nos perseguiriam sem
trègua. Eu, que não tinha missanga, nem branca
nem
prêta, chamei o
chefe e mostrei-lhe a absoluta impossibilidade de socegar as almas das
fidalgas da Itufa. Elle a muito custo pôde resolver as
tripulações a seguir, mas foi só no
primeiro de
Outubro que largámos d'ali.
O meu nôvo barco era uma piroga, cavada em um comprido tronco
de Mucusse, e media 10 metros de longo, por 44 centìmetros
de
bôca, e 40 centìmetros de pontal.
As duas àrvores empregadas no alto Zambeze para a
fabricação das almadias, sam o
Cuchibi
e o
M'ucussi,
enormes leguminosas das florestas, da região das cataractas.
A madeira d'estas
àrvores gigantes, é de extrema dureza, e de maior
densidade do que a
àgua.
A minha piroga era tripulada por quatro homens, um á proa e
três a ré.
Eu ia sentado na frente, a um têrço do comprimento
do barco, sôbre a minha mala pequena, que continha os meus
trabalhos. O duplicado do meu diario, observações
iniciaes, etc., levava eu
amarrados ao côrpo com uma cinta de lã. As minhas
armas
iam ao meu lado, e as pelles do
meu leito completavam a carga.
Na outra canôa, Verissimo, Camutombo e
Pépéca, as malas da roupa e instrumentos, e a
caça que ia matando. Os remadores remam
sempre de pe, para equilibrarem as canôas, que se voltariam
sem isso. O
remar em taes barcos é verdadeiro exercicio
acrobàtico.
Figura
111.--O meu Barco.
Remos.
Uma piroga do alto Zambeze é como um patim gigantesco, em
que o remador tem de fazer tôdos os prodigios de equilibrio
do patinador
sôbre o gêlo, para sustentar a
posição estavel. Foi em taes
condições que eu, no dia 1 de Outubro, deixei a
Itufa, e me aventurei sôbre o rio
gigante, cujas ondas levantadas por um forte vendaval de leste,
ameaçavam a
cada momento submergir as estreitas almadias.
Depois de quatro horas de viagem, parei na margem esquêrda,
em uma pequena enseada, onde a gente que vinha por terra tinha dado
ponto de reunião aos barqueiros. As minhas novas
tripulações eram mais comedidas do que os
muleques do rei que me trouxéram a Itufa, mas
começavam ja com pedidos e exigencias.
Não encontrei caça no mato, mas, tendo chegado
alguns bandos de patos a uma lagôa pròxima, fui ao
barco buscar a
espingarda de caça miüda, de que só
tinha 25 cartuxos, e consegui matar 17 patos, de 6
tiros.
O ponto onde eu estava, era o extremo sul da grande planicie do Lui. As
duas nervuras de montanhas, que no parallelo 15 estam distanciadas de
30 milhas, convergem ali; só parando para dar um leito de
dois
kilòmetros ao Zambeze. Á planicie
monòtona e nua
succede o
paiz accidentado e coberto de luxuosa vegetação.
Ás
margens de arêa branca e finissima, uma arêa que,
comprimida sôb os passos do homem, solta
vagidos como os de uma criança, produzindo uma
impressão
inexplicavel, porque, estando muito sêca, imita um fraco
grito
humano. A essas margens de
arêa tão extraordinaria, succede, em
transição
ràpida, o terreno vulcànico; e sam blocos de
basalto que
marginam o rio.
Foi com o maior sentimento de prazer que os meus olhos se
fixáram sôbre esses penêdos denegridos,
vomitados em ondas de
fôgo nas èpochas primitivas do mundo. Desde o
Bihé, que não via
uma pedra, e com satisfação olhava para aquellas
que via ali.
Quando o meu cozinheiro Camutombo tratava de acender fôgo
para cozinhar os patos, o lume communicou-se á herva alta e
sêca
que cobria o solo, e logo, assoprado por um vento forte, voou por
sôbre a terra em
ondas de chamas.
O atear do incendio foi tão ràpido, que por um
momento estivémos envolvidos n'elle; tendo de nos precipitar
nas canôas para
lhe escapar.
No dia immediato parti, sempre a S.S.E., e depois de quatro horas de
navegação, comecei a encontrar grandes
filões basàlticos, atravessando o rio no sentido
E.O.
Alguns v[~e]m tanto á flôr
d'àgua, que tornam difficil a
navegação, e ainda
que a corrente
é inapreciavel, foi preciso diminuir a velocidade dos barcos
para evitar choques perigosos, n'aquelles paredões naturaes.
O rio começa, na região basàltica, a
ser povoado de ilhas cobertas de vegetação
pomposa. Pêla tarde,
avistámos um bando de ongiris (
Strepsiceros
kudu)
que pastavam na margem direita.
Desembarquei um pouco a montante, e consegui matar um dos soberbos
antìlopes.
Mandei seguir o barco, e eu caminhei por terra por espaço de
uma hora.
Levantei bandos de francolins, codornizes, e pintadas (
Numida
meleagris),
que nunca tantos vi em Àfrica. A
terrivel
môsca zê-zê tambem é
abundantissima ali,
incommodou-me muito na floresta
com as suas picadas dolorosas, mas inoffensivas para o homem; e tantas
havia e tanto me perseguíram, que até depois de
estar no
barco
ainda por muito tempo estive coberto d'ellas.
Fui acampar n'uma ilha muito extensa de um aspecto lindissimo, depois
de seis horas uteis de navegação a rumo de S.S.E.
O Verissimo estava completamente restabelecido, mas eu era devorado por
uma febre lenta e contìnua, que me minava a existencia.
No dia 3 de Outubro, segui viagem, sempre por entre ilhas
formosissimas, cobertas de vegetação luxuriante.
Navegámos, havia duas horas, quando vimos dois
leões que na margem direita bebiam
àgua do rio. Apesar de eu ter estabelecido como regra
não me entremetter com feras,
sem a isso ser forçado, e apesar ainda do valor que
então tinham
para mim os cartuxos, os instinctos do caçador
vencêram a
razão, e mandei abicar a canôa á
margem, direita aos bichos.
Os leões, percebendo-nos, deixáram o rio, e
fôram postar-se em uma eminencia a duzentos metros. Saltei em
terra e caminhei para elles.
Deixáram-me approximar a uns cem metros, e depois
poséram-se lentamente a caminho para montante do rio,
parando de nôvo depois de
curto espaço. D'essa vez acerquei-me a cincoenta metros, mas
elles
caminháram de nôvo e embrenháram-se em
um pequeno massiço de
arbustos. Eram dois leões machos de grandeza desigual, tendo
um quasi o dôbro da
corpolencia do outro.
Cheguei junto do matagal, e perscrutando a brenha, vi a
cabêça de um dos magestosos animaes, por entre os
arbustos, a vinte metros de mim. Preparei a carabina, e ao apontar,
senti um tremor convulso percorrendo tôdos os membros.
Lembrei-me
de que estava fraco e debilitado
pêla febre, e receei que o pulso tremêsse ao dar ao
gatilho. Tive
uma sensação singular que até
então não havia experimentado, e que
provavelmente era a
do susto. Por um esfôrço de
vontade o tremor parou, a carabina tomou firme a
direcção
que eu
lentamente lhe dava, e como ao atirar a um alvo, quasi fui sorprendido
pêlo meu proprio
tiro. Passou ràpida a nuvem de fumo, e nada vi no sitio onde
segundos
antes se mostrava a cabêça da soberba fera.
Carreguei
novamente o cano vazio, e com dois tiros promptos, dei volta ao
massiço. Para o lado
do Norte seguiam as pégadas de um leão, mas de um
só. O outro estava ainda ali. Aventurei-me no cerrado de
arbustos, e entre um tufo d'hervas vi o corpo inerte do rei das
florestas Africanas. A bala
express
esmigalhando-lhe o cràneo, cortara-lhe de golpe a vida.
Chamei gente, e n'um
momento a pelle e garras fôram-lhe arrancadas.
Na massa encephàlica foi encontrada a bala que produzio a
morte.[
5]
Ao largar a margem, principiámos a sentir, mal distincto, um
ruido longinquo, semelhante ao do mar revolto quebrando nas rochas das
praias. Devia ser uma cataracta, e essa idéa, que logo me
occorreu,
foi confirmada pêlos remadores. Pouco depois, os
filões basàlticos multiplicavam-se, formando
paredões naturaes, sempre no
sentido E.O.; mas, ao contrario do que tinha acontecido até
ali,
o rio ja
levava uma corrente ràpida que tornava perigosissimo o
navegar.
Um bando de Malancas que vimos na margem direita, obrigou-me de
nôvo a parar, e conseguindo eu matar uma, proseguindo na
viagem depois de nova interrupção de uma hora.
Figura
112.--Acampamento na Sioma.
Pêla tarde, fomos acampar junto das aldeas da Sioma,
estabelecendo o meu campo sôb uma gigante
Figueira-Sycòmoro, perto do
rio.
A viagem d'esse dia foi de cinco horas e meia, sempre a rumo S.S.E.
N'essa noute o meu sono foi acalentado pêlo ruido da
cataracta de Gonha, que, a jusante dos ràpidos da Situmba,
interrompe a
navegação do Zambeze.
No dia 4, logo de manhã, depois de ter comido um prato
enorme de ginguba, presente do chefe das
povoações, tomei
um guia e dirigi-me para as cataractas. O braço do Liambai
cuja
margem esquerda eu
descia, correndo a principio a S.E., vai vergando para O.,
até
que
chega a correr perfeitamente E.O.; e n'essa
posição
recebe dois outros braços do rio, que formam três
ilhas
cobertas de
vegetação esplèndida. No sitio onde o
rio
começa a curvar para O., ha um desnivelamento de
três metros em 120, formando os ràpidos da
Situmba. Depois
da
juncção dos três braços do
Zambeze, toma
elle uma largura de seiscentos
metros apenas, e logo ali deita um pequeno braço a S.O.,
pouco
fundo e
obstruido. O resto das àguas encontram um corte transversal
de
basalto, com um desnivelamento ràpido de 13 metros, e n'elle
se
precipitam
com fragôr immenso.
O corte é N.N.O., e forma três grandes quedas,
duas aos lados, e uma no meio. Por entre as rochas que separam as
três grandes massas
de àgua, cahem um sem-nùmero de cascatas de
maravilhoso
effeito. Ao
Norte, um terceiro braço do rio continúa a correr
no
mesmo
nivel superior da cataracta, e despenha-se no ramo principal em cinco
cascatas lindissimas, a ùltima das quaes fica quatrocentos
metros a
jusante da grande queda. Ahi o rio encurva de nôvo a S.S.E.,
estreia a
45 metros, e conserva uma corrente de 150 metros por minuto.
Os diversos pontos-de-vista que se gozam da borda sôbre
tôdo o espaço das quedas, sam sorprendentes, e
nunca vi em paiz algum dos que tenho visitado, paizagem mais bella.
Gonha não tem a imponencia das grandes cataractas. Ali a
paizagem é suave, variada e atrahente. A mistura da floresta
pomposa, com a rocha e com a àgua, estam harmonizadas, como
por
mão de
artista habil em tela primorosa.
Figura
113.--Cataracta de Gonha.
Mêsmo o despenhar da àgua no abismo,
não causa ruido pavoroso, e é de certo amortecido
pêla vegetação enorme
que a rodea.
Mappa:
Alto Zambeze --
Cataractas de Gonha
Ali não se elevam vapôres, que convertidos em
chuva alaguem as visinhanças; ali o accesso é
livre a
tôda a parte, parecendo que a natureza se comprazeu a tornar
facil a visita á sua bella
obra. Gonha é como a casquilha que se mostra, que se deixa
contemplar, para que a admirem.
Depois de levantar a planta da grandiosa cataracta, demorei-me ali
até á noute, não cançando
os olhos de ver
tão esplèndido quadro, em que a cada momento
descobria uma nova belleza.
Voltei ao meu campo, saudoso pêla lembrança de que
não veria mais em minha vida, o espectàculo
sublime que deixava para sempre.
No dia 5, fui ver o caminho por onde deveriam passar os barcos para
jusante da cataracta, e era elle por floresta espêssa, e
não inferior em extensão a cinco
kilòmetros,
porque em
tôda essa extensão o Zambeze, apertado em margens
de rocha
apenas distanciadas de 40 a 50 metros, conserva uma velocidade de 150
metros por minuto, e é tal o
referver das àguas, que impossivel é navegar
nelle.
Este espaço estreito a jusante da cataracta de Gonha,
chama-se o Nanguari, e termina por uma pequena queda do mesmo nome.
O ponto onde recomeça a ser navegavel chama-se o Mamungo.
A passagem dos barcos por terra foi feita por gente das
povoações da Sioma,
povoações de Calacas ou escravos,
governados por un chefe Luina, mandados, estabelecer ali pêlo
governo do Lui expressamente
para o serviço de carregarem os barcos por terra;
serviço a que sam obrigados sem terem direito a
retribuição alguma.
Foi fatigante aquelle trabalho, e eu fiquei verdadeiramente penalizado
de não ter nada que desse áquelles
desgraçados, que tão humildemente se prestam a
trabalho tão rude.
O Zambeze em Mamungo alarga a duzentos metros, mas continúa
apertado em cinta de rocha, onde estam marcadas as cheias por
traços
horizontaes provenientes dos depòsitos das àguas
lodosas. Por
esses traços vi que as àguas se elevam ali a 10
metros, nas màximas
cheias, acima do nivel de então, que deveria ser o
mìnimo proximamente.
Logo que sôbre as rochas basàlticas
começa a haver terra vegetal, principia uma
vegetação frondosa. O aspecto do
Zambeze n'aquelle ponto assemêlha o do Douro no seu
têrço medio,
com a differença apenas, de que n'aquelle o granito
é substituido por basalto.
Depois de ter navegado por espaço de hora e meia, encontrei
a foz do rio Lumbé, onde parei. Este rio vem do N., e tem,
pròximo da embocadura, 20 metros de largo, por um e meio de
fundo. Cem metros antes de entrar no Liambai, é-lhe superior
de
trinta metros, e por isso
despenha-se em cascatas, que seriam talvez lindissimas se ali perto
não
ficasse Gonha.
Segui, depois de ter visitado a foz do Lumbé, mas n'esse dia
apenas naveguei por mais duas horas; porque, tendo visto uns ongris,
acampei, e fui caçar. Consegui matar dois
antìlopes, que
nos
demorámos a preparar; decidindo não navegar mais
n'aquelle dia.
No dia 7, deixei o acampamento, e tendo navegado uma hora, encontrei a
cataracta Cale.
Figura
114.--Passagem dos barcos
em Gonha.
Ali o rio corre a S.E., e toma uma largura de novecentos metros.
Três ilhas o dividem em quatro ramos. O segundo, de oeste,
é o
que contém maior volume d'àguas, mas é
tambem aquelle em que
o desnivelamento é mais ràpido.
Nos outros braços o desnivelamento, que é de
três metros, produz-se em cem de extensão,
enquanto n'este não se estende a
mais de quarenta. Tôdos os canaes sam obstruidos com
rochêdos
desencontrados, onde as àguas resaltam com fragor immenso.
Descarregámos os barcos, que fôram arrastados por
um canalête junto á margem direita, e logo a
jusante da queda reembarcámos e
seguímos viagem. Meia hora depois, passàvamos uns
ràpidos,
onde só pequenos canaes sam praticaveis, e por onde os
remadores governáram
as pirogas com prodigiosa destreza.
Figura
115.--Cataracta de Cale.
Pouco depois, outros ràpidos fôram passados com
igual felicidade; sendo o resto da navegação
d'esse dia por entre pontas
de rochas açoutadas por violenta corrente d'àgua,
sem que outros desnivelamentos
ràpidos apparecêssem.
Ao acampar, eu sentia-me gravemente doente. A febre havia recrescido, e
a falta de alimentação vegetal era sensivel. O
dormir sempre ao relento, e o nenhum resguardo que era
forçado a
ter, tendo de
sustentar a minha gente pela carabina, faziam peiorar o meu padecer
constante. N'essa noute, rebentou sôbre nós uma
violenta
trovoada, e
com ella cahíram as primeiras gôtas
d'àgua
d'aquella nova
èpocha das chuvas.
O dia 8 de Outubro veio encontrar-me mais doente, mais abatido de
côrpo, mas não mais fraco de espìrito.
Segui viagem, e
meia hora depois, encontrava os grandes ràpidos de Bombue.
O rio forma um grande ràpido central, onde o desnivelamento
é de 2 metros. Do lado de Este três
canalêtes obstruidos
por innùmeras rochas, e de Oeste um canal mais largo, onde o
desnivelamento é mais
ràpido.
A montante dos primeiros desnivelamentos, uma ilha coberta de
vegetação divide o rio em dois braços
iguaes.
Bombue tem mais dois desnivelamentos, sendo o segundo trezentos metros
a jusante do primeiro, e o terceiro duzentos metros a jusante d'este.
Tôdos estes
ràpidos sam cheios de pontas de rochas desencontradas,
tornando
impossivel a navegação.
Os barcos descarregados fôram lascados junto a terra,
operação fadigosa, que levou muito tempo.
Figura
116.--Rapidos de Bombue.
Pozémos os barcos a caminho, encontrando um
ràpido que sem querer passámos embarcados com
inaudita
felicidade; e depois de 4
horas de viagem, parámos junto á confluencia do
rio
Jôco. Viajei n'esse dia por entre ilhas de uma belleza
admiravel,
que apresentavam os panoramas mais pintorescos á minha
vista,
fatigada da monotonia do planalto
Africano.
N'essa tarde, estando a repousar, fui acordado em sobresalto por os
nêgros, que tinham visto perto alguns elephantes. Apesar do
meu mao estado de saude, tomei a carabina e segui-os.
Na margem do Jôco avistei eu os enormes pachidermes, que se
enlodavam n'um paúl.
Tomei-lhe o vento e approximei-me cauteloso. Eram sete soberbos animaes.
A floresta espêssa que descia até junto ao
paúl, permittio-me approximar-me sem ser visto.
Por um momento contemplei aquelles gigantes da fauna Africana, e
não posso occultar que tinha remorsos prematuros de lhes
fazer
mal. A necessidade venceu o escrúpulo, e atirei ao mais
pròximo, dirigindo-lhe a bala ao frontal. O colosso oscillou
um
momento, sem mover as patas, e dobrando os joêlhos, foi
cahindo
de vagar sôbre
elles--posição que conservou um momento, tombando
depois
para o lado, e fazendo tremer a terra com o baque enorme.
Os outros seis atravessáram o rio Jôco em
apressado trotar, e desapparecêram na floresta.
Acerquei-me do inoffensivo quadrùpede, e ao contemplar a
minha obra de destruição, não pude
deixar de olhar
para mim, depois de olhar para elle, e de me achar bem pequeno. O meu
estado era tão
melindroso, que ja não pude voltar por meu pé, e
tive de ser
amparado pêlos nêgros para chegar ao acampamento.
No dia immediato estava peior, e sobreveio-me uma grande
inflammação do fìgado. Deitei
causticos, que pulverizei de quinino depois
de cortados.
A doença não me permittia partir n'aquelle dia, e
resolvi ficar ali até experimentar melhoras. N'esse dia
aconteceu ao meu Augusto a mais extraordinaria aventura de que tenho
tido conhecimento. Atirou a um
bùfalo que ferio, e que correu ràpido sobre elle.
