Dois
Volumes.
Contendo 15 mappas e facsimiles, e 133 gravuras feitas dos desenhos do
autor.
VOLUME SEGUNDO.
Segunda Parte--A FAMILIA COILLARD.
LONDRES:
SAMPSON LOW, MARSTON, SEARLE, e RIVINGTON,
EDITORES,
CROWN BUILDINGS, 188 FLEET STREET.
1881.
[Tôdos os direitos
sam reservados.]
No
alto Zambeze--O rei
Lobossi--O reino do Barôze, Lui ou Ungenge--Os
conselheiros do
rei--Grande audiencia--Audiencias particulares--Parece que
tudo
me corre bem--Eu explicando geographia a Gambela--Volta-se
a face aos negocios--Intrigas--Os Bihenos querem voltar--Uma
embaixada a Benguella--Quimbundos e Quimbares--A
prêta
Mariana--Tentativa de assassinato--6 de Setembro--Incendio e
combate--Retiro para as montanhas
Prêso
em
Embarira--O
Doutor Benjamin Frederick Bradshaw--O campo do Doutor--O
Pão--Graves questões--Os chronòmetros
não param--Francisco
Coillard--Lexuma--As damas Coillard--Doença grave--Receios e
irresoluções--Chegada do missionario--Tomo
uma decisão--Partida de
Lexuma (em Inglez, Leshuma)
Viagem
ás
cataractas--Tempestades--A grande cataracta do Zambeze--Abusos dos
Macalacas--Regresso--Patamatenga--M^{r.} Gabriel
Mayer--Tùmulos de Europêos--Chêgo a
Deica--A familia Coillard
O
Deserto--Florestas--Planicies--Os Macaricaris--Os Massaruas--O grande
Macaricari--Os rios no deserto--Morte da Córa--Falta de
àgua--O
ùltimo chá de Madame Coillard--Xoxom (Shoshong)
Doença
grave--Um Stanley que não é o Stanley--O Rei
Cama—Os Inglezes em Àfrica--A libra
esterlina--M^{r.} Taylor—Os Bamanguatos a cavallo--Cavallos e
cavalleiros—Despedidas--Parto para Pretoria--Acontecimentos
nocturnos--Volto a Xoxom--¿Pararám os
chronòmetros?
Catraio--Apparece
o
vagom--Despedida de M^{r.} Coillard--Tempestades--O
vagom tombado--Trabalhos de nôvo
gènero--Chuvas--O
Limpôpo--Fly--Caçadas--No Ntuani--Um Stanley que
não presta--Augusto furioso--Adicul--Os
leões--Stanley desanima—Os Böers
nomadas--Nôvo
vagom--Peripècias--Doenças graves—Um
Christophe de mil diabos--Madame Gonin--O ùltimo
tùmulo--Magalies-berg--Pretoria
NO
TRANSVAAL.
Ràpido esbôço da historia dos
Böers--O que sam os Böers—Suas
emigrações e trabalhos--Adriano
Pretorius--Pretorius--As minas de diamantes--Brand--Burgers--Juizo
errado á cerca dos Böers--O que eu vi e
que eu penso
NO TRANSVAAL (continuação).
M^{r.} Swart--Difficuldades--D^{or.} Risseck--Eu
gastrònomo!—Sir Bartle Frere e o Consul Portuguez
M^{r.} Carvalho--O Secretario Colonial M^{r.} Osborn--Jantares e
saraus--O missionario Rev. Gruneberger--M^{r.} Fred. Jeppe--O jantar do
80 de infanteria--Major Tyler e Capitão
Saunders—Insubordinação--M^{r.}
Selous--Monseigneur Jolivet--O que era Pretoria--Uma photographia de
pretas--Episodio burlêsco da guerra tràgica dos
Zulos
A chegada do Coronel Lanyon--Parto de Pretoria--Heidelberg--Um
dog-cart--O
Tenente
Barker--Dupuis--Peripecias de uma viagem
no Transvaal--Newcastle--A diligencia--Episodios
burlescos--Pietermaritzburg--Durban--Volto a
Maritzburg--Didi Saunders--Episodios em Durban--O Consul
Portuguez M^{r.} Snell--O Danubio--O Commandante
Draper--Regresso á Europa
LISTA DAS
ILLUSTRAÇÕES.
FIG.
94.--O
Rei Lobossi
95.--Gambela
96.--Matagja
97.--Cachimbos
de fumar o
Bangue
98.--Vasilha
para leite feita
de madeira
99.--Objecto
de Ferro forjado
que serve de Lenço de assoar
aos Luinas. Especie de Espàtula
100.--Pratos
e Escudellas
para a comida
101.--Colhér
102.--Machado
de cortar
madeira
103.--Artigos
de Barro
104.--Homem
Luina
105.--Mulhér
Luina
106.--Azagaias
Luinas
107.--Machadinhas
de guerra
108.--Porrinho
109.--Ataque
contra o
acampamento no Lui
110.--Casa na Itufa
111.--O meu Barco
112.--Acampamento na Sioma
113.--Cataracta de Gonha
114.--Passagem
dos Barcos em
Gonha
115.--Cataracta
de Cale
116.--Ràpidos de
Bombue
117.--Nos ràpidos
118.--Três
Europêos atravessáram o rio
119.--O Campo do Doutor Bradshaw
120.--Monsieur e Madame Coillard
121.--Acampamento da Familia
Coillard em Lexuma
122.--Interior do Campo de
Monsieur Coillard em Lexuma
123.--Mozioatunia. A Queda de
Oeste.
124.--Mozioatunia. Maneira pouco
còmmoda de medir
àngulos.
125.--O Rio depois da Cataracta
126.--Os Tumulos em Patamatenga
127.--Os Desfiladeiros de
Letlotze
128.--Ruinas da Casa do Rev.
Price (Xoxom)
129.--No Deserto
130.--Fly, o meu Cavallo do
Deserto
131.--Fly perseguindo os Ongiris
132.--Uma Vista do Alto
Limpôpo
133.--Montes
termìticos junto ao Limpôpo
134.--Os meus Bôis
foram salvos
135.--O ùltimo enterro
136.--Magalies-berg
137.--O que restava da
Expedição
138.--Eu em Pretoria (
De
uma photo. de Mr. Gross)
139.--Betjuanas (
De
uma
photo. de Mr. Gross)
Mappa de Mozioatunia
Três Facsìmiles, de pàginas do Diario,
dos Livros de Càlculos, e do Albo de Cartas
COMO EU ATRAVESSEI
ÀFRICA
Primeira Parte.--A CARABINA D'EL-REI.
CAPÌTULO
IX.
NO
BARÔZE.
No
alto Zambeze--O rei
Lobossi--O reino do Barôze, Lui ou
Ungenge--Os conselheiros do
rei--Grande audiencia--Audiencias
particulares--Parece que tudo
me corre bem--Eu explicando geographia a Gambela--Volta-se
a face aos negocios--Intrigas--Os Bihenos querem voltar--Uma
embaixada a Benguella--Quimbundos e Quimbares--A
prêta
Mariana--Tentativa de assassinato--6 de Setembro--Incendio e
combate--Retiro para as montanhas.
A 25 de Agôsto levantei-me muito incommodado e ardendo em
febre. Estava no alto Zambeze, junto do 15^{to} parallelo austral, na
cidade de Lialui, nova capital estabelecida pelo rei Lobossi, do reino
do
Barôze, Lui ou Ungenge, que tôdos estes nomes pode
ter o vasto
imperio da Àfrica tropical do sul. Como se sabe
pêlas
descripções de David Livingstone, um homem vindo
do Sul á frente de um exèrcito
poderôso, o guerreiro Chibitano, Basuto de origem, atravessou
o Zambeze junto da sua confluencia com o Cuando, e invadio os
territorios do alto Zambeze, sujeitando ao seu dominio tôdas
as tribus que habitavam o
vasto paiz conquistado.
Chibitano, o mais notavel capitão que tem existido na
Àfrica Austral, partira das margens do Gariep com um pequeno
exèrcito
formado de Basutos e Betjuanas, ao qual foi aggregando os
mancêbos dos povos que
vencia, e ao passo que caminhava ao norte, ia organizando essas
phalanges, que depois se tornáram tão terriveis,
ja na conquista
do alto Zambeze, ja na defensa do paiz conquistado.
A êsse exèrcito, formado de elementos differentes,
de povos de muitas raças e origens, deu o seu chefe o nome
de Cololos, e d'ahi
lhe veio o nome de Macololos que tão conhecido se tornou em
Àfrica.
No alto Zambeze encontrou Chibitano muitos povos distinctos, governados
por chefes independentes, que não podéram,
separados como estavam, oppor séria resistencia ao terrivel
guerreiro Basuto.
Tão sabio legislador, como prudente administrador, e audaz
guerreiro, Chibitano soube dar união aos povos conquistados,
e fazer
com que elles se considerassem irmãos no interesse commum.
Estes podiam agrupar-se em três divisões, marcando
três raças distinctas.
Ao sul, abaixo da região das cataractas, os Macalacas; no
centro, os Cangenjes ou Barôzes; e ao norte, os Luinas,
raça
mais vigorosa e intelligente, que devia substituir um dia os Macololos
na
governação do paiz.
É propriamente no paiz do Barôze ou Ungenge, que
se tem conservado as sedes do govêrno desde o tempo de
Chicreto, o filho e
successor de Chibitano; e tôdos os povos de Oeste chamam ao
vasto imperio
Lui ou Ungenge, ao passo que os povos do sul lhe dam o nome de
Barôze. Mais tarde, n'este capìtulo, terei
occasião de falar
na historia d'este pôvo desde a ùltima visita de
Livingstone até
á minha passagem ali; proseguindo agora a narrativa das
minhas aventuras sôb o
reinado de Lobossi, e do seu conselheiro ìntimo Gambela.
A organização polìtica do reino do Lui
é muito differente da dos outros povos que eu tinha visitado
em Àfrica. Ali ha dois
ministerios perfeitamente definidos, o da guerra, e dos negocios
estrangeiros; sendo este ùltimo dividido em duas
secções,
cada uma com o seu ministro. Uma d'ellas trata dos negocios de Oeste,
outra dos do Sul. Isto
é, uma trata com Portuguezes de Benguella, outra com os
Inglezes do Cabo.
Na occasião da minha chegada, os conselheiros do rei eram
quatro, dois dos quaes não tinham pasta; sendo ministro dos
negocios
estrangeiros de Oeste um tal Matagja, e accumulando duas pastas, a da
guerra e a dos negocios estrangeiros do sul, Gambela, o presidente do
consêlho do rei. Aprendi bem estes detalhes, para regular a
minha conducta nas graves questões que tinha a tratar.
Logo de manhã, fui avisado, de que o rei Lobossi me esperava.
Larguei os meus andrajos, e vesti o ùnico vestuario que ja
possuia, dirigindo-me em seguida á grande praça
onde devia
ter logar a audiencia.
Elle estava sentado em uma cadeira de espaldar, no meio da grande
praça, e por de tras d'elle um nêgro fazia-lhe
sombra com um
guarda-sol.
Era um rapaz de 20 annos, de estatura elevada, e proporcionalmente
grôsso.
Vestia um casaco de cazimira prêta sobre uma camisa de
côr, e em logar de gravata, trazia ao
pescôço um
sem-nùmero de amulêtos.
As calças eram de cazimira de côr, e deixavam ver
as meias de fio de escocia, muito alvas, e o sapato baixo bem lustrado.
Um grande cobertôr de listas multicolôres em guisa
de capote, e na cabêça um chapéo
cinzento, ornado de
duas grandes e bellas pennas de avestrús, completavam o
traje do grande potentado.
Na mão um pedaço de madeira lavrada, ao qual
estavam prêsas muitas clinas de cavallo, servia-lhe para
enxotar as môscas,
acção que elle fazia com tôda a
gravidade.
Á sua direita, em cadeira mais baixa, estava sentado o
Gambela, e na frente os três conselheiros. Umas mil
pessôas,
sentadas no chão em semi-cìrculo, deixavam
perceber a sua jerarchia pelas
distancias a que
estavam do soberano.
Figura
94.--O Rei Lobossi.
Á minha chegada o rei Lobossi levantou-se, e logo em seguida
os conselheiros e tôdo o pôvo. Troquei um
apertar-de-mão com elle e com Gambela, abaixei a
cabêça a Matagja e aos outros
dous conselheiros, e sentei-me junto a Lobossi e a Gambela.
Depois de uma troca de comprimentos e de finezas, que mais pareciam de
uma côrte Europea do que de um pôvo
bàrbaro, eu disse ao rei, que não era negociante,
que vinha visital-o por ordem do Rei de Portugal, e que tinha a
falar-lhe em assumptos que não podiam ser tratados
ali diante de tão numerosa assemblea.
Figura
95.--Gambela.
Elle respondeu-me, que sabia e comprehendia isso, e que a
recepção que me mandara fazer na
vèspera e a que elle mesmo me fazia ali,
me mostravam que eu não era confundido com um negociante
qualquér; que eu era seu hòspede, e teriamos
tempo de falar em negocios,
porque elle esperava ter a felicidade de me possuir algum tempo na sua
côrte. Depois de me dizer esta amabilidade, despedio-se de
mim, que voltei a casa abrasado em febre.
No meu pàteo encontrei trinta bôis, que o rei me
mandava de presente.
Disse-me o escravo favorito de Lobossi, que seria delicado da minha
parte, mandar matar os bôis, e offerecer a melhor perna de
bôi ao rei, e dar carne á gente da côrte.
Dei ordem a Augusto para fazer isso, e houve logo uma carnificina
enorme, sendo tôdos os bôis mortos, e a sua carne
distribuida entre os meus carregadores e a gente da côrte;
tendo o cuidado de
mandar ao rei e aos quatro conselheiros a melhor parte, cabendo ainda
assim o melhor quinhão a Gambela, a quem fiz notar a
distinc&ccedyl;ão que fazia.
Figura
96.--Matagja.
As pelles, que ali sam muito estimadas, offereci eu a Matagja e Gambela.