Augusto tirou o machado, e no momento em que a fera baixava a
cabêça para lhe marrar, atirou-lhe um golpe
á fronte, com a sua força
hercùlea.
Homem e bùfalo roláram por terra. A gente que
estava perto do meu valente nêgro, julgára este
morto, quando
víra o feróz ruminante levantar-se e fugir.
Augusto levantou-se, e àlém
do abalo do choque, não
tinha soffrido nada.
Os nêgros acercáram-se d'elle, quando o meu
muleque se abaixou, e depois de apanhar o machado, apanhou,
tão admirado como os que o
viam, um côrno do animal, cortado cerce pêlo golpe
vigoroso.
Nas matas da região das cataractas, ha o Cuchibi, o Mapole,
o Opumbulume e a Lorcha, frutos que mais ou menos se encontram no
planalto, e
àlém d'esses, dois frutos privativos d'ali, a
Mocha-mocha, e o Muchenche. Este ùltimo é muito
sacharino, e d'elle fiz eu um
refresco muito agradavel.
Os causticos pulverizados de quinino, e três grammas d'elle
que introduzi no organismo, em três
injecções hypodèrmicas a curtos
intervallos, acalmáram o meu estado febril, e no dia 10
levantei-me com sensiveis melhoras. A primeira noticia que me
déram foi que
o meu Augusto desapparecera desde a vèspera, e
não
tinha sido encontrado por alguns homens que o fôram procurar
ao mato.
Esta noticia deu-me grande cuidado, porque o Augusto é de um
atrevimento louco, e fêz-me recear uma desgraça.
Mandei
gente
em tôdas as direcções a buscal-o, e eu
mesmo fui
com alguns homens, apesar do meu estado, e do muito que me faziam
soffrer os causticos. Fôram infructuosas
as nossas pesquizas, e da excursão apenas
trouxémos dois
seb-seb (
Rubalis lunatus)
que eu matei, e muitas
varas de madeira, que os
Luinas colhêram proprias para astes de azagaias, e que sam do
mesmo
pao de que fazem os remos. Chamam-lhe Minana.
De volta ao campo, secámos ao fôgo muita carne dos
antìlopes.
Esta região, a que chamam o paiz de Mutema, é
abundantissima de caça da floresta, e desde o elephante
até á codorniz, ha
milhares de animaes de tôdas as familias, gèneros
e especies do planalto
Africano. No Zambeze, ao contrario, escaceia a caça
d'àgua,
abundantissima na região das planicies.
Pêla tarde appareceu o meu Augusto, dizendo que se tinha
perdido na floresta, e que encontrara uma
povoação de
Calacas, onde lhe tinham furtado tudo o que elle trazia, excepto a
espingarda.
Os Luinas, ouvindo isto, declaráram que iam
desforçar o Augusto, e por mais esforços que
empreguei não consegui
contel-os.
Alta noute voltáram os marinheiros, carregados com os
despojos do saque, e entre elles vinha o casaco do meu muleque.
É costume d'elles, logo que encontram
povoações de Calacas na região das
cataractas,
saqueal-as e destruil-as. N'essa noute o meu estado de saude
aggravou-se bastante, mas apesar de me sentir gravemente doente, dei
ordem de partir no dia immediato.
Uma hora depois de ter deixado a foz do rio Jôco, encontrei
os grandes ràpidos de Lusso.
Desembarquei e segui por terra, fazendo três
kilòmetros em três horas.
O rio em Lusso toma uma grande largura e divide-se em muitos ramos,
formando ilhas cobertas de vegetação
esplèndida.
Depois do bello panorama de Gonha, nada vi mais bello do que os
ràpidos de Lusso.
Embarquei de nôvo por baixo dos ràpidos, e tendo
navegado por duas horas, parei a montante da cataracta de Nambue.
As ilhas, com a sua vegetação pomposa,
continuavam a apresentar os mais atrahentes aspectos.
Decidi passar a cataracta n'esse dia, e houve grande trabalho, com a
pouca gente de que dispunha, para arrastar os barcos por terra. Levou
quatro horas aquelle fadigoso lidar, mas consegui dormir a jusante da
queda.
A cataracta de Nambue tem quatro desnivelamentos: o primeiro
é de meio metro, o segundo, 150 metros a jusante,
é de
dois metros, e perfeitamente vertical, o terceiro, 60 metros abaixo,
é de
um metro, e o ùltimo, tambem de 1 metro, fica a 100 metros
d'este.
Occupam por isso as quedas uma extensão de 310 metros. O
Zambeze corre ali N.S., mas logo abaixo verga a S.O. para tornar a
tomar o seu curso regular a S.S.E.
Durante a noute estive á morte. A febre intensa devorava-me,
e nunca pensei chegar a ver nascer o dia 12 de Outubro, dia sempre
festivo para mim, por ser o anniversario de minha mulhér. As
repetidas
injecções hypodèrmicas de sulphato de
quinino em
alta dose,
conseguíram dominar a febre. Eu chamei o Verissimo e
Augusto, e
entreguei-lhes os meus trabalhos, recommendando-lhes, que, se eu
morrêsse,
proseguissem na viagem até encontrar o missionario, e lh'os
entregassem.
Fiz-lhes ver, que o Mueneputo os recompensaria bem se elles salvassem
aquelles papéis, e os entregassem em mão segura,
que os fizesse chegar a Portugal.
Ás 6 horas da manhã do dia 12, senti um grande
allivio e decidi seguir viagem.
Parti ás 6 e meia, e ás 7 e 15 minutos, passei
uns pequenos ràpidos, e logo abaixo outros, mais
desnivelados, extensos e perigosos.
Entestámos ao ùnico canal praticavel, e logo que
o barco se achou
envolvido na corrente, um hippopòtamo veio resfolgar a
jusante.
Estàvamos entre Scylla e Charybdis, ou a fera ou o abismo.
Tornámos a
entestar com a corrente e subindo o rio, por uma habil manobra,
pozémo-nos
a coberto do perigo junto a um rochêdo quasi em
sêco.
Figura 117.--Nos
ràpidos.
O barco da carga, receando o cavallo-marinho, desviou-se do canal, e
foi impellido com velocidade enorme de encontro ás rochas de
um
canalête obstruido. Nunca pensámos que se
salvasse, mas
elle derivou
por entre as fragas e passou o perigo, tendo recebido apenas um golpe
de
àgua que quasi o encheu.
Ás 7.50, outros ràpidos, e ás 8, uns
muito desnivelados e extensos. Quizémos sahir em terra,
porque sentiamos a jusante um ruido
enorme, semelhante ao rebombar dos trovões pêlos
alcantiz
das serras, que nos fez recear grandes ràpidos, ou uma
cataracta impossivel de
transpor. Foi baldado esfôrço. A margem mais
pròxima,
a esquêrda, ficava-nos a 600 metros, e a corrente
ràpida, quebrando-se entre os
cabêços basàlticos, e resaltando em
ondas de espuma, tornava impossivel o abeirar
á margem. Sam momentos indescriptiveis estes.
Levado por uma corrente vertiginosa, tendo diante de si o desconhecido,
presentindo o perigo imminente a cada desnivelamento do rio que se lhe
mostra, arrastado de voragem em voragem pêlos
turbilhões da àgua revôlta, o homem
experimenta a
cada momento
sensações novas, e cem vêzes soffre a
agonia da
morte, para sentir outras tantas o prazer da vida. Das 8 horas e 5
minutos ás 8 e 40, passámos seis
ràpidos de pequeno desnivelamento; mas a essa hora, uma
queda
desnivelada de um metro se nos apresentou na frente. Semelhante ao
homem que, em corrida, estaca por um movimento instinctivo, ao ver o
abismo aberto sôb o
seu caminho, o meu barco, como se fôsse animado, parou, por
um
impulso dos
remos; machinal e inconsciente nos tripulantes. Esse momento de
hesitação produzio o desgovêrno, e a
comprida
piroga atravessou na
corrente, e saltou ao abismo, na corôa de espuma de uma onda
enorme. Foi
um segundo, mas foi o peior momento da minha vida. Era a Providencia
que nos salvava. Se o barco tivesse atestado de prôa com a
voragem,
seria submergido, e estariamos perdidos. O desgoverno d'elle foi-nos a
salvação. Logo abaixo d'estes, outros
ràpidos menores; e então fizémos
fôrça de remos para uns rochêdos, que a
meio rio estavam collocados em ponto onde a corrente era mais fraca.
Abeirámos a elles, e
estivémos a tirar àgua e a arrumar as cargas,
desarranjadas
pêlo abalo dos ràpidos. Segui ás 8 e 55
minutos, e
logo, ás 9 e 15,
encontrámos novas cachoeiras. Ás 9 e 25, os
grandes
ràpidos da
Manhicanga. Ás 9 e 30, outros; e d'ahi aos grandes
ràpidos da Lucanda, que
passámos ás 11 e 8 minutos, saltámos
em sete
cachoeiras mais. Depois de
passarmos um pequeno ràpido, encontrámos a
cataracta de
Catima-moriro (
apaga o
fôgo) ao meio-dia.
É Catima-moriro o ùltimo desnivelamento da
região superior das cataractas do alto Zambeze. D'ali
até á nova
região de ràpidos, que precede a grande cataracta
de Mozi-oa-tunia, o rio é
perfeitamente navegavel.
O espìrito tambem se fatiga como o côrpo, e foi
verdadeiramente fatigado de espìrito, que eu cheguei ao
têrmo d'essa
perigosa jornada do dia 12, jornada que não posso relembrar
sem terror. As
commoções d'aquelle dia tinham sárado
o côrpo, e achava-me sem febre, mas
muito fraco. Appareceu muita caça, mas a minha fraqueza e as
dôres que me
produziam os causticos ainda abertos, não me
permittíram
caçar.
O curso do rio foi sempre a S.S.E.
D'ahi em diante, o rio torna a ter o mesmo aspecto do Barôze,
planicies enormes, fundo de areia, e nem mais um rochêdo. As
margens
sam formadas por camadas sobrepostas de argila esverdeada. O vento
leste era de
nôvo fortissimo, e encrespava a superficie das
àguas, levantando
ondas bastante grandes. Apesar d'isso, segui a 13, e fui acampar junto
da povoação de Catongo. De nôvo tinha
peorado, e era prostrado pêla febre que me mettia no barco
para seguir.
Ali em Catongo encontrei a minha gente, que tinha deixado na foz do
Jôco, e que chegou n'essa noute.
Sube, que na vèspera tinham corrido um eminente perigo,
sendo atacados por um bando de leões. Subindo para cima de
àrvores podéram escapar-lhe, mas
estivéram muito tempo cercados por elles. A minha
cabrinha Córa foi içada por um pano que lhe
atáram aos cornos, e
estêve amarrada a um tronco junto de Augusto. O Augusto matou
um dos leões,
atirando-lhe de cima da àrvore, e trocou em Catongo a pelle
d'elle por uma
grande porção de tabaco.
No dia 14, naveguei a leste, direcção que toma o
Zambeze, e fui acampar, pêla tarde, ja perto da
povoação do
Quisseque.
O rio continúa a dividir-se, formando grandes ilhas, mas
não como as da região das cataractas. Sam
canaviaes monòtonos,
que cançam a vista.
Tivémos n'esse dia pescadores, que nos fornêceram
abundante peixe. Fôram os Uanhis, como lhes chamam os Luinas,
e que não sam mais do
que
pygargos
gigantêscos que povoam as margens do
rio.
Fôram perseguidos alguns, que abandonáram o peixe
que levavam.
Uma d'essas Àguias aquàticas, tinha nas garras
poderosas um peixe mais corpulento do que uma pescada, e levou-o
fugindo dos meus remadores, sem que mostrasse
esfôrço ao
voar.
Todavía, a maior parte abandonavam a prêsa, para
fugir mais ràpidamente.
Estes pygargos do Zambeze, que não vi acima da
região das cataractas, t[~e]m a cabêça,
o peito e a cauda completamente
brancos, e as azas e costas de um nêgro de èbano.
Sam exactamente como a especie Americana descripta com o nome
de
pygargo
de cabeça branca, mas menos corpulenta do que a
ave que serve de emblema ao pavilhão dos Estados-Unidos.
No dia 15 de Outubro, cheguei de manhã ao Quisseque, tendo
navegado por uma hora a leste.
Não quiz ir para a povoação, ja
desconfiado do gentio, e fui acampar no meio do caniçal de
uma ilha fronteira. Mandei prevenir o
chefe de que estava ali, e deitei-me abrasado em febre, que de
nôvo
reapparecera intensa.
Pouco depois da minha chegada, appareceu na ilha um homem trajando
á Européa, que, pêla côr de
café com leite da pelle, eu reconheci ser um filho das
margens do Orange.
Disse-me, por intermedio do Verissimo, usando da lìngua
Sesuto, que era criado do missionario, e estava ali esperando a
resposta do rei Lobossi a respeito de seu amo. Por elle sube, que o
missionario era Francez, o que sôbre modo me fez admirar.
Este
homem, que se chamava
Eliazar, vendo-me muito doente, mostrou por mim carinhos que nunca vi
em
nêgro.
Dizendo-lhe eu, que vinha de propòsito procurar seu amo,
elle
manifestou-me o seu contentamento, e assegurou-me, que o missionario
era o melhor homem do mundo.
Eu não sei explicar porque tive um prazer enorme sabendo que
o meu homem era Francez, mas é facto que o tive.
Estava eu conversando com Eliazar, quando chegou o chefe, cujo nome
é Carimuque, mas que tambem é conhecido
pêlo de
Moranziani, nome de guerra dos chefes do Quisseque.
Disse-lhe, que queria seguir viagem no dia immediato, porque estava
muito doente, e precisava encontrar o missionario, para elle me dar
remedios.
Preveni-o de que não tinha vìveres, nem com que
os comprar, e elle prometteu-me mandar n'esse dia mesmo comida para mim
e para os meus.
N'essa tarde os meus remadores começáram a gritar
que não deixariam o Quisseque sem serem pagos. Eu chamei-os
e fiz-lhe ver, que
não tinha nada que lhes dar. Que o marfim só
poderia ser convertido em
fazendas logo que eu chegasse ao missionario que as deveria ter, e por
isso para serem pagos era preciso seguir ávante.
Elles parecêram convencer-se com o meu argumento. Passei uma
noute horrivel no caniçal da ilha. Eram cobras que
perseguiam
ratos, e ratos a fugir de cobras, os companheiros que tive em
tôrno de mim. A
febre augmentou. Carimuque veio ver-me na manhã de 16, e
trouxe-me
um presente de massamballa e uma pequena porção
de farinha de
mandioca.
Declarou-me elle, que os marinheiros se recusavam a seguir sem serem
pagos, e que por isso mandasse eu recado ao missionario para elle me
mandar as fazendas, e esperasse ali os enviados.
Recusei terminantemente fazel-o, e declarei-lhe, que lhes
não pagava se elles não seguissem no dia
immediato.
Depois de grandes
debates, em que fiz prova de enorme paciencia, e em que Eliazar
pleiteava por mim, repetindo cem vêzes, que seu amo, logo que
me
visse, pagaria
tudo o que elles quizessem, ficou resolvido que no dia 17 nos
porìamos
de nôvo em viagem.
N'esse dia chegáram ali os enviados que Carimuque mandara ao
Lui com a mensagem do missionario.
Como se sabe, e eu ja narrei no comêço d'este
capìtulo, Matagja opposera-se formalmente ao ingresso do
missionario no paiz do Lui. A resposta do rei Lobossi, dada por
Gambela, vinha cheia de hypocrisia, e não era uma negativa
formal.
Mandavam dizer-lhe, que muito estimariam que elle fôsse para
ali; mas que, n'aquelle momento, as guerras e a falta de commodidade
que poderiam offerecer-lhe em Lialui, cidade novamente construida,
fazia com que elles lhe pedissem, que se fôsse embora, e
voltasse
no anno
seguinte. Para Carimuque vinha uma ordem positiva para não
lhe
dar
meios de elle seguir para o Norte. Eliazar, que ficou muito triste com
a mensagem do rei Lobossi, continuou fazendo-me companhia, e falando-me
sempre de seu amo a quem tecia verdadeiros panegyricos.
Nesse dia, ás 4 horas da tarde, desencadeou sôbre
nós uma horrivel trovoada, que despejou copiosa chuva
até ás 6
horas. Carimuque veio ver-me de nôvo, e trouxe-me duas
gallinhas.
Parti ás 9 horas do dia 17, e depois de navegar por duas
horas e meia, encontrei a foz do rio Machila. Naveguei a E.S.E.
O rio Machila tem ali quarenta metros de largo por seis de fundo, mas
de certo influe n'esta altura a àgua do Zambeze que o
represa.
Corre em uma planicie enorme, onde pastam milhares de
bùfalos, zêbras e grande variedade de
antìlopes. Vi ali muitos coroanes, e
presenciei um effeito de miragem sorprendente, apresentando-me
tôda aquella
manada heterogènea, de patas para o ar.
Nunca vi tanta caça junta como ali, é ella muito
esquiva, e não deixa approximar a menos de duzentos metros.
Pude matar uma zêbra, que nos forneceu òptima
carne, muito melhor do que a de qualquér
antìlope. Depois de duas horas de
demora ali, segui viagem, e naveguei por duas horas e meia mais,
parando, ás 5
da tarde, por vermos na margem uma àrvore velha trazida
pêla
corrente, onde fomos fazer provisão de lenha para a noute.
Foi um verdadeiro
beneficio aquella àrvore, sem a qual não teriamos
lenha
para cozinhar em campinas despidas de arvorêdo.
Quando ìamos a seguir, appareceu um prêto,
gritando que os outros barcos tinham amarrado muito acima e acampado
ali a gente. Tivémos
que voltar a traz, por não termos provisões no
meu barco, e ir
a carne na barco da carga.
Só ás 6 e 30 minutos, ja noute, juntei a minha
gente, e acampei com elles.
N'essa occasião ja iam tôdos embarcados, porque
Carimuque tinha pôsto dois barcos grandes á minha
disposição, e n'elles eu havia accommodado
Augusto, as mulheres, os pequenos e a minha cabrinha.
Calungo, o papagaio, esse viajou sempre comigo.
Carimuque tinha-me feito um presente valioso, n'uma
porção de farinha de mandioca, o melhor alimento
que ali podia ter, para mim tão
doente e tão debilitado.
N'essa noute quiz comer uma pouca de farinha, e fui encontrar o
saquinho que a continha completamente vazio.
Entrando em averiguações do caso, sube que
fôra o meu muleque Catraio que a furtara e comêra.
N'essa noute, um drama terrivel passou-se junto do meu campo, no meio
das trevas.
Foi o combate cruento entre um bùfalo e um leão,
que terminou pêla morte d'aquelle em arrancos de agonia, ao
passo
que o seu vencedor dava prolongados rugidos, acompanhados por um
côro de hyenas. De
manhã, a 100 metros do acampamento, fomos encontrar os
despojos
do
bùfalo, cuja cabêça estava intacta, e
do qual
existiam apenas
ossos e farrapos de carne deixados pêlas hyenas.
Segui viagem, e depois de cinco horas de
navegação, entre ilhas divididas por
canalêtes, formando um systema complicado,
aportei sôbre um ràpido desnivelado de um metro,
primeiro elo da cadea de
cachoeiras que vai terminar pêla grande cataracta de
Mozi-oa-tunia.