Pêla 1 hora, fui recebido pêlo rei em audiencia
particular, em uma casa tambem semi-cilìndrica, mas de
grandes dimensões,
que não contava menos de 20 metros de comprido por 8 de
largo.
Lobossi estava sentado em uma esteira, e em frente d'elle os quatro
conselheiros occupavam outra, de companhia com alguns fidalgos, entre
os quaes estava um velho vigoroso, cuja physionomia
sympàthica
e expressiva me impressionou. Era Machauana, o antigo companheiro de
Livingstone, na viagem que o cèlebre explorador fez do
Zambeze a Loanda, e
de quem elle fala, no seu roteiro com tanto elogio.
Uma enorme panella de quimbombo foi collocada no meio da casa, e depois
de o rei ter bebido, bebêram tôdos com
profusão, e nem me offerecêram, sabendo que eu
só àgua bebia.
Conversámos sôbre cousas indifferentes, e eu
entendi não dever falar-lhe ainda dos meus negocios. Entre
outras cousas, falámos a
respeito de lìnguas differentes, e Lobossi pedio-me que
falasse um
bocado em Portuguez, para elle ouvir. Recitei-lhe as Flôres
d'Alma do
poema "D. Jayme," e os prêtos ficáram encantados
ao escutar
a harmonia da nossa lìngua, que o mimôso e grande
poeta, Thomas
Ribeiro, soube imprimir e fazer resaltar n'aquellas estrophes singelas.
Quando eu ia retirar-me, o rei disse-me baixo, de modo que ninguem
percebeu, que lhe fôsse falar depois de ser noute fechada.
Pouco depois de eu chegar a casa, apparecêu-me ali Machauana,
com quem conversei sôbre Livingstone, e que me fez os maiores
protestos de amizade.
Á noute, pelas 9 horas, fui á morada do rei. Elle
estava n'um dos pàteos interiores, sentado em uma esteira,
junto a um grande fôgo,
que ardia n'uma bacia de barro de dois metros de diàmetro.
Na sua
frente, em semi-cìrculo, uns 20 homens, armados de azagaias
e escudos,
conservavam a maior immobilidade e silencio.
Pouco depois de eu chegar, chegou o Gambela, e começou a
nossa conferencia.
Eu principiei por lhe dizer, que tinha sido obrigado a deixar no
caminho os ricos presentes que lhe trazia, mas que, ainda assim, tinha
podido salvar algumas pequenas cousas que lhe daria, e entre ellas uma
farda e um chapéo, que lhe apresentei logo.
Era uma d'essas fardas ricamente agaloadas, que tôda Lisboa
vio aos lacaios postados nas antecàmaras do Marquez de
Penafiel, e
que fôram vendidas quando o opulento fidalgo trocou a sua
residencia luxuosa de Lisboa, pelo viver mais
buliçôso da capital da
França.
Lobossi ficou encantado com a farda e com o chapéo armado, e
fêz-me mil agradecimentos. Depois de uma pequena conversa sem
importancia,
entrámos em assumpto.
No Barôze falam-se três lìnguas. O
Ganguela, a lìngua Luina, e o Sezuto, idioma deixado ali
pêlos Macololos, que
modificáram os costumes d'aquelles povos a ponto tal, que
até lhes
implantáram a sua lìngua, que é a
lìngua official e elegante da côrte.
Era n'este idioma que falavam Lobossi e Gambela, servindo-me de
intèrpretes Verissimo e Caiumbuca. Eu disse ao
règulo, que vinha da parte do rei de Portugal (o Mueneputo),
nome pêlo qual sua
Magestade
Fidelissima é conhecido entre tôdos os povos da
Àfrica Austral, e que é formado por duas
palavras--
Muene,
que quer dizer Rei, e
Puto,
nome dado em
Àfrica a Portugal. Disse-lhe, que o meu fim
principal era abrir caminhos ao commercio, e que estando o Lui no
centro de
Àfrica, e ja em communicação com
Benguella, desejava abrir o
caminho do Zumbo, e assim um mercado muito mais perto, onde elles
poderiam ir abastecer-se dos gèneros Europêos de
que precisassem.
Elle queixou-se muito da falta que nos ùltimos tempos lhe
havia feito o não virem ali negociantes de Benguella,
não me
occultando que, entre outras cousas, estava sem pòlvora. Eu
respondi-lhe, que
elles viriam, se com elles fizessem bons negocios, e que eu lhe podia
affirmar, que o Mueneputo estava dispôsto a proteger o
commercio com elle, se
elle se compromettesse a não consentir nos seus estados a
compra e a
venda de escravos.
Não lhe occultei a falta de meios com que eu lutava, e
mostrando-lhe o desejo e empenho que tinha em abrir o caminho do Zumbo,
prometti-lhe, se elle me coadjuvasse na emprêsa, fazer-lhe
chegar de Tete, no
menor tempo possivel, a pòlvora e mais artigos de que elle
carecia.
O Gambela, homem intelligente e fino diplomata (tambem os ha
prêtos), quiz por vêzes enredar-me, mas eu
não sahia da
verdade e da lògica, e elle foi vencido.
No fim de muito discutir, ficou decidido, que o rei Lobossi mandaria
uma comitiva a Benguella, para guiar a qual eu lhe daria um homem de
confiança, com cartas para o governador e para Silva Porto,
e que elle me daria a gente de que eu precisasse para ir comigo ao
Zumbo.
Era uma hora da noute quando eu me retirei, e ainda que sempre
desconfiado de prêtos, não posso deixar de
confessar que me retirei satisfeito.
O dia foi tôdo muito occupado, e depois de á uma
hora me recolher, sobreveio-me um enorme accesso de febre.
Levantei-me muito doente no dia seguinte, e mandei logo Quimbundos e
Quimbares construirem um acampamento meio kilòmetro ao sul
de Lialui, para o quê obtive
autorização do rei.
Pêlas 10 horas, fui visitar Lobossi, que encontrei n'uma
grande casa circular, cercado de gente, e tendo diante de si seis
enormes panellas de capata. O meu Augusto, Verissimo, Caiumbuca e a
gente do
règulo, dentro em pouco estavam bêbados a cahir, e
ninguem se
entendia ali. Eu voltei a casa, e tive de deitar-me, de tal modo me
recresceu a febre.
Foi immensa gente visitar-me, e como eu não tinha remedio
senão ouvir uns e outros, porque aquelles nêgros
não t[~e]m a
menor consideração por um doente, peiorei muito.
Lobossi mandou-me seis bôis, cuja carne foi tôda
furtada pêla gente d'elle, porque a minha estava longe
construindo o acampamento, e Augusto, Verissimo e Camutombo
completamente bêbados,
não quizéram saber d'isso.
No dia immediato, Lobossi veio visitar-me logo de manhã; eu
estava um pouco melhor, mas a febre era constante e não
queria ceder
aos medicamentos.
Ás 10 horas, Lobossi mandou-me pedir para comparecer diante
do seu grande consêlho, que fizera convocar expressamente
para eu
expor os meus projectos.
Outra vez Gambela, que presidia á assemblea, me quiz
embaraçar, e outra vez se saío mal. Tive de
explicar Geographia a Gambela e aos conselheiros da corôa.
Tracei-lhes no chão o curso do Zambeze, e a leste parallelo
a elle o curso do Loengue, que, com o nome de
Cafúcué, vai
entrar no Zambeze a jusante dos ràpidos de Cariba.
Mostrei-lhes que em 15 dias alcançaria a
povoação de Cainco, situada em uma ilha do
Loengue, e que descerìamos o rio embarcados
até ao Zambeze, e por este ao Zumbo.
Afirmei-lhes, que o Loengue não tinha cataractas, e que o
Zambeze de Cariba ao Zumbo era perfeitamente navegavel.
Insisti pois n'este ponto, demonstrando-lhes, que apenas com uma
travessia por terra de 15 dias, que se podia reduzir mesmo a 10
(citando-lhes para isso um facto de uma expedição
Luina que, partindo de Narieze, tinha alcançado Cainco em 8
dias), com uma pequena
travessia por terra, elles estariam em ràpida,
communicação com os estabelecimentos Portuguezes
de Leste, por vias fluviaes completamente navegaveis.
O pùblico estava admirado da minha
erudição, e Gambela, que sabia mais geographia
Africana do que muitos ministros d'estado
Europêos, e que conhecia ser verdade o que eu expunha, cedeu
ás
razões.
Depois de longa e acalorada discussão, foi resolvido, que se
enviasse a comitiva a Benguella, e que me fôsse dada a gente
sufficiente
para atravessar o Chuculumbe até Cainco, deixando
três
ou quatro fortes postos no caminho, para segurar a passagem
áquelles que,
indo comigo até ao Zumbo, tivessem de regressar. No fim da
sessão, houve
grande enthusiasmo, e fôram logo nomeados os chefes que
deviam ir a
Benguella, e os que me deviam acompanhar.
Voltei a casa com um tal accesso de febre que perdi a razão,
melhorando ás 6 horas da tarde.
Á noute, annunciáram-me a visita de Munutumueno,
filho do rei Chipopa, o primeiro rei da dinastia Luina.
Mandei-o entrar, e vi um rapaz de 16 a 17 annos, muito elegante e
sympàthico.
Trazia uma calça prêta e uma farda de alferes de
cavallaria ligeira, em muito bom estado. Fez-me profunda
impressão ver aquella
farda! ¿A quem teria pertencido? ¿Como teria ido
parar ao centro
d'Àfrica?
Talvez alguma viuva necessitada encontrasse na venda d'aquelle objecto,
que pertencêra a um espôso estremecido, algumas
migalhas de pão para matar a fome.
Perguntei a Munutumueno ¿como tinha obtido aquella farda? e
elle respondeu-me, que tinha sido presente de um sertanejo Biheno,
havia ja muito tempo.
Indaguei, se não lhe havia encontrado nada nos bolsos, e
elle respondeu-me, que não tinha bolsos. Uma farda de
official
sem bolsos, era impossivel.
Pedi-lhe para m'-a deixar examinar, e tendo elle desabotoado o peito,
effectivamente vi que não tinha bôlso ali.
Roguei-lhe, que se voltasse, e comecei a explorar-lhe os bolsos das
abas. Elle estava admirado, porque não sabia que tinha
bolsos ali. Em um d'elles os meus dêdos
encontráram um pequenino
bilhête.
¿Iria saber a quem tinha pertencido aquella farda?
¿O que conteria aquelle papelinho dobrado que eu tinha
diante dos olhos e não me atrevia a abrir?
Cheio de commoção, desdobrei o papél,
e vi n'elle algumas linhas escritas a lapis, que li
àvidamente.
Não pude conter uma gargalhada.
O papél dizia assim:--
"Se lhe não sou indifferente, rogo-lhe o obsequio de me
indicar o modo de nos correspondermos."
Por baixo um nome e uma morada.
Sabia de quem fôra a farda.
O nome era o de um dos meus amigos e antigo condiscìpulo,
que hôje occupa uma distintissima
posição n'uma das armas
scientìficas do exêrcito Portuguez.
Um dia em pùblico commetti a
indiscrição de pronunciar o nome do signatario do
bilhête, que eu possuo, e ainda que indiscreto
fui, não creio ter de modo algum offendido aquelle nobre
official e distincto cavalheiro.
Uma farda que o talento e a applicação ao estudo
fizéram trocar por outra, mais distincta; que, abandonada ou
dada a algum criado,
pêla instabilidade das cousas, foi parar ao centro de
Àfrica,
creio é cousa que não desdoura ninguem. Em quanto
ao bilhête de
amôres, creio bem que ainda menos o deve vexar.
Infelizes d'aquelles que, aos desoito annos, não
escrevêram bilhêtes assim, e mais infelizes os que
depois dos trinta ja os não
podem escrever.
"Aquillo, meu amigo, foi cousa que um
papá,
ou uma
_máma, sempre impertinentes em taes casos, te não
deixou entregar, ao
sahir do theatro ou de um baile, á tua Dulcinea d'aquella
noute, ou que a tua
timidez dos desoito annos fêz recolher ao bôlso.
Imagino, meu
amigo, que te deves ter rido, sabendo que aquelle bilhête
esquècido,
depois de atravessar os mares, atravessou aquelles
inhòspitos paizes, e andou em
companhia de um prêto no alto Zambeze. É verdade,
que, para te
consolares, sabes que esse prêto era filho de rei."
N'esta aventura, eu fui o ùnico tôlo, em ter tido
pensamentos tristes, á vista do bilhête encontrado
no bôlso da farda de um
alferes de cavallaria, porque logo devia suppor, que tal
bilhête
só podia ser um bilhête d'amôres.
Um alferes de cavallaria, em Portugal, como em tôdos os
paizes, é sempre um fogacho onde as maripôsas
v[~e]m queimar as azas douradas.
Pensando na proposição que acabo de formular,
deitei-me cheio de tristeza, lembrando-me que ja era major.
No dia immediato, recresceu a febre a ponto de eu não poder
andar. Lobossi foi visitar-me, e levou com-sigo o seu mèdico
de
confiança.
Era um velho, pequeno e magro, de barba e cabello branco.
Principiou elle por tirar do pescôço um
cordão onde tinha enfiado oito metades de caroços
de uma fruta qualquér que eu
não conhecia. Começou, com grande recolhimento, a
pronunciar umas palavras màgicas,
e atirou com os caroços ao chão. D'estes, uns
ficáram com a parte interna voltada para a terra, outros com
a externa. Elle leu n'aquella
disposição, concluindo da leitura, que os meus
parentes mortos se tinham apossado de mim, e que era preciso dar-lhes
alguma cousa para elles me deixarem. Eu aturei tudo com a maior
paciencia, fingindo acreditar o que elle me dizia, e dei-lhe um pequeno
presente de pòlvora.
N'aquelle dia o Gambela deu-me um presente de dez cargas de milho e
massambala.
Estando concluido o meu acampamento, mudei para elle.
No dia 29 de Agosto, a febre cedeu um pouco ás fortes doses
de quinino que tomei, e senti bastantes melhoras. O meu estado moral
é
que peiorava de instante a instante.
Tinha alguns momentos de desalento inexplicaveis. A minha energia cedia
ante a fraqueza moral que se apossava de mim.
Estava sôb o pêso esmagador de um terrivel ataque
de nostalgia.
O rei mostrava muitos cuidados pêlo meu estado, mas cada
portador que vinha encarregado de saber da minha saude, era emissario
de um pedido cada vez mais impertinente.
N'aquelle dia mandou elle os seus mùsicos tocarem e cantarem
para me enterter, mas mandou em seguida pedir-me dois cartuxos de
pòlvora por cada mùsico.
N'essa tarde ouvi grandes toques de tambores na cidade, e o rei
mandou-me pedir, que mandasse dar alguns tiros na grande
praça, desejo que eu satisfiz mandando doze homens dar
fôgo.
Sube depois que aquillo era uma convocação
á guerra, e antes de falar nos motivos d'ella, direi em
poucas palavras a historia do Lui, desde o ponto em que ficou narrada
pêlo D^{or.} Livingstone, isto
é, desde a morte de Chicrêto.
O imperio, poderosamente sustentado pêla mão de
ferro, sabia prudencia e fina polìtica de Chibitano,
marcou-se com uma profunda
pègada de decadencia no reinado de seu filho
Chicrêto. David
Livingstone, muito grato aos favôres de Chicrêto,
que lhe deu os meios
de ir a Loanda e a Moçambique, é talves bastante
suspeito nos
elogios que dispensa a este rei; e mesmo na narrativa da viagem que ali
fez depois com seu
irmão Carlos e o Doutor Kirk, não pôde
deixar de narrar
a desordem e profunda decadencia em que encontrou o imperio Macololo.
Das gentes vindas do sul com Chibitano, isto é Macololos,
poucos existiam ja, tendo sido decimados pêlas febres do
paiz, que
nem os naturaes poupam. A embriaguez e o uso do bangue, de mistura com
os
desregramentos dos chefes, tinham feito perder tôda a
autoridade aos invasores. Môrto Chicrêto,
succedeu-lhe seu
sobrinho Omborolo, que devia reinar durante a minoridade de Pepe,
irmão muito mais
nôvo de Chicrêto, e filho ainda do Grande Chibitano.
Os Luinas conspiravam, e um dia Pepe foi assassinado. Omborolo
não tardou a ter a mesma sorte, e tendo sido ordenada uma
Saint
Barthélemi por os
Luinas, os restos d'esse forte
exèrcito invasor foi
assassinado, escapando apenas poucos, sôb o commando de
Siroque,
irmão da mãe de Chicrêto, que fugio
para Oeste, passando o Zambeze em Nariere.
Os Luinas, depois d'essa carnificina traiçoeira,
acclamáram seu chefe Chipópa, homem de tino, que
não deixou desmembrar
o paiz, e procurou conservar o imperio, poderoso como em tempo de
Chibitano.
Chipópa reinou muitos annos, mas as
ambições apparecêram e, em 1876, um tal
Gambela fel-o assassinar, e acclamar seu sobrinho Manuanino,
criança de 17 annos.
O primeiro acto do poder de Manuanino foi mandar cortar a
cabêça a Gambela, que o tinha feito rei, e
desprezando tôdos os
parentes e amigos do pai que o eleváram ao poder, chamou
para junto de si
só os parentes maternos. Aquelles conspiráram,
fizéram uma
revolução, e tentáram assassinal-o, em
Março de 1878; mas Manuanino, tendo alguns
fiéis, pôde escapar-se, e fugio para o Cuando,
onde assaltou e devastou a
povoação de Mutambanja.
Lobossi, acclamado rei, enviou contra elle um exèrcito, e
Manuanino têve de retirar d'ali, e repassando o Zambeze em
Quisséque,
internou-se no paiz do Choculumbe, atravessou este paiz, e foi
juntar-se a uns brancos, caçadores de elephantes, que
estavam na margem do
Cafuqúe. Lobossi entendeu, que a sua segurança
dependia da morte de
Manuanino, e mandou contra elle um nôvo exèrcito.
Foi do resultado
d'aquella expedição que n'esse dia
chegáram noticias.
Chegados perto do logar onde estava o ex-soberano com os brancos, que
elles chamam
Mozungos,
intimáram estes
a que lhes
entregassem Manuanino para o matarem, e como houvesse recusa, elles os
atacáram, mas, com tanta infelicidade, que fôram
completamente batidos
pêlos brancos; escapando muito poucos, que n'essa tarde
chegáram a
Lialui a narrar o seu desastre.
Eis aqui o motivo porque os tambores tocavam convocando á
guerra; e porque o rei Lobossi me pedio que mandasse dar tiros na
grande
praça da cidade.
Ja que falei na historia do Lui, não dêvo
proseguir sem narrar um dos seus episodios mais interessantes, porque
se refere a um typo verdadeiramente sympàthico.
É Siroque, aquelle Macololo, que, na occasião da
Saint Barthélemi dos Macololos, conseguio escapar com um
grupo de gente, passando o Zambeze.
Siroque, intrèpido e audaz, caminhou a oeste até
encontrar o Cubango, onde se estabeleceu, vivendo da caça
dos elephantes.
Depois subio o rio até ao Bihé, e fixou-se ali
por muito tempo, chegando por vêzes a ir a Benguella em
comitivas sertanejas. Um dia
porem, tendo umas questões em que bateu os que o
atacáram,
retirou por prudencia para o interior; indo acampar no rio Cuando
abaixo do Cuchibi, onde continuou a vida de caçador.
Siroque era intelligente e bravo, e de uma familia que tinha reinado,
não podia deixar de ser ambiciôso.
Sonhou com o restabelecimento da monarchia Macolola no Lui, e foi-se
approximando d'ali pêlo Cuando.
Um pombeiro do Bihé, seu amigo e que lhe tinha fornecido
pòlvora, denunciou-o, e Manuanino, então
acclamado de pouco, fel-o
assassinar junto da povoação de Mutambanja,
pêla
mais cobarde traição.
Tôdos os seus fôram vìctimas, e a
azagaia do assassino de Siroque abrio o tùmulo ao
ùltimo dos Macololos.
Aquelle dia amanhecido tão bonançoso para o
adolescente monarcha, que só via sorrir-lhe a vida,
tornara-se de repente sombrio e carregado, envolvido em nuvens de
tempestade.
As noticias más succedem-se, e corria o boato, de que Lo
Bengula, o poderoso rei do Matebeli, projectava um ataque contra o Lui.
Andavam tôdos desorientados, tôdos emittiam
alvitres, todos pensavam loucuras; só dois homens se
conservavam serenos no meio
d'aquelle pôvo semi-louco. Eram Machauana e Gambela--Gambela
o ministro da Guerra, Machauana o General em chefe.[
1]
Ordens acertadas e ràpidas eram dadas por elles a emissarios
fiéis, que partiam para povoações
distantes.
¿O que seria de mim no meio dos novos acontecimentos que
agitavam o paiz?
Diziam e repetiam, que fôram os
Muzungos
que
matáram os sicarios de Lobossi, enviados contra Manuanino, e
se ali se soubesse que eu era
Muzungo,
estava
irremediavelmente perdido. Estes povos
felizmente ignoram isso, e pensam que os Portuguezes de leste sam de
outra
raça differente dos Portuguezes de oeste.
No Lui, os Portuguezes das colonias de oeste sam chamados
Chiudéres,
nome que lhes dam os Bihenos; os das colonias de leste,
Muzungos;
e os Inglezes do sul,
Macúas.
A
tôdo e
qualquér prêto que vem das colonias Portuguezas
chamam
Mambares,
de certo
corrupção
da palavra
Quimbares,
com que sam designados os prêtos
semi-civilizados de Benguella. D'ahi proveio o erro do Doutor
Livingstone, arranjando a oeste das serras de Tala Mugongo uma
raça de
Mambares.
Os
Quimbares
sam prêtos de
qualquér procedencia,
geralmente escravos ou libertos, que ja sam meio-civilizados. Sam,
finalmente, a gente das senzalas de Benguella e as escravaturas dos
brancos da costa.
Em Benguella chamam
Quimbundos
ao gentio selvagem
do interior, designando com esse nome mais particularmente os Bihenos.
No dia 30, logo de manhã, Lobossi mandou dar-me parte de que
se ia fazer a guerra, e dos motivos que a isso o obrigavam.
O emissario foi o proprio Gambela, que me disse logo, que, sendo o
Chuculumbe o theatro da guerra, era impossivel a minha viagem por ali;
e por isso, que tudo o que havìamos combinado estava
prejudicado.
Aquelles acontecimentos tornavam muito crìtica a minha
posição.
N'essa tarde, estando eu com um nôvo e violento accesso de
febre, viéram prevenir-me, de que os pombeiros Bihenos me
queriam falar.
Levantei-me a custo e fui ouvil-os.
Depois de variados preàmbulos, disséram-me, que
me iam deixar, porque viam o mao caminho que as cousas tomavam no Lui,
e só
desejavam voltar ao Bihé.
Cobardes! Abandonavam-me no momento em que eu mais precisava d'elles!
Miguel, o caçador de elephantes, o pombeiro
Chaquiçongo, e dois carregadores, Catiba e um carregador, e
o Doutor Chacaiombe,
viéram protestar-me a sua amizade, e declarar-me que ficavam
comigo.
Tôdos os
Quimbares
me viéram fazer igual
declaração.
Aquella resolução inesperada dos Bihenos
fêz-me recobrar o sangue frio que ja não tinha ha
dias. Augmentavam as difficuldades, era
preciso lutar, e eu sacudi o entorpecimento moral que se ia apossando
de mim.
Immediatamente despedi os Bihenos, que puz fora do acampamento,
entregando-os ao prêto Antonio, o velho Antonio que eu tinha
designado a Lobossi para ser chefe e guia da comitiva que elle ia
mandar a Benguella.
Fiz em seguida a conta á minha gente, e achei-me com 58
homens.
No dia immediato, Lobossi veio a minha casa, e fêz-me
repetidas exigencias de cousas que eu não possuia, e elle
queria por
fôrça que eu tivesse e lhe desse. Estava cada vez
mais importuno. Era uma
criança, mas criança impertinentissima. Precisava
de uma paciencia
sem limites para o aturar.
Lobossi mandou-me chamar n'essa noute. Fui la, e elle disse-me, que a
minha viagem pêlo Chuculumbe era impossivel, mas que me daria
guias e alguma gente para eu tornear pêlo sul e ir ao Zumbo.
Disse-me, que o boato a respeito dos Matebeles não tinha
fundamento, que d'aquelle lado havia paz e elle terminaria facilmente
com Manuanino. Queixou-se muito amargamente de eu lhe dar poucas
cousas, dizendo, que se eu nada mais tinha, lhe desse tôdas
as armas e a
pòlvora que possuia, porque, seguindo para o Zumbo com gente
d'elle, seria defendido por ella, e não precisava levar
tanta gente armada.
Offereci-lhe as armas dos Bihenos que me tinham deixado n'esse dia, e
que tive o cuidado de lhes tirar, e sete barris de pòlvora,
mas neguei-me formalmente a dar-lhe uma só que
fôsse
das outras, dos homens que me ficáram, ou das minhas
particulares.
Retirei-me pouco satisfeito d'aquella entrevista.
No primeiro de Setembro, levantei-me muito doente, e depois de ter
feito as observações da manhã, tornei
a
deitar-me; quando o Verissimo entrou espavorido na barraca, e me diz,
que Lobossi mandara chamar
tôda a minha gente, e lhe exposera, que eu tinha vindo ali de
propòsito
para me ir juntar aos
Muzungos
que estavam no
Cafuque com o
Manuanino, e fazer-lhe guerra a elle. Isso estava demonstrado
pêla minha
insistencia em querer ir ao Chuculumbe. N'essa noute fôra
elle prevenido
dos projectos que eu meditava, e por tanto, me ia obrigar a sahir dos
seus estados, e só me deixaria livre o caminho do
Bihé.
Encarregara elle o Verissimo de me vir fazer a
intimação; cousa que em nada me desconcertou o
espìrito, porque, desde a
vèspera á noute, eu esperava novidade grande.
Mandei chamar o Gambela, mas elle têve o cuidado de fazer com
que o não encontrassem em tôdo o dia.
Um recado que fiz chegar a Lobossi, mostrando-lhe a inconveniencia do
passo que dava, porque eu lhe podia fazer muito mal impedindo os
sertanejos do Bihé de virem ali, têve por
ùnica resposta nôvo mandado de despejo, e
só livre o caminho do Bihé.
Á tarde, nova prevenção, de que as
forças que estavam reunidas para a guerra, não
sahiriam sem eu ter deixado o paiz do Lui em
caminho de Benguella.
Respondi ao enviado, que dissesse ao rei Lobossi, que dormisse
sôbre o caso, porque a noute era bôa conselheira, e
que esperava
ainda a sua ùltima decisão no dia immediato.
A 2 de Setembro, logo de manhã, recebi a visita de Gambela,
que vinha da parte do rei, ordenar-me que sahisse do seu reino
immediatamente, e que o ùnico caminho livre era o do
Bihé.
Não pode passar nem por ali, nem por ali, nem por ali, me
disse elle, apontando para o N., E. e S.
Contra tôdos os usos do paiz, o Gambela, em quanto
estêve em minha casa, conservou as armas na mão, e
eu entretive-me brincando com
um magnìfico revólver Adams-Colt.
Fingi que meditei a minha resposta, e disse-lhe, "Amigo Gambela,
vá dizer a Lobossi, ou tome o recado para si, que eu
não arredo
um passo d'aqui para seguir o caminho de Benguella. Tem ahi um numeroso
exèrcito, que me venha atacar; eu saberei defender-me, e se
morrer, o Mueneputo lhe tomará contas d'isso.
Vocês estam indispostos
com os Matebeles, ameaçados pêla guerra civil
levantada por
Manuanino, indisponham-se tambem com o Mueneputo, e estam perdidos.