Com o basalto reapparece a floresta lindissima, onde, entre outras
àrvores, sôbressahem já os baobabs,
esses gigantes da flora Africana, que eu não via desde
Quillengues.
Desembarquei, e fui deitar-me á sombra de um d'esses
colossos vegetaes.
Tinha terminado a minha navegação no alto
Zambeze, e d'ali até encontrar o missionario o meu caminhar
era de nôvo a pé.
A povoação de Embarira distava seis milhas do
ponto onde eu estava, e para lá partíram os
marinheiros com as cargas.
Eu adormeci, e só acordei por noute escura. Só o
Verissimo, Camutombo e Pépéca estavam junto de
mim.
Perguntei-lhes
¿porque estàvamos ainda ali? respondendo-me o
Verissimo,
que não tinha querido
interromper o meu sono. Apesar do escuro da noute, ia pôr-me
a
caminho, quando
reparei que não tìnhamos uma só arma.
O Verissimo,
que de vez em quando fazia asneira, deixara levar as minhas armas para
Embarira. Não
fiquei socegado, vendo-me sem armas no meio de uma floresta infestada
de feras. Mandei-os logo juntar lenha para fazer uma fogueira, mas
ás
escuras elles nenhuma encontravam que servisse.
Pépéca lembrou-se então de ter visto
perto de nós um barco velho, que effectivamente
encontrámos, mas a dura madeira do Mucusse
resistia ao corte da minha faca de mato.
Lembrei-me de o jogar como arìete contra o tronco do baobab,
e logo nós três dando-lhe o movimento de vai-vem,
o
lançámos com a màxima
fôrça. A canôa fez-se em rachas na parte
que soffreu o choque. Esta
operação, repetida algumas vêzes,
forneceu lenha e com ella uma
bôa fogueira.
Estàvamos dispondo-nos a dormir ali, quando
sentímos gente, e logo appareceu o Augusto com alguns
homens, que vinham procurar-me.
Parti com elles, e cheguei a Embarira pêla meia noute. O
chefe da povoação tinha-me preparado uma casa,
onde me
recolhi cheio de febre e fadiga.
Estava em Embarira, na margem esquêrda do rio Cuando, cujas
nascentes havia descoberto e determinado três mezes antes.
Estava pròximo a alcançar o missionario, de quem
esperava auxilio para poder continuar a minha viagem, e estava em
vèspera de novas
aventuras, que não calculava ainda.
O estado da minha saude muito melindroso, a dùvida no
futuro, as apprehensões do presente, e milhares de
persovejos, que
tinha a casa onde me recolhi, fizéram-me passar uma noute
atribulada.
Depois, uma outra idéa, não me sahia da mente. Ao
chegar ali, sube, que um branco (Macua), que não era nem
missionario nem
commerciante, estava acampado de fronte de mim, na outra margem do
Cuando.
¿Quem seria o meu companheiro n'aquellas remotas paragens?
Ardia em curiosidade, e contava os instantes para o alvorecer do dia
seguinte.
CAPÌTULO
SUPPLEMENTAR.
A pàginas 184, em capìtulo anàlogo a
este, tratei por modo succinto, dos paizes comprehendidos no meu
caminho entre a costa de Oeste e o
Bihé.
N'este capìtulo buscarei epitomar o que nos meus trabalhos
escolhi de mais interessante, relativo ao vasto territorio que medea do
Bihé ao curso superior do rio Zambeze, até onde
termina a narrativa
da minha viagem na pàgina antecedente.
Apresentando um resumo das minhas determinações
astronòmicas, dos meus estudos meteorològicos,
etc., sem pedantismo o
faço, e creio apenas, n'isso cumprir um dever, tornando
pùblicos um certo
nùmero de estudos e trabalhos de que fui encarregado, e que,
se não interessam a
alguns leitores, podem merecer attenção de outros.
Sem querer alcunhar-me de sabio, declarar-me ignaro seria
affectação.
Àlém da carta geral d'Àfrica tropical
do sul, quiz eu apresentar algumas cartas parciaes dos paizes que mais
merecéram a minha
attenção no caminho que segui, por poder dar a
estas um
desenvolvimento de detalhes que a pequena escala d'aquella
não
comportaria.
Vou tratar d'esse enorme tracto de territorio, debaixo do ponto de
vista geogràphico, com tanto mais interesse, quanto elle
é desconhecido aos geògraphos; que nas suas
cartas o
t[~e]m preenchido
até hoje com linhas mal seguras, traçadas pela
mão
trèmula
da dùvida, colhida nas informações
pouco
idòneas e
contradictorias de gente ignara.
Um Europeo, Silva Porto, atravessou aquella parte da planura Africana,
antes de mim, e em grande parte muito mais ao sul do caminho que segui;
mas Silva Porto nunca publicou as suas interessantissimas notas, que
agora anda pondo em ordem; e é preciso dizer, que, se essas
notas dam um valioso subsidio ao estudo da ethnographia Africana, pelo
muito que a sua vista observadora perscrutou dos costumes e do viver
dos
nêgros, dam ellas um fraco auxilio ás sciencias
geogràphicas,
em que elle, por falta de elementos, não pôde
fazer um
trabalho
sério.
Sam paizes completamente novos á geographia aquelles que
apresentei nos antecedentes capìtulos, e de que vou tratar
n'este.
As coordenadas geogràphicas dos principaes pontos do meu
itinerario fôram calculadas dos elementos que adiante
publíco.
Começarei por descrever o systema fluvial d'esta parte da
planura Africana.
As ùltimas àguas que correm á costa de
Oeste nascem em tôrno do Bihé, dentro de um V
enorme formado por dois rios, o Cubango e o
Cúito, que, depois de se unirem em Darico, vam correr a S.E.
no Deserto do Calaari.
O systema fluvial da Costa Oeste, entre a foz do Cuanza e a do Cunene,
termina quasi ali; recebendo ainda o Cuanza alguns affluentes de Leste,
que vam buscar as suas àguas ao meridiano 18 E. Greenw.;
taes sam: o rio Onda, que ainda nasce dentro do àngulo
formado
pelo Cubango
e Cúito, e o Cuiba e o Cuime, que entrelaçam as
suas
nascentes com as do
Cúito e as de outro rio, o Lungo-é-ungo, que pelo
Zambeze
vai
lançar no mar Indico àguas bebidas nos charcos de
Cangala, por 18 de longitude; e
que percorrem a enorme distancia de mil quatrocentas e quarenta milhas,
para atingirem a meta que a natureza lhes marcou. A latitude destas
nascentes, que, em amigavel convivio, partilham as suas
àguas para pontos da terra tão distantes,
é
pròximamente de 12° e 30', isto é,
está n'essa faxa, comprehendida entre os parallelos 11 e 13,
onde nascem os dois rios gigantes da Àfrica Austral, o Zaire
e o
Zambeze, e
seus principaes affluentes.
Entre o Equador e o parallelo 20 austral, esses dois rios formam dois
systemas d'àguas perfeitamente definidos, mas que t[~e]m um
traço commum de união no parallelo 12 e na faxa
que borda
esse parallelo
60 milhas ao Sul e ao Norte, entrelaçando ali as suas
origens
muitos dos
grandes affluentes dos dois colossos, e formando de per-si cada um
d'elles um systema d'àguas que vai engrossar as duas
artérias principaes.
Assim pois, entre os meridianos 18 e 35 a leste de Greenwich, e os
parallelos 8 e 15 austraes, tôda a àgua que corre
ao Norte vai entrar no Atlàntico por 6°, 8', com o
nome de
Zaire;
tôda a que corre ao sul entra no Oceano Indico por
18°, 50',
com o nome de Zambeze.
Caminhando a E.S.E. afastava-me da bem pronunciada linha divisoria das
àguas dos dois grandes rios, e ao passo que os meus
ex-companheiros se entregavam ao estudo de um d'esses systemas
d'àguas filial
do Zaire, eu seguia passo a passo outro filial do Zambeze; e
á
medida que
avançava no interior do continente, esse systema ia-se
apresentando firmemente definido e claro.
Os paizes de que falei nos anteriores capìtulos, os mesmos
de que estou tratando aqui, sam a sede de um systema fluvial, que forma
um dos principaes, se não o principal, affluentes do Zambeze.
O rio Cuando, artèria principal d'este systema, nasce, por
18°, 57' de longitude, 12°, 59' latitude, n'um pequeno
charco
apaülado, superior ao nivel do mar em 1362 metros.
A sua foz, na confluencia com o Zambeze, está collocada em
17°, 49' de latitude, 25°, 23' de longitude, na altura
de 940 metros do
nivel do mar. A extensão do seu curso é de 540
milhas
geogràphicas, ou pròximamente mil
kilòmetros. O seu desnivelamento
da nascente á foz é de 422 metros, ou de um metro
em cada 2369 metros de curso.
Os affluentes do rio Cuando, pela maior parte navegaveis, representam
uma extensão de vias fluviaes não inferior a mil
milhas geogràphicas, ou pròximamente mil e
oitocentos
kilòmetros, que com
o curso d'aquelle rio perfaz um total superior a 1600 milhas, ou perto
de tres mil
kilòmetros. Estes algarismos enormes representam a
importancia
d'aquella parte do planalto Africano.
Forçando a minha marcha, entre mil difficuldades, pude
seguir a linha das nascentes do grande rio e seus principaes
affluentes, que
ficáram perfeitamente determinados nos seus cursos
superiores.
Aos traçados hypothèticos, a que a maior parte
dos geògraphos preferiam deixar na carta d'aquella parte
d'Africa um branco enorme, pude substituir um traçado firme
e
seguro do paiz ignoto.
O rio Queimbo, o Cubanguí, o Cuchibi e o Chicului, sam todos
rios navegaveis, banhando fèrteis paizes e promettendo um
futuro
áquella parte do continente nêgro, livre do
zê-zê, a môsca terrivel, que corta cerce
o porvir de muitos outros terrenos Africanos.
Agora, que em breves traços apresentei o grande e principal
systema d'aguas das terras comprehendidas entre o Bihé e o
Zambeze,
vou succintamente falar da sua orographia.
Para isso preciso antes dizer duas palavras da
constituição geològica do solo, que
facilmente explica os pequenos accidentes d'elle.
O solo Africano Austral é rocha das èpochas
primitivas. Se junto ás costas, nos terrenos baixos
observamos os depòsitos
sedimentares, e o trabalho da àgua, elles acabam ali, para
não
deixar perceber mais do que a acção do
fôgo.
Os calcàreos terminam nas escarpas oeste das montanhas que
formam os primeiros degraos do planalto. Succede-lhes immediatamente o
terreno plutònico, e encontramos até ao
Bihé o
granito primitivo, profusamente distribuido. Do Bihé para
leste
o granito vai
desapparecendo, e àlém Cuanza é
substituido pelos
xistos argilosos, e micaxistos.
É sempre o terreno eruptivo, mas debaixo da
acção do metamorphismo. Effectivamente, do Cuanza
ao Zambeze o solo é
metamòrphico.
Sam xistos e micaxistos, tornados de tal modo plàsticos,
pela acção das grandes àguas, que do
Bihé
ao Zambeze, se algum
viajante tencionar um dia ali atirar alguma pedrada, eu recommendo-lhe,
que leve pedras do Bihé e d'onde termina a região
granìtica, porque em todo o caminho que segui não
encontra uma só.
A natureza do terreno explica por si mesma o seu pouco accidentado, e a
falta de cataractas e ràpidos nos rios d'esta
região Africana. Em tôdo o caminho que segui ha
uma depressão constante no terreno
até ao leito do Zambeze, formando uma
inclinação suave. Esta
depressão é de 292 metros, em 720
kilòmetros, que medeiam da margem do rio Cuanza
á planicie do Nhengo.
A orographia d'aquella região é produzida pela
acção da àgua, e perfeitamente marcada
pelas depressões dos leitos dos rios.
30 a 40 metros acima do nivel das àguas correntes, se elevam
systemas de montes de cumiadas arredondadas e uniformes, acompanhando
sempre sem excepção o curso das àguas.
A flora que se nos apresenta no Bihé, e onde a planura
attinge a sua maior elevação, mais pobre em
àrvores,
mas riquissima em arbustos e plantas herbàceas; na parte
leste do paiz do
Bihé, e sobre tudo àlém-Cuanza,
já recupera, com a menor
elevação do solo, tôda a sua riqueza
tropical.
A caça, que escaceia desde o paiz do Huambo até
pròximo da nascente do Cuando, reapparece abundante d'ali
até ao Alto Zambeze. Seis
raças perfeitamente distinctas, e que os sertanejos da costa
confundem debaixo do nome genèrico de Ganguelas, assentam as
suas
povoações do Cuanza ao Nhengo.
O paiz a leste do Cuanza, na parte que é cortado pelos rios,
Cuime, Onda e Varea, e seus pequenos affluentes, é habitado
pelos
Quimbandes.
Do Cuito á nascente do Cuando, assentam as suas
povoações os Luchazes. Os affluentes de E. do
Cuando,
este mesmo rio, sam povoados de gentes de raça Ambuela.
Como disse na minha narrativa, o paiz dos Luchazes está
sendo invadido por uma emigração enorme de
Quiôcos
ou
Quibôcos, que tendem a estabelecer-se nas margens do rio
Cuito.
Entre este rio e o Cuando e muito para o sul, o paiz, sem
povoações fixas,
é com tudo occupado por uma grande
população
nòmada, os
Mucassequeres.
A margem sul do rio Lungo-é-ungo e seus pequenos affluentes,
sam habitados por os Lobares. Tres d'estas raças, os
Quimbandes,
Luchazes e Ambuelas, falam a mesma lìngua, o Ganguela, com
pequenas
modificações.
Os Quiôcos e Lobares falam dialectos differentes, e os
Mucassequeres uma lìngua original, tão diversa
das outras, que
é impossivel serem comprehendidos de povos estranhos.
Os Quimbandes sam indolentes e pouco guerreiros, pouco agricultores e
pobres em gados, occupando um paiz fertilissimo, em todas as
condições de dar a riqueza aos seus possuidores.
Formando federação, não deixam de
andar em questões continuadas com os vizinhos da mesma
raça.
Não sam bravos, mas sam ladrões, e atacam sempre
as comitivas do Bihé que vam negociar cêra mais ao
interior, logo que essas
comitivas sam fracas e elles conhecem que podem vencer.
É certo, logo que desfila uma comitiva no paiz, estarem
elles embuscados a contar as espingardas que traz, e o
nùmero de caixas de
pòlvora, que se distinguem pelo seu invòlucro de
pelle de leopardo,
costume adoptado pelos sertanejos Bihenos.
Se alguem entrar no paiz dos Quimbandes com 50 espingardas e seis ou
oito caixas de cartuxos, pode dormir descançado, que
só terá d'elles amizade e respeito.
Os Luchazes, um pouco mais agricultores do que os Quimbandes,
não possuem já rebanhos bovinos, e apenas ha aqui
e
àlém algum gado caprino de inferior especie.
Já cuidam de colher cêra, e sam um pouco mais
industriosos do que os seus vizinhos de oeste.
Em quanto a valor e honestidade, orçam pelo mesmo.
Constituidos em federação como aquelles, cada
povoação tem um chefe independente, um pequeno
senhor, que não se dá ares de tyranno com
o seu pôvo.
Os Ambuelas, de muito melhor ìndole, não sam nada
guerreiros. Sam talvez a melhor gente indìgena
d'Àfrica Austral.
Grandes cultivadores, não trabalham menos na colheita da
cêra. Sam pobres, podendo ser riquissimos se tivessem gados.
Formam federação como os outros, mas os chefes
conservam um pouco mais de independencia.
Em geral, vi n'Àfrica, que mais felizes e livres sam os
povos governados por pequenos senhores. Não se praticam ali
as scenas de
horror tão vulgares nos grandes imperios regidos por
autòcratas.
Se o roubo é vulgar, é desconhecido ali o
assassinio, ao passo que entre os grandes potentados o roubo vem depois
do homicidio.
Sem pertenções a propheta, quero crer, que, um
dia, será entre aquelles povos que se
estabelecerám os mais seguros elementos de
civilisação Europea n'Àfrica.
É minha opinião, que nos paizes occupados pelas
confederações Africanas, regidos por pequenos
règulos, de ìndole menos
guerreira, por se reconhecerem mais fracos, é que deve
entrar a
civilisação com mão forte, debaixo da
forma do commercio, do missionario e do explorador.
Divirjo, por tanto, da opinião do mais ousado dos
exploradores, do mais enèrgico trabalhador Africano, do mais
dedicado
apòstolo da civilisação do continente
nêgro, do meu amigo H. M. Stanley.
Diz elle, que devem os missionarios atacar a Àfrica pelos
grandes potentados.
Não penso assim, e o estudo dos factos demonstra-me o
contrario.
O Matebelle desde 25 annos que possue missionarios Inglezes, e
não ha ali um só Christão! Se o chefe
é
catechizado, o seu pôvo obedece e finge seguir a lei de
Christo.
É como a estàtua de Nabuchodonosor, tem pes de
barro aquella civilisação.
Môrra o chefe, venha outro que não queira trocar o
harém onde ceva a brutal lascivia, pelo thàlamo
nupcial onde uma só
espôsa lhe acompanhe os passos na carreira da vida, e cahio o
monumento, a
civilisação desfez-se, e não ha
àmanhã um
só christão na igreja que hoje regorgitava de
pôvo.
O commercio é bem recebido pelo grande potentado, porque
representa interesses immediatos materiaes de que elle colhe o fruto.
No Matebelle, onde os missionarios Inglezes não t[~e]m
podido fazer escutar a doutrina de Christo, os negociantes Inglezes
t[~e]m introduzido com o vestuario e com outras necessidades que t[~e]m
sabido crear, uma civilisação relativa.
Podem apontar-me o exemplo do Bamanguato, mas eu respondo com o que
já disse. Môrra o rei Khama, e vá ao
poder um sova
que não queira ser Christão, e tôdos os
cathequizados se
esvaïrám como fumo. Os negociantes
continuarám o seu tràfico, mas o missionario
terá de repetir com elle as orações do
Domingo, ás
pessôas de familia que o rodeam.
Digo-o sem receio de errar.
No Transvaal, entre pequenos règulos, vemos muitos
indìgenas que seguem a lei do Evangelho. No Basuto ha
Christãos convictos,
independente da influencia d'alguns chefes que o não sam.
Se os exemplos sam estes, aquelles que vêem no missionario o
primeiro mensageiro da civilisação Africana, que
ataquem
os pontos fracos do reducto, e não vam perecer ingloriamente
onde o cruzamento
dos fogos é mais activo.
Eu sou apologista do missionario, merecem-me a maior
consideração não só as
missões, em si mesmo, mas os seus membros espalhados no
meio dos povos bàrbaros do continente nêgro. Tenho
visto em
quasi todos os que conhêço a tendencia para
seguirem um caminho
differente d'aquelle que aponto.
Tôdos querem um grande nùmero de adeptos para a
catechese, sem olharem ao terreno em que semeam.
Uma vez que incidentalmente falei dos missionarios Africanos, vou
ràpidamente dizer duas palavras mais sôbre o
assumpto, que me proponho a ratar um dia largamente em obra adequada.
Eu francamente não creio o cèrebro do
prêto á altura de comprehender um certo
nùmero de questões, comezinhas entre povos
de raças evidentemente superiores.
As questões abstractas sam sublimes e incomprehensiveis a
tão inferiores organizações.
Explicar theologia a um prêto equivale a expor as
sublimidades do càlculo differencial a uma assemblea de
camponios.
Mas, se o prêto não está á
altura de poder jàmais comprehender as verdades da
religião de Christo, têm sem
dùvida o sentimento do bem e do mal, e está nas
condições de
comprehender os principios de moral commum.
Marchem para entre os povos ignaros d'Àfrica Central os
missionarios, sigam sem trepidar o caminho que lhes impõe a
sua
missão evangèlica, mas desvendem os olhos.
Tomem para si o que ha de abstracto na sciencia de Deus, e
não queiram ensinar aos nêgros o que ha de sublime
n'ella
para
cèrebros mais bem organizados. Ensinem moral e só
moral,
com o exemplo e com a
palavra; criem necessidades aos que a ignorancia faz prescindir de
tudo; criem-lhes necessidades, que ellas farám nascer o
trabalho,
e só por elle se regenera um pôvo.
Quero missionarios, mas quero missionarios do christianismo e da
civilisação, homens que compenetrados dos seus
devêres para com Deos e para com a sociedade, saibam firmar o
edificio social em
sòlidas bases; ensinando o bem e o trabalho, e tudo o que o
prêto possa
comprehender; esperando a occasião que o tempo, a
civilisação, não deixará de
trazer, se elle bem trabalhar, para ir pouco a pouco incutindo nos
ànimos as verdades da theologia e da moral.
Busque primeiro fazer do prêto um homem, que tempo
terá de fazer do homem um Christão. Seguir o
caminho contrario é
edificar na areia.
No correr d'esta obra terei ainda de falar nas missões
Africanas, e falarei desassombradamente com a consciencia de que presto
um verdadeiro serviço á causa das
missões e
á causa da humanidade, apontando erros de que ellas estam
eivadas.
O homem que mais poderia coadjuvar o missionario em Àfrica
seria o negociante.
Infelizmente o commercio sertanejo está em mãos
de bem tristes apòstolos da
civilisação.
Já falei dos Portuguezes, e com bem pesar meu tenho de
metter
estrangeiros em linha igual. Por um lado, a invasão do
commercio pelos Àrabes de Zanzibar não
dá em
civilisação e cultura o que devia dar, porque a
dissolução de costumes de taes gentes
destroe tudo quanto o commercio adianta.
Por outro lado, os
traders
(traficantes)
Inglezes, creio que deixam muito a desejar em moralidade, segundo ouvi
dizer a missionarios seus conterraneos. Esta questão, do
commercio sertanejo como meio
civilisador, é questão que me proponho a tratar
um dia, e que não é cabida aqui, onde
só por incidente falei de
missões e commercio.
Volvendo a entrar em assumpto, dizia eu, que os paizes comprehendidos
entre o Cuanza e o Zambeze estam em condições de
receberem com mais facilidade do que os outros povos que
conhêço em
Àfrica, o impulso civilisador que a Europa hoje se empenha
em
imprimir aos
esquècidos povos do grande continente.
Deixando estes paizes, dos quaes já falei detidamente nos
anteriores capìtulos, vou entrar no Alto Zambeze.
Até ali era eu o primeiro explorador a pisar aquellas
paragens, o primeiro a descrevel-as, o primeiro a apresentar uma carta
geogràphica que as representasse; ali havia sido
já precedido por outro,
e por outro que se tornou tão distincto na obra da
civilisação Africana, que ganhou um
tùmulo em Westminster Abbey, e repousa hoje junto dos
reis, dos grandes homens de Inglaterra. Vinte annos antes de mim, David
Livingstone percorreu aquelle paiz.
N'esse tempo era elle governado por outra raça, e eu fui
encontral-o em condições bem differentes.
As condições de geographia physica eram as
mesmas; mas os geògraphos que seguirem outros,
terám sempre
rectificações a fazer, terám sempre
alguma cousa a acrescentar.
Entre a carta de Livingstone e a minha ha differenças que
já déram nas vistas a alguns
geògraphos Europeos.
Que o vulto respeitavel do cèlebre explorador me
perdôe se eu o contradizer em alguns pontos da sua geographia
do
Alto Zambeze. Era a sua primeira viagem, e o Missionario ousado estava
longe ainda de ser o explorador geògrapho do futuro. Elle
mesmo
não se
vexa de confessar que, n'esse tempo, de balde tentou medir a largura do
rio por um processo trigonomètrico comezinho.
Da confluencia do Liba á do Cuando, o Zambeze apenas recebe
na margem direita dois affluentes, o Lungo-é-ungo e o Nhengo.
Quem viaja da Costa de Oeste vê logo, que entre o Nhengo e o
Cuando nenhum rio pode existir. Assim pois o rio Longo, o Banienko,
etc., sam traços filhos de informações
erròneas.
Na longitude do Zambeze, no parallelo 15, encontrei tambem
differença grande para oeste; notando-se que essa
differença envolve um
êrro manifesto; porque eu observava os reapparecimentos do
primeiro
satèlite de Jùpiter, e havendo erro da minha
parte era esse erro
prejudicial a mim, porque envolvia approximação
da
determinação de Livingstone.
Cada quatro segundos que eu visse mais tarde o reapparecimento, era uma
milha mais a favor d'elle.
O que poderia produzir um erro que me afastasse da
posição determinada, era eu ver o
satèlite antes do reapparecimento, o que
é materialmente impossivel.
O curso do Alto Zambeze, na parte em que o visitei, isto é,
do parallelo 15 á cataracta de Mozi-oa-tunia, é
dividido
em
quatro trôços perfeitamente distinctos. Do
parallelo 15 (e
mesmo muito mais do Norte) até pròximo do
parallelo 17,
é
perfeitamente navegavel em tôdas as èpochas do
anno.
Ahi começa a apparecer o terreno vulcànico, e com
elle o basalto. É a primeira região dos
ràpidos e
cataractas, onde
fôra um serio obstàculo, a grande cataracta de
Gonha; tudo
mais com pequeno trabalho se tornava facilmente navegavel, abrindo um
canal junto de uma das margens. Mesmo em Gonha, era de pequena
difficuldade profundar um canalête
que existe na margem esquêrda junto do caminho que segui por
terra, e
que vem designado na carta, por onde se escôam
àguas na
èpocha das cheias.
Da ùltima cataracta, Catima-Moriro, até
á confluencia do Cuando, torna o rio a ter uma
navigabilidade facil.
D'ahi para jusante novos ràpidos vam terminar na enorme
cataracta de Mozi-oa-tunia, e essa região não
poderá nunca ser aproveitada como via importante, porque uma
sèrie de abismos lhe corta um futuro
melhoramento qualquér quanto a
navegação.
No valle do Alto Zambeze ha terrenos productivos e ferteis. Vastas
pastagens alimentam milhares de rêzes nos valles, acima e
abaixo da região das cataractas. Na região
montanhosa ha
a
môsca Zê-zê, e torna-se difficil passar
os gados de
Lialui ao Quisseque.
Contudo, a môsca está concentrada nas florestas da
região das cataractas, e para leste do Barôze
não existe,
porque os povos Chuculumbes sam grandes pastôres.
O valle do Alto Zambeze, cheio de belleza, fertil e rico, exhala do seu
seio envôlto nos aromas das suas flôres o miasma
pestilente. Os Macololos fôram dizimados pelas febres, e
quando
as azagaias
do rei Chipopa libertáram o paiz dos ùltimos
conquistadores, já o clima tinha feito a sua obra de
destruição.
Os Bihenos, que resistem ás febres de quasi tôdos
os paizes Africanos que visitam, sam fulminados pelos miasmas do
Zambeze.
No paiz entre o Bihé e o Zambeze, onde as caravanas se
demoram muito tempo a permutar cêra, é rarissimo
haver um caso
de febre no gentio Biheno; àlém da planicie do
Nhengo,
multiplicam-se as sepulturas d'elles.
Verissimo, indìgena e possuindo uma
organização refractaria ao miasma, Verissimo, que
nunca em sua vida estivera doente, não
pôde escapar ao clima do Barôze, e vímos
no capìtulo
antecedente ser elle prostrado pêla febre. Eu mesmo, que
resisto bastante ás endemias Africanas,
sentia respirar a morte com o ar que respirava ali.
Esta verdade, se tivera sido apregoada ha mais tempo, teria poupado a
vida á familia Elmore, que só d'abeirar-se ao
paiz succumbio; porque o clima na região do Quisseque, e da
confluencia do Cuando
até Linianti, não tem melhores
condições de
salubridade do que o Barôze.
Cumpro um dever falando bem alto a linguagem da verdade a respeito de
um paiz que está merecendo a attenção
da
Europa.
Ahi fica ella, e salva está a minha responsabilidade de
informador consciencioso, para todas as desgraças, que
aquella voragem
ainda ha de causar aos que não crerem.
¿Será por isso o Lui um paiz de que se
dêva fugir e ao qual ninguem se deverá abeirar?
Não é, e eu vou
procurar demonstrar, que elle deve merecer uma séria
attenção,
não só á Europa em geral, como muito
particularmente a Portugal.
A Àfrica Austral, entre os parallelos 12 e 18, tem uma
largura media de dois mil e seiscentos kilòmetros, e a
partilha das
àguas para as duas costas faz-se a um quinto d'esta
extensão, junto
á Costa de Oeste; porque se faz pròximo do
meridiano 18 E. Greenw., isto
é, a 600 kilòmetros apenas, da Costa Oeste.
D'ahi já se lançam dois rios, cujas
àguas se juntam ao Zambeze, o Lungo-é-ungo e o
Cuando.
Antes de vermos a importancia d'estes dois cursos d'àgua,
estudemos o proprio rio gigante, aquelle que bebe as àguas
de
tôdo o planalto Africano ao sul do parallelo 12
até ao parallelo 20, e a
leste do meridiano 18.
O Zambeze divide-se naturalmente em tres grandes
trôços perfeitamente distinctos:
O alto curso, o curso medio, e o curso inferior.
O Alto Zambeze comprehende o rio desde as suas nascentes, ainda
ignotas, até á sua grande Cataracta Mozi-oa-tunia.
O curso medio estende-se desde Mozi-oa-tunia aos ràpidos de
Cabrabassa; e o Baixo Zambeze d'ahi ao Mar Indico.
Vejamos agora quaes sam as condições de
navigabilidade de cada uma d'estas partes do rio, e qual a sua
importancia relativa, e a dos seus affluentes.
Já n'este mêsmo capìtulo descrevi as
condições do Alto Zambeze e por isso
começarei por tratar do seu curso medio.
Conta elle de Mozi-oa-tunia a Cabrabassa uma extensão de 460
milhas geogràphicas, ou de 828 kilòmetros, e
divide-se
em duas regiões perfeitamente distinctas, a superior e a
inferior, cada uma das quaes
é extensa de 230 milhas, ou 414 kilòmetros.
A região superior, que principia na grande cataracta e
termina nos ràpidos de Cariba, não tem
importancia como via
navegavel, nem pelos affluentes que recebe, todos pequenos e
inaproveitaveis á
navegação.
Tem esta região alguns trôços
navegaveis, mas em pequenas extensões, e logo interrompidos
com
ràpidos. A segunda parte do curso
medio, de Cariba a Cabrabassa, está em
condições
bem differentes, tanto por offerecer uma facil navigabilidade como por
os importantes affluentes que recebe do Norte. De um d'estes affluentes
me occuparei em breve.
O Baixo Zambeze, de Cabrabassa ao mar, conta uma extensão de
310 milhas geogràphicas, ou 560 kilòmetros, onde
apenas
poucas milhas sam occupadas pelas cachoeiras de Cabrabassa; sendo o
resto do curso navegavel, ainda que em más
condições, por falta de
àgua na estação estia.
Esta parte do rio, mesmo nas más
condições em que está da confluencia
do Chire a
Tete, é ainda uma grande via por onde se faz todo o
commercio do interior com Quelimane. Recebe elle um affluente
importante, o Chire, magnìfico rio, que da sua foz a
Chibisa,
não tem
cataractas, sendo perfeitamente navegavel. O Chire que vem do Norte, no
seu
têrço medio corre a S.E. quasi parallelamente ao
Zambeze;
e por isso de Chibisa a Tete apenas medea uma distancia de 65 milhas
geogràphicas,
ou 117
kilòmetros, em terreno pouco accidentado, e que hoje, sem
caminhos, se vence facilmente a pé em cinco dias.
Esta circunstancia é muito para merecer a
attenção; porque, sendo o rio Zambeze pobre em
profundidade da foz do Chire a Tete, não o
é do Mazaro ao mar; e assim, navegando-se por elle e pelo
Chire
até
Chibisa, chegamos a 5 dias de jornada a pé, de Tete, com
toda a
rapidez que nos podem proporcionar aquellas magnìficas vias.
Os
117
kilòmetros que separam Chibisa de Tete, podem ser vencidos
em um
dia com uma simples estrada de rodagem, e em tres horas com uma
ferrovial.
Estam pouco ou nada estudados os ràpidos de Cabrabassa, e
não faço idéa até que ponto
elles constituem um sério
obstàculo á navegação, e se
com pequeno ou grande trabalho se poderia remover esse
obstàculo.
Sei porem, que a região que elles occupam é pouco
extensa, o que já constitue uma vantagem indiscutivel.
Voltemos ao curso medio do Zambeze.
Recebe elle pelo norte dois importantes rios, o Aruangua do norte, e o
Cafucué.
O primeiro, em cuja foz assentou outrora a importante e commercial
villa do Zumbo, cujas ruinas attestão até que
ponto a
ouzadia Portugueza, ia fundar os seus mercados, introduzindo a
civilisação e o commercio nas mais remotas terras
Africanas, é um rio volumoso em
àguas, mas, (dizem os sertanejos Portuguezes) muito cortado
de
cataractas.
Seria contudo importantissimo o seu estudo, ainda que não
lhe vejo a mesma importancia que tem o outro rio, o Cafucué,
de que vou
falar.
Os pombeiros Bihenos passam ao norte do Lui, atravessam o paiz dos
Machachas, e encontram um rio enorme a que elles chamam o Loengue. Esse
rio é percorrido por elles nas suas viagens de
tràfico, que o sobem até ás origens, e
descem
até á foz, onde
toma o nome de Cafucué.
Alguns dos que estavam comigo fizéram muitas vezes essa
viagem, e raro é o Biheno que não tenha estado em
Caiuco.
Miguel, o meu caçador de elefantes, de quem mais de uma vez
falei no correr da minha narrativa, passou dois annos n'aquelle paiz
caçando elefantes, e muitas vezes percorreu o rio embarcado
de
Caiuco a Semalembue; isto é uma distancia que eu calculo
grosseiramente em 220 milhas geogràphicas, ou 400
kilòmetros.
De Lialui a Caiuco deve a distancia ser de 220 kilòmetros,
porque é facilmente vencida pelos Luinas em dez dias,
havendo
exemplos de ter muitas vezes sido ganha em 8 e 7. Em virtude d'estes
dados, lancemos um ràpido golpe de vista ao estudo que temos
feito do Zambeze, e reconheceremos que, n'uma extensão de
900
milhas
geogràphicas, ou 1620 kilòmetros, seguindo pelo
Zambeze,
Chiri-Tete,
Cafucué ou Loengoe, a Caiuco e Lialui, temos apenas 18 dias
de
caminho por terra, 5 de Chibisa a Tete, 3 de Cabrabassa, e 10 de Caiuco
a Lialui; representando uma extensão de 400
kilòmetros, e
por isso sendo
aproveitados 1220 kilòmetros de vias fluviaes perfeitamente
navegaveis.
Voltemos agora ao Alto Zambeze, e vejamos quaes as suas circunstancias
com relação aos seus affluentes. De um sabemos
nos já que é navegavel, o Cuando, mas sabemos
tambem, que
elle desàgua entre duas
regiões de cataractas; o que o isola das partes importantes
do
curso do Zambeze.
Mas da região que está entre a sua foz e o Lui,
já disse que não vejo impossibilidade de ser
facilmente
tornada em via aproveitavel; e logo que assim seja, e mesmo agora,
poderìamos descer do Lui, e
subir pelo Cuando até perto do meridiano 18.
Contudo, outro rio poderia fornecer-nos o meio de attingir aquelle
ponto mais directa e facilmente, se fôsse navegavel.
Era elle o Lungo-é-ungo.
O Lungo-é-ungo é a grande estrada dos Bihenos
para o Alto Zambeze, e por isso muito conhecido d'elles. Affirmam-me,
que não tem
cataractas, e não deve tel-as, correndo em terreno igual ao
do Cuando e do Ninda.
O seu desnivelamento é de 400 metros em 540
kilòmetros de curso.
Dizem os Bihenos, e affirmáram-me os naturaes, sempre que
andei pròximo d'esse rio, que elle não tem
cataractas, como já
disse, mas que por vezes a sua corrente é muito violenta,
sendo preciso puxar
as canôas á cirga. Sendo isto verdade, como
supponho, chegarìamos do Mar
Indico, quasi á Costa de Oeste d'Àfrica, apenas
com 18
dias de caminho por terra, a pé! Isto é, em uma
extensão
superior a dois mil kilòmetros, apenas terìamos
de caminhar em terra 400!
A exploração do Loengue ou Cafucué e a
do rio Lungo-é-ungo sam hoje das mais importantes a
emprehender na Àfrica Austral, e sam
relativamente faceis e pouco custosas.
Não pude deixar de chamar a attenção
para este ponto, que resolve o problema da facil
communicação entre as duas
costas.
Já vam longas estas divagações, em um
capìtulo onde eu apenas tencionava apresentar os meus
trabalhos geogràphicos e
meteorològicos.
Nas seguintes pàginas vai publicado d'esses trabalhos, o que
eu julguei mais interessante para alguns leitores.
Ás observações iniciaes de astronomia
que me déram a determinação dos pontos
do meu caminho, seguem-se aquellas que me premitíram
fazer o relêvo do continente.
V[~e]m depois as notas meteorològicas, com
interrupções inevitaveis quando se é
só a fazer um trabalho tal.
Constam ellas de dois boletins, que registam as
observações feitas 0 h. 43 m. de Greenwich, e
ás 6 horas da manhã do
logar em que me achava, hora a que dava corda aos
chronòmetros.
O estudo d'esses boletins mostra sempre a grande uniformidade das
oscillações baromètricas, e as enormes
desigualdades de temperatura e de humidade do ar nos paizes a que se
referem.
Vê-se tambem, que os ventos reinantes sam do quadrante Este
em todo o paiz do Bihé ao Zambeze.
Como já tive occasião de dizer, e bem se
comprehende ao ler a minha narrativa, não pude fazer
collecções
naturalistas, e apenas, aproveitando muito pouco papél de
que
podia dispor, levei
das nascentes do rio Ninda algumas plantas, que estam em poder do Snr.
Conde de Ficalho, para serem estudadas, e onde parece já
terem
apparecido algumas especies novas.
É opinião do Snr. Conde de Ficalho, que o cereal
muito cultivado entre os Quimbandes e Luchazes, a que eu chamo
Massango,
e erradamente chamei Alpiste, é uma especie de
Penicillaria,
a que
chamavam outrora os botànicos
Penicetum
typhoideum.