Outra vez lhe repito, que
não
sahirei d'aqui senão para seguir o meu caminho."
Gambela sahio da minha barraca furioso.
N'essa noute Machauana veio furtivamente visitar-me. Previnio-me elle
de que Gambela aconselhara ao rei para me mandar matar, e que Lobossi
se negara a isso terminantemente. O caso foi passado em conselho, a que
assistia Machauana, que me fez mil prevenções
para estar de sôbre-aviso.
A larga conversação que tive com o antigo
companheiro de Livingstone, mostrou-me que entre elle e Gambela havia
reixa velha. O antigo guerreiro de Chibitano, depois muito
afeiçoado ao rei
Chipopa, só pensava em ver occupar o trôno do Lui
ao filho d'este, seu
pupillo e seu protegido, o joven Munutumueno, o meu alferes de
cavallaria ligeira.
Tendo podido ler no coração do velho aquelle odio
e aquella affeição, considerei-me salvo. O seu
poder era grande, porque elle tinha influencia n'uma enorme parte das
tribus do Lui; e por isso as azagaias, que tanto ferem ali nas
revoluções, o tinham
poupado. Fiz-lhe muitos protestos de gratidão, e pedi-lhe,
que me prevenisse logo
que o rei Lobossi determinasse matar-me. Elle prometeu, e retirou-se.
Eu fui deitar-me, levando a referver na mente, um plano singelo, que me
abstive de communicar a Machauana, para lhe evitar idéas
cubiçosas, que elle não tinha n'aquelle momento.
Resolvi, se acaso Lobossi decretasse a minha morte, chamar cinco dos
meus homens mais decididos, uma especie de cães que eu tinha
comigo, como eram Augusto, Camutombo e outros, e ir com elles logo
á
audiencia do rei, onde tôdos estam desarmados, fazel-os, a um
signal
meu, saltarem sôbre Lobossi, Gambela, Matagja e os outros
dois conselheiros
ìntimos, e eu de um pulo acercar-me de Machauana o general
em chefe, o homem que tinha ali acampados dez mil guerreiros, e
gritar-lhe bem alto
"¡Viva Munutumueno, rei do Lui, viva o filho de Chipopa!"
Uma revolução feita n'estes termos não
podia deixar de dar bom resultado n'um paiz que ama as
revoluções, e onde se faria
a primeira em que não houvesse uma gôta de sangue
derramado.
Acalentando este pensamento salvador, adormeci profundamente, para
acordar, no dia 3, ao chamamento do meu muleque Catraio, que me vinha
prevenir, de que Lobossi estava ali, e me queria falar.
Levantei-me e fui receber o rei. Elle vinha participar-me, que tinha
mudado de parecer, e que tôdos os caminhos estavam livres
para mim.
Que me daria guias até ao Quisséque, mas que, em
vista das cousas que se estavam passando nos seus estados,
não podia dar-me
fôrça para me seguir, nem se responsabilizava por
qualquér desastre que me
podesse acontecer, indo eu com 58 homens apenas.
Agradeci-lhe aquella decisão, e declarei-lhe, que tinha por
costume, só eu mesmo me responsabilizar pêla minha
vida, e não
tornar ninguem responsavel d'ella.
Antes de se retirar, fêz-me muitos pedidos, que
ficáram sem satisfação, por
não ter nada do que elle queria. Um dos pedidos que me
fazia tôdos os dias, era o de seis cavallos. Tendo-me visto
chegar a pe, e sabendo que eu não tinha cavallos, era
impertinencia tal desejo.
Sube depois, que a nova decisão tomada por Lobossi
fôra filha de reïteradas instancias do Machauana,
que lhe mostrou a
inconveniencia do passo que dava, fazendo-me sahir dos seus estados a
pesar meu.
No dia 4, de manhã, estando um pouco melhor da febre, fui
assistir a uma audiencia do rei, que se mostrou em extremo amavel para
comigo. Logo ao nascer do sol, Lobossi sahi dos seus aposentos, e ao
som de marimbas e tambores, dirige-se á grande
praça, onde vai
sentar-se junto a uma alta sebe semi-circular, cujo centro é
occupado pêla
cadeira real.
Por de traz d'elle senta-se a gente que compõe a
côrte, e á sua direita Gambela e os outros
conselheiros, se estam presentes.
Na frente do règulo, a 20 passos, a mùsica em
linha, e aos lados, em muitas fileiras, o pôvo.
Ali tratam-se um certo nùmero de negocios, que
não precisam ser tratados em conselho privado. Aquella
audiencia é tambem judicial.
N'aquelle dia tratava-se de um crime de furto. O queixoso chamou o
accusado, que veio sentar-se em frente d'elle, e fez a
accusação. O
acusado negou o crime, e logo de entre o pôvo sahio um homem
que veio advogar em
favor do réo. Ali qualquér amigo ou parente pode
defender o amigo ou
parente.
Gambela tomou a palavra, e o accusado veio ajoelhar em frente d'elle;
fêz-lhe varias perguntasse mandou-o embora.
Continuou o debate, comparecendo testemunhas de
accusação e defesa. O crime foi provado, e o
accusador pedio, que lhe entregassem a
mulhér do ladrão; ficando indemnizado da perda de
uns fios de
missanga, objecto do roubo, pêla posse da mulhér.
Terminado este debate, apparaceu outro homem accusando a
mulhér de lhe não obedecer. Esta
accusação foi
seguida de muitas outras semelhantes, e mais de vinte
sùbditos de Lobossi fizéram amargas
queixas contra as espôsas; demonstrando-me, que as mulheres
em Lialui estavam
em completa
revolta domèstica. Depois de alguma discussão,
foi resolvido, que tôda a mulhér que
não obedecesse cega e absolutamente ao
marido, fôsse amarrada e mettida na lagôa, onde
passaria uma noute só com
a cabêça de fora.
Aprovada esta nova lei, Gambela ordenou a alguns chefes, que a
promulgassem nas povoações.
Uma cousa muito curiosa n'aquellas audiencias é o modo
porque Gambela conferenceia com o rei em segrêdo, diante de
tôdos.
A um signal de Gambela, começa a mùsica a tocar,
e os oito
batuques fazem uma bulha de tal modo infernal, que é
impossivel perceber uma palavra das
que trocam o rei e o ministro.
Em seguida á audiencia, o rei vai para um aposento proprio
para se embebedarem.
V[~e]m panellas e panellas de capata, e elle e os seus prestam um
verdadeiro culto ao deos Baccho. D'ali vai para a cama, e á
tarde, depois de novas libações, dá
nova
audiencia. Logo que, ao anoutecer, termina a audiencia, vai comer, e
segue para o serralho, d'onde raramente sahi antes da uma hora, e
recolhendo a casa para dormir, vahi deitar-se ao som ruidoso dos
tambores.
O cessar dos batuques annuncía que o règulo
está recolhido, e então a guarda, composta de uns
quarenta homens, começa a tocar uma
mùsica, que, apesar de monòtona, é
agradavel; e tôda
a noute cantam um côro suave e harmonioso a meia voz. Esta
mùsica que no Barôze
acalenta o sono do soberano, serve para mostrar que a guarda vela em
tôrno do
seu aposento. N'estes poucos traços dou uma idéa
resumida do
viver monòtono do autòcrata Africano, viver
repartido entre a lascivia
tôrpe e a embriaguez brutal.
N'aquelle dia, 4 de Setembro, sube, que devia a vida a Machauana, que,
em conselho privado, se opôz formalmente a que me mandassem
assassinar; dizendo, que elle tinha estado em Loanda com Livingstone, e
ali tinha sido muito bem tratado pêlos brancos, assim como os
Luinas
que o acompanhavam; e por isso não podia consentir que
fizessem
mal a um branco da mesma raça.
Chegou mesmo a ameaçar os poderes constituidos, o que era
caso grave para elles; porque no Lui os ministros morrem sempre na
queda dos ministerios; precaução tomada
pêlos
novos conselheiros, que com alguns golpes de azagaia cortam pela raiz
as opposições.
Cá na Europa, algumas vêzes, procura-se denegrir a
reputação dos antecessores, buscando desdoural-os
aos olhos do pôvo, para
lhes diminuir a fôrça moral como
opposição. Eu acho mais nobre, mais digno e mais
seguro o systema polìtico dos Luinas, o que
não quer dizer que o recommende.
O conselho, em vista da attitude e das razões de Machauana,
decidio, queeu não morrêsse; mas, parece que algum
dos
conselheiros por conta propria decidio o contrario; porque, n'essa
noute, estando afastado do acampamento, preparando-me para tomar
alturas da lua, uma azagaia de arremesso passou tão perto de
mim que a aste vergastou-me o
braço esquêrdo. Olhei para o lado d'onde partira a
arma, e vi um
prêto a vinte passos, empunhando outra. Tirar o
revólver e fazer
fôgo sôbre elle, foi acto mais instinctivo do que
pensado. Ao estampido do tiro, o assassino virou costas e correu em
direcção a Lialui. Corri
sôbre elle. Sentindo-me no encalço, o
prêto deitou-se por
terra. Receei uma cilada, e foi a passos medidos que me approximei
d'elle, prompto a fazer
fôgo.
Vi que o membrudo indìgena estava de bruços com
as azagaias cahidas ao lado.
Peguei-lhe n'um braço, e ao tempo que senti as carnes
estremecerem ao contacto da minha mão, senti um
lìquido quente
correr-me por entre os dêdos. O homem estava ferido. Fil-o
erguer, e elle disse-me,
tranzido de mêdo, umas palavras que eu não
entendi.
Apontando-lhe o revólver, obriguei-o a acompanhar-me ao
acampamento.
Ali não fizera sensação o tiro de
revólver, porque tôdas as noutes se ouvem mais ou
menos tiros. Chamei dous muleques de
confiança, e entreguei-lhe o meu prisioneiro, cuja ferida
examinei. A bala entrara junto á cabêça
superior do
hùmero direito, perto da clavìcula, e
não tendo sahido, suppuz estar fixa na omoplata.
Não lhe
apparecendo sangue nas vias respiratorias, calculei que o
pulmão não
tinha sido offendido, assim como o fio de sangue que corria da ferida,
pêla sua
tenuidade me mostrava que nenhum dos vasos importantes da
circulação tinha sido cortado. N'estas
condições a ferida
não apresentava gravidade, pêlo menos de momento.
Depois de lhe fazer um ligeiro curativo, mandei chamar o Caiumbuca, e
ordenei-lhe que me acompanhasse a casa do rei, fazendo com que os
muleques conduzissem para ali o ferido.
Lobossi tinha voltado de casa das amantes, e conversava com Gambela
antes de se deitar. Apresentei-lhe o ferido e perguntei-lhe o que era
aquillo. O rei mostrou um grande terror, vendo-me coberto de sangue do
assassino, que eu nem tinha lavado; e um olhar trocado entre Gambela e
o ferido, mostrou-me quem tinha sido a cabêça que
enviara aquelle braço. Lobossi mandou logo retirar d'ali o
prêto, e disse-me, que
aquillo era um grande agouro, e que ja não durmiria aquella
noute
socegado.
Narrei o acontecido, e Gambela apoiou muito o que eu tinha feito,
lastimando que eu não tivesse morto o prêto, e
dizendo-me, que ia matar meio mundo.
O prêto era desconhecido em Lialui, e os da guarda de Lobosi
disséram nunca o terem visto. Lobossi pedio-me, que
guardasse sôbre o
facto o maior segrêdo, assegurando-me, que não me
acontecia outra em quanto estivesse nos seus estados.
Eu voltei ao campo mais desconfiado que nunca das amabilidades de
Gambela.
Por noute fora, senti que alguem tentava penetrar na minha barraca, e
puz-me a pe sem ruido, prompto a sorprender aquelle que julgava
fazer-me sorpresa.
A pessôa era de certo conhecida, porque a minha cadella
Traviata não ladrava, e fazia festas com a cauda para o
ponto por onde alguem se introduzia de rastos.
Esperei um momento, e ao clarão da fogueira conheci a
prêta Marianna, que, com meio côrpo dentro da
barraca, me fazia signal para
que entivesse calado.
Entrou, achegou-se a mim e disse-me: "Toma cautela. O Caiumbuca
atraiçôa-te. Depois que voltou com-tigo de casa do
rei, tornou a Lialui a falar com Gambela; e logo que chegou aqui,
reunio com muito
socêgo a gente de Silva Porto, e estêve a falar com
elles na barraca
d'elle. Eu fui escutar, e ouvi falar em te matarem. O Verissimo tambem
la estava. Elles disséram, que como tu não
entendias a
lìngua do Lui, quando tu lhes dissesses uma cousa para dizer
ao rei, elles diriam outra, e te dariam tambem a resposta trocada, que
assim haviam de fazer com que o rei te matasse.
"Toma cautela, olha que elles sam muito maos."
Agradeci muito á pequena o aviso e dei-lhe o
ùnico collar de missanga que me restava, e que eu reservava
para uma das favoritas de Machauana.
A declaração da Marianna, veio ferir-me
profundamente. Os homens em que eu confiava eram os primeiros a
atraiçoar-me.
Mil pensamentos tristes, que não conseguíram
alquebrar-me o espìrito, produzíram uma noite de
insomnia. É verdade, que
a prevenção de Marianna veio dar-me uma vantagem
enorme sobre elles, que ignoravam que eu lhes conhecia a
traição nos seus detalhes; e de
manhã ao levantar-me, eu repetia a mim mesmo o
rifão Portuguez, de que "um homem
avisado vale por quatro."
Gambela foi visitar-me, e repetio-me mil protestos de amizade; mas eu
presentia que o perigo pairava em tôrno de mim, e que a
espada de Damocles estava suspensa sôbre a minha
cabêça.
N'esse dia entreguei a Gambela as cartas para o governador de
Benguella, e a comitiva do rei do Lui, commandada por três
chefes Luinas
e guiada pêlo velho Antonio de Pungo Andongo, seguio caminho
da costa.