Aquelle que eu designo com o nome de
Massamballa
é o
Sorghum.
Quadro das Observações Astronòmicas
pelo Major Serpa Pinto do rio
Cuanza ao Zambeze.
|
Anno
de 1879. |
Logares
onde
observei. |
Hora
dos Chronòmetros. |
Estado
para Greenwich. |
|
|
|
H. |
M. |
S. |
|
|
H. |
M. |
S. |
| a |
Junho |
17 |
Mavanda |
--- |
|
|
--- |
| b |
" |
" |
" |
9 |
12 |
39 |
|
+ |
3 |
47 |
18 |
| c |
" |
" |
" |
5 |
53 |
44 |
|
+ |
3
|
47 |
4 |
| d |
" |
" |
" |
5 |
37 |
55 |
|
|
--- |
| e |
" |
22 |
" |
9 |
25 |
38 |
|
+ |
3 |
47 |
48 |
| f |
" |
24 |
Rio Onda |
--- |
|
|
--- |
| g |
" |
" |
" |
8 |
57 |
0 |
|
+ |
3 |
47 |
54 |
| h |
" |
25 |
" |
--- |
|
|
--- |
| i |
" |
26 |
" |
9 |
42 |
58 |
|
+ |
3 |
48 |
10 |
| j |
" |
30 |
1.5
milha a O. do rio Cuito |
--- |
|
|
--- |
| l |
" |
" |
" |
9 |
3 |
51 |
|
+ |
3 |
48 |
46 |
| m |
Julho |
2 |
Alem
do
Cuito |
--- |
|
|
--- |
| n |
" |
3 |
" |
0 |
29 |
32 |
|
+ |
3 |
49 |
7 |
| o |
" |
" |
" |
3 |
53 |
7 |
|
|
--- |
| p |
" |
4 |
Cambimbia |
--- |
|
|
--- |
| q |
" |
" |
" |
8 |
56 |
46 |
|
+ |
3 |
49 |
15 |
| r |
" |
" |
" |
--- |
|
|
--- |
| s |
" |
" |
" |
8 |
55 |
26 |
|
+ |
3 |
49 |
15 |
| t |
" |
6 |
Cambuta |
--- |
|
|
--- |
| u |
" |
" |
" |
9 |
0 |
2 |
|
+ |
3 |
49 |
31 |
| v |
" |
7 |
" |
--- |
|
|
--- |
| x |
" |
" |
" |
9 |
10 |
14 |
|
+ |
3 |
49 |
39 |
| z |
" |
10 |
Nascente
do
Cuando |
--- |
|
|
--- |
| 0 |
" |
11 |
" |
8 |
53 |
23 |
|
+ |
3 |
50 |
24 |
| 1 |
" |
" |
" |
--- |
|
|
--- |
| 2 |
" |
14 |
Nascente
do
Cubangui |
--- |
|
|
--- |
| 3 |
" |
" |
" |
9 |
11 |
11 |
|
+ |
3 |
50 |
54 |
| 4 |
" |
17 |
Cangamba |
9 |
2 |
40 |
|
+ |
3 |
51 |
24 |
| 5 |
" |
18 |
" |
--- |
|
|
--- |
| 6 |
" |
19 |
" |
--- |
|
|
--- |
| 7 |
" |
" |
" |
9 |
5 |
8 |
|
+ |
3 |
51 |
44 |
| 8 |
" |
23 |
" |
9 |
9 |
29 |
|
+ |
3 |
51 |
56 |
| 9 |
" |
" |
Margem
Direita do
Cubangui |
4 |
49 |
47 |
|
+ |
3 |
52 |
5 |
| A |
" |
" |
" |
4 |
52 |
5 |
|
+ |
3 |
52 |
5 |
| B |
" |
" |
" |
--- |
|
|
--- |
| C |
" |
29 |
Caú-eu-hue |
--- |
|
|
--- |
| D |
" |
" |
" |
8 |
55 |
42 |
|
+ |
3 |
52 |
48 |
| E |
" |
" |
" |
8 |
58 |
22 |
|
+ |
3 |
53 |
1 |
| F |
" |
" |
" |
8 |
59 |
5 |
|
+ |
3 |
53 |
1 |
| G |
" |
" |
" |
8 |
59 |
42 |
|
+ |
3 |
53 |
1 |
| H |
" |
31 |
" |
8 |
45 |
30 |
|
+ |
3 |
53 |
19 |
| I |
" |
" |
" |
8 |
46 |
28 |
|
+ |
3 |
53 |
19 |
| J |
" |
" |
" |
8 |
47 |
27 |
|
+ |
3 |
53 |
19 |
| L |
" |
" |
" |
8 |
48 |
58 |
|
+ |
3 |
53 |
19 |
| M |
" |
" |
" |
8 |
50 |
40 |
|
+ |
3 |
53 |
19 |
| N |
Agosto |
3 |
" |
9 |
9 |
11 |
|
+ |
3 |
53 |
49 |
| O |
" |
4 |
Margem
Esquerda do
Cuchibi |
3 |
15 |
7 |
|
+ |
3 |
53 |
51 |
| P |
" |
" |
" |
2 |
40 |
47 |
|
|
--- |
| Q |
" |
5 |
Ponto
onde deixei o Rio |
--- |
|
|
--- |
| R |
" |
" |
" |
8 |
53 |
7 |
|
+ |
3 |
54 |
0 |
| S |
" |
7 |
Rio
Chicului |
--- |
|
|
--- |
| T |
" |
" |
" |
9 |
0 |
6 |
|
+ |
3 |
54 |
16 |
| U |
" |
10 |
Nascente
do rio
Ninda |
6 |
57 |
20 |
|
+ |
3 |
54 |
41 |
| V |
" |
" |
" |
6 |
58 |
20 |
|
+ |
3 |
54 |
41 |
| X |
" |
" |
" |
3 |
3 |
52 |
|
- |
2 |
7 |
56 |
| Z |
" |
11 |
" |
--- |
|
|
--- |
| = |
" |
" |
" |
3 |
3 |
9 |
|
- |
2 |
7 |
53 |
| - |
" |
13 |
Margem
do
Ninda |
--- |
|
|
--- |
| + |
" |
" |
" |
6 |
33 |
5 |
} |
|
|
|
|
| / |
|
|
|
|
|
|
} |
|
3 |
55 |
7 |
| * |
" |
16 |
" |
6 |
55 |
53 |
} |
|
|
|
|
| : |
" |
" |
Povoação
de
Calomba |
--- |
|
|
--- |
| ; |
" |
" |
" |
6 |
29 |
36 |
} |
|
|
|
|
| ! |
|
|
|
|
|
|
} |
+ |
3 |
55 |
33 |
| ? |
" |
" |
" |
6 |
54 |
8 |
} |
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
| ^ |
" |
" |
" |
6 |
31 |
48 |
} |
|
|
|
|
| ' |
|
|
|
|
|
|
} |
+ |
3 |
55 |
33 |
| . |
" |
" |
" |
6 |
51 |
46 |
} |
|
|
|
|
| , |
" |
18 |
Povoações
do
Nhengo |
--- |
|
|
--- |
| \ |
" |
" |
" |
8 |
58 |
21 |
|
+ |
3 |
55 |
42 |
| " |
" |
21 |
Canhete |
--- |
|
|
--- |
| $ |
" |
25 |
Lialui |
--- |
|
|
--- |
| % |
" |
29 |
" |
--- |
|
|
--- |
| & |
Setembro |
10 |
Catongo |
--- |
|
|
--- |
| ( |
" |
12 |
" |
3 |
46 |
19 |
|
+ |
3 |
57 |
35 |
| ) |
" |
" |
" |
1 |
9 |
50 |
|
|
--- |
| [ |
" |
19 |
" |
9 |
6 |
53 |
|
+ |
3 |
58 |
42 |
| ] |
" |
" |
" |
3 |
4 |
9 |
|
|
--- |
| « |
" |
20 |
" |
0 |
20 |
0 |
|
+ |
3 |
58 |
0 |
| » |
" |
21 |
" |
6 |
2 |
0 |
|
- |
1 |
33 |
0 |
| < |
" |
" |
" |
6 |
0 |
0 |
|
- |
1 |
33 |
0 |
| > |
" |
22 |
" |
5 |
38 |
0 |
|
- |
1 |
33 |
0 |
| ~ |
Outubro |
1 |
Sinanga |
--- |
|
|
--- |
| { |
" |
4 |
Sioma |
--- |
|
|
--- |
| } |
" |
" |
" |
10 |
10 |
1 |
|
+ |
4 |
0 |
40 |
| _ |
" |
9 |
Confluencia
do
Jôco |
9 |
8 |
9 |
|
+ |
4 |
1 |
30 |
| £ |
" |
" |
" |
10 |
42 |
0 |
|
- |
1 |
36 |
0 |
| # |
" |
11 |
Cataracta
de
Nambué |
12 |
3 |
0 |
|
- |
1 |
37 |
0 |
| ¨ |
" |
" |
" |
3 |
48 |
34 |
|
+ |
4 |
1 |
50 |
|
Natureza
da Observação. |
Dupla
altura do astro. |
[A] |
[B] |
[C] |
[D] |
Resultados. |
|
|
° |
' |
" |
° |
' |
H. |
M. |
|
' |
" |
|
|
° |
' |
|
| a |
Altura Mer. [*-] |
107 |
32 |
20 |
--- |
1 |
9 |
- |
0 |
40 |
1 |
|
12 |
35 |
S. |
| b |
Chron. [*-] |
83 |
45 |
10 |
12 |
35 |
--- |
- |
0 |
35 |
3 |
|
12 |
26 |
E. |
| c |
"
[)-] |
70 |
33 |
10 |
12 |
35 |
--- |
" |
1 |
Diff.
do Chron. |
4^h.57^m.6^s. |
| d |
Eclipse do
1^o. satèlite de
Jup |
--- |
--- |
--- |
--- |
--- |
Long. |
17° |
30' |
E. |
| e |
Chron. [*-] |
79 |
30 |
16 |
12 |
35 |
--- |
- |
0 |
50 |
3 |
" |
17 |
30 |
E. |
| f |
Altura Mer. [*-] |
107 |
24 |
10 |
--- |
1 |
10 |
- |
0 |
30 |
1 |
Lat. |
12 |
37 |
S. |
| g |
Chron. [*-] |
88 |
24 |
20 |
12 |
37 |
--- |
- |
0 |
25 |
1 |
Long. |
17 |
45 |
E. |
| h |
Altura Mer. [*-] |
107 |
25 |
30 |
--- |
1 |
10 |
- |
0 |
30 |
1 |
Lat. |
12 |
38 |
S. |
| i |
Chron.
[*-] |
73 |
18 |
40 |
12 |
37 |
--- |
- |
0 |
40 |
1 |
Long. |
17 |
46 |
E. |
| j |
Altura Mer. [*-] |
107 |
31 |
20 |
--- |
1 |
12 |
" |
1 |
Lat. |
12 |
48 |
S. |
| l |
Chron. [*-] |
86 |
4 |
24 |
12 |
48 |
--- |
" |
5 |
Long. |
18 |
7 |
E. |
| m |
Altura Mer. [*-] |
107 |
35 |
50 |
--- |
1 |
12 |
" |
1 |
Lat. |
12 |
54 |
S. |
| n |
Chron. [)-] |
83 |
23 |
30 |
12 |
57 |
--- |
- |
0 |
40 |
3 |
Diff. para o logar |
5^h.2^m.45^s. |
| o |
Eclipse do
1^o. satèlite de
Jup |
--- |
--- |
--- |
--- |
--- |
Long. |
18° |
23' |
E. |
| p |
Altura Mer. [*-] |
107 |
50 |
0 |
--- |
1 |
13 |
- |
0 |
40 |
1 |
Lat. |
12 |
56 |
E. |
| q |
Chron. [*-] |
86 |
38 |
40 |
12 |
56 |
--- |
" |
3 |
Long. |
19 |
41 |
E. |
| r |
Altura Mer. [*-] |
107 |
50 |
20 |
--- |
1 |
14 |
" |
1 |
Lat. |
12 |
56 |
S. |
| s |
Chron. [*-] |
87 |
3 |
47 |
12 |
56 |
--- |
" |
4 |
Long. |
19 |
41 |
E. |
| t |
Altura Mer. [*-] |
108 |
9 |
0 |
--- |
1 |
15 |
" |
1 |
Lat. |
12 |
58 |
S. |
| u |
Chron. [*-] |
87 |
3 |
50 |
12 |
58 |
--- |
" |
3 |
Long. |
18 |
43 |
E. |
| v |
Altura Mer. [*-] |
108 |
22 |
0 |
--- |
1 |
15 |
" |
1 |
Lat. |
12 |
58 |
S. |
| x |
Chron. [*-] |
83 |
57 |
36 |
12 |
58 |
--- |
" |
3 |
Long. |
18 |
45 |
E. |
| z |
Altura Mer. [*-] |
109 |
2 |
0 |
--- |
1 |
16 |
" |
1 |
Lat. |
12 |
59 |
S. |
| 0 |
Chron. [*-] |
89 |
36 |
30 |
12 |
58 |
--- |
" |
3 |
Long. |
18 |
57 |
E. |
| 1 |
Altura Mer. [*-] |
109 |
16 |
50 |
--- |
1 |
16 |
" |
1 |
Lat. |
12 |
59 |
S. |
| 2 |
" |
109 |
43 |
40 |
--- |
1 |
18 |
" |
1 |
" |
13 |
12 |
S. |
| 3 |
Chron. [*-] |
83 |
33 |
16 |
13 |
12 |
--- |
" |
3 |
Long. |
19 |
27 |
E. |
| 4 |
" |
86 |
1 |
40 |
13 |
38 |
--- |
- |
0 |
50 |
3 |
" |
19 |
41 |
E. |
| 5 |
Altura Mer. [*-] |
110 |
9 |
20 |
--- |
1 |
19 |
" |
1 |
Lat. |
13 |
38 |
S. |
| 6 |
" |
110 |
30 |
50 |
--- |
" |
" |
1 |
" |
13 |
38 |
S. |
| 7 |
Chron. [*-] |
85 |
41 |
33 |
13 |
38 |
--- |
- |
1 |
50 |
3 |
Long. |
19 |
41 |
E. |
| 8 |
Azimuth 26° 15' |
84 |
42 |
30 |
" |
--- |
- |
0 |
20 |
1 |
Variação |
18 |
22 |
O. |
| 9 |
Chron. [*-] |
87 |
48 |
30 |
13 |
48 |
--- |
- |
0 |
35 |
3 |
Long. |
19 |
42 |
E. |
| A |
" |
88 |
37 |
27 |
" |
--- |
" |
3 |
" |
19 |
44 |
E. |
| B |
Altura Mer. [*-] |
111 |
42 |
40 |
--- |
1 |
19 |
" |
1 |
Lat. |
13 |
48 |
S. |
| C |
" |
112 |
58 |
40 |
--- |
" |
- |
1 |
0 |
1 |
" |
14 |
30 |
S. |
| D |
Chron. [*-] |
89 |
23 |
10 |
14 |
30 |
--- |
" |
1 |
Long. |
20 |
19 |
E. |
| E |
" |
88 |
28 |
40 |
" |
--- |
" |
1 |
" |
20 |
17 |
E. |
| F |
" |
88 |
15 |
0 |
" |
--- |
" |
1 |
" |
20 |
16 |
E. |
| G |
" |
88 |
2 |
20 |
" |
--- |
" |
1 |
" |
20 |
16 |
E. |
| H |
" |
93 |
16 |
50 |
" |
--- |
" |
1 |
" |
20 |
17 |
E. |
| I |
" |
92 |
59 |
10 |
" |
--- |
" |
1 |
" |
20 |
16 |
E. |
| J |
" |
92 |
39 |
40 |
" |
--- |
" |
1 |
" |
20 |
17 |
E. |
| L |
" |
92 |
11 |
0 |
" |
--- |
" |
1 |
" |
20 |
15 |
E. |
| M |
" |
91 |
36 |
30 |
" |
--- |
" |
1 |
" |
20 |
17 |
E. |
| N |
" |
86 |
5 |
50 |
" |
--- |
- |
0 |
55 |
2 |
" |
20 |
15 |
E. |
| O |
" |
76 |
56 |
50 |
14 |
34 |
--- |
" |
2 |
Diff. para o logar |
5^h.14^m.56^s. |
| P |
Eclipse do
1^o satèlite de
Jup |
--- |
--- |
--- |
--- |
--- |
Long. |
20 |
23 |
E. |
| Q |
Altura Mer. [*-] |
116 |
8 |
10 |
--- |
1 |
21 |
- |
0 |
55 |
1 |
Lat. |
14 |
42 |
S. |
| R |
Chron. [*-] |
91 |
47 |
53 |
14 |
42 |
--- |
" |
3 |
Long. |
20 |
25 |
E. |
| S |
Altura Mer. [*-] |
117 |
21 |
40 |
--- |
1 |
21 |
" |
1 |
Lat. |
14 |
39 |
S. |
| T |
Chron. [*-] |
89 |
44 |
50 |
14 |
42 |
--- |
" |
3 |
Long. |
20 |
38 |
E. |
| U |
Alt. prox.
do Mer. [*-] |
118 |
37 |
50 |
--- |
--- |
" |
1 |
Lat. |
14 |
46 |
S. |
| V |
" |
118 |
35 |
10 |
--- |
--- |
" |
1 |
" |
14 |
46 |
S. |
| X |
Chron. [*-] |
89 |
35 |
15 |
14 |
46 |
--- |
" |
3 |
Long. |
20 |
55 |
E. |
| Z |
Altura Mer. [*-] |
119 |
26 |
20 |
--- |
1 |
23 |
- |
0 |
50 |
1 |
Lat. |
14 |
46 |
S. |
| = |
Chron. [*-] |
90 |
8 |
46 |
14 |
46 |
--- |
" |
3 |
Long. |
20 |
56 |
E. |
| - |
Altura Mer. [*-] |
120 |
33 |
30 |
--- |
1 |
25 |
- |
0 |
55 |
1 |
Lat. |
14 |
48 |
S. |
| + |
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
| / |
Alturas iguaes
[*-] |
120 |
17 |
10 |
--- |
--- |
" |
2 |
Long. |
21 |
16 |
E. |
| * |
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
| : |
Altura Mer. [*-] |
122 |
12 |
0 |
--- |
1 |
25 |
- |
0 |
50 |
1 |
Lat. |
14 |
54 |
S. |
| ; |
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
| ! |
Alturas iguaes
[*-] |
121 |
52 |
10 |
--- |
--- |
" |
2 |
Long. |
21 |
41 |
E. |
| ? |
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
| ^ |
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
|
| ' |
" |
121 |
58 |
50 |
--- |
--- |
" |
2 |
" |
21 |
41 |
E. |
| . |
|
|
|
|
|
|
|
|
- |
0 |
55 |
|
|
|
|
|
| , |
Altura Mer.[*-] |
123 |
15 |
50 |
--- |
1 |
28 |
" |
1 |
Lat. |
15 |
1 |
S. |
| \ |
Chron. [*-] |
90 |
53 |
53 |
15 |
1 |
--- |
- |
0 |
55 |
3 |
Long. |
22 |
2 |
E. |
| " |
Altura Mer. [*-] |
124 |
53 |
40 |
--- |
1 |
30 |
" |
1 |
Lat. |
15 |
11 |
E. |
| $ |
Altura Mer. [*-] |
127 |
34 |
40 |
--- |
1 |
30 |
- |
0 |
55 |
1 |
Lat. |
15 |
13 |
S. |
| % |
" |
130 |
22 |
20 |
--- |
" |
" |
1 |
" |
15 |
13 |
S. |
| & |
" |
139 |
8 |
0 |
--- |
1 |
31 |
- |
3 |
30 |
1 |
" |
15 |
17 |
S. |
| ( |
Chron. [)-] |
71 |
42 |
50 |
15 |
17 |
--- |
- |
0 |
20 |
3 |
Diff. para o logar |
5^h.30^m.53^s. |
| ) |
Reapparecimento do
1^o sat. de Jup. |
--- |
--- |
--- |
--- |
--- |
Long. |
23° |
19' |
E. |
| « |
Amplitude mag.