Com ella fôram os Bihenos que me haviam abandonado. Estava
satisfeito com aquelle primeiro resultado obtido; e se os meus
trabalhos se perdêssem e mais nada fizesse, o ter posto um
pôvo
tão poderôso em relações com
a civilização
Europea da costa, era ja um resultado importante da minha viagem.[
2]
A revelação feita n'essa noute por Marianna
trazia-me preoccupado, e eu só pensava no meio de parar o
golpe que me feria, com a
traição d'aquelles em que eu mais confiava.
Formei um plano que decidi pôr em pràtica n'esse
mesmo dia.
A narrativa dos repetidos e graves acontecimentos que se
déram comigo depois da minha chegada ao Lui, não
me tem deixado falar dos
povos Luinas e seus costumes.
Em logar de encontrar ali essa raça forte e vigorosa, creada
por Chibitano, e que existio com o imperio Macololo, fui deparar com
uma raça abastardada, misto de Calabares, Luinas, Ganguelas
e
Macalacas, que t[~e]m unido o seu sangue marcando cada cruzamento uma
pègada de decadencia. O uso immoderado do bangue ou cangonha
(
Cannabis
Indica), a embriaguez e a
syphilis, t[~e]m
lançado aquelle
pôvo no mais abjecto embrutecimento moral, e enfraquecimento
physico.
Figura
97.--Cachimbos de
fumar o Bangue.
O primeiro d'aquelles três grandes inimigos da
raça prêta chegou-lhe do sul e leste
pêlo Zambeze; os dois outros fôram ali
importados pêlos Bihenos, que lhe trouxéram ainda
outro inimigo
não menos terrivel, o tràfico da escravatura.
Poucos paizes Africanos leváram tão longe como os
Luinas a pràtica da polygamia. ¡Gambela,
á èpocha da minha
estada no Barôze, tinha mais de setenta mulheres!
O Lui, ou Barôze propriamente dito, isto é, o paiz
que fica ao norte da primeira região das cataractas,
compõe-se, da
enorme planicie onde corre o Zambeze, que tem de 180 a 200 milhas do N.
a S., e por
vêzes, de 30 a 35 O. a E., planicie elevada 1,012 metros ao
mar; do paiz mais elevado a leste, onde assentam innùmeras
povoações, que v[~e]m estabelecer as suas
culturas na grande planicie; e ainda na enorme planura do Nhengo, onde
corre o Ninda. A planura do Nhengo é separada do leito do
Zambeze por uma nervura de terreno elevado de 20 metros, que corre
parallela ao rio, e onde estam muitas povoações,
livres das maiores
cheias.
Durante o tempo das grandes chuvas, a planicie do Zambeze é
inundada, e eu medi em algumas àrvores onde tinham ficado
signaes do
maior nivel das àguas três metros.
No parallelo 15^o tem ella uma largura de trinta milhas, e por isso, na
èpocha das cheias, calculando uma corrente mìnima
de 20 metros por minuto, devem passar ali 240 milhões de
metros
cùbicos d'àgua por hora. Isto dá uma
medida do que sam as chuvas na Àfrica
tropical, acrescentando-se, que regularmente a
inundação
atinge o seu màximo em oito dias.
O pôvo Luina, que em grande parte vive na planicie, retira
para o paiz montanhoso durante as inundações.
Ao retirar das àguas, volvem a occupar as
povoações abandonadas na invernía, e
cobrem o campo com os seus rebanhos enormes,
que, diga-se a verdade, não encontra ali um pasto
viçoso em
èpocha alguma do anno; porque os prados sam formados,
pêla maior parte, de
caniçal, onde abunda uma especie do
Calamagrostis
arenaria.
As culturas sam feitas mais na margem direita do que na esquerda do
Zambeze, e sempre junto das encostas.
A inundação deixa na planicie um
sem-nùmero de pequenas lagôas, que se atulham de
vegetação aquàtica, e que
sam outros tantos focos miasmàticos de
infecção palustre. Ha èpochas no
anno em que os proprios indìgenas sam fortemente atacados
pelas febres endèmicas.
Nas lagôas abunda peixe e ha muitos batràchios.
É d'estas lagôas que se fornecem de
àgua potavel os indìgenas, mas é
preciso confessar, que elles só a bebem depois de
transformada em Capata.
Os Luinas sam pouco agricultôres, e muito pastôres.
Os seus rebanhos constituem a sua principal riqueza, e no leite das
vacas encontram o seu principal alimento.
O haver do Luina consiste em algumas vaccas e algumas mulheres.
O leite frêsco e o leite azêdo (coalhado) sam, com
a batata dôce, a base da sua
alimentação. A farinha de milho
é empregada para fazer a Capata, de mistura com a de
massambala, principal cultura do paiz.
Os Luinas fabricam o ferro, e tôdas as suas armas e
tôdos os seus utensilios, sam feitos no paiz. Não
usam facas, e
não podemos deixar de nos admirar das esculpturas que fazem
em madeira, sabendo que
não empregam facas, e mais ainda, logo que
conheçamos o
instrumento com que trabalham. No Lui, onde o machado termina a obra
grossa de desbaste, começa a obra da azagaia. O ferro d'esta
é
instrumento para tudo. Os bancos onde se assentam, as escudellas em que
comem as vasilhas do leite, e tôdos os seus utensilios de
madeira, sam cortados
com ella.
Figura
98.--Vasilha para
leite feita de Madeira.
Entre elles ha um primorosamente trabalhado, em geral, e é a
colhér. Vivendo de leite, o Luina não pode
prescindir da
colhér, e dispensa a faca. O seu systema de
alimentação explica a
falta d'esta e o muito uso d'aquella.
Figura
99.--Objecto de
Ferro forjado que serve de Lenço de
assoar aos Luinas.
Especie
de
Espàtula.
Figura
100.--Pratos e
Escudellas para a comida.
Figura
101.--Colhér.
Figura
102.--Machado de
cortar Madeira.
A industria ceràmica limita-se no Barôze
á fabricação de panellas para cozinha,
para a capata, e grandes talhas de barro para guardar cereaes.
Àlém d'isto, fornalhas para os cachimbos de fumar
o
bangue.
Figura
103.--Artigos de
Barro.
1.
Panellas de cozinha.
2.
Tálha de
guardar cereaes.
3,
3. Fornalhas dos
cachimbos.
O Luina só fuma o
bangue;
o muito
tabaco que
cultivam
é empregado exclusivamente para cheirar, e d'elle fazem
grande uso homens e mulheres. É este o pôvo mais
coberto que encontrei
em Àfrica. É raro ver-se ali um homem ou
mulhér despidos da cintura para cima.
Os homens, como ja disse no capìtulo anterior, usam umas
pelles
passadas em um cinto, que pendem adiante e atraz, chegando
até aos
joêlhos. Um manto de pelle, que posto, assemelha as capas do
tempo de Henrique 3^o, cobre-lhes o tronco e cahi-lhes até
meia perna.
Um largo cinto de couro, independente do que lhes segura as pelles da
cinta, muitas manilhas e muitos amulêtos, completam o seu
trajar. As mulheres trajam um saio de pelles, que adiante
chêga ao
joêlho, e atraz desce até ao grôsso da
perna. Sôbre o
saio um largo cinto enfeitado de buzio (
caurim).
Um pequeno manto de pelles, muitas
missangas ao pescôço e muitas manilhas nos
braços e
pernas, sam o vestuario do paiz. Vemos hôje muitas
indìgenas substituindo as pelles
por estôfos Europêus, os capotes por cobertores de
algodão, e mesmo tôdo
o trajar gentìlico, por o fato do homem civilizado; mas eu
aqui não curo das
excepções, falo no traje primitivo do paiz, e
não nas
innovações que o commercio ali tem levado.
É preciso contudo revelar, que este pôvo
tem uma tendencia manifesta para se vestir. De certo, antes da
invasão dos
Macololos, os Luinas deviam andar muito pouco cobertos. Os povos
Chuculumbes, seus vizinhos de leste, andam completamente
nús, homens e
mulheres. A oeste os Ambuelas fôram tambem encontrados
nús,
pêlos primeiros sertanejos Portuguezes que ali se
aventuráram,[
3]
e ainda
hôje não se cobrem muito.
Figura
104.--Homem Luina.
O trajar dos Luinas que eu descrevi, é o mesmo usado
outróra pêlos Macololos, e por isso é
de crer que fôsse
introduzido por elles.
Essa tendencia, que eu faço notar, d'este pôvo
para se vestir, deve merecer a attenção do
commercio, e é
uma tendencia a explorar em beneficio d'elle, dos indìgenas
e da
civilização.
Figura
105.--Mulhér Luina.
As mulheres nobres, e em geral as ricas, untam o côrpo com
manteiga de vacca misturada de talco em pó, que lhes
dá
á pelle um lustro avermelhado, e ao mesmo tempo um cheiro
desagradabilissimo.
Entre os Luinas encontram-se muitas espingardas de fulminante, de
fàbrica Ingleza, levadas ali pêlos sertanejos do
sul, e outras de silex Belgas, vindas do commercio Portuguez de
Benguella; mas os
indìgenas, ao contrario do que acontece, com tôdos
os povos da costa de
Oeste até ao Zambeze, preferem as armas de fulminante, e
alguns ha, que
só querem ja carabinas raiadas. Não usam cartuxo
como os Bihenos e povos circumvizinhos d'estes, e trazem a
pòlvora sôlta
em cornos, ou em cabaças. As armas do paiz sam azagaias,
porrinhos, e
machadinhas. Não usam frechas.
Figura
106.--Azagaias Luinas.
Figura
107.--Machadinhas de guerra.
Figura
108.--Porrinho.
T[~e]m por arma defensiva grandes escudos ogivaes, de couro de
bôi armados em madeira. Cada homem traz, em geral, de cinco a
seis azagaias de arremêço.
Os ferros d'estas azagaias, sem serem envenenados, não sam
por isso menos terriveis; devido ás barbas desencontradas
que lhes
fazem, de modo que, na maior parte dos ferimentos, é preciso
matar o ferido
para lh'-as arrancar do côrpo.
O que eu vi usarem os Luinas, e mostrou a preferencia que t[~e]m,
fôram as missangas chamadas no commercio de Benguella,
missanga leite, azul celeste e Maria 2^a.
Os cassungos finos, branco, azul e encarnado, sam tambem estimados.
Fazendas tôdas sam bôas para o Lui, preferindo
elles as melhores. O arame de latão, de três a
quatro
milìmetros de diàmetro, tem valor, e a roupa
feita, cobertôres, armas de percussão,
fulminantes, pòlvora, chumbo em barra, e artigos de
caça, sam ali cotados em
subido prêço.
Em tôdo o paiz o commercio é feito exclusivamente
com o règulo, que faz d'elle monopolio; pertencendo-lhe
tôdo o marfim que se
caça nos seus estados, e tôdos os gados dos seus
sùbditos, a
quem elle os pede quando precisa. Das fazendas, armas e outros artigos
que permuta, faz presentes aos seus caçadores, chefes de
povoação, côrte, etc.
As mulheres gozam de bastante consideração, e
entre a nobreza não fazem nada, passando a vida sentadas em
esteiras, a beber capata e a cheirar tabaco. Possúem muitos
escravos, pêla maior parte
Macalacas, que as servem.
Os grandes rebanhos dos Luinas, sam de bôis de uma
raça magnìfica, e mesmo as suas gallinhas e
cães sam de melhores
raças do que os que encontrei até ali.
O valle do Barôze está cercado por éste
a sul da terrivel mosca zê-zê, o que os obriga a
concentrarem os gados na planicie, e torna difficil a sahida d'elles, a
não ser para oeste no caminho de
Benguella, tôdo limpo do prejudicial diptéro.
Eis em curto resumo o que eu vi d'esse paiz, que primeiro, antes da
invasão de Chibitano, foi visitado por um Portuguez (Silva
Porto), que foi visto depois por David Livingstone, debaixo do imperio
dos Macololos, e que eu encontrei em condições
bem
differentes, sôb a dinastia Luina, em 1878.
Retomando a narrativa das minhas tristes aventuras, no dia 5 de
Setembro, dia seguinte ao da revelação de
Marianna, resolvi fazer com que os traidôres fôssem
trahidos por um dos seus, e
lancei as minhas vistas sôbre Verissimo Gonçalvez.
Chamei-o á minha barraca, e mostrei-lhe antes de lhe falar,
a copia de uma carta apòcrypha, escrita para Benguella, em
que eu dizia
ao governador, que, tendo desconfianças de Verissimo, lhe
pedia
que mandasse prender a mulhér, o filho, e a mãe
d'elle, e se acaso acontecesse eu ser vìctima de alguma
traição, as mandasse para Portugal, onde eu disse
ao Verissimo que os meus parentes as fariam queimar vivas.
Depois d'este exordio, assegurei-lhe, que aquella carta fôra
escrita como simples prevenção, porque eu
confiava
plenamente na sua dedicação por mim; mas que essa
dedicação tinha de estar
vigilante, porque eu desconfiava levemente do Caiumbuca, e se me
acontecêsse
alguma desgraça, eu não poderia evitar os
horrores que estavam reservados aos
entes que lhe eram caros. Disse-lhe sobre tudo, desconfiava que
Caiumbuca
não transmittia ao rei o que eu lhe dizia, assim como me
dava transtornadas as respostas de Lobossi. Que elle deveria estar
sempre presente nas minhas entrevistas com Lobossi, e dizer-me em
Portuguez (Caiumbuca
não falava Portuguez) o que elle dizia ao rei.
Verissimo, embaraçado, disse-me, que eu não me
enganava, e contou-me tudo. Eu preveni-o, que não deixasse
perceber nada a
Caiumbuca, e que me tivesse ao corrente do que elle tramava.
N'essa tarde, Lobossi mandou-me dizer, que estava prompta a gente que
me devia acompanhar, para eu seguir para a costa de
Moçambique,
e por isso podia partir quando eu quizesse.
Eu estava um pouco melhor, e desde a minha chegada ao Zambeze, ainda
não tinha passado tão bem como n'esse dia.
O meu acampamento era muito grande, porque os Quimbares se haviam
dividido pêlas barracas dos Quimbundos depois da sahida
d'estes. O centro era um largo circular, de não menos de cem
metros de
diàmetro. A um lado, dentro da fila das barracas, ficava a
minha barraca, cercada por uma sebe de canas, que fechava um recinto,
onde só
entravam os meus muleques de serviço.
Era a 6 de Setembro. O thermòmetro durante o dia tinha
marcado com persistencia 33 graos centìgrados, e o calor
reflectido
pêla areia tinha sido incòmmodo.
A noute apresentou-se serena e frêsca, e eu, sentado
á porta da minha tenda, pensava no meu Portugal, nos meus e
nos amigos, no futuro da minha emprêsa, tão
ameaçada ali, e ora
alegre ora triste, não perdia a fé e esperava. O
acontecimento da ante-vèspera
vinha pairar como nuvem nêgra sôbre o ceo
lìmpido da
esperança.
Os meus Quimbares, recolhidos nas barracas, conversavam junto das
fogueiras, só eu estava fora. De sùbito
prendeu-me a attenção um sem-nùmero de
pontos luminosos que vi atravessarem o
espaço.
Sem saber ao principio explicar o que seria aquillo, tive um
presentimento, e sahi do cercado de caniço que rodeava a
barraca.
Logo que cheguei fora, tudo me foi revelado, e um grito pungente de
angustia suprema escapou-se-me da garganta.
Alguns centos de indìgenas cercavam o acampamento, e
lançavam achas ardentes sôbre as barracas cobertas
de herva sêca.
Em um minuto o incendio, ateado por um vento forte de este, tomava
incremento horrivel. Os Quimbares sahiam espavoridos das barracas
incandescentes, e pareciam loucos.
Augusto e a gente de Benguella reuníram-se em
tôrno de mim. Em presença de um perigo
tão terrivel, aconteceu-me o que por mais de
uma vez me tem acontecido em iguaes circunstancias. Fiquei sereno e
tranquillo de espìrito, pensando só em lutar e
vencer.
Gritei á minha gente, semi-louca de se ver apertada em um
cìrculo de fôgo, e consegui reunil-a no meio do
espaço
interior do campo.
Á frente de Augusto e dos muleques de Benguella, entrei na
minha barraca em chamas, e consegui tirar d'ali as malas dos
instrumentos, os meus papéis e trabalhos, e a
pòlvora. A esse tempo as
barracas abrazavam tôdas, mas o fôgo não
podia
attingir-nos. Verissimo estava a meu lado, inclinei-me para elle e
disse-lhe, "Eu defendo-me aqui por muito tempo, passa por onde poderes
e como poderes, e vai a Lialui dizer a Lobossi que a sua gente me
ataca, diz tambem a Machauana o perigo que
côrro."
Verissimo correu ás barracas em chamas, e eu vi-o
desapparecer por entre as labaredas. A esse tempo ja as azagaias
ferviam em tôrno de
nós, e ja haviam alguns ferimentos graves, entre elles um do
prêto
Jamba de Silva Porto, que tinha uma azagaia cravada no sobrolho
direito. Ás
azagaias respondiam os meus Quimbares com as balas das carabinas, mas o
gentio avançava sempre, e ja entrava no acampamento, onde as
barracas consumidas não offereciam barreira insuperavel. Em
tôrno de mim, que desarmado segurava a bandeira da minha
patria, estavam batendo-se como verdadeiros bravos os meus valentes
Quimbares. ¿Estavam
tôdos? Não. Faltava ali um homem, um homem que
deveria estar ao meu lado e que ninguem tinha visto. Caiumbuca, o meu
immediato,
desapparecêra!
Figura
109.--Ataque contra o acampamento no Lui.
Ao amortecer do incendio, eu vi que o perigo era real e enorme. Eram
cem contra um.
Parecia a imagem do inferno ver aquelles vultos nêgros, que
com estridente grita pulavam ao clarão das chamas,
avançando para nós cobertos com o alto escudo e
brandindo as puidas azagaias. Foi um combater encarniçado em
que as carabinas de carregar
pêla culatra, pêlo seu fôgo sustentado,
continham em respeito aquella horda
selvagem.
Contudo eu calculava que o têrmo do combate não
estava longe, porque as munições desappareciam
ràpidamente; eu
só tinha no comêço quatro mil tiros
para as carabinas Snider, e vinte mil para as armas de carregar
pêla bôca, mas não seriam essas as que
me defenderiam; e logo que o fôgo abrandasse, por faltarem as
armas de carregamento ràpido,
serìamos esmagados pêlo gentio desvairado. O meu
Augusto, que parecia
um leão raivoso, chegou-se a mim com suprema angustia,
mostrando-me a carabina, que acabava de rebentar. Disse ao meu muleque
Pépéca, que lhe entregasse a minha carabina de
elephante e a cartuxeira. Augusto correu para a frente, e fez
fôgo para onde o grupo do gentio era mais
compacto. Um momento depois, a grita infernal dos assaltantes tomou um
tom differente, e virando costas, tomáram elles precipitada
fuga.
Só no dia seguinte, pêlo rei Lobossi, eu devia
saber o que produzira um tal reviramento. Fôram os tiros do
meu Augusto.
Na cartuxeira de que elle lançou mão havia balas
carregadas de nitro-glicerina.
O effeito d'estas, fazendo desapparecer em bocados, pêla
explosão, as cabêças e os peitos em que
acertavam, produzio o
pànico no meio d'aquelle gentio ignaro, que vio n'uma coisa
nova para elle, um
feitiço irresistivel.
Foi a Providencia que me quiz valer.
Conheci que estava salvo. Meia hora depois, appareceu-me o Verissimo,
com uma grande fôrça capitaneada por Machauana,
que vinha em meu soccôrro, por ordem do rei Lobossi. Lobossi
mandava dizer-me,
que era estranho a tudo, e que, provavelmente, o seu pôvo,
sabendo
que eu fôra ali para os atacar de
combinação com os Muzungos
de leste, que estavam com Manuanino, fizéram aquillo por sua
conta; mas que elle
ia tomar as mais vigorosas providencias para eu não soffrer
mais
aggressões. Tudo aquillo, se não foi ordenado por
elle, foi por Gambela.
Verissimo, vendo os desastres do combate, perguntou-me ¿o
que haviamos de fazer? e eu respondi-lhe com as palavras de um dos
maiores homens Portuguezes dos ùltimos
sèculos:--"Enterrar os
mortos, e tratar dos vivos."
No incendio soffrémos perdas graves, mas mais graves eram as
pêrdas de vidas por tão insòlito
ataque. A bandeira
Portugueza estava furada das azagaias selvagens, e salpicada do sangue
dos bravos; mas as manchas que tinha, só serviam para fazer
realçar a sua pureza
immaculada; e mais uma vez, longe da patria, e por terras ignotas,
tinha-se sabido fazer respeitar, como sempre o soube, e como sempre o
saberá.
Depuz as armas de soldado, para me improvisar em cirurgião
cuidadoso, e o resto da noute foi passado a curar os feridos e a
alentar os
sãos, sempre apercebido e vigilante, apesar dos novos
protestos do rei Lobossi.
Logo que amanheceu, fui procurar o rei, e falei-lhe
àsperamente sôbre o acontecimento da noute.
Tornei-o, diante do seu pôvo,
responsavel pêlas desgraças d'aquella noute; e
disse bem alto, que aquelles
que tivessem a chorar a perda de parentes, só a elle deviam
lançar culpas.
Disse-lhe, que queria seguir sem perda de tempo, e annunciei-lhe, que
ia estabelecer o meu campo nas montanhas, onde podesse com vantagem
resistir a um nôvo ataque.
Elle teimou muito comigo, para lhe dar ou ensinar o feitiço
que eu tinha empregado na vèspera, fazendo com que os
prêtos
rebentassem por si. Era assim que elles explicavam o caso funesto das
balas explosivas inconscientemente empregadas por o meu Augusto.
Apesar da muita vontade que eu tinha de deixar a planicie e ir para as
montanhas, não pude realizar esse desejo senão a
9, por causa do estado dos feridos; e no dia 7 e 8, lutámos
com a fome; porque
ninguem nos quiz vender de comer, e o rei dizia, que nada tinha para me
dar.
Fôram as lagôas que fornecéram abundante
pesca e alguns
patos muito magros. Machauana mandou-me leite, e continuou a mostrar-me
a maior
dedicação. Foi, como disse, a 9 que deixei a
planicie e alcancei as montanhas perto de Catongo, chegando
tôdos, feridos e sãos, no
maior estado de fraqueza.
O nôvo systema adoptado, de nos matarem pêla fome,
preoccupou-me, e dava-me sèrios cuidados n'um paiz sem
caça.
Tinha-mos, é verdade, a pesca das lagôas.
CAPÌTULO
X.
A
CARABINA D'EL-REI.
A
traição--Perdido--A Carabina
d'El-Rei--Miseria--Novas scenas com o rei Lobossi--Partida--No
Zambeze--Caça--Moangana--O Itufa--As
pirogas--Sioma--Cataracta de
Gonha--Bellezas naturaes--O basalto--A região das
cataractas superiores--Balle--Bombué--Na foz do rio
Gôco--Cataracta de
Nambue--Os ràpidos--Viagem vertiginosa--Catima
Moriro--Quisseque--Eliazar--Carimuque--O rio
Machila--Muita caça--Tragedia--Embarira.
Depois de marcha de 15 milhas, acampei na floresta que cobre os flancos
das montanhas de Catongo. Marcava esta aldea a S.E. uma milha distante
do sitio que escolhi para acampar.
Junto do meu campo havia uma pequena aldeola, onde eu mandei pedir de
comer. Algumas mulheres viéram vender pouca cousa a
trôco dos invòlucros metàlicos dos
cartuxos queimados das carabinas Winchester.
Depois de construido o campo, fomos pescar nas lagôas
pròximas, e tirámos algum peixe, que se comia
cozido em àgua
sem sal.
De Caiumbuca não havia noticias, e eu convencia-me que elle
tinha partido com a gente que retrocedêra ao Bihé;
quando n'essa tarde me viéram dizer, que elle estava no
acampamento, e me queria
falar.
Apresentou-se, dizendo que fôra acompanhar a comitiva de
Lobossi, que seguira com o prêto Antonio, porque tinha de
mandar prevenir
a gente da sua libata no Bihé, de que tinha muita demora
ainda no
sertão, pois seguia comigo para a costa de leste.
Eu fiquei perplexo, e sem saber o que deveria fazer com
relação a elle; e depois de pensar um momento,
resolvi aceitar a desculpa da ausencia d'elle na noute do combate, e
não lhe mostrar que tinha
perdido a minha confiança, e que sabia da sua projectada
traição. Elle pedio-me para regressar n'essa
noute a Lialui, dizendo, que voltaria no dia immediato com a gente que
Lobossi me deveria mandar, para eu seguir para Quisseque, logo que o
estado de alguns feridos m'o permittisse.
Disse-lhe, que pedisse ao rei para mandar-me dar mantimentos, a menos
que não quizesse que morrèssemos á
fome no seu paiz.
Caiumbuca partio sem falar a ninguem da minha gente.
No dia 10, continuei a mandar pescar nas lagôas para ter que
comer e os meus.
Passei o dia trabalhando; e tendo para o lado de oeste um horizonte sem
fim, onde, como em pleno mar, o espaço azulado vinha unir-se
á terra em cìrculo enorme, lembrei-me de
determinar a
variação da agulha magnètica
pêla amplitude, mèthodo mais simples do que o dos
azimuthes, que eu tinha sido forçado a empregar
até
então.
Preparei a agulha de marcar, e estava dispondo-a para a
observação, muito antes de tempo, porque o sol
estava ainda elevado do horizonte uns dez graos; quando um
phenòmeno curiosissimo se deu na
atmosphera. Estava ella lìmpida, de um azul um pouco
carregado mas sem uma
nuvem, sem um extracto no horizonte. De repente o limbo inferior do sol
começou a perder a sua forma circular, e a desapparecer
lentamente, como se eu observasse um occaso no oceano; e isto dez graos
acima do horizonte, por ceo na apparencia limpo, como ja disse.
Só depois do seu
completo desapparecimento é que se podia mal perceber,
pêlo
feixe de luz que em leque se espargia no ceo, uma barra de extractos,
tão iguaes
em côr ao azul da atmosphera, que a vista mais apurada a
confundiria com ella; parecendo que a limpidez do firmamento
não era interrompida
até ao horizonte. Algumas vêzes mais observei
igual
phenòmeno, mas não a tanta altura, nem
tão perfeitamente definido.
Como eu esperava, n'esse dia, não me appareceu, nem
Caiumbuca, nem a gente que Lobossi devia mandar-me.
Na noute de 10 para 11, eu queria observar um reapparecimento do 1^o
satèlite de Jùpiter, que deveria ter logar
pròximo da meia-noute; e como eu não quizesse
perder essa
observação, por encontrar grande
differença em longitude na posição do
Zambeze, recomendei ao
Augusto, que me chamasse quando a lua estivesse na altura que lhe
indiquei, o que correspondia ás 11 horas; e cheio de fadiga,
deitei-me
cêdo, e adormeci profundamente; esperando que Augusto
velasse, depois da instante recommendação que eu
lhe tinha feito. Por noute
fora acordei ao chamamento de Augusto, e acordei sem sobresalto,
julgando ser a hora indicada por mim; mas, logo que respondi ao meu
fiel nêgro,
elle disse-me, cheio de commoção: "Senhor,
estamos
atraiçoados; a gente fugio tôda, e
roubáram tudo."
Levantei-me, e sahi da barraca.
O acampamento estava deserto.
La fora, Augusto, Verissimo, Camutombo, Catraio, Moêro e
Pépéca, e as mulheres dos muleques, estavam
silenciosos e pasmados olhando uns para os outros.
Não pude conter uma gargalhada.
O que me admirava ali, era ver Augusto, o Verissimo e Camutombo ao pe
de mim.