18°
40' |
--- |
15 |
17 |
--- |
--- |
1 |
Variação |
18 |
38 |
O. |
| » |
Amplitude mag.
17°
20' |
--- |
" |
--- |
--- |
1 |
" |
18 |
11 |
O. |
| < |
Amplitude mag.
19°
10' |
--- |
" |
--- |
--- |
1 |
" |
18 |
33 |
O. |
| > |
Amplitude mag.
18°
20' |
--- |
" |
--- |
--- |
1 |
" |
18 |
44 |
O. |
| ~ |
Alt.
Mer.[+] Dubuhe
([a] de Cygne) |
58 |
5 |
0 |
--- |
--- |
- |
1 |
0 |
1 |
Lat. |
16 |
8 |
S. |
| { |
" |
57 |
5 |
0 |
--- |
--- |
" |
1 |
" |
16 |
37 |
S. |
| } |
Chron. [)-] |
86 |
3 |
30 |
16 |
37 |
--- |
- |
1 |
5 |
1 |
Long. |
23 |
45 |
E. |
| _ |
"
[*-] |
89 |
19 |
3 |
17 |
7 |
--- |
- |
0 |
50 |
3 |
" |
24 |
15 |
E. |
| £ |
Altura Mer. [)-] |
138 |
30 |
0 |
--- |
--- |
- |
1 |
0 |
1 |
Lat. |
17 |
7 |
S. |
| # |
" |
115 |
55 |
0 |
--- |
--- |
" |
1 |
" |
17 |
18 |
S. |
| ¨ |
Chron. [)-] |
81 |
46 |
0 |
17 |
18 |
--- |
" |
1 |
Long. |
24 |
22 |
E. |
Legenda:
[
A]
Latitude Sul.
[
B]
Longitude em tempo.
[
C]
Erro do instrumento.
[
D]
N^o. de Obs.
[*-] símbolo do sol por cima da barra
[)-] símbolo da lua por cima da barra
[+] símbolo de estrela
[a] Letra grega "Alpha"
Quadro
das
Observações Hypsomètricas,
feitas de Caconda á foz do rio
Cuando
no Zambeze, para
determinar o relevo do Continente.
Anno
de 1878.
| Mez. |
Dia. |
Designação
das localidades. |
[A] |
[B] |
[C] |
[D] |
[E] |
| Fevereiro |
9 |
Quipembe |
636.0 |
19.6 |
23 |
95.09 |
1,550 |
| " |
10 |
Pessengue (ao
nivel do rio
Cuando) |
638.5 |
16.0 |
" |
95.20 |
1,506 |
| " |
11 |
Quingolo |
632.5 |
21.2 |
" |
94.94 |
1,604 |
| " |
13 |
Palanca |
635.0 |
20.3 |
" |
95.05 |
1,566 |
| " |
14 |
Capôco |
631.3 |
25.2 |
" |
94.91 |
1,627 |
| " |
22 |
Quimbungo |
632.0 |
20.9 |
" |
94.92 |
1,609 |
| " |
24 |
Cunene (ao nivel do rio) |
636.5 |
19.7 |
" |
95.12 |
1,538 |
| " |
25 |
Dumbo (paiz do
Sambo) |
625.0 |
20.2 |
" |
94.61 |
1,707 |
| " |
26 |
Burundoa |
629.0 |
18.1 |
" |
94.78 |
1,646 |
| " |
27 |
Gongo |
631.0 |
18.0 |
" |
94.88 |
1,613 |
| " |
" |
Ao nivel do rio
Cubango |
635.0 |
25.0 |
" |
95.05 |
1,579 |
| " |
28 |
Chindonga |
633.0 |
18.5 |
" |
94.96 |
1,589 |
| Março |
1 |
Cataracta
do rio Cutato dos Ganguelas |
636.0 |
26.5 |
" |
95.09 |
1,570 |
| " |
2 |
Lamupas |
633.0 |
18.1 |
" |
94.96 |
1,580 |
| " |
4 |
Capitão do
Quingue |
631.0 |
20.0 |
" |
94.88 |
1,620 |
| " |
6 |
Rio Cuchi (ao nivel
d'àgua) |
638.0 |
21.0 |
" |
95.18 |
1,526 |
| " |
8 |
Bilanga (Vicente)
(Bihé) |
631.0 |
18.2 |
" |
94.88 |
1,623 |
| " |
9 |
Candimba
(Bihé) |
630.0 |
17.8 |
" |
94.83 |
1,629 |
| " |
20 |
Belmonte
(Bihé) |
627.6 |
22.6 |
" |
94.72 |
1,681 |
| Junho |
3 |
Commandante
(Bihé) |
647.9 |
20.0 |
" |
95.60 |
1,379 |
| " |
12 |
Liúica (ao
niv. do Cuanza) |
654.9 |
25.9 |
" |
95.89 |
1,304 |
| " |
24 |
Rio
Onda |
650.9 |
22.0 |
" |
95.72 |
1,347 |
| " |
30 |
Rio Cuito (20 metros
sobre o nivel do
rio) |
647.9 |
24.0 |
" |
95.60 |
1,389 |
| Julho |
2 |
Licócótoa |
644.9 |
20.0 |
" |
95.47 |
1,421 |
| " |
4 |
Cambimbia |
645.9 |
20.0 |
" |
95.51 |
1,408 |
| " |
5 |
Serra Cassara
Cahiéra |
635.9 |
20.0 |
" |
95.09 |
1,542 |
| " |
7 |
Cambuta |
647.9 |
21.0 |
" |
95.60 |
1,381 |
| " |
9 |
Cutangjo |
650.6 |
21.0 |
" |
95.51 |
1,348 |
| " |
11 |
Nascente do rio
Cuando |
650.3 |
24.9 |
" |
95.70 |
1,362 |
| " |
14 |
Nascente do rio
Cubangui |
652.6 |
20.0 |
" |
95.79 |
1,345 |
| " |
17 |
Cangamba |
661.0 |
24.0 |
" |
96.14 |
1,228 |
| " |
23 |
Ponto onde deixei o
Cubangui |
664.0 |
23.0 |
" |
96.27 |
1,193 |
| " |
30 |
Caú-eu-hue
(Cuchubi) |
666.0 |
27.7 |
" |
96.35 |
1,154 |
| Agosto |
5 |
Ponto onde deixei o
rio Cuchibi |
669.0 |
25.0 |
" |
96.47 |
1,133 |
| " |
7 |
Rio
Chicului |
669.0 |
24.9 |
" |
96.47 |
1,133 |
| " |
11 |
Nascente do rio
Ninda |
667.0 |
28.3 |
" |
96.40 |
1,143 |
| " |
18 |
Planicie do
Nhengo |
677.3 |
28.1 |
" |
96.81 |
1,012 |
| " |
25 |
Lialui |
676.5 |
27.0 |
" |
96.78 |
1,018 |
| Setembro |
15 |
Catongo |
677.4 |
32.6 |
" |
96.81 |
1,027 |
| Outubro |
5 |
Sioma |
--- |
20.0 |
" |
96.80 |
999 |
| " |
9 |
Foz do rio
Jôco |
679.0 |
20.0 |
" |
96.88 |
974 |
| " |
16 |
Quisseque |
--- |
22.0 |
" |
96.96 |
952 |
| " |
18 |
Confluencia do
Quando |
--- |
37.5 |
" |
97.08 |
940 |
| " |
21 |
Povoação
de
Embarira |
681.0 |
37.4 |
" |
96.96 |
979 |
| Novembro |
21 |
Mozi-oa-tunia |
694.0 |
27.0 |
" |
97.48 |
795 |
Legenda:
[
A]
Baròmetro.
[
B]
Thermòmetro.
[
C]
Temperatura ao niv. do mar.
[
D]
Hypsòmetro.
[
E]
Altitude em metros.
Boletim
Meteorològico
feito a 0^h. 43^m. de Greenwich.
Anno de 1878.
| Mez. |
Dia. |
[A] |
Thermòmetro
centìgrado. |
[D] |
Direcção
do vento. |
Estado
da atmosphera. |
| [B] |
[C] |
| Maio |
1 |
629.8 |
21.5 |
18.4 |
--- |
E.
fraco |
Alguns cirros. |
| " |
2 |
630.0 |
22.7 |
19.8 |
--- |
E.
forte |
Nublado. |
| " |
3 |
630.0 |
22.1 |
19.1 |
--- |
E.
fraco |
Limpo. |
| " |
4 |
629.9 |
22.5 |
19.4 |
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22.3 |
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23.9 |
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1 |
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23.4 |
19.0 |
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6.0 |
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2 |
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18.8 |
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22.9 |
18.1 |
+ |
2.8 |
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4 |
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23.7 |
1992 |
+ |
5.0 |
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" |
| " |
5 |
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23.3 |
19.0 |
+ |
7.0 |
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" |
| " |
6 |
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25.2 |
19.9 |
+ |
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" |
| " |
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19.7 |
+ |
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" |
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22.4 |
18.3 |
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| " |
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| " |
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| " |
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24.9 |
21.5 |
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| " |
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18.7 |
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" |
| " |
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26.7 |
18.6 |
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" |
" |
| " |
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| " |
2 |
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26.7 |
18.9 |
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0.7 |
E. forte |
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3 |
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24.1 |
16.9 |
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1.0 |
" |
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| " |
4 |
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23.8 |
12.3 |
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2.5 |
" |
" |
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23.6 |
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" |
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17.2 |
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" |
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| " |
9 |
644.8 |
24.5 |
17.1 |
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E. forte |
" |
| " |
10 |
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24.9 |
17.8 |
--- |
E.S.E. |
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| " |
11 |
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25.7 |
18.4 |
--- |
" |
" |
| " |
12 |
650.0 |
24.3 |
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14 |
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19 |
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9.0 |
" |
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20 |
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E.
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| " |
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| " |
27 |
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30.1 |
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| " |
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3.7 |
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" |
| " |
31 |
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18.9 |
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" |
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1 |
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| " |
2 |
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30.3 |
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1.2 |
S.E.
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" |
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31.5 |
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4.1 |
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661.6 |
31.1 |
17.0 |
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1.5 |
E.
forte |
" |
| " |
9 |
658.5 |
30.4 |
17.3 |
+ |
2.0 |
" |
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limpo. |
| " |
10 |
657.0 |
31.2 |
14.5 |
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1.0 |
" |
" |
| " |
11 |
655.2 |
28.8 |
13.6 |
+ |
2.9 |
" |
" |
| " |
12 |
660.0 |
28.2 |
14.3 |
+ |
2.3 |
" |
" |
| " |
13 |
662.6 |
28.5 |
14.1 |
+ |
2.3 |
" |
" |
| " |
14 |
664.1 |
28.1 |
14.2 |
+ |
3.0 |
E.
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" |
| " |
16 |
667.5 |
28.7 |
14.4 |
+ |
2.7 |
" |
" |
| " |
17 |
668.3 |
28.4 |
14.5 |
+ |
3.7 |
" |
" |
| " |
18 |
668.5 |
28.3 |
14.9 |
+ |
3.1 |
Calma |
" |
| " |
19 |
667.8 |
30.0 |
15.1 |
+ |
4.4 |
E.N.E. |
" |
| " |
20 |
663.5 |
33.2 |
16.8 |
+ |
3.9 |
N.N.E. |
" |
| " |
21 |
668.2 |
27.4 |
14.8 |
+ |
9.6 |
E.N.E. |
" |
| " |
22 |
667.9 |
29.3 |
14.5 |
--- |
E.
forte |
" |
| " |
23 |
668.5 |
30.5 |
19.2 |
+ |
14.0 |
" |
" |
| " |
29 |
668.7 |
34.9 |
15.7 |
--- |
E.N.E.
forte |
" |
| " |
30 |
668.2 |
35.2 |
15.6 |
--- |
" |
" |
| " |
31 |
668.9 |
35.1 |
16.4 |
--- |
" |
" |
| Setembro |
1 |
668.1 |
30.7 |
15.9 |
--- |
" |
" |
| " |
2 |
668.5 |
29.1 |
15.7 |
--- |
" |
" |
| " |
3 |
668.0 |
34.8 |
17.9 |
+ |
7.0 |
" |
" |
| " |
4 |
667.0 |
34.8 |
19.2 |
+ |
6.0 |
" |
" |
| " |
5 |
667.9 |
32.1 |
17.6 |
+ |
5.8 |
" |
" |
| " |
6 |
668.0 |
32.7 |
16.4 |
+ |
9.0 |
" |
" |
| " |
7 |
668.1 |
33.0 |
17.5 |
--- |
" |
" |
| " |
8 |
668.0 |
33.5 |
19.3 |
+ |
7.0 |
" |
" |
| " |
10 |
668.5 |
32.3 |
20.8 |
+ |
14.0 |
" |
" |
| " |
11 |
668.3 |
33.2 |
19.7 |
--- |
" |
" |
| " |
12 |
668.1 |
33.8 |
20.4 |
--- |
" |
" |
| " |
13 |
667.7 |
34.2 |
18.8 |
--- |
" |
" |
| " |
14 |
667.4 |
35.4 |
18.1 |
--- |
" |
" |
| " |
15 |
667.3 |
35.9 |
17.4 |
--- |
" |
" |
| " |
17 |
667.8 |
35.3 |
16.8 |
--- |
E.
forte |
" |
| " |
18 |
666.5 |
36.4 |
18.7 |
--- |
" |
" Grande orvalho da
noute. |
| " |
19 |
668.2 |
34.5 |
16.8 |
--- |
" |
"
" |
| " |
20 |
668.0 |
32.8 |
21.4 |
--- |
" |
Alguns
cirros, muito orvalho. |
| " |
21 |
668.5 |
32.3 |
23.7 |
--- |
E.
fraco |
Nublado,
cumulos. |
| " |
22 |
669.0 |
33.0 |
19.7 |
--- |
E.
forte |
"
" |
| " |
25 |
666.8 |
36.2 |
22.1 |
--- |
E.S.E. |
Cumulos,
muito orvalho. |
| " |
26 |
667.0 |
35.4 |
20.1 |
--- |
" |
"
" |
| " |
29 |
666.0 |
34.7 |
21.8 |
--- |
" |
"
" |
| " |
30 |
665.0 |
30.8 |
23.0 |
--- |
" |
"
" |
| Outubro |
1 |
668.2 |
34.2 |
22.1 |
--- |
E.
forte |
Limpo,
muito orvalho. |
| " |
2 |
668.2 |
34.2 |
23.3 |
--- |
" |
"
" |
| " |
3 |
667.8 |
31.9 |
23.4 |
--- |
" |
"
" |
| " |
4 |
667.6 |
34.0 |
24.5 |
--- |
" |
Nublado. |
| " |
5 |
667.9 |
33.5 |
24.6 |
--- |
" |
" |
| " |
6 |
668.8 |
34.1 |
23.4 |
--- |
E.S.E. |
" |
| " |
7 |
670.0 |
35.9 |
28.7 |
--- |
" |
"
Grande trovada. |
| " |
8 |
670.0 |
34.8 |
26.5 |
--- |
E. fraco |
Nublado. |
| " |
9 |
670.8 |
37.1 |
23.3 |
--- |
" |
" |
Legenda:
[
A]
Baròmetro.
[
B]
Seco.
[
C]
Molhado.
[
D]
Mìnima aproximada.
Estudo
das
Oscillações diurnas do
Baròmetro, feito de 3 em 3 horas.
Catongo
(Alto Zambeze).
Altitude 1,027 metros.
Anno de 1878.
| Mez. |
Dia. |
6
horas. |
9
horas. |
Meio-dia. |
3
horas. |
6 horas. |
| [A] |
[B] |
[A] |
[B] |
[A] |
[B] |
[A] |
[B] |
[A] |
[B] |
| Setembro |
17 |
670.6 |
19.2 |
671.3 |
30.2 |
669.3 |
35.1 |
667.5 |
34.4 |
668.3 |
27.3 |
| " |
18 |
670.0 |
19.7 |
670.6 |
31.9 |
668.8 |
35.7 |
660.0 |
36.0 |
667.3 |
30.4 |
| " |
19 |
670.7 |
21.1 |
671.5 |
28.0 |
669.5 |
34.6 |
667.5 |
33.7 |
668.4 |
27.8 |
| " |
20 |
670.6 |
18.0 |
671.4 |
26.5 |
669.0 |
31.5 |
667.5 |
32.7 |
668.4 |
29.1 |
| " |
21 |
670.0 |
19.8 |
671.3 |
27.2 |
669.5 |
33.8 |
668.0 |
33.0 |
668.5 |
29.0 |
| " |
22 |
671.5 |
21.5 |
672.0 |
28.5 |
670.3 |
32.8 |
668.5 |
32.9 |
669.0 |
31.2 |
Legenda:
[
A]
Baròmetro.
[
B]
Thermòmetro.
Estudo
do Estado
Hygromètrico da Atmosfera, feito de 3 em 3
horas.
Catongo
(Alto Zambeze).
Anno de 1878.
| Mez. |
Dia. |
6 horas. |
9 horas. |
Meio-dia. |
3 horas. |
6 horas. |
Thermòmetro
centìgrado. |
Thermòmetro
centìgrado. |
Thermòmetro
centìgrado. |
Thermòmetro
centìgrado. |
Thermòmetro
centìgrado. |
| [A] |
[B] |
[A] |
[B] |
[A] |
[B] |
[A] |
[B] |
[A] |
[B] |
| Setembro |
18 |
19.7 |
15.0 |
31.9 |
16.6 |
35.7 |
18.1 |
36.0 |
15.9 |
30.4 |
14.2 |
| " |
19 |
21.1 |
10.5 |
28.0 |
13.4 |
34.6 |
15.0 |
33.7 |
19.2 |
27.8 |
15.0 |
| " |
20 |
18.0 |
13.9 |
26.5 |
18.3 |
31.5 |
20.5 |
32.7 |
22.3 |
29.1 |
18.5 |
Legenda:
[
A]
Seco.
[
B]
Molhado.
Boletim
Meteorològico
feito ás 6 horas da
manhã (hora média do logar).
Anno de 1878.
| Mez. |
Dia. |
[A] |
[B] |
|
Mez. |
Dia. |
[A] |
[B] |
| Fevereiro |
9 |
626.0 |
19.6 |
|
Junho |
26 |
658.0 |
5.4 |
| " |
10 |
628.5 |
16.0 |
|
" |
27 |
658.9 |
1.7 |
| " |
11 |
622.5 |
21.2 |
|
" |
28 |
659.5 |
4.6 |
| " |
12 |
623.0 |
20.4 |
|
" |
29 |
660.3 |
4.6 |
| " |
13 |
625.0 |
20.3 |
|
" |
30 |
660.0 |
7.2 |
| " |
14 |
622.0 |
15.8 |
|
" |
31 |
659.3 |
14.9 |
| " |
15 |
621.0 |
16.0 |
|
Agosto |
1 |
661.0 |
8.8 |
| " |
16 |
622.3 |
16.5 |
|
" |
2 |
660.7 |
4.8 |
| " |
17 |
622.5 |
18.8 |
|
" |
3 |
661.5 |
5.7 |
| " |
18 |
622.5 |
20.0 |
|
" |
4 |
662.3 |
8.8 |
| " |
19 |
620.0 |
19.5 |
|
" |
5 |
661.7 |
8.7 |
| " |
20 |
622.0 |
20.0 |
|
" |
6 |
662.0 |
5.6 |
| " |
21 |
622.5 |
17.2 |
|
" |
7 |
662.1 |
4.9 |
| " |
22 |
622.0 |
20.9 |
|
" |
8 |
663.4 |
2.6 |
| " |
23 |
621.5 |
21.2 |
|
" |
9 |
663.6 |
3.5 |
| " |
24 |
618.5 |
17.3 |
|
" |
10 |
660.5 |
3.8 |
| " |
25 |
615.0 |
20.2 |
|
" |
11 |
658.0 |
6.4 |
| " |
26 |
619.0 |
18.1 |
|
" |
12 |
657.2 |
4.9 |
| " |
27 |
621.0 |
18.0 |
|
" |
13 |
662.0 |
4.5 |
| " |
28 |
623.0 |
19.5 |
|
" |
14 |
664.8 |
5.8 |
| Março |
1 |
623.0 |
18.2 |
|
" |
15 |
666.5 |
5.9 |
| " |
2 |
623.0 |
18.1 |
|
" |
16 |
669.2 |
6.5 |
| " |
3 |
617.0 |
16.6 |
|
" |
17 |
670.0 |
6.9 |
| " |
4 |
620.0 |
18.5 |
|
" |
18 |
670.2 |
9.3 |
| " |
5 |
621.5 |
20.0 |
|
" |
19 |
670.0 |
8.5 |
| " |
6 |
621.5 |
18.2 |
|
" |
20 |
667.0 |
10.2 |
| " |
7 |
619.0 |
17.7 |
|
" |
21 |
666.0 |
2.2 |
| " |
8 |
621.0 |
18.2 |
|
" |
22 |
669.4 |
18.8 |
| " |
9 |
620.0 |
17.8 |
|
" |
23 |
669.0 |
20.0 |
| Maio |
28 |
645.0 |
12.6 |
|
" |
24 |
670.0 |
16.0 |
| " |
29 |
644.8 |
14.2 |
|
" |
25 |
670.0 |
14.5 |
| " |
30 |
642.3 |
9.4 |
|
" |
26 |
671.0 |
13.7 |
| " |
31 |
642.0 |
10.0 |
|
" |
27 |
671.2 |
15.0 |
| Junho |
1 |
641.9 |
12.2 |
|
" |
28 |
672.3 |
14.0 |
| " |
2 |
643.0 |
9.9 |
|
" |
29 |
671.0 |
15.0 |
| " |
3 |
643.2 |
8.6 |
|
" |
30 |
671.0 |
14.8 |
| " |
4 |
643.0 |
10.0 |
|
" |
31 |
670.6 |
12.1 |
| " |
7 |
645.0 |
11.4 |
|
Setembro |
1 |
670.0 |
16.1 |
| " |
8 |
649.8 |
5.8 |
|
" |
2 |
670.0 |
13.7 |
| " |
9 |
648.5 |
5.1 |
|
" |
3 |
670.0 |
11.3 |
| " |
10 |
651.0 |
6.5 |
|
" |
4 |
670.0 |
10.0 |
| " |
11 |
650.8 |
9.1 |
|
" |
5 |
670.5 |
13.2 |
| " |
13 |
650.0 |
7.1 |
|
" |
6 |
670.0 |
16.2 |
| " |
14 |
650.0 |
8.0 |
|
" |
7 |
669.6 |
13.6 |
| " |
15 |
643.0 |
11.2 |
|
" |
8 |
670.0 |
12.3 |
| " |
16 |
642.9 |
9.2 |
|
" |
9 |
671.3 |
4.1 |
| " |
17 |
643.0 |
11.5 |
|
" |
10 |
670.0 |
19.4 |
| " |
18 |
642.9 |
11.9 |
|
" |
11 |
669.0 |
20.3 |
| " |
19 |
642.6 |
7.4 |
|
" |
12 |
678.1 |
19.8 |
| " |
20 |
641.2 |
6.8 |
|
" |
13 |
669.0 |
20.5 |
| " |
21 |
641.5 |
9.1 |
|
" |
14 |
670.2 |
14.7 |
| " |
22 |
641.5 |
9.7 |
|
" |
15 |
671.0 |
19.2 |
| " |
23 |
641.0 |
7.9 |
|
" |
16 |
672.0 |
18.6 |
| " |
24 |
646.9 |
4.6 |
|
" |
17 |
670.6 |
19.2 |
| " |
25 |
646.1 |
3.6 |
|
" |
18 |
670.0 |
19.7 |
| " |
26 |
645.2 |
1.8 |
|
" |
19 |
670.7 |
21.1 |
| " |
27 |
645.0 |
1.9 |
|
" |
20 |
670.6 |
18.0 |
| " |
28 |
644.0 |
2.1 |
|
" |
21 |
670.0 |
19.8 |
| " |
29 |
644.0 |
3.6 |
|
" |
22 |
671.0 |
21.5 |
| " |
30 |
643.0 |
4.1 |
|
" |
23 |
671.0 |
22.2 |
| Julho |
1 |
643.0 |
4.1 |
|
" |
24 |
670.0 |
21.7 |
| " |
2 |
642.5 |
5.8 |
|
" |
25 |
669.0 |
15.4 |
| " |
3 |
640.1 |
1.8 |
|
" |
26 |
668.8 |
15.7 |
| " |
4 |
641.1 |
3.1 |
|
" |
27 |
668.8 |
12.6 |
| " |
5 |
641.0 |
3.4 |
|
" |
28 |
669.0 |
18.0 |
| " |
6 |
643.8 |
1.4 |
|
" |
29 |
668.6 |
21.0 |
| " |
7 |
643.2 |
0.7 |
|
" |
30 |
669.9 |
19.2 |
| " |
8 |
644.0 |
1.4 |
|
Outubro |
1 |
668.5 |
17.1 |
| " |
9 |
643.5 |
2.5 |
|
" |
2 |
670.0 |
18.8 |
| " |
10 |
645.2 |
2.3 |
|
" |
3 |
670.6 |
16.1 |
| " |
11 |
645.2 |
2.2 |
|
" |
4 |
671.0 |
12.5 |
| " |
12 |
645.0 |
2.3 |
|
" |
5 |
671.5 |
15.7 |
| " |
13 |
650.0 |
1.5 |
|
" |
6 |
670.0 |
16.2 |
| " |
14 |
651.5 |
1.8 |
|
" |
7 |
672.0 |
21.8 |
| " |
15 |
647.3 |
3.7 |
|
" |
8 |
673.5 |
23.1 |
| " |
16 |
652.3 |
5.0 |
|
" |
9 |
673.0 |
15.3 |
| " |
17 |
652.6 |
7.1 |
|
" |
10 |
673.0 |
19.6 |
| " |
18 |
654.0 |
11.2 |
|
" |
12 |
672.0 |
20.7 |
| " |
19 |
653.4 |
13.7 |
|
" |
13 |
674.0 |
22.7 |
| " |
20 |
653.3 |
9.3 |
|
" |
14 |
676.0 |
21.8 |
| " |
21 |
654.9 |
6.1 |
|
" |
15 |
675.0 |
19.1 |
| " |
22 |
655.2 |
5.1 |
|
" |
16 |
674.3 |
21.7 |
| " |
23 |
657.8 |
5.0 |
|
" |
17 |
673.0 |
21.2 |
| " |
24 |
657.0 |
5.9 |
|
" |
18 |
676.0 |
21.2 |
| " |
25 |
656.0 |
6.0 |
|
|
|
|
|
Legenda:
[
A]
Baròmetro.
[
B]
Thermòmetro.
SEGUNDA
PARTE
A FAMILIA COILLARD.
COMO
EU ATRAVESSEI
ÀFRICA.
Segunda Parte.--A FAMILIA COILLARD.
CAPÌTULO
I.
EM
LEXUMA.
Prêso
em
Embarira--O
Doutor Benjamin Frederick Bradshaw--O campo do Doutor--O
Pão--Graves questões--Os chronòmetros
não param--Francisco
Coillard--Lexuma--As damas Coillard--Doença grave--Receios e
irresoluções--Chegada do missionario--Tomo uma
decisão--Partida de
Lexuma (em Inglez, Leshuma).
Foi tormentosa a noute que passei em Embarira. Assaltado por milhares
de persovejos, e por nuvens de mosquitos, tive de abandonar a casa que
me offerecêra o chefe, e ir procurar ao ar livre um refugio a
tão cruél tormento. Ao incòmmodo
produzido pêlo ataque dos
insectos vinha juntar-se a anciedade da idéa de encontrar no
dia seguinte
um Europeu, um homem desconhecido, mas com o qual eu contava ja para
sahir dos embaraços em que estava. Amanheceu finalmente o
dia 19 de
Outubro depois de uma longa noute não-dormida.
As primeiras noticias que pude colher fôram de que o
missionario estava a 12 ou 14 milhas d'ali, mas que do outro lado do
rio Cuando vivia um Inglez.
Pedir uma canôa ao chefe para passar o rio foi o meu primeiro
impulso, mas obtive a mais formal negativa, a pretexto de que
não
havia canôa.
Depois de grande controversia, elle declara-me que me não
deixa sahir da sua povoação sem eu ter pago aos
marinheiros uma
certa porção de fazendas.
Chamei o Jasse e mostrei-lhe a impossibilidade de fazer pagamentos sem
ter communicado com o Inglez, e ter d'elle obtido fazendas para os
fazer, porque eu nenhumas tinha.
Jasse reune os marinheiros e o chefe e fala-lhes n'esse sentido, mas
nada obtem, e a recusa de me deixarem ir á outra margem do
Cuando é formal.
Vendo que nada fazia, pedi-lhes que fizessem chegar um recado meu ao
Inglez, e escrevi algumas palavras n'um bilhête de visita.
Foi o Verissimo o mensageiro. A má noute velada, e a febre
constante prostráram-me. Deitei-me ao ar livre, esperando a
resposta
á minha mensagem.
Seria passada uma hora, quando appareceu diante de mim um homem branco.
A sensação que experimentei ao ver um
Europêu é indefinivel.
O homem que eu tinha diante de mim poderia ter de 28 a 30 annos, e
possuia um typo perfeitamente Inglez.
Barba pouca e muito loura, olhos azues, grandes e vivos, cabello
cortado rente e tão louro como a barba.
Vestia uma camisa de grossa tela, cujo collarinho desabotoado deixava
ver um peito amplo e forte, como as mangas arregaçadas
expunham á vista uns braços musculosos, queimados
pêlo sol Africano.
As calças de estôfo ordinario estavam seguras por
um forte cinto de couro, d'onde pendia uma faca Americana.
Nos pes sôbre umas meias azues de algodão
grôsso, uns sapatos que pêlas costuras,
tôdas feitas por fora, logo se via serem obra
d'elle mêsmo.
Disse-lhe quem era; expuz-lhe as minhas circunstancias, e pedi-lhe para
me ceder a fazenda de que eu precisava, a trôco de marfim que
eu lhe podia dar. Mostrei-lhe a necessidade que tinha de me libertar
d'aquelle encargo para escapar áquella gente e ir encontrar
o
missionario. Respondeu-me elle, que não tinha fazendas, que
estava tambem
sem recursos, e que só mandando eu a Lexuma as poderia obter.
O seu modo de falar e a delicadeza das suas phrases mostravam-me logo,
que aquelle homem não era um ente vulgar. Elle dirigio-se ao
chefe, e convenceu-o a deixar-me ir á outra margem do rio,
com a
condição de que voltaria á noute para
Embarira.
Partimos, e depois de atravessar um grande rio, aquelle Cuando cujas
nascentes eu havia descoberto, e determinado mezes antes,
chegámos a um pequeno campo onde nos appareceu outro branco.
Era homem de elevada estatura, de longa barba e cabêllos
brancos, que mostravam não uma idade provecta, desmentida
pêla
agilidade do côrpo e expressão da physionomia, mas
sim a velhice prematura,
producto de longos soffrimentos e trabalhos.
Vestia como o primeiro, e só estava um pouco melhor
calçado.
Conversámos sobre a minha posição, e
vimos que elles nada podiam fazer por mim, porque estavam tambem sem
recursos.
Fui bastante absoluto empregando a palavra
nada,
porque se
não tinham outra cousa a dar-me, tinham um soffrivel jantar,
e eu tinha fome.
Depois de saciar o meu voraz appetite, combinei com elles escrever ao
missionario, a pedir-lhe fazendas para o pagamento aos
remadôres.
Expedi um portadôr para Lexuma e voltei a Embarira, onde me
deitei ao ar livre, com a lembrança da noute terrivel da
vèspera.
Dormi a noute de um somno ùnico e profundo. Ao amanhecer do
dia 20, estavam junto de mim, vindas de Lexuma, as fazendas precisas
para os pagamentos das tripulações. Paguei tudo,
e obtive
do chefe carregadôres sufficientes para levarem as minhas
cargas e o marfim a Lexuma; escrevendo por elles ao missionario, a quem
pedi hospedagem, e a quem pedia para pagar ali aos
carregadôres.
Ao meio-dia, uma ligeira piroga, impellida pêlo remar de dous
prêtos, corria por sobre as aguas do Cuando, levando a seu
bordo três
homens brancos.
A piroga velha e rachada fazia muita àgua, e por isso o
homem que ia na frente descalçara os sapatos que levava na
mão,
em quanto o da ré, acocorado, esgotava incessantemente a
muita àgua que colhia
o fragil batél.
O do meio, magnificamente calçado á prova
d'àgua, contemplava distraido o deslisar dos enormes
crocodilos que fluctuavam á
mercê da corrente, e pouco caso fazia da humidade da
canôa.
Estes três brancos, reunidos ali, no centro
d'Àfrica, pêlos azares das
explorações, eram eu, o D^{or.} Benjamin
Frederick Bradshaw, explorador zoològico, e Alexandre Walsh,
zoologista tambem, preparador
de exemplares e companheiro do doutôr.
Chegados á margem direita, foi logo posta á minha
disposição uma das três cubatas que
elles tinham.
O D^{or.} Bradshaw, òptimo cozinheiro, como é
habil mèdico, sabio distincto, e caçador
famôso, foi logo preparar um
almôço de perdizes que elle tinha môrto
n'essa manhã. O cozinheiro do
doutor, um activo Macalaca, deitado de peito no chão,
contemplava a seu amo a
trabalhar na cozinha, e contentava-se em o ver trabalhar.
O appetite, guardado desde a vèspera, fazia dilatar as
fossas nasaes ao sentirem o cheiro delicioso que sahia em condensado
vapôr das
caçarolas do D^{or.} Bradshaw.
Figura
118.--Três europêos atravessáram
o rio.
Os condimentos de que eu estava privado havia tantos mêzes,
exhalavam aromas deliciosos ao olfato de um faminto.
A cozinha estava feita, ìamos para a mêsa, onde
havia uma grande panella de milho cozido em grão, e um
alentado prato de caril de
perdizes. Tìnhamos dado a primeira garfada nos pratos,
quando na
barraca entrou um prêto com um objecto envolvido em alva
toalha de linho.
Figura 119.--O
Campo do Doutor
Bradshaw.
Vinha da parte do missionario Francez. Desdobrei a toalha, que continha
um côrpo bastante pesado, e fiquei commovido diante de um
enorme pão de trigo, que tinha nas mãos.
¡Pão! Pão, que eu ja não via
ha um anno; pão, que era para mim sempre a cada comida em
que o não tinha, uma
recordação saudosa; que era um sonho constante
das noutes de fome; do qual cheguei muitas vêzes a
ter um desejo immoderado, e pêlo qual comprehendi que se
possa
commetter um crime para o haver, quando privado d'elle por muito tempo.
As làgrimas viéram humedecer as minhas
pàlpebras resequidas, e creio que foi aquella uma das mais
violentas commoções que
senti na minha viagem.
Esquèci um pouco as perdizes do doutor, para comer, com
voracidade, d'aquelle pão, que saboreava com delicias nunca
experimentadas em gastronomia.
Foi Benjamin Bradshaw quem suspendeu o meu furor voraz, que me poderia
ser fatal, e que me fez tomar uma òptima chàvena
de cacao, em seguida á qual um sono profundo dormido n'uma
barraca, lìvre do sereno
da noute, veio restaurar as fôrças.
Tôda a minha gente e as cargas haviam partido para Lexuma,
ficando comigo apenas Augusto e Catraio e a mala dos instrumentos.
Amanheceu alegre o dia seguinte, que deveria ser um dos mais
atribulados da minha vida.
Depois de um òptimo almôço de perdizes
e chocolate, e quando nos deliciàvamos a fumar o
aromàtico tabaco do
Chuculumbe, chegáram os carregadôres que na
vèspera tinham partido para
Lexuma, fazendo grande grita e dizendo, que não tinham sido
pagos ali.
Admirou-me o facto, sôbre tudo por o Verissimo me
não ter escrito, e por ter ido com as cargas o marfim que
seria garantia a tôdo o
pagamento que ali se fizesse.
Nós não tìnhamos fazendas, e
não sabìamos que fazer diante das exigencias dos
selvagens, que teimavam em que tinham sido roubados, porque tinham
levado as cargas d'ali a Lexuma, e não tinham
recebido o menor pagamento. Pouco depois, chegáram o chefe
de Embarira
Mocumba e Jasse, que começáram uma
questão
fortissima comigo e com os Inglezes,
ameaçàndo-nos e dizendo-nos as maiores
insolencias.
Eu estava envergonhado e aflicto por ver os Inglezes, que tanto me
tinham obsequiado, mettidos em uma questão que me era
particular, e sêrem insultados por minha causa; mas
impossivel me tinha
sido prever um tal acontecimento.
Depois de mil exigencias a que era impossivel satisfazer, elles com
Jasse á frente declaráram que iam a Lexuma
rehaver as bagagens e o marfim, e que tomariam conta de tudo
até sêrem
pagos; partindo em
seguida, mas deixando ali o chefe Mucumba com um grande
trôço de gente a vigiar-nos.
Por consêlho do D^{or.} Bradshaw, nós
entrámos em uma das barracas e pozémos as armas
á mão, promptos a uma
enèrgica defêsa, em caso de um ataque provavel.
Ao cahir da tarde Mucumba começou a fazer uma grita enorme,
e chamando a sua gente invadio as duas barracas, levando de uma d'ellas
a minha mala dos instrumentos, que fez logo transportar ao barco e
passar
á outra margem.