Era tão crìtica a minha
posição, vivendo no meio de tantas miserias,
rodeado de tantos perigos, que não sei mesmo quem n'elles
quereria ser meu socio. Ànimos mais fortes e
espìritos mais
enèrgicos do que os dos prêtos que acabavam de
fugir, não teriam querido
partilhar da minha sorte.
Sentei-me, rodeado das oito pessôas que haviam ficado e
puz-me a indagar o succedido. Queria pormenores que ninguem me dava. A
gente tinha fugido tôda, sem que algum dos presentes a
presentisse. Os
cães, habituados com elles, não
ladráram. O
Pépéca foi passar revista ás barracas,
e nada encontrou.
As poucas cargas que tinham ficado á porta da minha barraca,
e que consistiam em pòlvora e cartuxos, haviam desapparecido.
Fugíram roubando a minha propria miseria. Só me
restava o que havia dentro da minha barraca. Eram os meus
papéis, os meus
instrumentos, e as minhas armas; mas armas de nenhum valor, porque uma
das cargas roubadas continha os meus cartuxos, e sem elles de nada
serviam.
Fui sem detença fazer inventario do meu miseravel haver, e
achei-me com trinta tiros de balas d'aço para a carabina
Lepage, e com
vinte e cinco cartuxos de chumbo grosso da espingarda Devisme, que de
pouco ou nada serviam. Era tudo quanto possuia.
Não pude deixar de curvar a cabêça ante
este ùltimo golpe que me feria, e um atroz confrangimento de
coração trouxe-me,
pêla primeira vez em Àfrica, o presentimento de
que estava perdido. Estava no
centro d'Àfrica, no meio da floresta, sem recursos, dispondo
de
trinta balas apenas, quando só da caça poderia
viver e
só a caça me poderia salvar; e tinha em
tôrno de mim só três homens,
três crianças e duas mulheres!
Augusto exprobrava-se o ter adormecido, quando eu o mandara velar, e
entrou n'um furor louco, querendo ir na pista dos fugitivos e matar
tôdos. Custou-me a conter a ira feroz do meu prêto
fiel; e sem consciencia do que dizia, sem a menor
convicção
nas palavras que proferia, ordenei-lhes que se fossem deitar, que
não
receiassem nada, porque eu remediaria tudo. Eu ficaria de
véla. Recolhidos
ás barracas, eu fiquei junto da fogueira, quasi inconsciente
e sem
fôrças. O abalo moral tinha despedaçado
o côrpo, já
fortemente abatido pêlas febres. Sentado, com os
braços encostados nos joêlhos e a
cabêça encostada ás mãos, eu
olhava fito para a crepitação
da chama, sem ter um pensamento, sem uma idéa, em perfeito
estado de imbecilidade. Contudo, o
instincto filho do hàbito, fêz-me sentir, que
estava
desarmado; chamei o meu muleque, e sem ter consciencia d'isso, pedi-lhe
uma arma. Elle entrou na barraca e trouxe-me uma, que eu, sem reparar,
colloquei sôbre
os joêlhos.
Durou muito tempo aquelle estado de abatimento, até que as
idéas principiáram a vir mostrar-me os
horrôres da minha
posição. Havia muitos mêzes, que eu
caminhava ávante, pobre e sem
recursos; havia muito tempo que eu contava ùnicamente com a
caça para
sustentar a minha caravana. Essa idéa perfeitamente
arraigada no meu
espìrito, tinha-me dado sempre a fôrça
de seguir, de ter fé e de
esperar. De repente sentia em mim um vazio enorme. A idéa
tinha cahido por terra, e desapparecido
com a caixa que continha os meus tiros, o meu thesouro, o meu
ùnico
recurso.
Deve ser ao encarar uma posição como a minha que
o homem se suicida.
Com aquella pungente agonia que me dilacerava a alma, deixei pender a
cabêça e os meus olhos fixáram-se na
carabina que eu tinha pousada nos joêlhos. Olhei, a talvez
meio minuto, e uma idéa
atravessou-me o espìrito. De um salto entrei na barraca, e
corri a levantar
as pelles do meu leito, debaixo das quaes, para levantar a malinha que
me servia de travesseiro, estava um estôjo de couro,
rectangular, baixo e
comprido.
Foi com mão febril que abri aquelle estôjo
esquècido, e apalpei trèmulo os objectos que elle
continha. As idéas occorriam-me de
nôvo em tumulto. Deixei o estôjo, e abri a mala dos
instrumentos, onde a caixa
do meu sextante Casella estava entalada por duas latas, que senti
debaixo da mão com que apalpava. Sahi precipitadamente da
barraca e do
acampamento, e corri ao mato, onde de dia tinha posto a enxugar o meu
grande tresmalho, depois da pesca. A rêde estava estendida, e
tensa
pêlo peso do chumbo que lhe envolvia a tralha.
Apalpei phrenètico aquelle chumbo, e colhendo a
rêde voltei ao campo, curvado ao pêso d'ella.
Cheguei junto á fogueira,
e depuz no chão o meu fardo.
Quem visse o que eu tinha feito havia alguns minutos, julgarme-hia
louco, e louco estava eu de contente.
O avaro devorando com os olhos àvidos de cubiça o
thesouro que empobrece a sua miseria, não deve ter na vista
expressão
differente da que eu tinha a olhar para aquella carabina. É
que ella para mim era
a vida, a salvação, e tudo. É que ella
para o
meu paiz era uma expedição coroada de
èxito; era a realização de um voto
formulado por elle no seu parlamento; era o bom èxito
obtido, tanto mais meritorio,
quanto mais estorvado.
A arma que afagava nas mãos, como afagaria uma filha
estremecida, a arma que me ia salvar, e comigo a
expedição atravez
d'Àfrica, era a Carabina d'El-Rei.
No estôjo d'aquella arma havia apparêlhos para
fazer balas, e tudo o necessario para se carregarem os cartuxos, logo
que existissem os invòlucros metàlicos, cada um
dos quaes,
pêlo seu systema de construcção, pode
servir muitas vêzes.
Uma pequena caixa, que vinha no estôjo ja quando El-Rei me
offerecêra o valioso
presente, continha quinhentos fulminantes.
As idéas que se succediam em mim quando me lembrei d'aquelle
recurso, trouxéram-me a reminiscencia de duas latas de
pòlvora que eu desde Benguella empregava, á falta
de cousa melhor, para entalar a
caixa do sextante dentro da mala. Faltava o chumbo, mas a minha
rêde
de pesca ia fornecer-m'-o.
Assim, pois, eu podia dispor de alguns centos de tiros; e com alguns
centos de tiros sentia-me com fôrça de criar
recursos n'esse paiz de caça.
O resto da noute foi para mim como manhã
bonançosa depois de noute de temporal.
Ao alvorecer, ainda não tinha formado um plano, mas estava
tranquillo e confiante.
Mandei chamar o chefe da aldeola pròxima, e convenci-o a
mandar dois homens a Lialui contar o succedido ao rei Lobossi;
disse-lhe tambem, que ia mudar o meu campo para mais pròximo
da aldea, e logo
nós quatro, eu, Verissimo, Augusto e Camutombo,
construímos quatro barracas
e um forte cercado, onde nos recolhémos com o meu magno
espolio.
N'esse dia trabalhei como um rude lenhador, e de machado em punho,
cortei a madeira para a minha barraca, e construi-a eu mesmo.
Durou o trabalho até depois do meio dia, hora a que me
estendi nas pelles de leopardo do meu leito, dormindo a sono
sôlto
até ao pôr-do-sol.
O meu Augusto tinha pescado, e tinham armado laços aos
patos, conseguindo agarrar um. Entretivémos com aquella
alimentação sem condimentos a fome ja
impertinente, e eu volvi a deitar-me, mas dormi pouco e pensei muito.
Sustentar nove pessôas era mais facil
do que sustentar uma grande comitiva, e por isso a questão
mais
momentosa e que mais urgente era resolver, estava, se não
resolvida,
pêlo menos muito simplificada por si mesmo.
A idéa de proseguir na minha viagem estava perfeitamente
arraigada em mim, e sem ainda saber como, sem ter chegado a formular um
projecto, sabia que havia de ir, porque queria ir. A minha
confiança
era tal, que os meus homens ja estavam descuidosos e indifferentes.
Diziam elles, que eu sabia o que havia de fazer, e quando lhes dizia,
que não
tinha ainda formado um plano, riam-se e diziam:--"o Senhor bem sabe ja."
Passei o dia preparando cartuxos da Carabina d'El-Rei. Tinha 2
kilogrammas de pòlvora finissima, e como a carga de cada
cartuxo era de 5 drachmas (8 grammas e meia), podia com aquella
pòlvora
carregar duzentos e trinta e cinco tiros, que com alguns que eu ainda
possuia, e com os trinta de balas d'aço da carabina Lepage,
prefaziam
um total de trezentos cartuxos.
Chumbo para ballas havia de mais, porque o peso das duzentas e trinta e
cinco balas era ao menos de nove kilogrammas, sendo o de cada bala de
35 grammas, e o chumbo da rêde devia pesar um pouco mais de
trinta kilos.
Fulminantes tinha duzentos a mais.
Voltáram os portadores que mandei a Lobossi, com recado
d'elle, para que eu fôsse viver para Lialui até
tomar uma
deliberação.
Decidi logo não sahir do mato onde estava, e mandar o
Verissimo a Lialui tratar com elle. Dei-lhe as minhas ordens, e mandei
que sahisse antes de amanhecer no dia immediato, para ter tempo de
voltar no mesmo dia.
Um violento accesso de febre prostrou-me, e tive de me recolher muito
doente.
No dia seguinte a febre tinha augmentado, e eu estive impaciente
até á volta do Verissimo, que só
chegou de tarde.
Vinham com elle uns muleques do règulo, que me traziam
alguma comida, e um presente de leite coalhado, enviado por Machauana.
Lobossi mandava dizer-me, que era muito meu amigo, e que estava prompto
a ajudar-me, mas que fôsse eu viver para casa d'elle; e que
com tempo
decidiriamos o que havìamos de fazer. Mandei dizer-lhe
pêlos
muleques, que logo que estivesse melhor iria falar-lhe; mas que
não deixaria o
mato, e que me era impossivel ir viver com elle, por causa das febres.
Estava ancioso por me achar só com Verissimo, para ter
noticias de Lialui.
A primeira cousa que elle me contou fêz-me logo profunda
impressão. Disse-me, que, quando chegara a casa de Lobossi,
estava reunido o grande consêlho em discussão
acalorada.
Uns enviados do Chefe de Quissique, Carimuque, tinham chegado ali,
pedindo accesso no paiz para um missionario Inglez, que estava em
Patamatenga, e queria vir ao Lui.
Á entrada d'esse sujeito no paiz do Barôze
opunha-se com tôda a sua eloquencia o ministro dos
estrangeiros Matagja, e d'ahi
nascêra a acalorada discussão a que assistira o
Verissimo; sendo
resolvido em consêlho, que não fôsse
concedida a
licença para o homem penetrar nos estados do rei Lobossi.
O Verissimo, que me contou este incidente, a que não ligou a
menor importancia, começou a narrar-me o que tinha podido
colher
de noticias ácerca das intrigas dos muleques de Silva Porto
e Caiumbuca;
mas eu é que não o escutava ja, e aquelle
missionario Inglez
(
Macúa,
diziam elles) não se
me tirava do pensamento. Quando o Verissimo
acabou o seu aranzel, que eu não ouvi, tinha resolvido o meu
problema, e
a resolução consistia, em ir encontrar aquelle
missionario.
Como realizal-a não sabia ainda, mas que o encontraria era
ja convicção minha.
Fui àvidamente buscar uma pèssima carta
d'Àfrica que tinha, e calculando approximadamente onde seria
Patamatenga, medi uma distancia de seiscentos kilòmetros.
Seiscentos kilòmetros, a uma media de 10
kilòmetros por dia, eram sessenta dias de jornada, e
trezentos tiros que eu possuia, divididos por sessenta dias, dava-me
cinco tiros por dia. Ardia ja em desejos de me pôr a caminho,
mas ardia em febre tambem, e comecei por
deitar-me.
Nos dias 14 e 15 a febre cresceu de intensidade, não me
permittindo sahir da barraca; mas tendo algumas melhoras na noute de 15
para 16, resolvi logo ir a Lialui falar ao rei, e tratar de
pôr em
execução um plano que tinha concebido, para ir
encontrar o missionario,
idéa que me não sahia da mente.
Ainda muito doente, parti logo de manhã para casa de
Lobossi. Fui muito bem recebido por elle, que negou ter sido connivente
com Caiumbuca e os prêtos do Silva Porto, na fuga dos meus
Quimbares;
o que
era falso, porque sem o consentimento d'elle, não poderiam
elles ter
passado o
Zambeze.
Pedi-lhe que me ajudasse a ir encontrar um missionario que eu sabia
estar em Patamatenga; ao que elle respondeu, perguntando-me,
¿como queria eu ir para ali, não tendo
carregadores? Esta pergunta
do rei foi muito applaudida pêlos assistentes, que
notáram a
esperteza d'elle em m'-a fazer.
Disse-lhe, que era verdade não ter carregadores, mas que
tinha o rio Liambai, e elle tinha barcos, e se elle me desse barcos, eu
dispensava os carregadores, tanto mais que não tinha cargas.
Elle contestou, que havia effectivamente o Liambai, mas que o rio tinha
cataractas, e ¿como as poderia eu passar? Novos applausos da
parte do auditorio.
Respondi, que sabia isso, mas que ali os barcos e as cargas iam por
terra, e a jusante das quedas continuàvamos a navegar.
Elle retorquio, que o seu pôvo tinha muito pouca
fôrça, e não podiam arrastrar os barcos
por terra.
Novamente applaudido; estava fazendo um gôsto immenso em
patentear o seu espìrito fino
diante dos ouvintes; e de salto, sem esperar resposta, perguntou-me,
¿porque
não tinha ido viver com elle para Lialui, como me tinha
ordenado?