Voltáram a cercar a terceira barraca, em que nós
estàvamos, exigindo que eu fôsse com elles para
Embarira. Receioso de que os meus
hospedeiros se expozessem por minha causa a um perigo eminente,
queria-me entregar ao gentio, e libertal-os de um conflicto inevitavel;
quando o D^{or.} Bradshaw me pedio que o não fizesse, e
declarou-me que me
não deixaria partir, e que deveriamos resistir-lhes a
tôdo o trance.
Na barraca estàvamos quatro homens, três brancos e
o meu Augusto, dispostos a vender caras as vidas, e era tal a nossa
attitude que os gentios recuáram ante a idéa de
um ataque que
seria fatal a muitos. Depois de um consêlho prolongado entre
as
cabêças, decidíram elles abandonar o
campo e passar á outra margem.
Dàva-me cuidado não ver o meu muleque Catraio,
que comecei a supor teria sido feito prisioneiro, quando elle me
appareceu na barraca, com o seu riso intelligente e velhaco, trazendo
na mão os meus
chronòmetros, que tinha ido á outra margem buscar
á minha malla, em
quanto os Macalacas nos cercavam e ameaçavam. Mais uma vez
Catraio impedia que os chronòmetros parassem por falta de
corda.
Estàvamos sós, mas muito apprehensivos, porque o
doutor, que conhecia bem os indìgenas d'ali, dizia, que
elles não
passariam sem voltar á carga.
Pêlas 9 horas da noute, chega ao campo o missionario Francez,
François Coillard, e sabendo tudo o que se tinha passado,
afirmou-nos que os carregadores haviam sido pagos generosamente em
Lexuma, e que elle se encarregava de fazer ouvir razão ao
chefe Mucumba.
No dia immediato, logo de manhã, o chefe Mucumba, Jasse e
innùmeras gentes, passáram o rio e
viéram ao nosso campo.
M^{r.} Coillard, que fala a lingua do paiz como fala Francez ou Inglez,
fez um discurso ao chefe de Embarira, mostrando-lhe a pouca-vergonha
dos carregadores, que tendo sido generosamente pagos em Lexuma,
viéram dizer, que nada haviam recebido, e que tinham sido
roubados.
Mucumba entregou logo tudo o que tinha roubado na vèspera, e
deu muitas satisfações, fazendo recair a culpa
sôbre os seus homens que o tinham enganado. Quando parecia
que tudo corria bem e se havia harmonizado, appareceu Jasse levantando
uma nova questão.
Queria elle, que eu pagasse aos seus muleques particulares que tinham
vindo em seu serviço, e com quem eu nada tinha.
Eu argumentei-lhe com o caso da tripulação de um
pequeno barco que do Quisseque viéra em serviço
dos outros remadores,
e a quem eu nada tinha dado. Depois de um curto debate, habilmente
dirigido por M^{r.} Coillard, elle recebeu duas jardas de fazenda para
cada homem, e ficou terminada a questão.
Fomos almoçar satisfeitos, julgando que estariam terminados
os incidentes desagradaveis d'aquelle dia, mas não estava
escrito no livro do destino que assim fôsse.
Figura
120.--Monsieur e Madame Coillard.
Jasse voltou de nôvo á carga com nova exigencia.
Queria elle, que eu lhe pagasse e ao chefe Mutiquetera, a quem eu ja
havia pago com largueza.
Começou nova questão, em que de nôvo me
prestou grande auxilio M^{r.} Coillard; sendo preciso para a terminar,
o prometter um
cobertôr a cada um d'êlles.
Mandou logo M^{r.} Coillard a Lexuma um portador buscar os dois
cobertôres, e a fazenda que êlle havia tirado da
sua pacotilha, para pagar á gente de Jasse.
Assim terminou finalmente aquella sèrie não
interrompida de questões, para o quê concorreu
poderosamente a
intervenção que n'ellas tomou M^{r.} Coillard.
Disse-me elle, que ia partir para o Quisseque, a receber a resposta do
rei Lobossi a seu respeito, mas que em 10 ou 12 dias estaria de volta;
e por isso me pedia, que fôsse esperar o seu regresso para
Lexuma, onde me esperava sua espôsa Madame Christine
Coillard; e
só então poderìamos discutir
maduramente o que convinha fazer de futuro.
Resolvi seguir para Lexuma no dia immediato; porque queria determinar a
posição d'aquelle ponto, e fazer um certo
nùmero de observações.
Durante a noute tive um violento accesso de febre, e de
manhã sentia-me muito mal.
O D^{or.} Bradshaw não me quiz deixar partir sem tomar algum
alimento, e por isso só as 10 horas pude deixar a margem do
Cuando. O
doutor e seu companheiro deviam abandonar aquelle ponto no mesmo dia, e
irem para Lexuma, porque as scenas dos dias antecedentes
aconselhavam-n-os de evitar o contacto com aquelle gentio
malèvolo.
Eu parti por um calor de 40 graos centìgrados, n'um terreno
arenoso, onde o caminhar era difficil. A febre tirava-me as
fôrças, e mais me arrastava do que caminhava. O
terreno era coberto de
arvorêdo, e
elevava-se logo a partir da margem do rio. Depois de cinco horas de
marcha lenta e penosa, encontrei um pequeno còrrego, onde
pude saciar uma sêde ardente. Só duas horas depois
cheguei a
Lexuma. Eram 6 da tarde.
N'um estreito valle de oitenta metros de largo, enquadrado em montes
pouco elevados e de vertentes suaves, cresce uma herva grosseira e
rachìtica. Uma bella vegetação
arbòrea guarnece as montanhas que enquadram o pequeno valle,
que se estende na
direcção N.S. Na encosta de E. algumas barracas
agglomeradas formam o estabelecimento de um sertanejo Inglez, M^{r.}
Phillips.
Em frente a Oeste, duas aldeias abandonadas sam a feitoria de George
Westbeech.
Ao N. das aldeas de M^{r.} Westbeech, uma forte palissada cerca um
terreno circular de 30 metros de diàmetro, onde havia uma
casinha de côlmo, dois
wagons,
ou
carrêtas de viagem, e uma
barraca de campanha. Era o acampamento da familia Coillard, era Lexuma
emfim.
Entrei ali no recinto velado pêla alta estacaria de madeira,
com o côrpo extenuado pêlo cansaço e o
espìrito
abalado pêla commoção violenta que
sentia.
Diante de mim, á porta da casinha de côlmo,
estavam sentadas duas damas, bordando a côres em grossa
talagarça.
Ao ver aquellas damas ali, no centro d'Àfrica, a minha
commoção foi indescriptivel.
Figura
121.--Acampamento da familia Coillard em Lexuma.
A recepção que me fez Madame Coillard foi aquella
que faria a um filho, se esse filho fôra eu. Com uma
delicadeza extrema,
pôz-me logo perfeitamente á vontade, e disse-me,
que ainda
não tinham jantado, porque esperavam por mim para
pôr-se á
mêsa. Convidou-me a entrar na barraca de campanha, onde uma
mêsa coberta de fina e alva
toalha sustentava um serviço modesto, contendo um jantar
succulento. Defronte de mim sentava-se Madame Coillard; ao meu lado
Mademoiselle Elise Coillard, sobrinha d'ella, de olhos baixos e
physionomia rubra de
pudôr, por ver um estrangeiro desconhecido entrar
tão de golpe na
sua vida ìntima e velada, espalhava em tôrno de si
esse
perfume de candura que cerca e envolve a mulhér formosa aos
desoito annos.
Figura
122.--Interior do campo de Monsieur Coillard em Lexuma.
Madame Coillard multiplicava-se em cuidados extremosos, e
pêlo fim do jantar eu comecei a provar uma
sensação estranha.
Aquellas damas, o jantar, o serviço, o chá, o
assucar, o
pão, tudo enfim se me baralhava na mente com
traços mal definidos. Cheguei a não
poder formular uma só idéa, e a recear, que a
cabêça
enfraquecida não podesse supportar as impressões
d'aquelle momento.
Não tenho a consciencia de ter terminado aquelle jantar, sei
apenas que me achei só na barraca. Então um abalo
violento
sacudio tôdo o meu côrpo; um soluço
tolheu-me o ar na garganta, e as
làgrimas saltáram ardentes dos meus olhos
desvairados, banhando-me as faces que queimavam de febre. Chorei e
chorei muito, não me envergonho de o
dizer, e creio que aquellas làgrimas fôram a minha
salvação.
Se eu não tivesse chorado, teria talvez enlouquecido.
Que se riam aquelles que acharem ridìculas as
làgrimas n'um homem; pouco me importa o seu motejar
estòlido. Infeliz de quem
não encontra nos sentimentos do
coração o pranto que vem marejar
nos olhos, e o soluço que estrangula a fala, mais
verdadeiras provas da gratidão
sentida, do que as frases mais eloquentes em protestos fervorosos.
Eu, por mim, não me envergonho de ter chorado, e feliz serei
se podér ainda chorar em iguaes trances.
Quanto tempo estive n'aquelle estado de excitação
não o sei eu; mas, muito tempo depois, entravam as damas na
barraca e preparavam-me uma cama com cuidados extremos.
A apparição das duas carinhosas senhoras veio
trazer nova perturbação ao meu
espìrito. Eu não sabia que dizer-lhes, e
creio que só lhes dizia disparates.
Foi mesmo sem consciencia do que fazia que eu lhes narrei um boato
ouvido de manhã em Embarira, que apregoava ter havido um
grande incendio no Quisseque, nas casas do chefe Carimuque, e terem
sido ali
prêsa das chamas as bagagens do missionario.
Deitei-me e creio que dormi.
Ao alvorecer da manhã seguinte, as scenas da
vèspera desenhavam-se confusamente na minha
imaginação enfraquecida.
Parecia-me sonho tudo o que se passava n'aquelle sertão
longìnquo.
Levantei-me, e ao ver que era realidade o que me cercava, o meu
espìrito volveu de nôvo a um deploravel estado de
perturbação.
Machinalmente, sem a menor consciencia dos meus actos, por um poder
filho do hàbito, dei corda e comparei os
chronòmetros, fiz as observações
meteorològicas, e registei
tudo no meu diario.
Pouco depois, Mademoiselle Elisa, com a sua touca e avental branco,
entrava risonha na barraca, e vinha cuidar dos aprestes da
mêsa para o almôço.
Madame Coillard continuou envolvendo-me dos maiores desvelos.
Não posso ainda hôje explicar porque produziam em
mim, espìrito forte, uma tal impressão aquellas
damas; mas é certo que
a sua apparição produzia-me logo uma especie de
delirio.
Passáram dois dias que eu não sei como
fôram passados; no fim d'elles succumbí. A febre
apossou-se de mim com violencia
assustadôra, e com ella veio o delirio. O meu estado era
grave, mas dois anjos velavam
á minha cabeceira.
A 30 de Outubro, o delirio deixou-me um momento de lucidez. Conheci que
a vida estava apenas prêsa por um fio a um côrpo
despedaçado pêlas fadigas e fomes da jornada, e
pensei que não me levantaria
mais.
N'esse dia entreguei a Madame Coillard os meus papéis,
pedindo-lhe que os fizesse chegar com segurança
ás
mãos do Governo de Portugal.
O D^{or.} Bradshaw fizera-me repetidas visitas durante os dias
antecedentes, e empregara tôda a sua sciencia
mèdica para me salvar.
Contudo a febre não cedia, e o estòmago
não supportava medicamento algum. Decidi eu mesmo tentar um
ùltimo
esfôrço, e comecei a dar repetidas
injecções hypodèrmicas com
fortes doses de quinino.
A 31 fiquei espantado de ainda estar vivo, e redobrei a dose do quinino
pêla absorpção hypodèrmica.
O D^{or.} Bradshaw aconselhou-me e fêz-me tomar uma forte
dose de laudanum. A 1 de Novembro,
começáram a manifestar-se as primeiras melhoras.
Nunca estive cercado de tão extremosos cuidados como ali.
As melhoras continuáram ràpidas no dia seguinte,
em que ja me pude levantar um pouco. Pareceu-me perceber que
não sobejavam
muito os vìveres, e isso tirou-me um pouco o sono durante a
noute. Na
madrugada seguinte, quando ainda tudo dormia no campo, levantei-me
cauto e fui chamar os meus prêtos.
Sahi com elles cambaleando ainda nas pernas debilitadas, e internei-me
na floresta, sem que alguem desse fé da minha
escàpula. Pêla tarde voltei com os meus homens
curvados ao pêso da caça
que tinha môrto. Madame Coillard estava afflicta, pensando
que eu havia abandonado o campo para sempre, e fui recebido com a
maternal censura de quem ralha em familia.
Como em todas as minhas doenças graves, não tive
convalescença, e a minha forte
organização fêz-me passar
do estado valetudinario ao perfeito estado de saude, em
transição
ràpida.
Com a robustez do côrpo veio o socêgo do
espìrito, e só então pude encarar
reflectidamente a posição em que o
destino me collocara. Pêla conversação
repetida com Madame Coillard, pude
perceber que não sobejavam recursos ao missionario. O meu
marfim, bem pago, mas pago em fazendas a que os agentes da casa
Westbeech and Phillips
déram subido e exageradissimo valor, pouco produzio. Madame
Coillard só via
um meio de sahirmos do apuro em que estàvamos, e
êsse era, o
de nos não separarmos, por não ser possivel
dividirem comigo os poucos recursos que
tinham.
Contudo, esperàvamos a volta do missionario, do Quisseque,
para tomar uma resolução definitiva.
A idéa de ficar com elles aterrava-me.
Havia ali uma formosa criança, que impressionava a cada
momento a minha imaginação ardente de Portuguez.
¿Ser-me-hia possivel, n'um viver tão
ìntimo, n'um isolamento tão grande, impedir que
uma fala escapada n'um momento de loucura, um olhar vibrado n'um
lampejo de delirio, fôssem offender a casta menina,
descuidosa na sua innocencia càndida?
Tremia por mim e por ella.
Decidi, pois, fazer um estudo de mim mesmo até á
volta do missionario, e calcular bem até que ponto eu seria
capaz de ser honrado.
Passei três dias atribulados no estudo que fazia do meu
espìrito. ¿Poderia eu namorar-me d'aquella meiga
criança?
De certo não; e a lembrança sempre viva de uma
espôsa idolatrada,
era segura garantia aos meus sentimentos.
Mas, se o coração estava defendido,
não o estava a imaginação
fèrvida, e podia, n'um momento de desvario, com uma phrase
imprudente, cometter uma infamia--porque infamia seria fazer subir o
pejo ao rôsto
d'aquella em cuja casa eu tinha sido recebido com a intimidade de um
filho.
Àlém d'isso, o meu devêr era ainda
maior. Era preciso evitar a tôdo o custo, que a fama das
proêsas que os meus de mim apregoavam;
que a posição, um pouco romàntica, em
que eu
me achava entre aquella familia; não fôssem
impressionar a novél
imaginação dos desoito annos de uma
mulhér.
¿Poderia eu sustentar durante mezes o papél de
uma reserva absoluta, na grande intimidade da vida que ia levar?
Um dia pensei que era capaz de o fazer, e desde êsse dia
tracei a minha conduta futura, de que não arredei um
só passo.
Muitos mezes depois eu tinha sido comprehendido por uma
mulhér, que soube ler no meu ìntimo com essa fina
perspicacia que
só ellas possuem para ler nos arcanos da alma os mais
recònditos sentimentos;
e não hesito em dizer, que fui comprehendido por Madame
Coillard, porque, na vèspera da nossa
separação, ella
escreveu no meu diario um versìculo do Psalmo 37, que me
revelou o seu pensamento.
Estava resolvido a ficar com elles, quando más novas
chegáram do Quisseque.
M^{r.} Coillard confirmava, em uma longa carta escrita a sua
espôsa, o boato do incendio a que ja me referi.
Tudo quanto elle tinha em casa do chefe Carimuque fôra
prêsa das chamas, e isso vinha ainda complicar a
situação,
diminuindo o seu haver.
Àlém d'esta, outra noticia veio consternar mais a
bondosa espôsa do missionario. Dizia elle que Eliazar, o
homem que estava em Quisseque e de quem ja falei, fôra
atacado de um accesso de febre de mao
caracter, e estava em perigo.
Madame Coillard muito affeiçoada áquelle
Catechista, que fôra outrora seu servidor, ficou desde
êsse momento em cuidados extremos.
Dois dias depois, a 6 de Novembro, uma nova carta do missionario veio
augmentar a tristeza que reinava no acampamento de
Leshuma.
Eliazar estava peior e receiava-se que não podesse salvar-se.
No dia 7, eu tinha ficado levantado até tarde da noute, por
ter a fazer observações astronòmicas;
ficando
comigo as duas senhoras, em conversa cujo assumpto era o missionario e
a doença de Eliazar.
Madame Coillard disse-me, que tinha um forte presentimento de que seu
marido chegaria n'aquella noute. Propuz-lhe irmos ao seu encontro, e
tendo sido aceite o alvitre pelas duas corajosas damas,
pozémos-nos a caminho de Embarira.
A um kilòmetro do acampamento, eu que caminhava adiante
d'ellas, preveni-as de que sentia rumor de gente na floresta; mas
julgáram ser engano, porque ainda um kilòmetro
àlém
ninguem encontrámos. Contudo, eu sabia não me
enganar, porque mais de uma vez um rumor mal
definido e só perceptivel a ouvidos de sertanejo, tinha
chegado até mim.
Sem isso não teria animado aquellas damas a esperar n'uma
floresta povoada de feras, e onde me sentia pouco á vontade
pêla
responsabilidade que tomava.
Pelas onze e meia, o rumor que por vêzes percebi tornou-se
distincto para os meus ouvidos, e não duvidei affirmar que
gente
calçada caminhava no trilho que seguìamos. Pouco
depois alguns vultos
aparecêram na sombra, e o missionario, acompanhado de dois ou
três
prêtos, estava diante de nós.
Madame Coillard procurava em vão alguem junto de seu marido.
Esse alguem faltava. Mais uma sepultura tinha sido cavada no alto
Zambeze, mais uma lição estava dada aos
imprudentes que se arriscam
n'aquelle paiz da morte.
Voltámos tristes e silenciosos ao campo de Lexuma.
No dia immediato tive uma larga conversa com M^{r.} Coillard. O que eu
previa ja era realidade. O missionario, falto de recursos,
não me podia dar o sufficiente para eu fazer a viagem
até ao Zumbo.
Discutímos largamente todos os alvitres, e a
ùnica possibilidade de èxito era não
nos separarmos e seguirmos juntos
até ao Bamanguato, onde eu poderia obter meios de seguir
avante. Elle tinha pressa de partir, porque àlém
de não sêrem
fartos os meios para uma espera qualquér, Lexuma era-lhes
fatal. Duas sepulturas de dois dos seus mais
fiéis servidôres tinham sido abertas ali.
Contudo, eu queria ir visitar a grande cataracta do Zambeze, e ficou
combinado que elle me esperaria até ao regresso, o que
importava uma demora de 12 a 15 dias.
Ficou decidido que eu partisse para Mozioatunia no dia 11, e Madame
Coillard, com maternal sollicitude, começou logo a tratar
dos meus aprestes de viagem.
No dia 10, uma forte tempestade cahio sobre nós, e
sobreveio-me um accesso de febre. Verissimo tambem adoeceu com febre.
Este estado de tempo e de doença continuou no dia 11,
impedindo-me de
realisar o projecto de seguir n'esse dia para as cataractas.
No dia 12 eu estava melhor, mas o Verissim