Respondi serenamente, que não tinha ido, nem iria, por
muitas razões; sendo a principal, o ser elle um refinado
velhaco, que, desde a minha chegada, só tinha procurado
enganar-me, para me roubar. Chamei-lhei ladrão e assassino,
levantei-me e puz-me a caminho.
O auditorio, estupefacto do meu atrevimento, nem se lembrou de me
embargar o passo.
Dirigi-me a casa de Machauana, onde estive conversando com Monotumueno,
o filho do rei Chipopa, e legìtimo herdeiro do poder, a quem
fiz a profecia de que ainda seria rei do Lui.[
4]
Ia a retirar-me para as minhas montanhas, quando um enviado de Lobossi
veio pedir-me em nome d'elle para eu lhe ir falar. Fui logo.
O rei disse-me, que não tinha razão para me
zangar com elle, que era muito meu amigo, que ia aprontar barcos, e que
o Liambai estava livre para mim.
Eu fiz-lhe um grande sermão, em que lhe disse, que elle era
mal aconselhado; que o que tinha dado o poder e grande nome aos reis
Macololos, foi a grande protecção que
dispensáram a Livingstone. Que os Luinas queriam perder o
commercio; e que elle completaria a ruina do Lui começada
por
Manuanino. Que o seu pôvo,
não a camarilha que o rodeava, mas o seu pôvo
sensato,
ainda o expulsaria do poder, por
incapaz de governar, e não fazer mais do que disparates.
Fêz-me novos protestos de amizade, affirmando-me, que me
daria os barcos, e que não seria por culpa d'elle se eu
não chegasse a alcançar o missionario, mesmo
porque queria que eu mudasse de opinião a
seu respeito.
Assegurou-me, que voltasse descançado para Catongo, onde me
mandaria dizer que os barcos estavam promptos, logo que tivesse
arranjado as tripulações. Chamou diante de mim o
Chefe de
Libouta, e deu-lhe ordens a esse respeito.
Eu não acreditava em nada d'aquella comedia, e disse-lh'-o.
Elle pedio-me que não formasse maos juizos, e esperasse os
factos.
Voltei a casa de Machauana, que conversou largamente comigo a respeito
de Caiumbuca e da fuga dos meus Quimbares. Por elle sube tôda
a verdade, nos seus detalhes, e só fiquei ignorando quem
fôra
ao longe o motor dos acontecimentos.
Chegado ao Lui, fui sinceramente bem recebido por aquella gente, e o
nome do Mueneputo, com que eu me abrigava, foi escutado com respeito.
Declarei os meus projectos, e elles fôram calorosamente
approvados, porque muito convinha aos Luinas estar em
communicação com a costa de Leste. Dias depois da
minha
chegada, rebentou no Chuculumbe a
revolução, á testa da qual se achava
Manuanino, o
rei destronado.
Caiumbuca foi então dizer a Lobossi, que eu não
era
estranho
áquella revolta, e que queria ir para Leste juntar-me aos
brancos que apoiavam Manuanino. N'essa occasião Caiumbuca
levara
os Bihenos a abandonar-me, dizendo-lhes, que o rei o prevenira de que
me ia mandar matar, e
não poderia impedir que fôsse morta a gente que
estivesse
comigo.
Os Bihenos, levados por elle, declaráram-me, que
não queriam estar comigo, e Caiumbuca fingio-se indignado.
A primeira e ùnica vez que em Àfrica faltei ao
meu principio de sertanejo, de desconfiar ali de tôdos e de
tudo, fui
enganado. É verdade que Silva Porto, o homem em quem eu
tinha a màxima
confiança, disse-me e escreveu-me, que podia fiar-me em
Caiumbuca, e eu fiei-me n'elle.
Facilmente podia desfazer aquella intriga entre homens instruidos; mas
deve comprehender-se, que para prêtos, foi bem tramada, e
não seria facil convencel-os da verdade.
Apesar d'isso, a minha attitude chegou a convencer Lobossi, e foi
então que os muleques de Silva Porto fôram dizer
ao rei,
que tinham
ordem de seu senhor para me abandonarem ali, mandando-lhe elle dizer,
que me fizesse matar, se queria que os sertanejos do Bihé
voltassem
ali, sem o quê não teria mais
relações
com Benguella.
Foi então que tentáram matar-me, affirmando
Machauana, que Lobossi sempre se opoz a isso, assim como a maioria do
seu consêlho,
mas que Gambela era de opinião contraria.
Caiumbuca e os muleques de Porto fôram dizer a Lobossi, que
tôdo o que eu tinha nas minhas malas eram roupas e fazendas
muito
ricas, despertando-lhe assim a cubiça, que a tantos
exploradores
tem perdido no Continente Africano.
Apesar de tôdas as intrigas e dos factos que ellas
produzíram, eu ia continuar a minha viagem com a gente de
Benguella, quando o ataque da noute de 6 de Setembro m'a dizimou, e uma
nova intriga dos
prêtos de Silva Porto levou á fuga os restantes.
¿Por ordem
de quem trabalhou Caiumbuca? Eis o que não pude saber.
Por sua conta creio que não; que pouco tinha a lucrar
n'isso. A encommenda vinha feita do Bihé, e eram emissarios
d'ella os
muleques de Silva Porto. Caiumbuca tomou o papél principal,
depois das
instrucções recebidas dos prêtos de
Belmonte. O mandatario estava ao
longe, muito ao longe.
A causa estava na minha missão, e na guerra que, em nome do
meu Portugal, eu fazia, sem trèguas, ao commercio da
escravatura.
Alguns exploradores Africanos, e sôbre tôdos
o
Commander
Cameron e David Livingstone, t[~e]m apontado muitos factos horriveis e
verdadeiros, do commercio da escravatura, feito no interior
d'Àfrica por sertanejos Portuguezes.
Por muitas vêzes, a opinião pùblica em
Portugal tem levantado a sua voz potente, contra as
asserções vilipendiosas dos
accusadores estrangeiros, querendo negar factos que elles asseveram; e
em que ella não
acredita, porque, na sua ìndole bondosa, é
incapaz de os
comprehender e de os admittir.
Infelizmente elles sam verdadeiros; e mais ou menos romantizados,
não deixam de conter um germen de realidade.
¿Mas serám esses factos uma nòdoa para
Portugal? Não sam. Affirmo-o, e sustento-o.
Os sertanejos Portuguezes, que mais se aventuram no interior do
continente Africano, quando o fazem, deixáram de ser
Portuguezes.
Sam condenados, fugidos dos presidios da costa, sam homens a quem a
sociedade supprimio as garantias do cidadão, sam
rèprobos a quem a sentença infamante da
justiça
imprimio um
indelebil ferrête de ignominia; sam os salteadores e
assassinos,
a quem a patria banio do seu seio com horror, que podéram
quebrar o grilhão de
ferro com que estavam acorrentados ao patìbulo aviltante; e
fugindo a um mundo
onde só os espera o desprezo da gente civilizada, vam ao
longe
buscar entre os selvagens a guarida que perdêram, e continuar
ali
a sua vida
de crimes.
Taes homens não deshonram a sua patria, porque
não t[~e]m patria.
Querer tornar Portugal solidario dos crimes dos sertanejos Africanos,
é querer tornar a França responsavel dos actos da
Communa, a
Amèrica do assassinio de Lincoln, a Italia dos salteadores
dos Abruzos.
Ha rèprobos em tôda a parte, e não
podem ser nòdoas nos povos que os esmagam na sua justa
indignação.
Dos sertanejos Europeus que t[~e]m estado estabelecidos no
Bihé, de dois apenas tenho noticia, que não
pertencessem a tal ordem de
gente. Sam elles Silva Porto, e Guilherme José
Gonçalves;
mas estes fôram sempre queridos e estimados do
indìgena e do Europêu,
gozáram sempre da consideração que a
sua honradez e probidade lhes
grangeáram, fôram cidadãos prestantes,
que, com um tràfico legal e
digno, nem chegáram a fazer fortuna, e fôram
muitas vêzes
vìctimas dos outros.
O nome de Silva Porto é respeitado pêlo gentio, e
conhecido n'uma grande parte da Àfrica central
pêla
corrupção da palavra
Prôto,
e mais de
uma vez me servi d'elle para desfazer obstàculos.
Em Cassange, como em Tete, outras duas portas da Àfrica
central, ha Portuguezes dignos e nobres, que t[~e]m feito um grande
serviço á humanidade no commercio
lìcito com o interior; esse
commercio, que é o mais seguro mensageiro da
civilização na terra
dos nêgros.
Não confundamos pois; não confundamos, e
será pouco nobre ir buscar a autoridade do explorador, para
lançar, apontando factos
verdadeiros, mas nada producentes, um labéo sôbre
um pôvo
nobre, o primeiro que deu mão forte á Inglaterra
contra o tràfico infame;
sôbre um pôvo que sacrificou os seus interesses
Africanos legislando a
abolição da escravatura; contra um
pôvo, o mais livre do mundo, que estendeu a sua
liberdade até á Àfrica, mandando para
lá as leis que
o regem na Metròpoli; chegando ao
excesso de abolir ali a pena de morte, e de lhes mandar um
còdigo que por libèrrimo é impossivel
entre gente mais que
semibàrbara.
Não precisa Portugal justificação; que
o defendem os factos, as leis e a energia que emprega na grande obra da
civilização
Africana; mas, falando do tràfico da escravatura de que por
vêzes ia
sendo vìctima, não me pude eximir a pôr
a questão nos seus verdadeiros
têrmos.
José Alves, Coimbras e outros, esses nem ao menos sam
Portuguezes de nascença; não se parecem com
Portuguezes na
côr, sam indìgenas, sem
instrucção, verdadeiros selvagens de
calças e chapéos.
Affirmo tambem, que é mais difficil viajar em
Àfrica por terras onde elles t[~e]m andado, do que nas
regiões bàrbaras
dos canibaes, que nunca víram um estranho. Aqui fazem a
guerra ao explorador, quando
a fazem, de armas na mão frente a frente; ali é a
traição e a covardia que o esperam. Aqui
é explorar na brenha espinhosa onde o
leão occulta o seu antro; ali é caminhar n'um
prado relvoso, entre venenosas
serpentes.
Outra cousa inconveniente ao explorador é ir ás
sedes dos grandes potentados. Veja-se o que tem acontecido no
Muatayanvo; veja-se o que aconteceu a Monteiro e Gamito no
Muata-Casembe; veja-se o que me tem acontecido a mim com Lobossi, no
Lui.
O sertanejo Biheno, na cubiça de obter o marfim,
dá tudo ao règulo; chêga a dar-lhe a
roupa que leva vestida, e volta ao
Bihé de tanga de pelles, como os seus carregadores.
No Lui, quando era muito frequentado por sertanejos Bihenos, havia o
costume, de elles entregarem tudo ao règulo, e esperarem que
elle lhes desse pêla factura que levavam, o que entendesse
sufficiente.
O explorador que hôje chêgue ali e não
faça o mesmo, está perdido.
Àlém d'esta, outra razão deve
aconselhar o explorador a evitar os grandes potentados; é
ella o caso de uma
aggressão, sempre de recear.
Com os pequenos senhores que povôam a maior parte da
Àfrica austral, poderá, em tal caso, levar a
melhor; em quanto nos grandes
imperios será forçosamente esmagado.
Isto pensava eu voltando ao meu campo nas montanhas de Catongo, a 17 de
Setembro, depois de ter comido leite coalhado e batatas em casa de
Machauana.
Cheguei a Catongo ja noute, e sube que o meu Augusto tinha morto uma
gazella, o que nos fazia òptimo arranjo.
As armadilhas improvisadas continuavam a dar patos e francolins.
Nos dias seguintes, os trabalhos tomáram-me tôdo o
tempo; podendo obter uma longitude muito approximada, e fazendo uma
rigorosa
determinação da declinação
da agulha, estudos
meteorològicos, etc.
No dia 19, ainda não tinha recebido mais novas do rei
Lobossi, e decidí mandar lá o Verissimo, a saber
se a
offerta das
canôas era ou não comedia. N'esse dia
apparecêram
ali uns prêtos, que
pêlo typo conheci logo não serem do paiz. Diziam
elles
serem da
Luêna, e querendo indagar onde ficava essa terra, elles
mostravam-me o N.E., e por meio de
nòs dados em uma correia fina, faziam-me comprehender que
tinham
andado vinte e seis dias para chegar ali. Vinham em nome do seu chefe
comprimentar o rei Lobossi, e sabendo que estava um branco no paiz,
viéram ver-me, por ser animal nôvo para elles.
Para falarmos, servia-me de intèrprete o velho chefe da
aldeola, que falava a lìngua dos Machachas,
lìngua em que
elles se exprimiam bem, dizendo, ainda assim, ser muito differente da
sua.
Disséram-me, haver no seu paiz muitos elephantes, e serem
caçadores; empregando
para isso a azagaia, ùnica arma de que usam. Sam franzinos
de
côrpo e de pequena estatura, com
feições bastante regulares. Uns
vinte que eu vi, traziam, quasi tôdos, na
cabêça uns penachos
feitos de sêdas de elephante, demonstrando cada penacho um
elephante môrto pêlo
que o traz. Vestem pelles como os do Cuchibi, e trazem pannos de
liconde
para se cobrirem.
Traziam manilhas de ferro e de cobre fabricadas por elles. A
difficuldade que havia de nos entendermos não me permitio
levar muito longe as averiguações
ácerca do paiz
d'elles e dos terrenos que atravessáram para chegar ali.
No dia 21, Verissimo voltou de Lialui, dizendo, que as canôas
estavam promptas, e que Lobossi me mandava pedir para ir ficar na
cidade no dia immediato. Enviei logo um homem ao rei, dizendo-lhe que
só
iria em dois dias, por estar doente; sendo o verdadeiro motivo d'essa
demora, o ter de fazer observações e completar
estudos
meteorològicos no dia 22. Por esse mesmo enviado mandei
dizer a
Gambela, que me apromptasse aposento em sua casa, porque iria